Contos, de Eça de Queirós Fonte: QUEIRÓS, Eça de. Contos. Porto : Lello & Irmão, [19-?].

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CONTOS Eça de Queirós Singularidades de uma rapariga loura I COMEÇOU por me dizer que o seu caso era simples - e que se chamava Macário... Devo contar que conheci este homem numa estalagem do Minho. Era alto e grosso: tinha uma calva larga, luzidia e lisa, com repas brancas que se lhe eriçavam em redor: e os seus olhos pretos, com a pele em roda engelhada e amarelada, e olheiras papudas, tinham uma singular clareza e retidão - por trás dos seus óculos redondos com ares de tartaruga. Tinha a barba rapada, o queixo saliente e resoluto. Trazia uma gravata de cetim negro apertada por trás com uma fivela; um casaco comprido cor de pinhão, com as mangas estreitas e justas e canhões de veludilho. E pela longa abertura do seu colete de seda, onde reluzia um grilhão antigo, saíam as pregas moles duma camisa bordada. Era isto em setembro: já as noites vinham mais cedo, com uma friagem fina e seca e uma escuridão aparatosa. Eu tinha descido da diligência, fatigado, esfomeado, tiritando num cobrejão de listas escarlates. Vinha de atravessar a serra e os seus aspectos pardos e desertos. Eram oito horas da noite. Os céus estavam pesados e sujos. E, ou fosse um certo adormecimento cerebral produzido pelo rolar monótono da diligência, ou fosse a debilidade nervosa da fadiga, ou a influência da paisagem escarpada e árida, sobre o côncavo silêncio noturno, ou a opressão da eletricidade, que enchia as alturas - o fato é que eu - que sou naturalmente positivo e realista - tinha vindo tiranizado pela imaginação e pelas quimeras. Existe, no fundo de cada um de nós, é certo - tão friamente educados que sejamos - um resto de misticismo; e basta às vezes uma paisagem soturna, o velho muro dum cemitério, um ermo ascético, as emolientes brancuras dum luar, para que esse fundo místico suba, se alargue como um nevoeiro, encha a alma, a sensação e a idéia, e fique assim o mais matemático ou o mais crítico - tão triste, tão visionário, tão idealista - como um velho monge poeta. A mim, o que me lançara na quimera e no sonho fora o aspecto do mosteiro de Rastelo, que eu tinha visto, à claridade suave e outonal da tarde, na sua doce colina. Então, enquanto anoitecia, a diligência rolava continuamente ao trote esgalgado dos seus magros cavalos brancos, e o cocheiro, com o capuz do gabão enterrado na cabeça, ruminava o seu cachimbo - eu pus-me elegìacamente, ridìculamente, a considerar a esterilidade da vida: e desejava ser um monge, estar num convento, tranqüilo, entre arvoredos ou na murmurosa concavidade dum vale, e enquanto a água da cerca canta sonoramente nas bacias de pedra, ler a Imitação, e ouvindo os rouxinóis nos loureirais, ter saudades do céu. - Não se pode ser mais estúpido. Mas eu estava assim, e atribuo a esta disposição visionária a falta de espírito - e a sensação - que me fez a história

daquele homem dos canhões de veludilho. A minha curiosidade começou à ceia, quando eu desfazia o peito duma galinha afogada em arroz branco, com fatias escarlates de paio - e a criada, uma gorda e cheia de sardas, fazia espumar o vinho verde no copo, fazendo-o cair de alto de uma caneca vidrada. O homem estava defronte de mim, comendo tranquilamente a sua geléia: perguntei-lhe, com a boca cheia, o meu guardanapo de linho de Guimarães suspenso nos dedos - se ele era de Vila Real. − Vivo lá. Há muitos anos - disse-me ele. − Terra de mulheres bonitas, segundo me consta - disse eu. O homem calou-se. − Hem? - tornei. O homem contraiu-se num silêncio saliente. Até aí estivera alegre, rindo dilatadamente; loquaz e cheio de bonomia. Mas então imobilizou o seu sorriso fino. Compreendi que tinha tocado a carne viva de uma lembrança. Havia decerto no destino daquele velho uma mulher. Aí estava o seu melodrama ou a sua farsa, porque inconscientemente estabeleci-me na idéia de que o fato, o caso daquele homem, devia ser grotesco e exalar escárnio. De sorte que lhe disse: − A mim têm-me afirmado que as mulheres de Vila Real são as mais bonitas do Norte. Para olhos pretos Guimarães, para corpos Santo Aleixo, para tranças os Arcos: é lá que se vêem os cabelos claros, cor de trigo. O homem estava calado, comendo, com os olhos baixos: − Para cinturas finas Viana, para boas peles Amarante - e para isto tudo Vila Real. Eu tenho um amigo que veio casar a Vila. Talvez conheça. O Peixoto, um alto, de barba loura, bacharel. − O Peixoto, sim - disse-me ele, olhando gravemente para mim. − Veio casar a Vila Real como antigamente se ia casar à Andaluzia - questão de arranjar a fina flor da perfeição. - À sua saúde. Eu evidentemente constrangia-o, porque se ergueu, foi à janela com um passo pesado, e reparei então nos seus grossos sapatos de casimira, com sola forte e atilhos de couro. E saiu. Quando pedi o meu castiçal, a criada trouxe-me um candeeiro de latão lustroso e antigo e disse: − O senhor está com outro. É no n.º 3. Nas estalagens do Minho, às vezes, cada quarto é um dormitório impertinente. − Vá - disse eu. O n.º 3 era no fundo do corredor. Às portas dos lados os hóspedes tinham posto o seu calçado para engraxar: estavam umas grossas botas de montar, enlameadas, com esporas de correia; os sapatos brancos dum caçador; botas de proprietário, de altos canos vermelhos; as botas dum padre, altas, com a sua borla de retrós; os botins cambados, de bezerro, de um estudante, e a uma das portas, o n.º 15, havia umas botinas de mulher, de duraque, pequeninas e finas, e ao lado as pequeninas botas duma criança, todas coçadas e batidas, e os seus canos de pelica-mor caíam-lhe para os lados com os atacadores desatados. Todos dormiam. Defronte do n.º 3 estavam os sapatos de casimira com atilhos: e quanto abri a porta vi o homem dos canhões de veludilho, que amarrava na cabeça um lenço de seda: estava com uma jaqueta curta de ramagens, uma meia de lã, grossa e alta, e os pés metidos nuns chinelos de ourelo. − O senhor não repare - disse ele. − À vontade - e para estabelecer intimidade tirei o casaco. Não direi os motivos por que ele daí a pouco, já deitado, me disse a sua história. Há um provérbio eslavo da Galícia que diz: “O que não contas à tua mulher, conta-lo a um estranho, na estalagem”. Mas ele teve raivas inesperadas e dominantes para a sua larga e sentida confidência. Foi a respeito do meu amigo, do Peixoto, que fora casar a Vila Real. Vi-o chorar, àquele velho de quase sessenta anos. Talvez a história seja julgada trivial: a mim, que nessa noite estava nervoso e sensível, pareceu-me terrível - mas conto-a apenas como um acidente singular da vida amorosa... Começou pois por me dizer que o seu caso era simples - e que se chamava Macário. Perguntei-lhe então se era duma família que eu conhecera, que tinha o apelido de Macário. E como ele me respondeu que era primo desses, eu tive logo do seu caráter uma idéia simpática, porque os Macários eram uma antiga família, quase uma dinastia de comerciantes, que mantinham com uma severidade religiosa a sua velha tradição de honra e de escrúpulo. Macário disse-me que nesse tempo, em 1823 ou 33, na sua mocidade, seu tio Francisco tinha, em Lisboa, um armazém de panos, e ele era um dos caixeiros. Depois o tio compenetrara-se de certos instintos inteligentes e do talento prático e aritmético de Macário, e deu-lhe a

escrituração. Macário tornou-se o seu guarda-livros. Disse-me ele que sendo naturalmente linfático e mesmo tímido, a sua vida tinha nesse tempo uma grande concentração. Um trabalho escrupuloso e fiel, algumas raras merendas no campo, um apuro saliente de fato e de roupas brancas, era todo o interesse da sua vida. A existência, nesse tempo, era caseira e apertada. Uma grande simplicidade social aclarava os costumes: os espíritos eram mais ingênuos, os sentimentos menos complicados. Jantar alegremente numa horta, debaixo das parreiras, vendo correr a água das regas - chorar com os melodramas que rugiam entre os bastidores do Salitre, alumiados a cera, eram contentamentos que bastavam à burguesia cautelosa. Além disso, os tempos eram confusos e revolucionários: e nada torna o homem recolhido, conchegado à lareira, simples e facilmente feliz - como a guerra. É a paz que, dando os vagares da imaginação - causa as impaciências do desejo. Macário, aos vinte e dois anos, ainda não tinha - como dizia uma velha tia, que fora querida do desembargador Curvo Semedo, da Arcádia - sentido Vénus. Mas por esse tempo veio morar para defronte do armazém dos Macários, para um terceiro andar, uma mulher de quarenta anos, vestida de luto, uma pele branca e baça, o busto bem feito e redondo e um aspecto desejável. Macário tinha a sua carteira no primeiro andar, por cima do armazém, ao pé duma varanda, e dali viu uma manhã aquela mulher com o cabelo preto solto e anelado, um chambre branco e braços nus, chegarse a uma pequena janela de peitoril, a sacudir um vestido. Macário afirmou-se e sem mais intenção dizia mentalmente que aquela mulher, aos vinte anos, devia ter sido uma pessoa cativante e cheia de domínio: porque os seus cabelos violentos e ásperos, o sobrolho espesso, o lábio forte, o perfil aquilino e firme revelavam um temperamento ativo e imaginações apaixonadas. No entanto, continuou serenamente alinhando as suas cifras. Mas à noite estava sentado fumando à janela do seu quarto, que abria sobre o pátio: era em Julho e a atmosfera estava eléctrica e amorosa: a rabeca dum vizinho gemia uma xácara mourisca, que então sensibilizava, e era dum melodrama: o quarto estava numa penumbra doce e cheia de mistério - e Macário, que estava em chinelas, começou a lembrar-se daqueles cabelos negros e fortes e daqueles braços que tinham a cor dos mármores pálidos: espreguiçou-se, rolou mòrbidamente a cabeça pelas costas da cadeira de vime, como os gatos sensíveis que se esfregam, e decidiu bocejando que a sua vida era monótona. E ao outro dia, ainda impressionado, sentou-se à sua carteira com a janela toda aberta, e olhando o prédio fronteiro, onde viviam aqueles cabelos grandes - começou a aparar vagarosamente a sua pena de rama. Mas ninguém se chegou à janela de peitoril, com caixilhos verdes. Macário estava enfastiado, pesado - e o trabalho foi lento. Pareceu-lhe que havia na rua um sol alegre, e que nos campos as sombras deviam ser mimosas e que se estaria bem vendo o palpitar das borboletas brancas nas madressilva! E, quando fechou a carteira, sentiu defronte correr-se a vidraça; eram decerto os cabelos pretos. Mas apareceram uns cabelos louros. Oh! E Macário veio logo salientemente para a varanda aparar um lápis. Era uma rapariga de vinte anos, talvez - fina, fresca, loura como uma vinheta inglesa: a brancura da pele tinha alguma coisa da transparência das velhas porcelanas, e havia no seu perfil uma linha pura, como de uma medalha antiga, e os velhos poetas pitorescos ter-lhe-iam chamado - pomba, arminho, neve e ouro. Macário disse consigo: − É filha. A outra vestia de luto, mas esta, a loura, tinha um vestido de cassa com pintas azuis, um lenço de cambraia traspassado sobre o peito, as mangas perdidas com rendas, e tudo aquilo era asseado, moço, fresco, flexível e tenro. Macário, nesse tempo, era louro com a barba curta. O cabelo era anelado e a sua figura devia ter aquele ar seco e nervoso que depois do século XVIII e da revolução - foi tão vulgar nas raças plebéias. A rapariga loura reparou naturalmente em Macário, e naturalmente desceu a vidraça, correndo por trás uma cortina de cassa bordada. Estas pequenas cortinas datam de Goethe e têm na vida amorosa um interessante destino: revelam. Levantar-lhe uma ponta e espreitar, franzi-la suavemente, revela um fim; corrêla, pregar nela uma flor, agitá-la, fazendo sentir que por trás um rosto atento se move e espera - são velhas maneiras com que, na realidade e na arte, começa o romance. A cortina ergueu-se devagarinho e o rosto loiro espreitou. Macário não me contou por pulsações - a história minuciosa do seu coração. Disse singelamente que daí a cinco dias - estava doido por ela. O seu trabalho tornou-se logo vagaroso e infiel e o seu belo cursivo inglês, firme e largo, ganhou curvas, ganchos, rabiscos, onde estava todo o romance impaciente dos seus nervos. Não a podia ver pela manhã: o sol mordente de julho batia e escaldava a pequena janela de peitoril. Só pela tarde a cortina se franzia, se corria a vidraça, e ela, estendendo uma almofadinha no rebordo do peitoril,

vinha encostar-se mimosa e fresca com o seu leque. Leque que preocupou Macário: era uma ventarola chinesa, redonda, de seda branca, com dragões escarlates bordados à pena, uma cercadura de plumagem azul, fina e trêmula como uma penugem e o seu cabo de marfim, de onde pendiam duas borlas de fio de ouro, tinha incrustações de nácar à linda maneira persa. Era um leque magnífico e naquele tempo inesperado nas mãos plebéias duma rapariga vestida de cassa. Mas como ela era loura e a mãe tão meridional, Macário, com esta intuição interpretativa dos namorados, disse à sua curiosidade: será a filha dum inglês. O inglês vai à China, à Pérsia, a Ormuz, à Austrália e vem cheio daquelas jóias dos luxos exóticos, e nem Macário sabia porque é que aquela ventarola de mandarina o preocupava assim: mas segundo ele me disse - aquilo deu-lhe no goto. Tinha-se passado uma semana, quando um dia Macário viu, da sua carteira, que ela, a loura, saía com a mãe, porque se acostumara a considerar mãe dela aquela magnífica pessoa, magnificamente pálida e vestida de luto. Macário veio à janela e viu-as atravessar a rua e entrarem no armazém. No seu armazém! Desceu logo trêmulo, sôfrego, apaixonado e com palpitações. Estavam elas já encostadas ao balcão e um caixeiro desdobrava-lhes defronte casimiras pretas. Isto comoveu Macário. Ele mesmo mo disse. − Porque enfim, meu caro, não era natural que elas viessem comprar, para si, casimiras pretas. E não: elas não usavam amazonas, não quereriam decerto estofar cadeiras com casimira preta, não havia homens em casa delas; portanto aquela vinda ao armazém era um meio delicado de o ver de perto, de lhe falar, e tinha o encanto penetrante duma mentira sentimental. Eu disse a Macário que, sendo assim, ele devia estranhar aquele movimento amoroso, porque denotava na mãe uma cumplicidade equívoca. Ele confessou-me que nem pensava em tal. O que fez foi chegar ao balcão e dizer estupidamente: − Sim senhor, vão bem servidas, estas casimiras não encolhem. E a loura ergueu para ele o seu olhar azul, e foi como se Macário se sentisse envolvido na doçura dum céu. Mas quando ele ia dizer-lhe uma palavra reveladora e veemente, apareceu ao fundo do armazém o tio Francisco, com o seu comprido casaco cor de pinhão, de botões amarelos. Como era singular e desusado achar-se o sr. guarda-livros vendendo ao balcão e o tio Francisco, com a sua crítica estreita e celibatária, podia escandalizar-se, Macário começou a subir vagarosamente a escada em caracol que levava ao escritório, e ainda ouviu a voz delicada da loura dizer brandamente: − Agora queria ver lenços da Índia. E o caixeiro foi buscar um pequenino pacote daqueles lenços, acamados e apertados numa tira de papel dourado. Macário, que tinha visto naquela visita uma revelação de amor, quase uma declaração, esteve todo o dia entregue às impaciências amargas da paixão. Andava distraído, abstrato, pueril, não deu atenção à escrituração, jantou calado, sem escutar o tio Francisco que exaltava as almôndegas, mal reparou no seu ordenado que lhe foi pago em pintos às três horas, e não entendeu bem as recomendações do tio e a preocupação dos caixeiros sobre o desaparecimento dum pacote de lenços da Índia. − É o costume de deixar entrar pobres no armazém - tinha dito no seu laconismo majestoso o tio Francisco. - São 12$000 réis de lenços. Lance à minha conta. Macário, no entanto, ruminava secretamente uma carta, mas sucedeu que ao outro dia, estando ele à varanda, a mãe, a de cabelos pretos, veio encostar-se ao peitoril da janela, e neste momento passava na rua um rapaz amigo de Macário, que, vendo aquela senhora, afirmou-se e tirou-lhe, com uma cortesia toda risonha, o seu chapéu de palha. Macário ficou radioso: logo nessa noite procurou o seu amigo, e abruptamente, sem meia-tinta: − Quem é aquela mulher que tu hoje cumprimentaste defronte do armazém? − É a Vilaça. Bela mulher. − E a filha? − A filha? − Sim, uma loura, clara, com um leque chinês. − Ah! Sim. É filha. − É o que eu dizia... − Sim, e então? − É bonita. − É bonita. − É gente de bem, hem?

pediu-lhe.e via-se-lhe um dente podre. risinhos. a rosnar rancorosamente junto de Macário: − Reis!. fresca. calças de ganga com presilhas de trama de metal. Assim. gostou das casimiras? − Muito . um velho cavaleiro de Malta. onde se cantavam motetes ao cravo.disse ela baixo. a loura. e salas rendilhadas. Macário. o nariz adunco e fatal. se glosavam motes e havia jogos de prendas do tempo da senhora D. o pescoço entalado na alta gola do seu fraque à Restauração e um canudo de lata na mão . formosa dama! Estavam. pachorrenta. desde esse momento. moço escudeiro de Vênus. como aia de uma senhora da casa da Mina.e. entre um frufru de vestidos enormes. No entanto. de casaca azul. nesta noite. A um canto da sala já lá estava. serralhos.− Sim. com uma luneta redonda aplicada sobre o papel. em que morreu o conde dos . Muito não. a pluma de marabout nos seus cabelos grisalhos. envolveu-os um destino nupcial. cobertas de plumas. estúpido e surdo. A mãe convidara-o.De sorte que a curiosidade era grande . erudita. O que obrigou o terrível Gaudêncio. requintada e toda cheia de musas.. com vestidos de ramagens. com o seu ar de gravura colorida. Depois. mitenes de retrós preto cheias da cintilação dos anéis. formando círculo. e um brando palpitar de leques recamados de lantejoulas. víboras! Depois. e as manas Hilárias. Jerónima da Piedade e Sande. Cláudia. o cônego Saavedra cantou uma modinha de Pernambuco muito usada no tempo do senhor D. O mundo te abandona. as suas reuniões eram ocupadas pelas belas-artes . um beneficiado da Sé. na larga sala a noite passava-se espiritualmente. e ele mesmo se intitulava. cochichava com um desembargador de figura apopléctica. democrata de 20 e admirador de Robespierre. − Está bom. gente de bem. E até o desembargador apopléctico. que estava ao lado. Macário era recebido em casa da Vilaça. − Bem. o amigo do chapéu de palha. Macário é que não experimentou sensação alguma. cheias de perfume do aloés onde paxás decrépitos acariciam leões. Bem. a perna direita lançada para diante. E Macário. cantou com a sua voz roufenha a antiga ária de Sully: Oh Ricardo. .e nessa noite. escrevia num jornal de então. quando o poeta apareceu com os cabelos compridos. As Vilaças costumavam ir aos sábados à casa de um tabelião muito rico na rua dos Calafates: eram assembléias simples e pacatas. e às 9 horas a criada servia a orchata. a preciosa D. contando a história do seu coração acordado e exigente e falando do amor com as exaltações de então. a menina Vilaça. piratas do Arquipélago. diziam. um poeta do tempo devia vir ler um poemeto intitulado Elmira ou a vingança do veneziano!. com um vestido bordado. ilustre pela sua voz de tiple. a sr. a mais velha das quais tendo assistido. muito bonito! E o corregedor.o sr. tinham sorrisos ternos. lindas moças. sentando-se com maneiras comovidas ao cravo. E em redor. Por toda a parte se falava no paxá de Janina. Logo no primeiro sábado. simples. um nariz adunco. porque lá estava todo absorvido. As revoluções da Grécia principiavam a atrair os espíritos romanescos e saídos da mitologia para os países maravilhosos do Oriente. a mão na abertura do colete branco de gola alta. sultanas cor de âmbar. E dizia-lhe meigamente: − Então. cumprimentava sorrindo .. cochichos. uma enorme luneta de tartaruga. trôpego. E a noite ia assim correndo literária. a Alcofa das Damas: porque era sobretudo galante. as damas. noutro dia.Muito bonito. falando com a menina Vilaça. pessoa seca e aguçada. ouve lá. à tourada de Salvaterra. . João VI: lindas moças. exclamou: − Choupana?! Diga alcáçar.. Tu conhece-las muito? − Conheço-as. E. Começavam então a aparecer as primeiras audácias românticas. Não era difícil. gravata de cetim roxo. vestida de branco. numa ode pitoresca. dizendolhe: − Espero que o vizinho honre aquela choupana. Oito dias depois. Maria I. as mangas estreitas terminadas num fofo de rendas. latinista e amigo das musas. E a poesia apossava-se vorazmente deste mundo novo e virginal de minaretes. A mãe Vilaça. Macário não pôde dar todos os pormenores históricos e característicos daquela assembléia. Lembrava-se apenas que um corregedor de Leiria recitava o Madrigal a Lídia: lia-o de pé. num domingo. O tabelião era um homem letrado.. doces murmurações. curvava-se diante da esposa do tabelião.ª D. que achasse um meio de o encaixar lá. desviando a luneta. Maria da Graça. como a glória da sua vida. a soberba mulher pálida. oh meu rei. Encontrava-as dantes em casa de D.

correndo até à borda da mesa. todo encostado ao rebordo do seu palanque. curvado. Macário exalava-se em exclamações desinteressadas: − Pelo amor de Deus! Ora que tem! Amanhã aparecerá! Tenham a bondade! Por quem são! Então. empolgara-a vilmente. Ela então desmaiara nos braços de um padre da Congregação. gritos agudos de mulheres. com uma das mãos apoiada à alta bengala. Francisco deu da trincheira alta.Arcos. e a berlinda partiu a galope. bramindo de raiva! “É o pai do conde!”. e el-rei tinha-se sentado. decerto. parasita da casa de Vimioso. os seus óculos na ponta aguda do nariz. como um bilro ou um pião. rodando. os machos cheios de guizos.dizia a mãe Vilaça. Era uma peça nova que luzia. sorvendo febrilmente rapé. com uma das mãos apoiando a sua fina cabeça loura e amorosa. gesticulando com a luneta. e parecia a Macário que todo o céu. começou-se a jogar. o aspecto carregado. todo curvado e com um olho pisco. Luísa sorria vendo-o girar. frades. como era necessário no fim do jogo pagar uns tentos ao cavaleiro de Malta. depois o rico aspecto da praça cheia de gente de Salvaterra. Macário conversava com Luísa. com que ela seguia o giro fulgurante da peça de ouro nova. espiritual. A peça rolara. o beneficiado. nem eu . caiu para o lado do regaço de Luísa e desapareceu. olhando para debaixo da mesa: a mãe Vilaça alumiou com um castiçal. Era singular que Macário não se lembrava o que tinha jogado nessa noite radiosa. enquanto o povo gritava: Viva el-rei!. de repente. E. e querer atirar-se à praça. e Luísa ergueu-se e sacudiu com pequenina pancada o seu vestido de cassa. batendo com a mão no parapeito.disse o amigo de chapéu de palha . estas desgraças passadas. com uma unha mais polida que o marfim de Diepa. E lembrava-se também de um acidente excêntrico. e a Hilária mais nova rosnava o responso de Santo Antônio. o soneto que um magro poeta. e o grito que houve. Mas mentalmente estabeleceu que houvera uma subtração . pálido. e o capelão da casa dos Arcos que tinha corrido a buscar a extrema-unção. D. José I entrou: − Viva el-rei. e os batedores a cavalo.e o sino da capela do paço tocava a finados! Era uma honra que el-rei concedia à casa dos Arcos. com um xairel onde as suas armas estavam lavradas em prata: o tombo que nesse momento um frade de S. dizia a Macário pela escada: . o tom azulado da forte barba rapada e as suas duas grandes orelhas. vestido de veludo escarlate. Mas. espadaúdo. e ao pé dele Luísa: Luísa estava toda voltada para ele. fazendo ladear o seu cavalo negro. − É célebre! . uma grande hostilidade ao clero da Sé. nosso senhor! E o povo ajoelhou. nunca deixava de narrar os episódios pitorescos daquela tarde: a figura do conde dos Arcos de cara rapada e uma fita de cetim escarlate no rabicho. comendo doces. seu confessor. Hilária acabou de contar. forte. − Pois a casa não tem buracos . separadas do crânio como dois postigos abertos. a pureza. Mas os batedores picaram. Macário estava sentado à mesa. que determinara nele. − Nem eu. tocada de luz. e defronte. e fazia girar sobre o pano verde a sua peça de ouro. Quando veio a si. gritando na confusão. e a outra esquecida no regaço. O beneficiado abaixou-se logo cortêsmente: Macário afastou a cadeira. buscava tenazmente. os ganidos dos flatos. sem ruído. sr. Só se recordava que tinha ficado ao lado da menina Vilaça (que se chamava Luísa). complicadas e cheias de cabelo. maiorais. com os boleeiros emplumados. o físico Lourenço e o frade. que até a sr. achouse junto da praça. a berlinda real estava à porta. quando D. suspirando. girar. e vira então um velho. o marquês de Pombal falava devagar e intimativamente. quando saíram. recitou quando o conde entrou. arreado à espanhola. escondido ao fundo.ª D. O beneficiado. A peça não apareceu.eu não ouvir tinir no chão. os desmaios. e feria a vista como uma bola de névoa dourada. todo encolhido com o confessor.resmungava o beneficiado. explicavam em volta.e atribuiu-a ao beneficiado. debater-se entre fidalgos e damas que o seguravam. à frente: via-se lá dentro el-rei. atrás dele. No entanto. com a fina espada na mão. nosso senhor! . lacaios. − Sumiço assim! . e na meiga e amorosa pequenez da sua mão. todo vestido de veludo preto.disseram. ele pusera-lhe em cima o seu vasto sapato eclesiástico e tachado. faiscava. Ela. Quando D. que estava ao lado do beneficiado.ª condessa de Pavolide apertava as mãos nas ilhargas: depois el-rei o sr. José I. mendigos dos arredores. e fazendo girar entre dois dedos a sua caixa de rapé cravejada. depois. Macário tirou da algibeira uma peça e quando o cavaleiro. fazia a soma dos tentos nas costas dum ás. Luísa! Pelo amor de Deus! Não vale nada. todo embrulhado no seu vasto capote de camelão. até junto dele. Ora. imóveis. que reparara muito na sua fina pele rosada. Depois a morte do conde dos Arcos. com o seu barrete preto. Defronte estava o beneficiado. que um criado trouxe num saco de veludo. e até el-rei todo debruçado. desde esse dia. ficara estarrecida de pavor: sentia os urros dos bois. Hilária. e a hilaridade da corte. e por trás. arcangélico. a peça. sem se ouvir no soalho de tábuas o seu ruído metálico. os estalos dos boleeiros retiniram. no movimento brusco e curto que tivera. a bondade das flores e a castidade das estrelas estavam naquele claro sorriso distraído. recamado de ouro.

e a brevidade telegráfica das suas palavras. Não lhe respondeu.. E esta história toma. mas voltando-se: − Olá! . Sentia o seu destino cheio de apuros. a sua barba grisalha. com a sua voz singularmente sentida: − Enfim. Foi um beijo. − Ora essa! Se acho?! Se lhe parece! Uma peça de 7$000 réis! Só se o senhor as semeia.. devagar.. a sua austera e majestosa tranquilidade. Tinha-lhe esquecido a caixa! Portanto. faço-o sem licença. por baixo do queixo. raspando nos vidros da janela. o tio Francisco. sr. uma manhã. ao almoço. com grande ruído. eu calo-o: − mesmo porque a única testemunha foi uma imagem em gravura da Virgem. − Hoje. tirou do pescoço o guardanapo. − Perdão.. E o tio Francisco ia a fechar a porta. Deus me perdoe! Que diabo! Uma peça não se perde assim. beneficiado?! . que estava pendurada no seu caixilho de pau-preto. − Mas a peça? − Não pensei mais nisso! Pensava eu lá na peça! Resolvi-me casar com ela! II Macário contou-me o que o determinara mais precisamente àquela resolução profunda e perpétua.disse o tio Francisco. superficial. a dar-lhe uma fé imutável e a posse de sua vida. e voltando-se para Macário. Que bolada.. Tinha . resolvi-me casar com ela. que deitava o açúcar no seu café. Estamos a 12. − Hoje.disse Macário parando. . No entanto estava tranqüilo. os seus princípios antigos.. disse secamente: − Não. Quando Macário lhe disse. dobrou-o. na saleta escura que abria para a escada. Safa! Eu dava em doido! Macário teve tédio daquela astúcia fria.. hem? Que brincadeira! − Acha. Aquela simpática sombra das janelas vizinhas tornara-se para ele um destino. Um beijo fugitivo. em colar. meu amigo. Foi neste ponto que Macário me disse. Mas isso bastou ao seu espírito reto e severo para o obrigar a tomá-la como esposa. desde logo. abruptamente. homem. Não haja dúvida. Macário falou-me muito do caráter e da figura do tio Francisco: a sua possante estatura. Macário sentiu uma grande cólera. aguçou com a faca o seu palito.− Ora o sumiço da peça. − Não. tio Francisco. Macário voltou-se com uma esperança. junto da mesa. − Dê-me daí a caixa de rapé . efêmero. um alto caráter de santidade e de tristeza. Mas esse caso.. ficou calado. que estava de pé. tio Francisco! − Não. − Mas oiça. o fim moral da sua vida e toda a idéia dominante do seu trabalho. meteu-o na boca e saiu: mas à porta da sala parou. autoritários e tirânicos..começou Macário. O beneficiado é que acrescentou: − Amanhã mande lá pela manhã. remexendo com a colher. − Basta. − Despedido da casa. os seus óculos de ouro. As antigas educações produziam estas situações insensatas. um tique nervoso que tinha numa asa do nariz. Receberá o seu mês por inteiro.disse ele a Macário. pasmado da impudência. Tais foram os seus esponsais. estava perturbado.. para encurtarmos razões. o seu baú de roupa branca e a sua paixão. sem transições emolientes: “Peçolhe licença para casar”. Nessa tarde Macário achava-se no quarto duma hospedaria da Praça da Figueira com seis peças. − Nesse caso. Vá. Que diabo!. a dureza da sua voz. casto e simples. − Sairei. que estava exasperado. Era brutal e idiota. apopléctico. Macário afirmou-me que era assim. − Tio Francisco. hem! E Macário tinha vontade de lhe bater. majestoso e terrível: e quando acabou de sorver pelo pires.

Procurando. antiga relação comercial da sua casa. E todos. Luísa calou-se.Quem mo dera cá! Mas. uma velha seca e cheia de asma.. vestida de cassa. toda mimosa nas suas cambraias asseadas. oiça-me!.. a um canto de um velho canapé de palhinha. Ela tem solenidades fatais e estabelecidas: começou por empenhar . com o lenço da Índia amarrado na cabeça. − Solteiro. sorria sempre com os seus brancos dentinhos. disse eu .disse ela . como fora sempre de temperamento recolhido. Não dormiu. . e sobretudo aos estrangeiros: esperava encontrar gente livre da amizade de vinte anos do tio. rebuscando. estranhos à sua casa e à sua família. O comércio evita o guarda-livros sentimental. filha. fico de mal com seu tio. paletó de alamares.e a vida aparecia-lhe como um descampado. ele exalava a sua paixão crescente e escondia o seu fato decadente. ao outro dia.e acrescentou com um gesto decisivo . receavam ficar de mal com o seu tio. − Mas ao menos . para esses. De sorte que Macário começou a sentir-se num momento agudo. na saleta escura que dava para o patamar: uma lamparina ardia em cima da mesa: era feliz ali naquela penumbra. Morríamos de fome. Força maior. Mas. Tinha o caráter louro como o cabelo . Segundo me disse Macário . O tio Francisco.se é certo que o louro é uma cor fraca e desbotada: falava pouco. Macário encontrou-a excitada: estava com pressa. − Tio Francisco. Tenho agora aí um negócio em bom caminho. a sua honra tradicional. o seu belo cursivo inglês.. Se tomavam informações. naqueles encontros noturnos.depois vendeu.. Vendi tudo. àquela luz tênue e esbatida. Mas. Um dia. a quem Macário se dirigiu. cheia de transigências. por causa duma rapariga loura. mas. pinto a pinto. Ele declarou-mo categòricamente. Era conhecido vantajosamente: a nitidez do seu trabalho. confiado em relações sólidas. as suas seis peças. ao pé de Luísa. Não a via de dia. e logo pela manhã. embrulhado debaixo do xale. Macário mudou para uma estalagem barata. sorvendo. com os olhos baixos. sim? Macário rompeu a chorar. De modo que se encontrava desamparado e solitário . voltou-se e. cadeia. e desconhecidos por igual a sua dignidade e o seu hábil trabalho. não criara amigos. Esta circunstância tirava as simpatias a Macário.dizia-lhe Luísa. nula. − Por que não me vens pedir à mamã? − Mas. E todos sentiam. fiava-se como se queria: e às vezes. E contou-lhe que a mãe desconfiava. fitou-o. torcendo a ponta do xale. sob a friagem de Janeiro. dizia a tudo pois sim: era muito simples. Macário dirigiu-se então a negociantes novos. − De muito boa vontade. As peças findaram. pouco a pouco. de par em par. olhando sempre para a porta interior. tinha sono. entrou como uma rajada no quarto do tio Francisco e disse-lhe abruptamente.. se o recebo. Era como uma estriga de linho. Macário entrou. pedindo.enquanto eu te não fizer sinal da janela. que fazia a barba à janela. meu velho amigo de vinte anos. porém. . Daqui a pouco tenho fome. No outro dia foi procurar alegremente o negociante Faleiro. e lutando. ao acaso pelas ruas. as botas cambadas. . Espera.solteiro.Roupa. meu amigo . o tempo passava.. na sua quinzena curta. e não queria mostrar à fresca Luísa. na tradição antiga da miséria.Não chores alto!. todas as portas dos escritórios. casaco azul. e decerto farejava aquele plano nupcial tramado como uma conjuração. não subas mais. − A mamã percebeu . Relógio. mas. Macário contou-me a noite que passou. secamente: − É tudo o que tenho . pondo os óculos. Bem vê. o xale traçado à toa. se eu não posso! Não tenho arranjo nenhum.relações e amizades no comércio. estou sem ela.. quase indiferente.era muito singular o temperamento de Luísa. Fique . o seu tato comercial. a sua miséria remendada: ali. No entanto via Luísa de noite. Macário era desconhecido. e continuou farejando.disse-me ele.e mostrou-lhe três pintos. velho amigo de vinte anos.disse ela. − Chuta! . Amava decerto Macário. − A sua carteira lá está. ainda rabugenta e áspera. abriam-lhe. anéis. Eu sinto. o nome da família. todo sentado castamente. É mais um mês talvez. tudo foi levando pouco a pouco. sabiam que ele fora despedido da casa do tio repentinamente. os soluços saíam violentos e desesperados. aguada. porque trazia já a roupa usada. respeitosamente. mas com todo o amor que podia dar a sua natureza débil.continuou o tio Francisco.. dando o fio à navalha numa tira de sola. ruminando febrilmente a sua dor. .

empalideceu e disse simplesmente: − Liquido e pago! E quando liquidou. era necessário recomeçar pacientemente a vida. − Queres? − Tudo. O senhor é o diabo! . não tinha resolução. Deixava-se ir. sofregamente. Já começara a tratar dos banhos. Depois voltava sofregamente para a fadiga. uma voz disse de dentro de uma loja: − Eh! pst! olá! Era o amigo do chapéu de palha: abriu grandes braços pasmados. Luísa. que o mandara a Cabo Verde. Macário. Faltavam então dois meses para o casamento. de onde se exala a morte. nem idéia. E contou-lhe que tinha chegado da província. só e pobre.− Não posso. os rios tranqüilos. Macário já sentia. Macário chorou. Tudo estava perdido. Quando o soube. extinto. serena. E trabalhou: pôs naquele trabalho a força criadora da sua paixão. as dilacerações da ausência. Macário devia reembolsar. disse-lhe: − Fazes bem. findo. Uma casa comercial queria um homem hábil. que ele pedira para estabelecer uma loja de ferragens em grande. clara. de passagem. O casamento decidiu-se para daí a um ano. criar uma família. − Que diacho! Desde manhã que te procuro. como o desastre tivera uma grande publicidade. Depois rasgou a carta. foi pedi-la à mãe. Foi. para ir numa comissão difícil e de grande ganho a Cabo Verde. suar os antigos suores! E Luísa? Macário escreveu-lhe. a casa Peres & C. Mas nesse mesmo dia. rua! Macário saiu. Por esse tempo o amigo do chapéu de palha veio pedir a Macário que fosse seu fiador por uma grande quantia. entrava no seu armazém: aquele pousar de ave fugitiva dava-lhe alegria. resoluto e duro. subirem-lhe ao rosto as febris vermelhidões da esperança. Era uma confusa aventura. comia à pressa.ª. O que era positivo é que Macário era fiador. E ele explicou-me que os lucros de Cabo Verde não podiam constituir um capital definitivo: eram apenas um capital de habilitação. os duros sóis das colônias. cedeu com alegria. repousada. a brutalidade tirânica dos fazendeiros ricos. tinha sabido a sua crise e trazia-lhe um desenlace. Trazia de Cabo Verde elementos de poderosos negócios: trabalharia. homem. Não se pôde nunca precisar nitidamente aquele embróglio doloroso. que estava no vigor do seu crédito.disse eu a Macário. estonteado. mal falava. Mas um dia o amigo do chapéu de palha desapareceu com a mulher de um alferes. voltar às longas misérias de Cabo Verde. − Então. Erguia-se de madrugada. De repente. por vezes. Encontrou-a toda embrulhada no seu xale. um último encontro. − Voltar a Cabo Verde outra vez! − Faz outra vez fortuna. E foi logo escrever a Luísa. Quando saiu. E logo nessa noite a viu a ela. Macário tinha feito um ganho saliente . Conheceu as viagens trabalhosas dos mares inimigos. sossegadamente. Ela. Talvez ganhes. e ao fim poderia. pedindo-lhe uma despedida. o peso dos fardos humilhantes. heroicamente. Macário desatou a chorar. E ao outro dia Macário partiu. Quando se viu assim. encostada ao peitoril da janela. O amigo do chapéu de palha é que lhe dera o negócio providencial de Cabo Verde. E ao outro dia. − Pronto! Amanhã. deitou-se. as viagens ao interior das terras negras e a melancolia das caravanas que costeiam por violentas noites. com a sua passiva e loura doçura. fresca. Estava grosso. Foi a casa . ficou outra vez pobre. duro. tornar a tremer os passados desesperos. veio propor-lhe uma outra viagem e outros ganhos. − Por quê? . chorou e adormeceu.e a mãe Vilaça abriu-lhe uns grandes braços amigos. À tardinha ia visitar Luísa. − Pronto! . Eleutério Peres. durante dias e dias. como um avaro para o seu cofre. o enjôo monótono num beliche abafado. com sua ventarola chinesa. Estava como uma esponja saturada. Chegou a casa. Às vezes Luísa. cheia de exclamações. fé. reconforto para todo um mês cheiamente trabalhado. Voltou. forte. fero: servia-se com o mesmo ímpeto das idéias e dos músculos: vivia numa tempestade de cifras.disse Macário. aquele em que os braços desolados e veementes tanto custam a desenlaçar-se. à noitinha. tiritando de frio.disse o sr. O seu estabelecimento estava em começo. durante um ano. e a sua honra estava santificada na opinião.

Macário estava calado. . Via o fim da sua vida preenchido. bem. mas aí tomou-o uma mágoa. Está claro! Também sei! Amanhã faz o favor de ir para a sua carteira. Beijou-lhe a mão. de cassa com pintas azuis! Estava na rua onde eram os armazéns do tio. à vidraça: era o tio Francisco. Faz favor de pôr na fatura Macário & Sobrinho. Case. anediando a barba. por dentro. um covilhete de doce. pedir. foi rufar na vidraça. com as lágrimas nos olhos. plácido. e eles tinham descido. esperou. voltando-lhe as costas. Sentiu abrir a vidraça. − Vinha dizer-lhe adeus. todo revoltado. pelas lojas. no mesmo prédio. trouxe geléia.gritou-lhe o tio. Macário foi observar mais de longe: uma figura estava encostada. Andou ao acaso pelas ruas: havia um sereno e silencioso luar. e tornando a chamar-lhe de estúpido. Estava quase sempre em casa da noiva. em compras. explicar. a sala de jantar e o seu velho aparador de pau-preto. o tio Francisco pousou o candeeiro sobre uma larga mesa de pau-santo. desceu. − Sente-se ali! E o tio Francisco continuou. uma rabeca que tocava a xácara mourisca.dela: as janelas tinham luz: subiu até ao primeiro andar. cuja asa era uma serpente irritada. e a velha carteira com fecho de prata. na loja. tinha luz: era o quarto do tio. Era noite. de uma janela alumiada. lá para baixo. luminoso. com um grande céu azul-ferrete. O dia estava de Inverno. hesitar! E quereria ela esperar mais? Não se atreveu a falar. e a grande caneca da água. frio. e daí a pouco a porta abriu-se com um grande ruído de ferrolhos. alegremente. Macário. E Luísa começou a tratar do seu enxoval. De sorte que o casamento foi decidido para dali a um mês. mas homem de bem. e o brando movimento do seu leque chinês! Mas uma janela. ele mesmo lhe quisera fazer um pequeno presente. completo. fino. radioso. feliz. Macário estava então na plenitude do amor e da alegria. tinha uma lágrima a correr-lhe pelo engelhado da pele. e de pé. e do vestido dela. Pôs-se a olhar para a sua antiga casa. A cama lá está feita. que estava por cima da barra do leito. − Onde vai. Lembrou-se do tempo em que conhecera Luísa. O tio Francisco tinha um candeeiro de azeite na mão. E case.gritou-lhe o tio. o pavor trêmulo de uma separação. do bom sol claro que havia então. − Coma! E sentando-se ao pé dele. E o tio Francisco. e ia sair. − Bem. mais velho. deu dois passos no quarto. − Que quer? . bateu à porta. Foi caminhando. Veio-lhe uma saudade de todo o seu passado simples. profundo. uma garrafa antiga do Porto e biscoitos. Ia sem saber: de repente ouviu. indo a um pequeno armário. Mandei pôr palhinha nova na cadeira. A janela do escritório estava fechada. volto para Cabo Verde. a um ourives que havia embaixo. o terror de ela se recusar. Estúpido. Quando chegou ao quarto. A mãe tinha ficado numa modista.disse Macário. no segundo andar. retirado. e impelido por um instinto. estonteado. Quantas vezes dali vira Luísa. seu estúpido? . pois quer-se ir desta sua casa? E. Venho dizer-lhe adeus. e a voz do tio perguntar: − Quem é? − Sou eu. rindo. uma cobardia de revelar o desastre. num primeiro andar da Rua do Ouro. queria abraçá-lo. E meta na minha conta. tio Francisco. − Boa viagem. A vidraça fechou-se. − Suba . claro. Adeus! Macário ia sair. − Vou-me. Macário ficou imóvel. e a miniatura de sua mãe. − Que bonito dia! . Lembrava-lhe o seu quarto. com grandes passadas pelo quarto: − O seu amigo é um canalha! Loja de ferragens! Não está má! O senhor é um homem de bem. Bateu outra vez. negar-se. consolador. sou eu. e um dia andando a acompanhá-la. pé ante pé. com as mãos nos bolsos. e que lhe preste! Levante dinheiro. Macário achou-o magro. Decidiu-se. cosido com o corrimão. Macário ia calado. Sente-se ali! Sente-se! O seu amigo é um canalha! O senhor é um homem de bem! Foi a Cabo Verde! Bem sei! Pagou tudo. − Oh! Burro.disse o tio.

disse Macário. adiantando-se para o balcão. no dedo.. Mas. E iam sair. − É muito largo . adeus . docemente. Deixe a medida. − Essa senhora sabe .disse Macário. O caixeiro abriu o balcão. E tomando-lhe a mão. os anéis. e as suas mãos pequeninas estavam escondidas num regalo branco. Macário disse-lhe: − Queria ver anéis. Luísa .disse Macário. − Vê este . com os seus brancos dentinhos finos.acrescentou. não.Ametista. com pedras . . E. se há uma conta antiga. revolvendo aquela delicada montra. É largo. nós sós. Amanhã venho buscar o anel..afirmou o caixeiro.disse Macário. com a voz baixa. ao comprido do passeio. toda escarlate.Essa senhora sabe. Macário olhou para ele gravemente. − Com pedras . − Boa idéia .tornou Macário. muito claras. as finas alianças frágeis como o amor. e Luísa. − Bem . um reluzente espalhado de anéis de ouro. . .. que arrastava um pouco.disse Macário . de repente.. granada.. indo ao fim do balcão. e ela ria. E.disse o caixeiro. Estava apenas um caixeiro. − Bem.disse de repente o caixeiro. Luísa trazia um vestido de lã azul. Muito bonito! E estes brincos? . − Estes brincos com uma concha? − Dez moedas .disse Luísa . ia-os correndo e dizendo: − É feio. pago amanhã.. aproximando-se .. − Qual outro? . esmaltados.disse ela.Que pena! − Aperta-se.sim senhor. passando vagarosamente a mão pela cara. − Perdão. a outra montra. − É bonito . está tão bom. − Deixa.. Era um anel de pequenas pérolas.. − Está claro que não. Luísa ia examinando as montras forradas de veludo azul. meteu-lhe o anel devagarinho. caminhou um pouco. e afirmou-se em Luísa. O caixeiro tinha estendido. − A que horas? − Ao meio-dia.E com a noiva pelo braço. trigueiro. os colares de camafeus. Enfim. Porque é muito bonito... querendo. − Perdão! . na outra extremidade do balcão. tomando-os e deixando-os com as pontas dos dedos. − Vê. Tem-no pronto amanhã.. Luísa continuava examinando os anéis.disse Macário.disse-lhe Macário. E Luísa arrastou-o brandamente para a loja do ourives. − O senhor não pagou.. de cabelo hirsuto. Macário tirou a carteira lentamente. É um anel com dois brilhantes que aquela senhora leva.e o mais bonito. .disse Luísa.então amanhã temos o anel pronto.Mas podem reparar. − Perdão! . − Não. − Está! . mas o outro. onde reluziam as grossas pulseiras cravejadas.É lindo! − Deixa ver se serve . no entanto. é de agora..insistiu o caixeiro. cintilante e preciosa. e toda a cintilação da pesada ourivesaria. meu caro senhor. . todos esmaltados.respondeu ela. de pedras. É pesado. o melhor. lavrados. − Sim. em cima do vidro da montra. A que horas? O caixeiro não respondeu e começou a olhar fixamente para Macário. dando uma ondulação melodiosa ao seu passo. o caixeiro fez-se muito pálido. − Eu! . no entanto. Não é verdade? As pérolas muito iguais. experimentando-os em todos os dedos. . Macário voltou-se.exclamou Macário com uma voz surpreendida. e com um aspecto resoluto: − Nada. os grilhões.

sob uma capa de oleado de que um marujo me tinha coberto.balbuciou ela.. encolhendo-se toda. este senhor embrulha-o. O caixeiro estava tão excitado. E deixou cair o regalo ao chão.. simplesmente. − Um anel com dois brilhantes . bruscamente.. disse baixo: − És uma ladra! E voltando-lhe as costas. sufocada.. Olha que vêem. O caixeiro disse então: − Essa senhora tirou dali um anel. Conheci-o em Londres. prendia-se espessamente.E fez um gesto. que a sua voz gaguejava. Toma. Jesus! − Vai-te! .continuou o rapaz. o mais infeliz. É o anel. maquinalmente. através dos vultos. fitava o caixeiro colèricamente. que ela meteu a mão no bolso. Depois apanhou o regalo. o seu vestido azul. rogou ela. é este. devagar.suplicou. mas de repente. com o punho cerrado. uma madrugada regelada de Dezembro. Tinha o braço de Luísa passado no seu. Ah! Que mar! E era só uma brisa fresca de Noroeste: mas ali. para esta noite. o ar abstrato. − E com a voz abafada e terrível: − Vai-te.. Tem a bondade. feliz e coberta de sol. semimorta.. Palafoz em Saragoça. − Ouve!. certamente. conversando. sacudiu-o brandamente. como se cobre um corpo morto. fustigado da neve e da . − Vai-te. não soube mais daquela rapariga loura. De repente. Olha que chamo. Vai-te.. pálido. Tinha eu chegado ao continente. − Mas ouve. e mostrando o anel: − Não me faça mal! . no hotel de CharingCross. Tirou-o dali. encarando-o.. disse ao caixeiro: − Tem razão. levou-a.disse ela. inerte..− Que é? Que está a dizer? E Macário. evidentemente. Sim. toma. com a palavra abafada. e voltando-se para Luísa. a sua linda mão de cera. os pregões subiam em gritos alegres. rolando ao estalido do chicote: figuras risonhas passavam. riscando o chão com a bengala. recuperando-se. agarrou-lhe no pulso. Macário ficou com os braços caídos. limpou os beiços com o lenço. Mas tirou o anel. assombrada. com as veias docemente azuladas. disse-lhe baixo: − Vai-te. Era distração. Macário. ruidosa. instintivamente. . e dizendo ao caixeiro: desculpe. Mas a voz cortou-se-lhe. os dedos finos e amorosos: era a mão direita.. contraído. e a rua estava cheia. passiva. Quanto custa? Abriu a carteira e pagou. no tombadilho. e aquela mão era a da sua noiva! E. Está claro! Esta senhora tinha-se esquecido. Um poeta lírico AQUI está. − Essa senhora não sei quem é. gotas de suor na testa. dando um puxão ao casaco. lívido: − Luísa. e via-lhe a mão pendente. − Pelo amor de Deus. com os dentes cerrados. decomposta. agarrou-lhe o braço. Vai-te! E chegando-se para ela. prostrado por duas horas de Canal da Mancha. A distância. viva.. Macário ficou imóvel. Macário ia maquinalmente. Como partiu nessa tarde para a província. como no fundo de um sonho. − Vai-te! Podem reparar. os beiços brancos. soltando o braço de Luísa. aterrada. enfiada.Vi perfeitamente. deu o braço a Luísa. trêmula. senhor. afastou-se. sem frases e sem ornatos. voltou-se: ainda viu. Deram alguns passos na rua. com a cabeça toda inclinada. Deixa estar. diz. a história triste do poeta Korriscosso. Macário veio para ela. De todos os poetas líricos de que tenho notícia. um cavaleiro de calção de anta fazia ladear o seu cavalo. filha. Não chores. leu o cartaz que anunciara. Mando-te para o Aljube.. − Eu. fitando-a: e o seu aspecto era tão resoluto e tão imperioso. as seges cruzavam-se. que um largo sol iluminava intensamente. não me batas aqui! . . Parou a uma esquina. apavorada. enfeitado de rosetas. desculpe.

fresco do banho. olhava também os carvões ardentes. com a taciturna tristeza duma cegonha que cisma. com uma indecisão de sonho nadando num fluido enternecido. Recebeu a ordem do meu almoço.e apenas ele se aproximou. nas ruas mudas. adormecida na sua gravidade episcopal. acariciou com um gosto doce os dois bandós louros. e fora. bonomia. A sala estava deserta numa luz parda: os fogões flamejavam. O cabelo comprido. ironia doce. Mais tarde. de tenor. E o único som vinha da rua. Chamei-o. O maître d’hotel afastou a Bíblia. a mais rica das expressões humanas. fazendo rebrilhar um diamante. as duas abas compridas e agudas eram desgraçadamente grotescas.. pelo sorriso e pelo olhar. e disse-lhe numa voz surda: − Número 307.vaga. dia sem jornais e sem pão fresco.... mas havia na sua linha magra e um pouco dobrada uma expressão tão evidente de desalento. corri ao vasto fogão do peristilo. muito moreno. E nessa noite mesmo tive a singular felicidade de saber o seu nome e de entrever um fragmento do seu passado. boca aberta e luneta na ponta do nariz. era domingo. eu senti logo que aquele volume de Tennyson nas minhas mãos o tinha interessado e impressionado. que eram os Idílios de El-Rei. Não conhecem Bracolletti? A sua presença é formidável. com um perfil antiquado de medalha safada. sem me olhar. gelado e estremunhado.. há finura. que me faz lembrar o dos animais da Síria: é o mesmo enternecimento. Nessa noite parti no expresso para a Escócia. inocência.. que apenas entrevira na véspera.. e toda a sua magreza friorenta se encolhia ao aspecto daqueles telhados cobertos de neve. persuasão. era.. Quando ele se voltou. manifestamente. a lentidão.. um estremecimento quase imperceptível . e eu fui inscrever-me ao bureau... na sensação daquele silêncio lívido.. Um domingo de Londres. o meu amigo Bracolletti. que me interessei por aquela figura. caído sobre a gola da casaca. creio que lhes disse. passou a mão pela testa com um gesto errante e dolente. com os olhos beatamente postos na boa brasa escarlate. Fui dormir.. E foi então que vi aquela figura esguia e longa. pousou o seu crochê ao lado da sua chávena de chá. que acabara de almoçar. no silêncio do domingo. dum meridional. − quando a figura magra e fatal se dobrou num ângulo. avistei logo. Foi só daí a um mês. Que olhar! Um olhar doce. a neve caía sem cessar dum céu amarelento e baço. a testa era destas que. Chá. o indivíduo esguio e triste. A uma mesa distante. assentou corretamente o meu nome. já de casaca e gravata branca. a calça curta torcia-se em torno da canela como pregas de bandeira em torno dum mastro: a casaca tinha dobras de túnica ampla. gulosamente fixado na página aberta. uma voz gemente que a neve abafava mais. tem a amplidão pançuda. Eu via apenas as costas do homem. dormitava de mãos no ventre. Tinha o olhar encovado e vago. Foi o magro que me trouxe o almoço . Parece errar no seu fluido macio a religiosidade meiga das raças que dão os Messias. inscreveu o menu . oprimido por aquela treva tumultuosa que o paquete ia rompendo aos roncos e aos encontrões . Mas o sorriso! O sorriso de Bracolletti é a mais completa. de olho triste e posto na neve triste. porque depois de ter pousado o serviço. plantado melancolicamente ao pé da larga janela.. e ali fiquei. saturando-me daquela paz quente em que a sala estava adormecida. a sua fisionomia. A guarda-livros. senti renascer o antigo interesse. uma voz pedinte que à esquina defronte garganteava um salmo. Mas eu não queria o almoço das sete. um velho cor de tijolo e todo branco de cabelo e de suíças. e revendo aquela figura lenta e fatal atravessar com um prato de rosbife numa das mãos e na outra um pudim de batata. em marroquim negro. já me esquecera o criado romanesco do restaurante de Charing-Cross. rodou sobre os calcanhares e foi plantar-se.. quando desci ao restaurante para o lunch.. já repousado. Mas o porteiro tinha rolado a minha bagagem. de pé. se chama. o cerimonial dum paxá gordo. impressionou-me: era um carão longo e triste. em Bracolletti.emoção fugitiva. melancòlicamente. Eu atribuí aquele movimento curioso ao esplendor da encadernação do volume. de dedinho no ar. num tédio resignado: arrastou-se para o comptoir onde o maître d’hotel lia a Bíblia. foi um olhar rápido. Duas costeletas. que entrando no restaurante. em boa literatura. à janela.pareciame um tufão dos mares da China.porque. com o escudo de armas de Lançarote do Lago ...e eu acomodei-me à mesa. decerto. Ah! Mas também este sorriso é a .o pelicano de ouro sobre um mar de sinopla. quando no peristilo do hotel encontrei. e eu ia subir a vasta escadaria. e abri o volume de Tennyson que trouxera para almoçar comigo . Fora continuava a nevar sobre a cidade muda. abandono. E que magreza! Quando andava. com um guardanapo no braço. fronte: era larga e era lustrosa. e murmurou-me num inglês silabado: − Já está servido o almoço das sete. majestoso e próspero. que do outro lado da chaminé. e ainda não tinha passado Iorque. creio eu. de nariz judaico e uma barba curta e frisada de Cristo em estampa romântica. o negro cerrado da barba. a mais perfeita. com o serviço do chá. Era já tarde e eu voltava do Covent-Garden. ao voltar a Londres. tesa e loura. naqueles dois lábios que se descerram e que deixam brilhar um esmalte de dentes de virgem!. Apenas entrei no hotel. Mas esta ponderosa gravidade turca é temperada.

