CIP-Brasil. Catalogação na fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros. RJ. Camus, Albert, 1913-1960 A queda I Albert Camus: tradução de Valerie Rumjanek - RIO de Janeiro: Best Bolso, 2007. Tradução de: La chute ISBN 978-85-7799-008-5 07-2917 CDD- 848 CDU - 821.l33.1-8 I. Literatura francesa. I. Rumjanek, Valerie. 11. Título. A queda, de autoria de Albert Camus. Título número 009 das Edições Best Bolso. Título original francês: LA CHUTE Copyright © 1956 by Éditions Gallimard. . Copyright da tradução © by Distribuidora Record de Serviços de Imprensa S.A. Direitos de reprodução da tradução cedidos para Edições Best Bolso, um selo da Editora Best Seller Ltda. Distribuidora Record de Serviços de Imprensa S.A. e Editora Best Seller Ltda. são empresas do Grupo Editorial Record. www.record.com-br Ilustração e design de capa: Pedro Meyer Barreto

http://groups.google.com.br/group/digitalsource

Esta obra foi digitalizada pelo grupo Digital Source para proporcionar, de maneira totalmente gratuita, o benefício de sua leitura àqueles que não podem comprá-la ou àqueles que necessitam de meios eletrônicos para ler. Dessa forma, a venda deste ebook ou até mesmo a sua troca por qualquer contraprestação é totalmente condenável em qualquer circunstância. A generosidade e a humildade é a marca da distribuição, portanto distribua este livro livremente. Após sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir o original, pois assim você estará incentivando o autor e a publicação de novas obras.

1

Meu senhor, posso oferecer-lhe meus préstimos, sem correr o risco de ser inoportuno? Receio que não se consiga fazer entender pelo amável gorila que preside os destinos deste estabelecimento. Na verdade, ele só fala holandês. A não ser que me autorize a defender sua causa, ele não adivinhará que está pedindo genebra. Olhe, ouso acreditar que me tenha compreendido: este aceno deve significar que ele se rende aos meus argumentos. De fato, lá vai ele, apressa-se com uma sábia lentidão. O senhor está com sorte - ele nem resmungou. Quando se recusa a servir alguém, basta-lhe um grunhido: ninguém insiste. Ser senhor do próprio estado de espírito é privilégio dos grandes animais, Mas eu me retiro, meu caro senhor, feliz por lhe ter prestado um serviço. Sou-lhe muito grato e aceitaria, com todo prazer, se estivesse certo de não bancar o intrometido. É muita bondade sua. Então, vou colocar meu copo junto ao seu. Tem toda razão, o mutismo dele é ensurdecedor. É o silêncio das florestas primitivas, tão pesado que sufoca. Às vezes, eu me surpreendo com o obstinado desdém que o nosso taciturno amigo demonstra pelas línguas civilizadas. Seu trabalho é atender a marinheiros de todas as nacionalidades neste bar de Amsterdã, a que deu o nome, ninguém sabe bem o motivo, de Mexico-City. Não acha, meu caro senhor, que esses deveres acabam levando sua ignorância a se tornar incômoda? Imagine o homem de Cro-Magnon hospedado na Torre de Babel! No mínimo, sofreria uma sensação de desterro. Mas não, este não sente o exílio, segue seu caminho, nada o atrapalha. Uma das raras frases que ouvi de sua boca proclamava que era "pegar ou largar". Pegar ou largar o quê? Sem dúvida, ele próprio, nosso amigo. Vou fazer-lhe uma confidência: sinto-me atraído por essas criaturas graníticas. Quando pensamos muito sobre o homem, por trabalho ou vocação, às vezes sentimos nostalgia dos primatas. Estes não tinham segundas intenções. Nosso anfitrião, na realidade, tem algumas idéias, embora as alimente de modo obscuro. Por não compreender o que se diz em sua presença, assumiu um caráter desconfiado. Daí esse ar de sombria gravidade, como se suspeitasse, no mínimo, que há algo de errado entre os homens. Esse estado de espírito torna mais difíceis as discussões que não dizem respeito a seu trabalho. Veja, por exemplo, acima de sua cabeça, na parede do fundo, aquele retângulo vazio que marca o lugar de um quadro retirado. Com efeito, lá havia um quadro particularmente interessante, uma verdadeira obra-prima. Pois bem, eu estava presente quando o mestre-de-cerimônias o recebeu e quando ele o cedeu. Nas duas ocasiões, teve a mesma desconfiança, depois de passar algumas semanas refletindo. Quanto a isso, é preciso reconhecer - a sociedade arranhou-lhe um pouco a franca simplicidade de temperamento. Note bem que não o estou julgando. Acho que sua desconfiança tem fundamento e dela compartilharia de bom grado se, como o senhor está vendo, meu temperamento comunicativo

não o impedisse. É, mas pobre de mim, sou muito loquaz - e me relaciono com facilidade. Embora eu saiba manter as distâncias convenientes, todas as ocasiões me são propícias. Quando eu vivia na França, não podia encontrar um homem espirituoso sem que logo fizesse amizade. Ah, vejo que implica com esse imperfeito do subjuntivo. Confesso minha fraqueza por esse tempo verbal e pelo belo linguajar em geral. Mas pode acreditar - é uma fraqueza pela qual me recrimino. Bem sei que o gosto por finas roupas brancas não pressupõe obrigatoriamente que se tenham os pés sujos. Ainda assim. O estilo, como a popeline, dissimula muitas vezes o eczema. Consolo-me dizendo a mim mesmo que, afinal, aqueles que falam de maneira ininteligível também não são puros. Bem, mas voltemos à nossa genebra. Vai ficar muito tempo em Amsterdã? Bela cidade, não? Fascinante, concorda? Eis um adjetivo que não ouço há muito tempo. Exatamente desde que saí de Paris, já faz muitos anos. Mas o coração tem memória e eu nada esqueci de nossa bela capital, nem dos seus cais. Paris é uma verdadeira ilusão de ótica, um magnífico cenário habitado por quatro milhões de silhuetas. Ou quase cinco milhões, segundo o último recenseamento? Bem, eles devem ter feito filhos. Não me surpreenderia. Sempre me pareceu que nossos concidadãos tinham duas paixões desenfreadas: as idéias e a fornicação. A torto e a direito, por assim dizer. Aliás, tentemos não condená-los: não são os únicos, isso ocorre em toda a Europa. Às vezes, imagino o que dirão de nós os historiadores do futuro. Duas idéias lhes bastarão para definir o homem moderno: fornicava e lia jornais. Depois dessa forte definição, o assunto ficará, se assim posso me expressar, esgotado. Os holandeses - Oh, não, estes são muito menos modernos! Têm todo o tempo - olhe só para eles. Que fazem? Pois bem, esses senhores vivem do trabalho daquelas senhoras. Aliás, tanto os machos quanto as fêmeas são criaturas extremamente burguesas, que aqui vêm, como de costume, por mitomania ou burrice. Em resumo: por excesso ou falta de imaginação. De vez em quando, estes senhores brincam de faca ou de revólver, mas não acredite que se empenhem muito. O papel o exige - nada mais – e eles morrem de medo ao disparar os últimos cartuchos. Dito isto, acho que são mais morais do que os outros, os que matam em família, pelo desgaste. Nunca observou, caro senhor, que nossa sociedade se organizou para este tipo de liquidação? Naturalmente, já deve ter ouvido falar dos minúsculos peixes dos rios brasileiros que se atiram aos milhares sobre o nadador imprudente, e limpam-no, em alguns instantes, com pequenas mordidas rápidas, deixando apenas um esqueleto imaculado. Pois bem, é esta a organização deles. "Quer ter uma vida limpa? Como todo mundo?" É claro que a resposta é sim. Como dizer não? "Está bem. Pois vamos limpá-lo. Pegue aí um emprego, uma família, férias organizadas." E os pequenos dentes cravam-se na carne até os ossos. Mas estou sendo injusto. Não se deve dizer que a organização é deles. Ela é nossa. Afinal de contas, é o caso de saber quem vai limpar o outro. Finalmente, trazem nossa genebra. À sua prosperidade. Sim, o gorila abriu a boca para me chamar de doutor. Nesta terra, todo mundo é doutor ou professor. Gostam de mostrar-se

de bom grado. fui rico. Mas que importa? As profissões me interessam menos do que as seitas. a julgar pela conversa. Admiro esta aplicação. seu criado. mais ou menos um burguês! Mas um burguês requintado! Implicar com os imperfeitos do subjuntivo. Quanto a mim . se não vê nenhum inconveniente. Tem mais ou menos minha idade. não procure mais. encontrará as belas avenidas. ou no que era assim chamado até o momento em que nossos irmãos hitlerianos abriram espaço. Agora. baseado unicamente em sua aparência. Tenha a bondade. Enfim. Se quer mesmo saber. contornando o bairro judeu. de sarna. em compensação. no Damrak. Seu hotel certamente fica em uma dessas avenidas.. no entanto. eu era advogado antes de vir para cá. não sou médico.respeitosos. porque os reconhece. Entre eles. mais ou menos . Está em minha casa no Mexico-City e tive imenso prazer em recebê-lo. como as pessoas se trajam em nosso país. Vejamos. não é? Mais ou menos? Excelente resposta! E também judiciosa: estamos apenas mais ou menos em todas as coisas. deve ser um homem de negócios.como a criatura. Amanhã. Sim. . por bondade e por modéstia. apesar de minhas boas maneiras e de meu belo linguajar. Além disso. A única coisa simples no meu caso é que nada tenho. sem vaidade de minha parte. Mas chega. portanto. Mas permita que me apresente: Jean-Baptiste Clamence. eles o irritam. É. deixe-me bancar o detetive. Está mais ou menos bem vestido. Sem dúvida. eu o divirto. na realidade. pelos ombros e por este rosto que tantas vezes me disseram ser feroz. Bem . Enfim.. Permita-me que lhe faça duas perguntas. o olhar esclarecido dos quarentões que já fizeram de tudo um pouco. Mas. e porque. é preciso conceder-me um pouco de refinamento. a maldade não é uma instituição nacional. Repartiu-os com os pobres? Não. pressupõe no senhor uma certa abertura de espírito. O senhor possui bens? Alguns? Bom. não pagará nada. Bem. primeiro o senhor. O senhor é. De lá. estou me abrindo com o senhor sem precauções.. como nas outras noites. Portanto.eis tudo . o que chamo um saduceu.. demonstra duplamente sua cultura: em primeiro lugar. Eu também sou esclarecido e. O que prova isso? Que eu também era um saduceu . Adianta? Então conhece as Escrituras? Decididamente.. moro no bairro judeu. quer dizer. Se me permite. não. pelo menos. e aceitarei.. reconheço que não lhe adiantará muito. sou juiz-penitente.. Oh! Está ouvindo as sereias do porto? Esta noite vai haver neblina sobre o Zuyderzee. O camelo que forneceu a pele do meu sobretudo sofria. certamente estarei aqui. É um prazer conhecê-lo. Já lhe disse. tenho as unhas tratadas. nada reparti com os outros. sem dúvida. Se não tem familiaridade com as Escrituras. Pela estatura. a seguir. e tem as mãos finas.. Quando a mim. Que limpeza! Setenta e cinco mil judeus deportados ou assassinados _ é a limpeza pelo vácuo. sou um freqüentador assíduo dos bares de marinheiros do Zeedijk. o senhor me interessa. e só me responda se não as julgar indiscretas. seu convite. eu teria mais o aspecto de um jogador de rúgbi que outra coisa.. portanto. Seu caminho . sou juiz-penitente. Já vai embora? Desculpe-me se o atrasei. não é? Mas. seria mais simples acompanhá-lo até o porto. Meu trabalho é duplo .. julgue por si mesmo. o que. onde desfilam os bondes carregados de flores e de números tonitruantes.

Rezam a esses deuses da . no entanto. em torno dos mares. Mas sim. é preciso mesmo valer-se de um método. que entraram como se a casa fosse deles e o estriparam. ele fez milagres. posso lutar contra essa tendência de temperamento que me inclina de modo irresistível à simpatia. este país me inspira. este aqui. sim. Nesse caso. pelas terras frias e pelo mar fumegante como um caldeirão. Aliás. A Holanda é um sonho. Como nesta noite. cujo único lirismo consiste em ter lições de anatomia. rumo a Java. Está aqui e em outro lugar qualquer. andam em círculos. "Devagar. toma essa boa gente por uma tribo de síndicos e de mercadores contando seus 12 florins ao mesmo tempo em que contam suas possibilidades de vida eterna. Mas é um transbordar: basta eu abrir a boca para as frases extravasarem. sonâmbulos. no incenso dourado da bruma. ou falo sozinho interminavelmente. e receio atordoá-la um pouco. Escreveu na entrada de sua casa: "De onde quer que você venha. a única claridade nestas trevas. mais dourado à noite. respondeu a este belo convite? Os milicianos. veja onde se encontram suas cabeças: nesta bruma de neon. meu caro senhor. deslizando sonhadores sobre as suas negras bicicletas de guidões altos. de genebra e de menta. e eu moro no local em que foi cometido um dos maiores crimes da história. porque ele é duplo. e dia e noite este sonho é povoado de Lohengrins como este. à noite. encurralado pelas brumas. existe a genebra. durante as últimas guerras religiosas. Toda essa gente. sem dúvida. obrigado. e apesar da chuva que não pára há dias! Felizmente. cisnes fúnebres que giram sem parar em todo o país. todas as surpresas são possíveis. acredita. libertário e amava com um único amor abrangente toda a humanidade e os animais. Sim. madame! Aliás. segundo o senhor. mais enfumaçado de dia. entre e seja bem-vindo. sem dúvida alguma. na Europa. Caminho noites inteiras e sonho. De dia. em uma ação de represália. ao longo dos canais. Desse modo. uma ilha longínqua. Conheci um coração puro que recusava a desconfiança. já imaginou? Aquele? Não. cheias de arenques dourados e de jóias da cor de folhas mortas. É bem verdade que caminham junto de nós. uma alma de elite. Não insistamos nisso. um oficial alemão pediu delicadamente a uma velhinha para fazer a gentileza de escolher entre os seus dois filhos o que seria fuzilado? Escolher. hem." Quem. Era pacifista. ela nada compreendeu. com toda a certeza. Pois bem. E vê-lo partir. o senhor é muito gentil. algo dentro de mim faz soar o alarme. caro senhor. retirou-se para o campo. mas creia-me. estão ausentes. perdão. Sabe que em minha pequena aldeia. ao calor da genebra. metálica. um sonho de ouro e de fumaça. Quando vejo uma cara nova. O senhor percebe a luz dourada. Talvez seja isso que me ajude a compreender o gorila e sua desconfiança. tenho cautela. que ela instila? Gosto de caminhar pela cidade. Oh.esta paciência metódica! Quando não se tem caráter. vendo-os passar pesadamente entre as suas lojas. Perigo!" Mesmo quando a simpatia é intensa. com a cabeça nas nuvens de cobre. Eu o amo. que desce das tabuletas vermelhas e verdes. pelo ruído de seus passos largos sobre a pavimentação gordurosa. Partiram para milhares de quilômetros de distância. Amo este povo que fervilha nas ruas. rezam. às vezes cobertos de grandes chapéus? O senhor se engana. espremido num pequeno espaço de casas e de águas. Eles sonham. que estão aí nesta noite? O senhor é como todo mundo.

Em todo caso. Não. e também o desejo que tenho de lhe fazer compreender bem esta cidade. estranhas cãibras. embora nos encontremos na extremidade do continente? Um homem sensível compreenderá essas esquisitices. Por causa de uma promessa.Indonésia. naturalmente. enfim. ou o abandona. que alguém se atire à água. mais obscuros. sobre a margem arenosa e incolor. buscam em vão as silhuetas dos barcos na bruma. meu caro senhor e compatriota. O hábito. Mas eu me deixo levar. para relembrar a estes colonos nostálgicos que a Holanda não é apenas a Europa dos mercadores. tornam-se mais espessos. espero por eles. Então compreende por que posso dizer que o fundo das coisas está aqui. a vocação. encimadas por uma cabeleira desgrenhada de palmeiras ao vento. Escutam as sereias. antes de se agarrarem como macacos suntuosos às tabuletas e aos telhados em degraus. vêm pedir genebra. Quando se chega do exterior. agora encontrará facilmente o caminho. mas também o mar. por de trás das vitrines? O sonho. Entra-se. e os mergulhos retidos deixam. meu caro senhor. o mar que leva a Cipango e a essas ilhas onde os homens morrem loucos e felizes. Das duas. Os deuses descem sobre os corpos nus e as ilhas ficam à deriva. com que guarneceram todas as suas vitrines e que vagueiam neste momento. Já reparou que os canais concêntricos de Amsterdã se parecem com os círculos do inferno? O inferno burguês. os leitores dos jornais e os fornicadores não podem ir mais longe. Deixo-o perto desta ponte. meu caro senhor. Transidos.. elas fecham as cortinas e a navegação começa.. O círculo dos . Até amanhã então. . Aqui. no Mexico-City. a vida. Lá. e portanto seus crimes. e no tempo de frio arrisca-se ao pior. a viagem às índias! Estas pessoas perfumando-se com especiarias. À noite. para retirá-lo. Experimente. às vezes. estamos no último círculo. Ah! Sabe disso? Que diabo. à medida que se passa por estes círculos. em todas as línguas. o senhor se torna cada vez mais difícil de classificar. acima de nós. Chegam de todos os cantos da Europa e param à volta do mar interior. em seguida tornam a atravessar os canais e vão-se embora sob a chuva. uma: ou o senhor o segue. Suponha. nunca passo numa ponte. com ar de máscaras. Boa noite! Como? Estas mulheres. o âmago das coisas! Porque nós estamos no âmago das coisas. povoado de maus sonhos. o sonho a baixo custo. dementes. como no foro! Desculpe.

não havia nenhuma probabilidade de matar minha mulher.2 Que é um juiz-penitente? Ah! Deixei-o intrigado com esta história. Tenho certeza de que o senhor admiraria a exatidão de meu tom. eu era alimentado por dois sentimentos sinceros: a satisfação de me encontrar do lado certo do tribunal e um desprezo instintivo pelos juízes em geral. Bastava-me. ele traía. Admitia-o. a persuasão e o calor. Não coloquei nisso malícia alguma. não lhe disse meu verdadeiro nome. Podia-se pensar que a justiça dormia comigo todas as noites. mas um pouco como eu admitia os gafanhotos. Há alguns anos. Além disso. um industrial que tinha uma mulher perfeita. pelo menos por ora. acredite. O sentimento do direito. enfim. seu erro se tornou insuportável. um advogado bastante conhecido. os juízes sejam necessários. não acha? No entanto. meu caro senhor. Finalmente. Mas. a justeza de minha emoção. já que. talvez não fosse tão instintivo. Mas. A natureza favoreceu-me quanto ao físico. É claro. como outros são bons selvagens. uma certidão de virtude. visto de fora. não sei a razão. já que o via. afinal. e posso explicar-me com mais clareza. eu não conseguia compreender por que um homem destinava a si próprio para exercer essa surpreendente função. Eu tinha uma especialidade: as causas nobres. E que ação! Uma tempestade! Eu tinha o coração nas mangas. Minha situação era mais invejável. a indignação controlada de minhas defesas. A própria maneira como eu conduzia essa defesa me . eu era advogado em Paris. isso faz mesmo parte de minhas funções. isso bastava para a paz de minha consciência. Pelo contrário. com a única condição de serem bons assassinos. juro. na impossibilidade de receber. Não se pode negar que. ou de passar a si próprio. impulsos poderosos para nos manter de pé ou nos fazer avançar. em outros tempos. pois era solteiro). enfim. Esse desprezo. e. privar os homens desses impulsos implica transformá-los em cães raivosos. farejar num réu o mais leve cheiro de vítima para que minhas mangas entrassem em ação. De certo modo. Foi desse modo que travei conhecimento com ele. mais ele se enraivecia. como ainda assumia a defesa deles. a atitude nobre me vem sem esforço. Sei agora que ele tinha lá suas razões. a satisfação de ter razão. A viúva e o órfão. no entanto. em primeiro lugar. é necessário expor-lhe um determinado número de fatos que o ajudarão a compreender melhor minha narrativa. Matou-a. Mas. admirada por todos e que. Com a diferença de que as invasões desse ortópteros nunca me renderam um centavo sequer. Que pensa que fez então? Deixou de enganá-la? Não. no entanto. parecia mais uma paixão. há viúvas abusivas e órfãos ferozes. Quantos crimes cometidos simplesmente porque seu autor não podia suportar o fato de estar errado! Conheci. Esse homem ficava literalmente raivoso ao se descobrir culpado. ao passo que eu ganhava a vida dialogando com pessoas que desprezava. Não só não me arriscava a passar para o lado dos criminosos (em meu caso. como se diz. Quanto mais a mulher se mostrava perfeita. a alegria de nos estimarmos a nós próprios são. eu estava do lado certo.

