verve

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Revista Semestral do Nu-Sol — Núcleo de Sociabilidade Libertária Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais, PUC-SP

7
2005

VERVE: Revista Semestral do NU-SOL - Núcleo de Sociabilidade Libertária/ Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais, PUC-SP. Nº7 ( maio 2005 - ). - São Paulo: o Programa, 2005 Semestral 1. Ciências Humanas - Periódicos. 2. Anarquismo. 3. Abolicionismo Penal. I. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais. ISSN 1676-9090 VERVE é uma publicação do Nu-Sol – Núcleo de Sociabilidade Libertária do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP. Coordenadoras: Teresinha Bernardo e Silvana Tótora.

Editoria
Nu-Sol – Núcleo de Sociabilidade Libertária.

Nu-Sol
Acácio Augusto S. Jr., Anamaria Salles, Andre R. Degenszajn, Edson Lopes Jr., Edson Passetti (coordenador), Eliane Knorr de Carvalho, Guilherme C. Corrêa, José Eduardo Azevedo, Lúcia Soares da Silva, Márcio Ferreira Araújo Jr., Martha C. Lossurdo, Natalia M. Montebello, Gilvanildo Avelino, Rogério H. Z. Nascimento, Salete Oliveira, Thiago M. S. Rodrigues, Thiago Souza Santos.

Conselho Editorial
Adelaide Gonçalves (UFC), Christina Lopreato (UFU), Clovis N. Kassick (UFSC), Guilherme C. Corrêa (UFSM), Guilherme Castelo Branco (UFRJ), Margareth Rago (Unicamp), Roberto Freire (Soma), Rogério H. Z. Nascimento (UFPB), Silvana Tótora (PUC-SP).

Conselho Consultivo
Alexandre Samis (Centro de Estudos Libertários Ideal Peres – CELIP/RJ), Christian Ferrer (Universidade de Buenos Aires), Dorothea V. Passetti (PUC-SP), Francisco Estigarribia de Freitas (UFSM), Heleusa F. Câmara (UESB), José Carlos Morel (Centro de Cultura Social – CSS/SP), José Maria Carvalho Ferreira (Universidade Técnica de Lisboa), Maria Lúcia Karam, Paulo-Edgard de Almeida Resende (PUC-SP), Plínio A. Coelho (Editora Imaginário), Silvio Gallo (Unicamp, Unimep), Vera Malaguti Batista (Instituto Carioca de Criminologia). ISSN 1676-9090

verve
revista de atitudes. transita por limiares e instantes arruinadores de hierarquias. nela, não há dono, chefe, senhor, contador ou programador. verve é parte de uma associação livre formada por pessoas diferentes na igualdade. amigos. vive por si, para uns. instala-se numa universidade que alimenta o fogo da liberdade. verve é uma labareda que lambe corpos, gestos, movimentos e fluxos, como ardentia. ela agita liberações. atiça-me! verve é uma revista semestral do nu-sol que estuda, pesquisa, publica, edita, grava e faz anarquias e abolicionismo penal.

o benjamim da anarquia Jean Maitron Notas para a abolição dos campos de concentração e de extermínio Salete Oliveira Prisões: falência e crime social Emma Goldman Abolicionismo penal.SU M Á R I O Émile Henry. medidas de redução de danos e uma nota trágica Edson Passetti A mecanização do cadáver — a má sorte dos animais Christian Ferrer Stirner e Foucault: em direção a uma liberdade pós-kantiana Saul Newman Mujeres libres: anarco-feminismo e subjetividade na revolução espanhola Margareth Rago A educação anarquista na república velha Eduardo Valladares Os pedreiros da anarquia Edgar Rodrigues Anarquia e anarquismo Eduardo Colombo Centro de cultura social. uma prática anarquista Entrevista com José Carlos Morel 11 43 57 75 86 101 132 153 178 194 209 .

a revolta e o devir Pablo Martins 224 226 244 264 RESENHAS Anarquismo e crítica pós-moderna Nildo Avelino Notícias de um pensador: a coragem da verdade e o pensamento libertário de Michel Foucault Tony Hara Heterotopia e vitalismo: por uma arte vitalista Jorge Vasconcellos Afirmação da vida e decretação da morte Acácio Augusto Conectando anarquias Thiago S. Thoreau Anarquismo na vida e na obra de eugene o’neill Pietro Ferrua Lygia Clark e Nietzsche-Zaratustra: trajetórias Beatriz Scigliano Carneiro Jean Vigo.Haikai Henry D. Santos 279 286 292 297 301 .

no cotidiano jamais modorrento. os anarquismos. as aproximações com nietzsche. de reviravoltas diárias. e suas atuais palavras. diante de tantas forças reativas. coragem e verdade. contaminando de boçalidade até os libertários. o teatro de eugene o’neill. de suas experimentações. . diante do pavor disseminado pelo terrorismo conservador deste início do século XXI. é a partir deste jovem anarquista que se apresenta uma tensa discussão sobre o abolicionismo penal. interessa-nos rebeldias. verve 7 traz instantes do julgamento de émile henry. um presente composto das memórias de suas lutas. esta apenas sustenta dogmatismos. o contundente ensaio de saul neuwman sobre foucault e stirner. no final do XIX. resenhas sobre ética.os anarquismos estão vivos como história do presente. o cinema de jean vigo. século que também vem se caracterizando pelo conformismo. verve não se interessa pela polêmica. um presente feito de atualidade. é sempre corajoso uivar: a uniformidade é a morte. das atuações dos anarquistas no trabalho. e poesias de sergio cohn.

7 2005 não há como celebrar o raro sem o encontro Sergio Cohn 10 .

2005 11 . Le mouvement anarchiste en France de 1914 à nous jours (Paris. 1964). 1992) e Ravachol et les anarchistes (Paris. 7: 11-42. largamente ignorado pela historiografia de direita e de esquerda. ainda mais. Professor do ensino médio e depois professorassistente na Sorbonne (Paris I) escreveu e organizou diversas obras como Histoire du mouvement anarchiste en France — 1880-1914 (Paris. verve. * Jean Maitron (1910-1987) foi um dos mais importantes historiadores do movimento operário francês. que ocorre entre a Comuna de Paris (1871) e a primeira Guerra Mundial (1914). 1951).verve Émile Henry. repleta de negligências históricas. o benjamim da anarquia jean maitron* Nota introdutória. em nossos dias quando vários acontecimentos internacionais passam a desencadear uma vasta bibliografia de época. Gallimard. A lembrança da postura e da atitude política destes homens de ação (como gostavam de se autodenominar) ou destes assassinos delicados (utilizando um termo cunhado por Camus) faz-se necessária. o benjamim da anarquia émile henry1. Collection Archives. por acácio augusto O terrorismo anarquista é um importante acontecimento histórico-político. Sudel. produzida por intelectuais oportunistas e desavisados polemistas apressados.

a reivindicação estritamente pessoal que Henry faz de suas ações. trecho que selecionamos do livro. resultado de uma intensa repressão levada a cabo pelo governo francês para pôr fim aos atentados e ameaças que emergiram das resoluções da Internacional Negra (1881) — uma tentativa de reagrupar internacionalmente os libertários após a cisão com os autoritários no Congresso de Haia. desde então.7 2005 O texto que segue é uma seleta de um dos capítulos do livro de Jean Maitron. outro é de seus atentados ocorrerem no exato momento em que se esperava liquidar a ação dos anarquistas com o julgamento dos Trinta. os anarquistas responderiam com violência à violência da burguesia organizada no Estado. e. Maitron reproduz uma série de documentos compostos de interrogatórios policiais e judiciais. um jovem espanhol promissor de classe média. é um acontecimento singular no interior do que foi conhecido como terror anarquista. A maneira que Émile Henry entende a anarquia dispensa apresentações. Ravachol e os Anarquistas. Maitron é. documentos que utilizou para escrever sua História do Anarquismo na França (1880-1914). O julgamento de Émile Henry. Na ocasião do julgamento dos Trinta (1894). resultado de uma pesquisa realizada nos arquivos de polícia da prefeitura de Paris na década de 1950. em 1872 — Henry. Im- 12 . deflagra dois atentados contra a burguesia de Paris e declara que. junto com o alemão Max Nettlau. por fim. Três fatores surpreendem o governo e burgueses franceses no caso de Henry: um é o fato deste não possuir as características físicas e sociais de um anarquista exemplar. um dos principais historiadores anarquistas. A leitura desta seleta que publicamos pela primeira vez no Brasil é suficiente. artigos de jornais e prontuários.

e na história. Os cabelos castanhos são cortados à escova. Sentado no banco dos réus.3 13 . o Estado e a propriedade privada. Uma ligeira barba loura cresce-lhe no queixo. ao seu monopólio legítimo do uso da força e à pletora de direitos. Quando tudo parecia caminhar para normalidade.2 O caso sobre o qual o júri do Sena é hoje chamado a debruçar-se apresenta uma gravidade excepcional. O anarquista é uma procedência moderna no terrorismo que reivindica para si. os anarquistas explodiram bombas para lembrar que são contra a representação. ********* Nos dias 27 e 28 de Abril de 1894. de tom pálido. de fisionomia fina e doce. outros colocaram-se nas entradas. Desta vez. matado e exilado os insurgentes da Comuna de Paris. revistando cuidadosamente cada pessoa que entrava. Émile Henry é um jovem de vinte e dois anos. a capacidade de se defender contra o contrato fictício — que entrega cada um às mãos do Estado. numerosos agentes policiais dispersaram-se pelos arredores do Palácio da Justiça. Está vestido de preto.verve Émile Henry. sorri com indiferença. de costas apoiadas no parapeito. o benjamim da anarquia portante ressaltar que algo de muito intenso ocorreu na França nas décadas de 1880 e 1890: o terror anarquista acordou os socialistas acomodados em sindicatos e partidos e perturbou o sono da burguesia que esperava dormir tranqüila após ter prendido. o acusado não é um homem grosseiro cuja educação primária tenha sido menosprezada. o tribunal.

Despreza a vida humana. A 12 de Fevereiro. A sua bomba ia à cintura de suas calças? R. P. Quanto tempo esperou? R. P. Estou perguntando. Por que foi ao Café Terminus? R. Já o sabem. P. ao deixar o café. no bolso de meu sobretudo. P.7 2005 [O interrogatório] [. pegando a bomba. Fui primeiro à Casa Bignon. R. Por que? R. a vida dos burgueses. P. P. Resposta. Havia uma orquestra. Uma hora. lancei a bomba. Fez tudo para salvar a sua. R. Sim. Não.] Terminada a leitura dos autos de acusação. E em seguida? R. mas não havia gente o suficiente. Para que aparecesse mais gente. entrou no Café Terminus. P. Não. entrei no Terminus e esperei. acendi o rastilho e depois. o presidente procede ao interrogatório do acusado: Pergunta. Usei o charuto!.. P. ao Café de la Paix e ao Americain. 14 . então. saí e à porta.. às oito horas.

P. Sim. R. Certamente. Foi atingido e está mal. fechar a cortina de entrada. Tinha consigo balas que haviam sido fendidas. Ele caiu.verve Émile Henry. Contava sair do café. O agente Poisson o seguia. P. que fez? R. para recomeçar. E o que é que fez? R. P. comprar um bilhete na estação Saint-Lazare. Depois foi detido por um funcionário de cabeleireiro. Como nessa altura se juntava gente. esperei o agente Poisson e disparei contra ele os últimos três tiros do meu revólver. um homem de nome Etienne. P. fugir e recomeçar no dia seguinte. Para causar mais estragos. o benjamim da anarquia R. P. P. parei. P. 15 . R. Por que? R. Que não sabia o que eu tinha feito. que caçou-o. dizendo: “Agarrei-te canalha!” — Você respondeu: “Ainda não”. R. O que é que você disse? R. Que tivera sorte por o meu revólver não ser melhor. Envenenara a lâmina para esfaquear um delator de anarquistas. Desfechei-lhe um tiro de revólver. P. Disparei sobre ele. Ao fugir encontrou-se mais adiante com um empregado do café. Então foi preso e os policias tiveram dificuldade em arrancá-lo da fúria da multidão. E um punhal embebido numa preparação. Estava decidido a atacar o agente com essa arma? R.

P. R. Kingsburg. P. melhor seria. ainda sobre grande padecimento. Identificou-se primeiro como um tal Breton. diz chamar-se Émile Henry e descreve a sua bomba. um deles. É isso que penso. sofreu quarenta ferimentos. Pôs projéteis dentro dela. 16 . Você declarou que quanto mais burgueses morressem. entretanto morreu. Van Herreweghen. Coloquei cento e vinte balas. madeiras são quebrados. mas a marmita não estava bem fechada. tinha posto pregos e não balas. E essas mulheres ficaram aterrorizadas ao ponto de esconder os seus ferimentos.7 2005 P. Houve muitos feridos: vinte. pouco depois. desmascara-se. Por que não atingiu mais pessoas com essa explosão. Afirmou que tinha experimentado um insucesso relativo. R. Encontravam-se ali mulheres: a Sra. Tratava-se de uma pequena marmita de ferro branco contendo um detonador e um rastilho. P. Queria ter morto mais gente. que dizia querer ferir e não matar. espelhos. apesar de ter feito pontaria à orquestra? R. chocou-se com o lustre e desviou-se. bem como outras que ireis escutar. Então ouviu-se uma explosão surda e o café ficou completamente destruído: mesas. Como é que era feita? R. Achava-se sentado a uma mesa próxima da porta e lançou a bomba para a frente. um outro. Ficara com uma perna crivada de feridas. Lancei a bomba demasiado alto. o Sr. Borde. P. P. Vaillant. O que é que isso significa? R. o Sr.

Certamente. Oh! Pouco me importa. avisado. Quis matar as pessoas do Café Terminus? R. o benjamim da anarquia R. (Aos jurados): Conhecem o crime e o acusado. seja qual for o crime. P. a justiça. então. é convicção. Sr. Desconheço quem entrou no meu quarto. encontra materiais explosivos e conclui ser aquela a sua residência. P. nunca prescin- 17 . Eu pretendia matar e não ferir. Declarei que não tinha domicílio em Paris. quantas mais melhor. Quis destruir o edifício? R. Dava para fazer entre doze e quinze bombas. P. o comissário da polícia. ele erguera o sabre e teria me matado. o que muito nos honra. mas. Presidente (aos jurados): Isto já bastaria para estabelecer a culpabilidade do acusado.verve Émile Henry. Quis matar Etienne. Quis matar todos os que se opusessem à minha fuga. o empregado do café? R. foi assaltado um quarto da casa Faucher. Advertiram-no que fôra descoberto o seu domicílio e. Pouco depois. replicou que deveriam ter encontrado em sua casa uma certa quantidade de materiais explosivos. P. O seu domicílio não era conhecido. P. que acaba de vos confessar o seu crime com cinismo. P. P. Certamente. R. P. R. R. Quis matar o agente Poisson? R. afirmei vir de Marselha ou de Pequim. O acusado: Não é cinismo.

tomou parte na Comuna de Paris. logo arranjou uma ocupação. após um comício de homenagem a Ravachol6. e o seu patrão encontra na sua escrivaninha obras anarquistas. P. Ele quis obriga-lo — foi você quem o afirmou — a exercer uma vigilância discreta que lhe repugnou. P. e aos dezessete anos pôde ser admitido na Escola Politécnica. Por que é que veio embora? R. R. Passei três meses de miséria. R. O seu pai morava em Brévannes. Depois arranjou emprego. e nos quais se lê: “Viva o roubo.7 2005 de das regras habituais. Pouco depois. Bordenave. R. nomeadamente uma tradução de um jornal italiano. P. R. Devemos examinar todos os detalhes e debruçarmo-nos ainda sobre um outro fato imputado ao acusado. Reconheceu que tinha havido um mal entendido. Say4. Por motivos que não vêm ao caso. Viva a dinamite!”. indicando os métodos de fabricar nitroglicerina. Não continuou. B. Nesse momento você era influenciado por um dos seus irmãos. protestou. P. Arranjou emprego com um empreiteiro. Em Veneza. Obteve uma bolsa na Escola J. O Sr. foi preso. seu parente. Estão aí as regras que pôs em 18 .5 P. antes disso! P. Sr. Bordenave. ganhava 100F por mês. depois foi para a Espanha. P. Quanto ganhava? R. Em todo caso. interrogado. em seguida a sua mãe ficou viúva e com três crianças. Para não ser militar e não ser obrigado a disparar contra infelizes como em Fourmies. Ocupação bem medíocre: 100 a 120F por mês.

depois da greve. R.verve Émile Henry. preferi o sistema da bomba de inversão. Dupuis aumentou o seu salário. ano em que você entrou para esse jornal. uma espoleta e rastilho de mineiro. R. comprei uma marmita. Fui despedido quando encontraram esses papéis. P. R. R. P. Quererá repetir diante do júri as confissões que fez durante a instrução? Prefiro que você fale. P. condenado em 1892. Depois. P. que separa os dois 19 . Entrou para casa do Sr. R. o benjamim da anarquia prática no atentado da Rue des Bons-Enfants. Estive três anos num batalhão escolar7 e é tudo o que poderia fazer como tropa.8 R. tinha dinamite. Então o seu patrão despediu-o. Não estou ao par do que tem feito Ortiz desde que o conheci. por incitação à insubordinação militar — recusou também ser militar. Procurou trabalho num relojoeiro. O interrogatório prosseguiu. Com certeza. Furtou-se ao serviço militar e a sua mãe não concordou. Dupuis recomendado por Ortiz. P. dirigido por Matha. esteve empregado no En dehors. A Sociedade de Carmaux é representada em Paris pela sua administração. um ladrão. Sentia uma grande estima por ele. O acusado recusa-se a dizer o que fez durante o ano de 1893. O Sr. Os motivos do meu ato direi amanhã. Temia que eu fosse expatriado.

não tenho que lhe responder. [. P. Chegou a mandar-me uma vez uns versos. Você não reconhece a justiça. Presidente: Sente-se. o juizpresidente gritou: P. você não quer reconhecer que estendeu essa mão para receber dinheiro do roubo. Deixou-nos aos doze anos e mantive excelentes relações com ele. Possuía uma maturidade de espírito extraordinária. É-me indiferente.. Durante uma discussão mais acalorada. Escute: acho que há uma confissão que dói ao seu orgulho.. 20 . suspensa às duas horas e meia. Eu sei! O Sr. Dane-se com o seu silêncio! R. estou contente com o que fiz!. P. Não preciso me acautelar com o meu silêncio. era um modelo.7 2005 atentados. sei bem que serei condenado à morte. P. uma grande doçura. Brémant. A audiência. recomeçou às três horas e quinze. R. mestre-escola em Fontenay-sous-Bois: Émile Henry foi meu aluno. Você é acusado e o meu dever é interrogá-lo. Não reconheço a tua justiça. essa mão que vemos hoje coberta de sangue. R. Infelizmente para você está nas malhas dela e os jurados saberão apreciar.] Mais algumas testemunhas de acusação e passa-se aos depoimentos favoráveis. As minhas mãos estão cobertas de sangue. Vaillant confessou ter aceito 100F de um ladrão. tal como a sua toga! De resto. R...

Viu-o em 1893? R. A mãe dele pediu-me algumas vezes que lhe emprestasse dinheiro e ele me pagou. P. construir uma existência honrada e lucrativa como empregado de um construtor que se interessasse por ele? R. perguntou-me o que deveria fazer. Gauthey (Jules-François). Conhecia mal a vida. visitava-me. Fui acompanhando Émile. Poderia ter feito carreira muito boa. vestido de operário.verve Émile Henry. Hornbostel [advogado de defesa]: A testemunha deu dinheiro a Henry? R. era uma criança perfeita. Brajus. Say. Philippe. 65 anos: Conheci muito bem o pai. um amigo muito indulgente. Say. professor particular na Escola Politécnica: Fui professor de Henry na Escola J. sob a orientação de seu parente. B. Tinha as mãos sujas? 21 . veio ver-me duas ou três vezes. antes de se apresentar na Escola Politécnica. Em 1893. B. mas procurou-me várias vezes na minha ausência. a mais honesta que é possível encontrar. a mãe e os filhos da família Henry. Sempre se portaram bem e a minha casa esteve-lhes sempre aberta. Sr. operário metalúrgico: Conheci Henry em 1891. P. Era um colega excelente. respondi-lhe que o achava perfeitamente capaz para ser admitido. pelos seus conhecimentos. Teria podido. tinha por ele um grande afeto. P. Vi-o uma vez. o benjamim da anarquia Le Fermous: Fui condiscípulo de Émile Henry na Escola J. menos do que os rapazes da sua idade.

a fim de permitir que possa ser ouvido sem caráter oficial. A minha mulher viu-o e disse-me que ele era serralheiro. Cheguei a têlo como secretário. O Dr. Não tendo a citação à testemunha sido entregue ao Ministério Público. R. Dr.7 2005 R. já afirmei diante de alguns dos senhores jurados. Presidente (dirigindo-se à testemunha para o convidar a prestar juramento): Levante a mão direita. Em 1891. Tratei-o no fim da vida. Ele gostava muito das crianças. Goupil. O Doutor Goupil: Conheci o Henry pai. O acusado: Não sou louco. O meu pai morreu em conseqüência de um envenenamento por vapores mercuriais. mas não sou um louco. P. o delegado opõe-se a que o Sr. Recuso-me a prestar juramento por respeito pela vossa religião. 22 . O Sr. é um jovem muito nervoso. Agradeço-lhe mais uma vez. não sou louco. Levante a mão direita. estimava Henry. refiro-me aos que se dignaram receber-me. Goupil preste juramento. O Émile gozou uma juventude excelente. O acusado: Agradeço-lhe. mas tenho consciência do que fiz. médico. que não tenho a felicidade de praticar nem de conhecer. sou responsável pelos meus atos. O Doutor Goupil: Reuni apontamentos que entreguei à defesa e que indicam qual o estado mental do acusado. Os resultados obtidos no colégio foram posteriores à minha febre tifóide. Goupil coloca a mão direita atrás das costas.

Presidente: Então quero explicar em que circunstâncias esta testemunha foi citada. nos jornais antes de meu conhecimento. Sr. O Sr. o benjamim da anarquia Ogier d’Ivry (conde): Sou parente por afinidade de Émile Henry. O advogado pediu-me autorização para fazer entrar a mãe do acusado na sala de audiência. excelente aluno. Hornbostel: De maneira nenhuma. o pai participou na Comuna. São mais anarquistas do que a Anarquia ou mais realistas que o rei sob a monarquia. sonhador. aliás. Émile Henry 25 de Abril de 94. Sempre na oposição e em revolta. Presidente: Senhores jurados. Tinha por padroeiro São Luís. tentei em vão dissuadi-la. Recusei energicamen23 . que lhe negue qualquer autorização que ela vos possa pedir para assistir as mesmas. Sr. senhor presidente. insisto em perguntar ao acusado e ao seu defensor se renunciam a ouvi-la. Já aparecera. Temendo justificadamente que as emoções de dois dias de audiências lhe sejam demasiado dolorosos. Tendo a minha mãe manifestado o desejo de assistir ao meu julgamento. Convenci-o a entrar para a Escola Politécnica. descendem dos antigos Camisards9.” Esta carta foi-me entregue pela defesa. Recebi de Émile Henry a carta seguinte: “Senhor Presidente. desequilibrado. tenho a honra de vos solicitar senhor presidente.verve Émile Henry. Prisão do Palácio de Justiça. Há nestes homens um extraordinário sentimento de revolta. Conheci-o jovem. Queira aceitar. depois seguiu as inclinações do pai. as minhas sinceras saudações. antes de mandar entrar a última testemunha.

declarando que não queria deixar vir aqui uma mãe para ouvir o acusador público requerer a pena capital contra o filho. com uma jovem12. não de Ravachol. 11 24 . Apiedamo-nos também com a má sorte de Émile Henry.. não chegava. O seu pai possuía bens. isto não foi suficiente para o seu orgulho. Estamos aqui na presença.7 2005 te. foi empreiteiro de profissão. e a infelicidade atingiuo juntamente com a doença. Começa com 75F por mês. É precisamente o que pretendia evitar-lhe. Emprega-se na casa do Sr. depois engenheiro. mas na de um burguês. P. Renuncia à audiência da testemunha? O acusado: Renuncio em absoluto. coisa singular para um anarquista. que era citando-a como testemunha. Bordenave que aos dezesseis anos e meio lhe oferece um lugar e quer propiciar-lhe um futuro. Como foi educado o acusado? Condoemo-nos muito com certos anarquistas. O que mais lhe importa é saber “como este jovem burguês se tornou um anarquista”. esquecendo os órfãos que os atentados teriam podido causar. Acrescentei que só havia um meio de a fazer entrar. porque queria principiar por onde os outros acabam. conseguiu uma bolsa.10 Sr. Hornbostel: Renuncio igualmente. terminou os estudos secundários e chegou à admissão na Escola Politécnica. a lei obriga-me a ouvila. Esgotado o rol de testemunhas o acusador público pronunciou o seu requisitório. Se esta testemunha for chamada. O acusado: Desconhecia que a minha mãe tivesse sido citada. Léauthier e outros.. era um burguezinho. Não quero ver aqui a sua dor.

Formarin deixa viúva e um jovem rapaz. declara chamar-se Breton. Réuax tinha vinte e oitos anos.]. como quiserem. tornara-se oficial. Eis o resultado da anarquia: Pousset era filho de um oficial. Van Herrenweghen. deixa viúva grávida e duas crianças. Os feridos: Sr. essas senhoras enlouquecidas. vivendo de uma pensão. o benjamim da anarquia É orgulhoso e cruel. fez um pouco de tudo. Foi o que fez. Touteau deixa viúva e três crianças. Assistiram. foi secretário de comissário da polícia e em breve seria comissário. o seu luto começou no dia do crime. estudou direito. empregado de cabeleireiro. fôra para Saint-Cyr. Quero falar-vos das vítimas: Sinto-me cheio de pena da Sra. Sr. Quando depunha o Sr. deixa viúva e um bebê. licenciou-se. que farão melhor”. e tantas outras... o funcionário da Sociedade de Carmaux. 25 . a sua atitude em presença das vítimas. vindo de Marselha ou Pequim. a sexta faleceu. Após o caso do Terminus. A Sra. ostentava ele a sua indiferença face a esta vítima ainda débil que chorava a morte do seu amigo [. Maurice. Henry é sua primeira e mais dolorosa vítima. Morreram cinco vítimas na Rue de Bons-Enfants. Pousset deixa viúva e dois filhos. Acrescenta lamentar não ter morto mais gente e não ter podido usar seu punhal: “Matei muito pouca gente! Outros virão depois de mim. Herrenweghen. ontem. amava uma mulher pobre. casou com ela e teve que interromper sua carreira. É esta a solução da questão social segundo os anarquistas. depois de sofrimentos horríveis. Vejam como é um frio ironista. educado na Flèche. Henry ri destas vítimas! Garin. É isto que diz. há pouco tempo. escondendo seu terror. ainda combalido.verve Émile Henry. Henry cujo luto não começará com o vosso veredicto. A bomba estúpida da Rue des Bons Enfants acabou com tudo isso.

as suas injustiças e iniqüidades. com suas lutas e os seus dissabores. a opinião pública sente por eles apenas ódio e desejo de vingança. fala: Não é uma defesa que vos quero apresentar. Foi o que me aconteceu. e até a amar.7 2005 Os crimes de Henry são crimes atrozes. Tinha sido habituado a respeitar. e o veredicto de qualquer outro me é indiferente. [Palavras de Émile Henry] Suspensa a audiência às cinco horas e quarenta e cinco minutos. Émile Henry pediu então a palavra. recomeçou às cinco e dez. de abrir os olhos dos ignorantes à realidade. os princípios da pátria. fazei-o vós com o sangue frio necessário à justiça. De resto. indiscreta. família. Quero simplesmente explicar os meus atos e lhes dizer como fui levado a executá-los. A explicação de meus atos. Mas os educadores da geração atual esquecem com demasiada freqüência uma coisa: que a vida. Apenas me lancei no movimento revolucionário em meados de 1891. só aceito um único tribunal — eu próprio.. encarrega-se. Sou anarquista há pouco tempo. o que lhe foi concedido. o que a multidão teria feito sob o domínio da cólera. Escapou de ser esquartejado por populares. larga26 . Não tento de forma alguma furtar-me às represálias da sociedade que ataquei.. mais calma. Até aí vivera em meios totalmente imbuídos da moral vigente. Levanta-se e virando-se para os jurados.]. autoridade e propriedade. Tinham me dito que esta vida era fácil. A justiça é mais fria. Concordai que só a pena capital pode igualar-se a seus crimes [. como acontece a todos.

dever — não eram mais do que uma máscara escondendo as mais torpes infâmias. afastei-me depressa desse partido. Tinha demasiado amor à liberdade. mas não vi à minha volta senão mentiras e velhacarias. Haviam me dito que as instituições sociais se baseavam na justiça e na igualdade. em pleno Parlamento. demasiada repugnância pela arregimentação. Atraído pelo socialismo Atraído momentaneamente pelo socialismo. noutros os mesmos prazeres. O industrial. Não demorei para compreender que as palavras pomposas que me tinham ensinado a venerar — honra. Essa crítica foi feita demasiadas vezes para que eu a repita. Cada dia me tirava uma ilusão. o ministro de mãos sempre abertas ao suborno. que construía uma fortuna colossal à custa do trabalho dos seus operários. era uma pessoa honesta. mas a experiência mostrou-me que só os cínicos e os bajuladores conseguem obter um lugar ao sol. O oficial que. para aceitar ser um número a mais no exército do Quarto Estado. abnegação. demasiado respeito pela iniciativa individual. experimentava o último modelo de espingarda contra crianças de sete anos.verve Émile Henry. servia ao bem público. felicitado pelo presidente do conselho de ministros! Tudo o que vi me revoltou e o meu espírito entregou-se à crítica da organização social. testemunhava em alguns as mesmas dores. cumpriria bem o seu dever e era. 27 . O deputado. o benjamim da anarquia mente aberta aos inteligentes e vigorosos. Onde quer que fosse. a quem tudo faltava.

E recomeça: É por essa altura que me relacionei com alguns companheiros anarquistas. Mantém o princípio da autoridade. o Sr. Ora. não passa de um velho resquício da fé numa potência superior. no funcionamento das forças naturais. gradualmente. seu advogado. Nesta altura. um desprezo profundo por todos os preconceitos. Estudos científicos me iniciaram. que dela já não necessitava. a memória falhou-lhe. em harmonia com as leis da natureza. Esse pensamento encontrou no meu espírito um terreno preparado para o receber. 28 . Qual era então a nova moral. compreendera que a hipótese de Deus era repudiada pela ciência moderna. que ainda hoje considero como dos melhores que conheci. eu era materialista e ateu. baseada na falsidade. digam o que disserem os pretensos livres pensadores. apenas de início atravessada por uma ligeira emoção. e este princípio. a absoluta franqueza.7 2005 Percebi. Hornbostel. devido a observações e reflexões pessoais. O caráter desses homens seduziu-me imediatamente. deveria portanto desaparecer. passa-lhe então um caderno que seguirá com os olhos até ao final da intervenção. e quis conhecer o pensamento que tornava tais homens tão diferentes de todos os que conhecera até ali. por um lado. A moral religiosa e autoritária. Apenas tornou mais preciso o que havia em mim de vago e confuso. que deveria regenerar o velho mundo e dar à luz uma humanidade feliz? Toda esta introdução foi recitada pelo acusado com uma voz segura. que no fundo o socialismo não altera em nada a ordem atual. Apreciava-lhes a grande sinceridade.

Passaremos então ao primeiro atentado que cometi. O engenhei- 29 . a sua marca destruidora e negativa pela qual compareço diante de vós. Não vou desenvolver aqui a teoria da anarquia. os mineiros pareciam enfim dispostos a renunciar às greves pacíficas e inúteis. Trouxe comigo para a luta um ódio profundo. feio. Os escritórios e edifícios da mina foram invadidos por uma multidão farta de sofrer sem se vingar. em que tudo é um entrave à expansão das paixões humanas. Bater com força e precisão Quis vibrar um golpe com a maior força e precisão possíveis. às tendências generosas do coração. a explosão da Rue des Bons-Enfants.verve Émile Henry. Pareciam ter entrado numa via de violência que se afirmou resolutamente no dia 15 de Agosto de 1892. As primeiras notícias da greve encheram-me de alegria. o benjamim da anarquia Fiz-me também anarquista. Tinha acompanhado atentamente os acontecimentos de Carmaux. sinto-me quase tentado a dizer. em que o trabalhador confiante espera com paciência que a sua meia dúzia de francos vença os milhões das companhias. como Souvarine no Germinal: “Todos os raciocínios sobre o futuro são criminosos porque se opõem à destruição pura e simples e entravam a marcha da revolução”. ambíguo. Nesta época de luta aguda entre a burguesia e os seus inimigos. Quero apenas reter o seu lado revolucionário. dia a dia mais intenso devido ao espetáculo revoltante dessa sociedade em que tudo é reles. ao livre desenvolvimento do pensamento.

organizaram subscrições. os mineiros travaram conhecimento mais íntimo com a fome. aqueles que levam milhares de homens a sofrer privações durante meses inteiros. para fazer propaganda à custa dos seus sofrimentos e ganharem a popularidade necessária à obtenção de um mandato — refiro-me aos chefes socialistas. os grandes pontífices do socialismo não admitem esses processos. com efeito. Os mineiros depuseram nas suas mãos toda a iniciativa. Os timoratos Quem eram esses homens? Os mesmos que fazem abortar todos os movimentos revolucionários. sabemos bem. Claro que a Sociedade teria capitulado bem depressa. quando alguns timoratos se interpuseram. enviaram pedidos de fundos para todo o lado. tomaram a direção do movimento grevista. talvez uma dessas balas que 30 . O que aconteceu. destruir as máquinas de extração. incendiar o estoque de carvão. destruir os aparelhos de bomba hidráulica. de orelha murcha. deixe de obedecer à sua voz. que são anarquistas. mais miseráveis do que antes. sua companheira habitual.7 2005 ro tão odiado pelos seus operários ia ser executado. quem sabe?. subitamente. voltaram à fossa. ao fim de dois meses. E viu-se. proferiram conferências. por recearem que o povo. Esses homens. uma vez lançado na ação. cair sobre a região um enxame de senhores bem-falantes que se colocaram à inteira disposição da luta. Porém. esgotaram os magros fundos de reserva do seu sindicato e dos que vieram em seu auxílio e. A greve eternizou-se. Desde o princípio teria sido muito simples atacar a companhia no seu único ponto fraco: o dinheiro. Neste jogo arriscase a prisão e.

volta a reinar em Carmaux. Ao mesmo tempo. A voz da dinamite Decidi então introduzir. o benjamim da anarquia fizeram maravilhas em Fourmies. que seus insolentes triunfos seriam perturbados. Mais poderosa do que nunca. A casa onde se encontram os escritórios da Sociedade de Carmaux só era habitada por burgueses. nesse concerto de alegres chilreios. Nem se ganha nenhum lugar municipal ou legislativo. daí em diante. veio-me à memória a acusação de Ravachol: e as vítimas inocentes? Mas resolvi rapidamente o problema. portanto. a ordem. Resumindo. perturbada por instantes. vítimas inocentes. acabariam para ela as alegrias completas. até ao safanão definitivo que o derrubaria na lama e no sangue. Quis mostrar à burguesia que. quis fazer entender aos mineiros que há só uma categoria de homens — os anarquistas — que sentem sinceramente os seus sofrimentos e estão prontos a vingá-los. 31 .verve Émile Henry. que o seu bezerro de ouro haveria de tremer violentamente no pedestal. Preparei pois uma marmita. uma voz que os burgueses já tinham ouvido. Esses homens não se sentam no Parlamento. Convenhamos que ainda havia bons dividendos a partilhar. Por um instante. Não haveria. mas caminham para guilhotina. a Sociedade continuou a sua exploração e os senhores acionistas felicitaram-se pelo feliz desenlace da greve. mas que julgavam morta com Ravachol: a voz da dinamite. como os senhores Guesde e quejandos.

pedia o extermínio por todos os meios. Ao acaso. os jornais e panfletos libertários eram confiscados. deve em conjunto expiar os seus crimes. escrava infame do poder. Testemunhei as medidas draconianas tomadas pelo governo contra os anarquistas. Assisti à repressão formidável que se seguiu ao atentado do Palais-Bourbon13. os meus inimigos. Expliquei. atingindo. ali. no 32 . Foi com a certeza absoluta da legitimidade do meu ato que coloquei a minha marmita na porta dos escritórios da Sociedade. o direito de reunião proibido.7 2005 A burguesia no seu conjunto vive da exploração dos infelizes. Mais do que isso: quando queriam se livrar definitivamente de um companheiro. um bufão colava no seu quarto um embrulho que dizia conter tanino e. como esperava que. Eis os motivos que me levaram a cometer o primeiro atentado que me censuram. para quem a imprensa burguesa. O que sucedia às mulheres e aos filhos destes camaradas durante o seu encarceramento? Ninguém se preocupava com isso. uma multidão de indivíduos era arrancada da família e lançada na prisão. viesse a rebentar no posto policial. faziam-se buscas. o do Café Terminus. prendiam-se pessoas. no caso do meu engenho ser descoberto antes da explosão. mas um animal feroz cercado por todos os lados. Ao mesmo tempo. O anarquista já não era um homem. A caça aos anarquistas Passemos ao segundo. Vim a Paris na época do caso Vaillant. Espiava-se por todo lado. durante os debates.

ministro do Interior. o camarada ia a julgamento e apanhava três anos de prisão. Perguntem se isso não é verdade ao miserável denunciante que se infiltrou na casa do companheiro Mérigeaud. era feito uma busca com um mandato datado da antevéspera. nem deputados. O repto foi aceito. às vossas expulsões em massa de estrangeiros. senhores burgueses. declarar na Assembléia que as medidas tomadas pelo governo tinham obtido um bom resultado. dirão. Mas. As palavras do Sr. e para parecerem corajosos até o fim. caçarem os caçadores. mas ainda havia fora das vossas prisões homens que vocês ignoravam e que na sombra assistiam à vossa caça aos anarquistas. não havíeis contado com este vosso convidado. Não era ainda suficiente. por sua vez. às vossas leis de imprensa. nem funcionários? 33 . Coroando esta cruzada contra hereges. às vossas prisões. Encontravam uma caixa cheia de pós suspeitos. Condenaram à morte um homem que não matara ninguém. às vossas decapitações. Mas. Raynal. porquê ir atacar clientes tranqüilos que ouviam música e que talvez não sejam nem magistrados. um belo dia. que tinham semeado o terror no campo anarquista. Atingiam um inimigo do qual se tinha medo e os que tinham tremido queriam passar por corajosos. o benjamim da anarquia dia seguinte. às vossas buscas. ouvimos o Sr. Vocês encarceraram centenas de indivíduos e violentaram um sem-números de domicílios.verve Émile Henry. Raynal constituia um desafio lançado aos anarquistas. Mas todos esses processos foram considerados bons. A bomba do Café Terminus foi a resposta a todas as vossas violações da liberdade. esperando apenas o momento para. guilhotinaram-no.

34 . Devemos apenas atacar os deputados que fazem as leis contra nós. os polícias que nos prendem? Não penso assim. E não só eles. nove décimos dos companheiros nem sequer o conheciam. clientela habitual do Terminus e doutros grandes cafés. essa massa estúpida pretensiosa que se coloca sempre ao lado do mais forte.7 2005 Porque é que atirei a esmo Por que? É bem simples — a burguesia fez dos anarquistas um bloco. que aplaudem os atos do governo e que se tornam seus cúmplices. mas todos os que se sentem satisfeitos com a ordem atual. Que importa? Perseguiu-se em massa. no entanto. Os bons burgueses que embora não tendo qualquer função recebem. Quem quer que tivesse qualquer relação anarquista foi perseguido. esses assalariados por 300 ou 500F por mês que odeiam o povo mais ainda que os grandes burgueses. os seus dividendos. Todos esses homens são meros instrumentos que não agem em seu próprio nome. nós também atacamos em bloco. Um só homem. que vivem na ociosidade com os lucros produzidos pelo trabalho dos operários. os magistrados que as aplicam. Não são mais culpados do que os outros. devem também sofrer a sua parte de represálias. As suas funções foram instituídas pela burguesia para a sua defesa. E por isso atirei a esmo sem escolher as minhas vítimas. Uma vez que vocês responsabilizaram um movimento pelos atos de um indivíduo e o atacam em bloco. Vaillant. lançou uma bomba. Muito bem.

senhores burgueses.verve Émile Henry. Mesmo entre os operários. morrem lentamente de anemia porque o pão escasseia em casa? Essas mulheres que definham nas vossas oficinas e se esgotam para ganhar quarenta centavos por dia. Não poupam nem mulheres nem crianças burguesas porque as mulheres e as crianças que amam também não são poupadas. e admitam que as nossas represálias são totalmente legítimas. Não me preocupa o juízo de ninguém. enganados pelos vossos jornais. e muito felizes quando a miséria não as arrasta para prostituição? Esses velhos que vocês transformaram em máquinas de produção durante toda a sua vida e que atiram para a valeta ou para o hospital logo que as suas forças se exaurem? Tenham ao menos a coragem dos vossos crimes. o benjamim da anarquia Que a burguesia compreenda É necessário que a burguesia compreenda bem que aqueles que têm sofrido estão finalmente fartos dos seus sofrimentos.14 35 . porque os próprios burgueses também não se preocupam com ela. Eles não têm nenhum respeito pela vida humana. nos subúrbios. há muitos que. Sei que os meus atos não serão ainda perfeitamente entendidos pelas multidões insuficientemente preparadas. mostram os dentes e atacam tanto mais brutalmente quanto mais tiverem sidos brutais para eles. Porém não me iludo. é claro. Não serão vítimas inocentes essas crianças que. Não cabe aos assassinos da semana sangrenta e de Fourmies chamar assassinos aos outros. Não ignoro também a existência de indivíduos que se dizem anarquistas e se apressam a condenar qualquer solidariedade com os propagandistas pela ação. por quem lutei. julgam-me seu inimigo. Mas isso pouco me importa.

7 2005 Tais indivíduos tentam estabelecer uma sutil distinção entre teóricos e terroristas. objetivo de nossos esforços. Sabemos matar. Alexandre Herzen. o revolucionário russo. afirmou: “Das duas uma. É pois com indiferença que aguardo seu veredicto. Hoje a hora é de ação. é uma reação violenta contra a ordem estabelecida. Nasceu no seio de uma sociedade podre e em desagregação. pois os mortos-de-fome começam a descobrir o caminho dos vossos grandes cafés e restaurantes. Demasiado covardes para arriscarem a sua vida. Não imploramos a mínima piedade nesta guerra impiedosa que declaramos à burguesia. mas o que nunca conseguirão destruir é a anarquia. renegam aqueles que atuam. Representa as aspirações igualitárias e libertárias que vêm atacar a 36 . garrotaram em Jerez. sem fraquezas nem recuos. decapitaram na Alemanha. ou fazer justiça e seguir em frente. fuzilaram em Barcelona. Estou ciente que a minha cabeça não será a última que vocês cortarão. venha finalmente coroar a nossa obra. As suas raízes são demasiado profundas. como o Terminus e o Foyot. Mas a influência que dizem ter sobre o movimento revolucionário é nula. Não queremos perdoar nem vacilar e seguiremos sempre em frente até que a revolução. Vocês enforcaram em Chicago. tornando o mundo livre. outras ainda hão de rolar. ou perdoar e vacilar a meio do caminho”. Vocês acrescentarão novos nomes à lista sangrenta dos nossos mortos. guilhotinaram em Montbrison e em Paris. saberemos morrer.

verve Émile Henry. fazia a descrição do suplício: Alguém me disse: “É preciso que assista para poder contar aos que concordam”. Em La Justice dois dias depois. Barragens mantêm o público no limite da Rue de la Roquette. O Sr. mostrando o seu ramo de oliveira que. com seus grupos de mulheres deslavadas sob os lampiões de gás. faz a paz entre os homens. encarneirado pelas nuvens. Mas depois. sob o título “A guilhotina”. Joseph Reinach17 diverte-se à nossa custa. o que a torna inatingível. está em todo lado. era executado. o benjamim da anarquia autoridade atual. 37 . — Sem dúvida.” Todas as ruas que dão para a Place de la Roquette foram fechadas. Émile Henry. Georges Clemenceu. dizendo: “Aqui está a salvação. grita-lhe: “Mentirosa!” Agora é Ledru-Rollin16.. São muitos para matar um só. A praça encontra-se ocupada por militares. teatralmente colocado face à câmara do Fauboug. Tu próprio sofreste. Mostra.15 [. decido-me. Hesitei. de uma transparência pálida. a 21 de maio. a cruel experiência. Atravessamos Paris das madrugadas. A praça não passa de um grande pátio prisional. Nada. Impossível ver alguma coisa do espetáculo iminente. Lá estão mil homens.] Menos de um mês depois. em busca de um pretexto. a urna do sufrágio popular. Enervado. Eis-no na Place du Château-d’Eau. num gesto enfático. mas é longa a espera para uma vida curta. acabará por vos liquidar. E o cutelo? No seu íntimo. e os seus notívagos em busca de uma aventura. face à grande República em barrete frígio.. Vamos lá. procuro nas coisas um indício estranho. Um céu de ardósia. Um vento seco e cortante que nos gela. condenado à morte. diz ela. durante vinte anos. amigo. bruscamente.

o outro. Os três “burgueses” são o carrasco e os dois ajudantes. incerto e sonso. Duas travessas encaixadas em cruz repousam sobre as lajes do chão. Deibler. dizem-me. é genro do carrasco. contrastava com ele.7 2005 Diante da porta da Roquette surgem novas barreiras para as pessoas com cartão de entrada. de recolhimento. sem mostrar qualquer incômodo. Um dos seus ajudantes. encimadas por uma trave que suporta uma polia. É o 38 . gordo. calaças de pano azul. acaba de assegurar-se que a sua máquina dispõe de uma base perfeitamente horizontal. Mal vi o Sr. com a boa consciência e a decência das pessoas que sabem viver.] Três homens de casaca e com cartola dirigem três operários em roupas de trabalho: camisolão curto. Todos fumam. [. uma senhora de idade. que lhes fazem recomendações afetuosas por temer o frio da noite. bem à vontade. Estão devidamente calçadas e o Sr. uns sessenta jornalistas. A atitude é. Que progresso! As calhas são erguidas. Jantaram em família e saíram corajosamente para o trabalho. um rapaz louro. sobretudo. saudável e rosado. montam a báscula e experimentam-na. um velhote que arrasta uma perna. Seria impressão? Pareceu-me desajeitado. o outro a mulher ou a filha. Agentes de polícia passeiam. de cabelos grisalhos. Pouco a pouco. com cigarro ou cachimbo na boca. entre os quais uma mulher. as traves que se vêem por terra vão ganhando significado. Todos trabalhavam sem ruído. Fala-se a meia voz. uma a mãe. Notam-se que não se usa sequer um prego. Fala alegremente com os mais próximos e com os guardas que lhe dizem gracejos. Deibler. filho.. com o seu nível de água. Fazem subir a lâmina que percorre a calha. Amontoam-se ali. Nem uma martelada. olhando cheios de ternura as crianças adormecidas.. beijando. Um dos ajudantes. Só parafusos. que atrai a curiosidade geral.

gira os olhos no vazio. grita aconselhável estas palavras: “Coragem camaradas. a cara extremamente pálida. o benjamim da anarquia próprio Sr. Agora é dia. Há dois guardas lívidos. de charuto nos lábios. ri nervosamente. com esgar horrível. Disseram-me qual era sua função. A porta grande se abre e. Viva a Anarquia!” 39 . Pensei que se iria sentir mal. com seu ar louco. O jovem soldado de sentinela agitase constantemente: balança-se. dois novatos. empurrado pelo grupo do carrasco. Acabam de apagar os bicos de gás.. faz gestos bruscos. Não consigo olhar para outra coisa. ou quase. atrás do capelão que toca uma sineta. numa voz rouca mas forte. surge Émile Henry. Como puderam esquecer-se de acrescentar: “ou a morte”? [. A sua cara pálida me cega. e rindo na frente de todos vem até junto da guilhotina contar uma anedota a um amigo que lhe acha imensa graça. estupefato. semeada de pelos ruivos. Lança um olhar circundante e. Não a divulgo. leio por cima da porta: “Liberdade. escassos e revoltos. Igualdade. ostenta ainda uma expressão implacável. ao lado da báscula. Ouvese o barulho das trancas de ferro a cair. O homem acorrentado avança a passo rápido. Apesar de tudo. Lembra qualquer coisa como uma visão de Cristo de Munkacsy. Olho a prisão e.] Um movimento! Um jovem num sobretudo claro sai da prisão.. perto da carreta que seguirá para Ivry. Deibler que coloca a banqueta para a cabeça que envolve com uma espécie de biombo de madeira que impedirá os salpicos de sangue. A pequena porta se fechou num gemido agudo. sem dúvida. apesar dos entraves. Fraternidade”. O cesto destinado ao corpo encontra-se aberto.verve Émile Henry. trazido.

em 11 de julho de 1892. Henry pertenceu à 3° companhia do batalhão escolar de J. foi condenado à decapitação pela guilhotina. François Claudius Koeningstein. Como não faz sentido pensar que o pai de Henry tenha sido um deles literalmente. São considerados dentro do fenômeno das seitas cristãs comunalistas ou de afronta à Igreja de Roma. foi um intenso ativista e escreveu poucas anotações publicadas. E. fundou em 1887. Antígona. Jean Maitron. em 1894. com Malato e alguns outros. 5a distinção em 1888 (ano preparatório na Escola Politécnica). Apesar de diversas acusações e prisões. o réu interrompeu violentamente o acusador público: “não se meta com a minha mãe. em Saint Étienne.E. que tinha proibido o culto. Ravachol por parte de mãe. Pobre. resistindo. Tradução de Eduardo Maia. mas sim foi participante da Comuna de Paris.7 2005 Notas 1 Émile Henry. pelo jornal anarquista L’ Insurgé. Ravachol e os anarquistas. dividindo o texto em duas partes: “O interrogatório” e “Palavras de Émile Henry”. foi acusado de participar com outros companheiros em roubos e fez parte dos acusados que compareceram no Processo dos 30. B. nascido em 1872. Na deportação contou com a comunidade anarquista. Em 1894. a 18 de novembro de 1868. Idem. em que seu pai lutou. Foi condenado a 15 anos de trabalhos forçados. 63-96. 1o prêmio em 1886. 10 Um pouco mais tarde. com formação intelectual sedimentada. Ortiz Philippe. na região das Cévennes. no fim do ano. em 1685. (N. inicialmente. em 1893. 5 Alusão aos tiros do 1° de Maio de 1891. o termo deve ter sido usado com referência a revoltosos de maneira geral. em 1891. Adaptado por Acácio Augusto e Edson Passetti. Léon. 2 3 4 Cf. agora temem que ela possa explodir como uma bomba”.E. Foi um aluno brilhante: 2o prêmio de Excelência em 1885. por uma morte a ele atribuída. Say e obteve. 27 e 28 de Abril de 1894.). 6 7 Em 1884-85. Lisboa. o “Révolution Cosmopolite”. Foi um terrorista diferente dos demais. no tribunal do Sena a 6 de agosto de 1894. um ano depois da Comuna de Paris. “Gazzete des Tribunuax”. O exército disparou sobre manifestantes: dez pessoas foram mortas. 8 9 Camisards: grupo de camponeses protestantes calvinistas franceses que explodiu em revolta em 1702 (segundo Voltaire) e 1703 (segundo Philippe Joutard). 2o prêmio em 1887. entre elas duas crianças de 11 e 13 anos. para praticar atentados tendo sido preso em março de 1892. a oitava distinção. Anarquista. Passou a usar o nome de Leon Léger. 1981. à perseguição do Estado francês católico. pp. proíbo-lhe!”.). O jornal anarquista Pere Peinard declarou. morto na guilhotina. (N. nascido em Paris. 40 . nasceu em 1854. “A cabeça de Ravachol caiu aos seus pés.

T. foi assassinado na prisão de Iles de Salut. T. nascido em 1874. (N. Desde o momento em que foi preso. Sidonie Vaillant. a pedido do diretor da prisão do Palácio da Justiça. em Dezembro de 1893. exilado após os acontecimentos de Junho. em 1894. membro do governo provisório de 1848. em Paris.). era sapateiro e atentou contra a vida do Ministro da Sérvia Georgevitch.verve Émile Henry.E. defendeu a revisão do processo Dreyfus. 14 15 Tema de sua polêmica com Malatesta em “L’En Dehors” de agosto de 1892. a ocasião de desenvolver as suas teorias. depois duma visita que este lhe fez em 18 de fevereiro. político que promoveu o sufrágio universal. Condenado à pena de prisão perpétua. onde Auguste Vaillant lançou uma bomba. (N. o benjamim da anarquia 11 Léon Jules Léauthier. durante uma rebelião. Uma fotocópia do texto redigido pelo jovem anarquista está depositada nos arquivos da Prefeitura de Polícia. filha do anarquista com o mesmo sobrenome. Fê-lo por escrito. em 13 de novembro de 1892. (N. com a cota B a/140. 12 13 Câmara dos deputados. discípulo de Gambetta. ainda uma outra vez.) 17 41 . 16 Estátua de Alexandre Auguste Ledru-Rollin.) Outro político (1856-1921). Henry teve.

ABSTRACT An anarchist in a court. death penalty. 42 . anarquismo. ao tribunal e à sociedade. Indicado para publicação em 7 de abril de 2003. his trial and his demolishing critic on the Law. pena de morte. Émile Henry. seu julgamento e sua demolidora crítica ao direito. Émile Henry. anarchism. Palavras-chave: Terrorismo. the court and society. Keywords: Terrorism.7 2005 RESUMO Um anarquista no tribunal.

.” Samuel Beckett Morder. divididos entre si no que me concerne. todo um consórcio de tiranos. verve.). mascar. professora-pesquisadora na PUC/SP pelo Prodoc-CAPES. talvez sejam vários.. depois indo comer e jogar cartas. durante umas escavações. escutando-me de tempos em tempos. deglutir “No ano de 1949.. à minha revelia (. tinhase deparado. noticiava que na bacia do rio Kolimá. 2005 43 . aconteceu-nos. a mim e a alguns amigos lermos uma nota que nos chamou a atenção na revista Priroda (Natureza). a expensas do governo. 7: 43-56. em segredo.. casualmente. com uma corrente congelada.verve Notas para a abolição dos campos de concentração. Impressa em caracteres minúsculos. nela tendo sido descobertos. da Academia das Ciências. * Doutora em Ciências Sociais e pesquisadora no Nu-Sol..) na realidade.. notas para a abolição dos campos de concentração e de extermínio salete oliveira* “Eis um filão que é preciso não perder de vista (. deliberando desde um bom pedaço de eternidade. sob uma camada glacial.

cheio de enclaves. Mas foram menos os que puderam discernir o sentido verdadeiramente heróico dessa nota imprudente. Kolimá era a maior e a mais célebre ilha. descongelavam-na e saciavam a fome. menosprezando os elevados interesses da ictiologia. uma parte insignificante desse arquipélago foi dada a conhecer ao mundo. Nós compreendemos tudo num ápice. Esses peixes. Mas as mesmas mãos que nos apertaram as algemas abrem agora 44 . conservavam-se tão frescos — testemunhava o correspondente científico — que as pessoas presentes quebravam o gelo ali mesmo e comiam-nos com prazer.7 2005 também congelados. quase intangível país habitado pelo povo zek. mas psicologicamente ligado ao continente. pairava sobre as suas ruas — e no entanto havia quem não se apercebesse de nada. embora muitos tivessem ouvido falar vagamente de algo. passavam-na pela chama. recortava-se polícromo sobre o outro país. a que estava incorporado. a esse quase invisível. só os que lá tinham estado conheciam tudo. a única na terra que podia comer os tritões com prazer. eles guardavam silêncio. Vimos com clareza toda a cena. com exacerbada pressa. porque nós éramos membros dessa poderosa legião de zeks [detidos]. nos seus mínimos pormenores: como as pessoas presentes quebravam o gelo. Entretanto. e como. Este arquipélago. desgarrado pela geografia num arquipélago. ou tritões. Compreendemolo porque as pessoas presentes éramos nós próprios. o pólo da ferocidade desse assombroso país do Gulag. se acotovelavam uns aos outros. penetrava nas suas cidades. arrancavam os pedaços da carne milenária. Não poucos leitores da revista devem ter se espantado bastante pelo fato de a carne de peixe poder conservar-se durante tão longo tempo no gelo. como se tivessem perdido o dom da fala nas ilhas do arquipélago. espécimes de fauna fossilizados (com várias dezenas de milênios de idade). Numa inesperada viragem da nossa história.

”1 Soljenítisin. Karol entrevista Michel Foucault... E um dia. todo mundo pode vê-lo. conciliadoramente as palmas e dizem ‘não se deve. no entanto. congelados numa camada glacial. no século futuro. janeiro de 1976. em Paris. Paris. em 1917. fosse uma des45 . S. Primeira veiculação televisiva de imagens do campo de concentração soviético. este arquipélago. Aquele que recorda o passado perde um olho!’ E.’ Como se o fato de um campo de concentração ser instalado em uma grande cidade — no caso.. Outras ilhas. No mês seguinte. não se deve remexer no passado!. Seu Arquipélago Gulag. relativa ao período de 1918 a 1956. trouxe. o que me chocou muito: ‘não há nada de escandaloso nesse campo: a prova disso é que está no meio da cidade. A principal tese do livro diz respeito ao fato de que os Gulags fizeram parte da constituição do Estado soviético desde o momento da Revolução Russa. foram-se derretendo. a público a história vivida e documentada dos campos de trabalho escravo na URSS. durante esse tempo. tal como os alemães o faziam. o provérbio acrescenta: ‘aquele que o esquece perde os dois!’ As décadas vão correndo e lambem irrecuperavelmente as cicatrizes e as úlceras do passado. às vezes. serão apresentados aos descendentes como um inverossímil tritão. publicado em russo. localizado na cidade de Riga. em 1973. “Em primeiro lugar.. K. passou onze anos de sua vida confinado em um gulag. indaga-lhe sobre as imagens que viu... o seu ar e os ossos dos seus habitantes. desbordaram. os soviéticos disseram o seguinte. contrariando os argumentos que o justificaram ou o atenuaram sob a alegação de que teriam sido uma criação distorcida e arbitrária de Stálin. e o mar polar do esquecimento vem embater sobre elas.verve Notas para a abolição dos campos de concentração. Riga — sem que seja necessário dissimulá-lo. estremeceram. pela primeira vez.

no ano de 1977. a instalação do campo. Do círculo Ártico às planícies da Ásia Central. isso é político. nossos Palácios de Justiça ou nossas prisões. os feixes de luz que se entrecruzam e o passos das sentinelas à noite. tal como nossas prefeituras. e a impô-lo aos outros: o cinismo funcionando como censura. e o terror que ele exala são. A instituição gulag O termo GULAG refere-se a uma vasta rede de campos de trabalhos forçados que se espalharam por toda a URSS. E é uma política. Das ilhas do Mar Branco às costas do Mar Negro. Polícia multiplicada e redimensionada inúmeras vezes. por sua vez. bem no meio do meu rosto. aponta para dois desdobramentos distintos: a instituição Gulag e a questão Gulag. Como se não fosse preciso. aos campos soviéticos. relativa. É o argumento de Cyrano: já que meu nariz é enorme.7 2005 culpa! Como se este impudor de não esconder o que se faz. em si. nessa presença de um campo em uma cidade.3 São apenas dois pequenos apontamentos que podem ser desdobrados e esgarçados. Do centro de Moscou à periferia de Leningrado. autorizasse a reivindicar o silêncio em qualquer outro lugar. O arame farpado que prolonga os muros das casas.”2 Em uma entrevista posterior. políticos. concedida a Jacques Rancière. ali onde se faz. nesse lugar tão visível. Foucault. De Murmansk a Vorkuta e ao Casaquistão.5 46 . ainda. à instituição de uma polícia política que. corresponde à divisão da polícia secreta que gerenciava os campos soviéticos. vocês não têm o direito de falar dele. Antes de saber se os detentos que ali estão são ‘políticos’. reconhecer o brasão de um poder que se exerce sem pudor.4 A palavra GULAG designa “administração geral dos campos” e refere-se. imediatamente.

O campo se dividia em campos e no interior dos campos alojavam-se outros campos. Campos de trabalho forçado. GPU (Agência Política do Estado). MVD (Ministério de Asssuntos Internos). sucessora da GPU. sob as mais diferentes formas e modalidades. polícia secreta que vigorou durante a revolução. campos de trânsito. NKVD (Comissariado do povo para assuntos internos). respondendo a uma 47 . polícia secreta do final dos anos 1920 e início de 1930. E dataria desta época sua futura habilidade em imprimir fantásticas fugas dos gulags soviéticos. sucessora da OGPU. a polícia secreta responsável pelas prisões e pelos campos de trabalho forçado no pós-guerra.. campos femininos. o gulag assume sua forma mais moderna e familiar. OGPU (Agência Política Unificadora do Estado). Com o tempo passa a indicar não só a administração dos campos de concentração mas. trabalho escravo. também. MGB/KGB (Ministério/Comitê de Segurança do Estado). campos infantis. tornando-se parte do sistema soviético. campos criminais e políticos. Cheka (Comissão Extraordinária). correspondendo às “turmas de trabalho forçado” que localizavam-se na Sibéria e operaram desde o século XVII até o início do século XX. o próprio sistema de trabalho soviético. polícia secreta que agiu nos anos 1930 e durante a Segunda Guerra Mundial. Uma das procedências do Gulag encontra-se na Rússia czarista.. já que vieram a ser um de seus alvos principais. Tal qual a polícia política e secreta o gulag também vai sofrer modificações e reacomodamentos em suas significações e aplicações. Logo após a revolução. campos punitivos.verve Notas para a abolição dos campos de concentração. segundo Applebaum. dentre eles Bakunin. responsável pela segurança interna e externa no pós-guerra. Foi de lá que conseguiram fugir vários anarquistas no século XIX. polícia secreta que sucedeu a Cheka no início dos anos 1920.

