Este livro foi digitalizado em Abril de 2007 por J.

Martins e Mary Baumann, e se destina ao uso exclusivo de deficientes visuais. Texto corrigido; número das páginas no rodapé.

Nikos Kazantzakis
Tradução de Milton Persson

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Prólogo
- Tu te lembras, Pai Francisco? Este indigno que pega hoje a pena a fim de narrar a tua crônica era humilde e feio mendigo no dia de nosso primeiro encontro. Humilde e feio, cabeludo da nuca às sobrancelhas, tinha a fisionomia coberta de pêlos e o olhar

amedrontado. Em vez de falar, balia feito carneiro, e tu, para ridicularizar minha feiúra e humildade, me apelidaste de Irmão Leão. Porém, quando te contei a minha vida, começaste a chorar e, acolhendo-me em teus braços, disseste: - Perdoa-me a zombaria. Agora vejo que és realmente um leão, pois só um leão ousaria pretender o que pretendes. De mosteiro em mosteiro, de aldeia em aldeia, de deserto em deserto, andava em busca de Deus. Por causa disso não me casei nem tive filhos. Esquecia de comer a fatia de pão e o punhado de azeitonas que me davam: procurava Deus. De tanto perguntar, minha garganta secou. De tanto caminhar, meus pés incharam. Cansei de bater às portas, mendigando a princípio pão, depois uma palavra amiga e finalmente a salvação. Todo mundo fazia troça e me tratava como débil mental. Era empurrado,

escorraçado, estava farto. Aprendi a blasfemar. Afinal de contas, sou humano, sentia-me exausto de andar, passar fome e frio, suplicar ao céu sem nunca obter resposta. Uma noite, no auge do desespero, Deus tomou minha mão. E também a tua, Pai Francisco. Assim nos encontramos. E hoje, sentado à janelinha de minha cela, vejo nuvens primaveris. No pátio do claustro, o tempo está nublado, chove de mansinho e há cheiro de terra no ar. Diviso limoeiros em flor. Ao longe um cuco canta. Todas as folhas riem, pois Deus se transformou em

chuva e chove sobre o mundo. Ah, Senhor! Quanta doçura, quanta felicidade! Como o coração do homem se confunde com a água, o barro e o aroma de adubo e dos limoeiros! De fato, somos feitos de lama, e é por isso que, como ela, nos rejubilamos tanto com esse aguaceiro tranqüilo e carinhoso de primavera. A chuva do céu banha meu coração. Ele se rompe, lança um renovo, e surges tu, Pai Francisco. Pai Francisco! Sinto o mundo inteiro florido em mim, as recordações assomam, a roda do tempo recua e ressuscita as horas sagradas em que percorríamos os caminhos da terra, tu à frente e eu seguindo os teus passos, morto de medo. Lembras-te do nosso primeiro encontro? Foi numa noite de agosto. Eu acabava de chegar à célebre Assis. Era lua cheia e a fome me obrigava a balbuciar. Já muitas vezes, e dou graças a Deus, tinha aproveitado plenamente minhas estadas na nobre cidade. Dessa vez, contudo, ela me pareceu diferente, irreconhecível. Casas,

igrejas, torreões e cidadela boiavam num mar de prata, sob o céu cor de malva. Quando entrei, ao crepúsculo, pela recém-construída Porta de São Pedro, nascia uma lua perfeitamente redonda, rubra, serena como um sol benigno, derramando-se em cascatas silenciosas que caíam sobre a cidadela, a Rocca, e se espalhavam pelos telhados das moradias e campanários, convertendo as ruelas em regatos e transbordando o leito das valas. Os semblantes humanos resplandeciam, como que marcados pelo pensamento divino. Estaquei deslumbrado e fiz o sinalda-cruz, perguntando-me se era possível que aquela fosse realmente a cidade de Assis, com suas casas, torres e homens, ou se eu teria entrado ainda vivo no paraíso. Estendi as mãos e elas se inundaram de luz, uma luz compacta e doce como o mel. Senti escorrer a graça de Deus pelos meus lábios e têmporas. Então compreendi. "Passou um santo por aqui", exclamei. "Tenho certeza, respiro-lhe o odor no ar.”

Inebriado de luar, subi até a Piazza San Giorgio por ruazinhas estreitas e tortuosas. Era sábado, estavam apinhadas de gente, ouviamse vozes roucas, canções e música de bandolins. O cheiro apetitoso de peixe frito e dos espetinhos de carne grelhando na brasa misturava-se ao perfume das rosas e jasmins. A fome me triturava as entranhas. Cheguei perto de um grupo. - Boa gente - saudei -, não haveria alguém na famosa Assis capaz de fazer uma caridade? Estou com fome e sono. É só por hoje. Amanhã vou embora. Examinaram-me da cabeça aos pés e começaram a fazer troça: - Mas quem é esse rapaz tão lindo? Chega um pouco mais perto para nós te admirarmos. - Eu bem podia ser Cristo - adverti, com vontade de apavorá-los. - Ele às vezes vem à terra disfarçado de mendigo. - Olha, queres um bom conselho, infeliz? Trata de não repetir por aí o que acabas de dizer. Não te faças de desmancha-prazeres. Segue adiante no teu caminho. Do contrário, seremos obrigados a te prender e crucificar! E caíram de novo na gargalhada. O mais moço, entretanto, se apiedou de mim: - Pensando bem, existe Francisco, a quem todos chamam de "perdulário". É filho de Piero Bernardone. Fica tranqüilo, ele te dará esmola. Tens sorte. Ele acaba justamente de voltar de Spoleto. Vai procurá-lo. Foi neste momento que um paspalhão descomunal, com cara de fuinha e pele azeitonada, intrometeu-se na conversa. Chamava-se Sabbatino. Alguns anos mais tarde haveríamos de nos reencontrar, quando se tornaria também companheiro de Francisco, e, juntos, percorreríamos os caminhos deste mundo.

Naquela noite, ao ouvir mencionar seu nome, pôs-se a glosar perfidamente: - Se ele foi a Spoleto coberto por penachos e fantasiado com uma armadura de ouro, só podia ser para se cobrir de glórias, sagrar-se cavaleiro e depois regressar, pavoneando-se como um galo. Mas Deus é justo: golpeou-o em plena testa, e o nosso bravo chegou a casa como um frango depenado. Fez uma pirueta no ar e, batendo palmas, acrescentou com uma risada estúpida: - Fizemos até uma canção a respeito de sua façanha. Vamos, minha gente, todo mundo em coro! E começaram a cantar com toda a força, marcando o compasso: "Partiu para Spoleto À cata de glória e fama. Mas caiu mais baixo que a lama, Voltando nu como frango no espeto". À vista de tanta comida e vinho julguei desmaiar. Tive de me apoiar à guarda da porta. - Onde se encontra esse Francisco "perdulário", que Deus o abençoe! Onde? - perguntei sôfrego. - Na parte alta da cidade - respondeu o mais moço; - hás de encontrá-lo cantando à janela da namorada. Pus-me a caminho, subindo e descendo ruelas, atenazado pela fome. As chaminés fumegavam, eu aspirava aquele aroma e sentia as entranhas pendentes e secas como um cacho de uvas esvaziado pelo bico dos pássaros. Não resistindo mais, comecei a blasfemar. "Ah!", murmurei com raiva no coração, "se não andasse à procura de Deus, que boa vida levaria! Haveria de engolir grossas fatias de pão branco, nacos enormes de porco assado no forno, bem como eu gosto, ou então

de lebre banhada no azeite, com cebolinha, louro e cominho, e empinaria uma cabaça de vinho tinto da Úmbria para refrescar a goela. Depois iria me aquecer nos braços de uma viúva, pois ouvi dizer que não existe tepidez comparável à delas. Mais quente que um braseiro!...” Andava depressa para sentir menos frio, corria para fugir à tentação dos aromas e viúvas. . . Assim alcancei os altos da cidadela, a famosa Rocca. As altivas muralhas estavam em ruínas, às portas calcinadas. Restavam apenas duas torres rachadas, já devoradas por ávidas trepadeiras que cresciam nos interstícios das pedras. Alguns anos antes o povo se revoltara. Não podendo suportar mais a tirania dos suseranos, abatera-se sobre esse ninho de milhafres e saqueara tudo. Eu quis percorrê-lo de fio a pavio para me regozijar lautamente com a desgraça dos ricos. Aqueles ali tinham bebido e comido até se fartarem: agora era a nossa vez! Soprava, porém uma brisa glacial e senti frio. Por isso tornei a descer correndo. Dentro das casas as luzes estavam apagadas. Todo mundo roncava de barriga cheia. Esses bons burgueses tinham encontrado na terra um Deus conforme os seus desejos, à altura do homem, que não proibia o convívio com as mulheres, a procriação de filhos, nem a boa vida. Ao passo que eu, imbecil, palmilhava as ruas de Assis implorando ao céu, descalço, faminto, batendo os dentes. Blasfemava e orava alternadamente, tentando me aquecer, quando por volta de meianoite, bem perto da igreja do paço episcopal, ouvi guitarras e alaúdes. Aproximei-me na ponta dos pés e me ocultei à sombra de um pórtico. Avistei então cinco ou seis adolescentes que faziam serenata defronte à residência do Conde Scifi. Um deles, de baixa estatura, com grande penacho no chapéu, de pescoço espichado e olhar preso a uma janela gradeada, cantava de braços cruzados, enquanto os outros, visivelmente fascinados por sua voz, acompanhavam-no com os instrumentos. Que voz, meu Deus! Quanta doçura e paixão transmitia! Injunção e prece simultâneas. Não me lembro mais da letra dessa melodia para transcrevê-la aqui, porém sei que versava sobre uma

pomba branca, perseguida por um gavião, e um rapaz que chamava por ela, oferecendo-lhe refúgio no peito. Ele cantava baixinho, como se temesse despertar a donzela que no mínimo dormia atrás da janela gradeada. Dir-se-ia que a canção se dirigia mais à alma vigilante do que ao corpo adormecido. Fiquei comovido com a cena. Meus olhos se inundaram de lágrimas. Quando e onde escutara antes essa voz, tão meiga na imposição e na prece? Quando e onde ouvira aquele apelo: a pomba que arrulhava apavorada, o gavião que a perseguia com guinchos penetrantes e, muito ao longe, a meiga voz da salvação? Depois de colocar as guitarras e os alaúdes a tiracolo, os adolescentes, já prontos para ir embora, dirigiram-se ao cantor: - Ei, Francisco, que esperas? Não será hoje que a princesinha abrirá a janela para te atirar a rosa! O menestrel, porém, não respondeu, encaminhando-se para a praça de onde chegavam os cantos das tavernas ainda abertas. Foi então que, temendo perdê-lo de vista, precipitei-me em sua direção. Senti bruscamente que a pomba não era senão a minha própria alma, que o gavião era o Diabo, e aquele jovem, o peito onde haveria de encontrar o meu refúgio. Seu corpo exalava um odor de mel, cera e rosa. Compreendi: era o odor da santidade, o mesmo que se desprende das relíquias de um santo quando se abre um relicário de prata. Tirei meu manto todo rasgado e cobri o chão para que ele passasse por cima. Virou-se, olhou-me e sorriu. - Por quê? - indagou baixinho. - Não sei, meu jovem senhor. A capa escorregou sozinha de meus ombros e se estendeu por terra a teus pés. O sorriso se esvaneceu. Soltou um suspiro e, após breve hesitação, segredou-me perturbado: - Percebeste algum indício no ar?

- Não sei, meu jovem senhor. Tudo serve de indício: fome que sinto, este luar, a tua voz... Se continuares fazendo perguntas, vou romper em soluços. Repetiu num murmúrio: - Tudo serve de indício - e olhou em torno com inquietude. Depois me estendeu a mão, movendo os lábios como se quisesse ainda me interrogar, sem se resolver a tanto. À luz da lua, o rosto parecia dissolver-se e as mãos ficaram transparentes. Deu um passo na minha direção. Curvei-me para escutar o que ia dizer e senti-lhe o hálito avinhado. - Nada. . . - disse ele, irritado. - Não me olhes assim, nada tenho a dizer. Apressou o passo. - Vem comigo. Eu o segui. Trajado de seda, uma enorme pluma vermelha enfeitava-lhe o gorro de veludo. Trazia um cravo à orelha. "Eis alguém que não procura Deus", pensei. "Sua alma soçobrou na carne." E de repente me deu pena. Toquei-lhe no cotovelo: - Perdão, meu jovem senhor. Queria te fazer uma pergunta. Comes, bebes, vestes roupas de seda, cantas ao pé das janelas, tua vida, em suma, é um verdadeiro festim. . . Não te falta, porém, qualquer coisa? O rapaz se virou inopinadamente. - Nada me falta! - contestou, indignado. - Que perguntas são essas? Não gosto que me interroguem. Senti um nó na garganta. - É que sinto pena de ti, meu jovem senhor. Aprumou orgulhosamente a cabeça: - Sentes pena de mim! - repetiu às gargalhadas. Tu?

batendo com o pé. Tomou-me pelo braço. . está no nosso íntimo.insistiu.Não existe nada mais próximo de nós que o céu. Provenientes de lugares afastados ouviam-se serenatas apaixonadas.Quem és. erguendo o tom: . a lua entrava em declínio. . Quero ser invejado. . não posso alcançá-lo. O ar daquela noite de verão parecia carregado de perfumes e amor. . A terra está sob os nossos pés. .Como sabes? .Tive fome e sede. O céu. A terra é boa e bela.O céu fica muito alto.bradou. baixando o tom: .Nenhuma? Nem mesmo o céu? 1 Baixou a cabeça e calou-se.Não sinto falta de nada! . fitando-me bem nos olhos.indagou inquieto. . . . e afinal está mais próxima. já padeci. a praça borbulhava. . Lá embaixo. Inclinou-se. . Não me falta coisa nenhuma! .Por que sentes pena de mim? .frisei. caminhamos em cima dela. porém. Não retruquei.perguntou.Fala! Dize a verdade! Alguém te enviou? Quem? E como não recebesse resposta: . sob esses farrapos de mendigo? Quem? E depois. o céu fica no nosso íntimo.Sim.Por quê? . Após uma pequena pausa: . . meu jovem senhor . ofegante. .E não quero que ninguém me lastime. As estrelas escasseavam.E logo.

Mulas vergadas sob o peso de frutas e verduras vinham chegando das aldeias vizinhas. toda a razão. . devia ter-me calado. Dois bêbados avistaram Francisco à luz da lua e começaram a rir à socapa. não sei.Ele tem razão . voar.Não sei .Perdoa-me! Sua expressão se atenuou. alinhando-se garrafões de vinho. O passarinho. incapaz de me conter por mais tempo. Um lampião vermelho ardia diante de uma velha barraca onde entravam adolescentes embriagados. aguardente e rum. .perguntei. O seu semblante exprimia tanta dor que. Não me faças perguntas.Que passarinho? . .murmurou -. Um deles empunhou a guitarra que trazia a tiracolo e se pôs a cantar. mas não me fales mais no céu. Por toda parte arrumavam-se mesas.falou entre dentes.E porventura eu sei? Suspirou profundamente. Agora basta! Os olhos rutilavam de cólera. O dia seguinte era domingo e aprontava-se o mercado. peguei-lhe a mão e beijei-a. enquanto o olhava com ar de troça: "Que ninho alto construíste: O ramo vai se quebrar. Ao redor da praça do mercado ainda ressoavam os gritos das tavernas. Tolo que sou. Francisco escutou de cabeça baixa.Vamos até minha casa. . .gemeu -. Uma dupla de saltimbancos fincava postes e estendia cordas. imóvel. . vem! . . Poderás comer e dormir.. E vais ficar só e triste". Francisco olhou para mim. contudo não consegui refrear a língua: . A voz enrouquecera.Que passarinho? .

Segurou-me a mão com força. Comentavas amiúde: "De quanto mais baixo a partida. acima de tudo. escutando sem nada dizer. pensava. "Quer dizer que o pecado também pode se transformar na senda que conduz a Deus? E o pecador.. amavas o seu corpo. Cometeste um número de pecados bem maior do que se supõe. Dia virá em que um arcanjo glorioso há de se colocar à direita de Deus. Irmão Leão". covardia. falavas. por sua vez. às folhas da oliveira. através de um caminho semeado de . Partiste desse amor e. sei mais coisas a teu respeito que qualquer outro ser humano. e operaste mais milagres do que se crê. mais alta a ascensão. Tomavas a minha mão e. enquanto atravessávamos florestas e transpúnhamos montanhas. Eu te escutava boquiaberto. O mérito supremo do cristão militante não reside em sua virtude. pois. E eu prestava atenção. que eu procurava há tantos anos? Teria nascido unicamente para te seguir? O que me disseste nunca repetiste a ninguém.. e não será nem Miguel nem Gabriel. descrença e malícia. mas no combate que trava para transmudar em virtude o que é impudor. Foi do fundo do inferno que tomaste impulso para subir ao céu.. é capaz de rebentar. Mas tu.. Pai Francisco. "Que palavras mais doces de ouvir!". julgavam que amavas apenas a alma dela. Se eu não o abrir. Era. Eu lhe escapar! Para onde? A partir daquele instante nunca mais o abandonei. a filha do nobre Favorino Scifi? Fui o único a conhecê-lo. Meu coração estala. que enfim converterá a sua horrível negrura em luz". a ti. tem direito a confiar na salvação?” E o teu amor por Clara. dizias-me.” Desse modo. "falaria às pedras. por espírito timorato. mas Lúcifer. Parecia ter medo que eu fosse escapar-lhe. "Se eu não contasse contigo. Os outros. às formigas.

pois te permitiu conhecer um grande segredo: por que meio e por que combate a carne se faz espírito. disseste uma coisa que ainda me faz estremecer: . a um filho. o virtuoso deve levar a virtude até a santidade. chegaste à alma de Clara auxiliado por Deus.ciladas e tentações. Não sentes piedade pelo teu sangue que escorre? . embora nunca tampouco o tocasses. eram Clara. amassando-a com teu sangue e tuas lágrimas. significa abrir o caminho que leva ao céu. ao termo de longa e terrível batalha em que foi inexoravelmente vencida. Estás ouvindo? . com o corpo convertido em chaga viva. Não há mais meio-termo.Irmão Leão. É o único meio: não existe outro. e abracei-me a teus joelhos. escuta com atenção. combateste a carne. Se for demasiado forte para ti. a uma idéia ou a Deus. tu os transformaste em espírito. E eu me esbaforia em te acompanhar. Optaste por ele.Irmão Francisco. vou ensinar-te algo de grave. clamando: . Eles também eram carne. Ora. tu a transformaste em espírito. rindo. precipitei-me ao teu lado. Façanha idêntica alcançaste com todas as tuas virtudes e todos os teus vícios. Lograr uma vitória.No ponto a que chegou hoje a humanidade . dilacerando o teu coração. Longe de se converter em obstáculo. e o pecador. por que atormentas o corpo? É criatura de Deus. enquanto contemplavas com desespero a terra que queria te corromper e o céu que te recusava auxílio. cordeirinho de Deus. de coração despedaçado de pena. esse amor carnal te conduziu a Deus.respondeste. Noutra ocasião. Um dia. a uma mãe. à pátria. após longa luta. trata de esquecer. quando te levantavas gemendo entre as pedras manchadas do teu sangue. Amor existe apenas um. deves respeitá-lo. seja votado a uma mulher. pecar até a bestialidade. ainda que no mais baixo escalão do amor. sacudindo a cabeça -. sempre o mesmo. e. E amaste essa alma sem jamais renunciar ao corpo. Chorando.

fogem em atropelo incontrolável: animam-se. os caracteres do alfabeto me aterrorizavam. "não imobilizou esses duendes . colocando tua mão no meu ombro como se quisesses me impedir de cair: . nessa desvairada sarabanda. Pai Francisco. No momento em que se abre o tinteiro para libertá-los. luta para sair e falar aos homens. Assim. juntando um punhado de barro. completamente negros. Dizia-me que bastaria uma única frase tua para salvar uma alma. morto de medo. Eu tremia da cabeça aos pés. revelam sorrateiramente tudo o que se queria esconder e chegam ao cúmulo de recusarem-se a exprimir aquilo que. "Deus". à luz do candeeiro. eu anotava escrupulosamente cada uma de tuas palavras para que nenhuma se perdesse. Então. . e a todas as alegrias do céu.Sim. E é inútil chamá-los à ordem ou suplicar. ficaste tomado de pavor e... aquela alma não encontraria a salvação por culpa minha. ardilosos.Irmão Leão. senti que os meus receios desapareciam. com seus rabos e cornos. mal essas palavras ímpias assomaram aos teus lábios. o verdadeiro santo é o que renuncia a todos os prazeres do mundo. no âmago de nosso coração. Fazem o que bem entendem. porém logo renunciava. E se eu não a revelasse aos homens. Muitas vezes tomei a pena para escrever. No entanto. separam-se e alinhamse à vontade em cima do papel.O que foi que eu disse? Eu falei? Não. E os atos também. que Deus me perdoe. unem-se. ao deixar a igreja. . cala-te! E desataste a soluçar. Um domingo. Depois me olhaste horrorizado: . Sim. despudorados e pérfidos. Todas as noites. São duendes malévolos. encheste a boca. . entretanto. disse-me.

. Pai Francisco.e entrar na minha cela. pressinto a presença de alguém atrás de mim. no sossego da cela. ainda dessa vez a página ficou em branco. extenuado. Anteontem ainda. lia A vida dos santos. . pois. Pega a pena e escreve!" Contudo. a fim de escrever o Evangelho? Ânimo. Sentia as frases tomarem vida e se revoltarem nos couros. durante anos. Eu o via esgueirar-se pelo pátio do convento . transportei tuas palavras fielmente transcritas.exclamei -. Eu tinha pão e mel. soprava o vento norte. Virome: Francisco estava parado perto do lume. alma minha. o terceiro o Boi e o quarto a Águia para ditar o que deviam escrever. sem teto. uma a uma. a mão estendida como mendigo. Não me encontrava na terra. mas no momento em que volto não encontro mais ninguém. as tuas palavras e obras. Foram os apóstolos que redigiram o Evangelho! Um possuía o Anjo. sem poder me decidir.Frio e fome. por bem ou por mal. não tenhas medo. E sentia também Francisco errante. Procuro um lugar onde repousar a cabeça.malévolos. nos couros dos animais. dizia-me. De repente. Curvado sobre um pergaminho. fazia frio e acendi o meu fogãozinho de terracota (o abade me concedeu permissão. enfim. pois agora estou velho e não possuo mais resistência). nos pedaços de papel e casca. "Quando virá. à hora do crepúsculo. em pedaços de papel ou cascas de árvores.era o único a vê-lo .Pai Francisco . . Levanto-me sobressaltado. Mas e eu? Foi assim que. "em que a velhice me tornará incapaz de correr o mundo? Então me recolherei a um mosteiro a fim de que Deus me dê força. de onde vens? Do paraíso? . para alinhar sobre o papel como na Lenda. Corro a lhe buscar o que comer. o tempo".responde ele.” Estava impaciente.Tenho frio . outro o Leão. Em prol da salvação do mundo. O ar estava impregnado de milagres que me envolviam como chamas.

Encostei a testa. Acordei. sobre eles vieram se instalar passarinhos miúdos como as letras do alfabeto. e comunguei. E percebi que era de mim. Persignei-me e desci à igreja. a boca e o peito às lajes do pavimento. lutei muito tempo contra mim mesmo. Depois. voava. de amor e de indizível tristeza. profundamente cravado na terra primaveril. despetalando as flores sobre o meu corpo. Que Deus me ilumine! . cansado. enquanto admirava o céu através dos galhos. Lavei-me e vesti roupa limpa. um cântico de paixão. Raiava o dia. fiz o sinal-da-cruz e comecei a escrever a tua crônica. Os anjos. sem ter onde cair morto. Não corria. Primeiro um. Não podia vêlos. Os sinos repicavam as matinas. mas ouvia o sussurro de suas asas. envolvendo o meu corpo. A árvore se transformou num cântico suave. constrói-lhe uma casa!” Invadido pelo mesmo temor. sem dúvida. uma mensagem: "Francisco vagueia pelo mundo. que felicidade! Dir-se-ia que o alento divino me acariciava semelhante a uma aragem perfumada. que doçura. Finalmente peguei a pena. que brotava essa árvore cujas raízes. extasiados. Terminada a missa. sugavam-lhe a seiva. querendo manter meu hálito puro. Havia dormido a noite toda em cima do pergaminho.Era manifestamente um sinal de Deus. sonhei que estava deitado à sombra de uma árvore florida. voltando correndo à cela. O cântico ainda vibrava em mim. enfim três. pondo-se a saltitar pela árvore inteira. Só podia ser a árvore do paraíso! Subitamente. Que alegria. mal adormeci. pousei a cabeça no pergaminho e. de minhas próprias entranhas. depois dois. formando grupos que cantavam em coro. erguiam-me no ar. não conversei com ninguém. acariciado pela brisa de Deus. As alegrias e as mágoas de minha vida tinham se tornado pássaros cantores. Soprava uma brisa primaveril. Pai Francisco. com os braços cruzados ao peito.

malfeitores e todos os pássaros que o ouviram pregar. Esclarece o meu espírito. os dedos torneados como os de um homem de estirpe nobre. Quem assim o surpreendesse em plena noite recuava. juro por Deus. Era um arcanjo ferindo vivamente o ar com as asas rubras. perguntei-lhe: . para não ser apanhado pelo fogo. Era de baixa estatura? Ou um colosso? Nada posso afirmar. apaga-te. píncaros nevados.Pai Francisco . tranqüilo e sorridente. tesas como as de um coelho. Ajuda a minha memória. sempre a ouvir o mundo visível e o invisível.1.bradava-lhe -. vais incendiar o mundo. Um dia. como é que Deus te aparece quando te encontras sozinho no escuro? . lembro-me. quando se julgava só. barco que o conduziu até a Arábia selvagem. o azedume e a fragilidade do semblante humano. levantai-vos e testemunhai! Pedras manchadas de seu sangue de mártir. não me deixes pronunciar uma palavra supérflua. Senhor. grutas sombrias. O rosto recobrava a doçura. lábios grossos e imensas orelhas peludas.Pai Francisco. a verdade total: disso depende a salvação de minha alma. . E. muda constantemente de semblante e não o reconheço mais. Montanhas e planícies da Úmbria. Vinde ajudar-me a contar a verdade. Irmão Leão. aterrorizado. porque me ocorre freqüentemente a incapacidade de discernir entre a verdade e a mentira. Muitas vezes surge-me macilento. o rosto esquálido de barba rala. Senhor. juro dizer a verdade. acorrei! Eu. Quando falava ou rezava.. Francisco se esvai do meu espírito como se fosse água. no entanto as suas mãos eram delicadas. Então se aproximava. jorravam chamas celestes de seu corpo. leprosos. caminhos poeirentos ou cobertos de lama. lobos. preciso de vosso auxílio. . Estremeço.

No entanto. Às vezes. quando dormia.Por que te espantas? Não há nada mais simples do que Deus. falou-me em voz baixa. eu me curvava e beijava-lhe os pés. exclamei: . corroídos pelas estradas e cobertos de chagas sangrentas do que ele. Mas da cabeça para cima Francisco era imenso. bebo essa água e me sacio por toda a eternidade. oblíquas como amêndoas e de uma negrura profunda. Arde e pega fogo em nós. e enquanto as palavras eram proferidas. Acontecialhe freqüentemente olhar para alguém sem enxergar. Sou mendigo. transformado quase só num feixe de ossos e pêlos. Tenho sede. rins e pulmões. Eram grandes. num verdadeiro fogaréu. Quanto mais procuro medi-lo em minha recordação. passei a vida inteira entre os maltrapilhos.Como um copo de água fresca. dignos de lástima. Irmão Leão. vi milhares de pés condenados a caminhar descalços nas pedras. Recordo com nitidez duas partes de seu corpo: os pés e os olhos. A gente dizia: "Nunca vi olhos tão doces. Pois além da pele . trazida da fonte da juventude. extenuado. para não ser ouvido pelos outros irmãos: . E os olhos? Quem os visse uma vez. na poeira. jamais os esquecia. Surpreso. tão calmos". descobrindo as entranhas: coração.Como um copo de água fresca? Deus? .Deus é um incêndio. Porém alguns anos mais tarde. tinha estatura bastante reduzida.E ele respondeu: . mais certa me parece uma coisa: desde a terra que os seus pés pisavam até a cabeça. magros. Era como se beijasse todo o sofrimento humano. na lama e na neve. Irmão Leão. esses olhos se abriam como alçapões. mais refrescante e adequado aos lábios humanos. desconheço quem os tivesse mais maltratados. Nesse ponto não há sombra de dúvida.

Vês. Deus celebrou um imponente casamento no céu e os envia como portadores de um convite: "Todas as saudações da parte do Grande Rei. quando rezas ou quando sonhas com o paraíso durante o sono. sim. Mas quando se encontrava sozinho. meu Deus. era o crânio. . rolando pelas sarças e urtigas. através da cabeça do ser vivo parado à sua frente. Procurava certamente insuflar ânimo às criaturas. ao nascer do sol. o esqueleto da morte que ele via. . oh. Às vezes. pois sabia que os padecimentos da alma e do corpo faminto superam a resistência humana. De noite. apanhava dois pedaços de madeira e fingia arranhar o arco de um violino. Senhor. ou ao meio-dia. . Quando nos encontraremos?” Noutra ocasião ainda. sem molestá-los. rompia em soluços. . Ele vos aguarda.Gosto de ti. golpeando o peito. para o céu: "Não quero mais viver. gostava de rir e brincar. entre o trinado dos pássaros. improvisando canções à glória de Deus. nosso Grande Rei. sob as estrelas e o luar. livra-me deste corpo. gosto de ti porque deixas que os vermes passeiem livremente pelos teus lábios e tuas orelhas. erguendo os braços ao céu e clamando: "ProcuroTe desesperadamente o dia inteiro.disse-me um dia. és Tu quem me procuras. quando durmo. Irmão Leão . leva-me contigo!” De manhã. eu o ouvi gritar. despe-me. Mas não os molestas porque bem sabes que são enviados por Deus. com os olhos vidrados. quando se refugiava na sombra fresca do bosque. . Vinde!” Quando não ficava a sós.Que vermes? Nada vejo! . acariciando-me o rosto -. ou então à noite.e da carne. Francisco vibrava de ventura indizível.

assombrado de que o povo não estivesse no limiar das casas para apreciar o milagre. vamos ver se o achamos. Francisco percorria as ruas de Assis. Me dá a mão. pelo menos tal como eu o via. o filho de Bernardone? perguntou. Ao deparar com Francisco a tanger furiosamente o sino. . Pois como saber como era realmente? Será que ao menos ele sabia? 2 Um dia de inverno.Não. . irmão. lançou-se escada acima pelo campanário da igreja e começou a tocar a rebate.Irmão Leão . Deus não! . diga-me onde encontrá-lo. o filho de Bernardone? .Esse nome é terrível. A população acordou em sobressalto. temendo um incêndio. que prodígio! Como imaginar Aquele que criou tanta beleza? Que nome dar-Lhe? . o filho de Bernardone? Irmão. Deus não. De repente.. .respondeu.respondia.Deus.Onde está Francisco. . na Porciúncula.Francisco. eu também o procuro há muitos anos. .Levantem os olhos .protestava. enquanto se aquecia ao sol no umbral da porta. Por amor de Cristo. surgiu um rapaz esbaforido que parou à sua frente. Pai Francisco .Onde está o novo santo? Quero arrojar-me a seus pés. .respondeu-lhes do alto do campanário. Há meses e meses que erro por todas as estradas à sua procura. e a terra.dizia-me. interpelaram: . antes Pai! Uma noite em que a lua estava incrivelmente redonda no meio do céu. com os olhos banhados em lágrimas -. sacudindo a cabeça. quebra os ossos. e precipitou-se seminua ao adro de San Ruffino. flutuava no espaço.Por que tocas? Que está acontecendo? . .Francisco. Olhem só essa lua! Assim era o pobre Francisco. imaterial. apavorada.

curvou-se para mim. que homem horrível! Trajava uma . fez sua aparição. procuro Deus!.Então vai te enforcar! . perguntando quem eu era. Francisco me trouxe comida e preparou um leito.. Nos dias santos eles trocam de alma como quem troca de roupa. e os lacaios que o acompanhavam estouraram de riso. levantei-me. ao lado da esposa. para assistir à missa. com uma imensa pluma rubra no chapéu? Tomou-me pela mão. Meu Deus. Entramos com precaução para não despertar o bicho-papão. tilintando.retrucou com aquela voz tonitruante. Eu o conhecia de longa data. abri a porta sem ruído e saí à rua. De madrugada.Tens braços e pernas . de onde vinha e se não havia visto o seu filho. que os cavaleiros de Siena tinham capturado durante a guerra. havia missa solene na Igreja de San Ruffino e fui me instalar no adro para mendigar. Uma senhora de condição. tomou o jovem pela mão e o levou consigo. Ao abrir a boca para responder. . cruzamos a cidade correndo e chegamos à mansão de Bernardone. depois de um sono reparador. Dona Pica. são medrosos. . Sentei sobre o leão de pedra que se encontra à esquerda do pórtico do templo e esperei a multidão de cristãos. Era domingo.gritava-me sempre -. o destino do adolescente que cantava sob as janelas de sua amada. naquela noite em que o encontrei em Assis. o pai de Francisco.Não procuro trabalho. Dom Bernardone. alimentam esperanças e abrem a bolsa aos miseráveis. Como podia eu adivinhar. Chegava num passo majestoso.Ergueu-se. preocupam-se com o inferno e o paraíso. embora nunca me tivesse dado esmola. Fiquei de gorro na mão e de vez em quando as moedas caíam. trabalha! Um dia eu lhe respondi: .. velha e meio doida.

Há anos lutam em mim e devo confessar-te que essa luta é toda a minha vida. à igreja acompanhado de suas mercadorias. portanto. vinha Dona Pica. queixo duplo. a francesa. Cinco arrieiros armados vigiavam os animais.longa túnica de seda escarlate.A meu pai e minha mãe.. Perto dele. Era robusto. pensando na mãe e no pai. Atrás dele trotavam cinco mulas. A mão esquerda brincava com uma cruz suspensa a uma correntinha de ouro que trazia ao pescoço.. Francisco. Era bela. pois as ruas regurgitavam de ladrões. Muitos anos após. com grandes mandíbulas. imenso nariz aquilino. olhos cinzentos e frios como os de um falcão. para enciumar todos os outros santos. com as mãos cruzadas ao ventre. ainda não pude reconciliá-los! . encolhi-me no meu canto. os olhos baixos e os cabelos cobertos por um véu azul. carregadas até os olhos de mercadorias preciosas. Bernardone ia.A quem te referes. Adivinhei pela sua expressão que era caridosa. uma manhã. jovial. debruada com uma orla prateada. Podem assumir nomes . Irmão Francisco? . porém tampouco me viu. quando nos púnhamos a caminho para ir pregar a boa-nova pelas aldeias. na hipótese de se encontrarem em perigo. começou a suspirar: . Talvez preferisse não dar esmola na presença do marido.Ah. faria a seguinte proposta a São Rufino: "Dádiva por dádiva. veludos. um grande gorro de veludo preto e sapatos de bico revirado. o andar altivo. da mesma cor. Estendi a mão. Como toda a vez que partia em viagem. protege os meus haveres e prometo trazer-te de Florença um candeeiro de prata cinzelada. debruns dourados e bordados maravilhosos. Mal o avistei. Queria que o santo as abençoasse e pudesse reconhecêlas. doce. Transpuseram o limiar da grande porta e desapareceram no interior da igreja. como sedas. que só possuem candeeiros de vidro".

os humildes e os deserdados. Não sejas bondoso. cada um possuía o próprio corpo. Não procures ser amado. meu Francisco. pego-a e beijo-a. troca o teu ouro por brasões. falando baixinho para que meu pai não possa escutar: "Sé bom. cavalgando o leão de mármore. dessas almas sem corpo de quem falam os doutos teólogos. Perdoa os que te ofenderam!” "Meu pai e minha mãe lutam em mim. parecia-me que entrava no paraíso. .. pois sei com certeza que ela representa um naco do paraíso. Deus me perdoe. e me esforço para reconciliá-los. Só o ricaço e o nobre são dignos de viver. Jamais perdoes. Ama os pobres. ferindo o ar com seus acordes vibrantes. luz e trevas. Se uma migalha de pão cai no chão.. . aterrorizada. provocarias a tua ruína: se alguém te quebra um dente. Pensei: "Eis a voz de Deus. e naquele dia iam à igreja. eis a voz do povo. azeitonas e vinho. lado a lado. para assistir à missa. O primeiro grita: "Ganha dinheiro. Porém não consigo. Dom Bernardone e Dona Pica ocupavam o coração de Francisco e o atormentavam. quanto a mim. . Um cântico muito suave. bate!”E a voz de minha mãe. radiante de felicidade. continuam sempre sendo meu pai e minha mãe.. Irmão Leão. eu me abaixo. num alforje.diferentes: Deus e Demônio. parte-lhe a mandíbula. severa e onipotente. enriquece.” Com efeito. espírito e carne. e sofro com isso. o perfume do benjoim e. Fechei os olhos.. Não é isso o paraíso? Porque. escutei a voz límpida das crianças que cantavam e o som do órgão irrompendo do trifório. . bem e mal. pão." De pálpebras cerradas. não compreendo patavina desses espíritos. Porém não há como os mendigos para compreender essas coisas. E é a eles que me dirijo. Mas além do coração do filho. mas temido. . Assim. escutava.

Era domingo.Dom Francisco . respirava com dificuldade. os saltimbancos haviam terminado de fixar os postes e estender as cordas. tinha os lábios trêmulos e os olhos repletos de visões. porém. tirava a sorte.. . Seus joelhos.Estou doente . Francisco. uma sombra se projetou sobre mim. Por isso são brancos e conhecem uma infinidade de segredos.Ampara-me até minha casa. . apoiado em sua bengala de cabo de marfim. vou me deitar. vacilavam. 4 Na praça.Enquanto eu passeava pelo paraíso. tira a tua sorte! Segundo consta. Francisco. pontudos e ornados de guizos. extenuado. Meu Deus.Vem. bálsamos para as feridas e amuletos contra o mau olhado. montado em meu leão de mármore. parado à minha frente. que mantinha uma ratazana branca presa numa gaiola. e de vez em quando era forçado a se encostar a um muro. . Um velhote malicioso. pois as mulas carregadas de mercadorias valiosas já não estavam no pátio da igreja. . Fechou os olhos em seguida. O ofício havia acabado. tenho algo a te pedir. Tomou a dianteira. vendiam galinhas.disse eu -. gorros vermelhos. Abri os olhos: era Francisco.falou com voz rouca. contudo. ovos. Velhos e velhas. como é que os ricos se resignam a morrer? Escadarias de mármore. decerto eu caíra no sono. . E ficarás ao meu lado.disse. sentados no chão por detrás dos cestos. queijo. lençóis de linho e de seda!. Tomei-o então pela cintura e levei-o até a mansão paterna. ervas medicinais. esses camundongos vêm diretamente do paraíso. Virou-se para mim: . aposentos de tetos dourados. Envergavam trajes de colorido extravagante. preciso de ti . apoiado a um poste. Preparavam-se para mostrar as suas acrobacias e armar a gamela. Ajudei-o a deitar-se na cama. lívido.

Suspeitei de que houvesse uma presença terrível pairando sobre ele.exclamei.murmurou -. Finalmente soltou um grito. eu O ouvi. angustiado.Viste Deus. Ergueu a cabeça do travesseiro: . tremendo. Pegou-me pelo braço. tenho medo. abriu os olhos e sentou na cama. não . com um gesto. Seu queixo tremia. As pálpebras estremeciam como se uma claridade ofuscante as ferisse. .Sentado à cabeceira. . vi passar sucessivamente sombras e clarões pela sua fisionomia empalidecida. Olhou em torno com aflição. Se o fizesse agora. . Depois encolheu-se no travesseiro de penas. . Mas adivinhei ao ver que tremias.Quem te disse? . minha mão ficaria em cinzas.Ninguém.Não O vi. Me toques! Não te aproximes.murmurou.Como sabes? . Contemplavam o próprio íntimo com assombro.Não vou te tocar. me fechou os lábios. . tu O viste! . Somente a visão de um animal feroz ou de Deus é capaz de fazer estremecer alguém dessa maneira. Então compreendi: .Cala-te .Senta-te! . não . com ar aterrorizado. Corri a colocar um travesseiro de penas às suas costas e já me preparava para lhe perguntar o que tinha quando.ordenou. Os olhos reviraram.perguntou. Reapareceram centelhas em seus olhos. Sacudiu a cabeça e sorriu.

hesitando em responder. sem tempo de procurar Deus. abriria uma oficina de marceneiro. E me diria: "Para que criar dificuldades que não existem? Desperdiçaria toda a minha energia em ganhar meu pão. Estou te ouvindo. pensava nele constantemente. De que modo? Aos brados? Em pranto? Cantando? Jejuando? Cada um deve ter um caminho próprio que o conduz a Deus. Ficou em silêncio e depois falou: . tecelão ou sapateiro.. . . meu jovem amo.Por que não respondes? .disse. trabalhando o dia inteiro.Antes de mais nada: minha mãe já voltou da missa? . . Se eu não fosse preguiçoso.Ainda não. também me teria arranjado na vida. Sabia qual era o caminho que seguia em busca de Deus. procriar filhos. Qual é o teu? Baixei a cabeça.Tenho algo a te pedir . Naquela época eu sentia vergonha diante dos homens porque não sentia nenhuma perante Deus. Decerto conversa com as amigas. Meu coração se confrangeu e tomei a resolução de lhe contar tudo. mandar numa mulher! . mas o caminho que escolhi para chegar a Deus é a preguiça. como todas as pessoas honestas.insistiu Francisco em tom queixoso. Fecha a porta.Tanto melhor. Ajuda-me! Causava-me dó. .Disseste-me que passaste a vida à procura de Deus.Talvez te pareça estranho.Às tuas ordens. formando um lar.repetiu. aprenderia um ofício. inquieto. Atravesso um momento difícil e peço-te auxílio. Dom Francisco. .Tenho algo a te pedir . . mas não ousava mencioná-lo.

respondi. Então. . de aldeia em aldeia. com o rosto virado para o céu. Pensava: Quem terá feito tudo isso e por quê? Ou então: Onde será que se encontra Deus? Pois eu queria procurá-Lo e Lhe fazer todas essas perguntas. A piedade. fala. nem companheira. onde achar tempo para vadiar. abraça-a. à sombra. A princípio é mera curiosidade. contemplava a lua e as estrelas. Interrogaste-me.Que mais posso dizer. Ficaria entediado se tivesse de trabalhar. Encontrei gente que . . Dom Francisco? Conheces o resto. de porta em porta.Nessas condições. não acredites em quem te disser o contrário. simplesmente por estar exausto. . arranjar preocupações. Meus pais me deixaram alguns bens. prossegue falando. gastei tudo. poderia conduzir a Deus? Estás me dando coragem. . sabes. Sente fome e só pensa em comer. Não sacudas a cabeça. De repente. Nem um minuto sequer para se lembrar de Deus! Mas aquele que não tem trabalho. nem filhos dispõe de tempo de sobra para pensar. Dom Francisco. fazer filhos. casar. À noite. cerra os punhos e dorme. Como queres que não se pense em Deus contemplando a lua e as estrelas? Eu não podia dormir. esquece a existência de Deus. . Onde está Ele? Alguém O viu? Eu tinha o aspecto de quem acossa uma fera terrível. não te detenhas. No inverno estendia-me ao sol e no verão. acorda momentaneamente. . nesse caso. como a preguiça. necessita de preguiça e lazer. Por isso apanhei meu alforje e parti em busca de Deus.” . chegando a casa depois do trabalho. vê a esposa a seu lado. de mosteiro em mosteiro. como guardar um coração puro para pensar em Deus?” "Felizmente nasci preguiçoso.Continua. . Irmão Leão. nervoso. porém aos poucos a angústia se infiltra. Um operário cansado. torna a cerrar os punhos e a mergulhar no sono. o Diabo também. deitado no terraço de minha casa. Discute com a mulher. Depois. bate nos filhos sem motivos.

indaguei. não O procures. "O caminho que conduz a Deus". tapa os ouvidos. macróbios. Porém nunca esmoreci nessa busca. ainda ouvia os seus soluços. apavorado. então?". De tanto chorar. ando à procura de Deus.ria. trovadores. aterrorizado. "Que fazer. ancião!" "Então casa-te e não penses mais em Deus!" E com um gesto do braço esquelético. respondeu. Só em lembrá-la me arrepio. deparei com um santo numa gruta. santos. Mas cada um indicava um caminho diferente: qual escolher? Só faltou enlouquecer. . É isso o que eu faço!" Cerrou as pálpebras. salta!" "Um abismo? Então o caminho é esse?" "É. . "é a mulher e o filho. O abismo conduz a Deus. Se queres ouvi-Lo. meu jovem amo? Pedi conselho a todas as espécies de pessoas: sábios. correndo entre os pinheiros e golpeando o próprio peito! Noutra ocasião.Qual é? Tenho de saber! . gente que me atirava pedras. . . Casa-te. Mostra-me o caminho".murmurou Francisco. . ficara cego." E outro. A imundície e a santidade lhe cobriram o corpo de escamas. disse-me um erudito de Bolonha. juntou as mãos e rompeu em pranto. Foi ele que me deu a resposta mais justa e terrível. sim! Todos os caminhos levam a terra. Uma mulher que vivia completamente nua na floresta só achou como resposta este grito: "Amor! Amor!".Todos? Tanto os que encontraram como os que não encontraram Deus? .Prosternei-me a seus pés e supliquei: "Santo eremita. "Não existe caminho!". mandou-me embora. prelados. À distância. e outros que até me batiam. que era louco: "Se queres encontrar Deus. "Só há um abismo. loucos. .Todos choravam? .E achaste-O! Sentia sobre mim a respiração ofegante de Francisco. batendo com o cajado no chão.Como poderia eu. Salta!" "Não posso.exclamou Francisco todo trêmulo. fecha os olhos. Se queres vê-Lo.

disse-lhe. vislumbrei o pano de Seu manto. Deus seria a procura de Deus? Pobres de nós! . Francisco também sentiu medo. numa noite de temporal. vi-O. começou a rir. absorto em seus pensamentos.Que demônio fala pela minha boca? . Ao clarão de um relâmpago. perdoa-me. atrás de mim. vi pegadas sobre a neve. porém. Quanto a mim. no alto de uma montanha. . "Decerto deliras. estava eu na floresta. . Irmão Leão? . não compreende mais nada! Tenho certeza de que eram os passos de Deus impressos na neve. por um segundo. Respirava penosamente. após breve silêncio se Deus não é justamente a procura de Deus? Essas palavras me apavoraram. E eu.Por quê. Abriu simplesmente a porta da taverna onde me divertia com os meus amigos e em seguida sumiu. faz doze anos que O procuro. Dom Francisco. e esses foram os únicos indícios que encontrei. estremecia. Um dia. foi no inverno passado.murmurou. Contudo me pergunto se o próprio relâmpago não seria Seu manto! Outra vez ainda. vivamente emocionado. meu pobre velho! São as marcas do lobo que anda por aqui. preocupado com carneiros e lobos.Escuta.Quem sabe .Todos! . Dom Francisco. desesperado. "o rastro de Deus!" Ele. O que poderia ter dito? Um cérebro rústico. Passou um pastor: "Olha". Julgo ter visto o rastro dos passos Dele duas ou três vezes na vida. . para consolá-lo: . . embora estivesse embriagado.Não sei. Outra vez. só sei que choravam. pois ocultou o rosto entre as mãos. Todos! Calamo-nos. Francisco tinha agora o rosto escondido no travesseiro. Francisco baixou a cabeça." Não respondi.gemeu..

vira para outro lado! Levantei-me então para ir embora. portanto. .exclamou.disse.Aonde vais? Por que me abandonas sozinho ao perigo? Tu falaste. . Senti que o seu olhar trespassava minha alma. . e logo após: . um galo começou a cantar. fica sabendo. desabafaste o peso que trazias no coração.Quero sentir frio . As maçãs do rosto se avermelharam e os dentes batiam. . Seja o que for que disseres.ordenou.Deus seja louvado! . Em que pensas? Estás com fome? Come.Pensas acaso que não passo de um ventre? Nasci para ouvir. magoado. vazia.Deixa-me! E ademais não me olhes. Bebe vinho também. renova tuas forças. que ele afastou bruscamente. . Pôs-se colérico: . .respondi.Ficamos em silêncio. Agora é minha vez.Senta-te . Tenho algo grave a dizer-te. . . com a boca entreaberta. suportarei. colocando a mão em meu joelho: . Bebeu recostado à almofada. .Parece até que ficamos sozinhos no mundo. Tudo estava tranqüilo. abre o armário e come. Os olhos de Francisco tornaram a se fechar. Fez o sinal-da-cruz e me olhou. Ouves alguém dentro de casa? Ou lá fora? Escapamos ilesos ao dilúvio.Dá-me um copo d’água. estou com sede. Tornou a se calar. Irmão Leão. A casa. No pátio.Não tenho necessidade nem de comer nem de beber . e prestou atenção aos mínimos ruídos. Eu o cobri com um cobertor grosso de lã. Podes falar. Calou-se.

Segui pela encosta. "Respirar o ar puro me fez bem. encolerizado. essa foi a vida que levei. filho de Bernardone! Estás com o coração cheio de pecados.exclamou. como me . Fui por isso apelidado de "perdulário". . mas emocionado e ofegante à medida em que prosseguia na sua confissão..Pousa a tua mão na minha cabeça .És o meu confessor. confessa-te.pediu. as luzes apagadas. lesava o próximo. senti falta de ar. deslizei até o pátio.rogou imperioso . filho de Bernardone! Estás com o coração cheio de pecados. tive um negro pressentimento. Durante o dia. Ardia. Sim. esvazia-o e ficarás aliviado!” Eu. ouve minha confissão. recolhendo dinheiro e gastando irrefletidamente. Francisco começou a falar. porém. sem destino certo.e dize: "Em nome de Deus. A casa se tornou acanhada demais.Em nome de Deus . quando voltamos para casa e adormeceste. Coloquei a mão em sua fronte. . A lua começava a empalidecer no céu. Irmão Leão . calava-me. pecador Francisco. Estava tudo tranqüilo.Faze o que te ordeno! . "Ontem. a esmo. Passando defronte à Igreja de San Ruffino. Desci a escada devagarinho.murmurei -. a princípio calmamente. a cidade dormia nos braços de Deus. abri a porta como um ladrão e me precipitei na rua. após a meia-noite. À noite. canções.Abençoa-me. E vendo-me hesitar: . porém. esvazia-o e ficarás aliviado! Então. .Até hoje a minha vida se resumiu em festins. confessa-te. dedicava-me aos divertimentos. pecador Francisco. . libações. trajes de seda e plumas vermelhas.

Quem sabe não sairia do leão de mármore onde me sentara? Levantei-me de um salto.Ouvi uma voz. O rugido ecoava ainda em mim.. exatamente no mesmo lugar onde te encontrei hoje de manhã pedindo esmola.repetiu.Pouco me importava quem surgisse primeiro.. Senti vertigem. Não. Gritei: Será que ninguém me ouve? Estarei sozinho no mundo? Onde está Deus? Não escuta. Acariciei-o demoradamente. . Por que. encontrei-me entre dois precipícios. Tentei segurar-lhe a mão e acalmálo. enquanto o suor lhe escorria abundante pelo rosto. não quero me acalmar. mas com um movimento brusco de recuo exclamou: . Imóvel. Francisco? Que dizia? . de repente. parecia mais um rugido de fera. contemplava fixamente o céu através da janela. . Custasse o que custasse. e ao passar a mão pelo seu focinho.Deixa-me. ouvi uma voz. esse pavor à solidão? Naquele instante teria entregue a alma a quem quer que fosse.Não consegui entender as palavras.Uma voz? Qual. Deteve-se. impossibilitado de recobrar alento. sentei no leão de mármore que guarda a entrada. . Então pensei: Que leão é este? Por que lhe confiaram à guarda desta porta? Quem poderá ser para devorar assim os seres humanos? Deus ou o Demônio? E de repente. Fiquei com medo. A respiração ficou difícil. não tem mão para estender sobre a minha cabeça? Tenho vertigem.Chamei Deus e o Diabo sucessivamente . . O dia começava a despontar. repercutindo do coração aos . equilibrado numa faixa de terra da largura de um pé. Deus ou Satã. . vou cair!.sentisse cansado. deparei com a criatura que ele se prepara para devorar. . E enquanto olhava o céu com desespero. A voz era rouca e opressiva: .” Fez uma pausa. Não fazia diferença.continuou. precisava de companhia. Queria apenas não me sentir abandonado. não era uma voz.

. Vem refugiar-te no meu seio. o libertino. Estaquei o passo. Irmão Leão. surgiu o sol por trás da montanha. . Era a letra da minha canção. porém outro. a que eu cantava todas as noites. simplesmente. continuei a corrida. o filho de Bernardone. de uma a outra cavidade das entranhas. Nesse momento preciso. como um trovão. Por mais que eu corresse não poderia lhe escapar. Pai Leão. O mundo se iluminou e se reaqueceu. dessa vez bem baixinho. a tua alma é uma pomba e o gavião que a persegue é o Demônio. Os sinos repicavam as matinas. do lado da cidadela. Depois inclinou a cabeça e repetiu num sussurro: . Fugi para a parte alta de Assis. Francisco.rins. Francisco. esbaforido. juro.Francisco. entretanto. escutei. Corria sempre. Um outro. E de novo calou-se.. Então senti nitidamente que ela não vinha do exterior. Quem? Não sei. como se revelasse um segredo. a tua alma é uma pomba e o gavião que a persegue é o Demônio.” Calou-se e sorriu. . sei por que a compus e qual o seu significado profundo. sem parar. cantar e seduzir moças? "com os cabelos eriçados de medo. . Vem refugiar-te no meu seio. Mas a voz me perseguia. Atrás de mim alguém chamava: "Aonde vais. foi para essa vida dissoluta que nasceste? Para te divertir. A voz voltou a falar. Agora. E subitamente meu sangue gelou. A voz murmurou: Francisco. debaixo de uma certa janela. Francisco. Francisco? Aonde? Nada te pode salvar!” "Viro-me: ninguém! Recomeço a correr. A cabeça recolhida ao peito. "Cheguei enfim à cidadela.. Estava em mim: alguém gritava. . banhado em suor.. e ao cabo de um instante torno a ouvir a mesma voz: Francisco. . e não era eu. melhor do que ele. O que estou dizendo é a pura verdade.

envolto em sua carne. tem confiança! Saltou porém da cama.Parecia mais calmo. tomei-lhe a mão e beijei-a. Vinha só.Francisco. Respirei aliviado.E agora. por favor! Agarrou-me pelo braço: . que fazer? .disse-lhe -. O velho não está em casa.Conserva a cabeça apoiada ao peito . . e ouve. . .perguntou com voz estrangulada.Não me abandones ao perigo! -.Tua mãe entrou. Esse outro que te habita certamente falará de novo. Francisco . Francisco . montado a cavalo. o sono também é um anjo de Deus. todo homem. Eu também errava há anos mendigando conselhos. até o mais descrente.Não vás. Soou um passo leve. Vou-me embora. Aconselha-me. de olhos arregalados: . Dom Bernardone devia estar a caminho de Florença. Percebi que podia tocá-lo agora sem me queimar. Senti pena dele. Ele cerrou os olhos. dormirás aqui. meu irmão . Não me deixes só. Curvei-me.anunciei. traz Deus profundamente embrenhado em seu coração.respondi -. Dona Pica voltava da igreja. . Faze então tudo o que ele te disser. . .Dorme. Era Deus quem gritava dentro de ti. Não dormira a noite inteira e estava com sono.Dorme. . Ouvi que a porta do pátio se abria quase sem rumor.aconselhei brandamente -. .exclamou. .

quando se restabeleceu. De que tens medo. perseguindo-o. Depois enxugava os olhos com o lencinho branco. Descreveu-o no dia seguinte. A mãe entrou no quarto sorrindo. a porta se abrira dando passagem à Morte. no momento em que entregava a alma ao Criador. Às vezes Dona Pica se retirava para ir chorar noutro lugar. Sonhara que estava moribundo e que. Percebia-se a luta que travava durante o sono. debatendo-se no leito. pois? . Mais tarde. e mesmo assim conseguiu ficar cheia e recomeçar a minguar antes que ele pudesse se levantar. Francisco. enroscava-se tiritando num canto. Não trazia . Irmão Leão. à hora em que sopra uma brisa refrescante e a chama dos candeeiros espalha uma doçura infinita pelo mundo. ora os demônios que saíam das entranhas da terra. enfrentara ora os sarracenos às portas de Jerusalém. sabes disso perfeitamente! Abrigas um companheiro poderoso. porque a emoção ainda inquietava seu espírito. Uma noite Francisco teve um sonho. surgiam das trevas da noite. não de manhã. entregando-lhe um raminho de manjericão. mas de tardinha. a lua era minguante. Quando não soltava gritos ferozes. durante a doença. tornava a sentar-se. Coloquei-lhe a mão na testa. Sua mãe e eu permanecemos sozinhos à sua cabeceira. tomando um leque de penas de pavão e abanando o filho. que ardia em febre..Agora não estás mais sozinho.Meu filho. então não compreendes? Fica. Sei apenas que. Quantos dias e noites durou a enfermidade de Francisco? Não saberia dizê-lo.Mas é justamente Dele que tenho medo. trago-te a bênção da Virgem para te socorrer! disse. 2. contou-nos que. ouviste a sua voz. Ardia. não tenho noção do tempo. desciam das árvores. . ao cair de cama naquele famoso domingo.

perguntou Dona Pica. "Partamos!" "Para onde?" "Como ousas fazer essa pergunta? Dispunhas de todo o tempo. O rosto resplandecia. e o desperdiçaste em dissolução. todo trêmulo. anda!" "Somente três meses!". aproximou a tenaz e apanhou Francisco.. . .Nesse caso. Olhou ao redor. . pendurando a gaiola à janela para distrair o doente. filho de Bernardone!". . Jogaste-a e perdeste-a. "Deixa-me".Tomara que te traga sorte! .Para lá de vivo. "deixa-me ao menos por um ano. Estou vivo? .Louvado seja! Apalpou os lençóis e as colunas do leito. soltando os dentes sobre os lençóis de seda: "Agora é tarde demais." A Morte desatou a rir.exclamou. procurando os joelhos maternos. meu jovem amo . .Ti veste um sonho.respondi. . . . Deus seja louvado! Ria e simultaneamente beijava as mãos da mãe. não dispões de outra.uma foice e sim uma longa tenaz de ferro semelhante às que os verdugos utilizam para segurar os cães raivosos.murmurou com olhos rútilos . suplicou. porém. a testa inundada de suor. sem responder. suplicou ainda Francisco. um dia!" A Morte. O canário que a mãe trouxera de seu quarto. luxo e canções.Então é verdade. Depressa.exclamou radiante. Não tenhas medo! Bateu palmas. viveste tua vida. que acordou aos berros. três dias. ainda me sobra tempo! .então é verdade. Finalmente virou-se para mim. "Um mês. .Louvado seja o Senhor! .. . . trinava com o bico voltado para o céu." Agitou a tenaz e Francisco se encolheu no travesseiro. dá-me tempo de me arrepender. . ordenou. Aproximou-se da cama: "De pé. . meu filho? .

perdera o juízo à força de tanto beber e cantar. Lembrou-se de um acalanto que costumava cantarolar para adormecê-lo quando era pequeno. pensando que era carneiro. Ao cair da noite. Então entreabriu os lábios e se pôs a cantar em provençal. sempre agitando o leque. A mãe sentiu medo. Os sulcos em torno da boca e o vinco das sobrancelhas desapareceram. . . a fisionomia inteira brilhava como um cascalho acariciado pelo mar sereno e límpido. Louvado seja o Senhor! E naquele dia. debruçado sobre Francisco. com ar refeito.disse -. querida mamãe. Dona Pica o abanava com as penas de pavão. Um de seus irmãos. . . Entre mentes. abriu os olhos. até cair a noite. balia e pastava relva. . cobriu-a de beijos. Mas. Caminhava de quatro. olhando em torno. tenho a sensação de que me deste à luz pela segunda vez! Com a mão materna entre as suas. em voz baixa e dulcíssima. trovador célebre em Avignon. A pele se tornara lisa como a de uma criança. eu lhe contemplava o rosto.Mãe . Sorriu para nós. . julguei que ainda era menino e me embalavas cantarolando. como . Mãe.. . conta-me uma história. o medo se apossava dele novamente e seu olhar se turvava. e a sua voz adquiriu uma meiguice infantil: . Parecia contemplar o mundo pela primeira vez. O rosto assumiu uma expressão de candura: balbuciava. Cantou muito tempo. enquanto dormia. extasiado.tornou a murmurar. banhado em luz misteriosa. . à medida em que falava. não mais pronunciou nada. E eis que agora Francisco lhe pedia histórias. A mãe lhe acariciou a mão.Ainda me resta tempo! . há pouco. Ficou sentado na cama. Foi então que narrou o sonho. e só então ele se acalmou.Mãe.. dissoluto e perdulário como o sobrinho.

com freqüência.perguntou. Aquela de Pedro. para provocar a mãe. e o nascimento do filho fê-la esquecer todo o resto. . Mas não lhe permitiram. Era um filho que ela queria e não Deus. não. . . Dizias: "Espera. meu filho? .Como poderia esquecê-lo? Ainda o revejo em sonhos. Porém. Uma história de teu país. Dona Pica se ofendeu. Julguei que fosse um conto e tinha tanto medo desse santo quanto do bicho-papão. Pôs-se a rir.Não o esqueci. Senhora. que o monge vem te buscar!" E eu me encolhia debaixo de uma poltrona.Que Pedro? .Pedro. mãe. . já havia morrido. . Quando me comportava mal.Mas trata-se de um fato verídico! . por exemplo.A que tu quiseres. louco de medo de ser descoberto. quando cheguei. lembras-te?. obrigada a se casar. .Ela jogou fora as sandálias que usava: queria segui-lo de pés descalços.Que história. Chegaste a conhecê-lo. seria a punição de algum pecado? Seu sangue estaria maldito? . Francisco sorriu e. o famoso monge de Lyon? . o monge selvagem que andava descalço. . Meu Deus. Foi seqüestrada. eu te suplico: viste o monge? Falaste com ele? Como era? Também andei à sua procura.Tu a mencionavas freqüentemente quando eu era pequeno. Dona Pica? Ouvi coisas terríveis e extraordinárias a seu respeito.indaguei interessado.se voltasse à infância. É que agora tenho outras preocupações protestou suspirando. disse: . .O heresiarca de Lyon. segundo consta. . pousando-lhe a mão na testa a fim de refrescá-la.

onde e o que foi que ele te disse.advertiu.Quem sabe preferes escutar um verdadeiro conto. Esse é o segredo de minha mãe.Era sábado. recusando-se a conduzi-lo à luz.possuímos um segredo na vida. Só aquele e mais nenhum. . . . suplicante.Não.afirmou . vou te contar tudo .Todos nós . Acabava de florir um gerânio vermelho.. Suas pálpebras batiam como as asas de um pássaro ferido. . Com a cabeça inclinada sobre o peito. emocionada. meu filho. . Em pé. . Apoiou-se nos travesseiros.Pois bem. mas nunca acreditei. Dona Pica enrubescera. Dormira o dia inteiro e o corpo desfrutara um suave repouso. Eu estava no pátio de nossa casa e regava tranqüilamente os vasos de manjericão. como se a recordação lhe fosse penosa. E como fugiste. manjerona e cravos-da-índia. permaneceu um longo momento em silêncio. Francisco abriu os olhos e franziu o cenho. quando. conta-nos como foi que o encontraste pela primeira vez.Acalma-te. Contanos como encontraste o monge pela primeira vez. Pousou as mãos na dobra do avental. cerrando os olhos.Foi de tarde . .começou devagar. quero aquele mesmo.Mãe. Sentia-se que o famoso monge estava profundamente imerso na noite de suas entranhas e que ela hesitava.Sou todo ouvidos . Ouvi várias coisas a respeito desse assunto. meu filho? perguntou afinal.concordou Dona Pica. . Tinha os mesmos dedos afilados do filho. Pôs-se a amarrotar nervosamente o lencinho. Chegou enfim o momento de ficar conhecendo a verdade! Virou-se para mim: . diante da planta.

. Abri a boca para gritar. virei-me. A voz era grave e rude. os mentirosos e os miseráveis. "Que a paz reine sobre esta casa". Ele então franziu as sobrancelhas espessas: Não te envergonhas de .” "Antes que terminasse de falar.. percorrendo as províncias e aldeias. Chamo-me Pedro e sou monge. "Sim. Nunca ouviste falar em mim? Fui eu quem ergueu o estandarte de Cristo bordado de lírios brancos. dirigindo-se à ponte e desaparecendo. Era um tropel de passos. Ei. ameaças e golpes violentos desferidos contra as portas. o Juízo Final! "A multidão se afastou sem ousar bater em nossa porta. porém eu vislumbrei.admirava-lhe a beleza. e que. Vinha descalço. assustada. expulsei do templo de Deus os sibaritas. cada vez mais. "São os inimigos de Cristo que me perseguem. e acorrem para crucificá-lo pela segunda vez. quando de repente ouvi que batiam com violência à porta. À minha frente estava um monge de aspecto feroz. Arrancou o gerânio e o desfolhou. vozerio. vociferou. eu tremia. Pilatos e Caifás! Aproxima-se. disse ele. Senti vontade de lhe fazer uma série de perguntas: Quem era? Que buscava? Era perseguido? Por quê? No entanto nenhuma lograva sair de minha garganta apertada. mas ele me impediu com um gesto. disse. Ela se abriu. virou-se para a entrada do pátio e franziu os lábios de um modo sarcástico. A força que emanava daquele homem me paralisava. Permaneci sozinha no pátio com o monge. De olhos postos no gerânio vermelho. Farejaram no ar o seu grande inimigo: Cristo. ouviu-se um grande barulho na rua. "O monge cerrou os punhos. vestido com um hábito esfarrapado e com uma corda grossa amarrada à cintura. O sino da igreja do bairro começou a tocar furiosamente. Soltei um grito e meus olhos se encheram de lágrimas. sou perseguido". faminto. adivinhando a pergunta pelo movimento de meus lábios. uma ternura inefável. Seu olhar fixo em mim exprimia ao mesmo tempo cólera e ternura. descalço. tendo tomado o látego das mãos de Jesus. dissimulada por essa aspereza.

Sou um homem simples e para crer preciso ver. . . olhando pela janela aberta o pátio. Que é um gerânio comparado com uma vida humana? Meu monge. Tinha as faces em fogo. .estranhou Francisco. ouvir e tocar.contemplar as criaturas em vez do Criador? Todas as belezas da terra devem perecer porque nos impedem de ver o Invisível. O gerânio que o teu monge desfolhou há de precipitá-lo no inferno.Quando eras pequeno não podias compreender.A beleza é filha de Deus . que até então escutara de cabeça baixa. .Não. meu filho. a madressilva e pequenas nuvens esparsas que vagueavam no céu. Mais tarde. não. Irmão Leão? .A beleza é filha de Deus. . isso é o que sei. com a doença.Fez aquilo para salvar a minha alma! .Não sei o que dizer. . a tua carne se acalmou e podes ouvir as mensagens secretas de Deus sem fazer troça. .retrucou Dona Pica.” Francisco. meu jovem amo.exclamou. sobressaltouse. terias rido. . Por que me escondeste a verdade? . entrará no paraíso com aquele mesmo gerânio. É contemplando o visível que imagino o Invisível. . não é verdade! . Somente vendo o que existe ao nosso redor é que se pode imaginar a fisionomia do Senhor. Por isso vou te dizer a verdade. encarando a mãe com surpresa. Virou-se para mim: .Que opinas. . por ter salvo a minha alma. . como dizes.Salvo a tua alma? .De que modo? Teu pai porventura não interveio e o expulsou? Foi isso o que me disseste. Agora.definiu Francisco.

perguntei. "É desse modo que Ele invade as pessoas.declarou afinal.Preferes que eu saia. . E antes mesmo de concluir a frase. que me lançou um olhar penetrante. Ardia. Depois olhou para mim um instante.Fica . .. Não tenhas vergonha. enxugou-lhe as têmporas e o pescoço que transpiravam. . Tens razão. Não irás a parte alguma. com seu lencinho.prosseguiu. . . retomando o fio da narrativa -. mãe. avaliava-me.. fala! .Então? . talvez. falarei. A mãe teve medo e tomou-o nos braços.O monge pousou a mão na minha cabeça . meu filho? Por que tremes? . Tinha vontade de romper em soluços e de começar a dançar no meio do pátio.. porém. mãe.Fica. como se hesitasse em falar na minha presença.” . .suplicou. . o teu próprio sangue.Não só escutarei sem zombar como até chorando. ou de sair correndo rua afora. . continua. Francisco. chegou a hora de ouvir. e senti que uma chama penetrava o meu cérebro. Que chama era essa? "Deve ser Deus!". . clamei no meu íntimo. emocionado. queimando-me a garganta e ardendo nas entranhas. o meu coração é puro.insistiu Francisco. nobre senhora? . Franziu as sobrancelhas.Por que choras.Fala. contemplando a mãe com impaciência..Não há vergonha nenhuma. mãe.Porque sinto em mim o teu próprio sangue. Dona Pica. rompeu em pranto. Encarei Dona Pica. . estendeu a mão e ordenou: . Então me ergui. Senti desejo de tirar as sandálias e partir pelas estradas sem jamais regressar à casa de meu pai.

despida de angústia. eu me . Francisco arregalou os olhos. andrajoso e descalço. A terra voava sob meus pés nus. Seria o medo que lhe desfigurava a tal ponto o rosto? Medo.Depois. Ela se levantou. o coração completamente aberto. . Olheio inquieto. . pronto a admitir todos os milagres. Pôde afinal mover os lábios: . Depois tornou a enchê-lo. Quando o monge abriu a porta e me fez sinal para segui-lo.Foste embora? Seguiste-o? Abandonaste o teu lar? . subia ao céu. como se quisesse extinguir o fogo que a queimava por dentro. fiquei desatinada. joguei minhas sandálias. Para mim veio disfarçado em monge rude. alegria ou escárnio? Os três. bebendo de novo.Que aconteceu? A mãe baixou a cabeça. .insistiu Francisco. talvez. impaciente.E depois? . meu filho. E quando começava a anoitecer. encheu um copo d’água e bebeu. A casa de meu pai se tornou demasiado pequena para mim. .respondeu Dona Pica. sem hesitar. no centro do pátio e corri atrás dele. A uma batida de calcanhar. E naquele dia Deus me apareceu. . um após outro. . apanhou a garrafa de cristal em cima da janela. "Caminhava rápido e eu seguia atrás. erguia os braços e lançava o anátema sobre os ateus. . Ou até simultaneamente. Quis falar e não conseguiu. . . Falou-me da miséria. . da ignorância. do paraíso e do inferno. Entrávamos nas aldeias como conquistadores.As faces e o pescoço de Dona Pica estavam púrpura.Tinha dezesseis anos. Para certas moças Ele surge sob a forma de jovem e belo fidalgo. . os ímpios e os poderosos deste mundo.Sim . . O monge trepava numa pedra no meio da praça. com voz já tranqüila. "Quantas montanhas escalamos!.

Depois de percorrerem montanhas e aldeias. "Meu pai. ele tremia. . atrás de um monge selvagem. Nosso espírito se perdia em devaneios ante a visão daquela moça a correr descalça. Certamente estava cantando durante todo o tempo em que sua dona falava.” Dona Pica se calou. a fim de que os camponeses tremessem de medo ao vê-lo.Irmão Leão . À minha direita está o precipício de Deus. Contemplou o filho e sorriu. sucumbo. alçando-me à garupa de sua montaria. Sem asas. com o pescoço espichado para o céu. sou um homem perdido. casaram-me. .bradou.colocava à sua frente com uma tocha acesa para lhe iluminar o rosto terrível. eles me descobriram. esbaforida. O rosto estava da cor da cera.disse. De repente.Quero ficar só! . porém ninguém o ouvira. Nós o ouvimos suspirar e se levantar de vez em quando para ir à janela tomar ar. à minha esquerda. Então. ouviu-se o canário trinar. que estava junto com eles. Francisco abriu os olhos.Irmão Leão! Acudi. e me levou para casa. Sua voz se fez grave: . . Estou perdido! . me agarrou. entretanto. escutei-o chamar: .Poucos dias depois. Deitado sobre os lençóis. . Francisco cerrou os olhos. Ele não permitiu que ninguém entrasse em seu quarto naquela noite. sem me olhar -. enviou cavaleiros à minha procura. no meio do grande silêncio. Sua mãe e eu saímos sem proferir palavra. o do Diabo. Meu irmão. De manhã.

. Era Deus que a impelia.Mas de quem falas. .O sangue de minha mãe! A loucura! . porém só encontrei o vácuo! Enquanto falava. Depois a cabeça tombou sobre o peito.Mas não era a loucura.Que tens. estreitando-o em meus braços.Irmão Leão. exprimindo uma mágoa indizível. por adivinhar o que o atormentava. estendeu um braço e me agarrou pelo ombro.murmurou. ainda está ali! . .Era a loucura! A noite toda sonhei que jogava minhas sandálias no pátio de meu pai e caía num abismo. Bruscamente.O sangue de minha mãe! . aterrorizado. com ternura. meu jovem amo? Porventura deliras? . Francisco? .Acabou de se esvanecer no ar. Por que mudava de expressão a cada instante? Às vezes as sobrancelhas se arqueavam com assombro.. Não. graças ao sono que lhe abria todas as portas. erguia os braços bem alto. agitando-os como asas. semelhante a um pássaro ferido. tu o viste? . ou então os lábios se contraíam num ricto amargo.Quem? . Afaguei-lhe a testa devagar. Estendi as mãos para me agarrar em alguma coisa.perguntei. uma grande claridade lhe inundava o semblante: as pálpebras borboleteavam. .Por que tremes? . . Pouco a pouco acalmou-se. Francisco. fiquei olhando. . esforçando-me. Logo em seguida adormeceu. incapazes de suportar a claridade.. Em outros momentos. Enquanto dormia. .

não! Irmão Leão. lava-me e me dá de comer!" Não pedia. levantou-se e pegou a minha mão. meu Deus! E que fedor! "Quando ficou nu. Até breve! "E desapareceu. enxergarei a minha. contemplando-o. . de pernas inchadas.. Se eu me inclinar sobre ti. foi o que eu vi! Sentou-se no leito. Tornei a insistir: Quem és tu?. esfregando os olhos. trêmulo. Olhou-me com ternura e compaixão. Recendia a carne podre. . "És tu o filho querido de Dom Bernardone?" "Sim. vi aquele corpo lamentável. despe-me. vou-me embora. Trazia na testa uma ferida rubra em forma de cruz. Agora quero comer!. derramoua em cima da comida e se pôs a comer. "Quem és tu?". tateou e me encontrou. . lava-me e me dá de comer!" Levantei-me e comecei a lhe tirar a roupa. pois és meu irmão. enxergarás a tua própria fisionomia. vestido de farrapos mil vezes remendados. Aproximouse de minha cama. porém. Ainda sinto o seu cheiro. Curvou-se. com medo de tocar o Invisível. em cima da arca. Realmente. os braços para a frente como um cego. é possível que haja algo mais verdadeiro do que a verdade? Pois bem. levanta-te. "Feito isso.Não estava dormindo .prosseguiu. pés cobertos de chagas e têmporas marcadas por um ferro em brasa. não deliro. Que trapos. Disse: Agora és meu irmão. apanhou um punhado de cinza na lareira. . Seu rosto já estava mais calmo. Trouxe-lhe uma travessa cheia. foram os enormes furos sangrentos que tinha nas mãos e nos pés. Irmão Leão?” Guardei silêncio. Depois ficou sentado ali. E ele retrucou: Lava-me! "Fui esquentar água e o lavei. ordenava. Quem poderia ser? Quem? Que opinas. sou. deslocando-me ligeiramente do lugar que ocupava. em cima daquela arca. Adeus. . Aonde vais? Aonde tu fores. disse. "Primeiro despe-me.Não." "Então. Se te inclinares sobre mim. perguntei. apavorado.Vi quando entrou pela porta fechada. O que me causou mais horror.

