UFPR/SCHLA

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE
Ensaios em comemoração aos 15 anos de Crítica Marxista

Org. Sérgio Braga, Pedro Leão da Costa Neto, Marcos Vinícius Pansardi e Adriano Codato.

1ª Edição Curitiba-PR

Coletânea de textos apresentados no evento realizado em Curitiba em Homenagem aos 15 anos da revista CRÍTICA MARXISTA.

Capa

Gustav Diaz
gustaveaux@gmail.com

Diagramação
Marti Pansardi martiguerreiro@yahoo.com.br

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ SISTEMA DE BIBLIOTECAS BIBLIOTECA CENTRAL COORDENAÇÃO DE PROCESSOS TÉCNICOS Ficha catalográfica Universidade Federal do Paraná. Setor de Ciências Humanas, U58 Letras e Artes. Marxismo & Ciências Humanas : leituras sobre o Capitalismo num contexto de crise: ensaios em comemoração aos 15 anos de Crítica Marxista / Org. Sérgio Braga... [et al.]. -- Curitiba, 2011. 161p. Vários autores Coletânea de textos apresentados no evento realizado em Curitiba em homenagem aos 15 anos da revista Crítica Marxista. Inclui referências e notas ISBN - 978-85-99229-08-8 1.Capitalismo. 2. Ciências Sociais – Coletânea. 3. Marxismo – Discursos, ensaios, conferências. 4. 15 anos de Crítica Marxista. I. Braga, Sérgio. II. Título. CDD 22.ed. 335.4 Samira Elias Simões CRB-9/ 755

SCHLA/UFPR,2011

Sumário

Pág.
Apresentação (Os organizadores) _______________________________ Caio Navarro de Toledo: Desafios e problemas de uma publicação marxista no Brasil: Crítica Marxista faz 15 anos._________________ Armando Boito & Luiz Eduardo Motta: Karl Marx no Brasil.________ João Quartim de Moraes: O marxismo e os impasses do capitalismo contemporâneo. ___________________________________________ Isabel Loureiro: A recepção de Rosa Luxemburgo no Brasil._______ Robespierre de Oliveira: A teoria crítica como teoria da mudança social: o marxismo de Marcuse. ______________________________ Anita Helena Schlesener: Gramsci e a cultura de seu tempo: observações sobre arte e literatura.____________________________ Marcos Vinícius Pansardi: Gramsci e as Relações Internacionais: hegemonia, dependência e imperialismo. ______________________ Francisco Paulo Cipolla: A evolução da teoria da crise em Marx. ____ Claus Germer: As tendências de longo prazo da economia capitalista e a transição para o socialismo. ______________________________ Sérgio Braga: Nicos Poulantzas, as elites e a sociologia política norte-americana. __________________________________________ Adriano Codato: Política, ciência e ideologia: sobre o "teoricismo" de Nicos Poulantzas. ______________________________________ Pedro Leão da Costa Neto: Notas introdutórias sobre o desenvolvimento do marxismo no Leste Europeu.______________ Ligia Regina Klein: A luta pelas leis fabris do século XIX e a definição das idades do trabalho: um estudo sobre a constituição das noções de infância e adolescência. ________________________ 5 7 17 27 43 59 71 85 101 117 139 165 175 185

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abrangendo desde testemunhos e tentativas de auto-análise dos editores da revista sobre a trajetória da publicação ao longo dos anos. na medida em que resultaram de debates e intervenções dos quais tomaram parte não apenas pesquisadores universitários. até ensaios nos campos da história do pensamento político. sua natureza interdisciplinar. Tudo isso explica algumas das características dos artigos contidos na presente coletânea: a) em primeiro lugar.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Apresentação (Os organizadores) Os textos que constam desta publicação resultaram de trabalhos que foram apresentados no evento Marxismo e Ciências Humanas: leituras sobre o capitalismo num contexto de crise. Mais do que uma efeméride. economia. relações internacionais e sociologia da educação. Além disso. sua perspectiva crítica já que praticamente todos os artigos reunidos nesta publicação trazem embutidos dentro de si uma dimensão “normativa” que busca refletir sobre 5 . que desde suas origens transitou por diversas disciplinas tais como a filosofia. b) em segundo lugar. e mesmo a crítica literária e cultural. a sociologia política. buscava-se ao mesmo tempo ilustrar a vocação interdisciplinar e pluridimensional desta perspectiva de análise. o evento destinava-se a debater com um público mais amplo do que aquele estritamente universitário algumas questões teóricas importantes abordadas por esta revista ─ e podemos dizer pelo marxismo de uma maneira geral ─ ao longo de sua existência. a economia. mas também uma audiência externa aos muros acadêmicos e interessada em tomar contato com algumas das contribuições gerais da problemática teórica marxista. c) por fim. realizado em Curitiba em novembro de 2009 e destinado a comemorar os 15 anos de lançamento da revista CRÍTICA MARXISTA. seu tom didático e não-academicista. filosofia. dentre outras formas de produção teórica no campo das ciências humanas. teoria política.

Tendo em vista esses fatores. a expectativa dos organizadores é a de que a presente coletânea cumpra de maneira satisfatória os objetivos não apenas de prestar uma homenagem ao esforço militante dos editores de CRÍTICA MARXISTA por terem mantido regularmente uma publicação do gênero ao longo de todos estes anos e em condições muitas vezes adversas. Sérgio Braga Pedro Leão da Costa Neto Marcus Vinícius Pansardi Adriano Codato 6 . mas também o de ilustrar para um público não estritamente especializado o vigor de um tipo específico de leitura teórico-política da realidade social moderna cujas potencialidades e desdobramentos teóricos e empíricos estão longe de terem se esgotado.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE horizontes históricos situados para além dos sistemas sociais capitalistas realmente existentes no mundo contemporâneo.

pois. diversos encontros se sucederam visando definir o projeto editorial da publicação (seus objetivos. de esquerda e marxista.. na sua maioria da Unicamp. necessariamente. o pensamento do conjunto do comitê editorial da revista Crítica Marxista. reuniram-se para discutir a possibilidade de criação de uma revista marxista. Duas formulações – amplamente difundidas pela mídia em todo o mundo – sintetizavam o contexto ideológico do período: 1) o triunfo da democracia liberal teria decretado o “fim da história” e das ideologias (Francis Fukuyama) e 2) “não existiria mais alternativa ao capitalismo” [tal como a expressão inglesa “There is no alternative” (Tina) buscava exemplificar].MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Desafios e problemas de uma publicação marxista no Brasil: Crítica Marxista faz 15 anos 1 F Caio Navarro de Toledo (Unicamp)2 ORIGENS: BREVE HISTÓRICO Dezessete anos atrás alguns professores e pesquisadores. se configuravam difíceis para os socialistas e marxistas.) bem como a busca de uma editora comercial que aceitasse publicar uma revista. a celebração do fim do socialismo e a hegemonia da doutrina neoliberal tornavam este projeto um enorme desafio intelectual e político.. Faço uma breve uma digressão de natureza “sociológica”: o que explicava a presença majoritária de acadêmicos da Unicamp na discussão desse projeto editorial? Como explicar a presença de apenas um professor da USP nestes encontros? O texto que se segue orientou a intervenção do autor na abertura do Congresso “Marxismo e Ciências Humanas”. conteúdo. ou seja. Desde 1992. 7 . periodicidade etc. Como foi esclarecido no início da sessão. 1 2 Caio Navarro de Toledo é professor colaborador do IFCH/Unicamp. as formulações aqui desenvolvidas são da estrita responsabilidade do autor. Os tempos. Nessa conjuntura histórica. não expressam elas.

Nos anos 1990. Embora nestes anos a teoria marxista nunca tivesse sido dominante no interior dos Departamentos de Filosofia. ao contrário do que tinha ocorrido nos anos 1960 e 1970. foi objeto de um famoso grupo de estudos na USP. Como também observou Roberto Schwartz. era inegável que seus docentes não eram indiferentes ao marxismo. Fernando Novais. Ciências Sociais e História da USP. Sabe-se que a obra decisiva de Marx. editada por Rui Fausto. Roberto Schwartz. na Unicamp. Ignoradas eram. de fins dos anos 1950 até início dos anos 1960. Löwy e S. Emir Sader. Na primeira. porém. Ferro. O contexto político e ideológico dos dois períodos – governo Jango e a resistência à ditadura – certamente foi decisivo para explicar o interesse pela teoria marxista. segundo alguns. embora a direita tenha sido politicamente vitoriosa em 1964. este Seminário teve duas edições. Lênin. Nos anos 1980 e 1990. ocorreram as duas edições do grupo sobre O Capital. na reflexão e nos trabalhos de vários de seus docentes. durante a ditadura. Isto explicaria que. ignorada por seus docentes.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Descartando a hipótese do sectarismo por parte dos docentes da Unicamp. estavam presentes jovens assistentes e pesquisadores. particularmente no IFCH. entre eles. a obra de Marx interessava basicamente pelo seu caráter metodológico). o marxismo era uma referência importante e obrigatória nas aulas. Assim. as obras de Engels. de fato. Rosa bem como as de outros clássicos do marxismo. se a obra de Marx não era regularmente ministrada nas disciplinas de graduação da USP. José Arthur Giannotti. Emília Viotti. edição – segundo um artigo de E. A rigor. O capital. na sua 2ª. sim. Michel Löwy. Isto se evidenciaria pelo título da revista criada em fins dos anos 1960: Teoria e Prática. Sader –. não era. João Quartim. a hegemonia no plano cultural e no debate das idéias não deixava ser de esquerda. é possível contar na palma da mão o número de professores que se reivindica marxista. Lourdes Sola e outros. edição teve um caráter eminentemente acadêmico (em uma palavra. Francisco Weffort e outros. a razão parece ser simples: nos anos 1980 e 1990 a teoria marxista deixou de ser uma referência relevante para a reflexão e a pesquisa dos professores da USP. M. hoje na USP. Paul Singer. Octavio Ianni. estavam professores que alcançariam notoriedade nas décadas seguintes: FHC. contudo. enquanto a segunda edição estava mais interessada pela dimensão política do marxismo. Ruy Fausto. a teoria marxista deixaria de estar presente nas cogitações dos filósofos e cientistas sociais da USP. nos meios acadêmicos 8 . Roberto Schwartz. Se. Sérgio Ferro. verifica-se que a 1ª.

Citemos as palavras iniciais do texto fundador da revista pois elas esclareciam o contexto intelectual e ideológico em que surgia a revista e seus principais objetivos: “Nenhuma teoria teve a sua morte tantas vezes anunciada como o marxismo. foi lançado o primeiro no. é sempre tempo de relembrar que o marxismo continua sendo o instrumento teórico decisivo e insubstituível para a análise e transformação da realidade social contemporânea”. Impunha-se. com a colaboração de dois colegas de universidades federais e um da USP.. A expressão crítica no nome não foi uma decisão arbitrária.) Contra essa velha impostura reativada com a virulência que as atuais circunstâncias propiciam à reação internacional. uma publicação de orientação marxista apenas poderia surgir das iniciativas de alguns docentes da Unicamp. alguns professores da Unicamp formularam um projeto editorial que navegaria na contracorrente de duas intensas celebrações: a de mais uma morte do marxismo e a do avanço do capitalismo neoliberal em todo o mundo. Um projeto editorial – consubstanciado num Manifesto de fundação – foi formulado e amplamente difundido nos meios acadêmicos de todo o país. crítica da economia política. pois. desejávamos afirmar que a teoria marxista é uma obra de natureza eminentemente crítica. A enorme receptividade e o entusiasmo provocados pelo documento convenceram-nos definitivamente do acerto de nossa iniciativa intelectual e política.. Por meio desta noção. Assim. criar uma revista que reafirmasse a relevância e a atualidade da teoria marxista. pois buscava identificar o projeto intelectual da revista. suas teorias e seus símbolos. 9 .MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE dos anos 1990. não restariam hoje senão os escombros do socialismo e do marxismo (. de CRÍTICA MARXISTA. CRIAÇÃO E OBJETIVOS DA REVISTA Em 1994. No Leste da Europa e na antiga URSS. O último desses anúncios fúnebres afirma que o marxismo teria sido superado na medida em que os trabalhadores repudiaram seus livros.

teoria e política estão indissociadas. também concebemos que. Embora a revista publique artigos e debates sobre questões de ordem conjuntural. pois.. o materialismo histórico é o fundamento teórico decisivo e insubstituível para a análise. para os editores da revista.. do fim da exploração capitalista e da emancipação dos trabalhadores”. nosso projeto editorial definiu. que esta abrangente crítica não estaria fundada em bases idealistas ou voluntaristas. refugiar-se no terreno da pura abstração conceitual ou no do mero teoricismo. Afirmar a importância da dimensão teórica não significa. freqüentemente. em certa medida.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE crítica da filosofia idealista. Embora reconheçamos que o trabalho teórico tenha uma relativa autonomia. Esta dimensão do marxismo clássico – ignorada pelo chamado marxismo ocidental – ocupa um lugar importante no conjunto de nossas convicções básicas. Para nós. a teoria marxista – que não se confunde com um receituário para a superação de todas as mazelas e contradições do capitalismo – dispõe de recursos analíticos que contribuem para o enfrentamento dos difíceis e complexos desafios intelectuais e políticos de nosso tempo. Significa reafirmar (. sintetiza o projeto editorial e político da revista: “Propugnar a validade teórica do marxismo nunca será um ato gratuito e sem conseqüências. seus recursos autocríticos igualmente são decisivos para a sua própria renovação conceitual e teórica. Para nós. nas ciências sociais. Neste sentido. crítica do Estado burguês e da ordem capitalista. Desde o inicio. 10 . no entanto. crítica da ideologia burguesa. Ressalve-se. nossa “vocação” ou prioridade maior é a de buscar contribuir para a discussão teórica do marxismo no país. na filosofia e na cultura. o conhecimento e a transformação da realidade social contemporânea. na prática social. contudo. o parágrafo final de nosso Manifesto deve ser lembrado pois. as teses e os conceitos desenvolvidos nas diferentes vertentes e tradições do marxismo têm sido fecundos instrumentos de pesquisa nos diferentes campos da reflexão teórica – na economia política.) a possibilidade histórica da revolução. como seu objetivo central o desenvolvimento e o aprofundamento da teoria marxista.

Embora a revista não se posicione sobre questões conjunturais. reconhecendo que. Como publicação de esquerda e marxista. Não havendo espaço para a neutralidade axiológica. na atualidade.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Ao contrário daqueles que se orientam por outras teorias sociais. são várias as correntes teóricas que se reivindicam marxistas. no presente. Pela natureza de nosso trabalho intelectual. o posicionamento da revista se revela pelo fato de que nela colaboram e escrevem apenas autores que se orientam pela teoria marxista e têm o socialismo como horizonte político. CM não se posiciona ou se identifica com as correntes existentes dentro do espectro partidário no Brasil e no plano internacional. pode-se afirmar que CM é uma revista que privilegia a pesquisa e o debate teórico pois partimos do pressuposto de que a obra marxista tem lacunas. poderemos tomar determinadas iniciativas editoriais na luta político-ideológica em curso no plano nacional ou internacional. O TRABALHO EDITORIAL: ESPECIFICIDADE. a revista não se posiciona sobre questões conjunturais. melhor contribuem para o aprofundamento da luta anticapitalista na direção do socialismo. entendemos que. Nosso engajamento se expressa concretamente pelas questões discutidas e assuntos examinados nas edições da revista. em determinadas circunstâncias muito particulares. O ecletismo teórico não tem espaço em CM. os marxistas afirmam que estão inteiramente envolvidos com os conflitos sociais e políticos fundamentais de seu tempo. A este respeito. podemos citar duas iniciativas da revista neste ano de 2009: a denúncia do massacre contra o povo palestino (janeiro) e a defesa da liberdade para Cesare Battisti (outubro). cabe aos marxistas identificar quais as opções políticas que. na medida do possível. dificuldades e problemas internos que exigem desenvolvimentos e aprofundamentos conceituais. esta realidade deveria se refletir na composição do comitê e no trabalho editorial da revista. Por outro lado. Neste sentido. no entanto. 11 . LIMITAÇÕES E DESAFIOS De forma sintética.

o pluralismo. tais características a singularizam no conjunto das publicações marxistas e de esquerda. entre nós. Ou seja. Começando com a mais antiga: editada há 23 anos. originalmente vinculada a intelectuais do antigo PCB. a obra teórica de Marx. 12 . editada por seus disciplinados discípulos: a obra de Lukács da maturidade (a Ontologia do ser social) e os trabalhos de Istvan Meszaros são referências obrigatórias dos textos que ali foram publicados. mais recentemente. o caráter teórico de sua produção. a revista. os distintos aspectos da teoria marxista. diria que poucas publicações. mas sem que isso implique uma análise arbitrária. mas seus fortes vínculos com a tendência de esquerda Política Operária certamente comprometiam sua independência política. ontem e hoje no Brasil. a rigor. citada anteriormente. esteve voltada para a questão teórica. de forma sistemática. também privilegiou a reflexão teórica. certamente seus vínculos partidários não deixavam de limitar sua independência política e restringir o debate teórico interno. contudo. evidencia-se a especificidade da intervenção intelectual de CM. no passado e no presente. TEMAS DE CIÊNCIAS HUMANAS. mas. não deixa de manter vínculos com esta linhagem política e intelectual. O mesmo poderia ser dito da revista ENSAIO dirigida por José Chasin nos anos 1980 e 1990 e. alguma semelhança com nosso projeto. se reivindicam marxistas. Tais características distinguem CM das demais publicações marxistas. o debate teórico em torno da luta pelo socialismo bem como as diferentes concepções ou vertentes do marxismo contemporâneo. Embora publique ensaios sobre o marxismo têm eles. mas a orientação fortemente lukacsiana restringia o debate dentro do marxismo. privilegiaram. nos anos 1970. TEORIA E PRÁTICA. a democracia interna e a autonomia político-partidária são virtudes do trabalho editorial da revista. pelo seu caráter inovador e crítico. Quando examinamos os projetos editoriais das demais publicações marxistas existentes no país. Igualmente de forma esquemática. vinculada ao PCB e publicada do final dos anos 1950 até o golpe de 1964. NOVOS RUMOS é uma publicação do Instituto Astrojildo Pereira. na sua curta trajetória (apenas 3 nos. ESTUDOS SOCIAIS. tomemos as publicações que hoje. Valendo-se da memória – não de uma pesquisa sistemática sobre o assunto –. talvez tivesse.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Dispensável dizer que o caráter plural da revista impõe que a democracia interna seja uma efetiva realidade no modo de funcionamento do comitê de redação e na produção editorial da revista. publicados). um caráter de divulgação teórica.

o pluralismo no campo da pesquisa e uma abertura às diferentes vertentes do marxismo”. Criada em 1998. O estilo ensaístico. predomina na produção editorial de ME. ME não tem como eixo o debate sistemático sobre a teoria marxista e as suas diferentes vertentes teóricas. em virtude de seu vínculo institucional. Acredito que todas estas publicações – desde que se empenhem com rigor e seriedade intelectual na discussão e pesquisa sobre o materialismo histórico – podem desempenhar um papel importante na elaboração e no desenvolvimento do pensamento crítico e transformador no Brasil. nos últimos anos. O que buscamos ressaltar é a especificidade ou particularidade do projeto editorial de CM quando comparado com o das demais publicações marxistas. “suas principais características são a ênfase na reflexão crítica e inovadora acerca de problemáticas atuais. Lutas Sociais. no entanto. textos de autores de esquerda. não se define como uma revista marxista. mas. 13 . constituído de acadêmicos que têm distantes vínculos com o marxismo. é reconhecidamente uma atuante publicação de esquerda e na qual colaboram acadêmicos marxistas. ME publica. Por sua vez. Embora publique ensaios marxistas. ontem e hoje. como informa seu subtítulo. em contrapartida. sua reduzida Secretaria de Redação não deixa de revelar a presença majoritária de acadêmicos que se orientam por esta vertente do socialismo. Longe desta avaliação está um juízo de valor sobre as revistas aqui nomeadas. publicação oficial de um programa de pós-graduação da PUC-SP. existentes no país. como a própria revista reconhece. nas palavras de seus editores: “Outubro é uma ferramenta de discussão e de formação teórico-política daqueles sujeitos sociais comprometidos com a atualização do pensamento socialista”. com freqüência. mas que não assumem o marxismo como orientação teórica central. é de se desejar que os editores de revistas marxistas e de esquerda saibam criar formas de cooperação e de relações que permitam difundir ainda mais o pensamento marxista e socialista no Brasil. amplia-se a participação na revista de autores que não se vinculam aos quadros da IV Internacional. Ainda na autodefinição da revista. Tal como seu extenso Conselho editorial. Que floresçam mais publicações de esquerda e marxistas de qualidade nos meios acadêmicos e – principalmente – fora deles! Por outro lado. verifica-se que.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE MARGEM ESQUERDA é uma verdadeira sucedânea da revista Praga. OUTUBRO é uma publicação cuja produção e conselho editoriais estão comprometidos com o pensamento socialista.

Igualmente dificuldades externas existiram: por exemplo. por vezes.. Do ponto de vista editorial. as editoras comerciais não colocam seus recursos técnicos e seu pessoal à nossa disposição pois não assumem a revista como parte de seu projeto editorial.. até o presente. são reduzidos os trabalhos qualificados e originais que chegam à editoria. As tiragens da revista – como das demais publicações universitárias – não ultrapassam 1. Para chegar até aqui dificuldades internas e externas foram superadas. que explicam a produção de textos pouco qualificados e. divergências e conflitos no interior da editoria dificultaram o funcionamento da revista. 14 . Isso não deixa de ser uma conquista tendo em vista o caráter efêmero das publicações de esquerda e marxistas no Brasil e em todo o mundo. Em certa medida é o domínio da cultura produtivista e o “império” do curriculum Lattes. Uma importante limitação de nosso trabalho editorial é a de que atuamos privilegiadamente nos meios acadêmicos pois aqui estão nossos leitores. diria que nossos editores respeitam-nos intelectualmente. hoje atuantes no Brasil. Em alguns momentos. da revista praticamente depende apenas dos membros do comitê editorial. Quando afirmei acima que nossos editores nem sempre nos “tratam bem” pretendia dizer o seguinte: a produção de cada no. De forma humorada.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE CM completa 15 anos. Não divulgam nem distribuem a revista de forma ampla e eficiente. um problema recorrente é o de manter a qualidade da revista. O risco do teoricismo se espreita quando não levamos devidamente a sério este desafio político e intelectual. cinco foram as editoras que abrigaram nosso projeto editorial. isso significa que não podemos dedicar tempo integral à revista. os membros do comitê produzem CM paralelamente às suas atividades docentes e de pesquisa. Por sua vez. Daí nosso desafio: o de buscar permanentemente responder.500 exemplares. se temos condições de publicar traduções de textos de bom nível de revistas estrangeiras. às necessidades políticas e intelectuais dos militantes dos movimentos sociais e políticos transformadores. Certamente raros são os dirigentes e militantes dos movimentos sociais e das forças políticas de esquerda que leem a revista. apoiadores e colaboradores. hoje presentes na universidade brasileira. de forma criativa. Nesta avaliação de nossa trajetória não podemos também deixar de reconhecer importantes limitações. mas nem sempre nos tratam bem. de natureza quase escolar.

hoje. vitalidade e pertinência do trabalho editorial desenvolvido por CRÍTICA MARXISTA. –. por seu trabalho editorial efetivo – artigos. Os marxistas têm dificuldades para publicar seus textos – ou seja. um Congresso como o que aqui se realiza na UFPr – possível em virtude da iniciativa colaboradores da revista – é uma prova efetiva da relevância. Tome-se o exemplo de nossa revista: apesar de seus 15 anos de existência. dispensável dizer que os autores marxistas e socialistas não são convidados pela mídia burguesa a divulgar e debater seus trabalhos etc. Pesquisas orientadas pelo marxismo não gozam de maior simpatia e acolhimento por parte de agências financiadoras. creio que temos motivos para comemorar estes 15 anos de existência. as dificuldades e as adversidades. Não apenas resistimos num contexto ideológico e político adverso à existência de publicações marxistas e de esquerda. uma ficção para a mídia burguesa. Não obstante as limitações. livros e ensaios em periódicos especializados. centros de estudos marxistas são mantidos sem maiores recursos em algumas universidades. ensaios. se reconhecem no campo do marxismo crítico e revolucionário. CM é. CM conquistou um lugar privilegiado na cultura política da esquerda brasileira. entrevistas etc.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Por outro lado. produção de dossiês e debates. 15 . uma importante referência para todos acadêmicos e intelectuais que. raramente são eles resenhados. nas reuniões da Anpocs a presença de trabalhos que discutem a teoria marxista é amplamente minoritária. forçoso é reconhecer que nos meios acadêmicos o marxismo cada vez mais deixa de conferir prestígio e notoriedade àqueles que se orientam teoricamente por ele. Quando têm seus livros editados. no Brasil. Por último. Nossa revista é. praticamente.

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a posse de Hugo Chávez na Presidência da Venezuela em 1999. CENTROS E ASSOCIAÇÕES No Brasil.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Karl Marx no Brasil Armando Boito (Unicamp)3 & Luiz Eduardo Motta (UFRJ)4 É crescente o interesse pela obra de Karl Marx no Brasil atual. Porém. A nova vaga internacional de interesse pela obra de Karl Marx teve início na segunda metade da década de 1990. e. pelas suas tradições intelectuais e pela conjuntura teórica e ideológica do Brasil das décadas de 1990 e 2000. grandes 3 Professor de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Editor da revista Crítica Marxista. em diversos países. em 2001. foram realizados. 17 . a greve geral que paralisou a França durante os meses de novembro e dezembro de 1995. Alguns acontecimentos representativos desse desgaste foram. quando o modelo capitalista neoliberal começou a apresentar fortes sinais de desgaste. na América Latina. além dos diversos encontros comemorativos dos 150 anos do Manifesto Comunista. encontros em comemoração aos 150 anos da publicação do Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels. tivemos. a presença massiva de ativistas políticos e de intelectuais nesses encontros surpreendeu os seus próprios organizadores. ENCONTROS. mais uma vez. em 1998. a recepção da obra de Marx no Brasil está marcada. evidentemente. Numa época em que se tinha proclamado. 4 Professor de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). na Europa. No meio-tempo. Essa tendência está perfeitamente integrada à nova vaga de interesse pela obra do fundador do materialismo histórico em escala internacional. dando início a uma nova fase da luta social na França que redundaria na vitória do Partido Socialista nas eleições gerais de 1997. pelas características da formação social brasileira. a morte do marxismo.

Anpuh. de historiadores. Depois dessa iniciativa pioneira. cientistas políticos. esse colóquio bienal tem sido realizado regularmente. de filósofos e de economistas ─ Anpocs. porém. Anpof. o encontro dos pesquisadores do trabalho na Universidade Estadual Paulista de Marília. economistas e historiadores marxistas nas principais associações científicas brasileiras. na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. em comemoração aos 130 anos da Comuna de Paris de 1871. a aproximação entre ativistas políticos e intelectuais no trabalho de recuperação do marxismo. principalmente as universidades. Esses encontros já exibiam uma das características da atual fase de interesse pela obra de Marx no Brasil: de um lado. vários centros semelhantes foram criados em diversas universidades públicas do Brasil.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE eventos. a clara predominância do grupo intelectual e a dependência desse trabalho de recuperação frente às instituições culturais do Estado capitalista. SEP. Essa característica de origem estará presente na formação de inúmeros centros de pesquisa marxista que foram organizados em diversas universidades do país. 18 . se somados. o encontro dos pesquisadores marxistas em educação. Em 1996. O Cemarx realizou em 1999 na Unicamp o I Colóquio Internacional Marx e Engels. em diversas cidades do país. de outro lado. Esses e outros encontros reúnem. existem centros semelhantes na Universidade Federal Fluminense. anuais ou bienais. foram surgindo encontros marxistas nacionais ou regionais regulares. reunindo em cada uma de suas edições centenas de pesquisadores de todo o Brasil. milhares de pesquisadores anualmente ou bienalmente. Na década de 2000. Desde então. Paraná. Outro fato a ser destacado nessa nova vaga de recuperação dos estudos marxistas é a intervenção dos pesquisadores marxistas nas grandes associações nacionais de sociólogos. nos diversos encontros científicos e culturais regulares que contam com a participação majoritária de marxistas e na intervenção institucional e organizada dos sociólogos. o colóquio Marx e Engels da Universidade de São Paulo e outros. Hoje. Essas associações passaram a contar na sua estrutura organizativa com grupos de trabalho formados por pesquisadores marxistas dedicados a estudar o marxismo em suas respectivas áreas. em universidades do Rio grande do Sul e outras. foi criado o Centro de Estudos Marxistas (Cemarx) na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). como. por exemplo. filósofos. o encontro dos pesquisadores de movimentos sociais na América Latina da Universidade Estadual de Londrina. nas revistas e nas demais publicações que surgiram a partir da década de 1990. e especializados tematicamente.

nas universidades públicas do país. Como marco inicial da divulgação do marxismo não oficial. para efeito de comparação. lançada em 1980 por intelectuais de tendência marxistaleninista. Já a revista Teoria & Política. esta criada por intelectuais oriundos do PCB e afinados com a perspectiva eurocomunista. Outras revistas posteriores. respectivamente. em geral de autores identificados na corrente denominada de marxismo ocidental. Com a nova geração de revistas marxistas. façamos. Herbert Marcuse. Essas revistas de origem partidária são publicações que. se mantêm. fundamentalmente. A revista apesar de sua grande tiragem (10000 exemplares) não sobreviveu ao fechamento do regime militar. José Arthur Giannotti. que ampliou seus poderes discricionários a partir de 1969. tivemos a Revista Civilização Brasileira criada por Enio Silveira (dono da editora Civilização Brasileira e membro do Partido Comunista Brasileiro) e Moacir Félix publicada entre os anos 1965 e 1968. deixou de ser publicada nos anos 1990. assim como a Presença. continuam sendo publicadas. Adam Schaff. como as revistas Princípios e Novos Rumos. além de intelectuais brasileiros identificados com a teoria marxista ou próximos desse campo como Nelson Werneck Sodré. Jean Paul Sartre. essas vinculadas organicamente a partidos marxistas como o Partido Comunista do Brasil (PC do B) e o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Louis Althusser. A publicação pioneira dessa nova geração foi criada pelo mesmo grupo de intelectuais marxistas que fundara o Cemarx da Unicamp ─ trata-se da publicação semestral Crítica Marxista cujo primeiro número foi lançado em 1994. graças ao apoio da organização ou do grupo político a que pertencem.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE AS REVISTAS DE ONTEM E DE HOJE No que respeita às publicações. passa-se algo distinto: elas são vinculadas a grupos de intelectuais que trabalham e atuam. como a revista Problemas. embora contem com a participação ativa de intelectuais ligados às universidades. Brasiliense e Estudos Sociais. principalmente. inicialmente. Nela foram divulgados os trabalhos de Lukács. Antonio Gramsci. Os 19 . Tivemos no Brasil algumas revistas ligadas ao Partido Comunista Brasileiro que foram publicadas antes do golpe de Estado de 1964. uma remissão às gerações de revistas e periódicos marxistas que precederam a geração atual. dos anos 1990 e 2000. Fernando Henrique Cardoso e Theotônio dos Santos.

bastante diversas. na sua maioria. foram surgindo outras publicações: Outubro. Foi criada em 2004 e tinha a sua Comissão Editorial formada por Carla Silva. que como já afirmamos deixou de ser publicada. pois eles são alguns dos intelectuais marxistas que participam ativamente dessa fase de recuperação do marxismo no Brasil. Conrobert Costa Neto. P. ao meio universitário. fundamentalmente. Celso Frederico. E. Marcelo Badaró. Ao longo dos anos que se sucederam. Novos Temas e outras 45. Essas três revistas. Décio Saes. além de serem vinculadas. Marxismo Vivo. Enrique Padros. surgiram na década de 1990. Francisco Alambert. Louis Althusser. Isabel Maria Loureiro. mas já deixaram de ser publicadas. Ricardo Musse e Rubens Machado Jr. Marcio Naves. Escola de Frankfurt. editada por um coletivo de intelectuais nacionalmente organizado. Marcelo Ridenti. por um grupo do Estado do Rio de Janeiro. Fernando Haddad. Margem Esquerda. História e Luta de Classes. Margem Esquerda foi lançada em 2003 com o seu Comitê de Redação integrado por: Afrânio Cattani. trazia na sua Comissão Executiva Carlos Machado. Conrobert Costa Neto. Maria Lúcia Barroco. principalmente. 20 . Ricardo Musse. João Quartim de Moraes. Já História e Luta de Classes é uma publicação marxista de jovens historiadores animada. Maria Orlanda Pinassi. e Praga. professores da Unicamp e não se encontravam organizados em partidos políticos. foi lançada em 1998 e a sua Comissão de Redação era formada por Álvaro Bianchi. Marcio Naves. Caio Navarro de Toledo. a revista Práxis. Gilberto Calil. Cilaine Cunha. O Comitê Editorial que fundou a revista Crítica Marxista em 1994 era integrado por Armando Boito. A revista Praga. têm o seu núcleo dirigente localizado na cidade de São Paulo. George Lukács. Sedi Hirano. correntes cujas obras de referência pertencem a Antonio Gramsci. João Roberto Martins Filho. A revista Outubro. Maria Quartim de Moraes. Ricardo Antunes. Edmundo Fernandes Dias. Elisa Guimarães. Thompson e outros. Juarez Guimarães. Jesus Ranieri. Ricardo Antunes e Sérgio Lessa. Theo Piñeiro e Virgínia Fontes. Francisco Domingues. Flavio Lyra. As revistas apresentam algumas características particulares 5 Duas outras revistas marxistas importantes. publicação também semestral. Pode ser de interesse arrolar os nomes dos intelectuais fundadores de algumas dessas publicações. ou próximas do marxismo. Celso Frederico. Essas revistas agregam intelectuais marxistas filiados a correntes marxistas.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE intelectuais que a criaram eram. Hector Benoit e Marcio Naves. Florence Carboni. Leda Paulani. Mario Maestri. próxima ao grupo de marxistas oriundos da FFLCH da Universidade de São Paulo.

1940 e seguintes. No que tange às análises históricas. predominam análises da obra de teóricos marxistas. passou a se reunir o conhecido grupo de estudos de O Capital. que é vinculada indiretamente ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). não na obra de Marx. podemos destacar duas características importantes. como Gramsci e Lukács. contudo. como são os casos de Margem Esquerda e Outubro. Além de correr em grande medida fora da universidade. Os intelectuais que organizam essas revistas são. quando se trata de teoria. Podemos afirmar que o marxismo só chegou à universidade quando. professores universitários e o público leitor dessas publicações é. na sua quase totalidade. a dependência frente ao aparelho universitário do Estado brasileiro. De fato. Nelson Werneck Sodré. mas sim nas correntes marxistas do século XX. também diferentemente daquilo que predomina nas pesquisas marxistas atuais. como é o caso de Crítica Marxista. 21 . da conjuntura e. coordenado por José Arthur Giannotti na USP.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE ─ umas privilegiam os textos teóricos ou de análise estrutural da economia e da sociedade capitalista. Predominam a análise da sociedade capitalista. Em segundo lugar. Roberto Schwartz. Primeiro. essas publicações trazem pouca coisa sobre a obra de Marx. no final da década de 1950. Luiz Pereira. que tem vínculos com o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU). não nas universidades. Essas duas características marcam a nova vaga de estudos marxistas no Brasil: dependência frente ao aparelho universitário e foco do trabalho teórico. e de temas e polêmicas referentes aos diferentes marxismos do século XX e dos debates que dividiram essas correntes. Pelas razões apontadas. Isso é verdadeiro mesmo para revistas como Outubro. boa parte dessa produção dava-se nos aparelhos culturais vinculados ao Partido Comunista Brasileiro. a produção teórica marxista era focada na obra do próprio Marx. Florestan Fernandes. quando a divulgação da obra de Marx ganhou força no Brasil e quando a produção dos marxistas brasileiros se tornou mais significativa. Ruy Fausto e muitos outros. essa nova fase de valorização do marxismo difere da fase anterior de estudos marxistas no Brasil. Em todas elas. dedicaram-se à análise da natureza da sociedade brasileira – escravista? feudal? capitalista? – e do processo de revolução burguesa no Brasil. Jacob Gorender. nas décadas de 1930. o público universitário.. enquanto outras são mais abertas a temas da conjuntura. essa foi a fase em que os marxistas brasileiros. fundamentalmente. Destacaram-se nessa época os trabalhos de Caio Prado Jr. José Arthur Giannotti. econômicas e sociais. e a Novos Temas. como já afirmamos. também.

do Rio de Janeiro (José Nilo Tavares 1983: pp. a editora Abril lançou uma nova tradução da obra maior de Karl Marx. inclusive os Estatutos da Liga dos Comunistas e um estudo crítico comparativo das I. a sua primeira edição surgiu. A primeira edição completa de O Capital e traduzida diretamente do alemão veio à luz apenas no ano de 1960 graças à iniciativa da editora Civilização Brasileira do Rio de Janeiro. A partir da década de 1970 e. 121123). A Sagrada Família. Consideremos. apenas em 1945. A 22 . Apenas em 1944. texto de formação de gerações de militantes comunistas em todo o mundo. salvo engano. Quanto ao Manifesto do Partido Comunista. A edição de obras de Marx também ganhou um novo alento no Brasil. Esse ponto merece um pequeno retrospecto histórico para informar o leitor. O Capital apareceu no mercado editorial brasileiro na forma de uma edição resumida. Esse texto teve. Miséria da Filosofia. ou de seus escritos da segunda metade dos anos 1840(Ideologia Alemã. publicadas pela Editora Vitória. Hoje. pela Editora Horizonte da cidade do Rio de Janeiro. uma edição publicada pelas Edições Populares com introdução histórica de D. inéditos. Engels. e a história das edições de O Manifesto do Partido Comunista. II e III Internacionais.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE PUBLICAÇÃO DE OBRAS DE MARX E SOBRE MARX Voltemos ao período atual. Depois disso. como exemplos. acompanhada de um estudo de Gabriel Deville – Edições Cultura. A edição das obras de Marx e de Engels no Brasil é deficiente. Em 1986. Manifesto Comunista). A Boitempo tem privilegiado a obra de juventude de Marx (Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Obras importantes desses autores ainda não foram traduzidas ou só o foram muito recentemente e muitas dessas edições se valeram de outras traduções e não das obras originais. no mesmo ano. São Paulo. o Manifesto teve inúmeras novas edições. a história das edições brasileiras de O Capital. Manuscritos EconômicosFilosóficos). principalmente nas décadas de 1990 e 2000. Riazanov e numerosos documentos apendiculares. a obra magna de Marx. duas editoras que têm dado destaque para publicação de textos de Marx nos seus catálogos são as editoras Boitempo e Expressão Popular. tanto no que respeita à quantidade de obras publicadas quanto no que respeita à qualidade das traduções. o Manifesto voltou a aparecer nas Obras Escolhidas de Karl Marx e de F. A Questão Judaica.

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Expressão Popular não se detém em nenhuma fase específica da obra de Marx. Marx. Marx – ciência e revolução(2000). Destacam-se dentre essas publicações os livros de Francisco Teixeira. reuniu dezenas de autores sob a coordenação de João Quartim de Moraes. Jose Chasin. Trabalho assalariado e capital. Marcos Del Roio e Marcelo Ridenti.O jovem Marx:1843-1844 . Esse trabalho. Carlos Henrique Escobar. e a coletânea organizada por Armando Boito. Jesus Raniere e Patrícia Tropia A obra teórica de Marx – atualidade. Marx: Lógica &Política . em grande parte resultados de pesquisas universitárias. Caio Navarro de Toledo.Tomo III (Investigação para uma reenstituição do sentido da dialética(2002). preço e lucro. merece destaque a obra coletiva História do Marxismo no Brasil. filósofo da potência (1996). Celso Frederico.. O negativo do Capital. Marx:estatuto ontológico e resolução metodológica (2009). O conceito de crise na crítica de Marx à economia política (1998). problemas e interpretações (2000). Nesses últimos 15 anos de revitalização do marxismo no Brasil. UMA QUESTÃO PARA ENCERRAR O crescimento do marxismo no interior do aparelho universitário pode ser explicado pela situação atual e recente da sociedade brasileira. que publicou os trabalhos apresentados no I Colóquio Marx-Engels de 1999. Apesar de não tratar principalmente da obra de Marx. Ruy Fausto. Nelson Werneck Sodré e Florestan Fernandes tem sido uma marca no campo editorial nesse contexto de revitalização do marxismo. publicando desde a Questão Judaica e o Manifesto Comunista (numa edição popular) até As Lutas de Classe na França. A câmara escura. Jorge Grespan. Também a republicação das obras de autores marxistas como Caio Prado Jr.As origens da ontologia do ser social(2009). Alienação e estranhamento em Marx (2001). publicado em seis volumes. O Brasil possui um aparelho universitário 23 . e. mas do marxismo no Brasil. Contribuição à crítica da economia política. oriundos das faculdades de filosofia. Daniel Aarão Reis. em destaque. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. Marcio Bilharinho Naves. Pensando com Marx: uma leitura críticocomentada de O Capital (1995). Jesus Raniere. Crise: o movimento dialético do conceito de crise em O capital de Marx (2009). Salário. foram publicados aproximadamente trinta livros que trataram diretamente da obra de Marx. Hector Benoit/Jadir Antunes.

1996. ________________________. Marx.São Paulo. Mauricio Chalfin. A obra teórica de Marx – atualidade. São Paulo: Hucitec. Jader. 2002.Tomo III (Investigação para uma reconstituição do sentido da dialética). Alcides Hector e ANTUNES. São Paulo. 2009. com centenas de cursos de pós-graduação financiados pelo Estado e que reúne dezenas de milhares de professores. 24 . foi jogado na clandestinidade. Celso. RANIERE Jesus. Editora Taurus. logo. Ruy. Carlos Henrique. pesquisadores e estudantes. Patrícia (orgs. Marx: Lógica &Política . 2000. Rio de Janeiro. Mas. 1993. Ed. Um tema importante a ser analisado seria verificar o quanto a inserção universitária influi nas características da fase atual de recuperação do marxismo no Brasil. São Paulo. Armando. Marx: Notas sobre a Teoria do Capital. Crise: o movimento dialético do conceito de crise em O capital de Marx. o Brasil não possui uma forte tradição de organização partidária de massa da classe operária. mas. 2009. filósofo da potência. FAUSTO. TOLEDO Caio Navarro de. São Paulo: Editora 34. Expressão Popular.). Rio de Janeiro Ed. TROPIA. Muitos desses universitários são de origem popular. FREDERICO. Boitempo. Marx trágico: o marxismo de Marx. O PCB aproximou-se dessa característica nas décadas de 1940 e 1950. Alguns títulos publicados no Brasil nos últimos quinze anos sobre a obra de Karl Marx: BENOIT. Marx: estatuto ontológico e resolução metodológica. Editora Xamã. O jovem Marx: 1843-1844 – as origens da ontologia do ser social. BOITO. ESCOBAR. 2009. Taurus. mas. O Partido dos Trabalhadores (PT) também se aproximou do perfil de um partido operário de massa. COUTINHO. desde seu nascimento. CHASIN Jose. São Paulo: Tykhe. sua tendência majoritária foi indiferente ou mesmo hostil ao marxismo. 1997.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE grande. problemas e interpretações.

Dialética e materialismo . Editora da Unicamp. Ed. O conceito de crise na crítica de Marx à economia política. 2005. Rio de Janeiro. Marx no século XXI. São Paulo: Boitempo editorial. Francisco José Soares. São Paulo. 2008. PAULA. 1998. São Paulo: Ensaio. 10 Lições Sobre Marx. Cia. Belo Horizonte. GRESPAN. Expressão Popular. João Quartim.Marx entre Hegel e Feurbach. Autêntica. Thamy. São Paulo/Campinas. Rio de Janeiro: Editora: UFRJ. 25 . Campinas. MORAES. SADER. Marx. Benedicto Arthur/ FREDERICO. 1993. Marx e a globalização. 2001. O enigma do político. Estado e política em Marx. o socialismo e o Brasil. Marx e a técnica: um estudo dos manuscritos de 1861-1863. Marcelo. São Paulo. Daniel. Ed. São Paulo: Cortez. Jorge. NAVES. 2010. João Antonio de Paula. Moderna/Editora da Unicamp. Vozes. TEIXEIRA. 3a edição. ROMERO. DEL ROIO. Emir. 2009. Jose. SAMPAIO. 2007. José Arthur. MELLO. POGREBINSCHI.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE ________________ e TEIXEIRA. Marcos. das Letras. 1983. O negativo do capital. TAVARES. Alex Fiúza de. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 2002. 2000. Alienação e estranhamento em Marx. Fernando Jader de Magalhães. São Paulo: Cortez. RIDENTI. Ed. A câmara escura. Marcio Bilharinho. Pensando com Marx: uma leitura crítico-comentada de O Capital. São Paulo: HUCITEC. 2009. José Nilo. São Paulo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. O ensaio geral – Marx e a crítica da economia política (1857-1858). REIS. 1995. GIANNOTTI. 2006. MELO. Daniel Aarão. Celso. Certa herança marxista. Boitempo. Marx – ciência e revolução. Francisco José Soares. 1999. RANIERI. Marx contra a política moderna. História do Marxismo no Brasil.

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Imaginam com isso estar sendo lúcidos e modernos. 1997: 7). aceitam caracterizá-la como "globalização". embora reconhecendo os aspectos perversos da nova ordem liberalimperial. cultivando uma planta asiática (a cana de açúcar) com escravos trazidos em escala crescente da África... sob controle do capital 6 João Quartim de Moraes é professor titular aposentado do departamento de Filosofia da Unicamp e membro do Conselho Editorial da revista Crítica Marxista. Mas para analisá-las em vez de adotá-las sem crítica. tal como elas circulam no senso-comum. Já na Apresentação. Corremos o risco de perturbar os leitores talmúdicos do Capital e de outros textos fundadores. engana muitos. entre nós. de conferir ao termo globalização um estatuto teórico foi a empreendida em Poder e dinheiro. a economia colonial brasileira surgiu sob domínio português. é preciso levar em conta o valor de troca das palavras. M.Sem dúvida. não assinada. Para ficarmos em nosso país. 1997). TAVARES. Que entender por impasses do capitalismo contemporâneo? À esquerda. obra coletiva publicada em 1997 (FIORI. por sua intrínseca ambigüidade e suas conotações falaciosamente “positivas”. o marxismo não explicaria o curso histórico do século XX. M. não faltam os que. 27 . Mas dirigimo-nos a quem está interessado em analisar e pensar e não em repetir liturgias.] poucas palavras possuem tamanha força política neste final de século XX” (FIORI. Globalização.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE O marxismo e os impasses do capitalismo contemporâneo João Quartim Moraes6 Explicito liminarmente a hipótese em que se apóia a presente intervenção: sem a atualização teórica empreendida por Lênin a partir de 1916. TAVARES. Talvez a mais séria tentativa. deparamo-nos com o argumento de que a despeito de “sua visível imprecisão conceitual[.

