Tradução do grego, introdução e notas

Carlos A. Martins de Jesus
Obras Morais
Diálogo sobre o Amor
Relatos de Amor
Plutarco
Colecção Autores Gregos e Latinos
Série Textos
Plutarco
Obras Morais
Diálogo sobre o Amor
Relatos de Amor
Tradução do grego, introdução e notas de
Carlos A. Martins de Jesus
Universidade de Coimbra
Autor: Plutarco
Título: Diálogo sobre o Amor, Relatos de Amor
Tradução do grego, introdução e notas: Carlos A. Martins de Jesus
Editor: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos
Edição: 1ª/2009
Coordenador Científico do Plano de Edição: Maria do Céu Fialho
Conselho Editorial: Maria de Fátima Silva, Francisco de Oliveira,
Nair Castro Soares
Director técnico da colecção / Investigador responsável pelo projecto
PLUTARCO E OS FUNDAMENTOS DA IDENTIDADE EUROPEIA: Delfim F. Leão
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Obra realizada no âmbito das actividades da UI&D
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Universidade de Coimbra
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Volume integrado no projecto Plutarco e os fundamentos da identidade europeia e fnanciado pela
Fundação para a Ciência e a Tecnologia.
Todos os volumes desta série são sujeitos a arbitragem científca independente.
ÍNDICE
Introdução
Diálogo sobre o Amor 7
relAtos De Amor 18
Sobre a nossa tradução 26
Edições seguidas para a citação de fragmentos 29
Bibliografia 31
Diálogo sobre o Amor 41
relAtos De Amor 131
6
introDução
7
INTRODUÇÃO
DIÁLOGO SOBRE O AMOR
Não estaremos longe da verdade se começarmos
por afrmar que, do vasto conjunto dos tratados que
integram os Moralia, o Diálogo sobre o Amor – essa a
versão portuguesa que considerámos preferível para o
grego Erotikos [Logos] – se afgura como um dos mais
ricos e representativos do pensamento e da técnica
literária de Plutarco.
No que à sua datação diz respeito, contamos
com um dado interno inestimável, na medida em que
ele nos fornece um terminus post quem relativamente
seguro. Com efeito, a referência à extinção da dinastia
Flávia (771C) como um evento recente, o que sabemos
ter ocorrido em 96 d.C., não permite que a data de
composição recue além desse ano, pelo que autores
como R. Flacelière (1980: 7‑11) consideraram que o
diálogo deva datar de uma ou duas décadas depois desse
marco. Com efeito, pensa‑se que a vida de Plutarco se
Carlos A. Martins de Jesus
8 9
terá prolongado até cerca de 127 d.C., e será algures
neste lapso de tempo, entre 96 e 127 – período de uma
maturidade literária e flosófca notável – que há que
situar o texto. R. Flacelière (1980: 9‑10), consciente do
terreno movediço em que assenta a sua teoria, considera
que o diálogo data mesmo dos últimos anos de vida de
Plutarco, baseando‑se, para tal afrmação, nas inúmeras
proximidades – formais e morais – com o diálogo Sobre
os Oráculos da Pítia (394D‑409D). E assim avança com
o lapso temporal de 115‑125 d.C., que, sem certezas
absolutas, tem parecido bastante aceitável a grande
parte dos estudiosos.
Mesmo para um diálogo como este houve quem
duvidasse da sua autenticidade. Com efeito, Hirzel
1

assegurava que a obra não poderia ser atribuída a
Plutarco, sustentando esta afrmação no facto de o Eros
apresentado não ter o carácter de um génio (daimon),
à maneira de Platão. Como se Plutarco não pudesse,
autonomamente e de pleno direito, sustentar uma postura
não totalmente coincidente com a flosofa platónica.
A este respeito, R. Flacelière (1980: 31‑32) duvida que
tenha sido essa a única razão que levou Hirzel a desconfar
da autenticidade, conjecturando que, veladamente, esse
autor concordaria com a tese de E. Graf
2
, para quem o
diálogo teria sido escrito pelo próprio Autobulo, flho
de Plutarco. Baseava‑se este autor na atribuição do
papel de narrador e no anacronismo que constituiria, a
aceitar‑se a autoria do polígrafo, a alusão à extinção da
1
Der Dialog II. Stuttgart, 1963: 233‑253.
2
Comment. Philol. Für O. Ribbeck, 1888: 68 sqq.
8
introDução
9
dinastia dos Flávios quando este teria acabado de casar –
com cerca de trinta anos, portanto –, algo que sabemos
ter acontecido apenas em 96 d.C. Menos radical foi
C. Hubert que, cerca de trinta e cinco anos antes de
assumir a responsabilidade pela edição teubneriana do
Erotikos, considerou, na sua tese de doutoramento,
3
que
Plutarco não teria terminado de escrever a obra, fosse
por ter morrido, fosse por qualquer outra razão. Ora,
não parece qualquer destes argumentos
4
ter convencido
os principais estudiosos, que insistem, repetidamente,
em considerar o Diálogo sobre o Amor um dos expoentes
máximos da prosa de Plutarco.
Em termos genológicos, o Diálogo surge numa
linha antiga de diálogos flosófcos dedicados ao tema
do amor, eixo que contempla obras como o Lísis, o
Banquete e o Fedro de Platão, mas também o Banquete
de Xenofonte. Pode ainda incluir‑se no grupo de vários
discursos sobre o amor, como o de Lísias, que integra o
Fedro platónico (230e‑234c), o Discurso sobre o Amor do
corpus de Demóstenes (61), entre outros. E o próprio
Plutarco terá escrito um tratado com o título Sobre o
Amor, de que conservamos diversos fragmentos
5
. Para a
3
De Plutarchi Amatorio (Berlin, 1903).
4
Também K. Cichorius (“Historisches zum plutarchischen
Amatorius”, Römische Studien 1922: 406‑411) negou a atribuição a
Plutarco, baseando‑se no que julgava permitir‑lhe situar o diálogo
em 116‑117 d.C. e na convicção – improvável – de, nesses anos,
Plutarco estar já morto. Vide R. Flacelière 1980: 8 e n. 3.
5
Frgs. 134‑138 Sandbach. Para a citação dos fragmentos de
Plutarco seguimos a edição da Loeb Classical Library, de F. H.
Sandbach (ed.), Plutarch’s Moralia XV [Fragments] (Cambridge,
Massachusetts 1987). Sobre este tratado em específco vd. F. Frazier
2003 e A. G. Nikolaidis 2007.
Carlos A. Martins de Jesus
10 11
contagem teria ainda que entrar uma série de tratados,
perdidos, dos quais temos no entanto conhecimento
6
.
O tema – que a um leitor menos precavido pode
não parecer óbvio, sobretudo se optarmos por traduzir
directamente o título por Erótico – versa sobretudo sobre
o amor conjugal (heterossexual, portanto), em oposição
ao amor pederástico, este último no seguimento de uma
longa tradição literária, poética e flosófca. Tratando
destes assuntos um pouco por toda a sua obra
7
, é
sobretudo nos Preceitos Matrimoniais e na Consolação
à Esposa – escrita por ocasião da morte de uma flha
sua – que o tema é mais directamente abordado. Mas
podemos ainda referir o breve livro dos Relatos de Amor,
que incluímos neste volume, e esse outro intitulado
Da Coragem das Mulheres, no fundo um conjunto de
lendas locais que pretendem demonstrar a concretização
prática da posição do flósofo e do moralista perante o
amor.
Quanto à técnica narrativa, apresenta‑se numa
estrutura coerente e bem organizada
8
, já que os assuntos
vão sendo discutidos, gradualmente, à medida que um
interveniente ou mesmo um acontecimento externo os
6
Para levar em conta apenas Diógenes Laércio, na qualidade de
autores de tratados subordinados ao tema do amor, menciona ele
nomes como os de Euclides de Mégara (2. 108), Antístenes (6. 6,
18), Teofrasto (5. 43), Heraclides Pôntico (5. 87), Crisipo (7. 130)
ou Epicuro (10. 27).
7
É vastíssima a bibliografa respeitante ao tema em Plutarco.
Em língua portuguesa, destacamos os estudos de M. H. T. C.
Ureña Prieto 1995 e P. Barata Dias 2007.
8
É interessante a interpretação de R. J. Callé Cejudo 2007, que
dispõe o diálogo por níveis narrativos.
10
introDução
11
convoca. Autobulo, flho de Plutarco, é o narrador de
todo o diálogo. Até porque, em rigor, apenas no início
presenciamos um verdadeiro diálogo, a introduzir o
livro. Daí em diante (749B sqq.), é recuperado por esse
narrador omnisciente um outro diálogo, cujo tempo se
situa num passado algo distante, quando Plutarco tinha
acabado de casar (749B). A esta mesma técnica, que
poderíamos denominar de metadialógica (porquanto
um diálogo é narrado no contexto de um outro), recorre
Plutarco em Sobre os Oráculos da Pítia e Sobre o Génio de
Sócrates, assim recuperando uma forma narrativa já cara
a Platão
9
. Interessante é a divisão de Diógenes Laércio
entre diálogo dramático (ou mimético), narrativo e
misto. O caso do Diálogo sobre o Amor incluir‑se‑ia,
naturalmente, na terceira categoria, apesar de nele ser
forte a carga de dramatismo, stricto sensu
10
.
De resto, o próprio narrador confessa, logo de
início, que “a causa que deu origem a estes discursos,
pelo seu carácter patético (pathos), reclama apenas
um coro (choros) para interagir e uma cena (skene), já
que não lhe falta nenhum outro elemento dramático
(drama)” (749A). Além disso, poder‑se‑ia entender que a
apresentação do argumento e das personagens em causa
– o casamento de Bácon e Ismenodora – seria semelhante
ao prólogo desta peça, que tem inclusivamente coreutas
(753C) – os intervenientes no diálogo –, desde cedo
divididos em dois semicoros – os que apoiam e os que
9
É o caso de Protágoras, Banquete, Fédon e Teeteto, entre outros.
10
A este respeito, vide A. Barigazzi 1988a e G. Pasqual 1997.
Para uma análise esquemática da estrutura dramática deste diálogo,
vide ainda M. Valverde Sánchez et alii 2003: 16‑21.
Carlos A. Martins de Jesus
12 13
condenam essa união –, guiados todos eles por uma
espécie de corifeu, o próprio Plutarco. Não faltam os
agones, as discussões retoricamente marcadas de opiniões
concretas, onde cada um responde ao argumento
do outro começando por o desconstruir, e mesmo a
intervenção de mensageiros – três, no caso específco –,
que vêm trazer para a “cena” as novidades do exterior
que a condicionam.
Papel importante no estilo narrativo do Diálogo
sobre o Amor desempenham ainda os exempla que vão
sendo recolhidos, casos práticos como os de Cama ou
Empona que pretendem demonstrar como é o verdadeiro
amor que está em causa numa união conjugal, assente
numa fdelidade inquebrantável que prefere a morte à
traição do ser amado, mesmo depois da morte deste
11
.
Depois de um primeiro capítulo efectivamente
dialogado, que poderíamos considerar o primeiro nível
diegético, o capítulo 2 começa por explicar qual o
pretexto da discussão sobre o amor que iremos escutar.
Plutarco e a esposa tinham chegado ao Hélicon para fazer
sacrifícios a Eros, na altura em que um acontecimento
espantoso dominava as conversas na cidade – a vontade
de Ismenodora, mulher madura e já viúva, em desposar
Bácon, ainda um rapaz. Junto de Plutarco chegam dois
habitantes locais, Antémion e Písias, representantes
de duas opiniões distintas sobre o mesmo assunto e,
no fundo, os defensores de cada um dos partidos em
11
Relembre‑se que reside na apresentação de exemplos de amor
conjugal e não pederástico uma das razões pelas quais Plutarco
prefere Menandro aos autores da comédia antiga (cf. Moralia
712C).
12
introDução
13
discussão – o amor pederástico e o amor conjugal. Vai o
primeiro encontrar apoio em Dafneu, e o segundo em
Protógenes, os dois interlocutores mais infuentes em
toda a conversa que se vai travar.
Entre os capítulos 3 e 6 analisam‑se e
confrontam‑se esses dois tipos de amor, e só no
capítulo 7, alertados por Antémion de como estavam
a perder‑se em questões gerais (752E), se retoma o caso
concreto de Ismenodora e Bácon. Enumeradas por
Plutarco as virtudes da mulher – que entende serem as
de Ismenodora –, chega a cavalo um mensageiro (qual
arauto de um drama) que vem comunicar o rapto de
Bácon por essa mulher. Indignado, Písias parte. Pouco
depois, chega um outro mensageiro que vem, a pedido
da noiva, chamar Antémion.
Afastados da discussão os dois intervenientes
que a motivaram, Plutarco, em resposta a Pêmptides,
pronuncia um longo discurso sobre os benefícios de
Eros, no qual realça a sua divindade (756A‑759D),
compara o seu poder ao de Afrodite – que em tudo
lhe deve assistir numa relação amorosa (760D‑762A)
–, expõe os seus benefícios para com os apaixonados
(762A‑763B), exalta o Eros dos poetas, legisladores e
flósofos (763B‑F), exemplifca com a mitologia egípcia
e a teoria platónica sobre o amor (764A‑766B) e,
fnalmente, alerta para os castigos que esse deus aporta a
quantos o não respeitam (766C‑D).
Depois de uma extensa lacuna nos manuscritos,
na qual Zeuxipo se teria insurgido uma vez mais contra
o amor heterossexual, Plutarco de novo intervém
Carlos A. Martins de Jesus
14 15
em defesa do amor conjugal, desta feita a um nível
mais flosófco, para concluir que a relação entre
homem e mulher, na qual Eros e Afrodite convivam
harmoniosamente, constitui o mais autêntico exemplo
de união. Próximos que estão de Téspias, chega junto
do grupo um terceiro mensageiro com a nova de
que o casamento de Ismenodora e Bácon está prestes
a realizar‑se, e que até Písias, o antigo e fervoroso
oponente, se rendeu às evidências do amor do casal.
Após esta breve súmula do conteúdo do diálogo,
facilmente se percebe como são três os grandes temas
que lhe dão forma, a saber, a comparação entre amor
pederástico e amor heterossexual, o encómio de Eros
e, em conclusão, a apologia do amor conjugal. Mais
do que negar por completo a legitimidade (social,
moral e flosófca) do Eros pederástico, profundamente
enraizada na cultura precedente e coeva, trata‑se de
reclamar para esse outro, o Eros conjugal, um estatuto no
mínimo semelhante ao do primeiro. Não negando Eros,
defende‑se que Afrodite, tutelar do desejo sexual, na sua
parceria com o deus seu flho, concorre igualmente para
a virtude, servindo‑se da graça (charis) patenteada pelas
mulheres
12
.
Igualmente compósitas, diríamos, são as
infuências que se podem detectar no livro, na medida
em que Plutarco parece apostado em oferecer ao leitor
uma síntese de todas as concepções anteriores a si sobre
o tema amoroso, não só as dos flósofos, mas também
12
Sobre a importância de Eros e Afrodite, vide J. Carruesco
García 2007 e F. Frazier 2008.
14
introDução
15
as dos poetas e as dos legisladores. A primeira delas,
incontornavelmente, é o platonismo, até porque são o
Banquete e o Fedro os modelos mais directos do tratado
de Plutarco, além das marcas perceptíveis de passos do
Fédon, da República ou das Leis. Não sendo conveniente,
neste ponto, demorarmo‑nos no desenvolvimento
destas infuências – porquanto elas são indicadas, a cada
passo, nas notas que acompanham a tradução –, é talvez
oportuno relembrar duas teorias claramente platónicas
que são recuperadas: a que diz respeito às diferentes
categorias de ‘loucuras’ (maniai) ou ‘possessões’
enthousiasmoi (758D‑759D), que vai colher ao Fedro
(244a‑245a), ou essa outra, mais global e desenvolvida,
relativa ao amor (764E‑766B), inspirada no Banquete
(210a‑212a) e, uma vez mais, no Fedro (249d‑256e).
Mas a recepção de Platão por Plutarco, nestes como
noutros aspectos, não é linear ou acrítica
13
. Damos um
exemplo: recuperando de Platão a noção de que Eros
é um guia da alma rumo ao supremo Belo, o polígrafo
denota a evolução do pensamento coevo e despe a teoria
platónica do seu misoginismo natural, concedendo à
mulher um papel incontornável e, como bem concluiu
M. B. Crawford (1999: 290), resgatando o casamento
de uma concepção linearmente anti‑erótica
14
.
Noutros momentos, fundem‑se a propósito de
um mesmo assunto diversas doutrinas flosófcas. É
13
Dos muitos títulos que se debruçam sobre o platonismo em
Plutarco, no caso específco do tema do amor, vide H. Martin
1984, F. Frazier 1999, A. Billaut 1999, J. Boulogne 1999, M. B.
Crawford 1999 e J. M. Rist 2002.
14
A semelhante conclusão chega F. E. Brenk 1988.
Carlos A. Martins de Jesus
16 17
o caso da discussão acerca das diferenças de sexo, ou
seja, de saber se ambos, homem e mulher, podem ou
não suscitar um verdadeiro amor (766E‑767B), para o
que se serve das explicações de platonistas, estóicos e
epicuristas, numa clara – e de resto comum – atitude de
discordância com o último grupo
15
.
Mais problemática e discutida é a infuência da
doutrina estóica no Diálogo sobre o Amor
16
. Pela nossa
parte, destacamos aqui apenas dois aspectos que nos
parecem de inegável inspiração nos sábios da Stoa. Em
primeiro lugar, os estóicos entendem o casamento como
uma união de philia que é, antes de mais, uma instituição
social com vista à procriação, algo que parece coincidente
com a opinião de Plutarco. No entanto, não consentem
Eros, Afrodite e as paixões que esses deuses tutelares
aportam ao casamento, por imperativo de conservação da
apatheia que tão bem os caracteriza. E a este respeito, como
se percebe, Plutarco não assina por baixo, considerando
que os prazeres sexuais desempenham, no contexto do
casamento, uma função sagrada, tutelada por Afrodite
em comunhão (koinonia) com Eros (756E, 767D‑E,
769F‑770A). Mais coincidente – porque textualmente
veiculada – é a aceitação da doutrina estóica que entende
o casamento como “fusão integral”
17
, expressão que usa
no diálogo em análise (769F).
A defesa do papel do amor, numa relação que
deve assentar na fdelidade, na virtude, na nobreza de
15
Cf. A. Barigazzi 1988b.
16
O assunto é discutido, em capítulo à parte, por P. Gilabert
Barberà 1991: 43‑59.
17
Essa a teoria de Antípatro, frg. 3. 63 von Arnim.
16
introDução
17
carácter e na comunhão de vida – onde há, diga‑se de
novo, um lugar bem defnido para o prazer sexual –
terá sido decisiva para a recepção do tratado durante
o Humanismo
18
. Com efeito, a editio princeps dos
Moralia em Veneza, no ano de 1509, pela mão de
Demétrio Ducas – na qual também terá colaborado
Erasmo – foi um marco incontornável para a leitura
e reescrita de Plutarco durante o Renascimento, ele
que, a par de Séneca e Cícero, era tido na conta das
mais válidas autoridades da Antiguidade. Assim, ao
longo do século XVI, o tema do casamento tornou‑se
da eleição dos autores, versando sobre a problemática
do an sit nubendum? Provavelmente por infuência de
traduções latinas de Plutarco ou de tratados de autores
de Quinhentos, que por toda a Europa se debruçavam
sobre o assunto, proliferaram nos prelos os textos
subordinados à temática matrimonial, frequentemente
apostados em discutir as vantagens e as desvantagens do
casamento. Para darmos apenas um exemplo, é esse o
caso do Espelho de Casados de João de Barros (1540),
no qual se apresentam e desenvolvem doze argumentos
contra o matrimónio, para logo se aduzirem outros
tantos a favor dessa união.
Fruto talvez da evolução que sofrera a condição
feminina, sobretudo no período helenístico e romano, o
Diálogo sobre o Amor faz‑se eco de um tempo em que o
casamento por amor, não sendo ainda regra, também já
não é uma excepção ocasional. Dito de outro modo, há
18
Para a recepção de Plutarco no Humanismo português, vide
N. N. Castro Soares 2003.
Carlos A. Martins de Jesus
18 19
que refazer toda a lógica do amor platónico à imagem
de novos protagonistas, um homem e uma mulher,
quebrando a ligação de exclusividade que Eros manteve,
durante séculos, com a pederastia, enquanto exercício
de aprendizagem e amadurecimento. Não sendo ainda
possível falar de igualdade de sexos no casamento
que Plutarco preconiza, a mulher desempenha, nesse
contexto, um papel cada vez mais importante e decisivo.
RELATOS DE AMOR
O livro das Amatoriae Narrationes, versão latina
para o título Erotikai Diegeseis, ocupando o N.º 222 do
Catálogo de Lâmprias, é constituído por um conjunto
de cinco pequenas narrativas lendárias, profundamente
violentas, cinco lendas locais unidas por um tema em
concreto: a paixão amorosa e as suas consequências.
Pouco divulgado entre nós, este livro mereceu
já a atenção de Angelo Poliziano que, em 1498, dele
publicou uma primeira versão latina. Durante muito
tempo se duvidou da validade da sua atribuição a
Plutarco. Supostas incongruências de conteúdo,
um estilo por vezes obscuro e pouco elucidativo em
alguns detalhes – que fcam por explicar –, repetições
e outras divergências linguísticas e de estilo em relação
à restante obra tida como autêntica punham em causa
a sua atribuição ao polígrafo, argumentos que G.
Giangrande (1991: 273‑294) parece ter rebatido de
forma convincente.
Não dispomos de dado textuais que nos permitam
datar o livro, ainda que de forma aproximada. No
18
introDução
19
entanto, se considerarmos que a proximidade temática
e estrutural pode de alguma maneira contribuir para a
datação de um texto – único caminho que nos resta, que
reconhecemos ser bastante falível –, dir‑se‑ia que estes
Relatos de Amor, na linha do que se disse a respeito da
datação do Diálogo de Amor, serão fruto da primeira ou
da segunda década do século II da nossa era.
A obra inscreve‑se num género narrativo
amplamente cultivado pela literatura helenística e
imperial, assente no aproveitamento de lendas locais
unidas pelo tema amoroso, de que conservamos outros
exemplos: as Paixões de Amor de Parténio de Niceia,
as Metamorfoses de Antonino Liberal, as Histórias
de Cónon ou, do próprio Plutarco, a Coragem das
Mulheres
19
. São evidentes alguns paralelos entre este
género e a novelística grega (em especial pelo tema
amoroso, pela beleza e valor interior das personagens e
pela intervenção da tyche), mas também uma série de
diferenças salta à vista, das quais talvez a principal seja
a seguinte: a novela, porque destinada a um grande
público apegado ao sentimentalismo amoroso, deve
ter um happy‑end e, no que toca às lendas recolhidas
por Plutarco, elas têm inevitavelmente um desenlace
trágico, onde só muito raramente surgem laivos de
esperança.
19
Merece ainda referência uma obra que o códice grego
Palatinus 398 de Heidelberg (fol. 157v‑173r) transmitiu como
sendo da autoria de Plutarco, mas que sabemos não o ser, sob o
título Peri Potamon. Trata‑se de uma compilação de 25 capítulos de
histórias variadas, que obedecem, regra geral, à estrutura que vimos
analisando. Sobre este texto, vide E. Calderón Dorda 1997.
Carlos A. Martins de Jesus
20 21
E é esse fnal disfórico que permite, em última
análise, um melhor funcionamento dos propósitos de
moralização. É que se a novela procura, até pelo público
a que se dirige, divertir o leitor, este tipo de relatos
pretende ensinar determinada conduta moral pela
apresentação de exemplos muito concretos, humanos
e não mitológicos, das consequências da acção que é
também humana. Porque o tempo histórico da acção
narrada não é especifcado, salvo os casos em que
determinada referência permite deduzi‑lo, cada lenda
adquire o valor universal de máxima alegórica. Bem
assim, a intervenção do maravilhoso e a dúvida entre
várias versões possíveis – pois que o narrador conta
apenas o que ouviu contar – tornam a narração mais
atraente e dão‑lhe uma maior autoridade moralizante.
A unir as cinco narrativas está um conjunto
de tópicos facilmente identifcáveis. Determinado
homem ou mulher, de beleza e carácter assinaláveis
20
,
é desejado por um número mais ou menos largo de
pretendentes
21
, incendiados por um a paixão que os
empurra para um enamoramento instantâneo e os leva
a cometer actos injustos e impiedosos. E todo o crime
vai reclamar castigo, que pode ser imediato mas, não
20
É comum a este tipo de relatos que os protagonistas sejam
um misto de beleza (kallos) e virtude moral (sophrosyne), sendo que,
no âmbito amoroso, a segunda se resume à castidade e fdelidade
extremas, defendidas até à morte. Vide 771E, 772E; Parténio
13.1, 30.2. Para exemplos da novelística grega, Cáriton 1.1.1‑2;
Xenofonte de Éfeso 1.1‑2, 3.5‑6.
21
Remontando talvez ao exemplo mítico de Penélope, na
sua espera por Ulisses, também este é um motivo frequente das
narrativas eróticas. Vide 771F, 772E; Parténio 6.1; Cáriton 1.1.2.
20
introDução
21
raro, aguarda algum tempo até se fazer chegar, quando
já ninguém o esperava
22
.
Não sendo este o momento para proceder a um
resumo das histórias, desde logo pelo estilo claro em
que estão escritas –, centrar‑nos‑emos apenas em duas
delas. Esquédaso, o herói que abre a terceira lenda
(773B‑774D), é um homem de grande valor moral,
no seu caso um paradigma da hospitalidade. É esta
qualidade que o leva a abrir as portas de casa a dois
espartanos que se apaixonam violentamente pelas duas
flhas do seu hospedeiro, Hipo e Milésia (ou Teano e
Euxipa, segundo outra versão). Partem mas regressam,
encontrando, na sua segunda visita, Esquédaso fora de
casa e as raparigas completamente vulneráveis. Não
resistindo ao desejo e à paixão, violam‑nas e em seguida
matam‑nas, lançando‑as a um poço para que os seus
corpos não fossem encontrados. Regressando a casa e
tomando conhecimento do trágico acontecimento, o
pai das jovens decide‑se a partir para Esparta em busca
de vingança e, advertido de que algo semelhante havia
acontecido com o flho de outro homem que encontra
no caminho, é possuído pela loucura, invoca as Erínias
para vingar a morte das flhas – divindades que puniam
um qualquer crime de sangue – e suicida‑se. A expiação
da culpa desses dois indivíduos é feita, como na história
anterior, a um nível colectivo. Ela confunde‑se com
a história política da Grécia, quando o narrador nos
conta que a batalha que pôs fm à hegemonia espartana
22
Esse o assunto desenvolvido por Plutarco no Da Demora da
Vingança Divina (Moralia 548A‑568A).
Carlos A. Martins de Jesus
22 23
(371 a.C.) teve lugar perto do túmulo das donzelas
assassinadas. E a narração termina com a introdução do
maravilhoso na lenda: quando Pelópidas, chefe tebano,
estava prestes a enfrentar os Espartanos, ter‑lhe‑á
aparecido em sonhos o fantasma de Esquédaso, que
lhe vaticinou a derrota desta cidade, como vingança
pela morte das suas flhas. Hipo e Milésia eram belas,
íntegras e piedosas; os dois espartanos, impetuosos e
desenfreados em termos amorosos e sexuais. O choque
entre estas personalidades redundou em desgraça para
as primeiras e para o seu pai, mas também para os
criminosos e toda a sua cidade, que, numa lógica arcaica
de justiça, expiou uma culpa individual.
A última das histórias incluídas nas Amatoriae
Narrationes (775C‑775E), dramaticamente situada
em Esparta, trata um tema muito caro a Plutarco:
o amor conjugal. Damócrita, esposa de Alcipo, é
deixada sozinha quando o marido parte para o exílio.
Desprotegida, é acusada de criar as suas flhas para
vingar a honra traída do pai, pelo que elas são proibidas
de ser cortejadas. Está em causa a honra conjugal e
familiar de mãe e flhas, o que leva a primeira, no
decurso de um festival onde apenas entram mulheres,
a deitar fogo ao recinto e a se sacrifcar a si própria e
às flhas com um cutelo. A terminar, uma coincidência
histórica. Como vingança pela desonra provocada a
uma mulher casta, os deuses terão enviado à cidade um
terrível terramoto, que os críticos identifcam com o
cataclismo natural de 464 a.C. A morte chegou, desta
vez, não como consequência de um amor exagerado
22
introDução
23
e ardente, antes como resultado da philia conjugal
violada de Damócrita.
É sabido que Platão privilegiava o prazer
anímico em detrimento do prazer corporal (e.g. Rep.
9. 583b–587a), e o Queronense vai servir‑se desta
distinção em toda a sua obra. Assim se explica a
contestação das teses de Epicuro, assentes precisamente
na valorização do prazer físico, assunto a que dedicou
um tratado inteiro (Non posse suaviter vivi secundum
Epicurum: 1086C‑1107D). É portanto clara a defesa
do meio‑termo no cultivo do prazer e do amor, depois
fundida com a ética aristotélica. Em Moralia 443C e
444C Plutarco defne a virtude ética como o meio‑termo
(mesotes) entre paixões opostas, entre o excesso e o
defeito, entre o prazer e a dor,
23
num patamar que oscila
entre o platonismo e o aristotelismo, podendo defnir‑se
através da máxima grega da metriopatheia.
24
Os fragmentos de um tratado de Plutarco
transmitidos por Estobeu, que teria o título sugestivo de
Contra o Prazer, mostram um autor que se insurge apenas
contra o prazer que leva ao esquecimento dos deveres
humanos (fr. 120 Sandbach), à confusão dos valores e,
em última análise, à doença da alma e do corpo, à mania
que toma o indivíduo e o leva a cometer actos injustos
ou impiedosos. Prova de que o prazer não é um mal em
si é o fr. 117 Sandbach (cit. por Estobeu 3. 6. 49):
23
Veja‑se também Moralia 136A, 620 C‑E e 1009 A‑B.
24
Seguimos de perto, para estas refexões sobre o amor e o
prazer em Plutarco, os artigos de J. F. Martos Montiel 1999 e de
A. Billault 1999.
Carlos A. Martins de Jesus
24 25
Uma fera que leva à escravidão é o prazer, mas não selvagem.
Antes fosse! Se contra nós investisse abertamente, logo seria
detectado. Mas o facto é que é a coisa mais detestável pois
esconde a sua maldade tomando a cara de boa vontade. É por
isso duas vezes abominável, seja por que causa desgraça, seja
pela sua falsidade.
Como o próprio Eros, deus menino e irreverente,
em idade para ser amestrado, também o prazer é passível
de ser dominado e educado, com isso garantindo
alguma felicidade ao homem. E foi precisamente isso
o que não fzeram os vilões das cinco histórias que
aqui nos ocupam. Pelo contrário, cederam ao lado
mais negro do prazer e, como alguém que bebe vinho
mas não lhe mistura água, as consequências foram
desastrosas, verdadeiramente trágicas. Contra os perigos
de uma paixão amorosa exacerbada, de resto, já Plutarco
advertira os intervenientes no Diálogo sobre o Amor
(767C‑768F).
Uma leitura atenta destes cinco Relatos
evidencia, ao leitor mais instruído, paralelos fagrantes
com a estrutura conceptual da própria tragédia. Os
protagonistas destacam‑se, de alguma forma, pelo seu
carácter (ethos), partilhando características comuns
como sejam a beleza (também ela, como vimos, motivo
de desgraça), a nobreza, a prudência ou a justiça. E o
narrador faz questão de referir as suas qualidades ao
início, fcando no ar a sensação, depois confrmada,
de que tal constitui, por si só, um motivo de desgraça.
Com estas colidem outras fguras de índole bastante
distinta, caracterizadas, no global, pela desmesura na
24
introDução
25
vivência do amor e na perseguição dos prazeres. Deste
confronto de personalidades surge uma acção (praxis)
negativamente condicionada e que vai redundar, no
fnal, em tragédia, em morte, assim se iniciando uma
corrente de culpa/castigo. Muito importante é ainda
a intervenção da tyche como entidade superior que
move os destinos das fguras intervenientes na trama,
aspecto também característico deste tipo de narrativas
lendárias de origem popular. Outros pormenores como
a invocação do castigo das divindades e a expiação da
culpa em gerações posteriores acrescentam argumentos
a esse paralelo com a moral trágica.
Na prossecução da intenção moralizante a cuja
luz as Amatoriae Narrationes têm que ser lidas, o
ethos, defnido à partida e pela própria acção, revela‑se
bastante mais profícuo. De outro modo, Aristocleia,
Actéon, Esquédaso e as suas duas flhas, Calírroe ou
Damócrita são apresentados como paradigmas do
carácter e da acção humana. Os seus pretendentes,
desenfreados e inconsequentes na busca do prazer,
são então o anti‑paradigma, o modelo a não seguir.
A história contada deve provocar não apenas a
identifcação com o sucedido, mas também, e não
menos importante, a repulsa face ao triunfo do mal. É
que a morte das fguras de maior valor, os verdadeiros
heróis destas micro‑tragédias, pode também ser vista
como libertação, como forma de purifcação de um
corpo e de uma alma manchados pelo contacto com
esse miasma que são aqueles que de forma vergonhosa
os pretendem.
Carlos A. Martins de Jesus
26 27
Amor, busca desenfreada do prazer e, no fm,
a morte, purifcação ou vingança, mas de qualquer
modo morte, a consequência trágica por excelência de
valores em confronto com anti‑valores. Dir‑se‑ia que
Eros, nas Amatoriae Narrationes, não vence a morte,
antes a convoca. Isto porque não é medido o uso que
dele é feito, desse amor que nasce tantas vezes da mera
contemplação da beleza, causa primeira da morte que no
fm tudo devora. Cabe perguntar: nestas circunstâncias
e perante protagonistas de carácter tão elevado, não
constituirá a morte – inocente ou voluntária – a melhor
prova do triunfo do Eros autêntico?
SOBRE A NOSSA TRADUÇÃO
No âmbito do Projecto “Plutarco e os
Fundamentos da Identidade Europeia”, e motivados pela
nossa participação, como conferencista, no IX Simposio
Internacional de la Sociedad Española de Plutarquistas
que, no Outono de 2006, reuniu em Léon um conjunto
de estudiosos que debateram sobre o tema globalizante
do amor em Plutarco, reunimos neste volume a
tradução de dois tratados que, em diversos países, foram
igualmente editados em conjunto – o Amatorius e as
Amatoriae Narrationes. Não fosse por outra razão, esta
associação faria sentido desde logo porque, no Catálogo
de Lâmprias, eles surgem lado a lado. No entanto,
como fomos adiantando na Introdução, as histórias do
segundo livro facilmente se afguram ao leitor como
ilustrações do pensamento de Plutarco sobre o amor
autêntico, só consentido no âmbito conjugal.
26
introDução
27
Foi utilizada para a tradução a edição teubneriana
de C. Hubert 1971, em cujo aparato crítico colhemos,
quando indispensável, suplementos e suposições para a
supressão das lacunas dos manuscritos. Assim, o texto
apresentado entre parênteses rectos corresponde a esses
momentos em que a lição não é clara, implicando, da
parte do tradutor, determinada opção textual.
Uma palavra sentida de agradecimento se deve ao
Doutor Delfm F. Leão, coordenador deste projecto, que
teve a amabilidade de fazer uma primeira leitura crítica
do nosso trabalho, contribuindo com sugestões muito
pertinentes, a cada passo incorporadas no resultado
fnal.
28 29
EDIÇÕES SEGUIDAS PARA A CITAÇÃO DE FRAGMENTOS
Ao longo deste trabalho, os fragmentos vêm assinalados com frg. e
a seguinte sigla ou apelido.
Calímaco
Pfeifer: Pfeiffer, R., Fragmenta. Callimachus. vol. I
(Oxford, 1965).
Fragmentos dos comediógrafos
K‑A: Kassel, R. e Austin, C., Poetae Comici Graeci
(Berlin, 1983).
Kock: Kock, T., Comicorum Atticorum Fragmenta. 3
vols. (Leipzig, 1870, repr. 1976).
Elegíacos e Iambógrafos
West: West, M. L., Iambi et Elegi Graeci ante Alexandrum
cantata. 2 vols. (Oxford,
2
1989‑1992).
Epicuro
Usener: Usener, H., Epicurea (Leipzig, 1887).
Fragmentos dos trágicos
Nauck
2
: Nauck, A., Tragicorum Graecorum Fragmenta
(Leipzig,
2
1964).
Estóicos
von Arnim: von Arnim, H., Stoicorum Veterum
Fragmenta. 3 vols. (Leipzig, 1902‑1905).
30 31
Líricos (excepto Safo e Alceu)
Page: Page, D., Poetae Melici Graeci (Oxford, 1962).
Logógrafos e historiadores
FGrHist: Jacoby, F., Die Fragmente der griechischen
Historiker (Leiden, 1926‑1958).
Lucílio
Warmington: Warmington, E. W., Remains of Old Latin
III. Lucilius and the Twelve Tables (Cambridge,
Massachusetts, 1938, repr. 1961).
Píndaro
Snell‑Maehler: Snell, B. e Maehler, H., Pindarus. Pars
II – Fragmenta. Indices (Leipzig,
4
1975).
Pré‑Socráticos
D‑K: Diels, H. e Kranz, W., Die Fragmente der
Vorsokratiker. 3 vols. (Berlin, 1951‑1952).
Safo e Alceu
Lobel‑Page: Lobel, E. e Page, D., Poetarum
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40 41
Diálogo sobre o Amor
42
Diálogo sobre o Amor
43
748f
Intervenientes: Flaviano e Autobulo, flho de Plutarco,
entre outros presentes.
Flaviano
1. No Hélicon
1
, Autobulo
2
, dizes tu que tiveram
lugar essas conversas sobre o Amor, as quais, por as
teres escrito ou as teres gravado na memória
3
, à força
de muitas vezes interrogares o teu pai, nos queres agora
contar para nos entreter?
Autobulo
Foi no Hélicon, sim, na morada das Musas,
Flaviano, na altura em que as gentes de Téspias
4