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multiplicação e alastramento que Soljenítsin denominaria de arquipélago, mesmo termo que Michel Foucault, não fortuitamente, utilizou para se referir à prisão dispositivo — diferindo do internamento considerado isoladamente — o arquipélago carcerário.6 O gulag não só passou a significar todo o sistema repressivo soviético — os presos o denominavam como o “moedor de carne”7, referindo-se aos amplos itinerários que abrangiam, das delações às capturas, das prisões aos interrogatórios e sessões de tortura; dos translados em vagões de gado ao trabalho forçado, da destruição de laços amorosos e amistosos aos anos de degredo, das mortes prematuras aos extermínios — como, também, a partir dele, e sem jamais abrir mão dele, foi que este sistema de poder encontrou sua positividade e a sociedade socialista soviética pôde funcionar.

Deslizamentos históricos da instituição gulag para a questão gulag Em 1918 Lênin determinava que os “indignos de confiança”, os “inimigos em potencial” fossem encarcerados em campos de concentração a uma distância considerável das cidades principais. Mas antes, mesmo de 1918, isto já estava posto, e neste ponto Soljenítsin é enfático: “Seria bem mais justo dizer que o Arquipélago nasceu ao som dos canhões do Aurora. Como poderia ser diferente? Reflitamos. Marx e Lênin não ensinaram sobre a necessidade de destruir a antiga máquina coercitiva da burguesia e substituí-la imediatamente, criando-se uma nova? Ora, a máquina coercitiva compreende: o exército (nós não nos espantamos de ver constituir-se o Exército Vermelho no começo de 1918); a polícia (renovou-se a polícia antes mesmo do exército); os tribunais (a partir de 22 de novembro de 1917) — e as

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prisões. Por que então, se deveria demorar em introduzir uma nova espécie de prisão? Dito de maneira diferente, de um modo mais geral, retardar em matéria de prisão, fosse de estilo antigo ou novo, era uma coisa rigorosamente impossível. Desde os primeiros meses que se seguiram à Revolução de Outubro, Lênin exigiu ‘as medidas mais resolutas e mais draconianas para se restabelecer a disciplina. Ora são possíveis medidas draconianas sem prisão?”8 Soljenítsin, ainda, sublinha: não foi o próprio Marx que em sua Crítica ao Programa de Gotha havia sido enfático ao afirmar que o único meio de reabilitação dos prisioneiros era o trabalho produtivo? Assim foi feito, em maio de 1918 foi criado o Serviço Penal Central; em março de 1919 os “fundamentos da política de trabalho forçado” foram incluídos no novo programa do Partido. Em 1921 já havia se constituído 84 campos em 43 províncias diferentes.9 A partir de 1929 os gulags adquirem nova importância. Stálin utiliza-os para intensificar o processo de industrialização da URSS. Nos gulags foram produzidos desde brinquedos para crianças até foguetes espaciais. É neste mesmo ano de 1929 que a polícia secreta assume o controle do sistema penal soviético, acoplando o judiciário a todos os campos e prisões. Entre 1937 e 1938 intensificam-se as prisões em massa e os gulags alastram-se vertiginosamente. No final da década de 1930 era possível encontrar inúmeros campos em todos os 12 fusos horários da URSS.10 O Gulag não pára de crescer para atingir seu apogeu na década de 1950 e passar a ser responsável pela produção de 1/3 da riqueza da URSS. Durante a década de 1970 e começo da de 1980 o gulag passa por reformulações para responder ao encarceramento de ativistas anti-soviéticos e dos designados criminosos. Durante a existência da URSS foram criados 476 complexos distintos de campos, perfazendo mi49

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lhares de campos individuais.11 Soljenítsin, lançando mão de várias fontes documentais, fornece a estimativa de que 60 milhões de pessoas passaram pelo enorme sistema do arquipélago. Levandose em conta que sua obra abrange o período entre 1918 e 1956 e ao considerar, de acordo com Applebaum, que os campos na URSS começam a ser dissolvidos, apenas, em 1987, é possível supor que o número de pessoas tragadas por este sistema tenha sido muito maior. Não se assuste leitor se acaso você perguntar a 100 pessoas se elas já ouviram falar nos campos de concentração nazista e 99 assentirem que sim e se para estas mesmas pessoas você pronunciar a palavra gulag e apenas uma não fizer cara de interrogação. Será que neste espaço que designam como ocidente, do lado de cá do meridiano central, acima e abaixo do equador, lá e aqui bem na frente de cada nariz os gulags estão tão distantes assim?

A questão gulag Nils Christie, um abolicionista penal, em 1998, escreve A indústria do controle do crime: a caminho dos GULAG’s em estilo ocidental, publicado no Brasil no mesmo ano.12 Christie sublinha como a Criminologia Positivista foi profícua em sua internacionalização. As idéias de Lombroso e Ferri na Itália e, posteriormente, as de von Lizt na Alemanha, constituíram um dos mais fantásticos êxitos da chamada ciência multidisciplinar. A Associação Internacional de Política Criminal, fundada em 1889 e que teve em von Lizt sua figura central, assegurou à criminologia alemã o estatuto de locus exportador do ideário da prevenção geral, modelo preponderante de política da verdade para o sistema penalizador do século XX.

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Christie mostra como no final do século a Nova Penalogia, escola conservadora da Criminologia americana, com suas teorias sobre o crime e táticas de controle redimensiona uma nova política, denominada por ele: “a caminho dos gulag’s em estilo ocidental”. Na década de 1980 a direita americana a partir da nova penalogia, com sua “teoria da vidraça quebrada” e articulação da polícia repressiva com a polícia comunitária gestam o programa de Tolerância Zero implantado na década seguinte. Interessa à nova penalogia, segundo Christie, não mais a recuperação mas o controle e gerenciamento das populações segregadas. A prisão, neste sentido, assume a função de gerenciamento. Trata-se de um redimensionamento da estatística, enquanto linguagem probabilística aplicada às populações construídas e vinculada à construção civil e ao controle eletrônico. A estatística transformada em norma legal. A construção crescente de prisões, constituindo um fértil mercado, no qual os lucros ampliam-se no investimento em duas direções: nos consórcios governamentais e não governamentais; no fluxo de empregos gerados, envolvendo não só funcionários mas, também, mão-de-obra de presidiários. Christie, ainda ressalta os equipamentos disponíveis ao mercado prisional, que vão desde prisões de segurança máxima, monitorada informaticamente; dispositivos de alta tecnologia de contenção, desde instrumentos simples a equipamentos testados em prisões, para, posteriormente, serem utilizados em guerras cirúrgicas a dispositivos de controle, como exemplo o código de barras que se tornou algo corriqueiro em nosso cotidiano e cuja procedência situa-se em uma tecnologia criada a partir do

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controle de condenados ao cárcere ou sob monitoramento a céu aberto. Por fim, Christie ressalta a gestão das prisões constituída pela disponibilidade da adminstração em demonstrar sua eficácia burocrática. A questão que se coloca diante disto não deve ser posta em termos de negatividade: qual a distorção teórica que propiciou o aparecimento dos gulag’s. É preciso problematizar a questão gulag em termos de sua positividade. Foucault, já apontava na década de 1970, que o gulag não era uma seqüência, tampouco um resto. É um presente pleno. Não se trata de buscar uma linearidade entre o gulag soviético redimensionado pelo programa de tolerância zero, muito menos de assumir o discurso cômodo que relativiza e formaliza a denúncia sistemática “todos nós temos um gulag”, pois isto nada mais é, como já alertara Foucault, do que se instalar em um ecletismo acolhedor. Colocar-se a questão gulag implica defrontar-se com a história e formulá-la para a sociedade socialista — é sempre pertinente lembrar que China, Cuba, Coréia do Norte e alhures estão aí — e que desde 1917, nenhuma delas conseguiu funcionar sem um sistema mais ou menos derivado de gulag. A positividade de tal questão reside em enfrentar as perguntas deixadas por Foucault em relação ao gulag: para que ele serve; qual funcionamento ele garante e, por fim, a quais estratégias ele responde. Para sociedades como a nossa, para hoje, para o Estado democrático de direito que convive tão bem com o programa de tolerância zero trata-se de problematizar: para que servem as prisões e o controle a céu aberto; em que medida os direitos, não por uma falta de garantia mas pela sua própria condição de direito, fazem fun-

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cionar o gulag redimensionado e, finalmente, quais as conexões de fluxos de controle ele responde?13 Ainda na pista deixada por Foucault, é preciso não perder de vista que propor uma outra solução para punir é colocar-se, inteiramente, recuado em relação ao problema que não é nem do quadro jurídico nem de sua técnica, mas do poder que pune. Da Alemanha ao Brasil dos anos 1920, da criação do campo de concentração Clevelândia14, no Oiapoque, para onde eram mandados, sobretudo, anarquistas, à promulgação do Código de Menores Melo Matos de 1927, dentre outras medidas, visava-se constituir uma política profilática. A medicalização da sociedade, sob a prática da prevenção geral foi redimensionada pela medicalização do controle da segurança no pós-guerra e se transforma hoje com o programa de tolerância zero na disputa pelo controle da segurança. Guardadas as diferenças específicas, a política dos Gulags, colocada já para Lênin, era uma questão de “profilaxia social” que devia se estender a crianças e jovens. A caça aos anarquistas passou a se entrelaçar com a caça a crianças e jovens. “Pyotr Yakir, de catorze anos, foi primeiro colocado numa cadeia comum e depois submetido a um interrogatório completo, do mesmo tipo a que se submetiam os adultos. Seu interrogador o acusou de ‘ter organizado um bando de cavalaria anarquista, cujo objetivo era atuar atrás das linhas do Exército Vermelho’, citando como prova o fato de Yakir adorar montar. Em seguida foi condenado pelo crime de ser ‘elemento socialmente perigoso’.”15 O destino posterior eram os campos infantis e juvenis. Do início da Revolução a 1922 foi colocada em operação o tribunal da consciência de justiça revolucionária

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de modo bem claro. ‘O que é isso?’ ‘Alojamento’. seus próprios barracões.) Quando Evgeniya tentou ensinar algo à crianças sob seus cuidados. reeducação ou cura é um preso político. seu próprio arame farpado. ‘Tinha sua própria guarita. sob o pretexto de extermínio. seus próprios portões. É uma política. ela constatou que apenas uma ou duas — aquelas que haviam mantido algum contato com as mães — se mostravam capazes de aprender alguma coisa. eu disse a Anastas. Mas ninguém. Tribunal é tribunal. ‘E o que é isso?’ ‘A zona prisional’. respondeu o menininho. em volta da casa. Todo sentenciado ou à espera de sentença a ser cumprida no cárcere ou a céu aberto.. Nunca tinham visto aquele animal raro. correção.”17 54 . O tribunal popular mostrou-se perfeitamente ajustável ao gulag. é uma questão. de acordo com Soljenítsin decidia quem trancafiar. Aí desenhei uma cerca rústica.16 (.. reconheceu o bicho. O primeiro Código Penal soviético viria a ser promulgado em 1922 e daria novos contornos ao tribunal. quem exterminar. “‘O berçário também era parte do complexo do campo’. Com algumas canetadas. gritou Vera. O Estado socialista não abriu mão do direito penal burguês e perpetuou os gulags. Em qualquer parte do planeta é uma política de julgamento. tradicional. É uma instituição.7 2005 que. encantada. As crianças sabem disto. pus um gato ao lado da casa. E mesmo a experiência dessas poucas crianças era limitadíssima: ‘Olhe’. mostrando-lhe a casinha que eu desenhara. nem mesmo Anastas. escreveria Evgeniya Ginzburg.

A palavra zona é uma palavra russa e designa de forma geral campo de concentração. Forense Universitária. op. Ditos e escritos. Difel. 2004. Notas 1 Alexandre Soljenítsin. São Paulo/Rio de Janeiro. “Clevelândia (Oiapoque). 2003. Michel Foucault. 1979.verve Notas para a abolição dos campos de concentração. IV. “Crimes e castigos na URSS e eoutros lugares. pp. 374-376. Cortez. 7-8. Tradução de Vera Lucia Avellar Ribeiro. cit. 13 A este respeito ver Edson Passetti. 2004. Conforme Anne Applebaum. vol. Gulag: uma história dos campos de prisioneiros soviéticos. Petrópolis. 189-190.. Rio de janeiro. pp. São Paulo. 55 .. “Poderes e estratégia” in op. poder-saber. De acordo com Alexandre Soljenítisin e Anne Applebaum. 382. cit. vol.” in Estratégia. 1976. p. 17 Anne Applebaum.. Michel Foucault.. Pondé Vassalo. Ediouro. Vozes. 2003. Tradução de Luís Leiria. 1987. Tradução de Lígia M. op. Llistó e José A. 1998. 2 3 4 Idem. Arquipélago Gulag. 240-452. Tradução de Leonidas Gontijo de Carvalho. Tradução de Mário Vilela e Ibraíma Dafonte. Vigiar e punir: nascimento da prisão. cit. 14 15 16 Anne Applebaum. Anarquismos e sociedade de controle. A indústria do controle do crime: a caminho dos GULAG’s em estilo ocidental. Rio de Janeiro/São Paulo. 9 10 11 12 Nils Christie. Col. Idem. op. Termo ressaltado por Soljenítisin e por Applebaum. n° 4. Ibidem. II. Arquipélago Gulag. A este respeito ver Carlo Romani. Maria M. São Paulo. Conforme Anne Applebaum.. Colônia penal ou campo de concentração?” in Verve. literalmente refere-se à área protegida pela cerca de arame farpado. p. 5 6 7 8 Alexandre Soljenítsin. cit. 2004. Forense. pp. Ferreira. 9. vol. 2003. Nu-Sol. pp. I. Seabra... Rio de Janeiro. Tradução de Francisco A. Difel.. São Paulo.

Gulags.7 2005 RESUMO Breve exposição histórico-política dos Gulags soviéticos. Some appointments about the remodeling of the concentration camps by the program of zero tolerance. Gulags. Palavras-chave: abolicionismo penal. 56 . concentration camps. Keywords: penal abolitionism. Alguns apontamentos sobre o redimensionamento dos campos de concentração instrumentalizados pelo programa de tolerância zero. Recebido para publicação em 22 de novembro de 2004. campos de concentração. ABSTRACT A short historical-political exposure of the soviet Gulags.

Dover Publication Inc. dirigida aos trabalhadores organizados.. Seu corpo foi sepultado em Chicago. anarquista e feminista. Toronto. 1969. um deles por ensinar publicamente o uso de contraceptivos. russa. Escolhemos este texto (In Emma Goldman. verve. Emma Goldman participou criticamente da Revolução Russa. 109-126) de 1910 por mostrar uma reflexão ativista. 7: 57-74. Anarchism and Other Essays.verve Prisões: falência e crime social prisões: falência e crime social emma goldman* Em 1849. padre gordinho!’ Disse o diabo ao sacerdote’. junto com os dos anarquistas de Haymarket. o que lhe valeu alguns encarceramentos. da Guerra Civil Espanhola e morreu em 1940. ‘O que o fez mentir tanto para essas pessoas pobres e iludidas? Que torturas infernais você descreveu? Você não sabe que eles já estão sofrendo torturas infernais em suas vidas na Terra? Não sabe que você e as autoridades do Estado são meus representantes na Terra? É você quem os faz * Emma Goldman. situando os efeitos de uma leitura científica e a necessidade da abolição das prisões. pp. 2005 57 . no Canadá. Em pouco tempo tornou-se uma militante combativa juntamente com seu companheiro Alexandre Berkman. chegou nos Estados Unidos com a irmã indo trabalhar como operária têxtil. “Olá. Fiodor Dostoievski escreveu na parede de sua cela na prisão a seguinte história intitulada “O Padre e o Demônio”.

Você os atormenta. eu vou lhe mostrar muitos outros lugares. O administrador carregava um chicote e batia sem piedade em quem caísse ao chão vencido pelo trabalho duro ou pela fome. venha comigo!’ O diabo agarrou o padre pelo colarinho. Com lágrimas nos olhos. tortura mentalmente até o fim e a eles só resta estar fisicamente mortos! Vamos! Eu lhe mostrarei mais um inferno — mais um. Ele aponta para a pobreza e a miséria que se encontram à vontade. Você não sabe disso? Bem. ele viu os trabalhadores correndo. Ele pergunta: ‘isto não é suficiente?’ E parece que até ele. ergueu-o no ar. então. e labutando sob um calor escaldante. Sim. esfumaçadas. e o levou a uma fábrica. ele implora: ‘Deixe-me ir embora daqui. o diabo. sim! Este é o inferno na Terra!’ ‘Bem. frias. então. ele viu os trabalhadores debulhando grãos. ele implorou para o diabo: ‘Deixe-me ir! Deixe-me sair deste inferno!’ Meu querido amigo. O demônio sorri. indo de lá pra cá. Lá.7 2005 sofrer as dores do inferno com as quais você os ameaça. tem compaixão dessas pessoas. E ainda promete a eles outro inferno. o ar denso e pesado e o calor eram demais para o padre. O piedoso servo de Deus mal pôde suportar isso. Lá. uma fundição de aço. Depois o padre foi levado para as cabanas aonde os mesmo trabalhadores viviam com suas famílias — sujas. O pó e o calor eram insuportáveis. 58 . com seu ar viciado e as diversas formas humanas. Com as mãos levantadas.’ Ele o levou a uma prisão e lhe mostrou o calabouço. Rapidamente. o pior de todos. ‘O diabo pegou-o novamente e o arrastou até uma fazenda. buracos fedidos. você vê.

deitadas no chão. este é o inferno. deixe-me ir embora daqui!’ ‘Sim. disse o diabo ao padre. nossas grandes mudanças sociais. na parede de uma das mais horríveis prisões. Prisão. para que a sociedade seja “protegida” desses fantasmas de sua própria criação. ‘eu não posso pensar em nada mais terrível que isso. Não pode existir nenhum inferno pior que este. aonde são ultrajados. deite-se no chão frio e sujo — e então fale a eles sobre o inferno que ainda os espera!’ ‘Não. e nossas descobertas de longo alcance. cobertas por vermes que devoravam os seus pobres corpos nus e mirrados. No entanto. até mesmo nas prisões americanas? Com todas nossas tão vangloriadas reformas. degradados e torturados. 59 . ‘coloque nos seus tornozelos as pesadas correntes assim como estes desafortunados as usam. uma proteção social? Que mente monstruosa pode ter concebido uma idéia dessa? É como dizer que a saúde pode ser promovida pela disseminação de uma epidemia. Eu lhe suplico. não!’. antes de morrer?’. quem pode negar que isto se aplica com a mesma força na atualidade. os seres humanos continuam a ser enviados para o pior dos infernos. Isto foi escrito há 50 anos na escura Rússia.verve Prisões: falência e crime social despojadas de toda saúde e energia. respondeu o padre. Você não sabia disso? Você não sabia que estes homens e mulheres os quais você assusta com a figura do inferno do além — você não sabia que eles já estão no inferno. ‘Tire suas roupas de seda’.

Assim. como no Sul. Estamos gastando no presente $ 3. Só o que é bom no Homem Se perde e murcha nela.5 vezes mais crimes para cada milhão de habitantes hoje. não roubos. O professor Bushnell. Florescem bem no ar da cela.000. G. estima o custo das prisões em $ 6.000.C.000 ao ano.000. $ 5. como as ervas venenosas. Tampouco é Chicago 60 .7 2005 Depois de 18 meses de horror em uma prisão inglesa. enquanto em Londres há apenas 20. A pálida Angústia guarda o pesado portão.000.000. Oscar Wilde deu para o mundo sua maior obraprima The ballad of reading goal: As ações mais perversas.000 anuais. para manter as instituições prisionais. não percebendo que disso só podem sair os mais venenosos resultados. e o Dr. e isso em um país democrático — um total quase tão grande quanto a soma da produção de trigo. os crimes aumentam. ou estupros. estima. do que há 20 anos. É uma despesa incalculável para manter um vasto exército de seres humanos enjaulados como animais selvagens!2 No entanto. no entanto. um eminente escritor norte-americano sobre crime.000. de Washington D. que vale $ 750.000 por dia.1 A sociedade continua perpetuando este ar envenenado. nesta cidade há 118 assassinatos anuais.000. e a produção de carvão avaliada em $ 350.000 anuais.000. desfalques. Londres é cinco vezes maior que Chicago e. como um valor razoável. Frank Lydson. sabemos que na América há 4. $ 1.500. E o desespero é sentinela. O aspecto mais horrível é que nosso crime nacional é o assassinato.000.095.

o passional. centralizada. o insano e o ocasional. Primeiro. Já foi o tempo da satisfação com nossa estrutura social simplesmente porque ela é “ordenada por direito divino” ou pela majestade da lei. Ele não é necessariamente culpado de uma atitude anti-social. Diz que o criminoso político é a vítima de uma tentativa de um governo mais ou menos despótico por preservar sua própria estabilidade. As amplas investigações sobre prisões. Por que.verve Prisões: falência e crime social a cidade líder em crimes. Essa verdade é reconhecida em todo mundo. agitação e educação nos últimos anos são provas conclusivas que os homens estão aprendendo a ir fundo nos alicerces da sociedade. São Francisco e Los Angeles. parece ridícula tagarelice dizer que a proteção da sociedade deriva das prisões. mantida com uma despesa nacional excessiva mostrou-se um completo fracasso social. Diante de uma situação tão terrível. simplesmente tenta reverter uma certa ordem política que pode ser ela mesma anti-social. A inteligência média é vagarosa em apreender a verdade. então. exceto na América onde ainda prevalece uma tola noção de que na democracia não 61 . Havelock Ellis3 divide o crime em quarto tipos: o político. quanto à natureza do crime. mas quando a instituição mais completamente organizada. são as prisões um fracasso e um crime social? Para responder essa questão vital cabe-nos procurar a natureza e causa dos crimes. os métodos empregados para combatê-los e os efeitos que esses métodos produzem em livrar a sociedade da desgraça e horror dos crimes. o obtuso deve começar a questionar o seu direito a existir. ela é apenas a 7ª da lista liderada por quatro cidades do Sul. às causas da terrível discrepância entre a vida individual e social.

Ficou na moda ser vítima de paranóia. foi levado ao crime e à morte pela cruel falta de humanidade do seu meio. tornou-se um bêbado e um reincidente.5 A lei já reconhece isso. o mártir. e pela inescrupulosa perseguição da máquina da lei. na verdade. a maior exposição americana da maquinação de um crime. o criminoso político de nosso tempo ou lugar pode ser o herói. Conseqüentemente. Hugh C. tendo como resultado uma família arruinada e jogada na miséria. diz Havelock Ellis. ou quando a riqueza do acusado permite o luxo da insanidade criminal. John Brown foi um criminoso político. mas apenas em casos raros de natureza muito flagrante. Então. mas em geral. Weir em The menace of the police. a “soberania da justiça” continua a punir os crimes de insanidade com toda a severidade. o senhor Ellis cita as estatísticas do Dr. “O criminoso insano. Archie. Um tipo mais patético é Archie a vítima da novela de Brand Whitlock. No entanto. “O criminoso passional é comumente um criminoso bem nascido e de vida honesta. mais que Flaherty. assim como os anarquistas de Chicago. o santo de outra época. que sob um grande stress. um incidente. Archie e Flaherty são apenas alguns exemplos entre milhares. assim como todo grevista. Mr. um criminoso passional que ao invés de ser salvo pela sociedade. e os métodos para tratá-los. Richter mostrando que 62 . The turn of the balance. ajudam a criar a doença que está minando a nossa vida social. cita o caso de Jim Flaherty. tomou a justiça nas suas mãos”4. não pode ser considerado criminoso mais que uma criança pois está sob condição mental semelhante à de uma criança ou de um animal”. Lombroso denomina o criminoso político como o verdadeiro precursor do movimento progressivo da humanidade.7 2005 há lugar para criminosos políticos. demonstrando como os aspectos legais do crime.

Ele cita Quetelet e Lacassagne. de 144 criminosos insanos. um elemento que apenas se torna importante quando encontra o meio. pois até o mais depravado ser humano ama a liberdade. O último acha que “o ambiente social é o meio de cultivo da criminalidade. de preferir a terrível vida encarcerada à vida livre? Esta causa. fisiológicos ou psicológicos na realização do crime.verve Prisões: falência e crime social na Alemanha 106 loucos. Há uma relação próxima. Qual é a causa que compele um vasto contingente da família humana a escolher o crime. as sementes mais venenosas do crime. portanto. E como a prosperidade é. no melhor dos casos. a maior ameaça ao bem-estar social”. O criminoso ocasional “representa de longe a maior parte de nossa população carcerária. o primeiro vendo a sociedade como fomentadora dos crimes e os criminosos como instrumentos de sua execução. mas dificilmente se encontra um eminente criminológo que não concordará que as influências sociais e econômicas são as mais implacáveis. diz Havelock Ellis. deve ser inexorável. milhares 63 . toda sociedade tem os criminosos que merece”. Mesmo admitindo que existam tendências criminais inatas. Não afirmo que se deva negar os fatores biológicos. que o criminoso é o micróbio. uma condição imaginária. entre crimes contra o indivíduo e o preço do álcool. foram condenados a punições severas. que provoca sua fermentação. entre crimes contra a propriedade e o preço do trigo. certamente. pois deixa suas vitimas sem saída.6 O período industrial mais “próspero” torna impossível que o trabalhador receba o suficiente para a manutenção da saúde e do vigor. não é menos verdade que estas tendências encontram campo fértil em nosso ambiente social. Essa incrível força está condicionada por nossa cruel disposição social e econômica.

Um ladrão milanês. que foi compilada por Havelock Ellis. Edward Carpenter estima que cinco sextos dos crimes sujeitos à sanção penal consistem em alguma violação ao direito de propriedade. ao nosso sistema de exploração e usurpação sem compaixão. preferem o crime à posição esquálida e degradada da pobreza. Ministros que roubam milhões são honrados. Davitt: “As leis da sociedade são forjadas com a finalidade de garantir a riqueza do mundo para o poder e a ponderação. mostra que o criminoso sente de maneira nítida de que é a sociedade que o leva ao crime. Uma coleção de filosofia criminal. disse a Lombroso: “Eu não roubo. Uma investigação completa provaria que nove em dez crimes poderiam ser ligados. preferem o desafio aberto. Lombroso.7 2005 de pessoas são constantemente adicionadas à multidão dos desempregados. eu simplesmente tomo dos ricos seus supérfluos. direta ou indiretamente. Por que eles deveriam me punir por estar tomando 64 . Um condenado educado disse a Mr. por outro lado. Um assassino escreveu: “Sabendo que três quartos das virtudes sociais são vícios covardes. De leste a oeste. Não há criminoso tão estúpido. eu pensei que um assalto aberto a um homem rico devesse ser menos ignóbil do que a combinação cautelosa da fraude”. mas este é um número muito baixo. às nossas injustiças sociais e econômicas. despojando uma larga porção da humanidade de seus direitos e oportunidades. Outro escreveu: “Eu estou preso por roubar meia dúzia de ovos. este vasto exército caminha em busca de trabalho ou comida. e tudo que encontra são reformatórios ou favelas. Pobre Itália!”. e outros homens eminentes. Aqueles que ainda têm uma centelha de auto-respeito. do sul ao norte. que não reconheça este terrível fato. apesar dele não ser capaz de dar-se conta disto. os advogados e comerciantes não roubam?”.

ele concluiu. patriotismo é uma adoração estúpida do mundo pelo qual o bem-estar e a paz dos habitantes foi sacrificada por aqueles que lucram com ele. mas principalmente no sentido teórico. e o método legal e “civilizado” consiste em retrocesso ou terror. enquanto as leis da pátria. ela não desce aos instintos primitivos. Sua missão é de natureza “superior”. A “majestade da lei” é algo racional. e que nós não estamos hoje mais perto de uma solução do que na idade das trevas. “roubar é uma meta honrável”7. e reforma. a sociedade tem mantido o objetivo primitivo ao lidar com o criminoso. Comparado a isso”. punição. Verdade. despido de coragem e audácia. ela ainda é impregnada pela confusão teológica. Na prática. que pro- 65 . Ao invés disso.verve Prisões: falência e crime social de uma forma similar daqueles que tomaram mais do que tinham direito?”. tem delegado a um organizado maquinário a responsabilidade de vingar-se por ele de suas ofensas. O impulso natural do homem primitivo de revidar um golpe. de vingar-se de uma ofensa. estão travando guerra ao espírito manifesto da lei de nossos seres. Ela também adotou a idéia teológica. moral e físico são os micróbios do crime. o homem civilizado. O mesmo homem adicionou “A religião rouba as almas de sua independência. que é a vingança. Devemos observar. que os quatros tipos falharam totalmente. reprimindo desejos naturais. O fator econômico. é anacrônico. atualmente. baseado na tola crença que o Estado se justifica ao fazer aquilo para o qual ele não tem mais a virilidade ou consistência. Há certamente uma verdade maior nesta filosofia do que em todos os livros sobre lei e moral da sociedade. em outras palavras. como pode a sociedade enfrentar esta situação? Os métodos para lidar com o crime têm sem dúvida passado por muitas mudanças. político. então.

Por que eles não desistem? Embora nos Estados Unidos um homem seja considerado inocente até que provem sua culpa.7 2005 clama a punição como forma de purificação. a polícia. De outro lado. qual é a base real para a punição? A noção do livre arbítrio. e à mais asquerosa. legal e socialmente o estatuto exercita a punição. passa diariamente por um processo de desumanização. linguagem de seus guardiães. tornando-a o mais cruel e brutal torturador da vida. ou uma indireta reparação do pecado. Mas. espancando. A única razão para isto continuar é a noção. deve pagar o preço. e para o bem da segurança ele é escondido no pior dos infernos. Ainda que esta teoria tenha explodido há muito. inicia-se seu real calvário. não é segredo que quando o desafortunado cidadão é contemplado com a “misericórdia” da lei. mas também para provocar um efeito aterrorizante sobre outros. não apenas como aplicação da dor sobre o criminoso. ela continua a ser aplicada diariamente por toda a maquinaria do governo. sujeitando vítimas desafortunadas ao vicioso ar de suas delegacias. totalmente dependente da misericórdia de seus guardiães. ainda. Entretanto. ainda mais cruel. Os crimes continuam se multiplicando rapidamente. A sociedade usa os medos mais drásticos ao tratar com o criminoso social. que quanto maior a propagação do terror da punição. e a sociedade paga o preço. a idéia que o homem é sempre um agente livre para o bem ou para o mal. aprisionando indiscriminadamente. os instrumentos da lei. certamente maior será seu efeito preventivo. aterrorizando pessoas. perpetuam o império do terror. Roubado de seus direitos enquanto ser humano. degradado a um mero autômato sem desejo ou sensações. usando métodos bárbaros de “terceiro grau”. e tenha sido jogada em um entulho. que a ela 66 . e se ele escolhe o último. esbordoando.

todas as suas inclinações naturais frustradas. a vingança selvagem é brincadeira de criança. do que esperar por proteção dessas câmaras de horrores do século vinte. a solitária. seu espírito subjugado pela monotonia mortal e a rotina da vida presidiária. Nestas instituições sua vontade é quebrada. e soube por meio de um amigo de um jovem ra- 67 . por intermédio do cassetete. incomum encontrar. do humming bird (uma corrente elétrica que percorre o corpo humano). Mas as paredes das prisões raramente permitem que os gritos aterrorizantes das vítimas escapem — as paredes das prisões são espessas. que entrou e saiu 38 vezes. Missouri. da água para o afogamento. uma mulher na ilha Blackwell. sem vontade própria. deformada. sua alma degradada. Não há uma única instituição penal ou reformatório nos Estados Unidos em que os homens não sejam torturados para “tornarem-se bons”. Sem nada. Em Ohio. homens e mulheres que passam metade de suas vidas — ou melhor. elas abafam o som. enquanto na maioria das outras prisões os mesmos métodos cristãos ainda prevalecem. estes horrores se tornaram tão flagrantes que atingiram o mundo exterior.verve Prisões: falência e crime social comparada. com grande imunidade. estas vítimas logo mergulham novamente no crime como a única possibilidade de existência. Illinois. com a marca de Caim em suas testas. e no sul. suas esperanças esmagadas. esquálida. da clava. Eu conheço. e a dieta de fome. Não é. quase toda sua existência — na prisão. de forma alguma. Pensilvânia. da camisa de força. A sociedade deveria. abolir as prisões de uma vez. mas com a fome e a desumanidade para recebê-los. Ano após ano os portões das prisões infernais devolvem ao mundo uma parte náufraga da humanidade.

Elas são frias. obviamente. Pessoas bem intencionadas estão trabalhando por uma nova orientação na questão da prisão — reclamação. até que. o primeiro passo a ser dado é a renovação da consciência social. Ela necessita. alquebrado. o individuo comum pode aprender a recusar a “honra” de ser o cão de caça da lei. mais difíceis de serem atingidas. de acordo com nosso ambiente mental. no entanto. que nunca conheceu o significado de liberdade. Apesar de louvável. as instituições penais poderiam ganhar uma nova camada de verniz. com a consciência social despertada pode ser possí- 68 . e social. desesperadamente. devolver mais uma vez ao prisioneiro a possibilidade de se tornar um ser humano. Nada menos que uma reconstrução completa da sociedade livrará a humanidade do câncer do crime. ser despertada para o fato que o crime é uma questão de grau. Ainda. mais ou menos. despejando um bom vinho numa garrafa mofada. e que o indivíduo criminoso é somente um reflexo das tendências da massa. na penitenciária de Pittsburg. desprezar. No entanto.7 2005 paz de 17 anos. Estas experiências pessoais estão substantivadas por extensos dados que trazem evidências esmagadoras do absoluto fracasso das prisões como um meio de dissuasão ou reforma. impenetráveis e cruéis. de quem ele foi enfermeiro e cuidou. As instituições são. Ele pode parar de perseguir. físico. desconfiar do criminoso social e lhe dar uma chance de viver e respirar entre seus companheiros. Do reformatório à penitenciária foi o caminho da vida deste rapaz. se o fio cego de nossa consciência social fosse afiado. que está em uma condição particularmente dilapidada. que todos nós temos o embrião do crime dentro de nós. eu temo ser impossível esperar por bons resultados. morreu vítima da vingança social. Com a consciência social despertada.

e renovável por mais cinco anos.Vinte e nove dos Estados norteamericanos seguem o último plano.verve Prisões: falência e crime social vel libertar as vítimas das prisões. por opção dos próprios contratantes. apenas o Estado tem sido seu explorador. talvez expresse o pior exemplo. É quase ridículo esperar muito da sociedade atual quando consideramos que um operário. especialmente se perceberem que seus trabalhos dependem disso. até os guardiões da presa humana a temem. e a um suborno sem fim. O governo federal e dezessete Estados o têm descartado. Eles podem ser educados com um pouco de humanidade. a oposição até agora levantada pelo trabalho organizado tem sido direcionada contra moinhos de vento. escravo ele mesmo do salário. já que levam a um abominável trabalho pesado e abuso dos prisioneiros. ou têm subcontratado o trabalho do condenado para particulares. elaborado em 7 de julho de 1906. Em um contrato de 5 anos. da brutalidade dos oficiais. o trabalho dos internos da Penitenciária da Ilha Rhode e da cadeia do condado 69 . opõe-se ao trabalho do condenado. Mas o passo mais importante é dar ao prisioneiro o direito de trabalhar durante o aprisionamento. Eu nem irei entrar no mérito da crueldade dessa objeção. Os prisioneiros sempre trabalharam. guardas e carcereiros. Estado dominado por Aldrich. Para começar. “A ilha Rhode. assim como as nações líderes da Europa. o começo de uma nova vida. da mesma maneira que o empregador individual é o usurpador do trabalho organizado. A opinião pública é uma arma poderosa. Os Estados ou têm usado os condenados para trabalhar para o governo. mas vou simplesmente considerar sua impraticabilidade. com alguma recompensa monetária que pode permitir que ele poupe algo para o dia de sua libertação.

Co. luz. Indiana. anualmente..20 por dúzia. calor.8 Estima-se que o equivalente a mais de 12 milhões de dólares de camisas e macacões de trabalhadores são produzidos. por uma taxa um pouco menor que 25 centavos por dia e por homem. e para isso eles também alugam o trabalho de condenados das penitenciárias de Connecticut. West Virginia 65 centavos por dia da Kraft Mfg. que deveriam estar aprendendo um ofício. Co. enquanto ela paga a Ilha Rhode trinta centavos a dúzia. A enormidade do suborno no contrato de Rhode Island pode ser estimado pelo fato desta mesma Companhia pagar 62 dólares e meio por dia em Nebrasca pelo trabalho dos condenados. Reliance-Sterling Mfg. Além disto. e a primeira reflexão que isto levanta é que uma imensa quantidade de trabalho feminino livre está desocupada. Co. Illinois. e Wisconsin. e até mesmo drenagem e não exige taxas. Esta Companhia é um verdadeiro monopólio gigante do trabalho na prisão. Indiana. e que Tennessee. Nebraska. A segunda consideração é que prisioneiros masculinos.7 2005 de Providence são vendidos para a Reliance-Sterling Mfg. totalizando 11 estabelecimentos. Missouri ganha 70 centavos por dia da Star Overall Mfg. Co. Michigan. Que suborno!”. A grande diferença nos preços aponta para um enorme suborno. Não cobra nada pela eletricidade.. e Maryland 55 centavos por dia da Oppenheim. e do reformatório de Nova Jersey. a fábrica de camisas Oberndorf & Co. manufatura camisas sendo que o custo do trabalho livre não é menor que $ 1. ganha $ 1. neste país. Por exemplo. É uma indústria feminina. 70 . o que daria a eles alguma chance de se sustentarem após sua libertação. por prisioneiros. o Estado não cobra deste monopólio aluguel pelo uso das suas enormes fábricas. e Dakota do Sul. por exemplo.10 por dia pelo trabalho de um condenado da Gray-Dudley Hardware Co.

A terceira. A produção de vassouras é uma prática amplamente monopolizada pelos cegos. 135 estavam comprometidos na produção de correntes. Isto é ainda mais sério quando consideramos que muitos desses trabalhos são feitos em reformatórios. e mais importante consideração é que o enorme lucro conseguido por meio dos trabalhadores apenados é um constante incentivo para os contratantes exigirem de suas vítimas infelizes muito além de suas forças. estas últimas para o lucro da Louisville Fancy Grocery Co.verve Prisões: falência e crime social são mantidos neste trabalho com o qual possivelmente não ganharam um dólar. camisas e vassouras. de acordo com o relatório produzido em 1908 pela instituição de treinamento de seu “reformatório”. os prepara para trabalhar fazendo correntes. Porém. 207 na de camisas. Toda a situação é uma farsa cruel. Indiana. nas três ocupações. a de camisa é feita por mulheres. e para os punir cruelmente quando seu trabalho não acompanha o aumento excessivo da demanda. 71 . eram representadas pelos internos. Indiana. e nela um prisioneiro liberto não pode ter esperança de conseguir empregar-se. Mas neste autodenominado reformatório 59 profissões. Mais algumas palavras a respeito da condenação dos apenados e sobre as tarefas com as quais eles não devem ter esperança de poder ganhar a vida. professa estar treinando os prisioneiros em seus reformatórios em ocupações com as quais eles poderão obter seu ganha pão após serem soltos. e há apenas uma fábrica “livre” de correntes no estado. por exemplo. como outros estados. Na verdade. 39 das quais ligadas a interesses do país. e 255 na fundição — um total de 597. é um estado que tem feito um grande alarde por estar à frente no quesito aperfeiçoamentos penais modernos. que alardeiam estar treinando seus internos para que se tornem cidadãos úteis.

especialmente para a vida de um presidiário. sem meios de subsistência. tal como reivindicam para si mesmos? Desta maneira. quinze ou vinte anos de prisão pela frente? A esperança de liberdade e de oportunidade é o único incentivo para a vida. trazê-lo para a sua organização. é a crescente tomada de consciência da barbárie e da inadequação da sentença definitiva. Por último. detetives e policiais são extraídos e dispostos a cumprir a ordem do mestre. são anualmente lançados de volta ao meio social. devia vê-lo como um irmão. sem competência ou profissão. mas não menos importante. Portanto. A vida na prisão os tornou anti-sociais e as portas firmemente fechadas que eles encontraram na sua libertação não diminuíram a sua amargura. os estados podem ser instrumentos em arrancar enormes lucros de suas vítimas indefesas não está mais do que na hora do trabalho organizado parar com seu uivo inútil. e com sua ajuda enfrentar o sistema que os agrilhoa. Ajuda a criar a fumaça venenosa que asfixia qualquer tentativa de melhora econômica. então. Estes homens e mulheres devem viver. à conclusão que deve ser dado ao homem a oportunidade de fazer o bem. pois até ex-condenados tem necessidades. numa mudança chegam. os trabalhadores erradicariam o germe que faz o prisioneiro um inimigo dos interesses do trabalho organizado. E como ele fará isso com dez. o trabalho organizado. O resultado inevitável é que eles formam um núcleo favorável do qual fura-greves. Já disse em outra ocasião que milhares de prisioneiros. pela sua tola oposição ao trabalho na prisão destrói a si mesmo. A sociedade tem pecado há muito contra eles e isto é o 72 . e seriamente se esforçam. rapidamente. Aqueles que acreditam.7 2005 Se. e começar a requisitar uma remuneração decente para o condenado. Se o trabalhador deseja evitar esses efeitos ele deveria insistir no direito do condenado ao trabalho.

Crime and criminals. The criminal. entre outros. uma rubra. psicólogo. The criminal. Da sua boca. rubra rosa! Do seu coração.E. ou que qualquer mudança real nesta direção possa acontecer até que as condições que originam a ambos. Em 1892. foi um membro dos fabianistas ingleses. sejam abolidas para sempre. 4 5 Havelock Ellis. Notas 1 The Ballad of Reading Goal: The vilest deeds. Tradução das poesias por Thiago Rodrigues. Owen. entre 1897-1928. escrevendo o controvertido Studies in the Psychology of Sex. Eu não estou muito esperançosa que isto ocorrerá. e escreveu em 1890.verve Prisões: falência e crime social mínimo que ela deve deixar-lhes.9 Tradução do inglês por Anamaria Salles. Pale Anguish keeps the heavy gate. Do cajado estéril que o peregrino portava Floriram diante do Papa. Ibidem 73 . (N. Havelock Ellis. em 7 volumes. Foi um estudioso do homossexualismo. like poison weeds.). It is only what is good in Man. uma branca! Para quem pode dizer por qual estranha via Cristo traz sua vontade à luz do dia. Bloom well in prison air. o prisioneiro e o carcereiro. publicou The Nationalisation of Health. defensor da eugenia. And the Warder is Despair 2 3 W. That wastes and withers there.

7 2005 6 7 8 9 Ibidem Ibidem Extraído das publicações do National Committee on Prison Labor. 74 . trabalho na prisão. Out of his mouth a red. work in prison. Christ brings his will to light. ABSTRACT Strong reflexion by the anarchist Emma Goldman about the prison conditions and the urgency in abolishing them. anarquismo. Palavras-Chave: Abolição da prisão. Keyword: abolishment of prison. Indicado para publicação em 10 de março de 2003. RESUMO Contundente reflexão da anarquista Emma Goldman sob as condições carcerárias e a necessidade da abolição das prisões. red rose! Out of his heart a white! For who can say by that strange way. Bloomed in the great Pope’s sight. Since the barren staff the pilgrim bore. anarchism.

uniformemente. Reduzir danos é também uma políti- * Professor no Departamento de Política e no Programa de Estudos PósGraduados em Ciências Sociais e Coordenador do Nu-Sol. 7: 75-85. como resultado de uma suposta igualdade jurídico-formal é mais do que um avanço significativo anti-repressão. As práticas anti-proibicionistas às drogas levam a uma política de descriminalização. verve. mais do que uma política sanitária. Reconhecer que não há universalidade e uma generalidade da lei aplicada. Sexo não é o mesmo que sexualidade. abolicionismo penal. e estados alterados de consciência podem ser atingidos com ou sem o uso das substâncias proibidas. Medida de redução de danos é. portanto. 2005 75 .. medidas de redução de danos. devem ser saudadas pelo abolicionista penal. medidas de redução de danos e uma nota trágica1 edson passetti* 1. e como tais..verve Abolicionismo penal.

Mais uma rodavida. punições. 2. elasticidades. que vão da maconha ao ecstasy. segundo uma estética do corpo saudável. moto continuum. Droga é o permitido e o impedido. legitimado pelo Estado. compondo parcerias com interessados. um atestado de saúde. Mas não só. Desconhecidas dos agentes de punição e sem regulamentações legalizadas quando usadas. combinados ou não com terapêuticas (psicológicas. agilidade. explosão muscular. canalista. a rotina e o mal digerido cotidiano. há aquelas destinadas à terapêutica.7 2005 ca abolicionista que lida com situações-problema. cólogo. respaldado na lei. Quem produz cria e recria. o atual hedonismo de academia). Droga designa o proibido em lei por meio da atuação de uma moral conservadora criada e revivida pelas forças sociais. co-pedagogo. que desejam proibições. é marasmo e surpresa. nada cessa: o mesmo corpão começa a ser refeito. o semblante do saudável em nome da verdadeira saúde. internações. também. de controle de peso. Além das drogas proibidas. Nas drogas estão. é legal e ilegal. Assim sendo. nela habitam as surpresas da vida. 76 . Droga é perigo e risco. os alucinados cidadãos. Atletas são cobaias de novas drogas para o corpo. Um belo dia elas passam a ser consideradas proibidas. confinamentos. leis. Acabam os medalhistas. droga caracteriza um conjunto de medicamentos receitados por médicos. um corpão cobiçado. é preciso o uso medicalizado de drogas administrado segundo receitas ou acompanhamentos de psi (quiatra. de animação da musculatura. e são os mesmos produtores e consumidores. fôlego. quem usa paga o pato. geram quebras de recordes. Nestes casos. super conhecidas. regulamentações. prisões. os recordistas.

O que era tráfico em toneladas de maconha ou cocaína. hoje vai se transformando. confinado e sob ameaça de prisão e morte pela polícia ou choque de gangues. hoje se situa uma diplomacia que envolve empréstimos vultuosos em 77 . É urgente. Deixa de ser trabalho de miserável e recebe novo status. dentro ou fora de clínicas. na atualidade. síndromes do medo. Não só. na economia informático-computacional. com leves grandes quantidades de drogas sintéticas carregadas em pequenas bolsas. administrar a saúde mental. e tal). passou a ser um potencial jovem empresário das drogas sintéticas que faz de uma ou duas viagens o trampolim para seu próprio negócio legal. medidas de redução de danos. o que é droga depende do momento histórico para ser definida. O dinheiro ainda continua sendo lavado e não é em nenhuma lavanderia. estimular a pessoa a participar de programas.. Um usuário ontem. sobre o que demarcou nos anos 1980 a dicotomia país consumidor/país devedor. relaxar a tensão e gerar concentração a trabalhadores produtivos. para acalmar. Enfim. acalmar adolescentes. E é tão impossível uma ontologia da droga como do crime. na política. Verso e avesso vão realizando o rodízio. mas designa quem deve ser curado. depressões.verve Abolicionismo penal. livre de apatias. O que era política anti-narcoterrorismo vai virando combate ao narcotráfico. cuidado da saúde. pode ser. carteiras e porta-níqueis. docilizado ou potencializado como ser produtivo. no dia-a-dia. em poucas palavras. Falar droga é o mesmo que identificar um crime.. por jovens de classes emergentes. neste instante. no passado recente. um paciente numa clínica que usa maconha para o cliente abandonar o crack. Mais ainda. É preciso saber docilizar rebeldes. não é apanhada por um conceito universal. A diversificação do comércio de drogas estabeleceu uma distinção entre os trabalhadores: o serviçal do narcotráfico. etc.

sugerindo beber moderadamente ou com responsabilidade). intervenção em programas antidrogas ministrados por policiais a crianças escolarizadas nas periferias das metrópoles. Enfim. a ferida do próprio casamento: é entre heterossexuais que na atualidade a aids prolifera e mata mais. do final do XIX e início do século XX. repete-se a mesma constatação secular: quanto mais baixa a qualidade das drogas comercializadas. maiores serão os riscos para a saúde do usuário. Está na normalização o itinerário moderno da peste. umas são somadas às anteriores. sempre haverá drogas e sua comercialização proibida enquanto perdurar a moral do bom senhor que zela pelo rebanho. Na mesma proporção. Cada época gera suas drogas (as naturais. influência indireta no regime das fronteiras. rende hoje em dia a extraordinária máquina de fazer dinheiro chamada cerveja. Opor certo a 78 . e não raras vezes. A lei pune mais. O sexo entre homens. o então chamado câncer gay. as criadas em laboratórios). da mesma maneira que as políticas repressivas não param de proliferar. É uma política moralizadora mais trágica e mortal do que na Europa e nas Américas. bebida estimulada a qualquer jovem tanto pela propaganda (regulada pelo politicamente correto. e chovendo no molhado. novamente. A religião dissemina pela África adentro o imperativo reacionário do sexo confinado ao casamento e para a reprodução. transforma-se em mais de uma década numa recomendada relação normalizada pelo casamento com camisinha. as transformadas pela farmacologia. alvo escolhido como disseminador da nova peste. participação equilibrada no acesso aos satélites de segurança e vigilância. de início. durante o percurso de sua pacificação. e expõe. as boas pessoas que defendem a sociedade assim o desejam. A era do álcool odiada pelos puritanistas norte-americanos.7 2005 dólares.

pessoa qualquer. caminham juntas na consagração da moral.. os potencializados. os saudáveis e os viciados. sempre lembra Artaud dizendo que é preferível morrer de peste do que de mediocridade.verve Abolicionismo penal. muito menos um sacerdote das almas está isento da infração. A política de tolerância zero (que por definição é anti-religiosa e antidemocrática. os da ordem e os da desordem. os docilizados. governantes e governados. e ao mesmo tempo. Não surpreende que é pela moralidade que eles se isentam de culpas e as esquadrinham como crimes. difundir o sexo restrito ao casamento com ou sem eloqüência das culpas religiosas. A luta por liberdades cedeu lugar à garantia de segurança. a mais justa. a vencedora do socialismo. juízes. consagrar o livre pela regulamentação. carolas e putas. Em nome da democracia como panacéia modula-se o planeta. ali ou acolá já cometeu alguma infração. não livra ninguém de alcoolismo. de peste. tolerância zero. Transcendência religiosa e racional não se apartam. 3.. 79 . de aids. os curados. zelar pelos necessitados. Uma amiga minha. policiamento extenso. aqui. os aditivados. supõe que religiosos e democratas devam ter compaixão e conviver com vizinhos) apareceu entre a direita estadunidense e migrou para as esquerdas. Quem a negar não é uma pessoa sincera. punições. Nem um juiz. a verdadeira maneira de saborear a mobilidade social. medidas de redução de danos. fundir o proibido no legítimo. Salete Oliveira. Os sarados. também abolicionista penal. os puritanos e os desajustados. errado. Vivemos uma era de globalização que se pauta na esperada conduta conformista enaltecedora da vida democrática. promotores e advogados.

empresários e sindicatos pôde ser refeita com novas legislações trabalhistas voltadas para a produtividade e a disseminação da filantropia. Chegamos a um ponto em que as relações entre burocracia estatal.7 2005 Passemos a outros brevíssimos casos. edifícios monitorados: controle total. a conquista sideral ampliou o nomadismo para espaços sem fronteiras. a construção de equipamentos sociais mínimos. mas melhorar sua imagem. É exigido o tribunal local. A liberdade de mercado continua sendo a liberdade capitalista que não sobrevive sem intervenção estatal em seu benefício. não fazer passeatas senão para comemorar direitos multiculturais e/ou passeatas críticas amparadas e asseguradas pela polícia. legislação mais punitiva. é necessário vigiar com a ajuda da eletrônica. e também. explicitando novas fronteiras e abolição do nomadismo. Proliferam ong’s patrocinadas por empresas difundindo a necessidade de integração pela imobilidade. mais ágil. escola em tempo integral para evitar que as crianças sejam contaminadas pelos desajustados. novas ocupações planetárias. atuando a favor de consórcios e monopólios. Tudo na mais perfeita ordem. alguns irão. ao mesmo tempo. Não se quer mais acabar com favelas. criar mais prisões de segurança máxima. a permanência na periferia e a sua glorificação. polícia equipada e cidadã: prender mas não matar. Recuperam-se os argumentos racistas quando a própria população das periferias identificam os sangue ruins entre os seus. Foi-se o tempo neoliberal para dar entrada ao liberalismo social: o espaço de superfície foi redesenhado. administrando miseráveis e o trabalho informal: cuidando dos saudáveis e contabilizando 80 . configurando uma política de confinamento. filosoficamente uma política de campo de concentração. Recomenda-se não resistir e se integrar na política institucional. Muitos ficaram.

é preciso integrar. resultados geradores de mais verbas. à “ética”. Esse enorme contingente foi agregado à grande massa sob a forma de desmembramentos estatísticos. medidas de redução de danos. os improdutivos. acusações à globalização. algozes e vítimas. portanto. prisioneiros. outras intervenções possíveis. um filantropo. dinamizando o turismo dos especialistas burocráticos. segundo os resultados de aplicação de programas de contenção da insatisfação. viajam por internet e aviões. compaixões.verve Abolicionismo penal. Para estes qualquer coisa pode ser traduzida em papers. Todos devem convencer os miseráveis e a si mesmos que as soluções são jurídicopolíticas. Eles lidam em cima das fronteiras e inventam espaços de relacionamentos e liberdades. drogados. Anti-universalista. e que em nome das soluções. como eleitor. A sociedade de controle requer a participação de cada um. Os formuladores e alimentadores dos esquadrinhamentos e percentuais. é uma política que atua com a potencialidade de cortar o casco de um Titanic repressor. antes de resistir. As políticas de redução de danos têm tudo para potencializar a luta pela liberação das drogas. Procura compreender a situação dos envolvidos. criador de ong. compondo um discurso generalizante e oco o suficiente para gerar novos investimentos. Reduzir danos sob estas relações é uma ponta de um iceberg abolicionista. monitor. como situação-problema e não crime ou infração. O abolicionista trata cada caso como algo especial. uma vítima e um Estado totalizador. viciados. enaltecimento à cidadania. reconhece a verdade em cada parte e busca a solução 81 . tomando partido de ambos. administração da desgraça banhada em utopias... institucionais. desajustados. Seus usuários e ativistas sabem mais do que qualquer especialista de gabinete com um título de doutor a tiracolos obtido com base em estudos estatísticos milimétricos. liderança local.

porque não atuar de outra maneira? Não como alternativa punitiva à prisão. muitos programas assistenciais a docilizar clinicamente jovens. certos atletas a buscar ouro olímpico ou similares. Promove. A busca por drogas não cessará. não as submetem a autoridades superiores de juízes. é seu. autoridades despojadas de seu poder universalizador de julgar. pois independe da motivação que leva um jovem a consumir cocaína. lida com o acontecimento no instante.7 2005 pelo lado de fora. que não seqüestra a palavra ou as vontades das partes. cada usuário encontrará sua maneira de chegar às drogas. O dinheiro do Estado é meu. técnicos de humanidades. maconha. pelas idealizações do corpo saudável. promotores. Reduzir danos é uma política que reconhece essa milenar história do uso das drogas e atua segundo o interesse do usuário. pelas pacificações das almas sofridas. Para este caso já existe o regime das penas alternativas. sejam elas legais ou ilegais. advogados. É anti-repressiva. isso sim. 82 . Mas pela disseminação de práticas de redução de danos. etc. ecstasy ou crack. Se o gasto com prisões é imenso e ineficaz. e tal. pelo prazer incomensurável. o da conciliação capaz de propiciar uma resposta-percurso que evita a prisão e. incentiva a indenização. não idealiza a saúde. uma conversação entre envolvidos e pessoas diretamente relacionadas ao caso. aos melhores fornecedores. Uma resposta-percurso que não se transforma em modelo. é de cada um. respostas–percurso capazes de afirmar outras possibilidades de se conviver com drogas. um trabalhador a buscar estimulantes ilegais para produzir mais. que é avessa à filantropia. uma senhora de prendas do lar a ingerir antidepressivos. lideranças. Estimulado ou não pelos laboratórios farmacêuticos associados aos ditames de controle do trabalho. ao mesmo tempo.

A cultura da punição (extensa ou intensa). medidas de redução de danos. Quando o capitalismo defrontava-se com o socialismo. Sabemos que o sistema penal é incapaz de apanhar todas os infratores. prender menos. Trarei uma pequena lembrança para encerrar. inventar novos costumes libertários.. que criou as Febem’s sempre 83 . Por ela se prende mais. Trata-se apenas de uma nova política para o rebanho. sim. com políticas sociais. sarado. 4. as mãos de governantes. drogado. lambendo os calcanhares de pastores e sacerdotes. em dezembro de 1964. foi inaugurada uma nova política de segurança no Brasil. é não tolerar prisões para os jovens. bêbado.verve Abolicionismo penal. É praticar liberdades. policia demais e não se chega a um efeito melhor no Estado Penal que no Estado de Bem-Estar Social. confina mais. lidar com o presente sem medo e com riscos. Experimentar o abolicionismo é antes abolir o castigo dentro de si. O sistema penal não pode e não quer dar conta de todas as infrações cometidas ou denunciadas.. chamada política nacional do bem-estar do menor. com o neoliberalismo e a difusão da inevitável democracia. pois ambos não vivem sem corrupções. acabaria com a ilegalidade necessária à existência do capitalismo e do Estado. diversos encaminhamentos feitos às delegacias jamais chegam ao sistema. uma forma democrática de intervenção estatal conseguia. o welfare-state. Se desse. Ele opera por seletividade sócio-econômica. com base na idealização da economia livre de mercado que manteve a intervenção governamental. criouse a autoritária política de tolerância zero. em busca da volta do Messias. ameaça mais. jamais consegue dar conta das ondas de infrações. o caminho dos líderes de ong’s. Há 40 anos. e além disso. gerando a cifra negra.

bastante racismo e confinamentos. para integrar no mundo globalizado é preciso a escola eletrônica e essa não é para todos. A ditadura acabou e uma institucionalização democrática apareceu. enfim. As organizações filantrópicas ali atuam para docilizar e imobilizar. No passado as resistências libertárias afirmavam que cada um era dono do seu próprio corpo. As periferias permanecem miseráveis. uma burocracia monumental a ponto de. dizia Nietzsche. Vivemos uma era em que o campo de concentração se anuncia como um modelo de administração governamental. Hoje. onde há muito direito multiculturalista há. enfim. portadores de uma cultura da pobreza. dele podendo dispor como bem desejasse. O tráfico tradicional de drogas permanece recrutando os seus serviçais nas periferias (para comercializar e matar). Não se questiona o racismo de Estado tanto por meio da identificação naturalizada de quem é mau. Durante a ditadura militar se questionou a Febem. 84 . o atendimento bio-psico-social para carentes e infratores menores de idade. hoje em dia. que não emerja de um ato de violência. Tudo em nome da segurança nacional e de uma integração segura para excluídos. A polícia lá recruta para prender e matar. o sindicato dos carcereiros da Febem ser mais importante do que um jovem lá internado. crianças e jovens foram escolarizados e na medida em que isso aconteceu ficou evidente que a escola é lugar para aprender a obedecer (critério uniforme para acionar a evasão). seus métodos e se deu legitimidade às rebeliões. quanto pela difusão de políticas de cotas entre os bons com o intuito de gerar uma elite no interior da mesma periferia. Não há direito. inclusive para consumir drogas. também. habitantes não escolarizados das periferias.7 2005 em reformas. potencialmente perigosos. passou a ser uma prisão reconhecida. A Febem.

harm reduction policy. Keywords: penal abolitionism. ABSTRACT The abolitionist perspective sees the harm reduction policies as a strategic resistance to the prohibitionist practice and as a tactical ally to enforce the fight for drug liberation. Numa época em que se procura anular resistências. convidando-os a lutarem. 11 de fevereiro de 2004. mas saiba que é sua responsabilidade alimentar a continuidade do tráfico”. Palavras-chave: abolicionismo penal. RESUMO Uma perspectiva abolicionista que vê a política de redução de danos como uma resistência estratégica à prática proibicionista e um parceiro tático para potencializar a luta pela liberação das drogas.verve Abolicionismo penal. pelo fim das prisões para jovens. dos participantes cidadãos. drogas. drugs.. apropria-se daquela prática libertária transformando-a em um lema da moralidade individualista: “você pode fazer o que quiser de seu corpo.. sob o conservadorismo. RELARD-IHRA-REDUC. também. inclusive consumir drogas. São Paulo. medidas de redução de danos expressam liberações alheias à conduta dos polidos zeladores da moral. Nota 1 Palestra realizada na I Conferência de Redução de Danos da América Latina e do Caribe. 85 . medidas de redução de danos. Recebido para publicação em1 de março de 2004. dos pastores religiosos e ongueiros. política de redução de danos. O abolicionista penal está ao lado dos ativistas das medidas de redução de danos.

fazendo-o estremecer até o uivo. pois desconhecem a causa de sua má sorte. Eles foram extirpados de seu ambiente natural apesar de serem inocentes. que também não acabaram com *Professor na Universidade de Buenos Aires. Descarregaram-se primeiro 300 volts no corpo do cachorro. 2005 86 . Na arca. mas o tempo suficiente para sua posterior conservação e reprodução. Como um cão Era um vira-lata e respondia unicamente ao nome de “Dash”. 7: 86-99. Fora entregue à ciência com a finalidade de testar a eficácia da eletricidade aplicada à arte de matar. verve. os animais são cuidados.7 2005 a mecanização do cadáver — a má sorte dos animais christian ferrer* Na ocasião do dilúvio universal. e não somente durante a catástrofe. foram anunciadas a Noé duas missões: salvar um pequeno núcleo humano e todos os animais da terra. emblema da comunidade de todos os seres vivos em momentos difíceis. seguiu-se depois com 400 volts.

