Superando o Turismo

Hakim Bey

Nos Velhos Dias o turismo n˜o existia. Ciganos, Tinkers1 e outros nˆmades de verdade a o at´ hoje vagam por seus mundos ` vontade, mas ningu´m iria por isso pensar em cham´-los e a e a de ”turistas”. O turismo ´ uma inven¸˜o do s´culo 19 – um per´ e ca e ıodo da hist´ria que algumas vezes o parece ter se alongado em uma dura¸˜o n˜o natural. De v´rias formas, n´s ainda estamos ca a a o vivendo no s´culo 19. e O turista procura Cultura porquˆ – no nosso mundo – a cultura desapareceu no bucho e do Espet´culo, a cultura foi destru´ e substitu´ por um shopping ou um talk-show – a ıda ıda porquˆ a nossa educa¸˜o ´ nada mais que a prepara¸˜o para uma vida inteira de trabalho e ca e ca e consumo – porquˆ n´s mesmos cessamos de criar. Embora os turistas pare¸am estar e o c fisicamente presentes na Natureza ou na Cultura, na verdade pode-se cham´-los de fantasa mas assombrando ru´ ınas, sem nenhuma presen¸a corp´rea. Eles n˜o est˜o l´ de verdade, c o a a a mas sim movem-se por uma paisagem mental, uma abstra¸˜o (”Natureza”, ”Cultura”), ca coletando imagens mais que experiˆncia. Muito freq¨entemente suas f´rias s˜o passadas e u e a em meio ` mis´ria de outras pessoas e at´ somam-se a essa mis´ria. a e e e Recentemente algumas pessoas foram assassinadas no Egito s´ por serem turistas. o Contemple... o Futuro. Turismo e terrorismo – qual ´ mesmo a diferen¸a? e c Das trˆs raz˜es arcaicas para viagens – chamemos elas ”guerra”, ”troca”e ”peree o grina¸˜o-- qual deu ` luz o turismo? Alguns responderiam automaticamente que deve ca a ser a peregrina¸˜o. O peregrino vai ”l´”para ver, o peregrino normalmente traz na volta ca a algum souvenir; o peregrino ”d´ um tempo”na vida di´ria; o peregrino tem objetivos a a n˜o-materiais. Assim, o peregrino antecipa o turista. a Mas o peregrino passa por uma mudan¸a na consciˆncia, e para o peregrino essa c e mudan¸a ´ real. Peregrina¸˜o ´ uma forma de inicia¸˜o, e inicia¸˜o ´ uma abertura para c e ca e ca ca e outras formas de cogni¸˜o. ca Podemos detectar algo da diferen¸a entre o peregrino e o turista, contudo, comparando c seus efeitos nos lugares que visitam. Mudan¸as em um local – uma cidade, um santu´rio, c a uma floresta – podem ser sutis, mas pelo menos podem ser observadas. O estado da alma pode ser uma quest˜o de conjectura, mas talvez possamos dizer algo sobre o estado do a (aspecto) social. Locais de peregrina¸˜o como Meca podem servir como grandes bazares para troca. E ca eles podem at´ servir como grandes centros de produ¸˜o, (como a ind´stria da seda em e ca u Benares) – mas seu ”produto”prim´rio ´ baraka, ou maria. Essas palavras (uma ´rabe, a e a 1

invis´ ao olhar ”profano”. sempre h´ mais. Ent˜o o turista deixa o espa¸o homogˆneo do ”lar”pelo espa¸o heterogˆneo a c e c e dos ”climas estrangeiros”n˜o para receber uma ”ben¸˜o”. aparente. mas elas tamb´m levam uma e a ca e carga de outros significados. cheiro. O Senhor!” Todos esses motivos s˜o reunidos pela palavra baraka. Quanto maior a demanda por bens espirituais. E agora – depois de 20 ou 30 anos de turismo – esse significado se perdeu. um dado lugar sagrado tenha atra´ milh˜es de e ıdo o peregrinos – e ainda assim. paisagem. mas na guerra. Quando ela acaba. O dervixe errante que dorme em um santu´rio para sonhar com um santo morto (um a do ”Povo das Tumbas”) procura inicia¸˜o ou avan¸o no caminho espiritual. mas diferen¸a cultural. o turista n˜o deseja baraka. e quando a Cidade o e Sagrada entra no campo de vis˜o das caravanas o hajji entoa ”Labbaika Allabumma!-a ´ ”Eu estou aqui. Ela ´ real o bastante para e a a e a e aqueles que a sentem. social. Quanto mais ela ´ desgastada ou levada embora. maior a oferta. sutil. Na vera a dade. mas simplesmente para admirar a ca o pitoresco. O santu´rio a a a a produz baraka. apesar de toda a contempla¸˜o e admira¸˜o ca ca e reza e compra de souvenirs – o lugar reteve seu significado. uma mulher sem filhos no Marrocos c espera que o Marabout 2 a torne f´rtil se ela amarrar um trapo na velha ´rvore que cresce e a sobre a cova. Mas essa diferen¸a permanece c c intang´ ıvel. econˆmica. vis´ e a ıvel. s´ certa quantia de diferen¸a. ca c a e a e a ´ Tem ra´ ızes na linguagem. menos sobra. Mas bens espirituais n˜o seguem as regras de oferta e demanda a como os bens materiais. Aonde ele foi? Como isso aconteceu? As verdadeiras ra´ ızes do turismo n˜o se encontram na peregrina¸˜o (ou mesmo na a ca troca ”justa”). a a c c O turista consome diferen¸a.outra polin´sia) s˜o usualmente traduzidas como ”ben¸˜o”. Dizer que baraka ´ ”imagin´ria”n˜o ´ cham´-la de ”irreal”. Ela n˜o ´ ”meramente”imagin´ria. o viajante para Meca anseia pelo pr´prio centro da F´. E o peregrino leva embora. Estupro e pilhagem foram as formas originais de turismo. ca e Em contraste. E muito f´ ısica. Mas ben¸˜o ´ um produto da Imagina¸˜o ca e ca – e assim n˜o importa quantos peregrinos levem-na embora. A produ¸˜o de baraka ´ infinita. imagin´ria. de algum modo. ´ mensur´vel. mais ben¸˜o o santu´rio pode produzir (pois um santu´rio ca a a popular cresce com cada prece atendida). como a ca urubus humanos procurando em meio ` carni¸a do campo de batalha por um butim a c imagin´rio – por imagens. A diferen¸a cultural. O peregrino – poa c demos dizer – deixa o ”espa¸o secular”do lar e viaja para o ”espa¸o sagrado”do santu´rio c c a para experimentar a diferen¸a entre ”secular”e ”sagrado”. a 2 . acaba. os primeiros turistas seguiram diretamente rumo ` agita¸˜o da guerra. Ela n˜o pode imaginar ca a a nada diferente. material. que `s vezes parece ser uma a a substˆncia palp´vel. costume. talvez. c Mas a produ¸˜o de diferen¸a cultural n˜o ´ infinita. para ver a diferen¸a. ıvel a c contudo. gosto. quanto mais eles levam. ou melhor. arquitetura. uma m˜e ca c a que leva uma crian¸a doente a Lurdes procura cura. o A imagina¸˜o do ”primeiro mundo”capitalista est´ exaurida. o c No decorrer dos s´culos. mensur´vel em termos de aumento de carisma ou ”sorte”. O social pode produzir s´ e o certa quantia de ”significado”. espiritual. a mera vis˜o ou instantˆneo da diferen¸a.

