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Estado_de_Inocência_e_Mídia_-_conteúdo

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ESTADO DE INOCÊNCIA E MÍDIA LUIZ FERNANDO PEREIRA NETO1

INTRODUÇÃO

Garantia constitucional e princípio reitor do processo penal, o Estado de Inocência, é a forma em que deve permanecer o suspeito de um delito, até sentença condenatória irrecorrível. Sendo assim, podemos dizer que a pessoa incriminada está envolta por uma camada protetora, esta camada tem a função de assegurar que o acusado não será condenado por nenhum crime até que se tenha comprovado sua culpa e não haja mais como recorrer de tal decisão. Arraigado nas bases da Revolução Francesa, e inserido na Constituição daquele país, logo ganhou proporções maiores, sendo recebido pela Declaração Universal dos Direitos do Homem. No Brasil ele só veio a ser estabelecido na chamada Constituição Cidadã, a Constituição de 1988. Este princípio mudou o curso da história processual penal, dando a todos os cidadãos o direito de não ser pré-julgado e condenado também encaminhando a sociedade a romper seus laços com tão importante princípio. É a partir deste aspecto que se fundamenta o presente trabalho, fruto de monografia jurídica defendida no curso de Direito/UNIRON e sob argüição dos professores Mestres Marco Bonito(Coordenador e professor dos cursos de Comunicação/UNIRON) e Aramis Nassif(Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul. Realizando um levantamento a cerca da questão percebemos que a nova sociedade de inseguranças formada nos últimos tempos, foi altamente influenciada pela mídia, que no afã de elevar sua programação a numerosos índices de audiência, vem violando constantemente o princípio do Estado de Inocência. Percebemos que na guerra pela audiência vale tudo até mesmo infringir os princípios constitucionais. Procuraremos neste estudo retratar as definições sobre o Princípio da Presunção de Inocência, conhecer o seu processo histórico, analisar a formação da sociedade de insegurança e o papel da mídia na espetacularização da notícia.

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Advogado Criminalista. Especialista em Direito Penal(Unisinos-RS); Mestre em Ciências Criminais(PUCRS) ; Professor de Processo Penal na Universidade de Passo Fundo(UPF-RS) ; Coordenador Regional do Instituto Brasileiro de Processo Penal(IBRASPP).

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Noções Preliminares sobre o Princípio do Estado de Inocência A Presunção de Inocência é uma garantia Constitucional e um dos princípios mais importantes do Processo Penal. De acordo com Tourinho Filho em seu livro Processo Penal, “[...] representa o coroamento do due process of Law”. 2 Nas palavras de A. Castanheira Neves: “um ato de fé no valor ético da pessoa, próprio de toda a sociedade livre”. 3 Segundo Antônio Ferreira Gomes o princípio da inocência: “assenta no reconhecimento dos princípios do direito natural como fundamento da sociedade, princípios que, aliados à soberania do povo e ao culto da liberdade, constituem os elementos essenciais da democracia”. 4 O estado de inocência advém do próprio princípio do direito natural, fundamentado nas bases de uma sociedade livre, democrática, que respeita os valores éticos, morais, mas principalmente os valores pessoais, aqueles que têm por essência a proteção da pessoa humana. Tal instituto remonta ao Direito Romano. Durante a Idade Média este pressuposto foi fortemente atacado, neste período a presunção era de culpa e não de inocência. Se as provas não eram suficientes para libertar ou mesmo para prender o réu era condenado por suposição. De acordo com Aury Lopes Júnior, “No Directorium Inquisitorum, EYMERICH orientava que o suspeito que tem uma testemunha contra ele é torturado. Um boato e um depoimento constituem juntos, uma semiprova e isso é suficiente para uma condenação”. 5 No final do século XVIII, ainda durante o iluminismo, o princípio de presunção de inocência era contraditório a sua essência. Nesta fase a Europa Continental vivia sob um regime de sistema penal inquisitório, onde na maioria das vezes, as pessoas eram condenadas antes mesmo de se ter sido comprovada a culpa. Um exemplo clássico do que foi o bárbaro sistema inquisitório na época da inquisição religiosa foi o processo de Joana D‟Arc. Essa história foi transcrita em inúmeros livros e retratada nas telas de cinema, mostrando ao mundo a história da jovem francesa, que seguindo
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TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Processo Penal. São Paulo: Saraiva, 2000, p.65. NEVES, A. Castanheira. Sumários de Processo Penal. Coimbra, 1967, p.26, apud, TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Processo Penal. São Paulo: Saraiva, 2000, p.65. 4 GOMES, Antônio Ferreira. A sociedade e o trabalho: democracia, sindicalismo, justiça e paz. In: Direito e Justiça. Coimbra, 1980, v.1, n.1, p.7, apud, TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Processo Penal. São Paulo: Saraiva, 2000, p.65. 5 JÚNIOR, Aury Lopes. Direito Processual Penal e sua Conformidade Constitucional. Rio de Janeiro: Lumen Juirs, 2007, p.187.

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suas crenças, promoveu um dos mais famosos processos a época da inquisição. Instaurado na França em 21 de fevereiro de 1431, o processo teve como juiz e acusador o Bispo Cauchon, que deu a Joana o direito de escolher entre seus acusadores, um defensor.
Agora só resta a Joana a possibilidade de apelar à benevolência dos juízes. O texto da acusação está pronto e será lido e rebatido durante longos dias. A donzela só pode ter como defensores os seus próprios acusadores: a pior situação para qualquer 6 acusado. Ela decide defender-se sozinha.

Durante este período não havia em que se falar em direitos e garantias. Era urgente e necessário proteger o cidadão contra os desmandos do Estado, que buscava de qualquer forma a condenação do réu. A regra era a presunção de culpa e não de inocência. Nas palavras de Paulo Rangel:
Nesse período e sistema o acusado era desprovido de toda e qualquer garantia. Surgiu a necessidade de se proteger o cidadão do arbítrio do Estado que, a qualquer preço, queria sua condenação, presumindo-o, como regra, culpado. 7

No final do século XVIII, mais precisamente no ano de 1789 explode a maior de todas as revoluções que mudaria o mundo. A Revolução Francesa marcada principalmente pela queda da Bastilha, local em que durante anos, todos os direitos e garantias dos cidadãos franceses ou não, foram suprimidos. Deu-se nesta fase então o início de um novo tempo. Portando a bandeira da Liberté, Égalité et Fraternité, surge o diploma dos direitos e garantias fundamentais do homem. A Constituição francesa proclamava: “todo homem é presumido inocente até que ele tenha sido declarado culpado; se ele está julgado indispensável prendê-lo, todo rigor que não seria necessário para a segurança de sua pessoa deve ser severamente reprimido pela Lei”. 8 9 Estava desta forma estabelecida a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, que trouxe em seu art. 9º:
Todo homem é considerado inocente, até ao momento em que, reconhecido como culpado, se julgar indispensável a sua prisão: todo o rigor desnecessário, empregado para a efetuar, deve ser severamente reprimido pela lei.10

Começava naquele momento uma grande mudança do sistema processual penal na Europa que influenciaria fortemente outros países.
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BENAZZI, Natale. D’AMICO, Matteo. O Livro Negro da Inquisição: A Reconstituição dos Grandes Processos, Lisboa: Âncora, 2001, p.65, apud, RANGEL, Paulo. Direito Processual Penal. Rio de Janeiro: Lumen Júris, 2005, p.52. 7 RANGEL, Paulo. Direito Processual Penal. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2005, p.24. 8 Traduzido de: tout homme étant présuée innocent jusqu’ a ce qu’il ait été déclaré coupable; s’ il est jugé indispensable de l’ arrêter, toute rigueur qui ne serait nécessaire pour s’ assurer de sa personne, doit être sévèrement reprimée par La loi. 9 TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Processo Penal. São Paulo: Saraiva, 2000, p.65. 10 RANGEL, Paulo. Direito Processual Penal. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2005, p.25.

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O Processo Penal dava um grande salto, saindo da fase inquisitória passando então para o sistema acusatório. Alexandra Vilela em seu livro acerca da Presunção de Inocência em Direito Processual Penal destacou que: “Foi exatamente quando o processo penal europeu passou a se deixar influenciar pelo sistema acusatório que surgiu uma maior proteção da inocência do acusado”.11 O sistema acusatório figura em pólo diverso do inquisitivo, um é a antítese do outro. Se no sistema inquisitivo o juiz é o autor e a acusação, no acusatório cada personagem tem papel próprio e distinto não cabendo ao juiz decidir, mas mediar o processo de forma a se aplicar a lei adequadamente.
O sistema acusatório, antítese do inquisitivo, tem nítida separação de funções, ou seja, o juiz é órgão imparcial de aplicação da lei, que somente se manifesta quando devidamente provocado; o autor é quem faz a acusação, assumindo, todo o ônus da acusação, e o réu exerce todos os direitos inerentes à sua personalidade, devendo defender-se utilizando todos os meios e recursos inerentes à sua defesa. Assim, no sistema acusatório, cria-se o actum trium personarum, ou seja, o ato de três 12 personagens: juiz, autor e réu.

Proclamado em 1948 na Declaração Universal dos Direitos do Homem da ONU – Organização das Nações Unidas, o princípio da presunção de inocência ganhou força, legalizado no Art. 11: “ninguém será condenado à pena de ofensa tendo o direito de ser presumido inocente até provado a culpa de acordo com a Lei no processo público ele tem toda a garantia necessária para a sua defesa”. 13 Seguindo a mesma concepção da Declaração Universal dos Direitos do Homem a Convenção do Conselho da Europa, estabeleceu em seu Artigo 6º, inciso 2º: “ninguém será condenado de um crime de ofensa, sendo presumido inocente até que seja provada a culpa de acordo com a Lei”.14 De acordo com Tourinho Filho, na Itália a questão da presunção de inocência, agitou a época da Assembléia Constituinte, que depois de muita luta, venceu a corrente liberal. O

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VILELA, Alexandra. Acerca da Presunção de Inocência em Direito Processual Penal. Coimbra: Coimbra Editora, 2000, pp.29–36, apud, RANGEL, Paulo. Direito Processual Penal. Rio de Janeiro: Lúmen Juris, 2005, p.24. 12 RANGEL, Paulo. Direito Processual Penal. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2005, p.52. 13 Traduzido de: Everyone charged with a penal offense has the right to be presumed innocent until proved guilty according to Law in a public trial at which he has all the guarantees’ necessary for his defense. In: TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Processo Penal. São Paulo: Saraiva, 2000, p.65.
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Traduzido de: Everyone charged with a criminal offence shall be presumed innocent until proved guilty according to Law”. In: Idem, ibidem.

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Artigo 7º da Constituição Italiana trouxe então em seu § 2º: “o acusado não é considerado culpado se não há condenação definitiva”. 15 A Declaração Universal dos Direitos do Homem completou no ano de 2008 sessenta anos, porém, o princípio do Estado de Inocência só veio a ser consagrado na Constituição Federal Brasileira no ano de 1988. O art. 5º, inciso LVII, que trata especificamente deste princípio traz:
Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: [...] LVII – ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória; [...]16

A partir da promulgação da Constituição Federal de 1988, entrava então o Direito Processual Penal Brasileiro em uma nova fase, mais humanista, protetora dos direitos sociais, coletivos e individuais, garantindo principalmente a preservação da dignidade da pessoa humana. O princípio da inocência vinha naquele momento assegurar, ou seja, garantir que ninguém fosse considerado culpado até sentença condenatória definitiva. Alexandre de Moraes faz uma ressalva importante, quando consagra a presunção de inocência, como um dos princípios basilares do Estado de Direito de garantia processual penal, no intuito de se obter à tutela da liberdade pessoal: “dessa forma, há a necessidade de o estado comprovar a culpabilidade do indivíduo, que é constitucionalmente presumido inocente, sob pena de voltarmos ao total arbítrio estatal”. 17 O fato é que com a adesão do Brasil à Convenção Americana Sobre Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica), conforme Decreto nº 678, de 06.11.1992, vige em nosso país a regra do art. 8º, 2, da Convenção: “toda pessoa acusada de delito tem direito a que se presuma sua inocência enquanto não se comprove legalmente sua culpa”. 1.1.1 Princípio do estado de inocência como dever de tratamento No Brasil, consagrado no art. 5º da Constituição Federal, o princípio da presunção de inocência tomou seu próprio sentido. Estudado e avaliado por muitos processualistas penais, ganhou de cada um uma interpretação própria e características diferentes.

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Traduzido de: L’ imputato non è considerato colpevole sino alla condanna definitiva. In: Idem, Ibid. BRASIL. Constituição. Brasília: Senado Federal, 1988. 17 MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. São Paulo: Atlas, 2003, p.132.

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Na visão, por exemplo, de Paulo Rangel não há em que se falar em presunção de inocência e sim em declaração, para ele a constituição Federal não presume que ninguém seja inocente, mas declara sim, que ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória.
Primeiro não adotamos a terminologia presunção de inocência, pois, se o réu não pode ser considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória, também não pode ser presumidamente inocente. A Constituição não presume a inocência, mas declara que ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória (art. 5º, LVII). Em outras palavras, uma coisa é a certeza da culpa, outra, bem diferente, é a presunção 18 da culpa. Ou, se preferirem, a certeza da inocência ou a presunção da inocência.

Para Amilton B. de Carvalho a presunção de inocência é pressuposto. De acordo com Carvalho, mesmo, que este princípio não estivesse normatizado na Declaração dos Direitos do Homem, ou, em nossa Carta Magna, assim mesmo ele seria garantia fundamental. Segundo o autor este é um princípio muito importante, chegando a afirmar que: “o Princípio da presunção de Inocência não precisa estar positivado em lugar nenhum: é pressuposto [...]”.19 Na visão de Aury Lopes Júnior o princípio é um dever de tratamento. O professor por sua vez entende que a presunção de inocência impõe que o réu seja tratado como inocente: “a presunção de inocência impõe um verdadeiro dever de tratamento (na medida em que exige que o réu seja tratado como inocente), que atua em duas dimensões: interna ao processo e exterior a ele”. Esse dever de tratamento interno impõe ao juiz que a carga de provas seja obrigatoriamente do acusador, afinal se o réu é inocente ele não precisa provar nada. Além do que outro princípio constitucional garante ao acusado o direito de não ter que produzir provas contra si mesmo. Na dimensão externa ao processo a presunção de inocência irá atuar como um limitador, afim de que o réu seja protegido da publicidade que na maioria das vezes é extremamente abusiva e da estigmatização precoce do acusado.
Significa dizer que a presunção de inocência (e também as garantias constitucionais as imagem, dignidade e privacidade) deve ser utilizada como verdadeiros limites democráticos à abusiva exploração midiática em torno do fato criminoso e do próprio processo judicial. O bizarro espetáculo montado pelo julgamento midiático 20 deve ser coibido pela eficácia da presunção de inocência.”

Eugênio Pacelli de Oliveira em sua concepção a cerca do tema fala em estado ou situação jurídica de inocente. Para ele este princípio impõe ao Estado a observância e respeito

18 19

RANGEL, Paulo. Direito Processual Penal. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2005, p.24. CARVALHO, Amilton Bueno de. Lei, para que(m)? In: Escritos de Direito e Processo Penal, p.51, apud, JÚNIOR, Aury Lopes. Direito Processual Penal e sua Conformidade Constitucional. Rio de Janeiro: Lumen Juirs, 2007, p.187. 20 Idem, ibidem, pp.191–192.