A comissão estatal encarregada de selecionar um método alternativo à forca — o predileto até então — considerou trinta e quatro propostas diferentes. Francis Kemmler seria sua primeira cobaia humana: levantara a mão contra sua esposa. que terminou por satisfazer os membros da comissão. A guilhotina. Estava errado. a guilhotina. sucumbiu. e também cavalos. mesmo que sua língua pendesse como um badalo. a injeção subcutânea (possibilidade descartada porque “a morfina poderia eliminar no réu o grande medo da morte”) e a eletrocussão. Na quarta tentativa. com os quais se acabou de aprontar o carrasco de quatro pés. Estou contente porque não serei enforcado. O leque foi fechado sobre quatro propostas: o vil garrote. e a cadeira elétrica agora prometia dar uma morte tão veloz que inclusive passaria inadvertida 87 . Entre grades foi batizado na fé metodista e inclusive aprendeu a ler. Sua execução não foi simples. que contemplavam ser lançado de um canhão. em Nova Iorque. no dia 30 de junho de 1888. pois tivera ingressado analfabeto à prisão. que seria depois confirmada. Acredito ser muito melhor morrer pela eletricidade do que por enforcamento. foi tida como considerável melhora em relação aos enforcamentos e fuzilamentos de costume. Tampouco a dos sucessivos cachorros. ainda continuava vivo. Não me provocará nenhuma dor”. e muito. Sou culpado e devo ser castigado. A sentença não foi executada imediatamente. O condenado respondeu ao tribunal: “Estou disposto a morrer pela eletricidade. pois Kemmler recorreu da resolução. e assim a corrente chegou aos 700 volts e. Na nova fórmula judicial que lhe fôra lida estipulava-se o seguinte: “Você foi condenado a sofrer a pena de morte por meio da eletricidade”. Estou pronto para morrer. ser fervido em carne viva e ser jogado numa horda de animais selvagens.verve A mecanização do cadáver — a má sorte dos animais sua vida. fatalmente. em seu momento. Dois anos mais tarde.

foi iniciado na Europa um áspero debate não isento de seqüelas políticas em torno ao “darwinismo social”. que se sobrepôs à polêmica paralela entre evolucionistas e creacionistas. Animal “evoluído”. Paleontologia e política Charles Darwin publicou A origem das espécies em 1859. “modernas”. Acredito que vou para um lugar melhor e estou pronto para partir. mas é cruel me tirar deste mundo pior do que eu”. e suas veias romperam-se e as mãos se encheram de sangue. Um médico certificou a morte do réu dezessete segundos depois. Aconteceu no dia 6 de agosto de 1890. com A orígem do homem. Só quero acrescentar que muito se disse sobre a minha pessoa que não é verdade. mas sim engenheiros e eletricistas.7 2005 para o condenado. Entretanto. Sou bastante ruim. Estando sentado e de mãos amarradas foi dada a ordem de descarregar os 1000 volts combinados. lhes desejo boa sorte. Este artefato fatal ingressava suavemente na consideração progressista das invenções científicas: precisas. Então foi elevada a corrente a 2000 volts e a saliva começou a fluir pela boca. o corpo todo ardia em chamas. e a pele empalideceu. Quando foi levado para o último lugar que veria em vida. e seu complemento em 1871. infalíveis. os olhos saíram das órbitas. Francis Kemmler disse aos curiosos presentes: “Cavalheiros. Por certo. o homem seria uma pirueta autoprovocada por um macaco. Segundo relataram as testemunhas. Francis Kemmler não tinha morrido e vários dos que assistiam disto deram aviso. Logo após a morte de Darwin. Dois raios cravados sobre um céu sereno. “a sobrevivência do mais apto” não é um lema que resulte de imediato agradável para des88 . o corpo de Kemmler enrijeceu repentinamente. e sem dúvida não foram seres mascarados os que aprontaram a primeira execução. No final.

encurralar o resto do reino animal contra o precipício é questão de tempo. Kropotkin identificou dois tipos distintos de luta. a descontinuidade se torna abissal e. então. e outros deliram com artefatos que reproduziriam “inteligência” e “emoções” humanas. as espécies. Todos entendiam. Aquele príncipe profetizou. Houve aqueles que privilegiaram a condição “gladiatorial” dessa luta e lhe deram significados políticos e morais à hipótese de Darwin: a natureza. boxeadores solitários. comunhão que garante melhor a sobrevivência do que o combate. A do organismo contra o organismo pelos recursos limitados. maltrato e matança dos animais por parte do homem. O príncipe Piotr Kropotkin. que a dominação do homem pelo homem era uma conseqüência deslocada da dominação. a linhagem animal perde seu elo. Ironicamente. anarquista e cientista. um quadrilátero. confronta-os em 1902. o 89 . Bandos e manadas cooperam. aquela certeza humanista culmina agora em numerosos sociólogos e filósofos que depositam na biotecnologia a esperança de uma mudança positiva para o destino histórico da espécie. e a do organismo e a espécie unidos contra o meio ambiente. Tábula rasa Seria pronunciado o auto de fé dos cultos e atualizados: o corpo se sustenta na cultura. Mas se a história se inscreve no volume de carne como se este fosse uma lousa límpida. uma postal de coliseu romano que podia satisfazer a impressionável sensibilidade burguesia do século XIX.verve A mecanização do cadáver — a má sorte dos animais crever a promoção das espécies. Na vida social. Negada a designação “animal” no ser humano. e assim prosperam. retroativamente e com lógica tenebrosa. Em O apoio mútuo. Já são legião: uns comemoram a continuidade “irreversível” entre máquinas e homens. obra que recebeu certa consideração pública. não na dotação biológica.

à tolerância ou à aceitação do alheio. a Ilha do Norte da Ilha do Sul. se encontraram com o moa. concessão de “direitos”? A questão nos concernirá unicamente quando se assuma que a destruição do corpo humano está diretamente vinculada ao tratamento dado ao resto dos seres vivos. e também ao reconhecimento dos atributos do “outro” que há em “mim”. Descuido Milhões de anos atrás. que havia séculos estavam extintas no resto do arquipélago. entretanto. piedade. perto do ano 1300 depois de Cristo. O assassino.7 2005 “drama da diferença” pode conduzir à negação ou ao desrespeito de direitos. o maior pássaro que existia no mundo. O encarregado do farol tinha desembarcado na ilha junto com um gato que levou apenas 90 . Sendo um dos alimentos preferidos dos maori. O bumerangue costuma retornar violentamente ao braço que o lançou. o governo neozelandês proibiu as pegadas humanas nessa cápsula isolada no tempo. Estas operações emocionais e políticas se tornam raras quando se aborda a diferença animal. Porém. Mas os animais estavam antes. tinham sobrevivido algumas espécies de aves. o ser humano bem poderia ser uma errata da natureza. foi extinto no século XVII. Domínio. que não podia voar. Rapidamente. todos os pássaros estavam mortos. Um ano depois. a declarou “reserva natural” e mandou construir um farol. em 1893 descobriu-se que numa pequena ilha chamada Stephens. e a história humana sua persistência fatal. a massa continental original se fragmentou em vários pedaços e foi quando a Oceania ficou desvinculada da sorte ecológica das outras terras. localizada no Estreito de Cook. Quando os maori chegaram desde a Polinésia ao que hoje chamamos Nova Zelândia. Depois de tudo. era inocente. algumas do tamanho de um frango e incapazes de voar. que separa as duas grandes ilhas.

As sociedades filantrópicas de “proteção aos animais” foram criadas no rescaldo da revolução industrial. onde chegaram a ser ricas e poderosas. O “Movimento de Libertação dos Animais” propagou uma nova definição política da relação entre homem e animal. mas cavalos. Suas conquistas foram escassas porque na Europa e nos Estados Unidos. Os cepos e arma- 91 . Mas. Defensores As primeiras vítimas defendidas não foram cachorros e gatos. muito menos baleias. Isso aconteceu perto de 1970. asnos e mulas. Sub-humanos A vida — e a morte — dos animais tem sido mecanizada: já são produtos cujo controle de qualidade exige a imposição de certas doses de crueldade. uma época na qual se criava intensivamente o gado com a finalidade de assassiná-lo e na qual se contavam aos milhões os animais com os que se experimentava em laboratórios. já precisava de outro tipo de orientação política. Apenas um ciclo de contato com a cultura humana dera baixa a cem milhões de anos de evolução. na qual se requeriam maiores quantidades de animais a modo de cobaias “de índias” e na qual destripar animais nas escolas públicas resultava ser um tópico do currículo.verve A mecanização do cadáver — a má sorte dos animais um ano para acabar com todos os pássaros. dedicadas majoritariamente a “criar consciência” em uma época na qual a experimentação científica estava se “profissionalizando”. Para sempre. No final do século XIX. a renúncia à ação política foi pobremente compensada pelo recurso da “campanha de conscientização”. quando a “tração a sangue” era o meio de viabilidade mais habitual e o maltrato era contínuo e à vista de todos. foram fundadas organizações contra a vivisseção.

pelos anarquistas. Relembre-se: até século e meio atrás. separação de mãe e filho. no Ocidente. além de prolongar a agonia do animal durante dias. e atiçada. que supõe castração. como ainda se faz nas brigas de galo ou de cachorros de luta. com argola ao pescoço e em combates a morte. marcação. era perfeitamente legal separar as mães de seus filhos. Por certo. E apostavam. sempre preocupados por melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores. E afinal. atividades interditas para com os seres humanos.7 2005 dilhas provocam um imenso padecimento. O naturismo foi uma doutrina amplamente difundida desde o final do século XIX. as mães não costumavam desenvolver afetos fortes com suas crianças. E. salvo que se quebre o laço de continuidade com algum grupo humano específico. transportar estes últimos ao mercado. ao provocar o retrocesso da diversidade genética necessária para sua promoção. fato acontecido sessenta anos atrás na Europa com milhões de homens e mulheres inermes. naqueles tempos os proprietários costumavam fazer com que seus escravos lutassem entre si. enquanto os potentados do extremo oriente continuem adquirindo ilegalmente pó de corno a modo de afrodisíaco. Durante o ciclo da escravatura. transporte ao matadouro e morte prematura. e também matá-los antes de tempo. a criação de gado. Distintas veias confluíam nessa esquecida ecologia social dos pobres: ideais existenciais de “boa vida”. a propaganda da alimentação “protéica-racional” nos bairros ope92 . pois com a idade de seis anos já podiam ser comercializados. A compra e venda de espécies “exóticas” resulta ser o prelúdio de sua extinção. e nos Estados Unidos. em especial. será muito difícil salvar a atual população de rinocerontes negros. Estômago Nada mais errôneo do que entendê-lo como invenção contemporânea.

Entretanto. pois a carne animal foi. o nudismo e o vegetarianismo. o disparate não pára de se expandir: o gado precisa de alimento proveniente de terras de cultivos que poderiam ser usadas para alimentar a espécie humana com proteína vegetal. e as frotas pesqueiras capturam um cinqüenta por cento de pesca imprestável que sucumbe no navio fábrica. um privilégio de ricos. a criação de centros de medicina natural. comunas e restaurantes vegetarianos ou tampouco piquetes contra açougues. entre os anarquistas. Na China e na Índia. Pelo contrário. mas uma aliança entre política e cultura popular. cabe concluir que a indústria da proteína animal colabora com o aumento da fome no mundo. Para suas escolas.verve A mecanização do cadáver — a má sorte dos animais rários. Não faltaram. a promoção da “procriação consciente”. argumentou que ao nos orientar por princípios éticos que promovem a diminuição do sofrimento e 93 . Ao considerar que os vegetais produzem dez vezes mais proteínas do que a carne. de 1975. a vivisseção era alheia. Vegetarianismo e anarquismo não conformaram uma excentricidade ideológica. Os pobres sempre alimentaram-se com vegetais. Só um boicote poderia deter esta trituradora. a difusão da “biofilia”. faz milhares de anos que a comida está confeccionada na base de vegetais. ensinavam a vida da natureza por meio de passeios pela cidade destinados a identificar e escutar os pássaros. e continua sendo. ou também inspecionando os prósperos nichos de insetos sob os azulejos. os indianos reverenciam as vacas mas não deixam de ordenhá-las. Por certo. são destruídos bosques para dar lugar a terras de pastoreio. também chamadas “racionalistas”. Em seu Animal Liberation. O especismo A palavra “especismo” resume a contribuição de Peter Singer para a história das idéias.

e não por isso descuidamos deles. 94 . Justamente. E também. que ausente nos animais uma linguagem auto-reflexiva. o especismo nega os interesses de outras espécies a partir de preconceitos favoráveis à própria. Mas um doente grave ou um bebê tampouco a têm. ou dos que não fossem brancos. Mas tampouco as crianças costumam outorgá-la. na suposição de que os animais tenham interesses. e os animais não a concedem. apenas. que os animais não têm autonomia fora do seu ciclo instintivo. Não há provas científicas para “comprovar” a necessidade de acabar com a destruição dos animais. No passado. não haveria laço possível com o humano. o primeiro deles seria não sofrer. e o fato de que as futuras gerações não existam ainda não é critério para fazer da terra um pântano. de um ideal orientador. E também. Enfim. nem podem concedê-la aqueles que experimentam uma “vida vegetativa”. É uma condição prévia afetiva imprescindível para engolir cadáveres. Mas um macaco demonstra maior inteligência do que um bebê. foram publicados livros “científicos” que “provavam” a inferioridade “natural” dos escravos.7 2005 o aumento do bem-estar. ou das mulheres. Mas a negação a levar em consideração outros padecimentos requer do encobrimento do processo. Trata-se. Mas se diz que os animais não têm inteligência. Mas tampouco os bebês podem se expressar de tal maneira ainda que disponham da faculdade para o fazer no futuro. sem a qual é impossível estabelecer uma simetria de interesses. e em outras épocas os surdos-mudos também careciam de linguagem. não seria aceitável provocar dor a uma espécie em função dos interesses de um grupo definido por seu estatuto superior. e não por isso consideramos este último um inferior. E. que os direitos supõem reciprocidade.

e venceu. O aviso se repetiria duas vezes mais até curvar a Revlon. A dissecção em vivo já não seria obrigatória nesse estado a partir de então. Até então. temerosa do custo a ser pago em publicidade negativa. Tendo sido abaixada sua nota devido à sua negação. conseguiu que milhões de dólares em ações da corporação hegemônica no mercado da cosmética despencassem em menos de vinte e quatro horas. quem não pôde persuadir a mu- 95 . uma adolescente chamada Jennifer Graham negou-se a realizar uma vivisseção em sua aula de biologia. o “animal testing” foi abandonado e o “controle de qualidade” se fez em imitação artificial da carne vivente. nos quais se aplicavam em profusão os produtos na mucosa ocular com a finalidade de pesquisar se o excesso de substância cosmética produzia algum efeito. A conseqüência era a cegueira final do animal. Uma lei caída por causa da palavra não. a jovem iniciou um julgamento ao Estado da Califórnia.verve A mecanização do cadáver — a má sorte dos animais Não Em 1988. O homem branco reclamou ao motorista. roque forçado contemplado pelas leis do Estado de Alabama. O mesmo caminho foi seguido pelo resto da indústria cosmética. Daí em diante. a pasta de blush ou de rímel era testada em coelhos. Um só homem “Quantos coelhos Revlon deixa cegos por causa da beleza?”. prévia ulceração progressiva do olho. Em dezembro de 1955. publicada em primeira página no New York Times do dia15 de abril de 1980. Henry Spira. Esta pergunta. uma mulher chamada Rosa Parks negou-se a ceder seu lugar a um passageiro branco. e na cidade de Montgomery. membro exclusivo de uma organização dedicada à “libertação animal”. havia pagado por esse aviso.

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lher de abandonar sua atitude. Obstinado, o homem levou a juízo a empresa de transportes. A resposta foi o boicote: durante sete meses milhares de pessoas foram e voltaram caminhando até conseguir derrogar a ordenança municipal. Foi o começo do movimento de luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Henry Spira, um jovem trotskista, cobriu o conflito para seu jornal, e da simples observação dos acontecimentos aprendeu algumas coisas. Depois, deixaria o partido e seu ofício de marinheiro mercante e se transformaria em professor de escola. E assim até 1973. Em abril de 1973, a The New York Review of Books publicou um comentário favorável à edição recente de livros que tratavam o tema dos direitos dos animais. O autor da resenha era Peter Singer. Meses depois, Henry Spira lê numa publicação trotskista de escassa tiragem uma crítica à crítica de Singer; basicamente uma denúncia da “bancarrota - intelectual - dos - intelectuais de - esquerda - que - em - lugar - de - defender - os trabalhadores - se - dedicam - a - causas - supérfluas”. Mas Spira, muito treinado na arte de ler entrelinhas, interessou-se, e participou de um curso de “extensão” na Universidade de Nova Iorque no qual Singer expôs avances de seu Animal Liberation. Compareceram vinte pessoas e Henry Spira era uma delas. Nesse âmbito foi fundada a Animal Rights International. Era preciso escolher onde golpear. Em 1975 o Museu Americano de História Natural guardava arquivos e objetos, mas também um laboratório onde se experimentava com felinos, aos que se lhes extirpavam os órgãos sexuais e se lhes induziam lesões cerebrais com a finalidade de investigar sua conduta reprodutiva. Constatação tão cruel como desnecessária para o mundo. O grupo começou com cartazes e distribuição de panfletos na entrada do Museu. Aos poucos, as rádios começaram

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a se ocupar do caso. Num primeiro momento, o Museu ignorou as reclamações, mas logo teve de se defender, pois uma comissão parlamentária decidiu inspecionar o laboratório. Ed Koch, futuro prefeito de Nova Iorque, inquiriu sobre a natureza das experiências e lhe foi mostrado um gato macho com lesões cerebrais induzidas encerrado numa jaula onde também havia uma gata e um coelho fêmea. Koch perguntou pelas seqüelas da experiência: acaso a preferência sexual do felino seria afetada pela lesão? Foi a resposta que o gato ia indistintamente com a coelha ou com a gata. Koch voltou a perguntar: “E o que opina a coelha de tudo isto?”. O clima de opinião daqueles anos não favorecia este tipo de ativismo. Os “líderes de opinião”, políticos e jornalistas não levavam a sério a questão; e o desprezo da comunidade científica em relação aos opositores de experiências com animais era incomensurável. Entretanto, Henry Spira teve sempre cuidado de se confrontar com a ciência em si mesma. Afinal, a pressão da opinião pública conseguiu que o museu fosse obrigado a suspender as experiências e a se desfazer dos pesquisadores. O epitáfio dos mesmos foi cinzelado em outubro de 1976 pela influente revista Science, que deu o golpe de misericórdia. Science abandonou o Museu à sua sorte talvez porque já se tornava evidente que não era possível defender qualquer experiência realizada com animais, e também porque naquele laboratório costumavam dar nomes de famosos cientistas vivos aos felinos lobotomizados ou castrados; entre outros, o do diretor da revista Science. Foi o começo. Seguiria a confrontação com a indústria cosmética. Nos anos noventa Spira lançou uma campanha destinada a humilhar um gigante, Mc Donald’s, pois se as experiências “científicas” realizadas no Museu de História Natural supunham a castração e dano

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de centenas de felinos, e se a experimentação em cosmética dizia respeito à sorte de milhares e milhares de coelhos, a produção de carne de vaca ou de frango para hambúrguer implicava a mecanização da vida e a morte de milhões de animais. A campanha culminou em um julgamento iniciado e ganho pela empresa, ainda que o veredicto se constituiu numa falsa vitória para a Mc Donald’s, que sequer tentou cobrar as centenas de milhares de dólares creditados na conta do defensor dos animais. Henry Spira morreu no ano de 2001. As muitas conquistas que conseguiu para sua causa se desprendiam do potencial político da palavra “libertação”, olho da fechadura dos anos sessenta e setenta, estendida agora ao reino animal.

Hominização O longo processo de hominização culminou num desequilíbrio. Transformado no árbitro de todas as espécies, o homem as submeteu ao seu arbítrio. É um acontecimento que não pode ser revertido, nem redimido, e talvez tampouco possa ser detido. A progressão da história humana, e o nível de suas necessidades, assim o exigem. É uma experiência imensa e cruel desenhada para antedatar a chegada do Apocalipse, começando com o dos animais. Tratar-se-ia de remover a ordem dada a Noé: não a conservação e cuidado da vida, mas seu holocausto.

Tradução do espanhol por Natalia Montebello.

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RESUMO Uma analítica da história desenha territórios de saberes que evidenciam a atualidade de se pensar a espécie como problema político e o corpo como extensão onde a política instaura verdades. Dimensionada assim, a política permite combinar práticas sobre a pena de morte, sobre o homem como espécie diante de outras espécies, sobre saberes evolucionistas e criacionistas, como experimentação histórica sobre o presente. Palavras-chave: evolucionismo, espécies, direitos

ABSTRACT An analysis of History draws territories of knowledge that highlight the importance of thinking the species as a political problem and the body as an extension where politics states truths. Put in that way, politics is able to mix practices over death penalty, the Man as a specie facing other ones, evolutionism and creationism as historical experimentations over the present. Keywords: evolutionism, species, rights

Recebido para publicação em 19 de maio de 2004.

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assim também seu corpo para mim: o que se abre, o que se reflete em sorriso. nenhum crime, nenhum castigo.

Sergio Cohn

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Stirner e Foucault: em direção a uma liberdade pós-kantiana

stirner e foucault: em direção a uma liberdade pós-kantiana
saul newman*

Max Stirner e Michel Foucault são dois pensadores que raramente são analisados juntos. No entanto, já foi sugerido que o tão ignorado Stirner pudesse ser visto como o precursor do pensamento pós-estruturalista contemporâneo.1 De fato, há muitos extraordinários paralelos entre a crítica de Stirner sobre o humanismo iluminista, a racionalidade universal e as identidades essenciais, e as críticas similares realizadas por pensadores como Foucault, Jacques Derrida, Gilles Deleuze, e outros. Contudo, o propósito deste artigo não é meramente situar Stirner na tradição “pós-estruturalista”, mas analisar seu pensamento a respeito da liberdade, e pesquisar as conexões com o próprio desenvolvimento do conceito de Foucault no contexto das relações de poder e subjetividade. Em linhas gerais, os dois pensadores enxergam a clássica idéia kanti-

* Professor no Departamento de Ciência Política da University of Western Australia.
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ana de liberdade como extremamente problemática, por envolver pressupostos essencialistas e universais que são freqüentemente opressivos. O conceito de liberdade deve ser repensado. Este não pode ser visto exclusivamente em termos negativos, como a liberdade de coação, mas deve envolver mais noções positivas de autonomia individual, particularmente a liberdade do indivíduo para construir novas formas de subjetividade. Stirner, como veremos, dispensa a noção clássica de liberdade como uma totalidade e desenvolve a teoria da (Eigenheit)2 para descrever esta autonomia radical do indivíduo. Eu proponho, neste artigo, que tal teoria da propriedade de si como uma forma não essencialista de liberdade tem muitas similaridades com o próprio projeto de liberdade de Foucault, que envolve um ethos crítico e uma esteticização de si. De fato, Foucault questiona os fundamentos racionais universais e antropológicos do discurso de liberdade, redefinindo-os em termos de práticas éticas.3 Tanto Stirner quanto Foucault são, portanto, cruciais para o entendimento da liberdade na contemporaneidade — eles mostram que a liberdade não pode mais ser limitada por absolutos racionais e categorias morais universais. Eles tomam o entendimento de liberdade para além dos limites do projeto kantiano — apoiando-se em estratégias concretas e contingentes de si.

Kant e a liberdade universal Para compreender como esta reformulação radical da liberdade pode acontecer, devemos ver como o conceito de liberdade está situado no pensamento iluminista. Neste paradigma, o exercício da liberdade é visto como a herança de uma propriedade racional. Segundo Immanuel Kant, por exemplo, a liberdade humana pressupõe uma lei moral que é racionalmente entendida. Na Crítica da razão
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prática, Kant busca estabelecer um fundamento racional absoluto para o pensamento moral além dos princípios empíricos. Argumenta que os princípios empíricos não são uma base apropriada para as leis morais, por não permitirem que sua verdadeira universalidade seja estabelecida. A moralidade deveria, ao contrário, ser baseada em uma lei universal — um imperativo categórico — que pode ser racionalmente compreendido. Para Kant existe, então, apenas um imperativo categórico, o qual sustenta o fundamento para todas as ações racionais do homem: “Age somente pela máxima segundo a qual tua ação e vontade tornam-se uma lei universal”.4 Noutras palavras, a moralidade de uma ação está determinada pela lei universal quando aplicável a todas as situações. Kant traça três características de todas as máximas morais. Em primeiro lugar, elas devem ter um formato universal. Em segundo lugar, devem ter um fim racional. E, em terceiro, as máximas que provém de legislações autônomas do indivíduo, devem estar de acordo com uma certa teologia de fins. Este último ponto trás conseqüências importantes para a questão da liberdade humana. Para Kant, a lei moral é baseada na liberdade — o indivíduo racional escolhe livremente pelo senso de dever aderir às máximas morais universais. Dessa maneira, para que as leis morais sejam racionalmente fundamentadas, elas não podem estar baseadas em qualquer forma de coerção ou constrangimento. Elas têm que estar livremente incorporadas como um ato racional do indivíduo. A liberdade é vista por Kant como uma autonomia da vontade — a liberdade do indivíduo racional para seguir os preceitos de sua própria razão pela adesão a estas leis morais universais. Esta autonomia da vontade, então, é para Kant o princípio supremo da moralidade. Ele a define como “aquela propriedade pela qual ela é uma lei para si mesma (independentemente de qualquer pro103

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priedade dos objetos da vontade)”.5 A liberdade é, portanto, a habilidade do indivíduo em legislar para si, livre de forças externas. No entanto, esta liberdade da auto-legislação deve estar de acordo com as categorias morais universais. Por conseguinte, segundo Kant, o princípio da autonomia é: “nunca escolher, exceto quando estiver numa condição em que as máximas da escolha estejam compreendidas na mesma vontade como uma lei universal”.6 Pode parecer que há um paradoxo central nesta idéia de liberdade — você é livre para escolher desde que faça a escolha certa, desde que escolha as máximas da moral universal. Porém, para Kant, aqui não há contradição, pois apesar da adesão às leis morais ser um dever e um imperativo absoluto, ela continua sendo um dever livremente escolhido pelo indivíduo. Leis morais são racionalmente estabelecidas, e pelo fato da liberdade apenas poder ser exercida por indivíduos racionais, eles irão necessariamente, ainda que livremente, escolher obedecer estas leis morais. Noutras palavras, uma ação é livre somente na medida em que está de acordo com a moral e os imperativos racionais — caso contrário ela é patológica e, portanto, “não-livre”. Neste sentido, a liberdade e o imperativo categórico não são antagônicos, mas antes, conceitos mutuamente dependentes. A autonomia individual é para Kant a principal base das leis morais. “Mas este princípio da autonomia (...) é o único princípio das morais que pode ser mostrado prontamente por uma mera análise dos conceitos da moralidade; por esta análise nós descobrimos que este princípio tem que ser um imperativo categórico, e este (o imperativo) comanda, nem mais nem menos, que sua própria autonomia”.7

O reverso autoritário Todavia, pode parecer haver um autoritarismo escondido na formulação da liberdade de Kant. Enquanto o
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indivíduo é livre para agir de acordo com os preceitos de sua própria razão, ele deve, contudo, obedecer às máximas da moral universal. A filosofia da moral de Kant é uma filosofia da lei. Este é o porquê Jacques Lacan foi capaz de diagnosticar um jouissance escondido — ou a apreciação em excesso da lei — que anexou ao imperativo categórico de Kant. Segundo Lacan, Sade é o complemento necessário a Kant — o prazer perverso incorporado às leis se torna, no universo sadiano, a lei do prazer.8 O que une a liberdade kantiana à lei são suas vinculações a uma racionalidade absoluta. É porque a liberdade deve ser exercida racionalmente que o indivíduo se encontra obedecendo, obrigatoriamente, as leis morais universais, racionalmente fundamentadas. Contudo, tanto Foucault quanto Stirner colocaram em questão tais categorias universais, racionais e morais, centrais para o pensamento iluminista. Eles insistem que categorias absolutas da moralidade e racionalidade sancionam diversas formas de dominação e exclusão, e negam a diferença no indivíduo. Para Foucault, por exemplo, a centralidade da razão em nossa sociedade está baseada na exclusão violenta e radical da loucura. As pessoas permanecem excluídas, encarceradas e oprimidas devido a esta arbitrária divisão entre a razão e a não-razão, racionalidade e irracionalidade. Do mesmo modo, o sistema penitenciário está baseado na divisão entre bem e mal, inocência e culpa. O encarceramento do prisioneiro é possível somente pela universalização de códigos morais. O que deve ser contestado, segundo Foucault, não são apenas as práticas de dominação que se encontram nas prisões, mas também a moralidade que justifica e racionaliza tais práticas. O foco principal da crítica de Foucault sobre as prisões não é necessariamente relativa à dominação interna, mas no fato de que esta dominação está justificada em bases morais absolutas — a base moral que Kant busca para cons105

e qualquer coisa que pretenda se aplicar a ele ou falar por qualquer um.7 2005 truir o universal. Noutras palavras. universalmente. 106 . além disso. confrontando-o com padrões racionais e morais impossíveis.9 Este é o absolutismo moral ao qual Stirner também se opõe. o indivíduo para Stirner não é uma identidade ou essência fixa e estável — isto seria uma abstração idealista assim como os espectros que o oprimem. seria vista por Stirner como a pior negação possível da individualidade. isto poderia ser visto por Stirner como um projeto de alienação e dominação. Moralidade e racionalidade se tornam “idéias fixas” — idéias tidas como sagradas e absolutas. A invocação da obediência absoluta às máximas morais universais de Kant. é um conceito abstrato que governa o pensamento — uma ficção discursivamente fechada que nega a diferença e a pluralidade. é uma anulação da diferença da unicidade do indivíduo. neste caso. O indivíduo está infestado por estes ideais abstratos. de acordo com Stirner. estas aparições que não são criações suas e a ele impostas. o indivíduo é supremo. o projeto de Kant de retirar as máximas morais do mundo empírico para o interior de um reino transcendental. Estas são idéias abstraídas do mundo e que continuam a dominar o individuo pela comparação de cada um a uma norma ideal impossível de ser atingida. Uma idéia fixa. uma estratégia aberta que se empenha em questionar e contestar os limites do essencialismo. Foucault quer romper com a “serena dominação do Bem sobre o Mal”. em termos similares aos de Foucault — como uma forma radicalmente contingente de subjetividade. Ele vê a moralidade como um “fantasma” — um ideal abstrato colocado além do indivíduo e que age sobre ele de forma opressiva e alienante. em que poderiam ser aplicadas universalmente. Como veremos. A individualidade deve ser vista. Para Stirner. central nos discursos morais e práticas de poder.

até agora. e atribuindo-lhe. substituindo o conceito abstrato de homem na categoria do Divino. além da compreensão da humanidade. Em A essência do cristianismo. o homem. Feuerbach procurou superar a alienação religiosa restabelecendo as capacidades morais e racionais universais do homem como base essencial para a experiência humana. Deus era uma reificação da essência humana.verve Stirner e Foucault: em direção a uma liberdade pós-kantiana A crítica ao essencialismo O exorcismo que Stirner executa neste “espírito do reino” de absolutos morais e racionais é parte de uma crítica radical do humanismo iluminista e do idealismo. o homem é tão opressivo. Feuerbach corporifica o projeto humanista do Iluminismo de restaurar ao homem seu justo lugar no centro do universo. Como Kant. de acordo com Feuerbach. eram somente os predicados do homem como espécie. Para Stirner. se 107 . que por meio da busca do sagrado na “essência humana”. fazendo do humano o divino. contudo. Para Feuerbach. Feuerbach somente re-introduziu a alienação religiosa. certas qualidades que foram. Deus era uma ilusão. os predicados de Deus. o finito. Seu “rompimento epistemológico” com o humanismo pode ser visto mais claramente em seu repúdio a Ludwig Feuerbach. que tentou transcender o dogmatismo da metafísica reconstruindo sobre bases racionais e científicas. de Deus. Stirner argumenta. uma projeção fictícia das qualidades essenciais do homem. Noutras palavras. o infinito. Feuerbach aplicou a noção de alienação para a religião. Por meio da inversão feuerbachiana o homem se torna Deus. e apenas como homem foi rebaixado sob Deus. posicionando um sujeito essencial e universal. então o indivíduo é posto abaixo deste ser perfeito. A religião é alienante. pois ela exige que o homem abdique de suas qualidades e poderes essenciais para projetá-los em um Deus abstrato.

mas diante de si mesmo. por meio do espectro da “essência” dentro dele: “A partir de agora. fundamentando-a na razão. podemos sugerir que a “insurreição” metafísica de Kant não destruiu as estruturas dogmáticas da crença. ele está aterrorizado por si mesmo”. Enquanto Kant procurava retirar a moralidade do domínio da religião. que a alienação neste exemplo pode ser vista muito além da noção foucaultiana de dominação — como um discurso que amarra o indivíduo a certa subjetividade por meio da convicção de que dentro de qualquer um existe uma essência para ser revelada.7 2005 não mais. Stirner 108 . revertendo a ordem do sujeito e do predicado.10 É importante notar que o conceito de alienação de Stirner é essencialmente diferente da compreensão humanista feuerbachiana da alienação da essência do indivíduo. Estas máximas tornaramse sagradas e imutáveis porque estão agora fundadas na noção de humanidade. em casos típicos. a “insurreição” de Feuerbach não destruiu a categoria da autoridade religiosa — apenas instalou o homem dentro dela. perseguido e alienado por ele mesmo. na essência humana. Saliento. o homem não mais estremecerá diante de fantasmas externos. O homem é. Feuerbach argumenta Stirner. Stirner radicaliza a teoria de alienação para ver a essência por si só alienante. Da mesma forma. O homem se torna o substituto da ilusão cristã. de certa forma.11 Para Stirner. mas apenas instalou a moralidade e a racionalidade dentro delas. Para Stirner é esta noção de uma essência humana universal que estipula as bases para a absolutização da moral e das idéias racionais. e transgredi-las seria uma transgressão na essência. que Deus. é o sacerdote de uma nova religião universal — o humanismo: “A religião humana é somente a última metamorfose da religião cristã”. Neste sentido o tema é levado a um conflito consigo mesmo.

não possui nenhum real significado para além das perspectivas individuais — é algo que pode ser usado pelo indivíduo. transcendental e deslocada da compreensão individual. senão. A moralidade está baseada na profanação. é o poder.12 Stirner não se opõe à moralidade em si. Sua verdadeira base. De maneira similar ao que afirmou sobre a moralidade. anulando o poder do indivíduo. Verdades racionais são sempre colocadas acima das perspectivas individuais.14 A verdade racional. a crueldade e a dominação por trás das idéias morais. mas o fato que esta se tornou uma lei sagrada e indestrutível. que a alma se torna a prisão para o corpo. O indivíduo deve se conformar aos códigos morais. Para Stirner. e você é um servo. revertendo o paradigma clássico. Esta moral internalizada da vigilância também se encontra em Foucault na discussão sobre o panoptismo — na qual ele argumenta. pois não exige o uso da força física. Stirner não é necessariamente contra a verdade racional em si. você não acredita em si mesmo. Stirner diz: “enquanto você acreditar na verdade. e expõe o desejo pelo poder. para Stirner. só é mais insidiosa e perspicaz. na destruição da vontade do indivíduo. e Stirner sustenta que isto é apenas uma outra forma de dominar o indivíduo. para Stirner elas são pa- 109 .verve Stirner e Foucault: em direção a uma liberdade pós-kantiana sustenta que a moralidade é apenas o velho dogmatismo religioso em um novo e racional aspecto: “A fé moral é tão fanática quanto a fé religiosa!”. ele se torna alienado de sua essência.13 Uma crítica similar deve estar relacionada à racionalidade. O guardião desta moralidade está instalado na consciência do indivíduo. a coerção moral é tão viciosa quanto a coerção realizada pelo Estado. assim como para a moralidade. mas contra o modo como ela se torna sagrada. Enquanto para Kant as máximas morais são racionais e livremente obedecidas. um homem religioso”.

15 Para Kant. como já vimos. elas continuam ocultando uma coerção e um autoritarismo. a teoria da cura segue paralela à teoria da pu110 . elas foram universalizadas como normas absolutas que reservam um pequeno espaço para a autonomia do indivíduo. a crítica de Stirner sobre a moralidade e a racionalidade pode ser aplicada ao imperativo categórico de Kant. na formulação kantiana. o imperativo categórico kantiano não seria também um “chamado humano”? Noutras palavras. embora as máximas morais possam ser livremente seguidas. elas se tornam a base para práticas de punição e dominação. Para Stirner. e que não podem ser transgredidas. pois isto significaria ir contra o próprio “chamado humano” racional e universal. Por exemplo. Stirner afirma que estratégias de cura e punição são dois lados do mesmo velho preconceito moral. A crítica de Stirner à moralidade e à sua relação com a punição possui similaridades impressionantes com os escritos do próprio Foucault sobre a punição. em resposta à idéia iluminista que o crime era antes uma doença a ser curada do que uma moral enfraquecida a ser punida. baseadas em uma noção alienante de “essência” humana compelida sobre o indivíduo. Isto porque.7 2005 drões coercitivos. Ambas estratégias contam com a adesão a uma norma universal: “meios de cura’ sempre anunciam inicialmente que indivíduos serão supervisionados ao serem ‘chamados’ para uma ‘salvação’ específica e tratados de acordo com as exigências deste ‘chamado humano’”. “chamado” para uma “salvação” específica quando solicitado a cumprir uma de suas obrigações ou a obedecer aos códigos morais? Neste sentido. não há diferença entre cura e punição — a prática da cura é a re-aplicação dos velhos preconceitos morais sob uma nova máscara iluminada: “os meios de cura ou tratamento são o reverso da punição. Para Stirner. Além disso. o indivíduo não é também.

moral restritiva e normas racionais. mas também.verve Stirner e Foucault: em direção a uma liberdade pós-kantiana nição. Segundo.16 Isto é muito próximo ao argumento de Foucault sobre o preceito moderno da punição — em que as normas médicas e psiquiátricas são apenas a velha moralidade em uma nova roupagem. se esta última enxerga em uma ação um pecado contra o direito. o foco de Foucault está mais na materialidade do corpo e a fórmula de cura e punição são as mesmas: é a noção do que é propriamente “humano”. ambos os pensadores vêem na moralidade uma relação ambígua com a liberdade. os dois pensadores vêem a racionalidade e a moralidade implicadas nas relações de poder. deixando de lado a sua saúde”. contudo. como para Stirner. e oprimem aqueles que não vivem sob as normas implícitas destes discursos. Primeiro. o primeiro entende isso como um pecado do homem contra si mesmo. mais do que constituindo um ponto crítico epistemológico fora do poder. Tanto para Foucault. uma opressão sobre nós mesmos — uma autodominação — que é muito mais incidiosa e efetiva que a coerção explícita. justificam e perpetuam práticas de poder como as encontradas em prisões e asilos. Enquanto Stirner discute que superficialmente as normas morais e racionais são livremente admitidas. por meio da exclusão e dominação do outro. em conformidade com a prevalência universal da moral e 111 . Terceiro. marginalizam. a punição é possível por meio do sagrado ou do absoluto — no sentido que Kant faz da moralidade uma lei universal. Não somente estas normas se tornam possíveis por práticas de poder. práticas disciplinares. que autoriza uma série de exclusões. Enquanto Stirner considera os efeitos de tais formas da higiene moral na consciência do indivíduo. Há inúmeros pontos a serem sublinhados. Noutras palavras. elas impõem. Stirner e Foucault vêem os discursos racionais e morais como problemáticos — eles geralmente excluem.

enquanto a moralidade não nega ou constrange a liberdade de forma evidente — no caso de Kant as máximas morais estão baseadas na liberdade de escolha do indivíduo — esta liberdade está. ao mesmo tempo. A clássica idéia iluminista da liberdade. Noutras palavras. permite apenas uma pseudo-soberania. mas sujeita às necessidades da verdade). não obstante. mas aceitando as demandas de um mundo externo e ‘alinhado com o destino’)”. o discurso de liberdade está baseado em uma forma específica de subjetividade — o homem autônomo e racional do iluminismo e do liberalismo.17 Noutras palavras. argumenta Foucault. exige uma intensificação da opressão sobre o indivíduo e a negação do poder de resistir a esta sujeição. Foucault. o humanismo iluminista clama pela liberdade individual sobre qualquer forma de opressão institucional enquanto. o indivíduo (um controle nominal de direitos pessoais sujeitos às leis da natureza e da sociedade). Esta subordinação no coração da liberdade pode ser vista no imperativo categórico kantiano: mesmo baseada em uma liberdade de consciência. esta liberdade está ainda assim sujeita a categorias morais e racionais absolutas. desmascara esta dominação oculta da moral e da norma racional que é encontrada atrás do calmo semblante da liberdade humana. restrita a um modo mais sutil por necessitar se conformar a absolutos morais e racionais. esta forma de liberdade só se faz possível por meio da dominação e exclusão de outros modos de subjetividade que não se encaixam neste modelo racional. o indivíduo abdica de seu próprio poder e se deixa dominar. Como mostram Foucault e Stirner. Enfim. a liberdade básica (a soberania interna. A liberdade clássica permite somente uma certa forma de subjetividade. Isto clama pela posse da soberania “conscientemente (soberania no contexto do julgamento. ao intensificar a dominação sobre o indivíduo subordinado a estes critérios morais e racionais. 112 .7 2005 da norma racional. também.

Entretanto. a liberdade implica sempre em relações de poder — relações de poder tão criativas quanto restritivas. a liberdade é uma ausência de coerção. Enquanto para Kant as máximas morais e as normas racionais existem em uma relação complementar à liberdade. e ainda. Ignorar isso. da liberdade kantiana. e o divide em seres racionais e irracionais. a idéia clássica de liberdade em Kant é profundamente problemática. para Stirner e Foucault a relação é muito mais paradoxal e conflituosa. A moral transcendental e as normas racionais não negam a liberdade em si — no paradigma kantiano elas pressupõem a liberdade. eles interrogam os limites do projeto iluminista de liberdade. Para Kant. implica outras formas de dominação muito mais sutis. como já vimos. e neste sentido sua subjetividade é construída como um lugar para sua própria opressão. perpetuar a ilusão confortante de que a liberdade assegura uma liberação universal do poder.verve Stirner e Foucault: em direção a uma liberdade pós-kantiana Para Foucault e Stirner. ou a “outra face”. de modo a expandi-lo — para inventar novas formas de liberdade e autonomia que vão 113 . decifram o autoritário lado obscuro. que Foucault e Stirner. A forma de liberdade trazida por meio destas categorias absolutas. O indivíduo se adapta livremente a estas normas racionais. significa atirar-se diretamente nas mãos da dominação. para Stirner e Foucault. morais e imorais. A tirania silenciosa da norma auto-imposta se torna o principal modo de sujeição. de maneiras diferentes. Ao contrário. então. Ela constrói o indivíduo como “livre” e “racional” enquanto o assujeita a normas morais e racionais absolutas. Pode-se argumentar. A liberdade foucaultiana: o cuidado de si Stirner e Foucault não rejeitam a idéia de liberdade. Esta dominação é possível precisamente porque a relação da liberdade com o poder é mascarada.

Segundo Foucault. e somente na medida que estes são livres”. o poder pode ser entendido como uma série de “ações sobre a ação dos outros”. o vínculo entre liberdade e categorias essencialistas e coordenadas morais e racionais pré-ordenadas. a liberdade para Foucault existe em situações mútuas e recíprocas de poder. “o poder é exercido somente sobre sujeitos livres. Entretanto. numa certa escolha de possibilidades. A resistência é algo que excede o poder e é ao mesmo tempo algo integrado à sua dinâmica. a ilusão do estado de liberdade para além do mundo do poder deve ser dissipada. o conceito de liberdade é muito importante para Foucault — ele não prescinde do conceito. Para Foucault. Mais do que uma liberdade pressuposta por uma máxima moral absoluta. Melhor que a noção abstrata de liberdade kantiana como uma escolha racional além de constrangimentos e limitações.18 Diferentemente do esquema clássico no qual a liberdade e o poder são diagramaticalmente opostos. mas antes o situa no domínio das relações de poder que necessariamente o fazem indeterminado. devem ser pelo menos questionadas. contradiscursos. ele procura levar a questão da liberdade por um caminho diferente — por meio de estratégicas éticas concretas e práticas de si. Além disso. como veremos. Porém. Foucault está tão engajado quanto Kant na problemática da liberdade. nas quais múltiplos discursos. ela é na realidade pressuposta pelo poder. o pensamento foucaultiano sustenta a 114 . O poder se baseia numa certa liberdade de ação. Como mostra Olívia Custer. estratégias e tecnologias confrontam-se umas com as outras — relações específicas de poder sempre provocam relações de resistências específicas e localizadas. Neste sentido. que esta pode ser arrebatada do mundo metafísico e trazida para o nível do indivíduo.7 2005 além das restrições do imperativo categórico. É somente repensando a liberdade neste sentido.

Se a liber115 . por exemplo. para Kant. De fato. para Foucault. Foucault percebe a liberdade implicada nas relações de poder.verve Stirner e Foucault: em direção a uma liberdade pós-kantiana total dependência de um ao outro.19 A noção de liberdade em Foucault é uma quebra radical com a noção de Kant. não é uma relação de poder. assim como poder e liberdade não existem um sem o outro. Como diz Foucault: “O homem descrito para nós e que somos convidados a libertar. pois para ele liberdade é muito mais que somente ausência ou negação do constrangimento. Foucault e Stirner rejeitam esta idéia da essência de si — isto é meramente uma ilusão criada pelo poder. Liberdade não é um conceito metafísico e transcendental. Enquanto. a liberdade é abstraída dos constrangimentos e limitações do poder. não pode haver poder: a escravidão. Ele rejeita o modelo “repressivo” de liberdade que pressupõe a essência de si — uma natureza humana universal — que é restrita e precisa ser liberada.20 Enquanto ele não reduz os atos de liberação política — por exemplo. é a principal base destes limites e constrangimentos. Onde não há liberdade. já é em si o efeito de um assujeitamento muito mais profundo que ele próprio”. quando um povo tenta se libertar das regras coloniais — isto não pode operar como a base de um modo contínuo de liberdade. Supor que a liberdade pode ser estabelecida eternamente na base deste ato de libertação inicial significa apenas um convite para novas formas de dominação. não existe possibilidade de um mundo sem relações de poder. onde o campo de ação é absolutamente restrito e determinado. de acordo com Foucault. Ela pertence inteira a este mundo e existe em uma relação complicada e emaranhada com o poder. A liberação de uma subjetividade essencial é a base das noções clássicas de liberdade para o iluminismo e continua sendo central para o nosso imaginário político.

de acordo com Foucault.21 Antes da liberdade ser uma libertação da essência do homem de coações externas. Isso envolve a reinvenção de si: “esta modernidade não ‘liberta o homem em seu próprio ser’. ético. que desafia e questiona continuamente as relações de poder. ela deve ser tida como uma prática — um modo de ação e uma estratégia em curso. o contingente.7 2005 dade deve ser um aspecto permanente de qualquer sociedade política. do seu comportamento. a natureza fugaz da modernidade deve ser confrontada com uma certa “atitude” em relação ao presente que é concomitante ao novo modo de relação que se tem consigo. então. É neste sentido que a liberdade pode ser vista como positiva. Pelo fato do poder operar por meio do processo de assujeitamento — amarrando o indivíduo a uma identidade essencial — a reconstituição radical de si é um ato de resistência necessário. uma obra de arte”. no entanto. Mais importante. Para Baudelaire. obriga-o a encarar a tarefa de produzir a si próprio”. Esta nova forma de liberdade define. de sua própria existência. “que faz do seu corpo. é uma atitude “heróica” baudeleriana em relação ao presente.22 É esta prática de auto-esteticização que nos permite. ela é uma prática ativa e deliberada da invenção de si. refletir criticamente sobre os limites de nosso tempo. uma nova forma de política mais relevante aos regimes contemporâneos de poder: “o problema político. segundo Foucault. Esta prática de liberdade é também uma prática criativa — um processo contínuo de auto-formação do sujeito. mas obras dentro dos limites e coerções no presente. é também uma obra conduzida sobre os nossos limites e nossas próprias identidades. dos seus sentimentos e paixões. social e filosófico de nossos dias não é libertar o indivíduo do 116 . Um dos aspectos que caracteriza a modernidade. Não se procura um lugar metafísico além de todos os limites. Esta prática de liberdade pode ser encontrada no exemplo do dandy ou do flanêur.

no antigo pensamento grego e romano que “o bom governante é precisamente aquele que exerce seu poder corretamente. sugere Foucault. Ser escravo de seus próprios desejos era tão ruim quanto ser escravo do desejo de outros. entre os gregos e romanos da antiguidade.. entretanto. Esta sensibilidade com o cuidado de si e a prática ética da liberdade pode ser encontrada. Para praticar a liberdade eticamente. sobre os próprios desejos. para Kant. re-introduziu o imperativo categórico nesta cuidadosa regulação do comportamento e do desejo? Não há dúvidas sobre o rigor desta forma de ética.25 Isso não parece re-invocar o imperativo categórico onde. exercendo ao mesmo tempo o poder sobre si mesmo”.. Na realidade. e o exercício do poder era algo que tinha que ser regulado.24 Esta prática ética da liberdade associada ao cuidado para si começa. é preciso obter o poder sobre si mesmo. a soar de certo modo como o pensamento kantiano. e limitado. como diz Foucault. senão para a pratica da liberdade? [. em sua tentativa para escapar do absolutismo da moralidade e racionalidade. a libertação de si é uma prática ética distinta. para ser sinceramente livre. Ela envolve a noção de “cuidado de si”.verve Stirner e Foucault: em direção a uma liberdade pós-kantiana Estado e suas instituições. mas de nos libertar do Estado e do tipo de individualização ligada a ele”. Em O uso dos prazeres e O cui117 . monitorado. pela qual o desejo e o comportamento são regulados por si próprios de modo que a liberdade possa ser praticada eticamente.23 Para Foucault. ou seja. Foucault mostra. além disso. a moralidade pressupõe e é fundada na liberdade? Será que Foucault. “para que a ética. Para eles a liberdade do indivíduo era um problema ético. Esta regulação de práticas e desejos requer um comportamento ético que cada um constrói para si.] A liberdade é a condição ontológica da ética”. O desejo pelo poder sobre os outros era também uma ameaça à própria liberdade.

permanecer livre de qualquer escravidão interna das paixões. Noutras palavras. Isso. e não como algo definido a priori por leis universais e transcendentais. manter seus sentidos num estado de tranqüilidade. A prática de liberdade em Foucault é. Supõe uma coerência de modos e comportamentos que têm como objeto a consideração e a problematização de si. afirma Foucault. Foucault descreve as prescrições gregas e romanas sobre tudo. De um lado há a moralidade que faz com que os códigos sejam cumpridos. central para a ética do cuidado. não é algo imposto externamente por uma perspectiva universal fora do indivíduo. Para Foucault.26 A noção de Foucault de liberdade como uma prática ética é radicalmente diferente da idéia de Kant de liberdade como base da lei moral universal. Entretanto. existe a moralidade na qual “a ênfase é colocada na relação consigo que permite não se deixar levar pelos apetites e pelos prazeres. e atingir a um modo de ser que pode ser definido pelo pleno gozo de si ou pela supremacia de si sobre si mesmo”. são coisas que cada um aplica a si mesmo. submetendo-o à uma autoridade universal. De um outro lado. a liber118 . Leis morais não se aplicam aqui — não há nenhuma autoridade transcendental ou imperativos universais que sancionem estas práticas éticas e penalize infrações. manter uma superioridade sobre eles. eu sugeriria que há uma diferença importante entre a ética do cuidado e as máximas morais universais insistidas por Kant. Segundo Foucault. da dieta ao exercício do sexo. a moralidade é definida pelo tipo de assujeitamento que ela acarreta. é a moralidade do imperativo categórico de Kant. permite que o sujeito seja visto como um projeto aberto a ser constituído por meio de práticas éticas do indivíduo. por meio de interdições. uma ética mais do que uma moralidade.7 2005 dado de si. portanto. que pode ser discutido. e que exige uma forma de subjetividade que se refere à conduta do indivíduo sob estas leis. A regulação do comportamento e a problematização da liberdade.

permitindo ao indivíduo fazer uso destes limites na invenção de si mesmo. Esta forma de liberdade opera dentro dos limites do poder. Para Kant. aqui. portanto. Foucault considera a insistência de Kant em um uso livre e público da razão autônoma como uma evasão. existe o aspecto da liberdade claramente ético — é a prática do cuidado de si que tem como intuito o aumento do poder de si sobre seus desejos. a liberdade e a autonomia da pessoa são expandidas. por sua vez. colocando em cheque. com o objetivo de intensificar a liberdade e a autonomia pessoal. Há. uma saída do 119 . a liberdade é concebida como uma prática de si contingente e em curso que não está determinada por uma moral fixa e por leis racionais. existe a prática de liberdade que permite à pessoa libertar-se. com o intuito de expandir o poder que se exerce sobre si mesmo. o poder de um sobre os outros. Primeiro. Exige a transgressão destes limites por meio de uma transgressão e re-invenção de si. ser enfatizados. liberdade e autonomia estão circunscritas principalmente pela máxima moralidade possível. não dos limites externos que reprimem a sua essência.verve Stirner e Foucault: em direção a uma liberdade pós-kantiana dade é ética porque implica um projeto em aberto conduzido sobre a pessoa. Desta forma. mas dos limites impostos pela própria essência. Para Foucault. a liberdade é a base de uma moralidade metafísica que deve ser obedecida universalmente. A prática do cuidado de si permite ao indivíduo navegar um percurso ético de ação por dentro das relações de poder. enquanto para Kant. a ética intensifica a liberdade e a autonomia. desta forma. Portanto. dois aspectos relacionados com o conceito de liberdade de Foucault que devem. Segundo. e limitar e regular o poder em exercício sobre os outros. Os dois iluminismos Em seu último ensaio “O que são as Luzes?”.

Segundo Foucault. e do destino. é inscrito em uma moralidade e racionalidade universais. O problema de Kant é que ele abre caminho para uma autonomia individual e reflexão crítica nos limites do sujeito. Foucault acredita que esta razão autônoma é útil por permitir um ethos crítico sobre a modernidade. no coração do iluminismo. como Kant pode ser lido de uma forma heterogênea. como sujeitos. Foucault mostra. que lidamos com isso. mas recusa a “chantagem” do iluminismo — a insistência com que este ethos crítico. esta ambigüidade está refletida no próprio pensamento de Kant sobre o iluminismo. a refletir criticamente sobre como somos constituídos como sujeitos. e o iluminismo do questionamento contínuo e da incerteza.27 Foucault sugere que adotemos esta estratégia crítica para refletir sobre os limites do discurso do iluminismo em si e de suas in- 120 . Para Foucault a herança do iluminismo é extremamente ambígua. para Foucault há dois iluminismos — o iluminismo da certeza racional. Segundo Colin Gordon. identidade absoluta. enfocando o aspecto mais oscilante de seu pensamento — em que somos encorajados a interrogar os limites da modernidade. caracterizada por uma “audácia de saber” e um uso público livre e autônomo da razão. Esta condição crítica é concomitante com uma “vontade de revolução” — com a tentativa de entender a revolução (no caso de Kant a Revolução Francesa) como um evento que permite interrogar as condições da modernidade — “uma ontologia do presente” — e a forma. Como mostra Foucault. Kant vê o iluminismo (Aufklärung) como uma condição crítica. apenas para reinscrevê-lo no espaço fechado por uma noção transcendental de racionalidade e moralidade que requer obediência absoluta.7 2005 homem do estado de imaturidade e subordinação. Talvez exista um momento kantiano em Foucault (ou deveríamos dizer um momento foucaultiano em Kant?).

] para o trabalho indefinido da liberdade”.. A postura crítica relativa ao presente e a prática do “cuidado de si” com a qual está ligada. neste sentido. além da compreensão de leis universais. ele impõe ‘ser um homem’ como um dever”... Como já vimos. Ele adota um caminho “genealógico”. Stirner afirma: “o Estado denuncia sua inimizade a mim. Stirner mostra que a noção de essência humana é uma ficção opressiva derivada de um idealismo cristão invertido. Deveremos. que tiraniza o indivíduo e está ligada a várias formas de dominação política. que se reflete na teoria da propriedade de si de Stirner. de a tirar do domínio de promessas e sonhos vazios. abrindo caminho. próximo ao de Foucault. A idéia de transgredir e reinventar-se — libertando-se de identidades fixas e essenciais — é também o tema central do pensamento de Stirner. como afirma Foucault que “não procura tornar possível uma metafísica que finalmente se tornou uma ciência. esta governa o assujeitamento do indivíduo. definindo-o de acordo com uma identidade essencial. exigindo que eu seja um homem. deste modo.. Stirner descreve um processo de assujeitamento que é muito similar ao de Foucault: mais do que o poder operar com uma repressão depressiva.28 A teoria da propriedade de si de Stirner É o desejo de dar um novo ímpeto à liberdade. esboça uma estratégia genealógica da liberdade — uma estratégia. para a autonomia individual dentro de seus edifícios. usar as capacidades críticas do iluminismo contra ele mesmo. procura dar novo ímpeto [.verve Stirner e Foucault: em direção a uma liberdade pós-kantiana terdições morais e racionais universais. trazendo o foco da liberdade de si e situando a liberdade no interior das relações de poder.29 A essência humana impõe uma série de morais fixas e 121 .

da essência — da identidade essencial que lhe é imposta. por suas conseqüências inevitáveis. Mas como deve ser esta transgressão? Como Foucault. portanto. o indivíduo deve se livrar — destas idéias opressivas e obrigações livrando-se. Para Stirner. uma transformação das circunstâncias. a transgressão da essência. mas um levante dos indivíduos.7 2005 idéias racionais no indivíduo. A revolução pretendia novas disposições. a outra tem de fato. Stirner convida a uma insurreição: “Revolução e insurreição não devem ser vistas como sinônimos. Stirner desconfia da linguagem de libertação e da revolução — baseadas na noção de um ser essencial que supostamente joga fora as correntes da repressão externa. que não são parte de sua criação e que reduz a sua autonomia. um ato político ou social. é precisamente esta noção de essência humana que é opressiva. começa pelo descontentamento dos homens consigo mesmos. do estado ou da sociedade. não é um levante armado. em primeiro lugar. um levante sem se incomodar com as implicações daí decorrentes. E é precisamente esta noção de dever. Para este fim. Não é uma luta contra o estabelecido.30 122 . é apenas um trabalho além de mim e do estabelecido”. de obrigação moral — o mesmo sentido de dever que está na base dos imperativos categóricos — que Stirner considera opressiva. pois se este prospera ele se arruína a si mesmo. das condições estabelecidas ou posições. A liberdade envolve. a insurreição nos leva a não mais deixarmo-nos ser arranjados. Para Stirner. a transgressão de si. Além disso. busca diferentes estratégias de liberdade — que abandonam o projeto humanista de libertação e procuram reconfigurar o sujeito em caminhos novos e não-essencialistas. mas nos arranjar sem acalentar uma esperança nas “instituições”. A primeira consiste na derrubada das condições.

está em processo. A insurreição não tem como objetivo destruir instituições políticas.31 O sujeito. A insurreição começa. Como na afirmação de Baudelaire em que o sujeito deve ser tratado como uma obra de arte. transgredir no indivíduo sua própria identidade — o resultado. Stirner vê o sujeito — ou o eu — como “um nada criativo”. com a recusa do indivíduo em fazer cumprir sua identidade essencial: começa. portanto. portanto. a insurreição procura transformar a relação que o indivíduo tem consigo. a liberdade é um projeto indefinido e sem uma finalidade na qual o indivíduo se empenha. Este ethos de escapar das identidades essenciais por meio da reinvenção de si. tem muitos paralelos importantes com a estetização de si baudelairiana. com o descontentamento dos homens com eles mesmos. não é o tornar-se — humano. de certo modo.verve Stirner e Foucault: em direção a uma liberdade pós-kantiana Enquanto a revolução pretende que a essência humana prospere. A insurreição. assim como em Foucault. pois estou a cada momento posicionando ou criando a mim mesmo”. Ela procura. um vazio radical que cabe somente ao indivíduo definir: “eu não me pressuponho. que interessa a Foucault. homem — mas tornar-se o que não é. para Stirner. contudo. é uma mudança na ordem política. segundo Stirner. a partir da transformação das condições sociais e políticas existentes. uma insurreição procura libertar o indivíduo da essência.32 A estratégia insurrecional de Stirner e o projeto do cuidado de si de Foucault são ambas práticas contingentes de liberdade. nada designado como minha essência me exaure”. que envolvem a reconfiguração do sujeito e sua relação consigo. Como a prática de liberdade em Foucault. Para Stirner. como afir- 123 . um fluxo contínuo de auto-criação — este é um processo que se esquiva da imposição de identidades fixas e essências: “nenhum conceito me expressa. A insurreição.

e aumentando o poder que o indivíduo exerce sobre si mesmo. Segundo Stirner. que o indivíduo invente suas próprias formas de liberdade. Liberdade. e do qual o indivíduo deve acordar. que não pode haver nenhuma idéia universal de liberdade.7 2005 ma Stirner. o domínio de todos os indivíduos racionais. Só é vista em seu sentido mais estreito e negativo. a liberdade positiva — ou da propriedade de si — é uma forma de liberdade criada pelo indivíduo para ele mesmo. ampliar este conceito para o de uma liberdade mais positiva. mais ele perde o poder que exerce sobre si mesmo. não confia em instituições políticas para subsidiar a liberdade do indivíduo. para negar a si mesmo. de acordo com os ideais emancipadores do humanismo iluminista. isto só poderia resultar em 124 . é livre para reinventar-se de formas novas e imprevisíveis escapando dos limites impostos pela essência humana e as noções universais de moralidade. a liberdade é sempre uma liberdade particular disfarçada de universal. segundo Stirner. O indivíduo. A liberdade universal que é. mesmo sendo inatingível. limitando o poder que é exercido sobre o indivíduo pelos outros. mas procura. por exemplo. A noção de insurreição envolve uma reformulação do conceito de liberdade de maneira radicalmente pós-kantiana. Diferente da liberdade kantiana. liberdade é um conceito limitado. Stirner quer. Stirner sugere. mascararia interesses particulares ocultos. quanto mais ostensivamente livre o indivíduo se torna. É uma tentativa de construir espaços de autonomia dentro das relações de poder. é um conceito ambíguo e problemático. além disso. Além disso. De outro lado. Liberdade em seu sentido negativo envolve apenas uma auto-renúncia — pra livrar-se de algo. para Kant. a propriedade de si não é garantida por ideais universais ou imperativos categóricos. ao contrário. Se assim fosse. um “sonho lindo e encantado” que seduz o indivíduo.

verve Stirner e Foucault: em direção a uma liberdade pós-kantiana mais dominação: “um homem que é colocado em liberdade. mas a partir disso eu deixo de ser meramente um homem livre e me torno e sou este homem”. como o asno na pele do leão”. Conclusão Esta noção de propriedade de si é crucial na formulação de um conceito de liberdade pós-kantiano. 125 . e de fato a afirmação. que não estão circunscritas pela metafísica ou categorias essencialistas.35 Primeiro.33 A liberdade deve antes ser apoderada pelo indivíduo.. Está baseada na noção de si como um contingente e um campo aberto de possibilidades. e não numa adesão absoluta e submissa às máximas morais externas. Ver a liberdade como uma universal ausência do poder é mascarar sua base principal no poder.34 Stirner foi um dos primeiros a reconhecer que a verdadeira base da liberdade é o poder. ao contrário daquela garantida por ideais transcendentais.] ele é um homem não-livre travestido com liberdade. a propriedade de si é uma forma de liberdade que vai além do imperativo categórico. Para que a liberdade tenha algum valor ela deve estar baseada no poder do indivíduo para criá-la. A propriedade de si é a realização do poder do indivíduo sobre si mesmo — a habilidade de criar suas próprias formas de liberdade. não é nada além de um homem libertado [. a propriedade de si permite que a liberdade seja considerada além dos limites da moral universal e das categorias racionais. A teoria da propriedade de si é o reconhecimento. “a propriedade de si cria uma nova liberdade”. “Minha liberdade só se torna completa somente quando é a minha própria força. da relação inevitável entre poder e liberdade. nas palavras de Stirner.. A propriedade de si é a forma de liberdade que o sujeito inventa para si mesmo. Talvez. Neste sentido.