É essa a maior mistificação da ideologia da "globalização": sugerir que o imperialismo foi ultrapassado e que. hoje viveríamos num mundo sem muros nem fronteiras. para “libertar o Kuait”. 7 28 . diria mais tarde o general Custer). Dois outros muros. quando o povo ouve um gringo do Pentágono cacarejar “democracy. Em torno de 500 mil crianças morreram de fome no Iraque. “depois da obra clássica de John Hobson”. “combater o terrorismo internacional”. O termo serve para ocultar não somente a permanência. porém.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE mercantil europeu. É domínio baseado na força. por conta do embargo econômico contra aquele país. quando surgiu. secretária de Estado do governo de Clinton. Assim como os europeus aniquilaram as sociedades autóctones do Novo Mundo para catequizá-las (“a good indian is a dead indian”. o Pentágono e a OTAN. TAVARES. em meados do século XIX. tornando-se. antes da invasão e ocupação por tropas do império norteamericano. atribuíam-lhe missão civilizatória (Bush e a OTAN não inventaram nada). com a derrubada do muro de Berlim. comprova-o o apoio maciço que recebeu na Alemanha "civilizada" a idéia hitleriana da superioridade racial dos povos "arianos". Que não basta invocar a força de uma idéia para levar a sério. ditando o argumento da força no mundo “globalizado”. pertencia ao “jargão jornalístico”. É possível maior globalização do que essa. implantar o que eles chamam “democracy”7 etc. cujo braço militar é a OTAN. porque os mísseis costumam vir logo atrás.A idéia de "globalização". Madeleine Albright. Claro que seus partidários assumidos. impedir “uma limpeza étnica no Kosovo”. arrasam países rebeldes por motivos “humanitários”. ainda que parcialmente. como o célebre Disraeli. Com aquele muro.entre os dois termos. que não é pequena. esquece uma diferença. Imperialismo não engana ninguém. sua pretensão de objetividade. M. difundiu-se com mais facilidade. quando perguntada sobre o fato respondeu “que é um preço que pagamos pela democracia”. até por não se apoiar em doutrinas intrinsecamente odiosas como o nazismo. “peça teórica essencial da economia política do século XX” (FIORI. mas também a furibunda exacerbação da opressão imperialista numa situação internacional caracterizada não mais pelo predomínio do confronto entre o bloco soviético e o "Ocidente" e sim pelo predomínio do bloco das grandes potências capitalistas sob hegemonia estadunidense. 1997: 7). porém caíram apenas as barreiras estatais que separavam o bloco da OTAN do bloco soviético. que remonta ao século XVI? O argumento de que também o termo imperialismo. vai logo correndo se entocar. democracy”. muito mais cruéis e mortíferos do que o Na periferia do imperialismo.

do Pacífico ao Atlântico. por ordem do então primeiro ministro israelense. não é provável que sua força “se deva apenas à capacidade de falsificação e de convencimento dos 8 Noções superficiais ou totalmente abstratas como estas prestam-se aos mais diversos usos ideológicos. O muro da Palestina. sob forte e implacável vigilância policial. cerca de 8 milhões de "chicanos". porque corta terras ocupadas ilegalmente e isola cerca de 450. que ganhavam menos de 5 dólares numa jornada de trabalho de 9 horas. A construção do muro do México foi decidida pelo então presidente Clinton. para não usar o “globalization” made in USA. Israel ignora cinicamente as condenações que o atingem e continua a recorrer impunemente ao terrorismo de Estado.000 palestinos. que colocou a fronteira entre os dois países. dos quais uns 3 milhões em situação ilegal. indo somar-se aos 12 milhões de mexicanos de origem nascidos nos Estados-Unidos. Muitos franceses. no âmbito do plano intitulado "prevention through deterrence". Mas isso só serve para confundir ainda mais a terminologia. Fiori em Poder e dinheiro. foram respectivamente construídos pelos imperialistas estadunidenses e por seus sócios facho-sionistas. Naquele momento. L. Ironia patética. tinha assinado com Clinton o tratado que instituía o “Acordo de livre comércio da América do Norte” (NAFTA em inglês). onde poderiam ganhar 5 dólares por hora. fale em globalização imperialista ou em imperialismo globalizado8. total liberdade de investir onde os lucros são maiores. querendo ganhar salários de «primeiro mundo». cuja edificação começou em 2002. como fez J. mas para os trabalhadores mexicanos. mas funcional: para os capitalistas. Ariel Sharon (um dos mais consumados genocidas de nossa época) foi condenado pelo Tribunal Internacional de Justiça de Haia. graças ao apoio irrestrito da Casa Branca e do Pentágono. 29 . que “a idéia de globalização reina inconteste no discurso das elites mundiais” e que. portanto. “Latinos" demais. o presidente mexicano Carlos Salinas. em julho 1994. preferemdizer “mondialisation”. Alguns meses antes. Há quem. saqueador contumaz dos fundos públicos. tinham conseguidochegar ao outro lado da fronteira. Tampouco ajuda a esclarecer a especificidade do capitalismo contemporâneo constatar.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE de Berlim. Infelizmente. um grande muro para impedi-los de trabalhar nos Estados-Unidos. em 2004. cuja lógica consistia na colaboração entre os tubarões e as sardinhas. Mas a diferença semântica entre um mundo globalizado e um globo mundializado é a mesma que entre seis e meia dúzia. com cosmético patriotismo léxico. em 4 de janeiro de 1994. diante da evidente proliferação de muros e de fronteiras que discriminam sobretudo os pobres da periferia.

provocando na América Latina. Para não dispersar o argumento. que se opôs também aos privilégios aristocráticos e ao obscurantismo eclesiástico. autonomizaram-se em “mercados financeiros” a cujas oscilações ficariam subordinadas a riqueza e. Analisamos mais adiante as teses de O’Connor sobre a teoria do imperialismo. Esta medida desencadeou tremendo efeito recessivo. TAVARES. 30 . deixemos de lado essa curiosa categoria de realidade parcial e admitamos que a expressão “elites mundiais” equivale àquilo que o marxista estadunidense James O’Connor. Assim. não tendo obtido apoio de seus sócios do FMI para fortalecer o dólar (cuja taxa de inflação se aproximava de 15% ao ano). Segundo ele. de decisões impostas pelo imperialismo estadunidense ao sabor de seus próprios interesses nacionais. guiadas pela rentabilidade das aplicações ponderada pela “taxa de risco”. M. desvelando e ocultando ao mesmo tempo aspectos do mundo contemporâneo que são parcialmente reais” 9. 10 11 O prefixo neo justifica-se plenamente para designar esse liberalismo reacionário. que acabara de assumir o comando do Federal Reserve. em 1979. é excelente maneira de servir os interesses nacionais dos Estados Unidos. duas décadas de retrocesso econômico. Mas de qual realidade a “globalization” seria a expressão invertida? O que ela desvela e o que ela oculta e mistifica? Já tínhamos adiantado acima que ela camufla o imperialismo de nosso tempo: sustentar que os interesses nacionais estariam ultrapassados. O que ela desvela é muito pouco: inflexões no capitalismo internacional que resultam. “Globalização. 9 J. Ao influxo do estímulo cumulativo da hiperbólica elevação da taxa de juros estadunidenses e da “desregulamentação” neoliberal 11 do mercado de capitais. ainda mais duramente pela periferia. combate numa só frente contra as conquistas democráticas da classe operária e dos trabalhadores assalariados em geral. com a chamada “crise da dívida externa”. Fiori. 1997: 88). tomou unilateralmente a decisão de elevar brusca e brutalmente a taxa de juros. império”. que se propagou por todo o sistema capitalista internacional e. hegemonia. Tal é a origem da impropriamente chamada globalização financeira. para atrair os dólares que estavam “flutuando” nas mãos dos especuladores do mundo inteiro.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE meios de comunicação”. o termo opera uma “inversão ideológica” que. menos nebulosamente. (FIORI. no essencial. L. Paul Volcker. massas crescentes de capital-dinheiro. sobretudo a miséria da grande maioria da humanidade. que contrariamente ao velho liberalismo do século XIX. “como tal realiza uma inversão da própria realidade. designa por “classe dominante internacional”10. com efeito.

pela correlação internacional de forças instaurada pela revolução socialista de outubro 1917 e mais ainda pelo equilíbrio político-estratégico resultante da vitória soviética sobre o nazismo. que assumiu fria e explicitamente a “obra” de destruição do (LÉNINE. transformado em administração de capital alheio. A expansão do parasitismo financeiro foi contida. que no início do século XX já havia assumido as dimensões assinaladas por Lênin..] confere uma chancela de parasitismo ao conjunto do país vivendo da exploração do trabalho de alguns países e colônias d’além-mar”12.) aprofundou essa separação. sob a bota de Pinochet.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Impropriamente: desde que. Daí o extraordinário desenvolvimento da classe ou. que compreendendo a importância das análises do inglês Hobson e do marxista alemão Hilferding (mais tarde assassinado pelos nazistas). foi posta em aplicação na Inglaterra pela ultra-reacionária Margaret Thatcher. a concentração da produção encontrou sua forma jurídica adequada nas sociedades por ações.]. pelos "Chicago-boys"). títulos do Estado etc. uma das bases econômicas essenciais do imperialismo[. consolidou-se a separação entre a propriedade do capital e o comando do processo produtivo. ao lado dos demais papéis em circulação (obrigações. mais exatamente. a política econômica preconizada por Hayek e consortes da “escola de Chicago” (já aplicada experimentalmente no Chile. por um longo período. 12 31 . da camada dos que vivem de rendas financeiras (rentiers)[. No capítulo VIII de Imperialismo. A exportação de capitais.. A possibilidade de negociar ações nas Bolsas. 1960: 290).].. estágio superior do capitalismo: “O parasitismo e a putrefação do capitalismo”... que permitiu à classe operária dos Estados capitalistas conquistar os direitos sociais consubstanciados no chamado “Welfare State”. totalmente alheios à participação numa empresa qualquer e cuja profissão é a ociosidade. mesmo ano em que Paul Volcker chamou os dólares de volta para Wall Street oferecendo juros altíssimos. no final do século XIX.. Mas em 1979. já discernira a lógica objetiva que conduzia à ditadura planetária do capital financeiro: “O imperialismo é uma imensa acumulação de capital-dinheiro num pequeno número de países[.

eles demonstraram na prática que. no início dos anos 1970. O apelo aos fundos públicos para atenuar os efeitos dessa grande bancarrota nos põe diante das questões decisivas sobre o novo curso do capitalismo internacional. quando o macartista R. amparado pelo êxito da contra-revolução capitalista em curso. havia menos a demolir: o “sonho americano” de ficar mais rico que o vizinho nunca abrira espaço para amplas conquistas sociais dos trabalhadores). ocorreu um novo ciclo de expansão dos negócios. (b) a acumulação de um colossal déficit externo estadunidense.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE “Welfare State”. dos quais eles "derivam". de modo a reanimar a carcomida economia estadunidense: ao longo dos anos 1990. mas retomado em 2002. Da fórmula desse novo surto faziam parte (a) o crescimento econômico acelerado de países da Ásia oriental. interrompido no início de 2001. é verdade. alimentado pela especulação no mercado de ações e dos negócios imobiliários. Mas ao violarem as leis do mercado para salvar o mercado. ditos ativos subjacentes. quando a desmesurada “bolha” dos “créditos podres” conduziu Wall Street à bancarrota. Daí o surgimento dos “derivativos financeiros”: instrumentos de negociação para liquidação futura cujos preços são determinados em relação a ativos financeiros (geralmente negociados no mercado à vista). sugando seu quinhão de juros na massa da mais-valia13. A derrocada soviética de 1989-1991 facilitou novos ataques ao “Welfare State” e a “desregulamentação” generalizada dos movimentos do capital especulativo abriu caminho para a proliferação (aliás “alavancagem”) de títulos cada vez mais fictícios nas mãos dos sedentos morcegos da especulação financeira. O baile dos vampiros durou até 2008. contrariamente ao credo do catecismo neoliberal. promovendo o retrocesso à situação social da “Belle Époque”. que levou os países capitalistas dominantes a adotar o regime de câmbio flutuante. a "nova economia" se impôs no centro hegemônico do capitalismo internacional (Nos Estados Unidos. o Vale notar que a primeira grande “desregulamentação” remonta à ruptura dos acordos de Bretton Woods. “financiado” pelo poder de imprimir dólares. sobretudo da China. Reagan chegou à presidência do Império estadunidense. Logo em seguida. Bush e consortes só violaram seu fundamentalismo mercadológico porque foram forçados pelos fatos. em 1980. tendo domado a inflação e reanimado o dólar. A principal conseqüência foi a busca de instrumentos financeiros suscetíveis de contrabalançar mudanças na taxa de câmbio e em outras variáveis afetando o cálculo de rentabilidade do “big business”. (c) o endividamento dos consumidores estadunidenses. o Federal Reserve foi gradualmente baixando os juros. mas também da Índia e do Vietnã. 13 32 . Entrementes. Sem dúvida.

a despeito de sua “tamanha força política”. como ainda é o atual. (2) predomínio do capital bancário sobre o industrial.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE movimento do capital não tende à auto-regulação e sim à crise e ao bloqueio das forças produtivas. Marx emprega o termo Império num sentido inteiramente diferente. são muito raras as referências do Capital à economia do colonialismo (O’CONNOR. que em sua estulta e míope euforia os ideólogos tinham erigido em “fim da história”. Lembremos rapidamente as teses que a fundamentam. (b) esta deve ser atualizada. (4) divisão econômica do planeta entre os trustes. formando a oligarquia financeira. (a) A determinação básica principal dessa fórmula está expressa no título da obra célebre de Lênin. Na verdade. foi engavetado pelos ideólogos do “paradigma neoliberal”. São cinco as principais transformações do modo capitalista de produção chegado à maturidade em escala internacional: (1) concentração do processo produtivo.estágio superior do capitalismo. Quanto aos que na esquerda levaram o termo a sério. mas como indica 33 . (c) o termo globalization é um contrabando ideológico neoliberal que apenas mistifica a questão. o “breve capítulo” trinta e três não trata do colonialismo. gerando os monopólios. Sintomaticamente. Há uma grande audácia teórica nesta síntese. normalmente e sobretudo em períodos de refluxo das esperanças revolucionárias. pois em três proposições: (a) ele só pode ser compreendido a partir da teoria do imperialismo. seria bom que oferecessem argumentos mais consistentes do que os de J. Também o termo colonialismo não figura no vocabulário dos dois grandes fundadores do materialismo histórico. (5) conclusão da divisão territorial do planeta entre as grandes potências imperialistas. Nossa tese fundamental sobre o capitalismo contemporâneo se desdobra. o termo globalization. Até que o façam. fica a pergunta: como uma tão grotesca impostura ideológica logrou obter tanto êxito? O marxismo oferece o princípio de explicação: as idéias dominantes são. (3) predomínio da exportação de capitais sobre a de mercadorias. próximo ao etimológico: o termo latino imperium designa o poder político oriundo da força das armas (o grande Bonaparte e o espertalhão que se dizia seu sobrinho). Imperialismo é um termo ausente do vocabulário de Marx e de Engels: os processos que o configuraram só se tornaram plenamente claros no final do século XIX. Fiori. As duas primeiras exigem um comentário. L. Imperialismo. James O’Connor notou a esse propósito que além do breve capítulo final do livro I. A proposição (c) terá ficado clara. as idéias das classes dominantes. 1970: 107).

para que na Austrália e outras colônias de Sua Majestade britânica se cobrassem altos preços para as concessões de terra de maneira a delas excluir os colonos pobres. forçado a se vender voluntariamente" e portanto que "em vez de ser uma coisa. Marx esclarece: “Tratamos aqui de colônias reais. Peel (que levou consigo da Inglaterra para Swan River. Na nota que acompanha o título. falando economicamente. cujo território não foi. de meios de subsistência. que Mr. Marx constata que o economista inglês "descobriu nas colônias que a posse de dinheiro. e cada um que nele se estabelece pode por causa disso tornar parte dele sua propriedade privada e seu meio individual de produção. víveres e meios de produção no valor de 50. nos Estados Unidos. salvo se dispuser de um complemento preciso. um outro homem. como entre nós. na Nova Holanda. solos virgens colonizados por imigrantes livres. da “teoria moderna da colonização”. a todos os colonos. desapareceram sem se despedir. sem lograr entretanto atrofiá-la. As companhias de comércio e os grandes proprietários criaram toda sorte de dificuldades à expansão dessa classe nascente. Peel também transportara para o Novo Mundo . obrigando-os assim a trabalhar para os capitalistas.000 indivíduos dessa classe.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE seu título. o capital é uma relação social entre pessoas da classe operária". enfim. Acrescenta no corpo do texto que há colônia “quando a maior parte do solo é ainda propriedade pública. referidas "em tom patético" por Wakefield. os 3. O meticuloso empreendedor 34 . deixando-o "sem sequer um doméstico para fazer-lhe a cama ou buscar água no riacho". de máquinas e de outros meios de produção não torna um homem de modo algum um capitalista. apenas uma colônia da Europa. Com efeito.000 libras esterlinas). em princípio. sem impedir os que vêm depois nela se estabelece de efetuar a mesma operação”. monopolizado por donatárias e sesmarias. Os Estados Unidos são ainda. Também pertencem a essa categoria velhas plantações como aquelas em que a abolição da escravidão alterou as condições anteriores. Daí a insistência de ideólogos como Edward Wakefield. Comentando ironicamente em O Capital as desditas de um certo Mr. A abundância de terras tomadas aos índios favorecia a constituição de uma larga classe de camponeses independentes. em meados do século XIX. o assalariado. o acesso à terra estava aberto. Com efeito.

não se pode desejar elucidação mais límpida do próprio conceito de relações de produção. não excluía a necessidade de atualizá-la. A obra foi reeditada na USSR em 1954 (Moscou. A comparison of the social and political state of both nations. p. Quanto ao fundo. 1999. dentre os fatos históricos posteriores à síntese de Lênin. Bibiothèque de la Pléiade. “constituem menos uma nova teoria do que um catálogo de fatos históricos não inteiramente consistentes com as teorias anteriores” (O’CONNOR. Capital Book One: The Process of Production of Capital Moscow. Citamos a partir da primeira edição em inglês. Versão Online: Marx/Engels Internet Archive (marxists. O que.II. tal como desenvolvida por Lênin. 2 volumes. p. capítulo XXXIII. 1965. O texto de Wakefield citado por Marx é England and America. subsídios e garantias ao investimento privado [.33. assim como as visões alternativas que foram propostas. bem como a Hobson (em quem o grande marxista russo se apoiou criticamente). Nesta perspectiva. cumpria identificar..] e a aceleração da mudança tecnológica sob os auspícios destas corporações. Oeuvres. (d) consolidação de uma classe dominante internacional constituída na base da propriedade e controle das corporações multinacionais e o concomitante declínio das rivalidades nacionais promovido pelas elites nacionais nos países capitalistas avançados e internacionalização do mercado mundial de capitais pelo Banco Mundial e outras agências da classe dominante internacional.1226. 14 O Capital. (b) abandono do “livre” mercado internacional [.. Londres. 35 . de 1887.. I.org) 1995. aqueles que configuravam novas características a serem integradas na teoria do imperialismo. contudo modificar-lhes o conteúdo essencial. Paris. livro I. do “imperialismo contemporâneo”: (a) prosseguimento da concentração e centralização do capital e a integração da economia capitalista mundial nas estruturas das gigantescas corporações multinacionais de base estadunidense [.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE colonial esquecera-se apenas de levar em suas bagagens "as relações de produção inglesas"14. sem. (b) Num estudo publicado em 1970. o que lhe confere o status de texto original. A tradução de Samuel Moore and Edward Aveling foi revista por Engels. "A teoria moderna da colonização".]. O’Connor propôs uma síntese.. Rubel. como fizera Lênin.. (e) intensificação de todas estas tendências provocada pela ameaça do sistema socialista mundial sobre o sistema capitalista mundial (O’CONNOR. estágio superior do capitalismo. Progress Publishers). distinguindo-os dos fatos novos que afetaram as características enunciadas em Imperialismo. Karl Marx. vol. (c) participação ativa do capital estatal no investimento internacional. Para tanto.. 1970: 111). James O’Connor ponderou que as objeções dirigidas à teoria do imperialismo. também em cinco características. Consultamos também a tradução de M.]. evidentemente. 1833. 1970: 121).

ultra-imperialista. Sobre as funestas conseqüências da derrocada da URSS. sustentando que as alianças interimperialistas são sempre tréguas. de todo modo. a grande mudança concerne à hegemonia estadunidense. é concebível. o capitalismo absorveu as terapias reformistas para corrigir as "falhas do mercado" pela regulamentação social. estágio superior do capitalismo. Lênin criticou Kautski longamente em Imperialismo. que reforçou o cartel político-militar do bloco agrupado na OTAN. do equilíbrio estratégico EUA/URSS. em favor do bloco capitalista. 1960: 290).etc. adocicada pelos dólares do Plano Marshall.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Relativamente ao momento histórico da teoria de Lênin. A síntese de O’Connor envelheceu. estabelecesse a exploração comum do mundo todo pelo capital financeiro unido internacionalmente? Esta nova fase do capitalismo. perante o poderio do comunismo soviético. que em vez da luta entre os capitais financeiros nacionais entre si. Em parte por causa de seus pontos fracos. No plano interno as conquistas sindicais da classe operária contrabalançaram pela legislação trabalhista. porque “para o imperialismo é substancial a rivalidade de grandes potências em sua aspiração à hegemonia” (LÉNINE. Esta tese valeu até o final da II grande guerra imperialista. Teria a super-potência estadunidense confirmado a tendência ao “ultra-imperialismo” apontada por Kautski em Neue Zeitde 30-4-1915: “Não poderia a política imperialista atual ser substituída por outra nova. 36 . na educação. pelo direito aos serviços públicos de qualidade na saúde. nos transportes coletivos. O’Connor apenas registrou o que se tornara evidente desde 1947. os efeitos mais perversamente antisociais da lógica do lucro. em parte pelas conseqüências da ruptura. A partir de 1947. 1960: 316-7). com o início da “guerra fria”: as potências imperialistas européias abrigaram-se sob a tutela estadunidense. Enquanto perdurou a “ameaça do sistema socialista mundial”. LÉNINE. É realizável? Não existem ainda as premissas indispensáveis para decidir a questão” (Apud. o capitalismo europeu uniu-se num bloco imperialista sob hegemonia ianque.

em 1973. repondo assim em questão a divisão econômica do planeta entre os trustes e a divisão territorial do planeta entre as grandes potências imperialistas. Nos países imperialistas dominantes. A tese mais discutível de O’Connor é a alegada “consolidação de uma classe dominante internacional”.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE acrescentaremos apenas que não por acaso o sucesso do termo globalization remonta aos escombros do bloco soviético. provocada pela incapacidade dos Estados Unidos em garantir a convertibilidade do dólar. os quais evidentemente só a aplicam para os países escorchados pelo imperialismo) no resto do mundo. Quanto a sua síntese. Como se Wall Street fosse possível sem o Pentágono. as prósperas burguesias desses países dominantes sugaram o sangue e o suor dos trabalhadores imigrantes. A grande diferença social no capitalismo contemporâneo está no nível dos salários. de mil euros (Europa ocidental) e de valores equivalentes no Japão. Desmantelavase assim o sistema dito do "padrão de troca-ouro" ("gold standard 37 . O primeiro sinal evidente de que estavam vindo tempos mais difíceis foi a crise monetária internacional de 1971. Coube a R. o salário mínimo mensal gira em torno de mil e duzentos dólares (Estados Unidos). Esse é seu sentido mais forte: o brado de vitória da contra-revolução capitalista. isto é. quando triunfou a grande revolução nacionalpopular chinesa.. O desastre de 1989-1991 abriu a via para um novo surto de agressões coloniais. “passando o calote” (para retomar expressão dos neoliberais. dirigida pelo Partido comunista. Essas vitórias dos povos coloniais permitiram a nacionalização das riquezas naturais até então pilhadas pelo imperialismo. o principal defeito é não ter levado em conta as revoluções de libertação nacional vitoriosas na Ásia e na África a partir de 1949. Seu pressuposto implícito é a atrofia da função de articulação e de condensação da dominação de classe exercida pelos Estados nacionais.. quarto e quinto traços constitutivos da síntese elaborada por Lênin. Nixon. Durante o quarto de século que seguiu o da longa expansão do capitalismo estadunidense e oeste-europeu (este estimulado pelos dólares do Plano Marshall). de trocá-lo por seu equivalente legal em ouro. reconhecer essa impossibilidade. Explica-se assim porque dezenas de milhões de proletários da periferia tenham sido induzidos a buscar trabalho nesses países onde se concentra a riqueza produzida no mundo todo. mas num contexto histórico em que a China se tinha tornado uma grande potência econômica.

Nesta segunda versão. A base do sistema de Bretton Woods. maghrebinos e negros na França etc. em moeda-padrão das trocas internacionais. concluía-se a gloriosa luta de libertação nacional do Vietnã.888 gramas O ciclo ascendente do capitalismo estadunidense. em 1940-1941: as guerras engendram o pleno emprego e a produção maciça de meios de destruição (Na lógica da valorização do capital. notadamente: (a) resolver a "crise fiscal" dos Estados capitalistas reduzindo os gastos públicos. bastaria considerar que a moeda "global" do capitalismo entrou em colapso naquele ano. os serviços de interesse coletivo e as funções estatais que os asseguravam.). que marcou o encerramento de um ciclo longo de mais de três décadas de expansão do capitalismo internacional16. Essa é a causa do 15 Adotado no final da I Grande Guerra e desativado a partir de 1929. O valor de um dólar correspondia. Os valentões do Pentágono abandonaram em debandada a terra em que tinham cometido abjetos e odiosos crimes de guerra. como laranjas já espremidas. 16 31. à medida que o "enxugamento" neoliberal reduzia drasticamente a oferta de empregos.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE exchange")15.1 35 0. foi erigido em moeda mundial. que atingiu prioritariamente os mais fracos e vulneráveis (turcos na Alemanha. A mão de obra estrangeira foi empurrada para fora. não faz diferença produzir coca-cola ou bomba atômica). a saber. Pouco tempo depois. o "gold standard exchange" foi reativado em 1944. (c) privatizar empresas estatais. com efeito. (d) "enxugar" empregos em todos os setores de atividade. as prestações sociais. Se fosse preciso desmentir a falácia da "globalização". o dólar. Durante o retrocesso econômico que se estendeu até o início dos anos 90. era a paridade legal do dólar com o ouro. assumiram o "programa máximo" da reação neoliberal. A hegemonia estadunidense descia a seu ponto mais baixo.1 gramas de ouro fino. conseqüentemente. aumentando-lhes os lucros. 35 dólares= 1 onça troy= 31. os direitos sociais dos trabalhadores. (b) suprimir tanto quanto possível. seguindo o exemplo anglo-estadunidense. arrecadando fundos para o Tesouro e propiciando belos negócios aos investidores privados. no plano econômico como no militar e. para poder reduzir os impostos pagos pelos capitalistas. no político. com efeito. após a grande depressão dos anos 30. as burguesias do mundo inteiro. pois a de ouro fino. iniciou-se. mediante sua equivalência fixa com o ouro. mais exatamente. dinheiro do Estado capitalista tornado incontrastavelmente hegemônico. Essa frenética campanha neoliberal foi responsável pelo desemprego crônico de dezenas de milhões de trabalhadores. mesmo os mais penosos e insalubres. O muro do México é apenas o exemplo mais sórdido e detestável das novas barreiras policiais que foram sendo erguidas. pela longa e catastrófica depressão que seguiu o estouro da Bolsa de Nova Iorque. na famosa conferência de Bretton Woods. 38 .

diversos agrupamentos de extrema-direita. Enquanto se alternavam. do racismo e do neonazismo em toda a Europa. engenheiros etc. da geladeira à TV. o francês vinho. O nervo dessa questão está na determinação dos bens que integram o valor dos meios de consumo considerados necessários. além das férias e dos apetrechos domésticos produzidos em larga escala. sem alternativa de fundo. trocaram a luta de classes pela caça ao imigrante. o operário inglês bebe cerveja. sob o comando de Berlusconi. que contaminou aqueles setores do sindicalismo que. a maioria dos trabalhadores da Europa mais próspera tinha pleno acesso à medicina e escola pública. A queda do preço da força de trabalho abaixo de seu valor é fenômeno geral no capitalismo. nome futebolístico de um improvisado “bloco histórico” reacionário juntando. Outra não é a origem da proliferação tentacular do neofascismo. para defender o emprego (o deles). lançada por doutrinários da “dependência” e do “sub-imperialismo”. prosperavam nos meios burgueses e plebeus mais afetados pelo desemprego e pela deterioração social. No auge do "capitalismo de bem-estar". É só consultar publicações sindicais ou de partidos marxistas europeus para constatar constantes denúncias da intensificação do ritmo do trabalho nas fábricas. a denúncia das “cadences infernales” nas linhas de montagem é recorrente. Essa necessidade é cultural e historicamente determinada: como lembrava Marx. tratou de compensar seu desgaste político aderindo à “Forza Italia”. ofereça uma explicação consistente para a grande diferença entre o nível dos salários dos países dominantes e o dos países dominados.). Na Itália. sem aumento correspondente do salário. inclusive o neofascismo explícito. principalmente através do aumento da intensidade do trabalho ou da complexidade das aptidões exigidas do trabalhador (quadros técnicos. Na França. corroída por dentro. 39 . a direita democrata-cristã. Aprimorar Marx é difícil. aventureiros truculentos. ao longo do terceiro quarto do século XX. vulgar aventureiro e milionário corrupto. Os argumentos em que eles se apóiam simplesmente passam por cima da diferença entre preço e valor. de ambições sombrias. Não nos parece que a noção de super-exploração.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE surto virulento de xenofobia e racismo na Europa ocidental. Tudo isso integra o valor da força de trabalho. a uma boa rede de transportes coletivos. políticas neoliberais agressivas da direita e frustradas tentativas socialdemocratas para executar moderadamente a mesma política de redução dos “custos sociais” da valorização do capital em escala mundial.

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Quando a derrocada do bloco soviético, debelando o "perigo comunista", deixou à vontade a burguesia dos países imperialistas para ampliar a ofensiva neoliberal contra as conquistas sociais da classe operária, o nível dos salários nos países dominantes sofreu certa erosão, mas permaneceu no patamar que indicamos acima, muitas vezes superior ao dos países periféricos. Essa diferença, com certeza, não se explica por oscilações conjunturais. Expressa a desigualdade de desenvolvimento entre centro e periferia do sistema imperialista, que por sua vez resulta de toda a história da colonização, da pilhagem voraz das riquezas vegetais e minerais dos continentes agredidos, da escravidão, da indizível pobreza das massas rurais, do intercâmbio desigual etc. Sem dúvida, nada impede falar em super-exploração para descrever as situações em que aumenta a taxa de mais-valia. Mas não é preciso um novo conceito para marcar a queda do preço (salário) relativamente ao valor da força de trabalho. Ambos, evidentemente, têm limites inferiores objetivos: a mera sobrevivência. Entretanto, segundo alguns expositores da doutrina da super-exploração, os mecanismos que a produzem, “ao retirarem do trabalhador as condições necessárias para que reponha o desgaste de sua força de trabalho [...]configuram um modo de produção fundado na maior exploração da classe trabalhadora”. Difícil acompanhar esse argumento. O peculiar “modo de produção fundado na maior exploração da classe trabalhadora”, no qual o operário não consegue repor o desgaste de sua força de trabalho é, antes, um modo de extermínio, como nos campos de concentração hitlerianos17. O fato de que as mulheres costumem ganhar (salvo no setor público) menos do que os homens para executar as mesmas tarefas com a mesma qualificação corresponde à mais generalizada forma de super-exploração do trabalho. Ele nos põe diante de uma questão que remonta à aldeia neolítica e que
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Na mesma exposição encontramos outras afirmações do mesmo gabarito: a super-exploração (ou “maior exploração da classe trabalhadora“??), alienaria do trabalhador “o consumo estritamente necessário para conservar sua força de trabalho”; o consumo do operário seria reduzido “além de seu limite normal” (??); “a utilização desses mecanismos (isto é, aqueles definidos por R.M.Marini, principal pensador dessa corrente) acaba fazendo com que o trabalho “seja remunerado por baixo de seu valor” e acarretaria “o dispêndio da força de trabalho em uma proporção maior que o normal”(??). Notemos enfim que falar em valor do trabalho (que este “seja remunerado por baixo de seu valor“) é uma aberração do ponto de vista do marxismo e, na mais otimista das hipóteses, um retorno ao ponto de vista da teoria burguesa do valor-trabalho (Petty, Smith, Ricardo). Cf. Pedro Henrique Evangelista Duarte e Edílson José Graciolli,“Da relação entre a superexploração do trabalho e a política sindical no Brasil: notas para uma discussão” (Disponível em http://www.ifch.unicamp.br/cemarx/coloquio/Docs/gt5/Mesa2/da-relacao-entre-a-superexploracao-dotrabalho-e-a-politica-.pdf)

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Engels foi o primeiro a analisar em profundidade, a opressão da mulher pelo homem. Para explicar a persistência dessa opressão, a despeito dos inegáveis progressos conquistados pelos movimentos feministas da segunda metade do século XX, a noção de superexploração poderá ser útil, mais além das modas intelectuais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DUARTE, Pedro Henrique Evangelista; GRACIOLLI, Edílson José.“Da relação entre a superexploração do trabalho e a política sindical no Brasil: notas para uma discussão”.6° Colóquio Internacional Marx e Engels. Disponível emhttp://www.ifch.unicamp.br/cemarx/coloquio/Docs/gt5/ Mesa2/da-relacao-entre-a-superexploracao-do-trabalho-ea-politica-.pdf FIORI, José Luis; TAVARES, Maria Conceição. Poder e dinheiro, Petrópolis, Vozes, 1997. MARX, Karl. Karl Marx, Oeuvres, I, (M. RUBEL, M. org.) Paris, Bibliothèque de la Pléiade, 1965. MARX, Karl. Capital Book One: The Process of Production of Capital. Moscow. Marx/Engels Internet Archive (marxists.org) 1995, 1999. LÉNINE, V., Oeuvres, Tomo 22. Paris-Moscou: Editions SocialesEditions du Progrès, 1960. O’CONNOR, James. “The meaning of economic imperialism”, in RHODES, Robert I (org.) Imperialism and underdevelopment, Londres e Nova Iorque, Monthly Review Press, 1970.

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A recepção de Rosa Luxemburgo no Brasil
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Isabel Loureiro19 Embora os estudos marxistas tenham pouco espaço no Brasil (como aliás no mundo todo), eles ainda podem ser encontrados em algumas universidades públicas,20 sendo que a maior parte das pesquisas gira em torno de autores como Marx, Lênin, Gramsci, Lukács e os filósofos da Escola de Frankfurt. Em compensação, há poucas pesquisas acadêmicas sobre Rosa Luxemburgo o que talvez seja consequência de que a maioria de suas obras ainda não foi traduzida em português. Por conseguinte, a recepção de Rosa Luxemburgo no Brasil não foi acadêmica, mas política. Em 1995, Michael Löwy resumiu bem o que ocorreu entre nós: “Sempre existiu na cultura da esquerda brasileira uma corrente ‘luxemburguista’, mas até há poucos anos ela era relativamente marginal. Isso começa a mudar com a fundação do Partido dos Trabalhadores, cujo primeiro aderente, simbolicamente, foi Mário Pedrosa, o mais conhecido representante dessa corrente desde os anos 1940. Muitos dos intelectuais e dirigentes do novo movimento se dizem herdeiros de Rosa Luxemburgo,enquanto se observa de alguns aspectos essenciais dessa herança – a democracia socialista, o élan antiburocrático e libertário, a busca de uma alternativa à social-democracia e às formas autoritárias do comunismo – na nova cultura socialista do Brasil” (LÖWY, 2004).

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Tradução do artigo publicado em Nahiriko Ito, Annelies Laschitza, Ottokar Luban (ed.), Rosa Luxemburg. Ökonomische und historisch-politische Aspekte ihres Werkes, Berlim, Dietz Verlag, 2010.
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Professora colaboradora do Programa de Pós-Gradução em Ciência Política, UNICAMP, e membro do Comitê Editorial de Crítica Marxista.
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Na UNICAMP a cada dois anos é realizado o Colóquio Marx/Engels em que cerca de 400 trabalhos são apresentados.

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04. depois em Paris. Em 1933 começa seu trabalho de crítico de arte com um artigo sobre Käthe Kollwitz.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Este artigo tem duas partes. segundo a qual o socialismo democrático só pode ser realizado pela ação autônoma das massas populares.1900-05. Numa carta de 14 de maio de 1928 ao amigo Lívio Xavier. ao lado desta dimensão bastante conhecida do pensamento político de Rosa Luxemburgo. Em 1934 m participe de uma frente de esquerda contra o fascismo brasileiro (“integralismo”) e em outubro é ferido num combate de rua na Praça da Sé. REVOLUÇÃO E FORMAÇÃO POLÍTICA Desde o início de sua recepção no Brasil Rosa Luxemburgo foi vista como o símbolo do socialismo democrático. foi o pai do “trotskismo” e mais tarde do “luxemburguismo” brasileiro. Durante sua estada em Berlim e Paris no fim dos anos 1920. Pedrosa parte para o exílio. em São Paulo. conquanto ainda não tivesse lido suas obras nessa época. escreve: “A tese de Rosa Luxemburgo sobre a acumulação do capital explica hoje melhor a situação do 21 Mário Pedrosa (25. 44 . Na segunda parte gostaria de mostrar que. A partir de 1980 Mário Pedrosa se engaja na criação do PT.21 nosso mais importante pensador socialista e nosso mais importante crítico de arte. A primeira visa a esclarecer esta citação que resume de maneira particularmente feliz a Weltanschauung socialista e democrática de Rosa Luxemburgo a qual foi desde o início da sua recepção entre nós como uma espécie de corrente subterrânea na cultura de esquerda no Brasil. com alguma influência nas origens do PT. Mário Pedrosa. há outra dimensão menos conhecida em A Acumulação do Capital e na Introdução à Economia Política que também pode contribuir para a renovação do pensamento marxista. onde conhece a oposição trotskista.11. Em 1977 volta novamente ao Brasil. embora não houvesse referência explícita a ela. Em 1945 volta ao Brasil e funda o jornal Vanguarda Socialista onde adota uma posição muito crítica em relação PCB. ele teve contato pela primeira vez com as idéias econômicas de Rosa Luxemburgo. primeiro no Chile (onde Salvador Allende lhe pede para organizar o Museu da Solidariedade). Com isso. Em maio de 1940 ele se afasta da IV Internacional por não concordar com a caracterização da URSS por Trotsky como “Estado operário degenerado” nem com a idéia da “defesa incondicional da URSS”. Durante a ditadura militar (1964-1984). SOCIALISMO DEMOCRÁTICO.1981) entra no PCB em 1926. mas tendo ficado doente. Em 1947 entra no Partido Socialista (PSB) de onde é excluído em 1956. precisa interromper a viagem em Berlim. Durante a ditadura de Getúlio Vargas (1937-1945) parte para o exílio em Paris e Nova York. Em 1927 é enviado à escola do partido em Moscou. Em 1941 é preso ao voltar ao Brasil e forçado a exilar-se. do qual assume a direção no Brasil em 1929. tendo sido o primeiro a assinar o manifesto de fundação em 10 de fevereiro de 1980. influenciada por Rosa Luxemburgo. deixa o PCB e toma parte na fundação do movimento trotskista na Alemanha e na França.

22 Ver. foi publicado em duas partes. os irmãos Eder e Emir Sader. Mauricio Tragtenberg. Rosa Luxemburg ou o preço da liberdade. que lhe apresentou as idéias econômicas de Rosa Luxemburgo. dos sindicatos e dos sovietes na URSS. Herminio Sachetta. 23 Esse texto. Kautsky. No Prefácio à tradução brasileira do livro de Jörn Schütrumpf. 2001) Paul Singer. foi desde o fim dos anos 1920 um crítico ácido da degeneração burocrática do partido. 1979). Etc. 296). Bukharin – que a deformou como sempre. Num país provinciano e afastado do debate no interior da esquerda. Foi provavelmente Lucien Laurat (pseudônimo de Otto Maschl). O bolchevismo enfim está em crise”.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE capitalismo mundial do que a de Hilferding. 22 Mário Pedrosa. em São Paulo. e na URSS em 1990. Michael Löwy escreve a esse respeito: “Lembro-me ainda do entusiasmo. esse semanário cumpriu seu papel publicando textos desconhecidos dos clássicos do marxismo (Marx. em abril e maio de 1946. os advogados Renato Caldas e Luis Carvalho Pinto (…) Estou convencido de que esa brochura de 1918 é um dos textos indispensáveis não só para entender o passado. Karl Korsch). Trotsky. Em 1930 Laurat publicou um livro sobre o tema: L’accumulation du capital d’après Rosa Luxemburg. Lênin. A questão do imperialismo. por volta de 1956. do fervor mesmo com que líamos esse precioso escrito. Não é preciso dizer que Vanguarda Socialista foi posto no índex dos comunistas brasileiros. Um dos textos publicados em 1946 foi justamente A Revolução Russa de Rosa Luxemburgo23. Muito mais tarde Pedrosa também escreveu um livro sobre o mesmo assunto. A questão colonial. mas também e sobretudo para uma refundação do socialismo (ou do comunismo) no século XXI. 24 Ver Paul Singer. Etc. Vanguarda Socialista se distinguia de outros pequenos jornais de esquerda pelo seu alto nível intelectual e a amplitude dos temas que iam da economia à cultura. junto com amigos e companheiros de grande valor como Paul Singer. mas em relação com a América Latina: A crise mundial do imperialismo e Rosa Luxemburgo (PEDROSA. quando participei. da fundação de um pequeno grupo ‘luxemburguista’.” (LÖWY. que Pedrosa conheceu em Paris. Mário Pedrosa e o Vanguarda Socialista (SINGER. 1993: 295. o que acabou tendo uma certa influência num pequeno círculo de esquerda fora do Partido Comunista. 2006: 10) Uma das ironias da história é que esse texto só veio a público na RDA em 1975. Solidão revolucionária. acompanhado das habituais observações a respeito dos “erros” de Luxemburgo. Na juventude começou a ler a obra de Rosa 45 . Rosa Luxemburgo) e também de autores contemporâneos que discutiam os problemas do socialismo (Anton Ciliga. o jornal de Mário Pedrosa apostava no futuro. Andrés Nin. verdadeira heresia numa época em que a URSS estava no auge da sua glória e a maioria da esquerda brasileira vivia sob a hegemonia do PCB 24. A partir de 1945 ele passa a divulgar as idéias políticas de Rosa Luxemburgo em seu jornal Vanguarda Socialista (1945-1948). Num país periférico como o Brasil onde a tradução sistemática das obras marxistas só começou nos anos 1960. Engels. traduzido por Miguel Macedo. emigrou em 1939 com a mãe para São Paulo. Mário Pedrosa e as origens do trotskismo no Brasil (MARQUES NETO. José Castilho Marques Neto. judeu austríaco. que conhecia muito bem a história da Revolução Russa.

seja nos movimentos sociais. indiferente a todas as prescrições dos partidos” (LUXEMBURGO. 2008). hoje. “não menos carregado de crimes e degenerado até a horrenda caricatura do que. podia enfrentá-los de maneira independente: “Sobrava-lhe. Paul Singer foi co-fundador do PT e no momento é coordenador da Secretaria de Economia Solidária do governo Lula. David Muhlmann. não só mas também no jornal Vanguarda Socialista. 46 . Para mais informações sobre ele e sobre a influência que Rosa Luxemburgo exerceu sobre suas idéias. Segundo ele. 1979: 119-20). assim como Rosa Luxemburgo. seja em um (ou vários) partido democrático. Quanto a esse ponto eles também estavam de acordo com a concepção de Rosa Luxemburgo segundo a qual o partido abarca “o conjunto Luxemburgo. (MUHLMANN. em valor moral e intelectual. Foi militante do PSB (1950-1965) até que a ditadura militar proibiu o multipartidarismo. permitindo apenas dois partidos. que “A hora histórica exige a cada momento as formas correspondentes de movimento popular e ela cria ela mesma meios de combate novos e improvisados. da ação espontânea e da experiência das massas era novamente ouvida por todos aqueles que queriam reconstruir o movimento socialista internacional sobre novas bases que superassem. desconhecidos anteriormente. nos conselhos e nas mais diferentes formas de organização pela base. Contra uma concepção autoritária da política segundo a qual a consciência é introduzida “de fora” na classe operária por um partido de vanguarda “esclarecido”. ela escolhe e enriquece o arsenal do povo. a voz da revolucionária polonesa. Afastados de todo dogmatismo organizativo eles pensavam. em autoridade e em espírito revolucionário”25. o partido político idealizado pelos socialistas brasileiros logo após a Segunda Guerra Mundial não era uma organização centralizada e hierarquizada de revolucionários profissionais. 1979: 129). sob a forma stalinista. mas a expressão das experiências históricas das camadas subalternas da sociedade.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Em 1946 Mário Pedrosa estava convencido de que Rosa Luxemburgo era a única socialista no mundo ocidental que. Réconcilier marxisme et démocratie. embora entusiasta da tomada do poder pelos bolcheviques. ver Uma discípula de Marx que ousava criticar Marx. para isto. com sua defesa das liberdades democráticas. A revolução russa (PEDROSA. (SINGER. tanto o reformismo social-democrata “carregado de crimes e de senilidade”.” (PEDROSA. 25 Nota explicativa. quanto o bolchevismo. os socialistas brasileiros – cujo precursor foi Mário Pedrosa – pensavam que o socialismo pode ser somente uma criação autônoma das massas organizadas. 2010). não é mais do que a máscara totalitária de um neobarbarismo. 1987: 149)Além disso.

era preciso que todos os grupo subalternos da sociedade se organizassem (não só os operários da indústria) para defender seus direitos: os negros. assim como Rosa Luxemburgo. 1987: 510) Em outras palavras. A luta quotidiana das massas e o Partido Comunista. Assim sendo. tratava-se de pôr em prática a declaração da Associação Internacional dos Trabalhadores: “A emancipação dos trabalhadores é obra dos próprios trabalhadores”. Mário Pedrosa (1946a). 1974: 190) Uma experiência nesse sentido. Precisamos trabalhar de baixo para cima. não bastava para mudar a sociedade. quotidiana e constante das massas. as mães. ele escreve em Vanguarda Socialista: “O socialismo não consiste somente na conquista do poder pelo proletariado e na realização das reformas de estrutura com a socialização dos meios de produção. 47 .. mas por baixo” (LUXEMBURGO.26 Esta idéia dos movimentos sociais e da luta para criar embriões de socialismo já na sociedade capitalista – o que hoje se chama de contra-hegemonia – era algo espantosamente original na esquerda brasileira daquela época.) devemos conquistar o poder político não por cima. Em outras palavras. o que corresponde precisamente ao caráter de massa de nossa revolução (. Luxemburgo está se referindo à formação de uma hegemonia das classes subalternas já na sociedade capitalista.. o que Oskar Negt chama de “espaço público proletário” (NEGT. ou para ser destruído como queriam os bolcheviques) mas uma dimensão que era preciso construir. mas por elas mesmas e não por meio de uma ‘procuração’ a um partido de vanguarda mais consciente”27. os empregados. foram os 26 27 Mário Pedrosa (1946b) Vanguardas. Nesse sentido. apesar de sua curta duração. embora fosse importante. os estudantes. Essa idéia é claramente exposta por ela em seu discurso à assembléia de fundação do Partido Comunista Alemão (KPD) falando da revolução socialista: “a história não nos faz a tarefa tão fácil como nas revoluções burguesas em que bastava derrubar o poder oficial no centro e substituí-lo por alguns homens. “todos os que trabalham e não exploram o trabalho alheio”.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE dos interesses progressistas da sociedade e de todas as vítimas oprimidas pela ordem social burguesa” (LUXEMBURGO. partido e socialismo. estava convencido de que a tomada do poder de Estado. Mário Pedrosa. O socialismo é a ação consciente. os trabalhadores agrícolas. ou por algumas dúzias de homens novos. 1979: 441). as empregadas domésticas. Para Mário Pedrosa o poder não era um lugar determinado a ser conquistado (para ser reformado como queria a social-democracia.

LÓPEZ Y RIVA. “antes da tomada do poder” (PEDROSA. Mas como recusava toda concepção doutrinária de revolução e se inspirava na crítica de Rosa Luxemburgo aos bolcheviques (contra a imitação servil da Revolução Russa pela esquerda ortodoxa) nunca abandonou a idéia de que cada país deve seguir seu próprio caminho revolucionário. limitação dos poderes do Estado e do capital. A tradição dos conselhos como exemplo de democracia participativa permanece um ponto de referência importante para Mário Pedrosa para quem o conceito de democracia representativa deve “ser arquivado num museu de antiguidades” (PEDROSA. é a construção de uma contra-hegemonia inseparável da auto-organização e da autogestão. quer dizer. que o controle dos trabalhadores sobre toda a vida social é o caminho para o socialismo democrático e que este começa imediatamente. E ainda acho que uma Nação que não passa por uma revolução não é ainda uma Nação formada. 1970: 400). 1987: 442s). começando pela produção (LUXEMBURGO. escolas. Ou seja.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE conselhos de operários e soldados na Revolução de novembro de 1918 na Alemanha. o qual depende das condições 48 .) o que significa descentralização do poder de decidir. municípios. 2006. Mário Pedrosa se considerava sobretudo um revolucionário. Mário Pedrosa pensava. 1966: 438). 1946b) Dito de outro modo. 2006) Desse ponto de vista a revolução é um longo processo. É preciso construir “novos centros democráticos de poder” (empresas. e nisso eles estavam absolutamente de acordo com Rosa Luxemburgo. 1966: 324). uma vitória da democracia sobre a ditadura do lucro” (PEDROSA. exige que ela seja feita e controlada pelo poder popular. tanto na metrópole quanto na periferia. “uma extensão do poder popular. A vitória de uma revolução socialistademocrática. 1981). não se trata de esperar a “martelada da revolução” (LUXEMBURGO. aqui e agora. já em 1946. o poder popular. etc. para os socialistas brasileiros depois da Segunda Guerra Mundial. que devem exercer a autogestão em todos os níveis. uma idéia aplicada hoje pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) no Brasil e pelos zapatistas no México (LOUREIRO. regiões. uma sociedade socialista e democrática começa pelo controle da vida pública pelas massas populares. Sempre sonhei uma revolução para o Brasil” (PEDROSA. mas de tentar construir. Numa entrevista pouco antes de morrer declarou: “Os homens da minha idade que não se empolgaram pela Revolução Russa … alguma coisa lhes falta.

de maneira tortuosa. 2008: 55). das classes em movimento.. ou no leninismo.” Referindo-se à célebre frase de Rosa Luxemburgo sobre “a liberdade de quem pensa de maneira diferente”. alguns elementos.. implica a separação antidemocrática entre vanguarda e massas e. 28 29 Essa era uma antiga palavra de ordem do spartakista Paul Levi (nesse momento já expulso do KPD) contra a política golpista e aventureira da Internacional Comunista na Alemanha. a defesa de uma concepção democrática de partido de massas contra a concepção leninista do partido-vanguarda que. adotou a tática de “frente única operária” sem no entanto reconhecer a paternidade alemã da idéia. de que a esquerda de cada país deve encontrar seu próprio caminho a partir de sua própria experiência e de sua situação concreta. da realidade histórica de onde provém ou onde atua. a idéia de que não há modelo para a revolução. a separação entre a direção do partido e a base.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE objetivas do desenvolvimento local e não pode ser determinado de antemão por nenhum partido-vanguarda.29 Angela Mendes de Almeida considera esse comportamento da IC “uma espécie de oportunismo. a “. É o que faz a historiadora Angela Mendes de Almeida quando lembra que as idéias de Luxemburgo não estiveram na ordem do dia a não ser durante o breve período em que a Internacional Comunista (IC). sobretudo essa intolerância com aquele que pensa diferente. 3. como mostrou o desenvolvimento dos partidos comunistas no século XX. Interpretar textos sagrados não substitui a experiência vivida nem a prática. com ares de falsidade maquiavélica. por mais sagrados que sejam de Marx ou Lênin. 1982). “Uma sucessão de camadas de mentiras que. 2.” (PEDROSA. que iria pesar muito fortemente em seguida” sobre a esquerda do mundo inteiro. 49 . da qualificação dos homens que a fazem. revolução não se aprende a fazer em livros ou mesmo em textos escritos.” (MENDES DE ALMEIDA. Após esta curta exposição podemos resumir as idéias que os socialistas brasileiros herdaram de Rosa Luxemburgo: 1. já estavam presentes no bolchevismo. na era stalinista.28 Pode-se traçar um paralelo entre a recusa do partidovanguarda pelos socialistas brasileiros e a herança de Rosa Luxemburgo no KPD depois de seu assassinato. 4. segundo eles. a defesa do socialismo democrático como criação autônoma das massas populares que se organizam das mais diferentes maneiras e se politizam na luta diária com a finalidade de transformar o mundo capitalista dos interesses privados numa sociedade justa e igualitária. Ela é o ditado das coisas da terra. foram conformando uma política inexplicável. mas foi quase o que se limitaram a fazer tantos dos nossos melhores dissidentes. a historiadora acredita que embora o stalinismo seja “uma enorme degenerescência do leninismo.

essa posição socialistademocrática era manifesta nas origens do PT. movimentos que ao querer ir além da democracia representativa e dos limites que o capital lhe impõe. constatando que no governo Lula (2003-2010) os movimentos sociais se enfraqueceram. Esses movimentos sociais opõem à esquerda eleitoral. Segundo ele a formação política é a única possibilidade de impedir. com o intuito de ganhar as eleições e de fortalecer a máquina partidária. institucionalizada e burocrática.) quando em vez da crise e da revolução começou a triste saison morte [época morta] da reação política. Mas no Brasil ocorre precisamente o contrário. O momento Lênin. tendo como finalidade a transformação estrutural da ordem capitalista. Lassalle e Marx voltam a compartilhar a mesma idéia – a resignação momentânea e os planos de um trabalho de toupeira de esclarecimento revolucionário. lutam por uma democracia centrada na autonomia das massas populares. Os herdeiros de Rosa Luxemburgo estão hoje no MST e entre os zapatistas.. É neste lento e paciente trabalho de toupeira de formação política. se quiser construir o ciclo “pós-PT” – tem à sua frente a imensa tarefa 30 Ver Francisco de Oliveira. muitos acreditam que durante o governo Lula o PT se transformou num partido da ordem. burocrático e corrompido. 50 ..30 A perspectiva socialista-democráticarevolucionária de Rosa Luxemburgo deixou de fazer sentido para a esquerda governamental no Brasil. Gilmar Mauro acredita que se a esquerda no Brasil quiser estar à altura do desafio que lhe é imposto – em outras palavras. Além disso. ou pelo menos de tornar mais difícil a burocratização interna das organizações e a cooptação dos ativistas pelo Estado (MAURO. Como dissemos no início.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE crítica da democracia representativa e a defesa da autogestão e da auto-organização.” (LUXEMBURGO. 2008) . 2006). um dos líderes mais importantes do MST. (OLIVEIRA. especialmente numa época em que a possibilidade de uma reforma agrária em termos clássicos é cada vez mais improvável. a construção do poder a partir de baixo e insistem na participação das massas populares nos assuntos que lhes dizem respeito como uma condição indispensável à sua formação política. que o MST aposta todas as suas fichas. 1979: 151). É o que pensa Gilmar Mauro. Penso que a observação de Rosa Luxemburgo sobre Marx e Lassalle resume bem o dilema em que se encontram o MST e seus líderes: “(. temporário e silencioso. Mas com o passar do tempo foi sendo abandonada e substituída pela Realpolitik sem mais.

hoje em dia a expansão capitalista não é mais geográfica mas econômica. Dito de outro modo. ex. com um projeto político claro de substituição da sociedade capitalista e construção de uma sociabilidade diferente – o socialismo – ou efetivamente a esquerda amargará muitos anos. organizações populares. em diálogo permanente com seus problemas (p. 1991.. de conselhos. baseando-se a estratégia 31 Ver (PEDROSA. Esta idéia foi retomada e atualizada por David Harvey que chama a esse processo de “accumulation through dispossession” [acumulação por espoliação]. utilizando a cultura como canal de participação) com a esperança de construir uma ampla rede de organizações em todo o país tendo como finalidade formar “uma poderosa contra-hegemonia”: “(. a experiência dos conselhos de Turim (que eram conselhos de fábrica). buscando as experiências históricas da Liga Spartakus. no México tem várias experiências das comunidades indígenas” (MAURO.31 Do ponto de vista de Rosa Luxemburgo o capital precisa de regiões não capitalistas – “algo fora de si mesmo” – para acumular. 1988. 2008: 101). no que se refere à questão do socialismo democrático construído a partir de baixo Rosa Luxemburgo é uma referência teórica fundamental para os militantes dos movimentos sociais. Segundo ele. SINGER.) estou convencido de que este é o caminho: ou a gente constrói este processo dos conselhos populares. A ACUMULAÇÃO DO CAPITAL E A CRÍTICA DA CRENÇA NO PROGRESSO Em sua recepção no Brasil. 2004: 121-26) uma esclarecedora explicação teórica para a exploração do Terceiro Mundo. buscando a própria experiência latinoamericana. 2008).. 51 . 2008 . Como mostra Harvey. neste momento é preciso “um movimento político de um tipo novo que parta da idéia de construção de espaços de poder popular. Em resumo. trata-se de organizar os trabalhadores a partir das comunidades locais.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE de organizar os trabalhadores em geral (e não só os trabalhadores da indústria). 2008: 100). a experiência da Comuna de Paris. 1979.” (MAURO. (HARVEY. Rosa Luxemburgo é além disso considerada como uma marxista “terceiro-mundista” avant la lettre por suas obras de economia política. LÖWY. A acumulação do capital e a Introdução à Economia Política 131Fi..