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a duas regras específicas ao acusado, uma com relação ao tratamento e outra de fundo probatório.
[...] tratamento, segundo a qual o réu, em nenhum momento do inter persecutório, pode sofrer restrições pessoais fundadas exclusivamente na possibilidade de condenação, e a outra, de fundo probatório, a estabelecer que todos os ônus da prova relativa à existência do fato e à sua autoria devem recair exclusivamente sobre a acusação. 21

Na prática cria-se uma presunção de culpa contrária ao acusado, que terá desde o início da persecução criminal uma carga de contraprovar sua inocência, alterando-se os primados mais subliminares do processo penal constitucionalizado, que por sua vez deve ser o norte do Estado Democrático de Direito. O fato é que inúmeros artigos do CPP não possuem compatibilidade constitucional neste ponto, mesmo que a reforma processual penal de 2008 apesar de tardia tenha significativas alterações no modelo processual anterior, entre eles a não incorporação dos arts. 408 e 594. Porém, não entendemos por que o legislador perdeu o momento e deixou passar a excelente oportunidade de mudar o dispositivo do art. 393 do CPP, que também é inaplicável, visto sua incompatibilidade com a própria Constituição. É preciso que nossos magistrados façam uma avaliação dos velhos conceitos e posicionamentos. O juiz não deve ser um mero aplicador da Lei tal qual ela é, mas ser um intérprete perspicaz e humanista, aplicando desta forma a norma, mas buscando em sua essência a justiça. Para tanto, é preciso que não se deixe levar pelo clamor público, que se faça a justiça tal qual deva ser. A liberdade é o bem mais precioso de qualquer cidadão, por isto, é relevante que a prisão do réu seja mesmo necessária. O juiz ao decretar na sentença condenatória a prisão do réu, também, deve fundamentar a decretação do ato constritivo, demonstrando de acordo com o artigo 312 do Código de Processo Penal, a real necessidade da medida cautelar. Esta concepção apesar de só ter sido inserida em nossa Constituição de 1988, remonta a idéia de muitos estudiosos, que há décadas passadas denunciavam as barbáries do sistema inquisitório e defendiam novos processos que respeitassem a dignidade humana do acusado. Como exemplo, podemos citar o Marquês Cesare Bonesana de Beccaria, acusado de heresia por ter escrito o livro Dei delitti e delle pene (1763), o Marquês foi a primeira voz contra a tradição jurídica em nome da humanidade. Neste livro Beccaria já afirmava que um homem não pode ser considerado culpado antes da sentença do juiz.
21

OLIVEIRA, Eugênio Pacelli de. Curso de Processo Penal. Belo Horizonte: Del Rey, 2005, p.31.

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[...] e a sociedade apenas lhe pode retirar a proteção pública depois que seja decidido que ele tenha violado as normas em que tal proteção lhe foi dada. [...] Se o crime é incerto, não é hediondo atormentar um inocente? Efetivamente, perante as leis, é 22 inocente aquele cujo delito não está provado.

Luigi Ferrajoli destaca que o importante é que todos os inocentes sejam sem exceção protegidos.
[...] é um princípio fundamental de civilidade, fruto de uma opção garantista a favor da tutela da imunidade dos inocentes, ainda que para isso tenha-se que pagar o preço da impunidade de algum culpável. Isso porque, ao corpo social, lhe basta que os culpados sejam geralmente punidos, pois o maior interesse é que todos os inocentes, sem exceção, estejam protegidos.23

Diante de tudo que falamos sobre o chamado princípio do estado de inocência, podemos destacar que ele como garantia constitucional e direito fundamental do Processo Penal, consagra e garante que: “ninguém será considerado culpado, até o trânsito em julgado de sentença condenatória”. O princípio da presunção de inocência reitor do Processo Penal estabelece assim parâmetros para que a dignidade humana seja respeitada. A presunção de inocência é um estado em que se encontra o acusado até ser declarado culpado. Uma forma de tratamento que internamente impõe ao juiz que a carga de provas seja obrigatoriamente do acusador; e externamente tem o importante dever de atuar como um limitador. Este princípio vem estabelecer regras e proteger todo e qualquer cidadão até que o mesmo seja declarado em sentença condenatória definitiva, culpado ou inocente. O réu necessariamente deve ser protegido da publicidade que na maioria das vezes é extremamente abusiva. A estigmatização precoce do acusado é uma violação de proporções irreparáveis a pessoa e a moral do réu. A mídia monta em cima de cada fato que lhe possa render audiência um espetáculo de julgamento de horrores. Neste Reality Show o acusado é presumidamente culpado até que se prove ao contrário. Para limitar esses excessos cada vez mais comuns é que invocamos a não violação do princípio mais importante do processo penal o da Presunção de Inocência.

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BECCARIA. Cesare Bonesana de. Dos Delitos e das Penas. São Paulo: Martin Claret, 2001, p.37. FERRAJOLI, Luigi. Derecho y Razón, p. 549, apud, JÚNIOR, Aury Lopes. Direito Processual Penal e sua Conformidade Constitucional. Rio de Janeiro: Lúmen Juirs, 2007, p.188.

A CONSTRUÇÃO DA SOCIEDADE DE INSEGURANÇA INFLUENCIADA PELA MÍDIA NA DESCARACTERIZAÇÃO DO PRINCÍPIO DA PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA

A Construção da Sociedade Moderna

Através dos tempos a sociedade em si, tem passado por uma incrível mutabilidade. Interessante como a natureza, companheira primordial do homem, leva milhões de anos para formar um ecossistema e o homem, apenas, horas para modificá-lo. Mas toda esta mutabilidade e rapidez fazem parte do gênero efêmero que nos seres humanos criamos ao longo da história. Ao analisarmos a evolução social, podemos dividi-la em três momentos de ruptura para uma nova sociedade. Primeiramente, a coluna social foi estabelecida na forma de uma comunidade simplificada, caracterizada pela era primitiva em que se encontrava. Em um segundo momento de sua evolução, ela se apresenta de forma mais modular, na qual podemos caracterizar pela comunidade emblemática da Idade Média. Já num terceiro momento encontramos a sociedade estabelecida de forma mais complexa, completamente transmutada nos padrões da atualidade, o de uma nova e emergente sociedade globalizada. Há que se observar que essas mudanças sociais, se encontram intimamente ligadas às revoluções político-sociais e tecnológicas. Na nova sociedade, ambas as revoluções, são direcionadas pelo poder econômico, no qual a palavra de ordem está baseada em um único fator, consumir e assim, conseqüentemente, produzir. Ignácio Ramonet, em seu livro “Propagandas Silenciosas”, retrata, com muito louvor, em seu capítulo “Manipular Massas” da divisão social feita pelo historiador François Caron, com relação à revolução industrial que influenciou diretamente na maneira de se produzir e consumir, mudando desta forma completamente os valores da sociedade.
Uma revolução industrial não é simplesmente o desenvolvimento de uma tecnologia a mais, é uma revolução fundamental na nossa maneira de produzir e consumir. Pode-se dizer que o mundo já conheceu duas revoluções. A primeira, que se estendeu até 1840, nasceu na Inglaterra com a invenção da máquina a vapor por James Watt em 1776 [...]. Com a primeira central elétrica aberta em 1882 por

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Thomas Edison, é a segunda revolução que deslancha nos Estados Unidos [...]. A terceira é a revolução eletrônica, que avançou progressivamente antes de invadir o conjunto do sistema técnico, e de desembocar na informática, na robótica e em 24 redes, como a Internet.

A Revolução Industrial foi um grande passo para o novo modelo social. A partir dela outras tecnologias vieram, mas, conservando sempre, o fator econômico como o grande exponencial. Na fase primária em que a economia baseava-se na troca, a massa, grande parte do povo, consumia apenas o necessário. O desnecessário, caracterizado pelo luxo e ostentação era material de consumo apenas da Corte e dos Senhores. Com o advindo das grandes revoluções não só tecnológicas, mas principalmente as político-sociais, muitos hábitos mudaram com relação à economia. Da troca ao poder de compra proporcionado pela moeda (dinheiro). Do consumo banal da realeza para o consumo banal da plebe. Ao longo dos tempos, a sociedade criou novos hábitos, novos desejos, alguns necessários em meio a tantos desnecessários. Trocou, inverteu a satisfação pessoal, pela satisfação do ter e possuir, é como se as pessoas estivessem felizes e satisfeitas apenas quando consume, quando compra algo. Mas pela própria característica efêmera do homem, logo, aquilo é deixado de lado, sem importância, em desuso, pois criamos uma sociedade nova sociedade de necessidades supérfluas onde tudo é passageiro. Neste exato momento criamos também uma sociedade de risco, onde a proporção de nossos desejos é tão grande quanto os riscos diretos e indiretos, que trazemos para dentro de nossas casas, para dentro de nossas vidas, da vida de nossas famílias.

2.1.1 Sociedade de Inseguranças: um interesse econômico midiático

A nova sociedade caracteriza pelos riscos que ela proporciona, gera automaticamente a formação de outra sociedade, esta cheia de medos e perturbações, passamos agora então para a denominada sociedade de inseguranças.

24

CARON, François. L’Express, 27 de abril de 2000, apud, RAMONET, Ignácio. Propagandas Silenciosas – Massas, Televisão e Cinema. Petrópolis: Vozes, 2002, pp.15–16.

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De um modelo de sociedade para outro, muitas foram às alterações, porém, algo permaneceu intacto, o poder econômico. Esse poder, defensor do lucro e não da melhoria social criou um imenso abismo entre os detentores deste poder e as pessoas manipuladas por ele. Se fizermos uma viagem pela história, iremos notar que apesar de tanto tempo já ter se passado as concepções de Marx e Engels nunca foram tão atuais. O estágio do desenvolvimento econômico, o capitalismo selvagem, as desigualdades sociais, os conflitos entre explorados e exploradores. No livro Sociologia Introdução à Ciência da Sociedade, Maria Cristina Castilho, retrata não só as fases e desenvolvimento da sociedade, mas também a opinião de influentes pensadores como Ralf Dahrendorf, que relata os conflitos de classes propostos por Marx:
O estudo das classes sociais sofreu no passado pela propensão dos cientistas sociais a reagir contra a influência de Karl Marx. [...] Ignorar Marx é conveniente, mas também ingênuo e irresponsável. Nenhum físico se me perdoam a analogia – ignoraria Einstein por não aprovar sua atitude política ou alguns aspectos de sua teoria. [...] sua formulação da teoria de classes é não só a primeira, mas também, como sabemos agora, a única em seu gênero. Hoje, essa teoria foi refutada, mas não 25 superada.

Para Karl Marx o campo econômico sempre foi o “fator exclusivo da mobilidade social”. Max Weber considerado por muitos o “Marx da burguesia” aborda de forma peculiar à questão do consumo e do capital.
Quando a limitação do consumo é combinada com a liberação das atividades de busca da riqueza, o resultado prático inevitável é óbvio: o acúmulo de capital mediante a compulsão ascética para a poupança. As restrições impostas ao gasto de dinheiro serviram naturalmente para aumentá-lo, possibilitando o investimento produtivo do capital. Infelizmente, o quanto esta influência foi poderosa, não é passível de demonstração estatística exata.26

O desenvolvimento econômico gera dinheiro, dinheiro, gera poder e poder sempre foi o ponto fraco dos homens. B.Russel em sua famosa frase dizia que: “a sede de poder aumenta de maneira notável pelo exercício do poder”.27 De certa forma então, podemos dizer que, esta sociedade de inseguranças interessa única e exclusivamente aqueles que detêm o poder econômico.

25

DAHRENDORF, Ralf. As classes e seus conflitos na sociedade industrial. p.111-112, apud, COSTA, Maria Cristina Castilho. Sociologia Introdução à Ciência da Sociedade. São Paulo: Moderna, 1987, p.87–88. 26 WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martin Claret, 2001, pp.124–125. 27 RUSSEL, Bertrand. O Poder – uma nova análise social. Rio de Janeiro: Zahar, 1979, p.187.

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Estes por sua vez, estão intimamente ligados a um único objetivo “lucro”. Para gerar lucro é preciso fazer com que a sociedade consuma mais, assim, se produz mais e se vende mais. Porém para que esta cadeia ocorra é necessário se criar necessidades ou mesmo desnecessidades, idéia de que se deve, ou melhor, se precisa de qualquer maneira consumir. Esta concepção de que é necessário se consumir coisas desnecessárias, não surgiu do nada. Estes desejos efêmeros foram implantados na forma de pensar de cada um. Um consenso geral foi criado, dando vazão e valor a coisas antes sem menor importância. Este com certeza não foi um trabalho simples, mas complexo e de longo prazo, que atualmente alcança a máxima da manipulação das massas, sem que as mesmas percebam esta manipulação. Muitos autores afirmam que esta manipulação está diretamente ligada à influência midiática, utilizada de maneira a criar uma cultura de massa, vazia e frágil. Jhon B. Thompson, em seu livro “A Mídia e a Modernidade”, levanta a questão do poder e a comunicação, traçando o perfil dos indivíduos que buscam tornar estáveis essas relações ou redes de poder. Este por sua vez tem por objetivo a dominação de outros indivíduos para a realização de seus interesses próprios.
No exercício do poder, os indivíduos empregam os recursos que lhes são disponíveis; recursos são os meios que lhes possibilitam alcançar efetivamente seus objetivos e interesses. Ao acumular recursos dos mais diversos tipos, os indivíduos podem aumentar seu poder [...]. Há recursos controlados pessoalmente, e há também recursos acumulados dentro de organizações institucionais, que são bases importantes para o exercício do poder. Indivíduos que ocupam posições dominantes dentro de grandes instituições podem dispor de vastos recursos que os tornam capazes de tomar decisões e perseguir objetivos que têm conseqüências de longo prazo.28

Durante muito tempo a mídia foi considerada o “quarto poder”, isto se seguindo a seqüência tradicional traçada por Montesquieu, legislativo, executivo e judiciário. Mas de acordo com Ignácio Ramonet, “estamos passando para um poder horizontal, reticular e consensual (um consenso obtido, precisamente, por meio de manipulação midiática)”. 29 Desta maneira Ramonet coloca a mídia então como sendo não mais o quarto e sim o “segundo poder”.
[...] para falar de “quarto poder” ainda seria preciso que os três primeiros existissem e que a hierarquia que dispõe na classificação de Montesquieu fosse sempre válida. Na realidade, o primeiro poder é hoje claramente exercido pela economia. O segundo (cuja imbricação com o primeiro se mostra muito forte) é certamente
28

THOMPSON, John B. A Mídia e a Modernidade – Uma teoria social da mídia. Petrópolis: Vozes, 2005, p.21. 29 RAMONET, Ignácio. A Tirania da Comunicação. Petrópolis: Vozes, 2004, p.41.

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midiático – instrumento de influência, de ação e de decisão incontestável – de modo que o poder político só vem em terceiro lugar. 30

O professor Luiz Flávio Gomes, em palestra proferida na III Semana Jurídica Direito da Uniron, falou sobre o poder de uma forma em geral e do poder da informação, nas palavras dele, “Na era da informação manda quem tem a informação”.
31

Uma mensagem subliminar,

com vários sentidos de interpretação, mas com um aspecto bem claro, esta é a era da informação. Característica realmente impressionante essa da mídia, a de manipular a massa de acordo com o que o poder econômico determina. O objetivo é claro, criar desta forma uma sociedade de idéias e desejo volantes, que vão embora tão rápido quanto chegam.

2.2 MÍDIA: MEIO DE COMUNICAÇÃO E INFORMAÇÃO OU MANIPULAÇÃO DE MASSA

O desenvolvimento do sistema de impressão por Gutenberg em 1450 abriu as portas para uma nova realidade, estava naquele momento nascendo à expansão das informações e das idéias, correlatamente nascia também naquele momento um grande instrumento de manipulação de massa. Outros meios de comunicação ainda viriam primeiramente o rádio, que no Brasil teve a 1ª estação, instalada em 1922. Anos mais tarde se presenciaria a chegada da televisão, em nosso país, com a instalação da 1ª estação em 1950. Com o advento da eletrônica era então chegado um novo tempo para a sociedade agora dotada de mais informação. Marshall McLuhan acreditava que a televisão transformaria o mundo todo numa grande “aldeia”. 32 Marshall em sua análise realmente passou muito perto do que viria a se tornar o poder da televisão. A divulgação da informação em tempo real, a TV AO VIVO, trouxe novas técnicas. Pudemos acompanhar, por exemplo, a Guerra do Golfo pela televisão. Tony

30 31

Idem, ibidem. GOMES, Luiz Flávio. STF e as Grandes Transformações do Direito Criminal. DVD, 2008. Biblioteca UNIRON – Faculdade interamericana de Porto Velho/RO. 32 MCLUHAN, Marshall, apud, SCHWARTZ, Tony. Mídia O Segundo Deus. São Paulo: Summus Editorial, 1985, pp.26–27.