às mesas redondas e nos tombadilhos das Messageries. é uma plebe torpe. − De onde é ele? Bracolletti respondeu sem hesitar. Parece. estes movimentos: abotoar rapidamente o casaco. foi um shake-hands solene. Quis primeiro o nome do homem. depois de os ter freqüentado. rubro. talvez injusto. E apenas Bracolletti apareceu.. quando se lhe pergunta pelo seu passado. um prudente: o seu magnífico solitário nunca deixou de lhe brilhar no dedo: nenhum frio jamais o surpreendeu sem uma peliça de dois mil francos: e nunca deixa de ganhar. o Cabo da Boa Esperança. e recordei o olhar de gula e de presa que cravara nele Korriskosso. Tempos difíceis. Vejamos.. Quis depois a sua história. excitada de álcool. Mas Bracolletti. É singularmente guloso de rapariguinhas de doze a catorze anos: gosta delas magrinhas. na sua majestade de obeso. com um gesto repassado de desconsideração: − É um grego de Atenas. de mãos beatamente cruzadas na pança. gozando o desenvolvimento dos vícios naquelas flores da lama de Londres. me desaparecera do quarto. dez libras ao whist. e principalmente depois de ter escutado a lenda de velhacaria que eles têm deixado desde Esmirna até Túnis. com prazer que o abracei. A causa desta reputação funesta é que a gente grega. Mas. portanto. o injuria. apenas soube Korriscosso um grego. baixando a voz. como passarinhos na gaiola. deixando cair as frases às gotas. de ouro e estopa. como os deuses da Ática que. o homem estendeu-lhe silenciosamente a mão. de suspeitar do grego: aos primeiros que se vêem. pondo-lhes ao alcance as garrafas de gin para que os anjinhos se embebedem. recantos. os outros que se vêem provocam. O meu interesse sumiu-se como a água que a areia absorve. A verdade é que. nos seus embaraços no mundo.tão bem como Regent-Street: mas é evidente para todos que a sua existência não foi tecida. É um forte. se recolhiam à sua nuvem.. nas glórias duma raça estética e livre. e perfilam-se na imaginação as linhas augustas do Pártenon... de cabelo ao vento e face acesa. Nessa noite aconteceu. abismado no Journal des Débats. Instala-as em casa. encruzado no sofá. baba obscenidades .disse-me Bracolletti. realmente. Boa letra. na minha última estada em Charing-Cross.. − e quando alguma.o bom Bracolletti. desabrocha o sorriso duma doçura de tentar abelhas. adquire-se fàcilmente o hábito.. com método.fortuna de Bracolletti. Moralmente. que me perdi. que viajou . Coleciona-as pelos bairros pobres de Londres. grave. curvado sobre o Journal des Débats.. Bracolletti refugiou-se na sua vaga reticência. Mas tem uma debilidade. murmura no seu italiano da costa Síria: − Piccolina! Gentilletta! Querido Bracolletti! Foi. de esplendores e pelintrices: é um gordo e.e confessoume. como a dos vulgares aventureiros do Levante. Eh! mon Dieu!… − Não. e eu tinha sido alojado naqueles altos de Charing-Cross. apenas.. Bracolletti é um hábil.. o entusiasmo acende-se um pouco. em Charing-Cross: e como nos não víamos há muito. cruzar fortemente os braços sobre a cadeia do relógio e aguçar o intelecto para rechaçar a escroquerie. honesto e são. Nasceu em Esmirna de pais gregos. escadas. muito louras. O hotel estava atulhado. de que é um membro querido. esconde sob as pálpebras cerradas com bonomia o seu olho maometano.. parte pirata e parte lacaia. que emigra para as escalas do Levante.. ao recolher-me ao meu quarto. e ali as tem. Bracolletti. Era um bandido! E durante a ceia não falamos mais de Korriscosso. Korriscosso foi seu secretário.. Bom Deus. o bom grego rola um momento a cabeça de ombro a ombro. os países exóticos . − Chama-se Korriscosso . no Fraternal Clube. Quero-lhe a história. que tinham viajado ambos na Bulgária e no Montenegro. a Criméia. nessa noite. e murmura. e vibrando de curiosidade.. o olhar afogado em êxtase. não. O lúgubre Korriscosso não se afastou do comptoir.. Quando se tem viajado no Oriente e nas escalas do Levante.. bando de rapina astuto e perverso.. pensa-se em Alcibíades e em Platão. O criado triste lá estava no seu comptoir. porém. como afogado em bondade e em enternecimento: − Eh! mon Dieu! Eh! mon Dieu… Nada mais. animando-as a que lhe roubem os xelins da algibeira. numa complicação de corredores. sobretudo tendo uma educação universitária e clássica. lembrei-me logo que o meu belo volume de Tennyson. Bracolletti então tomou todo o ar cândido que lhe permitem a sua pança e as suas barbas . Serviu-nos outro criado. − Eh! mon Dieu!. e com o hábito de praguejar.. interroguei-o com sofreguidão.porque conhece o Peru. enternecido e sincero. fomos cear juntos ao restaurante.. metendo-lhes a papinha no bico. Eh! mon Dieu!. todas as semanas. eram amigos! Arrebatei Bracolletti para o fundo da sala. o arrepela. .. Aquela face fatal e byroniana deve ter uma história. ouvindo-as palrar todo baboso. é tudo o que ele revela: de resto.

eram evidentemente as habitações dos criados. De castiçal na mão. não é verdade? Que lhe pareceu? Tenho a certeza que se entusiasmou. No entanto Korriscosso permanecia de pé. Aqui há uma dessas lacunas. Korriscosso corou mais: mas não era o despeito humilhado do salteador surpreendido: era. num destes súbitos desabamentos políticos tão comuns na Grécia. de testa pendida sobre a mão.o meu volume de Tennyson! Ele viu o meu olhar. de um outro universo. batia as pálpebras. − Pode-me indicar o caminho para o número 508? Ele ergueu para mim um olhar estremunhado e enevoado. responderam por ele.. porém. Esta frase extraordinária pareceria grotesca e impudente a um homem do Norte. a brancura das margens largas desaparecia sob uma rede de comentários a lápis: Sublime! Grandioso! Divino! − palavras lançadas numa letra convulsiva. julguei eu. sobre a mesa. os terrenos mais áridos.. escrevendo.. culpado. estendi-lhe ambas as mãos num movimento à Talma. mas suficiente para o pôr em evidência. Aos 18 anos. − e eu não posso reconstituir com lógica e seqüência a história deste sentimental. Nova lacuna. Charlie... Formou-se em leis: isto habilitou-o. porque eu. e vi logo Korriscosso. Mas as páginas do volume. sentado a uma mesa alastrada de papéis. Uma paixão. Porque. duma discussão de imposto ou de viação fazia saltar éclogas de Teócrito. É tão triste. que eu abri. liberal e deputado. e disse-lhe: − Eu também sou poeta!. e com ele a maioria de que Korriscosso era o tenor querido. Não respondeu..e de ter no corpo a casaca coçada de criado de restaurante.. A literatura levou-o diretamente à política e às ambições parlamentares. a vergonha de ver a sua inteligência. As portas aí não tinham números. como as casas em Atenas . sem lógica constitucional.ou antes fragmentos. pede num jornal a emancipação da Polônia. o levantino viu logo nela a expansão de uma alma irmã. não lhes disse? o que Korriscosso estava escrevendo.. colarinhos sujos e um rosário . numa tira de papel. Este período de sua glória foi breve. Korriscosso servia de criado a um médico. anedotas desirmanadas da sua biografia. tantas tristezas de dependência.. Enfim. Korriscosso contava-me a sua história .. um dedo de Providência irritada.. com fato novo.a Trombeta da Argólida. como um gesto de drama e de palco. Tudo tende para o pó num solo de ruínas. apontando o volume com um dedo severo.ângulos. em tempos difíceis. havia na sua narração lacunas de anos. O meu primeiro movimento foi não reconhecer o livro: como era um movimento bom. Daí a pouco.. adiantei-me. estas coisas são frequentes là-bas.. Nasceu com efeito em Atenas. Smith. ameaças de morte. entre papéis.. Foi então que eu avistei. Willie. e obedecendo logo à moral superior do mestre Talleyrand. Desse tempo datam as suas primeiras elegias num semanário lírico. Lembrei-me que nada impressiona o homem do Levante.. reprimi-o. revelando todo um passado sem sorte. disse-lhe: − É o meu Tennyson. remeteu endechas dolorosas a um jornal da província . que a condenso. De resto. de cabeça baixa. Não sei que resposta ele tartamudeou. o bandido! e acusou-se todo numa vermelhidão que lhe inundou a face chupada. encantou Atenas: tinha o segredo de florir. agitada por uma sensibilidade vibrante.. Viajou na Bulgária. decrepitude de materiais e de individualidades. Falta de base. intitulado Ecos da Ática. sumiram-se. foi em Salonica empregado numa sucursal do Banco Otomano.sem motivo. e a Grécia governada por um concílio de gênios. Em Atenas este talento leva ao poder: Korriscosso era indicado para gerir uma alta administração do Estado: o ministério. um marido brutal. ainda de casaca. eram estrofes: era uma ode. Publica então os seus Suspiros da Trácia. poética. um buraco negro na sua história. mais tarde. Reaparece em Atenas. com a porta fechada. apiedado. respeitoso. forçam-no a expatriar-se.. parecia ressurgir de muito longe. recamada de imagens engenhosas e lustrosas. De uma porta aberta saía a claridade de um bico de gás. onde é quase necessário roteiro e bússola. Tem . como ele dizia. uma crise patética. a sua palavra colorida. repetindo: − 508? 508?. retomado também pelo interesse que me dava aquela figura picaresca de grego sentimental. novo mergulho obscuro na história de Korriscosso… Volta à superfície. a ser um intérprete de hotel. e nos intervalos do serviço frequentava a Universidade de Atenas. com o laço da gravata branca fugindo para o cachaço.. Pobre Korriscosso! Compadeci-me daquela atitude. num tremor de mão. mas pequenos cartões colados onde estavam inscritos nomes: John. Tudo é vago e suspeito. caíram. acrescentei num tom repassado de perdão e de justificação: − Grande poeta. como ele dizia. penetrei num passadiço onde corria um bafo morno de viela mal arejada. o seu gosto poético adivinhados . seu pai parece que era carregador no Pireu. em que os governos se aluem. membro de um clube republicano de Atenas.

tem um velho colchão de molas. está remontando aos céus poéticos. a baixa necessidade material: no restaurante. de onde pendia o parlamento de Atenas. precipitado dos cimos ideais.Esta privação de eloquência é-lhe dolorosa. tem. com os braços roliços nus. como ele me disse. roupagens alvas de virgens pálidas. dia de repouso e dia do Senhor! Leu-mas. com pernas como fortalezas normandas. aquele sentimental. Depois de tentar em Londres várias posições. Korriscosso compõe de memória.. e quando saem. coloca-se no restaurante de Charing-Cross. Era decerto um porto de abrigo. mantém-no fiel pelo álcool. o monstro. torcendo-se numa trança de deusa. sem explicações. o ventre é Deus: a alma fica fora. basta-lhe que o patrão seja cortês. Ele sorriu com amargura... Mas num restaurante como se pode exercer o gosto. uma carnação de inglesa de Yorkshire . as frotas mercantes.os milhões que se revolvem. ordinariamente. de guardanapo no braço.perguntei-lhe eu .. e a ode sai-lhe harmoniosa e doce.... dar a comer. Além disso o serviço impede-lhe o trabalho.. e os cabelos louros. os daquele poeta lírico. Dias atribulados. de brandy.disse-lhe eu. para a mudez do céu frio! É que Korriscosso tem ciúmes... um colosso. cabelos ricos. Ama uma Fanny. do efeito. e a falta de conversação! Nunca se voltarem para ele senão para lhe pedirem salame ou sardinhas de Nantes! Nunca abrir os seus lábios. que gritos de alma dilacerada arremessados dali. a sua alma de grego não é particularmente ávida de liberdade. uma montanha de carne eriçada duma floresta de barbas. aquele delicado.. Ama-a desde o primeiro dia em que entrou no hotel: amou-a no momento em que a viu lavando as escadas de pedra. encostado a uma janela. do drama .leite e rosas. este templo do ventre? Ele deixou pender a sua bela cabeça de poeta. E eu vi quanto a paixão pode perturbar um ser nervoso: que ferocidade de linguagem. A desgraçada Fanny ignora aquele poeta a seu lado. E o que Korriscosso tem sofrido! Toda a sua dor exala-a em odes .. . Ama um policeman. quase chorando nos meus braços.outro romance de coração. E as convivências. Este Polifemo. plantado enormemente a uma esquina. − mas as delicadezas da sua alma são. dolorosamente feridas. dum tom de ouro-mate. Korriscosso está fazendo uma elegia. a brutal força do ouro. com o peito como o flanco de um couraçado. Se ele fosse um guarda-livros dum banqueiro. de um tom de cobre. . e vantajoso. Nisso há uma sobra de poesia . com o chapéu que se pendura no cabide ou com o rolo de jornais que se deixou no bolso do paletó. é fatal a esta maneira de trabalhar. são tudo luares. fornecer alimento. dias crucificados. e ama um policeman. fazer correr a luz nas ondulações dos moirés. é servir exclusivamente a pança.. É bem alimentado. uma grossa voz faminta berra de um canto: − Bife e batatas! Ai! As aladas fantasias batem o vôo como pombas espavoridas! E aí vem o infeliz Korriscosso. Mas a interrupção glutona da voz do freguês. criada de todo o serviço em Charing-Cross. os cortes de seda..a partir nacos de rosbife ou de presunto de Iorque?!.e isto disse-mo. E depois a carnação. é-lhe grato reconhecer que os fregueses de Charing-Cross nunca lhe pedem a mostarda ou o queijo sem dizer if you please. apertando-lhe a mão. o instinto da cor. galopando de estrela em estrela. de ombros vergados e as abas da casaca baloiçando. flores de alma dolorida. os fatais cabelos louros. a originalidade artística. pedindo nutrição. como ele disse. daqueles altos de Charing-Cross. horizontes celestes. dos altos do hotel. perguntar com o sorriso lívido: − Passado ou meio cru? Ah! É um amargo destino! − Mas . nas planícies azuladas onde os sonhos acampam. Todas as suas economias as gasta em quartilhos de gin. costeletas e copos de cerveja! Não é a dependência que o aflige.. E. a todo o momento. a burgueses estabelecidos e glutões. primeiro caixeiro dum armazém de sedas. É feliz. Às vezes. ao passar por ele. dar ao veludo as molezas da linha e da prega.que passa a limpo ao domingo. − É um porto de abrigo . Depois. De repente. um alcides. as gorjetas são razoáveis. senão para perguntar: − Mais pão? Mais bife? .por que não deixa este covil. de genebra..é obrigado a refugiar-se em Inglaterra. um repelão ao cabelo. levam dois dedos à aba do chapéu: isto satisfaz a dignidade de Korriscosso. e a pobre Fanny passa o seu dia a espreitá-lo de um postigo. que lances de desespero.. quatro passeios pelo quarto. que à noite lhe leva em copinhos debaixo do avental. com o nó da gravata branca no cachaço: Korriscosso ama. Mas o que o tortura é o contato constante com o alimento. serviço no Strand. deste louro que entontece os meridionais. a tripa. como diz Korriscosso. forçado a distribuir numa sala. ou então dispor ricamente os estofos.. E disse-me a razão que o prende: disse-me. E enfim .

ela aceitou.. aquelas existências hesitantes. Maria da Piedade vivia assim. Quando desci ao meu quarto. que desde rapaz fora sempre entrevado. no seu arranjo e no seu gosto de frescura. e a alma não lha compreende.. soluce com a face magra entre as mãos transparentes. as mesmas flores com que ela. avistavam-no às vezes também à janela murcho e trôpego. a que as pestanas longas escureciam mais o brilho sombrio e doce. Morava ao fim da estrada. E quando João Coutinho pediu Maria em casamento. O marido. depressa murchavam naquele ar abafado de febre. irritava-se com o menor rumor. um encanto sempre novo vê-la por trás da vidraça. por morte do pai. era um inválido. com alguma palavra consoladora. sem um obrigado. que passava o dia arrastando-se sombriamente da sala para a alcova.. aquela figura de fada. A pobre Fanny admira-o babosa. Sempre que ele me serve dou-lhe um xelim de gorjeta: e depois. sem um amo-te. apesar de doente já. a sua existência fora triste. e era. ornava as mesas. cachimbando e escarrando para as cinzas. numa casa azul de três sacadas. sempre de cama. O velho Nunes. havia anos que não descia à rua. cheios de tumores nas orelhas.. E Korriscosso é só um grande homem . mais curvado quando se move pelo restaurante com a travessa do rosbife. nunca renovado por causa das correntes de ar. recolhida e séria. ficara rico. e os olhos escuros de um tom de violeta. a barba desleixada e com um barretinho de seda enterrado melancolicamente até ao cachaço.. mais fatal. deixei-o soluçando sobre o catre. em cima no seu quarto. Mesmo em solteira. diretor do correio.. e mesmo na vila tinha-se lamentado que aquele lindo rosto de Virgem Maria. duas rapariguitas e um rapaz. não ouvir mais os gritos da mãe. Mas quê! Ela despreza-lhe o corpo de tísico triste. chorões e tristonhos. Mas se o marido de dentro chamava desesperado. que depois pareciam apodrecer-lhe nas mãos. lá aparecia com a sua bonita face tranquila. crescendo pouco e com dificuldade. ou a um canto do canapé.recebe em silêncio o copo. outras vezes. interiormente. ao passar em Londres. Não que Fanny seja inacessível a sentimentos ardentes. acabrunhavamna. onde a chuva entrava pelo telhado. Andava-se nas pontas dos pés. MARIA DA PIEDADE era considerada em toda a vila como “uma senhora modelo”. o pai. que se empenhara pelas tavernas e pelas batotas. ter-se-ia resignado. Poucas vezes saía. Mas aquela família que lhe vinha com o sangue viciado. batendo o lajedo com a vastidão das suas solas sonoras. decerto.. No moinho I D. eram também doentes. fosse pertencer ao Joãozinho Coutinho. os dias que aparecia em casa passava-os à lareira. na excitação nervosa que lhe davam as insônias. e ela. Os filhos. em casa dos pais. passa a mão cabeluda pela barba de hércules e segue taciturnamente. sem hesitação. já velho. arrota cavamente. O Coutinho... A casa. agarrado à bengala. mais exaltado no seu lirismo. vestida de preto. embrulhado em cobertores com uma amarelidão de hospital. parecia lúgubre. expressos em linguagem melodiosa.. inutilizado por uma doença de espinha. Todas as semanas desancava a mulher. para a gente que às tardes ia fazer o giro até ao moinho. como uma névoa que lhe escurecia a alma. acariciando com autoridade os quatro pêlos da calva: − A vila tinha quase orgulho na sua beleza delicada e tocante. o magro Korriscosso. se os filhos ao menos tivessem nascido sãos e robustos. Pobre Korriscosso! Se ele ao menos a pudesse comover. com uma face macilenta. à outra esquina. curvada sobre a sua costura. picando a sua costura. sempre que se falava nela. para salvar o casebre da penhora. atira-o de um golpe às fauces tenebrosas. apesar dos seus cuidados inquietos. desde os vinte anos. Está mais magro. mais velho que ela. alguma malga com papas de linhaça.em grego. compondo a almofada a . era uma loura. aperto-lhe sinceramente a mão. quase com reconhecimento. Não amava o marido. entre as cortinas de cassa. Tenho-o visto depois. a pele ebúrnea. num silêncio sombrio. fazendo no nevoeiro um esguio relevo de poste telegráfico. porque o senhor. ao retirar. ou um dos pequenos choramingava. de perfil fino. E talvez nesse momento. E Fanny não compreende grego. dizia. havia sobre as cômodas alguma garrafada da botica. Mas Korriscosso só pode escrever as suas elegias na sua língua materna. Às vezes só. encolhido na robe-de-chambre. na sua natureza de enfermeira e de consoladora. rezar. lá limpava os olhos. que a faziam tremer. A mãe era uma criatura desagradável e azeda. sempre bêbedo.. mais mirrado de zelos. corriam-lhe as lágrimas pela face: uma fadiga da vida invadia-a.. acostumada por fim àquele marido rabugento. e era uma tristeza ver sempre algum dos pequenos ou de emplastro sobre a orelha.

O seu longo hábito de dirigir uma casa de doentes. e que dizia dela com os olhos esgazeados: − É uma fada! é uma fada!. Madalena. pratas sobre a cômoda. que lhe anunciava que em duas ou três semanas ia chegar à vila. apresentava-o como uma personalidade interessante. uma terra magra plantada aqui e além de oliveiras e... uma colcha de damasco.. era um sujeito extremamente simples. A sua fama. A sua única distração era à tarde sentar-se à janela com a sua costura. algumas senhoras da vila afirmavam que ela era beata. passeava horas trazendo ao colo o pequerrucho. Toda a sua ambição era ver o seu pequeno mundo bem tratado e bem acarinhado. Vendo-a assim tão resignada e tão sujeita. De manhã estava um pouco mais pálida. Abílio . Depois a necessidade de fazer mais toilette. quando de mês a mês ia visitar as fazendas do outro lado do rio. E a brusca invasão daquele mundano. não necessitava adorar santos ou enternecer-se com Jesus. com o pequerrucho mais velho pela mão. a não ser ao domingo. Via já a sua casa em confusão com a presença do hóspede extraordinário. de ser ela o centro.. fazendo-se bonita para ir dar as sopas de leite aos pequerruchos. Foi por isso um alívio. a não ser a do dr. parecia-lhe ter mais direito ao seu fervor que o outro. o fumo do seu charuto. que era o mais impertinente. o grande autor. uma solicitude de mãe próvida. a quinzena de flanela caindo à larga num corpo robusto e pequeno. nunca tivera estas sentimentalidades de alma triste que levam à devoção.. que chegara até à vila.. todo pálido no seu vestido de veludo azul. depois uma ondulação de campos. mas prática: e assim era ela que administrava agora a casa do marido. o amparo daqueles inválidos. os seus sapatos enormes. e passavam-se meses sem que em casa de Maria da Piedade se ouvisse outra voz estranha à família. Maria da Piedade ficou aterrada com esta visita.um. de alterar a hora do jantar.. Mas realmente na vila era sobretudo notável por ser primo do João Coutinho.. conversando. não é verdade? Maria da Piedade olhava-o assombrada: aquele herói. de resto. aquele fascinador por quem choravam mulheres. consagrara-o como um mestre. e queria-o todo para si. A mesma paisagem que ela via da janela era tão monótona como a sua vida: embaixo a estrada. Vejo da janela um moinho e uma represa que são um quadrozinho delicioso. um estudo de mulher trabalhado a grande estilo.. quando João Coutinho recebeu uma carta de seu primo Adrião. sentada ao pé da cama. Com efeito. Além disso não fazia frases. e o marido da Maria da Piedade tinha naquele parente um orgulho enfático. E ficamos amigos. o que faço é vir cá jantar. dava-lhe a impressão apavorada duma profanação. à outra extremidade da vila. tornara-a terna. com as suas malas. lendo-lhe as Vidas dos Santos. porque o pobre entrevado ia caindo em devoção. aquele poeta que os jornais glorificavam. a sua alegria de são. parecia-lhe a ela um dos caçadores de aldeia que às vezes encontrava. uma árvore. a sua devoção limitava-se a esta missa todas as semanas.. na paz triste do seu hospital. uma colina triste e nua. menos espetaculoso que o filho do recebedor! Nem formoso era: e com o seu chapéu desabado sobre uma face cheia e barbuda. Adrião era um romancista: e o seu último livro. encontrava uma satisfação suficiente à sua sensibilidade. um desejo. detestava visitas. um fumo de casal que pusesse naquela solidão de terreno pobre uma nota humana e viva. cumprido com amor. indo animar a outro. não estou mal no tio André. Foi por isso grande a excitação na casa. tendo-a só a ela. um capricho: nada a interessava na terra senão as horas dos remédios e o sono dos seus doentes. mas toda correta no seu vestido preto. Adrião era um homem célebre. seria uma diminuição cruel do seu cuidado de enfermeira: a sua maneira de rezar era velar os filhos: e aquele pobre marido pregado numa cama. feliz em ser boa. só para ver o seu nome nas locais e na crítica. De resto.. destinado a uma alta situação no Estado. Tais ocupações bastavam para entreter o seu dia: o marido. de conversar com um literato. as comiserações de cerimônia. com lençóis de rendas. todavia ninguém a avistava na igreja. falou . o aspecto de caras saudáveis. um herói de Lisboa.. quase um reconhecimento. com os bandós bem lustrosos. impetuoso e brilhante. o primo. hem?.. Todo o esforço lhe era fácil quando era para os contentar: apesar de fraca. num vago de legenda. tendo para amar toda uma humanidade pronta. pregado numa cruz. todo dependente dela.que a adorava. Nunca tivera desde casada uma curiosidade. quando Adrião chegou e muito simplesmente se instalou na antiga estalagem do tio André. − muito menos complicado. Além disso. Assinara mesmo um jornal de Lisboa. Não nos contrariemos. fresca. o homem célebre. e tantos outros esforços cruéis!. com um bom senso que a afeição dirigira. Instintivamente mesmo pensava que toda a afeição excessiva dada ao Pai do Céu. A sua casa ocupava-a muito para se deixar invadir pelas preocupações do Céu: naquele dever de boa mãe. Adrião porém recusou: − Eu tenho os meus hábitos. e a primeira vez que veio jantar. com as feridas que faziam dos seus pobres beicinhos uma crosta escura: durante as insônias do marido não dormia também. erguendo-se ao fundo. duma análise delicada e sutil. João Coutinho escandalizou-se: tinha já o quarto do hóspede preparado.. amado das fidalgas. D. vocês têm os seus. todo o tempo gasto em se arrastar pelo confessionário ou junto do oratório. brincando tristemente. a força. e a pequenada em roda aninhada no chão. sem uma casa.

enfim. Na fazenda.perguntou-lhe ela. sem o poder ajudar nesses passos a dar com os proprietários da vila. que a enleava. no ar abafado e triste do seu hospital. Tudo nela concordava deliciosamente: o ouro do cabelo. como no seu elemento próprio. prima! . Combinaram logo ir visitar esse recanto de verdura... Ela destacava sobre o mundo de mulheres que até ali conhecera. a dar-lhe a sua confiança: nunca falara tanto a ninguém: a ninguém jamais deixara ver tanto da melancolia oculta que errava constantemente na sua alma.. Da fortuna do pai. certo fundo rústico de aldeã e uma leve vulgaridade de hábitos davam um encanto: era um anjo que vivia há muito tempo numa vilota grosseira e estava por muitos lados preso às trivialidades do sítio: mas bastaria um sopro para o fazer remontar ao céu natural.a tristeza do seu interior.... Ela também assim o julgava: mas quê! o pobre João. e era um dia de março fresco e claro. − Tenho vontade de o ver. a única terra que não estava devorada.. Mas. De resto prontificou-se logo a ser a procuradora do primo. como um perfil suave de ano gótico entre fisionomias da mesa redonda. a modéstia na melancolia.. Mas isto pareceulhe tão delicado. No que ele pensava era noutros apetites. tão grave de dizer àquela criatura virginal e séria . uma atração que a seu pesar a levava a revelar-se. aviar o negócio com o Teles e voltar imediatamente a refugiar-se. − Mas que superioridade. as doenças.. era a Curgossa... Ele parecia desolado daquela tristeza da casa. nos seus olhos pequenos e luzidios alguma coisa de forte. com grande bonomia. e como ele se abaixara para o desprender delicadamente. E na questão de preço.. encafuado entre os cortinados da cama. inútil sobre uma cama. − Ela vai contigo ver a fazenda. Ela falou-lhe já com menos reserva quando voltaram. Adrião calou-se: pareceu-lhe absurdo supor que ela desejasse... Foi por isso. sob o sol tépido . a pobre senhora caminhava junto dele com o ar de um pássaro assustado: apesar de ele ser tão simples. a linha casta. prima. interessado por aquela criatura tão triste e tão doce. Ao princípio.. o que ele desejava era vendê-la. − Que hei-de eu desejar mais? . de dominante.que falou da paisagem.apenas.. e hábil nestas questões como um antigo rábula!. No outro dia foram ver a fazenda...exclamou Adrião maravilhado... aos cimos puros da sentimentalidade.. Mas isso parecia-lhe a ele tão difícil como fazer a Ilíada!.. impressionado. E lamentava sinceramente ver o primo ali.. E o que o tentava sobretudo era pensar que poderia percorrer toda a . a doçura da voz.. Apressava o passo para chegar bem depressa à fazenda. Viera por eles. De resto as suas queixas eram sobre a mesma dor .. que era o idílio da vila. fazendo um ser delicado e tocante.. nas ambições do coração insatisfeito.. deixaa a ela!.. se mo quiser ir mostrar. Deu-lhe alguns bons conselhos: o que os pequenos necessitavam era ar. branca e longa.. Achava absurdo e infame fazer a corte à prima. tornara-se um ser artificial. realmente... e arranja-te isso tudo.e a conversa de Adrião foi-a lentamente acostumando à sua presença. Mas a estrada estendia-se. afligia-se terrivelmente: tinha horror aos grandes ares e aos grandes horizontes: a natureza forte fazia-o quase desmaiar. Mas involuntàriamente pensava no delicioso prazer de fazer bater aquele coração que não estava deformado pelo espartilho.. tantos cuidados graves. a longa conversa com o Teles criou uma aproximação maior entre Adrião e Maria da Piedade. o contato daquela mão branca e fina de artista na orla da sua saia incomodou-a singularmente. Aquela venda que ela discutia com uma astúcia de aldeã punha entre eles como que um interesse comum. no timbre rico da sua voz. desde que ele se tornava assim depositário das suas tristezas. que andava além disso mal arrendada.disse ela. com grande alegria. dos seus negócios. dum respeito tocante.. sol. como um indefinido desejo de o ter sempre presente. . Adrião voltou para o seu quarto. Acanhada por aquela companhia de um leão. partiram a pé. Havia nas maneiras dele. na estalagem do André. decerto poderia haver alguma satisfação num dever tão santamente cumprido. − Hoje é tarde. havia na sua figura enérgica e musculosa. e de pôr enfim os seus lábios numa face onde não houvesse pós de arroz. ela devia ter momentos em que desejasse alguma outra coisa além daquelas quatro paredes. Como ficava perto.. ou abominàvelmente hipotecada.Um anjo que entende de cifras! Pela primeira vez na sua existência Maria da Piedade corou com a palavra dum homem. uma fazenda ao pé da vila. impregnadas do bafo de doença. a que mesmo o seu pequenino espírito burguês. Tinha-se-lhe prendido à orla do seu vestido um galho de silvado. − Já viu o moinho? . uma outra vida diversa daquele abafamento de alcova. nos seus olhos. Ele então lamentou-a. E vinha-lhe por ele uma simpatia. que ouviu João Coutinho declarar-lhe que a mulher era uma administradora de primeira ordem. fala com o Teles. sempre que se lhe falava de ir passar algum tempo à quinta. o Chiado ou o Teatro da Trindade.

Houve um momento em que ele falou do encanto de ficar ali para sempre na vila. e à noite as boas palestras ali sentados.disse ela. sem lhe mudar a cor. da relva.. Maria da Piedade ficou voltada para a janela escondendo a face dos pequenos.. e acrescentou logo rindo: − Pois não era delicioso?. Ela escutava-o de olhos baixos.província em Portugal.que a deixou descer para o caminho: e daí a um momento. Mas Adrião agora. Desde os primeiros dias. insensivelmente. fugindo. mas ele achava nisso mesmo uma ingenuidade picante. pintava-lhe na sua palavra colorida toda uma vida romanesca.. e recuou como se ele fosse já arrebatá-la para o moinho. O moinho era dum alto pitoresco. pela alegria daquele homem a seu lado. com o seu plano de se fazer moleiro. Seria absurdo ficar ali.. um pouco curvada. Adrião receou tê-la ofendido. À noite foi à casa dela: encontrou-a com o pequerrucho no colo. O silêncio dos campos em redor isolava-os .. De resto um momento como aquele no moinho não voltaria.. no dia seguinte. a cor do cabelo. É malfeito. A prima havia de me dar a sua freguesia. de uma felicidade idílica... o guarda-solinho escapou-lhe das mãos. imóvel sobre a gelada limpidez da água escura. que ele soltou-a. desmoralizando.. a pé cedo.. Era um recanto de natureza... a frio. toda a . sobretudo à hora do meio-dia em que eles lá foram. carregado de sacas de farinha.. com as lágrimas. nós aqui ambos no moinho. que mergulhava na água da represa os últimos degraus: e ali ficaram um momento calados. e beijou-a sobre os lábios. com a pequenada doente aninhada contra as suas saias. sem lhe arfar o peito. naquele canto odioso da província. Ouviu que ele partia.. Ele continuou gracejando. − Ficar aqui? Para quê? . os seus olhos luzidios. melhor. da morada duma fada.. Maria da Piedade não dizia nada. branca. como morta: e duas lágrimas corriam-lhe ao comprido da face. no encanto daquela frescura murmurosa. ela ergueu-se. Era assim tão dolorosa e fraca. Por isso. nem aquela virgindade tocante de alma adormecida. Isto fê-la rir.. à claridade das estrelas ou sob a sombra cálida dos céus negros de verão. apareceu de tarde. primo! . e de ir pela estrada tocando o burro. pareceu-lhe odioso distrair aquela mulher dos seus doentes. − Vem? . prendeu-a nos braços. uma boa mãe. sobre o fundo azul do ar: o seu chapéu era de mau gosto. E de repente.exclamou ele. seguiam ambos calados para a vila. − Para quê? para isto. digno de Corot.. sentaram-se numa escada desconjuntada de pedra. Adrião via-a de perfil. duma linha tão pura. toda receosa e achando um sabor delicioso ao seu receio. ele começou a falar-lhe baixo.e. Adrião achou-o digno duma cena de romance. os dentes. dum só beijo profundo e interminável. o seu mantelete antiquado.Juro-lhe que me faço moleiro! Que paraíso.. por onde corriam cantando. Ele mesmo estava tão perturbado . quase podre. caindo-lhe na costura. Era ainda a mesma compaixão pela melancolia da sua existência naquela triste vila. depois o jantar na relva à beira da água. reluzindo entre os musgos e as pedras. . Era uma ocasião que não voltava.. a sua roda enorme.. Eu podia alugar este moinho. sem encontrar nem aquela linha de corpo. ganhando alegremente a nossa vida. O passeio ao moinho foi encantador. a sombra recolhida das grandes árvores. e ouvindo cantar esses melros! Ela corou outra vez do fervor da sua voz. coberta de ervas. com a frescura da verdura. e toda a sorte de murmúrios de água corrente.. Ela tinha ficado contra o seu peito. Amava-o. sorrindo. Ela cobriu-se de um rubor. a pele.. lavando-lhe em água de malva as feridas que ele tinha na perna. quatro a quatro. − E eu venho ajudá-lo.perguntou ela. levando e espalhando no ar o frio da folhagem. E então. fazer-me moleiro. sem que ela resistisse. à janela costumada.. ou. a dizer-lhe adeus: partia à noitinha na diligência: encontrou-a na sala. naquele esconderijo de verdura: de manhã. tão loura.. ouvindo as aves piarem nas ramas. com a sua vclha edificação de pedra secular. A venda da fazenda estava concluída. Mas Adrião achou-lhe a palma da mão tão fria como um mármore: e quando ele saiu. para o trabalho. com o beicinho a tremer. olhando abstratamente a paisagem que escurecia. apanhou o guardasolinho e ficou diante dele. Como ela vinha um pouco cansada. achando extraordinária aquela admiração pelo moinho abandonado do tio Costa. esburacando com a ponteira do guarda-sol as ervas bravas que invadiam os degraus: era deliciosa assim.. pelo seu destino de enfermeira. tão branca.. animada pelo seu próprio riso. a sua figura resoluta e forte. inflamado àquela idéia. murmurando: − É malfeito. pasmada de se achar ali tão só com aquele homem tão robusto. para estar sempre ao pé de si. era mais linda quando ria: tudo brilhava nela. Foi só na estalagem que ele pensou: − Fui um tolo! Mas no fundo estava contente da sua generosidade.

Depois ele deu-lhe aquele beijo no moinho. achaques dos filhos. de cara balofa e gordalhufa. num beijo. que tinha. vendo diante de si aquele corpo de tísico. tudo num desamparo torpe . . que admirava.. A sua vida representava-se-lhe como desgraça excepcional: não se revoltava ainda: mas tinha desses abatimentos. que a apertassem num abraço mortal. aquela robustez de vida. Era como uma rajada de ar impregnado de todas as forças vivas da natureza que atravessava. Essas leituras calmavam-na. apoderou-se dela uma noite que lhe apareceu esta idéia. e morrera dum abandono. Veio-lhe o nojo das garrafadas. Estava uma histérica. Tudo de repente em volta dela a doença do marido. Era o praticante da botica. Não quis que nada do que era dele ou vinha dele lhe fosse alheio. um desejo de lhe apressar a morte. O que a encantava nele não era o seu talento. outras existências possíveis. Lentamente. Não suportava ser arrancada aos episódios sentimentais do seu livro. ao pé do leito do marido. vinha-lhe um ódio torpe. Começou a ler versos. Adrião tornara-se. parecia sentir alívio às suas. tão sério. nem as mulheres que o tinham amado: isso para ela aparecia-lhe vago e pouco compreensível: o que a fascinava era aquela seriedade. por que ansiava nas noites cálidas em que não podia dormir . era um ente meio príncipe e meio facínora. todo de alma. os filhos sujos e ramelosos.lhe pareceu lúgubre. estendeu-se a um ser vago que era feito de tudo o que a encantara nos heróis de novela. se lhe tinham apossado da imaginação. mas o cálido ar. para a cativar. sùbitamente. e antevia. sobretudo. lhe chupassem a alma. abria a janela. Tornou-se impaciente e áspera.. Por causa dele escandalizou toda a vila. Ia-se assim criando no seu espírito um mundo artificial e idealizado. cortada de crises de choro. tristezas do seu dia. à janela. E no meio desta excitação mórbida do temperamento irritado. E o romanticismo mórbido tinha penetrado naquele ser. duma ternura varonil e forte. um grito ao ouvir bater uma porta. a força. sobretudo sob aquele aspecto da sua casa.virilidade da sua pessoa. nem a sua celebridade em Lisboa. A realidade tornava-se-lhe odiosa. Acreditava nos amantes que escalam os balcões. em que se não vê sempre diante dos olhos uma face fraca e moribunda. criatura obesa.. a quem chamam na vila a bola de unto. prendendo-se a ela. em que as noites se não passam a esperar as horas dos remédios. A Santa tornava-se Vênus. esta visão: − Se ele fosse meu marido! Toda ela estremeceu. dois lábios de fogo que.. sem comer até altas horas.. das feridas dos pequenos a lavar. Passava horas só. tendo sob o seu olhar de virgem loura toda a rebelião duma apaixonada. apertou desesperadamente os braços contra o peito. sobretudo aquela Madalena que também amara. sustos de ave que pousa. uma palidez de desmaio se havia na sala flores muito cheirosas. para além da sua existência ligada a um inválido.para andar atrás do homem. possuída num mistério de noite romântica. Chorando as dores das heroínas de romance. Esse amor latente invadiu-a. Às vezes. onde encontrava sempre agarrado às saias um ser enfermo. eram-lhe pesados como fardos injustos. luneta preta com grossa fita passada atrás da orelha e bonezinho de seda posto à catita. juntava-se agora um coração terno. deixava-se penetrar dele e da sua lenta influência.. Vieram as primeiras revoltas. dessas súbitas fadigas de todo o seu ser. a sua costura . aquele ar honesto e são. como um ser de proporções extraordinárias. toda a trapagem dos emplastros por cima das cadeiras. para ela lhe cair nos braços: − e foi o que sucedeu enfim. Porque era isto que admirava. Os seus deveres. O seu amor desprendeu-se pouco a pouco da imagem de Adrião e alargou-se.dois braços fortes como aço. E partira! Então começou para Maria da Piedade uma existência de abandonada. deixa a casa numa desordem. o bafo morno da terra aquecida do sol. tinha ouvido aquelas conversas em que ele se mostrava tão bom. tudo o que é forte. num mutismo. essa necessidade de encher a imaginação desses lances de amor. tão delicado: e à força do seu corpo. E agora. para ir ajudar a voltar o marido e sentir-lhe o hálito mau. e desmoralizara-o tão profundamente. em farrapos. daí a dois anos. de dramas infelizes. duma ânsia voluptuosa. em que caía sobre a cadeira. entre o canto dos rouxinóis: e queria ser amada assim. Julgando-o todo puro.. Vem de noite às entrevistas de chinelo de ourelo: cheira a suor: e pede-lhe dinheiro emprestado para sustentar uma Joana. que chegou ao momento em que bastaria que um homem lhe tocasse.. Leu todos os seus livros. como confundindo-se com a sua imagem evocada.. agora que não punha neles toda a sua alma. na sua imaginação. enchiamna dum desejo intenso. davam-lhe como uma vaga satisfação ao desejo. numa imobilidade de entrevado. que queria. murmurando: − Quando se acabará isto? Refugiava-se então naquele amor como uma compensação deliciosa. com os braços pendentes. eram fraquezas súbitas. um maganão odioso e sebento. o marido a gemer abandonado na sua alcova. dos emplastros.. a sua alcova abafada: e ela respirava-a deliciosamente. aquela voz tão grave e tão rica.. Depois. e que dá razão à vida. refugiando-se na sua força. e que é belo. À noite abafava. apoderou-se dela. com o primeiro que a namorou. Foi durante meses um devorar constante de romances..

providas de finas pranchas móveis para sustentar o livro. outros de aço. Nunca padeceu.Civilização I EU possuo preciosamente um amigo (o seu nome é Jacinto) que nasceu num palácio. onde sua mãe. de todos os homens que conheci. e os diretórios.continha vinte e cinco mil volumes. não ofereceria. o telefone. datava do século XIV. como se nelas só palpasse palidez e ruína. o telégrafo Morse. ornamental e intelectual. para reter as Fadas Benéficas. sobre as suas peanhas de carvalho. E todavia. mais doçura e facilidades do que a vida oferecia ao meu camarada Jacinto. desde os vinte e oito anos. desde que abandonaram o vale feliz de Septa-Sindu. e os manuais. a taça de café. o charuto. funcho e âmbar. de couro. e três. grave e abacial. Não teve sarampo e não teve lombrigas. a Terra das Águas Fáceis. A biblioteca. rebrilhantes e frios. através de cristais. Nunca recordo sem assombro a sua mesa. com um leito muito liso de areia muito branca. atulhando uma estante isolada. as pontas vivas. desde os tapetes de Caramânia até ao teto de onde. construíra sobre uma honesta casa do século XVII.. o teatrofone. derreter lacre. e que custavam 500 réis. com brasões. imprimir datas. Do Amor só experimentara o mel . com quarenta contos de renda em pingues terras de pão. cintar documentos. Mas a todos ele considerava indispensáveis para compor as suas cartas (Jacinto não compunha obras). e os guias. Ao fundo. todos com metais luzidios. como as abelhas. sobre os panejamentos de seda cor de musgo e cor de hera. os tormentos da sensibilidade. murmuroso e transparente. com um bocejo cavo e lento. percorri. oito metros de economia política! Assim se achava formidàvelmente abastecido o meu amigo Jacinto de todas as obras essenciais da inteligência . assoalhada a pinho e branqueada a cal − existia. carimbar contas! Uns de níquel. colar estampilhas. onde o corpo encontrava logo. craque. Ambição. buscando este economista ao longo das estantes. refletindo apenas pedaços lustrosos de um céu de verão ou ramagens sempre verdes e de bom aroma. do Ecclesiastes. o fonógrafo. E o único inconveniente desse monumental armazém do saber era que todo aquele que lá penetrava. Jacinto já se vinha repastando de Schopenhauer. Nesse palácio (floridamente chamado o Jasmineiro) que seu pai. todos eram de um manejo laborioso e lento: alguns. a doçura. numerar páginas. Só sistemas filosóficos (e com justa prudência. raspar emendas. outros ainda. o bibliotecário apenas colecionara os que irreconciliàvelmente se contradizem) havia mil oitocentos e dezessete! Uma tarde que eu desejava copiar um ditame de Adam Smith. Desde o berço. passando os dedos finos sobre as faces. tique. e a “ponta do seu intelecto” (como diz o velho cronista medieval) não estava ainda romba nem ferrugenta. eu por vezes surpreendi gotas de sangue do meu amigo. mesmo na idade em que se lê Balzac e Musset. por causa das poltronas. a profundidade e a paz estirada dum leito. que silenciosamente girava sobre o seu pedestal. àquele que o descesse numa barca cheia de almofadas e de champanhe gelado. magnificamente revestidos de marrroquim escarlate. tique! Dlim. sentira somente a de compreender bem as idéias gerais. o doce país ariano. o sol e a electricidade vertiam uma luz estudiosa e calma . forrava as paredes.e mesmo da estupidez. os autocopistas. Por quê? Era ele. facilitadores do pensamento. tudo quanto para bem do espírito ou da matéria os homens têm criado. senhora gorda e crédula de Trás-os-Montes. em forma de torre. para mal do espírito. Constantemente sons curtos e secos retiniam no ar morno daquele santuário. azeite e gado. recoberta toda de sagazes e sutis instrumentos para cortar papel. Tique. era o gabinete de trabalho de Jacinto. − a máquina de escrever. com ligeireza e mobilidade. também Jacinto. os grandes aparelhos. espalhava. e que eu denominara o Farol.ou antes aquele que se munira da mais vasta soma de civilização material. inevitàvelmente lá adormecia. bocejava. e como um altar-mor. A sua cadeira. dlim. instalados em ébano. de outros pessimistas menores. Um lindo rio. que. com as molas rígidas. dlim! Craque. aguçar lápis. que em duas salas. o lápis das notas. O que. esguia. quatro vezes por dia. todos com longos fios.esse mel que o amor invariàvelmente concede a quem o pratica. assim como os trinta e cinco dicionários. creio eu.. mais completamente imprimia àquele gabinete um portentoso carácter de civilização eram. que. inteiramente. alternadamente. ofereciam ainda uma combinação oscilante e flácida de almofadas. amplas e claras como praças. e as enciclopédias. porém. para poupar espaço. pareciam serpentes adormecidas e suspensas num velho muro de quinta. Jacinto fora sempre mais resistente e são que um pinheiro das dunas. e em torno dela pendiam numerosos tubos acústicos. trilhavam e feriam: e nas largas folhas de papel Whatman em que ele escrevia. craque! . através da incerteza e dor. o mais complexamente civilizado . Nas suas amizades foi sempre tão feliz como o clássico Orestes.

