FALANDO EM COMIDA

:
UMA INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DIETA ALIMENTAR NA ANTIGÜIDADE
1


Henrique Fortuna Cairus (UFRJ)



Sobre a öi oi¬o: breve introdução

A palavra öi oi¬o tem, na língua grega, uma peculiar amplitude semântica. Um
sentido de öi oi¬o especialmente interessante parece ser o que figura em três passagens
do livro I de Heródoto (I,36; I,136 e I,157), onde o termo parece tanger o campo
semântico de nómos e de êthos, como acontece na Primeira Ode Pítica de Píndaro, onde
se lê a máxima:
...o¬iûo µþpo¬ov ou_qµo öo ço,
oiov o¬oi_oµt vov ov¬
öpov öi oi¬ov µovu ti
|oi ioyi oi, |oi ooiöoi,

o alarido imorredouro do renome
revela, tanto aos logíoi quanto aos aedos,
como [oiov] era a vida [öi oi¬ov] dos que já se foram.

Li oi¬o relacionada com oiov dá-nos uma idéia que tanto poderia ser traduzida
pelo termo nómos, como poderia ser expressa por êthos. Idéias familiares ao sentido de
‘costume’ ou ‘modo de vida’.
A amplitude semântica do termo öi oi¬o abarca os hábitos relacionados com um
estar no mundo; algo, portanto, que se localiza no limiar entre a natureza e a cultura. De
fato, tratava-se, em parte, da “condução da vida”, de um certo ‘cuidar de si’. Mas pode-
se facilmente ver aí matizes modais, locativas e temporais, especialmente de duração:
um como, um onde e um por quanto tempo . Em Heródoto I, 36 e I,136 t_tiv öi oi¬ov
equivale a algo como öio¬pi þtiv, tão somente, qualquer coisa entre o conviver e o þi ov
(öi)oytiv. De fato, Xenofonte, em seu Econômico (9,4) dá aos quartos da casa, parte de
maior permanência dos moradores, o nome de öioi¬q¬q piov.
No livro 1 de Heródoto (157), Mazares dominou os lídios e submeteu-os às
ordens de Ciro, e, em virtude dessas ordens (t| ¬ou ¬ou öt |tituoµoou vq,), /uöoi
¬qv ¬ooov öi oi¬ov ¬q, Çoq, µt¬t ioþov (os lídios mudaram toda a dieta da vida, i.e.,

1
Apresentado no Congresso da SBEC, em 2007
todo seu modo de viver). A öi oi¬o é sobretudo um termo aplicado ao outro, mas essa
alteridade da öi oi¬o parece-me mais devida ao fato de a öi oi¬o, no sentido em a lemos
nesses trechos, ser relacionada mais à observação do que à intervenção. Por isso, a
passagem I,157 de Heródoto é especialmente relevante, já que se coloca como um eixo
entre a observação e a intervenção. A presença um tanto redundante ou enfática da
palavra Çoq nesse trecho assinala, ao meu ver, esse deslocamento de perspectiva: a
öi oi¬o a ser mudada, por ordens soberanas, as Ku pou tv¬oioi , não é específica, como
se poderia esperar no caso de uma öi oi¬o como intervenção, mas de caráter geral “¬q,
Çoq,”.
A öi oi¬o, como intervenção, exige o reconhecimento de um lugar de
autoridade. O direito ático emprega o termo öi oi¬o como uma sentença dada a alguém,
uma espécie de lei específica e aplicada, em oposição à öi |q, que, no vocabulário
jurídico ático, denota o princípio legal aplicado de uma forma genérica, como atesta
Aristóteles, em sua Retórica (1374
b
20): |oi ¬o ti, öi oi¬ov µoiiov q ti, öi |qv
þou itoûoi it voi o yop öioi¬q¬q, ¬o t¬iti|t , opo, o öt öi|oo¬q, ¬ov vo µov
(desejar recorrer preferencialmente a uma öi oi¬o em detrimento de uma öi |q, pois o
öioi¬q¬q , consideta a eqüidade, e o öi|oo¬q ,, a lei).
Heródoto no livro 5 de suas Histórias (5,95), ao contar como Sigeio passou ao
domínio ateniense, diz ter sido um tal Periandro, filho de Cípselo, que serviu de
öioi¬q¬q , na contenda jurídica entre mitilenos e atenienses, decidindo dar a cada um
as terras que ocupavam. Mas foi Aristóteles (At.53 e Pol.1297ª6) quem precisou o papel
jurídico e a função social do öioi¬q¬q ,, especialmente quando, na Constituição de
Atenas (loc.cit.) descreve minuciosamente a formação do tribunal. Nesse sentido, é
expressivo o verbete öioi¬o , no léxico de Hesíquio, onde se lê: öioi¬o , |pi¬q ,.
Apesar das dificuldades de datação dos tratados hipocráticos, podemos ter
alguma segurança ao afirmar que o registro mais antigo que relaciona öi oi¬o à
alimentação está no texto Da medicina antiga (8 e 9Littré). Creio que essa
especialização semântica do termo tem grande dívida para com a articulação entre os
aspectos de intervenção e de observação que öi oi¬o traz em si. Apesar de o contexto
inerentemente sugerir uma interpretação que aproxime öi oi¬o das prescrições e dos
ditames de uma autoridade reconhecida, o que uma análise mostra, ainda que se a faça
com brevidade, é que öi oi¬o, nessa passagem do Corpus hippocraticum, surge como
fruto de uma observação, contexto que inclui a alimentação dos sãos (¬ov
uyioivo v¬ov) e dos animais (¬ov ûqpi ov), e passa à prescrição, face médica do
caráter interventor da öi oi¬o, pela qual ficou consagrado o vocábulo em sua difusão
cultural.
A öi oi¬o passa muito rapidamente, a partir do tratado Da medicina antiga, a um
lugar fundamental na io¬pi|q ¬t _vq, onde forma, juntamente com o ¢o pµo|ov, os
dois sustentáculos da prática médica. Essas ferramentas são, para o médico hipocrático,
a forma que eles têm de intervir na ¢u oi,, a partir de um vo µo, freqüentemente em
desarmonia com ela
2
.