tudo isso enchia de luz meu dia. devido à greve dos transportes públicos. Da mesma forma.. e conduzia-o. porque estava mais atento às . por exemplo. nunca cobrei dos pobres nem alardeei isso aos quatro ventos. com os dias em que. adiantava-me um segundo. simplesmente. com mão bondosa e firme. Ela era famosa e.. ao avistar uma bengala que hesitava na esquina de uma calçada. comprar o jornal à moça do Exército da Salvação ou as flores à velha florista. verá que a expressão é exata.proporcionava grandes satisfações. A polidez proporcionava-me. arrancava o cego a qualquer outra solicitude que não a minha.. Tive mesmo a sorte de me oferecerem por duas ou três vezes a Legião de Honra. que eu esteja me vangloriando disso tudo. Gostava também. nunca concordei em bajular qualquer jornalista. alguns de meus infelizes concidadãos impossibilitados de voltar para casa. Eu tinha um objetivo mais elevado. de ceder meu táxi a uma pessoa com mais pressa do que eu. certas manhãs. sempre gostei de dar informações às pessoas que passavam por mim na rua. onde nos separávamos com uma emoção mútua. colocar as malas de uma moça no bagageiro instalado alto demais para ela eram alguns feitos que eu realizava com mais freqüência do que os outros. embora para nos tranqüilizarmos mutuamente. Se tinha a oportunidade. mas também nunca me rebaixei a nenhum empenho. Pois bem. à mão caridosa que já se estendia. que. meu caro senhor. grandes alegrias. de apanhar do chão algum objeto que uma senhora de idade tivesse deixado cair e devolvê-lo com um sorriso que eu conhecia ou. Gozava. dar-lhes fogo. pelo menos. é desnecessário dizer. por vezes. eu me precipitava. a fim de tornálo favorável a mim. Isso é mais difícil de dizer . Gozava minha própria natureza e todos nós sabemos que é aí que reside a felicidade. indiscutível. Um grande cristão amigo meu reconhecia que o primeiro sentimento que experimentamos ao ver um mendigo se aproximar de nossa casa é de desagrado. acabava reinando sobre a minha vida toda.. na qual encontrava minha verdadeira recompensa. Enfim. nas paradas de ônibus. empurrar um automóvel enguiçado. em viagem. prestar alguma ajuda a carretas pesadas demais. no entanto. Nunca aceitei propinas. Meu mérito era nenhum: a avidez. Mas avalie já minha satisfação. que eu pude recusar com uma dignidade discreta. demonstremos. com efeito. de ceder o lugar no ônibus ou no metrô a quem visivelmente o merecesse. Falemos antes de minha cortesia. Coisa ainda mais rara. ajudar os cegos a atravessarem as ruas. cuja amizade me pudesse ser útil. Deixar. minha poltrona no teatro para permitir que um casal se reunisse ou. Mas passemos adiante. enfim. Não pense. entre os obstáculos do trânsito. mesmo sabendo que ela as roubava no cemitério de Montparnasse. nem funcionário algum. sempre me fez rir. a parte de minha natureza que reagia com tanta precisão à viúva e ao órfão. por vezes. que em nossa sociedade substitui a ambição. pela faixa de pedestres. Por mais longe que estivesse. até o porto seguro da calçada. à força de se exercer. Chegava a deliciar-me. comigo era pior: eu exultava. eu tinha a oportunidade de embarcar em meu automóvel. ah. Adorava. gostava de dar esmolas. condenar estes prazeres sob o nome de egoísmo. não posso deixar de dizê-lo. no que me diz respeito. Era realmente irrepreensível em minha vida profissional.

os porões. dos quais o menor não era uma espécie de melancolia que. nos corredores do Tribunal. os únicos nos quais posso viver. Em meu entender. eu tinha necessidade de estar por cima. Tinha fama de generoso também. sobretudo se estivesse só. e eu o era. Paremos nesses cimos. responder então que era muito natural. num lugar desses as pessoas mofam. Precisava ser senhor de minhas liberalidades. sobretudo. pode estar certo de que eu teria escolhido os telhados e feito amizade com as vertigens. quero dizer. longe de sofrer. Preferia o ônibus ao metrô. o eterno passageiro errante dos tombadilhos. que tinham o atrevimento de ocupar a primeira página dos jornais e cujos feitos me enojavam. Se o destino me houvesse forçado a escolher um trabalho manual. era. Esforçar-se por atingir a fama. Havia algo de criminoso nisso tudo. Eu me convencia facilmente de que os sermões. que qualquer um teria feito o mesmo. pelo menos. é elevar-se acima da ambição vulgar e içar-se ao ponto culminante. Tinha mesmo tal prazer em dar que detestava ser obrigado a isso. Referia-me precisamente a esses pontos culminantes. em minha profissão. gratuitamente. era o homem das planícies. quando era preciso separar-me de um objeto ou de uma quantia em dinheiro. oferecer até um auxílio para as dificuldades dos dias vindouros. nunca me senti à vontade a não ser nas situações elevadas. as pregações decisivas. Sim. os subterrâneos. Devotava um ódio especial aos espeleólogos. a quinhentos ou seiscentos metros acima do nível de um mar ainda visível e banhado de luz. mas que lhe farão compreender os contínuos deleites que eu encontrava em minha vida e. pela mulher de um réu que havíamos defendido unicamente por justiça ou piedade. de torneiro ou pedreiro. não se meditava em subterrâneos ou nas celas das prisões (a menos que os indivíduos ficassem numa torre. extraía daí constantes prazeres. os tílburis aos táxis. Nas montanhas. em público e em particular. Dei muito. Compreende agora o que eu queria dizer ao falar em ter um objetivo mais elevado. arriscando-se a ficar com a cabeça espremida num gargalo rochoso (um sifão. nos navios. Até nos pormenores da vida. nada poderia pagar o que se fizera pelo marido. as grutas e os abismos causavam-me horror. muito acima das formigas humanas. em que a virtude só busca alimentar-se de si própria.oportunidades de fazê-la e porque deles recolhia os melhores prazeres. acredite. A exatidão em matéria de dinheiro me irritava e eu condescendia em preocupar-me com ela sempre de mau humor. não. Os paióis. os terraços às sobrelojas. e. como dizem esses inconscientes!). Ser detido. com uma ampla vista). depois. eu representava também. a fim de pôr termo às efusões e conservar-lhes assim uma justa ressonância. Amante de aviões de esporte em que se anda com a cabeça em pleno céu. ouvir esta mulher murmurar que nada. Um terraço natural. os milagres de fogo haviam ocorrido em alturas acessíveis. nascia dentro de mim. evitava os vales orlados dos dois lados pelas gargantas e planaltos. pelo contrário. E compreendia . beijar a mão desta pobre mulher e acabar com aquilo. às vezes. por exemplo. Mas. meu caro senhor. ao considerar a esterilidade dessas dádivas e a provável ingratidão que lhes seguiria. parecia-me uma proeza de indivíduos pervertidos ou traumatizados. o lugar onde eu respirava melhor. Não são mais do que breves traços.

isento tanto de julgamento quanto de sanção. Há pessoas cujo problema é resguardar-se dos homens ou. acima do réu. eles já não suportavam o anonimato. que eu sentia prazer na vida e em minha própria excelência. Afinal. numa luz edênica. porque sua cela. pelo menos. que eu obrigava ao reconhecimento. ao matar. na triste situação em que se encontravam.aquele homem que. levado a lastimáveis extremos.* Trata-se. eu julgava. que. tendo entrado numa ordem religiosa. para uma vasta paisagem. Nunca tive necessidade de aprender a viver. Aliás. essa vocação das alturas. as mulheres e a justiça. paga-se muito caro por estes breves triunfos. basta matar a porteira. por minha vez. mas por meios mais econômicos. chegava a amar ao mesmo tempo. Quanto a mim. Nenhum julgamento me dizia respeito. Medite bem sobre isso. o talento. mas em algum lugar nas galerias. de uma reputação efêmera. em vez de se abrir. felizmente. para transfigurar a ação e dar-lhe sentido. eu lhe peço. de tempos em tempos. Fique certo. para alguém se tornar conhecido. que eu não mofava. sem dúvida. Mas imagine. hábil tanto nos exercícios do corpo quanto da . meu caro senhor: a vida bem engrenada? Foi assim a minha. O crime está incessantemente em cena. já sabia de tudo ao nascer. Enfim. se fazem descer por meio de um maquinismo. Os juízes condenavam. meu caro senhor: eu vivia impunemente. Fazia boa figura. sem nunca lhe dever nada. a emoção que eu despendia livravam-me. ao mesmo tempo e nos mesmos lugares. com a saúde perfeita. um homem na força da idade. livre de qualquer obrigação. obedecido ao mesmo sentimento. de qualquer dívida em elação a eles. A esse respeito. defender nossos infelizes aspirantes à fama resultava em ser verdadeiramente reconhecido. livremente. eu imperava. pelo menos. para logo ser substituído. acomodar-se a eles. não me encontrava no palco do tribunal. não seria isso o Éden. como ele esperava. Familiar quando era preciso. e essa impaciência os havia. A qualquer hora do dia. A indignação. estava sempre à altura. praticava esportes e belas-artes. Ela me livrava de qualquer amargura em relação ao próximo. revelavame simultaneamente incansável dançarino e erudito discreto. Dessa forma. silencioso se necessário. o que não é nada fácil. a acomodação estava feita. trazia-lhes. era grande minha popularidade. Minha profissão satisfazia. alguns de meus bons criminosos tinham. viver no alto ainda é a única maneira de ser visto e saudado pela maioria das pessoas. Em resumo: vou parar para que não me julgue imodesto. como esses deuses que. em mim próprio e entre os outros. e meus êxitos no mundo eu nem contava mais. Como muitos outros homens. no que me diz respeito. Ela me colocava acima do juiz. eu escalava as alturas. Pelo contrário. sofriam-na um pouco em meu lugar. generosamente dotado. tantas são as porteiras que merecem e recebem uma facada. Era assim. renunciara à batina. a quem eu sempre servia. acendia fogueiras bem visíveis e alegres saudações elevavam-se até mim. mas o criminoso só figura fugazmente. em parte. A leitura dos jornais. capaz tanto de desenvoltura quanto de gravidade. infelizmente. em compensação. os réus expiavam e eu. dava para uma parede. Isso animava-me também a envidar apreciáveis esforços para que eles sofressem a menor pena possível: a que sofriam. Na realidade. uma espécie de infeliz compensação. Em suma.

cada vez mais louco com os seres e com a vida. talvez eu esteja exagerando. ela me ergueu durante muito tempo acima do tedioso dia-a-dia. o álcool leve. isso é outro assunto que deve ser esquecido. enfim. Buscavam. Não. com tanta plenitude e simplicidade. por estar no auge. Meu entendimento com a vida era total. eu me sentia. sentia-me um filho de rei ou uma sarça ardente.. a não ser por uma alegre sociabilidade. numa só pessoa. Admitirá. o físico. Daí essa harmonia em mim próprio. Fora feito para ter um corpo. Era de origem honesta. e profundamente satisfeito consigo mesmo. até a noite em que a música parou e as luzes se apagaram. repare bem. em resumo. sempre pleno. Assim corria eu. que eu possa falar. pelo fato de ser compartilhada por tantos imbecis. nem de suas servidões. Chegava a dançar noites inteiras. parecia-me no extremo da exaustão e no espaço de um segundo. Sim.. Às vezes. beba comigo. você compreenderá ainda melhor o que havia de extraordinário nessa convicção. eu aderia ao que ela era. . dava-me. um eleito. Mas. hesito em confessá-la.. mas. a matéria. até o dia. julgavam já me ter encontrado. minha companhia. que desconcerta ou desanima tantos homens no amor ou na solidão. segundo confessavam. vivendo feliz. A vida. meu modo desenfreado. Extraordinária ou não. não tem conseqüência. no entanto. de uma vida bem-sucedida. é bem verdade. ajudavaas a viver. não. Muitas vezes. Faça-lhe um aceno de cabeça em sinal de agradecimento e. e fiquei planando literalmente. Na verdade. Tratava-se. poucos seres terão sido mais integrados à natureza do que eu. eu aceitava essas homenagens com orgulho benevolente. Sentia-me à vontade em tudo. de sua grandeza. para dizer a verdade. achava-me um pouco super-homem. autorizado a gozar esta felicidade por algum decreto superior. em suma. Aliás. Negava-me a atribuir este êxito unicamente a meus méritos e não conseguia acreditar que a reunião. entre todos. seus seres e seus dons vinham ao meu encontro. esse autocontrole sem esforço que as pessoas sentiam e que. ao mesmo tempo. dos quais. então. eu me sentia. à força de ser homem. Mas permita-me que recorra a nosso amigo primata. Se eu lhe disser que não tinha religião alguma. de qualidades tão diferentes e tão opostas resultasse de mero acaso. sem saber onde parar. um efeito de minha modéstia. pois. já bastante tarde. Eis por que. certas manhãs. com toda a modéstia. Nisso residia. sem nada recusar de suas ironias. compreender. jamais saciado. sem demonstrá-la. ainda tenho saudades. Planei até a noite em que . e eu me lançava outra vez com todo ímpeto. Mas o cansaço desaparecia no dia seguinte e com ele o segredo. Cada alegria fazia com que desejasse outra. humildemente o confesso. Eleito pessoalmente. durante anos. aliás. Ia de festa em festa. nada me satisfazia.inteligência. por exemplo. mas obscura (meu pai era militar) e.. preciso de sua simpatia. Particularmente a carne. Tal certeza. alegrias iguais. A festa em que eu fora feliz . nem pobre nem rico. ou melhor. o violento abandono de todos me lançavam a um arrebatamento ao mesmo tempo lasso e pleno. sobretudo. às vezes. de alto a baixo. de algo bem diferente da certeza em que eu vivia de ser mais inteligente do que todo mundo. de certo modo. de sono fácil. nessas noites em que a dança. o segredo dos seres e do mundo. para este longo e constante êxito. sem me escravizar.

Sobretudo não acredite que seus amigos lhe telefonarão todas as noites. telefonam como quem dispara uma carabina. Que espaço imediato em meu coração! E quando. como deviam. ouvi falar de um homem cujo amigo haviam prendido e que todas as noites se deitava no chão de seu quarto para não gozar de um conforto do qual havia sido privado aquele que ele amava. é verdade que a têm. um dia. em virtude do que deve a si próprio. Uma mulher que me perseguia. será na noite em que você já não está só e em que a vida parece bela. seria a memória. um amigo que eu evitava sempre que podia. os aliados (que expressão esta!). com esta história de amigos e de aliados. É um sentimento de presidente de Conselho: obtém-se um bom preço depois das catástrofes. Mas sabe por que somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Em relação a eles. de auxílio. encaixar a homenagem entre o coquetel e uma doce amante: em resumo. aliás. impotente. Em meu caso. Que Deus nos livre. temos de enfrentá-la. teve o bom gosto de morrer jovem. o coração transborda. se telefonarem. gostaria de ser. porque a amizade é distraída ou. que estão com a boca cheia de terra! A homenagem vem. A amizade é menos simples. caro senhor. Não falhei um só dia. não acha?! Como admiramos nossos mestres que já não falam mais. muito naturalmente. Se nos impusessem algo. pelo menos. Morreu satisfeito comigo. quem se deitará no chão por nós? Se eu mesmo seria capaz disso? Escute. Oh. assim. já não há meios de nos livrarmos dela. aprendi a contentar-me com a simpatia. em vão. não exige nenhum compromisso. a família. ainda por cima. sim. meu caro senhor. afinal. então. segundo eles. nós mesmos! Havia. Ah! Os Bazaines! Como? Qual noite? Já chego lá. sê-lo-ei. além disso. porém é mais a palavra-bala. fique descansado.Vejo que essa declaração o espanta. ocupemo-nos de outra coisa". se trata de um suicídio! Senhor. apertando-me as mãos. não o queira bastante? Talvez não amemos a vida o bastante. no discurso interior. Quanto ao suicídio. pode ficar certo. seremos todos capazes disso. enfim. E acertam no alvo. Sua aquisição é longa e difícil. o morto doloroso. de preferência eles o levariam a isso. Já reparou que só a morte desperta nossos sentimentos? Como amamos os amigos que acabam de deixar-nos. nas horas vagas. se não tem necessidade de companhia. Quem. se não está com vontade de sair. depois. de sermos colocados em um plano muito elevado por nossos amigos! Quanto àqueles cuja função é amarnos. estou no meu elemento. e . é o morto recente que nós amamos em nossos amigos. O que ela quer não pode. tenha paciência comigo. essa mesma homenagem que talvez tivessem esperado de nós durante a vida inteira. e nós temos a memória curta. já não há obrigações. "Creia em minha simpatia". quero dizer. mais simplesmente. para saber se não é precisamente essa a noite em que decidiu suicidar-se ou. Mas. e representará a salvação. podemos dispor de nosso tempo. Sabe. mas. De certa forma. não. que deliciosa confusão! O telefone toca. ele me reencontrou. com certeza. de amizade? Sim. isso é outra história. Talvez. quando se obtém. Não. tinha moral. Têm a palavra necessária. Nunca teve uma súbita necessidade de simpatia. Encontra-se mais facilmente e. Irritava-me um pouco e. Mas não é fácil. Deixam-nos livres. nossa emoção. Sim. na agonia. precede imediatamente "e agora.

sim. em pessoa. que a porteira apontava com a mão. não acha? Todo o prédio. A mulher do porteiro estava doente. Um morto no prelo. um belo carvalho e as alças de prata do caixão. cheios de interesse.as frases voluntariamente breves. as empregadas também. bastante desprezado. Será. que se arruinara com o crucifixo. desfilou pelo cubículo que fedia a fenol. E os inquilinos não mandavam as empregadas. para melhor gozar sua emoção. aproveitar-se da oportunidade. minha senhora". a porteira. antes. deitada no único quarto existente. mas. Essa cordial simplicidade valia-me. Um amanuense. verificou-se que o caixão era grande demais para a porta do cubículo. por sua própria existência. no entanto. onde quer que trabalhasse." Passaram-no de pé.é sua pequena transcendência. em vez de uma. aliás ainda continuo nisso. Como? Já chegou lá. com uma surpresa ao mesmo tempo enlevada e dolorida. Nada de rejubilante nisso. a quem eu apertava sempre a mão. Eu nem: sequer lhe dirigia a palavra. não. Fui também ao enterro de um velho colaborador da Ordem dos Advogados. "vai passar. a dor controlada. Era preciso ir pessoalmente buscar a correspondência. dizia o agente funerário. a não ser o aperitivo. mas carregadas de subentendidos. ouvia-se o elogio ao finado. a simpatia de todos. Então. informam-se. o que foi salientado. No dia do enterro.que se pode fazer? . agitam-se. meu querido”: dizia. Observe seus vizinhos. da cama. eu apertava todas as mãos. Aliás. e até duas vezes. para receber seus agradecimentos de atriz de tragédias. fazer-lhe observar que minha porteira. O chefe da Ordem dos Advogados não se deu o trabalho de ir ao enterro de nosso amanuense. aliás. não tenha receio algum. "Como ele era grande!" "Não se preocupe. Será capaz de me dizer por quê? Os dois dias que antecederam a cerimônia foram. Eles têm necessidade de tragédia . “Oh. Aliás. e levava-se a correspondência. finalmente. sem grande esforço. o senhor compreende que nem a neve que caía nesse dia me fez recuar. de lado e de pé. que era uma verdadeira desgraça. Que razão há nisso tudo. bebia Pernod todas as noites com o defunto) a única pessoa a acompanhá-lo até o cemitério e atirar flores sobre um caixão cujo luxo me espantou. e junto dela haviam colocado o caixão sobre os cavaletes. Abria-se a porta e dizia-se: "Bom dia minha senhora". fiz uma visita à porteira. e eis que morre o porteiro. pode dizer-me? Nenhuma. Adormecidos em sua vidinha. e na véspera de uma viagem. necessária à minha felicidade. enchemse de compaixão. Morreu. e até mesmo. a maldade em pessoa. vinham eles próprios. com duas faces: não consegue amar sem se amar. segundo vim a saber. é seu aperitivo. e depois puseram-no ao comprido e eu fui (juntamente com um antigo freqüentador de cabarés que. se por acaso ocorrer um falecimento no prédio. aliás. e eu fui a seu enterro. Despertam imediatamente. Mas deixe-me. um pouco de auto-acusação! É assim o homem. mas às escondidas. Mas eu sim. um monstro de insignificância e de rancor que faria desanimar um franciscano. Ele comprometia minha satisfação habitual. Eu sabia precisamente que minha presença seria notada e comentada favoravelmente. Em seguida. por acaso que lhe falo em porteiros? Eu tinha um. e o espetáculo começa. amigou-se um mês depois com um . caro senhor.

sobre a dureza de coração de nossa classe dirigente e a hipocrisia de nossas elites. o trabalho. e a porteira também. mesmo a guerra ou a morte. O dia fora bom: um cego. a calma da noite. Havia construído. natural. Aliás. fiz uma brusca meia-volta: não havia ninguém. nem mais sinceros. Ele se entediava. vindo de lugar nenhum. à tarde. eis a explicação da maior parte dos compromissos humanos. entrei na rua Dauphine. eu dominava a ilha. peça por peça. Compreenda-me bem. Via-se o rio rebrilhar entre as bancas fechadas dos bouquinistes. que lembravam ainda o verão. Ao mesmo tempo. que me dilatava o coração. ela retomou os louvores ao defunto. Estava contente. quando. ainda morna sobre a cidade. imóvel. o céu ainda estava claro no poente. mas eu o ouvia ainda distintamente atrás de mim. quando o malandro se foi. E. mesmo a servidão sem amor. no mesmo momento. sem necessidade alguma. Entediava-se como a maior parte das pessoas. a não ser das águas. Em frente ao Vert-Galant. para uma noite reconhecer que nunca a havia amado. que se distinguiam de modo fugaz. nenhum barco. não tinha essa desculpa. a própria decência de sua vida. rumo à Pont dês Arts. sentia os batimentos precipitados do meu coração. na verdade eu não desejava que alguma coisa acontecesse. respirava com . com a voz e os braços cansados. Paris vazia. Na noite de que lhe falo.Bem. conheço outros que têm as aparências a seu favor e que não são mais constantes. Virei-me para a ilha e de novo ouvi o riso às minhas costas. Veja. O riso diminuía. que ela não amasse o marido. no entanto. para olhar o rio que mal se adivinhava na noite que agora chegara. pergunto-lhe eu. Nada prova. logo a seguir. Mas nada prova que não se amassem.. era uma bela noite de outono. como se descesse o rio. por quem tudo sacrificou. e já úmida sobre o Sena. a redução de pena que eu esperava. posso mesmo dizer que me entediava menos do que nunca. um brilhante improviso. Subira na Pont des Arts. ouviam-se gritos horríveis e. Fiquei onde estava. Eu subia o cais da margem esquerda. pelo menos. ao se afastar de um lampião para o outro. os lampiões brilhavam debilmente. pois eu imperava. Conheci um homem que deu vinte anos de sua vida a uma desmiolada. meu caro senhor. diante de alguns amigos. que recolocava as coisas em seus lugares. Não me entediava. uma vida de complicações e de dramas. nada mais. Além disso. este barítono tinha contra si as aparências. abria a janela e entoava sua cantiga preferida: "Mulheres. o cigarro da satisfação.* Havia pouca gente no cais: Paris já estava à mesa. um pouco mais distante. comprei cigarros. logo depois não ouvi mais nada. àquela hora deserta. este riso nada tinha de misterioso: era um riso bom. Pouco a pouco. explodiu uma gargalhada atrás de mim. Fui até o parapeito: nenhuma barcaça. a fiel mulher! Afinal. o caloroso aperto de mão de meu cliente. É preciso que algo aconteça. Eu saboreava o silêncio que retomava.. Eu me endireitei e ia acender um cigarro. Ele a espancava. mas já escurecia. o quê?. Retomei ao cais.malandro de bela voz. os enterros! Eu. Eu esmagava sob os pés as folhas amarelas e poeirentas. o céu se enchia de estrelas. A noite caía. Sentia crescer em mim um vasto sentimento de força e de realização. pois. Não.diziam os vizinhos. as amizades. como sois belas!" "Francamente!". também. Vivam. Francamente. algumas generosidades e. Surpreendido. É preciso que algo aconteça. Estava atordoado. quase amigável.