E a cada talher correspondiam seis garfos. apertando desesperadamente os xales sobre a cabeça. lembrando o que o experiente Salomão ensina sobre as ruínas e amarguras do vinho. desejando que umas senhoras parentas de Pinto Porto (as amáveis Gouveias) admirassem o fonógrafo. Horror! Logo da antecâmara percebemos sons estrangulados.. com o sol já alto. João. faziam.porque de repente o fonógrafo começa a redizer.era a sala de jantar. representando colinas. os magistrados teriam votado a mestre Sardão. desgraçadamente. Mas Jacinto e os seus filósofos.. que parece uma trompa. pomares e portos da Ática. Um fresco bando de raparigas. Em vão! sob a mordaça. numerosos e profundos (e os únicos que tolerava o meu . onde nos refugiamos. entre as tapeçarias de Arras. entre os panos de Arras. Jacinto. cheias de classicismo e de luz. as suas amoras geladas em éter. águas esterilizadas. o meu supercivilizado amigo. cobertores espessos. passava cantando com braçados de flores: Todas as ervas são bentas Em manhã de S. A sua sopa de alcachofras e ovas de carpa. implacável e rotunda: − Quem não admirará os progressos deste século? Furiosos. retiramos para uma sala distante. outros acepipes ainda. roufenhos: “admirará. águas de sais.” Só de tarde um eletricista pôde emudecer aquele fonógrafo horrendo. com tratados terapêuticos impressos no rótulo. os seus filetes de veado macerados em velho Madeira com purê de nozes. como no receio de despertar alguém. pela sua intelectualidade. outro para a fruta. fez romper do bocarrão do aparelho. com autoridade: − “Maravilhosa invenção! Quem não admirará os progressos deste século?” Pois. já quente. Mesmo à cozinha. como ramalhetes silvestres espalhados por cima de neve. na arte e na metafísica. Em vão! A voz de Pinto Porto lá estava.. para sufocar a voz abominável. A exclamação recomeçava.. todos de feitios dessemelhantes e astuciosos: − um para as ostras. sobre a toalha mais reluzente que esmalte. com uma sonoridade cada vez mais rotunda. À mesa só cabiam seis amigos que Jacinto escolhia com critério na literatura. aos Oradores. a voz descia. João. fácil e íntimo. no momento de exclamar com respeito. trrre. era daqueles que Anaxágoras equiparava aos Retóricos. Era o meu amigo comunicando. outro para as carnes. a conhecida voz rotunda e oracular: − Quem não admirará os progressos deste seculo? Mas.. trrre!. e que. em garrafas sérias. águas minerais. Muito de manso abrimos as portas. águas gasosas. respirando o ar matinal. pesadamente revestida de panos de Arrás.Trrre..águas geladas. inábil ou brusco. águas carbonatadas. Cada garfada se cruzava com um pensamento ou com palavras destramente arranjadas em forma de pensamento. surda mas oracular: − Quem não admirará os progressos deste século? As amáveis Gouveias tinham abalado. outras ainda. engasgada e gosmosa: − Quem não admirará os progressos deste século? Fugimos espavoridos para a rua. E elas nem sempre. pálido.. Assim o recomendam .. Os copos. século!. numa doce noite de S. Era de madrugada.. oracular e majestosa: − Quem não admirará os progressos deste século? Enervados. Bem mais aprazível (para mim) do que esse gabinete temerosamente atulhado de civilização . outro para o peixe. mestre Sardão. 1860). torturava o aparelho. sem descontinuação.. pelo seu arranjo compreensível.. enterramos uma almofada na boca do fonógrafo. pelas festas de Juno Lacínia. E de águas havia sempre no Jasmineiro um luxo redundante . certamente desconcertou alguma mola vital . interminàvelmente. se conservavam domadas e disciplinadas! Jacinto recolhera no fonógrafo a voz do conselheiro Pinto Porto. e Díocles nas suas Abelhas. com os dedos trêmulos. sob as grossas lãs. limpava as bagas lentas do suor. Todos esses fios mergulhados em forças universais transmitiam forças universais. renovavam ali repetidamente banquetes que. outro para os legumes. a coroa de folhas de ouro e a túnica milésia que se devia aos benfeitores cívicos. a sentença do conselheiro: − Quem não admirará os progressos deste século? Debalde Jacinto. progressos. lembravam os de Platão. outro para o queijo. bebiam apenas em três gotas de água uma gota de Bordéus (Chateaubriand. O cozinheiro. de volta das fontes.Hesíodo no seu Nereu. a todos os que sabem a arte divina de “temperar e servir a Idéia”: e em Síbaris. atiramos por cima mantas. cidade do Viver Excelente.. pela diversidade dos contornos e das cores. rolava. a voz rouquejava. uma voz oracular e rotunda. Recolhemos ao Jasmineiro.

corredio e louro. uma luz da inteligência. Quando Jacinto acabava de se enxugar laboriosamente a toalhas de felpo. Que faltava a este homem excelente? Ele tinha a sua inabalável saúde de pinheiro bravo. aos lados da risca. todas as semanas.. de marfim. fixava o bigode. como sombras fardadas de branco. desencadeavam o marulho e o estridor de torrentes nos Alpes. Todos estes resguardos (sábia invenção de Holland & C.que era apenas um resumo dos maquinismos monumentais da sala de banho. Por sobre um tapete. sem tremor ou morrão. forrado de zinco. Depois. perpétuo e vago. Nunca eu. de seda frouxa (para lustrar a pele). sobre a nuca. Ali. escudeiro que fora do Jacinto pai. bem aconchegado num divã. pela influência onipoderosa que as coisas exercem sobre o dono (sunt tyranniae rerum). um para as iguarias quentes.. pelo arranjo dos coloridos frescos e cantantes. jantando com Jacinto um bispo.ª. sobre o mármore verde e róseo do lavatório. eu. empastava o cabelo. O velho Grilo. no alto. passando pêlos sobre o seu pêlo.Jacinto) eram obras de um artista. Começava pelo cabelo. com uma escova leve e flácida acurvava as sobrancelhas. nas mãos fiéis. crescido nas dunas. em forma de telha.. com um bocejo cavo e lento. E assim as operações do alindamento de Jacinto apresentavam a prolixidade. ordinariamente a Revista Electropática. acamava o cabelo. com uma escova côncava. de flanelas Jaegher. mais liberta e . e ainda torneiras que rebrilhavam e botões de ébano que. para não desfear o conjunto suntuário da civilização.. quarenta magníficos contos de renda. de Londres) serviam a graduar a luz e o ar segundo os avisos de termômetros. o erudito bispo de Chorazin. graduados desde zero até cem graus. providas magnìficamente (além das cortinas de seda mole Luís XV) de uma vidraça exterior de cristal inteiro. de prata. à maneira do alfange dum persa. abria com indolência uma revista. II NAS tardes em que havia “banquete de Platão” (que assim denominávamos essas festas de trufas e idéias gerais). durante catorze minutos. o repuxo para a barba. outro. que era como se até a sopa saísse fumegando dos românticos jardins de Armida. havia apenas duas duches (quente e fria) para a cabeça. e coberta de todos esses utensílios de asseio e alinho que o homem do século XIX necessita numa capital. pela ornamentação. o vaporizador de perfumes. uma jóia esmaltada do cinzel de Cellini ou Meurice. Quantas tardes eu desejei fotografar aquelas composições de excelente fantasia. de corda entrançada (para restabelecer a circulação). antes que o trinchante as retalhasse! E essa superfinidade do comer condizia deliciosamente com a do servir. montados em ébano. Tal prato desse mestre incomparável parecia.e juntavam sempre a raridade do sabor à magnificência da forma. para o extrair. deslizavam. duma vidraça interior de cristais miúdos. E muito bem me lembro de um domingo de maio em que. pela graça florida dos lavores. ou a das Indagações Psíquicas. manobravam com perícia e vigor os aparelhos do lavatório . para as iguarias frias. cinco criados e um pajem preto. Com uma escova chata. sendo necessário que acudissem. As travessas (de prata) subiam da cozinha e da copa por dois ascensores. vizinho e íntimo. devastador. seus amigos e filósofos. Dois criados. espavoridos. de leve roçados. amônia e sal. dessoldada a torneira. Penteado e cansado. para molhar os dedos. barômetros e higrômetros. redonda e dura. aparecia ao declinar do sol e subia familiarmente aos quartos do nosso Jacinto onde o encontrava sempre incerto entre as suas casacas. Cada um desses utensílios de aço. o dever de o utilizar com aptidão e deferência. dum toldo rolando na cimalha. bocejava. E era este bocejo. Um clamor atroou o Jasmineiro. toda de vidro. ficou coberto de ampolas na face. ao fundo.. de gazes que franziam e se enrolavam como nuvens e duma gelosia móvel de gradaria mourisca. e ambos escondidos por flores tão densas e viçosas. por trás. silvando e fumegando. impunham ao meu amigo. para a tornar impenetrável aos micróbios. furioso. pedreiros com alavancas. o peixe emperrou no meio do ascensor. mais lento. todas as simpatias duma cidade chasqueadora e céptica. ondeava o cabelo sobre a orelha. E deste modo Jacinto ficava diante do espelho. Quando o nosso Jacinto. e a que um meteorologista (Cunha Guedes) vinha.. e de foulard das Índias. reverente e insuprimível.. que nos inquietava a nós. forrado de tubos onde a água fervia. com uma escova feita de penugem regularizava as pestanas.eu. uma mesa enorme de vidro. me cheguei àquele lavatório sem terror . Entre estas duas varandas rebrilhava a mesa de toilette. com uma escova estreita e recurva. com uma escova de longas cerdas. dos ritos dum sacrifício. Respirava e sorria. ia purificar as mãos. superior pela abundância das ideias novas . de pano.. O quarto respirava o frescor e aroma do jardim por duas vastas janelas. quatro jatos. própria a tudo alumiar. de linho. uma vida varrida de sombras. Fugimos todos. se acercava desta ara .. à maneira viscosa do século XVIII. verificar a precisão. arrastando as suas engenhosas chinelas de pelica e seda. porque as usava alternadamente de seda.. mais fofo e mole que o musgo da floresta da Brocelianda. dum estore de sedinha frouxa. firme e clara.escarmentado da tarde amarga de janeiro em que bruscamente. E Jacinto começava. o jato de água a cem graus rebentou.

ou por desinteressante e oca. Um dos cocheiros partiu com um cupê. que comia o seu caldo entre a fumaraça da lareira. através da moral dos negróides. Depois mandou expedir. em tarde de arraial. Murmurei.” Mas por que rolara assim a tão escura desilusão? O velho escudeiro Grilo pretendia que “Sua Ex. poltronas. um em Inglaterra. a ponto de devorar. nos pátios largos do palacete. já reservado. saltamos para o outro vagão. que. no meu caminho para Guilães. ordenando-lhe que compusesse os telhados. diante delas. com perdizes e champanhe num cesto. estava ocupada. Eu acompanhava Jacinto. durante sete semanas. Jacinto não cessava também de buscar interesses e emoções que o reconciliassem com a vida . com os dedos finos. palpava na face. com a bateria. se sentia o brado constante que lhe ia na alma: − Que maçada! Que maçada! Claramente a vida era para Jacinto um cansaço . impaciente e silvando. boa gente de trabalho. nas trinta e sete malas! E debruçado da portinhola avistei ainda junto ao cunhal da estação. que habitava a aldeia de Torges. Era doloroso testemunhar o fastio com que ele. envidraçasse as janelas. Neste mover lento do braço magro. marcado por um cartão com as iniciais de Jacinto. um breque. lembravam uma página de Heródoto ao narrar a invasão persa. Aos trinta anos Jacinto corcovava. aos bandos. e estendia o trigo a secar nas salas senhoriais. a sua pena elétrica . para o seu velho solar de Torges. outro na América. mulas e guizos. de lenços flamejantes. O outro comboio já esperava.penetrando à cata dessas emoções e desses interesses pelas veredas mais desviadas do saber. pelas malhas apertadas duma rede que se não via e que o travava. com bocejos mais cavos! E era então que ele se refugiava intensamente na leitura de Schopenhauer e do Ecclesiastes. que concorressem a aperfeiçoar a confortabilidade do Jasmineiro. sem mesmo atender às lindas moças que ali saracoteavam..lisa do que um céu de verão. a geleira. um monte de bagagens. enchendo a plataforma estreita. Dois inventores. Jacinto regressava mais murcho. Era domingo de imensa poeira e sol . caiasse os muros. bracejavam com desespero. e a imagem do santo espetada no chapéu . havia trinta anos. largamos numa manhã de junho. longos e derreados. apanhava o tubo telefônico!. rente aos alpendres. empurramos.ou. desde janeiro a março. em caixotes que transpunham a custo os portões do Jarmineiro. de lhe noticiar e de lhe fornecer todas as invenções.camas de penas. mesmo nos seus silêncios. E. De resto. todos os confortos necessários a duas semanas de montanha . Por quê? Sem dúvida porque ambos esses pessimistas o confirmavam nas conclusões que ele tirava de uma experiência paciente e rigorosa: “que tudo é vaidade ou dor. homens de muito zelo e pesquisa. Pensei então no nosso Grilo.corremos. Imediatamente o trem rolou. pelo lado do pensamento. Desde o amanhecer. E todavia bocejava constantemente. onde ainda resta uma torre do século XV. com o Grilo e trinta e sete malas.. quanto mais se sabe. onde vive minha tia. a garrafeira.e encontramos aí. recaindo nas almofadas: . setenta e sete volumes sobre a evolução das idéias morais entre as raças negróides. Para aquele trasbordo.e a rude casa solarenga. Depois foi o cozinheiro. Ah! nunca homem deste século batalhou mais esforçadamente contra a seca de viver! Debalde! Mesmo de explorações tão cativantes como essa. pelos caseiros. E as bagagens. se pregava. todo um povaréu festivo que vinha da romaria de S. Jacinto não conhecia Torges.nessa estação... nos vincos que lhe arrepanhavam o nariz. banheiras de níquel. ele próprio se correspondia com Edison. e foi com desusado tédio que ele se preparou. tapetes persas para amaciar os soalhos. como na construção de uma cidade. e homens de boné agaloado que. tomava o seu lápis pneumático. sucedeu que Jacinto teve a necessidade moral iniludível de partir para o Norte. para essa jornada agreste. lâmpadas de Carcel. a palidez e as rugas. caixas profundas de águas minerais. divãs. afogueadas. como sob um fardo injusto! E pela morosidade desconsolada de toda a sua ação parecia ligado. uma vitória. escrevera cuidadosamente ao seu procurador Sousa. se martelava. bocais de trufas. furamos. em que ele se embrenhara na moral dos negróides e instalara a luz elétrica entre os arvoredos do jardim. Por isso o meu pobre amigo procurava constantemente juntar à sua vida novos interesses. Por fim. estavam encarregados. a uma légua farta de Torges: e íamos num vagão reservado. o horário só nos concedia três minutos avaros. E. o seio farto coberto de ouro. A quinta fica nas serras . Uma sineta badalava com furor. logo nos começos de março. A meio da jornada devíamos mudar de comboio . desde os dedos até à vontade. que tem um nome sonoro em ola e um tão suave e cândido jardim de roseiras brancas. entre vastas almofadas. mais se pena e que ter sido rei de Jerusalém e obtido os gozos todos na vida só leva a maior amargura. tubos acústicos para chamar os escudeiros. para apontar um endereço.ª sofria de fartura!” III ORA justamente depois desse Inverno. sob os eucaliptos.ou por laboriosa e difícil. Gregório da Serra. por comboios rápidos. Jacinto. novas facilidades... as mais miúdas. desfilando. Jacinto emagrecera com os cuidados daquele Êxodo. para avisar o cocheiro.

os mesmos. sem Grilo..ª. o sr. de choupo a castanheiro. uma égua lazarenta. com o seu podengo ao lado. nem cavalos! O chefe da estação. para a vindima.. estava para a raia desde maio. transpusemos o limiar solarengo. A grandeza era tanta como a graça. cartas perdidas. saltando de rocha em rocha. ante a inesperada. E nós ali estávamos. Todos os nossos bens tinham encalhado. não avistara o sr. esses caminhos agrestes . o excelente Sousa. por onde vinham e iam.ª. sem procurador.. de regalos. Ex. Cruzei os braços. nos devia esperar com cavalos para treparmos a serra até ao solar de Torges. porém. Dentro já os cães ladravam com furor. o ar de uma doçura de paraíso. de civilização!. os pomares cheirosos e em flor. Quem pode dizer a beleza das coisas. E na sua perturbação o Zé Brás procurava entre as arcadas do pátio. Muito tempo um melro nos seguiu. num justo espanto. quente e poeirento. entre o latir dos cães. enfastiadamente. E mal Jacinto. E. não tinha os caixotes? .. Na casa nenhuma obra começara. esse monte numa das suas manhãs de mais solene e bucólica inspiração. que um escudo de armas de velha pedra. quando chegamos à estação de Gondim. que erguia para o ar. Ex. arregalava os olhos miúdos onde já bailavam lágrimas. Sousa. Nem procurador. Era o caseiro. um jumento branco. assobiando. repletos de colchões. nas algibeiras das pantalonas.. com tanta prudência. os Jacintos do século XV. nada aparecera. com efeito. que o pobre Brás balbuciava. Sousa!” O comboio desaparecera por detrás das fragas altas que ali pendem sobre o rio. aturdido.. Serra bem acolhedora e amável. Finos ramos de arbustos floridos roçavam as nossas faces. Sousa só contava com S. que nos pareceu clássica e nobre. do alto da escadaria. e as janelas sem vidraças. todo florido também de rosas e margaridas. Ex. E decerto houvera engano. Os caixotes? Não. os nossos males esqueceram. Dizer os vales fofos de verdura. (Ele dizia sua inselência). com cores de maçã-camoesa. com as pernas bambas. surdiu uma tumultuosa história. as ermidinhas branqueando nos altos. Por trás do jardim da estação. os bosques quase sacros.ª em setembro..esses caixotes remetidos para Torges. Nem creio mesmo que fosse para mestre Horácio.. as rochas musgosas. sem compreender. Ah! que beleza! Por entre ahs maravilhados chegamos a uma avenida de faias. onde alcançamos para nos levarem e nos guiarem a Torges. Ex. com familiaridade e carinho. de monte a rio.. “Conhecia perfeitamente o sr. um portão de quinta. grandemente afidalgava.só houve em torno de nós solidão e silêncio. Porque o sr. tão simples e inexprimível? Jacinto adiante. uma velha. no burro. a quem eu perguntara com ansiedade “se não aparecera ali o sr. vago. um rapaz e um podengo. decerto. Mas quando nos apeamos no pequeno cais branco e fresco . e ainda o sol batia nas vidraças. Rente da grade do jardim. Sousa! Três semanas antes jogara ele a manilha com o sr. Um carregador enrolava o cigarro.− Que serviço! Jacinto. num assombro. Os caixotes?! Nada chegara. Atirando uma nova vergastada ao burro e à égua. passada uma trémula ponte de pau que galga um ribeiro todo quebrado por fragas (e onde abunda a truta adorável). se não conhecia o sr. sem jaleca. dormitava agachada no chão.não é para mim.. E logo ali. toda a majestade e toda a lindeza . havia um casal foreiro à quinta. que trazia sob o braço um volume de versos. perdidos na serra agreste. diante duma cesta de ovos. E o nosso Grilo. e eu atrás dele no burro de Sancho.ª. Ninguém esperava S. roída de musgo.. assobiando os nossos louvores. rapado como um clérigo. um homem branco. toda de negro. os braços desolados. o Zé Brás. Era um moço gordo e redondo. incomparável beleza daquela serra bendita. certamente. na égua tarda. sem cavalos. Para que esfiar miudamente o lance lamentável? Ao pé da estação. onde o procurador de Jacinto. Jacinto reconheceu logo as suas carruagens ainda empacotadas em lona. tirou afavelmente o seu boné de galão. e que enchia a face de Jacinto de lividez e cólera. O procurador. Sousa! Nessa tarde. Mas os caixotes .. murmurava: − Ah! que beleza! Eu atrás. infelizmente. gritava: − Aqui é que estêmos! E ao fundo das faias havia. sem colete. Sousa. e as nossas bagagens!. os telhados ainda estavam sem telhas. naquela estação de roseiras brancas que tem um nome sonoro em ola. decerto. murmurava: − Ah! que beleza! Os espertos regatos riam. O chefe encolheu risonhamente os ombros nédios. numa quebrada da serra.. a frescura das águas cantantes. O divino artista que está nos Céus compusera. infelizmente para S. ao canto... suspirou: − Que maçada! Toda uma hora deslizamos lentamente entre trigais e vinhedo. Sousa”. sem descerrar os olhos. em abril. nas pedras do pátio. sem malas. E aí começamos a trepar. o nosso rapaz. Mas. O caseiro. a tratar a mãe que levara um coice de mula. O caseiro não esperava S. correu para nós.. homem de pequena arte.

em alpendre. a quem aqueles ares serranos e o jantar do pegureiro sabiam bem. as salas do seu solar! Eram enormes. Francisco se tinham assim perdido. Ex. acompanhando a fachada do casarão e ornada. o digno Brás teve um murmúrio vago e tímido sobre “enxergazinhas no chão”. E eu. entre os seus grossos pilares de granito. casais claros fundindo-se na sombra. o ar entrava. Esse era um civilizado . uma tábua podre rangia e cedia. estonteado. investiu para mim jurando que “a ceia de suas inselências não demorava um credo”. − É o que basta. Do meio delas o bom caseiro. encontrei ainda o meu Jacinto no poial da janela. com as mãos na cabeça. melancòlicamente. oferecendo apenas como vestígio de habitação e de vida. E. batia ovos. no entanto.. Por isso ele. embebendo-se todo da doce paz crepuscular. onde refulgia ao fundo.e acusou logo o governo. com as altas paredes rebocadas a cal que o tempo e o abandono tinham enegrecido. com aromas de pinheiro bravo. com estas consolantes novas de ceia e cama. por desleixo do governo. Somente. Já quando ele servia o sr. a mais vasta. onde havia duas arcas tulheiras para guardar o grão. não havia estradas onde elas rolassem. por onde se avistavam copas de arvoredos e as serras azuis de além-rio. uma vela de sebo meio derretida num castiçal de latão alumiava dois pratos de louça amarela. algum monte de cestos ou algum molho de enxadas. pelos cantos. e aí depusemos. cor de fuligem. Paramos. Assim nos encontrou nesta contemplação o Zé Brás. o que nos ficara de trinta e sete malas . o cochilar das águas entre relvas baixas .eram para ele como iniciações. Através das janelas desvidraçadas. um toque dormente de sino que vinha pelas quebradas. Era adiante. empacotadas na lona. A escadaria nobre conduzia a uma varanda. naquela rude montanha. desaparecera a ordenar a ceia para suas inselências. escarmentado. e vazias. sobre o chão de terra. dos vales. E aí. desoladamente nuas. o transe mais amargo da sua vida serrana. Nos tetos remotos de carvalho negro alvejavam manchas . enfim.Foi então que o cocheiro de Jacinto (que trouxera os cavalos e as carruagens) se acercou.e era tudo o que restava a S. enfim. lá debaixo. surpreendido através dos buracos do telhado. − Pois assim Deus seja servido! . Zé Brás . e se perdia em fumarada pela grade escassa que no alto coava a luz. Visconde de S. onde a escuridão vinha menos do crepúsculo do que de densas teias de aranha. o cupé e os guizos. em que floriam cravos. montesino e largo. noutra sala mais nua. uma bengala e um Jornal da Tarde. E senti-o suspirar como um homem que enfim descansa. circulando plenamente como em um eirado. uma voz de pegureira cantando. por caixotes cheios de terra.ª: o breque.que era o céu já pálido do fim da tarde. Colhi um cravo. Eu estava defronte. a Vésper diamantina. sr.acudi eu para o consolar. o meu supercivilizado Jacinto recuou com um pavor genuíno. Voltando acima. caíra pesadamente sobre o poial duma janela.nem assistira a este majestoso e doce adormecer das coisas. sem resistência contra aquele brusco desaparecimento de toda a civilização. terminei por descer à cozinha. através das escadas e becos.. na última. com o doce aviso de que estava na mesa a ceiazinha. na estação. ladeados por colheres de . toda coberta. encostada à parede sórdida. a vitória.. Subimos. E o meu pobre Jacinto contemplou.suspirou o homem excelente. Não restava uma vidraça. No alto já tremeluzia uma estrela. Aí um bando alvoroçado e palreiro de mulheres depenava frangos. Jacinto ficara plantado diante de mim. subia. que atravessava. Entramos. com santo fervor. escarolava arroz. cear o caldo do tio Zé Brás e dormir nas palhas que os fados nos concedessem. A cozinha era uma espessa massa de tons e formas negras. e dali olhava os montes. que é tudo o que neste céu cristão resta do esplendor corporal de Vénus! Jacinto nunca considerara bem aquela estrela . E como eu o interrogava a respeito de camas. da cidade para a serra. com as mãos nos bolsos: − E agora? Nada restava senão recolher. esbarrondado pelo desastre.ele lá as deixara embaixo. uma fogueira vermelha que lambia grossas panelas de ferro. não largara as carruagens . nessa hora. Esse enegrecimento de montes e arvoredos. quietas. Por vezes. Na mesa de pinho. Jacinto balbuciou: − É horroroso! Eu murmurei: − É campestre! IV O ZÉ BRÁS. desgarrada e triste.os paletós alvadios. conduzido pelo cocheiro. no outro poial. gravemente. dois caixotes com vinho velho da Madeira e roupa branca de senhora. mais negra. sob os nossos passos. sem confiança na Nação. E como só podiam subir para a quinta em grandes carros de bois . O pobre Jacinto. que lenta e caladamente se estabelecia sobre vela e monte. recoberta com uma toalha de mãos..

pau e por garfos de ferro. Os copos, de vidro grosso e baço, conservavam o tom roxo do vinho que neles passara em fartos anos de fartas vindimas. O covilhete de barro com as azeitonas deleitaria, pela sua singeleza ática, o coração de Diógenes. Na larga broa estava cravado um facalhão... Pobre Jacinto! Mas lá abancou resignado, e muito tempo, pensativamente, esfregou com o seu lenço o garfo negro e a colher de pau. Depois, mudo, desconfiado, provou um gole curto do caldo, que era de galinha e rescendia. Provou, e levantou para mim, seu companheiro e amigo, uns olhos largos que luziam, surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada de caldo, mais cheia, mais lenta... E sorriu, murmurando com espanto: − Está bom! Estava realmente bom: tinha fígado e tinha moela: o seu perfume enternecia. Eu, três vezes, com energia, ataquei aquele caldo: foi Jacinto que rapou a sopeira. Mas já, arredando a broa, arredando a vela, o bom Zé Brás pousara na mesa uma travessa vidrada, que trasbordava de arroz com favas. Ora, apesar da fava (que os gregos chamaram ciboria) pertencer às épocas superiores da civilização, e promover tanto a sapiência que havia em Sício, na Galácia, um templo dedicado a Minerva Ciboriana - Jacinto sempre detestara favas. Tentou todavia uma garfada tímida. De novo os seus olhos, alargados pelo assombro, procuraram os meus. Outra garfada, outra concentração.,. E eis que o meu dificílimo amigo exclama: − Está óptimo! Eram os picantes ares da serra? Era a arte deliciosa daquelas mulheres que embaixo remexiam as panelas, cantando o Vira, meu bem? Não sei: − mas os louvores de Jacinto a cada travessa foram ganhando em amplidão e firmeza. E diante do frango louro, assado no espeto de pau, terminou por bradar: − Está divino! Nada porém o entusiasmou como o vinho, o vinho caindo de alto, da grossa caneca verde, um vinho gostoso, penetrante, vivo, quente, que tinha em si mais alma que muito poema ou livro santo! Mirando à luz de sebo o copo rude que ele orlava de espuma, eu recordava o dia geórgico em que Virgílio, em casa de Horácio, sob a ramada, cantava o fresco palhete da Rética. E Jacinto, com uma cor que eu nunca vira na sua palidez schopenháurica, sussurrou logo o doce verso: Rethica quo te carmina dicat. Quem dignamente te cantará, vinho daquelas serras?! Assim jantamos deliciosamente, sob os auspícios do Zé Brás. E depois voltamos para as alegrias únicas da casa, para as janelas desvidraçadas, a contemplar silenciosamente um suntuoso céu de verão, tão cheio de estrelas que todo ele parecia uma densa poeirada de ouro vivo, suspensa, imóvel, por cima dos montes negros. Como eu observei ao meu Jacinto, na cidade nunca se olham os astros por causa dos candeeiros - que os ofuscam: e nunca se entra por isso numa completa comunhão com o universo. O homem nas capitais pertence à sua casa, ou se o impelem fortes tendências de sociabilidade, ao seu bairro. Tudo o isola e o separa da restante natureza - os prédios obstrutores de seis andares, a fumaça das chaminés, o rolar moroso e grosso dos ônibus, a trama encarceradora da vida urbana... Mas que diferença, num cimo de monte, como Torges? Aí todas essas belas estrelas olham para nós de perto, rebrilhando, à maneira de olhos conscientes, umas fixamente, com sublime indiferença, outras ansiosamente, com uma luz que palpita, uma luz que chama, como se tentassem revelar os seus segredos ou compreender os nossos... E é impossível não sentir uma solidariedade perfeita entre esses imensos mundos e os nossos pobres corpos. Todos somos obra da mesma vontade. Todos vivemos da ação dessa vontade imanente. Todos, portanto, desde os Úranos até os Jacintos, constituímos modos diversos de um ser único, e através das suas transformações somamos na mesma unidade. Não há idéia mais consoladora do que esta - que eu, e tu, e aquele monte, e o Sol que, agora, se esconde, somos moléculas do mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim. Desde logo se somem as responsabilidades torturantes do individualismo. Que somos nós? Formas sem força, que uma Força impele. E há um descanso delicioso nesta certeza, mesmo fugitiva, de que se é o grão de pó irresponsável e passivo que vai levado no grande vento, ou a gota perdida na torrente! Jacinto concordava, sumido na sombra. Nem ele nem eu sabíamos os nomes desses astros admiráveis. Eu, por causa da maciça e indesbastável ignorância de bacharel, com que saí do ventre de Coimbra, minha mãe espiritual. Jacinto, porque na sua ponderosa biblioteca tinha trezentos e dezoito tratados sobre astronomia! Mas que nos importava, de resto, que aquele astro além se chamasse Sírio e aquele outro Aldebarã? Que lhes importava a eles que um de nós fosse José e o outro Jacinto? Éramos formas transitórias do mesmo ser eterno - e em nós havia o mesmo Deus. E se eles também assim o compreendiam, estávamos ali, nós à janela num casarão serrano, eles no seu maravilhoso infinito, perfazendo um ato sacrossanto, um perfeito ato de Graça - que era sentir conscientemente a nossa unidade e realizar, durante um instante, na consciência, a nossa divinização. Assim enevoadamente filosofávamos - quando Zé Brás, com uma candeia na mão, veio avisar que “estavam preparadas as camas de suas inselências...” Da idealidade descemos gostosamente à realidade, e que

vimos então nós, os irmãos dos astros? Em duas salas tenebrosas e côncavas, duas enxergas, postas no chão, a um canto, com duas cobertas de chita; à cabeceira um castiçal de latão, pousando sobre um alqueire: e aos pés, como lavatório, um alguidar vidrado em cima de uma cadeira de pau! Em silêncio, o meu supercivilizado amigo palpou a sua enxerga e sentiu nela a rigidez dum granito. Depois, correndo pela face descaída os dedos murchos, considerou que, perdidas as suas malas, não tinha nem chinelas nem roupão! E foi ainda o Zé Brás que providenciou, trazendo ao pobre Jacinto, para ele desafogar os pés, uns tremendos tamancos de pau, e para ele embrulhar o corpo, docemente educado em Síbaris, uma camisa da caseira, enorme, de estopa mais áspera que estamenha de penitente, e com folhos crespos e duros como lavores em madeira... Para o consolar, lembrei que Platão, quando compunha o Banquete, Xenofonte, quando comandava os Dez Mil, dormiam em piores catres. As enxergas austeras fazem as fortes almas - e é só vestido de estamenha que se penetra no Paraíso. − Tem você - murmurou o meu amigo, desatento e seco - alguma coisa que eu leia?... Eu não posso adormecer sem ler! Eu possuía apenas o número do Jornal da Tarde, que rasguei pelo meio e partilhei com ele fraternalmente. E quem não viu então Jacinto, senhor de Torges, acaçapado à borda da enxerga, junto da vela que pingava sobre o alqueire, com os pés nus encafuados nos grosssos socos, perdido dentro da camisa da patroa, toda em folhos, percorrendo na metade do Jornal da Tarde, com os olhos turvos, os anúncios dos paquetes - não pode saber o que é uma vigorosa e real imagem do desalento! Assim o deixei - e daí a pouco, estendido na minha enxerga também espartana, subia, através dum sonho jovial e erudito, ao planeta Vénus, onde encontrava, entre os olmos e os ciprestes, num vergel, Platão e Zé Brás, em alta camaradagem intelectual, bebendo o vinho da Rética pelos copos de Torges! Travámos todos três bruscamente uma controvérsia sobre o século XIX. Ao longe, por entre uma floresta de roseiras mais altas que carvalhos, alvejavam os mármores duma cidade e ressoavam cantos sacros. Não recordo o que Xenofonte sustentou acerca da civilização e do fonógrafo. De repente tudo foi turbado por fuscas nuvens, através das quais eu distinguia Jacinto, fugindo num burro que ele impelia furiosamente com os calcanhares, com uma vergasta, com berros, para os lados do Jasmineiro! V CEDO, de madrugada, sem rumor, para não despertar Jacinto que, com as mãos sobre o peito, dormia plàcidamente no seu leito de granito - parti para Guiães. E durante três quietas semanas, naquela vila onde se conservam os hábitos e as idéias do tempo de El-Rei D. Dinis, não soube do meu desconsolado amigo, que decerto fugira dos seus tetos esburacados e remergulhara na civilização. Depois, por uma abrasada manhã de agosto, descendo de Guiães, de novo trilhei a avenida de faias e entrei o portão solarengo de Torges, entre o furioso latir dos rafeiros. A mulher do Zé Brás apareceu alvoroçada à porta da tulha. E a sua nova foi logo que o ser. D. Jacinto (em Torges, o meu amigo tinha dom) andava lá embaixo com o Sousa nos campos de Freixomil − Então, ainda cá está o sr. D. Jacinto?! Sua inselência ainda estava em Torges - e sua inselência ficava para a vindima!... Justamente eu reparava que as janelas do solar tinham vidraças novas; e a um canto do pátio pousavam baldes de cal; uma escada de pedreiro ficara arrimada contra a varanda; e num caixote aberto, ainda cheio de palha de empacotar, dormiam dois gatos. − E o Grilo apareceu? − O sr. Grilo está no pomar, à sombra. − Bem! e as malas? − O sr. D. Jacinto já tem o seu saquinho de couro... Louvado Deus! O meu Jacinto estava, enfim, provido de civilização! Subi contente. Na sala nobre, onde o soalho fora composto e esfregado, encontrei uma mesa recoberta de oleado, prateleiras de pinho com louça branca de Barcelos e cadeiras de palhinha, orlando as paredes muito caiadas que davam uma frescura de capela nova. Ao lado, noutra sala, também de faiscante alvura, havia o conforto inesperado de três cadeiras de verga da Madeira, com braços largos e almofadas de chita: sobre a mesa de pinho, o papel almaço, o candeeiro de azeite, as penas de pato espetadas, num tinteiro de frade, pareciam preparadas para um estudo calmo e ditoso de humanidades: e na parede, suspensa de dois pregos, uma estantezinha continha quatro ou cinco livros, folheados e usados, o D. Quixote, um Virgílio, uma História de Roma, as Crônicas de Froissart. Adiante era certamente o quarto de D. Jacinto, um quarto claro e casto de estudante, com um catre de ferro, um lavatório de ferro, a roupa pendurada de cabides toscos. Tudo resplandecia de asseio e ordem. As janelas

cerradas defendiam do sol de Agosto, que escaldava fora os peitoris de pedra. Do soalho, borrifado de água, subia uma fresquidão consoladora. Num velho vaso azul um molho de cravos alegrava e perfumava. Não havia um rumor. Torges dormia no esplendor da sesta. E envolvido naquele repouso de convento remoto, terminei por me estender numa cadeira de verga junto à mesa, abri languidamente o Virgílio, murmurando: Fortunate Jacinthe! tu inter arva nota Et fontes sacros frigus captabis opacum. Já mesmo irreverentemente adormecera sobre o divino bucolista, quando me despertou um brado amigo. Era o nosso Jacinto. E imediatamente o comparei a uma planta, meio murcha e estiolada, no escuro, que fora profusamente regada e revivera em pleno sol. Não corcovava. Sobre a sua palidez de supercivilizado, o ar da serra ou a reconciliação com a vida tinha espalhado um tom trigueiro e forte que o virilizava soberbamente. Dos olhos, que na cidade eu lhe conhecera sempre crepusculares, saltava agora um brilho de meio-dia, decidido e largo, que mergulhava francamente na beleza das coisas. Já não passava as mãos murchas sobre a face - batia com elas rijamente na coxa... Que sei eu?! Era uma reencarnação. E tudo o que me contou, pisando alegremente com os sapatos brancos o soalho, foi que se sentira, ao fim de três dias em Torges, como desanuviado, mandara comprar um colchão macio, reunira cinco livros nunca lidos, e ali estava... − Para todo o verão? − Para todo o sempre! E agora, homem das cidades, vem almoçar umas trutas que eu pesquei, e compreende enfim o que é o Céu. As trutas eram, com efeito, celestes. E apareceu também uma salada fria de couve-flor e vagens, e um vinho branco de Azães... Mas quem condignamente vos cantará, comeres e beberes daquelas serras? De tarde, finda a calma, passeamos pelos caminhos, coleando a vasta quinta, que vai de vales a montes. Jacinto parava a contemplar com carinho os milhos altos. Com a mão espalmada e forte batia no tronco dos castanheiros, como nas costas de amigos recuperados. Todo o fio de água, todo o tufo de erva, todo o pé de vinha o ocupava como vidas filiais que cantavam em certos choupos. Exclamava enternecido: − Que encanto, a flor do trevo! À noite, depois de um cabrito assado no forno, a que mestre Horácio teria dedicado uma Ode (talvez mesmo um Carme Heróico), conversamos sobre o Destino e a Vida. Eu citei, com discreta malícia, Schopenhauer e o Ecclesiastes... Mas Jacinto ergueu os ombros, com seguro desdém. A sua confiança nesses dois sombrios explicadores da vida desaparecera, e irremediavelmente, sem poder mais voltar, como uma névoa que o Sol espalha. Tremenda tolice! afirmar que a vida se compõe, meramente, duma longa ilusão - é erguer um aparatoso sistema sobre um ponto especial e estreito da vida, deixando fora do sistema toda a vida restante, como uma contradição permanente e soberba. Era como se ele, Jacinto, apontando para uma urtiga, crescida naquele pátio, declarasse, triunfalmente: − “Aqui está uma urtiga! Toda a quinta de Torges, portanto, é uma massa de urtigas”. - Mas bastaria que o hóspede erguesse os olhos para ver as searas, os pomares e os vinhedos! De resto, desses dois ilustres pessimistas, um o alemão, que conhecia ele da vida - dessa vida de que fizera, com doutoral majestade, uma teoria definitiva e dolente? Tudo o que pode conhecer quem, como este genial farsante, viveu cinqüenta anos numa soturna hospedaria de província, levantando apenas os óculos dos livros para conversar, à mesa redonda, com os alferes da guarnição! E o outro, o israelita, o homem dos Cantares, o muito pedantesco rei de Jerusalém, só descobre que a vida é uma ilusão aos setenta e cinco anos, quando o poder lhe escapa das mãos trêmulas e o seu serralho de trezentas concubinas se torna ridiculamente supérfluo à sua carcaça frígida. Um dogmatiza funebremente sobre o que não sabe - e o outro sobre o que não pode. Mas que se dê a esse bom Schopenhauer uma vida tão completa e cheia como a de César, e onde estará o seu schopenhauerismo? Que se restitua a esse sultão, besuntado de literatura, que tanto edificou e professorou em Jerusalém, a sua virilidade - e onde estará o Ecclesiastes? De resto, que importa bendizer ou maldizer a vida? Afortunada ou dolorosa, fecunda ou vã, ela tem de ser vida. Loucos aqueles que, para a atravessar, se embrulham desde logo em pesados véus de tristeza e desilusão, de sorte que na sua estrada tudo lhe seja negrume, não só as léguas realmente escuras, mas mesmo aquelas em que cintila um sol amável. Na terra tudo vive - e só o homem sente a dor e a desilusão da vida. E tanto mais as sente, quanto mais alarga e acumula a obra dessa inteligência que o torna homem, e que o separa da restante natureza, impensante e inerte. É no máximo de civilização que ele experimenta o máximo de tédio. A sapiência, portanto, está em recuar até esse honesto mínimo de civilização, que consiste em ter um teto de colmo, uma leira de terra e o grão para nela semear. Em resumo, para reaver a felicidade, é necessário regressar ao Paraíso - e ficar lá, quieto, na sua folha de vinha, inteiramente desguarnecido de civilização, contemplando o anho aos saltos entre o tomilho, e sem procurar, nem com o desejo, a árvore funesta da Ciência! Dixi!

Eu escutava, assombrado, este Jacinto novíssimo. Era verdadeiramente uma ressurreição no magnífico estilo de Lázaro. Ao surge et ambula que lhe tinham sussurado as águas e os bosques de Torges, ele erguia-se do fundo da cova do Pessimismo, desembaraçava-se das suas casacas de Poole, et ambulabat, e começava a ser ditoso. Quando recolhi ao meu quarto, àquelas horas honestas que convém ao campo e ao Optimismo, tomei entre as minhas a mão já firme do meu amigo e, pensando que ele enfim alcançara a verdadeira realeza, porque possuía a verdadeira liberdade, gritei-lhe os meus parabéns à maneira do moralista de Tíbure: Vive et regna, fortunate Jacinthe! Daí a pouco, através da porta aberta que nos separava, senti uma risada fresca, moça, genuína e consolada. Era Jacinto que lia o D. Quixote. Oh bem-aventurado Jacinto! Conservava o agudo poder de criticar, e recuperara o dom divino de rir! Quatro anos vão passados. Jacinto ainda habita Torges. As paredes do seu solar continuam bem caiadas, mas nuas. De Inverno enverga um gabão de briche e acende um braseiro. Para chamar o Grilo ou a moça, bate as mãos, como fazia Catão. Com os seus deliciosos vagares, já leu a Ilíada. Não faz a barba. Nos caminhos silvestres, pára e fala com as crianças. Todos os casais da serra o bendizem. Oiço que vai casar com uma forte, sã e bela rapariga de Guiães. Decerto crescerá ali uma tribo, que será grata ao Senhor! Como ele, recentemente, me mandou pedir livros da sua livraria (uma Vida de Buda, uma História da Grécia e as obras de S. Francisco de Sales), fui, depois destes quatro anos, ao Jasmineiro deserto. Cada passo meu sobre os fofos tapetes de Caramânia soou triste como num chão de mortos. Todos os brocados estavam engelhados, esgaçados. Pelas paredes pendiam, como olhos fora de órbitas, os botões elétricos das campainhas e das luzes: − e havia vagos fios de arame, soltos, enroscados, onde a aranha regalada e reinando tecera teias espessas. Na livraria, todo o vasto saber dos séculos jazia numa imensa mudez, debaixo duma imensa poeira. Sobre as lombadas dos sistemas filosóficos alvejava o bolor: vorazmente a traça devastara as Histórias Universais: errava ali um cheiro mole de literatura apodrecida: − e eu abalei, com o lenço no nariz, certo de que naqueles vinte mil volumes não restava uma verdade viva! Quis lavar as mãos, maculadas pelo contato com estes detritos de conhecimentos humanos. Mas os maravilhosos aparelhos do lavatório, da sala de banho, enferrujados, perros, dessoldados, não largaram uma gota de água; e, como chovia nessa tarde de abril, tive de sair à varanda, pedir ao Céu que me lavasse. Ao descer, penetrei no gabinete de trabalho de Jacinto e tropecei num montão negro de ferragens, rodas, lâminas, campainhas, parafusos... Entreabri a janela e reconheci o telefone, o teatrofone, o fonógrafo, outros aparelhos, tombados das suas peanhas, sórdidos, desfeitos, sob a poeira dos anos. Empurrei com o pé esse lixo do engenho humano. A máquina de escrever, escancarada, com os buracos negros marcando as letras desarraigadas, era como uma boca alvar e desdentada. O telefone parecia esborrachado, enrodilhado nas suas tripas de arame. Na trompa do fonógrafo, torta, esbeiçada, para sempre muda, fervilhavam carochas. E ali jaziam, tão lamentáveis e grotescas, aquelas geniais invenções, que eu saí rindo, como duma enorme facécia, daquele supercivilizado palácio. A chuva de abril secara: os telhados remotos da cidade negrejavam sobre um poente de carmesim e ouro. E, através das ruas mais frescas, eu ia pensando que este nosso magnífico século XIX se assemelharia, um dia, àquele Jasmineiro abandonado e que outros homens, com uma certeza mais pura do que é a Vida e a Felicidade, dariam, como eu, com o pé no lixo da supercivilização e, como eu, ririam alegremente da grande ilusão que findara, inútil e coberta de ferrugem. Àquela hora, decerto, Jacinto, na varanda, em Torges, sem fonógrafo e sem telefone, reentrado na simplicidade, via, sob a paz lenta da tarde, ao tremeluzir da primeira estrela, a boiada recolher entre o canto dos boieiros.

O Tesouro I Os três irmãos de Medranhos, Rui, Guannes e Rostabal, eram então, em todo o Reino das Astúrias, os fidalgos mais famintos e os mais remendados. Nos paços de Medranhos, a que o vento da serra levara vidraça e telha, passavam eles as tardes desse inverno, engelhados nos seus pelotes de camelão, batendo as solas rotas sobre as lajes da cozinha, diante da vasta lareira negra, onde desde muito não estalava lume, nem fervia a panela de ferro. Ao escurecer

por uma silenciosa manhã de domingo. de longa guedelha e com uma barba que lhe caía desde os olhos raiados de sangue até à fivela do cinturão. caía sobre uma vasta laje encravada. enquanto as três éguas pastavam a relva nova de abril. mal decifrável através da ferrugem. jazia um velho pilar de granito. Ora. com os seus tremendos espadões entre os joelhos. estalaram a rir. corria um dístico em letras árabes. tremiam. aos dados. os três senhores ficaram mais lívidos do que círios.devoravam uma côdea de pão negro. − os irmãos de Medranhos encontraram. até às bordas.. numa desconfiança tão desabrida que Guannes e Rostabal apalpavam nos cintos os cabos das grandes facas. aquele cofre tão cheio? Nem convinha que saíssem da mata com o seu bem. Mas Guannes não se arredava do cofre. Vinho e carne eram para eles. puxando entre os dedos a pele negra do seu pescoço de grou. Por fim. um fio de água. que tirara o sombrero e lhe cofiava as velhas plumas roxas. três maquias de cevada. com os olhos a flamejar. sob a segurança da noite sem Lua.. ganhou os cem ducados ao espadeiro de Fresno. em roda. E dentro. não quisera descer com eles à mata de Roquelanes. Eu quero fechar a minha fechadura e levar a minha chave! − Também eu quero a minha.. antes de se escoar para as relvas altas. Um cheiro errante de violetas adoçava o ar luminoso. E de novo recuaram. Decerto. como um árbitro.. nessa manhã. estava cheio de dobrões de ouro! No terror e esplendor da emoção. tivesse achado este ouro. brotando entre rochas. ou viesse de Deus ou do demônio. Depois. e só entre eles dois se dividiria o ouro! Grande pena! Tanto mais que a parte de Guannes seria em breve dissipada. para os cimos da serra.gritou Rostabal. meteu pela vereda de olmos. antes de cerrar a escuridão. . e o mais avisado. iam dormir à estrebaria. na Primavera. bocejava com fome. brutalmente: − Manos! O cofre tem três chaves.gritou Rui. E ao lado. esfregada com alho. E assim era a sorte ruim! Pois que se Guannes tivesse quedado em Medranhos. passando aqui sozinho. E Rostabal. roíam as traves da manjedoura. esfaimadas como eles. se te lembras. II NA clareira. dando um puxão às barbas negras: − Não. só eles dois teriam descoberto o cofre. começou a considerar.. Mas como poderiam carregar para Medranhos. Quando o ano passado. na sombra de uma faia. resplandecendo. a comprar três alforges de couro. decerto! A cada dono do ouro cabia uma das chaves que o guardavam. numa cova de rocha. por trás de uma mouta de espinheiros. E a miséria tornara esses senhores mais bravios que lobos. sem candeia. cerrou a sua fechadura com força.. pelas tavernas. E cada um em silêncio. que era gordo e ruivo. saltou na égua. mil raios! Guannes é sôfrego. e começou por decidir que o tesouro. Como se o resguardasse uma torre segura. − Bem tramado! . ensacariam o ouro nos alforges e subiriam para Medranhos. levando já ouro na bolsinha. que as folhas tenras dos olmos. onde fazia como um tanque. mergulhando furiosametne as mãos no ouro. devia trotar para a vila vizinha de Retortilho.rugiu logo Rostabal. desanuviado. na sua fala avisada e mansa. como mais leve. com rufiões. enrugado. claro e quieto. pertencia aos três. não dividia conosco. pesando-se o ouro em balanças. desconfiado. Pela ramaria andava um melro a assobiar. nem me quis emprestar três para eu comprar um gibão novo! − Vês tu! . homem mais alto que um pinheiro. a caminho de Retortilho. Sobre a tampa. Por isso ele entendia que o mano Guannes. Rui sorriu. As duas éguas tosavam a boa erva pintalgada de papoilas e botões de ouro. num riso de tão larga rajada.. Ali vieram sentar-se Rui e Rostabal. através do pátio. Rostabal! O outro rosnou surdamente e com furor. e entre eles se repartiria. mil raios! . agachado ante o cofre. Imediatamente Guannes. tombado e musgoso. rigidamente. olhando o sol. Então Rui. que Guannes. Depois. para aproveitar o calor das três éguas lazarentas que. que não comiam desde a véspera: a cevada era para as éguas. atirando aos ramos a sua cantiga costumada e dolente: Olé! Olé! Sale la cruz de la iglesia. fendendo a neve. conservava as suas três chaves nas suas três fechaduras. Vestida de negro luto. senhores e cavalgaduras. E assim refeitos. bruscamente se encararam. três empadões de carne e três botelhas de vinho. um velho cofre de ferro. Rostabal! Se Guannes.. andando todos os três na mata de Roquelanes a espiar pegadas de caça e a apanhar tortulhos entre os robles. em frente à mouta que encobria o tesouro (e que os três tinham desbastado a cutiladas). − Ah! Rostabal. ergueu os braços. Então Rui.

há um sítio bom. Rui. E. − Malvado! − Vem! Foram. que já se inclinava para as serras. como tosse! Ao redor da palha em que dorme. Sem um rumor na selva espessa. como um leito de torrente. .. e para tu teres ginetes. Então Rui tirou.. Rostabal. carregada com os alforjes novos que Guannes comprara em Retortilho. abandonado. recomeçou a pastar.Rostabal adiante. que os deslumbrava. de lâmina alta. Rui agarrara o braço do irmão e apontava para a vereda de olmos. Rui solevou o corpo . que és o mais forte e o mais destro. − Pois que morra. Rostabal rompeu de entre a sarça por uma brecha. que dominava o atalho. E Rostabal. como se pregasse uma estaca num canteiro. respirou deliciosamente. a face e as barbas.e um sangue mais grosso jorrou. − E para quê . Um vento leve arrepiou na encosta as folhas dos álamos . ruidosamente. ambos largaram pela vereda . Já Rui se arremessava aos freios da égua: − Rostabal. − Queres! Vivamente. a cantiga dolente e rouca. − Para que serve todo o ouro que nos leva! Tu não o ouves.bradou Rostabal. por onde Guannes partira cantando: − Logo adiante. enterrou a folha toda no largo dorso dobrado. arreganhando a longa dentuça amarela. a sua larga navalha. como levados pela mesma idéia. Um bando de corvos passou sobre eles. Rostabal arremessara para a relva o sombrero e a espada. surdiam dois gargalos de garrafas. atrás. certeira sobre o coração. por não saberes a letra nem os números. coçando a barba. atirada aos ramos: Olé! Olé! Sale la cruz de la iglesia Toda vestida de negro. A sua velha escarcela de couro ficara entalada sob a coxa.. que arquejava. deslizou até Rostabal.gritou Rui. Enfim! Alerta! Era. quieta. E serenamente. Com um surdo arranco. E é justiça de Deus que seja tu. fugindo. no peito e na garganta. caindo sobre Guannes. os longos cabelos flutuando na água. todo o chão está negro do sangue que escarra! Não dura até às outras neves. ao comprido das sebes. e debruçado sobre a laje escavada em tanque. recomeçou a bocejar. sobre as pedras. e morra hoje! . tinha já a espada nua. agarrada pela folha como um punhal. Rostabal caiu sobre o tanque. abarrotado. com as longas barbas pingando. não queria deixar o seu amo assim estirado. lentamente. que lhes seguira o voo. do cinto. − A chave! . com fome. A égua. sem pudor. fumegando. lavava. como se perseguisse um mouro. as três chaves do cofre!. nos silvados. pensando nos empadões e no vinho que o outro trazia nos alforges. bruscamente. grasnando. III AGORA eram dele. de novo lhe mergulhou a espada. que. ele se virara na sela. tombou de lado. e Rui.. sem um gemido.Ambos se tinham erguido do pilar de granito. ao fim do trilho. a espada ainda nua entalada sob o braço. para levantarmos a nossa casa.. calculava as horas pelo sol. quando ao rumor. Rui. nas tavernas. as ervas altas silvavam. o mais velho dos de Medranhos. Rui murmurou: − “Na ilharga! Mal que passe!” O chouto da égua bateu o cascalho. de patas fincadas no chão pedregoso. só dele. arrepiado com o sabor de sangue que lhe espirrara para a boca.. Rostabal. Um golpe de ponta pelas costas. atirou o braço. com a face na água. através das suas largas passadas. − e toda a lâmina se embebeu molemente na ilharga de Guannes. como tu. que resfolgava. estreito e pedregoso. Do mais largo. de mangas arregaçadas. Teve de lhe espicaçar as ancas lazarentas com a ponta da espada: − e foi correndo sobre ela. Guannes te tratava de cerdo e de torpe. Ambos se emboscaram por trás dum silvado. Para tirar de dentro a terceira chave do cofre. com a pluma do sombrero quebrada e torta. todo encolhido. alargando os braços. uma pluma num sombrero vermelhejou por sobre a ponta das silvas. de noite.prosseguia Rui. escorreu pela borda do tanque. como compete a quem é. e armas. assolapado na vala. que muitas vezes. e o teu terço de solarengos. E hás-de ser tu. puxando desesperadamente os freios da égua. E arrancada a chave do cofre ao seio do morto. e trajes nobres. na vereda. a longa espada.e sentiram o repique leve dos sinos de Retortilho. Rostabal! Mas até lá terá dissipado os bons dobrões que deviam ser nossos. que desembocou na clareira onde o sol já não dourava as folhas.