Sobre o Htpi öioi ¬q,

Consta do Corpus hippocraticum um longo tratado que recebeu o título de Htpi
öioi ¬q,. Jacques Jouanna sugere, para o texto, uma datação que se inscreve no lapso
entre o fim do V e o começo do século IV a.C.
Seu tema é, naturalmente, a dieta interventiva; mas a proposta de intervenção é
baseada na observação. A öi oi¬o é composta por dois elementos: alimentos e bebidas
(39-60) e exercícios (¬o voi) (61-66). Segue-se a esses dois verdadeiros catálogos de
alimentos, bebidas e exercícios mais duas longas partes do tratado: segundo a tradição
ecdótica, livros 3 e 4, segundo as referências de Galeno, livro 3, pois o médico de
Pérgamo não reconhecia a divisão entre os livros 3 e 4. O primeiro trata da
harmonização entre a dieta alimentar e os exercícios, e o segundo é dedicado aos sonhos
e seu papel no diagnóstico e no prognóstico.
Interessa-nos aqui a dieta alimentar: o livro segundo, mais especialmente o
“catálogo de alimentos” que há ali, o mais completo que a Antiguidade nos legou
3
. Há
outros dois catálogos como esse, um, no tratado Das afecções (39-61), e outro, no
apéndice ao tratado Das doenças agudas, em notas soltas. O conteúdo desses catálogos,
no entanto, é consideravelmente mais sumário do que o do Htpi öioi ¬q,.

2
Sobre esse tema, ver : CAIRUS, Henrique F. . A arte hipocrática entre o lógos e a práxis. Terceira
Margem, Rio de Janeiro, v. ano 8, n. no.9, p. 9-18, 2003. www.letras.ufjr.br/pgclassicas/CVHC.htm
3
Neste momento, Julieta Alsina, discente do PPGLC-UFRJ, inicia, sob minha orientação, uma pesquisa
de Mestrado intitulada “À mesa com os gregos: . O discurso sobre a alimentação na Grécia Clássica a
partir dos tratados hipocráticos”. A pesquisa está inserida nas atividades do Programa de Altos Estudos
em Representações da Antiguidade da UFRJ. Espero que a Dissertação resultante dessa pesquisa possa
oferecer mais dados e mais luzes acerca do tema.
Decerto os catálogos desses dois tratados são muito inferiores, em quantidade de
informações e em detalhes, ao que encontramos no Htpi öioi ¬q,. García Gual
4