Ao amanhecer do quarto dia. um padecimento que não era divino. porém. Já me esperava. desmoronava.quem poderia ser? Um mensageiro das forças tenebrosas. e ele reclamou por comida. Sua capelinha. e ao mesmo tempo em que a alma. Outrora fora gloriosa. O sangue começou a colorir as faces pálidas de Francisco. Emanava uma estranha doçura. Todos os anos. 23 de setembro. as constelações celestes. o poço. contemplando-o. os lábios avermelharam. enquanto os sinos de San Ruffino repicavam. Os sinos tocavam alegremente. sobrando apenas uma grande cruz bizantina sobre a qual pesava um Cristo ensangüentado. Ao mesmo tempo em que o corpo. festejava-se São Damião. cobrindo sua imagem de presentes de ouro e de prata. Parecia chorar e morrer como um homem. estava em ruínas. Decorreram três dias. com ar radiante. os membros recobraram vigor. ou um emissário das potências luminosas? O que era evidente e incontestável é que na atmosfera que rodeava aquele jovem senhor travava-se uma grande batalha. o santo bem-amado de Assis. Agora. os gritos na rua e. a alma se fortalecia. Entrei cedo na alcova de Francisco. . nesse mesmo dia. pois naquela data. Dona Pica encaminhou-se à igreja. Dom Bernardone ainda não regressara da viagem. o pátio. e sim humano. o próprio mundo. pois o doente reclamava a minha presença a cada instante e eu não podia me ausentar. ali se celebrava o santo com grande pompa. Tudo renascia simultaneamente: os objetos do quarto. Dona Pica me reservara um pequeno quarto perto do do filho. Todas as coisas retomavam os lugares que Deus e o tempo lhes haviam designado. a trepadeira. à noite. estremeciam como se estivessem sendo crucificados. acompanhada por uma velha criada. Nessa manhã. coberto de limo. encontrei-o sentado no leito. Os fiéis que se ajoelhavam a seus pés. na estrada que levava à planície.

Ele riu. . quando dormia e não podia oferecer-lhe resistência. Ao passo que a mim foi pelo da doença. Deus te atraiu e conduziu a Ele pelo caminho da preguiça.Não. de boca entreaberta e olhos embaciados de lágrimas.. . queijo e leite.Tampouco a mim. . Dir-se-ia que te lambes. pensei. Irmão Leão. Pensava em sonhos: será que o corpo não . e tinha a faringe cheia de canções. "Será assim tão fácil romper as grades?. mandou que me levassem pão.os ossos. meu jovem amo.Palavra. Canta. tenho a impressão de que começo a me transformar em leão. e um dia. a carne. mas não se desespera. .Antes de ir à igreja. Já comeste? . indicando-me a arca esculpida perto de sua cama. e meu espírito também o é.exclamou. vem.. . Sorri. porém. .disse. leão de Deus . Irmão Leão. bem sabes. No entanto.murmurou por fim. Vê as grades que o cercam.Senta-te .Bendita seja a tua mãe . . percebendo meu sorriso. só existe a alma? . Francisco contemplou-o longamente em silêncio.interpelou. canta.Nunca te veio à idéia formular esta pergunta: o corpo . . desde que fiquei doente.repliquei. A ti. verás como seu canto há de romper as grades. com o devido respeito! Sou um homem simples. E não durante o dia.Um canário é como uma alma humana .Anda. mas à noite.Como? Não acreditas? .Vejo que hoje penteaste a juba e alisaste o bigode à maneira leonina. semelhante dúvida jamais ocorrera. Francisco. entristeceu. Francisco. . . O sol o inebriava. O canário cantava sempre. . os cabelos verdadeiramente existe? Ou então.". em definitivo.

entendia tudo. confiança nele. passeava no pátio.Quando se sonha. . Irmão Leão? .existe? Há somente a alma? Dando-se o nome de corpo à parte visível e tangível dessa alma? "Todas as noites. admirado. num pulo a gente é capaz de alcançar o céu! Calei-me. também dá-lo-ei acordado. . não há nada mais simples de fazer. apoiava-se à trepadeira e finalmente parava. se só ela existe. porém. Resta o meu coração. com o rosto radiante de júbilo.E esse pulo eu o dei em sonho . Irmão Leão. porém de que te servirá? O coitado é louco de nascença e ainda por cima orgulhoso como um indigente. à medida em que o sono me arrastava. Somente alma!” Saltou na cama.retruquei. o sangue de minha mãe clama em mim. sim! Escuta! Amanhã me levantarei.Podes. . até onde se pode ir.E se só ela existe . mas de que maneira? Tenho pouca instrução e o meu entendimento é parco. verás! Tomei essa decisão. bem entendido. Depois saía pela janela. . por cima dos telhados de Assis. enfermo. Não compreendia bem as palavras de Francisco. Irmão Leão? Uma vez que não há corpo para estorvar. e.com prazer. Não tenhas. Meu coração.San Damiano? .prosseguiu. não existe. iremos à Capela de San Damiano! . Foi então que descobri o Grande Segredo. Como queres que eu te ajude nessas condições? . Não existe corpo. Tu me ajudarás. amparado ao teu braço.Sabias que hoje é a festa de São Damião? Não ouviste os sinos? . sentia o meu corpo se erguer devagar. acima do leito. . Contudo.exclamou -. suspenso no vácuo. pois. Sei que será muito difícil. .

exclamou batendo palmas. semelhantes a marcas digitais.. trêmulo.Repara . "pois se sente pena dos que ainda se arrastam sobre a terra. Chega mais perto.O quê? ." Desnudou as costas. Irmão Leão. Cristo está em perigo! Levanta-te! Ampara o mundo para que não desmorone. Reconstrói-a!” "Pôs a mão em minhas costas e me empurrou com violência.Tive um sonho. o que te aconteceu? Não estás no paraíso?" "No paraíso também se chora"..Deus seja louvado! .disse -. Apoiava-se em muletas e chorava. Foi então que acordei.explicou -.Compreendes agora por que temos de ir à capelinha? Ela desaba. oferece-lhe o ombro." "Corre perigo? Mas que posso fazer? Que queres que eu faça?" "Estende-lhe a mão. À noite passada.Sua festa é hoje? . não permitas que sucumba!" "Eu? Eu? O filho de Bernardone?" "Tu. bem tranqüilo em teu leito de penas. beijando-lhe as mãos. descalço e esfarrapado. E em seguida: . .murmurei. A Igreja ameaça cair em ruínas como a minha própria capela. creio que ainda se nota a marca de seus dedos.. Vi São Damião em sonho. balançando a cabeça.São os dedos de São Damião .. Francisco de Assis. Nos ombros de Francisco. não chores. Nós dois. Tu dormes. com . Então corri a auxiliá-lo.. . recuando logo e fazendo o sinal-da-cruz. espavorido. Francisco! Não te envergonhas? A Igreja corre perigo. respondeu. . distinguiam-se nitidamente impressões azuladas. . . somos nós que a reconstruiremos. e fiquei compadecido. Aproximei-me. Então é por isso. O mundo desaba. não tenhas medo. ele me apareceu. Eu te vi deitado.. e disse: "Santo de Deus.

embora o meu coração palpitasse fortemente. e bico calado! Obedeci. eu tremia de pavor. Apoiado ao braço da mãe. segurando o Menino Jesus no colo. foi tudo! . como se temesse que falasse demais. e num nicho cavado no muro. as arcas esculpidas.Comecemos primeiro por aí. com um sorriso nos lábios. as imagens santas sobre o tríptico.pedras e cal. de olhos bem abertos. Mãe. perto da porta de entrada.Salve. como se os visse pela primeira vez. Sabia que Deus. qual foi o evangelista que tinha um leão por companheiro? Lucas? . que provocavam em Dona Pica saudades da pátria querida e ensolarada. contemplava os aposentos espaçosos. . . sim. parado no limiar do pátio.replicou.Foi tudo o que ele te ordenou. E encheremos de óleo a lamparina apagada do santo para iluminar de novo a sua imagem. quando se apossa de uma criatura humana. . admirava o poço com a sua beirada de mármore. Radiante. percorria a casa em todas as direções. a estátua de pedra da Virgem de Avignon. encontrei Francisco já em pé. Francisco? Ou será. leão de Deus . os vasos de plantas cheirosas: manjericão. No momento em que o avistei. manjerona e cravo-da-índia. ao despertar. . arrasta-a inexoravelmente de cume em cume. . . .Eis aí o leão que vai aos carneiros pedir esmola em vez de comê-los! Virou-se para a mãe. estraçalhando-a em mil pedaços. E enquanto ele se levantava alegremente do leito.exclamou ao me ver. obrigando-me a calar a boca.Sim. pois senti que o sonho de Francisco provinha de Deus e se tratava de uma mensagem secreta e terrível. Na manhã seguinte.

meu filho? . Mas no umbral da porta estacou o passo. meu filho. Vais tão raramente à igreja. domingo. eu sou Marcos e este é o meu leão.Vai lá dentro. Olha. no nosso tríptico: "Nesta data. . meu filho. por isso não podes saber! . . mãe.Nesse caso . e escreve estas palavras atrás da imagem de Cristo.Aonde vais.Mãe. 24 de setembro do ano da graça de 1206 após a vinda do Messias. Papa-figos vorazes esvoaçavam piando em torno das figueiras.. depois a porta da cidade e finalmente a estrada que desce à planície. A caminho! . .Domingo.24 de setembro.Sim. Agarrou-me pelo braço e disse: . meu filho.Não precisas ter medo. que dia é hoje? . mas do mês? . onde restavam alguns frutos . mãe.Não vês que mal te agüentas em pé? . Os cachos de uvas pendiam das cepas ou se enroscavam pelo chão. Que partida maravilhosa! A alegria nos dava asas que nos impeliam pelas ruelas de Assis! Alcançamos a Piazza San Giorgio.perguntou. tenho um leão ao meu lado. 3.Não.Graças a Deus! Depois se persignou.replicou Francisco. à espera dos vindimadores. Uma bruma impalpável encobria as oliveiras e os parreirais. vindo apoiar-se em mim -.exclamou a mãe. .respondeu Dona Pica suspirando. Marcos . meu filho Francisco nasceu pela segunda vez". Por quê? . Era uma manhã de outono.

São colaboradores de Deus e dos grandes combatentes! Aproximou-se. Passaram dois bois brancos. . . . .murmurou. afagandolhe os longos cabelos caídos aos ombros. sem bois nem pássaros? Os anjos e os santos não bastam! Tornou a rir. És capaz de imaginar uma vida eterna sem jumentos. e os animais. tanta força? Não precisava mais de meu amparo.Sem ti. . Francisco parou. pois o suave nevoeiro matutino ainda não se dissipara. . Ergueu a mão e os saudou. Balançavam lentamente os cachaços lustrosos. Que alegria! Nossos corações pulavam. Os campos ceifados estavam todos cor de ouro. ao lado dos santos. e me precedia. como os príncipes. a terra inteira estremecia de contentamento! Francisco estava irreconhecível. Francisco? . . .acrescentou.disse rindo -. Irmão Leão? .retruquei. leve como um anjo. cantando árias de trovadores na língua materna. Parecia enxergar o mundo pela primeira vez. acariciou os largos dorsos. esguio. permitiria o ingresso dos bois no paraíso.E sem um leão? . lambendo as próprias ventas úmidas.Se eu fosse Deus .Que dignidade! . surpreso. Onde fora buscar tanta disposição. a contemplá-los. voltando-se de bom grado. coroados de espigas.E sem um trovador? Sem ti. e entre as choças brilhavam as últimas papoulas vestidas de púrpura.repletos de mel. com uma cruz negra ao peito. contemplaram-no com uma expressão humanizada. e lá embaixo a planície dormia. Em cada folhinha de oliveira tremia uma gota de luz.

investindo contra o inimigo.E eu que imaginava que íamos libertar o Santo Sepulcro comentou. auxiliados pelo declive da encosta. por exemplo.Aonde vamos? Por que corremos? . Espantados. Pai Francisco. repentinamente espocaram gritos e risos femininos pelo ar. O campanário. Na realidade não oferecíamos um aspecto tranqüilizador. à lembrança daquela partida matinal. As paredes da capela estavam rachadas e invadidas por ervas daninhas. Sim. Envelheci. surpreso: . sem temor dos homens poltrões e incrédulos! E enquanto corríamos. Francisco estacou. De fato. Só existe a alma. Não somos apenas dois revidou.perguntei em troça. tenho os joelhos túrgidos e as veias ressequidas. com o semblante subitamente transfigurado: . Por isso tínhamos toda aquela disposição e segurança. perdi os dentes e os cabelos.Nós dois sozinhos? . e com voz amargurada: . pegar o cajado. meu jovem amo! Já esqueceste? Sacudiu a cabeça. No entanto. De repente. Apruma-te. o corpo não existe. ainda jazia no pátio ao lado do pequeno . Quantos anos se passaram desde então! Francisco subiu ao céu e eu ainda não fui julgado digno de ser arrancado da terra. e quem domina é ela. o mendigo e Deus na vanguarda. éramos três. sinto vontade de saltar. Corríamos. lembra-te dessa manhã em que voávamos rumo a San Damiano e descreve tudo. Senti um arrepio.A San Damiano. apressamo-nos a chegar logo às ruínas. em escombros. retomar o caminho e tocar os sinos para alvoroçar o mundo inteiro. . O papel já está repleto de borrões e de lágrimas. Parecíamos mais um exército: o jovem fidalgo. pesaroso. porque os meus olhos choram.somos três. alma minha. Neste instante. a pena treme em minha mão.Retomamos o caminho. tens razão.

Vou contigo. Se estás com medo.Escutaste? Parece-me. A porta pendia desmantelada. porém pressentimos. mas não se via ninguém. querendo bancar o valente.disse.Aqui dentro sufoca-se. por trás do altar. . espera aqui. . a imagem de São Damião e uma lamparina apagada. não. . Dois pombos alçaram vôo de uma janelinha e desapareceram. com dificuldade. Pela minúscula lucarna do santuário via-se uma vegetação. . .Agora São Damião vai aparecer com as suas muletas comentou Francisco baixinho. De todos os lados surgiam exclamações e gargalhadas.E se forem demônios? . . . Entrarei sozinho na capela. .insinuei. Irmão Leão.Deve estar repleta de anjos. . .sugeriu Francisco. a grande cruz antiga amparando o corpo exangue de Cristo. São anjos. mas com a voz trêmula. Era o jardinzinho da igreja.A igreja toda retine de risos . . Recendia a alecrim e madressilva. . Na penumbra não se divisava coisa alguma.sino emudecido. fujamos daqui! . Parecia que o ar estava povoado de asas. pois começava a me inquietar.Vem. Avançamos lentamente.Os demônios não riem desse jeito. roçagar de seda ou de asas.Não estou com medo. . Senti vergonha. Francisco segurou-me pelo braço.Vamos até lá . Mas no momento em que íamos transpor o limiar da porta. A seus pés. ouviram-se suspiros. arquejos. Francisco olhou para mim. ereta no altar. Transpusemos a soleira coberta de hera. .

com treze ou catorze anos.Tu a conheces? . Francisco olhou para ela sem responder. está convidado a almoçar. apoiado à guarda da porta. Já que veio à nossa casa. corou até as orelhas ao ver Francisco. pouco mais novas. .respondeu empalidecendo.respondeu a primeira. Virou-se outra vez para Francisco. Trouxemos um cesto com provisões.falou em tom de mofa -.respondi. Esta é minha irmã Agnes e aquela é a nossa vizinha Ermelinda. soltando gritinhos. como se tivesse medo. Pretendemos ficar aqui o dia inteiro. e se precipitaram no jardim.Cala-te .No mesmo instante. . Ali desataram num riso escarninho. A mais alta.perguntei-lhe baixinho. seja bem-vindo à nossa humilde morada. enxugava o rosto coberto de suor. Francisco recuou um passo.Desde quando tu e tuas companheiras a ocupam? As outras duas jovens. A moça se afoitou: . A jovem se aproximou dele lentamente. Elas não pareciam de nenhum modo amedrontadas. Seu queixo tremia. aproximaram-se devagar. Um ramo de oliveira carregado de frutos coroava-lhe a testa.Encontras-te na casa de São Damião . . para romper o silêncio de Francisco. como se tivessem adivinhado o nosso pavor.Se Dom Francisco quiser nos dar o prazer. . excitada e sorridente. nós o receberemos como amigo. três mocinhas vestidas de branco saíram de seu esconderijo. com a mão na boca para sufocar o riso.Desde hoje de manhã . . . . porém. Francisco lançou-se ao adro e fui atrás.Dom Francisco . passando por nós como flechas. que.

Ela deu um passo em sua direção: . As madeixas caíram pelos ombros e a fita que as prendia se desatou.Por quê? . A voz lhe saía do âmago do coração.Certa noite te ouvi cantar. -comentou a jovem.retrucou em tom pesaroso. que não sabia mais o que dizer para prolongar a conversa. A moça ficou perturbada.Ainda não sei.Queira Deus que um dia compreendas. . .Clara .Estiveste enfermo? .respondeu.falou Francisco baixinho -.indagou então a jovem. e não para brincadeiras. não me perguntes. eu te desejo um bom dia.A de Deus. sim.baixou a cabeça. . como se lhe quisesse censurar a interrupção de seu divertimento.retrucou.Não compreendo. . Ela sacudiu a cabeça. .Estive. .. Clara. mas nunca mais tornarás a me ouvir. .Tu me ouvias todas as noites. Debaixo de outra janela? Qual? A janela de quem? Francisco. . . . É possível que eu passe a cantar debaixo de outra janela. . Clara. com os olhos pregados no chão. Mas já me curei . .Pois eu vim porque tive um sonho. Não gracejava. .murmurou. . com uma ternura que procurava dissimular. .Viemos aqui para brincar . . tão baixinho que a jovem não ouviu.

a irmã caçula. Torceu os cabelos desfeitos como se quisesse vingar-se neles e atou-os com a fita de seda verde. tomaram a direção da planície.Vamos . .Estamos salvos. . .A janela de quem? Desta vez Francisco não respondeu. O que nela surpreendia eram as sobrancelhas delicadas e finas. Brilharam. que se agitavam de alto a baixo com veemência. esbelta e estava toda vestida de branco. . como se acabasse de escapar de um grande perigo.. enrolando nos dedos a fita caída dos cabelos.disse uma das meninas. erguendo-se.Vem. sem o mínimo enfeite.repetiu. a de Porciúncula. de batismo. Segundo parece. despeitada. . à outra capelinha. e um lírio de prata a guisa de talismã no peito adolescente. Por que falas com ele? E puxavam-na pelo braço. . a não ser uma cruzinha de ouro. . . . Era magra. precedidas por Clara. .Vamos brincar.Estamos salvos. Clara . . ficou imóvel. ele teve um sonho! Ermelinda recolheu o cesto de mau humor. Agnes. soltando um suspiro profundo.Vamos para mais longe. Depois virou-se para as companheiras: . . apanhou o balaio de frutas. dando aos olhos negros e oblíquos uma expressão permanente de severidade e cólera. Agachou-se à soleira da porta e ficou olhando as silhuetas das três mocinhas.insistiu. Clara.murmurou Francisco. que começava a se esboçar. se esfumaram e finalmente sumiram entre as oliveiras. e as três. Deixemos Dom Francisco à vontade. .Qual? .disse. porém.

" E ao pedir que te indicasse um segundo: "Procura um objetivo que não possas atingir. com o coração tão cheio de ardor que seria capaz de incendiar um bosque inteiro. E quando estas estiverem feitas." Pois bem. não tínhamos dito que formávamos os dois um exército e que partíamos para libertar o Santo Sepulcro? Não sorrias. .Irmão Leão . .Que queres dizer? . tinta para pintar as janelas e portas e óleo para a lamparina do santo.retruquei.Vamos começar juntando pedras. . o que foi que te respondeu? "Procura um objetivo ao teu alcance. porém o meu coração compreende tudo. atingiremos o que está fora do nosso alcance. empreenderemos as impossíveis.Lembra-te daquele famoso eremita que vivia no topo de uma árvore? Foste tu que falaste nele. Todo o temor desaparecera de seu rosto. Quando lhe pediste um conselho. Compreendes o que digo? Ou supões que continuo ainda de cama. Quem sabe há quanto tempo ele está sem luz! Combinado? Arregacei as mangas.Quando começamos? .As impossíveis. Neste momento tomamos impulso a partir das ruínas de San Damiano. Irmão Francisco? .falou com voz resoluta -. Irmão Leão. Compreendes? . Procuraremos também telhas para o telhado. e aos poucos passaremos às importantes. O dinheiro de Bernardone que ainda me resta na bolsa servirá para comprar ferramentas de pedreiro e cal para reconstruir esta capelinha. Ordena! .Era quase meio-dia. Não compreendo nada. Francisco . faremos as coisas mais insignificantes. Olhou-me. Suas palavras me entusiasmavam.Não me faças perguntas.estranhei apavorado. delirando? . Tem fé! Para começar.

Porém. e são setenta e sete mil ao todo! Depois. segredou-lhe ao ouvido: . companheiro. Os menestréis improvisavam essas cantigas em louvor da mulher amada. e que colocar uma pedra em cima de uma parede em escombros implicava consolidar um mundo que ameaça ruir. Por fim disse: . Durante o trabalho. . Naquela noite. Já era noite quando regressamos a casa. mãe! . Irmão Leão. desmorona e tropeça no escuro. cometia imprudência. Desceu para abrir a porta pessoalmente. discutimos pedras.Por que brilha assim o teu rosto. E eu me atarefava em redor dele. surpresa. São Damião se molha. . espreitando a nossa volta ao crepúsculo. ainda enfermo. assim que viu o seu rosto.Isto é apenas o começo.Hoje à noite Irmão Leão vai jantar conosco à mesma mesa. pela primeira vez. limitou-se a olhá-lo. Tendo-nos percebido de longe. inquieta. meu filho? . que. Estamos apenas no primeiro degrau. Avante. aguardava à janela. Francisco também ficou profundamente abalado. Sentiu que não havia distinção de misteres. E a nossa alma. pegando-a pelo braço.replicou ele rindo. crês que ela pode esperar? Também se molha.Imediatamente. em nome do Senhor! Tirou a capa de veludo e se pôs a enfileirar as pedras de cantaria que haviam rolado no pátio. grandes ou pequenos. desmorona e tropeça no escuro. Era como se falássemos em Deus e na salvação do mundo. Dona Pica. cal e trolhas. Ao longo de todo o percurso. Não pode esperar. decidida a ralhar com o filho. compreendi como tudo está entrelaçado e como sob a mais humilde tarefa cotidiana se trama o destino do homem.. Francisco cantava canções de amor que conhecia desde a infância. transportando os entulhos nas dobras de minha capa e empilhando-os. em amparar a alma que vacila. mas naquele dia Francisco sem dúvida as entoava pensando na Santa Virgem.Não é nada.

Não desviemos as criaturas de Deus de sua missão . A seguir. acordando animais e seres humanos. alquebrado ele também pela miséria. Mas. o cura da paróquia. Francisco. deu mais uns passos e reconheceu o sacerdote.Deus a criou para embelezar a estrada. surpreso. O céu estava ligeiramente nublado.A alma também desperta assim todas as manhãs disse Francisco virando-se para mim. . ao raiar do dia. dirigimo-nos rapidamente a San Damiano. . Era velho.Na manhã seguinte. Um ventinho gélido descia da montanha. fazendo com a mão um sinal à flor. .É o Padre Antônio! Eu o conheço .murmurou.Semear o quê? . tal como a igrejinha de San Damiano. .disse. escapulimos de casa como ladrões. curvando-se para colher uma margarida amarela à beira da estrada. os bois já começavam sua jornada de labor.Atrela os seus cinco bois e põe-se a trabalhar e semear. como se saudasse a própria irmã. Quando chegamos à capela em ruínas. . fazia frio. sentado no limiar. As oliveiras cintilavam. . Compramos no mercado um martelo e uma trolha para cada um. pincéis e tinta.O reino dos céus! Ou do inferno! . tendo encomendado as telhas e a cal. . parou.indaguei. aquecia-se ao sol.Será que estou vendo São Damião? .respondeu. mudou de idéia: .afirmou. . Os galos cantavam nos quintais. . dirigindo-se ao ancião para cumprimentá-lo. no momento de quebrar o caule. Porém dominou-se rapidamente. curvado pelos anos. que o avistara de longe.

sem dar por isso.perguntei ao meu companheiro.Nada .Por que não me pediu ele o mesmo? . . Mas eu espero tudo Dele. . Francisco e eu arregaçamos as mangas e começamos a trabalhar. Não és o filho de Dom Bernardone.Cumpri vigília a seu serviço. e. o olho se conservava ardente como uma chama. . empunhamos as trolhas. . o dissoluto Francisco.Nada.Sou eu mesmo.Tudo o quê? . . e empenhei minha palavra. pouco a pouco. colocando a mão em pala na frente dos olhos a fim de protegê-los do clarão solar. calouse. São Damião. .A salvação de minha alma.com quem nos parecemos? .Mas então o que é que Deus espera de ti? . quando a cal chegou. E eis que agora se dirige a ti. . O cura ergueu o rosto bruscamente.com duas aves que constroem o ninho na primavera respondeu rindo.interpelou em tom colérico e reprovativo. pusemo-nos a cantar. O sacerdote baixou a cabeça envergonhado e.respondeu.com tua licença. vassouras para manter limpa a sua igreja. Naquela fisionomia destruída.respondeu. E no entanto nunca me apareceu em sonhos para ao menos me agradecer. gastei tudo o que possuía em óleo para a sua lamparina. me pediu. Corríamos de um lado a outro juntando pedras. . que vi em sonho. Padre Antônio. queremos reconstruir a igreja. incenso para venerá-lo e vinho para lavar seu ícone. Depois. .Inclinou-se e beijou-lhe a mão. . que percorre as ruas a noite inteira com sua guitarra? .Sim .

"deves ter fome. Achava-me no paraíso."O operário precisa comer para ter vigor!"." Estendi-me sobre a relva no paraíso e comecei a comer. duas roscas de cevada.Quem sabe não é São Damião? . talhando pedras.O cura se levantou e ficou nos observando em silêncio. "Vens de longe". uma cebola e uma pequena cabaça de vinho. Tal como agora. Um anjo se aproximou de mim trazendo uma bandeja idêntica a esta. numa bandeja de madeira. uma cebola e uma cabaça de vinho. O pão. . tendo-se tornado um único e mesmo ser? . come e bebe antes de comparecer à presença de Deus. pareceu-me que São Damião estava nos contemplando com ar satisfeito no limiar da capela. foi à casinha onde morava. após tantos anos de orações e penúria.Só uma vez . . mas foi em sonho. o vinho. . Retomamos o trabalho. Cada bocado que eu engolia se transformava imediatamente em espírito. A certa hora. De vez em quando lançava um olhar furtivo a Francisco e se persignava. as azeitonas e a cebola. . tudo virou espírito em mim. Constatando bruscamente que tínhamos fome.perguntou Francisco.Por que não seria possível que. falou. azeitonas. Havia pão de cevada. recomenda o apóstolo Paulo . e trouxe. agachamo-nos no pátio para almoçar.E melhores azeitonas? E bebeste vinho mais delicioso? .Comeste alguma vez pão mais saboroso? . perto da igreja.respondi -. .comentou Francisco. Mas depois percebi que era o cura que nos sorria. Por volta do meio-dia. o padre estivesse unido ao santo. tapando as fendas das paredes.disse-nos sorrindo. E a noite começou a cair. preparando a cal. . mastigando com prazer sua rosca de cevada. dois punhados de azeitonas pretas. Cantarolávamos todas as cantigas que conhecíamos. olhando o velho com respeito. Dizem que o faminto sonha com migalhas. . Senta-te.

radiante. mas sou paciente. alcança-me a trolha! .exclamou Francisco. e fomos nos despedir do Padre Antônio. e a exultação de compreender que nosso interior está repleto de ovos! Pelo resto de nossas vidas esses dias deveriam brilhar. com as mãos brancas de cal. como se fossem um período de noivado. Então me ponho a cavar uma passagem para voltar à superfície. e nós fazíamos coro. pois assim que sair à luz sinto que me transformarei em libélula. ao iniciarmos o trabalho. a diligência e o amor do pássaro que constrói seu ninho. e voltávamos a subir a encosta de Assis. O tempo passava cantando. traze as pedras. o pincel. mistura a cal. Não sei quantos dias e semanas transcorreram desse modo. felizes. Todo o peso do mundo me esmaga.Tenho a impressão de ser uma lagarta metida profundamente na terra. o verdadeiro significado de "ninho" e "pássaro". Sei apenas que durante esses dias e semanas experimentamos juntos a aventura. . . a estrela vespertina se pendurava no firmamento. tarde da noite. ternos e cheios de graça.perguntou-me Francisco certa manhã. ganhava o céu e depois morria em lenta agonia. pois. e no entanto flutuo no espaço! E tu. . a trolha. Irmão Leão? . o noivado de nossa alma com Deus. e dispúnhamos as telhas no telhado.Justo! É isso mesmo! . como água de regato.Que será que isso significa? . . julgo caminhar sobre a terra. pela primeira vez.Quando terminamos a faina. o sol surgia. Avante. .O mundo mudou? Ou mudei eu? Choro e rio ao mesmo tempo. No declínio da tarde. descobrimos. o seu rosto resplandecia como o de um bemaventurado. Irmão Leão! Somos duas lagartas terrestres e queremos nos transformar em libélulas. Enquanto utilizávamos sucessivamente o martelo. Furar toda aquela espessura é um serviço árduo.Agora compreendi! Que Deus te proteja. .

Espantou-se ao não encontrar o filho na loja. . não está perdido. Dom Bernardone pegou a bengala.Mas. aonde corre o teu querido filho de manhã cedo.Terminávamos de restaurar a Capela de San Damiano.Sai todas as manhãs para ir trabalhar. também tem o meu. Dona Pica baixou os olhos. teu filho vai por mau caminho e a culpa é tua.Sozinho? .vou buscá-lo . . . Ninguém mais o via. Os olhos maternos se encheram de lágrimas. .respondeu timidamente.Ele teve um sonho . Sabes perfeitamente que em tua família há trovadores e loucos. em vez de se ocupar do nosso comércio? Interpelou a esposa irritado. surgiu-lhe durante o sono e pediu que consertasse as ruínas de sua igrejinha.Minha? . São Damião. Cuja graça é tão grande. O pai franziu o cenho e cerrou os punhos. afinal.Sozinho? Com as próprias mãos? .Tua.Exatamente.Não possui apenas o teu sangue.disse.com seu amigo mendigo. .Dona Pica. voltava à noite e comia só. . quando o velho Bernardone regressou da viagem. .E daí? . . Francisco saía de casa de madrugada. . Portanto. De teu sangue. .

aproximando-se temerosamente e tirando do peito a pequena bolsa de dinheiro que Francisco lhe dera para comprar óleo para a lamparina do santo.E quem sou eu então? . Dom Bernardone . Seu rosto estava sombrio. e eu via subir fumaça de seus cabelos. Bernardone bramiu. Desce e vem restaurá-la. alinhava as telhas. De longe Bernardone brandiu o bastão. O velho espumava. Estava parado em pleno sol.respondeu Francisco lá de cima. sou eu quem te ordena.Desce depressa. Pelo contrário. . . preciso de ti.Minha loja está em ruínas. Era nosso último dia de trabalho e cantávamos com mais ardor do que nunca. Francisco. o cura acudiu. Bateu a bengala com fúria nas lajes do pátio. chegou à Capela de San Damiano. que acumula ouro em seus cofres e espolia o pobre mundo em vez de vesti-lo. com o devido respeito.Sejas bem-vindo. eu as destruo. desce. Dom Bernardone.Que desejas? . proprietário de uma grande loja na praça de Assis. ofegava. Quis falar. .Só Deus é meu pai. mestre pedreiro .Desculpa-me. Ao ver o velho Bernardone.gritou. mas as palavras de repente lhe faltavam.Ei. compreendeu logo.gritou -. . . . . por acaso não me reconheces? Sou teu pai! .Pouco antes do meio-dia.És Dom Bernardone. Alertado pelos brados. . Mais ninguém. Dom Bernardone. empoleirado no telhado da igrejinha. porém não restauro lojas comerciais.

aguardava a proximidade do filho. mas o braço se imobilizou no ar. com os braços cruzados ao peito. No momento em que este se curvou. sem se dignar a olhar o cura. petrificado. Eu.disse. Dom Bernardone! O velho então ficou indignado. Francisco então ofereceu a esquerda: . meteu-a no bolso enorme. O velho Bernardone o contemplava com olhos incendiários.respondeu Francisco. Lia-se medo em seu rosto. O velho tomou a bolsa e. Dom Bernardone . bate na outra para que não fique com ciúme. . sentia-se que fazia esforços nulos para mover os músculos.Peço-te perdão. porém ele me repeliu: . larguei a trolha e esperei para ver o que ia acontecer.pediu com doçura -. o velho levantou a mão pesada e lhe aplicou uma forte bofetada na face direita. Dom Bernardone . Não se mexia nem falava.Já estou indo! . preparando-se para descer. mas não toquei nele.Não interfiras nos desígnios de Deus. Francisco sacudiu a roupa cheia de pó e cal e aproximou-se do pai. Bate.Agora bate na outra. O suor lhe caía da testa em grossas gotas e os lábios ficaram roxos. . por minha vez.gritou -. Quis me precipitar em defesa do amigo. experimenta descer e verás como te parto os ossos. Irmão Leão. um anjo indignado decerto os retinha. . Ergueu a bengala para golpear Francisco. Foi teu filho quem me deu. Depois brandiu de novo a bengala na direção do telhado.Este dinheiro é teu. Este homem ajuda o filho a encontrar a salvação.Miserável . .. De bengala erguida. para saudá-lo.

Avistei Francisco sentado à entrada. não via esse anjo. O cura ainda segurava o copo d’água que fora buscar para reanimá-lo. apoiado ao bastão. Quando acordei. e Francisco. e muito menos eu. o dia já devia ter raiado. quando repentinamente o velho caiu com todo o peso do corpo sobre as pedras. pois logo saía com um halo de luz a aureolar a sua cabeça. Pairava ali um odor acre de terra. erguia-lhe a cabeça enquanto contemplava ao longe o monte Subásio banhado em luz. . a emitir tênues suspiros queixosos.Francisco. Com que freqüência. Ao voltar a si. Finalmente. com a cabeça entre os joelhos.serenou Francisco. eu ia socorrê-lo. sem dúvida. . diante dos olhos cheios de espanto de Bernardone. o sol brilhava alto no céu. contudo. pai . Eu estava cansado e adormeci rapidamente. nos anos que se seguiram. Para orar. Dirse-ia que se esforçava para chorar baixinho. . com ar abatido. . secou o suor do rosto sem proferir palavra nem olhar para o filho ainda ajoelhado no chão. Tomado de compaixão. Arrastei-me até o limiar.Não é nada.Não é nada. Não demorou muito. sacudiu a poeira da roupa e afastou-se com passo lento. idêntico ao que se vê nas imagens dos santos. Abrigamo-nos nessa gruta. Naquela noite Francisco não foi para casa. ajoelhei-me a seu lado e . usando uma pedra como travesseiro. Bernardone soergueu-se e retomou a bengala. gemia como uma criancinha que sente fome e não tem mãe. porém recusou. tive oportunidade de ouvi-lo chorar! Mas. desaparecia na curva da estrada. ajoelhado. já em pé. sem me importunar. escutávamos o roçagar de asas enfurecidas por cima de nossas cabeças. Deitamo-nos sem comer nem trocar palavra. Descobrira há pouco tempo uma gruta perto de San Damiano e refugiava-se nela muitas vezes horas a fio. Precipitei-me a ampará-lo. Depois. naquela manhã. Não tenhas medo.

miserável tratante. a maior.perguntou-me pouco depois.Lúcifer! . . . Irmão Francisco? . surpreso. .Tu a conheces? Parou de chorar. ? . Ele brilhava dessa maneira na manhã em que veio à terra para anunciar a Virgem! E logo após: . Não! Não! São Damião não se referia à capelinha.E aquela estrela de brilho invulgar que vês dançar do lado do Oriente e não tarda a se afogar no clarão do sol é Lúcifer. em vez de mandar um raio que me reduzisse a cinzas.Que estrela é aquela.É mais brilhante que o arcanjo Gabriel! Por quê? Que injustiça! Foi assim que Deus o puniu? . . .perguntei-lhe.. o que fez Ele? Enviou São Damião para me anunciar em sonho: "A igreja vacila. .respondeu Francisco em voz abafada.Por que te espantas? . .Sim . Fez uma pausa. infame demônio? Uma noite. Talvez o arcanjo Gabriel. Soltou um suspiro. . E a restaurei. . . Fica sabendo que não existe pior castigo do que receber o bem em troca do mal! . . . olhando-o com ar inquieto.exclamei.insisti por minha vez. Começo a perceber o sentido de sua terrível mensagem. .Agora meu coração não está tranqüilo. rosa e azuis. . Uma delas.Não foi assim que Deus agiu comigo. porém. cintilava com reflexos verdes. ampara-a! Tenho confiança em ti!" Pensei que se referisse à capelinha arruinada.ergui os olhos ao céu. porém.Deve ser um arcanjo. Agora. Pensei nisso a noite inteira. . . para arrancá-lo da meditação.Agora. .. Algumas estrelas ainda bruxuleavam no espaço leitoso. . .

Há um abismo à minha frente: como poderei chegar até Ele? .recomendou Francisco. As oliveiras.Podes ir . porém.Antes. disse a mim mesmo.Não podes confiá-lo também a mim.Não te regozijarás. . . tenho muito a Lhe falar. e do rosa ao branco imaculado. as rochas. Abri a boca para lhe pedir explicações. Aos poucos. acompanha-me e tem fé. O flanco da montanha havia passado do lilás ao rosa. Contemplávamos a crescente claridade do dia. "Um dia". sorriam. Ele porém não deixou. Irmão Francisco? Revela-o para que me regozije.. A partir de agora não farei mais perguntas. "um dia hei de compreender. A Igreja que agora vamos restaurar não se conserta com cal nem trolha. hás de compreender. a terra.Irei aonde me conduzires. Sé paciente. Eu precisava voltar a San Damiano para guardar as ferramentas. O sol despontou no cume de um penhasco. infeliz: ficarás com medo.Hoje não sairei da gruta. e chorarás. Quero orar a Deus. quem sabe talvez muito longo também. Peguei-lhe a mão e quis beijá-la. beija-as uma a uma: cumpriram bem sua missão. Irmão Francisco. . Ajoelhados à entrada da caverna sombria. mas logo tornei a fechála. . erguemos os braços para saudá-lo. Talvez até queiras desistir. . tomara que me dê forças.Faz presente das ferramentas ao velho cura . Paciência! . Não precisamos mais delas.. O caminho será duro e áspero. varrer a igreja e deixar tudo em ordem. irmão. Basta que ordenes! Calamo-nos.aconselhou Francisco..

preparava-se para deixar o mundo dos vivos. reconstruí e consolidei a Capela de San Damiano! E Tu respondeste: Não é suficiente!" Não é suficiente? Que falta fazer então? Manda! E ouvi de novo a Tua voz: Francisco. fiz tudo o que ordenaste. Foi durante essa vigília que me revelou o que se passara outrora na gruta. Chamou-me e pediu que me sentasse à sua cabeceira. no chão mesmo. e me ouves. também estás dentro desta caverna e no bocado de terra onde agora coloco os meus lábios. e todos devoram o meu coração. e tens pena de mim. Portanto. muito doente. Uma vez só. . Pai. é preciso consolidar Francisco. Os ratos dos campos corriam ao seu redor. fiquei transtornado. do prazer? Os pecados mortais são em número de sete. exclamei cheio de alegria: Pronto. de meu pai. encontro-Te. Quando revi meu pai. Senhor. nesta mesma gruta. tentando devorar o que lhe restava de carne. beijando a terra e clamando por Deus. "Sei que estás em toda parte". Senhor? Tu mesmo viste. deitara-se de bruços. "Por isso. A noite passada. O que aconteceu aquele dia na caverna só vim a saber muitos anos mais tarde. o filho de Bernardone! Consolidar como. E Tu me vês. e não conseguia dormir. Francisco. Senhor! Os caminhos são múltiplos. Senhor?” . enxergo Teu rosto. da glória. qual é o meu? Como vencer os demônios que habitam minha alma? Formam uma legião! Se não me ajudas. se me inclino à beira de um poço. bradava. de minha mãe e das mulheres? Da tentação do bem-estar? Do orgulho. Era de noite. Como me livrar de Francisco. . quando Francisco. a fim de enxotá-los e lhe fazer companhia. e cada verme que vejo traz Teu nome gravado no dorso. do amor. no ponto preciso em que as asas se preparam para brotar. Senhor. fiquei perturbado.Parti. "Se ergo uma pedra. estou perdido! Como impedir que a carne se intrometa entre nós e nos separe. Ainda me lembro. Francisco estava deitado em frente à Porciúncula. escuta-me. quando encontrei a moça em San Damiano. Como livrar-me.

Senhor . Senhor. batendo palmas e invocando o meu nome? Francisco escutou essas palavras arrepiado. será que podias ir a Assis. mordeu a terra que seus lábios comprimiam.Francisco. contudo. na hora em que eu percorria ainda as ruas de Assis a mendigar. pensava. receberá três vezes. onde todos te conhecem. então. . ergueu-se grave e carregada de desdém: .Não.Aqui estou. Perto do crepúsculo. Por quê? Francisco. há de recebê-la duas vezes”. e seus olhos se encheram de lágrimas: . tua terra natal. todo coberto de sangue dos teus ferimentos..E assim gritou e delirou. trêmulo. “Aquele que me jogar duas. deitado no chão na gruta.” Poderias fazer isso? Poderias? Tu te calas. não preferes que eu vá a outra cidade dançar e invocar o Teu nome no meio da praça? A voz. debatendo-se. e diante da casa de teu pai começar a cantar e dançar.Francisco! ." Porém não ousava confessar. mas feliz. E a voz continuava acima dele.. ele ouviu uma voz chamar: .Poderias espezinhar e degradar esse Francisco? É ele que importuna e impede a nossa reunião. desta vez mais próxima. atirar-te pedras. quase ao ouvido: . tens de ir a Assis! Francisco. "não posso. morrendo de rir. "Não posso".disse por fim -. “Aquele que jogar três. o dia inteiro. E tu resistirás. às Tuas ordens! . As moças virão às janelas. bradando: "Aquele que me jogar uma pedra recebe a bênção de Deus uma vez”. escutava. Faz com que desapareça! As crianças vão te perseguir.

deves estar com fome. Senta-te. Mas envergonhei-me. piedade! Dá-me tempo de preparar a minha alma e o meu corpo. invadido por um novo vigor: o seu rosto se iluminou. Senhor? Por que queres me castigar a tal ponto? A voz de Deus. .Não. .A caminho! Eu vinha chegando. mas no seu íntimo: . E seu coração de súbito se enterneceu.Por que tanta pressa. Mais nada! E a voz de novo trovejou.disse.Vamos! .Senhor . ergueu-se desta vez no coração de Francisco. vamos mastigar alguma coisa". Peço-Te apenas três dias e três noites. Sentia os joelhos firmes. Levantou-se e foi até a entrada da gruta.Saltar! . .Aonde? . não no ouvido de Francisco. Tencionava dizer-lhe: "Francisco. Fez o sinal-da-cruz e disse: . o semblante idêntico à aurora. suave e meiga: . Avistei-o imóvel no limiar da gruta. .. Meus olhos se turvaram e coloquei a mão em pala no alto da testa. com o alforje cheio de côdeas velhas de pão que mendigara.implorou -. O sol ia se pôr. então. pois no mesmo instante percebi que aquela criatura não tinha necessidade de pão.Porque te amo!. trouxe pão. tem de ser imediatamente! . ergueu o braço. Ficaste o dia inteiro sem comer. Ao me enxergar.

. a terra ainda lépida do calor do dia. à escuta. após um dia de labuta. ia à frente. Agora contemplava confiante o firmamento. não estamos indo a um casamento! .Ao que me consta.perguntou confidencialmente -. vinho e azeite aos homens: cumprira seu dever. Quando passamos. ao nosso estábulo repleto de palha e bom feno. Então suspirava e recomeçava a andar. No poente. o céu sombrio se coloria de púrpura e nuvens estranhas subiam. Tomou a dianteira e. A noite caía. . apiedadas. aqueles animais gordos e mansos nos olharam sem surpresa. A planície da Úmbria repousava.Que serva de Deus? . não rias. . pensativo. Fornecera trigo. Francisco. poucos minutos mais tarde.exclamei. e ao longe. como se fôssemos bois de outra raça regressando. na direção de Assis. 4. estacou e esperou por mim. Os lavradores voltavam dos campos.Dançar? .Irmão Leão . esperando a chuva que faria germinar as sementes novas dentro dela. De repente. . Mas ouvia apenas o doce murmúrio da brisa entre as árvores. Saltar o quê? Não compreendi. Às vezes parava. o latido dos cães. sim.De novo hesitei em lhe fazer perguntas. claro que vamos a um casamento.Mas. . quase afetuosamente. A serva de Deus está se casando. precedidos pelos bois. refrescando. erguia os olhos e ficava atento. sabes dançar? Comecei a rir: . seguíamos os dois a caminho de Assis.

Irmão Francisco. . De dia rezarás e eu pedirei esmolas. pois é lá que se realiza o matrimônio. de um só trago. seus joelhos fraquejaram.. Ele tremia. não tremas. . ao alcançarmos a porta da cidade. para que nos atire saraivadas de pedras e cascas de limão à guisa de confeitos. Eu olhava suas pernas franzinas e seus pés descalços. Irmão Francisco? . E esposa o seu grande Amante. Bruscamente. Deteve-se. . Irmão Francisco? Por que pedras e cascas de limão? .Mero capricho do Noivo. tomou-me pelo braço e disse numa voz fraca e suplicante: . tu te lembras da noite no Jardim das Oliveiras? Recordas como Cristo ergueu os braços ao céu. folhas de louro e limoeiro. diante da casa de Bernardone. . Precisamos dançar no centro da praça. No entanto. sorveu o fel até a última gota! .Tremia . e o suor Lhe escorria pela testa. aceitou a taça e.Acalma-te. . juntando a multidão.Deus. E cumpre aplaudir e cantar. Voltemos à nossa gruta. Eu O vi! Estava lá e O vi. Falei-lhe com brandura.Irmão Leão. . apressou-se na direção de Assis. Porém.E por que não confeitos autênticos. E retomou a marcha sem acrescentar mais nada. no Jardim das Oliveiras. pois seus olhos flamejavam e metiamme medo.Deus.A alma. Porém ele estava longe dali. e não podia me ouvir.repetiu murmurando -. meu irmão. . tremia. pôs-se a correr. . cobertos de sangue. À noite sentaremos juntos em frente a um pedaço de pão e falaremos de Deus. desvia essa taça de meus lábios"? Ele tremia. Tomado de um ardente desejo de chegar. clamando: "Pai.

Ainda que fosses junto. recém-saídos do banho e envergando roupas limpas. de olhar baço. se quiseres. "A um ninho cheio de ovos ou a uma terra sequiosa que interpela o céu à espera de chuva? A alma humana é uma planta que cresce para o céu!” Francisco virou-se e me olhou. virou-se. em que os homens voltavam dos pomares e vinhedos com os seus burricos. pois adivinhava a sua dor e queria compartilhála. . ajuda-me! Corri atrás dele. Os comerciantes e os artesãos fechavam as lojas e oficinas e reuniam-se nas tavernas para beber um canecão de vinho e conversar jovialmente entre amigos. Ergueu os olhos ao céu: . venham todos! Venham ouvir a nova loucura! Era a hora. As velhas estavam sentadas às portas. passeavam naquela noite de sábado percorrendo a cidade oval para cima e para baixo.repliquei.Soltou o meu braço. e por trás da sede.Vamos . "Afinal. Pois por trás da água. . .Se ao menos eu pudesse ir. enquanto os rapazes e as moças. começou a pular. olhou para mim e levantou a mão: . da fome e da pureza. como poderia eu Te escapar? De um salto. .. pensei. E mais baixo: Jesus. podes ir embora! . está o Teu rosto. ao reparar na palidez de Francisco. . transpôs a entrada de Assis com passo resoluto. fartas de contemplar as ruas.. está o teu rosto! Como. a que se assemelha a alma humana?". por trás do beijo. Mal chegou à Piazza San Giorgio. Senhor.falou em voz alta.Não quero ir embora . por trás do pão. Soprava uma brisa . batendo palmas e gritando: . embarafustou pela primeira ruela. fugir.. Mas não posso. as pessoas e os jumentos de Assis.Irmão Leão. eu agora ficaria.Ei.

começaram a ladrar.ecoaram/outras vozes zombeteiras. tu não és Francisco. erguendo as mãos a guisa de bênção e proclamando: "Aquele que me jogar uma pedra será abençoado por Deus uma vez. mas ele me afastou. Arregaçara o manto e dançava aos berros: . as nuvens se haviam dispersado. Da taverna mais próxima alguém interpelou Francisco: . mas sempre sobrevinham outros que se precipitavam sobre Francisco. Os freqüentadores das tavernas vieram à rua e se puseram a rir. cobiçavam as companheiras. também aos magotes.Ei. os adolescentes assobiavam. será abençoado três vezes". Já se ouviam os primeiros alaúdes nas tavernas.fresca. Pulando como um possesso. será abençoado duas vezes. A multidão se virou e avistou Francisco na outra extremidade da praça. Calmo e sorridente. E as pedras choviam em grande quantidade em cima dele. De repente. a nova loucura!” O povo ria. . gritos e assuadas. exclamando: . queremos ver. irmãos. coberto de sangue. cantava: "Ouçam. e os jovens. fitas ondulavam nos cabelos das meninas. Corri atrás deles. miando e latindo para lhe abafar a voz.Amor! Amor! Amor! . e as moças se comprimiam contra as colunas do templo antigo. ouçam a nova loucura! Um bando de crianças fazia troça e o perseguia. ele parava de vez em quando. Aquele que jogar duas. Agora o sangue lhe escorria da testa e do queixo. E Francisco abriu os braços ao povo que o vaiava. irmãos. o devasso? Conta então um pouco da tua nova loucura. ardentes de desejo e ódio. soltando gritos estridentes. tentando amedrontá-los com o meu cajado. Aquele que jogar três. risos. Os cães.Conta. Coloquei-me à frente de Francisco para receber o meu quinhão de pedradas. conta! .Ei! Ei! Venham.

uma moça. De repente.Graças a Deus.Anda. . só tenho Deus! O povo ria às gargalhadas.Não! Não irei. vem! . Ele puxou o filho com ambas as mãos. agora temos o filho de Bernardone! À tua saúde. Clara! A jovem.Não tenho pai nem mãe. (Era Sabbatino: eu o reconheci. não se moveu.rugiu.) . pegando-o pela nuca e sacudindo-o furiosamente: era o pai.Para casa! . a multidão se abriu.Faltava um palhaço para nos distrair . e todos estes homens e mulheres que me insultam são meu pai e minha mãe. a cujos degraus subira para falar. ouviu-se um bramido. o contemplava com o rosto banhado em pranto.Minha casa é aqui na praça. .Aonde? . não tenho casa. os apupos cessaram.bradava Francisco. urso de Deus. debruçada à sacada de uma mansão senhorial.chamou uma voz do interior da casa.E enquanto percorria a praça de um extremo a outro. Mas Francisco se agarrou com força a uma coluna do templo. agarrando-se à coluna cada vez com mais força. . . .comentou um indivíduo com cara de fuinha. dança! . O furor se apossou do velho Bernardone. Dom Bernardone.Clara! . Um colosso se precipitou sobre Francisco. com ímpeto. . Meu sangue parou nas veias. não irei! . upa! Salta. gritos e cambalhotas. porém. Francisco.

Se tens contas a ajustar com teu filho. Era um venerável ancião. o bispo de Assis atravessava a praça. Francisco largou a coluna. os últimos lampejos do crepúsculo iluminavam fracamente a cidade. afável. vendo-me perto dele: . é vergonhoso que uma pessoa eminente se exponha a semelhante espetáculo. A noite não caíra por completo. O bispo empunhava um báculo com cabo de marfim. meu filho.Dom Bernardone . e eu sou o Seu representante em Assis. bom. Apressou o passo ao máximo possível e chegou perto da aglomeração. voltou-se e. faze o favor de entrar no paço episcopal para que eu possa julgá-lo. e tranqüila. Vem comigo.Não te obstines. O bispo reconheceu Francisco e o velho Bernardone. parou.disse em voz severa -. Vinha seguido pelo diácono. abandonando toda resistência. Clamaste por Deus. agarrado ao filho. humildemente. O prelado imaginou que um homem em perigo pedia socorro. Rogava a Satanás para que se arrependesse. A essa hora voltava de sua visita cotidiana aos bairros pobres. Tremia quando pensava no inferno. entrasse também no paraíso. E virando-se para Francisco: .Naquele instante. que. e quando pensava no paraíso acontecia o mesmo. Francisco ainda bradava: "Só tenho Deus! Só tenho Deus!” para a alegria da multidão. tentava levá-lo embora. Surpreendido pelos gritos. Ergueu o báculo: . que trazia um cesto vazio que contivera víveres que eles acabavam de distribuir entre os desgraçados.

curiosas de contemplar a desgraça do filho de Bernardone. inflamado. . Atrás. Entramos. Irmão Francisco. à distância. a mansidão de Francisco. Francisco virou-se para mim: .Eis-nos no começo do caminho áspero de que te falei. a fúria de Bernardone. resmungando. o povo aguardava.Segue-me.Irmão Leão . à distância. o grande momento em que Francisco se ergueu nu perante Deus e os homens. Francisco.Ainda há tempo . . leãozinho de Deus. Vai embora! Comovido.Bem. Jamais te abandonarei. rompi em pranto. . colocaram-se cinco ou seis eminências. e algumas ilustres personagens acudiram. Lembro-me exatamente de tudo o que se passou naquela noite: as palavras do bispo.. precedendo a mim e a Francisco. O prelado se persignou e tomou assento. fica! O paço episcopal era sombrio. um Cristo imponente. A multidão se comprimia atrás de nós. . à esquerda. não sentirei medo nem vergonha.disse. Por cima do trono episcopal. Francisco então roçou a mão pelo meu ombro com ternura: . .Enquanto estiver contigo. vinha o povo. Irmão Leão . O bispo foi o primeiro a deixar a praça. Na retaguarda. . podes ir embora! .disse-me baixinho -. estás com medo? Ou vergonha? Nesse caso.insistiu. a fim de chegar logo ao essencial. porém não me vou deter em descrições.Tenho pena de ti. estava pregado à sua cruz. cujo rosto resplandecia. Acenderam o lustre e o grande salão ficou iluminado. rechonchudo. Dom Bernardone postou-se à direita. repito: se quiseres. O velho Bernardone veio atrás. Mais longe. de faces rosadas.

perguntou. Convive com maltrapilhos. chora e ri por nada. portanto. Dom Bernardone .. Desonrou o meu sangue. tal como a mãe o pusera no mundo. E antes que alguém tivesse tempo de impedir. Um rumor surdo se elevou entre as eminências e a multidão. depois de algum tempo. Mas. .disse -. não quero mais ouvir falar nele! . Todo mundo debocha dele. . sem uma palavra.E então?..Nada! . Depois virou-se para Francisco.O bispo. com a voz rouca de raiva . Arruína-me! Até hoje. eu o renego e deserdo! Não é mais meu filho. arrancou do corpo as roupas de veludo que vestia. . Assim. perante Deus e os homens. curvou-se e depositou-as aos pés do velho Bernardone.respondeu o velho. . .Apenas isto.. erguendo a mão por cima da cabeça do filho .Reverendíssima . perdi as esperanças. que escutava de cabeça baixa. completamente nu. quedou-se diante do trono do bispo.. . Eu me dizia: "É moço. e ultimamente inventou de reconstruir capelas em escombros. . calmo. fez uma pilha e. dorme em grutas. tira ouro de minha arca e o desperdiça.Que tens a responder em tua defesa. isso passa". . Que censuras em teu filho? . eu te escuto. ultrapassou os limites. Tem sonhos insensatos.Em nome de Deus. Francisco. mas o bispo impôs silêncio com um gesto. foi para se divertir. . . . já não goza de juízo perfeito. meu filho. dançando em plena praça. Agora à noite. ouve vozes.Então.disse o velho Bernardone. .fez o bispo. aqui presente. filho de Cristo? . ocupou o trono e fez o sinal-da-cruz.declarou.então. . Francisco ergueu o rosto: .

replicou humildemente -. o que Deus me ordenou.Por que fizeste isto. Ficamos todos pasmos. Perdoa-me! Depois dirigiu-se às eminências presentes e ao povo: .disse -. juntou a pilha de roupas e colocou-a debaixo do braço.Já não tens qualquer direito sobre ele . Ele não tem mais filho. Bernardone abaixou-se. . até hoje chamei Piero Bernardone de meu pai.advertiu. Piero Bernardone". Devolvo-os. O bispo desceu do trono com os olhos úmidos.indagou tristemente. eu não tenho mais pai. Estamos quites.Reprime o teu furor. meus irmãos. meu rapaz? . estes trajes eram tudo o que me restava dele. Eis. Dom Bernardone! O pai de Francisco lançou um olhar feroz a sua volta. apertou os trajes que sobraçava e foi embora batendo a porta atrás de si.Não tens vergonha dos homens? . Doravante já não direi "meu pai. . O bispo então virou-se para mim: .Irmãos. porém "Nosso Pai que estais no Céu!" Rompo assim os laços que me prendiam à terra e me arremesso na direção do paraíso. só de Deus.Não. Reverendíssima . . Precipitou-se sobre Francisco de punho erguido. É esta a nova loucura! O velho Bernardone não pôde mais se conter: espumava. Mordeu os lábios para não blasfemar.Reverendíssima . Alguns tinham lágrimas nos olhos. Tirou a sua capa e cobriu o corpo nu de Francisco. mas o bispo teve tempo de intervir: . minha verdadeira morada..

O homem se contenta com a moderação.Não te apresses. . já sofri muito. e que o Senhor se compadeça de suas almas! O bispo acompanhou-o até o pátio. Em seguida transpôs o umbral do paço episcopal. Reverendíssima. .retrucou Francisco aproximando-se da porta. O prelado sacudiu a cabeça: ...Adeus. Corri até lá e logo voltei com um manto todo remendado. . pois tinha pressa de partir. meu filho. Passei por onde hoje passas e por isso creio que poderei te ajudar. .disse-lhes -.Cuidado . senão se transforma em arrogância. virei pedir tua bênção prometeu Francisco. O bispo tomou-lhe a mão com piedade: .aconselhou baixinho -.Virei. Francisco vestiu-a. Depois de traçar a giz uma grande cruz nas costas da vestimenta. . Não enfrentes a luta antes de vires me procurar.sentenciou -. Estou velho. Deus a ultrapassa. beijou a mão do bispo e virou-se novamente para as eminências e a multidão: . tu exageras. Depois curvou-se.Vai pedir ao jardineiro que te dê uma roupa velha para cobrir Francisco. Reverendíssima . meus irmãos . que pertencia ao jardineiro. Reverendíssima. .É pelo exagero que se alcança Deus. e é para Ele que eu me dirijo.A própria virtude requer moderação .

tinha fome. coberto de nuvens.perguntei -. Francisco ia em silêncio. Francisco ainda não escolhera.Corri atrás dele. que não escutava mais os meus passos atrás de si. . Irmão Leão! . para onde vamos? Riu baixinho.acrescentou. como se tivesse chovido nas montanhas. pesava sobre a cidade. Francisco. As ruas estavam desertas. A lua ainda não surgira. Saímos de Assis pela porta do norte.respondeu. eu podia discernir na obscuridade o seu corpo franzino.E agora. e todos os caminhos são sagrados. Era à hora do jantar.Por que hesitas? Já esqueceste o que Cristo disse? Não olhes para trás. que cortava a estrada como uma espada. estendida a meus pés. virou-se. Parei e fiquei contemplando Assis. Irmão Francisco .Para o céu! . no escuro. Permanecemos um bocado de tempo diante da porta do bispado. demasiado amplo.Ei. tanto na planície como na montanha. . Como caminhava à minha frente. . ouviam-se o rumor de vozes e o latido dos cães. . Uma lua incipiente e triste despontou no céu. Sentia-me cansado. enquanto o manto em farrapos.gritou. tomando a direção do monte Subásio. Soprava um vento úmido. e o céu. com jeito infantil: . irmão . Para onde ir? Em que direção? À planície ou à montanha? Rumo ao deserto ou aos homens? Deus está em toda parte.Não reparaste que já deixamos a terra? A caminho. envolta em trevas. . que se abria para a campina deserta. No interior das casas acendiam-se lampiões. As luzes ainda brilhavam. Permanecia imóvel. avolumava-se e batia como asas.

revidou Francisco. porém. Por isso o meu coração vacila. Uma vez mais. Os passos se aproximaram. . brandindo facões.Nada temos a perder .Não tenhas medo. sentia-se remido. Retomamos a marcha. . . a de teu pai e tua mãe. E súbito. . A canção foi imediatamente interrompida.Este bosque é um valhacouto de bandidos . mais intensa ficava sua alegria.Fica tranqüilo. Francisco começou a trautear canções francesas. Ao abandonar os pais.respondeu Francisco calmamente. soaram passos pesados na nossa direção.Quem és? -. obedecera a Deus. não me fez nem herói nem covarde. Dois deles me seguraram e os outros se atiraram contra Francisco. . com ruído de galhos quebrados. Atravessamos um bosque de azinheiras.disse eu.Sacode a poeira dos pés. enquanto Francisco cantava. A lua jorrava sobre as pedras. a poeira dos homens! . Estava contente. é o que faço. dançara e invocara o Seu nome na praça de Assis. Quanto mais penosa a prova. Estamos perdidos.gritaram-lhe. . rompendo os laços que o prendiam à terra. uma claridade pálida e melancólica. .E que vens fazer aqui? . .Sou o arauto do Rei dos Reis . De vez em quando uma coruja voava baixo. e de repente cinco ou seis malfeitores surgiram à nossa frente. . A de Assis. sacudo a poeira retruquei. arreganhando os dentes.Deus. Irmão Francisco. por cima de nossas cabeças. através da ramagem.

Irmão Leão? .. Francisco. ao menos. peguem os dois e joguem-nos na vala. por acaso? A resistência da carne tem limites!.E achas pouco. Depois foram embora. Começaram a bater em nós sem piedade..Vim convidar os meus irmãos bandidos a irem para o céu. . a gente terá se abalado por alguma coisa. louco de dor. .respondeu outro. Eu urrava.Tu. Em vão. . Pegaram-nos pelos pés e pelos ombros e nos atiraram na vala. Assim.exclamou um dos bandidos. Examinam outra vez Francisco à luz do archote. o manto remendado: . cada vez que recebia uma chicotada.Vamos lhes aplicar uma boa sova . Francisco então estendeu a mão e acariciou as minhas costas. contempla o rosto famélico de Francisco. . . indicando Francisco: . nem sequer uma côdea dura de pão.sugeriu outro ..Deve ser doido . O Rei dos Reis celebra um casamento: une o Seu filho em matrimônio e os convida à Sua mesa. Um dos homens aproxima o archote aceso. É santo! .e jogá-los numa vala.Ei. que pelo jeito era o chefe. os pés sangrentos. o arauto do Rei dos Reis? Tu? Esfarrapado desse jeito? E começam a revistar Francisco. com os rabos de bois que lhes serviam de látegos. porém. persignava-se e murmurava: "Louvado seja o Senhor!” . à procura de sua bolsa. Agora. . a gente se abalou à toa. rapaziada! .Dá no mesmo .Está doendo. que ajustamos as contas. praguejando e rindo.Este não é doido.opinou um deles -. Revistam igualmente o alforje que eu carrego às costas. . mas ele não contém mais nada.

Pronto. Grande é a Sua graça! Durmamos. homens e mulheres. portanto. camponeses. . . Ei-lo aqui. Vamos procurá-la! Entrávamos na vila. E quando se avistava ao longe uma aldeia.. que já pesava sobre a natureza. íamos quase sempre calados. .Isto aqui até que não é ruim . Irmão Leão . Juro-te.Depressa. aproximem-se! Trago novidades. do tempo ou do inverno. ouvi uma voz que cantava. Francisco então trepava numa pedra e se punha a falar do amor. anda! Num daqueles casebres pode haver uma alma em busca da salvação. que não sinto dor alguma.Não injuries a carne. A vala era funda.disse Francisco.Procurávamos um refúgio para passar a noite. dormia? Não creio: durante o sono. Raiou o dia. acabou. Corram.dizia -. não era fácil sair dela. Francisco me puxava pela manga alegremente. porém às vezes conversávamos a respeito de Deus. e amanhã o Senhor há de mandar o sol para nos indicar o caminho. Irmão Leão. E Francisco. Minhas costas ainda ardiam. Lembra-te do que dissemos: ela também. Saímos da vala rastejando e retomamos o nosso caminho. pode se transformar em espírito. e Francisco agitava-o ao passar pelas ruelas. mas eu estava tão cansado que adormeci em seguida. enviado por Deus. para ver o que trazíamos para distribuir gratuitamente. pois fazia frio. um dia. Os rústicos acudiam. e Francisco invocava com sua voz de pregoeiro: .Ei. Escorregávamos na metade e tornávamos a cair lá embaixo. é grátis! Encontramos no caminho um cincerro de carneiro. Aconchegamo-nos um ao outro. .

as aves e a terra que pisamos.Ao outro mundo. os pés descalços. acorreu. .retrucou Francisco. e. o cabelo desgrenhado.E por que estás cantando? . Muitos. semanas. . Já devolvi tudo. cujo nome já esqueci. deparou com o meu companheiro a apregoar as suas "novas mercadorias" na praça. riam.Do outro mundo . sem compreender nada. Estupefato. Outros se zangavam. . Amemos os animais. . ao ouvir.disse-lhe -. meu grande amigo .perguntou enfim. partíamos para a próxima aldeia. .Eram um empréstimo do Diabo. O tempo se assemelhava a uma bola rolando por uma encosta. que comíamos bebendo água de poço. a pluma vermelha de teu chapéu e os teus anéis de ouro? . Transcorreram dias. .respondeu Francisco sorrindo.De onde vens. O amigo olhou o manto esfarrapado.E aonde vais? .Francisco. quando as palavras começavam a escassear. amigos ou inimigos. dize? . comiserado."Amemos Deus e as criaturas humanas. rompia em soluços. Numa aldeola. um velho amigo de Francisco. findo o quê. As crianças lhe atiravam pedras. Depois íamos mendigar de porta em porta. com quem muito farreara outrora.Deus! .” Falava do amor com exaltação. que te aconteceu? Quem te deixou nesse estado? .Onde estão os teus trajes de seda. Eu já não os contava mais. Recebíamos um naco de pão duro. Alguns se aproximavam furtivamente e lhe beijavam as mãos.

São os trajes do meu pastor . . Sim. ainda preciso de meu corpo. queres salvar o mundo. mas isso não basta.Eis o resultado de uma boa instrução: raciocinas bem. vou te dar uma roupa quente para que não morras de frio. dá a meu irmão um gabão semelhante. O outro começou a rir. afinal. .. graças a essa vestimenta que te dei e da qual fizeste um hábito.Está bem. Enfiava e tirava o capuz. Ruffino . O amigo abanou a cabeça com ar desesperado. meu velho amigo. .Para não perder o meu caminho. Era rico. Não sinto frio.disse. veste-te. pois.disse -. Acompanhamos o amigo até sua casa. . . Devia ter bom coração. Tu.. Mas escuta. Precisas também de roupa grossa. . por amor de Deus. seja . . realmente..Seria divertido . percebendo a indecisão de Francisco . Chegava-lhe aos tornozelos. E não esqueças acrescentou.comentou -. Agora é inverno. quando está revolvida. Ele também é um verme. se compreendi bem. . Deu a Francisco um gabão de lã grossa. Sem ele.A cor desta roupa é idêntica à da terra no outono.Tens razão .acrescentou -.replicou Francisco. pois tomou Francisco pela mão e fez sinal para que eu os seguisse.que necessitas dele para salvar a humanidade. um par de sandálias de pastor e uma espécie de bordão. como poderás salvar o mundo? . O amigo ficou satisfeito. que até receias esmagar um verme por que te dá pena. rindo como uma criança.Estou contente . Francisco olhou o gabão e experimentou-o. o meu nome perdurasse na memória . peço-te.Carrego Deus comigo. . apieda-te de teu corpo. Vem à minha casa. se morreres. -. se.informou -.Francisco.

disse Francisco . .fez Francisco rindo.No reino dos céus? . admirávamos os nossos hábitos novos com júbilo infantil. desceu à adega e encheu-o de provisões. meu irmão Ruffino . Por fim. vestido com este hábito.De modo algum: no reino da terra.continuou Francisco -. amarrei um pedaço de corda à cintura. . Praza a Deus que um dia também sigas o caminho da perfeita alegria. O céu estava nublado. . pegou um pedaço de corda no pátio e atou-o à cintura. como Francisco. Vesti-me e. queira Deus que um dia entres no reino dos céus.perguntou Ruffino rindo.Meu caríssimo amigo.Eu ou Deus? Cumpre formular essa pergunta a Ele. Parecia até que partíamos para a guerra depois de envergar a nossa armadura.do que obedecer à vontade de Deus. Prosseguimos andando. .Vês? .Quando a gente nem pensa mais em se alimentar e se vestir.dos homens! Porventura tens a intenção de fundar uma ordem de frades como São Bento? .Onde? . Enquanto isso. Ruffino buscou outro gabão para mim. Minhas costas se reaqueceram. Deus providencia um Ruffino com um saco de provisões e dois gabões dela.Aperta esta mão feita de barro! . Eu Lhe pergunto tudo! Afastou-se.Não há maior alegria . Francisco estendeu a mão ao amigo: . O outro sorriu. Irmão Leão? . . Sabes por quê. Ruffino apanhou o meu alforje.disse-lhe. Até o nosso próximo encontro! . Enquanto caminhávamos na direção do oriente. Fazia frio. enfiou o novo hábito.

irmão. Eis o segredo. . desperta a nossa alma e mostra-lhe o que ela cobiça sem saber.Porque no íntimo desejamos o que Deus quer.Sei perfeitamente o que não quero. Irmão Francisco? És capaz de descobri-lo antes que Deus te revele? Ele baixou a cabeça e deu outro suspiro.Então foi por isso que reconstruíste San Damiano? Era uma de tuas vontades secretas e ignoradas que Deus veio te revelar durante o sono? Foi por isso que abandonaste teu pai e tua mãe? . o que odeias e o que temes acima de tudo. Hesitou um instante.Dize então o que não queres. porém não sei o que quero. A única diferença é que ignoramos. qual é o teu desejo mais íntimo.disse afinal. Ao longe retumbaram trovoadas. a mais íntima e secreta. soltando um suspiro. .. .Mas às vezes sentimos várias vontades ao mesmo tempo. Desculpa-me por te fazer semelhante pergunta. tornou a fechá-la e por fim se decidiu: . dorme um servidor de Deus. . desce em nós.Como poderia saber? Explica-me. .Ai de mim. irmão. O Senhor. No fundo do mais indigno dos homens. E foi por isso que tu mesmo abandonaste tudo para me seguir.respondeu. . não! .É a mais penosa .Exatamente. então. . Gostaria de saber como se faz para reconhecer a de Deus. Abriu a boca. Obedecer à vontade de Deus significa obedecer à nossa própria vontade.E agora. estás vendo. . O ar cheirava a chuva.

.saudou. . desfaleço. descobrimos uma gruta. Francisco pôs a mão no coração e respondeu à saudação sem levantar os olhos. A noite havia descido e chovia cada vez mais forte. Senhor. Continuamos a caminhar pela campina desolada. . Só de ouvir os guizos que sacodem para advertir os passantes. Não suporto vê-los. .A alma humana é fraca.De fato. Entramos e Francisco deitou-se. desgraçada e covarde murmurou.. . Irmão Leão. Levantamos os capuchos e estugamos o passo a fim de chegar depressa à aldeia mais próxima. . tens razão. por exemplo: não gosto de leprosos.Deus não quer que vamos mais longe.Por que não ergueste os olhos para contemplá-la. A jovem era bonita. tomado de náusea. quando terás compaixão dela e quando a redimirás? Começou a chover. satisfeito. Não devemos tampouco querêlo! Percorrendo o sopé da montanha.Santos de Deus. . Não encontramos vivalma. mas não há nada no mundo que me repugne mais que os leprosos. Perdoa-me. bem-feita e graciosa. Senhor.sugeri. .Como poderia eu erguer os olhos para a noiva de Cristo? replicou. abençoem-me .Olha. Cuspiu no chão e apoiou-se a uma árvore. meu irmão? perguntei. Passou uma moça.Procuremos uma gruta para nos abrigar .

Depois de comer.Está escuro ainda .Tiveste algum sonho? . . deixa-me dormir. Não foi sonho. mas envia também os capuchos . Sendo autêntico camponês. cutucou-me com o pé.Quanta sabedoria! .Acorda. Aquela voz.gritou. .retificou. envia uma gruta. mortos de cansaço. Ai de mim.comentei.Deus envia a chuva.respondi. o dia já raiou . Retoma o teu caminho. não foi ouvida em sonho. Sou operário. De madrugada fechei os olhos e supliquei a Deus: "Pai. esta gruta e a chuva. Que mais queres de mim? Levanta-te. ficou acordada a noite inteira. Retoma o teu caminho! Por tua causa farei a chuva parar. adormeci logo. Fiz o que mandaste: reconstruí San Damiano. É Ele! Levanta! Levantei-me. tu e eu. . enviado por . bradei. Ao amanhecer. Francisco. o Teu operário.indaguei. Por que não me deixas dormir? Que mais queres de mim? Ainda não chega?" Então uma voz furibunda se fez ouvir acima de mim: "Não. não chega!” "Juro-te. dancei na praça e me converti na chacota do povo de Assis. Tudo pode ser um sonho. Não chega?.. não tinha preocupações capazes de perturbar o meu sono. Trata-se de um leproso. . Irmão Leão. enroscamo-nos um ao outro para dormir. porém. Não consegui dormir. que terminarás escutando um ruído de guizos.falou. Abri o alforje e retirei uma parte das provisões que Ruffino nos dera. E quando a chuva aumenta. Irmão Leão. eu não estava dormindo. . Abandonei pai e mãe. cheio de pavor. meio sonolento. É dia.Não. Por que essa pressa? .Quanta bondade! . contudo. .Não sou eu que estou com pressa.

brincas conosco. Por que não respondes? Não me contive mais.. Ouviste? Parece que finges não ouvir..mim.repeti. profundamente comiserado de Francisco. Embaixo. Lança-te em seus braços e beija-lhe a boca. Nuvens rolavam no céu. Tu não és um Pai!. estendia-se uma grande cidade.Procurar quem? Francisco baixou a voz. fugindo como se fossem expelidas pela respiração de Deus. . comentei.” Eu escutava aterrorizado. sem acrescentar uma só palavra. . queres que me lance nos braços de um deles. Saímos da gruta. Será que não existe caminho mais fácil para os pobres mortais que querem chegar a Ti? Não. E agora?. gritei-lhe.O leproso. estugando o passo. e cada uma refletia o arco-íris. retrucou a voz. franzindo a testa. Virou-se para mim. sem perda de tempo.E agora?. e percebi que seu sofrido corpo tremia. És onipotente e. não existe!.Agora o quê? . Levanta-te e vamos procurá-lo. . Retomamos a estrada rumo à planície que ainda dormia.. que se erguera vacilante e olhava para fora da gruta. De cada folha de árvore pendia e cintilava uma gota d’água.respondeu num murmúrio. Tu não gostas dos homens. . . Não existe agora. impiedosamente. . tomado de horror. envolta na bruma matinal. A chuva tinha parado. .. . O sol despontou por trás da montanha e reanimou a terra. Ainda há pouco ouviste quando eu disse a meu companheiro que não podia suportar leprosos.perguntou. . Raiava o dia. Ele não me ouviu. além dos pinheiros. e. Francisco caminhava à frente.

