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segue twee 1an M.O. Carvalho “Caros Amigos” ‘Sabado, 23 de Novembro de 2002 00:30 Correio Garos Amigos Que escola é essa? Diz uma professora: "Estou delxando de ser uma professora digna. N&o importa 0 que eu faca, 0 aluno passa. Meu trabalho no vale nada.” por Lygia Viégas A iiltima disputa eleitoral ao governo do Estado de Sao Paulo trouxe a tona uma polémica que desde 1998 envolve quem freqiienta sua escola: a pogresséo continuada, politica implantada na primeira gest&o Covas- Aickmin (PSDB), que organiza o ensino piiblico fundamental em dois ciclos de quatro anos cada, nos quais ndo hd reprovacéo do aluno (outros ipios brasileiros, dirigidos por outros partidos politicos, -além de outros paises, também organizam o ensino em ciclos) As criticas reprovaco focalizam ora seus efeitos na auto-estima dos alunos, ora seu teor econémico, quando a reprovacao é considerada um ralo pernicioso por onde se desperdicam preciosos recursos financeiros; a progressao continuada, ao contrério, seria sua sensivel otimizacdo. Esse grande valor dado & questo financeira revela a influéncia da globalizacao da economia e do neoliberalismo em muitas reformas educacionais. ‘Ao mesmo tempo em que a progressao continuada é apontada como sindnimo de fim da seletividade da escola, o discurso oficial afirma que a exclusdo sera mantida se no houver a garantia de algumas condigbes, € entre elas enfatiza uma mudanga nas relagbes que produzem a reprovacio do aluno. Ora, se tal mudanca ocorresse, a progressao continuada nao seria mais necessaria. Trata-se, pois, de uma politica que ataca o sintoma do fracasso escolar (denotado pelos indices de retenc&o), mas que nao enfrenta o que tem produzido tal sintoma. De fato, estatisticas atuais mostram aumento na aprovagdo e queda na reprovagio e evasdo, dando a impressdo de que o problema da excluséo do aluno dentro da escola foi resolvido. Esses numeros, que parecem novo "milagre brasileiro" (agora n&o s6 econémico, mas também educacional), no entanto, nao revelam uma real melhoria da escola. Em realidade, muitos alunos esto sendo aprovados por decreto, ou seja, ‘embora avancem pela escola, no conseguem acompanhar as séries quais "passam". Se a democratizago do ensino tem representado, para 9s alunos, apenas a expanséio de vagas e 0 acesso as séries mais elevadas, a custa da qualidade do ensino, para os professores, o suposto ideal democratizante fica ainda mais diluido, dado seu tom autoritério, apartados que foram do processo decisério e de implementacao. Por isso hd oposic&o dos professores @ progressao continuada, o que chama a atengio para os limites e possibilidades de engajamento. Encontros sistematicos meus com um grupo de professores revelou que a 23/1 2a A pune eee maioria no discordava da necessidade de acabar com a exclusao escolar, mas sim da forma adotada pelo Estado para tal fim (era um "assim nao” mais do que um "isso nao"). © que parece contribuir para 0 histérico fracasso escolar e que permaneceu nas escolas no contexto da progressdo continuada € 0 preconceito em relacdo aos alunos. A falta de debate desse tema fica compreendida quando se nota que o préprio Estado tem expectativas negativas acerca dos alunos pobres, descritos como o lado ruim da sociedade, por serem filhos de familias desorganizadas e com vida cultural restrita, problemas de disciplina, pouca higiene, violéncia drogas. Esse, alids, é um dos poucos pontos em que 0 Estado e parte dos professores afinavam. 0 enfrentamento do fracasso das escolas piiblicas paulistas, no entanto, deve enfocar as relaces que produzem tal fracasso, bem como a valorizag&o do professor, o que significa melhorar sua formacao, participacdo e saldrio - atualmente aviltante -, questdes que certamente estiveram fora de foco nas gestdes Covas-Alckmin. Mas nada & mais revelador que a redaco de um aluno de 7a série: "0 natal e uma selebrasdo do nacimento de jesus que ser dounor um feriado que doda a familia se reune mais os amigos e vais uma sei de natal que damos presendes e gaiamos presendes istoramos japaem damos pregamo conversamos. E adoro o natal e muito bom o natal selepamas 0 namento de jesus e fasemos festas. Mais dem mais coisas soutamos, asedemos a missa. E muito bom. Mais que eu me esquesa dambem dem ‘0 vamoso papai Noel um velhilho que trais presente para todas griansas." Lygia Viégas, do Instituto de Psicologia da USP, pesquisa a progressio continuada desde 1999, sob a orientacdo de Marilene Proenca. Cli gu pa cantar oiteio Cares Amigas ae) Discorde, discuta, concorde, espernele, aqul vacé pode opinar sobre o texto acima. Clique EER pa a Agenda Caros Amigos desta semana. ad + A mais explosiva entrevista até hoje publicada por Caros mIs5] Amigos é com Hebe de Bonafini, presidente das Maes da Plaza de Mayo. + Ferréz vai a uma festa na periferia. + Ana Miranda pergunta, Jodo Ubaldo responde. + Caio Mouro afirma: a nova governadora ngo combina 23/12/2002