P. 1
Almeida V.S. Os Letos Batistas de Varpa

Almeida V.S. Os Letos Batistas de Varpa

|Views: 197|Likes:
Published by Vinão Almeida
Este trabalho da graduação procurou levantar questões sobre uma comunidade de letos batistas que se formou no interior paulista no início do século XX e foi alvo das políticas do Estado Novo.
Este trabalho da graduação procurou levantar questões sobre uma comunidade de letos batistas que se formou no interior paulista no início do século XX e foi alvo das políticas do Estado Novo.

More info:

Categories:Types, Research, History
Published by: Vinão Almeida on Aug 20, 2012
Copyright:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

01/30/2013

pdf

text

original

UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA FACULDADE DE CIÊNCIAS E LETRAS CAMPUS DE ASSIS

Breve estudo sobre a comunidade de letos batistas de Varpa (Tupã/SP) e sua perseguição política durante o Estado Novo

Disciplina: Tópicos de História Contemporânea Docente: Profa. Dra. Tânia Regina de Luca Discente: Vinícius Soares de Almeida

- Assis, julho de 2001 -

Introdução Ao chegar à fazenda Palma mesmo o mais desatento visitante, se intriga com a paisagem composta por sobrados de madeira e uma arquitetura que seria comum em postais de pequenas cidades européias, ou até mesmo em alguns lugares do Sul do país. Trata-se, na verdade, de uma fazenda que integra a colônia de Varpa, um distrito da cidade de Tupã, oeste do estado de São Paulo à margem direita do Rio do Peixe. Mas Varpa não chama atenção somente por seus aspectos físicos, sua história também é peculiar. Fundada por imigrantes da Letônia, país marcado por disputas e invasões territoriais, vivendo num “fogo cruzado” que tem suas origens desde a Idade Média, ora tendo seu pequeno território1 anexado a um reino ora sendo reivindicado por outro. No século XIX esta situação de conflito foi intensificada por fatores internos, como os grandes latifundiários alemães que exploravam de modo servil os camponeses letos possuindo a maior parte das terras do país, enquanto externamente o domínio do império czarista da Rússia foi reforçado sobre essa região, ao impor sua cultura num processo de “russificação”. No campo religioso estão situados alguns fatores fundamentais para imigração dos letos para o Brasil. Desde o século XVII a Letônia adota o protestantismo como principal expressão religiosa destacando-se de início a igreja Luterana, que se torna a igreja oficial, ligada, principalmente aos proprietários alemães. No final da segunda metade do século XVIII surgem novos grupos religiosos, que irão ter grande aceitação entre a população leta, principalmente por contestarem a distribuição agrária do país, o que interessa de imediato à Rússia, cada vez mais preocupada em aumentar sua

1

Sua área conta hoje com: 64.589 km²

influência sobre o país, neutralizando o poder dos alemães sobre os camponeses. Essas novas religiões serão perseguidas durante quase todo o século XIX e início do XX. Mas esse movimento religioso continuará a se expandir tanto na quantidade de seitas quanto em número de fiéis. Inserida nesse movimento a criação da igreja Batista na Letônia ocorre por volta de 1860. Eram comuns e notórias as execuções de religiosos. No dia 12 de agosto de 1922, O Estado de São Paulo noticiou a condenação de nove sacerdotes da Letônia pelo governo russo. A data desta notícia antecede à vinda dos letos para o Brasil, que fugiam das perseguições e da possível implantação do comunismo em seu país. Os primeiros imigrantes letos chegam ao Brasil já no final do século XIX e concentram-se em alguns núcleos no Sul do país e em São Paulo na cidade de Nova Odessa. Mas o interesse e a escolha do Brasil como destino desta fuga migratória pode ter seu início marcado em 1889 com a visita de um teólogo leto a recém proclamada república brasileira: “K. Balodis havia idealizado em plano grandioso: transferir, aos poucos, todos os letos para o Brasil, ajudando-os assim a fugir dos russos e dos planos do governo russo de russificar a região”2. Este teólogo entra em contato com a Companhia Colonizadora do Grão-Pará, e comprova a facilidade existente na época para a entrada de imigrantes no país, que até então mantinha uma política intensa de incentivo à imigração. A chegada de letos ao país em número pequeno, porém constante, ocorre até 1908. O grupo de batistas que chega em 1922 e que fundou Varpa esteve marcado pelo reavivamento religioso da Letônia atingida pela crise do pós2