Dei de ombros. Um homem de bem. resolvi alguns casos difíceis: a princípio. as pessoas de bem. Minha imagem sorria no espelho. não. O senhor acha que ele tem cara de assassino? Pois esteja certo de que é a cara de seu emprego. Na Holanda. são os meus trunfos. estava pensando em outra coisa. ouvi alguém rir sob a minha janela.. Além disso. haveria muita razão para rir. Hesitava em sair. eu tinha um processo para estudar. sim. de repente. Nessa noite. e por pura perversidade. depois. onde não se exigem diplomas. o urso pardo que vê lá ao fundo está me chamando para uma consulta. E. Este. Embora eu seja juiz-penitente. mas eu inspiro confiança. telefonei para um amigo. já chego lá! -. meu caro senhor. De outra forma. tornei a fechar a janela. é o autor do mais célebre roubo de quadros. por interesse e. afinal. na calçada. é sobretudo isso que é preciso evitar. não posso ficar.pronto. meu aperto de mão é enérgico. Não se admire do meu conhecimento. mas pareceu-me que me via com um duplo sorriso. quando. tenho aqui um passatempo: sou assessor jurídico desta boa gente. todo mundo é especialista em pinturas e em tulipas. Se os proxenetas e os ladrões fossem sempre condenados em toda parte. não acha? Tenho um riso agradável e franco. Com efeito. que não estava em casa. Não foi fácil.dificuldade. e o senhor ficaria surpreso ao descobrir que este homem das cavernas se especializou no tráfico de quadros. por convicção. com o seu ar modesto. julgar-se-iam todas e incessantemente inocentes. Aliás. Também é arrombador. é isso mesmo. Abri.. Estudei a legislação do país e arranjei clientela neste bairro. alguns jovens despediam-se alegremente. Qual? Talvez eu lhe diga. Como? Desculpe. seguramente. . Provavelmente tornarei a vê-lo amanhã. Não. pronto. no meu entender . Amanhã. que a polícia maltrata sordidamente. Dirigi-me ao banheiro para beber um copo d'água.

A verdade é que eu me obrigo a admirar estes canais. Mas também esta noite eu não me sinto em forma. Devo reconhecer. Não. Todo homem tem necessidade de escravos. pode-se chamar assim. Uma insígnia. e minha expressão é menos segura. no entanto. Tinha-se audácia. Veria algum inconveniente. mas na época dos ventos alísios. acho que tudo começou mesmo nessa ocasião. sob a condição de dominar a ilha e o mar. mas vangloriar-se disso é o cúmulo. como de ar puro. Parecia-me desaprender em parte o que nunca havia aprendido e que. estive lá. Mas atravessava o Sena. meu caro compatriota. e sobretudo do topo do Etna. Pelo contrário. Provavelmente o tempo. A escravatura. nada sucedia. e depois o esqueci. em plena luz do dia. ah. gosto de todas as ilhas. lava. quando jovem. De maneira geral. durante alguns dias. uma espécie de dificuldade de encontrar meu bom humor. É mais fácil imperar por lá. Mas. faço tráfico de escravos. Deliciosa casa. em algum lugar dentro de mim. Tive também. e depois recaía. durante a maior parte do tempo. é a ordem natural das coisas. fazia-se dentro de mim uma espécie de silêncio. Melhorava. meu caro compatriota. viver. e então eu respirava. à noite! Gosto do cheiro de mofo que as águas exalam. no meu caso. talvez até mais! Pensando bem. Tenho até dificuldade com o estilo de minhas frases. também. A casa pertencia a um traficante de escravos. não hesitariam em lançar dois ou três manifestos. Bem sei que não se pode deixar de dominar ou de ser servido. O que mais amo no mundo é a Sicília. que não pus mais os pés no cais de Paris. sabia tão bem. eu juntaria minha assinatura às deles. Nada de preciso. em sairmos pra dar uma caminhada pela cidade? Obrigado. Quando passava por lá de automóvel ou de ônibus. trazendo ao conhecimento público que é este o seu trabalho? Que escândalo! Parece que estou ouvindo meus confrades parisienses. Acho que esperava. alguns problemas de saúde. um abatimento. dizia-se: "Aí está. isto é. Falo com menos brilho. minha história nada tem de extraordinário. isso não. Sim. veja bem. hoje em dia. Sim. De vez em quando." Já imaginou alguém. eu pensava sem esforço em outras coisas. Como são irredutíveis nessa questão. naqueles tempos. parecia-me ouvi-lo. acredite. fico-lhe muito grato por sua curiosidade. vendo carne negra. nessa época. que pensei um pouco naquele riso. Como os canais são belos. Fui a médicos. do odor das folhas que se decompõem no canal e do cheiro fúnebre que sobe das barcaças carregadas de flores. não tem a mesma . nós somos contra! Que se seja obrigado a instalá-la em sua casa ou nas fábricas.3 Realmente. no entanto. este gosto nada tem de mórbido. o ar está tão carregado que oprime o peito. bom. não. Ah! Não se escondia o jogo. o coração perde as forças. Mandar corresponde a respirar. parece-me. Respira-se mal. No entanto. que me receitaram tônicos reconstituintes. não acha? As duas cabeças que vê lá são de escravos negros. A vida tornava-se menos fácil: quando o corpo está triste. Saiba. é uma coisa intencional. já que tem tanto interesse nisso.

as mesuras. Vejamos: eu. se todo mundo se sentasse à mesa e ostentasse sua verdadeira profissão. sem ser glorioso. lá estará a polícia para lhes mostrar que tem razão. sua identidade. Conhecemo-nos. dizemos. o lema da casa: "Não confie. inevitável. Mas não devemos reconhecer isso. ficaríamos loucos de dor. Se a empregada tinha um ar triste. Sem isso. talvez de assunto. é. No entanto. a servidão. deve ter notado. o frango laqueado? Como. nada de insígnias. Quem não pode deixar de ter escravos. hem? Outro ." E nos meus cartões de visita: "Jean-Baptiste Clamence. sobretudo. isso era muito melhor para mim. sem que alguém tenha o direito de responder. meu raciocínio não era totalmente idiota. saudava-o. meu caro compatriota. Sabemos do que somos capazes. O senhor se cala? Bom. Da mesma forma. já nem saberíamos para que lado haveríamos de nos voltar! Imagine os cartões de visita: Dupont. deve-se temer tudo. filósofo apavorado ou proprietário cristão ou humanista adúltero. Quais são suas objeções?" Tornamo-nos lúcidos. Nada mal. têm sempre um ar de desprezo. conhece a fórmula? Em certo sentido. Por isso. Já não dizemos. fiz uma descoberta. então. por exemplo. Em todo caso. da melhor maneira. eles continuarão a sorrir e nós ficaremos com a consciência tranqüila.opinião? E até os mais desfavorecidos conseguem respirar. de preferência sorridente. se dirigia? Ao público. e diante dos brancos. pouco tempo depois da noite de que lhe falei. "Podem até discuti-Ia. não acha? Desse modo. ela é convincente. é uma pessoa poder zangar-se. pense um pouco qual seria sua insígnia." Sabe. pois. Senão. ator. embora ela tivesse todo o direito de não estar alegre. como nos tempos ingênuos: "Eu penso assim. um cão. a nossa velha Europa filósofa. O último da escala social ainda tem o cônjuge ou o filho. quando se calam. pode me responder mais tarde. ela é singular. Fica-se classificado de uma vez para sempre. em primeiro lugar. É preciso que alguém tenha a última palavra. isso não nos interessa. negava-me sempre a comer nos restaurantes chineses. pelo contrário. Evidentemente. esse cumprimento não lhe era destinado. envenenava-me os dias. Mas seria o inferno! Sim. Levou tempo. Naturalmente. Esta compensação certamente lhes é devida. ao vê-los. A quem. O essencial. seríamos forçados a mudar de opinião. A quem se responderia neste mundo. eu conheço a minha: tem duas faces. sem dúvida." Ah! Querido planeta! Tudo agora é claro aqui. senão a quem se ama? Por outro lado. o inferno deve ser assim: ruas com insígnias e nenhuma possibilidade de explicação. em resumo. resolve tudo. um Janus encantador e. mas conseguimos compreender isso. nós temos a escolha. a toda razão pode opor-se outra: nunca mais se acabaria. e isto é escandaloso. ele não o podia ver. não fará melhor chamando-os de homens livres? Por princípio. "Esta é a verdade". Quando é solteiro. Mas. dentro de alguns anos. "Não se responde ao pai". sempre desejei ser servido com um sorriso. enfim. Por quê? Porque os asiáticos. Por exemplo. na verdade. Substituímos o diálogo pelo comunicado. eles conservam este ar enquanto servem! Como saborear. e depois para não desesperá-los. Aliás. Quando deixava um cego sobre a calçada onde eu o havia ajudado a aterrissar. portanto. O senhor. ou até modestos. pensar que se tem razão? Cá entre nós. A força. para mudar de exemplo. Mas eu dizia a mim mesmo que era melhor para ela fazer o serviço sorrindo que chorando. por cima. Depois da representação. Na realidade.

porém. no dia-a-dia. e todo o mérito revertia em meu favor: eu subia um degrau no amor que dedicava a mim mesmo. e. que qualquer pessoa teria feito o mesmo. e que efetivamente as perdoam. Só conseguia falar vangloriando-me. mas todos os dias. Segundo sua índole. prestava atenção nisso. como já lhe disse. eis o refrão de minha preciosa vida. recuperar a memória. por exemplo. respondi que ninguém teria feito o mesmo. se tivesse tempo para treinar. esses amigos mal-amados. Com algumas outras verdades. quando minha liberdade era contrariada. Sempre me achei mais inteligente do que todo mundo. Devo reconhecer humildemente. pouco a pouco. em plena liberdade. não. No fundo. fui vendo com mais clareza. firme em meu posto. minhas resoluções. havia sido sempre ajudado por um espantoso poder de esquecimento. porém de maneira cortês e superficial. O mesmo defeito que me tornava indiferente ou ingrato fazia-me magnânimo. Eu. No dia-adia. miséria. o que explicava minha benevolência e minha serenidade. cujo segredo eu possuía. E. Gradativamente. Em questão de modéstia. Já notou que há pessoas cuja religião consiste em perdoar todas as ofensas. durante o período que se seguiu à noite de que lhe falei. é claro. Não imediatamente. exceto. essas evidências. sobretudo quando o fazia com esta ruidosa discrição. nessa mesma época. era por pura condescendência. incomparável ao volante e ótimo amante. Só reconhecia em mim superioridades. Sim. Como dizer-lhe? Tudo isso resvalava. Eu queria dizer. sem pensar que minha razão era mais simples: eu havia esquecido até o seu nome. no dia-a-dia. aprendi um pouco do que sabia. de certo modo por palavras. suicídio. eu. atirador de elite. Todos esses livros mal lidos. custava a acreditar que estava sendo saudado com um largo sorriso. Guerra. eu. era-me difícil não acreditar que. admirava então minha grandeza de alma ou desprezava minha desfaçatez. como o tênis. amor. meu caro compatriota. Às vezes. na superfície da vida. a virtude ou o vício. No fundo. nada contava. Foi preciso. a um motorista que me agradecia por tê-lo ajudado. em que eu era apenas um parceiro razoável. superaria os melhores. eu próprio. nunca na realidade. mas acabava sempre por esquecê-las. Quando me ocupava dos outros. em primeiro lugar. tudo resvalava em mim. descobri. quando as circunstâncias me obrigavam. essas . mas nunca as esquecem? Eu não era feito de matéria que me permitisse perdoar as ofensas. sentia-me liberado em relação a todos pela excelente razão de que me considerava sem igual. eu era imbatível. Avançava. fingia apaixonar-me por uma causa estranha à minha vida mais quotidiana. que fui sempre um poço de vaidade. realmente. É bem verdade que eu sempre vivi livre e poderoso. assim.dia. primeiro. nem com muita nitidez. as mulheres. se alguém se julgasse detestado por mim. eu não participava dela. Mas este infeliz lapso ficou remoendo meu coração. como os cães. Mesmo nos setores em que era fácil verificar minha inferioridade. e que se ouvia em tudo quanto eu dizia. é claro. Sejamos justos: acontecia serem meritórios meus esquecimentos. Simplesmente. pois. sem outra continuidade no dia-a-dia que não fosse a do eu-eu-eu. mas também mais sensível e mais hábil. é claro. Esquecia tudo. Vivia. Até então.

No entanto. de que ainda me lembro. deixe-me. daria uma com todo prazer. mal voltara a cabeça. Voltava o sinal verde. Fez-me logo saber que. que tirasse a motocicleta do caminho para eu poder passar. meu caro compatriota. sequer o vi. a meu interlocutor que fosse educado e considerasse que estava atrapalhando o trânsito. para dar-lhe novo alento. Deixara que me batessem sem reagir. Talvez. de calças de golfe. com minha habitual delicadeza. com mais firmeza. mas não havia nada. História sem importância. que fosse para o inferno. me mandava ao inferno a pé ou a cavalo. a motocicleta voltar a disparar e recebi uma pancada violenta no ouvido. voltei a ela e lá encontrei a recordação que me esperava. Creio. Antes de lhe falar nisso. que a surra que ele me ofereceu teria sido mais recebida do que dada. à minha passagem. tenho certeza) do que descobri no decorrer de minha exploração. Porque. no entanto. saiu um homem que se precipitou sobre mim para me garantir que eu era o último dos homens e que ele não permitiria que eu batesse numa criatura que tinha uma motocicleta entre as pernas e se encontrava. minha memória retornou. em vão. já se faziam ouvir. quando. meus músculos sempre me serviram bem. atrás de mim. demorei um pouco para arrancar no sinal verde. Com a parada. e era a infelicidade. No sinal verde. no sinal vermelho. enquanto. Mas. Pouco a pouco. a motocicleta afastou-se. quando ouvi. Um dia em que. de outra aventura que ocorrera nas mesmas circunstâncias. algumas buzinas. essas mulheres mal possuídas! Eu fazia gestos por tédio ou por distração. Pedi. Respondeu-me. da multidão que começara a juntar-se. na verdade. em franca desvantagem. queriam agarrar-se. lembrei-me. foi preciso muito tempo para esquecê-la. tinha uma desculpa. Enfrentei esse mosqueteiro mas. dirá. o imbecil me saudava com um “Pobre coitado!”. pois. no mesmo momento. dar-lhe alguns exemplos (que lhe hão de servir. portanto. sempre com polidez. quanto a mim. quando. Não me imagino covarde (mas o que não se imagina!). suas buzinas às minhas costas. Simplesmente. Os seres vinham logo atrás. Atordoado. Para eles. isso é o mais importante. mal pusera os pés no chão. voltei docilmente para o meu carro e arranquei. O irascível personagem. um concerto exasperado de buzinas se ergueu da fila já considerável de veículos. se eu estivesse desejando o que ele chamava uma surra. exasperado sem dúvida pela má vontade já evidente de seu motor. em vez de dar uma sacudida no imbecil que me havia interpelado. Durante esse tempo. me havia ultrapassado e se instalara à minha frente. O homenzinho enervavase ainda com seu motor ofegante. de repente. avancei mecanicamente para o d'Artagnan. Ou melhor. Antes de poder registrar o que se havia passado. ao dirigir meu carro. Nunca me lembrei senão de mim mesmo. pedi-lhe. quase ao mesmo tempo. mas com um leve tom de impaciência na voz. e meu adversário não chegava a meus ombros. informou-me que. Uma motocicleta dirigida por um homenzinho magro. ainda um pouco desnorteado. . Então. eu esquecia.cidades mal visitadas. Insisti. sem esperar. de acordo com as regras da cortesia parisiense. Com efeito. o homenzinho deixou morrer o motor e esforçava-se. ainda hoje. Tanto cinismo encheu-me de furor e saí do meu carro com a intenção de dar um tranco nesse desbocado. enquanto nossos pacientes concidadãos desencadeavam. de qualquer maneira.

Depois disso. mas as circunstâncias existem sempre. Tarde demais. como se tivesse faltado à honra. envereda-se geralmente pela política e corre-se para o partido mais cruel. eu fraquejara em público. a honra! Pois bem. enfim. e da maneira mais elementar. por assim dizer. Eu havia sonhado. não me tornava apenas um juiz. No entanto. durante alguns dias. Quando me sentia ameaçado. entrar em meu carro e perseguir o verme que me batera para alcançá-la. mesmo assim. é muito difícil . Em suma. sim. Em resumo. se dessa forma se consegue dominar o mundo inteiro? Eu descobria em mim agradáveis sonhos de opressão.mas não me podiam acusar de covardia. não acha. Em vez disso. ardia de vontade de me vingar. sonha em ser um gângster e em imperar sobre a sociedade unicamente pela violência. isto agora ficava claro. pelo menos. Eis o motivo pelo qual eu me dava certos ares superiores e recorria a todos os requintes para mostrar antes minha habilidade física que meus dotes intelectuais. de ser. como o senhor bem sabe. Olhe. um ressentimento venenoso. Uma vez que isso não é tão fácil como a leitura de romances especializa dos pode fazer crer. porque eu não era a vítima. uma vez irritado. depois de apanhar em público sem reagir. porém mais ainda: um senhor irascível que queria. ainda me recordo. Ouvia o "Pobre coitado!". o mais forte. A verdade é que todo homem inteligente. meu sonho não resistira à prova dos fatos. Via-me entrando no carro. puxá-la à parte e darlhe a surra que ele tinha amplamente feito por merecer. revolvi mil vezes esse pequeno filme em minha imaginação. mas apenas de bater em quem eu quisesse. meio De Gaulle. de bater e de vencer. Surpreendido. que. dos acusados. Conseguia. em ser um homem completo. está chovendo de novo. é claro. queria dominar em todas as coisas. por falta de presença de espírito. eu havia embaralhado tudo e as buzinas completaram minha confusão. quando me voltou à lembrança essa aventura. me parecia justificado. que me importaria essa aventura já esquecida por aqueles que a haviam presenciado? Apenas acusaria a mim próprio de me haver irritado à toa e também. Se eu fosse o amigo da verdade e da inteligência que pretendia ser. Onde é que eu estava? Ah. tanto mais encantada por eu estar vestindo nesse dia. meu caro compatriota. humilhar o próprio espírito. compreendi o que ela significava. Via-me abatendo d'Artagnan com um bom soco. eu compreendia com clareza o que devia ter feito. fora de qualquer lei. Que importa. Como se meu verdadeiro desejo não fosse o de ser a criatura mais inteligente ou mais generosa da face da Terra. Sua culpabilidade tornava-me eloqüente. Mas era tarde demais e ruminei. interpelado dos dois lados. Com algumas variantes. um terno azul muito elegante. sentia-me infeliz. Quer parar embaixo desta marquise? Bem. que se fizesse respeitar tanto em sua pessoa como em seu ofício. sem reação. sob os olhares irônicos de uma multidão. Meio Cerdan. Devido a um conjunto de circunstâncias. Em suma. saber que não estava do lado dos culpados. já não me era possível acariciar essa bela imagem de mim mesmo. encostar a motocicleta à força contra a calçada. de não ter sabido enfrentar as conseqüências de minha raiva. Mas. atacar o delinqüente até fazê-lo ficar de joelhos. a não ser na exata medida em que seus erros não me causavam qualquer prejuízo.