1
Já Hesíodo, na abertura da Teogonia, considerava o Hélicon
a morada das Musas. O Hélicon é um monte na Beócia, em cujo
sopé se situaria o vale das Musas. O culto ofcial a estas divindades
remonta à época arcaica, apesar de o santuário ofcial, o Mouseion,
apenas ter adquirido maior importância a partir do séc. IV a.C.
2
Filho de Plutarco e narrador do diálogo.
3
A distinção escrita / memória está já presente, em moldes
muito próximos, na abertura do Fedro de Platão (228a‑e).
4
Cidade da Beócia, a oeste de Tebas (Cf. Estrabão 9. 2. 25).
Plutarco
44 45
749a
celebravam as Festas de Eros; celebram essa festividade,
com efeito, a cada quatro anos, tanto em honra das
Musas como de Eros, com o máximo zelo e esplendor
5
.
Flaviano
Sabes acaso o que pretendemos pedir‑te, todos
nós que aqui viemos para te ouvir?
Autobulo
Não, mas sabê‑lo‑ei se mo disserem.
Flaviano
Que suprimas, no teu discurso, desta vez, os
prados foridos e as sombras de que falam os poetas, os
emaranhados da hera e dos teixos, bem como todos os
lugares comuns pelos quais alguns escritores, com mais
entusiasmo do que sucesso, se esforçam por imitar o
Ilisso de Platão, o seu famoso agnocasto ou essa relva
que cresce sobre uma encosta, formosamente inclinada
6
.
5
Sobre as festas que aí decorriam em honra das Musas e de Eros
veja‑se Pausânias 9. 31. 3 e Ateneu 13. 561e, 14. 629a. Segundo
relatam os mesmos Pausânias (9. 27. 3‑5) e Ateneu (13. 591a‑b),
no santuário do deus haveria uma estátua em mármore da autoria
de Praxíteles, depois levada para Roma e perdida num incêndio
em 80 d.C. Esta estátua surge ainda referida em dois epigramas
da Antologia Palatina (16. 203 e 206). Já Cícero (Contra Verres 2.
4. 135) refere que a estátua estaria colocada no centro de Téspias.
6
O pedido alude, em concreto, a um passo do Fedro de Platão
(229a‑b, 230b‑c), no qual se descreve ao pormenor o local onde
chegam Fedro e Sócrates, nas margens do rio Ilisso, que corria
fora dos muros de Atenas. Ora, esta tendência para a descrição
detalhada do cenário onde decorreria o diálogo, verdadeiro locus
amoenus, à imagem do passo platónico, tinha‑se tornado proverbial
e era já um topos da literatura imperial. Note‑se que ao agnocasto
se atribuíam, desde a Antiguidade, propriedades anti‑afrodisíacas,
44
Diálogo sobre o Amor
45
b
Autobulo
Que necessidade, meu caro Flaviano, tem o meu
discurso desses prelúdios? O motivo pelo qual surgiram
estas conversas, pelo seu carácter patético, reclama
apenas um coro para interagir e uma cena, já que não
lhe falta nenhum outro elemento dramático
7
. Basta que
façamos preces à mãe das Musas
8
, para que nos seja
propícia e me ajude a recuperar a história.
2. Foi há muito tempo que o meu pai, antes
mesmo de eu ter nascido, quando tinha acabado de
casar com a minha mãe
9
, por ocasião de uma disputa e
de uma quezília que surgira entre os pais de ambos, aqui
chegou para fazer sacrifícios a Eros, e trouxe a minha
mãe para o festival. Com efeito, deveria ser ela a fazer a
prece e o sacrifício. Seguiram‑no de casa os seus amigos
habituais, e em Téspias foi encontrar Dafneu, o flho de
Arquidamo que estava apaixonado por Lisandra, flha
de Símon, sendo que era ele o preferido de todos os seus
pretendentes, e Soclaro, o flho de Aristíon, que tinha
ou seja, funcionava como um promotor da castidade, o que, num
diálogo sobre o amor, talvez não seja inocente.
7
Recurso à linguagem do campo semântico do teatro para
descrever, em antecipação, a natureza da obra que se seguirá. Com
efeito, mais do que um verdadeiro diálogo, trata‑se da representação,
a uma voz, de um diálogo ocorrido no passado.
8
Mnemosyne, a Memória. Indirectamente, Autobulo responde
à dúvida inicial de Flaviano, confessando que apenas gravou na
memória o que vai contar.
9
De seu nome Timóxena, a destinatária de um pequeno tratado
de Plutarco de género epistolar, a Consolação à Esposa (cf. Moralia
608C e 611D).
Plutarco
46 47
c
d
chegado de Titórea
10
. Também lá estavam Protógenes de
Tarso
11
e Zeuxipo de Esparta, na qualidade de hóspedes.
O meu pai costumava dizer que, além destes, estava por
lá a maior parte das celebridades da Beócia.
Os primeiros dois ou três dias na cidade, ao
que parece, tê‑los‑ão passado a flosofar calmamente
nas palestras e entretendo‑se uns com os outros em
espectáculos teatrais. Em seguida, tentando fugir a
um embaraçoso concurso de citaredos
12
, já marcado,
à partida, por subornos e intrigas, a maior parte deles,
como de um território inimigo, bateu em retirada para
o Hélicon e assentou acampamento na morada das
Musas.
Na manhã seguinte juntaram‑se‑lhes Antémion
e Písias, homens de grande reputação que andavam
preocupados com Bácon, a quem chamavam “o
Bonitão”, e, devido ao afecto que ambos nutriam pelo
rapaz, surgiu entre eles uma certa animosidade.
Com efeito, vivia em Téspias Ismenodora, mulher
distinta pela sua riqueza
13
e linhagem, se bem que, por
Zeus, acima de tudo levasse uma vida regrada: era viúva
há já não pouco tempo mas escapara às más‑línguas,
10
Cidade da Fócida, na Grécia central.
11
Capital da Cilícia, na Ásia Menor.
12
Os citaredos eram cantores que acompanhavam o seu canto
à cítara ou à lira. Este passo pretende realçar o carácter litigioso das
gentes de Téspias, que era de resto proverbial na Antiguidade (cf.
Eliano, História Vária 11. 6).
13
Na primeira apresentação da heroína desta história de amor,
o narrador realça a grande riqueza material que possuía, porquanto,
como veremos, será esse um dos principais argumentos de quantos
se opõem à união com Bácon.
46
Diálogo sobre o Amor
47
e
embora fosse ainda jovem e de aspecto agradável. Ora,
posto que Bácon era flho de uma amiga íntima sua,
e que ela mesma se havia encarregado de lhe arranjar
casamento com uma jovem da sua família, tantos
encontros e tantas conversas fzeram com que nascesse
nela um sentimento de paixão pelo rapaz. De tanto ouvir
e lhe dizer palavras meigas, de tanto ver a multidão dos
seus nobres amantes, foi arrastada para o amor, mas não
nutria qualquer intenção desonesta que não fosse viver
ao lado de Bácon, uma vez casada com ele. A situação
era, em si, sufcientemente estranha
14
, e a mãe do rapaz
temia que a importância e o esplendor da casa [de
Ismenodora] não fossem convenientes ao jovem amado.
Além disso, alguns dos seus companheiros de caça, com
o argumento da idade, procuravam assustar Bácon e
assim, à força de piadas, colocavam mais obstáculos do
que quantos, aduzindo argumentos válidos, eram contra
o casamento, já que ele, moço como era, tinha vergonha
de se casar com uma viúva.
Ainda assim, ignorando a opinião dos demais,
deixou a decisão para Písias e Antémion, sendo que
este era seu primo mais velho, ao passo que Písias era
14
O comum seria que um homem mais velho, com cerca de
trinta anos, desposasse uma rapariga ainda adolescente, entre
os 15 e os 18 anos de idade. A norma é confrmada adiante no
diálogo (753a e 754D‑E) e, entre outros testemunhos, por Platão
(Leis 6. 772d‑e), Xenofonte (Económicos 7. 5) e Aristóteles (Política
1335a). Esta tendência terá evoluído com o tempo, acompanhando
a evolução paulatina da situação da mulher. Apenas no teatro e
na literatura erótica são frequentes os exemplos de mulheres mais
velhas que se apaixonam por rapazes, precisamente como elemento
potenciador de tragédia ou de cómico – portanto, igualmente
situações tidas como contra‑natura.
Plutarco
48 49
f
750a
o mais impetuoso dos seus pretendentes. Por essa razão
era contra o casamento e acusava Antémion de querer
entregar o rapaz a Ismenodora. Este, por sua vez, dizia
que ele não estava a agir bem pois, apesar de em tudo
o resto ser exemplar, neste caso em particular imitava
os amantes baratos que privam o seu amado de um lar,
do casamento e de uma grande fortuna, com o único
propósito de o preservar destas coisas e de o contemplar,
na sua juventude, despido nas palestras durante o
máximo tempo possível
15
.
3. Foi pois para evitar que se irritassem um
com o outro e se deixassem levar pela mínima cólera
que vieram juntar‑se ao meu pai e aos que estavam
em sua companhia, elegendo‑os para árbitros e juízes
da questão. Neste círculo de amigos, como se a coisa
tivesse sido combinada, cada um arranjou um defensor:
Dafneu para Antémion, Protógenes para Písias. Este,
porém, pôs‑se a falar mal, sem rodeios, de Ismenodora,
ao que Dafneu respondeu: “Por Héracles, que há mais
de inesperado, se até Protógenes se perfla para dizer
mal de Eros, logo ele para quem todos os assuntos, os
divertidos e os sérios, são sobre Eros e para Eros, e anda
esquecido dos estudos, esquecido da pátria
16
,
15
Ideia muito próxima do Fedro platónico (240a).
16
Como explica Nauck
2
, pode este fragmento trágico pertencer
ao Crisipo de Eurípides (frgs. 839‑844 Nauck
2
), drama perdido no
qual se contaria o rapto de Crisipo por Laio, rei de Tebas, episódio
tradicionalmente tido como o mais antigo exemplo de pederastia na
Grécia (cf. Platão, Leis 8. 386b‑c, Ateneu 13. 602f ). Este pormenor
do ciclo tebano é, portanto, anterior à união com Jocasta, numa
48
Diálogo sobre o Amor
49
b
c
não como esse Laio, que apenas durante cinco dias
se manteve afastado da pátria
17
? É que se o Eros deste
último era lento e pedestre, o teu, da Cilícia até Atenas,
às voltas, com asas velozes
18
,
esvoaça cruzando o mar, para contemplar e perseguir
por toda a parte os bonitões.”
Com efeito, era essa desde o início a verdadeira
razão da viagem de Protógenes.
4. Instaurou‑se uma gargalhada e Protógenes
disse: “Julgas que estou a combater Eros, em vez de
lutar, ao lado de Eros, contra a luxúria e a insolência,
que pretendem impor aos actos mais vergonhosos e às
paixões os nomes mais belos e sagrados?”
“Por mais vergonhosos – replicou então Dafneu –
referes‑te ao casamento e à união de um homem e uma
mulher, quando jamais existiu ou existe ligação mais
sagrada do que essa?”
“Sem dúvida – disse Protógenes – que sendo essa
união indispensável à procriação humana, não é sem
sentido que os legisladores a exaltam e celebram diante
dos cidadãos. Mas o amor verdadeiro não tem qualquer
altura em que Laio, advertido já pelo oráculo de que morreria às
mãos de um flho seu, recusava o afecto das mulheres e se refugiava
nos braços de rapazes.
17
Na sua paixão por Crisipo, Laio terá ido de Tebas a Pisa,
cidade da Élide a noroeste do Peloponeso, sobre a qual reinava
Pélops, pai de Crisipo.
18
Arquíloco, frg. 181 West (linha 11).
Plutarco
50 51
d
e
espécie de relação com o gineceu, e nem considero que
seja amor o sentimento que vocês nutrem por mulheres
e raparigas, da mesma maneira que as moscas não amam
o leite ou as abelhas o mel, nem tampouco os criadores
de gado ou os cozinheiros experimentam sentimentos
de amor pelos cordeiros ou por aves que se alimentam
às escuras.
Na verdade, do mesmo modo que a natureza
nos inspira um desejo moderado e sufciente por pão
e outros alimentos, ao passo que o excesso cria um
desejo por essa alimentação a que dão o nome de
glutonaria, também na natureza reside a necessidade de
homens e mulheres conseguirem prazer um do outro.
Relativamente ao impulso que daí resulta, quando, por
ser tão intenso e poderoso, se torna imenso e difícil de
suportar, não é com acerto que lhe chamam amor. Na
verdade o amor, quando se liga a uma alma dotada e
jovem, redunda em virtude, por efeito da amizade
19
.
Quanto a esses apetites por mulheres, na melhor das
hipóteses, apenas lhes é permitida a fruição do prazer
e das dádivas passageiras do corpo, como testemunhou
Aristipo
20
, quando respondeu a alguém (que acusava
Laís
21
de não o amar) que tampouco julgava que o vinho
19
Esta ideia, repetida adiante em diversos passos (750E,
751A, 751D, 752A, 759D, 768E, 769C) é cara ao platonismo
(cf. Banquete 209b, 218a) e à moral estóica (Diógenes Laércio 7.
129‑130, Crisipo 3. 716‑722 von Arnim).
20
Aristipo de Cirene. Pertenceu ao círculo de Sócrates e
fundou a chamada escola Cirenaica. Pelo teor hedonista do seu
pensamento, é considerado o precursor do epicurismo.
21
Famosa cortesã de Corinto, referida adiante (767F). Para a
sua relação com Aristipo, vide Diógenes Laércio 2. 74‑75.
50
Diálogo sobre o Amor
51
f
e o peixe o amassem, mas retirava prazer, ainda assim,
de cada um deles.
Em suma, o desejo não tem outro fm que não o
prazer e a fruição. Já o amor, quando perde a esperança
de inspirar amizade, não mais aceita permanecer a
cuidar do brilho efémero de uma juventude em for, se
esta não lhe devolve um fruto adequado ao seu carácter,
em forma de amizade e virtude.
Tu mesmo escutaste, por certo, esse esposo da
tragédia, que respondia assim à sua mulher:
Odeias‑me? A mim pouco custa ser odiado,
se souber tirar proveito do teu desprezo
22
.
Não está mais apaixonado do que este homem
aqueloutro que, não para proveito próprio mas por
causa dos prazeres e da relação sexual, permanece ao
lado de uma mulher detestável e sem coração. É esse
o caso do orador Estrátocles, de quem troçava o poeta
cómico Filípides, nestes termos:
Se ela te vira as costas, a custo amas a sua cabeleira
23
.
Ora, se a tal paixão há que dar o nome de amor,
seja ele ao menos efeminado e bastardo, já que, como
em Cinosarges
24
, se pratica nos gineceus. Ou ainda,
22
Frg. 401 Nauck
2
de uma tragédia desconhecida.
23
Frg. 26 K‑A. Filípides era um poeta da comédia nova.
24
Único ginásio ateniense que aceitava a entrada de flhos
ilegítimos ou de mãe estrangeira, também referido por Plutarco em
Temístocles 1. 3‑4.
Plutarco
52 53
751a
b
como existe uma águia que dizem ser de raça pura e da
montanha, a que Homero chama “negra” e “caçadora”
25
,
mas outras há, da raça das bastardas, que pelos pântanos
apanham peixe e pássaros lentos – mas, quando fcam
com fome, muitas vezes soltam gritos famintos e
desesperados –, do mesmo modo, no que toca ao amor,
apenas o que diz respeito a rapazes é legítimo; não é
“ardente em desejo”, como diz Anacreonte do amor por
raparigas, nem “pleno de perfumes e brilhante”
26
. Pelo
contrário, de aspecto simples e nada afectado, haveis de
vê‑lo nas escolas dos flósofos ou mesmo nos ginásios
e nas palestras, à caça de jovens que despertem a sua
atenção, com uma voz clara e genuína, exortando à
virtude aqueles que são dignos da sua atenção.
Mas esse outro, futuante e caseiro, que perde o seu
tempo nos regaços e nas camas das mulheres, sempre à
procura de uma vida calma e corrompido por prazeres
indignos de um homem, sem amizade e sem entusiasmo,
rapidamente há que prescrevê‑lo, como de facto o
prescreveu Sólon: com efeito, proibiu que os escravos
se relacionassem intimamente com rapazes novos e se
ungissem antes do banho com azeite, mas não lhes proibiu
a relação sexual com mulheres
27
. Sentimento belo e nobre
é a amizade, ao passo que o prazer é vulgar e indigno
de gente livre. Daí que o amor por rapazes escravos
25
Respectivamente, Ilíada 21. 252 e 24. 316.
26
Frg. 444 Page.
27
Plutarco comenta esta lei em Sólon 1. 6, bem como Ésquines
1. 138‑139. O que realmente está em causa em Sólon é privar
os escravos de actos próprios de pessoas livres, em especial dos
aristocratas, como frequentar os ginásios e serem amantes de jovens
livres.
52
Diálogo sobre o Amor
53
c
tampouco seja coisa de gente livre ou com estatuto de
cidadão. Um amor assim mais não é do que união sexual,
e o mesmo vale para o amor por mulheres.”
5. Embora Protógenes tivesse intenção de dizer
muito mais, disse‑lhe Dafneu, cortando‑lhe a palavra:
“Fizeste bem, por Zeus, em referir Sólon, mas é
sobremaneira necessário que o tomemos como protótipo
do homem apaixonado,
enquanto, na amável for da juventude, os rapazes ame,
as suas coxas [desejando] e a doçura da sua boca
28
.
E acrescenta ainda a Sólon estas palavras de
Ésquilo:
a reverência das tuas coxas não respeitaste,
tu, o mais esquivo aos meus beijos apertados!
29
Outros há, porém, que se fartariam de rir destes
poetas, já que incitam os apaixonados a prestar atenção
às coxas e aos quadris, como os sacerdotes do sacrifício
ou os adivinhos. Quanto a mim, considero que este é
28
Sólon, frg. 25 West.
29
Frg. 135 Nauck
2
. Trata‑se de dois trímetros iâmbicos de
uma tragédia perdida de Ésquilo, Mirmidões, no momento em
que Aquiles se dirige, saudoso, ao cadáver de Pátroclo. A partir
da profunda amizade que unia estes heróis na Ilíada, Ésquilo
considerou que a ambos ligava uma relação pederástica, opinião
depois partilhada por outros autores como Platão (Banquete
179e‑180b) e Ésquines (1. 142 sqq.), mas rejeitada por Xenofonte
(Banquete 8. 31).
Plutarco
54 55
d
e
um argumento muito importante a favor das mulheres:
pois se é verdade que a relação contra‑natura com varões
não destrói nem prejudica o afecto amoroso, muito
mais evidente há‑de ser que o amor entre mulheres e
homens, conforme à natureza, conduza à amizade, por
via da graça. «Graça», Protógenes, era o nome que entre
os Antigos se dava à condescendência feminina para
com o varão. Daí que Píndaro diga que Hefestos nasceu
de Hera sem graças
30
; e também Safo, dirigindo‑se a uma
rapariga que não está ainda em idade de casar, diz que
pequena rapariga me parecias, ainda sem graça
31
.
E a Héracles, alguém fazia esta pergunta:
Conseguiste as graças dela pela força, ou persuadindo a
[rapariga?
32
Quanto a essa outra espécie de graça, conseguida
pelos varões, por via da força e da rapina, quando
elas não cedem voluntariamente, e com fraqueza e
feminilidade, como diz Platão, se entregam para ser
montadas à maneira dos quadrúpedes e engendrar flhos
33
,
30
A expressão vem da Pítica II (v. 42), onde é no entanto
aplicada a Néfele, a Nuvem que Zeus colocou entre Ixíon e Hera,
quando estes se uniram no leito. É talvez oportuno recordar como,
na Teogonia (927 sqq.), Hesíodo diz que Hera gerou Hefestos “sem
união”.
31
Frg. 49. 2 Lobel‑Page. Parece‑nos que o exemplo usado é
forçado. Com efeito, o termo charis tem, na poesia de Safo, uma
acepção bastante diferente da que lhe atribui Plutarco neste ponto.
32
Frg. 402 Nauck
2
de uma tragédia desconhecida.
33
Fedro, 250e.
54
Diálogo sobre o Amor
55
f
752a
contra a natureza, essa é muito desgraçada
34
, indecorosa
e desprovida de qualquer encanto. Por isso, estou em
crer que Sólon escreveu aqueles versos enquanto era
jovem e estava repleto de esperma, como diz Platão
35
; no
entanto, quando já estava amadurecido, falou assim:
As obras da deusa nascida em Chipre agora me agradam, as
[de Diónisos
e das Musas, que aos homens proporcionam alegrias
36
,
como se, depois do furacão e da tempestade das
paixões por rapazes, tivesse assentado a sua vida numa
certa calma, baseada no casamento e na flosofa.
Portanto, Protógenes, se queremos ser
verdadeiros, a um e o mesmo sentimento corresponde
o amor por rapazes e por mulheres. Mas se queres
distingui‑los, pelo simples prazer da discussão, não
parece esse amor por rapazes actuar com moderação,
antes, como alguém que nasceu demasiado tarde e fora
de tempo, um flho bastardo e clandestino, trata de
expulsar o Eros verdadeiro e mais antigo. Com efeito,
ainda ontem, meu amigo, ou no dia anterior, entre os
jovens que se desnudavam e exercitavam, penetrou às
escondidas nos ginásios, acariciando‑os suavemente e
insinuando‑se, e logo depois, de mansinho, esvoaçou
para as palestras e já não foi possível travá‑lo, antes
34
A nossa tradução visa manter o jogo semântico presente no
original acharis [charis].
35
Leis 8. 839b.
36
Frg. 26 West, também citado por Plutarco em Sólon 31. 7 e
Moralia 155F, 156C‑D.
Plutarco
56 57
b
seguiu a insultar e ultrajar esse outro Eros conjugal
que concorre para a imortalidade da raça humana,
uma e outra vez resgatando a nossa natureza da
extinção por via dos nascimentos
37
.
Este amor recusa o prazer? É porque sente
vergonha e temor. É por isso que necessita de uma
razão honesta para se relacionar com os rapazes belos e
no auge da juventude: e o seu pretexto é a amizade e a
virtude. Cobre‑se de areia, banha‑se em água fria, eleva
o olhar
38
e, em público, por medo da lei, diz que observa
a flosofa e a prudência. Mas logo, na calada da noite,
quando tudo está calmo,
doce é a fruta na ausência do guardião
39
.
Ora, a ser verdade o que diz Protógenes, que numa
relação com rapazes não há lugar aos prazeres sexuais,
como pode haver Eros se não está presente Afrodite
40
,
ele a quem calhou em sorte, por vontade dos deuses,
tratar dela e dar‑lhe assistência, participando da sua
honra e do seu poder na medida em que lho permita?
Se há acaso um Eros sem Afrodite, isso é como uma
37
Em termos muito próximos exprime Platão (Banquete 207d,
208d) a noção de que Eros, exercendo a tutela do amor conjugal, é
o garante da continuidade da raça humana.
38
À letra, elevar as sobrancelhas. Este gesto tinha‑se tornado um
tique de flósofos e pretensos intelectuais (cf. Moralia 412E‑F). Está
em causa uma postura fngida que pretende vestir a pederastia de
uma carga de seriedade, algo com o qual Pseudo‑Luciano (Amores
53‑54) ironiza.
39
Frg. 403 Nauck
2
de uma tragédia desconhecida.
40
Afrodite tutela os prazeres sexuais (aphrodisisa) e Eros, seu
companheiro, o desejo e a paixão amorosa.
56
Diálogo sobre o Amor
57
c
d
bebedeira sem vinho, baseada em sumo de fgo e cevada,
como uma perturbação que não chega a dar fruto e não
tem qualquer propósito, uma simples fonte de excesso
e repugnância.”
6. Perante estas palavras, Písias estava visivelmente
furioso e irritado com Dafneu. Assim que este terminou,
disse: “Por Héracles, que libertinagem e insolência, a
de alguns homens que reconhecem, como cães, estar
atracados à fêmea pelos seus membros viris e renunciam
e expulsam o deus dos ginásios, dos passeios flosófcos
e da conversa pura e desvelada à luz do sol, para o
ocultarem em bordéis, entre facas, mezinhas e feitiços
de mulheres licenciosas! É que, pelo menos para as
mulheres honestas, sem dúvida que não é importante
amar ou serem amadas.”
Nesse momento, contou‑me o meu pai que ele
próprio contestou Protógenes e lhe disse:
“Essas palavras põem em pé de guerra o povo Argivo
41
.
De resto, por Zeus, em partidários de Dafneu nos
converte Písias, ao não ser comedido e considerar os
casamentos não mais do que uma união sem amor e que
carece da amizade inspirada pelo deus, um sentimento
que, quando lhe falta a persuasão amorosa e a graça,
vemos que consegue manter‑se, a muito custo, não
mais por efeito de jugos e freios do que por vergonha
e medo.”
41
Frg. 404 Nauck
2
de uma tragédia desconhecida.
Plutarco
58 59
e
Ao que Písias respondeu: “Pouco me importa
esse argumento. Já Dafneu, vejo que se passa com ele
o mesmo que com o cobre: é que também este metal se
derrete e corre em estado líquido, não tanto pelo efeito
do fogo como pelo cobre incandescente e fundido que
se lhe derrama em cima. E não o incomoda a beleza
de Lisandra, mas é por estar próximo de alguém já há
muito tempo infamado e cheio de fogo
42
que ele se
abrasa. Por isso, é claro que, a menos que rapidamente
se escape para o nosso lado, há‑de fundir‑se com ele.
Mas vejo – continuou – que acontece precisamente o
que mais desejava Antémion: também eu vou contra os
juízes
43
, pelo que paro por aqui.”
Respondeu‑lhe então Antémion: “Ainda bem,
pois covinha desde início que tivéssemos discutido o
nosso assunto!”
7. “Digo para já, – prosseguiu Písias – depois de
proclamar que não creio que alguma vez devotasse o
meu amor a uma mulher, que a riqueza dessa mulher
em concreto deve ser evitada pelo jovem rapaz, não
vá que, misturando‑se com tamanha abundância e
tamanho luxo, o façamos desaparecer, sem darmos por
isso, como acontece com o estanho em contacto com
o cobre. Grande coisa, na verdade, é um jovem unir‑se
42
Suposta alusão ao próprio Plutarco que, ao tempo dramático
deste diálogo, teria casado há pouco tempo e, como tal, era um
fervoroso defensor do amor conjugal.
43
Refere‑se aos restantes interlocutores do diálogo, a quem
Písias e Antémion tinham pedido que fossem árbitros da sua
contenda (vide supra, 750A).
58
Diálogo sobre o Amor
59
f
753a
a uma mulher modesta e simples, quando a mistura
ocorre à maneira do vinho com a água, prevalecendo
aquele sobre esta
44
. Mas está‑se mesmo a ver que esta
mulher pretende mandar e ser ela a dominar. De outro
modo, não teria rejeitado outros pretendentes ilustres,
abastados e nobres, por desejar um rapaz de clâmide que
ainda precisa dos cuidados de um pedagogo
45
.
Por essa razão têm juízo os homens que renunciam
por si mesmos e cortam, como se fossem asas, o excesso
de riqueza das suas mulheres, uma vez que esta produz
arrogância e uma vaidade inconstante e frívola, no que
muitas vezes se apoiam para dar à asa e voar. E mesmo
que se deixem fcar, é preferível estar preso por correntes
de ouro, como na Etiópia
46
, do que pela fortuna de uma
mulher.”
8. “E não referes tu aquele outro argumento –
interveio Protógenes – que também nos arriscamos a
44
Os Gregos não bebiam, normalmente, vinho puro. A imagem
do vinho misturado com água para representar o casamento, no
qual a cor e o sabor do vinho devem prevalecer – como deve, na
relação, ser o homem a exercer o poder – é recuperada adiante
(769E‑F). Vide, a este respeito, R. Scannapieco 2009.
45
A clâmide era uma capa de corte único, curta, símbolo dos
efebos, que volta a ser referida como imagem da juventude de Bácon
adiante (754F‑755A). Quanto ao pedagogo, era normalmente
um escravo com a função de acompanhar os rapazes à escola e
de cuidar, no geral, da sua formação. Ambos os elementos, vestir
clâmide e andar na companhia de um pedagogo, pretendem
mostrar cabalmente como, para quantos partilham dessa opinião,
Bácon é demasiado jovem para casar.
46
Heródoto (2. 23) conta que, nesta região, os prisioneiros
eram amarrados com correntes de ouro por não haver muito cobre.
Vide ainda Heliodoro 9. 1. 5.
Plutarco
60 61
b
contrariar de forma estranha e absurda Hesíodo, ele que
dizia
Quando para os trinta anos não te falte muito
nem os tenhas passado em demasia: de casar é o tempo!
A mulher, com quatro anos de puberdade, ao quinto se há‑de
[casar
47
.
Da mesma forma, se a uma mulher tantos anos
mais velha fôssemos amarrar um homem imaturo,
seríamos como quantos [querem à pressa amadurecer]
fgos [ou feijões]
48
.
«Está com certeza apaixonada por ele, por Zeus,
e arde em desejo!» Quem a impede então de fazer
cortejos à sua casa, cantar‑lhe uma serenata à porta
fechada, coroar de grinaldas os seus retratos ou bater‑se
com os amantes seus rivais? Isso sim é próprio de gente
apaixonada. Que baixe os olhos
49
e ponha um termo
à sua luxúria, adoptando uma postura adequada aos
seus sentimentos. E se tem vergonha e é honesta, que
se deixe fcar por casa, como deve ser, à espera dos
pretendentes e galanteadores. À mulher que proclama
estar apaixonada qualquer um devia evitá‑la e odiá‑la,
47
Trabalhos e Dias 696‑698.
48
Os manuscritos apresentam, neste ponto, uma lacuna de pelo
menos nove letras, que traduzimos na reconstituição proposta em
aparato crítico por Hubert. Sabe‑se que era costume atar à fgueira
ramos de fgueira silvestre para apressar a maturação dos fgos. Cf.
Plutarco, Moralia 700F e Teofrasto, Da Origem das Plantas 2. 9. 5.
49
À letra, baixar as sobrancelhas, por oposição a levantar as
sobrancelhas (vide supra, n. 38), tem o sentido de uma postura
humilde.
60
Diálogo sobre o Amor
61
c
d
e jamais aceitá‑la em casamento, tendo como princípio
uma tal intemperança.”
9. Quanto Protógenes terminou, disse o meu pai:
“Vês, Antémion, como uma vez mais colocam a questão
geral e nos obrigam a intervir na discussão, nós que não
recusamos nem sequer evitamos ser os coreutas do amor
conjugal?” Disse [então] Antémion: “Sim, por Zeus!
Defende agora com mais veemência, perante eles, esse
amor. Sai ainda em auxílio da riqueza, com que Písias
mais nos pretende assustar.”
Ao que o meu pai disse: “Afnal, que acusação não
poderia fazer‑se a uma mulher, se por causa do seu amor
e da sua riqueza tivermos que condenar Ismenodora?
Sim, é poderosa e rica. E qual o problema em ser bela
e jovem? Qual o problema em ser, pela sua linhagem,
eminente e ilustre? As que são decentes, não têm elas
[a fama] de austeras e maçadoras, difíceis e intratáveis,
e não lhes chamam Fúrias
50
por estarem sempre iradas
com os maridos, de tanto serem decentes? Será que é
preferível desposar alguma Abrótono da Trácia
51
ou uma
Báquis de Mileto
52
, levando‑a para casa directamente
da ágora, em troca de uma quantidade de dinheiro e
50
Referência às deusas vingadoras dos crimes de sangue. O
passo encontra paralelo em Moralia 142A, onde igualmente se
acusa uma esposa demasiado severa de não ser capaz de suscitar o
amor do marido.
51
Mãe de Temístocles (cf. Plutarco, Temístocles 1. 1 e Ateneu
13. 576b), era uma mulher não nobre e estrangeira.
52
Cortesã de Samos, a acreditar no testemunho de Ateneu (13.
594b).
Plutarco
62 63
e
debaixo de uma chuva de nozes
53
? No entanto, também
no que a estas diz respeito, sabemos que não foram
poucos os que, de forma vergonhosa, se tornaram seus
escravos. Flautistas de Samos e dançarinas, Aristonice
54

e Enante
55
com o seu tambor, e ainda Agatocleia
56
, todas
tiveram a seus pés coroas de reis.
Semíramis da Síria era também escrava,
concubina de um servo do palácio do rei. Quando
reparou nela o grande Nino e por ela caiu de amores, a
tal ponto o dominou e humilhou essa mulher, que lhe
pediu autorização para, por um só dia, se sentar no seu
trono, envergar a coroa na cabeça e governar. Quando
ele lho concedeu e ordenou a todos que lhe servissem e
obedecessem como a ele próprio, ela começou por ditar
ordens moderadas, como forma de testar os guardas.
Mal confrmou que não se opunham a nada nem
sequer hesitavam, ordenou que levassem Nino, que o
prendessem e, fnalmente, que o matassem. Cumpridos
os seus desígnios, reinou sobre a Ásia de forma brilhante
durante muito tempo
57
.
53
O costume de atirar nozes ou fgos, em Atenas, estendia‑se
a escravos recém‑adquiridos e a noivas, num gesto de boas‑vindas
(vide Aristófanes, Pluto 768‑769).
54
Desconhecemos quem seria esta mulher. Pode, no entanto,
tratar‑se de uma confusão com Estratonice, cortesã da convivência
de Ptolomeu II, rei do Egipto entre 286‑246 a.C. (apud Ateneu 13.
576F) ou de Mitridates (apud Plutarco, Pompeu 36. 4 sqq.).
55
Cortesã, mãe da seguinte, Agatocleia.
56
Cortesã que terá tido às suas ordens Ptolomeu IV, rei do
Egipto entre 221‑204 a.C.
57
A história de Nino, fundador epónimo de Ninive, e
Semíramis, rainha da Babilónia, é também contada por Diodoro
Sículo 2. 1‑20. Terá sido o tema de uma novela do séc. I a.C., de
que apenas conservamos breves fragmentos.
62
Diálogo sobre o Amor
63
f
754a
E Belestique, por Zeus, não era ela uma mulher
bárbara adquirida na ágora, ela mesma, de quem os
Alexandrinos conservam altares e templos nos quais,
por amor de um rei, está gravada a inscrição «Afrodite
Belestique»
58
? E essa outra que, aqui mesmo, partilha
do templo e do culto de Eros, e em Delfos se ergue toda
em ouro entre reis e rainhas
59
, com que espécie de dote
dominou os seus amantes?
No entanto, como aqueles, graças à sua fraqueza
e debilidade, foram feitos presas de [pérfdas] mulheres,
outros há, pelo contrário, que, sem linhagem e humildes
que eram, ao unir‑se a mulheres ricas e ilustres, não se
corromperam e em nada abdicaram da sua dignidade,
antes levaram a vida de forma respeitável e exercendo o
seu poder com benevolência. Pois aquele que reprime
a mulher e a reduz a uma posição insignifcante, da
mesma maneira que um homem débil aperta um anel,
por receio de o perder, é em tudo semelhante a quantos
desatrelam as éguas e em seguida as levam para um rio
ou um lago. Dizem, com efeito, que quando cada uma
vê o refexo da sua imagem, feio e disforme, se põe a
relinchar e deixa‑se cobrir pelos garanhões
60
. Também
58
Outra amante, cortesã, de Ptolomeu II, que Ateneu (13.
596e) diz ser da linhagem dos Atridas. Vide ainda Clemente de
Alexandria, Protréptico 4. 48. 2.
59
O passo alude a Frine de Téspias, cortesã do séc. I a.C. Porque
teria sido também amante do escultor Praxíteles, havia no templo
local em honra de Eros estátuas suas. A tradição diz mesmo que
foi a fgura de Frine a inspirar o artista para a célebre estátua de
Afrodite de Cnidos. Vide Plutarco, Moralia 336C‑D, 401A, D;
Pausânias 1. 20. 1‑2, 9. 27. 3‑5, 10. 14. 7; Ateneu 13. 590‑591 e
Antologia Palatina 16. 206.
60
Plutarco desenvolve semelhante argumentação em Moralia
Plutarco
64 65
b
c
assim, preferir a riqueza de uma mulher à sua virtude
ou linhagem é coisa vil e indigna de um homem livre,
mas fugir da riqueza, quando acompanhada de virtude
e linhagem, isso é uma estupidez ainda maior.
Antígono, quando escrevia ao chefe que havia
fortifcado Muníquia, recomendava‑lhe que não bastava
reforçar a correia, mas que também era necessário
enfraquecer o cão, para ir reduzindo os recursos dos
Atenienses
61
. Ao invés, ao esposo de uma mulher rica
ou bela não lhe convém torná‑la feia ou pobre, antes
mostrar que ele próprio é seu semelhante e em nada
seu criado, por via da sua moderação e prudência,
indiferente a tudo o que o rodeia, de modo que, pelo
seu carácter, faça pender a seu favor o prato da balança,
com isso conseguindo dominá‑la e guiá‑la de um modo
simultaneamente justo e proveitoso para si
62
.
Além disso, a idade e o tempo mais adequados
para o casamento ocorrem quando se está em condições
de gerar e procriar. E, pelo que percebi, esta mulher está
na plenitude do seu vigor. Com efeito – ia dizendo o
meu pai, ao mesmo tempo que Písias sorria – não é mais
velha do que nenhum dos apaixonados seus rivais, nem
139B, ao que parece inspirada em Aristóteles (História dos Animais
527b 7).
61
A anedota parece referir‑se ao rei macedónio Antígono
Gónatas (277‑239 a.C.). Com efeito, os Macedónios mantiveram
quase sem tréguas uma força armada na colina de Muníquia,
no Pireu, desde que, em 332 a.C., a ocupou Antípatro. Vide, a
propósito, Plutarco, Moralia 850D e Pausânias 2. 8. 6.
62
Também isso defende Plutarco nos Preceitos Matrimoniais
(Moralia 139C‑D e 142D‑E), um casamento onde o marido
prevaleça, mas sempre baseando o seu poder no afecto e no respeito
mútuos.
64
Diálogo sobre o Amor
65
d
e
sequer tem brancas, como alguns dos pretendentes de
Bácon. Se estes estão na idade de se lhe unirem, o que
impede que também ela trate do rapaz melhor do que
qualquer rapariga? É que é difícil unir e conciliar dois
jovens, pois só depois de longo tempo põem de lado o seu
orgulho e a sua insolência, já que, de início, há agitação
e lutas constantes, sobretudo se Eros está presente [e],
como um vendaval contra um navio sem timoneiro,
perturba e revolve o casamento, quando nenhum dos
dois é capaz de mandar nem aceita obedecer.
Se o recém‑nascido está submetido às ordens de uma
ama, a criança a um professor, o efebo ao gimnasiarco
63
,
um mancebo ao seu amante, um homem adulto à lei e ao
estratego, se na realidade nada está isento de autoridade
nem se auto‑determina, o que há de estranho em que
uma mulher de bom senso, mais velha, dirija a vida de
um jovem rapaz, para mais se lhe for favorável, posto que
é mais prudente, além de doce e agradável, pelo afecto
que lhe dedica? Em suma – disse –, Beócios que somos,
temos que honrar Héracles e não menosprezar a diferença
de idade no casamento, cientes de que também ele cedeu
a própria esposa, Mégara, que então contava já trinta e
três anos, a Iolau, que tinha apenas dezasseis anos.
64

63
Tratava‑se de um magistrado que exercia autoridade sobre os
efebos e vigiava de perto as suas atitudes e conduta moral.
64
De acordo com uma versão da lenda, Héracles, depois de
dar morte aos flhos, num momento de loucura que lhe inspirara
a deusa Hera, partiu para Tirinte, onde terá fcado ao serviço de
Euristeu. Cumpridos os trabalhos que este rei lhe prescreveu, após
os quais casaria com Dejanira, entregou a antiga esposa a Iolau,
seu jovem sobrinho. Vide, a propósito, Diodoro Sículo 4. 11. 1‑3,
4. 31. 1; Apolodoro 2. 4. 11‑12, 2. 6. 1 e o escólio a Píndaro,
Plutarco
66 67
f
755a
10. Estando a discussão neste ponto, contou‑me o
meu pai que chegou junto deles um amigo de Písias, que
vinha a galope da cidade, anunciando um acontecimento
de espantar e pleno de audácia. Ismenodora, ao que
parece, convencida de que Bácon, por vontade própria,
não repudiava o casamento, mas apenas sentia vergonha
por quantos o dissuadiam, tinha‑se decidido a não
deixar escapar o rapaz. Assim, chamando junto de si os
amigos mais vigorosos e os que mais apoiavam o seu
amor, além de umas mulheres que lhe eram íntimas,
chegando a acordo com eles, aguardara pelo momento
em que Bácon, à saída da palestra, costumava passar
à sua porta ricamente adornado. Ora, no instante em
que ele se aproximava com dois ou três companheiros,
ungido de azeite, a própria Ismenodora saiu porta
fora ao seu encontro e não fez mais do que tocar‑lhe a
clâmide.
.
Foi então que os seus amigos, levando o gentil
rapaz, gentilmente
65
envolto na clâmide e no manto, de
uma assentada o meteram dentro de casa e de imediato
fecharam as portas
66
. Uma vez lá dentro, as mulheres
Ístmicas 4. 104. Diferente é a versão que Eurípides segue no seu
Héracles, depois adoptada também por Séneca, peças em que o
herói mata Mégara e os flhos, uma vez terminadas as tarefas de que
fora incumbido.
65
A nossa tradução visa manter, dentro do possível e com o
recurso a um adjectivo e um advérbio muito característicos da lírica
provençal, o jogo semântico presente no original kalon kalos.
66
Ismenodora, com a ajuda dos amigos e amigas, rapta o objecto
do seu desejo, expediente comum nas novelas eróticas, desde logo
no conjunto dos Relatos de Amor que adiante traduzimos. Mas o
rapto, consentido pelo indivíduo raptado e sem recurso à violência,
era também uma modalidade de casamento (cf. Plutarco, Licurgo
66
Diálogo sobre o Amor
67
b
tratam de lhe tirar a clâmide e de lhe vestir uma túnica
nupcial. Os criados, correndo de um lado para o
outro, coroam de oliveira e loureiro as portas não só de
Ismenodora, mas também as de Bácon. E uma fautista
corre mesmo as redondezas a tocar o seu instrumento
67
.
Entre as gentes de Téspias e os forasteiros havia quem
se risse e quem se irritasse e reclamasse a presença dos
gimnasiarcos: com efeito, estes exercem uma grande
autoridade sobre os efebos e vigiam de perto a sua
conduta.
Já ninguém prestava atenção aos participantes do
concurso
68
, mas toda a gente tinha abandonado o teatro
e estava agora às portas de Ismenodora, perdendo‑se em
comentários e discussões uns com os outros.
11. Assim que, quando o amigo de Písias,
avançando a cavalo como na guerra, contou sobressaltado
essa notícia, que Ismenodora havia raptado Bácon, disse
o meu pai que Zeuxipo se pôs a rir e, admirador de
Eurípides como era, exclamou
embora orgulhosa da tua riqueza, pensa, mulher, como mortal
[que és!
69
15. 4‑7), não fosse, no caso, uma mulher a raptora. Tratar‑se‑ia, no
fundo, de um rapto ritual, não de um rapto efectivo.
67
Todos estes são rituais nupciais: a túnica, as grinaldas e o som
da fauta (mais em concreto do aulos). Quanto à cerimónia em si,
incluindo o sacrifício e o cortejo nupcial, encontrá‑la‑emos adiante
(771D).
68
Refere‑se ao concurso de citaredos mencionado no início do
diálogo (749C).
69
Frg. 986 Nauck
2
de uma tragédia perdida de Eurípides, no
entanto próximo de Bacantes 396.
Plutarco
68 69
c
d
Então Písias, dando um salto, gritou: “Deuses,
a que extremos há‑de chegar a liberdade que revolve a
nossa cidade? E as coisas, por via da falta de lei, que já
caminham para a total falta de controlo! No entanto, é
talvez absurdo irritar‑se a propósito das leis e da justiça,
quando a própria natureza é ofendida pelo desejo de
mandar de uma mulher. Queremos nós sorte semelhante
à de Lemnos
70
? Vamos – dizia –, é entregar o ginásio às
mulheres e também a sede do Conselho, já que a cidade
perdeu completamente a razão!”
Nessa altura Písias retirou‑se e Protógenes
seguiu‑o, pois compreendia a sua indignação e queria
acalmá‑lo. Aí, disse Antémion: “O feito é realmente
audacioso e, em verdade, digno de Lemnos – podemos
dizê‑lo agora que estamos só os dois –, próprio de uma
mulher apaixonada.” Soclaro acrescentou, sorrindo:
“Mas vocês acreditam mesmo que houve rapto e
violência, e não uma escapatória e um estratagema do
próprio rapaz, esperto como é, que assim, livrando‑se
dos abraços dos seus amantes, desertou para os braços
de uma mulher bela e rica?”
“Não digas tal coisa, Soclaro – replicou Antémion
– nem desconfes de Bácon. Mesmo que o seu carácter
não fosse por natureza franco e honesto, a mim, pelo
menos, não teria ocultado esse facto, uma vez que
70
Apolónio de Rodes (1. 609‑910), Valério Flaco (2. 98‑430)
e Apolodoro (1. 9. 7) contam que as mulheres de Lemnos tinham
assassinado todos os homens da ilha e estabelecido uma sociedade
completamente feminina, governada por Hipsípile, unindo‑se
depois aos Argonautas, quando aí aportaram.
68
Diálogo sobre o Amor
69
e
me fazia tomar parte de todas as suas confdências e
sabia bem que eu era o mais empenhado defensor de
Ismenodora. Eros, com efeito, é difícil combatê‑lo, não à
vontade, como diz Heraclito. Qualquer coisa que deseje,
compra‑a, mesmo que pague com a própria vida
71
, com a
fortuna e com a reputação.
Afnal, que atitude há na cidade mais honesta
do que a de Ismenodora? Quando é que algum
comentário vergonhoso ou a suspeita de qualquer
acção perniciosa alguma vez entrou em sua casa?
No entanto, parece de facto que alguma inspiração
divina se apoderou agora dessa mulher, mais forte do
que a razão humana.”
12. Foi nessa altura que, entre risos, disse
Pêmptides: “Há com certeza uma doença do corpo que
é considerada sagrada
72
. Logo, nada há de estranho se
alguns considerarem igualmente sagrada e divina a
maior e mais frenética das paixões da alma. De resto, do
mesmo modo que, no Egipto, vi em tempos dois vizinhos
baterem‑se por uma serpente que se retorcia no caminho,
já que ambos lhe chamavam bom génio e se julgavam
71
Frg. 22B 85 D‑K. Está em causa distinguir a força de Eros,
um deus, da ira humana, sendo que a primeira é incontrolável, e a
segunda, sim, pode ser controlada. A citação, com variantes, surge
ainda em Moralia 457D e Coriolano 22. 3.
72
A doença tida por sagrada pelos Gregos – porque, à primeira
vista, parece o resultado da possessão por um qualquer deus – era
a epilepsia (cf. Moralia 981D). Hipócrates escreveu mesmo um
tratado Sobre a Doença Sagrada e Aulo Gélio (19. 2), um pouco
como faz Plutarco neste ponto, estabelece também o paralelo entre
o amor e a epilepsia.
Plutarco
70 71
f
756a
b
dignos de fcar com ela, do mesmo modo, quando agora
vos vejo tentando arrastar Eros, uns para os aposentos
dos homens, outros para os das mulheres, como bem
sobre‑humano e divino que é, não é de espantar que esta
paixão tenha um tão grande poder e consideração, se por
quantos deviam expulsá‑la de toda a parte e reprimi‑la
ela é, ao invés, elogiada e coberta de honras. Por isso,
até ao momento, me mantive em silêncio, pois via que
a discussão se restringia mais a questões privadas do que
às gerais. No entanto, agora que Písias partiu, com gosto
escutaria a razão pela qual proclamaram que Eros é um
deus os primeiros que isso disseram.”
13. Quando Pêmptides se calou e o meu pai
começou a falar do assunto, chegou outro indivíduo
da cidade, que vinha buscar Antémion, a mando de
Ismenodora. Com efeito, a confusão aumentava e
reinava o desentendimento entre os gimnasiarcos
73
, pois
um acreditava que se impunha resgatar Bácon, ao passo
que o outro não queria que se intrometessem. E assim
Antémion, levantando‑se, pôs‑se a caminho. Quanto
ao meu pai, dirigindo‑se a Pêmptides pelo nome, disse:
“Parece‑me que estás a tocar num assunto de grande
monta e perigoso, Pêmptides, sobretudo ao remover por
completo os princípios imutáveis da nossa crença nos
deuses, exigindo uma justifcação e uma demonstração
para cada um deles. Basta, com efeito, a antiga fé dos
nossos pais, acerca da qual não cabe revelar ou encontrar
testemunho mais plausível,
73
Vide supra, n. 63.
70
Diálogo sobre o Amor
71
c
nem que o saber seja invenção de um génio elevado
74
.
Essa fé é o fundamento e a base comum que
suporta a piedade e, se por ventura num só ponto é
perturbada e revolvida a sua confança e o crédito que
lhe é dado, torna‑se completamente precária e suspeita.
Ouviste com certeza a polémica que causou Eurípides,
quando compôs o início da sua Melanipa:
Zeus, [seja esse Zeus quem for], não o conheço a não ser por
[palavras
75
.
Depois de conseguir um outro coro – já que
tinha, ao que parece, grandes esperanças nesse drama,
pela forma solene e refnada com que o havia escrito –,
mudou o verso para o que agora está escrito:
Zeus, segundo declara a verdade
76
.
Ora, que diferença existe afnal entre, pela razão,
colocar em dúvida e questionar a nossa crença sobre Zeus,
Atena ou Eros? É que Eros não reclama agora, pela primeira
vez, um altar ou um sacrifício, nem, proveniente de
qualquer superstição bárbara, como esses a quem chamam
74
Eurípides, Bacantes 203.
75
Frg. 480 Nauck
2
.
76
Frg. 481 Nauck
2
. Sobre o mito de Melanipa, que com
Poséidon teve dois flhos e foi depois acorrentada pelo deus,
Eurípides terá composto duas tragédias, a Melanipa Sábia e a
Melanipa Acorrentada. Os dois fragmentos citados pertenceriam à
primeira peça, que conheceu duas versões.
Plutarco
72 73
d
os Átis e os Adónis
77
, se insinuou por via dos andróginos
e das mulheres ou gozou, às ocultas, de honras que não
lhe são devidas, de forma a ser assim acusado, em face da
justiça, de ilegitimamente e como bastardo ser incluído
entre os deuses. No entanto, quando escutas, meu amigo,
estas palavras de Empédocles,
e a Amizade entre eles, igual em largura e comprimento,
com a mente deves observá‑la, não te fques a contemplá‑la
[com os olhos
78
,
deves pensar que é necessário dizer o mesmo acerca de
Eros. É que, com efeito, embora não seja visível, esse
deus, para nós, é objecto de crença, entre os deuses mais
antigos. Pelo contrário, se para cada um exigires uma
prova, examinando todos os seus recintos e submetendo
todos os seus altares a uma pesquisa sofística, não
deixarás nenhum livre de suspeição ou de inquirição.
Na verdade, e sem ir mais longe,
77
Átis era o jovem amante da deusa Cíbele, simbolizando o
seu mito o ritual de castração que, voluntariamente, praticavam
os sacerdotes dessa deusa (cf. Catulo 63). Adónis, apaixonado de
Afrodite, fcou determinado que passaria uma terça parte do ano com
essa deusa, outra com Perséfone, e a restante terça parte com quem
bem entendesse. O jovem escolheu Afrodite. Talvez por isso, esta
instituiu uma festa, na qual, na Primavera, as mulheres plantavam
fores em vasos e telhados, regando‑as com água quente para assim
germinarem e morrerem mais rapidamente, simbolizando isto o
destino de Adónis. A isto seguiam‑se lamentações rituais. Trata‑se,
em ambos os casos, de cultos orientais relativamente recentes em
Atenas, que alcançariam grande fama a partir da época helenística
e eram muito caros ao público feminino.
78
Frg. 31B 17 D‑K.
72
Diálogo sobre o Amor
73
e
f
Quanto a Afrodite, não vês como é uma grande deusa?
79

É ela quem semeia e concede o amor,
do qual provimos todos, os que caminhamos sobre a Terra.
80

Dispenseira de vida, com efeito, lhe chamou
Empédocles
81
, e Sófocles rica em frutos
82
, de forma muito
justa e graciosa. No entanto, esta grande e admirável
obra de Afrodite é também, em segundo grau, obra de
Eros, porquanto assiste a Afrodite. Quando não lhe
assiste, o resultado sai completamente despojado do seu
valor, sem honra e pouco amigável
83
. É que uma relação
em que não há amor, semelhante à fome e à sede, tem
como único propósito a satisfação e não resulta em nada
de belo. Ao invés a deusa, graças a Eros, recusando o
enfado do prazer, faz brotar a amizade e uma união
cúmplice. Por isso Parménides considera que Eros é a
mais antiga das obras de Afrodite, ao escrever na sua
Cosmogonia:
Primeiro que todos os deuses Eros ela gerou
84
.
Hesíodo
85
, no entanto, parece‑me que foi com mais
naturalidade que apresentou Eros como o mais antigo
79
Eurípides, frg. 898.1 Nauck
2
.
80
Eurípides, Hipólito 449‑450.
81
Frg. 31B 151 D‑K.
82
Frg. 763 Nauck
2
.
83
Ésquilo, Coéforas 295.
84
Frg. 28B 13 D‑K.
85
Teogonia 116‑122. Ambos os passos, o de Hesíodo e o de
Parménides, são usados com semelhante propósito por Platão
(Banquete 178b) e Aristóteles (Metafísica 984b 23‑30): reconhecer
que Eros é das divindades mais antigas.
Plutarco
74 75
757a
b
de todos os deuses, de modo a torná‑lo participante na
origem de todas as coisas. Assim sendo, se retirássemos
a Eros as honras costumeiras, tampouco as de Afrodite
se manteriam inalteráveis. Na verdade, não é possível
afrmar que alguns ofendem Eros ao mesmo tempo que
prestam veneração àquela deusa, antes ouvimos, numa
mesma cena:
Eros é preguiçoso, e para os seus semelhantes nasceu
86
,
e, uma vez mais,
Meninos, [Cípris] não é apenas Cípris,
mas também de muitos nomes o sobrenome.
É Hades, é uma força indestrutível,
é uma loucura furiosa
87
.
Da mesma forma, praticamente nenhum dos
outros deuses escapou sem ultraje à muito ultrajante
ignorância. Repara em Ares, ele que ocuparia, como
num mapa de bronze, a posição diametralmente oposta
a Eros; quantas honras elevadas granjeou dos homens e,
ao mesmo tempo, quantas calúnias ainda hoje escuta,
já que
cego, ó mulheres, e sem conseguir ver, Ares,
com seu focinho de javali, revolve toda a espécie de males
88
.
86
Eurípides, frg. 322.1 Nauck
2
. Faria parte da tragédia perdida
Dânae.
87
Sófocles, frg. 855. 1‑4 Nauck
2
.
88
Sófocles, frg. 754 Nauck
2
.
74
Diálogo sobre o Amor
75
c
d
E até Homero lhe chama sanguinário
89
e
enganador
90
. E também Crisipo, quando interpreta o
nome do deus
91
, procede a uma acusação e a uma ofensa;
com efeito, considera que «Ares» é sinónimo de destruir
(anairen), com isso sustentando quantos julgam que se
chama «Ares» a esse ímpeto irascível, argumentativo e
espirituoso que há em nós.
Outros, por seu turno, afrmam que Afrodite é o
desejo, Hermes a eloquência, as Musas as artes e Atena
a inteligência. Vês com certeza o profundo ateísmo em
que incorremos se fzermos coincidir cada deus com
uma personifcação das nossas paixões, capacidades e
virtudes.”
14. “Estou a ver – disse Pêmptides – mas nem é
correcto converter os deuses em paixões, nem considerar
divinas as paixões.” Disse então o meu pai: “Que
consideras tu, afnal, que é Ares: um deus ou uma paixão
nossa?” Quando Pêmptides respondeu que considerava
Ares um deus que comanda o nosso impulso irascível e
de valentia, disse o meu pai, levantando a voz: “Queres tu
dizer, Pêmptides, que o elemento guerreiro, competitivo
e antagónico tem um deus, ao passo que esse outro, o
da amizade, da partilha e da união, não tem qualquer
deus? Será que até os homens que matam e os que são
mortos, as armas e os dardos, os assaltos a muralhas e
os saques têm a tutela e protecção de um deus, Eniálio
89
Ilíada 5. 31.
90
Ilíada 5. 831, 889.
91
Frg. 2. 1094 von Arnim.
Plutarco
76 77
e
e Estrácio
92
, enquanto ao desejo de casamento e amor,
que se traduz em concórdia e união autêntica, nenhum
dos deuses se fez sua testemunha, seu protector, guia
e colaborador? No entanto, a quantos caçam corças,
lebres e cervos, inspira‑os e incentiva‑os uma divindade
caçadora
93
, e fazem súplicas a Aristeu os que capturam
lobos e ursos com armadilhas e redes,
o primeiro que para as feras montou armadilhas
94
.
O próprio Héracles invoca outro deus quando
pretende atirar com o arco a uma ave, segundo diz Ésquilo:
Oxalá Apolo Caçador guie certeira a minha fecha!
95
E a um indivíduo que se esforça por conseguir a
mais bela caçada, a amizade, não há‑de haver deus ou
génio que o comande e auxilie no seu esforço?
Pela minha parte, na verdade, não considero que um
carvalho, uma oliveira ou essa vinha que Homero elogiou,
chamando‑lhe cultivada
96
, seja uma criatura superior
em beleza e valor à planta humana
97
, caro Dafneu, uma
92
Dois epítetos de Ares que, à letra, signifcam “O Belicoso” e
“O Guerreiro”.
93
No original, Agrotera, epíteto da deusa Ártemis.
94
Fragmento de um hexâmetro de autor incerto, que alguns
atribuíram a Calímaco (frg. 379 Schneider). Aristeu, flho de Apolo
e da ninfa Cirene, era um pastor mítico considerado inventor
da apicultura, da caça e de outras artes. De seu pai, recebeu o
conhecimento da adivinhação e da medicina.
95
Frg. 200 Nauck
2
.
96
Odisseia 5. 69.
97
A comparação do homem a uma planta tem roupagem
76
Diálogo sobre o Amor
77
f
758a
vez que a força vital do seu crescimento revela frescura e
beleza, a um tempo do corpo e da alma.”
15. Respondeu‑lhe então Dafneu: “Mas quem,
pelos deuses, poderia pensar o contrário?” “Por Zeus –
replicou o meu pai –, todos quantos consideram que
a preocupação de lavrar, de semear e de plantar a terra
pertence aos deuses. Ou não têm eles como certas as
Ninfas dríades,
que da árvore partilham o tempo de vida
98
.
Entretanto, o folgazão Diónisos aumenta o arvoredo,
fulgor sagrado do Outono
99
,
segundo as palavras de Píndaro? No entanto, a criação
e o desenvolvimento dos mancebos e das crianças que
se educam e formam quando estão no seu auge e na
for da idade não constituem tutela de nenhum deus
ou génio, nem importa a ninguém que um homem, no
seu crescimento, caminhe no recto caminho da virtude,
de forma que não se desvie nem deite a perder a sua
nobreza por falta de um protector e pela maldade dos
que o rodeiam.
tradicional. Cf. Platão, Timeu 90a, Xenofonte, Banquete 2. 24‑26 e
Plutarco, Moralia 400B, 600F.
98
Píndaro, frg. 165 Snell‑Maehler, também citado por Plutarco
em Moralia 415D.
99
Píndaro, frg. 153 Snell‑Maehler, recolhidos também
em Moralia 365A e 745A. As Dríades são ninfas associadas aos
carvalhos, mas símbolo da vegetação e das colheitas em geral.
Diónisos é convocado enquanto deus da vegetação, dos frutos e
da fertilidade.
Plutarco
78 79
b
E não seria terrível e de uma profunda ingratidão
dizer estas coisas, enquanto se goza da flantropia divina,
distribuída por toda a parte e que nunca nos abandona,
em quaisquer tarefas, mesmo naquelas que têm uma
fnalidade mais ligada à necessidade do que à beleza?
É desde logo como o nosso nascimento, que,
sem ser bonito de se ver, devido ao sangue e às dores
de parto, tem ainda assim um protector divino, Ilitia
e Loquia
100
. Melhor fora, quem sabe, não nascer, do
que nascer com defeito por falta de bom protector e
guardião. E, por certo, tampouco de um homem que
está doente se afasta o deus detentor da faculdade e da
força para tal
101
, nem sequer quando alguém morre: há
um que o conduz daqui para o outro lado, adjuvante
dos que chegam ao fm dos seus dias, que busca dar‑lhes
repouso e conduzir‑lhes a alma
102
, tal como este:
Não me gerou a Noite senhor da lira,
nem adivinho, nem médico, antes [um mortal
que acompanha] as almas
103
.
Contudo, também estas atribuições comportam
muitas difculdades. No que a Eros diz respeito, não é
possível referir função mais sagrada, nem outro confito
ou concurso que mais convenha a um deus presidir
100
Ilitia é a deusa dos partos e Loquia um epíteto de Ártemis,
referente precisamente a essa tutela da maternidade.
101
Asclépio, flho de Apolo e deus da medicina.
102
Hermes, na sua vertente de psychopompos (“condutor de
almas”).
103
Frg. 405 Nauck
2
de uma tragédia de título e autor
desconhecidos.
78
Diálogo sobre o Amor
79
c
d
ou julgar do que o cuidado e a conquista, pelos seus
apaixonados, de mancebos belos e jovens. Com efeito,
nada há nisso de vergonhoso ou baseado na necessidade,
mas sim pura persuasão e graça que, exigindo uma doce
tarefa – na verdade – e um esforço que não é pequeno
104
,
conduz à virtude e à amizade, livra‑os de atingir, sem um
deus
105
, o fm conveniente, e não tem como comandante
e senhor outro deus que não o companheiro das Musas,
das Graças e de Afrodite – Eros.
Às ocultas semeia, com o desejo, uma doce colheita no coração
[do homem
como dizia Melanípides
106
, mistura o mais agradável
com o mais belo. Ou de que outra forma – dizia –
podemos nós falar, Zeuxipo?”
16. Ao que este respondeu: “Assim mesmo, por
Zeus, melhor do que de qualquer outra forma! Absurdo
seria defender o contrário.”
“E não seria igualmente absurdo – continuou o
meu pai – se, existindo quatro espécies de amizade,
como as distinguiram os antigos – em primeiro lugar a
de sangue, depois a da hospitalidade, em terceiro lugar
a da camaradagem e, fnalmente, a ligação amorosa
107