TUPES, Milia. Contribuição ao Estudo da Colonização no Estado de São Paulo: Ensaio sobre a

Colônia Varpa. Edição do fundo de pesquisa do museu paulista da Universidade de Sâo Paulo, 1979, p. 15.

guerra e ameaçada pelo domínio da Rússia, agora comunista. A revolução de 1917 deixou toda Europa alerta quanto à expansão do comunismo, a Letônia já tinha seu passado marcado pela influência e proximidade russa e muitos acreditavam que sua anexação era simples questão de tempo (isso realmente ocorreu anos mais tarde). Entendiam a guerra e o comunismo como sinais do apocalipse cristão e restavam a eles auto proclamados eleitos de Deus preparar-se para a segunda vinda de Cristo. Os letos batistas descreveram de forma profética, o comunismo como a Fera ou a Escuridão que vem do oriente, que destruirá toda Europa, acerca disto escreve Milia Tupes: “Quanto às profecias e revelações, na sua totalidade eram messiânicas, falavam sobre a vinda do perigo e escuridão do Oriente, a próxima volta de Cristo e a necessidade de fugir para uma outra terra, a fim de lá habitar até a vinda do Senhor”3. O discurso construído sobre o Brasil, diferente em muitos aspectos da Letônia, como a terra escolhida para a execução deste projeto de purificação, e muitas vezes encarada como Terra Prometida, merece atenção dos pesquisadores. Ironicamente, os imigrantes que fundaram Varpa, diferente dos seus antecessores, encontraram dificuldades quanto sua entrada no Brasil justamente em função do comunismo. O pedido de imigração foi, inicialmente, negado: “O governo não estava interessado porque os letos não pretendiam, de boa vontade, trabalhar nas fazendas de café. Interessava-se mais pela vinda de italianos, espanhóis e portugueses, além do que a certas nações não se permitia a entrada, com receio que houvesse infiltração comunista”4. Com algum esforço junto ao Ministério

3 4

Idem p. 21. Idem. P. 24

das Relações Exteriores, os imigrantes que aqui já residiam conseguiram a viabilização da entrada dos letos no Brasil. Depois de aportar em Santos em novembro de 1922, rumam de trem para o oeste do estado, chegando à região da Alta Paulista onde haviam comprado uma propriedade para a futura instalação da colônia, estas terras passaram, mais tarde, por processo litigioso5 que quase expulsou os imigrantes. Ao chegar encontraram algumas dificuldades já que a propriedade não contava com benfeitorias, deparando-se com a mata virgem. Construíram as primeiras instalações provisórias e depois de algum tempo a colônia dispunha de uma infra-estrutura bem montada que permitiu que a comunidade se mantivesse quase totalmente autônoma e isolada. Um aspecto importante para compreender essa “autonomia” de Varpa ligado à heterogeneidade de tipos que a compunham, não sendo formada estritamente por agricultores, contava com: eletricistas, professores, engenheiros, carpinteiros, enfermeiros, mecânicos, pelo caráter religioso, pastores entre outras profissões. O que permitiu uma economia baseada em agricultura e pecuária bem variada, diferente de outras propriedades monocultoras da época. Mas, a colônia também possuía serrarias, oficinas, uma gráfica, energia fornecida geradores hidroelétricos próprios, chegou a ter um hospital em pleno funcionamento e várias escolas. Essa busca pela “autonomia” esteve ligada ao sentido inicial da colônia, que deveria estar baseada na vida comunitária dos integrantes. O melhor exemplo é o da fazenda Palma, mesmo após as terras terem sido partilhadas em pequenas propriedades para cada uma das famílias, um grupo de cerca de 350 pessoas decidiu continuar vivendo em comum. Esse