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Schwartz afirma em seu livro “Mídia o Segundo Deus”, que apesar, dos aparentes benéficos, nossa sociedade ainda não estava preparada esta revolução tecnológica. 33
Por conseguinte, não estávamos preparados para as mudanças que ocorreriam quando aparecesse um novo meio de comunicação. A mídia eletrônica marcou uma mudança na sociedade, lançando sementes da mesma maneira que a invenção do tipo móvel e da máquina de impressão: iniciava-se a era pós-literária. Crescendo em um ambiente pós-literário, nossos filhos receberam uma grande quantidade de informações sobre o mundo em que vivemos, sem precisar ler ou escrever, falha esta que os teria condenado à total ignorância em outros tempos. 34

Com o advento da televisão em 1/6 de segundos uma mesma mensagem pode ser recebida por milhões de pessoas ao mesmo tempo. Mas toda essa rapidez ainda era pouco para a mídia da comunicação. Era preciso algo mais, era chegada então à vez do “real time”, ou seja, a informação em tempo real. Nada se pode comparar à agilidade e o poder de difusão dela, “A Internet”, agora sim, a grande e verdadeira “Aldeia Global”. A liberação do uso comercial da internet aconteceu nos Estados Unidos em 1987, no Brasil este mesmo fato só veio a acontecer no ano de 1995. A princípio o computador era utilizado, apenas nas empresas, logo passou a ser um utilitário doméstico, para muitos, mais necessário que o rádio ou a televisão. No ano de 2000 o Brasil tinha aproximadamente 6 milhões de usuários, o último senso de 2007, constatou 39 milhões de usuários, uma astronômica expansão da informação. 35 Atualmente o computador já está em grande parte das casas por todo o país, ligando o individuo ao mundo em frações de segundos, através da internet. É a evolução da comunicação, cada vez mais forte e ostensiva. De acordo com Umberto Eco esses meios de comunicação e informação hoje são utilizados com outras finalidades, a de manipulação de informações, idéias e até mesmos desejos, dissociadas pela cultura de massa, difundida principalmente nas últimas décadas pelas mídias, impressas, falada e televisionada.
O problema da cultura de massa é exatamente o seguinte: ela é hoje manobrada por “grupos econômicos” que miram fins lucrativos, e realizada por “executores especializados” em fornecer ao cliente o que julgam mais vendável, sem que se 36 verifique uma intervenção maciça dos homens de cultura na produção.

33 34

SCHWARTZ, Tony. Mídia O Segundo Deus. São Paulo: Summus Editorial, 1985, pp.26–27. Idem, ibidem. 35 JÚNIOR, Marco Antônio Araújo. Direito Eletrônico: aspectos jurídicos relevantes. DVD, 2008. Biblioteca UNIRON – Faculdade interamericana de Porto Velho/RO. 36 ECO, Umberto. Apocalípticos e Integrados. São Paulo: Editora Perspectiva, 2001, pp.50–51.

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O autor ainda afirma ser este um código de quem não comunica “mensagem massificante, homem massa e cultura de evasão” 37. O autor inverte a definição de cultura de massa para comunicações de massa.
[...] o alargamento da área de consumo das informações criaram a nova situação antropológica da „civilização de massa‟. No âmbito de tal civilização, todos os que pertencem à comunidade se tornam, em diferentes medidas, consumidores de uma produção intensiva de mensagens a jato contínuo, elaborada industrialmente em série, e transmitidas segundo os canais comerciais de consumo regido pelas leis da oferta e da procura.38

É clara a influência que a mídia exerce sobre toda a sociedade de uma forma quase geral. Com o advento de novas tecnologias, hoje as informações são repassadas em tempo real. Acessando a internet podemos perceber a enxurrada de informações que recebemos por frações de segundo. Criou-se uma necessidade quase irreversível de estar conectado a este mundo das informações. Não fazer parte do grupo da mass media ou meios de massa é como ser ridicularizado a todo o momento por estar fora da moda. A mídia antes centrada a fornecer informações hoje se concentra em repassar aquilo que os detentores do poder midiático visualizam potencialmente rentável.

2.3 PÓS-MODERNIDADE UMA SOCIEDADE DE RISCOS INCALCULÁVEIS

A sociedade evoluiu, tornando-se uma altamente consumista. Apegamo-nos a tecnologia, que em muito nos tem ajudado, mas ao mesmo tempo, abrimos as portas para uma sociedade de riscos. É natural que viver em uma estrutura social assim, gera riscos e automaticamente inseguranças, e é neste contexto de insegurança que a sociedade tem clamado por leis mais severas e redução da maioridade penal. Neste contexto, é natural que se defenda uma cultura de prisionalização, tornando banal a medida externa de restrição de liberdade. Assim, como versa o objeto do presente trabalho, o Estado de Inocência é a primeira vítima.

37 38

Idem, ibidem, p. 51. Idem, ibidem, p. 27.

27

Figueiredo Dias já dizia: “[...] uma análise histórica equilibrada e livre de preconceitos conduzirá antes, muito provalvemente, à conclusão de que a sociedade foi sempre – e talvez mais do que hoje, e porventura será – sempre uma sociedade de risco”.39 Não há que se negar que o penalista português tenha total razão quanto ao risco sempre ter existido, afinal como relata Eduardo Medeiros Cavalcanti, “[...] viver em uma sociedade significa compartilhar os riscos”. 40 Porém a pós-modernidade trouxe novos e diferentes riscos, antes, nunca imaginados pelo homem. A tecnologia tem aberto novas portas com relação à quase tudo, mas ao mesmo tempo tem gerado inseguranças que antes não existiam. De acordo com Cavalcanti:
Os riscos que se podiam calcular na esteira da Modernidade tornaram-se incalculáveis e imprevisíveis na sociedade de risco. Ao revés da noção linear de causa e efeito, possibilitando a delimitação de responsabilidade pelos danos e perigos, a sociedade de risco produz a entropia nos fenômenos, diluindo as linearidades e certezas. Os riscos acentuados implicam novas modalidades de riscos. 41

Nosso sentido de insegurança e desconfiança está tão fragilizado que atualmente acusamos e incriminamos as pessoas antes mesmo de conhecermos a verdade, antes mesmo de o devido processo legal ser estabelecido e a questão julgada por seu juízo competente. O princípio constitucional da presunção de inocência foi posto de lado, hoje, todos são culpados até que se prove ao contrário. Este é o perfil da nova sociedade, cheia de medos de fantasmas que ela própria criou. O grande conflito começa então, quando esta sociedade que agora passamos a chamar de “sociedade da insegurança”, rompe os limites da lei, infringindo e desestabilizando princípios fundamentais do homem, adquiridos mediante muita luta e sofrimento, passado ao longo de todo o processo de democratização de nosso país.

39

DIAS, Jorge de Figueiredo. O Direito Penal entre a ‘Sociedade Industrial’ e a ‘Sociedade do Risco’, apud, CAVALCANTI, Eduardo Medeiros. Crime e Sociedade Complexa: Uma abordagem interdisciplinar sobre o processo de criminalização. São Paulo: LZN, 2005, p.151. 40 CAVALCANTI, Eduardo Medeiros. Crime e Sociedade Complexa: Uma abordagem interdisciplinar sobre o processo de criminalização. São Paulo: LZN, 2005, p.151. 41 Idem, ibidem, p.152.

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CAPÍTULO III

A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA DEMOCRACIA NA BUSCA PELAS GARANTIAS CONSTITUCIONAIS - “ESTADO DE INOCÊNCIA E LIBERDADE DE IMPRENSA” 1.1 A LUTA PELO ESTABELECIMENTO DO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO A luta pela Democracia retrata diretamente a busca pelos Direitos. Neste contexto nasce à trajetória de importantes e fundamentais garantias a pessoa humana. Surgindo desta maneira o Direito de ser verdadeiramente cidadão. Livre em seus atos, livre em seus pensamentos, livre para escolher ou mesmo para ser escolhido, livre enfim para viver. Neste contexto duas garantias constitucionais são amplamente refletidas neste trabalho. Primeiramente a garantia do Estado de Inocência em que o cidadão, tem o direito de não ser pré-julgado. Em segundo plano temos a liberdade de imprensa, na qual encontramos um meio de limitar os excessos principalmente do Estado. Durante o período totalitário, estas foram duas garantias subtraídas da população brasileira, que a mercê da ditadura, muito sofreu. Estes foram tempos difíceis e primordiais para o estabelecimento do que somos hoje, uma nação livre, em atos e pensamentos. No Brasil este período acontece por volta do ano de 1946, com o fim da ditadura; mas só foi realmente consagrado em 1984 com a Eleição de Tancredo Neves; vindo a tornar-se realidade em 1988 com a promulgação da Constituição Federal. Nesta fase começava a ser traçada uma nova sociedade em que os homens agora cidadãos livres no Estado Democrático de Direito, passavam a ter novas garantias de direito, garantias essas fundamentais, para que o novo Estado fosse e permanecesse realmente Democrático. Tais garantias e princípios fundamentais inerentes a todos vêm fixados então como Cláusulas Pétreas, ou seja, gravados como Pedra em nossa Constituição de 1988. Muitos foram os fatores para o surgimento deste Estado Democrático de Direito, entre eles estava à imprensa, principalmente a impressa, que na maioria escondidas em porões imprimiam nas frias madrugadas de 1943 Boletins de Desagravo ao fascismo e a ditadura. Naquele período comandado por Getúlio Vargas, muitos foram os Direitos usurpados e castrados. Aquele foi o tempo em que a força repressora do estado não era algo distante de se

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ouvir falar, mas uma mão pesada nos ombros de todos, em todos os momentos e em todos os lugares.
E para maior sustentação da ditadura, Getúlio criou o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda). O DIP era o órgão responsável pela propaganda do governo e pela censura. Controlava a imprensa e determinava o que podia e que não podia ser publicado42.

O Estado Novo de Getúlio Vargas foi um momento histórico para o país, pois, o ditador se mostrou nacionalista, defensor das riquezas, dos interesses nacionais e protetor da indústria brasileira. Mas aquele também foi um período de terror e medo, onde as perseguições eram constantes e ser contra a ditadura era praticamente uma blasfêmia.
O povo vivia sufocado e aterrorizado com as agressões da polícia política de Vargas, chefiada por Filinto Müller responsável por centenas de prisões arbitrárias, torturas e mortes. Foi um período de pouca realização intelectual, devido à opressiva censura do DIP. Espalharam-se o medo e a incompreensão, Jornais foram fechados. Jornalistas, escritores, artistas, professores, estudantes, políticos de oposição e operários foram presos, torturados e mortos43.

O Estado Novo teve seu auge entre os anos de 1937 a 1945, comandado por Vargas este foi um dos piores momentos políticos vividos pelo povo brasileiro. Para Francisco de Assis Silva este foi o período em que o povo brasileiro teve suas garantias fundamentais subtraídas: “Nessa época desapareceram as liberdades e as garantias do indivíduo”. 44 Vamos aqui abrir um espaço para falar um pouco do Código Penal, Processual Penal e da Lei de Imprensa, pois é justamente neste período em que as garantias fundamentais do indivíduo estavam suprimidas, que surgem tão importantes regulamentos para a nação brasileira. Para começarmos falaremos do Código Penal Brasileiro, advindo do decreto – Lei n° 2.848, de 07 de dezembro de 1940. A história do Direito Penal brasileiro passou por muitas e importantes fases. Para melhor analisá-las, há que se remontar ao período da vingança privada da era primitiva, em que as formas punitivas eram basicamente realizadas por sanções corporais. Posteriormente a esta fase estabelecer-se-ia o Brasil Colônia primeiramente regido pelas Ordenações Afonsinas e depois estas substituídas pelas Ordenações Manuelinas de 1521. Luiz Régis Prado e Cezar

42

SILVA, Francisco de Assis. História do Brasil - Império e República. São Paulo: Moderna, 1991, p.95. 43 Idem, ibidem, p.96. 44 Idem, Ibidem, p.98.

30

Roberto Bitencourt comentam que nesta fase “[...] os ordenamentos jurídicos referidos não chegaram a ser eficazes, em razão das peculiaridades reinantes na imensa colônia”. 45 Apenas em 1830 viria o então imperador D. Pedro I a sancionar o Código Criminal e dois anos depois surgiria o primeiro Código de Processo Criminal. Com o advento da República em 1890 foi aprovado e publicado o código penal elaborado por Batista Pereira, considerado o pior Código Penal da história brasileira. Na visão de Cezar Bitencourt:
[...] ignorou completamente os notáveis avanços doutrinários que então se faziam sentir, em conseqüência do movimento positivista, bem como o exemplo de códigos estrangeiros mais recentes, especialmente o Código de Zanardelli. O Código Penal de 1890 apresentava graves defeitos de técnica, aparecendo atrasado em relação à ciência de seu tempo.46

Logo vieram novos estudos para substituí-lo. Em 1937 durante o Estado Novo, Alcântara Machado apresentou o seu projeto que nas palavras de Cezar Bitencourt vinha em boa hora, haja vista os equívocos e deficiências apresentados pelo Código Republicano, que se transformara numa verdadeira colcha de retalhos.
[...] Alcântara Machado apresentou um projeto de código criminal brasileiro, que, apreciado por uma Comissão Revisadora, acabou sendo sancionado, por decreto de 1940, como Código Penal, passando a vigorar desde 1942 até os dias atuais, embora parcialmente reformado.47

Enquanto as garantias constitucionais eram subtraídas, o Código Penal surgia para proteger os bens mais importantes da sociedade. Nas palavras de Luiz Regis Prado “[...] o escopo imediato e primordial do direito Penal radica na proteção de bens jurídicos – essenciais ao indivíduo e à comunidade”. 48 Nilo Batista fala que: “a missão do direito penal é a proteção de bens jurídicos, através da cominação, aplicação e execução da pena”. 49 De acordo com Rogério Greco o critério de seleção dos bens a serem tutelados pelo Direito Penal, são puramente políticos, pois, segundo ele, a sociedade dia após dia, evolui. Muitos dos bens que antes eram tidos como fundamentais, já não gozam mais deste status. Para demonstrar suas idéias Greco ainda cita como exemplo a mulher de 1940:

45

TOMPSON, Augusto. Escorço histórico do Direito Criminal luso-brasileiro, São Paulo, Revista dos Tribunais, 1976, p.76, apud, BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal, São Paulo: Saraiva, 2008, p.45. 46 BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal. São Paulo: Saraiva, 2008, p.46. 47 Idem, ibidem, pp.46–47. 48 PRADO, Luiz Regis. Bem jurídico-penal e Constituição, p.47, apud, GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal. Niterói: Impetus, 2008, p.05. 49 BATISTA, Nilo. Introdução crítica ao direito penal brasileiro, p. 116, apud, GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal. Niterói: Impetus, 2008, p.05.

31

Exemplo disso foi à revogação dos delitos de sedução, rapto e adultério, levada a efeito pela Lei nº 11.106, 28 de março de 2005. A mulher da década de 1940, período em que foi editado nosso Código Penal, cuja parte especial, com algumas alterações, ainda se encontra em vigor, é completamente diferente daquela que participava da nossa sociedade já no século XXI. [...] Em virtude dessa constante mutação, bens que outrora eram considerados de extrema importância e, por conseguinte, carecedores da especial atenção do Direito Penal já não merecem, hoje, 50 ser por ele protegidos.