. . Porém. por trás das árvores.Os guizos!. Então surgiu o leproso.disse eu.. Só desaparecerão quando os abraçarmos. Hás de ver.. Talvez seja Ravena.Que cidade é aquela? .balbuciou o meu companheiro. . Tudo me parece novo.. as mãos mutiladas. . . Seria medo ou esgotamento o que o impedia de avançar? Também me aproximei e fiquei horrorizado. e a boca era uma chaga pustulenta. todos ficarão repletos de leprosos. . . De repente Francisco estacou. Francisco. Mas ele já se arremessara na direção do ruído.Ânimo.sussurrou.Não me lembro. Pegou-me pelo braço.Tomemos outro caminho! . quando o leproso olhou para ele. .Está chegando. O ruído se aproximava cada vez mais. meu pobre Irmão Leão. . apoiando-se em mim.Para onde? Para fugir à vontade de Deus? De que maneira? Impossível. Seus joelhos vergaram. Francisco tremia. . segurando um cajado cheio de guizos que sacudia. . Irmão Francisco. . lívido.Deus te dará forças para que resistas. ainda distante. meu irmão .Fujamos daqui! -exclamei. .. E de fato logo escutei o ruído. Francisco correu de braços abertos. cria coragem e continuemos! Os guizos agora retiniam muito perto. . O nariz do leproso estava meio podre. Portanto. puxando-o pela cintura. . estacou e soltou um grito estridente. .Em todos os caminhos encontraremos um leproso.Ele está chegando.

ela surgiu à nossa frente. com os olhos cheios de lágrimas. Eu o seguia. Rolou pelo chão e depois. Não havia sido um leproso verdadeiro. De repente. olhou para mim. e se pôs a caminhar lentamente em direção à cidade. ardia como intensa labareda. mas o próprio Cristo. Depois pegou-o no colo. A barba. refulgente ao sol. abriu o hábito que cobria o leproso e soltou um grito de espanto: tinha os braços vazios! Virou-se. parou e perguntou: . ao vê-lo prostrado chorando sob a chuva. Algo te desagrada? Pois é precisamente o que mais me agrada!" E por isso o pobre Francisco era obrigado a beijar o leproso que agora carregava no colo. .Francisco jogou-se sobre ele. as suas igrejas e as suas casas. começou a soluçar e beijar a terra. Curvou-se. com as suas torres. de bruços. O rosto. que descera do Céu para experimentar Francisco! Um camponês que passava. isso não é verdade! O que Ele diz é diverso: "O que é que tu mais detestas?. Deus é cruel. tremendamente cruel. mas os lábios haviam ficado paralisados. Decerto haveria nas imediações um leprosário onde ele podia ser recolhido. abraçou-o e beijou-o nos lábios. tudo se confundia no meio das chamas. eu tremia. Aquela que ignoramos!" Não. o nariz. Aproximávamo-nos da cidade. a seu lado. Francisco parou bruscamente. tentou falar. Pois é isso justamente o que eu amo. . não sente pena dos homens. entretanto. começaram a cair grossas gotas de chuva. a boca. Pensei no que Francisco tinha dito horas antes: "A vontade de Deus é a nossa vontade mais íntima. Pouco antes do meio-dia. cobrindo-o com o hábito. De pé.

Quantas horas ficamos assim enlaçados. Francisco finalmente abriu os olhos. ainda incapaz de articular palavra.Viste. que era realmente a célebre Ravena.Por que é que ele está chorando? Que lhe fizeram? Foi atacado e surrado por bandidos.Pois olha. em compensação compreendi . . se transformam em Cristo se os beijarmos na boca.De modo algum . Irmão Leão? Compreendeste? ..Cristo acaba de passar por aqui. porém quando nos levantamos era quase noite. Chegamos de noite à grande cidade. pecadores. sorriu.. meu irmão O viu e está chorando de pura alegria. O rústico encolheu os ombros. pecadores. . e me pus a beijar e acariciar-lhe o rosto. Transcorreu um longo momento. inválidos. . Fomos cercados pela ampla e refrescante brisa marítima. inválidos. . começou a rir e afastou-se com ar apressado. leprosos.. Depois virou-se para mim e. não me deixes no escuro. Irmão Francisco. se os beijarmos na boca. Contemplou o céu cheio de nuvens e a chuva que caía lentamente. .. mas só compreendi uma coisa: Deus se diverte à nossa custa. não ousando completar a idéia. Francisco recobrou a fala: . sim. tentando atenuar os efeitos do raio divino que deixara o seu corpo fumegante. talvez? . na penumbra não se podiam discernir os grandes pinheiros frondosos e as torres redondas. Então sentei-me ao seu lado. Senhor. trêmulo prosseguiu : . Por fim. em plena estrada. Calou-se.Vi. perdoa-me. sem dizer nada? Francamente não sei.. Todos eles.que todos os leprosos.desmenti. Contudo.Continua.. .

Irmão Leão? .Vamos dormir aqui. meu irmão.A santa humildade exige que a gente estenda a mão.perguntou. Sempre tive esta dúvida e nunca encontrei resposta: quem está com a razão? As pessoas que não pedem esmola e recusam a que recebem. os rios transbordam. Apenas o cincerro de carneiro.propus. Os ricos devem aos pobres.A cidade é grande. E amanhã de manhã. no famoso Mosteiro de San Apolinario. entraremos para rezar.Ravena é uma cidade ilustre . . aqui também há almas à tua espera. e de noite jamais se abriam para ninguém.Nada. Não nos seria possível seguir adiante. . pois ficáramos encharcados e fazia frio. Como em toda parte.falei -. se Deus quiser. peça esmola e aceite.Passemos o inverno aqui .Irmão Francisco . devem portanto saldar a dívida. igrejas e glória.O tempo das chuvas começou. explica-me uma coisa. ainda. na frente da porta.anunciou Francisco. Boa noite! .disse. Estás cansado e eu também.. dorme. as que pedem? . ou aquelas que não pedem. Estávamos cansados demais.disse Francisco -. Por isso paramos fora da cidade. nada. . .Esperarei até amanhã . Começou a chover torrencialmente. Irmão Leão. O resto é puro orgulho. Irmão Francisco. deve haver um naco de pão para nós em algum lugar. . . porém aceitam? Ou. Não me interrogues. Estás com fome? . Hoje não atravessamos nenhuma aldeia. Gosto dela. Repentinamente sentiu que tinha fome. Mas as portas estavam trancadas. diante da entrada .Não há nada no alforje. não se pode ir a lugar nenhum. repleta de palácios. . Fizemos o sinal-da-cruz e nos apertamos um contra o outro.

Na manhã seguinte. e no mesmo instante surgiu um velho magro. celerados? . . colérico. com sua beirada de mármore. . e durante a noite inteira me pareceu escutá-lo. . Era o porteiro. e ao fundo.Não somos vadios.Sim.O mosteiro não tem pão para alimentar vadios! . o inferno: o nosso coração! O porteiro rosnou como um cão feroz. mas não disse nada. Possuímos chaves. Ouvia-se um cântico de infinita doçura. Dois ciprestes delgados. seu rosto endureceu. Meteu a chave na fechadura e abriu a porta. Pelas grades. Entramos. de barba branca e crespa. . retos como espadas.O que é que vocês trancam e abrem. rindo e chorando sucessivamente. permanecemos na frente da porta.Mendigos? . a célebre igreja.explicou Francisco com brandura -. podíamos ver o jardim florido de loureiros e ciprestes na claridade do pátio. construída e ornamentada por hábeis pedreiros vindos do Oriente. O sol despontou. inclinado à beira do poço. e. tirava água. Cerrei os olhos. falando.O inferno? . Os monges não se achavam em suas celas porque o ofício matutino havia começado.Percebi logo que Francisco tinha pressa de ficar a sós com Deus. irmão porteiro . Um fradezinho. que caminhava descalço.exclamou. os pássaros chilreavam. à espera de que o monge porteiro viesse abri-la. ao redor.O inferno! . as celas sob os arcos. trancamos e abrimos. também trabalhamos. A boca desdentada mastigava ininterruptamente. Mal nos viu. No centro se encontrava o poço. A luz do dia agora inundava o claustro.

. no centro do pátio.Não chores. Depois de beber e me refrescar. onde a alma podia apascentar na vida eterna! Apesar do meu espírito obtuso. Segurando-a firme na mão como uma vela acesa. Os monges cantavam. Penetrei na igreja. nem se os monges nos deram um pedaço de pão. instalados no coro. verde. azul. reproduzia a figura de Santo Apolinário. quanta doçura! Que serenidade profunda e que prado verdejante. Um loureiro copado.guardavam a igreja. Lembro-me apenas de que a percorremos de um extremo a outro. fiquei emocionado. branco e dourado. Ajoelhei-me perto de Francisco e me desfiz em lágrimas. em cima. . simplesmente.pediu-me em voz baixa. olhando as pessoas. paramentado com uma estola de ouro. Concentra-te. não rias. . Quanta folhagem. Meu Deus. que milagre! Seria o paraíso? Um mosaico imenso. não fales.Cala-te . esperei que o fradezinho puxasse o balde. Tampouco sei como entramos na cidade. que recendia a benjoim. ciprestes. perfumava o ar. envolvendo o espaço com os braços muito abertos. rubra. Segui o seu olhar. À direita e à esquerda. fiz o sinal-da-cruz e agradeci a Deus a graça da sede e a graça da água. uma cruz imensa. como dois arcanjos. ovelhas brancas. quanto frescor. Não sei como saímos da igreja. empurrou a porta da igreja e entrou. em êxtase. rezando de mãos postas. Vi Francisco ajoelhado nas lajes. e anjos. árvores carregadas de frutos. Eu estava com sede. E. enxergando somente um prado verde. A luz caía dos vitrais. tendo um santo ao centro e ovelhas brancas que acorriam alegremente a saudá-lo. com os olhos fixos acima do altar. . Francisco colheu uma folha e beijou-a. as torres e os palácios. . verde.

Santo Apolinário. vendo que eu fitava a estátua. e os seus pares celestes.murmurou. radiante. mas não consigo.exclamou. Francisco pegou o cincerro para atrair a população. Há horas que isso me atormentava. de cães. os rapazes e as moças desciam de seus bairros para se encontrarem. Não era mais a ovelha desgarrada que Cristo mantinha nos ombros: era a cidade de Ravena.Foi no meu coração que vi aquilo . o ar purificado recendia a pinheiro. Estava reclinada nas trevas como um monstro saciado.Descobri. A chuva cessara. . de inúmeras bocas humanas.Deus seja louvado! . cavalos. Seu esmeraldas. . . se transformava. De repente. alaúdes e guitarras.Em que pensas? . e quanto mais escurecia. Seu espírito andava longe. Os artesãos fechavam as oficinas. rosto resplandecia. . ladrava. ele virou-se para mim. de múltiplas cabeças. já vi nalguma parte aquele prado verde onde pastam as ovelhas. nitria e cantava.perguntou-me Francisco. a ovelha desgarrada que devolvia ao aprisco. enquanto as sombras nos envolviam. Ria.À tarde paramos numa vasta praça. porém mudou de idéia. pareceu-me que a estátua. Tornou a colocar o cincerro no saco. Onde? Quando? Quando? Procuro me lembrar. Bem no meio erguia-se uma estátua de Cristo trazendo uma ovelha aos ombros. no meio da praça. mais nítidos se tornavam os clamores da cidade.Irmão Leão. os anjos. contente. . Os olhos estavam repletos de . E súbito. sentou-se no chão e contemplou a multidão que passava. Agachei-me a seu lado. Teria sido em sonho? Calou-se e bruscamente bateu palmas. A noite caía.

Não está Ele em toda parte? . Sentou-se perto e interpelou: . veio e parou diante de nós. À claridade dos lampiões das tavernas pudemos distinguir o seu rosto crestado e marcado por profundas cicatrizes. Para me aparecer. com o alforje vazio. Irmão Leão. . muito longe. de um grande rei. não é tampouco Ravena. somos nós que O procuramos. Ficamos novamente em silêncio. cofiou lentamente a barba e.Desculpem-me. Desde manhã vejo ambos perambulando pela cidade. Possuía longa barba branca. baixando a voz: . Foi no fragor de uma batalha. mas em compensação raspara os bigodes. O ancião sacudiu a cabeça encanecida.disse. Vadios? Santos? Francisco começou a rir. mas gostei do que acabaram de dizer. tomou a forma de um homem.Eu também O procurei outrora . .falou -.Olha . . . . .Portanto é bem possível que se digne a aparecer para nós em Ravena.revidou Francisco. Não é Ele que nos procura. .E O encontrei. Então um enorme velho. É o mundo inteiro. Mendigos? Apenas na aparência. toda encaracolada.Não.Penso que não é a ovelha e sim Ravena que Cristo devolve ao aprisco. nos confins do mundo. erguendo a mão e indicando a estátua de Cristo. bom velho.. emudecidos.E pensam que vão encontrá-lo aqui em Ravena? Retrucou num tom sarcástico. e me pergunto que espécie de homens serão. somos ovelhas desgarradas e buscamos Cristo por todas as partes. de aspecto furibundo.

autêntico guerreiro.bom velho. peço-te pelo amor de Cristo. Francisco soltou um suspiro. o Oriente! Os perfumes e os maus cheiros se entremeiam. enquanto retorcia os bigodes. E os homens. . aliás. O seu palácio estava cheio de repuxos. Tingem de vermelho as palmas das mãos. Abria e fechava a boca. . e não se pode diferenciar o cavaleiro do animal. As mulheres se cobrem da cabeça aos pés. Que mundo estranho. Sentava-se em cima do Santo Sepulcro. e sentimos que algo lhe dilacerava o coração. Francisco aproximou-se. Só constatamos este fato ao despir algumas que havíamos capturado.murmurou. Não sabia por onde começar o relato. na cidade santa de Jerusalém. em vez de correr ao resgate do túmulo de Cristo! Anda. . a planta e as unhas dos pés. podia montar o seu cavalo enquanto ele corria a galope. de pé! Que esperas? Se queres libertar tua alma. seis pernas: um único ser. o Sultão Saladino. a gente depara com palmeiras idênticas às que vêm reproduzidas nos ícones.E nós inativos aqui em Ravena. Duas cabeças. Quando estão a cavalo. há mais ou menos vinte anos. nunca mostram. iatagãs e concubinas.Soltou um suspiro. conta-nos como e onde O encontraste. . que está acima de nós. como fantasmas. confundem-se com a montaria. a errar e mendigar. que vergonha! . vestido de ouro e pérolas. Irmão Leão. carregadas de uma espécie de uvas cujos cachos atingem a estatura de um homem.Aconteceu no Oriente .disse finalmente -. sem se animar a falar. cruzando as pernas e ameaçando o cristianismo. colocando-lhe a mão sobre o joelho: . Ajuda-nos a encontrá-Lo também! O ancião baixou a cabeça e ficou calado durante muito tempo. os quais. O rei. e outras árvores mais bizarras ainda. -.Meu Deus. é preciso começar por libertar o Santo Sepulcro! .

o túmulo de Cristo tinha caído nas mãos dos cristãos. Costurei às minhas costas uma cruz de pano vermelho e me pus a caminho. .Ah. Não acreditava em meus olhos! Os meus sonhos ficavam muito aquém da realidade. quantas igrejas pude ver! E as festas. . Porém não era um ser humano. O sono é pobre demais para sonhar coisa tão bela. .” A essa altura cobriu o rosto com a barba. para ir libertar o Santo Sepulcro.disse. Eu era um respeitável pai de família. viajando ora de barco. a rainha das cidades. Perambulava sem poder saciar os olhos. fiquei só com o cavalo.. Vi também a célebre Constantinopla.. O rei de Jerusalém era um rapaz de uns vinte anos de idade. a juventude! ..prosseguiu -. à santa Jerusalém.. ... e o rei.Tenho o cérebro ainda cheio de mares e desertos! Rumei ao meu destino .. de raças e línguas diferentes. ora a cavalo. tenho .confessou. . O cérebro humano é incapaz de conceber semelhante maravilha. Chamava-se Balduíno.Se queres libertar o Santo Sepulcro .repliquei -. hostis. . Depois. Conheci uma série inacabável de homens estranhos. situada ao mesmo tempo sobre dois continentes: a Europa e a Ásia.Não sei por onde começar .. Possuía campos. esquecendo o Santo Sepulcro. . . não.Pensa que basta querer para conquistar o mundo. que Deus me perdoe! "E quando enfim cheguei a Jerusalém. guardando um instante de silêncio: . é preciso começar por libertar a tua alma! O velho meneou a cabeça. Quantos palácios magníficos. . Antigamente eu também pensava assim. Calou-se e fez com a mão um gesto impotente. juntas de bois e um cavalo branco de que gostava como de um filho. . Abandonei tudo. as mulheres!.

não sentia náusea? "O terrível sultão cercava o forte inexpugnável de Krach.certeza. que o ar vibrava e crepitava ao redor dele como um pinheiro em chamas. Enquanto avançávamos. que a alma humana é onipotente. À frente do exército. "Aquele corpo se transformara num amontoado de carne podre. Como eu estava perto. extenuados. a lepra também lhe corroera os olhos. aquele detrito pútrido deitado na padiola irradiava uma tal força. . Naquele dia os sarracenos desferiram um novo ataque para retomar Jerusalém. no deserto de Moab. Debrucei-me sobre ele. Como é que Deus. que Deus está no homem de corpo inteiro e que não há absolutamente necessidade de ir procurá-Lo nos confins do mundo. e as bandeiras ondulavam ao vento. . uns a pé. Seria. Estávamos enfileirados aos milhares na planície. Tínhamos envergado as armaduras. naquele instante.” O velho guerreiro calou-se. . esperando. O rei ordenara que os clarins dessem o toque de reunir. estremeci de horror. porventura . como recordar esse momento sem me emocionar? Foi então que O vi pela primeira vez! E compreendi. . Aquele que eu procurava? "Quando O vi pela primeira vez. porém nessa putrefação a alma do rei se mantinha indene. Ainda por cima ficara cego. outros a cavalo. um tal ardor.que Deus me perdoe! -. do outro lado do mar Morto. no meio de tal fedor. Mas os soluços o sufocavam. O rosto apodrecia e as mãos e os pés já não tinham dedos. "E foi então. imortal. Não queria ou não podia mais falar? Pousei a mão em seu joelho e roguei-lhe que continuasse. pois basta contemplar o próprio coração. . o rei atravessou o deserto sob um calor abrasador. "O rei estava estendido numa padiola. mas fedia tanto que fui obrigado a tapar as narinas. quis vê-lo.

como uma matilha enfurecida. digno. O ancião enxugou os olhos. também rompeu em soluços. bela. vaidosa. repleta de barões. levanta-te! . Grossas lágrimas escorriam pelas faces enrugadas. encontravam-se à sua cabeceira. ergueu-se penosamente e. O velho guerreiro mordeu os lábios. mostrando-nos o caminho. levanta-te! .Eis o que pode chamar-se uma alma .A esta hora? . silencioso.Eis Deus. retirou-se. esse leproso caminhará à nossa frente. De repente. desmiolada e insaciável. Francisco continuava a chorar. vadio do Senhor. em Jerusalém. . condes. A partir de hoje.Sim. sem um gesto de adeus. Sua mãe. . sem acrescentar nenhuma palavra. marqueses e toda uma multidão de fidalgos sanguinários.murmurou. Jamais vi o mistério de Deus manifestar-se tão claramente. Anda. no salão nobre do palácio onde ele jazia.Todas essas recordações me perturbam .Voltaremos a Assis. Vamos. Dali tomaremos impulso para saltar. envergonhado e furioso consigo mesmo por ter chorado. eis um verdadeiro homem. oculto na sombra. No meio deles. com uma coroa de espinhos na cabeça apodrecida.Aonde iremos. sensual. Balduíno entregava a alma a Deus. eu estava lá.. . Apoiou-se ao chão. Quando o rei morreu. a esta hora! Então crês que Deus pode esperar que amanheça? 5. erguendo por fim a cabeça. pelo amor de Deus? .recomeçou afinal. com a idade de vinte e quatro anos. e sua irmã Sibila. Irmão Leão. A sala. aguardava apenas a morte do monarca para se precipitar sobre o reino de Jerusalém. Francisco pousara o rosto em seus joelhos.

"quantas asas no lodo! Deus está no ar! Senhor.dizia-me Francisco à guisa de consolo. "Que maravilha". o vento!” Parou e esperou por mim. . arrasados pelo frio e pela fome. encharcados até os ossos. "Meu irmão.disse -. gritava. pelo contrário. . "Minha irmã. Irmão Francisco respondi.Que representam estas ínfimas misérias que suportamos por amor a Deus? . as trevas e o frio. nos deixassem entrar. na esperança de que os monges. dando-nos um pedaço de pão e permitindo-nos sentar perto do fogo. quando as larvas pensam em Ti. Eu maldizia a chuva. E quando Francisco clamava: "Amor! Amor! Amor!". Chovia. transformam-se em borboletas!” Abria alegremente os braços para sentir a chuva e o vento.Irmão Leão . para logo em seguida reiniciar a corrida.Se não as fizermos agora. os camponeses soltavam os cachorros atrás de nós. Desatamos a correr. Queres ouvi-la? . divisamos ao longe um mosteiro iluminado. a lama". Chovia. a escuridão era densa. os rios transbordavam. Francisco. o rei leproso foi o nosso guia. Eu me havia ferido ao cair num carreiro e coxeava. caíamos nas valas do caminho. agastado. as estradas desmoronavam. quando as faremos. Sentíamos frio e fome.Isto não é hora de improvisar canções. improvisando canções. Fomos escorraçados a pedradas em grande parte das aldeias. cantava. .Pensa no rei leproso! Certa noite. e afundávamos na lama até os joelhos. acabo de compor uma pequena canção. Irmão Leão? Escuta: o primeiro animalzinho que se apresentou à porta do paraíso foi . tomados de piedade.Durante o percurso de regresso. seguia adiante. patinhando nas poças d’água. .

o caracol. Pedro se inclinou e o acariciou com a ponta do báculo: "Que vens procurar aqui, caracolzinho?", indagou-lhe, "A imortalidade", respondeu o bichinho. Pedro soltou uma gargalhada. "A imortalidade? E que pretendes fazer com ela?" "Não rias", replicou o caracol. "Por acaso não sou também criatura de Deus? Não sou filho de Deus, como o arcanjo Miguel? Chamo-me arcanjo Caracol, pronto!" "E onde estão tuas asas de ouro, tuas sandálias vermelhas, teu gládio?" "Carrego-os dentro de mim. Dormem, esperam." "Esperam o quê?" "O Grande Momento." "Mas que Grande Momento?" "Este", respondeu o caracol, e enquanto falava deu um salto e entrou no paraíso. "Compreendeste?", perguntou rindo. "Somos caracóis, Irmão Leão. Dentro de nós dormem as asas e o gládio, e se quisermos entrar no paraíso precisamos dar o salto. Anda, vamos, meu atleta, salta!” Pegou-me pela mão e corremos juntos. Mas ao cabo de um instante parou, esbaforido: - Irmão Leão, escuta bem o que vou te dizer, presta atenção. Estás ouvindo? Tenho a impressão de que não aprecias muito a vida que levamos. Parece-te dura e vives triste. - Não, Irmão Francisco, não vivo triste, mas às vezes te esqueces de que somos seres humanos. Eu não me esqueço. A diferença é essa. - Irmão Leão, sabes o que é a perfeita alegria? Não respondi. Sabia perfeitamente o que era: chegar àquele mosteiro, ser introduzido pelo frade porteiro, sentar-me ao pé do lume, comer comida quente e abundante, beber vinho velho das adegas dos religiosos! Porém, como falar de coisas tão sensatas com Francisco? Seu amor por Deus fazia-lhe inverter a noção da necessidade. Para ele, a fome substituía o pão, a sede, a água e o vinho. Como podia, pois, compreender quem tem fome e sede?

- Mesmo que fôssemos os mais santos - prosseguiu -, os mais amados por Deus sobre a terra, marca bem o que digo, Irmão Leão, não seria nisso que consistiria a perfeita alegria. Continuávamos a caminhar no escuro. Francisco parou outra vez. - Irmão Leão! - gritou bem alto, pois não me enxergava nas trevas - Irmão Leão, ainda que trouxéssemos a luz aos cegos e libertássemos os homens dos maus espíritos e ressuscitássemos os mortos, marca bem, Irmão Leão, o que eu digo, nisso tampouco consistiria a perfeita alegria. Conservei-me calado. Para que discutir com um santo? Pode-se discutir com o Diabo, mas não com um santo. Portanto, calei-me. Prosseguimos pela estrada, tropeçando em pedras e galhos de árvores arrancados pelo vento. Francisco estacou novamente: - E ainda que falássemos todas as línguas do universo, as dos homens e as dos anjos, e que, pregando a palavra de Deus, pudéssemos converter todos os infiéis, marca bem o que digo, Irmão Leão, tampouco consistiria nisso a perfeita alegria. Eu sentia fome, sentia frio, meus pés doíam tanto que mal podia caminhar. Não me contive: - Em que consiste, então? - perguntei irritado. - Já verás - respondeu Francisco, estugando o passo. Pouco depois chegamos ao convento. A porta estava fechada, mas havia luz nas celas. Francisco puxou o cordão da sineta. Encolhi-me num canto, quase enregelado. Esperamos, apurando o ouvido. O porteiro viria abrir? Tenho vergonha de confessar - pecado confesso já obtém metade do perdão -,

mas no íntimo maldizia minha sina, que me unira a Francisco, aquela fera de Deus. Sem saber, assemelhava-se ao rei leproso de Jerusalém: um feixe de carne e ossos totalmente habitado por Deus. Por isso resistia à fome, à sede e ao frio. Por isso as pedradas que recebia lhe pareciam flores de limoeiro. Eu, porém, era um homem, e homem sensato e infeliz. Tinha fome, e as pedradas que recebia eram de pedra mesmo. Abriu-se uma porta lá dentro e ressoaram passos pesados ao longo do claustro. "É o porteiro", pensei. "Deus seja louvado, teve pena de nós!” - Quem são vocês que chegam a esta hora? - interpelou uma voz rude. - Somos dois humildes servos de Deus, famintos e enregelados, que vêm pedir asilo por uma noite neste santo mosteiro. Abre, irmão porteiro! - disse Francisco em voz branda. - Fora daqui! - rugiu o outro. - Vocês, servos de Deus? Que fazem pelas estradas em plena noite? Vocês são bandidos, isso sim. Atacam e matam as criaturas, ateiam fogo aos mosteiros. Vão embora! - Então não tens compaixão? - gritei por minha vez. - Vais nos deixar morrer de frio? Abre, pelo amor de Deus, irmão, dá-nos um canto para que nos abriguemos da chuva, dá-nos um pedaço de pão. Somos cristãos, piedade! Ouviram-se pancadas de bengala nas lajes do claustro. - Esperem aí, sacripantas, que eu já saio para lhes quebrar as costelas! - ameaçou a voz rude, enquanto metia a chave na fechadura. Francisco virou-se para mim: - Coragem, Irmão Leão, não tentes resistir.

A porta se abriu, e um monge descomunal surgiu à nossa frente com um porrete na mão. Agarrou Francisco: - Miserável, assassino, bandido - gritava -, vieste assaltar o mosteiro. Toma, leva isto! E o porrete baixou sobre o corpo frágil e indigente de Francisco. Precipitei-me em socorro de meu companheiro, porém ele ergueu a mão: - Não te oponhas à vontade de Deus, Irmão Leão! Bate, frade porteiro, tu és a minha salvação. O porteiro deu uma risada malévola, virou-se para mim e me segurou pela nuca. - Agora é a tua vez, cretino! Brandi meu cajado para me defender, mas Francisco gritou, desesperado: - Irmão Leão, eu te imploro, pelo amor de Deus, não tentes resistir. - Então vou deixar que me mate? - bradei, indignado: - Não, fica sabendo que me defenderei! - Se me tens amor, deixa que ele cumpra o seu dever. Deus lhe confiou a missão de nos espancar. Deixa que bata! Larguei o cajado e cruzei os braços. - Bate, frade porteiro - disse, com os lábios trêmulos de fúria. Bate, e que a cólera de Deus te guie! Nosso carrasco escutava tudo rindo. Seu hálito recendia a vinho e alho. O porrete me malhava sistematicamente, e eu ouvia o estalo de meus ossos. Francisco, sentado na lama, falava-me e dava-me ânimo.

-

Não

grites,

Irmão

Leão,

não

blasfemes,

não

ofereças

resistência. Lembra-te do rei leproso, lembra-te de Cristo quando O crucificaram, sé corajoso. Tendo cumprido o seu dever, o porteiro deu um pontapé em cada um de nós, tornou a entrar e trancou a porta. Eu me agachei num canto, com o corpo dolorido e praguejando por dentro, sem ousar abrir a boca. Francisco então se arrastou para perto de mim, pegando carinhosamente a minha mão e me acariciando as costas feridas. Depois se encolheu e abraçou-me para que nos aquecêssemos. - Irmão Leão - disse-me ao ouvido, Como se temesse que alguém escutasse -, Irmão Leão, a perfeita alegria é isto. Bem, encolerizado: - A perfeita alegria! - exclamei. - Tem paciência, Irmão Francisco, mas o que tu chamas perfeita alegria eu chamaria antes perfeita insolência. O coração do homem se torna insolente de tanto aceitar com alegria unicamente o que lhe desagrada. Deus lhe diz: "Criei para ti alimentos para comeres, vinho para beberes, fogo para te aqueceres", e o desaforado responde: "Não! Recuso tudo isso!" Então, quando é que esse doido orgulhoso responderá que sim? - Quando Deus lhe abrir os braços e disser: "Vem!" Por que razão imaginas que o coração grita "Não!" às mínimas alegrias? É para se livrar delas e chegar mais rápido ao grande "Sim", Irmão Leão. - Não pode chegar de outra maneira? - Não pode, não. Somente esses "Não!" inumeráveis podem conduzi-lo ao grande "Sim", meu irmão. - Então para que Deus criou os bens terrestres? Para que nos preparou uma mesa tão farta? Irmão Francisco evidentemente exagerava. Fiquei

- Para experimentar nossa coragem. - Tens resposta para tudo, Irmão Francisco. Nunca poderei discutir contigo! Prefiro dormir. O sono é mais compassivo que Deus. Talvez eu sonhe com pão. Fechei os olhos, e o sono - bendito seja! - o sono misericordioso veio me buscar. Ao amanhecer, alguém me sacudiu. Era Francisco. - Escuta, Irmão Leão. . . Ei-lo! Ouviram-se os passos do porteiro no claustro e o tinido das chaves penduradas à sua cintura. A porta se abriu. - Deus seja louvado - murmurei -, acabaram-se os nossos tormentos! E avancei um pé para transpor o umbral. Francisco me olhou. Seus olhos cintilavam, cheios de santa malícia. - Vamos entrar? - perguntou-me. - Que achas, leãozinho de Deus, vamos entrar? Compreendi que ele queria me provocar, porque sabia que eu estava com fome e era incapaz de resistir a uma provação. Resolvi blasonar: - Não - respondi -, não entremos, não! Eu, de qualquer modo, não entrarei! E recuei um passo. Francisco jogou-se em meus braços. - Muito bem! Meu corajoso Irmãozinho Leão, assim é que eu gosto de ti! Depois, dirigindo-se ao mosteiro:

- Adeus, mosteiro inóspito! Irmão Leão não precisa de ti, não quer entrar! Fizemos o sinal-da-cruz e nos afastamos. Francisco dançava de alegria. O sol despontou: já não chovia. Recém-lavado, o mundo reluzia. Árvores e pedras sorriam. À nossa frente, dois melros sacudiram as asas molhadas, olharam para nós e se puseram a assobiar com ar de troça. Debochavam de nós, tenho certeza. Francisco cumprimentou-os com um gesto de mão. - Sabias que os melros são os monges dos pássaros? - disse. - Repara como se vestem. Tive de rir. - Tens razão, Irmão Francisco. Antigamente, num mosteiro perto de Perúsia, encontrei um melro que aprendera a cantar o Kyrie eleison. De fato, tinha tudo de um monge. Francisco suspirou: - Ah, se a gente pudesse ensinar os pássaros, os bois, os cães, os lobos, os javalis a falar. . . Se ao menos aprendessem duas palavras: "Kyrie eleison"! Todas as manhãs, quando a natureza despertasse, esse grito de glorificação subiria de todas as árvores, de todos os estábulos, de todos os pátios e de todos os bosques! - Primeiro tratemos de ensinar essas duas palavras aos homens - sugeri. - Os pássaros e os outros animais não têm necessidade, parece-me. Eles não pecam. Francisco arregalou os olhos para mim. - O que acabas de dizer, Irmão Leão, é a pura verdade. De todas as criaturas vivas, o homem é o único que comete pecados.

- É também o único capaz de superar a própria índole e entrar no paraíso, Irmão Francisco. Os pássaros e os outros animais não conseguem. - Isso é o que não sabemos - protestou Francisco. - Ninguém sabe até onde vai a misericórdia divina. Foi assim que, falando a respeito de Deus, dos pássaros e dos homens, chegamos uma manhã à nossa bem-amada Assis. As torres, os campanários, os ciprestes e as oliveiras inundaram de felicidade a nossa alma. O olhar de Francisco se turvou. - Fui forjado com esta terra - disse -, sou um lampião feito com este barro. Abaixou-se, juntou um punhado de terra e beijou-a: - Devo a Assis um punhado de terra, e cumprirei minha dívida. Irmão Leão, se eu morrer noutro lugar, faze tudo para que eu seja enterrado aqui. . . Caminhávamos por uma ruela coberta. Era domingo. Os sinos repicavam, anunciando o fim do ofício. De repente, mal tendo concluído a frase, Francisco estacou e se apoiou a um muro. Respirava a custo. Acudi, mas fui também obrigado a estacar, estupefato. À nossa frente, toda vestida de branco, com uma rosa vermelha ao peito, estava Clara, a filha do Conde Scifi. Mas como ficara pálida e triste! Desde aquele dia em que a encontramos em San Damiano - já tão distante! - com certeza passara muitas noites de insônia a chorar. A menina de outrora se tornara mulher. Atrás dela vinha a aia, uma velha de porte nobre, que, ao ver a ama parar, fez o mesmo e aguardou. Saíam da igreja, mas a manhã estava tão ensolarada que haviam decidido alongar o caminho da volta para não se encerrarem cedo demais em casa.

os pés descalços cobertos de lama.Por quê? .falou com voz embargada de desespero. em tua mãe. . quase de joelhos.Mal avistou Francisco.perguntou.Quando penso em ti.Não tens vergonha? . . Por onde te arrastas? O que é que vives clamando? Por que danças em plena rua como um saltimbanco? Francisco escutava. . os ombros vergados. .disse. Francisco. Clara se inclinou e seus olhos se encheram de lágrimas. . . arfando o busto.Eu? .Pensa em teu pai. . .fez ele. mas Clara rejeitou o auxílio. Adivinhara a resposta de Francisco pelo movimento dos lábios. Reuniu toda a coragem. o rosto faminto. Calou-se. . Só a vergonha impediu-a de dar meia-volta. A aia correu a ampará-la.replicou. Clara estremeceu e seu rosto subitamente resplandeceu. de cabeça baixa. . ergueu a cabeça. e meneou a cabeça com desprezo. em mim. Francisco? . meu coração se confrange. .Tu me dás pena . porém. Clara sentiu as pernas fraquejarem.Quer dizer que também pensas em mim. Depois avançou um passo em sua direção.Nunca! E estendeu o braço como se quisesse afastá-la do caminho. . . observou os farrapos que vestia. tão baixinho que fui o único a ouvir. A moça soltou um grito. ergueu os olhos e encarou-o com um olhar misto de severidade e ternura.Eu também. Seus olhos falseavam: .

Clara pousou a cabeça no seio da velha e desatou bruscamente em pranto.falou à aia -. No momento em que iam dobrar a esquina da ruela. Depois apertou-me o braço. há gente olhando. amando o luxo. de cabeça baixa. guarda-a. . ainda que isso te desagrade. amando a guerra.Vamos. Só Deus sabe há quantos meses recalcava aquelas palavras no coração. que permanecia imóvel. . . as mulheres e a glória! Maldito seja quem exorta as mulheres a não serem autênticas mulheres. mas nem por isso se sentia melhor. e lembra-te de mim! Lembrate deste mundo! A flor rolou aos pés de Francisco. virou-se e jogou-a a Francisco. . meu pobre Leão". . A aia levou-a com doçura.Maldito seja quem exorta os homens a não se casarem. minha filha . "Sim. . infeliz.Agora podemos ir . tudo acabou. Levantou lentamente a cabeça e olhou em torno. sim.. Francisco continuou paralisado. Um ser humano digno desse nome não pode desdenhar todas essas coisas.disse -.incitou -.Toma . A aia se aproximou e puxou-a pela cintura: . a não terem filhos. a boa vida. admirando a rudeza. E finalmente as dissera. . dizia-me também. amedrontado. Clara parou. louca de vontade de encontrar Francisco para lançá-las em rosto e desabafar. um verdadeiro ser humano não pode desdenhar todas essas coisas. meu pobre Francisco!.Ela foi embora? . exasperada.Maldito seja quem contraria as leis de Deus! exclamou. o encanto da moça e a altivez de suas palavras. . a não formarem um lar. o amor!. o vinho. a não serem verdadeiramente másculos.perguntou baixinho. . Desprendeu a rosa vermelha que lhe adornava o busto. de olhos pregados ao chão.

Que podia dizer? Desde que partilhava a vida de Francisco. Fui à frente. Eu teria preferido tomar o primeiro. que coisa abominável! . saciado e cheirando a vinho. mas ninguém me pediu a opinião. a um feixe de ossos e pêlos desprendendo um odor de imundície e incenso. ter filhos. . Bernardone estava parado à entrada da loja. .respondi. . cala-te! Calei-me.Empurra-a apenas para a beira do caminho para que não a esmaguem." Não! Tudo continuava na mesma. . conduz o homem à Meta em bom estado..Não toques nisso! .Para onde vamos? Para Assis? Esse encontro não é bom presságio. verificava cada vez mais que existem dois caminhos para se chegar a Deus: o primeiro. na maioria das vezes casado. Partamos! . onde o santo que o escolheu fica reduzido. porém acho que a moça tem razão. Tomemos outra direção. quis dar meia-volta e mudar de rua. desfigurado. formar um lar.Um verdadeiro homem é o que ultrapassa os limites do ser humano. Ninguém prestava atenção. Queira Deus que eu tenha forças para resistir até o fim! Entramos na cidade.exclamou.afirmou. . . os ombros caídos.Iremos a Assis! . horizontal e uniforme. Irmão Francisco! Que Deus me perdoe.Ai de mim. . . Eu pensava: "Daqui a pouco começam a jogar pedras. E não olhes para trás. Pega o cincerro e toca! Casar. E agora. Fiquei com medo. E me embrenhei pelo caminho íngreme e sinuoso. . . íngreme e sinuoso. antes de atingir o Cume.Foi . pondo-se a correr. Ao avistar o pai. Um verdadeiro homem. por favor. sacudindo o cincerro e gritando: "Venham! Venham ouvir a nova loucura!" As pessoas paravam. . Francisco hesitou. pegando a rosa. Esta é a minha opinião. Prosseguimos. o segundo. gordo. pai de família.

repetiu Bernardone. apertando-lhe o braço.respondeu Francisco.disse eu baixinho. o seu rosto cobriu-se de rugas. disse: .Ânimo. . .. Bernardone baixou a cabeça sem falar. Seu primeiro impulso foi interferir.repetiu. Com os joelhos trêmulos teve de apoiar-se ao cajado. De repente. dirigindo-se à igreja. olhando maliciosamente aquele rico comerciante e o filho maltrapilho. Os olhos de Bernardone se encheram de lágrimas. ele me bendiz. Porém renunciou logo: "Que se arranquem os olhos se isso lhes agrada!". Enxugou-as com o avesso da manga. Ao mesmo tempo surgia o Padre Silvestre. . Enquanto me amaldiçoas. designando-me. . irmão .Então tu não tens dó de tua mãe? Francisco empalideceu. ela precisa ver-te! . Meu pai é ele .Dom Bernardone. e. este é que é o meu pai.Antes necessito pedir licença a Deus . Vem para casa. Desapareceu no interior da loja. vigário da paróquia de San Niccolò. Alguns passantes estacaram. Contemplou o filho longamente em silêncio. beijou-a. Bernardone virou-se e levou um susto quando nos viu. Abriu a boca para falar.Não tens dó de tua mãe? . Francisco avançou um passo e. mas o queixo lhe tremia. murmurou. segurando-me a mão. voltando com um cajado e precipitando-se para nós a rugir.Chora noite e dia.É aqui que deves provar a tua coragem. reconciliando pai e filho. Por fim levantou a voz num queixume: .

te perguntar: Viste o Irmão Leão?. seu corpo se esfumava e se dissolvia na penumbra da caverna. olhando o filho com ar súplice.Irmão . adeus. anda de uma vez! E se Francisco. estendeu os braços ao céu e emitiu um grito lancinante. Ajoelhou-se à entrada. vinho. do lado da cidadela. uma força sobre humana e implacável que desdenhava um pai e uma mãe e talvez até se regozijasse por tê-los abandonado. Realmente. Eu pressentia. se eu pudesse me esgueirar sem ser visto e fugir por uma ruela deserta! Entrar numa taverna. . murmurei. . Tinha quase chegado à cidadela. como se quisesse abafar as maldições ou os soluços. Ah. o filho de Bernardone. e precisamos ficar sós. . que Deus era esse? Não conseguia imaginar. Ele e eu. taverneiro! traze pão. . carne.disse ao deixar-me -. que Deus é esse?". responde-lhe: Não o vi em parte alguma!” Francisco conhecia uma gruta profunda no flanco da montanha. Era lá que queria isolar-se. encaminhando-se para a parte alta da cidade. "Que Deus é esse que separa o filho da própria mãe?” Observava Francisco. .replicou Francisco -. apertando a garganta com a mão esquerda. vou ficar aqui sozinho durante três dias. Até a vista. tenho fome! Estou morto de fome. Até lá. Virei-me por um instante e vi Bernardone petrificado no meio da rua. À medida em que falava.Não sei . pensando em minha pobre mãe morta. não sei. semimorto.Que Deus é esse que é capaz de te proibir de ver tua mãe? retorquiu Bernardone. sentar-me a uma mesa e bater palmas! "Ei. que seguia à frente. com passo apressado. oculta naquele corpo frágil. Deixa-me pedir-Lhe. Tenho várias coisas a pedir a Deus. falou. "Realmente..

as pancadas que tínhamos recebido no mosteiro e. Mas na manhã seguinte. Dona Pica escutou. levantou-se. o encontro do leproso. como o próprio Deus. . senta-te e conta-me tudo. "Quem pode afirmar". perdoa-me Senhor. vendome da janela. Como havia envelhecido e mudado! As faces rosadas estavam murchas. . mas os soluços a impediam. e depois fugia correndo. ainda não tomou nenhuma decisão.perguntou finalmente. Uma pergunta terrível lhe queimava a ponta dos lábios. porque a dor materna é muito grande. Secou as lágrimas com um lencinho. Um dia. Fiquei muito tempo a contemplá-lo. porém não ousava formulá-la. Tão grande. "que sairá vivo dessa prece?" Pressenti que a luta seria encarniçada e a vida de Francisco corria perigo. . desceu e mandou-me entrar.Onde está ele? . que não era outro senão Cristo. ao passar pela casa de Bernardone. a mágoa de Clara.Pega um banquinho. aproximou-se da janela e respirou fundo.Está numa gruta. Dona Pica. Dona Pica. Ele reza. o que os cristãos caridosos me davam. a partir do dia em que o filho se desnudara diante do bispo. reza. consulta Deus. Descrevi tudo. Senti pena dela. indagar. e rugas profundas sulcavam-lhe o rosto de cada lado da boca. Queria falar. Todas as noites depunha numa pedra.Parecia convidar Deus a aparecer. . Quando terminei. . encontrava o alimento intato no mesmo lugar.Deus não quer absolutamente que me veja? .Não sei. a nossa viagem a Ravena e a história do velho guerreiro. . .Que faz? . As lágrimas lhe escorriam pelas faces e pelo cabeção branco. por último. em frente à gruta. pensei. Durante três dias perambulei e esmolei em Assis.

Entretanto. para não andar sempre com os pés cobertos de feridas. e os olhos velados pelas lágrimas começaram a brilhar. a tempestade pode trovejar e o mundo mergulhar num abismo. adivinhando-lhe o pensamento -.Não sei.Sinto. De mim mesmo. teu filho sobe sem desfalecer. o caminho que escolhi não é nada cômodo! Suspirei. juro-te pela minha alma. . E virando-se para mim: . A essas palavras.Senhor. sim.Leva o alforje e enche-o . De Deus. . os degraus que levam a Deus. talvez.Se eu te der roupas de lã. Dona Pica sacudiu a cabeça. Dona Pica . Ai de mim. .Então não sente frio? . . trazendo o alforje cheio. Ah. . mas o espírito conserva-se lúcido e calmo. Por causa de Francisco. Cobre a pele com Deus e se aquece.Deus seja louvado . um a um.Não sente. grossas meias de lã e sandálias em bom estado.E tu.disse. crês que ele as usará? . não ousaria vestir os agasalhos que queres me dar. nobre senhora. Dona Pica. não sentes frio? Queres que eu te dê agasalhos? . Envergonha-me confessá-lo.Dona Pica .mandou. mas sinto.afirmei. . menos esburacada! A aia voltou.Por quê? . . não.murmurou. Dona Pica se ergueu.. como gostaria de me cobrir com uma malha de flanela. não Te peço outra graça! Chamou a aia.Não usará. . . . . Persignou-se. E uma capa mais quente. No íntimo. não.

Insaciável. No quarto.Então. Estendeu-me a mão. Insatisfeito. Irradiava como um carvão em brasa. Francisco surgiu à entrada da gruta. . mas eu tremia à idéia de voltar a ver Francisco. parei à entrada e esperei. Quem sabe em que redemoinho vai me lançar o seu colóquio íntimo de três dias? Coragem. Aquele que nunca diz "Basta!" ao pobre ser humano.Até hoje . Impiedoso. .. Dize a meu filho que faço votos que ele consiga realizar o que eu própria não consegui outrora. alma minha! Não largarei o hábito de Francisco. graças ao coração generoso de Dona Pica. Agora descobri novos. O alforje estava cheio de gulodices. porém. onde Deus consegue resistir.disse -. Escuta só como O chamarei: Abismo Insondável.Vai!. Senti medo. pois a gente se arrisca a cair num abismo terrível.têm-se usado inúmeros qualificativos para glorificar Deus. .falou . O que restava.. brilhava como a alma. estás pronto? Envergaste a armadura bélica. E que Deus te proteja. Tudo me alegrava. mesmo que isso me arraste ao precipício. "Falar com Deus durante três dias é um grande perigo. e quanto mais se aproximava de mim. de manhã cedo. Uma estranha alegria pairava em seu rosto. E que a minha bênção o acompanhe! Passaram-se os três dias.” E enquanto remoia essas coisas no meu espírito. Teria perdido a razão? Adivinhando o meu temor. Irmão Leão . A oração lhe consumira ainda mais carne. as joelheiras e o elmo de penacho azul? Os olhos rutilavam como se ele tivesse febre. a cota de malha. melhor eu enxergava os anjos e as visões que lhe enchiam as pupilas. Incansável. porém o homem soçobra... começou a rir. subi à gruta..

perguntei. colou os lábios aos meus ouvidos. que mais queres de mim?". queixa-se a criatura. . coberta de geada. e uma lágrima enorme lhe saltou dos olhos. Faze o sinal-da-cruz e aperta o cinto. sem trégua. A voz de Francisco enrouqueceu. sem parar em Assis. Compadeci-me. lá eu te direi". Anda. "vou rebentar!".Não basta! . dava a impressão de que acabara de nevar. responde Deus.O que é que Ele quer mais? . e as árvores ainda não estavam floridas.Não abandonaste pai e mãe? . ouve bem: "Não basta!" Eis o que Ele grita todos os dias e a qualquer hora da noite ao pobre ser humano: "Não basta!" "Eu não agüento mais!".Não basta! .Que mais quer Ele de ti? . e Ele respondeu: "Vai à minha igreja da Porciúncula.bradou . responde Deus. era fevereiro. irritado. Não reconstruíste San Damiano? .Perguntei-Lhe: "Senhor. Fazia um frio cortante. chegamos à planície.não basta! Se queres saber. Irmão Leão. Irmão Leão. choraminga o homem. A terra.Não beijaste o leproso? . "Rebenta!". vamos ver o que Ele quer. Nada de rodeios! Descemos a montanha correndo e.Aproximou-se mais. .Não basta! .Não basta! . e com voz tonitruante: . durante estes três dias e três noites na gruta. "Claro que agüentas!". o que Deus me disse.

endireitou as orelhas. Irmão Leão? . Era construída de mármore antigo. . A hera e a madressilva se enrascavam nela amorosamente. . É um bom agouro.Passando além de San Damiano e do olival. . não tens medo. penetramos num pequeno bosque de pinheiros e sobreiros. . E de repente.murmurou. divisamos a igrejinha de Nossa Senhora dos Anjos. virou-se e nos viu. Aqui estamos. Estava toda cercada por muros em ruínas.Que solidão! -. sem receio. e fizemos o sinal-dacruz.Viste. Continuamos a avançar. como se saísse desse templo solitário e fascinante ao nosso encontro. Bendita seja a semente que te gerou. . . Os nossos olhos se encheram de lágrimas. irmãzinha. . Respirou profundamente.Eis Nossa Senhora dos Anjos . Depois desapareceu novamente no meio da vegetação. abrindo os braços. Olhou-nos tranqüilamente. Francisco estacou.exclamou Francisco. e se pavoneou todo para nos saudar. a Porciúncula. felizes por te ver! Aproximou-se e acariciou o tronco da árvore: . e dentro em pouco. .Tu te enfeitaste para nós. feliz. semelhante a uma donzela vestida de branco.murmurou Francisco. Tomas a dianteira.Que paz! E enquanto falava.observou Francisco. surgindo de baixo dos galhos quebrados. e ergueu-se sobre as patas traseiras como se fosse dançar. nossa irmã! .Querida amendoeira. Pressinto que chegamos. és a primeira.Viste o nosso irmãozinho coelho? Ficou contente por nos ter encontrado. surgiu à nossa frente uma pequena amendoeira em flor. comovido. O sol aquecia os ramos dos pinheiros e o ar estava perfumado. um coelhinho. entre os troncos dos azinheiros.Bendita seja a mão que te plantou.

virão um dia sentar-se os primeiros irmãos. Debrucei-me e li em voz alta: . nem sapatos.que ousa enfrentar o inverno e florir. Senhor! . Não leveis nada. sustinham-na enquanto subia ao céu. Aqui. olha o sinal de Deus! Vai ler o que diz o Evangelho na página aberta. e sua voz era aguda como a de um falcão. maculado pelos dedos humanos. destacava-se uma pintura de Maria Santíssima. nem prata. Empurramos a porta e entramos na igreja. Flutuava nela um cheiro de terra úmida.Nada! Nada! Nada! Não levaremos nada. Nem saco para a viagem. seus pés descalços repousavam sobre uma tênue lua crescente. As aranhas tinham tecido em redor da estátua da Virgem uma rede espessa e delicadamente trançada.Irmão Leão. pregai dizendo: Aproxima-se o Reino dos Céus. Ao fundo. se Deus quiser.bradou Francisco. para que a tua voz ressoe na igreja e Nossa Senhora dos Anjos se alegre após tantos anos de silêncio! Os raios de sol que entravam pela janelinha caíam sobre o Evangelho. Seja feita a Tua vontade: Nada! Somente os olhos. as pernas e a boca para anunciar a vinda do Reino dos Céus. . A janelinha estava desmantelada. de braços possantes. Retiramos as teias e nos prosternamos. nem bengalas”. O Santo Evangelho estava aberto em cima do altar. Francisco me apertou o braço: ."E quando tiverdes partido. Lê bem alto. caídos do teto. roído pelos ratos. Gesso e pedaços de madeira. jaziam no chão. Uma infinidade de anjos rechonchudos. nem duas camisas. o rosto coberto por penugem sombria. . verde de mofo. Vestida de azul claro. Velho. sob os teus ramos em flor. os braços. Foi o próprio Deus quem a abriu para nos manifestar a Sua vontade. nem cobre em vossos cintos.

Deus exige muito do homem .Não me lastimo.Come. Lá receberás as minhas ordens.E o alforje? .Porque nos ama . não poderemos nos salvar. "E de que modo devemos lutar?". . Irmão Leão . . jogando longe o cajado e as sandálias: .Não te lastimes. Sentei-me no chão. Enquanto isso. as nossas almas e a nossa própria salvação. Se não salvarmos o próximo. corações capazes de amar e pés capazes de marchar . Irmão Leão: "Ide e pregai: aproxima-se o Reino dos Céus!" Esta é a nossa missão. apertando fortemente o alforje cheio. precipitadamente.disse -. Francisco me olhou compadecido e sorriu.Compreende. .Também! Não ouviste? "Nem saco para a viagem!” .Arrastou-me para fora. meu companheiro de luta. . só nos preocupamos com as nossas míseras pessoas.ordenou-me. Bebi e comi o mais que pude. como um camelo que se prepara para cruzar o deserto. Deus tem razão. Congreguemos em torno de nós o maior número possível de irmãos. Ao menos comamos antes de atirar fora.Não ouviste? "Nem bengalas. Não basta! Cumpre também lutar pela salvação alheia. E acontece que nosso alforje está bem provido." Eu ouvi e tu ouviste com os teus próprios ouvidos. Francisco me falava: . abri o alforje e me pus a comer com avidez. Havia também uma cabaça de vinho: bebi todo o conteúdo. e lentamente tirei o alforje do ombro.respondeu Francisco. . e até além. Irmão Leão. com bocas capazes de pregar. "Vai à Porciúncula e te direi.Por que Ele é tão desumano conosco? . eu posso resistir à fome. tenho fome.perguntei. . perguntei ao Senhor. nem sapatos!” . Até hoje. sentado perto de mim.protestei.Faze como eu .

Paz aos homens de boa vontade! . . e logo após: . Necessitamos uma legião. Virou-se para Assis.dizia a todos. . Francisco pegou o cincerro de carneiro que lhe pendia do cinto e se pôs a sacudi-lo para atrair os passantes. Para a frente! Comeste e bebeste. sem dúvida! Calou-se. de mãos estendidas: . Sem nada dizer. Que Santo Sepulcro.Quem foi que até hoje me impedia de alcançar Deus? Francisco! Faze como eu. Irmão Leão? Mas a alma humana. De regresso a Assis. É pela alma humana que eu trabalho. é por ela. . paramos na praça. A cidade brilhava ao sol. segui-o. afasta o Irmão Leão. é tempo de partir em busca de novos companheiros. Francisco persignou-se e me tomou pela mão. abriu os braços e disse: .indefinidamente. mas pela de todos os homens. Francisco desejou-lhes as boas-vindas. . pois era domingo. pois um novo combate nos aguarda. pensei. Um punhado de homens saiu das tavernas onde bebiam tranqüilamente.. "É o abismo que nos espera".Jesus crucificado habita o corpo do homem. Irmão Leão.Vamos . como uma rosa desabrochada. agarrando-me ao hábito de Francisco. Não só pela nossa.Paz aos homens de boa vontade! E quando a praça finalmente se encheu de gente.sugeriu.O verdadeiro Santo Sepulcro é ela .continuou. . Tu e eu já não bastamos. Sejamos os novos cruzados e partamos todos para ir libertar o Santo Sepulcro.

Eu também chorava. passava a maior parte da noite estudando as Escrituras Sagradas. De que maneira? Existe apenas uma: amar.Paz! Paz em vossos corações. As pessoas já não riam nem zombavam. o que diziam a respeito de Francisco lhe causava riso. começou a chorar.Paz. A rispidez de Jeová o apavorava. Via Francisco todos os .. porém. Conforme me segredou mais tarde. Era pouco mais velho do que ele. . Pensava que restaurar igrejas em ruínas. Jamais acompanhara Francisco em suas noitadas. para empregar seus próprios termos.recomeçava. e quando já não podia falar. com o nosso coração. Tinha a fisionomia grave. retinindo o cincerro. mas não conseguia falar. quando nos preparávamos para regressar à gruta a fim de passar a noite. olhos azuis e pensativos. percorria as ruas anunciando aos habitantes que Francisco ia falar. Cristo inundava o seu coração de doçura e melancolia. Que loucura seria? Bernardo não compreendia muito bem.clamava mais uma vez.Façamos a paz com Deus. beijar leprosos e desnudar-se em público significasse apenas novos caprichos para o filho querido de Bernardone. com os homens. Repetia sempre a mesma coisa. ao terminar a prédica. um negociante de tecidos chamado Bernardo de Quintavalle aproximou-se de Francisco. ao chegar ao Novo Testamento. . Amor! Amor! . A princípio. paz! . e de novo rompia em pranto. Francisco percorria as ruas de Assis e pregava com as mesmas palavras e as mesmas lágrimas. Todos os dias. De manhã cedo. Mas há algum tempo o antigo estróina andava pelas ruas pregando uma "nova loucura". Uma tarde. As mulheres saíam das casas ou subiam aos telhados para escutá-lo. agitando um cincerro de carneiro na mão. em vossas casas e em vossos inimigos! Paz ao mundo! Aproxima-se o Reino dos Céus! Sua voz enrouqueceu.

pensava Bernardo.Irmão Bernardo . enquanto os querubins e os serafins cintilavam por cima deles como estrelas. Dirigimo-nos à casa de Bernardo. Aquele mesmo rapaz que passava as noites na orgia? Será que Deus realmente lhe concedera a força de resistir à fome. Mas quando Francisco parou de falar. não devemos nos separar. A tua vinda possui um significado secreto. verdejante. refulgente de luz. chorando e lutando para salvar os homens do pecado. na relva eterna. Que quererá de mim?” Naquela tarde não se conteve. que verdadeiro milagre! Ontem à noite. Os santos passeavam com os arcanjos. . meu irmão. Francisco encarou-o. ao frio e ao desprezo? "Se eu tivesse coragem". O ar era um formigueiro de anjos. "falaria com ele. Não cessa de atormentar-me o espírito e fazer-me sinais. recordas-te de mim? Eu me chamo Bernardo de Quintavalle.dias na praça. Pela janela aberta lhes surgia o paraíso. eu te vi em sonhos. Puseram a mesa. Francisco começou a falar em Deus.exclamou -. conversando de mãos dadas. É Deus quem te envia. justamente. e sinto-me contente em ver-te. Dá-me o prazer de passar a noite em minha casa. de ouvido colado às portas. Uma criada rompeu a soluçar.Irmão Leão. o mundo voltou a ser o que era.. Os criados escutavam. Aproximou-se de Francisco e disse: . Do outro lado da janela. . Notou em seus olhos tristeza e um grande fervor. reapareceu o pátio com o poço cercado de flores. O paraíso a acolhera por um . vem junto. na alma humana e no amor.Dom Francisco. gritando. vamos! Fez-me sinal: . segundo dizia.

Dizem que a noite é a mais fiel mensageira de Deus. és tudo para mim! Meu Deus. és tudo para mim! E assim foi até o amanhecer. E.fugaz instante. Francisco. . A mais preciosa também. Veremos que espécie de mensagem trará. Do abismo de Deus. Bernardo escutava de cabeça baixa. ajoelhou-se no soalho.Dom Francisco . e de repente ela reassumia a sua simples condição de empregada na terra. Saiu para o pátio. começou a rir. tive a impressão de que o mundo se desvanecia. julgando que Bernardo adormecera. extasiado. levantou-se. No silêncio que se seguiu às palavras de Francisco. também fingiu adormecer. fingiu que dormia e se esmerou em roncar. por sua vez. apurando o ouvido. tu e eu. imaginou o novo amigo cantando pela estrada e virando-se de vez em quando a lhe fazer sinal para que o acompanhasse. durante todo o tempo que falaste. ouvindo a prece de Francisco. juntou as mãos e começou a rezar em voz baixa. para disfarçar a emoção. acrescentou: .Consta que a santidade é moléstia contagiosa. esta noite dormiremos. escutou apenas as seguintes palavras: . Veremos! O intuito de Bernardo era pôr Francisco à prova. Passara a noite em prantos.Meu Deus. . Bernardo se levantou.disse. Só então Francisco voltou a se deitar e. . Ao se levantar. Apenas restava a alma humana cantando à beira do abismo. Bernardo. erguendo o rosto -. no mesmo quarto. Já era quase meia-noite. Mas eu não saberia distinguir entre a realidade e o sonho. Assim que se deitou.Dom Francisco.

Cristo. Assim fiz durante anos a fio. Dom Bernardo? . . .Assim tão cedo? Como é possível? Mas que palidez é essa?. . Irmão Bernardo . Preparávamo-nos para sair quando bateram à porta. Que devo fazer com o tesouro? . Tem dó de mim e acalma-me o coração. Vamos à igreja e interroguemos o próprio Cristo. . era Deus! Apareceu Francisco. pertence-Lhe.O que me pedes. Mas fala.Ouço-te. Quem é esse poderoso Senhor? . Passou o tempo todo rezando.Deves restituí-lo a quem te confiou . Bernardo então prostrou-se a seus pés.Francisco não dormiu a noite inteira. É Deus.O que aconteceu. porém não serei eu quem há de acalmar o teu coração.Um pensamento me atormenta.disse por fim -. Como farei para restituí-lo? Francisco ponderou. . Dom Piero? . . . tirando água do poço. Uma grande labareda iluminava-lhe o rosto. Irmão Bernardo. Dom Bernardo. . Dom Francisco. Francisco tomou o amigo pela mão e o ergueu. . recebi Dele.Um poderoso Senhor me confiou um grande tesouro para que eu o guardasse. dize-me qual é a tua dor. Tudo o que possuo. Virei-me e percebi seus olhos vermelhos.Eu já estava acordado. Bernardo abriu-a e deu um grito de alegria: .Não era labareda. . porém agora tenho de partir para uma longa e perigosa viagem. Não posso responder.exclamou.Tu. é uma coisa grave.respondeu Francisco.

Era um homem corpulento. . decidido a não receber pessoa alguma. Ele bebeu. como esses pergaminhos preciosos nos quais os monges escrevem a Paixão de Cristo. a barba curta e anelada. Tu o conheces. murmurou o rapaz.disse -.. esse espírito brilhante era todo paixão e flama. Quando recobrou o fôlego: .Falarei na presença deles. meu filho". Por isso eu o estimava.Estás só. não faz diferença . Ele vivia mergulhado nos livros. entrando no pátio. Deixou-se cair num banquinho.. tenho uma graça a te pedir". respondeu. fato raro. que estimava como a um filho. o filho de Dom Bernardone. Morreu anteontem. "Pede o que quiseres.No dia em que agonizava. Bernardo? .replicou Piero. de porte nobre. Guido. . estendendo-me . Veio com um amigo. devo contar tudo desde o início. Vinha de vez em quando descansar em Assis. a quem os estudos e as vigílias haviam sulcado as faces. seu discípulo predileto morrera em Bolonha. possuía o bom senso e a instrução de uma pessoa idosa. viera refugiar-se em casa da família.Dom Piero era um eminente jurista da Universidade de Bolonha. sua cidade natal. Não podendo suportar a dor. O rosto era seco. Apertou os lábios para abafar um soluço. meu pai". Eu tinha um aluno.Desculpem-me ." "Prometo". Aos vinte anos. com olhos cinzentos e severos. ofegante. Francisco.Não. "qual é a graça?" "Que venhas uma noite durante o meu sono e contes o que se passa no outro mundo. mas duas grossas lágrimas rolaram-lhe dos olhos. está aqui. E. Poucos dias antes. Bernardo encheu um copo de água e entregou-lhe. falei "se Deus decidir chamar-te à Sua presença. . curvei-me à sua cabeceira: "Guido.

que se abriam. e vim para cá esperar. agitava os manuscritos. . Finalmente. Piero . pôde continuar: . as hipóteses filosóficas e jurídicas. "e luto por chegar ao purgatório. Vergava ao peso do papel e se esforçava por avançar. não. onde decerto estavam assinalados os problemas. estes papéis não deixam. serenamente..disse -." Um de seus olhos então se transformou numa lágrima. subir ao purgatório e. Mas não posso. Abandonei Bolonha imediatamente. sujo de grama e lodo. E no mesmo instante entregou a alma. Ficamos tomados de medo. . Piero se levantou.Não. Francisco e eu nos curvamos para ouvir melhor. de lá. atingir o paraíso. . e as inquietações teológicas relacionadas com a nossa salvação.Ânimo. na solidão. O vento soprava. sem o conseguir. A emoção lhe embargava a voz.a mão.Trazia um estranho hábito . que o morto me apareça em sonhos. que rolou sobre mim e me queimou a mão. tais como: a maneira de escapar ao inferno.. meu filho". veio. revelando o esqueleto do rapaz. não era um hábito. Bernardo ajoelhou-se a seu lado e pegou-lhe a mão: . Mas Francisco apenas sorria. . mas tiras de papel costuradas em torno do corpo.E hoje de madrugada. retoma fôlego e repete-nos o que ele te disse. "Guido. "que significam esses farrapos de papel que trazes e te impedem de caminhar?" "Venho do inferno". . Dom Piero tornou a se calar. exclamei.prosseguiu Dom Piero. . Olhem! Ergueu a mão direita e exibiu uma chaga rubra e redonda como um olho. respondeu. . Provavelmente notas redigidas no curso dos estudos. . .

não sei. vai. . pensativo. abrindo-o pela segunda vez.exclamou Francisco. barcos e ondas. Francisco empurrou a porta e entramos.anunciou. e passamos adiante sem sequer parar. dirigindo-se à porta. marcou a página com o dedo e leu em voz alta: "Se buscas a perfeição.. os dois amigos enlaçados atrás dele e eu fechando a retaguarda. "prontas a tomar o caminho íngreme e sinuoso . . fez o sinal-da-cruz e apanhou o grosso Evangelho encadernado de prata: .disse . tu me fizeste uma pergunta.disse Francisco -. a fim de adquirires desse modo um tesouro no céu".Qual será essa tua vida nova? . O crucifixo e uma lamparina acesa encimavam o altar. . que me transmitiu a mensagem de além-túmulo.. Louvado seja o meu discípulo bem-amado. Mais longe ficara a Capela de San Niccolò.Ainda não sei. vende tudo o que tens e dá aos pobres. Havia muita gente. Cristo vai responder a ela. ajoelhou-se. sim! . meu caro Piero? indagou Bernardo. Fechou o Evangelho e. Abriu o livro sagrado. Na parede. . tomar a sua cruz e me seguir!” . Estava deserta. Antes de vir aqui.” Na Igreja de San Ruffino rezava-se a missa. "Essas duas almas estão prontas". pensei.está tudo acabado.E agora .Eis a boca de Cristo . uma pintura representava o santo cercado de peixes. . Libertei-me. . . Louvado seja o Senhor! Vou começar vida nova.Irmão Bernardo . Agora ajoelha-te. queimei todos os meus manuscritos e livros. leu: "Se alguém quer me seguir.. deve renunciar a si próprio.Pois eu.E por que caminho pensas te embrenhar. Venham comigo! Caminhava à frente. Francisco se aproximou do altar.respondeu o sábio.

estou pronto. perturbado -. não .. Pois devemos devolver aos nossos pobres irmãos o que lhes tomamos. . veste os que estão nus! Quebra a vara de medir.Partamos. . . fazendo brotar as primeiras folhas nas árvores. dá. voltando-se para o altar. chama os pobres. as tavernas se abriam.Vamos . Irmão Bernardo? . prosternado nas lajes. . liberta-te. Queres que a boca de Cristo se manifeste outra vez? .Eu também . a pena. . aquecendo a terra. impedindo-a de alçar vôo! Então.incitou Francisco. que escutava. esvazia os cofres.perguntou. Não te sentes mais leve? E agora. distribui-lhes as mercadorias.Ainda hesitas. que. As igrejas se fechavam. nos ouvia. e torna a dar. radiante. o sol despontava.Depois ajoelhado. Tirou do cinto a chave da loja e se pôs a correr. A menor moeda de ouro pesa na alma.Damos uma lojinha e em troca obtemos o Reino dos Céus. não percamos tempo . é a tua vez! Abre os teus armazéns. Dissipando-se as nuvens. Dom Piero. a multidão se reunia na praça. obedeceste a Cristo queimando o que era a tua riqueza: os manuscritos. estreitando os dois neófitos que caminhavam. chorando. .Não. Os fiéis saíam da missa. os livros. um à sua direita e outro à esquerda.Ah. dirigiu-se ao crucifixo: .bradou Bernardo.Tu. .. fica sabendo. . virou-se para Bernardo.sugeriu Bernardo. Era Dom Piero.disse uma voz atrás dele. Senhor! Como vendes barato as tuas mercadorias! exclamou. Irmão Bernardo. Queimamos uma pilha de papéis velhos e por esse preço entramos na eternidade! .

tanto as almas como as árvores. vai. . lembras-te do que Cristo disse? Desculpa-me a impertinência de recordar-te: "Se buscas a perfeição. . pôs-se a gritar: .Ei. no limiar.Estou tão contente! . as meninas. de pé. brincando com um.disse-lhe -. aproximem-se! Vou distribuir todos os meus bens. De vez em quando se virava para Francisco: . mexendo com outra! De tesoura na mão. .murmurou . Dava gosto ver como acorriam as mulheres.dizia-lhe.Que lástima . que passava. cortava e distribuía as suas riquezas. venham. a fim de adquirires desse modo um tesouro no céu". . eu soube. em nome de Deus! Francisco ocupava a sua direita e Dom Piero. fora Francisco quem me ensinara. vende tudo o que tens e dá aos pobres. que aqui embaixo tudo obedece à mesma lei divina. Francisco adivinhou-lhe o pensamento. os velhos! Como seus olhos brilhavam e com que avidez estendiam as mãos! Bernardo ria. à esquerda. Chegamos à Piazza San Giorgio.Quantas vezes vi a primavera em minha vida! E no entanto me parecia senti-la de uma forma inédita. . e que a própria alma tem a sua primavera. Ficou penalizado. enquanto eu transportava as peças de tecido e as empilhava os seus pés. maltrapilhos. mendigos. Pela primeira vez naquele ano. Bernardo abriu a loja e.Padre Silvestre -. viu Bernardo repartindo os bens.Tão aliviado! O Padre Silvestre.que tal riqueza se perca dessa maneira! Aquele desmiolado do Francisco decerto lhe subiu à cabeça! Parou e contemplou o grupo com ar desaprovador. que a faz abrir e desabrochar a maneira das flores. . feliz.

a viúva. várias eminências reuniram-se em casa de um tio de Bernardo para combinar o modo de se desembaraçar daquele novo tipo de peste. Padre Silvestre! . Bernardo apanhou a vara de medir. Ao cair da noite.chamou. . quebrou-a e lançou-a na rua. pobre pecador! Se Francisco estivesse mais perto teria visto duas lágrimas saltarem dos olhos do padre.Serenei! Deu o braço a Dom Piero e seguiram Francisco. o sacerdote de Deus. conhece-as melhor do que eu.O Padre Silvestre pigarreou. Era preciso tomar cuidado! Os seus filhos podiam também perder a cabeça e distribuir aos maltrapilhos os bens que lhes tinham custado. E não me chamo Egídio se não o . o suor do rosto. durante anos. Na humilde residência de Dona Giovanna. . O mal parecia contagioso e atacava de preferência os jovens. Na mesma noite.exclamou. que se persignava e abençoava o nome do novo santo. . O vigário se virou. . As velhas eminências tomaram a resolução de ir ao paço episcopal e depois à prefeitura para tentar deter o escândalo.disse. um libertino não se transforma tão facilmente em santo! . vamos. Francisco arrependeu-se imediatamente de tê-lo ofendido: . corou e se afastou.Louvado seja o Senhor .Padre Silvestre. Fez o mesmo com a tesoura e depois se persignou. pois era assim que chamavam Francisco ultimamente.vou sair à procura desse teu São Francisco com um garrafão de vinho e um leitão assado. O estranho procedimento de um rico comerciante e de um douto jurisconsulto emocionou a população de Assis. Cumpria portanto expulsar esse louco. um robusto latagão de pele trigueira aquecia-se à lareira. fazendo troça da velha tia.Ora.Recordei-te as palavras de Cristo e peço-te perdão! Tu. que corrompia o espírito e arruinava os lares. . sobravam na loja apenas as quatro paredes nuas.

De tal modo tudo se confundiu em meu espírito. enquanto eu bater palmas. da pobreza e da paz. ele dançará como um urso. Aproxima-se de Deus e se entrega a Ele sem uma palavra. Logo de madrugada. Francisco. não interroga e quase não aprofunda nada. e via-se perfeitamente. Depois hei de amarrá-lo à ponta de uma correia e levá-lo até a praça. ajoelhava-se debaixo de uma árvore para rezar. O espírito é o advogado do Diabo. meu pai me deu uma surra. os dois novos irmãos e eu saímos de Assis e encontramos refúgio na capela deserta da Porciúncula. Um dia que jamais esquecerei. . . que senti vertigens. Dom Piero disse: . porém.Dom Piero (sempre o tratava assim. a salvação do mundo e o terrível mistério da Encarnação. Passaram-se alguns dias. abençoou-me às escondidas. morto de bêbado. o coração é o servo do Senhor. O coração. tens razão. interrogar e aprofundar. Prosterna-se e dizlhe "Seja feita a Tua vontade!” Francisco sorriu. Não me contive: "Mestre". graças aos novos irmãos. Ali rezávamos durante horas a fio. "cala-te. E eu. construímos uma cabana de troncos. rebocada com gesso. um sábio teólogo veio passar o Natal em Assis. Foi o nosso primeiro convento. Minha mãe. Quando eu era estudante. não fala. E. Francisco nos falava do amor. para que possamos escutar Jesus chorando na manjedoura!" Quando cheguei a casa. Irmão Bernardo raramente abria a boca.derrubar por terra. em compensação. aprendi a calarme. por respeito). ajoelhados e de olhos postos no céu. que antigamente vivia fazendo perguntas. Diante da amendoeira em flor. Subiu ao púlpito de San Ruffino e começou um sermão inacabável sobre o nascimento de Cristo.O espírito só sabe falar. bradei. Da paz da alma e da paz do mundo.