. para só falar dela. é muito natural. Não havia astúcia alguma. ou quase. e que é o mesmo que dizer que nunca amei nenhuma. Não me refiro ao êxito em fazê-las felizes. e só ela. Trata-se. ou então. tampouco em fazer-me feliz por intermédio delas. Já que a chuva aumenta e temos tempo. e quase todas as mulheres que conheci. mesmo se tivesse de lamentar isso amargamente. de que fui sempre eu o objeto. Tive em minha vida pelo menos um grande amor. em minha memória.. utilizei-me delas mais vezes do que as servi. que elas consideram uma homenagem. contudo. Assim era comigo. mais ou menos quando queria. extraindo daí muitas satisfações que já não saberia dizer se eram de prazer ou de prestígio. O que eu tenho para contar-lhe é um pouco mais difícil. cheio de ternura. agia de boa-fé. imperava em minha vida amorosa. ao abrigo da chuva. depressa me havia decidido: a sensualidade. ajudado por meu físico: a natureza foi generosa comigo. antes de tudo. ao colocá-las tão alto. Não nego nem me orgulho menos pelo fato de nisso estar me vangloriando do que é verdade. Não o fazia. que sempre tive êxito com as mulheres. imagine! Sabe o que é isto: um modo de ouvir sim como resposta. E não me orgulhava pouco disso. aliás. alguns dias antes. fácil. Era. há a vaidade ou o tédio. que eu nunca tenha amado. Amava-as. Buscava sempre objetos de prazer e de conquista. como se diz. era tão real que. neste banco. por exemplo: a mulher dos amigos era sagrada. julguei-as sempre melhores do que eu. Não. Não é verdade. o verdadeiro amor é excepcional. Surpreende-se? Vamos. Com a cara que Deus me deu. Não tenho o coração seco. dois ou três em cada século. de forma calculista. eu não era a Religiosa portuguesa.continuarmos seriamente a nos julgar com uma vocação de justiça e a nos considerar o defensor predestinado da viúva e do órfão. de uma mulher. Sob esse aspecto. longe disso. descontraído. mas. todo homem é responsável pelo seu rosto. Simplesmente. Em cada caso. No entanto. Que digo eu! Sobretudo por uma aventura de dez minutos. Achavam que eu tinha certo charme. afinal. Ai de mim! Depois de certa idade. ter êxito. É preciso que se saiba. não . segundo a expressão consagrada. o senhor vai dizer que ainda estou me vangloriando. Sentemo-nos. Eu tinha princípios. O meu. e sem grande esforço. Mas que importa! O fato é que viam em mim certo encanto. na época. eu renegaria pai e mãe. com toda sinceridade. atrevo-me a lhe contar uma nova descoberta que fiz. Há séculos que os fumantes de cachimbo contemplam aqui esta mesma chuva que cai sobre o mesmo canal. minha sensualidade. apenas aquela maneira ostensiva. Só que meus impulsos sentimentais se voltam sempre para mim e meus enternecimentos dizem respeito a mim. mesmo por uma ventura de dez minutos. Como entender isso? Bem entendido. eu deixava. pelo contrário. Quanto a mim. de ter amizade pelos maridos. Bom. pouco depois. Por acaso. Meu relacionamento com as mulheres era natural. e mais ainda. se eu tivesse a certeza de que ela não teria futuro. e mais: tenho a lágrima sempre fácil. mais ou menos. é claro. sem ter feito uma pergunta clara. e eu me aproveitava disso. simplesmente. Eu era bem-sucedido. depois dos inevitáveis problemas da juventude. desta vez. No restante do tempo. não negue. em todo caso. Sempre achei a misoginia vulgar e tola.

pois sabia que era melhor dormir com o mistério. e que o senhor aplaudirá. como elas dizem. por certo ar de distanciamento e de independência irredutível que me dava. ela favorecia minha liberdade. de uma espécie de incapacidade congênita de ver no amor qualquer coisa mais que o ato. Toda companhia. Sejamos indulgentes e falemos de enfermidade. é insubstituível." . É verdade que. numa conversa de esquina. porque uma mulher deslumbrante atravessavaa rua naquele momento. As mais sensíveis de minhas amiguinhas esforçavam-se por me compreender e este esforço as conduzia a melancólicos abandonos. Em suma. mas tratava-se sempre da mesma peça. eu suspirava por Einstein ou por profundas leituras. era tarde demais. de que eu não era nada. eu guardava segredo. Sabia que elas gostavam que não se chegasse muito depressa ao fim. têm isso de comum com Bonaparte: pensam sempre ter êxito no que todo mundo fracassou. Por exemplo. a não ser nos intervalos de meus pequenos desregramentos. passava ao largo da felicidade de todos os dias. cansado do amor etc. no entanto. sempre bem recebida. era confortável. não me faltavam. no décimo encontro. afinal. Então. era preciso conversar. Mudava muitas vezes de papel. E muitas vezes. Custa-me confessá-lo. eu dava um sólido alimento ao romanesco.deveria chamar a isso de sensualidade? A sensualidade em si não é repugnante. Havia também o da felicidade misteriosa. estou certo disso. minha vida estava em outro lugar. o número da atração incompreensível. pois no serviço militar fora artista amador. satisfeitas por verem que eu respeitava as regras do jogo e tinha a delicadeza de falar antes de agir. À força de não ser romântico. que também minhas parceiras desempenhassem com muito entusiasmo o papel delas. mas trocaria dez entrevistas com Einstein por um primeiro encontro com uma bela figurante. mostrar ternura. eu ganhava . Eu amava nas mulheres as parceiras de um certo jogo.do "não sei o quê". acreditava no que dizia. que tinha. mas que. Sobre as razões desse atraso decisivo. enfim. Sobretudo. As outras. Não é de admirar. Em certo sentido. que talvez não tenha futuro. O essencial desta tirada prendia-se à afirmação. eu satisfazia ainda outra coisa.era sempre eficaz. Essa enfermidade. Ao mesmo tempo. o sabor da inocência. ao passo que nunca me entediei com as mulheres que me agradavam. às realidades. propiciava-me oportunidades para novos êxitos. Veja bem. não consigo suportar o tédio e só aprecio na vida as diversões. se bem que seja dos mais velhos o repertório. Por conseguinte. me oprime rapidamente. nunca me preocupei com os grandes problemas. sendo advogado. pelo menos. perdi o fio do raciocínio que me expunham. portanto. que nenhuma outra mulher jamais nos deu. com toda a certeza (pois todo cuidado é pouco). felicidade que talvez eu preferisse a todo o resto. com efeito. sem esperar. vivia meu papel. dolorosa e resignada. Nessas relações. em meio a uma discussão acalorada com amigos. passavam. mas. não valia a pena ligar-se a mim. Quanto a discursos. aliás. "eu não desejava ser atraído. aliás. Antes de tudo. nem olhares. Nossas amigas. estava. eu entrava no jogo. precisamente. Conjugada com minha faculdade de esquecimento. eu havia aperfeiçoado uma pequena tirada. mesmo brilhante. além de minha sensualidade: meu amor pelo jogo. do "não há razões".

criam-se hábitos. o que. foi medíocre. segue-se o reflexo: encontramo-nos um dia numa situação de possuir sem verdadeiramente desejar. e não adianta dizer quem era ela. dei de ombros e fiz menção de rir. não seria a sexualidade. tratava-a de modo tão brutal. sem dúvida. pelo menos. em todas as . ao verificar a cada vez meus belos poderes. era-me quase sempre impossível. seu ar passivo a isolava do mundo. apesar das evidências. mesmo que acontecesse de algumas não me proporcionarem nada além de um prazer medíocre. estava feita de uma vez por todas. obrigava-a a entregar-se em horas e lugares impróprios para isso. Tanto isso é verdade que. de outro modo. comecei. a atormentá-la de todas as maneiras. para certos seres. de fato. tampouco a imaginação. para aplacar de uma vez para sempre minhas inquietações sobre esse ponto. tão encarnada em mim que eu tinha dificuldade de imaginar. Uma espécie de pretensão estava. Aliás. a meu ver. chegava mesmo ao ponto de lhes fazer jurar que não pertenceriam a nenhum outro homem. Uns gritam: "Ame-me!" Outros: "Não me ame!" Mas certa raça. sem desejá-la com muita nitidez. Às vezes. e meu poder. não? No entanto. animado por este desejo singular que é favorecido pela ausência. Mas eu nuca tive complexos e esqueci rapidamente essa pessoa e não mais tornei a vê-la. na verdade. a pior e a mais infeliz: "Não me ame e seja fiel!" Veja só que a verificação nunca é definitiva. qual foi. Ri mesmo com vontade. porém. seguida de uma cumplicidade de súbito reencontrada. com tudo o que ela tem de imprevisível? Mas não. meu caro compatriota. apenas que. ela não era tão passiva quanto eu pensava. satisfazia o amor que dedicava a mim mesmo.duplamente. tive a sensação de haver sido um pouco enganado. Acredite-me. Mas este juramento que elas me faziam libertavame ao prendê-las. Se existe um terreno em que a modéstia deveria ser regra. não desempenhava papel algum nesta inquietação. é preciso renová-la com cada ser. era claro que esse incidente não tinha importância. Pensava que ela nada percebera e eu sequer imaginava que pudesse ter uma opinião. me havia atraído com seu ar passivo e ávido. garantido por muito tempo. além do desejo que nutria por elas. Apesar do meu dar de ombros. como seria de esperar. vez por outra eu tratava de reatar com elas. De tanto recomeçar. sem verdadeiramente me perturbar. nem lhe faltava percepção para julgar. A partir do momento em que não pertenciam a ninguém. soube que confidenciaria a alguém minhas insuficiências. é ver quem se sai melhor. Francamente. mesmo na solidão. O coração. Depois. Foi o que aconteceu certo dia. Algumas semanas depois. não possuir aquilo que não se deseja é a coisa mais difícil do mundo. podia então decidirme a romper com elas. porém. A partir desse instante. meu comportamento? Tornei a ver um pouco mais tarde esta mulher. Não foi muito difícil: elas também não gostam de permanecer com um fracasso. fiz o que era necessário para seduzi-Ia e voltar a possuí-Ia verdadeiramente. Na hora. Logo o discurso nos surge sem pensarmos nele. com efeito. no que lhes dizia respeito. é assim. que uma mulher que havia sido minha pudesse alguma vez pertencer a outro. e que só a mim competia estreitá-los. mas também para verificar que nossos laços ainda se mantinham. pois. Abandonava-a e voltava a procurá-la. Curioso. A verificação.

apesar do seu silêncio polido. não era o amor nem a generosidade que me despertavam. Observe. eu não acusava a ternura de meu coração. acreditava sofrer realmente. eu resplandecia. aí a vaidade se exibe ou. comecei a afastar-me dela.situações. Uma vez amado e minha companheira de novo esquecida. Não era ela que me fazia agir quando uma de minhas amiguinhas se cansava de esperar o Austerlitz de nossa paixão e falava em retirar-se. simplesmente um pouco excitado por esta recusa e também alarmado com a possível perda de uma afeição. no entanto. melhor ainda que em minhas outras intrigas. A ternura e a doce fraqueza de um coração. Apesar das aparências. eu não podia me enganar quanto à verdade de minha natureza. do que em minhas grandes tiradas profissionais sobre a inocência e a justiça. em última instância. a esqueci. Medite. Concordarei com o senhor. portanto. Nesse dia. Essa morte teria fixado definitivamente nossa ligação. Às vezes. eu havia sido mais franco do que pensava. dizia a mim mesmo que a solução ideal seria a morte para a pessoa que me interessava. Finalmente. quando analisava a dificuldade que tinha em me separar definitivamente de uma mulher. Bastava. opunham-se a minha sensibilidade e meu amor pelos homens. para que eu a esquecesse sem esforço. tornava-me simpático. . Não. Aliás. que esta aventura não é muito brilhante. dificuldade que me levava a tantas ligações simultâneas. quando corria o risco de ser abandonado. sem subterfúgios. é bem verdade. Nenhum homem é hipócrita em seus prazeres. Quanto a mim. mas apenas o desejo de ser amado e de receber o que. no entanto. que eu começava a sentir o peso dessa afeição. sentindo eu próprio apenas suas aparências. em meus momentos de irritação. O ato de amor. nem. sobre a sua vida. mais ainda de minhas defesas que de meus discursos às mulheres. que a rebelde partisse de fato. e. em meu entender. pelo contrário. meu caro compatriota? Assim. eu pouco mentia. talvez encontre alguma história semelhante. eu as despertava nelas. eu era. uma vez reconquistada. que cedia. Mas não se pode desejar a morte de todo mundo. ou tê-lo-ei pensado. me era devido. por outro. tinha dito quem era e como podia viver. Então. estava em meu melhor possível. ela prestou homenagem. sobretudo. por um lado. em voz alta. é uma confissão. Pelo menos. A isso. Mas era um riso diferente. Aí o egoísmo grita. então. E isto até o dia em que. O instinto falava claramente. por exemplo. bastante parecido com o que eu tinha ouvido sobre a Pont des Arts. assim como a esquecia junto de mim. nesta lamentável história. que acabei por me ligar a ela como imagino que o carcereiro se liga a seu prisioneiro. pela minha atitude. que me tornava eloqüente. ostensivamente. ter-lhe-ia tirado o constrangimento. Ria de meus discursos e de minhas defesas. ri outra vez. Era eu que imediatamente dava um passo à frente. que me contará mais tarde. mais digno em minha vida privada. A estas. aí se revela a verdadeira generosidade. na violenta confusão de um prazer doloroso e forçado. aliás. e. será que li isto. quando me comportava como lhe contei. meu caro compatriota! Vasculhe sua memória. quando esta aventura me veio de novo ao espírito. despovoar o planeta para gozar uma liberdade de outra maneira inconcebível. ao me ver lidar com os seres. pelo menos. àquilo que a subjugava. ela havia decidido voltar. quando. Depois.

caía uma chuva miúda. o corpo acalmado. Só deviam receber a vida. Na ponte. Acabara de deixar uma amiguinha que. fadados. ao mesmo tempo que a paz. em que mobilizava tantos seres para me servir. para casa. que esse sentimento nunca mais me abandonou desde aquela aventura. no silêncio da noite. via-se apenas uma nuca. como se estendesse a todas as outras mulheres a dívida que acabara de contrair com uma delas. todos os seres. eu voltava para a margem esquerda. diga-me meu caro compatriota. até o dia em que me dignasse a favorecê-las com minha luz. Parei na hora. parou de chover! Tenha a bondade de me acompanhar até a minha casa. depois de certa hesitação. aliás. quando tudo corria bem e me deixavam. quase uma garoa que dispersava os raros transeuntes. Quando penso nesse período em que eu pedia tudo. ela não queima um pouco? Sim? Então. Mas segui meu caminho. a qualquer momento. distingui uma mulher nova e esguia. já estava dormindo. em contar-lhe isto. o resultado era claro: conservava todas as minhas afeições à minha volta para utilizá-las quando quisesse. vestida de preto. em direção a Saint-Michel. onde eu morava. não sei que nome dar ao curioso sentimento que me invade.O único sentimento profundo que me ocorreu experimentar nessas relações era a gratidão. me pareceu grande. Em resumo. a confusão aparente de meus sentimentos. estranhamente. nunca tão gentil e alegre com uma como quando acabava de deixar a cama de outra. para viver feliz. vez ou outra. à esterilidade. talvez se trate dela ou de um desses sentimentos ridículos. fresca e molhada. mas sem me voltar. de certo modo. em novembro. ou o maior número possível deles. Naquela noite. passei por detrás de uma forma debruçada sobre o parapeito e que parecia olhar o rio. No fim da ponte. apesar de minhas digressões e dos esforços de uma inventiva à qual. quando ouvi o barulho de um corpo que cai na água e que. Para que a estatua se desnude. não por ter falado muito. Entre os cabelos escuros e a gola do casaco. era preciso que os seres que eu elegesse não vivessem. irrigado por um sangue suave como a chuva que caía. a liberdade de ir e vir. que eu encontrei no centro de minha memória e cuja narração não posso adiar mais. peguei o cais. prontos a atender a meu chamado. Já havia percorrido uns cinqüenta metros. Qualquer que fosse. para que dizer mais. para um dia ou outro tê-las à mão conforme minha conveniência. Portanto. Sentia-me bem com esta caminhada. mais ou menos. pela Pont Royal. Não será vergonha? A vergonha. sem nenhuma compensação de minha parte. dois ou três anos antes da noite em que julguei ouvir alguém rir às minhas costas. confesso que não conseguia viver. a não ser com a condição de. Aliás. De mais perto. que dizem respeito à honra. fará justiça.apesar da distância. privados de vida independente. em que os colocava. na geladeira. os belos discursos devem alçar vôo. com certeza. Estou cansado. que me sensibilizou. ouvi um . Passava uma hora da meia-noite. mas à simples idéia do que ainda preciso contar. sobre a terra inteira. Quase imediatamente. se voltarem para mim. espero. Parece-me. eternamente disponíveis. a meu bel-prazer. enfim. acredite-me. Vejamos. Olhe. Vamos! Bastarão algumas palavras para descrever minha descoberta essencial. Ah! Não sinto nenhum prazer especial. em todo caso. um pouco entorpecido.

Dizia a mim mesmo que era preciso agir rapidamente me sentia uma fraqueza irresistível invadir-me o corpo. Não avisei ninguém.grito vários vezes repetido. Esteja às onze horas no México-City. Depois. às pressas. que descia também o rio e depois se extinguiu bruscamente. Escutava ainda.. Não li os jornais do outro dia. O silêncio que se seguiu na noite paralisada pareceu-me interminável. imóvel.afastei-me sob a chuva. verá o Zuyderzee. não sei. não sei.”. na verdade. ou algo do gênero.. O quê? A tal mulher? Ah. o meu refúgio! Amanhã? Sim. como queira. eis a minha casa. nem dos dias seguintes. . longe demais. Mas já chegamos. Quis correr e não me mexi. Esqueci-me do que pensei então. Acho que tremia de frio e de emoção. Levá-lo-ei com prazer à ilha de Marken. "Tarde demais.

O senhor e eu apenas. são o gênero humano. Caso contrário. sim. Um inverno amorfo. pelo contrário. Eu sou. não adiantaria nada. já não possuo aquela clareza de espírito à qual meus amigos se compraziam em prestar homenagem. poderíamos. do gênero humano. diante do planeta enfim deserto! O céu vive? Tem razão. Os homens só se convencem de nossas razões. o dique cinzento à direita. São as pombas. nosso caso é duvidoso. valeria a pena. Compreendi que não tinha amigos. esperam o ano todo. os tamancos e as casas decoradas. Temos de segui-lo. além do mar e dos canais. onde os pescadores fumam tabaco em meio a um cheiro de encáustica. . não acha? O pitoresco não lhe foi poupado. haveria uma saída. que o vento leva ou traz? As pombas esperam lá em cima. caro amigo. olham. uma única certeza de podermos gozar o espetáculo. Se eu pudesse suicidar-me e ver em seguida a cara deles. nunca se tem certeza. nenhum ser humano. Sentemo-nos. por causa do pitoresco. fecha portas de bruma. Mas eu não o trouxe a esta ilha. à nossa frente. ninguém se sentiria punido. caro amigo. finalmente. Não tenho mais amigos. abre-se em escadarias de ar. a vida. Todo mundo pode levá-lo a admirar as toucas. Perco o fio de meus relatos. telhados cobertos de insígnias. e que batem as asas. Mas não há nada. por princípio. meu caro amigo. Que me diz? Aqui temos. sim. então. de certa forma. Os olhos da alma. Não reparou que o céu da Holanda está cheio de milhões de pombas. para puni-los. Não compreende o que quero dizer? Confesso-lhe meu cansaço. aquele monte de cinza. Mas a terra é obscura. a mais bela das paisagens negativas! Veja. só temos direito a seu ceticismo. Torna-se denso. Chegamos ao dique. sobem e descem num movimento único. o mar com a cor esmaecida de espuma. E. e nenhuma cabeça onde pousar.4 Uma aldeia de bonecas. o nada sensível a nossos olhos? Nenhum ser humano. Mas punir quem? Alguns ficariam surpreendidos. se há uma alma e se é que ela tem olhos! Mas aí está. Enquanto estivermos vivos. o vasto céu onde se refletem as águas pálidas. Além disso. mesmo se os tivesse. então. a que chamam aqui de duna. enchendo o espaço celeste com ondas espessas de penas acinzentadas. desejariam descer. creio que concorde com isso. a margem arenosa lívida a nossos pés e. à nossa esquerda. morta. seu número aumentou. aliás. Se houvesse. o espaço é incolor. uma das raras pessoas que podem mostrar-lhe o que existe de importante aqui. na verdade! Nada mais do que linhas horizontais. não se tem certeza. Como sei que não tenho amigos? É muito simples: eu descobri isso no dia em que pensei em matar-me para lhes pregar uma boa peça. Digo amigos. só tenho cúmplices. por favor. de nossa sinceridade e da gravidade de nossos sofrimentos com a nossa morte. o senhor é o primeiro. nenhum brilho. Fazem evoluções acima da terra. opaca a mortalha. a madeira espessa. depois aprofunda-se. sem dúvida. fazer com que nos levassem a sério. sobretudo. Em compensação. O que está presente é sempre o primeiro. para ficarmos o mais longe possível destas casas por demais graciosas. Não será a retração universal. invisíveis por voarem tão alto.