pondera que as muitas coincidências entre esses catálogos devem ser mais atribuídas às
suas fontes “meio populares, meio profissionais”, o que, creio, quereria dizer que eram,
em parte, informações do domínio do io¬po ,, em parte, dados do domínio do iöio ¬q,.
Indubitavelmente o catálogo do Htpi öioi ¬q, continua a fonte mais rica sobre
alimentação na Grécia antiga.
A preocupação e o objetivo do catálogo do Htpi öioi ¬q, são sinalizar as
öuvo µit, dos alimentos, ou seja, as suas propriedades, as suas pontencialidades no
universo fisiológico. O tratado insiste nesse ponto, o que parece ressoar o conhecido
passo do Da medicina antiga (14-16Littré), onde encontramos um autor que se volta
contra uma medicina alicerçada em postulados e princípios fundamentais que se
traduziriam numa mesma öu voµi, primordial.
Em lugar de uma öu voµi, primordial, o autor oferece um quadro complexo
(aspecto renintente do trato), onde as propriedades dos alimentos devem ser combinadas
entre si, para gerar tal ou qual efeito que pode não incluir integral ou parcialmente a
öu voµi, original de um dos elementos, e tudo isso, levando em consideração o modo do
preparo e da conservação do que vai ser ingerido.
Em seu início (39Littré), o tratado esclarece acerca do que se precisa saber sobre
a öuvo µi, na öi oi¬o: ela pode ser |o¬o ¢u oiv, conforme a observação indica, ou öio
¬t _vq,, conforme a intervenção impõe.
A lista dos alimentos e de suas öuvo µit, compreende cereais, carnes, peixes,
crustáceos, legumes (e verduras), frutas, pães, ovos, mel e queijos, e a lista de bebidas
contava com o vinho, o vinagre, o cíceon
5
, o leite e, naturalmente, a água. Alguns
alimentos podem causar espécie a um ocidental hodierno, como a carne de cachorro, de
raposa e de porco-espinho.

4
García Gual, Carlos. Sobre la dieta. In: ------ et alii. Tratados hipocráticos. Gredos, Madrid, 1990. p.224.
5
O conteúdo dessa bebida grega não completamente conhecido. O tratado refere-se a ele a partir da
pressuposição de seu conhecimento. É interessante que seja justamente a Ilíada (XI,624-41) que descreva
pormenorizadamente a receita de uma bebida com esse nome, que contém farinha, vinho e raspa de queijo
de leite cabra. A receita também consta da Odisséia (X,234-6), onde Circe acrescenta mais um
ingredientes à mistura: o mel; além de depositar ali as drogas mágicas que fizeram com que os
companheiros de Odisseu se transformassem em porcos. O autor do tratado Da dieta fala de um cíceon
feito só com farinha de cevada e água e outro, com a mesma farinha e vinho, em seguida fala da opção
pelo acréscimo do mel, que teria a öu voµi, de nutrir e esfriar menos. Há ainda, no tratado, a opção de
cíceon com leite de cabra, de vaca, jumenta ou de égua, cada qual com suas propriedades.