fato causará, por algum tempo, um distanciamento dentro da comunidade, pois o grupo de Palma irá separar-se tempo da Igreja central de Varpa. Os estudos sobre esses letos chegam a descrever o “governo da colônia”: “a pequena colônia era um verdadeiro mundo à parte, longe de qualquer contato com a civilização; possuía inclusive o seu próprio governo. Essa autoridade era exercida por um grupo de pessoas, reconhecidas pelos demais capazes e mais religiosas, que se reuniam na chamada ‘tenda dos profetas’ ”6 ou “Essa colônia poderia ser considerada como uma pequena república com fronteiras demarcadas, território demarcado e os habitantes organizados politicamente. A chefia era exercida pelo pastor (...) os seis assessores mais achegados eram quase todos pastores (...) e cada um era encarregado de um setor e juntos davam a impressão de um gabinete de ministros”7. É possível imaginar que esse isolamento e autonomia tenham criado suspeitas ou preocupações por parte das autoridades brasileiras, um agravante seria generalização desses imigrantes como russos, como exemplo disto, um processo criminal8 contido no Arquivo do Fórum da Comarca de Assis (sob a guarda do CEDAP). O processo trata de um acidente ocorrido na colônia onde um homem morreu ao ser atingido pelo tronco de uma árvore que cortava. No processo os envolvidos são classificados, quanto sua nacionalidade, como russos – justamente de quem haviam fugido – e que no Brasil tinha a imagem ligada ao comunismo. Numa visita, o diretor da Secretaria de Agricultura do Estado mostra-se
5

Material referente a este processo encontra-se sob a guarda do Cedap, já que Assis era a Comarca da TIPES, Milia op. cit., p. 44 VASSILIEFF, Irina. Imigração Leta no Brasil: A Experiência da Colônia de Varpa na Alta

região nesta época.
6 7

Paulista (1922 – 1964) Dissertação de mestrado apresentado ao departamento de História da FFLCH – USP, 1979, p. 107.
8

Processo nº [19/30] 1º Ofício da Comarca de Assis.

preocupado quanto a questão do isolamento e “lamentou a segregação em que viviam os letos, apartados dos brasileiros”9. Esse isolamento é quebrado quanto os letos iniciam missões evangélicas pela região, isso faria parte da preparação da vinda de Cristo. Começam a visitar as fazendas próximas, passando as cidades, pregando os ensinamentos bíblicos, alertando para o que acreditavam ser o tempo da segunda vinda de Cristo. Conseguiram arrebanhar fiéis, fundando algumas igrejas pela região. Essa comunidade, em suas descrições, prospera onde os imigrantes pareciam ter encontrado a liberdade que buscavam fora do seu país, mas essa liberdade tão cara a eles, passou por pelo menos um período de questionamento. Em 1940 a gráfica existente na colônia é proibida pelo governo de Getúlio Vargas de continuar a publicar em leto sendo permitido somente publicações em português. Essa medida fazia parte da política de Nacionalização do Estado Novo, que reprimia os estrangeirismo ou manifestações culturais que destoassem do projeto Estado-novista. “A presença do estrangeiro e, principalmente, daquele que não havia promovido uma interação com a sociedade brasileira, mantendo-se fechado em suas colônias, preservando seus hábitos, costumes, língua e idéias políticas, passou a ser extremamente perigosa, pois colocava em risco a construção da brasilidade empreendida pelo Estado Nacionalista”10. Apesar dessa repressão não ser comentada profundamente por nenhum dos autores consultados, seu impacto sem dúvida foi muito grande entre os colonos, principalmente os que viviam em Palma, onde está
9

