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ATOA - A Descida 1

ATOA - A Descida 1

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A última volta do parafuso do branqueamento do Brasil se dá na Amazônia.

O grande projeto geopolitico da ditadura O que estraga o Occidente é a placenta juridica em que se envolve o homem desde o ato de amor que, aliás, nada tem que ver com a concepção O que se quer é simplicidade e não um novo código de simplicidade Não estamos buscando ironias deliciosas, mas lampejos de luz O hábito faz o homem. O homem nu o come Existir é diferir; a diferença, a bem da verdade, é, em certo sentido, o lado substancial das coisas, o que elas têm ao mesmo tempo de mais próprio e de mais comum Os devires não são fenômenos de imitação, nem de assimilação, mas de dupla captura, de evolução não paralela, de núpcias entre dois reinos Escuta, diante da barata viva, a maior descoberta foi a de que o mundo não é humano, e de que não somos humanos O homem é o lobo do homem. Mas para o lobo, o lobo é o homem do lobo O animal nos olha, e estamos nus diante dele. E pensar começa talvez aí O estado do Fora é o estado de natureza antropofágico O negro é a soma de todas as cores. A nudez é a soma de todas as roupas Contra o animal que se veste, o animal que se enfeita Os fios soltos do experimental são energias que brotam para um número aberto de possibilidades O período matriarcal é a poesia da história Antropofagia. Único sistema capaz de sobreviver quando acabar a tinta de escrever.

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Ninguém tem o direito de obedecer Só me interessa o que não é meu A vida é roubo Visto que o ser é o ter, segue-se que toda coisa deve ser ávida a posse contra a propriedade -1 A propriedade não é senão uma usurpação social O amor é o único título do prazer, como a fome é o único título da propriedade O que mais admira é que as populações que vivem no frio e na lama não queimam os vossos palácios Economia do tempo, em última instância toda economia se resume nisso Pelo ócio e contra o neg-ócio Consumir o consumo Creio na insurreição da carne A emancipação carnal e política são irmãos gêmeos inseparáveis O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo O espírito se assemelha mais que tudo a um estômago Nosso corpo é apenas uma estrutura social de muitas almas O Estado é antes de tudo um estado de espírito O que é importante é a emergência de um estado de invenção Experimentar o experimental A estética dá fome O ato de devorar é a primeira religião do homem A cultura e a civilização só interessam enquanto sirvam de alimento “Civilização” é o nome da história da montagem de uma rede de atravessadores existenciais Todas as nossas reformas costumam ser dentro do bonde da civilização; precisamos saltar do bonde, queimar o bonde Em uma sociedade que aboliu toda aventura, a única aventura restante é abolir tal sociedade Contra a terra sem surpresas A incorreção é uma eminente qualidade Todo déspota ama a simetria A semelhança não unifica na mesma proporção que a dessemelhança diversifica A força de toda vida que deseja o erro como precondição do pensamento Da Errática à Terrática Devolver terra a terra O que a terra há de comer Um mundo todo vivo tem a força de um inferno O mundo está perpetuamente perecendo A terra, sobre a qual vivemos, tem olhos abertos e ouvidos atentos. Não vê, mas enxerga A condição da nação é a negação da mata Eu sou a mata: ela está em mim O ambiente entra na natureza de cada coisa Na vida selvagem está a preservação do mundo Quando filosofamos, somos como selvagens Todos os homens primitivos eram poetas O homem nú sabe o que deve comer Criar não é ter imaginação, é correr o grande risco de se ter a realidade O objeto chora, mas o pesquisador não vê as lágrimas Os devires são o que há de mais imperceptível: atos que só cabem numa vida e só podem ser expressos num estilo É tarefa do futuro ser perigoso Quanto ao futuro. há mundo por vir? O ser é a Devoração pura e eterna. Nada existe fora da Devoração Então chegou a vez da descida antropofágica. Vamos comer tudo de novo Manda descer pra ver Desta terra, nesta terra, para esta terra. E já é tempo.