não acha? A aristocracia não se concebe sem um pouco de distância em relação a si mesma e à própria vida. com uma obstinação bastante meritória. voltou ao rio. A bem dizer. estamos sempre prontos para o julgamento. Tal avidez tem algo de plebeu. o inverso é que teria causado surpresa. sim. morrer voluntariamente. sobretudo o problema é evitar o julgamento. segundo o sonho de cada homem. Mas podemos muito bem suicidar-nos por duas razões. nos quais nossos caridosos compatriotas vêm fazer sua cura de tédio. Se ainda hesita em tirar uma conclusão. Continuava. ridicularizados ou usados. se for preciso. assim como para a fornicação.isso. vamos direto ao ponto. como os homens são pobres de inventiva! Julgam sempre que nos suicidamos por uma razão. Quanto a serem compreendidos. Mas uma pessoa se mata. dizia uma moça ao pai que a impedira de se casar com um pretendente por só andar bem penteado. Olhe. pelo contrário. já consigo ouvi-los: "Matou-se porque não pôde suportar que . no entanto. Para que serve. Três domingos depois. não será melhor assim? Sofreríamos demais com sua indiferença. e sobretudo. um nome que assegura nossa inocência: infelicidade. Meu caro amigo. Mas o pai não pagou absolutamente nada. Para deixar de ser duvidoso. Sem contar que nos arriscaríamos a ouvir as razões que dariam para o nosso gesto. Mas não se foge assim tão facilmente. a esquecê-las. segundo dizia. Morre-se. isso será elucidativo. antes quebrar que dobrar. Porque o castigo sem julgamento é suportável. observe a própria família. trata-se de fugir ao julgamento. eu amo a vida. certamente? Talvez pense que não é lógico? Mas o problema não é o de permanecer lógico. pois esqueceu. aliás. convenhamos. então. caro amigo. tramitava incessantemente em meu coração.valeria a pena provar-lhes o que eles não querem crer e deixá-los assombrados." Ah! caro amigo. era sobretudo dos outros que eu estava enojado. O processo dos outros. é preciso. eles se aproveitarão disso para atribuir ao gesto motivos idiotas ou vulgares. fique de ouvido nas conversas de mesa durante o mês de agosto nesses hotéis de veraneio. Ele tem.. pura e simplesmente. depois de tudo que lhe contei. que acha que me aconteceu? Nojo de mim mesmo? Ora!. Isto o choca. E depois. O problema é contornar. É claro. Não. sem que jamais a sentença seja pronunciada. eu conhecia minhas fraquezas e as lamentava. Hoje em dia. isso não lhes entra na cabeça. Ele adorava pescar. para se esquecer. oh. eis a minha verdadeira fraqueza. No que me diz respeito. pelo contrário. não demos pretexto para . enfim. de evitar ser continuamente julgado. Não. Ou. Julga-se morrer para punir a mulher e devolve-se a ela a liberdade. eu me dobro. e que importa se eles acreditam ou não? Não estamos presentes para colher os frutos de seu espanto e de sua contrição. porque continuo a me amar. É preferível nem ver isso. leia então os escritos de nossos grandes homens do momento. "Vai pagar-me por isso!". Amo-a tanto que não tenho nenhuma imaginação para o que não for vida. nunca. Calculou certo. Aliás. ao próprio funeral. Se duvida disso. ainda. sacrificar-se à idéia que se quer dar de si mesmo? Uma vez morto. E ela se matou. Os mártires. Mas.. deixar de ser. têm de escolher entre serem esquecidos. Não digo evitar o castigo. eu. Com a diferença de que não há fraquezas a temer. aliás efêmera: assistir.

deveria tê-los prestado. a meus olhos. de que eu vivia intensamente e num livre abandono à felicidade. e depois. Tive mesmo. Ou melhor. por falta de tempo. A partir do momento em que temi que houvesse em mim qualquer coisa a ser julgada. quando se apresenta de certa maneira. o acaso. que banquete para as feras! Compreendi isso num relance. isto é. Já que sangrava um pouco. é preciso não se envolver demais com os outros. Em minha profissão. havia prestado serviços. A aparência de sucesso. A partir daí. as mesmas e. Uma vez. Em contra partida. passei a ser desconfiado. é capaz de irritar um santo. A partir de então. no entanto. isto não se perdoa. Somos obrigados às mesmas precauções que o domador. Como se sair dessa? Não nos perdoam nossa felicidade. as portas se fecham. nada disso! Encontrei inimizades sobretudo entre os que só me conheciam muito por alto e sem que eu próprio os conhecesse. O círculo. rompia-se. Sempre pensei. por pouco que seja! Caso contrário. me custavam caro. e eles colocavam-se numa única fileira. Mas. a harmonia e a segurança que encontravam junto a mim. Minha vida. que nem sempre me perdoavam por isso. O tempo que eu lhes consagrava não podia dedicar aos homens. de cortar-se com a navalha. Sim. ou absolvido e . estava totalmente perdido: iriam devorar-me. A outros. as mulheres. pela mesma razão. nessa época. por outro lado. em minha vida social. Mas eu só era sensível às dissonâncias e à confusão que se apossavam de mim. mas riam. com a ingenuidade de que já lhe dei algumas provas. foi mais difícil e doloroso admitir que tinha inimigos entre pessoas que mal ou nem ao menos conhecia. para dar apenas um exemplo. se lembravam de minhas recusas. nem nosso sucesso. como no tribunal. que havia neles uma vocação irresistível para julgar. sem dúvida. a menos que se consinta generosamente em reparti-los. tornavam-se sutilmente desafinadas. na primeira oportunidade. a impressão de que me davam rasteiras. lá estavam. Tudo isso. talvez. Minhas relações com meus contemporâneos eram. estava na ordem natural das coisas e eu o descobri sem grande mágoa. em suma. Com efeito. Louvavam ainda. antes de entrar na jaula. a platéia respeitosa a que estava habituado. parecia-me que cada um daqueles que eu encontrava me olhava com um sorriso disfarçado. eles nos deixam em pedaços. o que havia recusado. Suspeitavam. Pois bem. eu não fosse tão digno de admiração. para mim. não me foi difícil descobrir que tinha inimigos. Meus amigos não haviam mudado. por essa mesma razão. ainda me restava a desconfiança. transbordava de compromissos e. em suma. tropecei duas ou três vezes. Feliz e julgado. sem motivo aparente. em primeiro lugar. recusava muitas oportunidades! Esquecia em seguida. no dia em que me ocorreu a suspeita de que. O francês cartesiano que sou procurou logo recompor-se e atribuir tais acidentes à única divindade razoável. na aparência. Não importa. Assim é que. ao entrar em lugares públicos. Meus semelhantes deixavam de ser. Mas tais oportunidades me haviam sido oferecidas por pessoas cuja vida não era intensa e que. que os que não me conheciam não poderiam deixar de gostar de mim. cheguei a estatelar-me no chão.nos julgarem. do qual eu era o centro. sentia-me vulnerável e entregue à acusação pública. como antes. para ser feliz. Se ele tem a infelicidade. se tivessem chegado a conviver comigo. compreendi. A uns. Despertada minha atenção. afinal de contas.

As pessoas apressam-se. prisioneiro como ele." "Mas. e melindroso fazer. Como é difícil fugir ao julgamento. sobretudo. é a idéia de sua inocência. Sou inocente!" Somos todos casos excepcionais. não é ainda a absolvição. como no fundo de sua natureza. Todo o universo pôs-se. recebi todos os ferimentos ao mesmo tempo e perdi de uma só vez minhas forças. sem vergonha. Durante a defesa.desgraçado. a rir à minha volta. A única defesa está na maldade. não há mérito algum em ser honesto. Uma reclamação? O escrivão e seus colegas riam: "Inútil. que registrava sua chegada. a todo custo. então. escolherá até mesmo esse momento para chorar. não acredite em seus amigos. Todos queremos recorrer de qualquer coisa! Cada qual exige ser considerado inocente. ele nos será violentamente reconhecido. de nascença! Assim como não se é certamente mais responsável em ser criminoso por natureza do que devido a circunstâncias. mesmo que para isso seja preciso acusar o gênero humano e o céu. Só anseiam que alguém os mantenha no bom conceito que fazem de si próprios. porque a riqueza nos livra do julgamento imediato. sempre fácil de conseguir . camarotes de luxo. carros-leitos. Aqui. veja bem. às vezes um conforto. que extrairão de sua promessa de sinceridade. O essencial é que sejam inocentes. extraem justificativas da natureza ou desculpas das circunstâncias. meu velho. Como poderia a sinceridade ser uma condição da amizade? O gosto pela verdade a qualquer preço é uma paixão que nada poupa e a que nada resiste. Eis o que nenhum homem (exceto os que não vivem. admirar e desculpar a própria natureza. quero dizer. somos todos como aquele francesinho que. distraído e sorridente. em Buchenwald. teimava em querer apresentar uma reclamação ao escrivão. Que quer? A idéia mais natural para o homem. Sobretudo.. dizia o francesinho. Mas. a irresponsabilidade e. quando lhe pedirem que seja sincero com eles. ao lhes fornecer uma certeza suplementar. as flechas e as zombarias. É um vício. "meu caso é excepcional. Já lhe disse: trata-se de fugir ao julgamento. nem inteligente.. os sábios) consegue suportar. ao passo que. nascidos de uma infelicidade passageira. .A riqueza. todos eles procuram ser ricos. caro amigo. dissolviamse sobre mim. mesmo que sejam contraditórias. os juízos. se dissermos a um criminoso que seu erro não decorre de sua natureza. Sob esse aspecto. Daremos uma alegria medíocre a um homem se lhe elogiarmos os esforços graças aos quais se tornou inteligente ou generoso. nos retira da multidão do metrô para nos encerrar numa carroceria toda niquelada. a que lhe surge ingenuamente. para elas próprias não serem julgadas. Vivera durante muito tempo na ilusão de um acordo geral. meu senhor". Inversamente. Mas esses bandidos querem a absolvição. a injustiça era maior: eu era condenado por felicidades antigas. ou um egoísmo. não se reclama. que suas virtudes pela graça do nascimento não possam ser postas em dúvida. veio-me a lucidez. a um só tempo. Quanto a mim. isto é. A partir do dia em que me dei conta. nem de seu caráter. nos isola em vastos jardins particulares. mas uma suspensão de pena. certamente. então. de todos os lados. Mas ele exultará se admirarmos sua generosidade natural. nunca sejam mais do que provisórios. Por quê? O senhor já se perguntou isso alguma vez? Pelo poder. mas de circunstâncias infelizes. a julgar. No entanto. e que seus erros.

Não desejamos. uma espécie de vestíbulo de seu inferno. um reverso menos imponente. a descobrir. que aquele riso perpétuo e os que riam me ensinassem a ver claro dentro de mim mesmo. enfim. desejaríamos ao mesmo tempo deixar de ser culpados e não fazer esforço algum para nos purificarmos. meu egoísmo culminava em minhas liberalidades. antes de tudo. não hesite: prometa ser verdadeiro e minta o melhor que puder. Por exemplo. e meu reino era a cama. Mas – nada disso . Tanta pressa que até fui obrigado a me fazer juiz-penitente. Apenas desejamos ser lastimados e encorajados em nosso caminho. procurar a resposta. a humildade. minha indiferença proporcionava-me ser amado. que fôssemos julgados fracos. Tanto isso é verdade que raramente nos abrimos com quem é melhor do que nós. a oprimir. esta verdade não é tão primária quanto parece. assim. em outro sentido. Em suma. Foi preciso. entre todas gloriosa. pois. fugimos a esse convívio. pelo menos.fazia-me de duro e nunca consegui resistir ao oferecimento de um copo nem de uma mulher! Passava por ser ativo. temos pressa. sem dúvida. Precisaríamos ter a paciência de esperar pelo juízo Final.Portanto. vaguei por muito tempo. é tudo. então. nos corrigir. à força de remexer na memória. Mas não. No entanto. Não sorria. um ar de frieza que se confundia com o da virtude. A obrigação em que me encontrava de esconder a parte viciosa de minha vida conferia-me. concebi a duplicidade profunda da criatura. De preferência. enérgico. Conhece Dante? Isso mesmo? Que diabo! Sabe. O certo é que. Fazia a guerra por meios pacíficos e obtinha. que a modéstia me ajudava a brilhar. antes de tudo. Não temos nem a energia do mal nem a do bem. então. confessamo-nos aos que se parecem conosco e que partilham de nossas fraquezas. caro amigo. a vencer. que eu não era simples. . e a virtude. pelo contrário. se o senhor se encontrar neste caso. nem melhorar: seria preciso. Vários dias antes da data. podia então entregar-me aos encantos de uma tristeza viril. A partir da noite em que fui chamado. de minha discrição no caso. atento para nada deixar escapar que pudesse despertar a atenção e a memória daqueles com cuja falha eu contava (não tive um dia a intenção de alterar um calendário?). depois de longos estudos sobre mim mesmo. tive de responder ou. meus defeitos revertiam em meu benefício. Sem cinismo suficiente e sem virtude suficiente. que eu conhecia bem. primeiro tive de me acomodar às minhas descobertas e fazer um acerto com o riso de meus contemporâneos. nunca me lamentava de terem esquecido a data de meu aniversário. Paro aqui: o excesso de simetria prejudicaria minha demonstração. Estamos no vestíbulo. Mas a razão de meu desinteresse era ainda mais discreta: eu desejava ser esquecido para poder lamentar-me disso a mim mesmo. Compreendi. as pessoas chegavam a se surpreender. Não foi fácil. ficava à espreita. tudo que cobiçava. E coloca-os no Limbo. que Dante admite anjos neutros na disputa entre Deus e Satã. com uma ligeira dose de admiração. Paciência? Tem razão. Na maioria das vezes. A face de todas as minhas virtudes tinha. Chamam-se verdades primeiras as que descobrimos depois de todas as outras. Atenderá ao profundo desejo deles e provará duplamente sua afeição. Uma vez bem demonstrada minha solidão. enfim. por exemplo. pelo desinteresse. pois fui realmente chamado. É bem verdade que.

abriu o jornal. Era suficientemente educado.. A partir daí. Onde estava a seriedade. é esta: nunca consegui acreditar profundamente que os assuntos humanos fossem coisas sérias. Só fui verdadeiramente sincero e entusiasta no tempo em que praticava esportes e na tropa. eu não tenha também traído. fora bem-sucedido. Os moribundos pareciam-me. Há. para corresponder ao que esperavam de mim em minha profissão. Havia em ambos os casos uma regra do jogo. e suficientemente indolente..Apregoava minha lealdade e acho que não há entre os seres que amei um único que. Ainda agora. pela força de vontade. as partidas de domingo num estádio superlotado e o teatro. fazia a instrução de meu processo até o fim e chegava à conclusão de que eu primava sobretudo pelo desprezo. para a nossa diversão. o inteligente. nunca deixei de ajudar o próximo. Mas quem admitiria que semelhante atitude possa ser legítima. Em todo caso. leu que a primeira bomba H havia explodido. eu liquidava um trabalho considerável à força de indolência. Mas em vão repetia a mim mesmo estas evidências. que estão presentes sem estar: eu estava ausente no momento em que ocupava o máximo de espaço. às vezes. esforços e convicções que nunca compreendi. Em suma. na verdade. paro por aqui. e nos divertíamos em considerar como tal. Certas manhãs. o virtuoso. cuspia todos os dias na cara de todos os cegos. da morte e do salário dos miseráveis? Que fazer. são os únicos lugares no mundo em que me sinto inocente. As réplicas de meus clientes pobres pareciam-me sempre restringir-se à mesma cantilena. afinal. informou-se sobre os seus admiráveis efeitos e entrou sem demora numa tabacaria. que amei com uma paixão sem igual. que não era séria. Com cortesia. Eu olhava sempre com um ar de espanto e com um pouco de suspeita aquelas estranhas criaturas que morriam por dinheiro e se desesperavam com a perda de uma "situação" ou se sacrificavam com grande ostentação pela prosperidade da família. Eu compreendia melhor aquele amigo que havia decidido nunca mais fumar e que. quando representava nas peças que encenávamos. minha família ou minha vida de cidadão. Mas. o edificante . Aqueles mesmos que eu ajudava com mais freqüência eram os mais desprezados. o que havia de frívolo na própria seriedade evidenciava-se a mim e eu continuava apenas a desempenhar meu papel da melhor forma que podia. É certo que minhas traições não impediam minha fidelidade. haverá uma desculpa para isto? Existe uma. Certa manhã. só tirava delas consolos superficiais. quando se trata do amor. Representava o eficiente. isso eu não sabia. eu fingia levar a vida a sério. Sem dúvida. às vezes. mas tão esfarrapada que não posso pensar em fazê-la prevalecer. o senhor já deve ter compreendido que eu era como os meus holandeses. o solidário. no entanto? Eu só imaginava os amores de Isolda nos romances ou num palco. vivendo entre os homens sem compartilhar de seus interesses. com uma solidariedade cheia de emoção. Francamente. mas todas as vezes com uma espécie de distração que . graças ao prazer que encontrava nisso. compenetrados de seu papel. não conseguia acreditar nos compromissos que assumia. a não ser que não estava em tudo aquilo que via e que me parecia unicamente um jogo divertido ou inoportuno. o patriota. o indignado. bem depressa. o indulgente.

Em suma. tratava-se de confessá-las aos homens. valeria a pena continuar a fazer o que eu fazia? Mas não era exatamente isso. minha vida continuou como se nada houvesse mudado. não consegui me perdoar. Estava nos eixos e rodava normalmente. a morte mantinha-se fiel à minha cabeceira. por exemplo. em mim e a meu redor. a mim mesmo. Chegou um dia em que não agüentei mais. Não importava. adormecido sobre o seu segredo. de que sou o único a conhecer o que todo mundo busca e de que tenho em minha casa um objeto que mobilizou em vão três aparatos policiais é puramente deliciosa.acabava por estragar tudo. Minha primeira reação foi confusa. também. responderia ao desafio. redobravam os elogios à minha volta. a um amigo. e os elogios tornavam-se cada vez mais insuportáveis para mim. A idéia. pelo menos. para agravar minhas asneiras. Que tarefa? Eu nem sabia. Para falar com franqueza. antes mesmo que a descobrissem. . Para me precaver contra o riso. eu estava acima disso. Lembra-se: "Ai de vós quando todos os homens vos louvarem!" Ah! aquele falava muito bem! Ai de mim! A máquina passou então a ter caprichos. Eu reagia. e mesmo que houvesse uma única mentira oculta numa vida. perdido no oceano das idades como o grão de sal no mar! Dizia. não havia descoberto a receita e me atormentava. Como se fosse de propósito. um castigo suficiente e que tudo absolvia. a salvação (quer dizer. Este assassinato absoluto de uma verdade me desnorteava. muitas vezes. Já que era mentiroso. Que importava a mentira de um homem na história das gerações. Não a Deus. Mas deixemos isso de lado. e que pretensão querer trazer à luz da verdade um mísero embuste. com isso. um temor ridículo: não se podia morrer sem ter confessado todas as mentiras. e aparentemente. aquelas em que me sentia menos comprometido. o direito de desaparecer definitivamente) com o suor da agonia. é claro. que a morte do corpo. Parecia-me que a mentira aumentava com eles. Vivi minha vida inteira sob um duplo signo e minhas atividades mais sérias foram. em si. ao contrário. se fosse julgar pelas que eu havia presenciado. E me atormentava a idéia de que não teria tempo de realizar a minha tarefa. paradas inexplicáveis. e que me obrigou a procurar uma saída? Durante algum tempo. Afinal. nem a um de seus representantes. eu me levantava com ela. De outra forma. Perseguia-me. com efeito. Na época. tratava-se ainda de fugir ao julgamento. Intimado pela verdade. Ganhava-se. era. por exemplo. ou a uma mulher amada. diga-se de passagem. Nunca mais ninguém conheceria a verdade sobre este ponto. como o senhor pode imaginar. que me fez resistir com o máximo de violência contra o julgamento que eu sentia em ação. Não. Foi nesse momento que o pensamento da morte irrompeu em minha vida diária. não seria isso que. tão desmesuradamente que nunca mais conseguiria me recompor. iria manifestá-lo e atirar minha duplicidade na cara de todos aqueles imbecis. imaginei então lançar-me à zombaria geral. me proporcionaria refinados prazeres. a morte tornava-a definitiva. Contava os anos que me separavam de meu fim. o mal-estar crescia. Queria colocar do meu lado os que riam ou. colocar-me ao lado deles. Buscava exemplos de homens de minha idade que já estivessem mortos. Hoje. já que a única pessoa que a conhecia era precisamente o morto. O mal veio precisamente daí.

". já que não era geral. No entanto. meus bons antecedentes faziam com que fosse bem recebido. Lá. estupefatos. em dar empurrões em cegos na rua. coloque-se no lugar dessas senhoras e desses senhores!" Eu dizia. ou mais simplesmente: "Meu Deus . para castigar uma audácia que ele julgava uma afronta igual nos dois casos. e eu empalidecia. também. outros cacarejavam com indignação sem nada ouvir. só de pensar. depois estourava o tumulto. aperfeiçoado pelas inquisições modernas. e. chamei o dono para expulsá-lo e aplaudi com estardalhaço as palavras desse justiceiro: "Você está incomodando". com gentileza. descobria até que ponto uma parte de minha alma os detestava: planejava furar os pneus das cadeiras de rodas dos aleijados. deixava escapar um palavrão: "Graças a Deus!". os camponeses que o saudavam e os que não o saudavam. eu me pus a aconselhar o amálgama como método de defesa. que me apresentou. e gritar "Trabalha. diziam-me.. não consegui me conter por muito tempo. e como poderia ser geral. uns fugiam do bar. destruir essa reputação lisonjeira que. cujo caráter admirava: ele mandava chicotear. Eu continuava. como o diabo na água benta. se fiz alguma coisa parecida. esqueci. Naturalmente. com um manto de ridículo. Mas. dizia eu." Bem sabe como nossos ateus de roda de bar são comungantes tímidos. "Enfim. Precisava libertar de qualquer maneira o sentimento que me asfixiava. julgamento e estima. para oprimir o segundo com crimes do primeiro. Deve achar isso pueril. vagabundo" debaixo dos andaimes onde estavam os operários. Eu queria perturbar o jogo e sobretudo. a utilizá-la em minhas defesas. talvez houvesse uma razão mais séria para essas brincadeiras. que julgam ao mesmo tempo um ladrão e um homem de bem. para quem quisesse ouvir. dizia ele. Para expor aos olhares o que ele tinha no ventre. entreolhavam-se. No entanto... "Um homem como o senhor .Pensava. Nada mais queria de sua estima. dizia. uma vez que eu não podia participar dela? Nesse caso. lembro-me de excessos mais graves. sim. Lembro-me. sem me fazer notar. Havia começado com o ímpeto e a emoção que esperavam de mim. Certo dia em que eu comia lagosta no terraço de um restaurante e um mendigo me importunava. forçosamente. Sobretudo. por exemplo. da mesma maneira. de uma palestra que devia fazer a jovens estagiários de advocacia. como lamentava não ser mais possível agir como um proprietário russo. O certo é que a própria palavra justiça me deixava fora de mim. . todos se retorciam em convulsões. onde se reuniam nossos humanistas profissionais. assim. Comecei a escrever uma Ode à polícia e uma Apoteose da guilhotina. Sonhava com isso tudo e nada fiz ou. Irritado com os incríveis elogios do chefe da Ordem dos Advogados. mais valia recobrir tudo. anunciava a publicação de um manifesto denunciando a opressão que os oprimidos faziam pesar sobre os homens de bem.. pela alegria surda e imprevista que isso me proporcionava. Mas vingava-me ao amaldiçoar publicamente o espírito de humanidade. obrigava-me a visitar regularmente os cafés especializa dos. e que eu não tinha dificuldade alguma de acionar automaticamente. Não o amálgama. me enchia de furor. esbofetear bebês no metrô. eu queria despedaçar o belo manequim que apresentava em todos os lugares. de repente. Um momento de espanto seguia-se ao enunciado dessa enormidade.