Tanto Stir126 . Stirner defende que a liberdade e a resistência podem existir sempre. Em terceiro lugar. portanto. procurou “libertar” a liberdade destes limites opressivos. Neste sentido.7 2005 Foucault. e renegociada dentro destes limites. A liberdade não pode mais ser vista como uma emancipação universal. mas também um modo de intensificar o poder que o sujeito exerce sobre si. Em segundo lugar. Foucault e Stirner estão interessados. assim como Stirner. Estas duas estratégias nos permitem conceituar a liberdade de uma forma mais contemporânea. reinventada. A propriedade de si deve ser vista. A liberdade que forma a base do imperativo categórico. a propriedade de si aproxima-se do argumento de Foucault sobre a liberdade situada nas relações de poder. mostra como é ilusória a noção de liberdade como algo que possa acarretar uma abstenção total do poder e da coação. Foucault. mesmo nas mais opressivas condições. que pretendem aumentar o poder que o indivíduo tem sobre si mesmo. O indivíduo está sempre envolvido em uma rede complexa de relações de poder. em reformular o conceito de liberdade: por meio da prática ética do cuidado de si e por meio da estratégia da propriedade de si. também. a liberdade exaltada por Kant como a providência da razão e da moralidade. de formas diferentes. a promessa eterna de um mundo além dos limites do poder. a propriedade de si é um projeto de liberdade e resistência dentro dos limites do poder — é o reconhecimento da natureza fundamentalmente antagônica e ambígua da liberdade. como criadora de possibilidades e resistências ao poder. a propriedade de si não é somente uma tentativa para limitar a dominação do indivíduo. e a liberdade deve ser batalhada. Para Stirner e Foucault. não pode mais servir como base para as noções contemporâneas de liberdade. a liberdade universal em Kant está baseada numa moral absoluta e em normas racionais que limitam a soberania do indivíduo. Próximo a Foucault.

Nesta tradução Eigenheit será referido como “Propriedade de Si”. a sombria inevitabilidade da lei e da punição. Tradução do inglês por Anamaria Salles e Eliane Knorr de Carvalho. Antes de ser um privilégio garantido ao indivíduo por um ponto metafísico.T. mas uma reflexão sobre os limites do poder — uma afirmação das possibilidades da autonomia individual dentro do poder e das capacidades críticas da subjetividade moderna. neste sentido. e uma batalha que é assumida pelo indivíduo dentro da problemática do poder. porém tal termo é inexistente no vocabulário inglês.” Anarchist Studies 5 (1997): 95-107. não é apenas um reconhecimento do poder. “Max Stirner: The Last Hegelian or the First Poststructuralist. O termo alemão Eigenheit foi traduzido para a língua inglesa como Owness.verve Stirner e Foucault: em direção a uma liberdade pós-kantiana ner quanto Foucault mostraram que ela exclui e oprimi onde inclui. A liberdade deve ser vista não mais como subserviente às máximas absolutas de moralidade e racionalidade. uma crítica do ethos e do eu. Isso abrange necessariamente uma reflexão sobre os limites de si e das condições ontológicas do presente — uma problematização e reinvenção constante da subjetividade. lembrando que o conhecido livro de Max Stirner chama-se Einzige und Sein Eigentum (O único e a sua propriedade). a liberdade deve ser “liberada” destas noções absolutas. e escraviza onde também liberta. 2 3 Esta rejeição de fundamentos antropológicos da liberdade é discutida também por Rajchman. Uma liberdade póskantiana. Na realidade Rajchman vê o projeto de liberdade de Foucault como uma atitude ética de um questionamento contínuo das margens e limites de nossa experiência contemporânea — uma liberdade da filosofia 127 . (N. Notas 1 ver Andrew Koch. forma que consideramos mais adequada. a liberdade deve ser vista como uma prática. Para Stirner e Foucault.). aos imperativos que invocam a fria.

Tradução de Alan Sheridan. e toma a forma de um sangue frio. mas ao contrário. e que esta só pode operar por meio de suas transgressões. O excesso de Sade não contradiz os mandatos. 14 15 Max Stirner. p. triste lei universal. 158. Como Zizek aponta. 1977.7 2005 assim como uma filosofia da liberdade. no imperativo categórico — produz sua própria forma de satisfação perversa. London. 5 6 7 8 Idem. Neste ensaio. cit. uma espécie de imperativo categórico kantiano ou princípio universal: “Deixe-nos enunciar a máxima: ‘Eu tenho o direito de prazer sobre o seu corpo. Tradução de Thomas Kingsmill Abbot. Foucault. Critique of Practical Reason. Sade. Lacan sugere que a negação do gozo — incorporado na lei. Michel Foucault. 195-228. Ibidem.. 1995. Como a discussão de Foucault sobre as “espirais” do poder e prazer. Discipline and Punish: The Birth of the Prison. qualquer um pode me dizer. Minha discussão sobre a re-configuração da problemática da liberdade em Foucault em termos de estratégias éticas concretas de si. Longmans. segundo Lacan. The Ego and Its Own. pp. e eu exercerei este direito. 1963. O excesso em Sade é levado a tal extremo que se torna esvaziado de prazer. 9 Max Stirner. 204-217.. antes. p. University of Cambridge Press. Michel Foucault. 312. Language. Desta forma o prazer obsceno da lei que está desmascarado em Kant é revertido na lei do prazer obsceno por Sade. London. 128 . e imperativos categóricos de Kant. 38. p. o “insight” crucial do argumento de Lacan aqui não é que Kant é um “sadista em segredo”. ou um gozo a mais — le plus de jouir. Lacan mostra que a lei produz suas próprias transgressões. Penguin. eles estão inexoravelmente ligados a estes. Cambridge and London. Idem. op. Ibidem. pp. expõe este prazer obsceno revertendo o paradigma: ele torna este perverso prazer como uma lei. 213. na qual o poder produz o próprio prazer que este deve reprimir. Intellectual and Power: a conversation between Michel Foucault and Gilles Deleuze. sem nenhum limite que me intercepte a satisfação da exatidão dos caprichos’”. em “Kant com (ou contra) Sade”. 4 Immanuel Kant. também pode ser vista neste contexto. que Sade é um “kantiano em segredo”. p. leis. Ver Lacan. 10 11 12 13 Idem. Tradução de David Leopold. Ibidem.

p. 25 Idem. Volume 2. 1977. 279-180. Pantheon. 22 23 26 Michel Foucault. New York. University of Chicago Press. Ed. op. Idem. Hurley. London. 27 Michel Foucault.1. 208-226. 288. Tradução de Colin Gordon. Practice: Selected Essays and Interviews. cit. 41-42. Oxford: Blackwell. 88-96. 152. 147. Ibidem. Ibidem. op. Ed. cit. “The Subject and Power. Vol. Economy and Society 15. nota 17: Michel Foucault. Penguin. 284. Essential Works of Michel Foucault. op. p. Ed. cit. 1997. p. 18 19 20 21 Idem. 1982. p. p. 1997. 42. 161. Donald Bouchard. By Hubert L. 1. 1982. Idem. 1977. Ibidem. p. Idem. The Use of Pleasure: The History of Sexuality. Pantheon.. Robert J.’” in Language. op.verve Stirner e Foucault: em direção a uma liberdade pós-kantiana 16 17 Ibidem. p. pp.. Michel Foucault. Tradução de Robert Hurley. Chicago. Michel Foucault. 24 Ethics: Subjectivity and Truth. p. 46. p. pp. 19541984. 221. 135. Dreyfus and Paul Rabinow. “Revolutionary Action: ‘Until Now. “What is Enlightenment?” The Foucault Reader. Idem. 29-30. Counter-Memory. Max Stirner. 221. pp. Michel Foucault. p. Trad. pp. p. Michel Foucault. 1984. cit. 28 29 30 31 32 33 34 35 Michel Foucault. 1984. 324. 30. 216. 151.. 1985.” Michel Foucault: Beyond Structuralism and Hermeneutics. p. Paul Rabinow. pp.. New York. 1986. p. Kant on Enlightenment and Revolution. p. Paul Rabinow. 129 .

The verve of Stirner and Foucault when they free liberty from moral. and the political unfold of resistances that spreads ethics of liberation. A atualidade de Stirner e Foucault ao liberarem a liberdade da moral. ABSTRACT The universalist philosophy of Kant is questioned when faced with the reflections by Max Stirner and Michel Foucault. liberação.7 2005 RESUMO A filosofia universalista de Kant é problematizada por meio das intensas aproximações entre as reflexões de Max Stirner e Michel Foucault. liberation. care of the self. Indicado para publicação em 1 de março de 2004. cuidado de si. as noções de propriedade de si e cuidado de si. Palavras-chave: Propriedade de si. the concepts of property of the self and care of the self. 130 . Keywords: Property of the self. e os desdobramentos políticos de resistências disseminando éticas de liberação.

verve as vozes ardem contra a mente esta noite e lá fora a chuva é o silêncio de todas as coisas Sergio Cohn 131 .

foram obscurecidas por narrativas que não valorizam a dimensão do gênero. na maior parte das vezes. verve. grupos comunistas e trotskistas em luta * Professora no Departamento de História da Unicamp. os estudos sobre esse importante movimento revolucionário foram marcados por um olhar que não só privilegiou a atuação dos homens. 7: 132-152. entre 1936 e 1939. por exemplo. de Lucía Sanchez Saornil. Não é novidade dizer que as experiências femininas na Revolução Espanhola. como deu maior visibilidade às lutas antifascistas. 2005 132 . focalizando. 1937.7 2005 mujeres libres: anarco-feminismo e subjetividade na revolução espanhola margareth rago* Que el pasado se hunda en la nada! Qué nos importa del ayer? Queremos escribir de nuevo la palabra MUJER! Hino das Mujeres Libres. Na tradição histórica que se constituiu em nosso país.

os anarquistas tinham construído toda uma história de resistências e lutas. 1939. portanto. tanto quanto sobre a atuação das mulheres. como dificilmente se repetirá na História”. contra os franquistas. escolas modernas. em suas lembranças. Muitos militantes libertários.. pelas rupturas profundas que promoveu na ordem social burguesa e pelas possibilidades de invenção da liberdade que revelou ao mundo capitalista. bibliotecas. centros culturais e grupos artísticos. e já tinham 70 anos..”1 Para muitos e muitas. (. Como observa Shirley Mangini. em entrevista recente. indignam-se com esse esquecimento. poucos contêm informações sobre o papel das mulheres na guerra e no período seguinte.. muitos participaram da Guerra Civil na Espanha.. Entre os anarquistas. Só que havia uma diferença..3 133 . Daí a grande desinformação a respeito das criações revolucionárias. entre mulheres e homens..” observa. saindo dos marcos nacionais: “Dos milhares de artigos e livros sobre a Guerra Civil espanhola. Maurício Tragtenberg. ainda hoje.) a oportunidade mais revolucionária para a emergência das mulheres na cena intelectual e política ocorreu nesse momento.2 Afinal. E. tudo era exemplificado com a Espanha. quando surge o Partido Comunista Espanhol. no entanto. como afirmou um deles. a Revolução Espanhola constitui um marco histórico fundamental. pois compartilham o sentimento de terem participado de uma “genuína revolução popular. formado gerações no mundo do trabalho com seus ateneus. especialmente com suas experiências autogestionárias nas cidades e nos campos. apesar do reconhecimento da participação de outros setores políticos importantes.verve Mujeres libres: anarco-feminismo e subjetividade. como os anarquistas. nesse movimento político e social. realmente . exceto algumas descrições ou simples referências em notas de rodapé. “Para os anarquistas tudo se referia à Espanha de 1936.

5 A primeira registra o evento em sua autobiografia e reivindica sua reatualização no presente: “As semanas vividas em Madri naquele período. ainda. acompanhou entusiasticamente cada minuto da Revolução. a memória de duas militantes libertárias. profundamente. a coletivização das fábricas e dos campos. como tal. testemunhando as criações coletivas da Revolução. além de vários artigos políticos para os jornais libertários. produziu. descentralizando o atendimento médico. uma coletânea intitulada 19 de Julio. mobilizando diversos tipos de apoio e solidarização em seu meio. trabalhando febrilmente para organizar sua defesa não é um fato histórico que se veja todos os dias”. aqueles meses de novembro e dezembro de 1936 permanecem em minha memória como os mais extraordinários de minha vida. em novembro de 1936. criando casas para abrigar as mulheres carentes. assim como as perseguições e as mortes ocorridas no processo político revolucionário. no gabinete de Francisco Largo Caballero. com o pseudônimo de Luz D. Alba. reorganizando os hospitais. propôs implementar uma ampla reforma na saúde. Luce Fabbri se refere à Revolução Espanhola como o acontecimento mais marcante de seu passado: “Foram três anos em que vivemos 134 . em que reúne depoimentos e outros documentos de vários combatentes.4 A segunda. legalizando o aborto. protagonista dos eventos revolucionários da Espanha. radicada no Uruguai. A primeira. a reforma pedagógica. comprometidas com a preservação histórica dessas lutas: a espanhola Federica Montseny e a escritora italiana Luce Fabbri.7 2005 Evoco. afirma em Mis primeros cuarenta años. Ver todo um povo espontaneamente mobilizado.6 Do mesmo modo. foi nomeada ministra da Saúde e da Assistência Social.

. às vésperas da eclosão da guerra civil.. Mercedes Comaposada. mais tarde. nasce em Barcelona. em 1901. na verdade. a história desse grupo anarco-feminista começa em abril de 1936. Enquanto advogada. e aprende desde cedo a montar películas. como as promovidas pela Agremiação anarco-feminista “Mujeres Libres”. adere à CNT – Confederação Nacional do Trabalho. a advogada Mercedes Comaposada e a médica Amparo Poch y Gascón se unem para criar o grupo “Mujeres Libres”. de orientação anarquista. também foram silenciadas por várias décadas e. vieram à tona.8 Em linhas gerais. A partir daí. na realidade. a jornalista e poetisa Lucía Sanchez Saornil. tudo o mais havia desaparecido. encontra o escultor Balthasar Lobo. Muitas experiências sociais e culturais. desgostosa com o comportamento dos trabalhadores num curso que oferecia em 135 . que mal conhecemos. Em fins de 1935.7 Não são apenas as histórias da desapropriação das extensas propriedades de terra e da autogestão efetivada por milhares de pessoas nas fábricas e nos campos. a quem se une. anuncia seu projeto de criação de uma agremiação política dedicada à causa das mulheres. desde o final do franquismo. pela ação de suas próprias antigas militantes.”. fundada por três ativistas libertárias.verve Mujeres libres: anarco-feminismo e subjetividade. filha de um ativo sapateiro anarquista. quando três combativas anarquistas. Lucía Sanchez Saornil.. em grande parte. radicaliza sua participação. mais na Espanha do que aqui. escrevendo nos periódicos libertários Solidaridad Obrera e Tierra y Libertad.. em 1975. nascida em Madri. trabalhara na Companhia Telefônica de Barcelona e durante uma série de greves de que participa. com o coração. ao participar da CNT – Confederação Nacional do Trabalho. em 1895. dedicado à luta pela emancipação feminina no mundo do trabalho.

Amparo Poch y Gascón. encontra Lucía. Rapidamente. professora racionalista e militante da CNT e Áurea Cuadrado. a situação feminina continuava fortemente opressiva e poucas melhoras haviam sido feitas. os anarquistas haviam conseguido forte penetração social. na grande 136 . apesar dos ataques ao casamento. não demora a encontrar-se com outras companheiras. quando o pequeno grupo se constitui. à educação coercitiva para as crianças. mais oxigenado. Muitas são operárias analfabetas. Desde o último quarto do século XIX. em que eram solicitadas e incentivadas a participar no espaço público. Salud Alegre. mesmo no meio libertário. às desigualdades sexuais. na “Agrupación Cultural Feminina”.9 As três libertárias já traziam uma bagagem política expressiva. outras autodidatas. a maternidade consciente e o aborto. na prática. que também começavam a atuar em Barcelona. formada por anarquistas como Pilar Grangel. nascida em Saragoça. criando ateneus libertários. Assim como as outras duas. em 1933. Espanholas.7 2005 um dos sindicatos da CNT. tanto quanto ideais feministas. torna-se médica pediatra e também assina como a Dra. em 1902. sobre os quais escreviam nos jornais Tierra y Libertad e Solidaridad Obrera. como militantes de esquerda. Generación Consciente e Umbral. com quem logo passa a discutir a questão feminina no anarquismo. novos grupos locais são criados por toda a Espanha e inúmeras mulheres aderem à organização. Revoltavamse com as dificuldades e com a opressão sexual enfrentadas pelas mulheres pobres. como a Igreja e a família. Apesar de suas críticas contundentes às instituições sociais. ou nas revistas Estudios. defende a liberdade sexual. ou formaram-se nos ateneus libertários. promovendo inúmeras atividades culturais por toda a Espanha. fundando sindicatos. Portanto. como Lola Iturbe.

espaço cultural destinado aos cursos. de 1937. em que as/os anarquistas lutaram não apenas para 137 . também chamado “Mujeres Libres”. maioria. sobretudo nesse contexto revolucionário. Segundo um anúncio publicado no jornal CNT. cursos de Agricultura. a mudança que essas militantes visavam enquanto anarco-feministas apontava para a criação de novos estilos de vida. criam um “Instituto nocturno”. Anatomia. Geografia.verve Mujeres libres: anarco-feminismo e subjetividade. Idiomas. Ciências Naturais. proporcionando-lhes meios práticos para a participação na vida social. ficamos sabendo que ali eram oferecidos cursos de Aritmética. política e cultural foi uma preocupação constante nas propostas e realizações do Grupo. mecanografia. no Paseo de Gracia. por sua vez. A anarquista Etta Federn. Contabilidade. História da Literatura. capacitando-as para o trabalho e para a vida pública.10 A questão da produção da subjetividade se colocou enfaticamente. formação de secretárias. poderiam estudar mecânica na escola de transporte.. palestras e oficinas que realizam para cerca de 600 mulheres. Mudar as condições de existência das mulheres pobres da Espanha. Gramática. Desenho. além do “Instituto Mujeres Libres” e das centenas de agrupamentos locais espalhados pelo país. fundados em uma ética capaz de propor novas formas de sociabilidade e de produzir subjetividades mais libertárias. Assim. mesmo que estas já ocupassem um largo espaço no mercado de trabalho industrial. No bairro de Sans. História. vinha da Alemanha e também opta por unir-se ao grupo. Enfermagem. Puericultura. nesta cidade. retirando-as do confinamento doméstico e do obscurantismo religioso. elas fundam o “Casal de la Dona Traballadora”. Além disso. Contudo. entre outros ofícios que não eram tradicionalmente oferecidos às mulheres.. em Barcelona. taquigrafia. mais do que isso. redação e cursos em Propaganda.

ao lado dos libertários. como afirmavam. isto é. isto é. elas procuraram promover novos modos de constituição de si. mães. como os da revista que leva o nome do Grupo. Em se tratando da experiência do “Grupo Mujeres Libres”. centros de assistência médica e de educação sexual. nos quais desejavam “despertar a consciência feminina para as idéias libertárias”. ou como seu avesso. nesse sentido. as questões sociais se aliaram às lutas pela libertação feminina e. visando criar novas formas de inserção social para as mulheres pobres. transformou a luta antifascista numa revolução social. como afirmava Pura Perez12. 138 . creches. casas destinadas às que desejassem sair da prostituição e também “para que as prostitutas pudessem ter tratamento médico e orientação para melhorar suas vidas”. a população mobilizada. De fato. Mas não de uma maneira apenas negativa. as relações sociais hierárquicas e desiguais e garantir as manifestações culturais populares. exclusivas do lar. mas também investiram fortemente para transformar radicalmente a vida econômica. já que essas lutadoras implementaram muitas iniciativas pioneiras. além de espaços. cursos de alfabetização e profissionalizantes. capazes de subverter os códigos burgueses de definição das mulheres como esposas. em que puderam refletir sobre si mesmas e criar toda uma cultura feminista entre as militantes e simpatizantes do anarquismo. como observam vários historiadores11 — e esquecem outros — tratando de criar organismos econômicos autogestionários e de incentivar formas solidárias de sociabilidade por toda a parte.7 2005 destruir o poder político concentrado no Estado e fortalecido pela ajuda material de outros países. liberatórios de la prostitución. como formas de reação ao poder. como a criação de cursos de capacitação das operárias.

propagava as idéias libertárias. num meio bastante sofrido como o operário. chamava as trabalhadoras para a reflexão e militância anarco-feminista. anti-hierárquicas. como defendia a ideologia da domesticidade contra a qual. pois “sabemos por experiência que os homens. mas também com o outro. era escrita. dificilmente atinam com o tom preciso”13. Revelando uma preocupação estética. Vale notar que as possibilidades criadas de outras formas de produção da subjetividade não se efetivaram num marco individualista. como com os companheiros ligados a outras entidades. elas se batiam. mas não no sentido corrente de uma valorização da vida privada em detrimento da esfera pública.verve Mujeres libres: anarco-feminismo e subjetividade. puericultura e infância.14 Longe de estimular o apego à esfera privada como refúgio em relação ao mundo competitivo dos negócios e da política.. pois visavam a uma intensificação das relações consigo mesmas. por muito boa vontade que tenham. A revista. nem no de uma acentuação do valor do indivíduo sobreposto em relação ao grupo. como maternidade consciente. da qual existem apenas 13 números. passava pelo estabelecimento de novas relações consigo. para além de ética.. a revista divulgava as realizações do grupo. de amizade. aliás. como se poderia supor. feita e subvencionada só por mulheres. relações solidárias. e discutia a constituição de uma nova moral sexual. ginástica. Visava. portanto. prostituição. se assim podemos chamar. 139 . Abordava temas variados relativos ao universo feminino. moda. e aqui recorro às conceitualizações de Foucault. essa “cultura de si” do anarco-feminismo. fortalecer as redes da militância política tanto entre elas mesmas. de companheirismo político. sobretudo nesse momento de intensa movimentação revolucionária em que um novo mundo parecia totalmente possível.

A revista Estudios. respondia às cartas dos trabalhadores. já que eram pobres e sem dote. maridos e irmãos. em geral ignoradas pelos homens. Tierra 140 . em que o Dr. que. Contudo. que lutaram pela transformação da moral sexual conservadora e preconceituosa. como a norte-americana Temma Kaplan. através de livros. assassinado em 1936.7 2005 Essa questão não passou desapercebida para algumas historiadoras. há que se relativizar essas afirmações. quanto pela proliferação da prole. como outros revolucionários. que registra a preocupação dessas ativistas libertárias com as dimensões psico-sociais. esses temas escapavam aos militantes do sexo masculino. O que significa que muitas mulheres continuavam a enfrentar imensas dificuldades tanto diante da tirania dos pais. folhetos e artigos publicados na imprensa anarquista. a cultura anarquista espanhola contou com a adesão de médicos e psiquiatras libertários.). CNT. ou pelas situações de abandono. pois mais do que em qualquer outro país. procurando apresentar soluções para seus problemas sexuais e sentimentais. tanto ideologicamente. Umbral e nos jornais Solidaridad Obrera. Felix Martí Ibáñez.. acreditavam firmemente que o sucesso da Revolução em termos econômicos e sociais levaria necessariamente ao fim da opressão sexual e da desigualdade de gênero. ou prestar esclarecimentos sobre distúrbios físicos e psicológicos.. pelos franquistas. a assumir posições de liderança e a desenvolver novas imagens de si como povo potencialmente autônomo (. por exemplo.”15 Segundo ela. especialista em Psicologia Sexual e em Sexologia. Isaac Puente. Evidenciadas em investimentos para “ensinar as mulheres a agir politicamente. possuía uma seção intitulada “Consultório Psico-sexual”. publicava nas revistas Generación Consciente. La Revista Blanca. quanto por iniciativas práticas.16 O Dr.

não era raro que costureiras. não apenas no Brasil. floristas. No rol das transgressoras. entre outros. anarquistas e socialistas. Enquanto a Igreja abençoava as mulheres puras e santificadas.. que rebaixavam a condição da mulher ao mesmo tempo que prostituíam o conceito de liberdade. influenciados pelas teorias lombrosianas da degenerescência. 141 . os médicos burgueses. como se ambos os termos fossem incompatíveis”. o termo mulher pública era sinônimo de prostituta. machista e ultraconservadora. O próprio nome escolhido pelo Grupo para se identificar e ser identificado é surpreendente e revelador: “Mujeres Libres” demarca com ousadia um espaço próprio. Nos inícios do século XX. chapeleiras. e vale lembrar que até os anos 1970.verve Mujeres libres: anarco-feminismo e subjetividade. buscávamos a reivindicação de um conceito — mulher livre — que até o momento havia sido preenchido com interpretações equívocas. e ao associá-lo ao adjetivo ‘livres’. refletindo a respeito do nome dado ao grupo são esclarecedoras: “Pretendíamos dar ao substantivo ‘mulheres’ todo um conteúdo que reiteradamente se havia negado. Portanto. não apenas na Espanha. y Libertad. lésbicas. as palavras de Lucía. já que assumido no contexto de uma Espanha católica.. afirmavam cientificamente que elas haviam nascido para a maternidade e para o lar. além de nos definirmos como totalmente independentes de toda seita ou grupo político. em que a liberdade feminina era associada à degeneração moral pelo discurso religioso e pelo científico. Esse pensamento predominava no mundo ocidental naquele período. trabalhadoras das fábricas de tecido e artistas fossem percebidas como prostitutas. associadas à imagem de Santa Maria. feministas. alinhavam-se prostitutas. divulgando suas concepções filosóficas e sociais libertárias.

mais substantivo. dando-lhe uma nova visão das coisas.)”. as “Mujeres Libres” chegaram. de dentro para fora.)” (no. E entendemos por erros masculinos todos os conceitos atuais de relação e convivência (. de uma natureza. deixando inquestionados os códigos da feminilidade da época. por isso mesmo. como diziam claramente: “é outro feminismo. por isso mesmo. um outro feminismo. na revista. Assim.7 2005 Mulher e direito à liberdade são associados em seu discurso contestador. difere muito do feminismo liberal vigente então. portanto. evitando que sua sensibilidade e seu cérebro se contaminem com os erros masculinos.. à expressão e à natureza masculinos. firme e desinteressada: da mulher. Como observam: “[a revista] quer (. reservando e preservando o espaço feminino que construíam e queriam fazer expandir.. maio de 1936)..) fazer ouvir uma voz sincera.. de outro. “feminismo que buscava sua expressão fora do feminino. a declararem-se nãofeministas.1. a própria revista Mujeres Libres afirmava desejar “reforçar a ação social da mulher. capaz de trazer novas formas para modelar a vida 142 ..)” Ao mesmo tempo. a que nasce de sua natureza íntima (. ao invocar uma natureza feminina diferenciada da masculina e. porém uma voz própria. Está claro que elas defendiam uma afirmação das mulheres e. segundo elas. pelo acesso à esfera pública. recusavam a publicação de quaisquer artigos escritos por homens. que lutavam pelo direito do voto.. de um complexo diverso frente ao complexo.. havia levado as mulheres à guerra. ambigüidade que se expressa nos próprios artigos publicados em sua revista. Na tentativa de diferenciarem-se das liberais.. O feminismo que defendiam. às vezes. se de um lado. contudo. se de um lado o discurso do Grupo aparece muitas vezes como essencialista. tratando de assimilar virtudes e valores estranhos (. criticava o feminismo que. Propunham. expressão de um modo. a sua.

“Mujeres Libres” foi um grupo atuante dedicado à luta pela autonomia feminina. de outro.5) Aliás. Nenhuma nos satisfez”. (aquelas organizações) pretendiam que a emancipação feminina só estivesse no fortalecimento daquele sentido tradicionalista que centrava toda a vida e todo o direito da mulher em torno da maternidade. Ao comparar o “Mujeres Libres” aos grupos feministas norte-americanos da atualidade. enquanto defendiam a igualdade de direitos entre mulheres e homens. Diz ela: “(. como um grupo revolucionário..17 Segundo o depoimento de Sara Berenguer. que não quis ser mãe. social e cultural. mantendo-se deste modo demasiado ocupadas para ajudar às mulheres pertencentes às classes 143 . delimita claramente as diferenças: “Este não é o caso dos grupos feministas na América do Norte e em outras partes do mundo. este lutou pela emancipação dos dois sexos.) recolhendo ao sentido tradicional da feminilidade. dado muitas décadas depois. no qual critica certas organizações feministas. num artigo de Lucía Sanchez Saornil.. — que se uniu a um companheiro e teve vários filhos e netos —. Segundo ela... Assim.verve Mujeres libres: anarco-feminismo e subjetividade. a maternidade aparece identificada negativamente pela metáfora animal. elevando esta função animal até sublimações incompreensíveis. os homens. a maternidade. destaca-se por sua crítica ao modelo hegemônico de feminilidade. os quais tendem a dispersar sua energia e seu tempo discutindo e escrevendo acerca da teoria da opressão da “pobre mulher” pelo “homem malvado”. tenha as mesmas facilidades que o homem para buscar e obter outras oportunidades que lhe permitam conseguir sua liberação econômica” (n. também questionavam a maternidade como função essencial da mulher: “que a mulher cuja vocação não for doméstica e sua ampla realização. mas não tendo em vista excluir a outra parte. como aparece em vários números dessa publicação.

as pessoas pobres e as mulheres da classe operária. o Grupo “Mujeres Libres” defendia o fim das hierarquias sexuais e sociais. observa-se que apenas Mercedes teve um companheiro fixo. Longe dos ideais de feminilidade e de masculinidade que vigoravam na Espanha dos anos trinta. Num debate relativamente recente. as antigas feministas liberais. Os discursos e as práticas do Grupo soam. como são as minorias. que defendia claramente o amor livre. Amparo. não se fixou com nenhum homem. Se não se pode generalizar essas concepções para todas as mulheres que se envolveram com o Grupo.”18 As concepções de gênero que orientavam as práticas e as representações que essas ativistas construíram de si mesmas e em relação ao outro foram bastante subversivas e radicais. Nenhuma teve filhos. pois reconhecer identidades seria defender uma política servil. Segundo ela: 144 . o escultor Balthazar Lobo e desenhista da Revista.7 2005 sociais com mais desvantagens e menos oportunidades. discordando que se trata de libertar as mulheres. a maternidade consciente. Elizabeth Grosz sustenta que o feminismo precisa reconceitualizar o que entende por subjetividade. educação e informação. ou seja. o amor livre. ao examinar a biografia das três fundadoras. enquanto a dra. Lucía viveu com sua amiga América Barroso a vida toda. questionando as políticas afirmativas da identidade. hoje. além dos direitos de acesso à cultura. o direito ao aborto. com uma impressionante atualidade e parecem bem mais próximos das questões formuladas pelo feminismo contemporâneo do que os de suas precursoras institucionalmente reconhecidas. ao trabalho e à educação. que necessitam de ajuda prática.

o alinhamento das forças que constituem aquela ‘identidade’ e ‘posição’.) Eu não tenho Casa. consciente dos efeitos nocivos e paralisantes da vida doméstica e do modelo romântico de feminilidade: “I. construtiva e coletivamente. Tenho. que te limi- 145 . absorve a Vontade. e propõe abandonar o lar. afirma que “figurações de subjetividade nômade.. em seu Elogio del amor libre. sim.. um teto amável para me guarnecer da chuva e um leito para que descanses e me fales de amor. nem o Direito. porque o lar é frequentemente local de sexismo e racismo — um local que nós precisamos retrabalhar política. formula Amparo Poch y Gascón. Eu não tenho Casa. “O feminismo (. É a luta para se produzir um futuro.. mata a Imaginação.. que tira de ti como uma incomprensiva e implacável garra. aquela estratificação que se estabiliza como um lugar e uma identidade. rompe a doce linha da Paz e do Amor.”19 Outra conhecida feminista.) é a luta para tornar mais móveis. Essa luta não é uma luta de sujeitos para serem reconhecidos e valorizados. os meios pelos quais o sujeito feminino é produzido e representado. Não quero! Não quero a insaciável ventosa que alinha o Pensamento. complexas e mutantes estão aqui para ficar. mas uma luta para mobilizar e transformar a posição das mulheres..verve Mujeres libres: anarco-feminismo e subjetividade. no qual as forças se alinham de maneiras fundamentalmente diferentes do passado e do presente.. nos anos trinta. Eu não tenho Casa. (. Rosi Braidotti. fluidos e transformáveis.”20 E´ possível sugerir que essa discussão se encontra em parte com as posições que. para serem o que eles são. para serem ou serem vistos.Quero amar no largo ‘além’ que nenhum muro fecha e nenhum egoísmo limita. Mas não tenho Casa.

No entanto. Para Mercedes Comaposada. associado à idealização romântica da mulher como rainha do lar. nascida para a maternidade e para a esfera do mundo privado. ou da privação. havíamos feito da solidariedade à mulher da Espanha um valor essencial.. segundo Lucía. todas se referem. Em relação à comunidade de mulheres que criaram. “Mujeres Libres” não era uma “entidade feminista. cada qual em seu lugar desempenhava sua tarefa”. como foi sua própria experiência de vida. Daí. porque. às fortes relações de solidariedade estabelecidas entre elas. um carro de flores e horizonte. onde o sol se põe quando tu me olhas.. o principal alvo do Grupo foi a questão específica da mulher.7 2005 ta e te nega. no entanto. como diz Hannah Arendt. social. se consideram “o umbigo do mundo”.LL.. Tudo girava ao redor da solidariedade. pela direção da economia pelos sindicatos. como símbolo da domesticidade. Segundo Conchita Liaño: “absolutamente todas as mulheres integrantes de MM. em suas memórias. politicamente se colocam contra o sistema capitalista.. acreditando-se que a libertação feminina era condição sine qua non para a mudança revolucionária da sociedade.”21 Se pensarmos na casa. as críticas contundentes aos homens anarquistas. o discurso de Amparo soa totalmente radical e transgressivo.. aliás. Enfim.”. econômico. mas um centro de capacitação da mulher em todos os terrenos cultural. que.) Teria sido possível comparar-nos a uma colméia de abelhas. Mas tenho. volto a dizer.22 146 . Amado. se há várias posições internas em relação à questão feminista. não havia líderes. a favor da implantação do “comunismo libertário”. (.. pela abolição do Estado.

depois de um ano de existência. Por que deviam as meninas serem empregadas de seus irmãos?” Aliás.. pois temiam sua concorrência na cooptação das jovens militantes femininas. “Os militantes das Juventudes Libertárias”. também anarquistas. Não vinculado oficialmente a nenhum organismo político e defendendo tenazmente a autonomia política. em bases anarquistas. Conchita Liaño. em especial. Em suas memórias. tiveram muitas restrições ao grupo. É interessante notar como ela questiona o modo pelo qual as mulheres então criavam seus filhos. em 22 de agosto de 1937. em Valência. constitui uma “Federação Nacional de Mujeres Libres”. não outorgando aos varões privilégios sobre as meninas.. era imperativo que as mulheres compreendessem que não era impossível sacudir esse condicionamento atávico e deviam começar a modificar os esquemas a partir de si mesmas e de seu próprio lar. “Mujeres Libres” se declarava anarquista e se dizia identificado com a CNT – Confederação Nacional dos Trabalhadores e FAI – Federação Anarquista Ibérica. A historiadora Mary Nash indica um total de 153 agrupamentos locais de Mujeres Libres. dando privilégios especiais aos meninos em relação às meninas. afirmando que a reação dos anarquistas em não querer reconhe- 147 . criados entre 1937 e 1938. uma das participantes do grupo. visto como separatista. Em seguida. o Grupo consegue realizar a Primeira Conferência Nacional. começando por sua descendência filial. as fundadoras de MM. estranha essa atitude. Nem por isso as relações que mantiveram com esses grupos políticos deixaram de ser tensas.LL.verve Mujeres libres: anarco-feminismo e subjetividade. Segundo Liaño: “(para) nós. o que revela seu rápido crescimento..

I.J. a “Mujeres Antifascistas”.L. Não esqueçamos que ainda pesavam os preconceitos sobre nós. valoriza a fundação da organização: “Quando estive entre as companheiras pude compreender quão bem-fundado foi esse grupo. não existiu hierarquia de nenhum tipo. Não é em vão que se recebe uma educação permanente para que de repente caiam todos os tabus.7 2005 cer politicamente o grupo havia sido muito decepcionante. assim como na CNT. a visão que tiveram e como entre todas era mais fácil expressarse. que intercedeu em nossa causa”. Outra ativista. também admite que isso não os impedia de dar-lhes um importante apoio econômico. No entanto. – Federação Ibérica de Juventudes Libertárias) apesar do apoio de nossa querida Emma Goldman. também militante. em Mujeres Libres. 24 148 . Em seguida. à diferença dos setores femininos dos partidos ( e de todos os grupos de feministas que eu conheci. Também. sem permitir que a adesão ao poder ao controle frustasse seus esforços para ajudar a mulher e a humanidade em geral”. que nunca os companheiros quiseram integrar em seu seio (como fizeram com a F. estabelece a diferença de seu grupo com outros do mesmo período: “À diferença dos setores femininos dos partidos políticos. Pepita Cárpena.”23 Maria Rodrigues Gil. sendo uma organização verdadeiramente anarquista e democrática em seu mais puro sentido. Mujeres Libres foi sempre uma organização completamente autônoma da CNT e do movimento anarquista em geral. afirma em suas memórias: “Tampouco entendo o porquê da rejeição de Mujeres Libres. pois até mesmo os comunistas tinham criado uma organização feminina.

que contrariam as propostas libertárias do feminismo. por Paula Sibilia. as práticas do Grupo “Mujeres Libres” se conectam com nossas preocupações atuais e podem. pelo que podem nos enriquecer e aumentar nossa capacidade de crítica e de invenção ética. um pouco como os geógrafos. também causa polêmica a emergência de subjetividades ambiciosas.. se como propõe Gaddis. ou técnicas de si e de relação com o outro profundamente renovadas. Valendo-me de alguns conceitos de Foucault. Afinal. então faz todo sentido ouvir atentamente o que as “Mujeres Libres” têm a nos contar. Vale notar que. até mesmo por aqueles que pouco se ocuparam com as questões femininas. autoritárias e até mesmo bélicas. creio que se pode afirmar que com suas artes da existência. transmitindo experiências do passado.verve Mujeres libres: anarco-feminismo e subjetividade. “único banco de dados que possuímos”25. constituir-se num importante repertório para nossa atualidade. o que as aproximava mais dos valores positivos de construção social. Finalmente. por isso mesmo.. a aposta maior do feminismo na importância de libertação das mulheres. na conquista de seu direito à cidadania vinculava-se à crença de que as mulheres haviam passado por experiências muito diferenciadas das masculinas. uma maneira de valorizar a história e de mostrar suas valiosas contribuições decorre de sua capacidade de oferecer mapas. cultural e social e em que o feminismo é considerado. feministas e libertárias. num momento em que as portas têm-se aberto para a participação feminina no mundo político. 149 . Tradução de Elogio del amor libre. como a única revolução que deu certo no século XX.

p. 9 10 Edson Passetti. Davidson College. Valencia. Campinas. Chicago. Rio de Janeiro.A. em agosto de 2001. São Paulo. 1937. São Paulo. Memories of resistance: Female Activists of the Spanish Civil War. In Renate Bridenthal. com o anarquista espanhol Heleno Iturbe.). 107. em 1993. Unesp/ Escuta/Fapesp. op. “ Es que no es digna la satisfacción de los instintos sexuales? Amor. Colección Esfuerzo. 3 4 Patricia Greene. 2001. Memórias de um autodidata no Brasil. Editora Imaginário. Women in European History.7 2005 Notas 1 Shirley Mangini. Montevidéo. Entre a História e a Liberdade. Antologia de la Revolucion Espagnola. 1991. Editora da UNESP. Soares (org. Éticas dos Amigos. 1985. Becoming Visible. Houghton Miffling Company. 5 6 Federica Montseny. cap. 1999. p. p.cit. “Other scenarios: Women and Spanish Anarchism”. O cuidado de si. 145-161. 2000. 2 Refiro-me à entrevista realizada em Barcelona. 41. Editora Autores Associados. 2001. apud Nash. p. p. in Mujeres Libres: luchadoras libertarias.171. Barcelona.1987. Luce Fabbri e o Anarquismo contemporâneo.. Mis Primeros Cuarenta Años. 17 Lucía Sanchez Saornil. Atlanta. p. 14 Michel Foucault.II. 1977. 86. 11 Murray Bookchin. 12 13 Carta de Mujeres Libres a Hernandez Domenech. 7 Margareth Rago. S. 418. fall 1997. Ed. É de 1991 o principal estudo sobre as “Mujeres Libres”. sexo e anarquia na Revolução Espanhola. filho da militante anarquista Lola Iturbe. Luz D´Alba (pseudônimo de Luce Fabbri). pp. 65. in Carmen L. 27 de maio de1936. escrito pela historiadora norte-americana Martha Ackelsberg. São Paulo. University of Chicago Press/Signs. Maurício Tragtenberg. “Federica Montseny: Chronicler of an Anarco-feminist Genealogy” in Letras Peninsulares. do Grupo “Mujeres Libres”. Graal. 1999. 1937. 2003. 57 . Numa Ediciones. Depoimento de Pura Perez. História da sexualidade III. Madrid. 1981. Claudia Koonz. In Mujeres Libres: luchadoras libertarias. 8 Recentemente foi publicada uma cuidadosa biografia de Amparo Poch y Gascon por Antonina Rodrigo. Fundación Anselmo Lorenzo.”. Corpo e História. p. USA. CNT. já falecida. 188. Temma Kaplan. 150 . 15 16 Margareth Rago. Plaza e Janes Ed. p. e traduzido para o espanhol apenas em 1999. Los anarquistas españoles en los heroicos 1868-1936.

2002. in Antonina Rodrigo.. p. in Mujeres Libres: luchadoras libertarias. que tira de ti como una incomprensiva e implacable garra. cit. Yo no tengo Casa. jul-dez. 14. “Futuro feminista ou o futuro do pensamento”. p. Yo no tengo Casa. 101. mata el Ensueño. 95-101. 20 Rosi Bradotti. Paisagens da História.1-2. 21 Amparo Poch y Gascón. John Lewis Gaddis. donde el Sol se pone por rueda cuando tú me miras. cit. p. no. ni el Derecho. 18 19 Idem. Mujeres Libres.) Yo no tengo Casa. Idem. “Diferença. in Labrys. 151 .. op. 23. p. Elizabeth Grosz.” 22 23 24 25 Conchita Liaño Gil. in Labrys.2002. nos. 102. que te limita y te niega. “I. un carro de flores y horizonte.. p. Amado.1-2. Rio de Janeiro. p. absorbe la Voluntad. Diversidade e Subjetividade Nômade”. 1994. 76. Ed. No quiero! No quiero la insaciable ventosa que ahila el Pensamiento.. estudos feministas. op. 2003. julio 1936. jul-dez. (. rompe la dulce línea de la Paz y el Amor. Tengo.. Pero no tengo Casa. estudos feministas. 60. Quiero amar en el anchucroso ‘más allá’ que no cierra ningún muro ni limita ningún egoísmo. Pero tengo.verve Mujeres libres: anarco-feminismo e subjetividade.3. un techo amable para resguardar-te de la lluvia y un lecho para que descanses y me hables de amor. sí. p. Campus. Ibidem. nos.

152 . artes da existência. Considering the wide and revolutionary political experience of the Group. subjetividade. ABSTRACT Drawing on the issues raised by post-structuralist feminist thinkers. which direct Foucault’s problematizations on the production of subjectivity and inspire reflections of the post-structuralist feminism. In this way. critic of binary oppositions such as the one that hierarchizes reason and emotion. os conceitos de “subjetivação” e de “artes da existência”. more integrated and humane. I concentrate on the experience of anarchist activists from the group Mujeres Libres. in relation to the production of subjectivity. Keywords: Anarchic feminism. I also present the question on if and how anarchic feminism has invented ethically. já que crítico das oposições binárias como a que hierarquiza razão e emoção. masculino e feminino.7 2005 RESUMO Partindo das questões levantadas pelas teóricas feministas pósestruturalistas. during the Spanish Revolution from 1936-39. are of utmost importance. Palavras-chave: anarco-feminismo. relativas à produção da subjetividade. que norteiam as problematizações de Foucault sobre a produção da subjetividade e inspiram as reflexões do feminismo pós-estruturalista são de fundamental importância. subjectivity. pergunto se e como o anarco-feminismo praticado por elas criou um modo específico de existência. entre 1936-39. masculine and feminine. arts of existence Recebido para publicação em 26 de junho de 2004. focalizo a experiência das militantes anarquistas do Grupo Mujeres Libres. on if and how can it operate re-updating the political and cultural imaginary of our time. mais integrado e humanizado. the concepts of “subjectivation” and “arts of existence”. I raise the question of why and how the anarchic feminism developed by them has created a particular way of existence. se e como inventou eticamente. Considerando a ampla e revolucionária experiência política do Grupo. se e como pode operar no sentido de reatualizar o imaginário político e cultural de nossa época. durante a Revolução Espanhola. Na direção dessas colocações.

criar corações que odeiem a tirania e que desde a infância maldigam todos os exploradores. 2000. Muitos militantes dedicaram grande parte de suas energias à elaboração de projetos e práticas culturais. Coleção Escritos Anarquistas. São Paulo. de grande importância no projeto de Revolução Social defendido pelos anarquistas.verve A educação anarquista na república velha a educação anarquista na república velha eduardo valladares* “Nossa missão é semear o bem. pensadas fundamentalmente como meios de emancipação. dotados de relativa autonomia e caracterizados por uma identidade de classe. Scipione. autor de Anarquismo e anti-clericalismo. 1995. difundir a luz por meio da instrução livre de todos os preconceitos da rotina. São Paulo. 12. Co-autor de Revoluções do século XX. o movimento ácrata internacional vinha se ocupando dessas questões.” Kropotkin Os temas cultura e educação eram. Imaginário-Nu-Sol/Soma. Desde o século XIX. 2005 153 . verve. por consi* Doutor em História Social pela USP. 7: 153-177. v. e continuam sendo.

noticiava as experiências educacionais de outros países e divulgava as informações que chegavam à redação sobre assuntos culturais. Pelo contrário. A escola como dominação ideológica Camaradas! arranquemos a criança ao padre e ao governo!2 Educar é uma ação distinta de instruir. O analfabetismo generalizado entre os trabalhadores dificultava a divulgação das idéias ácratas nas camadas trabalhadoras. O internacionalismo característico dos libertários. A imprensa libertária brasileira traduzia e publicava artigos de educadores próximos às suas posições ideológicas.7 2005 derá-los possuidores de um valor social indispensável para a construção do mundo novo. Em muitas ocasiões as vanguardas anarquistas responsabilizavam a pouca instrução escolar pela fraca atuação dos trabalhadores no processo das lutas sociais. A preocupação singular. não possuindo valor em si mesma. a ênfase dada à disseminação da instrução como fundamental para a ampliação do movimento operário. pela educação deve-se ao fato de que a ação pedagógica era vista como um dos instrumentos fundamentais para a efetivação da ação direta. revistas e livros editados no exterior logo fossem divulgados aqui. e até obsessiva. aliado à composição nitidamente de origem imigrante do operariado brasileiro no início da República. fazia com que os jornais. “a instrução só se difunde no 154 .1 Por isso. A instrução não estava desvinculada da luta mais geral. O fácil acesso à literatura pedagógica permitia que os militantes tivessem sempre um conhecimento atualizado das tendências libertárias no campo da educação. A instrução é apenas um instrumento.

A educação tradicional tinha como corolário inevitável a formação de indivíduos padronizados. quando as divergências entre o clero e os políticos cresciam. O papel da educação é o de criar novos costumes. Dessa forma. os anarquistas procuravam definir a atuação de ambos como uma competição fraternal. As di- 155 . contribuir para a emancipação humana e a construção de uma sociedade igualitária. transformar a consciência humana. As pessoas educadas para a liberdade e igualdade enxergariam o mundo a partir de uma outra ótica. dóceis. como duas instituições que disputavam o mesmo rebanho de explorados. profundamente autoritários e carregados de preconceitos e superstições. a educação libertária não prepara a revolução. O fato de poder enxergar um outro tipo de sociedade é o primeiro passo para a transformação. Em alguns momentos. A simples laicização do ensino também era considerada de pouca utilidade. a escola oficial.verve A educação anarquista na república velha seio dos trabalhadores à medida em que estes vão avançando no campo de sua emancipação”. As escolas atuavam como agentes de reprodução econômica e cultural de uma sociedade cindida. Por isso. ela em si mesma já é a revolução. capazes da mais íntima colaboração. Em outras ocasiões. a educação deve ir além disso. contribuindo para a compreensão do funcionamento do mundo. servindo de instrumento de difusão ideológica. Os libertários conseguiam perceber com clareza que todo projeto educacional é carregado de mensagem política. fosse laica ou não. o Estado e a Igreja eram vistos como “aliados satânicos”. Ela servia apenas para incutir os valores sociais e morais das classes dominantes. Em suma. era refutada.3 Embora o domínio de vários saberes seja importante no processo educativo. bastante distinta daquela filtrada pela ideologia que justificava a dominação e a exploração.

.. No lugar da dogmática catequese. pois. mais ou menos disfarçada. A nacionalidade é algo puramente abstrato e artificial. Dessa forma. “A educação pública tinha.7 2005 vergências entre o Estado e a Igreja não passavam de uma luta pela hegemonia entre os setores dominantes. sendo necessária à recriação permanente do pacto que a fundou. as crianças escutariam a cantilena patriótica. como um importante instrumento de promoção da nacionalidade. O jornal anticlerical A Lanterna. A destruição de todas as manifestações autoritárias na sociedade incluía também as religiões institucionais. O objetivo era reunir povos de determinadas regiões sob um governo comum. que recebemos na primeira infância. durante o século XIX.) Pois bem. Uma das formas de lutar contra o obscurantismo do clero era a criação de escolas libertárias. depende de nós evitar desde já que os nossos filhos contraiam o mal. é criarmos nossas escolas. As escolas laicas eram acusadas de simplesmente substituírem o ensino religioso pelo político. A Igreja Católica.. isolando-os do ambiente corrompido. No contexto da época. era sistematicamente atacada. pela força e ligação íntima que mantinha no sistema de poder. a educação incorporou uma importante função: a de fomentar continuamente os laços de civismo que representam o próprio orgulho da nacionalidade. afirmava: “O mais formidável de todos os obstáculos que se antepõem à nossa propaganda de emancipação social é a instrução clerical. no momento de sua origem. tratava-se de incutir nas amplas massas um sentimento cívico que estreitasse os laços políticos presentes na consolidação dos Estados Nacionais. uma função política específica e importante a cumprir — significava a manuten156 . (.”4 A instrução pública generalizou-se na Europa. em 1913.

realizava uma completa sistematização da violência. da defesa da desescolarização da sociedade. Mesmo as legislações e medidas que as demais correntes socialistas consideravam um avanço eram satirizadas: “Tem-se dado ligeiramente um grande passo declarando a instrução primário gratuita. Os libertários brasileiros não pouparam críticas à política educacional da República Velha. criando colégios e liceus para meninas e senhoritas.6 Apesar da firme recusa da escola mantida pela esfera pública do Estado e das instituições privadas. apesar da aparência de ensino científico e do mérito de ensinar a ler e escrever. acalmar os ânimos das massas que reivindicavam melhores condições sociais de vida”. em absoluto.. não empunharam a bandeira do ensino público e gratuito. não se tratava. O objetivo era a formação de cidadãos prontos a obedecer e defender a ordem estabelecida. apesar de denunciarem abertamente o descaso dos poderes públicos em relação à educação.. A posição de Bakunin é bastante esclarecedora sobre esse aspecto: “Será preciso. obrigatório e laico”. 157 . Ao recusar a iniciativa da educação como uma obrigação do Estado ou da Igreja. é claro. fechando ao padre a porta da escola. pois eliminar da sociedade toda a educação e abolir todas as escolas? Não. Ninguém ignora porém que se pode ensinar muitos erros e tolices de um modo gratuito. os libertários pretendiam aproximá-la da sociedade. Mas.verve A educação anarquista na república velha ção e crescimento do próprio Estado — além de. seres que reproduzem sistematicamente a ideologia que sustenta o regime de dominação. obrigatória e laica. Fiéis às suas convicções. quase todas bancadas pela Igreja. não reivindicavam verbas públicas ou uma maior atuação do Estado no ensino. de modo algum.5 A escola do Estado.

entre outras coisas. em outras tantas escolas de emancipação humana. sobre o culto à verdade e à justiça. um projeto educacional. As crianças e os adultos eram incentivados a serem solidários e se comportarem como irmãos. (.7 2005 é preciso espargir as mãos cheias a educação nas massas. o que significava. O discurso libertário era bastante distinto do de setores das elites intelectuais da época. e transformar todas as igrejas. não sobre a fé. e não da piedade e da obediência.. e deverão fundamentar toda a educação das crianças e a instrução no desenvolvimento científico da razão. que deve substituir em tudo e por todas partes o culto divino”. O estímulo às atitudes fraternais estava em consonância com o princípio da solidariedade. que norteava a teoria e a prática anarquistas. o eterno e absoluto escravizador. A especificidade da pedagogia libertária estava na sua procura em formar indivíduos livres e preocupados com o bem-estar social.7 Os revolucionários deveriam ter seu próprio projeto social. O objetivo último era preparar o homem para viver na futura sociedade ácrata. O desenvolvimento das capacidades individuais não tinha como objetivo proporcionar a ascensão social individual. ou ajuda mútua.) e para que se convertam em escolas de emancipação e não de submissão. terão que eliminar toda essa ficção de Deus. capazes de contribuir no caminho da transformação social. muito menos. a harmonia entre as classes sociais. A luta pela educação das massas trabalhadoras era vista como um importante elemento na recuperação de 158 . e antes de tudo sobre o respeito humano. nem.. todos estes templos dedicados à glória de Deus e à submissão dos homens. defensoras da instrução popular como fundamental para garantir o “desenvolvimento harmonioso do país”. sobre o desenvolvimento da dignidade e da independência pessoais.

Depois. A invenção de uma sociedade de homens livres não podia estar alicerçada nas fundações do mundo que se pretendia destruir. do campo ou da rua: privados de recursos.verve A educação anarquista na república velha instrumentos de ação social historicamente monopolizados pelas classes dominantes. famintos no meio da opulência. encarcerados. irão lacerar as carnes em todos os espinhos da luta brutal pelo pão: escarnecidos e vilipendiados pelos próprios pastores da desgraça que — com seu método interessado de inibição mental — vo-los tornarão toupeiras impotentes (. na expansão e nas calamidades pátrias. serão colhidos em todas as insídias.) 159 . A proposta de Revolução Social implicava negação das instituições criadas pela burguesia e seus aliados. guiados pelos nefastos ensinamentos burgueses. despertai! Nas escolas subsidiadas. oficiais.. ortodoxas.. perseguidos. míseros. esgota-se a potencialidade mental e sentimental dos vossos pequeninos com a masturbação vergonhosa e constante de mentirosa solidariedade no trabalho. deveis necessariamente velar com cuidado pelo desenvolvimento intelectual de vossos filhos. mistificados pelo padre. de 26 de novembro de 1904: “Trabalhadores! Alquebrados pelo exaustivo trabalho da oficina. A explicação dos objetivos básicos da necessidade de fundar escolas libertárias pode ser encontrada neste artigo do jornal O Amigo do Povo. iludidos pelos velhacos. a fim de impedir a todo custo que neles se inocule o veneno da resignação aos sistemáticos vexames.. quando adultos.. às costumadas infâmias (. vitimados pelos malsins a soldo do Capital. A educação só poderia estar inserida no bojo de um projeto revolucionário de ruptura social.) Trabalhadores.

Destinavam-se principalmente à educação de adultos. o ensino elementar para adultos e até mesmo a fundação de universidades. Entre as atividades mantidas. O objetivo era a criação de um completo sistema de ensino paralelo e em clara oposição ao sistema oficial e privado. Nas cidades mais populosas. editaram livros e jornais. Para a sua organização bastava um pequeno número de militantes e simpatizantes dispostos a encontrarem um local de funcionamento.”8 As duas primeiras décadas do século XX foram ricas em experiências educacionais libertárias. conferências e representações teatrais. desenvolveram intensa atividade cultural nos sindicatos e em outras associações por eles criadas. Grupos de militantes formaram bibliotecas.7 2005 Animai os promotores ou regentes de escolas racionalistas. realizaram excursões de propaganda. surgiram em diversos bairros. empregando o método do “ensino mútuo”. 160 . A escola. como Rio de Janeiro e São Paulo. organizaram grupos de teatro e música. A educação seria feita por meio de uma série de iniciativas. destacavam-se: a organização de cursos regulares. salas de leitura e manutenção de bibliotecas. O plano incluía a criação de escolas para crianças e adolescentes. apesar de sua importância. O projeto anarquista era bastante ambicioso. incentivaram a criação de “Centros de Estudos Sociais”. organizarem uma biblioteca e uma lista de subscrição. Os Centros foram bastante numerosos e espalharam-se por vários pontos do país. A montagem de um Centro de Estudos Sociais era relativamente simples e não envolvia nenhuma burocracia. das quais sejam rigorosamente banidas as superfluidades e traições do ensino ortodoxo. Além da criação de instituições escolares. era vista apenas como uma das formas possíveis do processo educativo. alguns móveis.