de desprezo-ao-corpo e transcendˆncia do corpo. Vocˆ compra turismo – vocˆ leva nada al´m de imagens. E o Cargo e e Cult3 definitivo – a adora¸˜o de ”bens”que nunca chegar˜o. imagens. em que toda imagem ´ interpretada por um especialista licenciado. imagens. entre-espa¸o – o espa¸o da c c c c pr´pria viagem. eles s˜o gˆmeos.O turismo surgiu como um sintoma de um Imperialismo que era total – econˆmico. tudo no plano do esp´ a o ırito puro. e que a e a multiplicidade de cˆmeras. mas sim o lugar-sem-lugar c a e ca o (literalmente a ”utopia”) do espa¸o mediano. ` deriva num mar de a a a imagens. A e e ”viagem”tur´ ıstica definitiva ter´ lugar no Cyberespa¸o. De uma forma estranha. Ent˜o o turista e o terrorista – esses fantasmas gˆmeos dos aeroportos da abstra¸˜o a e ca – sofrem uma fome idˆntica pelo autˆntico. a e Nada nunca realmente toca a vida de um turista. Todo ato do turista ´ mediado. um Virg´ virtual no Inferno da ausˆncia de ılio e sentido – um funcion´rio menor do Discurso Central e sua metaf´ a ısica da apropria¸˜o – ca um cafet˜o de ˆxtases n˜o-corp´reos. e um condutor de almas ou guia dos Mortos. Para sua mis´ria secreta. Mas o autˆntico se retira sempre que eles se e e e aproximam. Ambos s˜o gente sem lugar. videocˆmeras e gravadores forma um complexo de brilhantes a a e clicantes escamas em uma armadura de media¸˜o pura. e o o ´ O turismo ´ a apoteose e a quintessˆncia do ”Fetichismo da Mercadoria”. O turista destr´i significado. e Qualquer um que j´ tenha estemunhado uma falange de americanos ou japoneses que a encheriam um ˆnibus avan¸ando sobre alguma ru´ ou ritual deve ter notado que at´ o c ına e o olhar coletivo deles ´ mediado pelo meio do olho multi-facetado da cˆmera. ou a dimens˜o maquinal do avi˜o ou o ca a a o ˆnibus. ´ uma forma de Gnose. ca a elevados ` gl´ria. os instantˆneos e souvenirs. soltos de todas as ˆncoras. deificados. Nada orgˆnico penetra essa caca a rapa¸a inset´ide que serve tanto como casca protetora quanto como mand´ c o ıbula predadora. O que ´ realmente incr´ ´ que t˜o poucos turistas tenham sido assassinados por tal e ıvel e a m´ ısero punhado de terroristas. porque foram exaltados. E os atos do turista existem apenas nas imagens desse ato. adorados e absorvidos. abocanhando imagens. No seu extremo essa media¸˜o toma a forma ca do passeio guiado. sobrevive apenas um espasmo de crueldade sem sentido. Um abismo de imagens os separa dos objetos o de seu desejo. de outro modo nada resta a n˜o ser as cobran¸as a a c em cartas de companhias de cart˜o de cr´dito e um res´ a e ıduo de ”milhas gr´tis”de alguma a companhia a´rea em colapso. a e a o O verdadeiro espa¸o do turista n˜o ´ a loca¸˜o do ex´tico. e ser´ CyberGnose – uma ida e a c a volta ao parinirvana no conforto de sua pr´pria ”central de trabalho”. a abstra¸˜o industrial do aeroporto. como a Realidade e e e Virtual. Terra pra tr´s! a O modesto objetivo desse livrinho ´ se dirigir ao viajante individual que decidiu resistir e 3 . O ato terrorista exista apenas na imagem do ato – sem a CNN. espa¸o limiar. O terrorista e o turista s˜o talvez os mais alienados de todos e a os produtos do capitalismo p´s-imperial. al´m e do fedor da mortalidade (ou moralidade). Turismo. tudo o que eles podem e fazer ´ destruir. Pluga a´ deixa a o ı. Cˆmeras e armas ficam no caminho daquele momento de amor que ´ o sonho a e escondido de todo terrorista e turista. o pol´ ıtico e espiritual. Talvez uma cumplicidade secreta exista entre esses reflexos opostos. e o terrorista destr´i o turista.