Para ele a grande contribuição dessa obra é “mostrar que nunca houve um modo de produção único no mundo. 52 . com maior ou menor força. o artesanato – a pequena produção de mercadorias precede o capitalismo e convive com o capitalismo até hoje. mas que pode. Quer dizer. no seu processo de acumulação. eu entendo a economia solidária como um modo de produção. Hoje em dia podemos constatar esse processo na América Latina. (LUXEMBURGO. já há duzentos anos. Sempre houve diferentes modos de produção que interagem” ou no passado ou no presente.33 Não podemos esquecer que em Introdução à Economia Política Rosa Luxemburgo fica do lado das vítimas da modernização capitalista: “Para todos os povos primitivos nos países coloniais. Então todo o meu trabalho teórico a partir daí pressupõe múltiplos modos de produção. Ver também: (PEDROSA. agricultura.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE do capital na transformação de antigos direitos em mercadorias (serviços públicos. água. entre outros. ter um desenvolvimento. provocado pela chamada “modernização” da vida rural. 2001: 18). diante das contradições que o capitalismo apresenta. educação. Rosa Luxemburgo dá vários exemplos de como a expansão capitalista provoca a destruição das formas de vida tradicionais. saúde. obviamente.). sobretudo se comparada aos comentários de Kautsky nos quais não figuram nem o Terceiro Mundo nem os povos não-brancos. 1985: 311). a passagem de seu estado comunista primitivo ao capitalismo moderno ocorreu 32 Um exemplo notável é a IIRSA (Iniciativa de Integração da Infra-Estrutura Regional SulAmericana). etc. “Na realidade. o campesinato. introduzida à força pelo agronegócio e por todas as políticas de integração do espaço na América do Sul financiadas pelo BID. A crítica dirigida por Rosa Luxemburgo ao aniquilamento dos povos primitivos pelo capitalismo europeu é extraordinariamente próxima de nós. ou seja.32 A atualidade de A acumulação do capital de uma perspectiva latino-americana também é corroborada pelo economista Paul Singer. para o quê também Mário Pedrosa chamava a atenção. Die Akkumulation des Kapitals [1912]. 1979: 58-59).” (SINGER. cultura. Rosa Luxemburgo destaca insistentemente que o capitalismo. das comunidades indígenas e camponesas (o que ela chamava de comunismo primitivo). Isso tem a ver com a economia solidária. precisa desses povos para explorar regiões onde os brancos não podem ou não querem trabalhar. que existe dentro do capitalismo. 33 Ver Rosa Luxemburgo. Isto eu percebi graças à Rosa.

Ver também J. La vie et l'oeuvre de Rosa Luxemburg (NETTL. em última análise. (LASCHITZA. A era capitalista da história da humanidade aparece aí como uma época breve. 34 Paul Frölich é uma exceção. com o ‘progressismo’ positivista.34 talvez por ser um livro inacabado. segundo a qual já haveria no passado “bárbaro” da humanidade tendências inelutáveis rumo à civilização capitalista. o que é um dos méritos da sua pesquisa. Os capítulos sobre o comunismo primitivo e sua destruição ocupam mais espaço do que aqueles sobre a produção de mercadorias e o modo de produção capitalista.” (LUXEMBURGO. condenada a desaparecer. 1996: 326) observa: “As explanações de Rosa Luxemburgo abarcam o Próximo Oriente. Dito de outro modo. sa vie et son œuvre. E ela vê na resistência desses povos contra as metrópoles imperialistas uma luta digna de admiração.” (LÖWY.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE como uma catástrofe súbita. De qualquer maneira nenhuma dessas obras faz referência à perspectiva “terceiro-mundista” de Rosa Luxemburgo. Sua admiração pelo passado não capitalista da humanidade daria elementos para uma concepção aberta da história. 1965: 189-191). Annelies Laschitza em contrapartida na sua biografia de Rosa Luxemburgo: Im Lebensrausch trotz alledem. Rosa Luxemburgo mostra que essas velhas formas sociais “comunistas” eram dotadas de qualidades que as sociedades modernas perderam. 1986) quase ignorado pelos comentadores. seja a razão. que se oporia criticamente à idéia de progresso linear da social-democracia alemã. Segundo esta perspectiva. o darwinismo social e todas as interpretações do marxismo que o reduzem a uma versão mais avançada da filosofia do senhor Homais. ainda que não se possa concordar com sua interpretação economicista da obra de Rosa Luxemburgo. a África do norte. os povos originários podem ensinar aos “civilizados” uma maneira de viver em que os interesses da comunidade determinam de maneira harmoniosa e democrática a vida de seus membros. podendo assim servir de inspiração para propostas alternativas. O que está em jogo nesses textos. 1986: 72). (FRÖLICH. a Austrália. Rosa Luxemburgo rompe com o evolucionismo linear. é o próprio significado da concepção marxista de história. como um desastre indizível acompanhado dos mais atrozes sofrimentos. Rosa Luxemburgo recusaria uma concepção teleológica da história. Michael Löwy escreve: “Ao confrontar a civilização capitalista industrial com o passado comunitário da humanidade. não convencional de um ponto de vista marxista. Michael Löwy foi o primeiro (que eu saiba) a fazer uma interpretação muito original e fecunda desse livro (LÖWY. 1985: 717). a Ásia do sul. Descrevendo as comunidades camponesas. Nettl. P. a América do sul.” 53 . Ver: Rosa Luxemburg. 1972: 818-822). Mas é mais provável que a exposição feita por Rosa Luxemburgo. Essa perspectiva externa à Europa encontrou um interesse cada vez maior no século XX.

entre outras coisas. os quilombolas. de uma nova teoria crítica que leve em “Para os economistas e políticos burgueses liberais. apesar da atualidade de Rosa Luxemburgo. os quais sofrem de uma só vez todas as calamidades e todos os horrores de duas épocas: a das relações de dominação da economia natural tradicional e a da exploração capitalista mais moderna e refinada”(LUXEMBURGO. Em nossos dias. ferrovias. 35 36 37 É melhor falar de forças destrutivas como propõe Michael Löwy (2005: 54). Essas obras em si. enxertadas nas condições primitivas. 54 . É evidente que a esquerda precisa. baseada na autonomia das forças sociais. Os índios. com o objetivo de erigir uma sociedade mais humana.” (LÖWY. 1995: 335). não significam civilização nem progresso. Um dos grandes desafios da esquerda marxista hoje é fazer a revisão crítica do conceito de forças produtivas36 e romper com a “ideologia do progresso e o paradigma tecnológico e econômico da sociedade industrial moderna. aliados a pequenos grupos da esquerda radical. são hoje os movimentos sociais formados por aqueles que não encontram lugar no mundo capitalista. um projeto socialista precisa ter uma dimensão ecológica e mostrar que o desenvolvimento das forças produtivas não é um bem em si mesmo e que a “modernização” do Terceiro Mundo (que. esgotos e lojas significam ‘progresso’ e ‘civilização’. 2000: 64).MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Hoje em dia pode-se ver claramente que a civilização capitalista ocidental com seu gigantesco desenvolvimento das forças produtivas e a destruição do equilíbrio ecológico do planeta não é modelo para o resto do mundo. Ver International Ecosocialist Manifesto de Joel Kovel et Michael Löwy. ela não pode responder a todas as perguntas postas pelo presente.37 Já nos anos 1970 Mário Pedrosa defendia a idéia de que cada país deve seguir seu próprio caminho e recusava vivamente a imitação dos países centrais: “A civilização burguesa imperialista está num beco sem saída. Esse progresso é ao mesmo tempo um retrocesso. Deste beco não temos que participar – os bugres das baixas latitudes e adjacências” (PEDROSA. Mas é preciso reconhecer que. sem desperdício dos recursos naturais. os trabalhadores sem terra – todos aqueles que devem aniquilados pelo processo de modernização porque supostamente personificam o atraso – fazem enormes esforços para resistir e construir uma nova cultura política. fósforos suecos. porque são compradas ao preço da rápida ruína econômica e cultural dos povos. os povos da floresta. 1987: 160-161). reduz a diversidade cultural e ecológica) serve apenas para valorizar o capital. Os herdeiros desta crítica da modernização. e pode-se ver em Rosa Luxemburgo um de seus precursores. como constatam Rosa Luxemburgo em várias passagens de sua obra35 e os filósofos da Escola de Frankfurt. particularmente no Brasil.

. Utopiekreativ 185. Presses Universitaires de Vincennes. LÖWY. Isabel. ou seja. 2008. LOUREIRO. Michael.03.). Pode ser que essa nova geração de intelectuais de esquerda produza finalmente o que Rosa Luxemburgo caracterizava como o núcleo do marxismo: o vínculo indissolúvel entre a teoria e a prática. Loyola. pelo menos é o que pensa Paulo Arantes. apesar de todos os problemas dos movimentos sociais é neles e a partir deles que “algo politicamente revelador e contundente” pode nascer (ARANTES. Aufbau Taschenbuch Verlag. 55 . David. Le communisme primitif dans les écrits économiques de Rosa Luxemburg. März 2006. G (org. Precisamos de algo politicamente revelador e contundente. 1965. Paulo. com vínculos com os movimentos sociais. Berlim. Esse novo tipo de intelectual conhece a miséria brasileira dos dois lados. Im Lebensrausch trotz alledem. Rosa Luxemburgo no Brasil. Paris. 28. Isabel (org. Essa nova teoria crítica. desempregado ou subempregado. 2004. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARANTES. in: WEILL. BADIA. Democracia tutelada versus democracia autonomista. Rebelión. com boa formação universitária. LASCHITZA. Paris. e não alimenta ilusões em relação a nenhum dos dois. FRÖLICH. relativamente marginal em relação à sociedade de consumo. HARVEY. São Paulo.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE conta as mudanças do capitalismo durante as últimas décadas e seus efeitos nos países do Sul. o do Estado e o dos movimentos sociais. Rosa Luxemburg und die Bewegung der Landlosen in Brasilien. 2008: 124). O novo imperialismo.2006.): Rosa Luxemburg aujourd’hui. 1996. Rosa Luxemburg. sa vie et son œuvre. São Paulo: Instituto Rosa-Luxemburg-Stiftung. Annelies. Socialismo ou barbárie. 1986. Mas Paulo Arantes reconhece que. C. Gilberto. LÓPEZ Y RIVAS. tendo assimilado a tradição radical brasileira. Paul. só virá – se vier – de um novo tipo de intelectual de esquerda. In: LOUREIRO. Maspero.

Rosa. LUXEMBURGO. Gesammelte Werke 1/2. Por um marxismo crítico.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE LÖWY. LUXEMBURGO. LUXEMBURGO. Berlim. 2000. LUXEMBURGO. Marxismo. Dietz Verlag. 1987. Rosa. Gesammelte Werke 4. Die Akkumulation des Kapitals [1912]. Gesammelte Werke 5. Dietz Verlag. A atualidade latino-americana de Rosa Luxemburgo. 2006. 2008. Berlim. In. São Paulo: Editora UNESP/Editora Fundação Perseu Abramo/RLS. Solidão revolucionária. 2004. Berlim. In. modernidade e utopia. São Paulo: Xamã. Aus dem Nachlass unserer Meister [1901]. Berlim. LÖWY. Apresentação a LOUREIRO Isabel. 1993. Rosa. Michael. Rosa Luxemburg – os dilemas da ação revolucionária [1995]. LÖWY. [1899]. 1970. José Castilho. In: LÖWY. Michael. Gesammelte Werke 4. Sozialreform oder Revolution Gesammelte Werke 1/1. Januar 1919 In. Michael. Einführung in die Nationalökonomie. 1985. Rosa. LÖWY. Gründungsparteitag der Kommunistischen Partei Deutschlands vom 30. Socialismo ou barbárie. 1979. Rosa. In: LOUREIRO.). LÖWY. 1979. Dietz Verlag. LUXEMBURGO. Michael. Michael. Rosa. Michael. Dietz Verlag. Berlim. Rosa. BENSAÏD. Expressão Popular. Berlim. São Paulo. 2005. São Paulo. 1985. Dezember 1918 bis 1. Dietz Verlag. Paz e Terra. São Paulo: Instituto Rosa-Luxemburg-Stiftung. 1987. In. 56 . Daniel. LUXEMBURGO. Organisationsfragen der russischen Sozialdemokratie. Die Krise der Sozialdemokratie. Berlim. Ecologia e socialismo. Isabel (org. In. Prefácio à tradução brasileira de SCHÜTRUMPF. Dietz Verlag. LUXEMBURGO. LUXEMBURGO. Was will der Spartakusbund? [1918]. Jörn. Rosa Luxemburg ou o preço da liberdade. Mário Pedrosa e as origens do trotskismo no Brasil. In. São Paulo: Cortez. Dietz Verlag. Gesammelte Werke 4. Gesammelte Werke 1/2. Berlim. 1987. Rosa. Rosa Luxemburgo no Brasil. Gesammelte Werke 5. MARQUES NETO. In. Dietz Verlag.

14. Rio de Janeiro.1981. 1974 (Existe tradução brasileira: NEGT. Réconcilier marxisme et démocratie. Rio de Janeiro. 2008. Discurso aos tupiniquins ou nambás (1975).São Paulo. MUHLMANN. Rio de Janeiro. Seuil. PEDROSA. 9. Rio de Janeiro. In: ARANTES.08. Política das artes. Maspero. 1995. Civilização Brasileira. São Paulo. In: LOUREIRO. Vanguardas. A opção imperialista. São Paulo. PEDROSA. Instituto Rosa Luxemburg Stiftung. v.11. 18. Angela Falar em Rosa Luxemburgo era quase que uma heresia. Vanguarda Socialista. OLIVEIRA Francisco de. Oskar: Rosa Luxemburg.1946.): Socialismo ou Barbárie – Rosa Luxemburgo no Brasil.): Rosa Luxemburg oder Die Bestimmung des Sozialismus. partido e socialismo. Mário. NEGT. Paris. Suhrkamp. PEDROSA. Isabel (Org. São Paulo. Isabel (Org. Civilização Brasileira.3. Mário Pedrosa. A crise mundial do imperialismo e Rosa Luxemburgo.): Socialismo ou Barbárie – Rosa Luxemburgo no Brasil. NETTL. 75. 1982. David.). O momento Lênin. Mário. Mário. PEDROSA. Frankfurt. in: POZZOLI. 2008. Mário. Vanguarda Socialista. 1946b. Paulo. In: LOUREIRO. Folha de S. Edusp. E (Org. A luta quotidiana das massas e o Partido Comunista.). P. Paris. PEDROSA. Mário. Mário.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE MAURO. 1972.1982. MENDES DE ALMEIDA. Novos Estudos. Otília (Org. 21. Oskar: Rosa Luxemburgo e a renovação do marxismo. 1966. 57 . 1984. 1946a. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Paz e Terra. La vie et l'oeuvre de Rosa Luxemburg. Zur materialistischen Dialetktik von Spontaneität und Organisation.). PEDROSA.1946. Claudio (Ed. História do marxismo. Instituto Rosa Luxemburg Stiftung. julho 2006.06.11. In: Hobsbawm. 2010. 1981. São Paulo. Pasquim. 1979. Gilmar É preciso investir no processo de formação. Mário. J. PEDROSA.

A acumulação do capital. Rosa Luxemburg.). 2008. Paul. Mário Pedrosa e o Brasil. a recusa da alienação. Socialismo ou barbárie. A teoria da acumulação do capital em Rosa Luxemburg.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE SINGER. 58 . José Castilho (Ed. Tullo Vigevani (ed. São Paulo. In: LOUREIRO. Rosa. SINGER. Paul. Apresentação à LUXEMBURGO. Paul. Editora Fundação Perseu Abramo. Uma discípula de Marx que ousava criticar Marx. Abril. Rosa Luxemburgo no Brasil. Isabel (org. In: MARQUES NETO. São Paulo.). Paul. 2001. SINGER. Mário Pedrosa e o Vanguarda Socialista.). SINGER. 1988. São Paulo. São Paulo: Instituto Rosa-LuxemburgStiftung. 1991. Editora UNESP. In: Isabel Loureiro.

”(Marcuse.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE A teoria crítica como teoria da mudança social: o marxismo de Marcuse Robespierre de Oliveira (UEM) “Há. o resultado dos indivíduos liberados. e a convicção de que esta felicidade seja conseguida somente mediante uma transformação das relações materiais de existência. sobretudo. An Essay on Liberation. 1937) “Up to now.” (Marcuse. é entendida como equivalente a marxismo ou como 59 . Filosofia e Teoria Crítica. como obra livre. it has been one of the principal tenets of the critical theory of society (and particularly Marxian theory) to refrain from what might be reasonably called utopian speculation. A teoria crítica. O aperfeiçoamento ulterior da nova sociedade não pode mais ser o objeto de qualquer teoria: deve ser. O caminho da transformação e as medidas fundamentais para a organização racional da sociedade são traçados mediante a respectiva análise das relações políticas e econômicas. Social theory is supposed to analyze existing societies in the light of their own functions and capabilities and to identify demonstrable tendencies (if any) which might lead beyond the existing state of affairs. as quais não tratarei aqui. dois momentos que vinculam o materialismo à correta teoria da sociedade: a preocupação com a felicidade dos homens. discute-se. 1967) CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES Gostaria de alertar para questões polêmicas. por fugirem do recorte necessário.

Trad. como a psicanálise e a sociologia de Max Webber. Assim. Adorno. seriam o déficit dessa geração em relação à anterior. 60 . 1989. Assim. Levy. marcada pelo êxito revolucionário. Revisão técnica. significava preencher lacunas da própria teoria marxista. Para tal desenvolvimento teórico. Berkeley. Não seria descabido afirmar que Marx também se apropriou. Considerações sobre o marxismo ocidental. de sistemas autoritários. E. São Paulo. Brasiliense. como Theodor W. seja como perigoso revolucionário. O apoio de outras teorias. em particular nos anos 1960. Max Horkheimer e Herbert Marcuse. da teoria burguesa de seu tempo. University of California Press. Douglas. A preocupação com o problema da consciência surgiu com grande relevância nesse período em vista da vitória. Marcuse. veja-se Anderson. Sem entrar na discussão sobre o mérito de tais questões. 2ª ed. seja como ludibriador do movimento operário. M. lembraria que em sua fase inicial a teoria crítica constituiu-se a partir do debate entre marxismo e filosofia elaborado sobre a crise do movimento operário no início do século XX. a seu modo. como o fascismo e o estalinismo. pode-se compreender a teoria crítica como uma contribuição ao desenvolvimento da teoria marxista. o marxismo ocidental introduziu outros elementos teóricos “alheios” ao marxismo. mas sim interpretações. dogmática. fariam parte do chamado marxismo ocidental. não sendo.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE algo independente. As principais características. a partir de uma crítica exterior ao próprio pensamento dele. as quais chegam a digladiar-se visando sua preponderância sobre as demais. foi muito criticado pela direita e pela esquerda. Considerações sobre o marxismo ocidental. Los Angeles. portanto. Sobre a crítica ao marxismo de Marcuse.38 38 Sobre o marxismo ocidental. ver entre outros. Herbert Marcuse and the crisis of marxism. como a ênfase sobre a cultura. a qual nunca teve uma elaboração absoluta e universal. considera-se que não há um corpo teórico fechado do marxismo. Os autores principais da teoria crítica. apesar de ter referências na teoria de Marx. por vezes apaixonadas. mais ainda: seu desenvolvimento teórico voltar-se-ia para questões não tratados por Marx e Engels. com apoio dos próprios operários. Tais interpretações muitas vezes censuram Marcuse equivocadamente. o marxismo ocidental seria composto por intelectuais mais afeitos à teoria do que à prática revolucionária. segundo Perry Anderson. 1984. Perry. como a psicanálise e a sociologia weberiana. faltando-lhe o enfoque econômico e político. Neste sentido. que já se desenhava. Kellner. Sader. cujo conceito seria de dificilmente determinação.

elemento comum a diversas utopias (desde Thomas More). a partir de Marx e Engels em seu “Manifesto do Partido Comunista”. e acompanha seu amadurecimento teórico ao longo de sua obra. como orientadora do processo. tal como Marx fez em O Capital. mostrarei alguns aspectos da compreensão do marxismo por Marcuse. mas a diferença estaria na insistência do caráter material da crítica. embora não existente. tratava-se de combater as visões anteriores de socialismo como equivocadas. Uma sociedade qualitativamente diferente e melhor do que é esta é possível. a abolição do trabalho alienado. cujos parâmetros podem ser delineados a sua préexistência. a qual seria apenas descritiva da situação humana tal como é. porém não decorre do acaso das necessidades. é a utopia. relevando sua contribuição para o debate revolucionário. A utopia não é só o objetivo a ser alcançado.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE A “PERSISTÊNCIA DA UTOPIA” No presente texto. Essa perspectiva utópica aparece no jovem Marcuse. Para eles. para afirmarem a validade de sua nova proposição. Para Marcuse. como “utopia positiva”. da liberdade. a necessidade da ética da revolução estão no horizonte da perspectiva utópica de Marcuse. A perspectiva da felicidade. Esta realidade possível. os homens podem ser mais do que efetivamente são. a preocupação com o papel do indivíduo. O conceito de utopia recebeu uma conotação pejorativa. O jovem Marcuse abandonou um conselho de soldados quando viu os oficiais serem eleitos para 61 . principalmente. A grande característica do marxismo de Marcuse é o que Gunzelin Schmid Noerr chamou de “persistência da utopia”. na medida em que uma sociedade melhor depende da consciência dos homens desse objetivo para sua realização. como um fator normativo. Para Marcuse. o qual participou da revolução fracassada da Alemanha em 1918. Trata-se de elaborar uma nova realidade a partir da crítica à realidade existente. Tais parâmetros podem ser utilizados pela imaginação ou fantasia para vislumbrar uma outra sociedade racionalmente organizada. Marcuse afirma o conceito de utopia em contraposição à antropologia filosófica. Em “Filosofia e Teoria Crítica” (1937). enquanto a utopia visaria afirmar os homens como podem ser. apontando sua originalidade e limitações. o socialismo é a transformação da sociedade existente numa qualitativamente diferente. A nova conotação de utopia aparece com Ernst Bloch.

apesar de não saberem “Apenas com a unificação de ambos métodos — um fenomenologia dialética que representa um método de extrema e constante concreção — é possível fazer justiça à historicidade do Dasein humano. Tal rebeldia. Herbert. que desde jovem esteve mais próximo da linha política de Rosa Luxemburg do que do bolchevismo de Lênin. a “utopia é o elemento mais progressivo na história da filosofia”. corroborada por Douglas Kellner. 21. de Heidegger. retratava a perspectiva libertária de Marcuse. Heideggerian Marxism. a Guerra Fria. 1998). deve-se considerar as limitações históricas da época. o partido). Assim. para ele. a Segunda Guerra Mundial. como as discussões de Luxemburg e Lênin. 39 62 . Contrário. desenvolvendo-se desde uma ontologia concreta até uma antropologia negativa (abstrata). como a preocupação com um fundamentação ontológica do marxismo o atraíram para a filosofia de Ser e Tempo (1927). Mas. ele se manteve sintonizado com o movimento operário. o povo. Isto pode ser considerado como uma limitação do marxismo de Marcuse. A perspectiva utópica aparece em Marcuse mediante a articulação entre ontologia e antropologia. Segundo Marcuse. p. subsumido sob várias categorias (como a classe.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE cargos de direção. Assim. 2005. a Lukács. também se deve lembrar o papel de Marcuse na New Left e suas proposições políticas (como as 33 teses publicadas em Tecnologia. não só sua preocupação com o papel do indivíduo. Entretanto. no qual a perspectiva ontológica aparecia com mais ênfase do que a antropológica. em “Filosofia e Teoria Crítica” (1937).39 Deste modo. Marcuse insiste na “ação radical” dos descontentes com o sistema. guerra e fascismo. embora acompanhada da falta de experiência política. “Contribuições para uma fenomenologia do materialismo histórico” (1928) In: Marcuse. para ele. para quem só os possuidores da “correta consciência de classe” seriam revolucionários. A filosofia heideggeriana. Richard Wolin and John Abromeit (Eds) University of Nebraska Press. aqueles que reconhecem sua opressão diária. o nazismo. o fato de não ter uma experiência partidária e ter elaborado um programa político claro. nas quais ele reafirma sua perspectiva libertária inclusive para aqueles que desejam uma futura sociedade livre.” Marcuse. como o estalinismo. torna-se possível determinar o papel do indivíduo no processo revolucionário. Apesar de Marcuse não ter mais se interessado pela participação partidária. Marcuse foi desde o início fundamentalmente marxista. Na minha interpretação. formulou o projeto da “filosofia concreta”. visava preencher “lacunas” na teoria marxista. Mais ainda: a perspectiva ontológica era posta como concreta tendo em vista sua apreensão da historicidade humana.

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE como se livrarem dela. O conceito de ação radical visa incluir também o conceito de “revolução total”. Tais 63 . em que ambos autores afirmam a superioridade das condições materiais frente a elaboração idealista das mesmas condições. O conceito de essência para Marcuse resulta de características humanas universais abstraídas de seu conteúdo real. entre outros. verdades que não foram efetivadas na realidade. Marcuse encontrara no próprio Marx a fundamentação que buscara na fenomenologia. a sociabilidade. que a revolução não ocorra apenas no plano econômico e político. Um conceito fundamental de Marx é a essência genérica (Gattungswesen) do homem: “o homem é o mundo dos homens”. Bastou a publicação dos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844 de Marx. a racionalidade. o trabalho. a filosofia elaborou verdades sobre as relações. Assim. No jovem Marx. A filosofia preocupa-se com os homens na medida em que é produção humana. a liberdade e a felicidade. Marcuse insiste na visão marxiana d’A Ideologia alemã de Marx e Engels. A consciência dos homens pode ser obscurecida e oprimida não só pelas condições materiais existentes como também pelas promessas não cumpridas da filosofia. sendo condescendentes com a realidade tal como está. isto é. para tornar Heidegger desnecessário. Neste sentido. que tinha pretensões de um conceito material de essência. Marcuse encontra insuficiências na fenomenologia heideggeriana. que via na ontologia da historicidade humana a chave para a crítica imanente do processo social dos homens. Marcuse mostra que o conceito de essência da fenomenologia e de outras filosofias próximas são abstratos justamente por se aterem à descrição do que o homem é. Daí a necessidade de justificação filosófica do marxismo para o jovem Marcuse. porém num sentido negativo e com um caráter antropológico também negativo: os homens não são como podem ser. cujos conceitos soam muito abstratos e vazios. mas sim no plano da própria existência vital dos homens. Marcuse encontra um conceito de essência humana determinado tanto pela história quanto pelo trabalho e pela sociedade humana. tem uma contribuição crítica para a teoria marxista. Ao avançar nessa direção. tais como: a linguagem. no texto “Sobre o conceito de essência” (1936). A dimensão filosófica. Apesar da linguagem heideggeriana. do mesmo modo que para Korsch e Lukács. Marcuse faz um de ajuste contas com a fenomenologia. Nem é preciso mencionar o “namoro” de Heidegger com o nacional-socialismo para mostrar o rompimento entre ele e Marcuse e o abandono do projeto da filosofia concreta.

Neste sentido. 158. razão. entretanto. isto é a realização da sociedade como humanidade. o principal método da crítica é a imanência a seu objeto. But does this imply that a transformation of the essence of man must also be a real possibility? On this point there is a difference between Marcuse’s understanding of his own theory and the real theoretical position of his utopia. mas como guia para sua realização. Stephan. felicidade.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE características são abstratas (e dadas negativamente) na medida em que não são efetivadas na realidade. O indivíduo seria autônomo face às autoridades instituídas pela “The theoretical status of Marcuse’s utopian construction — especially in his later work — has nothing to do with the possibility of its realization. Marcuse recorre à história da filosofia para avaliar determinados conceitos em relação ao que é dado empiricamente. sendo para isso superação da divisão e da opressão social existentes. O capitalismo é considerado como “catástrofe da essência humana” e por isso uma má-facticidade. O conceito de essência humana aparece como necessário por ser medida da crítica à realidade existente. Neste sentido. mede-se o conceito com sua existência. John Abromeit and W. Mark Cobb (eds). entre outros. indivíduo. New York and London. cuja realização particular aparece em geral como deficiência.) 40 64 . sendo postas então como potencialidades.!” Bundschuh. Desde o início. A não efetivação delas resulta da máfacticidade humana e das relações sociais existentes. In Herbert Marcuse – A critical reader. o comunismo é “humanismo social”. Marcuse thinks that his new anthropology is not only a theoretical project but also a real form of existence. It serves as a theoretical medium of critique. privilegiaram uma camada da sociedade em detrimento das demais. p. 160.” (Idem. as relações econômicas desiguais entre os homens. Bundschuh afirma que Marcuse desenvolve uma antropologia que é normative do seu projeto de transformação social. como o conceito de liberdade. O indivíduo existente não é como o liberalismo clássico proclamou: um indivíduo isolado que devesse somente a sua razão e vontade os objetivos a serem alcançados. a crítica da economia política é entendida como crítica das relações sociais. Para Marx.40 Da mesma forma que se mede criticamente o que é com o que pode ser. “The Theoretical Place of Utopia – Some remarks on Herbert Marcuse’s Dual Anthropology”. “In Marcuse’s work the utopian dimension is a precondition of theoretical critique. As potencialidades humanas não são cumpridas devido à opressão dos homens pelos próprios homens. p. Routledge. Assim. 2004. não como impossibilidade. a divisão social. pois se não houvesse tal medida a crítica seria infundada. O pressuposto da sociedade humana é a realização plena das potencialidades humanas. impedindo a realização dos homens como tais. A realização das potencialidades humanas aparecem como utópicas face ao existente. afirma em O homem unidimensional (1964) a importância dos universais.

povo. não são motivados para a revolução.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE sociedade. poucos são os que têm uma alternativa social. Os trabalhadores e os indivíduos. porém. a qual. Marcuse escreve em Razão e revolução (1941) que o comunismo é a realização do indivíduo. Marcuse buscou. Entretanto. Os homens se formam pelo trabalho. Daí o interesse de Marcuse pelo papel do indivíduo no processo revolucionário. em “Algumas implicações sociais da tecnologia moderna” (1941). segundo Lênin. O diagnóstico de Marcuse. ao fornecerem para eles meios de satisfação. Mas os Manuscritos. Marx. O caráter alienado do trabalho e da própria sociedade humana contribui para tal desrealização. na medida em que os homens não desenvolvem suas potencialidades. Há repressões necessárias para a organização social. que aumentam a carga opressiva dos homens. não o indivíduo do liberalismo. o indivíduo isolado. de Marx mostraram não só a não necessidade da filosofia de Heidegger como também a afirmação concreta do indivíduo. Mas a inserção do indivíduo na sociedade capitalista ocorre em meio à divisão social de classes. O princípio de realidade pode ser considerado como a adaptação necessária dos homens à ordem social. Mas 65 . e de Horkheimer. sendo subsumido sob categorias gerais: como massa. participam da revolução na medida em que a sociedade não atende a seus interesses e não há perspectivas reais para isso. O indivíduo perdeu sua autonomia. em geral. Os marxistas de sua época tratavam o indivíduo subsumido sob o coletivo. de fato seria constituído contra a sociedade. são aspectos que corroboram para a perda de autonomia dos indivíduos.. inclusive até à morte. controlando as pulsões primárias. não é obra só dos comunistas.. Os mecanismos ideológicos de dominação. que não teria lugar para o indivíduo. em O eclipse da razão (1947). de tal modo que os indivíduos desapareciam. como objetivo final. como o socialismo. aponta para o declínio do indivíduo no interior da sociedade capitalista avançada. como a moral. modelam suas habilidades pelo trabalho. afirma que além de formar o trabalho deforma. então. Por isso. em Heidegger a afirmação existencial do indivíduo. mas sim um indivíduo socialmente inserido. Marcuse recorre a Freud para quem o trabalho é o principal agente repressor das pulsões humanas. Os regimes autoritários demonstraram a manipulação dos indivíduos. a difusão cultural. etc. Muitos autores chegaram a afirmar isto como verdade da teoria marxista. porém. Deste modo. O capitalismo é a desrealização da essência humana. há outras. a integração da classe trabalhadora ao mercado consumidor. classe. Mais ainda: a condição de trabalhador nega a existência do homem.

mas também a procedimentos. o que pensar sobre certos acontecimentos. mas também devido a si mesmos. eficiência e lucro. Os indivíduos são cada vez mais coordenados por instâncias superiores da sociedade. Eles se guiam pela lógica do cálculo custo-benefício e pela ideologia dominante do capitalismo: a compra e venda de mercadorias. como a mídia. O termo “mais repressão” designa uma repressão adicional. Marcuse foi um dos primeiros a apontar a ecologia como um problema real para a sociedade humana. a racionalidade vigente é a racionalidade tecnológica (ou instrumental). visando produtividade. como por exemplo a ingestão de fast-food. O desenvolvimento da tecnologia aumentou a produção de mercadorias e mudou o comportamento dos indivíduos. coordenados e organizados. o plug-in das rádios. a “opinião pública” da mídia. A moda oferece variedades do que vestir e de se comportar. Segundo Marcuse. O tempo fora do trabalho também é um tempo administrado. afetando até sua biologia. o que ouvir. O desperdício de recursos naturais e de vidas humanas insere-se na lógica de desenvolvimento do capitalismo. A tecnologia não se refere apenas a aparelhos e instrumentos. O trabalho alienado ocupa o tempo dos homens de tal maneira que sobra muito pouco tempo para pensarem sobre si mesmos e viverem suas próprias vidas.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE a sociedade humana erigiu-se em sua história de modo mais repressivo do que o necessário. para uma finalidade irracional. Na medida em que seu objetivo o lucro a lógica do capitalismo é estruturalmente “ilógica”. ela passa por cima de outros objetivos. A própria razão dos homens está ceifada do poder crítico e de discernir sobre os processos a que estão submetidos. A dificuldade pela integração e adaptação social leva os trabalhadores a terem dificuldade de romperem com a continuidade histórica e social. Os trabalhadores não se emancipam devido apenas à oposição da burguesia. A frase “socialismo ou barbárie” de Rosa Luxemburg torna-se cada vez mais real na época da sociedade 66 . e assim por diante. Deste modo é possível entender métodos altamente racionais. Trata-se da racionalidade organizada no interior da fábrica expandida para o todo da sociedade. Marcuse utiliza o termo “princípio de desempenho” para descrever o princípio de realidade na sociedade capitalista competitiva. como o bem-estar da humanidade e a ecologia. Auschwitz é exemplo disso.

As chamadas “minorias”. 2005. não se trata de uma repressão declarada. O processo de contenção é organizado em todos os níveis. dentro da ordem estabelecida. A oportunidade de alternativa está em extrapolar os limites estabelecidos pela ordem vigente. p. não como substitutos da classe operária.191 (Collected Papers of Herbert Marcuse. como negros. especially in the United States. are without a mass base and are isolated from the working class. H.41 Segundo Marcuse. vol. Assim.” Nevertheless. The New Left and the 1960s. Routledge. As a result of these developments. Marcuse “apostou” em grupos marginais. they do not yet possess any new organizational forms. mas como catalisadores de um possível processo revolucionário. O processo de contenção visa a adaptação ao mecanismo social. “The New Left consists of political groups that are situated to the left of the traditional communist parties. pp.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE industrial avançada. “Mr.”42 A sociedade unidimensional eliminou a dimensão da liberdade. Nos anos 1960 e 1970.. e assim por diante.) Marxismo como uma teoria é uma análise — política. As minorias queriam direitos reconhecidos e foram “aceitas” pela sociedade que descobriu elas serem também consumidoras de mercadorias. op. a liberdade converteu-se em instrumento de dominação. A sociedade democrática é autoritária na medida em que a eleição se torna plebiscitária e é livre apenas para a escolha dos senhores. O processo de dominação se faz por meio da exigência de liberdade. desperdício de recursos. Marcuse. Douglas Kellner (eds) London and New York. a exigência de emprego para todos é impossível de ser cumprida pelo sistema capitalista que necessita de um exército industrial de reserva para regular o valor dos salários. que chega à conclusão de que o sistema capitalista só pode preservar-se através de conflitos crescentes. entre outros. “The failure of the New Left?” In: Marcuse. sociológica e econômica — do capitalismo. Herbert Marcuse”. The strong libertarian. that which distinguishes and essentially characterizes this movement is the fact that it has redefined the concept of revolution. porém com o tempo tanto elas quanto a sociedade se adaptaram uma à outra. 128-9. antiauthoritarian movements that originally defined the New Left have vanished in the meantime or yielded to a new “group-authoritarianism. Neste sentido. homossexuais.”. Herbert. reduzindo focos de contestação. Change is no longer defined simply as economic and political upheaval. cit. onde a indústria cultural não alcança a força bélica é utilizada. guerras. a New Left 43 Marcuse. new dimensions of social change have emerged. e que a transição para o socialismo é a única solução para esta filosofia. destruição de recursos. “(. “The classical alternative “socialism or barbarism” is more urgent today than ever before. but also and above all as a 67 . as the establishment of a different mode of production and new institutions. mulheres. Harold Keen: Interview with Dr. os quais não são aceitos pela própria ordem.. Porém. poderiam colocar em xeque a estrutura social vigente conservadora.. bringing to it those new possibilities for freedom and new potentials for socialist development that were created (and immediately arrested) by advanced capitalism. III) 41 42 43 Marcuse.

” (“The Failure of the New Left”. ele percebe claramente o processo de contrarevolução instaurado e a prática petrificada da esquerda institucionalizada e da fraqueza da oposição real. Muitos ficaram impressionados e se deixaram levar. a luta de classes não deixou de existir. Mas a New Left pretendia estabelecer uma organização muito mais livre e democrática do que as organizações tradicionais. X. Um ensaio sobre a libertação (1967). O capitalismo é visto tanto em sua face de abundância quanto de miséria. p. o feminismo. e que o alcance desta meta necessita de uma luta que já não pode ser contida pelas regras e regulamentos de uma pseudo-democracia em um Mundo Livre Orwelliano. Os jovens militantes sabem ou sentem que o que está em jogo é simplesmente suas vidas. eles percebem que isto ainda é possível hoje. A revolução chinesa e a revolução cubana apareceram como novas alternativas fora do bloco soviético. a vida de seres humanos que se tornaram um brinquedo nas mãos dos políticos e gerentes e generais. 68 . visando métodos ação menos dogmáticos. p. Marcuse desenha uma utopia crítica. O mundo estava revolution in the prevailing structure of needs and the possibilities for their fulfillment. como Jean-Paul Sartre que apoiou o maoísmo. cit. age inclusive com mais força por meios mais sutis. embora mantenha muitas de suas posições.183) 44 Marcuse. em Contrarevolução e revolta (1971). que só compreendia o desenvolvimento histórico social seguindo dogmas oficiais. embora a força das armas continue imperando nos rincões do mundo. O problema da revolução tornou-se a dimensão total da existência.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE apareceu como uma alternativa à esquerda ortodoxa. como a indústria cultural.44 À GUISA DE CONCLUSÃO Se em Um ensaio sobre a libertação (1967). pensando o socialismo como uma necessidade biológica e defendendo uma nova sensibilidade. entre outros. Para ele. como o movimento ecológico. A estrutura conjuntural mundial estava mudando. A nova realidade histórica surgida após a Segunda Guerra não permitia um processo revolucionário como foi com a Revolução Russa de 1917.. incorporando debates não registrados pela esquerda tradicional. Preface. Os rebeldes querem retirá-la destas mãos e fazer valer a pena vivê-la. op.

a integração cada vez maior das minorias nos países capitalistas avançados. Os trabalhadores não são melhores por serem trabalhadores. Mesmo assim. Há que se combater o machismo. a transformação em potências da China (com características capitalistas e poder político vinculado ao partido comunista) e da Índia. corroboram análises desenvolvidas por ele em seus últimos textos. não se deve deixar cair a bandeira do socialismo. racismo. o fim da URSS e dos países socialistas do leste europeu. social. sexismo. Marcuse vislumbrara parte do que estava por vir. A abolição do trabalho alienado é parte essencial do processo de transformação social. em todos os níveis: econômico. muitos destes fatores e até a nova ordem mundial após o 11 de setembro de 2001. Como guia do processo. o fim da Guerra Fria. Marcuse entende as dificuldades deste processo e afirma que a revolução não é para amanhã. a liberdade e a felicidade de todos. entre diversos outros fatores. Eles têm destaque no processo revolucionário devido à sua posição na produção social. político. autoritarismo e outras formas nocivas a um processo de mudança social. na medida em que o trabalho alienado além de gerar riqueza também gera desconforto. A atitude ética poderia ser pensada como um sistema da vida ética. Deve-se respeitar o outro e a natureza. mas deve ser um processo que afete o todo da sociedade e que os indivíduos devam sentir sua necessidade. A mudança social não pode ser efetuada de “cima para baixo”. em Marcuse. 69 . o desenvolvimento da engenharia genética. cultural. não há ilusão nisso. não estavam no horizonte de Marcuse. em novas formas de relação com a natureza (não mais como mercadoria).45 Pode-se notar como características do marxismo de Marcuse. etc. porém. nem uma sobrevalorização do trabalho. porém. a busca incessante pela utopia como guia ético do processo de transformação social e a crítica sem concessões ao existente. A crítica da economia política como crítica das relações sociais implica em novas formas de sociabilidade. miséria e sofrimento. A contrarrevolução ainda é forte. sexual. cuja propaganda necessita ser 45 Cumpre observar que Marcuse contribui para o marxismo. uma ética do trabalho. visando. Certamente. o aparecimento de novas doenças. não se pode pensar a liberdade e a felicidade como “presente de natal”.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE sofrendo um processo de repressão violento. A paralisia (ou fraqueza) da oposição tem garantido tal força. não pretende dar a última palavra ou ser dogmático. Não. Mesmo assim. como a AIDS. como promessa a ser adiada.

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mantida e debatida para ser compreendida. Trata-se, talvez, de um trabalho de “formiguinha”, um trabalho muito arriscado, e, para Marcuse, o risco vale a pena.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDERSON, Perry. Considerações sobre o marxismo ocidental. Considerações sobre o marxismo ocidental. Trad. M. Levy. Revisão técnica. E. Sader. 2ª ed. São Paulo, Brasiliense, 1989. ABROMEIT, John and COBB, W. Mark (eds) Herbert Marcuse – A critical reader, New York and London, Routledge, 2004. KELLNER, Douglas. Herbert Marcuse and the crisis of marxism. Berkeley, Los Angeles, University of California Press, 1984. MARCUSE, Herbert. The New Left and the 1960s. Douglas Kellner (eds) London and New York, Routledge, 2005, p.191 (Collected Papers of Herbert Marcuse, vol. III). __________. Heideggerian Marxism. Richard Wolin and Abromeit (Eds) University of Nebraska Press, 2005. John

__________. Cultura e sociedade. Wolfgang Leo Maar (org.) São Paulo, Paz e Terra, 1997, 1998 (2 vol.). __________. Contra-revolução e Revolta. Trad. A. Cabral. Rio de Janeiro, Zahar, 1981. __________. Razão e revolução. Hegel e o advento da teoria social. Trad. M. Barroso. 4 ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988. __________. Tecnologia, guerra e fascismo. Douglas Kellner (ed). Trad. Maria Cristina Vidal Borba. São Paulo, Unesp, 1999.

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Gramsci e a cultura de seu tempo: observações sobre arte e literatura
Anita Helena Schlesener (UTP)46 O presente trabalho pretende retomar algumas reflexões sobre o conceito de hegemonia e sua relação com a cultura a partir das observações de Gramsci sobre arte e literatura. O tema se insere numa perspectiva recente de leitura dos escritos desse autor, a partir da publicação da nova edição crítica iniciada em 2007, como parte da Edição Nacional das obras de Gramsci, acompanhada de um estudo crítico que redefine o contexto de produção da obra. Os temas sobre a literatura aparecem nas intenções de pesquisa esboçadas nas primeiras cartas do cárcere e em alguns projetos de pesquisa, alem da explicitação do desejo de estudar varias línguas a partir da tradução de textos de determinados autores alemães e russos, entre eles Goethe, Marx, Dostoievski, Tchecov, Gogol e Pushkin.47 Gianni Francioni, organizador da nova Edição Crítica, acentua que a escolha dos autores e dos textos a traduzir evidenciam tanto interesses precedentes ao confinamento quanto problemas centrais a desenvolver nos Cadernos do Cárcere, fato que se pode constatar principalmente na escolha dos textos de Marx. De qualquer modo, as idéias de Gramsci sobre a literatura de seu tempo precisam ser examinadas na sua relação com sua teoria política, na qual se pode inserir a sua preocupação com uma historia da cultura e os

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Professora de filosofia política (aposentada) da UFPR; professora do Mestrado e Doutorado em educação da UTP.
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Esse último nos traz a lembrança da influência do romantismo nas primeiras leituras de Gramsci no período universitário, tanto na vertente russa quanto na francesa (estudada por GERVASONI,1998). Para Gramsci, a questão do romantismo italiano precisa ser entendida no contexto da relação ou ligação particular entre os intelectuais e o povo; isto é, trata-se de um problema que envolve, também aqui, o aprofundamento das raízes históricas e sociais a partir das quais se construíram as relações políticas na Itália. Em linhas gerais, é sempre o significado político que Gramsci busca na literatura. O que o preocupa é elaborar uma história da cultura e não uma história da literatura.

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seus objetivos em relação a uma nova organização social e política. Evidenciar a relação entre política e cultura no contexto do conceito de hegemonia permite salientar as novas dimensões da luta de classes; esta assume cada vez mais a forma de formação de hábitos, costumes, modo de pensar que se torna homogêneo e possibilita que as formas de vida dos dominantes sirvam de modelo e exemplo para as classes dominadas, que perdem assim a sua capacidade de agir e decidir autonomamente. Nesse contexto, a abordagem gramsciana da literatura assume nova configuração no âmbito da teoria política, sempre tendo como pressuposto a relação intrínseca entre política, historia e filosofia. Atribui-se para a literatura uma função ampliada, enquanto enunciadora de conceitos na forma assimilável no senso comum e enquanto forma de explicitar relações históricas que constituem a sociabilidade e as relações de forças que mantém ou renovam uma determinada estrutura política. A função mistificadora de um pensamento homogêneo que anuncia a promessa de participação e de liberdade para todos no contexto da ordem burguesa, basta que se trabalhe e se consuma, é abordada por Gramsci por meio da metáfora do carrossel: 48 a sociedade burguesa é um grande parque de diversões que tem no seu centro um carrossel; a felicidade se traduz em andar nos cavalinhos, fato que demonstra que se conseguiu o acesso à propriedade. Acontece que existem milhares de pessoas que tentam andar nos cavalinhos, mas somente algumas conseguem; as outras sofrem todos os constrangimentos sem resistência, porque esperam, um dia, conseguir ascender socialmente e usufruir as benesses da propriedade. O que se ressalta nessa metáfora é que a riqueza não se apresenta como um fim em si, mas como um meio para conseguir a liberdade, isto é, a busca de riqueza não se circunscreve ao material, mas envolve uma finalidade maior que é a liberdade e a continuidade do bem-estar gerado; essa concepção disseminada no senso comum retira da exploração do trabalho e do conjunto do processo de dominação seu caráter moral negativo e acresce-a de um elemento meritório vinculado à preservação da família e à transmissão de valores. A consolidação da hegemonia de um grupo social acontece quando se alcança uma homogeneidade de
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O artigo no qual Gramsci apresenta esta metáfora foi escrito em 1918, publicado em Gramsci (1975) e se encontra traduzido no livro Antologia de textos filosóficos, publicado pela Secretaria de Educação do Paraná em 2009, como material didático para o ensino médio.