Praticamente um ano depois, o Brasil viveria mais um importante momento a aprovação da reforma do então código de processo penal. A história do Código do Processo Criminal de Primeira Instância inicia-se ainda no governo de D. Pedro I, que na sessão de 20 de maio de 1829 ordenou que o projeto fosse apresentado à Câmara, lugar onde permaneceu em discussão por mais de dois anos, só chegando ao Senado em julho de 1831, vindo a ser aprovado por aquela casa em 20 de outubro de 1832 e promulgado em 29 de outubro do mesmo ano. Para José Frederico Marques o código trouxe um acentuado espírito antiinquisitorial.
[...] síntese dos anseios humanitários e liberais que palpitavam no seio do povo e da nação. [...] graças a ele, perdurou, nas leis nacionais um acentuado espírito antiinquisitorial que nos preservou o processo penal, de certos resíduos absolutistas que ainda existem nos códigos europeus. 51

Depois disto, ainda se daria a reforma de 03 de dezembro1841, Lei nº 61; o regulamento nº 120 de 31 de janeiro de 1842; a reforma judiciária de 1871, e outros tantos decretos. Em 08 se setembro de1941, Francisco Campos envia a Getúlio Vargas o projeto do Código de Processo Penal do Brasil.
Tenho a honra de passar às mãos de Vossa Excelência o projeto do Código de Processo Penal do Brasil. [...] Se for convertido em lei, não estará apenas regulada a atuação da justiça penal em correspondência com o referido novo Código e com a Lei de Contravenções (cujo projeto, nesta data, apresento igualmente à apreciação de Vossa Excelência): estará, no mesmo passo, finalmente realizada, de há muito, o interesse de boa administração 52 da justiça, aliado ao próprio interesse da unidade nacional.

Através do Decreto-Lei nº 3.689 de 03 de outubro de 1941, Getúlio Vargas, escrevendo seu nome na história do Processo Penal brasileiro, sancionando e decretando a aplicação do novo Código de Processo Penal, vigente até hoje em nosso país.

50 51

GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal. Niterói: Impetus, 2008, p.05. Marques, José Frederico. Evolução Histórica do Processo Penal, p.113, apud, PIERANGELLI, José Henrique. Processo Penal – Evolução Histórica e Fontes Legislativas. Bauru: Jalovi, 1983, p.98. 52 Campos, Francisco. Publicada no Diário Oficial da União de 13 de outubro de 1941, apud, PIERANGELLI, José Henrique. Processo Penal – Evolução Histórica e Fontes Legislativas. Bauru: Jalovi, 1983, p.533.

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Com a introdução do Código Penal e do Código de Processo Penal, muita coisa mudaria, era o começo, um importante passo fora dado, mas ainda havia muito pelo que se lutar, pois a liberdade de ação e pensamento ainda não estava garantida. A liberdade de expressão e pensamento, só veio a ser consolidada com a Constituição de 1988, apesar da lei de imprensa ser bem anterior a ela. Desde a descoberta da impressão em 1450, todos os governos monárquicos ou não, procuravam limitar o poder de difusão de idéias, mediante esta arma tão poderosa a imprensa. No Brasil a Constituição do Império também controla a liberdade de imprensa, que de livre mesmo, só tinha o nome. No Decreto de 12 de julho de 1821 D. João por graça de “Deos” e pela Constituição da Monarquia, Rei do Reino Unido de Portugal, Brazil e Algarves, d‟ a‟ quem e d‟ alem Mar em Africa, etc, 53 determinava os princípios sobre a liberdade de imprensa, estes estabelecidos nos arts. 8º, 9º e 10 daquela Constituição.
Art. 1º Toda pessoa póde da publicação desta Lei em diante imprimir, publicar, comprar e vender nos estados Portuguezes quaesquer livros ou escriptos sem prévia censura; e só com as declarações seguintes: 54

O mesmo enunciado do Decreto que dizia não haver prévia censura, era logo no Título II da própria Lei contraditado, uma vez, que o mesmo tratava como abuso da liberdade de imprensa falar da religião católica e contra o estado.
Art. 8º Pode abusar-se da liberdade de imprensa: 1º contra a religião catholica romana; 2º contra o estado; 3º contra os bons costumes; 4º contra os particulares Art. 10 Abusa-se da liberdade da imprensa contra a religião: 1º quando nega a verdade de todos, ou de algum dos dogmas definidos pela Igreja; 2º, quando se estabelecem, defendem dogmas falsos; 3º, quando se blasfema, ou zomba de Deos, dos seus Santos, ou do culto religioso aprovado pela Igreja. 55

Com base no referido artigo, não se podia falar contra a Igreja Católica e que qualquer outro dogma que não fosse o dela era falso, quem neste período violava tal determinação em primeiro grau era condenado até a um ano de prisão.

53

54

55

BRASIL. Constituição do Império. Disposições sobre Direito Processual Penal, apud, PIERANGELLI, José Henrique. Processo Penal: Evolução Histórica e Fontes Legislativas. Bauru: Jalovi, 1983, p.325. DECRETO – DE 21 DE JULHO DE 1821 – Desenvolve e determina os princípios que sobre a liberdade de imprensa se acham estabelecidos nos arts. 8º, 9º e 10º das Bases da Constituição, apud, PIERANGELLI, José Henrique. Processo Penal – Evolução Histórica e Fontes Legislativas. Bauru: Jalovi, 1983, p.333. DECRETO – DE 21 DE JULHO DE 1821 – Desenvolve e determina os princípios que sobre a liberdade de imprensa se acham estabelecidos nos arts. 8º, 9º e 10º das Bases da Constituição, apud, PIERANGELLI, José Henrique. Processo Penal – Evolução Histórica e Fontes Legislativas. Bauru: Jalovi, 1983, p.333.

33

Aqueles que eram condenados por abusos contra o Estado recebiam penas mais severas.
Art. 12 Abusa-se da liberdade da imprensa contra o Estado: 1º, excitando os povos directamente à rebelião; 2º, provocando-os directamente a desobedecer às leis, ou às autoridades constituídas; 3º, atacando a fórma de Governa Representativo, adoptada pela Nação; 4º, infamando, ou injuriando o Congresso Nacional, ou Chefe do Poder Executivo. 56

Pelo exposto podemos observar que a liberdade de imprensa era completamente controlada e vigiada pelo governo, as pessoas que infligiam este artigo eram condenadas até cinco anos de prisão, conforme a gravidade da ofensa. O Decreto apesar de retrógado e imperialista, tinha suas virtudes, entre elas a proteção da pessoa, penalizando aqueles que exagerassem na exposição do suspeito.
Art. 16. Abusa-se da liberdade da imprensa contra os particulares: 1º, imputando a alguma pessoa, ou corporação, qualquer fagto criminoso, que daria logar a procedimento judicial contra Ella; 2º, imputando-lhe vícios ou defeitos, que a exporiam ao ódio, ou desprezo publico; 3º, insultando com termos de desprezo, ou ignomínia. Art. 17. Quem abusar da liberdade da imprensa contra os particulares em primeiro grão será condenado em 1000$000; no segundo em 80$000; no terceiro, em 60$000; no quarto, em 40$000; e além destas penas haverá em todos os grãos a reparação civil do dano e injúria, sempre que os Juízes de Facto declararem ter logar. 57

A referida Lei de quase dois séculos atrás, já trazia em seu contexto de forma arcaica a proteção do princípio do Estado de Inocência, uma vez que visava proteger os particulares dos excessos da mídia. Era a regulamentação implícita de tal importante princípio. Em 20 de setembro de 1830 D. Pedro Imperador do Brasil decretou nova Lei sobre o abuso da liberdade de imprensa, mas desta vez o regulamento trazia apenas questões de abuso da liberdade de imprensa que visavam destruir o então sistema monárquico, o governo desta forma procurava se proteger e manter a hegemonia do Império Português. Teríamos ainda outros decretos para regular a liberdade de imprensa, como o Decreto nº 4.742 de 31 de outubro de 1923, sancionado Pelo presidente da República dos estados Unidos do Brasil; o decreto de nº 24.776 de 14 de julho de 1934, decretado pelo chefe do governo provisório da República dos Estados Unidos do Brasil, Getúlio Vargas. Do Brasil Império, para o Brasil República, as mudanças no país foram imensas, juntamente com elas então, veio às mudanças da liberdade de imprensa, agora regulamentada
56 57

Idem, ibidem. DECRETO – DE 21 DE JULHO DE 1821 – Desenvolve e determina os princípios que sobre a Liberdade de imprensa se acham estabelecidos nos arts. 8º, 9º e 10º das Bases da Constituição, apud, PIERANGELLI, José Henrique. Processo Penal – Evolução Histórica e Fontes Legislativas. Bauru: Jalovi, 1983, p.334.

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pela Lei nº 5.520 de 09 de fevereiro de 1967, que entrou em vigor em 14 de março do mesmo ano. A Lei trouxe em seu texto a liberdade de manifestação do pensamento e de informação, era enfim chegado um novo tempo para a imprensa brasileira. A informação antes tão controlada e vigiada, agora era difundida com certa liberdade. Frisemos a palavra “certa liberdade”, haja vista que esta era de certa forma restringida, pois, no ano em que a Lei de Imprensa foi decretada o Brasil se encontrava sobre a égide do governo militar, nas mãos então do Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, que sancionou referida lei.
É importante salientar que o regime militar impôs, logo após a aprovação da Lei de imprensa, novas e pesadas restrições à atuação dos jornalistas e das empresas. Isso ocorreu com a ampliação das penas dos delitos de imprensa pela Lei de Segurança Nacional. Completou-se o cerco no período da vigência do Ato Institucional nº 5, que vigorou de 13 de dezembro de 1968 a 31 de dezembro de 1978, e outorgava plenos poderes ao Executivo. 58

Depois de um breve relato histórico sobre o Código penal, Processual Penal e a Lei de Imprensa, voltemos agora ao curso da história, onde enfim, dava-se início a consolidação da democracia no Brasil, estabelecendo desta maneira proteção aos princípios e garantias fundamentais do homem. Com o fim da 2ª Grande Guerra Mundial (1945), sobrepondo a vitória dos Aliados contra as ditaduras, comandadas pela Alemanha, a insatisfação social ocasionou o fim da ditadura Vargas. Ainda nas palavras do historiador Francisco Assis: “Estava assegurado o fim do Estado Novo. Restava agora consolidar o novo regime democrático”. 59 O momento era de pura euforia uma alegria geral que tomava conta do Brasil. O povo acreditava na democratização plena do país. Todos achavam que nunca mais o Brasil voltaria ao regime de governo autoritário.
Respirava-se mais livremente. Havia chegado o fim do DIP e, em defesa da democracia, não se admitiam mais os abusos e a violência das autoridades, como prisões arbitrárias e torturas de oposicionistas, tantas vezes cometidas pela polícia de Getúlio. Foi um período em que as palavras liberdade e democracia eram pronunciadas sem medo.60

Em 1945 acontecem no Brasil as eleições. Eurico Gaspar Dutra é eleito. O Congresso transforma-se em Assembléia Constituinte e em setembro de 1946 é promulgada a

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LANER, Vinícius Ferreira. Disponível em: <http://juz2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=146> Acesso em 15 nov. 2008. 59 SILVA, Francisco de Assis. História do Brasil - Império e República. São Paulo: Moderna, 1991, p.98. 60 Idem, ibidem, p. 101.

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Constituição. Apesar de esta ser uma Constituição mais liberal, ainda estava levada a defender os interesses dos latifundiários e dos empresários. De acordo com a Constituição de 1946:
O país seria uma República federativa presidencialista, onde o presidente governaria por cinco anos; Haveria três poderes autônomos: Executivo, Judiciário e Legislativo; O voto seria universal, secreto e obrigatório para os maiores de 18 anos. Não teria direito de voto os analfabetos, cabos e soldados; Haveria respeito à liberdade de opinião e de pensamento; Reafirmava-se a defesa da propriedade privada etc. 61

Apesar das mudanças, muito tempo ainda se passaria até a verdadeira democratização do país. O povo brasileiro ainda veria o retorno de Vargas ao poder e seu suicídio. Acompanharia a ascensão de Juscelino Kubitschek, apoiado pelo militares. Jânio Quadros assumir o poder em meio a uma astronômica dívida externa. Veria ainda João Goulart tomar posse em meio às tensões sociais e conflitos de esquerda e direita radical que colocavam em risco o regime democrático do país. Os brasileiros viveriam também, para ver o fim da República Populista com a deposição de Goulart. O Brasil acompanharia o retorno da égide militar ao poder. Comandada pelo Marechal Humberto de Alencar Castelo Branca, depois o país dirigido pelo General Artur da Costa e Silva, na seqüência o “milagre econômico” General Emílio Garrastazu Médici, sucedido pelo General Ernesto Geisel e por fim o último da linhagem dos militares a comandar o Brasil o General João Baptista de Oliveira Figueiredo, que em seu discurso de posse disse: “Reafirmo meu inabalável propósito [...] de fazer deste país uma democracia”. 62 No ano de 1983, inicia-se em São Paulo a campanha pelas “Eleições Diretas Já”. No dia 15 de janeiro de 1985 foi realizada a tão espera eleição presidencial, que elegeu Tancredo Neves para presidente. Era chegada a hora da transição do poder militar para o poder civil, porém, mais uma vez o povo brasileiro é surpreendido pelo destino e o primeiro presidente do Brasil eleito pelo voto direto, não chega nem mesmo a tomar posse. Quem toma posse em seu lugar é o então vice-presidente José Sarney que assumiu no mesmo dia da morte de Tancredo Neves a presidência da República Brasileira.
61 62

Idem, ibidem. SILVA, Francisco de Assis. História do Brasil - Império e República. São Paulo: Moderna, 1991, p.123.

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Quem sabe se um milagre de última hora não salvaria o homem destinado a conduzir o Brasil para uma nova era democrática? Mas o milagre não aconteceu. Tancredo Neves morreu em 21 de abril, depois de sete operações e 38 dias no 63 hospital.

O Estado de Inocência e a Liberdade de Imprensa, só teriam seu verdadeiro lugar estabelecido na vida do povo brasileiro a partir da Constituição de 1988.

1.1.1 Princípios e Garantias Constitucionais na Tutela Penal dos Direitos Fundamentais Depois de mais de 30 anos de liberdades e garantias fundamentais suspensas era chegada agora à hora da democracia. Com a promulgação da Nova Constituição o verdadeiro Estado Democrático de Direito foi estabelecido, marcando enfim, a chegada de uma nova fase para o país. O Preâmbulo da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 trás:
Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte Constituição da República Federativa do Brasil [...]64 (grifo nosso)

Nas palavras de Alexandre de Moraes o preâmbulo de uma Constituição traça as diretrizes políticas, filosóficas e ideológicas de um povo:
O preâmbulo de uma Constituição pode ser definido como documento de intenções do diploma, e consiste em uma certidão de origem do novo texto e uma proclamação de princípios, demonstrado a ruptura com o ordenamento 65 constitucional anterior e o surgimento jurídico de um novo Estado.

Passando por este breve relato histórico, podemos observar que desde o início, a história do povo brasileiro tem sido a luta constante pela democracia, a estabilização do estado Democrático de Direito e assim conseqüentemente a segurança de viver em um Estado onde as garantias e direitos fundamentais ao homem são respeitados. Com a promulgação da Constituição Federal, os direitos e garantias antes inimagináveis, agora se tornavam realidade. Emanados da ânsia da sociedade pelo justo,

63

SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Castelo a Tancredo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988, apud Francisco de Assis Silva. História do Brasil – Império e República. São Paulo: Moderna, 1991, p.133. 64 CONSTITUIÇÃO FEDERAL. São Paulo: América Jurídica, 2007. 65 MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. São Paulo: Atlas, 2003, pp.48-49.