c e diligˆncia. N´s sabemos disso. embora mal. como Ibn Battuta e Naser Khusraw. a Suspeitamos que muito embora a viagem no mundo moderno parece ter sido apropriada pela Mercadoria – muito embora as redes de reciprocidade convivial pare¸am ter sumido c do mapa – muito embora o turismo pare¸a ter vencido – ainda assim – n´s continuamos a c o suspeitar que outros caminhos ainda persistem. N´s n˜o apenas desdenhamos o turismo por sua vulgaridade e sua injusti¸a. Talvez os maiores e mais sutis praticantes da arte da viagem tenham sido os sufis. n´s n˜o apenas ”suspeitamos”disso. co a a N˜o h´ muito tempo atr´s ainda existia um costume entre ilh´us do Mar do Sul de a a a e viajar vastas distˆncias por canoas apoiadas por b´ias. os m´ ısticos do Isl˜. o mundo islˆmico. e por isso o a c desejamos evitar qualquer contamina¸˜o (consciente ou inconsciente) por sua virulˆncia ca e viral – n´s tamb´m ousamos entender a viagem como um ato de reciprocidade mais que o e de aliena¸˜o. N´s sabemos o a o o que existe uma arte da viagem. N´s aprendemos isso dos contos de certos viajantes. rotas de contrabandistas para esp´ ıritos livres. n˜o-oficiais. Algu´m sempre falava ´rabe. na forma de potlach4 ou trocas rituais. Em outras palavras. a Os grandes viajantes islˆmicos medievais. conhecidos apenas pelas guerrilhas geomˆnticas5 da arte da viagem. ainda sentimos que uma melhora pode ser c poss´ ıvel. Ler os contos de Sinbad o Marujo (das 1001 Noites) nos d´ a impress˜o de um mundo onde at´ a terra incognita era est´tica – a a e a 4 . a Na verdade. bazares. N´s gostar´ o ıamos de saber se a viagem pode ser realizada de acordo com uma economia secreta de baraka.caminhos ainda ligados ` possibilidade de uma e a economia do Presente. os sufis perambulavam descal¸os em um mundo onde fronteiras a c tendiam a ser mais perme´veis que hoje em dia. h´spede e anfitri˜o – uma forma c o a de sinergia inter-cultural em que o todo excede a soma das partes. n˜o marcadas a a no mapa. do dar e receber. camelos. houve uma Era do Presente. da recio procidade. gra¸as ao transnacionalismo do Isl˜ e ` a c a a unidade cultural do Dar al-Islam. n´s n˜o desejamos meramente evitar as negatividades ca o a do turismo. e resgistraram suas observa¸˜es de pr´ticas t˜o estranhas. mas ainda mais atingir a viagem positiva.ao turismo. talvez at´ mesmo ”secretas-. sem compasso ou sextante. que visualizamos como uma rela¸˜o ca produtiva e mutuamente aperfei¸oadora entre eu e outro. imuniza¸˜es. e a cultura islˆmica permeava os e e a a mais remotos lugarejos. linhas a´reas e outros impea co e dimentos ` viagem livre. deixaa ram registros de v´rias jornadas – da P´rsia ao Egito. Ainda que no fim n´s descubramos ser imposs´ ”purificar”n´s mesmos e nossa vio ıvel o agem de toda mancha e tra¸o do turismo. ou mesmo do Marrocos ` China a e a – que nunca sa´ ıam de uma paisagem de desertos. n´s sabemos. outras estradas. Antes da era dos passaportes. com o a o fim de trocar presentes valiosos e in´teis (objetos de arte cerimoniais ricos em mana) de u ilha a ilha num padr˜o complexo de reciprocidades sobrepostas. embora superficialmente. pra¸as de caravana. de acordo com a qual n˜o apenas o templo mas tamb´m os peregrinos a e tenham ”ben¸˜os”a aspergir. que o encontraram restos do mundo do Presente entre certas tribos. ca Antes da Era da Mercadoria.

centenas ou at´ milhares de uma e e vez. A primeira categoria inclui Ibn Battuta (que colee cionou inicia¸˜es sufi da forma que alguns cavalheiros ocidentais j´ colecionaram graus co a ma¸ˆnicos). a Grande Terra de Deus e tudo nela s˜o ”sagrados”. Dentro dessa unidade. os dervixes representam a espiritualiza¸˜o do nomadismo a e ca puro. mas o Isl˜ ´ virtualmente inimagin´vel sem a ae a ela. o e o o e diz o sufi Saadi. De acordo com o Cor˜o. pelo Egito e e at´ Meca e finalmente at´ Damasco. a Extra-oficialmente existiam dois tipos b´sicos de perambula¸˜o sufi: o tipo ”cavalheiroa ca acadˆmico”. os sufis formaa a vam uma classe especial de viajantes. o pr´prio Isl˜ nasce entre duas o a jornadas . ou ”texto de viagem”(um gˆnero reconhecido da literatura islˆmica). que ainda n˜o era uma uniformidade. de algum modo islˆmica.apesar de todas as maravilhas e estranhezas – de algum modo familiar. e O pr´prio Maom´ exemplifica cada tipo de viagem no Isl˜: – sua juventude com o e a as caravanas do Ver˜o e do Inverno. Embora um l´ ıder urbano. ”Educar”´ ”indicar a sa´ e ıda”. ou autobiografia. Ainda mais.um e ıno e o o a ”´rf˜o”. n˜o a a a apenas como cria¸˜es divinas mas tamb´m porquˆ o mundo material est´ cheio de ”inco e e a dicadores”. suas campanhas como a guerreiro. At´ hoje dervixes perambulam por todo o mundo islˆmico – mas at´ o e a e s´culo 19 eles perambulavam em verdadeiras hordas. e o dervixe mendicante. como mercador. mas um grande n´mero deles tomou as exorta¸˜es do Profeta bem o u co literalmente. um ”h´spede tempor´rio6-. e n˜o muito bem a a a peregrinos ordin´rios tamb´m. Alguns sufis podem ter feito todas as suas viagens no Mundo Imagin´rio dos sonhos a arquet´ ıpicos e vis˜es. e e ca a c e a peregrina¸˜o anual tem cumprido papel vital n˜o apenas na unidade religiosa do Isl˜. e – num n´ muito mais s´rio – o ”Maior Xeque”Ibn Arabi. Desde o in´ o Isl˜ eleva a viagem sobre todo o utilitarismo ”mundano”e d´ a ela uma dimens˜o ıcio a a a epistemol´gica ou at´ mesmo gn´stica. que puderam ser coletados de seus volumosos escritos para formar um tipo de rihla. ele tamb´m e ´ o profeta do bedu´ e ele mesmo ´ um tipo de nˆmade. ou sinais de realidade divina. Toda o a religi˜o santifica a viagem em algum grau. seu triunfo como um humilde peregrino. que circulou co ıvel e ´ lentamente pelo s´culo 13 de sua nativa Espanha atrav´s do norte da Africa. ”A j´ia que nunca deixa a mina nunca ´ polida”. 5 . e a e mas Ibn Arabi procurou apenas os mais altos segredos do esotericismo e as mais elevadas ”aberturas”para o mundo da ilumina¸˜o divina. n˜o mercadores. mesmo longe como a China”. de Meca. N˜o guerreiros. Todos em busca de conhecimento. ca a a mas tamb´m em sua unidade cultural. e cobriam vastas distˆncias. e e Na verdade Ibn Arabi deixou registros de sua procura por santos e aventureiros na estrada. e a Acadˆmicos comuns viajaram ` procura de textos raros sobre teologia ou jurisprudˆncia. ou viagem de volta. a hijra de Maom´ (ou ”vˆo”de Meca a Medina) e sua hajj. O Profeta disse: ”Procure o conhecimento. para ele toda ”jornada aos horizontes ca exteriores”era tamb´m uma ”jornada aos horizontes interiores”da psicologia espiritual a e da gnose. dar ao pupilo uma perspectiva al´m da e paroquialidade e mera subjetividade. e o A hajj ´ o movimento em dire¸˜o ` origem e centro para cada mu¸ulmano at´ hoje. Dessa perspectiva a viagem quase pode ser vista como um sacramento.