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técnica de exogamia | terceira dentição

Mussangulá: Espírito de preguiça filosófica que não quer se enquadrar em preceitos. Contra tudo o que é coerente, silogístico, geométrico, cartesiano. O thaumazein do antropófago, o estado de subjuntividade antropofágica Oswald de Andrade afirmava que o Novo Mundo apresentou ao europeu, homem filosoficamente vestido, a verdade filosófica do “homem nu”, entenda-se, a possibilidade de uma relação nua do homem com a verdade. Uma das declinações desta verdade já se lia na frase lapidar do Manifesto antropófago de 1929: “o espírito se recusa a conceber o espírito sem o corpo”. A fórmula resume, sem dúvida, um dos gestos decisivos da filosofia da época em que ele foi escrito, o grande século de Nietzsche e de Marx, da psicanálise e da fenomenologia: o movimento de descida corpórea da razão humana, seu enraizamento nas profundezas do orgânico e do material. Mas seu autor fazia remontar a mais alguns séculos esse gesto, até o primeiro confronto do pensamento europeu com a “Weltanschauung antropofágica” dos índios brasileiros. Oswald via ali a inspiração originária do processo de demolição, pela demoníaca trindade Marx-Nietzsche-Freud e além, de uma das antinomias fundadoras da cultura ocidental, aquela entre o corpo, plano infernal do desejo e da necessidade, e o espírito, plano etéreo da razão e da liberdade. A antropofagia oswaldiana, conceito que indistingue deliberadamente os sentidos literal e figurado de uma prática suposta típica dos povos de Pindorama, é a generalização ética, estética e sobretudo política dessa antropologia inaudita com que a Europa se defrontou ao invadir a América, e que deu o impulso inicial na “marcha das utopias”, a insaciável vontade de recriação do humano que marca a história ocidental desde o século XVI. Nesta outra figura do anthropos com que a América indígena acenava à velha Europa, o lógico se via universalmente determinado pelo fágico, a predicação aparecia como um caso da manducação; a fala era um momento da fome, a logofagia branca (“o homem europeu falou demais”) era respondida por uma fagologia índia, o antropofalocentrismo europeu devorado por um antropofagomorfismo americano. A antropofagia oswaldiana, essa fulgurante equivocidade entre uma cosmopraxis indígena milenar e o turbilhão revolucionário da modernidade tardia, revela-se assim uma das primeiras “políticas do corpo” e umas das mais originais “biopolíticas” já elaboradas. Um dia o século será oswaldiano.

afundação taba de Oswald de Andrade URL (Universidade Realmente Livre) MSM (movimento dos sem-mundo)

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Antropofagia é simplesmente a ida (não o regresso) ao homem natural

Por um lado, determinação da potência, por outro, dominação da matéria (inclusive a de que é feito o homem): eis o alfa e o ômega da aventura ocidental. A bem da verdade, são dois lados de uma mesma moeda, pois a matéria (a mesma de que somos feitos) é justamente a pura potência indeterminada: tudo que é material pode ser diferente, diverso do geral, de sua própria Forma – a natureza produz incessantemente o distinto, diz Montaigne, e nenhuma arte (técnica: dominação da matéria) humana pode reproduzi-la ou conduzi-la à similitude. A causa ecológica é a luta de libertação do espaço-tempo: não queremos nos livrar do espaço e do tempo, mas liberar a sua virtualidade.