Além da variedades das carnes, influía também o modo de prepará-las e o modo
de conservá-las. Além do sal, que já era esperado, usava-se para conservar a carne o
vinho e o vinagre, o que ensejava mais uma ocasião de combinação de öuvo µit,.
As öuvo µit, devem ser variadas, e o médico que administra a dieta deve saber
como prescrevê-las, de acordo com a necessidade. E essa necessidade é sempre a de
intervir através de uma ¬t _vq, portanto, um de processo do vo µo,.
As propriedades são obviamente |o¬o ¢u oiv e a administração öio ¬t _vq,, e
ambas são variáveis e, quando se tratar dos vouoou v¬t,,,devem ser operadas por um
io¬po ,. Já os uyioi vov¬t, são aqueles que conseguem, |o¬o ¬u _qv, harmonizar o
vo µo, à ¢u oi,.
A öu voµi, mais importante do alimento, a que sustenta qualquer outra que ele
venha a ter é a que faz dele algo ¬po ¢iµo,, algo destinado à ¬po¢q, à nutrição.
O conceito de ¬po ¢iµo, é fundamental no Htpi öioi ¬q,. Os alimentos não só
tem de ser ¬po ¢iµoi, como também são valorados pela intensidade dessa propriedade
imprescindível.
Tomemos muito sucintamente o exemplo do trigo e da cevada: dizer que ¬upoi
io_upo ¬tpoi |piûov |oi ¬po¢iµo ¬tpoi (o trigo é mais forte e mais nutritivo do que a
cevada) significa que, no que concerne à sua função básica, a de nutrir, o trigo é melhor.
No entanto, a cevada, de natureza fria e úmida, resseca, tem um sumo da casca
purgativo e um sumo da polpa refrescante e adstringente. Quando torrada, por exemplo,
o fogo retira seu caráter úmido e purgativo, e ela se torna fria e seca. Já o pão (µoÇo) de
cevada sêca é muito nutritivo.
As formas de preparar a cevada são muitas, como as formas de preparar o trigo,
e essas maneiras de preparo implicam, por si, mudanças profundas de öuvo µit,.
O trigo, por sua vez, mesmo sendo mais ¬po ¢iµo, do que a cevada, é menos
laxante. E, assim como a cevada, pode ser preparado de diversas maneiras, todas elas
devidamente descritas no tratado, e cada maneira tem sua öu voµi,. E assim ocorre com
quase todos os alimentos.
Finalmente, cabe dizer que a dieta alimentar é, em seu formato hipocrático, um
dos braços mais importantes da öi oi¬o, que, por sua vez é um dos dois sustentáculos da
io¬pi|q ¬t _vq. Sua complexidade recusa-se ao reducionismo “filosófico” dos
princípios únicos, e integra um projeto maior, o da própria medicina hipocrática, que é a
de dialogar com a ¢u oi,, e promover uma harmonização, ainda que tensa, do homem
com o seu mundo, uma harmonização a que até hoje chamamos “saúde”.

em oposição à di/kh.cit. Creio que essa especialização semântica do termo tem grande dívida para com a articulação entre os aspectos de intervenção e de observação que di/aita traz em si. as Ku/rou e0ntolai/.53 e Pol. especialmente quando. na Constituição de Atenas (loc. Heródoto no livro 5 de suas Histórias (5.157 de Heródoto é especialmente relevante. Por isso. surge como fruto de uma observação. em sua Retórica (1374b20): kai\ to\ ei0j di/aitan ma~llon h2 ei0j di/khn bou/lesqai i0enai: o9 ga\r diaithth\j to\ e0pieike/j o9ra|~. ao meu ver. a lei). Apesar das dificuldades de datação dos tratados hipocráticos. denota o princípio legal aplicado de uma forma genérica. ainda que se a faça com brevidade. como intervenção. ao contar como Sigeio passou ao domínio ateniense. pois o diaithth/j consideta a eqüidade. no vocabulário jurídico ático. ser relacionada mais à observação do que à intervenção. como se poderia esperar no caso de uma di/aita como intervenção. Mas foi Aristóteles (At. A di/aita. o9 de\ dikasth\j to\n no/mon / (desejar recorrer preferencialmente a uma di/aita em detrimento de uma di/kh.95).todo seu modo de viver). que serviu de diaithth/j na contenda jurídica entre mitilenos e atenienses. nessa passagem do Corpus hippocraticum. e o dikasth/j. que. é que di/aita. A presença um tanto redundante ou enfática da palavra zoh/ nesse trecho assinala. o que uma análise mostra. diz ter sido um tal Periandro. esse deslocamento de perspectiva: a di/aita a ser mudada. por ordens soberanas. no sentido em a lemos nesses trechos. mas essa alteridade da di/aita parece-me mais devida ao fato de a di/aita. podemos ter alguma segurança ao afirmar que o registro mais antigo que relaciona di/aita à alimentação está no texto Da medicina antiga (8 e 9Littré).) descreve minuciosamente a formação do tribunal. onde se lê: diaito/j: krith/j. a passagem I. exige o reconhecimento de um lugar de autoridade. A di/aita é sobretudo um termo aplicado ao outro. já que se coloca como um eixo entre a observação e a intervenção. não é específica. como atesta Aristóteles. Apesar de o contexto inerentemente sugerir uma interpretação que aproxime di/aita das prescrições e dos ditames de uma autoridade reconhecida. é expressivo o verbete diaito/j no léxico de Hesíquio. filho de Cípselo. O direito ático emprega o termo di/aita como uma sentença dada a alguém. mas de caráter geral “th~j zoh~j”.1297ª6) quem precisou o papel jurídico e a função social do diaithth/j. uma espécie de lei específica e aplicada. contexto que inclui a alimentação dos sãos (tw~n . Nesse sentido. decidindo dar a cada um as terras que ocupavam.