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pensamento, ou seja, quando o domínio de uma classe determina o modo de ser, de pensar, de competir e de conceber a própria individualidade. A questão da cultura, portanto, reveste-se da ideologia como pratica de poder, o que pode ser compreendido somente quando as classes dominadas esclarecerem para si as varias formas que assume a dominação no contexto do modo de produção capitalista. Para as classes trabalhadoras a questão cultural reveste-se das características da luta de classes, que implica em compreender que, ao assimilar o pensamento dominante, compartilham um horizonte subjetivo que jamais poderá ser usufruído verdadeiramente. A ideologia como prática de poder produz e realimenta o imaginário social criando no indivíduo expectativas de ascensão social que nunca serão realizadas, mas que produzem, no senso comum, uma apatia, uma indiferença política difícil de abalar. No campo da democracia burguesa, as eleições, o debate parlamentar (o parlamento é o lugar onde "se parla"), a proclamação da igualdade de acesso aos direitos individuais e outras práticas, ocultam a verdadeira situação política, que se produz para manter e consolidar a relação efetiva entre a estrutura econômica e o aparato estatal; a pratica e se reforça na medida em que, no imaginário social se mantém a crença de participação igualitária e do exercício de uma política democrática no âmbito do Estado. Nisso consiste a relação entre política e cultura: esclarecer como se constrói a sociabilidade como hegemonia dos dominantes, que desarma e imobiliza qualquer possibilidade de organização política de massas. A leitura que sustenta essa exposição tem como base os Cadernos do Cárcere que, entre os vários temas que abordou e que possuem relevância no contexto da formação das relações de hegemonia, está a cultura popular, considerada na sua relação com a arte e a literatura de seu tempo, com as quais Gramsci tentou estabelecer um diálogo. Dentro dessa perspectiva, a pergunta que se faz é sobre o que é efetivamente popular, ou seja, o que é produzido pelas classes populares e o que é apresentado e veiculado para elas. No contexto do pensamento de Gramsci a cultura popular assume um significado próprio, na medida em que pressupõe a luta de classes e a correlação de forças expressa nas relações de hegemonia: a cultura se expressa no senso comum por meio de um modo de pensar; o senso comum se compõe de um conjunto fragmentado e incoerente de conhecimentos evidenciados por Gramsci no chamado “folclore” e por elementos coerentes e mais

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possibilitando uma compreensão do conjunto de relações econômicas. evidenciaria as formas culturais de dominação presentes na divulgação e consolidação de um pensamento homogêneo e permitiria a elaboração de um pensamento rico e peculiar da realidade. A característica fragmentária e assistemática do senso comum se constitui na grande fraqueza desse modo de pensar. passando pela Revolução burguesa italiana. A leitura da história traz implícita a discussão sobre os intelectuais enquanto funcionários da hegemonia. para gerar “uma unidade não servil. para “buscar os elos com o povo. fato que implica em formar seus próprios intelectuais. que consistiria. Somente a elaboração de um pensamento crítico e coerente. tornar-se dirigentes antes de dominantes e. na cultura popular. ao conquistarem o poder. desde a Revolução Francesa. enquanto responsáveis por uma constante “direção intelectual e moral” que sedimenta e mantém a hegemonia de determinados grupos sociais. sociais e políticas. manter a direção intelectual e moral. com a nação”. ou seja. na análise de situações diversas ocorridas no curso da história. Na organização política se criam os mecanismos de direção e de participação efetiva e consciente. que lhe permite alcançar o consentimento pela formação de um modo de pensar homogêneo. visto que a ausência de uma coerência não permite evidenciar as contradições que permeiam o cotidiano e se traduzem no antagonismo entre o pensamento e a ação.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE sistematizados a partir dos referenciais hegemônicos. pode permitir aos trabalhadores identificar na sua prática social e política os germens de um novo pensamento e renovar a cultura. que teve início no renascimento e se consolidou como revolução passiva no Risorgimento. a cultura popular se constitui de elementos do pensamento dominante e dos valores e idéias que provém tanto do passado mais remoto quanto do ideário das classes que detém o poder. cujo compromisso refletir e criticar as contradições que perpassam seu cotidiano. denominados pelo autor como “filosofia”. a partir da organização política. Gramsci evidencia esta situação no contexto da realidade italiana de sua época. até a ascensão do fascismo na Itália. que lhe permite submeter os grupos resistentes. 74 . A organização política. quanto pela direção intelectual e moral. para os grupos que desejam conquistar a hegemonia. El qualquer caso è mais interessante. Enquanto isso não acontece. Da retomada e reinterpretação da história moderna se elaboram os elementos centrais do conceito de hegemonia: um grupo social é dominante tanto pelo exercício da força. então.

elemento indispensável para a proposição de uma nova hegemonia. e responde que os grandes clássicos como Dostoievski. Dessa perspectiva a leitura de Gramsci assume sua atualidade. na medida em que seus conceitos nos permitem refletir sobre questões que se renovam. fruto da constante interlocução dos homens entre si e com o pensamento historicamente produzido. arte e literatura cumprem a sua função política renovadora na medida em que se tornam populares. O problema da atualidade de um pensamento político de um pensador agora 75 . Se levarmos em conta que o conhecimento é dinâmico. trata-se de evidenciar sua importância na edificação dos princípios necessários para a elaboração de uma nova concepção de mundo. Essa leitura ressalta do significado peculiar de “popular” presente nos escritos de Gramsci: ao mesmo tempo em que acentua que os intelectuais devem mergulhar nas práticas e tradições das classes populares para construir a coerência interna desse material. mas uma unidade ativa. A exploração do trabalho assume novas proporções na medida em que se consolidam os padrões de comportamento constantemente reafirmados pelos meios de comunicação de massa. Nas condições de capitalismo avançado essa formação tem fundamental importância na luta hegemônica. levanta a pergunta sobre qual literatura pode ser considerada popular. Q. ou seja. Se a arte e a literatura se inserem no conjunto de relações de hegemonia. entre outros. ou seja. são autores populares porque abordaram assuntos que apresentam um valor universal e. 1977. qualquer que seja o conteúdo dessa vida” (GRAMSCI. Goldoni. ao divulgá-los em sua literatura. visto que essas encontram seu significado no contexto da organização social e política e dos conflitos que permeiam a sociedade italiana dão inicio do século XX. 9: 1740). enquanto sejam restituídas em sua integridade a toda a sociedade.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE devida a obediência passiva. vivente. a cultura tornou-se um dos mecanismos das relações de poder e da luta de classes que se consolida enquanto exploração do trabalho firmando-se como dominação das consciências individuais pela formação das subjetividades. no curso de sua organização política os trabalhadores podem tomar consciência das contradições que permeiam seu modo de existência e elaborar uma nova concepção de mundo a partir da qual se pode redefinir toda a cultura historicamente produzida. contribuíram para torná-los de amplo conhecimento. A valorização da cultura popular como mecanismo de luta política permite compreender as idéias de Gramsci sobre a arte e a literatura de seu tempo.

as “razões que fazem de Gramsci um ‘clássico’. depois das grandes mudanças da política italiana e internacional a partir de 1989. a necessidade de mergulhar na cultura das massas para nela encontrar os elementos universais a serem expressos na linguagem literária. o caráter progressivo e regressivo do Humanismo e do Renascimento. Seguindo a senda inicialmente aberta. 49 Gramsci falava de um contexto e de uma realidade que se alterou significativamente nas últimas quatro décadas. na realidade atual. principalmente se tomarmos a relação intrínseca estabelecida por Gramsci entre filosofia. por meio de temas como a importância de uma língua nacional unificadora. político e cultural de sua obra” (ACCARDO. tanto no que se refere a relações de trabalho quanto ao significado da cultura no contexto da política. o patrimônio moral. Apesar de todas as mudanças. salienta-se que o conceito de hegemonia e os elos entre política e cultura permitem a Gramsci redimensionar a arte e a literatura no contexto da história italiana. Gramsci pode ser ainda um ponto de referencia para a esquerda saída da experiência do partido comunista. ou seja. Não se trata de avaliar a atualidade de um autor com base na possibilidade de encontrar na sua reflexão a resposta para questões precisas e determinadas. a noção de hegemonia e a importância da cultura na formação de um consenso apresentam-se como referenciais importantes para pensar as novas formas de alienação geradas a partir da sedimentação da ideologia neoliberal e sua difusão pelos meios de comunicação. A literatura. política e história. fruto de um processo histórico no qual as forças conservadoras prevaleceram. 2009: 11). um autor que não se tornou ‘obsoleto’ com as mudanças dos tempos e das condições históricas” se apresentam precisamente na valorização do ético-estético juntamente ao teórico-político. Para Accardo. a ausência de vínculos consistentes entre os intelectuais italianos e as classes populares. 49 76 . mas de avaliar o quanto pode ser fecundo. “a questão a colocar é se. para ser popular.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE entendido como um clássico é sempre uma questão polêmica. Entendemos que existem conceitos que continuam sendo fundamentais para pensar a realidade contemporânea. precisa ser expressão Conforme Anglani (2007: 5).

explicando-as e justificando-as em determinada situação histórica. especialmente sem sentir e estar apaixonado (não só pelo saber em si. por 77 . a uma concepção de mundo superior. os intelectuais poderiam ter contribuído para o caráter mais progressivo da revolução. não se faz política-história sem esta paixão. Esse elemento não era alcançado pela literatura italiana de sua época. científica e coerentemente elaborada. constatada por Gramsci na literatura italiana. as relações do intelectual com o povo-nação são ou se reduzem a relações de ordem puramente burocrática e formal” (GRAMSCI. em acreditar que o intelectual possa ser tal (e não um puro pedante) quando distinto e separado do povo-nação. a falta de interesse em conhecer e expressar as aspirações populares. mas pelo objeto do saber). ao mesmo tempo. 9: 1505). separado da forma. sem este elo sentimental entre intelectuais e povo-nação. fato que se evidenciava no distanciamento dos intelectuais em relação as classes populares. evidencia o compromisso político desses intelectuais com o movimento conservador que caracterizou a revolução burguesa italiana. obra de arte. o ‘saber’. Na ausência desse elo. visto que o leitor se identifica com o conteúdo e as escolhas morais dos personagens. A ausência de elos e até um certo desprezo de alguns intelectuais pela cultura popular. 1977.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE elaborada das aspirações e sentimentos mais profundos das classes populares em determinado momento histórico e. “O erro do intelectual consiste em crer que se possa saber sem compreender e. compreendendo-as e. isto é. isto é. sem sentir as paixões elementares do povo. O aspecto político apresenta-se no fato de a literatura apresentar um conteúdo ideológico que tem uma grande importância. As questões estéticas como a relação entre conteúdo e forma. assim. Q. se houvessem esses elos. porém o critério político de formação não se sobrepõe ao critério estético: o conteúdo da arte não pode ser pensado abstratamente. tanto que estas conheciam e apreciavam romances de folhetim franceses e desconheciam completamente os autores italianos. fato que poderia fortalecer a própria burguesia da época. vinculando-as dialeticamente às leis da história. isto é.

ao apresentar dessa forma seu teatro. 9: 1671-2). E é dessa perspectiva que Gramsci as aborda: no contexto das relações de hegemonia. Q. interessado em produzir uma história dos intelectuais italianos enquanto aqueles que contribuem para manter determinadas relações de poder. possuem um alcance histórico e político.. Entretanto.. a questão principal apresenta-se na capacidade de uma literatura contribuir para a formação de uma nova concepção de mundo. que supõe a sua leitura do livro de Croce sobre a Divina Comedia e também dos debates gerados por ocasião de sua publicação. ressaltou o aspecto cultural da obra. a crítica gramsciana ao teatro de Pirandello traz uma forte influência de Croce e de sua posição em relação ao escritor de Mattia Pascal. por motivos ligados a seus próprios objetivos. a consciência de ser tudo isso transparece na sua “debilidade artística. nas palavras de Stipcevic. folclóricos (.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE exemplo. 1977. ou seja. “Em Pirandello temos um escritor ‘siciliano’ que consegue conceber a vida camponesa em termos ‘dialetais’. para renovar a ética e os costumes. Essa ‘contradição’” expressou-se explicitamente em alguns de seus trabalhos narrativos (GRAMSCI. muito antes de tantos outros. Tomamos como exemplo a leitura de Pirandello: embora revelando-se um crítico severo da obra pirandelliana. Gramsci “isolou o elemento cultural da criatividade de Pirandello. para poder examinar a medida de sua influência sobre a transformação do clima cultural da época” (STIPCEVIC. para além de suas qualidades artísticas. ano de comemoração dos seiscentos anos da morte do 78 .. Stipcevic acentua que se deve “reconhecer que Gramsci expôs. No ponto de vista gramsciano. Gramsci acentua a importância desse autor para a cultura italiana. na sua forca renovadora do social. separando o “folclore” do “bom senso”. uma das funções principais sustentadas pela obra pirandelliana no interior da literatura e da cultura italianas”. que ao mesmo tempo é um escritor ‘italiano’ e um escritor ‘europeu’”.). algumas considerações sobre as reflexões de Gramsci sobre Dante Alighieri. Pirandello contribuiu para renovar o senso comum. 1981: 114) Apesar desses limites que orientam sua leitura. ou seja. Ainda no contexto da literatura italiana. na sua relação com o contexto ideológico e político (STIPCEVIC. Nesse contexto. As polêmicas em torno da poesia dantesca se acentuam a partir de 1921. Sei personaggi in cerca d’autore e outros belos trabalhos. 1981: 115-6). porque seu trabalho apresenta um conteúdo cultural mais do que artístico e. ao lado do seu grande significado ‘cultural’.

é criação de poesia culta. A descrença dos que ouvem as previsões pode ligar-se ao fato de não se dever alterar a ordem natural das coisas. é uma enorme experiência que só a tradição popular poderia conseguir tentar e concretizar. saindo fora da disciplina católica: são punidos com o desconhecimento do presente. fica cega. Gramsci insere-se nesse debate já a partir de 1918. “chora e fala. 1981: 150-1). dependem desta experiência” (GRAMSCI. homens indiferentes que não se preocupam. 1977. 4: 527)50 Em 1918 Gramsci escrevia: “Farinata e Cavalcante são punidos por haverem desejado muito ver no além. debate que teve como figuras centrais Benedetto Croce e Luigi Russo sobre a interpretação da principal obra de Dante na relação entre estrutura e poesia (STIPCEVIC. O dom de prever faz parte do folclore e o “vidente. comparando o texto de Dante com alguns fenômenos populares a respeito de previsões do final da Primeira guerra. Q. pela sua distinção no horror infernal. literariamente refinada”. “Parece pouca coisa: em vez disso. depois de prever o final da guerra em 1918. O décimo Canto do Inferno dantesco. que é a notícia publicada por um jornal da época sobre uma menina do interior da Itália que. apresentado como nota no artigo Il cieco di Tirésias. na qual ninguém acredita. 1982: 833-4). não vê o presente imediato porque tomado de cegueira”. Cassandra vive um drama mais individual. Cavalcante é negligenciado. 79 . como aconteceu com Cassandra. Já Tirésias é fruto da expressão popular e a piedade por ele é imediata. ainda que seja golpeado de morte por uma palavra: ele era. quando publica no Avanti! o artigo Il cieco Tiresia. Mas o drama desta punição escapa a crítica. Já nesse artigo a leitura gramsciana do Canto X do Inferno visa a contrapor a chamada alta cultura (burguesa e católica) com a cultura popular na perspectiva da oposição entre teoria e prática na compreensão da temporalidade (GRAMSCI.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE autor. que não se contrapõe ao destino. Ele não conhece o presente: vê o futuro e nele o seu filho 50 Esse fragmento foi retomado por Gramsci de um comentário feito com um colega de curso universitário a respeito da monografia. Farinata é admirado como modelo pela sua atitude orgulhosa. que o faz acreditar que seu filho está morto. o sucesso que teve na crítica e na difusão. O elo entre tradição literária e cultura popular se esclarece na motivação do artigo. embora veja o futuro. mas encontra somente céticos.

Q..) uma poesia mais ingênua e imediata” (GRAMSCI. em geral. Para Gramsci. com toda a sua força. filho de Cavalcante e genro de Farinata. 51 80 . datada de 1932. 9: 1187) Essas posições são retomadas. defendidas e ampliadas nos Cadernos do Cárcere. diz: “Ao que parece. na senda aberta por Foscolo. dessa perspectiva. ternura paterna. A tradição popular quer (. 4: 525) A beleza do texto de Dante transparece no modo de sugerir as condições do drama: Cavalcante. mas não sabem.. (. no momento em que conversam. mas não é cego. mas não é político por excelência”. a leitura encaminha-se a salientar os elementos da história de Cavalcante. Esta questão é abordada a partir da escolha desse Canto para análise. visto que nele se apresenta. colocando Gramsci em oposição a todos os críticos de seu tempo. mas sim Cavalcante. 1981: 154). Mas drama difícil. como se pode deduzir da carta do Prof. Dúvida torturante. não tem uma prova corporal evidente de sua desventura. Umberto Cosmo. Dante não representa os fatos. representa a alma punida com a impossibilidade de conhecer o presente. (GRAMSCI.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE está morto.. Mas para iluminá-lo seria necessário entrar um pouco mais na alma medieval” (GRAMSCI. mas por toda a sua produção bibliográfica considerada nos limites da história e das divisões políticas de seu tempo (GRAMSCI. se ele está vivo ou morto” (STIPCEVIC. 4: 522) visto que a posição política de Dante não pode ser determinada apenas por essa obra. comentada por Gramsci. que se conhece.. neste caso. 1977. porque desejou ver o futuro. abatimento. apenas oferece ao leitor os elementos (angústia. 1977. punição tremenda nesta dúvida. 1977.) Cavalcante não vê. (. estas vêem Guido Cavalcanti. a paixão política de Dante.) realizaria uma ótima obra se o iluminasse (o drama de Cavalcante). Gramsci acentua que “o décimo canto é político assim como é política toda a Divina Comedia. como o Drama de Farinata. Q. drama altíssimo que se consuma em poucas palavras.51 Concentrando-se no Canto X do Inferno. Dante. é um peta culto. Q. a figura central desse Canto não era Farinata. que necessita de reflexão e raciocínio para ser compreendido. 1977.. amigo de Dante. o amigo acertou no alvo. consegue dar uma interpretação unitária do poema dantesco no seu aspecto histórico e político.. “Quando Dante se aproxima das duas sombras. contrapõe-se tanto a De Sanctis quanto a Croce e. postura A carta. vivo no passado e morto no futuro. complicado. Q. 9: 528).

aquele capaz de empenhar sua vida para alcançar seus objetivos. capaz de transformar a concepção de mundo de uma 81 . cuja confiança na capacidade e criatividade do homem se traduz na figura de Fausto. as diferenças evidenciadas entre alta cultura (heroísmo e altivez de Farinata) e cultura popular (sofrimento e abatimento de Cavalcante) valorizam tanto os elementos estruturais quando ressaltam o aspecto político da poesia. por sua distância no tempo e pelo período que exprime. acrescida da singularidade de sua figura. além de contestar frontalmente a interpretação de Croce (STIPCEVIC.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE corporal) para reconstruir o drama a partir da estrutura do poema. Gramsci procura mostrar que o núcleo poético se encontra na segunda parte. a fim de realizar os objetivos de uma nova sociedade. na reação de Cavalcante lançado na dúvida. Para Gramsci esses são os elementos a serem assimilados pela cultura popular. Q. Gramsci”abriu a possibilidade teórica de dar uma interpretação desse gênero a toda a Comédia. em uma natureza vista não como inimiga e antagonista. 9: 1187) Em seguida se pergunta quais os autores que poderiam entrar nessa definição e completa: “Não Dante. como homens. aquilo que devemos fazer” (GRAMSCI.) a confiança na atividade criadora do homem. Gramsci lembra que se afirma que a função dos grandes intelectuais é “ensinar como filósofos. como poetas aquilo que devemos intuir (sentir). Salientamos ainda a defesa de Goethe e de sua importância cultural. 1977. 9: 1187). Somente Goethe é sempre de uma certa atualidade. O conceito de cultura. expressão da faculdade dos danados de conhecer o passado e antever o futuro. Goethe expressa a mentalidade própria do mundo moderno. aquilo em que devemos crer. 1977. porque exprime de modo sereno e clássico (. 1981: 157-8).. com o abandono sem o lamento e a desesperação das ‘fabulas antigas’” (GRAMSCI. estando cegos para o presente. Q. Conforme Stipcevic. a passagem do Medieval para a Idade Moderna. Nas figuras dos dois personagens. mas como uma força a conhecer e a dominar. demonstrou como o resgate da poesia pode acontecer num plano mais vasto”. pela sua genialidade. Valorizando um detalhe deste grandioso afresco poético..

1977. Bartolo. pressupõe a compreensão de como o modo de pensar atua nas relações de hegemonia e como. 2004. Roma : Carocci. Para concluir. Guido.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE época. Marco. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS ACCARDO. por exemplo. 2009. Roma : Donzelli. 1977. Fabio. Antonio Gramsci e la Francia – dal mito della modernità alla “scienza della politica”. Cagliari : B. verità e política. 1998. popular” lançando suas raízes na cultura popular (GRAMSCI. nesse contexto. In: GRAMSCI. Q. A “premissa de uma nova literatura não pode deixar de ser histórica. mas principalmente à história da intelectualidade italiana que. pode acontecer somente num movimento consistente de organização política para construir uma nova ordem social. no processo de organização política. Antonio. ANGLANI. Quaderni del Carcere (Edizione anastatica dei manoscritti). 82 . 9: 1821). Da Gramsci a Marx – Ideologia. Introduzione. analisadas por Gramsci no fenômeno do transformismo. As ambigüidades do movimento futurista. FROSINI.Treccani|L’Unione Sarda. Roma : Derive Approdi. 2009. por sua vez. as classes trabalhadoras precisam. GERVASONI. a fim de avançar na luta de classes. FROSINI. desde o Duecento distanciou-se do povo e abandonou as posições mais radicais por atitudes mais conservadoras. 2007. Q. Aldo. Milano : Unicopli. reformular suas próprias concepções da realidade. Le parole di Gramsci: per un lessico dei Quaderni del Carcere. ligam-se não só às raízes pequeno-burguesas e às incertezas que marcaram o início do século eclodindo na Primeira Guerra. política. expressas na contradição entre rebelião-recusa no âmbito da produção artística e restauração nas posições políticas. Solitudine di Gramsci – Política e poetica del carcere. A abordagem gramsciana da literatura insere-se no contexto da produção de uma “nova literatura enquanto expressão de uma renovação intelectual e moral” (GRAMSCI. as considerações de Gramsci sobre a arte e a literatura inserem-se no objetivo mais amplo da formação de uma concepção de mundo coerente e unitária para as classes trabalhadoras. Fabio e LIGUORI. 9: 1820) que.

Roma : Carocci. La citta futura (1917-1918). A. GRAMSCI. Quaderni del Carcere. 1982. Giuseppe. I Quaderni di Traduzioni. Leopardi. 1975. STIPCEVIC. 2006. Gramsci e i problemi letterari. V. 2007 ______. Milano: Mursia. 1977. Torino : Einaudi. Antonio.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE GRAMSCI. Quaderni del Carcere (Edizione Critica diretta da Gianni Francioni). Niksa. Scritti Giovanili (1914-1918) Torino: Einaudi. Tre voce nel deserto: Vico. GRAMSCI. Torino : Einaudi. 1981 83 . Gramsci – per una nuova lógica storica. PRESTIPINO. Roma : Fondazione Istituto Gramsci\Istituto della Enciclopedia Italiana. A.

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do PPGED – Mestrado em Educação da Universidade Tuiuti do Paraná. 53 85 . considerado o “fundador” dos estudos científicos contemporâneos das relações internacionais. que nunca teve boa recepção nas relações internacionais. Durante boa parte do século XX o marxismo e as relações internacionais permaneceram de costas um para o outro53. O marxismo não teve nenhuma influência nas correntes predominantes das relações internacionais até o final dos anos 70. locais onde o marxismo teve pouca influência.com 52 Hans Morgenthau. Da economia à historia. usa apenas duas páginas. mesmo por aqueles que se opunham a ele. A luta pelo poder e pela paz (MORGENTHAU. não ocorreu. Email: mvcps@hotmail. no entanto. Prof.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Gramsci e Relações Internacionais: hegemonia. Não há nenhuma citação ou referência a Marx. Para Halliday (1999). por que era vista como uma teoria que pouco tinha a dizer sobre a política internacional. Primeiro o fato de que as relações internacionais se desenvolveram inicialmente nas universidades britânicas e norte-americanas. Segundo. para analisar o marxismo e o imperialismo. No campo teórico das relações internacionais isso. o marxismo não pode ser ignorado. 2003) -. Doutor em Ciências Sociais – UNICAMP. dependência e imperialismo Marcos Vinícius Pansardi (UTP)52 INTRODUÇÃO A influência do marxismo em todas as áreas das ciências humanas foi imenso ao longo do século XX. da sociologia à teoria literária. no seu livro clássico . centrando-se nos aspectos econômicos da arena internacional. isso pode ser explicado por dois fatores. pelo papel da teoria do imperialismo. afirmando que todas as suas conclusões são errôneas.Política entre as nações.

foi Lênin a grande referência para o estudo das relações internacionais no campo do marxismo 56. apesar de ter acompanhado por anos a política internacional como correspondente de um jornal norte-americano. Europa. as teorias do imperialismo perderam força e ao longo dos anos 70 o tema praticamente tinha desaparecido das análises dos teóricos que reivindicavam o marxismo. mas historicamente seus estudos tiveram menos impacto sobre os futuros estudos sobre as relações internacionais do que o de Lênin. Assim. 86 . ao contrário. Bukharin. o maior exemplo seriam a própria teoria do imperialismo. Por outro lado. senão a única referência teórica de peso no marxismo sobre a questão internacional. o marxismo foi amplamente marginalizado. para o influente jornal norte-americano New York Daily Tribune. 56 Não estamos aqui negando a contribuição fundamental de outros autores marxistas sobre o imperialismo. sua utilização do conceito de “imperialismo” passou a ser a grande. Suas análises sobre o tema. Sendo o campo teórico das relações internacionais essencialmente anglo-americano (mais americano do que britânico) e. em dois volumes. 1989). sendo o 54 Textos reunidos na coletânea. ENGELS. Portanto. além de pouco sistematizadas e fortemente conjunturais. Rosa de Luxemburgo. No pós-guerra. Assim poderíamos afirmar que a relação entre o marxismo e as relações internacionais foi historicamente um diálogo de surdos. que foi objeto de amplo debate nas primeiras décadas do século XX. Durante 11 anos Marx colaborou. sob o título: Sobre o colonialismo (MARX. contudo. particularmente sobre o fenômeno do colonialismo54. por exemplo: M. que continua até hoje ser a grande referência quando se aborda a teoria do imperialismo.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Por outro lado. É verdade também que Marx e Engels revelaram grande interesse pelas questões internacionais. Afeganistão e África do Norte: uma introdução às análises de Marx e Engels sobre os conflitos internacionais. FERREIRA (2002). Sabemos que o próprio Marx nunca chegou a desenvolver estudos específicos e aprofundados sobre a questão internacional. no campo acadêmico dos estudos sobre as relações internacionais. se explica porque estes autores não chegaram a desenvolver uma teoria coerente sobre as relações internacionais55. no entanto. como analista internacional. muitas vezes revelavam doses de eurocentrismo e desconhecimento sobre a complexa realidade para além das fronteiras européias. 55 Veja-se. Kautsky. Não que o marxismo não se interessasse pelas questões internacionais. tiveram contribuições importantes. o marxismo também não estabeleceu diálogo com aquelas teorias.

considerado o “pai” da corrente modernizante do conservadorismo neste campo de estudos. 1984. Para Waltz. seriam derivadas de alguma característica interna dos Estados nacionais. Os intelectuais e a organização da cultura. É assim que um dos principais teóricos contemporâneos das relações internacionais. Rio de Janeiro. Sendo a teoria neorealista sistêmica. o que significa compreender que o fenômeno internacional é fruto de causas essencialmente estruturais. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro. 1988. 1986. a teoria leninista pecava por ser incapaz de compreender as causas sistêmicas (estruturais) que moldavam a ordem internacional. externas aos Estados. GRAMSCI E A QUESTÃO INTERNACIONAL Nosso objeto de estudo aqui não é a teoria leninista do imperialismo. ao buscar classificar os vários tipos de teorias das relações internacionais. compostos pelos livros: Maquiavel. Concepção dialética da história. o exemplo mais acabado de reducionismo seria a teoria leninista do imperialismo. a política e o Estado Moderno. Para este autor. 2002). Kenneth Waltz. e não fruto de suas características internas (nacionais) (WALTZ. Civilização 87 . Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. pois esta. fundador do chamado “neorealista” (também chamado de realismo estrutural). 57 Utilizaremos neste estudo a versão brasileira do Cadernos. ao determinar as características do sistema através de um determinado estágio de evolução das economias nacionais (capitalismo monopolista) estaria eclipsando as determinações sistêmicas que moldariam o sistema internacional. o marxismo era educadamente descartado como uma teoria simplista e mecânica (COX. vai dividi-las em dois grandes grupos: as teorias “reducionistas” e as teorias “sistêmicas”. não seria de estranhar que assim o fosse.Literatura e vidanacional. 1981). as teorias reducionistas seriam aquelas em que as análises sobre o fenômeno internacional. vamos partir de suas críticas para analisar as contribuições de Gramsci ao estudo das relações internacionais. e por mais que pudéssemos questionar a leitura de Waltz sobre ela.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE marxismo uma teoria reconhecidamente marginal nas universidades e centros de pesquisa norte-americanos. Civilização Brasileira. Consequentemente. Para isso nos propomos a fazer uma análise das leituras de Gramsci desenvolvidas nos Cadernos do Cárcere57 sobre a questão internacional. Quando não ignorado. ou da ordem internacional. Rio de Janeiro.

será levado a estendê-la às zonas colônias e de influencia. 1984: 194). Mas. 1986. que a resposta à questão colocada seria positiva. Segundo Buci-Glucksmann (1980: 183) foi a partir de seus escritos de 1919 que Gramsci incorporou em suas análises a questão leninista do imperialismo. como a área social de cada país é limitada. já que também o globo terrestre é limitado. são insuficientes (GRAMSCI. mas a tendência de abstrata torna-se concreta e imediata quando a extração da maisvalia na sua base histórica ficou mais difícil ou perigosa. Rio de Janeiro: Paz & Terra. as guerras entre os estados se originam da luta interna entre os grupos em cada país. O grupo dirigente tenderá a manter o equilíbrio melhor não só para sua permanência. entrando em conflito com outros grupos dirigentes que aspiram ao mesmo fim. todavia. além de certos limites que. Gramsci estaria subordinando o segundo elemento ao primeiro. Isso estaria claramente caracterizado na famosa e sempre citada observação dos Cadernos. 1980: 192). na qual ele se perguntava se na abordagem teórica da política as relações internacionais determinam ou são determinadas pelas estruturas sociais (nacionais): Brasileira. o reducionismo leninista estaria em compreender este fenômeno a partir de uma forma especifica de Estado (monopolista). pois. Cada grupo dirigente tende em abstrato a ampliar a base da sociedade trabalhadora da qual extrai a mais-valia. 1987. a edição espanhola do Pasado y presente. Quando buscamos a explicação de Gramsci sobre a origem das guerras observamos que a sua leitura em nada se diferencia da explicação dada por Lênin. mas para sua permanência em condições determinadas de prosperidade e de incremento destas condições. Partindo do princípio de que as leituras gramscianas sobre as relações internacionais se fundamentam nas concepções leninistas não seria difícil concluir.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Na crítica de Waltz a Lênin colocava-se a questão central de explicar as causas da guerra. 1977. ou em cujo prejuízo a sua expansão deveria necessariamente se verificar. Estas leituras propiciaram a ele a compreensão da nova conformação do Estado e de seus aparelhos a partir das transformações estruturais do capitalismo e da expansão da política do imperialismo (BUCI-GLUCKSMANN. além do livro A questão meridional. pois para ele. Barcelona: Granica. como afirma categoricamente Carnevalli (2005: 42). ao enfatizar a proeminência do elemento nacional sobre o internacional. 88 .

Também é verdade que.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE As relações internacionais precedem ou seguem (logicamente) as relações sociais fundamentais? Seguem. passarão também por certas ‘crises’” (GRAMSCI. Toda inovação orgânica na estrutura modifica organicamente as relações absolutas e relativas no campo internacional. 1984: 215). é possível encontrar nos escritos de Gramsci vários trechos onde ele inverte a argumentação. também afirma que “não se compreende que o mundo é uma unidade. as relações internacionais reagem positiva e ativamente sobre as relações políticas (de hegemonia dos partidos) (GRAMSCI. etc. sucede uma nova estratificação de classes em um mesmo país. que atravessam certas condições de estrutura. em outro trecho diz que “só se pode julgar a atividade econômica de um país em relação ao mercado internacional. 1984: 129). Em uma passagem dos Cadernos ele afirma que “as relações internacionais estabelecem um equilíbrio de forças sobre o qual cada elemento estatal pode influir muito debilmente” (GRAMSCI. mas segue (logicamente) as inovações estruturais. mostrando que a questão internacional tem primazia sobre o elemento nacional. observar que há uma leitura sistêmica ou estrutural. uma leitura atenta dos mesmos Cadernos do Cárcere nos mostra que Gramsci usou raras vezes a 89 . No entanto. procurando reconhecer que esta sua visão estaria alinhada com o pensamento já desenvolvido anteriormente por Marx e por Lênin. ela ‘existe’ e é avaliada quando inserida numa unidade internacional” (GRAMSCI. se se quer ou não. é possível então. mesmo que não seja certamente aquela defendida por Waltz. é indubitável. observar outros momentos em que Gramsci reforça este argumento. Assim “segundo a filosofia da práxis (na sua manifestação política). mas especificamente na definição do seu mais recente grande teórico.. seja na formulação do seu fundador. mesmo reagindo sobre elas numa certa medida (exatamente na medida em que as superestruturas reagem sobre a estrutura. Além do mais.). através das suas expressões técnico-militares. ou seja. a situação internacional deve ser considerada no seu aspecto nacional” (GRAMSCI. e que todos os países. a política sobre a economia.)” (GRAMSCI. 1984: 217). sucede uma nova hierarquia entre os Estados (. Por fim. É possível ainda. Assim. 1984: 93). 1977: 116). diria que “quando em um Estado a moeda varia (inflação ou deflação). mas quando varia uma moeda internacional. Inclusive a posição geográfica de um Estado não precede.. em mais outra citação. 1984: 44).

Isso fez-lhe sensível às complexidades das relações interescalares e ele nunca assumiu que eles foram ordenados em simples aninhados hierárquicos (JESSOP. ele explorou as mútuas implicações da organização política e econômica. os seus pressupostos sociais e culturais. ele foi fortemente interessado em relações internacionais e foi um estudioso da “geopolítica e da demopolítica (que passaria a ser chamada bio-política) para compreender melhor as implicações políticas do equilíbrio de forças internacionais” (JESSOP. das relações entre o Estado. apesar de uma defesa de uma concepção sistêmica no estudo da política internacional. Gramsci não assumiu que as unidades básicas das relações internacional eram as economias nacionais. política. Para Jessop. sem esquecer que sua leitura tem um viés claramente norte-americano. no período da ascensão do capital monopolístico. 2005. mas seria um erro grave pensar que ele não tinha interesse nas questões internacionais ou que estas eram secundárias em seu pensamento. Ao explorar a dimensão internacional das relações econômicas. Acredita-se que Gramsci não se interessou particularmente sobre as questões da política internacional e foi mais um analista preocupado com a causa italiana. 2005. Em vez disso. 58 Para Jessop (2005. do capitalismo monopolista de Estado. 434). ao contrário. Waltz seria o maior exemplo de uma leitura “nacionalista”. da questão do surgimento do fascismo. com a incapacidade da Itália de concluir sua revolução burguesa.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE palavra “imperialismo” e quando o fez foi para caracterizar a época que vivia: “na época atual do imperialismo”. as organizações internacionais e as ordens mundiais. ou seja. os Estados nacionais. Para o autor o pensamento de Gramsci combina análises em diversos níveis (escalas) indo da análise nacional a internacional. Para ele a leitura gramsciana rompe com uma visão estado-cêntrica ou nacionalista dominante nas relações internacionais58 ao realizar uma interpretação profunda e complexa do fenômeno internacional. das classes ao estudo das instituições internacionais. 433). 434). intelectual e moral. e as conseqüências da dissociação das escalas de vida dominante econômica. Em realidade ele rompeu com a dicotomia tradicional do realismo entre o mundo interno e o externo da política. ou as sociedades civis constituídas a nível nacional. Certamente ele foi um autor profundamente enraizado nas questões nacionais. pois coloca o Estado nacional como o único ator relevante das relações internacionais. 90 . dos caminhos da construção de uma revolução comunista autóctone. políticas e socioculturais. no sentido clássico do seu uso por Lênin.

que “é certo que o desenvolvimento verifica-se no sentido do internacionalismo. os Assim: “Toda a história. 1984: 50). a maçonaria. 1984: 8). Também nesse caso o fenômeno não pode ser limitado às fronteiras nacionais: A religião. a simbiose nacional-internacional caracteriza os processos de dominância e não podem ser isolados ou hierarquizados para além de processos didáticos ou metodológicos iniciais. 59 91 . o Rotary Clube. os judeus. as outras formações internacionais: a maçonaria. a diplomacia de carreira. ou então. mostra o esforço das classes tradicionais para impedir a formação de uma vontade coletiva deste gênero. mas observa que estes processos não podem ser compreendidos sem a referencia aos influxos internacionais na ordem nacional. Para ele a própria construção da ordem mundial moderna esta associada à necessidade das classes dominantes nacionais de assegurar sua expansão internacional. Para este autor. Como o próprio Gramsci nos alertaria é “necessário ter em conta o fato de que as relações internacionais entrelaçamse com as relações internas dos Estados-nação. no conflito de classes. na conformação das forças sociais nacionais. É nesse sentido que precisamos reavaliar a “primazia do nacional” para que não nos limitemos a uma visão “reducionista”. é fundamental nos processos de construção de uma hegemonia política. Uma religião. como bem sabemos o papel da sociedade civil. Mas a perspectiva é internacional e não pode deixar de sê-lo” (GRAMSCI. ao mesmo tempo em que preservam o controle político nacional59. a partir de 1815. assim como dos intelectuais. e é deste ponto de partida que se devem adotar as diretivas. sempre foi uma fonte dessas combinações ideológico-políticas nacionais e internacionais. que sugerem expedientes políticos de origem histórica diferente e levam-nas a triunfar em determinados países. e com a religião. na constituição e na capacidade de expansão político-econômico-cultural do Estado nacional para além de suas fronteiras. Sua concepção dialética das relações nacionalinternacional não se resume ao espaço estatal. procura nos mostrar que a política internacional tem sua origem na arena nacional. mas o ponto de partida é ‘nacional’. 1984: 130). para manter o poder ‘econômico-corporativo’ num sistema internacional de equilíbrio passivo” (GRAMSCI. por exemplo. funcionando como partido político internacional que atua em cada nação com todas as suas forças internacionais concentradas. criando novas e únicas combinações historicamente concretas” (GRAMSCI.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Gramsci.

exatamente por terem sido incapazes de realizar sua própria revolução burguesa acabam incorporando elementos ideológicos dos países dominantes. 92 . com estas relações internas de um Estado-nação. destinado a criar as condições favoráveis à expansão máxima deste grupo. sendo esta tipologia uma visão positivista de ciência bem ao gosto das análises de Waltz. Sendo assim a teoria desenvolvida por Gramsci não é nem reducionista e nem sistêmica. Cada uma destas combinações pode ser representada por uma expressão orgânica própria. “socializar” as inovações técnicas que permitem o funcionamento de toda atividade de direção. a hegemonia de um grupo social fundamental sobre uma série de grupos subordinados. entre o econômico e o político. 1984: 50). mas relações dialéticas de determinação. Estes países periféricos. em escala internacional. mas num plano “universal”. combinando-se e dividindo-se alternadamente. entrelaçam-se as relações internacionais. segundo as atividades econômicas sociais (horizontais) e segundo os territórios (verticais). de excogitar compromissos e saídas entre soluções extremas (GRAMSCI. criando novas combinações originais e historicamente concretas (GRAMSCI. 1984: 51). Rotary. econômica e política. Na história real estes momentos se confundem reciprocamente. é concebido como organismo próprio de um grupo. de um desenvolvimento de todas as energias “nacionais” (GRAMSCI. é o que Gramsci chamou de “revolução passiva”. etc. 1984: 50). O próprio Gramsci faz uma analogia das relações entre o nacional-internacional da mesma forma que observaríamos as relações entre o estrutural e o superestrutural. incidindo no jogo local de combinações. é a de mediar os extremos. Também é necessário levar em conta que. para ele. Uma ideologia nascida num país desenvolvido difunde-se em países menos desenvolvidos. cuja função. Gramsci coloca todas as questões em torno das quais se acende a luta política não num plano corporativo. O que caracteriza o processo de construção desta expansão é exatamente a capacidade destas classes (dominantes) em expandirem seu domínio para além das fronteiras nacionais.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE judeus. O Estado. Mas este desenvolvimento e esta expansão são concebidos e apresentados como a força motriz de uma expansão universal. pensando assim. por assim dizer horizontal e verticalmente. ela é certamente dialética. Não são relações mecânicas. podem ser incluídos na categoria social dos “intelectuais”..

isto é. mas adquire maior importância na consideração das grandes potências (. A centralidade esta na luta de classes e no papel de cada classe na estrutura sócio-econômica nacional. 93 . A força militar sintetiza o valor da extensão territorial e do potencial econômico (GRAMSCI. O exemplo sempre invocado é o da Itália entre 1500 e 1700.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE O modo através do qual se exprime o ser grande potência é dado pela possibilidade de imprimir à atividade estatal uma direção autônoma.) Por isso pode-se dizer que quanto mais forte é o aparelho policial tanto mais fraco é o exército. o fato de que os elementos internos predominarem sobre os fatores externos ou ao contrário.. As relações entre centro e periferia e o papel de cada Estado-nação no sistema internacional não é apenas fruto desta própria estrutura. tanto mais forte é o exército (diante da perspectiva de uma luta internacional) (GRAMSCI. também se relaciona com a diferença entre uma grande potência e os países periféricos.. 1984: 193). Nos países periféricos suas classes dominantes foram incapazes historicamente de constituírem sua hegemonia a partir de um projeto “universalizante” que agregasse todas as classes nacionais. o grau e a intensidade da função hegemônica do grupo social dirigente: este elemento deve ser situado na avaliação da potência de cada estado. limitada que foi pelo jogo internacional de equilíbrio passivo entre as grandes potências (GRAMSCI. Assim é que: Deve-se considerar também a noção de grande potência o elemento “tranqüilidade interna”. Foram incapazes de transformar seu projeto individual de poder em um projeto nacional de desenvolvimento. que permaneceu incapaz de construir seu estado nacional. Pode-se observar que. Uma classe dominante nacional tem que exercer plenamente a hegemonia sobre o conjunto das classes subalternas. os primeiros têm uma maior capacidade de ação independente e os segundos se colocam em relações de dependência. pois. As relações de classes internas a cada Estado e a capacidade dirigente das classes dominantes exercem aí um papel fundamental. a incapacidade de hegemonia interna afeta a sua capacidade de expansão externa. e quanto mais fraca (isto é. que influa e repercuta sobre outros Estados: a grande potência é potência hegemônica. 1984: 17). na dialética nacional-internacional. 1984: 191). chefe e guia de um sistema de alianças e de acordos com maior ou menor extensão. relativamente inútil) a polícia. As grandes potências se caracterizam exatamente pelo grau de hegemonia das classes dominantes e sua capacidade de criar um consenso interno.

assim. das estratégias de conciliação de classe. Seu projeto deve ser confundido com o projeto da nação. elas devem vir a reboque. sua situação no sistema internacional. de desenvolvimento. essencialmente. Na História moderna não há exemplo de colônias de “povoamento”. 94 . sua inserção na divisão internacional do trabalho. autônomo.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE As classes dominantes não exercem a hegemonia apenas para si. das estratégias de hegemonia construídas pelas suas classes dominantes. mas a um projeto estrangeiro. nenhum acordo internacional pode sanar a situação. a um projeto de dependência. e a administração econômica baseia-se fundamentalmente na exploração brutal das classes trabalhadoras e produtoras. mas para a “grandeza da nação”. A questão italiana. mas não um projeto “das” classes populares. sua legitimidade está nesta capacidade de ocultar seus interesses de classe. devem ser a base de sustentação desse projeto. Portanto os destinos de um país. das escolhas. devem ser aliadas. aproxima profundamente a abordagem gramsciana das interpretações dependentistas latino-americanas. esta a chave para um projeto de hegemonia interna e também externa. Trata-se. de “capacidade dirigente” da classe econômica dominante. Gramsci antecipa em várias décadas o debate que movimentou as sociedades nos anos 60. A riqueza nacional é condicionada pela divisão internacional do trabalho e por ter sabido escolher. 1977: 117). No sucesso de uma ação reformista. São sócios menores das classes dominantes internacionais. assim como esta existe também para a grandeza de suas classes dominantes. Gramsci mostra que os destinos de uma nação estão tão dependentes da história de suas classes dominantes como a história dos estados periféricos esta entrelaçada com a história dos estados centrais (GRAMSCI. 1984: 233). Na “qualidade” dirigente das classes dominantes deve-se encontrar as explicações fundamentais para o sucesso ou fracasso da construção nacional e internacional de um país. a mais racional e rentável para cada país. Nos países periféricos as classes dirigentes aliam seus destinos. elas jamais existiram (GRAMSCI. O “nacionalismo” deve ser também um projeto “para” as classes populares. Seu projeto deve incluir as classes subalternas. depende essencialmente dos projetos. do seu espírito de iniciativa e de organização. não há um projeto de desenvolvimento autóctone. sua incapacidade de construir um projeto nacional. entre as possibilidades que esta divisão oferece. Se não existem estas qualidades.

Para Arrighi. adotado aqui. Cox e Stephen Gill. HEGEMONIA E IMPERIALISMO NA LEITURA NEOGRAMSCIANA. autor em geral identificado com esta escola. Como enfatizado por Gramsci a respeito da hegemonia no plano nacional (. esse poder não envolve só a administração usual desse sistema tal como foi instruída numa determinada época. se refere ao poder que um Estado tem de exercer funções governamentais sobre um sistema de Estados soberanos. É o poder associado ao domínio ampliado pelo exercício da “liderança intelectual e moral”. algum tipo de ação transformadora que altera o modo de operação do sistema de maneira fundamental. é a partir dele que a chamada “escola italiana”..) a hegemonia é o poder adicional que resulta da capacidade de um grupo dominante apresentar. Seria Gramsci um teórico da dependência “avant la lettre”? Ou poderíamos especular se Gramsci chegou a ser um autor de referência para os autores dependentistas? O conceito de Revolução Passiva envolve elementos de dependência econômica e política que poderia certamente ter saído dos escritos de Rui Mauro Marini. na prática. etc. Theotônio dos Santos.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Os argumentos levantados acima mostram uma aproximação teórica entre as duas abordagens em vários aspectos cruciais. seus maiores expoentes. assim seria definido: “O conceito de “hegemonia mundial”. Em principio. A aplicação das teorias de Gramsci às relações internacionais foi centrado no conceito de hegemonia. o governo de um sistema de Estado soberanos sempre envolve. Robert W.. 95 .Esse poder é algo mais do que “dominação” pura e simples. que paradoxalmente tem em dois autores canadenses. desenvolveu uma rica e original contribuição a este campo de estudos. num plano universal todas as questões em torno das quais gira o conflito (ARRIGHI. 2007: 227228)”. Não é o objetivo deste trabalho fazer um estudo sobre a relação entre Gramsci e a “teoria da dependência”. No entanto. ficando este tema para ser desenvolvido em futuros trabalhos. como veremos. a definição do conceito em uma perspectiva de relações internacionais.

a hegemonia cultural de uma nação sobre as outras? Ou então o mundo já está de tal modo unificado na sua estrutura econômico social que um país. no mundo moderno. mesmo podendo ter “cronologicamente” a iniciativa de uma inovação. Parece claro que Gramsci coloca sérias dúvidas na possibilidade de que algum país construa um projeto de hegemonia mundial. servir-se dele como base da hegemonia? Logo. 1945-1965 e de 1965 até os dias atuais. que Lênin analisou. conservar o “monopólio político” e. 1875-1945. ou seja. são sempre o resultado final de um projeto de expansão de um Estado hegemônico. da dominação. porém. período dos escritos de Gramsci. No período em que ele escreve (entre as duas guerras mundiais) as relações políticas internacionais seriam caracterizadas pelo imperialismo e não pela hegemonia. de serem dominantes. Estas construções não são naturais.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Esta escola centrou sua análise no conceito de hegemonia. ao refletir sobre as condições políticas de sua época: Será ainda possível. existiram quatro períodos distintos: 1845-1875. se caracterizaria pelo primado da coerção. 1981). Assim também Cox se pergunta: Seria o conceito de hegemonia em Gramsci aplicável no nível internacional ou mundial? (COX. portanto. foi a era da pax britannica. 2007) a partir de 1845. e não mais como “primado” civil ou hegemonia político-intelectual? (GRAMSCI. mas seria este um conceito passível de ser traduzido para o estudo das relações internacionais? Esta pergunta foi feita pelo próprio Gramsci. o período entre guerras. do imperialismo. A hegemonia para ele deve ser compreendida no contexto da criação de ordens hegemônicas. Assim estas ordens podem se caracterizar por terem o caráter hegemônico ou não hegemônico. Pela coerção e não pelo consenso. Esta citação transcrita acima apontaria que para Gramsci há uma diferenciação entre hegemonia (primado civil. que significado pode ter hoje o nacionalismo? Não será ele possível apenas como “imperialismo” econômico-financeiro. ao contrário. Assim como o período anterior. não pode. O primeiro período se caracterizou pela constituição de uma ordem hegemônica. momento político-ideológico) e imperialismo (momento econômicofinanceiro). 1984: 192). Para Cox (COX. Seu inconteste domínio econômico e militar se traduziu na construção de princípios e instituições que 96 . do predomínio da Grã Bretanha. a Primeira Guerra Mundial.

P. 1980. no quarto período. as relações de dominação político-econômicos são relações imperialistas.227). pois estas se caracterizariam como momentos de força militares. 1979. Mas mesmo ele reconhece que usar o termo imperial ou imperialismo obscurece as diferenças entre as ordens hegemônicas e não-hegemônicas (COX. se caracterizou pela desconstrução da ordem anterior. O equilíbrio de poder se rompe e um período de instabilidade se abre com vários países lutando pela supremacia. o imperialismo é uma dimensão das ordens mundiais explicitando o caráter vertical das relações de poder para além das relações horizontais de rivalidade e conflituosidade inter-imperialistas. no entanto Cox se refere aos três primeiros períodos citados acima com outra terminologia o período de 1845-1875 seria caracterizado pelo “imperialismo liberal”. 1987). 1981. ‘potências mundiais’ (Modelski. para Cox. mas a questão seria apenas conjuntural e não teórica. 1981). fica claro que o período em que escreveu Gramsci era realmente um período não-hegemônico. Em outro momento. Na leitura de Cox. ou seja. 97 . Cit. Wallerstein. 60 Segundo Arrighi o possível declínio do poder mundial dos Estados Unidos nas décadas de 1970 e 1980 levou a uma “onda de estudos sobre a ascensão e queda das ‘hegemonias’ (Hopkins e Wallerstein. 1984b). 1979. o comércio livre e o padrão de ouro.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE universalizaram seu domínio: a teoria das vantagens comparativas. foi um período nãohegemônico. Bousquet. que construíram uma ordem hegemônica a partir da construção de um amplo leque de instituições econômicas e políticas internacionais (FMI. homônimos ou contrastantes? Para Cox. OMC. podemos reconhecer com ele a impossibilidade de usar o conceito para aqueles anos. Qual a relação entre imperialismo e hegemonia? São os conceitos similares. 1978. E finalmente. No terceiro período. abre-se um período em que o grande debate entre os especialistas era sobre a crise da hegemonia norte-americana60. estruturou-se a partir do predomínio dos Estados Unidos. e o período posterior a 1965 de “imperialismo neoliberal”. ONU etc. Banco Mundial. No segundo período. o segundo de 1945-1965 de “novo imperialismo”.. 1975) e ‘grandes potências’ (Kennedy 1987-1988)” (Op. de guerra de movimento e não de posição? (COX. 2007). ‘núcleos’ (Gilpin. a distinção entre hegemonia e dominação nos remete à questão do imperialismo.). Isso significa que as relações hegemônicas não se figuram como relações de subordinação imperialistas. ao contrário. Assim.

C. Gramsci nos fornece ferramentas para compreender os sistemas internacionais para além do período histórico do imperialismo e da ascensão do fascismo. este estaria sempre presente em suas obras. Nas suas análises não se observa nenhum questionamento do uso alternado do conceito de imperialismo e de hegemonia. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARRIGHI. Gramsci e o Estado. minha leitura aponta que. Contudo. em ordens hegemônicas ou não-hegemônicas. Assim. ao contrário. materialismo histórico e relações internacionais. G. Rio de Janeiro: Paz & Terra. As três hegemonias do capitalismo histórico. para este autor. As ordens mundiais. 1980. poderíamos concluir que em Gramsci imperialismo e hegemonia são dois momentos. poderia ser explicado o fato de Gramsci usar com pouca freqüência o conceito de imperialismo: ele não abandonou este conceito. mas dialéticos dos processos de formação dos sistemas internacionais. isto é dominantes. Rio de Janeiro: Ed. quando o contrário acontece poderíamos chamar este processo de dominação.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Na releitura da obra de Gramsci. UFRJ. Cox propõe uma outra abordagem das relações entre imperialismo e hegemonia das relações internacionais. O imperialismo abrangeria ambos os conceitos. S (org. Assim sendo. a partir da sua preocupação com os processos de construção de projetos hegemônicos mundiais. nem contraditórios. hegemonia caracteriza um tipo de processo político que coloca a primazia dos momentos de consenso sobre a coerção. 98 .) Gramsci. 2007. Tanto ele como Lênin viveram e analisaram a política internacional em sua conjuntura história específica: a era do capitalismo monopolista. por seu turno caracterizariam as construções políticas geradas pela expansão de uma grande potência. BUCI-GLUCKSMANN. não excludentes. CONCLUSÃO Partindo das análises de Cox. In: Gill.

A. S. In: Gill. states and world orders: beyond international relations theory. 2007. 1999. In: Keohane. In: Mazzaroba. Afeganistão e África do Norte: uma introdução às análises de Marx e Engels sobre os conflitos internacionais. FERREIRA. K. COX. Neorealism and its critics. GRAMSCI. W. A.) Gramsci. 2003. 1986. A questão meridional. a política e o Estado moderno. 8. Rio de Janeiro: Ed.. G. Rio de Janeiro. n. 99 . Boiteaux. JESSOP. 1986 GRAMSCI. R. Rio de Janeiro. W. R. Hegemonia e Relações Internacionais: um Ensaio Sobre o Método. Barcelona: Granica. A. Florianópolis: Fund. Social forces. A teoria da política internacional em Gramsci. Porto Alegre: Ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Gramsci. Maquiavel. Estado e Relações Internacionais. UnB. B. 4.) Gramsci. Civilização Brasileira. 1989. Política entre as nações. Concepção dialética da história. GRAMSCI. Paulo: Ed. WALTZ. F. K.Critical Review of International Social and Political Philosophy. 1984. Gramsci as a Spatial Theorist. Civilização Brasileira. S. 2005. Teoria das Relações Internacionais. A luta pelo poder e pela paz. Europa. A. 1988. materialismo histórico e relações internacionais. O (org.15. 421–437. 1977. O (ed. 1981. M. Lisboa: Gradiva. No. Outubro 2002. Mandacaru.Crítica Marxista.). ENGELS. Paulo: IOESP. December 2005. S (org. Civilização Brasileira. GRAMSCI. R. A. 2002. Rio de Janeiro. Literatura e vidanacional. HALLIDAY. MORGENTHAU. Pasado y Presente. A. Da Universidade/UFRGS. Repensando as relações internacionais. UFRJ. 1987. Rio de Janeiro: Paz & Terra.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE CARNEVALLI. COX. Brasília: Ed. F. MARX. New York: ColumbiaUniversity Press. H. GRAMSCI. Sobre o colonialismo. Os intelectuais e a organização da cultura. GRAMSCI.Vol.

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como um elemento necessário da dissolução do capitalismo. 101 . À partir do final da década de 50. ganha material factual e empírico durante o período de atividade jornalística junto ao New York Daily Tribune. A Contribuição à Critica da Economia Política apresenta uma discussão detalhada sobre o dinheiro e a crise no sistema monetário. principalmente sob o estimulo da crise de 57. portanto. Finalmente n’O Capital Marx reúne todos os elementos até ali estudados e apresenta com base nos 61 Francisco Paulo Cipolla é professor titular do Departamento de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR). No Manifesto Comunista e no Trabalho Assalariado e Capital a crise se apresenta na forma de esboço genérico quanto ao seu caráter cíclico. os Grundrisse. As Teorias da Mais Valia retomam a crítica aos clássicos e procuram explicitar as condições nas quais a crise geral de superprodução é possível. começa a se estruturar uma concepção mais explícita da crise nos trabalhos de preparação d’O Capital. reaparece nas suas reflexões sobre a revolução de 48 na forma de uma reafirmação das visões já sedimentadas na fase de desenvolvimento do materialismo histórico. passa pela análise de eventos concretos na Inglaterra e no continente europeu. Suas primeiras observações sobre a crise se dão no contexto da concepção materialista da história e. até culminar em seu estado teórico mais maduro n’O Capital.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE A evolução da teoria da crise em Marx Francisco Paulo Cipolla (UFPR)61 INTRODUÇÃO O desenvolvimento da teoria da crise nos escritos de Marx inicia com suas observações gerais quanto ao seu caráter cíclico. segue o curso necessário da crítica à economia política clássica.