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foram gravados em nossa Constituição Federal como se grava em pedra, para jamais serem riscados ou arrancados de seu povo, pois, afinal este fora o prêmio por tantos anos de luta. Os direitos e garantias fundamentais do homem, protegidos por nossa lei maior, não quer dizer em si os direitos e garantias do gênero masculino, mas sim da espécie humana, desta forma, trata-se então dos direitos e das garantias dos seres humanos. Caracterizados por sua fundamentalidade, esses direitos, logo vêem sobrepostos nos primeiros capítulos da Constituição de 1988. Na acepção de princípios fundamentais, foram estabelecidos de maneira a garantir a soberania popular contra o poder do Estado.
A expressão direitos fundamentais do homem [...] com base em Pérez Luño, não significa esfera privada contraposta à atividade pública, como simples limitação ao Estado ou autolimitação deste, mas limitação imposta pela soberania popular

aos poderes constituídos do estado que dela dependem.66

As garantias e direitos fundamentais do ser humano são as verdadeiras garantias da essência da democracia, onde as liberdades civis e políticas devem obrigatoriamente ser respeitadas. No entanto não se deve e não se pode, pelo caráter extremamente protetivo dos direitos e garantias fundamentais, serem estes direitos, confundidos como um escudo de proteção para atos ilícitos. Há que se analisar que para tudo existe uma regra limitadora e esta também se aplica aos princípios fundamentais inerentes a todos. Cada um responde na proporção de seus atos, desta maneira os direitos e garantias fundamentais não afastando indivíduo a responsabilidade de responder civil ou penalmente por seus atos criminosos. Alexandre de Moraes em aborda de forma clara e precisa o assunto:
Os direitos e garantias fundamentais consagrados pela Constituição Federal, portanto, não são ilimitados, uma vez que encontram seus limites nos demais direitos igualmente consagrados pela Carta Magna (Princípio da relatividade ou convivência das liberdades públicas).67

Dentre estes princípios Constitucionais, é importante analisarmos os Princípios Constitucionais atinentes ao Processo Penal, afinal é mediante a Ação Penal, que o Estado exerce seu poder punitivo. Savino Filho define que: “A finalidade imediata do processo penal é conseguir, mediante intervenção do juiz, a realização da pretensão punitiva do Estado devido à prática de uma infração penal”. 68
66

SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. São Paulo: Malheiros, 2008, p.150. 67 MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. São Paulo: Atlas, 2003, p.61. 68 SAVINO FILHO, Cármine Antônio. Direito Processual Penal Resumido. Belo Horizonte: Inédita, 1998, p.18.

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Desta forma ocorrendo o fato concreto o Estado mediante os órgãos judiciários, avalia, julga e puni na medida do que a Lei estabelece. Para que não haja enganos e conseqüentemente injustiças o inquérito policial deve ser feito de forma clara, concisa, ampla de maneira a não restar dúvidas a cerca das provas levantadas. Por outro lado o juiz no processo deve avaliar todos os fatos, na busca da verdade real. Mas todos esses procedimentos devem ser realizados adequadamente como estabelecem as normas. Para que isto ocorra a nossa Constituição Federal, assegurou o sistema acusatório no processo penal, estabelecendo diversos princípios que visam proporcionar a eficiente prestação jurisdicional na concretização (nas palavras de Savino Filho) do “princípio da efetividade (efetivação judicial)”. 69 Com a promulgação da nova Constituição de 1988 muitas coisas mudariam dentro do Processo Penal Brasileiro. A Constituição Federal no Título I “Dos Direitos e Garantias Fundamentais”, Capítulo I: “Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos”, consagrou vários princípios relativos ao processo penal entre eles: a plenitude de defesa, inadmissibilidade de provas obtidas por meios ilícitos, presunção de inocência, contraditório, ampla defesa, entre outros que visam garantir a eficiência do processo. Na visão de Eugênio Pacelli, era então estabelecido o novo perfil do processo penal no Brasil: Chegou-se então a um perfil do processo, e particularmente o penal, como instrumento de garantia individual contra eventuais e sempre possíveis abusos da força estatal, instituindose, como entre nós, os princípios do juiz natural, do contraditório, da ampla defesa e da afirmação de inocência antes da condenação definitiva, como a base estrutural de um modelo democrático garantista. Democrático no sentido de efetivação da participação do réu em todas as fases do procedimento, e garantista no sentido da exigência da instituição de regras e princípios que realizem concretamente a igualdade material (de fato e não de direito) entre a acusação e a defesa, e, sobretudo, que imponha ao juiz uma atuação imparcial e o dever de motivação de seus julgados.70 Dentre tantos princípios atinentes ao processo penal, muitos doutrinadores e processualistas definem o da Presunção de Inocência como um dos princípios mais
69 70

Idem, ibidem, p. 19. OLIVEIRA, Eugênio Pacelli de. Processo e Hermenêutica na Tutela Penal dos Direitos Fundamentais. Belo Horizonte: Del Rey, 2004, p.23.

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importantes e que dentro do próprio processo penal, pode se dizer o mais conflitante e contraditório. Ao longo dos tempos este princípio tem sido violado não só pela autoridade judicial, mas também, pela autoridade policial competente, a imprensa e conseqüentemente a sociedade, na maioria das vezes, influenciada pela mídia. Falando em mídia devemos destacar que a Constituição de 1988, também trouxe muitas alterações para velha Lei de Imprensa, que agora se tornava conflitante com a Carta Magna em muitas questões.
[...] várias modificações sofreu a Lei 5.250/67. A principal delas foi quando à legitimação das liberdades de expressão, informação e de imprensa, que se encontra no Título VII, Capítulo V, da Comunicação Social, artigos 220 à 224 da CF/88. Este capítulo inscreveu normas de comunicação coletiva, extinguiu a censura, inseriu o direito de resposta, o dever de informar e o direito de ser informado.

Mas não nos estenderemos neste trabalho à inaplicabilidade de muitos artigos, ou mesmo a quase totalidade da Lei 5.250/67que se encontrada defasada, pois afinal este estudo tem por escopo a violação do princípio da presunção de inocência e este por sua natureza é pressuposto constitucional e independente de lei específica velha ou nova, deve ser respeitado pela mídia.

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IV CAPÍTULO

A VIOLAÇÃO DO PRINCÍPIO DE ESTADO DE INOCÊNCIA PELA MÍDIA 1.2 MÍDIA UM SEGUNDO PODER EXERCENDO A FUNÇÃO DE UM SEGUNDO DEUS É realmente extraordinário o progresso experimentado pelos meios de comunicação de 1970 para cá. A humanidade hoje é outra, uma conquista antes inimaginável, a difusão da notícia e do conhecimento vai além do que previam os especialistas de décadas anteriores. A rapidez, a versatilidade e a simplicidade, com que tudo é transmitido nos levam a duas reflexões, uma do desafio e a outra do risco. Na visão de Tony Schwartz este desafio é definido como uma séria revisão da comunicação: “Desafio, na medida em que o avanço tecnológico impõe uma séria revisão e reestruturação dos pressupostos teóricos de tudo que se entende por comunicação”. 71 O risco é calculado, no sentido de que não havendo esta reestruturação, muitos de nossos princípios fundamentais garantidos mediante muitas lutas e conflitos, se percam na espetacularidade das notícias. Ignácio Ramonet, citado no capítulo anterior, desestrutura a clássica formação de Montesquieu de poderes, para dar uma nova roupagem, na visão dele, primeiramente o poder econômico, em segundo plano o poder da mídia e em terceiro o poder político. 72 Tony Schwartz, também criou sua própria definição, mas numa escala digamos de poder sobrenatural, empostado pela possibilidade de ser onipresente. Em seu livro Mídia: O Segundo Deus, ele define Deus, com um, espírito onisciente e todo-poderoso que está dentro de nós. Como ele é onipresente, sempre consegue estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Para o autor assim também é a mídia poderosa, presente sempre em toda parte em todos os momentos.
Deus é um espírito onisciente e todo-poderoso que está dentro e fora de nós. Deus está sempre conosco porque é onipresente. É um mistério, e não poderemos nunca entendê-lo. Em termos gerais esta é a descrição de Deus do modo que nossos pais a aprenderam, mas esta descrição aplica-se também à mídia eletrônica: “um segundo deus”, criado pelo homem.73
71 72

SCHWARTZ, Tony. Mídia O Segundo Deus. São Paulo: Summus Editorial, 1985, p. 05. RAMONET, Ignácio. Propagandas Silenciosas – Massas, Televisão e Cinema. Petrópolis: Vozes, 2002, p.41.

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A mídia, os meios de comunicação de uma forma em geral são oniscientes, uma vez que conseguem estabelecer um senso comum para os fatos. Eles transmitem a todos a mesma informação, letrados ou analfabetos, basta uma simples ação do próprio homem, ligar seu aparelho de comunicação. Schwartz lembra que os meios de comunicação afetam profundamente as atitudes de uma comunidade, as estruturas políticas e o estado psicológico de todo um país. Seu poder é tão grande que pode mudar o curso da história, como por exemplo, provocando ou abortando uma guerra.
À maneira de Deus, a mídia pode alterar o curso de uma guerra, arrasar um presidente ou um rei, elevar os humildes e humilhar os orgulhosos. Os meios de comunicação conseguem dirigir a atenção de milhões de pessoas sobre o mesmo caso e da mesma maneira, como por exemplo, a cobertura dada às audiências do processo Exército X McCarthy, levando o processo a milhares de telespectadores ao mesmo tempo, e destruindo quase que instantaneamente a carreira do senador.74

Já dizia Marshall McLuhan que: ”as vozes eletrônicas não têm corpo, e, na verdade, todo o output da mídia eletrônica é invisível; esse output assemelhava-se a um anjo”. 75 Na realidade, este segundo “deus” é imperfeito e altamente influenciado pelo poder político e econômico. A moral, os bons princípios e a ética, pontos fundamentais em toda sociedade, são absorvidos pela mídia a sua própria maneira, sendo assim, do modo que lhe convém. Um deus sem estes princípios tão importante é um deus perigoso, dado o seu grande poder de persuasão e difusão.
Muitos comentam que este deus aprecia a violência, está muito envolvido com banalidades, e, ocasionalmente podemos pedir-lhe que altere seus hábitos. Apesar de ter sido criado por nós, este segundo deus parece ter o poder de agir 76 independentemente.

Seria a criatura superando o criador, ou o criador manipulando a criatura para seus próprios e obscuros interesses? A resposta para este questionamento é simples, uma vez que, criador e criatura se fundem em um mesmo elemento. A mídia deveria no contexto integral para qual foi criada, atender os interesses da sociedade, deveria ser um instrumento social diário em poder da sociedade e trabalhando para que esta sociedade pudesse ser melhor em todos os aspectos.

73 74

SCHWARTZ, Tony. Mídia O Segundo Deus. São Paulo: Summus Editorial, 1985, p. 19. Idem, ibidem, p.20. 75 MCLUHAN. Maeshall, apud,SCHWARTZ, Tony. Mídia O Segundo Deus. São Paulo: Summus Editorial, 1985, p.21. 76 Idem, ibidem.

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1.2.1 Mídia - Propagandas Silenciosas e suas mensagens subliminares Tony Schwartz, ainda, aborda a questão da problemática produzida pelos efeitos colaterais da mídia. Quem pode prever o efeito que uma notícia pode causar em toda uma sociedade? Para Tony os efeitos são mais poderosos e perigosos do que a mensagem pretendida. Uma campanha publicitária tem como objetivo aumentar suas vendas; uma campanha política tem por escopo aumentar seus votos. Os resultados de cada um podem ser calculados, mas como tudo na vida, para estes também existem os chamados efeitos colaterais, estes por sua vez completamente indefiníveis, “(...) as pessoas que assistem e ouvem tais mensagens não o fazem da mesma maneira que aqueles que as planejaram: o público responde de acordo com o contexto de sua própria problemática de vida”. 77 Desta forma se pode calcular os resultados aparentes, mas não podemos calcular os efeitos colaterais, haja vista, cada um responder de acordo com aquilo que vivencia, como poderemos definir os sentimentos que cada notícia ou informação pode provocar nas pessoas que a recebem. Falando em informação, abriremos aqui, breve espaço, para debater a respeito da mensagem subliminar contida nas propagandas silenciosas. Toda a informação ou entretenimento advindo da mídia, trás sempre uma mensagem subliminar daquilo que no fundo se quer dizer. Mas esta informação não vem com apenas uma, mas várias mensagens subliminares. Entre elas e mais importante para os homens do poder econômico, a da publicidade, influenciando os milhões de sedentos pela informação a consumirem, principalmente os produtos ofertados. De acordo com Tony Schwartz, os comerciais mais eficientes, não dão diretrizes, de qual atitude tomar ou como reagir. Eles lançam estímulos cuidadosamente escolhidos, implantando subjetivamente o comportamento ou reação desejada, ou seja, induzindo indiretamente o consumidor.
Uma série de comerciais da A. T. & T. servem como exemplo. Os comerciais mostravam um relacionamento agradável, íntimo e amoroso entre pessoas, familiares e amigos falando ao telefone. A trilha sonora da música “Feeling” servia de pano de fundo para a cena, transmitindo a alegria das vozes das pessoas ao telefone. Nada mais. Ninguém induzia o espectador a fazer uma ligação interurbana. Ninguém dizia: “Telefone”. O comercial não “dirigia” o público para que fizesse

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SCHWARTZ, Tony. Mídia O Segundo Deus. São Paulo: Summus Editorial, 1985, p.26.

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ligações interurbanas, mas fazia com que este mesmo público “tivesse vontade” de fazê-las.78

São movidos por estes desejos, por estas mensagens implícitas, que muitas pessoas que não tem meios financeiros, para adquirir o que oferta o comercial, podem ser levadas a cometer delitos dos mais variados tipos. Alguém pode dizer que, esta não deve ser uma desculpa para o crime, mas neste momento o desejo é mais forte e se o delito é meio para a obtenção deste desejo, então assim será. Quando no capítulo anterior falamos em sociedade de riscos nascida a partir das novas tecnologias, relatamos que, a sociedade estava caminhando para uma “sociedade de inseguranças”. Esta visão de insegurança pode ser interpretada pelos novos meios de praticar o delito e este desejo imensurável de ter e possuir, resultando assim, em crimes e conseqüentemente “inseguranças”. Outro meio de comunicação utilizado para implantar desejos e comportamentos, são os produtos culturais, estes formados basicamente por filmes, programas de TV, novelas e seriados. Como diz Ramonet: “[...] a precisão do marketing comercial permite a esses gigantes da mídia oferecer produtos (em particular um filme ou um programa de TV) perfeitamente ajustados aos desejos dominantes, além de estimular a demanda ou mantê-la”.79 Ignacio Ramonet, em seu livro Propagandas Silenciosas – Massas, televisão, cinema; aborda com muita peculiaridade o tema, retratando a desconfiança a respeito da indústria cultural e sua propaganda silenciosa. Para o autor esta desconfiança se funda em três apreensões.
1) que ela reduza os seres humanos ao estado de massa e entrave a estruturação dos indivíduos emancipados, capazes de discernir e de decidir livremente; 2) que ela substitua, no espírito dos cidadãos, a legítima aspiração à autonomia e à tomada de consciência por um conformismo e uma passividade perigosamente regressivos; 3) que ela propague, enfim, a idéia de que os seres humanos desejam ser fascinados, alienados e enganados na esperança confusa de que uma espécie de satisfação hipnótica os fará esquecer, por um instante, o mundo absurdo, cruel e trágico em que 80 vivem.