Olhe. olhem bem para ele. tenho de lhe falar acerca da libertinagem e do desconforto. quem sou eu? Um cidadão-sol quanto ao orgulho. no caso. Nosso barco não vai demorar a partir. Expliquei-me com bastante clareza sobre este ponto: "Suponhamos que tenha aceitado defender algum comovente cidadão. geralmente. Até então. resolveram que era melhor rir. sem que meus esforços desordenados conseguissem tirar-lhe o que ele tinha de benevolente. O espanto que eu encontrava. eu o interesso? O senhor é muito amável. Tranqüilizaram-se completamente quando cheguei à minha conclusão. seu embaraço um pouco reticente. Ao renovar estes rompantes amáveis. Quer que nos calemos para saborear esta hora um tanto sinistra? Não. Enquanto aquele. Como vê. o dia chega ao fim. Antes de me explicar sobre os juizes-penitentes. em meus ouvintes. de quase terno. Considerem. encontrar-me deste lado do tribunal. senhores jurados. bastante parecido com o que o senhor mostra . um rei de preguiça. consegui somente desnortear um pouco a platéia. não me trouxeram paz alguma. É preciso nos acusarmos de certa maneira. Ao cabo de um momento. as pombas se juntam lá em cima. não proteste -. O bom relacionamento. E talvez esteja pronto a recomeçar. o que pode haver de venial em nos enchermos de ira ao ver a própria bondade natural posta à prova pela malignidade do sexo. e. diria eu. pelo contrário. Não será mais grave.não. e que me fazia mal. Não matei ninguém? Ainda não. pelo contrário. Elas se chegam umas de encontro às outras. um bode de luxúria. nesse caso eu seria um cordeiro imaculado. Sou livre. . foi mais forte. e a luz declina. nesse dia. sem nunca ter sido bom. não basta acusarmo-nos para sermos declarados inocentes. Mas parece-me que a maré está subindo. um faraó na cólera. no entanto. de defender o ladrão. nem sofrer por ter sido logrado. Não desarmá-la. talvez agora eu o interesse de verdade. pela transposição dos crimes do homem de bem. não recomeçará. tampouco me desarmar. sem dúvida! Mas não deixei morrer criaturas dignas? Talvez. assassino movido por ciúme. Ainda está todo cheio de espanto por ter trabalhado tão bem:' Este discurso perturbou um pouco meus jovens confrades. o riso continuou a flutuar à minha volta. na qual invocava com eloqüência a pessoa humana e seus supostos direitos. mal se mexem. Além disso. isento de vossos rigores.Tratava-se. o advogado. que me levou muito tempo para aperfeiçoar e que não descobri antes de me achar no mais completo abandono. em meu próprio banco.

Que nevoeiro! Eu havia começado. temos boas maneiras. respeitáveis. Com suas margens planas. É seu porto. Representava ainda um pouco. não conseguimos nem calcular nossa velocidade. eu tinha a impressão oposta. suas margens rochosas cortavam nitidamente o mar. Mas o Zuyderzee é um mar morto. meio curioso. creio. de preferência. E nós . Não é navegação. depois de ter esgotado meus ares de grande insolência. o barco desliza bem rápido. por hábito.a própria Grécia navega à deriva em alguma parte de mim mesmo. Lá. torneime lírico! Peço-lhe. ou quase. adornados de bigodes. corri para o meu porto natural. naquela claridade precisa. com medo de proferir ainda alguns palavrões: creio efetivamente que nessa época senti a necessidade de um amor. . mas do criminoso. na crista das pequenas e refrescantes vagas. Nós. é sonho. decidi abandonar o convívio dos homens. sem trégua. perdidas na bruma.. dois a dois. Seu perfil sem árvores delineava o limite do céu. uma espécie de privação. vivia um sofrimento surdo. o senhor me daria a mão nas ruas de Paris? Ora! Estou brincando. e me permitiu. conhece a Grécia? Não? Tanto melhor! Pergunto-lhe. meio forçado. tudo servia de ponto de referência. Já que tinha necessidade de amar e de ser amado. as mulheres ficam em casa. o que faríamos lá? Lá. Mas já não fazia discursos. fiz papel de bobo. de mãos dadas! Sim. a falar do desconforto. faça com que eu pare. é no leito da mulher que ele é geralmente preso.. Não. desanimado com a inutilidade de meus esforços. singramos sem nenhum ponto de referência. Não será a mulher tudo o que nos resta do paraíso terrestre? Desamparado. É obsceno.5 Engana-se. Sentemo-nos em um desses transatlânticos. e vêem-se homens maduros. humilhar ou abater nossas forças. sim. incansavelmente. subir e descer solenemente as ruas com os dedos entrelaçados nos do amigo. A propósito. não se sabe onde começa ou acaba. meu caro. vou dizer-lhe do que se trata. o ar é casto. limpos. Avançamos. julguei-me apaixonado. Desde então. Lá. Eu me refugiei unicamente junto às mulheres. tinha a impressão de saltar. diga-me. Não havia confusão. Hesito em confessar. de ilha em ilha. um caminho cheio de espuma e de risos. Como sabe. Antes de nos apresentarmos nas ilhas gregas. E. meu caro. Sim. não existem mais. Novas ilhas surgiam incessantemente na linha do horizonte. Em outras palavras. às vezes? Que seja! Mas. à margem de minha memória. mas a criatividade me faltava. pois a sujeira nos eleva. os amigos passeiam na rua. elas realmente não são de condenar qualquer fraqueza: elas tentariam. Por isso. Eis por que a mulher é a recompensa. o mar e o prazer. teríamos de nos lavar demoradamente. Depois de me ter debatido. não? No entanto. Também no Oriente. não do guerreiro. assumir alguns compromissos. e nada muda. não procurei ilhas desertas. ainda que se arrastando em nosso pequeno barco. No arquipélago grego. Também eu estou à deriva. que me tornou mais vazio. é preciso ter o coração puro. noite e dia. sua enseada.

eu me via comprometido além de meus verdadeiros sentimentos. longe de me sentir enlevado e absorvido pela eternidade. assusta. então. Também ensaiei falar de amor e acabei por persuadir a mim mesmo. deitado. mais desgostos para os outros que no tempo da minha bela indiferença. com a verdade. tive de dormir com uma serpente. Depois de ter amado um papagaio. eu me arriscava a não mais ser amado. ligações múltiplas. Afinal. compreendi. Acabou-se o jogo. na paixão. portanto. Havia mais de trinta anos que eu apenas amava a mim mesmo. pois nunca deixei de querer ser imortal. é sedutora. acabou-se o teatro. Em todo caso. mais o exigia de minha companheira. em outros lugares. eu tinha vivido sempre na libertinagem. Afora o desejo. também eu lhes causava tédio. de certa maneira. Com certo grau de embriaguez lúcida. confere a imortalidade. o amor prometido pelos livros e que nunca havia encontrado na vida. é costume responder em casos semelhantes: "E você?" Quando respondia sim. entre duas moças. Pelo menos até o momento em que se tornou minha amante e compreendi que as revistas sentimentais que ensinavam a falar de amor não ensinavam a praticá-la. Em certo sentido. Em nosso estado de vigília e em nosso pouco . e também a conseqüência do grande amor por mim mesmo. caro amigo. de que lhe falei? Sim. Eu me ouvia perguntar: "Você me ama?" Sabe. a promessas cada vez mais explícitas e chegava a exigir de meu coração um sentimento cada vez mais vasto. Mas a verdade. Tive amores simultâneos. sem dúvida. sobretudo. enfim. Procurei. Criei tal aversão ao amor que. sem um ranger de dentes. o engenheiro de têmporas grisalhas que sua revista preferida já lhe havia descrito.Eu era levado. não conseguia ouvir. como se diz. durante anos. Já lhe contei que meu papagaio. tentei renunciar às mulheres. Mas me faltava prática. cheguei a tempo e me resignei a segurar sua mão até que ela encontrasse. desesperado. que substitui muito bem o amor. Quando ousava dizer não. eu morria de vontade de ser imortal. quis deixar-se morrer de fome? Felizmente. compreenda. Quanto mais o sentimento em que eu esperava encontrar repouso se achava ameaçado. já despido do desejo.Eu me surpreendia freqüentemente a fazer uma pergunta que. Eu me amava demais para desejar que o precioso objeto de meu amor desaparecesse para sempre. e viver em estado de castidade. Então. a dor de viver fica para sempre afastada. as mulheres me entediavam acima de qualquer expectativa e. eu me encontrava. visivelmente. Não seria essa a essência de minha natureza. o espírito reina sobre todos os tempos. Mas isso seria o mesmo que renunciar ao jogo. sempre evitara até então. que restava a libertinagem. agravei ainda mais o peso de meus erros e meu desalento. Como perder um hábito desses? Absolutamente não o perdi e permaneci um espectador da paixão. faz calar os risos. La vie en rose ou A morte de Isolda. de regresso de uma viagem a Bali. alta noite. e sofria com isso. então. Fui tomado assim de uma falsa paixão por uma encantadora desmiolada tão conhecedora das revistas sentimentais que falava de amor com a segurança e a convicção de um intelectual proclamando a sociedade sem classes. como já tivera em outros tempos. Tal convicção. multipliquei as promessas. como não desconhece. Acumulei. Desesperançado do amor e da castidade. sua amizade deveria bastar-me. restabelece o silêncio e. Então. como homem vivido. a esperança não é mais uma tortura.

Falarei disso superficialmente: o senhor sabe que até pessoas muito inteligentes saboreiam a glória de poder esvaziar uma garrafa a mais que o vizinho. porque não impõe qualquer obrigação. que se entregava mecanicamente ao prazer e logo adormecia. tanto o medo quanto a esperança. por sua vez. faz-se necessário descobrir substitutos para essa imortalidade. A moça. também. durante longas horas. Não é pequeno. Os lugares nos quais ela se exercita são separados do mundo. encontrei um obstáculo em mim mesmo.conhecimento. a ocupação preferida dos grandes apaixonados por sua própria pessoa. ainda aí. quando renunciei às minhas façanhas noturnas. feliz. Eu teria conseguido. pela sua glória. mentindo descaradamente e bebendo sem parar. É claro que. nem sanção imediata. A conversa não é obrigatória. mas.se. Mas. enfim. cheguei mesmo a brigar. e. ao entrar. Cada excesso diminui a vitalidade e. destinado ao que se chama pecado. Brincamos de imortais. Como eu desejava a vida eterna. Fui o escudeiro galante da primeira e fiz a segunda conhecer algumas realidades. Esperava o romper da alvorada e. O álcool e as mulheres me proporcionaram. Ah! Eu lhe peço. e não tenha receio de valer-se dele. O único proveito dessa experiência. meu orgulho por ter sido recebido. Todas as noites. ao mesmo tempo. dormia com prostitutas e bebia durante noites inteiras. foi que a vida se tornou menos dolorosa. Infelizmente. a essa altura. Deixam. e um cansaço tão terrível que ainda não me deixou. devo confessar. muitas vezes. O dia vinha docemente iluminar esse desastre e eu me sentia elevado. Compreenderá. sentia na boca o gosto amargo da condição de mortal. Na libertinagem. o que se vem procurar pode ser obtido sem palavras e. mistura-se à lembrança que guardei delas algo semelhante a respeito. a erosão de muitas partes essenciais de mim mesmo. eu havia planado. não encontramos razões válidas para que a imortalidade seja conferida a um macaco lascivo. caro amigo. sem promessas. a prostituta era de natureza por demais burguesa: consentiu depois em escrever suas memórias para uma revista de confissões muito aberta às idéias modernas. assim. O cansaço que corroia meu corpo permitiu. . deixe-me prestar uma especial homenagem às mulheres desconhecidas e esquecidas que então me ajudaram. de igual para igual. imóvel. sem futuro nem passado. Mas. e. eu desfilava diante do balcão. encontrar a paz e a libertação nessa alegre dissipação. só se possui a si próprio. com um cafetão presunçoso. certa noite. então. em uma corpo ração masculina por demais caluniada. ao fim de algumas semanas. pois. até sem dinheiro. que a verdadeira libertinagem é libertadora. sobretudo. Ainda hoje. Confio-lhe este segredo. É uma selva. Seria ousadia fazer uma confissão? Ainda me lembro com ternura de certas noites em que ia a um cabaré sórdido encontrar-me com uma dançarina que me honrava com seus favores. Foi o fígado dessa vez. Servi-me sempre e sem repressão desta liberação. viver ao mesmo tempo com uma prostituta madura e uma moça da melhor sociedade. à luz vermelha e na poeira desse lugar de delícias. o único consolo de que era digno. Viram-me até num hotel. pela manhã. já nem sequer sabemos se poderemos nos arrastar até o dia seguinte. enfim. deixava-me cair na cama sempre desfeita de minha princesa. casou-se para satisfazer aos seus instintos incontroláveis e dar um emprego aos seus notáveis dotes. ela permaneceu. numa manhã de glória.

defendia-a bem. Sim. Desviei os . caro amigo. sua inquietação metafísica. e a tal ponto que terminei por não mais percebê-lo. e certos casamentos. o sofrimento dorme junto com a virilidade e tanto quanto ela. Mas é também porque. o casamento burguês colocou nosso país de chinelos e em breve vai levá-lo às portas da morte. no decurso de uma viagem que ofereci a uma amiga. deixava desconfiados meus clientes. Atribuímos ao rival os sórdidos pensamentos que tivemos nas mesmas circunstâncias. como se diz. que por vezes fazia em minhas defesas. pouco a pouco. apenas com a diferença de que. os adolescentes perdem. Acontecia até mesmo passar noites de pura amizade. Querem possuí-lo. sem dúvida. no entanto. pensar que a crise havia terminado. fora do meu trabalho eu via pouca gente. embora minha reputação tivesse sido arranhada por meus deslizes de linguagem. julga que o traiu. A indiferença. porém. como antigamente. e o exercício regular de minha profissão. Meus clientes deram esse passo. e começaram a escassear. O mesmo acontecia comigo. resignado ao tédio. É apenas um longo sono. um julgamento que se faz de si mesmo.portanto. em que o riso era abafado. na coberta. Os pulmões tuberculosos se curam quando ressecados. comprometido pela desordem em minha vida. ou melhor. o sofrimento. A referência. no entanto. Queria somente dizer-lhe dos benefícios que tirei desses meses de orgia. deixou de encontrar resistência e alastrou sua esclerose. sem que o desejo se intrometesse. ao mesmo tempo. o prazer excessivo debilita tanto a imaginação quanto o julgamento. e mantinha em penosa sobrevivência uma ou duas ligações cansadas. Chega de emoções! Um humor igual. que são uma libertinagem burocratizada. que me culparam menos por meus excessos noturnos que por minhas provocações de linguagem. com a primeira amante. de que seu precioso tesouro ainda lhes pertence. seu feliz proprietário. Então. sem realmente planar. eu mal escutava o que me diziam. e asfixiam. Eu vivia em uma espécie de nevoeiro. Felizmente. O senhor já deve ter notado. ficam menos ciumentos. De tempos em tempos. Um dia. nenhum humor. É interessante notar. logo a seguir. eu me elevava um pouco acima do chão. e fazia vôos rasantes. mais uma vez. Daí a concluírem que eu invocava a divindade na medida de minha ignorância era apenas um passo. puramente verbal. A libertinagem nada tem de frenético. O ciúme físico é um produto da imaginação e. Minha própria voz arrastava-me e eu a seguia. Ê claro que querem assegurar-se. ainda conseguia uma causa. e pude. a Deus. divisei ao largo um ponto negro no oceano cor-de-ferro. ao mesmo tempo. naturalmente. Engordava um pouco. Estou exagerando? Não. Pelas mesmas razões. Enfim. Por vezes até. finalmente. que o céu não pudesse cuidar tão bem de seus interesses quanto um advogado imbatível no Código Civil. o homem que verdadeiramente sofre de ciúmes não tem outra pressa senão a de deitar-se com aquela que. encontrei-me a bordo de um transatlântico. Eu ainda vivia de meu trabalho. os monótonos coveiros da audácia e da imaginação. Já não se tratava senão de envelhecer. Receavam. esquecendo-me de que já não acreditava no que dizia. que morria placidamente de minha cura. que já ocupava tanto espaço em mim. ao contrário do que se pensa. De repente. sem lhe dizer que o fazia para festejar minha cura. mas estou divagando. tornam-se.

o ponto negro havia desaparecido. Compreendi. como nos resignamos a uma idéia cuja verdade se conhece há muito tempo. minha lógica cairia por terra. onde se encontrasse a água amarga do meu batismo. o sono era uma queda. nem suficientemente larga para se poder deitar. para que então nos chamam? Mas são as mesmas que gritavam. a partir do momento em que pregam a moral e fulminam os mandamentos. É verdade. Não é necessário existir Deus para criar a culpabilidade. Pode-se imaginar nesta cela um freqüentador das alturas e das cobertas dos navios? O quê? Podia-se viver nesta cela e ser inocente? É impossível. as religiões enganam-se. o senhor não conhece aquela cela de masmorra. Além disso. Tal cela distinguia-se das outras por suas engenhosas dimensões. O senhor falava-me do juízo Final. meu coração começou a bater. a que na Idade Média chamavam de "desconforto". então. sem revolta. era engenhoso. e que aquele grito que. Em geral. Meu caro. Ouviu ao menos falar da cela de escarros que um povo criou recentemente para provar que era o maior do mundo? Ê uma caixa de alvenaria. recuso-me a considerar por um único segundo sequer esta hipótese. que ele continuaria a esperar-me nos mares e nos rios. ao passo que podemos afirmar com segurança a culpabilidade de todos. no dia em que compreendi definitivamente 82 que não estava curado. e que me havia esperado até aquele dia em que o encontrara. anos atrás. também. Não era suficientemente alta para se poder ficar de pé. não estamos nós sobre a água? Sobre a água plana. Todos os dias. bastam nossos semelhantes. não podemos afirmar a inocência de ninguém. não havia deixado de caminhar pelo mundo. eu não havia conseguido suportar sua visão.olhos imediatamente. monótona. por meio do imutável constrangimento que anquilosava o seu corpo. o condenado aprendia que era culpado e que a inocência consiste em poder esticar-se livremente. Posso esperá-la com tranqüilidade: conheci o que há de pior. Para eles. eis minha fé e minha esperança. que continuava encurralado e que era preciso me acomodar. e eu peso minhas palavras neste achado tão simples. Escute! Não ouve os gritos de gaivotas invisíveis? Se gritam em nossa direção. em que o . havia ressoado às minhas costas no Sena. através da vastidão ilimitada do oceano. Permita-me que ria disso respeitosamente. Quando me forcei a olhar. Era preciso viver no desconforto. nem para castigar. Para isso. a vigília acocorada. quando voltei a vê-lo. levado pelo rio em direção às águas da Mancha. que é o julgamento dos homens. Que a inocência se veja restrita a viver corcunda. Tinha-se de assumir uma posição encolhida. interminável. mesmo a boa intenção é tida como crime. Acabara-se a vida gloriosa. que confunde seus limites com os da terra? Como acreditar que vamos chegar a Amsterdã? Nunca mais sairemos desta imensa pia de água benta. Compreendi. por toda parte. não há circunstâncias atenuantes. ajudados por nós mesmos. havia pensado logo tratar-se de um afogado. altamente improvável! Ou então. Cada homem é testemunha do crime de todos os outros. chamar estupidamente por socorro. mas também a raiva e os sobressaltos. No entanto. Acredite-me. diga-me. Era preciso submeter-me e reconhecer a culpa. Ia gritar. Mesmo aqui. Tratavase de um daqueles resíduos que os navios deixam atrás de si. esqueciam os condenados lá para o resto da vida. viver em diagonal. que chamavam desde o Atlântico. enfim.