Quando Oswaldo Costa escreveu na Revista de Antropofagia que “a descida agora é outra”, a descida antropófaga da libertação, não imaginava que quarenta anos depois, um jovem antropófago criador de um programa ambiental e tropical, atualizaria sua tese enfatizando que descemos para baixo. Pouco depois de um grande desafio apocalíptico sobre o qual pedia a elaboração de uma hipótese, Apocalipopótese, Hélio Oiticica criou a sua descida: Subterrânia. Contra a elevação do homem e a superação do subdesenvolvimento, Subterrânia pedia que mirássemos o pé, o pé do Abaporu, o pé que pisa em movimento a Terra, a terra. É preciso pensar outra relação com o mundo, entender que a terra, a Terra não são exteriores aos indivíduos, que não existe desenvolvimento sustentável, que os recursos não são inesgotáveis, e que mais do que desenvolver é preciso sub-desenvolver, isto é, encontrar os pontos de subdesenvolvimento que excedam extrapolem - o processo cultural civilizatório. Assim como já tivemos horror ao vácuo, hoje temos horror à limitação, ao decrescimento, à suficiência, à descida. Qualquer coisa que lembre esse movimento descendente é quase imediatamente associado à vontade de regresso, ao primitivismo, irracionalismo, niilismo, quando não ao fascismo. Só uma direção é pensável, aceitável e desejável, a que leva do negativo ao positivo: da posse de pouco à propriedade de muito, da baixa tecnologia à alta tecnologia, do local ao global, do nômade paleolítico ao cidadão cosmopolita moderno, do índio ao proletário civilizado. Mas “descer”, aqui, não significa voltar para trás, voltar a ser o que éramos, e sim produzir novas formas de vida; significa entrar em outras formas de relação com os outros homens, com a tecnologia, com o saber, com o mundo não-humano e seus muitos pontos de vista, enfim com a terra e sua diversidade constitutiva. Descer é devir-outro, devir-menor, devir-índio. É também sair, com a condição de entendermos que sair não é transcender. Só temos um mundo, mas o mundo não se resume a nós humanos, e menos ainda a nós ocidentais urbanos corporativos globais. Sair é aterrissar. ATERRAR.

“O que fazer?”, pergunta o comunista. A experiência e o tempo, tergiversa o antropófago. À “lógica que de Aristóteles a Descartes pusera de pé mais que o homo faber, o mundo faber” Oswald de Andrade opõe a “teimosa vocação de felicidade do primitivo”. Diferente das utopias modernas, que instituíram formas eugênicas de criação da ordem, a utopia antropófaga se constitui como contrária a toda submissão da vida à ideia: “ao contrário da ideologia que procura manter a ordem estabelecida, toda Utopia se torna subversiva, pois é o anseio de romper a ordem vigente”. Nesse sentido, de nada adiantaria opor à cultura messiânica outro conjunto de ideias, uma lógica alternativa, ou um sistema político diverso. O primitivo não pode idealizar uma forma de viver, porque a forma de vida é o dado. Não há como arquitetar uma vida sem vivê-la, e viver é sempre e novamente partir do começo: “todos os dias nascem milhões de homens prehistoricos”. Ao questionar os mecanismos através dos quais o poder determina a vida dos homens não podemos deixar intocada a sua forma subjacente de produção da sociedade – o princípio segundo o qual todos devem trabalhar para pensar da mesma forma, partilhar o mesmo ideal, se juntar ao redor das mesmas coisas. É o profundo antropocentrismo messiânico: pensar que a ordem é conferida ao mundo pelo trabalho humano, e que aquilo que nos faz viver junto depende de nossa ação e de nossa vontade, de nosso controle. O elogio da práxis e a teologia do trabalho. Esse mesmo antropocentrismo fundamenta o pensamento crítico, herdeiro do kantismo, que insiste em trocar todo “é assim” por “nós pensamos/representamos/ produzimos assim”. A uma ideologia coletivizante opomos uma experiência diferenciante. Só saímos do Estado de Exceção provando que o movimento é possível: votando com os pés. “É tempo de buscarmos outro sol e de nos pormos em movimento”.

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TOTENS: Oswald de Andrade Oswaldo Costa Flávio de Carvalho Hélio Oiticica Gilles Deleuze Gabriel Tarde Hannah Arendt Alfred NorthWhitehead Rogério Duarte Sousândrade Gilberto Gil Jerry Rubin Davi Kopenawa Friedrich Nietzsche Michel de Montaigne Brissot de Warville Jacques Derrida Peter L. Wilson Clarice Lispector Karl Marx Pierre Clastres J. J. Bachofen Raul Bopp Giambattista Vico Henry Thoreau Hans Peter Duerr Ludwig Wittgenstein T.A. Araripe Jr.

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