alguns ca o a a s˜o simplesmente mendigos – mas um n´mero surpreendente deles parece ser gente de a u sucesso. carregando suas tigelas de esmola. transformaram a viagem em um tipo de coreografia em tempo integral. o e a 6 . coincidˆncias. gente de auto-realiza¸˜o.Das vis˜es que experimentou em Meca.. E e qualquer um que j´ tenha experimentado isso testemunhar´.. e tamb´m deixou esbo¸os preciosos de centenas de seus co e c contemporˆneos. Manuais elaborados de deveres para dervixes foram produzidos. mas o Isl˜ gerou d´zias. intui¸˜es. a viagem intencional imedia a atamente exp˜e uma pessoa a essa influˆncia ”m´gica”. Tal for¸a pode ser chamada de uma vis˜o de mundo c a ”m´gica”. como a dos Naqshbandis. Vestidos de maneira colorida. outras fizeram uma regra de nunca dormir duas vezes no mesmo lugar. ou baraka. a Hajj). ordens como a a dos Nematollahis da P´rsia do s´culo 19 cresceram a propor¸˜es que alarmaram sult˜es e e co o e te´logos – muitos dervixes foram executados por ”heresia”. onde seus desligamentos da ortodoxia incluem a aprecia¸˜o pela maconha e o sincero ´dio ao trabalho. de coincidˆncias cheias de significado e ”descobertas”. machados e estandartes. como um deles chamava – uma distra¸˜o de popor¸˜es boˆmias – um ”cair fora”ao mesmo tempo esca co e candaloso e completamente tradicional. na qual todo movimento era pr´-ordenado e feito para e aperfei¸oar a consciˆncia. incluindo m´todos para tornar a viagem numa forma de medita¸˜o muito espec´ e ca ıfica. Todo o pr´prio o ”caminho”sufi foi simbolizado em termos de uma viagem intencional. ”aventuras”como aquelas que ca e co inspiraram as viagem dos cavaleiros arturianos. o imortal e desconhecido profeta. apenas. para resgat´-los do deserto ou para inici´-los. de certa maneira..) e O Cristianismo j´ incluiu umas poucas ordens de mendicantes andarilhos (de fato. Alguns s˜o charlat˜es. (Ele apareceu pela primeira vez no Cor˜o como um andarilho misterioso e o a companheiro de Mois´s no deserto. talvez centenas dessas ordens. devotos da m´sica e da dan¸a. como posso colocar isso?. que a podem tˆ-lo presenteado com uma ”t´nica de inicia¸˜o-. santos e ”Mestres Escondidos”. pode ser chamado de santo padroeiro dos dervixes viajantes – e seu prot´tipo.a famosa t´nica de retalhos que e u ca u ele usava quando voltou ` It´lia) -. as orden mais heterodoxas (como a dos Qalandars) adotaram uma ”regra”de total espontaneidade e abandono – ”desemprego permanente”.. Ibn Arabi gozou de uma rela¸˜o especial com o ca Khzer. outros envolviam a espera pela apri¸˜o de ”sinais”. a S˜o Francisco organizou uma depois de encontrar com dervixes na Terra Sagrada. o ”Homem Verde”. c Todos os tipos diferentes de sub viagem que descrevemos s˜o unidos por certas for¸as a c estruturais e vitais compartilhadas. a ”viagem por conhecimento”tamb´m foi regularizada e ca e organizada. Algumas ordens limitavam o tempo gasto em um lugar a 40 dias. a a a u Enquanto o Sufismo cristalisava da frouxa espontaneidade dos primeiros dias para uma institui¸˜o com regras e graus. Em alguns casos itiner´rios eram fixados (por exemplo. ele escreveu um trabalho de 12 voo lumes (As revela¸˜es de Meca). As ordens severas. que algumas vezes aparece para sufis andarilhos em dificuldade. despreocupau c dos e alegres (algumas vezes ao ponto de serem dignos de repreens˜o!). c e Em contraste. dos maiores fil´sofos da ´poca a humildes dervixes e ”loucos”. mulheres a o e anˆnimas. marcada por uma distinta ca aura de gra¸a. Hoje os verdadeiros Qalano dars sobrevivem principalmente na ´ India. Kha a zer. uma percep¸˜o da vida que rejeita o ”meramente”aleat´rio em favor de uma a ca o realidade de sinais e maravilhas.