137) 62. e assim por diante” (CW 1976.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE resultados sobre o sistema de crédito uma teoria da crise que retoma a concepção cíclica apresentada 20 anos antes. 102 . CRISE NO CONTEXTO DA TEORIA DA HISTÓRIA DE MARX Grande parte do esforço teórico de Marx. p. Não é o que este ou aquele proletário pense que seja sua missão. pois implica a adoção de forças produtivas pretéritas menos desenvolvidas. estagnação. no interior das quais a demanda determinava a oferta. se dirige ao desenvolvimento da concepção materialista da história cujos primeiros elementos aparecem com a publicação d’A Sagrada Família (1844-45).22). apresenta poucas referências ao tema da crise. 37) uma vez que A Ideologia Alemã escrita em 1846 não pode ser publicada e foi abandonada à “crítica roedora dos ratos” (Marx 1976. Não são as idéias que movem a história. Mandel (1971) observa que nessa obra Marx e Engels “analisam brevemente as razões pelas quais crises monetárias podem ocorrer” e que “a crise de superprodução não é causada pela superprodução física. 33). Curiosamente. mas o que a classe como um todo será compelida a fazer devido à sua situação material. Marx argumenta que a proporcionalidade entre oferta e demanda foi superada pelo advento da produção em larga escala baseada na indústria moderna e que o restabelecimento da proporcionalidade é uma visão reacionária. mas as suas contradições. p. mas por distúrbios no valor de troca” (p. após a ruptura com Feuerbach em 1845.6. p. crise. depressão. A Ideologia Alemã (1846). Com a Pobreza da Filosofia (1847) vem a público pela primeira vez a concepção materialista da história (McLellan 1971. a mais completa apresentação do materialismo histórico. Com a grande indústria “a produção é inevitavelmente forçada a passar pelas fases sucessivas de prosperidade. Com a 62 CW se refere aos Collected Works de Marx e Engels cuja publicação pela International Publishers iniciou-se no ano de 1975 e em 2004 ainda se encontrava no volume 50. A divisão de classe fundada na propriedade privada forçará o proletariado a transcendê-la e a superar a própria alienação assim como a alienação da classe proprietária (McLellan 1971. renovação da prosperidade. p. Na Pobreza da Filosofia Marx critica a idéia de Proudhon de que a substituição do dinheiro pelo tempo de trabalho como medida de valor garantiria a proporcionalidade entre os vários produtos da sociedade. v.69).

o mesmo estaria ocorrendo já em sua época com o próprio capitalismo. No Trabalho Assalariado e Capital (1849). No Manifesto do Partido Comunista (1848) Marx e Engels argumentam que assim como na fase de ascensão do capitalismo o desenvolvimento dos meios de produção entraram em contradição com as relações feudais de propriedade e tiveram que suplantá-las. excesso de produção. Essas crises destroem parte da produção e das forças produtivas acumuladas anteriormente (p. As crises passam a ser mais freqüentes e mais violentas já que o aumento do mercado exigido pelo aumento da produtividade encontra limites uma vez que a cada crise mais mercados são incorporados e menos mercados restam para serem incorporados (p. Daí a ocorrência de crises comerciais que para eles são a manifestação do choque entre forças produtivas e relações de propriedade sobre as quais se assenta a classe capitalista.137).47-48). excesso de comércio.48). “E NÃO HAVERÁ REVOLUÇÃO SEM CRISE” 103 . A superação das crises se dá pela destruição massiva de forças produtivas e pela conquista de novos mercados. a oferta força a demanda” (idem.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE mecanização e o crescimento contínuo da escala industrial a “produção precede o consumo. “As condições da sociedade burguesa são muito estreitas para abarcar a riqueza criada por ela mesma” (p. processo que prepara as condições para crises mais abrangentes e mais severas e ao mesmo tempo diminui os meios para superá-las. As forças produtivas são limitadas pelas relações de propriedade burguesas e assim que ultrapassam esses limites geram uma crise. p. O desenvolvimento das forças produtivas teria ultrapassado os limites compatíveis com as relações de propriedade burguesas.490). São as crises de superprodução que resultam do excesso de indústria. Aqui Marx sugere um processo de progressivo esgotamento do capitalismo na medida em que seu desenvolvimento levaria à exaustão dos mercados ao mesmo tempo em que provocaria crises recorrentes cada vez mais violentas. escrito na mesma época. O aumento da escala e da produtividade obtidos com o auxílio do crédito leva a crises de magnitude cada vez mais amplas (p. a exposição é muito similar. A batalha entre os capitalistas se dá através do aumento do emprego de maquinaria.489).

no entanto. v. entre eles a abundância de capital de empréstimo e a baixa taxa de juros. Quando 63 “Pauperism and Free Trade – The Approaching Commercial Crisis” (CW 1979. são prejudicados pelo tempo que Marx necessita dedicar à atividade jornalística. Antes. p. datada de 27 de dezembro de 1851. a necessidade de fazer as contas com a revolução de 1848 o leva a escrever A Luta de Classes na França na qual procura entender as razões da derrota da revolução. excesso de mercadorias. ela não produz a crise mas provoca o seu início” (v. Marx inicia em 1850 a atividade de correspondente europeu do New York Daily Tribune. É exatamente em relação a essa crise iminente que ele diz que “os desastres econômicos e as convulsões sociais que estão a caminho serão as sementes da revolução européia”(v. é uma teoria de superprodução cíclica que se realiza através do excesso de capital. vários deles analisando as condições de maturação da próxima crise econômica.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Marx se instala em Londres em 1849 e à partir de 1850 retoma seus estudos econômicos. De acordo com os dados econômicos á sua disposição. Marx finaliza escrevendo em francês: “après les derniers événements je suis plus convaincu que jamais.11) 104 .38. Estes últimos. Essa previsão se baseia na concepção já apresentada tanto na Pobreza da Filosofia quanto no Manifesto Comunista de que ao período de prosperidade se segue a fase de excitação na qual começam a pulular as bolhas especulativas. com a descoberta do ouro na Califórnia e o clima de prosperidade no início dos anos 50.12. Em carta a Ferdinand Freligrath. v. porém. Segundo Marx o ano de 1852 havia sido um ano de prosperidade sem igual na Inglaterra. até aqui. No artigo sobre “Pauperismo e livre comércio – a crise comercial iminente”63 Marx prevê o início da crise para o ano de 1853. No plano da atividade política Marx combate a ala da Associação Internacional dos Comunistas Revolucionários que pregava a luta pela conquista imediata do poder.308). Marx argumentava que. E acrescenta: “Desde 1849 a prosperidade comercial e industrial foi a base segura na qual dormiu em segurança a contra-revolução”. para o qual escreve inúmeros artigos. 521). era de se esperar que essa fase de prosperidade fosse rapidamente sucedida pela fase de excitação precursora da crise. p. p. excesso de comércio.11. uma nova revolução era impossível no plano imediato. “A excitação é o cume da prosperidade. qu’il n’y aura pas de révolution sérieuse sans crise commerciale” (CW 1982.362) A teoria que emerge dos escritos de Marx.

A LUTA PELA TEORIA ANTES DO DILÚVIO No inverno londrino de 57-58 Marx empreende uma frenética atividade de pesquisa no museu de Londres. de que as crises de superprodução são impossíveis. Como vimos Marx apresenta ao longo de sua obra préeconômica a idéia de que as crises capitalistas são crises de superprodução. conceito esse ao mesmo tempo forma mais abstrata da crise e aspecto concreto de qualquer crise particular. Como a crise é a manifestação do fundamento contraditório do modo de produção capitalista. Desaparecia assim qualquer possibilidade de superprodução generalizada uma vez que a produção de M1 constituia um ato de demanda de M2. Antecipando de 8 anos a apresentação d’O Capital. qual seja. 217). p. Marx se depara com a visão clássica que reduzia as relações capitalistas de produção ao intercâmbio de mercadorias (M1 – D – M2) e o intercâmbio de mercadorias. tampouco é necessário que M 1 represente valor de uso para o produtor 2. v.40. Marx argumenta na Contribuição à Crítica da Economia Política que o dinheiro é a forma com que o comércio resolve a contradição da mercadoria entre valor de uso e valor: a mercadoria M1 não precisa encontrar a mercadoria M 2 na qual possa expressar o seu valor e que seja ao mesmo tempo valor de uso para o produtor 1. Marx dirá: “Estou trabalhando como louco todas as noites durante a noite toda na organização dos meus estudos econômicos para que finalmente eu possa ter o esboço claro antes do dilúvio” (CW 1983. de 8 de dezembro de 1857. por sua vez. Suas explorações sobre o tema ganham um novo foco. a explicação teórica de porque as crises de superprodução são possíveis. Todas as mercadorias 105 . A mercadoria como ponto de partida é a solução metodológica.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Marx passa a se concentrar no trabalho teórico de crítica da economia política se depara imediatamente com a visão clássica dominante. a análise deve tomar como ponto de partida um conceito que contenha a contradição fundamental sobra a qual a crise se assenta. por oposição a Malthus. ao escambo (M 1 – M2). Ao defrontar-se com a crítica aos clássicos deverá necessariamente fazer as contas com a noção de que não podem haver crises gerais de superprodução. Em carta a Engels.

A metamorfose da mercadoria é composta de duas fases independentes: a primeira fase é a venda. Com a evolução da circulação de mercadorias a venda se transforma numa necessidade social independente das necessidades individuais de quem vende já que com a generalização da função de meio de pagamento é preciso vender para pagar (Marx 1976. D – M.114) na qual mercadorias de todos os gêneros jazem inertes à espera de um comprador. Essa solução.116). Quando os pagamentos devem ser efetivamente realizados o dinheiro não entra como figura transiente da circulação. 141). Porém.96). Após a fase de venda a mercadoria assume uma forma durável no dinheiro. 1985 p.91). Como comprador a crédito todo vendedor de mercadoria é obrigado a vender para obter os meios de pagamento necessários para saldar suas dívidas (idem 141). a mercadoria-dinheiro. uma forma que pode ser trocada a qualquer momento. O mesmo dinheiro obtido na venda efetua uma compra. p. p. o fundamento da possibilidade de crise. ao contrário do que pensavam Ricardo e Say de que somente superproduções parciais eram possíveis. M – D. pois ao reduzirem o intercâmbio ao escambo.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE agora expressam seus valores numa única mercadoria. essa compra não é necessariamente imediata. a unidade da metamorfose da mercadoria se afirma através de uma crise (Marx 1975. mas como encarnação material do trabalho social (Marx . uma fase independente na qual pode permanecer por um período mais ou menos longo (Marx 1976. p. A contradição entre “mercadoria e dinheiro é a forma geral e abstrata de todas as contradições inerentes ao modo de produção capitalista” (Marx 1976. Se a permanência do dinheiro nessa fase torna a separação entre venda e compra muito longa. gera outra contradição. A função de meio de pagamento implica uma contradição: enquanto os pagamentos se compensam o dinheiro funciona apenas idealmente como dinheiro de conta e medida de valor. a segunda fase é a compra. mas nunca um excesso geral de mercadorias. Nas suas visões as crises gerais de superprodução eram impossíveis. precisamente a contradição ignorada pelos clássicos: a separação da metamorfose da mercadoria entre uma fase de venda e uma fase de compra. quaisquer mercadorias produzidas encontrariam outras pelas quais se pudessem trocar até que exaurindo-se as possibilidades de troca pudessem eventualmente sobrar um ou outro gênero. porém. I. A possibilidade de crise se desenvolve ainda mais à medida que se desenvolve a função do dinheiro como meio de pagamento. A conversão M – D se torna uma função da necessidade de pagar 106 . p.

137). Todo o dinheiro que emerge do circuito do capital e não pode ser imediatamente transformado em capital produtivo encontra os canais do sistema bancário através dos quais retorna ao circuito do capital na forma de crédito de capital. pois no capitalismo a acumulação de capital dinheiro latente. Na Contribuição à Crítica da Economia Política Marx distingue entre moeda em suspensão e entesouramento (Marx 1976. capital na forma dinheiro. designa o dinheiro no processo ativo de circulação. A CRISE REAL REQUER A CONCORRÊNCIA E O CRÉDITO64 “A crise real só pode ser derivada do movimento real da produção capitalista. mas inativo enquanto capital. p. na circulação do capital. mas devido ao fato de que o dinheiro obtido com a venda da mercadoria é gasto paulatinamente numa série de aquisições de modo que uma parte dele jaz dormente como dinheiro enquanto a outra circula como moeda. A suspensão do dinheiro no interior do circuito do capital é fenômeno fundamental para a explicação da função do sistema de crédito assim como sua influência sobre o processo de reprodução do capital e da crise.512). 1968. p. da moeda em suspensão e não do entesouramento. Moeda em suspensão é também referido por Marx simplesmente como dinheiro por oposição a moeda ativa na circulação. Esse processo constitui parte fundamental da teoria da crise de superprodução de Marx. 64 107 . É apenas uma distinção entre dinheiro ativo na circulação imediata e dinheiro temporariamente inativo. impulsionando assim a reprodução até seus limites máximos. Esta última. Essa crise monetária é parte de qualquer crise. da concorrência e do crédito” (Marx. Daí que qualquer interrupção na cadeia de intercâmbio cause uma crise monetária: a busca por dinheiro na sua forma absoluta. No capitalismo o entesouramento é antitético ao conceito de capital uma vez que implica a esterilização do processo de valorização na forma de um dinheiro dormente. é a contrapartida. Essa distinção é importante. moeda.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE (142) e não meramente uma fase da metamorfose da mercadoria. como veremos a seguir. A crise monetária nesse contexto nada mais é do que a corrida por meios de pagamento quando a circulação se estanca e todos precisam pagar. Essa mesma moeda passa de moeda a dinheiro quando sai da circulação temporariamente não em virtude do entesouramento.

65 A análise do crédito e da concorrência efetuada no volume III d’O Capital permite a Marx retomar as concepções fundamentais acerca da crise. No processo de circulação do capital esse mecanismo era realizado pelas Letras de Câmbio até a data do seu vencimento. À medida que a função de dinheiro de crédito passa das Letras de Câmbio para os próprios depósitos bancários a massa de dinheiro necessário para a função de meio de pagamento se reduz a uma fração mínima uma vez que os créditos e débitos são compensados no interior do sistema bancário. O mesmo ocorre com os fundos monetários de capital circulante. Uma determinada quantidade de dinheiro deveria. Sua concentração nos bancos 65 Para um aprofundamento dessa questão ver Aquino (2007).MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE O Capital retoma a idéia inicial já expressa no Manifesto Comunista de 1848 de que as crises são parte do comportamento cíclico da acumulação de capital. isto é. quer seja na forma de dinheiro-mercadoria. de depreciação e de acumulação que se formam ao longo de cada circuito do capital. Nessa data o dinheiro deveria atuar como meio de pagamento. Marx afirma que as formas abstratas da crise tal como se depreendem da metamorfose da mercadoria aparecem na crise como produto de causas relacionadas às propriedades do capital. estar constantemente disponível para realizar a função de meio de pagamento. O dinheiro de crédito é um título de crédito que funciona como meio de circulação. nas Teorias da Mais Valia. Ao contrário. agora num plano mais concreto da análise. A análise da possibilidade da crise implícita na metamorfose da mercadoria não é abandonada quando Marx passa à análise do capital. 108 . plano esse que incorpora a concorrência e o crédito no processo cíclico de expansão e colapso da reprodução. Desse modo uma fração crescente dos depósitos é disponibilizada para o crédito de capital. dinheiro de fato. quer seja na forma de notas bancárias que representavam depósitos em dinheiro-mercadoria. portanto. Dinheiro de crédito e crédito de capital O prosseguimento da apresentação requer uma breve digressão sobre as categorias de dinheiro de crédito e crédito de capital.

Concorrência e taxa de lucro de empresário A tendência do capital de crescer o mais rapidamente possível faz com que em cada ramo da economia se desenrole. fato que libera a maior parte do capital dinheiro latente da classe capitalista coletiva para a reinserção no circuito do capital produtivo na forma de empréstimos bancários. p. Como o lucro bancário depende do comércio do dinheiro depositado nos seus cofres pode-se dizer que os bancos pressionam ao máximo o processo de reprodução através de uma oferta de crédito que excede as necessidades do processo normal de reprodução. assim que os bancos percebem um desequilíbrio entre depósitos e saques tratam de aumentar imediatamente a taxa de juros fato que se configura como um dos elementos que explicam o início da crise. 109 . É nisso que consiste o excesso de crédito ou super-crédito apontado por Marx como elemento importante para a compreensão das crises (Marx 1968.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE permite com que apenas uma pequena fração do seu volume tenha que permanecer disponível na forma dinheiro. Por isso.66 A massa de capital monetário à disposição para empréstimo aumenta também devido ao fato de que a acumulação monetária contém elementos que não representam acumulação real. a acumulação monetária avança mais rapidamente do que a acumulação de capital produtivo. Vejamos agora como se apresentam as coisas do ponto de vista da demanda de crédito. De fato. uma luta encarniçada pelo 66 Para uma análise sistemática do processo de formação de reservas bancárias à partir do circuito do capital produtivo ver Germer (1998). entre os vários capitais daquele ramo.515). A contradição implícita na função do dinheiro como meio de pagamento é assim exacerbada no sistema de crédito desenvolvido com a dupla função dos depósitos como dinheiro de crédito e crédito de capital: como grande parte dos depósitos é emprestada as reservas são suficientes apenas para o volume normal de saques. No auge da prosperidade a demanda de crédito pressiona as reservas ao máximo. pois com a extensão e desenvolvimento do sistema bancário toda massa de dinheiro temporariamente inutilizada se concentra nos bancos e se transforma em capital monetário de empréstimo.

Não pode ser maior do que a matéria da qual provém que é o trabalho não pago. O juro é uma fração da mais valia. 110 . mas não se manifesta enquanto tal pois a expansão impede a queda dos preços. única forma de crescer além do crescimento médio do mercado. A economia neoclássica supõe que essas duas taxas se igualam através da concorrência entre capital produtivo e capital monetário. p.67 Não há nada disso em Marx. até que. Aqui se faz necessária uma digressão sobre a relação entre taxa de juros e taxa média de lucro. A concorrência entre capitais com o intuito de aumentar a parcela de mercado se utiliza do crédito para alavancar a competitividade individual. capazes de diminuir o valor de suas mercadorias abaixo do valor de mercado.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE aumento da parcela de mercado. Apenas a fração do capital produtivo que necessariamente se monetiza no processo de rotação do capital é que encontra a forma monetária própria para servir de capital emprestável pelos bancos. Se a lucratividade do capital aplicado na indústria é maior do que a taxa de juros então capital monetário se transforma em capital produtivo e vice versa. a taxa de lucro começa a aumentar. O aumento dessa diferença implica que quanto mais crédito o capitalista utilizar maior será a taxa de lucro de empresário calculada sobre o capital próprio (Hilferding. Isso significa que a taxa de lucro ao novo valor de mercado pode estar caindo.93) O aumento da taxa de lucro de empresário instiga a busca pelo crédito de capital. A taxa de juros é dada pela relação entre consumo futuro que se ganha com base na abstinência do consumo no presente. não existe nenhum mecanismo de equalização das taxas de lucro e de juros. 1981. Desse modo a taxa de juros é 67 A terminologia da teoria marginalista é diferente: na verdade a equalização se dá entre a produtividade marginal do capital e a taxa de juros. aumentando em conseqüência a diferença entre taxa de lucro e taxa de juros. Desde que a produtividade marginal do capital seja maior do que a taxa intertemporal de consumo vale a pena sacrificar consumo presente.68 Desse modo. O capital fixo impede essa perfeita mobilidade entre capital produtivo e capital monetário. o resultado é uma superprodução ao valor de mercado vigente. Que mundo harmonioso esse no qual o capitalismo se reduz a satisfazer o consumo e todo o sistema se move de modo a maximizar a utilidade intertemporal! 68 Ver a esse respeito Itoh (1988). Para conseguir aumentar a parcela de mercado os capitais individuais procuram introduzir métodos de produção novos. Como essa compulsão move todos os capitais para adiante. com o decréscimo da produtividade marginal esta última se iguale à taxa intertemporal de consumo. À medida que a atividade econômica se recupera.

A diferença entre o lucro médio e o juro é o lucro do empresário. capital emprestado/capital próprio circulante aumenta ainda mais já que o crédito de capital é crédito de curto prazo refletindo a natureza das reservas capitalistas. capital emprestado/capital próprio vai subindo. Esse processo coincide com a redução das reservas bancárias até seus limites mínimos enquanto. mas a expansão da produção se dá com base nas condições técnicas mais avançadas que se encontram disponíveis e cujo valor de mercado implícito é mais baixo. excesso de comércio. por outro lado. Na verdade a relação Ce/Cpc. portanto. O aumento da relação Ce/Cpc implica num aumento da fragilidade sistêmica da reprodução na medida em que o juro se paga à partir do refluxo do capital circulante aumentado pelo lucro médio e como sabemos os valores de mercado implícitos na mais alta produtividade comportam margens de lucro menores que os preços vigentes. quanto no aumento da produção. menor do que a taxa de lucro. de taxas de lucro ainda maiores em virtude do fato de que o preço de mercado sustentado pela expansão retarda em expressar a estrutura produtiva mais eficiente. excesso de produção. Obviamente os cálculos são realizados ao valor de mercado vigente. quanto na direção da redução das reservas bancárias. na fase de retomada do crescimento a taxa de lucro de empresário é alta e os capitais aumentam o uso de crédito. O limite máximo da taxa de juros é a taxa de lucro. Assim. O processo de aumento da razão Ce/Cpc é ao mesmo tempo o processo de diminuição das reservas a um mínimo compatível com a conversibilidade dos depósitos. da idéia de excesso de capital. agora substanciado numa análise concreta do processo cíclico. a relação Ce/Cp. Os capitais que adotam métodos mais avançados de produção gozam de lucros extras e. Uma taxa de juros maior do que a taxa de lucro é um dos sintomas da crise econômica quando a corrida por meios de pagamento faz a taxa de juros atingir os níveis mais altos de sua trajetória cíclica.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE necessariamente. Isso significa que o aumento da produção não pode se realizar indefinidamente 111 . Se todo o capital produtivo fosse financiado por crédito bancário então a taxa média de lucro menos a taxa de juros seria a taxa de lucro de empresário. O sistema como um todo se estira até os limites de suas possibilidades tanto na direção do aumento do endividamento das empresas. em geral. Esse processo coincide com o aumento das escalas de produção e com a expansão da massa de produtos levada ao mercado. Esse é o sentido.

Após a crise a taxa de juros é baixa porque o capital monetário se acumula nos bancos e a demanda de crédito bancário é praticamente nula. fase essa caracterizada pela pletora de capital dinheiro de empréstimo e baixa taxa de juro. A taxa de juros sofre uma alta significativa. Ademais. É precisamente esse período que 112 . Essa dupla circunstância se assenta no período de expansão que precede a fase de super-excitação na qual entra em cena a demanda de crédito para fins especulativos. por isso começam a elevar-se os preços. O movimento cíclico se inicia à partir da fase que sucede a crise. À estagnação da acumulação corresponde um fluxo unilateral de depósitos sem as correspondentes retiradas associadas às compras de meios de produção e força de trabalho. Entra em cena a demanda de capital dinheiro para especulação. Crise industrial e crise monetária: o movimento cíclico no seu conjunto A acumulação de material monetário de empréstimo sofre os percalços do comportamento cíclico da acumulação capitalista. À medida que a expansão ganha fôlego os empréstimos bancários ultrapassam – pois economizam reservas de meios de pagamento e concentram dinheiro que não representa capital – os limites da reprodução material que é a contrapartida em meios de produção e meios de consumo do dinheiro que representa capital e. Vejamos agora o comportamento do ciclo numa visão de conjunto da concorrência e do crédito. Temos. assim. a expansão da circulação da renda faz com que diminua a quantidade de dinheiro que reflui para os bancos precisamente quando a demanda por crédito de capital se expande ao máximo. um processo no qual simultaneamente e reciprocamente os bancos reduzem as reservas a um mínimo e os capitalistas aumentam o endividamento ao máximo. fato que força um aumento na taxa de juros. sua completa estagnação. A taxa de juro se mantém baixa nessa fase porque parte substancial do crédito é realizada diretamente entre os próprios capitalistas.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE ao valor de mercado no qual foram calculados o aumento da escala e os empréstimos tomados para realizá-la. Com a recuperação econômica a taxa média de lucro aumenta fazendo crescer a taxa de lucro de empresário. Após a crise a acumulação monetária nos bancos reflete um fator contrário à acumulação de capital.

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE antecede a crise que apresenta a aparência de reprodução saudável. Isso significa que o depósito bancário como dinheiro de crédito não pode funcionar como meio de pagamento no montante de sua magnitude nominal. No sistema de crédito básico com crédito comercial e crédito de capital circulante o fenômeno que dá origem ao aumento da taxa de juros é o aumento da demanda de desconto de Letras de Câmbio relativamente ao fluxo de depósitos. As empresas menos sólidas começam a apresentar problemas financeiros relacionados ao serviço de suas dívidas. os bancos aumentam as taxas de juros. Nesse momento todos tentam assegurar-se dinheiro na perspectiva de que as taxas de juros continuarão subindo. As condições de convertibilidade dos depósitos só funcionam dentro dos estritos limites das reservas baseadas no funcionamento normal de saques e depósitos. Com as primeiras falências a taxa de juro sobe ainda mais. No sistema moderno no qual os depósitos bancários substituem as Letras de Câmbio como dinheiro de crédito o problema emerge quando o fluxo das reservas começa a desacelerar como reflexo de dificuldades de realização na fase M’– D’. A partir do momento em que começam a se apresentar problemas de refluxo de reservas. 69 Ao reduzir as reservas ao mínimo qualquer sinal de retiradas maiores do que os depósitos produz um aumento da taxa de juros por parte dos bancos como forma de proteger as reservas. o fundamento da crise cíclica é necessariamente resultado da elasticidade que o sistema de crédito imprime à reprodução do capital. pois o sistema bancário empresta o dinheiro o que significa que a conversão em dinheiro de fato é impossível. Portanto. 69 113 . As primeiras falências dão o sinal para uma corrida ao dinheiro com o que a função de meio de pagamento do dinheiro não pode se realizar levando a uma crise generalizada na qual todos Marx se refere a esse problema tendo em mente depósitos em ouro no capitulo 32 do vol III d’O Capital. elasticidade essa que leva o sistema a ultrapassar as suas possibilidades de reprodução. A dupla função dos depósitos como dinheiro de crédito e crédito de capital faz com que sua função de dinheiro de crédito se exerça sem a sua presença material já que o depósito de A é emprestado a B. Taxas de juros elevadas começam a fazer estrago na estrutura fragilizada da reprodução. seja no sistema simples seja no sistema à base de depósito como dinheiro de crédito.

fase de qualquer crise geral. O crédito estagna e a crise se aprofunda. A massiva destruição de valor-capital prepara as condições para o início de um novo ciclo. fruto das condições mais avançadas de produção. É precisamente sua elaboração sobre o dinheiro e suas funções. O preço de mercado cai. 114 . Daí que a crise monetária. A lucratividade se contrai ainda mais em virtude da liquidação de preços. Assim que a crise se manifesta a desova de quantidades aumentadas de produção no mercado revela o verdadeiro valor das mercadorias. A existência contábil dos depósitos em contraste com a sua inexistência real face à procura desenfreada por meios de pagamento é a crise bancária. Neste momento entra em cena a crise monetária: a busca desenfreada por meios de pagamento que como vimos não pode ser suprida. A crise monetária tal como analisada na circulação simples de mercadorias agora aparece como crise bancária porque os meios de pagamento estão concentrados no sistema bancário. CONCLUSÕES Os 20 anos que separam a Pobreza da Filosofia da publicação do primeiro volume d’O Capital foram. No final da década dos anos 50 Marx dirá – munido da ironia em meio às dificuldades financeiras – que “nunca ninguém escreveu tanto sobre o dinheiro tendo tão pouco dele”. Desse modo a crise bancária é um fator de agravamento da crise. Num sistema em que tudo depende do crédito a paralisação da atividade bancária produz uma paralisia na reprodução do capital. é necessariamente uma crise bancária. Os bancos não podem converter depósitos em meio de pagamento e cerram as portas. elemento que junto com a análise da concorrência são fundamentais para o entendimento das crises capitalistas. ao mesmo tempo. que pavimentou o caminho para o desenvolvimento da análise do crédito. apresentada pela primeira vez na Contribuição à Crítica da Economia Política. pois simplesmente não existe nos cofres bancários. anos de intensa pesquisa e sofrimento material.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE vendem para pagar depreciando assim o preço dos seus ativos e mercadorias. Empresas se tornam inadimplentes.

New York: International Publishers. 1976. New Jersey: Barnes & Noble Books. New York: Monthly Review Press. 1981. New York: Harper & Row Publishers. e Engels. MARX. Moscou: Progress Publishers. Carta a Engels. R. Foundations of the critique of political economy. 1971 MARX. 115 . E.6. Collected Works. MARX. Programa de pós-graduação em Desenvolvimento Econômico. Inglaterra: Penguin Books e New Left Review. K. K. MCLELLAN. “Endogeneidade produtiva: um enfoque alternativo da hipótese da endogeneidade da oferta monetária”. dezembro de 1998. 1976. v. F. Universidade Federal do Paraná. The Thought of Karl Marx. M. D. Theories of Surplus-Value. v. 1845-1848. 8 de dezembro de 1857. ITOH.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AQUINO. Grundrisse. O Capital. GERMER. D. MARX.217. Collected Works. 1976. 2007. C. 1988. v. 1968. Dissertação apresentada para obtenção do título de mestre. e Engels. p. “Os desdobramentos das contradições do processo de reprodução do capital: elementos para o entendimento das crises”. The formation of the economic thought of Karl Marx. New York: International Publishers. Vitória – ES. F. K. Marx. K. K. MARX. 1985. Wage Labour and Capital. New York: International Publishers. K. São Paulo: Nova Cultural. Anais do XXVI Encontro Nacional de Economia da ANPEC. 1971. 1856-59. Finance Capital. Londres: Routledge & Kegan Paul. M. 1973. The basic theory of capitalism. HILFERDING. The forms and substance of the capitalist economy. A Study of the Latest Phase of Capitalist Development.40.1. Crítica da Economia Política. C. MANDEL.

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mas. Uma das principais críticas feitas por Marx à teoria econômica burguesa (a Economia Política clássica. vacilam na afirmação do caráter historicamente passageiro do presente modo de produção ou jogam para um futuro remoto e incerto a possibilidade da transição para o novo modo de produção. Germer (UFPR)70 INTRODUÇÃO A análise deste tema é oportuna em um momento em que o capitalismo se considera triunfante e os críticos do capitalismo. na sua época. parece ser aplicado. principalmente como análise do processo de gênese do capitalismo no interior do feudalismo. na forma de elementos constitutivos de um novo modo de produção. cujo caráter científico reconhecia) foi o seu caráter a-histórico. Atualmente. o fato de não reconhecer a natureza passageira do capitalismo. Raramente é aplicado à tentativa de identificar o processo corrente de gestação dos elementos que emergem no interior do capitalismo e que apontam para a sua superação. O de que se trata é de procurar identificar os elementos emergentes deste no interior do capitalismo. 70 Professor do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Econômico da Universidade Federal do Paraná. Um esforço neste sentido não se confunde com a tentativa de prever o futuro ou elaborar receitas sobre a forma concreta que deveria assumir o novo modo de produção. ao contrário de Marx. mesmo no campo do marxismo. praticamente apenas ao passado. o comunismo. na análise teórica.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE As tendências de longo prazo da economia capitalista e a transição para o socialismo Claus M. 117 . no campo do marxismo. isto é geralmente reconhecido. isto é.

durante o domínio da produção manufatureira. parece ter produzido uma forte desmotivação para o estudo do processo de transição em curso e até mesmo uma certa descrença de que isto esteja ocorrendo. Do mesmo modo. Uma correlação de forças de classes extremamente desfavorável ao socialismo. porém. uma vez que a evolução social está sendo tecida cotidianamente. No início daquele século. a partir de meados do século 16. sendo gestadas a partir de diferentes pontos da sociedade. Mas as mudanças que implicam saltos qualitativos dificilmente podem sê-lo. como é possível identificar o comunismo como o novo modo de produção? O objetivo desta exposição é retomar os fundamentos teóricos que tornam isto possível. são escassas as análises que sintetizam os abundantes dados e informações que identificam o curso deste processo. As mudanças meramente incrementais podem ser previstas até certo ponto. portanto. algumas décadas depois. uma vez que são mera extrapolação da situação vigente. cujas condições de emergência estavam. que é conhecida. por intermédio da atividade de milhões de indivíduos e grupos de indivíduos agindo sem coordenação consciente. A TEORIA DOS MODOS DE PRODUÇÃO Não há dúvida de que Marx e Engels consideravam possível antever pelo menos as características fundamentais do modo de 118 . como é possível antecipar uma mudança qualitativa tão significativa quanto a natureza do modo de produção que tomará o lugar do capitalismo? Ou seja. O desenvolvimento da manufatura. Como consequência. O objetivo deste artigo não pode. mas apenas para o futuro próximo. principalmente nas últimas três décadas. portanto sem um objetivo comum conhecido. Sendo assim. é um exemplo deste tipo.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Uma tentativa deste tipo não é uma empresa fácil. nada permitia prever o surgimento e a difusão da produção manufatureira. nada permitia antever o desenvolvimento da indústria mecanizada a partir dela. mas cuja combinação em um processo de convergência para o que viria a ser a manufatura era imperceptível a qualquer observador. ir além da retomada dos fundamentos teóricos da existência deste processo e da indicação de algumas evidências mais gritantes da sua realização. quando a produção artesanal era a forma vigente da produção industrial.

procurando identificar as leis que presidem o seu funcionamento e sua evolução. Sendo assim. por conseguinte. os elementos emergentes e constitutivos do modo de produção que se seguirá ao capitalismo devem poder ser observados no interior da sociedade capitalista atual. 486). O que se necessita. mas como uma fase necessária do desenvolvimento da humanidade. “segundo o plano original de Marx. de modo que só se poderia falar da futura forma socialista da sociedade. intenção que. isto é. como pretendia dedicar um volume do O Capital a este tema. na medida que embriões visíveis desta futura sociedade pudessem ser descobertos na história decorrida e suas tendências de desenvolvimento” (Ibidem. 487). Deve-se notar que. Tais critérios só podem ser derivados das leis que presidem a evolução do capitalismo. “. Isto significa que a transição para um novo modo de produção inicia-se quando elementos do mesmo começam a desenvolver-se no interior do modo de produção vigente. portanto. a partir dos fatores materiais que objetivamente a condicionam. Este volume deveria ocuparse. Um pouco de reflexão é suficiente para indicar que esta é uma condição indispensável à possibilidade da passagem a um novo modo de produção71. lamentavelmente. p.relações de produção novas e superiores nunca se instalam antes que as condições de existência materiais das mesmas tenham sido geradas no próprio seio da velha sociedade” ( Marx. É preciso. citando os Grundisse. Marx não só referiu-se ao novo modo de produção em numerosas passagens da sua obra. para a qual tende a história decorrida até hoje. portanto. 101). 1980. com a análise da ‘dissolução do modo de produção e da forma de sociedade baseados no valor de troca’ e da sua transição para o socialismo” (Rosdolsky. e sem a intervenção da Segundo Marx.. Prossegue o mesmo autor: como resultado da análise de Marx “o socialismo já não aparecia como um mero ideal. para que embriões visíveis da sociedade futura possam ser encontrados no interior do capitalismo atual. não pode realizar. o último volume da sua obra deveria encerrar-se com o exame dos momentos que apontam ‘para além do que está pressuposto’ e que ‘pressionam pela emergência de uma nova forma histórica’ da sociedade. Rosdolsky. esclarece que. são necessários critérios capazes de indicar quais seriam os fenômenos que constituem embriões da sociedade futura. p.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE produção – o comunismo – que sucederia o capitalismo. p.. função que cabe à ciência. identificar estas leis. 71 119 . é que a sociedade capitalista seja analisada segundo o método científico usual.

a identificação das tendências de evolução das forças produtivas e da contradição entre estas e as relações de produção. que é a sociedade capitalista (Marx. “descobrir a lei econômica do movimento da sociedade moderna”. tratava-se nesta obra de identificar as “leis naturais da produção capitalista (. de cunho eminentemente metodológico. se a ciência é materialista em todos os campos. isto é. ou seja. Ao contrário do que se possa crer. mais especificamente. O estabelecimento destas leis foi realizado por Marx e Engels nas suas obras iniciais. o materialismo é a filosofia na qual se baseia. em determinado modo de Na filosofia não marxista das ciências naturais atuais isto é amplamente reconhecido: “Materialism is now the dominant systematic ontology among philosophers and scientists. sem atribuí-la a entes fantásticos ou a inspirações geniais de grandes personagens. a moderna pesquisa científica burguesa no campo das ciências naturais72. Mas a possibilidade de analisar o movimento da sociedade capitalista depende crucialmente de se ter identificado as leis que presidem a evolução da sociedade humana em geral. segue-se que a análise científica da sociedade requer igualmente uma abordagem materialista. e a contradição entre as forças produtivas e as relações sociais de produção como o fator responsável pelo desenvolvimento das lutas de classes que conduzem à transição de um modo de produção a outro. ix). 72 120 .. Sem elas seria impossível saber quais fenômenos deveriam ser observados como indicadores do processo de transição. Sendo assim. Como Marx esclareceu no prefácio ao primeiro volume do O Capital. Marx e Engels pretenderam analisar a evolução da humanidade cientificamente. p.) [as] tendências que atuam e se impõem com necessidade férrea”. 12). as leis que movem a ação do ser humano como tal e. que consiste na aplicação do materialismo filosófico e da dialética à análise da sociedade humana.. aquelas que presidem a transição de um modo de produção a outro. isto é. consciente ou inconscientemente. 1983. As tendências a serem observadas na evolução do capitalismo nada mais são do que manifestações da operação destas leis gerais. p. é o materialismo histórico. and there are currently no established alternative ontological views competing with it” (Moser and Trout.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE intencionalidade humana. com destaque para a ‘A ideologia alemã’ e o prefácio da ‘Contribuição à crítica da economia política’. Deste modo. O método desenvolvido por Marx e Engels para investigar o processo de desenvolvimento da sociedade humana. Nestas obras identifica-se o desenvolvimento das forças produtivas como o fator material responsável pelo desenvolvimento da sociedade humana em geral.

porém. tornam-se por este motivo mais fácil e rapidamente percebidas. Se as relações de produção mudam. são mais fácil e extensamente percebidas. Esta possibilidade depende de se 73 Uma exposição detalhada da teoria da transição entre modos de produção. Por outro lado. é porque as forças produtivas estão mudando. longe das vistas da maioria da população e mesmo de observadores atentos. Sendo assim. esta contradição desencadeia uma reação por parte da classe proprietária vigente.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE produção. Finalmente. parece que os melhores indicadores da emergência do novo modo de produção no capitalismo são as mudanças nas relações de produção e a explicitação do seu conflito com a forma jurídica vigente da propriedade. antes que esta tenha se materializado. é necessário observar a emergência de novas formas materiais de apropriação. embora estas sejam a causa daquelas. Deste modo torna-se possível a identificação do processo em curso de constituição de uma realidade social futura. 2009. que se dão entre indivíduos que circulam na sociedade como portadores de uma nova relação social. na tentativa de controlar e/ou deter o desenvolvimento das novas forças produtivas e da nova forma material de apropriação que lhe corresponde 73. Não se pode de imediato dizer se as mudanças mais facilmente observáveis são as que se dão nas relações de produção ou nas forças produtivas. Por outro lado. conflitantes com a forma vigente e sua expressão jurídica. Portanto. A existência destas reações acrescenta-se ao observador como outro indicador da intensidade da contradição mencionada. importantes desenvolvimentos técnicos nos meios de transporte. enquanto as mudanças nas relações de produção. Os desenvolvimentos técnicos dos meios de produção ocorrem no interior das unidades produtivas. e que desempenharam papel importantíssimo no impulso ao desenvolvimento das novas forças produtivas e relações de produção como um todo em diversas fases da evolução da humanidade. Deve-se ter em mente que as relações de produção expressam-se na forma jurídica da propriedade ou da apropriação. elaborada por Marx e Engels. 121 . encontra-se em Germer. deve-se notar que não há leis que permitam antever as direções dos desenvolvimentos técnicos e a natureza dos saltos qualitativos que caracterizam a emergência de forças produtivas portadoras de mudanças cruciais. principalmente nas mais recentes. permite antecipar as características fundamentais do modo de produção seguinte. que são também elementos das forças produtivas.

e a classe dos trabalhadores assalariados. como é o caso da difusão da sistema de crédito. por um lado. isto é. à absorção dos capitais menores pelos maiores e à proletarização dos menores capitalistas e demais produtores porventura existentes. O resultado da análise de Marx está sintetizado na lei geral da acumulação capitalista (Marx. por outro lado. cap. Desta síntese decorrem as evidências a serem procuradas na evolução do capitalismo até este momento: por um lado. ainda não haviam se manifestado claramente. o formato da realidade futura. à época. Todas estas tendências realizaram-se plenamente após a publicação do O Capital. as tendências evolutivas essenciais e a sua convergência em direção a uma transição determinada. tanto ao nível dos capitais individuais quanto do capital global. Da centralização crescente decorrem duas tendências: a primeira é a polarização crescente da população em duas classes: a classe capitalista. A concorrência conduz à elevação contínua da composição orgânica do capital e à centralização crescente dos capitais. que é a progressiva substituição do mercado pelo planejamento da atividade econômica. com o advento e difusão da sociedade anônima. as evidências sobre o processo de polarização social entre capitalistas e assalariados.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE poder antever. que depende. da análise do processo evolutivo atualmente em curso. por sua vez. com contingentes cada vez maiores de trabalhadores trabalhando combinadamente em regime de cooperação técnica. as evidências de uma tendência ainda inexistente quando da elaboração do O Capital. 122 . de ser possível extrair. por outro. 23). A segunda tendência é o crescimento contínuo das escalas dos capitais individuais e a correspondente expansão do caráter social do trabalho. pelo menos em suas linhas gerais. Finalmente. mesmo aquelas que. os capitalistas são substituídos por trabalhadores assalariados nas funções de direção nas esferas da produção e da distribuição dos produtos do trabalho. que tende a absorver o restante da população. mas implícita no processo de centralização. a maioria. e pode ser assim enunciado: na sociedade capitalista os produtores são independentes e concorrem uns com os outros pela sobrevivência como produtores. cujo número diminui gradualmente. da sociedade anônima e da centralização geral dos capitais. ou seja. 1983.

1975. opõese ao de ‘produtores independentes em concorrência’. e uma tal classe só pode desenvolver-se caso a apropriação coletiva dos meios de produção se desenvolva também previamente. significando que o conjunto deles é gerido como uma totalidade. há planejamento global unificado da produção e da distribuição. Ora. uma vez que eles constituem o fundamento material do desenvolvimento da classe social portadora do projeto do novo modo de produção. no interior do capitalismo. Ver também Germer (2009). ou seja. A propriedade comum implica. logicamente. projeto este que nada mais é que a expressão das exigências objetivas dos componentes já desenvolvidos do mesmo74. e do planejamento global da produção e da distribuição. Sendo assim.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE OS ELEMENTOS FUNDAMENTAIS INTERIOR DO CAPITALISMO DO COMUNISMO NO Entre as referências feitas por Marx ao comunismo. pode-se dizer que as duas tendências de longo prazo fundamentais do capitalismo são a progressiva emergência da propriedade comum dos meios de produção. Pode-se dizer. p. 68). que os dois componentes fundamentais do comunismo são a propriedade comum dos meios de produção. segunda a qual a sociedade somente se propõe um problema quando as condições materiais para a sua solução já estão presentes. no interior do capitalismo. por conseguinte. o novo modo de produção somente se torna possível na medida que os seus componentes fundamentais estejam desenvolvidos a um ponto que se possa considerar suficiente. e o planejamento integrado ou global da produção e da distribuição. por outro. por outro. estas duas “A existência de idéias revolucionárias numa época determinada pressupõe já a existência de uma classe revolucionária” (Marx e Engels. Isto lembra a máxima de Marx. cuja base é a propriedade comum dos meios de produção. Ou seja. É clara nos textos de Marx a indicação de que o comunismo baseia-se na propriedade comum ou coletiva dos meios de produção. a transição para o comunismo requer que se desenvolva previamente. em estado embrionário. O conceito de ‘produtores associados’. 74 123 . Conseqüentemente. por um lado. encontra-se frequentemente a expressão ‘sociedade de produtores associados’. cuja base é a propriedade privada dos meios de produção. por um lado. que a gestão dos meios de produção é também comum e unificada. uma classe cujo destino depende desta transição.

como uma espécie de vassalo de novo tipo. em contraste com a sociedade anônima. p. É significativo que estas últimas. Isto nem poderia ocorrer. é óbvio que a propriedade coletiva não pode desenvolver-se a não ser como uma forma encoberta da propriedade privada. como propriedade efetivamente existente. Assim. 1985. uma vez que a forma jurídica geral da propriedade dos meios de produção é a propriedade privada. no capitalismo. a emergência da propriedade comum no interior do capitalismo não pode ser entendido como a difusão desta nova forma de propriedade explicitamente como propriedade comum. sob as formas da sociedade por ações ou sociedade anônima. 2006a. 332-5). A EMERGÊNCIA DA PROPRIEDADE COLETIVA DOS MEIOS DE PRODUÇÃO A afirmação de que os componentes do comunismo devem desenvolver-se até um ponto significativo no interior do capitalismo não significa que se pretenda que estes se manifestem abertamente como tais. e das fábricascooperativas75 (Marx. tanto da agricultura como na manufatura. como processo de progressiva redução do âmbito de existência da propriedade privada. de modo explícito. por um lado de maneira positiva. nunca se 75 Sobre o papel das fábricas-cooperativas na teoria de Marx. na qual o capitalista desenvolveu-se na forma de arrendatário do nobre feudal. por outro lado de maneira negativa.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE tendências devem poder ser observadas no processo objetivo de desenvolvimento do capitalismo. dada a dominância desta. Sendo assim. de todo o povo. consultar Germer. A PROPRIEDADE COMUM DOS MEIOS DE PRODUÇÃO COMO FORMA ENCOBERTA PELA PROPRIEDADE PRIVADA Segundo Marx. isto é. a propriedade comum dos meios de produção desenvolve-se. ou seja. mas em forma encoberta pela propriedade privada. O mesmo deu-se na transição do feudalismo para o capitalismo. isto é. Parece legítimo sugerir que a propriedade comum pode desenvolver-se de duas maneiras no capitalismo. 124 .

só que. a classe capitalista está afastada da gestão direta da produção e da distribuição. a define como “a abolição do capital como propriedade privada. assim como a propriedade privada capitalista desenvolveu-se amplamente no interior do feudalismo. como regra geral estas empresas deixam de ser geridas. tal como se apresentava a nobreza feudal na fase terminal do feudalismo. apresentando-se crescentemente como uma classe parasitária. p. a forma extrema da produção capitalista como forma embrionária da propriedade comum. Deste modo. quase dez anos depois. com. p. positivamente” (Marx. Como consequência disto. 1985. 1985. em âmbito limitado. como “a forma mais perfeita (que desemboca no comunismo). 335). dentro dos limites do próprio modo de produção capitalista” (OC. Com efeito. por capitalistas. embora no âmbito limitado da própria classe capitalista. 332). Coerentemente. 77). a sociedade anônima constitui uma socialização dos meios de produção. a gestão efetiva dos meios de produção passa às mãos de uma hierarquia de 125 . Assim. no outro. num caso a antítese é abolida negativamente e. p. Na medida que a sociedade anônima se converte na forma geral da empresa capitalista. sendo portanto dispensável do ponto de vista da reprodução social. Marx define a sociedade anônima de modo radical. ao mesmo tempo. todas as suas contradições” (Marx e Engels. como forma derivada da propriedade feudal.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE tenham expandido. é a propriedade comum sob a aparência da propriedade privada. ao redigir o livro III do O Capital. A sociedade anônima representa. “As empresas capitalistas por ações tanto quanto as fábricas-cooperativas devem ser consideradas formas de transição do modo de produção capitalista ao modo associado. por parte de não-proprietários convertidos diretamente em proprietários comuns. em qualquer proporção. para serem geridas por gerentes especializados assalariados. a propriedade comum desenvolve-se amplamente como derivação da propriedade privada. 1974. atualmente a sociedade anônima apresenta-se como a forma típica e mais geral da empresa capitalista (Scott. Segundo Marx. de 2 de abril de 1858. como é caso da sociedade anônima. 1986). Em carta a Engels. e não como forma socializada da propriedade privada. Ao mesmo tempo. o que se explica pelo fato de constituírem uma forma explicitamente comum de propriedade dos meios de produção. Ou seja. para Marx.

tanto nos países capitalistas quanto nos socialistas.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE gerentes e especialistas assalariados. principalmente a partir da grande depressão dos anos 30 e aprofundando-se após a II Guerra Mundial. embora apenas na periferia do capitalismo. vista em perspectiva histórica. um momento do processo histórico de transferência da gestão dos meios de produção para uma nova classe de proprietários coletivos dos meios de produção sociais. nos países capitalistas. ingressaram na cena econômica a propriedade e a gestão estatais diretas de meios de produção. embora apenas formalmente. A abolição da propriedade privada e sua substituição pela propriedade comum converteram-se em realidade. que até então se apresentava apenas na forma da sociedade anônima. Na empresa estatal a forma de sociedade 126 . Embora agentes diretos de capitalistas. O desenvolvimento da sociedade anônima constitui. A propriedade estatal. Por outro lado. a sua intervenção direta na economia amplia consideravelmente o processo de socialização em relação ao representado pela sociedade anônima. e no processo histórico de transição do capitalismo ao comunismo. Nos países capitalistas. converte-se explicitamente. enquanto a direção do Estado é eleita pela sociedade dos eleitores. são integrantes da classe dos não-proprietários de meios de produção. Por um lado. portanto. e representando uma socialização limitada à classe capitalista. encoberta sob a aparência da propriedade privada. de modo que o Estado assumiu importantes funções diretas no processo global de reprodução do capital. o que significa que. Deve-se também ressaltar o fato de que a direção das sociedades anônimas é eleita pela sociedade dos acionistas. a gestão real dos meios de produção do capitalismo transfere-se das mãos da classe capitalista às mãos da classe oposta. Embora o Estado represente a classe capitalista. Ao longo do século 20 a emergência da propriedade comum deu mais alguns passos significativos. embora ainda caracterizando uma fase de transição e sendo interrompida como consequência de contradições internas e externas. constitui um passo decisivo no processo de desenvolvimento dos elementos do comunismo no interior do capitalismo como sistema mundial. na medida que a sociedade anônima torna-se dominante. o socialismo como forma de organização da sociedade fez sua aparição histórica. a propriedade comum. em propriedade comum de todo o povo. mas em dimensões geográfica e populacional significativas. uma vez que o vínculo direto do Estado ao capital está oculto pela sua representação como poder acima das classes.