78 79

SCHWARTZ, Tony. Mídia O Segundo Deus. São Paulo: Summus Editorial, 1985, p.62. RAMONET, Ignácio. Propagandas Silenciosas – Massas, Televisão e Cinema. Petrópolis: Vozes, 2002, p.10. 80 RAMONET, Ignácio. Propagandas Silenciosas – Massas, Televisão e Cinema. Petrópolis: Vozes, 2002, pp.08-09.

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As três apreensões de Ramonet deixam hoje o patamar da desconfiança, para a certeza de que a humanidade caminha a passos largos para um senso cada vez mais comum de coisas cada vez mais importantes. O dito popular “rouba, mais faz”, já caiu na graça povo e cada dia é maior o número de pessoas que concordam com tal atrocidade. Para confirmar este fato, basta observarmos os inúmeros políticos condenados pelos mais diversos delitos, e mesmo assim, reeleitos. Depois desta abordagem acerca das mensagens subliminares e as ditas propagandas silenciosas, voltemos à questão da necessidade que o homem tem pela informação, seus efeitos e o que dentre ela é realidade natural e realidade construída.

1.2.2 Notícia: uma Realidade Construída em detrimento do estado de inocência Receber uma informação, se inteirar das notícias do Brasil e do Mundo, são tarefas cotidianas e obrigatórias na vida de cada cidadão. Ao chegarmos ao trabalho, conversamos com quase todo mundo, como foi o futebol do fim de semana, se alguém assistiu aquela matéria bombástica e outras coisas mais; ao sairmos do trabalho ligamos logo no carro o rádio, queremos saber o que se passa ao nosso redor; ao chegarmos em casa ligamos de imediato a TV, queremos informações sobre as últimas e mais importantes notícias do dia; antes de irmos para cama, uma rápida passada pela internet, que por muitas vezes se estende por horas. Toda esta rotina é influenciada pela obsessiva necessidade da informação. A mídia como o próprio nome sugere, desempenha o papel de mediadora entre o sujeito e a notícia, ou seja, ela é o instrumento que media a realidade levada às pessoas, através dos mais variados meios de comunicação. Maria Grelolin relata sem receio o lado negro da mídia, afirmando que a realidade que recebemos é uma realidade construída de acordo com os interesses de cada veículo de comunicação.
Os textos da mídia oferecem não a realidade, mas uma construção que permite ao leitor produzir formas simbólicas de representação da sua relação com a realidade. [...] O real é, pois, sobre determinado pelo imaginário, nele os sujeitos vivem

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relações e representações reguladas por sistemas que controlam e vigiam a aparição dos sentidos.81

A tendência é de que cada receptor entenda a mensagem a sua maneira, mas precisamente, de acordo com aquilo que está vivenciando. Sendo assim dentro da realidade construída pela mídia, o leitor ou telespectador irá conseqüentemente criar uma nova realidade embasado no que recebeu e naquilo que já possui. Baczko já dizia: “Funcionando como uma extensa rede de criação de símbolos que, por sua vez, alimentam o imaginário social, a mídia constitui verdadeiras comunidades de imaginação ou comunidade de sentido”.82 O poder dos meios de comunicação é tão grande que estes podem fazer de mocinhos bandidos e de bandidos mocinhos. O discurso jornalístico, sempre direcionado, articula-se com saber e com poder.
Quanto ao poder, à relação entre a chamada grande imprensa, as elites e os detentores do poder aparecem na forma daquilo que Mattiussi (1997) chama de “denuncismo”: o uso da imprensa para legitimar as atitudes de uma autoridade política ou conferir tratamento pejorativo aos fatos a ela relacionados. A mídia cria, portanto, mocinhos e bandidos, heróis e derrotados. 83

Analisando as palavras de Pedro Barbosa, diríamos que aí sim mora o perigo. Perigo de ir além do que se pode e deve; perigo de passar da informação a propriamente dita opinião; perigo do pré-julgamento, ou até mesmo, de uma pré-condenação. Quando a imprensa atribui determinado delito a alguém, paira no ar até então a incerteza da culpa. Porém a partir do momento que ela faz um pré-julgamento, o sujeito passa a ser culpado, não sendo respeitado aqui o princípio norteador do direito penal e garantia constitucional, o de estar em estado de inocência até sentença condenatória irrecorrível. A mídia provoca com isto a violação de tão importante princípio, pré-condenando o suspeito, uma vez, que fora feita a exposição de sua imagem. Se comprovada a culpa, tudo certo, a mídia acertou no julgamento antecipado. Mas se os veículos de comunicação erram o que fazer então, quando a moral da pessoa já fora completamente denegrida? Em muitos casos existe a chamada retratação, mas, até que ponto ela realmente surte efeito? Danos morais e a imagem revertidos em dinheiro? Ou tudo termina em nada, afinal isto é liberdade de impressa.

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GREGOLIN. Maria do Rosário. Discurso e Mídia: a cultura do espetáculo. São Paulo: Claraluz, 2003, p.97 e 98. 82 BACZKO, 1984, apud, GREGOLIN. Maria do Rosário. Discurso e Mídia: a cultura do espetáculo. São Paulo: Claraluz, 2003, pp.97-98. 83 BARBOSA. Pedro Luis Navarro, apud, GREGOLIN. Maria do Rosário. Discurso e Mídia: a cultura do espetáculo. São Paulo: Claraluz, 2003, p.113.

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Durante o período da ditadura militar, a imprensa teve sua liberdade suprimida. Com o advindo da fase democrática, os meios de comunicação tomavam um importante e fundamental papel na sociedade, o de fiscalizador e controlador do poder e dos desmandos do Estado. Este é um poder positivo da mídia e que deve a qualquer custo ser mantido. Todavia há que se esclarecer que o limite da liberdade de imprensa deve terminar no exato momento onde começa a violar os direitos de qualquer cidadão. Deixar a imprensa livre para noticiar é um risco que devemos correr ou não, isto depende do levantamento acerca do verdadeiro papel desempenhado pelas redes de comunicação na sociedade atual, pois, muitas dúvidas ainda pairam sobre a questão.
Estes riscos relacionados à diplomacia da televisão levantam algumas dúvidas sobre o papel das redes de comunicação, cuja resposta a qualquer questionamento sobre seus valores e ações é bastante simples: liberdade de imprensa. Não nos devemos esquecer, todavia, serem as redes de comunicação grandes empresas multinacionais. Sem comprometer a liberdade de imprensa, devemos achar uma resposta para a seguinte pergunta: deveriam as redes de comunicação ser os principais árbitros e os mais influentes porta-vozes dos problemas econômicos, sociais, tecnológicos e políticos?84

Todos os dias são inúmeros os flagrantes em que a mídia atua como árbitro sobre os mais diversos assuntos que cercam a sociedade. Os meios de comunicação têm por sua natureza o poder de formar opiniões. Às vezes boas muitas vezes ruins. Às vezes certas outras muitas erradas.

1.2.3 Presumidamente Culpado: o pré-julgamento da imprensa Em meio a tanta agilidade e voracidade na divulgação da informação, o jornalista muitas vezes esquece de verificar a veracidade do fato. Não, o jornalista não se esquece, apenas põe de lado tal questão, pois, no mundo da mídia o mais importante é a audiência, ou mesmo a tiragem do jornal, ou a quantidade de acessos nos sites de notícias. Afinal, o que é levado em consideração é o interesse econômico e notícia ruim vende mais que notícia boa. Para respaldar o que falamos basta observarmos durante alguns dias a quantidade de patrocinadores nos programas policiais e a quantidade de empresas que patrocinam outros tipos de programas. A análise com certeza será rápida e a resposta óbvia, a desgraça alheia, sempre vende mais.

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SCHWARTZ, Tony. Mídia O Segundo Deus. São Paulo: Summus Editorial, 1985, p.80.

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É o chamado sensacionalismo desregrado, a teatralidade da TV, o espetáculo da notícia o reality show, ou melhor, o show da vida real. Como exemplos atuais podemos citar: o caso dos Irmãos Cravinhos 85; ou ainda o caso Isabela Nardoni86 ou mesmo o caso Eloá, o qual abordaremos mais adiante. Todos estes casos são tragédias da vida humana, catástrofes familiares, que na voz da imprensa se transformaram em grandes espetáculos midiáticos. Recentemente o povo brasileiro pode acompanhar por todos os meios de comunicação o desfecho do caso Eloá, a moça de 15 anos e a amiga Nayara, foram mantidas reféns por mais de 100 horas. O caso espetacularizado pela mídia teve um fim trágico com a morte da garota. Eloá levou um tiro na cabeça, ainda não ficou comprovado se o tiro partiu da arma do namorado Lindemberg que a mantinha refém. Se alguém tinha dúvidas do que era a guerra da audiência, com certeza pode esclarecer com a transmissão deste caso. Numa briga implacável as emissoras de televisão chegaram a se intrometer nas negociações. Apresentadores de programas conversavam com o seqüestrador ao vivo por telefone. Será que a mídia agora além de pré-julgar e condenar, também irá querer negociar com os bandidos e depois comandar o inquérito policial? Com certeza o papel da imprensa neste caso não pode ser esquecido e deve ser amplamente debatido em todos os âmbitos.
Talvez tudo tivesse terminado ali mesmo se a Rede TV! por meio de Sônia Abrão e do repórter Luiz Guerra, tivesse respeitado o fato de que um seqüestro deve ser negociado por um negociador profissional que estuda anos e mais anos na teoria e na prática para estar apto a solucionar um problema desta magnitude. Esta intromissão pode ter custado a vida de Eloá e a dor de Nayara, além do sofrimento dos amigos e familiares, bem como de toda sociedade. Outra emissora que também explorou o caso foi a Rede Record, que por meio de sua equipe de jornalismo e do apresentador Brito Júnior também entraram em contato com o seqüestrador Lindemberg, com o único objetivo de aumentar sua audiência, sem se importar com as duas meninas que estavam sob a mira da arma de um inconseqüente. O trágico resultado todos nós vimos e se hoje o Brasil inteiro chora pelo desfecho trágico, devemos creditar uma

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O casal Manfred e Marísia von Richthofen foi assassinado em casa, no Brooklin (zona sul de São Paulo), em 31 de outubro de 2002. As vítimas foram surpreendidas enquanto dormiam e golpeadas com bastões, ainda na cama. Dias após o crime, Suzane, com 19 anos, o então namorado, Daniel, e o irmão dele, Cristian, foram presos. Eles serão julgados por duplo homicídio triplamente qualificado --motivo torpe, meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima. Disponível em: <www.folha.com.br> Acessado em 16 nov. 08. O caso Isabella Nardoni refere-se à morte da menina brasileira Isabella de Oliveira Nardoni, de cinco anos de idade, que foi jogada do apartamento de seu pai localizado no sexto andar do Edifício London no distrito da Vila Guilherme, em São Paulo, na noite do dia 29 de março de 2008. O caso gerou grande repercussão nacional e, em função das evidências deixadas no local do crime, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, respectivamente pai e madrasta da criança, atualmente são réus de ação penal e respondem por homicídio doloso triplamente qualificado (art. 121, § 2°, incisos III, IV e V). Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/caso_Isabella_Oliveira_Nardoni> Acessado em 16 nov. 08.

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considerável parcela de culpa à Imprensa Marrom que pensa apenas na audiência sem se importar com a vida das pessoas. 87

Apesar de na maioria das vezes o Congresso parecer omisso o caso Eloá, porém, foi abertamente discutido em Brasília pelas comissões de Defesa do Consumidor e de Ciência e Tecnologia, Comunicação e informática da Câmara dos Deputados. De acordo com a repórter Kátia Buzar da Agência do Brasil, o caso ficou conhecido como: “Espetacularização da Notícia”, devido o excesso de intromissão no desfecho do caso da menina de Santo André. 88 Os deputados assistiram durante a audiência vídeos do caso da adolescente. Segundo o deputado Ivan Valente do P-SOL de São Paulo os vídeos comprovaram que os veículos de comunicação interferiram na ação da polícia.
Nós chamamos as emissoras porque tiveram claramente participação no desfecho trágico do caso Eloá; quebrou-se o código de ética e se extrapolou os limites em busca de audiência. A informação virou uma grande mercadoria que visa ao lucro. A espetacularização da notícia não contribui com o interesse público e com os direitos da cidadania. 89

Na concepção de Venício Arthur de Lima, pesquisador da Universidade de Brasília a difusão da violência é cada vez maior na busca desesperada pela audiência.
A busca de audiência a qualquer custo não pode ser o único critério. Existe uma ambiência sócio-cultural da mídia de massa e o conteúdo da violência é cada vez maior pela ausência do controle do conteúdo da programação. 90

Em meio a toda esta disputa, onde está o Ministério Público que não se posiciona, no sentido de limitar esses exageros? Na visão de Neli procurador do município de Taubaté – São Paulo, os policiais e membros do Ministério Público, estão fazendo da mídia a ordália do século XXI, como exemplo citando o caso da mãe que foi presa acusada de colocar cocaína na mamadeira do filho.
A menina que ficou presa 32 dias, por ter supostamente dado drogas para a criança foi julgada e condenada pelo corpo hospitalar e policiais, a apenada quando foi colocada em uma cela com outras prisioneiras sem uma contra-prova. E o estupro que essa menina teria sofrido no Hospital está sendo tratado como coisa de menor importância. Dois crimes hediondos contra uma mesma senhora: acusá-la injustamente e não por o estuprador numa cela. Será que a presunção de inocência não deveria ter prevalecido quando “suspeitaram” que a criança teria sido morta por 91 dosagem de cocaína?

87 88

Disponível em: <www.agencia.brasil.gov.br> Acessado em 16 nov. 08. BUZAR, Kátia. Disponível em: <www.agencia.brasil.gov.br> Acessado em 16 nov. 08. 89 VALENTE, Ivan. Disponível em: <www.agencia.brasil.gov.br> Acessado em 16 nov. 08. 90 LIMA, Venício Arthur de. Disponível em: <www.agencia.brasil.gov.br> Acessado em 12 nov. 08. 91 NELI. Consultor Jurídico. Disponível em: <www.conjur.com.br> Acessado em 16 nov. 08.

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O procurador bradou toda a sua indignação afirmando que “a presunção de inocência foi para as calendas”.92 Afinal como não se revoltar, quando casos como este em que se ficou provado a inocência da mãe, é tratado sem nenhum respeito ao que é previsto na Constituição, presunção de inocência, julgamento justo, contraditório, ampla defesa e tudo mais. Esta mulher com certeza jamais conseguirá apagar da memória tudo o que passou. Ela não pôde chorar a morte de seu filho ou sepultá-lo, pois, enquanto isto ocorria, ela estava sendo presa, surrada e estuprada. Como diz aquela famosa frase da música Revanche: “E agora, quem vai pagar por isso?” 93 A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e o Ministério Público (MP) são dois instrumentos que poderiam coibir esses exageros provocados pela mídia sensacionalista. Mas, notamos que na maioria dos casos tanto um quanto o outro se fazem omissos. Preferem não se pronunciar, ou melhor, não tomar partido. Essas duas instituições realmente, não podem e não devem tomar partido, pois o partido delas por Lei é obrigatoriamente a defesa dos direitos e garantias fundamentais do cidadão brasileiro. No caso em questão se o MP, a OAB ou mesmo o juiz que poderia ter concedido a liberdade provisória, tivessem feito prevalecer o estado de inocência, com certeza o dano hoje teria proporções bem menores. Depois do fato consumado muitas são as desculpas. De acordo com o Juiz de Direito da Vara do Júri e da Infância e da Juventude de Taubaté – São Paulo, Marco Antônio Montemor, no referido caso de Taubaté, a mãe foi presa em flagrante delito.
A libertação da senhora deu-se após comprovação técnica especializada (laudo de exame químico toxicológico, elaborado a partir dos vestígios materiais apreendidos para justificar a prisão) de que não se encontram vestígios de cocaína, como apurados inicialmente pela autoridade, em ditas amostras. A concessão da liberdade deu-se, fundamentalmente, em nome e em respeito à presunção de inocência. 94

Com certeza neste caso o princípio do estado de inocência foi aclamado tardiamente. Se o referido princípio tivesse sido respeitado como deveria, esta senhora teria recebido de pronto a liberdade provisória. O advogado Marcelo Galvão de São José dos Campos, afirmou que o juiz deixou-se levar pelo clamor público.
O desrespeito ao princípio fundamental da presunção de inocência continua, a todo o vapor, a fazer vítimas. Apesar dos casos clamorosos (Escola de Base, Ibsen Pinheiro, Eduardo Jorge, Ali Mazloum e tantos outros), a mídia e algumas “otoridades” ávidas por notoriedade ainda não se deram conta de suas condutas
92 93

Idem, ibidem. LOBÃO. Revanche, [1986?]. 94 MONTENOR, Marco Antônio. Disponível e: Consultor Jurídico, <www.conjur.com.br> Acessado em 16 nov. 08.