Contudo. sem intermediários. num mundo governado pela liberdade. do bem-estar e da liberdade para todos. sem a intervenção dos mercantes da política (verdadeiros adormentadores de consciências e mistificadores do povo) eis a nossa tática. fortificado pela verdade e coroado pela igualdade. A Universidade. no Rio de Janeiro. em outubro a imprensa libertária anunciava o seu fechamento. A preocupação com a criação de associações de caráter educativo era apresentada como alternativa aos locais considerados como templos da perdição: as tabernas e as igrejas. teve curta duração. que foi uma das mais arrojadas iniciativas dos anarquistas. teremos feito alguma coisa de prático. A nossa ardente sede de combate pela conquista do Direito universal. incitando à reivindicação dos seus direitos conculcados e da sua dignidade ofendida pelos parasitas do capitalismo. deixemos de embrutecer a inteligência com o álcool. deixava claros os objetivos dessas organizações: “Este Centro de Estudos Sociais propõe-se à divulgação das teorias libertárias na massa operária. boicotemos os bailes públicos. instalado no bairro da Barra Funda em São Paulo. A ação direta. nem capitães. nos fará procurar todos os meios capazes de apressar a realização do nosso ideal e antes quebrar do que torcer perante os obstáculos opostos pela animosidade dos governos. 161 . verdadeiros focos de corrupção – e teremos contribuído para dissipar as densas trevas da ignorância. em março de 1904.verve A educação anarquista na república velha A declaração de princípios do “Centro de Estudos Sociais Jovens Libertários”.”9 Deve-se salientar também o esforço empreendido na fundação da “Universidade Popular de Ensino Livre”. Camaradas! dediquemo-nos com ardor ao estudo do problema social. tinha por objetivo ministrar um ensino superior e funcionar como centro de lazer e cultura para o proletariado.

conferências. a metodologia. os pagamentos dos professores..”10 Na base da sociedade ácrata. A dependência dos cofres públicos era considerada uma heresia. ao mesmo tempo em que se realiza o ensino formal propriamente dito. igreja e jogos de todas as classes. as mensalidades cobradas não eram suficientes para cobrir as despesas. quermesses.7 2005 “(. Os meios para angariar fundos eram aqueles tradicionalmente usados pelo movimento para manter as suas associações: festas.) um pequeno ponto de apoio poderia ser a criação de um Centro de Estudos Sociais. era algo que deveria ser assumido pela própria comunidade. a carga horária. etc. listas de subscrição. Os conteúdos. A capacidade de “agir por si mesmos”. A necessidade de envolver os alunos. enfim. A aplicação do princípio da autogestão11 das organizações escolares só podia ser um dos aspectos centrais do projeto pedagógico anti-autoritário. 162 . os pais e a comunidade em geral na manutenção financeira das instituições escolares era a única maneira de garantir a autonomia do projeto pedagógico libertário. A tarefa de educar. tudo que se referia à escola deveria ser resolvido por aqueles que estavam envolvidos no projeto escolar. pelo estudo constante da Sociologia. já que isso dificultaria o acesso dos filhos do trabalhador. com todas as responsabilidades que isso significava. trindade estúpida que o embrutece e o desmoraliza. Outro aspecto importante da autogestão pedagógica é que. encontra-se o princípio do acordo livre. sem qualquer determinação e tutela de chefes era um dos principais elementos na formação da consciência anárquica. onde o operário trocará seus hábitos de tavernas.. Por outro lado. também se faz o aprendizado sócio-político da construção coletiva da liberdade. venda de livros. As taxas não podiam ser muito altas. as taxas.

Na Escola Nova. das superstições e dos dogmas religio163 . apesar da afirmação da neutralidade política das escolas mantidas pelos anarquistas. Ela era apenas uma das organizações sociais capazes de conduzir à sociedade igualitária. No jornal A Voz do Trabalhador –— órgão da Confederação Operária Brasileira –— com grande freqüência apareciam artigos sobre a questão educacional e cultural.º 2 cobrava 3$ para o 1º ano primário e 4$ para os demais. a prática pedagógica estava impregnada de objetivos políticos. de Florentino de Carvalho. das convenções sociais. A luta pela causa da educação antidogmática tornouse uma das bandeiras de luta dos anarquistas. do noturno: 4$ para menores e 5$ para adultos. A escola tradicional era acusada de ser reprodutora dos preconceitos patrióticos. as mensalidades na Escola Moderna nº 1 eram de 3$. O mundo do futuro tinha na escola de pedagogia libertária um ponto de apoio. os preços continuavam os mesmos. 4$ para os demais e. A educação tinha a importante função de combate à alienação. de acordo com o grau de adiantamento do aluno (O Início. Porém. devendo contribuir para o desmascaramento da ideologia de dominação. 5/set/1914). 5$.verve A educação anarquista na república velha “Em 1914. as mensalidades do curso diurno eram de 3$ para o 1º ano. A Escola Moderna n. A educação oficial e confessional era vista como uma ferramenta para a formação do trabalhador disciplinado. 4$. nº 1. mas não começava nem terminava nela. Os anarco-sindicalistas valorizavam.”12 Os anarquistas não superestimavam o papel da escola. e muito. Em 1915. Os alunos eram sensibilizados com os problemas dos oprimidos e incentivados aos trabalhos de propaganda. a questão educacional. Os preços das aulas noturnas eram estipulados em comum acordo entre o professor (Adelino de Pinho) e os alunos.

No Primeiro Congresso Operário Brasileiro. “Tema 7: Conveniência de que cada associação operária sustente uma escola laica para os sócios e seus filhos. e que ninguém mais que os próprios operários interessam-se em formar livremente a consciência de seus filhos. aprofundando a questão em alguns pontos. O ensino ministrado nessas escolas era pernicioso. O próprio título adotado — Educação e instrução das classes operárias — já demonstra o interesse em ampliar o debate. a preocupação com a questão escolar foi um dos pontos que chamou a atenção dos delegados. e quais os meios de que deve lançar mão para esse fim? Considerando que o ensino oficial tem por fim incutir nos educandos idéias e sentimentos tendentes a fortificar as instituições burguesas e. aconselha aos sindicatos operários a fundação de escolas apropriadas à educação que os mesmos devem receber. também adotou posições claramente contra o ensino fornecido pelas escolas mantidas pelo Estado e pela Igreja. Além de denunciar as instituições educacionais burguesas. deturpado e irracional. por conseguinte. realizado em 1913. A importância da questão pode ser também percebida pelas resoluções e decisões dos Congressos Operários promovidos pelos anarco-sindicalistas. deve a Federação local assumir o encargo. conclamava os operários a criar escolas da classe.7 2005 sos. quando os sindicatos não puderem sustentar escolas. O ‘Primeiro Congresso Operário Brasileiro’. tratando o 164 . contrárias às aspirações de emancipação operária.”13 O II Congresso Operário Brasileiro. vinculadas a sindicatos e federações. em 1906. sempre que tal seja possível.

demonstra um certo cuidado em incluir pressupostos de outros educadores anarquistas. defender a adoção dos princípios de Ferrer descartava um dos pontos mais importantes na concepção pedagógica do pensador espanhol: a co-educação de classes. desequi- 165 . os quais metamorfoseiam a ciência. de autoria de José Romero e Astrogildo Pereira. A utilização do “método racional e científico das escolas racionalistas” foi explicitamente aconselhado. sabiamente invertidas pelos cientistas burgueses. Os delegados presentes reafirmaram a necessidade dos sindicatos em assumirem a educação dos adultos e das crianças. nas doutrinas positivistas e nas teorias materialistas. A preocupação era basicamente com a educação e instrução das classes operárias.verve A educação anarquista na república velha assunto a partir de duas categorias distintas mas interligadas. e monopolizam a instrução. Porém. que vinculasse a atividade manual ao trabalho intelectual. e tratando de ilustrar o operariado sobre artificiosas concepções que enlouquecem os cérebros dos que freqüentam as suas escolas. apesar da resolução aprovada. Considerando que a burguesia. segundo os convencionalismos da sociedade atual. próxima à bestialidade. para manterem o povo na mais absoluta ignorância. “Décimo Primeiro Tema: Educação e instrução das classes operárias Moção Aprovada Considerando que a instrução foi até época recente evitada pelas castas aristocráticas e pelas igrejas de todas as seitas. está mais próxima do pensamento pedagógico de Paul Robin. inspirada no misticismo. O aditivo aprovado. para melhor explorarem-no e governarem-no. A preocupação com uma educação complementar técnica e artística.

econômica e social do proletariado e da humanidade. de Santos. de Ribeirão Pires. promova a criação e vulgarização de escolas racionalistas. João Crispim e Rafael Serrano Muñoz.”14 O sistema educacional criado e mantido pelos anarcosindicalistas sofreu patrulhamento constante. da Federação Operária de Santos. etc. Paulo. Pedro Vila. tanto pela Igreja quanto pelo Estado. tomando como princípio o método racional e científico. impossibilitando a emancipação sentimental. folhetos. editando livros. do Sindicato dos Pedreiros e Serventes. Artur Conde. aliados contra o inimigo comum. além de escolas racionalistas. Astrojildo Pereira. intelectual. etc. de O Trabalho. organizando certames e excursões de propaganda instrutiva.7 2005 librando-os com os deletérios sofismas que constituem o civismo ou a religião do Estado. seja aconselhada a criação de cursos profissionais de educação técnica e artística. 166 . jornais. este Congresso aconselha aos sindicatos e às classes trabalhadoras em geral. Antonio Venosa. Considerando que esta instrução é ministrada juntamente com a educação prática de modalidades que estão em harmonia com a instrução aplicada. revistas. Jozé Romero. Considerando que esta instrução e educação causam males incalculavelmente maiores do que a mais suína ignorância e que consolidam com mais firmeza todas as escravizações. promovendo conferências e preleções.” Essa moção foi aprovada com o seguinte aditivo: “Propomos que. de S. de Bajé. do Sindicato dos Canteiros. do Sindicato Operário de Ofícios Vários. ateneus. do Sindicato dos Trabalhadores em Fábricas de Tecidos. Considerando que este ensino baseia-se no sofisma e afirma-se no misticismo e na resignação. do Rio.

Nas escolas anarquistas existia a preocupação em manter viva a memória das datas significativas para a história dos oprimidos. a revolta ou adesão não deveriam ser incutidos nos cérebros dos pequenos. O ódio de classes. o 18 de março (Comuna de Paris). o 13 de maio (Libertação dos Escravos1).verve A educação anarquista na república velha As experiências educacionais foram atingidas pela repressão policial. deveriam abrigar crianças de classes sociais diferentes. corais e grupos musicais. com praticamente todos os jornais fazendo referências às suas obras e incentivando a criação de Escolas Racionalistas. incentivada pelo clero. transformando os educandos em seres passivos. A escola era denunciada como instrumento de dominação ideológica e de disciplina da criança. obedecer e pensar de acordo com os ditames dos dominadores. recitais de poesia. As datas mais festejadas ou lembradas foram: o 1º de maio (Dia do Trabalhador). as salas de aula. Para Ferrer. inacessível para eles.16 Francesc Ferrer As idéias do catalão Francesc Ferrer i Guàrdia (18591909) ocuparam um espaço destacado na imprensa libertária internacional. Os pequenos eram desde as primeiras letras amalgamados para crer. o 13 de outubro (Fuzilamento de Ferrer).15 Os conteúdos eram também denunciados como moralistas e descompromissados com a realidade dos trabalhadores. além de terem ambos os sexos convivendo e aprendendo juntos. A educação de crianças burguesas e 167 . da ação de grupos teatrais libertários. Os libertários procuravam construir sua própria concepção de passado através de palestras. pois são sentimentos adultos que exigem um determinado conhecimento social. o 14 de julho (Tomada da Bastilha). redações publicadas nos jornais da própria escola.

em outubro de 1901. com o bispo de Barcelona chegando a afirmar que preferia ver os filhos de seus fiéis num bordel do que numa Escola Moderna. não lhe permitiram reabrir a escola pioneira. A imprensa conservadora. principalmente a clerical. O autor do atentado. Os grupos ácratas que se apropriaram da obra pedagógica de Ferrer descartavam ou davam muito pouco destaque aos aspectos considerados ranços liberais do pensador catalão. Portugal. uma bomba foi atirada contra o carro do rei espanhol Afonso XIII. em Madri. 168 . O clero reagiu com indignação.”17 Em 31 de maio de 1906. Ferrer foi preso. Ferrer fundou. a Escola Moderna tinha 147 sucursais. As aulas tiveram início com 30 alunos. foi libertado. na província de Barcelona. moveu intensa campanha contra o pedagogo. Criaram-se escolas na Espanha (Madri. Mateo Morale. a primeira Escola Moderna em Barcelona. Lausane e Amesterdam. Cadiz. Málaga. acusado de envolvimento. teriam clareza das desigualdades e se rebelariam contra elas.7 2005 proletárias deveria ser feita conjuntamente e tendo como base um ensino racional. era um ex-funcionário da Escola Moderna de Barcelona. exigindo a pena de morte. Dessa forma. Palma. Valência). 12 meninas e 18 meninos. “No ano de 1905. Granada. 1 mil alunos em 10 escolas de Barcelona e Capital. Devido à falta de provas. Ao se tornarem adultas. ricos e pobres. Porém. em junho de 1907. e a escola teve de cerrar suas portas. Sevilha. As prioridades eram a divulgação dos princípios mais combativos em favor da luta pela emancipação do proletariado e os pronunciamentos que atacassem abertamente o papel reacionário da Igreja e do Estado. um tribunal civil o absolveu e. três anos depois. Córdoba. Brasil. elas seriam capazes de descobrir juntas as injustiças sociais e desenvolveriam o sentimento de solidariedade entre elas.

o criador da Escola Moderna tornou-se um grande “mártir do pensamento livre”. o biólogo Ramón y Cajal (Prêmio Nobel). além de ensinar e recomendar em suas escolas o uso de bombas de dinamite. possuía também seções na Suíça. foi julgado por um Conselho de Guerra e condenado à morte. com sede em Paris. as forças conservadoras não desistiram e continuaram acusando Ferrer de ser instigador de vários complôs. no início de 1909. A Liga recebeu o apoio de grandes personalidades: Máximo Gorki. considerada “extensão internacional da Escola Moderna de Barcelona”. não teria muito tempo para desfrutar o retorno ao seu local de nascimento. Inglaterra. Manifestações 169 . colocou-se à testa de movimento internacional de grande envergadura e repercussão que procurou romper com os moldes conservadores que imperavam no processo ensino-aprendizagem. Acusado de liderar os acontecimentos revolucionários da “Semana Trágica de Barcelona”. Além de possuir um órgão próprio na França. a Liga Internacional para Educação Racional da Infância. em particular do movimento anarquista internacional. retornou. Após a sua morte. Alemanha. Bernard Shaw.verve A educação anarquista na república velha Livre das acusações. L’ École Renouveé. com sua família para a Espanha. o historiador do sindicalismo espanhol Anselmo Lorenzo e outros.18 Após encontrar-se com Kropotkin em Londres. Anatole France. o líder socialista Aristide Briand. No entanto. Em Bruxelas. A Catalunha logo levantou-se numa sangrenta e radical rebelião. fixando residência em Alella. Porém. em abril de 1908. passou a publicar a revista L’ École Renouvée. Scuola Laica. Bélgica. no mesmo ano. Holanda e Portugal. No dia 13 de outubro de 1909 foi fuzilado. Por sua iniciativa foi criada. e na Itália. O ato brutal do governo espanhol incentivou ainda mais a discussão de suas concepções pedagógicas.

Que importa ao homem a moral religiosa se ela não o inibe de cometer atos degradantes à natureza humana? Na moral religiosa é bom quem crê. O ideário pedagógico tinha como principais eixos a valorização da Ciência. As escolas modernas no Brasil Nas escolas criadas pelos anarquistas brasileiros nas primeiras décadas do século XX. no entanto aí estão os fatos a provarem a insanidade dessa afirmação. As propostas da Escola Moderna entravam em choque frontal com a Igreja. O Ensino Racional era baseado exclusivamente nas ciências positivas. preso às criações fantasistas sobrenaturais. assim como qualquer tentativa de imposição dogmática ou explicação metafísica. O ensino religioso. “Ele combate o preconceito religioso.7 2005 e homenagens à sua memória foram constantes nos jornais anticlericais e anarquistas. o obscurantismo aviltante da alma humana. O objetivo era a formação de pessoas instruídas. as únicas capazes de apontar em direção à liberdade e ao desenvolvimento. detentora de um grande aparato educativo. Numa conferência realizada em 1910. seria rechaçado. A crença e a educação religiosas encaminhariam o homem em direção à escravidão e levariam à estagnação da sociedade. Maurício de Medeiros apontou o combate aos preconceitos religiosos como um dos elementos da superioridade do Ensino Racionalista. e mau quem não crê.”19 170 . encontra-se de maneira marcante a influência da obra de Ferrer. da Liberdade e da Solidariedade. justas e livres de todo preconceito.

É um cadinho onde são purificados os espíritos para se tornarem livres e independentes e não sectários de mentiras e embustes. O papel do educador era de auxiliar seus alunos para que eles pudessem realizar as suas aptidões naturais. em caso contrá- 171 . “O mestre deixa de ser na Escola Moderna a autoridade ríspida. era visto como prejudicial e radicalmente refutado. de maio de 1919: “Banir dogmas é um dever que se impõe. Os ensinamentos são vindos ao acaso dos fatos. A individualidade de cada uma delas deveria sempre imperar. Ao mestre cabe. que busca moldar todas elas de acordo com os dogmas religiosos e seculares. habilmente ir preparando as oportunidades de tais ensinamentos. A valorização da criança e o respeito às suas iniciativas teve como conseqüência a necessidade de repensar o papel do professor na sala de aula. A diminuição da autoridade do professor implicava na valorização do educando. a solidariedade substituir o egoísmo.verve A educação anarquista na república velha Ou como afirmava o Boletim da Escola Moderna. O respeito às iniciativas da criança eram o pré-requisito fundamental no processo de aquisição do conhecimento. que ordena. A escola não é um templo religioso nem um centro político. ou. então. A criança por si. deduz do fato as conclusões que lhe parecerem justas. guiados por estes. para ser o companheiro carinhoso que guia.”20 O desenvolvimento da aptidão individual era o centro do processo educativo. O processo educacional tradicional. O seu fim é esse: a perfeição do indivíduo. A cooperação deveria sobrepujar sempre as tendências de competição. se a tanto chega a sua inteligência.

segundo o autor.7 2005 rio. em 1901.) Sabem o que quer dizer escola moderna? Releiam a transcrição na página 6 da circular de Ferrer. Por enquanto 172 . Minha propaganda tem por fim. quando foram feitas denúncias contra o pensador espanhol que os promotores do encontro. enfrentaram oposição cerrada da Igreja e do governo. antes que este se faça. pequenos comerciantes. No folheto “Ferrer X Mártir ou Patife”. limita-se a registrá-las. porém.. Nunca. Os ataques foram constantes durante todo o período em que as escolas existiram. Assim se evitarão os preconceitos. de Frei Pedo Sinzig. assim como as demais organizações libertárias. a um seu amigo para evitar a intervenção do governo. também incentivaram e colaboraram na manutenção das escolas.22 A imprensa católica desencadeou uma verdadeira guerra contra tais estabelecimentos. As Escolas Modernas. confesso francamente. relata-se a presença desse religioso numa reunião anarquista realizada em Petrópolis. jornalistas da imprensa operária. Por comungarem com alguns destes pontos de vista. chamo minhas escolas de modernas em vez de anarquistas. No final do opúsculo. Meu desejo é preparar a revolução. não foram capazes de responder. educar nestas escolas anarquistas convencidos.. etc. intervirá o juízo formado pelo professor desviando o julgamento da criança. o Frei Pedo vangloriava-se de ter impedido a criação de mais uma Escola Moderna: “(. intelectuais das classes médias. ‘Para não assustar a gente escreve Ferrer.”21 O tom anticlerical e cientificista presente na proposta pedagógica das Escolas Racionalistas também atraía pessoas não necessariamente ligadas às correntes anarquistas.. que aí bem explica o que pretende ensinar à infância.

fez com que os setores conservadores ampliassem sua oposição às organizações operárias e. a 12 de outubro de 1913. na nossa escola não se ensinará religião alguma. também em Petrópolis! Graças a Deus que por enquanto isso não foi feito. a imprensa paulista conserva- 173 . em outubro de 1919. em especial às lideranças libertárias. As autoridades procuravam um pretexto para justificar o endurecimento policial. no bairro do Brás em São Paulo. No primeiro número do Boletim da Escola Moderna. havia um texto de Ferrer escrito em 1907: “(.’ E esta escola moderna.verve A educação anarquista na república velha temos de contentar-nos em plantar nos cérebros da mocidade a idéia de transformação violenta. Ela deverá aprender..) Primeiro que tudo desejamos advertir o público que. acusando os conservadores de detratores e mentirosos. que contra a polícia e a tortura há um só meio: a bomba ou o veneno. no final da década de 1910. Por sua vez. em São Paulo. A explosão de uma bomba. O clero era denunciado como responsável pela difusão de valores que serviam apenas ao interesse dos dominadores. sendo a razão e a ciência antídoto de todo o dogma.”23 A imprensa libertária e anticlerical revidava os ataques. já funcionando no Rio. Na defesa dos seus privilégios. As greves e outras manifestações foram duramente combatidas. devia ser fundada.. causou a morte de quatro militantes anarquistas. Sabíamos que esta declaração provocaria o ódio da casta sacerdotal. os padres negam a ciência e a “verdadeira cultura”.”24 O recrudescimento nas manifestações operárias. O jornal libertário A Plebe apresentou a tese de que poderia tratar-se de uma provocação policial. e em Minas. publicado em 13 de outubro de 1918.

ANPUH/Marco Zero. 1995. n. Notas 1 “Mas se deixados única e exclusivamente a sua experiência. As autoridades policiais. 124/125. algumas de suas preocupações pedagógicas continuam extremamente atuais. “A Poesia Anarquista” in Sociedade & Cultura (Revista Brasileira de História). alertadas. Piracicaba. setembro de 1987/fevereiro de 1988. Mesmo depois de todos esses anos. A Voz do Trabalhador. vol. A Lanterna. 7 de junho de 1902. 174 . 25 de outubro de 1913. Porém. A Secretaria de Justiça. São Paulo. ferem de modo iniludível a organização política e social do país. p. prisões e deportações. uma vez que estão profundamente envolvidos por formas burguesas e católicas de pensar. n. habituados às explicações metafísicas da vida e das sociedades e às disciplinas impostas pelas organizações sociais autoritárias. 216. fechou as duas Escolas Modernas de São Paulo. iniciaram uma grande campanha de perseguições. os indivíduos poderão acomodar-se ou enveredar por caminhos reformistas. São Paulo. devido ao radicalismo e ousadia de suas propostas. Educação Anarquista: um paradigma para hoje. sem as explicações da ciência sobre as leis sociais e da natureza. em 1920. 8.” Yara Aun Khoury. 214.25 A repressão acabou atingindo as escolas mantidas pelos libertários. O motivo apresentado foi que as referidas escolas. merecem ser lembradas. 2 3 4 5 Silvio Gallo. 5 de março de 1915. 15. O Amigo do Povo. “visando a propagação das idéias anárquicas e a implantação do regime comunista. além de não cumprirem as exigências legais de funcionamento.7 2005 dora não perdeu a oportunidade: denunciou a existência de uma trama revolucionária e exigiu providências. 68. Editora UNIMEP. sem a luz esclarecedora da doutrina. através de um ofício assinado por Oscar Thompson. pp.”26 As Escolas Modernas funcionaram por um período relativamente curto no Brasil. n.

3. mas obliterado as suas idéias pela influência nefasta da escola. 4. Folheto: “Ferrer . 3. e defendido por soldados. ‘Educação Anarquista na República Velha: algumas idéias e iniciativas pedagógicas. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Alvorada Operária. O Despertar. n. 91. 14 15 A Voz do Trabalhador. Revista da Faculdade de Educação/ UNICAMP. ‘Gigi Damiani e Outros.’ Campinas. A Vida. nº. 1992. pp.” Adelino Pinho. Livraria Editora Ciências Humanas. 47. São Paulo. com apresentação de peças teatrais. comitês de interfábricas. 7. 7 8 9 10 11 “Autogestão: É o controle direto dos meios de produção pelos produtores autoorganizados em comitês de fábrica. O Amigo do Povo. explorando o povo. 30 de janeiro de 1904. Regina Célia Mazoni Jomini.. dos tempos idos. 1 de outubro de 1913. Significa a integração do econômico com o político. 74-75. Dios y el Estado. Pro-Posições. 1979. O Amigo do Povo.” Maurício Tragtenberg. substituindo. 1976. 3 de março de 1915 apud:. dezembro de 1990. na Poesia. suplemento. p. F. 1979. n. federação ou confederação de comitês. 16 17 “Em todas as suas 121 escolas modernas ensinava e recomendava o uso de bombas de dinamite”. Frei Pedo Sinzig O.Mártir ou Patife quatro horas entre os anarquistas. São Paulo. Rio de Janeiro. São Paulo. Reflexões sobre o Socialismo. Volume 5 (Marco Aurélio Garcia e outros . o tecnocrata administrador e o político profissional da democracia representativa. Leuenroth/Campinas.” Eduardo Maffei. 114. Madrid. no Teatro. op. mas necessários à conservação perpétua e indefinida dos governos. Regina Célia Mazoni. prelúdio da caserna”. 26 de novembro de 1904. com os regimes de castas. (. Achiamé. n. filhos do povo. “A escola. “A cada 13 de outubro havia sempre homenagem ao ferroviário Francisco Ferrer. p.) trataram de ir abrindo escolas e de preparar programas adequados não às necessidades reais da mente infantil.. compreendendo perfeitamente que com a decadência da religião e com o desenvolvimento industrial era impossível manter na ignorância suína. p. 1986. p. 5. M.” Arquivo E.. p. Edições Mundo Livre. Jucar. através do controle operário da produção e da democracia direta. 12 O Início. 13 Edgar Rodrigues. Rio de janeiro.organizadores). assim. em comemoração à data do seu fuzilamento. cit. Miguel Bakunin. Moderna. 109.’ in Temas de Ciências Sociais. p. as multidões. 03 de dezembro de 1898. Rio de Janeiro. 01/05/ 1913. O Anarquismo na Escola. 4 de setembro de 1915 apud: JOMINI. Edgar Rodrigues. 2. p.. 18 175 . 15. 48. p. “Os Estados modernos.verve A educação anarquista na república velha 6 “Que Deve Ser a Educação” in Na Barricada.

p. Edições Mundo Livre. 20. Daí resultou o empastelamento de A Plebe e a prisão dos líderes anarquistas e. Leuenroth/ Campinas. 22 “A educação criada e mantida pelos anarco-sindicalistas sofria patrulhamento constante. p. Eis quando o depósito de bombas que se estava organizando na Rua João Boemer foi. 111. Leuenroth/Campinas. 176 . Maurício de Medeiros e mandada publicar pela Associação Escola Moderna. Arquivo E. Eduardo Maffei. F. 21 O Ensino Racionalista . Rio de Janeiro. 317. Rio de Janeiro. p. Boletim da Escola Moderna. Arquivo E. 1 de maio de 1919. n. Gigi. cit. Leuenroth/Campinas. 23 24 Boletim da Escola Moderna. Rio de Janeiro.Conferência realizada em maio de 1910 pelo Dr. aliados contra o inimigo comum. entre eles. tanto pela Igreja quanto pelo Estado. que foi deportado. cit.. 20 A Instrução Racional. n. p. ano I. 22. pelos ares. Maurício de Medeiros e publicada por sugestão da Associação Escola Moderna. 13. Escola Moderna N. 1910.” Frei Pedo Sinzig O. op.. 4. 1910. p.. M.7 2005 19 O Ensino Racionalista . Alvorada Operária. op. São Paulo. “Em outubro de 1919 ele se achava metido numa conjura para tentar uma insurreição popular (quanto sonho!) em São Paulo. 01. 1.Conferência realizada em maio de 1910 pelo Dr. Arquivo E. (Damiani) . 13/10/ 1918. 25 26 Edgar Rodrigues. 1979. acidentalmente.

Os anarquistas brasileiros mantiveram contato freqüente com os seus colegas ácratas da Europa. The Brazilian anarchists maintained frequent contact with their European comrades. Keywords: Old Republic (1889-1930). education. O discurso que valorizava a educação como forma de emancipação não estava.verve A educação anarquista na república velha RESUMO Durante a República Velha (1889-1930). standing out among them the Catalan educator Ferrer.Brazilian libertarians promoted several pedagogic experiences. os libertários brasileiros promoveram várias experiências educacionais. ABSTRACT During the Old Republic . desvinculado de uma prática revolucionária. were accompanied and adapted by militants here. eram acompanhados e adaptados pelos militantes daqui. Recebido para publicação em 2 de fevereiro de 2004. Os livros e as práticas dos mais fecundos pensadores da pedagogia libertária. The books and practices of the most fertile thinkers of the libertarian pedagogy.Repúnlica Velha 1889-1930 . anarquistas brasileiros. destacando-se o educador catalão Ferrer. The teories that valued education as a tool to emancipation were never disconnected of a revolutionary practice. brazilian anarchists. em nenhum momento. Palavras-chave: República Velha (1889-1930). 177 . many of them quite innovative. muitas delas inovadoras. educação.

2005 178 . as escolas de alfabetização eram escassas. nas fábricas. * Vivendo no Rio de Janeiro desde 1951.1 No Brasil e/ou nos países europeus. sem receber ordenados. Edgar Rodrigues é um dos mais importantes arquivistas dos movimentos anarquistas no Brasil e em Portugal. nas últimas décadas do século XIX e em mais da metade do século XX. formar as bases do palácio da anarquia. verve. asiáticos e africanos “exportadores” de mão-de-obra. e para os filhos dos trabalhadores braçais. Suas análises. aprendiam ofícios à força de pescoções e outras violências físicas e psicológicas. entrevistas e compilações de documentos distribuem-se em mais de quarenta livros e cerca de mil artigos. Salvo poucas exceções. aos sete anos de idade.7 2005 os pedreiros da anarquia edgar rodrigues* Hoje meu encontro é com os carregadores das pedras que serviram para construir os alicerces. praticamente inalcançáveis! As famílias pobres (muito numerosas na época) tinham de empregar seus filhos. 7: 178-193. na construção civil e no comércio como ajudantes. nas oficinas.

depois sindicatos. foram as escolas e as Universidades do proletariado! Dir-se-ia que aprendiam simultaneamente profissões e o ler e escrever. desempregados e presos. 179 . entravam na adolescência. para socorrer companheiros doentes. o proletariado compreendeu também que seus filhos iam trabalhar na idade que deviam freqüentar as escolas (aos sete anos de idade). seguros de acidentes no trabalho e de invalidez. Depois iam assistir aos debates e palestras nas associações de classe profissionais. lugar para comer nas fábricas.verve Os pedreiros da anarquia A alfabetização dos imigrantes e trabalhadores nativos começava nos locais de trabalho. uma prática que servia para sustentar sedes quando um só sindicato não podia pagar o aluguel. profissionalizantes e de militância ideológica. espancamento de menores e até de mulheres. das mulheres operárias poder ter seus filhos em casa e dispor de alguns dias para amamentá-los. ouvindo seus companheiros. tornando-se ainda veículos de ajuda mútua. passavam a juventude e a fase adulta como seus pais. em voz alta na hora do almoço. e fazer refeições. opúsculos e até livros de idéias avançadas. luta de classes e anarquismo. E ainda sindicalismo. de solidariedade. Seus redutos de resistência (sindicatos). Entre as reivindicações dos assalariados estavam a redução da jornada de trabalho de 14. o fim do carrancismo patronal. quando o ambiente permitia. No Brasil. mais preparados e experientes. ler jornais sindicalistas e anarquistas.2 Aos poucos. para custear publicações de boletins. 12 e 10 para 8 horas diárias. e os mais aplicados participavam de cursos de alfabetização. melhorias salariais. jornais. eram também escolas profissionais. as associações operárias.

nas cabeças dos imigrantes. o propósito era alfabetizar operários (pais e filhos) e. gerados nas incubadoras das Igrejas e do Estado! No 1° Congresso da velha A. logo mais. 1868. nos subúrbios do Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro. também. inclusive com ajuda da Arte de Talma. 1869 e 1872. realizado de 3 a 6 de Setembro de 1866. 180 . foram implantadas Universidades Populares e ministrados cursos profissionalizantes.T (Associação Internacional dos Trabalhadores). anti-clericalismo. que só não é boa para todos os seus habitantes. os trabalhadores imigrantes formaram escolas racionalistas no Rio Grande do Sul.I. os congressistas discutiram métodos racionalistas de ensino e educação que deviam ser postos em prática pelos trabalhadores e outros que o desejassem. Inicialmente. Seguindo os exemplos de seus companheiros europeus. em Genebra (Suíça). e em São Paulo. despertando a imaginação de muitos que não queriam ter deveres sem direitos e agitou esse entendimento nas associações operárias e nos locais de trabalho. desenvolvida nos teatros operários. em São Paulo e em outras localidades do Brasil. em 1915.7 2005 No Brasil. em 1904. porque existem políticos. Chegou ao Brasil. abriu novos horizontes ao produtor de riquezas. sociológicos. sindicalismo. capacitá-los intelectualmente. E não obstante a demora. proporcionar-lhes conhecimentos gerais. a questão social era tão implacável com os assalariados quanto nos países de onde tinham vindo os imigrantes para desbravar e produzir a riqueza que faz deste país uma grande nação. sociologia. O eco do novo ensino e da escola nova atingiu o proletariado na Europa. e nos subseqüentes de 1867.

o que é demonstrável. “A Liga Operária de Campinas tomou uma iniciativa bem digna de simpatia. a observação direta. Exemplificamos na seqüência com os pedreiros da anarquia. ao olhar do que ao ouvido. a todas as afirmações impostas pela autoridade do pedante. implantando uma Escola Livre. 181 . O que é verificável pelo próprio aluno. onde elas se sintam bem. onde o ensino lhes seja oferecido como uma diversão. o que ela por si mesma descobrir ou desenvolver — isso será preferido a todas as divagações metafísicas ou filosóficas. procurando baseá-lo o mais possível nos modernos princípios pedagógicos. falando-lhe mais às suas faculdades e sentimentos. claro. A experiência. que não pode senão favorecer a preguiça intelectual. dedicando-se mais à inteligência do que à memória. mas irá buscar a lição de coisas. a aquisição de um prédio para o funcionamento da escola infantil que ora está em prédio impróprio e acanhado. mas um lugar de prazer e recreio. a recreação instrutiva serão muito mais favorecidos pelo professor que compreende a sua missão. a natureza vivida e provocada. esforçando-se em desenvolver harmônica e integralmente os seus órgãos.verve Os pedreiros da anarquia envolvendo a emancipação social e a autogestão. em tempos idos conhecida como ajuda mútua. não será política. do que as longas e fatigantes preleções e as recitações fastidiosas e sem sentido. no ano de 1908. procurando aproveitar a sua natureza irrequieta e alegre. residentes em Campinas. lógico para a criança. A escola não deve ser um lugar de tortura psíquica ou moral para as crianças. apoiada no documento (raríssimo) que se reproduz. não será dogmática. E por isso a escola não será religiosa nem anti-religiosa.

esforçando-nos pela realização desse melhoramento. o lançamento de um empréstimo operário.A mãe do acionista. que desaparecerá com a medida que acabamos de tomar.200. Art. II – Estas ações receberão 3% anualmente de dividendos. que até o presente não foi tratado com o devido carinho.000 ações. I – Fica criada entre os sócios da Liga Operária de Campinas e outras pessoas que queiram coadjuvar esta associação e sua escola. os motivos de agradável estudo para as inteligências que desabrocham e da larga e salutar expansão para os organismos tenros. § 2° .Os filhos do acionista. gozar todas as regalias delas: § 1° . Regulamento: Art. enquanto assim se conservar. IV – As ações serão intransferíveis. (R$100.A viúva do acionista. tal o intuito que anima e inspira nossos atos. Art. podendo porém. ao raciocínio espontâneo e fácil. 182 . sendo sorteadas quando houver fundos. contribuirá com R$ 1. se for viúva. no valor de R$ 5. Tal é o plano. uma emissão de 2. Art. a Liga. em caso de morte do acionista. III – Para garantia dos resgates e dividendos. para o qual esperamos o vosso apoio e ajuda trabalhadores. enquanto assim se conservar. § 3° .000 por mês) pelo que se abriga Das Ações.000 cada uma.000 anualmente e título de aluguel do prédio.7 2005 ao vasto campo das ciências exatas. pela falta de fundos.

relativas ao que diga respeito a negócios das ações.Em qualquer dos casos dos § antecedentes.Os acionistas externos não têm o direito de serem votados.verve Os pedreiros da anarquia § 4° . V – O fundo de reserva constituir-se-á pela forma seguinte: a) Pelo que se refere o artigo III. bem como os possuidores de ações legalmente constituídos. do Conselho Administrativo. IV. Art. votá-las. § 3° .Os acionistas. com ofertas de ações ou dividendos destas. c) Pelas ações e dividendos prescritos de acordo com o artigo VI. na falta destes. b) Requisitarem. o herdeiro ou herdeiros estão sempre sujeitos ao expresso no Art. VII – Todos os acionistas estão em pleno gozo de seus direitos e fazem jus: § 1° . permissão para examinarem os livros da escri- 183 . podendo propor medidas. Direitos e Regalias dos Acionistas. que nada tenham a ver com a questão da Liga. Art. Do Fundo de Reserva. por escrito. VI – Serão considerados prescritos os dividendos e ações que não forem reclamadas dois anos depois dos respectivos sorteios. membros da Liga pelo que regem os Estatutos sociais. § 2° . Art. a não ser para comissões especiais.Assistem-lhes os direitos de: a) Participar das assembléias gerais. b) Pelas importâncias que os acionistas quiseram doar à escola ou à sociedade.

Dos Diretores. fica aceitando. devendo cada portador deixar no canhoto respectivo sua assinatura ou autorização. convocando-as.Livros ou quaisquer outros impressos auxiliares. § 3° . com as ações impressas. Art. Art. encimado com este regulamento. IX . descriminando neste livro o número das ações de cada um. Disposições Gerais. X – Todo o acionista. bem como o desempenho de expedientes e execuções de tudo ao que se refere 184 . que assinar no canhoto do Talão das ações ou no livro especial. IX § 1°). IX e seus §. à ordem do Conselho. Art. em número nunca inferior a 30 acionistas. na sede social e em presença do Tesoureiro ouvir as devidas explicações. Da Escrituração. (Art. Art. para todos os seus efeitos.Talões numerados e rubricados pelo Contador e Tesoureiro. d) Proporem o que julgarem de vantagem nas assembléias gerais. § 2° . com as obrigações que já lhes são impostas nos Estatutos Sociais.Um livro especial de registro de assinatura dos acionistas. c) Fazerem qualquer reclamação ou representação ao Conselho Administrativo. XI – A escrituração especial de quantias e quaisquer valores.Os negócios das ações serão regidos pelos mesmos conselheiros eleitos da Liga Operária.7 2005 tura especial dos negócios das ações. porém. este Regulamento. fica a cargo de pessoa competente de conformidade com o Art. VIII .Haverá para os casos especiais desse regulamento: § 1° .

Vittorio Maggalira. Sala de Conselho Administrativo da Liga Operária de Campinas. em 22 de Agosto de 1908.verve Os pedreiros da anarquia este Regulamento ou for determinado por Assembléia Geral. Art. o Possuidor ou acionista tem direito a um único voto. José Piovesan. Carmine D. proliferou com maior ou menor intensidade em parte do território brasileiro. cultural. e humana do proletariado. tornando suportável a mão-de-obra nas fábricas. fixaram-nas “argamassadas” com “anarquismo” uma sobre as outras simetricamente e a obra ganhou forma. Por força de uma educação libertária e de um aprendizado ideológico. muitas vezes dificultada pelas autoridades que desejavam um trabalhador ignorante. XIV – Revogam-se as disposições em contrário. Art. Como pensavam grande esses trabalhadores braçais! Se tivessem sido escutados hoje não estaríamos cer- 185 . José Fonseca. A Comissão: Max Stephan.” Estes e outros pedreiros da anarquia projetaram. XII – Seja qual for o número das ações ao portador. Joaquim Ribeiro. Art. O Secretário. o trabalhador realizou uma gigantesca obra. carregaram as pedras. Ramón Durán. pelos governantes dispostos a impedir a emancipação social. nas oficinas. O Relator. Abruzzi. periodicamente. obrigando os poderosos e os políticos a alterar leis primitivas. e a questão social entrou nos romances. submisso!!! Foi uma penosa edificação interrompida. XIII – Em assembléia geral é permitido o voto por procuração legal.

inicialmente em Vila Isabel e depois em Olaria. Artur Modesto. todos operários sapateiros. centenas de pedreiros da anarquia nascidos na Europa. Ricardo Cipolla. as casas de muralhas e janelas com grades como cadeias. falavam como Tribunos. semanários e periódicos. Outros escreveram poesias. José Sarmento Marques (responsável pelo jornal anarquista O Despertar. Antônio Corrêa. Manuel Joaquim de Sousa. lendo a imprensa operária. na primeira década do século XX). 1917. da Escola Livre 1° de Maio. em São Paulo. favelas. falando aos que sabiam menos e/ou tinham receio de demonstrar o que haviam aprendido na escola da oficina. nos Grupos de Teatro Libertário e/ou estudando em Escolas Livres. Redigiram peças para o teatro. Conheci e soube de Pedro Catalo. Marques da Costa (orador dos maiores que andou 186 . 1898). Muitos destes pedreiros da anarquia. violência.7 2005 cados de pobreza. defenderam teses de muito valor cultural e libertárias em congressos. ácrata e exercitando seus conhecimentos intelectuais. Rio de Janeiro. Carlo Aldegheri. opúsculos. Jaime Cubero. Dezenas. foram excelentes atores/amadores. exercendo ofícios vários. Pedro Matera (fundador do jornal Liberdade. Serafim Cardoso Lucena (tinha escola livre e abastada biblioteca em casa). Antonio Orellana (livreiro do anarquismo. Antonio Dominguez. Porto Alegre).. Daniel Conde (diretor de A Luta. na Universidade da vida. década de 20). Afonso Festa (expulso em 1919). dos Centros de Cultura Social. Rio de Janeiro.. Foram diretores e escreviam em diários. Lembro e conheci operários marceneiros e carpinteiros: J. na América e no Brasil aprenderam quase tudo que sabiam nas sedes dos sindicatos. Manuel Silva Campos. João Peres Boucas. livros (caso de Pedro Catalo e Manuel Joaquim de Sousa). defendiam idéias na imprensa anarquista e sindicalista. drogas.

Roberto das Neves e outros. 119. Expulso do Brasil em 1919. E fundaram a União dos Operários em Construção Civil. em 1917. de Batista Machado. Amanhã. voltou ao Rio de Janeiro e. Salvo por adido comercial brasileiro. com Oiticica. Encenaram peças como Gaspar. de Manuel La- 187 . Joaquim Moreira da Silva. Foi diretor/fundador da revista Renovação (1922-1923) do jornal O Trabalho. primeiro num quarto. Domingos Passos (O Bakunin brasileiro. José Martins (autor de monumental obra histórica em dois volumes: História das Riquezas do Clero Católico e Protestante). muitos políticos e autoridades. As marcas destes pedreiros aparece na imprensa operária. educando e preparando anarquistas e atores. A Vanguarda e outros). José Oliva (o faz tudo em “Nossa Chácara”/Nosso Sítio). por falar no 1° de maio. Ficava na rua Camari. poeta popular. Aqui trabalhou como jornalista contratado nos diários A Pátria. em casa de família na rua Senador Eusébio. Rio de Janeiro.verve Os pedreiros da anarquia por Manaus. ajudou a fundar Ação Direta: escrevia e falava muito bem (deixou um livro de memórias inédito comigo). O Serralheiro. na Praça Mauá. em 1946. Victorino e Luciano Trigo. um dos mais ativos anarquistas e das maiores vitimas das autoridades brasileiras). e depois num prédio com espaço para escola e grupo de teatro social. esteve refugiado em Lisboa. Perez foi para a Espanha. Manuel Perez Fernandez (diretor do porta-voz do marceneiros cariocas). Pará e foi expulso do Rio de Janeiro em 1925. sem ordem da Policia Carioca). na França. na anarquista e/ou em atividades de educação racionalista e ainda incomodaram intelectuais. cuja obra foi transformada em tese antológica com cerca de 600 páginas. voltou a Espanha e foi condenado à morte nos anos 1937-1939.

com Cecílio Vilar e outros). José Augusto de Castro). Ainda na construção civil. João Perdigão Gutierrez fundador do jornal Dor Humana). autor do volume O Proletariado Militante). Francisco Fernandes. autor da obra Contra Perpetuidade do Erro e da Mentira. de Kropotkin.B. Albino Soares. Antônio Alves Pereira (diretor de A Aurora. Polidoro Santos (publicou a revista Renovação.7 2005 ranjeiras. 1917): Carlos Dias (primeiro Diretor do diário Voz do Povo. 1958). Antônio Teixeira de Araújo e deze- 188 . e Antônio Julião (o cérebro da greve pelas 8 horas diárias em Santos) e quantos mais que deflagaram e orientaram greves. tradutor de O Estado e seu Papel Histórico. Alexandre Belo (fundador de Ação Sindical. Pascula Gravina. soube de Eládio César Antunha. dando inigualável colaboração ao teatro anarquista (Pascula Gravina. poesias revolucionárias.O. participaram de congressos anarquistas. Os operários gráficos também escreveram livros. foram diretores de jornais e publicaram obras. Rio de Janeiro. 1908. dentre outras). Augusto Godinho. Clemente Vieira dos Santos. José Salgueiro. operários e pacifistas (contra a guerra. no Rio de Janeiro. Luis Saturino. escreviam (e alguns dirigiam periódicos e distribuíam-nos nos locais de trabalho. José Augusto de Castro. 1905). Manuel Lopes. Manuel Correia. Rodozinho Colmenero (diretor de A Voz Humana). como Cartilha Libertária). São Paulo. Fernando Neves. Manuel Marques Bastos. Armindo Sarrilho. Venâncio Pastorini (autor de opúsculos. Manuel Moscoso (diretor/fundador de A Liberdade e redator do Órgão da C. conheci Diamantino Augusto. distribuíram manifestos. Manuel Marques Bastos. discursavam em comícios na praça pública. A Voz do Trabalhador. entre outras que sacudiam as teias de aranha dos “Casacas Velhas” do jornalismo e dos intelectuais e irritou a burguesia e as autoridades.

aprendeu sem mestre. foi um dos redatores de A Terra Livre. A Lanterna e. português. centenas de operários ilustres. esteve em Lisboa. Podem-se juntar ainda outros pedreiros da anarquia. de A Batalha: escrevia e falava bem). colaram nas paredes. Diego Gimenez. Conheci e soube de operários barbeiros.3 Soube ainda de militantes pintores como Gigi Damiani (autor de peças de teatro anarquista.G. foram presos. espancados e alguns expulsos. jornalistas atores. gráficos. Rodolfo Felipe (dirigiu A Plebe muitos anos). João Navarro. Alexandre Zanella. Veio da Ucrânia. F. fundador/diretor da revista A Sementeira. inclusive da Revista Blanca. Aquilino Massena. Adalberto Viana (bom poeta libertário). Amílcar dos Santos. os ex-camponeses Maria Valverde. Atílio Pessagno. José Romero (expulso para a Espanha em 1919. e empregados do comércio: Adelino Tavares de Pinho4. Cecílio Dias Lopes. de mão em mão. duas fases). oradores. Damiani. em Erebango. Sousa Passos (autor de vários opúsculos e deixou uma excelente obra inédita. retornando clandestinamente para o Rio de Janeiro. Aldigo Agostani. Antônio Duarte Candeias5. Emilio Tesoro e Vicente de Caria. que deu de presente. Felipe e Romero foram dos melhores jornalistas operários que o movimento anarquista já teve. conheceu o anarquismo. espanhol e esperanto. distribuidores de imprensa pelo correio. como Hilário Marques (caldeiro.verve Os pedreiros da anarquia nas. contribuintes. jornalistas e carregadores de pedras para edificar o palácio da anarquia!!! Foram ao mesmo tempo escritores. Conheci e visitei o camponês Elias Iltchenco. Rio Grande do Sul. Zacarias de Lima. expulso para a Itália em 1919). em Lisboa. José 189 . Gumercindo Alvarez. Daniel Montalvão. um grande colecionador de obras. O Sentido Artístico do Anarquismo).

espanhol e do alemão). diretor de O Protesto. Alarm. A maioria desses pedreiros da anarquia estudou nos sindicatos e nos Centros de Cultura Social e aprenderam (sabiam) que Revolução é antes de tudo uma idéia. Maria Rodrigues. Virgilio Dall’Oca (taxista). Rio Grande do Sul. e só o conheciam como “El Paragüero”. amolador de tesouras e facas. um sentimento. e deixou textos para o volume Memórias de um Imigrante Anarquista. Nos últimos anos de vida muitos intelectuais iam à casa de Rafael. Conheci. tradutor do francês. acusados de subversão e só lutavam pela liberdade. Aníbal Dantas (correeiro). 190 .7 2005 Rodrigues Reboredo (confeiteiro. em alemão e. e centenas e centenas de operários e operárias. é trabalho e bem-estar social distribuído eqüitativamente por todos. Nascido na Espanha veio menino para o Brasil. Isidoro Augusto (marmorista). e o mineiro Valentim Adolfo João. João Castanheira. Rafael Fernandez. Der Freie Arbeiter. Antônio José do Amaral (cocheiro). Alfredo Vasquez (alfaiate). também convivi com Margarida Barros. Balezário Pereira (carvoeiro). em Porto Alegre. pessoalmente. por cada um. diretor de Aktíon. pela Anarquia!!! Estivadores como Manuel Campos. ouvi-lo falar. costureiras. e soube de Teresa Nandes. Virginia Dantas. em português. de O Sindicalismo. e algum tempo de A Plebe. o vidreiro Belmiro da Silva Jacintho. na imprensa operária e no noticiário policial. Frederico Kniested (vassoureiro. José Reis Segueira (corticeiro). pescadores João Franco e Jaime Rebelo. Ajudou a fazer A Luta (2° fase) e vendeu jornais. 157 páginas. Júlio Gonçalves Pereira. Elvira Boni. Joana Buelo (têxteis). Muitos nomes encontrei nas atas. uma vontade cultural e sociológica.

participar. profissional e emocionalmente. Que Revolução começa em cada cérebro humano! Nos cinco volumes Os companheiros6 evocamos 582 militantes (não consegui os nomes de todos os colaboradores) e destes menos de 2% eram intelectuais.verve Os pedreiros da anarquia Que Revolução principia nos cérebros. evolui sempre até tornar o trabalho agradável para todos. para incorporar esforços e capacidades. de manifestos. pedreiros da anarquia têm a sua História escrita com. à sua imagem e semelhança. estes artífices raramente são notados pelos que escrevem hoje revistas e livros. opúsculos. caracteres bem formados. no entanto. suor. ao mesmo tempo em que demonstra que o anarquismo não é estático. teses defendidas em Congressos 191 . E. sangue e fome! Deixaramna registrada em centenas de jornais. cidadãos tolerantes que aceitem seus companheiros como são e não como queriam que fossem. com o mesmo carinho e seriedade como que cultiva a vida. todos deram a sua colaboração ao anarquismo embasados nas idéias sindicalistas e libertárias. evolui livremente fundamentada numa filosofia de vida generosa e positiva. Que Revolução consciente fomenta e desperta a grandeza de sentimentos. que concebe e prepara personalidades. a solidariedade entre as pessoas. Ainda assim. dar e receber. lágrimas. menos desgastante até à perfeição. à Humanidade. baseada em sentimentos de solidariedade e ações que equilibram atitudes e movimento. em atas. “demonstrando erudição acadêmica”. de variadas profissões e ofícios. capazes de produzir. referenciados nos cinco volumes e neste texto. entre povos. cada vez mais produtivo. Dos mais de 98% de trabalhadores braçais. cultiva todos os dias o Amor ao próximo. na harmonia que “funde” a natureza e o homem.

os nomes de Anarquia. São Paulo. de Kropotkin. 6 O 1° e 2° volumes foram editados no Rio de Janeiro por Editores Associados. sempre de portas abertas para entrar e sair quem quisesse”. 1919. ainda voltarei ao tema!). Depois foi dar aulas de ensino livre no interior de São Paulo. em vigor nos anos 20/30. Germinal e Espartaco de Caria. Liberdade. Segundo este produtivo escritor e militante. pois quase sempre originavam aumentos de custo de vida e eternizavam a pobreza. tornou-se um defensor do que chamava “O palácio da Anarquia. companheira de João P. 2 3 Italiano. centenas de pedreiros da anarquia sem a nossa homenagem e nosso “protesto”. Os anarquistas não viam com bons olhos as greves por aumentos salariais. Antônio Duarte Candeias usou o pseudônimo de Hélio Negro. 1994. após ler Palavras de um Revoltado. e o trabalho em autogestão: o fim do Estado que seria também o fim do capitalismo. Notas 1 Esta denominação tomei-a “emprestada” do médico e anarquista Fábio Luz. Deixar apagar pelo tempo e pelo silêncio dos que escrevem hoje os construtores do palácio da anarquia é negar a igualdade do anarquismo. Gutierrez.7 2005 Libertários. Conheci Anarquia de Caria. 1997. Santa Catarina. Viveu dando aulas até ter fechada sua escola em 1919. plantava cebolas em Sorocaba. Progresso. e o 3°. 5 Autor com Edgar Leuenroth do livro O que é Maximalismo ou Bolchevismo. (Como ficaram dezenas. patronato. Aurora. Os anarquistas advogavam o fim do salariado. 192 . 4 Autor de vários opúsculos como Quem não trabalha não come e fundador/professor da Escola Moderna 2. alguns nas praças públicas e/ou nas portas das fábricas. Círio. 4° e 5° pela Editora Insular. anarquista. Em certa medida acabaram com a ortodoxia política em locais de trabalho. Harmonia. deu aos seus filhos/filhas.

verve Os pedreiros da anarquia RESUMO Anarquismos são desenhados tecendo vidas de anarquistas que inventaram soluções libertárias no Brasil. Brasil. Brazil. in Campinas. The Pedreiros da Anarquia (The bricklayers of anarchy). Keywords: Anarchy. in the early XXth century. aparecem no interior de uma série de trabalhadores libertários que interromperam a continuidade da submissão. Education. no começo do século XX. inventing new custom and new ways of education. Palavras-chave: Anarquia. inventando novos costumes e novas formas de educação. Educação. are inside a great amount of libertarian workers who refused the submission. 193 . ABSTRACT Anarchisms are developed by the lives of anarchists that created libertarian solutions in Brazil. de Campinas. Os Pedreiros da Anarquia. Recebido para publicação em 17 de novembro de 2004.

Paris. Réfractions. aprendeu a deixar um espaço de gueto para a divergência e a marginalidade. aberta às contradições e paradoxos. participou de diversas publicações e atualmente edita Réfractions. massacrada pela chapa de chumbo de um pensamento politicamente correto. 2001. 6: 194-207. “Anarchie et anarchisme”. 7. a anarquia exala um pouco menos a enxofre que antes e. é psicanalista. e a heresia subversão.7 2005 anarquia e anarquismo eduardo colombo* Nossa época. e mesmo de bom tom nos salões e na imprensa. Assim. as definições dos dicionários são interessantes por deixarem transparecer a persistência do pano de fundo semântico no qual a anarquia é incompatível com a ordem social estabelecida. verve. edulcorada sob o qualificativo de “libertária”. No entanto. desde que não se ultrapasse um certo umbral para além do qual as idéias tornam-se ação. desde os anos 1970. no. principalmente quando desliza em direção à direita e é acoplada ao adjetivo “liberal”. 2004 194 . foi professor da Universidad de la Plata y Buenos Aires. Radicado em Paris. saiu dos bas-fonds proletários para tornar-se uma palavra leve. onde editou La Protesta. * Anarquista argentino.

“Anarquista: promotor de anarquia. e cita: “Como o homem busca a justiça na igualdade. e a Enciclopédia de 1751: “Anarquia é uma desordem num Estado. em sua 11ª edição de 1910. perturbador”. sem subordinação e sem polícia”. de an-arquia. Proudhon deu o nome. e substitui completamente o regime feudal. de Pierre Larousse (1866). edição de 1885. Sob esse nome.verve Anarquia e anarquismo Textos antigos como o Dicionário da Academia Francesa. de 1694. autoridade”. lhe valeu o reconhecimento de Pierre-Joseph Proudhon: “O sr. Contudo. O Littré. sem chefe ou qualquer tipo de governo” . em substituição àquela de autoridade. o célebre pensador apresenta uma organização da sociedade onde a política encontra-se absorvida na economia social. governamental. estendendo-se a todos os fatos sociais e produzindo todas as suas conseqüências. entre as definições habituais da anarquia. expressão da justiça distributiva. militar.”1 Isto não o impede de colocar como antônimos de anarquia: “ordem. o Grande Dicionário Universal do século XIX. em conseqüência. desordem e confusão”. poder político. e o governo na administração. É preciso esclarecer que a anarquia proudhoniana não tem nada em comum com aquela da qual falamos acima. diga-se de passagem. A palavra “anarquismo” não figura no Littré. a uma teoria social que se baseia na idéia de contrato. estabelecem: “Anarquia: estado desregrado. e onde conseqüentemente o povo se conduz como quer. a sociedade busca a ordem na anarquia (Proudhon)”. e consiste no fato de que ninguém tem suficiente autoridade para comandar e fazer com que as leis sejam respeitadas. E Larousse faz a seguir o seguinte comentário que. aparentemente paradoxal. diz: “Anarquia: ausência de governo e. onde a justiça comutativa. realiza a ordem pela própria liberdade. A Encyclopaedia Britannica dá. paz ou tranquilidade pública” e não “ Estado. a palavra a Kropotkin para explicar o verbete 195 . reconhece um outro tom.

as idéias que o sustentam permanecem sem poder. Assim. nomoi. regras. ele próprio criar sua vida”. organizando-se de baixo para cima. encontramos a mesma definição tradicional “Anarquia: polit. mas com a palavra “anarquismo” chegamos a uma formulação quase correta: “Concepção política que tende a suprimir o Estado. Evidentemente. fora de qualquer tutela oficial. Mas eles também ressaltam que o Estado foi e continua a ser o principal instrumento que permite a alguns monopolizar a terra e aos capitalistas apropriarem-se de uma parte completamente desproporcional da mais-valia acumulada no ano da produção. relação que o anarquismo precisamente nega. livro que acompanha o nascimento do movimento no interior da vertente anti-autoritária da Primeira Internacional: “Pensamos que o povo não poderá ser feliz e livre senão quando. o anarquismo busca a anarquia.” Entretanto.”. a eliminar da sociedade qualquer poder dispondo de um direito de coerção sobre o indivíduo. por meio de associações autônomas e inteiramente livres. como o Estado encontra-se sempre presente. a anarquia. sociedade política. é a mais alta expressão da ordem. mas de forma alguma fora de influências diversas e livres numa igual medida de individualidades e partidos. Ele afirmara no pa- 196 . Bakunin escreveu em Estatismo e Anarquia2.7 2005 anarquismo: “ Nome dado a um princípio ou a uma teoria da vida e da conduta segundo os quais a sociedade é concebida sem governo”. é a desordem em conseqüência da carência de um poder estatal de coerção. “Os anarquistas consideram — diz ele — o sistema salarial e a produção capitalista como um obstáculo ao progresso. sem Estado. No Petit Robert de 1970. definição eminentemente ideológica que estabelece uma relação de causalidade entre a ausência de governo e desordem. afirmando que uma sociedade sem poder político institucionalizado. Desordem resultante de uma ausência ou carência de autoridade”.

os anarquistas de hoje. com o vigor da experiência do movimento anarquista. e sabemos que esta exerce o mesmo efeito perverso tanto sobre aqueles que dela são investidos quanto sobre aqueles que devem a ela se submeter. os outros. os primeiros tornam-se déspotas ambiciosos e ávidos. A liberdade anarquista. passaram-se mais de cento e vinte anos e. e é por isso que são chamados anarquistas. qualquer forma instituída de poder político (ou de dominação). como um caminho para as gerações vindouras.” E conclui: “São essas as convicções dos revolucionários-socialistas. enquanto princípio positivo de organização política da sociedade.” Desde o congresso de Saint-Imier e esse escrito de Bakunin. inimigos de qualquer autoridade. Diremos. “nós nos declaramos inimigos de todo poder de Estado. inimigos do sistema estatal em geral. escravos. então. negação constitutiva do conceito de anarquia que atrai o acordo geral de todos 197 . nós. qualquer governo. conseqüentemente. e da violenta repressão que eles lhe opuseram. orgulhosos da vivacidade de nossas idéias. Portanto. Sob sua ação deletéria. exploradores da sociedade visando lucro pessoal ou de casta. é a outra face da negação do princípio de autoridade. de fato. do medo que ele sempre suscitou nos proprietários e donos deste mundo. regime do qual é banida qualquer forma institucionalizada de coerção e. colocado por sua natureza e posição fora ou acima do povo. Não protestamos contra esse epíteto. que a anarquia designa um regime social baseado na liberdade individual e coletiva. de sua sorte muitas vezes trágica. deve necessariamente esforçar-se para submeter este último a regras e a objetivos que lhe são exteriores”.verve Anarquia e anarquismo rágrafo precedente que: “Qualquer poder de Estado. de todo governo. pois somos. podemos continuar a afirmar a anarquia como uma proposta para o futuro. de seus avatares.

Todo progresso começa por uma abolição.7 2005 aqueles que se reconhecem no anarquismo em todas as suas variantes. O outro é que. a vontade de inovação. Assim. um é a ruptura radical com a continuidade sócio-histórica do princípio do comando-obediência constitutivo de qualquer poder instituído. apenas a negação escapa desse determinismo da ação acabada e torna-se a força criadora.”4 Segue-se a crítica sem concessões ao contrato social dos liberais. toda reforma se apóia na denúncia de um abuso. Os “doutrinários liberais” afirmam que a liberdade individual é anterior à sociedade política e que cada indivíduo aliena-se no “pacto social”. A partir 198 . a liberdade é uma criação social historicamente determinada. é a condição prévia da afirmação. Para os anarquistas. Proudhon escreve: “A negação em filosofia. do individualismo ao comunismo (deixaremos aqui de lado este monstro híbrido e contra-natureza chamado anarquismo de direita). ao contrário. para os anarquistas. toda nova idéia repousa sobre a insuficiência demonstrada da antiga. na qual a igualdade é sua condição necessária. serve para legitimar a existência do Estado. em história. como aliás a dominação.” Da negação do governo surge a idéia positiva “que deve conduzir a civilização a sua nova forma”. antes da sociedade política.3 Dito com as palavras de Bakunin: “A vontade — ou a paixão — de destruir é ao mesmo tempo uma vontade criadora. de qualquer “Estado” (paradigma tradicional da dominação justa). em teologia. em política. A idéia liberal que pressupõe os homens como “todos naturalmente livres. tanto na linha lockeana quanto rousseauniana. Se falamos de liberdade anarquista é porque dois elementos dão sua especificidade a essa liberdade própria a uma sociedade anarquista. na ficção de uma unidade coletiva abstrata depositária da soberania. a liberdade advém na história. a liberdade não pode ser separada de uma sinergia dos valores. iguais e independentes”5.