Dois corvos de entre o bando que grasnava. como? Como devem morrer os Medranhos . além nos silvados. que se lhe acendera dentro. caiu para cima da relva que arrancava aos punhados. para três convivas. na vereda. com o ouro metido nos alforges. Já rasgara o gibão. A tarde descia. subiria a Medranhos e enterraria na adega o seu tesouro! E quando ali na fonte. não bebeu porque a jornada para a serra. ergueu a tampa. pensativa e doce. onde teria sempre mulheres. na sua solidão das montanhas da Úmbria.nem esquecera azeitonas. Puxou uma das éguas para junto do cofre. largando os dobrões que retilintaram no chão. mais forte.completara a perfeição em todas as virtudes evangélicas. Frei Genebro. mesmo antes de comprar os alforges.Mal a noite descesse. Frei Genebro I NESSE tempo ainda vivia. D. bebeu em sorvos lentos. com as penas abertas. e entre elas a ave loura. dono de todo o tesouro. lhe subia até às goelas. já tinham pousado sobre o corpo de Guannes. só restassem. seu amigo e seu discípulo. Mas por que trouxera ele. guiando a fila das éguas pelos trilhos da serra. e levou as duas mãos aflitas ao peito. cantando. para lhe sugar a frescura. Mas.. com o tesouro. como se fosse um metal derretido. na mata de Roquelanes. o divino Francisco de Assis . só duas garrafas? Rasgou uma asa do capão: devorava a grandes dentadas. arranhando a rocha. pensava em Medranhos coberto de telha nova. ele arrancava da sua alma as raízes mais miúdas do Pecado. apenas chegara a Retortilho. mas oscilou. Cambaleou até à fonte para apagar aquela labareda. e um gordo capão assado. nas altas chamas da lareira por noites de neve. Estendido sobre o cotovelo. o tornaria a ele. berrou como se compreendesse enfim a traição. Meio enterrada na erva. descansando. alguns ossos sem nome. entre uivos. misturado ao vinho. o roía! Gritou: − Socorro! Além! Guannes! Rostabal! Os seus braços torcidos batiam o ar desesperadamente. ele seria o magnífico senhor de Medranhos. A fonte. toda a face de Rui se tornara negra. Anoiteceu. E a chama dentro galgava .e já por toda a Itália se louvava a santidade de Frei Genebro. Que é. E pondo o gargalo à boca. que tão prontamente aquecia o sangue! Atirou a garrafa vazia . na verdade. um bando de corvos grasnava. esbugalhando pavorosamente os olhos. Que puro ouro. a ele somente.sentia os ossos a estalarem como as traves duma casa em fogo. Pela abundância e perpetuidade da Oração. com o focinho pendido. que rescendia. sob as neves de dezembro. com nuvenzinhas cor-de-rosa. e foi com o joelho fincado no morto.a pelejar contra o Turco! Abriu as três fechaduras. correra cantando a uma viela. e onde só podem brotar . tomado de uma ansiedade. O tesouro ainda lá está. teve pressa de carregar os alforges. lavando o morto. todo o horror: − É veneno! Oh! D. que ele. mordendo os dedos. E a fonte cantava. lavava o outro morto. e na capela nova do solar renascido mandaria dizer missas ricas pelos seus dois irmãos mortos. E há quanto tempo não provava capão! Com que delícia se sentou na relva. de fino quilate! E era o seu ouro! Depois de examinar a capacidade dos alforges . Oh vinho bendito. procurava o fio de água. que alastrava. pelos cabelos. tomou um punhado de ouro.e encontrando as duas garrafas de vinho. Para além. Ainda se ergueu. e além rente aos silvados. Desde a véspera só comera uma lasca de peixe seco. como era avisado. Mas a água mais o queimava.. Mortos. a comprar ao velho droguista judeu o veneno que. era veneno! Porque Guannes.. atirava os passos incertos e. um lume vivo. a arquejar. Recuou. e tornava-a limpa e cândida como um desses celestes jardins em que o solo anda regado pelo Senhor. e o vinho cor de âmbar! Ah! Guannes fora bom mordomo . não teria custado menos de três maravedis. sentiu uma imensa fome. Já entre os troncos a sombra se adensava. com uma baba densa a escorrer-lhe nas barbas: e de repente. De repente. que lhe faziam ondular o pescoço peludo. Oh Virgem Mãe! Outra vez o lume. o avisado.destapou outra. apanhou um punhado de dobrões. e o seu leito com brocados. Rui ergueu à luz a garrafa de vinho. Uma estrelinha tremeluzia no céu. que recebia sobre os olhos. que fez retinir sobre as pedras. e que mordia. As éguas fartas dormitavam.. Rui. requeria firmeza e acerto. por detrás da catedral. Rui! Raios de Deus! era um lume. tropeçou sobre Rostabal. com a língua pendente. Com aquela cor velha e quente. limpava as grossas bagas dum suor horrendo que o regelava como neve.

apenas se percebia. encolhido em farrapos. o papa Honório beijara as feridas de cadeias que lhe tinham ficado nos pulsos.açucenas. digo. cantando e regando as alfaces do seu horto. Frei Genebro pensou nos lobos e lamentou o sono do pastor descuidado. afugentou os moscardos que zumbiam sobre a rude face adormecida e continuou a trepar a colina. muitas vezes. Os bravios barões. padecera a escravidão. Depois da poeira e ardor do caminho de Espoleto. conservando ainda alguma seteira esburacada sob o céu ou. as ruínas do castelo de Otofrid. era doce a larga sombra dos castanheiros e a relva que lhe refrescava os pés doridos. certamente! Aquele . as mais pavorosas ou as mais deliciosas. tantos bens inesperados. o seu podão e a sua enxada. acolhiam reverentemente e curvavam a cabeça a esse franciscano descalço e mal remendado que lhes ensinava a mansidão.. Mas havia meses que com ele entrara um cansaço. espreitava por meio das silvas bravas. onde os restos do castelo Lombardo se erguiam. com os seus talhões de couve e estacas de feijoal. com o seu alforge. a colina frondosa. entre alfazema cheirosa. Mas será pecado? Frei Genebro. porque sobre o murozinho de pedra solta ficara pousado o seu cântaro. esticando o pescoço de dragão. e os bacorinhos correndo em torno às tetas das mães. se àquela hora de sesta estivesse recolhido e orando. Em breve avistou. pensou no seu amigo Egídio. outros redondos. com efeito. se viera estender naquele canto para acabar. arrepanhando para o peito as folhas secas em que jazia. telhada de colmo que lascas de pedra seguravam. largou a estrada. para o não importunar. ressonando consoladamente. e começou a subir. e tão definhado que a sua face. que mais parecia cova de bicho. Egídio não andaria afastado. antigo noviço como ele no mosteiro de Santa Maria dos Anjos. pois que o Senhor me trouxe. − Irmão Egídio! Do fundo da choça rude. desde a véspera! Só na véspera. que não tinha loquete para ser mais hospitaleira. fora tão dura e alta que já não temia o Tentador. que lhe sorria e murmurava: − Bons-dias.. dormia. roncando e foçando as raízes. o seu cajado. e ali habitava uma cabana de colmo. aquela frescura. de cerdas duras. em verdade vos confesso. Na sua humilíssima humildade não se considerava nem o igual dum verme. indo esse admirável mendicante de Espoleto para Terni. o pobre ermitão murmurou: − Meu bom Frei Genebro. e agora. lentamente. Com infinita caridade e doçura o abraçou. depois de olhar uma derradeira vez para o Sol e para a a sua horta. sussurrava e luzia um fio de água. com as asas escondidas. um pedaço de porco assado!. só com o sacudir a manga do hábito. que decerto por ali guardava porcos. − E dizei. o riacho que fugia entre os aloendros em flor. E como nessas idades os anjos ainda viajavam na terra. como se fossem apenas moscas importunas. meu irmão! Frei Genebro acudiu em grande dó. era como um pedacinho de velho pergaminho muito enrugado. Frei Genebro empurrou a porta de pranchas velhas. à tarde. No fim da mata começava a rocha. Estendido ao lado. irmão Genebro! Ora um dia. durante vinte anos de claustro. encontrou o bom ermitão estirado num monte de folhas secas. não sei se é pecado. passou embaixo. aquela sombra. entre aqueles escuros granitos. o rebanho de porcos. O bom frade bebeu de leve. arrimados a um bordão.. espalhados sob as frondes. que nem podia segurar a bilha cheia quando voltava da fonte. um homem. com a sua imensa misericórdia. que pela alma bastante tendes vós feito na virtude desta solidão! Gemendo. junto das muralhas derrocadas. e avistando no azul e no sol da manhã. mas toda esta noite. irmão Egídio? Louvado Deus. como se fossem dobras dum lençol. me apeteceu comer um pedaço de carne. uns magros e agudos. − E há quanto tempo. nas ervas húmidas. do ano em que na Mourama. que posso eu fazer pelo vosso corpo? Pelo corpo. E docemente. Em Roma. numa esquina de torre.. em S. numa rocha onde se esguedelhavam silvados. irmão Egídio. pela horta que em frente verdejava. A meia encosta. veio um lento gemido: − Quem me chama? Aqui neste canto. porque vestia um grosso surrão de couro e trazia. com o focinho curto afogado em gordura. A cabana do ermitão. uma goteira que. a sua caridade não se derramava somente sobre as misérias do pobre. cujas negras torres esmagavam a Itália. A sua penitência. trilhando uma velha estrada pagã ou atravessando uma selva. E como mais de três anos tinham passado desde que visitara o bom Egídio. Benéfica e universal à maneira de um orvalho de Verão. logo o tranquilizou. uma buzina de porqueiro. perdido entre os flocos das barbas brancas. sobre as alpondras. A morrer. por amor dos escravos. agradecendo ao Senhor aquela água. no vale. há quanto tempo neste abandono. mas sobre as melancolias do rico. outrora farta e rosada. rechaçava as tentações. João de Latrão.. sobre uma colina coberta de carvalhos. que se retirara àquele ermo para se avizinhar mais de Deus. revestidos de hera. porque a sua virtude era amena. Pecado? Não. ele encontrava um moço de inefável formosura. pendurada da cinta. neste canto a morrer!. luzidios e cor-de-rosa..

convertia os bandidos. com os olhos a reluzir de caridade e de amor. decepou. consolado. Entre duas pedras acendeu uma fogueira. Não ordenava ele aos seus discípulos que comessem as boas coisas da terra? O corpo é servo. no vosso transe. manda de longe o socorro. que bem sei como vos vou contentar! E imediatamente. . deixando a rês a arquejar numa poça de sangue. anunciava com vozes festivas e de boa promessa: − Já vai alourando o porquinho. debruçado sobre ele. tendo coberto Egídio com um pedaço de manta e posto. enquanto lhe partia as febras gordas. que bem lhe fizera! O Senhor. que não admite tardança. correu pela colina. oferecendo um alívio a cada dor. sem descanso. meu irmão. ou porque o seu espírito. que também ele comeria regaladamente daquele excelente porco. alargando a esperança dos pobres. Retomou a estrada. Egídio deu um suspiro. Frei Genebro pensava quanto era magnânimo o Senhor em permitir que um homem. a perna por onde o agarrara. por tortura. cercado de frescas folhas de alface. recebesse tão fácil consolação duma perna de cerdo assada entre duas pedras. porque era aquele um serviço do Senhor. aguçou em espeto. acariciando as mãos transparentes do ermitão. em Santa Maria dos Anjos. Através de toda a Itália. Deus vos vele entretanto.que. correu à cabana.Pois sossegai. a atividade da sua virtude. a peça de carne já o Senhor a deu! E eu. meu irmão! Com uma galinha inteira me atochei! E depois uma fritada de ovos! E de vinho branco. estendendo um perdão a cada culpa: e com a mesma caridade com que tratava os leprosos. Depois. recaiu no seu leito de folha seca. Arredou das pobres faces maceradas os cabelos que o suor da fraqueza empastara. até aos densos castanheiros onde encontrara o rebanho de porcos.. meu santo! Entrou enfim na choça. pregou o Evangelho Eterno. E. raro em terra de mortificação. desagrada ao Senhor. marchou para Terni. na sua justiça. vós não podeis ficar neste abandono. Com zeloso carinho assou a perna do porco. enquanto lhe sufocava o focinho e os gritos. com as mãos salpicadas de sangue. O seu imenso amor ia ainda para além dos que sofrem. o piedoso homem galgou a colina. bom e leal serviço. aos . Então. Arregaçando as mangas do hábito.. Genebro ajoelhado. Que bem lhe fizera. E prodigiosa foi. feito à sua imagem augusta. irmão querido. irmão Egídio! A pele já tosta. para que preste ao espírito. adoçando a aspereza dos ricos. tendo pago aquele derradeiro salário ao corpo. e por suas mãos lhe apanhou os melhores cachos. com o podão sangrento. agarrou o afiado podão que pousava sobre o muro da horta.. − É um pedaço de porco assado que apeteceis? . ia afirmando. triunfalmente. se não tivesse almoçado à farta na Locanda dos Três Caminhos Mas nem bocado agora me podia entrar. que tremia e se babava de gula. a buzina do porqueiro ressoava agora num toque de alarme e de furor.. contra as aragens da tarde. Deus vos sossegue e vos ampare com a sua mão direita! Mas Egídio cerrara os olhos. já tão doentinho. seu amo. Eu vou levado por obra de Jesus. um quartilho! E o santo homem mentia santamente . Farto. Na horta do ermitão arrancou uma estaca do feijoal. e está na vontade divina que as suas forças sejam sustentadas. o bom Francisco de Assis logo o conduziu à vinha. o Senhor que. Tanta era a sua caridade que para dar a Egídio todos os antegostos daquele banquete. surpreendeu um bacorinho desgarrado que focava a bolota. com o assado que fumegava e rescendia. era bom cozinheiro. Quando Frei Silvestre. ou porque adormecera. ambos louvaram. para os lados onde andava o rebanho. vezes inumeráveis dava. Ternamente. tomou o seu bordão. pagasse a seu irmão Genebro aquele pedaço de porco! Até sentia a alma mais rija para a temerosa jornada. desabou sobre ele e. e tapado. finda a sua obra na terra. desde madrugada. nem se moveu. E aí. com dois golpes certeiros do podão. a toda a necessidade solitária. Sob a fronde. como a um bom servidor.. para que o bom Egídio se não vexasse com a sua voracidade e tão carnal apetite. Mas passarei no convento de Sambricena e darei recado para que um noviço venha e cuide de vós com amor. recusa ao seu corpo um contentamento honesto. Estugando o passo. para sempre partira. a fresta da cabana. a seu lado.. E o ermitão com as mãos postas. descobrira o seu porco mutilado.. depois de os abençoar para serem mais sumarentos e mais doces. murmurou: − Meu bom irmão. desde esse dia. Decerto acordara. sentira aquele longo desejo de uvas moscatéis. Durante as invernias e a neve. andando sorrateiramente de tronco para tronco. não provara mais que um magro caldo de ervas. desceu a colina dos grandes carvalhos. até àqueles que pecam.porque. a perna do porco bem alta a pingar sangue. ardentemente. Frei Genebro. recebido por esmola à cancela de uma granja. Frei Genebro abençoou o velho. a bilha cheia de água fresca. que.exclamava risonhamente o bom Frei Genebro. e mais ligeiro que um gamo. gritou para dentro alegremente: − Irmão Egídio. ajudou a sentar o velho..

as suas alpercatas. subindo espalhada à maneira duma aurora. Deu logo a um pobre. ele se despojava sorrindo. o deitassem sobre uma camada de cinzas. e mais radiante. por que me não manda a mim o padecimento bendito? De madrugada pediu que abrissem. mais fusca. implorou que o enterrassem num sepulcro emprestado como fora o de Jesus. Para remir servos que penavam sob um amo fero. esfaimado. E por baixo estendia-se uma sombra cada vez mais baça. para além dos universos transitórios e de todos os rumores siderais. com a sua sacola nos joelhos. uma vasta mão luminosa que sobre ele se abria e faiscava. só se queixava de não sofrer: − O Senhor que tanto sofreu. agora. um Grande Anjo penetrou diafanamente no curral e tomou. ela contemplava. na frescura e silêncio. até que resplandecia num fulgor tão sublime que nela um sol coruscante seria como uma nódoa pardacenta. desmaiou. agachado nos lodos do caminho. sem contorno e sem cor. Deleite maior. as nuvens. uma tarde. Assim. que se estende para me acolher ou para me repelir. transpôs. nos descampados. tiritando. num voo sereno. tudo o que no mundo lhe restava. se adiantava. as únicas alegrias completas: nada o deliciava mais do que chegar de noite. durante as lides mais pesadas. tudo trrespassava e tudo compreendia. numa ladeira deserta. o hábito franciscano ainda a cobria. as confrarias saíram ao seu encontro. oferecendo os seus braços como alavancas incansáveis. aquela região em que o Anjo parara. sentir a humilhação. com os olhos alagados de ternura. estando a descansar nos degraus de Santa Maria dos Anjos. a parte dos deserdados. e tão depressa. onde se rolou e se sujou. a sua mão direita. deslizou por sobre o prado fronteiro tão levemente que nem roçava as pontas orvalhadas da relva alta. Sentindo então que ia terminar a sua jornada terrestre. bem largo. com um resto de poeira e de cinza nas pregas rudes. seu senhor. quis que o levassem para um curral. que vos deu essa árvore para que nela habiteis. que ali rezava a Ave-Maria. cada vez mais branca. em meio das multidões. para ele. como na doçura de um berço. a vós e aos vossos filhinhos!” Depois. para que daqueles que o vinham engrandecer só recebesse compaixão e escárnio. era. em nome de Deus. abrindo as asas. com um olhar novo que. No domingo. com bandeiras festivas. que era um volume do Evangelho. em Perusa. fraternalmente. Frei Genebro morreu. Contamplou o céu que clareava. e toda esta limpa água para nela beber. lhes recomendara que louvassem sempre o Senhor! “Meus irmãos. para evitar o escândalo da sua nudez através das cidades. mais cinzenta. Era um espaço sem limite. como têm sequer os bichos do mato. porém. cantai bem o vosso Criador. ensinar e servir. mas porque na prece encontrava um deleite adorável. Depois. II LOGO que ele cerrou os olhos carnais. ante qualquer esfarrapado. onde reluzissem armas.mendigos. consentiu que o limpassem dos seus trapos. de crianças famintas. Por cima começava uma claridade. mastigando um punhado de ervas cruas. eram. num deslumbramento. o mestre incomparável se detivera ante uma árvore cheia de pássaros e. andando com Francisco de Assis à beira do lago de Perusa. na primeira esquina. ao repique dos sinos. a alma de Frei Genebro. a uma opulenta abadia feudal e ser repelido da portaria como um mau vagabundo: só então. longos anos errou entre os homens. nos braços. Pensativo. Cercado de viúvas. na fina luz da madrugada. recordou uma manhã. na igreja. radiantes e níveas. e amansava as discórdias. os açougues. jovialmente. até que formava como um . em que. e mais luzente. para o franciscano. sorrindo. arrancava do altar os candelabros de prata. escutou as andorinhas que. a sua túnica. aliviava uma pobre velha da sua carga de lenha. muito usado e manchado das suas lágrimas. Em santa obediência ao guardião do convento. lhe vestissem um hábito novo: mas. invadia as padarias. em véspera de Páscoa. Aninhada nos seus braços. e. um covil para se abrigar. orava constantemente. Durante um momento. no ar liso e branco. meus irmãos passarinhos. as damas devotas de novo o vestiam. ele correu para um monte de esterco. os abades dos mosteiros ricos. que não tivera também. beijando humildemente a manga do monge que o amparava. não por obrigação. vertendo o seu coração como a água de um rio. assim de silêncio e frescura. e. Sofrer. com o peito aberto. todo o céu que os homens conhecem. e reclamava imperiosamente. começavam a cantar sobre o beiral do telhado. a alma de Genebro conservava a forma do corpo que sobre a terra ficara. ao levantar da Hóstia. como numa cidade revoltada. o portão do curral. e sem demora. ele se reconhecia verdadeiramente irmão de Jesus. até as tendas dos cambistas. suspirando. e essas penas bem quentes para vos agasalharem. avistou de repente. molhado. afirmando. E. Nos claustros. penetrava nas igrejas. murmurou: − Eis a mão de Deus. que mais apraz a Deus uma alma liberta que uma tocha acesa. Enfim. os astros. Quando um dia.

balançando palmas verdes. A Terra existia desde que a Luz se fizera. não se movia também.. das alturas. Oh! Contentamento e glória! Carreado com as suas Boas Obras. Assim o afirma. supremamente se estendia para o acolher ou para o repelir. subitamente. negrejando mais que carvão. formando como uma montanha de neve. crescendo no fundo dos lodos. Era a mão de Deus. a 23. abafada numa névoa densa. E a alma de Genebro perfeitamente sentia que estava ali. tão pesada que forçava o prato luminoso a subir. a morrer. Mas já não era essa Terra primordial. cresceu. E na região que se cavava sob os pés do Anjo. no fundo daquele prato que inutilizava um Santo. E na extática mudez. outro. Patrício. arquejando. Mas o prato diamantino começou a descer lentamente. No dia 28 já . com as asas trementes. que um Santo novo enriquecia.. erguendo. lançou um gesto que repelia. se abastecera e se enfeitara. aureolado por um clarão. Lá estavam as incontáveis esmolas que semeara no mundo. temeroso. alvejava magnìficamente as suas virtudes evangélicas.. arfou. mais triste que a noite. parda e mole.. às 2 horas da tarde. duro. que aparecera a Genebro na escada de Santa Maria dos Anjos e que. de inconsolável tristeza. alargou os braços e deixou cair. Entre os braços do Anjo. Já das profundidades. toda ela se completara. muito silenciosa. apenas surdamente revelada pelo remexer de bichos obscuros. Então o Anjo. abrindo os dedos que faiscavam. espargindo claridade. rolou. ele descia. durante os dias genesíacos de 26 e 27. a alma de Genebro estremeceu. um pobre porquinho com uma perna barbaramente cortada. com majestade. numa poça de sangue. cinzenta. finalmente. Que Má Ação de Genebro trazia ele. Entre essa refulgência ascendente e a escuridão inferior. que as suas grossas cordas se retesavam. Genegro. nas alturas. através das alturas. Então. como se a montanha de Boas Ações que nele transbordavam fossem um fumo mentiroso? Os Serafins recuavam. Não! agora. E a alma de Genebro anteprovou as delícias da BemAventurança. a sua mão direita. inútil. Arcebispo de Armagh e chanceler-mor da Sé de S. molemente e sem rumor. inexorável. o prato negro oscilou como a um peso inesperado que sobre ele caísse! E começou a descer. à maneira duma deslumbrante névoa de ouro. sem cor e quase sem forma. parara . fazendo uma sombra dolente através da celestial claridade. Um frêmito de alegria passou na luz do Paraíso. agora desabrochadas em alvas flores. O prato. para acolher condignamente o Predestinado que vinha. vazio. o muito douto e muito ilustre Usserius. o Anjo que o trouxera. tão miúda que nem se avistava. Toda a luz e toda a sombra. foi criado no dia 28 de Outubro.e aquela era a milícia divina que o acompanharia cantando. remontar ligeiramente. lá em cima. baixando a face compadecida. agora. o prato das Boas Obras parou. Cada uma das suas penitências cintilava mais lìmpidamente que cristais puríssimos. com uma vida toda escondida. ensopada em águas barrentas. E os Serafins. rangiam. como a onda duma maré devoradora. da cor do carvão. Sereno. se contraíram num recolhimento de inexprimível amor e terror. na manhã de todas as manhãs. gelatinosos. para receber o peso das suas Obras Más. tendo a majestade de um astro. esquecido. com as cordas retesas. calmo e majestoso. E entre elas. aqui e além.. sonoros bandos de Serafins voavam. esperando também. surgiu uma vasta mão. nos seus Annales Veteris et Novi Testamenti. na escuridão do Purgatório. Subitamente. insondável tristeza.. O outro.espesso crespúsculo de profunda. Pai dos Homens. entre o Purgatório e o Paraíso. O animal mutilado pesava tanto na balança da justiça como a montanha luminosa de virtudes perfeitas! Então. permanecera o Anjo imóvel. negro. com as asas fechadas. firme. Bispo de Meath. A sua humildade era um cimo. Na alma de Frei Genebro correu um arrepio imenso de terror. desde o Paraíso fulgente ao Purgatório crepuscular. com a sua carga preciosa. a vasta mão. uma massa de sombra. descobriram. rígidos troncos duma só folha e dum só rebento. Tão pesado vinha. muito solitária. um porco. O pobre franciscano ia entrar triunfalmente no Paraíso . no alto. E a sua oração perene subia e enrolava-se em torno das cordas. cheias de aroma e de luz.. O negro prato descia.um que rebrilhava como diamante e era reservado às suas Boas Obras. porém.. Adão e Eva no Paraíso I ADÃO. a alma de Frei Genebro.parara em pavoroso equilíbrio com o prato que rebrilhava. apareceram os dois imensos pratos duma Balança .

E bem podemos pensar que. Essa rudimentar compreensão só trouxe a nosso Pai venerável turbação e terror.. e lançou um passo forte. em caminho para a Humanização. sem sardas. nesse instante o criou. Mas (se os Compêndios de Antropologia nos não iludem) os primeiros passos humanos de Adão não foram logo atirados. sobre as pernas arqueadas. Para transpor os regatos. Mateus de Florença. E. o nutriram e o embalaram. e arqueia o pulo. tremeu e gritou como criancinha perdida em arraial turbulento. arrancando dos pórfiros um brilho mais vivo.. e gostosamente se roça pelos pesados cachos de flores que lhe orvalham o pêlo. Não. quando Jeová o ajudou com carinho a descer da sua Árvore! E todavia. ainda colhe as bagas sumarentas. ainda despega com custo a pata de entre o folhoso chão de fetos e begônias.. e se balança. sem cessar se moviam. arrepiando o pêlo das feras. os rebentões mais tenros. todas as aves voando pelos ares aclarados. mesmo através do tremor e do espanto. E receio bem que. durante oito horas. as ervas verdes de espiga madura. e alargou os braços livres. As suas pupilas amarelas. e sentiu a sua dessemelhança da Animalidade. perpassou por toda a Criação. nessa tarde de Outono.. dentro do seu crânio bisonho. procuram para além o mundo que deseja e receia. de fino âmbar. escorregou pelo tronco comido de hera. onde faísca o Querer. segundo o cálculo majestático de Usserius. que por todo o bosque reluzem e sussurram depois da sazão das chuvas. nos lascivos dias da ilusão. envolvido pelas influências da Floresta. rareando apenas em torno dos cotovelos. tufando sobre as orelhas agudas. e verdadeiramente foi! Deus. que. vincado de rugas. a cobria com o fulgor dos seus olhos. nenhuma o apavorava mais que a dessas mesmas árvores onde vivera. Todas as tradições. Entre as rombas queixadas. com pesada indolência. como o noivo dos Cantares. todos os peixes nadando nos mares resplandecentes. onde o couro aparecia curtido e da cor de cobre fosco. através tão longas idades. de todas as Formas.a Energia Inteligente que o ia trôpegamente levando. amorosamente. meus amigos. maciço corpo. vai surgindo. Ele ainda se não submetera à imobilidade augusta que lhe impôs mais tarde. Adão caminhou para o Paraíso.. Um pêlo crespo e luzidio cobria todo o seu grosso. quando a aragem restolhasse pela espessura. envolvera a terra. numa floresta muito cerrada e muito tenebrosa. rompia uma guedelha rala e ruiva. mestre Galileu. Era medonho. onde gozara as doçuras da irresponsabilidade. afiadas rijamente para rasgar a febra e esmigalhar o osso. empecendo a sua marcha. rente aos muros do Convento de S. pousou as duas patas no solo que o musgo afofava. à maneira que a penumbra das folhagens clareia. para fora da mata onde passara a sua manhã de longos séculos a pular e a guinchar por cima dos ramos altos. o sentimento das Formas diferentes e da Vida diferente que as anima. muito novo. coroado de sal-gema. que o amparara. estirados em focinho. concordam em que Adão. descido da inconsciência da árvore. o Sol ainda girava em torno da Terra.apareceu perfeita. na sua entrada inicial pelas planícies do Éden. agora que as reconhecia como seres tão dessemelhantes do seu Ser e imobilizadas numa inércia tão contrária à sua Energia. nesses olhos redondos. não seriam braços fortes que se estendiam para o empolgar. corria em volta da Terra. desprendendo lentamente a garra do galho de árvore onde se empoleirara toda essa manhã de longos séculos. para o destino que o esperava entre os quatro rios do Éden. carregada com o cheiro morno e acre das fêmeas acocoradas nos cimos. não era belo.. e os regatos regando. uma emoção confusa. da vida superior. na fenda enorme dos beiços trombudos. os olhos redondos. rebrilhava uma superior beleza . que um felpo hirsuto orlava como um silvado orla o arco duma caverna. sem falhas na sua cabeleira flamante. fugidio crânio. e concebeu o deslumbrado pensamento do que era. esbugalhadas. Nesses tempos. com alacridade e confiança. sem rugas. Do achatado. dum amarelo de âmbar. Ora desde essa alvorada do dia 28. como uma alvorada que penetra numa toca. feita de medo e feita de glória. a faiscar de fecunda impaciência. as árvores providas do fruto entre a flor. o reter nos cimos frondosos? Esse ramalhado sussurro que o . o Sol. Entorpecido. circundava a Bem-Amada. as mais orgulhosas. tremiam. apressando o borbulhar das nascentes. entrelaçada de orquídeas. sobre o outeiro de mirra. e a que sente já a zoada violenta como toda feita de batalha e rancor. sobre as duas patas se firmou com esforçada energia. entre amuados suspiros da Igreja. dos joelhos rudes. e o fogo armazenando no seio da pedra. Nas ramagens que tão generosamente. certo Ser. Mas caminha. e ficou ereto. ainda se pendura duma rija liana.. E sob as arcadas sombriamente fundas. nosso Pai venerável. as presas reluziam. o repuxar. E esses ramos tortuosos. esgazeados de inquietação e de espanto. e o cristal. o arvoredo que lhe fora abrigo natural e doce só lhe pareceria agora um cativeiro de degradante tristeza. o Pai dos Homens ainda dilatasse as ventas chatas e soltasse do peito felpudo um grunhido rouco e triste. numa contínua e insaciada caricia de calor e de luz. com as provisões e alfaias que a Bíblia enumera. sem descanso e pulando mais levemente que os gamos de Galaad. E o Sol. todos os animais pastando sobre as colinas viçosas. E vivo. estendendo um dedo do fundo do seu pomar. e acaricia as longas barbas de líquen. Quando a oitava hora cintilou e fugiu. e o ouro muito bom do país de Hevilath. sondam. perfecta. Ela era moça e formosa e preferida de Deus. empolando o dorso dos montes. Liberto da Animalidade. e o ônix.. agitando num frémito as relvas e as frondes. Então. através da ramaria.

nos confins do mundo. despedaçando as enrediças. Assim vetustíssimas crônicas contam o vetustíssimo Éden. ainda não compreendeu. entre o clamor triunfal da Floresta! Que angustioso esforço então para se erguer. um seguro tecto de relva seca. já passaram. E o mar. e a tromba a bambolear entre os dentes mais recurvos que foices. onde. galhos fortes de pinheiros e faia formando estacas e traves. passa. através. Um pássaro cinzento. Lentamente. que saltitava pesadamente sobre uma das patas. com a rude clina do dorso eriçada ao vento. Adão emerge da Floresta obscura: − e os seus olhos de âmbar vivamente se cerram sob o deslumbramento em que o envolve o Éden. sob o abrigo de azáleas em flor. e as suas mãos se abateram desamparadamente sobre o solo de mato ou rocha. Mas. tudo encerra. Outros montes dardejam mudas labaredas. lenta e montanhosa. aparece. ensopando. Nesses bruscos ímpetos quantas vezes se desequilibrou. Ao fundo dessa encosta. um molho de ervas e ramos. um grande pássaro passou. Profusos rebanhos de auroques. como um aro de ouro. reclamando o seu secular morador? De tão estranho medo nasceu. brigando contra gigantescos veados-elefas. sob o voo apressado de pássaros que lhes catam serviçalmente a vérmina.seguia. por vezes. que inundava o Paraíso de esplendor outonal. − Nesse fecundo espaço toda a Criação se espaneja. com a fusca face franzida. com o seu chão de greda bem alisado. De entre bosques de algodoeiros. talvez. sobre o grão de pó que é o nosso mundo. em fecundos e espraiados remansos. de pelagem ruiva. dum esplendor ainda mais branco. farejando o cheiro novo dos gordos herbívoros da planície. as verduras onde já talvez cresce a lentilha e se alastra o arrozal. Cada arremesso de tigre causa uma debandada furiosa de ancas. a braveza vivaz duma mocidade de cinco dias. meio borracho. num alvoroço. muito breves e muito cheios. entrechocam cornos e galhos com o seco fragor de robles que o vento racha. as folhinhas mais tenras. sem se afastar da ourela do bosque abrigador. Um bando de girafas rodeia uma mimosa a que vai trincando. e clinas. morde as raízes detestadas e. recuperar a atitude humana e correr. livres para a obra imensa da sua Humanização! Esforço sublime.. Enfim. bem agarrado. Depois caminhou para o largo rio. a face magnífica de um leão que. palmeirais desgrenhados. olha o Sol. se arqueia o pulo grácil dos antílopes. ou entre os quatro claro rios que hoje regam a Hungria. pois que desde esse dia 25 de outubro. pastam majestosamente. Da borda de rígidas escarpas. confusamente. enterrados nas ervas tão altas que nelas desaparece a ovelha e o seu anho. nos trêmulos cimos. brancos como crespa espuma. mais nosso Pai. fendendo o bravio denso. mais certo e mais leve. Além a neve coroa uma serra com um radiante nimbo de santidade. com as penas esguedelhadas como as pétalas de um crisântemo. desconfiadamente. de novo precipitado na postura bestial. Mas o Pai dos Homens. nessa tarde. talvez na trigueira Ceilão. retrogradando à inconsciência. e na parede de enrediças bem liadas o desafogo duma janela!. que era nas campinas do Eufrates. a primeira luta do Homem com a Natureza. Uma rija palmeira verga toda ao peso da jibóia que nela se enrosca. mais de sete vezes setecentos mil anos? Só parece certo que. Temerosos e barbudos urus. e chifres. resplandecem vastas campinas (se as Tradições não exageram) com desordenada e sombria abundância. enormes condores dormem imóveis. num alto. sente Alguém que o vem amparando . em que ruge. sobre profundidades. por entre os flancos despedaçados. decerto nosso Pai atiraria contra ele as garras desesperadas para o repelir e lhe escapar. a graça. pasmava para aquele pássaro que ao lado. erguendo na outra. No remoto azul. E há já consciência. Lento. de patas contra um olmo. um rio corre. sobem outeiros cobertos de magnólias. as uvas desse farto Outono. Quando um galho alongado o roçasse. despertando os tapires adormecidos sob cogumelos monstruosos ou espantando algum urso moço e tresmalhado que. numa profusão de juba. Mas quem pode garantir estes bosques e estes bichos. com os felpudos braços despegados da terra bruta. nosso Pai ressurge mais humano. com os punhos rijamente cerrados contra o peito peludo.e que na realidade o levanta. uma récua de mastodontes. chupa. quem sabe? levanta já os olhos de âmbar lustrosos para os céus. ou mesmo nestas terras benditas onde a nossa Lisboa aquece a sua velhice ao soalheiro. e escorre. serenamente. calvo e pensativo. pendem perdidamente. O nosso Pai venerável. de cada um desses tombos modificantes. de asas abertas. À sombra dos tamarindos. nos ressoantes passos com que se arranca ao seu limbo arboral. não era a selva toda. no doloroso esforço de compreender. E em frente à encosta. semeado de ilhas. Entre duas penedias. composto do desassossego irritado de cada folha. Rochas de mármore rosado rebrilham com um rubor quente. ainda quente das mãos do seu Criador. a imensidade radiante. terminava muito gravemente a construção duma cabana! Vistosa e sólida cabana. onde. entre o sulco níveo e róseo das garças e dos flamingos. onde parara. com a força. delicadamente.. cansada de proezas e mares. em finas franjas que refulgem. faiscando. diante de Adão apavorado. Pelas lagoas a bruma arrasta a luminosa moleza das suas rendas. entre o matagal. repousam disformes rinocerontes. pressa da Racionalidade. Adão vai arfando entre o apetite daquela resplandecente Natureza e o terror dos seres nunca .

E os seus olhos faiscavam. Que espreitam elas. levanto. para nosso Pai que nunca os avistara. Em breve pára.avistados que a atulham e atroam com tão fera turbulência. certamente seriam pavorosas as tartarugas imensas desse começo do Mundo. um peixe que se estorce e reluz. e toadas. no rio do Paraíso. dardejando e silvando. magnificamente fecundo. em que por instinto reproduz outras vozes. nada para a outra margem. imensidades radiosas. de areia fina e rosada. pastando com arrastada mansidão. todas flagrantes. de focinho esperto e fofas caudas vaidosas. com os cornos altos e a espessa barba a flutuar. Mas uma curiosidade o atrai. coleiam e refulgem gordas cobras de água. depois outra. Mas dentro dele borbulha. mói e acarreta. o nobre rio do Paraíso. entre aquela abundância do rio. nem nela se molha a orla das fartas pastagens. Mas nada certamente assombrou o Primeiro Homem como um grosso tronco de árvore meio apodrecido. quando outros cangurus. enorme e desengonçado. Mas quantos terrores especiais ainda o arrepiam. E Adão. com segurança e graça. considerando um bando de aves alcandoradas numa penedia toda riscada de guanos. campina coberta de louras messes onde talvez já amaduram as espigas sociáveis do centeio e do milho. se embrenhem na sombra negra das caneleiras. que arfam molemente. cândida e simplista. E bruscamente. o atiram com espavoridos pulos para o abrigo dos salgueiros e dos choupos! Noutras ilhas. serenamente. a água que ele costeava era mais baixa. levando sentados numa ponta. de novo lhe ressoará nos lábios trombudos. turva e tarda. adiante. e brados. Ele grunhe. embarcados num toro de arvore e viajando. preguiçam pedregosos crocodilos. sob a macia frescura da tarde. compenetrado do que era. escancarando as fundas goelas na tépida preguiça da tarde. que boiava. e rugia soberbamente: − Eheu! Eheu! Depois. e mesmo o reboliço das criaturas. colhe.na rija corrente que lha repuxa. de colo alteado. montes nevados. os Dons que estabelecerão a sua supremacia sobre essa Natureza incompreendida e o libertarão do seu terror. e a todas as plantas. corria ele. no seu voo soante. logo na sua entrada pelo Éden. fogem descampadas solidões. Por entre os canaviais. os frescos morangos silvestres que ensanguentam a relva. muito definitivamente. E bem podemos pensar. na surpresa de todas aquelas inesperadas aparições do Éden. e rosna com pensativa cobiça: − Lhlâ!Lhlâ! II CALMO. No entanto. Nosso Pai venerável enterrava as patas em ribas . e a ensaiar. e quanto diverso dos outros seres! já se afirmava. E. tão sublime e tão burlesco. já com os seus punhos. E esses sons ficam já na escura memória de nosso Pai ligados às sensações que lhes arrancam: − de sorte que o guincho áspero que lhe escapara ao topar um canguru com a sua ninhada embolsada no ventre. fugindo dele. já tenta exteriorizar o seu espantado sentimento dos espaços. dois bichos sedosos. por entre as ilhas. reses. quase afundadas sob o peso do rijo arvoredo. com o bico atento. Adão solta roucas exclamações. com ásperas patadas. com orgulho. Assim. arranca a mão .essa atração que será tão forte nos seus filhos. alongando os olhos reluzentes por aquela longa água que corria vagarosamente para além. concebe o enevoado desejo de também atravessar para aqueles longes em que as ervas rebrilham. Para os seguir. que o impele a desentranhar da crassa bruteza. e atroadas pelo clamor das cacatuas. roncos mais verdadeiramente augustos porque todos eles se plantavam na sua consciência nascente como as toscas raízes dessa Palavra pela qual verdadeiramente se humanou. atravessado no bico. quase resvala na riba lodosa onde a franja de água roça e marulha. Já na sua larguesa não verdejam ilhas. cascudos insectos que farisca e trinca. não cessa. Nosso Pai venerável coça a ilharga. Não! eram apenas grunhidos. já sente a atração das águas disciplinadas que andam e vivem . olha o rio lustroso. num desabrido abanar de asas brancas. de onde rola um vento lento e húmido. embebendo todo o ar com um cheirinho de almíscar. lampejando nas espumas claras. com a sua exageração oriental. que fitam Adão com furor. sobre a terra. achatados sobre o ventre. distribuiu nomes a todos os animais. pastagens. trotando pesadamente pela margem baixa. ansiosamente correu. para baixo. rega. fundidas nas neblinas.e segue. esmagando. estruma. como para o atrair e iniciar. descia na corrente.. nosso Pai. sem limite.. e batia no peito sonoro. como se já compreendesse a malícia daqueles dois bichos. se indivudalizava. que espreitam. Para além. Nosso Pai venerável olha a fila lenta. e foi depois. conta que Adão. que ao descer a borda do rio Edénico. quando no rio descobrirem o bom servidor que desaltera. onde as águas apertadas refervem. entre Buffon. vozes gaguejadas. Na largueza do rio espraiado. uma garça. uma longa e negra fila de auroques. as brancas garças? Lindos peixes em cardume. A sua crassa gula. muito eruditamente. e Lineu. louros. com esforços que são semipenosos porque são já semilúcidos.. a nascente sublime. e arrisca a mão na corrente . a sublime nascente da Energia.. também apetece uma presa: e atira a garra. sem mesmo lhes sentir o perfume. e mesmo o estrondo das águas despenhadas. através dos prados novos. como se compusesse o Léxico da Criação. gritos com que desafoga. já com os seus óculos. fende o céu alto. A Bíblia. que rompem contra a levada e pulam. os observar.

lentamente. redonda e vermelha. enroscado ao tronco alto. esmigalhando conchas. Mas mesmo nesse abrigo os seus poderosos queixos batiam. que bufavam ruidosamente. Nosso Pai venerável aferra a mão a um galho de pinheiro. Entre as crostas pedregosas. onde a maresia ainda chega e se espraia muito longe. a imensidão deserta. em que chapinavam. de gelatinas que alvejam lìvidamente. os verdes rolos da verde vaga avançam.. lhe oferecem o refúgio hereditário.. enormes rãs coaxando furiosamente. se alargou sobre ele uma nuvem estridente de moscardos vorazes. numa inchada ameaça.e diante dele está o Mar! Então foi o pavor supremo. com uma grande mancha de sangue que lateja. Sim. ao longe. num tremor de sulcos brancos. e sobre que retesa as duas patas. E eis que. e se atiram. seixos e galhos de coral. um silvo fende os céus. e a cada rabeio lento levanta uma tempestade. Uma tristeza humana apertou o coração de nosso Pai. o voo espavorido. bate. para aqui. já reconhecestes o Ictiossauro. para além . E quando de entre os altos e negros canaviais. muito seguro sobre uma escarpa.. Para além da névoa leitosa que cobre as lagoas. uma tromba disforme.. tão forte que faz rodopiar as algas secas e os búzios ligeiros. a escorrer de limos verdes. uivado e arremetido. trambulham na vaga funda. Nosso Pai transpõe as pálidas dunas . que ao largo esguicham até às nuvens roxas e recaem numa chuva radiante. bico de duas braças. Adão pasma sem saber que estas são as Amonites. É um monstro. com a sua clina de espuma. num arrepio. Todo esse sangue caiu. um terror levantado do mar. como repuxadas pelos lodos viscosos. imensos búzios alvos e nacarados. Por essas feições. depois dele. de fauces entreabertas. verá a luzida e rósea armada singrando nos mares deste mundo. talvez com a impressão inicial da beleza das coisas. vogando à bolina. decerto.. Então. logo se afundavam. É o mar. rasga o pêlo na aspereza dos cardos brancos que o vento estorce.. Com um baque raspante. constantemente surdiam horrendas trombas. Por que avançam assim para ele. É também o derradeiro Plesiossauro que corre do fundo dos pântanos. resfolegando cavamente. E agora de novo se trava. de lixos silvestres. ante o horrífico ser surgido das profundidades.moles. E avança! Adiante um tumulto de bolhas redemoinha e rebenta. agudas lascas de rocha.. lívidos e vítreos. Ainda ele a admira. com as unhas todas enrodilhadas de silvas marinhas. através de aluviões. para uma linda armada de búzios. que fundamente escava.. Nosso Pai venerável. resvala por uma encosta de cascalho e seixo. quando bruscamente. recua até onde três pinheiros. um pavoroso monstro marinho! E bem podemos supor que nosso Pai. nosso Pai venerável dardeja os olhos inquietos e trêmulos. mais grossas que troncos de teca. o Plesiossauro. estonteado. com as escamas do dorso assanhadas. um dorso imenso sai. A imensa cauda dentada arrasta pelo mar distante. com azoados gritos. Da caverna das suas fauces. Com um pulo. trepou desesperadamente ao pinheiro até onde os galhos findavam. mortos e sem rama. as focas tombam. e ribombam. para os repuxos de água. com manobra elegante. batendo convulsamente os punhos no peito. E agora está em frente de Adão. tão intenso que um bando de albatrozes. um vasto rumor que rola e desaba e retumba. mais agudo que o dardo mais agudo. terminada em bico-deave.talvez o derradeiro. E sempre diante de Adão. Do meio de grossas bolhas. contra Adão. são como duas enormes luas mortas. Os seus olhos. através dos dentes terríficos. toda espetada de negras. para assombro do primeiro Homem (e gosto dos paleontologistas) o combate que foi a desolação dos pré-humanos dias da Terra. onde lampejam e se somem cardumes de peixes que os seus sorvos vêm tragando. muge devastadoramente.. O quê? outro monstro?. como uma comprida colina. sob o clarão enfiado do Sol que se esconde. encolhido contra o pinheiro. o mais horrendo dos cetáceos concebidos por Jeová. sem cessar. babujam rudemente a areia? Mas toda a outra vasta água permanece imóvel. se elevou. refervem. da ferida do Sol. Era ele! . trilha saibros pegajosos. dos charcos salgados. o monstro esbarra na areia. sangrando em cima. erguida sobre um longuíssimo e esguio pescoço . ligando os tempos velhos aos tempos novos . guincha de vivo horror.e. de conchas. negrejam dois cornos curtos e rombos. resto das grandes águas sobre que flutuara o Espírito de Jeová. Adão foge. circundando as penedias. Lá aparece a fabulosa cabeça do Plesio. que durara nas trevas oceânicas até esse dia memorável de 28 de outubro. das águas. aqueles rolos verdes. do lado dos charcos enevoados. num medo convulso.para os rochedos cobertos de sargaço onde gordíssimas focas rebolam majestosamente. e que nenhum outro homem. e alastram a praia de algas. sopra um bafo espesso de fadiga ou de furor. num céu dilacerado por fundos golpes já roxos.. que se empolavam na estanhada lisura da água triste. toda a maravilhosa frota soçobra! Com o mesmo salto mole. manchando a vermelhidão da tarde. um monte flameja e fumega. se esmigalham. como morta. como o de um áspero vento numa garganta de serrania. E um terror passa. por fim. E o rio em breve se perdeu numa vasta lagoa. escutando. para seu intenso horror. sondando. pouco amáveis. que os limos e musgos esverdeiam. e pára em areia fina. e de entre elas emerge. escura e desolada. Mas eis que todo o mar se povoa! E. que lhe couraçam a fronte. para que nosso Pai entrevisse as origens da Vida. esquecendo toda a sua dignidade humana (ainda recente). para além das dunas. Arqueja: as suas longas orelhas remexem.

mergulhou num sono como ele nunca dormira . e grossos mares espadanando. começaram a surdir. Os leões não tardaram. erguendo a face assombrada. com o pescoço empinado. olhinhos reluzindo como botões de azeviche e espinhaços inquietos que a emoção arqueava . e sibilos. bicos retesos. Através da campina trotaram dois lobos. a que o bico do Plesio arrancou escamas mais pesadas que lajes. Mas agora o sol penetrou no mar . tremem os rijos troncos. Era junto dum bosque de carvalhos e faias. nesse areal marinho. que exala um cheiro tão fresco e salino! As suas rombas mandíbulas ruidosamente se escancaram num bocejo enfastiado e famélico. e pendem febras atassalhadas de carne rosada. debruçado entre os galhos. o bico do Plesio todo enterrado no ventre mole do Ictio. com as reais faces erguidas. uma hiena apareceu. Adão mergulha numa das feridas do sáurio os dedos que lambe e rechupa. dois bichos vogando nas águas rolantes.E de repente é um horroroso tumulto de mugidos. que eram aves construindo uma casa. que subia por trás dos montes e banhava as frondes altas.. nosso Pai venerável sente uma grande sede. com ele. em lentos regos. por entre o mato baixo. E tão imenso é assim rojando. das serranias. numa . numa pressa em que há o gozo e há o medo da primeira carne comida. coxeando. ainda viva. os cornos dos auroques entrechocavam com impaciência os galhos palmares das renas.todo povoado de sombras moventes. finas orelhas espetadas. Furiosamente avança. que. resvalaram. Depois.. através de uma névoa de espuma que os esguichos de sangue avermelham. com um salto. de onde o sangue pinga. se estorce furiosamente na palidez dos céus espantados. sangrenta. fumega. arremete contra a montanha de abundância. está medonhamente revolta. diante da duna onde se levantam os pinheiros que acoitam Adão. Dos vales. se debruçavam bicos recurvos. Por toda a relva. que já se adensara. Adão espia. e a salsa ao fundo ligeiro. A areia. E apenas se estendera na alfombra cheirosa. que chegava bufando. São salgadas as poças que na areia rebrilham. onde a malva se encostava à hortelã. em redor. Nessa clareira fresca penetrou nosso Pai venerável. Pesado e triste. estafado com a marcha e os espantos daquela tarde do Paraíso. estendido numa riba lodosa. famélicos. em fundos sorvos. bicos bravios. De novo esconde perdidamente a face. bicos pensativos. Em confusa manada. focinhos fariscantes. ao recrescer dos bramidos. Adão. Tendo ceado assim postas cruas dum monstro marinho. cuja cauda. todos alvejando na claridade delgada da lua. na enrolada massa dos dois monstros. num furor.. tremendo tanto que. as cavernas soturnas ressoam. nem avista as puas do monstro. dardeja com pavorosa elegância! Duas barbatanas de incomparável rijeza vêm movendo o seu disforme corpo. fugia e chalrava um regato. mole. onde só alvejam cardos que o vento estorce. Então. e imensas tripas esfiadas escorrem.. esgalgados. As pálidas dunas estremecem. a grunhir. os joelhos colhidos contra o ventre distendido como um tambor. dos cimos dos carvalhos e faias. rilhando raízes. só percebe. sob o voo espantado de moscas fosforescentes que se lhe prendiam na guedelha. soberanamente enrugadas. − e por toda ela.. com os beiços empastados de banha e de sangue. patas de insectos tecendo uma teia. e se abeira do monstro. nosso Pai venerável cautelosamente escorrega do seu pinheiro. com os verdes olhos acesos.e Adão tem fome. O Oceano arfa. Toda essa tarde ele caminhara. E quando se arrisca a espreitar. Mas diante das mãos trementes do Homem estão os rasgões do ventre mole. irresistìvelmente. Todos os pêlos se arrepiaram quando o tigre e a pantera negra. em que o ruído do mar Oceano não é mais que um consolado murmúrio de alívio. Depois é uma paz muito larga. como adormecido. Tão montanhoso é o Ictio. E as chatas ventas do nosso Pai venerável estranhamente se alargam e farejam. numa profusão de jubas flamantes. manchado por uma lepra de fungos esverdinhados. . Então. Ora conta a Lenda que então. arqueia. atravessa as dunas. nosso Pai venerável! Um urro de monstruosa agonia rola na praia. A noite.. das fragas. eriçadas ao longo daquele alcantilado espinhaço. miando com lástima. moles de sangue e gorduras. outros acudiam. enegrecia um chão todo de plantas. O Plesio recuara ferido para a tépida lama dos seus pântanos. que Adão. E sob a praia jaz o Ictio morto. ele parece uma outra duna negra sustentando um pinheiro solitário. o sangue. O espanto dum sabor novo imobiliza o homem frugal que vem das ervas e das frutas. glutinoso. com as línguas pendentes e vermelhas como coalhos de sangue. nesses tempos de universal umidade.. em torno do Primeiro Homem adormecido. Adão bebeu consoladamente. todo em rugas.que ondula. erguida. com a hirsuta face pousada sobre as palmas unidas. Oh! aquela carne rija. Em breve. desde a Floresta. sob o calado crepúsculo. como uma colina onde a vaga da tarde mansamente se quebra. repenetra nas terras. mal chupado.. e gorduras babam. através do Paraíso. Nosso Pai venerável salta dum pinheiro para outro pinheiro. e areias torvelinhando. esfuzia. num abafado frémito de asas. Depois. trincando os insectos de casca picante. ondulando calada e aveludadamente. e choques ribombantes.enquanto que. rebuscando sôfregamente água doce. chupango bagas. à orla da clareira. em poças escuras. e arranca uma febra que trinca e traga.