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predatórias. [...] O laudo definitivo descartou a existência de cocaína. O juiz, mais que depressa, mandou soltar a moça que jamais deveria ter sido presa preventivamente. O juiz na certa se guiou pelo barulho da mídia e o clamor público 95 (clamor igual aos das detentas). E tudo continua como dantes da terra de Abrantes.

Ora, se o juiz, aplicador das leis se deixar levar pelo clamor público, então com certeza não teremos mais a correta e justa aplicação do Direito. Segundo Neli a OAB deveria coibir também o Ministério Público de oferecer denúncia contra acusado na mídia, em especial aqueles que estão sujeitos ao tribunal do júri, pois, de acordo com ele o júri já estará a par do caso pela mídia, isto significa na visão da mídia, havendo desta forma um pré-julgamento pelo componente do júri mesmo antes do julgamento começar. Do ponto de vista dele: “Quando o acusado for a júri os jurados estarão “conhecendo” o processo num prejulgamento”. 96 Se o Ministério Público e a Ordem dos Advogados do Brasil se omitem, quanto à obrigatoriedade de se fazer respeitar o estado de inocência, cabe ao acusado em frustrada tentativa, invocá-lo mediante seu advogado de defesa, se a defesa é pública, resta-lhe ainda contar talvez com a graça divina. As posições estão a um ponto tão invertidas que hoje é o acusado que deve provar a sua inocência e não o contrário a justiça provar que o acusado é culpado.
Parece-me que está sendo quebrado o “due processo of Law” repristinando-se à Idade Média como nas Ordálias e a ordália é a mídia [...] lançar “a suspeita” ou “a culpabilidade” de alguém pela imprensa. A OAB deveria se atentar para isso, pois independentemente da “culpabilidade” do acusado, no Estado de Direito não pode ser quebrado com as denúncias ofertadas na mídia pelo Ministério Público sob o nome de entrevista coletiva ou quando ocorre um crime subliminarmente se lançam palavras contra o suspeito [...] Depois, acha-se o verdadeiro culpado ou a denúncia é descabida: os contribuintes arcarão com os prejuízos, nas penas indenizatórias? A sociedade deveria se preocupar com a quebra do Estado de Direito [...] Urge-se 97 restabelecer o Estado de Direito no âmbito criminal.

Culpar e julgar primeiro, verificar os fatos depois. Nos últimos tempos inverter a ordem dos procedimentos tem sido atitude comum não só da mídia, mas também, de importantes órgãos que deveriam vigiar a correta aplicação da Lei. O exemplo mais recente e escabroso trata-se da “Lista Negra dos Políticos”, divulgada amplamente pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) em seu site e difundida aos quatro cantos por todos os veículos de comunicação.

95

GALVÃO, Marcelo. Disponível em: Consultor Jurídico, <www.conjur.com.br> Acessado em 16 nov. 08. 96 NELI. Disponível em: Consultor Jurídico, <www.conjur.com.br> Acessado em 16 nov. 08. 97 Idem, ibidem.

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A AMB, não só violou o princípio do estado de inocência, mas indiretamente deu as costas a Constituição Federal, burlando garantias fixadas como pedra em nossa Constituição.
A percepção pública é que uma associação de magistrados é a reunião das pessoas que exercem o poder judiciário, daí a enorme autoridade moral, confundível até mesmo com a instituição que os associados encarnam. Ora, como podem aqueles que têm a missão de julgar emitir um juízo de valor antes desse pronunciamento e da própria defesa? E, por mais que o neguem, emitem -sim!- juízo de valor, que se traduz no adjetivo “suja” que acabou pespegado à tal lista. Não é função da AMB dar informações ao eleitorado. Seu gesto não foi, portanto, puramente informativo. Na verdade, o juízo de valor negado está embutido na mensagem de que os magistrados brasileiros reprovam as candidaturas de acusados que não foram julgados ou dos que nem sequer puderam se defender. 98

A atitude só não se tornou pior, por não faltar pessoas que reprovassem tal posicionamento, comprovando que ainda existem aqueles que cobram que a Carta Magna seja respeitada não importando sua posição dentro da sociedade. O presidente co Conselho Deliberativo do Instituto de Defesa do Direito de Defesa, interpretou como negativa a atitude da AMB de divulgar a referida lista. Para o advogado este foi um presente para a mídia escandalosa, que sobrevive do infortúnio alheio.
Escravos aos leões, enforcamentos em praça pública, autos-de-fé com gente ardendo na fogueira sempre foram, ao longo da história, campeões de audiência. Nossa sociedade midiática só aprofunda o sucesso das execuções sem julgamento e sem 99 “formalidades” que protejam os direitos individuais.

Será que apesar de tantas violações aos princípios fundamentais do homem, contrariando os dispositivos constitucionais primordiais, existiria uma fórmula ou um antídoto, se não para acabar de vez, mas minimizar esta doença de negação e desrespeito a Carta Magna?

1.2.4 REMÉDIOS PARA OS ERROS FOMENTADOS PELA MÍDIA A retratação é um dos meios utilizados para de certa forma, tentar concertar aquilo que se fez ou disse. Luiz Leitão, no jornal eletrônico “Observatório da Imprensa”, citou um bom exemplo deste remédio chamado retratação.
Há algum tempo, o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, veio a público pedir desculpas a um grupo de irlandeses, vítimas de um grosseiro erro judiciário-policial que os manteve presos por cerca de 17 anos, sob a acusação de manipularem

98

FILHO, Arnaldo Malheiros. Disponível em: <http://blogdofavre.ig.com.br/2008/07/presuncao-deinocencia-atropelada> Acessado em 12 nov. 08. 99 Idem, ibidem.

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explosivos, até que ficou definitivamente provada a sua inocência. Tudo com base em provas "científicas" que, mais tarde, se mostraram falsas. 100

A retração pode ser utilizada como um meio de se envergonhar e pedir desculpas publicamente pelo erro cometido. Outro artifício pode ser a chamada ação por danos morais e a imagem. No site Consultor Jurídico encontramos uma notícia em que o juiz da 4ª Vara Cível de Brasília, Robson Barbosa de Azevedo, condenou a TV Globo a pagar uma indenização no valor de R$100.000,00 (cem mil reais). 101
[...] o juiz da 4ª Vara Cível de Brasília, Robson Barbosa de Azevedo, condenou a TV Globo e o deputado federal Rodrigo Maia (DEM-RJ) a pagar 100 mil reais de indenização ao assessor parlamentar Luiz Carlos da Silva por associar, indevidamente, o seu nome com o chamado "escândalo do mensalão". Além disso, a TV Globo deverá "divulgar o inteiro teor da sentença nos mesmos programas nos quais foi publicada a lista que originou o dano moral, no prazo de 60 dias, sob pena de multa de R$ 50 mil por dia de descumprimento da ordem judicial (Processo: 2005.01.1.107480-8).102

Outro caso que também foi revertido em perdas e danos foi o da Escola Base, localizado no bairro da Aclimação na capital São Paulo. A notícia absurdamente divulgada pela mídia não passou de um erro gravíssimo. Em1994 seis pessoas, entre elas os donos da escola, funcionários e um casal de pais, foram acusados de estarem envolvidas no abuso sexual de crianças que ali estudavam. Segundo as notícias o motorista da escola, levava as crianças no horário das aulas para a casa do casal de pais, onde os abusos eram cometidos e filmados. Sem verificar a veracidade dos fatos e violando o princípio da presunção de inocência o delegado responsável pelo caso divulgou as informações à imprensa, que transformou o caso em mais um espetáculo. Quando veio a confirmação de que tudo não passava de um erro, a escola já havia sido depedrada, os donos já estavam falidos, além de todos os acusados, sofrerem constantes

100

O nome do assessor parlamentar apareceu em matérias veiculadas no Jornal Nacional da Rede Globo nos dias 14, 15 e 19 de julho de 2005. Essas matérias foram, à época, objeto de artigo neste OI sob o título "Jornal Nacional: Edição no limite da irresponsabilidade". Luiz Carlos da Silva foi incluído numa lista de pessoas que estiveram na agência do Banco Rural do Brasília Shopping a serviço de 9 (nove) deputados do PT, que se tornaram também suspeitos. Nessa agência, como se sabe, foram feitos saques destinados a deputados acusados de envolvimento com a corrupção. A lista era resultado de um cruzamento feito pela liderança do então PFL entre nomes que surgiram na investigação conduzida pela CPMI dos Correios e relação de funcionários e exfuncionários da Câmara dos Deputados, tendo sido encaminhada à Rede Globo pelo deputado Rodrigo Maia, hoje presidente do DEM. Disponível em <www.conjur.com.br> Acessado em 12 nov. 08. 101 LIMA, Venício A. de. Disponível em: Consultor Jurídico, <www.conjur.com.br> Acessado em 12 nov. 08. 102 Disponível em: Consultor Jurídico, <www.conjur.com.br> Acessado em 12 nov. 08.

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ameaças de morte. Dava-se início então, a uma incansável batalha judicial por indenizações. De acordo com informações do site O Globo Online “Além da empresa „Folha da Manhã‟, outros órgãos de imprensa também foram condenados, além do Governo do Estado de São Paulo. Outros processos de indenização ainda devem se julgados”. 103 Entre os processos já julgados, um destaque especial para a Rede Globo de Televisão que foi condenada a pagar mais de um milhão de reais em indenizações.
Icushiro Shimada, Maria Aparecida Shimada e Maurício Monteiro de Alvarenga devem receber, cada um, o equivalente a 1,5 mil salários mínimos (R$ 450 mil). Os jornais O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e a revista IstoÉ também já foram condenados. Em todos os casos já julgados, ainda não houve decisões do Superior Tribunal de Justiça. Segundo o site Espaço Vital, a decisão contra a Globo foi tomada por unanimidade na manhã de quarta-feira pela 7ª Câmara de Direito Privado do TJ-SP. O TJ entendeu que a atuação da imprensa deve se pautar pelo cuidado na divulgação ou 104 veiculação de fatos ofensivos à dignidade e aos direitos de cidadania.

Façamos uma análise: nós temos um lindo vaso de cerâmica, certo dia com muita pressa ao limpá-lo o deixamos cair. O valioso vaso se quebra em vários pedaços, como remédio juntamos todas as partes e vamos colando uma a uma até montá-lo novamente. Os antes pedaços agora voltam a ser o nosso vaso, mas será este o mesmo dantes, terá ele ainda o mesmo valor? Esta é uma reflexão importante, quando se pensa na violação da presunção de inocência. Muitos autores falam em retratação, direito de resposta, danos morais e a imagem, mas devemos ir, além disso, precisamos urgentemente nos preocupar com a retomada dos valores humanos, na retomada da moral e dos bons costumes, no restabelecimento do respeito mútuo entre as pessoas. É preciso urgentemente invocar o princípio do estado de inocência, fazendo com que ele seja respeitado, de maneira a frear, impor limites, aos excessos provocados pela mídia. Repercutir uma notícia não significa ter que espetacularizá-la. Muitas vezes um fato deixa de ser notícia, para virar cenas de cinema, com vários holofotes, câmeras e até mesmo helicópteros. Vanice Sargentini costuma dizer: “Escapar do espetáculo não é fácil, talvez nem seja possível”. 105 Para P. Nora “a lei do espetáculo é a mais totalitária do mundo livre”. 106

103 104

www.igutemberg.org/biblio6.htm-7k – Acessado em 12/11/08. http://noticia.terra.com.br – Acessado em 12/11/08. 105 SARGENTINI. Vanice Maria Oliveira, apud, GREGOLIN. Maria do Rosário. Discurso e Mídia: a cultura do espetáculo. São Paulo: Claraluz, 2003, p.133.

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Na concepção de Airton Franco não importa se no final do processo o suspeito será culpado ou inocente, o que tem que ser mantido é o direito de que ninguém será declarado culpado até sentença final irrecorrível. Para ele independentemente do clamor público, fomentado pelos veículos de comunicação.
A sociedade leiga, contudo, impulsionada pelo espetáculo de mídia, continua esperando do criminoso que ele confesse seu crime. O que importa como penso, é que se dê - ao homem - seus precisos direitos (previstos em lei), seja ele vítima ou autor de um crime [...] Uma norma fundamental, consoante o ensinamento de Hans Kelsen, adquire contornos tão superiores - como entendo - de modo que se perfaz alçada à divindade da norma natural que, por isso mesmo, não pode ser mais valorada, pois já se constitui de pureza irretocável, daí sua força de coação inexpugnável.107

Observando o último espetáculo proporcionado pela mídia “o seqüestro de Eloá”, podemos avaliar o poder que tem a imprensa de transferir o foco de outros acontecimentos importantes, para este acontecimento trágico. Durante dias não se ouviu falar em crise, economia, déficit, ou alguma lei importante para ser votada no senado, tudo de que se ouvia em todos os canais era “Eloá”. Olhando os fatos por este ângulo, paramos para analisar e quantos outros assuntos importantes para a opinião nacional não foram mascarados pelas notícias de tragédias, tirando a atenção do telespectador, e mantendo assim os interesses dos poderosos. O poder legislativo acusa a mídia dos excessos na transmissão das notícias, na defesa a mídia acusa o poder legislativo de falta de leis mais rigorosas para combater os altos índices de criminalidade. Rogério Greco diz que nesta briga nem um nem outro tem razão, visto que ambos são culpados e a própria natureza do homem é má.
Diariamente assistimos aos telejornais, cujos âncoras, efusivamente, atribuem a chamada “onda de criminalidade” à falta de rigor das leis penais, como se não houvesse rigor suficiente. A cada dia, nossos congressistas, com finalidades eleitoreiras, criam novas infrações penais, almejando com isso satisfazer os desejos da sociedade, que se deixa enganar pelo discurso repressor do Direito Penal. Não se iluda, pois o Direito Penal não é a solução para qualquer problema. O problema está na natureza do homem, que é má. Por isso, somente Deus pode resolver todos os problemas da humanidade. 108

O penalista com certeza tem razão no que diz, porém mesmo sendo a natureza humana má, não devemos perder a esperança, que esta maldade em nosso coração possa ser controlada e transformada em coisas boas para nós e para aqueles que nos cercam. Foi pensando neste aspecto que abrimos um último e importante quesito neste trabalho, como utilizar todo este
106

NORA. P. O Retorno do Fato. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995, p.186, apud, GREGOLIN. Maria do Rosário. Discurso e Mídia: a cultura do espetáculo. São Paulo: Claraluz, 2003, p.133. 107 FRANCO, Airton. Disponível em: <www.associacãonacionaldosdelegadosdepolíciafederal.com.br> 108 GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal. Niterói: Impetus, 2008.

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poder da mídia para a criação de uma sociedade verdadeiramente livre e humana não somente no nome, mas em toda a sua essência.