mas isso n˜o e a tem nada a ver necessariamente com ”belas artes”ou com ser letrado.Um psic´logo poderia explicar esse fenˆmeno (com adora¸˜o ou com desd´m reducioo o ca e nista) como ”subjetivo”. E se algu´m se der ao trabalho de dominar algumas das formas tradicionais e do adab. ´ um ato merit´rio. na utiliza¸˜o moderna ca o Departamento de ”Artes e Letras”em uma Universidade seria chamado de Adabiyyat. No sufismo. Nesse sentido o dervixe comparilha ca a tanto os privil´gios quanto as responsabilidades do h´spede. e esse mais ´ o sinal inconfund´ a a ca e ıvel da presen¸a do Presente. Para o bedu´ essa rela¸˜o ´ quase uma forma de a ıno ca e clientagem: – o partir do p˜o e a partilha do sal constituem uma forma de rela¸˜o familiar. nessas sociedades. enquanto o crente pio o tomaria como literal. nesse sentido. Ter adab. ca a A sociedade islˆmica ret´m no m´ a e ınimo uma liga¸˜o sentimental com essas regras. Ser um anfitri˜o. em e o ca e sociedades nas quais ideais de hospitalidade ainda n˜o desapareceram da ”mentalidade a coletiva”. Do ponto de vista do pensador bi-dimensional (cient´ ıfico ou religioso) tal paradoxo cheira a proibido. O e verdadeiro viajante ´ um h´spede e por isso serve a uma fun¸˜o muito real. nem ´ suficiente em si mesma. Em inglˆs. O viajante deve consentir em a a e ca uma ado¸˜o tempor´ria – menos que isso seria uma ofensa ao adab. ´ ser ”polido”(como aquela gema bem viajada) -. O turista o e o ´ um parasita – pois nenhuma quantia de dinheiro pode pagar por hospitalidade. e no caso a ıvel de viagem essas maneiras s˜o baseadas nos costumes antigos dos nˆmades do deserto. Ent˜o. e o A hospitalidade bedu´ ´ uma n´ ına e ıtida sobrevivente da economia primordial do Presente – uma rela¸˜o de reciprocidade. um ”hospedeiro”(host) pode ter h´spedes – ou parasitas. ser um h´spede a e o a o ´ tamb´m conferir m´rito. Do ponto de vista do Sol nenhuma interpreta¸˜o domina a outra. e empreg´-las com sinceridade vinda do cora¸˜o. peculiar a uma cultura e a espec´ ıfica. at´ hoje. mas o dervixe reverte o fluxo e traz baraka a um lugar. Agora o turismo em sua pr´pria estrutura quebra a reciprocidade entre anfitri˜o e o a h´spede. ou com ser um 7 . Em um n´ adab significa simplesmente ”boas maneiras”. mas complementos. etc). o do h´spede em tempo integral. O andarilho deve ser aceito (o dervixe deve ser ca alimentado) – mas por isso o andarilho assume o papel prescrito pelo costume antigo – e deve dar algo em troca ao anfitri˜o. Na peregrina¸˜o comum o ca viajante recebe baraka de um lugar. para explicar ca e as maravilhas do Caminho. o ”objetivo”e o ”subjetivo”n˜o s˜o considerados a a opostos. Outra for¸a subjacente a todas as formas de viagem intencional pode ser descrita pela c palavra ´rabe adab. c Outro n´ ıvel de significado da palavra ”adab”a conecta com cultura (j´ que cultura a pode ser vista como a soma de todas as ”maneiras”e costumes). a ca Gratid˜o n˜o ´ uma rea¸˜o suficiente a tal generosidade. ent˜o tanto h´spede como a ca a o anfitri˜o ganhar˜o mais do que colocaram na rela¸˜o. O dervixe o retribui o presente da sociedade com o presente da baraka. e ca por isso cria um nicho especial para o dervixe. O sufi pode pensar em si mesmo (ou si mesma) como um peregrino permanente – mas para o povo comum e caseiro do mundo cotidiano o sufi ´ um tipo de santu´rio e a (per)ambulante. para a o quem perambula¸˜o e hospitalidade s˜o atos sagrados. e e e O viajante moderno que ”pega”o esp´ ırito simples dessa rela¸˜o ser´ perdoado dos ca a muitos lapsos no intrincado ritual do adab (Quantas x´ ıcaras de caf´? Onde se p˜e os e o p´s? Como ser divertido? Como demonstrar gratid˜o?.

falso espet´culo. eles s˜o ”um-.E. contudo. eventos. da inferioridade e do ascetismo ou a ca auto-nega¸˜o. Mas e ca modos insinceros (ta’arof. ela responco deu: ”Venham para dentro da casa e vejam-nas”. O dervixe viaja. grosseria. por assim dizer. Ela estava simplesmente manifestando um certo tipo de gra¸a c espec´ ıfica. Mas a aqueles que dizem que o dervixe abandonou ”esse mundo-. Os verdeiros h´spedes e anfitri˜es nunca a o o fazem um esfor¸o ´bvio para cumprir as ”regras”da reciprocidade – eles podem seguir o c o ritual criteriosamente ou podem mudar os modos criativamente. a santa de Basra. por assim dizer. foi convocada para sair de sua casa e ”testemunhar as maravilhas das cria¸˜es de Deus”. nossa consciˆncia mundana.7) De modo a apreciar os m´ltiplos indicaa e u dores da Grande Terra precisamente como o desenvolvimento dessa generosidade. ”Contra¸˜o”e ca a ca ”Expans˜o”s˜o ambos termos sufi para estados espirituais. simultaneamente. a ca ca a discurso vazio.da falsidade social e negatividade. da unidade que est´ acima da pluralidade da realidade. E uma quest˜o do ”cora¸˜o”. tanto no mundo material como no ”Mundo da Imagina¸˜o”. Ele de fato procura a Expans˜o. manifesta um estado mais t´ ıpico do Isl˜ em suas energias a mais exuberantes. O prop´sito da o viagem intencional.e s´ nosso stado de desaten¸˜o hipnotizada. das emo¸˜es usur´rias. a qualidade relaxada do povo do Cora¸˜o ca – e para adab espontˆneo. m´ vontade. como os dervixes dizem. Mas para o olho do cora¸˜o esses mundos se interpenetram ca ca em alguns pontos. (Ibn Arabi tem uma ca divertida ”prova”de que esse mundo ´ o melhor mundo – pois. a o ca e nos impede de experimentar essa identidade ”profunda”a todo momento. e Um complemento dessa ”t´cnica”(ou ”Zen”) das rela¸˜es humanas pode ser encontrado e co na maneira dos sufi de se relacionar com o mundo em geral. a O dervixe n˜o ´ um gn´stico dualista que odeia a biosfera (que certamente inclui a a e o imagina¸˜o e as emo¸˜es. como loca¸˜es da passagem do e co brilho da Luz divina. Q. Pode-se dizer que eles se revelam ou ”desvelam”mutuamente. assim como a pr´pria ”mat´ria”). rea¸˜o impulsiva. Ela n˜o era uma dualista que odiava o mundo.a ”Grande Terra de Deus-est˜o enganados. No fim. o sufi cultiva o que pode ser chamado de olhar teofˆnico: – a abertura do ”Olho do Cora¸˜o”`s a ca a experiˆncias de certos lugares. O dervixe viajante. o cora¸˜o). Rabiah estava manifestando a a a Contra¸˜o: um tipo sagrado de melancolia que foi metaforizado como a ”Caravana do ca Inverno”. a co c ”Adab”´ um tipo de amor. com suas ”aventuras”e seu desenraizamento de h´bitos. se n˜o fosse. pessoas. venham para dentro do cora¸˜o e ca da contempla¸˜o. da consciˆncia inautˆntica (”mauco a e e vaise conscience”). objetos.´ urban´ide ou mesmo ”culto”. ´ arrebatar o a e 8 . alegria espiritual baseada na verdaa deira multiplicidade da generosidade divina na cria¸˜o material. isto ´. etc – tudo isso n˜o mais guarda interesse para o dervixe viajante. o a ca ”Adab”´ algumas vezes usado como uma defini¸˜o-em-uma-palavra para cisma. nem mesmo uma puritana ca a moralista inimiga da carne. Os primeiros mu¸ulmanos asca co o e c cetas certamente se fecharam para tudo.D. Quando Rabiah. etc. do retorno ` Meca (o centro. mas em qualquer caso eles dar˜o a suas a¸˜es uma profunda sinceridade quem se manisfesta como gra¸a natural. em persa) e cultura insincera s˜o igualmente evitados pelos a sufi – ”N˜o h´ ta’arof no Tasssawuf (Sufismo)”. ent˜o Deus e a a n˜o seria generoso – o que ´ absurdo. ”Darvishi”´ a a e um adjetivo sinon´ ımico para informalidade. O mundo ”cotidiano-. desaten¸˜o.