104
Eurípides, Bacantes 66.
105
Expressão homérica: Odisseia 2. 372, 15. 531.
106
Frg. 763 Page. Melanípides era um poeta lírico do séc. V
a.C. Dois poetas com o mesmo nome, um neto do outro, terão
vivido no séc. V a.C. – um primeiro nos inícios, o outro no fnal.
107
Diógenes Laércio atribui a Platão (em 3. 81) e a Aristóteles
(em 5. 31) semelhantes classifcações para o termo philia, que
Plutarco
80 81
e
–, e tendo cada uma delas o seu deus patrono – próprio
de um amigo, de um hóspede, de um familiar ou dos
parentes –, que apenas a ligação amorosa, como algo
sacrílego e profano, careça de protector divino, logo
ela que mais necessita de vigilância e direcção?”
“Também isso – disse Zeuxipo – seria um disparate
nada pequeno.” “Para mais – continuou o meu pai – podem
as palavras de Platão
108
dar uma ajuda, embora com isso nos
afastemos do nosso assunto. Há com efeito uma espécie
de loucura que emana do corpo para a alma por efeito
de determinados desequilíbrios e misturas de um sopro
maligno, estado grave, perigoso e causador de doenças;
mas há uma outra que não ocorre sem infuência divina
nem é inata, antes consiste numa inspiração exterior, num
desvio dos trilhos da razão e do entendimento, que tem
origem e é impulsionada por uma força superior, paixão
à qual geralmente se chama entusiasmo. Na verdade, do
mesmo modo que é animado (empnoun) o que está cheio
de ânimo (pneuma), e prudente (emphron) o que está cheio
de prudência (phronesis), também essa agitação da alma
recebe o nome de entusiasmo (enthousiasmos), por via da
sua participação e comunhão numa força divina (theiotera
designa, no fundo, o conjunto de relações pessoais de afectividade
onde cabe, no limite, o amor. Estobeu atribui esta classifcação
também aos peripatéticos (em 2. 143) e aos estóicos (em 2. 74).
108
As linhas seguintes seguem de perto a doutrina platónica
das diferentes loucuras (maniai) provocadas por uma possessão
divina (enthousiasmos). Vide Fedro (244a‑245a, 249d, 265a‑b),
Timeu (86e‑87a) e Íon (533d‑534e). Às quatro maniai que, além
da humana, Platão classifca – a profética, a báquica, a poética e a
amorosa –, Plutarco acrescenta uma quinta, a loucura guerreira,
inspirada por Ares.
80
Diálogo sobre o Amor
81
f
759a
dynamis). O entusiasmo profético provém da inspiração e
da possessão por Apolo, o báquico da de Diónisos,
e começai a dançar, ao ritmo dos Coribantes,
como disse Sófocles
109
: é que os ritos da deusa mãe e os
de Pã são muito próximos das orgias báquicas.
A terceira espécie, proveniente das Musas, quando
toma uma alma delicada e pura
110
, põe em movimento e
inspira o entusiasmo poético e musical. Quanto a essa
outra, a chamada loucura de Ares, relativa à guerra, a
todos se afgura claro qual dos deuses a envia e inspira
os seus delírios,
o inimigo das danças e da cítara, Ares, criador de lágrimas,
que faz pegar em armas e suscita o grito da guerra civil.
111
Resta ainda uma espécie de desvio e alienação à
qual o homem está sujeito, Dafneu, nada discreta ou
tranquila, acerca da qual quero perguntar cá a Pêmptides
109
Frg. 778 Nauck
2
. Os Coribantes eram divindades de origem
cretense ou frígia, relacionados com o culto a Zeus, Reia e a Cíbele.
A religião grega é‑lhes permeável a partir do séc. V, sendo que uma
parte fundamental do seu culto consistia em danças extáticas, ao
som de fauta e percussão. Platão (Eutidemo 277d) testemunha
que muitos cidadãos respeitáveis neles tomavam parte, pois que
se acreditava que eram a cura para toda e qualquer perturbação
mental. É ainda Platão (Banquete 215e) quem nos refere que, a
dada altura do culto, os participantes fcavam possuídos, os seus
olhos ensanguentados e a querer saltar da face.
110
Citação colhida de Platão (Fedro 245a).
111
Ésquilo, Suplicantes 681‑682.
Plutarco
82 83
b
qual dos deuses agita o tirso de belos frutos
112
,
esse entusiasmo amoroso relativo a bons mancebos
e mulheres honestas, de longe o mais aguçado e
abrasador que existe? Não vês, afnal, como o soldado,
uma vez depostas as armas, logo acalma a sua loucura
guerreira,
e em seguida
os alegres escudeiros lhe retiram a armadura dos ombros
113
,
e se senta, tranquilo, como espectador nada belicoso
dos combates? Ou como essas danças dos celebrantes
de Baco e dos Coribantes, quando se muda o ritmo
trocaico e a melodia frígia
114
, se acalmam e cessam, tal
como a Pitonisa, quando se afasta da trípode e do sopro
profético, se entrega à calma e à quietude
115
? Quanto
à loucura do amor, quando realmente se abate sobre
um homem e o infama, não há qualquer música,
encantamento mágico
116
ou mudança de lugar que consiga
112
Frg. 406 Nauck
2
de uma tragédia desconhecida. O verso
refere‑se a Diónisos.
113
Ilíada 7. 121‑122.
114
O ritmo frígio, que Sófocles introduziu na tragédia e
Eurípides desenvolveu, sobretudo em Bacantes, era apropriado à
sugestão da loucura ou de estados de espírito mais desenfreados,
como o ritmo trocaico era muito usado para danças rápidas e
frenéticas (cf. Aristóteles, Poética 1449a 19‑24).
115
A Pitonisa era a sacerdotisa do templo de Apolo em Delfos,
que subiria para uma trípode, inalava os fumos inebriantes – essa
uma explicação avançada para o estado de transe em que entraria
– e, só depois, proferia os oráculos do deus. Recorde‑se que Plutarco
foi sacerdote nesse local.
116
A expressão parece ecoar Eurípides (Hipólito 478).
82
Diálogo sobre o Amor
83
c
d
pôr‑lhe cobro. Ao invés, amam quando estão presentes
os amados, desejam‑nos se estão ausentes, levam o dia
inteiro em perseguição e a noite à porta, quando estão
sóbrios chamam pelos seus amados e, enquanto bebem,
celebram‑nos com uma canção.
De resto, de modo distinto das alucinações
(phantasiai)
117
poéticas – que, pela sua vivacidade,
como alguém disse, são sonhos de quem está desperto
–, as dos apaixonados são‑no em maior medida, já que
estes falam com elas, como se estivessem realmente lá,
abraçam‑nas e repreendem‑nas. É que a visão parece
pintar‑lhes as demais alucinações como que sobre um
suporte húmido, posto que depressa se desvanecem
e lhes abandonam o pensamento. Pelo contrário, as
imagens dos seres amados, por ela gravadas com fogo,
como na encáustica, deixam para sempre na memória
representações vivas, falantes e animadas.
Dizia Catão, o romano, que a alma do ser que ama
vive na do ser amado; [pela minha parte, diria antes que
toda a alma do ser amado]
118
, e também o seu aspecto, o
seu carácter, a sua vida e todas as suas atitudes [residem
na do amante], por cuja orientação percorre um longo
caminho em curto espaço de tempo, ou, como dizem
os Cínicos, encontrou um trilho rápido e directo para a
117
Por phantasiai entendiam Platão (Timeu 52a‑c; Sofsta
263d‑264b) e Aristóteles (Da Alma 427b 14‑429a 9) as imagens
ou representações que se formam na mente a partir das sensações,
que podem ser mais ou menos coincidentes com a realidade.
118
Lacuna dos manuscritos para cuja tradução seguimos a
lição de Xylander. Parece este passo próximo da lição platónica
(Fedro 252e‑253b, 255c‑e; Banquete 209a‑c): “a alma do amado é
conduzida à virtude por meio da beleza e do carácter do amante”.
Plutarco
84 85
e
virtude. Por conseguinte, também para a amizade [e
para a virtude a alma é levada num ápice]
119
, como que
transportada numa onda de paixão, na companhia de
um deus.
Em suma, afrmo que o entusiasmo dos
apaixonados não é desprovido de tutela divina, nem
tem como patrono e condutor outro deus que não este,
que agora celebramos e ao qual fazemos sacrifícios.
Ora, posto que [distinguimos] os deuses sobretudo
pelo seu poder e pela sua utilidade, do mesmo modo
que, entre os bens dos homens, a estes dois, a realeza e
a virtude, consideramos e chamamos os mais divinos, é
agora o momento de averiguar se acaso Eros fca atrás,
em poder, de algum dos deuses. Desde logo,
grande é a força da vitória que Cípris granjeia,
como já dizia Sófocles
120
, e grande é também o poder
de Ares. E, de alguma maneira, vemos o poder dos
restantes deuses repartido por estes dois: é que uma
atracção natural pelo belo e uma repulsa igualmente
natural pelo feio convivem, desde o início, nas nossas
almas, um pouco como, em algum local, também
Platão [distinguiu] as formas [da alma]
121
. Vejamos,
antes de mais, como a obra de Afrodite, sem Eros, vale
119
Lacuna nos manuscritos, para a qual seguimos a sugestão de
Hubert.
120
Traquínias 497.
121
Pode o texto aludir à célebre comparação platónica da alma a
um carro alado, puxado por dois corcéis: um nobre e disciplinado,
outro indómito e de fraca linhagem. Cf. Platão, Fedro 246b.
84
Diálogo sobre o Amor
85
f
tanto como uma dracma
122
, e como ninguém suportaria
o cansaço e o perigo dos prazeres sexuais se não estivesse
apaixonado. Não vamos aqui, meu amigo, evocar uma
Frine, uma Laís ou uma Gnaténion
123
, que
acendendo ao entardecer a chama da sua lamparina
124
,
espera e chama para junto de si, muitas vezes, quem
esteja a passar.
Mas se de repente se levanta um vendaval
125
,
trazendo consigo um amor forte e o desejo, isso
mesmo passa a valer tanto como os famosos talentos
de Tântalo
126
ou a linhagem de Giges
127
. Assim, fraca
122
I.e., quase não tem valor.
123
Trata‑se de três cortesãs. Frine foi já nomeada acima
(753F). Laís de Corinto é referida mais adiante em detalhe (750d,
767f.768a). De Gnaténion, referida por Ateneu (13. 581a sqq.),
nada mais sabemos.
124
Frg. 407 Nauck
2
de uma tragédia desconhecida.
125
Ilíada 15.57.
126
A expressão ta Tantalou talanta, poderosa aliteração, seria
proverbial. Na mitologia grega, Tântalo foi um rei da Frígia ou
da Lídia, casado com Díone e flho de Zeus com uma mortal.
Segundo outras versões, Tântalo era flho do Rei Tmolo da Lídia
(deus associado à montanha com o mesmo nome). Certa vez,
ousando testar a omnisciência dos deuses, roubou os manjares
divinos e serviu‑lhes a carne do próprio flho, Pélops, num festim.
Como castigo foi lançado ao Hades, onde, num vale abundante
em vegetação e água, foi sentenciado a não poder saciar a sua fome
e sede, posto que, ao aproximar‑se da água ela se escoava e, ao
esticar‑se para colher os frutos das árvores, os ramos se moviam
para longe do seu alcance – o chamado suplício de Tântalo.
127
Giges foi um famoso rei da Lídia, conhecido pela opulência
do seu reinado, entre 687 e 652 a.C.
Plutarco
86 87
760a
b
e efémera, é a graça de Afrodite, se não a inspira
Eros.
Tanto mais assim é, se considerares o seguinte:
muitos, com efeito, partilharam com outros os prazeres
sexuais, prostituindo não apenas as suas concubinas
mas também as próprias esposas. É esse o caso, meu
amigo, daquele romano, Gaba, que convidou Mecenas
para jantar, ao que parece, e depois, ao ver que ele
estava cheio de meiguices para cima da sua mulher,
inclinou calmamente a cabeça como se estivesse a
dormir. Nisto, quando um dos escravos, vindo de fora,
se abeirou do triclínio com intenção de roubar o vinho,
disse‑lhe: «Meu desgraçado, não sabes que durmo só
para Mecenas?» Mas este exemplo talvez não seja o mais
adequado, já que Gaba era um brincalhão
128
.
Em Argos, Nicóstrato era adversário político de
Faulo. Estando na cidade o rei Filipe, parecia lógico
que Faulo, graças à sua esposa, que era bastante bela,
conseguiria para si mesmo alguma proeminência e poder,
se ela se deitasse com Filipe. Posto que os partidários de
Nicóstrato tomaram conhecimento disso e montaram
guarda às portas da sua casa, Faulo calçou a esposa com
sapatos de homem, pôs‑lhe uma clâmide e um chapéu
macedónio, de modo a enviá‑la fazendo‑se passar por
um dos pajens reais
129
.
128
Esta anedota, transmitida também por Lucílio (frg. 251
Warmington) e Juvenal (1. 56‑57) demonstra como, na corte de
Augusto, Gaba era tido na conta de um brincalhão.
129
Este episódio, que não conhecemos por nenhuma outra
fonte, parece aludir à estadia de Filipe V da Macedónia em Argos,
no ano de 209 a.C., por altura das festas Nemeias.
86
Diálogo sobre o Amor
87
c
No entanto, de todos os apaixonados, os do passado
e os do presente, sabes acaso de um único que tenha
prostituído o seu amado, ainda fosse que pelas honras de
Zeus
130
? Não me parece. Como poderia isso ser, afnal,
quando até os tiranos, não tendo qualquer opositor ou
rival político, no que toca ao amor têm muitos rivais
que disputam os seus rapazes belos e no ponto? Ouvistes
contar, com certeza, como Aristogíton de Atenas
131
,
Antileonte do Metaponto
132
e Melanipo de Agrigento
133

não se insurgiram contra os tiranos ao vê‑los arruinar todo
o Estado ou dirigi‑lo como loucos. No entanto, quando
eles tentaram seduzir os seus amados, puseram em risco
as próprias vidas para os defender, já que os tinham na
conta de santuários invioláveis e sagrados. Dizem ainda
que Alexandre escreveu em tempos a Teodoro, o irmão
de Próteas
134
, o seguinte: «Envia‑me a tua cantora em
troca de dez talentos, se não estás apaixonado por ela.» E
130
A expressão Dios timai, que Plutarco repete em Moralia
561B, seria tradicional e recorda, propositadamente ou não, o
nome de Diotima, personagem evocada por Sócrates no Banquete
de Platão (201d sqq.)
131
Aristogíton estava apaixonado por Harmódio, que estava
na mira da paixão de Hiparco, flho do tirano Pisístrato. Assim,
juntamente com o rapaz, deu morte a Hiparco em 514 a.C. Cf.
Tucídides 1. 20, 6. 54‑59; Platão, Banquete 182C; Aristóteles,
Constituição dos Atenienses 18. 2‑4; Ésquines 1. 132, 140.
132
Antileonte matou o tirano do Metaponto também por este
tentar seduzir o seu amado, um tal de Hiparino.
133
Melanipo e o amado, Cáriton, mataram o tirano Fálaris
de Agrigento, segundo testemunha Ateneu 13. 602b e Heliano,
História Vária 2. 4. Os três exemplos constituem casos mais ou
menos famosos de tiranicídios, para os quais a tradição arranjou
uma explicação amorosa.
134
A relação destas personagens é também referida por Plutarco
em Alexandre 22. 1‑2 e 39. 6.
Plutarco
88 89
d
e
quando outro dos seus amigos, Antipátrides, veio a uma
festa na companhia de uma tocadora de harpa, posto que
a rapariga lhe agradou, perguntou o rei a Antipátrides:
«Não estarás, por acaso, apaixonado por ela?» Quando
este respondeu «Sim, completamente!», disse‑lhe ele:
«Miserável, oxalá morras miseravelmente!». Ainda assim,
conteve‑se e não tocou na mulher.”
135
17. “Considera agora – disse – no que diz respeito
aos assuntos de Ares, como Eros os supera, ele que não
é débil, como dizia Eurípides
136
, nem ignorante dos
combates, nem
às delicadas faces das donzelas está de vigia
137
.
Com efeito, um homem cheio de Eros em nada
precisa de Ares quando luta com os seus inimigos, antes,
tendo a seu lado o seu próprio deus,
o fogo, o mar e as brisas do éter
é capaz de atravessar
138
em favor do seu amigo, para onde quer que ele o chame.
Quando os flhos de Níobe, na peça de Sófocles, depois
de serem atingidos, estão prestes a morrer, nenhum
deles invoca qualquer outro adjuvante ou aliado além
do seu amante:
135
Anedota recolhida, com variantes, em Moralia 180F.
136
Frg. 332.1 Nauck
2
. Vide supra, 757A.
137
Sófocles, Antígona 783‑784.
138
Frg. 408 Nauck
2
de uma tragédia desconhecida.
88
Diálogo sobre o Amor
89
f
oh… envolve‑me em teus braços!
139
Quanto a Cleómaco da Farsália, sabeis sem
dúvida por que razão morreu em combate.” “Nós cá não
sabemos – disseram os companheiros de Pêmptides –,
mas gostaríamos de o ouvir contar.”
“Vale com certeza a pena – disse o meu pai. Tinha
ele chegado como aliado de Cálcis, pela altura em que
a guerra Tessália contra as gentes de Erétria estava no
seu ponto máximo
140
. A infantaria calcidense parecia
aguentar‑se, mas afgurava‑se tarefa complicada fazer
frente à cavalaria dos inimigos, e foi então que os aliados
pediram a Cleómaco, homem de resplandecente coragem,
que avançasse na linha da frente contra a cavalaria.
Perguntou ele ao seu jovem amado, que estava presente,
se tinha intenção de assistir ao combate. Ora, posto que o
rapaz disse que sim, o abraçou com ternura e lhe vestiu a
armadura, Cleómaco, cheio de orgulho, depois de reunir
à sua volta os mais valentes dos Tessálios, lançou‑se contra
os inimigos com tal ímpeto que instaurou a confusão na
cavalaria e a pôs em fuga. Em seguida, quando também os
hoplitas bateram em retirada, os Calcidenses conseguiram
139
Sófocles, frg. 410 Nauck
2
da peça Níobe. Níobe tinha‑se
vangloriado de superar a deusa Leto pelo valor da sua descendência,
razão pela qual Apolo e Ártemis lhe assassinaram os flhos. Cf.
Ateneu 13. 601a‑b.
140
A anedota situa‑se no contexto da Guerra Lelantina, que
pôs frente a frente Cálcis e Erétria, cidades da Eubeia, na primeira
metade do séc. VII a.C., estando em causa o domínio de Lelanto.
Cleómaco era de facto o comandante de uma cavalaria da Tessália,
aliada de Cálcis, que fcou famosa.
Plutarco
90 91
761a
b
vencer por completo. Ainda assim, Cleómaco acabou
por morrer. O seu monumento fúnebre, exibem‑no os
Calcidenses na ágora, e sobre ele ainda hoje permanece
erguida uma grande coluna.
Quanto à pederastia, que até então era tida como
desonrosa, passaram a estimá‑la e honrá‑la mais do que
qualquer outro povo
141
. Aristóteles, por seu lado
142
,
considera que Cleómaco morreu doutra forma, depois
de ter vencido os Erétrios na batalha, que o guerreiro
a ser beijado pelo amado foi um dos Calcidenses da
Trácia, enviado desde a Eubeia para os auxiliar, e que,
por essa razão, ainda hoje se canta entre eles
Rapazes, cheios de graças e da nobreza de vossos pais,
não recuseis aos valentes a companhia da vossa juventude!
Pois, com a coragem, também Eros, que deslaça os membros,
foresce nas cidades dos Calcidenses.
143
Ánton seria o nome do amante, e Filisto o do ser amado,
como contou o poeta Dioniso nas suas Etiologias
144
.
E entre vós, os Tebanos, acaso não era costume,
Pêmptides, o amante presentear o amado com uma
armadura completa, na altura do seu registo entre os
141
Cf. Ateneu 13. 601e. A relação entre os Calcidenses e a
pederastia chegou ao ponto de o verbo chalkidizein ser usado para
aludir a essa prática.
142
Não se sabe ao certo se o texto alude ao flósofo (fr. 98 Rose)
ou ao historiador homónimo de Cálcis (3B 723 FGrHist Jacoby).
143
Carmina Popularia, Fr. 873 Page.
144
A alusão deve ser ao poeta Dioniso de Corinto, que escreveu,
de facto, um livro com esse título (em grego, Aitia).
90
Diálogo sobre o Amor
91
c
adultos?
145
Alterou e modifcou a norma dos hoplitas
um indivíduo apegado ao amor, de nome Pâmenes,
acusando Homero de ser pouco versado no amor, pois
distribuía os Aqueus por tribos e clãs e não colocava o
amado junto do seu amante
146
, para que daí resultasse
que
um escudo suportasse outro escudo, um elmo outro elmo
147
,
na lógica de que [Eros] é o único estratego invencível.
Na verdade, os homens abandonam os companheiros
de tribo, os familiares e mesmo, por Zeus, os pais e os
flhos; mas entre um amante inspirado pelo deus e o seu
amado jamais algum inimigo se imiscuiu ou se interpôs.
Casos há em que, mesmo sem necessidade, se sentem
coagidos a demonstrar o seu apego ao perigo e o desprezo
pela vida. Esse o caso de Téron da Tessália que, apoiando
a mão esquerda sobre um muro e desembainhando a
espada, cortou o polegar e desafou um seu rival amoroso
145
Em Atenas, o registo entre os adultos ocorria aos dezoito
anos, depois do que se seguiam dois anos de serviço militar, após os
quais o efebo estava apto a assumir a quase totalidade das funções
militares, civis e políticas. Ainda assim, alguns cargos só podiam
ser ocupados depois dos trinta anos. Cf. Demóstenes 19. 230.
Estrabão (10. 4. 21) dá‑nos nota de um costume semelhante ao
descrito no texto de Plutarco, mas em Creta.
146
Cf. Ilíada 2. 362.
147
Ilíada 13. 131; 16. 215. Esta prática de colocar lado a
lado, no campo de batalha, amante e amado, relembra o famoso
“batalhão sagrado” dos Tebanos que, por força do amor, tende a ser
invencível. Cf. Platão, Banquete 178e‑179a; Xenofonte, Banquete
8. 32‑34; Plutarco, Pelópidas 18, Moralia 618D; Ateneu 13. 561f,
602a.
Plutarco
92 93
d
a fazer o mesmo
148
. Outro homem, que numa batalha
tombara de bruços, quando o inimigo estava prestes a
desferir‑lhe o golpe fnal, pediu‑lhe que esperasse um
pouco, de modo que o seu amado o não visse ser ferido
pelas costas.
E não apenas os povos mais belicosos são os mais
versados no amor – Beócios, Lacedemónios e Cretenses
–, mas também os heróis antigos – Melagro
149
, Aquiles
150
,
Aristómenes
151
, Címon
152
ou Epaminondas
153
. Este
último, com efeito, teve como amados Asópico e
Cefsodoro, o último dos quais morreu junto dele em
Mantineia e tem sepultura a seu lado; [por sua vez,
Asópico] foi de tal modo temido e implacável para
com os inimigos que o primeiro a opor‑lhe resistência
e a feri‑lo, Eucnamo de Anfssa, obteve honras de herói
entre as gentes da Fócida.
No que diz respeito a Héracles, falar de todos os
seus amores resulta em tarefa complicada, dado serem
tantos. Por julgarem que Iolau foi amado por ele, até
à data lhe prestam culto e o honram os apaixonados,
148
Não dispomos de qualquer outra fonte que nos permita
saber mais sobre este indivíduo.
149
Herói mítico da Etólia, conhecido sobretudo por ter
integrado a viagem dos Argonautas e a caçada ao javali de Cálidon.
150
Está em causa, uma vez mais, a relação de proximidade entre
Aquiles e Pátroclo. Vide supra, n. 29.
151
Herói da segunda guerra Messénica contra Esparta (séc. VII
a.C.).
152
Conhecido político e general ateniense. Sobre os seus
costumes, vide Plutarco, Címon 4. 4‑10.
153
Célebre general tebano, protagonista das vitórias de Leuctras
(371 a.C.) e Mantineia (362 a.C.), que morreu enquanto lutava
nesta última batalha. Plutarco terá escrito também a biografa desta
fgura, mas não a conservamos.
92
Diálogo sobre o Amor
93
e
f
trocando sobre o seu túmulo juras de amor e promessas
de fdelidade com os seus amados
154
. Dizem ainda que,
por ser versado em medicina, salvou Alceste quando esta
estava já votada à morte, para agradar a Admeto que,
embora amasse essa mulher, era também amante seu
155
.
Reza ainda a lenda que também Apolo foi seu amante,
que a Admeto serviu por um longo ano.
156
Em boa hora nos veio Alceste à memória. É que
uma mulher não partilha em absoluto de Ares, mas a
possessão de Eros condu‑la a uma coragem além da
sua natureza, e mesmo à morte. E se também os mitos
merecem algum crédito, os de Alceste, Protesilau,
Eurídice e Orfeu
157
ensinam que apenas a Eros, entre
154
Sobre a relação entre Héracles e Iolau vide supra, 754D‑E
e nota ad loc. Diodoro Sículo (4. 24, 4. 29) e Pausânias (9. 23. 1)
testemunham como o túmulo de Iolau em Tebas se tinha, de facto,
convertido em santuário.
155
Embora a versão mais antiga da lenda considere que Alceste
foi trazida de volta à vida por Perséfone, Eurípides, na tragédia a
que deu o título dessa heroína (vv. 1006‑1158), considera que foi
Héracles a conseguir tal feito, lutando com a Morte. A opinião
de Plutarco, neste ponto, assume‑se como uma interpretação
racionalista da lenda, baseada ao que tudo indica na tragédia
euripidiana.
156
Fragmento de um hexâmetro de autor desconhecido, que
alguns atribuem a Calímaco. O próprio Plutarco (Numa 4. 8)
volta a referir‑se ao amor entre Apolo e Admeto, além de Calímaco
(Hino 2. 49‑54) e Tibulo (2. 3. 11 sqq.).
157
Alceste ofereceu‑se para morrer em lugar do esposo, sendo
um dos mais clássicos exemplos de sacrifício da própria vida por
amor. Protesilau, o primeiro dos heróis gregos a morrer em Tróia,
recebeu de Hades a autorização para abandonar o mundo dos
mortos por um dia, de modo a voltar a ver a esposa, Laodamia
Plutarco
94 95
762a
os deuses, está Hades sempre subjugado. Pelo contrário,
perante os restantes, como diz Sófocles,

nenhum favor ou graça
conhece, apenas pela recta justiça mostrou afecto
158
.
No entanto, respeita os apaixonados e apenas para
com eles não é indomável ou implacável. Por isso, meu
amigo, embora seja agradável iniciar‑se nos Mistérios de
Elêusis, vejo que quantos estão iniciados e celebram os
mistérios de Eros gozam no Hades de melhor sorte, não
que eu esteja convencido pelos mitos, mas tampouco
deles desconfo completamente
159
.
Ora, falam bem e por qualquer sorte divina roçam
a verdade quantos afrmam que, para os que são versados
no amor, existe um caminho de ascese do Hades para
a luz, embora desconheçam por onde e de que modo,
como que falhando o traçado que, primeiro entre
os homens, Platão vislumbrou através da flosofa
160
.
Ainda assim, certas aporias subtis e obscuras da verdade
encontram‑se imiscuídas na mitologia dos Egípcios,
(cf. Luciano, Diálogos dos Mortos 23). Mais conhecido é o mito
de Orfeu, que desceu ao Hades para resgatar Eurídice, e que,
não resistindo à tentação de, no caminho, olhar para trás para
contemplar a amada – o que lhe havia sido proibido pelo deus –,
com isso de novo a perdeu, desta feita irremediavelmente.
158
Frg. 703. 2‑3 Nauck
2
.
159
Esta atitude perante os mitos, entre a confança e o cepticismo,
é comum em Plutarco, e parece ser de inspiração estóica. Cf. frgs.
1. 274, 2. 1077‑1079 von Arnim.
160
Está implícita a tradicional concepção platónica da flosofa
como a única iniciação que permite à alma, após a morte, ter acesso
à divindade (cf. Fedro 69c‑e).
94
Diálogo sobre o Amor
95
b
c
embora careçam de um investigador hábil e capaz de
retirar grandes conclusões de pequenos indícios.
Como tal, deixemos por agora isso de lado, e
depois de termos percebido quão grande é o poder de
Eros, averiguemos a sua bondade e benevolência para
com os homens. Dito de outro modo, discutamos não
se providencia muitos bens aos seres amados – que esses
são sobremaneira óbvios para toda a gente –, mas se
concede benefícios melhores e em maior número aos
próprios amantes. Isto porque, embora Eurípides fosse
um indivíduo versado no amor, admirou‑se do benefício
mais pequeno, ao afrmar:
é que ao poeta,
Eros o ensina, mesmo que antes ignorasse de todo as Musas.
161
Com efeito, torna o indivíduo astuto, mesmo
que antes fosse inconsequente; e corajoso, como se
costuma dizer, o covarde, como aqueles que, ao deitar
fogo às achas, de maleáveis que eram, as tornam duras.
Generoso, gentil e nobre se torna todo e qualquer
amante, ainda que antes fosse malvado, fundida a sua
mesquinhez e avareza, como o ferro por efeito do fogo;
de forma que se alegram mais em dar presentes aos seus
amados do que em recebê‑los da parte deles.
Conheceis com certeza o caso de Ânito, flho de
Antémion
162
. Estando o rapaz apaixonado por Alcibíades,
161
Frg. 663 Nauck
2
da Estenobeia, também citado por Platão
(Banquete 196e).
162
O episódio é também relatado por Plutarco (Alcibíades 4.
4‑6) e Ateneu (12. 534e‑f ).
Plutarco
96 97
d
numa altura em que oferecia um magnífco banquete a uns
hóspedes seus, o mesmo Alcibíades irrompeu desvairado
pela sala, tomando da mesa praticamente metade das taças
de vinho, e pôs‑se a andar. Indignados, os hóspedes iam
dizendo: «com insolência e soberba te tratou o rapaz».
«Nada disso, foi até bem amável; – respondeu Ânito – «é
que podia ter levado todas as taças consigo, mas ainda nos
deixou estas!»”
18. Nisto, disse Zeuxipo na brincadeira: “Por
Héracles! Por pouco punha termo ao meu ódio antigo
contra Ânito, pela sua atitude em relação a Sócrates e à
flosofa
163
, se de facto ele era tão amável e generoso no
que toca ao amor.”
“Assim seja. – disse o meu pai. – Mas não é verdade
que, com quantos Eros convive, de mal‑humorados e
rabugentos os torna mais benevolentes e afáveis? Com
efeito,
quando se acende o fogo, mais radiante parece uma casa
164
,
e também um indivíduo, ao que parece, fca mais
brilhante por efeito do fogo do amor. No entanto, a
maior parte das pessoas age de modo contraditório.
Se vêem, durante a noite, o brilho da luz numa casa,
consideram‑no algo divino e fcam espantados; ao invés,
163
Foi Ânito quem instaurou contra Sócrates o processo de
impiedade e corrupção da juventude, que culminaria com a morte
do flósofo em 399 a.C.
164
Certame entre Homero e Hesíodo 274, também citado em
Moralia 100D.
96
Diálogo sobre o Amor
97
e
f
se vêem uma alma mesquinha, vil e sórdida, encher‑se
de repente de sensatez, liberdade, nobreza, graça e
generosidade, não sentem a obrigação de dizer como
Telémaco:
Está por certo presente algum deus
165
.
Também isto, Dafneu – ia dizendo –, pelas Graças,
não é algo maravilhoso? Um indivíduo apaixonado,
não cuidando de quase tudo o resto, não apenas dos
companheiros e dos familiares, mas também das leis,
dos arcontes e dos reis, não temendo, não se admirando
nem se preocupando com nada, capaz mesmo de resistir
ao agudo raio
166
, ao pôr os olhos num moço bonito,
acobarda‑se como um galo vencido, de asa caída
167
,
a sua bravura é destruída e em pedaços se desfaz o
orgulho da sua alma.
É conveniente, na morada das Musas, trazer à
memória Safo. Com efeito, os Romanos contam que
o flho de Hefestos, Caco, lançava torrentes de fogo e
chamas da sua boca
168
; e da mesma maneira aquela grita
palavras verdadeiramente misturadas com fogo e pelos
seus versos expressa o ardor do seu coração,
165
Odisseia 19. 40.
166
Píndaro, Píticas 1. 5.
167
Frínico (frg. 17 Nauck
2
), também citado por Plutarco em
Alcibíades 4. 3 e Pelópidas 29. 11.
168
Lenda contada por Virgílio, Eneida 8. 184‑275.
Plutarco
98 99
763a
b
com as Musas de bela voz curando o seu amor
169
,
como diz Filóxeno.
No entanto, Dafneu, se por infuência de
Lisandra ainda não te esqueceste por completo dos
amores de outrora, recorda‑nos lá esses versos nos
quais a bela Safo
170
conta como, ao pôr os olhos na
amada, a voz se lhe embarga, o corpo se lhe incendeia
e de si toma conta a palidez, o desvario e a vertigem.”
Depois de Dafneu ter recitado esses versos […]
171
,
disse‑lhe o meu pai, em jeito de resposta: “Por Zeus,
não é este um claro exemplo de inspiração divina? Não
é isto uma perturbação sobrenatural da alma? Acaso é
tão intensa a perturbação da Pitonisa quando sobe para
a trípode
172
? A algum dos que estão possuídos pelo deus,
acaso a fauta, os mistérios da deusa Mãe ou o tamborim
o alienam dessa forma
173
? Com efeito, muitos são os
que vêem um mesmo corpo e uma mesma beleza, mas
apenas um dela fca cativo – o que está apaixonado.
169
Frg. 822 Page atribuído a Filóxeno de Citera, poeta cultor do
género ditirâmbico (c. 435‑380 a.C.). O verso citado pertenceria
ao poema Ciclope e Galateia e referir‑se‑ia, no original, a Polifemo,
que das suas canções apenas se servia para consolar as saudades da
ninfa que o abandonara. Cf. Plutarco, Moralia 622C; Calímaco,
Epigrama 46 Pfeifer = Antologia Palatina 12. 150 e Teócrito 11.
170
Platão (Fedro 235) refere‑se nesses termos à poetisa de Lesbos.
171
Na ainda longa lacuna que os manuscritos apresentam,
Dafneu deveria recitar o conhecido frg. 31 Lobel‑Page de Safo,
também citado em Moralia 81D e Demétrio 38. 4, texto que
haveria de ser imitado por Catulo no igualmente famoso Carme 51.
172
Vide supra, n. 115.
173
A fauta (aulos) e os instrumentos de percussão costumavam
acompanhar os ritos orgiásticos de Diónisos e Cíbele, como acima
se referiu (758E‑F).
98
Diálogo sobre o Amor
99
c
Por que há‑de isso ser? É que não compreendemos nem
sequer concordamos com Menandro, quando em certa
parte diz:
É um momento crítico para a alma esta doença:
ao ser atingida, leva ainda dentro de si uma ferida
174
.
Mas é o deus, no fundo, o responsável, ele que fere um
e perdoa outro.
Eis o que teria sido melhor dizer no início, mas já
que agora me vem à boca, como dizia Ésquilo
175
, não me
parece que deva deixá‑lo por dizer, pois que é de toda a
importância. Possivelmente, meu amigo, tudo o que nos
chega ao pensamento por outra via que não a sensação,
desde o início lhe damos crédito seja pelo mito, pela lei
ou pela razão. Ora, quanto à opinião sobre os deuses,
foram nossos guias e mestres os poetas, os legisladores
e, em terceiro lugar, os flósofos, que concordaram
todos que existem deuses, mas diferiam muito entre si
quanto ao seu número, hierarquia, natureza e poder. Na
verdade, os deuses dos flósofos são aqueles
que não conhecem a doença ou a velhice,
isentos de penas, os que a clamorosa
travessia de Aqueronte iludiram.
176

É por isso que não consentem as Discórdias nem
as Súplicas dos poetas, nem querem reconhecer o Medo
174
Frg. 791. 7‑8 K‑A.
175
Frg. 351 Nauck
2
.
176
Píndaro, frg. 143 Snell‑Maehler.
Plutarco
100 101
d
e
e o Temor como deuses e flhos de Ares
177
. Em muitos
aspectos entram em disputa com os legisladores, um
pouco como fez Xenófanes
178
ao aconselhar os Egípcios
a que, se de facto consideravam Osíris mortal, não
deviam venerá‑lo, mas, se ao invés o consideravam um
deus, então não deviam chorá‑lo. Por seu turno, os
poetas e legisladores, perante os flósofos que consideram
deuses determinadas ideias
179
, números
180
, entidades ou
espíritos
181
, não suportam ouvi‑los nem conseguem
compreendê‑los.
Numa palavra, as suas opiniões são extremamente
distintas e contraditórias. Como, no passado, havia
em Atenas três facções, os Parálios, os Epácrios
e os Pedienses, que se mantinham em confronto e
divergiam entre si, mas em seguida, chegando a um
consenso e unindo os seus votos, os entregaram todos
a Sólon e o elegeram em concordância mediador,
arconte e legislador
182
– pois lhes parecia que era
177
As Discórdias (ou Érides) surgem deifcadas em Hesíodo
(Trabalhos e Dias 11‑26), uma boa, outra má. Quanto às Súplicas
(Litai), flhas de Zeus – que, como tal, é protector dos suplicantes
–, surgem na Ilíada 9. 502‑512. No mesmo poema, vemos
ainda a personifcação do Medo (Deimos) e do Temor (Phobos),
respectivamente, em 23. 299 e 15. 119.
178
Frg. 21A 13 D‑K. Os testemunhos conservados atestam que
Xenófanes terá procedido à crítica da representação antropomórfca
dos deuses pelos poetas, algo que Platão aproveitaria (República 2.
377d sqq.).
179
Os Platonistas.
180
Os Pitagóricos.
181
Os Estóicos.
182
A interpretação da origem e signifcado destes termos é
muito discutida entre os estudiosos. Há quem defenda que foi na
segunda metade do séc. VII a.C. que se constituíram na Ática estas
100
Diálogo sobre o Amor
101
f
indiscutivelmente detentor da mais elevada virtude
–, do mesmo modo as três facções no que respeita
aos deuses, embora pensem de maneira distinta,
entreguem cada uma o seu voto a um deus diferente
e não aceitem com facilidade o deus da outra facção,
apenas no que toca a uma divindade estão frmemente
de acordo, e em concordância inscrevem Eros entre
os deuses os mais nobres dos poetas, legisladores e
flósofos,
com voz uníssona muito o exaltando,
como Alceu
183
dizia acerca de Pítaco
184
, que os Mitilénios
elegeram para seu tirano.
Para nós Eros – rei, arconte e harmosta
185
–, sob
a alçada de Hesíodo, Platão e Sólon, desce coroado
do Hélicon à Academia e, enfeitado, caminha entre
inúmeras parelhas de amor e de uma união que, ao
contrário do que diz Eurípides, não está presa por
correntes que não são de bronze
186
, impondo a necessidade
três facções, baseadas nos interesses económicos dos povos da costa
(paralioi), da montanha (epakrioi) e da planície (pedieis). A reforma
de Sólon que teria posto fm a esta divisão, por comum acordo,
data de 594 a.C. Cf. Aristóteles, Constituição dos Atenienses 5‑13;
Plutarco, Sólon 13‑19 e Moralia 805D‑E.
183
Frg. 348 Lobel‑Page.
184
Ca. 650‑570 a.C. Integrava a lista dos sete sábios da Grécia,
na qual também se contava o nome de Sólon.
185
Sobre o harmosta, vide infra, Relatos de Amor, n. 22. Estão
em causa os cargos de chefa das três formas de governo tradicionais,
respectivamente, a monarquia, a democracia e a oligarquia.
186
Frg. 595 Nauck
2
da tragédia Pirítoo, para nós perdida,
também recolhido em Moralia 96C, 482A e 533A.
Plutarco
102 103
764a
b
fria e pesada de um serviço coberto de vergonha, antes
é alada e nos transporta para junto das entidades mais
belas e divinas, acerca das quais outros deram melhor
testemunho do que eu.
187

19. Tendo assim falado o meu pai, disse Soclaro:
“Vês como, já pela segunda vez, vindo parar ao mesmo
assunto, não sei como te distancias e retrocedes de forma
brusca, interrompendo sem razão – se é que devo dizer o
que penso – um discurso que é sagrado? Na verdade há
pouco, depois de referires a par, como que sem intenção,
Platão e os Egípcios, deixaste‑os de lado, e agora voltas
a fazê‑lo. Ora, o que foi dito com clareza
188
por Platão, ou
antes, pelas deusas deste lugar por intermédio de Platão,
meu amigo, mesmo que to peçamos, não o contes
189
. No
entanto, o que disseste acerca do mito dos Egípcios
190
,
que coincide com as teorias platónicas sobre Eros, não te
fcaria bem não o desvendar ou deixar de no‑lo explicar.
Ficaremos satisfeitos mesmo que ouçamos apenas breves
apontamentos sobre assuntos de tal envergadura.”
Como também os restantes lho pedissem, disse o
meu pai que os Egípcios, tal como os Gregos, conhecem
dois Eros, o Popular (Pandemos) e o Celeste (Ouranios)
191
,
187
Platão, sobretudo no Banquete e no Fedro. A teoria platónica
sobre o amor, que será desenvolvida adiante, começa a ser aforada.
188
Odisseia 12. 453.
189
Citação de Platão, Fedro 235d. Plutarco refere‑se às Musas,
deusas tutelares tanto da flosofa como da poesia, que Hesíodo,
na Teogonia, apresentava como naturais do Hélicon, o espaço
dramático deste diálogo. Vide supra, nota 1.
190
Supra, 762A.
191
Esta distinção, também válida para Afrodite, é desenvolvida
102
Diálogo sobre o Amor
103
c
admitem ainda um terceiro, o Sol, e têm Afrodite [–
que por sua vez identifcam com a lua e a terra –]
192

por muito digna de veneração. “Pela nossa parte, bem
vemos que é grande a semelhança entre Eros e o sol.
Nenhum deles, desde logo, é fogo
193
, como pretendem
alguns, antes luz e calor doce e fecundo. O que do último
procede garante ao corpo alimento, luz e energia, e o
que procede do primeiro [tudo isso garante] às almas
194
.
Como o sol que ressurge por detrás das nuvens e depois
da neblina é mais quente, do mesmo modo Eros, depois
da cólera e dos ciúmes, reconciliado que esteja com o
ser amado, é mais agradável e intenso. De resto, como
acerca do sol alguns pensam que se acende e apaga
195
, o
mesmo pensam acerca de Eros, considerando‑o, desta
forma, mortal e instável. Finalmente, nem a constituição
de um corpo não treinado consegue suportar o sol,
nem o carácter de uma alma falha de instrução suporta
por Platão no Banquete (180d‑182a). Quer o primeiro signifcar
o amor carnal, ao passo que o segundo tem uma acepção mais
espiritual.
192
Suplemento de Hubert. Na identifcação dos deuses gregos
com os do panteão egípcio, Eros é assimilado ao Sol e a Osíris
(cf. Moralia 374C), ao passo que Afrodite se relaciona com a Lua,
Hator e Ísis. Estava muito difundido no Egipto greco‑romano o
culto de Afrodite‑Hator, e sabemos também que os Ptolomeus
mandaram erigir um santuário em honra de Afrodite Urânia.
193
Comum nas metáforas poéticas, a associação do sol ao fogo,
condenada neste passo, deve aludir antes às doutrinas de Heraclito
(frgs. 22B 30‑31, 22A 1 D‑K) e dos Estóicos (cf. Diógenes Laércio
7. 144).
194
Cf. Platão, República 6. 509b.
195
Referência e crítica aos Estóicos, para quem o sol se alimenta
do elemento líquido, assim se acendendo e extinguindo (frgs. 2.
652, 663 von Arnim). Cf. Plutarco, Moralia 367E, 400A‑C e
Diógenes Laércio 7. 145).
Plutarco
104 105
d
Eros sem sofrimento. Cada um deles fca igualmente
perturbado e adoece, atribuindo a culpa ao poder do
deus e não à sua própria fraqueza.
Apenas no seguinte pareceria que são distintos,
no facto de o sol mostrar em igual medida, a quem tem
vista, o belo e o feio, ao passo que Eros apenas ilumina
as coisas belas e incita os apaixonados a olhar e a virar‑se
exclusivamente para elas, desdenhando as restantes.
Com a terra, [dir‑se‑ia que Afrodite] em nada
[se parece], mas quantos a identifcam [com a lua]
conseguem de facto alguma analogia: é que ela é ao
mesmo tempo terrena e celeste, morada do imortal e
do mortal
196
, impotente por si mesma e assombrada
quando o sol não a banha de luz, tal como Afrodite,
quando Eros não lhe dá assistência
197
. É por isso
evidente que a lua se pareça com Afrodite e o sol com
Eros, mais do que com quaisquer outros deuses
198
, sem
que, contudo, sejam completamente semelhantes. Pois
o corpo não é o mesmo que a alma, senão outra coisa,
como também o sol é visível (horaton) e Eros inteligível
(noeton)
199
.
196
Talvez por apresentar diversas fases, a lua tinha, para os
antigos, esta dupla natureza. Cf. Plutarco, Moralia 416E, 935A
sqq.
197
Ideia já referida em mais do que uma ocasião (756E, 759E‑F)
que, relembramos, assenta na associação entre prazer e amor.
198
Isto porque a associação tradicional entre os Gregos era do
Sol com Apolo e da lua com Ártemis. De resto, o próprio Plutarco
a segue em outros momentos (Moralia 386B, 393C‑D, 400D,
433D‑E, 434F, 659A, 1130A).
199
Começa a introduzir‑se, por via dos termos utilizados, a
discussão da doutrina platónica do amor, que ocupará Plutarco de
seguida (764E‑766B).
104
Diálogo sobre o Amor
105
e
f
Não parecesse chocante dizê‑lo, afrmar‑se‑ia
mesmo que o sol actua ao contrário de Eros. É que o
primeiro volve o nosso entendimento do inteligível para
o sensível, enfeitiçando‑nos com a graça e o resplendor da
visão, e inspirando‑nos a procurar nele mesmo e à sua volta
a verdade e tudo o resto, e nada em qualquer outro lugar.
Loucamente apaixonados nos mostramos
[por qualquer coisa que brilhe cá] sobre a terra
200
,
como diz Eurípides,
por não termos experimentado outra vida
201
.
Ou dito de melhor forma, por esquecimento
daquilo de que Eros é reminiscência (anamnesis).
Com efeito, como quando despertamos em frente
de uma luz intensa e radiante, tudo o que vimos durante
os sonhos abandona a nossa alma e se dissipa, do mesmo
modo, quando nascemos para este mundo e mudamos
de condição, parece que o sol nos turba a memória e nos
enfeitiça o pensamento, fazendo‑o esquecer, por via do
prazer e do espanto, os conhecimentos que antes tinha.
Ainda assim, a verdadeira realidade da alma está aí, ao
redor dessas coisas, ao passo que, [desde que chega] a este
mundo, apenas através dos sonhos abraça e contempla o
supremo Belo o supremo Divino.
200
Hipólito 193‑194.
201
Hipólito 195.
Plutarco
106 107
765a
b
Sobre ela amáveis sonhos enganosos são derramados
202
,
convencida de que neste mundo reside todo o belo e o
estimável, a menos que encontre o divino e prudente
Eros, médico e salvador, ele que, por intermédio das
formas corpóreas, comparece como seu guia no caminho
para a verdade, do Hades para o terreno da verdade
203
,
onde reside o Belo autêntico, puro e sem enganos, e
a quantos desejam há muito tempo reencontrá‑lo e
unir‑se a ele, Eros os escolta e eleva benevolente, tal qual
um sacerdote que preside a um ritual de iniciação.
No entanto, quando uma vez mais somos
recambiados para este mundo, Eros não consegue
relacionar‑se com a alma em si mesma, mas sim
por intermédio do corpo. Como os geómetras, para
crianças ainda incapazes de por si mesmas se iniciarem
nos conceitos abstractos da substância incorpórea e
imutável, moldam imitações tangíveis e visíveis de
esferas, cubos e dodecaedros, da mesma maneira o Eros
Celeste providencia imagens belas, ainda que mortais,
perturbáveis e sensíveis, das realidades belas, divinas,
[imperturbáveis] e inteligíveis, compondo‑as, nas suas
formas, cores e aspecto, brilhantes com o resplendor da
juventude e pouco a pouco, por meio destes refexos,
estimula a nossa memória, infamada desde o início por
tais realidades.
202
Fragmento de autor desconhecido, que alguns atribuem
a Calímaco. Está em causa a ideia de que o sol provoca na alma
um refexo enganoso da realidade inteligível, também expressa em
Moralia 393D.
203
Platão, Fedro 248b.
106
Diálogo sobre o Amor
107
c
d
É por isso que alguns, devido à ignorância dos
amigos e dos familiares, tentando pela força e sem razão
pôr cobro à paixão, nada de útil conseguiram além de se
encher de fumo e perturbação ou entregar‑se a prazeres
obscuros e ilícitos, com isso se perdendo de modo
vergonhoso. Pelo contrário, quantos, em sua razão
consequente acompanhada de pudor, como de um fogo,
sem artifícios, eliminaram o furor da paixão e deixaram
na alma uma luz radiante, acompanhada de calor – que
não provoca, como alguém disse
204
, uma agitação que
leva à formação de esperma por via do deslizamento
dos átomos suavemente oprimidos e excitados, mas
antes uma dissolução espantosa e fecunda, tal como
numa planta que germina e cresce, abrindo caminho à
complacência e ao afecto – esses, em não muito tempo,
indo mais além do corpo dos seres amados, acedem ao
seu íntimo e alcançam o mais profundo do seu carácter,
contemplam as visões que lá descobrem e estabelecem
com eles uma união profunda, por obra de palavras
e acções, desde que conservem no pensamento um
resquício ou uma imagem do Belo.
A não ser assim, renegam‑nos e viram‑se para
outros, como as abelhas deixam para trás muitas
plantas verdes e em flor por não terem mel. Mas,
se conservam alguma centelha do divino, qualquer
emanação sua ou semelhança sedutora, inspirados
pelo prazer e pela admiração que isso lhes provoca e
em atitude de veneração, envolvendo‑o em cuidados,
204
Referência a Epicuro (frg. 311 Usener). Cf. 766E e Lucrécio,
Da Natureza das Coisas 4. 1041 sqq.
Plutarco
108 109
e
sentem prazer na recordação e de novo se inflamam
perante esse encanto verdadeiramente amável,
bem‑aventurado, por todos querido e desejado
205
.
20. A maior parte das vezes parece que os poetas
escrevem e cantam acerca do deus como se brincassem
com ele ou o gozassem, e poucas coisas sérias disseram
que roçassem a verdade, fosse pela sua inteligência e
raciocínio, fosse pela ajuda divina. Destas referências,
uma diz respeito ao seu nascimento:
O mais terrível dos deuses,
o que Íris de belas sandálias gerou,
unida ao Zéfro de cabeleira de oiro.
206
A menos que os gramáticos vos tenham
convencido, quando dizem tratar‑se de uma imagem
referente ao que há de variegado e forido no amor.” Ao
que Dafneu replicou: “Mas a que outra coisa podem
eles aludir?”
“Prestai atenção – disse o meu pai –, pois
assim me obriga a falar a evidência. A sensação que
experimentamos ao ver o arco‑íris, sem dúvida, é uma
205
A inspiração para este largo passo parece colhida em Platão
(Fedro 250a‑b, 253a e Banquete 210d).
206
Alceu, frg. 327 Lobel‑Page. É curioso que Plutarco cite este
texto de Alceu, até porque ele é o único testemunho conservado que
apresenta Eros como flho de Íris, mensageira dos deuses, e Zéfro,
o vento do Oeste. Tanto mais que, no Banquete (203b‑204a),
Platão conta o nascimento do deus a partir da junção de Poros (o
Recurso) e Penia (a Pobreza), alegoria que Plutarco recupera em
Moralia 374C‑D.
108
Diálogo sobre o Amor
109
f
766a
refracção, quando a luz do sol incide suavemente sobre
uma nuvem húmida, lisa e de espessura moderada.
Essa luz toca‑a e divide‑se e, como vemos o seu brilho
refractado na nuvem, produz‑se a ilusão de que tal
imagem brilhante provém da própria nuvem
207
.
Ora, muito semelhante é a habilidade e o artifício
de Eros em relação às almas nobres e amantes do Belo:
produz nelas como que uma refracção da memória, a
partir do que neste mundo tem a aparência e é dito
belo, até esse Belo verdadeiramente divino, amável,
bem‑aventurado e admirável. No entanto, a maior
parte das pessoas, perseguindo e palpando o refexo
dessa beleza em rapazes e mulheres, como num
espelho
208
, não consegue obter nada mais seguro do que
uma mistura de prazer e dor. E parece consistir nisto
a vertigem e o desvio [de Íxion]
209
, ele que, tanto em
nuvens como entre sombras, buscava sempre o objecto
ilusório do seu desejo. E o mesmo vale para as crianças,
que desejam segurar nas mãos o arco‑íris, seduzidas pela
sua aparência.
Outra é, contudo, a atitude do amante nobre
e sensato: é para lá que se move por refracção, para o
Belo divino e inteligível. Quando se depara com a
beleza visível de um corpo e a usa como instrumento
para despertar a memória, dá‑lhe as boas vindas, trata‑a
207
Inspirado em Platão, Fedro 255c. Cf. ainda Moralia 358F e
921A.
208
Outro símile de inspiração platónica: Fedro 255d.
209
Correcção de Winckelmann, geralmente aceite por editores
e tradutores. Íxion, na tentativa de seduzir Hera, deitou‑se com
uma nuvem que Zeus forjou à imagem da deusa sua esposa. Desta
união nasceria a estirpe dos centauros.
Plutarco
110 111
b
c
com afecto e, na sua companhia, alegremente se infama
ainda mais em seu coração. Além disso, quando estão
neste mundo, em contacto com as formas corpóreas,
não permanecem quietos, desejando e contemplando
essa luz, do mesmo modo que, quando para lá se
mudam, depois da morte, tampouco se escapam e para
cá regressam para rondar as portas e os aposentos dos
recém‑casados, como assombrações angustiantes de
homens e mulheres amantes do prazer e do corpo, que
injustamente recebem o nome de apaixonados. É que o
verdadeiro apaixonado, quando chega a esse lugar e priva
com os entes belos, como é de lei, ganha asas, celebra
os mistérios, dança sem parar lá em cima em redor do
próprio deus e acompanha‑o, até de novo regressar às
pastagens da Lua e de Afrodite e, adormecido, dar início
a uma nova existência
210
.
Mas tudo isto – disse – leva‑nos além dos nossos
propósitos para esta conversa. Pois, como diz Eurípides,
a Eros, tal como aos restantes deuses, agrada ser honrado
pelos homens
211
, e também o contrário o irrita. Pois ele
é o mais benevolente para quantos o acolhem de bom
grado e duro para quantos se mostram arrogantes para
consigo. Nem mesmo o deus Hospitaleiro
212
persegue e
vinga tão rapidamente as injustiças feitas a hóspedes e
suplicantes, nem o deus Familiar as maldições dos pais,
como aos amantes preteridos Eros atende num ápice,
castigando os insensíveis e os orgulhosos.
210
Cf. Platão, Fédon 81a‑d.
211
Citação adaptada – possivelmente de memória – do prólogo
do Hipólito de Eurípides, proferido pela deusa Afrodite (vv. 7‑8).
212
Zeus.
110
Diálogo sobre o Amor
111
d
De que serve referir Euxínteto e Leucócomas
213
?
De que serve referir aquela que, em Chipre, ainda hoje
recebe o nome de Paraciptusa
214
? No entanto, é possível
que não conheceis o castigo de Gorgo, a Cretense,
que sofreu sorte semelhante à de Paraciptusa; a única
diferença é que a primeira foi transformada em pedra
quando se inclinava para ver o cortejo fúnebre do
homem que amava. Quanto a Gorgo, apaixonou‑se por
um tal de Asandro, jovem ponderado e de uma linhagem
ilustre. Embora tivesse caído de uma posição ilustre para
uma outra, humilde e baixa, não se considerava indigno
de coisa alguma, antes, parente que era de Gorgo – que,
pela sua riqueza, ao que parece, era muito concorrida e
desejada –, pediu‑lhe que fosse sua esposa, apesar de ter
inúmeros e valorosos rivais ao seu amor. E assim, depois
de ter convencido todos os tutores
215
e os familiares da
rapariga...
216
213
Traduzimos a lição de Rohde, geralmente aceite, por
compatibilizar o texto de Plutarco com as restantes fontes
disponíveis. Cf. Estrabão (10. 4. 12). Na versão de Cónon (Histórias
16), o amante de Leucócomas recebe o nome de Prómaco.
214
Paraciptusa signifca, à letra, “a que se inclina”, e tem sido
relacionada com a estátua de Afrodite Paraciptusa do templo de
Salamina. A história é contada nas linhas seguintes do diálogo, por
analogia com a de Gorgo.
215
O termo epitropos diz respeito a um encarregado ou
procurador legal, portanto provavelmente um ‘tutor’ ofcial da
jovem, o que poderia indiciar, em termos legais, que ela seria órfã
ou não teria outro familiar adulto que fosse por ela responsável.
216
Apesar de os manuscritos que transmitem o Diálogo sobre o
Amor não apresentarem qualquer lacuna, falta o desenlace (feliz,
ao que se supõe) da história de Gorgo e Asandro. Terminada a
narração, Zeuxipo ter‑se‑ia insurgido contra o amor conjugal
(como parecem denunciar, adiante, os passos 767C e 769E‑F).
Antes ou depois desta intervenção, os participantes abandonam o
Plutarco
112 113
e
f
21. Além disso, as que dizem ser as causas e
motivações de Eros, não são exclusivas de um ou outro
sexo, antes comuns a ambos. Na verdade, quanto às
imagens que, sem dúvida, penetram nos apaixonados
e percorrem os seus corpos, ao ponto de moverem e
estimularem a massa que, com os demais elementos,
desliza num fuxo de esperma
217
, acaso é possível que
possam emanar apenas dos rapazes e que não possam
emanar também das mulheres? E essas a que chamamos
reminiscências belas e sagradas do Belo divino, verdadeiro
e olímpico, pelas quais a alma ganha asas, o que impede
que provenham tanto de rapazes como de adolescentes,
de donzelas como de mulheres, sempre que um carácter
puro e disciplinado se torne notável na beleza e na
graça de um corpo, da mesma maneira que um calçado
adequado mostra a elegância natural de um pé, como
dizia Aríston
218
, sempre que em belas formas e corpos
sem mancha contemplam as centelhas de uma alma –
esplêndidas, seguras e indestrutíveis – os que são capazes
de tais percepções?
santuário no Vale das Musas e dirigem‑se a Téspias, onde terminará
a conversa. O diálogo é retomado no momento em que Plutarco
refuta as acusações de Zeuxipo contra o amor conjugal.
217
Plutarco recolhe, neste ponto, a explicação de flósofos
atomistas como Leucipo, Demócrito ou Epicuro e a sua escola,
para quem todas as sensações se explicavam pela emanação de
imagens dos objectos externos que entram em contacto com os
órgãos sensitivos. Ora, a mesma regra vale para o desejo sexual,
segundo a teoria já desenvolvida acima (705C).
218
Refere‑se, provavelmente, a Aríston de Quios (frg. 1. 390
von Arnim), flósofo estóico do séc. III a.C. que terá composto
umas Diatribes acerca do Amor.
112
Diálogo sobre o Amor
113
767a
Com efeito, o indivíduo que ama o prazer, se lhe
perguntarmos
se mais para mulheres ou que para homens se inclina,
e ele responder
para onde quer que resida a beleza, ambidextro que sou
219
,
parece que respondeu de forma coerente com o seu
desejo. Mas o indivíduo que ama a beleza e a virtude,
há‑de ele escolher os seus amores levando em conta não
a beleza ou as qualidades naturais, antes a diferença
de sexo? Tampouco um homem afcionado em cavalos
aprecia menos as qualidades naturais de Podargo do
que as de Ete, a égua de Agamémnon
220
; um caçador
não tem preferência em criar apenas machos, mas
também cria cadelas de Creta e da Lacónia
221
. Ora,
o indivíduo que ama a beleza e a raça humana, não
há‑de ser justo e imparcial em face de ambos os sexos,
ao invés de julgar que, como entre as suas roupas,
também há diferenças entre os amores de mulheres e
de homens?
219
Dois trímetros iâmbicos de autor desconhecido, que podem
pertencer a uma comédia (frg. 360 Kock) ou a uma tragédia (frg.
355 Nauck
2
). Os dois versos voltam a ser citados em Moralia 34A.
220
Ilíada 23. 295. Neste passo, Menelau atrela um carro, lado a
lado, a Ete e ao seu próprio cavalo, Podargo.
221
Xenofonte (Ciropedia 10. 1) e Aristóteles (História dos
Animais 608a 27) testemunham a fama que os cães de Creta
tinham na Antiguidade, sobretudo as fêmeas. O mesmo valor seria
reconhecido às fêmeas caninas da Lacónia. (Esparta)
Plutarco
114 115
b
c
Se é verdade o que dizem, que a beleza é a
flor da virtude
222
, é absurdo afirmar que a mulher
não produz essa flor nem manifesta uma tendência
natural para a virtude. De resto, foi com acerto que
Ésquilo disse:
da mulher jovem a mirada ardente não me consegue esconder
que acaba de experimentar o amor de um homem
223
.
Ora, se de um carácter desenfreado, licencioso e
corrupto se patenteiam os indícios no aspecto de uma
mulher, como é que de um carácter decente e sensato
nenhum brilho há‑de patentear‑se na sua fgura?
Ou há afnal muitos [indícios] que se manifestam
exteriormente, mas não são capazes de impulsionar ou
provocar o amor? Nem uma nem outra afrmação é
lógica ou verdadeira.
Mas agora, posto que fcou demonstrado que
tudo é comum a ambos os sexos, como quem apresenta
[uma defesa] comum a ambos, Dafneu, combatamos
esses argumentos que Zeuxipo ainda agora expôs, nos
quais aproximava Eros de um desejo desenfreado que
arrasta a alma para o desvario, não que ele próprio
disso estivesse convencido, mas à força de o ouvir, por
diversas vezes, a homens intratáveis e pouco versados
no amor
224
. Uns, atraídos pelos dotes insignifcantes de
222
Crisipo, frg. 3 .718 von Arnim, citado por Diógenes Laércio
7. 130.
223
Frg. 243. 1‑2 Nauck
2
. Estes versos são também citados, com
variantes, em Moralia 81D.
224
Os Epicuristas, que concediam um lugar de destaque ao
prazer na sua doutrina.
114
Diálogo sobre o Amor
115
d
e
mulherezinhas miseráveis, empurram‑nas com a sua
riqueza para a administração da casa e para sórdidas
contas e, lutando com elas, dia após dia, têm‑nas sempre
à mão; outros, mais ávidos de flhos do que de mulheres,
como as cigarras, que depositam o sémen numa cebola
ou em algo parecido
225
, após fecundarem em menos de
nada qualquer corpo que encontrem e de recolherem
o seu fruto, logo dizem adeus ao casamento, ou, caso
ele perdure, não lhe devotam cuidado nenhum nem
consideram digno amar ou ser amado.
A alternância apenas numa letra entre stergesthai
(‘ser amado’) ou stergein (‘amar’) e stegein (‘proteger’)
226