Uma manhã. desapareceu apressadamente entre as árvores e voltou. de mãos vazias. ouvia boquiaberto. se Te amo unicamente porque desejo entrar no paraíso. Lançou-se aos pés de Francisco: .dizia Francisco -. Estava pálido e duas lágrimas imensas rolavam-lhe pelas faces. notei que um indivíduo se aproximava furtivamente. escondido. . Um cheiro de carne assada me titilou as narinas. abre os braços e me recebe. pouco depois. dia da grande festa de São Jorge. nós nos dispersávamos: uns à procura de água ou lenha.É a casa de Deus . O homem que escutava escondido afinal se mostrou. passava a língua pelos lábios como se estivessem untados de mel. e Francisco para pregar o amor nas ruelas de Assis ou nas aldeias vizinhas. Francisco.Senhor . começou a contar o que dissera a Deus e o que Ele lhe respondera na noite precedente. O indivíduo. se lhe ocorria pronunciar o nome de Cristo. Quando o sol começava a subir no céu. Sobraçava um garrafão de vinho e trazia um objeto enrolado em folhas de limoeiro.pelas pálpebras cerradas. outros para mendigar. conforme fazia todas as manhãs. . e exclusivamente por Ti. estando ajoelhados no tugúrio fazendo a primeira oração matinal. manda o anjo com o gládio para que me feche à porta. Chegou perto e espreitou através dos ramos. Levava comumente uma vassoura para varrer as igrejas. bem-constituído e de estatura invulgar. as faces cavadas e o balbuciar dos lábios. precipita-me nele. e eu sou o Seu varredor. E se por acaso nos dirigia a palavra. De repente se virou. que falava a Deus. Era um homem moreno. colando o ouvido contra os troncos da cabana. Mas se Te amo por Ti.dizia -. Se Te amo porque o inferno me apavora.

a multidão nos aguarda.Vamos . de passo lesto. Irmão Egídio ficou com inveja e se pôs a . venho de Assis e fazia troça de ti. Ao crepúsculo.Irmão Francisco . Irmão Egídio? replicou rindo. mas eu também fiz o mesmo com ele! A princípio eu dançava sozinho perante Deus. E atrás dele. porém. obrigando-te a dançar em plena Piazza San Giorgio. Ainda fico encabulado diante dos homens. Piero e eu ainda esperávamos. onde o povo decerto está reunido neste dia de festa? Tu baterás palmas e eu dançarei. Pegou-o pelo braço e levantou-o. Depois. Bernardo.disse -. enorme. E partiram. Enquanto conversávamos. Francisco chegou. . Francisco tomou o companheiro pela mão e se aproximou de nós: .comentei.retrucou Dom Piero. .. enquanto ele batia palmas. . Mas prosseguiu: .Que demora .Ele me fez dançar . calando-se logo. Apostei como seria capaz de te embriagar.Precisamente na Piazza San Giorgio.Será que Irmão Francisco ainda está dançando? . . sentados diante do tugúrio.Ele está sempre dançando . Não quero que percas a aposta.Eu infelizmente não teria ânimo de fazer coisa semelhante. todo sorridente. o que significa que não fico encabulado diante de Deus. perdoa-me! O meu nome é Egídio. na ponta de uma correia! .disse rindo -.E por que não? Por que não iremos dançar. vinha Egídio.exclamou -.

Francisco acariciou os ombros largos do gigante: . . as árvores.Hoje festejamos o teu nascimento.trouxe algo de bom para comer e um garrafão de vinho.bradei em coro com Bernardo e Piero.. segurando-me pelos ombros.Bem-vindo seja o nosso novo irmão! . Irmão Egídio.disse finalmente . .Dançar é maravilhoso! Irmão Francisco.Não quero outro trabalho . Traze.exclamou Francisco. amigos! Dançar em conjunto é coisa inteiramente diferente de dançar sozinho! No começo são dois. enfim a Criação em peso dança diante do Criador. . parecia que a Criação em peso dançava conosco perante Deus. cem mil. e corremos os três a abraçar Egídio. abrindo-lhe os braços.Bem-vindo seja! . Quis falar. eu dançaria séculos de bom grado. segurando-te pelos ombros. Depois os animais. . . pois. . . Para falar a verdade. . Irmão Egídio? .dançar comigo. trinta. . a humanidade inteira. bebamos um copo de vinho à tua saúde.Irmão Francisco. soerguendo o garrafão para beber.brindou Francisco. rindo. os instrumentos do pecado! Egídio correu em busca do leitão assado e do garrafão de vinho que escondera numa moita. mas hesitou. os mares e as montanhas.À saúde de Irmão Egídio! . .Que alegria. depois três. . . Não é mesmo. . .respondeu este. . Ele ficou encabulado. Deus às vezes admite que se cometa infidelidades à Santa Fome e à Santa Sede.

os olhos vermelhos de pranto e as mãos trêmulas. Francisco abriu os braços: . Sempre surgia algum impedimento. O coitado chorava. de cabeça baixa. erguendo os olhos..Poucos dias depois. esforçava-se por ver Deus sem o conseguir. Padre Silvestre. pois muito o estimava.As palavras que me dirigiste outro dia eram de fogo.falou . compreendi o sentido da pobreza e do amor. depois de muitos anos. Então. o Padre Silvestre apareceu no limiar da Porciúncula.Que trazes na tua trouxa? -. abençoada seja a tua vinda. Pegou-o e quebrou-o em mil pedaços..respondeu o sacerdote. Que bom vento te traz à nossa humilde morada? . Uma manhã. joga fora tua trouxa.Muda de roupa-branca.O vento de Deus . não ardiam. mas eram simples palavras. minhas melhores sandálias e outras coisas que estimo. graças a ti.que. E no entanto eu o lia todos os dias. São as palavras de Cristo! . Por isso vim. Irmão Francisco. Queimaram e purificaram o meu coração. como se nunca houvesse lido o Evangelho. Em vão. Padre Silvestre. acordou todo contente. enxergou Deus pela primeira vez. são as palavras de Cristo. se queres ver Deus. Agora. .Não eram minhas. . Francisco sorriu: . Sobraçava uma trouxa. na hora em que nos dispersávamos para o trabalho cotidiano. .Houve certa vez um eremita . Ao vê-lo. mas tu as repetiste de tal modo que me pareceu ouvi-las pela primeira vez.Sim. suplicava. Descobrira o motivo! Tratava-se de um pequeno cântaro que não pudera abandonar com o resto de seus bens. Compreendi qual é a vontade de Deus. .Padre Silvestre . gritava.saudou -.

um chapéu alto de veludo verde. . Gaguejava. elegante e eu maltrapilho. Menos guardar as sandálias . Envolve o mundo. reconheci logo: era aquele vadio que ridicularizara Francisco na famosa noite em que eu. até dormindo.Queria ao. Possui olhos numerosos. alto e desengonçado. é para te escutar em sonho: "Acalma-te.Irmão Francisco. enfeitado com fita encarnada. Desdobra-se e enche de luz as almas mais humildes. partamos! Dito isso.Não discutas.disse. Giovanni de Capella. .No paraíso entra-se descalço! .falou o padre.O sacerdote hesitou. A Tua graça. usava grandes bigodes retorcidos.Por amor a Cristo. . . sempre hesitante. . decorridos apenas alguns dias da vinda do Padre Silvestre.insistiu Francisco. não sinto raiva de ti.Vem comigo . Francisco tomou-o carinhosamente pela mão: . que eram o escárnio de Assis. darás essa trouxa ao primeiro pobre que encontrarmos. apresentaram-se à Porciúncula e beijaram a mão de Francisco. Eu te invejava porque eras rico e eu pobre. como o lobo se lança sobre o cordeiro para devorá-lo. possuía um nariz pontudo e boca de lebre. Sabbatino. Não consigo mais dormir! E se adormeço por um instante. é grande e rica. dois homens insignificantes. pedindo-lhe que os acolhesse entre os irmãos. tinha cara de fuinha e um sinal de nascença com pêlos no nariz. belo e eu feio. a quem chamavam de Giovanni de Capella porque usava sempre. meu irmão. Padre Silvestre! . Eram Sabbatino e um outro. Assim. Era magro. recémchegado a Assis. No paraíso não se entra com trouxas. procurava um cristão que me desse uma esmola. . como a cauda do pavão. lançou-se sobre o Padre Silvestre para conduzi-lo ao paraíso. não posso dormir: caluniei-te. . Irmão Sabbatino. Senhor. desfigurado.

renegar o amor. desfez-se em pranto. Irmão Francisco. não resistindo. O único refúgio que me resta é Deus. meu irmão. . O teu chapéu é capaz de te levar direitinho ao inferno. Por isso vim. . porém me habituei a este chapéu.disse. . profundamente. Mas logo adquiriu uma expressão severa: . como se fosse a minha própria cabeça. Irmão Francisco. e esse cume é Deus. . . Seguir-te-ei até a morte. Francisco teve dó. Talvez estranhes. Se não permitires. . Não quero saber de capuz. Após o hábito. . terei a impressão de andar decapitado. O neófito. podes repudiar os irmãos. irmão .Tenho confiança em Deus.advertiu -. sou um homem perdido.te seguirei até a morte. Estou cansado do mundo e o mundo cansado de mim. Pôs a mão no ombro dele: . Ao passo que o mau caminho conduz a um abismo..disse Giovanni de Capella . Irei embora. Faze de mim o que quiseres. Mas fico sob uma condição: tens que me deixar usar o meu chapéu.dorme!" Tua bondade me fere o coração.Fica . . quem sabe não é o Diabo que está sentado na tua cabeça? Toma cautela para que ele não te leve pelo mau caminho! Após o capuz és capaz de recusar o hábito. Em seguida prosseguiu: . . e após o amor.Cuidado. Fitou Giovanni de Capella nos olhos.Eu também . abjurar Deus! Calou-se e ponderou um momento. Francisco desatou a rir. Não agüento mais. e esse abismo é o inferno.O caminho áspero que trilhamos conduz a um cume.Se não me permites conservar o chapéu.

irmão? . e agora. Levantam-se perturbados. Então apanhei esta bilha. E de repente o passado se lhes afigura vão e inútil. Não tinha esposa. gordo e jovial. Mas quando escutei tua voz. . Cavoucava a terra.Meu irmão .Tomara que o meu coração se rompa do mesmo modo e que as faltas que o envenenam se esparramem também pelo chão. podava a parreira.. que pensava ser inocente.disse -. compreendi que era um desgraçado..exclamam -. Um dia chegou um aldeão que devia ter uns trinta anos. Uma noite ouvem o seu nome pronunciado no silêncio. enfim.Há muitos homens neste mundo que.. Julgava ser feliz. Francisco afagou-lhe a mão com ternura: . venho quebrá-la a teus pés. Então caem aos pés de quem os chama. dominado pelo Maligno. vivia. É indiferente que sejam honestos pais de família ou vagabundos sem vergonha. vi os sete pecados mortais. salva-me! És quem eu esperava! Não passava um dia sem que um homem viesse à Porciúncula lançar-se aos pés de Francisco: . escrevi o nome de cada um. Contemplando o meu coração. salva-me! . moldei nela todos eles. . meu Pai. açodem pressurosos ao primeiro apelo. . desfazia-se de suas vestimentas para envergar o hábito cinzento.Leva-me . como vês. . escuta-me: eu vivia tranqüilo na minha aldeia. vindimava. Prostrou-se aos pés de Francisco: . nem preocupações.exclamava.És quem eu esperava! E. Trazia uma bilha na qual estavam esculpidos os sete pecados mortais. Que o Diabo carregue todos os sete. aspirando à salvação. E deixou cair a bilha nas pedras. após brevíssimo tempo. nem filhos.Protege-me.Qual é o teu nome.

Irmão Francisco..E não tens mais no que pensar? . . meu Junípero. a morte! .Numa manhã em que colhi um fruto da minha figueira. . . . Curvou-se: .Por que choras? . Irmão Francisco. .perguntou. . .E se abríssemos a porta e saíssemos?. Tomou-me a mão. súbito. vou te dizer uma coisa.Queira Deus.E se abríssemos a porta e saíssemos?. . Mas promete que não a repetirás a ninguém. . . ao meu lado. Adão e Eva conversam no paraíso: . o frio. . minha alma ficava no paraíso. . . . Esquecia a fome. Irmão Leão.Chamo-me Junípero. . Deus me perdoe.Para ir aonde. Mas. a dor. eu as escutava no íntimo! Quando ouvia Francisco.Prometo. Sentou-se no chão. uma voz revoltada me gritava: "Foge!” Um dia Francisco me encontrou aos prantos. . e por isso choro.Escuta.Não. batendo em meu ombro.No quê? . .Estava pensando. meu bem? Lá fora existem a doença. Essas duas vozes. . que milhares de almas venham construir os seus ninhos sobre os teus ramos! 6. o mundo.

velho amigo. Francisco começou a rir: .A nossa vida é muito árdua. Como poderás suportá-la? Infeliz daquele que se acostumou à boa mesa. O ar se encheu de vozes fascinantes e mãos que me impeliam a partir.insisti. . que nos fornecera o primeiro hábito dizendo que Deus não bastava para nos aquecer e que tínhamos necessidade de roupa quente. Um dia.Sou todo ouvidos. logo que vieste à minha casa. ergueu-se e repentinamente falou. O que se escondia por trás me escapava. arqueado. depois de ter jogado as chaves no rio. enxergava apenas o mundo visível.Irmão Leão. Permaneceu calado. Porém. ou antes. É crença geral que. sumiu por entre as árvores. Naquela época eu estava cego.Então. afluíram à Porciúncula. alguma coisa mudou. de sua alma. Dito isso. chegou o nosso velho amigo Ruffino. retirou-se e. Ela pensa em todos os prazeres proibidos que nunca provou. Ao pôr-do-sol. então. Assim as almas.Enquanto me segurava a mão.Perdoa-me. . Ao vê-lo. Irmão Francisco. aquecendo a minha. com a voz embargada: . abri a porta e fugi. e chora.. Irmão Francisco . as abelhas pressentem o aroma no ar e açodem a sugá-la. aos tecidos macios e à ternura feminina! . naquele dia. parece-me que a tua roupa quente não é suficiente para te aquecer: também precisas de Deus! Ruffino baixou os olhos: . caro Ruffino. pressentindo a gota de mel que era a alma de Francisco. ou melhor.. não me contive. eu sentia o calor de seu corpo. a Virtude se mantém sozinha no alto de um penhasco deserto. Largou a minha mão. ao cair uma gota de mel em algum lugar.

todo de veludo.Não me desprezes.Poderás. Agora despe-te e veste o hábito cinzento. Irmão Ruffino.gritou Francisco -. . Ruffino ficou em silêncio. A serpente vem lamber-lhe as orelhas. .. acolhe-me! . . . sim! Tiveste a coragem de dizer: Não poderei! Por isso poderás. enfiar o capuz na cabeça e andar descalço pela lama. Acompanha-me e te sagrarei cavaleiro do Exército de Cristo. mas poderá o espírito suportar a nossa certeza sem se revoltar? Porque a revolta é a pior tentação para o infeliz que escolheu a árvore da sabedoria.Creio que não. os olhos e a boca. entramos no domínio da certeza. Francisco encontrou um sujeito vaidoso passeando. numa aldeia. Nós aqui nunca formulamos perguntas.Então? . espada. .perguntou Francisco. não achas que é tempo de deixares de te enfeitar e alisar o bigode? Já é hora de passar a corda à cintura. . O coração está mais próximo de Deus que o espírito...Olá. Tu te lembras do gabão de pastor que nos deste? Foi por aquele modelo que cortamos as nossas túnicas. .retrucou Ruffino com voz desesperada.Achas-te capaz de suportar? . veste-te de terra! Em outra ocasião. Acredito que possas resistir à fome. Só ele conhece o caminho do paraíso. e deves ter a cabeça cheia de dúvidas. Creio que freqüentaste a douta Bolonha. Obedece ao teu coração. florzinha . Irmão Francisco! .Outra coisa. contemplando o amigo com ternura. esporas e plumas no chapéu.Não poderei! Francisco tomou-o nos braços. ao frio e à concupiscência.Muito mais infeliz é quem não consegue se desacostumar protestou Ruffino. amigo Ruffino. Os cabelos cacheados exalavam perfume. São da cor da terra.

No momento em que era pregado à cruz. ele soltou um grito tão lancinante que não pude conter os soluços. Os irmãos andavam a mendigar. Contemplava as mãos e os pés e suspirava.O janota cofiou o bigode.falou. Veio para junto de nós e lançou-se aos pés de Francisco. Não se passaram três dias e ei-lo apresentando-se à Porciúncula. Atordoado como um pássaro fascinado por uma serpente. Estava alegre e começou a gracejar.troçou.. Tinham pintado de vermelho os pés e as mãos do intérprete de Cristo. pedindo-lhe a absolvição. Absorto em suas reflexões. por um grupo de atores ambulantes. o ator foi lá para casa. os pés e as palmas das mãos me doem. ajoelhando-se e beijando a mão de Francisco. quando penso na Paixão de Cristo. .Espera até que eu fique doido . pois nunca sabia se sairia vivo da oração. como sempre fazia quando ia rezar. Acolhe-me! Mas Elias. Minha mãe o convidara à nossa mesa. examinou o maltrapilho que lhe dirigia a palavra e pôs-se a rir. após prolongado silêncio -. Lembro-me de uma representação da Paixão no adro de San Ruffino.. o terrível tubarão. Apenas Bernardo se achava no tugúrio. Francisco e eu estávamos parados no limiar da Porciúncula. só foi capturado pelas redes de Deus algum tempo mais tarde. . Finda a representação.. . como se estivessem perfurados.Aqui estou . O sol ainda não se pusera.Irmão Leão .disse. Porém não vejo pregos nem sangue.Estou farto de perder tempo a me enfeitar e alisar o bigode. Ângelo Tancredi se deixou prender nas redes de Deus. O povo gemia. irromperam lamentações por todos os cantos. . as mulheres começaram a bramir. Francisco permaneceu calado. .

A cabeleira lembrava a juba de um leão. quero empreender uma grande tarefa. mas na realidade é tudo imaginação. "Mas não te crucificaram?". concedido por Deus à criatura de sua predileção: o homem." Fiquei rubro de raiva: "Mentiroso!". Apenas fingiam que me crucificavam. . clamei. Parou diante de Francisco e o cumprimentou. lutando em conjunto. "Não. Caminhava com passo pesado. Conheço e admiro a tua vida. não podes entender". quero salvar a minha alma. originário de Assis. Às vezes. porém. Eu era uma criança. Será Suspirou: . garoto.acrescentou -. levando a mão ao peito.Trouxeram-lhe água morna para lavar os vestígios de tinta nos pés e nas mãos. que reúne irmãos para fundar uma ordem. Riu. mas os livros não me bastam. o homem simples e iletrado descobre o que o espírito humano não pôde descobrir. Estudei na Universidade de Bolonha.respondeu Francisco. possível que também não passemos de farsantes? . Somos pessoas simples. o espírito é necessário. mas para salvar as nossas almas. Onde estão os pregos? Toda essa angústia seria apenas ilusão? Foi nesse instante que surgiu entre as árvores um homem de cerca de trinta anos. iletradas. simulação. menino. olha os meus pés. Contudo. Também é um dom divino. . Irmão Francisco. nada compreendia. cresci e entendo.Como vocês.Não é para fundar uma ordem que reúno irmãos. Agora.Repara nas minhas mãos . era tudo teatro. . amigo . Minha mãe me pegou no colo: "Cala-te. e não é com a instrução que o conseguirei. Chamo-me Elias Bobarone e venho de Cortona. A testa era saliente e ele trazia a cabeça descoberta. perguntei-lhe. um homem instruído? . tu.Sou quem procuras. Julgo que fui crucificado. ainda és muito criança. dando ouvidos ao coração. Que vens fazer entre nós.Procuro Francisco.

venham comer.chamou -. porque tinha o pressentimento de que aquele gigante viria semear a discórdia na serena confraria. Elias sentou-se no chão. . Por favor.Não tens o direito. Os pássaros buscavam os ninhos. Para quem o traçaste? Só para os iletrados? Mas não és tu mesmo quem diz que as pessoas instruídas necessitam mais de auxílio do que as outras? Seu espírito complicado as desorienta. era ele o cozinheiro. Bernardo apareceu por seu turno. vai procurar a salvação em outras paragens. Decerto travava um grande combate no seu íntimo. Sem lhe pedir permissão. amigo imprevisto. Desde a sua chegada. ao seu lado. indicando-lhes tantos caminhos que já não sabem qual escolher.murmurou Elias outra vez. os irmãos regressavam da ronda de mendicância. .Falas muito bem. contemplando o pôr-do-sol. Junípero acocorou-se à lareira e acendeu o lume para preparar a refeição. de repudiar uma alma que deseja tomar de empréstimo o caminho da salvação que traçaste. O sol se escondia.murmurou. .Irmãos . as lentilhas estão prontas. Junípero repentinamente bateu palmas. Caminhava como um cego.O homem perfeito é aquele que possui o coração e o espírito em harmonia. Francisco se virou e analisou o visitante.Quanta solidão! Que quietude! . . . . Tens o espírito ágil e me causas medo.Quanta solidão! Que quietude! . Entrou sem perceber ninguém. Irmão Francisco. Após um longo hiato de silêncio. O que traçaste me inspira confiança! Francisco remexeu silenciosamente a terra com a ponta do pé. Os troncos das árvores tingiam-se de cor-derosa. A ordem perfeita é a que se baseia no coração e se guia pelo espírito. emergindo mais uma vez vivo das suas orações.

acrescentou -. . Francisco tomou lugar perto da lareira.Aumenta o número de bocas que pregam o verbo divino . a população de Assis começava a se queixar. . Apanhou um punhado de cinzas da lareira. não temos! .disse -. Tínhamos fome. . Irmão Francisco? Perguntou Elias. lançando novo punhado de cinzas no seu prato de lentilhas. não sou melhor que vocês. respondeu.falou -. no dia seguinte. Junípero distribuiu a comida e a refeição teve início.disseme Francisco. irmãos . .respondeu Francisco.Irmão Elias . Uma manhã.Não temos então confiança em nossa força? . . e virando-se para mim: . Francisco largou a colher: .E com elas o número das que têm fome! . Levantem-se para saudá-lo. jogou dentro do prato e recomeçou a comer. .anunciou a todos. . farta de sustentar mendigos. .Desculpem-me.Como irás alimentá-las? Com efeito. o bispo mandou dizer a Francisco que precisava falar-lhe. De repente.Francisco ergueu-se.Temos um novo irmão. .Meus irmãos . estas lentilhas são saborosas demais e o paladar se satisfaz em excesso. estamos contentes com a tua vinda. Elias Bobarone.Deus nos enviou um reforço . mas a minha carne é incorrigível pecadora e devo castigá-la.repliquei. fê-lo entrar.Por que esse temor à carne. "Estou às suas ordens". que vem de Cortona. Entramos na cabana. radiante. E tomando-o pela mão.Não. É um grande pecado.

imerso nas preocupações que lhe davam a terra e o céu. e se Deus quer que a tua vontade seja feita. .. pregando o amor. pois também era uma ovelha de Deus e devia obediência ao Grande Pastor. Estendeu a mão gorda de padre. . meu filho disse o prelado.Sei que chegam diariamente à cidade e até às aldeias . e depois. A sarna é contagiosa.acrescentou -.Sou todo ouvidos. Ao avistar Francisco. desfiava as contas negras de um rosário. beijou-a.Irmão Leão . Perguntava-se como fazer para não magoar Francisco. O bispo. O fato é que gostava muito desse santo rebelde. . por fim. cumpre tomar cuidado para que as outras não se contaminem. . não podia descurar a própria alma. O bispo limpou a garganta e permaneceu um momento em silêncio. Acompanha-me. sentado na sua poltrona.Teus companheiros são cada dia mais numerosos. Reverendíssima. mas há uma coisa que não me agrada. ela o será. cruzando os braços. pressinto que o bispo vai ralhar comigo. Pastor de homens. Por outro lado. Francisco disse.Ouço sempre as expressões mais lisonjeiras a teu respeito. Admirava aquela criatura. que abandonara tudo o que o homem mais preza no mundo para adotar o que ele detesta e mais o atemoriza: a solidão e a pobreza. .Vejo-me obrigado a ralhar contigo. tentou em vão mostrar um aspecto de contrariedade. A Santa Obediência é uma das filhas mais diletas do Senhor. Francisco se ajoelhou. aguardou. que superara o desprezo de seus semelhantes e andava descalça. esforçando-se para imprimir severidade à voz. precisava vigiar sem trégua as ovelhas que Deus lhe confiara. e se uma ovelha adoece.

tenho um pedido a te fazer: eu gostaria que obrigasses os teus companheiros a trabalhar e a não contar. O bispo fechou os olhos e apoiou a cabeça ao espaldar da poltrona. . Não está direito! O povo aqui é pobre. um casebre.mesmo que quisessem . uma bolsa com um . ."Quem não trabalha não deve comer".disse -. ou olival.Uma noite em que eu chorava. . Crês que terá sempre um pedaço de pão para dar a vocês? Francisco baixou a cabeça sem responder.prosseguiu.Reverendíssima .Ouço-te.Como bispo e como pai que te ama. E agora reflete e responde. Francisco ergueu o rosto: . Continuou: . meu caro. . Curvei-me para apanhá-lo. que têm casas e filhos. meu filho.para dar de esmola a mendigos. cultivar a terra e colher anualmente o que Deus dá a qualquer camponês. com a voz realmente irritada: . e a quem nada sobra . Deus me livre. A perfeita pobreza. Não estou pedindo que trabalhes para enriquecer. permites que eu fale? . com o suor alheio. O rosário escapou das mãos brancas e macias.E aliás. . possuir uma propriedade modesta: campo.vizinhas para mendigar de porta em porta. Fala com toda a franqueza. mas sim para que não vivas às custas de nossos irmãos. . por exemplo. é contrária a Deus e aos homens. Estava exausto de falar. rogando a Deus que me iluminasse o entendimento e me ajudasse a resolver se devíamos ou não possuir um pedacinho de campo. Pregamos. O bispo porém não ouviu. Porventura não é trabalho? murmurou.Rezamos. para viver. . Era isso o que eu queria dizer-te. O bispo colocou a mão no Evangelho aberto a seu lado. vinha. esqueces o que diz o Evangelho? . Vocês poderiam.

. Ou sucede que o Diabo. servindo-se do rosto e da voz de Deus. enfim. Ele me respondeu: "Francisco..pouco de dinheiro. recompôs-se e dirigiuse a Francisco: . . Um fradezinho que se mantinha a um canto correu a buscar um copo d’água. alguma coisa de que pudéssemos dizer: "Isto é nosso!".Reverendíssima . permite-me que chore. procura afastar as nossas almas do bom caminho. porém as palavras se embaralharam na boca desdentada e as veias do pescoço de repente começaram a intumescer. muitas vezes ouvimos a própria voz e julgamos que é a do Senhor.murmurou. Quis responder. quem possui um campo se transforma em terra. com a mão no Evangelho.. Tuas palavras penetraram como punhais em meu coração. O bispo se compadeceu. Melhor.pediu ao fradezinho -. traze um copo de vinho para o nosso convidado. não posso. Reverendíssima! O bispo enrubesceu. e Francisco e Satã! Ocultou o rosto nas mãos e rompeu em pranto. Curvou-se e levantou-o do chão. .disse -. Nunca mais poderei distinguir em minhas preces Deus e Francisco.Meu filho . pois ele se transforma em nó corredio e lhe aperta o pescoço". traze três. .Como podes estar certo de que era Deus quem te falava? Quando rezamos. quem possui uma casa se transforma em porta e janela. Os lábios lhe tremiam. . que em tuas orações consegues distinguir as tuas palavras das palavras divinas? Francisco empalideceu.Não. . O bispo bebeu. Os joelhos vacilaram e ele se deixou cair suavemente no chão. . Serias capaz de afirmar. Francisco. Foi o que Deus me disse. e quem possui um pequeno anel de ouro termina morrendo estrangulado. Vamos beber à sua saúde.

meu filho? Será. .sentenciou o bispo. Francisco! Cumpre a vontade de Deus.disse -.O vinho é uma bebida sagrada.O Diabo se alegra sobretudo ao ver que me desafias.Reverendíssima .retorquiu.Perdoa-me. como aliás a riqueza. agastado. Bebamos à tua saúde. meu filho. meu filho. . meus filhos . Toma cautela! E agora. podes ir! Francisco quis se inclinar e beijar novamente a mão do prelado. O que ultrapassa a medida é cilada do Diabo. . és mais forte do que eu. ouço uma voz que me proíbe partir. a compaixão e o desprezo pelos bens deste mundo devem ser usados com parcimônia. estendendo Sua mão para te curar. porém não o fez. vai embora. Em tudo é preciso moderação.Não digas mais nada. por acaso. Uma voz íntima lhe segredava: "Não vás embora ainda! Não te deixes amedrontar por ele. .Abençoado por um sacerdote.Que voz. Diz também que a nudez completa é o único caminho que conduz a Deus. Não te peço uma resposta imediata. pondera e depois vem me comunicar a tua decisão. A pobreza é uma coisa excelente. O fradezinho trouxe os três copos de vinho numa bandeja de madeira. Francisco enxugava as lágrimas que lhe escorriam pelas faces e pela barba.Prostrado sobre um banco. a de Satã? Que diz ela? . porque estás doente! . . torna-se sangue de Cristo. E que Deus se compadeça de ti. Francisco . erguendo o seu copo. O bispo bateu com o punho no Evangelho. Reverendíssima. Responde agora!” . . . mas até certo limite. Reflete no que falamos.Afirma que o Diabo se alegra ao constatar o pavor que os homens têm da pobreza. A própria bondade. .

parado numa encruzilhada.” Preocupado. Regressei sozinho à Porciúncula. Continua! Vou seguir pela beira do rio até o povoado do bosque.Não posso mais suportar esta vida fácil. De vez em quando abria os braços e murmurava: . disse-me: . as palavras do bispo também me pareciam duras. "Devemos meter mãos à obra. ergui-me. "É verdade. sentei-me na soleira da Porciúncula à espera de que a noite chegasse. quem não trabalha não deve comer". a cabeça a sangrar. pensei. alcancei o bosque e entrei no povoado.Francisco se ajoelhou e beijou a mão do prelado.As palavras do bispo foram duras. .. As ruas estavam desertas. Segui correndo pela margem do rio. Não tinha vontade de mendigar. Em seguida abandonamos o paço episcopal. que renegam Cristo e não terão qualquer escrúpulo em maltratá-lo. Ainda havia sol. Receio por ti. de braços cruzados. . como ordena o Senhor. ganhando o pão de cada dia com o suor do nosso rosto. cordeirinho de Deus disse ele. Irmão Francisco. e o que vejo? Um grupo de homens. que Deus me perdoe. Precipitei-me para o lado de onde vinha o barulho. "Não devia tê-lo deixado ir sozinho àquele povoado de brutos.Lá vive gente ruim.vou justamente por isso. ao mesmo tempo justas. mas ouviam-se o latido dos cães e um grande rumor de risadas e gritos. . Necessito ficar só. porém. Irmão Leão. Ele permanecia em pé. Não trocamos uma única palavra durante o retorno. trazendo os irmãos e Francisco. Meu coração estava inquieto. mulheres e crianças tinha encurralado Francisco contra a borda de um poço e atirava-lhe pedras. . Tomado de remorsos. Estávamos perto da Porciúncula quando Francisco.

todo alegre. As trevas desciam lentamente sobre nós com a calma e a doçura da noite. os irmãos regressavam. segurando o chapéu de veludo verde.disse Francisco de repente.Quem és tu? . Dom Piero e Dom Ruffino.perguntou.Aonde queres que te leve. Bernardo rezava num canto.Chamo-me Masseu e sou carreteiro. Quando chegamos à Porciúncula. pobre Francisco? . Masseu andava a passos largos. na igreja. do qual sacudia o pó. curvando-se sobre ele. descalços. .. ornamentavam a imagem de Nossa Senhora dos Anjos com folhas de louro que tinham colhido à beira do rio. o sol já se havia posto. Um a um. . Irmão Junípero dispunha alguns galhos entre duas pedras para acender o lume. Apanho as pessoas na terra e as conduzo ao céu. famélicos. A estrela vespertina cintilava no céu. levando Francisco no colo. Todo mundo me conhece.Obrigado. Capella sobressaltou-se. . . Giovanni de Capella e Ângelo voltavam de suas rondas. Todos se viraram. ouviu-se um bramido atrás dele. . Aonde queres que te leve? . mas com o rosto radiante de alegria. abrindo passagem no meio da multidão.respondeu.Esta noite festejamos um casamento . aproximou-se de Francisco e ergueu-o nos braços como a uma criança. . Deus os abençoe. Um gigante. admirados. No momento em que acudi a socorrê-lo. saudando a luz que se desvanecia.À Porciúncula . Todos se viraram. . As aves cantavam. Egídio contemplava tudo em silêncio. Irmão Masseu. Depôs Francisco no chão e sentaram-se os dois na seleira. . meus filhos. Eu lavava os ferimentos de Francisco.Também sou carreteiro..

recebo-te por esposa. .Não a vejo. Tomou à dianteira e o seguimos. . . .Não a vês. ..perguntou. Irmão Leão? .explicou Francisco sorridente. fala sério! De que viúva se trata? . procurando esse irmão com os olhos. Irmã Pobreza. a barriga vazia. os pés enlameados. ..Encontrei uma viúva na rua . até os pés da Cruz e do Sepulcro. comovido -.indaguei por minha vez.pronunciou. e ninguém lhe abre a porta para lhe fazer caridade. O hábito remendado. nobre senhora! . companheira caríssima e venerada de Cristo. . .Da viúva de Cristo. Irmão Francisco.Onde está o Padre Silvestre? .Um casamento? . . Nada me falta. . meus irmãos. o cinto de corda. Há anos que perambula. descalça. Vamos acolhê-la aqui.Estou com meu traje de núpcias . . é porque estás com os olhos abertos.Pelo amor de Deus. corajosa camarada de luta que Lhe permaneceste fiel toda a vida.retrucou.perguntou. . Entremos. andrajosa.Que venha abençoar as bodas.exclamaram os outros. Colocou-se em pé e se examinou atentamente. caso-me com ela.Ora. . Ajoelhou-se diante do altar e enviesou a cabeça para o lado direito: . Fecha-os e a verás. Por que tanto espanto? Por amor ao primeiro marido. faminta. a Pobreza. Não necessito trocar de roupa.E onde está a noiva? .Irmã Pobreza .anunciou. . . Dá-me a tua mão.

à direita de Francisco. entusiasmado. marcando o compasso. Levantamo-nos e cantamos como possessos. A humilde capela ressoava como um aprisco onde se celebrasse o casamento do pastor. Pouco falta para que se tornem anjos. "Deve ser assim que se chora e ri no paraíso". Estendemo-nos todos por terra para gozar a noite. Então fechei os olhos e avistei. cantando os versículos triunfais do matrimônio. Ajoelhou-se diante de Francisco e começou a soprar alegres canções de pastor. vês? É o nosso amigo Francisco. As estranhas núpcias passavam e tornavam a passar no espírito de cada um. Quando ergui as pálpebras. Irmão Bernardo soluçava. mas aos poucos o sentido secreto da cerimônia ficava evidente. Nossa Senhora dos Anjos. uma mulher pálida e triste. Vão longe demais. A princípio. assistia ao desenrolar da estranha cerimônia e sorria . E aquele ali no meio. espantada. A seu lado. E o soluço à felicidade. O Padre Silvestre segurava um círio aceso.Caímos de joelhos. Quando saímos da igreja. fazendo roda em volta de Francisco e da noiva invisível. meu Filho. Masseu. Francisco mergulhou na escuridão porque necessitava estar só. tirou do peito a flauta que tocava nas viagens noturnas e solitárias. nossa . Por um instante. Egídio batia palmas. saciam-se com a própria fome e se enriquecem com a pobreza. o querido polichinelo de Deus". Calamo-nos. ultrapassam as fronteiras humanas. com ar de quem diz: "Teus amigos enlouqueceram por excesso de amor. vestida de farrapos negros. o céu estava todo estrelado. enquanto chamas sagradas jorravam de seus olhos. contemplando com assombro o estranho noivo que estendia a mão à esposa invisível. E o riso cedeu lugar ao soluço. Giovanni de Capella sacudia o chapéu de braço erguido. porém majestosa como uma rainha enlutada pelo seu rei. pensei. vi que o semblante dos irmãos resplandecia. casam-se sem noiva. Repara: embriagam-se sem vinho.para Jesus. alguns irmãos tiveram frouxos de riso.

Sabia onde encontrá-lo. Fez-se silêncio. Naquela noite Francisco não reapareceu. A voz elevou-se outra vez: . Ouvi novos soluços e o ruído de mãos a bater no peito. Tampouco no dia seguinte. queixoso. Prendi a respiração e escutei. ouvi um choro baixinho. Convertera-se em gaivota e. conheces melhor que ninguém o inferno. como o de uma criança.alma libertou-se do espírito e da carne: já não carecia de uma verdade palpável. Sem dúvida se refugiara numa daquelas grutas onde gostava de rezar. as trevas e a lama que reinam nas minhas entranhas! Silêncio.Como salvar o próximo se estou condenado? Senhor. Sentados no limiar da Porciúncula.vou procurá-lo . De repente. Ficamos inquietos. porém não o consegui engolir. na sombra. E fui. Uma angústia inédita atormentava-lhe o coração. estendemos no chão as provisões mendigadas durante a tarde. Aproximei dos lábios um naco de pão. eu quero o que Tu queres. Levantei-me: . porém. mas não comentamos. sobrevoando o oceano de Deus. Tomei o caminho de Assis na direção do monte Subásio. Francisco falava com alguém: não estava sozinho. Chegando ao destino. um rosto pálido e duas mãos que se agitavam.disse. pairava ao capricho de Sua misericórdia. . e queria estar só com Deus para Lhe pedir socorro. mas não posso!. revistei algumas cavernas: não se achava ali.Eu quero o que Tu queres . Aproximei-me do abrigo de onde vinham as lamentações e distingui. . Dir-se-ia que Francisco escutava a resposta.clamava -. O sol se punha.

Senhor. A claridade escorria ao longo das encostas.Quando dirás "basta"? Quando? Quando? O dia nascia. Estou cansado. deu um passo. o Irmão Leão! Ergueu os olhos. Eles se entrelinham a sós. como prosseguir em meu caminho? Não tenho confiança nesta lama chamada Francisco. lutei muito.bradei -. Uma luz pálida.Perdoas os meus pecados? Responde. A luz do dia descia de mansinho do alto da montanha. sem me ver. Francisco parou: .Aonde vamos? . sem fôlego -. acordando as pedras.Eu devia ter-me retirado. Porém.Lutei . Inesperadamente. contemplando-me longamente. conforme disse e repito.. Perdoas os meus pecados? Senão.falou baixinho.Não tenhas medo . A voz de Francisco ergueu-se. sou um rústico. Uma perdiz passou por nós. A estrela matutina dançava e ria no oriente. . muito cansado.perguntou. deitei-me de bruços e prestei atenção. Ele se levantou. lambia a rocha da gruta. agora angustiada: .Aonde me levas? Sinto-me bem aqui. e estou cansado. O mundo despertava. não escutei nada. e a minha curiosidade era desonesta. piando com um forte bater de asas. . Em lugar de ir embora. Vi o sangue jorrar-lhe da testa e corri a socorrê-lo: . rasteira. Francisco soltou um grito lancinante: . Durante muito tempo. Por fim me reconheceu. as sarças. a terra.. sou eu. Eu o segurava pelo braço para que não caísse. Irmão Leão. Nem voz nem soluços. tropeçou e bateu com a cabeça nas pedras. . Abandonamos a gruta. Irmão Leão! Olhou o cimo da montanha.

que acabava de florir.São mais resistentes que o ferro e me levarão aonde queiras! Francisco sorriu: . Venho de muito longe.Tens sandálias de ferro? .Não te gabes em demasia.Tenho os pés . calando-se de novo. Depois levantou a cabeça e. . Escuta: se o medo fosse vendido no mercado. A montanha agora estava banhada em luz. Temos um caminho longo e áspero pela frente! .murmurei. À nossa frente. .indagou pouco depois. meu fiel companheiro. uma moita de gestas silvestres. ainda que fosse necessário vender tudo quanto possuímos a fim de adquiri-lo. .Irmão Leão .Tanto melhor .insistiu. Que podia responder? Percebia que Francisco regressava de muito longe e era portador de uma mensagem importante. louvado seja o Senhor! Suspirou.Não compreendo . fazendo sinal para que eu me sentasse perto dele.disse. deixou-se cair sobre uma rocha e estendeu as mãos ao sol para esquentá-las. . perfumava o ar.respondi.disse em voz baixa -. . a mais deslumbrante face da Esperança é Deus. deveríamos comprá-lo. Uma .São as que deves usar. Eu não disse nada. . . olhou em torno. E a mais deslumbrante de todas as faces do desespero também é Deus. Irmão Leão. como se temesse que alguém pudesse escutar.. vi e ouvi coisas terríveis.Estamos bem aqui . Vês? Nossa alma vacila entre dois abismos.A noite terminou.

Escreve! . .Podes ter o coração sereno e resoluto . esticou o pescoço e cantou. e o seu papo intumescia. . Uma ave de coifa vermelha veio pousar diante de nós. De repente. virou o bico para todos os lados. o sol. Os irmãos haviam saído e só regressariam à noite. .Partamos. O lábio inferior tremialhe. Retomamos a marcha. mas ficou calado durante um longo hiato. Francisco ouvia. a ave se calou e voou para longe. eu aguardava. De olhos fechados.murmurou. Fui buscar o que pedia e agachei-me à sua frente. meu Deus . Irmão Leão. encorajada pela nossa presença. traze a pena e o tinteiro e escreve o que te vou ditar. como se nos reconhecesse.falei -. mas se escutas um passarinho cantar. Sobre a terra só restavam um pássaro cantor e Deus.Por um instante esqueci tudo. em cima de uma pedra. Levantou-se transtornado: . Francisco reabriu os olhos: .Irmão Leão . Na Porciúncula não encontramos ninguém. Contemplava o céu. Uma comoção profunda e um êxtase indizível lhe inundavam o semblante. estás perdido! Fizemos um desvio para evitar Assis. e olhou-nos. desmanchando-se aos poucos ao sol.Perdoa-me.nuvenzinha cor-de-rosa vagueava tranqüila pelo céu. inquieta. . Tudo se desvanecia ao nosso redor. De pena na mão. .ordenou.pediu Francisco -. Abanou a cauda. Depois.

” Pressinto lá fora as feras que mordem. . não sejas insolente. sou um homem. os rios que afogam. de preguiça e bem-estar. Toma outra folha de papel e escreve mais.Escreve: "Basta! Basta de caminhar à sombra de árvores em flor. irmãos. apodrecerei de segurança. essa é a vontade de Deus. revoltar-se. Reverendíssima. de ver os rios se abrirem para me dar passagem. de atravessar incólumes as chamas! Se permaneço aqui. quero ir embora! “Adão. preciso sair!” Secou a testa e olhou em volta. para eles.Pouco importa. Escreve: "Todos os irmãos que possuem um ofício deverão exercê-lo. Adão. perdoa-me.Escreveste? . O bispo tem razão. Tomemos toda a cautela. Não sou macaco nem anjo. Quero partir e combater! Abre a porta. temendo que alguém tivesse ouvido.. Porém desposamos a Pobreza. Mas.. o que lhes for indispensável para viver. Ser Homem significa combater. Pois. Abre a porta. criatura de barro. É necessário apenas que não tenha nada de desonroso ou contrário à salvação da alma. Os irmãos deverão receber. mas nunca dinheiro. .Sim. o dinheiro não pode ter mais importância que as pedras e os detritos. Porque a caridade é uma obrigação legítima perante os pobres. em não perder nosso lugar no céu a troco dos bens provisórios e insignificantes da terra. . não devem envergonhar-se de mendigar às portas. estrangeiro e viver de esmolas. Irmão Francisco. Também devemos ganhar o nosso pão com o suor do próprio rosto. as chamas que queimam. Precisamos trabalhar. Se o seu ofício for insuficiente para alimentá-los. Não leves a mal: não a abandonaremos. O próprio Cristo não se vexou de ser pobre. trabalhar. Precisam ser humildes e bons e alegrar-se quando estiverem na . em troca do trabalho. Basta de ser lambido pelas feras. não compreendo o que queres dizer. .

Caso contrário. Se ele a aprovar. . . tenhamos a esperança de que algum dia suceda o mesmo conosco. em caracteres grosseiros: "Francisco. Se Ele sofre. tu e eu. e no qual temos sempre os olhos postos sem desfalecimento.Quando partimos? . assombrado. o Papa Inocêncio".Não. o pobrezinho de Deus". sentando-se extenuados no chão. "Escreve. deixamo-nos crucificar como Ele. os leprosos e os mendigos". porá a sua chancela abaixo da página. também sofremos. “ Ao terminar. Irmão Leão? Deus não pode esperar. os doentes. e entregaremos ao papa o que acabas de escrever. Portanto iremos a pé até a Cidade Santa. Enquanto falávamos. como míseros peregrinos.Quantas vezes preciso repetir. .Vamos enviá-la ao papa. escreve no cabeçalho: "Ao Santo Padre.Agora. . Se Ele tem fome.companhia das pessoas humildes e desprezadas.Hoje à noite. a Obediência. é Cristo. Olhei-o. a Castidade e. Irmão Francisco? . entre os pobres. acima de tudo. . . os irmãos regressaram. um a um. E se ressuscitar. Não disseste que teus pés são de ferro? Pois os meus também. Se O crucificam. . como me prometeu. também temos. Deus colocará a Sua.disse.Esta é a regra da nossa ordem . Irmão Leão: Nossos grandes companheiros de viagem são a Pobreza. o Amor. Iremos entregá-la pessoalmente. Francisco tomou a pena e escreveu embaixo o seu nome. . Quem caminha à nossa dianteira dia e noite.Já? .

ou vindimar. Castidade. apetecida e todo-poderosa. o perfeito Amor. Somos numerosos. ou se transformar em carreteiro. Não se desconsolem. Amor.disse -. e a carne.Enquanto tivermos boca. estarei junto. Tem paciência respondeu Dom Piero. Todos devem começar a trabalhar. Castidade. aos pares.queixou-se baixinho Irmão Bernardo ao seu vizinho.. Irmão Piero? Quanto? . aos inimigos e aos amigos. ou cavoucar. Cuidado! Não esqueçam o que aprendemos durante as nossas santas vigílias: Obediência. façam o sinal-da-cruz e ponham-se a caminho. recebi uma mensagem de Deus e devo me ausentar por algum tempo. Quem ajudar no hospital. meus filhos: não mendiguem mais. "Obediência. Não ficarão sós. que ninguém lhe seja infiel! Gastem cada dia o fruto de seu trabalho. sem nada economizar. meus filhos! E os que tiveram o dom de falar ao povo. Pobreza. invisível. Pobreza. Onde houver homens. pois sabia até que ponto a Tentação é ardilosa. e é hora de estabelecer uma regra de vida. um após outro. Contemplou demoradamente os irmãos. Corro a me lançar aos pés da sombra de Cristo na terra para lhe pedir a bênção. crédulo. . Seus olhos exprimiam inquietações e tristeza. parem e proclamem o Amor. formamos uma verdadeira ordem. . um consolando o outro. ouve melhor e lê melhor os pensamentos do homem. Contudo. ou trançar cestos de vime e sandálias. ceifar. não esqueçam: desposamos a Pobreza. pois qualquer propriedade é obra do Diabo. o coração humano. e sobretudo Amor! E como última recomendação. meu caro Bernardo.Perdemos o nosso tempo e a nossa alma batendo às portas o dia inteiro em lugar de permanecer ajoelhados e rezar . . peço-lhes.Meus irmãos . O invisível enxerga melhor. estará cumprindo a vontade de Deus. Noite e dia. Francisco se levantou e se preparou para falar. quem cortar lenha na floresta para vendê-la.Quanto teremos ainda de esperar.

ordenou. Irmão Leão.Levo junto o Irmão Leão. nem sandálias. os outros beijaram a mão de Francisco em silêncio. meus filhos. Na luta entre o Bem e o Mal. e partamos. o Padre Silvestre ocupará o meu lugar. Faze o sinal-da-cruz. meus irmãos. Hoje é noite de lua. Tinha os olhos rasos d’água: . Deus será o nosso báculo. Deu alguns passos e se virou. nem a morte.Não. Portanto. nem a sede. Pegou-me pelo braço: . um por um. não. minha mãe e meus irmãos falou.Até breve . Somente Deus existe.Vocês são meu pai. confio-te os irmãos.disse. Senhor. Até a volta. . . É sacerdote de Deus. mas este meneou a cabeça.Vamos .Satã ganha terreno e Deus chama seus fiéis. Ruffino se aproximou e murmurou algo ao ouvido de Francisco. as nossas sandálias e o nosso pão. De todos nós. Obedeçam-lhe. . . Egídio. todo cuidado é pouco!” Abriu os braços e despediu-se dos irmãos. uma outra ovelha do Senhor.pediu. impaciente para ir embora. o Bem há de vencer. . coragem.Nem cajado. nem a doença. O medo não existe. . emocionado. Se uma ovelha cair enferma. somos todos irmãos.aos ricos e aos pobres. porque todos são criaturas de Deus. Irmão Ruffino . é o que se encontra mais próximo de Deus. Ouçam-Lhe a voz e respondam: "Presente. aos maus e aos bons. "Enquanto eu estiver ausente. "Padre Silvestre. nem pão. em parte a culpa é do pastor. celebra a missa no altar e transmuda o vinho e o pão em sangue e corpo de Cristo. o caminho que leva a Roma está prateado de luz. nem a fome. irmãos. aqui estamos!" Portanto. vela por eles. Masseu e Bernardo se debulharam em lágrimas.

. As árvores floriam. quantos verões e outonos. quantas lágrimas! Francisco agora decerto está aos pés de Deus. uma enorme igreja de três pavimentos. Era primavera. era. entrávamos nas aldeias. E íamos embora.Decorreram quantos anos desde aquela noite! Sentado na cela. Uma igreja grandiosa se ergue sobre ela.murmurou -. Francisco parou de repente. Os mortos brotarão à luz como embriões. enquanto caminhávamos. estátuas.Assim será o Juízo Final . tanta fome e tanto frio. batendo às portas a pedir esmola. Mas não a encontrará. Outros metiam uma pedra ou um rato morto em nossa mão. Alguns até. virando-se de vez em quando para sorrir. esmagando-a com suas torres e campanários. Irmão Francisco. . Senhor . se não conversássemos com Deus. usam uma corda de seda em volta da cintura. abençoando mesmo os que nos repudiavam.disse-me Francisco. creio que não teríamos suportado tanto cansaço. fecho os olhos e penso: quantas luas. Julgou ouvir sinos e ver se erguer. busca a Porciúncula com os olhos. trazem sandálias e hábitos que agasalham. Havia quem desse um pedaço de pão. estourando de riso.Obrigado. Um dia. Famintos. . persignou-se e a visão se esvaneceu ao luar. Debruçado a contemplar o mundo. Se não cantássemos ao longo da estrada. não era verdade! Ai. se não sentíssemos que Cristo seguia à nossa frente. em plena luz. sim! Mas como pôr um freio à ostentação e à presunção humanas? Como pode a pureza caminhar sobre a terra sem sujar os pés na lama? A viagem durou vários dias e noites. lustres e uma série de riquezas infinitas! Os irmãos já não andam descalços. Soltou um grito. atemorizado. as vinhas se enchiam de rebentos e as primeiras folhas macias das figueiras se abriam. que Deus os perdoe.

Uma tarde chegamos a uma vila. Era o dia de festa dos jovens solteiros e eles se preparavam, segundo o costume tradicional, para queimar o velho Inverno em efígie. Deparamos com um boneco erguido no meio da praça, diante da igreja, feito de ramos e palha, ornado de longa barba de algodão. Moças e rapazes, munidos de archotes acesos, dançavam ao redor, cantando quadras obscenas. Eram jovens: um sangue ardente lhes corria nas veias e, além do vinho que tinham bebido, o desejo e a

primavera intumesciam-lhes os peitos e os rins. Em torno, os casais e os velhos assistiam a tudo rindo. Francisco apoiou-se a uma árvore a olhar. Pensei que fosse zangar-se e me arrastar de volta pela mão, mas, pelo contrário, arregalava avidamente os olhos. - A raça humana é imperecível, Irmão Leão - comentou. - Repara nesses moços e moças. Como os seus rostos brilham, como os seus olhos cintilam, fixando-se mutuamente, parecendo dizer: "Nada temas; se por acaso ficássemos sozinhos no mundo, logo o povoaríamos de filhos e filhas!" Também seguem o próprio caminho para chegar a Deus. O nosso é feito de pobreza e castidade; o deles, de mesa farta e abraços. Enquanto falava, um rapaz que se destacara entre os dançarinos deu um salto e mergulhou a tocha acesa no ventre do Inverno. O boneco imediatamente pegou fogo, erguendo-se em labaredas no céu. Subiu, tornou a cair e se transformou em cinza. Os jovens emitiram um brado selvagem, soltaram os archotes e começaram a se perseguir, exasperados e arquejantes, na escuridão. Só se ouviam gritos e gemidos. Francisco me tomou pela mão. Cruzamos a praça em direção à igreja. Quando nos encolhemos sob a abóbada do pórtico, para passar a noite, ele me disse:

- Foi um ótimo dia, Irmão Leão. Acabamos de ver um outro aspecto do homem... Na sua luta inevitável. Partimos da aldeia de manhã cedo. - Que liberdade! - exclamou Francisco, radiante. Somos as pessoas mais livres do mundo, pois somos os mais pobres. Como vês, Irmão Leão, a pobreza, a simplicidade e a liberdade são a mesmíssima coisa. Recomeçamos a cantar a fim de esquecer o cansaço e a fome. Dia a dia, porém, o coração de Francisco se enchia de amargura, pois, em cada vila e em cada cidade aonde chegávamos, o Diabo tinha chegado antes de nós: O povo discutia, brigava, abandonava a igreja. . . - A alma humana se revoltou e já não teme a Deus - disse Francisco. - Satã está parado nas encruzilhadas e muda de semblante para tentar os homens. Transforma-se em monge, rapaz ou mulher, conforme as circunstâncias. Naquele dia, estando quase em Roma, deitamo-nos à sombra de um cipreste para descansar. Os nossos pés sangravam e a poeira nos cobria inteiramente as pernas e os cabelos. Desde madrugada falávamos sobre os padecimentos de Cristo, e de tanto chorar tínhamos os olhos inchados e vermelhos. Devia ser meio-dia. Fechamos as pálpebras na esperança de que o sono se apiedasse de nós. Então surgiu um monge entre as árvores, gordo e jovial, de sandálias vermelhas e envergando um chapéu enorme da mesma cor, todo barbeado e perfumado. Aproximou-se, saudou-nos com distinção, estendeu um lenço de seda numa pedra e sentou-se.

- Meus irmãos - começou -, a julgar pelos hábitos rasgados e pés descalços, certamente pertencem a alguma nova ordem muito severa e vão a Roma para rezar. - Somos irmãos pobres - explicou Francisco -, pecadores, iletrados, a escória da humanidade, e vamos nos prostrar aos pés do papa para lhe rogar um privilégio. - Qual? - A pobreza absoluta. Não queremos possuir nada, nada, nada! O monge gordo riu: - Pressenti a presunção de vocês pelos buracos desses hábitos afirmou. - Nada e tudo são a mesma coisa. E quem pede nada, pede tudo. Sabem disso muito bem, grandes astutos, mas se fingem de pobres para abocanhar o máximo, sem a menor resistência e sem que ninguém perceba. Nem mesmo Deus. Francisco endireitou o corpo, apavorado. - O máximo? - perguntou, de lábios trêmulos. - Sim. E nada te falta, hipócrita. És a criatura mais rica da terra. - Eu? - Tu! Porque confias em Deus. Mas eu te desafio a ficares pobre a ponto de perder até mesmo a esperança de contemplar Deus um dia. Esta seria a perfeita pobreza e a suprema santidade! Achas-te capaz? - Quem és tu? Vade retro, Satanás! - bradou Francisco, traçando uma cruz no ar. No mesmo instante o monge se dissolveu ao sol, e ouvimos apenas uma gargalhada diabólica que se afastava e se perdia entre os ciprestes. Espalhou-se um cheiro de enxofre e pez. Francisco deu um pulo:

- Vamos embora daqui - disse. - A sombra deste cipreste me parece nefasta. Não viste, Irmão Leão? Não ouviste? - Sim, vi e ouvi. Retomamos a marcha, de coração inquieto. Francisco seguia calado. Caminhava num passo largo, quase correndo... Perto do anoitecer, virou-se para o meu lado e notei que tinha o rosto subitamente macilento. - Crês que o maldito está com a razão? - murmurou. - Se renuncio à esperança em Deus estou perdido! - São artimanhas do Diabo, uma cilada do Maligno. Não te deixes levar, Irmão Francisco - disse-lhe, esforçando-me para consolálo. Ele, porém, sacudiu a cabeça, desesperado. - Muitas vezes as palavras do Maligno são as de Deus, Irmão Leão. Pois pode acontecer que Ele envie o Maligno para nos comunicar a Sua vontade. Como sabê-lo? Ficou em silêncio. E mais tarde: - Ele tem razão - gemeu. - Toda a razão. Nossa pobreza nos é preciosíssima porque no fundo do cofre esconde o paraíso. A verdadeira pobreza deve ter o cofre completa e incontestavelmente vazio, sem paraíso nem imortalidade. Vazio, totalmente vazio! Refletiu um instante e suspirou. Quis acrescentar alguma coisa, mas as palavras lhe morriam na garganta. Finalmente, falou: - Meu Deus - sussurrou -, dá-me a força de renunciar um dia à esperança de Te ver! Quem sabe talvez resida nisso e em mais nada a perfeita Pobreza. Os soluços lhe abafaram a voz. Tropeçou e eu o amparei.

- Irmão Francisco, não fales assim. O que pedes ultrapassa a capacidade humana. -- Ultrapassa, sim. Mas é justamente por isso que Deus a exige do homem. Ainda não compreendeste? Não só não compreendera como jamais compreenderia. O homem não esbarra em certos limites? E não foi o próprio Deus quem os fixou? Então por que nos pede para ultrapassá-los? Uma vez que não nos deu asas, por que nos obriga a voar? Encontramos um pinheiro de folhagem espessa, cujos ramos longos e amplos ofereciam abrigo. Durante o dia inteiro ficava exposto ao ardor do sol, e a resina que escorria pelo tronco perfumava o ar. Estendemo-nos sob aquele teto verdejante a fim de passar a noite. Ainda restavam algumas côdeas de pão, porém não tivemos ânimo para engolir nada. Eu estava insone, mas fechei os olhos, pois o semblante de Francisco me fazia dó. Nunca lera nele tanta angústia. Por mais que mordesse os lábios, um rugido de animal ferido lhe subia do peito. O céu começou a encher-se de estrelas, as vozes noturnas da terra se erguiam. Senti a suavidade de a noite ir-me penetrando lentamente e, compassiva, envolver-me as Entranhas. Uma estrela cadente cortou o firmamento. - Viste, Irmão Leão? - exclamou Francisco. - Acaba de rolar uma lágrima pelo rosto de Deus. Quer dizer que Tu também choras, Senhor? Então sofres como eu, meu Pai? Calou-se, apoiando-se ao tronco do pinheiro, extenuado.

Serenado, adormeci logo. De repente, porém, ergueu-se a voz de Francisco, rouca, abafada, irreconhecível: - Por favor, Irmão Leão, não me abandones! Não durmas! Invademe uma idéia terrível, e não quero ficar a sós com ela!

Abri os olhos. Aquela voz me aterrorizara. - Que idéia? Seria outra vez o Maligno? Fala, desabafa! Aproximou-se de mim e colocou a mão no meu joelho: - O homem se agarra a um tufo de relva, sabias, Irmão Leão? Os anjos e os demônios puxam-no para arrancá-lo dali. Ele tem fome, sede, está banhado em suor, sangra, chora e pragueja, mas não quer largar a terra. Um pedaço de relva e o céu, mais nada! Ficou em silêncio. Senti que o seu corpo tremia. - Quem fala não és tu, Francisco - exclamei num calafrio -, é o Maligno. - Não, Irmão Leão. Não sou eu, nem é o Maligno, nem Deus. É um animal ferido que fala por mim. Eu quis dizer algo, mas Francisco me fechou a boca com um gesto: - Não digas mais nada - murmurou -, não digas mais nada. Dorme! Ao acordar na manhã seguinte, o sol já ia alto há muito tempo. Francisco não estava mais perto de mim. Errei de pinheiro em pinheiro, chamando por ele, quando súbito, erguendo os olhos, avistei-o empoleirado num ramo, observando duas andorinhas que construíam o ninho. Conforme o que necessitavam, alçavam vôo e voltavam trazendo no bico um argueiro de palha, uma crina de cavalo encontrada no caminho, um pouco de lama, e se punham ao trabalho gorjeando. - Irmão Francisco - bradei -, desce! O sol já vai alto, devemos partir! - Estou bem aqui - respondeu -, não preciso ir à parte nenhuma. Roma é aqui, o papa também, e é aqui mesmo que o direito de pregar me será concedido.

Fiquei quieto. Às vezes tremia à idéia de que o meu mestre pudesse perder a razão. Sentei-me ao pé do pinheiro e esperei. A voz de Francisco repetiu: - Não preciso ir à parte alguma. E logo: - As andorinhas me deram o direito de pregar, podemos dispensar o papa! Tampouco comentei. Fiquei aguardando. E assim permanecemos um bocado de tempo. Depois a voz de Francisco se ergueu novamente, calma e meiga: - Por que te calas? - Espero que o fogo de Deus se consuma dentro de ti, Irmão Francisco - respondi. Seu riso espocou através dos galhos. Um riso alegre, puro, infantil... - Então espera sentado! Enquanto eu tiver carne e ossos, esse fogo não se consumirá. Há de devorar a carne e os ossos. E em seguida, a alma. Somente então se consumirá. Podes, pois, te armar de paciência, Irmão Leão! Afastou os ramos e desceu. O rosto sereno resplandecia. - Parece-me - disse - que começo a entender a linguagem das andorinhas. Não as ouves? Também falam em Deus. - Quem, Irmão Francisco? - As andorinhas! Quase ri, porém me lembrei logo de que nós, os homens comuns, temos os ouvidos e os olhos apenas voltados para o exterior. Quando as aves cantam, só distinguimos a melodia, ao passo que Francisco também compreendia a letra.

Ajoelhamo-nos à sombra do pinheiro e fizemos as nossas orações. Depois, tomamos o caminho de Roma. O meu coração vibrava no peito como um cabrito recém-nascido. Fazia anos que ambicionava ir à Cidade Eterna para me prosternar diante dos túmulos dos apóstolos e ver o rosto sagrado do

representante de Deus na terra. Consta que ninguém consegue olhar para ele sem proteger a vista. À medida em que nos aproximávamos, erguia-se o forte gemido de Roma, semelhante a uma vaca parindo ou a uma fera esfomeada. De vez em quando, soavam vozes humanas, retumbavam os clarins, repicavam os sinos. Senhores de armaduras e damas nobres a cavalo se dirigiam à cidade. A poeira se espalhava, quente, compacta. Odores animalescos e humanos impregnavam o ar. - Irmão Leão - disse Francisco -, vamos entrar na casa do apóstolo Pedro. Tudo o que vais ver e ouvir tem um sentido secreto, toma cuidado! Reparaste nas nobres senhoras que passaram por nós em suas montarias negras e brancas? Da mesma forma erram aqui os pecados e as virtudes. - Os pecados também? - admirei-me. - Aqui? Em casa do apóstolo Pedro? Francisco desatou a rir: - Como és puro! Como gosto de ti, Irmão Leão! Onde encontrariam os pecados melhor terreno do que na Cidade Eterna? Não vês que é justamente aqui que Satã corre o maior risco? É onde concentra as suas tropas. Faze o sinal-da-cruz e transpõe a porta. Chegamos. Entramos por uma rua larga. O tumulto da grande cidade, os brados, os latidos, os relinchos eram ensurdecedores. Mascates se esfalfavam a apregoar, prelados passeavam em ricas liteiras, precedidos por lacaios que se ocupavam em abrir caminho.

. pensativo. meu irmão? . . montado num camelo. Eu amava verdadeiramente a vida.declarou Francisco. armai-vos e uni-vos! E ide libertá-lo!" O pregoeiro calava. irmãos.Ainda temos muito trabalho pela frente . A cidade se esfumou atrás das lágrimas. soprando longas trombetas de cobre. estava armado um Santo Sepulcro guarnecido de tecidos multicores. e os clarins recomeçavam a soar. secando as lágrimas. conseguiremos algum dia completá-lo? Que achas. e apenas víamos a imagem do Santo Sepulcro profanado. De vez em quando estacavam. dobrou a esquina e sumiu. este pequeno tufo de relva. almíscar ou jasmim. baixando os olhos. Irmão Francisco . com os cabelos desgrenhados. sobre um carro arrastado lentamente por quatro bois negros. cristãos! É o Santo Sepulcro que passa! Contemplai-o e envergonhai-vos! Por quanto tempo ainda permitireis que seja violado e maculado pelos infiéis? Em nome de Cristo. não podiam esquecê-lo. ornado com o crescente. murmurei. lamentava-se batendo no peito. Repentinamente. "Eis os pecados". com a cauda empinada.Por que queres abandoná-la? Francisco se calou. Nossos olhos. Então um arauto. Alegrei-me por tê-lo levado à reflexão. uma estranha procissão nos causou um grito de surpresa. no fim da rua.A vida é curta. À dianteira avançavam cinco ou seis soldados de cavalaria vestidos de preto. O cortejo passou. e não queria perdê-la. porém. À retaguarda. Um bando de carpideiras trajadas de luto. . e a montaria. deixava cair imundícies sobre o Santo Sepulcro.Bem sabes que a vida terrestre tem suas vantagens.respondi-lhe. Chorávamos. . vociferava: "Escutai.Mulheres pintadas deixavam um rasto de perfume. Brandia um estandarte verde. Era encimado por um boneco montado num cavalo de madeira que representava um sarraceno.

Sejamos prudentes. . examinando atentamente o ancião.Desculpem-me a liberdade de lhes dirigir a palavra . Cruzamos ruelas sórdidas. Cristo. Deus teve compaixão de vocês. Venham comigo! .afirmou.Quem será esse homem?. Um velhinho de barba pontiaguda. pelo visto. mulheres lavavam ou cozinhavam em plena rua. . que nos seguia há um bocado de tempo.É Deus quem te envia .Esta cidade à noite é perigosa. . não possuem um teto para abrigo. . homens agachados jogavam dados. . . que compreendia um pátio grande com um poço no meio e.E por que não o Diabo? . Francisco se inclinou e me segredou ao ouvido: . como eu. Exaustos. uma série de quartos desmantelados. O velhinho parou. que se compadeceu de nós?. Crianças nuas chafurdavam na lama. . .prosseguiu o velhinho sem responder. . mas creio que são estrangeiros e pobres como eu.retrucou Francisco -. E. O ancião nos precedia a passos largos. . . e nós o acompanhávamos em silêncio. sem portas. procuramos um recanto para dormir naquelas ruas estreitas. Vocês são pobres e. temem a Deus.Chegou a noite. abordou-nos: .Aqui poderão dormir em segurança.Quem és tu.contestei.disse -. Chegamos a um albergue quase em ruínas.Há dois bancos e uma bilha de água . fez-nos entrar num dos quartos e acendeu o lampião. escuros como cavernas. a exemplo de Cristo. meu irmão? . onde reinava a miséria. talvez. ao redor.perguntou Francisco. . olhou em torno.vou buscar pão e azeitonas. mostra-nos o caminho. . irmãos . Depois poderemos conversar. .

na minha terra dizemos: "Se a comida é parca. .. a Pureza. Vivemos a glorificar Deus e à custa de esmolas. o Asseio.Esse homem não me agrada . Sou provençal. e viemos à Cidade Eterna pedir ao representante de Deus na terra que nos conceda o privilégio da perfeita pobreza.É preciso depositar confiança no ser humano.Tem o olhar límpido . Irmão Leão! O velho voltou com pão. . Agora já sabes tudo a nosso respeito. amamos a Castidade.Teremos pois muito a palestrar. Francisco se pôs a falar: .acrescentou. Não nos casamos e tampouco comemos carne. . .falei. antecipando-se às perguntas do anfitrião. nós também. Se vocês amam a pobreza. Já volto. antes de desaparecer na escuridão do pátio. azeitonas e duas romãs. Acima de tudo. a Mulher. De certo ouviram falar desses cristãos autênticos.Sua bondade conosco esconde alguma intenção secreta. cofiou a barba e ficou longo tempo calado. o Prazer. o amor é muito!" Sejam bem-vindos.exclamou -. . portanto! Depois que comemos e agradecemos a Deus.Irmãos . denominados "cátaros". porque ela nasce do cruzamento . Deus é testemunha de que direi a pura verdade.adiantou -. Nunca nos sentamos num lugar que foi ocupado antes por uma mulher. Olhei para Francisco: . e é por este motivo que nos chamam de "albigenses". confiarei em vocês. Sou um deles. Abominamos a Matéria. Nada desejamos possuir. porém.lembrou Francisco. É a tua vez de falar! O ancião tossiu. Por fim começou: . e temos muitos irmãos. nem tocamos no pão amassado por mãos femininas.Vocês confiaram em mim. .Somos dois pobres monges .

onde a nossa alma sucumbe. ou purificados. desengatou o lampião e o aproximou do rosto enrugado do velho. . a Morte. equivalente ao grego "catharos" ("puro"). do T. Com o semblante oculto entre as mãos. inflamado. . nem fazemos a guerra. . Francisco levantou a cabeça. (N. poderemos desprezá-lo. Sua expressão se anuviou por um instante.Somente a Morte é capaz de aniquilar a carne replicou o ancião. é obra do Diabo! Deus criou unicamente o mundo espiritual. Ergueu-se. onde entramos para lutar e transmudar a carne em espírito. Será obra de Deus? Não. mentiroso e corrupto. O mundo material. Nos séculos XII e XIII.O que é a Morte? .. nem derramamos sangue. e graças ao Anjo Redentor. Não bebemos vinho. Por enquanto devemos rogar a Deus que nos permita viver o tempo suficiente para aniquilar a carne! . Francisco escutava. um clarão marcava-lhe os contornos do rosto e o ar vibrava em torno de sua cabeça. Renegamos o mundo porque é infame.continuou o ancião. libertemo-nos! Enquanto o velho falava.Qual seria então o mérito humano? .) . Ele é uma liça. como se a asa da Morte o tivesse roçado. perdoa-me. . chamando a Morte. mas me parece que desprezas o mundo em demasia. . Mas só então. . e não antes. Quando cumprirmos essa tarefa.do macho com a fêmea. Fujamos deste mundo. foi criado pelo Demônio. .disse -. houve na frança a seita herética dos albigenses.Um arcanjo porteiro! A Morte abre a porta e ingressamos na Imortalidade.Velho .indagou Francisco.

na soleira da porta.murmurou -. desapareceu na noite.Vocês ouviram o que eu disse. Francisco olhava a noite. angustiado. gostaria de atrelar o corpo a uma tartaruga para atravessar a vida o mais lentamente possível. . . .Calou-se.Quem és tu? . . Uma vez sós. deitei a semente. Queiram ou não queiram. Irmão Leão.perguntou. Falas como o Diabo. calma e triste: . minhas palavras os acompanharão.Irmão Leão. Voltou a sentar-se. fez-se ouvir a voz de Francisco.A vida é boa na terra . . não atendas à voz da Tentação..Levanta-te. E virando-se para mim: . apagamos a luz sem trocar palavras. Uma coruja piou baixinho entre os escombros. lenta mas seguramente. tenho confiança em teu coração.Crês .respondi -. Deixa-o falar do que escolheu.que seria corajoso partir? Fiquemos aqui. No momento em que fechei os olhos para dormir.retruquei . Quanto a mim. O rumor da cidade havia serenado. O ancião se ergueu: . . as estrelas piscavam suspensas às nossas cabeças.Sim . .Tuas palavras são sedutoras. Expus o meu pensamento. Por que o temes? Os caminhos que levam a Deus são numerosos. os caminhos que levam a Deus são numerosos. Não me mexi. Vamos embora! Aonde podíamos ir? Eu estava com sono. . até atingir os seus corações. De pé. pois adoro viver. o resto pertence a Deus! Dito isso. Fala-me.

sussurrou. resplandecente de dourados. Tive um sonho. . . . aguardava murmurando orações. transpondo o umbral resolutamente.Realmente. após tantos anos. em seu humilde banco. Revejo Francisco na antecâmara do papa. Dorme! Não queria outra coisa. Francisco se persignou e hesitou um instante. . exasperado. Esperamos um dia. de fato.Perdoa-me. num trono elevado. Paciência. no umbral da porta.É Cristo quem chama. Mal cerrei os olhos.Vade retro. famélicos. cardeais ricamente vestidos e nobres senhoras . De ambos os lados. . . Ao fundo.O rosto do papa está muito distante e muito alto . dois. . não esqueças. Mas conheço o perfume da amendoeira na primavera!. Ainda hoje. extenuados. . adormeci. Satanás! . escutando o mundo que despertava. com certeza.Esta noite a minha alma se encontra presa entre duas tentações. nós o veremos.Faz três dias que esperamos.falei-lhe baixinho.. . . mudando de lugar. muito doce. sinto vertigem. . afrescos representando a Paixão de Cristo. no terceiro dia. o porteiro chamou-nos.Não estou tremendo . Irmão Francisco .respondeume.exclamou ele. Amanhã. o Teu paraíso é doce. Irmão Leão! No quarto dia. Da manhã à noite. Uma longa sala estreita. . sentado num escabelo. em êxtase. Entravam e saíam bispos.Ânimo. Enquanto Francisco. . . as estátuas dos doze apóstolos. . 7. deve ser mais fácil ver Cristo do que o papa! desabafei. deparei com Francisco ajoelhado. descalços. Na manhã seguinte. sem dúvida. um . Percebi que os seus joelhos vacilavam. quando penso na Cidade Eterna. . Pára de tremer. Às paredes. . meu Deus.