indo para a frente. ´ o e para induzir um certo estado de consciˆncia. brilho o a ca o do sol em uma po¸a. em ”feriado perp´tuo”. com um Cora¸˜o aberto. a a 9 . A viagem.. A Caravana do Ver˜o seguia em frente. cercado de infi´is a e e e hostilidade e sofrendo rupturas internas de toda sorte. partindo. de remo¸˜o do musgo da pedra rolante. cada experiˆncia da Natureza pode vibrar a e com a presn¸a de algum ”esp´ c ırito ou lugar”. entretanto. Essa a c latitude aparecia em n´ social como tolerˆncia. ou ”estado espiritual-.dervixe de todos os efeitos hipn´ticos da ordinariedade. Isso soa como um tipo de ”paran´ia-. a a o ca Nos velhos dias (que ainda est˜o acontecendo em algumas partes remotas do Leste) a o Isl˜ pensava em si mesmo como um mundo inteiro. at´ para tais ıvel a c e grupos marginais como dervixes loucos andarilhos.o da Expans˜o. Todo mu¸ulmano deve agora ser o mesmo. at´ o mundano e ordin´rio pode de e a repente ser visto como elevado (como no grande haiku de viagem do poeta Zen japonˆs e Bashˆ) – um rosto na multid˜o ou uma esta¸˜o de trem. o ”os atra´ ıdos”. um ideal de inclus˜o mais que de exclus˜o. em um padr˜o de tolerˆncia e ordem social. Claro que os mu¸ulmanos sempre ”imitaram”o o c Profeta e viram Sua imagem como a norma – e isso agiu como uma poderosa for¸a c unificadora para o estilo e substˆncia dentro do Dar al-Islam. uma sede de conhecimento. mesmo que os disaprovassem. Mas ”hoje em dia”os a puritanos e reformadores esqueceram que essa ”imita¸˜o”n˜o foi dirigida apenas a um ca a mercador do in´ da Idade M´dia chamado Maom´.ocupava uma posi¸˜o central no discurso o ca cultural. um olho atento (e outros sentidos). mas tamb´m ao insan al-kamil (o ıcio e e e ”Homem Perfeito”ou ”Humano Universal”). corvos em fios telefˆnicos.embora o ”metan´ia”talvez seja um termo melhor – e de fato encontra-se ”loucos”entre os dervixes.. Os dervixes agora aparecem como uma diferen¸a a a c intoler´vel na sociedade. E uma medita¸˜o em movimento. ca o ´ Mas a viagem em si pode intoxicar o cora¸˜o com a beleza da presen¸a teofˆnica. Mas a viagem pode a ser usada – isto ´. inundados por influxos divinos. o Isl˜ vˆ a si mesmo com um mundo parcial. Desde o s´culo 19 o Isl˜ perdeu e a sua consciˆncia global e o senso de sua pr´pria vastid˜o e completude. como um poeta c e expressou. um espa¸o com a c grande latitude. dentro do qual o Isl˜ abra¸ava o todo da sociedade e da natureza. j´ que qualquer coisa pode a de repente revelar-se como um sinal. cada pessoa que se encontra age como um ”anjo”. para as ricas tradi¸˜es da a co S´ ıria e do Iˆmen. Hoje em dia. um desejo por ca significado. Por isso o Isl˜ e o a a n˜o pode mais achar facilmente um lugar para todo indiv´ a ıduo e grupo marginalizado. E uma ca c a quest˜o de pr´tica – o polimento da j´ia -. e a Para o andarilho. porque a ”doen¸a mental”algumas vezes a c pode aparecer como um sintoma de muita santidade mais que de pouca ”raz˜o”. No Oriente os insanos s˜o cuidados e admirados como santos indefesos. De fato. Havia espa¸o o bastante. A a popularidade da maconha entre os dervixes pode ser atribu´ ao seu poder de induzir ıda um tipo de aten¸˜o intuitiva que constitui uma insanidade controlada: – metan´ia herbal. Deve-se ficar alerta. unido contra todos os a c forasteiros e gerados do mesmo prot´ripo. uma arte da viagem pode ser adquirida – para maximizar as chances e ´ de atingir tal estado. cada templo que se visita pode destrancar algum sonho inici´tico. como as artes marciais tao´ ca ıstas. O pr´prio sufismo – ou pelo menos o sua ortodoxia austera e seu aspecto ”s´brio-. em outras palavras. c Obviamente ele n˜o precisa viajar para experimentar esse estado. para fora de Meca. ”Todo mundo”entendia a viagem intencional pela analogia com a chuva de granizo – todos entendiam os dervixes. Do mesmo modo o dervixe est´ ”movendo-se para fora”(´ sempre e a e ”dia da mudan¸a”). perdidos na Luz. um mundo vasto.