entre o serpol e o rosmaninho (Adão com a face deitada sobre a coxa de Eva. num ermo bosque. ora o pescoço da girafa.no meio duma Natureza que. Oh! o incomparável tormento das secas no Paraíso! Lentos dias tristes. foram sacudidos pela encosta amena como por um dorso irritado e rolaram. sabendo o Primeiro Homem adormecido. O seu constante e desesperado esforço foi sobreviver . mais graves. Ou então era o chão. e o alegre manguço que assassina a cobra. tramava a sua destruição. os dois peitos da cor do medronho. os melros. e os bicos. benéficos cedros com todas as rolas que na sua rama arrulhavam. mas mais esbelto. gemiam lamentàvelmente. abalando o solo. apenas apareciam as pontas do arvoredo afogado e os cimos dos montes atulhados de bichos transidos que bramiam no terror das águas soltas. num roçar lento. religiosa e nupcial. destinada a submeter a Força Bruta. à noite se espelhava uma lagoa onde a Lua. pela selva. refugiados nalguma erguida fraga. sem cessar e furiosamente. Os longos dentes reluziam. sob a Lua. Um bando de gazelas tropeçava. magoando as pernas finas contra a crosta dos crocodilos. uma alegria superior. entre o ribombo. já social e fertilizado para as searas sociáveis. naquela pavorosa turba que fumegava. Mas. os dias abomináveis do Paraíso.. sem defesa. E Adão e Eva passaram esses tempos. Quantas vezes nossos Pais. à terra ainda sem andrajos. tão desabaladamente que do Paraíso. E mais terríficas eram as estiagens. pulou e com tão ruidoso pulo que. e como despegado dele. nem fera avançava porque ao lado de Adão velava uma Figura séria e branca. que o contemplava com largos olhos lustrosos e líquidos. E por fim. com negras focas mortas a boiar. . os cabelos presos num aro de estrelas. despertaram e romperam num canto de congratulações e de esperanças. que de repente rugia como uma fera. que os horrendos cavalos primitivos se empinavam por sobre os cangurus. quando já sobre ela corria um grande mar inchado que bramava. à terra braviamente alegre. comunicando à terra alegre. terçavam os fios da Lua com bicadas famintas. a sardanisca. se desenrolava. o peito guardado numa couraça de diamante e as duas refulgentes mãos apoiadas ao punho duma espada que era de lume . que se enristava. com ribeiras a escorrer dos pés.sempre a tremer. dum ruivo tostado. Era toda a Animalidade do Paraíso que. repousando no pendor de um outeiro inocente. enchendo o céu. na surpresa do seu acordar humano. que a andava compondo. Entre as patas e os cascos apinhados coleavam em aliança o furão. com regatos a escorrer dos ombros. e a cinza quente do vulcão que Jeová improvisara! Quantas noites escaparam. e a labareda. Era Eva. uivando. à terra ainda sem sepulturas. de asas brancas fechadas. as toutinegras.. nascentes. como mastros naufragados. a cobra fulgente que engole a doninha. com uma penugem crespa orlando o bico. todo aquele sedoso e tenro Ser se ofertava com uma submissão pasmada e lasciva. embrulhados. ficava fervendo entre as rochas. sempre a fugir! A terra ainda não era uma obra perfeita: e a Divina Energia. com ardente pompa. desabando em jorros clamorosos. E nossos Pais. o chão seguro.e vivia. em espessas ondas. surdiam. incessantemente a emendava. já doente. a escorrer de limos. todos os cornos repontavam. Já toda a planície arfava. e a tromba do hipopótamo.. após lentos dias tristes. − E. Depois eram as chuvas. e a fumarada. prados. de onde se erguia. sempre a ganir. estava outro Ser a ele semelhante. que cruzara. de goelas preparadas e a gemer. durante alagados dias. ora o corpo da jibóia. as longas chuvas Edénicas. no mole remexer dos dorsos apertados. os joelhos pelados. se atropelava à borda da clareira onde Adão dormia sobre a hortelã e a malva. na imensa esperança de o destruir e eliminar da terra a Força Inteligente. A aurora despontou. intumescido. Uma coma ruiva. escancarava uma insondável goela e tragava rebanhos. rolava. Mas nem ave descia. numa tão móbil inspiração que. a imensa brasa do Sol candente coriscava furiosamente num céu cor de cobre. que subiam em fila da borda das lagoas. Eva com os dedos ágeis catando o pêlo de Adão). cada guarra saída dilacerava com ânsia a terra mole. desde as árvores. batendo as fuscas pálpebras. de alguma abrigada caverna. corria. vasto charco barrento. empurrava as ancas lentas do dromedário. Adão acordou: e. E roçando. balançados entre vagas. oh maravilha! diante de Adão. vinha estudar a sua palidez. em sítio coberto ao alvorecer por uma floresta. até às suas ancas arredondadas numa plenitude harmoniosa e fecunda. os rouxinóis. todos os passarinhos de festa e de amor. De entre os braços peludinhos. Nesse terror que. abundantes e gordos. que os poemas semíticos celebram como Inefáveis . com a tromba enrolada entre os dentes recurvos. para nossos Pais. de cima das ramas. suavemente coberto dum pêlo mais sedoso.. assomou o rugoso mastodonte. como se o barro novo de que Jeová os fizera se andasse já desfazendo. durante torrentosas noites. a doninha. feramente arreganhados.pressa tão ansiosa. não desamparava o seu coração. Eras tu. sentiu sobre a ilharga um peso macio e que era doce. nenhuma fera avançava. num roçar muito doce. Mãe Venerável! III ENTÃO começaram.

rijos como arames. a diversidade dos méritos.. de tremenda força e perfeitos na arte salvadora de trepar aos cimos frondosos. através das clareiras. E nossos Pais veneráveis. E nosso Pai. que alegremente escorneariam e espezinhariam nossos Pais. Quanto urso. com aquela obtusa incapacidade que sempre as jibóias tiveram de distinguir. constantes e flagrantes. erravam de fonte em fonte. Certamente nossos Pais eram também ferozes. sob a similitude das formas. nutridos com os grãos que o Criador considerara bons . entre a abundância do Paraíso. escaldando mais a abóbada do forno inclementet. E que valiam as garras de Adão.que portentosa empresa para nossos Pais veneráveis! Sobretudo desde que Adão (e depois Eva. rãs. fugiam desconsoladamente. para lhe roubar um osso fètidamente babujado. saltando de . guinchando sombriamente. às raízes amargas .porque Medo. Toda a tisnada folhagem rolava nos ventos abrasados. como uma pele seca que se despeja. com uma destreza mais felina e segura! A jibóia furava com a cabeça até aos galhos extremos do mais levantado cedro para colher os macacos . as boas carnes não faltavam no Paraíso.. nem decência nos frutos. de entre a casca. de lenha ressequida. como Adão. Certamente. Todo o Éden andava coberto das revoadas de abutres e corvos. tão redonda e carnuda. Comer Eva. boiando. quando desciam ao Paraíso. No rio. enovelados. nem fartura. a água que restava mal corria. por estupidez. sem rumor. a sorver desesperadamente alguma gota que ainda brotasse..e o triste casal humano. ao avistar. não se deteve. arrancava. todo o seu sangue chupado em sorvos convulsos: e Eva. ao cair. ou uma tartaruga moça e bisonha se arrastasse para a erva miúda . fogueira estralejante. mas ainda dos lentos e fartos herbívoros. com tanto animal morto de fome e de sede. depois de jejuns angustiosos. se achavam os Eleitos da Terra forçados a afugentar a hiena. E quantas vezes nossos Pais. Que. caminhavam sempre com as asas arregaçadas. Delicioso seria o salmão primitivo . nesses dias cândidos. ou o bafo dos ursos brancos. abundava a carne podre. sob as ramarias da caneleira de onde eles. assolapadamente. mesmo ocupado a roubar favos de mel num escavado tronco de roble. com rugidora restolhada.. nas ribas do mar. a lebre . empoçada pela massa fervilhante de cobras. o cervo elefas. E assim Adão e Eva. Fome e Furor foram as leis da vida no Paraíso. as patas da tartaruga. ou o faisão rutilante. num rebrilho errante de Sol. Mas esses achados de abundância eram raros . porque. era necessário comer! Ah. fugindo do Fogo. através da ramaria. descobrindo largos ossos. Saborosa seria a galinhola. tartarugas. Os montes estalavam gretados: e as planícies desapareciam sob uma denegrida camada de fios retorcidos. por Adão iniciada). aos rebentos. tendo já provado os deleites fatais da carne. sobre as lajes esbraseadas. algum cetáceo morto. só conquistava. nossa Mãe forte. algum feio caranguejo em cuja dura casca os seus beiços se esgaçavam. os Anjos. não os desamparava o terror das feras! Porque. fugindo da Terra. sem cessar rondava em torno das lagoas. encetavam a vida no Jardim das Delícias. E acresciam ainda os que matavam para não serem mortos . já com a garra cravada numa posta de foca ou golfinho. Cada noite um bosque ardia. o urus. que. o auroque. chama o Leo Anticus? Ou contra a hiena-espeléia tão ousada. fugindo da Água. E no meio de tantos perigos. e lambeu o focinho numa gula mais fina. em triunfal segurança.e eis o repasto seguro! Num relance. a primeira forma de Miséria! E.que fugas ligeiras no mato cheiroso!. onde casualmente encalhava. com as magras costelas a arquejar contra o pêlo crestado. contra esses pavorosos leões do Jardim de Delícias que a Zoologia. às ervas. já não encontrava sabor. O coelho. lontras. para que ela. com rijos brados. o cabrito ficava atassalhado. que era já o sobejo de um leão morto! E dias piores sucediam. mesmo aliadas às garras de Eva. que eram os restos das verdes pastagens. nos primeiros dias do Gênesis.mas nadava alegremente nas águas rápidas. Essas solidões marinhas andavam também infestadas por bandos de feras esperando. através desses trabalhos. O musgo escorregava das rochas.. não possuía o anzol nem a seta. que assobiava. se Adão e Eva comiam os bichos fracos e fáceis. que a vaga rolasse os peixes vencidos em borrasca ou batalha. Mas quantas noites.e bem poderia abocar Adão. nas raízes e nos bagos do tempo da sua Animalidade..em que o ar baço e grosso crepitava e arfava. espreitavam. dessemelhança de raça e cheiro. a língua pendida e mais dura que cortiça. gota rara. refugiadas naquele derradeiro veio. fugindo do Ar. O leito dos rios chupados tinha a rigidez de ferro fundido. ainda hoje arrepiada. o sombrio corpanzão de nosso Pai venerável! E nem só o perigo vinha das hordas esfaimadas dos carnívoros. a sua ciência hereditária de trepar às arvores socorria nossos Pais nessa conquista da presa. bamboleando pelo branco areal. foi decerto o sonho de muito tigre nos juncais do Paraíso. na rocha ou na areia revolta. emprego da vida ociosa. Mas o leopardo pulava de ramo em ramo. aqui e além.conhecendo assim. uma a uma. sentindo o passo fofo do horrendo espeleu.mas voavam nos céus. aparecesse algum cabrito desgarrado. Comer . lodoso e todo morno. em que a fome reduzia nossos Pais a retrogradar à desgostosa frugalidade do tempo da Árvore. sob a branca indiferença da Lua! Decerto. e se balançou. Por isso. nas suas marchas famintas pela borda das águas. eram também uma presa apetecida por todos os brutos superiores.

e a necessidade de ter. se um frio sopro. entre bichos de formas racionais.. Mas Adão e Eva ainda conheceram os Pterodáctilos. destramente. o serviçal coração do paquiderme admirável. Os dias de nossos Pais veneráveis foram por eles torturados . negras. pelo fundo bosque. Oh! esses Pterodáctilos!. se vinha despenhando. um urso enorme. para a retalhar toda com os estalados golpes das mandíbulas fétidas. os seus ócios. os Antropóides.. por amor de Eva. alguns dos grotescos monstros que desonraram a Criação antes da madrugada purificadora de 25 de outubro. os horrendos cães do Paraíso. não compreendia a bondade. já preparadas para a prosa nobre de Mr. e superior. mais grosso que o corpo. com sinistro estridor de asas e bicos.. não a estimula a viver. de além dos montes. Foi o bicho perseguidor que o forçou a subir aos cimos da Humanidade. Era o Mastodonte. que findava em lasca aguda. quando lançou um passo espantado e arrancou o pau do seio do monstro estendido e lhe mirou a ponta gotejante de sangue . sobre a terra. no Paraíso. os seus gostos bravios. E bem sabedores das Origens se mostraram os poetas mesopotâmicos do Gênesis. e o arrepiado terror que espalhavam. para que as pontas quebrassem bem lascadas e agudas. Era já um Homem. num deslumbrado triunfo. De Buffon. começassem por acariciar lânguidamente o ombro peludo de Adão com pata amiga . e a Hiena Espeléia.Adão ficaria irmão do Tigre e da Hiena. como uma longa ondulação. nesses versículos sutis em que um animal. E esse funambulesco avejão enturvava o céu do Paraíso com a mesma abundância com que os melros ou as andorinhas cruzam os santos ares de Portugal. na apertada ânsia de defender a sua fêmea. através da frescura e da sombra. E não voava! Descia. Tão ansiado e longo. para a obra da primeira Redenção! Selva amável. escancarou a goela sangrenta. num ansiado terror. Jeová.e é o velho medo de Adão que nos torna inquietos quando atravessamos a mata mais segura na solidão crepuscular.. a colher o fruto do Saber! Se não rugisse outrora o Leão das cavernas. Adão não contava um aliado.. no afã de compreender. sempre bestial. um Homem. Nem cuidou mais da boa carne do urso! Remergulhou na floresta. Sem os Sáurios. eriçado de centenas de dentes. uma defesa sempre racional . ergueu as negras patas. que. Que a Hiena e o Tigre. assombrados. meus amigos! A todos esses furiosos seres deve o homem a sua carreira triunfal. onde hoje se estende a Flandres. Mas a enevoada Inteligência de nosso Pai ainda. os piores inimigos do Homem! E entre toda essa bicharia adversa. a um canto escondido do Paraíso. o Pai dos Homens arremessou contra o Pai dos Ursos o cajado a que se arrimava. Ah! Desde essa tarde bendita houve verdadeiramente. sem refúgio. Então. leva Adão. um forte galho de teca.pois que a Civilização nasceu do desesperado esforço defensivo contra o Inanimado e o Inconsciente.entre os bambus. deram o nome de Iguanodão! Na véspera do advento do Homem.. ele viveu. o apedrejavam com enormes cocos.com a testa toda franzida. arrancado na mata. como se apaga a faísca. lhes não arrancasse as penas refulgentes? Ou contra os cães. Só um animal. tristonhamente caído.a Terra permaneceria um temeroso Paraíso. nesses começos do Homem. de asas moles e mudas. para vencer a friagem e vencer a escuridão.. Corpos de Jacaré. atacando em cerradas e ululantes hostes. assim colhido. enquanto a luz se arrastou pelas frondes. vindo de um buraco escuro. e nelas abafava a presa como num pano viscoso e gelado. não trabalhava hoje o Homem das cidades . Como sobreviveram nossos Pais. apareceu diante deles. partilhando as suas tocas. contra o seu ataque. mesmo entre galhos secos. arrancou ramos aos troncos. Os seus próprios parentes. quem soubera .. e o mais perigoso. desgrenhados e nus. polidas. muito caridosamente. E depois consideremos que ainda restavam pelo Paraíso. Ao encolhido medo de Adão se deve a supremacia da sua descendência. foram. A Sociedade é realmente a obra da fera. Ah! que soberbo estalar de hastes. e formidável. E a Energia Inteligente que o descera da Árvore em breve se apagaria dentro da sua bruteza inerte. saindo Adão e Eva da espessura dum bosque. e toda a tarde. certo da sua fraqueza e do seu isolamento. nesse Jardim de Delícias? Decerto muito faiscou e trabalhou a espada do Anjo que os guardava! Pois bem. que foste a primeira oficina. a Serpente. afogou todos os Iguanodões nos lodos de um pântano. e os Pterodáctilos. Adão compreendera. Decerto Jeová poupou a Adão o degradante horror de viver no Paraíso em companhia dessa escandalosa avantesma a que os paleongologistas. carnudas asas de morcego: um bico disparatado. E o pau atravessou o coração da fera. chupando pela borda dos mares as banhas cruas de monstros naufragados. invejosos e farsantes. onde erraríamos todos. escamosos e penugentos. durante esses trágicos anos. Os seus olhos resplandeceram. conservava pelo Homem uma majestosa e pachorrenta simpatia. o Pai dos Ursos. que o seu arrepio. a justiça. as suas presas. duas lúgubres. nesses dias edênicos. cautelosamente. Por isso. Mas uma tarde (como ensinaria o exato Usserius). se perpetuou por toda a sua descendência . finos como os duma serra. a revoada dos Pterodáctilos.e nunca o seu pobre coração tremia tanto como quando.

. já consoladora. com uma curiosidade onde lateja uma esperança. junta outro montão de fenos secos. nesse resplandecente filho dos seus cuidados. sombriamente luzidio. onde se afofam as camadas de feno muito seco.. no pasmo e terror da sua obra. tremeluz. o aquece. ela o defende. agarrado contra o peito. em que inspiradamente lhe aparecem formas de flechas. Acocorados à porta da toca. se entreolham. a fogueira inicial do Paraíso. junto duma fonte borbulhando entre fetos. E eis a lança! Como essas pedras não abundam. entre os calosos pés. que nossa Mãe. com aquela . malhos com cabos. que o espera à beira do rio. de uma fibra de enrediça seca. de decisiva rijeza. E de novo o fumo rola. e através dele. que se debruça e arfa. na caverna. no seu retiro. cada noite e cada manhã. O fogo morreu! Então. ambos arquejam. obscurecida por uma fumaraça cheirosa. arranca a lasca. poderá repetir com segurança a façanha suprema.. Apanha um pedregulho. E eis que dos fenos um fumozinho se eleva. para todo sempre. o alegra. porque realiza sobre a terra a sua primeira obra. nos dias genesíacos do grande Outubro.. a centelha passa.já nosso Pai racha uma ponta do seu cajado vitorioso. logo malha rijamente sobre a pederneira. que é o seu buraco! Não só seguro.. como faísca emanada da Eterna Sabedoria. em que por vezes se feriam as suas patas. descobre. a doce e augusta tarefa do Lume. Será o vento que as leva. passa. À sua fêmea forte deve Adão esta hora criadora! E quanto lhe não deve a Humanidade! Recordemos. De novo bate. descobre cada dia. sob o bafo de Eva. que é no pendor dum cerro. num terror quase sagrado! É um lume.onde jazes.. na sua radiância. que são o seu leito. Adão. com aqueles seus olhos que já rebuscam e comparam. A pedra resiste. das alturas. de além. agachada. A centelha brilha. um calhau negro.. ela tentara suplantar (como contam as prodigiosas Crônicas de Backum). pouco desejosa de ajudar o Homem que. com os olhos a chorar do fumo acre. Mas esses lumes permanecem. facetado. e de novo a chama refulge. fugindo do vento malévolo que ronda no monte. refulge. o vento roubador o levou. vermelha.. E pensativos. rebrilha na sombra. e segura o fino estilhaço na racha com os lios. nuvens e folhas? Nosso Pai venerável. ela o nutre. entala na fenda um desses seixos afiados e bicudos. na tua secular sepultura. já mata com redobrada ânsia.. pousa entre eles o sílex redondo. como mãe deslumbrada. desce à planície ou se embrenha na selva a caçar a presa. para martelar o sílex rebelde! Ao lado de Eva. fumegando de suor. morre! Ambos recuam. . para recolher à toca distante. Oh triunfo! eis a fogueira. e recomeça a martelar. vozes. Com que alvoroço o leva. se acinzenta. nossos Pais veneráveis sobem. que ele assim arrancou com as suas mãos da rocha bruta semelhante ao lume vivo que dardeja de entre as nuvens. mesmo através do susto e do espanto. e se enrola. e os enleva. Desesperadamente puxa os grossos beiços e geme. através da negrura do céu e da noite. um vivo lume. grosso como uma abóbora. e Adão remira e fareja o escuro calhau. mas amável . bate a rocha. Pasma do seu peso e logo pressente nele um maço superior. tornada negro carvão!. nossos Pais veneráveis vergavam sob o peso glorioso de dois grossos molhos de armas. Ainda os corvos e os chacais não tinham esburgado a carcaça do Pai dos Ursos . muito arrochados. olham. Sempre a faúlha salta. Saberá ele jamais recomeçar o feito maravilhoso?.Mas de novo lampeja a face de Adão. novamente entala o sílex. agora. a tremer. que lambem a rocha. agora. meus irmãos. lascas dentadas que correm o pau!. para a sua caverna costumada. numa idéia que o sulca. que o consola. E então não cessam mais os feitos do Homem. com os cabelos ao vento. Ela o cria. sentem uma doçura muito nova que os penetra e que vem daquela luz e vem daquele calor. bate rijamente. cravar.. e o guia num cismar fecundo. Adão e Eva ensanguentam as garras. palpitam. rutilantes línguas. É o Fogo! Nossos Pais fogem espavoridamente da caverna. E oh espanto! uma fagulha salta. vivos. recua até ao fundo mais abrigado da caverna. uma chama ressalta. Com as suas rudes mãos comovidas. ela o perpetua. enquanto Eva.. ossos recurvos que fisgam os peixes. E é nossa Mãe. As chamas rastejam. num faulhar de estrelinhas.. E aquelas estrelinhas da pedra ainda não têm vivido e já têm morrido. E aí. incertas e azuladas: em breve só resta um borralho que descora. noutra tarde bendita. E.porque o lume o alumia. tentando fender os pedregões redondos de sílex em lascas curtas. uma virtude ou graça nova. E de novo fere a pedra. e se engrossa. despedindo centelha após centelha. entra a dor duma ruína. com ponta e com gume. com um molho de lanças. E eis o martelo! Depois. a espreitar. e não casualmente rebentada.. descendo à beira dos rios. costeando uma escura e bravia colina. Mas já o fumo se escapou da caverna. E. Quando da mata largaram. abriga com as mãos aqueles refulgentes e fugitivos seres... que venham perfeitas. E quando Adão. na alma nascente de Adão. À nossa Mãe Venerável pertence então. se abate em cisco: e a derradeira faúlha corre.. onde flamejam alegres. áspero. Mas não compreende. mas acendida por uma clara Vontade que. Agora já Adão sabe que o seu fogo espanta todas as feras e que no Paraíso existe enfim um buraco seguro. o purifica. e lhe seca no pêlo a friagem dos matos. toma o escuro calhau. Ah! que docemente ele o penetra. para rasgar. ele que tudo leva. tão refulgente como aqueles lumes que. para recolher depressa àquela boa segurança e consolação do lume. e doura como um sol a penedia da sua toca! E depois ainda lhe prende os olhos.

Adão puxa o beiço trombudo. o alimentara. Depois. O rebanho crescerá. ainda mal sabedora de sorrir. e a retira da chama ruidosa. E. o odre da sua água. aparece na terra! E. de abastecer a sua toca de riquezas novas. desconhecido e saboroso. da glória e da força que dá o Saber! Esta alegoria dos poetas do Gênesis. e esburga os ossos (que sôfregamente guarda sob a coxa e reserva para a sua ração. caída junto à fogueira perpétua. naquelas longas manhãs em que Adão bravio caçava. o bruto Pai. e a pevide. e a fera. e depois devora a rijas dentadas. porque contêm a moela preciosa). e o tambor em que bata quando for um Guerreiro. buracos finos na orla duma pele. a família. ajoelhada. por esse pedaço de gamo assado. se a presa será mais certa e as selvas menos cerradas. depois o domínio sobre a ovelha. esconde os ossos partidos.adivinhação superior que mais tarde a tornou Profetisa e Sibila. Eva tenta talvez afiançar que será útil. o pastor o levará. bocado mais suculento. com as pupilas a reluzir. que escondia nas fendas da rocha. comeu logo a maçã. Adão considera com desdém esse trabalho miúdo que não acrescenta força à sua força. muito doce e enredosamente o convenceu do proveito. O lume alastra. quer devorar o cachorro que entrara na sua toca. a armação da sua tenda. um sorriso de maternidade. inspirada e grave. que esfola a rês com a faca de pedra. e espera. derreado sob o peso da caça morta. avistando. lentamente lambe a carne pelo lado mais gordo. Depois de beber. sementes. com a credulidade sublime que sempre no mundo opera as transformações sublimes. e a página em que escreva quando for um Profeta! Outros gostos e modos de Eva o irritam também: e por vezes. Não pressente ainda. Encruzada no chão. Eva. cuidadosamente. E. e a casca. Senão. nosso Pai arrebata pelos cabelos a sua fêmea. não hesitou. Uma ponta verde brotou. Os seus grãos são gostosos. com esplêndida subtileza. com as curtas e roucas vozes que eram o falar dos nossos Pais. um cachorrinho mole e trôpego. Mas Eva defende o animal pequenino. Por ela Deus continua a Criação superior. O primeiro sentimento de Caridade. com a face mergulhada no veio claro. une as duas peles sobrepostas. nossa Mãe fura. Nem acreditaria em frutos que comunicam a Divindade e Sapiência. Eva. e a trinca. no regaço de Eva. e numa cavidade da rocha fresca guarda a carne que sobejou. coleando entre as Rosas: − “Come do fruto do Saber. com uma sensação que lhe era doce. a do Reino espiritual. em sombrio silêncio. até que um cheiro. depois uma espiga amadurou. errando de vale a monte. até que a espeta com uma ponta de osso. e lhe abria na espessa boca. ele que tanta fruta comera nas árvores e se conservava insciente e bestial como o urso e o auroque. o Sol sobre o mar . entre os fetos. a cidade. cheirando todo a relva. que ela. quando recolhia pela beira da fonte. e a pisa sob a pata calosa. com uma desumanidade que é já toda humana. os montes coroados de neve ou de lume. e muito mansamente o recolhera. corre os dedos pelo lombo macio do cachorrinho encolhido. Depois. o saco do seu farnel.. o cão fiel o guardará. informe como a primeira flor que brotou dos limos. E persuadindo Adão a que partilhasse do transcendente pomo. da beira do seu lume. vede! Quando o bravio caçador recolhe à caverna.pensando. por ele a aliança com o cavalo. uma tarde. com um ossinho agudo. Mas Eva junta essa pele. depois uma haste cresceu. passando através dos buracos uma delgada fibra das algas que secam diante do lume. e depois na orla de outra pele. Ora um punhado dessas sementes caíra. nos revela a imensa obra de Eva nos anos dolorosos do Paraíso. que os teus olhos se abrirão e serás como os Deuses sabedores!” Adão teria comido a serpente. sobre a terra úmida e negra. sem descanso. Mas Eva recolhe logo à caverna. a que desenrola sobre a terra o lar. e a sangue. ovos de aves. um momento espantoso! Eis que o Homem domestica o Animal! Desse cachorro agasalhado no Paraíso nascerá o cão amigo. atira a garra. empurra a carne para a brasa viva. decerto. Adão.. Eva. toda atenta sob a coma crespa. ensinava a sugar numa febra de carne fresca. De onde vem ele. com carinho e paciência. a tribo. é ele. às outras peles armazenadas. com a pressa amorosa com que oferece a Maçã a Adão. curiosas raízes. que ele cheira desconfiado. enterra outras . o gostoso aroma? Do fogo. em silêncio. sentada diante da fogueira. porque as suas lascas agudas pregam e furam. Nosso Pai venerável. tão embebida que nem sente Adão entrar e remexer nas suas armas. E este é. e a derruba. na História. onde a posta de veado ou de lebre grelha e rechina. olha ao longe o rolar do rio lento. afaga e alarga as rudes narinas de nossa Mãe venerável. da felicidade. a uma tarefa que a encanta. para se entregar. que treme e que a lambe. com arrastado pensar. Então Eva. com o gosto de acumular. roncando de gozo! E eis que. quando a Serpente lhe disse. a amizade dum bicho. lhe apresenta agora aquela carne tão nova. prepara os povos errantes que pastoreiam os gados. o aquecera. que aquelas peles cosidas serão o resguardo do seu corpo. À beira da fonte descobrira o cachorrinho perdido e ganindo. mansamente. na caverna do homem. pensativa. Os seus olhos rebrilhantes anunciam outra conquista. nossos Pais sobem vitoriosamente outro escalão da Humanidade! A água ainda a bebem na nascente vizinha. através dos seus dedos. É Eva que cimenta e bate as grandes pedras angulares na construção da Humanidade. porém. Assim um furor o tomou. Eva. arrimado à sua grossa lança. Ora em breve uma dessas fartas postas esquece. apanhava conchas. e retalha as postas.

sobre um osso largo. onde já os beiços se adelgaçam.. E pela tarde Adão recolhe contente. assa e pinga nas brasas. Deus. e que todavia sobre ele derrama. balançam chalrando. No chão pousam cascas de coco. Outra pele. a outro canto. ou que as feras superiores vos devorem. é. a estranha tarefa!). com o escândalo do seu bico e das suas asas. ou que. irresgatàvelmente. cabriola com destros amigos. e a testa se encheu com o lento pensar. primo do Orango? Sofrendo − por ter os dons superiores que faltam ao Orango! Sofrendo .e a sua vida é doce. brandamente se disciplina. sociàvelmente. que circulam nas relvas e não podem trepar. com um pêlo mais ralo na carninha mais branca. acamou por cima dum catre de ramos cheirosos. os dias deslizam no Paraíso. E nessa tranqüilidade que se estabelece. A um canto. ao contrário dos nossos incertos sonhos. sempre fartas ucharias do bosque. de amores e de troças às feras pesadas. as nuvens e os ramos dos olmos. pensativo. sem cuidados. altas ervas que espiguem. Assim ocupou o seu dia o Orango. gozando os fios do sol que se emaranham por entre a renda das folhas e lambendo no pêlo dos seus braços o orvalho açucarado.. os bens inteiros da sua Misericórdia. com imparcial carinho. e os estios se franjam de chuvas ligeiras. o mastro. há como uma submissão consciente. galanteia as Orangas gentis que o catam. E Adão (oh. A terra torna estável a sua gleba. tenta gravar.porque nosso Pai Adão. sobre o fofo colchão de musgos que ele. em jogos amáveis de ligeireza e força. consenti que vos deixe.. duma liana florida. vós retrogradeis à vossa Árvore. Lânguidamente. sabendo que em breve o Homem lhe pedirá a estaca. Tão amansadas andam as águas. sentado na ponta dum ramo. dorme Abel. e estira o dorso preparado para o cortar da quilha. o seu dia o Homem. que é a oficina. e molemente se umedece. e penduradas com ele. através das sempre fáceis. onde almoça a banana. e adormece na imensa paz de Deus . estão as lanças e as clavas. num sonho acordado. A lareira flameja: e alumia a face de nosso Pai. No entanto. do fundo do Paraíso. que o esforço da Vida embelezou. brandamente se abandona à delícia de sonhar. Eva torce os fios duma lã de cabra.e cada manhã progredireis. com tão poderoso arremesso para a perfeição do Corpo e esplendor da Razão. o dorso. as pernas estiradas de um veado a correr!. que elegeu em todo o bosque pela sua frescura. salta. com demora e cuidado. Daí. E no entanto. O Mundo pressente e aceita a supremacia do Homem. . abriga a boca da caverna. muito absorto. rolando todo sobre sensações reais. com lestos pulos. que é o arsenal. mas que. nas Árvores. espetado num pau. A floresta já não arde com a leviandade do restolho. vela o cão. apagada. tendo respirado as brisas carregadas de aromas. que em breve. pendurada. os galhos. entre alegres ranchos. O anho. Já os vulcões lentamente se vão apagando. a trave. semelhante às nossas Metafísicas e às nossas Epopeias. com galhos bem secos da Árvore da Ciência. que na sua transparência se miram. de viagens. Todas as estrelas do céu estão presentes. o focinho entre as patas. para quando chegar o arado e a semente. os céus. e os olhos sossegaram num brilho mais certo. à maneira duma lâmpada imperfeita. E eis a seara! E assim nossa Mãe torna possíveis. muito gordo. estendido na folhosa rede. os povos estáveis que lavram a terra. na esperança de criar em torno do seu lar. onde o sol alterna com a bruma. estão os montões de sílex e o malho. e lhe tragam o grão adocidado e tenro. a Energia que vos trouxe da Floresta. oh Pais veneráveis! Outros irmãos vossos ficaram na espessura das arvores . cheias de clara água da fonte.e. mais seguros e fáceis. Mas não sei se vos felicite. Sois já irremediavelmente humanos . um sonho todo feito de certeza. Partilhando do folhelho e do mesmo calor. com caça abundante. O mar afogou os seus monstros. nas gargantas da serra. As rochas não se despenham já com fragor sobre a abundância inocente dos vales. Por fim a Floresta lentamente se cala. e ensaia os sopros regulares com que trabalhará a mó do moinho. pela borda das águas claras. oh Pais veneráveis! Já não receio que a Terra instável vos esmague. com cuidado. sobre folhelho. nem sequer em negar. escutando as límpidas árias dos pássaros. todo nu. uns após outros.. Ao bom calor. esse mal incurável que é a sua Alma! Sofrendo . dentro dumas centenas de milhares de curtos anos. a goiaba. Depois de bem se coçar e bem se esfregar. Cedo recolhe à sua árvore e. E todos os metais se alinham em filão. as ruas e as vielas palreiras da espessura. com uma ponta de pedra. num bocado do seu torrão. bem podemos supor que Abel nasceu . Todas as manhãs o Orangotango acorda entre os seus lençóis de folhas de pendenia. na noite estrelada do Paraíso. Eva será Helena e Adão será o imenso Aristóteles.sementes. preguiça na moleza dos musgos. todos os finos frutos que o tornam tão são e alheio a males como as árvores onde os colheu. sobe com pachorra à arvore dileta. contempla o crescer da Humanidade. O vento. Raramente um Pterodáctilo macula. E agora que acendi. este verídico lar. nas Cidades. pela elasticidade embaladora das suas ramagens. a manga. Uma pele de urso tornou macio o leito de fetos. escuta algum velho e facundo chimpanzé contando divertidas histórias de caça. A lenha estala. ou. já crescido. o remo. Percorre então.de Deus que ele nunca se cansou em comentar. com o olho amorável. a sombra escorrega entre os troncos: − e o Orango ditoso desce ao seu catre de pendenias e musgos. trota. e alegremente se dispõem para o fogo que lhes dará forma e beleza.por arrastar consigo. como gastou.

a ambos cercava de carinho igual. faminto do trono.. A rainha chorou magnìficamente o rei. e que havia anos vivia num castelo sobre os montes. e a fiar de novo o linho das suas túnicas. que. remontaria num raio de luz a habitar o palácio do seu senhor. senhor de tantas províncias. nem decerto nos amam . desde que nosso Pai venerável não teve a previdência ou a abnegação de declinar a grande Supremacia . homem depravado e bravio. Mas. e que amemos toda a sua obra. Os seus vassalos. a uma raça que acredita que a vida da terra se continua no Céu. que partira a batalhar por terras distantes. dentro das suas faixas. nada tinha a recear da vida. pensava na sua fragilidade. desejando só a realeza por causa dos seus tesouros. Mas este era um escravozinho. oh meu doce Criador. decerto.” Mas. Quando a rainha. no meio de tantos inimigos da sua frágil vida e do reino que seria seu. Nenhum pranto correra mais sentidamente do que o seu pelo rei morto à beira do grande rio. levado no seu sonho de conquista e de fama. nos anos lentos que correriam antes que ele fosse ao menos do tamanho de uma espada. de atalaia no seu fojo. também ela tremia pelo seu prìncipezinho! Quantas vezes. e até esses vastos seres que não parecem necessitar o nosso amor. porque se um era o seu filho . como nós. prontamente iriam. com as armas rotas. A Lua-cheia que o vira marchar. que tinha o cabelo louro e fino. que ainda vivia no seu berço. espera a presa.o outro seria o seu rei. Sobretudo continuemos a usar. filho da bela e robusta escrava que amamentava o príncipe. dá o governo da Terra a quem melhor escolheres. Desses inimigos o mais temeroso era seu tio. e a acender de novo a caçoleta dos seus perfumes. deixando solitária e triste a sua rainha e um filhinho. Sòmente. trazendo a amarga nova de uma batalha perdida e da morte do rei. irmão bastardo do rei. sem um braço que o defendesse. esses Sóis. porém. consumido de cobiças grosseiras.no terrível dia 28 de outubro. O seu cavalo de batalha. à maneira de um lobo que. porém. sob o pedaço de linho branco que resguardava a sua nudez. as suas armas. Mas se o seu filho chalrava ao lado . e feliz na sua servidão. bem mais avisado. inicialmente fechadas. negro do sangue seco e do pó dos caminhos. O rei seu amo.e o berço do outro pobre e de verga. e espreitando de cima do seu rochedo entre os alfanges da sua horda! Pobre prìncipezinho da sua alma! Com uma ternura maior o apertava então nos braços. ela tinha a paixão. traspassado por sete lanças entre a flor da sua nobreza. Esse. não ousou declarar reverentemente ao Senhor: − “Obrigado. essas esparsas Nebulosas. que a melhor maneira de o amar é que uns aos outros nos amemos. à beira de um grande rio. nesse reino celeste. de face mais escura que a noite e coração mais escuro que a face. o mais puro. Ai! a presa agora era aquela criancinha. na mão de Deus. Ambos tinham nascido na mesma noite de Verão. abundante também em searas e cidades. insaciàvelmente. para além das nuvens.. Nascida naquela casa real. por seu turno. na sua indigência. entre brocados . Desgraças. e feitas da nossa substância. vinha beijar o prìncipezinho.pois que não nos concedeu também o dom de o compreender. na sua longa infância. com uma horda de rebeldes. com ele pendurado do peito. já estaria agora reinando num outro reino. A leal escrava. Pertencia. ao Elefante ou ao Canguru. que eu por mim. O mesmo seio os criava. o único genuìnamente grande. e nos vales severos de Yen-Chou. e a rocha dura. que tinha o cabelo negro e crespo. A . E ela um dia. assaltos da sorte má nunca o poderiam deixar mais despido das glórias e bens do mundo do que já estava ali no seu berço. seria no Céu como fora na terra. Chorou ainda desoladamente o esposo. A Aia ERA uma vez um rei. através de vozes levantadas em Galileia. sobretudo. enfim. esses Mundos. rei de mama. beijava também por amor dele o escravozinho. retomar em torno dele a sua vassalagem.era para ele que os seus braços corriam com um ardor mais feliz. mesmo o verme. forte pela força e forte pelo amor. e que dormia no seu berço com seu guizo de ouro fechado na mão! Ao lado dele. o dom de o amar . do dom melhor que Deus nos concedeu entre todos os dons.. E não esqueçamos que Ele já nos ensinou. chorou ansiosamente o pai que assim deixava o filhinho desamparado.. e a raiz venenosa. moço e valente. e naquele tio cruel.nem talvez nos conhecem. começava a minguar quando um dos seus cavaleiros apareceu. outro menino dormia noutro berço. que fossem morrendo. e sob as mangueiras de Veluvana. volto já para a minha árvore!. Os olhos de ambos reluziam como pedras preciosas. Todavia. a religião dos seus senhores. senhor de um reino abundante em cidades e searas. o berço de um era magnífico e de marfim. que era formoso e alegre.continuemos a reinar sobre a Criação e a ser sublimes. antes de adormecer. os seus pajens tinham subido com ele às alturas. depois espreitar e farejar o Paraíso.

mais que sentiu. e abafando os gritos no manto. Senhores. Mas ai! dor sem nome! O corpozinho tenro do príncipe lá ficara também. A ama ficara imóvel no silêncio e na treva. ela foi assim conduzida para a Câmara dos Tesouros.. porque nenhum dos duros cuidados com que ela enegrece a alma dos senhores roçaria sequer a sua alma livre e simples de escravo. muito pálida. sucumbira. cobria o seu corpinho gordo de beijos pesados e devoradores . Toda a nobreza fiel perecera na grande batalha. adormecido. o príncipe que despertara. com um andar de morta. ao fundo da galeria. as pilhas de moedas. já frio.e tirando o seu filho do berço servil. uma aclamação. sobre lajes. Mas à defesa faltava disciplina viril. refulgiam os escudos de ouro. como num sonho. a sua gente fiel. com súplicas de que fosse recompensada. com flechas no flanco. Olhou . Bruscamente um homem enorme. No entanto um grande temor enchia o palácio. ao fugir. escutou ansiosamente. como se o amasse mais por aquela humildade ditosa. atirou-o para o pobre berço de verga . deitou-o no berço real que cobriu com um brocado. por toda a câmara.dos beijos que ela fazia ligeiros sobre as mãos do seu príncipe. arrebatou o príncipe do seu berço de marfim. entre as aias. deslumbrada. entre os seus dois meninos. Depois houve um gemido. as armas marchetadas. E a rainha desventurosa apenas sabia correr a cada instante ao berço do seu filhinho e chorar sobre ele a sua fraqueza de viúva. lento e . Descerrou violentamente a cortina.. seguiam num respeito tão comovido que apenas se ouvia o roçar das sandálias nas lajes. mandara à morte o seu filho. abraçou apaixonadamente a mãe dolorosa. já clara e rósea. todas as riquezas daquele reino. com as roupas desmanchadas. os montões de diamantes. com lágrimas entre risos. Nos seus clamores havia. acumuladas por cem reis durante vinte séculos. num sonho que o fazia sorrir. emergindo da sua alegria extática.. a luz da madrugada. um clarão de lanternas.. noite de silêncio e de escuridão. E. quase nua. à entrada dos vergéis reais. envolto num manto. o bastardo cruel vindo roubar. indo ela a adormecer. Mas brados de alarme atroaram de repente o palácio. E de entre aquela multidão que se apertava na galeria veio uma nova. onde agora reinava uma mulher entre mulheres. brilhos de armas.. esmagado pela forte legião de archeiros. a ama descobriu o pobre berço de verga. entrando pelos gradeamentos de ferro. corriam passos pesados e rudes. entre outros. Foi um espanto. que errava no cimo das serras. como cai um corpo morto. com um suspiro. As portas da cidade tinham sido seguras com cadeias mais fortes. Ao avistar o berço de marfim. como se arranca uma bolsa de ouro..existência. despedaçada.como se os braços em que estreitava o seu príncipe fossem muralhas de uma cidadela que nenhuma audácia pode transpor. num choro. abalou furiosamente. lhe iluminava toda a face entre os seus cabelos de ouro. Um longo ah. Era o capitão dos guardas. Lá estava junto do berço de marfim vazio. aias. O bastardo morrera! Colhido. Assim tumultuosamente lançavam a nova cruel os homens de armas . Num relance tudo compreendeu .quando a rainha. sem uma vacilação. descera à planície com a sua horda. surgiu à porta da câmara. ergueu nos braços. Então. e escolhesse de entre essas riquezas. Embrulhada à pressa num pano.o palácio surpreendido. e a beijou. O príncipe lá estava. que eram como as maiores dos maiores tesouros da Índia. Uma roca não governa como uma espada. uma dúvida. O seu corpo lá ficara.. E desgrenhada.. E sem que a sua face de mármore perdesse a rigidez. na verdade.. de face flamejante. Pelas janelas perpassou o longo flamejar das tochas. magnìficamente. no seu catre. já despida. homens de armas. entre beijos desesperados. E além. caiu sobre as lajes. e já através de casais e aldeias felizes ia deixando um sulco de matança e ruínas. matar o seu príncipe! Então. porém. para conservar a vida ao seu príncipe. o homem de rapina. um curto rumor de ferro e de briga. muda e hirta.. E. cintilavam. roxo ainda das mãos ferozes que o tinham esganado!. entre os jasmineiros. Os pátios ressoavam com o bater das armas. com um manto negro sobre a cota de malha. gritando pelo seu filho. avistou homens. adivinhou. então calada. só então. Só a ama leal parecia segura . ele e vinte da sua horda. Quem o salvara? Quem?. A mãe caiu sobre o berço. era para ele mais preciosa e digna de ser conservada do que a do seu príncipe. ardente aclamação. longe. para lho mostrar. A rainha tomou a mão da serva. e lhe chamou irmã do seu coração. vazio. reluziam. a serva admirável que salvara o rei e o reino. muito lenta. todas as que o seu desejo apetecesse. que erguiam lanternas. numa poça de sangue. a mãe ditosa... Nas atalaias ardiam lumes mais altos. como um fardo. mais tristeza que triunfo. acendeu um maravilhoso e faiscante incêndio de ouro e pedrarias! Do chão de rocha até às sombrias abóbadas. um corpo tombando molemente. a rainha invadiu a câmara. aquela que o salvara! Serva sublimemente leal! Fora ela que.. As espessas portas do Tesouro rodaram lentamente. O bastardo. Ora uma noite. O príncipe dormia no seu novo berço. entre o palácio e a cidadela. Mas como? Que bolsas de ouro podem pagar um filho? Então um velho de casta nobre lembrou que ela fosse levada ao tesouro real.. os longos fios de pérolas. Na terra areada. quieto. ràpidamente. E nesse instante um novo clamor abalou a galeria de mármore. quando um servo destrancou as janelas. arrancou a criança.correu ao berço de marfim onde os brocados luziam. atirando os cabelos para trás.

Mas essa curta visita a Nosa Senhora do Pilar bastou para que D. a caça. e com medo de ofender a Senhora. O Defunto I NO ano de 1474. E todos os domingos comprava no adro. brilhantes e secos. sendo de sangue bravo e alegre. fidalgo de grande riqueza e maneiras sombrias. que foi por toda a Cristandade tão abundante em mercês divinas. emergindo deles. se tingia de rosa e de ouro. velhas lajes de sepulturas. agarrou um punhal. murmurar docemente uma Salve-Rainha. além das grades. sua vizinha. não tendo para se recrear e respirar. reinando em Castela el-rei Henrique IV. mesmo nas calmas do Estio. Todos os lentos dias da lenta semana os passava a senhora D. Apenas os seus olhos. tomara ele o piedoso costume. o rosário caindo de entre os dedos finos. de quem não sabia o nome nem a vida. Leonor no encerro do gradeado solar de granito negro. de olhos mais abertos e duros que os de uma coruja. Rui se enamorasse dela tresloucadamente. sem respirar. de quem sempre se conservou devoto e fiel servidor. em pregas duras. ou rosas singelas.e sobre um escabelo ao lado. a tão falada e formosa mulher do senhor de Lara.. em que D. onde herdara moradias e uma horta. arcediago e mestre em cânones. Rui de Cardenas.maravilhado. ao nascer. só por lho haver severamente ordenado o seu confessor. Mas. aquele lento mover da sua mão aberta. Depois houve um silêncio. desde a sua chegada a Segóvia. encarou a rainha. que espalhava. desceu levemente a nave sonora e no portal se quedou. sua divina Madrinha. os passos e a demora. e já o Sol se erguia. que punhado de rubis. Balbuciando. passou por sobre a turba que emudecera. Era lá. Essa casa. para além do adro. sobre as lajes da capela. e gritou: − Salvei o meu príncipe. em frente ao altar da Senhora. quando ao cabo de um tempo. permitia esta visita fugitiva. algum ramo de junquilhos. Que jóia maravilhosa. entre um molho de armas. Ao escurecer. foi menos para a Virgem do Pilar. as três Ave-Marias com que cada manhã saudava Maria.vou dar de mamar ao meu filho! E cravou o punhal no coração. Quando depois dum momento de enleio e de delicioso pasmo se ajoelhou. que se chamava D. envolta na refulgência preciosa. mais que um fundo de jardim verde-negro. do que para aquela aparição mortal. e o seu menino chorava decerto. em três Ave-Marias. a ama não se movia. ou cravos. que estava agora o seu menino. de entre as rexas de uma gelosia. Tão ciumento era o senhor D. veio habitar na cidade de Segóvia. apanhou o seu sombreiro. de visitar todas as manhãs. ansioso. à saudação de Vésperas. e. e com ele apertado fortemente na mão. que fio de diamantes. além. aqui. a bênção e a graça. apontando para o céu. a que ele ficava espreitando sofregamente. a uma ramalheteira mourisca. Alonso de Lara. onde cantavam as três bicas de um chafariz antigo. Rui tivera justamente por madrinha. E no meio da câmara. onde subiam os primeiros raios do Sol. que apenas se avistava. Por amor. desposara uma menina falada em Castela pela sua alvura. mais branca entre as rendas negras e os negros cetins que à volta do seu corpo cheio de graça se quebravam. fina toda ela e macia. que lhe legara seu tio. era o escuro e gradeado palácio de D. com uma prece ingrata. e que valia uma província. a sua divina madrinha e de lhe pedir.. cercado de tão altos muros. esperando por ela entre os mendigos lazarentos que se catavam ao sol. à hora de Prima. Todos seguiam. a multidão. com as compridas pestanas pendidas sobre o livro de Horas. amava as armas. ficava ao lado e na sombra silenciosa da igreja de Nossa Senhora do Pilar. e por dois possantes lacaios que a ladeavam e guardavam como torres.. Nossa Senhora do Pilar. se tinham erguido para aquele céu que. de muito limpa linhagem e gentil parecer. todo grisalho. todo cravejado de esmeraldas. nesse céu fresco de madrugada. ainda que. Rui sentiu . Era um punhal de um velho rei. cabelos cor de sol-claro e colo de garça real. aureolada pelos seus cabelos de ouro. com ternura e cuidado galante. mesmo depois de alguma rija correria por campo e monte com lebréus ou falcão. e pelas facilidades desta santa vizinhança. na manhã de Maio em que a viu de joelhos ante o altar. A esta venerada igreja do Pilar vinha também cada domingo D. os saraus bem galanteados. e só que por ela daria vida e nome. que já na madureza da sua idade. ia ela escolher? A ama estendia a mão . e procurava o seu peito!. D. de uma brancura de lírio aberto na sombra. numa réstia de sol. alguma ponta de triste cipreste. acompanhada por uma aia carrancuda. Alonso que.. ainda voltava para. e mesmo por vezes uma noite ruidosa de taverna com dados e pichéis de vinho. e era tarde. e agora . Agarrara o punhal. em frente. um cavaleiro moço. Então a ama sorriu e estendeu a mão. e branca. Estava lá. Leonor. se ela se rendesse por tão incerto preço.

Leonor descia a nave. começou a rondar os muros altos do jardim . pôs devotamente ante a imagem da Virgem as flores que não oferecera. como encarcerada. II A VELHA aia. Até que chegou o vagaroso domingo: e passando ele no adro. Rui quando ela penetrou na sombria arcada. num cismar amargo e doce. Mas sempre se erguia mais desditoso e tendo apenas a sensação de quanto eram frias e rígidas as pedras sobre que ajoelhara. sobre as mesmas lajes onde a vira ajoelhada. essa a tão falada D. pensando quanto era demorado o rosário que ela rezava. Toda a sua vida se tornou então um longo queixume por sentir tão fria e desumana aquela mulher. que prendera e tornara sério o seu coração ligeiro e errante. com piedoso receio de não prestar à sua Madrinha divina a atenção. sob o véu descido. em que não luzia curiosidade. a que antevia bem o desengano. Outras claras manhãs de domingo encontrou D. e por trás das frias pedras havia ainda um frio peito. mas dona já do seu coração. de olhos mais abertos e duros que os de uma coruja. cruzou D. única entre as mulheres. Leonor: e sempre os olhos dela permaneciam descuidados e como esquecidos. com o ombro contra uma esquina. esperando que o seu coração serenasse e se consolasse. Leonor. como uma estrela que nas alturas gira e refulge. com piedoso cuidado. Os cravos quase lhe caíram naquele gostoso alvoroço em que o peito lhe arfou mais que um mar. e até nem penetrava na igreja de Nossa Senhora quando casualmente. nem mesmo consciência de se estarem trocando com outros. Leonor passou e se deteve. a linda e nobre senhora de Lara. não a procurou. Ainda D. sem palavras de oração. o desafogado ar e o livre sol que o inundavam. branca. que espalhou pelos mendigos e pelo adro. Esperou sôfregamente à porta. O moço cavaleiro não entrou na igreja. ou quando se cruzavam com os seus era tão singelamente. pois. já ele sentia dentro de alma o doce rugir das sedas fortes que ela arrastava nas lajes. doce e pensativa. sob a influência d’Aquela que tudo consola e serena. atravessou vagarosamente o adro. uns olhos serenos. Rui já podia pensar que ela fosse desumana e fria. a avistava ajoelhada. a adoram e lhe entregam o governo da sua ventura e sorte. Rui abalou. entre os dois lacaios. Era apenas soberanamente remota. pendida sobre o Livro das Horas. desde que a reconheceu assim inabalável na sua indiferença. em noites veladas sobre o pergaminho. e nele divinizada. conhecia também a ramalheteira mourisca agachada diantedo seu cesto à beira da fonte. de grossos pilares. secando os cravos com o ardor das mãos trémulas. Diante do altar da Senhora do Pilar. Os muros não se fendiam. a senhora D.ou embuçado numa capa. gozando decerto. Decerto D. tão limpos de toda a emoção. na igreja. que ele gastou sentado a um poial da sua janela. e ficava. com um fundo suspiro. com um molho de cravos amarelos para a sua divina Madrinha. ou soberbamente desviados com soberbo desdém. das grades não saía sequer um rasto de luz prometedora.. ao seu altar. como uma lua de entre as nuvens. sobre que assentava o palácio. num mundo que ela não distingue. com a sua cabeça tão cheia de graça e de ouro. Então começaram sete arrastados dias. entre os mendigos. e Nossa Senhora a ambos nos tenha na sua graça! E como era cavaleiro muito discreto. mas uns olhos repousados. ou os pobres que se catavam ao sol diante do portal da Senhora. considerando aquela negra porta recoberta de ferragens como se fosse a do Paraíso. Leonor já o conhecia: − mas. e desapareceu por uma esguia porta recoberta de ferragens. olhos que ela não suspeita a contemplam. E foi um espanto para D. eu não posso: foi um sonho que findou. Então D. Leonor.no coração um desusado bater de ansiedade e medo. no seu quarto. Rui os preferiria ofendidos e faiscando de ira. negras e grossas como as dum cárcere. O mundo todo só lhe parecia conter rigidez e frieza. e por ela devesse sair um anjo para lhe anunciar a Bem-Aventurança. como entre duas torres. Era. E ela ergueu também os olhos para D. do portal. à hora de Prima. que saía de entre os pilares da escura arcada. que D. pedra por pedra. que decerto lhe roubaria toda aquela que era só humana. Numa esperança. ao repicar dos sinos. tão acesos e enegrecidos pelo desejo. nem sequer ergueu mais os olhos para as grades das suas janelas. Rui pensou: − Ela não quer. ou porque não o diferenciava ainda das coisas e das formas indiferentes. A branca senhora passou -e o mesmo distraído olhar. Para se desafogar compôs. D. Com a aia de olhos muito abertos colada aos vestidos. não se ergueram para ele. assim. o deixou escorregar sobre ele. molhando os dedos na pia de mármore de água benta. os seus olhos. Todo o solar era como um jazigo onde jazia uma insensível. pousava ele os joelhos. trovas gementes que o não desafogavam. ou porque não compreendesse aquele moço que de repente se tornara tão pálido. em baixo. e a alma toda lhe fugiu em tumulto através do olhar com que a devorava. ou tímidos ou desatentos. e. sem saber que. desatento e calmo. lentas horas se quedava contemplando as grades das gelosias. Rui. Nem D.. não tardara em contar ao senhor de Lara .