no entanto. baseada na propriedade comum dos meios de produção por toda a sociedade. como reação burguesa à atuação do Estado como produtor direto. pela expropriação de uma proporção crescente da população de qualquer propriedade. não compreendam o sentido histórico do que fazem. vulgarizam a sua crítica ao ignorarem o significado histórico destas experiências.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE anônima é inicialmente apenas uma ficção jurídica. A diluição da participação acionária do Estado nas empresas estatais toma ainda a forma de uma associação de capitalistas. em trabalhador assalariado. constituem elas momentos do processo histórico de gestação do comunismo. movem-se com a força irresistível das leis da natureza. oculto sob o manto muitas vezes espesso das suas contradições. que colocam tais processos em movimento. em contraste com a esperada e verdadeira socialização. Pode-se dizer ‘independentemente das vicissitudes’. mas. Posteriormente. como dizia Marx. porque os processos objetivos. de modo geral. a venda pública de ações e o controle de empresas estatais por acionistas privados procuram encobrir o caráter público das empresas estatais que escaparam da onda de privatizações do período iniciado nos anos 1980. Deste modo. na medida que esquecem a contradição presente em todos os processos sociais. isto é. que. Independentemente das vicissitudes das experiências socialistas ao longo do século 20. A POLARIZAÇÃO CRESCENTE ENTRE PROPRIETÁRIOS E NÃOPROPRIETÁRIOS DE MEIOS DE PRODUÇÃO: A EXTINÇÃO DA PROPRIEDADE PRIVADA A propriedade comum dos meios de produção também se desenvolve pelo seu negativo. mesmo que relevante. abolidas a propriedade e a gestão privadas 76. materiais. experiências de gestão unificada da produção e da distribuição. Concentram-se em um aspecto. mesmo que os indivíduos e as classes. A expropriação de um proprietário implica a sua conversão em nãoproprietário e. a progressiva extinção da propriedade privada pode ser 76 É interessante notar que os críticos de esquerda das experiências socialistas do século 20 concentram-se na acusação de que a socialização dos meios de produção teria se reduzido à mera estatização. mal encobre a realidade da socialização capitalista de parte dos meios de produção nos países capitalistas mais avançados. 127 . uma vez que o Estado detém a quase totalidade das ações.

indiferente às contestações tendenciosas dos críticos do marxismo. segundo estimativa de Bensaïd. que nunca ultrapassa os 5% da população. É curioso constatar que mesmo autores que se dizem marxistas dispõem-se a admitir que a luta pelo socialismo perde a sua legitimidade porque o ‘proletariado’. 77 128 . talvez por terem os autores incluído os pequenos camponeses. Nos mais adiantados. maioria da população à época. OIT. portanto. ainda segundo o censo demográfico de 2000. 1875). segundo o Censo) conta menos de 3% da população. a cerca de 33% no início do século 21 (Bensaïd. nos anos 1970. segundo o censo demográfico de 2000. mesmo assim em torno dos 20%. Mas em vossa sociedade a propriedade privada está abolida para nove décimos de seus membros. isto é. na sua maioria de camponeses e não de proletários” (Marx. com o que admite. de querer abolir uma forma de propriedade que só pode existir com a condição de privar de toda propriedade a imensa maioria da sociedade” (Marx e Engels. Em importante obra posterior. referente a alguns dos países capitalistas mais desenvolvidos. Com efeito.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE avaliada pelo crescimento da proporção dos não-proprietários. a proporção da classe de trabalhadores assalariados aumentou de cerca de 5% no início do século 20. em contrapartida. utilizando trabalhadores assalariados. a classe capitalista (empregadores. dos assalariados na população77. Em todo o mundo. No Brasil. nunca representou uma proporção significativa da população. impliciticamente. mantenha seu domínio absoluto “Horrorizais-vos porque queremos abolir a propriedade privada. 2001). 1976. a proporção da classe dos trabalhadores assalariados na população total tem crescido sistematicamente nos países capitalistas. p. que uma classe – a burguesia –. O número parece exagerado. representa supostamente uma proporção ‘decrescente’ da população. como por exemplo os EUA. Marx afirma que “o ‘povo trabalhador’ compõe-se. s/d. E é precisamente porque não existe para estes nove décimos que ela existe para vós. Acusais-nos. definido tendenciosa e restritamente como proletariado fabril. 317. os assalariados já ultrapassam os 90% da população (Schneider. 33). entre os excluídos da propriedade. o que é comum a todos os modos de produção baseados na propriedade privada. A classe capitalista. Este processo tem se realizado consistentemente. Segundo estimativa de Labini. os assalariados somam cerca de 75% da população total. na Alemanha. p. e entre eles o proletariado propriamente dito (industrial e comercial/bancário) constitui cerca de 52% da população total (IBGE). No Brasil. para dados atuais). entendida provavelmente como a propriedade especificamente capitalista. em nenhum deles a classe capitalista contava mais de 5% da população (Labini. 1983).

entre modos de produção baseados na propriedade privada. forma negativa da propriedade comum em desenvolvimento. A EMERGÊNCIA DO PLANEJAMENTO DA ECONOMIA À propriedade comum ou coletiva dos meios de produção corresponde a sua gestão comum ou coletiva. o desenvolvimento das forças produtivas dava origem a uma nova forma privada de apropriação dos meios de produção. expande-se o caráter social da produção. Embora o Estado seja uma instituição política da classe proprietária. no caso das transições anteriores. é 129 . ao contrário. o desenvolvimento das forças produtivas não dá origem a uma nova forma de apropriação privada. do ponto de vista da transição para o comunismo. como se indicará adiante. Quando se fala em planejamento econômico. ou seja. de modo perceptível e em escala crescente. no interior do próprio capitalismo. é a não-propriedade. Como resultado das leis de movimento do próprio capitalismo. Note-se que. expande-se a interconexão técnica entre as unidades independentes de produção e distribuição. em graus variáveis de abrangência. Na transição do capitalismo ao comunismo. O que cresce persistentemente. que se tornaria dominante no novo modo de produção. substituindo o mercado. isto é. em todos os países capitalistas. cresce a contradição entre este caráter social da produção e a manutenção da apropriação privada por uma minoria. o desenvolvimento do planejamento da economia pelo Estado. o planejamento integrado e global da produção e da distribuição dos produtos do trabalho social. isto geralmente se refere ao planejamento realizado pelo Estado. a privação da propriedade privada.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE em um sistema baseado no monopólio dos meios de produção sociais e na exploração desenfreada da força de trabalho da imensa maioria da população. o seu caráter cooperativo geral. No entanto. de modo que o caráter privado da apropriação entra crescentemente em conflito com a destinação social da produção. é evidente ao longo do século 20. deve-se esperar que o planejamento da atividade econômica também se desenvolva. e embora o planejamento estatal tenha sido e continue sendo relevante. base de uma nova classe proprietária privada. isto é. o planejamento econômico não se restringe ao Estado. De fato. Sendo esta uma característica fundamental do comunismo. ao contrário.

por outro lado. e o planejamento econômico na esfera do Estado. Com efeito. individual e coletivamente. entendido como fase estrutural do capitalismo. o planejamento da produção e da distribuição deve também desenvolver-se espontaneamente e deve estar constituído no momento da transição política. no século 20. Não é casualidade que a gradual substituição do mercado pelo planejamento. a observação mais rigorosa permite constatar que o planejamento da economia surge e se desenvolve sob duas formas e não apenas uma: por um lado o planejamento ao nível da economia como um todo. à medida que o capitalismo se desenvolve. que se pode denominar planejamento econômico privado.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE essencial que o planejamento se desenvolva. mas o que sobressai é o seu significado no processo histórico do desenvolvimento social 130 . O PLANEJAMENTO DISTRIBUIÇÃO GLOBAL DA PRODUÇÃO E DA O planejamento econômico pelo Estado desenvolveu-se. por outro lado. e mais importante. que se pode denominar planejamento econômico estatal. da propriedade privada dos meios de produção para a maioria da população. a partir da grande depressão iniciada em 1929. é necessário que a estrutura básica do planejamento já esteja constituída no próprio coração do movimento do capital. como elemento da dinâmica do capital. No momento da revolução política. como evolução das contradições do próprio capitalismo e. e que o planejamento estatal da economia tenha começado a desenvolver-se no século 20. ao nível das empresas. tenha começado a desenvolver-se no último quarto do século 19. Sendo assim. deve-se distinguir duas modalidades de planejamento econômico: o planejamento na esfera do capital privado. principalmente. como momento da transição ao socialismo. Ambos emergem como emanação direta do crescente caráter monopolista do capitalismo. nos países socialistas. Juntamente com a abolição. isto é. como elemento do funcionamento corrente da economia. Ambos os processos estão mergulhados em contradições específicas. realizado pelo Estado e. o planejamento ao nível dos capitais individuais. isto é. na prática. constituem uma característica do imperialismo. em dois aspectos: por um lado nos países capitalistas.

durante o século 20. o planejamento econômico estatal. A própria classe capitalista aboliu temporariamente as sagradas leis do mercado. e não o mercado. que deve ser entendido como embrião de uma autoridade social como gestora global na economia no socialismo. No processo de descolonização. tornou-se o mecanismo central da promoção do crescimento econômico das ex-colônias. os preços. respectivamente. O mercado entrou temporariamente em recesso. que se seguiu ao fim da II GM. que é o Estado. substituiu o mercado apenas parcial e temporariamente.. passaram a ser administrados diretamente pelo Estado. etc. em 1929. foi em grande parte obra da intervenção direta do Estado capitalista na gestão da economia. A superação da assustadora crise econômica desencadeada pelo colapso da bolsa de Nova Iorque. a própria burguesia foi autora de audaciosos experimentos de planejamento global sob condições capitalistas. Os investimentos. Mas constitui um sintoma da emergência da propriedade social no interior do sistema da propriedade privada capitalista. No entanto. elaboraram planos quinquenais de desenvolvimento até os anos 60 e 70. A ação planejada do Estado aprofundou-se durante a II Guerra Mundial: nos EUA. o crédito. Constitui ainda um sintoma de que o mercado é incapaz de continuar assegurando a reprodução normal da economia. não porque lhe agradasse. Dado o seu caráter não mercantil. a economia foi colocada sob o controle direto do Estado durante toda a guerra. no capitalismo.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE A força irresistível dos processos sociais objetivos pode ser ilustrada pelo fato de que. e não substituiu a propriedade privada dos meios de produção. pelo Estado. A produção industrial foi convertida em produção militar. mas porque agia sob a compulsão de uma realidade objetiva irresistível. país hegemônico do capitalismo. Como exemplo paradigmático pode-se citar a proibição da fabricação de automóveis de passeio pela indústria automobilística e a destinação total da sua atividade à produção de veículos militares de todos os tipos. o planejamento econômico estatal reflete o crescimento da propriedade social e entra em choque com a propriedade 131 . por exemplo. O mesmo ocorreu na indústria da aviação e em todas as demais. exigindo a intervenção de um poder regulador não mercantil. o planejamento do desenvolvimento. como não poderia deixar de ser. Mesmo nos países capitalistas mais atingidos pela guerra o planejamento econômico explícito tornou-se regra: a França e o Japão.

de crédito e de transações internacionais. Mas a proporção da renda que passa pelo Estado. As iniciativas estatais no sentido de conter o processo de centralização do capital. pelo menos no direcionamento da economia. era de esperar que o planejamento econômico estatal. por diversas vias. e que esta tudo fizesse para bloquear e mesmo abolir o planejamento estatal. Segundo a tese de Marx. por intermédio das chamadas leis antitruste e outras. fornecem ao Estado meios de intervir na realização destas leis dentro de certos limites. porém. portanto. ameaçando a supremacia do mercado. que se centralizam no banco central. às leis de movimento do capital. A relativa ineficácia destas leis apenas reflete a impossibilidade de bloquear definitivamente o avanço inexorável do desenvolvimento das forças produtivas. assim como os fluxos de dinheiro. nos países capitalistas avançados. É oportuno notar que já é impossível impedir a interferência direta e ampla do Estado se não no planejamento. regiões. a burguesia. sujeita que está esta. à propriedade privada. imposto pelas circunstâncias dramáticas da crise geral dos anos 1930 e pelos imperativos do pós-II Guerra Mundial. Todas estas formas de intervenção do Estado não devem. por outro lado. na medida que a centralização acelera o aumento das escalas de produção e da produtividade do trabalho e reduz o âmbito da concorrência. Por um lado esta receita converte-se em despesas. de que a classe proprietária dominante reage aos desenvolvimentos das relações de produção que refletem uma nova forma objetiva de apropriação e se opõem. ser encaradas como se estivesse ao alcance do Estado determinar características essenciais da economia. ramos de atividade. Adicionalmente. entrasse em choque com os interesses da classe proprietária. que movem uma proporção importante da economia. etc. podem ser interpretadas como uma reação da classe capitalista representada pelo Estado ao desenvolvimento das forças produtivas. e o Estado por seu intermédio. a centralização do sistema bancário sob a coordenação do banco central fornece ao Estado um poderoso meio de influenciar a economia por intermédio da regulação do crédito e do câmbio. As leis sobre direitos 132 . a forma da arrecadação e os canais bancários e financeiros que esta volumosa receita percorre convertem-se em outros tantos meios através dos quais o Estado influencia o destino de empresas. Efetivamente. A receita pública absorve atualmente. nos países capitalistas. o chamado neoliberalismo pode ser reduzido a uma grande ofensiva da burguesia mundial contra o planejamento econômico estatal. em torno de 40% do PIB.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE privada.

e a elevação generalizada do grau de concentração em todos os setores da economia. uma fase de transição “entre a absoluta liberdade de concorrência e a socialização completa”. O PLANEJAMENTO AO NÍVEL DAS EMPRESAS Nas últimas décadas do século 19 o capitalismo experimenta um conjunto de transformações que o elevam a uma nova fase. como uma barreira ao avanço da luta pelo socialismo na agricultura (Germer. p. da base teórica totalmente divergente. É interessante notar que a motivação. 53-55). A história da grande empresa de Chandler e do novo sistema social ao qual dá origem inicia-se também no final do século 19 e estabelece-se definitivamente no início do século 20. há leis que limitam o tamanho da propriedade da terra agrícola. em que o âmbito do mercado se contrai. é a manutenção de uma pequenaburguesia conservadora no meio rural. e a caracteriza como um “novo regime social” (594). substituído pelo controle dos mercados pelas empresas monopolistas. O imperialismo. obviamente. 133 . neste caso. p. caracterizada pelo domínio do processo de centralização do capital e do monopólio gerado por este processo. realizada por Alfred Chandler Jr. Há uma certa complementaridade entre a ampla análise da evolução histórica da ‘grande empresa industrial moderna’ (big business). com exceção. na medida que procuram conter a velocidade de difusão do progresso técnico e a erosão da concorrência. segundo Lênin. nos países capitalistas mais avançados. bloqueiam o avanço do processo de centralização do capital na agricultura78. Nos EUA há também uma proibição legal ao estabelecimento de sociedades anônimas na agricultura. não é uma política. mas uma fase estrutural do capitalismo. Lênin expõe o processo de formação das grandes empresas que caracterizam a nova fase.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE autorais atuam no mesmo sentido. e a análise de Lênin. o imperialismo (Lênin. O mesmo se pode dizer das leis que. 1979. motivo pelo qual Lênin também a denominou fase do capital monopolista. ocorrido neste período. segundo Lênin. Esta fase é. 2006b. A grande empresa surge e cresce com base no salto tecnológico da segunda revolução industrial. Nos três primeiros capítulos desta importante obra. 594). e alimenta-se da absorção contínua de empresas concorrentes e da integração 78 Em diversos países europeus ocidentais e em diversos Estados dos EUA. Estas e outras leis de mesmo sentido constituem sem dúvida obstáculos opostos pelo Estado burguês ao desenvolvimento das forças produtivas.

O surgimento da ‘grande empresa moderna’ tornou-se possível como resultado de um conjunto de transformações na 134 . pp. A moderna empresa. mas também no âmbito mundial. As atividades dessas unidades e as transações entre elas foram portanto interiorizadas. como resultado da centralização sempre maior do capital. A necessidade de planejamento cada vez mais detalhado cresce nas empresas. Ao combinarem. “a moderna empresa tomou o lugar dos mecanismos de mercado na coordenação das atividades da economia e na alocação dos seus recursos. de Lênin. planos sociais parciais de produção e distribuição. as atividades da pequena firma pessoal eram coordenadas pelos mecanismos de mercado e de preço. ao planejarem a sua produção. 125ss). não só no interior dos países. que coincide com o grande capital monopolista. tais empresas traçam. as empresas produtoras de cada produto. forçosamente. o comércio entre empresas independentes de uma cadeia produtiva é substituído pela conexão planejada. o planejamento da produção e da distribuição. 1998. Ou seja. ou combinação. ao assumir o controle de muitas unidades. p. geralmente exercendo diferentes tipos de atividades econômicas e lidando com diferentes linhas de bens e serviços. entre as etapas sucessivas da cadeia de produção/distribuição. passando a ser monitoradas e coordenadas por empregados assalariados e não pelos mecanismos de mercado” (Chandler. Segundo Chandler.) Antes do advento da moderna empresa.. que Lênin também destaca sob o nome de ‘combinação’. de Chandler. cuja produção atende uma proporção cada vez maior de cada mercado. é a empresa típica da fase imperialista do capitalismo.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE vertical. Em muitos setores. 248-9). a grande empresa moderna. que resulta em empresas de dimensões cada vez maiores. Com a integração vertical.. no interior da empresa integrada. Como consequência. a mão visível da gerência substituiu o que Adam Smith denominou de mão invisível das forças de mercado (. começou a operar em diferentes lugares. planejam concomitantemente o abastecimento de proporções crescentes das populações (Schneider. na realidade. que vai da produção das matérias-primas até a distribuição do produto final.

. com base. o desenvolvimento tecnológico. p.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE base material da sociedade. Assim.) Assim. ao mesmo tempo. Socializa-se também. 255) Lênin traduz o mesmo fenômeno como um processo no qual “a concorrência transforma-se em monopólio”. o processo dos inventos e aperfeiçoamentos técnicos” (Lênin. que é o materialismo. representada pelo materialismo histórico. a grande empresa moderna “surgiu pela primeira vez na história quando o volume das atividades econômicas atingiu um nível que tornou a coordenação administrativa mais eficiente e mais vantajosa do que a coordenação pelo mercado. igualmente. do método de toda ciência. não necessariamente aos resultados da análise nele baseada. mas baseia-se em uma análise científica. os resultados da análise de Marx e Engels podem ser contestados.. p. representa. que é. de que ele lança mão. o 135 . A redução do âmbito de atuação do mercado e sua substituição pelo planejamento interno e externo das grandes empresas. Nas palavras de Chandler. que se caracteriza como uma situação de transição entre o mercado e o plano como reguladores da economia. da evolução da sociedade humana. a moderna empresa comercial [big business – CMG] surgiu. A pretensão de que o materialismo histórico constitui o método científico de análise da sociedade baseia-se na utilização. Este maior volume de atividades foi possível graças à nova tecnologia e à expansão dos mercados (. cresceu e continuou a prosperar justamente nos setores e indústrias que tinham tecnologia avançada e mercados em expansão (Ibidem. 593). “um gigantesco progresso na socialização da produção. CONSIDERAÇÕES FINAIS O objetivo desta exposição foi mostrar que a expectativa de que o capitalismo será sucedido pelo comunismo não é arbitrária. repita-se. Na base de todas está o desenvolvimento das forças produtivas ou. mas só podem sê-lo consistentemente. no uso do método científico geral. em particular. mais restritamente.

Paris : Textuel. Les irréductibles : théorèmes de la résistance à l’air du temps. Rio de Janeiro : Editora Fundação Getúlio Vargas. C. 1990. Finalmente. A. Ma : Harvard Univ. as leis de movimento da sociedade humana em geral. A. Revista do Instituto de Estudos Socialistas. Esta foi. Esta exposição tem um caráter exploratório inicial. na medida que seja possível identificar. São Paulo. 2001. D. as tendências gerais de longo prazo que conduzem a sociedade capitalista à passagem para um novo modo de produção e. por outro lado. In. como resultado da sua análise. procurou-se também apontar algumas evidências históricas sobre a realização das tendências fundamentais de longo prazo do capitalismo. partindo exclusivamente dos fatores materiais ou objetivos que as condicionam e determinam. metodicamente. Procurou-se demonstrar que.. Outubro. deve ser possível identificar. a partir da elaboração do O Capital. 193-214. a natureza do novo modo de produção. GERMER. pp. por um lado. e com base nestas as da sociedade capitalista. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BENSAÏD. the dynamics of industrial capitalism. Ensaios para uma teoria histórica da grande empresa. Marx e Engels denominaram socialismo científico a nova forma de sociedade para a qual o capitalismo converge. n.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE materialismo. Press. em essência.M. A “economia solidária”: uma crítica marxista. Cambridge. devido à escassez de pesquisas extensas e aprofundadas sobre este tema. a pretensão de Marx e Engels. 2o sem 2006. 1998 CHANDLER JR. como Marx e Engels pretenderam ter feito. CHANDLER JR. Scale and scope. 14. 2006a.. especificamente. 136 . porque esta foi baseada no método geral da ciência e não em preferências ou motivações subjetivas.

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numa definição ampla. Pour Marx). INTRODUÇÃO O objetivo deste texto é recuperar alguns dos principais momentos do diálogo crítico sobre alguns conceitos fundamentais de teoria política travado por Nicos Poulantzas em suas obras iniciais. e compromete o seu autor” (Louis Althusser. os empréstimos do Capital feitos a Smith. Definimos como “sociologia política norte-americana” (ou funcionalista) aquele paradigma de análise política bastante influente na ciência política anglo-saxã nos anos 60 e 70. cujos representantes produziram uma série de obras significativas sob a influência do funcionalismo sociológico de Talcott Parsons. especialmente em sua obra magna Poder Político e Classes Sociais (POULANTZAS. as elites e a sociologia política norte-americana Sérgio Braga (DECISO/UFPR) “O empréstimo de um conceito isolado (do seu contexto) não compromete aquele que o fez frente ao contexto de onde o tomou (Assim. com analistas políticos representantes daquele paradigma de análise política que. por exemplo. e orientados pelo conjunto de questões gerais comuns (ou pela “problemática”) expostos mais 79 139 . Mas o empréstimo de uma verdadeira problemática não pode ser acidental. podemos qualificar como pertencendo à “sociologia política norte-americana”79. Ricardo ou Hegel). 1968).MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Nicos Poulantzas.

Louis Althusser. a teoria do “governo comparado” e do desenvolvimento político de Gabriel Almond. isto é. sendo a principal tarefa dos marxistas contemporâneos efetuar o “teste empírico” de tais princípios na análise das sociedades capitalistas visando a desmistificar a visão das democracias modernas presentes nas obras dos “pluralistas” (Cf. os quais foram interlocutores privilegiados de Poulantzas em sua primeira fase de elaboração teórica. destacamos neste texto alguns dos principais cientistas sociais e políticos do século passado tais como Talcott Parsons (PARSONS. o pluralismo elitista de Robert Dahl e Seymour Martin Lipset. 1972. MILIBAND. Esses autores. 1963.: 18) 80 Assim. o próprio Poulantzas afirmou explicitamente em Poder Político e Classes Sociais que as obras clássicas do marxismo apresentavam uma série de deficiências e lacunas analíticas. Em seguida. longe de propor um “retorno (exegético) a Marx”. ) e Karl Deutsch (DEUTSCH. fortemente influentes no mainstream da produção acadêmica norte-americana até meados dos anos 80. 1969). foram sendo progressivamente substituídos ao longo dos anos 1990 por outros paradigmas tais como a teoria da escolha racional. Al. Alguns dos subgrupos desse campo intelectual mais geral são a análise sistêmica de David Easton. que consideravam que os fundamentos de tal teoria já estariam contidos nas obras originais dos “clássicos” do marxismo. 2005). estas referências se constituam em ponto de partida de qualquer reflexão que se propusesse a permanecer dentro do campo teórico marxista). 80 Relembre-se de passagem que esta era uma postura simetricamente oposta à de analistas como Ralph Miliband. Harold Lasswell (LASSWELL & KAPLAN. censurando ainda o “provincianismo característico da vida intelectual francesa.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Dentre estes autores. Robert Dahl (DAHL. 1969. à frente. 1969). 81 Já no início Poulantzas de seu livro afirma em relação às obras contemporâneas de Ciência Política que “o caráter ou a natureza marxista ou não marxista dessas obras de modo algum constitui ─ no estágio atual de investigação e no que diz respeito à sua tomada em consideração como matéria-prima de investigação ─ um critério pertinente de sua seriedade ou não seriedade”. David Easton (EASTON. o autor reconhecia e afirmava de forma explícita as deficiências e os limites do esquema analítico e do método de exposição elaborados pelos clássicos do marxismo (embora. 1951.. da mesma maneira que seu inspirador mais imediato. 1968: p. Gabriel Almond (ALMOND et. em acreditar serenamente na 140 . 1983). da qual uma das características ─ e não a menor ─ consiste muitas vezes em arrombar portas abertas. 1979). naturalmente. que tornavam indispensável o recurso a outros tipos de “matérias-primas” para fundamentar a tentativa de (re) formulação da teoria política marxista que era o núcleo de seu próprio projeto teórico original (Poulantzas. assim como a necessidade de um diálogo teórico-metodológico franco e aberto com as diferentes correntes da análise política produzidas no ambiente acadêmico de então 81. a public choice e as diversas vertentes do neoinstitucionalismo que não demonstram a mesma preocupação em vincular o estudo dos processos políticos com processos que se dão em sistemas sociais mais abrangentes. 1971. o modelo cibernético de Karl Deutsch. POULANTZAS & LACLAU. 1953. enfatiza que “recorremos com freqüência a obras em língua inglesa ─ inglesas e americanas ─ ”. Como se sabe. 1988).

perceberá facilmente que um dos principais elementos do processo de reflexão teórica e de exposição analítica do autor.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Nesse sentido. tais como a sociologia das elites. Ou seja: qualquer leitura. b) suas concepções de estratificação social. quando esta já se encontra mais elaborada em outros autores estrangeiros” (p. por mais superficial que seja. existem a nosso originalidade de uma produção teórica. 18). um dos elementos constitutivos a nosso ver mais importantes de Poder Político e Classes Sociais é a tentativa do autor de renovar a teoria política marxista a partir do diálogo crítico com alguns dos principais paradigmas analíticos que compunham a corrente dominante da teoria política de então. dentre outros autores. 141 . dos textos da “primeira fase” da elaboração teórica poulantziana. Reinhard Bendix. dentre outros autores. um dos principais expoentes do institucionalismo constitucionalista francês de então. elaboradas a partir do confronto explícito e sistemático com outras concepções não necessariamente de inspiração marxista. de outro). nas obras clássicas do marxismo. Apenas à guisa de exemplo. era a tentativa de estabelecer um diálogo sistemático com outros paradigmas de análise política. aquele que derivava do estrutural-marxismo “althusseriano". dentro dos quais devemos destacar a “sociologia política norte-americana”. formuladas a partir de um confronto crítico com as idéias de Maurice Duverger. Esse papel destacado do diálogo com a sociologia política funcionalista nas obras iniciais de Poulantzas não é casual dado que. menos do que através do recurso a um “retorno a Marx” ou a um simples trabalho de explicitação e extração teórica de elementos que já estariam contidos. históricos e empíricos) fecundos obtidos por Poulantzas a partir de seu diálogo com outras perspectivas de análise os seguintes: a) sua teoria do Estado Capitalista e o conceito de burocratismo. regime político e democracia. apesar das diferenças substanciais entre os projetos teóricos (ou seja. e do funcionalismo sistêmico parsoniano. por um lado. c) suas concepções sobre forma de Estado. de maneira aplicada (ou em “estado prático” segundo o jargão utilizado). classes sociais e o esboço de uma sociologia dos grupos de intervenção política. teóricos. formulados a partir de um diálogo crítico com a teoria da dominação racional-legal e a sociologia da burocracia originalmente elaboradas e aplicadas em análises históricas por Max Weber. podemos mencionar como resultados analíticos (ou seja. o funcionalismo conflitualista de Ralph Dahrendorf.

como é enfatizado por uma certa grade de leitura que consideramos bastante empobrecedora do projeto “poulantizano” original. dentre outros).MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE ver vários pontos de contato e de interseção teórica entre os sociólogos funcionalistas norte-americanos e o projeto teórico original de Poulantzas (tais como a tentativa de elaborar uma definição geral e “supra-modal” de poder e de política. que a nosso ver é de fundamental importância para a compreensão e. Para cumprir tal meta. existem pontos de contato entre estes dois paradigmas que a nosso ver. 25-70). mais importante. 1981: p. Autores como Merton e Lipset tentaram explorar algumas semelhanças entre estes paradigmas. b) na segunda parte do texto. concepção de estrutura como o sistema de valores. para a restauração. 1979. mas não se aprofunda no tema (Easton. uma das poucas tentativas sistemáticas de cotejar as semelhanças e diferenças entre os modelos estruturo-funcionais elaborados por “parsonianos” e “althusserianos” é o manuscrito não publicado de Erik Olin Wright e Luca Perrone (1973) e o sugestivo opúsculo de Maurice Godelier (1972). apesar das declarações formais em contrário. esclareçamos desde já (cf. ainda não foram devidamente explorados pelos comentadores da obra poulantziana82. buscaremos reconstituir sumariamente os termos do diálogo crítico empreendido por Poulantzas com estes autores. David Easton aponta en passant algumas semelhanças entre estes paradigmas de análise. conforme fica claro para aqueles que tiverem a paciência de executar o tour de force que é o de percorrer todas as páginas de Poder Político e Classes Sociais. Em seu conhecido texto destinado a criticar o projeto teórico de Nicos Poulanzas. tomando por base os seguintes problemas fundamentais de análise política: (i) Concepção geral de poder e de política. LIPSET. 1992: p. salvo raras exceções. procuraremos reconstituir sumariamente a problemática teórica da “sociologia política norte-americana” a partir da análise das obras de alguns de seus autores mais representativos. em novas bases. 137). no projeto estrutural-marxista poulantiziano original83. MERTON. mas ao que parece com a intenção algo maquavélica de subsumir a teoria social e da história marxistas em alguma variante de funcionalismo. Assim. O objetivo desse texto é recuperar sumariamente algumas das dimensões desse diálogo. para não dizer de seus desdobramentos e metamorfoses posteriores. por si só. 83 142 . e da tentativa freqüente de se demarcar desse campo teórico. (ii) Definições gerais de Estado e da interação entre os níveis da totalidade social 82 De nosso conhecimento. o projeto teórico de Poulantzas nessa obra vai muito além de elaborar uma teoria do Estado capitalista e de “trazer o Estado de volta para a teoria”. uso dos conceitos de sistema e de equilíbrio. de motivações e de normas que orientam a conduta humana ou “as práticas” reprodutivas. o que não é propriamente o escopo deste texto. acionalismo interacionista e perspectiva de análise estruturo-funcional. organizaremos nossa exposição da seguinte forma: a) na primeira parte do texto. como se isso fosse. algum demérito para os estrutural-marxistas. Devemos insistir uma vez mais para evitar ambiguidades: referimos-nos aqui a uma “restauração” de um projeto teórico porque.

Martins Lipset. podemos definir como elementos fundamentais da sociologia política norte-americana ou funcionalista (tanto em sua versão funcionalista original. Assim.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE e do papel do desempenhado pelo nível político nesse processo. as seguintes idéias e teses fundamentais que. a nosso ver. (iv) O conceito de “poliarquia” e o problema de uma teoria das “formas de governo”. e seguindo em parte as lições dos próprios althuserianos iniciais. como em suas variantes sistêmico-cibernética e pluralista (formuladas respectivamente por David Easton e Karl Deutsch. formulada por Talcott Parsons. o conceito de problemática foi criado por Jacques Martin para caracterizar o conjunto de questões mais gerais que dá unidade a um determinado 143 . SISTEMA POLÍTICO E A PLATAFORMA DE UMA “MICROSSOCIOLOGIA DO PODER” EMPIRICAMENTE ORIENTADA Para os fins da presente análise. faremos uma leitura seletiva e instrumental das próprias formulações e hipóteses deste autor a fim de reter alguns elementos teóricos que consideramos mais produtivos para o desenvolvimento de uma sociologia política estrutural-marxista “empiricamente orientada”. por um lado. de outro). A hipótese ou proposição básica subjacente a este esforço de reflexão é o de que. Poulantzas. dão uma certa unidade a esse campo teórico. e Robert Dahl e S. o objetivo central desse texto não é o de efetuar (mais) uma exegese que replique o estilo algo confuso e as imprecisões e oscilações terminológicas existentes nas obras originais de N. (iii) concepção de classe social e esboço de uma sociologia dos grupos de intervenção política. Ao invés disso. há um “núcleo racional” das propostas analíticas do “primeiro Poulantzas” que. a nosso ver. ainda hoje pode ser recuperado de forma estimulante por aqueles que buscam trabalhar no campo teórico da análise política marxista “empiricamente orientada”. e não apenas no nível da análise macro-sociológica global ou da elaboração de um discurso crítico-“normativo” contra o que seus elaboradores julgam ser o “capitalismo”. A PROBLEMÁTICA TEÓRICA DA “SOCIOLOGIA POLÍTICA NORTE-AMERICANA”: PLURALISMO. possibilitando falar de uma “problemática da sociologia política norte-americana” (ou funcionalista) propriamente dita84: 84 Segundo Althusser (desconheço citação de fonte precisa). apesar da retórica pedregosa e do vernáculo pouco atrativo de alguns dos textos poulantzianos.

(2) O segundo elemento teórico a nosso ver comum à obra destes autores. grupos e processos nos quais estes conceitos políticos gerais pudessem ser aplicados e utilizados na formulação e pesquisa de problemas de análise política. vinculada a uma preocupação com a aplicação de modelos teóricos em análises e pesquisas empíricas. onde a preocupação em elaborar conceitos e modelo teóricos para análise de processos e comportamentos políticos que abrangessem também as sociedades tribais “sem-Estado” e instituições não-estatais é mais evidente. podemos identificar como aspecto comum do projeto teórico destes autores a tentativa de empreender uma reflexão sistemática e “empiricamente orientada” (ou seja. mas sim a de elaborar alguns parâmetros analíticos de alto grau de abstração que possibilitem uma análise comparativa sistemática do funcionamento dos sistemas políticos nos diferentes tipos históricos de sociedade (ALMOND. Diga-se de passagem que um desdobramento lógico não muito explorado do conceito de problemática é o de que ele permite instaurar um diálogo cooperativo e não somente uma relação de “soma-zero” entre os diversos paradigmas de análise política. “interesse”.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE (1) Em primeiro lugar. “governo” etc. seja ao nível da sociedade global. “decisão”. “integração”. “controle”. a finalidade heurística deste procedimento não é necessariamente a de instaurar uma nova filosofia da história baseada nas noções de “progresso” ou “fim da história”. não necessariamente vinculado a um discurso prescritivo sobre a realidade social) de conceitos gerais que fazem parte de qualquer comunidade ou coletividade política. é um elemento comum subjacente à reflexão de todos estes autores a preocupação em definir de maneira consistentemente lógica e sistemática conceitos gerais tais como os de “poder”. Assim. esse projeto é particularmente claro nas obras de Parsons (1966) e Lasswell & Kaplan (1979). “elites”. 85 Salvo engano. e relacionada a essa preocupação em elaborar uma teoria geral da política que abarcasse vários tipos históricos de sociedade humana. que caracterizam a história humana escrita85. Como bem acentuam estes autores.. “recursos políticos”. os atores. que ao longo de todas as suas obras foi pródigo em elaborar tentativas de incorporações heterodoxas (embora não ecléticas) de elementos parciais de análise política de outras perspectivas para desenvolver aspectos parciais de seu próprio modelo teórico mais geral. “dominação”. como é o caso do próprio Poulantzas. “política”. “influência”. “autoridade”. 144 . complexas ou com-Estado. seja ao nível das micro-coletividades humanas. 1972). é a incorporação sistemática do conceito de sistema político como um subsistema de um sistema social mais paradigma de resolução de problemas teóricos. a fim de que o analista político orientado e inspirado por este paradigma pudesse concretamente identificar. e não apenas das sociedades modernas. inclusive as sociedades tribais ou comunitárias primitivas.

pelo que o campo da ação política não é visto como um nível inteiramente autônomo de atividade social e desvinculado de outros níveis de uma totalidade social mais abrangente. 1972). que tornam necessárias a incorporação de outras variáveis de menor nível de abstração para o mapeamento mais detalhado das diferenças sincrônicas e diacrônicas do desempenho de várias funções pelos diferentes sistemas políticos (ALMOND et. 1981). ora pela sua pouca aplicabilidade em análises concretas de processos decisórios de “governo comparado” e de desenvolvimento político.: p. ora pelo fato dele não abarcar os processos políticos que se davam em coletividades humanas primitivas onde inexistia Estado. com a correlata rejeição teórica do conceito de Estado como elemento central e mais abstrato para a elaboração de análises políticas sistemáticas. por exemplo. Op. não obstante ser forte a ênfase manifesta da maior parte desses autores na rejeição do uso do conceito de “Estado” como conceito mais abstrato e geral para a definição do objeto de uma ciência política. tais como as sociedades comunitárias tribais (PARSONS. 1982). Frise-se aqui que. 86 Não entraremos aqui no espinhoso tema das interações (ou falta de) estabelecidas pelos sociólogos políticos funcionalistas entre o subsistema político e os outros subsistemas que formam os sistemas sociais mais amplos. parece haver uma oscilação entre estes autores (e também entre comentadores-críticos ou aplicadores do modelo funcionalista) no tocante ao grau de compatibilidade teórica entre os conceitos de sistema político e de Estado: enquanto uns admitem a possibilidade de enfocar o Estado como um dos subsistemas institucionais integrantes do sistema político da sociedade global. 1973. por outro lado declara uma espécie de guerra sem tréguas ao conceito (e às teorias) de Estado (EASTON. outros analistas postulam veementemente a incompatibilidade radical ou a mútua excludência entre estes dois conceitos (EASTON. 1981) 87. mas será impossível explorar estes pontos nos limites deste artigo.. 87 Essas duas posições podem inclusive coexistir num mesmo texto como. 145 . Importa sublinhar aqui somente que esta interação é frequentemente postulada por esta corrente de análise política. assim como da definição do próprio objeto da atividade política entre estes vários autores. no texto de David Easton já citado.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE amplo8611. instituições estas possuidoras de um atributo ou conjunto de atributos que justificam um tratamento próprio e diferenciado do conjunto de instituições que delem fazem parte (JAGUARIBE. Sublinhe-se também que há diferenças significativas entre o conceito de sistema político. Embora num certo momento o autor admita a possibilidade de uma coexistência pacífica entre os dois conceitos. 143-145). inclusive citando elogiosamente Ralph Miliband por tentar compatibilizar as duas abordagens através da formulação de seu conceito de “sistema estatal”. Cit. MILIBAND. al. p. 1966). 144) em detrimento do conceito de sistema político.. exortando os marxistas e os demais analistas a “abandonarem o conceito de Estado” (sic. As razões (teóricas) aduzidas por cada um dos representantes deste paradigma para a rejeição do conceito de Estado são de natureza distinta: ora pela confusão e falta de precisão do conceito em si (EASTON.

especialmente das sociedades contemporâneas. (4) Por fim. O exercício do poder político não estaria referido assim a nenhum centro integrador (supostamente o Estado) que concentrasse maior parcela de poder ou que possuísse uma superioridade hierárquica normativa sobre as diferentes instituições ou níveis onde se exerce o poder político e o poder social. grupos e instituições sociais. onde o poder político seria exercido de maneira difusa e desconcentrada. Haveria assim um continuum na distribuição do poder político pelas várias elites e grupos que o exercem e esta distribuição permitiria escalonar os diferentes sistemas políticos como mais ou menos democráticos.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE (3) Ao lado dessa dissolução do Estado como elemento nuclear e mais geral de uma teoria da política podemos detectar uma concepção “pluralista” do exercício do poder político nas várias sociedades. Outro elemento teórico relacionado a essa dissolução do Estado como ente institucional nuclear e mais geral de uma teoria da política. Teríamos no máximo o “governo” como um ente ou uma entidade neutra sendo disputado por vários atores. e não apenas na sociedade global. e sujeito a uma multiplicidade de pressões conflitivas por parte de grupos e interesses organizados. qual seja. 2005). uma instituição entre outras do sistema político mais amplo. o que podemos observar nas sociedades modernas são diversos tipos de “governos”. podemos definir como último elemento comum e mais geral subjacente à obra destes autores. ao invés de um Estado formado por um grupo de agentes autonomeados e não-eletivos. especialmente nas modernas democracias. 1982: 14). é a proposta de efetuar/elaborar uma micro-sociologia política do poder empiricamente orientada que sirva de base para análises e pesquisas concretas de relações de poder e de processos de tomada de decisão também no plano micro. sem que essa diferenciação implicasse necessariamente uma ruptura institucional nas prerrogativas de exercício de poder de um ator específico que 146 . não demonstrando nenhum tipo de viés invariante em relação a determinado estrato ou grupo enraizados em outras esferas da vida social (MILIBAND. mas estaria “difuso” por diversas instituições. a proposta de estabelecer critérios de comparação entre os diferentes sistemas políticos de acordo com o grau ou a intensidade da dispersão ou concentração dos recursos de exercício do poder político pela pluralidade de elites em diferentes tipos de sociedade. na medida em que o exercício do poder político e a estruturação dos sistemas de dominação está pluralisticamente difusa e distribuída por vários níveis sociais (DAHL. Assim.

147 . tanto no nível macro como micro-social. mais ou menos “autoritários”. Assim. (iv) os vários sistemas políticos podem ser classificados num gradiente contínuo de dispersão/concentração do poder por uma pluralidade de elites políticas. desde a primeira versão proposta por Robert Dahl em Análise Política Moderna. POULANTZAS E A SOCIOLOGIA POLÍTICA FUNCIONALISTA 88 Há diferentes versões dessa teoria. conforme o grau de “pluralismo” vigente na distribuição de poder entre os diferentes atores que fazem parte de uma coletividade política qualquer 88. (iii) concepção pluralista do poder e entendimento do “governo” como entidade neutra e pressionada por diferentes grupos de interesse e elites políticas (entendidas como a somatória de indivíduos que fazem parte das minorias politicamente ativas nas várias esferas da vida social onde se exerce o poder político) concorrentes entre si e em disputa pela definição dos rumos de uma dada comunidade política. nos diferentes sistemas políticos. não haveria. estando o caráter mais ou menos democrático de um determinado sistema político relacionado ao ponto em que cada sistema político se situa nesse gradiente de dispersão e concentração de poder político. apesar das divergências internas entre seus vários subgrupos: (i) tentativa de dar mais sistematicidade a conceitos gerais aplicáveis a uma grande amplitude de coletividades e processos políticos. algo como uma autoridade política central ou um “Estado” formado por um corpo burocrático autonomeado e hierarquicamente organizado. cuja ruptura no monopólio do processo decisório gerasse mecanismos de “representação política” ou de consulta popular para a constituição de organismo de deliberação paralelos ao sistema institucional burocrático. de escalonar os diferentes sistemas políticos segundo o grau de legitimidade. supostamente o Estado. Resumindo. (ii) uso do conceito de sistema político em detrimento do de Estado. temos a nosso ver os seguintes elementos mais gerais da problemática da sociologia política funcionalista. até as versões mais recentes de distribuir os diversos sistemas políticos em dois eixos de “competição” (interelites) e “participação” (elites X massas) (DAHL. 1969. 2005). mas sim “governos” que se caracterizariam como mais ou menos “democráticos”.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE detivesse determinadas prerrogativas decisórias e normativas em relação aos demais. o número de sub-sistemas e a distribuição de poder existente nos diferentes tipos de sociedade.

na medida em que o exercício do poder social e do poder econômico dos proprietários é garantido pela aplicação de um direito público de propriedade que assegura a apropriação privada do valor agregado pelos trabalhadores nas unidades econômicas. (iv) As diferentes formas de Estado e de governo. Os grupos sociais e de intervenção política se formam assim.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Qual seria o posicionamento de Poulantzas em relação a cada um desses elementos da perspectiva de análise funcionalista em suas obras iniciais? Percorrendo as páginas de Poder político e Classes Sociais. assim 89 Dessa perspectiva. de certa forma homólogos aos anteriormente indicados como fazendo parte da problemática teórica funcionalista: (i) uma tentativa de definir certos conceitos gerais. o ponto de partida para a organização dos grupos de intervenção política é formado por atores assimetricamente situados numa estrutura estratificada e juridicamente sancionada de papéis sociais. podemos observar que Poulantzas abordou cada um desses aspectos. (iii) a tese da concentração e da interdependência entre a dominação política e a dominação econômica. assim como de sua especificidade em relação a outras instituições políticas. Estado em geral etc. e não simplesmente pela agregação de vontades de indivíduos racionais atomizados que formam grupos de intervenção política ad hoc para influenciar o “governo” à revelia e 148 . (ii) justificação da importância do Estado como fator específico de integração ou de coesão das diferentes sociedades de classe. O aparelho de Estado passa a ser analisado como um sistema específico de instituições (um “poder político institucionalizado”) na medida em que possui determinadas prerrogativas decisórias e normativas específicas em relação a outras instituições que fazem parte do sistema político.). podemos verificar em Poulantzas os seguintes elementos fundamentais de sua argumentação teórica. política. a partir de uma desigualdade básica na distribuição de recursos econômicos e políticos juridicamente sancionados por uma autoridade política central. nas sociedades de classe. muitas vezes em diálogo direto com as idéias dos autores acima mencionados. outras vezes de forma indireta. através da incorporação de elementos de outras problemáticas teóricas. instrumentais à sua teorização sobre a estrutura jurídico-política do modo de produção capitalista (tais como os conceitos gerais de poder. desigualdade essa que tem efeitos cumulativos (embora não irreversíveis) na competição entre os diversos grupos políticos pela influência na definição dos objetivos globais de uma determinada coletividade humana pelos detentores do poder de Estado89. as quais por sua vez garantem os recursos necessários à aquisição de status social pelos membros da burocracia. Assim.

efetuar uma crítica a outras concepções vigentes em outras correntes de análise política. mas a partir de uma descontinuidade básica definida a partir da perda do controle exclusivo sobre o processo decisório por determinado grupo de atores encarregados de definir os objetivos globais de uma determinada coletividade (ou seja. elaborar conceitos gerais de poder e de política e uma reflexão geral sobre estas noções que servissem de suporte à sua própria proposta de definição dos elementos fundamentais da estrutura jurídico-política e do conceito de Estado capitalista. (ii) em segundo lugar. burocracia de carreira e suas cúpulas governantes). devemos recordar que logo no início de PPCS. teremos que enunciar rapidamente as principais teses que defenderemos durante a exposição.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE como os gradientes entre o grau de autoritarismo e democratismo dos diferentes sistemas políticos são definidos não a partir de um continuum na distribuição de poder político de uma pluralidade de grupos concorrentes entre si. Nos itens abaixo avaliaremos brevemente a reinterpretação feita por Poulantzas de cada um dos itens que compõem a problemática teórica da sociologia política pluralista acima enumerados. Dada a exigüidade de espaço. que a seu ver era um ponto cego na teoria marxista anterior. procurando responder às seguintes indagações mais gerais: é possível a incorporação parcial de conceitos oriundos da problemática teórica pluralista para o interior de uma reflexão “estrutural-marxista” empiricamente orientada ou a importação de tais conceitos provocaria desajustes “comprometedores” nessa própria problemática? Qual a agenda de reflexão teórica e empírica de pesquisa que se poderia derivar de um diálogo crítico entre ambas as correntes? a) Conceitos gerais de poder e de política No que se refere aos conceitos gerais de poder e política. 149 . assim como pela existência de mecanismos de consulta política aos próprios agentes que são objeto de tais decisões. dentro dos quais se incluem os autores anteriormente citados. independente de uma estrutura de dominação subjacente garantida por uma autoridade jurídico-política centralizada (= o Estado) . Poulantzas procura efetuar um duplo movimento analítico: (i) em primeiro lugar.

Como se sabe. [. que se trata de uma concepção que vê a história como um fluxo contínuo e evolutivo de mudanças sociais.. 1986: p. Elites no Poder (PARSONS. a concepção de poder e de político deste autor foi expressa em várias obras e encontra-se sintetizada em seus textos de crítica à obra de Wright Mills. embora a ação política esteja simultaneamente presente em várias esferas de ação. deve-se enfatizar ainda que o próprio Poulantzas admite o caráter provisório e exploratório de suas definições. 90 150 . 1970: p. autoridade etc. na medida em que atualmente há falta de suficientes teorias sistemáticas regionais do político nos diversos modos de produção. 96). entretanto. por conseguinte ─constitui-se num subsistema cuja função é integrar os elementos analíticos de um sistema social total. política. não conseguimos encontrar uma definição precisa do termo entre os “althuserianos”. dominação.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Quais críticas que Poulantzas faz a estes autores? Quais as soluções oferecidas por ele próprio para os problemas acima formulados (ou seja: formulação de conceitos gerais de poder. Embora se refiram constantemente à problemática “historicista” em seus vários textos. 1960). Tendo em vista estes esclarecimentos. quanto (ponto que nos interessa mais especificamente neste texto) a concepção de político de Talcott Parsons. Sendo assim.. seus alvos são tanto o “historicismo” gramsciano. não buscando construir modelos de estrutura que apreendam eventuais regularidades que imponham limites normativos às práticas ou ações sociais dos diferentes atores históricos. nem um nível de atividade relacionado à definição dos objetivos globais de uma coletividade territorial.) e como podemos avaliar tais soluções? Inicialmente. sendo responsável pela definição dos objetivos coletivos e pela “integração” dos subsistemas em vários níveis da atividade social (PARSONS. ou mesmo de suficientes teorias sistemáticas particulares dos diversos modos de produção” (POULANTZAS.] pareceu-me particularmente ilusório e perigoso avançar mais na sistematização do político na teoria geral. por um lado 90. o poder político não seria uma relação de “soma-zero” entre os diferentes atores (como querem os elitistas monistas). Podemos inferir. 24). mas um fenômeno que estaria “difuso” por toda sociedade onde houvesse definição de objetivos por determinadas associações estáveis. assim como a natureza estritamente instrumental de tais definições em relação a suas teorizações posteriores sobre a estrutura jurídico-capitalista e o aparelho de Estado burguês: “As análises referentes ao político em geral não aspiram senão a uma sistematicidade relativa e de modo algum poderiam ser consideradas exaustivas. Para este autor a esfera política ─ e o objeto de uma ciência política autônoma.

que produz as transformações ou a manutenção de uma formação na medida em que tempo por objetivo estratégico específico as estruturas políticas do Estado” (Op. para usar a expressão de Poulantzas. Cit. integrada por determinadas instituições (os conselhos de tribos) que se constituíam no fator de coesão de coordenação de várias gens territorialmente dispersas. Origem da Família: p. 70s). p. como “fator regulador do equilíbrio global de uma formação social enquanto sistema” (Op. são bastante insatisfatórios os termos pelos quais Poulantzas equaciona o problema. configurando um sistema político caracterizado por Engels como uma “democracia gentílica” ou tribal. 72). 41). homens e mulheres.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Poulantzas encaminha sua crítica a essa concepção de Parsons efetuando a operação analítica de identificar a superestrutura política dos diferentes modos de produção e formação social ao poder institucionalizado do Estado. de forma razoavelmente sistemática. d) o conjunto das gens formava uma tribo. Dentre estes elementos do exercício da atividade política nas sociedades sem Estado enumerados por Engels. b) a gens pode depor à vontade o sachem e o chefe militar. e a associar a atividade política apenas a ações sociais ou práticas que se relacionam ao Estado. p. Cit. a solução dada por Poulantzas ao problema ─ ao restringir a atividade política em geral àquelas práticas que se relacionam a preservação ou manutenção de um determinado tipo de Estado. pois ele sequer tangencia duas questões tradicionalmente abordadas pela teoria política marxista. Esta assembléia é o “poder soberano da gens” (p. distancia-se de uma grande vertente da tradição marxista cujo núcleo é exatamente o de dissociar a atividade política do Estado sentido estrito do termo91. e) essa sistema jurídico-político assegurava a participação da maior parte dos membros da coletividade nas decisões públicas e na seleção das elites governantes. enunciando a definição segundo a qual a política é a ação social ou a “prática que tem por objeto o momento atual. 151 . podemos mencionar: a) todos os homens e mulheres que participam dos assuntos comunitários tribais têm direito de eleger o chefe. Mas qual o argumento dado por Poulantzas para restringir a política apenas àquelas atividades que se relacionam de alguma maneira com o poder institucionalizado de Estado? Para Poulantzas o Estado é o objeto privilegiado da política por possuir a função de manter a coesão de uma determinada formação social em uma sociedade dividida em classes ou. c) cada gens tem uma “assembléia democrática de seus membros adultos. todos com o mesmo direito de voto”. A nosso ver. um dos pontos altos do livro clássicos de Engels sobre as sociedades tribais é o da reconstituição da dinâmica de organização das instituições políticas e da relação entre elites dirigentes (chefes e conselheiros tribais) e os cidadãos comuns da tribo que configuravam os sistemas político-jurídicos das sociedades comunitárias primitivas (Engels. 16). mesmo em algumas obras clássicas de análise política marxista do século retrasado: a) A possibilidade de formas de exercício do poder político e de 91 Apenas a título de exemplo. Ora.