a dieta interventiva. Jacques Jouanna sugere. pela qual ficou consagrado o vocábulo em sua difusão cultural.u9giaino/ntwn) e dos animais (tw~n qhri/wn). O primeiro trata da harmonização entre a dieta alimentar e os exercícios. ano 8. segundo as referências de Galeno. Julieta Alsina. a um lugar fundamental na i0atrikh\ te/xnh. no. os dois sustentáculos da prática médica. bebidas e exercícios mais duas longas partes do tratado: segundo a tradição ecdótica. naturalmente. www. uma datação que se inscreve no lapso entre o fim do V e o começo do século IV a. . Segue-se a esses dois verdadeiros catálogos de alimentos.ufjr. Sobre esse tema. Interessa-nos aqui a dieta alimentar: o livro segundo. discente do PPGLC-UFRJ. pois o médico de Pérgamo não reconhecia a divisão entre os livros 3 e 4. para o texto. e outro. e passa à prescrição. no apéndice ao tratado Das doenças agudas. uma pesquisa de Mestrado intitulada “À mesa com os gregos: . Henrique F. no tratado Das afecções (39-61). o mais completo que a Antiguidade nos legou3.9. n. O conteúdo desses catálogos. Rio de Janeiro. 2 . A arte hipocrática entre o lógos e a práxis. Sobre o Peri\ diai/thj Consta do Corpus hippocraticum um longo tratado que recebeu o título de Peri\ diai/thj. livro 3. inicia. Seu tema é. p. onde forma. v.htm 3 Neste momento. 2003. juntamente com o fa/rmakon. 9-18. a forma que eles têm de intervir na fu/sij. A di/aita passa muito rapidamente.br/pgclassicas/CVHC. um. a partir de um no/moj freqüentemente em desarmonia com ela2. ver : CAIRUS.letras.C. é consideravelmente mais sumário do que o do Peri\ diai/thj. no entanto. Há outros dois catálogos como esse. Essas ferramentas são. mas a proposta de intervenção é baseada na observação. livros 3 e 4. e o segundo é dedicado aos sonhos e seu papel no diagnóstico e no prognóstico. em notas soltas. a partir do tratado Da medicina antiga. Espero que a Dissertação resultante dessa pesquisa possa oferecer mais dados e mais luzes acerca do tema. O discurso sobre a alimentação na Grécia Clássica a partir dos tratados hipocráticos”. A pesquisa está inserida nas atividades do Programa de Altos Estudos em Representações da Antiguidade da UFRJ. face médica do caráter interventor da di/aita. Terceira Margem. sob minha orientação. mais especialmente o “catálogo de alimentos” que há ali. para o médico hipocrático. A di/aita é composta por dois elementos: alimentos e bebidas (39-60) e exercícios (po/noi) (61-66).