parece‑me revelar, desde logo, como por efeito do tempo
e da convivência acaba por criar‑se o mútuo afecto.
Aqueles que Eros [de repente] invade e inspira, são eles
os primeiros a compreender, da cidade de Platão
227
, as
noções de meu e não meu. Pois não é de forma simples
que tudo é comum entre amigos
228
[ou entre todos],
mas apenas entre aqueles que, fazendo desaparecer a
individualidade dos seus corpos, unem as suas almas
e fundem‑nas com vigor numa só, recusando sequer
pensar em ser dois.
225
Símile colhido em Platão, Banquete 191c. Cf. Aristóteles, Da
Natureza dos Animais 5. 556a‑b.
226
A comparação de Plutarco é meramente fonética. Em termos
etimológicos, com efeito, os termos não parecem ter qualquer
relação.
227
República 5. 462C. Trata‑se de considerar o meu e o não meu
semelhantes, porquanto a cidade platónica excluía a propriedade
individual.
228
Máxima de origem pitagórica, a acreditar no testemunho de
Diógenes Laércio (7. 10).
Plutarco
116 117
f
768a
Além disso, a fdelidade mútua, da qual o
casamento acima de tudo necessita, que tem mais
de imposição exterior das leis do que de voluntária,
subjugada ao decoro e ao medo,
de muitos freios a obra, e de muitos lemes também,
229
está sempre nas mãos dos esposos. Mas Eros é de tal
modo dono de si, decoroso e fel que, se acaso toca ao de
leve numa alma desvairada, faz com que ela se afaste dos
demais amantes, suprimindo a sua ousadia e vergando a
sua altivez e amargura, infundindo‑lhe pudor, silêncio e
tranquilidade e, vestindo‑a de uma aparência modesta,
torna‑a atenta a um único ser.
Ouvistes sem dúvida falar dessa Laís, tão celebrada
em cantos e tão amada, que incendiou de desejo a
Hélade ou, melhor, que foi muito disputada num mar
e no outro
230
. Assim que a tocou o amor de Hipóloco da
Tessália,
deixando para trás Acrocorinto, que as verdes águas banham
231,

escapando às ocultas [ao numeroso batalhão] dos
outros amantes e ao grande exército [de cortesãs],
partiu coberta de honra. Uma vez aí
232
, no entanto, as
229
Sófocles, frg. 785 Nauck
2
, também citado por Plutarco em
Alexandre 7.
230
Laís foi já referida acima (750D). A cidade banhada por
dois mares, o Egeu e o Iónico, é Corinto, de onde era natural essa
cortesã.
231
Adaptado de Eurípides, frg. 1084 Nauck2.
232
Na Tessália.
116
Diálogo sobre o Amor
117
b
mulheres, movidas pela inveja e pelo ciúme, levaram‑na
para o santuário de Afrodite, lapidaram‑na e deram‑lhe
morte. Por isso, segundo consta, ainda hoje lhe chamam
santuário de Afrodite Homicida.
Sabemos também do caso de simples criadas
que recusaram unir‑se aos seus patrões e de homens
comuns que preteriram rainhas, uma vez que a Eros
tinham como soberano na sua alma. Do mesmo modo,
em Roma, onde dizem que, sempre que um ditador é
proclamado, perdem os cargos os que ocupam as demais
magistraturas, também de quantos Eros se torna o
soberano fcam livres de outros patrões e senhores, como
os servos de um templo. Desta forma, a mulher que seja
nobre, uma vez unida a um marido legítimo por obra de
Eros, mais facilmente suportaria os amplexos de ursos
e serpentes do que o contacto com outro homem e a
partilha do seu leito.
22. Pese embora a abundância de exemplos,
sobretudo entre vós, os compatriotas e participantes no
cortejo do deus
233
, não é justo ainda assim passar ao lado
233
I.e., os habitantes de Téspias, onde se celebravam as festas em
honra de Eros, que aí tinha o seu santuário. O texto alude aos assim
designados thiasotai, participantes no thíasos de Diónisos.
Plutarco
118 119
c
do de Cama
234
da Galácia
235
. Dela, por ser de uma beleza
extraordinária, casada que estava com o tetrarca Sinato,
se enamorou Sínorix, homem muito poderoso entre os
Gálatas que matou Sinato, na certeza que não seria capaz
de a tomar pela força nem de a convencer enquanto
o seu marido fosse vivo. Quanto a Cama, encontrou
refúgio e consolo para a dor no sacerdócio de Ártemis,
uma tradição familiar. E passava a maior parte do tempo
junto da deusa, não aceitando qualquer um dos muitos
reis e príncipes que a pretendiam. Mas quando Sínorix
por fm se atreveu a abordá‑la para casar, não fugiu às
suas investidas nem o acusou pelas suas acções passadas,
como se a acção de Sínorix fosse inspirada apenas pelo
afecto e pelo desejo que por ela nutria, não por qualquer
intenção maldosa. Ele veio então, cheio de confança, e
pediu‑a em casamento. Ela aproximou‑se, estendeu‑lhe
a mão, conduziu‑o ao altar da deusa e fez libações com
uma taça de hidromel, envenenada ao que parece
236
.
234
Plutarco desenvolve esta história no pequeno tratado Da
Coragem das Mulheres (257E‑258C). Corneille (ca. 1625‑1709)
compôs uma tragédia baseada nesta fgura, a que deu o título de
Camma, reine de Galatie. São bastantes os exemplos de histórias
similares. Destacamos a de Cárite, que vinga a morte do esposo
Tlepólemo às mãos de Trasilo, contada por Apuleio (Metamorfoses
8. 1‑14). A história de Cama, na estrutura em que é narrada, é
um bom exemplo do estilo dos Relatos de Amor que Plutarco
terá escrito, livro que traduzimos neste mesmo volume. Também
a história de Êmpona, adiante contada, obedece a semelhante
esquema narrativo.
235
Na Ásia Menor, a este da Frígia. O governo desta cidade era
repartido por quatro homens (tetrarcas), como informa Estrabão
(12. 566 sqq.).
236
Esta libação selaria o compromisso de casamento, sendo
como tal indispensável para a encenação de Cama.
118
Diálogo sobre o Amor
119
d
e
Depois de beber, ela própria, cerca de metade, deu o
restante ao Gálata. Quando viu que ele tinha bebido,
lançou um grito estridente e, pronunciando o nome do
falecido, disse: «Na esperança deste dia, queridíssimo
esposo, vivi tristemente, apartada de ti. Acolhe‑me agora
feliz, já que te vinguei do mais malvado dos homens,
tendo a felicidade de contigo ter partilhado a vida, e
com ele a morte!»
Sínorix, transportado numa liteira, veio a morrer
pouco tempo depois, ao passo que Cama, que terá
vivido ainda um dia e uma noite, conta‑se que pereceu
muito confante e feliz.
23. Dado que muitos casos semelhantes
terão acontecido, tanto entre nós como entre vós,
os bárbaros, quem consentiria maldizer Afrodite,
afrmando que, estando ela associada a Eros e
prestando‑lhe assistência, é um impedimento para
o nascimento da amizade? Quanto à relação de
um homem com outro homem, que é sobretudo
intemperança e assédio, dir‑se‑ia que
isso é obra da Hybris (Insolência), não de Cípris.
237
Por causa disso, a quantos se comprazem em
assumir o papel de passivos, tomamo‑los na pior classe
de perversão e não lhe concedemos qualquer ponta de
237
Frg. 409 Nauck
2
de uma tragédia desconhecida. Joga‑se com
a proximidade fonética de duas palavras, dois conceitos que não
têm, contudo, qualquer relação semântica.
Plutarco
120 121
f
769a
confança, de respeito ou de amizade
238
, antes, como
acertadamente diz Sófocles,
quem de semelhantes amigos se livrou
muito se alegra, mas quem os tem reza para deles escapar
239
.
E quantos, não tendo nascido perversos, foram
ludibriados ou forçados a ceder e a entregar‑se, mais do
que a qualquer homem desprezam e odeiam para sempre
aqueles que os possuíram, cobrando dura vingança
assim que têm hipótese. Na verdade, Cráteas deu morte
a Arquelau, seu amante antigo
240
, e Pitolau a Alexandre
de Feras
241
. Já Periandro, o tirano dos Ambraciotas
242
,
quando perguntou ao seu amado se já estava grávido,
este encheu‑se de cólera e matou‑o.
No entanto, a união com mulheres, enquanto
esposas, é princípio de amizade, semelhante à
comunhão dos mais importantes rituais. Pequena é a
dose de prazer, mas o respeito que daí resulta a cada
dia, a graça, o afecto mútuo e a confança provam que
238
A pederastia era aceite entre os Gregos, desde que um
homem adulto e livre não assumisse o papel de passivo na relação
sexual, já que ser passivo era próprio dos jovens em formação, e não
um estilo de vida assumido e contínuo. Cf., a título de exemplo,
Platão, Fedro 240d; Xenofonte, Banquete 8. 19‑21; Aristóteles,
Ética a Nicómaco 1148b. 18 sqq.
239
Frg. 779 Nauck
2
, também citado em Moralia 94D.
240
Arquelau era rei da Macedónia, em fnais do séc. V a.C.
241
Distinta é a narrativa da morte de Alexandre, tirano de Feras
(na Tessália) entre 369‑359 a.C., feita por Xenofonte (Helénicas 6.
4. 35‑37), Diodoro Sículo (16. 14. 1) e, noutro momento, pelo
próprio Plutarco (Pelópidas 35).
242
Cf. Aristóteles, Política 1311a 39 sqq.
120
Diálogo sobre o Amor
121
b
nem as gentes de Delfos estão loucas quando chamam
a Afrodite Harmonia
243
, nem Homero, quando designa
essa união de Amizade
244
. E prova também que Sólon
foi um legislador consciente no que toca a assuntos
de casamento, quando determinou que o homem se
relacionasse intimamente com a esposa não menos que
três vezes por mês
245
, por certo não pelo prazer, antes –
do mesmo modo que as cidades, de tempos a tempos,
renovam os pactos que têm umas com as outras – porque
queria revitalizar o casamento das queixas que a cada dia
se acumulam com tal mostra de afecto.
Ainda assim, os amores por mulheres provocaram
muitas maldades e loucuras. Mas não são em maior
número as que provocou o amor por rapazes?
‘[Devido à nossa] intimidade, a razão perdi ao olhar o seu
[rosto.
Imberbe, terno e belo rapaz.
Segurando‑o nos braços eu morra e encontre o meu epitáfo
246
.
No entanto, nem essa louca paixão por rapazes
247
, [nem
essa outra por mulheres], nenhuma delas é amor.
243
Do termo harma (‘união’ ou ‘par amoroso’). Cf. Moralia
156C-D, onde se afrma que Afrodite é artífce da concórdia e da
amizade entre homens e mulheres.
244
E.g. Ilíada 2. 132, 6. 161, 16. 209 e Odisseia 11. 246, 248.
245
Vide Plutarco, Sólon 20. 4 e Moralia 143D‑E. Está em causa
a manutenção do amor também por via dos prazeres, na lógica
tantas vezes repetida no diálogo de que Eros e Afrodite são deuses
que se assistem mutuamente no casamento. Para Sólon, a razão
estaria mais em garantir o nascimento de flhos legítimos.
246
Frg. 735. 3 K‑A de uma comédia desconhecida.
247
A pederastia como paidomania.
Plutarco
122 123
c
d
Por conseguinte, seria ridículo afrmar que as
mulheres não participam nas virtudes em geral. Que
necessidade há pois de referir a sua temperança e a
sua inteligência, mesmo a sua fdelidade e sentido de
justiça, quando a maioria delas deu provas sufcientes
de coragem, valor e grandeza de espírito
248
? Por outro
lado, afrmar que a sua natureza, nobre nos demais
aspectos, é incompatível apenas com a amizade, isso é
completamente absurdo. Com efeito, amam os flhos
e os esposos, a afectividade é nelas uma constante,
ricamente adornada de seduções e graças. Como a
poesia, acrescentando à palavra os temperos da melodia,
da medida e do ritmo, torna mais estimulante o seu
efeito educativo – e mais irresistível a sua capacidade
de causar dano –, do mesmo modo a natureza, ao dotar
a mulher da graça do olhar, da persuasão da voz e da
sedutora beleza da sua forma, fornece uma preciosa
ajuda à que é licenciosa para o prazer e para o engano,
e à que é honesta, para o afecto do seu esposo e para a
amizade.
Platão aconselhava Xenócrates, nobre e eminente
em tudo o resto, mas bastante austero de carácter, a
sacrifcar às Graças
249
. Ora, a uma mulher virtuosa e
honesta, talvez a aconselhasse a sacrifcar a Eros, para
que, benevolente, conservasse a casa pelo casamento, [a
248
Nesta frase resume Plutarco as principais virtudes de uma
mulher no contexto do casamento: sophrosyne (‘temperança’),
synesis (‘inteligência’), pistis (‘fdelidade’), dikaiosyne (‘sentido de
justiça’), andreia (‘valentia’) e megalopsychia (‘grandeza de espírito’).
249
Xenócrates foi discípulo de Platão e dirigente da Academia
entre 339‑314 a.C. Cf. Plutarco, Moralia 141F‑142A e Mário 2. 3.
122
Diálogo sobre o Amor
123
e
f
adornasse a ela com todos os encantos] femininos e para
que o esposo, não debandando para junto de outra, se
visse obrigado a pronunciar estas palavras da comédia:
Que mulher fui eu ofender, desgraçado de mim!
250
É que, dentro do casamento, é felicidade maior
amar do que ser amado: assim se evitam muitos erros,
ou melhor, todos aqueles que destroem e deitam a
perder o casamento.
24. Em relação ao que há de penoso e doloroso no
início, meu caro Zeuxipo, não o temas como uma ferida
ou a mordedura de um insecto. E ainda que implique
uma ferida, mesmo assim, nada de terrível existe em
unir‑se a uma mulher honesta, qual enxerto numa
árvore. Uma ferida é também o início de uma gravidez:
é que não há união sem que cada um sofra alteração
da parte do outro. Do mesmo modo as matemáticas
torturam, a início, as crianças, e a flosofa os jovens.
No entanto, nem para estes nem para os apaixonados
o desconforto fca para sempre; antes, como líquidos
que se misturam um com o outro, parece que Eros
provoca, a início, certa efervescência e perturbação, e
depois, com o assentar e a acalmia do tempo, provoca a
mais agradável das disposições. É essa, a chamada união
integral
251
, a dos que se amam; quanto à dos restantes,
dos que apenas vivem em comum, é semelhante a esses
250
Frg. 736 K‑A de uma comédia desconhecida.
251
Expressão colhida em Antípatro de Tarso, no seu tratado
Sobre o Casamento (frg. 3. 63. 11‑16 von Arnim).
Plutarco
124 125
770a
b
contactos e enlaces de que fala Epicuro
252
, comporta
colisões e afastamentos e não alcança nunca essa
unidade produzida por Eros, o protector da comunhão
matrimonial.
É que não podem obter‑se prazeres maiores de
outras pessoas nem causar a outros vantagens mais
duradouras, nem sequer a beleza de qualquer outra
amizade é tão virtuosa e invejável como
quando, partilhando o mesmo sentir, em harmonia, governam
[a casa
homem e mulher
253
.
Além disso, a lei protege‑os e também a natureza
prova que os deuses necessitam de Eros para a propagação
da vida em geral. Daí que os poetas digam que a terra
ama a chuva
254
e o céu a terra, ao passo que os naturalistas
dizem que o sol ama a lua, a ela se une e a fecunda.
Quanto à terra, mãe de todos os homens e origem de
todos os animais e plantas, não é inevitável que um dia
venha a perecer e a extinguir‑se por completo, no dia em
que o poderoso Eros ou o desejo desse deus abandonem
a matéria e esta deixe de desejar e buscar o princípio
motor que daí emana
255
?
252
Refere‑se aos átomos que se movem no vazio. Cf. Moralia
1112C.
253
Odisseia 6. 183‑184.
254
Eurípides, frg. 898.7 Nauck
2
de uma tragédia desconhecida,
também citado por Aristóteles (Ética a Nicómaco 8. 1155b). Vide
supra, 756D, onde se cita outro verso do mesmo fragmento.
255
Formulação inspirada na doutrina estóica, que distingue a
matéria (hyle) do espírito (pneuma), sendo que a primeira é inerte,
124
Diálogo sobre o Amor
125
c
No entanto, para que não demos a impressão de
estar a divagar em demasia ou simplesmente com balelas,
sabes como, acerca dos amores por rapazes, muitas vezes
falam e brincam com a sua grande instabilidade, dizendo
que, como um ovo, a amizade entre eles se corta com
um fo de cabelo
256
, e que, à semelhança dos nómadas,
passam a Primavera em prados verdejantes e foridos
e, logo de seguida, levantam acampamento, como de
um território inimigo. De forma ainda mais grosseira,
o flósofo Bíon
257
chamava à barba dos moços bonitos
Harmódios e Aristogítones
258
, já que, depois de crescer,
livrava os amantes de uma bela tirania.
No entanto, não seria justo acusar com estas
palavras os verdadeiros amantes. Acertadas são essas
outras de Eurípides. Na verdade, enquanto abraçava e
beijava o belo Ágaton, a quem já despontava a barba,
dizia que, nos moços bonitos, também o Outono [tem
a sua beleza]
259
. [Ora, o amor por mulheres honestas,]
não só não conhece Outono, forescendo mesmo entre
e o segundo um princípio activo que penetra naquela para produzir
movimento. Cf. frgs. 2. 300, 310‑311 e 1047 von Arnim.
256
Símile colhido em Platão, Banquete 190e.
257
Filósofo de inspiração cínica que viveu entre os séculos IV
e III a.C.
258
Vide supra, 760B‑C. Como estes dois jovens livraram os
Atenienses da tirania, também a barba que desponta nos rapazes,
simbolizando o início da idade adulta, permite que a relação que
os une aos seus pretendentes mais velhos deixe de ser pederástica e
se baseie no amor.
259
Poeta trágico ateniense da segunda metade do séc. V a.C.,
intervém como personagem no Banquete e no Protágoras de Platão.
Ficou conhecido como um jovem de extraordinária beleza. Esta
anedota relativa a Eurípides surge também em Plutarco, Alcibíades
1. 5 e Moralia 177A.
Plutarco
126 127
d
e
o branquear do cabelo e o surgir das rugas, como
permanece até à tumba e à sepultura. Além disso, poucas
uniões se contam do amor por rapazes, ao passo que dos
amores por mulheres há um sem número de casos em
que mantiveram juntos uma relação de fdelidade plena,
alternando em lealdade e desejo.
Mas quero agora contar um caso dos que aconteceu
no nosso tempo, quando Vespasiano era Imperador
260
.
25. Civílio, o responsável pela sublevação na
Galácia
261
, tinha, como é natural, muitos cúmplices,
entre os quais se contava Sabino, pessoa jovem e de boa
linhagem, que pela sua riqueza e fama
262
era o mais ilustre
de todos os Gálatas. Cumprida a sua grande empresa, uns
suicidaram‑se, pois anteviam que pagariam um castigo,
e outros foram capturados quando tentavam fugir.
Quanto a Sabino, todas as circunstâncias lhe permitiam
com facilidade fugir e refugiar‑se entre os bárbaros. No
entanto, estava casado com a mais nobre das mulheres, à
qual nessa terra davam o nome de Êmpona, que em grego
responderia pelo nome de Heroína
263
. Como tal, não era
capaz nem de a abandonar, nem de a levar consigo.
260
Vespasiano foi imperador em Roma entre 69 e 79 d.C.
261
Esta revolta, descrita em detalhe por Tácito (Histórias 4.
13 sqq.) teve lugar em 69 d.C. O poder de Vespasiano saiu, no
entanto, triunfante.
262
Uma linhagem nobre, bom carácter e bom nome são
características comuns neste tipo de relatos. Vide, a propósito, a
nossa introdução ao livro dos Relatos de Amor.
263
O nome desta mulher varia consoante as fontes antigas.
Tácito chama‑lhe Emponina (Histórias 4. 67) e Díon Cássio
Peponila (65. 3 e 16).
126
Diálogo sobre o Amor
127
f
771a
Ora, posto que tinha escavado no campo uns
esconderijos subterrâneos para os seus bens, dos quais
apenas dois dos seus libertos tinham conhecimento,
dispensou os demais criados e, como se fosse suicidar‑se
com veneno, na companhia dos dois servos em que mais
confava, desceu ao esconderijo subterrâneo. À presença
da esposa enviou o liberto Marciálio, anunciando‑lhe
que se havia suicidado com veneno e que a cabana tinha
sido queimada com o corpo lá dentro. É que pretendia
[servir‑se do pranto] sincero da esposa para dar crédito
à notícia da sua morte. E foi isso mesmo que aconteceu.
Lançando‑se ela ao solo, tal como estava, assim
permaneceu, entre prantos e lamentações, durante três
dias e três noites sem comer.
Quando Sabino tomou conhecimento disto,
estando com medo, não fosse ela pôr termo à vida,
ordenou a Marciálio que lhe comunicasse secretamente
que ele estava vivo e escondido, mas que ainda precisava
que ela se mantivesse em pranto durante algum
tempo e que não [descurasse nada de forma a] parecer
convincente no seu fngimento. E assim a mulher
representou com muito sofrimento toda a sua tragédia,
transparecendo dor. No entanto, desejosa de o ver,
uma noite houve em que o visitou e logo regressou. A
partir desse dia, às escondidas de todos, praticamente
passou a viver no Hades com o marido durante mais
de sete meses consecutivos
264
. Ao termo desse tempo,
disfarçando Sabino com um vestido, um outro corte de
264
O episódio lembra o mito de Perséfone, que passava uma
parte do ano com o esposo no Hades e a outra com Deméter à
superfície.
Plutarco
128 129
b
c
cabelo e uma fta na cabeça, levou‑o consigo para Roma,
posto que lhe tinham dado algumas [esperanças]. Como
não conseguiu nada, de novo regressou, e passando a
maior parte do tempo com ele debaixo da terra, de vez
em quando lá subia à cidade para que fosse vista pelas
mulheres amigas e pelas parentes.
Mas o mais incrível de tudo foi ter conseguido
esconder que estava grávida, mesmo banhando‑se com
as mulheres. É que o produto com que as mulheres
ungem os cabelos para o tornar dourado ou ruivo
contém uma banha que engorda e torna mais esponjosa
a carne, tanto que produz mesmo uma certa dilatação
e inchaço. Assim, aplicando‑o em grande quantidade
nas restantes partes do corpo, ia disfarçando o tamanho
do seu ventre, cada vez maior e mais inchado. As dores
de parto, suportou‑as sozinha, como uma leoa na sua
toca, escondida com o marido, e amamentou as crias
masculinas que nasceram – gerou, na verdade, dois
varões. Um dos seus flhos veio a morrer no Egipto; o
outro, de seu nome Sabino, esteve em Delfos entre nós
ainda há pouco tempo.
Quanto a ela, o Imperador mandou‑a assassinar.
Mas por a ter morto recebeu o seu castigo, posto
que, em pouco tempo, toda a sua descendência foi
aniquilada
265
. Com efeito, nada de mais terrível sofreu
265
Sabino terá morrido em 69 a.C., dez anos antes da morte
de Vespasiano. A dinastia que dele surgira haveria de terminar em
96 d.C., com a morte de Domiciano. Apenas há que registar o
anacronismo da situação. Com efeito, Plutarco refere‑se a estes
acontecimentos como recentes, ao tempo do diálogo. Ora, se a
situação narrativa o apresenta como recém‑casado, e se sabemos
que, em 96 d.C., rondaria os 50 anos de idade, os dados não batem
128
Diálogo sobre o Amor
129
d
desde então o Império, nem qualquer outro prodígio
houve que aos deuses e aos espíritos mais repúdio tenha
causado. Contudo, a audácia e o orgulho dessa mulher
fzeram desaparecer a compaixão dos que assistiam à
execução, facto que muito irritou Vespasiano, já que ela,
perdida qualquer esperança de salvação, lhe propunha
uma troca, dizendo‑lhe que tinha vivido melhor na
escuridão, debaixo da terra, do que ele no seu trono.”
26. Foi neste ponto, disse o meu pai, que terminou
entre eles a conversa sobre o amor, quando estavam
perto de Téspias. Viram então, avançando à pressa para
junto Deles, Diógenes, um dos companheiros de Písias.
Gritou‑lhe Soclaro, ainda de longe: “Não é a guerra,
Diógenes, que por acaso nos vens anunciar?” Ao que ele
respondeu: “Não dirão vocês palavras de bom augúrio,
quando está a ter lugar um casamento, e avançarão mais
depressa, já que estão à vossa espera para o sacrifício?”
Todos fcaram agradados, e foi aí que Zeuxipo perguntou
[se Písias] ainda estava contrariado
266
. “Pelo contrário
– respondeu Diógenes –, foi o primeiro a aceitar a
proposta de Ismenodora. E agora mesmo, com uma
coroa e um manto branco, está disposto a encabeçar o
cortejo pela ágora até ao templo do deus.”
certo. A expiação da culpa em gerações posteriores é frequente neste
tipo de relatos, um pouco de acordo com a lógica de culpa/ castigo
que a tragédia herdou das concepções mais arcaicas da religião
grega. Vide, como exemplo, a tradução e as notas dos Relatos de
Amor.
266
Písias, opositor desde o início ao casamento de Ismenodora
e Bácon, tinha mesmo abandonado o diálogo, irritado com o que
ouvira (755B-C).
Plutarco
130 131
“Vamos então, por Zeus, – disse o meu pai
– partilhemos da alegria desse homem e prestemos
culto ao deus. É evidente que ele se regozija e assiste,
benevolente, a estes acontecimentos.”
e
130
Diálogo sobre o Amor
131
relAtos De Amor
132
relAtos De Amor
133
771f
1
Em Haliarto
1
, na Beócia, havia uma donzela que
se destacava pela sua beleza, de nome Aristocleia
2
, flha
de Teófanes. Pretendiam‑na Estráton de Orcómeno e
Calístenes de Haliarto. Estráton era mais rico e estava
mais tomado de amores pela rapariga: é que, por acaso,
tinha‑a visto em Lebadeia
3
, enquanto se banhava na
fonte Hércina, posto que estava destinada a ser canéfora
1
Já referida na Ilíada (2. 503), a cidade de Haliarto situava‑se
numa colina entre Téspias, Onquesto e Coroneia, tendo sido
destruída pelos Romanos em 171 a.C., que a entregaram a Atenas.
Vide Estrabão 9. 2. 30 e Pausânias 9. 32. 33.
2
Os nomes dos protagonistas deste tipo de lendas são, não raro,
signifcativos. No caso de Aristocleia, estão em causa o adjectivo
aristos e o substantivo kleos, resultando a personagem, pela
etimologia do seu nome, como “a de nobre fama”.
3
A cidade de Lebadeia, actual Livadhiá, situava‑se a sul de
Orcómeno e de Queroneia. Pausânias (9. 39. 1‑4) descreve ao
pormenor a fonte referida, que emana de uma gruta, bem como o
santuário de Zeus e o oráculo de Trofónio que ali se encontravam.
O enamoramento à primeira vista era e continua a ser um tópico
deste tipo de narrativas. No caso particular, o leitor traria de
imediato à memória o exemplo de Actéon, que em circunstância
semelhante se enamorou de Ártemis, e o seu destino trágico.
Plutarco
134 135
772a
b
para Zeus Rei
4
. No entanto, Calístenes levava vantagem,
uma vez que era também, pela sua linhagem, parente da
rapariga.
Muito preocupado com a situação, Teófanes tinha
receio de Estráton que, pela sua riqueza e linhagem,
superava praticamente todos os Beócios, e queria confar
a decisão a Trofónio
5
. Mas Estráton, convencido pelos
criados da donzela de que ela estava mais inclinada para
o seu lado, reclamava que a decisão coubesse à própria
noiva. Quando Teófanes interrogou a rapariga na
presença de todos, e ela decidiu a favor de Calístenes,
rapidamente se tornou evidente que Estráton levou a
mal a afronta. Passados dois dias, foi ao encontro de
Teófanes e Calístenes, pedindo‑lhes que conservassem
a amizade que os unia, apesar de o casamento lhe ter
sido negado pela inveja de uma qualquer divindade.
Eles elogiaram as suas palavras, de tal modo que até o
convidaram para o banquete nupcial.
No entanto, tendo ele recrutado um grupo de
amigos e uma quantidade não pequena de criados,
que se espalharam e passaram despercebidos entre os
4
As canéforas, como indica a etimologia do termo, eram
donzelas encarregadas de transportar um cesto de oferendas ao
deus. Parece certo que o texto alude às festividades conhecidas por
Basileia (em honra de Zeus Basileus) de que fala Didodoro Sículo
(15. 53. 4), que terão sido instituídas após a batalha de Leuctras
(371 a.C.).
5
Santuário oracular também descrito por Pausânias (9. 39. 1‑4).
Situado no interior de uma gruta, consultá‑lo implicava, ao que
parece, uma verdadeira iniciação mistérica. Foi mesmo referido por
Aristófanes (Nuvens 506‑508) e Cratino, outro cómico ateniense
do século V a.C., que deu o seu nome ao título de uma comédia
(frgs. 233‑245 K‑A).
134
relAtos De Amor
135
c
d
restantes, quando a jovem, como mandava a tradição
local, desceu à fonte chamada Cissussa
6
para oferecer às
Ninfas o sacrifício preliminar
7
, aí, reunindo‑se todos os
que com ele estavam de emboscada, raptaram‑na. E o
próprio Estráton segurava a rapariga. Como é natural,
Calístenes e os seus seguraram‑na do outro lado, até
que ela morreu às mãos de ambos, enquanto cada um
puxava para seu lado.
Em consequência de tudo isto, Calístenes
desapareceu de imediato, seja por se ter suicidado, seja
por se ter exilado da Beócia; ninguém foi capaz de dizer
o que lhe aconteceu. Estráton, por seu turno, degolou‑se
em público sobre a donzela.
2
Um tal de Fídon
8
, aspirante ao poder sobre
os Peloponésios, porque pretendia que a cidade dos
Argivos, a sua pátria, exercesse hegemonia sobre as
restantes, começou por conspirar contra os Coríntios.
Como tal, enviou‑lhes emissários a fm de lhes exigir
os mil mancebos que mais se distinguiam em vigor
e coragem. E eles lá lhe enviaram os mil rapazes,
determinando que seria Dexandro o chefe deles. Fídon,
que tinha na ideia atacá‑los, para desse modo tornar
Corinto mais vulnerável e fcar com a cidade nas suas
6
À letra, Kissoessa quer dizer “da hedra”. Segundo o próprio
Plutarco (Lisandro 28. 7), localizava‑se fora de Haliarto.
7
O texto alude às oferendas e sacrifícios que a noiva, na véspera
das bodas, executava em sua casa (proteleia).
8
Pode referir‑se ao rei de Argos com o mesmo nome, do século
VII a.C., logo após a fundação de Siracusa.
Plutarco
136 137
e
mãos – uma vez que esta seria a mais vantajosa fortaleza
de todo o Peloponeso
9
–, confou a tarefa a alguns dos
seus amigos. Entre eles, estava Hábron. Este, porque
era hóspede de Dexandro, contou‑lhe a conspiração. E
por isso os Fliásios regressaram sãos e salvos a Corinto
antes da investida, enquanto Fídon se esforçava por
encontrar o delator, investigando com afnco. Receoso,
Hábron fugiu para Corinto, levando consigo a esposa
e os criados, [e assentou morada]
10
em Melisso, uma
aldeia do território dos Coríntios. Foi também ali que
teve um flho, ao qual chamou Melisso, dando‑lhe o
nome desse lugar. Deste Melisso nasceu um rapaz,
Actéon
11
, o mais belo e virtuoso
12
dos da sua idade, de
quem muitos foram os que se enamoraram, em especial
Árquias, que era da linhagem dos Heraclidas e, por toda
a sua riqueza e poder, o mais ilustre dos Coríntios. Ora,
9
À importância estratégica de Corinto para o controlo do
Peloponeso aludem, entre outros, Estrabão (8. 4. 8) e o próprio
Plutarco (Arato 50. 4).
10
Alguns editores detectaram, neste ponto, uma lacuna –
baseados na pouca frequência com que o verbo pheugein se constrói
com en regido de dativo (en Melisso) –, sendo que todas as sugestões
avançadas para a sua supressão têm, de algum modo, o sentido da
nossa tradução.
11
Não confundir com o herói mítico com o mesmo nome,
se bem que o destino trágico de ambos – a morte por motivos
de enamoramento – os una. De resto, pode ser intenção do autor
sugerir esse paralelismo. Mais, a unir as três fguras – o herói mítico,
este Actéon da história e Aristocleia, do primeiro relato –, está a
coincidência na morte: os três são despedaçados, como se mais não
fossem do que peças de caça, também esta uma metáfora de todos
os tempos para a conquista amorosa.
12
Actéon, o “herói trágico” desta história, recebe a mesma
caracterização de Aristocleia, na história anterior, que acentua a sua
beleza física e o seu valor moral (kallistos kai sophronestatos).
136
relAtos De Amor
137
f
773a
b
como não foi capaz de seduzir o jovem, resolveu usar
de violência
13
e raptar o moço: foi em bando até casa
de Melisso, levando consigo uma multidão de amigos
e criados, e assim tentava raptar o rapaz. Uma vez que
o pai e os amigos ofereceram resistência, e também os
vizinhos acorreram e o puxavam para seu lado, assim,
puxado de ambos os lados, Actéon acabou por morrer.
Eles, então, puseram‑se em fuga.
Melisso, levando o cadáver do flho para a ágora
dos Coríntios, aí o exibia, pedindo vingança para com
os que haviam feito tal coisa. Mas ninguém fazia mais
do que compadecer‑se do homem
14
. Retirando‑se, sem
sucesso, esperou pela celebração dos Jogos Ístmicos e,
subindo ao templo de Poséidon, gritou imprecações
contra os Baquíadas
15
, recordou o feito de seu pai Hábron
e, depois de invocar os deuses, lançou‑se desse penhasco.
Pouco tempo depois, a seca e a peste abateram‑se
sobre a cidade. Quando os Coríntios consultaram o
deus em busca de libertação, a divindade vaticinou que
se tratava da cólera de Poséidon, que não teria fm até
que a morte de Actéon fosse vingada
16
. Quando Árquias
13
O uso da força e as consequências nefastas desse acto são um
lugar‑comum deste tipo de histórias. Como que para demonstrar
como o amor não se compadece com compaixões desmedidas.
14
A história de Actéon vem contada, com ligeiras alterações,
em Diodoro Sículo (8. 10) e Máximo de Tiro (18. 1). Num escólio
às Argonáuticas, os Coríntios não fcam indiferentes à dor e às
imprecações de Melisso, expulsando os Baquíadas de Corinto.
15
Família nobre que terá governado Corinto durante os séculos
VIII e VII a.C., da qual Periandro é o membro mais conhecido.
16
É tradicional este motivo do oráculo que reclama a expiação
de uma morte para livrar a cidade da peste, fazendo lembrar, de
imediato, o argumento do Rei Édipo sofocliano.
Plutarco
138 139
c
tomou conhecimento disso – pois ele próprio era um
emissário –, não quis regressar a Corinto e, navegando
até à Sicília, fundou Siracusa. Nesse lugar foi pai de
duas flhas, Ortígia e Siracusa, e foi morto à traição por
Télefo, que fora seu amado e que, ao comando de um
navio, tinha navegado com ele para a Sicília
17
.
3
Um homem pobre, de seu nome Esquédaso,
habitava em Leuctras, uma aldeia do território dos
Téspios. Tinha duas flhas, de nome Hipo e Milésia ou,
de acordo com alguns, Teano e Euxipa
18
. Esquédaso
era bondoso e amável com os seus hóspedes, embora
não fosse de grandes posses. Por conseguinte, tendo
chegado a sua casa dois jovens espartanos, recebeu‑os
com amabilidade. Estes, fcaram caídos de amores
pelas donzelas, mas evitavam faltar‑lhe a esse respeito
por consideração à bondade de Esquédaso. E, no dia
seguinte, partiram para Píton
19
, já que era esse, com
efeito, o caminho que tinham planeado.
Uma vez consultado o deus acerca das suas
necessidades, de novo rumaram a casa e, de passagem
17
O castigo chega bastante mais tarde, quando o criminoso
pensava já que não haveria lugar ao seu cumprimento. Árquias,
que matou por amor, morre às mãos de um antigo apaixonado seu.
18
Pausânias (9. 13. 5), o único além de Plutarco a dar nomes às
raparigas, chama‑lhes Hipo e Mólpia. No estado mais antigo desta
lenda, que encontramos, por exemplo, em Diodoro Sículo (15. 54.
2‑3), elas seriam apenas designadas de Leuctridas, porquanto se
considerava que seriam flhas de Leuctros e não de Esquédaso.
19
Antigo nome de Delfos, no monte Parnaso, na Fócida.
Passou a funcionar como epíteto de Apolo, que aí tinha o seu mais
conhecido e frequentado santuário.
138
relAtos De Amor
139
d
e
pela Beócia, uma vez mais se detiveram em casa de
Esquédaso. Acontece que ele não estava em Leuctras,
mas as suas flhas, de acordo com o costume que tinham
aprendido, receberam os hóspedes. Estes, encontrando
as raparigas sozinhas, tomaram‑nas à força; e ao verem
que elas estavam terrivelmente indignadas com a afronta,
mataram‑nas, lançaram‑nas para um poço e partiram.
Quando Esquédaso regressou, não conseguia
encontrar as raparigas, mas tudo quanto havia deixado
foi encontrá‑lo intacto. A situação estava a preocupá‑lo,
até que, como uma cadela sua se fartava de ladrar e
uma e outra vez corria para o poço e de lá regressava,
imaginou o que poderia passar‑se, e desse modo puxou
para a superfície os cadáveres das flhas. Quando soube
pelos vizinhos que no dia anterior tinham visto entrar
em sua casa os Lacedemónios, os mesmos que ainda na
véspera lá tinham fcado alojados, compreendeu que
tinha sido obra deles, já que tampouco da primeira
vez se cansavam de elogiar as raparigas, considerando
afortunados os que as desposassem.
Partiu então para a Lacedemónia a fm de apelar
aos Éforos
20
. Chegado à Argólida, quando caiu a noite,
buscou alojamento num albergue. No mesmo local
estava hospedado um outro ancião natural de Oreu,
uma cidade de Hestieia
21
. Ao escutar as suas lamúrias
e imprecações contra os Lacedemónios, Esquédaso
perguntou‑lhe que ofensa havia sofrido da parte dos
Lacedemónios. Ele então lhe contou que era súbdito
20
Magistrados com elevado poder político e administrativo em
Esparta.
21
Na ilha de Eubeia. Vide Ilíada 2. 537 e Pausânias 7. 26. 4.
Plutarco
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f
774a
de Esparta e que Aristodemo, enviado a Oreu pelos
Lacedemónios na qualidade de harmosta
22
, tinha
revelado para consigo uma grande crueldade e ofensa.
“Com efeito – dizia –, tendo‑se apaixonado pelo meu
flho, como não foi capaz de o convencer a bem, tentou
exercer violência sobre ele e raptá‑lo da palestra. Porque
o impediram o treinador e muitos jovens vieram em seu
auxílio, Aristodemo afastou‑se por esse momento. Mas,
no dia seguinte, depois de equipar uma trirreme
23
, raptou
o rapaz e, navegando de Oreu para a costa imediatamente
à frente e tentando abusar dele, como não o conseguiu,
degolou‑o. De regresso a Oreu, continuou a divertir‑se
em banquetes. Quanto a mim – lá continuava o ancião
–, tomando conhecimento do sucedido e tendo dado
sepultura ao cadáver, apresentei‑me em Esparta e pedi
a intervenção dos Éforos. Mas eles não fzeram caso das
minhas palavras.”
Esquédaso, ao ouvir esta história, foi tomado
de desânimo, julgando que tampouco da sua situação
os Espartanos fariam caso. E por seu turno, contou
igualmente a própria infelicidade ao estrangeiro. Ele
aconselhou‑o a não recorrer aos Éforos, mas a que
22
Governador por delegação dos Espartanos junto dos Periecos
e das cidades subjugadas, que estava na dependência dos Éforos
(cf. Xenofonte, Helénicas 5. 4. 24). O mesmo Xenofonte nos
relata uma série de casos que demonstram o abuso de poder destas
fguras (Helénicas 3. 5. 12‑13). Por estes dados, pese embora o
carácter lendário destes textos, é provável que a história se reporte
ao período do domínio espartano da ilha de Eubeia (405‑395 ou
380‑377 a.C.).
23
Embarcação que contava com três lances de remadores de
cada lado, concebida para atingir velocidades superiores. A sua
origem deve remontar ao séc. VIII a.C.
140
relAtos De Amor
141
b
c
voltasse antes à Beócia e erguesse o túmulo das suas
flhas. Não se deixou convencer ainda assim Esquédaso
e, chegando a Esparta, pediu de facto a intervenção dos
Éforos. Como estes não lhe deram atenção, dirigiu‑se
aos reis e, depois destes, aproximou‑se em pranto de
cada um dos cidadãos. Não tendo conseguido nada
mais, correu pelo meio da cidade, erguendo as mãos
a Hélios, e logo, batendo no solo, invocou as Erínias,
acabando por pôr termo à própria vida
24
.
Algum tempo depois, no entanto, os
Lacedemónios receberam o seu castigo. Com efeito,
quando já dominavam todos os Helenos e tinham
ocupado todas as suas cidades com guarnições, o tebano
Epaminondas em primeiro lugar aniquilou a guarnição
da sua cidade
25
. Tendo os Lacedemónios, por esse
motivo, promovido uma guerra, os Tebanos saíram ao
seu encontro em Leuctras, pois consideravam esse local
favorável, já que, também aí, tinham no passado obtido
a liberdade quando Anftrião, condenado ao exílio por
Esténelo, veio às cidades dos Tebanos e, encontrando‑os
submetidos a Cálcis por um tributo, os libertou dessa
obrigação dando morte a Calcodonte, rei da Eubeia
26
.
24
No momento da morte voluntária, a vingança é invocada
nas fguras de Hélios, o Sol que tudo vê, e das Erínias, divindades
subterrâneas que, na tragédia grega, vingam os crimes de sangue.
25
Na realidade, sabemos que foi Pelópidas quem dirigiu a
expedição que pôs termo ao domínio espartano sobre Tebas, em
379 a.C.
26
Anftrião tinha sido desterrado de Argos pelo rei Esténelo em
consequência da morte involuntária de Eléctrion, rei de Micenas e
pai de Alcmena. Para esta lenda, vide Apolodoro 2. 4. 6 e Pausânias
9. 17. 3, 19. 3.
Plutarco
142 143
d
Ora, acontece que a derrota completa dos Lacedemónios
teve lugar perto do túmulo das flhas de Esquédaso.
Dizem que, antes da batalha, a Pelópidas
27
, um
general do exército tebano que andava preocupado
devido a determinados presságios que não tinham
sido interpretados como favoráveis, lhe apareceu em
sonhos Esquédaso, exortando‑o a ter confança; que os
Lacedemónios, na verdade, tinham vindo a Leuctras
para pagar os castigos devidos a ele e às suas flhas. Um
dia antes de enfrentar os Lacedemónios, prescreveu‑lhe
que sacrifcasse junto ao túmulo das donzelas um poldro
branco que tivesse à mão. Então Pelópidas, quando a
expedição dos Lacedemónios ainda estava em Tégea,
enviou emissários a Leuctras para investigarem este
túmulo e, informado pelas gentes dessa terra, conduziu
o exército confante e saiu vencedor
28
.
4
Foco era beócio de nascimento, pois era de
Glissas
29
, e pai de Calírroe
30
, que se destacava pela
27
Segundo o próprio Plutarco (Pelópidas 23. 6), Pelópidas
comandava apenas um batalhão de trezentos homens.
28
Toda a história recuperada por Plutarco se tinha, de facto,
tornado famosa, por fcar associada à vitória de Tebas sobre Esparta
em Leuctras, no ano de 371 a.C. Cf. Xenofonte, Helénicas 6. 4. 7,
Diodoro Sículo 15. 54. 1‑3, Plutarco, Pelópidas 20‑22; Pausânias
9. 13. 5‑6 e 14. 3.
29
Cidade da Beócia já mencionada na Ilíada (2. 504). No
tempo de Pausânias, estaria já em ruínas (9. 19. 2‑3).
30
A descrição desta heroína é em tudo semelhante à de
Aristocleia, na primeira história. Realça‑se, uma vez mais, a sua
beleza (kallos) e virtude (sophrosyne). Calírroe é também o nome da
heroína no romance de Cáriton e numa lenda local recolhida por
Pausânias 7. 21. 1‑5., cujos fnais são, igualmente, trágicos.
142
relAtos De Amor
143
e
f
775a
beleza e virtude. Pretendiam‑na trinta jovens muito
ilustres na Beócia. Foco, por seu turno, arranjava
sucessivos adiamentos para o casamento, pois temia
sofrer alguma violência, até que, mediante a insistência
dos pretendentes, achou por bem confar a decisão a
Píton
31
. Eles, porém, revoltaram‑se com a proposta
e, atacando Foco, deram‑lhe a morte. No meio da
confusão a rapariga conseguiu fugir pelo campo e os
rapazes perseguiram‑na. Calhou ela encontrar uns
camponeses que juntavam trigo na eira e junto deles
achou a salvação: é que os camponeses esconderam‑na
no meio do trigo e, assim, passaram ao largo os que a
perseguiam.
Ela, já a salvo, aguardou pela celebração das
Pambeócias
32
e então, rumando a Coroneia, sentou‑se
como suplicante no templo de Atena Itónia e contou
os crimes dos seus pretendentes, indicando o nome e a
pátria de cada um deles. Compadeceram‑se os Beócios
da rapariga e ganharam ódio aos rapazes. Estes, tomando
conhecimento do sucedido, fugiram para Orcómeno.
Como não os acolheram os Orcoménios, dirigiram‑se a
toda a pressa para Hípotas, uma aldeia das imediações do
Hélicon, entre Tisbe e Coroneia. Estes sim os acolheram
de bom grado. Em seguida, os Tebanos enviaram
emissários a reclamar os assassinos de Foco. Como
eles não os entregaram, organizaram com os restantes
Beócios uma expedição, comandada por Fedo, que por
essa altura detinha o poder sobre os Tebanos. Uma vez
31
Apolo. Vide supra, n. 19.
32
Celebração da Confederação da Beócia que, segundo Estrabão
(9. 2. 29), tinha lugar no santuário de Atena Itónia em Coroneia.
Plutarco
144 145
b
c
sitiada a cidade, que estava fortifcada, e vencidos os
seus ocupantes pela sede, capturaram e queimaram os
assassinos e escravizaram a gente da aldeia. Destruídas
as muralhas e as casas, o território foi repartido entre os
de Tisbe e os de Coroneia.
Conta‑se que, uma noite, antes da conquista de
Hípotas, repetidamente se ouviu, vinda do Hélicon, a
voz de alguém que dizia «estou aqui»; e que os trinta
pretendentes reconheceram essa voz como sendo a de
Foco. No dia em que foram apedrejados até à morte, diz‑se
que o túmulo do ancião, em Glissas, destilou açafrão; e
que a Fedo, o chefe e estratego dos Tebanos, quando
regressava da batalha, lhe foi anunciado o nascimento
de uma flha, à qual, tomando o acontecimento por
bom augúrio, deu o nome de Nicóstrata
33
.
5
Alcipo era lacedemónio de nascimento. Casado
com Damócrita, era pai de duas flhas. Porque dava à
cidade os melhores conselhos e providenciava tudo
quanto necessitavam os Lacedemónios, despertou a
inveja dos seus adversários políticos que, levando‑o à
presença dos Éforos, com acusações falsas de que Alcipo
queria arruinar as leis, condenaram esse homem ao
exílio. Ele então partiu de Esparta, mas Damócrita, a
esposa, que com as flhas desejava partir na companhia
do marido, foi impedida de o fazer, e confscaram
mesmo o seu património, de modo que as donzelas não
33
À letra, “vencedora de exércitos”. Era um bom presságio nascer
no dia de uma vitória militar, como prova o caso de Alexandre em
Plutarco, Alexandre 3. 9.
144
relAtos De Amor
145
d
e
viessem a ter dote. Ora, uma vez que, mesmo assim,
havia ainda quem pretendesse as raparigas, devido ao
valor de seu pai, os inimigos proibiram por decreto que
alguém pedisse as jovens em casamento, afrmando que
a mãe delas muitas vezes fzera votos de que rapidamente
as flhas dessem à luz rapazes que se tornassem os
vingadores do pai.
Assim acusada de todos os lados, Damócrita
aguardou por uma festa pública, na qual participavam
mulheres, donzelas, servos e crianças, e em que as
esposas dos que detinham o poder passavam toda a noite
sozinhas num grande salão. Armada com uma espada,
foi com as flhas ao templo, durante a noite, esperando
o momento em que todas celebravam os mistérios
no salão. Uma vez fechadas as entradas, amontoou
à porta uma grande quantidade de lenha – que tinha
sido preparada por essas mulheres para o sacrifício da
festa – e ateou‑lhe fogo. Enquanto os homens acorriam
em auxílio, Damócrita degolou as flhas e depois a si
mesma sobre elas. Os Lacedemónios, não sabendo
como lidar com a sua cólera, lançaram para fora das suas
fronteiras os corpos de Damócrita e das flhas
34
. Dizem
que, encolerizada a divindade por esse motivo, os
Lacedemónios foram atingidos pelo grande terramoto
35
.
34
A privação de sepultura em solo pátrio era o maior dos
castigos por traição.
35
A lenda pretende ser a explicação etiológica do terramoto que
se abateu sobre Esparta em 464 a.C. Vide Tucídides 1. 101. 2; 128.
1, Diodoro Sículo 9. 63. 1‑7, Plutarco, Címon 16. 4‑5 e Pausânias
4. 24. 6.
VOLUMES PUBLICADOS NA COLECÇÃO AUTORES
GREGOS E LATINOS – SÉRIE TEXTOS
1. Delfm F. Leão e Maria do Céu Fialho: Plutarco. Vidas
Paralelas – Teseu e Rómulo. Tradução do grego,
introdução e notas (Coimbra, CECH, 2008).
2. Delfm F. Leão: Plutarco. Obras Morais – O banquete dos
Sete Sábios. Tradução do grego, introdução e notas
(Coimbra, CECH, 2008).
3. Ana Elias Pinheiro: Xenofonte. Banquete, Apologia de
Sócrates. Tradução do grego, introdução e notas
(Coimbra, CECH, 2008).
4. Carlos de Jesus, José Luís Brandão, Martinho Soares,
Rodolfo Lopes: Plutarco. Obras Morais – No Banquete
I – Livros I‑IV. Tradução do grego, introdução
e notas. Coordenação de José Ribeiro Ferreira
(Coimbra, CECH, 2008).
5. Ália Rodrigues, Ana Elias Pinheiro, Ândrea Seiça, Carlos
de Jesus, José Ribeiro Ferreira: Plutarco. Obras Morais
– No Banquete II – Livros V‑IX. Tradução do grego,
introdução e notas. Coordenação de José Ribeiro
Ferreira (Coimbra, CECH, 2008).
6. Joaquim Pinheiro: Plutarco. Obras Morais – Da Educação
das Crianças. Tradução do grego, introdução e notas
(Coimbra, CECH, 2008).
7. Ana Elias Pinheiro: Xenofonte. Memoráveis. Tradução do
grego, introdução e notas (Coimbra, CECH, 2009).
8. Carlos de Jesus: Plutarco. Diálogo sobre o Amor, Relatos
de Amor. Tradução do grego, introdução e notas
(Coimbra, CECH, 2009).