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de um pacto ou contrato primitivo teorizado como um ato de fundação do poder político “que supõe ao menos por uma vez a unanimidade”, os liberais justificam o dever de obedecer àqueles que comandam e de aceitar as leis impostas pelos diferentes regimes. “De fato, se não houvesse qualquer convenção anterior onde estaria”6 a obrigação de submeter-se ao Governo ou de obedecer à lei? De onde viria o direito de coagir do Estado? “O homem só chega com muita dificuldade à consciência de sua humanidade e à realização de sua liberdade.” É no interior da sociedade, com os outros seres humanos, que a idéia de liberdade aparece e se desenvolve como um valor a ser conquistado. A liberdade é “a grande meta, o fim supremo da história.”7 Dessa proposição decorre que, sendo a liberdade uma criação sócio-histórica, ela é a obra do coletivo humano. Nem nada, nem ninguém, nem deuses nem a natureza, dão ao homem sua liberdade. Ele se dá a si próprio, ele institui seu nomos, sua regra, sua “lei”. A anarquia estabelece, de início, um corte radical com qualquer heteronomia. A anarquia é, portanto, a figura de um espaço político não hierárquico organizado para e pela autonomia do sujeito da ação (a autonomia do sujeito humano, sujeito construído como forma individual ou coletiva). A construção desse espaço público, e das instituições que o tornarão possível, é uma tarefa sempre inacabada. Mesmo na sociedade mais aberta e mais livre que se possa conceber, o anarquista será um transgressor da norma; contra aquilo que é, ele estará ao lado daquilo que, ainda não sendo, tem a possibilidade de advir. “Tudo está na história, no social-histórico, mas o anarquismo não é historicista”.8 Errico Malatesta escreveu: “Não se trata de fazer a anarquia hoje, ou em dez séculos, mas de avançar na

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direção da anarquia hoje, amanhã, sempre.” Ele pensava que a anarquia somente seria possível se o homens a desejassem e se colocassem em ação uma vontade revolucionária. “A existência de uma vontade capaz de produzir efeitos novos, independentes das leis mecânicas da natureza, é um pressuposto necessário para aqueles que sustentam que é possível reformar a sociedade.”9 E para ir na direção de um “estado de sociedade sem governo, sem poder, sem autoridade constituída”10 é preciso, então, pensá-lo e querê-lo. Assim concebida, a anarquia inscreve-se na longa duração da História, ela se identifica com o espírito de revolta e com o desejo de liberdade, mas acrescenta um conteúdo conceitual, uma imagem de sociedade que lhe é própria. Com um certo anacronismo, autores diversos pensaram ver no passado longínquo o sopro da anarquia: mesmo Max Nettlau, o Heródoto da anarquia como é chamado por Rudolph Rocker, vai buscar na Antiguidade a “lembrança de revoltas e até de lutas, que nunca atingiram seus fins, levadas a cabo por alguns rebeldes contra mais poderosos” e, segundo o mito dos Titãs ou de Prometeu, passando pelos heréticos contra os dogmas do papado romano, os Irmãos do livre espírito, os discípulos de Huss, os libertinos, os mártires como Servet ou Bruno, a Abadia de Telemo, os furiosos, Babeuf e Maréchal, até a Enquiry concerning Political Justice de Godwin, ele irá encontrar aí os precursores desses anarquistas que talvez um dia darão fim à “longa noite da era autoritária”. Todas essas lutas, esses esforços, esses sofrimentos, as aspirações desses vencidos muitas vezes mergulhados em sangue, são momentos formidáveis no caminho da liberdade; eles abriram o caminho para o anarquismo, mas ainda não fazem parte da idéia da anarquia. O trono desmorona e o altar treme, a república substitui a monarquia de direito divino, mas a luta contra a au-

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toridade instalada não significa em si a negação de toda autoridade, nem se alinha necessariamente com a imagem de uma sociedade sem coerção. Como diz Claude Harmel, em sua Histoire de l’anarchie: “Se incluíssemos na linhagem anarquista todos aqueles que se revoltaram contra o poder, contra a idéia de poder, a história da anarquia se confundiria com a história dos homens: ela seria o avesso da história universal.” Imaginar a anarquia como a definimos, pensar a teoria ou o projeto de uma sociedade anarquista, é uma possibilidade que aparece em um momento particular da história do Ocidente e que não surge, acabada e por acaso, da cabeça de um rebelde genial; ela é o produto das condições reais da exploração e da dominação de classe, da forma estatal do poder político e das lutas sociais conexas. Ela é filha da Luzes e da Revolução Francesa. Mas, uma vez concebida, ela não se reduz às condições que determinaram seu nascimento. Sua força expansiva propaga-se como um valor à disposição de toda a humanidade. Além disso, as idéias em geral não tem uma origem identificável, elas existem em embrião, ou em fragmentos, aqui e ali, mas elas se solicitam, reúnem-se, reorganizam-se e adquirem, retrospectivamente, um sentido novo quando uma nova situação social as faz viver. A idéia surge da ação e deve voltar à ação, afirmava Proudhon11, e Bakunin vai mais longe12: é preciso ir da vida à idéia. “Quem se apóia na abstração, aí encontrará a morte”. Quando o movimento anarquista se constitui como tal — origem que podemos situar historicamente, para dar uma data simbólica, no congresso de Saint-Imier —o anarquismo irá se tornar um corpus teórico que organiza, sistematiza, representa e justifica a luta, e os métodos de luta, para chegar a uma transformação profunda da sociedade visando construir um espaço político — ou regime político — concebido como anarquia.
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A anarquia é a meta, a finalidade do anarquismo. No entanto, o conteúdo socialista do anarquismo não se concentra em uma única tendência e, de acordo com os momentos da história e as regiões do globo, as correntes anarco-individualistas, mesmo minoritárias, sempre irão manifestar sua presença. Evidentemente, pela própria lógica que emana de suas premissas, e também pelo espírito iconoclasta que lhe é inerente, o anarquismo nunca será redutível a uma única doutrina, nem a um pensamento justo ou correto. Sem centro, sem dogma, combatendo sem trégua qualquer grupo que em seu nome pretender definir uma ortodoxia, o anarquismo será múltiplo, diverso, multicolorido. Por essas mesmas razões, Malatesta dava, ou melhor, acrescentava, uma outra interpretação para a distinção entre anarquismo e anarquia. Ele queria liberar o anarquismo de qualquer ligação com um espírito de sistema, sempre restritivo, que o faria depender de uma “verdade” científica ou uma demonstração filosófica. “O anarquismo nasceu da rebelião moral contra as injustiças sociais”, da luta contra a exploração e a opressão; somente o desejo e a vontade de mudar justificam a anarquia. “A anarquia [...] é o ideal que talvez nem mesmo se realize, assim como nunca se atinge a linha do horizonte, que se distancia conforme nos aproximamos dela, [em contrapartida] o anarquismo é um método de vida e de luta, e deve ser praticado hoje e sempre, pelos anarquistas, no limite das possibilidades que variam de acordo com os tempos e as circunstâncias.”13 O anarquismo, como teoria da sociedade e da revolução ou como método de ação, pertence à épistémè de sua época e depende do clima social onde ele se desenvolve. A anarquia, como valor, é mais ligada à negação do presente e à aspiração, que gostaríamos de acreditar universal, a um mundo de livres e iguais.
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Assim, se a idéia, e mesmo a palavra “anarquia” podem ser encontrados na palavra de alguns precursores — Willian Godwin, Pierre-Joseph Proudhon, Anselm Bellegarrigue, Ernest Coeurderoy, Joseph Déjacques — o anarquismo revolucionário e socialista é construído assim que termina a Comuna. O pensamento coletivo elaborado no interior da velha Internacional vai se desenvolver, para os anarquistas, sobre algumas linhas de força maiores: o enfrentamento e a não-colaboração das classes, o internacionalismo, o federalismo, a ação direta. Os prodhonianos haviam se tornado minoria — os marxistas também o eram, como sempre o foram — no interior da Primeira Internacional — quando Eugène Varlin escreveu a James Guillaume (dezembro de 1869): “Os princípios que devemos nos esforçar para fazer prevalecer são aqueles da quase unanimidade dos delegados da Internacional no congresso de Bâle (setembro de 1869), ou seja, o coletivismo ou o comunismo não-autoritário.”14 Na época, o que fora afirmado e representado pelo coletivismo era que a terra e os instrumentos de trabalho, todos os meios de produção, deveriam ser propriedade coletiva. Que o Estado seria substituído pela livre federação dos produtores, e o assalariado pelo trabalho associado, que garantiria a todos e a cada um o produto integral de seu trabalho. “De cada um segundo seus meios, a cada um de acordo com seu trabalho.” Para os primeiros internacionalistas, para Bakunin e Guillaume, para os jurassianos, este princípio dito coletivista era suficiente; os espanhóis permaneceram ligados a ele até o fim do século. Eles pensavam que após a revolução, cada grupo ou coletividade avaliaria, em função de suas possibilidades, qual modo de distribuição do produto poderia ser adotado. Guillume reconhecia que a repartição (ou a divisão) era “talvez o pon203

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to mais delicado de toda a organização social...” e nunca quis abandonar o ponto de vista coletivista. Mas ninguém tinha uma idéia clara — pensava Malatesta em sua polêmica com Nettlau em 192615 — quanto ao modo de atribuir a cada indivíduo, ou a cada associação, a parte do solo, a matéria prima e os instrumentos de trabalho que lhes caberia, nem como medir o trabalho de cada um, nem como estabelecer um critério de valor para a troca. A seção italiana da Internacional, no congresso de Florença de 1876, será a primeira a adotar o comunismo anarquista para resolver esse problema. Os delegados pensaram que a única solução para realizar o ideal da fraternidade humana escapando de qualquer embrião de governo, e ao mesmo tempo, eliminando as insolúveis dificuldades da medida do esforço do trabalho e do valor do produto, era a organização comunista na qual cada um daria, voluntariamente, sua contribuição à produção e consumiria livremente aquilo que necessitava.16 Essas opiniões foram rapidamente difundidas no Jura e em Genebra por François Dumartheray, Carlo Cafiero, Elisée Reclus, Piotr Kropotkin e outros, retomadas em seguida pelo Révolté de Genebra e de Paris e, a partir dos anos 1879-80, elas se generalizaram para a quase totalidade do movimento anarquista. Assim, o anarco-comunismo propagou o lema: “De cada um, segundo suas forças, a cada um segundo suas necessidades.” Alguns, como Nettlau, que cita a seu favor os “corajosos anunciadores de um anarquismo sem hipótese econômica, como Ricardo Mella e Voltairine de Cleyre”, continuaram a defender o anarco-coletivismo e a recriminar os anarco-comunistas por seu desejo de ir o mais longe possível sem ver que o comunismo exigia a abundância, e que a Revolução deve resolver, assim que terminada, o problema do abastecimento de todos, sendo

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Notas 1 “Distinguem-se comumente a justiça distributiva e a justiça comutativa.. Ela comporta a reciprocidade. e que essa abundância não pode ser produzida num regime capitalista.] “O talento literário e o grande prestígio de Kropotkin tinham tornado aceitável a infeliz fórmula della presa nel mucchio (tomar indistintamente). que “no entusiasmo dos iniciadores nós tenhamos imaginado as coisas mais simples e mais fáceis do que elas são na realidade. mas “retornando da América do Sul (1890). e se fosse realizada em estado 205 . detendo a produção ali onde se detém o lucro do capitalista. “Tomar indistintamente” seria um desastre para os revolucionários. mas o de impedir a abundância possível. mas não deixamos de compreender e de ressaltar que a abundância é uma condição necessária do comunismo.”17 O anarquismo revolucionário permaneceu comunista mesmo sabendo que nem a anarquia nem a passagem de uma economia de sobrevivência para uma economia de abundância podem ser feitas em um dia. na equivalência das obrigações e das cargas estipuladas nos contratos. reconhece Malatesta. É possível.” [. de amanhã e de sempre. e tentei demonstrar que o prejuízo provocado pelo regime capitalista não é tanto a criação de um enxame de parasitas. A justiça comutativa.verve Anarquia e anarquismo certo que isso se dará em meio à penúria. Tradução do francês por Martha Gambini. ao contrário. consiste na igualdade das coisas trocadas.. exercida por via de autoridade. consiste na repartição dos bens e dos males segundo o mérito das pessoas. mas que a luta para chegar a isso é de hoje. A primeira. chamei a atenção para o absurdo da crença na abundância.

” 5 John Locke. Du contrat social. livre I. in l’Anarchisme aujourd’hui de Jean Barrué. 215. Imaginário/ Nu-Sol/Soma. 1979. Paris. Coleção Escritos Anarquistas. Se o historicismo torna-se prospectivo. 8 Por “historicismo” entendemos o ponto de vista que toma como norma aquilo que é historicamente consagrado. (N. 1970 (A tradução feita por Barrué da célebre fórmula é: “A volúpia de destruir é ao mesmo tempo uma volúpia criadora!!!!). Estatismo e anarquia é o último texto de Bakunin publicado antes de sua morte. Paris. p. in Scritti. éd. 11 206 . 7 Michel Bakounine. Ginevra. Paris. 211. “La Réaction en Allemagne” [1842]. Paris. Tradução de Plínio Augusto Coelho. 94-96).). Sansot et Cia. Feuerbach denuncia no historicismo uma forma de relativismo histórico levando à aceitação não crítica do mundo presente. 82 (ver crítica de Rousseau: pp. e mesmo impossível. Œuvres complètes. ocorrida em 1876). n° 2. 1936. Socialisme et Anarchisme.). ele verá no fim da história o cumprimento de uma finalidade: o advento do reino de Deus. 312 (escrito em 1873. 1982.7 2005 puro. 4 Michel Bakounine.E. tome II. éd. 2 Michel Bakounine. viii. E. “1. Há publicação em protuguês como Estatismo e anarquia. Champ libre. 2000. 1976.. vol. Étatisme et Anarchie. “Ancora su scienza e anarchia”. p. “l’Empire knouto-germanique [ Dieu et l’État ]”. de la Fédération anarchiste. Spartacus. v. Du principe d’autorité – Idée générale de la révolution au XIXe siècle. éd. 104. 9. Traité du gouvernement civil. éd. Pensiero et Volontà. 6 Jean-Jacques Rousseau. porque precisamente dela. 1905 (Definição de anarquia. 1858. São Paulo. 10 A. p. p. 3 Pierre-Joseph Proudhon. São Paulo. são criados e produzidos novos mundos. Champ libre. chapitre V. Lemos essas linhas estranhamente semelhantes trinta anos após em Estatismo e anarquia : “Essa paixão negativa da destruição está longe de ser suficiente para levar a causa revolucionária ao nível desejado. Pierre-Joseph Proudhon. p. p. pois não há revolução sem destruição profunda e apaixonada. Roma. Paris. Publicado em português como Deus e o Estado. vol. excluiria a intervenção de um terceiro. E. 9 Errico Malatesta. De la Justice dans la Révolution et dans l’Église. destruição salvadora e fecunda. Hamon. 1926. in Vocabulaire technique et critique de la philosophie de André Lalande (1991). III vol. ao passo que essa intervenção é a própria condição do exercício da justiça distributiva. Œuvres complètes. Paris. chapitre VIII: Du commencement des sociétés politiques. mas sem ela essa causa é inconcebível. Commutative (justice). Garnier Frères. 2003. ou o triunfo do proletariado. (N. Imaginário/Nu-Sol/Ícone. 114). e somente por ela. in Bakounine. iv. Tradução de Plínio Augusto Coelho.

édit. 1980. James Guillaume. Genève. 1936. 1936. III vol. 309. vol.. anarco-sindicalismo. “Algunos documentos sobre los orígenes del anarquismo comunista” [1876-1880].. Errico Malatesta. op. pp. pp. Palavras-chave: Anarquismos. comunismo anarquista. 260. Étatisme et Anarchie. 20 de setembro de 1928. Ibidem.verve Anarquia e anarquismo 12 13 Michel Bakounine. 1922. n° 14. 42-43. p. ABSTRACT The importance of the anarchist communism. p. “Repubblicanesimo sociale e anarchismo”. 263-264. Keywords: anarchism. in Scritti. cit. Ginevra. Pensiero et Volontà. l’Internationale. Roma. “Internazionale collettivista e comunismo anarchico” in Scritti. 1926. p. Roma. 258 14 Errico Malatesta. no interior dos anarquismos. anarchist communism. Kropotkin”. Ginevra. Umanità Nova. n° 100. p. anarco-syndicalism. 253 e sgs (ver também os dois artigos de Max Nettlau publicados no Suplemento de La Protesta de Buenos Aires : “Colectivismo y comunismo antiautoritario en la concepción de P. situado historicamente. II. I. vol. 15 16 17 Idem. RESUMO A importância do comunismo anarquista. 6 de maio de 1929). Grounauer. Documents et souvenirs. historically located inside the anarchists practices. 207 . Indicado para publicação em 15 de março de 2004.

7 2005 quando se anda de costas para a lua a sombra chega antes Sergio Cohn 208 .

estão José Carlos Morel e alguns companheiros do Centro de Cultura Social — CCS (Nildo Avelino. Nilton César dos Santos Melo). A longa conversação atravessa a tempestade entre cafés. Anamaria Salles. Sentados em roda. durante uma forte chuva de verão. É sábado. na cidade de São Paulo. uma prática anarquista entrevista com josé carlos morel Apresentação Estamos na nova sede do Centro de Cultura Social. 31 de janeiro de 2004. 2005 209 . uma prática anarquista centro de cultura social. Francisco Romero Ripó Neto. 7: 209-223. Acácio Augusto e Thiago Parafuso Sousa Santos. pilotando a câmera. Fabrício Martinez. 191-A. associação anarquista criada em 1933. situada na Rua Inácio Araújo. interrupções. Francisco Cuberos Neto.verve Centro de cultura social. Uma parte desta conversação foi transcrita para cá. em frente a estação Bresser do Metrô. risadas. verve. à tarde. Entre eles Edson Passetti. trocas de concepções.

e a tradução de O Anarquismo do Daniel Guérin. na época. mas aquelas coisas que o partido comunista fazia eu achava muito. comecei a me interessar. mas o Orwel nunca desceu do muro. que ficava na São João encontrei dois livros que o Roberto das Neves tinha editado: O Anarquismo. próximo do socialismo. de 1892. Maio de 68. A minha família era muito politizada. E lá se falava um pouquinho de anarquismo. achei num sebo aquele livro do George Orwel sobre a Espanha. fazendo uma proposta de mudança. editado pela Civilização Brasileira. foi em 68. Então. de uma maneira não pejorativa. que não passava pelo partido. Aquela em que os caras estavam derrubando os carros. chamado: Socialismo Libertário ou Anarquismo. foram anos de muita polarização política. Era o livro de um português chamado Silva Mendes. tinha muita coisa rolando. Eu já tinha uma inquietude em relação a isso. Logo a seguir. com umas bandeiras pretas em cima da barricada feita com automóveis. de revolução. mas não explicava muita coisa. O anarquismo aconteceu politicamente aí. Esta foi a primeira vez que ouvi falar de anarquismo. a buscar coisas. Mesmo assim. Eu me sentia. Tinha aquele negócio que o Karl Marx era o grande pen210 . pela organização centralizada.7 2005 Nu-SoL — Como é que aconteceu o anarquismo na sua vida? Morel — A primeira vez que eu ouvi falar de anarquismo. A Manchete publicou um artigo que falava dos jovens anarquistas com uma foto de uma passeata enorme em Paris. encontrei três livros que foram importantes. Ele era simpático aos anarquistas. uma merda! Eu procurava alternativas e. Um eu encontrei num sebo que ficava lá perto do largo São Francisco. aquela coisa toda. Os anos sessenta. no Brasil. muito chato. comecei a ler e a descobrir. uma coletânea de artigos do Edgar Leuenroth. num artigo da revista Manchete. instintivamente. Um ano e meio depois. Na livraria Hemus.

lá no sítio. o Marcelo Guimarães da Silva Lima.. aqui em São Paulo tinha bastante gente. lá no Brás. a “Nossa Chácara”. Naquele tempo tinha muita gente do 211 ..verve Centro de cultura social. O pessoal do Rio de Janeiro tinha dançado. o Centro de Cultura. Quer dizer. e passaram a fazer movimento clandestinamente. Eu fiquei meio perdido. um livro muito bem feito. acho que em 1970. É mais ou menos esta a história. Ele me deu o endereço do Centro de Cultura Social. o Ideal Peres estava saindo da cadeia. do Marx com o Bakunin. — Em 1971. Chegávamos a fazer reuniões com 40. — O sítio que você está se referindo é a “Nossa Chácara”? — É. — Quantas pessoas estavam envolvidas na época com o Centro de Cultura Social? — Olha. Escrevi para o Roberto das Neves. Só fui encontrar o Jaime Cubero em 1971. Lá bati. mas estava fechado.. por meio de um colega meu de universidade. uma prática anarquista sador do socialismo.. 727. achou prudente fechar. e o Silva Mendes descrevia toda aquela luta do Marx contra o Proudhon. o Centro de Cultura estava fechado. — Já era em Mogi? — Já era em Mogi.. A gente se reunia lá na loja do Jaime. uma tese defendida na Universidade de Coimbra.. Comecei a me envolver com o movimento. O pessoal aqui em São Paulo quando soube que eles tinham sido presos. estava meio mundo ainda preso. 50 pessoas. que tinha uma caixa postal impressa na orelha do livro. — Tinha ocorrido aquela repressão toda em 68.. na Celso Garcia.. Fecharam as atividades na cidade.

que era um fascista. E aí. que aliás essa é uma história que tem que ser contada direitinho. Foi no contato com estas pessoas que fui me formando. etc e tal. além de manter o trabalho de correspondência com grupos de fora e o de articulação dentro do Brasil. começou a haver interesse pelo anarquismo e vinha muita gente procurar o Jaime. Uma delas foi a venda do arquivo Edgar Leuenroth.. mas sim do movimento anarquista. teve de ser contratado um bom advogado. basicamente a gente tentava fazer o que era possível. Era 1973. noutra ocasião. Até 1976. e tinha o pessoal no Rio Grande 212 . uma atividade importante: tirar os caras da cadeia. a família do Edgar Leuenroth vendeu o arquivo pra UNICAMP. porque o Zeferino Vaz. que tinha a “Nossa Chácara”. E se fazia isso. A coisa foi complicada! Custou muito dinheiro. o Germinal. cultivado por várias coisas.. que foi professor de Sociologia da USP. digamos. esta era. subornar gente pra sumir com provas. O Azis Simão. O arquivo nunca foi propriedade pessoal da família do Edgar Leuenroth. mas naquele tempo o reitor era o Miguel Reale. era muito pouco. O processo custou muito caro. os velhinhos para saber de coisas sobre a história do movimento. Mas. enfim. No começo dos anos 70. embora sendo um homem de direita. Enquanto isso. Uma outra foi a solidariedade aos companheiros presos no Rio de Janeiro. queria levar o arquivo para lá. — E estas pessoas atuavam em quê? — Olha.7 2005 antigo movimento ainda viva. havia basicamente um grupo atuante aqui em São Paulo. era um cara com uma cabeça universitária mais aberta e percebeu a importância do acervo. aí começou a haver um certo interesse. Uma atividade importante era manter o sítio. Depois começou a haver um interesse sobre o anarquismo. acabou indo pra UNICAMP. o pessoal do Rio que se rearticulou depois de sair da prisão.

que eram o Puig. Francisco Cuberos. onde as coisas se faziam. o Edgar Rodrigues. o Fernando.. — Você era o caçula? — Eu era o caçula. Bom. excelente companheiro. Nós nos correspondíamos. já falecido. no movimento estudantil. e atuávamos. Do Grupo Projeção faziam parte: Diamantino Augusto. no começo foi assim. que é uma excelente figura. muito pouquinho.. doze.verve Centro de cultura social.. o Ideal — Ideal Peres. — A tua formação foi dentro do Centro de Cultura Social? — Foi dentro do Grupo Projeção. em Porto Alegre. um cara de muito valor. operário metalúrgico e veterano dos combates contra os fascistas na Praça da Sé em 1933. dentro do sítio. e eu. o Nito Lemos Reis. — O Martinez? — Antônio Martinez. naquela época. A gente formou. e que era um militante exilado da revolução espanhola. Foi só no final dos anos setenta que a gente conseguiu aumentar os grupos. Era essa era a formação inicial do Grupo Projeção. O Centro de Cultura foi organizado só em meados dos anos oitenta. Ester Redes. o nosso companheiro Augusto. o Liberto Lemos Reis. também um excelente companheiro. Eu tinha lido um pouco sobre anarquismo. O Salvador também. botava bomba no forno de padaria. — Por que criar o Grupo Projeção? 213 . alguma coisa no movimento sindical. um pouco depois do desfecho do processo lá no Rio.. um cara das greves de Santos. fazíamos alguns encontros. o Matos. foi em 1974. mas a formação prática eu tive dentro do Projeção. na medida do possível. o Grupo Projeção. Jaime Cubero. uma prática anarquista do Sul.

quer dizer. Lá e na Venezuela havia muitos grupos anarquistas com os quais nos correspondíamos. trinta e sete tinha anarquista atuando. De fato. soa gozado hoje em dia!. de apoio a esses grupos. O Projeção teve um papel. foi fundado com a idéia de se rearticular o movimento naquela etapa. passando-se a decretar a morte do anarquismo no final dos anos trinta.7 2005 — O Projeção foi fundado com uma dupla finalidade: preservar e resgatar o que tinha sobrado da memória. até sessenta e oito. no começo da década de setenta a gente estava meio por baixo. também. A gente tinha de começar a fazer alguma coisa... na continuidade desse movimento.. e de outro lado a esquerda dominada pelo Partido Comunista. havia alguns grupos remanescentes. acho que muito importante. uma intensa correspondência. por exemplo. Mais tarde. Atuar na conjuntura política local era muito difícil. porque grande parte tinha ido embora para UNICAMP. Naquele tempo ainda não tinha entrado a ditadura pra valer na Argentina. Existe um erro cometido pelos historiadores ao afirmarem. porque você tinha de um lado a ditadura fascista. na medida do possível. daí o enunciado se redimensionou. Tinha o sítio e afinal de contas. foi aí que a gente começou. passaram a afirmar que o anarquismo acabou depois da ditadura Vargas. Até os trotskistas. hoje alinhado com o FMI e. naquele tempo eram extrema esquerda. vai olhar. na rearticulação do movimento anarquista no Brasil e. setenta eles estavam fazendo coisas. Então. Mas a pesquisa histórica avançou e mostrou que até trinta e cinco.. Tentava-se fazer alguma coisa.. aí a pesquisa histórica vai lá. Você compara. e vê que os anarquistas não morreram. pensar que nos anos setenta os troscos se diziam de extrema esquerda. não tinha 214 . o Pallocci. uma conjuntura muito difícil. era o finzinho dos anos Médici. desde os anos sessenta que “o anarquismo morreu quando se fundou o Partido Comunista em vinte e dois”.

de instrumento objetivo da burguesia. No carnaval de setenta e sete a gente resolve transformar o Inimigo do Rei no porta voz dos anarquistas no Brasil.) O Jaime nesse ponto teve um papel importantíssimo. também. E aí eu acho que há uma marca e o anarquismo toma um novo impulso no Brasil.. O Ideal entra em contato com o Renato Liper na Bahia. E os anarquistas começam a se rearticular em Portugal. mesmo na Europa e nos EUA. driblavam a censura. No meu tempo de estudante. Tinha-se derrubado o fascismo por uma revolução levada pelos grupos de extrema esquerda. etc. O panorama começa a mudar. e a gente começou a apoiar o movimento português. do Malatesta. grupos de homossexuais. Em meados da década de setenta o movimento começa a crescer um pouco. grupos ecoló- 215 . em Mato Grosso. autonomistas. Acusavam o anarquismo de pequeno burguês. com algum material de propaganda que restava — brochuras do Faure. em Portugal. porque era através da loja de sapatos que eles tinham que se despachava material. em setenta e sete. Ser anarquista e ser universitário era uma coisa complicada. e mesmo aqui em São Paulo. Ele e o Chico [Francisco Cuberos]. por volta de setenta e cinco. muita gente jovem aparece. E dois anos depois. com grupos feministas e estudantes muito ativos. eu era considerado. setenta e seis. não havia uma juventude. E a malhação era pesada. Ocorre a Revolução dos Cravos. folhetos anarco-sindicalistas.. que já tinha dois números e era uma iniciativa dos baianos. Organizar o movimento era muito difícil. começa a se criar grupos em vários locais do Brasil: no Nordeste. no comecinho foi assim. a gente faz um congresso na “Nossa Chácara” e se lança o jornal Inimigo do Rei. São estabelecidos vínculos mais fortes com o movimento sindical e criados grupos anarco-sindicalistas... assim.verve Centro de cultura social. uma prática anarquista muito movimento. Então. Só começou a acontecer efetivamente a partir de 1975. uma coisa bizarra. de fóssil ideológico.

etc e tal. o Ideal até defendeu uma posição contrária. só aqui em São Paulo. — E como isso aconteceu? — Houve várias tentativas. chegou a vender. Então. Eu me lembro que teve uma manifestação que nós fizemos em setenta e oito contra aquele negócio de Angra II. porque ele achava que a gente ia deixar de fazer o trabalho de 216 . O Ideal começou a atuar em movimentos de bairros com uma força muito grande no Rio de Janeiro. Entre 1977-1978. Então. a gente ia se fechar. mas realmente foi um impulso. quatro mil exemplares.. os anarquistas. a gente estava na época atuando em vários movimentos sociais.. é então que se pensa em rearticular o Centro de Cultura Social. Eu cheguei a participar de um congresso lá com o Ideal em setenta e nove aonde havia dois mil e poucos delegados de bairro: o congresso se deu sem mesa. Depois o Brizola se apropriou.. porque ele achou que na época. enriquecimento de urânio pra fazer a bomba. Ele mostra claramente a vitalidade do anarquismo. me lembro de uma reunião do Projeção que a gente fez. com o esforço dos militantes mesmo. o pessoal aqui em São Paulo estava pensando em rearticular o Centro de Cultura. dois dias e meio de congresso que aconteceu sem mesa. Uma pessoa pra tomar conta das inscrições. O Inimigo do Rei. e começa a atrair a atenção de muita gente jovem. a pessoa pegava seu número na hora de falar. acho que a partir daí entra uma outra fase. quer dizer. naquele momento o Ideal foi contra a gente tentar fundar o Centro de Cultura. Eu acho que são dois momentos: começo dos anos setenta até final da década e o Inimigo do Rei. que era insuspeita.7 2005 gicos.. se a gente fundasse o Centro de Cultura. um microfone no canto. discutindo os problemas da cidade. quer dizer: um congresso com duas mil e quinhentas pessoas. eles eram a maioria da passeata na praça da Sé.

tinha presença entre os intelectuais. mas ler texto anarquista que é bom é uma minoria que lê. Isso tudo foi sendo descoberto. não é uma bela utopia. entre três aspas também. com uma proposta de mudança social totalmente diferente do que o Partido Comunista teria. citam Che. o anarquismo não é mais uma idéia. mas é alguma coisa que você pode construir. mas os textos que ele junta mostram que não só você teve anarquismo. Somente retomamos a idéia de reabrir o Centro de Cultura Social por volta de 1982. etc. começou a se ver que não era nada daquilo.verve Centro de cultura social. como tinha o anarquismo forte. e que tinha penetração social. atuante. citam Althuser. Aí a conjuntura já era outra. 217 . Naquela antologia que o Paulo Sérgio Pinheiro fez. foi esse fato. no meu entender pelo menos. pelo pessoal que faz os trabalhos lá no arquivo Edgar Leuenroth. que começou a despertar na cabeça das pessoas a questão da viabilidade. não era só uma questão de classe apenas. mas em vários outros meios. Mas mesmo assim os fatos existem e não podem ser negados. se você for pegar a bibliografia destes trabalhos os caras citam Marx. e tal. não era só uma questão economicista. uma prática anarquista propaganda e divulgação. Então. Então. e começou a se desmistificar uma imagem que os marxistas faziam do anarquismo. O anarquismo nesses anos se consolida. citam Trotski. que estava indo muito bem e iria se fechar em torno de uma organização. na minha opinião muito contra vontade. que o anarquismo era um movimento político forte. A Classe Operária no Brasil. que tinha presença não só no meio dos trabalhadores. atuante. ele faz o possível pra dizer que não teve anarquismo no Brasil. uma visão ampla do mundo. não é uma coisa gostosa de se pensar. Uma das vantagens (vantagem entre aspas) da ida do arquivo para UNICAMP foi que as pessoas começaram a pesquisar naquele arquivo.

não só você aprende. não aponta para um estágio final de sociedade. um “vamos ver pra onde a coisa vai”. mas eu gostaria de ver até o final da minha vida a sociedade se encaminhar para um estado menos autoritário. até o George Bush vai querer. Desde Proudhon o anarquismo pensa que as contradições estão aí. porque não vai mudar nada aqui e agora. Eu acho que tem essa polaridade entre a evolução e a revolução. Em segundo lugar que essa informação seja submetida continuamente ao debate. se você falar: bom. uma participação mais direta das pessoas. Se você falar: eu quero o anarquismo para o ano três mil.7 2005 — No que você diferencia o anarquismo de todas as outras concepções de socialismo? — Eu não vejo o anarquismo só como um ativismo sem meta. E nesse sentido a concepção que você vai ter de revolução é outra. O anarquismo aponta para uma transformação da realidade social. Entretanto. Eu vejo o Centro de Cultura como um herdeiro dessa tradição. mas que não há um fim da história. que o momento no qual ele é criado. aí você começa a mexer com interesses concretos. Ele aposta na capacidade das pessoas de se auto-organizarem. que para mim é característica do pensamento anarquista. podem ser superadas. como você começa a perceber o limite dessa informação. A história é um contínuo construir. Eu acho que existe a questão organizativa. estejam disponíveis. Nos anos trinta o anarco-sindi218 . você começa a criar os fatos novos. eu não posso fazer o anarquismo para semana que vem. Mas o anarquismo não é messiânico. — De onde vem a prática do Centro de Cultura? — O Centro de Cultura vem da necessidade de formar um espaço onde a informação política e a informação técnica. não. mas isso não quer dizer que é uma explosão. é um momento de crise. porque a partir desse debate. realmente. É claro.

Na I Internacional a idéia dos ateneus estava ligada à idéia de sindicato. em 1933. eu acho que a organização sindical dos anarquistas está sendo acossada. pela formação dos sindicatos atrelados ao governo. Nos anos trinta isso não é mais assim. sindicato. Não tinha aposentadoria. O J. Era esse tipo de gente que formava a “Nossa Chácara”. Nenhum historiador se debruçou. então. Antônio. bolsa de trabalho. o Centro de Cultura é fundado porque há uma percepção da parte do Edgar e dos outros militantes. seriam os quatros vértices. escola racionalista e ateneu libertário. Acho que nos anos setenta ele já tinha noventa anos. que formava o Centro de Cultura. que formava o sindicato anarco-sindicalista em São Paulo e no Rio de Janeiro. não tinha carteira de trabalho assinada. Os comunistas entram direto nisso aí. Porque ele se recusava a prestar satisfações ao Estado. que a atuação sindical precisava ser modificada. era a de vendedor de creolina. o quadrilátero de ação política dos anarquistas. pela burocratização. Antônio se recusou até noventa e tantos anos a ter carteira de trabalho assinada. qual foi a compactuação dos marxistas com o controle do trabalhador. Então. uma prática anarquista calismo no Brasil está sendo acossado. e esta é uma história que precisa ser contada. pela legislação. A sua profissão até noventa e tantos anos. um cidadão chamado J. de outro lado... não só os famosos. de um lado pela repressão policial. Era preciso mudar um pouco a tática. é um projeto que você pode ver 219 . ou teve a curiosidade de se debruçar sobre os fatos para saber qual foi a compactuação dos marxistas com o modelo vertical de sindicato. Nesse momento de crise. Eu conheci. no Largo da Concórdia.verve Centro de cultura social. até 1935. naqueles hoteizinhos ali embaixo. era esse tipo de gente. na loja do Jaime e do Chico. Mas eu acho que basicamente o projeto que o Centro de Cultura tem ainda nos anos trinta. Ele morreu vendendo creolina no Largo da Concórdia [no bairro do Brás-SP]. 1937.

. é o método. Em 1945. de universidade popular. Promove três versões de um curso de doutrinas políticas. a Universidade Popular Presidente Roosevelt. Imagine o que não deve ter sido isso para uma São Paulo provinciana de setecentos mil habitantes. O Centro de Cultura Social passa a ter. anarquismo isto. o que há de notar nessa fase. durante um ano.7 2005 na I Internacional. mas não se engane. Em 1946. Já nos anos sessenta tem a grande experiência do Laboratório de Ensaio. além das atividades de teatro. um curso de educação sexual. que ele é menos ou mais anarquista. nessa segunda fase de quarenta e cinco a sessenta e oito. O Centro tenta organizar até com algum sucesso. ou assado. sobre a história do anarquismo. e se debruçar sobre a história do socialismo. desde quarenta e sete até os anos oitenta. coisas realmente que são. O cara tem de ter o mínimo de modéstia. Isso para mim é o anarquismo. tem de sentar o rabo numa cadeira e estudar. A ênfase principal do trabalho dos anarquistas passa a ser a atuação dentro do Centro de Cultura. e vinham psicanalistas. Eu tenho aqui ao lado o Chico. um cunho de resistência cultural. vinha a família a esse curso. revolucionárias. um ano e meio. O Jaime gostava de falar: “o anarquismo é um conjunto de postulados convergentes”. no meu modo de entender. mas passa a adquirir um caráter também de instrumento político dos anarquistas. E aí. anarquismo aquilo. etc. a conjuntura mudou bastante. tem gente que fala: anarquismo culturalista. então. digamos. E as pessoas iam. que é um cara que participou das grandes revoluções do teatro paulista. do que o cara que faz um trabalho assado ou cozido. o Centro de Cultura promove. que é naquele tempo uma experiência de teatro político revolucionária. Não é porque o sujeito faz um trabalho assim. Verá então que 220 .. não só. de quarenta e cinco a sessenta e oito. é a base. o Centro de Cultura passa a adquirir um caráter. Anarquismo é anarquismo.

está fazendo água. e agir localmente. de certa maneira. que o anarquismo é uma invenção de pequeno burguês. Veja. do ponto de vista da história e das lutas políticas e sociais dos anarquistas. que o anarquismo é de uma mentalidade artesanal. verá que a teoria sem a ação é manca e que a ação sem a teoria é cega! É pensar globalmente. porque interrompe. E isso é uma coisa terrível. Eu acho que nesse sentido o Centro de Cultura. e no começo dos anos setenta. Então. uma prática anarquista os caminhos são múltiplos. É preciso uma meta! Se você considerar as coisas corretamente. A ditadura.verve Centro de cultura social. na república de quarenta e cinco até sessenta e oito. quebra movimentos e desenvolvimentos. tem um papel que não é mais o papel do anarcosindicalismo clássico.. Eu conheço muito marxista que foi parar no psiquiatra quando o Vietnã entrou em guerra com o Camboja. É claro que a ação é a contrapartida do estudo: ninguém se esforça em aprender por nada. mas pelos mitos que ela cria. — Os anarquistas não aceitam qualquer tipo de ditadura. Não só pelo que ela reprime. mistura coisas que estavam começando a se clarificar. Tem muito cara que foi perseguido pela ditadura e é um filho de uma puta. Nem todo mundo que é perseguido por uma ditadura é um sujeito de esquerda. Verá que a gente tem de se preocupar em trilhar bem o nosso caminho. — Acho que qualquer ditadura faz um estrago inominável. a se separar. quando a gente retoma a idéia de Centro de Cultura em 1984. a gente retoma em qual contexto? Já não dá para falar como se falava no final dos anos sessenta.. que a gente deve se preocupar com a meta que se quer atingir. em mea- 221 . Porque o próprio socialismo real. apaga fronteiras e põe todos os gatos dentro do mesmo saco. mas é um papel importante no sentido de ressoar o anarquismo junto à sociedade global. A briga da linha chinesa com a linha soviética.

se organiza em 1984. em São Paulo.. em particular. mostrou a que veio. o socialismo real que veio da concepção marxista. Começa a aparecer. que a gente pudesse levar as nossas discussões. Em janeiro de 1984. Ele passa a dar até um certo prestígio. tanto na China quanto na Rússia estava na produção militar-industrial. ter um local nosso. com um grupo que trabalhava há alguns anos junto ao Inimigo do Rei. a mesma 222 . Foi uma coisa. para 350 pessoas sentadas] mesmo chegando duas horas antes. É uma sociedade totalitária. fazer as nossas propostas. uma geração mais jovem. uma sociedade militarizada e autocrática que se formou com o pretexto da libertação do proletariado e funciona como máquina de opressão e de exploração. aí eu falo do grupo de militância mais anarco-sindicalista dentro do Centro de Cultura. do qual eu fazia parte. ao produzirem os seus estudos começaram a mostrar que o anarquismo não era aquilo que a vulgata marxista dizia que era. A mim me surpreendeu muito. aqui na Rua Rubino de Oliveira. Eu acho que o Centro de Cultura. Nos anos oitenta não dá mais para o anarquismo ser taxado de uma série de coisas. O eixo desta sociedade.7 2005 dos dos anos setenta não dá mais para tapar o sol com a peneira. e você não conseguia lugar no maior auditório da PUC-SP [sala 333. em 1979. a gente estava muito envolvido com a Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo. como me referi anteriormente.. o Jaime falou: “olha a mesma sala está para alugar. mais ou menos em cima disso. Resolvemos fundar o Centro de Cultura nesse sentido: ter um instrumento. então. interessada em fazer. com uma série de outras atividades. Os estudiosos do arquivo Edgar Leuenroth. em atuar com o anarquismo. Porque foram seis sábados discutindo anarquismo. No nosso caso. e não ficar dependendo de acordos. Houve também aquele curso que nós organizamos na PUC-SP. absolutamente indiferente para com as necessidades individuais.

é uma contribuição que a gente gostaria de passar para as novas gerações. está situado em tal e tal lugar. E começou-se a discutir como é que ia ser. a gente chegou e falou. e as nossas organizações têm de crescer. mas eu acho que estamos conseguindo uma renovação do quadro social. A gente conseguiu minimamente se renovar. têm de estar antenadas no que está acontecendo agora e no futuro. nós vamos ter de fazer apenas a reabertura em cartório. o Jaime tomou a palavra e falou: “Olha eu queria informar que o Centro de Cultura já foi reaberto. Eu acho que nesse sentido o Centro de Cultura Social foi sempre muito presente. Isso é o que importa.. não estou dizendo que isto aqui é um mar de rosas: não é! Tem problemas sim. porque você não vai conseguir implantar o anarquismo depois de amanhã. O importante é saber aliar a tradição anarquista com os desafios políticos do momento. conseguindo atingir pessoas novas. como é que não ia ser. Se você for acompanhar a movimentação do Centro de Cultura isso é claro. e a gente está tomando as adesões para sócios efetivos até tal dia”. Há muita briga pela frente. sensibilizá-las para nossa idéia.. uma prática anarquista sala igualzinha.” Então estava marcada uma reunião do sindicato dos geólogos para discutir o Centro de Cultura. 223 . Isso foi uma bomba no lugar. Tem de haver continuidade.verve Centro de cultura social. acho que desde o comecinho isso é uma tradição. não precisa nem jogar fora os impressos.

Thoreau .Over the old wooden bridge No traveller Crossed Henry D.

Além da velha ponte de madeira Viajante algum Cruzou Tradução de Thiago Rodrigues .

7 2005 anarquismo na vida e na obra de eugene o’neill pietro ferrua* Um estudo sistemático das atividades anarquistas do grande dramaturgo. verve. que eu saiba1. ainda não foi empreendido. fundador do CIRA (Centre International de Recherche sur l’Anarchisme). enquanto o pensador e escritor anarquista alcançara já os cinqüenta. A mais pormenorizada das biografias interessantes para o nosso assunto é sem dúvida a do casal Gelb2. a The Unique Bookshop situada na Sexta Avenida. Portland. quando conheceu Benjamin Tucker e começou a freqüentar a sua livraria. que chega quase a mil páginas. senão completa. pelo menos suficiente. 7: 226-243. viveu no Brasil entre 1963 e 1969. porém há muitos ensaios sobre ele e os dados colhidos permitem estabelecer uma trajetória. 2005 226 . mais duas obras de Sheaffer3. Descobre-se assim que um dos primeiros contatos que O’Neill teve com anarquistas data de 1907. Eugene não tinha ainda vinte anos. em Nova Iorque. com mais de trinta anos de experiências como *Professor emérito do Lewis Clark College. também oferecem uma grande quantidade de informação.

outro anarquista. Definiu-se. Foi através de Tucker que O’Neill travou conhecimento com a obra de Bakunin e Kropotkin. Cabe reconhecer que naquela época era comum a associação com Leon Czolgosz (que tinha matado um Presidente) e Alexandre Berkman (que atirara contra um capitalista inflexível e cruel contra operários grevistas). A ele O’Neill se dirigiu para que lhe procurasse documentação sobre algumas personagens anarquistas em suas peças. Outro grande amigo anarquista (e futuro personagem de sua obra) foi Terry Carlin (verdadeiro nome Terence O’Carolan) que tinha a qualidade adicional de ser de origem irlandesa. e de toda a família. Os Gelb escrevem: “o Carlin teve uma influência maior na filosofia de O’Neill do que qualquer outra pessoa”. e sobrinho de Emma Goldman. pois Carlin foi admirado por escritores importantes como Jack London e Theodore Dreiser. uma etiqueta pouco usada em outros países. redator de periódicos. Em gratidão pela hospitalidade dele recebida. Companheiro de bebedeira. Hippolyte Havel. Mais uma amizade importante — e que durou até o fim da vida — foi com Saxe Commins (verdadeiro nome Isidore Cominsky). e passou a mandar-lhe cheques mensais para que nunca lhe faltasse a bebida. gerente de um café boêmio no Greenwich Village. O Paul foi um grande amigo de O’Neill até sua trágica morte poucos anos depois. “anarquista filosófico”. O’Neill forçou sua contratação à Random House. onde se tornou 227 . Stirner e Nietzsche. e por lhe ter cuidado dos dentes de graça. mas que se tornou comum nos Estados Unidos e que equivale ainda hoje — a “anarquista não-violento”. autor de ensaios. dentista que se tornou autor teatral. pois a opinião pública tende a misturar anarquismo e terrorismo. Distinção necessária. então.4 Não devemos estranhar. o escritor nunca o renegou quando ficou famoso. como O’Neill. Quem apresentou O’Neill ao Tucker foi Paul Holliday.verve Anarquismo na vida e na obra de Eugene O’Neill propagandista. Proudhon e Tolstoi. irmão de Polly Holliday. companheira de vida de outro militante ativo muito conhecido.

O’Neill não era o único que o estimava. Entre as mulheres pelas quais O’Neill talvez se apaixonou. as guerras. foi outra anarquista inspirada por Emma Goldman. etc… Christine Ell. A galeria de personagens anarquistas ao redor de O’Neill é muito rica e compreende ainda outro escritor da época: Hutchins Hapggod. inspirou John Cage e deu vida a um dos personagens da peça The Iceman Cometh. o serviço miltar. Aliás. um dos poucos que sempre sabia onde ele se encontrava era justamente Commins. Hippolyte Havel. que se tornou sua terceira mulher. onde vivia incógnito com Carlotta. Saxe foi também quem manteve contatos indiretos entre O’Neill e as duas primeiras esposas e os filhos que com elas teve. O’Neill conservou algumas fotografias dele. que conheceu quando ambos ensinavam em Princeton. o pagamento dos impostos ao Estado. foi também admirado por Dreiser. amante passageira do O’Neill. Louise Bryant e outros nas encenações do Provincetown Theater. pois tornou-se também amigo de Albert Einstein. que mais tarde se converteu ao catolicismo sem abandonar o anarquismo. Autor de An Anarchist Woman ele tinha se aposentado no Cape Cod e colaborara estreitamente com John Reed. anarquista europeu que veio aos Estados Unidos junto com Emma Goldman. Não há mui- 228 . Quando fugiu para a França. e tornou-se co-fundadora do movimento Catholic Worker (uma derivação comunitária da filosofia personalista de Emmanuel Mounier). e também tornar-se-ia personagem teatral do autor. emerge a figura de Dorothy Day. uma das quais os reúne nos ensaios de uma peça para o Provincetown Theater.7 2005 seu editor pessoal. e que o conheceu em Londres. que ainda hoje existe e tantas páginas gloriosas acrescenta aos anais da luta contra a segregação racial.

freqüentava as palestras do Ferrer Center. militantes sindicais. ele o declara numa carta. anarquistas “filosóficos”. Não é tão difícil escrever o que se considera ser a verdade. mas cuja personalidade. Quanto à minha fama…e sua infâmia. Um destes foi James Joseph Martin (dito Slim Martin). Eu já tinha uma profunda admiração por você há vários anos e aquele encontro foi um acontecimento inesperado. gostaria de trocar muita da minha por um pouco da sua. Apesar dos poucos contatos pessoais Emma foi uma grande fonte de inspiração. Outro anarquista muito conhecido que ele pouco frequentou. mas sabe-se que ele lia Mother Earth (revista em que publicou um dos primeiros poemas antimilitaristas). O’Neill escreve a Berkman: “Passou muito tempo desde aquela noite em Romany Marie mas estou certo que você não se lembra de mim melhor do que eu de você. mas freqüentou. que era 229 . é Alexandre Berkman. e foi grande amigo de Lena Cominsky (irmã da Emma) e de Stella Ballantine (sobrinha de Emma). como veremos logo. e de Mary Eleanor Fitzgerald (secretária do Provincetown Theater.”5 Essa admiração desenfreada por um homem então muito mais conhecido como homem de ação do que como teórico do anarquismo nos leva a notar que O’Neill não teve como amigos só intelectuais e artistas.verve Anarquismo na vida e na obra de Eugene O’Neill tos vestígios de encontros entre Emma Goldman e Eugene O’Neill. depois de ter trabalhado na redação de Mother Earth). pensamento e ação inspiraram o O’Neill. marinheiro e operário especializado. em duas das peças que comentaremos. que. numa carta de Hamilton Bermuda. Mas é muito difícil vivê-la. De Emma Goldman se sabe que conhecia as primeiras peças de O’Neill e fez palestras sobre elas. também. Tenho uma imagem muito clara de você na minha mente desde então. anos depois. Em 29 de janeiro de 1927.

Casou com a primeira mu- 230 . Foi o comportamento dele na vida pública e particular condizente com a ética anarquista? As lembranças dos que o conheceram durante a juventude sugerem a imagem de um bêbado inveterado. Mais repreensível. de Warren Beatty e Entertaining Angels. Estar rodeado de amigos anarquistas.7 2005 militante da IWW (Industrial Workers of the World) e a quem O’Neill pediu que o levasse a reuniões sindicalistas. como as drogas no século XX. de Michael Ray Rhodes. de um só gole. desde o seu nascimento. No primeiro ele é o amante de Louise Bryant e no segundo um amigo de Dorothy Day. O resultado foi pelo menos duas peças (The Personal Equation e The Hairy Ape) acabadas. e algumas outras só começadas e abandonadas por várias razões. ter lido livros de autores anarquistas. A doutrina. companheira de bebedeira antes de se tornar apóstola social e religiosa explica assim o vício do O’Neill: “eu tinha a impressão que ele considerava beber como um ensaio para a morte. Bebia o uísque puro. Esta última. Pode-se deplorar a dependência de Eugene do álcool. mas não usála como um argumento contra ele (ele mesmo se deu conta que a bebida o destruía e acabou se tornando sóbrio) tomando em consideração que o pai e o irmão mais velho eram alcoólicos. publicadas e produzidas. e de uma geração a outra. assinar obras de conteúdo anarquista talvez não seja suficiente para traçar um retrato completo de uma pessoa. Como tal é representado pelo menos em dois filmes: Reds. talvez. a esse respeito. enquanto a mãe tinha se tornado morfinômana. não é fixa e varia de um país a outro. tenha sido seu comportamento de marido e de pai. Também tornou-se propagandista ativo quando passou anos navegando na marinha comercial. não para ficar bêbado mas para ver se agüentava”. Muitos anarquistas do século XIX consideravam o alcoolismo como uma das piores pragas sociais.

ignorando os filhos durante anos. em 1946 (isto é no fim de sua carreira quando já era famoso no mundo inteiro devido às suas peças e ao Prêmio Nobel). e posteriormente um anarquista filosófico”. mas representava. Isto foi às vésperas da Segunda Guerra Mundial.7 A obra confirmará tudo isso. O anarquismo na obra do autor Traços do pensamento e da conduta anarquistas se encontram em vários personagens de muitas peças de 231 . Sua atitude para com a família não melhorou com o segundo casamento (núpcias de amor com bastante anos de convivência) do qual ele fugiu de repente. poucos anos antes de morrer. logo depois. uma figura paterna que substituía o pai que ela nunca tinha tido. como veremos. declara “sempre ter sido um anarquista filosófico”. Nestas alturas cabe formular a pergunta: como é que O’Neill via a si mesmo? Numa carta de 1939 a Bernard Cerf o dramaturgo escreve: “Diga ao Saxe que estou me reconvertendo a um anarquismo de aço”.6 Na última conferência de imprensa que deu. Foi assim que Oona casou com Charlie Chaplin. Disse. Foi só aos doze anos que o filho conheceu o pai. sem nenhuma explicação. também: “Antigamente fui um ativo socialista. justamente.verve Anarquismo na vida e na obra de Eugene O’Neill lher e sumiu. durante a qual ele compõe The Iceman Cometh que parecia ser um adeus ao anarquismo. deixando-a grávida. Kathleen pediu e obteve o divórcio três anos mais tarde. e que não foi o caso. que tinha três vezes a idade dela. seu autor de cabeceira. Como conclusão provisória digamos que O’Neill praticou a solidariedade do anarquismo social fora de casa. mas na família praticou mais o comportamento individualista à maneira de Nietzsche.

Entre os primeiros está Tom. amigo de vários companheiros. como sempre. Quem mais o cita — como era de se esperar — é Paul Avrich que. confirmando o que foi dito pelos Gelb e Sheaffer. no teatro de O’Neill. É bem provável que o Avrich volte a falar do assunto no próximo livro dele. elementos autobiográficos combinados a elementos imaginários. Junto a ele uma galeria numerosa de companheiros conhecidos. Em algumas os anarquistas são personagens centrais (que às vezes se identificam com o autor e outras são baseadas em pessoas existentes) ou assunto da obra. de 1915. pró-sindicalistas ou abertamente anarquistas. Na maior parte das peças O’Neill se fantasia de personagem expressando idéias anti-militaristas. contendo. que pode ser o autor como fôra na realidade (devemos lembrar que ele navegou profissionalmente e ocupou empregos humildes nas estivas). dedicado a Alexandre Berkman. o apresenta como freqüentador do Centro Ferrer de Nova Iorque. que foi um dos “ídolos” e também o tradutor russo de O’Neill. ou como ele teria desejado ser. e acrescentando alguns pormenores. anti-capitalistas. A crítica discorda se o Hartman da peça corres- 232 . conhecido autor teatral. É de estranhar — como aconteceu com a sua vida — que o seu teatro de cunho anarquista não tenha interessado aos historiadores do anarquismo americano. pelo menos em duas de suas obras8. admirados de longe ou de convivência direta. A primeira com forte conteúdo anarquista é The Personal Equation9.7 2005 O’Neill. Limitar-me-ei a examinar quatro das peças de maior importância para as idéias anarquistas. colaborador ocasional de Mother Earth. Na peça há também conflitos entre pai e filho bastante parecidos com os que ele vivia com o próprio genitor.

O segundo ato situa-se na casa de Thomas Perkins. o anarquista tcheco que aparecerá como Hugo Kalman. Perkins desaprova. A empregada de Perkins informa das más freqüências políticas e sentimentais do filho. o papel feminino mais importante.verve Anarquismo na vida e na obra de Eugene O’Neill ponde a Sadakichi Hartman (que realmente existiu) ou se é um pseudônimo para Hippolyte Havel. mas de uma peça em quatro atos em que são criadas situações dramáticas de alta tensão e credibilidade. e assim por diante. o direito de greve. Olga Tarnoff. a dramática alternativa entre meios violentos e nãoviolentos de libertação social. porém sem estar casados. bastante parecido com O’Neill. Na discussão que sobrevêm entre pai e filho. viúvo e pai de Tom. A primeira cena tem como fundo a sede de um sindicato da IWW onde as conversas se desenrolam no nível público (planos de greve) e no nível individual (Olga que ama Tom mas rejeita a idéia do casamento e da maternidade). Eles discordam também sobre o uso da força nas reivindicações sociais e políticas.10 Esta peça é inteiramente dedicada ao anarquismo e contém toda a problemática contemporânea: os desentendimentos entre as várias facções da esquerda (os socialistas confiando no processo eleitoral e os anarquistas na ação direta). a união livre ou o casamento. The Iceman Cometh. a denúncia da exploração capitalista. a oposição dos revolucionários à Primeira Guerra Mundial que já tinha estourado na Europa e na qual a América está a ponto de participar. mecânico de navios. este admite viver maritalmente com Olga. foi inspirado em Emma Goldman. acabou de perder o emprego por ter feito propaganda “subversiva” no lugar de trabalho. mas também pedir desculpas aos donos 233 . A posição do pai é que Tom deveria não só abandonar Olga com a qual ele vive no pecado. na peça posterior. Apesar disso não se trata de teatro de pura propaganda. Tom.

Os sindicalistas burocráticos. que se encarregaria de dinamitar os motores do navio se a reunião sindical que está tendo lugar não decretar a greve). Tom decide imobilizar os motores mas. chegam a um compromisso: ambos se amam e tomarão conta de Tom e da criança que Olga traz na barriga.7 2005 da companhia por estar assistindo a reuniões anarcosindicalistas. tem que enfrentar o próprio pai. cada um procura proteger o outro. O ato seguinte se passa num hospital. Nesse encontro terrível. e só repete frases como um papagaio. bem como a namorada. O pai. Vai adiante mesmo se talvez não o vejamos. repetindo o slogan: “Viva a Revolução!” A moral resumida por Olga (Emma Goldman) é a seguinte: “…lutamos e caímos frente ao poder da Sociedade. como se fizesse parte da tripulação. para isto. desempenhar tarefas contrárias. foi preso e os grevistas terão que encontrar outra solução para impedir o navio de zarpar. parece não reconhecer ninguém. atira contra o filho. ao mesmo tempo. mas a revolução continua sobre nossos cadáveres. porém. Francisco — onde se encontram Thomas Perkins de serviço nas máquinas. O terceiro ato acontece em Liverpool. mas. que mentalmente voltou à infância. A peça conclui com Tom. e Olga. se declaram contra a greve e os anarquistas resolvem então passar à sabotagem. fantasiada de homem. sem querer. O companheiro que devia fornecer a dinamite. O pai. Olga e Perkins. É-nos suficiente 234 . O nosso sacrifício não é inútil. querem tomar conta de Tom. o filho (escondido sob o nome de Tom Donovan). depois de brigarem. reduzido a uma existência vegetativa. corrompidos pelos patrões. em parte a bordo do navio S. Ele não pode se expressar. Nós somos a ponte.

Yank. o mais primitivo. o mais violento mas. filha do armador. também. “macacos peludos” (nome da peça mas também insulto de visitantes ocasionais. em tons de comédia. que tão severa se mostrou com ele durante a visita ao navio. os assim chamados membros do sindicato Industrial Workers of the 235 .verve Anarquismo na vida e na obra de Eugene O’Neill saber que estamos fazendo a nossa pequena parte e que as nossas pequenas vidas e pequenas mortes. não lhes falta o sentido da dignidade humana. Os dois protagonistas principais são membros da classe proletária que se queixam de sua condição social. o mais sensível deles. Além de serem explorados pelos donos do navio e apesar de sujos devido ao trabalho que exercem na barriga do navio. reclama vingança. ao redor das máquinas e no meio do carvão. Long e Yank observam que uma família de trabalhadores ou de gente pobre e desempregada poderia viver um ano com o que os ricaços gastam comprando um desses objetos. contra a mesma Mildred Douglas. A segunda peça que examinarei é de 1922 e intitulase The Hairy Ape. pois seu lugar não é na frente das casas dos poderosos mas num calabouço. valem algo”. Acaba sendo preso. Durante sua prisão alguém lhe lê um artigo de jornal sobre os Wobblies. novamente. Isto poderia se efetivar numa visita aos bairros elegantes e numa provocação na saída da missa do domingo.11 Está ambientada. talvez. Apesar da falta de cultura que revelam no decorrer dos acontecimentos. Feridos em sua honra. eles gostariam de ser considerados seres humanos e não animais. cheio de lojas de luxo onde se vendem jóias e casacos de pele cujo preço é assombroso. A irritação de Yank cresce e o leva à inevitável agressão de classe. Fazem parte da tripulação de um navio e falam a gíria dos marinheiros. como a filha do patrão). em meios anarco-sindicalistas mas. No bairro nobre da cidade. apesar de tudo. desta vez.