a única utilidade de Deus seria garantir a inocência. sabe por que crucificaram o outro. e a inocência. para cúmulo. Muito bem. mas por breve tempo. gemendo sobre os seus filhos e recusando qualquer consolo? O lamento ecoava na noite. disso se queixou e. Pois bem. Não espere pelo juízo Final. Mas. Aliás. é bem verdade. o senhor. Se não carregava o peso do erro de que o acusavam. tornava-se muito difícil manter o equilíbrio e continuar. E essa tristeza que se adivinha em todos os seus atos não seria a melancolia incurável de quem ouvia ao longo das noites a voz de Raquel. Olhe. Inversamente. Mais valia terminar. causavam-lhe horror. deve ter ouvido falar de um certo massacre dos inocentes. não teria ocupado tanto espaço. E então? Então. Continuar. não é nada. falta sabão. no qual todo guarda que passa escarra à vontade. sendo como era. É por isso que o crime encontra sempre advogados. O prisioneiro. ainda que ignorasse quais fossem. havia cometido outros. não se defender. Não foi amparado.prisioneiro fica de pé. ainda que lhe seja permitido. não se pode limpar. a coisa mal teria sido notada. e não sei por que a escondem tão cuidadosamente. espremido na cela. e pronto! Já para o desconforto! Basta ver quem escarra primeiro. é uma invenção dos homens. mas fique ainda. . eu lhe peço. Desde então. Mas. havia muitas razões para isso. apenas às vezes. Há sempre razões para matar um homem. o que. Ignoraria mesmo. é que tremo um pouco com essa maldita umidade. Não. afinal. foi o terceiro evangelista. morrer.confrontado dia e noite com o seu crime inocente. que. meu caro. Também a ordem do mundo é ambígua. creio. tesouras! Note-se. mas eu vejo a religião antes de tudo como uma grande empresa de lavanderia. Todos culpados. em todo caso. quem pensaria que crime não é tanto fazer morrer. pois. tenho certeza de que não conseguia esquecê-las. se Lucas nada houvesse cortado. Não precisaram de Deus para criar esta obra-prima. eis tudo. aliás. Ainda não acabei. ela foi. além das razões que muito bem nos explicaram durante dois mil anos. já chegamos. é impossível justificar que viva. unicamente seu rosto.ah. Sim. aquele em quem neste momento talvez o senhor pense? Bem. escarremo-nos. Vê-se. e acompanhe-me. fechar os olhos. censuraram-no. andamos com o nariz sujo e nos assoamos mutuamente. isto. Primeiro. As crianças da Iudéia massacradas. Mas o censor é a propaganda do que proscreve. Vou contar-lhe um grande segredo. é preciso continuar. Ele se realiza todos os dias. todos castigados. aliás. é certo. "Por que me abandonaste!" era um grito subversivo. Raquel chamava os filhos mortos por sua causa e ele estava vivo! Sabendo o que sabia. A sólida porta que o encerra em sua concha de cimento chega apenas até a altura do queixo. mas sem poder se mexer. senão por sua causa? Ele não o desejara. por que haviam sido mortas. enquanto seus pais o levavam para um lugar seguro. A verdadeira razão é que ele próprio sabia que não era completamente inocente. conhecendo tudo sobre o homem . havia uma grande para esta horrível agonia. para não mais estar sozinho na vida e ir-se embora para onde talvez pudesse ser amparado. mas não se deixar morrer! . que começou a suprimir sua queixa. aliás? Ele representava a origem. Esses soldados sangrentos. não acha? Então. aquelas crianças cortadas ao meio. meu caro. e não se chamava religião. precisamente durante três anos. eis o que é difícil.

aqui os subterrâneos são inundados.O certo é que o próprio censurado não pode continuar. Era de se esperar. que são. reconciliados no desconforto. agora. não entremos em pormenores. simplesmente.” Não se podia levar mais longe a ironia. ele que morreu sem saber. sobretudo julgam. . Isto porque não devemos atacar apenas os cristãos. E eu sei. Muitos decidiram deixar de lado a generosidade para praticar a caridade. torturar o semelhante. aliás. pode-se fazer a guerra neste mundo. ele tinha dito!" Ele tinha dito. Ele havia previsto isso. em certos casos.. A partir daí. todos cristos à nossa maneira vil. eu não te condeno!". à cruz. Tentamos. esta é a tua pena. Houve um tempo em que eu ignorava a cada minuto como poderia chegar ao seguinte. Senhor? Ele não pedia tanto. somente para serem vistos por nós de mais longe. Oh. com o perdão nos lábios e a sentença no coração. o covarde. socorrer-nos um pouco com sua morte.» etc. protesto com veemência. ainda que para isso seja preciso espezinhar um pouco o que lá se encontra há tanto tempo. meu caro. como sabe. meu amigo. compreenda que tenho as minhas razões. nada mais. Gritou sua agonia. sei que pensa o mesmo. Mas são muito poucas. E ele não era sobre-humano. eles condenam. o que nada impede. É bem verdade que há pessoas. vou advogar. Simplesmente. volto à minha vocação. Nós também. freqüentar as colunas dos jornais ou. do que falo. Porque não se pode dizer que não há mais piedade. Realmente. eles o empoleiraram num Tribunal e o agridem. não absolvem ninguém. ele exagerava! E faz um jogo de palavras: "Sobre esta pedra edificarei minha Igreja. colocavam as catacumbas nos sótãos. julgam em seu nome. não cessamos de falar nela. Sim. Naquela época. Em nome do Senhor. somos todos culpados uns perante os outros. Sabe em que se transformou. não. . trata-se do delírio geral e da perseguição. pode acreditar. No íntimo de seus corações. aliás. ele conhecia bem a questão. de fato. Afinal. que o amam. Mas. uma das casas que abrigou Descartes? Em asilo de alienados. Desculpe-me. E. mas incapazes de fazer o que ele fez e de morrer como ele. apenas continuar. Pedro. na cruz!" Mas muitos alçam-se. continuar. portanto. Mas. Pedra. naturalmente. o renega: "Não conheço este homem . mesmo quando nos aninhamos no desconforto. aconteça o que acontecer. mesmo entre os cristãos. não acha? Mas não. A desgraça é que nos deixou sós. O senhor teve oportunidade de notar que eu não poupo nada e. eis o que é sobre-humano. Os outros também estão comprometidos.. os juízes de todas as raças. a injustiça. bem. era uma idéia genial dizer: "Não sois brilhantes. Ora. meu amigo. é um fato. Não sei o que queres dizer. e eis por que o amo. sossegue. macaquear o amor. eles ainda triunfam! "Como vocês vêem. hoje o Senhor deles não está mais no sótão. falar mal do vizinho enquanto se tricota. Terminemos com isso de uma vez. já não se absolve ninguém. a seguir. nesta cidade. deixando-os julgar e condenar. uma vez que somos todos juízes. sabendo o que ele sabia. Olhe. pululam os juízes. partiu para sempre. somos forçados a nos envolver. naturalmente. os de Cristo e os do Anticristo. tinha senso de humor. Sobre a inocência morta. os mesmos. Sim. Ele dizia docemente à pecadora: "Eu também. a poucos quarteirões daqui há um museu com o nome de Nosso Senhor no Sótão. Ele queria que o amassem. do seu lado. a injustiça que lhe fizeram e que me aperta o coração! É isso. nem no porão. para continuarmos..

Eles também vagam agora. sou juiz-penitente. eu não a esqueci. Volta para Paris? Paris é longe. e toque a campainha três vezes. Privados de seu freio natural. . eu sei! Vagam. servem-se à vontade. refugiado num deserto de pedras. sempre sem saber. Os profetas e os curandeiros multiplicamse. meu amigo.. Pois eles não o conseguem suportar. Quem adere a uma lei não teme o julgamento que o recoloca em uma ordem na qual crê.. não receie! Aliás. seca e crepitante sobre os telhados azulados pela fumaça. se eu. à casa severa. nesta mesma época. os juízes. Não. Venha à minha casa. eu lhe direi amanhã em que consiste este belo ofício. Mas o mais alto dos tormentos humanos é ser julgado sem lei.crucificados um a um. cheio de febre e de álcool. Elias sem Messias. eu anuncio a lei. sabe o que é uma criatura solitária vagando pelas grandes cidades?. Sim. estamos diante de minha porta. Então. como se pode esperar. Paris é bela... porém. mais ou menos. pelas ruas. devo deixá-lo. estamos. por favor. com pressa. sim. Na solidão. profeta vazio para tempos medíocres. a única solução. Nós vivemos. meu caro. apressam-se para chegar a uma lei certa ou a uma organização impecável. Felizmente. A noite desce. e esse é o problema. pois. Afinal. não tivesse encontrado a saída. o rio parece refluir em seu curso. Poderíamos sê-lo pelo menos. fingindo apressar-se para chegar à mulher cansada. caro amigo. eu consegui! Eu sou o fim e o começo. com a ajuda do cansaço. soltos ao acaso. não acha que é realmente preciso tentar andar mais rápido do que eles? E aí tem início a grande confusão. vou parar aqui.. neste tormento. a cidade murmura surdamente. a verdade. então. de brumas e de águas pútridas. enfim . Ah. antes que a terra fique deserta. Em suma. Clamence. é isso mesmo o que sou. Eu vagava. cobrindo de imprecações homens sem lei. Lembro-me de seus crepúsculos. que não conseguem suportar julgamento algum.. O senhor parte depois de amanhã. facilmente nos consideramos profetas. de dedo erguido para um céu baixo. encostado nesta porta bolorenta.

Sente-se. Um cachorro se perdera no labirinto. Fui convocado. graças ao senhor Rommel. é verdade. às vezes. com lençóis imaculados. que trato com genebra. não. Aliás. simples e polido como um caixão. não têm o mesmo sentido? Que importa. agora só gosto de confissões. Não. embalsamados de pureza. como a luz. na estação de Châtelet. fui escolhido papa em um campo de concentração. Fui seduzido pela Resistência. Eu mesmo. Nua. mas nunca estive na linha de frente. Enfim. disse . tão duras. Quando pretendem confessar. Grande. e os alemães. Gosto de cachorros com uma muito antiga e muito fiel ternura. são representativas do que fui e do que sou? Pode-se. Então. Acredite. Deixo à escolha a classificação que melhor me convém. sem móveis nem panelas. o estritamente necessário. morre-se já em uma mortalha. em ambos os casos. Fiz minha descoberta nos corredores do metrô. nem mesmo objetos inúteis. uma pessoa de meu conhecimento dividia os seres em três categorias: os que preferem não ter nada a esconder a serem obrigados a mentir. é o momento de desconfiar. Tem curiosidade de conhecer minhas aventuras pontificais? Só banalidades. minha casa estava cheia de livros lidos pela metade. e os autores de confissões escrevem sobretudo para não se confessar. os olhos interessados. Voltei então a ver Paris. É tão repugnante quanto essas pessoas que apenas beliscam um foie gras e mandam jogar fora o restante. Sei o que está pensando: é muito difícil distinguir o verdadeiro do falso no que conto. mas limpa. que participasse da retirada. Sorri? Não tem razão. entenda como quiser. e. ao contrário. Gosto . Em certo sentido. que sejam verdadeiras ou falsas se. sabe. de pêlo eriçado. Pediu-me. eu creio. Está observando esta sala. uma orelha caída. ardia a guerra.. afinal? As mentiras não conduzem finalmente ao caminho da verdade? E minhas histórias. Será que terei forças para lhe contar? Sim. Aliás. da qual se começava a falar. vagava e farejava as canelas que passavam. é verdade. ver com mais clareza em quem mente do que em quem fala a verdade. cega. Já tinha fugido à guerra da Europa. os que amam ao mesmo tempo a mentira e o segredo. os que preferem mentir a não ter nada a esconder. sou um ourives.basta! Nada de livros. onde. Foi na África. verdadeiras ou falsas.. E também sem livros. Um Vermeer. mais ou menos quando descobri que era patriota. para nada dizer do que sabem. então. parece que a febre está baixando. Talvez isso tivesse mudado muitas coisas? O exército francês não precisou de mim na frente de batalha. Olhe. é um belo crepúsculo. apenas. finalmente. Não é nada. Que importa. A verdade. nestas camas holandesas. Malária. que valoriza cada objeto. deixei de ler há muito tempo. Eu nada tinha a ver. sossegue. A mentira. não tendem todas ao mesmo fim.6 Sinto-me sem jeito ao recebê-lo de cama. que contraí no tempo em que era papa. Já faz tanto tempo que aconteceu. vai-se maquilar o cadáver. Confesso que tem razão. eu o lamento. Antigamente. não é de todo uma brincadeira. Estou habituado a esses acessos. um pouco de febre. por favor.

confio no senhor. me arrastar para outro subterrâneo. Mas. hesitei. Havia passado da França para a Espanha. ao contrário. na África. nesse simpático animal transformado em mascote de um regimento alemão. sem tê-la desejado. eu passe rapidamente por esses detalhes para que os perceba melhor. Do tipo Duguesclin. digamos que. O teste era. com a vaga intenção de chegar a Londres. Um dia . Mas.deles porque sempre perdoam. caíra em profunda tristeza. o sol a pino. agitando o traseiro com entusiasmo alguns metros à minha frente. durante dias e noites. Vejo pela sua expressão que estou passando muito por alto. para primeiro desfazer minha tapeçaria e. mas não conseguia imitá-las. Estava comigo um jovem francês. sem dúvida. onde havia ido parar em seguida. a falta de água. e tendo sido informado. sobretudo. e eu me abstive. Nem o céu da África. ao ver que. de uma medida de segurança. Sobretudo creio que a ação subterrânea não se adaptava nem a meu temperamento. então. assim. que se tratava. depois de ter julgado o senhor à luz de seu verdadeiro valor. a seu ver. Portanto. um jovem soldado alemão. Ao chegar diante do cachorro. Hoje. Deverá acrescentar apenas alguns pormenores: o calor. com o mesmo entusiasmo. Nem vou descrevêlo. Quanto a mim. sabe. Eu admirava os que se entregavam a este heroísmo das profundezas. Sem hesitar. Sim! É um conto de fadas. sobre esses pormenores que fazem sentido. filhos da metade do século. onde uma doce amiga me garantiu um trabalho. O general católico o havia internado. Mas suas reflexões. Ela foi presa nesse dia pelos alemães. Fui internado perto de Trípoli. Se o cachorro tivesse seguido um civil francês. O empreendimento me parecia um tanto louco e. nem os lazeres do campo o haviam arrancado dessa tristeza. o animal seguiu em seu encalço. a areia. Parecia que me pediam para tecer uma tapeçaria em um abrigo. nem sequer teria pensado nisso. e só conheci sua verdadeira atividade nos dias que se seguiram ao desembarque dos Aliados na Argélia. a bem da verdade. visivelmente conquistado. e aí me espancarem até a morte. nos campos franquistas. Cento e cinqüenta anos atrás. para lutar. e eu também. depois de profundas angústias. que trabalhava com cinema. se assim posso me expressar. uma vez lá chegando. Pois bem. para a África do Norte. O certo é que cheguei finalmente à Tunísia. afagou-lhe a cabeça. a situação não era clara. em seguida. 93a bênção de Roma. e isso enchia-me de fúria. Pelo despeito e pelo tipo de raiva que senti contra o soldado alemão. que caminhava alegremente. que tinha fé. à espera de uns brutamontes que viessem me desalojar. Chamei este. os partidos em oposição me pareciam ter igualmente razão. Essa amiga era uma criatura muito inteligente. e. me ultrapassou. e também o sol. em um campo onde se sofria mais de sede e de penúria que de maus-tratos. Seguia-a até Túnis. não temos necessidade de desenhos para imaginar essa espécie de lugares. com a intenção de me informar sobre a Resistência. que hesitou. romântico. Não sei o que foi feito dela. Nós. Passei. tive de reconhecer que minha reação era patriótica. nós nos comovíamos com os lagos e as florestas. não me causaram qualquer mal e compreendi. e com ele desapareceu. Pensava. os carolas recebiam. temos o lirismo celular. Nesse momento. Dirigi-me ao setor sul. as moscas. haviam feito com que saísse um pouco de seu estado normal. nem a meu gosto pelos cimos arejados. convincente.

com uma voz morna. pelo menos é o que me parece. então. políticos e religiosos. Fui. estou cansado. isso é verdade. depois de lhe ter feito tantos discursos menosprezando os juízes. Tais distinções conduzem longe. meu caro. eu beneficiava este ou aquele. Olhava-nos com um ar perdido. as mãos tamborilavam no teclado visível das costelas. acredite. dentre nós. Minha grande idéia é que é . dentro de uma tenda fervilhante como chumbo derretido. ou os trabalhos que tinham a fazer. primeiro. cada vez com maior seriedade. Mas. como eu fizera. e cada um favorecia seus colegas. no campo. Em que consistia? Meu Deus. "tem mais fraquezas?" Por brincadeira. ele não disse isso. E. sim. ele já havia morrido. Anunciava-nos que era preciso um novo papa que vivesse entre os infelizes. Duguesclin sofria. em suma. É assim. eu administrava seu sofrimento. nele e nos outros. e fui o único a fazê-lo. sob o sol da morte. Fixava-nos com seu olhar perdido. repetia. Haviam-se formado outros grupos. nossos irmãos." Não. Achei. que meu pequeno profeta tinha razão. estávamos como peixes fora d'água. mais do que daquele que. "Sim".em que. ele se privava demais. por amor a ele. A verdade é que exerci meu pontificado durante várias semanas. já que então eu tinha outro nome. com a única condição de aceitar manter viva. com sua barba de vários dias. E. eu teria resistido mais tempo. os trabalhos extenuantes. Mesmo entre nós. ia morrer. e que eu devia me preservar para eles. balançando a cabeça. Segundo o estado de meus colegas. levantei o dedo. Jean-Baptiste serve. Dei-me conta. assim. ele renovou suas invectivas contra aquele que chamava de o Romano. O grande problema. a comunidade de nossos sofrimentos. como se fosse um jogo. pressupunha também a maior virtude. a batalha pela água. depois. não. para corrigir um pouco meus discursos de ontem. levado a favorecer os meus. embora com certa seriedade. a dezena de homens que éramos ofegava em meio às moscas. melhor. que já nem sei mais se vivi ou sonhei. Não. Seu peito nu estava coberto de suor. Mas bebi a água. e depois havia o sol. de toda maneira. não consegui manter uma igualdade perfeita. vou contar-lhe a grande idéia que me surgiu ao falar de tudo isso. quanto mais depressa. De qualquer maneira. dentre nós". mesmo os que não tinham fé. Pelo menos. era a distribuição de água. Digamos que completei o circuito no dia em que bebi a água de um colega agonizante. persuadindo-me de que os outros 95tinham necessidade de mim. que nascem os impérios e as igrejas. e jurar-lhe obediência. em vez de rezar sentado sobre um trono e. e lembrei-me disso ainda ontem. decididamente. "Quem. disse que era preciso escolher um. eu era alguma coisa entre chefe de grupo e secretário de célula. e não sinto mais vontade de pensar naquele tempo. declarou que candidatar-se. com seus defeitos e suas virtudes. porque o amava. os outros. acalmou-se de repente e. creio eu. "Bem. amavao. Os outros concordaram. Eu próprio tenho a impressão de que não ria espontaneamente. o que já era uma pequena concessão. um homem completo. e propôs minha eleição. "o mais depressa possível!" A seguir. acostumaram-se a me obedecer. de que ser papa não era tão fácil como se julgava. A verdade é que Duguesclin nos havia impressionado. não era Duguesclin. se estivesse lá. perguntou.

sim. Não pense que esta preocupação com o trinco seja em mim uma reação de proprietário atemorizado. olhe para ele. que o merece tanto quanto o bispo de Gand. assim. Relutou um pouco em fazê-lo. Por que não restituí o painel? Ah! Ah! Meu amigo tem reflexos de polícia! Pois bem. tenho o complexo do trinco. E. então? Se lia jornais. o gorila. e. também. aconselhei nosso amigo a pendurá-lo num bom lugar e por muito tempo. a meu pedido. aliás. Em quarto lugar. Em segundo lugar. Lá. esses estimados magistrados são minha única companhia. o senhor viu que vazio eles deixaram. tinha um pouco de vergonha de possuir. Desculpe. No momento de dormir. dessa maneira. de exclamar com convicção: "A propriedade. Ei! Fechou bem a porta? Mesmo? Verifique. é a única maneira de nos colocarmos acima dele. mas ficou com medo quando lhe expliquei o assunto. em uma noite de bebedeira. em consignação. por favor. o papa e o juiz. em conseqüência. aqui está ele. Pois bem. ninguém foi lesado por minha culpa. mas comigo mesmo e com minha presença de espírito.preciso perdoar o papa. dentre os que desfilam diante de O Cordeiro místico. não me apegava ao que possuía. Primeiro. deixou-o aqui. mas do dono do Mexico-City. idéia sedutora. nada possuo. Não o reconhece? São Os Juízes íntegros. já lhe disse. porque não é meu. Primeiro. Hoje em dia. no entanto. Depois. em meus discursos mundanos. Esse painel se chamava Os Juízes íntegros. de um dos painéis do famoso retábulo de Van Eyck. nem meu carro. Todas as noites. porque o original nunca foi encontrado. Não se tem certeza de nada. porque. Não resguardava meu dinheiro. não tenho nada a ver com isso. vendeu-o por uma garrafa ao gorila. em 1934. Não está espantado? Sua cultura teria lacunas. é uma violência!" Não tendo um coração bastante grande para repartir minhas riquezas com um pobre que bem o merecesse. nossos devotos juízes pontificaram no Mexico-City. vou responder-lhe como o faria ao juiz de instrução criminal se por acaso alguém pudesse. eu as deixava à disposição de ladrões eventuais. tenho de me levantar para verificar. Representava juízes a cavalo. com minha segurança. Antigamente. O Cordeiro místico. Para dizer a verdade. porque. do qual sou o rei. assim. acima dos bêbados e dos proxenetas. A propósito. ele precisa disso mais do que ninguém. eu domino. que o senhor viu de relance na outra noite. Em terceiro lugar. enquanto o procuravam no mundo inteiro. Não. de conservar bem fechada a porta do pequeno universo. se dar conta de que este quadro acabou no meu quarto. Em quinto lugar. Faço questão. Um assíduo freqüentador do Mexico-City. que vinham adorar o animal sagrado.. uma possibilidade de ser enviado para a prisão. Desde então. senhores. Substituíram-no por uma cópia excelente. Primeiro. Este quadro. por favor. eu não fechava meu apartamento à chave. enfim. Não me preocupo. lembra-se do roubo. queira abrir esse armário. nunca consigo saber se fechei o trinco. acima do balcão. ninguém saberia distinguir a cópia do original. na catedral de Saint-Bavon. de certo modo. E não é que acontecia. porque esses juízes vão ao encontro do . depois. Juízes falsos são expostos à admiração do mundo e eu sou o único a conhecer os verdadeiros. em Gand. porque tenho.. na esperança de assim corrigir a injustiça pelo acaso.