Plutarco

Obras Morais Diálogo sobre o Amor Relatos de Amor
Tradução do grego, introdução e notas de Carlos A. Martins de Jesus
Universidade de Coimbra

Todos os volumes desta série são sujeitos a arbitragem científica independente. Autor: Plutarco Título: Diálogo sobre o Amor, Relatos de Amor Tradução do grego, introdução e notas: Carlos A. Martins de Jesus Editor: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos Edição: 1ª/2009 Coordenador Científico do Plano de Edição: Maria do Céu Fialho Conselho Editorial: Maria de Fátima Silva, Francisco de Oliveira, Nair Castro Soares Director técnico da colecção / Investigador responsável pelo projecto Plutarco e os fundamentos da identidade euroPeia: Delfim F. Leão Concepção gráfica e paginação: Rodolfo Lopes Obra realizada no âmbito das actividades da UI&D Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos Universidade de Coimbra Faculdade de Letras Tel.: 239 859 981 | Fax: 239 836 733 3000‑447 Coimbra ISBN: 978‑989‑8281‑13‑5 Depósito Legal: 296299/09 Obra Publicada com o Apoio de:

© Classica Digitalia Vniversitatis Conimbrigensis © Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra Reservados todos os direitos. Nos termos legais fica expressamente proibida a reprodução total ou parcial por qualquer meio, em papel ou em edição electrónica, sem autorização expressa dos titulares dos direitos. É desde já excepcionada a utilização em circuitos académicos fechados para apoio a leccionação ou extensão cultural por via de e‑learning. Volume integrado no projecto Plutarco e os fundamentos da identidade europeia e financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

Índice Introdução Diálogo sobre o Amor relAtos De Amor Sobre a nossa tradução Edições seguidas para a citação de fragmentos Bibliografia Diálogo sobre o Amor relAtos De Amor 7 18 26 29 31 41 131 .

C.. Flacelière (1980: 7‑11) consideraram que o diálogo deva datar de uma ou duas décadas depois desse marco.introDução introdução diálogo sobre o amor Não estaremos longe da verdade se começarmos por afirmar que. pelo que autores como R. Com efeito. o que sabemos ter ocorrido em 96 d. o Diálogo sobre o Amor – essa a versão portuguesa que considerámos preferível para o grego Erotikos [Logos] – se afigura como um dos mais ricos e representativos do pensamento e da técnica literária de Plutarco. não permite que a data de composição recue além desse ano. Com efeito. pensa‑se que a vida de Plutarco se 7 . do vasto conjunto dos tratados que integram os Moralia. a referência à extinção da dinastia Flávia (771C) como um evento recente. na medida em que ele nos fornece um terminus post quem relativamente seguro. No que à sua datação diz respeito. contamos com um dado interno inestimável.

R.C. Flacelière (1980: 31‑32) duvida que tenha sido essa a única razão que levou Hirzel a desconfiar da autenticidade. Comment. Como se Plutarco não pudesse. Graf2. entre 96 e 127 – período de uma maturidade literária e filosófica notável – que há que situar o texto. filho de Plutarco. e será algures neste lapso de tempo. 1888: 68 sqq.Carlos A.C. Baseava‑se este autor na atribuição do papel de narrador e no anacronismo que constituiria. conjecturando que. Philol. Stuttgart. autonomamente e de pleno direito. para quem o diálogo teria sido escrito pelo próprio Autobulo. Flacelière (1980: 9‑10).. veladamente. para tal afirmação. baseando‑se. 8 . a aceitar‑se a autoria do polígrafo. R. considera que o diálogo data mesmo dos últimos anos de vida de Plutarco.. à maneira de Platão. que. Für O. Ribbeck. consciente do terreno movediço em que assenta a sua teoria. a alusão à extinção da 1 2 Der Dialog II. sustentando esta afirmação no facto de o Eros apresentado não ter o carácter de um génio (daimon). esse autor concordaria com a tese de E. nas inúmeras proximidades – formais e morais – com o diálogo Sobre os Oráculos da Pítia (394D‑409D). Com efeito. sustentar uma postura não totalmente coincidente com a filosofia platónica. 1963: 233‑253. E assim avança com o lapso temporal de 115‑125 d. Martins de Jesus terá prolongado até cerca de 127 d. tem parecido bastante aceitável a grande parte dos estudiosos. Mesmo para um diálogo como este houve quem duvidasse da sua autenticidade. sem certezas absolutas. Hirzel1 assegurava que a obra não poderia ser atribuída a Plutarco. A este respeito.

introDução dinastia dos Flávios quando este teria acabado de casar – com cerca de trinta anos.C. Pode ainda incluir‑se no grupo de vários discursos sobre o amor.3 que Plutarco não teria terminado de escrever a obra. Nikolaidis 2007. F. Para a De Plutarchi Amatorio (Berlin. cerca de trinta e cinco anos antes de assumir a responsabilidade pela edição teubneriana do Erotikos. 3. não parece qualquer destes argumentos4 ter convencido os principais estudiosos. que insistem. Também K. Sandbach (ed. considerou. mas também o Banquete de Xenofonte. Vide R. Hubert que. Römische Studien 1922: 406‑411) negou a atribuição a Plutarco. G. 3 4 9 . Em termos genológicos. fosse por qualquer outra razão. que integra o Fedro platónico (230e‑234c). E o próprio Plutarco terá escrito um tratado com o título Sobre o Amor. Cichorius (“Historisches zum plutarchischen Amatorius”. 5 Frgs. H. Plutarch’s Moralia XV [Fragments] (Cambridge. entre outros. Plutarco estar já morto. Massachusetts 1987). o Discurso sobre o Amor do corpus de Demóstenes (61). 134‑138 Sandbach. de que conservamos diversos fragmentos5. Para a citação dos fragmentos de Plutarco seguimos a edição da Loeb Classical Library. Menos radical foi C. o Banquete e o Fedro de Platão. o Diálogo surge numa linha antiga de diálogos filosóficos dedicados ao tema do amor.C. eixo que contempla obras como o Lísis. repetidamente. de F. algo que sabemos ter acontecido apenas em 96 d. e na convicção – improvável – de. Ora. em considerar o Diálogo sobre o Amor um dos expoentes máximos da prosa de Plutarco. na sua tese de doutoramento. portanto –. nesses anos. Flacelière 1980: 8 e n. Sobre este tratado em específico vd. como o de Lísias. Frazier 2003 e A. 1903). fosse por ter morrido.). baseando‑se no que julgava permitir‑lhe situar o diálogo em 116‑117 d.

Barata Dias 2007. J. 43). poética e filosófica. 87). é sobretudo nos Preceitos Matrimoniais e na Consolação à Esposa – escrita por ocasião da morte de uma filha sua – que o tema é mais directamente abordado. Antístenes (6. Callé Cejudo 2007. e esse outro intitulado Da Coragem das Mulheres. 8 É interessante a interpretação de R. 27). à medida que um interveniente ou mesmo um acontecimento externo os Para levar em conta apenas Diógenes Laércio. Quanto à técnica narrativa. que dispõe o diálogo por níveis narrativos. em oposição ao amor pederástico. Crisipo (7. 6.Carlos A. gradualmente. Martins de Jesus contagem teria ainda que entrar uma série de tratados. H. apresenta‑se numa estrutura coerente e bem organizada8. Tratando destes assuntos um pouco por toda a sua obra7. Heraclides Pôntico (5. dos quais temos no entanto conhecimento6. perdidos. 108). na qualidade de autores de tratados subordinados ao tema do amor. Em língua portuguesa. O tema – que a um leitor menos precavido pode não parecer óbvio. que incluímos neste volume. destacamos os estudos de M. Ureña Prieto 1995 e P. Mas podemos ainda referir o breve livro dos Relatos de Amor. sobretudo se optarmos por traduzir directamente o título por Erótico – versa sobretudo sobre o amor conjugal (heterossexual. portanto). 18). no fundo um conjunto de lendas locais que pretendem demonstrar a concretização prática da posição do filósofo e do moralista perante o amor. 6 10 . 7 É vastíssima a bibliografia respeitante ao tema em Plutarco. 130) ou Epicuro (10. este último no seguimento de uma longa tradição literária. T. Teofrasto (5. menciona ele nomes como os de Euclides de Mégara (2. C. já que os assuntos vão sendo discutidos.

9 10 11 . apenas no início presenciamos um verdadeiro diálogo. vide A. A este respeito. Banquete. stricto sensu10. Para uma análise esquemática da estrutura dramática deste diálogo. o próprio narrador confessa. filho de Plutarco. naturalmente. Pasqual 1997. que “a causa que deu origem a estes discursos. logo de início.introDução convoca. Barigazzi 1988a e G. De resto. que tem inclusivamente coreutas (753C) – os intervenientes no diálogo –. cujo tempo se situa num passado algo distante. Fédon e Teeteto. apesar de nele ser forte a carga de dramatismo. em rigor. Daí em diante (749B sqq. Além disso. Valverde Sánchez et alii 2003: 16‑21. a introduzir o livro. entre outros. narrativo e misto. assim recuperando uma forma narrativa já cara a Platão9. Até porque. A esta mesma técnica. vide ainda M. O caso do Diálogo sobre o Amor incluir‑se‑ia. é o narrador de todo o diálogo. que poderíamos denominar de metadialógica (porquanto um diálogo é narrado no contexto de um outro). Interessante é a divisão de Diógenes Laércio entre diálogo dramático (ou mimético). desde cedo divididos em dois semicoros – os que apoiam e os que É o caso de Protágoras.). Autobulo. quando Plutarco tinha acabado de casar (749B). já que não lhe falta nenhum outro elemento dramático (drama)” (749A). reclama apenas um coro (choros) para interagir e uma cena (skene). é recuperado por esse narrador omnisciente um outro diálogo. poder‑se‑ia entender que a apresentação do argumento e das personagens em causa – o casamento de Bácon e Ismenodora – seria semelhante ao prólogo desta peça. na terceira categoria. recorre Plutarco em Sobre os Oráculos da Pítia e Sobre o Génio de Sócrates. pelo seu carácter patético (pathos).

Antémion e Písias. em desposar Bácon. que poderíamos considerar o primeiro nível diegético. mesmo depois da morte deste11. Martins de Jesus condenam essa união –. Não faltam os agones. as discussões retoricamente marcadas de opiniões concretas. casos práticos como os de Cama ou Empona que pretendem demonstrar como é o verdadeiro amor que está em causa numa união conjugal. no fundo. no caso específico –. Moralia 712C). o próprio Plutarco. assente numa fidelidade inquebrantável que prefere a morte à traição do ser amado. que vêm trazer para a “cena” as novidades do exterior que a condicionam. na altura em que um acontecimento espantoso dominava as conversas na cidade – a vontade de Ismenodora. ainda um rapaz. Depois de um primeiro capítulo efectivamente dialogado. o capítulo 2 começa por explicar qual o pretexto da discussão sobre o amor que iremos escutar. onde cada um responde ao argumento do outro começando por o desconstruir. e mesmo a intervenção de mensageiros – três.Carlos A. Papel importante no estilo narrativo do Diálogo sobre o Amor desempenham ainda os exempla que vão sendo recolhidos. Plutarco e a esposa tinham chegado ao Hélicon para fazer sacrifícios a Eros. 11 12 . mulher madura e já viúva. representantes de duas opiniões distintas sobre o mesmo assunto e. guiados todos eles por uma espécie de corifeu. os defensores de cada um dos partidos em Relembre‑se que reside na apresentação de exemplos de amor conjugal e não pederástico uma das razões pelas quais Plutarco prefere Menandro aos autores da comédia antiga (cf. Junto de Plutarco chegam dois habitantes locais.

Plutarco de novo intervém 13 . Plutarco. os dois interlocutores mais influentes em toda a conversa que se vai travar. alertados por Antémion de como estavam a perder‑se em questões gerais (752E). Indignado. alerta para os castigos que esse deus aporta a quantos o não respeitam (766C‑D). e só no capítulo 7. Písias parte. na qual Zeuxipo se teria insurgido uma vez mais contra o amor heterossexual.introDução discussão – o amor pederástico e o amor conjugal. e o segundo em Protógenes. Entre os capítulos 3 e 6 analisam‑se e confrontam‑se esses dois tipos de amor. Afastados da discussão os dois intervenientes que a motivaram. Enumeradas por Plutarco as virtudes da mulher – que entende serem as de Ismenodora –. Depois de uma extensa lacuna nos manuscritos. expõe os seus benefícios para com os apaixonados (762A‑763B). Vai o primeiro encontrar apoio em Dafneu. exemplifica com a mitologia egípcia e a teoria platónica sobre o amor (764A‑766B) e. no qual realça a sua divindade (756A‑759D). pronuncia um longo discurso sobre os benefícios de Eros. se retoma o caso concreto de Ismenodora e Bácon. em resposta a Pêmptides. legisladores e filósofos (763B‑F). chamar Antémion. Pouco depois. chega a cavalo um mensageiro (qual arauto de um drama) que vem comunicar o rapto de Bácon por essa mulher. finalmente. chega um outro mensageiro que vem. a pedido da noiva. compara o seu poder ao de Afrodite – que em tudo lhe deve assistir numa relação amorosa (760D‑762A) –. exalta o Eros dos poetas.

trata‑se de reclamar para esse outro. facilmente se percebe como são três os grandes temas que lhe dão forma. concorre igualmente para a virtude. o encómio de Eros e. vide J. Não negando Eros. constitui o mais autêntico exemplo de união. não só as dos filósofos. a comparação entre amor pederástico e amor heterossexual. o antigo e fervoroso oponente. na sua parceria com o deus seu filho. mas também Sobre a importância de Eros e Afrodite. a saber. e que até Písias. um estatuto no mínimo semelhante ao do primeiro. na medida em que Plutarco parece apostado em oferecer ao leitor uma síntese de todas as concepções anteriores a si sobre o tema amoroso. 12 14 . Carruesco García 2007 e F. moral e filosófica) do Eros pederástico. se rendeu às evidências do amor do casal. em conclusão. Mais do que negar por completo a legitimidade (social. chega junto do grupo um terceiro mensageiro com a nova de que o casamento de Ismenodora e Bácon está prestes a realizar‑se. na qual Eros e Afrodite convivam harmoniosamente. defende‑se que Afrodite. Martins de Jesus em defesa do amor conjugal. diríamos. servindo‑se da graça (charis) patenteada pelas mulheres12. a apologia do amor conjugal. tutelar do desejo sexual. Igualmente compósitas.Carlos A. profundamente enraizada na cultura precedente e coeva. desta feita a um nível mais filosófico. Após esta breve súmula do conteúdo do diálogo. Frazier 2008. para concluir que a relação entre homem e mulher. o Eros conjugal. Próximos que estão de Téspias. são as influências que se podem detectar no livro.

Crawford (1999: 290). não é linear ou acrítica13. Boulogne 1999. B. 14 A semelhante conclusão chega F. Brenk 1988. vide H. E. é talvez oportuno relembrar duas teorias claramente platónicas que são recuperadas: a que diz respeito às diferentes categorias de ‘loucuras’ (maniai) ou ‘possessões’ enthousiasmoi (758D‑759D). Não sendo conveniente. J. 15 . concedendo à mulher um papel incontornável e. além das marcas perceptíveis de passos do Fédon. da República ou das Leis. inspirada no Banquete (210a‑212a) e. F. M. nas notas que acompanham a tradução –. A primeira delas. demorarmo‑nos no desenvolvimento destas influências – porquanto elas são indicadas. Rist 2002. A. Martin 1984. mais global e desenvolvida. relativa ao amor (764E‑766B). Mas a recepção de Platão por Plutarco. no caso específico do tema do amor. B. uma vez mais. Frazier 1999. Noutros momentos. é o platonismo. o polígrafo denota a evolução do pensamento coevo e despe a teoria platónica do seu misoginismo natural. nestes como noutros aspectos. ou essa outra. até porque são o Banquete e o Fedro os modelos mais directos do tratado de Plutarco. Billaut 1999. a cada passo. incontornavelmente. neste ponto. Damos um exemplo: recuperando de Platão a noção de que Eros é um guia da alma rumo ao supremo Belo. como bem concluiu M. M. que vai colher ao Fedro (244a‑245a). É 13 Dos muitos títulos que se debruçam sobre o platonismo em Plutarco.introDução as dos poetas e as dos legisladores. resgatando o casamento de uma concepção linearmente anti‑erótica14. Crawford 1999 e J. fundem‑se a propósito de um mesmo assunto diversas doutrinas filosóficas. no Fedro (249d‑256e).

em capítulo à parte. Mais problemática e discutida é a influência da doutrina estóica no Diálogo sobre o Amor16. para o que se serve das explicações de platonistas. no contexto do casamento. E a este respeito. homem e mulher. A defesa do papel do amor. uma instituição social com vista à procriação. Em primeiro lugar. tutelada por Afrodite em comunhão (koinonia) com Eros (756E. podem ou não suscitar um verdadeiro amor (766E‑767B). Pela nossa parte. 3. por imperativo de conservação da apatheia que tão bem os caracteriza. A. frg. de saber se ambos. 769F‑770A). Barigazzi 1988b.Carlos A. 63 von Arnim. não consentem Eros. numa clara – e de resto comum – atitude de discordância com o último grupo15. por P. Martins de Jesus o caso da discussão acerca das diferenças de sexo. O assunto é discutido. Afrodite e as paixões que esses deuses tutelares aportam ao casamento. estóicos e epicuristas. na virtude. antes de mais. uma função sagrada. os estóicos entendem o casamento como uma união de philia que é. algo que parece coincidente com a opinião de Plutarco. 17 Essa a teoria de Antípatro. 15 16 16 . na nobreza de Cf. como se percebe. Plutarco não assina por baixo. ou seja. No entanto. Gilabert Barberà 1991: 43‑59. Mais coincidente – porque textualmente veiculada – é a aceitação da doutrina estóica que entende o casamento como “fusão integral”17. numa relação que deve assentar na fidelidade. expressão que usa no diálogo em análise (769F). considerando que os prazeres sexuais desempenham. 767D‑E. destacamos aqui apenas dois aspectos que nos parecem de inegável inspiração nos sábios da Stoa.

o tema do casamento tornou‑se da eleição dos autores. N. Fruto talvez da evolução que sofrera a condição feminina. ao longo do século XVI. diga‑se de novo. 18 17 . Para darmos apenas um exemplo. o Diálogo sobre o Amor faz‑se eco de um tempo em que o casamento por amor.introDução carácter e na comunhão de vida – onde há. no qual se apresentam e desenvolvem doze argumentos contra o matrimónio. Dito de outro modo. um lugar bem definido para o prazer sexual – terá sido decisiva para a recepção do tratado durante o Humanismo18. Com efeito. vide N. é esse o caso do Espelho de Casados de João de Barros (1540). ele que. no ano de 1509. Assim. não sendo ainda regra. proliferaram nos prelos os textos subordinados à temática matrimonial. também já não é uma excepção ocasional. versando sobre a problemática do an sit nubendum? Provavelmente por influência de traduções latinas de Plutarco ou de tratados de autores de Quinhentos. pela mão de Demétrio Ducas – na qual também terá colaborado Erasmo – foi um marco incontornável para a leitura e reescrita de Plutarco durante o Renascimento. que por toda a Europa se debruçavam sobre o assunto. Castro Soares 2003. sobretudo no período helenístico e romano. a par de Séneca e Cícero. para logo se aduzirem outros tantos a favor dessa união. há Para a recepção de Plutarco no Humanismo português. a editio princeps dos Moralia em Veneza. era tido na conta das mais válidas autoridades da Antiguidade. frequentemente apostados em discutir as vantagens e as desvantagens do casamento.

quebrando a ligação de exclusividade que Eros manteve. ainda que de forma aproximada. com a pederastia. é constituído por um conjunto de cinco pequenas narrativas lendárias. nesse contexto. relatos de amor O livro das Amatoriae Narrationes. enquanto exercício de aprendizagem e amadurecimento. um homem e uma mulher. dele publicou uma primeira versão latina. ocupando o N. Supostas incongruências de conteúdo. profundamente violentas. durante séculos. versão latina para o título Erotikai Diegeseis. um estilo por vezes obscuro e pouco elucidativo em alguns detalhes – que ficam por explicar –. Pouco divulgado entre nós. repetições e outras divergências linguísticas e de estilo em relação à restante obra tida como autêntica punham em causa a sua atribuição ao polígrafo. Giangrande (1991: 273‑294) parece ter rebatido de forma convincente. Não dispomos de dado textuais que nos permitam datar o livro. este livro mereceu já a atenção de Angelo Poliziano que.Carlos A. um papel cada vez mais importante e decisivo.º 222 do Catálogo de Lâmprias. Não sendo ainda possível falar de igualdade de sexos no casamento que Plutarco preconiza. Durante muito tempo se duvidou da validade da sua atribuição a Plutarco. em 1498. a mulher desempenha. No 18 . Martins de Jesus que refazer toda a lógica do amor platónico à imagem de novos protagonistas. cinco lendas locais unidas por um tema em concreto: a paixão amorosa e as suas consequências. argumentos que G.

A obra inscreve‑se num género narrativo amplamente cultivado pela literatura helenística e imperial. serão fruto da primeira ou da segunda década do século II da nossa era. sob o título Peri Potamon. dir‑se‑ia que estes Relatos de Amor. elas têm inevitavelmente um desenlace trágico. as Histórias de Cónon ou. regra geral. Merece ainda referência uma obra que o códice grego Palatinus 398 de Heidelberg (fol. Sobre este texto. Calderón Dorda 1997. mas que sabemos não o ser. de que conservamos outros exemplos: as Paixões de Amor de Parténio de Niceia. na linha do que se disse a respeito da datação do Diálogo de Amor. deve ter um happy‑end e. assente no aproveitamento de lendas locais unidas pelo tema amoroso. 157v‑173r) transmitiu como sendo da autoria de Plutarco. a Coragem das Mulheres19. pela beleza e valor interior das personagens e pela intervenção da tyche). São evidentes alguns paralelos entre este género e a novelística grega (em especial pelo tema amoroso. se considerarmos que a proximidade temática e estrutural pode de alguma maneira contribuir para a datação de um texto – único caminho que nos resta.introDução entanto. 19 19 . do próprio Plutarco. no que toca às lendas recolhidas por Plutarco. onde só muito raramente surgem laivos de esperança. das quais talvez a principal seja a seguinte: a novela. porque destinada a um grande público apegado ao sentimentalismo amoroso. que obedecem. as Metamorfoses de Antonino Liberal. à estrutura que vimos analisando. Trata‑se de uma compilação de 25 capítulos de histórias variadas. que reconhecemos ser bastante falível –. mas também uma série de diferenças salta à vista. vide E.

1‑2. incendiados por um a paixão que os empurra para um enamoramento instantâneo e os leva a cometer actos injustos e impiedosos. 772E.Carlos A. no âmbito amoroso. Cáriton 1. Parténio 13. Vide 771F. divertir o leitor.1‑2. 772E. sendo que. que pode ser imediato mas.2. não 20 É comum a este tipo de relatos que os protagonistas sejam um misto de beleza (kallos) e virtude moral (sophrosyne). Martins de Jesus E é esse final disfórico que permite. a intervenção do maravilhoso e a dúvida entre várias versões possíveis – pois que o narrador conta apenas o que ouviu contar – tornam a narração mais atraente e dão‑lhe uma maior autoridade moralizante.1. um melhor funcionamento dos propósitos de moralização. Parténio 6.1. É que se a novela procura. é desejado por um número mais ou menos largo de pretendentes21. Cáriton 1. até pelo público a que se dirige.5‑6. Para exemplos da novelística grega. 3. 21 Remontando talvez ao exemplo mítico de Penélope. humanos e não mitológicos. defendidas até à morte. de beleza e carácter assinaláveis20. em última análise. Porque o tempo histórico da acção narrada não é especificado. a segunda se resume à castidade e fidelidade extremas. 30. E todo o crime vai reclamar castigo.2. A unir as cinco narrativas está um conjunto de tópicos facilmente identificáveis. das consequências da acção que é também humana. Bem assim. também este é um motivo frequente das narrativas eróticas. Xenofonte de Éfeso 1. Determinado homem ou mulher. na sua espera por Ulisses. este tipo de relatos pretende ensinar determinada conduta moral pela apresentação de exemplos muito concretos. salvo os casos em que determinada referência permite deduzi‑lo. Vide 771E.1. cada lenda adquire o valor universal de máxima alegórica.1. 20 .

Partem mas regressam. o pai das jovens decide‑se a partir para Esparta em busca de vingança e. advertido de que algo semelhante havia acontecido com o filho de outro homem que encontra no caminho. 22 21 . invoca as Erínias para vingar a morte das filhas – divindades que puniam um qualquer crime de sangue – e suicida‑se. como na história anterior. aguarda algum tempo até se fazer chegar. centrar‑nos‑emos apenas em duas delas. na sua segunda visita. é um homem de grande valor moral. Não resistindo ao desejo e à paixão. quando o narrador nos conta que a batalha que pôs fim à hegemonia espartana Esse o assunto desenvolvido por Plutarco no Da Demora da Vingança Divina (Moralia 548A‑568A). lançando‑as a um poço para que os seus corpos não fossem encontrados. no seu caso um paradigma da hospitalidade.introDução raro. violam‑nas e em seguida matam‑nas. Regressando a casa e tomando conhecimento do trágico acontecimento. Esquédaso fora de casa e as raparigas completamente vulneráveis. a um nível colectivo. o herói que abre a terceira lenda (773B‑774D). Esquédaso. desde logo pelo estilo claro em que estão escritas –. quando já ninguém o esperava22. Ela confunde‑se com a história política da Grécia. encontrando. É esta qualidade que o leva a abrir as portas de casa a dois espartanos que se apaixonam violentamente pelas duas filhas do seu hospedeiro. A expiação da culpa desses dois indivíduos é feita. é possuído pela loucura. Hipo e Milésia (ou Teano e Euxipa. Não sendo este o momento para proceder a um resumo das histórias. segundo outra versão).

Carlos A. que os críticos identificam com o cataclismo natural de 464 a. mas também para os criminosos e toda a sua cidade. estava prestes a enfrentar os Espartanos.C. numa lógica arcaica de justiça. pelo que elas são proibidas de ser cortejadas. esposa de Alcipo. no decurso de um festival onde apenas entram mulheres. a deitar fogo ao recinto e a se sacrificar a si própria e às filhas com um cutelo. Está em causa a honra conjugal e familiar de mãe e filhas. que lhe vaticinou a derrota desta cidade. Como vingança pela desonra provocada a uma mulher casta. é deixada sozinha quando o marido parte para o exílio. A última das histórias incluídas nas Amatoriae Narrationes (775C‑775E). Damócrita. A terminar. o que leva a primeira. como vingança pela morte das suas filhas. Desprotegida.C. ter‑lhe‑á aparecido em sonhos o fantasma de Esquédaso. é acusada de criar as suas filhas para vingar a honra traída do pai. A morte chegou. dramaticamente situada em Esparta. os deuses terão enviado à cidade um terrível terramoto. trata um tema muito caro a Plutarco: o amor conjugal. não como consequência de um amor exagerado 22 . E a narração termina com a introdução do maravilhoso na lenda: quando Pelópidas. expiou uma culpa individual. impetuosos e desenfreados em termos amorosos e sexuais. que. íntegras e piedosas. desta vez.) teve lugar perto do túmulo das donzelas assassinadas. Martins de Jesus (371 a. os dois espartanos. Hipo e Milésia eram belas. O choque entre estas personalidades redundou em desgraça para as primeiras e para o seu pai. uma coincidência histórica. chefe tebano.

introDução

e ardente, antes como resultado da philia conjugal violada de Damócrita. É sabido que Platão privilegiava o prazer anímico em detrimento do prazer corporal (e.g. Rep. 9. 583b–587a), e o Queronense vai servir‑se desta distinção em toda a sua obra. Assim se explica a contestação das teses de Epicuro, assentes precisamente na valorização do prazer físico, assunto a que dedicou um tratado inteiro (Non posse suaviter vivi secundum Epicurum: 1086C‑1107D). É portanto clara a defesa do meio‑termo no cultivo do prazer e do amor, depois fundida com a ética aristotélica. Em Moralia 443C e 444C Plutarco define a virtude ética como o meio‑termo (mesotes) entre paixões opostas, entre o excesso e o defeito, entre o prazer e a dor,23 num patamar que oscila entre o platonismo e o aristotelismo, podendo definir‑se através da máxima grega da metriopatheia.24 Os fragmentos de um tratado de Plutarco transmitidos por Estobeu, que teria o título sugestivo de Contra o Prazer, mostram um autor que se insurge apenas contra o prazer que leva ao esquecimento dos deveres humanos (fr. 120 Sandbach), à confusão dos valores e, em última análise, à doença da alma e do corpo, à mania que toma o indivíduo e o leva a cometer actos injustos ou impiedosos. Prova de que o prazer não é um mal em si é o fr. 117 Sandbach (cit. por Estobeu 3. 6. 49):
Veja‑se também Moralia 136A, 620 C‑E e 1009 A‑B. Seguimos de perto, para estas reflexões sobre o amor e o prazer em Plutarco, os artigos de J. F. Martos Montiel 1999 e de A. Billault 1999.
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Carlos A. Martins de Jesus

Uma fera que leva à escravidão é o prazer, mas não selvagem. Antes fosse! Se contra nós investisse abertamente, logo seria detectado. Mas o facto é que é a coisa mais detestável pois esconde a sua maldade tomando a cara de boa vontade. É por isso duas vezes abominável, seja por que causa desgraça, seja pela sua falsidade.

Como o próprio Eros, deus menino e irreverente, em idade para ser amestrado, também o prazer é passível de ser dominado e educado, com isso garantindo alguma felicidade ao homem. E foi precisamente isso o que não fizeram os vilões das cinco histórias que aqui nos ocupam. Pelo contrário, cederam ao lado mais negro do prazer e, como alguém que bebe vinho mas não lhe mistura água, as consequências foram desastrosas, verdadeiramente trágicas. Contra os perigos de uma paixão amorosa exacerbada, de resto, já Plutarco advertira os intervenientes no Diálogo sobre o Amor (767C‑768F). Uma leitura atenta destes cinco Relatos evidencia, ao leitor mais instruído, paralelos flagrantes com a estrutura conceptual da própria tragédia. Os protagonistas destacam‑se, de alguma forma, pelo seu carácter (ethos), partilhando características comuns como sejam a beleza (também ela, como vimos, motivo de desgraça), a nobreza, a prudência ou a justiça. E o narrador faz questão de referir as suas qualidades ao início, ficando no ar a sensação, depois confirmada, de que tal constitui, por si só, um motivo de desgraça. Com estas colidem outras figuras de índole bastante distinta, caracterizadas, no global, pela desmesura na
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introDução

vivência do amor e na perseguição dos prazeres. Deste confronto de personalidades surge uma acção (praxis) negativamente condicionada e que vai redundar, no final, em tragédia, em morte, assim se iniciando uma corrente de culpa/castigo. Muito importante é ainda a intervenção da tyche como entidade superior que move os destinos das figuras intervenientes na trama, aspecto também característico deste tipo de narrativas lendárias de origem popular. Outros pormenores como a invocação do castigo das divindades e a expiação da culpa em gerações posteriores acrescentam argumentos a esse paralelo com a moral trágica. Na prossecução da intenção moralizante a cuja luz as Amatoriae Narrationes têm que ser lidas, o ethos, definido à partida e pela própria acção, revela‑se bastante mais profícuo. De outro modo, Aristocleia, Actéon, Esquédaso e as suas duas filhas, Calírroe ou Damócrita são apresentados como paradigmas do carácter e da acção humana. Os seus pretendentes, desenfreados e inconsequentes na busca do prazer, são então o anti‑paradigma, o modelo a não seguir. A história contada deve provocar não apenas a identificação com o sucedido, mas também, e não menos importante, a repulsa face ao triunfo do mal. É que a morte das figuras de maior valor, os verdadeiros heróis destas micro‑tragédias, pode também ser vista como libertação, como forma de purificação de um corpo e de uma alma manchados pelo contacto com esse miasma que são aqueles que de forma vergonhosa os pretendem.
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Isto porque não é medido o uso que dele é feito. a consequência trágica por excelência de valores em confronto com anti‑valores. Cabe perguntar: nestas circunstâncias e perante protagonistas de carácter tão elevado. reuniu em Léon um conjunto de estudiosos que debateram sobre o tema globalizante do amor em Plutarco. nas Amatoriae Narrationes. busca desenfreada do prazer e. não constituirá a morte – inocente ou voluntária – a melhor prova do triunfo do Eros autêntico? Sobre a noSSa tradução No âmbito do Projecto “Plutarco e os Fundamentos da Identidade Europeia”. purificação ou vingança. eles surgem lado a lado. desse amor que nasce tantas vezes da mera contemplação da beleza. Martins de Jesus Amor. como conferencista. No entanto. foram igualmente editados em conjunto – o Amatorius e as Amatoriae Narrationes. as histórias do segundo livro facilmente se afiguram ao leitor como ilustrações do pensamento de Plutarco sobre o amor autêntico. Não fosse por outra razão. no Catálogo de Lâmprias. em diversos países. no Outono de 2006. e motivados pela nossa participação. causa primeira da morte que no fim tudo devora. mas de qualquer modo morte. reunimos neste volume a tradução de dois tratados que. no fim. antes a convoca. como fomos adiantando na Introdução. Dir‑se‑ia que Eros. no IX Simposio Internacional de la Sociedad Española de Plutarquistas que. não vence a morte. só consentido no âmbito conjugal.Carlos A. a morte. 26 . esta associação faria sentido desde logo porque.

que teve a amabilidade de fazer uma primeira leitura crítica do nosso trabalho. determinada opção textual. em cujo aparato crítico colhemos. suplementos e suposições para a supressão das lacunas dos manuscritos. Assim. o texto apresentado entre parênteses rectos corresponde a esses momentos em que a lição não é clara.introDução Foi utilizada para a tradução a edição teubneriana de C. Uma palavra sentida de agradecimento se deve ao Doutor Delfim F. Hubert 1971. contribuindo com sugestões muito pertinentes. da parte do tradutor. a cada passo incorporadas no resultado final. implicando. coordenador deste projecto. 27 . Leão. quando indispensável.

os fragmentos vêm assinalados com frg. H. Epicurea (Leipzig. Stoicorum Veterum Fragmenta. Fragmentos dos comediógrafos K‑A: Kassel. Iambi et Elegi Graeci ante Alexandrum cantata. Tragicorum Graecorum Fragmenta (Leipzig. vol. e Austin. (Oxford. L. 21989‑1992). Callimachus. 1887).. Calímaco Pfeiffer: Pfeiffer. Kock: Kock. 3 vols. repr. Fragmentos dos trágicos Nauck2: Nauck. 1870. Comicorum Atticorum Fragmenta. Th. Epicuro Usener: Usener. 1902‑1905). Fragmenta. A. Estóicos von Arnim: von Arnim. H. (Leipzig... 1983).ediçõeS SeguidaS para a citação de fragmentoS Ao longo deste trabalho.. I (Oxford. R. (Leipzig. 3 vols. 2 vols. C.. e a seguinte sigla ou apelido.. 29 . 1976).. M. 1965). Elegíacos e Iambógrafos West: West. 21964). Poetae Comici Graeci (Berlin. R.

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Diálogo sobre o Amor

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Diálogo sobre o Amor

Intervenientes: Flaviano e Autobulo, filho de Plutarco, entre outros presentes.

Flaviano 1. No Hélicon1, Autobulo2, dizes tu que tiveram lugar essas conversas sobre o Amor, as quais, por as teres escrito ou as teres gravado na memória3, à força de muitas vezes interrogares o teu pai, nos queres agora 748f contar para nos entreter? Autobulo Foi no Hélicon, sim, na morada das Musas, Flaviano, na altura em que as gentes de Téspias4
1 Já Hesíodo, na abertura da Teogonia, considerava o Hélicon a morada das Musas. O Hélicon é um monte na Beócia, em cujo sopé se situaria o vale das Musas. O culto oficial a estas divindades remonta à época arcaica, apesar de o santuário oficial, o Mouseion, apenas ter adquirido maior importância a partir do séc. IV a.C. 2 Filho de Plutarco e narrador do diálogo. 3 A distinção escrita / memória está já presente, em moldes muito próximos, na abertura do Fedro de Platão (228a‑e). 4 Cidade da Beócia, a oeste de Tebas (Cf. Estrabão 9. 2. 25).

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com mais entusiasmo do que sucesso. a cada quatro anos. a um passo do Fedro de Platão (229a‑b.C. que corria fora dos muros de Atenas. no qual se descreve ao pormenor o local onde chegam Fedro e Sócrates. depois levada para Roma e perdida num incêndio em 80 d. esta tendência para a descrição detalhada do cenário onde decorreria o diálogo. verdadeiro locus amoenus. Segundo relatam os mesmos Pausânias (9. Já Cícero (Contra Verres 2. no santuário do deus haveria uma estátua em mármore da autoria de Praxíteles. o seu famoso agnocasto ou essa relva que cresce sobre uma encosta. 5 44 . desta vez. 591a‑b). 31. no teu discurso. tanto em honra das Musas como de Eros. Note‑se que ao agnocasto se atribuíam. todos nós que aqui viemos para te ouvir? 749a Autobulo Não. desde a Antiguidade. nas margens do rio Ilisso. celebram essa festividade. 561e. 6 O pedido alude. 27. 629a. Flaviano Que suprimas. 3‑5) e Ateneu (13. 230b‑c). os emaranhados da hera e dos teixos. Ora. 14. bem como todos os lugares comuns pelos quais alguns escritores. mas sabê‑lo‑ei se mo disserem. à imagem do passo platónico. com o máximo zelo e esplendor5.Plutarco celebravam as Festas de Eros. 3 e Ateneu 13. os prados floridos e as sombras de que falam os poetas. com efeito. se esforçam por imitar o Ilisso de Platão. Sobre as festas que aí decorriam em honra das Musas e de Eros veja‑se Pausânias 9. propriedades anti‑afrodisíacas. 135) refere que a estátua estaria colocada no centro de Téspias. 4. formosamente inclinada6. em concreto. Flaviano Sabes acaso o que pretendemos pedir‑te. 203 e 206). Esta estátua surge ainda referida em dois epigramas da Antologia Palatina (16. tinha‑se tornado proverbial e era já um topos da literatura imperial.

pelo seu carácter patético. 45 b . que tinha ou seja. de um diálogo ocorrido no passado. deveria ser ela a fazer a prece e o sacrifício. meu caro Flaviano. confessando que apenas gravou na memória o que vai contar. para que nos seja propícia e me ajude a recuperar a história. Autobulo responde à dúvida inicial de Flaviano. mais do que um verdadeiro diálogo. já que não lhe falta nenhum outro elemento dramático7. aqui chegou para fazer sacrifícios a Eros. e trouxe a minha mãe para o festival. em antecipação. a uma voz. antes mesmo de eu ter nascido. sendo que era ele o preferido de todos os seus pretendentes. 7 Recurso à linguagem do campo semântico do teatro para descrever. trata‑se da representação. a Memória. Seguiram‑no de casa os seus amigos habituais. tem o meu discurso desses prelúdios? O motivo pelo qual surgiram estas conversas. a destinatária de um pequeno tratado de Plutarco de género epistolar. Com efeito. por ocasião de uma disputa e de uma quezília que surgira entre os pais de ambos. a natureza da obra que se seguirá. Foi há muito tempo que o meu pai. o filho de Aristíon. e em Téspias foi encontrar Dafneu. talvez não seja inocente. 8 Mnemosyne. quando tinha acabado de casar com a minha mãe9. Indirectamente. Basta que façamos preces à mãe das Musas8. Com efeito. e Soclaro. o que. 9 De seu nome Timóxena.Diálogo sobre o Amor Autobulo Que necessidade. funcionava como um promotor da castidade. 2. Moralia 608C e 611D). filha de Símon. reclama apenas um coro para interagir e uma cena. a Consolação à Esposa (cf. o filho de Arquidamo que estava apaixonado por Lisandra. num diálogo sobre o amor.

Este passo pretende realçar o carácter litigioso das gentes de Téspias. Também lá estavam Protógenes de Tarso11 e Zeuxipo de Esparta. a maior parte deles. 6). História Vária 11. porquanto. Em seguida. vivia em Téspias Ismenodora. o narrador realça a grande riqueza material que possuía. na qualidade de hóspedes. Na manhã seguinte juntaram‑se‑lhes Antémion e Písias. além destes. estava por lá a maior parte das celebridades da Beócia. 10 11 46 . já marcado. como veremos. será esse um dos principais argumentos de quantos se opõem à união com Bácon. se bem que. mulher distinta pela sua riqueza13 e linhagem. na Grécia central. Os primeiros dois ou três dias na cidade. como de um território inimigo. Eliano. 12 Os citaredos eram cantores que acompanhavam o seu canto à cítara ou à lira. por subornos e intrigas. 13 Na primeira apresentação da heroína desta história de amor. tentando fugir a um embaraçoso concurso de citaredos12. e. Capital da Cilícia. homens de grande reputação que andavam preocupados com Bácon. à partida. ao que parece. Com efeito. a quem chamavam “o Bonitão”. O meu pai costumava dizer que. por Zeus. acima de tudo levasse uma vida regrada: era viúva há já não pouco tempo mas escapara às más‑línguas. na Ásia Menor. bateu em retirada para o Hélicon e assentou acampamento na morada das Musas. tê‑los‑ão passado a filosofar calmamente nas palestras e entretendo‑se uns com os outros em espectáculos teatrais. Cidade da Fócida. devido ao afecto que ambos nutriam pelo rapaz. surgiu entre eles uma certa animosidade.Plutarco c d chegado de Titórea10. que era de resto proverbial na Antiguidade (cf.

em si. com cerca de trinta anos. já que ele. entre outros testemunhos. suficientemente estranha14. deixou a decisão para Písias e Antémion. moço como era. igualmente situações tidas como contra‑natura. acompanhando a evolução paulatina da situação da mulher. 5) e Aristóteles (Política 1335a). Esta tendência terá evoluído com o tempo. Ora. entre os 15 e os 18 anos de idade. eram contra o casamento. posto que Bácon era filho de uma amiga íntima sua. Além disso. uma vez casada com ele. sendo que este era seu primo mais velho. ao passo que Písias era O comum seria que um homem mais velho. desposasse uma rapariga ainda adolescente. e que ela mesma se havia encarregado de lhe arranjar casamento com uma jovem da sua família. 14 e 47 . 772d‑e). precisamente como elemento potenciador de tragédia ou de cómico – portanto. à força de piadas. mas não nutria qualquer intenção desonesta que não fosse viver ao lado de Bácon. e a mãe do rapaz temia que a importância e o esplendor da casa [de Ismenodora] não fossem convenientes ao jovem amado. aduzindo argumentos válidos. A situação era. procuravam assustar Bácon e assim.Diálogo sobre o Amor embora fosse ainda jovem e de aspecto agradável. tantos encontros e tantas conversas fizeram com que nascesse nela um sentimento de paixão pelo rapaz. Apenas no teatro e na literatura erótica são frequentes os exemplos de mulheres mais velhas que se apaixonam por rapazes. De tanto ouvir e lhe dizer palavras meigas. de tanto ver a multidão dos seus nobres amantes. ignorando a opinião dos demais. Xenofonte (Económicos 7. tinha vergonha de se casar com uma viúva. A norma é confirmada adiante no diálogo (753a e 754D‑E) e. colocavam mais obstáculos do que quantos. alguns dos seus companheiros de caça. foi arrastada para o amor. com o argumento da idade. Ainda assim. por Platão (Leis 6.

cada um arranjou um defensor: Dafneu para Antémion. ao que Dafneu respondeu: “Por Héracles. porém. Platão. e anda esquecido dos estudos. 602f ). Como explica Nauck2. apesar de em tudo o resto ser exemplar. sem rodeios. despido nas palestras durante o máximo tempo possível15. episódio tradicionalmente tido como o mais antigo exemplo de pederastia na Grécia (cf. drama perdido no qual se contaria o rapto de Crisipo por Laio. Neste círculo de amigos. Protógenes para Písias. anterior à união com Jocasta. Foi pois para evitar que se irritassem um com o outro e se deixassem levar pela mínima cólera que vieram juntar‑se ao meu pai e aos que estavam em sua companhia. logo ele para quem todos os assuntos. 839‑844 Nauck2). de Ismenodora. neste caso em particular imitava os amantes baratos que privam o seu amado de um lar. os divertidos e os sérios. rei de Tebas. elegendo‑os para árbitros e juízes da questão. por sua vez. esquecido da pátria16. 3. Leis 8. Ateneu 13. 386b‑c. que há mais de inesperado. Ideia muito próxima do Fedro platónico (240a). Este. pode este fragmento trágico pertencer ao Crisipo de Eurípides (frgs. são sobre Eros e para Eros. portanto. Por essa razão era contra o casamento e acusava Antémion de querer entregar o rapaz a Ismenodora. na sua juventude.Plutarco f o mais impetuoso dos seus pretendentes. se até Protógenes se perfila para dizer mal de Eros. numa 15 16 750a 48 . como se a coisa tivesse sido combinada. do casamento e de uma grande fortuna. Este. Este pormenor do ciclo tebano é. com o único propósito de o preservar destas coisas e de o contemplar. dizia que ele não estava a agir bem pois. pôs‑se a falar mal.

não é sem sentido que os legisladores a exaltam e celebram diante dos cidadãos. b esvoaça cruzando o mar. 181 West (linha 11). Instaurou‑se uma gargalhada e Protógenes disse: “Julgas que estou a combater Eros.” Com efeito. o teu. 18 Arquíloco. Mas o amor verdadeiro não tem qualquer altura em que Laio. pai de Crisipo. cidade da Élide a noroeste do Peloponeso. 49 c . com asas velozes18. às voltas. que pretendem impor aos actos mais vergonhosos e às paixões os nomes mais belos e sagrados?” “Por mais vergonhosos – replicou então Dafneu – referes‑te ao casamento e à união de um homem e uma mulher. para contemplar e perseguir por toda a parte os bonitões. que apenas durante cinco dias se manteve afastado da pátria17? É que se o Eros deste último era lento e pedestre. sobre a qual reinava Pélops. ao lado de Eros. contra a luxúria e a insolência. em vez de lutar. advertido já pelo oráculo de que morreria às mãos de um filho seu. da Cilícia até Atenas. Laio terá ido de Tebas a Pisa. era essa desde o início a verdadeira razão da viagem de Protógenes. recusava o afecto das mulheres e se refugiava nos braços de rapazes. frg. quando jamais existiu ou existe ligação mais sagrada do que essa?” “Sem dúvida – disse Protógenes – que sendo essa união indispensável à procriação humana.Diálogo sobre o Amor não como esse Laio. 17 Na sua paixão por Crisipo. 4.

apenas lhes é permitida a fruição do prazer e das dádivas passageiras do corpo. do mesmo modo que a natureza nos inspira um desejo moderado e suficiente por pão e outros alimentos. 751A. Crisipo 3. é considerado o precursor do epicurismo. 20 Aristipo de Cirene. 769C) é cara ao platonismo (cf. Quanto a esses apetites por mulheres. 74‑75. se torna imenso e difícil de suportar. Na verdade. Pertenceu ao círculo de Sócrates e fundou a chamada escola Cirenaica. por efeito da amizade19. Na verdade o amor. redunda em virtude. por ser tão intenso e poderoso. 768E. quando respondeu a alguém (que acusava Laís21 de não o amar) que tampouco julgava que o vinho 19 Esta ideia. ao passo que o excesso cria um desejo por essa alimentação a que dão o nome de glutonaria. nem tampouco os criadores de gado ou os cozinheiros experimentam sentimentos de amor pelos cordeiros ou por aves que se alimentam às escuras. 50 . não é com acerto que lhe chamam amor. vide Diógenes Laércio 2. Para a sua relação com Aristipo. 716‑722 von Arnim). 218a) e à moral estóica (Diógenes Laércio 7. quando. na melhor das hipóteses. 759D. Pelo teor hedonista do seu pensamento. como testemunhou Aristipo20. também na natureza reside a necessidade de homens e mulheres conseguirem prazer um do outro. Banquete 209b. e nem considero que seja amor o sentimento que vocês nutrem por mulheres e raparigas. 751D. 21 Famosa cortesã de Corinto.Plutarco d e espécie de relação com o gineceu. 752A. da mesma maneira que as moscas não amam o leite ou as abelhas o mel. repetida adiante em diversos passos (750E. quando se liga a uma alma dotada e jovem. 129‑130. Relativamente ao impulso que daí resulta. referida adiante (767F).

