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Prefacio do autor A S conferéncias que se seguem foram pronunciadas no Insti- tuto Lowell, em Boston, em novembro e dezembro de 1906, e em janeiro de 1907, na Universidade de Coltimbia, em Nova lor- que. Foram impressas conforme o original, sem desenvolvimentos ou notas. O movimento pragmdtico, chamado assim — ndo gosto do nome, mas, aparentemente, é tarde demais para mudd-lo — parece ter-se precipitado algo subitamente das alturas. Certo ni- mero de tendéncias que sempre existiram na filosofia, tornaram-se todas de uma s6 vez cénscias de si mesmas coletivamente, e de sua missao em conjunto; e isso ocorreu, em tantos paises e de tantos Pontos de vista diferentes, que dai resultou muito pronunciamento desajustado. Procurei unificar 0 quadro conforme se me apresenta aos meus préprios olhos, tratando-o em largas pinceladas, e evitan- do as controvérsias mitidas. Muita controvérsia fitil poderia ter sido evitada, acredito, se nossos criticos estivessem dispostos a aguardar até que tivéssemos dado conta de nossa mensagem. Se minhas conferéncias interessam a algum leitor de assunto geral, sem dtivida que desejaré ler mais a respeito. Envio-o, por- tanto, a algumas fontes. Na América, Studies in Logical Theory, de John Dewey, sao Sfundamentais. Ler, também, por Dewy, os artigos em Philosophical Review, vol. XV, pdginas 113 e 465, em Mind, vol. XV, pagina 293, e em Journal of Philosophy, vol. IV, pagina 197. Provavelmente, os melhores pronunciamentos para se come- ¢ar, entretanto, sdo os de F.C.S. Schiller, em seus Studies in Humanism, especialmente os ensaios de nimeros I, V, VI, VII, XVII e XIX. Seus ensaios anteriores e, em geral, a literatura polémica Sobre o assunto, recebem citagdo por extenso em suas notas de rodapé. Mais ainda, ver J. Milhaud: Le Rationnel, 1898, e os finos artigos de Le Roy em Revue de Métaphysique, vols. 7, 8 e 9. Ver, também, os artigos de Blondel e De Sailly em Annales de Philo- sophie Chrétienne, 4éme Série, vols. 2 e 3. Papini anuncia um livro a respeito de Pragmatismo, em lingua francesa, para ser publicado em breve. A fim de evitar pelo menos um mal-entendido, digo que ndo ha conexdo légica entre 0 pragmatismo, como eu o compreendo, e uma doutrina que dei a lume recentemente como “empirismo ra- dical”. Essa ultima se sustenta por si prépria. Pode-se rejeitd-la Por inteiro e ainda assim continuar sendo um pragmatista. Universidade de Harvard, abril de 1907. 4 PRIMEIRA CONFERENCIA O atual dilema da filosofia N © Prefacio 4 sua admir4vel colegio de ensaios, intitulada Heretics, Chesterton escreve essas palavras: “Ha algumas pessoas — e eu sou uma delas — que pensam que a coisa mais pratica e importante relativamente a um homem é ainda sua viséo do universo. Achamos que para uma senhoria que considera 0 seu inquilino, o importante é conhecer os seus rendimentos, porém ainda mais importante é conhecer sua filosofia. Achamos que para um general prestes a combater um inimigo, o importante é saber 0 nimero de inimigos, porém mais importante ainda é saber a filosofia do inimigo. Achamos que a questao nao é se a teoria do cosmos afeta os negécios, e sim, porém, se a longo prazo sao afetados por alguma coisa”. Afino com Chesterton nesse particular. Sei que vocés, senhores e senhoras, tém uma filosofia, cada qual e todos vocés, e que a coisa mais interessante e importante é a maneira pela qual determina a perspectiva em seus diversos mundos. Vocés sabem o mesmo de mim. E, nao obstante, confesso um certo tremor pela auddcia da tarefa que estou prestes a encetar. Para a filosofia, 0 que é tao importante em cada um de nds nao é um preparo técnico; € 0 nosso mais ou menos senso comum do que a vida honesta e profundamente significa. E somente em parte obtido nos livros; é a nossa maneira individual de ver e sentir exatamente a carga total e presséo do cosmos. Nao tenho direito de presumir que muitos de vocés sejam estudantes do cosmos, no sentido escolar, porém aqui estou eu desejoso de interess4-los por uma -filosofia que, em nao menor