1.2.5 A Utilização adequada da mídia na redução da criminalidade A mídia quando utilizada adequadamente, pode ser um grande e poderoso instrumento para melhorar a qualidade de vida de toda uma comunidade. Ela tem por sua própria natureza potencial para criar e mudar comportamentos. Um bom exemplo deste potencial foi uma campanha realizada no Japão e que foi retratado por Tony Schwartz.
Em Osaka, o dramático crescimento da industrialização, provocou um aumento da criminalidade. Objetivando atacar o problema, a polícia utilizou-se do antigo método de sociedade centradas no grupo. Usaram o sentimento da vergonha como um meio de controlar os gangsters, a campanha dirigia-se não somente aos criminosos, como também às suas famílias, amigos e outros elementos que mantivessem contato diário com os vagabundos de rua. Isto gerou um problema junto às famílias e amigos, que se sentiram socialmente embaraçados, pressionando os criminosos a mudar de vida. O chefe de polícia de Osaka descreveu esse processo com “tentar trocar a água onde nadam os criminosos.109

Avaliando a experiência japonesa, nos deparamos com um questionamento: Porque não usar a mídia para coibir o crime ao invés de fomentá-los? Utilizar dos meios de comunicação, não para denegrir a imagem do suspeito, ou para violar o princípio da presunção de inocência, mas sim para criar hábitos morais e éticos, restabelecer os princípios tão esquecidos pela nossa sociedade. Se em uma nação, em que seu povo, valoriza a moral e os bons princípios, um determinado cidadão vier a delinqüir, seu sentimento de vergonha com relação às demais pessoas será quase insuportável. Numa sociedade onde estes princípios não são valorizados o criminoso não possui este sentimento de arrependimento. O antropólogo Edmond Carpenter descreveu certa ocasião ser possível condenar um homem á morte fazendo-o sentir-se envergonhado.
Nas sociedades orais, onde a pessoa, o indivíduo, é definido em nível coletivo, e obtém sua força a partir da estrutura social, ele freqüentemente morre quando lhe é vedado o acesso à sociedade, quando este acesso é impedido. O segredo disso tudo é que a sociedade primeiramente critica o homem através do ridículo, e depois relegálo à ignorância. Por outro lado, nas sociedades primitivas há sujeitos cuja força de caráter é tão forte que conseguem suportar a condenação imposta pela sociedade. Mas estes indivíduos geralmente fogem. O resultado é a prova de que nenhum

109

SCHWARTZ, Tony. Mídia O Segundo Deus. São Paulo: Summus Editorial, 1985, p.83.

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homem que já tenha desafiado a condenação pública consegue viver em sociedade. Eles morrem ou fogem.110

Como falar em vergonha, se atualmente vivemos em uma comunidade em que os filhos não respeitam os pais, os alunos não respeitam os professores, os vizinhos não observam o limite entre seu direito e o direito do próximo. Infelizmente, a exposição, a ridicularizarão e a banalização dos crimes, tornaram esse sentimento de vergonha praticamente inexistente. Sendo assim, parece-nos até ridícula a idéia de se querer invocar a garantia constitucional do estado de inocência em meio a uma sociedade sem parâmetros para o certo e o errado. Os espetáculos da mídia, montados sobre a violação da garantia Constitucional e o Princípio reitor do Processo Penal o Estado de Inocência, podem ser inibidos, para tanto, é preciso repensar nossos valores. É preciso acima de tudo respeitarmos a Constituição Federal, pois só, respeitando nossa Carta Magna é que conseguiremos garantir que nenhum de nosso princípios fundamentais sejam violados e que também nós não violemos os direitos de outrem. Quando à esperança parece se esvair no final do túnel sempre aparece uma luz. Este é um pensamento comum e quase que obrigatório a todos os seres humanos. É o direito de acreditar que tudo pode ser mudado, que as coisas devem e serão no futuro melhores. O novo Código de Ética dos Jornalistas aprovado no Congresso Nacional Extraordinário dos Jornalistas, realizado em Vitória nos dias 3, 4 e 5 de agosto deste ano, nos trouxe novas esperanças, principalmente quando ratificaram a presunção de inocência como um dos fundamentos da profissão. Na interpretação de Venício Lima o código vem restabelecer os limites da imprensa na obrigação de respeitar o texto constitucional.
O novo código reforça o preceito constitucional de que qualquer pessoa é inocente até prova em contrário, com o objetivo de "coibir a ação de meios de comunicação que, em sua cobertura jornalística, denunciam, julgam e submetem pessoas à execração pública. Isto é crime, mas muitas vezes sequer o direito de resposta é concedido aos denunciados. Por que não se aplicaria ao jornalista o princípio da presunção de inocência, que tem sua origem na Revolução Francesa e está consagrado na Constituição de 1988? O texto constitucional diz, no seu art. 5º, inciso LVII: "Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória". Não seria a obediência a este princípio dever elementar de qualquer cidadão e, sobretudo, dos jornalistas, independente das informações que obtiver e de sua convicção pessoal? 111
110

111

CARPENTEN. Edmond, apud, SCHWARTZ, Tony. Mídia O Segundo Deus. São Paulo: Summus Editorial, 1985, p.84. LIMA, Venício A. de. Disponível em: Consultor Jurídico, <www.observatoriodaimprensa.com.br> Acessado em 12 nov. 08.

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É simplesmente impressionante como na maioria das vezes os meios de comunicação agem, como se a lei não se aplicassem a eles, uma visão poderosa de que estes são princípios a serem obedecidos por cidadãos comuns, não por esta entidade tão magnânima. Na visão de Venício Lima, o papel da imprensa tem sido cada vez mais debatido, novas discussões têm levado a sociedade a repensar se e mídia tem exercido realmente sua função precípua a de veículo em prol da sociedade.
Por outro lado, no clima de polarização irracional de posições que o debate sobre o papel da grande mídia acaba sendo realizado (a quem interessa essa polarização?) é preciso que não se confunda a liberdade de imprensa e a responsabilidade do jornalismo em oferecer a cobertura dos fatos com uma carta branca para se colocar acima dos direitos e garantias individuais. Existe algum limite para a atuação dos jornalistas e do jornalismo? No campo da observação da mídia, essa é a discussão que se coloca e precisa ser democraticamente enfrentada. 112

Os espetáculos da mídia, montados sobre a violação da garantia Constitucional e o Princípio reitor do Processo Penal o Estado de Inocência, podem ser inibido, para tanto, é preciso repensar nossos valores. É preciso acima de tudo respeitar a Constituição Federal, pois só, respeitando nossa Carta Magna é que conseguiremos garantir que nenhum de nosso princípios fundamentais sejam violados e que também nós não violemos os direitos de outrem. Sendo assim, fica claro não ser possível obrigar a mídia a respeitar o princípio da não violação do estado de inocência, quando nos mesmos, fomentamos esses espetáculos proporcionados pelos veículos de comunicação, dando audiência a fatos que massacram nossas garantias constitucionais. Para mudar a imprensa sensacionalista é preciso que a essa mudança comece por cada um de nós.

112

Idem, ibidem.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em análise geral dos quatro capítulos apresentados neste trabalho, podemos concluir que, o “Estado de Inocência”, é uma garantia constitucional e princípio reitor do processo penal. Ele advém do próprio direito natural, fundamentado nas bases de uma sociedade livre, democrática, que respeita os valores éticos, morais, mas principalmente os valores pessoais, aqueles que têm por essência a proteção da pessoa humana. Este princípio teve como marco a Revolução Francesa, que portando a bandeira da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, trouxe ao mundo o diploma dos direitos e garantias fundamentais do homem. Estabelecido na Constituição francesa foi ratificado em 1789 no art. 9º na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, declarando que todo homem é considerado inocente, até que seja reconhecida sua culpa. Da França para o mundo, mas somente vindo a ser receptado pelo ordenamento jurídico brasileiro na Constituição de 1988. Foram quase duas décadas para que este princípio tão importante do processo penal viesse fazer parte também dos direitos e garantias fundamentais do cidadão brasileiro. A mudança da base constitucional trouxe para o direito processual penal no Brasil significativas alterações, pois as garantias fundamentais do homem vinham estabelecidas como cláusulas pétreas na Constituição, ou seja, devido sua fundamental importância foram gravadas como pedra, para jamais serem removidas. A partir daí o princípio tomava forma e força. Para alguns ele é o princípio da presunção de inocência, para outros ele é o princípio do estado de Inocência. A nomenclatura presunção de inocência, sempre foi fortemente atacada por muitos autores, segundo eles a própria constituição não presume que ninguém seja inocente, e sim declara que ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória definitiva. Nas mãos de grandes processualistas o termo ganhou diversas definições, pressuposto constitucional, dever de tratamento, ato de fé no valor ético da pessoa, entre outros. Independentemente da terminologia este princípio veio para estabelecer um novo marco nos procedimentos penais, visto que uma pessoa só pode ser tratada como culpada quando transcorrido sentença penal condenatória irrecorrível. O estado de inocência, pressuposto fundamental da Constituição de 1988, encontrou no Código de Processo Penal de 1941, este, quarenta anos mais velho, vários encalços, até hoje não resolvidos. Como exemplo podemos citar o artigo 393, II do CPP, que conflita

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diretamente com a presunção de inocência, uma vez que, lança o nome do réu no rol dos culpados, antes de sentença irrecorrível. Outro artigo do Código de Processo Penal que também era contraditório, tratava-se do 408, § 1º que expedia ordens para a captura, quando o suspeito ainda ia a júri popular, para só depois ser condenado ou não. A recente reforma ocorrida este ano revogou o dispositivo, em nosso posicionamento perdeu o legislador não entendemos o porquê a oportunidade de também revogar o art. 393. Mas além desses percalços o princípio do estado de inocência tem outros entraves, estes bem maiores e poderosos, que não se conflitam a ele, mas que o denigrem o violam diariamente. Aqui em especial falamos da mídia, como ela influência e comanda a grande massa da sociedade de inseguranças, na violação desta garantia constitucional tão importante. Ao longo dos anos a mídia (2º poder), controlada diretamente pelo poder econômico (1º poder), tem estabelecido padrões morais e sociais. Ela também tem criado através de suas propagandas silenciosas, consumidores compulsivos. Afoitos em seus desejos de consumir é o dito “Se tenho, tudo posso”. Este é o perfil da sociedade moderna, ou melhor, de consumo. Nesta nova espécie de sociedade, apegamo-nos a tecnologia, que em muito nos tem ajudado, mas ao mesmo tempo, abrimos as portas para uma sociedade de riscos. Criamos novos hábitos, novos desejos, alguns necessários, mas em sua maioria completamente desnecessários. Trocamos, invertemos a satisfação interna do ser, pela satisfação externa do ter e possuir. Emanados por estes desejos banais, muitas pessoas só estão felizes e satisfeitos, quando estão consumindo, quando compram algo. Mas logo aquele desejo é substituído por outro, e por outro, e por outro. Como nesta sociedade tudo é muito volante logo aquilo que foi adquirido é deixado de lado, sem importância, em desuso, pois criamos uma sociedade efêmera onde tudo é passageiro. É neste exato momento que damos vazão a este novo perfil de sociedade, nele as proporções de nossos desejos são tão grandes quando o risco direto que trazemos para dentro de nossas casas, para dentro de nossas vidas, da vida de nossas famílias. Nosso sentimento hoje é de medo e desconfiança. Estamos tão fragilizados que atualmente acusamos e incriminamos as pessoas antes mesmo de conhecermos a verdade, antes mesmo de o devido processo legal ser estabelecido e a questão julgada por seu juízo competente. Nesta fase em que vivemos o princípio constitucional da presunção de inocência foi posto de lado, hoje, todos são culpados até que se prove ao contrário. Este é o perfil da nova sociedade, cheia de receios e inseguranças que ela própria criou.

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O grande conflito começa então, quando esta sociedade que agora passamos a chamar de “sociedade da insegurança”, rompe os limites da lei, infringindo e desestabilizando princípios fundamentais do homem adquiridos mediante muita luta e sofrimento, passado ao longo de todo o processo de democratização de nosso país, em especial o princípio da presunção de inocência. Analisando todo o estudo realizado a cerca do tema, percebemos que a mídia tem um papel muito forte na criação deste grupo social de consumo, assim como também influencia a grande massa abertamente, sobre aquilo que para ela é a notícia real. Não existe uma preocupação em respeitar princípios constitucionais, pois na maioria das vezes os meios de comunicação acham que estão acima de tudo, como um segundo Deus. Ela pré- julga e condena na medida do que declara como certo, transforma um fato ocorrido em um espetáculo, é a chamada teatralização ou espetacularização da notícia, ocorrendo na maioria das vezes em detrimento da preservação da imagem e violação do estado de inocência. Quando a imprensa atribui determinado delito a alguém, paira no ar até então a incerteza da culpa. Porém a partir do momento que ela faz um pré-julgamento, o sujeito passa a ser culpado, não sendo respeitado aqui o princípio norteador do direito penal e garantia constitucional, o de estar em estado de inocência até sentença condenatória irrecorrível. Diante da suspeita de um crime, nem mesmo a notícia da chegada de um astro de cinema ou do discurso do presidente, ganha tanto espaço e repercussão. Se partirmos, do estudo que realizamos a cerca do princípio da presunção de inocência, podemos afirmar que não pode a mídia atuar como árbitro ou juiz nos crimes, mesmo os mais graves ou hediondos. A imprensa ao imputar certo delito a alguém, sem este ter sido condenado, viola automaticamente nossa garantia constitucional de estar inocente até que a culpa seja provada. Diante de tudo ora exposto, observamos a necessidade de proteger o suspeito da publicidade abusiva. Devemos lembrar, que a estgmatização precoce do acusado é uma violação de proporções irreparáveis a pessoa e a moral do réu. Como abordamos no Capítulo IV a mídia monta em cima de cada fato que lhe possa render audiência um espetáculo de julgamento de horrores é o reality show, o show da vida real, em que, acusado é presumidamente culpado até que se prove ao contrário, ou melhor, todos somos presumidamente inocentes até que a mídia nos impute determinado crime. Para limitar esses

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excessos cada vez mais comuns é que invocamos a não violação do princípio mais importante do processo penal o da Presunção de Inocência. Concluindo gostaríamos de frisar, que este trabalho em nenhum momento, teve a intenção de denegrir a imagem da mídia, ou seja, dos meios de comunicação, ou mesmo minimizar sua importância. Todos nós somos conhecedores de que a imprensa sempre foi parceira da sociedade e travou inúmeras lutas durante a ditadura para que todos os cidadãos pudessem ter seus direitos garantidos. A mídia como instrumento social, pode mudar a vida de toda uma nação, porém, não podemos nos esquecer que ela em mãos erradas pode se transformar numa arma perigosa. Veículo de força do poder econômico e político. Em mãos erradas ela foge da essência para qual foi criada, transformando-se em instrumento de interesse individual e não coletivo. É justamente neste contexto servindo única e exclusivamente ao interesse individual, que encontramos o perigo de ter nossos direitos suprimidos e banalizados, como ocorre com o Princípio da Presunção de Inocência retratado neste trabalho. São esses excessos de poderes centralizadores que podemos e devemos combater. Tudo deve ser feito na sua proporcionalidade, nem mais nem menos, é assim que caminharemos para um futuro melhor. A sociedade deve ser abastecida por notícias de realidade natural e não de uma realidade construída. A credibilidade e a imparcialidade aclamada por muitos veículos de comunicação, na maioria das vezes não passam de falácias. Palavras ao vento, visto que, falam uma coisa e praticam outra. Quando a mídia praticar o que prega, poderemos descansar desta vigilância exaustiva a nossos preceitos e garantias fundamentais, sabedores que o Estado de Inocência será um princípio respeitado. Ao respeitarmos este princípio não respeitaremos somente a Constituição, mas estaremos respeitando também a dignidade da pessoa humana, afinal não façamos aos outros o que não gostaríamos que nos fizessem.

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