3‑4. 24 Único ginásio ateniense que aceitava a entrada de filhos ilegítimos ou de mãe estrangeira. É esse o caso do orador Estrátocles. de cada um deles. esse esposo da tragédia. se esta não lhe devolve um fruto adequado ao seu carácter. Frg. como em Cinosarges24. Tu mesmo escutaste. ainda assim. f Ora. de quem troçava o poeta cómico Filípides. permanece ao lado de uma mulher detestável e sem coração. 401 Nauck2 de uma tragédia desconhecida. nestes termos: Se ela te vira as costas. 22 23 51 . se a tal paixão há que dar o nome de amor. se pratica nos gineceus. por certo. não mais aceita permanecer a cuidar do brilho efémero de uma juventude em flor. Filípides era um poeta da comédia nova. não para proveito próprio mas por causa dos prazeres e da relação sexual. mas retirava prazer.Diálogo sobre o Amor e o peixe o amassem. quando perde a esperança de inspirar amizade. Ou ainda. o desejo não tem outro fim que não o prazer e a fruição. já que. que respondia assim à sua mulher: Odeias‑me? A mim pouco custa ser odiado. em forma de amizade e virtude. também referido por Plutarco em Temístocles 1. Em suma. 26 K‑A. Já o amor. Frg. Não está mais apaixonado do que este homem aqueloutro que. a custo amas a sua cabeleira23. se souber tirar proveito do teu desprezo22. seja ele ao menos efeminado e bastardo.

Pelo contrário. O que realmente está em causa em Sólon é privar os escravos de actos próprios de pessoas livres. sempre à procura de uma vida calma e corrompido por prazeres b indignos de um homem. 25 26 52 . ao passo que o prazer é vulgar e indigno de gente livre. quando ficam com fome. mas outras há. como frequentar os ginásios e serem amantes de jovens livres. bem como Ésquines 1. muitas vezes soltam gritos famintos e desesperados –. Mas esse outro. 6. flutuante e caseiro. que perde o seu tempo nos regaços e nas camas das mulheres. mas não lhes proibiu a relação sexual com mulheres27. Sentimento belo e nobre é a amizade. 316. proibiu que os escravos se relacionassem intimamente com rapazes novos e se ungissem antes do banho com azeite. nem “pleno de perfumes e brilhante”26. 444 Page. Frg. haveis de vê‑lo nas escolas dos filósofos ou mesmo nos ginásios e nas palestras. como de facto o prescreveu Sólon: com efeito.Plutarco como existe uma águia que dizem ser de raça pura e da 751a montanha. em especial dos aristocratas. Daí que o amor por rapazes escravos Respectivamente. Ilíada 21. que pelos pântanos apanham peixe e pássaros lentos – mas. não é “ardente em desejo”. de aspecto simples e nada afectado. do mesmo modo. como diz Anacreonte do amor por raparigas. à caça de jovens que despertem a sua atenção. apenas o que diz respeito a rapazes é legítimo. da raça das bastardas. sem amizade e sem entusiasmo. 27 Plutarco comenta esta lei em Sólon 1. 138‑139. no que toca ao amor. a que Homero chama “negra” e “caçadora”25. com uma voz clara e genuína. exortando à virtude aqueles que são dignos da sua atenção. rapidamente há que prescrevê‑lo. 252 e 24.

). Quanto a mim. saudoso. os rapazes ame. disse‑lhe Dafneu. 25 West. as suas coxas [desejando] e a doçura da sua boca28. Frg. mas é sobremaneira necessário que o tomemos como protótipo do homem apaixonado. A partir da profunda amizade que unia estes heróis na Ilíada. Mirmidões. Embora Protógenes tivesse intenção de dizer muito mais. 31). c E acrescenta ainda a Sólon estas palavras de Ésquilo: a reverência das tuas coxas não respeitaste. enquanto.” 5. 135 Nauck2. 142 sqq. Ésquilo considerou que a ambos ligava uma relação pederástica. na amável flor da juventude. cortando‑lhe a palavra: “Fizeste bem. já que incitam os apaixonados a prestar atenção às coxas e aos quadris. Trata‑se de dois trímetros iâmbicos de uma tragédia perdida de Ésquilo. como os sacerdotes do sacrifício ou os adivinhos. 28 29 53 . ao cadáver de Pátroclo. que se fartariam de rir destes poetas. e o mesmo vale para o amor por mulheres. considero que este é Sólon. Um amor assim mais não é do que união sexual. mas rejeitada por Xenofonte (Banquete 8. porém.Diálogo sobre o Amor tampouco seja coisa de gente livre ou com estatuto de cidadão. frg. o mais esquivo aos meus beijos apertados!29 Outros há. tu. por Zeus. opinião depois partilhada por outros autores como Platão (Banquete 179e‑180b) e Ésquines (1. em referir Sólon. no momento em que Aquiles se dirige.

402 Nauck2 de uma tragédia desconhecida. ou persuadindo a [rapariga?32 e Quanto a essa outra espécie de graça. conseguida pelos varões. 42). dirigindo‑se a uma rapariga que não está ainda em idade de casar. E a Héracles. e também Safo. 2 Lobel‑Page. 49. era o nome que entre os Antigos se dava à condescendência feminina para com o varão. 31 Frg. alguém fazia esta pergunta: Conseguiste as graças dela pela força. na poesia de Safo. quando elas não cedem voluntariamente. 30 54 .). É talvez oportuno recordar como. conforme à natureza. onde é no entanto aplicada a Néfele. Hesíodo diz que Hera gerou Hefestos “sem união”. o termo charis tem. por via da força e da rapina. Parece‑nos que o exemplo usado é forçado. se entregam para ser montadas à maneira dos quadrúpedes e engendrar filhos33. muito mais evidente há‑de ser que o amor entre mulheres e homens. diz que pequena rapariga me parecias. como diz Platão. quando estes se uniram no leito. Protógenes. uma acepção bastante diferente da que lhe atribui Plutarco neste ponto. a Nuvem que Zeus colocou entre Ixíon e Hera. Com efeito. por via da graça. e com fraqueza e feminilidade. 32 Frg. A expressão vem da Pítica II (v. ainda sem graça31. conduza à amizade. «Graça». Daí que Píndaro diga que Hefestos nasceu de Hera sem graças30. 250e.Plutarco d um argumento muito importante a favor das mulheres: pois se é verdade que a relação contra‑natura com varões não destrói nem prejudica o afecto amoroso. na Teogonia (927 sqq. 33 Fedro.

Com efeito. 36 Frg. trata de expulsar o Eros verdadeiro e mais antigo. como se. 26 West. e logo depois. meu amigo. depois do furacão e da tempestade das paixões por rapazes. como alguém que nasceu demasiado tarde e fora de tempo. esvoaçou para as palestras e já não foi possível travá‑lo. quando já estava amadurecido. Portanto. penetrou às escondidas nos ginásios. não parece esse amor por rapazes actuar com moderação. se queremos ser verdadeiros. que aos homens proporcionam alegrias36. baseada no casamento e na filosofia. 55 . as [de Diónisos e das Musas. falou assim: As obras da deusa nascida em Chipre agora me agradam. a um e o mesmo sentimento corresponde o amor por rapazes e por mulheres. de mansinho. Por isso.Diálogo sobre o Amor contra a natureza. antes. 35 Leis 8. ainda ontem. 839b. 7 e Moralia 155F. um filho bastardo e clandestino. acariciando‑os suavemente e insinuando‑se. 156C‑D. no entanto. Protógenes. pelo simples prazer da discussão. Mas se queres f distingui‑los. como diz Platão35. ou no dia anterior. tivesse assentado a sua vida numa certa calma. antes 752a 34 A nossa tradução visa manter o jogo semântico presente no original acharis [charis]. entre os jovens que se desnudavam e exercitavam. essa é muito desgraçada34. também citado por Plutarco em Sólon 31. estou em crer que Sólon escreveu aqueles versos enquanto era jovem e estava repleto de esperma. indecorosa e desprovida de qualquer encanto.

Plutarco seguiu a insultar e ultrajar esse outro Eros conjugal que concorre para a imortalidade da raça humana. por vontade dos deuses. é o garante da continuidade da raça humana. tratar dela e dar‑lhe assistência. Mas logo. 40 Afrodite tutela os prazeres sexuais (aphrodisisa) e Eros. Este gesto tinha‑se tornado um tique de filósofos e pretensos intelectuais (cf. uma e outra vez resgatando a nossa natureza da extinção por via dos nascimentos37. 39 Frg. 37 56 . Moralia 412E‑F). por medo da lei. elevar as sobrancelhas. isso é como uma Em termos muito próximos exprime Platão (Banquete 207d. o desejo e a paixão amorosa. algo com o qual Pseudo‑Luciano (Amores 53‑54) ironiza. 38 À letra. É por isso que necessita de uma razão honesta para se relacionar com os rapazes belos e no auge da juventude: e o seu pretexto é a amizade e a virtude. como pode haver Eros se não está presente Afrodite40. quando tudo está calmo. 208d) a noção de que Eros. eleva o olhar38 e. a ser verdade o que diz Protógenes. na calada da noite. doce é a fruta na ausência do guardião39. Cobre‑se de areia. Este amor recusa o prazer? É porque sente vergonha e temor. 403 Nauck2 de uma tragédia desconhecida. participando da sua honra e do seu poder na medida em que lho permita? Se há acaso um Eros sem Afrodite. seu companheiro. que numa relação com rapazes não há lugar aos prazeres sexuais. b Ora. Está em causa uma postura fingida que pretende vestir a pederastia de uma carga de seriedade. diz que observa a filosofia e a prudência. ele a quem calhou em sorte. exercendo a tutela do amor conjugal. em público. banha‑se em água fria.

ao não ser comedido e considerar os casamentos não mais do que uma união sem amor e que carece da amizade inspirada pelo deus. entre facas. disse: “Por Héracles. 57 . vemos que consegue manter‑se. pelo menos para as mulheres honestas. estar atracados à fêmea pelos seus membros viris e renunciam e expulsam o deus dos ginásios. baseada em sumo de figo e cevada. Perante estas palavras. sem dúvida que não é importante amar ou serem amadas. Písias estava visivelmente furioso e irritado com Dafneu. c De resto. uma simples fonte de excesso e repugnância. por Zeus. 404 Nauck2 de uma tragédia desconhecida.” 6. não mais por efeito de jugos e freios do que por vergonha e medo.” 41 d Frg. que libertinagem e insolência. a de alguns homens que reconhecem.Diálogo sobre o Amor bebedeira sem vinho. dos passeios filosóficos e da conversa pura e desvelada à luz do sol. como cães. a muito custo. um sentimento que. mezinhas e feitiços de mulheres licenciosas! É que. contou‑me o meu pai que ele próprio contestou Protógenes e lhe disse: “Essas palavras põem em pé de guerra o povo Argivo41.” Nesse momento. quando lhe falta a persuasão amorosa e a graça. como uma perturbação que não chega a dar fruto e não tem qualquer propósito. para o ocultarem em bordéis. em partidários de Dafneu nos converte Písias. Assim que este terminou.

– prosseguiu Písias – depois de proclamar que não creio que alguma vez devotasse o meu amor a uma mulher. sem darmos por isso. como acontece com o estanho em contacto com o cobre. mas é por estar próximo de alguém já há muito tempo inflamado e cheio de fogo42 que ele se abrasa. pelo que paro por aqui. Mas vejo – continuou – que acontece precisamente o que mais desejava Antémion: também eu vou contra os juízes43. 750A). é claro que. Por isso. 42 58 . há‑de fundir‑se com ele. teria casado há pouco tempo e. misturando‑se com tamanha abundância e tamanho luxo. não vá que. pois covinha desde início que tivéssemos discutido o nosso assunto!” 7.Plutarco e Ao que Písias respondeu: “Pouco me importa esse argumento. vejo que se passa com ele o mesmo que com o cobre: é que também este metal se derrete e corre em estado líquido. era um fervoroso defensor do amor conjugal.” Respondeu‑lhe então Antémion: “Ainda bem. a menos que rapidamente se escape para o nosso lado. a quem Písias e Antémion tinham pedido que fossem árbitros da sua contenda (vide supra. não tanto pelo efeito do fogo como pelo cobre incandescente e fundido que se lhe derrama em cima. que a riqueza dessa mulher em concreto deve ser evitada pelo jovem rapaz. Grande coisa. Já Dafneu. é um jovem unir‑se Suposta alusão ao próprio Plutarco que. ao tempo dramático deste diálogo. E não o incomoda a beleza de Lisandra. o façamos desaparecer. “Digo para já. 43 Refere‑se aos restantes interlocutores do diálogo. como tal. na verdade.

Quanto ao pedagogo. no qual a cor e o sabor do vinho devem prevalecer – como deve. 5. normalmente. 23) conta que. na relação. do que pela fortuna de uma 753a mulher. curta. ser o homem a exercer o poder – é recuperada adiante (769E‑F). é preferível estar preso por correntes de ouro.” 8. E mesmo que se deixem ficar. por desejar um rapaz de clâmide que f ainda precisa dos cuidados de um pedagogo45. 44 59 . no que muitas vezes se apoiam para dar à asa e voar. no geral. vinho puro. Por essa razão têm juízo os homens que renunciam por si mesmos e cortam. não teria rejeitado outros pretendentes ilustres. pretendem mostrar cabalmente como. a este respeito. Ambos os elementos. De outro modo. 46 Heródoto (2. 1. era normalmente um escravo com a função de acompanhar os rapazes à escola e de cuidar. A imagem do vinho misturado com água para representar o casamento. vestir clâmide e andar na companhia de um pedagogo.Diálogo sobre o Amor a uma mulher modesta e simples. R. Mas está‑se mesmo a ver que esta mulher pretende mandar e ser ela a dominar. uma vez que esta produz arrogância e uma vaidade inconstante e frívola. da sua formação. nesta região. Scannapieco 2009. os prisioneiros eram amarrados com correntes de ouro por não haver muito cobre. como na Etiópia46. Bácon é demasiado jovem para casar. símbolo dos efebos. abastados e nobres. como se fossem asas. para quantos partilham dessa opinião. prevalecendo aquele sobre esta44. o excesso de riqueza das suas mulheres. Vide ainda Heliodoro 9. 45 A clâmide era uma capa de corte único. quando a mistura ocorre à maneira do vinho com a água. “E não referes tu aquele outro argumento – interveio Protógenes – que também nos arriscamos a Os Gregos não bebiam. Vide. que volta a ser referida como imagem da juventude de Bácon adiante (754F‑755A).

À mulher que proclama estar apaixonada qualquer um devia evitá‑la e odiá‑la. 49 À letra. 38). neste ponto. ao quinto se há‑de [casar47. se a uma mulher tantos anos mais velha fôssemos amarrar um homem imaturo. tem o sentido de uma postura humilde.Plutarco contrariar de forma estranha e absurda Hesíodo. e arde em desejo!» Quem a impede então de fazer cortejos à sua casa. como deve ser. que traduzimos na reconstituição proposta em aparato crítico por Hubert. E se tem vergonha e é honesta. baixar as sobrancelhas. que se deixe ficar por casa. Trabalhos e Dias 696‑698. à espera dos pretendentes e galanteadores. 5. por oposição a levantar as sobrancelhas (vide supra. Os manuscritos apresentam. cantar‑lhe uma serenata à porta fechada. com quatro anos de puberdade. seríamos como quantos [querem à pressa amadurecer] figos [ou feijões]48. 9. Sabe‑se que era costume atar à figueira ramos de figueira silvestre para apressar a maturação dos figos. coroar de grinaldas os seus retratos ou bater‑se com os amantes seus rivais? Isso sim é próprio de gente apaixonada. adoptando uma postura adequada aos seus sentimentos. Plutarco. n. «Está com certeza apaixonada por ele. Da Origem das Plantas 2. uma lacuna de pelo menos nove letras. Que baixe os olhos49 e ponha um termo à sua luxúria. 47 48 60 . ele que dizia Quando para os trinta anos não te falte muito nem os tenhas passado em demasia: de casar é o tempo! A mulher. por Zeus. Moralia 700F e Teofrasto. Cf. b Da mesma forma.

de tanto serem decentes? Será que é preferível desposar alguma Abrótono da Trácia51 ou uma Báquis de Mileto52. era uma mulher não nobre e estrangeira. Sai ainda em auxílio da riqueza.” Ao que o meu pai disse: “Afinal. 51 Mãe de Temístocles (cf.Diálogo sobre o Amor e jamais aceitá‑la em casamento. 52 Cortesã de Samos. como uma vez mais colocam a questão geral e nos obrigam a intervir na discussão. difíceis e intratáveis. 50 c d 61 . não têm elas [a fama] de austeras e maçadoras. levando‑a para casa directamente da ágora. esse amor. Quanto Protógenes terminou. se por causa do seu amor e da sua riqueza tivermos que condenar Ismenodora? Sim. é poderosa e rica. e não lhes chamam Fúrias50 por estarem sempre iradas com os maridos. Plutarco. O passo encontra paralelo em Moralia 142A. eminente e ilustre? As que são decentes. por Zeus! Defende agora com mais veemência. pela sua linhagem. 594b). que acusação não poderia fazer‑se a uma mulher. a acreditar no testemunho de Ateneu (13.” 9. E qual o problema em ser bela e jovem? Qual o problema em ser. 1 e Ateneu 13. com que Písias mais nos pretende assustar. em troca de uma quantidade de dinheiro e Referência às deusas vingadoras dos crimes de sangue. 576b). onde igualmente se acusa uma esposa demasiado severa de não ser capaz de suscitar o amor do marido. perante eles. tendo como princípio uma tal intemperança. Temístocles 1. Antémion. nós que não recusamos nem sequer evitamos ser os coreutas do amor conjugal?” Disse [então] Antémion: “Sim. disse o meu pai: “Vês.

Aristonice54 e Enante55 com o seu tambor. 1‑20. cortesã da convivência de Ptolomeu II. como forma de testar os guardas. I a.). Quando ele lho concedeu e ordenou a todos que lhe servissem e obedecessem como a ele próprio. Quando reparou nela o grande Nino e por ela caiu de amores. rei do Egipto entre 286‑246 a. tratar‑se de uma confusão com Estratonice. de forma vergonhosa. Mal confirmou que não se opunham a nada nem sequer hesitavam. rei do Egipto entre 221‑204 a. (apud Ateneu 13.C. em Atenas. Pluto 768‑769).. e ainda Agatocleia56. reinou sobre a Ásia de forma brilhante durante muito tempo57. estendia‑se a escravos recém‑adquiridos e a noivas. sabemos que não foram poucos os que. 576F) ou de Mitridates (apud Plutarco. se sentar no seu trono. Pode. 53 62 . Pompeu 36. que lhe pediu autorização para. a tal ponto o dominou e humilhou essa mulher. envergar a coroa na cabeça e governar. que o prendessem e. Semíramis da Síria era também escrava. no entanto. de que apenas conservamos breves fragmentos. O costume de atirar nozes ou figos. 55 Cortesã. Flautistas de Samos e dançarinas. 4 sqq. e Semíramis. é também contada por Diodoro Sículo 2. mãe da seguinte. fundador epónimo de Ninive. ela começou por ditar ordens moderadas.Plutarco e debaixo de uma chuva de nozes53? No entanto. Agatocleia. Terá sido o tema de uma novela do séc. num gesto de boas‑vindas (vide Aristófanes. todas tiveram a seus pés coroas de reis. concubina de um servo do palácio do rei. rainha da Babilónia. Cumpridos os seus desígnios. por um só dia. também no que a estas diz respeito. 54 Desconhecemos quem seria esta mulher. finalmente. ordenou que levassem Nino.C. 57 A história de Nino. se tornaram seus escravos.C. que o matassem. 56 Cortesã que terá tido às suas ordens Ptolomeu IV.

aqui mesmo. Ateneu 13. 596e) diz ser da linhagem dos Atridas. não era ela uma mulher bárbara adquirida na ágora. está gravada a inscrição «Afrodite Belestique»58? E essa outra que. 60 Plutarco desenvolve semelhante argumentação em Moralia 58 63 . por receio de o perder. da mesma maneira que um homem débil aperta um anel. graças à sua fraqueza e debilidade. com efeito. Dizem. havia no templo local em honra de Eros estátuas suas. outros há. cortesã do séc. e em Delfos se ergue toda f em ouro entre reis e rainhas59. por Zeus. 27. Também Outra amante. 2. de Ptolomeu II. 10. Pois aquele que reprime a mulher e a reduz a uma posição insignificante. 20. D. 9. feio e disforme. é em tudo semelhante a quantos desatrelam as éguas e em seguida as levam para um rio ou um lago. de quem os Alexandrinos conservam altares e templos nos quais. Pausânias 1. Moralia 336C‑D. 401A. 7. se põe a relinchar e deixa‑se cobrir pelos garanhões60. 1‑2. antes levaram a vida de forma respeitável e exercendo o seu poder com benevolência.Diálogo sobre o Amor E Belestique. que quando cada uma vê o reflexo da sua imagem. por amor de um rei. pelo contrário. como aqueles. foram feitos presas de [pérfidas] mulheres. Vide Plutarco. 3‑5. ao unir‑se a mulheres ricas e ilustres. que. com que espécie de dote dominou os seus amantes? No entanto. A tradição diz mesmo que foi a figura de Frine a inspirar o artista para a célebre estátua de Afrodite de Cnidos. 590‑591 e Antologia Palatina 16. ela mesma. sem linhagem e humildes que eram. cortesã. 14. Vide ainda Clemente de Alexandria. 59 O passo alude a Frine de Téspias. 48. 206. Porque teria sido também amante do escultor Praxíteles. I a. Protréptico 4.C. que Ateneu (13. partilha do templo e do culto de Eros. não se 754a corromperam e em nada abdicaram da sua dignidade.

nem 139B. quando escrevia ao chefe que havia fortificado Muníquia. Com efeito – ia dizendo o meu pai. pelo seu carácter.). a propósito. com isso conseguindo dominá‑la e guiá‑la de um modo simultaneamente justo e proveitoso para si62. preferir a riqueza de uma mulher à sua virtude ou linhagem é coisa vil e indigna de um homem livre. Vide. isso é uma estupidez ainda maior. Ao invés. no Pireu. 8. recomendava‑lhe que não bastava reforçar a correia. um casamento onde o marido prevaleça. para ir reduzindo os recursos dos Atenienses61. faça pender a seu favor o prato da balança. Além disso. em 332 a. 64 . de modo que. indiferente a tudo o que o rodeia. ao mesmo tempo que Písias sorria – não é mais velha do que nenhum dos apaixonados seus rivais. ao esposo de uma mulher rica ou bela não lhe convém torná‑la feia ou pobre. mas fugir da riqueza. 6. esta mulher está na plenitude do seu vigor. pelo que percebi. Plutarco.C.C. antes mostrar que ele próprio é seu semelhante e em nada seu criado. mas sempre baseando o seu poder no afecto e no respeito mútuos. 62 Também isso defende Plutarco nos Preceitos Matrimoniais (Moralia 139C‑D e 142D‑E). Moralia 850D e Pausânias 2. quando acompanhada de virtude e linhagem. mas que também era necessário enfraquecer o cão. 61 A anedota parece referir‑se ao rei macedónio Antígono Gónatas (277‑239 a. Com efeito. a idade e o tempo mais adequados para o casamento ocorrem quando se está em condições de gerar e procriar. Antígono. desde que.Plutarco b c assim. a ocupou Antípatro. ao que parece inspirada em Aristóteles (História dos Animais 527b 7). E. por via da sua moderação e prudência.. os Macedónios mantiveram quase sem tréguas uma força armada na colina de Muníquia.

há agitação e lutas constantes. de início. Cumpridos os trabalhos que este rei lhe prescreveu. que então contava já trinta e três anos. partiu para Tirinte. cientes de que também ele cedeu a própria esposa. 11. a Iolau. para mais se lhe for favorável. 4. que tinha apenas dezasseis anos. seu jovem sobrinho. a propósito. 4. entregou a antiga esposa a Iolau. 64 De acordo com uma versão da lenda. a criança a um professor. Se o recém‑nascido está submetido às ordens de uma ama. perturba e revolve o casamento.Diálogo sobre o Amor sequer tem brancas. 11‑12. pois só depois de longo tempo põem de lado o seu orgulho e a sua insolência. quando nenhum dos dois é capaz de mandar nem aceita obedecer. 1. se na realidade nada está isento de autoridade nem se auto‑determina. 6. o que há de estranho em que uma mulher de bom senso. posto que é mais prudente. depois de dar morte aos filhos. sobretudo se Eros está presente [e]. Apolodoro 2. pelo afecto que lhe dedica? Em suma – disse –. Mégara. dirija a vida de um jovem rapaz. Beócios que somos. mais velha. Héracles. após os quais casaria com Dejanira. um homem adulto à lei e ao estratego. num momento de loucura que lhe inspirara a deusa Hera. temos que honrar Héracles e não menosprezar a diferença de idade no casamento. além de doce e agradável. como alguns dos pretendentes de Bácon. o efebo ao gimnasiarco63. o que impede que também ela trate do rapaz melhor do que qualquer rapariga? É que é difícil unir e conciliar dois jovens. 1 e o escólio a Píndaro. um mancebo ao seu amante. como um vendaval contra um navio sem timoneiro.64” 63 Tratava‑se de um magistrado que exercia autoridade sobre os efebos e vigiava de perto as suas atitudes e conduta moral. 2. já que. Vide. 31. d e 65 . Se estes estão na idade de se lhe unirem. Diodoro Sículo 4. 1‑3. onde terá ficado ao serviço de Euristeu.

no instante em que ele se aproximava com dois ou três companheiros. Assim. a própria Ismenodora saiu porta fora ao seu encontro e não fez mais do que tocar‑lhe a clâmide. chegando a acordo com eles. consentido pelo indivíduo raptado e sem recurso à violência. convencida de que Bácon. depois adoptada também por Séneca. peças em que o herói mata Mégara e os filhos. o jogo semântico presente no original kalon kalos. rapta o objecto do seu desejo. Foi então que os seus amigos. Uma vez lá dentro. Diferente é a versão que Eurípides segue no seu Héracles. uma vez terminadas as tarefas de que fora incumbido. ao que parece. Plutarco. além de umas mulheres que lhe eram íntimas. as mulheres Ístmicas 4. anunciando um acontecimento de espantar e pleno de audácia. contou‑me o meu pai que chegou junto deles um amigo de Písias. desde logo no conjunto dos Relatos de Amor que adiante traduzimos. Ora. 65 A nossa tradução visa manter.Plutarco 10. levando o gentil rapaz. gentilmente65 envolto na clâmide e no manto. de uma assentada o meteram dentro de casa e de imediato 755a fecharam as portas66. com a ajuda dos amigos e amigas. mas apenas sentia vergonha por quantos o dissuadiam. tinha‑se decidido a não deixar escapar o rapaz. aguardara pelo momento f em que Bácon. era também uma modalidade de casamento (cf. expediente comum nas novelas eróticas.. dentro do possível e com o recurso a um adjectivo e um advérbio muito característicos da lírica provençal. Estando a discussão neste ponto. Mas o rapto. Licurgo 66 . que vinha a galope da cidade. Ismenodora. à saída da palestra. não repudiava o casamento. por vontade própria. 66 Ismenodora. costumava passar à sua porta ricamente adornado. ungido de azeite. 104. chamando junto de si os amigos mais vigorosos e os que mais apoiavam o seu amor.

Já ninguém prestava atenção aos participantes do concurso68. 67 b . as grinaldas e o som da flauta (mais em concreto do aulos). Assim que. contou sobressaltado essa notícia. incluindo o sacrifício e o cortejo nupcial. Quanto à cerimónia em si.Diálogo sobre o Amor tratam de lhe tirar a clâmide e de lhe vestir uma túnica nupcial. no entanto próximo de Bacantes 396. quando o amigo de Písias. Os criados. no fundo. 986 Nauck2 de uma tragédia perdida de Eurípides. 67 Todos estes são rituais nupciais: a túnica. não de um rapto efectivo. disse o meu pai que Zeuxipo se pôs a rir e. Entre as gentes de Téspias e os forasteiros havia quem se risse e quem se irritasse e reclamasse a presença dos gimnasiarcos: com efeito. mas também as de Bácon. avançando a cavalo como na guerra. coroam de oliveira e loureiro as portas não só de Ismenodora. 69 Frg. admirador de Eurípides como era. de um rapto ritual. no caso. mulher. que Ismenodora havia raptado Bácon. perdendo‑se em comentários e discussões uns com os outros. correndo de um lado para o outro. 4‑7). não fosse. 11. Tratar‑se‑ia. mas toda a gente tinha abandonado o teatro e estava agora às portas de Ismenodora. E uma flautista corre mesmo as redondezas a tocar o seu instrumento67. estes exercem uma grande autoridade sobre os efebos e vigiam de perto a sua conduta. uma mulher a raptora. exclamou embora orgulhosa da tua riqueza. 68 Refere‑se ao concurso de citaredos mencionado no início do diálogo (749C). encontrá‑la‑emos adiante (771D). pensa. como mortal [que és!69 15.

a que extremos há‑de chegar a liberdade que revolve a nossa cidade? E as coisas. pois compreendia a sua indignação e queria acalmá‑lo. Mesmo que o seu carácter não fosse por natureza franco e honesto. por via da falta de lei. a mim.” Soclaro acrescentou. sorrindo: “Mas vocês acreditam mesmo que houve rapto e violência. uma vez que 70 Apolónio de Rodes (1. próprio de uma mulher apaixonada. governada por Hipsípile. e não uma escapatória e um estratagema do próprio rapaz. dando um salto. digno de Lemnos – podemos dizê‑lo agora que estamos só os dois –. não teria ocultado esse facto. já que a cidade perdeu completamente a razão!” Nessa altura Písias retirou‑se e Protógenes seguiu‑o. 609‑910). quando a própria natureza é ofendida pelo desejo de mandar de uma mulher. unindo‑se depois aos Argonautas. é talvez absurdo irritar‑se a propósito das leis e da justiça. é entregar o ginásio às mulheres e também a sede do Conselho. disse Antémion: “O feito é realmente audacioso e. quando aí aportaram. Valério Flaco (2. livrando‑se dos abraços dos seus amantes. 7) contam que as mulheres de Lemnos tinham assassinado todos os homens da ilha e estabelecido uma sociedade completamente feminina.Plutarco c d Então Písias. Queremos nós sorte semelhante à de Lemnos70? Vamos – dizia –. pelo menos. 98‑430) e Apolodoro (1. Soclaro – replicou Antémion – nem desconfies de Bácon. 9. esperto como é. desertou para os braços de uma mulher bela e rica?” “Não digas tal coisa. que assim. que já caminham para a total falta de controlo! No entanto. em verdade. 68 . Aí. gritou: “Deuses.

2). Hipócrates escreveu mesmo um tratado Sobre a Doença Sagrada e Aulo Gélio (19. De resto. com efeito. A citação. Qualquer coisa que deseje. vi em tempos dois vizinhos baterem‑se por uma serpente que se retorcia no caminho. que atitude há na cidade mais honesta do que a de Ismenodora? Quando é que algum comentário vergonhoso ou a suspeita de qualquer acção perniciosa alguma vez entrou em sua casa? No entanto. Logo. Está em causa distinguir a força de Eros. 71 e 69 . Afinal. já que ambos lhe chamavam bom génio e se julgavam Frg.” 12. no Egipto. compra‑a. Eros. entre risos. da ira humana. mais forte do que a razão humana. como diz Heraclito. sendo que a primeira é incontrolável. mesmo que pague com a própria vida71. do mesmo modo que. 22B 85 D‑K. surge ainda em Moralia 457D e Coriolano 22. Foi nessa altura que. 3. pode ser controlada. nada há de estranho se alguns considerarem igualmente sagrada e divina a maior e mais frenética das paixões da alma. à primeira vista. estabelece também o paralelo entre o amor e a epilepsia. parece o resultado da possessão por um qualquer deus – era a epilepsia (cf. um deus. Moralia 981D). disse Pêmptides: “Há com certeza uma doença do corpo que é considerada sagrada72. 72 A doença tida por sagrada pelos Gregos – porque. é difícil combatê‑lo. um pouco como faz Plutarco neste ponto. com variantes. não à vontade. sim.Diálogo sobre o Amor me fazia tomar parte de todas as suas confidências e sabia bem que eu era o mais empenhado defensor de Ismenodora. parece de facto que alguma inspiração divina se apoderou agora dessa mulher. com a fortuna e com a reputação. e a segunda.

pôs‑se a caminho. Quanto ao meu pai. a mando de Ismenodora.” 13. outros para os das mulheres. até ao momento. se por quantos deviam expulsá‑la de toda a parte e reprimi‑la ela é. pois um acreditava que se impunha resgatar Bácon. não é de espantar que esta paixão tenha um tão grande poder e consideração. E assim Antémion. disse: “Parece‑me que estás a tocar num assunto de grande monta e perigoso. do mesmo modo. 70 . n. ao invés. No entanto. 63. como bem sobre‑humano e divino que é. Por isso. agora que Písias partiu. exigindo uma justificação e uma demonstração para cada um deles. uns para os aposentos dos homens. dirigindo‑se a Pêmptides pelo nome. com efeito. sobretudo ao remover por completo os princípios imutáveis da nossa crença nos deuses. Basta. pois via que a discussão se restringia mais a questões privadas do que 756a às gerais. que vinha buscar Antémion. com gosto escutaria a razão pela qual proclamaram que Eros é um deus os primeiros que isso disseram. ao passo que o outro não queria que se intrometessem. quando agora f vos vejo tentando arrastar Eros.Plutarco dignos de ficar com ela. a confusão aumentava e reinava o desentendimento entre os gimnasiarcos73. Quando Pêmptides se calou e o meu pai começou a falar do assunto. acerca da qual não cabe revelar ou encontrar testemunho mais plausível. Com efeito. levantando‑se. Pêmptides. elogiada e coberta de honras. chegou outro indivíduo da cidade. me mantive em silêncio. a antiga fé dos nossos pais. 73 b Vide supra.

481 Nauck2. 480 Nauck2. torna‑se completamente precária e suspeita. Sobre o mito de Melanipa. Ouviste com certeza a polémica que causou Eurípides. Eurípides terá composto duas tragédias. se por ventura num só ponto é perturbada e revolvida a sua confiança e o crédito que lhe é dado. nem. como esses a quem chamam Eurípides. Depois de conseguir um outro coro – já que tinha. que com Poséidon teve dois filhos e foi depois acorrentada pelo deus. quando compôs o início da sua Melanipa: Zeus. segundo declara a verdade76. que conheceu duas versões. a Melanipa Sábia e a Melanipa Acorrentada. pela primeira vez. que diferença existe afinal entre. [seja esse Zeus quem for]. grandes esperanças nesse drama. 76 Frg.Diálogo sobre o Amor nem que o saber seja invenção de um génio elevado74. mudou o verso para o que agora está escrito: Zeus. Atena ou Eros? É que Eros não reclama agora. 74 75 71 . pela forma solene e refinada com que o havia escrito –. não o conheço a não ser por [palavras75. c Ora. um altar ou um sacrifício. Essa fé é o fundamento e a base comum que suporta a piedade e. Bacantes 203. Frg. colocar em dúvida e questionar a nossa crença sobre Zeus. proveniente de qualquer superstição bárbara. Os dois fragmentos citados pertenceriam à primeira peça. pela razão. ao que parece.

78 Frg. Pelo contrário. igual em largura e comprimento. e sem ir mais longe. simbolizando o seu mito o ritual de castração que. em face da justiça. se para cada um exigires uma prova. embora não seja visível. praticavam os sacerdotes dessa deusa (cf. deves pensar que é necessário dizer o mesmo acerca de Eros. É que. às ocultas. O jovem escolheu Afrodite. de honras que não lhe são devidas. se insinuou por via dos andróginos e das mulheres ou gozou. regando‑as com água quente para assim germinarem e morrerem mais rapidamente. examinando todos os seus recintos e submetendo todos os seus altares a uma pesquisa sofística. 77 72 . é objecto de crença. Adónis. de ilegitimamente e como bastardo ser incluído entre os deuses. quando escutas. voluntariamente.Plutarco d os Átis e os Adónis77. meu amigo. 31B 17 D‑K. Talvez por isso. estas palavras de Empédocles. esse deus. que alcançariam grande fama a partir da época helenística e eram muito caros ao público feminino. e a Amizade entre eles. Catulo 63). outra com Perséfone. na Primavera. entre os deuses mais antigos. esta instituiu uma festa. e a restante terça parte com quem bem entendesse. para nós. na qual. simbolizando isto o destino de Adónis. não te fiques a contemplá‑la [com os olhos78. com a mente deves observá‑la. de forma a ser assim acusado. as mulheres plantavam flores em vasos e telhados. No entanto. Trata‑se. apaixonado de Afrodite. A isto seguiam‑se lamentações rituais. de cultos orientais relativamente recentes em Atenas. Átis era o jovem amante da deusa Cíbele. Na verdade. com efeito. em ambos os casos. ficou determinado que passaria uma terça parte do ano com essa deusa. não deixarás nenhum livre de suspeição ou de inquirição.

No entanto. 898. Ao invés a deusa. de forma muito justa e graciosa. tem como único propósito a satisfação e não resulta em nada de belo. do qual provimos todos. 84 Frg. 83 Ésquilo. Ambos os passos. 79 80 73 . 28B 13 D‑K. Por isso Parménides considera que Eros é a mais antiga das obras de Afrodite. o resultado sai completamente despojado do seu valor. Eurípides. obra de Eros. em segundo grau. são usados com semelhante propósito por Platão (Banquete 178b) e Aristóteles (Metafísica 984b 23‑30): reconhecer que Eros é das divindades mais antigas. 763 Nauck2. no entanto. o de Hesíodo e o de Parménides. porquanto assiste a Afrodite. Hipólito 449‑450. sem honra e pouco amigável83. lhe chamou Empédocles81. ao escrever na sua Cosmogonia: Primeiro que todos os deuses Eros ela gerou84. É que uma relação em que não há amor. frg. e f Hesíodo85. esta grande e admirável obra de Afrodite é também. não vês como é uma grande deusa?79 É ela quem semeia e concede o amor. e Sófocles rica em frutos82. parece‑me que foi com mais naturalidade que apresentou Eros como o mais antigo Eurípides. Coéforas 295. com efeito. os que caminhamos sobre a Terra. semelhante à fome e à sede. graças a Eros. 81 Frg. 82 Frg.Diálogo sobre o Amor Quanto a Afrodite. recusando o enfado do prazer.1 Nauck2. Quando não lhe assiste.80 Dispenseira de vida. 85 Teogonia 116‑122. 31B 151 D‑K. faz brotar a amizade e uma união cúmplice.

praticamente nenhum dos outros deuses escapou sem ultraje à muito ultrajante ignorância. 86 74 . é uma força indestrutível. e sem conseguir ver. ao mesmo tempo. de modo a torná‑lo participante na origem de todas as coisas. é uma loucura furiosa87. Ares. uma vez mais. 754 Nauck2. tampouco as de Afrodite 757a se manteriam inalteráveis. 855. e para os seus semelhantes nasceu86. frg. revolve toda a espécie de males88.1 Nauck2. 1‑4 Nauck2. não é possível afirmar que alguns ofendem Eros ao mesmo tempo que prestam veneração àquela deusa. numa mesma cena: Eros é preguiçoso. Da mesma forma. com seu focinho de javali. Faria parte da tragédia perdida Dânae. frg. Assim sendo. 88 Sófocles. frg. ele que ocuparia. Repara em Ares. Eurípides.Plutarco de todos os deuses. como num mapa de bronze. ó mulheres. já que b cego. quantas honras elevadas granjeou dos homens e. e. a posição diametralmente oposta a Eros. antes ouvimos. É Hades. 322. quantas calúnias ainda hoje escuta. Meninos. 87 Sófocles. [Cípris] não é apenas Cípris. mas também de muitos nomes o sobrenome. se retirássemos a Eros as honras costumeiras. Na verdade.

o da amizade. Ilíada 5. competitivo e antagónico tem um deus. “Estou a ver – disse Pêmptides – mas nem é correcto converter os deuses em paixões. as armas e os dardos. as Musas as artes e Atena a inteligência. da partilha e da união. argumentativo e espirituoso que há em nós. Hermes a eloquência. 889. 831. disse o meu pai. que é Ares: um deus ou uma paixão nossa?” Quando Pêmptides respondeu que considerava Ares um deus que comanda o nosso impulso irascível e de valentia. quando interpreta o nome do deus91. 91 Frg. capacidades e virtudes. 31.Diálogo sobre o Amor E até Homero lhe chama sanguinário89 e enganador90.” Disse então o meu pai: “Que consideras tu. Vês com certeza o profundo ateísmo em que incorremos se fizermos coincidir cada deus com uma personificação das nossas paixões. afinal. afirmam que Afrodite é o desejo. que o elemento guerreiro. 89 90 c d 75 . E também Crisipo. Pêmptides. 2. nem considerar divinas as paixões. 1094 von Arnim. Eniálio Ilíada 5. por seu turno.” 14. Outros. os assaltos a muralhas e os saques têm a tutela e protecção de um deus. com isso sustentando quantos julgam que se chama «Ares» a esse ímpeto irascível. considera que «Ares» é sinónimo de destruir (anairen). procede a uma acusação e a uma ofensa. levantando a voz: “Queres tu dizer. não tem qualquer deus? Será que até os homens que matam e os que são mortos. ao passo que esse outro. com efeito.

a quantos caçam corças. chamando‑lhe cultivada96. De seu pai. 94 Fragmento de um hexâmetro de autor incerto. seu protector. 95 Frg. à letra. guia e colaborador? No entanto.Plutarco e Estrácio92. 93 No original. enquanto ao desejo de casamento e amor. uma oliveira ou essa vinha que Homero elogiou. caro Dafneu. Agrotera. da caça e de outras artes. segundo diz Ésquilo: Oxalá Apolo Caçador guie certeira a minha flecha!95 e E a um indivíduo que se esforça por conseguir a mais bela caçada. era um pastor mítico considerado inventor da apicultura. Aristeu. seja uma criatura superior em beleza e valor à planta humana97. inspira‑os e incentiva‑os uma divindade caçadora93. epíteto da deusa Ártemis. a amizade. não considero que um carvalho. que se traduz em concórdia e união autêntica. nenhum dos deuses se fez sua testemunha. 96 Odisseia 5. e fazem súplicas a Aristeu os que capturam lobos e ursos com armadilhas e redes. filho de Apolo e da ninfa Cirene. uma Dois epítetos de Ares que. lebres e cervos. 97 A comparação do homem a uma planta tem roupagem 92 76 . 379 Schneider). na verdade. O próprio Héracles invoca outro deus quando pretende atirar com o arco a uma ave. que alguns atribuíram a Calímaco (frg. não há‑de haver deus ou génio que o comande e auxilie no seu esforço? Pela minha parte. significam “O Belicoso” e “O Guerreiro”. o primeiro que para as feras montou armadilhas94. 69. 200 Nauck2. recebeu o conhecimento da adivinhação e da medicina.

f segundo as palavras de Píndaro? No entanto. 77 . pelos deuses. a criação e o desenvolvimento dos mancebos e das crianças que se educam e formam quando estão no seu auge e na flor da idade não constituem tutela de nenhum deus ou génio. frg. 98 Píndaro. 99 Píndaro. Moralia 400B. Xenofonte. Cf. fulgor sagrado do Outono99. dos frutos e da fertilidade. Diónisos é convocado enquanto deus da vegetação. o folgazão Diónisos aumenta o arvoredo. Respondeu‑lhe então Dafneu: “Mas quem. mas símbolo da vegetação e das colheitas em geral. As Dríades são ninfas associadas aos carvalhos. também citado por Plutarco em Moralia 415D. 153 Snell‑Maehler. poderia pensar o contrário?” “Por Zeus – replicou o meu pai –. tradicional. 24‑26 e Plutarco. frg. de forma que não se desvie nem deite a perder a sua 758a nobreza por falta de um protector e pela maldade dos que o rodeiam. a um tempo do corpo e da alma. Timeu 90a.Diálogo sobre o Amor vez que a força vital do seu crescimento revela frescura e beleza. 165 Snell‑Maehler. Ou não têm eles como certas as Ninfas dríades. nem importa a ninguém que um homem. no seu crescimento. Banquete 2. Entretanto. que da árvore partilham o tempo de vida98. Platão. caminhe no recto caminho da virtude. de semear e de plantar a terra pertence aos deuses. 600F. todos quantos consideram que a preocupação de lavrar. recolhidos também em Moralia 365A e 745A.” 15.

Plutarco b E não seria terrível e de uma profunda ingratidão dizer estas coisas. 103 Frg. que. 102 Hermes. devido ao sangue e às dores de parto. enquanto se goza da filantropia divina. No que a Eros diz respeito. filho de Apolo e deus da medicina. quem sabe. nem sequer quando alguém morre: há um que o conduz daqui para o outro lado. referente precisamente a essa tutela da maternidade. Ilitia e Loquia100. do que nascer com defeito por falta de bom protector e guardião. tem ainda assim um protector divino. tal como este: Não me gerou a Noite senhor da lira. tampouco de um homem que está doente se afasta o deus detentor da faculdade e da força para tal101. nem adivinho. na sua vertente de psychopompos (“condutor de almas”). distribuída por toda a parte e que nunca nos abandona. 100 78 . Melhor fora. em quaisquer tarefas. sem ser bonito de se ver. nem médico. também estas atribuições comportam muitas dificuldades. 101 Asclépio. não é possível referir função mais sagrada. E. adjuvante dos que chegam ao fim dos seus dias. nem outro conflito ou concurso que mais convenha a um deus presidir Ilitia é a deusa dos partos e Loquia um epíteto de Ártemis. Contudo. que busca dar‑lhes repouso e conduzir‑lhes a alma102. 405 Nauck2 de uma tragédia de título e autor desconhecidos. por certo. antes [um mortal que acompanha] as almas103. mesmo naquelas que têm uma finalidade mais ligada à necessidade do que à beleza? É desde logo como o nosso nascimento. não nascer.

mas sim pura persuasão e graça que. finalmente. em terceiro lugar a da camaradagem e. 31) semelhantes classificações para o termo philia. existindo quatro espécies de amizade. Dois poetas com o mesmo nome. Ou de que outra forma – dizia – podemos nós falar. de mancebos belos e jovens. com o desejo. 372. Bacantes 66. 531. 763 Page. por Zeus. um neto do outro. sem um deus105.C. Às ocultas semeia.C. que 104 105 d 79 .Diálogo sobre o Amor ou julgar do que o cuidado e a conquista. 106 Frg. exigindo uma doce tarefa – na verdade – e um esforço que não é pequeno104. uma doce colheita no coração [do homem c como dizia Melanípides106. das Graças e de Afrodite – Eros. o outro no final. melhor do que de qualquer outra forma! Absurdo seria defender o contrário. V a. e não tem como comandante e senhor outro deus que não o companheiro das Musas. nada há nisso de vergonhoso ou baseado na necessidade. terão vivido no séc. Melanípides era um poeta lírico do séc. 15. o fim conveniente. depois a da hospitalidade. livra‑os de atingir. como as distinguiram os antigos – em primeiro lugar a de sangue. conduz à virtude e à amizade. Com efeito. V a. 107 Diógenes Laércio atribui a Platão (em 3. a ligação amorosa107 Eurípides. – um primeiro nos inícios. mistura o mais agradável com o mais belo. Ao que este respondeu: “Assim mesmo.” “E não seria igualmente absurdo – continuou o meu pai – se. pelos seus apaixonados. Expressão homérica: Odisseia 2. 81) e a Aristóteles (em 5. Zeuxipo?” 16.

Platão classifica – a profética. logo ela que mais necessita de vigilância e direcção?” “Também isso – disse Zeuxipo – seria um disparate nada pequeno. que tem origem e é impulsionada por uma força superior. 108 As linhas seguintes seguem de perto a doutrina platónica das diferentes loucuras (maniai) provocadas por uma possessão divina (enthousiasmos). de um familiar ou dos parentes –. o conjunto de relações pessoais de afectividade onde cabe. Plutarco acrescenta uma quinta. a poética e a amorosa –. no limite. antes consiste numa inspiração exterior. por via da sua participação e comunhão numa força divina (theiotera designa. inspirada por Ares. Às quatro maniai que. paixão à qual geralmente se chama entusiasmo. 265a‑b). que apenas a ligação amorosa. num desvio dos trilhos da razão e do entendimento. estado grave. careça de protector divino. a báquica. como algo sacrílego e profano. o amor. também essa agitação da alma recebe o nome de entusiasmo (enthousiasmos). Timeu (86e‑87a) e Íon (533d‑534e). 143) e aos estóicos (em 2. Estobeu atribui esta classificação também aos peripatéticos (em 2. Na verdade. e prudente (emphron) o que está cheio de prudência (phronesis). a loucura guerreira.Plutarco e –. 249d. 80 . embora com isso nos afastemos do nosso assunto. de um hóspede. e tendo cada uma delas o seu deus patrono – próprio de um amigo. do mesmo modo que é animado (empnoun) o que está cheio de ânimo (pneuma). perigoso e causador de doenças. 74). no fundo. Há com efeito uma espécie de loucura que emana do corpo para a alma por efeito de determinados desequilíbrios e misturas de um sopro maligno. mas há uma outra que não ocorre sem influência divina nem é inata.” “Para mais – continuou o meu pai – podem as palavras de Platão108 dar uma ajuda. Vide Fedro (244a‑245a. além da humana.

Suplicantes 681‑682. 778 Nauck2. quando toma uma alma delicada e pura110. 111 Ésquilo. a dada altura do culto. nada discreta ou tranquila. Dafneu. a chamada loucura de Ares. sendo que uma parte fundamental do seu culto consistia em danças extáticas. os seus olhos ensanguentados e a querer saltar da face. A terceira espécie. É ainda Platão (Banquete 215e) quem nos refere que. os participantes ficavam possuídos. o inimigo das danças e da cítara. Reia e a Cíbele. a todos se afigura claro qual dos deuses a envia e inspira os seus delírios. relacionados com o culto a Zeus. O entusiasmo profético provém da inspiração e da possessão por Apolo. e começai a dançar. 109 81 .111 f Resta ainda uma espécie de desvio e alienação à 759a qual o homem está sujeito. acerca da qual quero perguntar cá a Pêmptides Frg. põe em movimento e inspira o entusiasmo poético e musical. Platão (Eutidemo 277d) testemunha que muitos cidadãos respeitáveis neles tomavam parte.Diálogo sobre o Amor dynamis). relativa à guerra. Quanto a essa outra. ao som de flauta e percussão. como disse Sófocles109: é que os ritos da deusa mãe e os de Pã são muito próximos das orgias báquicas. ao ritmo dos Coribantes. que faz pegar em armas e suscita o grito da guerra civil. Os Coribantes eram divindades de origem cretense ou frígia. Ares. proveniente das Musas. A religião grega é‑lhes permeável a partir do séc. pois que se acreditava que eram a cura para toda e qualquer perturbação mental. o báquico da de Diónisos. criador de lágrimas. 110 Citação colhida de Platão (Fedro 245a). V.