o que parece ressoar o conhecido passo do Da medicina antiga (14-16Littré). em seguida fala da opção pelo acréscimo do mel. a água. dados do domínio do i0diw/thj. crustáceos. e a lista de bebidas contava com o vinho. ovos. Sobre la dieta. frutas. legumes (e verduras). jumenta ou de égua. García Gual4 pondera que as muitas coincidências entre esses catálogos devem ser mais atribuídas às suas fontes “meio populares. o autor oferece um quadro complexo (aspecto renintente do trato). além de depositar ali as drogas mágicas que fizeram com que os companheiros de Odisseu se transformassem em porcos. em parte. o cíceon5. como a carne de cachorro. em quantidade de informações e em detalhes. mel e queijos.224. que contém farinha.624-41) que descreva pormenorizadamente a receita de uma bebida com esse nome. meio profissionais”. Há ainda. conforme a observação indica. onde encontramos um autor que se volta contra uma medicina alicerçada em postulados e princípios fundamentais que se traduziriam numa mesma du/namij primordial. as suas pontencialidades no universo fisiológico. O autor do tratado Da dieta fala de um cíceon feito só com farinha de cevada e água e outro. Alguns alimentos podem causar espécie a um ocidental hodierno.Decerto os catálogos desses dois tratados são muito inferiores. In: -----. as suas propriedades. para gerar tal ou qual efeito que pode não incluir integral ou parcialmente a du/namij original de um dos elementos. ao que encontramos no Peri\ diai/thj. Carlos. no tratado. ou seja. peixes. A preocupação e o objetivo do catálogo do Peri\ diai/thj são sinalizar as duna/miej dos alimentos. onde as propriedades dos alimentos devem ser combinadas entre si. p. o que. O tratado refere-se a ele a partir da pressuposição de seu conhecimento. pães. O conteúdo dessa bebida grega não completamente conhecido. informações do domínio do i0atro/j. conforme a intervenção impõe. carnes. 5 . Em lugar de uma du/namij primordial. o vinagre. vinho e raspa de queijo de leite cabra. Tratados hipocráticos. o tratado esclarece acerca do que se precisa saber sobre a duna/mij na di/aita: ela pode ser kata\ fu/sin. de vaca. levando em consideração o modo do preparo e da conservação do que vai ser ingerido. ou dia\ te/xnhj. Madrid. 1990. O tratado insiste nesse ponto.234-6). com a mesma farinha e vinho. A lista dos alimentos e de suas duna/miej compreende cereais. onde Circe acrescenta mais um ingredientes à mistura: o mel. e tudo isso. Indubitavelmente o catálogo do Peri\ diai/thj continua a fonte mais rica sobre alimentação na Grécia antiga.et alii. A receita também consta da Odisséia (X. em parte. Em seu início (39Littré). cada qual com suas propriedades. de raposa e de porco-espinho. creio. É interessante que seja justamente a Ilíada (XI. o leite e. 4 García Gual. quereria dizer que eram. que teria a du/namij de nutrir e esfriar menos. naturalmente. a opção de cíceon com leite de cabra. Gredos.

a que sustenta qualquer outra que ele venha a ter é a que faz dele algo tro/fimoj. que já era esperado. Já o pão (ma~za) de cevada sêca é muito nutritivo. A du/namij mais importante do alimento. harmonizar o no/moj à fu/sij. Quando torrada. em seu formato hipocrático. e cada maneira tem sua du/namij. assim como a cevada. e integra um projeto maior. E assim ocorre com quase todos os alimentos. E essa necessidade é sempre a de intervir através de uma te/xnh. e ela se torna fria e seca. de natureza fria e úmida. a cevada. No entanto. algo destinado à trofh/. à nutrição. Os alimentos não só tem de ser tro/fimoi. um dos braços mais importantes da di/aita. Já os u9giai/nontej são aqueles que conseguem. O conceito de tro/fimoj é fundamental no Peri\ diai/thj. Além do sal. mesmo sendo mais tro/fimoj do que a cevada. por sua vez é um dos dois sustentáculos da i0atrikh\ te/xnh. e essas maneiras de preparo implicam. tem um sumo da casca purgativo e um sumo da polpa refrescante e adstringente. que.. Sua complexidade recusa-se ao reducionismo “filosófico” dos princípios únicos. quando se tratar dos nousou/ntej. O trigo. As duna/miej devem ser variadas. Tomemos muito sucintamente o exemplo do trigo e da cevada: dizer que puroi\ i0sxuro/teroi kriqw~n kai\ trofimw/teroi (o trigo é mais forte e mais nutritivo do que a cevada) significa que. portanto. o trigo é melhor. o da própria medicina hipocrática. E. o que ensejava mais uma ocasião de combinação de duna/miej. por si. usava-se para conservar a carne o vinho e o vinagre. de acordo com a necessidade. influía também o modo de prepará-las e o modo de conservá-las. o fogo retira seu caráter úmido e purgativo. e ambas são variáveis e. todas elas devidamente descritas no tratado. cabe dizer que a dieta alimentar é.Além da variedades das carnes. a de nutrir.devem ser operadas por um i0atro/j. que é a . kata\ tu/xhn. por exemplo. resseca. como as formas de preparar o trigo. mudanças profundas de duna/miej. pode ser preparado de diversas maneiras. As formas de preparar a cevada são muitas. no que concerne à sua função básica. por sua vez. e o médico que administra a dieta deve saber como prescrevê-las. como também são valorados pela intensidade dessa propriedade imprescindível. Finalmente. é menos laxante. um de processo do no/moj. As propriedades são obviamente kata\ fu/sin e a administração dia\ te/xnhj.

uma harmonização a que até hoje chamamos “saúde”. do homem com o seu mundo. ainda que tensa. .de dialogar com a fu/sij. e promover uma harmonização.

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