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existência de um ordenamento normativo (ou “sistema de direitos e deveres”, para usar a expressão de Engels) em situações em que inexiste “dominação de classe” no sentido marxista do termo, ou seja, situações de exploração e apropriação dos frutos do valor agregado pelo trabalho humano por terceiros que não aqueles que participam diretamente do esforço coletivo da execução das tarefas no processo de trabalho; b) a possibilidade de formas de exercício do poder ou influência política que não sejam necessariamente exercidos através da mediação do aparelho de Estado, ou que não sejam necessariamente referidas ao aparelho de Estado. Também em relação ao conceito geral de poder proposto por Poulantzas, o diálogo com os sociólogos políticos funcionalista desempenha um papel fundamental (POULANTZAS, 1986: p. 103): Poulantzas critica as definições de Laswell (poder como participação no processo decisório), de Weber (poder como “probabilidade” de imposição de vontade mesmo contra a resistência de terceiros) e de Parsons (poder como capacidade de executar funções em proveito de um dado sistema social). No cap. 3 de seu livro, Sobre o conceito de poder elencará vários “elementos do poder” e enunciará seu próprio conceito de poder como: “a capacidade de uma classe [ou grupo] social de realizar seus interesses objetivos” (p. 103) em vários níveis da prática social (pelo que o poder se desdobraria em poder econômico, social, político etc.). Também aqui, são a nosso ver insatisfatórios os termos pelos quais Poulantzas resolve o problema, ao não: a) diferenciar o poder de outros tipos de imposição de vontade ou de “capacidade de realizar interesses objetivos”, tais como as relações de influência, dominação e autoridade; b) elaborar uma reflexão sistemática sobre a especificidade do poder político em relação a outras modalidades de exercício do poder; c) definir o objeto do “político” e, por conseguinte, de sua sociologia política a partir de tal operação. b) Estado, sistema político e totalidade social As principais proposições da sociologia política de origem funcionalista sobre as relações entre os conceitos de sistema político e de Estado estão expostas de forma provocativa no conhecido ensaio de David Easton sobre “o sistema político sitiado pelo Estado”. Como é sabido, neste artigo Easton explicita as

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motivações mais íntimas que o levaram a formular o conceito de sistema político em substituição ao conceito de Estado, e não como um complemento a este, e exorta os analistas políticos a abandonarem o conceito de Estado sob os seguintes argumentos: a) o Estado é um “instituição” ou, mais precisamente, um sistema hierarquicamente organizado de instituições, que não pode ser definido de forma rigorosa nem desempenha nenhuma função específica em outras esferas da vida social; b) o Estado não possui nenhum atributo ou conjunto de atributos que os diferencie das demais instituições do sistema político; c) a ênfase exclusiva no Estado como ator político relevante cria obstáculos metodológicos à uma análise política “empiricamente orientada” ao desconsiderar a importância de outros atores, instituições e comportamentos políticos que também participam da ou influenciam a busca de objetivos e a “alocação autoritária de recursos” por parte de uma coletividade territorial específica. No tocante ao primeiro argumento de Easton, podemos afirmar que ele não procede, já que o “primeiro Poulantzas” é razoavelmente claro em definir o conceito de Estado como o conjunto de atores, instituições e aparelhos hierarquizados (ou seja, responsáveis perante um superior funcional e não perante comitês eletivos organizados pela sociedade), responsáveis pela implementação de decisões e pela definição dos objetivos globais e pela manutenção da “coesão” de uma determinada coletividade humana cindida em “classes sociais”, e que dispõem (atores, instituições e aparelhos) de recursos administrativos e jurídicos para tornar tais comandos e decisões obrigatórias e imperativas para o conjunto da coletividade sob jurisdição daquele corpo de funcionários92. No caso do Estado Capitalista moderno, seriam o conjunto de instituições organizadas segundo o princípio do burocratismo, ou seja, sob princípios universalistas e submetidos à hierarquia burocrática que fariam parte do aparelho de Estado. Por motivos semelhantes, consideramos não ser pertinente a segunda crítica de Easton, na medida em que, para Poulantzas, o Estado possui um conjunto de atributos que o diferenciam das demais instituições políticas e estes atributos estão relacionados justamente à sua capacidade ou atributo de implementar normas e políticas de governo a imperativas a toda uma coletividade
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Instituições e atores cujos comandos e ações não fossem devidamente autorizados por uma dada coletividade para aplicar normas gerais e implementar políticas de governo em nome de um ente público não fariam assim parte do aparelho de Estado (é o caso de Igrejas, escolas privadas, empresas privadas, partidos políticos, sindicados e outras associações do gênero, cujo caráter “público” não se impõe à maioria de uma coletividade).

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territorial. Como indicado pelo próprio Easton, a definição de Poulantzas nesse aspecto específico talvez se assemelhe mais à do jurista austríaco Hans Kelsen, embora esteja ausente neste autor a preocupação em estabelecer uma relação invariante entre o exercício do poder estatal e um determinado tipo ou modalidade de dominação social, como o fazem Poulantzas e os marxistas de uma maneira geral. No tocante ao terceiro argumento de Easton, ele a nosso ver procede. Os modelos de análise centrados no Estado geralmente relegam a segundo plano, quando não a plano irrelevante, os processos e comportamento políticos não diretamente vinculados ao exercício do “poder de Estado” ou à alocação imperativa de recursos por um grupo administrativo nãoeletivo em escala global, configurando-se na prática como um obstáculo metodológico à dinamização da investigação sobre tais domínios por analistas que reconhecem o Estado como um fator importante mas não o único para a compreensão das estruturas de poder e de dominação nas diferentes sociedades. Sendo assim, faz-se mister integrar o conceito de Estado a outros conceitos que permitam apreender estas outras dimensões da atividade política dos diferentes agentes, e que transcendem o aparelho de Estado no sentido estrito do termo. c) Classes, grupos e elites: esboço de uma sociologia dos grupos de intervenção política Em relação a este tópico específico, o ponto de partida de Poulantzas também é o confronto/diálogo com diversas outras perspectivas de análise que abordam o problema, dentre os quais devemos destacar a teoria das elites. Compreenderemos melhor a crítica poulantziana à teoria das elites, a partir de uma afirmação efetuada pelo autor no famoso “debate” Miliband X Poulantzas. Como se sabe, um dos temas fundamentais aventados neste debate foi justamente o do emprego do termo “elite” e de elementos parciais desse paradigma para a constituição de uma sociologia política marxista e para a explicação dos nexos que se formam entre os detentores do poder político e os membros da classe dominante. Para Miliband, o recurso a elementos da teoria das elites era fundamental para se explicar a natureza de classe do Estado Capitalista, enquanto para Poulantzas as funções invariantes do

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Estado Capitalista deveriam ser explicadas não a partir das características sociológicas dos indivíduos que dele fazem parte, mas a partir dos padrões prescritivos institucionalizados (de natureza análoga ao habitus de Bourdieu) que estruturam a organização dos vários ramos do aparelho de Estado, bem como organizam os vínculos de identidade simbólica que entre si mantém os altos burocratas e os gestores das empresas, ambos interessados na manutenção de um padrão “piramidal” e “autoritário” de gestão das organizações (seja este padrão escravocrata, tributário, patrimonial, feudal, gerencial ou burocrático-moderno). No tocante à posição de Poulanzas em relação ao elitismo pluralista é expressa com bastante clareza na seguinte passagem e em outras do famoso debate: “O que Miliband omite é a necessidade de uma crítica da noção ideológica de elite a luz dos conceitos da teoria marxista. Se esta crítica tivesse sido feita, resultaria evidente que a “realidade concreta” ocultada pela noção de “elites plurais” ─ a classe dominante, as frações de classe, a classe hegemônica, a classe governante, o aparelho de Estado ─ somente se pode compreender se rechaça a própria noção de elite. Já que os conceitos e noções nunca são inocentes e, se empregamos as noções do adversário para responder-lhe, legitimamos estas noções e permitimos sua persistência.” A nosso ver, o debate que se pode desenvolver a partir dessa posição de Poulantzas envolve pelo menos três níveis de análise que são frequentemente amalgamados pelos vários pesquisadores que abordam o tema: a) a questão dos determinantes das funções invariantes do aparelho de Estado, especialmente do Estado Capitalista, bem como dos vínculos de identidade e solidariedade simbólica e material que entre si mantém os burocratas e os gestores das organizações econômicas, segundo os “estruturais-marxistas”; b) a questão dos conceitos e modelos teóricos destinados a analisar os processos decisórios nas sociedades capitalistas bem como dos determinantes do campo de variação no conteúdo das decisões políticas contidos nos limites da reprodução de um determinado sistema social ou modo de produção específico; c) a questão do emprego puro e simples, dentro do campo teórico marxista, da expressão ou do conceito de “elite” desvinculado da problemática original formulada pelo “maquiavélicos” clássicos que deu origem aos conceitos de “elite” e “massa” (que, como se sabe, são: pessimismo sociológico, psicologia de massas, fetiche pelos ocupantes de cargos em detrimento do conteúdo das decisões substantivas por ele tomadas, estabelecimento de uma relação de manipulação

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Essas práticas homólogas dão origem a relações de identidade e solidariedade simbólica e material entre os proprietários de produção e os burocratas. Ora. e não relações sociais entre seres humanos desempenhantes de papéis sociais e sancionadas por um 93 156 . sendo determinada pelos processos de ressocialização simbólica e de inserção nas carreiras profissionais por que passam os funcionários administrativos do Estado Capitalista em suas trajetórias profissionais.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE estratégica e não de “confiança” ou de “representação” entre elites dirigentes ou minoria politicamente ativas e as “massas” nas várias dimensões de seu comportamento político). essa correspondência entre dois níveis de habitus ocorre independentemente das características do recrutamento da burocracia. na medida em que os gestores das organizações (enquanto agentes desempenhantes de papéis. Havendo “hiperdeterminismo estrutural” apenas no caso de as relações de propriedade serem relações entre pessoa e coisa sempre sancionadas ex-post pela autoridade política central. comportamentos e de normas (ou seja. No tocante ao primeiro problema. que consiste num padrão regular de valores. enquanto estes via de regra são solidários aos padrões piramidais de gestão das organizações adotados pelas firmas capitalistas públicas ou privadas (na medida em que possuem a percepção de que um processo de apropriação coletiva dos recursos econômicos e de gestão transparente das unidades produtivas podem vir a desencadear um processo que ponha em cheque os valores da distinção burocrática). “suportes” de estruturas. Poulantzas elabora o conceito de burocratismo. e não enquanto capitalistas individuais ─ cujo comportamento pode muito bem ser desviante em relação ao padrão imposto pelas representações coletivas) possuem interesse na manutenção do status dos burocratas estatais (na medida em que é dele que deriva a aplicação de um direito de propriedade responsável pela instauração de seu predomínio na hierarquia das organizações). um “habitus”) que enquadra o funcionamento do aparelho de Estado burguês e que determina que os funcionários envolvidos nesse campo de atividade social adotem via de regra práticas homólogas àquelas adotadas pela gestão das organizações no sistema econômico capitalista: a) recrutamento e hierarquização pelo critério manifesto do mérito ou competência individual. como já observamos para o caso específico do Estado Capitalista. b) tratamento formalmente igual aos desiguais. motivo pelo qual consideramos infudados os argumentos de Miliband nesse aspecto específico 93. ou seja. c) adoção de práticas e atitudes de ocultação do saber burocrático. independente das características sociográficas destes últimos.

classe dominante. 94 Procuramos concretizar alguns aspectos da plataforma acima exposta. ou mesmo determinados grupos focais de intervenção política (e. Trata-se de um preciosismo terminológico que desestimula a pesquisa empírica. 1997). 1976. camada etc.. THERBORN. Esse também foi o caso de Nicos Poulantzas ordenamento normativo imposto por um aparelho burocrático autorecrutado que os constituem em pessoas jurídicas. e para sermos breves. embora alguns comentadores da teoria política marxista afirmem o contrário (BOBBIO. deve-se observar que. nem trazer para dentro dessa problemática todo o pacote de proposições dos maquiavélicos originais. a tipologia elaborada por Poulantzas não esgota todas as possibilidades de mapeamento dos atores relevantes que atuam em um determinado sistema político. Além do mais. Ora. d) Formas de governo e “poliarquias” A esse respeito.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE No que se refere ao segundo ponto. membros de um parlamento. podem existir pequenos grupos específicos de vanguarda vinculados aos grupos sociais mais abrangentes enumerados por Poulantzas. sem necessariamente violentar a problemática teórica da dominação de classe dos estruturais-marxistas. cúpulas dirigentes de determinadas associações. caracterizando os seguintes grupos de intervenção política para distingui-los dos atores amalgamados pela expressão “elites políticas”: frações de classe. Poulantzas se envolverá num hercúleo trabalho de elaboração terminológica. a preocupação com o problema das “formas de governo” e com os diferentes formatos institucionais e organizacionais através dos quais se concretiza a dominação política “de classe” sempre foi uma questão central da teoria política marxista. aos quais se pode no nosso entender empregar a expressão “elites” para qualificá-los. as regras do burocratismo e de outros padrões de organização de autoridade política central são normas de conduta que cabe a cada ator específico decidir seguir ou não. sabendo-se é claro das conseqüências advindas de sua não-obediência às mesmas. 157 . coqueteando com o conceito de elite ─ e não rejeitando-o liminarmente ─ a partir de uma perspectiva mais geral “estruturalmarxista” em BRAGA (2002). a nosso ver. categorias sociais. Por exemplo. minorias politicamente ativas de determinados estratos sociais e grupos de interesse etc. e a reflexão mais sofisticada sobre as formas de intervenção e sobre as motivações dos diferentes atores que interagem num dado sistema político94. g. classe detentora. classe reinante.). categoria social. elites dirigentes sindicais.

o primeiro aspecto que devemos observar na crítica poulantziana à teoria da democracia dos pluralistas é a existência de uma ruptura institucional entre as formas de governo e de gestão das organizações “autoritárias” (fundadas basicamente no exercício do poder político por um grupo recrutado mediante outras mecanismos que não a consulta à opinião pública). 1968. em várias de suas obras abordou o assunto. feudal-patrimonial. 158 . o aparelho de Estado é uma instituição central de poder. parlamentos feudais. Assim. em níveis variáveis de intensidade. Executivos eleitos. burocrático-moderno) o centro do poder político é constituído sempre por um corpo administrativo não-eletivo (i. assembléias de cidadãos livres etc. partilhando com esse corpo administrativo. A democracia passa a existir justamente quando um corpo eletivo com efetivo poder decisório (um parlamento. a prerrogativa de implementar políticas alocativas globais ou políticas de governo. nos vários tipos de Estado existentes ao longo da história da humanidade (escravista. e. 1970. Em que consistem as principais contribuições do autor ao tema e qual o tipo de diálogo travado com a sociologia política funcionalista sobre o assunto? As principais contribuições poulantzianas à teoria da democracia derivam da proposição central de seu modelo teórico segundo o qual. nas sociedades fundadas na exploração do trabalho. concentração das prerrogativas de promoção de uma alocação “autoritária” de recursos que vincula toda uma formação social a partir da aplicação de normas gerais implantadas através de mecanismos “top down” de execução de decisões). e as formas de governo e de gestão das organizações “democráticas” (onde existem tais mecanismos de consulta àqueles que são objeto das normas e decisões implementadas por tais autoridades políticas). a burocracia estatal de carreira. tributário. pelo conjunto de motivos anteriormente enumerados (garantia de um direito de propriedade que sanciona juridicamente a relação de apropriação do sobretrabalho.) rompe esse monopólio de poder do quadro administrativo estatal (ou o reduz drasticamente no caso das sociedades dominadas por instituições públicas nãoestatais).MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE que. corporações. o que nos autoriza mesmo a afirmar que este foi um dos elementos centrais de suas preocupações ao longo de sua trajetória (POULANTZAS. em suas várias modalidades) que concentra as prerrogativas de governo em uma determinada coletividade. não havendo portanto uma mera “continuidade” entre os vários tipos de sistemas políticos como sugerem os sociólogos políticos funcionalistas e sistêmicos. Sendo assim. 1975).

Poulantzas não extraiu todas as implicações do modelo geral de tomada de decisões por ele esboçado. em suas obras iniciais. mas também teóricas. que é o centro de exercício do poder político nas sociedades fundadas na apropriação privada do valor agregado durante o processo de trabalho. de fundo entre as diversas correntes. Entretanto. A nosso ver. nada impede que ele seja restaurado 40 anos após a publicação de PPCS. para Poulantzas (assim como para outros paradigmas de análise política. o ponto de partida para a elaboração de uma teoria da democracia deriva de sua teoria do Estado.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Sendo assim. como por exemplo a sociologia da dominação de Max Weber). Conceitos que abranjam não apenas as sociedades de classe. inclusive as 159 . Talvez seja legítimo inferir das considerações poulantzianas que o grau de intensidade em que os diferentes modelos de democracia se concretizam nos diferentes tipos de sociedade correlaciona-se com o grau de intensidade de ruptura do monopólio burocrático sobre os processos deliberativos e a magnitude da incorporação de diferentes atores no processo decisório global. Segundo nosso ponto de vista. esse diálogo pode ser restaurado pelas seguintes razões: Ainda falta à teoria política marxista um estoque de conceitos gerais e claramente articulados entre si destinado à constituição de uma sociologia política marxista com o mesmo grau de abrangência da sociologia política funcionalista. devemos admitir que. Embora o clima político-ideológico vigente no final dos anos 60 e na década de 1970 tenha contribuído ainda mais para truncar este debate. CONCLUSÕES: TRAZENDO O CONCEITO DE SISTEMA POLÍTICO PARA DENTRO DA SOCIOLOGIA POLÍTICA ESTRUTURAL-MARXISTA Podemos encerrar este texto fixando alguns pontos a serem posteriormente retomados com maior grau de profundidade. podendo as diferentes democracias se diferenciarem entre si conforme o maior ou menor grau de incorporação de tais atores no sistema político global. o diálogo instaurado por Poulantzas entre os estruturaismarxistas e os sociólogos políticos funcionalistas permaneceu truncado em grande parte devido à divergências ideológicas e normativas.

BOITO JR. que também aborde o problema analítico da dinâmica das sociedades sem Estado e da desestatização das sociedades complexas (na melhor das hipóteses) e/ou do controle da burocracia nas sociedades complexas com Estado (numa hipótese menos ambiciosa) por instituições políticas não-estatais. na medida em que o Estado constitui um somatório de instituições 95 Existem um amplo estoque de trabalhos de antropologia política sobre o assuntos que tendem a ser ignorados pela maior parte dos teóricos políticos marxistas. 1950)). Assim o conceito de sistema político pode muito bem ser incorporado de maneira sistemática à análise política marxista. de molde a abranger outras instituições que participam do jogo político mas não fazem parte do sistema estatal no sentido estrito do termo. 160 . que a oposição irredutível entre os conceitos de “Estado” e “sistema político” é mais imaginária do que real. 2006) e dos próprios antropólogos políticos funcionalistas (FORTES & EVANS-PITCHARD. ou mesmo de “democracia participativa” exercida pela via não-estatal num futuro próximo previsível. Devemos agregar ainda. e não apenas para a análise dos macroprocessos sociais que ocorrem nas sociedades globais. isso não implica “dissolver” o Estado em outras instituições políticas que fazem parte do sistema político. mas também sociedades sem Estado do passado95. 1982. Nesse sentido.. devendo-se a nosso ver mais a disputas por símbolos de status e espaços de micropoderes entre uma antiga geração de sociólogos políticos do que a razões teóricas substantivas. e tipos ideais possíveis de sociedade sem Estado do futuro (na melhor das hipóteses). 2007) a respeito da incompatibilidade irredutível entre ambas as noções devem ser vistas com cautela. Entretanto. pois ao que parece são motivadas por outros objetivos que não os estritamente cognitivos. As definições de “poder” e de “política” esboçadas em Poder político e classes sociais são a nosso ver insuficientes para fundamentar uma teoria marxista do político. ou sociedades com uma burocracia regulada e controlada por instituições civis de trabalhadores. à guisa de conclusão. As alegações dos teóricos sistêmicos e marxistas (EASTON. 2002. Uma reflexão sistemática sobre tais conceitos gerais é fundamental para a instauração de uma sociologia política estrutural-marxista que sirva também de “guia de ação” para a pesquisa empírica aplicada.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE capitalistas. um bom ponto de partida pode ser a análise crítica das obras de Pierre Clastres (CLASTRES.

MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE específicas formadas por um corpo de funcionários autorizados a tomar decisões e a implementar normas globais em sociedades onde se aplica um direito de propriedade privada que distribui os seres humanos em classes dominadas e classes dominantes. G. 1972 BRAGA. Por todos estes motivos. 1986. B. explorados e exploradores. PUTNAM. 2003. sistema político. por um lado. G. POWELL JR. 2007: p. Sérgio. sistema político. tais como os de elites dirigentes.. dentro do campo inclusive dos estruturaismarxistas. v. Rio de Janeiro: Zahar.. a elaboração de paradigmas menos “estado-centrados” implica correr o risco de “desviar as classes populares da luta pela transformação da sociedade capitalista” (BOITO Jr. 161 .). A. p. grupos de interesses. 2008). S. 30). J. governo etc. 75-106. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMOND. 2. ALMOND. 1969. São Paulo: Freitas Bastos. não deve ser excluído um retrabalhamento crítico. G. governo. História Econômica & História de Empresas... COLEMAN. São Paulo: ABPHE/Hucitec. Do ponto de vista estritamente “normativo” se. 2002. (2002). dentre outros. pode colocar os trabalhadores organizados para a construção de uma nova sociedade socialista diante de um outro risco: o de não forjar instrumentos teóricos para o estudo sistemático dos processos de desestatização e de controle quotidianos sobre a burocracia estatal e sobre as elites dirigentes em sociedades complexas póscapitalistas. a rejeição in limine dos conceitos operacionalizados dentro da sociologia política funcionalista-pluralista (tais como os de elites dirigentes. que restaurem em novas bases as formas primitivas de democracia comunitária e de exercício descentralizado do poder político esboçadas em sociedades tribais onde inexistia Estado (ENGELS. Uma teoria de política comparada.A política das áreas em desenvolvimento. Elites políticas e alternativas de desenvolvimento na redemocratização de 1945-1946. Cabe a cada analista político avaliar por si mesmo os prós e os contras de cada um destas operações analíticas. A. de conceitos advindos da sociologia política funcionalista.

A sociedade contra o Estado. 2007. São Paulo: Cossak & Naif. EASTON. Poliarquia: participação e oposição. New York: Harper & Row. Tradução de Leandro Konder. 9. D. K. DAHL.Consenso e conflito: ensaios de sociologia política.. EASTON. 2003. D. p. A origem da família. Rio de Janeiro: Zahar. A.Oxford: Oxford Universit Press. R. O sistema político sitiado pelo Estado.African political systems. Barcelona: Anagrama. 1982. P. W. In: MARX. Volume 3. 1971. JAGUARIBE. 1973. LIPSET. São Paulo: Edusp. 1983. D. M. Modalidades de análise política. S. funcionalismo y marxismo. 1970. K. Brasília: UnB. In: LAMOUNIER. 162 . Political development: a general theory and a latin american case study.Arqueologia da violência. DEUTSCH. Rio de Janeiro: Bloch.A moderna análise política. DEUTSCH. ENGELS. 129155. São Paulo: Alfa-Omega. 1972. São Paulo: UNESP. 1950.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE BOITO JR. 1966. política e classes sociais. 2005. M.). 1992. São Paulo: Cossak & Naif. Obras escolhidas.Uma teoria de análise política. Rio de Janeiro: Lidador. Rio de Janeiro: Zahar. FORTES. ENGELS. Karl. EASTON. CLASTRES. Friedrich. 2004. Ensaios de antropologia política. M. Política e governo. D. 1953. A ciência política nos anos 80.. CLASTRES.). P. GODELIER. Lisboa: Gradiva. 7-143. 2 ed. Friedrich. Estado. EVANS-PRITCHARD. Os nervos do governo: análise de modelos de comunicação e do controle político. B (Org. H. R. 1969. DAHL. Brasília: UnB (Coleção Pensamento Político.Chicago: ChicagoUniversity Press. p.Estruturalismo. EASTON. The Political System. da propriedade privada e do Estado. 1986.

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165 . ciência e ideologia: sobre o "teoricismo" de Nicos Poulantzas Adriano Codato96 MARXISMO E CIÊNCIA SOCIAL Antes mesmo de apresentar o texto que eu preparei para este Congresso. Representou também o desafio mais incisivo aos pressupostos da ciência política convencional e a crítica mais explícita aos procedimentos metodológicos e aos princípios epistemológicos da “sociologia burguesa”. Penso.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Política. O que eu pretendo discutir aqui é exclusivamente o marxismo como ciência social. ao menos por hora. em especial. Poder político e classes sociais representou. meu tema nesse colóquio é o processo de elaboração conceitual – ou. o empreendimento intelectual mais ambicioso no domínio da teoria marxista da política desde pelo menos o desaparecimento de Lênin. portanto. A obra de Poulantzas e. que um trabalho de revisão da crítica poulantziana à ciência política convencional – o tipo de crítica. aposentada. o modo de produção teórico – de certa teoria marxista da política exemplificada. visto que sua dimensão revolucionária está. Evidentemente que o marxismo não é só isso. fazer algumas declarações de princípio. Nesse sentido. o modo pelo qual 96 Adriano Codato é professor de Ciência Política no DECISO/UFPR e coordenador do Núcleo de Pesquisa em Sociologia Política (Nusp). mas é também isso. para ser mais preciso. a fim de explicitar todos ou quase todos os meus pressupostos intelectuais. e cada vez mais isso. quando o livro foi publicado em Paris em abril de 1968. pela obra do cientista político grego Nicos Poulantzas. penso que seja necessário. no caso.

A hipótese é que a prosa filosofante característica desse gênero de marxismo encurrala e encerra o discurso e a prática sociológica em três mundos. O ponto aqui é antes sugerir que demonstrar que a forma de redação dos textos de Poulantzas é menos uma questão do “estilo” do autor (o vocabulário incomum. Só procedendo assim. da dominação social.). ou mesmo uma questão do “nível” do discurso (um discurso necessariamente abstrato para tratar de problemas abstratos). um produto da luta teórica no domínio da filosofia (marxista). insistindo. julgo eu. a falta de clareza de certos conceitos e a desorganização dos argumentos). é possível fazer valer. TEORIA E FILOSOFIA Nesta comunicação. Se o marxismo ambiciona ser muito mais do que apenas uma ciência positiva da sociedade e se nesse caminho ele pretende não só dizer a verdade sobre os princípios e pressupostos teóricos e metodológicos da ciência política e da sociologia política “burguesas”. formulo um argumento sobre as razões explícitas e sobre as razões implícitas da proverbial complicação dos escritos de Poulantzas. na prática. a fraseologia arrevesada. então é preciso. Badiou. sobre a influência que os procedimentos e os pressupostos da filosofia impõem à prática teórica dos marxistas no âmbito das ciências sociais. antes mesmo de avaliar se isso foi cumprido como planejado e se efetivamente deu certo. etc. que os dirigem e passam a defini-los: i) a política. ii) a teoria e iii) as lutas políticas no domínio exclusivo da teoria. tentar entender se a maneira de fazer isso foi a mais adequada ou não. 166 . e esse é o problema central que desejo destacar. alguns slogans publicitários que os marxistas anunciam a respeito de sua própria tradição. Balibar. e sim uma questão do “tipo”de “ciência social”defendida e praticada pelo estrutural-funcionalismo francês como um todo (Althusser. antes de qualquer coisa. creio que se deveria dizer que essa teoria é. do poder.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE essa crítica foi feita e o conteúdo dessa crítica – permita fazer um balanço das relações entre o marxismo e a ciência social. Invertendo a formulação de Althusser (“a filosofia é luta de classes na teoria”). do tipo: ‘só a teoria marxista é uma teoria que pode criticar-se a si mesma’. etc. mas colocar no seu lugar uma teoria mais eficiente e mais correta da política.

Runciman. toca em dois problemas reais – o gênero do discurso e o nível do discurso – mas comete dois deslizes. O próprio Poulantzas nunca negou que mesmo suas “análises concretas” estavam voltadas principalmente para a elaboração de conceitos. E isso por sua vez deriva do entendimento do que o marxismo deveria ser: nem uma “ciência da História” nem uma forma de sociologia empírica. ao comentar a tradução inglesa de Les classes sociales dans le capitalisme aujourd’hui recordou e sintetizou a recepção chavão à obra de Poulantzas nos países de língua inglesa: “Mr. onde a generalidade da abstração é muitíssimo mais estimada que a clareza de expressão”97. G. resenha de Classes in Contemporary Capitalism e de Social Analysis publicada no Times Litterary Supplement (16 Jan. 167 . na recusa dos procedimentos convencionais da ciência convencional. etc. nota 1). Estado alemão. A causa fundamental dessa forma de conceber o trabalho teórico e a prática científica está. erra o alvo. O NÍVEL E O TIPO DE DISCURSO W. Réflexions sur Fascisme et dictature.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Meu argumento central é o seguinte: esse gênero de “ciência social” que Poulantzas exemplifica tira proveito da fusão do discurso político com o discurso científico sob a proteção e a garantia do discurso filosófico. cujo efeito (e não a causa) é um dialeto abstrato. O segundo deslize. Poulantzas escreve conforme a tradição continental. é que esse tipo de crítica aos textos de Poulantzas.) (POULANTZAS. mistura a (má) qualidade da prosa poulantziana com o plano (teórico) onde o autor situa seu trabalho. muito comum e muito obstinada até hoje. Primeiro. a “generalidade da abstração” deveria suplantar a realidade empírica– isto é. (1976 : 533. as formas concretas de Estados capitalistas de exceção (Estado italiano. Poulantzas sempre pretendeu que para elaborar o conceito de Estado fascista. Revue française de sociologie. Essa tirada é bastante espirituosa. Runciman. antes de qualquer coisa. 1976). G. Essa é a razão do alegado teoricismo de Nicos Poulantzas. Apud Jean-René Tréanton. mas uma cosmogonia. Fascisme et dictature é uma prova disso. e esse é meu argumento principal. O GÊNERO. 1970: 325-338). Há uma questão mais importante e que deriva não do gênero (literário) ou do nível (abstrato) do 97 W.

e a obrigação autoimposta de enfrentá-los ao mesmo tempo e no mesmo lugar. mas por boa parte do marxismo “continental”. através da linguagem empregada. definições pouco claras. mas do tipo de discurso adotado – e não somente por Poulantzas. “o funcionamento da burocracia corresponde. e iii) o científico. em última análise. teve consequências decisivas para esse gênero de “ciência social”. a teoria da prática revolucionária. ii) o político-teórico. o político e o científico (“poder é o poder político das classes sociais”. simétricas e opostas. nos poucos leitores mais empenhados. que sempre acompanharam a obra de Poulantzas: ou Poulantzas falava demais. “O Estado é o fator de coesão de uma formação social”. até produziu. distinções em poucas palavras. aqueles fins que Poulantzas desejava: “romper”. o político e o politológico. o teórico e o ideológico). de três modos distintos de conhecimento – i) o filosófico. implicado na sobreposição espontânea e obrigatória de duas problemáticas: a teoria da teoria marxista e. a noção poder. ao interesse político da classe ou fração hegemônica” etc. 1971b: 167). em boa parte dos casos. a confluência. o filosófico. bem entendido). a intenção de ruptura se fez à custa da comprovação integral do sistema integral. amparado na excelência e ampliado graças à grandiloquência do comentário de texto (dos textos clássicos dos clássicos do marxismo. exigido para construir e/ou conquistar os objetos de pesquisa das sociologias não marxistas ou antimarxistas (e. de Estado capitalista. Um exemplo do primeiro defeito vinha das cobranças diante das interpretações um tanto arbitrárias acrescentadas às 168 .MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE discurso. É verdade que a justaposição de problemas de naturezas diversas (o social e o sociológico. 1971a: X. formulações de duplo sentido. Ocorre que. etc. 1976: 68). derivada dela. etc. Não só contribuiu para congestionar o texto poulantziano de conceitos teóricos (às vezes muito úteis.) –. às vezes não. Para além dos problemas estilísticos evidentes (períodos muito longos.) (POULANTZAS. como “autonomia relativa”). “com o discurso descritivo ordinário” da sociografia política dominante (POULANTZAS.. “bloco no poder”.. “burocracia versus burocratismo”. explicações idem). interpolações constantes. gerando o incômodo e a incompreensão proveniente de duas reprovações padrão. como “hegemonia de fração”. ou Poulantzas falava de menos. nesse discurso teórico. construções elípticas.g. e depois de passada a perplexidade inicial. como de declarações categóricas com base em uma série de tomadas de posiçãopolíticas em cada um desses campos.

ambos admitidos por Poulantzas. O que escapa à autocrítica poulantziana é que a “ordem de exposição” de um texto em ciência social não pode ser a mesma de um texto em Filosofia. uma sorte de partenogênese teórica. como ele mesmo explicou. O MARXISMO ESTRUTURALISTA Voltando ao ponto central da crítica convencional: o que está de fato em jogo e vem encoberto por “problemas de estilo”? Tal qual Louis Althusser (ou em razão da influência deste). dos seus procedimentos – a 98 Para a constatação a respeito do tom que Althusser imprimia a sua escrita. (2004: 32). conforme seus críticos. Não encontro. mas desclassificados também por ele como fruto da ilusão empirista e do engano “neopositivista” dos seus críticos99: i) o mundo social e os acontecimentos históricos só comparecem em seus escritos comoexemplos para confirmar princípios e conclusões já estabelecidas de antemão. numa ordem que oculta propositalmente o caminho para se chegar a eles (a “ordem da pesquisa” dos elementos empíricos). ii) daí a aparência (falsa segundo o próprio autor) de um discurso onde conceitos geram conceitos. isto é. uma símile mais adequada – partenogênese teórica – para descrever esse tipo de ciência social. mesmo para o marxismo. que não reconhece divisões departamentais nem se submete de boa vontade aos ritos escolares. Isso produz dois defeitos. 169 . porém. Tanto na filosofia dos filósofos. pelo vezo contundente e pelas fórmulas definitivas. os temas. ver Pierre Bourdieu. como observou Jacques Rancière. Para as expressões “ambição totalizante” e “grande teoria”. O exemplo do outro defeito – de que Poulantzas falava de menos eram as solicitações frequentes de evidências concretas que comprovassem seus argumentos diante da carência explícita de análises empíricas. A ausência da pesquisa (ao menos no texto) e da sua “ordem”. as teses e os conceitos são expostos. Explico. os textos dos marxistas estruturalistas – Poulantzas aí incluído – possuem uma dicção toda própria. marcada pelo impulso polêmico. 99 Para o “neopositivismo” da crítica endereçada a ele. ver Jacques Rancière (1993). deslocadas essas dos seus contextos originais e embaralhadas. quanto na (ciência) política de Poulantzas. a esmo. produto dessa “ambição totalizante” autorizada e imposta pelo culto da “grande teoria”98. ver Nicos Poulantzas (1976: 67).MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE conhecidas fórmulas de Marx e Engels.

todavia. proposições e assim sucessivamente. o que deveria ser resultado da explicação das coisas. completados. pouco importa) à formula Marx dixit. 100 170 . daí o tom muitas vezes arbitrário das alegações. hipóteses. desenvolvidos ou não pelo processo de elaboração teórica. ora em nome da autoridade de Marx. e ii) a Expus e procurei comprovar este ponto em Adriano Codato: “Poulantzas. O MODO DE PRODUÇÃO DE TEORIA Mas de onde vem isso? Minha hipótese é que esse tipo de discurso pode ser explicado em razão de dois determinantes: i) a heteronomia dessa teoria da política em relação às lutas teóricas e às dissensões políticas no campo político comunista. e segundo. O ponto aqui. economia. Lênin e Gramsci. por exemplo – produz dois efeitos sobre esse discurso teórico.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE explicitação dos modelos e dos métodos para selecionar. o Estado e a Revolução” (2008: 65-85). sobre a pertinência efetiva daquelas análises em relação ao mundo social real. Engels. ora em nome da incapacidade das teorias rivais (marxistas e não marxistas) darem conta seja da interpretação mais correta dos textos clássicos. A crítica à “ausência de qualquer problemática teórica nos escritos de Miliband” é uma evidência de como Poulantzas se serve da autoridade derivada dos procedimentos puros da interpretação pura dos clássicos do marxismo para explicitar qual seria a forma correta de ligação entre as análises concretas e os “conceitos abstratos”. torna-se o seguinte: é preferível defender a atualidade e o poder explicativo dos conceitos abstratos. seja da compreensão mais concreta dos modos de funcionamento da sociedade capitalista100. transfere. teste. ora em nome da conformidade pressuposta das análises teóricas com o mundo social. sociologia). organizar e interpretar evidências. ao invés de considerar como mais legítimo ou como mais efetivo o procedimento usual que envolve dados. Sua teoria do Estado possui precisamente essas características e é um exemplo muito ilustrativo da propensão para transitar entre campos distintos (filosofia. então. Daí a impressionante frequência nessa sociologia do recurso (retórico ou não. para o domínio do comentário dos textos canônicos. Primeiro. torna impossível avaliar a documentação mobilizada. ora em nome da utilidade dos princípios políticos daí derivados. Nenhuma palavra. sejam eles corrigidos.

proposição de explicações) e não teria nenhum problema se não fosse pensada – essa teoria política – como uma crítica e uma correção à ciência social convencional. culturalista ou sistêmica). A consequência de tudo isso é a subordinação inapelável dessamodalidade de “ciência social” à teoria teórica. dos dividendos decorrentes de dois princípios de consagração desiguais. Isso não tem nada a ver com Ciência Social (descrição. um produto da luta teórica do marxismo teórico no domínio da Filosofia. disputada contra a ciência social pela imposição da teoria marxista da política como a única teoria política legítima. e a autoridade política. 1996: 168). estabelecimento de relações. nesse momento de (re)fundação da doutrina do Estado e de contestação da ciência política norte-americana (sejam as vertentes comportamentalista. análise e interpretação. transmitida pelo partido teórico e pelo projeto social no qual se está implicado101. CONCLUSÃO Vou então recapitular o que disse até aqui e esquematizar ao máximo meu argumento. ii) a reflexão abstrata dos intelectuais universitários comprometidos com o socialismo. “O discurso de importância. Esse jogo duplo – condição de existência do marxismo. do comentário e da interpretação de texto (dos textos clássicos dos clássicos do marxismo). resulta da (con)fusão inevitável pelo modo de produção dessa teoria entre três coisas: i) as controvérsias doutrinárias dos partidos comunistas europeus. Sustentei que a teoria política poulantziana – construída como uma crítica direta à ciência política convencional (“burguesa”) – pode ser definida como uma teoria que é. explicitação de mecanismos. O tipo do discurso então adotado – o filosófico –. testes de hipóteses. Algumas reflexões sociológicas sobre o texto ‘Algumas observações críticas a respeito de Ler O Capital’” (BOURDIEU. a propósito – é tão ou mais necessário quanto menos os marxistas podem prescindir. que abusa da análise. mas potencialmente complementares: a autoridade universitária. antes de qualquer coisa.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE autonomia pretendida dessa teoria em relação à Sociologia e à Ciência Política “burguesas” como práticas científicas “puras”. 101 171 . Para a sugestão original dessa idéia. ver Pierre Bourdieu. e iii) a problemática política do materialismo histórico (a “Revolução”).

uma prosa difícil. Como falta a esse discurso a “ordem da pesquisa”. o que repõe constantemente a tensão entre a heteronomia dessa teoria social em relação à política. e a sua pretendida autonomia em relação à ciência “pura”. o estilo “confuso”. é a aparência do problema. formulação de proposições científicas provisórias para serem depois testadas à luz de novas evidências etc. A crítica que consiste em apontar um “defeito”. aliás. Tudo isso conduz à subordinação da Ciência Social à teoria teórica e tudo depende então de ser ou não ser marxista. um discurso que depende da capacidade de análise do que “Marx realmente disse” e não do procedimento mais usual: reunião de dados. mas do tipo do discurso: o discurso filosófico cujo núcleo é o comentário de texto (Marx dixit). A economia das trocas linguísticas: o que falar quer dizer. A confluência no texto poulantziano de três modos distintos de conhecimento (o filosófico.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Esse “teoricismo” – reconhecido. ou do nível do discurso. o político-teórico e o científico). conduziu esse discurso ao culto da grande teoria e a declarações categóricas com base em tomadas de posição políticas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOURDIEU. contudo. isto é. Daí o recurso frequente à autoridade dos textos clássicos dos clássicos. isso torna impossível avaliar a verdade das proposições. Ficamos então com um discurso que defende a atualidade e o poder explicativo dos conceitos abstratos produzidos pelo processo de elaboração teórica. Essa. o comentário do texto tomando o lugar da explicação das coisas. 172 . O próprio Poulantzas faz a defesa desse “discurso complicado” nos termos corretos: trata-se de um discurso abstrato para tratar de problemas abstratos (uma exigência óbvia do trabalho teórico). o político e o politológico. o teórico e o ideológico). elaboração de hipóteses. São Paulo: Edusp. e a justaposição de três problemas de naturezas diversas (o social e o sociológico. pelo próprio Poulantzas no debate com Miliband no artigo de 1976 – vem fundido e confundido com um discurso complicado. 1996. Pierre. Minha tese é que não é um problema do estilo do discurso. é a meu ver essa é uma crítica superficial.

v. POULANTZAS. “Fieldwork in Philosophy”. Coisas ditas. 65-85.-Feb. 173 . Nicos. Nicos. Jacques. n. I. Jean-René. 3. 2004. TREANTON. POULANTZAS. 1970. Paris: PUF. 1976. n. Pouvoir politique et classes sociales. Paris : Maspero. o Estado e a Revolução”. Revue française de sociologie. Paris: Maspero. In. 17. CODATO. Nicos. vol. Pouvoir politique et classes sociales. Vol. London. Réflexions sur Fascisme et dictature.). p. 95 (Jan. Paris: Maspero. 1993. Nicos. 1971b. Vol. POULANTZAS. Pierre. Crítica Marxista (São Paulo). 1971a. “Poulantzas. “La scène du texte”. In: Sylvain Lazarus (dir. In: _____. 2008. 1976.). Politique et philosophie dans l’oeuvre de Louis Althusser. Fascisme et dictature : la Trosième Internationale face au fascisme. New Left Review.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE BOURDIEU. II. “The Capitalist State: A Reply to Miliband and Laclau”. POULANTZAS. 27. São Paulo: Brasiliense. RANCIÈRE. Adriano.

.

Desde o final do século XIX. os trabalhos de Alexander Bogdanov e Anatol Lunatcharski. 1977a. dos diferentes manuscritos que se transformaram em escritos decisivos para as sucessivas interpretações do marxismo: Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. A Ideologia Alemã. Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844. Não seria exagero afirmar que toda história do marxismo no século XX teria sido distinta sem este trabalho. A comunicação aqui reproduzida apresenta os resultados introdutórios de uma pesquisa em andamento. Ludwik Krzywicki. entre outros. sobre os intelectuais da Europa Oriental no Período do Socialismo Real. 103 Para uma discussão sobre algumas especificidades do (ZANARDO. 1988a). KOŁAKOWSKI. 1984. VRANICKI. 1988a). consultar: Sobre o marxismo na Polônia. mas também investigar outro aspecto. 104 marxismo russo. referimo-nos aqui a publicação. não só das obras completas. Lênin. que criaram. ao lado das decisivas contribuições. para a elaboração de uma tradição teórica nacional103. este 102 Professor do curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná. Na Rússia é importante destacar. KOŁAKOWSKI. Doutor em filosofia pela Universidade de Varsóvia – Polônia. entre outros.1974. desenvolveram-se importantes interpretações do pensamento marxista e que levaram a distintos debates. Kazimierz Kelles-Kraus e Stanislaw Brzozowski. 175 .MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Notas introdutórias sobre o desenvolvimento do marxismo no Leste Europeu Pedro Leão da Costa Neto102 Uma análise do desenvolvimento do marxismo no leste europeu deve ter como objeto. mas igualmente ao trabalho de organização e edição. de Georg Plekhanov e V. consultar: (WALICKI. Na Polônia104 é importante lembrar as contribuições de. não só uma análise das importantes obras e correntes teóricas surgidas no período do “Socialismo Real”. em diferentes países da Europa Oriental. do trabalho associado à organização e edição das obras de Marx e Engels. I. Grundrisse e Dialética da Natureza. em particular na Rússia e na Polônia. algumas vezes esquecido. a base e o fundamento dos estudos da obra de marxistas ao longo do século XX. em grande parte.

consultar.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE último considerado por alguns interpretes como o criador do “marxismo ocidental” avant la lettre. que travavam uma disputa pela hegemonia filosófica.. será a Revolução de Outubro de 1917. 107 Os mecanicistas defendiam que a filosofia era uma forma de metafísica mística e escolástica se comparada as ciências particulares . 1980. 106 Sobre este deslocamento geográfico e político e suas conseqüências teóricas.que defendiam que o materialismo dialético representava uma concepção de mundo integral que englobaria a natureza e a sociedade. que assumirá a direção das principais instituições filosóficas. foi importante igualmente no campo da filosofia marxista. devemos destacar a publicação. (1988a). Entre as grandes obras teóricas aparecidas no período.. o artigo de GÁNGO (2009). se encerrou em 1929. com a vitória do grupo dos dialéticos. 176 . Este debate. os mecanicistas e os dialéticos. a elaboração e a difusão massiva da teoria marxista. e os dialéticos . nestes anos se desenvolveu um intenso debate teórico. 1977b). Considerações sobre o marxismo ocidenta. e conduzirá a um verdadeiro deslocamento geográfico e político na história do marxismo. em particular o capítulo A tradição clássica.105 Entretanto. Cf. igualmente sobre as implicações da revolução de outubro para a publicação das obras de Marx e Engels: (HOBSBAWM.cujo principal representante era o destacado marxista Abram Deborin . Entretanto. aparece o artigo assinado por três jovens filósofos “Sobre 105 Sobre o marxismo de Stanislaw Brzozowski. que terá um efeito decisivo para a história do marxismo. podemos destacar os trabalhos de Isaak Illich Rubin (1980): A Teoria Marxista do Valor e do teórico do direito Evgeny Pasukanis (1989): A Teoria Geral do Direito e o Marxismo. A década de 1920 na Russia. ao lado dos escritos citados de WALICKI (1984) e KOŁAKOWSKI. consulte o livro de P. com as quais se deparou o novo estado revolucionário. entre duas distintas correntes.) da teoria marxista” ( BUKHARIN. 1970: 7) O pensador russo Boris Kagarlitsky (2006:75) observa que o período que vai de 1922 a 1928.ciências que permitiriam a resolução dos diferentes problemas teóricos..) 107 Para uma reconstrução deste debate consultar: entre outros a antologia de textos organizada por René ZAPATA (1983) e (VRANICKI. ANDERSON (1989). que tinha justamente por objetivo suprir a lacuna de “uma exposição sistemática (.106 Entre as tarefas culturais e teóricas. Um dos primeiros passos neste sentido foi a publicação em 1921 do conhecido manual de divulgação teórica de autoria de Nicolai Bukharin: Tratado de Materialismo Histórico: Ensaio popular de Sociologia marxista. em 1930. “representou um fortalecimento da cultura e até mesmo um novo renascimento cultural”.