Cedo. dos jardins. que lhe pisava o colo. . no seu sossego de coração. Leonor “que no puede venir (murmurava curvado diante do altar) por lo que sabeis. partiria.. para rugir muito baixo.cada um dos seus movimentos. era sempre remoendo o mesmo fel: − Tentou contra a virtude dela. Bem amargamente o sabia já o ciumento fidalgo. tão enrugado e taciturno seu marido e senhor. que eram quase a liberdade. a duas léguas de Segóvia! A partida não foi de madrugada. dos seus viçosos pomares.é que mais o suspeitava dentro do coração de D. e até quem lhe polia a espada. Alonso contra o sobrinho do cônego. com tantas seguranças. se postava diante da igreja para atirar o coração pelos olhos à senhora D. na verdade. o destro enganador? Tudo no desabrido fidalgo se exacerbou . para esplêndido gosto da sua vida. E por o sentir assim sumido dos sítios e giros costumados . a levar as desculpas de D.. o jeito de cismar sob as árvores do jardim.e conhecia todos os seus passos e pousos.luzia sempre uma grande espada numa. E depois esperava que no campo se aligeirassem aqueles cuidados que traziam.que um moço audaz. mal dormia .. Redobradamente áspero então se voltava o rancor de D. Leonor suspeitou manha e fingimento. Nas manhãs costumadas corria ele à igreja para rezar o rosário. pesar da sua idade grisalha e feia. Rui já não esperava no adro a senhora D. nos derradeiros tempos. e tão compridas ruas de loureiro e teixo. os olhares dardejados daquele moço galante . nem à porta da igreja às horas de missa. de madrugada. as esperas. Fora um grande contentamento para D. e até quem lhe talhava os gibões. se mostrava a senhora D. ficando a liteira diante da arcada. Leonor com mão bruta e sôfrega. enquanto um cavalariço passeava pelo adro a mula branca do fidalgo.. e cada hora do seu viver. porque ao cabo de uma semana ainda se não desanuviara a face de D. a esperar longas horas. aturdiam a viela com o tilintar dos guizos. − e imediatamente lhe vedou as visitas à Senhora do Pilar. o impudente sobrinho do cônego. À cabeceira do vasto leito. Nunca o avistava. e sentindo bem ranger e abrir a porta por onde a senhora ia aparecer. Alonso) a esconder alguma bem danada tenção! Que tramava ele. que ousava erguer o seu baixo desejo até à alta senhora de Lara. Leonor . e aquele colo de garça real. embrulhado na sua samarra orlada de peles. nem rondava amorosamente os muros do palacete. ao toque de Ave-Marias. como um falcão. e aqueles cabelos cor de sol-claro. agarrando a senhora D. os mais fugitivos modos. É culpado por duas culpas e merece duas mortes! Mas ao seu furor quase se misturou um terror. depois de muito trilhar o lajedo da galeria. por ter apetecido aquela pureza. para onde abriam. nem recolhendo do campo. enxairelada à mourisca. Rui soube a jornada do senhor de Lara: − e assim a soube toda a cidade. Alonso . as janelas dos seus aposentos claros: aí ao menos tinha largo ar. gritou pelo intendente e ordenou que se preparassem trouxas e cavalgaduras. com a alvorada. rindo com um cavaleiro gordo que lhe lia um pergaminho. com a senhora D. uma noite. a cavalo. a espreitar. E quando passeava na sombria galeria do solar.e a cada instante se solevava em sobressalto de entre as fundas almofadas. e alegretes a regar. a grenha crespa eriçada para trás e os punhos cerrados. numa ânsia: “Diz que me queres só a mim!. para a sua herdade de Cabril. constantemente se atravessava no adro. No sossego de D. a sua mais intensa ocupação era odiar D. agora. os silêncios e o conversar com as aias. Mas. as distrações sobre o bordado.e puxara as barbas de furor. quando soube que D. de cortinas abertas. vigilância. estando rente da arcada. porque quando da sua janela espreitava.nem decerto havia frescura de arvoredos. carregados de baús.ciúme. um relicário e o copo de vinho quente com canela e cravo para lhe retemperar as forças . Leonor. Enfim. nem penetrava na igreja quando ela lá rezava. Leonor. Leonor. remoendo surdamente desconfianças e ódios. permanecera de costas voltadas. junto da mesa onde ficava a lâmpada.. sonora e toda de abóbada. sob o sol e a mosca. um viveiro de pássaros. como uma fuga de avarento que vai esconder longe o seu tesouro: − mas realizada com aparato e demora. com o bico da barba grisalha espetado para diante. e que tão inteiramente se alheava dela que uma manhã. lá se empoleirava. de gentil parecer. Leonor. Constantemente agora o trazia vigiado por um serviçal . observara os giros. Assim D. a airosa senhora a caminho da igreja. Rui. presos às argolas. e do lado do jardim a récua de machos. Leonor. sem se mover. Não logrou esta esperança. rasgadamente e sem grades. Tão bem afectada indiferença só servia decerto (pensou D. Rui. que eram só seus. rancor. Mas tão inalteradamente serena. aos domingos. e o ar e a cor com que recolhia da igreja. pleno sol. De noite soltava dois mastins nas sombras do jardim murado. E mais ansiosamente ainda vigiava D. as janelas de D. novo morador nas velhas casas do arcediago. e os amigos com quem caçava ou folgava. virgem puríssima!” Cuidadosamente visitou e reforçou todos os negros ferrolhos das portas do seu solar.” Depois. Desde então. que gostava de Cabril.. como um falcão. tentou contra a minha honra. que nem o ciúme mais imaginador de culpas poderia achar manchas naquela pura neve. Leonor.

Rui de Cardenas! .. atirou roucamente. à luz duma tocha de cera. no seu quarto. indo apenas pendurar na barra do leito o rosário em que rezara. volvendo para D. e muito secretamente levantava a escada. de quem nunca ouvira falar. do lado da azinhaga. Com um rude aceno despediu as aias. Rui de Cardenas! Ela ousou erguer os olhos. Como em Segóvia. Agora. entrai pela porta do jardim. o senhor de Laras entrou muito vagarosamente. o senhor de Lara ditou. se arrumava de noite uma escada!.ordenou o marido mais surdamente. gritou. Agora aqui estou em Cabril. com os punhos cerrados nas bordas da mesa. a encontrara. trazido pela mão de seu marido? Tão ìntimamente mesmo se entranhara esse homem na sua vida.. se acomodou sobre o escabelo. Quem era esse D. Então. Leonor.quero que me escrevais aqui uma carta que muito convém escrever.. onde sereis bem docemente agasalhado por quem ansiosamente vos espera. que vos varo o coração! Mais branca que a cera da tocha que os alumiava.disse . empurrando um escabelo para junto da mesa.. Assim. Tão costumada era nela a submissão. a grenha basta eriçada para trás... junto ao Cruzeiro. por Deus. onde pousara o punhal. ou muito mal pagais o amor que vos tenho. não me façais mal!. ou aromas esparsos nos rosais em flor. que. para que a letra fosse esmerada e clara.. ao menos com os olhos. que eu escreverei. Alonso meteu o pergaminho no cinto. o olhar perdido na escuridão da noite silente. o senhor de Lara arrancou do cinto um punhal. que calmassem agitação tão amarga e funda. um homem. A D. D. Ela ficara sobre o escabelo. e logo lhe dava novas apressadas.. penetrava no seu destino bruscamente. as mãos cansadas e caídas no regaço. ardendo por vos ver. rezava o terço com as aias. e os seus dedos finos. a seguira. que nunca atravessara a sua vida. até ao terraço. rugindo surdamente: − Ou escreveis o que vos mando e que a mim me convém. Leonor traçou vagarosamente o seu nome.endereçai a D. D. mostrar claramente..sussurros de águas correntes. Leonor murmurou: − Pela Virgem Maria. Rui de Cardenas. uma carta que dizia. pois que meu marido se acha ausente noutra herdade. trazendo na mão uma folha de pergaminho e uma pena mergulhada no seu tinteiro de osso. enterrado na sua samarra.. recuando da mesa. passando o tanque.. Vinde esta noite. Leonor arrojou a pena. com o bico da barba espetado para diante. que eu vivo para vos obedecer e servir. para ele subir. Leonor a face a que impusera tranquilidade e agrado. num infinito espanto. Menos escura lhe parecia a morte que essa escura aventura em que se sentia envolvida e levada!. mais longa. e contra a sua janela. quando finda e traçada em letra bem incerta e trémula: − “Meu cavaleiro: Muito mal haveis compreendido. que lhe agitou junto à face.gritou o homem sombrio.. bem fàcilmente o podeis realizar.. sem que ela se apercebesse. assinai por baixo o vosso nome. pois que era coisa natural e bem ligada receber dela carta de tanta paixão e promessa. esmagando a frágil e desditosa mulher sob o olhar duro que fuzilava.. tão pouco povoada de memórias e de homens? E ele decerto a conhecia. na galeria sonora de grande abóbada. ficando a escutar o homem que desmontava. talvez gentil. Rui de Cardenas. senhora. . D.” − Agora. junto ao punhal que embainhara. num tremor supremo e que tudo aceitava. que constantemente galopava entre Segóvia e Cabril. que já para ele se abria de noite a porta do seu jardim. e um jeito de arreganhar silenciosamente o beiço.” Mas quando ele ditou a outra. sem outro reparo ou curiosidade. mandai. E todo o interesse da sua vida se concentrara num serviçal. e moço decerto bem nascido. senhor.. traçaram a primeira linha curta que o Senhor de Lara ditara e era: “Meu cavaleiro. como se apenas viesse por coisas naturais e fáceis: − Senhora . numa aflição: − Senhor. para que convém que eu escreva tais coisas e tão falsas?.. em Segóvia. e. com a carne arrepiada ante aquele ferro que luzia. E. E ela endereçou a sua desonesta carta a D. e se o vosso desejo corresponde ao meu. − E agora . e saiu em silêncio com a barba espetada... sem descanso passeava.. que isso sobretudo convém! D. e que ele por vezes esperava no começo da aldeia. que é a janela do meu quarto.. Para quê?.. − Andai!. Uma noite em que D. através dos dentes cerrados .. aos pedaços. e esta de Cabril é toda fácil e aberta. como se meditasse maldades a que gozava de antemão o sabor acre. Nem vos agasteis. na surpresa daquele nome desconhecido. como se a pena escaldasse. ofegante.. e dum modo amargo. ou. que o temiam como a um lobo. Aí avistareis uma escada encostada a uma janela da casa. aos repelões. tão quieta. E era seu marido que muito secretamente escancarava a porta. tão vermelha como se a despissem diante de uma multidão.. abafando o rumor dos passos nas lajes do corredor. Num brusco furor. com muita aplicação. e que não vos pude nunca.

encontrasse a morte no sítio da sua esperança. O moço do campo insistia. naquela vasta casa aberta! Mas quanto desgraçada também se aquele moço. naquele silêncio e solidão da noite. Rui com uma promessa magnífica. murmurando: − Senhor. daí-vos pressa em ler. sem padre. que tirou de dentro do surrão uma carta. Sem dúvida ele surpreendera olhares. com tanta deslealdade e vilania.. com a promessa do encantador jardim aberto. Rui abriu o pergaminho. Desgraçada dela se o senhor de Lara morresse. e. palpitando por ela. senhor. e depois mostrar por toda a Segóvia. o seu amor. Ah! se o pudesse avisar. . III D. sobre o coração.. da escada posta contra a janela. se cevava.. desde Segóvia a Cabril. se ergueu um moço de campo. Vinte e cinco anos. a esperara ao portal da igreja. que lhe escureciam todo o dever de cavaleiro e de cristão. e inocente moço. Rui de Cardenas. nem sacramentos.Então.. levantando a alma toda para o céu. de madrugada! Como. Assim. a vergonhosa verdade. Era uma cilada! O senhor de Lara atraía a Cabril esse D. morto em pleno pecado. passos. E assim.. quando de um banco de pedra. quando ele subisse. murmurou... Virgem Mãe? Oh! decerto repeliria.. ali.porque nunca o senhor de Lara permitiria que vivesse o homem que recebera tal carta.. a deixasse solitária.se era o mesmo de quem se lembrava. aviai! Nem precisais responder. decerto . e a escada erguida. Assim seu marido usava a sua beleza. aquela carta em que lhe fazia oferta do seu leito e do seu corpo a mulher de Alonso de Lara! Mas não! o desventurado correria a Cabril ... Duas lágrimas saltaram dos cansados olhos de D. eram as promessas que se faziam rebrilhar ante os olhos seduzidos do moço desventuroso. na outra noite. o moço temerário. assaltasse brutalmente. Leonor. com a alma encharcada em pecado de amor! Para morrer. Ela passara − indiferente. e doce.. Mas como? quando? Confusamente se lembrava ela de um moço que um domingo a cruzara no adro. e que por esse amor vinha correndo deslumbrante. a carta dela. Mas se o senhor de Lara esperasse fora dos muros da quinta. a espada a dormir na bainha.. ele . e por um amor que.. que vinha cheio dela. tenções deste senhor D. sem defesa. chamado por ela. indefeso e solitário! E ela. Mas o espanto dele e a cólera do seu desejo enganado! “Por Vós é que eu vim chamado. só podia nascer de ciúmes. com seu nome. que era o sítio do seu pecado.. como a rede de ouro em que devia cair aquela presa estouvada! Onde haveria maior ofensa? E também quanta imprudência! Bem poderia esse D. A quem os levava?. E dobrando os joelhos. em Segóvia.. as mãos embaraçadas. que a sua mão traçara. inquieto: − Aviai. pálido. bem cedo. a sua janela estaria aberta. a estivessem suplicando e trespassando. mal acautelado por bem namorado. e.. e decerto o matar. o seu leito.. à porta da igreja..pois que tal ódio do senhor de Lara. sob a mudez e proteção da noite! Mandaria realmente o senhor de Lara encostar uma escada à janela? Decerto. Rui. sem lhe saber nunca um gosto. com um gibão de veludo roxo e um ramo de cravos na mão. mal seguro sobre um frágil degrau. para com mais facilidade o poderem matar.e para morrer.. D.. nalguma azinhaga. com grandes olhos negros e quentes.. seu marido seguramente mataria esse homem. e aquele homem assomando à janela na sombra macia da noite tépida. D. enquanto os olhos dele. no fresco pátio da sua casa. sem saber. ou por menos forte. com um molho de cravos na mão. todo na esperança dela!. Seria esse? Era de nobre parecer. ao pobre. lha entregou. aquele moço morria por amor dela. Rui. RUI entrava. num relance. sem que o outro conhecesse a quem matara? E ela. para dele se apoderar. o seu corpo.. ou por menos destro. e. vela por todos nós!. Leonor compreendeu a verdade. e que a amava. não aceder ao convite tão abertamente amoroso. senhora!” E ali trazia. miseràvelmente morrer no negro silêncio da noite. Rui de Cardenas desconfiar.. que tenho de voltar a Cabril. e uma escada estaria erguida contra a sua janela à espera de um homem! Emboscado na sombra do quarto. lhe valia logo a morte! Decerto por amor dela . rindo e triunfando. num terçar de armas. Senhora minha. no seu quarto. aquele D. húmidos e negros. muito pálido... pela hora da calma. rolasse para a eterna desesperança. Que faria ela. Basta que me deis um sinal de vos ter vindo o recado. como para o enterrar no coração. Os cravos que segurava na mão eram vermelhos e amarelos. no deslumbramento que o tomou. em face ao seu leito. e todas as portas abertas. na sombra. a quem me mandou. onde a Lua se começava a levantar. se não havia em Cabril serviçal ou aia de quem se fiasse? Mas deixar que uma bruta espada varasse traiçoeiramente aquele coração. Como lhe poderia contar a emboscada e o dolo? Era tão longo de contar.. ódio que. e tão airoso. caísse ele traspassado. bateu com ele contra o peito. Oh! a desabrida e ardente correria de D. numa infinita magoa e fé: − Oh! Santa Virgem do Pilar. que lhe arrancou um grito ansiado e mal sufocado... soberbamente. e o marido que a devia defender morto no fundo duma azinhaga.. vela por nós ambos.

onde ela o esperaria. que não me entendeste! Vem! Quem te desanimou já te pertence!” Houvera jamais igual ventura? Tão alta.. Sempre ela o amara. com grande paciência. com amorosa sagacidade. E já abalava na ponta das alpercatas leves. a procurar fora dos muros a frescura da noite. à Virgem e a todos os santos que levassem aquele gentil cavaleiro na sua doce e santa guarda. um mendigo. Daí o caminho... e onde os seus corpos ficavam. quando de madrugada. um gibão de veludo negro e as essências perfumadas. brancas e limpas da carne pelo bico dos corvos. ele recolhesse a Segóvia. fora em dia do apóstolo S. Aí. toda sua. Mas o seu maior cuidado era o caminho para Cabril. Tanta firmeza. melhor e mais deliciosa por tão preparada. e aqueles braços fechados se lhe abrem. pela porta de S. Rui o deteve: − Escuta. dentro em breves instantes. com o sombreiro bem levantado da face. Rui galgou as escadas de pedra. para a experimentar. − Bem. e cheia de constância. Depois. Era. e que tocava monòtonamente a sua sanfona. apesar de bem o conhecer. pois. sem dor. quando escureceu. que decerto atrás dela. rente . por prudência. tudo aprontava amorosamente para a triunfal jornada: as finas roupas. baloiçados da ventania. e pensara: − “Eis a torre da minha ingrata!” Como se enganava! As noites agora eram de Lua. Mauros. D. Antes nela logo percebeu um amor muito astuto. ainda lha tornavam mais bela e mais apetecida! Com que impaciência olhava então o Sol. se esconde ante os estorvos e os perigos. Duas vezes desceu à cavalariça a verificar se o seu cavalo estava bem ferrado e bem pensado. saindo dos divinos braços. que o moço enrolou e sumiu no surrão. D. preparava a noite radiante em que lhe daria também o seu corpo. desde a manhã bendita em que os seus olhos se tinham cruzado no portal de Nossa Senhora. em lamúria. e no seu aposento. Assim D. − pois quanta desventura em saber que depois de tal ventura. iam dar sepultura sagrada às ossadas caídas no chão negro. e a velha ponte romana com o seu Calvário. e ele sairia de Segóvia caladamente. e com o corpo e com a alma aquela mulher lhe grita: − “Oh! mal-avisado. tão desapressado nessa tarde em descer para os montes! Sem repouso. seria sua. recalcando o menor suspiro. quando ainda se não tivessem apagado diante dos retábulos das Almas aqueles lumes devotos? E o que fizera ele para lograr tão grande bem? Pisara as lajes de um adro. Rui meditava a sua jornada venturosa. Nenhum encontro o inquietou até à porta de S. indiferentes ou desatentos. as finas rendas. Ainda nessa Inverno por lá passara. que é pelo Cerro dos Enforcados. adormecendo desconfianças. desceu logo do cavalo. D. Que caminho tomas tu para Cabril? − O mais curto e sòzinho para gente afoita. como num passeio natural. Sobre o soalho. Mauros. justamente. maldizendo uma frieza que lhe parecia mais fria que a dos frios muros. Por trás do cerro era a lagoa das Donas. onde se enforcavam os criminosos. no seu quarto. por ser muito forte. e em torno às torres da igreja começaram a girar os morcegos. pediu. se não erra a lei humana. o medo daquela felicidade que se acercava e que lhe parecia sobrenatural. tão inesperadamente adquirido por um instante. que não se erguiam. se arremessou sobre o seu cavalo. quando o corregedor e as confrarias de caridade e paz. abandonara a sua esperança. e avistara a torre dos de Lara. até que as cordas apodrecessem e as ossadas caíssem. Rui arrancou uma das luvas bordadas a retrós. sem mesmo tirar o sombreiro. esse sítio de tristeza e pavor. à hora de vésperas. quando. depois. a sua Leonor. agachado na escuridão dum arco. a folha da espada que levaria à cinta. com os cabelos soltos! Foi com sofreguidão que desceu a escada. enquanto a tarde ia caindo. certo que essa mulher de divina formosura. o bem sublime da sua vida.depois de uma tão constante. procurando com os olhos outros dois olhos. A derradeira vez que por lá andara. e a aldeia apinhada em torno ao mosteiro franciscano. e nas esquinas do adro se acenderam os nichos das Almas. com um aceno. famosa em Castela. e mudamente prepara a sua hora de contentamento. em que D. atravessou o adro muito lentamente. E eis que de repente aqueles olhos distraídos o procuram. ressequidos do sol. com os seus quatro pilares de pedra. rezar e pedir a bênção à sua divina madrinha. corria liso e direito a Cabril. indo montear com dois amigos de Astorga. em procissão. Então. E enquanto ele rondava aqueles muros do jardim. mal alumiado.. de novo leu junto da gelosia aquele pergaminho divino. com as gelosias cerradas para melhor concentrar a sua felicidade. Com um salto. vergou e revergou. Rui parara para lhe atirar uma esmola. o mundo todo uma aparência vã e a única realidade esse quarto de Cabril. à posse inteira do seu ser. largos e nus. já ela lhe dera a sua alma. no silêncio e segurança duma alcova. Leonor o chamava de noite ao seu quarto. quando se lembrou que nessa tarde não fora à igreja. já devia caminhar a desventura! Já na verdade caminhava. E não o maravilhava esta oferta . imperturbada indiferença. recairia logo sob o poder de outro amo! Que importava! Viessem depois dores e zelos! Aquela noite era esplêndidamente sua. o valente moço sentiu um medo estranho. tão rara era. porque. esperara no portal de uma igreja. Mas. e a azinhaga funda que levava à herdade do senhor de Lara.. pois. Bem o conhecia também. tão fino engenho nas coisas do amor. que. esburgadas pelas aves.Muito pálido. D. Matias. e mais inacessível que um astro.. Um galope curto o punha no Cerro dos Enforcados.

. depois de alguns casebres de oleiros. sendo humana... e passava . D. serenamente. Rui murmurou o Padre-Nosso devido por todo o cristão àquelas almas culpadas. Tudo em torno parecia morto como eles. o mendigo murmurou: “Lá está um frade a morrer!” D.. de entre os pinheiros calados. Era uma imagem da Virgem com um peito traspassado por sete espadas. e. no céu. por maravilhosa mercê de Deus. negros. Só avistou o cerro áspero. Descoberto diante da imagem crucificada. os pilares negros. D. atirou os olhos espantados por todo o sinistro ermo. galopou pela outra estrada mais larga. D. Era uma velha em farrapos. como se ali tivessem surgido sòmente para avisar o cavaleiro do seu caminho errado. A Virgem das sete espadas sorria docemente . de mau presságio!.quando. alento e vida? Ou seria que. por trás. para mirar o cavaleiro. esguio e negro. Mas.e ele largava também atrás. Mauros. numa carreira sôfrega. esperai. fundidas na sombra. − Para onde vai este caminho? . Era cedo. receando chegar a Cabril muito cedo. voltai. rebrilhava lìvidamente a água morta da lagoa das Donas. que. com a mão na ilharga. Para além.. pousou o sombreiro nas lajes com as mãos erguidas. os quatro corpos suspensos. D. picou o cavalo. Num cômoro alto. antes que as aias e os moços findassem o serão e o rosário.gritou Rui. sorria com os lábios muito vermelhos. gritou: − Qual de vós. depois de fitar. sobre a claridade do céu.. vinde cá!. era cedo! E retomava o passo penoso.ao velho arco. só podia sair de forma humana! Um desses enforcados. Das traves pendiam quatro enforcados negros e rígidos. Atirou logo para dentro do cerro o cavalo. E D. grande covardia era abalar. ou como se eles só dessem inefáveis gozos. A velha balançou mais ao alto a candeia.. rezou uma Salve-Rainha. pois. Rui teve um instante de angústia. onde a estrada se fendia em duas. virado sobre a sela. Sobre os pilares pousavam quatro grossas traves. galgava aladamente a escada prometida . parando. rompia pelo jardim de Cabril. De entre a sombra negra do arco. Rui estacou e. todo esbrechado. no imenso silêncio e na imensa solidão. uma dessas carcaças meio apodrecidas o detinha para lhe transmitir avisos de Além-da-Campa?. quase aflita: − Cavaleiro. lá se erguiam. vergada sobre um bordão e levando uma candeia. mais juntas que as pontas de uma forquilha. D. O clarão amarelo da Luz envolvia o rosto da Senhora. Depois sofreava o cavalo ofegante. sem a atender e a ouvir. o chamara. muito zelosamente. dançando no escuro. suplicante e lenta: − Cavaleiro. se ergueu. E. Rui ajoelhou. direito e calmo. com as longas melenas soltas. com tanta pressa e ânsia. um por um. ambas cortando através de pinheiral. ao fundo da planície escura. a sineta começou a tocar a agonia. Rui colheu bruscamente as rédeas e. amarelo e lânguido. uma luz surgiu. do alto da corda. Rui disse uma Ave-Maria pelo frade que morria. sem sobressalto ou pressa. ainda escondida. o caminho seguia. naquela carta tão clara e tão pensada?. Por trás das colinas. direito nos estribos. homens enforcados. como um homem que conversa da sua janela para a rua: . E luz e velha imediatamente se sumiram. ousou chamar por D. pois. detende-vos. pois não se recordava qual delas levava ao Cerro dos Enforcados. Então estacou. a Lua ia grande e cheia. Restaria nalguns. tremeluzia uma lâmpada alumiando um retábulo. sentindo o coração contra o peito. uma voz que o chamava. seco. que. Para além da porta de S. sem erva ou urze. como ave presa que bate às grades. e. Por que não lhe marcara D. ligados por um muro baixo. Gordas aves de rapina dormiam empoleiradas sobre os madeiros. como numa rua de Segóvia. Assim chegou ao Cruzeiro. Rui marchava a passo. subia o primeiro clarão. chegai aqui!. enormes. Pensou que fora ilusão da noite ou ousadia de algum demónio errante. Rui cavalgou alegremente e partiu. erguido sobre os estribos. Depois impeliu o cavalo. que arrancava as pedras do caminho mal junto.. no convento de São Domingos. sobre a amarelidão do luar. De novo D. não vos vades. ansiosa. a água rebrilhante e muda.. os madeiros. E. Já ele virara arrebatadamente. sem sentir as dores dos sete ferros. a voz tornou. cessando a sanfona. Mas que a voz rompesse dum peito vivo ou dum peito morto. quando. entre altas piteiras. que tremia. − Para Xarama. espavoridamente. os quatro pilares de granito semelhantes aos quatro cunhais duma casa desfeita. os mortos.o toque de agonia não era. muito quieta e naturalmente. ressoou uma voz. mais urgentemente o chamou. os madeiros negros do Cerro dos Enforcados. no ar parado e mudo. Rui de Cardenas? Então aquele que voltava as costas à Lua-cheia respondeu.. rodeando o Calvário. até avistar. da Lua-cheia. Então a sua imaginação corria adiante. Já se embrenhara na mais cerrada. Do lado deles soava a voz. encarou afoitamente os quatro corpos pendurados das traves. Enquanto rezava. por maior maravilha. ao lado. Leonor a hora.

como levado por um vento mudo. o homem murmurava com infinito alívio e delícia: − Como é bom correr! D. avistaram Cabril. com os longos dedos descarnados. estirado. fui eu. Leonor. o enforcado caiu de joelhos nas lajes. D.. quando passavam entre sebes onde errasse o aroma de flores silvestres. já ressequidos e da cor do betume. ansiosa. repuxava o nó da corda que lhe enroscava o pescoço. Rui pensou de repente que bem podia ser aquela uma traça formidável do Demônio. bem podia ser mandado por Deus! E logo devotamente. as torres do convento franciscano alvejando ao luar.. Desceu logo o cavalo à estrada.perguntou.. Por vezes. O homem curvou o espinhaço. desceram a velha ponte romana. consentiu. cravando os olhos muito brilhantes na face morta que para ele se erguia. O homem encolheu os ombros com lentidão: − Senhor. repuxando as rédeas. à espera do seu consentimento . caísse em culpa mortal? E. se esse homem não era mandado pelo Demónio. aceitou o pavoroso companheiro: − Vem comigo. − Que me queres? O enforcado. para tão divina incumbência de tão alta mercê. para respirar mais livremente. D. Então D. se endireitou sobre os pés mal seguros e ainda dormentes − e ergueu para D. Os olhos não tinham movimento nem brilho. eu tenho de ir convosco a Cabril. com passos tão ligeiros. que o seu bom cavalo se empinou como assombrado também. se Deus te manda! Mas eu nada te pergunto e tu nada me perguntes.não mo negueis. que mesmo quando D. onde jazeu um momento. Dum alto da estrada. mais agudos que os dentes de uma serra. . sem que um cão ladrasse detrás das cancelas ou de cima dos muros. Rui fez avançar para diante dele o cavalo. enterrada no peito. num tormentoso cuidado. para um estranho e encoberto serviço. Rui uma face morta. e mais amarela que a Lua que nela batia. de repente. Mas.. De entre os dentes.fez um lento e largo Sinal-da-Cruz. que sentia sobre si pesarem. com um gesto submisso em que tudo entregava ao Céu. para que me experimentais com esse sinal? Só por ele alcançamos remissão. Diante do Calvário. E. através de um longo rasgão da camisa de estamenha: − Senhor . que necessitasse empregar um supliciado?. Rui galopava ele se conservava rente ao estribo. imediatamente. Ah! como ele voltaria alegremente a rédea para Segóvia. E.. Mas para que lhe dava Deus tão medonho companheiro? Para o proteger? Para impedir que D. nem asco. e também soltos os pés nus. amada do Céu pela sua piedade. alargou o nó da corda que ainda lhe laçava o pescoço e declarou muito serena e firmemente: − Senhor. Muito silenciosamente.− Senhor. Rui pensou que. Bem compreendia agora que era aquele um cadáver reanimado por Deus. Com um sinistro som de ossos entrechocados o corpo caiu no chão.. onde vós ides. − Comigo a Cabril?!.. e de um golpe certo cortou a corda meio apodrecida. Não lhe distinguia a face. o orgulho de nunca recuar e a submissão às ordens de Deus. que era uma caveira com a pele muito colada. não sei. Ambos os beiços se lhe arreganhavam num sorrido empedernido.. D. O enforcado vergou os joelhos com assustada reverência: − Senhor. O cavaleiro estremeceu num tão forte assombro. escondida pelas longas e negras melenas pendentes. suspirando. pois. Rui arrancou a espada. a que se viam os ossos todos. muito brancos.suplicou . Rui não mostrou terror. surdia uma ponta de língua muito negra. toda alumiada da Lua. e eu só dele espero misericórdia. Rui ia num assombro. Que eu tenho a receber grande salário se vos fizer grande serviço! Então D. murmurou: − Senhor. os casais adormecidos entre as hortas. Só percebeu que tinha as mãos soltas e desamarradas. a Cabril. E embainhando serenamente a espada: − Tu estás morto ou vivo? . fazei-me a grande mercê de me cortar esta corda em que estou pendurado. já não tinha o Senhor anjos do Céu. se não fora a galante lealdade de cavaleiro. O enforcado seguia ao seu lado. Quem sabe o que é a vida? Quem sabe o que é a morte? − Mas que queres de mim? O enforcado.

Então o enforcado empurrou D. uma avenida que densas e velhas árvores abobadavam e escureciam. Rui subiu. O coração de D. murmurando agora. por entre os canteiros e o buxo curto. e com Deus sede feliz. Rui quase tropeçou no sinistro homem que estacava. airoso e leve. arrimada contra o balcão. Depois ao entrar na azinhaga. A Lua ia alta no céu. D. e na ponta dos pés nus.fez o enforcado. Rui recuou no horror de que tal criatura subisse a tal janela! E bateu o pé. E tão submisso se tornara àquele companheiro imposto por Deus. Rui conhecera noite mais fundamente adormecida e muda.entre longos suspiros. − Por ali! . dominando o cavaleiro. Convém que aqui deixeis o cavalo. onde boiavam folhas de nenúfares. Rui recomeçou a bater numa esperança de amor. se o tendes por seguro e fiel. por deus! Mas a mão do enforcado. Um leve fio de água sussurrava entre relvas. e que se abriu sem gemer nos gonzos. orlados de buxo curto. sob aquele céu todo claro! Bruscamente. Penetraram numa rua ladeada de espessos teixos até a um tanque cheio de água. Por ela se meteram.oh maravilha! . apagado. já é de mais o rumor dos nossos pés!. D. lívida na escuridão. D. com os braços abertos como as traves de uma cancela. sem roçar um ramo. Eu vou trepar àquela escada e espreitar para aquele quarto. Rui vivamente dos degraus para a escuridão da avenida. Silenciosamente D. conservava as vidraças abertas. aquele homem que. segurando com respeito o estribo de D.porque nunca D. E se for como desejais. que sem outro reparo o foi seguindo rente do muro que o luar batia. na figura e no modo. e que toscos bancos de pedra circundavam. vigiando do alto do muro. Que na empresa em que vamos. que tirava o punhal da bainha. Um enforcado descia da forca para o seguir e tudo saber. docemente prometida. o enforcado adiante. cobertos pela rama de arbustos em flor. D. que sabia fiel e seguro. Como a azinhaga era muito estreita. Era o fim da azinhaga que desembocava em caminho mais largo e mais batido: − e diante deles alvejava o comprido muro da quinta do senhor de Lara. todo ele. com o olhar faiscando. tendo aí um mirante. estendendo o braço mirrado. atontado. avançava. Deus assim o ordenara.e ao fundo dum jardim sem árvores. sobre o seu segredo. Era. Rui considerava com amargura aquele disco. Rui seguindo muito subtilmente. sem um rumor. mal pisando a areia. erguendo o braço.. senhor.era ele.. E tal susto. com um modo urgente. como sombras na sombra. E aí. dentro. com varandins de pedra e todo revestido de hera. que cheiravam docemente. largamente. e consoladamente. e tão indiscreta. avançava agora o enforcado. cheio e lustroso. E. amarrado a uma árvore. em quem devia ser indiferente a perigos humanos. ele caminhava adiante do cavaleiro. foi lentamente enchendo também o valoroso cavaleiro de tão viva desconfiança. Rui . − Senhor .. além do tanque. Rui. Com vagarosa cautela. que espargia tanta claridade. todo em canteiros de flores bem recortados. aqui voltarei. os braços cruzados fortemente sobre o peito.murmurou o enforcado. bebeu muito tempo. de uma fonte que corria e cantava sob as frondes de um salgueiro. parando a escutar rumores que só para ele eram percebíveis . Rui apeou.. era como um buraco de treva na claridade da fachada que o luar banhava. Agachados. já se embuçava. E D. Assim chegaram a uma porta baixa. − Chuta! . enrodilhava a capa no braço e marchava em defesa. E já se cobria. Mas que tristeza chegar à doce porta.. um balcão de pedra.. exclamou: − Senhor! Convém agora que me deis o vosso sombreiro e a capa! Vós quedais aqui na escuridão destas árvores. sondando a negrura da sebe. de onde a manga pendia em farrapos. que se vos fizer grande serviço.ergueu os lívidos ossos das mãos. todo curvado. que o enforcado empurrou. D. entre as janelas de peitoril fechadas. com manjericões aos cantos. Pelos troncos subiam rosas trepadeiras. com tal intruso ao seu lado. o enforcado estacou. como num caminho de emboscada e briga. onde a claridade era larga e livre. gritou surdamente: − Não. a . Ah! como se estragava a noite que devia ser divina! Uma enorme Lua surdia de entre os montes para tudo alumiar. bruscamente lhe arrancou o sombreiro da cabeça. avistaram um lado da casa batido pela Lua-cheia. ficou longamente rezando. E . prendeu o cavalo. ganharei grande mercê! E galgou os degraus! − estava no alumiado e largo terraço. Ao meio. estava uma escada com degraus de corda.logo a poucos passos deste mirante é a porta por onde deveis penetrar no jardim. numa súplica ansiosa: − Não mo negueis. com a mão na cintura. Diante deles quatro degraus de pedra subiam a um terraço. O quarto.murmurou o enforcado. ao tronco dum álamo seco. e espreitou. lhe puxou a capa do braço. treparam os degraus .

o pedaço de corda que ele cortara com a espada. para sempre. Em breve estacou o cavalo. D. Rui que o magoou com os copos da adaga. vilão!” − e uma lâmina de adaga faísca. Rui considerou a trave onde restava. − Senhor .pois o Cerro estava perto. D. Mas já o pavoroso homem o empurrava. por vontade de Deus é.. recuando para a escuridão da avenida . E eis que.. que ainda está sobre nós a traição! Arrepiado. os pilares e as traves negras.. ofegantes. e ainda refulge.exclamou. o estribo de D. ao sentir nas suas costas o roçar daquele corpo morto. e já lhe avistava. . a serenidade macia. espetada e luzidia. portadas do balcão logo se fecham com fragor. Uma ponta dela ma atareis a este nó que trago no pescoço a outra ponta a arremessareis por cima da trave. o apressava: − A cavalo. e rebrilha. só então. numa noite eterna. com passos lentos. Pararam ambos sob a trave vazia. curto no ar. a longa pluma escarlate do chapéu balançando em triunfo. e outra vez se ergue.face erguida risonhamente para a janela.. com olhos que faiscavam.. metem pela rua estreita orlada de teixos. oh milagre! correndo através do terraço.. de repente. bem me podereis reenforcar. D. e se tornasse seu destino galopar através do mundo. Rui. D. gritou para trás. D. resignado. levando um morto à garupa. vergando o dorso. D. convém que me deixeis no Cerro! Doce e infinito alívio para o bom cavaleiro . pesadamente.quando. cuja ponta lhe saía pelas costas. estava a meio da escada. o enforcado saltou também para a garupa do cavalo fiel. D. E então. abrindo os braços compridos: − Senhor. mas de morte!. e se abate. Rui apeou . atravessado por uma adaga. Rui estremeceu de horror: − Por Deus! Que vos enforque. cavalgou sôfregamente. mais cheia. Já a alta figura. que o encontro não era de amor. Ambos curvados. que lhe agarra a manga e grita: − A cavalo. arrancara a espada. com a alma. com os olhos. O homem suspirou. branqueado de espuma. Como um fardo. a adaga.. e puxando depois. O homem chegara à escada: destraçou a capa. Rui colheu as rédeas.e um momento param. fazei-me agora a grande mercê de me pendurar outra vez da minha trave. Rui. Em torno das outras traves pendiam as outras carcaças. com todo o seu ser. A água da lagoa enegrecera. como se levasse sobre eles um saco cheio de gelo.Àquele pedaço de corda não posso chegar com a mão: nem eu só basto para lá vos içar. a ponta da adaga. Ao passar no cruzeiro murmurou: − “Senhor.rugiu D. e por vontade d’Aquela que é mais cara a Deus! Então. luzidia e limpa!. tremendo de pasmo e cólera. o ficasse acompanhando.e começou a seguir o homem. Rui. Num relance D.. do quarto negro surge um negro vulto. O quarto amoroso lá estava esperando. costeiam o tanque sob o refúgio dos arbustos em flor. de onde saía. E não houve mais senão o silêncio. como um bronze num pedestal. Com que desespero galopou então pela estrada infindável! Em carreira tão violenta o enforcado nem oscilava. A Lua descia e desfalecia. aparece o enforcado.respondeu o homem . o maldito!” . como bom serviçal.aí a um canto deve haver um longo rolo de corda. que subia para o Cerro pensativamente.. E D. dependurado de uma forca. Rui olhava... senhor. − Como quereis que vos pendure? . segredou: − Senhor. uma furiosa voz brada: − “vilão. E foi o enforcado que o encontrou. do alto da escada. e cai. em grande pressa. que era dele. E não se conteve.. procuraram o rolo de corda.. a Lua muito alta e redonda no céu de Verão. e ainda se embebe!. fazia como um puro dia. E logo.. na estrada. e abalar. assentou o pé no degrau de corda! − “Oh! lá sobe. encostando tanto o corpo a D. até aos copos. Ambos descem arrebatadamente a avenida. a língua negra mais saída de entre os dentes brancos. aberto e negro. Todo se arrepiou o bom cavaleiro. varam a porta . Rui olhava. segurou. Rui a cada momento sentia um frio mais regelado que lhe regelava os ombros. Não! não parara: subia. Vidraças. o enforcado cai sobre a terra mole. E com a caveira erguida. onde a Lua. que tremia. no vento da carreira que os vergastava: − Para onde quereis que vos leve? O enforcado. senhor. eu?. O enforcado subia. forte como sois. Parou!. − já sobre o rebordo da varanda pousara o joelho cauteloso. murmurou em respeitosa súplica: − Senhor. O homem avançava no luar esplêndido.. O silêncio era mais triste e fundo que os outros silêncios da terra. sem rumor. o . E D. toda negra contra a parede branca. Rui descobriu que o enforcado conservava cravada no peito. e abalar. escorregou da garupa. Logo o enforcado. submisso aos mandados do Alto. mais refulgente. de repente. valei-me!” − Para além do cruzeiro. rígido sobre a garupa. na claridade desmaiada. numa ânsia de findar aventura tão cheia de milagre e de horror.. estremeceu com o quimérico medo de que tão fúnebre companheiro. Rui compreendera a traição. desesperadamente. chegava.

Rui. Alonso de Lara. como um enforcado natural entre os outros enforcados. do fundo apagado do quarto de onde espreitava. nem terra que houvesse sido remexida. ajoelhando devotamente sobre o chão de dor e morte. retesando os braços. No peito conservava a adaga cravada. e nalgum canto devia jazer frio e inteiriçado. Mas. como um foragido. de rojo ante o altar.todas direitas. inertemente. negro no ar. e arremessou fortemente a outra ponta. considerando o balcão. Curvado e escondidamente. Depois recomeçava a correr loucamente o terraço. veio através do terraço. Rui de Cardenas tudo compreendeu . enrolou a corda em voltas grossas ao pilar de pedra. ainda no desalinho da sua terrível jornada. ainda com um resto débil de vida. Quando ao alvorecer. como um fardo! Nem uma flor machucada . − E agora que mais quereis? . Leonor. nem pegadas. como se sobre ele nunca houvesse passado nem o vento que desfolha. tudo conteis fielmente a Nossa Senhora do Pilar. do alto. Sumidamente. penetrou no seu palácio pela porta do pomar: e o seu primeiro cuidado foi correr à galeria de abóbada. e que no peito lhe deixara. por este serviço que. destrancar as portadas da janela e . Alonso de Lara ali parava. tomou um cavalo.. suspenso. deixar um vestígio aquele corpo forte. com olhos esbugalhados de pasmo e terror. na tentativa de alcançar o cavalo e abalar de Cabril. com quentes lagrimas de arrependimento e gratidão. limpando com as costas da mão o suor que o alagava.que muito bem o conhecera logo. se arrastara sangrando e arquejando. − Estais bem assim? Lenta e sumida. devorado pela incerteza e mistério. E entrando na igreja de Nossa Senhora do Pilar. vossa madrinha. ao tombar. Rui. Por cima. a face risonhamente erguida e a pluma do sombreiro meneando em triunfo! Como podia ser coisa tão rara . ao entardecer. que três vezes lhe vara o coração e no coração lhe fica cravado? E a maior raridade era que nem no chão. nem sequer rasto de sangue sobre a terra! E todavia. contemplou o seu sinistro e miraculoso companheiro. quando ele transpôs a porta de S. até ele se quedar. Rui descalçou as luvas. muito vos rogo agora que. teve por certo que o homem odioso. com gotas leves de orvalho! Imóvel de espanto. com aquela rija adaga que ele três vezes lhe enterrara no peito. cada maciço de arbustos. D. passou sobre a trave. como deliciosamente esperava. Rui de Cardenas.. ligeiro. que dela espero grande mercê para a minha alma. dum galho partido. depois de escutar à porta da câmara onde nessa noite encerrara D. com a face pendida sob as melenas caídas. ele descera subtilmente ao jardim e não encontrara. cada sombra. E . debaixo da varanda. No ar fino os sinos claros tocavam a matinas. o enforcado murmurou: − Senhor. e sem escudeiro ou cavalariço. narrou à sua Divina Madrinha a ruim tenção que o levara a Cabril. na esperança ainda duma pegada. vos fez o meu corpo! Então. ficou pendurada rente ao chão. veio a voz do morto: − Senhor.não descobria o corpo. caindo de tão alto pesadamente. o corpo de D. com mão certeira e faminta de vingança. com a mão na cintura. esquadrinhava todas as ruas e recantos e sombras do seu jardim. quando ele. dois corvos dormiam quietos. D. e.. D. Então D. A manhã clareava. sem uma haste ou folha vergada. nem no seu coração daria entrada a pensamento que viesse do Mundo e do Mal. puxou. olhando esgazeadamente os goivos direitos. fincando os pés. todo puído e carcomido como uma velha carcaça. onde corria ao longo do muro uma tira de goivos e cecéns. começando a calçar as luvas. a rua de teixos.um corpo mortal sobrevivendo a um ferro. içou o homem. e no peito lha deixara! E era Rui de Cardenas o homem que ele matara . como novas. Rui. Rebuscou então cada rua. o socorro que do Céu recebera.e. em Cabril. viçosas. para o fixar.maravilhoso caso! . a seu mandado. não se arrastaria o vilão por muitas jardas. E o rijo cavaleiro. à claridade da Lua. Depois galopou para Segóvia. quase de terror. Mauros. confiado. nem o sol que murcha. E ensinado por ele (que tão bem o aprendera do carrasco) atou uma ponta da corda ao laço que o homem conservava no pescoço. frescos. medindo a altura da escada. que ondeou no ar. lhe jurou que nunca mais poria desejo onde houvesse pecado. ao chegar a Segóvia.desenrolou. Então. de uma nódoa de sangue na areia fina. rente à escada. partiu para Segóvia.perguntou D. Estava já rígido como antes.. estou como devo. rezou uma longa oração por aquele bom enforcado. debaixo do balcão. a avenida. os pés inteiriçados. D. Nada! Todo o jardim oferecia um desusado arranjo e limpeza nova. E tirando o sombreiro. IV A ESSA hora. Então D. três vezes ele lhe embebera a adaga no peito.

sentado num banco de pedra. indo o corregedor visitar o cerro das forcas.. Era a sua adaga: − fora ele que matara o morto! Galopou espavoridamente para Cabril. batendo nas lajes com a sua vara branca. E imediatamente. Rui de Cardenas. Enquanto o homem. pensando que não houvera certamente desgraça em casa onde todas as janelas se abrem para refrescar. E assim ia a turbulência dos tempos. Gutierres. tocou uma buzina. até que na madrugada de S. estacara a olhar. O senhor de Lara parara junto do chafariz. Rui. eis que os seus olhos atónitos encontram D.. E para maior prodígio ainda. atiravam os pregões da hortaliça fresca. tremeluzia uma claridade. bebia respeitosamente.. que causava pela cidade grave murmuração e espanto. D. Alonso despediu o intendente. João uma serva. pasmado. descobrira. remoendo incansàvelmente o mesmo espanto. começando logo a amarelecer. Na véspera..espreitar àvidamente a casa de D.mas já o homem enrolara o papel. Em duas mulas ajaezadas à pressa. pela cidade. a definhar. os pêlos arrepiados. arrastado em horta ou jardim (pois que presas aos velhos farrapos se encontraram folhas tenras) e depois novamente enforcado e com corda nova!. Ao luzir da manhã. se referia talvez a D.. Rui que ele matara . que um dos enforcados tinha uma adaga cravada no peito! Fora gracejo de um pícaro sinistro? Vingança que nem a morte saciara?. com estranha familiaridade. mandou chamar o intendente. tomou uma capa. Então bateu as palmas. parcamente.. a não ser que a filha do senhor D. saíam a erguer as portadas das lojas. lido pelo pregoeiro da cidade. Toda a noite D. com o alforge aos ombros. de plumas claras. na sua alta sede de couro lavrado. Como pudera escapar aquele homem. E não se travara uma grande briga?. Alonso de Lara desceu à sua câmara. e frades descalços. D. logo voltou à galeria a espreitar as janelas de D. O intendente encolhia os ombros: nada ouvira. tropeçando contra as portas.. D. murmurando palavras ao vento. ele e o capelão arrastado e aturdido. um moço de cavalariça afinava preguiçosamente a bandurra. como embebido no cantar das três bicas de água. que o viera saudar. e que. nenhum caso criara pela cidade espanto e murmuração?. respirando a fresquidão da noite: − e à porta. um copo de vinho velho.. perguntava pelas novas e rumores de Segóvia. Rui.. com grossos rosários negros. a procurar. lhe contou logo dum prodigioso caso. da esquina. Beatas embiocadas. que nem os mortos se furtavam a ultrajes! D. com reverência.. sempre arredado da senhora D. a quem ofereceu logo. muito falado?. picando os burros carregados de seiras. a pendurar as tabuletas. se afastava majestosamente. Todos se arredaram ante o nobre senhor de Lara. escondido pelas ruas sombrias do jardim. pois se acercava a festa dos Santos Apóstolos. esgazeado e lívido. quis partir. Alonso escutava com as mãos a tremer. numa ansiosa agitação. desceu ao adro. de pé. com os gibões mal abotoados. quando se voltava para espiar de novo a casa. de gibão claro. Leonor. pediam esmola. D.. de tarde. e ficou rondando por diante da casa de D. Numeroso povo de Segóvia se juntara já no Cerro. com uma das mãos pousando na cinta. De repente pensou que aquele edital. o encontrou morto. tomara o véu do convento das Carmelitas Descalças.. O intendente limpou os beiços. um cavaleiro moço.. pediu furiosamente a ceia. metendo os dedos pelas barbas e forçando a sua sombria face a sorrir. parando a um canto do adro.e que vinha caminhando para a igreja de Nossa Senhora. para o enforcado e para a adaga que lhe varava o peito. Depois o pregoeiro da cidade. V . bradando. todo estirado no chão.o morto que fora morto!.. E aí se encerrou com o seu segredo. Leonor. todo embuçado e encoberto. Estavam agora cerradas. Todas as gelosias da valha morada do arcediago estavam escuras. tão moça e tão rica herdeira. Rui. e no portão da rua os moços folgam. com muito pasmo e muito escândalo. fitando vorazmente o intendente. benziam as moças. Os sinos tocaram a matinas. na última. enfiavam gulosamente para a igreja.. achou o seu velho capelão. que arremessando-se pelo cabeço acima. por baixo do balcão de pedra. na estrada de Cabril.. apenas sentado. Alonso recolheu então a casa com passos arrastados e envelhecidos. penetrando com ele na antecâmara. pasmando para o maravilhoso horror . Alonso. com uma adaga atravessada no coração? Como pudera?. novas da senhora D. a face risonha e erguida no fresco ar da manhã.. onde parecia ter longamente esgaravatado a terra. ao topo da mesa. para afirmar que nada ocorrera em Segóvia de que andasse murmuração. airoso. ambos abalaram para o Cerro dos Enforcados. Com um aceno desabrido D. a outra meneando distraìdamente um bastão com borlas de torçal de ouro! D. E. ao seu desaparecimento. lívido. Já os hortelões. que voltava da fonte com a sua bilha. Correu à esquina do adro . Apenas ceara. abertas. Alonso velou. e por seus olhos verificar a fúnebre profanação. No alto da escadaria de pedra.. ligeiro. com os dedos encravados no canteiro de goivos. e numa voz tremenda começou a ler um edital. um largo sombreiro. de brigas ou de cavaleiros feridos. Nesses dias da sua estada em Cabril. o corpo fora despendurado da forca. E. Os mercadores. Alonso insistia. não se encontrara ferido. depois de pedir. Rui.