é The Iceman Cometh12. cópia de velhos periódicos dirigidos por 236 . O Yank se sente atraído por esse movimento e decide aderir a ele. Na próxima folga ele visita a sede dos portuários da IWW. Mas não é propaganda que ele quer fazer. Saxe Commins13. faz algumas mudanças e assina a versão final. Assim o imobilizam e o põem para fora. Isso cheira a provocação. pois a particularidade deles é de deixar a porta sempre aberta: é só empurrar e entrar. para lhe mandar a velha literatura anarquista.7 2005 World. que trabalha na editora Random House. pois essa propaganda é considerada ilegal pelas autoridades. O assunto da peça é a validade ou não das teorias anarquistas. acaba entrando na sua gaiola. Recebe. em 3 de janeiro de 1940. A mais importante das peças porém. mas o adverte a ser prudente. ele pode ser considerado um verdadeiro “macaco peludo”. Relê o texto. deixando livre o animal perplexo. Douglas. Rejeitado por todos ele acaba se refugiando no jardim zoológico onde. O secretário sugere que ele leve um pacote de folhetos revolucionários. sim. mas a moral da comédia é em favor de uma visão individualista. que ele associa a violência contra a propriedade. O recorte reproduz o discurso de um senador antirevolucionário que denuncia o anarco-sindicalismo como a maior chaga da nação. Para ilustrar o assunto ele se pauta em documentos e pede ao amigo de juventude. A linguagem é dura. Agora. que ele começa a escrever em 8 de junho de 1939 e finaliza em 26 de novembro do mesmo ano. Bate na porta e os companheiros estranham este comportamento. senão ação direta. depois de ter um diálogo incomunicável com um gorila. a alegoria é pesada. Os Wobblies começam a desconfiar desse desconhecido que aparece de repente e propõe dinamitar os estaleiros ou os navios de Mr. assim. Pede admissão que é aceita logo sem nenhuma formalidade e pagando só um centavo.

Devemos lembrar que na vida real. ele tentara o suicídio num local muito parecido com o Hell Hole. seria Don Parritt. as discussões sobre anarquismo são estéreis e negativas. Na realidade é um traidor que veio da Califórnia para Nova Iorque. inspirado em Terry Carlin (Terence O’Carolan). Contudo o anarquismo não é o único assunto da peça. mas que trabalha para a polícia. para salvar a mãe. A mãe. Mas Don é torturado. o empurra. mas não último anarquista. Outro personagem anarquista é Larry Slade. para Don. ao qual Larry. O filho acaba confessando que a denunciou por ciúme. que se apresenta como tal.14 Na peça. O enredo leva Don ao encontro de Larry. No fim. O terceiro. talvez. que sempre o tratou com carinho e o escutou como se fosse um adulto. diz ele no começo. outro amigo de juventude que o autor ajudou até o fim da vida. Rosa (inspirada em Gertire Vose e em Emma Goldman) está presa. procurando provas para ajudar a prender os culpados do atentado contra o Los Angeles Times. numa polêmica com o comunista Mike Gold (que 237 . Angustiado ele medita sobre o suicídio. é uma figura paterna e. Larry.verve Anarquismo na vida e na obra de Eugene O’Neill Hippolyte Havel (anarquista tcheco escolhido como personagem da peça com o nome de Hugo Kalmar) e obras de Bakunin e de Kropotkin. sem compaixão. aconteceu. mente e acaba admitindo que traiu. por ter sido o único. na época em que O’Neill freqüentava a boemia do Greenwich Village. seu verdadeiro pai (foi amante de sua mãe). historicamente. quando era criança. sob o pretexto de estar envolvido num atentado. Em primeiro lugar. revela a Larry ter traído por dinheiro. fato que. mas deve-se considerar que os tempos em que este drama foi concebido assiste a uma dupla derrota: a do sonho anarquista na Espanha de 1939 e o início da Segunda Guerra Mundial. pois ela o traía com as próprias idéias que colocava acima de seus deveres de mãe.

sobretudo. em suma. Outra é uma mártir laica. tão paciente. mas nessa bela figura de mulher. O’Neill declarou: “quando um autor escreve propaganda ele cessa de ser artista e torna-se um político”. O’Neill sempre insistiu sobre os diversos níveis de escritura. pois os personagens.7 2005 lhe foi apresentado por Dorothy Day). Há outra interpretação do The Iceman Cometh como se fosse uma “Última Ceia” tendo doze personagens na mesa incluindo um Judas. mantém viva a chama do ideal. Discordo desta interpretação. O Iceman Cometh soa 238 . existe um breve estudo de Robert C.15 O’Neill foi criado católico e apesar de ter renunciado à fé (deixou no testamento que não queria padres no enterro). tão amorosa. tão generosa. Ela encontra-se presa ao idealismo. um preguiçoso e um traidor. Além disso. por outra razão: a presença de duas personagens excepcionais e positivas. Uma seria Evelyn. a mulher que Hickey mata. escreveu muitas peças sobre personagens e assuntos religiosos. para preservá-la. Há quem considere que o elemento religioso. é fundamental na peça. que queria que ele escrevesse obras mais engajadas. por ser tão boa. se incluirmos as três prostitutas e os dois policiais superam o número de doze. representado por Hickey. a ser reverenciada e imitada. O verdadeiro anarquismo. não machucá-la moralmente. e que o marido sente a necessidade de matar. paga pelos erros dos outros. não decepcionála. que não fazem justamente parte do elenco da distribuição e que ninguém — que eu saiba — percebeu como sendo centrais no enredo. não está nos três bêbados. tão compreensiva. que entende tudo e aceita tudo. De fato. mas. Lee que toma em consideração os dois aspectos: “Evangelism and Anarchism in The Iceman Cometh”. Rosa Parritt a mãe traída de Don. um parasita. É uma figura empolgante. mártir de tipo cristão.

nos “castelos no ar” (as utopias. É dedicada a Errico Malatesta. em que reitera suas convicções anarquistas. um sonho final. mas também filosoficamente. o fim da garrafa. A filosofia subjacente é que sempre resta ainda um sonho. numa entrevista declarou: “Bem. O’Neill estava satisfeito com esta peça e disse: “é uma das melhores coisas que jamais fiz. o que eu posso dizer é que se trata de uma peça sobre castelos no ar. pois eu mesmo vi…”. e poucos anos antes de sua morte. A primeira é a entrevista já mencionada. Pense nos “pipe dreams”. O próprio autor. e eu sei. que terá lugar anos depois de ter escrito a peça.verve Anarquismo na vida e na obra de Eugene O’Neill pessimista só depois de uma leitura superficial. agitador anarquista italiano mundialmente conhecido. Aliás temos duas provas contundentes de que o pessimismo aparente de O’Neill não marcou o fim do seu anarquismo. isto é. mostrando que não abandonou as convicções ideológicas da juventude e não aderiu ao pessimismo dos personagens da peça anterior. Não foi nunca encenada nem terminada. mudou de título. e desta vez uma comédia. os sonhos irrealizáveis) aos quais se alude amiúde. uma de Sydney Lumet e outra de John Frankenheimer. é uma continuação do Iceman Cometh . A última obra que mencionarei nunca foi concluída. De alguma maneira talvez a melhor”. Outros devem ter concordado com ele pois existem duas versões cinematográficas. Não só cronológica. de seus pensadores. bem como de seus militantes. qualquer seja o nível baixo ao qual se cai. ele dá início a outra obra de tema anarquista. mas é a que revela o profundo conhecimento que O’Neill tinha do anarquismo internacional. mas o trabalho de pesquisa. A segunda está no fato que logo depois de ter concluído The Iceman Cometh. as anotações do autor e as 239 . Teria sido uma comédia mas com um fundo ético e político.

Aliás O’Neill teria. por ordem expressa de Mussolini. onde ele nasceu. Na Visita de Malatesta. Malatesta. Pouco importa saber se o nome “Rosa” se refere a Emma Goldman ou não. Ele dedicou mais de um ano a esta comédia e revisou constantemente o texto. não pôde visitar seus amigos americanos até a morte (em 1935) por se encontrar sob vigilância policial especial em Roma. iniciada em 1922. se bem que na Itália. anarquistas ou não. O nome escolhido para o personagem principal era “Cesare”. na época. a forma preferida é a de “Errico”. bem como muitos dos boêmios. na realidade. O título inicial era The Visit of Malatesta16. Aliás não há peça dele na qual não apareça algum bêbado. mas a data foi adiantada para 1923. vítima desse fenômeno. mas o próprio O’Neill. a mulher de Daniello chamase Rosa. mas não há provas disso ter acontecido. que negligenciam o ideal para ganhar dinheiro imitando os capitalistas. que ele conheceu na vida. Outro intuito era o de lutar contra o alcoolismo que freia as energias revolucionárias dos militantes. A função de Malatesta e da peça é de representar a ESPERANÇA que talvez tivesse sido sacudida pelo pessimismo aparente de Iceman Cometh. para poder justificar a fuga de Malatesta da ditadura fascista. Um dito da época nos ambientes anarco-sindicalistas é uma das 240 .7 2005 cenas já compostas foram publicados postumamente. O alcoolismo é um problema que afligiu não só o movimento. Malatesta esteve nos Estados Unidos. 11 anos. Há quem diga que O’Neill poderia tê-lo escutado naquela época. como já se chamava Rosa a mãe presa do Don Parritt. em 1899. mas passou a ser Malatesta seeks Surcease. mas que também alimenta a cobiça daqueles companheiros ítalo-americanos da comédia. A colocação temporal inicial era 1912. na peça anterior. depois mudado para “Enrico”. Entretanto. como o foram o irmão maior e o pai.

1974. do engajamento. Francina. p. de 1946. porém. mas rosas também”. 1973. 543 p. Bryer.. Little-Brown & Co. 1968. Yale University Press. ed. Uma tremedeira constante.. Notas 1 Cheguei a esta conclusão depois de consultar a bibliografia de “First Search”que contém informação sobre todos os livros existentes nas bibliotecas e também as teses de doutoramento. New York. 233. Nos últimos dez anos ele viverá uma existência solitária. by Travis Bogart and Jackson R. Son and Playright. Harper and Row. O’Neill. op. 750 p. p. Carta reproduzida no livro Select letters of Eugene O’Neill. que se gaba por ter se tornado “a rosa da paixão pela revolução”. Não me atrevo a atribuir a O’Neill uma conclusão da peça. 4 5 Gelb. Son and Artist. da solidariedade. 241 . 387. New Have & London.verve Anarquismo na vida e na obra de Eugene O’Neill reivindicações que vai além das melhorias econômicas: “Queremos pão. p. 286. mas tudo leva a crer que seria uma confirmação do “sonho anarquista”. mal diagnosticada pelos médicos e nunca curada o acompanhará até o fim. e O’Neill. No rascunho se prevê que Malatesta acabará casando com uma das filhas de Daniello. ed. 6 7 Idem. Little-Brown & Co. Boston e Toronto. Interview ao Sunday Times. a que mais amou) nunca renegando. A “Rosa” torna-se metáfora do amor. Boston e Toronto.. cit. seus ideais anarquistas. 3 Louis Sheaffer: O’Neill. 1974. 2 Arthur and Barbara Gelb.. Por razões de saúde O’Neill abandona este projeto e vários outros previstos em suas anotações pessoais. separando-se temporariamente até da própria mulher (a terceira. da chama da revolução. 990 pp.

1987. Isidore Cominsky. e posteriormente em The Modern School Movement (Anarchism and Education in the United States). 4 acts. The Library of America. Early Plays. The O’Neill-Commins Correspondence. New York. Harold Bloom (ed).407pp. edited with an introduction by Jeffrey H. 355-395. pp. Trata-se de uma peça em quatro atos. The Unfinished Plays.I: 1913-1920. Grainesville. 1995. Vol. O. 1980. XXVIII. talvez o mais íntimo de seus amigos. que O’Neill e outros boêmios freqüentavam durante os dois primeiros decênios do século XX. “Notes for The Visit of Malatesta” In Eugene O’Neill. 1986. Complete Plays. 9 10 E. Vintage Books. by Travis Bogard. a autora também escreveu o precioso ensaio Eugene O’Neill at Work: Newly Released Ideas for Plays. University Press. Richards. University Press. The Iceman Cometh. A correspondência entre eles foi tão copiosa que foi publicada em livro. Dorothy Commins (ed) Durham. 11 de Eugene O’Neill. 1981. New York. 1957. Princeton. Duke University Press. Chelsea House. Ver Eugene O’Neill. 1988. edited and annotated by Virginia Floyd. New York. 16 242 . 14 15 Ver Eugene O’Neill. 1104 p. pp. Ungar. New York. 248 pp. Penguin Books. New York. Emma Goldman and the Iceman Cometh.. Ver: Love and Admiration and Respect. O Hell Hole da peça é uma combinação de três locais realmente existentes no Greenwich Village. pp 35-48. XXXIX. and E. 309-387. ed. 12 13 The Iceman Cometh. Princeton. 213pp. 2001.). The University Press of Florida.7 2005 8 Paul Avrich. G. G.. Continuum. 1974. Anarchist Voices (An Oral History of Anarchism in America). New York.

Recebido para publicação em 31 de março de 2005. 243 . teatro norte-americano. estudado em três peças concluídas e uma inacabada sobre Errico Malatesta. biography. ABSTRACT The anarchism in the work of the American writer Eugene O’Neill studied in three dramas and one unfinished drama about Errico Malatesta. Keywords: anarchism. Italian anarchist.verve Anarquismo na vida e na obra de Eugene O’Neill RESUMO O anarquismo na obra do escritor norte-americano Eugene O’Neill. American theater. Palavras-chave: Anarquismo. anarquista italiano. biografia.

e também uma pesquisadora que experimenta por meio da arte e atitudes cotidianas. Lygia é uma artista que pensa por meio da arte. ao mesmo tempo. alguns de seus manuscritos e parte de sua produção teórica acerca da arte e das técnicas terapêuticas.7 2005 lygia clark e nietzsche-zaratustra: trajetórias beatriz scigliano carneiro* Lygia Clark. transfigura-se e transcria o percurso da vida-pensamento do próprio Nietzsche. artista plástica brasileira (1920-1988). fez da atividade artística um elemento capaz de empreender a transformação de si. de quem “se torna quem se é”. Lygia Clark e Nietzsche-Zaratustra confluem no trajeto de quem se transforma. de quem tem como destino “querer o que sabe”. transformação que se abria para o mundo e para a afirmação de novos valores. 2005 244 . vi*Doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP. 7: 244-263. Analisando as suas obras. é possível estabelecer correspondências com o percurso do personagem trágico de Nietzsche apresentado na obra Assim falou Zaratustra. verve. Zaratustra anuncia o além do homem e.

hoje considerados referências na arte mundial. esculturas montadas por planos de alumínio ligados por dobradiças. ou passatempo como havia sido nos tempos de escola. teve uma crise nervosa da qual saiu ao retomar com afinco a pintura e os desenhos. os Bichos têm sido o conjunto mais conhecido de sua produção artística. Junto ao grupo de artistas Concretos e Neo-Concretos. Arte não foi “repouso para o empobrecimento da vida”. nas mãos de Lygia a arte se tornou ferramenta de transformação de si. de 1947 até 1954.1 Lygia Clark nasceu em Belo Horizonte em 1920. a arte consistiu em algo mais do que terapia ocupacional de dona de casa deprimida. rigorosamente construídas. apresentou seus Bichos. Até perto dos trinta anos de idade. cursou a escola normal. imagens e representação do espaço. No entanto. habilidade notória de sua infância. 245 . Em seus cinco anos de aprendizagem. Este artigo apresenta uma conversa possível entre estas trajetórias. em uma mostra de grande impacto. onde nasceram seus três filhos. inventar a sua vida. Em 1947. As possibilidades de cada exemplar destas esculturas dependem totalmente do desdobramento dos seus planos a ser realizado pelos visitantes dos espaços expositivos. Considerado a obra máxima de sua trajetória artística e o apogeu do Grupo Neo-Concreto. um estilo que prescindia a figuração. Lygia realizou importantes trabalhos bidimensionais. casou-se e se mudou para o Rio de Janeiro. vivia como dona de casa comum de uma família abastada. as esculturas permanecem formas estáticas e silenciosas.verve Lygia clark e nietzsche-zaratustra: trajetórias sando antes de tudo. sem mostrar suas possibilidades formais. Em 1960. resultantes de suas pesquisas no espaço pictórico. Sem esta manipulação da obra. exercitou diversos caminhos até se decidir pela composição ordenada da geometria.

cada criança começava a se individualizar e a descobrir afinidades expressivas e emocionais com o mundo externo. o próprio NietzscheZaratustra concluiu. muitas vezes o público. Não caberia uma busca de discípulos. apressado por uma curiosidade ligeira pela chamada ‘arte participativa’ que despontava na época. obras dos grandes mestres da arte. considerando-a lazer para momentos de ócio. no caso. Rio de Janeiro.7 2005 Zaratustra se dirigiu à praça do mercado para anunciar a superação do humano e criação de novos valores. “E como falasse a todos não falei a ninguém”.4 Naquele mesmo ano de 1960. Levou material com reproduções dos grandes mestres da pintura moderna e deixou que os alunos folheassem à vontade. para evitar que os criados mexessem na obra. 246 . congelando apenas uma possibilidade do Bicho. no Instituto Benjamin Constant. Atrair muitos para fora do rebanho — foi para isso que vim”. foi-se selecionando quem tinha mãos para desvendar suas propostas.2 As forças reativas predominavam.3 Lygia soltou seus Bichos em diversos espaços. quando selecionava seus modelos. Desse modo. Certa ocasião um comprador da escultura cogitou soldar as dobradiças. Nem palavras nem gestos expressivos circulavam por aquela sala de crianças apáticas. mas de companheiros capazes de ouvir. Muitos brincavam. Fracassou. já no Prólogo do livro. e por meio deles. “Não deve Zaratustra tornar-se pastor e cão de um rebanho. outros se constrangiam. A proposta das aulas era recriar o modelo escolhido a partir da observação. a estultice de tentar se comunicar com todos. não percebia o alcance da experiência. inclusive em cidades européias. Primeira atitude ao entrar na sala de aula foi despertar interesse “naquelas almas trancadas à comunicação”. Lygia fôra nomeada professora de arte no Instituto Nacional de Educação de Surdos.

cachinhos na cabeça.. Anteontem dei-lhes massa para modelar e todos fizeram pênis gigantescos. Começou uma pornografia desregrada. conhecendo artistas e críticos.. era um tal de engolir ou bater com eles na cabeça uns dos outros.culminando com a coisa mais surrealista jamais vista por mim: entrou na sala uma menininha de um ano e meio. casada com o marchand Jean Boghici.. de 15 de abril de 1961. Deram um pênis para ela segurar e ela saiu. E qual não foi minha surpresa quando todos eles fizeram óculos e atualmente eles o usam como pessoa adulta. artista e crítico. faziam gestos incríveis. linda. diante do interesse despertado no momento.. segurando com uma delicadeza como se fosse uma flor. de apenas acompanhá-los em suas descobertas. Em carta para Mário Pedrosa.. Os Bichos. mas lhe deu experiências que se consolidaram mais adiante em seu trajeto.verve Lygia clark e nietzsche-zaratustra: trajetórias Lygia inventou um meio de lidar com crianças qualificadas como anormais por não conseguirem se expressar pela voz e viverem no silêncio. numa algazarra infernal aos gritos (porque eles gritam e como. parecendo selvagens de outros planetas.). No entanto. grunhidos e expressões corporais. deixando-se surpreender. acompanhando-o em visitas “de galeria em galeria”. saindo do meio dos meninos que. disse: “jamais espe247 . Crianças que apreendiam o mundo exterior pelo olho e pelo tato e pelo sentir a vibração das coisas em seu corpo e se comunicavam por gestos. dois momentos de suas aulas são ali descritos: “outro dia fiz umas experiências para eles com arames e pensei. ganharam um reconhecimento imenso. viajou pela Europa.”5 O trabalho como professora ligada a rede oficial de ensino durou apenas um ano... ao manusear o Caranguejo. Michel Seuphor. manteve uma postura de procurar “ir com eles”. Em 1962. que sairiam coisas geniais da parte deles. inocência e feminilidade personificada.. o famoso conjunto de esculturas manipuláveis.

mas a Sra quem fez agora!”6 Alguns dias depois. a inquietude permanecia. queria que o “homem moderno”. Com esta descoberta. usando uma tesoura em um pedaço de papel. todos enfim. Apesar do inegável sucesso e reconhecimento público dos seus trabalhos. O corte da fita pode ser repetido por qualquer um. Como o Pevsner gostaria e se divertiria vendo isto! É uma coisa que Gabo tentou fazer antigamente. com uma tesoura. que já fiz os meus Bichos continuo pensando?…Estou cansada”. tivessem a vivência. Lygia retornou entusiasmada à “praça do mercado”. interesse e vontade por parte do espectador: “uma vontade ingênua 248 . a experiência crucial para uma transformação irreversível da vida e produção de Lygia foi a proposição Caminhando: o simples corte com uma tesoura na fita de Moebius. se encontrou com Jean Arp que “ficou maravilhado e afirmou: tenho visto muita coisa de arte abstrata. com o ritmo contínuo do tempo em um gesto trivial. Cortar a fita. Lygia achou que a criação dos Bichos fôra suficiente para manifestar seu pensamento.7 2005 rei ver uma obra destas” e continuou: “Isto é importantíssimo. registrado em fotos de 1963.8 Apesar do confortável sucesso destes trabalhos. um contato real.7 Por esta época. proporcionou a vivência de um fluxo incessante. cada ato de cortar vale por si e consiste em uma experiência única e sempre inaugural. Percebeu. que agora se faziam necessários concentração. porém. mantendo o gesto de corte em linha reta. cortá-la a partir de qualquer ponto da fita. físico. “Porque eu. uma figura topológica conhecida pelos artistas. mas jamais vi coisa tão bela”. Caminhando de Lygia Clark é uma proposição: dobrar uma tira de papel torcendo-a uma vez ao colar as extremidades e.

escreveu neste período. “Dentro do meu peito mora um leão”. atingisse o “estado da arte sem arte”. O ocaso. “me sentia morta. ao se situar no momento presente. de se estender ao abismo e à noite. de 1963 a 1965. ou uma ausência dentro de si. recuperou momentaneamente. O excesso produz um impulso não de preencher um vazio... Ela como artista. mas de esvaziar. Passada a crise cardíaca. Tudo se passa como se hoje o homem pudesse captar um fragmento de tempo suspenso. Esta experiência se vive no instante. o “mesmo ‘élan’ e encanto que sentia antes de fazer a proposição Caminhando”. fulminante como um raio: a percepção do instante.9 Caminhando permitiu-lhe esta vivência intensa. e este sentimento já havia durado quase dois anos”. como se toda uma eternidade habitasse no ato da participação. “A taça quer transbordar.verve Lygia clark e nietzsche-zaratustra: trajetórias de apreender o absoluto pelo ato de fazer o Caminhando. Vê!’ Assim começou o ocaso de Zaratustra”. Este sentimento de totalidade camuflado no ato precisa ser recebido com alegria para ensinar a viver sobre a base do precário. Agora são vocês que dão expressão ao meu pensamento. Ao admitir “grandes transformações passando em seu interior”. conservando a gratuidade do gesto”.11 Seu ponto de partida é a superabundância. “Arte não é mistificação burguesa.10 Zaratustra tinha quarenta anos quando seu coração mudou e ele desceu de sua montanha. É preciso absorver este sentido do precário para descobrir na imanência do ato o sentido da existência”. A intensidade desta vivência foi tão forte que Lygia precisou repousar devido a problemas cardíacos. 249 . apenas propôs ao outro que. de transbordar. O que se transformou é a maneira de comunicar a proposição. tirando daí a experiência vital que desejam. ainda se sentia exausta. a saber.

referia-se ao percurso que a obra e as atividades envolvidas em fazê-la. Cesariana. Inventou trabalhos vestíveis. mas tato. sacos plásticos. realizadora de obras elaboradas e espalhadas no circuito das artes mundiais: Bienal de Veneza. Bichos sem dobradiças de 1963. “la jolie madame du Brèsil”. a Casa é o Corpo (1968). e que exigiam a participação ativa do público para sua realização. Ao deixar de fazer obras bem acabadas. apresentado na Bienal de Veneza. Eu e o Tu (1967) e um labirinto penetrável. não apenas a visão. Sempre se pode escolher. Quando desabafava. Na época. exigiam. Não deixou de participar e ser convidada para importantes exposições.7 2005 Aos 43 anos. abandonou os metais. e a vontade ultrapassa impulsos irrefletidos. nos Abrigos Poéticos de 1964. Só lhe restou o caminho de “tornar-se o que se é”. ela era um nome consagrado e seus tra- 250 . material ainda presente em trabalhos como Trepantes de 1965. na sua série Objetos Sensoriais. pedras. e passou a empregar materiais precários e efêmeros em trabalhos plásticos que privilegiavam sensações corporais. mas de uma coragem ética de “querer o que já sabe”. ou então se cristalizar em uma identidade pacificada e deixar a máscara da “jolie madame” se tornar sua carne. como Máscaras Sensoriais. começou o ocaso de Lygia Clark. pois com Caminhando vivenciara o precário e se deixara invadir pela experiência. em seus textos e cartas. A força da escolha não vem da liberdade. gozava as prerrogativas de “primeira dama do concretismo”. que precisaria abandonar tudo para viver de arte. galerias da Europa.12 Liberdade é prática de exercer a vontade. “melhor escultora brasileira”. de 1964. as quais significavam pensar e saber. Lygia foi ficando afastada de parte de seu público. Usou borrachas nas Obras Moles. mas a possibilidade da liberdade não garante a melhor opção para a vida. Aos poucos. elásticos. olfato. luvas.

mesmo contando com uma resistência mais contundente de alguns críticos.17 No percurso da transformação de 251 . como fazem os sacerdotes e o Estado. porém. o tipo que recrimina os outros e a própria vida por seu sofrimento.verve Lygia clark e nietzsche-zaratustra: trajetórias balhos. Lygia. talvez. “Que importa a tua pessoa Zaratustra! Fala a tua palavra e despeça-te!”16 Em meados de 1968. pois era algo acima de suas forças. Estou chorando o fixo que já não tem mais sentido em vez de aceitar na maior alegria o precário como conceito de existência”. Realizou assim o que temera anos antes: “viver para sua arte”. amigos.14 E. tinha momentos de grande desânimo. também. Mas até que ponto as descobertas de Lygia modificavam sua própria vida? “…no fundo há auto-compaixão por mim mesma. “Ainda precisa tornar-te criança e não sentires vergonha”. o niilismo passivo que nega qualquer ação. pois enfrentava incompreensão até de amigos. devido à impossibilidade de suportar que “não há futuro para corrigir o instante”. Lygia deixou filhos. foi-lhe exigido coragem em querer. mas não queria dizê-lo. sempre atraíam interesse. com medo.13 Zaratustra enfrentou vários tipos de niilismo. nem ela conseguisse enfrentar? Como ordenar sem a voz do leão? Zaratustra enfrentou sua hora mais silenciosa. conforto e foi residir em Paris.15 Como esperar de um espectador anônimo o que. não só devido aos militares no governo. enfrentar o que sabia. a negação da vida em nome de valores universais. numa auto-acusação dos erros. Lygia assim escreveu neste período: “Urge ter coragem de renunciar a artificiosas compensações. mergulhar em suas experiências com uma liberdade que ela não poderia encontrar no Brasil.… urge olhar para dentro. com pavor”. mas principalmente porque aqui ela era conhecida e observada. apesar de não ter dúvidas quanto ao valor de seu trabalho.

“Tu sabes e não queres!” Na obra estética de Lygia. também. Suas propostas sensoriais foram-na levando a regressões a um passado que era presentificado no corpo. mas eles não estavam ‘maduros para seus frutos’. que proporcionava a quem a vestisse uma sensação de queda em um espaço oco. de horror. ela tinha dificuldade em se comunicar. a Máscara-Abismo (1969).18 Lygia. noites alucinatórias se sucediam.7 2005 Lygia e Zaratustra. “que agora me parecem bem mais terrificantes que tudo que já fiz”. mas até com amigos mais próximos. acessível. o Abismo ganhou uma máscara. não apenas nestes eventos. numa atitude característica do niilismo passivo. a obra de ambos estava pronta. Lygia escreveu sobre o abismo: “O vazio que se apodera de mim só pode ser entendido sentindo e assim creio que sentindo posso entendê-lo. O mundo noturno se abria. nos sonhos.. A palavra emudeceu. onde a chamassem. nem viver. mas não resolvê-lo”. a partir de seu ateliê em Paris.. Zaratustra em sua hora mais silenciosa ouviu: “quem quer tornar-se criança deve. Lygia foi convidada para dar aulas 252 . Isso a deixava em paralisantes crises. presentificando sensações arcaicas. Acho que coisas começam a se remoer dentro de mim e devo passar ainda por grandes transformações! É duro. superar sua juventude!”. na rua. mas o que se há de fazer?”21 As transformações se tornam destino quando se adquire coragem para deixálas acontecer. Continuava a formulação de proposições sensoriais. nas alucinações. viajou pela Europa levando seu trabalho. perdendo seu espaço na expressão... o abismo falava a Zaratustra.22 Em 1972. “Acordei duas vezes durante à noite .20 Na vida. tornou-se portátil. andarilha.19 No entanto. durante as quais nada lhe parecia mais valer a pena. assim voltaram à solidão. Apresentava-o em galerias.

enquanto vários outros o cobriam com linhas de cor que tiravam da boca.24 Presente e passado estavam no futuro. ao longo de sua vida. a vivência do Caminhando fôra clara como um raio. foi este o único sonho do qual ela expressou a imagem em uma ‘quase’ representação. que. que no mundo inteiro.23 O trabalho estético de Lygia. praticamente. A vontade humana poderia querer para trás? “Que o tempo não retroceda.verve Lygia clark e nietzsche-zaratustra: trajetórias na Universidade de Sorbonne. da má consciência. atuavam nas transformações sociais. para Lygia. Lygia tinha grande interesse nos jovens. “Queira esse passado!” Esse foi o impacto do eterno retorno na vida de Nietzsche. A baba escorrendo da boca era a imagem de um sonho recorrente de Lygia. marcada pela abertura exigida pelos estudantes. como em Zaratustra. promovia cursos experimentais e atraía docentes capazes de um trabalho instigante e transformador. Zaratustra descobriu em um determinado momento de seu caminho que o passado impedia a redenção pela chegada futura do além do homem. Baba Antropofágica (1973) era uma proposição grupal. Uma das metas da filosofia de Nietzsche seria liberar o pensamento do ressentimento. Havia algo a vencer: o ressentimento. também manifestou essa luta contra o ressentimento. a reação raivosa da vontade por não conseguir “querer para trás”. “Aquilo que foi” é o nome da pedra que a vontade não pode rolar”. criando invisível teia da culpa para capturar a vida e devorá-la. A moral do “tu deves” reativa cobrava atitudes morais e distribuía seus castigos. Para Nietzsche-Zaratustra a aranha seria a figura desta moral. Por seu lado. No entanto. 253 . é o que a enraivece. ainda lhe faltava a força de querer isso que sabia. e segunda ela. inventada no curso da Sorbonne. na qual um dos alunos do grupo ficava deitado.

Lygia percebeu que os seus alunos na Sorbonne “traziam suas coisas . porém. estes animais deixaram de ser símbolos de forças naturais e arcaicas para se tornarem canais de presentificação destas forças no cotidiano. eles se tornaram convalescentes. o que a fazia regredir ao que ela denominava arcaico. ela estava em um processo analítico com o psicanalista Fedida. depois eles nem me olhavam mais. Eu virava bichos. Zaratustra estava sentado em sua pedra quando ouviu o grito de socorro dos homens superiores. conversavam entre eles. depois serpente. culpando-se da voracidade da teia.. comia frango como uma águia..26 Coincidência ou não. Aos poucos.25 O veneno estava dentro dela. ligadas à análise que eu fazia. “Vivências terríveis na Sorbonne.27 Assim. via todo mundo como se eu fosse serpente”. a baba se transformou em um objeto de borracha e foi engolido. Lygia relatou: “um aluno vendo a experiência da Baba disse que estava vendo como as aranhas estavam ligando seus machos na sua teia de aranha.28 A caverna de Zaratustra encheu-se de risadas. Já sabia. mas a percepção às vezes é tão intensa que é como se fosse a primeira vez”. o que importa aqui. Zaratustra. parecia que eu ia enlouquecer. [. águia e serpente também eram os animais de Zaratustra.. a má consciência se insinuando... Tive um grande choque.. para sua caverna. uma águia voraz. Olhei e pela primeira vez tive a impressão de que era exato. que envolvo tudo e todos na minha teia. a aranha. Nos anos da docência na Sorbonne. Realizar a Baba Antropofágica fez com que Lygia tivesse um último sonho da série recorrente: neste. seria que ela os incorporou. assustados com a morte de Deus e pelas exigências de criar valores humanos.. os levou para sua morada.] eu ficava um elemento jogado fora do grupo”.7 2005 Sobre esta experiência. afastou-se com 254 . Eu. Entretanto.. Entre cantos e ceias.

inventando um método de atingir silêncios e trazer sensações arcaicas e mudas para serem compartilhadas. do que estava congelado na 255 . através do objeto relacional ou do toque direto de minhas mãos”. mas de um sentir concreto: as sensações são trazidas. [. Mas agora não fazia mais grupos. ao Brasil em 1976. achando que o meu curso na Sorbonne perdeu o interesse para mim”. no aqui e no agora.33 Seus Objetos Relacionais faziam emergir uma memória afetiva que a verbal não conseguia abarcar. selecionava. não foi meu riso que aprenderam”. definitivamente.. “Divertem-se”. “Não se trata de um viver virtual. o trabalho individual possibilitava maior dedicação a cada caso. Não procurou mais falar a todos. revividas e transformadas no local do corpo. nome de sua terapia. transpondo suas descobertas na arte para o processo terapêutico. O entusiasmo pelas aulas da Universidade foi arrefecendo. e se dedicou à terapia individual.30 Zaratustra olhou para a grande cidade e deixou esse ensinamento: “Daquilo que não se pode mais amar. Desanimada. misturava técnicas de relaxamento com seus objetos relacionais. utilizados na Sorbonne.] e mesmo se foi de mim que aprenderam a rir. Somente quem passou por grandes catástrofes pode entendê-las”. “Ando péssima. “Recusei pessoas que passaram pelo meu método por achá-las rasas. “Só amo trabalhar com borderlines”.34 A técnica de Lygia permitia fazer a experiência corporal. os alunos já não lhe instigavam o pensamento.31 Lygia retornou. deve-se passar além!”.29 Percebeu enfim que aqueles não eram os companheiros certos.verve Lygia clark e nietzsche-zaratustra: trajetórias seus animais. Na Estruturação do Self..32 Fizera uma escolha e dentro da escolha. são neuróticos e nunca entenderiam a linguagem de um borderline ou de um psicótico.

A serpente insidiosa e fluída na garganta sufocava. esta atividade a consumia emocionalmente e foi interrompida em diversos períodos. nos sonhos e em sessões terapêuticas. ocupando espaço da palavra. permitia um retorno a uma situação primordial. pelo “exercício experimental da liberdade”. O dentro se tornava o fora dissolvendo contornos.37 Tais crises tornavam-se uma abertura total ao outro a ponto dela se sentir dissolver.35 Durante a sessão inteira. numa oscilação constante até sua morte em 1988. impedindo a voz. Vejo-me através de todas as pessoas independente de sexo e de idade. seria “o aquilo que foi?” Entretanto. emudecendo o pensamento? Naquele último sonho da série recorrente. a mudez que mantinha a sensação encapsulada em si mesma sem ser compartilhada.39 o que fazer com essa baba que escorria sem cessar. “Me sinto como uma esponja que chupa toda psicose do cliente não tendo a palavra para metabolizar”. Mesmo optando pela fluência da vida. Eu sou o outro”. Não mordeu e cuspiu a serpente ressentida como na cena do enigma descrita por Zaratustra. Lygia enfrentou o bloqueio do impulso para a comunicação. na qual ele tenta arrancar uma cobra da garganta 256 .7 2005 memória do corpo de um ser adulto e capaz de se comunicar com outros. embora num passado remoto este acontecimento já se deu através de sensações corpóreas”. sem tempo.38 Perceber seu contorno no mundo era um enorme esforço para Lygia. nem contorno: “É no aqui e agora que o acontecimento se dá como se fosse pela primeira vez. o paciente deveria segurar uma pedra. e requeria uma constante reconquista da palavra. Lygia engoliu a baba materializada em um tubo de borracha num ato de voracidade. Lygia a chamou de ‘prova do real’36. “Perdi minha identidade e estou dissolvida no coletivo.

metabolizou o ressentimento em seu corpo.40 Lygia. A atenção ao próprio corpo não desviava da atenção aos movimentos e forças desencadeadas pelos outros. a posição dos corpos em tensão e prazer simultâneos. seja pela visão — ver a cobra na boca de outro — seja pelo sentir cinestésico que buscaria o fio da baba inscrito no próprio corpo. numa corrente cinética. uma série de leotards41 de cores diferentes costurados entre si em alguns pontos e que deveriam ser vestidas pelos espectadores interessados em participar da obra.verve Lygia clark e nietzsche-zaratustra: trajetórias de um pastor sufocado e como ela resistisse. As tentativas de mobilidade acarretavam interações variadas e exigiam atenção às forças desencadeadas. ao contrário. uma resistência se fazia possível e uma força individual modificava o caminho da movimentação. a situação vivida. em outros. por elásticos ou plásticos. Atitude masculina de cortar fora e inventar novos valores? Atitude feminina de engolir e metabolizar. sem 257 . Um de seus últimos trabalhos artísticos apresentados em público em um evento de arte — IX Salão Nacional de Artes Plásticas. para daí inventar novos valores? Ou estratégias diferentes para se buscar o ponto persistente desse ressentimento para assim o destruir. vida e obra de Lygia apontam para a invenção de uma sociabilidade desenhada pela convivência. gritou para que o pastor a mordesse e a cuspisse fora. Surgiu de uma estilização das experiências grupais de Lygia desenvolvidas em Paris. Em alguns momentos. em 1986 — foi Corpo Coletivo. nas quais todos se uniam fisicamente pelo toque. cada um se sentia compungido a seguir o conjunto. O movimento de um era alterado pelo movimento do outro e ao mesmo tempo alterava o dos demais. na qual interessam o momento. No Corpo Coletivo as malhas costuradas entre si possibilitavam experimentar a sinergia do grupo a partir de uma experiência corporal individual. O pensamento.

42 Transformar-se em criança seria realizar a superação anunciada por ele.7 2005 idealizar a mediação de Deus. Defini-la a partir do adulto que se quer construir moralmente transformaria o superhomem no burro de carga de hoje. Sensações arcaicas exigiam palavras para serem comunicadas e compartilhadas. o leão é incapaz disso.. Todavia. 258 . portanto experimenta”. Zaratustra encerra sua trajetória de anúncio do além do homem na chegada do leão. “Os meus filhos estão próximos”. Seu coletivo era baseado na convivência vivida — relações que se dão em espaços concretos. refaz uma suposta normalização estática dada pelo conceito. Estado e seu Contrato. O Leão rugiu e os homens superiores desapareceram. busca eixo. investiu no contato estreito com pessoas menores. O futuro anunciado por Zaratustra se encontra na criança.] A criança deixa fazer dançar. em contraposição à imagem ideal de ser humano. [. sozinho agora. Nessa cena final do livro anuncia-se um outro tempo — o grande meio dia.. perde os sentidos pelos sucessivos giros. seria dizer sim. tonteia. compreendeu qual foi sua “última tentação”: “Compaixão! Compaixão pelo homem superior!”. cria novos valores para superar o espírito humano. Lygia nunca perdeu a dimensão de que “a comunicação com o corpo abre para o coletivo”.43 A criança não se deixa definir por estratégias conceituais de pedagogias que visam moldá-la para suportar os fardos da moral. passava longe de Lygia propor um mergulho em si ou uma auto-descoberta do ego. nos remete às crianças e ao ser criança como formas ininterruptas do ato de guerrear e de instabilizar idealizações. apenas a criança afirma. Zaratustra. “Chegou o sinal!” No entanto. Lygia preocupava-se com a noção de humanidade. seria se tornar o super-homem. no entanto. “O princípio do eterno retorno. pois sua vontade ainda diz não ao “tu deves”.

Zaratustra duvidava que os homens superiores recolhidos em sua caverna fossem seus reais companheiros. “Ain- 259 . convidou para sua caverna os menores — seres tutelados ou sujeitados. feiticeiro. possibilitou introduzir elementos cruciais para a superação do homem. “Somente quem passou por grandes catástrofes pode entendê-las” — afirmava Lygia. em vez de tentar aperfeiçoá-los em direção a uma maioridade ou condicioná-los por processos pedagógicos. enfrentando inclusive o perigo da compaixão. Por meio da arte e da transposição da arte para uma atividade terapêutica. Lygia reconheceu a grandiosidade das experiências deles e de saberes decorrentes. ao descolar os saberes sujeitados e vivências dos modelos de interpretação uniformizadora. e os levou para sua caverna. A luta para se comunicar com um coletivo. resultaria em compaixão. por sua vez. Lygia. também. deu-se com eles. Nietzsche teve seu embate com os homens superiores: reis. mas resistindo a ele. para se transformar. o que. Nestas pessoas encontrava o esforço para se comunicar ou para entrar em contato com o sofrimento. A correspondência entre o caminhar de Lygia e o de Zaratustra mostrou seu sentido mais instigante quando Lygia. pois os considerava indivíduos únicos. Lygia aproximou suas experiências das crianças surdas-mudas. sem a autonomia do maior. afastados do rebanho e junto a eles esperou encontrar a ponte para o além do homem.. Todavia. Foram estes os companheiros que ela desprendeu do rebanho. e muitas vezes desqualificados por um discurso científico maior. sacerdotes. enfrentou com paciência transferências e contra-transferências de alguns de seus alunos da Sorbonne. Lygia acabou desprendendo de uma rede normalizadora saberes sujeitados. Na atividade terapêutica dedicou-se aos casos mais problemáticos: borderlines e psicóticos.verve Lygia clark e nietzsche-zaratustra: trajetórias dependentes de tutela. dos autistas.

Como não ceder às tentações da compaixão e conseguir deixar os perdidos entregues a si mesmos? No entanto.7 2005 da dormem esses homens superiores. Carta a Mário Pedrosa. fita cassete.44 Lygia. 5 Lygia Clark. Michel Seuphor (1901-1999). CEMAP/CEDEM/ UNESP. exatamente pela dificuldade em lidar consigo própria frente a estes parceiros. Rio de Janeiro. 260 . por sua vez. Civilização Brasileira. Idem. 1998. 333. A invenção de valores e o exercício de uma ética arrasam efetivamente a sujeição destes saberes ínfimos e silenciosos e o mascaramento de seus protagonistas em personagens pacificados? Questão queimada pelo anunciado sol do grande meio dia ou sombra insidiosa deslizando pelo avesso das pedras? Ou ambos? Notas Parte deste artigo foi apresentada no XV Encontro Nietzsche: Colóquio. p. 3 4 Depoimento de Lygia Clark para o MIS-RJ. nem os rasos neuróticos. Lygia faz emergir uma pergunta nos interstícios das certezas. realizado de 13 a 17 de outubro de 2003. aqueles que passaram por extremo sofrimento ou incompreensão — nomeados como bordelines —. p. Letras e Ciências Humanas. 6 Lygia Clark. tinha periódicas dúvidas se conseguiria dar continuidade ao seu trabalho como terapeuta. ao incorporar. na invenção de um coletivo. artista. Carta a Mário Pedrosa. e não as crianças saudáveis. 14 de julho de 1962. gravado em 14 de setembro de 1979. Universidade de São Paulo. Assim falou Zaratustra. quando eu já estou acordado: não são esses os companheiros próprios para mim”. 1 2 Friedrich Nietzsche. CEMAP/CEDEM/ UNESP. 47. 15 de abril de 1961. na Faculdade de Filosofia. escritor e crítico de arte belga.

Jean Arp (1886-1966). op. 19 Lygia Clark.verve Lygia clark e nietzsche-zaratustra: trajetórias participou do Surrealismo e da Arte Abstrata. p.cit. 20 Manuscrito. p. p. 14 15 16 Roberto Machado. 57. Oiticica. Gilles Deleuze. op. Surrealismo. CPDOCMAMRJ. Depoimento de Lygia Clark para o MIS-RJ. 261 . Nietzsche e a filosofia. p. 29. Fundação Tàpies. 298.cit. importante artista francês das vanguardas do começo do século XX: Cavaleiro Azul. Magalhães. 1998.cit. Fundação Tàpies. p. 1980. Rio de Janeiro. 17 Idem. pp. 180. Lygia Clark. “28 de outubro de 1963” in Lygia Clark. 1998.Clark — H. Rio de Janeiro. 1998. Friedrich Nietzsche. op. 8 Lygia Clark. p. Rio de Janeiro. Friedrich Nietzsche.cit. 112. 172. UFRJ. 1996.cit. 167. Lygia Clark. pp. Lygia Clark. Os irmãos.. Fundação Tàpies. p. p. 21 22 23 Friedrich Nietzsche. Dadaísmo. grifo meu. Rio de Janeiro. 1997. Gilles Deleuze. p. 33-34. Porto.Clark — H. 18 Ibidem. 34. 13 Lygia Clark. 1998.cit. “Considerações a alguém” in Lygia Clark.. Funarte. “Arte. Fundação Tàpies. p. Jorge Zahar Editor. Carta de 11/08/1970 in L. op.170-171. 179. Religiosidade. 131. Espaço-Tempo” in Lygia Clark. op.. 7 Lygia Clark. Lygia Clark. p. p. 168. op. Cartas: 19641974. op.cit. s/d. Cartas: 19641974. Oiticica. 1997-1998. p. 24 25 26 27 Friedrich Nietzsche. 178. op. cit. p. CEMAP/CEDEM/ UNESP. 180. Roberto Machado. 18 de julho de 1962. António M. entre outros movimentos. p. Lygia Clark. 1997. 145. Carta de 26/10/1968 in L. Zaratustra: tragédia nietzschiana. 54. Carta a Mário Pedrosa. p. RésEditora. Arquivo Lygia Clark. Paço Imperial. Pasta 32-produção intelectual. s/d.. Antoine Pevsner (1886-1962) e Naum Gabo (1890-1977) foram expoentes do construtivismo russo. setembro de 1979.180. 9 10 11 12 Lygia Clark.

setembro 1979.cit. 37 38 Manuscritos diversos. Expressão de Mário Pedrosa referente à trajetória de Hélio Oiticica. Lygia Clark.cit. Edson Passetti. 326. 379. segundo o Dicionário da Moda. op. 44 Friedrich Nietzsche. literalmente. A.. psicóticos. (N. 194-195. 362.cit. CPDOCMAMRJ. p. São Paulo. 1998. 338. 262 . p. grifo meu. Friedrich Nietzsche. pp. surdos-mudos. p. 298. CPDOC-MAMRJ. 150. 14/10/1983. op. Fundação Tàpies. mostra uma sessão terapêutica completa com Lygia Clark. Fundação Tàpies. p. 42 43 Idem.). p. dirigido por Mário Carneiro. A malha foi intitulada assim devido ao seu inventor Leotard. “Estruturação do self ” in Lygia Clark. um dos poucos amigos artistas de Lygia que sempre a compreendeu e apoiou. Arquivo Lygia Clark. Friedrich Nietzsche. 1998. Éticas dos amigos: invenções libertárias da vida. op. 33 34 35 36 Lygia Clark. 266. p. Os nomeados Bordelines referem-se a autistas. vídeo de 1985. Manuscritos Pasta 33 – produção intelectual. Pasta 46. Imaginário. “Da supressão do objeto” in Lygia Clark. p. Lygia Clark. Lygia Clark. Idem. p. Carta a Guy Brett. um trapezista francês. op. 326. p. 39 40 41 Friedrich Nietzsche.cit. “malha de balé”. 380. Lygia Clark. Fundação Tàpies. Fundação Tàpies. Memória do Corpo. 1998. p. 215. Arquivo Lygia Clark.7 2005 28 29 30 31 32 Depoimento de Lygia Clark para o MIS-RJ. Designa. 1998. 2003.

personagem filosófico inventado por Nietzsche para anunciar a chegada do super homem. estética da existência. ABSTRACT This article proposes to put in conversation two ways of selffashioning and exercise of an ethics. arte contemporânea. De um lado. a de Lygia Clark que moldou sua vida como obra de arte por meio da própria arte. ao mesmo tempo em que algumas questões instigantes surgem dos interstícios desta conversação. the trajectory made by Zaratustra. By the other. a trajetória realizada por Zaratustra. By one side. Some correspondences are found at the same time that some provoking questions emerge from the interstices of this conversation. aesthetic of existence. philosophical character invented by Nietzsche in order to announce the arrival of superman. Algumas correspondências são encontradas. Keywords: Lygia Clark. the one of Lygia Clark who shaped her life as a work of art by means of the art. 263 . De outro. Palavras-chave: Lygia Clark.verve Lygia clark e nietzsche-zaratustra: trajetórias RESUMO Este artigo propõe colocar em diálogo dois caminhos de construção de si e de exercício de uma ética. contemporary art Recebido para publicação em 13 de fevereiro de 2004.

Um cineasta de fricção. autor de A Propos de Nice. vasta. Claridade tranquila. nascia Jean Vigo. Vigo tencionou as classificações tradicionais. A alma é de certo modo tudo o que é: a alma é a forma das formas. cineasta errante. Zero de Conduite e L´Atalante. Tranqüilidade súbita. embora extra-oficial. candescente: forma das formas. Poucos foram tão intensos. 7: 264-278. Nas menos de duas horas e meia que somam todos os seus filmes juntos. História. à margem. ele instalou-se de um modo ímpar na história do cinema. que transgrediu categorias como * Sociólogo. veemente pelo teor híbrido que instilou. mestrando do departamento de Multimeios da Unicamp. a revolta e o devir pablo martins* “Pensamento é o pensamento de pensamento.7 2005 jean vigo. em 26 de abril. nos fugazes vinte e nove anos que viveu. 2005 264 .” James Joyce Há cem anos. verve. sim.

Não para compreendê-lo. Dos filmes à vida. A figura do pai. herança do conturbado momento em que viveu. Um limite — nossa vã compreensão estética oriunda de um modelo estanque de abordagem das obras da época. brota algo. mas é no encarar desses limites que se pode deslindar uma interpretação. Talvez seja contraditório. do contexto ao texto. Nele percebe-se uma consistente visão de mundo e uma defesa pela ética da experimentação. Azar do analista.verve Jean Vigo. Independente do rótulo. ele limitou as tentativas de abarcar seu universo. Um cineasta de vanguarda. Um limite imposto pelo próprio vigor de sua juventude interrompida. Miguel de Almereyda. Certos historiadores insistem em compreendê-lo como um artista que não alcançou um estilo estético definido. seu cineverso. que enche os olhos do espectador. e por meio do choque das classificações. para enxergar Vigo. que passeava com rara leveza entre os pilares narrativos e poéticos. Um limite histórico. Trata-se do segundo longa-metragem de Vigo. Pode-se afirmar que Zéro de Conduite narra tentativas de libertação em choque. e olhos bem humorados. o contexto político e artístico dos anos vinte. Sorte do cineasta. O primeiro elemento que chama a atenção em Zéro de Conduite (1933) é a urdidura de uma certa poética da revolta. tampouco para classificá-lo. o surgimento do cinema como forma de expressão e os inúmeros dispositivos vigilantes e normativos que o aparelho estatal desenvolvia ofereceram limites e novos horizontes para o cineasta. mesmo informe. Cineasta limite. Talvez com uma imersão estética balizada por outro mergulho histórico possamos vislumbrar a obra desse cineasta. Falta transe. a revolta e o devir documentário e ficção. A vida e a obra de Jean Vigo se complementam. 265 .

por outro lado. As crianças não são mostradas apenas como pueris ou sujeitos ingênuos. Por isso. ou ao menos insiste em tolher. não passaria de uma forma de internalizar as regras disciplinares. São sujeitos que dizem o não necessário para a manutenção da dignidade. um plano de ação. Tudo a partir da lógica e do mundo infantil. Ela é momentânea. muitas vezes. a riqueza da fonte infantil. imediata. espalhada e atenuada pela cosmologia de Vigo. As crianças de Zéro de Conduite são heróicas por refutarem a dominação que lhes é imposta. antitéticos. uma organização coletiva e um planejamento a longo prazo — ela possui um inevitável teor teleológico. O mundo da regra versus o do caos. São caricaturas de um mundo corrompido. caracterizam o universo da pureza — embora tal marca não conote um romantismo. todos os adultos são conotados de um modo ridículo. da autenticidade. O realçar da revolta difere do entusiasmo da revolução. aos olhos sarcásticos de Vigo. Há uma dicotomia. número e grau com a formação — entra em contraste com o da experimentação. É o regime disciplinar que tolhe. Dois momentos distintos e.7 2005 ou atrito. em constante metamorfose. A revolta consiste numa abrupta negação da realidade externa e uma intensa afirmação da individualidade. 266 . O da formatação — que diverge em gênero. O internato. São indivíduos. entre o mundo dos adultos e o das crianças. Prontos e. Numa palavra: a exaltação da individualidade a qualquer custo. com técnicas de dominação. A revolução não prescinde de um prognóstico. simultaneamente. Percebe-se uma rara delicadeza ao retratar esse momento da vida. As crianças.

que vemos o ápice da relação entre cinema. Estamos entre as três primeiras décadas do último século. Outubro (1928) narra a trajetória da tomada de poder da revolução de 1917. O partido Nacional Socialista na sua euforia pré-Auschwitz é captado por enquadramentos sóbrios e geométricos. de Leni Riefensthal. Em meio às ruas de Nice e Paris — ruas escuras. Boa parte da obra do cineasta russo Serguei Eisenstein. Hitler idolatrado e Gobbels inovando ao inserir o cinema e a propaganda como uma política oficial de Estado. prenhes de lirismo para alguns. E uma simples distinção entre revolta e revolução pode reorientar toda uma classificação cinematográfica. Há um peculiar casamento entre tecnologia social e auge da técnica cinematográfica. ao contrário. Talvez seja necessária uma breve caracterização de seu pai. fétidas. a revolta e o devir Até onde se tem notícia. Zéro de Conduite é o único filme do início da história do cinema que eleva a revolta a uma dimensão simbólica. transbordante de nojo para outros —. entre prisões de colegas e parentes. Embora com inúmeras inovações na linguagem cinematográfica. Voltemos a Vigo. Mesmo assim exalta a necessidade da organização para o alcance da revolução. Indaguemos sobre suas heranças. o anarquista Miguel Almereyda. O Encouraçado Pontemkim (1925). Estado e ideologia revolucionária. sobre o modo como essa revolta adentrou sua biografia. por exemplo. A Greve (1924) é uma crítica à falta de organização da classe operária. a revolução e a repressão do status quo. é um filme ambíguo: oscila entre a revolta. dentro dessas classificações. trata-se de um filme oficial. À revolução. A relação entre cinema e ideologia é ardilosa. não faltam filmes que a enalteçam. é um elogio à revolução russa. Todavia é no filme O Triunfo da Vontade (1934). perpassando barricadas e uma enxurrada de 267 .verve Jean Vigo.

À militância por outros modos de percepção da vida. Consolidado o regime disciplinar e normativo. A mídia debatia a entrada. ganha um rápido destaque. também. Estamos. outras formas na arte emergiam. uma forte ideologia da época que primava por reverter a lógica estatal a partir do exército. um perfil eminente no ambiente político da época. distintivos. a pintura representativa. era basicamente 268 . contudo. Tudo que soasse clássico sofria de um ferino despeito. e ninguém — sobretudo os vanguardistas — hesitava em jogar expurgos ao ventilador. a estética da crueldade e seqüências de notas cromáticas. Havia uma ânsia por uma liberdade estética. Quando livre. Ruas varridas por um urbanismo sanitarista onde o limpo e o sujo tornam-se categóricos. Estamos no auge das vanguardas. À militância política. Freqüentador assíduo da prisão Petite Rouquette. Organiza um congresso internacional centrado no tema do antimilitarismo. o Guerre Sociale ou o satírico Bonnet Rouge. Do meio do caldeirão pulula a figura de Miguel Almereyda. O exército. atonais. traços desgeométricos. Escreve para jornais tão diversos como o Liberátion. Ameaça aplicar alguns desses princípios perante o contexto da Primeira Guerra Mundial. um anarquista polêmico. vidas dedicadas. Zilhões de monumentos erguidos à redenção tecnológica. influente. O novo era uma imposição. o teatro ilusionista e a música tonal experimentavam-se versos livres. no ápice da empolgação liberal. Almereyda foi perseguido durante toda sua vida. a França fervia. a atuação e a saída das tropas francesas. com ideais diversos e talento de sobra para formar e manipular a opinião pública. seriais. Contra a métrica clássica. arquitetado um novo modo de atuação estatal e implementada a forma industrial de organização da vida.7 2005 ideologias afobadas.

a circulação urbana e moderna permeada por novos símbolos. nenhum ruído. Qualquer cidadão ganha um rosto. teoricamente. 269 . Destaquemos seu início de carreira: como fotógrafo. Lembremos de seu maior empecilho de expressão: a prisão. essa mesma cultura de massa é sabiamente utilizada pela nova elite como uma forma de repressão revestida de discurso democrático. socialistas e anarquistas — justamente o público. todo indivíduo tem. o direito de expressar e reivindicar sua opinião. Com a ameaça de manipulação ganha poder e degusta-o.verve Jean Vigo. Almereyda foi uma vítima nervosa e irrequieta dessa lógica. E são justamente os formadores de opinião. Por outro lado. que exercem um jogo duplo. Eles oscilavam entre a chantagem com a elite e o acirramento dos ideais com a massa. A fotografia e os jornais panfletários — juntamente com os folhetins. os barganhadores. a vida desse anarquista condensa um pouco do pano de fundo da época. A urbes torna-se múltipla: espaço do exercício da liberdade e locus privilegiado da vigilância policial. Numa de suas maiores temporadas carcerárias foi obrigado a acatar a lei do silêncio perpétuo. A agitação política. padronização e dominação do indivíduo. A vida de Almereyda. os leitores de Almereyda. a explosão de inúmeros estilos de vida. enfim. Nenhuma palavra. a revolta e o devir formado por operários. Confusa e intermitente. os intermediários. resume a atuação de novas tecnologias sociais oriundas do fim do século XIX. a lógica carcerária ganha relevância histórica e institui novos modos de normalização. Ressaltemos sua principal atuação política: como jornalista. o melodrama e o cinema — sintetizam o lado periférico da emergência da cultura de massa. Mais refinada. como Almereyda.

Há uma mudança de indumentária. atrita-se com a busca por caminhos alternativos. E foi lá. Contudo. Vigo escolheu o cinema. segundo alguns intérpretes. sequer um bocejo poderia ser escutado pelos guardas. Vigo foi tolhido pela censura. Calaram-no. Vigo carregou certas angústias e inquietações do pai. quase um terço do seu vocabulário havia desaparecido. que reverberavam seus primeiros ideais anarquistas. outras continuidades e rupturas sutis entre esses dois personagens. Lembremos que foi nos bairros de periferia. que o cinema obteve seu primeiro público. muito antes. os famigerados vaudevilles. teimosamente e plena de brios. foi resultado dessas prisões. 270 . Sim. Vigo encontrou-se consigo mesmo. Depois de um ano. outro meio de comunicação com as massas. O que Almereyda resolvia entre manifestações e negociações políticas. Sua combustão artística era apenas uma questão de tempo. é a índole da revolta que. Vigo sublimava com uma complexa rede simbólica. Há algumas semelhanças. O ambiente de perseguição da vigilância normalizante. Miguel Almereyda. entre as grades. E nessa encruzilhada. o cinema nasceu underground. deveras saborosa. A revolta que guiou sua vida. Antes. E foi na incessante simbiose entre estética e política que ele ensaiou resolver tais questões. Somente nos meados da década de 1920 houve o profícuo encontro entre o cinema e a miríade de vanguardas da época. Vigo foi vítima da lógica do internato. seu reconhecimento foi póstumo. outra faceta do regime disciplinar. de alguns movimentos requisitarem tal epíteto. permanece no menino Vigo.7 2005 soluço. Mesmo com sua inquestionável autonomia. mais uma vez.

emergem personagens típicos do ambiente das vaudevilles. Vigo aglutinou um espírito e uma ética libertária. São os desajustados. assim como em boa parte dos filmes da época. É o caso do père Jules do L´Atalante que vive eivado por valores não partilhados pela ascensão burguesa. Ela atuou de dois modos: reconheceu no cinema uma nova forma de expressão que merecia uma atenção es271 . como os garotos castigados ou Huget.verve Jean Vigo. Outra guinada de valores: o cinema na sua peleja para obter o status de arte. Ou ainda. Fritz Lang e Eric von Stroheim também permearam suas narrativas com protagonistas desviados. René Clair. o mágico-palhaço-vendedor ambulante desse filme. para tanto. que parece ter vindo direto da idade média para a Paris do século XX. o papel das vanguardas foi fundamental. Não fora um processo retilíneo. a índole ambígua do vagabundo (entre o herói e o anti-herói). Trata-se de um sintoma da época: o desemprego. Chaplin. Em Zéro de Conduite (1933) e L´Atalante (1934). Underground — por que não? — também fôra o ambiente em que cresceu o menino Jean Vigo. uma miríade de hábitos e costumes não contemplados pela moral burguesa. Desconsiderá-la não passa de um menoscabo ao forte teor simbólico que tal contexto obteve na sua obra. São os desviados. Esses personagens estão fora do contexto. motivo da briga do casal. junto à ânsia pela experimentação e pela realização cinematográfica. aqueles classificados para permanecerem à margem. a revolta e o devir Junto ao brilho das vanguardas e dos cinemas de vaudevilles. e. que não se intimida com as restrições normalizantes das regras do internato. Todos esses personagens fogem. zombam e perturbam a normalidade da ordem recém instalada. Há uma mistura de ironia desses diretores com a melancolia dos seus personagens. o novo bedel.