113 Ilíada 7. Poética 1449a 19‑24). 406 Nauck2 de uma tragédia desconhecida. só depois. quando realmente se abate sobre um homem e o inflama. encantamento mágico116 ou mudança de lugar que consiga Frg. 116 A expressão parece ecoar Eurípides (Hipólito 478).Plutarco qual dos deuses agita o tirso de belos frutos112. que subiria para uma trípode. proferia os oráculos do deus. Recorde‑se que Plutarco foi sacerdote nesse local. tranquilo. de longe o mais aguçado e abrasador que existe? Não vês. era apropriado à sugestão da loucura ou de estados de espírito mais desenfreados. uma vez depostas as armas. como o ritmo trocaico era muito usado para danças rápidas e frenéticas (cf. 115 A Pitonisa era a sacerdotisa do templo de Apolo em Delfos. afinal. tal como a Pitonisa. 121‑122. quando se afasta da trípode e do sopro profético. como espectador nada belicoso dos combates? Ou como essas danças dos celebrantes de Baco e dos Coribantes. 114 O ritmo frígio. sobretudo em Bacantes. Aristóteles. O verso refere‑se a Diónisos. esse entusiasmo amoroso relativo a bons mancebos e mulheres honestas. se acalmam e cessam. logo acalma a sua loucura guerreira. e em seguida os alegres escudeiros lhe retiram a armadura dos ombros113. quando se muda o ritmo trocaico e a melodia frígia114. como o soldado. que Sófocles introduziu na tragédia e Eurípides desenvolveu. 112 82 . b e se senta. não há qualquer música. se entrega à calma e à quietude115? Quanto à loucura do amor. inalava os fumos inebriantes – essa uma explicação avançada para o estado de transe em que entraria – e.

como dizem os Cínicos. ou. De resto. Ao invés. abraçam‑nas e repreendem‑nas. 117 c d 83 . são sonhos de quem está desperto –. como na encáustica. encontrou um trilho rápido e directo para a Por phantasiai entendiam Platão (Timeu 52a‑c. que a alma do ser que ama vive na do ser amado. deixam para sempre na memória representações vivas. e também o seu aspecto. celebram‑nos com uma canção. Sofista 263d‑264b) e Aristóteles (Da Alma 427b 14‑429a 9) as imagens ou representações que se formam na mente a partir das sensações. posto que depressa se desvanecem e lhes abandonam o pensamento. como se estivessem realmente lá. falantes e animadas. desejam‑nos se estão ausentes.Diálogo sobre o Amor pôr‑lhe cobro. diria antes que toda a alma do ser amado]118. como alguém disse. já que estes falam com elas. o seu carácter. Banquete 209a‑c): “a alma do amado é conduzida à virtude por meio da beleza e do carácter do amante”. por cuja orientação percorre um longo caminho em curto espaço de tempo. amam quando estão presentes os amados. as dos apaixonados são‑no em maior medida. levam o dia inteiro em perseguição e a noite à porta. que podem ser mais ou menos coincidentes com a realidade. enquanto bebem. Pelo contrário. 255c‑e. Parece este passo próximo da lição platónica (Fedro 252e‑253b. pela sua vivacidade. as imagens dos seres amados. por ela gravadas com fogo. É que a visão parece pintar‑lhes as demais alucinações como que sobre um suporte húmido. [pela minha parte. Dizia Catão. quando estão sóbrios chamam pelos seus amados e. 118 Lacuna dos manuscritos para cuja tradução seguimos a lição de Xylander. a sua vida e todas as suas atitudes [residem na do amante]. o romano. de modo distinto das alucinações (phantasiai)117 poéticas – que.

vale Lacuna nos manuscritos. consideramos e chamamos os mais divinos. do mesmo modo que. nem tem como patrono e condutor outro deus que não este. 121 Pode o texto aludir à célebre comparação platónica da alma a um carro alado. e grande é também o poder de Ares. a realeza e a virtude. como a obra de Afrodite. a estes dois. na companhia de um deus. também Platão [distinguiu] as formas [da alma]121. como já dizia Sófocles120. como que transportada numa onda de paixão. Em suma. de alguma maneira. 120 Traquínias 497. grande é a força da vitória que Cípris granjeia. Fedro 246b. antes de mais. E. posto que [distinguimos] os deuses sobretudo pelo seu poder e pela sua utilidade. 119 84 . é agora o momento de averiguar se acaso Eros fica atrás. em algum local. Por conseguinte. um pouco como. de algum dos deuses. para a qual seguimos a sugestão de Hubert. puxado por dois corcéis: um nobre e disciplinado. Vejamos.Plutarco e virtude. também para a amizade [e para a virtude a alma é levada num ápice]119. Desde logo. que agora celebramos e ao qual fazemos sacrifícios. vemos o poder dos restantes deuses repartido por estes dois: é que uma atracção natural pelo belo e uma repulsa igualmente natural pelo feio convivem. outro indómito e de fraca linhagem. afirmo que o entusiasmo dos apaixonados não é desprovido de tutela divina. sem Eros. desde o início. entre os bens dos homens. Platão. Cf. nas nossas almas. em poder. Ora.

Não vamos aqui. Certa vez. num vale abundante em vegetação e água. 407 Nauck2 de uma tragédia desconhecida. muitas vezes. Mas se de repente se levanta um vendaval125. Frine foi já nomeada acima (753F).57. quem esteja a passar. f espera e chama para junto de si. onde. os ramos se moviam para longe do seu alcance – o chamado suplício de Tântalo. Laís de Corinto é referida mais adiante em detalhe (750d. evocar uma Frine.768a). 125 Ilíada 15. quase não tem valor. que acendendo ao entardecer a chama da sua lamparina124. conhecido pela opulência do seu reinado. Tântalo foi um rei da Frígia ou da Lídia. meu amigo. uma Laís ou uma Gnaténion123.C. 581a sqq. Pélops. ao aproximar‑se da água ela se escoava e. isso mesmo passa a valer tanto como os famosos talentos de Tântalo126 ou a linhagem de Giges127.). trazendo consigo um amor forte e o desejo. Na mitologia grega. Segundo outras versões. casado com Díone e filho de Zeus com uma mortal. 126 A expressão ta Tantalou talanta. foi sentenciado a não poder saciar a sua fome e sede. 122 123 85 . Como castigo foi lançado ao Hades.Diálogo sobre o Amor tanto como uma dracma122. fraca I. nada mais sabemos. Tântalo era filho do Rei Tmolo da Lídia (deus associado à montanha com o mesmo nome). Assim. 127 Giges foi um famoso rei da Lídia. roubou os manjares divinos e serviu‑lhes a carne do próprio filho. De Gnaténion.e. e como ninguém suportaria o cansaço e o perigo dos prazeres sexuais se não estivesse apaixonado. ao esticar‑se para colher os frutos das árvores. num festim. poderosa aliteração.. posto que. Trata‑se de três cortesãs. entre 687 e 652 a. referida por Ateneu (13. 767f. seria proverbial. 124 Frg. ousando testar a omnisciência dos deuses.

Plutarco

e efémera, é a graça de Afrodite, se não a inspira Eros. Tanto mais assim é, se considerares o seguinte: muitos, com efeito, partilharam com outros os prazeres sexuais, prostituindo não apenas as suas concubinas mas também as próprias esposas. É esse o caso, meu 760a amigo, daquele romano, Gaba, que convidou Mecenas para jantar, ao que parece, e depois, ao ver que ele estava cheio de meiguices para cima da sua mulher, inclinou calmamente a cabeça como se estivesse a dormir. Nisto, quando um dos escravos, vindo de fora, se abeirou do triclínio com intenção de roubar o vinho, disse‑lhe: «Meu desgraçado, não sabes que durmo só para Mecenas?» Mas este exemplo talvez não seja o mais adequado, já que Gaba era um brincalhão128. Em Argos, Nicóstrato era adversário político de Faulo. Estando na cidade o rei Filipe, parecia lógico que Faulo, graças à sua esposa, que era bastante bela, conseguiria para si mesmo alguma proeminência e poder, b se ela se deitasse com Filipe. Posto que os partidários de Nicóstrato tomaram conhecimento disso e montaram guarda às portas da sua casa, Faulo calçou a esposa com sapatos de homem, pôs‑lhe uma clâmide e um chapéu macedónio, de modo a enviá‑la fazendo‑se passar por um dos pajens reais129.
Esta anedota, transmitida também por Lucílio (frg. 251 Warmington) e Juvenal (1. 56‑57) demonstra como, na corte de Augusto, Gaba era tido na conta de um brincalhão. 129 Este episódio, que não conhecemos por nenhuma outra fonte, parece aludir à estadia de Filipe V da Macedónia em Argos, no ano de 209 a.C., por altura das festas Nemeias.
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Diálogo sobre o Amor

No entanto, de todos os apaixonados, os do passado e os do presente, sabes acaso de um único que tenha prostituído o seu amado, ainda fosse que pelas honras de Zeus130? Não me parece. Como poderia isso ser, afinal, quando até os tiranos, não tendo qualquer opositor ou rival político, no que toca ao amor têm muitos rivais que disputam os seus rapazes belos e no ponto? Ouvistes contar, com certeza, como Aristogíton de Atenas131, Antileonte do Metaponto132 e Melanipo de Agrigento133 não se insurgiram contra os tiranos ao vê‑los arruinar todo o Estado ou dirigi‑lo como loucos. No entanto, quando eles tentaram seduzir os seus amados, puseram em risco as próprias vidas para os defender, já que os tinham na conta de santuários invioláveis e sagrados. Dizem ainda que Alexandre escreveu em tempos a Teodoro, o irmão de Próteas134, o seguinte: «Envia‑me a tua cantora em troca de dez talentos, se não estás apaixonado por ela.» E
A expressão Dios timai, que Plutarco repete em Moralia 561B, seria tradicional e recorda, propositadamente ou não, o nome de Diotima, personagem evocada por Sócrates no Banquete de Platão (201d sqq.) 131 Aristogíton estava apaixonado por Harmódio, que estava na mira da paixão de Hiparco, filho do tirano Pisístrato. Assim, juntamente com o rapaz, deu morte a Hiparco em 514 a.C. Cf. Tucídides 1. 20, 6. 54‑59; Platão, Banquete 182C; Aristóteles, Constituição dos Atenienses 18. 2‑4; Ésquines 1. 132, 140. 132 Antileonte matou o tirano do Metaponto também por este tentar seduzir o seu amado, um tal de Hiparino. 133 Melanipo e o amado, Cáriton, mataram o tirano Fálaris de Agrigento, segundo testemunha Ateneu 13. 602b e Heliano, História Vária 2. 4. Os três exemplos constituem casos mais ou menos famosos de tiranicídios, para os quais a tradição arranjou uma explicação amorosa. 134 A relação destas personagens é também referida por Plutarco em Alexandre 22. 1‑2 e 39. 6.
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c

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Plutarco

d

quando outro dos seus amigos, Antipátrides, veio a uma festa na companhia de uma tocadora de harpa, posto que a rapariga lhe agradou, perguntou o rei a Antipátrides: «Não estarás, por acaso, apaixonado por ela?» Quando este respondeu «Sim, completamente!», disse‑lhe ele: «Miserável, oxalá morras miseravelmente!». Ainda assim, conteve‑se e não tocou na mulher.”135 17. “Considera agora – disse – no que diz respeito aos assuntos de Ares, como Eros os supera, ele que não é débil, como dizia Eurípides136, nem ignorante dos combates, nem
às delicadas faces das donzelas está de vigia137.

Com efeito, um homem cheio de Eros em nada precisa de Ares quando luta com os seus inimigos, antes, tendo a seu lado o seu próprio deus,
o fogo, o mar e as brisas do éter é capaz de atravessar138

e

em favor do seu amigo, para onde quer que ele o chame. Quando os filhos de Níobe, na peça de Sófocles, depois de serem atingidos, estão prestes a morrer, nenhum deles invoca qualquer outro adjuvante ou aliado além do seu amante:
Anedota recolhida, com variantes, em Moralia 180F. Frg. 332.1 Nauck2. Vide supra, 757A. 137 Sófocles, Antígona 783‑784. 138 Frg. 408 Nauck2 de uma tragédia desconhecida.
135 136

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601a‑b. mas afigurava‑se tarefa complicada fazer frente à cavalaria dos inimigos.C.” “Nós cá não sabemos – disseram os companheiros de Pêmptides –. f 89 . que ficou famosa. sabeis sem dúvida por que razão morreu em combate. Ora. Níobe tinha‑se vangloriado de superar a deusa Leto pelo valor da sua descendência. Tinha ele chegado como aliado de Cálcis. e foi então que os aliados pediram a Cleómaco. A infantaria calcidense parecia aguentar‑se. o abraçou com ternura e lhe vestiu a armadura. cidades da Eubeia. Cleómaco. que avançasse na linha da frente contra a cavalaria. se tinha intenção de assistir ao combate. Cf.Diálogo sobre o Amor oh… envolve‑me em teus braços!139 Quanto a Cleómaco da Farsália. quando também os hoplitas bateram em retirada. pela altura em que a guerra Tessália contra as gentes de Erétria estava no seu ponto máximo140. mas gostaríamos de o ouvir contar. Ateneu 13. frg. que pôs frente a frente Cálcis e Erétria. cheio de orgulho. na primeira metade do séc.” “Vale com certeza a pena – disse o meu pai. os Calcidenses conseguiram 139 Sófocles. posto que o rapaz disse que sim. VII a. lançou‑se contra os inimigos com tal ímpeto que instaurou a confusão na cavalaria e a pôs em fuga. 410 Nauck2 da peça Níobe. 140 A anedota situa‑se no contexto da Guerra Lelantina. aliada de Cálcis.. Em seguida. homem de resplandecente coragem. estando em causa o domínio de Lelanto. Cleómaco era de facto o comandante de uma cavalaria da Tessália. Perguntou ele ao seu jovem amado. razão pela qual Apolo e Ártemis lhe assassinaram os filhos. depois de reunir à sua volta os mais valentes dos Tessálios. que estava presente.

e Filisto o do ser amado. ainda hoje se canta entre eles Rapazes. por seu lado142. A relação entre os Calcidenses e a pederastia chegou ao ponto de o verbo chalkidizein ser usado para aludir a essa prática. Quanto à pederastia. 141 90 . O seu monumento fúnebre. por essa razão. Cleómaco acabou por morrer. não recuseis aos valentes a companhia da vossa juventude! Pois. de facto. cheios de graças e da nobreza de vossos pais. o amante presentear o amado com uma armadura completa. acaso não era costume. Ainda assim. e que. que escreveu. exibem‑no os Calcidenses na ágora. um livro com esse título (em grego. considera que Cleómaco morreu doutra forma. 98 Rose) ou ao historiador homónimo de Cálcis (3B 723 FGrHist Jacoby). que até então era tida como desonrosa. floresce nas cidades dos Calcidenses. 144 A alusão deve ser ao poeta Dioniso de Corinto. 143 Carmina Popularia. também Eros.143 b Ánton seria o nome do amante. os Tebanos. 873 Page. depois de ter vencido os Erétrios na batalha. E entre vós. Ateneu 13. 142 Não se sabe ao certo se o texto alude ao filósofo (fr. 601e. na altura do seu registo entre os Cf. que deslaça os membros. com a coragem. Aristóteles. enviado desde a Eubeia para os auxiliar. como contou o poeta Dioniso nas suas Etiologias144. que o guerreiro a ser beijado pelo amado foi um dos Calcidenses da Trácia. Aitia).Plutarco 761a vencer por completo. Pêmptides. e sobre ele ainda hoje permanece erguida uma grande coluna. Fr. passaram a estimá‑la e honrá‑la mais do que qualquer outro povo141.

o registo entre os adultos ocorria aos dezoito anos. um elmo outro elmo147. 147 Ilíada 13. se sentem coagidos a demonstrar o seu apego ao perigo e o desprezo pela vida. amante e amado. 131. na lógica de que [Eros] é o único estratego invencível. Demóstenes 19. relembra o famoso “batalhão sagrado” dos Tebanos que. Estrabão (10. pois distribuía os Aqueus por tribos e clãs e não colocava o amado junto do seu amante146. depois do que se seguiam dois anos de serviço militar. 4. Esta prática de colocar lado a lado. 21) dá‑nos nota de um costume semelhante ao descrito no texto de Plutarco. Plutarco. acusando Homero de ser pouco versado no amor. para que daí resultasse que um escudo suportasse outro escudo. Pelópidas 18. no campo de batalha. cortou o polegar e desafiou um seu rival amoroso Em Atenas. Cf. Casos há em que. 602a. de nome Pâmenes. os familiares e mesmo. mesmo sem necessidade. tende a ser invencível. civis e políticas. Platão. mas em Creta. apoiando a mão esquerda sobre um muro e desembainhando a espada. os homens abandonam os companheiros de tribo. 561f. 230. 32‑34. 362. por força do amor. Banquete 8. Xenofonte.Diálogo sobre o Amor adultos?145 Alterou e modificou a norma dos hoplitas um indivíduo apegado ao amor. os pais e os filhos. após os quais o efebo estava apto a assumir a quase totalidade das funções militares. mas entre um amante inspirado pelo deus e o seu amado jamais algum inimigo se imiscuiu ou se interpôs. Esse o caso de Téron da Tessália que. Ainda assim. por Zeus. Ateneu 13. Moralia 618D. alguns cargos só podiam ser ocupados depois dos trinta anos. 215. Ilíada 2. Banquete 178e‑179a. 16. Na verdade. Cf. 146 Cf. 145 c 91 .

Aristómenes151.C. Eucnamo de Anfissa. que numa batalha tombara de bruços. quando o inimigo estava prestes a desferir‑lhe o golpe final. mas não a conservamos. Outro homem. E não apenas os povos mais belicosos são os mais versados no amor – Beócios. com efeito. VII a. até à data lhe prestam culto e o honram os apaixonados.C. 151 Herói da segunda guerra Messénica contra Esparta (séc. Sobre os seus costumes. que morreu enquanto lutava nesta última batalha. 150 Está em causa. a relação de proximidade entre Aquiles e Pátroclo. 153 Célebre general tebano. dado serem tantos.C. falar de todos os seus amores resulta em tarefa complicada. protagonista das vitórias de Leuctras (371 a. 29. o último dos quais morreu junto dele em Mantineia e tem sepultura a seu lado. n. 149 Herói mítico da Etólia. 152 Conhecido político e general ateniense. Címon 4. conhecido sobretudo por ter integrado a viagem dos Argonautas e a caçada ao javali de Cálidon. Aquiles150. 148 92 . de modo que o seu amado o não visse ser ferido pelas costas. Lacedemónios e Cretenses –. Este último. vide Plutarco. Plutarco terá escrito também a biografia desta figura. teve como amados Asópico e Cefisodoro.Plutarco d a fazer o mesmo148. Címon152 ou Epaminondas153.) e Mantineia (362 a.). No que diz respeito a Héracles. Por julgarem que Iolau foi amado por ele. Vide supra. mas também os heróis antigos – Melagro149. Asópico] foi de tal modo temido e implacável para com os inimigos que o primeiro a opor‑lhe resistência e a feri‑lo. 4‑10. obteve honras de herói entre as gentes da Fócida. pediu‑lhe que esperasse um pouco. uma vez mais. Não dispomos de qualquer outra fonte que nos permita saber mais sobre este indivíduo. [por sua vez.).

Laodamia 154 f 93 . neste ponto. E se também os mitos merecem algum crédito. 4. 8) volta a referir‑se ao amor entre Apolo e Admeto. para agradar a Admeto que. de facto. O próprio Plutarco (Numa 4. lutando com a Morte. era também amante seu155. considera que foi Héracles a conseguir tal feito. 24. sendo um dos mais clássicos exemplos de sacrifício da própria vida por amor. A opinião de Plutarco.156 e Em boa hora nos veio Alceste à memória. e mesmo à morte. o primeiro dos heróis gregos a morrer em Tróia. Eurídice e Orfeu157 ensinam que apenas a Eros. Eurípides.). 11 sqq. Dizem ainda que. 1) testemunham como o túmulo de Iolau em Tebas se tinha. entre Sobre a relação entre Héracles e Iolau vide supra. É que uma mulher não partilha em absoluto de Ares. mas a possessão de Eros condu‑la a uma coragem além da sua natureza.Diálogo sobre o Amor trocando sobre o seu túmulo juras de amor e promessas de fidelidade com os seus amados154. que a Admeto serviu por um longo ano. salvou Alceste quando esta estava já votada à morte. que alguns atribuem a Calímaco. Reza ainda a lenda que também Apolo foi seu amante. 155 Embora a versão mais antiga da lenda considere que Alceste foi trazida de volta à vida por Perséfone. 3. Protesilau. assume‑se como uma interpretação racionalista da lenda. Protesilau. baseada ao que tudo indica na tragédia euripidiana. na tragédia a que deu o título dessa heroína (vv. Diodoro Sículo (4. recebeu de Hades a autorização para abandonar o mundo dos mortos por um dia. os de Alceste. 754D‑E e nota ad loc. 23. embora amasse essa mulher. 1006‑1158). 29) e Pausânias (9. além de Calímaco (Hino 2. de modo a voltar a ver a esposa. 157 Alceste ofereceu‑se para morrer em lugar do esposo. convertido em santuário. por ser versado em medicina. 49‑54) e Tibulo (2. 156 Fragmento de um hexâmetro de autor desconhecido.

como diz Sófocles. 2‑3 Nauck2. desta feita irremediavelmente. 159 Esta atitude perante os mitos. entre a confiança e o cepticismo. 274. para os que são versados no amor. não resistindo à tentação de. mas tampouco deles desconfio completamente159. Luciano. existe um caminho de ascese do Hades para a luz. Por isso. respeita os apaixonados e apenas para com eles não é indomável ou implacável. 1077‑1079 von Arnim. vejo que quantos estão iniciados e celebram os 762a mistérios de Eros gozam no Hades de melhor sorte. olhar para trás para contemplar a amada – o que lhe havia sido proibido pelo deus –. Ora. não que eu esteja convencido pelos mitos. Ainda assim. falam bem e por qualquer sorte divina roçam a verdade quantos afirmam que. como que falhando o traçado que. apenas pela recta justiça mostrou afecto158. após a morte. Diálogos dos Mortos 23). no caminho. 158 Frg. e parece ser de inspiração estóica. que desceu ao Hades para resgatar Eurídice. primeiro entre os homens. No entanto. Fedro 69c‑e). com isso de novo a perdeu. Platão vislumbrou através da filosofia160. frgs. ter acesso à divindade (cf. perante os restantes. e que. está Hades sempre subjugado. embora desconheçam por onde e de que modo. 1. embora seja agradável iniciar‑se nos Mistérios de Elêusis. certas aporias subtis e obscuras da verdade encontram‑se imiscuídas na mitologia dos Egípcios. 2. Mais conhecido é o mito de Orfeu. nenhum favor ou graça conhece. meu amigo. 703. 94 . Cf. 160 Está implícita a tradicional concepção platónica da filosofia como a única iniciação que permite à alma.Plutarco os deuses. (cf. Pelo contrário. é comum em Plutarco.

Generoso. mesmo que antes fosse inconsequente. fundida a sua mesquinhez e avareza. torna o indivíduo astuto. e corajoso. ao deitar fogo às achas. 534e‑f ). de forma que se alegram mais em dar presentes aos seus amados do que em recebê‑los da parte deles. admirou‑se do benefício mais pequeno. como se costuma dizer. como o ferro por efeito do fogo. deixemos por agora isso de lado.Diálogo sobre o Amor embora careçam de um investigador hábil e capaz de retirar grandes conclusões de pequenos indícios. também citado por Platão (Banquete 196e). de maleáveis que eram. Dito de outro modo. 663 Nauck2 da Estenobeia. Eros o ensina. o covarde. Frg. embora Eurípides fosse um indivíduo versado no amor. Isto porque. ao afirmar: é que ao poeta. filho de Antémion162. 162 O episódio é também relatado por Plutarco (Alcibíades 4. mesmo que antes ignorasse de todo as Musas. e depois de termos percebido quão grande é o poder de Eros. Conheceis com certeza o caso de Ânito. Estando o rapaz apaixonado por Alcibíades. mas se concede benefícios melhores e em maior número aos próprios amantes. 4‑6) e Ateneu (12. as tornam duras. discutamos não se providencia muitos bens aos seres amados – que esses são sobremaneira óbvios para toda a gente –. gentil e nobre se torna todo e qualquer amante. averiguemos a sua bondade e benevolência para com os homens. 161 c 95 . como aqueles que. ainda que antes fosse malvado. Como tal.161 b Com efeito.

a maior parte das pessoas age de modo contraditório. ao invés. ao que parece. 163 Foi Ânito quem instaurou contra Sócrates o processo de impiedade e corrupção da juventude. o mesmo Alcibíades irrompeu desvairado pela sala. mas ainda nos deixou estas!»” 18.Plutarco numa altura em que oferecia um magnífico banquete a uns hóspedes seus. No entanto. 164 Certame entre Homero e Hesíodo 274. – disse o meu pai. se de facto ele era tão amável e generoso no que toca ao amor. o brilho da luz numa casa. – Mas não é verdade que. mais radiante parece uma casa164. foi até bem amável. disse Zeuxipo na brincadeira: “Por Héracles! Por pouco punha termo ao meu ódio antigo contra Ânito. Se vêem. consideram‑no algo divino e ficam espantados. e pôs‑se a andar. Indignados. durante a noite. que culminaria com a morte do filósofo em 399 a. 96 . «Nada disso.C. Nisto.” “Assim seja. os hóspedes iam dizendo: «com insolência e soberba te tratou o rapaz». com quantos Eros convive. – respondeu Ânito – «é que podia ter levado todas as taças consigo. quando se acende o fogo. d e também um indivíduo. tomando da mesa praticamente metade das taças de vinho. pela sua atitude em relação a Sócrates e à filosofia163. fica mais brilhante por efeito do fogo do amor. de mal‑humorados e rabugentos os torna mais benevolentes e afáveis? Com efeito. também citado em Moralia 100D.

não cuidando de quase tudo o resto. nobreza. É conveniente. não sentem a obrigação de dizer como Telémaco: Está por certo presente algum deus165. Com efeito. 11. a sua bravura é destruída e em pedaços se desfaz o orgulho da sua alma. não se admirando nem se preocupando com nada. acobarda‑se como um galo vencido. não é algo maravilhoso? Um indivíduo apaixonado. encher‑se de repente de sensatez. 40. os Romanos contam que o filho de Hefestos.Diálogo sobre o Amor se vêem uma alma mesquinha. dos arcontes e dos reis. também citado por Plutarco em Alcibíades 4. 17 Nauck2). 184‑275. graça e generosidade. de asa caída167. não temendo. Píticas 1. lançava torrentes de fogo e chamas da sua boca168. vil e sórdida. não apenas dos companheiros e dos familiares. e Também isto. liberdade. e da mesma maneira aquela grita palavras verdadeiramente misturadas com fogo e pelos seus versos expressa o ardor do seu coração. trazer à memória Safo. 165 166 f 97 . pelas Graças. Caco. capaz mesmo de resistir ao agudo raio166. na morada das Musas. 3 e Pelópidas 29. 5. Píndaro. Odisseia 19. mas também das leis. Dafneu – ia dizendo –. ao pôr os olhos num moço bonito. 168 Lenda contada por Virgílio. 167 Frínico (frg. Eneida 8.

Dafneu deveria recitar o conhecido frg. Moralia 622C. 170 Platão (Fedro 235) refere‑se nesses termos à poetisa de Lesbos. se por influência de Lisandra ainda não te esqueceste por completo dos amores de outrora. 173 A flauta (aulos) e os instrumentos de percussão costumavam acompanhar os ritos orgiásticos de Diónisos e Cíbele. 4. muitos são os que vêem um mesmo corpo e uma mesma beleza. 822 Page atribuído a Filóxeno de Citera. mas apenas um dela fica cativo – o que está apaixonado. ao pôr os olhos na amada. Calímaco. poeta cultor do género ditirâmbico (c. que das suas canções apenas se servia para consolar as saudades da ninfa que o abandonara. a Polifemo. Cf. n. recorda‑nos lá esses versos nos quais a bela Safo170 conta como. 763a b como diz Filóxeno. 172 Vide supra. Frg. no original. em jeito de resposta: “Por Zeus.” Depois de Dafneu ter recitado esses versos […]171. 150 e Teócrito 11. como acima se referiu (758E‑F). não é este um claro exemplo de inspiração divina? Não é isto uma perturbação sobrenatural da alma? Acaso é tão intensa a perturbação da Pitonisa quando sobe para a trípode172? A algum dos que estão possuídos pelo deus. disse‑lhe o meu pai. 435‑380 a. o corpo se lhe incendeia e de si toma conta a palidez. Dafneu. a voz se lhe embarga. Plutarco. 171 Na ainda longa lacuna que os manuscritos apresentam. acaso a flauta. texto que haveria de ser imitado por Catulo no igualmente famoso Carme 51. Epigrama 46 Pfeiffer = Antologia Palatina 12. 169 98 . 31 Lobel‑Page de Safo. O verso citado pertenceria ao poema Ciclope e Galateia e referir‑se‑ia. 115.Plutarco com as Musas de bela voz curando o seu amor169. também citado em Moralia 81D e Demétrio 38.C.). os mistérios da deusa Mãe ou o tamborim o alienam dessa forma173? Com efeito. No entanto. o desvario e a vertigem.

tudo o que nos chega ao pensamento por outra via que não a sensação. os que a clamorosa travessia de Aqueronte iludiram. leva ainda dentro de si uma ferida174. Ora. que concordaram todos que existem deuses. mas já que agora me vem à boca. natureza e poder. mas diferiam muito entre si quanto ao seu número. 143 Snell‑Maehler. no fundo. Possivelmente. meu amigo. os legisladores e. não me parece que deva deixá‑lo por dizer. foram nossos guias e mestres os poetas. em terceiro lugar. quando em certa parte diz: É um momento crítico para a alma esta doença: ao ser atingida. isentos de penas. pela lei ou pela razão. o responsável. Na verdade. 174 175 99 . os deuses dos filósofos são aqueles que não conhecem a doença ou a velhice. como dizia Ésquilo175. Eis o que teria sido melhor dizer no início. Mas é o deus. 176 Píndaro. 791. 7‑8 K‑A. os filósofos.176 c É por isso que não consentem as Discórdias nem as Súplicas dos poetas. 351 Nauck2. pois que é de toda a importância. frg. quanto à opinião sobre os deuses. nem querem reconhecer o Medo Frg.Diálogo sobre o Amor Por que há‑de isso ser? É que não compreendemos nem sequer concordamos com Menandro. ele que fere um e perdoa outro. Frg. desde o início lhe damos crédito seja pelo mito. hierarquia.

os poetas e legisladores. respectivamente. uma boa. 178 Frg. as suas opiniões são extremamente distintas e contraditórias. Quanto às Súplicas (Litai). como tal. que se mantinham em confronto e divergiam entre si. Os testemunhos conservados atestam que Xenófanes terá procedido à crítica da representação antropomórfica dos deuses pelos poetas. um pouco como fez Xenófanes178 ao aconselhar os Egípcios a que. entidades ou espíritos181. 179 Os Platonistas. 119. 299 e 15. mas em seguida. Há quem defenda que foi na segunda metade do séc.C. no passado. se ao invés o consideravam um deus. Como. se de facto consideravam Osíris mortal. filhas de Zeus – que. os Parálios. Por seu turno. é protector dos suplicantes –. os entregaram todos a Sólon e o elegeram em concordância mediador. Numa palavra.). que se constituíram na Ática estas 177 100 . chegando a um consenso e unindo os seus votos. arconte e legislador182 – pois lhes parecia que era As Discórdias (ou Érides) surgem deificadas em Hesíodo (Trabalhos e Dias 11‑26). havia em Atenas três facções. mas. os Epácrios e os Pedienses. 180 Os Pitagóricos. não deviam venerá‑lo. em 23. surgem na Ilíada 9. vemos ainda a personificação do Medo (Deimos) e do Temor (Phobos). algo que Platão aproveitaria (República 2. outra má. então não deviam chorá‑lo. 377d sqq. 181 Os Estóicos. perante os filósofos que consideram deuses determinadas ideias179. números180. No mesmo poema. 502‑512. 21A 13 D‑K.Plutarco d e e o Temor como deuses e filhos de Ares177. VII a. não suportam ouvi‑los nem conseguem compreendê‑los. 182 A interpretação da origem e significado destes termos é muito discutida entre os estudiosos. Em muitos aspectos entram em disputa com os legisladores.

n. baseadas nos interesses económicos dos povos da costa (paralioi). Relatos de Amor. Para nós Eros – rei. não está presa por correntes que não são de bronze186. também recolhido em Moralia 96C. e em concordância inscrevem Eros entre os deuses os mais nobres dos poetas. arconte e harmosta185 –. 348 Lobel‑Page. enfeitado. embora pensem de maneira distinta. da montanha (epakrioi) e da planície (pedieis). 101 f . impondo a necessidade três facções.Diálogo sobre o Amor indiscutivelmente detentor da mais elevada virtude –. 186 Frg. Estão em causa os cargos de chefia das três formas de governo tradicionais. legisladores e filósofos.C. como Alceu183 dizia acerca de Pítaco184. por comum acordo. 185 Sobre o harmosta. com voz uníssona muito o exaltando. vide infra. ao contrário do que diz Eurípides. caminha entre inúmeras parelhas de amor e de uma união que. Cf. Integrava a lista dos sete sábios da Grécia. 184 Ca. respectivamente. Constituição dos Atenienses 5‑13. a democracia e a oligarquia. para nós perdida. 595 Nauck2 da tragédia Pirítoo.C. data de 594 a. desce coroado do Hélicon à Academia e. 650‑570 a. Sólon 13‑19 e Moralia 805D‑E. do mesmo modo as três facções no que respeita aos deuses. 482A e 533A. Platão e Sólon. na qual também se contava o nome de Sólon. que os Mitilénios elegeram para seu tirano. 22. Aristóteles. apenas no que toca a uma divindade estão firmemente de acordo. A reforma de Sólon que teria posto fim a esta divisão. Plutarco. 183 Frg. entreguem cada uma o seu voto a um deus diferente e não aceitem com facilidade o deus da outra facção. sob a alçada de Hesíodo. a monarquia.

já pela segunda vez. depois de referires a par. Platão e os Egípcios. conhecem dois Eros. meu amigo. o Popular (Pandemos) e o Celeste (Ouranios)191. que Hesíodo. começa a ser aflorada. acerca das quais outros deram melhor testemunho do que eu. sobretudo no Banquete e no Fedro. não o contes189. apresentava como naturais do Hélicon. também válida para Afrodite. 190 Supra. deixaste‑os de lado. ou antes. não sei como te distancias e retrocedes de forma brusca. disse o meu pai que os Egípcios. nota 1. Ora. vindo parar ao mesmo assunto. é desenvolvida 102 . A teoria platónica sobre o amor. Ficaremos satisfeitos mesmo que ouçamos apenas breves apontamentos sobre assuntos de tal envergadura. o que foi dito com clareza188 por Platão. mesmo que to peçamos.” Como também os restantes lho pedissem. 187 Platão. o espaço dramático deste diálogo.187” 764a b 19. interrompendo sem razão – se é que devo dizer o que penso – um discurso que é sagrado? Na verdade há pouco. que será desenvolvida adiante. e agora voltas a fazê‑lo. No entanto. Tendo assim falado o meu pai. tal como os Gregos. Vide supra. deusas tutelares tanto da filosofia como da poesia. como que sem intenção. na Teogonia. não te ficaria bem não o desvendar ou deixar de no‑lo explicar. Fedro 235d. 191 Esta distinção. 762A. pelas deusas deste lugar por intermédio de Platão. Plutarco refere‑se às Musas. 453. antes é alada e nos transporta para junto das entidades mais belas e divinas. que coincide com as teorias platónicas sobre Eros. 188 Odisseia 12. disse Soclaro: “Vês como.Plutarco fria e pesada de um serviço coberto de vergonha. o que disseste acerca do mito dos Egípcios190. 189 Citação de Platão.

Estava muito difundido no Egipto greco‑romano o culto de Afrodite‑Hator. considerando‑o. 663 von Arnim). O que do último procede garante ao corpo alimento. como pretendem alguns. e sabemos também que os Ptolomeus mandaram erigir um santuário em honra de Afrodite Urânia. do mesmo modo Eros. 194 Cf. Diógenes Laércio 7. 192 Suplemento de Hubert. Eros é assimilado ao Sol e a Osíris (cf. Platão. Quer o primeiro significar o amor carnal.Diálogo sobre o Amor admitem ainda um terceiro. 2. Moralia 374C). nem o carácter de uma alma falha de instrução suporta por Platão no Banquete (180d‑182a). mortal e instável. Plutarco. Como o sol que ressurge por detrás das nuvens e depois da neblina é mais quente. 193 Comum nas metáforas poéticas. ao passo que Afrodite se relaciona com a Lua. Moralia 367E. como acerca do sol alguns pensam que se acende e apaga195. Finalmente. 144). 195 Referência e crítica aos Estóicos. 103 c . o mesmo pensam acerca de Eros. 22B 30‑31. reconciliado que esteja com o ser amado. 22A 1 D‑K) e dos Estóicos (cf. De resto. Nenhum deles. bem vemos que é grande a semelhança entre Eros e o sol. 652. e o que procede do primeiro [tudo isso garante] às almas194. República 6. para quem o sol se alimenta do elemento líquido. 509b. luz e energia. depois da cólera e dos ciúmes. 145). “Pela nossa parte. Cf. é fogo193. e têm Afrodite [– que por sua vez identificam com a lua e a terra –]192 por muito digna de veneração. desta forma. condenada neste passo. assim se acendendo e extinguindo (frgs. desde logo. Hator e Ísis. 400A‑C e Diógenes Laércio 7. ao passo que o segundo tem uma acepção mais espiritual. o Sol. deve aludir antes às doutrinas de Heraclito (frgs. nem a constituição de um corpo não treinado consegue suportar o sol. Na identificação dos deuses gregos com os do panteão egípcio. é mais agradável e intenso. antes luz e calor doce e fecundo. a associação do sol ao fogo.

morada do imortal e do mortal196. Cada um deles fica igualmente perturbado e adoece. mas quantos a identificam [com a lua] conseguem de facto alguma analogia: é que ela é ao mesmo tempo terrena e celeste. relembramos. desdenhando as restantes. Pois o corpo não é o mesmo que a alma. De resto. 659A. no facto de o sol mostrar em igual medida. 199 Começa a introduzir‑se. Apenas no seguinte pareceria que são distintos. a lua tinha. que ocupará Plutarco de seguida (764E‑766B). impotente por si mesma e assombrada quando o sol não a banha de luz. contudo. assenta na associação entre prazer e amor. 434F. para os antigos. por via dos termos utilizados. 198 Isto porque a associação tradicional entre os Gregos era do Sol com Apolo e da lua com Ártemis. Com a terra. atribuindo a culpa ao poder do deus e não à sua própria fraqueza. o belo e o feio. o próprio Plutarco a segue em outros momentos (Moralia 386B. sem que. senão outra coisa. 197 Ideia já referida em mais do que uma ocasião (756E. a discussão da doutrina platónica do amor. 400D. 196 104 . mais do que com quaisquer outros deuses198. a quem tem vista. sejam completamente semelhantes. tal como Afrodite. Cf. 1130A). ao passo que Eros apenas ilumina as coisas belas e incita os apaixonados a olhar e a virar‑se exclusivamente para elas. Moralia 416E.Plutarco d Eros sem sofrimento. 433D‑E. 393C‑D. quando Eros não lhe dá assistência197. [dir‑se‑ia que Afrodite] em nada [se parece]. Talvez por apresentar diversas fases. Plutarco. como também o sol é visível (horaton) e Eros inteligível (noeton)199. 759E‑F) que. 935A sqq. esta dupla natureza. É por isso evidente que a lua se pareça com Afrodite e o sol com Eros.

apenas através dos sonhos abraça e contempla o supremo Belo o supremo Divino. a verdadeira realidade da alma está aí. parece que o sol nos turba a memória e nos enfeitiça o pensamento. Loucamente apaixonados nos mostramos [por qualquer coisa que brilhe cá] sobre a terra200. e inspirando‑nos a procurar nele mesmo e à sua volta a verdade e tudo o resto. Ainda assim. enfeitiçando‑nos com a graça e o resplendor da visão. É que o primeiro volve o nosso entendimento do inteligível para o sensível. por não termos experimentado outra vida201. tudo o que vimos durante os sonhos abandona a nossa alma e se dissipa. 105 . f 200 201 Hipólito 193‑194. quando nascemos para este mundo e mudamos de condição. do mesmo modo.Diálogo sobre o Amor Não parecesse chocante dizê‑lo. Ou dito de melhor forma. como quando despertamos em frente de uma luz intensa e radiante. os conhecimentos que antes tinha. fazendo‑o esquecer. afirmar‑se‑ia mesmo que o sol actua ao contrário de Eros. por esquecimento daquilo de que Eros é reminiscência (anamnesis). por via do prazer e do espanto. ao passo que. ao redor dessas coisas. e nada em qualquer outro lugar. Com efeito. Hipólito 195. [desde que chega] a este mundo. e como diz Eurípides.

106 . puro e sem enganos. também expressa em Moralia 393D. do Hades para o terreno da verdade203. convencida de que neste mundo reside todo o belo e o estimável. e a quantos desejam há muito tempo reencontrá‑lo e unir‑se a ele. 202 Fragmento de autor desconhecido. inflamada desde o início por tais realidades. estimula a nossa memória. 203 Platão. que alguns atribuem a Calímaco. brilhantes com o resplendor da juventude e pouco a pouco. cubos e dodecaedros. Está em causa a ideia de que o sol provoca na alma um reflexo enganoso da realidade inteligível. por meio destes reflexos. quando uma vez mais somos recambiados para este mundo. Como os geómetras. por intermédio das 765a formas corpóreas. moldam imitações tangíveis e visíveis de esferas. divinas. compondo‑as. perturbáveis e sensíveis. Eros não consegue relacionar‑se com a alma em si mesma. tal qual um sacerdote que preside a um ritual de iniciação. comparece como seu guia no caminho para a verdade. onde reside o Belo autêntico. Fedro 248b. No entanto. cores e aspecto. mas sim por intermédio do corpo. [imperturbáveis] e inteligíveis.Plutarco Sobre ela amáveis sonhos enganosos são derramados202. das realidades belas. médico e salvador. para crianças ainda incapazes de por si mesmas se iniciarem nos conceitos abstractos da substância incorpórea e imutável. ainda que mortais. a menos que encontre o divino e prudente Eros. Eros os escolta e eleva benevolente. nas suas formas. da mesma maneira o Eros b Celeste providencia imagens belas. ele que.

311 Usener). como as abelhas deixam para trás muitas plantas verdes e em flor por não terem mel. se conservam alguma centelha do divino. como alguém disse204.Diálogo sobre o Amor É por isso que alguns. tal como numa planta que germina e cresce. uma agitação que leva à formação de esperma por via do deslizamento dos átomos suavemente oprimidos e excitados. sem artifícios. em sua razão consequente acompanhada de pudor. Cf. 766E e Lucrécio. 204 c d 107 . tentando pela força e sem razão pôr cobro à paixão. Referência a Epicuro (frg. eliminaram o furor da paixão e deixaram na alma uma luz radiante. quantos. por obra de palavras e acções. Mas. 1041 sqq. A não ser assim. qualquer emanação sua ou semelhança sedutora. Da Natureza das Coisas 4. devido à ignorância dos amigos e dos familiares. em não muito tempo. acedem ao seu íntimo e alcançam o mais profundo do seu carácter. indo mais além do corpo dos seres amados. nada de útil conseguiram além de se encher de fumo e perturbação ou entregar‑se a prazeres obscuros e ilícitos. abrindo caminho à complacência e ao afecto – esses. com isso se perdendo de modo vergonhoso. Pelo contrário. acompanhada de calor – que não provoca. mas antes uma dissolução espantosa e fecunda. inspirados pelo prazer e pela admiração que isso lhes provoca e em atitude de veneração. como de um fogo. envolvendo‑o em cuidados. desde que conservem no pensamento um resquício ou uma imagem do Belo. contemplam as visões que lá descobrem e estabelecem com eles uma união profunda. renegam‑nos e viram‑se para outros.

206 e A menos que os gramáticos vos tenham convencido. 206 Alceu. alegoria que Plutarco recupera em Moralia 374C‑D. 253a e Banquete 210d). frg. é uma 205 A inspiração para este largo passo parece colhida em Platão (Fedro 250a‑b. sem dúvida. pois assim me obriga a falar a evidência. no Banquete (203b‑204a). fosse pela ajuda divina. 327 Lobel‑Page. unida ao Zéfiro de cabeleira de oiro. o que Íris de belas sandálias gerou. Destas referências. mensageira dos deuses. bem‑aventurado. uma diz respeito ao seu nascimento: O mais terrível dos deuses. fosse pela sua inteligência e raciocínio. e poucas coisas sérias disseram que roçassem a verdade. por todos querido e desejado205. até porque ele é o único testemunho conservado que apresenta Eros como filho de Íris. Platão conta o nascimento do deus a partir da junção de Poros (o Recurso) e Penia (a Pobreza).” Ao que Dafneu replicou: “Mas a que outra coisa podem eles aludir?” “Prestai atenção – disse o meu pai –.Plutarco sentem prazer na recordação e de novo se inflamam perante esse encanto verdadeiramente amável. Tanto mais que. 20. A sensação que experimentamos ao ver o arco‑íris. A maior parte das vezes parece que os poetas escrevem e cantam acerca do deus como se brincassem com ele ou o gozassem. quando dizem tratar‑se de uma imagem referente ao que há de variegado e florido no amor. o vento do Oeste. É curioso que Plutarco cite este texto de Alceu. e Zéfiro. 108 .

a maior parte das pessoas. que desejam segurar nas mãos o arco‑íris. para o Belo divino e inteligível. 208 209 Inspirado em Platão. produz‑se a ilusão de que tal f imagem brilhante provém da própria nuvem207. Ora. 109 . Cf. ele que. até esse Belo verdadeiramente divino. bem‑aventurado e admirável. Íxion. seduzidas pela sua aparência. trata‑a 207 921A. quando a luz do sol incide suavemente sobre uma nuvem húmida. ainda Moralia 358F e Outro símile de inspiração platónica: Fedro 255d. dá‑lhe as boas vindas. deitou‑se com uma nuvem que Zeus forjou à imagem da deusa sua esposa. amável. Fedro 255c. Desta união nasceria a estirpe dos centauros. como num espelho208. muito semelhante é a habilidade e o artifício de Eros em relação às almas nobres e amantes do Belo: produz nelas como que uma refracção da memória.Diálogo sobre o Amor refracção. lisa e de espessura moderada. geralmente aceite por editores e tradutores. Quando se depara com a beleza visível de um corpo e a usa como instrumento para despertar a memória. E o mesmo vale para as crianças. perseguindo e palpando o reflexo dessa beleza em rapazes e mulheres. como vemos o seu brilho refractado na nuvem. Essa luz toca‑a e divide‑se e. a partir do que neste mundo tem a aparência e é dito belo. buscava sempre o objecto ilusório do seu desejo. E parece consistir nisto 766a a vertigem e o desvio [de Íxion]209. não consegue obter nada mais seguro do que uma mistura de prazer e dor. na tentativa de seduzir Hera. Correcção de Winckelmann. No entanto. Outra é. a atitude do amante nobre e sensato: é para lá que se move por refracção. tanto em nuvens como entre sombras. contudo.

não permanecem quietos. celebra os mistérios. quando chega a esse lugar e priva com os entes belos. depois da morte. É que o verdadeiro apaixonado. em contacto com as formas corpóreas. desejando e contemplando essa luz. como é de lei. 210 211 110 . castigando os insensíveis e os orgulhosos. agrada ser honrado pelos homens211. ganha asas. Fédon 81a‑d. como diz Eurípides. Cf. quando estão neste mundo. adormecido. tal como aos restantes deuses. Além disso. a Eros. dança sem parar lá em cima em redor do próprio deus e acompanha‑o. 7‑8).Plutarco b c com afecto e. quando para lá se mudam. Pois. do mesmo modo que. na sua companhia. Nem mesmo o deus Hospitaleiro212 persegue e vinga tão rapidamente as injustiças feitas a hóspedes e suplicantes. tampouco se escapam e para cá regressam para rondar as portas e os aposentos dos recém‑casados. 212 Zeus. e também o contrário o irrita. nem o deus Familiar as maldições dos pais. dar início a uma nova existência210. como aos amantes preteridos Eros atende num ápice. Platão. Mas tudo isto – disse – leva‑nos além dos nossos propósitos para esta conversa. alegremente se inflama ainda mais em seu coração. Citação adaptada – possivelmente de memória – do prólogo do Hipólito de Eurípides. Pois ele é o mais benevolente para quantos o acolhem de bom grado e duro para quantos se mostram arrogantes para consigo. como assombrações angustiantes de homens e mulheres amantes do prazer e do corpo. que injustamente recebem o nome de apaixonados. até de novo regressar às pastagens da Lua e de Afrodite e. proferido pela deusa Afrodite (vv.

Quanto a Gorgo. não se considerava indigno de coisa alguma. 215 O termo epitropos diz respeito a um encarregado ou procurador legal. portanto provavelmente um ‘tutor’ oficial da jovem. Estrabão (10. que sofreu sorte semelhante à de Paraciptusa. apesar de ter inúmeros e valorosos rivais ao seu amor. por compatibilizar o texto de Plutarco com as restantes fontes disponíveis.Diálogo sobre o Amor De que serve referir Euxínteto e Leucócomas213? De que serve referir aquela que. a única diferença é que a primeira foi transformada em pedra quando se inclinava para ver o cortejo fúnebre do homem que amava. 214 Paraciptusa significa. e tem sido relacionada com a estátua de Afrodite Paraciptusa do templo de Salamina. A história é contada nas linhas seguintes do diálogo. os participantes abandonam o 213 d 111 . Embora tivesse caído de uma posição ilustre para uma outra. o amante de Leucócomas recebe o nome de Prómaco. Na versão de Cónon (Histórias 16). a Cretense. jovem ponderado e de uma linhagem ilustre. geralmente aceite. adiante. era muito concorrida e desejada –. por analogia com a de Gorgo. 216 Apesar de os manuscritos que transmitem o Diálogo sobre o Amor não apresentarem qualquer lacuna. humilde e baixa. ao que parece. em termos legais. pediu‑lhe que fosse sua esposa. em Chipre. 12). antes. os passos 767C e 769E‑F). Cf. pela sua riqueza. ainda hoje recebe o nome de Paraciptusa214? No entanto. à letra. Zeuxipo ter‑se‑ia insurgido contra o amor conjugal (como parecem denunciar. depois de ter convencido todos os tutores215 e os familiares da rapariga. “a que se inclina”. Antes ou depois desta intervenção.. parente que era de Gorgo – que. ao que se supõe) da história de Gorgo e Asandro. apaixonou‑se por um tal de Asandro. Terminada a narração. o que poderia indiciar.216 Traduzimos a lição de Rohde. é possível que não conheceis o castigo de Gorgo. E assim.. falta o desenlace (feliz. que ela seria órfã ou não teria outro familiar adulto que fosse por ela responsável. 4.