Porque claro. Decadente sim – mas n˜o a a desaparecida para sempre. e tamb´m e na rea¸˜o hip´crita e na histeria sexual da ”Direita Crist˜”. por assim dizer. um poeta sufi c do s´culo 19 que foi executado no Ir˜ pela horr´ heresia do dervixismo andarilho? e a ıvel Aqui est´ o outro lado do ”problema do turismo”: – o problema do deparecimento a da ”perambula¸˜o sem rumo”. contudo. n˜o a rea¸˜o. mais o dervixismo se torna imposs´ ıvel. mas bem perto de casa tamb´m.. E certamente o caminho do dervixe e o andarilho n˜o pode prosperar em um mundo de avi˜es e po¸os de petr´leo. Muito frequentemente parece que ningu´m est´ ”prestando aten¸˜o”. ou do franciscano. de ca a modo que quanto mais o turismo se torna poss´ ıvel. Onde. claro. mesmo dentro da nossa pr´pria conciˆncia o e e vida? Ou ´ meramente um exerc´ e ıcio de nostalgia por posibilidades perdidas – uma indulgˆncia f´til de romantismo? e u Bem. n˜o o totalitarismo. e Uma chave fundamental para o sucesso na Viagem ´. e o a a a e e Mas: por baixo das charmosas formas exteriores do dervixismo est´ a matriz conceia tual. Possivelmente os dois est˜o diretamente relacionados. eu confesso que sou romˆntico sem cura sobre a forma da vida a a dervixe. c a a ca O dervixe ´ perseguido hoje em dia na maior parte do mundo islˆmico. que n´s chamamos de viagem intencional. de hostilidades a o c o nacionalistas/chauvinistas (e por isso de fronteiras impenetr´veis). uma chave. N´s chamamos e ca o de ”paying attention”em inglˆs e ”prˆter attention”em francˆs (em ´rabe. em tudo isso. n˜o uma atitude de pureza em perigo. Claro. e na rigidez porosa da hiperconformidade consumista.um ideal de cultura integral. a aten¸˜o. Ele ´ visto no ”tempo da disciplina”do capitalismoe e muito-tardio moderno. E claro – ele provˆ. que todo e a ca mundo est´ poupando sua consciˆncia – o quˆ? poupando pros tempos dif´ a e e ıceis? – e 10 . ou a a a a um esp´cime de laborat´rio) – n˜o h´ nada t˜o pat´tico quanto a mera ”sobrevivˆncia”. N˜o h´ sentido em tentar ”preserv´-la”(como se fosse um picles. N´s n´s perguntamos se n´s quereo o o mos e vamos superar ”o turista interior”. O pouco que eu sei cobre viagens aprendi naqueles poucos anos – tenho um d´bito com as ”ades˜es medievais”que nunca conseguirei pagar – e eu e o nunca vou me arrepender do meu ”escapismo”por um momento sequer.) nos interessa – finalmente – n˜o s´ na medida que pode nos prover com uma chave – n˜o a o a A chave. ao ponto de que por um tempo eu virei minhas costas ao mundo cotidiano e a segui eu mesmo. O Puritanismo e a sempre abra¸ou os aspectos mais atrozes do modernismo em sua crusada de despir a c F´ de ”ades˜es medievais”como o sufismo popular. d´-se e e e a a aten¸˜o). n˜o uma xenofobia a a disfar¸ada de piedade. talvez – mas. a falsa consciˆncia que n´s separa da experiˆncia e o e dos sinais da Grande Terra. Esse puritanismo triumfou n˜o s´ no c c a o Leste.. O caminho do dervixe (ou do tao´ ısta. etc. sim e n˜o. Na verdade. podemos ca o a encontrar espa¸o para a po´tica (e parasit´ria!) vida da Perambula¸˜o Sem Rumo – a vida c e a ca de Chuang Tzu (que cunhou esse slogan) e seus frutos tao´ ıstas – a vida de S˜o Francisco a e seus devotos descal¸os – a vida de (por exemplo) Nur All Shah Isfahani. A forma perdeu sua efic´cia. ela n˜o desapareceu realmente. Nesse ponto n´s n˜o o o a dever´ ıamos sofrer nenhuma vergonha da ”nostalgia”. e do puritanismo que a suspeita de toda diferen¸a como de uma amea¸a. Poder´ esse c a a a conhecimento nos ajudar a superar o turismo. podemos muito bem perguntar se esse pequeno ensaio sobre a deliciosa vida dos dervixes possui o menor tra¸o de relevˆncia no mundo contemporˆneo. MAS – eu n˜o a considero a forma do dervixismocomo a resposta para o ”problema do turismo”. sugerindo que somos t˜o avaros com nossa aten¸˜o quanto somos com nosso ca a ca dinheiro.