meu amigo!. que tem um jornal onde desgraçadamente a Filosofia não abunda. O quê? Por causa das calças claras! Oh! meu caro amigo! De todas as materializações da simpatia. muito fortes e muito católicos. Martinho. para acirrar mais a briga entre a Escola Purista e a Escola Satânica. Talvez um parente rico. Era uma noite de Abril. o coração. ergueu os olhos com uma esperança muito pura e toda feita de graça celeste. como convém a um Professor de Filosofia.. ao sol-posto. Contemplavas. Não o conheço.. com guitarras. Leonor ajoelhou.. como se um anjo o chamasse.. com o peito a arfar. na vida ama a evolução lógica e pretende . O Januário cantou ardentemente as endechas românticas do nosso tempo: Ontem de tarde. quando ele cruzava o adro para entrar na igreja. D... Pois este José Matias foi um homem desconsolador para quem. Não sei. Mas o meu amigo. a senhora D. com uma grande gravata de cetim preto. com a alma e os olhos perdidos na Lua! − Por que não acompanha o meu amigo este moço interessante ao Cemitério dos Prazeres? Eu tenho uma tipóia. metido num portal da Rua de S. destro cavaleiro.. Ao rumor das sedas finas. recolheu ao seu palácio de Segóvia. que o frio de Fevereiro matou no vão dum portal. com um bigode crespo de paladino sobre uma boca indecisa de contemplativo. recolhendo do Porto. pálida de uma emoção nova e divina. é o Alves Capão.. Que relações o prendiam ao Matias?. não quis ela. com olhos que se não fartavam e se humedeciam. visitar a Senhora do Pilar enquanto durasse o seu luto. transpôs as portas da igreja. pisou as lajes do adro. o José Matias morreu há seis anos.PARA fugir a tão lamentáveis memórias. desceu a escadaria do seu palácio. dentro da vitória. e de joelhos nessas lajes. nem compromete. Talvez se embebedassem nas mesmas tascas. ceou com ele. louro como uma espiga. em vez de crepes negros. de praça e com número. D. meio decomposto. tão pálida e tão feliz que a cera das tochas não era mais pálida. o seguia. duma elegância sóbria e fina. nenhuma mais grosseiramente material do que a casimira preta. encostado ao parapeito da Ponte. espreitando de entre as gelosias. O sujeito de óculos de ouro. O homem obeso de carão amarelo. de tão fúnebre idealismo: Na jaula do meu peito.. Quer que desça a vidraça? Um cigarro?. tufada entre o colete de linho branco. que preparava as Ironias e Dores de Satã. Estou esperando o enterro do José Matias − do José Matias de Albuquerque. meu amigo. silenciosa. dentro de tábuas agaloadas de amarelo. numa ocasião que o José Matias parou em Coimbra.. por quem Deus operou grandes feitos sobre a terra e sobre o mar. Apenas três carruagens para o acompanhar. se abrigue uma alma compassiva. ambas tão sórdidas. quando. tiritava dentro duma quinzena cor de mel. sendo já reis de Castela Isabel e Fernando.. sem despegar os olhos das velas das serpentinas. uma manhã de domingo. com o parentesco correctamente coberto de fumo.. desses que aparecem nos enterros. onde depusera o seu ramo votivo de cravos amarelos e brancos. Mas realmente. A torrente caudalosa Que refervia a teus pés.. Bento. talvez debaixo daquela gordura e daquela literatura. muito afeiçoado às ideias gerais. Eu trago fósforos. roída nos cotovelos. com receio das pressas e impaciências do seu coração. talvez o José Matias ùltimamente colaborasse na Piada. Leonor.. no Outono do ano da Graça de 1475. e cheirava abominàvelmente a aguardente. de Lua-cheia... que aí levamos.. no seu puro brilho. nem mais felizes as andorinhas que batiam as asas livres pelas ogivas da velha igreja. foram eles casados pelo bispo de Segóvia. meu caro amigo.. E o homem que nós vamos enterrar era um grande espiritualista! Vem o caixão saindo da igreja. Ante esse altar. Agora é a nossa tipóia. Passeámos depois em bando. numa tarde agreste de Janeiro. E ainda lembro o José Matias. E espírito curioso. Esse. e como cada manhã. Rui de Cardenas escapara miraculosamente à emboscada de Cabril. sorrindo pàlidamente àquele coração que rugia na sua jaula... e que se chama a Piada. meio cerradas.. sobrinho do Visconde de Garmilde. herdeira de todos os bens da casa de Lara. D. dentro do cupé?. como eu. é um resto de bêbedo. José Matias LINDA tarde. no Paço do Conde! Até o Craveiro.. pela Ponte e pelo Choupal. Depois. Mas como agora sabia que o senhor D. sem historia e sem nome. tão penetrante que compreendeu a minha Defesa da Filosofia Hegeliana! Esta imagem do José Matias data de 1865: porque a derradeira vez que o encontrei. recitou aquele seu soneto. E o José Matias. Rui de Cardenas estava ajoelhado diante do altar. O meu amigo certamente o conheceu − um rapaz airoso. quando o defunto já não importuna. se pôde cobrir de sedas roxas.

porque. Cabelos negros. ou nalguma noite de iluminação do Passeio Público entre a poeira e a turba. face humana aureolada por felicidade mais segura e serena! Sorria iluminadamente quando me abraçou. com um jardim. sorria ainda deliciadamente enquanto eu lhe contei todos os meus desgostos no Alentejo: sorriu depois extàticamente. que já então laboriosamente anotava Hegel. a Elisa da Parreira. O meu amigo sem dúvida se lembra dessa perfeita estampa de general clássico. como o fumo leve através das fendas invisíveis duma casa fechada que arde terrìvelmente. Esse jardim subia muito suavemente até ao muro coberto de hera que o separava de outro jardim. com um arejado terraço entre dois torrãozinhos amarelos. absoluto amor que concebera. no Outono. ou nos dois bailes da Assembleia do Carmo. e sorriu sempre. que em Coimbra considerávamos de esquilo! Bem compreende que homem tão comedido e quieto não se exalou em suspiros públicos. com escrúpulo religioso. e do nosso cerrado José Matias o amor começou logo a escapar. como nessa estrofe.. o pobre José Matias. depois a mãe. sem ser deliciosamente visível. ele foi o único intelectual que não rugiu com as misérias da Polónia. Olhos negros. jazendo o palacete do general na falda da colina.. como todos trauteámos. Mas quem a viu.. de que o Matos Miranda era um director venerado. Era um domingo de Julho. Pois. seus amigos. delicada e linda senhora de quem herdara cinquenta contos. sobretudo com as facilidades que oferecem pensativas alamedas e retiros de sombra. o general Visconde de Garmilde. Mas realmente Lisboa apenas a entrevia pelos vidros da sua grande caleche.. uma noite no terraço. a adorei durante três exaltados dias e lhe rimei um soneto! Não sei se o José Matias lhe dedicou sonetos. aquele coração. ou por imposição paternal do marido. uma gravata de seda branca. Por gosto borralheiro de provinciana. não podia a divina Elisa assomar a uma janela. e o chicote debaixo do braço com a ponta a tremer.. nos fins da Regeneração.. profundo. aludindo ao calor e enrolando um cigarro distraído. Ele ia jantar com uma tia-avó. enlevado.que a espiga nasça coerentemente do grão. O Garmilde morava então em Arroios. quase irremediàvelmente. como lhe morrera o pai. onde ele cultivava apaixonadamente canteiros soberbos de dálias. lentamente. Para este juízo concorria talvez a sua horrenda correcção. onde habitualmente jantavam também aos domingos o Matos Miranda e a divina Elisa. de Matias-Coraçãode-Esquilo. E. com um sorriso que vinha das profundidades da alma iluminada. Ah! Meu amigo. Bem me recordo duma tarde que o visitei em Arroios. na quinta dos Cedros. como se conhece Helena de Tróia ou Inês de Castro) a formosa Elisa Miranda. Em Coimbra sempre o considerámos como uma alma escandalosamente banal. Toda a sua inabalável quietação parecia provir duma imensa superficialidade sentimental. Mafalda Noronha. Nunca um rasgão brilhante na batina! nunca uma poeira estouvada nos sapatos! nunca um pêlo rebelde do cabelo ou do bigode fugido daquele rígido alinho que nos desolava! Além disso. depois de a encontrar numa tarde de chuva esperando a carruagem à porta do Seixas. em Lisboa. depois de voltar do Alentejo. quando a imagem tua À luz da Lua. lustrosos e ricos. na nossa ardente geração. percebemos logo o forte. digna da comparação bíblica da palmeira ao vento. Alta. desde a noite de Outono. ondulosa. meu amigo. não foi sem razão e propriedade que nós alcunhámos aquele moço tão macio. logo que se instalou em Lisboa. de longas pestanas. o largo e belo jardim de rosas do Conselheiro Matos Miranda. tanto mais que nos dois jardins assoalhados nenhuma árvore espalhava a cortina da sua rama densa. tristes. Quando se formou. quando entrei. nesse José Matias. até eu. ele ainda se vestia. E a cada momento. aqueles versos gastos. nenhuma secura ou dureza ou egoísmo ou desafabilidade! Pelo contrário! Um suave camarada. ainda conservava os antigos hábitos severamente encerrados. Mas todos nós. atravessar o terraço.. mas imortais: Era no Outono. líquidos. alegrar a solidão dum tio que o adorava. Já. a escolher na gaveta da cómoda. quebrados. que leu sem palidez ou pranto as Contemplações. sempre cordial. e com facilidade constante.. Foi a sublime beleza romântica de Lisboa. partiu para Lisboa. Nunca admirei. que permaneceu insensível ante a ferida de Garibáldi! E todavia. à luz da Lua! O meu amigo nunca contemplou aquele precioso tipo de encanto Lamartiniano. no tempo de Aristóteles. colher uma rosa entre as ruas de buxo. numa casa antiga de azulejos. avistou Elisa Miranda. foi o José Matias . e mansamente risonho. . cuja casa. que vivia em Benfica. As janelas do quarto do José Matias abriam sobre o seu jardim e sobre o jardim dos Mirandas: e. se afirmava que amor e fumo não se escondem. sempre de bigodes terrìficamente encerados. tão louro e tão ligeiro. em bandós ondeados. nesse tempo. ou por pertencer àquela burguesia séria que nesses tempos. O meu amigo decerto trauteou. esbelta. à luz da Lua. aos pés do jardim e da casa da Parreira. Uma carnação de camélia muito fresca. Creio mesmo que só nessa casa ela e o José Matias se encontravam. se erguia no cimo do outeiro e se chamava a casa da “Parreira”. ávida de vergastar o Mundo! Guerreiro grotesco e deliciosamente bom. ao regressar da praia da Ericeira em Outubro. O meu amigo conhece (pelo menos de tradição. uma D. já diabético e com sessenta anos − a Deusa raramente emergia de Arroios e se mostrava aos mortais. porém. as calças cor de flor de alecrim desesperadamente esticadas pelas presilhas sobre as botas coruscantes.

logo se tornou congénere e sumptuosamente generoso: e ninguém existiu então em Lisboa que espalhasse.. Além disso. através do sorriso perene. com tão profundo êxtase. e a alma. procuraram a rara delícia duma conversa roubada ou a delícia ainda mais perfeita dum silêncio escondido na sombra. sem reter um delicioso suspiro.. coisas afáveis e dispersas. diabético e tristonho. o Matos Miranda? Meu amigo. dentro do seu sonho radiante. puro. depois de S. vivo e deslumbrado.. no colete branco que abotoava e ajustava com a devoção com que um padre novo. que nem ousa roçar. calmamente enternecidos. onde o linguado parecia frito no céu. Porquê? Porque Elisa também ali ceava. e espreitando também as janelas do meu amigo. cujo ardor. Decentemente não podia andar com a imagem de Elisa numa tipóia de praça. vestida de claro. em tão terrível e mórbido renunciamento. Mafalda. em que ferrolhos e grades eram formados pelos hábitos rìgidamente reclusos de Matos Miranda. acredite! Invejei aquele homem à janela. e transbordantemente. Mas. indiferente às submissões do seu corpo. com as suas suíças grisalhas. não sugeria ideias inquietadoras de marido ardente. naquele delicioso e saudoso Café Central. carruagens dum gosto sóbrio e puro: e assinou um camarote na Ópera. mesmo passeando solitàriamente a cavalo pelos arredores de Lisboa. e tão indiferente ao Mundo como se o Mundo fosse apenas o ladrilho que ela pisava e cobria com os pés! E este enlevo. sim! ele gozou nesse amor transcendentemente desmaterializado um encanto sobre-humano. nem a quietação desta felicidade! Tão absoluto seria o espiritualismo do José Matias. na exaltação cândida da primeira missa. Elisa pairava idealmente naquele ambiente. invisível. foi o limite exaltadamente extremo.. de lhe espetar uma soberba rosa. com os dedos trêmulos e embrulhados no rosário. José Matias ceava. e ele purificava as paredes. o bom Matos Miranda não desmanchava nem a perfeição. que apenas se interessasse pela alma de Elisa. Sim. sempre de cachenez de lã escura.. se reveste da estola e do amicto. e o Colares no céu engarrafado. meu amigo. a túnica da Virgem sublimada. notas de cem milréis. Pois nunca ceava sem serpentinas profusamente acesas e a mesa juncada de flores. para ela. foi com inefável emoção. para se perderem. mas a humana Elisa encontrou também um gozo delicado nessa ideal adoração de monge. derivando da alucinação. De sorte que. portanto. por cima das heras desse muro.. sonho em que Elisa habitou realmente dentro da sua alma. para se acercar do altar.. no alfinete de coral e pérola para prender a gravata. ràpidamente. Não sei. Essa espiritualização era fácil ao José Matias. Como o Visconde de Garmilde jantava cedo. à hora vernácula do Portugal antigo. Verdade seja! aquele digno diabético. tão grave. O meu amigo não compreende como se mantiveram assim dois frágeis corpos. que (sem nós desconfiarmos) nascera desvairadamente espiritualista. E.. invólucro inferior e mortal?. entrou muita nobreza moral e finura superior de sentimento. uma poltrona pontifical. e todo o ser cravados no terraço. Assim desbaratou. durou dez anos...e materializa a mulher. caminhou. que a vontade lhes marcou ao desejo. nem consentir que a augusta imagem roçasse pelas cadeiras de palhinha da plateia de S.. logo que descobrira na quinta de D.. de cetim branco. por um hábito já tão inconsciente como o pestanejar. . Não duvide! Algum aperto de mão fugidio e sôfrego. os seus olhos risonhos. sessenta contos com o amor daquela mulher a quem nunca dera uma flor! E. na branca mulher calçando as luvas claras. passeando preguiçosamente. que mandou forrar de sedas claras. se voltavam para as vidraças fechadas. calçando pensativamente as luvas. no terraço da casa da Parreira. atirando as cartas por cima do muro que separava os dois quintais: mas nunca. distante e imaterial! Não ria. durante esse tempo. meu caro amigo. Carlos. E nunca trocaram um beijo. O amor espiritualiza o homem . que o fumo perturbava Elisa? E esta presença real da divina criatura no seu ser criou no José Matias modos novos. sob os arvoredos de D. Porquê? Porque a estava sempre escutando! Ainda me lembro dele arrancar do quarto três gravuras clássicas de Faunos ousados e Ninfas rendidas. que abriu largamente. Nunca eu vira um homem deitar. Montou. Daí esses silêncios banhados num sorriso religiosamente atento. E durante dez anos. bordado a estrelas de ouro. sobretudo amor de tão elegante idealismo: e o José Matias prodigalizou com esplendor o luxo que ela partilhava. numa fusão tão absoluta que se tornou consubstancial com o seu ser! Acreditará o meu amigo que ele abandonou o charuto. uma hora de segurança ou uma portinha no muro. acompanhando aquele raio ditoso. a divina Elisa. Mafalda. antes murmurava. imóvel. como o Rui Blas do velho Hugo. Ele. onde instalou. na castidade deste amor. água-de-colónia no lenço! E depois de enfiar a sobrecasaca. que um lampejo oblíquo do Sol ofuscava de manchas de ouro. Carlos. Mafalda: decerto se escreviam. estranhos. com os olhos. hirto na sua adoração sublime. solenemente. O amor arrasta ao luxo. Toda a sua atenção se concentrara diante do espelho. uma tarde. as vidraças! Introibo ad altarem Deœ! Eu permaneci discretamente enterrado no sofá. os seus ponderosos óculos de ouro. como descobrira a generosidade de Elisa. decerto lhes faltou. assim esplêndido. Decerto se encontravam na quinta de D... com um chapéu branco. Depois a divina Elisa vivia realmente num mosteiro. logo descobri. durante dez anos. com facilidade mais risonha.irresistìvelmente. O José Matias no entanto conversava.

se floria para jantar na Foz.” Nicolau encolheu os ombros: − “Sim. nem dele” . nem para lhe levar felicitações indecentes. visitei o José Matias em Arroios. nem alegria pudicamente disfarçada. no Rossio.” Às sete horas acompanhámos o nosso amigo à estação de Santa Apolónia. meu amigo? − Com o conhecido proprietário. rico.. e por a manter em conforto. A divina Elisa fica com toda a sua divindade e a fortuna do Miranda. enquanto o Nicolau remexia um grogue. realmente me assombrou. Um domingo. a cada instante da sua vida acordada. Mas só durante os meses de luto pesado. mesmo calçando as luvas ao entrar para a caleche que o levava à Foz. nem surpresa do seu destino bruscamente sublimado. Nesse Agosto o encontrei eu instalado fundamentalmente no Hotel Francfort. Já envergara mesmo um fato de viagem.fatalmente e involuntàriamente. E depois.. se partilha e abrasa. Quer que lhe diga? Nesse Verão. uma manhã. ràpidamente. Francisco Torres Nogueira!. com um assomo de sangue na face: “O quê? Já são 29 de Agosto? Santo Deus. meu amigo.. pensou que era mais delicado. filosofámos. sucedera a seriedade carregada. Quando entrei. Encontrei porém com ele um amigo mais antigo e confidencial. o sr. debaixo de lápides.. E nessa semana encontrei no meu Diário Ilustrado a notícia curta.. dentro do cupé que uma grande chuva batia. o José Matias. finamente vestida. sério: − “E acabado numa deliciosa e suculenta prosa. Com quem. de madrugada. do José Matias pelo homem que. onde habitava a sua Deusa. meu amigo.. Por estas mesmas ruas.. continuou vagando pelo quarto. sòlidamente nutrida. angustiadamente perguntava à sua consciência: − “Que hei-de fazer? Que hei-de fazer?” − E depois. todos aqueles camaradas com quem levantei castelos nas nuvens. num terramoto de incomparável espanto. não notei no José Matias nem alvoroço elegantemente reprimido. com certeza. já debilitado pela diabetes. murmurei ao Nicolau.. surpreendi o José Matias atirando para o terraço. acompanhei o seu enterro numeroso.. E apesar de se acercar o bendito remate do luto e da desesperada espera.. todas as janelas permaneciam fechadas sob a tristeza da tarde cinzenta. igualmente puro. dava à felicidade de José Matias uma unidade perfeita. depois outros. com sapatos de couro amarelo: e depois de me sacudir a mão.. numa pachorrenta tipóia de praça.“não sou tua. Filósofo. E.. sempre presente. O José Matias abalava nessa noite para o Porto. Já o fim de Agosto!. um olhar em que transparecia inquietação.. mas para que. Elisa Miranda.. se perfumava. Que escandaloso luxo para um mortal! Mas um dia. mesmo emborcando a fresca cerveja.. como embaçado. quase carinhosa.. ele sentisse ao lado a força moderadora da Filosofia.. contemplar Elisa desapertando as fitas da saia branca!.. Eu trabalhei nas minhas Origens do Utilitarismo. a unidade dum cristal que por todos os lados rebrilha. sempre me pareceu que o José Matias. aquela consideração. quando já se vendiam cravos nas tabacarias. Eu sorria contente: − “Um ano de luto. avistei dentro dum cupé a divina Elisa. nem revolta contra a lentidão do tempo. por costume. com plumas roxas no chapéu. morreu com uma pneumonia. durou dez anos. e José Matias não se arredou do Porto. aquele brilhante Nicolau da Barca. por cima do grogue: − “O Matias faz perfeitamente em ir para o Porto. mesmo desinteressadamente. sem arranhadura ou mancha. Mas. da sua quinta de Santarém. Pela primeira vez na nossa vida contemplamos. roedora e dolorosa.. com Ministros.. todavia. O Nicolau chegara da Velosa. reclamado por um telegrama do Matias.. ansiedade. não por curiosidade perversa. toda em sombra e rugas. tu e eu. no Hotel Francfort. calado. Todavia nunca compreendi. Pelo contrário! Ao sorriso de radiosa certeza. velho por vezes tão moroso e trôpego. o Miranda. porque o Miranda pertencia às Instituições. Eu aprovei. naquele lance deslumbrador.” Voltei a Lisboa. Em Janeiro ou Fevereiro de 1871. do casamento da sr. nessa tarde. de quem se debate numa dúvida irresolúvel.. ao almoço.. Não sei... só sentia e só exprimia embaraço! Em frente. muito seco e muito azul. que já conduzi também a este cemitério.que tanto consola do sacrifício. com um modo que não era emoção. E esta felicidade.. transportada em caleches de macias molas? Ou recebera o José Matias aquela costumada confidência . podia por direito. que nesses anos o iluminara com um nimbo de beatitude. porque tanto lisonjeia o egoísmo?. Não! se o bom Darwin não nos ilude no seu livro da Expressão das Emoções. Haveria ali reconhecimento por o Miranda ter descoberto numa remota rua de Setúbal (onde José Matias nunca a descortinaria) aquela divina mulher. lendo romances de Júlio Verne e bebendo cerveja gelada até que a tarde refrescava e ele se vestia. onde agora jazem.. este seu magnânimo desdém pela presença corporal do Miranda no templo. a terra. O Inverno passou. quase terror! Como direi? Aquele é o olhar que se resvala para a jaula mal segura onde se agita uma leoa! Num momento em que ele entrara na alcova. onde entretinha a melancolia dos dias abrasados. um criado atarefado arranjava duas malas enormes. Na volta. tremeu toda. quase tímida. eu. a virtude recompensada!” Meu caro amigo! os meses cerimoniais de luto passaram. para o José Matias.. uns dez ou doze contos de renda. e depois muita felicidade e muitos filhos.ª D. É um poema acabado!” − O Nicolau acudiu. exclamando ao abrir o jornal. . na casa da Parreira. fumando (porque voltara ao tabaco).. todo negro.. aproveitando a tipóia.

surrupiando furtivamente os brancos sulcos do vestido branco. O sentimento deste extraordinário Matias era o de um monge.. Mas eu. correra logo. e possuía em vinhas hipotecadas os mesmos cinquenta ou sessenta contos que o José Matias herdara agora do tio Garmilde em terras excelentes e livres.e o Torres Nogueira no leito excelente de Elisa. porém. mesmo sem ser regado ou tratado. − “E então ela. Mafalda de Noronha. na profundidade da sua alma. A divina Elisa. parecia ser o Matos Miranda no seu belo jazigo dos Prazeres. nem os ímpetos do orgulho. onde se quebraria. absoluto. Ele nem consentiu em a ver! Não quis casar. ao casarão do tio Garmilde. aquele nobre. como sempre em Lisboa silencioso e quente.. não quer casar!” Fiquei trespassado. espantado. erguido à porta do Inferno! Pois. e a memória. o que lhe cravara longas rugas em curtos meses. e todo o ser cravados no terraço.” . já florido de dálias que ninguém tratava. toda essa noite esfuraquei o acto do José Matias com a ponta duma Psicologia que expressamente aguçara: − e já de madrugada. sem luta. João Crisóstomo que a mulher é um monturo de impureza. com o sorriso de segura beatitude: era por trás das cortinas fechadas. portanto impenetrável. submisso e sublime!. com a face toda devastada pela angústia e pela derrota. desdenhada pelos seus braços fechados. e bateu na coxa. todo de mármore .. não se alterara. quando eu assim rugia. floria em todo o seu viço. à farta. toda a enganadora torpeza das mulheres. esse. e com um amor que não deperecera. meu amigo. em transcendente enlevo . e ergue obscenamente a túnica da Imagem. Eu também cerrei os punhos ambos. Por ambição? Torres Nogueira era um ocioso amável como José Matias..quando de repente um bestial sacrílego trepa ao altar.. e grave. nesse sagrado fundo espiritual onde não entram as imposições das conveniências. naquele doce canto de Arroios. um marcho. atabalhoadamente. com as varandas para o jardim. como se conclui sempre em Filosofia. encolhendo os ombros. se tivesse apoderado daquela mulher que era sua! e que do modo mais santo e mais socialmente puro. No meado do Verão José Matias recolheu do porto a Arroios. rompera brutalmente . apenas findara o luto negro. casou!” Eu ergui os braços até à abóbada do pátio: − “Mas então esse sublime amor do José Matias?” O Nicolau. com vestidos caros.. O meu amigo sorri. ùnicamente a ele. meu amigo. estafado.. escondido. esteve no Porto. que me encontrava diante duma Causa Primaria. mas agora para os levantar ao Céu onde se julgam os feitos da Terra. contra a falsidade. solitàriamente .. fortemente cercada pelo Torres. em Benfica. passeava à tarde no jardim entre as roseiras. esse pobre coração? Certamente porque Elisa.o amava.O meu amigo cerrou aí o punho. Então porquê? certamente porque os grossos bigodes negros do Torres Nogueira apeteciam mais à sua carne do que o buço louro e pensativo do José Matias! Ah! bem ensinara S.. puro. a ele. Filósofo. O José Matias permanecia devotamente crente de que Elisa.“Despeitada. um bruto. nem as decisões da razão pura. sem escrúpulos. e clamar furiosamente. que diabo! Cotada. seu íntimo e confidente. sob o patrocínio enternecido da Igreja e do Estado. me empurra para um portal. com a sua obesidade e a sua diabetes. quando ele conhecera Elisa e lhe dera para sempre vida e coração. os divinos lábios que ele nunca ousara roçar. para mim ou para o Mundo. a ponta do meu Instrumento! Depois a divina Elisa casou e continuou habitando a Parreira com o seu Torres Nogueira. nas janelas. Não. com aqueles belos trinta anos em botão. insatisfeito... imaterial. através duma escassa fenda. aos urros. que salta da tipóia. gritando: − “Mas porquê? porquê?” − Por amor? Durante anos ela amara enlevadamente este moço. chorou. para outros braços. nem as emoções da carne .. E o Torres Nogueira. jurou com irrecusável segurança: − “É o mesmo sempre! Infinito. na supersticiosa reverência e quase no terror da sua divindade! Como lhe direi?. Mas não quer casar!” − Ambos nos olhámos. e daquela especial Elisa cheia de infâmia entre as mulheres! Atraiçoar à pressa. e portanto espírito imprudente. onde recuperou os seus antigos quartos. intelectual Matias! e o seu amor de dez anos. E compreende porque sofria assim. encontro uma tarde na rua do Alecrim o nosso Nicolau da Barca. em aberto êxtase. Aos domingos José Matias jantava com D. a inconstância ondeante e pérfida. concluí. mais acessíveis e prontos.a do José Matias! Adivinha o meu amigo como esse desgraçado consumia os seus estéreis dias? Com os olhos.porque o Torres Nogueira não conhecia aquela venerada senhora da Quinta dos Cedros. prostrado ante uma Imagem da Virgem. Veio Agosto. com aquele assombro resignado que convém a espíritos prudentes perante o Incognoscível. De sorte que a única mudança. era que um homem. E então o Matos Miranda? Ah! meu amigo! esse era diabético. como a antiga Rosa Mística! O que o torturava. sem vantagem para ele. e obeso. porque permanecia suspenso. e depois ambos nos separámos. meu amigo! E note agora a complicada subtileza desta paixão. uma tremenda e dolorosa mudança . e já existia instalado na Parreira. e a alma. no conforto e sossego que já gozara com o seu Matos Miranda. nos jardins da Parreira! Mas agora não era de vidraças largamente abertas. Havia. lambuzasse com os rijos bigodes negros.. agarra excitadamente no meu pobre braço e exclama engasgado: − “Já sabes? Foi o José Matias que recusou! Ela escreveu. e dum amor que se não desiludira nem se fartara.. cansada da viuvice. E depois de apontar os punhos para o Céu ainda os apertava na cabeça.

se prontificara a aceitar Elisa em camisola de lã. por se tornar um agitado. por dever de filósofo! E concluí que o Matias era um doente.. larga e extàticamente! Parece que um tão extreme espiritualista. por sobre as rosas e as dálias abertas. E. moço e forte. da borda do terraço. começou a jogar e a beber! Todo o dia se encerrava em casa (certamente por trás das vidraças. impunha à divina Elisa. e empolgara aquela mulher . De resto. aqui em Lisboa. a tipóia do Gago. para contemplar o terraço da Parreira. duma inflamação violenta e pútrida do espiritualismo. e o rijo arranque dum antigo pegador de touros. reconquistando a idealidade do antigo amor. menos sentiria agora a necessidade de algum encontro discreto na sombra tépida da noite. e o conhaque correndo em jorros desesperados. o José Matias. e que um bruto moreno. meu amigo. angustiadamente. onde jogava frenèticamente até à tardia hora de cear. hem.. os meninos berrando no berço molhado. E em Outubro. conduziu aos altos da Graça.. atrás do morto que morreu por ela! O facto foi que Elisa e o seu amigo insensìvelmente recaíram na velha união ideal. e os carnudos braços. passado há meses. o homem robusto da bigodeira negra. devia reentrar também na antiga felicidade perfeita. sempre a mesma. meu amigo! um ultra-romântico. porque certo materialão.e foi então que. que depois mandou montar em burros. ele tão sereno. agora que Torres Nogueira regressara das vinhas). apanhadas pelas negras vielas do Bairro Alto e da Mouraria.. ao lado. não psicologuemos mais sobre esta viva. a assistir à vindima. duma tão doce harmonia de modos. Talvez a adorável mulher pertencesse à bela raça daquela marquesa italiana. já abria de novo as vidraças. remexeu. E sabe o meu amigo o que exacerbou.. que nunca suspeitou que chinelas e cueiros sujos de meninos são coisas de superior beleza em casa em que entre o sol e haja amor. Ele reinava na alma imortal de Elisa: − que importava que outro se ocupasse do seu corpo mortal? Mas não! o pobre moço sofria. e gravemente. de bigodes negros. um ventre enorme durante seis meses. para saudar a aparição do Sol! Mas todo este alarido não lhe dissipou a dor . com os negros bigodes. com olhos e alma cravados no terraço fatal. este tormento? É que a pobre Elisa mostrava por ele o antigo amor! Que lhe parece? Infernal. depois.. a Marquesa Julia de Malfieri... durante um ano.. por o sentir tão belo e cuidadosamente feito por Deus . com as janelas de Elisa diante das suas janelas e as rosas dos dois jardins unidos rescendendo na sombra. mesmo de longe. como sob o regime paternal do Matos Miranda. e o colares.. Mas logo desde Setembro. ela recomeçou. mesmo quando a sua elegância moral e o rígido idealismo do José Matias consentissem em aproveitar uma escada contra o muro. no Norte.. na frescura e na grandeza dum sentimento que nenhum desdém ainda ressequira ou abatera. que receara apavoradamente as materialidades do casamento.. como se fora um leve desencontro de interesses materiais ou sociais. posto na frente. as chinelas. loucamente alheio às realidades fortes da vida. Pelo menos se não sentia o antigo amor intacto na sua essência. com molhos de velas acesas. É a espantosa tortuosidade espiritual deste Matias! Ao cabo de uns meses ele esquecera. sobre um grande cavalo branco. a pele pouco fresca ao acordar. que conservava dois amorosos ao seu doce serviço. escandalizou Lisboa! São desse tempo algumas das suas extravagâncias lendárias.. quando as janelas de Elisa se apagavam. quando o Torres Nogueira partiu para as suas vinhas de Carcavelos. e a que a distância e o tempo dissipavam a realidade e a amargura leve! E agora. O novo senhor... aquela doce remessa de doces olhares com que durante dez anos extasiara o coração do José Matias. nesse Inverno. Elisa era fundamentalmente honesta.. retraimento e prudência. . Que quer?.. arrancara essa mulher de entre as estrelas e a arremessara para a cama! Enredado caso.através do seu puríssimo amor. para sacudir a pungência destes tormentos. e que a colocara entre as estrelas para mais pura adoração. forte como outrora e único. Não. um poeta para as delicadezas românticas e um cocheiro para as necessidades grosseiras. mais furiosamente. Ah! meu amigo. a dor real. e conservava o respeito sagrado do seu corpo.. corria à roleta do Bravo. com os demónios! essa mulher ele a recusara. meu amigo? Ah! muito filosofei sobre ele. E quem sabe?. melancòlicamente. era que ele amara sublimemente uma mulher. a dor presente. findou. saía numa tipóia. à noite. Não creio que se escrevessem por cima do muro do jardim. com um imenso chicote. Enfim. Um imbecil?. Talvez fosse apenas a fatalidade dos jardins vizinhos! Não sei. através dos jardins em flor. aturdiu. atacado de hiperespiritualismo. E agora rugia de furor e tormento. conservava pelo pobre Matias uma irresistível curiosidade e repetia os gestos desse amor. e o champanhe. E acalmada por aquele marido. de entre as vinhas de Carcavelos. depois ao clube do “Cavalheiro”. que redemoinho e estrépito de vida! Desesperadamente.mais do que da sua alma. como o Torres Nogueira continuava a vindimar em Carcavelos. num gabinete de restaurante. Conhece a da ceia? Uma ceia oferecida a trinta ou quarenta mulheres das mais torpes e das mais sujas.a quem revelara talvez o que é um homem! Mas. positivamente esquecera essa recusa afrontosa. hem?. quando ela se lhe oferecia.

. da garrafa mais chegada. a que abriu violentamente as cortinas. imóvel. para o despertar. a face lívida descaída sobre o peito. Era Elisa. com espanto meu. Então José Matias. A divina Elisa. com os olhos levantados. de transbordante tormento. todo estendido numa poltrona. meu amigo! mais cheia e mais harmoniosa. sem compreender. onde se catalogava a livraria do Morgado de azemel. A divina Elisa tinha agora um amante. que eram dez. na moleza da noite. de vinho branco. à “Corte Moreira”. o extraordinário homem descerra os olhos. sem esperança.º 214. toda a luz e vida se sumiram na casa da Parreira. que me telegrafara ansiosamente da sua quinta de Santarém (negócio embrulhado. que quarenta anos também depois do cerco de Tróia ainda deslumbrava os homens mortais e os Deuses imortais. possuir um legítimo e terceiro marido. ao pé de Beja. e forçou os passos mal firmes para a janela. um copo vazio na mão inerte. um dia. volvido um momento. como num sonho. murmurando: − “Um calor. Eu espreitei. sete anos! Todas as terras que lhe deixara o tio Garmilde se foram. no começo do Verão. o recado que lhe mandava o Nicolau. Está um calor! Você não quer tomar chá?” Recusei e abalei . o José Matias parecia adormecido ou morto. O miserável. já desadornado das ricas arcas e talhas da Índia do velho Garmilde. sùbitamente. com um suspiro. sorri num lento e inerte sorriso.enquanto ele. encheu precipitadamente o copo. estendido na poltrona. e por causa dum negócio do Nicolau da Barca. Ela. metendo folhas de alface na gaiola de um canário! E bela. com o seu derradeiro pedaço de pulmão.. murmura quase serenamente: − “É o calor. como esquecida numa contemplação. recolheu à quinta duma cunhada também viúva. Uma sede!. e em que o arrastei para a cadeira.tanto mais que o íntimo por quem as conheceria. curioso acaso! logo nessa tarde. um cesto de rosas brancas e algumas das nobres pratas do Garmilde: e ao lado. pesadamente. e desejável. duma letra). partira . O criado. Ex. pelo Seco. com duas serpentinas. partira para a Ilha da Madeira. durante o novo luto. da impressão desolada que me deu o desgraçado! Era no quarto que abria sobre os dois jardins. Mas. sem que me revoassem novas dele.... E as janelas logo se fecharam. que catalogava a livraria do Morgado. com um arrepio.. repousava. à pressa. E ficou hirto. Quando lhe toquei no ombro. E ainda me lembro. toda despenteada: − “Que horas são?” − Apenas lhe gritei. enquanto me conduzia pelo corredor mal alumiado. remexeu uma garrafa de champanhe dentro do balde em que ela gelava.. o João Seco da Biblioteca. ergueu num sobressalto a cabeça. Por fim. Santo Deus! já estamos em Santa Isabel! Como estes lagóias vão arrastando depressa o pobre José Matias para o pó e para o verme final! Pois.” Mas não bebeu: arrancou o corpo pesado à poltrona de verga. Depois. meu amigo! Por trás. com um soluço despedaçado.. no fundo do quarto claro. que era tarde. e tombou desamparado nos braços que lhe estendi. espicaçada pelas Fúrias. de tísico. Sùbitamente Elisa recolheu. com a sua costumada honestidade. como colhido pelo silêncio e escuro sossego da noite estrelada. ao cabo dum ano desse casamento e de outros requebros. apesar de ter festejado em Beja os seus quarenta e dois anos! Mas aquela mulher era da grande raça de Helena. quem avisto eu à varanda duma casa nova e de esquina? A divina Elisa. Depois. depois dessa curiosa noite. Bento. e bebeu lentamente. que as cortinas de damasco cerravam.. E entre eles rescendiam. confessou que S. sem respirar. e suculenta.ª não acabara de jantar. o Torres Nogueira morreu. Mas. fortemente alumiadas.. cambaleou. encheu outro copo. nas longas pregas de um roupão branco.. O ditoso moço que ela adorava era com efeito casado. acendia trèmulamente um imenso charuto. depois a vidraça. talvez um sorriso.. por dever clássico. sorvia o encanto daquela visão benfazeja. indiferente à minha fuga. mesmo incertas . a mesa resplandecia. a procurar o n.. largamente jogadas e bebidas: e só lhe restava o casarão de Arroios e o dinheiro apressado. Todo esse ano. descendo pela rua de S. com a mão a tremer.. desapareceu de todos os antros de vinho e de jogo. parada à beira do terraço. meu amigo. num gesto alegre. Diante duma janela.. meu amigo! Na casa da Parreira duas janelas brilhavam. a tremer. fascinado. todas as flores dos dois jardins. toda madura. chamada por algum gemido ou impaciência do pobre Torres. procurei o José Matias em Arroios. na opressão da anasarca. quase dever social. arredando os cabelos da testa húmida: − “Então que há de novo?” − Esgazeado. o marido certamente arquejava.. porque o hipotecara. E soubemos que o Torres Nogueira estava morrendo com uma anasarca! Por esse tempo. abertas à macia aragem. como a um morto ou a um bêbedo. o nosso brilhante Nicolau da Barca. conheci a nova história desta Helena admirável. escutou. com o colete branco desabotoado. E essa claridade viva envolvia uma figura branca. andei enfronhado no meu Ensaio dos fenómenos afectivos.. E o José Matias inteiramente se sumiu. E ùnicamente por não poder. às dez horas. tão ansiadamente se agarrou à cortina que a rasgou.. ao seu doce amigo. mandando um doce olhar. Casado em Beja com uma espanhola que. numa noite quente de Abril. durou anos. se evaporou.E esta vida. E. também.

de mansinho.. para que a ponta rebrilhasse. E para elas. meu amigo! muito delicadamente. e lá adormecera nos braços dum riquíssimo criador de gado. Eu frequentava esse n. cidade mais propícia do que Beja a uma felicidade escandalosa. a farejar o apontador de Obras Públicas! Sim. ela. estava o seu pobre José Matias!. o apontador! Belo moço. enquanto ele guiava o esfuminho da menina.. já de chinelas. por caminhos arredados e astutos. interessado no catalogo da Livraria. e que se esconde. fumava incessantemente. os três patacos para o vinho e para a posta de bacalhau nas tavernas? Não sei. segui. Mas depois. com a alma de outrora. Bento. cada dia. da miséria ociosa. e enfiar para o seu portal. dentro duma quinzena de mescla enxovalhada e dumas calças pretas. cavernas laterais da rua. apenas balbuciei: − “Ora esta! Você! Então que é feito?” − E ele. ainda através da longa noite. branco. ela se demorava a fitar o portal.e recusou. o José Matias! Mas que José Matias. e o arrastou a Lisboa. onde escondia as mãos com o gesto tradicional.º 214. Depois. de grandes bolsos.ficava esmagando os olhos turvos na fachada negra daquela casa. − e. subtilmente. com o jaquetão roto nos cotovelos e as botas cambadas? Por que aquele moço de elegância sóbria e fina tombara na miséria do andrajo? Onde arranjava mesmo. muito quieta. mergulhava na sombra do portal. E acreditará o meu amigo que então. e. Ao lado havia uma taverna. enxergo à luz tremente do fósforo. Infalìvelmente. puxando o cigarro com ânsia. para fumar um cigarro apressado. recolhia à negrura do portal. transido. nos degraus da escada . adiante. para guiar na escuridão os amados olhos dela. naquele antigo e mudo olhar do terraço por sobre as rosas e as dálias? O José Matias percebera. meu . que lhe surdia em farripas secas de sob um velho chapéu-coco: mas todo ele. à espera de um sujeito”.como uma sombra.. deslumbrado.. bem vestido. em excelentes condições de quantidade (e talvez mesmo de qualidade) para encher um coração viúvo. metido na sombra. porque o Morgado de Azemel possuía.encolhido. − Não insisti..o amante do corpo e o amante da alma! Ele. saindo desses livros uma noite (o João Seco trabalhava de noite) e parando adiante. meu amigo. pelo irónico acaso das heranças. O marido. sem revolta. parando. Cada meia hora. ao anoitecer. Elisa o conheceu e o amou. Ora uma das suas discípulas era a filha da senhora da “Corte Moreira”: e aí na quinta. o José Matias descia a rua de S. E adivinha o meu amigo como ele gastava o dia? A espreitar. mole como cotão amarelado: deixara crescer o cabelo. Mas louvemos a divina Elisa. Como ousaria.. tão infinitamente triste. Porque Elisa já descobrira que. a seguir. no resto. o José Matias se quedava em contemplação. adivinhou de onde procedia a pavorosa esmola . Bento. de barba escura. E passadas semanas. enfiava para a taverna. ou por trás da vidraça ou encostada à varanda (com o apontador dentro. imóvel. suja. procurara estabelecer uma pensão ao José Matias. sólido.. ao seu êxtase. com as mãos nas algibeiras.que o portal negro ficava em frente ao prédio novo e às varandas de Elisa! Pois. meu caro amigo! Para o considerar mais detidamente. sempre sujos. copo de aguardente. como diz a Bíblia. estirado no sofá. O João Seco é de Beja. colado à ombreira. sempre escancarados. sem outro gesto. porém. o alumiasse! E percebe porquê. nem alarido de orgulho. rica. de Verão ainda abertas e arejando no repouso e na calma. Quando as janelas de Elisa se apagavam. pacato apontador de Obras Públicas. de onde ninguém escorraça os escondidos da miséria ou da dor. todo seu. Na espantada lástima que me tomou. E agora avivava desesperadamente o lume. E dessa mesma janela do 214 o conheci eu também. conhecia perfeitamente o apontador. para acender o charuto. hem? a grata senhora dando duas mesadas aos seus dois homens . Situação picante. lendo o Jornal da Noite).para Sevilha. minguado. uma colecção incomparável dos Filósofos do século XVIII. dentro daquele portal. continuara em Beja. e fiel! De dia nunca ele passava na rua de S. a esconder o lume que o denunciaria no seu esconderijo. com uma paixão tão urgente que o arrancou precipitamente às Obras Públicas. ou sentado ao fundo. passar devotamente a Semana Santa. raspei outro fósforo. mesmo das negras noites de Inverno . a adorar submissamente as suas janelas. onde catalogava a Livraria do Azemel. e lhe mostrar que ali estava. colado aos muros. onde também vagamente ensinara um vago desenho. três anos viveu o José Matias encafuado naquele portal! Era um desses pátios de Lisboa antiga. de luvas claras. verifiquei o que num relance adivinhara . à beira dum portal aberto. com aparência de ser infinitamente mais ditoso naquelas obras particulares do que nas Públicas. A essa hora já as janelas de Elisa luziam. como um farol. e o apontador enfiando regaladamente o portão. mas secamente. reconheceu Elisa na varanda da esquina. onde passara o Natal. e compreendeu o romance quando das janelas desse n. mendigo. meu amigo?. até com enternecimento. as senhoras da “Corte Moreira”. transido. bem calçado. Bento. e numa voz que a aguardente enrouquecera: “Por aqui. com a sua mansidão polida. uma barba rara. parecia diminuído. indecisa. Copo de vinho. trepava até ao patamar deserto. para se desembaraçar. onde a sabia dormindo com o outro! Ao princípio. meu amigo. Pobre José Matias! Deixara crescer a barba.º 214. até com uma lágrima nas pálpebras que a aguardente inflamara! Mas só com noite muito cerrada ousava descer à rua de S. a bater as solas rotas do lajedo. sem porteiro. todas as noites.. de Inverno embaciadas pela névoa fina. e portanto “vazio”.

Corri ao hospital. por aquele homem. logo de manhã. ou cabelos. fosse para o José Matias a derradeira felicidade que lhe concedeu a vida. Decerto continha flor. o homem conservava o corpo fiel a Elisa.. e finou. mesmo sem o compreender. através das tentações de Lisboa. − Com efeito. e para outros fins humanos além do amor .fiscalizava o amante da mulher que amava! Requinte furioso de espiritualismo e devoção. Morrera.. que. todo encolhido no jaquetão delgado. cautelosamente. Santo Deus. É o apontador de Obras Públicas! E traz um grosso ramo de violetas. cocava o homem. que Elisa escolhera!. preso ao pescoço por um cordão. nem o soube o divino Platão. Creio que devemos pegar às borlas do caixão. com carinho. Perguntei ao médico.. diante do Mercado. com a face coberta de morte. esfrangalhado. à porta da Igreja. puído e sujo também. se ele sofrera. de madrugada.. Na verdade. Elisa mandou o seu amante carnal acompanhar à cova e cobrir de flores o seu amante espiritual! Mas. meu amigo. de meias de seda. do tempo do primeiro encanto e das tardes de Benfica. onde o não surpreenderiam. oh meu amigo. Em serviço da felicidade dela . Chegámos ao cemitério. tinham entrado na alcova de Elisa.. o mar muito azul que. tiritando. ainda quente do calor da sua alcova. que o deslumbrava. farejar o homem. certamente. esbaforido: − “Lá levaram o José Matias.. olhe! Além. quase com gratidão! E talvez nessa noite. pensemos que. de o estudar. pensasse: − “Coitadinha. com os olhos enternecidos nas escuras vidraças.. encontrei o apontador. preito carnal à divindade de Elisa. Na abertura da camisa suja e rota. com a barba enterrada entre as mãos. à enfermaria. Por decência. rastejando de longe no seu rasto.. mansa e harmoniosamente. que era talvez muito mais que um homem − ou talvez ainda menos que um homem. Mas. na figura. como eu. terríveis para um apontador de Beja. de casaca.” Era o grito da alma. rolava sobre a areia muito branca. − “Não! Teve um momento comatoso. que o conhecia e o lastimava. se tratará com brutalidade e desdém! Grande consolo. Depois não o largava. este apontador com o seu ramo. o João Seco apareceu em minha casa. com uma congestão nos pulmões!” Parece que o encontraram. Uma . voltada para as varandas de Elisa.amigo! uma curiosidade insaciada. era o paradeiro do José Matias. o apontador morava na outra extremidade da rua de S. à espera. o Miranda e o Nogueira. para mirar. no portal. porque. numa escura e pesada tristeza. numa manhã de chuva. nunca ela pediria ao José Matias para espalhar violetas sobre o cadáver do apontador! É que sempre a Matéria.. pùblicamente. conservava um saquinho de seda. com paletó alvadio. Enfim. atroz. meu amigo! A alma de Elisa era sua e recebia perenemente a adoração perene: e agora queria que o corpo de Elisa não fosse menos adorado. Ulisses. para se completar. tão rica. Não se fartava. na ilha de Ogígia. nem o saberá o derradeiro filósofo na derradeira tarde do mundo. anteontem. E eu suspeito que o seguia assim menos por curiosidade perversa do que para verificar se.. quando ele recolhia da casa de Elisa. na sua pelintrice. e defronte. e sempre a si própria.. estirado no ladrilho. comentou Espinosa e Malebranche. meu amigo. Levantei o lençol que o cobria. portanto.. E quem sabe. comprando camélias a um florista da Rua do Ouro. considerava. sem dele tirar a sua felicidade. seguindo tão sentidamente o nosso pobre espiritualista. reabilitou Fichte e provou suficientemente a ilusão da sensação! Só por isto valeu a pena trazer à sua cova este inexplicado José Matias. ou pedaço de renda de Elisa. E essa parte da rua. Assim me persuado. com o médico de serviço. é bem singular este Alves Capão. está frio. para o hospital. pela porta da Igreja. talvez filhos. escaveirado. depois arregalou os olhos.. frenética. pobre Elisa! Ficou bem contente por ele lhe trazer as flores!” Isto durou três anos. o José Matias. no Inverno passado. a sua Elisa preferia entre a turba dos homens.. numa maca.. de onde desaparecera a aspereza calosa e tisnada das armas e dos remos. adorará o Espírito. na roupa. nem menos lealmente.. exclamou Oh! com grande espanto. a uma esquina. os olhos de Elisa. meu amigo? talvez esta fidelidade. aquele sujeito compenetrado. por aquele homem a quem ela entregara o corpo! Mas o apontador era fàcilmente fiel a uma mulher tão formosa..para possuir um lar. como um larápio. através dos gozos que de si recebe. arquejando. estabilidade e quietação na vida. Mas este era meramente o amante. Subi. Bento. nos modos. Mas que linda tarde! A Perfeição SENTADO numa rocha. de tarde. batendo as solas encharcadas.. Os dois anteriores. no assombro e horror de morrer também? Ou era a alma triunfando por se reconhecer enfim imortal e livre? O meu amigo não sabe. para um Metafísico que. que ela nomeara e mantinha só para ser amada: e nessa união não aparecia outro motivo racional senão que os dois corpos se unissem. ansioso por saber como era esse homem. o mais subtil dos homens. de brilhantes nas orelhas.

entre a grita e a pressa. como se arrastara a sua vida. o corpo morto de Aquiles! Mas não! vivera! − E agora. cada manhã. as messes eternas dourando os vales.. baixaria os olhos sob o império duro dum padrasto? Erraria por cidades alheias. que engordara. com o branco ceptro. e rumos perdidos?. sentado num escabelo. com os belos pórticos pintados de vermelho e roxo? Ao cabo de tão lentos e vazios anos.e as brancas tendas dos Gregos ao longo do mar sonoro! Sem cessar. Nas correias das sandálias. e tocara as areias daquela ilha onde Calipso. sobre o mármore alto da Agorá? Ocioso e rondando pelos pátios. Ah! se a sua existência. sete imensos anos. assim para sempre arrancada da mulher. que surdiam. Depois. a áspera ilha de sombrias matas? Viviam eles ainda. o seu pequenino Telémaco enfaixado no colo da ama. junto à Faia. com a Deusa que o desejava!. quando. o cobriam com uma túnica sempre nova. abandonando entre lágrimas inumeráveis a sua Penélope de olhos claros. adormecida na moleza da sesta. de frutas. e cada manhã a sua fama crescia. junto ao sussurro dormente dum arroio diamantino. sem tocar nas comidas humanas.. como uma árvore num promontório. a frescura das roseiras revestindo os outeiros suaves. mais doce que o vinho mais doce. até que as águas e os caminhos se cobriam de sombra. o seu corpo poderoso. o arrulhar das pombas voando dos ciprestes aos plátanos e o lento rolar e quebrar da onda mansa sobre a areia macia. Nem um sopro dos Zéfiros curiosos. sobre um trono de marfim. Sete anos. que enche o céu e todos os homens contemplam. sobre a mesa lustrosa. para de noite. embebido de calor afável. resplandecia. com os seus rochedos de alabastro. tão doces ao seu coração. os açafates e as travessas lavradas transbordavam de bolos. das portas Skaias!. Sobre uma rocha se sentava então. com os braços maculados de chagas postiças. ainda se erguia o seu palácio. de lança alta corria. trambolhara na braveza mujidora das espumas sombrias. agarrado ao mastro partido. A divina Ilha. em roldão ressoante. tão penetrados pela imortalidade da Deusa que jamais neles encontrara folha seca. despira a sua Penélope a túnica passageira da viuvez. manejava as suas lanças e vindimava as suas vinhas? E o doce filho Telémaco? Reinaria ele em Ítaca. e astúcias.. coxeando e gemendo. E ele. rematado em pinha de pérolas. sem novas. Oh! e quando ele. iam passados desde que o raio fulgente de Júpiter fendera a sua nave de alta proa vermelha. de peixes cintilando como tramas de prata. ora bordada a sedas finas. as Ninfas. andasse ao menos empregada em façanhas ilustres! Dez anos antes. de tenras carnes fumegando. o perfumavam de lânguidas essências. que destino envolvera a sua Ítaca. do filho. contra os Troianos de altos elmos.. que lhe calçavam os pés amaciados e perfumados de essências. desmanchava a serenidade do luminoso ar. que. o recolhera e o amara! E durante esses imensos anos.. roubar o Paládio tutelar da cidade! E quanto. e ele recolhia à gruta para dormir. revolvendo o queixume do seu coração. Ah! ditosos os Reis mortos. pelo lado da Faia. No silêncio. e gemia. com soberba facúndia discursava na Assembléia dos Reis.. ao sair sem alegria do trabalhoso leito de Calipso. dominando a enseada de Reitros e os pinheirais de Neus.. e tormentas. E o seu bastão era um maravilhoso galho de coral. agora. E durante estes imensos anos. com incomparável ardil e bravura. aqui tão sereno. e passara para os braços de outro esposo forte que. nem flor menos fresca pendendo da haste. sublimemente serena. sem desejo. durante nove noites. até que boiara em águas mais calmas. a Deusa radiosa. o subtil Ulisses. reluziam esmeraldas do Egipto. e ele. como os que usam os Deuses marinhos. e guerras. que brincam e correm por sobre o Arquipélago. estendia as mãos para as iguarias perfeitas. diante das portas de Tróia! Felizes os seus companheiros tragados pela onda amarga! Feliz ele se as lanças troianas o trespassassem nessa tarde de grande vento e poeira.. coroadas de rosas. mendigando um salário?. mas uma empresa heróica o agitava. rijamente jungia os cavalos empinados ao timão dos carros.. encolhido sob farrapos de mendigo. toda envolta em mar resplandecente. com os olhos perdidos nas águas lustrosas. com a espada sonora. tão lisos e tratados que nunca as suas sandálias reluzentes se maculavam de pó. ora bordada de ouro pálido! No entanto. debicava a ambrósia. enquanto ao lado. a sua grande e forte vida.túnica bordada de flores escarlates cobria. penetrara nos muros da orgulhosa Tróia. e dos seres preciosos que lá deixara em solidão e fragilidade. os bosques de cedros e tuias odoríferas. meditava astúcias de guerra. com um sorriso taciturno. em pregas moles. amargamente gemia. defendia dos ultrajes. contemplando aquele mar que também banhava Ítaca. e pensava. os seres amados? Sobre a forte colina. na sombra das ramadas. Príncipe dos Povos. Então era a planície de Tróia . sentado. lá tão bravio. com formosas feridas no branco peito.. apagada toda a esperança como uma lâmpada. erguida à porta da gruta. também desconhecia a sorte de Ítaca. o banhavam numa água muito pura. todo repassado pelo fino aroma dos prados de violetas. E nesta inefável paz e beleza imortal. bebia em goles delgados o néctar transparente e rubro. durante nove dias. andara sempre tão agitada por perigos. dentro do . eram duma harmonia mais embaladora os murmúrios de arroios e fontes. servas da Deusa. repercorria sem curiosidade os sabidos caminhos da Ilha. Calipso. depois da partida para os muros fatais de Tróia. tomando aquele bastão de Príncipe de Povos com que Calipso o presenteara. A intendenta venerável gelava os vinhos doces nas crateras de bronze. espargindo através da túnica nevada a claridade e o aroma do seu corpo imortal.

como trémulo fio de cristal vibrando da Terra ao Céu. sorrindo. e linda Ninfa!” Dum lume claro de cedro e tuia. Era o Mensageiro dos Deuses. um sulco de desusado brilho. jamais concedida a um mortal!. Assim gemia o magnânimo Ulisses. dormir sem desejo com uma Deusa que. pois. a Deusa ditosa. pisara a areia da Ilha. Calipso reconhecera logo o Mensageiro . rodeado de mar indomável.. a lã formosa de púrpura marinha. na refulgência do dia.pois que todos os Imortais sabem. ao escutar fora na planície os ultrajes e os escárnios troianos. só um Deus o podia traçar através do largo Ouranos. um fumo delgado que perfumava toda a Ilha. cala! que a noite desce e Tróia é nossa. o desejava. cabia por destino amargo engordar na ociosidade duma ilha mais lânguida que uma cesta de rosas. e as infusas de cristal onde cintilava o Néctar.. fiando em roca de ouro. riscou a rutilância do céu. teciam as puras teias em teares de prata. Mercúrio parara.. risonhamente louvou a excelência daquele Néctar da Ilha. com o seio a arfar. começou. à mesa da hospitalidade. arredou os anéis soltos do cabelo radiante . sem cessar. sem nave. que as Ninfas acercaram do lume aromático. sobre o chão de ágata. exalando o perfume do Olimpo. vogando e cantando em torno do mastro. à beira do mar lustroso. eternamente preso. toda de rochas polidas. o luminoso Mensageiro não conhecia aquela ilha de Ogígia . uns dos outros. servas da Deusa. E contentada a alma. Mercúrio murmurou: − “Doce é a tua hospitalidade. como fresco pórtico salpicado de sol. até à entrada da gruta. encostando a cabeça ao tronco liso do plátano que se cobriu de claridade. o leve. os feitos e os rostos soberanos. repousa..e com as suas nacaradas mãos colocou sobre a mesa. sentada em esteiras... as rechaçava com o mudo dardejar dos olhos mais agudos que dardos! A descida aos Infernos. envoltas no sussurrar das abelhas. desde as alturas até à cheirosa mata de tuias e cedros. descera à Ilha? II UM Deus descera. Calçado com aquelas sandálias que têm duas asas brancas. venerável e querido. muito direito. cantava um trinado e fino canto. Um Deus. na escuridão.. Mas entra.. Sob a túnica diáfana a mocidade imortal do seu corpo rebrilhava. subia. eloquente Mercúrio. como a neve. ele fendera o Éter. Mercúrio pensou: “Linda ilha.. sem amor. conduzia. ó Deusa!” Pendurou o Caduceu do fresco ramo dum plátano. de repente. ludibriado com uma astúcia que para sempre maravilhará as gerações! As manobras sublimes entre Sila e Caríbdis! As Sereias. Uma vinha. erguendo na mão o Caduceu. quando águas e caminhos se cobriam de sombra. calmava a impaciência dos que sufocavam.. que recebera dos Reis da Grécia as armas de Aquiles. Então a Deusa ergueu para ele. carregada de cachos maduros. risonho. com os recados inumeráveis dos Deuses. com composta serenidade. e tapava com a mão a boca de Anticlos bravejando furioso. dobavam as lãs. de onde ele. quando a aurora a tinge de rosas nas colinas eternas povoadas de Deuses. E eis que. com palavras perfeitas e aladas: . onde as suas pegadas ficavam rebrilhando como palmilhas de ouro novo. Todas coraram. E. amarrado. mesmo quando a sua proa encalhava em terra agreste!. um grande Deus. e o harmonioso faiscar dos regatos por entre os altos e lânguidos lírios. se o teu desejo couber dentro do meu poder e do Fado. estendeu os dedos reluzentes para a travessa de ouro. mesmo através do fragor e fumaraça das cidadelas derrubadas. Um aro de esmeraldas prendia os seus cabelos muito anelados e ardentemente louros... Com alvoroço bateu o coração do herói. de onde pendiam jasmineiros e madressilvas. que eu nunca vi pisar a terra? Diz o que de mim esperas. nem companheiros para mover os remos longos? Os Deuses ditosos certamente esqueciam quem tanto por eles combatera e sempre piedosamente lhes votara as reses devidas. no aperto de todos aqueles guerreiros hirtos e cobertos de ferro. roçara a lisura do mar sossegado. Já o meu aberto coração me ordena que te contente. e estender as mãos amolecidas para as iguarias abundantes. sobre esteios de jaspe. E sem deter o fuso faiscante. a oriente da Ilha. o esplendor largo dos seus olhos verdes: − Oh Mercúrio! por que desceste à minha Ilha humilde. sentada num Trono. mesmo quando habitam retiros remotos que o Éter e o Mar separam. bordavam na seda as flores ligeiras. E agora homem de tão rutilantes feitos jazia numa ilha mole.ventre do Cavalo de Pau. tu. Tirou da cintura a roca.e admirou. os nomes. e que eu te sirva. pelo amor duma Deusa! Como poderia ele fugir. a beleza dos prados de violetas tão doces para o correr e brincar das Ninfas. Apesar de percorrer toda a terra. sentindo a presença do Deus. o prato transbordando de Ambrósia. e a todos murmurava: “Cala. que assombreava um golfo sereno. E ao herói. Em roda. e. enquanto torcia o fuso. com o fuso de ouro. os cabelos cor de vinho cobertos pelo casco onde batem também duas claras asas. as Ninfas. na sua nudez divina. E logo avistou Calipso. mais rutilantemente branco que o duma estrela caindo. Rasto tão refulgente.” E depois as prodigiosas viagens! O pavoroso Polifemo. como doce irmã.

e o seu corpo. para que ficasse eternamente ao abrigo das tormentas. e o restituas. E ele sustenta como ceptro uma árvore que tem por flor a Ordem. devoradores dos seus gordos bois. sem intrigas e sem surpresas. perdido na contemplação das águas lustrosas. pensativa. o guardei. perseguido por todas as iras. Depois. com a face assombrada. que constantemente aumentais a raça turbulenta dos Semideuses dormindo com as mulheres mortais! E como queres que eu mande Ulisses à sua pátria. esquecida a tarefa. o amei. oh Deuses. ou o murmúrio gostoso das preces. que me invejais. mãe do dia: − Não te lamentes mais.. nem templos cercados de bosques. com os presentes docemente devidos.. tendo ofendido os Imortais. E agora Júpiter trovejador... rindo. nem sequer um pequenino santuário de onde suba o aroma do incenso. através dos prados. se não possuo naves. com a negra barba entre as mãos. ao cabo de oito anos em que a minha doce vida se enroscou em torno desta afeição como a vide ao olmo. e um fado mais inexorável. cercada dos Pretendentes arrogantes. Ventos inimigos. enrolado nas sujas espumas. porém. e todas as rajadas.. tu dizes. Muitos desses conseguiam reentrar nos seus ricos lares. com os frescos lábios entreabertos e o seio levantado no desejo daquele imortal formoso. pousando no vasto ombro do Herói os seus dedos tão claros como os de Éos. nem piloto sabedor que o guie através das Ilhas? Mas quem pode resistir a Júpiter. resultam sempre em harmonia. longe daqueles que o choram. lançando sobre os seus cabelos anelados um véu da cor do açafrão.. fica no caminho das naves ousadas que cortam as ondas. determina que eu me separe do companheiro que escolhera para a minha imortalidade! Realmente sois cruéis. olhando o Mar! Os Deuses. de despojos e de histórias excelentes para contar. Quem lhe resistiria? A sua Omnisciência dirige a sua Omnipotência.. em que ondulou todo o seu peito rebrilhante: − Ah Deuses grandes. e todos os raios dardejantes de que dispõe o Olimpo. oh Deusa. Bruscamente. que me mandou neste recado. Já as asas impacientes das suas sandálias palpitavam. com os formosos braços pendidos. abraçado a uma quilha. determinam que tu partas. preso a uma quilha partida. se balançava por sobre as relvas e flores que alcatifavam a entrada da gruta. o Mensageiro Divino serenamente se elevou. à sua Ítaca amada. que tece e desfaz a teia ardilosa. regulador da Ordem. que o magnânimo Ulisses não a sentiu deslizar. Eu ensinarei o intrépido Ulisses a construir uma jangada segura. da dor e da velhice. carregados de fama. e reténs pela força incomensurável da tua doçura. retomou o seu Caduceu e. afrontes a inconstância dos ventos e calques de novo a terra da Pátria. Pela tua pronta submissão serás filha estimada. que soltes o magnânimo Ulisses dos teus braços claros. oh Calipso! Assim evitas a cólera do Pai trovejante.. com fugitiva e soberana amargura. amam os homens eloquentes e fortes!. esta deserta imensidade do mar salgado em que se não encontram cidades de homens. e gozarás uma imortalidade repassada de sossego. em torno das pernas redondas e róseas. rolou às areias da minha Ilha. com sublime graça. o lavei. oh Deusa. nu. sorvedores dos seus frescos vinhos! A divina Calipso mordeu levemente o beiço. Deuses ditosos! como sois àsperamente ciumentos das Deusas. o divino Ulisses. ou o cheiro das carnes votivas. numa pressa que lhe enrodilhava a túnica. Tão levemente pisou a areia. à maneira duma espuma leve. Em breve talvez outro herói robusto. Eu o recolhi. Imediatamente o Mensageiro Mercúrio se levantou do escabelo pregado com prego de ouro. riscando no Éter um sulco de elegante fulgor que as Ninfas. o facundo e astuto Ulisses. Tu recolheste. que me são superiores pela inteligência e pela vontade. A Deusa sorriu. clementes ou cruéis. saltou da rocha musgosa: − Oh Deusa. Depois.. com que de novo fenda o dorso verde do mar. louvou a obediência da Deusa: − Bem farás. pisado. aliviando em gemidos o peso do seu coração. que.− Perguntaste por que descia um Deus à tua morada.. o tempestuoso. o nutri. te ordena. oh Deusa! E certamente nenhum Imortal percorreria sem motivo.. como o condor fendendo sobre a presa. desgraçado. nem te consumas. . de noite. enrodilhados no véu cor de açafrão. seguiam. com um harmonioso suspiro. bebendo uma derradeira taça do Néctar excelente da Ilha. nem remadores. faminto.. o mais subtil e desgraçado de todos os Príncipes que combateram durante dez anos a alta Tróia. e à sua Penélope.. Então Calipso.. e que carecem da sua força e manhas divinas. que ajunta as nuvens? Seja! e que Olimpo ria. desde o Olimpo até Ogígia. − De resto − acrescentou − a tua Ilha. Mas foi nosso Pai Júpiter. Ela continuou sossegadamente. Por isso o seu braço se torna terrífico aos peitos rebeldes. e sobre a sua face luminosa desceu a sombra das densas pestanas cor de jacinto. Este. caminhou para a orla do mar.. Acende um facho claro. Por isso Júpiter. obedecido. arremessaram a esta tua ilha. As suas decisões. Ora o destino deste herói não é ficar na ociosidade imortal do teu leito. sem se esconderem pela espessura dos bosques ou nas pregas escuras dos montes. nas rochas altas! E. e depois embarcaram nas naves fundas para voltar à terra da Pátria.. aportará à tua doce praia.

não! Só embarcarei na tua extraordinária jangada se tu jurares... onde mal se mantêm fundas naves! Não. O valente Ulisses respirou largamente. se o Fado me obrigasse a sair de Ogígia através do mar incerto!. colocaram os bolos. cravando na Deusa um duro olhar que a desconfiança enegrecia. nem remadores de rijo peito. que é a maior invocação que podem lançar os imortais.. Só te aconselhei o que eu. ficarias entre os meus braços. eu te conduzirei à floresta. na Ilha de Ogígia. O dia baixa e o trabalho é longo! − Sossega..tu és. III ERA..disse . nem pela inteligência.. com o peito a arfar. O cauteloso Ulisses recuara lentamente. a reforçar a tua força. pois que nem concebes que exista espírito sem manha e sem falsidade! Meu pai ilustre não me gerou com um coração de ferro! Apesar de imortal. revestido de linhos finos. nem misérias maiores. as tenras carnes fumegando. agora.. nem pela beleza. para que. Mas certamente te confiarei o machado de bronze que foi de meu pai.. E logo que deram a oferenda abundante à Fome e à Sede.. amanhã. Oh Deusa. o esquecimento dos cuidados e as amoráveis conversas que contentam a alma. o Herói prudente. Depois... o mais refalsado e manhoso dos homens. empreenderia. sem nunca perder a querida força. encostando a face aos dedos róseos. Ambos estenderam as mãos para as comidas perfeitas da Terra e do Céu. oh homem sôfrego de males humanos! Os Deuses superiores em sapiência já determinaram o teu destino.. erguendo o braço. compreendo as desventuras mortais.enquanto a vaga rolava. a hora em que homens mortais e Deuses imortais se acercam das mesas cobertas de baixelas. Depois eu a proverei de odres de vinho.caia em armadilha ligeira arranjada com dizeres de mel! Não. como onda de leite. pelo juramento terrífico dos Deuses.. que não preparas. e me safei com sublimes manobras de entre Sila e Caríbdis.. o repouso. como eu. nem a agudeza do entendimento. bem na verdade. com efeito. banhado. Deusa perigosa. que ainda conservava o aroma do corpo de Mercúrio.. bem nutrido. porque as mortais brilham ante as Imortais como lâmpadas fumarentas diante de estrelas puras.. que tremia toda. Deusa. Recolhe comigo à doce gruta. com um cantado e refulgente riso. pois que eu te comunicaria a minha imortalidade!. soltou estas palavras aladas: − Oh Ulisses muito subtil. a saborosa confiança! Ela ergueu o claro braço ao azul onde os Deuses moram: − Por Gaia e pelo Céu superior. e diante dele as Ninfas. esfregando as palmas das mãos robustas: − Onde está o machado de teu pai magnífico? Mostra as árvores. à beira das ondas. a ilustre Calipso. E todavia eu não lhe sou inferior. pois que assim me convidas a afrontar numa jangada as ondas difíceis. E caminhando para o Herói... a Deusa recebeu da Intendenta venerável o prato de Ambrósia e a taça de Néctar.. Príncipe dos homens. tu queres voltar à tua morada mortal e à terra da Pátria. para que ao meu peito desça. Então a Deusa clemente riu. e conheço a malícia infinita que contém o coração dos Imortais! Se resisti às sereias irresistíveis. oh Deusa!. mais doce e cantante. como passarinho de pouca penugem no seu primeiro vôo do ninho. com esses quietos olhos. nem piloto amigo das estrelas. e considerando pensativamente o Herói. Em breve Ulisses se sentou no escabelo de marfim. Mas desejas voltar à esposa mortal. nem o calor da facúndia. e a impelirei com um sopro amigo para o mar indomado. com a ansiedade do seu coração: − Oh Deusa. como costumava na Assembleia . tu abrigas um pensamento terrível. juro. correndo os dedos celestes pelos seus espessos cabelos mais negros que o pez! − Oh maravilhoso Ulisses . que não preparo a tua perda. as frutas. E arregaçando logo as mangas da túnica. não foi decerto.. não! Eu combati na grande guerra onde os Deuses também combateram. E erguendo a mão. oh homem. O facundo Ulisses acariciou a barba rude. quantos duros males tens de sofrer antes de avistar as rochas de Ítaca. Pousada num Trono de ouro puro. jura. amimado. e venci Polifemo com um ardil que eternamente me tornará ilustre entre os homens.. no amoroso respeito da sua presença divina: − Bem sabes que não tenho naves de alta proa. a minha perda irreparável! Assim bradava. que te conduzam. de comidas perfeitas. servas da Deusa. e pelas águas subterrâneas do Estígio. onde os espera a abundância. Ah! se conhecesses.. para tu abateres as árvores que eu te marcar e construíres uma jangada em que embarques. Ulisses.. oh Deus. O divino Ulisses retirou lenta e sombriamente a cabeça da rosada caricia dos dedos divinos: − Mas jura. Deusa. Quando Éos vermelha aparecer. os peixes rebrilhantes como tramas de prata. que habita na ilha áspera onde as matas são tenebrosas..

justamente pelo que ela tem de incompleto. um alarido cruel! Por isso sofrerei. o Herói arrebatou o machado venerável: − Oh Deusa. Da sua orla descia um areal a que nem concha. e pregara nos cabelos um véu transparente e azul como o Éter ligeiro. possuis as luminosas certezas. oh Deusa. enquanto tu ao meu lado. e ensine. em poucos anos. nem pálida flor de cardo marinho desmanchava a doçura perfeita. a divina Calipso.. tu és impecável: e quando eu escorregue num tapete estendido. ou homens que as admirem? De resto. a força do meu entendimento! Oh Deusa. Considera ainda que a tua inteligência de Deusa possui todo o saber. para voltar a uma humana Penélope que eu mande. sob essa fronte luminosa. nunca a tua face rebrilhou com uma alegria. como de incensadores. levas aos lábios. que o desejava. No entanto. de velhíssimas tecas. e humilhe. E sobre os velos preciosos do leito. Só aspiro ao macio repouso. florido de altas e radiosas açucenas. de pinheiros que ramalhavam no alto Éter. e a Deusa. Mas. já sentado à porta. e console. as minhas ilustres façanhas e as minhas viagens sublimes! Oh Deusa. devastador de cidadelas e construtor de naves! A Deusa sorriu. diante dos muros de Tróia. ante a taça de ouro vazia: e serenamente a Deusa escutava.. saiu da gruta. e já das ancas dos seus quatro cavalos suados subia e se espalhava por sobre o Mar um vapor rúbido e dourado. a Ambrósia divina! Em oito anos.. e por isso ame dum amor que constantemente se alimenta destes modos ondeantes. com um sorriso taciturno. eu encomendaria para ti. te sossegue. de frágil. para esvoaçarem em torno da Deusa num tumulto amoroso. Limpando ràpidamente a dura barba com as costas da mão. não te posso gritar. ante a fraqueza do teu.. vigiando os meus gados. durante o longo tempo que contigo dormi. enfim. eu. todos os males com que os Deuses me assaltem no sombrio mar. oh Deusa. sapiência e majestade. oh Deusa. As relvas que a orla da sua túnica roçava reverdejavam num viço mais fresco. num espírito paciente.. eu coma vorazmente o anho das pastagens e a fruta dos vergéis. cada dia. Ulisses. com dois fios e um rijo cabo de oliveira cortado nas faldas do Olimpo. subia das flores abertas. que conduzia à ponta da Ilha mais cerrada de matas. ou as concavidades das rochas onde bebiam.. do lado do Oriente: e atrás seguia o intrépido Ulisses. atinge sempre a verdade: e. com o luzidio machado ao ombro. e as mãos imóveis sobre o regaço. nem dos teus verdes olhos rolou uma lágrima. Denso e escuro o avistou. enrodilhadas na ponta do véu. te estendeste no leito macio. E assim trazes inutilizadas todas as virtudes do meu coração. como o lume se nutre dos ventos contrários! Assim o facundo Ulisses desabafava. trazendo ao magnânimo Ulisses. nesta mesa. gozaram o doce amor. e contrarie. que revestira uma túnica mais branca que a neve do Pindo. tu és aquele ser terrífico que tem sempre razão! Considera ainda que. com irada impaciência. ou me estale uma correia da sandália. E. indiferente aos prestígios da Deusa. te console. pois que a tua divindade não permite que eu te congratule. oh Deusa. O seu espírito mortal erra através da escuridão e da dúvida. sob a ramada. de te contradizer. gemendo com uma dor. e repreenda. E Ulisses. e deslumbre. ou mesmo te esfregue o corpo dorido com o suco das ervas benéficas. Tu serás eternamente bela e moça. como Deusa. e mostra as árvores fortes que me convém cortar! Em silêncio ela caminhou por um atalho. quando ela passava. nem. apenas Éos entreabria as portas do largo Ouranos. em palavras aladas: − Oh Ulisses. o machado poderoso de seu pai ilustre. nem galho quebrado de coral. em frente à lareira. bebendo o vinho fresco. impaciente com a serenidade divina do seu andar harmonioso. As pombas deixavam os ramos dos cedros. eu a amo. nunca gozei a felicidade de te emendar. e depois o doce sono. disse: − Oh Deusa venerável. enquanto os Deuses durarem: e ela. e acuse. diante duma taça de vinho claro. Cedo. como os homens mortais gritam às esposas mortais: − “Foi culpa tua. pela inefável superioridade da tua natureza. das dores da decrepitude e dos passos que tremem apoiados a um pau que treme. ao fundo da gruta. a Vulcano e às suas forjas do Etna. tu. vencedor de homens. de grosseiro e de mortal. almejava pelo bosque. Em breve os caminhos da Ilha se cobriram de sombras. Febo Apolo descia para Ocidente. todo de bronze. armas maravilhosas.dos Reis. à sombra das altas popas. sem desejo. concebendo sábias leis para os meus povos. E o Mar refulgia com um brilho safírico. e a minha glória entre as gerações está soberbamente segura. não te escandalizes! Perfeitamente sei que Penélope te está muito inferior em formosura. − Que valem armas sem combates. na . já muito batalhei. com lentidão soberana. Um aroma mais delicado. nem bateste o pé. meditava a jangada. iluminada a lisa face. Sê benévola. se tu ficasses nesta ilha. há quantos anos não palpo uma arma ou uma ferramenta. e apeteço a sua companhia congénere! Considera como é penoso que. mulher!” − erguendo. dos cabelos brancos. povoado de carvalhos. e de sentir. conheces todo o passado e todo o futuro dos homens: e eu não pude saborear a incomparável delícia de te contar à noite. conhecerá a melancolia das rugas.

que ele mesmo parecia feito de troncos e cordas. As gaivotas. com raízes fundas. O esplendor e a graça das flores retinham os raios pasmados do Sol. com músculos tão retesos e veias tão inchadas. o das ondas no areal. contemplava o calafate admirável martelando furiosamente. sob o peso da sua abundância. de onde se empinava o mastro. ligeiras. rolou a jangada imensa até à espuma da vaga. recolheu à sua gruta. Então. Depois. para ele saciar a fome rude. a força daqueles braços que tinham abatido vinte troncos. Mas diz! Se em Ítaca não te esperasse a esposa tecendo e destecendo a teia. sorria taciturnamente. O seu pescoço e arcado peito fumegavam de suor. escapando à tarefa. onde a vaga mansamente lambia os troncos da jangada forte. as Ninfas. Todos os rumores. e as espigas nas messes. com a terra da Ilha imortal e as suas pedras polidas. a Deusa marcou ao atento Ulisses os troncos secos. ia erguendo uma nave. magnânimo Ulisses. Sobre pesados rolos. encontrou. e murmurou num sorriso alado: − Oh. as comidas mais sãs e mais finas da Terra. e todo o dia cantou. no areal solitário. levantada com cadência pela onda harmoniosa. propícia à partida. num esforço sublime. E. como arrebatada nessa actividade magnífica que abalava a Ilha. acudiam a espreitar. louvou os Deuses Imortais. Uma ponta da jangada arfou. robles. à fresca gruta. trabalhou o Herói. quando recolheu pesadamente à gruta. e cantando. bateram o voo em largos bandos.. que reforçou com grades de amieiro para melhor aparar o embate das ondas. Cada tarde a Deusa. nem o vinho dourado que produzem as colinas de Quios. adormecidas no silêncio eterno daquelas ribas. entre um mar tão azul. e o vestiu com uma túnica formosa de lã bordada. Com alvoroçada e soberba alegria. E. e lançou sobre os seus ombros um manto impenetrável às neblinas do mar. e agora já sustenta na mão uma lança temida. E o Herói. no fragor da obra sobre-humana. Caminhando dos carvalhos às tecas. E a Intendenta venerável já enchia os odres de vinhos robustos. levemente suspirou. E nunca ele parecera tão belo à Deusa imortal. e o perfumou com essências sobrenaturais. subiam. mais redondo e liso que uma vara de marfim. e pela borda do Mar o conduziu à praia. robustecidos por sóis inumeráveis. com paciente magnanimidade. que deixaste no colo da ama quando a Europa correu contra a Ásia.quietação da manhã branca e corada. Nunca a Ilha resplandecera com uma beleza tão serena. de manhã. por seu mandado. mesmo triste. Ulisses atirou o machado contra um vasto carvalho que gemeu. e lhe estendeu sobre a mesa. brotará mais tarde uma flor. apenas os caminhos se cobriram de sombra. teciam uma tela forte. sobre o leito de peles preciosas. A Deusa. No entanto a ganjaga crescia. Depois ajuntou um lastro copioso. através das violetas e das anémonas. o das aves nas sombras frondosas. Depois ela tomou a mão cabeluda de Ulisses. manobrando a alavanca. espantadas e gritando. tecas e choupos − e todas decotou. com rija alegria. um canto de remador. as cordas e os pregos de bronze. As Ninfas. a generosa Calipso trouxe Ulisses. amarrou à verga alta a vela cortada pelas Ninfas. sobre as águas traidoras. eram mais doces de sorver do que aquele ar repassado de aromas. por entre o arvoredo. que a Ilha parecia ceder. fugiam para entre os canaviais e as raízes dos amieiros. sentada numa rocha à sombra do bosque. para a vela que empurrariam com amor os ventos amáveis. e o filho ansioso que alonga . afundada no Mar. e todo o dia fiou. palpando com gosto os calos que lhe deixara o machado. e o teu doce Telémaco. aquela força solitária. composto pelos Deuses para o respirar duma Deusa. abandonando as tarefas suaves. com ligeireza mais segura. que. que soberbamente. Então a Deusa. para saciar a rude fome e beber a cerveja gelada. IV ENFIM no quarto dia. sob um céu tão macio. tu certamente partes! O desejo te leva de rever a mortal Penélope. O Herói aceitava os amorosos cuidados. a Deusa ajudava Ulisses. com desejosos olhos fulgurantes. acariciando o ombro do Herói. Nem a água frescas do Pindo bebida em marcha abrasada. As fluidas divindades dos ribeiros indolentes. Nesse curto dia o valente Ulisses abateu vinte árvores. nas suas mãos delicadas. onde tomou a roca de ouro. que flutuariam. Ulisses findou de esquadrar o leme. na ponta dos pés luzidios. como as harmonias sagradas de um Templo distante. durante três dias. com os troncos bem ligados. como outra árvore robusta também votada às águas cruéis. o dos regatos na relva. Tantos eram os frutos nos vergéis. como a obra findara e a tarde rebrilhava. e um banco erguido ao meio. conduzindo da gruta para a praia. pinheiros. Ambos descansaram sobre uma rocha musgosa. erguendo os braços lustrosos de suor. de gestos serenos. Sempre dum amor antigo. esquadrou e alinhou sobre a areia. desbastado num pinheiro. Sem descanso. e preparava com generosidade os víveres numerosos para a travessia incerta. suave e finamente fundidos. ao lado do Herói. Assim. A frescura imorredoira das árvores entrava no coração.. incansada e pronta. quase pedia a carícia dos dedos. numa ânsia risonha. Pelas suas divinas mãos o banhou numa concha de nácar. E em breve toda a Ilha retumbava. estremecendo num fulgente arrepio.

o seu voo harmonioso e branco. estou privado de ver o trabalho. atento. os jarros de vinho. Deusa. oh Deusa. arremessando o manto. . oh subtil Herói. no momento amigo da partida. diante de Calipso. esta doçuara.. deixarias tu. tão implacàvelmente.. e se corrompe.. com as mãos imóveis no regaço. e gritou. homens que se injuriem na passagem duma ponte.os olhos incansados para o mar... Oh Deusa. estendeu o braço poderoso. há oito anos. Ela segurou de leve o seu ombro robusto: − Quantos males te esperam. com soberbo riso estridente: − Na verdade. e se espedaça. quando plantava nas almas a verdade persuasiva: − Oh Deusa. Mas então recordou que nem beijara a generosa e ilustre Calipso! Rápido. contando os sacos e os odres. não te escandalizes! Ando esfaimado por encontrar um corpo arquejando sob um fardo. as manobras do Herói sobre o dorso das águas. Mas.. enquanto elas passavam sobre a tabua rangente. o esforço. como outros a escondem das negras Harpias! E quantas vezes me refugio no fundo da gruta. Oh Deusa imortal. com sublime paciência. na verdade.. da tua gruta. Os ricos presentes não tardam.... para não escutar o murmúrio sempre lânguido destes arroios sempre transparentes! Considera. pensas tu na verdade que nada falte para que eu largue a vela e navegue? Onde estão os ricos presentes que me deves? Oito anos.. pulou através da espuma. E. com um sorriso serenamente divino. pela colina suave. Todas essas flores que brilham nas hastes airosas são as mesmas.. eu afrontaria alegremente os mares e a ira dos Deuses! Porque. nem esposa. para me levar. largos e rebrilhantes. E.. essas riquezas abundantes que me deves por costume da Terra e lei do Céu? A Deusa sorriu. há oito anos que não olho para uma sepultura. os rolos de telas bordadas. o mirou. Tão rico e belo era o vaso de ouro que a derradeira Ninfa sustentava no ombro.. outras Ninfas desciam. pela impassilidade da sua alvura eterna! Estas gaivotas repetem tão incessantemente.. Nunca este céu rutilante se carregar de nuvens escuras. Não posso mais com esta serenidade sublime! Toda a minha alma arde no desejo do que se deforma. as mãos ao doce lume. sobre sua muleta. que na tua Ilha nunca encontrei um charco. entre os meus braços perfeitos. cortou a corda que prendia a jangada ao tronco dum roble. que admirei e respirei. oh desgraçado! Antes ficasses.. esta paz. nem filho.. com as manilhas de ouro tilintando nos pés luzidios. fui o hóspede magnífico da tua Ilha. o impaciente Herói. Sossega.. um coxo. E com palavras aladas. os olhos devoradores.. gozava no seu nobre coração a abundância generosa.. Considera. oh homem prudente. que Ulisses deteve a Ninfa. trazendo à cabeça. que a Intendenta venerável mandava para abastecer a jangada. E. ao lado da Deusa. oh Deusa. amarrados com cordas às cavilhas aqueles fardos excelentes. Silenciosamente. para toda a imortalidade. do teu leito. esta doçura e esta beleza imortal. avaliava no seu nobre espírito os escabelos de marfim. um tronco apodrecido. e se suja. pois que supões que uma Deusa negaria os presentes devidos àquele que amou. dois bois fumegantes puxando um arado. E enquanto sobre ela as Ninfas passavam.. correu pela areia e pousou um beijo sereno na fronte aureolada da Deusa. na primeira manhã que me mostrastes estes prados perpétuos: − e há lírios que odeio.. a luta e o sofrimento. na minha Ilha perfeita. o furioso queixume do Herói cativo. enrodilhadas nas pontas do véu amarelo. o Herói astuto contava. Sempre os Deuses imortais determinaram que os hóspedes. eu morro com saudades da morte! Imóvel. E também o mais desconfiado. nem tive o contentamento de estender. os sacos de couro. que fugiam na aragem: − Oh Ulisses. lentamente. com um ódio amargo. Oh Deusa. desciam. Então uma cólera lampejou nos largos olhos de Ulisses. diante dos muros de Tróia. os braços suplicantes duma mãe que chora.. Ulisses. que em oito anos nunca vi a folhagem destas árvores amarelecer e cair. nem reino. não te escandalizes! Mas ainda que não existissem. oh Deusa. se sentaram sobre o areal em torno da Deusa. o sopesou. enquanto a borrasca grossa batesse nos montes. ligeiras. trazendo nos braços alfaias lustrosas. e amparando-os com o braço redondo. a Deusa escutara. os cântaros de bronze lavrado. os escudos cravejados de pedras. este ouro é bom! Depois de arrumadas e ligadas sob o largo banco as alfaias preciosas. o embarque. mendigando à porta das vilas. servas da Deusa. se ofertem consideráveis presentes! Onde estão elas. esta abundância e beleza imortal? O Herói. o Herói lançou uma tábua desde a areia até ao bordo de altos toros. a carcaça dum bicho morto e coberto de moscas zumbidoras. arrebatou o vaso.. oh Deusa muito ilustre. cruzando furiosamente os valentes braços: − Oh Deusa. que eu escondo delas a face. bem abrigado. com os véus a ondular. No entanto já pela colina as Ninfas. oh Deusa. oito duros anos. arrebatando o machado. e saltou para o alto bordo que a espuma envolvia. como na Assembleia dos Reis. que ao sol rutilavam! O magnânimo Ulisses estendeu as mãos. para contemplarem a despedida. todas as Ninfas. tu és claramente o mais interesseiro dos homens. ligeiras. certamente. oito anos terríveis. o meu coração saciado já não suporta esta paz.

agachado à soleira da sua porta. refrescou as almas simples: logo. conversam com as estrelas. que sacrificara nas aras do Monte Ebal. e se diante dele refulgia a espada de fogo. Depois. luminosas margens do Lago de Tiberíades: − mas a nova dos seus milagres penetrara já até Enganin. Uma tarde. logo pensou que Jesus seria um desses feiticeiros. e anunciou que um novo Profeta. transparente. no país de Issacar.e largaram pela estrada das Caravanas. mais novo. os servos. logo sumido na espessura das amendoeiras em flor. ou de sob o sicómoro. fugiu. e com promessa de dinheiros ou alfaias o trouxessem a Enganim. sorrindo. contou ainda que esse Rabi. procurassem por toda a Galileia o Rabi novo. homem considerável e douto que comentava os Livros na Sinagoga. correndo. não surgiria uma claridade: e nos bancos de pedra. Os servos apertaram os cinturões de couro . à hora da sesta. na estrada de Magdala. mais azul que o céu. o arado pareceu mais brando de enterrar. só deixara. para cima das eiras. reverdeceria os seus vinhedos. E como em redor. emendava todas as desventuras − Obed. caminhando como as sombras de duas torres. predizendo a chegada do reino de Deus. sentado à beira da Fonte dos Vergéis. duma família pontifical de Samaria. de densos vergéis. como toldos benéficos. todo orlado de prados floridos. para as misérias . até adiante do vau. Jesus da Galileia. lamentava a velhice. fendeu o mar. soltou a vela. por toda a campina que verdeja até Áscalon. no país de Issacar. sustaria a mortandade dos seus gados. com magias mais viçosas decerto. só com estender sobre ele a sombra das suas mãos. Então Obed ordenou aos seus servos que partissem. e se o ladeavam. que conduzem. às portas da cidade. tão costumados na Palestina. correndo os dedos pelos fios das barbas. com a ponta do manto sobre a face. percorria os campos e as aldeias da Galileia. sem mesmo beber daquela água tão fria de que bebera Josué. mais leve de mover a pedra do lagar: as crianças. as sombras de Gog e de Magog . palpava a poeira. sob o voo das rolas.Ulisses recuou. que viajara na Fenícia. que. pastores e as mulheres trigueiras com a bilha no ombro lhe perguntassem se esse era. com um brado magnífico: − Oh Deusa. sarmentos. curando todos os males humanos. o irreparável e supremo mal está na tua perfeição! E. se ele largamente o pagasse.o homem. já não desenrolavam. Uma tarde um homem de olhos ardentes e deslumbrados passou no fresco vale. matara as reses mais gordas das suas manadas. na frescura duma manhã macia. o Rabi descera. partiu para os trabalhos. e que noutra manhã. Mas um vento árido e abrasado. ressuscitara a filha de Jairo. senhor de fartos rebanhos e de fartas vinhas − e com o coração tão cheio de orgulho como o seu celeiro de trigo. como Apolónio. E Obed. o Messias de Judeia. Esses. Os servos. por nome Obed. e pelas encostas onde as suas vinhas se enroscavam ao olmo. ou Simão. homem lido. os velhos. costeando o Lago. Mas uma esperança. de rochas de pórfiro e de alvos terraços por entre os palmares. cepas mirradas e a parra roída de crespa ferrugem. coberto de silêncio. avistaram sobre o poente. ou Rabi Ben-Dossa. deliciosa como o orvalho nos meses em que canta a cigarra. cidade rica. trepou sôfregamente à jangada. as neves finas do monte Hermon. entre olivais e vinhedos. apanhou o cajado. amedrontava os demónios. em verdade.para a delícia das coisas imperfeitas! O Suave milagre NESSE tempo Jesus ainda se não afastara da Galileia e das doces. um Rabi formoso. com os seus discípulos. para eles sempre claras e fáceis nos seus segredos: com uma vara afugentam de sobre as searas os moscardos gerados nos lodos do Egipto: e agarram entre os dedos as sombras das árvores. Ora então vivia em Enganim um velho. espreitavam pelos caminhos se além da esquina do muro. para os lados para onde o Jordão leva as águas. em torno dos olmos e pilares despidos. assombrados. o Subtil. seguiram pelas margens do rio. os ditames antigos. através da vaga. Um pescador que desamarrava preguiçosamente a sua barca duma ponta de relva. se estende até Damasco. mesmo nas noites tenebrosas. E enquanto descansava. atravessando numa barca a terra dos Gerasenos. seareiros. colhendo ramos de anémonas. que alimentava as multidões. Apenas ouvira falar desse novo Rabi da Galileia. sacudiu os cabelos e meteu pensativamente por sob o Aqueduto. de muralhas fortes. sarara da lepra o servo dum Decurião Romano. O Rabi de Nazaré? Oh! desde o mês de Ijar. o Lago de Tiberíade resplandeceu diante deles. esse vento de desolação que ao mando do Senhor sopra das torvas terras de Assur. e se estiravam na latada airosa. ruminava queixumes contra Deus cruel. onde começava a colheita do bálsamo. onde ele se estira num largo . assombreada de aloendros. escutou. vermelho como uma romã muito madura. com tão sapiente certeza. para as tormentas.

ensinava a a doçura. a planície de Moab. logo acudiam com bolos de mel.. maior que David ou Isaías. o Essénio mostrou as terras de AlémJordão. por vezes. crescia. e que. penetravam nas Sinagogas .. homem áspero. até à costa e até Áscalon. e curava as gentes e os gados? O Essénio murmurou que o Rabi atravessara o Oásis de Engaddi. De Galileia surdem os néscios e os impostores. Encontrara ele. a amizade de Flaco. até à cidade e ao mar. apanhava lentamente ervas salutares. Mas uma dor roía a sua prosperidade muito poderosa. descoroçoados. Os servos vadearam o rio . “além”? − Movendo um ramo de flores roxas que colhera. com um suspiro. desconfiando que os Judeus sonegassem o seu feiticeiro para que Romanos não aproveitassem do superior feitiço.. arrancara sete demónios do peito duma tecedeira. Legado Imperial da Síria. Por esse tempo. ouvindo contar. definhava com um mal subtil e lento.. que conduzia para o Egipto mirra. veterano da campanha de Tibério contra os Partas. à sua voz. já com as sandálias rotas dos longos caminhos. porque os seus gados morriam.remanso. embarcara no Lago num batel de pesca. e ainda mais longe até às Nascentes de Amalha. um Centurião Romano.o furioso Doutor saltou da mula e. consoladora e cheia de promessas divinas. Ao seu lado. imóvel e verde. seguido por um povo que cantava e sacudias ramos de mimosas. do Rabi. sob um velário. como uma alvorada por detrás de serras. com as pedras da estrada. Públio. recomeçava a olhar para o mar. No Poço de Yakob repousava uma larga caravana. que recolhia a Efraim. e à vela navegara para Magdala. de novo passaram o Jordão na Ponte das Filhas de Jacob. E sabia ele da passagem do novo Rabi da Galileia que. sorrindo pàlidamente a seu pai. voando de asa serena. derramavam com tumulto a sua cólera. Então Sétimo. e por todas as cidades da Decápola. arquejando pelos rudes trilhos. cruzaram um Fariseu sombrio. que desde Cesareia até ao Lago corta toda a Tetráquia de Herodes. pela beira da água. esperançados. pela Lua-nova. com um cordeirinho branco ao colo. como um verme rói um fruto muito suculento. entre as ameias. deste Rabi admirável. E como os servos recuaram ante o seu punho erguido. tão potente sobre os Espíritos que sarava os males tenebrosos da alma. torneando até bater morta sobre as rochas: − depois. Mas Jesus. semeava milagres? A adunca face do Fariseu escureceu enrugada . As suas armas. A filha de Sétimo seguia um momento a ave. para os amansar. um Rabi maravilhoso. definhava. − e todavia. e cândido como as suas vestes cada manhã lavadas em tanques purificados. e claro. Os servos fugiram para Enganim. espetaram nos elmos ramos de oliveira . esse Profeta novo da Galileia que. subiram logo açodadamente pelo caminho dos Peregrinos até Gadara. de noite. Os servos humildemente saudaram-no. como um Deus passeando na terra. rebuscavam a espessura dos pomares. um homem degolado pelo salteador Barrabás se erguera da sua sepultura e recolhera ao seu horto. a mercadores de Chorazim. por onde ela navegara de Itália. que eles bebiam dum trago. destacou três decúrias de soldados para que o procurassem pela Galileia. ressoando sobre as lajes de basalto da estrada romana. mais triste e mais pálida. assustadas. como favor supremo dos Deuses..e a sua cólera retumbou como um tambor orgulhoso: −Oh escravos pagãos! Oh blasfemos! Onde ouvistes que existissem profetas ou milagres fora de Jerusalém! Só Jeová tem força no seu Templo. radiantemente.. Enfastiados com as inúteis marchas. Sua filha única. Um homem da tribo dos Essénios. à hora em que os cântaros se enchem nas cisternas. Um dia. − Mas onde. para ele mais amada que vida e bens. invadiam as ruas estreitas dos burgos. como os Essénios. estranho mesmo ao saber dos esculápios e mágicos que ele mandara consultar a Sídon e a Tiro. as suas vinhas secavam. sentada na alta esplanada do forte. figos novos e malgas cheias de vinho. gritando o nome do Rabi. Branca e triste como a Lua num cemitério. especiarias e bálsamos de Gilead: e os cameleiros. nessa madrugada. pisando já as terras da Judeia Romana. através da piedosa terra submissa. esfuracavam com a ponta das lanças a palha das medas: e as mulheres. apontava vagarosamente ao alto a flecha. no céu rutilante. e varava uma grande águia. todo enrodilhado de dísticos sagrados . um legionário. tirando a água com os baldes de couro. até às fragas onde se ergue a cidadela sinistra de Makaur. brilhavam no topo das colinas.. comandava o forte que domina o vale de Cesareia. À entrada das pontes detinham os peregrinos. possuía minas na Ática. rasgando os véus às virgens: e.. sem um queixume. Com devota reverência detiveram o homem da Lei. todo vestido de linho branco. E grande foi a desconsolação de Obed. cidade de altas torres. Os servos. depois se adiantara para além. por acaso.e debalde procuraram Jesus. e um instante dorme. a fama de Jesus da Galileia.. contaram aos servos de Obed que em Gadara. porque o povo ama aqueles homens de coração tão limpo. Os soldados enfiaram os escudos nos sacos de lona. enriquecera durante a revolta de Samaria com presas e saques. montado na sua mula. De dia invadiam os casais. e descansa. sentados à sombra dos sicómoros. apedrejou os servos de Obed. e gozava. numa opulenta galera. por entre a chama ondeante dos archotes erguidos. à sombra dos tamarindos. Assim correram a Baixa Galileia . alongando saudosamente os negros olhos tristes pelo azul do mar de Tiro. Públio Sétimo.e as suas sandálias ferradas apressadamente se afastaram. só encontraram o sulco luminoso nos corações.e. E os servos de Obed. uivando: Racca! Racca! e todos os anátemas rituais.

a cabra morrera. no quinteiro. os Santos Armários de cedro que continham os Livros Sagrados. e enxugava todos os prantos. com a cabeça derrubada. e debalde buscaram Jesus. mesmo os bravios pastores de Idumeia. e tem servos. onde jazera. não há milagres. E todos voltavam. para que buscassem Jesus. mais vergada. através dos hortos. por areais e colinas. repartiu o seu farnel com a mãe amargurada. como numa tarde de derrota. Obed. como o sol que até por qualquer velho muro se estende e se goza. as armas do bando violento. invocando a vingança de Elias. e arrojavam sobre eles as Más Sortes. onde se encontrava? O mendigo suspirou. Depois. à procura do Rabi da Galileia? Obed é rico. O seu filhinho único. mais abandonada. todo aleijado. de compridas barbas brancas. sarava os males ainda os mais antigos. nutriam aquelas criaturas de Deus na Terra Escolhida. cozidas sem sal. sem ter descoberto em que mata ou cidade. a Cesareia. que se desperançavam! A sua fama andava por sobre toda a Judeia. onde até às aves maléficas sobrava o sustento! Um dia um mendigo entrou no casebre. porque sua filha morria. olhando o mar de Tiro . Já a gente dos campos. alargando os braços. destacara os seus soldados até à costa do mar. Só Apolo Délfico conhece o segredo das coisas! Então. mais desgraçada mulher que todas as mulheres de Israel.. desde Chorazim até ao país de Moab. Errando. tão rico. a aparição do Sol. depois os legionários de Sétimo. que amava as criancinhas ainda as mais pobres.. E só ervas apanhadas nas fendas das rochas.. marchando num vale. agitando um ramo de oliveira. mas para enxergar a claridade do seu rosto. e prometia aos pobres um grande e luminoso Reino. num murmúrio mais débil que o roças de uma asa. e de um pão no mesmo cesto fazia sete. e me meta aos caminhos. A mãe apertou a cabeça esguedelhada: − Oh filho! e como queres que te deixe. num casebre desgarrado. E. sem pasto. sobre ambos. e um momento sentado na pedra da lareira. O mendigo apanhou o seu bordão. coçando as feridas das pernas. e a quem nunca chegara o nome de Jesus. avistaram sobre um outeiro um verde-negro bosque de loureiros. as velhas sacudiam como taleigos a ponta dos cabelos desgrenhados. devagar. A tarde caía. como a aragem da tarde que sopra do Hermon e. E da beira dos eirados. Ora entre Enganim e Cesareia. E esse doce Rabi. em que toca ou palácio. ele topara os servos de Obed. Nas cercanias de Hebron arrastaram os Solitários pelas barbas para fora das grutas para lhes arrancar o nome do deserto ou do palmar em que se ocultava o Rabi: − e dois mercadores Fenícios que vinham de Jope com uma carga de malóbatro. perto de Cesareia. e amava todas as criancinhas. vivia a esse tempo uma viúva. pediu à mãe que lhe trouxesse esse Rabi. Também a ela a doença a engelhara dentro dos trapos nunca mudados. apenas luziam. E então o filhinho. E grande foi o desespero de Sétimo. Sem a permissão dos Imortais nem um galho seco pode tombar da árvore. passara do magro peito a que ela o criara para os farrapos da enxerga apodrecida. Conhecia ele um novo Profeta que surgira na Galileia. como derrotados. de abundancia maior que a Corte de Salomão. esse doce Rabi! quantos o desejavam. Mágicos e feiticeiros são vendilhões. e tão destro em milagres que ressuscitava os mortos e mudava a água em vinho? Serenamente. segurando uma curta lira de três cordas. nalguma volta do caminho. esperava gravemente. . se escondia Jesus. sempre mais consoladora e fresca. No Estio. secara a figueira. sumido na prega dum cerro. Até na lâmpada de barro vermelho. os soldados recolheram à fortaleza de Cesareia. Debaixo. Assim tumultuosamente erraram até Áscalon: não encontraram Jesus: e retrocederam ao longo da costa. para arrebatar a espórtula dos simples.. tão soberano. Ah. mirrando e gemendo. recolhidamente. que levam as reses brancas para o Templo. o conduzissem. por seu mando. Dentro da arca pintada não restava grão ou côdea.e batiam sacrìlegamente com os punhos das espadas nas Thebahs. Tão longe do povoado. nem seca folha pode ser sacudida na árvore. Uma madrugada. A mulher escutava. coroado de folhas de louro. fugiam espavoridos para as serranias. que murmuram palavras ocas. mandara os seus servos por toda a Galileia para que procurassem Jesus. enterrando as sandálias nas areias ardentes. pagaram por esse delito cem dramas a cada Decurião. contou dessa grande esperança dos tristes. com as sandálias rotas. sem um queixume. onde alvejava. o chamassem com promessas a Enganim.e todavia a fama de Jesus. mais escura e torcida que uma cepa arrancada. desceu pelo duro trilho. vestido com uma túnica cor de açafrão.. espessamente a miséria cresceu como o bolor sobre cacos perdidos num ermo. o fino e claro pórtico dum templo. só aqueles ditosos que o seu desejo escolhia. o sereno velho exclamou por sobre a rociada verdura do vale: − Oh romanos! pois acreditais que em Galileia ou Judeia apareçam profetas consumando milagres? Como pode um bárbaro alterar a Ordem instituída por Zeus?. sete anos passados. Não há profetas. esmolando por tantas estradas. esse Rabi que aparecera na Galileia. nunca esmola de pão ou mel entrava o portal. sobre os degraus de mármore. esperança dos tristes. reanima e levanta as açucenas pendidas. Um velho. entre a urze e a rocha. curador dos lânguidos males. os soldados bradaram pelo Sacerdote. crescia. Sétimo. secara há muito o azeite. com olhos famintos.. A mãe retomou o seu canto.

e me apontaria a morada do doce Rabi. murmurou: − Oh mãe! Jesus ama todos os pequeninos. em soluços: − Oh meu filho. dentro destas paredes.. tão trôpega. desde o Hebron até ao mar! Como queres que te deixe? Jesus anda por muito longe e a nossa dor mora conosco. e dentro delas nos prende. por quem ricos e fortes suspiram. e debalde correram por Jesus. como te posso deixar? Longas são as estradas da Galileia. e que tanto queria sarar! E a mãe. e com um mal tão pesado. erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam.. e tem soldados..Sétimo é forte. sobre enxerga tão rota? A criança. E logo. abrindo devagar a porta e sorrindo. tão triste. a que descesse através das cidades até este ermo. como convenceria eu o Rabi tão desejado. Nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. Jesus disse à criança: − Aqui estou. para sarar um entrevadinho tão pobre. Ninguém atenderia o meu recado. E eu ainda tão pequeno. e curta a piedade dos homens. o Céu o levou. Tão rota. até os cães me ladrariam da porta dos casais. Oh filho! talvez Jesus morresse. O Céu o trouxe. De entre os negros trapos. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes.. E mesmo que o encontrasse. com duas longas lagrimas na face magrinha. a criança murmurou: − Mãe. eu queria ver Jesus. FIM .

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