. a testa franzida. apenas uma espécie de balido. ajoelhou-se e encostou a fronte no chão. O discurso. Francisco continuou a avançar. Ouvia-se a respiração do velho. essa miséria? Quem és tu? Sempre de rosto colado às lajes. Não sabíamos se dormia. .pronunciou Francisco. Parei a alguns passos da porta.De que chiqueiro saíste? Acaso pensas que o paraíso tem esse cheiro? Nem sequer te lavaste ou vestiste para comparecer à minha presença? Que desejas? Durante as suas noites de insônia. Suas narinas fremiram. . Não queria que o papa o tomasse por tolo. se rezava ou se nos observava por trás das pálpebras semicerradas. em presença da sombra de Deus. que desejas? . O papa franziu o cenho. um desenvolvimento e uma conclusão. olhou para o chão e o viu. pois permaneceu imóvel. perdeu a cabeça. cuidadosamente elaborado em seu espírito. compreendia um preâmbulo à questão. que ia saltar bruscamente sobre nós. . -. .O que são esses farrapos. Francisco respondeu: .Um humilde servidor de Deus. Reinava um silêncio profundo. . nascido em Assis. Mas. Decerto não nos ouvira entrar. . . O papa ergueu lentamente a cabeça. pesada e ansiosa. Como uma fera à espreita. de olhos fechados. Abriu a boca duas ou três vezes. Francisco preparara o que pretendia dizer ao papa. com a cabeça apoiada na mão.exclamou. em voz baixa e súplice. Minha impressão é de que fingia.Santo Padre.Mas que fedor! .majestoso ancião. aproximou-se do trono. dela não saiu nenhum som. todo trêmulo.Santo Padre. . . porém. agitando as sobrancelhas.Perdeste a língua? Fala. Santo Padre.

e pedir-te uma graça. numa voz repentinamente firme -. recebemos pedradas e legumes podres.Qual? . e eu vim. o perfeito Amor. Quando passamos na rua. . Rogo à Tua Santidade que me ouça.Um privilégio? Tu? Qual? . Santo Padre..A perfeita Pobreza.Vim prostrar-me os teus pés. Depositamos confiança em nossos corações. trazia bem gravado no espírito tudo o que pretendia dizer-te para obter a .Somos vários irmãos que queremos desposar a Pobreza.Santo Padre . Somos pobres. Santo Padre.. Não sucede o mesmo em relação a qualquer grande esperança que nasça sobre a terra? Acreditamos na Pobreza. No momento em que parti para vir à tua procura.Um privilégio. . ignorantes. . Vamos.São virtudes que já pregamos. na Ignorância.O privilégio da perfeita Pobreza. Santo Padre! .. E assim começa. que ardem de fé. Não necessitamos de vocês. E a concessão do direito de pregar.. perdoame.. retira-te! Francisco endireitou-se bruscamente: . Santo Padre.... louvado seja o Senhor. . Deus me ordenou que viesse falar-te. . . o caminho que escolhemos.És muito exigente! . vestidos de andrajos. a perfeita Obediência.Pregar o quê? . mas devo ficar. As pessoas saem de casa e os operários de suas oficinas para nos vaiar. Nós te pedimos que abençoasse o nosso casamento.disse. .

se me permitisses. depois outro à esquerda.Encontro-me diante de Deus . . depois o outro. observando-lhe os pés. Imagina.aprovação de nossa regra. pois. Cantando eu exprimiria melhor o que venho te pedir! Do canto onde eu estava parado.murmurei -. que se agitavam. Ah. exclamou: . antes de se lançarem no turbilhão da dança.Francisco. a minha alegria! Como não me perturbar! Assim. dobrou os joelhos. mesmo correndo o risco do teu desagrado. avançou um pé.. Atrás dele. sem saber por onde iniciar o meu humilde discurso. Esboçou um passo à direita. tomou impulso e saltou. Erguendo os braços. a Ressurreição do mundo. fazia lembrar um Cristo que dançava na cruz. sinto uma vontade enorme de soltar um brado e começar a dançar.retrucou em voz alta -. impacientes. . deves mostrar mais respeito! .Santo Padre. num grande grito desesperado. Ou cheio de esperança. Eu te contemplo e atrás de ti vejo o crucifixo. como prossegui-lo e depois terminá-lo. Pouco faltava para que começasse a bater palmas e a dançar.. de braços abertos. . como esses dançarinos que começam devagar. vejo a Ressurreição de Cristo. Santo Padre. . Não restava dúvida de que o espírito de Deus o transtornara. . como queres que me aproxime Dele senão a dançar e a cantar? Afasta-te! Jogou a cabeça para trás. e atrás da Ressurreição de Cristo. Dito e feito.. quase às ocultas. O vento de Deus sopra ao meu redor e me arrasta como uma folha morta! Aproximei-me sem ruído: . . meu irmão . Prostrei-me aos pés do papa: . Mas que importa! Tudo está contido num suspiro. abriu os braços. estás diante do papa. ouvia trêmulo o que ele dizia. . eis-me confuso. Assim. num passo de dança. Mas agora esqueci tudo.

rogo-te. Santo Padre.A noite é a grande mensageira de Deus. contemplando a Igreja de Latrão. finalmente calmo. Santo Padre. Ouvi então uma voz que gritava: "Socorro.Basta! . . . voltando a ocupar o trono com ar inquieto. . fala! ordenou o papa. . monge. . olhando em torno. É verdade. . aproximou-se outra vez.ordenou o papa. Quero ir. .Vai embora! . Ele sempre dança quando reza. que é a mãe de todas as igrejas. porém sinto que não devo. . . E enquanto a admirava. Francisco!” . inclinando a cúpula e fendendo as paredes de cima a baixo. . . Apoiou-se à parede e. Mas Francisco.Um sonho? Tenho grandes preocupações. vi que de repente oscilava.Um pouco de paciência. . Está inebriado de Deus e já não sabe onde se encontra. .Santo Padre. o mundo pesa-me nos ombros. num rochedo escarpado e deserto. Escuta-me. voltou a si. Segurou Francisco pelos ombros: . Não disponho de tempo para ouvir sonhos. pegando a sineta que lhe servia para chamar o porteiro. ofegante. perdoa-lhe. retendo a cólera. Ontem à noite tive um sonho. . Francisco parou.Eu estava.Prosterno-me diante de Tua Santidade.gritou.Deus não é vinho para inebriar. . mas este sonho talvez seja um sinal divino. E para dançar existem as tavernas. A noite é mensageira de Deus. O papa abandonou o trono precipitadamente.. Ainda preciso falar-te.

O papa apertou os braços do trono.Tenho vergonha. . opressa: .tornou a exigir. . Santo Padre. a boca amarga e os grandes olhos intumescidos de pranto.google.Eu também .Tira o capuz e levanta a cabeça! . Ergueu a voz. . Inclinou-se e agarrou Francisco pela nuca: . Se quiser outros títulos nos procure http://groups. nada mais vi. Um raio de sol entrou pela janela e pousou no semblante de Francisco. Santo Padre. 1 Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.Então foste tu? Não! Não posso acreditar! Quando tiveste esse sonho? .retrucou Francisco.Não escondas o rosto.ordenou. O papa desceu do trono num salto. será um prazer recebê-lo em nosso grupo. iluminando-lhe as faces cavas. 1 . como se fosse tomar ímpeto para se arremessar contra Francisco.Pronto! . . . .bramiu o papa -.E depois? Depois? Continua! . eu também tive o mesmo sonho hoje de madrugada. . .com/group/Viciados_em_Livros. quero vê-lo! .Foi tudo. rouca. O papa deu um grito: . Acordei e o sonho acabou. Sou apenas um verme da terra.Hoje de madrugada. curvando o busto para a frente.

rugiu. pouco após . aquele maldito ninho de vespas.. Em seguida.Não! . Sua respiração ficou difícil. . . escravos? . manuscritos. inquieto..A vontade do Altíssimo é insondável.Falaste com Ele? . Não implantei a cruz em todas as fortalezas da Itália? Não fiz todo o possível para sublevar a cristandade e libertar o Santo Sepulcro? Então por que não me chamaste. veio me procurar. Mas vi ainda algo mais que não viste. Também vi a igreja oscilar. Tornou a fechá-la. . . para Francisco: . O rumor da cidade se espalhou pela sala. e não trouxe para a tua corte as suas fabulosas riquezas: ouro. . .Viste Deus alguma vez? . . Ontem à noite. mas não falamos. . . exaltado e desdenhoso.disse. Foi obrigado a parar de falar. por que és injusto comigo? Não escorracei os albigenses e restabeleci a fé na Provença? Não destruí a cidade de Constantino.Passamos a noite inteira juntos. em vez de enviar um monge andrajoso e disforme para amparar as paredes desmoronantes da Igreja? . perscrutava-lhe a fisionomia.Insondável! Hoje de madrugada o teu sonho. Um monge em farrapos. De vez em quando eu me limitava a Lhe dizer: "Pai!" E Ele respondia: "Meu Filho!" Só isso! Inclinado sobre Francisco. perdoa-me. Santo Padre. . ícones.bradou.Dirigiu-se à janela e abriu-a porque sufocava. . . . .Sim. o papa.seria uma vergonha! Então o papa já não é suficiente?. depois de te abandonar. de cara disforme. Não sou eu o guardião das chaves do céu e da terra? Senhor. monge. dalmáticas.

na claridade.O monge de meu sonho tinha a tua cara! És.interpelou. Por cima de sua cabeça.Fala . Dá-me o direito de andar esfarrapado e descalço. por acaso? . pois. Santo Padre. brilhavam duas chaves enormes.É a voz de Satã.Pela segunda vez o papa agarrou Francisco pela nuca. não me faças esta afronta! Sacudiu brutalmente a cabeça de Francisco.ordenou.disse. Ignoro todo o resto. Eu a conheço. e designando a porta: .Serias tu. rebelde! . Sua misericórdia é infinita.Não sei o que dizer.resistiu Francisco -. lentamente. . danço e canto para Lhe provocar um sorriso nos lábios. terá compaixão de ti". .Vai embora! . tu quem vai salvar a Igreja? Não posso admitir. O papa baixou os olhos e. curvando-se sobre ele. Santo Padre. . esbaforido: . levantou-lhe a cabeça e. . foi sentar-se no trono. Que queres? Escuto-te. uma de ouro e outra de prata. por enquanto não posso julgar. ou como expor o meu coração sob as tuas santas chinelas. . de dançar e cantar nas cidades e aldeias. . Sou o polichinelo de Deus. com voz calma -. Ela ordena: "Não partas! Abre o coração ao meu representante na terra. nem por onde começar. Santo Padre.Por que tens esse desejo tão intenso de pregar? . Senhor! Eu sou a Tua sombra na terra. nem que seja fugaz. sem ter o que comer. Dá-me permissão.É a voz de Cristo. uma voz exige que eu fique. pintadas no alto do espaldar. Arrastouo até a janela.Santo Padre . pulo. sou incapaz de fazer qualquer outra coisa.

a perfeita Pobreza! Por que procuras ultrapassar o homem? Como ousas querer chegar aonde apenas Cristo chegou e onde se mantém em absoluta solidão? É uma grande insolência! "Desconfia. .Santo Padre. Digna-te colocar nela a tua venerável chancela. De onde provêm? Do inferno ou do paraíso? Não tenho confiança nos iluminados que pedem o impossível: o perfeito Amor.Isso é outra insolência! . a meus irmãos e a mim.Francisco. monge? .Santo Padre.falou lento. porque a presunção é o verdadeiro semblante de Satã.Sinto que chegamos à beira do abismo. . O papa cravou o olhar em Francisco. . os cardeais. Deposito-a aos pés do teu trono. eis a regra que nos regerá.Santo Deus! Quem sou eu para salvar a Igreja? Não existem o papa. Francisco de Assis. vislumbro chamas em torno de teu rosto. a perfeita Castidade. que vens de Assis . como se o exorcizasse -. . os bispos? Não existe Cristo para protegê-la? Sabes perfeitamente que apenas peço uma coisa: bradar: "Vamos cair no abismo!” Tirou do peito o manuscrito que me havia ditado. Cristo é que falava assim.. Dá-me autorização de bradar: "Vamos cair no abismo!" É só o que te peço! . Arrastou-se até os pés do trono: . gravemente.vociferou o papa. Quem pode afirmar não ser ele quem te induz a te situares acima dos outros e pregar o impossível?” Francisco baixou humildemente a cabeça.Crês que podes salvar a Igreja com tal brado. dá-me permissão de falar por parábolas.

Santo Padre. Santo Padre? ..gritou. Santo Padre. Francisco ergueu a cabeça: . "Perdoem-me.. senti uma brisa cálida e primaveril no meu coração. Que posso fazer se o meu pensamento.Quando. mas não disponho de outro recurso. O papa olhava-o em silêncio. De repente. . Vai-te! Francisco se prosternou.Sei. as casas oscilavam. Avançamos de braços estendidos. e não somente ele. Cruzou os braços e calou-se. que imprudência! No mínimo ela julga que pode trazer a primavera!" E a amendoeira sentiu vergonha. mas também a maior esperança.Podes. e.É demais! . no auge do inverno.” Dessa vez o papa não se conteve e deu um salto: . Estende-me a mão! Não estás à testa da cristandade? E não sou uma alma em perigo? Ajuda-me! . com passo incerto. . sim.Deus e Satã travam guerra dentro de ti. Caminhamos como bêbados.Preciso consultar Deus antes de tomar uma decisão. Depois recuou de costas e eu o segui. Nada mais. disse. Santo Padre.Perdoa-me. transformam-se em contos de fadas quando os retenho durante muito tempo? Se abrires o meu coração. "juro que não foi por querer. encontrarás apenas danças e contos de fadas.. As ruas ondulavam. e bem o sabes. todas as outras árvores reclamaram: "Mas que pretensão. o maior desespero. Passado um instante.. o ar se enchia de asas brancas. . a amendoeira se pôs a florir começou -. tínhamos a impressão .Posso falar.O teu orgulho e a tua humildade não têm limites. e por isso vim pedir-te a minha salvação. Às vezes. como nadadores abrindo passagem no mar. irmãs". os campanários vergavam. . .

como se nunca me tivesse visto.Ouviste o papa? Como falava com prudência. envolvendo a cidade inteira e perdendo-se no céu. Então nos virávamos. as janelas. Lançou-se em meus braços: . . Que rumor é esse? Será o de Roma? Onde estão os apóstolos. Enormes cachos de uvas negras pendiam das janelas.retrucou Francisco. pausadamente.Que foi que disseste? . voltou-lhe logo. como fragatas impelidas por fogoso aguilão.de que alguém nos chamava pelo nome. Chegamos ao rio. Francisco me olhou.Quem és tu? . A velha Igreja de Latrão constituía uma videira milenar cujas cepas enlaçavam às portas. mas era só imaginação. Irmão Leão.perguntou.ousei perguntar. porém. . inteiramente cobertas de véus. carregada de frutos.E crês que conseguiremos? . Não era eu quem falava. Ele sorriu com amargura. Ao mesmo tempo em que o mundo e os cachos de uva se esvaneciam. nosso espírito se fortificava.Nada. Recuei: .Perdoa-me. então? Onde está Cristo? Fujamos daqui! Olhando em torno. A memória. com segurança! Quem o segue não se arrisca a perder-se. Atrás de nós retumbava um oceano humano. Irmão Leão. as sacadas.Quando deixará o Diabo de falar por tua boca? . descemos à margem e molhamos o rosto na água para nos refrescar. surpreso. baixou a voz: . inquieto. . E o nosso alvo. Senhoras passavam por nós. não é justamente libertar-nos? . Vejo tudo pela primeira vez. Foi o Diabo que se aproveitou de minha boca. arrependendome logo. porém jamais poderá se libertar do lodo humano.

a flecha.Não muito bem. tomei a mão de Francisco e beijei-a: . . Colocou o peso de sua mão em meu ombro: . . Irmão Leão. posto que morra comigo. A primeira: Meu Deus. mesmo com o risco de me estraçalhar! "Retesa-me ao máximo. parou e esperou por mim. Irmão Francisco. Nunca esqueças isso. retesa-me ao máximo.e grava para sempre no espírito o que vou te dizer: o corpo do homem é o arco. que existem três espécies de oração.Retesa-me ao máximo. Aconselhava-me a . mesmo com o risco de me estraçalhar! Esta é a nossa prece. Deus. A alma humana consegue o impossível.. E no entanto sentia medo. de te libertares. afundando os pés na lama do rio. tanto de orações como de homens. A segunda: Meu Deus. Que queres dizer? Reduze o teu pensamento à medida do meu espírito. o arqueiro. e não tremas. Procurava imitá-lo. Caminhava rapidamente pela beira da água. Eu trilhava as pegadas de Francisco e me sentia feliz. Já te disse várias vezes e agora repito: sempre te sobra o recurso de partir.Só quando eu morrer. mesmo com o risco de me estraçalhar! Percorremos um longo trecho em silêncio. pois me considerava indigno de seguir aquele homem perigoso que rogava a Deus para que o retesasse ao máximo.Abre bem os ouvidos . compreendeste? .recomendou . senão apodrecerei. Irmão Francisco . Irmão Leão. que mais podia fazer? Mas ao passo que ele se oferecia ao Senhor com alegria. De repente. ainda podes evitar o estraçalhamento!” Curvei-me. Irmão Leão! Há três espécies. e a alma. eu só podia fazê-lo tremendo. não me reteses demais ou eu me despedaçarei. A terceira: Meu Deus.Tem confiança na alma humana. Realmente feliz. e sobretudo desconfia da prudência.Quero dizer. retesa-me.pedi -.

Conseguiu. depois de se debruçar ao ouvido de Sabbatino. Enquanto estavas junto conosco. . . pôs-se a chorar e falar ao mesmo tempo: . bem sabem. . Mas agora que nos deixaste. irmãos.. Irmão Francisco. E todas as noites. . parando para lhe estender os braços.Ele conseguiu entrar? .. . atrás de nós. diante dos olhos. aproveitando-se de que as suas almas estão sem guardião. Recordo uma tarde em que os irmãos se lastimavam de ter fome. cortariam uma fatia e ficariam saciados por toda a eternidade. eles acordam de mau humor e provocam os companheiros sem motivo. Que vai dizer Francisco? Ele está entre nós. Irmão Francisco. para lhes falar em leitos macios. lança-se sobre os outros irmãos durante o sono. Era tão doce o pão dos anjos que me alimentava. ofegante.partir. pois não me escutam.exclamou Francisco. De manhã. "porque não enxergam o pão dos anjos. pois farejava o teu hálito e tremia de medo. ouviu-se uma voz familiar: . causando brigas. explicara Francisco. No entanto. grande como uma mo.. não briguem. . "Vocês estão famintos". clama Sabbatino. .Trago más notícias. mesas fartas e mulheres. . Previne Francisco de que queremos . e nos vê e nos ouve!" Falo em vão.Padre Silvestre! . Ângelo e Ruffino. sim. . se pudessem vê-lo. .Que fazes aqui? Por que abandonaste o nosso rebanho? O velho sacerdote.Irmão Francisco! Irmão Francisco! Um monge esbaforido corria em nossa direção. "Urso em jejum não pode dançar. coisa a que me negava. Às vezes chegam às vias de fato. o Demônio rondava o aprisco. sem ousar transpor a barreira.” Repentinamente. "Temos fome". Eu interfiro: "Permaneçam unidos.

Capella revolta-se a seu modo . Padre Silvestre? Não me poupes nada.E Elias? .Ah.Continua. . murmura. nem chapéu nem capuz! Devemos andar de cabeça descoberta. Parece-lhe muito severa e desumana. ele quer modificar a tua regra. "Todos os homens". que não está na natureza do homem alcançar o perfeito Amor nem a perfeita Castidade. angustiado. estamos com fome!" O Demônio enfiou-lhes as garras no ventre e os arrasta ao inferno. dita a nova regra ao seu secretário.Que mais tens a me contar. Irmão Francisco.Bernardo e Piero também? . mas exclusivamente aos domingos. Anda de um lado para outro. De noite. exceto com Deus. universidades. . . diz ele. mosteiros. sempre lado a lado. Jogou fora o chapéu e pisoteou-o com raiva. Determinou que só se devesse comer carne uma vez por ano. gritando: "Não. .comer. E tampouco podemos falar. Irmão Antônio.Acha a ordem muito branda e espera vir a Roma pedir ao papa permissão para fundar uma nova ordem. Tenciona enviar missionários aos confins da terra. e mais.Estes continuam rezando na solidão.” Francisco suspirou: . . pois a conversa é um luxo. Considera a perfeita Pobreza demasiado custosa de suportar. Quer construir igrejas. continua . tanto no inverno como no verão".insistiu Francisco. conversa. Almeja converter o mundo inteiro. na Páscoa. fala.Bate mais! Estas feridas são as mais dolorosas.perguntou Francisco. . bem entendido.continuou o sacerdote. e que a nossa alimentação normal se componha de farelo e água. "deverão apresentar-se a Deus cobertos de capuz. . . com uma pitada de sal.

Vão cometer um grande pecado!" Não me deram ouvidos. "que se transforma em chumbo e não pode subir ao céu. recusaram-se a responder.. estão fartos de nos dar esmola. cinco ou seis irmãos soltaram um grito de alegria e correram à porta. e de um salto desapareceu no bosque. Lêem. Mas desprendiam um cheiro tão estranho e violento que o Irmão Bernardo desmaiou. Porém sucedeu uma coisa horrível. surgiu na soleira da porta. No dia seguinte. Não . Os irmãos saíram atrás dele.A toda hora chegam novos irmãos." E eis que. .prosseguiu o Padre Silvestre. um grande bode negro. dando graças a Deus por nos ter permitido passar esse dia em absoluto jejum e contemplação. não é um bode. Vestem hábitos claros e sandálias de pele. São fracos. fazem discursos na igreja. e prosseguiram na perseguição. Eu explicava aos irmãos os padecimentos de Cristo. A maioria é instruída e inteligente. de chifres retorcidos. .Armei-me de paciência . . "Um estômago cheio entorpece a oração". Irmão Francisco. . . disselhes. escrevem em grossos pergaminhos. Francisco teve de se apoiar em mim para não cair. e os demais. Sozinhos não podemos resistir! Aos poucos a confraria se dispersa. porque os cristãos. . Estávamos todos reunidos. é o Tentador. Os olhos verdes brilhavam na sombra e labaredas brincavam na pequena barbicha pontiaguda. empinado nas patas traseiras. saberá expulsar o Demônio e repor a ordem na nossa comunidade". enquanto eu falava. Logo.Pensei: "Irmão Francisco não deve tardar. gritando: "Esperem. Os teus antigos irmãos não podem defender-se. Fazem troça de nós. E depois o Diabo se alegra ao ver o homem com medo da fome. E sentimos a tua falta. . ao que parece. Nada tínhamos para comer. Foi na noite de Sexta Feira Santa. Dois dos mais jovens dormiram fora uma noite. Um deles puxou um vasto facão da cintura. fazendo laços com as cordas da cintura. Fui no encalço. precipitaram-se sobre o animal para segurá-lo. . vocês estão enganados. O bode vacilou alguns segundos. quando lhes perguntei de onde vinham para estar com um aspecto tão cansado. porém. enlouquecidos pela fome.

adverti novamente. como bêbados. o corpo vem colar-se ao pescoço degolado. Senhor. virando a cabeça de vez em quando e contemplando-os com olhos faiscantes na escuridão. . Tu és onipotente! . o irmão que levava a faca agarrou o bicho e brandiu a arma. sumia nas suas bocas em pedaços sangrentos. Padre Silvestre. "É o Tentador". E cheio de vida o bode salta e se perde na noite.vejo a cabeça do bicho mexer-se e elevar-se no espaço. . Em seguida puseram-se a dançar em volta da cabeça decepada. esquartejado. A culpa é minha! Eu vou. Reúne os irmãos.É dura a tarefa do pastor .. O animal escapava sempre.. . voltarei. deixando escapar sangue e fogo dos lábios. "não vêem as chamas? Em nome de Cristo. . pararam. O Demônio os tinha enfeitiçado e eles nada perceberam. Eu batia no peito e chorava. as quatro patas pousam no chão. Eu não quis voltar à Porciúncula. os irmãos continuaram a comer e dançar. tomados de medo. Todos acudiram e em poucos minutos o bode. . Subitamente . para me prostrar a teus pés e gritar: "A nossa confraria está em perigo.demorou muito. Até breve! O sacerdote se curvou e beijou a mão de Francisco.. muito dura. pede-lhes um pouco de paciência. O irmão do facão logo se lançou em cima dele. . como que temendo que os perseguidores desistissem da caçada. Irmão Francisco. . . esperem!" Alguns irmãos. lutando muito tempo e finalmente cravando a arma no ventre do animal. deixou de debruçar-se sobre eles. ouve-se um balido alerta e escarninho.. Um penetrante odor de enxofre empestava o ar. minha alma distraiu-se um momento. vem!” .murmurou Francisco -. Contemplou as águas do rio. ficaram abandonados. que corriam tranqüilas para o mar. vim diretamente para cá. Indiferentes. que caiu com um balido de alegria.A culpa é minha. Novas preocupações me assaltaram durante esta peregrinação. .oh. mas esfaqueou o vazio. E de repente o bode também ficou paralisado..

sandálias grosseiras de pele de porco. primeiro perturbado. Usava um cinto de couro. suspirando. o aspecto. em sonhos. não conseguia proteger toda a ninhada. Assim. abriu os olhos: . Eu. porque não deixava de pensar nos irmãos.indagou Francisco. colérico.Até breve . a .Meu irmão . Peguei-o pela cintura e arrastei-o para longe. . fitou-o. e afinal abriu-lhe os braços: . em vez de partir. Deixamo-nos cair à sombra de um álamo à beira do rio. Francisco... . Já me viste em algum lugar? . uma mesa farta e um leito macio! Fui eu quem comeu a carne do bode até se fartar. antes de partir para a Cidade Eterna. .Os sonhos . e vários pintinhos se molhavam. Suspirava continuamente. um estranho monge de hábito branco parou à nossa frente.repetiu. Súbito a Virgem gritou: "Meu Filho. extenuado.A culpa é minha . parou. eu.Fui eu quem cobiçou uma mulher. surpreso. meu irmão.. depois alegre. fechou os olhos. Ao ver Francisco. creio que eras tu. . e o outro. Trazem mensagens. Chovia. tem paciência. Esse rosto. Eu tinha a obrigação de decifrar essa mensagem suspirou -. tão fraca e de asas tão curtas que. Enquanto falava.Sim. Um era eu mesmo. Francisco virou-se para mim. e um boné escuro cobria-lhe a cabeça raspada. eles salvarão a humanidade".disse. a noite passada.falou .exclamou -. prestes a aniquilar o mundo.são as aves noturnas de Deus. . apesar de indigno. e dirigiu-se ao norte. sonhei com aquela galinha preta. Na cara rude e feroz os olhos pareciam dois carvões em brasa. apesar de seus esforços. de mão erguida.Por que me olhas com tanta insistência? . quem és tu? . piedade! Eis dois dos teus fiéis servidores. O outro. Cristo me apareceu. Por fim. .

afastando-se um pouco para que o estrangeiro sentasse a seu lado.Não . e venho dos confins da terra pedir ao papa autorização para fundar uma ordem destinada a combater os heréticos e os infiéis. Irmão Francisco? . dize.exclamou o irmão de branco. astuta. na praça de cada aldeia? Francisco estremeceu: .A perfeita Pobreza e o perfeito Amor.Eu também vim pedir ao papa permissão de fundar uma ordem e pregar. .E tu.respondeu. os ímpios? Não vais fazê-los morrer na fogueira.Chamam-me Francisco de Assis. Meu nome é Domingos. o Polichinelo do Altíssimo .roupa que vestes.protestou. na Espanha.A natureza do homem é vil . o capuz são os que vi no meu sonho! Quem és?.E que pretendes pregar. . e as almas subirão ao paraíso. .E os heréticos. Ceniza y nada! Ceniza y nada! Cinza e nada! Guerra! . .Sou espanhol. encolerizado. Deus nos reuniu.Não é matando os pecadores que suprimirei o pecado. suprimi-lo! Eu. Não quero declarar guerra nem aos maus nem aos infiéis. Devemos empregar a violência e. . quem és? . diabólica! A doçura de nada serve. deixando na terra as cinzas dos corpos que as retinham prisioneiras. se o corpo é um obstáculo à libertação da alma. não me leves a mal. Irmão Domingos. . . É o caminho que escolhi. Quero pregar a concórdia e a fraternidade entre todos os homens. Quero pregar o amor e nada mais. . Também sou conhecido como o Pobrezinho de Deus.Vil. hei de acender fogueiras. os pecadores.

A vida não é um passeio onde se anda aos pares. . se queres beber. Vou dizer-te francamente o que penso.replicou Francisco.Não .Misericórdia! . É fadiga. nem mesmo o Diabo.. que também está a serviço de Deus.respondeu o estrangeiro. cava um poço. não tendo o paraíso chaves nem porteiro.Receio apenas que sejas um cordeiro no meio de lobos. Vão te comer antes que chegues ao cume.Ignorava . Não está escrito nos Profetas: "O Reino dos Céus pertence aos violadores"? Francisco suspirou.que a violência também fosse uma coisa de Deus. Quer-se entrar no paraíso.disse . se queres suprimir o mal. .A única coisa que odeio é o Diabo. Não me olhes com esse ar aterrorizado.retificou -. meu irmão.Amor! . quem sabe? Talvez voltemos a nos encontrar um dia no rude caminho que conduz ao céu. e na época em que vivemos o mundo caiu tão baixo que o ódio é mais eficaz que o amor. . mas isso não basta. horrorizado com as palavras ásperas que acabava de proferir. não me leves a mal: conheces o amor. é preciso arrombar a porta. Contudo tremia. . porque. Irmão Francisco. . Deves aprender o ódio. luta. leva um machado no dia de tua morte.Violência! . Irmão Domingos . pobre mongezinho. Muitas vezes imploro a Deus perdão para o nosso irmão desgarrado. arrulhando canções de amor. Enriqueceste o meu espírito. . violência! Levanta-te com o sol e. mas o coração se insurge e grita: Amor! Amor! No entanto. ataca os maus.Queira Deus .

. Adeus! Levantou-se para ir embora. se eu pudesse escolher. a pena pousada na minha velha orelha. Um cordeiro e um leão. quereria ser o leão do Senhor. . Francisco então virou-se para mim e sorriu. fica sabendo que os cordeiros e os leões. descanso um instante. deixo-te. Lembro-me da violenta tempestade que certo dia refrescou a terra seca simultaneamente com os nossos corações. E queira a Divina Providência que também nos reencontremos lá e que não me devores! Francisco começou a rir. Recordo as igrejas. Vimos o hábito branco enfunar-se ao vento e depois desaparecer na curva do rio.disse.E não sabe que soou o dia do Juízo. e a luz e as trevas.disse -. Francisco e eu estávamos . . e revejo os dias e as noites passados na Cidade Eterna. Mas. meu irmão.Cordeirinho de Deus . vê bem.Quem? . antes de partir. Portanto. seguem lado a lado pelo caminho do céu.Adeus. acenando com a mão a guisa de despedida do fogoso monge. Debruçado sobre o pergaminho em que escrevo. todos se encontrarão no cume onde Deus está sentado de braços abertos. Irmão Domingos. Porém o amor não. vou revelar-te o maravilhoso segredo: um dia. Não resta dúvida de que o ódio o ignora. de olhos cerrados. assim como o bem e o mal. por sua vez. que transforma o leão e o cordeiro num único ser.Irmão Domingos quer nos comer . . e uma vez que vais embora.O Diabo! Irmão Domingos desatou a rir: . mostrando todos os dentes. não combinam. os bispos celebrando missa. Apenas o ignoram. os cânticos das crianças elevandose a Deus e o sol ardente cravado no firmamento. o amor e o ódio.

rindo. após tantos dias de angústia. para reunir as ovelhas invisíveis.abrigados no adro da Igreja dos Apóstolos. gera a fome. batendo palmas. As narinas aspiravam ao aroma da terra molhada. como um pastor. . de onde pendia. .A alma humana une-se a Deus. com seus inúmeros tonéis . Lágrimas de felicidade corriam-lhe tranqüilamente pelas faces. "A fome não existe. nem a sede. Irmão Leão . Francisco metia os dedos na boca e dava assobios.Que foi que aconteceu.De onde vocês vêm? . . e é ele que. Ele é que é o paraíso. .Não queres beber conosco? . numa fita de seda.respondeu Francisco. só o coração humano. de olhos arregalados.disse. Ele observava. Como era grande a nossa alegria! É admirável a faculdade que o coração humano tem de criar a partir de ninharias! "Cristo tinha razão ao afirmar que o Reino dos Céus está em nós".. nobre senhora. . ..perguntou. . E o meu espírito se inunda de papoulas.” Enquanto dançávamos. E quando.Do nada.Quem os embriagou a esse ponto? . a água e a alegria. ainda recordo como nos pusemos a dançar como loucos na praça fronteira à Igreja de Latrão. o selo papal ornado com as chaves do inferno e do paraíso. Não sentes as palavras do Evangelho intumescerem como sementes e germinar no âmago de tuas entranhas? Eu sinto as minhas cobrirem-se de relva nova. a chuva cair. nos foi devolvido o texto da regra. a partir do nada. uma jovem fidalga aproximou-se de nós.Deus. dizia eu a Francisco.O céu liga-se a terra. . nem a dor. monges? .Aonde vão? .

chorar e subir a Deus. Deus é grande. . . por favor. Quem transformaria. Francisco olhou-a com admiração. Entre o nada. Se eu fosse livre. criatura na mais encantadora querida e se fiel Irmã companheira de Francisco! Quem diria que o excesso de felicidade pode levar uma alma virtuosa à contrição e às lágrimas! . Para dançar.. mendigando de porta em porta. . Mas não posso falar com vocês em público. Que injustiça! Rezem a Deus para que me envie uma cruel provação. Vamos à minha casa. nobre senhora. sinto-me envergonhada por possuir tudo enquanto a maioria das mulheres não possui nada. Paciência! Dia virá em que. A jovem parou de rir. nobre senhora. e Deus. e isso me assusta.. compreende as mulheres e terá compaixão de ti. sou casada com o fidalgo Graziano Frangipani. dançamos e choramos. Mas tenho marido e filhos.Meu nome é Jacopa. poderás descalçar as sandálias e esmolar de porta em porta. . Até o nosso próximo encontro! . de onde saímos. Sou muito feliz e isso me envergonha. . sairia descalça pela rua. libertada. podia depois prever de que essa Clara.A Deus.. Consente que te chame Irmão Jacopa e não Irmã Jacopa. Tenho muita sorte. Cobriu o amplo decote com a mão direita e suspirou: .Sinto-me envergonhada . Tomou a dianteira e a seguimos. e um espírito viril.Então foi para isso que viemos ao mundo? .Sim.Quando? Onde? .Tens uma alma intrépida. . ao entrarmos em sua casa -.disse-nos Jacopa.

No meu íntimo. "Tem paciência". . um prato de cordeiro assado". .Quando dançamos na praça. quando há minha hora chegar. "Tem paciência ainda um pouco. Abanou a cabeça. lambendo os beiços. Quanto mais nos aproximávamos. . se dispusesse deles!" Sacudia a cabeça para expulsar a tentação. Depois repousávamos numa pedra. . Irmão Jacopa. . tudo irá bem. .. crianças e aves na terra disse-me ele um dia -. Caminhamos sem parar. pensava eu. no momento em que a nossa alegria atingia o seu ponto máximo. uma voz murmura: na terrível hora da minha morte! Levantou a mão e abençoou-a. Portanto. não tenhas medo. De vez em quando parávamos para beber água numa fonte. Cobertos de escoriações. O prato de cordeiro. nossos pés sangravam. a cabaça e a cama voltavam sem cessar a me seduzir.Ainda não completamos a nossa missão na terra. mais Francisco permanecia calado. que só se iluminava à visão de uma criança na estrada. o olhar voltado para Assis.Enquanto houver flores. . mas era inútil. morrerei. sem força para suster o corpo.perguntei-lhe. Tomamos a direção norte. . pedi-lhe. nem depois. tínhamos fome. . nada temas. . "Ah. anuviando progressivamente o semblante. em silêncio. "uma cabaça de vinho e uma cama fofa! com que fervor não haveria de glorificar Deus. uma flor nos campos ou uma ave trinando num ramo. assim que saímos. avistei o anjo negro descendo do céu. irmão das trevas!" Ele então começou a rir e ficou imóvel no espaço. .Como podes falar em morte? . e as noites eram frias. sacudindo dos pés a poeira romana e apressando-nos como cavalos rumo à estrebaria. Nem antes. Irmão Leão. Além disso.

acabo de me lembrar de um famoso ermitão que um dia me contou uma história inesquecível. meu filho . . porém às vezes meu espírito recalcitra e toma outro caminho.Meu coração se abre a todos e a todos acolhe de bom grado. Vai embora!. frio. cansaço. gritou a voz." "Já experimentei.Meu querido Irmão Leão. . perguntou-lhe: "Que desejas. e se o Diabo te fisgou. mas naquela noite tive um sonho: achava-me às portas do paraíso. Irmão Francisco.respondeu. "É fácil. Bati: Quem é?. a porta se abrirá.Procura dominar-te. um itinerante. respondeu o asceta. Estou no limiar do paraíso. de medo que ele pudesse ver o prato de cordeiro. . não sei por que. meu filho.Muito bem.Francisco adivinhou os pensamentos que me atormentavam. basta colocares a bilha do lado de fora durante a noite e terás água fresca. Baixando os olhos. Queres ouvi-la? . escutando os suspiros do eremita.O Diabo também? Como o sabes. . acariciando-me a cabeça. ainda não pude vencer a carne. Irmão Francisco? . a cabaça e a cama. nada temas. . Penso que o paraíso procede como ele. Sou eu. interpelou uma voz do interior. para suspirar com tanta força?" "Um copo de água fresca. O paraíso não foi feito para os que deixam a bilha do lado de fora durante a noite a fim de ter água fresca de manhã. santo de Deus. Irmão Leão. e ambos entrarão no céu. meu filho".” Caí aos pés de Francisco.Perdoa-me.Não percas a confiança. Um dia. .disse eu. e a porta continua fechada. Sinto fome. Irmão Francisco . . Sigo-te por toda parte.Sou todo ouvidos. Pousou ternamente a mão em meu ombro. Paômios de Tebaida.

de mansinho. pelo sol e pelos anos. desabrochadas sobre a sebe. o sol escondia-se no horizonte. Eram pardais que voavam na direção do plátano. . Deus se apiedou de ti. a fim de permitir que também possam entrar no paraíso. Irmão Leão. mas vou alimentá-los com a palavra de Deus. Erguia a cabeça ao ouvir gorjeios. erguia-se a fortaleza onde vive o suserano. O dia de trabalho findara. Irmão Leão.Chegamos a uma cidadezinha edificada sobre um rochedo pontiagudo. um plátano coberto de abundantes folhas verdes tinha aos pés uma fonte cristalina. O ar recendia a flores vermelhas. Na hora em que o . Estendeu as mãos para lhes dar as boas-vindas. Francisco se aproximou da fonte. Francisco teve dó de mim: .É assim que deve ser o paraíso. . rodeado de seus falcões. cercada por uma cortina de ciprestes.anunciou. encolhiam-se no sopé. pai das aves e dos homens. Entramos na cidade.Diviso um pequeno mosteiro entre as oliveiras. Virou-se para os pássaros.Silêncio. com os braços bem abertos. não te movas . muito os ama. É suficiente para a alma humana. e começou a pregar: . Não tenho grãos para lhes dar. regressando aos ninhos. E é em sinal de agradecimento que erguem o bico ao céu a cada gota de água que bebem. poderias espantálos.pediu -. Casas pobres. Não se pode pedir mais. até em demasia. No alto. minadas pela chuva. flanqueada por torres guarnecidas com bandeiras. Havia ali um bando de aves. outros se dispersaram pelo pátio.Meus queridos irmãos: Deus.Vamos repousar três dias aqui . inclinou-se. Sentamos no jardim de uma igreja arruinada. como bem o sabem. começando a chilrear alegremente. Irmão Leão. . Francisco olhou em torno e respirou a plenos pulmões. No centro. Alguns pousaram nos ramos.

voam bem alto no firmamento. então. Em seguida. a garganta cheia de canções. Os pombos que passavam naquele momento. hão de ouvir e saltar entre os tufos de camomila. . revoarão os cemitérios. Um deles foi pousarlhe no ombro. o sol ainda não tem força. Francisco saudou-as: .sol vem bater em seu peito. espicaçam o inverno com os bicos afiados.Bom dia. agitando as mangas do hábito como se fossem asas. Sua voz cantava. às árvores verdes e à alegria. De asas fechadas. pensem nos dons que Deus lhes deu. Faz frio. Concedeu-lhes asas para cortar o ar. chove. é para louvar o Senhor que saltitam de ramo em ramo. que à frente de todos os seres alados. até mesmo dos anjos com as trombetas. penas para aquecê-los no inverno e semeou toda espécie de alimentos pela terra e pelas árvores para que nunca passassem fome. Francisco abaixava-se cada vez mais. enfileirando-se em cima da sebe ou na beira do telhado da igreja. . até obrigálo a fugir. que todos os anos nos trazem a primavera nas asas compridas. E ainda por cima lhes enriqueceu as gargantas de canções .Irmãos pardais. arrulhando. . Deus se transforma num pássaro e se põe a cantar para iludir o Seu cansaço. Os mortos. irmãs andorinhas. Dir-se-ia que ele se esforçava por se metamorfosear em ave. mas já sentem o coração repleto de calor e bom tempo. de manhã. anunciando a Ressurreição. E quando vier o Juízo Final. Pousadas nas telhas das casas cobertas de neve. serão vocês. minhas andorinhas. irmãos pombos. chilreando sobre os túmulos. desceram e se atulharam a seus pés. rendendo graças à luz. espichavam o pescoço e ouviam. E quando as fêmeas chocam os ovos que enchem os ninhos. Agora eram as andorinhas que chegavam. para chegar mais perto Dele e serem ouvidos. ouvindo a doce voz de Francisco. saudando a eterna primavera! . ou esvoaçando de galho em galho desfolhado. quase se convertia em trinados.

da qual pendia um macaquinho de pano. nobre porte. mas o cavaleiro permanecia imóvel. tomara que consigam ver Nossa Senhora das Aves sobrevoando os ninhos. coroados de hera. Debrucei-me à sebe e fiz sinal a um jovem: . monge.O que canta ele? . Guilherme Divini. Os pardais se aproximaram e começaram a bicar com ternura o hábito de Francisco.Calem-se! . Um bando de rapazes e moças. Vinha com um alaúde a tiracolo. o amor. mas de elegância espalhafatosa. .bradou. dotado de nariz grande e aquilino. saudou demoradamente tudo que o rodeava. Um cavaleiro que passava. . os pombos arrulhavam. a ouvir. E ele.Irmãos pássaros. vão dormir. parou e começou a rir às gargalhadas. e lábios sensuais. Nunca ouviste falar em amor? Os pombos haviam partido. fez o sinal-da-cruz e os abençoou.É o "rei dos poetas".indaguei. Os últimos raios do sol.Quem é esse nobre cavaleiro? . dirigiu-se ao ruidoso séquito: . Era um homem de meia-idade. Já é noite. O rosto do cavaleiro resplandecia. à guisa de amuleto. Também pararam e desataram a rir. incendiavam-lhe os cabelos louros.O amor. a tarde caiu. De repente.Parece um rei! . Não ouviste falar nele? Vem de Roma. Trazia uma coroa de louros na cabeça. Depois. E se Deus lhes conceder a graça de sonhar. durante o sono. erguendo a mão sobre as suas cabeças. onde foi sagrado no Capitólio.As andorinhas batiam alegremente as asas. notando que Francisco falava aos pássaros. . . seguidos pelas andorinhas. e a cintura estava cingida por uma corrente de ouro. furioso. como uma enorme andorinha. caindo-lhe sobre a cabeça. seguia-o.

. que os homens acabam de sagrar "rei do verso". E os anjos te cercarão. estava cego e agora vejo.Agora sinto-me tranqüilo .Francisco se despedira dos pássaros e se preparava para ir embora. .Santo Pai .Adeus. Até hoje cantaste o mundo. E beijo-te a testa ainda cheia de canções. saltando da montaria. veio ajoelhar-se a seus pés. Santo Pai. Irmão Pacífico. Assim te batizo porque a partir deste momento és admitido à paz do Senhor. beijando-lhe os pés ensangüentados -. . virou-se para eles e saudou-os: .prosseguiu. e em seu ataúde . podes estar certo.exclamou. Dá-me um hábito cinzento. Francisco se inclinou. . salva a minha alma! Passei a vida a cantar o vinho e as mulheres. e cinge-me a cintura com uma corda. arrancou a coroa e a desfez em pedaços. . Doravante cantarás Aquele que o criou. Leva-me contigo. Pacífico. ergueu-o e beijou-lhe a testa. estava morto e ressuscito. . estou cansado. E quando soar a hora final. Os rapazes e as moças acorreram a juntar as folhas de louro.Levanta-te.vou também desembaraçar-me destes trajes extravagantes e desta corrente de ouro. Meu nome é Guilherme Divini. Tolos! Dito o quê. Irmão Pacífico. companheiros da minha vida de outrora. . espalhando as folhas de louro pelo chão. quando o cavaleiro. pedindo-te que lhes ensines novas melodias. Leva-me junto para louvar a Deus. para longe dos homens. Conserva o teu alaúde. entrarás no paraíso com esse instrumento a tiracolo. porém. podem ir embora! Guilherme Divini morreu. enterrem-no. perguntando-se se o célebre trovador acabava de inventar um novo jogo ou se enlouquecera de vez. . também ficará às ordens de Deus.

onde estamos? . Isto aqui é um mosteiro.Mas o que vem a ser isso. Os jovens se dispersaram. A princípio os monges torceram a cara. canta-nos alguma coisa para que a alegria floresça na face do Senhor! Aos poucos. de bico voltado para o céu. com escadaria de mármore.Como é que vocês imaginam o paraíso? . . e ficamos só os três. e tu. Irmão Pacífico cantava. . . . Irmão Pacífico. . atirando-lhes a corrente de ouro de onde pendia o talismã de pano. os monges se acostumaram conosco. e estou saturado de testas franzidas. À tarde.retrucou Francisco. Descansamos três dias no pequeno claustro. "não gosto de suspiros. . Francisco riu. .coloquem este macaquinho . Francisco os reunia no pátio e lhes falava do amor. com as outras aves.Como.Meu coração é um rouxinol. atônitos. . ouro e asas? De maneira nenhuma! Uma noite eu o vi em sonhos. Irmão Pacífico.protestou o prior. . . Era uma aldeia diminuta cercada de vegetação." Toca o alaúde. canta uma nova canção. Francisco ria. dirigimo-nos ao minúsculo mosteiro do bosque de oliveiras.perguntava-lhes. da pobreza. Enquanto caminhava.repetiu. com Francisco à frente.Trago ao mundo a nova loucura. Como um vasto palácio. do paraíso. trazes-lhe uma nova canção. Irmão Francisco. Pacífico tocava alaúde e eu o acompanhava com minha voz rouca. exclama Ele. meu Pai? .Querias então que entrássemos chorando na casa de Deus? "Basta de lágrimas". e agora.Adeus .Para sempre!. Veio te ouvir. Ao centro. Tenho sede de ouvir risos na terra. a casa de Deus! . . na mais humilde de todas as .disse-lhes.

Graças às canções de Irmão Pacífico. irmão. amamentava Deus.Saúdo-te. um cheiro de carne assada estimulava o apetite. .Senhor.murmurou -.Os irmãos estão em festim . queres prestar-me um serviço? Empresta-me o teu gorro. julgando-se no paraíso. Devolvo tudo em seguida. . Extenuados. à medida em que nos aproximávamos. cidade bem-amada . escutavam-se gritos e risadas.perguntou o mendigo. É só para ir cumprimentar os irmãos. . . Porém. a exemplo da Virgem Maria. cerravam os olhos. A chaminé fumegava. Francisco ia na frente. .Ele mesmo. o caminho nos pareceu mais curto. radiantes.choupanas. a noite descia suavemente sobre nós. apressara-se. Dá-me esse prazer e serás recompensado por Deus. e os monges. ajuda-me a enfrentar calmamente os irmãos. a alma humana. E enquanto falava. Farejando à distância o aroma do assado. o ar se povoava de asas azuis. Pacífico e eu o acompanhávamos sem ruído.disse Francisco. .. abençoando-a com o sinal-da-cruz. ao lado do poço. O sol já se tinha posto quando chegamos à Porciúncula.Ancião . comem carne! Um velho mendigo ia passando. Certa tarde vislumbramos ao longe a cidadela e as torres de nossa querida Assis. Francisco estacou: . pois Francisco queria surpreender os irmãos para ver o que faziam e ouvir o que diziam. na esperança de que lhe dessem algum pedaço de esmola. Três dias mais tarde regressamos ao norte. o alforje e o cajado.És tu o tal Francisco que dizem de Assis? .deteve-o Francisco -..

Francisco pôs o gorro na cabeça.Pelo amor de Deus. Francisco pousou a colher. juntou um punhado de cinzas. não conseguiam engolir nada. mas nenhum ousou demonstrá-lo.Toma. Estavam profundamente confusos ao serem surpreendidos por Francisco a comer carne e divertir-se. misturou com a sopa e começou a comer. Ele não lhes estendeu os braços.Entra . . como costumava fazer: conservou-os cruzados no peito. realmente. abandonavam a cabana ou se lançavam aos pés de Francisco. o pobrezinho de Assis! Os irmãos não puderam mais se conter. meus irmãos . tenham piedade de um pobre velho doente que morre de fome! . Um noviço lhe trouxe um prato de sopa e uma fatia de pão. Ao contrário dos outros. . Francisco foi sentar-se ao pé da lareira. "São estes os mesmos irmãos que mendigam de porta em porta e todo mundo considera santos?". perguntei-me. outros. podes levá-los. virando as costas para os irmãos.gemeu. Depois de comer um pouco. A tempestade não tardaria a desabar. Elias aproximou-se. apanhou o alforje e. ao vê-los instalados diante destas iguarias abundantes. vou entrar para a sua ordem e cair na boa vida. dissimulando a voz . pelo amor de Deus. não chorava nem rogava clemência. . digam-me se vocês são. foi bater à porta da Porciúncula. Alguns romperam em pranto. Debruçados sobre os pratos. Então inclinou-se. mal pude crer no que via. irmãos .responderam -. os humildes irmãos de Francisco.. Os irmãos o reconheceram logo. apoiandose ao cajado.disse -." Pelo amor de Deus. "Neste caso. . senta-te perto da lareira e come! Baixando a cabeça para esconder o rosto. . Esperavam. meus irmãos. tomados de medo. pedindo-lhe perdão.Perdoem-me. mas.

mas nunca simpatizei com aquele homem. Cada confraria tem o seu Judas. Por que motivo Deus o enviara a nós? Qual seria o Seu desígnio secreto? Um dia. "Agora vamos à igreja. . e quero que Deus me acuse de mentiroso se Elias não for o nosso! . os irmãos se reuniram na orla do bosque. o missionário espanhol.falou -.. Que Deus me perdoe. Dá-lhes a tua bênção. amanhã lhes falarei. Irmão Elias. e não do pobrezinho de Assis. Francisco permaneceu em silêncio. a aprovar a nossa regra. que o observavam. rodeado pelos companheiros. viste o papa? A nossa regra traz a sua chancela? Francisco levou a mão ao peito.Não gosto do Irmão Elias.Irmão Francisco . aproximando-se de vez em quando dos camaradas. Sua alma se sentia acanhada na Porciúncula. também. não sejas tão apressado -. Elias caminhava de um lado para outro. Tinha o rosto eivado de orgulho e cobiça. pedir a Ele que se digne. Judas serviu a Deus . . de cabeça baixa.” No dia seguinte.insistiu Elias -.respondeu ele. falando-lhes em voz baixa. . Perto dele. Deveria andar em companhia do violento Domingos. armando-me de coragem. cumpriu o seu dever. ousei dizer a Francisco: . queria dominar o mundo e entrar a cavalo no Reino dos Céus.O selo do papa está aí.Se Deus quiser.Irmão Francisco . A Pobreza e o Amor não lhe eram suficientes. . angustiados. com suas chaves. . não reconheces os irmãos? Durante a tua ausência recebemos novos membros na nossa confraria. Era tão alto que sobrepujava a todos. Francisco desaparecia: ficava ainda menor e mais humilde. Por bem ou por mal.respondeu.Se foi escolhido para trair.Tal como os outros.

como se ajoelhara para depor o manuscrito da regra a seus pés. .pusera o seu selo. o que ele dissera e o que Sua Santidade havia respondido. Francisco se levantou e. de braços cruzados. do mesmo modo que a tua santa pessoa: "Pai nosso. vendo Elias Bobarone falar em segredo aos irmãos. Permite-me ressuscitar no dia seguinte à minha morte e dá vida a todos os carneiros que eu tiver devorado a fim de que possa devorá-los novamente!” "Foi isso o que o lobo respondeu. narrou a chegada à Cidade Eterna. porque constitui uma impertinência perante Deus!” Mas eu não tinha o coração igual ao de Francisco.Tu te lembras do lobo de Gúbio. Irmão Leão. Baixei então a cabeça e parti. Por quê? Não sejas tão curioso. não tentes modificar a ordem das coisas. estendia a mão aos irmãos à maneira de quem pede esmola. E sabes o que me respondeu? "Francisco. seja feita a Tua vontade. como era seu hábito. Quando estávamos todos reunidos. Tu. baixa e triste. estremeci de cólera e medo.perguntou-me. . És grande. Curva-te à vontade do Altíssimo e deixa-me entrar livremente nos estábulos quando a fome me atenaza. Com palavras simples. assim na terra como no céu. O carneiro de cada dia nos dá hoje.sem dúvida por ordem de Deus .Refletiu um instante. Senhor. que tudo aceitava e perdoava. começou a falar. De vez em quando. que fizeste tão saborosa a carne do carneiro. e santificado seja o Teu nome. o lobo de carneiro. Um dia fui à floresta a fim de esconjurá-lo. o papa . que reinas na floresta e me ordenaste comer carne. a que cessasse a carnificina. Naquele dia. Três dias depois. ele veio. e baixando a voz: . Não se deve indagar o motivo das coisas. Chamei-o. a audiência com o papa. Também faço as minhas orações. oh. em nome de Deus. enfim. O carneiro se nutre de ervas. . que entrava nos estábulos e massacrava os carneiros? . A voz era calma.

como uma leoa. bons e maus. com voz de trovão -. . ergo as mãos para ti e suplico-te que me atendas: dilata os nossos corações de modo que possam amar todos os seres humanos. dos rios e dos mares. todos os animais. domésticos e selvagens. bem como o ar que respiramos! Ajuda-nos a vencer a Tentação que ronda. Seu corpo possante fumegava. a Porciúncula e a nossa alma. filho querido de Deus. o suor lhe escorria das têmporas. fecundas e estéreis. se o aprova ou não. chegou a nossa vez de falar.. frio. Amor. "Amor. todas as pedras. Fez-se silêncio. e fiquemos sem abrigo! "Nossa Senhora da Castidade.proferiu Bobarone. sem reservas. Outros nada tinham a dizer por não compreenderem com clareza o que acabavam de ouvir. os irmãos escutavam. De joelhos. Francisco ergueu as mãos e orou: .Nossa Senhora da Penúria. Meus irmãos. és a nossa única riqueza! Não nos abandones! Faze com que tenhamos sempre fome. Leu-o lentamente. Pois somos todos irmãos e seguimos o mesmo caminho. a estrada de regresso à casa de nosso Pai. todas as árvores.Irmão Francisco . purifica o nosso espírito e o nosso coração. Que cada um se levante e proclame.” Calou-se: o Irmão Elias se levantara de um salto. Somos iguais perante Deus e todos têm o direito de exprimir livremente o que pensam. mas carecia de palavras para expressar a minha concordância. destacando cada sílaba. Também me calei. Alguns tinham objeções a apresentar. Ao terminar.Ei-lo! Francisco tirou do peito o pergaminho santificado. acabamos de ouvir o texto da regra. Estava de acordo. . mas calavam-se por respeito a Francisco.

. entusiasmado. segundo o que Deus lhes aconselhar. apavorados. .Não tem forças para se manter em pé.São apenas os nobres que cheiram mal.O povo passa fome! . o Padre Silvestre levantou-se. porém. Irmãos. pobres monges que somos. meus irmãos.declarou -. os trajes de seda.disse -.Irmãos . Seus olhos azuis estavam cheios de lágrimas. sou o mais velho. É por aqui que temos de começar! Pelo menos na minha opinião. abandonemos este mundo. por isso me permito falar em primeiro lugar. Ajam. Que Santo Sepulcro? O pobre povo. atacar os senhores poderosos? Partamos! Refugiemo-nos no deserto. por sua vez: . e ocupemo-nos do reino da terra. o mundo está podre. Irmão Francisco. devemos abrirlhe os olhos! Deixemos o Reino dos Céus um pouco de lado. Necessitamos de um secretário para anotar as palavras de cada um de nós! Então ergueu-se o Irmão Bernardo. a fim de que os homens.O mundo não está podre . . proclamando: "O mundo vai acabar!". Destruir a nobreza é o único meio de libertar o Santo Sepulcro. um momento.Passado suspirando. . as plumas que usam na cabeça. incendiando-lhes os castelos. Como poderemos nós. Sabbatino se pôs em pé. é isso o que devíamos fazer. que é crucificado todos os dias! A ressurreição do povo será a Ressurreição de Cristo! . o fim se aproxima. Essa é a verdadeira cruzada. consagrando os nossos dias e noites à oração.Irmãos . . Na minha humilde opinião. É pela cabeça que o peixe começa a apodrecer! Sublevemos o povo e ataquemos os fidalgos.bradou Junípero. Dispersemo-nos pelos quatro cantos da terra. A oração é soberana. Nem chega a perceber como é espoliado.vociferou. façam penitência. Precisa primeiro comer para readquiri-las.

Francisco me abraçou e me fez sentar-me à sua direita. ao lado dos leprosos. .Nada de guerra ou violência! A própria oração não basta. Vem. Prosterno-me diante da tua onipotência. espalha-se pelas cidades e perturba os corações ímpios. opera o teu milagre! À medida que Francisco falava. dos esfaimados. . fazendo sinais com a cabeça aos companheiros. reinam a dor. Irmão Leão! Depois. O nosso lugar é no meio deles. Curvem-se e murmurem ao verme: "Eu te amo!" Ele imediatamente ganhará asas e se transformará em libélula. por mais eremita que seja.disse. . . excedendo-se. mas com a oração. a doença e o pecado. Um verme. Amor! . porém a oração opera milagres lentamente. mas é necessário. Não resta dúvida de que é duro e perigoso viver entre os homens. Contudo.Ninguém falou com tanta habilidade e convicção comentou. após balbuciar meia dúzia de palavras. meus irmãos. . meus irmãos.Amor. o que é preciso são atos. . levantou-se: . Irmão Bernardo. Levantei-me. . Sobe até Deus e conta-lhe a dor de ser humano. é também mais rápida e eficaz. Amor. . . o Irmão Elias. É fácil isolar-se no deserto para rezar. dormita nas entranhas de cada criatura. inflama nossos irmãos! Vem. atrapalhei-me e rompi em pranto. agitava-se na pedra que lhe servia de assento.Precipita-se do cume da montanha onde se ajoelha aquele que reza. meus irmãos. embora difícil. Não é com os bens corporais ou com as armas que salvaremos o mundo. por minha vez. Eu te abençôo. ao passo que a ação. escondendo o rosto nas mãos. como costumava fazer: . Em toda parte onde houver seres humanos. Alguns irmãos começaram a rir. repugnante e imundo. ergueu-se e abriu os braços. De repente. para falar. visivelmente encolerizado. dos pecadores. .

Ele mesmo disse: "Não vim trazer a paz.retrucou Elias.Cristo era um leão .pediu.Tu és o leão . e não procurar a perfeita Pobreza! Por que tanta presunção. . Paz! Paz! Meus irmãos! Elias. mas o gládio!” .Não escutem mais nada. um cajado e um alforje.. paz .Paz. a fim de manter a comunidade. meus irmãos. mostra-nos o caminho! Pálido. . Irmão Francisco? O próprio Cristo deu aos apóstolos a liberdade de possuir sandálias. o Amor não basta! É preciso a guerra! Nossa ordem deve ser uma ordem guerreira. . esgotado. E o guardião da sacola se esmerava em enchê-la. precisa ser um leão. levantando Elias nos braços. O Evangelho diz que toda árvore que não dá bons frutos tem de ser cortada e lançada ao fogo. . que Cristo expulsou os vendilhões do templo a chicotadas? Digo e repito. irmãos. não te esqueças de que Cristo era um cordeiro e tomava sobre Si os pecados do mundo. . Para vencer os poderes da terra devemos ficar mais fortes.Como poderemos pacificar o mundo se não reinar a paz em nossos corações? A guerra gera novas guerras e derrama o sangue humano. Será que esqueceste. Tinha a voz triste e amargurada: . apoiado ao meu ombro. toma à dianteira. Irmão Francisco. E tu pretendes ser melhor do que Cristo? A riqueza é uma espada todo-poderosa. . segurando numa mão a cruz e na outra o machado. em lugar do aspersório necessitamos de um chicote. Francisco se ergueu. e os irmãos. não fiquemos desarmados neste mundo infame e hostil! O nosso chefe não pode ser um cordeiro. irmãos: façamos a guerra! Alguns dos novos membros da confraria se puseram a saltar com gritos de euforia.proclamavam -. combatentes destemidos.

o Padre Silvestre interveio: .rogou -. parem e semeiem o grão imortal que é o Verbo Divino. dispersemo-nos pelos quatro cantos do mundo! E ao regressar à Porciúncula. Deixem prosseguir tranqüilamente. indicará a melhor solução. fortaleçam as próprias almas. contaremos uns aos outro o que vimos e padecemos durante a nossa primeira missão. Não se esqueçam. contudo. meus irmãos. enfurece e atrai o Diabo. ouçam. e vocês todos. perturbados.Irmão Elias . Lá existe uma imensa quantidade de homens que nunca ouviram falar no nome de Jesus. partam logo. O Santo Padre nos deu o privilégio de pregar. Quanto a mim. que ameaça desmoronar. "Meus irmãos. e viver assim acotovelados. Tentarei arranjar um barco para atravessar o mar e chegar às plagas longínquas dos infiéis. levantaram-se prontamente. A Porciúncula é pequena. entrando em conflito a cada instante. dou-lhes a minha bênção! Espalhemse pelo campo de Deus. fiel conselheiro de Deus. Vejo-lhe os olhos verdes luzindo no escuro! Francisco afastou os irmãos que o cercavam e aproximou-se de Elias: . de suas obrigações. Sempre que cruzarem com um grupo de pessoas. aos pares.Os irmãos. no íntimo. trabalhem-no. com o auxílio de Cristo. Então. à . O menos numeroso chorava em torno de Francisco.declarou -. portanto. devemos partilhá-los fraternalmente! Não esperem. À nossa frente se abrem todos os caminhos da terra. irrita. a fim de encontrar ânimo e consolo mútuos.Irmãos . o Amor e a Paz. Se Deus quiser. Saiam ao ar livre. A nossa comunidade atravessa um momento de crise. dividindose em dois grupos. as opiniões opostas que foram ventiladas nesta reunião. O tempo. Fortaleçam o mundo. berço que nos viu nascer. Os outros se juntaram a Elias. semeando nele a Pobreza. Satã voltou a semear a discórdia entre nós. preencherei esta lacuna! Avante. meus filhos. irei ao país dos árabes. Conservem os corações alheios à ira.

dá o fora!. O eu não entra no paraíso. Senhor. . Aos cem anos morreu pela terceira vez. perguntou a voz. Tu. Aqui não há lugar para dois. pretendiam libertar o Santo Sepulcro. Lívidos. Apresentou-se ao paraíso. enfim. recomeçando a luta com mais fervor do que nunca. Ao longe.” 8. . O mar revolto abria uma infinidade de goelas prontas a nos devorar. à esquerda do navio. Foi para o céu e bateu à porta do paraíso. Uma tempestade violenta desabou nas proximidades do cabo Malé. O sol queimava por cima de um mar flamejante. respondeu o ermitão. agarrados a um galho. Como tantos outros. Depois de repartir todos os seus bens entre os pobres. . o eremita regressou à terra outra vez. mas o Sultão Melekel-Kamel era ao mesmo tempo um valente e um soberano habilidoso que defendia encarniçadamente a cidade. Ah.ambição e à inveja. Eu!. ei-lo de volta à porta do paraíso. respondeu. para obter. Era verão. homens maduros e velhos de barbas brancas. Desesperado. se pudessem saltar. vai embora! O eremita então desceu novamente à terra e reiniciou a luta: pobreza. Não digam sempre: Eu! Submetam essa fera terrível e insaciável ao amor divino. Antes de nos separarmos. soltando suspiros. repetiu a voz. "Chegou a hora da morte. Quem é?. Tu!. Quem é?. Os cruzados sitiavam Damieta há meses. Quem é?. lágrimas. preces. indagou a mesma voz. Eu!. meus filhos: "Era uma vez um eremita que durante a vida inteira se esforçara por atingir a perfeição. Quando morreu pela segunda vez. guerreiros couraçados. A bordo. perguntou uma voz lá dentro. surgiam as ilhas gregas. replicou a voz. Aqui não há lugar para dois. a salvação de sua alma. Então a porta se abriu instantaneamente e ele entrou. jejum. retirou-se para o deserto e consagrou-se à oração. quero lhes contar uma parábola que deverá ficar gravada de modo indelével no espírito de vocês. os guerreiros contemplavam a terra com avidez. entre os quais adolescentes.

Os incrédulos podem refutar que a alma seja capaz de falar ao mar e impor sua vontade. Caiu a noite. um céu de chumbo cobriu o mar e o navio começou a oscilar. te esconjuro.Oh. Não me viu nem ouviu. No entanto. Foi então . esforçava-se por exorcizá-lo nestes termos: . Francisco suplicava mansamente às ondas enfurecidas. . vão libertar o Santo Sepulcro. recusou-se à submissão imediata. filho de Deus. Lembra-te de Cristo. Perseguem uma nobre finalidade. e por volta da meia-noite cessou de bater furiosamente contra os costados do navio. que um dia te disse: "Acalma-te!" Pelo seu nome sagrado. acalma-te! Tinha-me deitado de bruços sobre os rolos de velas e escutava os bramidos do mar misturados às lamentações dos passageiros. A princípio os bramidos se atenuaram. e pôs-se a implorar a Deus. deixou-se domar. Eu estava certo de que o mar escutava Francisco. porém. Francisco andava de um lado para outro. ao redor da embarcação. De pescoço estendido para o mar. mais forte mesmo que a morte. Seu humilde servo.que se operou o milagre. contudo. Não são mercadores nem corsários. falando-lhes em Deus à guisa de consolo. Perto de mim. tem piedade de teus irmãos homens. Compreendi pela primeira vez o mérito do homem que se põe a rezar. Francisco ajoelhou-se à proa.recobrariam o ânimo! As mulheres que viajavam em sua companhia soltavam gritos agudos. eu. rangendo como se fosse despedaçar-se. devemos ter pena deles. mas foi a coisa mais simples. soldados de Deus. eu conheço o segredo. Aproximei-me. . entre os rolos de velas. mar. . Não vês a cruz vermelha que trazem no peito? São cruzados. e Deus e a Morte também. ainda zangado. mais natural do mundo: o mar se acalmou. para se estender. humilde e tranqüilo. enquanto o mundo desmorona. Aos poucos. Francisco me ensinou: a alma é mais forte que o mar. à beira do desespero.juro por esta alma que entregarei a Deus . Digo milagre.

mas finjo que não e prontifico-me a te seguir não importa aonde. .Eis a estrada do paraíso. Francisco. eis-nos na boca do lobo. A lua. A água tornava-se pouco a pouco verde. cordeirinho de Deus. adormecera. . os homens.Até o paraíso? .disse -. Irmão Leão . para impedir que se revoltassem novamente.explicou-nos o comandante. sempre encolhido à proa. distinguimos claramente. sim .Arrastei-me para perto dele e beijei-lhe os pés ensangüentados. Passaram-se dias e noites. . Os soldados partiram logo à procura do exército de Cristo. No barco. Estás com medo? . À distância. . designando os longínquos minaretes. Francisco prosternou-se na praia e traçou o sinal-da-cruz na areia.Até! Pois bem. arenosas. Amanheceu. Francisco me olhou com compaixão: . que adquiriam tons rosados aos primeiros raios do sol. o mar. É sinal de que estamos perto. exausto.exclamou.respondi -.O mar já se encontra com o Nilo . que tínhamos deixado tênue como uma foice ao sair de Ancona. No dia seguinte. erguiam-se torres e minaretes. consentira que o sono se apossasse de seu corpo. desfigurado. fixos ao sul.Estou. tudo resplandecia e sorria: o céu. perscrutavam o mar à procura da maldita terra dos muçulmanos. . Todavia nem percebeu. a caminho. ao longe. Ele achou graça. Todos os olhares. Ficamos sozinhos no areal despovoado. Ancoramos numa baía deserta. pois tinha a atenção ocupada em vigiar os vagalhões negros.Irmão Leão . Depois de uma noite de trabalho árduo. a cor pardacenta das terras baixas. voltou a minguar após atingir a plenitude.De fato.

Soldan! Soldan! . que tem piedade de ti. .Tenho fome . os minaretes crescem a olhos vistos. E anima-te. . postavase o carrasco. O soberano conhecia a nossa língua. Ao seu lado. nariz delicado e ligeiramente adunco. conduziram-nos à presença do sultão e atiraram-nos a seus pés. de espada desembainhada.retrucou o potentado. . pode-se saber? .E de que maneira. começou a rir. . um crioulo gigantesco.bradava Francisco. ouvimos gritos selvagens. ilustre sultão. Começamos a cantar para esquecer os sofrimentos. enviou-nos para salvar a tua alma! .Somos cristãos . Surgiram dois negros à nossa frente. de pé! Levantamo-nos. . Francisco parava e apertava-me o braço.Por que vieram meter-se na boca do lobo? Que desejam? Era um belo homem. e Cristo.tornou a indagar. indicando os minaretes. quando o sultão nos vir. ornado de um crescente de coral.Paciência.Quem são vocês? Que desejam? . reprimindo a custo o riso. . Repara. olhos de um negro profundo.perguntou. armado com um iatagã. Depois de nos espancarem. monges safados? .Quem são vocês.queixei-me. De vez em quando. . Usava um amplo turbante verde. incapaz de resistir. empurrandonos com o pé.Vamos. ordenará que ponham a comida no forno! Enquanto falávamos. Já era noite. .explicou -. estamos chegando. Francisco persignou-se.Salvar a minha alma! . Vendo-nos.O sol já ia alto e a areia ardente queimava os pés. de barba preta e crespa. . monges. meu filho.

Virou-se para Francisco.Estás louco? . para que Deus nos teria dado a chave que abre o seu ventre? Queres.ordenou -. que me torne eunuco? . monge? Então.A mulher é. a mãe de teu Cristo! Francisco baixou a cabeça sem responder.Significa amar os próprios inimigos. senão mando-te cortar a língua! Pensa em tua mãe.Pela perfeita Pobreza. na tua opinião. .Embainha o teu iatagã .começou Francisco. O soberano arregalou os olhos. pelo perfeito Amor e pela perfeita Castidade. porém. se tens alguma. trêmulo de raiva: .Amar os meus inimigos! Desta vez. . senhor sultão.Queres explicar o que significa o perfeito Amor? Perguntou o sultão. melhor ainda. abrandando a voz como se falasse a um doente: . . não devemos matá-los. .Que tolices estás dizendo. dirigindo-se ao verdugo: . ergueu a mão. já que és cristão. mendigando de porta em porta? E nunca mais tocar em mulher? Mas. Depois. pensa em Maria.exclamou. . não fales mal das mulheres. . senhor sultão. . ou. . palácios e mulheres para andar esfarrapado como tu. em tua irmã.Cala-te. O sultão.. devo abandonar as minhas riquezas. nesse caso. esses infelizes são loucos. . por acaso. . não pôde conter o riso. fazendo sinal ao carrasco para que se aproximasse.

Esquecendo onde estava e que bastava um aceno do sultão para que lhe cortassem a cabeça. . na Ressurreição. O sultão quase sufocou de tanto rir. . Portanto. No paraíso não se come nem se bebe. monge . Trazia no cinto um espelhinho e um pente para se pentear. O meu profeta apreciava os perfumes. Estava banhado em suor. Precisaria ser louco para escolher o paraíso cristão. Dizem até que cada remendo era oferta de um pobre. Agora fica quieto. com os cabelos em desalinho e uma roupa feita de retalhos. o de vocês andava descalço. cantava. também tenho algo a dizer-te. falando nos sofrimentos de Cristo. deixa-me em paz.Não blasfemes. assobiava. Não duvido que naquele momento ele tivesse perdido a razão.disse o sultão.Como é esse paraíso de que vocês.. no Juízo Final e até no inferno. rios de mel e leite. Além disso. em suma.Vejamos se me convém. . cristãos.Espíritos? Vento. as mulheres e as flores. O sultão também ria e o estimulava com aplausos. onde os infiéis ficam ardendo durante séculos a fio.É cheio de anjos e santos.Dou-te a minha bênção. É verdade? . Gosto muito mais do paraíso terrestre. onde há montanhas de arroz. . e acima deles está Deus. . Há muito tempo eu não ria com tanto gosto. Francisco zangou-se. e belas mulheres que recuperam a virgindade depois de cada abraço. pôs-se a pregar sem medo. É povoado exclusivamente por espíritos. tanto falam? indagou. O Verbo Divino o exaltava a tal ponto que começou a bater palmas e dançar.E que há para comer lá em cima? Para beber? Para abraçar? . sujo. gostava especialmente de enfeites bonitos. Ao que me consta. Ria. Francisco parou. De repente.

e o sangue que lhes escorria das cabeças rompidas maculava os albomozes brancos. Por isso.Dêem de comer a ambos .Estou com fome! .ordenou. A cidade. e imediatamente apareceram os dois negros que nos haviam conduzido à sua presença..E tu. nada dizes? Fala alguma coisa. quero ouvir a tua voz! .Tirem a comida do forno. . tirou um espelho da cintura e alisou o bigode.exclamei. Tiradas algumas baforadas. E depois ponham os dois em liberdade para irem ao encontro de seus correligionários! Os infelizes são loucos. Estás pronto? Ouço o rangido das portas do paraíso. O sultão reabriu os olhos.retruquei. dervixes executavam a dança do sabre.Espera um pouco. Apreciava tudo o que um homem pode apreciar e desprezava tudo o que ele pode desprezar. . monge. pegou o narguilé de boquilha de âmbar que um rapazola veio acender. bonitos . cerrou os olhos beatificamente. Depois. Diante das mesquitas. venero-o e me esforço por imitálo.Eis o momento oportuno para morrer. . era também homem. em êxtase. fedia. . é! Ele assumiu a dor de todos os pobres da terra exclamou Francisco. Não me convém. Cadáveres humanos e cavalos estripados jaziam nas ruas. . devemos respeitá-los. O profeta de vocês era de pedra e espírito.Sim.Maomé não era apenas profeta . O sultão cofiou a barba. Dirigiu-se a mim: . O sultão começou a rir.recomeçou -.Para que morrer. Nos cafés. Francisco virou-se para mim e disse: . . invadida pelo exército do Oriente. . Bateu palmas. Francisco? .

acompanhando-se a um estranho instrumento oval: o tamburah. . vinha o rumor da cidade muçulmana. de ventre branco. pedirei a esmola de um pedaço de pano a cada pobre que encontrar. Na retaguarda. De repente. calado. perdida a milhares de léguas. atravessamos rapidamente as ruelas. arregalando os olhos para o mundo.Irmão Leão . tapando o nariz. os guias apontaram para longe. do outro lado da duna. designando uma duna pouco elevada.disse -. sem nunca ter ouvido falar em Cristo. Mulheres desfilavam. e por um instante o ar nauseabundo recendia a almíscar. com os grandes dentes brancos rutilando à luz do sol. Francisco olhava o chão. "Os cristãos!" rosnaram. Eu contemplava tudo. se Deus quiser. Aproximávamo-nos do exército cristão que há meses sitiava a cidade arianista. e na quantidade de almas que viviam em pecado. . À frente. O sultão tem razão. que me parecia subitamente infinito. No encalço dos dois negros que nos orientavam. Pensei em Assis. mas perdemos uma oportunidade de entrar no paraíso retrucou. . ouviam-se o som dos clarins e o relinchar dos cavalos.Escapamos de boa.Sim. Francisco estacou. preocupado. . Depois de desferir algumas bordoadas violentas em nossas costas. sobrevoavam a praia. Irmão Francisco. Prosseguimos sozinhos. embuçadas da cabeça aos pés. exóticos. Deixamos a cidade. Não demorou muito.rapazes cantavam árias lânguidas e melancólicas. Como poderíamos pregar a todos a palavra de Deus? A vida é curta e a terra é imensa! Pássaros vermelhos. foram-se embora correndo. quando voltarmos à pátria.