não se exerce. um mitômano. aquela no armário. eu sou. e não há cordeiro. e. Em filosofia como em política. se bem que não haja. em outros tempos. porque.Cordeiro. primeiro. Eu atirava esta palavra-mestra a quem quer que me contradissesse. Mas as grandes vocações se projetam para além do lugar de trabalho. levava ao mundo um hálito deliciosamente refrescado pela liberdade. um presente. meu caro. Logo compreendi isso. funciono. estamos dentro da ordem. a morrer por ela. Enfim. Eu a deixava escorregar. em conseqüência. Murmurava-a na cama. bem extenuante. avalie minha ingenuidade. durante cinco dias. nunca. não se distribui absolvição.. Secamente. simplesmente. meu escritório se situa no Mexico-City. É preciso me perdoar essas imprudências. eu me excito e perco a noção de dimensão. Essa profissão de juiz-penitente é a que exerço neste momento. O senhor é um pervertido. pois. Antigamente. um pederasta. Comigo não se abençoa. o hábil gatuno que roubou o painel era um instrumento da justiça desconhecida. uma caixa de chocolates de dar água na boca. o passo em falso. a favor de qualquer teoria que recuse a inocência ao homem. aparentemente. Uma vez a justiça definitivamente separada da inocência. defendê-la duas ou três vezes. respira-se a todo momento. e a favor de toda prática que o trate como culpado. já falei demais para nada dizer. enfim. eu a tinha colocado a serviço dos meus desejos e do meu poder. mastigava-a durante todo o dia. não. evidentemente. eis meu princípio. Permita-me. nem inocência. e era com sua ajuda que eu me descartava delas. Não. aliás. para ninguém. a difícil profissão de juiz-penitente em que me estabeleci depois de tantos dissabores e contradições. é bem verdade. a bem dizer. tenho o campo livre para trabalhar segundo minhas convicções. Nego a boa intenção. um sátiro. saída alguma. pelo contrário. e depois: "Dá tanto. para diluí-la desde já. Tampouco. começar a estender a condenação a todos. mesmo com febre. Sem ela. portanto. só tinha liberdade na boca. nem uma condecoração que se comemora com champanhe. um artista etc. de evitar pessoalmente o julgamento. que convém não contrariar. eu a passava em minhas torradas. já que o senhor vai partir. bem solitária. não há solução definitiva. aliás. Oh! Como estou cansado! Tranque os meus juízes à chave. Agora. mas correndo alguns riscos. um partidário esclarecido da servidão. eu não sabia o que estava fazendo. Mesmo na cama.sem discriminação.. com a consciência tranqüila." Assim mesmo. esta na cruz. Faz-se a conta. ao ouvido adormecido de minhas companheiras. a circunstância atenuante. de saída. de lhe dizer. É orientado. Oh. meu discurso é orientado. Afinal. Tem em mim. nada de amigos que . Obrigado. que me endireite para respirar melhor. pela idéia de fazer calar os risos. No café-da-manhã. é um encargo. o erro compreensível. Posso exercer. eu lhe tenha feito discursos tão longos por mero prazer. Geralmente. O grande empecilho a evitar não será o de sermos nós os primeiros a nos condenar? É preciso. e é tempo. em que consiste. dessa maneira. Não pensa realmente que. é uma corrida de fundo. Oh!. Não sabia que a liberdade não é uma recompensa. Nada de desculpas. aconteceu de eu fazer da liberdade um uso mais desinteressado e até mesmo. Nada de champanhe. sem chegar. Esse ofício.

então. o senhor. Eu. o peso dos dias é terrível. porque amam a si próprios. do mesmo modo. que cada ato seja comandado. de pai para filho. portanto evidente. não é assim. à falta de noivado ou do amor incessante. sobretudo quando se sofre de febre. o respeito pelos homens. suspirava esse apóstolo. atores. por mais siciliano e javanês que seja. Como não podem. guardam para si seus sentimentos. O essencial é que tudo se torne simples. ou não amamos ninguém. a música. escreveriam e saudariam o nome de Deus. inventam regras terríveis. aliás. durante cinco anos seguidos e. o abandono. pois. do estado de cristão o fato de não pregarem nas igrejas. porque eles também são sentimentais. aliás sem má intenção. há uma sentença. "são todos assim': Segundo ele. se converter ao tornar-se adúltero? Ah! Os sonsos. eles não querem liberdade. nossos moralistas. sozinhos no banco dos réus. na moral. já que Deus não está mais na moda. correm para fazer fogueiras em substituição às igrejas. já não há regra! Somos livres. e sozinhos para decidir perante nós mesmos ou perante o julgamento dos outros. já não há pai. todos o são. eis por que a liberdade é pesada demais. são uns Savonarolas. o sim. Mas eles assinam. para quem está só. na graça. de corpo e alma.ergam sua taça. oitenta por cento dos nossos escritores. é bem verdade. desforram-se. mesmo quando ateiam fogo no céu. é preciso. em um abraço sem-fim. Quer sejam ateus ou devotos. então. na verdade! Que há de espantoso. os braços ao céu: "Não está me contando nenhuma novidade". como para a criança. É uma época estranha. que o bem e o mal sejam designados de maneira arbitrária. portanto. de se converterem? O respeito. perante os juízes. escolher um senhor. nunca. E eu estou de acordo com isso. porque se detestam. e como. sem Deus e sem senhor. Não querem fazer escândalo. brutal. de prazer e de exaltação. nem suas sentenças. são todos cristãos. e um de meus amigos. Ah! Meu caro. portanto. a felicidade de ser e. só os separa. E como eu lhe digo. resta o casamento. e ainda por cima tão comoventes! Acredite-me. o respeito humano. Ai de mim! E então. Em suma. amando o próximo e tudo. qualquer que . Esta palavra. como diria já nem sei quem! Um militante livre-pensador com quem me abri a esse respeito ergueu. na opinião dele. A graça. Pensam nela. Mas. Viva. e não saúdam absolutamente nada. pedem para ser repreendidos. o homem direito. em sua opinião. se virar. um romancista ateu que rezava todas as noites. Sozinhos numa sala sombria. têm o satanismo virtuoso. sobretudo. Que é que os impede. ou nos sentimos mal. É preciso. não merece que nos arrisquemos a chocar alguém. o noivado. quem sabe. se pudessem passar sem assinar. no fato de os espíritos se perturbarem. por exemplo. assim. Isso nada impedia: o que ele descarregava sobre Deus em seus livros! Que pancadaria. com a força e o chicote. Olhe. hipócritas. a morte. No final de toda liberdade. se bem que tenha amizade pelo primeiro que me apareça. em suma. a moça em flor. nas pontes de Paris. eu também compreendi que tinha medo da liberdade. tão sérios. dia e noite. depois disso. quer saber com que sonhei? Com um amor total. eis o que eles querem. precisamente. Mas só crêem no pecado. Mas. que não sou sentimental. moscovitas ou bostonianos. sim. Conheci. e além de tudo sem nada de cristão. deixar de julgar. olhando-nos com ternura. talvez. ateu enquanto irrepreensível marido. não tem mais sentido.

como vê. De que maneira empurrar todo mundo para um banho comum.ele seja. Minha idéia é. ao mesmo tempo. seria preciso nos humilharmos para termos o direito de julgar os outros. no arrependimento. perseguido. enquanto esperamos a vinda dos senhores e de seus bastões. deixei Paris. gozar o que sou. Abra um pouco a janela. eu me dou conta muito bem de que a escravidão não é para já. e ao mesmo tempo que nós. deixando algumas marcas. porque também estou com frio. eis tudo. e amaldiçoar a humanidade? Muito perigoso isso! Um dia. que estais provisoriamente aqui. Encontrei esse meio. que é preciso nos vingarmos de ter de morrer sozinhos. A morte é solitária. Mas. caro amigo. também. Descobri que. enfim. Será um dos benefícios do futuro. simples e fecunda. Mas não estou louco. a quem for mais malandro do que nós. Desprezado. Montei meu escritório em um bar do bairro dos marinheiros. Os outros também têm a sua conta. Já que todo juiz acaba um dia por ser penitente. ser. Não muito. Tive. mas de joelhos e de cabeça baixa. tenho de me contentar com o presente e buscar uma solução. ao passo que a servidão é coletiva. pois. chegando até a apresentá-la como a verdadeira liberdade. Há muitos no mundo. o essencial é não mais ser livre e obedecer. o riso explode sem dar aviso. A clientela dos portos é diversificada. Nossos guias. ó condutores cruéis e bem-amados. vou dizer-lhe como trabalho. perguntará? Pois bem. deveríamos. fechei meu escritório de advocacia. a comodidade. Todos reunidos. O julgamento que fazemos dos outros acaba por nos atingir em plena face. forçado. mesmo provisória. eis a brilhante idéia. eis o que importa. a polícia são os sacramentos dessa semelhança. para ser ainda mais claro. viajei. inverter o raciocínio para triunfar. E. para torná-lo mais leve a meus próprios ombros. seria preciso enveredar em sentido inverso e exercer o ofício de penitente. prego na minha igreja de Mexico-City. para substituir a lei do céu. posso então dar a plena medida de mim mesmo. espremida entre canais. Já que não podíamos condenar os outros sem imediatamente nos julgarmos. está fazendo um calor insuportável." Enfim. Não será igualmente bom viver à semelhança da sociedade e para isso não será necessário que a sociedade se assemelhe a mim? A ameaça. particularmente atravancada. todas as vezes que me é possível. mas o acaso. e visitada por homens vindos do mundo inteiro.... de encontrar outro meio de estender o julgamento a todo mundo. Primeiramente. convido a boa gente a submeter-se e a solicitar humildemente os confortos da servidão. Está me acompanhando? Bom. como Copérnico. Os pobres não vão para os . E então. a necessidade de certa mortificação fizeram-me escolher uma capital de água e de bruma.. Eis por que. como muitos de meus ilustres contemporâneos. a desonra. para poder acabar como juiz. a ironia e. Até lá. ou uma noite. natural. "Pai nosso. procurei estabelecer-me sob outro nome em algum lugar onde não me faltasse trabalho. eu lhe peço. Quando formos todos culpados. depois de ter saudado solenemente a liberdade. será a democracia. meu caro. enfim. Sem contar. a fim de termos sozinhos o direito de secar ao sol? Iria eu subir ao púlpito. nossos chefes deliciosamente severos. decidi às escondidas que era preciso passá-la sem demora a quem quer que fosse.

Com os inteligentes. em praticar a confissão pública com a maior freqüência possível. meu discurso ao ouvinte. um pouco por brincadeira. como é possível observar. ai de mim. não me acuso grosseiramente. mais tenho o direito de julgar os outros. insensivelmente. Nela me instalei. Mas. Um dia ou outro." O requisitório acabou. eu já o vi antes. pelo . que se sente hoje menos contente consigo mesmo do que há cinco dias. agora já tenho memória. mas com o olhar penetrante. é inevitável. em suma. sua confissão com um grande sentimento de fraternidade. Porque o senhor vai voltar. e diante das quais nos dizemos: "Olhe. as experiências que sofremos juntos." Então. Mas. Esperarei. em meu discurso. Quanto mais me acuso. pode ficar certo. Sou como eles. navego com jeito. sem perder de vista o efeito que produzo. os acentos mais refinados. Com isso. multiplico as sutilezas. como o senhor já viu por experiência própria. e dizendo: "Eu era o último dos últimos.bairros de luxo. passo. uma superioridade. Tenho. é com ele que atinjo meu pleno rendimento. ao passo que as pessoas de sociedade acabam sempre por cair uma vez. eu o vi desde o primeiro relance. cuidado. provoco as pessoas no sentido de julgarem a si próprias. o rosto arado pelas unhas. do "eu" ao "nós". Uma máscara. como virtuose. o senhor do dia. Melhor. e do burguês que se extravia. O senhor vê a vantagem. há algum tempo. batendo com força no peito. meu caro. Misturo o que me diz respeito e o que se refere aos outros. o bom-tom. nós os desorientamos imediatamente. é preciso tempo. Não. disso tenho certeza. Esta consiste. Ah. adapto. tem um ar vivido. enfim. as fraquezas que partilhamos. A maior parte dos outros é mais sentimental que inteligente. nos lugares de má fama. agora. Confesse. mantenho-me ante a humanidade inteira. que me escreva ou que volte. aquele. como nesta noite. arrancando lentamente os cabelos. em primeiro lugar. Exerço. do burguês. a sorte está lançada. ao mesmo tempo fiéis e simplificadas. disso estou certo! Encontrar-me-á na mesma. monto um retrato que é o de todos e o de ninguém. Não ria! Sim. Fico à espreita. miseráveis criaturas e. o retrato que eu apresento a meus contemporâneos torna-se um espelho. no entanto. enfim. é certo. bastante semelhante às do carnaval. já que encontrei a felicidade que me convém? Aceitei a duplicidade. não faltam ocasiões para nos espantarmos e nos escandalizarmos a nós mesmos. o senhor não é apenas inteligente. minha útil profissão. posso dizer-lhes as suas verdades. um pouco por confusão. Coberto de cinzas. no entanto. Quando chego ao "eis o que nós somos". eles refletem. mostro-o. Experimente. pois. Não é difícil. Dele extraio. eles se den unciam. o que me dá o direito de falar. nós somos estranhas. Pego os traços comuns. Mas chegará lá. por pouco que nos debrucemos sobre as nossas vidas. O senhor. o que me consola igualmente. conduzo este último a pedir mais alto. estamos no mesmo barco. Basta explicar-lhes o método a fundo. a de sabê-lo." Quando o retrato está terminado. tal como se manifesta em mim e nos outros. recapitulando minhas vergonhas. Não o esquecem. particularmente. o senhor é um cliente difícil. sim. Acuso-me de alto a baixo. o que sou. ao mesmo tempo. em vez de ficar desolado com ela. no Mexico-City. E por que haveria eu de mudar. cheio de desolação: "Aqui está. Ouvirei. pelo menos. as digressões também.

Não consigo deixar de fazê-lo. Eu pontifico entre os meus anjos vis. o primeiro bonde faz tinir sua campainha no ar úmido e toca a alvorada da vida na extremidade desta Europa. meus súditos. uma claridade rósea anuncia. seus cumprimentos no Mexico-City. Encontrei novamente um cimo. a planície estende-se sob os meus olhos. Então. ao longo dos canais. de palavras más. enfim. esmago todas as coisas. no mesmo momento. Mas tire este cobertor. Só que a confissão de minhas culpas permite-me recomeçar de maneira mais leve e gozar duplamente. eu saio. meus pensamentos me soerguem. sol. ao orgulho. mesmo que seja preciso proclamar. um encantador arrependimento. planando em pensamento por cima de todo este continente que me é subordinado sem saber. meu caro. continuo a amar-me e a me servir dos outros. Não mudei de vida. e bate no peito. não é verdade? Mostrar-lhe-ei até os pormenores de minha técnica. Permitome tudo. Às vezes. ao ressentimento. eu me agito. Sobre o seu rosto desvairado. pois sinto pelo senhor uma espécie de afeição. raramente. e até à febre que. Nessas noites. a própria indignidade. respiro livremente. ao tédio. aliás. sobretudo. dessa vez. durante noites inteiras. duvido. quero respirar.contrário. vejo subir até mim. sou feliz. pois a queda produz-se ao romper da aurora. ébrio. sou feliz. mas para sempre. No Damrak. ouço um riso longínquo e. às mulheres. onde. a fim de irem para um trabalho sem alegria. proíboo de não acreditar que sou feliz. enfim. meio oculto por uma das mãos. rapidamente. sob o peso de minha própria enfermidade. numa marcha impetuosa. Elevam-se lentamente. enfim. em altos brados. Ver-me-á revelar-lhe. bebendo a luz de absinto que se eleva. com deleite. vou recomeçar. de vez em quando. em seguida. A partir desta noite. que morro de felicidade! Oh. eu cresço. No céu lívido. sinto. sinto subir neste momento. Virá. no alto do céu holandês. as pombas sobem um pouco. praias e as ilhas sob os alísios. no qual sou o único a escalar e de onde posso julgar todo mundo. que me adoram! Sim. no nível dos telhados. e o desespero de não poder escapar dela. e eis-me restabelecido. as camadas de penas adelgaçam-se. criaturas e criação. e sem rir. E eu lamento sem absolver. primeiro minha natureza e. juventude cuja lembrança desespera! . pois. com a ajuda do álcool. Então eu cresço. quando a noite é verdadeiramente bela. centenas de milhões de homens. um novo dia de minha criação. estou sobre a montanha. como poderia ficar placidamente deitado? Preciso estar mais alto que o senhor. Desde que encontrei minha solução. saindo das brumas e da água. O essencial é poder permitir-se tudo. ou melhor. com a boca amarga. Impero. durante o tempo que for preciso. mais uma vez. Que embriaguez sentirmo-nos Deus-pai e distribuir atestados definitivos de má conduta e maus costumes. a multidão do juízo Final. errei ao dizer-lhe que o essencial era evitar o julgamento. arrancam-se penosamente da cama. estou lhe dizendo. compreendo sem perdoar e. parto. nem privar-me desses momentos em que um deles desaba. nessas manhãs. No fundo. que são infames. abandono-me a tudo. já vejo chegar o primeiro de todos. Mas. de novo. ah. e nela achei o conforto que busquei durante toda a minha vida. Aguardarei. leio a tristeza da condição comum.

finalmente. não confie muito em meus enternecimentos. há anos. confesse que ficaria atônito se uma carruagem descesse do céu para me levar. eu teria terminado. mesmo assim. Todo mundo será salvo. estou tranqüilo. Tudo estaria consumado. antes da lama de amanhã. não acha? Mas. Acima do povo reunido. Pronuncie o senhor mesmo as palavras que. mesmo quando descobrimos o segredo de uma bela vida. bom. portanto. veja bem. não temos escolha. certamente. minha cabeça ainda fresca. O senhor me prenderia. Como? Ah. contudo. ninguém saberia que fim levei. uma vez pelo menos. quando sabemos que é preciso mudá-la. para que eles nela se reconhecessem e para que eu de novo os dominasse. não é a ideal. A inspiração toda. São dirigidos. e o senhor. Que invasão! Esperemos que tragam a boa-nova. Mas. então. meu caro senhor”. Receio ter-me exaltado. o que lhe aconteceu uma noite nos cais do Sena e como conseguiu nunca mais arriscar a vida. será a pureza. enfim. esquecermo-nos por alguém. seria simples demais. por exemplo. portanto. Olhe. portanto! Vamos. não pararam de ressoar em minhas noites e que eu direi. ele cai na alçada da lei e eu arranjei tudo para me tornar cúmplice. o senhor não é da polícia. Em seguida." Sim. no terraço de um café: "Ah. Decidem-se. com certeza. cobrem as águas e os telhados de uma espessa camada de penas. Olhe. o senhor ergueria. Mas como? Não me confunda muito. por mim. nem em meus delírios. as queridas. palpitam em todas as janelas. os canais de jade sombrio debaixo das pequenas pontes cobertas de neve. eu lhe peço. ou se a neve de repente pegasse fogo. que meu interlocutor seja da polícia e me prenda pelo roubo dos juízes íntegros. mas perde-se a luz. preciso sair. por exemplo. São as pombas. um dia. estaria salvo. no que se refere a este roubo. agora que o senhor vai me falar de si próprio. a partir de hoje. Mas. Minha solução. minha carreira de falso profeta que clama no deserto e se recusa a sair de lá. fugidia. desculpe. sempre confrontados pelas mesmas perguntas. a neve está caindo! Oh. decapitar-me-iam. as manhãs. Eu sou como aquele velho mendigo que não queria largar minha mão. tenho de sair! Amsterdã adormecida na noite branca. não se preocupe! Além disso. "não é que se seja mau. sirvo de receptador deste quadro e mostro-o a quem quiser vê-lo. vou saber se uma das finalidades de minha apaixonante confissão foi atingida. Mas. as ruas desertas. Perdemo-nos. não choro. Quanto ao restante. talvez se ocupassem do resto. ninguém me pode prender. . é claro. eu já suspeitava. quando não amamos nossa vida. falando sem cessar e para ninguém. deitar-se-á todas as noites no chão. às vezes. embora conheçamos de antemão as respostas? Conte-me. as riquezas e os sofrimentos serão repartidos. Bom. Não acredita? Eu também não. meus passos abafados. Espero ainda. com efeito. não é? Que fazer para ser outra pessoa? Impossível. Essa estranha afeição que eu sentia pelo senhor fazia sentido. Veja os enormes flocos que se desfazem contra as vidraças. de modo exemplar. a descer.Torno a me deitar. duvidamos da evidência. e não apenas os eleitos. a santa inocência daquele que perdoa a si mesmo. Não somos todos semelhantes. dizia ele. então. perdemos a luz. seria um bom começo. O senhor exerce em Paris a bela profissão de advogado! Eu bem sabia que éramos da mesma raça. e eu não teria mais medo de morrer. Seria preciso já não sermos ninguém.

será sempre tarde demais.! A água está tão fria! Mas tranqüilizemo-nos! É tarde demais. caro colega.com/group/expresso_literario .. a oportunidade de nos salvar a ambos!" Pela segunda vez .google..br/group/digitalsource http://groups. Felizmente! Fim http://groups. Brr.google.com. atire-se de novo na água. para que eu tenha.pela sua boca: "O jovem. pela segunda vez. bem. agora. que imprudência! Imagine. que nos levem ao pé da letra? Seria preciso cumprir.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful