Política e cultura popular Quinta-feira, 26.02.09 17:00-19:00 horas Are we seeing a blurring of the roles of citizen and consumer?

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Resumo Robert Putnam sugeriu que a consciência política e o engajamento cívico da geração pós Segunda Guerra Mundial pode ter ocorrido em boliches e outros espaços comunitários onde se reúnem membros da comunidade. A consciência política da nova geração pode estar se formando dentro e em torno da cultura popular? A separação entre os papéis de cidadão e consumidor está ficando indistinta? Essa fusão entre entretenimento e notícias é uma coisa boa ou ruim? Quais laços existem entre nossas preferências culturais e políticas? Como é que ativistas e líderes políticos estão utilizando metáforas da cultura popular como recurso para mobilizar seus defensores? É possível que aspectos de nossa cultura popular possam gerar visões utópicas para alimentar a mudança política? Estas e outras questões serão exploradas pelos nossos debatedores.

Oradores Johanna Blakley é diretora adjunta do Norman Lear Center, onde pesquisa a cultura das celebridades, entretenimento global e tecnologia digital. David Carr é repórter de cultura e colunista de mídia do jornal New York Times. Stephen Duncombe leciona história e política de mídia e cultura na New York University e é autor, mais recentemente, do livro Dream: Re-Imagining Progressive Politics in na Age of Fantasy [Sonho: Re-Imaginando Política Progressive em uma Era de Fantasia]. Seu blog chama Reality Sandwich. Moderador: Henry Jenkins é co-diretor de Estudos Comparativos de Mídia, e professor de ciências humanas da Cadeira Peter de Florez. Seu mais recente livro é Cultura de Convergência: Where Old and New Media Collide [Cultura de Convergência: Onde a Mídia Antiga e Nova Colidem]. Co-patrocinadores: Center for Future Civic Media e Technology and Culture Forum.

Resumo Johanna Blakley iniciou com uma rápida descrição do Norman Lear Center da University of Southern Califórnia, onde atua como diretora adjunta. O Centro não oferece cursos ou cargos docentes. Visa explorar a interseção entre política e entretenimento, buscando formas de utilizar o poder do entretenimento para finalidades cívicas. Embora o impacto da cultura das celebridades e do entretenimento sobre a política seja amplamente reconhecido, existem poucas pesquisas empíricas significativas sobre o assunto. A recente pesquisa realizada pela Zogby e o Norman Lear Center sobre Política e Entretenimento entrevistou 4 mil americanos e tenta preencher essa lacuna. David Carr acredita que a campanha de Obama tirou proveito da interseção entre política e cultura popular. Ser um eleitor do Obama ia além da identidade política e muitas vezes envolveu o consumo ou a criação de conteúdo que era político e entretenimento. Os vídeos Obama Girl e Will I Am no YouTube exemplificam isto.

O alcance digital de Obama foi único e promoveu sua campanha de forma única, disse Carr. Isso foi especialmente importante em uma campanha presidencial que foi decisivamente moldada pela tecnologia digital, mais que qualquer outra anterior. O número de bloggers nas convenções de 2008 foi exponencialmente maior que em anos anteriores. Houve um grande crescimento naquilo que alguns chamam jornalismo cidadão, um fenômeno fundamentalmente associado a novas tecnologias e à internet. A separação entre o jornalista profissional e os ativistas cidadãos ou repórteres amadores começou a desaparecer. Por exemplo, a CNN mostrou muitos vídeos produzidos por amadores durante a campanha presidencial. Novas tecnologias mudaram a forma que campanhas precisam funcionar. As organizações das campanhas não podem reter controle sobre as imagens e histórias que divulgam. Por exemplo, o personagem Joe o Encanador apareceu em paródias e mashups que zombavam e minaram a imagem populista que ele e o Partido Republicano tentaram criar. Material amador desempenhou um papel significativo na campanha presidencial e certamente será ainda mais influente no futuro. Obama pode ter se beneficiado em muito desta emergente cultura digital de amadores e ativistas free-lance, que valorizaram o processo eleitoral. Stephen Duncombe disse que pessoas voltadas à política tradicionalmente tinham uma de duas atitudes com relação à cultura popular. A primeira era pessimista, considerando cultura popular como sendo uma distração vulgar que minava as normas morais e nossa capacidade de tomar decisões políticas bem informadas. A outra atitude é otimista, considerando a cultura popular como uma voz do povo, uma espécie de política popular em si. Duncombe propôs uma terceira atitude, que ignora questões sobre virtudes ou defeitos inerentes da cultura popular, focando as atenções na identificação de formas nas quais pode ser mobilizada para finalidades políticas progressivas. Por incorporar elementos dos desejos e fantasias públicas, a cultura popular pode ser entendida como sendo um laboratório único de idéias e atitudes que pode ser explorado e realizado através da prática política. A histórica vitória de Obama, acredita Duncombe, resultou em parte de seu reconhecimento da diversidade e complexidade da cultura popular. Ele representou ou simbolizou, de forma geral, a esperança e o otimismo aos quais os cidadãos podiam anexar seus próprios significados. Ele encantava vários subgrupos, de formas diferentes porém concretas: intelectuais, negros, fãs de basquetebol, amantes de hip-hop, pessoas e famílias multirraciais ou multiétnicas, etc. Blakley descreveu com maior riqueza de detalhes a pesquisa Zogby-Lear Center. A pesquisa identificava três diferentes grupos de cidadãos. O maior deles, denominado “vermelho”, tinha opiniões políticas majoritariamente conservadoras; o segundo maior grupo, “azul”, tinha opiniões principalmente liberais; o terceiro e menor grupo, “roxo”, tinha características de ambos os grupos. De forma sugestiva, os três grupos políticos tinham preferências de entretenimento marcadamente diferentes, com pouca sobreposição entre os grupos. (Havia apenas uma exceção: a série de televisão House, que era apreciada por vermelhos e azuis) A pesquisa também incluiu perguntas sobre a convergência entre entretenimento e política. Muitos participantes dos três grupos informaram que gostavam de entretenimento que refletisse valores diferentes dos deles ou que julgavam de mau gosto, o que revelou um considerável público aparentemente aberto a representações não familiares. Isto foi uma surpresa, disse Blakley, porque significa que as pessoas não são apenas atraídas a filmes ou programas de televisão que refletem seus próprios ideais ou vidas. Finalmente, a pesquisa constatou que uma grande maioria acreditava que mensagens políticas eram apresentadas em filmes e programas de televisão fictícios, e que muitas pessoas tomavam conhecimento das questões políticas através dessas fontes. Duncombe comentou que esses resultados sugerem que as identidades culturais e políticas estão se combinando. As pessoas já não encontram política em seu entretenimento de ficção e a definição de política está ampliando-se cada vez mais. Hoje já inclui muitos elementos que costumavam ser considerados puramente culturais. De acordo com Carr, uma das causas deste fenômeno é o consumo; se estivermos sempre consumindo, isto se torna uma medida do que somos. Visitar um supermercado mais fino e gastar mais dinheiro em alimentação pode ser uma espécie de expressão política, da mesma forma que é assistir a um filme de Tom Selleck. De forma semelhante, estar interessado na campanha política tornou-se uma forma de expressar a personalidade de cada um.

Blakley disse que combinar cultura popular e política pode representar o risco de diluir substância com glamour. Mas se mais pessoas tiverem interesse na substância em razão do aspecto do entretenimento, isso será benéfico. Carr lembrou o painel que jovens e modernos candidatos não são os únicos a explorar a cultura popular. Busch venceu as eleições de 2002 e 2004 com base no estilo. As pessoas não simpatizavam com ele por causa de seu intelecto; gostavam dele porque se identificavam com ele. Duncombe concordou, citando as tradicionais conversas ao pé do radio do presidente Franklin D. Roosevelt como um primeiro e decisivo exemplo do uso estratégico de uma nova mídia. Estilo e substância não são mutuamente exclusivos, como Franklin D. Roosevelt e agora Obama mostraram. O moderador Henry Jenkins observou que as pessoas muitas vezes assumem que uma maior participação significa maior civilidade no discurso político, quando na verdade o oposto muitas vezes é verdadeiro. Uma foto alterada pelo Photoshop pode ser aceitável em alguns sites da internet, mas não nas páginas de um jornal. Este aspecto foi ilustrado recentemente pela controvérsia causada pela charge publicada no jornal New York Post, que alguns consideraram uma interpretação racista do Presidente Obama. Sessão de Perguntas e Respostas: Pergunta: Pode-se discutir o papel das pequenas redes na política? Duncombe: Admirei a habilidade da campanha de Obama usar redes para reanimar a sociedade civil. As pessoas podiam reunir-se em vários níveis e ser ativistas por um dia. Constroem uma cultura de organização e a pergunta que se faz agora é “O que acontecerá com ela?” Obama a usará na sua administração? Existem formas de organizadores de comunidades usarem seus recursos? Blakley: Pequenas redes são poderosas porque permitem que pessoas comuns tornem-se celebridades dentro dessas pequenas esferas. Isto é outro exemplo de como os elementos do entretenimento podem ser injetados no processo político. Carr: Pequenas redes induzem feedback positivo em nível individual. As pessoas envolvidas com a campanha de Obama receberam um pagamento psíquico real pelo seu esforço. Jenkins: As pessoas adquirem habilidades em suas redes culturais que podem ser aplicadas a finalidades mais série, quando acham uma causa que as motiva. Por este motivo, atualmente o consumo cultural popular nunca é individual, é sempre social. Por exemplo, redes de fãs e interessados por videogames barganham em nome de consumidores; quando o fazem, estão ensinando uns aos outros como agir politicamente. Tenho grande interesse em comportamentos protopolíticos, tais como fãs que escrevem cartas para manter um programa de televisão no ar. Como eles passam dessas táticas para formas de ativismo político? Duncombe: Costumávamos pensar que o consumo era uma atividade passiva, mas hoje as pessoas estão passando a reconhecer que damos significado a aquilo que consumimos. Obama valeu-se de um entendimento fundamental que quando as pessoas consomem uma mensagem, também querem produzi-la, criando sua própria versão. Pergunta: Quais tecnologias ou tendências de mídia estão por vir, com possibilidade de afetar consideravelmente a eleição de 2012? Jenkins: Podemos pensar de forma lógica para onde a cultura está nos levando, mas ninguém pode dizer quais plataformas ou tecnologias específicas existirão daqui a quatro anos. Pode-se olhar para trás e localizar o início das atuais tendências, mas prever o futuro é muito difícil. Carr: As coisas podem mudar com grande rapidez; é possível que um candidato em 2012 seja radical ao ponto de evitar o engajamento da população. Simplesmente não sabemos. Pergunta: Quais serão as conseqüências dos agrupamentos da pesquisa de Johanna? Porque são importantes? Blakley: Estávamos apenas tentando identificar onde ficavam as divisões ideológicas neste país. Não tínhamos a menor idéia onde estavam ou se existiam grupos coerentes; descobrimos que existem e foi muito esclarecedor estudar cada um

deles. Uma coisa valiosa sobre essas classificações foi que destacaram a grande presença deste grupo intermediário, dos “roxos”. Quando falamos de política nos EUA, costumamos tomar um de dois lados – conservadores v. liberais, Republicanos v. Democratas, etc. Mas acontece que um quarto dos americanos está no meio, e sabemos muito pouco sobre eles. Pergunta: Muitas pessoas acham que o Presidente Obama é inspirador. Esse tema da inspiração é algo que está especialmente em voga em nossa cultura atual ou simplesmente fica mais aparente quando aparece alguém que tira proveito dele? Blakley: Penso é importante ter ícones, é parte daquilo que a cultura das celebridades comemora. Não acho que é novo, mas com certeza depende de pessoas com muito talento, como é o caso de Obama, e essas pessoas não aparecem a toda hora.

Carr: Vamos deixar a economia estagnar por alguns meses, ver ele ser incapaz de achar um secretário de comércio, ver suas decisões sobre o Iraque saírem pela culatra e sua condição de ídolo irá se dissipar rapidamente. Penso que essa grande fome pelo Obama tinha mais a ver com sua habilidade de comunicação que com o seu potencial de tomar decisões estratégicas. Com o tempo, a adulação vai acabar. Duncombe: Eu discordo. Acredito que ele terá altos índices de aprovação, não importa o que aconteça no mundo, porque ele está por cima de tudo. Ele consegue fazer de um desastre uma vitória. Pergunta: Existe sempre uma oposição entre estilo e política? Não podem ser apenas um? Duncombe: Sim, penso que certamente podem ser um. Uma determinada maneira de falar e aparecer comunica uma forma de ver o mundo. Penso que estilo tem de ser visto politicamente o tempo todo. Carr: Nossa cultura hoje admira a capacidade de ser famoso com tranqüilidade. Obama conseguiu ser o primeiro negro nesse cargo e lidar elegantemente com a situação. Blakley: Existe muita substância no estilo. Muitos de nós gostaríamos de pensar que estilo é superficial, mas nunca foi o caso. Estilo sempre falou alto, e as pessoas que entendem isso conseguem a empatia do público. Obama tem uma tremenda habilidade e é por isto que fala-se muito sobre a “marca Obama”. Seria uma falácia alegar que podemos reviver a política tirando o entretenimento dela. Pergunta: Qual é o papel do drama na formação daquilo que as pessoas sentem ser possível ou normal? Imagens em filmes ou televisão contribuiriam para que as pessoas aceitassem com mais facilidade algo como um presidente negro na vida real? Carr: Na verdade, penso que funciona de maneira oposta. O motivo de algumas imagens serem bem sucedidas no entretenimento é porque representam os desejos da população americana. Se eu fosse um político atualmente, estaria assistindo House todas as noites, para tentar descobrir as preferências que estão sendo apresentadas. Audiocast Está disponível uma gravação em áudio de Política e Cultura Popular. Para ouvir os audiocasts em arquivo, é preciso instalar o RealOne Player. Ele pode ser baixado gratuitamente no endereço http://www.real.com/realone/index.html .

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