Francisco trepava numa pedra e pregava. . sem nunca pronunciar o Seu nome? Não sei quantas semanas vivemos no meio deles. seja para rir dele. o pobre Francisco foi obrigado a tapar as orelhas para não ouvir as cançonetas obscenas e as pragas que brotavam de todos os lados. Francisco se ajoelhou à entrada. a fumaça que subia das residências incendiadas e das fogueiras velava o firmamento. O calor era sufocante. A batalha recomeçou. ocupados em arrombar as portas das casas. seja para lhe jogar um punhado de areia. . Os cristãos conseguiram escalar as muralhas e tomar a cidade. erguendo as mãos e rogando a Deus que desviasse o rosto para não ver o que os Seus soldados faziam na terra. suplicando aos soldados compaixão pelas vítimas.exclamou. O sultão lograra escapar num cavalo veloz. e por toda parte se tropeçava em cabeças decapitadas. Multicor e ruidoso. os cruzados passavam. gente que só falava em pilhagens.Senhor. massacres e estupros. alguns sem sequer virar a cabeça. a guerra converte o ser humano em besta sanguinária . Seriam esses os soldados de Cristo. Como esquecer os lamentos das mulheres e os gemidos dos homens degolados? O sangue jorrava. transforma-se . Meu espírito continua atordoado por um alarido ensurdecedor. Francisco corria de um lado para outro.O homem perde a feição que Tu lhe deste. com as faces banhadas em lágrimas. porém o empurravam. invocando o Santo Sepulcro e a misericórdia divina. abandonando harém e riquezas.Tínhamos atingido o cimo da duna. Não gosto de recordar essa época. Quando chegamos à planície onde os cruzados haviam erguido suas tendas. O estandarte de Cristo drapejava no telhado do palácio. aos prantos. Grassavam o saque e a carnificina. enquanto outros paravam. o acampamento dos cruzados se estendia a nossos pés.

e creio que jamais conseguirei. Por trás dos negros. Francisco foi consolá-los e fazer-lhes companhia. Corria-lhes sangue e pus dos olhos. o Teu! Tinham reunido os velhos e os doentes numa mesquita. . A enfermidade cegara a maioria.em lobo. sobre o qual se pode caminhar porque é feito de gelo.Tudo o que dizes não pode ser mais sensato. Não cesso de me alegrar por ter dado esse salto. raças selvagens e antropófagas. Porém. não tenho o valor de um santo!. meu Deus.Saltar como? . piedade! . A vista se turvara. . Francisco inclinava-se. Irmão Francisco.Eu te disse. e como não podia caminhar sozinho.Em seguida. e no entanto me arrependo a todo o momento. Os olhos.. avermelhados. soprava sobre as feridas. que não te aproximasses demais! . .O mundo é demasiado grande.respondeu.. tocando as pálpebras de leve com a ponta dos dedos. há os negros. sussurrando palavras de amor e consolo. . e devolve-lhe o seu verdadeiro semblante. Ai de mim. E mais distante ainda. pedindo ao Altíssimo que os curasse. quando te decidirás a saltar? Então sempre hás de caminhar? .Por cima de tua própria cabeça. . são Teus filhos. . doíam-lhe.censurei-lhe. Agora já não posso mais tentar. em porco imundo. Até hoje nunca consegui saltar. .Por trás dos sarracenos.. E tanto fez que um dia contraísse a moléstia. um oceano sem fim. O único salto que pude dar foi acompanhá-lo. Irmão Leão . eu precisava guiá-lo pela mão. . no vácuo! Não.Tua prudência é infinita. Apieda-Te dele. . Também são criaturas humanas - murmurava -. Irmão Leão .disse Francisco noutra ocasião.

Qual? . e poderás observar. "deixa-me descer.replicou -. quando a gente hesita entre dois caminhos para alcançar Deus. ao morrer. Fiquemos aqui. Senhor". Irmão Francisco. como é grande a atração da folha verde! O verão chegou ao fim. Quem sabe até se Deus ainda continua o mesmo? Vem. vamos embora! . o tempo se encarregará disso. "Senhor. eis aí o outono.Não te inquietes. debruçando-se sobre o mundo.Era uma vez . sabes qual é o que se deve escolher? .começou . Ah.disse-lhe um dia -.O mais difícil.Tu estarás lá em cima no céu. Um dia. . realmente. porém. . o mais íngreme.Irmão Francisco .O tempo. .Meu filho . Quando partimos? Tenho pressa de voltar à Porciúncula. .Mas nós já não estaremos vivos. . .um eremita que.murmurou. . . O tempo. . Aqui tudo nos é estranho. Irmão Leão? Não respondi. Ele suspirou: . Havia encontrado a beatitude perfeita. gritou. . subiu ao céu e se aninhou nos braços de Deus. permitindo que eu experimente outra vez o prazer de tocá-la!" Compreendeste. Hás de trabalhar livre das algemas temporais.Como conseguiremos levar a todos a notícia de que Cristo desceu a terra? . . Senti medo. Neste país a vida é dura. avistou uma folha verde. .

E ele achava graça nessas humilhações. . . Abri os olhos e.arrulhava. meus irmãos? Não pensam Nele? .Vem .Pregava o Verbo Divino o dia inteiro. por que te recusas a salvar tua alma? Não lhe tens dó? E o teu corpo. com voz cativante. De repente. desesperado. Ria junto e se punha a dançar em plena via pública.Sou o polichinelo de Deus e dos homens.clamava. O sol queimava. Puxavam-lhe o hábito. o Seu Santo Sepulcro que vocês vieram dos confins da terra! Já há muito tempo. . A mulher caiu na gargalhada. não pude deixar de gritar. sempre a pregar. mas repentinamente sentiu pena dela: . Estendida ao seu lado havia uma prostituta. que dois soldados cristãos tinham trazido para se divertirem. escutei Francisco aos gritos.Eu sou o paraíso. quando vinha pela rua agitando o cincerro. durante o sono.disse-lhe -. Cansados. monge. atiravam-lhe pedras e o acolhiam às gargalhadas.E Cristo. . mas ninguém prestava atenção ao que dizia. vem! Francisco cobriu o rosto com as mãos para não ver. Os cruzados tinham uma idéia fixa: a pilhagem.Se quiseres. não te dá pena? Deixa-me colocar as mãos em tua cabeça e rezar para que Deus te perdoe.Foi para libertar o Seu túmulo. minha irmã prostituída. adormecemos. completamente nua. venham rir! Certa vez estávamos deitados à porta de um convento. venham rir. também horrorizado. Abria-lhe os braços. . Pede a Deus que desça e opere o milagre. põe as mãos na minha cabeça e pratica os teus exorcismos. porém. Francisco se convertera em alvo de derrisão geral. que entregas aos homens há tantos anos. Era meiodia. .Minha irmã . irmãos. convidando: .

começaram a escarnecer da mulher. por cima do corpo nu. Deus está contigo. Nós dois corríamos atrás dos soldados. rompeu em pranto.. os pecadores e as prostitutas. . tem piedade desta criatura. Francisco então retirou as mãos e fez. suas feições se suavizavam. Lembra-te do que Ele disse à prostituta quando ainda andava pelo mundo: "Perdôo-te porque muito amaste". . Deus é bom e perdoa. porém. fecha-te em casa e nada temas. Nuvens esparsas se espalhavam pelo céu. .Jesus .suplicou.Perdão!. Bandos de abutres seguiam as tropas de cruzados. apanhou o vestido largado ao chão. Decerto sentia a santidade de Francisco penetrando-lhe o espírito e o coração. num gesto rápido. O exército de Cristo levantou acampamento e pôs-se a caminho de Jerusalém. . minha irmã. Ela.murmurou -. Chegou o inverno. Tu que desceste à terra para ajudar os pobres. Eu levava Francisco pela mão porque os seus olhos haviam se reduzido a duas tênues fendas inflamadas. O fundo de seu coração é bom. onde eu possa fazer penitência? .Não me abandones! Não tens um convento. o sinal-da-cruz. que acompanhavam a cena de longe. De repente.Francisco colocou as palmas das mãos na negra cabeleira solta da mulher e ergueu os olhos ao céu: . Aos poucos.Não chores. .. rindo sem parar. Os soldados. Vai. apenas escolheu o mau caminho. em algum lugar.A terra inteira é um convento. Estendelhe a mão e leva-a a senda da salvação! A mulher fechara os olhos. cobriu o corpo nu e lançou-se aos pés de Francisco. minha irmã. Podes viver castamente sem abandonar o mundo.

À direita.O mar! . nuvens amontoadas tolhiam a claridade do sol.Como se isso não bastasse. com as velas ondulando na suave brisa que soprava. mas Deus te recompensará! . leva-nos junto! Não temos dinheiro para pagar a passagem. azul e verde. À esquerda. Deixei-o ali. comovido. .Na manhã do terceiro dia. ele tombou extenuado na areia. Larguei Francisco na areia e aspergi-o com a água salgada.O mar! . . ancorado.exclamou. Irmão Francisco. Levantei Francisco desmaiado nos ombros. feitas de tijolos e palha ou esterco de vaca.Quando? . o mar. . Vamos voltar.Irmão Leão . não posso mais. O exército desaparecera no horizonte. a custo e tropeçando. o mar sem fim. Queria ir até o fim. dirigi-me à praia.gemeu -. Olha! E mostrou-me os pés ensangüentados e purulentos. o mar cintilava. ao longe. Assim. Não disse nada nem ofereceu resistência. . onde se enfileiravam algumas palhoças. estou possuído por novos demônios! Não ousei interrogá-lo. adivinhando perfeitamente que espécie de demônios eram. Estávamos em pleno deserto. Mais ao longe.Sim. Suspirou: . porém não tenho forças. Suas pálpebras estremeceram. segurando-o pelos joelhos . Cheguei lá ao meio-dia.Tu regressas à pátria .disse-lhe. Encontrei um barco com uma cruz negra à popa. corri ao barco e prostrei-me aos pés do comandante. Dois pescadores puxavam as redes ao longo do areal.

não posso.supliquei de novo. não podiam Lhe pedir que soprasse e enfunasse as velas? Se conseguirem um bom vento. Vai buscar o teu amigo e comecem a rezar! Corri a Francisco. nervoso: . roupas quentes e vento? Jogou-nos aqui. há um barco que vai para a nossa terra. . . e talvez nossos esforços não tenham resultado algum. O comandante promete levar-nos.Tens duas alternativas pela frente: o caminho do inferno e o do paraíso. ancorado ali adiante. Ele saberia rogar a Deus e fazer-se escutar.Irmão Francisco. já me deve bastante e ainda não O vi abrir a bolsa. Quem sabe tu e o teu companheiro. Mas é a Sua vontade. Reflete e escolhe. .No outro mundo. Abriu diante de meus olhos uma grande asa negra. Estou há três noites inativo neste lugar. monge.Leva-nos . Mas é a Sua vontade.Escuta. . Não me peças tal coisa. não me incites a bradar constantemente a Deus: "Mais! Mais! Mais!". . a todo instante. Irmão Leão. .Quando as galinhas criarem dentes!. garanto como Ele atende.. . à espera de um vento propício que não há jeito de chegar.insisti -. Não manda vento ao barco que impeliu até aqui. . sou capaz de levá-los sem cobrar passagem.replicou. . neste deserto. que mantêm boas relações com Deus.Não me leves a extremos. . Julgas que Ele não tem nada mais a fazer do que dar pão. . Aquele moribundo encontrara forças para me segurar pela nuca: .Pede . O homem cofiou a barba. se rogarmos a Deus um vento favorável. Mas é a Sua vontade.Só creio em milagres do coração . Francisco se levantou de um salto. O capitão caiu na risada. no verdadeiro. Bastava querer. Deus é mau pagador. e não tenho mais direito à luz.

Espantei-me ao ouvir Francisco falar de modo tão agastado. vendo a terra árabe afastar-se. . soprada do sul. peste ou vento favorável. As pequenas cristas aumentaram ligeiramente. . Nisso.Os novos demônios me envenenaram o coração e a língua. . em movimento. no momento exato em que Francisco terminava de falar. Eu só olhava o mar e chorava. estalou-as e enfunou-as. Nada. E que o Altíssimo nos envie o que Lhe aprouver: fome. Então. o mar estremecia e punha-se. Que dê ou não dê. Irmão Leão. por acaso. . Francisco pôs a mão no meu joelho.Perdoa-me . depois uma brisa tépida. beijei-lhe a mão e fiquei calado. aos poucos. enquanto chorava. não se deve pedir nada a Deus em nossas orações.Quando a gente pede. Ele não atende . junta as mãos e vem rezar.Quando não se pede.Irmão Francisco. Hoje. não me lembro mais a respeito do quê. Acho que já nos queixamos o suficiente. Quanto mais passa o tempo. Curvei-me. o capitão nos chama. monges! Inclinei-me e agarrei Francisco por baixo dos braços. ouviu-se a voz do comandante: . Continuou a falar. pela primeira vez. ouço uma voz que me . que Lhe exigíssemos contas? Ou que O incitássemos a alterar os Seus desígnios? Cala-te. ergueu-se.disse. . vamos! . o vento sacudiu as velas do barco com violência. mais percebo que Ele não gosta nem de arrogantes nem de importunos.Ei.A tua excelência desejaria.murmurou. ele compreendeu que me magoara e arrependeu-se: . .Irmão Leão . E enquanto o olhava. . Ele dá. santificado seja o Seu nome! A caminho! E no momento em que nos sentamos à popa. . De repente. o vento veio.disse -.

Sentado à popa. rolando por entre os ramos da árvore. Francisco tinha razão. as nossas penas tinham sido inúteis. Uma manhã. insolente!” Assim." E no mesmo instante. . Nem ousava expor o problema a Francisco. e os cruzados saqueavam e degolavam desfaçatadamente. a ave. que Deus te dê explicações? Cala a boca. quando enfim surgiu a costa de nosso país. em cima das cordas. calei-me no barco. agachado a meu lado. então. O mar espalhava um cheiro agradável. Ele chorara e pregara em vão: o sultão não se convertera. "quem canta no peito do rouxinol. Francisco se aproximou. pois lembrava-me de uma noite em que havíamos parado a ouvir um rouxinol cantando ao luar. incapaz de achar uma resposta. esquecidos dos motivos que os haviam levado a abandonar suas pátrias e rumar à Terra Santa. acrescentou. e o barco singrava com todas as velas enfunadas. dissera ele. "Morreu de tanto cantar". porém? Ainda não sei. "Por que será necessário que a pequena garganta quente do rouxinol emudeça? Por que é que os olhos do homem têm de se transformar em lama? Por quê? Por quê?" Francisco franziu o cenho: "E por que essa mania impudente de estar sempre fazendo perguntas? Pretenderás. eu monologava. exclamei revoltado. "É Deus". . por acaso. Como era belo o regresso! Os dias e as noites passavam como clarões negros e brancos. Mas por quê? Por quê? Desesperado. a vontade de Deus. caiu a nossos pés com o bico ensangüentado. "Por quê?". baixinho. embora as mesmas dúvidas me atormentassem constantemente o espírito em revolta. Era essa.segreda: "É preciso tomar outro caminho!". Qual. . apanhando-a do chão e beijando a minúscula garganta cálida. eu interrogava a mim mesmo.

Surgiram às casas. Parecia abençoá-la ou expulsar o Demônio. Debruçados à proa. . Que alegria voltar ao torrão natal em plena primavera. Então saberemos. onde ficava a Porciúncula. Ao descer do barco.Eu era uma galinha. e nos perdíamos em reflexões. pensei. mas um tremor gelou-me as costas. . Certa noite dormimos numa granja e ele me acordou.Nem todos os sonhos provêm de Deus. a terra se perfumava. os vinhedos.Não enxergo direito . precipitou-se e arrebatou-os.Não é a primeira vez que sonho isso. avistei um gavião no céu. e tinha recolhido os pintinhos debaixo das asas.. as figueiras. Não fiz comentários. . "O gavião é Elias!" Francisco suspirou: . Apavorado. "Elias!". Quem seria o gavião? . as oliveiras. beijamos o chão.. perturbado -.Não devia ter vindo embora .murmurou -. erguia o braço e fazia o sinal-da-cruz na direção do norte. . Súbito.prosseguiu. . .Irmão Leão -. A segurelha e o tomilho decerto estavam em flor. Queira Deus que não se realize! . não devia ter abandonado os meus filhos. O dia começava a nascer. um pesadelo. deixando os filhotes desprotegidos. . . mas sinto a pátria aconchegada em meus braços como uma filha que se torna a encontrar. . Era início de primavera. O litoral se aproximava. De vez em quando ele parava. .disse Francisco -. . então. Irmão Francisco.. Não precisas ter medo retruquei. deixando-os sem proteção. quando as árvores florescem! Eu segurava Francisco pela mão para que não caísse. O pássaro. fugi.Em breve chegaremos à Porciúncula.disse. contemplávamos amorosamente a costa. tive um sonho. Os campos reverdeciam.

Deus venceu! Contente. . hás de transpirar e desprender fumaça dos cabelos. se a tiveres.gritei. e as cercavam. . Partamos! Começamos a ascensão. Não. Irmão Francisco tranqüilizei-o. louvado seja.Mas ficaremos gelados! O inverno ainda não acabou de todo.Ajuda-me a sair do inferno. com asas de morcegos. sonhei outra vez. Eu tiritava. não sonhei.murmurou. . assustado -. preciso procurar Deus e purificarme!. Surgiu a neve. estava com os olhos bem abertos. e enxerguei a Porciúncula por trás do arvoredo. desapareçam!" Fiz o sinal-da-cruz no ar e eles se evaporaram. Quanto mais subíamos.Tem dó de mim . Irmão Leão. . . mais o ar se tornava gélido. .Irmão Leão . tinham caído sobre a nossa igrejinha. Persigna-te. caiu de bruços. atingimos finalmente o cume. já é dia. Então gritei: "Pelo amor de Deus. . que te aconteceu? Sempre a tremer. o corpo em contorções. Francisco levantou-se de um salto e começou a dançar.Teu sonho é bom augúrio.Se não tiveres fé. partamos para o alto de um píncaro nevado e oremos! Antes de rever os irmãos. segurou-me a mão: . ofegante -. Vem. nossas celas. Como que derrubado por uma visão hedionda. primeiro à altura dos tornozelos.Irmão Francisco . vamos embora. e logo à da barriga das pernas.exclamou. Nossos pés descalços afundavam naquela brancura glacial. . . . Mas de repente parou. é certo que ficarás gelado! Porém. espíritos impuros. chifres e caudas em formato de saca-rolhas. Três demônios. À tarde.. transido de medo. . e deve haver neve da altura de um homem lá na montanha! Francisco sacudiu a cabeça: . .

Estou aqui. procurar Deus tranqüilamente. . lamentava-me intimamente.perguntou Francisco. eis o que me conviria!” Ajoelhado na neve. Despiu-se. não consegui falar. Tinha cada vez mais sono e fome. Preguiçar. pobre Irmão Leão.Pensa em Deus. . não fazia outra coisa. "que vontade de me deitar aqui e dormir para sempre. Pensei em Deus. .Uma nova súcia de demônios me atormenta. podes tentar . pelo contrário. Meus lábios estavam azulados e rígidos. bater às portas. a teu lado. .Sentes frio? . Irmão Leão? Não te vejo. deitou-se e. e é para afugentálos que rolo na neve . Em seguida enrolou-se no hábito. "Ah!". . Ouvi a voz de Francisco: . deter-me nas tavernas.Se fazes questão. . irritado.. entoando o hino que cantavam os três meninos na fornalha. enfim. o suor lhes escorre das axilas.confessou. . Porém não me aquecia. tão próximas. . . Parece que. Pensa em Deus e te aquecerás. . rolou no chão. pousou a cabeça num travesseiro de gelo. A noite caiu.repliquei.Eu não sou asceta. Nunca as tinha visto tão grandes. Francisco rezava. passado um instante. Para mim basta! Não possuo vocação de herói nem de santo. Ele acariciou-me as costas com ternura: . tão cintilantes.Onde estás. .Consta que os ascetas das montanhas cavam poços na neve. o céu cobriuse de estrelas. . onde descem completamente nus. para dormir.

Tomei-o nos braços para impedi-lo de cair: . . . .Contempla-me com desprezo.. De repente. sacode a cabeça. irmão! Quem és? Quem te envia? Por que meneias a cabeça? Calou-se para ouvir alguém que lhe falava. começando a falar-lhe em voz baixa. pede-Lhe que o mande embora! Francisco. .Ele voltou! Olhei. no entanto. estremeceu da cabeça aos pés.gritei-lhe. com os olhos fora das órbitas. . .Olha ali .Socorro! Socorro! .sussurrou.Deixa-me . ternamente. ia-lhe responder. Olha! Abracei-o. e há em . Levantou-se de um salto e recuou dois passos. o mendigo do capuz.E se for Seu enviado? .gritou.O mendigo."Não tenho nada a ver com isso!".Invoca Deus. como se quisesse defender-se de alguma coisa.Fala. .repetiu. Traz na testa uma chaga em forma de cruz.murmurou. Inclinou-se e fez uma bola de neve com o intuito de atirá-la na aparição. Irmão Francisco. sou homem.Quem é que estás vendo? . avançando um passo e bradando: . fixava a extensão de neve deserta. aos brados. vai embora! Luto contra os demônios. não havia ninguém. sacudiu a cabeça. para acalmá-lo. e o sangue corre. . Mas desistiu logo.. apavorado.Olha! Olha! .continuou -. . . Depois estendeu as mãos para a frente. batendo os dentes. . por acaso não tenho o direito? Não sou arcanjo. quando repentinamente ele arregalou os olhos e começou a tremer. com as mãos e os pés furados.

fala. já disse! Atirou a bola de neve que conservava na mão. Seguiu-se longo silêncio.respondi. Desatou a rir sem parar: .respondi -.Por que criou Deus a mulher? Por que tomou uma costela do homem para criá-la? E por que o homem. Não sou eu quem vai falar. Quem poderia imaginar que demônios dessa espécie haviam de lhe atormentar um dia a carne? .exclamou. porém.Irmão Francisco . Enquanto as pronunciava. durante o qual ele friccionou-me as têmporas com gelo.repetiu -.Não sou anjo . com o devido respeito. com angústia -. Deus me ajuda. o demônio dos seios opulentos! . Teríamos tomado um mau caminho. vai! Para que me mostras essas mãos furadas? Vai embora.Não fiques calado . . . quem fala pela tua boca neste momento é o demônio da carne. multiplicai-vos e povoai o mundo"? .disse-me a seguir -. agora foi-se . peço-te. procura sempre reaver a costela que Ele lhe tirou? Juro que não sei se é Deus ou se são os demônios que falam pela minha boca. não tenho necessidade de ti.Sou todo ouvidos . batendo o queixo. não quero sê-lo. . . durante a vida inteira.Queria te perguntar uma coisa . a concepção. caindo no chão e me derrubando junto. que não tenhas medo.mim uma súcia de demônios travando combate. contrário à vontade de Deus? Não foi Ele quem disse: "Crescei. Que achas? O casamento. serão realmente mistérios sagrados? As suas palavras me horrorizaram.continuou. . são os demônios.Acertei-o em cheio na cara! Pronto. via o suor lhe escorrendo pelo rosto. .

. discerni sete estátuas de neve: uma mulher gorda de seios enormes. o pai.clamou. vais à frente! Seu riso. com a carne roxa devido ao frio e às chicotadas. . ergueu-se nu. atrás dela.retrucou. Lá embaixo. Francisco levantou os braços ao céu: . E tu és o marido. ao longe. olha.Senhor. inundava-as de luz. já verás! Com efeito. Dom Francisco . Francisco começou a rir: .Olha. feito de bruma matinal e sonho. despontando por trás das montanhas.Verás em seguida . Irmão Francisco? . De madrugada. Senhor . o teu criado e a tua criada. A família em peso saiu a passear. Assis nos acenava. ordena ao sol que lance seus raios sobre minha família e a derreta para que eu me livre dela! . começou a vergastar os rins e as coxas. cessou de repente e o semblante assumiu uma expressão de ferocidade. .gritei. ao cabo de um momento.Soltou então um grito lancinante.Que estás fazendo. atemorizado com a idéia de que tivesse enlouquecido. desamarrou a corda que lhe cingia a cintura e. inefável. tendo à direita dois rapazes e à esquerda duas moças e. filho de Bernardone. E assim procedeu durante a noite inteira. o amo. e pôs-se a enfileirar pequenos montes de neve à sua frente.Espera um pouco. Coincidiu com o momento em que o sol. e atrás deles. um homem e uma mulher. aí estão tua mulher e teus filhos.gritou -. ocupando-se em dar uma feição humana aos sete montes de neve que formara. com voz lancinante -. indignado. porém.

Francisco não podia vê-la: seus olhos lacrimejavam sempre e doíam.É uma cruz! Moveu os lábios como se quisesse dizer alguma coisa. .Que tens. tomando-o pela mão -. cada vez mais causticante. vamos à Porciúncula. . . aquecia-nos caridosamente. Irmão Francisco? Por que tremes? . frio e tristeza? Assis se recortava nitidamente contra o horizonte. sentindo fome.Cala-te . Transtornado. a cidade querida nos encorajava a avançar. O sol. sua mão tremia na minha. feita de pedra e cal.Vem . porém conservou-se em silêncio. não nos encontramos prontos a comparecer à presença de Deus. apanhando a corda manchada de sangue e atando-a à sua cintura. Prosseguimos pelo nosso caminho sem dizer nada.Que sinal é este em minha testa? . distraí-me um instante e deixei escapar a mão de Francisco. Parecia ser o olho de Deus fitando-nos com piedade. bem real agora. Dois pedaços de sílex tinham-lhe aberto na testa um corte profundo em forma de cruz. Onde fomos encontrar forças para descer a montanha e cruzar a planície. Mais próxima de nós a cada passo. tornei a segurar-lhe a mão. Enquanto eu o contemplava. vem.Cala-te!:. Deu dois ou três passos. Aproximei-me. bateu contra uma pedra e caiu. Distinguíamos claramente a cidadela. . as torres e as igrejas. extenuados como estávamos. Corri a socorrê-lo. e conforme tu mesmo reconheces. obrigando-o a vestir o hábito. . Ergueu a mão e estremeceu. A cabeça sangrava.supliquei. Os irmãos acenderão o lume e nos aqueceremos.Atirou-se sobre a neve e chorou. Francisco tropeçava. sem desfalecer.disse-lhe. Descrevi-a: . Aqui estamos arriscados a morrer de frio.

Às vezes voltam e depois tornam a partir. muito úmida. o pátio.. juntando ouro para construir. agachado diante da lareira. todos neófitos. sufocado. segundo dizem. . Agora se podem ver as torres perfeitamente. fumegava. A lenha. beijando-lhe os joelhos.Contaram que tinhas morrido lá no país dos árabes. No interior. . E o Padre Silvestre prega nos lugarejos dos arredores com os irmãos mais antigos. Bernardo e Piero refugiaram-se na floresta para rezar.exclamou. afastando delicadamente os ramos das árvores.Lembra-te de meu sonho. . Ficamos inquietos. Irmão Francisco!”Francisco sentou-se diante da lareira em silêncio. já deviam estar de volta. Como iremos encontrar os irmãos? Quantos o gavião terá arrebatado? Procuro andar mais depressa e. . soprava o fogo. Vivo só. os ombros.Está perto.Bem-vindo sejas..Tenho medo. "Os irmãos já não se entendiam mais".. . Francisco. acendo o lume e espero. Olha. Masseu levantou a cabeça.. viu-o e lançouse em seus braços: . as mãos. deserto. Elias levou a maioria. .. . Fiquei só. Francisco recobrava as forças.repetia a cada instante. Irmão Francisco! . . . . Percorrem as aldeias em sua companhia. Onde andariam os irmãos? Era quase noite. dispersaram-se. prosseguiu.. uma grande igreja. Nosso coração batia com força. Nada se ouvia. tenho medo . havia um lampião aceso e Irmão Masseu. Sejas mil vezes bem-vindo. começou a tossir. Ao ouvir.. sinto vontade de não chegar nunca! O sol quase desaparecia no poente quando atingimos a Porciúncula. ao mesmo tempo. . . como se fôssemos reencontrar nossa mãe após anos de ausência. "não queriam viver juntos. Aproximamo-nos sem fazer ruído. . . lá está a cúpula de San-Ruffino. A porta estava aberta.

Contemplava o fogo a devorar a lenha.disse Masseu. ganhava seu pão trabalhando. sempre com as mãos diante do fogo. Permanecemos calados. Masseu pusera a marmita ao lume e preparava o jantar.Que posso dizer. Aguardo aqui. em frente à lareira. A sua presença naquela casa era tranqüilizadora. de espinha curvada.. batidas. gemiam. perto do fogo. bateram à porta.numa doçura indizível. Enchia o coração de Masseu e o meu de uma serenidade profunda. Durante a nossa ausência vivera da venda de cestos de junco e vime que cortava nas margens do rio. De repente. . Esquentei a chaleira e lavei os seus pés.retrucou. pousando serenamente. Irmão Masseu? . . ninguém pronunciava palavra. Eu ouvira dizer que. Uma voz no íntimo me diz para esperar. estendia as mãos para o calor das labaredas e de vez em quando murmurava: "Minha irmã labareda.Por que estás tão silencioso. A noite avançava. Depois notei que tornava a descer à terra. Irmão Francisco? Insistiu Masseu. . Queres que eu vá procurar os irmãos? Estou farto de ficar sem fazer nada. o seu corpo é capaz de vencer o próprio peso e ficar suspenso no espaço. . minha irmã labareda. quando os santos pensam em Deus. Parecia esquecido do mundo real. com um trapo limpo. Francisco. .vou abrir. e por um instante dir-se-ia que pairava no ar. umedecido em água morna.Deve ser um dos irmãos .lia-se-lhe no rosto . cães ladravam. estava banhado . limpei-lhe as pálpebras que a remela obstruía. como se rezasse. Estávamos contentes. Em seguida. Lá fora soprava um vento tempestuoso. As árvores." Depois calava-se novamente. Ordena. . . . sequioso de ouvir uma voz humana. Assim. Ao longe.

para que vá embora e se lance no oceano de Deus. Pai Francisco. louvado seja o Senhor.Levantou-se. Cobriu o rosto com as mãos. Por compaixão! Não quero vê-la! .pediu. .disse-lhe a moça. que eu também identificara. como se quisesse escondê-lo. completamente embuçada. Abriu a porta e exclamou logo: . . se amas a Deus e O temes. sulcada pelo sangue que escorria dos olhos. havia entrado. retira-te! Baixou as mãos e mostrou a fisionomia cava. filha do Conde Scifi. Ergue os olhos e fita-me. virando-se para o fogo. tem dó.Deixa-me entrar . com voz infinitamente meiga e queixosa -.avisei-lhe baixinho -. estava no limiar. . . . olha. aterrado.Pai Francisco . .Irmão . Só se lhe viam os olhos. Ele conservava o semblante oculto nas palmas das mãos.murmurou em seguida. Estou cego e. Este lugar é sagrado.Não quero vê-la .Oh! Que queres? Nenhuma mulher pode entrar aqui. é Clara.gemeu.Se isso não te repugna. .Se és realmente a nobre Clara. tomando-me pelo braço. ergui-me. transforma-a em água! Transforma-a em água. O corpo imenso quase tocava no teto de bambu. Uma moça. não posso ver-te! . entretanto. macilenta.É indispensável que eu veja o Irmão Francisco. O som dessa voz. A jovem.Ela é feita de neve. .Minha irmã labareda! . perturbou Francisco. Ajoelhou-se aos pés de Francisco e descobriu o rosto. Surpreso. .

Escuta-me apenas. apertando a testa contra os pés de Francisco -. A terra tornou-se pequena demais. parava de vez em quando. muito longe da terra. . e tampouco quero que me vejas. Porque ela caminha descalça. esperando que ele dissesse algo. Corta-me os cabelos. Envolve-me num hábito. a fortuna. longe. a minha casa. . Derreto-me como cera. não te afastes de mim. abandonei a família. esfarrapado.. Portanto.Irmão Francisco . e lança-os ao fogo. A moça.Pai Francisco . . queiras ou não .Não. vestindo um hábito cinzento igual ao teu. e aqui estou. lembras-te do dia em que te encontrei. Chilreava como um passarinho. . quero partir.exclamou a jovem -.Em nome do Crucificado. . A culpa é tua. . com capuz e corda. eu te escuto.. Pai Francisco. à beleza. . como os abutres. terias medo. com os cabelos cobertos pela cinza da lareira. à esperança de ser mãe um dia. Se me pudesses ver. Com que ardor a alma humana pode aspirar a Deus! Francisco ouvia Clara e as suas feições permaneciam imutáveis. Já não sinto nenhuma alegria em viver no mundo dos homens.e agora a voz era profunda e resoluta -. Quero ir para o deserto e pousar em cima de um rochedo. Mas se visses minha alma. Francisco fez o sinal-da-cruz. ouvi a tua voz. . com meus pais e meus amigos.respondeu a jovem. ficarias feliz. não levantarei os olhos . amarra uma corda na minha cintura. Não és tu quem chama as almas cantando e dançando pelas ruas? Não lhes gritas: "Venham! Sou o caminho que leva a Deus"? Pois bem. Masseu e eu chorávamos de olhos baixos. não te zangues comigo. Renunciei à juventude. a seus pés. numa ruela de Assis? Desde então minha alma não pôde mais ficar presa ao corpo: quer fugir. . Mas ele permanecia calado e a sua expressão se endurecia a cada momento. Pai Francisco. .

. enquanto eu dormia. Eis-me no teu santo abrigo. . Pai Francisco. irritada. Francisco soltou um gemido. pela última vez. "E quando é o casamento?" "Hoje à tarde". em silêncio. sim. saí de casa sem fazer barulho e me pus a caminho. Pressenti as lamentações que soltariam quando percebessem minha fuga e me procurassem inutilmente. "Que aconteceu. . fui à igreja. mas voltou logo à mesma posição. se o corpo repousa com o sono. Bem sabes. e o meu noivo é mais belo que o sol e mais poderoso que o rei". Depois de vestir os meus trajes mais belos. disse eu.queiras. a alma vigia! Ouvi que me chamavas pelo nome. perguntaram-me. Em seguida passei em casa de minhas amigas.Chamaste. Contemplei-os demoradamente. e chamavas: "Vem. terás de me ouvir. Hoje eu disse adeus ao mundo. Queria que todos vissem a minha beleza pela última vez e. Pois como poderiam descobrir-me nos braços de Deus? Vinda a noite. Tinhas parado debaixo de minha janela. .. Cruzei o olival voando e passei em frente de San Damiano. durante a noite. O riso e a alegria que me iluminavam o rosto surpreenderam-nas. Clara. pentear os meus cabelos louros. vem!" Então vim. a meu modo. Olhou em torno. queria ver a feiúra que nos rodeia. Finalmente. Clara esperava em vão por uma palavra sua. . "Vais casar?" E eu respondi: "vou.Eu? Eu te chamei? . endireitou o busto e sentou-se sobre os calcanhares. minhas irmãs. encontrou uma acha de lenha e lançou-a ao fogo. de punhos cerrados. sim. Pai Francisco. rindo. de meu pai. Ontem. levantou-se. como antigamente." Voltei para casa e despedi-me. Tu me chamaste e eu vim. ficando muito tempo em silêncio. Depois escondeu novamente o rosto nas mãos. "Hoje à tarde. pôr brincos e pulseiras de ouro. minha mãe. para estares tão contente?".

e a sua expressão endureceu.Não sentes pena dela. Francisco nos procurou com as pálpebras entreabertas: .Não! . falei durante muito tempo. Depois ergue a mão sobre minha cabeça e abençoa-me. Ofendida. Proclamas. . dá-me o hábito cinzento que te peço. Masseu e eu apressamo-nos a lhe barrar a passagem. arrastando-te ao inferno.Irmão Leão.respondeu. depositei meu coração a teus pés. e nunca notei tanta dureza e amargura em sua voz. como se corresse grave perigo. Os olhos se encheram de pó. .Ao menos ouve-me. minha alma há de se segurar no teu pescoço.Não! Não! . Estou em perigo.Pára de atormentá-la. . Era sempre assim cada vez que tinha de tomar uma decisão . a orgulhosa raça paterna despertava nela de repente. .Não! A jovem estremeceu.Nada te imploro . . .repetiu. chamando-me: Irmã Clara! Francisco levantou-se e dirigiu-se à porta como se pretendesse fugir.Pai Francisco . cheguem perto de mim! Pediu com voz inquieta. que o vento furioso sacudia. corta-me os cabelos e lança-os ao fogo como um feixe de lenha.falou. franziu as sobrancelhas. Levanta-te. Se recusas. Por que não respondes? Tens o dever de fazêlo! Só se ouvia o ruído da porta.disse -. Tens portanto a obrigação de me ajudar. Irmão Francisco? . Irmão Francisco. Juntou um punhado de cinza e esfregou-a raivosamente nos cabelos e no rosto. .indaguei. Largou o meu ombro. Masseu. pelas cidades e aldeias.. Tremia feito vara verde. que vais salvar o mundo.

Em breve outras mulheres se reunirão à tua volta.Lavar os leprosos e beijar-lhes a boca? . Ergueu a voz.Tu. Mas. em lugar de sofrer. cambaleante. O reflexo das chamas lhe incendiava o rosto. aceitando a pobreza e o escárnio. . .Posso! A filha do Conde Scifi pode prescindir do bem-estar. não! . erguendo a mão como se prestasse juramento.Sim.As mulheres não me inspiram confiança . estou . O que os outros fazem ela também é capaz de fazer. a jovem condessa. levanta-te e volta ao seio de tua família. .repetiu.importante contra a sua vontade. subindo aos telhados do teu convento para espreitar os irmãos. alegrar-te por teres te transformado numa bruxa. cambaia e corcunda? E conseguirás.retrucou a moça com firmeza. resignar-te à feiúra e aceitar que os moleques das ruas te persigam. lancinante e escarninha: . O demônio da carne passeia de um convento a outro. sim .Sim. estás pronta a andar descalça? .És capaz de resistir à fome? Bater às portas e pedir caridade? .Podes tu. e estes subirão ao telhado do mosteiro para espreitá-las. tão bela. não queremos mulheres aqui! . chamando-te de bruxa. a filha do poderoso favorito Scifi.Há séculos que a serpente de Eva lhes lambe as orelhas e os lábios! Não me induzas à tentação. cambaia e corcunda. . por amor a Deus? .continuou Francisco. Não. -= Não podes. retrocedeu e foi se apoiar à lareira. .Sou.Posso.

postou-se diante da lareira. Estávamos. pegou um punhado de cinza. mas ninguém se levantou para pôr azeite.Larga-me . . Depois o lampião se apagou. despejou-a com toda a força na cabeça da jovem.A mulher também é criatura de Deus. apenas duas: . não na solidão. Movia os lábios. um gemido. sujos de cinza. . iluminando os semblantes de Francisco e Clara. E aspira sobretudo à solidão. Corri a lhe segurar a mão. como os homens. onde .Não se pode traçar limites à virtude. Era ao mesmo tempo um grunhido. não me toques! E bruscamente.A inteligência entre as mulheres redunda em insolência.. Mas aos poucos a voz readquiria um timbre humano. . esfregando-lhe os cabelos. Quem foi que te ensinou a encontrar resposta para tudo? . petrificados. pôr filhos no mundo e fazer florir e irradiar as suas virtudes. de um só passo.Para vocês. e encheu-lhe a boca. mas no cerne da terra! . Devem se casar. e naquele silêncio inquietante ouviram-se duas palavras. por assim dizer. o rosto e a nuca. e quer salvá-la. murmurando qualquer coisa ininteligível.Irmã Clara! O lume se reanimou na lareira.gritou -. A candeia começou a enfraquecer e a chama diminuiu. Curvou-se. Na sala escura. Possui alma. Precisa florir e dar frutos não importa onde. um uivo de lobo. . um balido de cordeiro. .O meu coração! Francisco se afastou da parede onde estava encostado e começou a passear pelo aposento com passo pouco firme. o caminho que leva a Deus é diferente.

por despeito. tornando ao redil. Giovanni de Capella. atingir o apogeu sob a condição de permanecer vivos. interpelados por eméritos teólogos. fica sabendo. ao tomar conhecimento da volta de Francisco. ainda imersos em preces. perfeitamente humana e de uma grande doçura: . . ergueu-se a voz de Francisco. pelo contrário. é Deus. esperando que estourasse. Mas me parece que os teus pés têm ainda muito caminho a percorrer. na minha opinião. Foi necessário cortar ramos e construir novas cabanas.O apogeu do homem. puseram-se a caminho. Francisco recebeu-os de braços abertos. Bernardo e Piero chegaram. mas. uma escola onde os . Com ar feroz. trazia um grosso livro na mão. porém.disse -. A Porciúncula estava repleta.retrucou Elias -.Irmão Francisco . roídos de remorsos. Os irmãos dispersados.dançavam os reflexos do lume. o bigode raspado. mudo e de cabeça descoberta. de olhos semicerrados. agora serena. O sultão convertera-se ao cristianismo e entregara Damieta aos cruzados. e. sentiram-se humilhados por não saber o que responder. . de boca em boca. sê bem-vinda entre nós! A notícia do regresso de Francisco se difundiu rapidamente. só podemos. as sobrancelhas densas. Anunciava-se um grave conflito. . Dizia-se que realizara prodígios na terra dos árabes. Irmão Elias. Irmão Pacífico. E só por meio da morte podemos atingi-lo. acompanhado por seus sectários. nessa orgulhosa cidade.Peço-te perdão . Durante três dias Francisco interrogou cada um para saber o caminho que tinham tomado durante a sua ausência. Alguns haviam ido pregar em Bolonha. Os irmãos se calaram. Poupoute a vida para que pudesses atingir o apogeu.Irmã Clara. de alaúde a tiracolo. e por fim Elias. haviam fundado. em Assis e nas aldeias vizinhas. Deus te ama infinitamente.

pois nem oravam e muito menos trabalhavam.respondeu o noviço. esses lobos que entraram no aprisco? Não tenho necessidade de cultura nem de sabedoria. notou um noviço que não conhecia.Quem te deu permissão para teres um livro? . Passavam os dias e as noites a meditar. colérico. ergueu a mão e segurou o volume. Já não pregavam. . Que vai acontecer.O campo em que semeamos trigo está coberto de papoulas impudentes e urtigas.Pois bem. .De onde vens? . O rapaz se sobressaltou. e via-se bem que nada mais existia para ele: nem Deus nem homens. -.jovens irmãos iriam estudar as Sagradas Escrituras. .Antônio. debruçados sobre livros enormes. Era um rapaz pálido. . O espírito é o covil de Satanás. Irmão Leão? Para onde vamos? No dia seguinte. ao passo que o coração é o berço de Deus. apertando a preciosidade contra o peito. . . Francisco.Como te chamas? .Irmão Elias . eu retiro a permissão! .Desencaminhamo-nos . de faces cavadas e olhos grandes. Francisco aproximou-se e bateu-lhe nas costas. lia avidamente. porém. Francisco ouvia com o coração cheio de tristeza e indignação. Curvado a um livro.De Portugal.retorquiu.disse-me. Quem são esses letrados.

Reunidos em volta do Túmulo. não me explico a mim próprio como e por que Cristo ressurgiu. os cristãos choravam.Escuta. e as tuas palavras se transformam logo em obras.Nunca mais verás a Ressurreição! Saber como e por quê? Que impertinência! Maldita espécie humana! Irmão Egídio escutava. . Depois. vendo a quantidade de folhas manuscritas que sobraçava. . "Autorizo-te com prazer".exclamou. Um ano. este mesmo noviço veio me pedir autorização para ir a Assis fazer um sermão em San Ruffino. Irmão Francisco . .Se eu. Cobria a boca com a mão para abafar o riso. Pois bem. Irmão Francisco. durante a Páscoa. E quando tomei o braço de Francisco para levá-lo dali. Francisco indignou-se: . jogando-se ao chão com desespero. Aquele sermão interminável provocou vertigens. quando não estavas aqui. não consigo ver a Ressurreição.Deus fala por tua boca. avermelhou- . de repente a pedra do sepulcro estalava. O que Francisco dizia lhe agradava. todos os anos.prosseguiu. respondi-lhe. posso assegurar-te. . Um domingo. .Quando eu era menino. assistia à Ressurreição de Cristo. meu filho . esse ano foi o único.É isso que te há de perder! .Lançou o livro ao fogo. "porém. aproximou-se. E enquanto chorávamos. Só tenho confiança no espírito humano. em que a pedra do sepulcro não se rompeu e não vimos a Ressurreição. O noviço ganhou coragem. sob uma condição: que subas ao púlpito e te ponhas a balir feito um carneiro: me! me!" Julgando que eu troçava dele. Cristo brotava da terra com o estandarte branco na mão e subia ao céu sorrindo para nós. um grande teólogo da Universidade de Bolonha ocupou o púlpito da igreja para comentar demoradamente a Ressurreição. sentiu pena. .Ouço-te.comentou. percebendo que o noviço fitava as chamas com lágrimas nos olhos.

corríamos. . Irmão Francisco? .E que lhe respondeste? . altivo. Francisco riu. E quase imediatamente: . Alegrava-me porque o bispo. Não sei por quê. Irmão Francisco. temendo que me obrigasse a subir novamente ao píncaro de alguma montanha coberta de neve. . sempre pensava em Clara nesses dias primaveris.se de raiva e escondeu precipitadamente o plano do discurso no peito. falo. Não sabendo o que dizer. Soprava um vento cálido. Pequenas margaridas amarelas e malmequeres cobriam a terra.perguntei. escapuli com o pretexto de ajudá-lo. a Bolonha. Não costumo balir. . que voltava da floresta carregado de lenha. propício ao desabrochar dos botões. vendo Egídio hesitar.respondeu -.Para dizer a verdade. "Irmão Egídio". pigarreei e. aproveitando a entrada de Junípero. depois de uma . sou homem. Bolonha! Bolonha! Serás tu que terminarás devorando a Porciúncula! Não caminhávamos. respondeu-me.Vais ver! Vem. aquecendo meu coração.” .disse. As macieiras e pereiras estavam em flor.Há uma resposta melhor . Irmão Leão! . . . Deus concedeu ao homem um grande privilégio: o uso da palavra.Aonde vamos agora. "não sou carneiro.À casa da ama de Satanás .Está entrando água em nosso barco.perguntou Francisco. . e receio muito que afunde. As primeiras papoulas brilhavam nos campos. fiquei calado.

apanha os irmãos e guiaos!" Fiz como Deus mandou. a Porciúncula. Enveredamos por uma rua estreita que conduzia a uma praça arborizada.intervenção de Francisco. . sumam daqui! Empilhou os livros. Francisco ia de um a outro. . Belas senhoras passeavam lentamente. As ruas estavam repletas de gente e havia bandeiras vermelhas à porta das tavernas. acumulavam-se legumes e frutos. preferindo a estrada larga que leva a Satanás. Em nome da Santa Obediência.trovejou Francisco. Entramos numa vasta sala onde havia uma mesa comprida.Cuidado. conduzir-te-ei ao céu pelo caminho mais curto. Francisco parou e. Por tua vez. Era a Escola de Teologia que Elias fundara com o auxílio de noviços. Levantem-se! Tirem esses livros das prateleiras e amontoem tudo no pátio! Tu. os mapas e os velhos manuscritos no meio do pátio. Irmão Leão. fechando os livros e gritando: .Irmãos apóstatas! . As paredes eram cobertas por mapas e prateleiras atulhadas de volumes. No mercado. irmãos apóstatas! Esquecem o que Cristo disse: "Bem-aventurados os pobres de espírito"? Deus me ordenou que fosse simples e ignorante. depois de olhar em torno. Certa manhã. . Bateu à porta. saiam daqui e voltem depressa à sua mãe.O que é que vocês estão fazendo aí? Que instrumentos diabólicos são esses? Não se envergonham? Os irmãos se sobressaltaram nos bancos. Era uma cidade imponente. lendo. Cinco ou seis irmãos estavam sentados. dirigiu-se a uma casa. vai buscar fogo! E vocês todos. concedera à jovem a permissão de se recolher à Igreja de San Damiano. debruçados sobre livros. montadas em cavalos ajaezados de plumas multicores. porém vocês escaparam de minhas mãos. Tomou-me pela mão e pediu: "Vem. Eu lhe trouxe uma tocha acesa. chegamos a Bolonha.

não .Tomem-no aos ombros e partam! Quando tudo ficou como desejava. como dizia o monge estrangeiro vestido de branco que encontramos em Roma.Só isso? Mais nada? Olha! Ali. Francisco juntou um punhado e. . doente. doente. deixando-o cair entre as mãos abertas. taciturno e parecia disposto a tomar uma grande decisão.Não. . carregando o sétimo. nossa irmã! . Fingi ler: "Deus inclinou-se. . o mundo está podre.respondi. Onde está o sétimo? . acendeu o monte e se persignou: . fogo. Ceniza y nada! Ceniza y nada!. Depois se inclinou.Em sua cela.. . Mas: "Desce e purifica-o!” Francisco tinha pressa de regressar à Porciúncula. aterrorizado. dirigiu-se a mim: . .exclamou. e o fedor sobe ao céu! Desce e vai reduzi-lo a cinzas! .Olha. e os seis irmãos puseram-se a caminho. Ele não disse reduzi-lo a cinzas. ao pé da segunda página. meu filho.Quantos vocês são? . Estava nervoso..Em nome de Cristo. em nome da Santa Humildade e da Santa Pobreza! E virando-se para os apóstatas: .perguntou.protestou Francisco. . Irmão Leão. e lê.Vejo apenas seis.Dá-me a chama.Sete. e não restou no meio do pátio mais que um monte de cinzas. Que diz este livro? .Que a ciência não passa de cinza . avistou a terra e soltou um grito: Foge.

em menor número. alimentar. . Ficaremos na montanha e roeremos pedras.Os carneiros descem à planície. louvado seja o Senhor. ouviam Elias discursar. vestir e alojar milhares de irmãos. Irmão Francisco? . satisfaziam-se com um naco de pão. Andavam descalços. bateremos palmas. mas nós não queremos engordar. . chegamos à Porciúncula. um sonho terrível. já disse e repito: a nossa ordem não é uma criança. porém continuo não entendendo. A perfeita Pobreza é um obstáculo ao nosso progresso. .Perdoa-me. A perfeita Pobreza era boa antigamente. . tive um sonho. Ela tremia. transformamo-nos em exército. eu o vi soerguer-se. . ao acordar na gruta onde passáramos a noite. Devemos construir igrejas. Retendo a respiração.O pastor já não é o mesmo. conventos. . e as antigas vestes não lhe servem mais. desbravavam o caminho.Na manhã seguinte. reunidos. Irmão Leão? À hora do crepúsculo. Concordas.Não entendo.Irmão Leão . Cresceu. precisa ter roupas de adulto.Meus irmãos. . e Deus espairecerá assistindo. os carneiros descem à planície em busca de boas pastagens. muito inquieto. escondemo-nos atrás das árvores a ouvir o que ele dizia: . . porém. . abrigando-se numa cabana arruinada.Que sonho. Dançaremos. .. irmão. enviar missionários aos confins da terra. Todos os irmãos. quando os primeiros irmãos.disse -. Levanta-te depressa! . Agora. os flancos pesados de gordura. Como realizar tudo isso praticando a perfeita Pobreza? Peguei a mão de Francisco.

deve abandoná-lo e seguir adiante! Enquanto Elias falava. . prestes a saltar. porém um gládio para guiar os justos e punir os pecadores: é um Amor armado. mais segura. Cala-te para que possamos ouvir até o fim! Espera um pouco! A voz de Elias se tornava cada vez mais forte: . Pode-se bater numa criança. mas agora a sua missão terminou. não podemos ser cordeiros.Estás ouvindo? . meus irmãos. precisa ser a Palavra. Por acaso Cristo não foi um leão? A perfeita Simplicidade tampouco nos convém. Prestemos homenagem ao Irmão Francisco: amamentou a nossa ordem quando ela estava no berço. Eu o contive fortemente pelo braço. e eles beijavam a mão que batia neles: a isso chamavam o perfeito Amor. Somos os Seus soldados e não Seus polichinelos.Cala-te. na nossa opinião. os moleques perseguiam-nos a pedradas. não possui lenço para enxugar as lágrimas. fundaremos escolas onde os irmãos poderão se instruir para não servir mais de escárnio ao mundo. Temos portanto a obrigação de velar pelo enriquecimento do espírito. nossa ordem cresceu e. não se digna a falar. não.Querem expulsar a Pobreza de sua própria casa! Tinha os olhos cheios de lágrimas. mas num exército. Os primeiros irmãos dançavam e cantavam em plena rua. O perfeito Amor. . Irmão Francisco. O coração é certamente um grande dom divino. espancando-os.. Percebi o seu ímpeto de intervir e o retive. . depois de exprimir reconhecimento pelo pai que a criou. melhor. Vivemos entre lobos. devemos ser leões. com esse fim. Francisco tremia de indignação. mas é mudo ou.O perfeito Amor é também um obstáculo.cochichou. O espírito é um grande dom que Deus concedeu ao homem e que nos diferencia dos animais. E a nossa arma mais eficaz. ao passo que o espírito está armado de um sabre que se chama Verbo e é filho de Deus.

cerrando os punhos. ficaram petrificados. não era eu! Foi outro. onde encontraste esse cajado? Elias fingiu não entender.falou. . Afastaram-se de Elias. Francisco se aproximou: .murmurou um atrás de mim. eu estava dormindo com a cabeça apoiada numa pedra. alcançou o limiar. . com voz trêmula -. Serias tu.Não. perto de mim.Espera um pouco! .Irmão Francisco .Não sei.murmurava Francisco. e maldita seja a minha mão! Era eu. . Francisco não se conteve mais.Sim.repetia-lhe. Hoje de manhã.. depois some. Irmão Francisco. . Assim como tu. .aos irmãos. deixando-o sozinho no meio da sala..Que Deus nos ajude! Os irmãos começaram a aplaudir com gritos de aprovação.Deixa que termine. Vários irmãos mal dissimulavam o riso. .Já não sabe o que diz .Irmão Elias . . apiedado. De um salto. . mas que se parecia espantosamente contigo. Vejamos até onde irá.retrucou -. ouvi tudo. retificando: . eu estava dizendo . que acabava de abraçá-los. quando um monge. Ao vê-lo. também dormia . vem. . .. Segurava um cajado de pastor maior do que ele. Onde o achaste? .resmungou. Irmão Elias. Tudo se passou como num sonho. por acaso? .Sim. . finca o cajado no chão. . o sonho. . Mas é ao cajado que me refiro. que nunca vi. Depois. e bendita seja a sua mão! Elias via Francisco delirar e sorria. .O sonho.

Bernardo. Francisco sentou-se. Depois ergui as mãos e supliquei-Lhe que mandasse chuva. Mordia os lábios. ceifar e colher! Não nasci para as ceifas nem para as colheitas. Masseu correu a buscá-lo. meus . O campo reverdeceu.Minha irmã Água. E quando terminou de abençoá-los. Estava pálido e cheio de tristeza. abençoou-os. Amo todos vocês. enquanto Elias e seus sectários permaneciam imóveis. Fiz sinal a Junípero para que lhe trouxesse um copo d’água. . "Esta é a vontade de Deus". Francisco percorreu este último grupo e. pois estava cansado e queria dizer algumas palavras. Meus irmãos. Bebeu dois goles e suspirou: . No fundo da sala. Piero e o Padre Silvestre aproximaram-se de Francisco. Fui feito para trabalhar a terra. abençoadas. abriu os braços e falou numa voz entrecortada que mal se ouvia: . Em seguida recolheu suas forças. de mão erguida.Tem dó dele. no que fui atendido. pediu que lhe trouxessem um banquinho para se sentar. coitado . meus irmãos! Deus me confiou um punhado de sementes e saí a semeá-las.. nesta noite tenho algo de grave a lhes confiar. Ouçam! Creio que o Irmão Elias tem razão. pois. As veias das têmporas lhe palpitavam. E a beleza. escondeu o rosto nas mãos e ficou em silêncio bastante tempo. é um alimento para os homens: sejam as papoulas. Semeei. Os primitivos irmãos vieram beijar-lhe a mão. decerto para não chorar. Curvei-me para examinar que espécie de sementes Deus me confiara e verifiquei que entre as espigas de trigo desabrochavam vaidosas papoulas. . como o trigo. pensei. com uma cruz negra no coração. perturbados. calavam-se.Cala-te . bendita sejas .retrucou alguém..Meus irmãos. juro.murmurou. Então supliquei-Lhe que enviasse sol para que os embriões crescessem. que outros venham regar. As papoulas são belas: vermelhas. minha missão terminou. semear e logo desaparecer. Não queria partir. levantou-se. espigas de trigos e papoulas. os noviços. e Ele enviou-o e os embriões cresceram.

ouvi a Sua voz. o Solitário.irmãos. Não O vi apenas.Senhor . Quem sou eu para me opor? A Tua vontade é um abismo! Não quero descer ao fundo e examiná-la. porém mordia os lábios para refrear a dor. eu te chamarei quando a minha dor estiver apaziguada e eu puder pousar na tua cabeça mãos que não vacilem nem queimem de indignação. mãos puras como o amor. porém ele o deteve logo com um olhar severo. contudo. não compreendo. a perfeita Simplicidade lhe são totalmente desconhecidos! Nasceu conquistador. Cruzou os braços. ao cabo de séculos e séculos. Sofria. General Elias. meu Deus. . E se hoje não existisse o que chamamos de injustiça. a sarça que arde e não se consome. mas julgava-o perigoso. Quem sou eu para Te interpelar? Não me oponho à Tua vontade. já não podes mais. Tu vês milhares de anos à Tua frente e podes julgar. boquiabertos.murmurou -. o perfeito Amor.Juro . e tais virtudes não lhe assentam de modo algum. As suas virtudes são opostas às que serviram de base à nossa ordem e a consolidaram. . "Francisco". ou de Dom Piero ou Padre Silvestre. O que hoje parece ao espírito do homem uma injustiça pode. a Justiça . Perdoa-me. Enfim. mas ontem à noite Deus veio me falar durante meu sono. A perfeita Pobreza. preferiu outro. . e sofro muito por abandonar a nossa confraria. Eu imaginava que se tratasse do Irmão Bernardo. Vai à Porciúncula e ali encontrarás um irmão munido de um cajado maior do que ele. as santas pedras. seriam os meus eleitos. mas não quero Te interrogar.continuou . Todos aguardavam. representar a salvação do mundo. A barba e o bigode estavam cobertos de sangue. Tu. e seus olhos de novo percorreram a sala.” Calou-se. . Estes teriam conduzido o rebanho de Cristo às pastagens que lhe convém: as terras áridas. "fizeste o possível.que nunca tinha pensado nesse homem. Elias deu um passo na direção de Francisco. levantou o rosto. disse-me. Seja feita a Sua vontade! Não te aproximes. Deus.

talvez nunca florisse sobre a terra! À medida que falava. Governa-as como Ele te aconselhar.. coloca-te à cabeça do rebanho e vai. vou te abençoar. Dá-me o teu cajado! Elias hesitou um momento. Nada.pronunciou com voz grave. Repara. envia uma tempestade. seu rosto se iluminava como se ele elaborasse esse raciocínio pela primeira vez e seu coração serenasse.Deus me ordenou e obedeci. baixando a cabeça. . Este obedeceu. . manifesta-Te! O céu está puro. Posso apenas fazer uma coisa: dar-te a minha bênção.. Elias. Senhor. Apanha o teu cajado.Irmão Elias .Irmão Elias . fica logo reduzido a cinzas. Eu te abençôo. se o espírito humano se avizinha dele. . apertando fortemente o cajado na mão.disse Francisco com doçura -. Então sacudiu a mão com violência e exclamou: Irmão Elias. Leva-as por onde Deus te indicar. Esperou. Francisco insistiu. tenho mãos límpidas que não tremem. de mão estendida: . . Seu critério diverge do nosso e Seu pensamento é tal que. Sorriu e. mas ao Altíssimo. .Dá-me o teu cajado .repetiu. virando-se para Elias. Não é a mim que deves prestar contas. Pousou-as na cabeça de Elias. inclina-te. bate à porta. autoritário. cedeu.continuou Francisco com a mesma voz calma e profunda. se interpretei mal a Tua palavra. decepa o meu pulso antes de levá-lo a esta cabeça! Calou-se. confio-te as minhas ovelhas. .Deus é insondável: distribui a oportunidade a Seu bel-prazer.Irmão Elias . Apertou o cajado com força e não o entregou. fez-lhe sinal para que se aproximasse.

Olhou os irmãos que o rodeavam. Mas não se entristeçam. . santo e nobre Amor. Porém a cotovia de poupa! E.disse. Peço-lhes: não abandonem meus irmãos. que caminhas descalça.Perdão. Tampouco o pavão.Saltavam-lhe lágrimas dos olhos. . . inebriada de luz. E muito menos o papa-figos. porque olhou todos outra vez a sorrir. santa e nobre Senhora Pobreza. enxugando o rosto na manga do hábito. depois desce na beira da estrada à procura de um grão de trigo. Voa de ramo em ramo.Se tivéssemos de escolher uma ave para emblema de nossa ordem. . eu choro . Irmão Bernardo. Como cães de pastor vigilante. Nem o rouxinol. Irmão Pacífico. auxiliando-os a resistir. a cantar. tomba no chão como um minúsculo torrão de areia: é assim que a irmã cotovia faz as suas orações. suas asas têm a mesma cor do nosso hábito: cor de terra. mas tinha ainda algo a dizer. Irmão Elias. E depois de chegar perto de Deus. Maria. .Não julguei que a separação fosse tão amarga. não o abandono por completo: permanecerei sempre junto de vocês. como se os estivesse vendo pela última vez. sempre sorrindo. santa e nobre Senhora Simplicidade. que caminhas sem espada e sem lenço para enxugar as lágrimas! E tu. oh. nem o pombo bravio. respondes: "Não sei!". . misturando-se ao sangue que escorria pelas faces. meus filhos? A águia não. alça vôo ao céu. . sempre. minha esposa. mudo e invisível. um por um. . sorrindo. Elias levantou a mão para indicar que queria falar. percorram o rebanho sem cessar e vigiem para que nenhum se afaste de seu caminho! Silenciou. oh. Irmão Capella. Irmão Leão. Assim como dos três inseparáveis: Tu. qual escolheríamos. pôs-se a cantar louvores à ave: . Todas as manhãs.Nossa irmã cotovia usa capuz como nós. em farrapos. esfaimada! Tu. meus irmãos. que. e perde-se nele.

Propagarei as virtudes que formaram os alicerces da nossa ordem a fim de que possam gozar delas não apenas uma minoria. 9. passou os olhos em torno. porque já saboreia na imaginação a futura colheita. primeiro os irmãos. E quando compareceres diante do Altíssimo. Irmão Francisco. farei do caminho que traçaste para alguns uma estrada ampla onde circularão milhares de irmãos. Chegamos à cabana de troncos que outrora ele construíra com as próprias mãos na floresta. Sentou-se no chão..Vamos embora. e um por um. Jurote. Francisco tinha o ar calmo e triste. teus braços estarão cheios de feixes de espigas. Elias resplandecia. Fomos expulsos daqui. nas sobrancelhas e no queixo voluntarioso lia-se-lhe a autoridade. E da humilde Porciúncula construirei a fortaleza e o palácio de Deus.. No dia seguinte.disse -. vamos embora. triunfante.. passas a outras mãos o cajado de pastor. sentou-se no outro. meu pobre Leão. Francisco se prostrou e beijou a soleira da Porciúncula. e agora. o semeador colhe no momento em que semeia. Eu lhe apertava a mão com força. ordenou que colocassem dois banquinhos diante da lareira. juro-te. beijando-lhes a mão. disse: . Nos lábios. porém milhares. desfilaram na frente deles. tranqüilo e no teu pleno direito. És um bem-aventurado porque concluíste por completo a missão que Deus te confiou: semeaste. cheio de medo que fosse esbarrar numa árvore. Pediu a Francisco que ocupasse um.Irmão Francisco . assim que a encontrou. Ao longo do caminho. tropeçava constantemente. e soltou um grito desesperado: . depois os noviços. Dito isto. Depois buscou minha mão e.

as faces murcharam. Seu corpo envelheceu. certamente. absolutamente nada! O mundo escureceu ou fui eu que fiquei inteiramente cego? .respondi-lhe.Chega mais perto de mim. fogem às pompas do mundo e vêm descobrir a paz de Deus em San Damiano. não estou enxergando nada. lava-os. Calou-se. e tem os olhos embaciados de lágrimas. não a esqueceu. Para esquecê-las um pouco. o Padre Silvestre é o único que vai. Clara se esforça por seguir os teus passos. Passa as noites rezando. Como tu. alimenta-os. deixa-me. . Foi sua irmã Agnes a primeira que se decidiu. não posso falar alto. Clara é idêntica à gota de mel: todas as abelhas a procuram.Nada temas. As dores lhe eram cada vez mais insuportáveis. As senhoras de Assis.vou chamar o Padre Silvestre . A vida do convento lhes parece mais doce. Que lhe aconteceu? . Sinto-me bem na escuridão. . Ele conhece muitos remédios. Algumas se recusam a voltar ao lar.Cumpriu o que lhe ordenaste. Conta-me.Irmão Leão. procurou pensar noutra coisa. o que aconteceu com a Irmã Clara? Há muito tempo que não me lembrava dela.comentou Francisco. Mas Deus. .. De todos os irmãos. Cortou os cabelos e adotou o hábito cinzento. mas vejo melhor Aquele que o criou. Visita leprosos. saber . Repartem os bens com os pobres.Não. Irmão Leão. irmão: retirou-se para San Damiano. Depois vieram outras moças e até mesmo duas ou três mulheres casadas. Não vejo o mundo.Tomara que o Pai Celeste as ajude . . . . joga cinza dentro do próprio prato. . . vão lhe pedir conselhos e rezar com ela. .Só Ele é capaz de domar essa fera terrível: a mulher. e já ouvi dizer que cura também doenças dos olhos. de vez em quando. Irmão Leão. cientes disso.

.protestou -. . era de fato a voz de Deus. Francisco sobressaltou-se: .recomendou-me o velho. ao passo que tu as afrouxaste. . Se não era a voz de Deus. Sim. À noite. não fui eu . Recomeçaram os seus atrozes sofrimentos. . não chores. não dormiu um único instante. Sacudi a cabeça: . depois resolvi continuar: . Limitei-me a obedecer à Sua voz.Irmão Francisco. foi Deus. para não me acordar com os gemidos que os padecimentos lhe arrancavam. dir-te-ei ainda uma coisa: em San Damiano leva-se uma vida mais santa que na Porciúncula. estou perdido! Começou a chorar. Se alguma das irmãs deseja comungar. Senti pena dele.Não. aproximei-me e estreitei-o nos braços: . A Irmã Clara segura as rédeas com firmeza.Cala-te. Hesitei um segundo. Que Deus nos ajude! . perdoa-me. . Passou-a em parte fora da cabana. com tua licença.Irmão Francisco.Volta para junto dele . com as mãos nos olhos. . ele a confessa. gritava de dor. tu me afliges.Acende o lume enquanto eu não chego. Ao raiar do dia.notícias do convento.. Não respondeu nada. . fui procurar o Padre Silvestre. . Como poderia eu dormir? Meu coração se despedaçava só em ouvi-lo. . .Bem sabes que Satã pode tomar a voz de Deus de empréstimo para apanhar o homem numa armadilha.

Estendeu o braço: .suspirou e estendeu-se de costas no chão. entrou o Padre Silvestre. aprende a sabê-lo. decerto sonhando. Depois tirou-o e aproximou-se de Francisco. Os passos do Padre Silvestre soaram no bosque. curar-te os olhos. Por que tremes? . inquieto. a fim de que as tuas dores acabem e possas voltar à oração. Sou feito de carne e não de metal. Dormia. Os joelhos lhe tremiam e a cabeça.És tu. conforme seu costume. segurando uma longa vara de ferro.Sou eu. estendeu a mão e encontrou-me perto dele.A dor também é oração. Resisto mal à dor. ajoelha-te. sim. o Padre Silvestre! Venho.Quem é? . Mal terminou a frase.indagou Francisco. como tu. Entrei na cabana na ponta dos pés e acendi o fogo. acalma-te. com a ajuda do Altíssimo. à espera do sacerdote. com a cabeça entre os joelhos. Invoca também a nossa irmã Morte. .Sou eu. Sim. cada vez mais baixa. que percebeu a sombra do sacerdote segurando o ferro ígneo.Encontrei Francisco sentado no limiar da cabana. Não posso mais. não me faças sofrer muito.Irmão Leão. O Padre Silvestre fez o sinal-da-cruz. Depois.. Francisco despertou sobressaltado. . . num tom súplice -.. espetou o ferro no meio das brasas e esperou que ficasse rubro. sentei a seu lado. Irmão Leão? . . .Meu irmão ferro em brasa . quase tocava o chão. .disse. Francisco de vez em quando suspirava. a dor também é oração.

. enquanto eu. tornou a mergulhar a cabeça nos joelhos e não disse mais nada o resto do dia. estava prostrado diante do leito. e o transportamos para dentro. um par de fontes de sangue. Vais sentir dor. Recobrando os sentidos. pensa em Suas mãos e pés atravessados por pregos. estendendo-o sobre o enxergão. penso. implorando a irmã Morte. Atirei-lhe água. a cidadela de .Sim. Quando Francisco. em pranto. Eu.. Francisco lançou um grito lancinante e desfaleceu. Dize-me para me dar ânimo. muito alto. e cerra os dentes para que a tua alma não fuja. . E antes de lhe dar tempo de invocar Deus. As próprias pedras pegavam fogo e. senão a minha razão pode soçobrar. .Pede coragem a Deus . As têmporas eram duas chagas profundas e os olhos. . ergueu o rosto.Pensa em Cristo na cruz . O sol. ao longe. Rezava. . . um pouco mais calmo. não pude reprimir um calafrio. semelhante a uma bola incandescente. .aconselhou o Padre Silvestre -.. Não posso mais! . o velho sacerdote aplicou o ferro rubro em suas têmporas. pensa no sangue que Lhe corria do peito! Sacudiu a cabeça: .murmurou. sou apenas barro! Sentou-se no enxergão. dize-me que Deus é infinitamente misericordioso. Estava uma tarde tempestuosa..respondi -. mas era Deus.Irmão Leão . ofegante -.. Procurou o meu braço e me agarrou com desespero. Irmão Leão. . Voltei então à Porciúncula para pedir aos irmãos que me fizessem esmola de um pedaço de pão. retorceu-se de dor. O Padre Silvestre tinha se ajoelhado ao lado do doente. rolava entre as árvores e parecia incendiá-las.

"Faça-nos a . que me amargurava como fel. A doença de Francisco nos impediu de partir. agora órfão.Parece que o Padre Silvestre foi lhe arrancar os olhos. . Eu corria. serenei. eu. . Um medo estranho se apossara repentinamente de mim. Os irmãos mais antigos estavam ausentes. . Assim. que se divertiam no interior. calaram-se. à vista daquele sol. ainda não lhes deste uma palavra de conforto. enquanto os outros riam às gargalhadas. palestras e jantares compostos só de um pedaço de pão seco. mesmo que estejam sob a proteção divina. nas orações.Ouviam-se os seus gritos até aqui. comecei a pensar nas horas tão amenas que passáramos ali.Já não dança? E as suas canções? . Francisco brilhava entre nós como um meigo sol. sentados no chão.Irmão Francisco. por temor a Deus. diz ela. Ao ver o berço querido da confraria. trouxe-lhe uma mensagem de San Damiano. Não respondi. Assim que cheguei ao limiar da Porciúncula. fiquei quieto. hoje de manhã . Apanhei o pedaço de pão que me arremessaram e voltei para a cabana. . Parei um instante para recobrar fôlego e ouvi os gritos dos irmãos. Um deles imitava a voz de Francisco. Quando entrei. têm necessidade de consolo espiritual. São mulheres e. a Irmã Clara beija-te a mão e te convida a ir ao convento. Ainda não foste abençoar as freiras. . Se houvesse aberto a boca. Uma manhã.perguntou um noviço. sufocado de cólera. Os novos jantavam. .Assis erguia-se em labaredas.Que sucedeu ao pobrezinho? .comentou outro. teria proferido injúrias e blasfêmias. daquelas árvores em chamas. que no entanto saciava a nossa fome. Tive a impressão de que o mundo inteiro ardia e eu corria com medo de ficar reduzido a cinzas. O Padre Silvestre vinha vê-lo todos os dias.

"Mas é uma devota. . o Senhor talvez tenha coberto a estrada de flores brancas.insistiu o sacerdote.graça". quando o caminho que vai da Porciúncula a San Damiano ficar coberto de flores brancas. quando se misturam. irei vê-la. Irmão Leão. fiquemos consoladas." "A chuva também é pura". Enquanto falamos."Sempre" e "nunca" são palavras que só os lábios de Deus podem pronunciar. replicou o superior.Que resposta darei à Irmã Clara? . .retorquiu Francisco. . vendo-te e ouvindo-te. Padre Silvestre? Devo ir? .Ninguém tocou Sua mão .Dize-lhe que. Certa vez.perguntou o sacerdote.O que dizes é excessivamente cruel para a mulher replicou o Padre Silvestre.Pensa na Virgem Maria . Padre Silvestre.acrescentei. "assim como a terra. No entanto. "a sua mão é pura. o prior destituiu um monge porque tocara a mão de uma mulher. Vai olhar.” . . pediu a Irmã Clara pela minha boca. "de vir a San Damiano. .” .Certamente. nem mesmo José. meu pai". Pensa antes em Eva. para que. desculpou-se.Que achas. Escuta tu também.vou de novo falar-te por parábolas. transformam-se em lodo. num convento. . . recordando com amargura as várias jovens que encontrara durante a vida e a quem desejara tocar a mão. Ocorre o mesmo com as mãos do homem e da mulher. persignando-se várias vezes -. Irmão Leão! . Irmão Francisco.E ainda mais para o homem .Em suma: nunca? .

o caminho estava cheio de flores.Perdoa-me. a noite que reaparece todas as tardes com suas estrelas. Beijava-as. Saí rapidamente e tomei o atalho que serpenteava entre as árvores. ofegante de cansaço e alegria. Irmão Francisco. A fisionomia ensangüentada de Francisco resplandecia quando me dissera: "Vai olhar.Irmão Francisco . .Senhor .Levantei-me com o coração a bater. . chorando. Era de manhã cedo. Mostrei-me incrédulo.Por que tanta surpresa? Tudo é milagre: a água que bebemos. Atirei-me ao chão e louvei o Invisível. Depois arranquei um punhado de botões e retomei correndo o caminho da cabana. a lua. não pude conter um grito. a terra sobre a qual caminhamos. o sol. já não duvidava. Senhor. Olha. . O Padre Silvestre. Irmão Leão!" No seu espírito. . fazia frio. As pancadas do coração me subiam à garganta.. dir-se-ia que tinha nevado. Chegando à encruzilhada. Virouse para nós: . . pressentia o milagre no ar. Entrei. a estrada está coberta de flores brancas. abanava a cabeça. a Ressurreição! O Padre Silvestre beijou a mão de Francisco. . as sebes.exclamei -. beijando-os. trago-te um punhado delas! O Padre Silvestre caiu aos pés de Francisco. do outro..murmurou -. A perder de vista. Eu corria. cético. . a terra: tudo coberto de flores. Observem uma humilde folha de árvore na claridade. Não é também um milagre? De um lado está representada a Crucificação.. Francisco apanhou as flores e aplicou-as às pálpebras sangrentas e às chagas. as pedras.

. Queres que eu vá anunciar a tua visita à Irmã Clara? . Dizendo isso. os pés e as mãos de Francisco. .Olha antes a minha alma.Vai dizer-lhe que vou. começou a andar com passo muito firme.Os teus joelhos oscilam. mas Deus me ordenou. Quando alcançamos a estrada principal. esperavas um sinal de Deus. desesperado. De braços abertos. hás de ver. reuniu todas as forças. Em seguida tomei-o pelas mãos e levantei-o.disse-lhe -. deixava-se tratar como uma criancinha. dize-lhe. Ah! se fosse possível deixá-la em liberdade! E logo a seguir: . Francisco fez o sinalda-cruz. penteei-lhe os cabelos com os dedos. nós a sufocamos no meio da carne e dos ossos. não podiam sustê-lo. Ei-lo. . . O Padre Silvestre foi embora. A estrada está juncada de flores. porém.disse eu. esquentei a água. Para a frente! Mordeu os lábios. . Irmão Leão. Deteve-se: .Irmão .A alma humana. as flores tinham desaparecido como a geada que se derrete ao sol. que não vacila. E entrega-lhe estas flores celestes.. lavei o rosto.Não repares nos meus joelhos . e saímos da cabana. ignorando-a.Como conseguiremos ir a San Damiano? . As pernas. Eu não queria ir. Tocaram a terra e estão cheias de sangue. não. Acendi o lume. é uma centelha divina: é onipotente. quantas vezes preciso te repetir. Mas.replicou.Julgas que eu não seja capaz de me manter em pé? Que minha alma não consiga reerguer o corpo? Pois bem.

disse ele.Mensagens não nos bastam. . . mãos que nos abençoem.. . Calou-se e seguiu pela beira do caminho que conduzia a San Damiano. Irmã Clara. não podemos nos acalmar. juntou as mãos. trouxeram a mensagem e voltaram ao seio de Deus. . baixou os olhos e esperou. Quando Francisco atingiu o limiar do convento. extasiado.Que Deus te proteja. .Não vejo muito bem. levantou a cabeça e ruborizou-se. parou. Pai Francisco. . Irmã Clara.prosseguiu Francisco. Não queriam ser esmagadas pelos pés humanos.Que flores foram plantadas aqui. minhas irmãs . Como era lindo aquele pequeno claustro! Perfumava o ar. com duas companheiras. estamos perdidas. .Há séculos que te esperávamos.Mandei-lhes mensagens com toda a regularidade pelo Padre Silvestre. Quando ouviu o ruído de seus passos. parou. Os dois caminhavam à frente. . Somos mulheres. reconfortando-nos. pôr cima das nossas cabeças. Pai Francisco .Eis o segundo milagre .respondeu Clara.As flores desceram do céu. . Irmã Clara? quis saber. Que Deus as abençoe. .Não se lamentem . e nós os seguíamos. Prostrou-se por terra e beijou-lhe os pés. se não sentimos. Irmã Clara se prosternou novamente e pediu permissão para falar. . Tendo-o percebido ao longe.Sê bem-vindo.saudou Francisco de mão erguida. As palavras que vêm de longe se dispersam ao vento. vinha ao encontro de Francisco. . Se não vens falar conosco. e se não vemos o movimento de lábios consoladores.

beijando-lhe a dobra do hábito -. invisível.Pai Francisco . onde ele sentou. . Francisco estendeu a mão e abençoou o recanto.comentou comigo mais tarde. fala. minhas irmãs flores. Não consigo dizer mais nada.disse.Minhas irmãs. ninguém falou. lembravam pombas. Pai Francisco. Então abriu os braços. Quando vivia no mundo. apertava o Filho nos braços e sorria.Meu irmão pátio . As companheiras ficaram de pé. Ele. . . numa imagem. eu sabia. porém. não se apressava. Conduziram Francisco a um banquinho. . feito de paz e confiança. as paredes estavam todas caiadas. enfim. Irmã Clara se ajoelhou a seus pés. A Virgem Santa. que Francisco começasse a falar.Fazia muito tempo que eu não experimentava o prazer do aroma da roupa recém-lavada. Durante um longo hiato. Lia-se em seu rosto um êxtase de felicidade. Uma multidão de anjos. sacudindo a cabeça como se acordasse. costumava cantar aos amigos que convidava: . . Irmã Clara. e disse: . Envoltas em seus mantos brancos. atrás dela. de mãos postas. As irmãs se prosternaram e beijaram os pés de Francisco. enquanto ele as abençoava. o perfume de menta e loureiro que sobe das arcas quando se abrem. Todas as irmãs fitavam o santo visitante.. descera a San Damiano e aguardava.Como o ar cheirava bem a flores e a limpeza! . E no outono haverá violetas. Reinava um silêncio maravilhoso.disse -. por piedade. sinto-me feliz por visitá-los! Queira Deus que vocês entrem no paraíso junto com a Irmã Clara no dia do Juízo! No interior. . uma a uma. sinto-me radiante por vê-las.Cravos e rosas.

Está em toda parte.Eu. enroscando-se como uma bola. acode-me à lembrança um certo verme da terra. explica-nos. . . todos os seres humanos que rastejam na terra. caríssimos. . .Somos mulheres simples. de tanto medo que sentia. minhas irmãs. pobreza. . no pão que comemos. um verme que passara a vida a rastejar pela terra.Que verme é esse. transforma-te em libélula! E o verme. asseio e fervor era o que mais apreciava. sentado nos ramos da amendoeira em flor. Aguarda que a nossa alma fique lassa e se canse de ser a guardiã vigilante. que façanhas precisa realizar o pobre verme antes de se tornar libélula! Sem esquecer as armadilhas que o Diabo oferece para perdê-lo! Satanás está em toda parte: no núcleo da rosa cujo perfume fascina. Senhor? Ordena!. respondeu o verme. portanto. sofrimento.prosseguiu -.Escutem. Os vermes não entram facilmente aqui!. . Já velhinho. castidade. meu Deus. Sofre mais. Como é grande esta alegria! Dirse-ia até que a natureza Reverdece em harmonia". é uma história verídica: "Era uma vez. todas as irmãs que me escutam. fome e nudez. amor. Estava profundamente emocionado. . minhas irmãs . chegou à porta do paraíso. Aquela atmosfera de pureza. . tu. oculto sob a pedra que se levanta. . . Há muito tempo eu não o via tão feliz. lágrimas. e aguarda. na cama onde deitamos para dormir. é dele que lhes vou falar. Não se trata de um conto. Irmã Clara."Bem-vindos sejam. luta. . Bateu. voltou à terra para lutar e sofrer". a fim de se . Por todos os cantos espreita: na água que bebemos. Pai Francisco? .Hoje essa canção me volta aos lábios. Perdoem-me. Angústia. . falou uma voz do interior.suplicou Clara. . Acho que estás muito apressado! Que fazer.

à noite. e sinto pena. vê irmãos e irmãs a sofrerem no inferno? Como pode existir o paraíso enquanto existir o inferno? É por isso que eu digo. semelhante a um sussurro de folhas. . irmãs. homens. enfeitam-se e riem sobre a terra. Penso em vocês. seus próprios lábios se cobrem de uma pintura impudente. no qual. gravem bem no espírito. minhas irmãs. Quando uma mulher pinta os lábios nos confins do mundo. Que é o paraíso. senão a perfeita felicidade? Mas como pode alguém atingi-la. Se ele se salva. não digam: Estamos resguardadas neste convento. plumas multicores. crianças. posso jurá-lo. Meu Deus.” Eu escutava Francisco. Na presença das irmãs. Lá em cima. Quando um ser humano perece nos confins da terra. um silêncio divino. Ouçam o que digo: somos todos um único e mesmo ser. O mundo não cessa de tentá-las com flores. minhas irmãs: a salvação para todos ou a condenação para todos. a sua alma desabrochara. rumamos ao céu! Esse raciocínio é uma cilada de Satanás. quando. Porque são mulheres e não se endurecem facilmente. lábios invisíveis rezam e imploram? "Cuidado. escapamos ao mundo. jóias. mais do que nos homens. roupas de seda. acima de suas cabeças. quantas armadilhas! E quantas mulheres serão capazes de evitá-las? Rezem de manhã e de tarde. no céu.apossar de nós e arrastar-nos ao inferno. debruçando-se à janela do paraíso. Era a primeira vez que o ouvia exprimir-se sobre o mundo com tanta generosidade. Não costumam escutar. todos se salvam da mesma maneira. Naquela atmosfera feminina. minhas irmãs. sua compaixão estendera as asas. irmãs. por todas as mulheres que se cobrem de ouropéis. . e o meu coração palpitava de assombro. cobrindo inteiramente a terra. todas as criaturas perecem com ele. a Virgem Maria se une a essas orações. .

transtornado. Um pensamento ímpio me vem aos lábios. revelá-lo às irmãs. Os seus semblantes resplandeciam como sob os raios do sol. Inconsolável porque Deus não o privou da memória e recorda sempre a doçura do paraíso. meu Deus! tenho pena do próprio Satanás. que intolerável presídio seria a terra! . não vim para lhes falar no inferno. . Falem-me também no paraíso. Por acaso não beijamos os leprosos? Que o perfeito Amor . ergueu a cabeça. tendo estado junto de Deus. A vida é árdua de suportar. mas somente no paraíso.Pressinto a proximidade de vocês. aproximando-se aos poucos.Todas as freiras estavam ajoelhadas e. ele gostaria que todos. afastou-se Dele. hão de compreender: neste momento. então. para que nos consolemos.beije Satanás. desejaria também que a dor fosse expulsa deste mundo e do outro. e o Demônio reencontrará o primitivo semblante resplandecente! Os soluços lhe sufocaram a voz. mas um beijo nos lábios pode lhe restituir a forma e a alma de arcanjo. Precisamos rezar por Satanás. os bons e os maus. para que o Altíssimo lhe perdoe e lhe permita retomar o seu lugar entre os arcanjos. Estão cheias de amor e compaixão.Minhas irmãs. erra. Francisco sentiu o hálito quente do grupo. perdoa-me. disforme e sanguinária. perdoem-me. minhas irmãs. minhas irmãs. e o meu coração fica radiante. inconsolável. Recomeçou a falar: . Senhor. acabaram cercando-o. Não existe criatura mais desgraçada. As suas lamentações repercutiam por todo o convento. pois. Francisco. Não queria fazê-las chorar. e se a irmã Morte não viesse um dia abrir-nos a porta.e o Amor é prerrogativa da mulher . Escondeu o rosto entre as mãos. O Diabo é uma fera. As freiras começaram também a chorar. por toda a eternidade. É nisso que consiste o perfeito Amor. transpusessem o seu limiar. Permite-me. E tendoO renegado.

Sentiam. pela primeira vez na vida. esperança suprema! Esperança não. pois a alma humana.Perdoa-nos. Irmã Clara.Pai . tocando ligeiramente no manto de Clara -.Que intolerável prisão seria nosso corpo! Agora. Então Clara tomou ânimo e encostou de leve a mão no joelho de Francisco: . que logo cedeu. ao olhar para ti. Abriram a janela que dava para o pátio e o ar se encheu do perfume das rosas e dos cravos. ouviram-se violentas pancadas na porta do convento. no meio desse silêncio sagrado.Que aconteceu. . porém. As labaredas alcançavam o céu. Durante muito tempo ninguém abriu a boca. enxugando a testa banhada em suor: . . certeza. oh. tenho a impressão de que Eva nunca pecou. avança pelos rochedos e precipícios gritando: "Oh.falou baixinho -. coroada de flores de laranjeira. . Senhor. e no doce silêncio que se seguiu as irmãs ainda julgavam estar ouvindo Francisco discorrer sobre o destino da mulher. . sobre o amor e sobre o beijo que restituiria a Satanás a aparência e a alma de arcanjo. quanta alegria. . meu esposo bem-amado!” Uma freira desfaleceu.concordou Francisco. Clara então sorriu. . tenho a impressão de que Adão nunca pecou. Clara se levantou de um salto.Eu também . mas de longe vimos San Damiano ardendo em chamas. irmãos? Por que forçaram a porta? E Junípero respondeu. . que ser mulher constitui uma graça infinita de Deus ao mesmo tempo que uma pesada responsabilidade. ao olhar para ti. De repente. ofegantes e desvairados. dando entrada aos irmãos da Porciúncula.

enxugando as lágrimas. . caminhando com passo firme. Francisco ergueu-se e saudou Clara e as freiras. meus irmãos. Francisco quase não enxergava. cortar lenha ou colher ervas. arrebatados. Parecia imerso num êxtase tão profundo que eu nem ousava chegar . Pai Francisco . O sol já estava no ocaso.. Nós o seguíamos.Tu nos fizeste um grande bem. De vez em quando passava um irmão para ir buscar água.exclamaram em uníssono. Pai Francisco? Dar-teia de bom grado.Ordena. o Padre Silvestre levar-te-á o hábito que desejas. . comentando. .O convento não está ardendo.Realmente. . . ou um melro alçava vôo depois de assobiar duas ou três vezes.Vão e peçam para mim. minha irmã. . Pai Francisco disse Clara. Na manhã seguinte.Por que não me pedes que te dê a vida. . Depois cozam os retalhos e façam-me com eles um hábito. tenho uma graça a lhes pedir. se Deus quiser. Clara beijou-lhe a mão. o milagre. logo ao nascer do sol. . a todos os pobres. Era Pai Francisco que falava. abençoando-as. Francisco acocorou-se à porta da cabana e permaneceu calado pelo resto do dia. assistiram à nossa partida. Clara e as irmãs. porém apurava o ouvido e escutava os rumores do mundo. Francisco tomou a dianteira do nosso grupo. Consolaste o coração inconsolável da mulher. No próximo domingo. soprava uma brisa tépida. Fazia bom tempo. nem tampouco há chamas. a esmola de um remendo de pano. Que poderemos fazer por ti? . À porta do convento.

daqui desta soleira onde estou sentado. . as moças pintadas. o raio de minha visão ampliando-se cada vez mais. comecei a enxergar o invisível. as suas ilhas brancas. a cada hora que passa. Ficara cego. os umbrais onde as meninas bordam e também minha mãe. Permaneci calado. e desde hoje de manhã. Depois vi Assis. as ruas. Irmão Leão! .A partir do dia em que a claridade me foi retirada. O sangue corria-lhe pela barba.. .. ateando fogueiras imaginárias para queimar heréticos e pagãos. Primeiro. pouco depois. percebi o monge feroz vestido de branco. os fidalgos perfumados. arcanjos. Ainda mais distante. mais nada. Estendeu a mão e tocou-me. as moradias.Que prodígio. vejo mais longe. e. E depois. ao perambular na terra e no céu.exclamou. as suas torres. Sem dúvida aproximara-me de Deus mais do que me era permitido. Finalmente. . onde os irmãos altercavam. chorava com a cabeça escondida nas mãos. afastado. a paixão que o consumia serenou.. ajoelhada diante da janela com a fisionomia banhada em lágrimas. Os meus olhos interiores se abriram. o papa meditando sobre o destino da cristandade com a venerável cabeça apoiada à mão. e fui sentar-me a seu lado no umbral. avistei uma imensa claridade.perto. que suave murmúrio me rodeia! Como é doce o farfalhar da folhagem e agradável o zumbido do ar! Calou-se e. Em seguida. atenuava-lhe os sofrimentos. As chagas abertas tinham sangrado o dia inteiro. . recomeçou: . feliz de verificar que a sua alma. enxerguei Roma: as ruas largas. estrelas enormes e os Sete Céus povoados de santos. onde o sultão ainda galopa no seu cavalo para escapar à cruz que o persegue. na margem do rio. enquanto o Padre Silvestre. querubins e serafins. a Creta selvagem e o país dos árabes. avistei nitidamente a Porciúncula. No crepúsculo.Desde o dia em que fiquei privado da luz. os campanários. . vi o mar.

o corpo humano é a Arca do Testamento onde Deus se refugia. irmão . .É um morcego . desligado do corpo. brotaram-lhe asas no dorso e transformou-se no nosso irmão morcego. elevavam-se no ar. não sabia que as tuas asas eram feitas de hóstia! Francisco. Caía a tarde. Irmão Leão. Após um longo silêncio: .Que é isso? . Ademais. repletas de aves.Não devemos desprezar ninguém. Dois morcegos esvoaçavam à nossa volta. As árvores cantavam. perseguindo os mosquitos. agora escutava o ruído do rio que corria lá embaixo. Certa noite. de um animal ou de um pássaro.caía a seus pés e impregnava a terra. .Perdoa-me. não se pode deixar de amá-lo. quer se trate de um homem.Irmão Leão . que vivia nos porões de uma igreja. Irmão Francisco. saiu de seu buraco. não sentia dor nenhuma. As primeiras vozes noturnas. cada ser vivo tem a sua história. medindo cada palavra -. Conta. . e quando a conhecemos. então.disse-me. .disse -. subiu ao altar e comeu um pedaço de hóstia.respondi -. Fiz-lhe sinal: . Mas Francisco. Sabes a história do morcego? . sacudindo a cabeça. No início era um simples camundongo. Senti uma asa roçando nos meus cabelos. maldito seja! . com a mão em concha atrás da orelha. O animal tornou a passar diante de nós.Não. No mesmo instante. Pouco faltou para que se enredassem nos cabelos de Francisco.Escuta. grilos e rãs.perguntou.

por que deve a carne ser sempre a mais forte? Por mais que a fustiguemos. Irmão Leão.De pé. não somente não cede. Pensa na intensa alegria que proporcionaste ontem às freiras de San Damiano. como canta no fundo do vale. readquire forças novas e se rebela.Não te afobes. . Quando o alcançará.Não. Francisco. .. Irmão Francisco? Por que pediste a Deus que lhe perdoasse? . corre com pressa de se lançar ao mar.Mas por que fiquei tão perturbado quando me vi no meio daquelas mulheres? Senhor. Direi: "Ai de mim. com voz lancinante. Francisco suspirou. E tu responderás: "Realmente. . levantou-se. e em nome da Santa Obediência. jurei nunca desobedecer às tuas ordens. . não! . . Como ele. meu Deus? Quando? . como. . Estás pronto? .Meu Deus. cometeste tantos pecados na tua vida que mereces ir para as profundezas do inferno". a nossa alma corre com pressa de se lançar ao céu.vou começar. pelo contrário. Estás pronto a fazê-lo? .Por que lamentas Satanás. rolando-a pela neve. . reduzindo-a a uma pazada de terra. Francisco. estava inebriado. privando-a de alimentos e de sono.protestou.Que foi que eu disse ontem no convento da Irmã Clara! murmurou. cometeste tantos pecados em tua vida. Arrebatado pelo próprio discurso.Irmão Francisco. sem modificar uma só palavra. não te afobes.Estou. que bem mereces ir para as profundezas do inferno". Temos necessidade de ti na terra. Irmão Francisco.Ouve o rio. confuso. ordeno-te que repitas com exatidão o que vou dizer agora. perdoa-me.

não há salvação nem misericórdia para ti! Serás lançado ao inferno. ordeno-te que repitas as palavras que ouvires. Por que não repetes as minhas palavras? Em nome da Santa Obediência.Bem-aventurado Francisco. bem-aventurado Francisco. . tens a impudência de pedir a Deus que te perdoe depois de todos os pecados que cometeste em tua vida? Não. Podes começar.Muito bem. surpreso. . juro-te. Exatamente. Irmão Francisco. Ouve bem. .Muito bem. Dirás: "Sim. em nome da Santa Obediência. o Senhor há de te precipitar ao inferno!" É a tua vez! . Pela última vez.Então dize! . Agarrou-me pelos ombros e sacudiume. . a misericórdia divina é muito maior que os teus pecados.Então direi: "Miserável Francisco. não. ordeno-te que me obedeças. Francisco começou a bater no peito. Irmão Leão. eu te obedecerei. não.Como ousas te opor à minha vontade? Cada vez respondes o contrário do que eu mando. repetirei tudo o que disseres. Sempre chorando. escuta o que vais responder. fizeste tanto bem em toda a tua existência que bem mereces ir para o ápice do paraíso! Francisco olhou para mim. Tudo te será perdoado e entrarás no paraíso! Francisco então se zangou. maldito! O Senhor há de te precipitar ao inferno!" E agora. e as lágrimas lhe vieram aos olhos. sim.Por que não me obedeces? Ou viste perfeitamente o que eu disse.. dizia: . sem alterar uma só palavra.Miserável Francisco.Não. i . maldito sejas. maldito Francisco. .

a língua me trai.clamei. Toda vez que abro a boca para repetir o que me ordenaste. incapaz de se conter por mais tempo. despiu-se. .gritei. A culpa não é minha. . deixei-me cair a seu lado. perdoa-me. por que me apertas os joelhos? . envoltos numa pele azulada pelas pancadas e chagas cicatrizadas. Mas eu o impedirei! Levantou-se. juro-te. meu irmão.Por que me atormentas? . Deus é infinitamente misericordioso e no limiar dourado do paraíso aguardam-te a santa Pobreza. Onde poderia bater? Havia apenas ossos.Irmão Leão. pondo-me a chorar junto com ele -. Meu coração se confrangeu ao ver o seu pobre tronco nu. e repito tudo o que ela me diz.Como posso levantar a mão contra ti? Francisco. Francisco desmoronou a meus pés. enfureceu-se: . santo e grande mártir. Dentro de mim existe uma voz mais forte que a tua.replicou. apanha essa corda e bate-me. o santo Amor e a santa Pureza.. Dito isso.Irmão Francisco.retrucou ele. Aterrorizado. .Irmão Francisco. desatou o cinto de corda e jogou-o na minha direção. Esta última segura uma coroa de espinhos na mão.Não tens pena de mim? . .Irmão Francisco . então. compreendeste? Bate-me até sangrar. não adianta.Quer adormecer a minha alma e aproveitar o seu sono para se apossar dela. com o rosto em lágrimas. Por que resistes ao que te peço? . Deve ser a voz de Deus! . beijo-te as mãos. .Deve ser a de Satanás! .

Irmão Francisco. . devemos conservar algumas forças para poder recomeçar amanhã de manhã. À medida em que batia. bradava. ofereceu-me as costas e comecei a fustigá-lo e a fustigar-me. Suplico-te. batia inexoravelmente. . Mas eu não queria saber de parar. "Tu te lembras da mulher que perseguiste nos canaviais? Do pão que roubaste na padaria? Toma! Agüenta esta. libertino!” . "Estás com pena desta carne corrompida?" Então comecei a golpear com mais força. A corda ficou vermelha com o nosso sangue. uma pancada para ti e duas para mim. . Irmão Leão. porém ele se zangava: "Mais forte. Uma estranha embriaguez se apoderou de mim.exclamou Francisco. nós nos separaremos! E apresentou-me as costas. como se. vou-me embora. chicoteasse-o sem compaixão. Eu soltava gritos bestiais e triunfantes. Tive medo. uma pancada para Francisco.Irmão Leão. covarde. ia-me excitando sem perceber. depois de ter apanhado um animal que causara prejuízos. e quanto maior era a dor. por este céu que nos cobre. A princípio batia de leve nele. separamo-nos! Sim. repentinamente calmo. Parecia-me que estava pagando todas as faltas de minha vida. mais forte!".Basta . não me recuses esta graça! Calou-se.. beberrão.repetiu Francisco autoritariamente. se não fazes o que ordeno.Chega! . previno-te. Sofria. Parecia decidido a executar as suas ameaças. guloso. mais o meu ser se alegrava. mentiroso. duas para mim.Basta. . e isso me aliviava. A dor me fazia saltar e rodopiar como numa dança. Fingi não ouvir e continuei a flagelar o meu corpo com fúria. sem lograr serenar-me. arrancando-me das mãos a corda ensangüentada. Despime também até a cintura.

Entramos na cabana. Francisco estendia as mãos e tocava nos seus amigos. como para se certificar de sua presença.Por que não conversaram.Há tanto tempo vocês não se viam. retomava a atitude de oração e o seu rosto resplandecia de felicidade. Eu tinha acendido a lareira porque fazia frio. as mãos e os ombros de Francisco. mas é a mesma coisa. Assim imagino eu a eternidade: imóvel e silenciosa. Depois. porém nenhum abria a boca. que começou a chorar. Parecia-me que o tempo havia parado. sentei-me junto de Francisco. extenuado.retrucou -. Faziam lembrar três velhos guerreiros que. senti prazer. incapaz de refrear a língua.falei -. Conservaram-se calados. De vez em quando. Acendi o lume e agachei-me ao lado da lareira. sentiste dor. O sono logo veio e sonhei que amamentava um porquinho. Uma hora ou um século tinham a mesma duração. Irmão Francisco? . . . eu sentia o ar vibrar em torno de seus lábios como se falassem. não . No entanto. Seria possível que não tivessem nada a dizer? . sem dúvida. olhando o fogo. se encontram numa tarde de inverno em frente a um bom fogo. Não saberia dizer quantas horas escoaram em silêncio.Irmão Francisco . O fogo se apagou. Os três se abraçaram sem pronunciar palavra. A sua emoção se estendeu aos outros dois. Um dia o Irmão Bernardo e Dom Piero vieram visitar-nos. beijaram os joelhos.Rolei no chão. após muitos anos de separação. O sol subiu no firmamento. . . Deve ser assim.Não sentiste. Gostaria de ouvir o que diziam. e os irmãos desapareceram entre as árvores da floresta. Quando ficamos sozinhos. que os anjos conversam no céu. Beijaram a mão de Francisco e acocoraram-se um à sua direita e o outro à sua esquerda. Bernardo e Píero levantaram-se.perguntei.

Como? . que se encontram à direita e à esquerda de teu rosto? Era com os outros. Acariciou-me os ombros.Rico é o que não deseja a riqueza! .Pobre é o rico que deseja adquirir mais riquezas ainda! Louvado seja o Senhor! Sou o rei mais afortunado da terra. . Cada um dera o seu retalho de presente ao esposo da Senhora Pobreza..prosseguiu -.com que ouvidos escutavas. Sinto falta deles.É o presente de núpcias que te envia a tua esposa. ornada de milhares de penas emprestadas pelas suas irmãs aladas de toda a terra. olhos e língua na alma. ver e falar! Era domingo. . .estranhou. Sorriu: .Mas. E não são feitos de barro e sim de fogo.disse. O ar enfunava-lhe o pano e tornava-o semelhante a uma estranha ave.Não ouvi nada. . que deverias ter escutado. os da alma. Francisco tomou o traje nos braços.Não fizemos outra coisa senão falar todo o tempo. Dissemos tudo. Talvez ainda estejam nos ofícios. .Irmão Leão. sim . . Vamos assistir à missa juntos. Irmão Leão? com os de barro. . Vestiu o hábito novo e admirou-se. É com eles que deves ouvir. este hábito é o meu vestuário de cerimônia. De manhã cedo o Padre Silvestre trouxe o hábito que as freiras haviam costurado para Francisco com os pedaços de pano mendigado aos pobres. há muito tempo que não vejo os nossos companheiros. . Havia retalhos de todas as cores: pretos. verdes. radiante. a Pobreza disse-lhe. . . também temos ouvidos. azuis. beijou os remendos um a um e abençoou a sua santa esposa. Irmão Leão.

porque poderias ferir Deus. .Como estou contente. "Parece uma criança". Nunca vi homem mais voluntarioso e autoritário do que ele. Francisco ergueu a cabeça. Mas para onde vamos? Aonde me conduzem os meus passos? Queira Deus que seja para o céu! Realmente.A terra tem sete pisos . ia eu pensando. .Já há alguns dias ele estava melhor das vistas e tinha as pernas mais rijas.falou -. afastando os galhos para passar.Decerto explica as palavras de Cristo à sua maneira . não o chamava de Elias. repleta de irmãos. Tenho a impressão de que transporto em minhas costas todos os pobres da terra. e o céu outros tantos.exclamou. hesitante em prosseguir. "é por isso que o amo. Senhor! Em segredo. A Porciúncula. e eu o seguia de coração alegre. tombou em meus lábios. com o grande cajado na mão. perdoa-me. olhou as nuvens e estendeu a mão como se pedisse água ao céu. É para lhes mostrar o hábito novo que vai visitar os irmãos!” Ameaçava cair uma chuva. Francisco olhou para mim severamente. Elias falava. de pé num banquinho. mas de Judas. . zumbia como uma colméia. E toda essa imensidão não é suficiente para conter Deus.falou baixinho. . . Fazia um discurso aos irmãos. Uma gota. pode contê-lo inteiramente.Os ofícios já devem ter acabado .retruquei com animosidade. Irmão Leão! . .Irmão Elias está explicando o Evangelho. Eu não gostava daquele irmão. Francisco estacou. a pobreza nos convém como uma fita de seda vermelha nos cabelos de uma jovem! Ouviu-se a voz forte de Elias por trás das árvores. Por isso toma cuidado. O coração humano. Caminhava à frente. não firas o coração do homem. grande e morna. entretanto.

e esta regra será o nosso general. Levantem as mãos e gritem: "Aprovado!” Todos os irmãos levantaram as mãos. Alguns irmãos olharam-no sem reagir. . e com eles o céu e a terra. Obediência. Dom Bernardone. outros.Os tempos mudaram . A voz tonitruante de Elias se fez ouvir novamente: . Não há lugar para duas opiniões diferentes na nossa ordem.acrescentou. Seu corpo irradiava poder. pois a antiga lhe parecia muito ingênua e rigorosa. Somos soldados de um exército regular. . esses cueiros que envolviam e protegiam a ordem na sua infância. Se bem que o tivesse notado. Precisamos desembaraçar-nos deles para poder respirar livremente. gritando: "Aprovado!" Apenas Francisco e eu ficamos de braços cruzados.descontando. São estas novas verdades e estas novas virtudes que a nova regra trará. . ao ver o hábito novo. o pai de Francisco. a mais inabalável. As verdades antigas. coberto de caracteres negros e vermelhos. agora a asfixiam. Trabalhara incansavelmente nela nos dias precedentes. Elias não abandonou o lugar que ocupava para ir recebê-lo.gritava -. puseram-se a rir. ouvindo. Amor Pobreza. Desenrolou então um extenso pergaminho. talvez.Quem não aprovar que se retire . Elias falava da nova regra que os irmãos deviam seguir doravante. Levantou o cajado e deitou um olhar rápido para Francisco. A disciplina é uma de nossas novas virtudes.Já lhes expliquei os novos mandamentos e o que devem significar de hoje em diante para nós: Pureza. Francisco atravessou a sala encostado às paredes e ficou a um canto. Francisco entrou.

Uma vez que falas por parábolas. A trilha se chama Humildade. feliz a confraria que evolui ao ritmo do mundo. tenho algo a dizer: o dever do homem vivo é evoluir com o seu tempo! . escarninho.Deus tomou-me pela mão e disse: "Francisco.disse -. Irmão Elias. agachado no seu canto: . meus irmãos. não me leves a mal. põe-te à cabeça do rebanho. que escutava em silêncio.que fica na retaguarda! Finalmente. Irmão Elias. . que chego a pensar: bem-aventurados. Irmão Elias. só tenho uma coisa a dizer: existem hoje tantos homens a procurar avidamente a riqueza. o modesto e o ignorante! Elias sorriu. sem malícia nem sapatos.O dever do homem livre é resistir ao seu tempo! replicou Francisco.Irmão Francisco . Irmão Francisco. Por que sacodes a cabeça? Tens alguma objeção a fazer? . desaprovador. .disse -. . Francisco.Feliz o irmão.que estejas a ponto de afastar as ovelhas de Cristo do verdadeiro caminho.Meus irmãos . de fato. também eu.disse com voz forte e desesperada . a ciência. Não há . Deus também tomou-me pela mão.Irmão Francisco . porém. mas Bem-Estar. Desgraçado daquele . o poder. Mostrou-me um caminho amplo e disse: "Segue por esta estrada e me encontrarás!" A estrada se chama Combate.Receio . virou-se com um ar triunfante para o humilde irmão. . confio-te estas ovelhas. sacudiu a cabeça.retrucou Francisco -. segue esta trilha e me encontrarás". sê bem-vindo. A estrada de que falas não se chama Combate.e lançou outro olhar para Francisco . homem ignorante. farei o mesmo.

Os mortos não possuem sinetes. .O sol não retrocede . . nada. .Deixa-me . com uma pena e um tinteiro na mão. apõeno teu sinete para restabelecer a união na Porciúncula! A voz de Francisco se elevou. Adeus! . Introduziu-se a discórdia entre nós. desesperada: . só as trilhas estreitas levam ao paraíso. Pacífico. Apõe o teu sinete.Não. Acompanham o ímpeto de Deus. Não escutem o que ele diz.ecoaram todos os irmãos.Irmão Francisco . Tentei levantá-lo. e tomem a trilha antiga e estreita!” . Nós te respeitamos. Elias aproximou-se e desenrolou a norma diante dos olhos de Francisco. Todos os fiéis da antiga regra se haviam insurgido. Elias inclinou-se: .disse.Tu não vês? Tudo terminou! Alguns irmãos se agruparam à sua volta.respondeu Francisco. . compassivos: Sabbatino. Adeus! .nenhuma estrada ampla que conduza a Deus. . afastando o pergaminho que o outro agitava diante de seus olhos. Foi para clamar: "Parem! Retrocedam. .perguntou Elias. Agora compreendo por que Deus me enviou a esta reunião.Tens mais alguma coisa a dizer? . mas beijamos as tuas mãos e seguimos adiante.bradou Elias -.Adeus! Francisco enxugou as lágrimas com a manga do hábito.murmurou. meus irmãos. cá está a nova regra. Irmão Francisco. .. Um determinado número de irmãos já se revoltou e deixou a confraria. Irmão Elias. não te recuses.Adeus! . junípero.insistiu -. fraca. lentamente. A estrada larga de que falas é a de Satanás. nem o rio. Ruffino. Atrás dele estava o jovem noviço Antônio. meus irmãos. Os outros velhos companheiros tinham partido junto com o Padre Silvestre para não ouvir Elias. . sem ruído. Rompeu em pranto e caiu no chão.

Se Deus decidiu chamá-lo a Si. e pusemonos a caminho. levantou a cabeça. Durante quatro dias e quatro noites. tropeçava e caía. passei-lhe o braço pela cintura. nem água. . voltou a si. Deitei-o no enxergão e corri à Porciúncula. . . Definhava. Ele não tinha mais forças para andar. .meu Pai! Nem se movia.gritei. que escrevia. ao acordar.Venham todos. Creio que desfaleceu outra vez. colando a boca ao seu ouvido. debruçado sobre um pergaminho. as têmporas e os lábios tão cavos que mais parecia um morto. Aliás. O hábito era como um saco vazio.retrucou Elias. pousando a pena. Tomei-o nos braços. não abriu a boca nem para comer nem para falar.Como poderemos salvá-lo? . Era leve como uma pluma.Meu querido Francisco! .Irmão Francisco está morrendo! .Irmão Francisco! . Ele tinha as faces.bradei. não devemos oferecer resistência à Sua vontade. E hoje de manhã nem sequer tem força para respirar.exclamou. deitei-o no enxergão e borrifei-lhe o rosto com água. senti medo. Finalmente tomei-o nos braços.Há quatro dias e quatro noites que ele não ingere nada. constatando que desmaiara. Apesar do meu auxílio. . Nem pão. .Morrendo! .Irmão Francisco! Não deu mostra de ter escutado. dois pedaços de madeira. Muito depois. seria impossível. Quando chegamos à cabana. e as pernas. Cada mão não passava de cinco ossinhos tênues. Venham. Olhou-me com uma tristeza infinita e em seguida cerrou as pálpebras. pelo amor de Deus! Elias. vamos salvá-lo! . . No quinto dia.Levantei-o do chão.insisti . .

- É possível, sim! - gritei, desesperado. - Ele se deixa morrer. Quer morrer porque, com a nova regra que pretendes impor, afastas-te do caminho que ele traçou. Desde que percebeu isso, tem o coração sangrando. Irmão Elias, declaro diante de todos, a sua morte pesará na tua consciência! - Mas que posso fazer? - perguntou Elias, nervoso. - Dize! - Pega a tua regra e vai rasgá-la diante dele. É o que ele espera para voltar a viver. Se não o fizeres, proclamarei diante de todos os irmãos que o nosso Pai Francisco está à morte e és o assassino! Cinco ou seis irmãos se reuniram em torno de mim, começando a olhar Elias com insistência. Tinham tomado o meu partido, e isso me encorajou a gritar mais alto. - Bem - replicou Elias, segurando o pergaminho. Pára de gritar! Calçou as sandálias e pegou o bordão. - Vamos - disse, de má vontade. Depois, virando-se para os irmãos, acrescentou: - Não quero que ninguém se aproxime da minha mesa de trabalho. Antônio, vela por isso. O jovem noviço chegou mais perto. - Irmão Elias - disse em voz baixa -, que pretendes fazer? Rasgar a nossa regra? Elias olhou-o afetuosamente e sorriu: - Não tenhas medo, meu filho - respondeu. - Sei o que estou fazendo.

Chegados à cabana, quando nos debruçamos sobre o enxergão onde Francisco jazia, ficamos horrorizados. Seria um corpo humano aquele punhado de ossos encimado por um crânio? com os olhos enterrados nas órbitas, do rosto restavam apenas as sobrancelhas, a barba e o bigode manchados de sangue. Reuni toda a coragem que pude e me inclinei ao seu ouvido: - Irmão Francisco - gritei -, o Irmão Elias chegou. Estás ouvindo? Veio para rasgar, na tua frente, a nova regra. Abre as pálpebras e olha! Agitou-se, num suave queixume, mas conservou os olhos fechados. Então Elias, por sua vez, se curvou: - Irmão Francisco, sou eu. Não ouves? vou destruir a nova regra para acalmar o teu coração. Francisco abriu lentamente os olhos, a muito custo. Contemplou Elias em silêncio e esperou. O outro tirou o pergaminho, desenrolou-o e começou a rasgá-lo em mil pedaços. O sangue subiu ligeiramente às faces e aos lábios de Francisco. - Irmão Leão - disse ele -, joga os pedaços ao fogo! Depois, virando-se para Elias: - Dá-me a tua mão, meu irmão. Pegou a mão que Elias lhe estendia, conservou-a um momento na sua e em seguida se pôs a soluçar. - Irmão Leão - pediu-me -, se houver leite, gostaria de beber um pouco. Devagar, penosamente, Francisco voltou à vida. Começou a comer, dizendo algumas palavras e arrastando-se até o limiar da

cabana para se aquecer ao sol. Quando chovia, enroscava-se perto do fogo e apurava o ouvido, radiante, como se escutasse a chuva pela primeira vez, e a água do céu, penetrando-lhe o ser completamente ressequido, lhe restituísse o vigor. - A alma humana e a terra são unas - disse-me um dia. - Ambas têm sede e aguardam que o céu se entreabra para saciá-las. Uma manhã, Egídio, um de nossos irmãos preferidos, voltou de uma longínqua missão. Francisco lançou-se em seus braços, cobrindo-o de beijos. Gostava muito dele, tanto que costumava dizer: "O Irmão Egídio olha o céu a toda hora". O viajante sentou-se no chão e contou, rindo, o que tivera de suportar no curso de suas peregrinações. - Muitas vezes - falou -, vaiavam-me porque me tomavam por louco. "Outras, julgando que se tratasse de um santo, prosternavam-se à minha frente. "Não sou santo nem louco", bradava, "mas um pecador que Pai Francisco conduz pela trilha da salvação." Entrava nas aldeias com um balaio de figos ou de nozes, ou, na falta disso, frutos silvestres, e gritava: "Quem me der uma bofetada ganha um figo. Quem me der duas, ganha dois". Os camponeses então corriam, espancavam-me e esvaziavam o balaio. Tinha apenas que enchê-lo de novo para ir para outra aldeia. - Recebe a minha bênção, Irmão Egídio - disse Francisco. - Tu me agradas! - Também encontrei São Boaventura, Irmão Francisco. O caminho que ele escolheu é diferente do nosso. Acredita que a instrução ajuda a descobrir a salvação. Fui vê-lo e perguntei-lhe: "Meu Pai, os ignorantes podem encontrar a salvação com tanta facilidade quanto às pessoas instruídas?" "Naturalmente, meu irmão." "E os ignorantes serão capazes de amar a Deus tão bem como os letrados?" Que julgas que ele me respondeu, Irmão Francisco? Escuta só e morrerás de alegria. Ele me disse: "Uma velha inculta é capaz de

amar a Deus muito melhor do que um sábio teólogo!" Quando ouvi essa resposta, precipitei-me rua afora, esfalfando-me como um pregoeiro público. "Ouçam, ouçam o que disse o prudente Boaventura: uma velha inculta é capaz de amar a Deus muito melhor do que um sábio teólogo!” - Recebe a minha bênção, Irmão Egídio - repetiu Francisco, sorrindo prazenteiro. - Se a gente pudesse abrir o teu coração, havia de encontrar o texto da verdadeira regra, escrito em grandes letras vermelhas. Dessa maneira, de vez em quando, os antigos companheiros vinham vê-lo e o amor que lhe testemunhavam o nutria mais que o pão e o leite. Noutro dia foi o turno do Irmão Masseu. Trazia uma braçada de espigas maduras que tencionava assar para Francisco. - Onde encontraste essas espigas, Irmão Masseu? perguntou, inquieto. -Bem sei que, para praticares uma boa ação, és capaz de fazer qualquer coisa indigna. Suponho que apanhaste esse trigo em campo que não te pertencia. . . Masseu rompeu em gargalhadas: - Não sejas tão desconfiado, Irmão Francisco. Não as roubei, não. Deparei no caminho com uma mulherzinha carregada de um feixe de trigo: "Aonde vais, monge?", perguntou-me. "És um daqueles?" "Aqueles quais, boa criatura?", retruquei. "Os irmãos de Francisco, o Pobrezinho!" "Acertaste em cheio. Como adivinhaste?" "Pelo teu hábito rasgado, teus pés descalços, tua alegria. . . Ris como se te fizessem cócegas." "É Deus quem me faz cócegas", respondi-lhe. "Por isso rio. Aproxima-te também de Deus e começarás a rir." "Não tenho tempo", revidou, "possuo marido, filhos e não posso andar pelas pedras sem sapatos. Assim, não contes comigo. Só te peço uma coisa. . ." Tirou do feixe um punhado de espigas e me deu, acrescentando: "Leva, sei que

ele passa fome. Sou tão pobre quanto ele, mas leva-lhe essas espigas, será a homenagem que lhe presta a minha pobreza". Francisco apertou as espigas nos braços. - Isto é o pão dos anjos, Irmão Masseu - falou. É o pão da castidade. Queira Deus que essa mulherzinha entre no paraíso coroada de espigas maduras! Masseu assou-as no lume e começou a esfregá-las para recolher os grãos. - Irmão Francisco, tenho ainda outra coisa a pedir-te não te melindres. Posso falar à vontade? - Fala! - Creio que cometi uma loucura. Não vais ficar zangado? - A loucura, Irmão Masseu, é o sol que impede o apodrecimento da razão. Já esqueceste que eu percorria as ruas gritando: "Venham ouvir a nova loucura"? Fala, pois, sem medo! - Por todo o lugar que passo, Irmão Francisco, o teu nome está em todas as bocas. Muitos querem vir a pé até aqui para te beijar a mão. "Certa vez vi esse famoso Francisco", disse-me um dia um conde presunçoso. "Não é sábio, não usa espada e não descende de família nobre. Além disso, é baixo, mirrado, tem o rosto torto e coberto de pêlos. Por que será que todo mundo quer vê-lo? Não compreendo.” - E que lhe respondeste? - perguntou Francisco, rindo. - Aí começa a minha loucura.... "Por que é que todos querem vêlo?", redargüi. "Porque dele se desprende um odor igual ao das feras da floresta. Um odor estranho que atordoa." "Que odor?", indagou o conde. "O odor da santidade", respondi-lhe. Fiz bem, meu irmão? - Não, não! - exclamou Francisco. - Nunca repitas isso! Por acaso queres precipitar-me ao inferno?

- Que devo então responder? Interrogam-me sem cessar.. . - Olha! Deves dizer: "Queres saber por que todo mundo faz questão de vê-lo? Pois bem, é que nunca se viu cara mais disforme, homem mais sobrecarregado de pecados e mais indigno. E Deus o escolheu com esta finalidade: envergonhar a beleza, a sabedoria e a nobreza". Masseu coçou a cabeça e me lançou um olhar de viés, como se perguntasse: "Será que devo dizer tal coisa?” - Dize tudo o que te vier à língua, Irmão Masseu aconselhei-lhe. - Mas deixa essa cabeça em paz, pára de coçá-la. - vou dizer-te outra coisa ainda antes de ir embora, Irmão Francisco - tornou Masseu. - Uma única coisa. É verdade!. . . Sinto o odor que tu desprendes. Faz lembrar o cheiro do almíscar, do benjoim, sei lá... Adivinho a tua presença a uma légua de distância. Foi graças a este odor que vim te descobrir nesta cabana. Preparamo-nos, finalmente, para abandonar a Porciúncula. Francisco tinha pressa de se refugiar de novo em qualquer gruta de montanha onde pudesse invocar Deus à vontade. Estava farto de lutar contra os homens. - Fui feito para viver solitário como as feras - dizia. - Aliás, foi por isso que Deus me ordenou que fosse pregar aos homens. No entanto, Senhor, bem sabes que sou incapaz de falar, e nasci somente para cantar e chorar! Poucos dias antes da partida, apareceram à porta da cabana o Padre Silvestre e cinco dos nossos irmãos, dos mais antigos e mais fiéis: Bernardo, Piero, Sabbatino, Ruffino e Pacífico.

Francisco segurava um cacho de uvas, observando-o com emoção. Fora presente de um velho aldeão que se dirigia a Assis com o seu burrico. - Que prodígio, Irmão Leão! Serão os homens tão cegos e insensíveis que não enxergam os milagres cotidianos? Que grande mistério, as uvas! A gente as come e se sente refrescado; a gente as espreme e nos dão vinho; bebe o vinho e perde a razão. Nesse caso, ora sentimos Deus desabrochando em nós e queremos abraçar todas as criaturas, ora nos enraivecemos e começamos a matá-las. . . Foi nesse momento que o Padre Silvestre chegou com os outros cinco irmãos. Ajoelharam-se e beijaram a mão de Francisco. - Irmão Francisco - disse o sacerdote -, viemos pedir a tua bênção. Vamos pregar a palavra de Cristo como nos ensinaste. - E aonde vão, irmãos? - Sempre em frente, até onde o Senhor levar os nossos passos. Não é a terra inteira campo de Deus? Francisco levantou as mãos por cima de suas cabeças: - Vão, meus filhos, eu os abençôo. Se puderem, preguem com palavras. Mas, sobretudo, preguem com o exemplo de suas vidas e obras. O que é que supera as palavras? A ação. E acima da ação? O silêncio. Subam, até o último degrau, a escada que conduz a Deus. Preguem primeiro por palavras, depois por atos, e entrem finalmente no silêncio sagrado que envolve o Senhor. Calou-se e considerou os irmãos um a um, demoradamente e com amor, como se partissem para a guerra e ele não estivesse seguro de tornar a vê-los. - O coração humano é duro, duro como pedra - suspirou. - Mas Deus os acompanha, não tenham medo. Todas as vezes que sofrerem perseguições, digam: "Viemos a terra para sofrer, morrer e vencer".

Aliás, não devem ter medo de ninguém porque aquele que está unido a Deus obtém três grandes privilégios: a onipotência sem força, a embriaguez sem vinho e a vida sem morte. Os irmãos o olhavam, imóveis. - Meus irmãos - continuou -, eu também parto. vou pregar a salvação às pedras, às flores dos campos e. ao tomilho da montanha. Aproxima-se o dia do Juízo Final. Apressemo-nos a fim de que o mundo inteiro, com os seus homens, aves e todos os animais, com as suas plantas e rochedos, esteja pronto a subir ao céu quando esse dia chegar. Porque, acreditem-me, irmãos, o paraíso não é outra coisa senão a própria terra tornada virtuosa. - Queira Deus - disse Bernardo - que a nossa ordem siga sempre o caminho reto, o teu, Irmão Francisco. Dom Piero ajoelhou-se, tocando o hábito de Francisco. - Uma dúvida me atormenta, meu irmão, e não queria deixar-te sem pedir um esclarecimento. Até quando a nossa ordem seguirá o caminho reto? - Enquanto os nossos irmãos andarem de pés descalços respondeu Francisco, sem acrescentar mais nada. Todos se calaram. - O sol já se elevou um palmo no céu - disse finalmente o Padre Silvestre, erguendo-se, seguido pelos outros irmãos. - Tens razão, devemos nos apressar. Até a vista! - Que a minha bênção os acompanhe! - retrucou Francisco, fazendo no ar, por cima de suas cabeças, o sinal-da-cruz. 1 Depois de abençoar os irmãos, Francisco se inclinou, beijou a soleira da cabana, passeou o olhar enternecido pela natureza e se despediu das árvores, dos pássaros e das suas irmãs, as ervas

O Senhor decidiu por nós. . envolta num manto roxo. que olham o sol.Para onde vamos. Que paz. Irmão Francisco? . as andorinhas esperavam a chegada dos grous. Irmão Leão.perguntei. estou pensando numa imagem maravilhosa que vi certa vez em Ravena: A morte de Nossa Senhora. girando continuamente o seu rosto dócil na direção do astro-rei? Façamos como elas. Para partir. que cresciam ao redor da Porciúncula. Contemplei a planície a nossos pés. deitada em seu leito. cruzadas ao peito. Conheces essas grandes flores amarelas chamadas girassóis. que doçura! Depois de cumprir a sua obrigação. Os cruzados tinham-na trazido do Oriente. com as costas apoiadas à parede rachada de uma velha torre. olhemos Deus constantemente. Ele nos mostrará o caminho. estavam estragadas pelos trabalhos . Galgamos um outeiro e nos sentamos. Dos campos e dos bosques subia o aroma da terra molhada. . que as transportariam em suas asas. O verão estava quase terminando. a terra repousava satisfeita. chovia na montanha.disse. de um verde sombrio. persignando-se. Francisco respirou fundo. . O céu apresentava-se levemente nublado. Que maravilha! A Mãe de Deus. o rosto aberto num sorriso amplo. o tomilho.Irmão Leão . a sarça. incendiar e saquear. As mãos envelhecidas.disse Francisco -.modestas: a segurelha.Que necessidade temos de saber? . mas desabrochada como uma mulher que acaba de dar à luz. Tinham terminado as ceifas e fazia-se a vindima.respondeu. A terra parecia cansada. . E aquele ícone fazia parte dos despejos de guerra. Deslumbrados com a beleza e a riqueza de Constantinopla. esqueceram que a sua missão era libertar o Santo Sepulcro e começaram a matar.Partamos! . Entre as folhas das laranjeiras brilhavam os frutos ainda pequenos. Há muito tempo não o via com aspecto tão sereno.

domésticos. as faces fanadas. se espalhava pelo queixo. esta planície fértil. pelas têmporas.De que vale pregar a vocês. humildes. meus irmãos? . porém.dizia-me . esquecer o próprio eu.começou o meu companheiro. prestes a partir em viagem. homens e mulheres. Não ignoravam quem era aquela criatura descalça. Por mais que erguesse a voz. . desenhava-se um sorriso que. Mas viu-se forçado a interromper o que dizia. . talvez sem saber. Caminhamos dias e semanas a fio. analfabetos e trabalhadores. pipilando com tanta força que ninguém conseguia ouvi-lo. Irmão Leão. proveniente de misteriosa alegria. faz lembrar A morte de Nossa Senhora. tal como Deus quer. cercando-o completamente e até a seus pés. Irmão Leão.Como é bom . Um dia paramos numa pequena aldeia.Para que lhes mostrar a trilha que conduz ao paraíso? Já a seguem sendo pobres. cujo amor pela Senhora Pobreza operara milagres. se reuniram em torno dele. Nos lábios. Aonde íamos? Para qualquer parte onde Deus nos levasse. os pés corroídos de tanto andarem descalços sobre as pedras e espinheiros dos caminhos. amontoara-se uma infinidade de andorinhas. Cumprira o seu dever e estava contente. na tua opinião. . que. o homem mais livre. . esvoaçavam de um lado para outro. Eram pobres e. .já não ter querer. que repousa. Francisco tocou o cincerro e todos os camponeses. . o próprio nome e abandonar-se com toda a confiança ao sopro divino! Isto é que é liberdade! Se te perguntarem qual é. esfarrapada. eralhe impossível abafar aquela algazarra. pois nos telhados das casas e nas ruínas da torre. Não dera à luz o Salvador do mundo? Pois bem. responde: o que se tornou escravo de Deus! Porque qualquer outra liberdade é escravidão. porque Francisco se recusava a escolher a hora e os locais. pelas pálpebras. adeptos de Francisco.

deixem-me falar!. Que Deus as acompanhe! Mas.. fixando os seus olhinhos redondos no arauto de Deus. meus filhos! Pelo contrário. fechem as asas por um instante. falamos do Pai de nós todos. levantem-nos bem alto. À vista desse milagre. . pois a sua alegria era tão grande que não podiam dominar a vontade de lançar-se no céu. prostraram-se aos pés de Francisco. que criou as andorinhas e os homens. gentis andorinhas. abram a gaiola onde as almas lutam e sangram. Estamos falando de Deus. Apenas de vez em quando batiam as asas. Se vocês O amam. que trazem a primavera à terra. que sou seu irmão. calemse! Vejo que se aprestam a partir para a África. porém as andorinhas não se calavam. os camponeses.Minhas pequenas irmãs andorinhas. espera-nos lá em cima no céu. A vida verdadeira. . e voem! Francisco gritava e enrouquecia. seria bom que ouvissem o que tenho a dizer. Não fiquem de olhos abaixados para a terra. Ouvindo isto. a vida na terra é um sonho ilusório. homens e mulheres. as aves fecharam as asas e pousaram nos pés e nos ombros de Francisco. andar descalças e seguir-te até a morte! Os homens beijavam os pés de Francisco e batiam no peito. . peço-lhes. enfileirando-se tranqüilamente nos telhados. Então dirigiu-se a elas com uma voz infinitamente meiga e súplice: . Adoráveis mensageiras de Deus.gritavam as mulheres. Queremos ganhar o Reino dos Céus.Leva-nos junto . antes de se porem a caminho. se me têm amor. a eterna.Meus irmãos .recomeçou -. e o seu número cada vez aumentava mais. gritando: .Já não queremos as nossas casas nem os nossos maridos. . Queremos vestir o hábito cinzento. e ouçam.

Ou o que nos disseste no início estava certo e para achar a salvação devemos renegar o mundo. Vivam castamente. Pode ser seguido pelo monge.. Não se deixem levar pela cólera. meus irmãos. monge.Esperem!. o Senhor criou o abraço honesto.disse-lhes. sem pão e sem lume. . desesperado. Para vocês.Começas por acender o fogo em nossos corações e depois te esforças por apagá-lo. Só existe um caminho que leva ao céu. . neste caso. Queiras ou não. Por que é que a entrada do paraíso estaria vedada às mulheres? A Virgem Maria por acaso não entrou? Francisco. . tem filhos e assegura a perpetuidade do gênero humano. Leva-nos contigo. estamos decididas. sem mulher. segue o teu caminho e deixa-nos em paz! As mulheres ficaram ainda mais indignadas: . que vivem no mundo. eu volto! Comecem por repartir com os pobres o pouco que possuem. Deus se oporia a isso. Mas também está aberto ao bom cristão.Esperem. o lume e as doces juras de amor! Juro-lhe que vivendo dessa maneira chegarão às portas do paraíso! Alguns camponeses se zangaram: . . Não seria justo deixar a terra por cultivar e a mulher sem prole. esforçava-se para acalmá-los: . havemos de te seguir.Esperem. Ajoelhem-se juntos três vezes durante o dia "e rezem. meus filhos. Preparem-se e eu voltarei. Queremos também ganhar o Reino dos Céus. Não soltem pragas. É preciso fazer uma longa preparação. ou então estava errado e..Não queremos mais as nossas mulheres nem os nossos campos. Irmão Francisco! Ele teve medo: que faria com aquela pobre gente? Para onde a conduziria e como a alimentaria? Subitamente pensou no que o mundo se tornaria se todos os seres humanos se tornassem monges e freiras. não era isso que eu queria dizer.Isto não se faz. que se casa. o pão..

. dois cachos de uvas da aldeia. Sentei-me à sua frente. .Só se deve dizer aquilo que as pessoas são capazes de suportar. porque tinha um ar preocupado e eu via as veias da fronte e das têmporas intumescerem. Francisco não respondeu. . bem conservados e com boa aparência! Como te apresentarás diante de Deus. O resto já é tentação. fundemos um lar e vivamos convenientemente! Já que podemos escolher.Impostor! Mentiroso! Parasita! Chegaram até a atirar pedras. abandonando a aldeia rapidamente. no dia seguinte à tua morte.repetiu. pois me pus a monologar: "Se tu mesmo dizes. que se pode chegar a Deus seguindo um caminho regular. Sem dúvida. azeitonas e. naquela hora estava dominado pelo Maligno. que possui uma casinha. Casemo-nos portanto.falei -. decerto refletia. Tínhamos ganho algumas côdeas de pão. faze o sinal-da-cruz e vamos comer. mas já estávamos longe.ousei opinar quando paramos para descansar. Sentado numa pedra. campos e bastante comida. pai de família. Irmão Francisco.Acho que fizemos mal .Desgraçada da aldeia onde não há santos! Comecei a comer sozinho. .Desgraçada da aldeia onde só existem santos! declarou mais tarde. Eu estava com fome. para que tomar um abrupto. pensando no que acabava de ver e ouvir. . mais vale chegar a Ele numa idade respeitável. Irmão Francisco? No estado em que te encontras? Já esqueceste o que o . Uma dezena de mulheres nos perseguiu com uma chuva de impropérios: . não escutou o que eu disse. Não tens fome? Absorto em seus pensamentos. será capaz de alcançar Deus? Dizes que sim. .Eu voltarei! . torturando-se inutilmente? O homem casado.Irmão Francisco .

se todo mundo quisesse ser monge. Aliás. Depois de devorar um cacho de uvas. segurando a minha mulher e os meus filhos pela mão! Francisco moveu-se. mas me deu vergonha. a reconciliar-se com os seus inimigos. sem andar descalços nem usar hábitos.Não seria mau . Porém seriam obrigados a viver virtuosamente.papa te disse? Que fedor! De que chiqueiro saíste? O Senhor te dirá a mesma coisa!” Sempre a monologar. enquanto eu estava sentado nesta pedra. A vida de monge é de fato terrível. se Francisco não estivesse presente. e nem todos podem suportá-la. Irmão Francisco?". também me esforçava por encontrar Deus. trêmulo de medo. pois. mais suportável. é preferível que seja assim.Tens razão. deveríamos instituir outra. Paralelamente à nossa ordem. talvez muito severa. os irmãos teriam o direito de se casar. o que aconteceria com a terra? Olha. mais suave. . eu engolia grandes nacos de comida. com a garganta estrangulada. Antes de encontrar Francisco. Juro por Deus que. eu teria regressado incontinenti à aldeia e me casado. de comer e beber com moderação. Ergui os olhos e fitei-o. . aliviei o outro de alguns bagos. ouve o que Deus me aconselhou. Irmão Leão. Já estava de olho numa jovem.murmurei. Irmão Leão? Estive prestes a responder: "Por que não entramos para essa ordem. de fazer prosperar os seus bens. como se tivesse cometido um pecado. Isso não me impediria de temer a Deus e me ajoelhar três ou até mesmo trinta vezes por dia para rezar. a praticar a caridade e levantar os olhos ao céu a cada instante. sem . . Que podia eu fazer? Entrara na roda. Ele sorriu para mim: . há alguns instantes. devia dançar. No seio dessa ordem. Que te parece. onde poderiam ingressar os outros bons cristãos que vivem no mundo. Mas eu me dirigiria a Ele baixinho e sem sacrifício.

Uma tarde chegamos ao célebre Castelo de Montefeltro. por todos os cantos. Irmão Leão. Bastava trilhar os passos de meu guia. precedidos por pajens graciosos.exclamei. de quando percorrias o mundo em busca de Deus? E não o encontravas porque Ele estava no teu coração? Eras como aquele que procura. que se apressavam em torno para auxiliá-los a apear dos cavalos.Tu te lembras. o anel de ouro que traz no dedo. na estrada que subia a planície.contestou Francisco. Fidalgos e belos senhoras atravessavam a ponte levadiça ao som dos clarins. . Bandeiras multicores drapejavam no alto da torre.Em Deus. a necessidade também de ter uma mulher. ciente de que conhecia o caminho. .contudo me privar de bons pratos. viam-se chegar outras damas suntuosamente vestidas e senhores envergando preciosas armaduras. deslumbrado com tanto fausto e beleza. Irmão Leão? Eu não pedia outra coisa. Decerto estão comemorando alguma data festiva . .prosseguiu. torturavam-me. ricas tapeçarias vermelhas ornamentavam as janelas.Em que estás pensando? . e a porta principal estava toda florida de mirto e loureiro. Escudeiros e criados. Desde que me unira a ele. dia e noite. . Mais além.Mas bem mais modesto . confesso para meu vexame. . procurar Deus não representava mais uma fonte de inquietações para mim. de librés novas e ricamente coloridas.Vamos até lá? Que te parece. carregando bandejas de prata repletas de bebidas e guloseimas. circulavam. .Assim deve ser o paraíso . Mas a necessidade de alimentação. . de vinho e bem-estar.perguntou-me Francisco.

e a fumaça que se desprendia impregnava o ar. entramos. o fogo flamejava.. outros estavam a assar. cordeirinho de Deus.Esqueces.Mas nós não fomos convidados. onde o bispo abençoa as novas armas. que somos pescadores? Só que em vez de pescar peixes pescamos almas.Em homenagem a quem se dá esta festa.Claro que sim. O vasto pátio estava cheio de cavalos.. Dizendo isto. notou o hábito andrajoso e deu mostras de desagrado. que vai ser sagrado cavaleiro . Minhas narinas palpitavam: não sentia vontade de sair dali.protestei.. enfiados em espetos compridos.retorqui.Nada temas. Quartos de carne coziam-se em grandes caldeirões.Uma boa pesca? . É talvez por causa dela e para nos atrair que Deus ordenou ao castelão a organização desta festa.A esta hora estão na capela. meu irmão? perguntei-lhe. . Quem sabe se não existe alguma aqui a se debater na sua prisão de seda. viu que estavam descalços. vamos! Francisco adiantou-se para a ponte levadiça com a calma e a segurança de um convidado. transpôs o limiar da pesada porta chapeada de ferro.Ao filho de nosso amo. . Nas cozinhas. . . . como vês. Um cozinheiro passou por nós: . surpreso. . Examinou-me da cabeça aos pés. Não compreendeste ainda que esta festa é dada em nossa honra? Para nos permitir a entrada nesta fortaleza terrível e fazer uma boa pesca? .retrucou. meu irmão. . sonhando com a liberdade?. Irmão Francisco . E. Seremos expulsos! -.

que julgas que representaria? .. talvez! O coração humano transborda de orgulho. Irmão Leão. segurando um coração no qual estavam gravadas as seguintes palavras: "Não tenho medo de ninguém!” Apontou-me o brasão: . Perdoa-lhe e segue adiante. Se tivéssemos um brasão. Deixa Deus em paz! .Naturalmente! Que idéia! . foste convidado? . mas dia virá em que os carneiros e os leões serão amigos.Tu te referes à cotovia .disse-lhe -.Não. a ave que usa capuz.No mínimo estás brincando. .Um carneiro devorando um leão .Para encurtar esta agradável palestra . Francisco admirava as armas do Barão de Montefeltro na padieira da porta: um leão erguido sobre as patas traseiras. franzindo as sobrancelhas -. . Quanto a mim. Enquanto isso. . rindo.e foi-se embora.respondi. . prefiro imaginar o nosso brasão com um humilde passarinho que sobe ao céu cantando. Portanto. Por ora tens fome e serias capaz de devorar um leão. meu pobre velho! Dize antes que tens fome e vieste comer.disse.Por quem? . não percas a cabeça.Parece que este fidalgo não tem medo de ninguém! Nem mesmo de Deus. cordeirinho de Deus.Por Deus! O cozinheiro começou a rir: . . Lembrei-me então do discurso que Francisco dirigira aos irmãos na Porciúncula. a gente não deve se fiar no que ele diz.

disse -. Alguns assistentes o haviam reconhecido e ouvi que murmuravam entre si: "É Francisco de Assis. o novo cavaleiro. monsenhor. o novo asceta!” O bispo olhou-o com desdém. Vamos rezar.. talvez até mais belos. . a divagar.Que vais dizer? . Ah. As damas estavam cobertas por coifas altas e cônicas. De repente. Tem confiança. e ajoelhando-se diante do prelado: . Irmão Leão. uns com suas armas e esporas cintilantes. Quantas plumas. Francisco pode me contradizer. realmente. prontos a saudar o iniciado. pelo amor de Deus.Monsenhor . recamadas de pedrarias. Entramos na igreja iluminada. de cujas pontas pendiam preciosos véus multicores. . mas é assim que imagino o paraíso com os seus santos e santas. Como era linda! Fidalgos e cavaleiros espremiam-se lá dentro. pulseiras de ouro e perfumes. onde o bispo abençoava uma criança pálida e loura. adivinhaste.perguntou. Esperou que a cerimônia terminasse.Justamente. observava tudo de olhos arregalados.Não sei. meu Deus! Todos os perfumes da Arábia pairavam no ar. . outros couraçados de ferro. Tudo o que Deus puser em minha boca. Mas ouço cânticos na capela do castelo. Não são eles cavaleiros do céu? Não é o céu a távola redonda em torno da qual se reúnem todos os heróis? E Cristo não é o Rei Artur? Comecei. Deus há de dar seguramente adornos semelhantes aos seus bem-aventurados. colares de pérolas. Escondido atrás de uma coluna. concede-me a permissão de falar. que vejo? Francisco abrindo caminho no meio da multidão de fidalgos e dirigindo-se para o coro.

as mesas estão postas. e o dia do Juízo Final se aproxima. . .As mesas estão igualmente postas no céu! . resta-nos pouco tempo. Francisco percebeu e abrandou a voz: . . lançando-se a cavalo por uma ponte tão estreita que até a pé seria difícil passar. agitava o seu báculo de marfim.Sé breve . Não é com ricas armas. homens . O bispo.exclamou Francisco. meus irmãos. peço-lhes toda a atenção: quantas proezas precisa realizar o cavaleiro que deseja conquistar o coração de sua amada! Que potências visíveis e invisíveis mares. ou então atravessa uma torrente impetuosa. demônios. . nervoso. Ou. a fim de expulsar os fantasmas a golpes de espada.Sim.recomendou. Portanto. digna-te permitir que este homem fale. ainda.Perdoem-me . É feito de luta. Os fidalgos e as nobres damas estavam visivelmente irritados. mas apesar de tudo podemos ainda salvar as nossas almas. .As mesas já estão postas. feras. dirijo-me a cavaleiros e por isso devo falar numa linguagem que compreendam. meus irmãos. sobe em plena noite a uma torre em escombros. É Francisco de Assis. risos e bem-estar que a gente pode subir ao céu. . festas. Nunca recua. Eis o que pretendia dizer. . suor e sangue.O velho castelão adiantou-se. encontraremos ali gravadas estas palavras: "Não tenho medo de . peitilhos de seda. Se abrirmos o coração do senhor castelão.deve vencer para fazer com que ela lhe abra os braços! Parte para a cruzada.disse -. O bispo abriu os braços. O caminho que conduz ao Senhor é áspero. podemos ainda subir ao céu para nos sentar à mesa eterna de Deus. servindo-se das palavras do prelado para iniciar a sua prédica. esporas douradas.Monsenhor.

só que pela beleza de minha Dama. sinto frio. teu pai. nobres senhores . sendo eu mesmo cavaleiro. mas celeste. beijou a mão do bispo. ouve o que Deus te pede por minha boca: o dono desta casa. mil vezes mais bela do que a de vocês. é a cavaleiros que me dirijo.continuou -. exceto a Deus. Que Dama é essa? A Eternidade. descendo os degraus do coro. Os lacaios e as empregadas andavam numa roda-viva entre a . Vocês sabem de tudo isso melhor do que eu. outra cavalaria. eu não sirvo a ninguém. deves completar assim essa divisa. Tu. outro combate. minha criança loura. Também luto. E o hábito remendado que visto é a minha armadura. meus senhores e minhas nobres senhoras.Não se zanguem. Já era noite e as estrelas brilhavam no firmamento. que são a Pobreza.ninguém!" Por quê? Porque ele está obcecado pelo abraço perfumado que deseja. Os fidalgos e as damas da nobreza abandonaram a igreja em silêncio. que existe uma outra Dama. ou pelo menos fingem ignorar. meu filho. salvo de Deus". encaminhando-se ao grande salão. E o combate? Aquele que obriga a renunciar aos bens temporais em troca dos eternos. O pátio estava apinhado de cavalos e criados. e saímos. onde a mesa havia sido posta. É em nome dela que estou falando. sofro e combato. a Prece e o perfeito Amor! Se para ganhar um corpo efêmero enfrentamos o perigo. gravando-a em teu coração: "Não tenho medo de ninguém. Porém ignoram. o medo e a morte. Se vocês são nobres. passo fome. que proezas não realizaríamos a fim de ganhar a Senhora Eternidade? Os fidalgos começaram a manifestar o seu descontentamento face a esse impudente maltrapilho. na hora em que te sagravam cavaleiro! Calou-se. colocou-se no meio deles. . a Pureza. vangloria-se de "não ter medo de ninguém". não terrestre. Meu jovem e nobre cavaleiro. Francisco notou e. Foi talvez para te trazer esta mensagem que o Altíssimo me enviou hoje aqui. empenhando-me por convencê-los a entrar na batalha: ainda há tempo.

morreu.Come sozinho . num canto do pátio. fechando novamente os olhos. não te preocupes com o dos outros .Mais um gole de vinho e o teu burrinho vai começar a zurrar. Cada vez que a porta se abria. Francisco sorriu: . Chama-o pelo nome. Portanto. . Bebi um bom trago de vinho. carne e um cântaro de vinho.Pai Francisco! Francisco abriu os olhos.aconselhou. um jovem fidalgo se aproximou. Atazanado pela fome. levanta-te.cozinha e o refeitório. .falei. . .respondeu-me. curvou-se e.Não . viu-o e sorriu.chamou o rapaz. . reconhecendo Francisco. que logo me pôs em forma: . que levei correndo. esgueirei-me até a cozinha e mendiguei pão. vamos comer. encostado à parede. Enquanto eu comia.Teu burrinho também precisa de alimento .ele nunca dorme. Irmão Leão.exclamei radiante -.Sabes o que sucedeu ao aldeão que queria habituar o seu jumento a passar fome? Quando o animal começou a se acostumar. e fechou os olhos com uma expressão serena. risos e a afinação dos instrumentos musicais.Pai Francisco! . carregando travessas de carnes e os vinhos.Alimenta o teu burrinho. . Francisco instalou-se no chão.Ele está dormindo? . perguntou: -. ouvia-se uma algazarra enorme.Irmão Francisco . agradecendo a Deus por ter criado uma carne tão gostosa.respondi: . .

Farei tudo o que puder pela salvação da tua alma. e venho pedir-te uma graça. Faço-te presente dela. Pai Francisco. Irmão Leão .É exatamente o que eu queria! . . pela salvação da minha alma. batendo palmas de alegria. Diverte-te até o momento em que soar a trombeta do Juízo Final.riu o conde.exclamou Francisco. pela primeira vez. . meu jovem senhor? . . .Sem dúvida alguma é Deus quem te envia.Alimenta bem o teu burrinho. abençoando-o. .Possuo na Toscana uma montanha chamada Alverno. Vives perguntando para . com a tua permissão. . foi por causa dessa montanha que deixei a Porciúncula. retirando-se. Fica isolada. no Casentino.E agora. . .indagou Francisco. Sempre sou atento ao que se diz no púlpito. as palavras que proferiste na igreja calaram fundo em meu coração. Em nome de Cristo. . meu filho .aconselhou -.disse o conde.Reza pela minha alma . . num passo estugado.Então ainda tenho tempo! . Francisco percebeu que eu continuava comendo.prosseguiu o nobre. a minha oração pecaminosa subirá aos pés do Padre Eterno..Pai Francisco . aceito. . Agora compreendo. dono do Castelo de Chiusi.bom dia -disse. Sou o Conde Orlando dei Cattani. entendi.Por que abandonaste o festim e as belas damas para vir aqui.Não pode haver dúvida. emocionado -.De que graça se trata. e te agradeço. Do seu cume deserto. volto para a festa. é deserta e tranqüila. meu filho? . Hoje à tarde.retrucou Francisco. mas nunca consegui entender nada. Lá só existem falcões e perdizes selvagens. beijando a mão de Francisco. meu filho.Vai com Deus. . porque vamos escalar uma áspera montanha. pela pressa de se juntar aos amigos.

e os espíritos celestiais se desvaneciam. . eu ouvia de vez em quando as canções. pensei. da chuva e da neve. . Quem fica na planície são os ricos senhores e as belas damas. .Esta noite dormiremos juntos. Durante o sono. leves. Não escoiceiem nem relinchem. .” Permitiram que dormíssemos numa estrebaria. horrorizado. Francisco estendeu a mão e abençoou os cavalos. por favor.Claro . da chuva e da neve? .respondi.Temos uma subida íngreme pela frente. Boa noite! Estávamos tão extenuados que adormecemos mal nos deitamos sobre a palha. Irmão Leão. Estamos cansados. vê só! . meu caro. Pois bem.No meio do frio. enquanto as nossas almas subissem penosamente a montanha. se fosse possível".onde nos dirigimos. . não te queixes. . desta vez seguimos para o Alverno. Parecia que o céu se abrira por cima de minha cabeça e os anjos desciam.Deus está sempre no meio do frio. Por que não nos espera então na planície? .. No dia seguinte Francisco despertou de bom humor. "Ah. Mas o verdadeiro Irmão Leão sobe penosamente a montanha. meus irmãos. Sinto que Deus está à nossa espera lá em cima.perguntou-me. E o teu burrinho também.. Não respondi. porém logo em seguida tornava a dormir.estranhei. deixem-nos repousar. "deixar os nossos burrinhos pastando nas férteis pradarias. sem se incomodarem com a fome e o frio!. O ar recendia a suor e excrementos de animais.Olha.Calçaste as tuas sandálias de ferro? . os violões e as risadas do festim.

Ele me atendeu. Sua débil claridade infiltrava-se pelas folhas das árvores. louvado seja o Senhor! A princípio eu pedia a Deus a permissão de viver sozinho no deserto. pensava noutra coisa. porém. subia à nossa direita. o canto dos galos no castelo. mas sentíamos as Suas mãos postas nas nossas cabeças e o Seu alento sagrado no ar. . segurando-me pela nuca. os pássaros. lançou-me no meio dos homens. lembraste. "Renuncia à solidão". Um sol baço. escolhi os meus irmãos e partimos. que não é outra coisa senão o coração humano!” Renunciei à solidão. debaixo de nossos próprios olhos! E Cristo estava entre nós. Ouvia-se ainda.. . quanta castidade! Tu recordas como subitamente começávamos a chorar de alegria? As árvores. piedade de nós! Absorto em seus pensamentos.Que Deus tenha. quando o nosso corpo descansava e a nossa alma abria os olhos. suspirando. . Ah. no ar úmido. Mas logo após. os lobos entraram no aprisco. . "é cômoda demais. as pedras e os homens nasciam das mãos de Deus. Irmão Francisco. invisível. . Em seguida. Teremos chuva.O tempo vai mudar. Somente podíamos vê-Lo à noite. lá. Vai de aldeia em aldeia e prega! Escolhe os companheiros.disse ele -. Irmão Leão? Quanto amor. murmurei. porém. . persignando-me: .E mostrei-lhe os pés nus e cobertos de chagas. enfim. funda uma ordem e parte para libertar o Santo Sepulcro. atrás das nuvens. o círculo está quase se fechando. Francisco ia calado.Irmão Leão . O céu estava nublado. . o fim se aproxima. onde só as gotas de chuva brilhavam. A sua voz tremeu e grossas lágrimas brilharam na beira das pálpebras. que Santa Pobreza. quanta concórdia.. gritou-me.completei -. e à retaguarda as bandeiras da fortaleza pendiam como farrapos do topo dos mastros. Francisco. Quando nos pusemos a caminho do Alverno. Não soprava o menor vento. .Em seguida .