Sinfonia de uma Metrópole (1927) de Walter Ruttmann e Rien que 272 . principalmente. surge calcado numa profunda iluminação profana. Berlim. A propos de Nice (1929). As gags. seu primeiro filme. O olhar do instante. tem influências diretas dos documentários da época que almejavam captar a alma de uma cidade.7 2005 pecífica. A câmera objetiva que desorganiza o olhar viciado dos homens sobre o mundo. De Buñuel. A câmera não cria ou distorce o fenômeno — como fizeram os vanguardistas em suas aventuras cinematográficas — ela prima pelo registro quase científico da mis-en-scène. como o espaço da liberdade reivindicado pelos artistas da época. A vanguarda. pelo modo como ele as insere à narrativa. Entretanto. O surrealismo de Vigo. a vanguarda manteve e aguçou o espírito vulgar que caracterizou o início do cinema (e a obra de Vigo foi uma das maiores sínteses dessa relação). eram atrativos indispensáveis para todos os vanguardistas e não possuíam nenhuma intenção em elevar o status do cinema. Um quê de surrealismo. Um pouco da poesia que nos falta. o documentário e o cinema social podem resumir as três maiores influências de Jean Vigo. A frieza da objetiva cinematográfica é sempre a mesma. Se fôssemos escolher cineastas da época que deglutiram tais tendências e a legaram a Vigo. De um lado a câmera-olho. por exemplo. citaríamos Dziga Vertov e Luís Buñuel. o olhar do flagrante: não é outra a base estética de Jean Vigo. “O mundo visível assim com o mundo invisível — a olho nu”. a explosão do universo onírico. A poesia. que capta e registra mais do que o olho alcança. ou nos recalca. emerge dessa projeção do sujeito-espectador aos objetos matematicamente captados por Vigo. Nos três filmes de Vigo essas heranças ganham uma incrível fluência. o dia a dia. portanto. era o lema de Dziga Vertov. quase surrealista.

o pátio. eventos e acontecimentos. de uma tentativa infantil. sua câmera está eticamente orientada para captar fenômenos. a cidade de sua adolescência. o boneco. Nesses filmes. imprimir o espírito de Nice. Este elemento. Para o cineasta francês. como se pudesse registrar o real. Vigo certamente concordaria. além de sua imanência física. A representação social como um jogo: por isso sua fixação por bonecos. lançam. máscaras e encenações do gênero. a câmera ainda esboça um ethos documental. E o que há de real nos bonecos. Não há uma realidade pré-concebida. Vigo tenta. percebe-se uma enorme primazia pela descrição: o trem. Trata-se. “Nenhum rosto é tão surrealista quanto o rosto verdadeiro de uma cidade” observa Walter Benjamim. ele desconfia do real e. Num segundo ângulo. primeiramente. Trata-se de um olhar sobre a cidade. não é justamente o encarnar realidade àquilo descaradamente imaginário? É desta fricção — do irreal a olho nu com o real que nos é invisível — que emerge a singularidade da poética do cinema de Jean Vigo. a cidade. a revolta e o devir les Heures (1926) do brasileiro Alberto Cavalcanti são algumas dessas realizações. Todavia. mais do que um estilo documental. mesmo a documentação de encontros sociais oriundos de um real imediato aparecem como um modo de ficção.verve Jean Vigo. sim. diferentemente de suas influências. nesse seu primeiro filme. Nada mais. mesmo o jogo social. é recorrente nos três filmes de Vigo. o dormitório. Zéro de Conduite (1933) condensa de outra forma as relações entre documentário e ficção. pre273 . a festa de comemoração de aniversário do colégio (que é diretamente contraposta ao êxtase espontâneo — a revolução infantil). de uma resolução autobiográfica. Os flagrantes na rua. em Zéro de Conduite.

o pulo dos meninos mostrado ao reverso remetem à recusa da autoridade. simplesmente. no momento do choque. o breve e intenso momento em que exala o halo da liberdade. O rádio. está em suspender o instante e o momento da revolta dos internos. Afora nosso olhar viciado a uma narrativa previamente anunciada. sobretudo. Com letras 274 . contudo. Porque. os gatos. A narrativa de L´Atalante é quase um documentário de um jovem casal que chega à capital. Alguns fatos (aparentemente) desconexos: 14 de julho de 1912. a partir dessa mescla. o registro do devir urbano captado. as caminhadas pelas lojas e. as plumas dos travesseiros. o personagem circense. o jornal La Guerre Sociale endereça uma mensagem ao governo francês. O ápice desse filme. último filme de Vigo. A câmera de Vigo soube passar o estranhamento que a metrópole causa a qualquer ser que não nasceu nela. as danças. além de classificações impostas. Por isso a câmera lenta. *** Um elogio à merda — um ato necessário. começamos a enxergar Vigo. de tratar personagens como objetos e objetos como personagens. elucida-se o poder da câmera de cinema. A descrição do barco e da chegada à Paris são os elementos que dinamizam os devaneios poéticos de L´Atalante (1934). Com essa dinâmica de friccionar ficção com documentário. Com Vigo vamos ao cerne dos anos 1920 e 1930 na França. congelado. essa distinção entre poética e realidade não fôra respeitada.7 2005 coce e semi-reprimida de exercer a flânerie e dar asas aos desvarios inerentes aos passeios urbanos.

maquiadores. Uma tácita evocação de um deus grego. 275 . Não seriam poucos. com muita naturalidade. e agora sim. educadamente. alguns pulam. *** Se em Zéro de Conduite vislumbramos uma poética da revolta. os estilos preconizados por Vigo. em negrito. remoto no tempo e vívido como símbolo. Zéro de Conduite: Interior/Dia/Sala de aula: o diretor do internato. para que o aluno retire a agressão feita ao professor. por exemplo. danças e orgias. O último filme de Vigo não passa de um fluxo incessante com um rumo indefinido. A coxia treme.verve Jean Vigo. (re)inaugura-se o júbilo de estar em ato. Com altivez. iluminadores. (!) Zéro de Conduite: Interior/Dia/Sala de aula: o estudante está num devaneio solitário. Faltariam vinhos. o aluno se levanta e repete: eu o mando à merda. em L´Atalante percebe-se um mergulho à estética do devir. A coxia estremece com o hálito de figurinistas. o manda à merda. É um uníssono: MERDA — todos gritam. é o anagrama de Il y a merde. calados. outros. O professor chama sua atenção. a revolta e o devir garrafais. escreve algo sobre a carteira. Toda a magia dos road-movies da década de 1970 já está explorada nesse singelo filme de 1934. aliás. mas celebra-se a encenação da vida. nome político do pai de Vigo. Sua relação entre surrealismo e cinema social. muito se assemelha à transgressão do neo-realismo italiano impulsionada por Fellini e Pasolini. Faltam cinco minutos para os atores entrarem no palco. atores e diretores. Ele. Podemos traduzi-lo para algo como ‘Tem merda’. se concentram. alguns professores e os bedéis pedem. sua manchete estampa: EU VOS MANDO À MERDA! Almereyda.

Todo devir dispensa uma resposta. Mais uma vez o que a encanta é a possibilidade de conhecimento de um mundo novo. mais uma vez. Os noivos são dois estranhos e a noite de núpcias. O filme possui quatro momentos narrativos para o casal: a cerimônia. a noiva. É Juliette. Leia-se: um devir. faz cara e pose de marido ciumento. Nesse episódio temos uma fantástica utilização da narrativa sonora. Na dúvida do casal. rodeado por gatos. à beira do L´Atalante. os desencontros na cidade e o reencontro.7 2005 É com sutileza que a narrativa de L´Atalante não respeita a convenção do casamento. pelas ruas de Paris ou pelos lugares mágicos e novos trazidos pelo fluxo do barco. Jean. cheio de tatuagens. E cada um desses momentos tem um suspense prenhe de reticências. sujo. a câmera vagueia pelo universo do père Jules. Esta é uma das cenas mais belas do filme. a convivência no barco. Seu marido. causa tanta insegurança como um jogo de loteria. Este teor de ingenuidade. tomado pela fúria da ordem. a interrompe: Juliette deve se comportar de acordo com o fluxo previsível que lhe é imposto. outra guinada de percurso ocorre com o encanto de Juliette pelo vendedor ambulante (que é insuportável para o dono e os clientes do bar). o beberrão. lembra o anseio dos ‘jovens diabos’ de Zéro de Conduite. Em L´Atalante o devir é feminino. ele porta a hybris dramática. freqüentador de casas de jogos e de prostíbulos: é este ser quase anormal que mostra um mundo novo para Juliette. Pére Jules. Análoga. Em termos narrativos ele exagera esse sentimento. e de vontade de experiência. Por isso não é adequada sua classificação como um filme lírico ou romântico. Ju276 . que ensaia entrar no quarto de père Jules e apreender esse universo. Vigo insere a dúvida e a experimentação num ritual social eivado pela certeza e pela rigidez.

Ou ver e rever Vigo — este cineasta centenário. A alma na sua faceta suja. A sedução dos novos experimentos em choque com a adequação à regra. numa espécie de monólogo interior. Se existe algo entre a revolta e o devir é melhor deixá-lo inominável. Talvez esse elo defina uma forma latente à curta obra de Jean Vigo. a revolta e o devir liette. como o lance do pensamento que remete a outros fatos. mundana. A alma como a forma que engendra formas. com holofotes no seu viés profano. um rio — sem destino. Aqui o devir fala mais alto e Juliette se permite uma aventura pela cidade.verve Jean Vigo. 277 . Seu devir é incessante: da flânerie ela passa ao desemprego e perambula pelo submundo de Paris. Mais forte do que isso está o fato desse jovem cineasta ter captado e expressado a alma desses dois fenômenos complexos. Seu olhar de encanto se contrapõe ao de vingança e desespero de Jean. A experiência de isolamento dos recém-casados também faz parte desse devir conjunto e instila vontade onde outrora havia dúvida. Talvez haja um elo entre a noção de revolta e a de devir. a imagem de água e luz. A alma não na sua acepção metafísica. outro devir: a câmera em plongée sai do L´Atalante e acompanha o fluxo incessante. outras idéias — ao infinito. ouve a voz do convite do vendedor ambulante subitamente contrastada com a voz castradora de seu marido. Depois do reencontro.

The relationship between documentary. um pai anarquista e um filho cineasta. an anarchist father and his movie maker son. O contexto político e estético.7 2005 RESUMO Na Paris do início do século XX. fiction. ABSTRACT Paris. As relações entre documentário. anarquismo. 278 . vanguardas. um breve retrato do ambiente anarcosindicalista da passagem do século XIX para o XX. Zéro de Conduite e L´Atalante. a brief view of the anarco-sindicalism environment in the transition from the 19th to the 20th century. and independent or experimental cinema in the context of the 1920’s and 1930’s. Palavras-chave: história do cinema. the oppressive and expressive forces are concentrated in the characters of Miguel Almereyda e Jean Vigo. O legado libertário de Almreyda. Keywords: history of cinema. cinema social. The first decades of the history of cinema. The article glimpses the Vigo’s influence in the history of cinema and the stiles he announced. Recebido para publicação em 15 de março de 2005. the search of avant-gardes languages and its dialogue with the vaudevilles are analyzed through the tree Vigo’s main pictures: A Propos de Nice. anarchism. ficção e cinema independente ou experimental no contexto das décadas de 1920 e 1930. as forças repressivas e expressivas são sintetizadas pelas figuras de Miguel Almereyda e Jean Vigo. beginning of the 20th century. a busca por linguagens de vanguarda e o diálogo com as vaudevilles são vistas a partir dos três principais filmes de Jean Vigo: A Propos de Nice. vanguards. The political and aesthetic contexts. Também vislumbra-se as influências de Vigo à história do cinema e os estilos que antecipou. Zéro de Conduite and L’Atalante. As primeiras décadas da história do cinema. The libertarian legacy of Almereyda. social cinema.

7: 279-285. com isso. 2004. categorias de pensamento. afinidades e prolongamentos. 133 pp. 5. Para isso o autor re-visitou algumas das posições críticas do anarquismo buscando traçar continuidades. 1996. professor de Filosofia Política e Ciências Políticas na Universidade de Palermo. quanto das matrizes de pensamento ligadas aos nomes mencionados em seu ensaio. conhecido no Brasil pelo seu artigo “Foucault e o anarquismo” que integra o Dossiê Foucault organizado por Edson Passetti (Margem. Salvo Vaccaro. 2005 279 . n. pesquisador no Nu-Sol e integrante do Centro de Cultura Social. 7). * Mestre em Ciências Sociais. pp. BFS. Pisa. O autor estabeleceu.verve Anarquismo e crítica pós-moderna Resenhas anarquismo e crítica pós-moderna| nildo avelino* Salvo Vaccaro. Itália. bolsista Capes. publicou recentemente um outro ensaio no qual propõe confirmar o nexo existente entre anarquismo e modernidade por “um percurso de confronto com âmbitos conceituais. verve. mas sempre num campo de tensão e independente tanto do corpo teórico da ideologia política propriamente dita. doutorando pelo Programa de Estudos PósGraduados em Ciências Sócias da PUC/SP. Anarchismo e modernità. constelações intelectuais que por convenção e comodidade são atribuídos a autores pósmodernos” (p.157-170).

9). 8). Segundo Vaccaro. o pensamento anarquista ao buscar a abolição do poder afirma uma procura interminável. uma vez que ela implica a clássica idéia kantiana de liberdade. é menor do que se apresenta à primeira vista. bloqueando a contínua chance de reversibilidade” (p. de “vida que retraça livremente ligações sociais expressas experimentalmente. não cristalizadas em corpos institucionais e que. modernidade e crítica pós-moderna. caracteriza a relação singularidade/comunidade” (p. A saída da menoridade na qual a humanidade se encontra em situação de escravidão tornou-se. decisivamente negativa porque afirmativa da liberdade como prática prioritária. como obediência aos imperativos morais. fazendo reviver o encanto naturalista. daquela de Foucault. Foucault vai distinguir o “poder que circula nas relações sociais da sua condensação em aparatos de domínios que interrompem sua fluidez. De modo contrário se colocam as teses pós-modernas. constitutivamente fluídas. que a distância que separa a concepção anárquica do poder. e sempre em sentido móvel. Segundo Vaccaro. o ponto alto da reflexão de Kant. o anarquismo também é portador desta marca emancipadora da filosofia das Luzes e de uma certa confiança na bondade e na virtude dos homens que lhe é inerente. em última análise. por exemplo. diz Vaccaro. renováveis ou revogáveis à vontade. Elas “rejeitam tanto a pretensa carga inata de bondade dos indivíduos. universalistas e opressivos. de um certo modo. É desta forma.7 2005 alguns pontos-limites nos quais realiza uma reflexão pontual onde ele faz confrontar anarquismo. grávida de pressupostos essencialistas. como se a ética pudesse ser abstra- 280 .

A partir dessa analítica o anarquismo não apenas deveria “livrar-se do mito da Subjetividade (operária. aproximam-se na crítica a dialética. dispostos não somente ao acaso. contra isso anarquismo e pós-estruturalismo opõem o arbitrário e o excedente. mas também com implicações cruciais aos exercícios de poder. aquilo que mais aproximará o pensamento anárquico do pós-estruturalismo. espectador vigiado” (Foucault) — que na era moderna se articulou uma imensa estratégia de dominação através dos corpos e das mentes. Se anarquismo e crítica pós-moderna separam-se no que concerne ao Sujeito. como deverá individuar uma intensidade libertária que não cristalize os fluxos parciais de liberações em estados molares e gregários” (idem). que o condiciona até mesmo na sua tensão liberalizante”. sublinhando “a margem de manobra da vontade rebelde” e a “aposta no ato subversivo de liberação” (p. quando é justamente pelo nascimento do sujeito — ao mesmo tempo “soberano submisso. não é “isento de responsabilidade no exercício das relações de poder que o constitui que o investe de papéis solidamente fundamentados. 10). portanto. sobretudo de matriz nietzschiana. é o fato dele ser um pensamento “programaticamente instável. a regra e o acaso. Mas. por exemplo). 281 . Sem sujeito não existiria uma prática de assujeitamento (mas de mera e brutal servidão). que não busca repouso. quanto o elemento qualitativo do sujeito que resplandece despertado pela transformação da existência. e a soberania não se reconfiguraria em novas relações autoritárias que colocaram a subjetividade como sua representação histórica” (p. No pensamento dialético o novo não pode mais que emergir do velho. 12). O sujeito.verve Anarquismo e crítica pós-moderna ída das condições históricas nas quais homens e mulheres vivem. mas devir incessante” (Idem).

culturais. por exemplo. mas fazendo pontuar confluências que provocam efeitos “de deslocamento que muda-lhe a configuração acrescentando uma potência dissonante” (p. 14). 15). o parente repudiado porque pobre (ou incômodo). ainda que com diferentes ênfases” (p. Contudo. quase um elemento espúrio” (idem).7 2005 Por meio dessas ligações perigosas o autor procurou desfazer o nó entre anarquismo e pós-estruturalismo. sem incorrer na “representação fiel de dois gêmeos siameses”. situado nos limites do estranhamento. no âmbito da modernidade. mas sobretudo porque as vicissitudes de ambos pensamentos estão indissoluvelmente intrincadas. o confirma. Vaccaro aponta o anarquismo como constituindo a única força “que pensou uma formação do indivíduo não constituída por prá- 282 . “o anarquismo é uma variante menor. Isso permite que o seu fundo teórico esteja intimamente ligado “às principais conotações que o identificam ao moderno. demográficos. enquanto o pensamento anárquico lança mão de uma faculdade crítica não normativa. econômicos. a estreita relação que se estabelece entre anarquismo e modernidade não ocorre apenas por paralelismo histórico ou por genealogia do modelo teórico. re-elaborando “retoricamente as categorias do iluminismo moderno excedendo-o” (p. É o que ocorre com a noção de crítica tipicamente normativa relegada pela modernidade. tecnológicos. Segundo Vaccaro. Se modernidade e Iluminismo se confundem. os conceitos de fundo do anarquismo são apenas compreensíveis no âmbito da modernidade com a condição de imprimir nela fortes acentuações especificas. 17). A acentuação que o anarquismo deu à emergência do conceito de indivíduo. políticos. O anarquismo ganhou visibilidade pública “quando se conjugou uma série de processos sociais. cuja condensação toma o nome de modernidade”.

Vaccaro aponta na crítica radical ao Direito uma forte característica do pensamento anárquico. não apenas em relação ao mundo exterior — as coações na socialização da ordem constituída — mas também e muito mais em relação ao próprio eu” (p. da norma” (p. fisiológica. um “potente motor que liga ideologias diversas” e “que ainda hoje caracteriza 283 . induzindo a uma interiorização. tendo assimilado e reproduzido as instâncias de controle e domínio impressas pelas estratégias de poder”. Mas ao arruiná-lo. Vaccaro faz notar que as pesquisas genealógicas de Foucault demonstram que a ideologia do laissez-faire apenas “surge quando a sociedade é colocada forçosamente em condições de se “auto-governar”. introduzir os valores da norma em “cada espaço físico e mental da existência. 43). no limite. 25). estetizante” (p. o desafio anárquico seria o de transformar essa tensão em laços sociais abertos aos diversos estilos de vida. sobretudo. esquecendo que a normatização dos comportamentos não visa apenas dirimir conflitos. 75). Dois movimentos caracterizam o moderno: de um lado. A fragmentação dos sujeitos provocada pelo moderno causou uma sensação de angústia que fez surgir todo um filão no qual se poderia alocar desde o romantismo político ao utopismo científico e não-científico. culminando nos “corpos estatutariamente apropriados” (p. Foi o que Vaccaro chamou de reconciliação. a ocidentalização homogeneizante e despersonificadora. Neste jogo de forças. e de outro. o anarquismo abstrai dos processos jurídicos a “dimensão institucional que hoje fornece um vínculo normativo sempre mais difuso e capilar”. 28).verve Anarquismo e crítica pós-moderna ticas de poder. “a força da continência que incita cada um a recortar um espaço de unicidade inefetual. mas.

Foucault tinha mencionado a insistência dessas velhas funções tradicionais da profecia na cultura ocidental. que em grego significa tanto origem e princípio. 123). 94). 101). Sublinhando o duplo significado da palavra arché. que existe. mas que devemos alcançar” (p. aquilo que somos. sem legitimação.] que constitui o fato de que cada um é potencialmente livre de orientar a existência” (p.. É uma imagem tipicamente teológica: ela separa o indivíduo em uma parte física. Nessa busca entram em funcionamento as identidades. Ou o passado nostálgico da comunidade ou o futuro da revolução. sem saturar-se. e uma parte metafísica. quanto comando e autoridade. sem verdades consolidadas. como surgir singular.7 2005 todo imaginário ligado às hipóteses de emancipação” (p. Vaccaro atribui às identidades uma função operativa que nos poupa da “fatigosa liberdade e da pesada responsabilidade [. sem origem. 284 . em todo caso é preciso “reconciliarmo-nos com este outro nós-mesmos. Vaccaro pensa a anarché como livre disseminação da existência. Elas designam o nosso si reconhecendo-o “apenas quando colocado no compartimento justo”. sem valores superiores a vida. as chances de liberdade que gerações de homens e mulheres saberão historicamente inventar e criar” (p. mundos de liberdade e criatividade nos quais se pode imaginar “uma sociedade libertária em devir-anárquico. é bússola necessária para não deixar o “viandante” perder-se na imensidão do deserto ou do mar aberto. como origem subtraída a toda lógica de origem. reativadas pelo ardor de conjurar o presente e aclamar um futuro para cujo apressamento se pensa contribuir. O início é vazio.. que estenderá sempre mais. Implica pensar liberdade sem limite. O estilo livre seria capaz de resistir às alturas vertiginosas e ao horror vacui. 96).

127). de uma única sociedade. Segundo ele não é possível falar de sociedade anárquica sem pretensão de totalidade auto-referente. perfeita. sempre global. fechada em si mesma. completa. exaustiva. a revogabilidade. na qual o elemento de pluralidade e indeterminação infinita seria contido e possível apenas no interior de um contexto unitário que legitima alguns vínculos sociais e não outros” (p. sobretudo. diz Vaccaro. 285 . implica também e. transformação social.verve Anarquismo e crítica pós-moderna Anarquia in-finita. Vínculos sociais livres implicam também ruptura “social. e devir é precisamente hoje o desafio destrutivo-construtivo ao mesmo tempo. não tanto um “levante das massas”. Vaccaro conclui contra a idéia de sociedade anárquica. como tensão fundamentalmente ética. Daí a necessidade de pensar o anarquismo como reserva de tensão coletiva e individual. subtraindo-se as formas do controle social que nos imobilizam no conformismo consumista” (p. isto é. mas um devir-revolucionário que seja índice de “práticas estilizadas de vínculos sociais que dissolvam o terreno sobre o qual se funda a estatismo para dinamizar a pluralidade. Devir. 135). a estreiteza dos laços sociais.

O trabalho de diagnosticar as forças que sublevam e de tornar visível o que não se vê. Foucault. 7: 286-291. 2004. Foucault: a coragem da verdade.7 2005 notícias de um pensador: a coragem da verdade e o pensamento libertário de michel foucault| tony hara* Frédéric Gros (org. Margareth Rago.). com coragem. 2005 286 . Quem dá notícias desses últimos cursos de Foucault. Fazer a história do presente. como rezam os manuais de marketing. Publicou Caçadores de notícias: história e crônicas policiais de Londrina (Editora Aos Quatro Ventos) e a biografia do poeta Paulo Leminski para a coleção Rebeldes Brasileiros (Editora Casa Amarela). parece ser cada vez mais urgente. 268 pp. ainda não publicados. Mais ainda. é o professor Frédéric Gros da Universidade *Jornalista e Doutor em História pela Unicamp. 2004. fazer aparecer as novas estratégias de monitoramento e controle das formas de conduta. São Paulo. Achiamé. verve. Tradução de Marcos Marcionilo. Rio de Janeiro. 87 pp. atuar na atualidade. nessa época confusa na qual se implementa o controle social à distância. Parábola Editorial. o legado intelectual de Michel Foucault é fundamental para compreender as recentes configurações do espaço político gangrenado por palavras de ordem politicamente corretas e completamente vazias. História & Anarquismo. As últimas aulas de Foucault no Collège de France (1983-1984) foram consagradas ao estudo da parrésia e levaram o título de “A coragem da verdade”. justamente. por estar tão próximo e colado a nós mesmos. É necessário. O jornalismo radical empreendido por Michel Foucault não cessa de surpreender e de se desdobrar de múltiplas maneiras na atualidade.

fundamenta a escrita de livros e a ação política” (p.. o professor Frédéric Gros trouxe também na bagagem um livro organizado por ele. aquilo que. Nesta ocasião. da aliança entre a teoria e a prática. de Paris-XII. A Coragem da Verdade. Em novembro do ano passado. Os seis ensaios que compõem o livro destacam. enfatizando as repercussões e as virtuais transformações que esse antigo exercício ético grego pode provocar na moral e no jogo político dominante da modernidade. segundo seus termos. Além da conferência de abertura do Colóquio — que contou com a participação de mais de 30 intelectuais especializados na obra de Foucault —. de uma “grade de leitura da obra e da vida enquanto indissociáveis. intitulado Foucault: a coragem da verdade. sob diferentes perspectivas. para a avaliação da legitimidade e da validade de uma opinião. Trata-se. e não lógicos. entre o que se diz e o que se faz. algo mais do que uma nova invenção conceitual. o reconhecimento de critérios éticos. encontra-se na absoluta e visível correspondência entre o dizer e o fazer. seria a retomada de um ponto de articulação entre os discursos e as ações e. por meio do fa- 287 . daí a questão da coragem. 12). Como explica Michel Foucault a parrésia é um tipo de atividade verbal na qual o falante arrisca a vida ao manifestar sua relação pessoal com a verdade. organizado por Margareth Rago. o problema do cruzamento. entre a verdade e a vida. Frédéric Gros abriu os trabalhos do Colóquio com uma conferência centrada no problema do “Cuidado de Si”. simultaneamente.verve Notícias de um pensador: a coragem da verdade. É por isso que Frédéric Gros reconhece nos estudos de Foucault sobre a parrésia na cultura grega. da conexão entre coragem e verdade. Em outros termos.. em última análise. um antigo problema que assombra a atividade intelectual. O critério de verdade. A saber. ele esteve no Brasil a fim de participar do Colóquio Internacional Foucault: 20 anos depois.

abalar os costumes. pela verdade em vez da mentira ou do silêncio. em vez da bajulação. assinados por Phillippe Artières e Francesco Paolo Adorno. Segundo os autores. que também devem ter. um dever. em vez da vida e da segurança. uma obrigação que visa tanto a transformação da subjetividade daquele que pronuncia o ato de verdade. do ativista político engajado em lutas específicas. finalmente. quanto a transformação dos outros.7 2005 lar francamente. O papel do intelectual não é dizer aos outros o que eles devem fazer ou modelar suas vontades políticas. “Na parrhesia — afirma Foucault —. os modos de fazer e de pen- 288 . a noção da parrésia é utilizada para a construção e o entendimento da própria figura de Michel Foucault. o falante faz uso de sua liberdade e opta por falar francamente em vez de persuadir. O dizer verdadeiro é. pela crítica. pelo risco de morte. afirma Foucault. enquanto intelectual que procurou incessantemente articular as intervenções na cena política com o trabalho filosófico. pois é aceito entre os participantes o desafio e as possíveis hostilidades que emergem do conflito. a coragem de romper com a função e com as representações já desgastadas e pouco efetivas de intelectual universal. É interessante destacar que nos dois primeiros artigos do livro. a figura do intelectual enquanto consciência universal da sociedade. não sem provocar polêmica. Foucault rejeita. coragem para ouvir e participar francamente do confronto. na parrésia. Neste jogo a relação corre um sério risco de se romper. a partir de uma análise de um campo específico “reinterrogar as evidências e os postulados. Ressalta-se nessas abordagens a coragem do diagnosticador do presente. mas. em vez de seus interesses e da apatia moral”. pelo dever moral. pelo menos entre os estóicos. do corpo a corpo com os aparelhos de controle e.

era uma ética da correspondência regrada.verve Notícias de um pensador: a coragem da verdade. um movimento de tensionamento entre duas formas... dos acasos e golpes do destino. sar. Talvez.. diferentes de relacionar a vida e a verdade. O filósofo se interessou pela trama elaborada pelos cínicos gregos entre um estilo de vida despojado. No estilo de vida cínico. Frédéric Gros. 163). de fazer da própria existência o teatro provocador do escândalo da verdade” (p. e um certo uso da fala. dedicadas ao problema da parrésia no contexto da filosofia cínica. 289 . encerra a coletânea com um artigo repleto de surpresas e de inquietantes relatos e análises sobre as últimas aulas de Foucault. o corpo se torna o espaço de manifestação da verdade. radicalmente. segundo Gros.. a partir dessa reproblematização. A ética estóica. ordenada entre a ação e o discurso.” O organizador do livro. dissipar as familiaridades admitidas e. Como se percebe. áspera e provocadora. daquelas verdades que. Tornar diretamente legível no corpo a presença explosiva e selvagem da verdade nua. disciplinada. Uma mais persistente. que se caracterizava por ser rude. que estabelecem uma harmonia ideal entre a vida e a verdade. trata-se do trânsito entre o tema do cuidado de si para o da coragem da verdade. Já entre os cínicos. De um lado a ética estóica. participar da formação de uma vontade política. portanto descolado das convenções. “trata-se de fazer explodir a verdade na vida como escândalo(. a verdade é vivida como escândalo. paciente.). efetivamente. Em síntese. junto com as técnicas de cuidado de si. Gros sugere um deslocamento vivido por Foucault em suas últimas pesquisas. Em um jogo insinuante de comparações. mais do que uma passagem de um problema para o outro há. na qual a vida é regulada por princípios verdadeiros apesar do caos. dois sentidos diferentes de verdade que determinam duas formas singulares de estilização da vida.

um irrefreável instinto de libertar a História das concepções tradicionais. radical. as normas e convenções sociais e. O que há em comum entre essas manifestações é a atitude provocadora. criado pelo filósofo francês. o recado é direto e fulminante: “ainda muito indignada com a falta de abertura dos historiadores diante de um pensamento tão energizado. História & Anarquismo. portanto. excludentes. Ao justificar um dos ensaios que compõem o livro. em certas manifestações. torna-se no texto de Margareth Rago um instrumento muito sensível. O método genealógico. Essa energia expansiva. Foucault encontra as atualizações da atitude cínica de viver e de dizer a verdade de forma provocadora. em algumas correntes do ascetismo cristão. o anarquismo e a História. ousada. todos conhecem e ninguém se dá o trabalho de viver. entre os artistas modernos que rejeitavam. libertário e aberto à diferença. insuficientes para enxergar e problematizar nosso presente” (p. a-gressivamente. que flagra os mais sorrateiros sonhos dos historiadores tra- 290 . nestes artigos. que gera um certo incômodo e desconforto àqueles que se afundaram na pasmaceira e no sossego das idéias prontas. como por exemplo. tive declarada intenção de apresentar o filósofo para os jovens estudantes insatisfeitos com concepções históricas autoritárias. Foucault. como o anarquismo.7 2005 como afirma Gros. profundamente libertária. ensimesmadas e. atravessa os textos da historiadora Margareth Rago que buscam tecer as possíveis relações entre o pensamento foucaultiano. atrevida. em certos movimentos revolucionários do século XIX. do modelo antropológico da memória e das lentes inadequadas que embaçam a visão que se tem da atualidade. 11) Há.

Para além desse reencontro com a tradição libertária. ao contrário. Belas porque fogem ao campo restrito da produção intelectual e afetam o plano da vida. dicionais. não se pretende com as críticas provocadoras estimular um sentimento de desprezo em relação ao passado. 291 . o desejo de uma síntese totalizadora. Há livros que inevitavelmente nos levam para além dos livros. A desconstrução. que as suas reflexões sobre a experiência anarquista e sobre a constituição de subjetividades anárquicas soem tão estranhamente belas. a crítica a esses mitos que por tanto tempo habitaram o mundo dos historiadores.. tem como objetivo o reconhecimento das linhas de fuga na atualidade. pretende-se criar condições para que se efetue um reencontro com a tradição libertária do pensamento soterrada por essas visões autoritárias e metafísicas da História. Margareth Rago sugere um outro movimento: a reinvenção dos antigos libertários como estratégia para fugir da alienação da atualidade e da obediência ao totalitarismo. É por causa disso. talvez. Mas.verve Notícias de um pensador: a coragem da verdade. os procedimentos de exclusão dos acontecimentos que não se encaixam na linha de continuidade preconcebida e as promessas de um futuro redentor. Como alerta a autora em diversos momentos. de uma identidade estável portadora da consciência histórica.. a ilusão de alcançar a realidade objetiva e a essência das coisas. Isto é.

resumidamente falando. essa relação que faz do transgredir o que é posto pelos cânones estabelecidos. não *Professor no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Gama Filho/RJ. na verdade. investigar a vida como obra de arte nos trabalhos de Lygia Clark e Hélio Oiticica. vida como arte. como também. Editora Imaginário/FAPESP. fazse também importante. O intuito da autora é. Relâmpagos com claror: Lygia Clark e Hélio Oiticica. este poderia ser assim formulado: há na arte contemporânea. justamente.7 2005 heterotopia e vitalismo: por uma arte vitalista | jorge vasconcellos* Beatriz Scigliano Carneiro. Trata-se de pensar a transgressão neste fazer a obra. 7: 292-296. uma ligação entre obra e vida? Essa ligação entre vida e obra. não só implodiria a noção clássica de autoria. toca em um tema urgente de nosso tempo. vida como arte. especialmente naquela que se propõe a ser renovadora. construída sob o prisma de uma idéia-força creditada ao filósofo francês Michel Foucault — a noção de “heterotopia”. No que diz respeito à problemática estética. verve. uma relação intrínseca entre arte e vida. no tocante à constituição das obras. No entanto. 296 pp. proveniente justamente de suas leituras de Georges Bataille. estabeleceria. neste “obrar”. Essa parece ser a hipótese geral do ensaio. São Paulo. uma idéia cara ao chamado “primeiro Foucault”. Relâmpagos com claror: Lygia Clark e Hélio Oiticica. 2004. 2005 292 . O livro de Beatriz Scigliano Carneiro. Essa vinculação à transgressão e ao transgredir surge no ensaio por intermédio de uma discussão-problema: qual a relação entre transgressão e autoria da obra? E mais.

provocando. de modo sucinto. traço o ponto que liga as duas idéias foucaultianas presentes no ensaio: a noção de heterotopia e o tema da “estética da existência”. é transmutação de valores. diga-se de passagem de modo extremamente rigoroso. associam-se em sua interpretação à obra de Hélio Oiticica e de Lygia Clark. apropriadas pela autora. ela mesma. isto é. a arte. antes de apresentar o ensaio propriamente dito. nem sempre de modo explícito. obra nodal da démarche foucaultiana. a saber: a arte é mais do que um elemento de transgressão das normas estabelecidas em uma dada sociedade. como estas idéias. e gostaria de. falar para além de suas palavras. ao longo da leitura do livro de Scigliano. o que seja uma resenha: estabelecer diálogo com a escritura a ser resenhada. é transformação da própria vida. implicam uma visada estética. fazendo-o. em sua apropriação e interpretação das obras dos artistas retrocitados. Em segundo lugar. produção de um pensamento estético vitalista. assim. claro e muito bem escrito. somente em uma conferência ao Círculo de Estudos 293 . Talvez fazê-lo ranger. pensando-a nietzschianamente. Sigo. por fim. procuro mostrar em que medida estas idéias foucaultianas. o seguinte procedimento: em primeiro lugar. Apesar desta aparecer em As palavras e as coisas. já que transformação nesses termos. como um termo bastante periférico na obra do filósofo francês. de fato. introduzir um certo movimento no texto em questão. produzir ruído nos interstícios do que o texto não diz. adesão absolutamente radical à vida. A noção de heterotopia talvez possa ser considerada.verve Heterotopia e vitalismo: por uma arte vitalista nos colocaria diante da junção indissociável entre a estética e a ética? Essas questões aparecem problematizadas. em certa medida. E.

proferida em março de 1967 (publicada posteriormente em Dits et Écrits. como. passava a designar a coexistência em uma espécie de espaço impossível ou improvável. provocando uma cisão no espaço constituído e o abandono do tempo constituinte. as personagens já não contemplam como desvelar ou desmascarar um mistério central de uma dada trama. vol. parece abandoná-la. em um certo tempo. o que nas próprias palavras foucaultianas seria estabelecida “com um grande número de mundos possíveis fragmentários”. do que ele chamou de “espaços outros”. à construção de novos espaços em um tempo absolutamente contraído. para pensar a constituição dos espaços. núcleo central da problemática inaugurado pelo que os comentadores foucaultianos costumam chamar de “ter- 294 . em relação ao sentido do tempo. pp. a rigor. vários posicionamentos que seriam. que instaurem o novo. eram forçadas a perguntar “Que mundo é este? Qual dos meus eus deve fazê-lo?”. em uma mesma espacialidade. Heterotopia. mais especialmente a alguns textos de Jorge Luis Borges. de certo modo. passando. Foucault em seguida a esse período. a idéia comporta uma justaposição ou superposição de espaços incomensuráveis uns aos outros. Referindo-se primordialmente à literatura e a literatos. Por sua vez. em vez disso. o tema da “estética da existência”. Foucault desloca completamente as preocupações. então. Contraposta à idéia de utopia. Assim. incompatíveis. que ela ganharia estofo teórico para ser entendida como um operador conceitual. então em voga. por exemplo. a construção desses novos espaços que comportem o impossível. Não obstante. as heterotopias pretendem descrever. justapondo. Pensemos no Aleph de Borges. Elas. 752762). IV. concebida em um certo espaço. o tempo narrativo. de modo sistemático.7 2005 Arquiteturais em Paris. naquela ocasião.

que deixaria. Scigliano introduz a noção de que o “Corpo é a casa”. isso porque. instituir que estaríamos falando de arte que toca o corpo.verve Heterotopia e vitalismo: por uma arte vitalista ceiro Foucault”. determina. acolhimento e desafio. vinculando-a ao tema da estética da existência. está para além do objeto artístico. para utilizarmos a noção proposta por Michel Foucault. obra de arte. assim. que fala ao corpo. mas por meio da participação efetiva do público. Mundo que é Casa e Abrigo. sob esta perspectiva. Da arte terapia ao trabalho de dobra contido no anel de Moebius presente em Caminhando. A apresentação da arte de Oiticica e de Clarck. Beatriz Scigliano Carneiro estabelece uma formidável interpretação da obra de Lygia e Hélio. com as duas idéias foucaultianas. Na apresentação da obra de Lygia. antes de mais nada. enseja à autora a fazer delas mundo. Trabalhando. 295 . tão cara à autora. de ser público para ser usuário. uma arte que se faz com o corpo. a partir de uma análise da modernidade e da figura proposta por Charles Baudelaire — em que este designou de “dândi” (O pintor da vida moderna) —. A experiência estética não se faria apenas por intermédio do “sopro” criativo de um “gênio criador”. simultaneamente. ou ainda efetivo autor da obra. que a arte. Estamos diante de uma arte propositiva que acolhe e cria mundos. O livro inicia-se apresentando a noção em questão. Momentos extremamente marcantes na obra da criadora dos bichos. que é corpo. pensar a arte em termos de construções de novas espacialidades para a produção da arte seria. Trata-se de fazer da própria vida. tratava-se de reinventar a arte sob uma novo prisma. Os espaços que estes artistas construíram em seus processos criativos forma espaços outros. Cuidadosa analisa as experiências que a artista desenvolveu. o ‘fazer’ arte. especialmente as denominadas de “A estruturação do Self” e a chamada de “Caminhando”.

espaços outros de convivência e plenitude. Oiticica vislumbrava a possibilidade de novas construções estéticas que passassem. Como se estabelece então o elemento transgressivo da obra? Como esse elemento transgressivo instaura um duro questionamento à idéia de autoria? Essas questões estão de certo modo na linha argumentativa proposta pela autora. Pensemos na obra em que “atuaram” juntos: O diálogo. associando-o à sua vida e ao diálogo da constituição da obra em ambos. ter transformado em operador conceitual uma noção que. sendo constituinte à própria obra. pelos menos individual. a autoria. também. Morada de penetráveis e casulos. partindo das idéias foucaultianas ter sabidamente as utilizado para além daquilo que se propunham. em que as mãos dos artistas achavam-se unidas por um tecido que as juntavam como “algemas de afinidades”. cada um deles a seu modo. é apresentado como construtor de um “Mundo Abrigo”. como também criaram novos mundos. pela participação do outro. ao fim e ao cabo. mesmo estando à margem da obra. serve para produzir novas margens à interpretação. utilizando o itinerário da construção da obra dos autores.6 2004 Oiticica. por sua vez. como em Lygia Clarck. uma arte vitalista. Eles uniram vida e arte. Os artistas fizeram desses espaços outros um manifesto de adesão incondicional à vida. tanto no plano estético quanto ético. Ao recusarem. Dos “Quase Cinema” ao “Metaesquemas”. casas e espaços que pudessem conter uma obra “dançável“ por aquele que a “vestisse”: o corpo fazendo parte ou mais que isso. da obra. O que foi realizado plenamente neste ensaio foi produzir uma imanente crítica às relações. Um dos muitos méritos do ensaio de Beatriz Scigliano Carneiro foi o de. Além disso. Hélio Oiticica e Lygia Clarck tornaram-se não só artistas transgressores dos valores estabelecidos à época. ter feito bem mais que alinhavar biografia e produção artística. 296 . Produziram.

203 pp. resultado do trabalho de iniciação científica realizado pela estudante de História da USP. integrante do Nu-Sol e bolsista CNPq. verve. Mas qual polícia não é política? O que é perturbar a ordem? Quem quer conservar. marcadas pelo estado de sítio do governo Artur Bernardes e pelo governo conhecido como Era Vargas para nos mostrar de que maneira a polícia caracterizava os anarquistas. em meio à efervescência política no país e à perseguição policial. 7: 297-301. 2005 297 .verve Afirmação da vida e decretação da morte afirmação da vida e decretação da morte |acácio augusto* Lúcia Parra. São Paulo. Combates Pela Liberdade: o movimento anarquista sob a vigilância do DEOPS/SP (1924-1945). construíram resistências que abalaram as fábricas. * Estudante de Ciências Sociais na PUC-SP. Estes que. exclusivamente a serviço da lei universal e para todos? Quem faz a lei hoje? Quem fazia naquela época? Para quê. Parra percorre duas décadas de prontuários. a igreja. Lúcia Parra. que ordem? A que temos hoje seria uma polícia “neutra”. e a quem serve a polícia? Estas são algumas questões que podem ser levantadas a partir da leitura do livro Combates Pela Liberdade: o movimento anarquista sob vigilância do DEOPS (19241945). Arquivo do Estado/Imprensa Oficial. O DEOPS é a polícia política criada na década de 1920 para caçar os perturbadores da ordem pública. 2003. a família. que se dedica a sistematizar os prontuários de pessoas e associações anarquistas perseguidas pelo DEOPS. a escola e todo um conjunto de costumes autoritários difundidos pela sociedade.

eram os que tinham maior nível de instrução. Praticavam as profissões que mais permitiam liberdade para sua ação. Atitude muito diferente do que está expresso na lei e é difundido como prática comum. obtidas quer pelo autodidatismo quer nas escolas modernas. como os comunistas em torno do PC. adulto e criança. Foram os libertários também — e isto está documentado no livro — os primeiros a levantarem a questão da mulher e das crianças. na qual o que se têm é uma relação de tutela. a autora mostra que eles eram vistos como perigosos.6 2004 Contudo. criadas no começo do século XX pelas associações anarquistas. mostra a autora. na qual o homem 298 . No segundo capítulo de seu trabalho. as mulheres tiveram uma ação singular dentro do movimento anarquista. o que muitas vezes passou desapercebido pelo próprio DEOPS. não se constituíam. os anarquistas estudados por Parra não podem ser vistos como vítimas de uma poderosa polícia que foi capaz de destruí-los. Por fim. Entre os anarquistas havia uma multiplicidade de práticas que se articulavam e que muitas vezes confundiam a ação policial. fica claro as diferentes maneiras pelas quais os anarquistas praticavam essas resistências: entre os operários. por meio da ação policial. pois suas práticas efetuavam-se como nocivas para o Estado. como sapateiro ou comerciante. buscava de qualquer forma interditar o discurso libertário. Pelas categorias criadas por Parra a partir da leitura dos prontuários. praticado pelos anarquistas. O que foi em certos momentos tarefa difícil para os policiais que não sabiam nem ao menos distinguir um anarquista de um comunista. uma unidade homogênea. e este sabendo disso. Explicitavam as péssimas condições em que estas trabalhavam nas fábricas e difundiam práticas cotidianas que dissolviam a relação de mando e obediência estabelecida entre homem e mulher.

tanto quanto o governo. monopólio do Estado e muito menos da direita. 64). importante de se destacar. Luta que chegou ao enfrentamento direto entre anarquistas e integralistas na Praça da Sé. e não é até hoje. e de uma tradição política oligárquica. Em uma sociedade como a brasileira. Um outro dado encontrado no livro. baseada em costumes autoritários. mas esta. A interdição das práticas anarquistas se dava associando-os à categoria de indivíduo perigoso e violento. como na lei de extradição de estrangeiros. no centro de São Paulo.verve Afirmação da vida e decretação da morte adulto dispõem do corpo da mulher e da criança para o que bem entender. os anarquistas como perigosos e portadores de idéias atrasadas. Parra mostra esta tática de desqualificação do discurso anarquista por intermédio dos relatórios de policiais do DEOPS. A ação libertária foi muito expressiva na criação da Liga Antifascista. conhecida como Lei Adolfo Gordo. é o forte envolvimento dos anarquistas com as lutas antifascistas. capaz de contagiar indivíduos sãos” (p. de 1907. que contava também com membros da ALN (Aliança de Libertação Nacional) e de alguns grupos comunistas de orientação trotskista. 299 . Vale lembrar que a desqualificação do discurso libertário não foi. Mesmo parceiros pontuais na luta antifascista — liberais progressistas e comunistas — viam. A prática libertária está voltada para uma transformação dos costumes. também. O anarquista é e foi “tratado como se fosse um ‘vírus’. a existência dos anarquistas era insuportável. cristalizou-se no Código Penal Brasileiro. ou desqualificando seu discurso como atrasado e desordeiro. Os libertários estavam atentos ao eco que causava o fascismo italiano no Brasil — que se confirmou com a ditadura de Vargas — e estavam interessados em barrar os desejos fascistas e garantir liberdades democráticas para viabilizar sua ação cotidiana.

Os anarquismos. o que muitas vezes é visto — até mesmo por alguns anarquistas como malogro da ação libertária nos sindicatos. 92). uma maneira singular de atuar no jogo das forças sociais. a ação policial não deve ser vista como fenômeno isolado. como também a imprensa libertária. a maior dificuldade desses libertários estudados por Parra. Isabel Cerrutti. atividades culturais e educacionais” (p. pesquisadores e interessados em anarquismos ou na ação do DEOPS. longe de se pretenderem hegemônicos. Neste sentido. tarefa que talvez seja muito mais difícil do que enfrentar a ação dos policiais do DEOPS. o sindicato. interessam-se em criar resistências pelas práticas de liberdade. Angelina Soares. pode ser analisado como uma estratégia de faafirmação destas experiências retirandose de um lugar onde isso não era mais possível. entre tantos outros. Além de se constituir como um importante material de consulta para estudantes. Ela é expressão de uma sociedade de costumes baseados no exercício centralizado da autoridade. a força do trabalho de Parra está em dar visibilidade à existência de homens e mulheres como Natalino Rodrigues. 300 . Com efeito. Abílio José das Neves e Francisco Augusto das Neves. no choque com os poderes.7 2005 Frente a uma repulsa advinda de diversos setores da sociedade às práticas anarquistas. Existências que não se reduzem aos prontuários policiais. Rodolfo Felipe. e “esta resistência tornou-se possível pela continuidade da cultura libertária que abarcava não somente práticas sindicais. foi difundir a experiência de uma vida livre nas relações sociais. impossíveis de serem capturadas. que não suporta a experimentação de liberdades difundida pelas práticas anarquistas. Fica evidente na leitura deste livro que os anarquismos criaram.

Um livro que trata de anarquia é para ser saboreado. Bitácora de la utopia . Este é o objetivo de Nelson Méndez e Alfredo Vallota. revirando costumes e experimentando liberdades. este sim malogrado. pois ainda hoje. 133 pp. Ediciones de la Biblioteca Central. Ele não se esgota em si mesmo. mover interesses. autores de Bitácora de la Utopia: anarquismo para el siglo XXI. 7: 301-305. os agentes da ordem buscavam interditá-los com o decreto de morte. Caracas. que em dezembro de 2004 completou nove anos de existência. Nelson Méndez e Alfredo Vallota são professores da Universidad Central de Venezuela e integram o CRA (Comisión de Relaciones Anarquistas). promover inquietações. digerido. rebeldias e desobediências. integrante do Nu-Sol.7. utilizado como uma ferramenta. conectando anarquias|thiago s. verve. santos* Nelson Méndez e Alfredo Vallota. Universidad Central de Venezuela. “um breviário sobre o ideal anarquista. Produção autogestionária que tem o intuito de divulgar o *Sociólogo e mestrando em Ciências Sociais na PUC-SP. Editam o periódico anarquista bimensal El Libertário. 2005 301 .).verve Conectando anarquias Enquanto os anarquistas praticavam uma afirmação da vida como experiência de liberdade.anarquismo para el siglo XXI. Procura suscitar curiosidades. de uma perspectiva latino americana em geral e venezuelana em particular” (p. os anarquistas continuam abalando hierarquias. 2001. e 40 números publicados.

7 2005 movimento ácrata latino-americano.com/samizdata.html). da destruição. em versão web (http:// www. Pode-se encontrar este periódico.org). e os argumentos que respondem a algumas das questões mais freqüentes apresentadas a qualquer anarquista: a crítica à caridade estatal. e nem tampouco o anarquista é a imagem de um homem com bombas que agride aos demais em nome de um res- 302 . para adquirir o jornal basta escrever para: ellibertario@nodo50. que surgiu no fim da década de 1980 e foi interrompida na metade da década de 1990 (ainda hoje é possível encontrar alguns textos selecionados do Correo A em: http://www. não é uma instigação do caos. educação. por terem sempre a imagem do anarquista como o indivíduo com uma bomba na mão.org/ellibertario. diversos artigos sobre libertarismo em uma publicação chamada Correo A. Um dos elementos que fomentou a criação desta bitácula foi uma publicação britânica do Anarchist Media Group. Os autores realizaram um livro introdutório às idéias libertárias. que em 1988 lançou um texto intitulado “Tudo o que sempre quis saber sobre anarquismo e nunca se atreveu a perguntar” (texto mais amplamente divulgado a partir de 1995. também. via internet).geocities. Escreveram. Méndez e Vallota mostram que a anarquia. diferente do que é vulgarmente pensado e exposto em dicionários. colocando em pauta os principais temas levantados pelos anarquistas. também. contrapõem as pré-concepções existentes em torno da anarquia e finalizam com uma sugestão de outras fontes. Assim. Estas duas publicações tiveram. grande importância no círculo ácrata latinoamericano.nodo50.geo/ CorreoA. pronto para agredir os demais. nas quais é possível pesquisar a respeito do tema tratado. a questão do crime. e o rechaço por parte de muitos das idéias anarquistas. e continuam tendo. da morte. método anarquista de comunicar suas idéias.

o fato de ainda não vivermos em uma sociedade assim constituída. A sua luta é menos iluminada que a luz proporcionada pela pólvora.verve Conectando anarquias sentimento social ou individual. vida social. às vezes. cuja administração castrense no governo impôs uma educação pré-militar para crianças e jovens. No entanto. mas. onde se aprende. trabalho cotidiano. a temer e curvar-se ante a hierarquia imposta” (p.18). também. Não agita uma bandeira de uma ideologia superior. A obediência é o alvo dos anarquistas que investem na educação para a liberdade. tudo isto compõe a educação que procura chamar cada indivíduo para se autogovernar. Assim é. não impede experiências de práticas educacionais mais livres. principalmente. é uma ferramenta de submissão dos indivíduos que. A assistência do Estado desarma as iniciativas próprias. fazendo-os dependentes da caridade estatal. assim como os anarquistas a concebem. Escolarizar domestica os indivíduos e o seguro social “gera uma disponibilidade de dinheiro das mais importantes no capitalismo moderno. 303 . O anarquista não obedece a um líder messiânico. Isto faz parte de um costume anarquista que privilegia a livre curiosidade das crianças e não circunscreve a educação à escola. A prática da educação. têm de agradecer o generoso presente da assistência com a sua obediência. São práticas que atravessam a regulação da educação praticada pelo Estado. uma assistência médica que só submete os seus usuários à exploração e à humilhação. depende da criação de uma sociedade anarquista. Escola. “A verdadeira educação é o contrário da escolarização obrigatória. e no caso específico da Venezuela. que se utiliza para explorar os trabalhadores” (p. como ocorreram com as Escolas Modernas e com os Ateneus Libertários.52). ela é a única forma de abalar os concretos civilizatórios que nos impõem uma cultura fundada na obediência ao superior. como retribuição aos benefícios do Estado.

acontecimentos estes que não poderiam ser impedidos pelo temor da punição (prevenção geral) e que polícia alguma. O livro intensifica interesses literários de quem o lê. Méndez e Vallota realizaram um livro que mantém um elo com fragmentos de textos. “não por vingança ou castigo. que esperam apenas ser revolvidos por curiosos ensandecidos. Os autores tratam ainda de um dos temas mais caros aos anarquistas e um pouco esquecido na atualidade: a punição. a respeito da questão do crime.7 2005 A educação permanece sendo o ponto fundamental aos anarquistas. importantíssimo pesquisador anarquista latino-americano. remete o leitor imediatamente a outras fontes. autogestão. em uma sociedade na qual a propriedade privada não seja um valor. senão como reconhecimento de uma relação sem possibilidade” (p. É pautada na invenção de novos costumes que pretende forjar uma outra sociabilidade. conectam anarquias. 26). A maioria dos chamados crimes continua sendo contra o patrimônio. por mais equipada que fosse. agora. A resposta dada pelos autores. um modelo de proteção social. além de uma pequena biografia de Durruti e um artigo sobre Ángel Cappelletti. a uma 304 . O livro apresenta ainda seis artigos (quatro de Vallota e dois de Méndez) nos quais são tratados: os princípios da anarquia (liberdade e igualdade). o que reafirma a atualidade do “Justiça Política” de William Godwin. surpreendentes. escritos esparsos. de 1973 (vide verve 5). afirmam. Constatam que a grande maioria dos distúrbios sociais provém de acontecimentos incontíveis. que se inicia. Projeta-se como resposta. lança-o a uma busca minuciosa. que pode ser a organização comunal de ajuda mútua ou a expulsão do indivíduo da comunidade. no presente. poderia conter: a prisão é um fracasso. funda-se na expectativa de uma mudança mais ampla da sociedade. contra a propriedade privada.

se de um lado a internet possibilita esses ganhos. e de maneira alguma um espaço para a democratização da informação. além de ser ainda um meio de informação muito restrito em países da América Latina. rádios e TVs que fazem da anarquia um acontecimento único e perturbador da ordem estabelecida. os autores apontam o que seriam os cyber-libertarian que vêem na internet o máximo de liberdade.verve Conectando anarquias pesquisa. alimentam também institutos de controle social. nas quais é possível encontrar livros completos — de autores como Proudhon. um democratismo que sufoca rebeldias e sustenta covardes. apenas mais um instrumento do qual se utilizam de forma interessada. Há. assim. que facilitam a troca de informações e experiências. visando grupos de debates. 305 . Mas. sites. São referências que aludem tanto a sites de associações anarquistas como a bibliotecas virtuais. uma atenção especial para a internet. para os anarquistas. ainda. entre outros — para downloads. A internet é. Malatesta. depara-se com uma listagem de outros livros. correios informativos e e-mails. Bakunin. de outro. Advertem que as novas tecnologias como a internet. Ao final do livro. referências de vídeos. uma investigação a respeito da anarquia.

7 2005 que a fonte nunca seque Sergio Cohn 306 .

Mirbeau. 2004 CD-ROM Um incômodo. o estado e seu papel histórico Piotr Kropotkin 9. os anarquistas e as eleições Bakunin.N. 2000 Um incômodo. Malatesta. do anarquismo Nicolas Walter 14. 1999-2005 vídeos Libertárias.T. anarquismo e anticlericalismo Eduardo Valladares 13. diálogo imaginário entre marx e bakunin Maurice Cranston 3.verve NU-SOL Publicações do Núcleo de Sociabilidade Libertária. último. Silva 8. a anarquia: sua filosofia. a bibliografia libertária — um século de anarquismo em língua portuguesa Adelaide Gonçalves & Jorge E. a guerra civil espanhola nos documentos anarquistas C. a pedagogia libertária Edmond-Marc Lipiansky 7. deus e o estado Mikhail Bakunin 10. a anarquia Errico Malatesta 2. seu ideal Piotr Kropotkin 11. 1999-2004 1. reflexões sobre a anarquia Maurice Joyeux 6. 307 . escritos revolucionários Errico Malatesta 12. 4. do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP. municipalismo libertário Murray Bookchin 5. 1999 Foucault-Ficô. 2003 Foucault. 2003 (artigos e intervenções artísticas do Simpósio Um incômodo) Coleção Escritos Anarquistas. hypomnemata Boletim eletrônico mensal. Kropotkin.

). Enckell 24. Autoritarismo e anarquismo Errico Malatesta Livros Edson Passetti (org. o consumo. a revolução mexicana Flores Magón 27. o essencial proudhon Francisco Trindade 20. Ed. Doumayrou. anarquismo. Imaginário/Nu-sol. obrigação social e dever de obediência Eduardo Colombo 28. Schuster. Valenti 18. Vidal. arte e anarquismo Ferrua. Estatismo e anarquia. apelo à liberdade do movimento libertário Jean-Marc Raynaud 22. Kyrou. Breton. Rio de Janeiro. a cidade. surrealismo e anarquismo Joyeux. 308 . o racionalismo combatente: francisco ferrer y guardia Ramón Safón 26. Barrué. a instrução integral Mikhail Bakunin 23. Bakunin.7 2005 Grave. Mikhail Bakunin. Bellegarrigue. Ferrua. nestor makhno e a revolução social na ucrânia Makhno. Boino. espaços libertários Bookchin.. max stirner e o anarquismo individualista Armand. Ragon. Zo D’Axa. Curso livre de abolicionismo penal. Do Princípio Federativo. Freitag 25. Berkman 17. Legrand 16. Editora Revan/Nu-Sol. o bairro. São Paulo. fundador do sindicalismo revolucionário Gaston Leval 29. Cubero 15. 2003. São Paulo. Ed. Péret. escritos contra marx Mikhail Bakunin 21. Skirda.. Berthet. análise do estado — o estado como paradigma do poder Eduardo Colombo 19. 2004. Imaginário/Ícone Editora/Nu-Sol. 2001. Pierre-Joseph Proudhon. Manfredonia.

Citações: As referências bibliográficas devem vir em nota de fim de texto observando o padrão a seguir: I) Para livros: Nome do autor. página. concisas e de caráter informativo. página. Ano. corpo 12. 309 . Os textos enviados à revista Verve devem observar as seguintes orientações quanto à formatação: Extensão. Cidade. para identificá-lo em nota de rodapé. Ex: Max Stirner. O falso princípio de nossa educação. devem vir em nota de fim de texto. espaço duplo. Título do livro. em fonte Times New Roman. “Título” in Título da obra. 74. corpo 12.verve Recomendações para colaborar com verve Verve aceita artigos e resenhas que serão analisados pelo Conselho Editorial para possível publicação.000 caracteres contando espaço (aproximadamente 15 laudas). fonte e espaçamento: a) Artigos: os artigos não devem exceder 26. Editora. II) Para artigos ou capítulos de livros: Nome do autor. Identificação: O autor deve enviar mini-currículo. em fonte Times New Roman. Resumo: Os artigos devem vir acompanhados de resumo de até 10 linhas. de no máximo 03 linhas. em português e inglês. ano. Cidade. espaço duplo. b) Resenhas: As resenhas devem ter até 6.000 caracteres (com espaço). Editora. 2001. p. Notas explicativas: As notas. São Paulo. Imaginário.

vol. Muchail. número de páginas. As palavras e as coisas. 2000. I. c) para citação recorrente e não seqüencial: Nome do autor. São Paulo. Martins Fontes. Imaginário. São Paulo/SP. Nova Cultural. CEP 05015-001. Perdizes. número de páginas. III) Para citações posteriores: a) primeira repetição: Idem. ano.7 2005 Ex: Michel de Montaigne.org 310 . ano. 4o andar.. Editora. Cidade. da seguinte maneira: Nome do autor. Tradução de Salma T. pede-se que a colaboração em disquete seja encaminhada pelo correio para: Revista Verve Núcleo de Sociabilidade Libertária (Nu-Sol). Tradução de [nome do tradutor]. São Paulo. Ex: Michel Foucault. cit. São Paulo. logo após o título. Rua Ministro Godói. p. p. sala 4E-18. p. Título da Obra. Título da Obra. op. Do Princípio Federativo. Editora. número da página.nu-sol. As colaborações devem ser encaminhadas por meio eletrônico para o endereço verve@nu-sol. Cidade. Coleção Os pensadores. Ex: Pierre-Joseph Proudhon. Informações e programação das atividades do Nu-sol no endereço: www. “Da educação das crianças” in Ensaios. p. Programa de Estudos Pós-graduados em Ciências Sociais da PUC-SP. b) segunda e demais repetições: Ibidem. número da página. 969. número da página. Ed. ano. Na impossibilidade do envio eletrônico.76. IV) Para resenhas As resenhas devem identificar o livro resenhado. 2001. 134 pp. V) Para obras traduzidas Nome do autor.org salvos em extensão rtf.

verve 311 .

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