3. este artigo vem seguido da resolução do CC do PCUS de janeiro de 1931. 257) poderíamos enumerar algumas característicasdo marxismo russo: 1.): Materialismo Dialético e Materialismo Histórico. o papel central no ensino do marxismo passará a ser ocupado pelos diferentes manuais de materialismo dialético. Será. Stalin (s. entre 1925 e 1930. o passo decisivo para a definitiva formalização da versão canônica do marxismo soviético foi a publicação do escrito de J. Poderíamos acrescentar. Afirmação de que o materialismo filosófico é a filosofia específica do marxismo e que há um nexo privilegiado entre o materialismo e as ciências da natureza. Desenvolvimento do aspecto filosófico do marxismo com a finalidade de criar um sistema global. o estudo de O Capital que. Como já tínhamos destacado anteriormente. a filosofia oficial da URSS. A revolução de outubro promoveu uma profunda mudança geográfica e política na história da publicação das obras de Marx e Engels. uma decisão político-administrativa que tornará esta tendência. ocupava um lugar importante no ensino do Instituto dos Professores Vermelhos. a partir de 1931. como um importante desdobramento da primeira característica. 2. ainda.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE as novas tarefas da filosofia marxista-leninista”. que reafirmará aquelas críticas. no qual eram criticados tanto os mecanicistas como os dialéticos (estes últimos condenados como “idealistas mencheviques”). Os jovens filósofos defendiam o caráter partidário da filosofia e a necessidade de procurar a raiz política e de classe de todo fenômeno ideológico. O estudioso dos debates filosóficos dos anos 1920 na URSS René Zapata afirma que este acontecimento terá pesadas conseqüências.d. será substituído por textos políticos e a partir de 1934/1935. Unidade das posições filosóficas e políticas que desemboca em uma “ingerência” do poder político nas questões filosóficas. a posição subalterna ocupada pelo Materialismo Histórico em relação ao Materialismo Dialético. 1985: 39) Entretanto. materialismo histórico e economia política (ZAPATA. 177 . Seguindo a filósofa francesa Christine Buci-Glucksmann (1978. o outro importante elemento constitutivo da história do marxismo no leste europeu foram o trabalho dedicado as edições e aos estudos sobre a obra de Marx. portanto. inclusive sobre o ensino do marxismo na URSS. que a partir de então poderá contar com o apoio de uma estrutura estatal.

agrupados sob o titulo Dialética da Natureza. R. ele fotocopiará grande parte do Arquivo Marx Engels de posse da Social-Democracia Alemã e no ano seguinte o IME com o apoio do Partido Social Democrata Alemão e com a participação do Instituto de Pesquisas Social de Frankfurt concretizam a idéia da publicação das Obras Completas de Marx e Engels: a Marx Engels Gesamtausgabe (MEGA). Em 1921. e por fim.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE O grande personagem desta curta e rica história será David Borisovitch Riazanov. os Grundrisse der Kritik der politischen Ökonomie. em nível institucional. Da terceira parte foram publicados apenas quatro volumes que reuniam a correspondência entre Marx e Engels (os três primeiros por Riazanov e o último por Adoratski). em 1935. reunindo o Anti-Dühring e os seus manuscritos científicos. pelo Instituto Marx–Engels e Lênin (IMEL. neste mesmo ano será criado o Instituto Marx-Engels (IME) que terá Riazanov como seu primeiro diretor. a terceira parte reuniria o conjunto da correspondência de Marx e Engels em um total 10 volumes.cit. 1857-1858. após a expulsão de Riazanov)e sob a responsabilidade de Pavel Veler. portanto com o início da II Guerra Mundial. A partir de 1923. resultante da fusão do IME e do Instituto Lênin. Da totalidade dos volumes previstos. seria publicado um volume dedicado às obras filosóficas de Engels. Riazanov publicou apenas os volumes I e II e os restantes foram editados por Adoratski. uma Comissão especial para a publicação e difusão das obras de Marx. na segunda parte em um total de 13 volumes. ZAPATA.108 O plano de Riazanov previa a publicação de 42 volumes e estava dividida em 3 partes: a primeira parte em 17 volumes seria constituída do conjunto dos escritos de Marx e Engels. 108 Sobre a publicação da MEGA consultar (LEFEBVRE. Por fim. entre as quais cabe destacar os importantes manuscritos da juventude de Marx (Introdução a Critica do Direito de Hegel e os Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844) e a Ideologia Alemã de Marx e Engels. que reuniam as obras escritas entre 1843 e 1848. 178 . La publication des oeuvres de Marx après sa mort. foram publicados em Moscou. e substituído por Vladimir Adoratski na direção da MEGA. op. é criada. planejava a publicação do conjunto dos manuscritos de Marx elaborados a partir de 1857 e relacionados ao projeto de Critica da Economia Política. Riazanov dirigiria a publicação até ser vitima dos expurgos stalinistas. Por fim 1939/1941. em 1931. em fevereiro de 1931 foi preso. foram publicados apenas sete volumes da primeira parte (o primeiro em dois tomos). coincidindo. 1985. Rohentwurf.

podemos identificar as características mais gerais do marxismo no leste europeu eindividualizar quatro diferentes períodos: i) os anos 1945-1949 se caracterizam pela existência de elementos de um pluralismo político e cultural. como a nomeia G. até o colapso do Socialismo Real. ofensiva esta acompanhada de uma série de medidas de caráter coercitivos e burocráticos. em sua versão sistematizada na União Soviética. no tocante ao pensamento filosófico e social. Zhdanov (1948). Após a conclusão da II Guerra Mundial terá lugar uma nova e importante ofensiva nos campos da literatura e da filosofia promovida por A. igualmente da classificação das diferentes tendências filosóficas existentes nos países da Europa Oriental desenvolvida membro da Escola de Budapeste György Markus. Adoratski.em filosofia oficial através de métodos Vranicki observa sobre este processo de transplantação: “Com a finalidade de assegurar a hegemonia política sobre os países do campo socialista e sobre os partidos comunistas de todos os países. No decorrer do período este pluralismo se restringirá gradualmente. O marxista francês Georges Labica observou que esta síntese filosófica perdurou até o colapso do Socialismo Real. 1977b: 150).1951 foi a publicação em língua russa (Sotchinenia) das Obras de Marx e Engels. ou “tendência extensional”. será transplantada através de diferentes métodos burocráticos e coercitivos. Será esta filosofia que. unificação do “campo socialista” nos aspectos políticos e ideológicos e stalinização da cultura. Transformação da “filosofia marxista-leninista”. sob a organização inicial do mesmo Riazanov (nos anos 1929-1930) e substituído posteriormente por V. Markus. ii) 1949-1954. 1974: 113-129). tendo sido publicados 28 volumes. sem nunca sido objeto de uma crítica rigorosa (LABICA. 1991). a partir da segunda metade dos anos 1940. alem do livro de Kołakowski. na vida cultural e universitária. que se expressava na presença de diferentes professores estranhos a tradição marxista nas diferentes instituições universitárias. 109 Nós utilizamos.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE O maior esforço do IMEL nos anos 1935 . 110 179 . que acentuará ainda mais o caráter dogmático da cultura soviética. nos diferentes países do leste europeu e em linhas gerais perdurará como filosofia de partido e estado. no capítulo Discussões e Tendências na Filosofia Marxista de seu livro Teoria do Conhecimento no Jovem Marx (MARKUS. É nesta conjuntura intelectual que se desenvolverá a ofensiva teórica e política para implantar o marxismo.109 Partindo das indicações desenvolvidas por Leszek Kołakowski (1988b. se proclama o estado soviético “modelo” de toda a humanidade progressista e declara que a cultura e os estados burgueses são apenas decadência e decrepitude” (VRANICKI. 923)110 em seu livro Główne Nurty Marksizmu (Tendências Principais do Marxismo).

choca-se claramente com a necessidade de uma análise mais equilibrada e aprofundada. É importante destacar o esforço critico desenvolvido por György Lukács (1982: 36-176) e Karel Kosik (1969) em superar as limitações. nos anos 1970-1980. iii) 1955-1968. sobre o efeito do processo de desestalinização surgem diferentes tendências anti-stalinistas e revisionistas. entretanto. consultar: (ARNASON. Markus refere-se a existência das seguintes correntes: “ideologia crítica”. Agnes Heller e outros membros da Escola de Budapeste) e que 111 O filósofo polonês nomeou estas duas correntes como: scientific philosophers e antropological philosophers. de um conjunto de pesquisadores marxistas pertencentes a uma nova geração.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE administrativos. que realizaram uns importantes trabalhos de investigação sobre o pensamento de Marx e a tradição marxista. A posição extremamente critica e parcial assumida por Kołakowski em seu livro anteriormente citado. Bloch. 1989). com o afastamento da vida pública ou o exílio de seus principais representantes. entre as quais o existencialismo e o neo-positivismo. Leszek Kolakowski. como destas duas correntes então hegemônicas no ocidente. surgimento de correntes filosóficas próximas as existentes na Europa Ocidental. período caracterizado pela derrota e expurgo das diferentes correntes criticas. Zygmunt Bauman. 113 Apesar de uma tendência geral. 112 113 Para uma análise da experiência do marxismo no leste europeu. Uma segunda proposta de periodização poderia ser realizada. “cientificista”111 e “ontologia social”. fenomenologia e outras correntes tradicionais da filosofia ocidental (KRAJEWSKI. que transparece em diferentes passagens da sua obra. a posição marcadamente ideológica. tais como o afastamento e a proibição do ensino dos antigos professores. 114 A sugestão para a elaboração de uma periodização é resultado do desenvolvimento de algumas sugestões desenvolvidas pelo filósofo italiano Guido Neri na qual estabelece uma distinção geracional entre as obras de Lukács. o leva a desqualificar toda contribuição filosófica posterior a 1968. tanto da síntese filosófica oficial. que permitiria identificar três diferentes gerações que compartem experiências comuns e permite identificar as filiações existentes entre elas: i) Lukács e Bloch que se aproximaram do marxismo ainda no período entre as guerras. partindo de critérios geracionais114. Bronislaw Baczko.112 iv) A partir de 1969. ii) geração formada nos anos sucessivos a II Guerra Mundial (entre os principais representantes estão Karel Kosik. é importante destacar a existência em diferentes instituições. 180 . a primeira próxima a tradição neo-positivista e a segunda ao existencialismo. 1980). 1966: XIV-XIX). Kołakowski e Kosik (NERI. Istvan Mészáros. de gradual afastamento do marxismo.

Ao IMEL de Moscou. sob a responsabilidade dos Institutos de Marxismo Leninismo de Moscou e Berlim. viria se juntar no referido trabalho.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE desempenharam um importante papel nos debates teóricos a partir da segunda metade dos anos 1950. Entretanto. da Marx Engels Gesamtausgabe. nas chamadas Marx Engels Werk (MEW).que passará a ser conhecida como MEGA 2.alem dos já citados: (LEFEBVRE. entre outros materiais. O final da II Guerra Mundial e a expansão do socialismo para o conjunto de países do leste europeu. Entre 1956 e 1968. italiana. IV Seção: Materiais diversos que incluiria. III Seção: Correspondência. a MEW constituiu-se num instrumento de referência e trabalho indispensável para os estudos especializados. iii) um conjunto marxistas acadêmicos que passam a desempenhar um papel importante depois dos acontecimentos de 1968. como serviu também de base para as futuras traduções das obras de Marx e Engels para diferentes línguas da Europa Oriental. iniciado na década de 1970. os Institutos de Moscou e Berliminiciaram a publicação das obras reunidas de Marx e Engels. alguns textos foram omitidos por motivos ideológicos. Em 1 956. as notas de leitura dos dois autores. e Marx EngelsSotchinenia que. incluindo a República Democrática Alemã. e fortemente marcados por introduções e notas que espelhavam a concepção do marxismo–leninismo então em voga nos países do leste europeu. estava organizada e dividida da seguinte maneira: I Seção: Obras. em que cada volume viria acompanhado de um volume de aparelho critico. seriam publicados 39 volumes. trará igualmente mudanças no tocante a publicação das obras de Marx e Engels. 181 .115 Esta nova edição previa a publicação inicial de mais de 160 volumes. Apesar dos aspectos deficientes. II Seção: Obras econômicas relacionadas ao projeto de Crítica da Economia Política. mais apêndices e índices. MEGA 2. o Instituto Marxismo–Leninismo de Berlim. incluindo as obras. mesmo não reunindo a integralidade das obras e escritos dos dois autores. A Marx Engels Gesamtausgabe. inglesa e japonesa. reunindo as diferentes versões e manuscritos relacionados a O Capital. 1985). artigos e manuscritos. talvez o mais importante empreendimento editorial do período e de toda história da publicação das obras de Marx e Engels. a partir de 1857. 115 Sobre a publicação da MEGA2. seria o grande projeto de uma nova publicação. e para as edições chinesa.

em 1972 de um Probeband. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Perry. Entretanto. 1989. Vol. tendo sido publicados até 1990.A fortuna das edições de Marx e Engels. 116 Sobre a continuação da publicação do projeto da MEGA 2. Disponível em: http://www. 1970. Gramsci y el Estado. J. Eric J. Hacia uma teoria materialista de La filosofia. II. Considerações sobre o marxismo ocidental. HOBSBAWM. Varsóvia: Krąg – Pokolenie. In: HOBSBAWM. acontecimentos políticos interferem na publicação das obras de Marx e Engels. em 1975. novamente. 1989. Rio de Janeiro: Paz e Terra. seguida da anexação da RDA pela RFA e a posterior dissolução da URSS. Leszek. 1978. BUCI-GLUCKSMANN. In: Hobsbawm. Perspectivas e problemas do marxismo critico no Leste europeu. KOŁAKOWSKI. Boris.de/bbaw/Forschung/Forschungsprojekte/mega/en/Startseite (Acesso em: 18 de agosto de 2009. Christine.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Após a publicação. Marxismo Cultura Comunicación. E. História do Marxismo Vol. apenas 36.) 182 . consultar: texto de apresentação do site da Academia de Ciências de Berlin Brandemburgo: O Projeto da MARX ENGELS GESAMTAUSGABE. 1988a. E. Mexico: Siglo XXI. Tratado de Materialismo Histórico. Gabor. 2 ed. São Paulo: Brasiliense. o primeiro volume da nova MEGA. 1980. La controvérsia por lãs prioridades de Lukács/Brzozowski y sus conseqüências. Johann P. KAGARLITSKY. Buenos Aires: Herramienta. dos 164 volumes previstos. BUKHARIN. História do Marxismo. N. 2006. GÁNGO. Buenos Aires: Prometeo Libros.116 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDERSON. J. em Moscou e Berlim e ao desaparecimento das grandes estruturas estatais que financiavam a publicação das obras de Marx e Engels. em 1989. Rio de Janeiro: Laemmert. levaram ao desaparecimento dos Institutos de Marxismo-Leninismo. aparece. 1: O Marxismo no tempo de Marx. Rozwój.De Kant y Fichte a Lukács y Benjamin. Gabor. Los intelectuales y El estado soviético de 1917 al presente. Główne Nurty Marksizmu. a “queda do muro”.bbaw. ARNASON. In. XI. apos a dissolução do antigo campo socialista. Vol. Ed. 2009. GÁNGO. 2.

Salamanca: Sigueme. Presentation du corpus.) RAINKO. 1977b. Vol. In. São Paulo: Brasiliense. Paris: PUF. VRANICKI. A Teoria Geral do Direito e o Marxismo. Vol. WALICKI.de/bbaw/Forschung/Forschungsprojekte/ mega/en/Startseite (Acesso em: 18 de agosto de 2009. A Teoria Marxista do Valor. Polish essays in the philosophy of the Natural Sciences. György. 1980. J-P. Rio de Janeiro: Renovar. E. NERI. 1988b. Dordrecht: D. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1. História del Marxismo. RUBIN. 1977a. KRAJEWSKI Wladyslaw. Dopo Il marxismo-leninismo (tra ieri e domani). 1982. Rozklad. Warszawa: PWN. G. Dialética do Concreto. Stanislaw. História do Marxismo. STALIN. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Materialismo Dialético e Materialismo Histórico. LUKÁCS. Wprowadzenie do Ontologia bytu społecznego (Ontologia do ser social). 2. 1981. PASUKANIS. PROJETO MARX . 1974. Roma: Edizioni Associate. Karel. LABICA.ENGELS GESAMTAUSGABE. J.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE KOŁAKOWSKI. Disponível em: http://www. Marksizm Stalina. São Paulo: Global. B.). 1989. Aporie della realizzazione. VRANICKI. Salamanca: Sigueme. Reidel. Leszek. 1991. 1985. Filosofia e Ideologia nel socialismo reale.Milão: Feltrinelli. Vol. KOSIK. In: KRAJEWSKI W (Org. Guido D. Vol. Varsóvia: Krąg – Pokolenie. Andrzej. Pedrag. LEFEBVRE. 1969. Swiadomosc i Determinizm. Główne Nurty Marksizmu. Introduction: Polish Philosophy os Sciences. Vol. III. 1883 – 1893 L’oeuvre de Marx. Stanislaw.d. E. 1966. Josef. In: RAINKO. Isaak Illich. HOBSBAWM. I. Pedrag. In: LABICA. Georges. O marxismo polonês entre os séculos XIX e XX. György no capítulo Discussões e Tendências na Filosofia Marxista de seu livro Teoria do Conhecimento no Jovem Marx.bbaw. História del Marxismo. Varsóvia: Czytelnik. 1980. 3: O Marxismo na 183 . MARKUS. s.

G. Aldo. 1883 – 1893 L’oeuvre de Marx. Literatura y Filosofia a la luz del Marxismo. A. 184 . 1985. René. ZAPATA. ZANARDO. Madri: Siglo XXI. Paris: PUF. La publication des oeuvres de Marx après sa mort. Nicolai I. BUJARIN. In: LABICA. 1948. Teoria del Materialismo Histórico. Montevidéu: Pueblos Unidos. A. 1922-1931. 1974.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE época da Segunda Internacional. 2 ed. In.R.S. Rio de Janeiro: Paz e Terra.S. 1984. ZHDANOV. René. 1983. Luttes Philosophiques en U. ZAPATA. Paris: PUF. El “Manual” de Bujarin visto por los comunistas alemanes y por Gramsci.

ritos de passagem. 19) “as crianças se educavam tomando parte nas funções 117 118 Doutora em Educação. Tendo como referência a condição adulta. História Social da Criança e da Família. no interior de uma mesma sociedade em relação a distintos grupos sociais. De modo geral. modalidades de formação. 119 Evidentemente. quanto à relevância atribuída a certa fase em um ou outro contexto concreto. nas sociedades anteriores à emergência do capitalismo. inclusive. Por trás de marcos etários. Tais “idades” são marcadas por distintas práticas de iniciação. Título do primeiro capítulo da obra referencial de Philippe Ariès.de desempenhar certas práticas e funções sociais ligadas à reprodução da espécie e à produção/reprodução das condições de existência – desde as formas mais primitivas como a coleta e a caça. em si mesmas. Coordenadora do NUPE-MARX/UFPR. aqui. mesmo. o determinante é a capacidade119 – física e psíquica . servem como meros indicativos para a atribuição de tarefas e funções.Nas sociedades primitivas verifica-se quase que uma indistinção das fases de desenvolvimento. Professora da UFPR. 185 . Considerando que tais funções e práticas se transformam de época para época. de sociedade para sociedade e. conforme ensina Ponce (1985. as quais traduzem a inserção progressiva dos indivíduos em atividades essenciais da sociedade. essas fases não são tomadas como objeto de preocupação. p. é compreensível que tais fases apresentem diferenças quanto à precisão de idade e.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE A luta pelas leis fabris do século XIX e a definição das idades do trabalho: um estudo sobre a constituição das noções de infância e adolescência Lígia Regina Klein117 A questão das “idades da vida” 118 perpassa a história humana. até as formas mais complexas que se enquadram nas condições da indústria contemporânea. não se trata. de capacidade jurídica.

Porém. o que “Durante o século XIX. SAVAGE. As transformações sociais fazem com que não só se estabeleça firmemente uma distinção entre infância e idade adulta. como ele é hoje considerado. BECKER. nem da importância que a sociedade lhe dá. 57-58). psicológicas. com uma ênfase nunca antes vista (ARIÈS. MANACORDA. D (1998). 1985. Kulhmann JR (1998). Aqui a adolescência toma assento na temática das “idades da vida”. elas se mantinham. 2009. 186 . 1999).121 Os estudos deste fenômeno apresentam variados enfoques122. 2006. comungam sob certo aspecto: cada fase é explicada por características ou condições subjetivas próprias de certa faixa etária.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE da coletividade. a emergência da sociedade moderna traz uma preocupação. No trato da adolescência. Heywood. As investigações se distinguem pela ênfase que atribuem a um ou outro aspecto do tema. CÉSAR. também pouca importância se dá às etapas de desenvolvimento. E.. embora os processos educativos se diferenciem consoante a classe a que pertencem os educandos. Embora os homens alcançassem a idade adulta ao entrar no mundo do trabalho. no mesmo nível que os adultos”. O conceito de adolescência.. sociológicas e pedadógicas. Mauss (1996). passando por abordagens antropológicas. “O fenômeno da puberdade provavelmente nos acompanha desde os primórdios do ser humano. E. A noção do limite da infância estava mais ligada à dependência do individuo do que à puberdade. 120 Segundo Becker (1985. PP. Porém. Não obstante. Sirota (2001). cujas características distintivas passam a ser objeto de estudo de diferentes disciplinas. qual seja a relação de dependência dos pais e a inserção concreta dos sujeitos nos processos de produção/reprodução da vida próprias de cada sociedade. como também originam outras fases de desenvolvimento120.” (SAVAGE. 2008.. 1981. CAMBI. e abandona-se. Julia. Já não se pode dizer o mesmo do fenômeno da adolescência. não obstante as diferenças naturais. que vão do higienismo à história cultural. Warde (2007). porque tomavam parte nas funções sociais.Na Antiguidade e no Medievo. p. a idade de sete anos é referida como um marco distintivo entre maior ou menor grau de dependência (PONCE. 1985. 2004. é bastante recente. do exército ou do casamento. com uma rigorosa definição de faixas etárias que demarcariam as idades. o tempo passado para alcançar essa meta variava. o determinante comum em todas as sociedades anteriores ao capitalismo. 2009). a respeito. 82). a adolescência foi confundida com a infância.” 121 122 Ver. o traço comum é a idéia de crise. Becchi. Até o século XVIII. épocas já marcadas pela divisão da sociedade em classes distintas e antagônicas. até então inexistente. Calligaris (2009) entre outros. a puberdade não era considerada uma fase distinta da vida. sem maior análise. Boto (2001).

p. A perspectiva culturalista. pela voz dos pais. as crianças proletárias da GrãBretanha. como um período intermediário entre infância e idade adulta. anuncia o papel da escola na constituição das categorias em estudo. L. a burguesia não dispensaria às diferenças mínimas de idade de suas crianças a atenção que lhes demonstra. o que o autor não considera é que antes de poderem ser ouvidas como delinqüentes. p. Para o pesquisador francês. A produção da escola pública contemporânea. 57) pondera que “o crime juvenil tornou-se uma questão nacional quando as crianças da classe operária urbana forçaram a passagem para a conscientização pública”. 123 124 Destaque-se que. cedem espaço a explicações subjetivistas ou superestruturais. teria sido determinada pela progressiva relação entre classe escolar e idade. Alves. entretanto. A adolescência. entre todos. desconsidera que antes de se constituírem sujeitos escolares. bem como os meios e dificuldades de seu controle. de caráter biologicista-subjetivista. a diminuição do índice de mortalidade infantil estimularia os pais a um “investimento afetivo” na prole. Em síntese. inclusive entre os pesquisadores brasileiros do campo educacional que se ocupam do tema. diferentemente do que propõe Ariès. A esse respeito. ecoaram. representa um avanço em relação às abordagens deterministas. o descrito pede explicação e esta tem raízes materiais. elementos do processo material da transformação das crianças e jovens medievais em crianças e Ariès (1981. ao tema. são limitados os recursos de interpretação. uma penosa luta pela limitação legal da jornada de trabalho. ao buscar determinações históricas para a constituição moderna dessas categorias. Segundo o autor. Savage (2009. e partilharia nesse ponto da relativa indiferença das sociedades populares”. por sua vez. Entretanto. 187 . 115) funda a “invenção moderna” da infância na emergência de um “sentimento” amoroso dos pais pelos filhos. os jovens proletários teriam de desvencilhar-se da condição de trabalhadores124. Entretanto. desde as florescentes e sombrias indústrias. por sua vez.As perspectivas acima apontadas são fecundas na indicação de mediações presentes na construção dessas categorias. pois pautados em aspectos superestruturais123.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE impõe à sociedade uma preocupação com as práticas rebeldes dos jovens. de cunho culturalista. Ariès. A interpretação da construção moderna dos conceitos de infância e adolescência sob os postulados da história cultural tem em Phillipe Ariès uma leitura inaugural e com expressiva influência sobre o trabalho de outros pesquisadores. tangenciando determinações sócio-econômicas. as teorizações são ricas na descrição do fenômeno da construção moderna das categorias mas. ver. Entretanto. Pretende-se acrescentar. G. “sem o colégio e suas células vivas. é a massiva liberação da força de trabalho mirim – decorrente em grande parte das leis fabris – que criará o contingente de destinatários do sistema de instrução pública.

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adolescentes da sociedade capitalista, considerando o peso que teve, nessa transformação, a luta proletária pela criação das leis fabris. Conforme a lição de Marx (1983, p. 25), nas transformações sociais, é necessário distinguir a base material e as suas manifestações ideológicas - jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas; considerar, enfim, o conflito que existe entre as forças produtivas e as relações de produção. Com efeito, a luta entre capital e trabalho na formulação de uma legislação que atente às condições de resistência física e mental dos trabalhadores é que vai pôr em questão com nova ênfase, e, nesse sentido, construir determinadas fases de desenvolvimento dos indivíduos. Assim, distinguir infância, adolescência e adultidade é uma necessidade que se impõe na modernidade, como fruto das contradições do capitalismo nascente. Uma vez estabelecidas essas fases, conformes à nova estrutura social, elas passam a ser consideradas em diferentes perspectivas da experiência humana: na educação, no direito, bem assim nas novas ciências como a psicologia e a sociologia. Parte-se da hipótese de que as lutas pelas leis fabris, ao longo do século XIX, exercem um papel fundamental na construção de uma nova distinção entre as fases de desenvolvimento. A compreensão desse papel abre novas perspectivas no trato do tema. Os embates pela constituição de leis fabris reguladoras de jornada e idade mínima para o trabalho na fábrica não podem ser ignorados nos estudos da construção das categorias em pauta, posto que inauguram o debate moderno sobre um período de transição entre a infância e a adultidade. Nesses embates, avulta pela primeira vez a necessidade do manejo da idade, como uma forma de proteção das crianças e adolescentes, dado que o ritmo de exploração punha em risco sua sobrevivência e a reprodução da própria classe trabalhadora. O processo de elaboração das leis fabris, ao deparar com a questão da proibição do trabalho infantil e do trabalho noturno, vai obrigar as classes interessadas, bem assim os segmentos de classe, à discussão de limites etários mais complexos que a mera oposição criança-adulto, até então suficiente e fundada exclusivamente na condição de dependência. Inicialmente, cabe lembrar que as leis fabris são criadas, ao longo do século XIX, em um cenário em que se opõem e se articulam forças distintas: a luta proletária contra a exploração; as manifestações de ordem moral dos segmentos “humanitários” das 188

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classes médias; finalmente, os setores capitalistas preocupados com a dizimação do exército de reserva, que buscam frear a sanha destrutiva da indústria nascente por meio de legislação adequada à segurança jurídica para a continuidade do processo de exploração. A deflagração das lutas proletárias pela legislação fabril se dá no curso de mudanças sócio-econômicas em que se torna evidente o caráter devastador do novo processo produtivo. As novas relações laborais e as expressões ideológicas desse período histórico, por seu turno, impõem profundas alterações nas condições das crianças e jovens, por um lado, ao isolá-los no quadro de novas exigências laborais impostas ao conjunto da família; por outro, ao submetê-los a uma lógica marcada pelo individualismo e inseri-los em uma situação de isolamento e abandono que atinge cada um dos membros da família.É nessa configuração histórica, à sombra das chaminés das fábricas e ao desamparo do mais entranhado individualismo, que vai emergir nova distinção entre idades. Como destaca Vigário (2004, p. 8) “até o século XVII considerava-se que a família, por oposição ao indivíduo, era a unidade essencial da organização social. Nesta perspectiva, as crianças não eram diferentes dos membros adultos da família, uma vez que eram todos concebidos como partes componentes de uma unidade maior, a família alargada”. Na indústria artesanal, mulheres e crianças geralmente trabalhavam em casa, sem perceber remuneração própria, constituindo uma força de trabalho oculta, subordinada à figura do pai provedor. O trabalho infantil contribuía para o bem estar da família e a facultava a aprendizagem das habilidades laborais que lhe seriam requeridas no mundo adulto. “Deste modo, a criança era instruída, socializada, reprimida, sujeita a determinadas condições e protegida do contágio moral na sua própria casa” (VIGÁRIO, 2004, p. 10). Conforme historia Engels (2008), embora as condições de trabalho nessas unidades familiares de produção não fossem ideais, as crianças desfrutavam de ar puro e tinham uma alimentação, não abundante, mas suficiente. Se ajudavam os pais, faziam-no ocasionalmente, jamais numa jornada de trabalho de oito ou doze horas. Trabalhavam duramente, mas o ritmo era menos regular, pois eram donos de seu tempo e podiam dedicar o domingo a Deus e a segunda-feira ao descanso. Quando, entretanto, a expropriação das terras impôs a transferência para as fábricas, a pobreza a que as famílias foram 189

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reduzidas obrigou que os filhos acompanhassem os pais também no trabalho fabril. Lá, foram submetidos ao ritmo e à jornada do trabalho adulto. A nova forma de engajamento da família no trabalho impõe a dispersão dos seus membros, na vida cotidiana. Seja porque pai e mãe passam a maior parte do tempo no trabalho, ficando os filhos ao abandono; seja porque os próprios filhos, desde tenra idade, são insertos no trabalho fabril e, mesmo quando laborando no mesmo local dos pais, não desfrutam de um convívio efetivamente familiar. Essas mudanças impõem uma notável inflexão nos fins da educação: antes orientada para criar na criança um sentimento de grupo, agora se orienta pela concorrência e o individualismo. Trata-se de uma guinada substancial, sobretudo em relação às sociedades primitivas, nas quais, segundo esclarecedora lição de Ponce (1985, PP. 20-21) esse ideal consistia em adquirir, a ponto de torná-lo imperativo como uma tendência orgânica, o sentimento profundo de que não havia nada, mas absolutamente nada, superior aos interesses e às necessidades da tribo.Antes de preparar os filhos para somar seus esforços aos esforços dos demais, se impõe à família moderna prepará-los para “enfrentar” a sociedade. Antes de ir ao encontro da sociedade, impõe-se ir de encontro a ela. Sob um regime de intensa e generalizada concorrência, inclusive entre os trabalhadores, o individualismo é, agora, a diretriz pedagógica por excelência. Os homens, atomizados, separados e mesmo contrapostos por interesses individuais, encontram-se no mercado. Ali estão os bens de que necessitam, as coisas que constituem o objeto de seu interesse e da sua satisfação. Tudo se vende, tudo se compra: é a nova ordem. Tudo, inclusive os encontros humanos, a partir daí, não mais ocorrem de forma gratuita. Dar-se-ão, doravante, em regra, sob o signo dessa mesma lógica mercantil. Todo o espectro de acontecimentos que ensejam o individualismo dissolve a antiga pedagogia fundada na educação pela convivência. A própria separação física entre crianças e adultos, a impossibilidade de os pais acompanharem de perto o dia-a-dia dos filhos retira da família as condições gerais de sua formação e altera toda a lógica da organização educacional. Urge criar, fora do lar, instituições que eduquem, seja quanto à

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formação moral, seja quanto ao domínio de conhecimentos e técnicas laborais125. Outro aspecto de fundamental importância para a emergência da luta pelas leis fabris, diz respeito às profundas transformações nas condições tecnológicas do trabalho: o desenvolvimento já alcançado à época permite igualar a força e a habilidade laboral de diferentes sujeitos 126. Ao potencializarem e precisarem de forma inaudita os gestos humanos, os novos recursos tecnológicos – sob os auspícios da ciência - tendem a anular as diferenças naturais entre indivíduos adultos e entre indivíduos de distintas idades. Essa igualização cria as condições necessárias para uma nova forma de absorção da força de trabalho infantojuvenil. Entretanto, se esse arsenal tecnológico iguala força e habilidade, não logra superar os limites que se levantarão à intensificação do ritmo do trabalho, facultada por esses mesmos recursos. Aqui se evidencia a relação entre gênero, idade e a forma capitalista da divisão técnica do trabalho. A simplificação do trabalho e o emprego da maquinaria apagam as diferenças entre os gêneros e as idades, tornando todos – crianças, homens e mulheres - capazes de executar as mesmas funções laborais. Entretanto, a intensificação do ritmo do trabalho, demandada pelo aumento da produtividade no interior de uma jornada fixa, recoloca, de forma inafastável, essas mesmas diferenças, tanto demarcando os limites da resistência humana, como impondo a observância de diferentes etapas, idades, condições físicas e psíquicas para determinadas formas de inserção na jornada de trabalho. Assim, concomitantemente à possibilidade de indistinta absorção de força de trabalho dos homens, das mulheres, dos jovens e das crianças, nasce a gritante necessidade de proteger os indivíduos das condições insalubres e da deletéria intensificação do ritmo do trabalho. A revolta dos trabalhadores contra as condições deletérias e aviltantes de trabalho – devastadoras para as crianças
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Se estas instituições não existirem ou não funcionarem adequadamente, ou forem insuficientes para acolher os filhos dos trabalhadores, estes serão relegados ao mais completo abandono. E aqui se impõe a exigência da modalidade escolar moderna, em oferta tanto quanto possível universal, visto que à família trabalhadora foi subtraída a possibilidade de assisti-los adequada e permanentemente.
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Dados os limites deste texto, não será desenvolvida a vasta e significativa temática da profunda repercussão do desenvolvimento científico-tecnológico no sistema produtivo e nas relações de produção.

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. diz Marx (1982. duas tendências que se desenvolvem em momentos subsequentes: no primeiro. nestes termos. ambas as tendências: Sem dúvida. 307) situa. mulheres e crianças. E. Isso permitiu a absorção. relativo aos estatutos de trabalho ingleses. no curso do século XIX.. esclarece: É por isso natural que a jornada de trabalho prolongada. é imposto pelo Estado. que. e apagaram a distinção física entre os trabalhadores. no segundo. em seguida. de mão de obra não especializada e a substituição da mão de obra masculina adulta pelo trabalho de mulheres e de jovens e crianças. coincida aproximadamente com o tempo limitado de trabalho. pelo dia e pela noite foram destruídas. comparadas com a jornada de trabalho resultante das concessões que.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE e jovens – é o solo sobre o qual florescem. suprimindo o domínio de técnicas custosas de difícil e lenta aquisição. mas através da ajuda do estado) se apresentam bastante modestas. pela fábrica. pela idade e pelo sexo. da metade do século XIV ao fim do século XVII. p. a tendência é de extensão da jornada. a tendência foi de sua redução compulsória. as lutas pela legislação protetiva. Advinham daí duas grandes vantagens para o 192 . p.”. 316) “todas as fronteiras estabelecidas pela moral e pela natureza. conforme lição de Marx (1982). que o capital procura impor aos trabalhadores adultos por meio da coação do Estado. com o fim de evitar a transformação do sangue das crianças em capital. não fazendo distinção entre homens. em um quadro no qual. As máquinas simplificaram o trabalho. pertinente à promulgação das leis fabris. as pretensões do capital no seu estado embrionário (quando começa a crescer e se assegura o direito de sugar uma quantidade suficiente de trabalho excedente não através da força das condições econômicas. Na história dessa luta observamse. rosnando e resistindo tem de fazer na idade adulta. na segunda metade do século XIX. o capital suga toda a força de trabalho disponível. No primeiro momento. Marx (1982.

nas fábricas. entretanto. Assim. sequiosos por legiões de crianças e adolescentes. 127 193 . sem distinção de sexo e de idade. a melhor equipada da região. nenhuma modificação se observa nas condições da jornada. do ritmo e do local de trabalho. apresentando elementos que dão uma noção da situação dos pequenos trabalhadores. em Bradford. foi a de utilizar o trabalho das mulheres e das crianças. quando não fosse pago apenas em troca de alimentação e moradia.. que os proprietários das fábricas se mostraram. dentro de limites estabelecidos pelos costumes (MARX. Não é sem razão. ainda não completamente desenvolvidos nem física. PP. mesmo naquelas condições favoráveis. não raro. pp. a primeira preocupação do capitalista ao empregar a maquinaria. entretanto. médico da fábrica de Wood. mas com membros mais flexíveis. a maquinaria permite o emprego de trabalhadores sem fôrça muscular ou com desenvolvimento físico incompleto. Por isso. incluída. 194-195) menciona o Relatório de Whilliam Sharp Jr. nem psiquicamente. 2) tais efeitos. Ao contrário. para a própria família. consistia em apenas um sexto do valor da força de trabalho adulta. pondo em risco a própria reprodução do exército de reserva. de poderoso meio de substituir trabalho e trabalhadores. sob o domínio direto do capital. à época: 1) Pude observar. conforme patenteiam inúmeros registros da época. Desnecessário lembrar que o emprego de mão-de-obra de crianças e adolescentes. acarreta uma deterioração muito mais intensa. não se limita àqueles tempos. a máxima extensão da jornada. O trabalho obrigatório para o capital tomou o lugar dos folguedos infantis e do trabalho livre realizado. A exploração do trabalho infanto-juvenil. realiza-se nos mesmos ambientes e sob o mesmo ritmo e intensidade de exploração a que se submetem os homens. o trabalho das mulheres e crianças. fui obrigado a tratar A mão-de-obra infantil – referida como “meia força” – recebia ínfimo salário que. naturalmente mais frágeis. Engels (2008. 449-450). são os mais danosos. 3) em 1842. portanto.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE capitalista: tratava-se de mão-de-obra disciplinável e de menor valor127: mais obediente e Tornando supérflua a fôrça muscular. aí. colocando todos os membros da família do trabalhador. Para receber esse exército pueril. rapidamente. 1982. a maquinaria transformou-se imediatamente em meio de aumentar o número de assalariados. em casa. nas condições mais favoráveis. os efeitos do sistema fabril sobre a saúde das crianças. decisivamente e em larga escala.

seus membros definham. Marx (1982.. subnutridas... repugnante e mal afamada que somente a parte mais miserável da classe trabalhadora. vai cimentando um interesse coletivo. 194 . em Wood. para ganhar o indispensável à mera subsistência. relativo ao ano de 1863. uma vontade comum. viúvas famintas etc. senão deformados. Com isso. verificou-se uma sensível melhora quando a jornada de trabalho das crianças foi reduzida. débeis e doentios. uma perspectiva unitária de luta. cede-lhe seus filhos. 275-276) faz referência à declaração de um juiz do condado Broughton. uma consciência de classe. sobre a situação das crianças e jovens trabalhadores das fábricas de fósforos de atrito: A metade dos trabalhadores são meninos com menos de 13 anos e adolescentes com menos de 18. para dez horas. suas faces se tornam lívidas. Nesse cenário eclodem os primeiros movimentos da luta operária. seu ser mergulha num torpor pétreo. As 2. Igualmente dantesco é o quadro traçado no relatório da Children’s Employment Commission. A identidade das condições de vida. Sobre o grau de desumanidade a que são submetidas as crianças. 3 e 4 horas da manhã. Essa indústria é tão insalubre. sem nunca terem freqüentado a escola” (. empregada nas fábricas de renda da cidade. p...) Dante acharia que foram ultrapassadas nessa indústria suas mais cruéis fantasias (MARX. “crianças esfarrapadas. sua estatura se atrofia. 11 ou 12 horas da noite. põe em curso um sentimento de pertencimento que. PP.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE três quintos do total de crianças que trabalhavam na fábrica de Wood. com muita dificuldade.) naquela parte da população. 279).. em 14 de janeiro de 1860: (.. 1982.. que presidia uma reunião na prefeitura de Nottingham. reinavam sofrimentos e privações em grau desconhecido no resto do mundo civilizado.. inicialmente voltados à redução da jornada de trabalho e à proteção das crianças e das mulheres. sofrimentos e angústias dos trabalhadores. horripilante de se contemplar. 5) em tudo isso. as crianças de 9 e 10 anos são arrancadas de camas imundas e obrigadas a trabalhar até às 10. 4) o efeito mais danoso é tornar os organismos. ao lado da abissal diferença em relação às condições de existência do patronato.

Esse socorro vem em forma de uma tentativa de uniformização mínima da jornada. ou seja. Nesse quadro. 1982. em particular os grandes industriais. dado que a livre competição “torna as leis imanentes da produção capitalista. prejudicado pelo excesso de uns e outros capitalistas. ficamos convencidos ser necessária uma lei coativa”. entre elas Josiah Wedgwood & Sons. as novas leis fabris eram gestadas sem que houvesse garantia de sua concreta efetivação. cediam naquilo que. põe-se em curso a segunda tendência do trato da jornada: a sua redução compulsória. os fabricantes. edulcoradas por um discurso que propugnava por justiça e igualdade. 307). 2008) e em face de iminente agitação. conforme registrado no Children’s Employment Comission. avulta pela primeira vez a necessidade do manejo da idade. reivindicada em alguns casos pelos próprios capitalistas. etc. No embate que gesta o catálogo de leis fabris. ao mesmo tempo em que revelavam eficácia na outra ponta. Assim. seria impossível impedi-los por meio de qualquer acordo entre os fabricantes. sem maiores riscos.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE Por outro lado. p. Por outro lado. pediram num memorial “uma intervenção coativa do Estado”. cujo ritmo de exploração punha em risco sua sobrevivência e a reprodução da 195 . sob uma aparência filantrópica. combinando resistência dos operários e apreensão dos capitalistas quanto a um desequilíbrio nas condições concorrenciais – seja pela desigualdade no trato da força de trabalho. considerando todos esses pontos. como uma forma de proteção das crianças e adolescentes. seja pelo risco de elevação do seu custo em razão da destruição de um volume substancial do exército de reserva – e com o reforço de publicistas e profissionais liberais. de 1863. representantes das classes médias. 26 firmas proprietárias de grandes cerâmicas em Staffordshire. Alegavam que a concorrência com outros capitalistas não lhes permitia limitar à sua vontade o tempo de trabalho das crianças. essas medidas eram ineficazes do ponto de vista de seu cumprimento no interior das fábricas. citado por Marx: No começo de 1863. compulsórias para cada capitalista individualmente considerado” (MARX.. “Por mais que lamentemos os abusos acima mencionados. o próprio Estado vem em socorro do capital.. estabelecendo o equilíbrio da concorrência. evitavam confrontos desnecessários com os trabalhadores (ENGELS. no apaziguamento dos confrontos. leis externas. Com efeito. por meio da legislação. garantisse uma suspensão dos conflitos.

Robert Owen. queteriam de receber alguns rudimentos de educação. Ela proibia o trabalho noturno dos menores. A lei foi proposta para minimizar esse estado de coisas. a Lei de 1802. A negligência de alguns voluntários. divulga as condições de trabalho de suas fábricas e informa à Comissão de Inquérito que 128 Pela mesma razão . também a defesa das mulheres. O primeiro diploma a ser lembrado é a Lei da Saúde e Moral dos Aprendizes . para além de ter sido a primeira legislação protetiva dos trabalhadores. que não fazia restrição à idade. Vigário (2004). onde eram expostas a todo tipo de sofrimento decorrente do regime de exploração.os visitors. bem como limitava a jornada a 12 horas.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE própria classe trabalhadora128. Nesse embate.proposta por Robert Peel e aprovada em 22 de junho de 1802. Em 1815. Essa brecha era comumente utilizada para burlar os fiscais. crianças de todos os rincões da Inglaterra – algumas com apenas seis ou sete anos de idade – eram encaminhadas na condição de aprendizes pelos Poor Law Guardians .para as fábricas. respectivamente. À época. Engels (2008). determinava algumas melhorias nas condições de trabalho – pintura e melhoria da ventilação do local de trabalho – e de formação dos menores. Uma brecha para o trabalho infantil residia na lei de aprendizagem. anualmente. dois voluntários para realizarem a inspeção das fábricas .a legislação alcançou a questão do gênero.The Moral and Heralth Act . se hão de distinguir crianças. então sem os limites de qualquer freio legal. freqüentar a igreja mensalmente e não serem constrangidas a dividir a mesma cama com mais de duas outras crianças. incluindo à defesa das crianças e adolescentes. 196 . jovens e adultos. em um cenário de intensa agitação dos trabalhadores. como se pretende demonstrar no estudo das mais importantes leis do período 129.bem como à coerção física e moral para que os próprios trabalhadores não denunciassem a situação real em que trabalhavam e viviam explica a ineficiência dessa lei. Ainda assim. O cumprimento dessa legislação dependia de um sistema pouco eficaz: os Juízes de Paz nomeariam.a maior fragilidade . 129 Na exposição sobre as leis fabris. Ainda. teve o mérito também de lançar luzes sobre o problema dos aprendizes. defensor da reforma fabril e proprietário de tecelagens em New Larnak. adolescentes. tomou-se principalmente como referência: Marx (1982). estabelecendo como limites de início e término da jornada as 6h e as 20h. somada à prévia comunicação das visitas – o que permitia o preparo de um cenário adequado para a aprovação do fiscal .

pela primeira vez. observando-se um intervalo de trinta minutos para o café da manhã e uma hora para o almoço. Mas. votou-se uma lei que proibiu o trabalho noturno para todos os trabalhadores com menos de vinte e um anos. cujos esforços no Parlamento contribuem para a promulgação da Lei de 1833 que conjugava medidas regulamentadoras do trabalho infantil e medidas de inspeção. cujos resultados levantados forçaram a promulgação. sob liderança de Michael Sadler. Com a perda do mandato. Conforme lembra Vigário (2004. de uma Lei – novamente de autoria de Robert Peel – que estipulava horário pré-determinado para as refeições das crianças. A jornada noturna. dada a ineficácia da legislação protetiva já promulgada – em especial. “a distinção entre crianças e jovens foi estabelecida. propiciaria que elas. foi proibida para trabalhadores com idade entre nove e dezesseis anos.Com esta lei. adotassem maus hábitos. Richard Oastler publica uma carta-denúncia no jornal de Leeds. p. É importante destacar o ineditismo dessa lei no que se refere a uma diferenciação etária entre crianças e adolescentes. 69). assumiram o apoio à Lei das Dez Horas – Ten Hours Bill. desocupadas. A polêmica levou à formação de Comissões de investigação. deflagraram inúmeros movimentos de agitação reivindicando uma lei que limitasse a dez horas a jornada dos jovens menores de 18 anos. Por esta lei. aumentar a folga das crianças. Em setembro de 1830. por outro lado. a Lei de 1819 -. Também tornava ilegal o emprego de crianças com idade inferior a nove anos e estabelecia a jornada máxima de 12 horas diárias para aquelas com idade inferior a 16 anos. por Lord Ashley. organizados em associações operárias. na Lei de 1833. iniciando uma campanha para limitar a 10 horas diárias a jornada infantil. declarou-se ilegal empregar crianças menores de 9 anos – sendo exigido do médico da fábrica um 197 . Setores mais avançados dos tories. Alegavam que o trabalho infantil era imprescindível e. das nove horas da noite às cinco horas da manhã. Em 1831. A campanha encontrou resistência de proprietários do ramo têxtil.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE não emprega nenhuma criança com menos de dez anos de idade. na defesa da reforma fabril. os trabalhadores. Entre os nove e os treze anos de idade eram consideradas crianças e os que tinham idades compreendidas entre os treze e os dezoito eram conhecidos por jovens”. em 1819. Sadler é substituído. diminuindo-lhes a jornada. pela primeira vez estabeleceu-se um limite etário para o trabalho infantil nas fábricas.

a lei determinava que os trabalhadores entre nove e treze anos deviam freqüentar a escola por duas horas diárias e apresentar comprovante de freqüência escolar. Porém. Por outro lado. o sistema de turnos. de jornadas com mais de sete horas sucessivas ou dez horas em dias alternados. nova legislação reduz para oito anos a idade mínima para o trabalho fabril. estabeleceu-se 9 horas como teto para a jornada diária e quarenta e oito horas para a jornada semanal 130. insatisfeitos. 131 Somente em 1837 passou a vigorar legislação pertinente ao registro de nascimento. muitos proprietários. na luta por melhores condições de trabalho. 130 A lei previa um período de transição de 2 anos e meio para a implantação deste dispositivo. mas era proibido o trabalho noturno (entre as 20h30 e as 5h30) para todos os menores de 18 anos. simplesmente. no Parlamento. pelo valor irrelevante das multas que caberiam aos proprietários em caso de descumprimento da lei. Entrementes. recorrendo à fraude. para menores de treze anos. Apesar da figura do fiscal nomeado – outra inovação da lei -. assinado pelo professor (voucher). Assim. as associações operárias continuavam a agitação para a criação de uma Ten Hours Bill para todos os operários. Essa lei inovou também ao estabelecer um intervalo mínimo de uma hora e meia para as refeições. facilitada pela ausência de obrigatoriedade de registros de nascimento131. Além disso. Em 1844. pelo que os inspetores não se poderiam certificar do seu horário laboral”. inicialmente. além das mulheres. Para as crianças entre 9 e 13 anos. Além do que. os reformadores adotaram. e proíbe a ocupação de crianças na limpeza das máquinas em movimento. de modo que. a restrição limitava-se às crianças de 9 a 11 anos. a fiscalização do cumprimento dos seus preceitos restou dificultada. cooptação de médicos e fiscais e. 198 . 71).MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE atestado comprovando a idade do empregado. sua obrigatoriedade dar-se-á apenas nos idos de 1870. inclusive. limita a seis horas e meia ou sete horas a jornada diária das crianças com idade entre oito e treze anos. reagiram demitindo em massa as crianças ou. p. estabelece a proibição. “as crianças e os jovens eram obrigados a trabalhar em vários turnos. Os adolescentes poderiam submeter-se a jornadas de doze horas diárias e sessenta e nove horas semanais. diante da hostilidade dos proprietários fabris. pois os proprietários fabris estabeleceram o mecanismo do sistema de turnos. que generalizou-se de inúmeras maneiras. esclarece Vigário (2004. Os parcos resultados concretos dos dispositivos legais forçavam os trabalhadores ao exercício permanente da agitação. a tática de restringir suas exigências aos dispositivos que beneficiavam.

adultos. de 1864. para os objetivos deste trabalho. extensão dos direitos para trabalhadores de outras indústrias. Essas leis estipularam. A lei também ampliou a segurança em relação à limpeza das máquinas. Em 1891. indiretamente. entre outros dispositivos. para catorze anos. tornava difícil a fiscalização e. além das têxteis. outras leis fabris foram promulgadas pelo Parlamento da Inglaterra: Leis de 1856. ou das sete às 19 horas – repercute. Entretanto. de 1867.como com um possível adensamento das revoltas proletárias. em 1920. que não encontrava. entendeu-se desnecessário comentá-las. previsão legal para eles. Em 1850 aprova-se nova lei. crianças e jovens – das seis às dezoito horas. uma vez que era oneroso para o proprietário fabril manter as máquinas em funcionamento nos demais horários somente com a mão-de-obra masculina. em 1901 para doze anos e. A pressão popular. Assim. o funcionamento das máquinas por 15 horas seguidas. bem como o sistema de turnos. ainda.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE os jovens com menos de 18 anos. sob o ritmo e a intensidade da maquinaria impõe um debate cujo conteúdo é notadamente original: a relação entre as condições e 132 De 1850 a 1878. ao estipular as horas de início e término da jornada de trabalho das mulheres. Essas condições deveriam ser comprovadas por atestados médico e escolar. com o eventual apoio de setores do capitalismo emergente. logo. regulamentação das funções de fiscalização. A exploração da força de trabalho. cuja relevância reside no fato de que. condições de higiene e segurança do trabalho. na jornada dos trabalhadores homens. e para as oficinas. a idade foi ampliada para onze anos. logrou arrancar alguns dispositivos protetivos que obrigaram a sociedade a debruçar-se sobre a questão das diferenças entre crianças e jovens. finalmente. de 1871. Por esta razão. proibindo agora que crianças limpassem também as partes fixas do maquinário em movimento. Uma lei de 1874 elevou para dez anos a idade mínima para o trabalho. o cumprimento desse dispositivo legal. Não obstante. educação suficiente e aptidão física.com um contingente de trabalhadores suficiente para pressionar para baixo salários e garantir a substituição contínua de mão de obra . os homens acabaram se beneficiando de uma jornada de dez horas. a Lei de 1847 – a Lei das Dez Horas – limitou para 10 horas diárias a jornada de trabalho das mulheres e dos jovens operários. 199 . etc. preocupados tanto com a reprodução do exército de reserva . a Lei de 1878 132 estabeleceu três condições para o ingresso no trabalho: idade adequada. Ampliando as restrições ao emprego de crianças. em relação aos homens adultos.

aviltando mesmo as mínimas condições de preservação física e psíquica das crianças e jovens. 1981. Vol. um componente fundamental da construção das categorias criança e adolescente nos marcos da modernidade. JULIA. Philippe. a menos que. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES. A partir daí. 2 ed. 1985. ao exigir que a sociedade. Campinas/SERVIÇO PÚBLICO : Autores Associados. Paris: Seuil. A Produção da Escola Pública Contemporânea. D. BECKER. a recomposição do exército de reserva. Campo Grande/MS : Ed. para além de uma definição jurídica das fases da vida. ao mesmo tempo em que naturalizam-se “idades da vida”. Gilberto Luiz. se obrigasse a definir limites para a imposição de condições excessivamente deletérias aos trabalhadores. adolescentes e adultos com referência em mero critério etário e desta forma. E. nos embates travados pela redução da jornada de trabalho. 200 . Rio de Janeiro : LTC Editora. São Paulo: Brasiliense. Histoire de l´enfance em occident. de modo a garantir. 1998. 159. Incorporado à legislação.. a legislação passa a definir crianças. Quando adultos. oculta-se que a definição dessas idades se impõe pelo caráter destrutivo que o trabalho assume sob as relações capitalistas de produção. o marco etário com que se simbolizam aqueles limites passa a ser tomado pela coisa simbolizada. UFMS. Tradução de Dora Flaksman. ao menos. Encontrou-se tal garantia preservando-se minimamente os brotos da vida. O que é adolescência? Coleção Primeiros Passos. 2001. Daniel.gerar a prole para renovar a força de trabalho – serão novamente expostos a níveis sempre crescentes de intensificação do ritmo de exploração do trabalho. A luta proletária pela legislação fabril constitui. e em condições de cumprir uma de suas funções sob o capital . História Social da Criança e da Família. ARIÈS. se construa uma nova fase para a vida de toda a humanidade. assim.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE limites da intensificação da exploração da força de trabalho e “as idades da vida”. BECCHI.

Franco. Maria Rita de Assis. São Paulo. História da Educação: da Antiguidade a nossos dias. 2003. Uma história da infância: da Idade Média à época contemporânea no ocidente. Porto Alegre: Mediação. Vol. Revista Brasileira de História. Mário João. 2008. São Paulo: Publifolha. C. Tradução de B. MARX. 201 . Trois observations sur la sociologie de l´enfance. São Paulo : Editora UNESP. MAUSS. O Capital (Crítica da Economia Política). MANACORDA. História da Pedagogia. 1982b. 2. 1998. ____O Capital (Crítica da Economia Política). ENGELS. Tradução de Álvaro Lorencini. A. FIGUEIREDO. Carlota. Tradução de Reginaldo de Santana. São Paulo : Boitempo. 2008. nº 40. A Configuração Econômica do Estado na Sociedade Capitalista Contemporânea. A situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra. 2004. 20. C. CÉSAR. São Paulo : Cortez. Livro 1: O Processo de Produção do Capital. São Paulo : Difel. Schumann.MARXISMO & CIÊNCIAS HUMANAS: LEITURAS SOBRE O CAPITALISMO NUM CONTEXTO DE CRISE BOTO. A Invenção da Adolescência no Discurso Psicopedagógico. 2009. Porto alegre: Artmed. 2001. 1996. Curitiba. 21. Livro 1: O Processo de Produção do Capital. CALLIGARIS. V. M. São Paulo : Difel. 1982. 1999. M. Mário Alighiero. A adolescência. 2006. Tese (Doutorado em Economia) – Pós-Graduação em Economia. 169 f. 237-264. Tradução de Reginaldo de Santana. Karl. São Paulo: Editora UNESP. Universidade Federal do Paraná. 1. Friedrich. Crianças à prova da escola: impasses da hereditariedade e a nova pedagogia em Portugal da fronteira entre os séculos XIX e XX. HEYWOOD. Infância e educação infantil: Uma abordagem histórica. Vol. CAMBI. p. Gradhiva. Tradução de Gaetano Lo Mônaco – 12 ed. KUHLMANN JR.

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BR .JUVEVÊ CURITIBA .IMPRENSA.PARANÁ .BR IMPRENSA@UFPR.UFPR. 650 .BRASIL WWW.ESTA OBRA FOI IMPRESSA PELA IMPRENSA DA UFPR RUA BOM JESUS.

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