TUPES, Milia op. cit, p. 48. PERAZZO, Priscila F. – O Perigo Alemão e a Repressão Policial no Estado Novo. São Paulo:

10

Arquivo do Estado, 1999. p. 42

situada a gráfica. Estes começam a se interessar pelos letos missionários na fronteira boliviana, e preocupam-se com “as possibilidades de vida naquela região, principalmente pela liberdade reinante na Bolívia e a boa vontade para com os estrangeiros. O Brasil, naquele tempo, era desfavorável aos estrangeiros. Estes eram impedidos até de falar em público na sua língua. Era também proibida a impressão de revistas e jornais. Também Palma, por algum tempo, teve que fechar a sua imprensa”11. Começam a propor a transferência da imprensa para a Bolívia, tão logo, de toda a organização. Mandam um pequeno grupo e estabelecem uma missão em Rincón del Tigre, território boliviano no intuito conhecer melhor a região para a possível transferência, que acaba não ocorrendo mas chegam a montar uma pequena comunidade batista. Esse projeto, em que se arquiteta uma nova migração de fuga por parte de alguns dos letos, mostra sem dúvida um desencanto para com o Brasil. Objetivos No caso desses letos, não se tratavam nem de comunistas, nem seu país, a Letônia, fazia parte dos países do eixo na Segunda Guerra Mundial. Mesmo essa pequena comunidade, que se voltou principalmente à vida religiosa, sofreu sanções, que fizeram com que vários de seus habitantes repensassem sua permanência no país. A partir desse ponto atrito, seria possível estudar a política de Nacionalização do Estado Novo sobre Varpa, e o impacto gerado por essas medidas sobre a visão de “Terra Prometida” que os trouxera ao país alguns anos antes, e a transformação desse discurso a medida que começam a haver restrições na liberdade dessas pessoas.

11

Tupes, Milia op. cit. p. 88

Justificativa O pouco que foi escrito sobre os letos no Brasil, especificamente Varpa, está marcadamente ligada aos discursos religiosos, escritos por pessoas ligadas diretamente à colônia ou à religião Batista, referindo-se exclusivamente aos aspectos internos da comunidade. Realmente esses estudos são de extrema relevância, no que diz respeito a aspectos fundamentais que caracterizam a história da Colônia Varpa. Mas surgem algumas lacunas nesses estudos que podem ser exploradas, como os aspectos políticos da colônia e as dificuldades enfrentadas por seus membros, quanto à política do Estado brasileiro em relação ao elemento estrangeiro, normalmente vigiado e cerceado, mesmo que por motivo distintos e em momentos diferentes. Metodologia Seria possível analisar e comparar os discursos produzidos pelos imigrantes sobre o momento da chegada ao Brasil, e o do período em que de várias formas são submetidos à repressão pelo Estado Novo contra o estrangeiro. O material para a execução deste estudo estaria concentrado na própria colônia de Varpa e no Museu Batista do Rio de Janeiro, composto pelas publicações produzidas na colônia e outras publicações batistas que comumente tratavam da comunidade leta em seus artigos. Ao mesmo tempo consultar os órgãos responsáveis pelo controle e vigilância de estrangeiros no Brasil, analisando o discurso, possivelmente existente, do Estado brasileiro sobre essa pequena comunidade de imigrantes que se mantém estrangeiros.

Bibliografia PERAZZO, Priscila F. O Perigo Alemão e a Repressão Policial no Estado Novo. São Paulo: Arquivo do Estado, 1999 TUPES, Milia. Contribuição ao Estudo da Colonização no Estado de São Paulo: Ensaio sobre a Colônia Varpa. Edição do fundo de pesquisa do museu paulista da Universidade de Sâo Paulo, 1979 VASSILIEFF, Irina. Imigração Leta no Brasil: A Experiência da Colônia de Varpa na Alta Paulista (1922 – 1964) Dissertação de mestrado apresentado ao departamento de História da FFLCH – USP, 1979

You're Reading a Free Preview

Download
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->