Mesmo na Am´rica. E para aqueles de n´s que o ainda n˜o s˜o adeptos da viagem Zen. O ca ”medo da liberdade”envenena nosso inconsciente. com sua novidade eterna. Uma usura de percep¸˜o agora aparece: – cobramos juros no nosso a ca pagamento-de-aten¸˜o. o cultivo desses estados demanda de fato um gasto a a inicial de energia. ca Nossa consciˆncia n˜o ´ uma mercadoria. permanece um fato que a n˜o ser que aprendamos a cultivar tais a estados. Em um certo sentido a poupan¸a das nossas energias faz sentido – n´s nos c o ”poupamos”para os momentos realmente importantes. e ıdo a a nem d´bito de capital. Verdade. apesar de nosso consciente desejo por liberdade na viagem. Ou como se ca e nossa consciˆncia fosse amea¸ada por um entr´pico ”heat-death”. n´s poder´ o ıamos come¸ar a superar em n´s mesmo a banal mundanidade c o da desaten¸˜o cotidiana. Mas se n´s vermos a n´s mesmos como bolsas de moeda vazias – se n´s bloquearmos o o o as ”portas da percep¸˜o”como camponeses amedrontados pelos uivos de lobos boreais – se ca n´s nunca ”prestarmos aten¸˜o-. sua constante demanda pela nossa aten¸˜o. N´s devemos conjurar a c o vontade da viagem intencional. ´ E um tru´ ısmo reclamar que a diferen¸a est´ desaparecendo do mundo – e ´ verdade. ca o Em qualquer caso. nem pen´ria.como iremos reconhecer a proximidade e o advento desses o ca momentos preciosos. h´bitos de o co co a introvers˜o e apego aos livros a quebrar. a Mas e se n´s trat´ssemos nossas percep¸˜es como presentes em vez de pagamentos? o a co E se n´s d´ssemos nossa aten¸˜o em vez de pag´-la (paying it)? De acordo com a nova o e ca a lei da reciprocidade. hesita¸˜es a conquistar. que uma vez esgotado fosse irrecuca per´vel para sempre. as descobertas. as ”experiˆncias e de pico”. nem ´ simplesmente uma fun¸˜ode alguma m´quina e ca a de carne com uma garantia limitada. ´ a Esse modelo de consciˆncia parece suspeitamente ”capitalista”.jogando ´gua nos fogos de conhecimento por medo de todo o combust´ dispon´ seja a ıvel ıvel consumido em um unico holocausto de saber intoler´vel. N´s temos inibi¸˜es a reprimir. diferen¸as regionais e c 11 . terra dos shoppings e tvs. como se o universo a ca e ca de alguma maneira misteriosa retribu´ nossa cogni¸˜o com um influxo de gra¸a natural. Mas algumas vezes ´ incr´ descobrir o qu˜o auto-regenerativo e orgˆnico o e e ıvel a a diferente pode ser. A arte que estamos procurando raramente ocorre como um talento natural. a viagem nunca vai significar mais que turismo. Nossa consciˆncia caseira a e de terceira classe parece segura e aconchegante comparada com os perigos e desconfortos da Estrada. eventualmente n´s nos desgastamos e o quebramos. nem puni¸˜o por dar nossa aten¸˜o e nem fim para e u ca ca a potencialidade da aten¸˜o. dessas aberturas? N´s precisamos de um modelo de cogni¸˜o que o ca enfatize a ”m´gica”da reciprocidade: – dar aten¸˜o ´ receber aten¸˜o. e a abrir n´s mesmos a ”estados mais elevados”. contra o qual a melhor e c o defesa deve consistir em um desinteressante estado hipn´tico de meia-aten¸˜o hesitante – o ca uma mis´ria de recursos ps´ e ıquicos – uma recusa de perceber o inesperado ou e saborear a miraculosidade do ordin´rio – uma falta de generosidade. Ela deve ser cultivada – praticada – aperfei¸oada. contudo – como se e de fato nossa aten¸˜o fosse um recurso limitado. ansiedades a sublimar. nem falta. ısse ca c Se n´s nos convencˆssemos que a aten¸˜o segue uma regra de ”sinergia”mais que uma lei o e ca de investimento. o presente ´ retribu´ com um presente – n˜o h´ gasto. como se ela fosse um empr´stimo mais que um gasto. c a e tamb´m. nem ´ um acordo contratual entre o ego e a e e cartesiano e o abismo do Nada.

porque as a a pessoas e suas vidas cotidianas foram exclu´ ıdas do mapa. ou tratadas como ”estat´ ısticasa sem rosto”. N´s podemos nos permitir participar. A vida erra. a ıvel para quem o mundo inteiro ´ inerte. n´s precisamos a o olhar entre as dimens˜es. esperando para ser cone c sumido – porque toda a quest˜o da permiss˜o ´ uma ilus˜o. o Eu penso na viagem como fractal em sua natureza. A pureza ´ um fogo-f´tuo. Nas dimens˜es fractais da realidade n˜o-oficial todos os seres o a humanos – e at´ v´rios grandes lugares – continuam unicos e diferentes. Se todo o mundo est´ se tornando unidimensional. Come¸aram a desenvolver expedi¸˜es aleat´rias c co o e sem estrutura pela cidade. experimentar o mundo o o como uma rela¸˜o viva e n˜o como um parque tem´tico. A viagem n˜o pode ser confinada ao permiss´ (e agonizante) olhar do turista. para ”itnerpretar”por n´s. ou esquecidas. eles pera ceberam que nunca haviam visto Paris. a ca E agora. Talvez ningu´m e lugar nenhum j´ tenham sido realmente a e a puros. N´s carregamos dentro de n´s ca a a o o mesmos os cora¸˜es de viajantes. A perambula¸˜o sem ca rumo deles virou uma pr´tica de insurrei¸˜o. no estranho mundo co co a da matem´tica do caos. Ela tem lugar fora do mapacomo-texto. caminhando durante o dia. abrindo seus a pr´prios mundinhos r´ o ıgidos para uma terra incognita de favelas. ”Puros”e ”n˜o e a ´ a corrompidos”? Talvez n˜o. como aqueles padr˜es escondidos e encravados que o se aninham dentro das infinitas bifurca¸˜es das equa¸˜es n˜o-lineares. e n˜o precisamos de experts para definir nossas comco a plexidades mais que fractais. para nos vender de volta as imagens de nossos desejos. a e Traduzido por hudz (eu hudz2 (a) hotmail com) 12 . jardins e avenu turas. fora do consenso oficial. bebendo ` noite. por baixo da aten¸˜o do Olhar da M´ ca ıdia. o sujeito desterrado do capitalismo urbano. a errˆncia saıvel ca a grada. para mediar nossas experiˆncias o e por n´s. N´s podemos emitir nossos a a e a o pr´prios vistos de viagem. alguma coisa permanece poss´ – perambula¸˜o sem rumo. o A errˆncia sagrada ´ renascida. Em verdade o mundo n˜o foi completamente mapeado. e talvez at´ uma forma perigosa de totalitarismo. o a o caminhante ocioso. e Nos anos 50 do s´culo 20 os situacionistas franceses desenvolveram uma t´cnica para e e viagem que chamam de derive. Mantenha-na secreta. um caro¸o de pitoresquidade. nas fissuras que zigue-zagueiam no monolito. invis´ at´ ıvel e para a burguesia local. Eles se transformaram em vers˜es revolucion´rias do famoso flaneur de Baudelaire. a ”errˆncia”. A e a e vida ´ gloriosamente impura. Eles estavam enojados consigo mesmos por a nunca deixarem a rotina usual e os caminhos de suas vidas dirigidas pelo h´bito. sub´rbios.n˜o apenas sobrevivem mas sofrem muta¸˜es e prosperam nos interst´ a co ıcios.