O diálogo é retomado no momento em que Plutarco refuta as acusações de Zeuxipo contra o amor conjugal. a explicação de filósofos atomistas como Leucipo. para quem todas as sensações se explicavam pela emanação de imagens dos objectos externos que entram em contacto com os órgãos sensitivos. neste ponto. 217 Plutarco recolhe. provavelmente. filósofo estóico do séc. como dizia Aríston218. ao ponto de moverem e estimularem a massa que. III a. pelas quais a alma ganha asas. a mesma regra vale para o desejo sexual. o que impede que provenham tanto de rapazes como de adolescentes. acaso é possível que possam emanar apenas dos rapazes e que não possam emanar também das mulheres? E essas a que chamamos reminiscências belas e sagradas do Belo divino. Além disso. verdadeiro e olímpico. as que dizem ser as causas e motivações de Eros. Demócrito ou Epicuro e a sua escola. Ora. segundo a teoria já desenvolvida acima (705C). da mesma maneira que um calçado adequado mostra a elegância natural de um pé. de donzelas como de mulheres. com os demais elementos. antes comuns a ambos. sempre que um carácter puro e disciplinado se torne notável na beleza e na graça de um corpo. sempre que em belas formas e corpos sem mancha contemplam as centelhas de uma alma – esplêndidas.C. penetram nos apaixonados e percorrem os seus corpos. desliza num fluxo de esperma217. quanto às imagens que. sem dúvida. 218 Refere‑se. que terá composto umas Diatribes acerca do Amor. 112 . 1. não são exclusivas de um ou outro sexo.Plutarco e f 21. 390 von Arnim). seguras e indestrutíveis – os que são capazes de tais percepções? santuário no Vale das Musas e dirigem‑se a Téspias. a Aríston de Quios (frg. onde terminará a conversa. Na verdade.

lado a lado. 221 Xenofonte (Ciropedia 10. Ora. o indivíduo que ama o prazer. como entre as suas roupas. que podem pertencer a uma comédia (frg. sobretudo as fêmeas. Mas o indivíduo que ama a beleza e a virtude. O mesmo valor seria reconhecido às fêmeas caninas da Lacónia. ao invés de julgar que. também há diferenças entre os amores de mulheres e de homens? 219 Dois trímetros iâmbicos de autor desconhecido. Menelau atrela um carro. 355 Nauck2). a Ete e ao seu próprio cavalo. 360 Kock) ou a uma tragédia (frg. 767a parece que respondeu de forma coerente com o seu desejo. 295. 1) e Aristóteles (História dos Animais 608a 27) testemunham a fama que os cães de Creta tinham na Antiguidade. a égua de Agamémnon220. não há‑de ser justo e imparcial em face de ambos os sexos. Os dois versos voltam a ser citados em Moralia 34A. (Esparta) 113 . e ele responder para onde quer que resida a beleza. há‑de ele escolher os seus amores levando em conta não a beleza ou as qualidades naturais. Podargo. se lhe perguntarmos se mais para mulheres ou que para homens se inclina. um caçador não tem preferência em criar apenas machos. o indivíduo que ama a beleza e a raça humana. Neste passo. antes a diferença de sexo? Tampouco um homem aficionado em cavalos aprecia menos as qualidades naturais de Podargo do que as de Ete. mas também cria cadelas de Creta e da Lacónia221.Diálogo sobre o Amor Com efeito. 220 Ilíada 23. ambidextro que sou219.

c Ora. mas não são capazes de impulsionar ou provocar o amor? Nem uma nem outra afirmação é lógica ou verdadeira. frg. por diversas vezes. Dafneu. 222 114 . mas à força de o ouvir. 224 Os Epicuristas. combatamos esses argumentos que Zeuxipo ainda agora expôs. Uns. se de um carácter desenfreado. 3 . como quem apresenta [uma defesa] comum a ambos. não que ele próprio disso estivesse convencido. que concediam um lugar de destaque ao prazer na sua doutrina. licencioso e corrupto se patenteiam os indícios no aspecto de uma mulher. Estes versos são também citados. 223 Frg. 130. é absurdo afirmar que a mulher não produz essa flor nem manifesta uma tendência natural para a virtude. nos quais aproximava Eros de um desejo desenfreado que arrasta a alma para o desvario. a homens intratáveis e pouco versados no amor224. atraídos pelos dotes insignificantes de Crisipo. 1‑2 Nauck2.718 von Arnim. com variantes. citado por Diógenes Laércio 7. 243. De resto. posto que ficou demonstrado que tudo é comum a ambos os sexos. em Moralia 81D. que a beleza é a flor da virtude222.Plutarco b Se é verdade o que dizem. como é que de um carácter decente e sensato nenhum brilho há‑de patentear‑se na sua figura? Ou há afinal muitos [indícios] que se manifestam exteriormente. Mas agora. foi com acerto que Ésquilo disse: da mulher jovem a mirada ardente não me consegue esconder que acaba de experimentar o amor de um homem223.

como por efeito do tempo e da convivência acaba por criar‑se o mútuo afecto. Banquete 191c. recusando sequer pensar em ser dois. Aqueles que Eros [de repente] invade e inspira. não lhe devotam cuidado nenhum nem consideram digno amar ou ser amado. após fecundarem em menos de nada qualquer corpo que encontrem e de recolherem o seu fruto. 228 Máxima de origem pitagórica. Cf. fazendo desaparecer a individualidade dos seus corpos. mas apenas entre aqueles que. Da Natureza dos Animais 5. lutando com elas. 227 República 5. mais ávidos de filhos do que de mulheres. empurram‑nas com a sua riqueza para a administração da casa e para sórdidas contas e. Trata‑se de considerar o meu e o não meu semelhantes. Pois não é de forma simples que tudo é comum entre amigos228 [ou entre todos]. outros. 462C. logo dizem adeus ao casamento.Diálogo sobre o Amor mulherezinhas miseráveis. Símile colhido em Platão. 225 d e 115 . com efeito. 556a‑b. caso ele perdure. 10). a acreditar no testemunho de Diógenes Laércio (7. são eles os primeiros a compreender. ou. porquanto a cidade platónica excluía a propriedade individual. Aristóteles. A alternância apenas numa letra entre stergesthai (‘ser amado’) ou stergein (‘amar’) e stegein (‘proteger’)226 parece‑me revelar. dia após dia. unem as suas almas e fundem‑nas com vigor numa só. Em termos etimológicos. que depositam o sémen numa cebola ou em algo parecido225. os termos não parecem ter qualquer relação. têm‑nas sempre à mão. como as cigarras. 226 A comparação de Plutarco é meramente fonética. da cidade de Platão227. desde logo. as noções de meu e não meu.

frg. Assim que a tocou o amor de Hipóloco da Tessália. que foi muito disputada num mar e no outro230. a fidelidade mútua.Plutarco Além disso.229 f está sempre nas mãos dos esposos. torna‑a atenta a um único ser. que tem mais de imposição exterior das leis do que de voluntária. e de muitos lemes também. também citado por Plutarco em Alexandre 7. 785 Nauck2. se acaso toca ao de leve numa alma desvairada. que incendiou de desejo a Hélade ou. decoroso e fiel que. o Egeu e o Iónico. A cidade banhada por dois mares. Uma vez aí232. 232 Na Tessália. escapando às ocultas [ao numeroso batalhão] dos outros amantes e ao grande exército [de cortesãs]. suprimindo a sua ousadia e vergando a sua altivez e amargura. 231 Adaptado de Eurípides. da qual o casamento acima de tudo necessita. as Sófocles. 230 Laís foi já referida acima (750D). de muitos freios a obra. faz com que ela se afaste dos demais amantes. 1084 Nauck2. deixando para trás Acrocorinto. que as verdes águas banham231. vestindo‑a de uma aparência modesta. Mas Eros é de tal modo dono de si. frg. é Corinto. melhor. de onde era natural essa cortesã. subjugada ao decoro e ao medo. 229 116 . infundindo‑lhe pudor. Ouvistes sem dúvida falar dessa Laís. silêncio e tranquilidade e. tão celebrada em cantos e tão amada. no entanto. 768a partiu coberta de honra.

Desta forma. sempre que um ditador é proclamado. levaram‑na para o santuário de Afrodite. segundo consta. mais facilmente suportaria os amplexos de ursos e serpentes do que o contacto com outro homem e a partilha do seu leito. os compatriotas e participantes no cortejo do deus233. Do mesmo modo. participantes no thíasos de Diónisos. movidas pela inveja e pelo ciúme.e. em Roma. Por isso. que aí tinha o seu santuário. os habitantes de Téspias. onde dizem que. uma vez unida a um marido legítimo por obra de Eros. perdem os cargos os que ocupam as demais magistraturas. como os servos de um templo. Sabemos também do caso de simples criadas que recusaram unir‑se aos seus patrões e de homens comuns que preteriram rainhas. Pese embora a abundância de exemplos. onde se celebravam as festas em honra de Eros. também de quantos Eros se torna o soberano ficam livres de outros patrões e senhores. ainda hoje lhe chamam santuário de Afrodite Homicida. lapidaram‑na e deram‑lhe morte. a mulher que seja nobre. O texto alude aos assim designados thiasotai. 22.. uma vez que a Eros tinham como soberano na sua alma. sobretudo entre vós. 233 117 .Diálogo sobre o Amor mulheres. não é justo ainda assim passar ao lado b I.

estendeu‑lhe a mão. e pediu‑a em casamento. O governo desta cidade era repartido por quatro homens (tetrarcas). por ser de uma beleza extraordinária. Também a história de Êmpona. cheio de confiança. casada que estava com o tetrarca Sinato. A história de Cama. Mas quando Sínorix por fim se atreveu a abordá‑la para casar.Plutarco c do de Cama234 da Galácia235. Corneille (ca. homem muito poderoso entre os Gálatas que matou Sinato. E passava a maior parte do tempo junto da deusa. encontrou refúgio e consolo para a dor no sacerdócio de Ártemis. 1‑14). São bastantes os exemplos de histórias similares. livro que traduzimos neste mesmo volume. na certeza que não seria capaz de a tomar pela força nem de a convencer enquanto o seu marido fosse vivo. obedece a semelhante esquema narrativo. a este da Frígia. uma tradição familiar. Ela aproximou‑se. reine de Galatie. Dela. Destacamos a de Cárite.). sendo como tal indispensável para a encenação de Cama. é um bom exemplo do estilo dos Relatos de Amor que Plutarco terá escrito. como se a acção de Sínorix fosse inspirada apenas pelo afecto e pelo desejo que por ela nutria. a que deu o título de Camma. contada por Apuleio (Metamorfoses 8. envenenada ao que parece236. se enamorou Sínorix. não por qualquer intenção maldosa. que vinga a morte do esposo Tlepólemo às mãos de Trasilo. Ele veio então. não fugiu às suas investidas nem o acusou pelas suas acções passadas. na estrutura em que é narrada. 236 Esta libação selaria o compromisso de casamento. 1625‑1709) compôs uma tragédia baseada nesta figura. 234 118 . conduziu‑o ao altar da deusa e fez libações com uma taça de hidromel. Plutarco desenvolve esta história no pequeno tratado Da Coragem das Mulheres (257E‑258C). Quanto a Cama. 566 sqq. adiante contada. não aceitando qualquer um dos muitos reis e príncipes que a pretendiam. como informa Estrabão (12. 235 Na Ásia Menor.

tendo a felicidade de contigo ter partilhado a vida. 409 Nauck2 de uma tragédia desconhecida. qualquer relação semântica. disse: «Na esperança deste dia.237 d e Por causa disso. lançou um grito estridente e. Joga‑se com a proximidade fonética de duas palavras. pronunciando o nome do falecido. tomamo‑los na pior classe de perversão e não lhe concedemos qualquer ponta de Frg. dois conceitos que não têm. Quando viu que ele tinha bebido. deu o restante ao Gálata. e com ele a morte!» Sínorix. Acolhe‑me agora feliz. vivi tristemente. que é sobretudo intemperança e assédio. a quantos se comprazem em assumir o papel de passivos. ela própria. veio a morrer pouco tempo depois. 237 119 . já que te vinguei do mais malvado dos homens. não de Cípris. Dado que muitos casos semelhantes terão acontecido. que terá vivido ainda um dia e uma noite. cerca de metade. 23.Diálogo sobre o Amor Depois de beber. afirmando que. ao passo que Cama. quem consentiria maldizer Afrodite. os bárbaros. transportado numa liteira. dir‑se‑ia que isso é obra da Hybris (Insolência). conta‑se que pereceu muito confiante e feliz. estando ela associada a Eros e prestando‑lhe assistência. queridíssimo esposo. apartada de ti. contudo. é um impedimento para o nascimento da amizade? Quanto à relação de um homem com outro homem. tanto entre nós como entre vós.

Cráteas deu morte a Arquelau. 241 Distinta é a narrativa da morte de Alexandre. mas o respeito que daí resulta a cada dia. Na verdade. também citado em Moralia 94D. 239 Frg. 4. como acertadamente diz Sófocles. Diodoro Sículo (16. Xenofonte. E quantos. já que ser passivo era próprio dos jovens em formação. é princípio de amizade. e não um estilo de vida assumido e contínuo. quando perguntou ao seu amado se já estava grávido. o tirano dos Ambraciotas242. tirano de Feras (na Tessália) entre 369‑359 a. seu amante antigo240.. enquanto 769a esposas. Aristóteles. e Pitolau a Alexandre de Feras241. foram f ludibriados ou forçados a ceder e a entregar‑se. Já Periandro. 19‑21. 35‑37). V a. não tendo nascido perversos. 14. a união com mulheres.. este encheu‑se de cólera e matou‑o. 240 Arquelau era rei da Macedónia. semelhante à comunhão dos mais importantes rituais. a graça. antes. Ética a Nicómaco 1148b. de respeito ou de amizade238. cobrando dura vingança assim que têm hipótese. No entanto. mas quem os tem reza para deles escapar239. feita por Xenofonte (Helénicas 6.C. Cf. desde que um homem adulto e livre não assumisse o papel de passivo na relação sexual. 242 Cf. pelo próprio Plutarco (Pelópidas 35). Fedro 240d. o afecto mútuo e a confiança provam que 238 A pederastia era aceite entre os Gregos. 120 . Política 1311a 39 sqq. 1) e. Banquete 8. 779 Nauck2. Aristóteles. a título de exemplo. noutro momento. 18 sqq. quem de semelhantes amigos se livrou muito se alegra. mais do que a qualquer homem desprezam e odeiam para sempre aqueles que os possuíram. Pequena é a dose de prazer.Plutarco confiança. Platão. em finais do séc.C.

nem Homero.Diálogo sobre o Amor nem as gentes de Delfos estão loucas quando chamam a Afrodite Harmonia243. onde se afirma que Afrodite é artífice da concórdia e da amizade entre homens e mulheres. renovam os pactos que têm umas com as outras – porque queria revitalizar o casamento das queixas que a cada dia se acumulam com tal mostra de afecto. 248. 243 121 . 3 K‑A de uma comédia desconhecida. a razão perdi ao olhar o seu [rosto. 735. 244 E. b No entanto. 16. os amores por mulheres provocaram muitas maldades e loucuras. Sólon 20. nem essa louca paixão por rapazes247. na lógica tantas vezes repetida no diálogo de que Eros e Afrodite são deuses que se assistem mutuamente no casamento. quando designa essa união de Amizade244. 209 e Odisseia 11. Moralia 156C-D. quando determinou que o homem se relacionasse intimamente com a esposa não menos que três vezes por mês245. terno e belo rapaz. 246. 245 Vide Plutarco. Ainda assim. 4 e Moralia 143D‑E. E prova também que Sólon foi um legislador consciente no que toca a assuntos de casamento. 161. [nem essa outra por mulheres]. Está em causa a manutenção do amor também por via dos prazeres. de tempos a tempos. Ilíada 2. Para Sólon. 6. a razão estaria mais em garantir o nascimento de filhos legítimos. 247 A pederastia como paidomania.g. Cf. Segurando‑o nos braços eu morra e encontre o meu epitáfio246. Do termo harma (‘união’ ou ‘par amoroso’). nenhuma delas é amor. 246 Frg. Imberbe. Mas não são em maior número as que provocou o amor por rapazes? ‘[Devido à nossa] intimidade. antes – do mesmo modo que as cidades. por certo não pelo prazer. 132.

andreia (‘valentia’) e megalopsychia (‘grandeza de espírito’). 249 Xenócrates foi discípulo de Platão e dirigente da Academia entre 339‑314 a. a afectividade é nelas uma constante. talvez a aconselhasse a sacrificar a Eros. Cf. ao dotar a mulher da graça do olhar. Moralia 141F‑142A e Mário 2. nobre nos demais aspectos. da persuasão da voz e da sedutora beleza da sua forma. 248 122 . torna mais estimulante o seu efeito educativo – e mais irresistível a sua capacidade de causar dano –. conservasse a casa pelo casamento. nobre e eminente em tudo o resto. dikaiosyne (‘sentido de justiça’). amam os filhos e os esposos. e à que é honesta. Platão aconselhava Xenócrates. ricamente adornada de seduções e graças. fornece uma preciosa ajuda à que é licenciosa para o prazer e para o engano. para que. da medida e do ritmo. Com efeito. Que necessidade há pois de referir a sua temperança e a sua inteligência. [a Nesta frase resume Plutarco as principais virtudes de uma mulher no contexto do casamento: sophrosyne (‘temperança’). synesis (‘inteligência’). a uma mulher virtuosa e honesta. Como a poesia. afirmar que a sua natureza. isso é completamente absurdo. mesmo a sua fidelidade e sentido de justiça. para o afecto do seu esposo e para a amizade. acrescentando à palavra os temperos da melodia. benevolente. valor e grandeza de espírito248? Por outro lado. do mesmo modo a natureza. 3. seria ridículo afirmar que as mulheres não participam nas virtudes em geral.Plutarco c d Por conseguinte. quando a maioria delas deu provas suficientes de coragem. pistis (‘fidelidade’). Plutarco. é incompatível apenas com a amizade. a sacrificar às Graças249.C. Ora. mas bastante austero de carácter.

com o assentar e a acalmia do tempo. parece que Eros provoca. qual enxerto numa árvore. meu caro Zeuxipo. e a filosofia os jovens. Uma ferida é também o início de uma gravidez: é que não há união sem que cada um sofra alteração da parte do outro. 63. não debandando para junto de outra. é semelhante a esses Frg. E ainda que implique uma ferida. É essa. 736 K‑A de uma comédia desconhecida. as crianças. no seu tratado Sobre o Casamento (frg. a início. desgraçado de mim!250 É que. a início. 3. a dos que se amam. No entanto. não o temas como uma ferida ou a mordedura de um insecto. quanto à dos restantes. Em relação ao que há de penoso e doloroso no início. Do mesmo modo as matemáticas torturam. antes. a chamada união integral251. se visse obrigado a pronunciar estas palavras da comédia: Que mulher fui eu ofender. dos que apenas vivem em comum. e depois.Diálogo sobre o Amor adornasse a ela com todos os encantos] femininos e para que o esposo. mesmo assim. ou melhor. provoca a mais agradável das disposições. Expressão colhida em Antípatro de Tarso. é felicidade maior amar do que ser amado: assim se evitam muitos erros. 250 251 e f 123 . nada de terrível existe em unir‑se a uma mulher honesta. dentro do casamento. 24. nem para estes nem para os apaixonados o desconforto fica para sempre. certa efervescência e perturbação. todos aqueles que destroem e deitam a perder o casamento. como líquidos que se misturam um com o outro. 11‑16 von Arnim).

a ela se une e a fecunda. Quanto à terra. 253 Odisseia 6. que distingue a matéria (hyle) do espírito (pneuma). sendo que a primeira é inerte. Cf. não é inevitável que um dia venha a perecer e a extinguir‑se por completo. partilhando o mesmo sentir. 183‑184.7 Nauck2 de uma tragédia desconhecida. Vide supra. comporta colisões e afastamentos e não alcança nunca essa 770a unidade produzida por Eros. ao passo que os naturalistas dizem que o sol ama a lua. 898. 1155b). Daí que os poetas digam que a terra ama a chuva254 e o céu a terra. 255 Formulação inspirada na doutrina estóica. Moralia 1112C. governam [a casa 253 homem e mulher . onde se cita outro verso do mesmo fragmento. 756D.Plutarco contactos e enlaces de que fala Epicuro252. em harmonia. 254 Eurípides. É que não podem obter‑se prazeres maiores de outras pessoas nem causar a outros vantagens mais duradouras. a lei protege‑os e também a natureza prova que os deuses necessitam de Eros para a propagação da vida em geral. b Além disso. 252 124 . nem sequer a beleza de qualquer outra amizade é tão virtuosa e invejável como quando. o protector da comunhão matrimonial. também citado por Aristóteles (Ética a Nicómaco 8. frg. no dia em que o poderoso Eros ou o desejo desse deus abandonem a matéria e esta deixe de desejar e buscar o princípio motor que daí emana255? Refere‑se aos átomos que se movem no vazio. mãe de todos os homens e origem de todos os animais e plantas.

dizia que. levantam acampamento. permite que a relação que os une aos seus pretendentes mais velhos deixe de ser pederástica e se baseie no amor. nos moços bonitos. Cf. Na verdade. já que. simbolizando o início da idade adulta. para que não demos a impressão de estar a divagar em demasia ou simplesmente com balelas. enquanto abraçava e beijava o belo Ágaton. depois de crescer.. Esta anedota relativa a Eurípides surge também em Plutarco. 258 Vide supra. 256 Símile colhido em Platão. dizendo que. como um ovo. 760B‑C. 259 Poeta trágico ateniense da segunda metade do séc. 125 c . [Ora. 5 e Moralia 177A. No entanto. frgs. também a barba que desponta nos rapazes. Ficou conhecido como um jovem de extraordinária beleza. 257 Filósofo de inspiração cínica que viveu entre os séculos IV e III a.C.Diálogo sobre o Amor No entanto. à semelhança dos nómadas. De forma ainda mais grosseira. muitas vezes falam e brincam com a sua grande instabilidade.C. a quem já despontava a barba. e que. Como estes dois jovens livraram os Atenienses da tirania. como de um território inimigo. intervém como personagem no Banquete e no Protágoras de Platão. a amizade entre eles se corta com um fio de cabelo256. Alcibíades 1. passam a Primavera em prados verdejantes e floridos e.] não só não conhece Outono. também o Outono [tem a sua beleza]259. 310‑311 e 1047 von Arnim. Banquete 190e. 300. livrava os amantes de uma bela tirania. Acertadas são essas outras de Eurípides. V a. não seria justo acusar com estas palavras os verdadeiros amantes. florescendo mesmo entre e o segundo um princípio activo que penetra naquela para produzir movimento. sabes como. logo de seguida. acerca dos amores por rapazes. o amor por mulheres honestas. 2. o filósofo Bíon257 chamava à barba dos moços bonitos Harmódios e Aristogítones258.

e outros foram capturados quando tentavam fugir. Vespasiano foi imperador em Roma entre 69 e 79 d. No entanto. Mas quero agora contar um caso dos que aconteceu no nosso tempo. 262 Uma linhagem nobre. o responsável pela sublevação na Galácia261. Esta revolta. 3 e 16). 25. entre os quais se contava Sabino. Vide. poucas uniões se contam do amor por rapazes. Cumprida a sua grande empresa. à qual nessa terra davam o nome de Êmpona. no entanto. alternando em lealdade e desejo. 263 O nome desta mulher varia consoante as fontes antigas. como permanece até à tumba e à sepultura. 13 sqq. Além disso. estava casado com a mais nobre das mulheres.) teve lugar em 69 d. pessoa jovem e de boa linhagem. que em grego responderia pelo nome de Heroína263. tinha. a propósito. 260 261 d e 126 . Quanto a Sabino. nem de a levar consigo. muitos cúmplices. Tácito chama‑lhe Emponina (Histórias 4. todas as circunstâncias lhe permitiam com facilidade fugir e refugiar‑se entre os bárbaros. Civílio. Como tal. ao passo que dos amores por mulheres há um sem número de casos em que mantiveram juntos uma relação de fidelidade plena. triunfante.C. não era capaz nem de a abandonar. quando Vespasiano era Imperador260. pois anteviam que pagariam um castigo. 67) e Díon Cássio Peponila (65. uns suicidaram‑se. como é natural.C. O poder de Vespasiano saiu. descrita em detalhe por Tácito (Histórias 4. que pela sua riqueza e fama262 era o mais ilustre de todos os Gálatas. bom carácter e bom nome são características comuns neste tipo de relatos.Plutarco o branquear do cabelo e o surgir das rugas. a nossa introdução ao livro dos Relatos de Amor.

uma noite houve em que o visitou e logo regressou. A partir desse dia. disfarçando Sabino com um vestido. durante três f dias e três noites sem comer. E assim a mulher 771a representou com muito sofrimento toda a sua tragédia. Lançando‑se ela ao solo. praticamente passou a viver no Hades com o marido durante mais de sete meses consecutivos264. não fosse ela pôr termo à vida.Diálogo sobre o Amor Ora. entre prantos e lamentações. mas que ainda precisava que ela se mantivesse em pranto durante algum tempo e que não [descurasse nada de forma a] parecer convincente no seu fingimento. tal como estava. No entanto. estando com medo. que passava uma parte do ano com o esposo no Hades e a outra com Deméter à superfície. como se fosse suicidar‑se com veneno. dos quais apenas dois dos seus libertos tinham conhecimento. posto que tinha escavado no campo uns esconderijos subterrâneos para os seus bens. na companhia dos dois servos em que mais confiava. À presença da esposa enviou o liberto Marciálio. 264 127 . E foi isso mesmo que aconteceu. assim permaneceu. anunciando‑lhe que se havia suicidado com veneno e que a cabana tinha sido queimada com o corpo lá dentro. transparecendo dor. dispensou os demais criados e. desejosa de o ver. desceu ao esconderijo subterrâneo. Quando Sabino tomou conhecimento disto. às escondidas de todos. ordenou a Marciálio que lhe comunicasse secretamente que ele estava vivo e escondido. Ao termo desse tempo. É que pretendia [servir‑se do pranto] sincero da esposa para dar crédito à notícia da sua morte. um outro corte de O episódio lembra o mito de Perséfone.

A dinastia que dele surgira haveria de terminar em 96 d. Apenas há que registar o anacronismo da situação. na verdade. É que o produto com que as mulheres ungem os cabelos para o tornar dourado ou ruivo contém uma banha que engorda e torna mais esponjosa a carne. e se sabemos que. Um dos seus filhos veio a morrer no Egipto. de vez em quando lá subia à cidade para que fosse vista pelas mulheres amigas e pelas parentes. ao tempo do diálogo. Com efeito. Assim. Mas o mais incrível de tudo foi ter conseguido esconder que estava grávida. nada de mais terrível sofreu Sabino terá morrido em 69 a... Ora. em 96 d. levou‑o consigo para Roma.C. Plutarco refere‑se a estes acontecimentos como recentes. posto que lhe tinham dado algumas [esperanças]. Mas por a ter morto recebeu o seu castigo. aplicando‑o em grande quantidade nas restantes partes do corpo.C.. de seu nome Sabino. esteve em Delfos entre nós ainda há pouco tempo. Como não conseguiu nada. com a morte de Domiciano. escondida com o marido. como uma leoa na sua toca. suportou‑as sozinha. e passando a maior parte do tempo com ele debaixo da terra. se a situação narrativa o apresenta como recém‑casado. toda a sua descendência foi aniquilada265. tanto que produz mesmo uma certa dilatação e inchaço. mesmo banhando‑se com as mulheres. dez anos antes da morte de Vespasiano. As dores de parto. ia disfarçando o tamanho do seu ventre. de novo regressou. Quanto a ela. o Imperador mandou‑a assassinar.Plutarco b c cabelo e uma fita na cabeça. posto que. o outro. rondaria os 50 anos de idade. Com efeito. cada vez maior e mais inchado. os dados não batem 265 128 .C. em pouco tempo. dois varões. e amamentou as crias masculinas que nasceram – gerou.

já que estão à vossa espera para o sacrifício?” Todos ficaram agradados. do que ele no seu trono. debaixo da terra. opositor desde o início ao casamento de Ismenodora e Bácon. ainda de longe: “Não é a guerra. quando estavam perto de Téspias. que por acaso nos vens anunciar?” Ao que ele respondeu: “Não dirão vocês palavras de bom augúrio.Diálogo sobre o Amor desde então o Império. Diógenes. irritado com o que ouvira (755B-C). facto que muito irritou Vespasiano. e foi aí que Zeuxipo perguntou [se Písias] ainda estava contrariado266. Contudo. dizendo‑lhe que tinha vivido melhor na escuridão.” certo. com uma coroa e um manto branco. E agora mesmo. a tradução e as notas dos Relatos de Amor. e avançarão mais depressa. já que ela. que terminou entre eles a conversa sobre o amor. Diógenes. foi o primeiro a aceitar a proposta de Ismenodora. Vide. Viram então.” 26. um dos companheiros de Písias. quando está a ter lugar um casamento. lhe propunha uma troca. nem qualquer outro prodígio houve que aos deuses e aos espíritos mais repúdio tenha causado. um pouco de acordo com a lógica de culpa/ castigo que a tragédia herdou das concepções mais arcaicas da religião grega. como exemplo. 266 Písias. 129 d . a audácia e o orgulho dessa mulher fizeram desaparecer a compaixão dos que assistiam à execução. Foi neste ponto. “Pelo contrário – respondeu Diógenes –. A expiação da culpa em gerações posteriores é frequente neste tipo de relatos. avançando à pressa para junto Deles. tinha mesmo abandonado o diálogo. disse o meu pai. perdida qualquer esperança de salvação. está disposto a encabeçar o cortejo pela ágora até ao templo do deus. Gritou‑lhe Soclaro.

” 130 . benevolente.Plutarco e “Vamos então. – disse o meu pai – partilhemos da alegria desse homem e prestemos culto ao deus. É evidente que ele se regozija e assiste. a estes acontecimentos. por Zeus.

Diálogo sobre o Amor relAtos De Amor 131 .

enquanto se banhava na fonte Hércina. por acaso. que a entregaram a Atenas. bem como o santuário de Zeus e o oráculo de Trofónio que ali se encontravam. actual Livadhiá. pela etimologia do seu nome. tendo sido destruída pelos Romanos em 171 a. filha de Teófanes. que emana de uma gruta. não raro. O enamoramento à primeira vista era e continua a ser um tópico deste tipo de narrativas.relAtos De Amor 1 Em Haliarto . 2 Os nomes dos protagonistas deste tipo de lendas são. resultando a personagem. 3 A cidade de Lebadeia. 30 e Pausânias 9. 32. No caso particular. No caso de Aristocleia. o leitor traria de imediato à memória o exemplo de Actéon. 503). como “a de nobre fama”. na Beócia. e o seu destino trágico. Pausânias (9. significativos. Pretendiam‑na Estráton de Orcómeno e 771f Calístenes de Haliarto. Onquesto e Coroneia. havia uma donzela que se destacava pela sua beleza. tinha‑a visto em Lebadeia3. posto que estava destinada a ser canéfora 1 Já referida na Ilíada (2. a cidade de Haliarto situava‑se numa colina entre Téspias. 33. de nome Aristocleia2. 1‑4) descreve ao pormenor a fonte referida.C. Estráton era mais rico e estava mais tomado de amores pela rapariga: é que. 1 133 .. 39. Vide Estrabão 9. estão em causa o adjectivo aristos e o substantivo kleos. 2. que em circunstância semelhante se enamorou de Ártemis. situava‑se a sul de Orcómeno e de Queroneia.

. uma vez que era também.Plutarco 772a b para Zeus Rei4. Mas Estráton. No entanto. que se espalharam e passaram despercebidos entre os As canéforas. tendo ele recrutado um grupo de amigos e uma quantidade não pequena de criados. 233‑245 K‑A). e ela decidiu a favor de Calístenes. Foi mesmo referido por Aristófanes (Nuvens 506‑508) e Cratino. reclamava que a decisão coubesse à própria noiva. apesar de o casamento lhe ter sido negado pela inveja de uma qualquer divindade. 5 Santuário oracular também descrito por Pausânias (9. 1‑4). pela sua riqueza e linhagem. pedindo‑lhes que conservassem a amizade que os unia. ao que parece. como indica a etimologia do termo. que deu o seu nome ao título de uma comédia (frgs. Teófanes tinha receio de Estráton que. Parece certo que o texto alude às festividades conhecidas por Basileia (em honra de Zeus Basileus) de que fala Didodoro Sículo (15. Eles elogiaram as suas palavras. consultá‑lo implicava. 53. pela sua linhagem. 4). que terão sido instituídas após a batalha de Leuctras (371 a. No entanto. foi ao encontro de Teófanes e Calístenes. convencido pelos criados da donzela de que ela estava mais inclinada para o seu lado. eram donzelas encarregadas de transportar um cesto de oferendas ao deus. parente da rapariga. rapidamente se tornou evidente que Estráton levou a mal a afronta. e queria confiar a decisão a Trofónio5. Muito preocupado com a situação.C. uma verdadeira iniciação mistérica. 4 134 . superava praticamente todos os Beócios. Quando Teófanes interrogou a rapariga na presença de todos. de tal modo que até o convidaram para o banquete nupcial. Calístenes levava vantagem. 39.C. outro cómico ateniense do século V a.). Situado no interior de uma gruta. Passados dois dias.

Calístenes e os seus seguraram‑na do outro lado. que tinha na ideia atacá‑los. seja por se ter suicidado. exercesse hegemonia sobre as restantes. degolou‑se em público sobre a donzela. Fídon. Como é natural. logo após a fundação de Siracusa. 8 Pode referir‑se ao rei de Argos com o mesmo nome. enviou‑lhes emissários a fim de lhes exigir os mil mancebos que mais se distinguiam em vigor e coragem. Como tal.C. porque pretendia que a cidade dos Argivos. do século VII a. até que ela morreu às mãos de ambos. determinando que seria Dexandro o chefe deles. como mandava a tradição local. enquanto cada um puxava para seu lado. Calístenes desapareceu de imediato. Segundo o próprio Plutarco (Lisandro 28. ninguém foi capaz de dizer o que lhe aconteceu. aí.relAtos De Amor restantes. E eles lá lhe enviaram os mil rapazes. Kissoessa quer dizer “da hedra”. E o próprio Estráton segurava a rapariga.. executava em sua casa (proteleia). localizava‑se fora de Haliarto. reunindo‑se todos os que com ele estavam de emboscada. na véspera das bodas. aspirante ao poder sobre os Peloponésios. Em consequência de tudo isto. por seu turno. 6 135 . a sua pátria. 2 Um tal de Fídon . raptaram‑na. começou por conspirar contra os Coríntios. para desse modo tornar Corinto mais vulnerável e ficar com a cidade nas suas 8 c d À letra. seja por se ter exilado da Beócia. desceu à fonte chamada Cissussa6 para oferecer às Ninfas o sacrifício preliminar7. Estráton. 7). 7 O texto alude às oferendas e sacrifícios que a noiva. quando a jovem.

investigando com afinco. como se mais não fossem do que peças de caça. 11 Não confundir com o herói mítico com o mesmo nome. o sentido da nossa tradução. se bem que o destino trágico de ambos – a morte por motivos de enamoramento – os una. Estrabão (8. Hábron fugiu para Corinto. dando‑lhe o nome desse lugar. de quem muitos foram os que se enamoraram. Este. porque era hóspede de Dexandro. ao qual chamou Melisso. À importância estratégica de Corinto para o controlo do Peloponeso aludem. E por isso os Fliásios regressaram sãos e salvos a Corinto antes da investida. pode ser intenção do autor sugerir esse paralelismo. o mais ilustre dos Coríntios. Foi também ali que teve um filho. em especial Árquias. a unir as três figuras – o herói mítico. estava Hábron. que acentua a sua beleza física e o seu valor moral (kallistos kai sophronestatos). 10 Alguns editores detectaram. 8) e o próprio Plutarco (Arato 50. contou‑lhe a conspiração. Ora. uma lacuna – baseados na pouca frequência com que o verbo pheugein se constrói com en regido de dativo (en Melisso) –. que era da linhagem dos Heraclidas e. sendo que todas as sugestões avançadas para a sua supressão têm.Plutarco e mãos – uma vez que esta seria a mais vantajosa fortaleza de todo o Peloponeso9 –. o “herói trágico” desta história. do primeiro relato –. 12 Actéon. [e assentou morada]10 em Melisso. recebe a mesma caracterização de Aristocleia. na história anterior. também esta uma metáfora de todos os tempos para a conquista amorosa. Actéon11. uma aldeia do território dos Coríntios. está a coincidência na morte: os três são despedaçados. De resto. confiou a tarefa a alguns dos seus amigos. de algum modo. Receoso. 9 136 . 4. entre outros. levando consigo a esposa e os criados. enquanto Fídon se esforçava por encontrar o delator. Deste Melisso nasceu um rapaz. 4). Mais. Entre eles. este Actéon da história e Aristocleia. por toda a sua riqueza e poder. neste ponto. o mais belo e virtuoso12 dos da sua idade.

15 Família nobre que terá governado Corinto durante os séculos VIII e VII a. 1). a divindade vaticinou que se tratava da cólera de Poséidon. Pouco tempo depois. com ligeiras alterações. gritou imprecações contra os Baquíadas15. Mas ninguém fazia mais do que compadecer‑se do homem14. da qual Periandro é o membro mais conhecido. Uma vez que o pai e os amigos ofereceram resistência. sem sucesso. lançou‑se desse penhasco. então. 10) e Máximo de Tiro (18. esperou pela celebração dos Jogos Ístmicos e. levando consigo uma multidão de amigos e criados.. que não teria fim até que a morte de Actéon fosse vingada16. assim.relAtos De Amor como não foi capaz de seduzir o jovem. em Diodoro Sículo (8. resolveu usar de violência13 e raptar o moço: foi em bando até casa f de Melisso. puseram‑se em fuga. de imediato. 13 137 . aí o exibia. pedindo vingança para com os que haviam feito tal coisa.C. e assim tentava raptar o rapaz. Actéon acabou por morrer. subindo ao templo de Poséidon. a seca e a peste abateram‑se sobre a cidade. 14 A história de Actéon vem contada. puxado de ambos os lados. e também os vizinhos acorreram e o puxavam para seu lado. Como que para demonstrar como o amor não se compadece com compaixões desmedidas. 16 É tradicional este motivo do oráculo que reclama a expiação de uma morte para livrar a cidade da peste. levando o cadáver do filho para a ágora 773a dos Coríntios. fazendo lembrar. Quando Árquias b O uso da força e as consequências nefastas desse acto são um lugar‑comum deste tipo de histórias. depois de invocar os deuses. o argumento do Rei Édipo sofocliano. expulsando os Baquíadas de Corinto. Quando os Coríntios consultaram o deus em busca de libertação. Num escólio às Argonáuticas. recordou o feito de seu pai Hábron e. Eles. Retirando‑se. os Coríntios não ficam indiferentes à dor e às imprecações de Melisso. Melisso.

navegando até à Sicília. chama‑lhes Hipo e Mólpia. que aí tinha o seu mais conhecido e frequentado santuário. 18 Pausânias (9. o caminho que tinham planeado. com efeito.Plutarco tomou conhecimento disso – pois ele próprio era um emissário –. de passagem O castigo chega bastante mais tarde. porquanto se considerava que seriam filhas de Leuctros e não de Esquédaso. ficaram caídos de amores pelas donzelas. No estado mais antigo desta lenda. e foi morto à traição por Télefo. não quis regressar a Corinto e. mas evitavam faltar‑lhe a esse respeito por consideração à bondade de Esquédaso. 5). fundou Siracusa. elas seriam apenas designadas de Leuctridas. partiram para Píton19. Esquédaso era bondoso e amável com os seus hóspedes. no monte Parnaso. morre às mãos de um antigo apaixonado seu. de acordo com alguns. na Fócida. E. Ortígia e Siracusa. Por conseguinte. de novo rumaram a casa e. 13. tinha navegado com ele para a Sicília17. ao comando de um navio. que matou por amor. habitava em Leuctras. 3 Um homem pobre. Passou a funcionar como epíteto de Apolo. Nesse lugar foi pai de duas filhas. Uma vez consultado o deus acerca das suas necessidades. Estes. Teano e Euxipa18. Árquias. 17 c 138 . uma aldeia do território dos Téspios. já que era esse. 54. em Diodoro Sículo (15. 19 Antigo nome de Delfos. 2‑3). que fora seu amado e que. o único além de Plutarco a dar nomes às raparigas. Tinha duas filhas. tendo chegado a sua casa dois jovens espartanos. quando o criminoso pensava já que não haveria lugar ao seu cumprimento. de seu nome Esquédaso. que encontramos. embora não fosse de grandes posses. por exemplo. no dia seguinte. recebeu‑os com amabilidade. de nome Hipo e Milésia ou.

21 Na ilha de Eubeia. 26. compreendeu que tinha sido obra deles. 20 d e 139 . mas as suas filhas. lançaram‑nas para um poço e partiram. uma vez mais se detiveram em casa de Esquédaso.relAtos De Amor pela Beócia. os mesmos que ainda na véspera lá tinham ficado alojados. Estes. encontrando as raparigas sozinhas. A situação estava a preocupá‑lo. receberam os hóspedes. mas tudo quanto havia deixado foi encontrá‑lo intacto. e desse modo puxou para a superfície os cadáveres das filhas. Partiu então para a Lacedemónia a fim de apelar aos Éforos20. quando caiu a noite. Acontece que ele não estava em Leuctras. já que tampouco da primeira vez se cansavam de elogiar as raparigas. considerando afortunados os que as desposassem. 4. uma cidade de Hestieia21. e ao verem que elas estavam terrivelmente indignadas com a afronta. 537 e Pausânias 7. Vide Ilíada 2. não conseguia encontrar as raparigas. Quando soube pelos vizinhos que no dia anterior tinham visto entrar em sua casa os Lacedemónios. No mesmo local estava hospedado um outro ancião natural de Oreu. tomaram‑nas à força. como uma cadela sua se fartava de ladrar e uma e outra vez corria para o poço e de lá regressava. buscou alojamento num albergue. Esquédaso perguntou‑lhe que ofensa havia sofrido da parte dos Lacedemónios. mataram‑nas. até que. Quando Esquédaso regressou. Ele então lhe contou que era súbdito Magistrados com elevado poder político e administrativo em Esparta. de acordo com o costume que tinham aprendido. imaginou o que poderia passar‑se. Ao escutar as suas lamúrias e imprecações contra os Lacedemónios. Chegado à Argólida.

Aristodemo afastou‑se por esse momento. tendo‑se apaixonado pelo meu filho.Plutarco de Esparta e que Aristodemo. tentou exercer violência sobre ele e raptá‑lo da palestra. Quanto a mim – lá continuava o ancião –. 22 140 .” Esquédaso. Mas eles não fizeram caso das minhas palavras. julgando que tampouco da sua situação os Espartanos fariam caso. Ele aconselhou‑o a não recorrer aos Éforos. contou igualmente a própria infelicidade ao estrangeiro. 12‑13). tinha revelado para consigo uma grande crueldade e ofensa. A sua origem deve remontar ao séc.C. O mesmo Xenofonte nos relata uma série de casos que demonstram o abuso de poder destas figuras (Helénicas 3. 4. como não o conseguiu. VIII a. 774a degolou‑o. 5. 23 Embarcação que contava com três lances de remadores de cada lado. apresentei‑me em Esparta e pedi a intervenção dos Éforos. Mas. enviado a Oreu pelos Lacedemónios na qualidade de harmosta22.). E por seu turno. foi tomado de desânimo. mas a que f Governador por delegação dos Espartanos junto dos Periecos e das cidades subjugadas. navegando de Oreu para a costa imediatamente à frente e tentando abusar dele. pese embora o carácter lendário destes textos. tomando conhecimento do sucedido e tendo dado sepultura ao cadáver. no dia seguinte. concebida para atingir velocidades superiores. depois de equipar uma trirreme23. De regresso a Oreu. ao ouvir esta história. Porque o impediram o treinador e muitos jovens vieram em seu auxílio. é provável que a história se reporte ao período do domínio espartano da ilha de Eubeia (405‑395 ou 380‑377 a.C. como não foi capaz de o convencer a bem. continuou a divertir‑se em banquetes. “Com efeito – dizia –. 24). que estava na dependência dos Éforos (cf. Por estes dados. raptou o rapaz e. Helénicas 5. Xenofonte.

erguendo as mãos a Hélios.C. Com efeito. em 379 a. Como estes não lhe deram atenção. também aí. veio às cidades dos Tebanos e. Não tendo conseguido nada mais. condenado ao exílio por Esténelo. chegando a Esparta. e logo. já que. 4. vingam os crimes de sangue. os libertou dessa obrigação dando morte a Calcodonte. a vingança é invocada nas figuras de Hélios. divindades subterrâneas que. os Lacedemónios receberam o seu castigo. aproximou‑se em pranto de cada um dos cidadãos. acabando por pôr termo à própria vida24. Tendo os Lacedemónios. 3. 19. Não se deixou convencer ainda assim Esquédaso e. vide Apolodoro 2. e das Erínias. 6 e Pausânias 9. 17. dirigiu‑se aos reis e. 3. os Tebanos saíram ao seu encontro em Leuctras. rei de Micenas e pai de Alcmena. 24 b c 141 . rei da Eubeia26.relAtos De Amor voltasse antes à Beócia e erguesse o túmulo das suas filhas. 26 Anfitrião tinha sido desterrado de Argos pelo rei Esténelo em consequência da morte involuntária de Eléctrion. No momento da morte voluntária. correu pelo meio da cidade. invocou as Erínias. pois consideravam esse local favorável. sabemos que foi Pelópidas quem dirigiu a expedição que pôs termo ao domínio espartano sobre Tebas. o tebano Epaminondas em primeiro lugar aniquilou a guarnição da sua cidade25. na tragédia grega. no entanto. tinham no passado obtido a liberdade quando Anfitrião. depois destes. o Sol que tudo vê. encontrando‑os submetidos a Cálcis por um tributo. por esse motivo. quando já dominavam todos os Helenos e tinham ocupado todas as suas cidades com guarnições. Algum tempo depois. batendo no solo. pediu de facto a intervenção dos Éforos. promovido uma guerra. Para esta lenda. 25 Na realidade.

6). 4 Foco era beócio de nascimento. 2‑3). igualmente. Calírroe é também o nome da heroína no romance de Cáriton e numa lenda local recolhida por Pausânias 7. 5‑6 e 14. que se destacava pela Segundo o próprio Plutarco (Pelópidas 23. quando a expedição dos Lacedemónios ainda estava em Tégea. que os Lacedemónios. informado pelas gentes dessa terra. na verdade. Cf. 54. Dizem que. trágicos. por ficar associada à vitória de Tebas sobre Esparta em Leuctras. estaria já em ruínas (9. 1‑3. conduziu o exército confiante e saiu vencedor28. 27 142 . Pausânias 9. 504). 30 A descrição desta heroína é em tudo semelhante à de Aristocleia. 21. uma vez mais. 19. acontece que a derrota completa dos Lacedemónios teve lugar perto do túmulo das filhas de Esquédaso. a Pelópidas27. exortando‑o a ter confiança. Um dia antes de enfrentar os Lacedemónios. Plutarco. de facto.Plutarco d Ora. tinham vindo a Leuctras para pagar os castigos devidos a ele e às suas filhas. Diodoro Sículo 15. Então Pelópidas. 29 Cidade da Beócia já mencionada na Ilíada (2.. e pai de Calírroe30. um general do exército tebano que andava preocupado devido a determinados presságios que não tinham sido interpretados como favoráveis. tornado famosa. 1‑5. Xenofonte. enviou emissários a Leuctras para investigarem este túmulo e. no ano de 371 a.C. Pelópidas comandava apenas um batalhão de trezentos homens. No tempo de Pausânias. Realça‑se. 7. cujos finais são. a sua beleza (kallos) e virtude (sophrosyne). 3. lhe apareceu em sonhos Esquédaso. Pelópidas 20‑22. 13. na primeira história. pois era de Glissas29. 28 Toda a história recuperada por Plutarco se tinha. antes da batalha. Helénicas 6. prescreveu‑lhe que sacrificasse junto ao túmulo das donzelas um poldro branco que tivesse à mão. 4.

Como não os acolheram os Orcoménios. fugiram para Orcómeno. rumando a Coroneia. atacando Foco. Calhou ela encontrar uns camponeses que juntavam trigo na eira e junto deles achou a salvação: é que os camponeses esconderam‑na no meio do trigo e. Celebração da Confederação da Beócia que. Compadeceram‑se os Beócios da rapariga e ganharam ódio aos rapazes. Como eles não os entregaram. que por essa altura detinha o poder sobre os Tebanos. Em seguida. segundo Estrabão (9. deram‑lhe a morte. arranjava sucessivos adiamentos para o casamento. indicando o nome e a pátria de cada um deles. revoltaram‑se com a proposta e. mediante a insistência dos pretendentes. tomando conhecimento do sucedido. passaram ao largo os que a perseguiam. sentou‑se como suplicante no templo de Atena Itónia e contou os crimes dos seus pretendentes. 2. Uma vez Apolo. n. organizaram com os restantes Beócios uma expedição. assim. Estes sim os acolheram de bom grado.relAtos De Amor beleza e virtude. os Tebanos enviaram emissários a reclamar os assassinos de Foco. por seu turno. No meio da confusão a rapariga conseguiu fugir pelo campo e os rapazes perseguiram‑na. já a salvo. Estes. Eles. Foco. Ela. dirigiram‑se a toda a pressa para Hípotas. entre Tisbe e Coroneia. comandada por Fedo. uma aldeia das imediações do 775a Hélicon. aguardou pela celebração das f Pambeócias32 e então. 19. porém. achou por bem confiar a decisão a Píton31. tinha lugar no santuário de Atena Itónia em Coroneia. 31 32 143 . até que. Vide supra. pois temia sofrer alguma violência. Pretendiam‑na trinta jovens muito e ilustres na Beócia. 29).

Destruídas as muralhas e as casas. a esposa. foi impedida de o fazer. o território foi repartido entre os de Tisbe e os de Coroneia. em Glissas. 9. destilou açafrão. quando regressava da batalha. Ele então partiu de Esparta. que estava fortificada. era pai de duas filhas. a voz de alguém que dizia «estou aqui». de modo que as donzelas não À letra. Porque dava à cidade os melhores conselhos e providenciava tudo quanto necessitavam os Lacedemónios. mas Damócrita. antes da conquista de Hípotas. o chefe e estratego dos Tebanos. 33 c 144 . à qual. condenaram esse homem ao exílio. com acusações falsas de que Alcipo queria arruinar as leis. Casado com Damócrita. tomando o acontecimento por bom augúrio. diz‑se que o túmulo do ancião. “vencedora de exércitos”. e confiscaram mesmo o seu património. que com as filhas desejava partir na companhia do marido. Era um bom presságio nascer no dia de uma vitória militar. e vencidos os seus ocupantes pela sede. lhe foi anunciado o nascimento de uma filha. e que os trinta pretendentes reconheceram essa voz como sendo a de Foco. Alexandre 3. repetidamente se ouviu. como prova o caso de Alexandre em Plutarco. No dia em que foram apedrejados até à morte. levando‑o à presença dos Éforos. deu o nome de Nicóstrata33. 5 Alcipo era lacedemónio de nascimento. capturaram e queimaram os assassinos e escravizaram a gente da aldeia. vinda do Hélicon. e que a Fedo. uma noite. Conta‑se que. despertou a inveja dos seus adversários políticos que.Plutarco b sitiada a cidade.

1‑7. os Lacedemónios foram atingidos pelo grande terramoto35. Armada com uma espada.relAtos De Amor viessem a ter dote. uma vez que. 34 145 . afirmando que a mãe delas muitas vezes fizera votos de que rapidamente as filhas dessem à luz rapazes que se tornassem os vingadores do pai. servos e crianças. encolerizada a divindade por esse motivo. 101. Diodoro Sículo 9. Ora. Damócrita degolou as filhas e depois a si mesma sobre elas. Dizem que. Enquanto os homens acorriam em auxílio.C. esperando o momento em que todas celebravam os mistérios no salão. e em que as esposas dos que detinham o poder passavam toda a noite sozinhas num grande salão. não sabendo como lidar com a sua cólera. Assim acusada de todos os lados. 1. os inimigos proibiram por decreto que alguém pedisse as jovens em casamento. 128. Plutarco. Uma vez fechadas as entradas. d e A privação de sepultura em solo pátrio era o maior dos castigos por traição. lançaram para fora das suas fronteiras os corpos de Damócrita e das filhas34. mesmo assim. devido ao valor de seu pai. 24. 2. Vide Tucídides 1. 35 A lenda pretende ser a explicação etiológica do terramoto que se abateu sobre Esparta em 464 a. Damócrita aguardou por uma festa pública. na qual participavam mulheres. durante a noite. Címon 16. havia ainda quem pretendesse as raparigas. Os Lacedemónios. foi com as filhas ao templo. 6. 63. donzelas. amontoou à porta uma grande quantidade de lenha – que tinha sido preparada por essas mulheres para o sacrifício da festa – e ateou‑lhe fogo. 4‑5 e Pausânias 4.

José Ribeiro Ferreira: Plutarco. 6. Leão e Maria do Céu Fialho: Plutarco. Obras Morais – No Banquete II – Livros V‑IX. Martinho Soares. 2009). Tradução do grego. Tradução do grego. Vidas Paralelas – Teseu e Rómulo. Ândrea Seiça. Carlos de Jesus. Apologia de Sócrates. Delfim F. CECH. introdução e notas. Coordenação de José Ribeiro Ferreira (Coimbra. introdução e notas. 7. Obras Morais – Da Educação das Crianças. . Leão: Plutarco. Ana Elias Pinheiro: Xenofonte. 2008). Tradução do grego. introdução e notas (Coimbra. Tradução do grego. Joaquim Pinheiro: Plutarco. introdução e notas (Coimbra. Coordenação de José Ribeiro Ferreira (Coimbra. CECH. CECH. CECH. CECH. Delfim F. Tradução do grego. Ana Elias Pinheiro: Xenofonte. Obras Morais – No Banquete I – Livros I‑IV. introdução e notas (Coimbra. Banquete. 2008). Rodolfo Lopes: Plutarco. CECH. Memoráveis. 2. 2008). 2008). CECH. Obras Morais – O banquete dos Sete Sábios. 2008). Ana Elias Pinheiro. 5. 2008). 4. Tradução do grego. introdução e notas (Coimbra. Ália Rodrigues. Carlos de Jesus. José Luís Brandão. Tradução do grego. 3.VolumeS publicadoS na colecção autores gregos e latinos – série textos 1. introdução e notas (Coimbra.

CECH. Diálogo sobre o Amor. introdução e notas (Coimbra. Relatos de Amor. Tradução do grego. . Carlos de Jesus: Plutarco.8. 2009).

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