. a fim de libertar minha alma! Sim. É José. Arrastava na ponta de uma corda um burrinho montado o por uma mulher. é a Virgem Maria sentada no seu burrinho.pediu o camponês.prosseguiu Francisco. parou que. Galgo esta montanha deserta para poder uivar como uma fera..Que Deus os proteja .É minha mulher e meu filho. que amamentava Jesus. Boa viagem. os da tua alma. . Ah! Que Deus me conceda tempo de aniquilar a minha carne. é Cristo sugando o leite materno! Passam e tornam a passar por nós eternamente!. e de seio com descoberto. a fim de libertar minha alma! Agitou impetuosamente os braços para o céu e.estranhei. Os outros. não podem ignorar o milagre. pondo a mão no próprio peito.. cordeirinho de Deus? Era José com Maria. expulso.Dá-nos a tua bênção. segurei-o pela manga do hábito! Passava um aldeão.Então não compreendeste.Como sabes o nome dele? . meu pai . filho. com medo de que ele voasse e me abandonasse ali. volto à solidão. Abençoa-nos. . porém. José! O aldeão começou a rir. parecia que lhe tinham nascido asas. digo-te eu. . por um instante.E fui expulso. . Ainda carrego dentro de mim uma infinidade de demônios e muita carne em torno da minha alma. . que deves também olhar com os olhos da alma? Os teus olhos de barro te mostram um camponês com a mulher e o filho. . Irmão Leão . Irmão Leão! Fecha-se o círculo. prosseguiu no seu caminho. Irmão Leão. com um suspiro -. . . mas. como tinha pressa. Iam para o Egito. os olhos amamentava arregalados.respondeu Francisco. sozinho.recomeçou após uma pausa -. Quantas vezes preciso te repetir.José . Francisco fitou-a .

na qual se podiam ler. Em outra parede. isolada num rochedo. por que fizeste a Tentação tão bela? Não tens pena da alma humana? Eu. tenho. estas palavras: "Senhor. A luz do exterior iluminava as paredes. uma por uma. O braço estava ancilosado e dolorido. Mais adiante dois diabos assavam um carneiro no espeto. interrompi o gesto. Numa. por trás deste nosso mundo mesquinho. Uma igrejinha branca brilhava. o eterno? Começaram a cair as primeiras gotas sobre as folhas esparsas das figueiras. Nada disse. fazendo-lhe sinal para se aproximar. então. porém sua mão tremia. espremendo os seios opulentos contra os joelhos de Santo Antônio. vislumbrar. Francisco se virou . socorro!" Essas imagens me impressionaram. assombrado. as cenas da Tentação. e as infernais criaturas escarneciam. A muito custo. . Ele a contemplava com avidez. e uma fita vermelha saía-lhe da boca.Deus nos ama . o coração escondido debaixo de muita carne.disse eu. Entramos na igrejinha. Francisco apanhou um círio do grande candelabro. O santo olhava. morto de fome. enquanto outros lhe puxavam o capuz. que sou um verme da terra. a cintura. . o outro. . . e vimos que estavam cobertas de cima a baixo com afrescos representando as tentações de Santo Antônio. os pés.Repara. pobre de mim! Quando poderei. escritas em letras negras. Ele nos manda uma capela onde poderemos passar a noite. ouvi-o murmurar: . via-se uma mulher nua.Meu Deus.Suspirei. de cabelos louros e olhos langorosos. Senhor. com as narinas dilatadas. Invadiu-me um desejo terrível de estender a mão e tocar o corpo maldito daquela mulher. Tenho a pele grossa. o santo eremita lutava com uma súcia de demônios. . Um deles o arrastava pela barba.! para mim. eu também. A tarde agonizava. acendeu a lamparina suspensa em frente à imagem de Cristo e percorreu a igreja inteira observando mais de perto. Mal tinha levantado a mão. Aproximei-me e olhei com ele à claridade cintilante da chama. pálido. A certa altura.

. jantei com bom apetite. Devia ser um pesadelo. mas ele me fez parar. . Por volta de meia-noite.Irmão Francisco! . .disse. Irmão Francisco . Eu. estendi-me a seu lado e logo adormeci. Despertei e vi. não devias matar nossa irmã Chama! lamentou-se. à luz da lamparina. horrorizado com o fogo que começava a lamber-lhe a carne. devorar a minha carne! Era exatamente o que eu também queria. ouvi que ele gritava. não apagues. que não consigo ver o mundo invisível. não. . ainda acesa. Precipitei-me para socorrê-lo. e a vela. Debrucei-me em cima dele e tateei-lhe a fronte: estava banhada em suor. acariciando-lhe as mãos que tremiam -.falei. atirei o meu hábito em cima dele. Irmão Leão! Não tomou nenhum alimento. porém.É preferível não ver mais nada . Sua mão tremia. foi um sonho. . Francisco ajoelhou-se à minha frente e assoprou o círio.bradou. Então segurei-o por baixo dos braços e sacudi-o. Quanto a mim. Abriu os olhos finalmente. não apagues! .Não tenhas medo. abafando as chamas.Não devias ter feito isso! O que é que ela queria? Simplesmente alimentar-se.Não devias. .Sentei-me nas lajes e peguei o pão e a carne que tinham sobrado da minha refeição no castelo. incendiando-lhe o hábito. . Francisco gesticulando como se lutasse contra inimigos invisíveis. .Irmão Francisco! Não me ouviu. caiu sobre ele.chamei. deitou-se e cerrou os olhos.Não.

Irmão Leão. num gesto rápido.Sentou-se. Acho que todas essas pinturas estão vivas. A luz dissipará os pesadelos noturnos. descobrindo o invisível? Aos poucos ele se acalmou. que coisa mais atroz. Penso. lembro-me. dissera-me que os relâmpagos são os olhos de Deus. procurou articular algumas palavras. É uma sensação sagrada. A companhia de Francisco perturbava o meu espírito ou seriam os meus olhos interiores que finalmente se abriam. pois. os demônios que guardo em meu íntimo também me abandonaram e todos juntos me atacaram. Em silêncio. . O medo também pode ajudar-nos a encontrar a salvação. Então.Sossegue. Considerava agora a igrejinha como um lugar assombrado por presenças invisíveis e perigosas. Irmão Francisco. Meu Deus. a luz dos relâmpagos entrava pela janelinha do coro e acutilava a sua face lívida e ensangüentada.Não! Não eram pesadelos. um amigo do homem.Não te inquietes. esperávamos que o dia nascesse. Logo que me viram fechar os olhos. . De vez em quando. Pousou a mão em meu ombro como se quisesse consolar-me. Comecei a ficar com medo. Do lado de fora. . ele cobria o rosto com o braço. as personagens que estão ali representadas saíram das paredes. . Irmão Leão. que naquela noite ele estava envergonhado de se mostrar a Nosso Senhor ainda fumegante da passagem dos demônios. mas não conseguiu. apesar das aparências. um vento selvagem assobiava entre os pinheiros. daqui a pouco vai amanhecer. . e quando os raios iluminavam as paredes pintadas eu escondia a cabeça na manga do hábito para não ver. . Arquejava e batia com os dentes. enxugando os olhos lacrimejantes com a manga do hábito. Um dia.

Porém. Aí então. Ouviu-se o canto de um passarinho.Por que é que ela cuida tanto dele? . chifres e rabos. Bruscamente. de olhos fechados. Por isso alimenta e sacia a sua montaria até o fim da viagem.disse Francisco -. porém. desabou a tormenta. A terra despertava nos charcos de lama. Ficamos escutando a chuva bater alegremente no telhado do templo. tal como a terra. "Melhor assim". a chuva parou.Decerto porque não dispõe de outro burrinho que a transporte.Ouviam-se as trovoadas cada vez mais perto. Dois outros passarinhos vieram fazer coro com o primeiro. . devolve o burrinho à terra.perguntei. não permitindo que se derreta. mas os joelhos vergaram e tornou a cair. Calmamente. "Francisco ficará deitado e recobrará as forças. com um pontapé. não é de barro: protege o corpo firmemente. . . para que se converta em lama. Que Deus nos ajude! Tentou levantar-se. pensei. pálidos e barbudos.Irmão Leão.Não seria melhor deixá-lo perder-se? Assim a alma ficaria livre! Francisco sacudiu a cabeça. e não senti mais medo. Francisco continuava a prestar atenção à chuva que caía do céu.” Os primeiros clarões de um dia feio e escuro revelaram nas paredes uma série de ascetas de rostos compridos. . rodeados de goelas escarninhas. . . não experimentas uma grande serenidade quando se abrem as cataratas celestes? Quem sou eu senão uma pequena bola de barro derretendo-se na chuva? A alma humana.A caminho . havia luz.

Subitamente. Então logrou. todo enlameado e extenuado. seguido da mulher. Caminhamos desse modo quase duas horas.Meu companheiro desmaiou.A gente não deve dobrar-se a todos os seus caprichos. Em pouco tempo. furioso ao mesmo tempo com a sua teimosia e a minha própria estupidez. A chuva recomeçou a cair. Ergui-o e. Francisco caiu de bruços. avistei casas além dos pinheiros. As pedras luziam. . Os pinheiros. . negro. e mal podíamos levantá-los. . o que me infundiu ânimo para continuar. até a altura em que. os pés ficaram de chumbo.Vai chover de novo . Corri assim durante meia hora. boa gente! .O teu burrinho está cansado. que me levara a empreender façanhas de que era incapaz. a terra se transformara em lama. Enterramo-nos na lama até os tornozelos.Ei. desmaiado. fazendo serenatas às janelas. Se eu lhe desse ouvidos. Encontrei a porta aberta. Lá fora estava tudo encharcado. em cima de uma poça. Um velho camponês apareceu no pátio. . colocando-o às minhas costas. comecei a correr. uma velha encarquilhada. exalavam um cheiro de mel. dar alguns passos em direção à porta.retorquiu Francisco.anunciei. permitam que ele deite um instante nesta casa. senão não vais poder ir mais longe. Cheguei rapidamente à frente de uma delas. sem medo . louvado seja Deus. tropeçando. pois. ajuda-me a levantá-lo! Segurei-o pelos braços e ergui-o. pesava por cima dela. e o céu.exclamei. Anda. Avança. Pelo amor de Deus..Pois que chova! A alma ainda não está pronta a derreter o seu invólucro. vergastados pela tormenta. Irmão Francisco. cruzei o limiar. . Deixa-o repousar um pouco. ainda estaria em casa de Dom Bernardone. coitado. .

Irmão . a seres bom e honesto como dizem que és. aconselho-te. foi buscar vinagre. . . Vamos ao monte Alverno.Meu irmão .Quem é esse monge? Já o vi em algum lugar. Criei coragem com a piedade do velho. meus irmãos .murmurou -. Ele abriu os olhos. . ainda temos muito caminho pela frente. .O santo? . e o meu companheiro não pode andar. empresta-nos o teu jumento. Bendito sejas pelo teu conselho. mas a velha teve pena de nós. para o teu próprio bem. jamais esquecerei o que acabas de dizer. a fim de não desiludir as almas que depositam confiança em mim. mas este se antecipou e beijou a lama que maculava os pés de Francisco. borrifou-lhe as têmporas e chegou-lhe o frasco às narinas. . Lágrimas rolaram pelas faces de Francisco.É o Pai Francisco de Assis. .Paz a esta casa. Ele quis então beijar a mão do aldeão. O camponês aproximou-se de Francisco e tomou-lhe a mão: . Sempre me esforçarei para ser bom e honesto. porque numerosos são os que crêem na tua bondade e na tua honestidade.falei -.Ele mesmo. Não gostava de confusão. Por amor de Cristo. Ajudou-me a transportar Francisco para a cama. O nosso anfitrião apertou o meu braço: .Se de fato és Francisco de Assis.disse aos dois anciões debruçados sobre ele.O aldeão ficou contrariado. e a salvação de suas almas está em tuas mãos.

Mulher prosseguiu. se receber a tempo a extrema-unção. mata uma galinha e prepara um caldo para o doente recobrar forças. . . dirigindo-se à velha -. deste modo. Não têm medo? .Por que haveríamos de tê-lo. e é hora de me resgatar. com prazer. rindo. meu irmão. pertenço à Ordem da Santa Opulência . Perdoa-me. escolheram a ordem errada.O Alverno fica longe daqui? .Ah. Erguemos Francisco e o colocamos em cima do burrico. desgraçados.perguntei ao nosso guia. meu irmão? Não possuímos nada.acrescentou. meu prazer foi tão intenso que até renuncio a descrevê-lo. poria o Pai Francisco às minhas próprias costas. Pequei muito na vida. . entremos um dia no Reino dos Céus! . Se eu não possuísse um burro. Não te preocupes. mas só em pensar nisso me vem água à boca. . famintos e descalços. Quando. É com este "pode ser" que nos consolamos a vida inteira! Não seria pois mais . acompanharei vocês.. Sentirão fome pelo resto da vida! Quanto a mim. pela salvação de minha alma. monge. monge. Sou louco por galinha. . mas é possível que. Pertencemos à Ordem da Santa Pobreza.com prazer. refugia-se por lá.Sim.No fim do mundo! O que é que os leva àquela montanha deserta? Não gostaria de estar no lugar de vocês! Consta que o famoso chefe de salteadores. . Ah! se Francisco pudesse garantir que as galinhas também vão para o paraíso! Todos os domingos mataríamos uma para glorificar o Senhor. mas também é possível que eu entre como vocês. enquanto isso. depois de tomar o caldo quente e cheiroso. provei um bom pedaço da carne branca e o fígado macio da ave. monge. não digo que não. a quem apelidam de Lobo.Pode ser. meu Deus.

preciso trabalhar. ao passo que a tua santidade te fará perder ambas. . fazia um tempo esplêndido. .Eu aderi à Ordem da Opulência. mas o camponês estava com pressa de voltar para casa. Logo após. as árvores e as pedras brilhavam. Francisco manifestou desejo de parar ali para pregar. bebeu por uma cabaça e passou-a para mim. perderei apenas uma. Anoiteceu. e inclinando a cabeça esvaziou o conteúdo da cabaça na boca. porém. sem saber o que responder. só avistaremos o monte Alverno no ano que vem . Atravessamos um burgo. cujo nome já não recordo. ao escorrer na minha goela. Coroado de longos cabelos louros. tenho pressa de regressar à aldeia. beber e amar.Se te pões a pregar a fim de indicar o bom caminho a todo mundo. se não conseguir entrar no paraíso. . Em seguida. não me levem a mal.E. Na manhã seguinte. Colocamos Francisco em cima do jumento e partimos. Depois abriu o alforje e repartiu conosco os restos da galinha. monges explicou. . com o devido respeito. Não sou como vocês. e só te resta segui-lo! Caminhamos muito. Não tenho razão? Pigarreei. . irrompeu o sol. encostou-se a uma pedra. O céu estava límpido. O nosso guia apanhou primeiro uma braçada de ervas bravias para alimentar o burrico. Quantas vezes não me ocorrera o mesmo raciocínio? Inútil. fez rapidamente o sinal-dacruz e ferrou no sono. pobre Irmão Leão! Francisco vai à frente.afirmou. para não se arriscar a perder tanto a vida terrestre como a eterna? Por que me olhas dessa maneira? Eu.proveitoso comer. . O vinho cantava como uma perdiz. e buscamos abrigo numa gruta.

sabes o que ela me disse? Curva-te. Os pinheiros perfumavam o ar. para extrair dela o meu sustento. . . e vinho para beber: beber e glorificar Deus com alegria! .As palavras de Deus não têm fim. o sol estava fresco. . o tempo passava. . falas e te inebrias. e tem uma enfiada de filhos. . saiu a galope e quase derrubou a sua carga.Disse: "Pai Marino" .Não falei bem? Que dizes tu? Do jeito que vocês vão: e olhem que falo a um para salvá-lo. que liquidamos sem perda de tempo. Coitada! É enorme.Que foi que ela disse? Fala baixo. tropeçou. duas palavras. e falo ao outro pelo mesmo motivo. . . Aquele camponês grande e robusto me era simpático. . Tagarelando dessa forma. a conduzir ao bom caminho.Um instante apenas.É a terra que me esforço. Abres o Evangelho e não há meio de te fazer parar! Chicoteou o jumento. esqueci-me de te dizer que o meu nome é Marino -. quase não tenho tido tempo para ter filhos com meu marido!” Caiu na risada: . . Depois. . . e sobretudo não procures me enganar. Tu falas. olhou-me rindo por trás do bigode grisalho. desgraçados! finalizou. . não direi mais que duas palavras. vou te falar ao ouvido para que o santo não ouça. Graças a Deus não chovia.E vocês correm o mesmo risco. que empinou.suplicou Francisco. . Um dia. "para agradar a esse e não desagradar àquele.é mesmo. nada mais. . acabarão sem tempo de pensar na própria salvação. . . Tenho uma vizinha na aldeia: chama-se Dona Carolina. . . e no alforje do velho ainda havia algumas sobras.

preocupado. deixarei vocês no sopé da montanha.Acabou a boa vida . Acabou. Dois gaviões alçaram vôo de um penhasco e começaram a pairar sobre as nossas cabeças. acabou a boa vida. ..Há muito já nos teriam devorado. . Aqui e ali. olhando com horror aquela montanha selvagem. .anunciou o velho Marino. .Irmão Leão.Que lhes faça bom proveito! Francisco persignou-se e abençoou a montanha.. monge. Santa Pobreza. . ele estacou e os dois homens palestraram demoradamente em voz baixa no meio da estrada. Depois. surgiu uma íngreme montanha.Muito bem. E. as feras que abrigas. o nosso guia juntou-se a nós. Irmão Leão! Dentro em pouco. Eu não dizia coisa alguma.Sim.Não o repitas. estendendo o braço. pedregosa e inóspita. Na curva da estrada. Como é mesmo que a batizaste? Santa Pobreza? . minha irmã Alverno saudou.Estou contente em te ver. e então adeus. . . sacudindo o saco vazio. alguns pinheiros e algumas azinheiras disseminadas.Ainda bem que não somos galinhas . . .Aí está o Alverno . . e entrarão novamente para a Ordem da Pobreza. os pássaros e os anjos que te sobrevoam. Reino dos Céus! Um camponês passava correndo ao longe. Portanto. a propósito.disse ele.comentou o velho. . chego a sentir calafrios! O sol começava a descer. como te chamas? . O velho Marino assobiou entre os dedos.As tuas pedras. .

Daqui não passo . e que Deus te proteja! Encolheu os ombros. melros e até mesmo uma perdiz. cotovias. aproximaram-se de nós e enfileiraram-se esplendidamente aos pés de Francisco. santo de Deus . Não fazia frio.E tu?. para escalar a encosta. está atenazado pela fome. De nenhum modo assustados. apontando o caminho de regresso com o indicador. Se quiseres. nem quero saber de ir adiante... podes voltar. montando o jumento de um salto e partindo.declarou -.sibilou-me ao ouvido. Que foi que o teu amigo te contou? . Lancei um olhar a Francisco. imóvel. tentilhões. abandonou o covil e perambula por estas paragens. Comigo não é a mesma coisa! Piscou o olho para mim: .. nada tens a temer dos ladrões.Que aconteceu. .Parece que o chefe dos salteadores. verdelhões. -. E enquanto permaneci ali. . e no entanto eu tiritava. Sentei-me perto de Francisco. .despediu-se. cantavam como se quisessem desejar-nos boas-vindas. pai Marino? É justamente agora. pai Marino. a quem apelidam de Lobo.Não.Até a vista. Levantei os olhos e que vi? Estávamos cercados por pássaros de toda espécie: pardais. não largo o meu posto. ouvi trinados e bater de asas. . Descarregou Francisco da montaria e instalou-o sobre uma pedra à sombra de um pinheiro. Tu não possuis bens nem filhos. que teremos necessidade de ti. . No mínimo.

e o meu coração se revigorou. Vendo-me sozinho. pode até acontecer que transforme o Lobo em cordeiro. Não pude resignar-me a sair daquele lugar. Não precisas ter medo.murmurou ele. . Sei que Deus é onipotente.Meus irmãos pássaros . gelado de medo. Se precisarem de qualquer coisa. inclinando a cabeça de lado. comovido -. desgraçados? O Lobo está a caminho! . Apurei o ouvido para ver se Francisco me chamava.. ouvia e olhava-o com ternura. escondi a cabeça na manga e aguardei..Vamos embora. Levantou-se e dirigiu-se para o lado que os dois camponeses haviam designado. Decidi ir procurá-lo.Fica aqui. porém logo renunciei. sim. depressa! . À minha volta reinavam o silêncio. vou procurar o Lobo. A perdiz. pousada a seus pés. como um ser humano. homem de pouca fé.Deste! Dei um pulo. Senti vergonha por ter deixado Francisco enfrentar desacompanhado o inimigo. A noite vinha subindo . Um pastor que passava por ali ofereceu-me um copo de leite. Irmão Francisco.O que é que estão fazendo aí. Quanto a mim. sim. Vamos enfim viver juntos nesta montanha sagrada. Deus é onipotente. Os gritos de dois outros aldeões que passavam correndo nos arrancaram do deslumbramento que aquele prodígio provocara. mas quantas vezes não abandonou os Seus fiéis às feras e aos pagãos? O melhor era escapar. .De que lado? . é o irmão de vocês que vem de longe em busca da solidão. a suavidade e a calma. onde estava em segurança. procurem-me e intercederei por vocês junto a Deus Pai..

Não. não conseguiam ler por causa da doença. perderás o costume por completo. quando estiveres mais perto de Deus. E com efeito. simpatizaram e agora voltam juntos ao aprisco de Deus". na penumbra. pensei.Eis o famoso Lobo . . . atrás dos rochedos. .anunciou Francisco. De repente.Concordo. não. . a outra. viva o cordeiro! . . rindo. O lobo morreu. meu irmão? Que está escrito aí? O bandido avermelhou-se. . Os olivais e as parreiras já se encontravam imersos na sombra. . virou cordeiro. confuso. divisei Francisco e um homem de cabelos compridos e aspecto selvagem. Os seus olhos. no entanto. o mundo desaparecia.a planície. mas um cordeiro que devora lobos rosnou o bandido. . arrancou o amuleto.. "Vai ver que se encontraram. era de Francisco. para começar. não os leias! . . retumbou um cântico selvagem.Sim. um amuleto de prata onde estavam gravadas algumas palavras.respondeu -. cuja fisionomia fora tomada pelo bigode e pela barba.Velhos pecados . Caminhavam de braços dados. porém.Só que não é mais lobo. Aos poucos.O que vem a ser isto. no peito cabeludo do salteador. por cima de mim. meu irmão. À medida em que se aproximava. Todos os teus pecados estão perdoados.Não posso perder o costume. escalando penosamente os flancos do Alverno. com um gesto brutal. Percebera. quero ler. Calou-se. . distingui nitidamente duas vozes: uma feroz e rouca. fraca e delicada.

devo ficar completamente só.pediu Francisco -. . . não quero que me ouça. Assim não farão a Grande Viagem antes da hora. . Não acham justo? Por que sacodes a cabeça.disse -.Aproximou o amuleto dos olhos e leu: "Inimigo de Deus e dos homens!" O Lobo então arrebatou o berloque das suas mãos. Amanhã trarei pão e azeitonas.Não . nem ele a mim. Pai Francisco. Ao fim de uma hora. para que eu não possa vêlo. esperem. Se eu gritar. não tens necessidade de um jumento. virei cedinho para construir duas cabanas de troncos e barro para vocês. o que puder encontrar. tomem posse da montanha que o conde lhes deu. Pai Francisco? Sem dúvida é o Diabo e não Deus quem reparte os bens aqui na terra. esmagou-o entre os dedos e jogou-o fora. chegamos a um pequeno planalto no meio do qual se erguia um frondoso azinheiro. até breve. Portanto. Pai Francisco. meu irmão. Roubarei dos ricos para alimentar os pobres. onde gravarei: "Amigo de Deus e dos homens!" Agora. . E a do Irmão Leão muito mais longe. Nunca ouvi dizer que um morto fosse capaz de rezar. E ai de quem passar por aqui sem a minha permissão! Não.Amigo de Deus e dos homens! vou arranjar outro. Depois descerei para montar guarda.Vamos . A montanha não tem sendas. . para que não morram de fome. De outra maneira.Irmão Cordeiro . constrói a minha cabana debaixo desta árvore. .corrigiu ele.Como quiseres. . de hoje em diante serás chamado assim: por favor. não se . enfim. Levantou Francisco nos braços robustos como se fosse uma criancinha. Amanhã de manhã. fornecerei comida regularmente a vocês. porque. e vocês podem se perder. acho melhor ir junto.

O frio que fazia era terrível. que me lembro dos dias passados no Alverno. que criou o fogo. no limiar da sua choça. com um copo de vinho quente e uma boa colherada de pimenta. azulada à tarde. 11 É com indescritível alegria. nem a neve nem o frio nem a fome podem entrar. As luas subiam e desciam. . agitando as asas tão depressa que dava a ilusão de imobilidade. Na realidade. Beijou a mão de Francisco e foi tragado pela noite. Dias. gritava com toda a força para acordá-lo. habituadas. cor-de-rosa à luz da aurora. instalavam-se ali desde o raiar do dia. imaculada ao meio-dia.Deus o abençoe . no qual fervesse a sopa.não deixava faltar. depois de ficar saciado. voava em círculo. o leitão e a porta que a gente pode fechar. fecundando a planície. Até mesmo um gavião que. e as águas do Alverno escorriam pelas encostas como as preces de Francisco. não sei como consegui suportar semelhante martírio e sobreviver. às vezes idênticas a foices. Aliás. isso não impede ninguém. meses ou anos? O tempo pairava acima de nós como um gavião. Os nossos hábitos estavam agora crivados de buracos. mas muitas vezes também sonhei com um bom lume. a aparecer. A neve ora se derretia. Que importa então se. ora se amontoava. Teria Francisco razão ao dizer que aquele que pensa em Deus se aquece no inverno e se refresca no verão? Certamente muitas vezes pensei Nele lá naquela montanha desumana. . E as aves. . incitando-o. Francisco saía todas as manhãs a espalhar. o ar entrava por toda parte e quase morríamos gelados. com uma mesa onde fumegasse um leitão assado. a neve atinge a estatura de um homem! O ferrolho está corrido. com seus gorjeios. mesclada de terror. outras a discos de prata. mais ousado. de erguer as mãos ao alto e agradecer a Deus. cobrindo silenciosamente as duas cabanas. do outro lado da porta.explica que isso se faça tão injustamente! vou tratar de remediar essa situação. as migalhas de pão que Irmão Cordeiro .

tropeçava na neve. e as minhas palavras seriam apenas bolhas de ar irisadas. Algumas vezes. rente à terra. porque. eu sentia inveja.Quanto a Francisco. . Irmão Francisco proibiu o uso do fogo. contudo. corcunda.de puro aço ou puro espírito? -. enquanto o ar parecia incendiado até dez toesas de altura. tiritava noite e dia. rezava numa caverna vizinha. De que era feito. ao regressar à cabana. vivia faminto e não possuía disposição nem forças para rezar. sentia calor noite e dia. Deus me perdoe. que diferença! Transformava-se num gigante que vinha da gruta e caminhava galhardamente sobre a neve.Queres que eu acenda o lume? . uma manhã. era pequeno.Por quê? . aromático e quente.Porque faz frio. o meu espírito continuaria embaixo. . caía.Não. levantava-se. azeitonas e queijo de cabra e perguntou: . ainda que levantasse os olhos e as mãos para o céu. Como aquilo era prodigioso também! O seu porte e a sua maneira de andar se modificavam entre a partida e a volta. ao meio-dia e à tarde. após a oração.respondi com um suspiro -. Quando ia. Porém. . Ao vê-lo. eu saía inquieto de minha cabana para tentar encontrá-lo. jamais clamando: "Basta!"? Quanto a mim. quando. pois Deus ardia em seu coração como uma chama inextinguível. De manhã. esse homem . Fazia quatro dias que eu não rezava. meu irmão . e o pão dos anjos estava sempre à sua frente. pois. branco. . não corria o risco de morrer de frio ou de fome. para nunca ter fome nem frio. Nem mesmo impudência. Irmão Cordeiro veio nos trazer a sua esmola habitual de pão.

Exato. .Quer dizer que não tens medo de Deus. vinho a rodo. E que poderá ele fazer? . meu irmão. tenho medo de Irmão Francisco.Faze o que achares melhor. .Ele não precisa saber.Nada. teria o maior prazer. O Lobo encolheu os ombros. . . E é por este motivo que não o queremos! . . o vinho a rodo e o fogo. Ontem matei duas perdizes.Mas então como fazem para se aquecer? . e estou cozinhando-as com arroz. . onde tenho lume com grandes achas e comida que ferve no caldeirão. . fogo. meu irmão? . o arroz quente. Dará apenas um suspiro.Muito bem.perguntei.Mas.. . e ficarei muito desconsolado. talvez isso te faça mudar de idéia. . Irmão Leão. . o maior prazer! Porém.Invertam a ordem das coisas se quiserem! Quanto a mim. Esfregou as mãos uma contra a outra e bateu várias vezes os pés para desentorpecê-los. Queres vir lubrificar o estômago e aquecer os teus pobres ossos. meu pobre velho. .Ah. porém não esqueças as perdizes. é justamente quando faz frio que a gente precisa de fogo! . volto para a minha gruta.Sim.Pensamos em Deus. mas tenho o dever de lhe contar. Basta repetir estas palavras sem parar: perdiz. arroz quente. Irmão Leão? Senti água na boca. .

vinho a rodo. Ia desmoronar no chão da cabana. Os outros homens têm o direito de comer à vontade e aquecer-se. fogo. "Um anjo. Já não nevava. Perdizes. indicas o caminho da salvação!" "E se eu morrer?" "Tanto melhor! É pela tua morte que mostrarás o caminho da redenção. uma única vez ao menos. . Desafio-te a ser anjo e não sentir água na boca quando te puserem duas perdizes fumegantes debaixo do nariz! É aí que eu quero ver. mas a cólera me atacou bruscamente." "Mas continuo sendo homem. ou. tu não! Em compensação tens outras vantagens. arroz quente. . E o frio faz bem à saúde. Nos espaços abertos entre uma e outra. um anjo! É fácil ser anjo quando não se tem estômago. muito mais preciosas. Quanto a mim. as nuvens se dispersavam. pronto a romper em lágrimas. Nunca a solidão me parecera tão insuportável. dirige-te livremente ao inferno. não sabes? Levando uma vida exemplar. juro!" "Faze o que te aprouver. "Se Francisco ficasse sabendo.. Estás entre os dois. As grandes pegadas do Lobo tinham deixado um rastro na . Boa viagem!” Senti uma vertigem. pensei. aproximas-te suavemente da condição angélica a cada uma de tuas orações. Pão seco também é gostoso. posso até dizer que dia a dia sou mais homem. . Já não és mais um homem. Dá licença uma vez. fui até a entrada e estaquei: "Não te envergonhas. Levantei-me. Vestiste a túnica dos anjos: o hábito. embora ainda não sejas anjo. És livre. meu amigo. brilhava um céu esverdeado. Não te impedirei. miserável Leão?". como poderias perdoar-te a ti próprio o desgosto que lhe causarias? Continua na tua cabana. . um anjo verdadeiro. sou homem." "Quais?" "Mas como. enquanto a montanha retumbava com a sua gargalhada. por que iria tê-lo de Deus? Embrenhou-se pela senda. . e depois me tornarei anjo. o Lobo me convidou para comer e irei!” Precipitei-me para fora. antes. Fiquei sozinho. .Se não tenho medo dos homens.

esvaziamos a divina cabaça. paraíso! Deus que me perdoe. quem é o verdadeiro Pai? O que atira os filhos na rua.neve. de tanto me apressar. sem pão e sem roupa para se cobrirem. entra.saudou -. Cheguei esbaforido à gruta do neófito. mexia o arroz. estender uma pele de carneiro diante da lareira. Acudiu-me uma idéia e estremeci: "E se fosse o Diabo que assumira a forma do Lobo para me tentar? Teria caído em sua rede?" Acabamos de devorar as duas perdizes. O rosto largo do meu querido bandido rutilava ao clarão das chamas. uma necessidade tão doce de rezar e chamá-Lo de Pai! Isso mesmo. como eu tinha bebido bastante vinho. instalamo-nos: o malfeitor arrependido face a face com o leão de Deus. ou o que acende o lume e lhes dá o que comer? Depois de lavar as nossas mãos na neve. De vez em quando. felicidade. meu Deus! Nunca experimentei tanto reconhecimento pelo Altíssimo. e durante um bom espaço de tempo não se ouviu mais nada dentro da gruta. O Lobo abocanhou uma perdiz. Deus que me perdoe. O dia começava a morrer. O sultão de Damieta tinha razão.Bem-vindo. as perdizes assadas perfumavam o ar. O lume crepitava. colocar a marmita no meio e cortar imensas fatias de pão. Curvei-me. . A comida está pronta. . Que felicidade. Resvalei duas ou três vezes. e bastava-me segui-las. Eu não caminhava. eu peguei outra. mas é assim que imagino o Reino dos Céus. ajoelhado na frente do caldeirão. Minha barba estava cheia de neve. tanto amor por Ele. Oh. monge . O Lobo. além do ruído das nossas mandíbulas em movimento e o gluglu das cabaças. afrouxa o cinto! Entrei e acocorei-me perto do fogo. oh. chegava a ver. dois cornos de cada lado de sua testa. Virou-se para mim e começou a rir. simplesmente voava.

.Então é melhor continuar embriagado! . na boca. Compreendi que és meu irmão! E continuou a me abraçar e beijar.Inscreve-me nessa tua ordem. Comecei a cantar: "Cristo ressuscitou!" O Lobo marcava o compasso batendo palmas e fazendo a gruta inteira vibrar com os brados que dava de vez em quando com a sua voz rude e potente. e no seu entusiasmo desferiu um forte murro em minhas costas. Como beijariam as pessoas. como afrontariam o perigo. o que irá acontecer? Todos os homens voltam a ser teus inimigos. . Irmão Cordeiro-Lobo! Ah. uma imensa garrafa de vinho. . transbordante de amor e me abraçando. Sentia-me no sétimo céu. e adeus fraternidade universal. . A embriaguez do vinho havia de conduzi-los à embriaguez de Deus. quem me dera ter forças! Fundaria uma ordem cujas regras estipulassem que cada irmão deveria beber. . terminando de esvaziar a cabaça. . antes de ir pregar. e tudo se tornou mais claro para mim. . todas as manhãs.Que dirias se fôssemos procurar Francisco com um pedaço de salsicha e uma cabaça de vinho para lhe falar sobre a nova regra? . acabo de beber um gole.exclamava ele. como dançariam e cantariam louvando Deus! O seu caminho seria simples e agradável. mas não fiques bravo: parece-me que a perdiz e o vinho são.Meu irmão. mais que o Evangelho. Irmão Lobo. meu irmão! . .Talvez.retorquiu.exclamou o Lobo rindo. Olha.vou te dizer uma coisa. . que não precisasses do vinho para perceber que todos os homens são irmãos. . Pai Leão! .lançamos outras achas de lenha ao fogo. por completo. quando recuperares a sobriedade. e dessa maneira entrariam no paraíso. Porque. .Gostaria. um traço de união entre os homens.

não esqueças: encontrar a maneira de nos colocarmos.Um dia. para falar com franqueza. um dia." O padre ficou indignado. De acordo com a nova regra.Porque tudo se resume nisto. Irmão Leão. "Costumas rezar?". pensarei no assunto. o bandido. meu irmão. Cada coisa a seu tempo. Estava de excelente humor e tagarelava sem parar. "Não te zangues". . eu. Ainda não percebeste?" "Tu?" "Sim. quis confessar-me. Quando estiver com a carcaça velha. ficaria penalizado). "só que à minha maneira. pois. que vêm a ser as perdizes. Imagine se Francisco entrasse na minha cabana e não me encontrasse? . paizinho: És jovem? Rouba." "E não te arrependes. miserável?" "Tenho apenas trinta e cinco anos. Tive a impressão de vislumbrar a sombra de Francisco e ouvir um suspiro profundo." "Como assim?” "Roubando. coitado.Dirias que estavas rezando. Virei-me para a entrada da gruta. o ladrão. um padre. respondi. Irmão Leão. o crucificado à direita de Cristo!” . há tempo de sobra para isso. o arroz e o fogo senão orações? Dize a verdade: alguma vez te sentiste mais perto de Deus do que hoje à tarde? Isto é que é oração! Para que perder o meu tempo a explicar a este homem que a oração é uma coisa inteiramente diversa? Aliás. O Lobo me fez companhia durante um bom trecho do caminho.Fiquei com medo. no derradeiro minuto que . incapaz de me equilibrar nas pernas. eu mesmo não sei o que ela é. Levantei-me. "Claro".Está na hora de eu ir embora. mas não digas nada a Francisco: é um santo homem. perguntou-me. És velho? Arrepende-te. no tempo em que eu era bandido (ainda sou. . E é a pura verdade. "estou mais perto de Deus do que tu com a tua santidade. retruquei.

Um demônio se regozijava no meu íntimo a cada palavra que ele pronunciava. Deus te dê o bem e te perdoe o mal que me fizeste! Apertou-me a mão até estalar os ossos. e escutava-se a canção pungente e monótona do cameleiro. fui dominado por um sono de chumbo. Sobretudo jamais à esquerda. Enrolei-me no hábito e me deitei. Afinal. gritou-me. e eu ansiava por estar a sós. E no momento em que fazia as minhas orações. que frio. à direita e não à esquerda de Cristo. pediu. o bem-estar e Francisco formavam uma mistura terrível no meu espírito. o Diabo. Ao longe. e mal os meus olhos se encheram de trevas. encontrei-me na Tebaida. Santo Deus. perto do meio-dia. onde os grandes eremitas do deserto tinham construído as suas choupanas. e não tinha o coração suficientemente puro que me permitisse rezar.bradou -. quero dar-lhe a minha bênção. o interesse é teu! Pelo caminho. . passava uma caravana de camelos. pouco antes de amanhecer. um monge veio correndo na minha direção: "Irmão Arsênio". pensando em meu pai. O vento soprava entre as árvores e ao longe ouviam-se os uivos dos lobos. O sol estava causticante. teu pai está moribundo e te chama! Que venha logo. o ermitão centenário que se retirara para uma distância de uns dez quilômetros dali. . "depressa. cercado de . Deus. desgraçado. e me chamavam de Arsênio. meu irmão. ajoelhado. que solidão! Deixara o paraíso e voltara ao inferno. porque seria a perdição! Tinha pressa de me afastar daquele homem. Finalmente. a fim de pôr ordem nas minhas idéias.precede a morte. Quando cheguei à cabana.Até a vista.” Levantei-me de um salto e me pus a correr. Não consegui dormir. Eu era um deles. cheguei ao pé de meu pai. monologuei e gesticulei o tempo todo. Encontrei-o deitado na areia.Vai então redigir a nova regra -. já era noite. vai.

preciso revelar-te um terrível segredo. . caindo e tornando a se levantar como uma criatura de carne e osso. murmurou. Aterrorizados." "Inclina-te. Meu coração se confrangeu e desmoronei no chão. que já nascera. ." Fiz o que ele pedia. "Não há ninguém. . e os cabelos. neste caso o que é que existe?" "Nada!" Agarrou-se avidamente ao meu pescoço e quase me estrangulou de desespero antes de tornar a cair sobre a areia. Um sinal divino: ave. quem sabe? A língua do Senhor é rica. e então compreenderei. Depois comecei a bater a cabeça contra o rochedo. "Não parou um instante de falar em ti. . o morto agitou-se como se tivesse ouvido as suas palavras. às vezes vacilando. meu pai. porém vieste tarde demais". puseram-se em fuga. O sangue corria pelo rosto abaixo. explicou-me um dos religiosos. "Ele acaba de entregar a alma a Deus". evanescente. Chega mais perto." "Pois bem. fomos iludidos! Não existe paraíso nem inferno!" "O que é que existe então? O vácuo?" "Não. Ele certamente responderá à minha dor. "Há de aparecer um sinal. aquilo me serenou. Soltei um grito lancinante e acordei. nem sequer o vácuo. Mexeu os lábios. abriu os olhos e olhou para mim: "Meu filho". percorria a neve indeciso. meu filho. pelo contrário. "inclina-te. disse-me outro. apertando a cabeça entre as mãos de medo que rebentasse.cinco ou seis monges que o despiam e lavavam enquanto salmodiavam. a barba. Colou a boca ao meu ouvido e ouvi aquela voz fraca. O dia. . voz. "socorro!” Arrastei-me até o limiar da cabana. tiritando de frio. do fundo de um velho poço. Ainda sentia os lábios do eremita colados à minha orelha e as suas palavras continuavam ressoando por todo o meu ser: "Fomos iludidos!" "Aí então. Enquanto falavam. transportando a luz numa lanterna a fim de iluminar o mundo. trovão. Irmão Francisco. gritei. "Arsênio. . as orelhas e a boca estavam cobertos de terra. chamando-te sem cessar.". Estamos sós.” . Parecia vir de muito longe. Há alguém que nos possa ouvir?" Tinha os olhos cheios de pavor. Mas eu não sofria.

abrindo os olhos e me reconhecendo. mal escalei metade do rochedo. empoleirado num rochedo. tomei o caminho de sua cabana. alcancei o cume e estendi as mãos para segurar-lhe o hábito. mas estarias morto se eu te deixasse lá. . Tomei-o nos braços e levei-o. Voltou a si aos poucos." E. Caía. Temendo que gelasse. estava suspenso nos ares. carregá-lo e acender o lume..Perdoa-me. Acendi o fogo. . Apavorado com a idéia de que ele pudesse sobrevoar e me abandonar ali sozinho. semelhante. precipitei-me para ele com o firme propósito de tomá-lo nos braços. admirado de ver um ser humano. Porém. tranqüila e simplesmente. sempre maldizendo. "Isto é vida?".Como fazia tempo que eu não via Francisco. . levantava-me. cobertos de sangue. tropeçando. por que me trouxeste cá para baixo? Eu estava tão bem lá em cima.ralhou -. só que nesse momento. Contemplou-me como se nunca me houvesse visto. a fim de devolvê-lo à vida. Lanço um olhar em torno e que vejo? Francisco. Finalmente consegui trazê-lo até a cabana. mesmo que ele se opusesse a isso. sempre de braços abertos. Por que me trouxeste para baixo? Olhou as mãos e os pés inchados.Irmão Leão . fiquei exausto. só nós vivemos nus como lesmas. a um crucifixo negro cravado na pedra. "As próprias feras usam peles. bradava intimamente. cheguei à colina de onde se avistava o refúgio de Francisco. redobrei a velocidade.Não viste como eu subia ao céu? Começara a morrer. instalei-o ao lado da lareira e comecei a friccioná-lo energicamente para lhe ativar a circulação do sangue. .. através dos flocos de neve. os seus pés pousaram no chão. com os braços em cruz. Os pés descalços mergulhavam na neve e eu me esforçava para não rogar pragas. deixei escapar um grito: Francisco.

puro. caindo para o meu lado e me abraçando. Francisco não disse nada.Sinto dores! . a dor é tamanha que não posso nem fechar os olhos! Calou-se um instante e recomeçou: . Volta para a tua cabana. doem-me as mãos e os pés como se estivessem sendo furados por pregos. Eu não sabia o que pensar. mas não tardou muito para que me exasperasse com aquele silêncio. anda! Pôs a mão na minha cabeça. Assim nos ensina a sofrer. com o coração repleto de andorinhas. não acabaste de padecer.queixou-se baixinho. . perdoa-me. Deus brinca conosco como um pai com seus filhos. Ainda não chegamos ao fim. O sinal que esperava de Deus seria aquele: Francisco subindo ao céu? A linguagem do Senhor é riquíssima. Agora quero ficar só. Continuei esperando. . De noite.. No outro dia de manhã. Contudo. Confessei-lhe o pecado que cometera. tinha o espírito mais calmo. Na verdade. . leve. À noite me enviara o sonho para me abalar.Eu te abençôo. Irmão Leão. talvez essa visão fosse a sua resposta. prostrei-me aos seus pés. Um pouco de ânimo.Sinto-me mal. um grande remorso me pesava na consciência. Quando entrei na minha cabana deserta e glacial. leãozinho de Deus. com a testa apoiada ao chão. e esperei. O inverno chegava ao termo e desse modo poderia abordar a nova estação. mas não estamos longe. e de dia a visão para me infundir ânimo.Meu corpo. nem sequer suspirou. meu fiel burrinho. a amar e a resistir. Senti apenas que os seus artelhos fremiam. Fiz o sinal-da-cruz e prometi a mim mesmo ir confessar-me a Francisco no dia seguinte.

Dá no mesmo. a ordem da primavera. .Que penitência me vais infligir? . e que Deus te abençoe! Beijei-lhe a mão e me desfiz em pranto. Irmão Francisco? . Ouviu-se o primeiro cuco cantar num galho .E então. fui eu! É a mim que deves punir! . juro-te. nunca mais. . O céu e a terra se aplacaram. Os arbustos.Já não te disse que "nunca" e "sempre" são palavras que só Deus tem o direito de pronunciar? Vai e toma cuidado. erguendo a cabeça. cordeiro de Deus. Por acaso não somos todos um único e mesmo ser? Pequei junto contigo. no momento em que eu costumava depositar o pão cotidiano diante da cabana de Francisco.. Durante três dias e três noites. E o coração do homem respondia alegremente ao passarinho como se ambos fizessem parte da mesma ordem. via um sorriso se desenhar nos seus lábios descorados. e os flocos que haviam ficado enredados nas árvores se desfaziam sem ruído e caíam.O teu pecado é grave. Irmão Francisco. E de vez em quando. .Nunca mais . soprava uma leve brisa. Vivemos um com o outro há tanto tempo e ainda não compreendeste? Vai. porque faltou pouco para o lobo te comer! A neve começou a derreter-se. . eu não meterei nem pão nem água em minha boca.perguntei. tu jejuarás comigo.exclamei -.enxotava o inverno. Irmão Leão. meu filho. reapareciam àquela claridade. . o céu clareou e as águas se puseram a rolar em direção à planície.gritei a soluçar -. .Mas não foste tu quem pecaste . deixando de tratar os homens tão asperamente. .

Não era possível que fosse o Lobo.exclamei. meu irmão. Entretinha-me a tecer balaios de vime que havia trazido da planície. corro ao encontro do visitante e quem é que vejo? O Padre Silvestre! . . Olha! Por toda parte onde andas a neve se derrete. meu irmão! .me dizia ele. Volta de preferência os olhos para a amendoeira que floresce em ti: a tua alma.. o cavaleiro cheio de graças deste mundo. o trabalho manual e a oração. dessa forma. contente -.Sejas bem-vindo. Fazia meses que não via um único dos meus irmãos! Abracei-o e convidei-o a sentar-se ao meu lado. ouvi passos nas pedras e um ruído de respiração opressa. afasta de nós a idéia da amendoeira em flor. O espírito tentador se esconde entre os seus ramos e nos faz sinais. Isso me ocupava o dia inteiro. . não pensava em comer. enquanto trabalhava sentado diante da minha cabana.As amendoeiras decerto já começaram a florir na planície comentei um dia. E alegrava-me poder conciliar. Um dia. Meu coração pulava de alegria no peito. .Por favor.Irmão Leão . pois ele nunca ofegava. Levanto-me. O Padre Silvestre. Apenas pão e água. cheia de reconhecimento por Deus. porém. eis aí a primavera. . Irmão Leão. Eu passava longas horas na frente de minha cabana vendo a primavera invadir a terra e me parecia ouvi-la murmurando uma oração silenciosa. e o seu andar era silencioso. e durante esse tempo o meu pensamento ia para Deus muito mais depressa e com mais firmeza que quando me ajoelhava com intenção de rezar.Nada tenho para te oferecer.

. e queira Deus que ele.Leva uma vida de mártir. porque neste caso não poderá falar conosco. Jesus! Depois calava-se. . um gavião vem acordá-lo todos os dias antes do amanhecer. não esteja rezando.Como vai o Irmão Francisco? . no meio dos rochedos. Esperança crucificada. Paramos em frente à caverna. para logo após reiterar. Irmão Leão. Não o reconhecerás. ainda mais súplice e desesperada: . Parecia vazia. quando sacudimos dos pés a poeira do mundo para entrar no braseiro do Senhor.disse eu. No entanto. oh.perguntou com ansiedade. Irmão Leão? .Bernardone está agonizante. e manda-me prevenir Francisco. Parece arrependido de tudo o que fez. está minado pela oração e pelo jejum.deduzi. Pensei naqueles heróicos dias do início. .Lá longe. Dir-se-ia que o próprio Deus ordenou às aves que o atormentassem. Vamos até lá.vou mostrar-te . . Jesus! O Padre Silvestre quis entrar. justamente na hora em que ele consegue adormecer. quantos anos. E como se isso não bastasse. Talvez até queira pedir-lhe perdão. oh. Meu Deus.Deve estar fazendo suas preces na gruta . Subimos e encontramos a cabana vazia. O moribundo quer ver o filho.Amor crucificado. ouvimos suspiros na penumbra e uma voz que suplicava: .. . mas eu o retive a tempo pela aba do hábito e sussurrei-lhe ao ouvido: .Amor crucificado.Caminhemos devagar para não o assustar. Esperança crucificada. quantos séculos transcorreram desde então! -Onde fica a sua cabana.

Irmão Lobo lhe trouxera uma pele de carneiro. Irmão Francisco. Padre Silvestre. perto da cabana. desceu e se preparou para se esconder. Cambaleava. à medida em que avançávamos para ele. preveniu. os olhos vermelhos de sangue e pranto. imóvel. quero saber a verdade. pois olhava para o próprio íntimo. Caminhávamos de mansinho atrás dele. "eu me partirei em pedaços. Cada um de nós amparou-o pelo braço e o conduzimos à cabana. . . a fim de não o assustar. ele sorriu e abriu os braços. . Nós lhe estendemos os braços. vacilando como um ébrio. Virouse. de braços abertos. . como senti saudades tuas! Estou radiante por te rever! Francisco nada respondeu. e depois.Mudaram de caminho. à hora do crepúsculo.Não me poupes. Deu alguns passos.Pelo amor de Deus. Contudo. parou. saiu ao limiar da gruta.” O sol subiu no céu. não te aproximes! Ele me deu ordem estrita de não o chamar nem o tocar quando reza. Desceram à planície em busca de boas pastagens. com certa impaciência. atordoado. . como se quisesse lembrar-se da direção que devia tomar. Os lábios tremeram. Não nos reconheceu imediatamente. Levantouse e. ouviu-se um suspiro profundo e desesperado. Obriguei-o a se sentar nela. uma pedra rolou sob os nossos pés.Como vão os irmãos? .. a sua expressão se iluminava.bradou -. "Se me tocares". levou as mãos à cabeça. porém Francisco se conservava sempre ajoelhado.Irmão Francisco . Finalmente. O Padre Silvestre lançou-se neles. mas ele não viu. repetindo sem cessar as mesmas palavras.perguntou finalmente ao Padre Silvestre. Mas. meu Irmão Francisco.

de aldeia em aldeia. meu Deus? Por quê? Por quê? A culpa só pode ser minha!” ..E a Santa Pobreza? . Quando estes últimos nos encontram pela estrada. engordá-la e calçar-lhe sandálias. Uns correm a Bolonha.E a Santa Simplicidade? . alimentá-la. E fazem uma tal mistura. . A Porciúncula já lhes parece demasiado modesta. e o Irmão Elias se propõe a edificar uma imensa catedral de três andares. Pedem ouro. Não nos chamam de "irmãos". Cristo deixou de ressuscitar. começou a murmurar em tom lamentoso: "Por que.Querem vesti-la. desdenham-na. ridicularizam o nosso vestuário esburacado e os nossos pés descalços. muito tempo. E é exatamente o que lhe vai construir. explicar a Sua Crucificação e a Sua Ressurreição no terceiro dia de Sua morte. prelecionam e transpiram para ver quem sabe demonstrar melhor a divindade de Cristo. Francisco desabou no chão. sobem à cátedra. sem pronunciar palavra. Irmão Francisco. Já mandou vir mestres-pedreiros de renome. para estudar as várias maneiras de matar uma pulga. que só de ouvi-los o espírito se perturba e o coração fica de gelo. outros a Paris. Desesperado com essas notícias. Permaneceu assim. .Os irmãos se dispersaram. recusam obediência aos novos pastores.Também foi esquecida. Os antigos. Abrem escolas por toda parte. nossos primeiros companheiros. além de pintores para decorar as paredes.E o Santo Amor? . Diz que a Perfeita Pobreza precisa de um palácio para morar. Depois. A partir do dia em que os sábios começaram a discorrer. mas de "maltrapilhos". Acumulam livros.

Lê! Curvei-me e li: . E com a fome alimentará o Seu rebanho. . Nós o sentíamos longe dali. Francisco estava ao mesmo tempo desesperado e inundado de esperança. O Pai está conosco. Tivemos de levantá-lo à força.Irmão Leão! .ordenou. Passeou um olhar vago em torno de si. . Mas logo abriu os olhos. Por um instante adormeceu.chamou. mas. não estamos sós.” . do lado do porvir. Naquele silêncio profundo. às tuas ordens. .Que diz a seguir? . Irmão Francisco. porém não se mortifiquem. bem vês. onde havia mais luz. angustiado. .Continua! .Basta! E tomou a mão do Padre Silvestre. fitou-nos e sorriu: . Transcorreu um longo hiato. Ele trará consigo as ovelhas desgarradas. soltava gritos estranhos. como se fosse um cão pastor recolhendo o rebanho para conduzilo ao aprisco. . muito distante."Ei-la. ."Mas não fico só porque meu pai está comigo. . e me deixareis só.Ouviste a voz de Cristo.” . semelhantes a latidos que viessem dos confins da terra.E batia com a testa na terra. . é chegada a hora em que vós vos dispersareis.Abre o Evangelho.Estou aqui. Eu mesmo fiquei abatido pela dor um instante. cada um para seu lado. escolhe ao acaso e lê! Peguei o Evangelho e me aproximei da porta. não devemos ter medo. meu irmão? Dispersem-se.

. erguendo-se. Um dos irmãos indignou-se: "Que tens tu de nos olhar desse jeito?".Pergunta ao Padre Silvestre. com os cabelos compridos.." Depois de chicotearem o monge até sangrar. . "Só porque andas descalço. de hábito esburacado e cheio de lama? Não sabes que o novo prior escorraçou a Pobreza de nossa ordem? Vaite lavar no convento. e o sorriso sumiu-lhe dos lábios. . "vou mandar que te dêem quarenta chibatadas. esforçando-se por ouvir. O Padre Silvestre olhou para mim como se procurasse encontrar a coragem necessária para falar com Francisco.Que dizes.Até em sonhos me batem . gritou-lhe. Irmão Leão? Uma mensagem? Qual? .insisti -. . sujos. Francisco apurou o ouvido. bradou Elias. escutem: os irmãos estavam reunidos na Porciúncula e ouviam Elias. louvado seja o Senhor! Fechou os olhos. Um monge que passava descalço e vestido de trapos olhou-os e sacudiu a cabeça. volta a nós. Elias tornou a lhe perguntar: "Qual é o teu nome?” "Francisco". e sentimos que estava novamente muito longe de nós.” Olhou-nos. O Padre Silvestre é portador de uma triste mensagem. trajar um hábito limpo e calçar sandálias que não envergonhem os teus irmãos.murmurou.Até em sonhos me expulsam. escuta. . "Francisco de Assis. é ele quem a traz.Irmão Francisco ." "Recuso-me!" "Recusas-te?"." "Qual é o teu nome?" "Primeiro manda dar-me as quarenta chibatadas. Ordena-lhe que fale.falou -. que repartia o mundo com eles." "Manda.Acabo de ter um sonho muito esquisito . respondeu o monge esfarrapado.

.Até a vista também! . . . Francisco permaneceu imóvel.Tua mãe chora e se lamenta à cabeceira do marido prosseguiu o sacerdote. Francisco cruzou os braços. Dom Bernardone.repetiu Silvestre.perguntou o Padre Silvestre. mas é impossível fugir. pai . . .Que resposta devo dar? Francisco se levantou. não me poupes.São teus pais. De que mensagem se trata? Quem a envia? .Ouviste. fala. estendeu o braço na direção de Assis e fez o sinal-da-cruz. Sua bondade é infinita. .Mandou-me pedir-te que o procures. Dize a meu pai: até a vista! .disse. porque deseja falar contigo antes de morrer. Há de te conceder.murmurou -. Irmão Francisco? . baixou a cabeça e ficou em silêncio.E à tua mãe? . . tomando a mão do sacerdote -. tenho o coração forte. dirigindo-se a Silvestre -. hesitante.Não sentes pena deles? .replicou o sacerdote. Irmão Francisco. perdoa-me! Se o encontrares ainda vivo . como um coelho nas garras de um leão que se diverte cruelmente com a presa antes de estraçalhá-la. Deus me capturou e estou nas Suas mãos.Está inconsolável. Debato-me. . Só tu. és capaz de confortá-la com a tua presença. dize-lhe que não posso abandonar o cume desta montanha. Francisco. . meu irmão .Teu pai . Vem! Francisco continuava calado.Teu pai.Adeus. .Silvestre. Pede permissão a Deus para ir vê-los.acrescentou.

Francisco comia . Saímos. porém. Sucediam-se as luas. . rochedos imensos. Os festejos da Cruz se aproximavam.disse -. A nossa montanha.E que te respondeu? .recomendou-me ao partir. entrei e trouxe um pedaço de pão. sarças ressequidas à flor da terra. na planície. Quando passamos diante de minha cabana. .Aqui em cima é Jeová quem reina.Adeus.Deus já o estraçalhou e está prestes a devorá-lo. alguns gaviões rodopiavam. Abraçamo-nos. eis o que me respondeu. Cristo passeia na planície.murmurou."Sou o teu pai e tua mãe". o mundo ficará privado de luz. . sem uma única flor. . para comeres no caminho. Deus tem outro aspecto . O Padre Silvestre olhava a paisagem: pedras. Contemplávamos do alto a metamorfose da terra. faze o que Deus te inspirar. .Vela por ele . Irmão Francisco . depois o verão. é Francisco . No céu.. As cepas negras das parreiras brotavam.Já Lhe pedi uma vez. . Chegou o mês de setembro. Queria ficar só.respondi-lhe. O Padre Silvestre se inclinou e beijou a mão de Francisco. fechando os olhos. em seguida amarelavam e finalmente tombavam sob a foice. Como podes resistir-lhe.Lá embaixo. . Francisco só tem vivos os olhos doentes. meu irmão .Toma. A primavera passou. Os trigos reverdeciam na planície. floresciam e carregavam de cachos que os vindimadores transportavam. Deves estar com fome. Quando também eles se extinguirem. . Irmão Leão? . nunca mudava: estava sempre desolada.respondeu.Não sou eu quem resiste.Adeus.

se for possível. . Esta adoração datava agora de vários anos. Senhor. como se esperasse que lhe aparecesse um sinal entre relâmpagos e bater de asas. Não podia dormir. embora ele procurasse dissimular.apenas um bocadinho de pão e um gole d’água por dia. Enrolou os pés e as mãos no hábito. também tu O verás talvez. e mantinha os olhos erguidos dia e noite. e Deus está pregado nela. e adivinhava. oh. que as dores que sentia nos pés e nas mãos se tornavam . sinto que Ele virá para nos julgar! Fitou os pés e as mãos. em companhia de minha dor. . meu bem-amado Senhor . . Assim. e Te louvamos. . à medida em que se avizinhava a festa da Exaltação.repetiu. com a minha bênção. que ocorre a 14 de setembro. eu via Francisco consumir-se de alegria. Um dia. quero pedir que me concedas uma graça antes de morrer! Que no meu corpo e na minha alma. senão o transformará em cinzas!" À proporção que se aproximava a festa do Lenho. eu possa sentir a Tua Dor e a Tua Paixão. Está escrito nas Escrituras que a Cruz se erguerá no céu no momento em que o Senhor vier nos julgar. de angústia. Fui-me embora. Irmão Leão. a Tua Dor e a Tua Paixão. tomou-me pela mão e mostrou-me o céu: . como se delirasse. de sofrimento. Escrevera com a própria mão na regra da ordem: "Nós Te adoramos. . porque por meio da Tua Santa Cruz Te dignaste a resgatar os pecados do mundo". jejuando por amor do Santo Lenho. .Oh. inquieto. que a sua chama se acalme.prosseguiu -. Cristo.O corpo do homem é uma cruz .murmurou -. Francisco definhava como um círio aceso. Levantou as mãos ao céu. abre os braços e verás. Volta para a tua cabana.Olha. Irmão Leão. .Estou doente! Deixa-me só. "Meu Deus. .

Na véspera de 14 de setembro. os pássaros noturnos esvoaçavam silenciosamente. A brisa amainara. Do lado do Oriente. com o corpo fraco e esgotado. os penhascos luminosos. sem proferir palavra. quando o céu está irritado e a terra submissa. cruzavam-se numerosas espadas de fogo. não. de braços abertos. Quanto mais me aproximava da cabana de Francisco. imóvel. mais o meu coração se confrangia. imóvel. Mas como pode a carne humana resistir a tanta dor? Vigiava-o todos os dias. e ao clarão dos relâmpagos eu via nitidamente o brilho das mãos e dos pés.insuportáveis. Por cima de minha cabeça. Não consegui compreender de onde vinha tanta doçura e serenidade. ajoelhei-me para fazer as minhas preces. Observei-o assim durante muito tempo. preferindo subir num rochedo vizinho para rezar da manhã à noite. enquanto a terra era apenas bondade e obediência como uma esposa dócil. pensando intensamente em Francisco. Uma brisa tranqüila e cálida soprava. soltando gritos agudos de árvore em árvore. nenhuma folha se movia. Parei e olhei em torno. quando sopra um vento primaveril como aquele. Um halo de luz palpitante coroava-lhe a cabeça. de onde se avistava a sua cabana. o céu era um imenso fogaréu em que as estrelas brilhavam como faíscas. Esforçava-se. e os seus cabelos se incendiavam. A noite estava translúcida. Levantei-me e saí da cabana. um raio de luz lambia-lhe o rosto. Escondi-me atrás do meu rochedo e espreitei: Francisco rezava ajoelhado. por viver e sofrer a Paixão de Cristo. Perto da meia-noite. ardor. diante da cabana. No firmamento. não consegui fechar os olhos. porque é geralmente nessas noites. Parecia uma pedra. que se operam os milagres. Já não entrava mais na gruta. Ao crepúsculo. Brilho. do tipo que faz a seiva subir aos galhos. escondido atrás de um rochedo. o céu começou .

As estrelas maiores ainda luziam. à direita e à esquerda. cobria-lhe os braços abertos. envolto nas pernas.Pai Francisco. através das asas do serafim: "Querido Francisco. um pássaro matutino cantava. subiu ao céu. no seu seio. preparando-se para partir. seguidas de novo grito: "Mais! Mais! Quero mais!" Então. Pai Francisco . E outra vez o grito desesperado de Francisco: "Quero ir além. ouviu-se a Voz Divina: "É com a Crucificação que se encerra a ascensão do homem". abre os olhos e contempla: Crucificação e Ressurreição formam uma unidade!" "E o paraíso?". . até a Ressurreição!" E a voz de Cristo. Ressurreição e paraíso são a mesma coisa!". uma grande chaga que parecia ter sido aberta por uma lança. Cristo. Francisco deixou-se cair. cujos lampejos clareavam a planície.. que deu um grito lancinante. um trovão abalou o firmamento. uma claridade intensa. "Crucificação. no seu flanco. Lancei-me em sua direção e levantei-o. aspergindo-lhe água para que recuperasse os sentidos. com essas palavras. acima dele. De repente. A noite recolhia todas as suas faíscas e sombras.. Ergui os olhos: um serafim com seis asas de fogo descia. iluminou o firmamento. como se o atravessassem com pregos. Não podia chamá-lo de irmão. Suas mãos e seus pés sangravam. Um par de asas enlaçava a cabeça.a clarear. semelhante a uma ordem para que o milagre tornasse a Deus. e. Abriu os braços e ficou paralisado. Tinha-se elevado acima dos irmãos e acima dos homens.sussurrei. bradou Francisco. Não ousava mais. precipitou-se do espaço sibilando e um relâmpago atingiu Francisco. crucificado no ar. e o serafim de seis asas de fogo. Depois murmurou algumas palavras ininteligíveis. disse ainda a voz. outro o corpo e o terceiro. alado. Abrindo-lhe o hábito. idêntico a um relâmpago vermelho e verde. estava Jesus crucificado. O Alverno ardia no meio das chamas. o corpo agitado por convulsões. empoleirado nalgum ramo. Ao longe. azul e verde. . vi.

mas elas reabriam sempre e continuavam sangrando.Ouvi. já era dia. "Ficará sem uma gota. não me ouvia.Agora prepara-te. vai morrer.E alegria não? . pensei. "Vai perder todo o sangue". . Irmão Leão.Sim. Pai Francisco.Senti medo! Bateu-me no ombro: . tornaremos a nos encontrar na eternidade.É preciso guardar segredo.Completamente desfalecido. A separação é momentânea. Lavei-lhe as chagas. A viagem terminou.Não fales em morrer.De que outra coisa deve o homem falar? Não chores. com voz apagada -. meu irmão. rasguei o meu hábito e atei-lhe as chagas. . Pai Francisco? .” Abriu os olhos e me reconheceu: . Quando o deixei para voltar à minha cabana. vamos partir. Voltemos à Porciúncula.Irmão Leão .pronunciou. a graça divina o tocou com muita violência. Depois me prostrei a chorar diante de suas mãos e de seus pés. . .Juro! Que sensação experimentaste. viste alguma coisa? . . . . Comecei a chorar. Quero morrer lá onde nasci. Abençoada seja a nossa irmã Morte! Ajudei-o a se deitar.Senti medo! . meu pai. Jura que o farás. . Suas feições ainda estavam contraídas pelo medo.Ouviste alguma coisa? . Vai morrer! Deus caiu sobre ele com todo o Seu peso.

Agora. Mas eu. admirou-se de me encontrar chorando. põe o pé no chão. meu irmão.Por que essas lágrimas? . Receio.Mau sinal! Há carneiros que quebram os laços à proximidade da morte. Já me habituara a trazer um pedaço de pão para vocês. . ."A viagem terminou". pulam a cerca do aprisco e voltam ao lugar onde nasceram. diz sempre. mas para nós é o fim. eu ainda ouvia as pedras rolarem atrás dele encosta abaixo. Prepara-o. A verdadeira vida principia depois da morte. .vou procurar um jumento para ele. Agora não tem mais necessidade do corpo.” . E uma manta para que vá mais bem confortável.Bem! . volto já! E desceu a montanha. Pobre Irmão Francisco! . . . O rosto do Irmão Lobo se anuviou.acrescentou. .Oh! Ele não tem medo da morte . Muito tempo depois que saíra. Enxugou os olhos. . "mas o começo. . . não te apoquentes. Francisco chegou ao ápice: o homem não pode ir além da Crucificação. "a viagem terminou. com a garganta estrangulada. em que me vou tornar? Aonde irei? Estou perdido!” Quando o Lobo nos veio trazer a ração diária. .Francisco quer voltar para onde nasceu. .expliquei -. murmurei. que esse regresso signifique a sua morte. chegou. "A morte não é o fim". .perguntou.Para Francisco talvez seja. e isso me alegrava como se praticasse uma boa ação.

as perdizes dos cumes. pela dor que me proporcionaste. até sempre! Fomos embora em silêncio. montanha bem-amada. levantou a mão e despediu-se do Alverno: . o jumento parava em frente à cabana. Trazia na albarda uma grande manta vermelha.disse ele. pondo a mão ensangüentada na cabeça do Lobo -. fez coro. O próprio Lobo tinha lágrimas nos olhos. Parto. Alverno! Adeus! Adeus. e pressentindo o milagre. os camponeses começaram a repicar os sinos. e o meu coração. alertados pelas chamas que haviam notado ao romper do dia por cima do Alverno. só tu. Começamos a descer lentamente. pois ele sentia fortes dores. Virou-se.Uma hora mais tarde. queira Deus que este burro e ainda a manta vermelha que trouxeste para tornar mais confortável a sela entrem todos juntos no paraíso. A meio caminho. arrancando as penas. entre todas as montanhas.Irmão Cordeiro . Levantamos Francisco com todo o cuidado. trouxe-me uma mensagem secreta e devo partir.Oh. montanha bemamada. de olhos postos em Jerusalém. pelas noites insones. Depois de terem reunido todas as pessoas inválidas. na qual Deus já caminhou. a fim de que ele as curasse. O sangue corria abundantemente através das tiras do meu hábito que lhe atavam as feridas. que foi crucificado em cima de tuas pedras. esta outra perdiz. entoaram o cântico fúnebre. até nunca. E as tuas filhas. . só tu e os teu flancos se despedaçaram. Enquanto isso. pelo sangue! Quando Cristo morreu na cruz. preparavam-se para conduzi-las ao novo santo. estremeceste. . pelo medo. Francisco fez sinal ao Lobo para parar. como te sou grato pelo bem que me fizeste. Porque Cristo.

untavam com ele as próprias faces. Os seus olhos se turvavam.Pelo amor de Deus. teriam desfeito Francisco em pedaços. recolhendo o sangue que escorria. . a espuma brotava nos cantos das bocas. olha-nos. precipitaram-se em peso sobre Francisco.ululavam os doentes -. . Recebam a sua bênção e afastem-se do caminho. E nós lhe construiremos uma igreja. para beijar-lhe as mãos e os pés. cristãos . estou com medo. . nós não permitiremos! bradaram vozes excitadas.Ele não pode partir.Toca em nós. Querem tirá-lo de nós. Ao enxergarem a chaga.Mal nos viram chegar. ele escondia os membros ensangüentados. As mulheres espichavam os aventais. Farejando o perigo. Ajuda-nos! Francisco aguardava. cura-nos! Então Francisco.Irmão. Os rústicos. não vêem como perde sangue? .supliquei aos gritos outra vez -. aonde virão rezar de todas as partes do mundo. Detenham-no. . santo Pai . coloquei-me na frente dele. se pudessem. os aldeões correram gemendo em sua direção. as mãos ocultas no peito. A multidão ficou ameaçadora. distraído.Tem de deixar os ossos aqui para que estes lugares fiquem santificados. Escorria suor de sua testa e ele tinha novamente os olhos transformados em duas chagas vivas.gritei -. . O santo está com pressa de voltar para a sua casa. ele não pode partir! É nosso! Nosso! Nosso! Virei-me para o Lobo: . a cabeça baixa. tirou a mão do peito para abençoálos. os homens estendiam os braços e.Tenham piedade dele . deixem-nos passar. e cada um levaria um naco de sua carne. Enrolado no hábito.

. rasgando-lhe o hábito e descobrindo-lhe o corpo arroxeado e esquelético. com os olhos cheios de lágrimas e sangue: . quase caiu.Não nos deixes.. mas as mulheres. A multidão quis atacar. não nos deixes.murmurava Francisco.Para trás. mas o bandido disseminou bordoadas a torto e a direito. santo de Deus. que Deus nos mandou um. . .Deus.Abram passagem . afastem-se! Os homens recuaram. .É nosso! Nosso! Nosso! Nunca tivemos um santo na aldeia. e agora. porém. não o deixaremos ir embora! Cordas! Tragam cordas para amarrá-lo! O Lobo não se conteve mais. senão apanham! Não se esqueçam de quem eu sou! Vamos. desferindo golpes para forçar a passagem.. Arrancou um cajado das mãos de um ancião. . jogaram-se em cima de Francisco. sacrílegos! . tem compaixão de nós! Tu clamas: "Amor! Amor!" Mas onde está o teu amor? Toca em nós. As pernas trêmulas do burrico vergaram.. para trás. meus filhos. Batendolhe com o cajado.murmurou. . chorando. enfurecidas. incapaz de articular outra palavra.. . Percebendo que o santo ia mesmo embora. queremos curar-nos! Francisco olhava para eles.Meus filhos.A multidão. Deus. mais vociferava: . Meus filhos.trovejou. os inválidos começaram a gritar e chorar: . empunhou as rédeas do jumento e abriu caminho entre a multidão. . o Lobo reergueu-o. .ameaçou -. quanto mais sangue via. .

Muito mais longe.O que é o sofrimento? Não entendo o que queres dizer. louvado seja o Senhor. . Eu precisava tratar de Francisco.” Suspirei. Enquanto me ocupava em lavar-lhe as feridas.Finalmente. o Lobo mendigava um pedaço de linho para atá-las. podes me arranjar um pedaço de papel e um tinteiro? Corri à casa do pároco da aldeia e trouxe o que me pedira. nunca mais viajaremos juntos.comentou o Lobo. Uma claridade suave lhe aureolava os cabelos. E eu fico na metade do caminho. numa aldeia. Irmão Leão! E.indaguei. "a sua longa caminhada acaba aqui. Então ele se assombrou: . "Terminou". onde havia uma fonte. desaparecendo sem nem me lançar um derradeiro olhar.com tua permissão. serias devorado vivo por eles.Sofres. vou levá-lo junto para o paraíso.disse -. . . as mãos e o lado direito do corpo de Francisco. Ele se virou e me olhou demoradamente.Não fosse esse cajado abençoado. Um sorriso amargo esboçou-se em seus lábios. logramos escapar. sereno. . de fato. Pai Francisco. apenas Deus habitaria o seu coração. paramos. . Pai Francisco? .Irmão Leão . Sentei perto da fonte e senti então que Francisco se afastava de mim. Quando o trouxe. bem-aventurado. . Nunca poderei alcançá-lo.Pronto. rasguei-o. pensei. rindo. Tinha o rosto radiante. e enrolei nele os pés. foi só aí que notei a sua metamorfose. Os pés e as mãos cintilavam. Doravante. . . .perguntou.Quem sofre? . . Irmão Francisco. Fizemos alto na praça.

pois não experimentava a alegria de que ele falava. Irmão Leão? .Escreve! " Tu és santo. não são homens que enxergo ao meu redor.Escrevi tudo. o ótimo. És grande. a bondade suprema! Tu és o amor. a certeza. ausente para sempre. são estrelas! Escreveste tudo? Tudo? . . agitando os pés e as mãos.Pode. . toda a nossa riqueza! Tu és o nosso patrono. . . longe.O céu desceu à terra.respondi. E Francisco me parecia distante. mas as pernas estavam muito fracas e ele escorregou no chão. peguei a pena e esperei.. . a justiça.Posso começar. .murmurava. o nosso defensor e o nosso guardião! Tu és a doçura infinita de nossa alma! “ À medida que ele ditava. nada via. sentindo no coração a mordida de uma serpente.Então escreve! Curvei-me para a folha de papel. a paz e a alegria! Tu és a nossa esperança. és Deus acima dos deuses. a humildade. a sabedoria. exaltava-se. Quis até começar a dançar. que felicidade! . És o único capaz de operar milagres! Tu és forte. Por mais que olhasse em torno de mim. Pai Francisco . És o mais alto! Tu és bom. Senhor. a paciência! Tu és a beleza. .Que alegria. Tinha a alma envenenada.

tira-o do peito para lê-lo. tenho alguma coisa a acrescentar. Francisco. baixezas. jazia no solo da cabana. farejam o ar. e ele sentia que alguém sofria. Então acordam. O fato é que de um santo se desprende um odor que atravessa montanhas e florestas e penetra nas casas dos homens. e foi a custo que conseguiu desenhar um crânio ao canto da folha e em cima dele uma cruz e em cima da cruz uma estrela. a seus pés. ora rindo. tomados de paixão e medo. não posso deixar de concordar com Egídio. . covardias. mas não era ele: já deixara o mundo e olhava para todos com compaixão. a fim de que a tua face se purifique e fulgure. Francisco. Fez um grande esforço para segurá-la na mão. Todos os irmãos que tinham ficado fiéis à Porciúncula vieram acolher-nos.murmurei.Toma este papel e guarda-o.Escreve mais! Acrescenta ao pé da folha. escancarado. desfalecimentos de ânimo que julgavam esquecidos ou prescritos pelo tempo ressurgem no espírito. Irmão Leão! Oxalá ponha a Sua mão no teu coração para apaziguá-lo. De repente o inferno se abre.Dá-me o papel e a pena. As dores tinham voltado. beijando-o e não parando de interrogar como haviam aparecido as chagas no seu corpo. com os olhos rasos d’água. e que palavras secretas pronunciara Ele. porém. todos os seus pecados. Estendi-lhe a pena. escondia os pés e as mãos. que estava quase sem sangue. Então eles se surpreendem e. a fim de que te lembres de mim e do amor que te dediquei. Irmão Leão! E quando te sentires triste. Os irmãos o cercavam.Sim. Pai Francisco . . .. viram o rosto para o lado de onde vem o odor e se põem trêmulos a caminho. ora chorando de alegria. 1 Quando penso naquela viagem de regresso ao torrão natal. em letras maiúsculas: “Oxalá Deus concentre em ti o Seu olhar. Escreveste?” . e se podia descreverlhes Cristo preso às asas do Serafim.

. envelhecida e coberta por forte palidez. Francisco cerrar* os olhos. Tocavam-lhe e beijavam-lhe os pés.. ao perceberem como a beatitude pode estar próxima e acessível. beijando-lhe silenciosamente os pés e as mãos. .Oh. perguntando a mim mesmo quem poderia ser essa nobre senhora vestida de luto. Depois se inclinou. pela primeira vez.Meu filho. cheio de mistério e firmeza. Humildade. Os peregrinos sentiam-se confortados. Eram peregrinos. . Novos fiéis punham-se então a caminho a fim de recolher. Ela então ergueu o manto. surpresos. . .gemeu -. inválidos de alma ou de corpo. com a cabeça coberta por uma manta preta. Acabava de reconhecê-la. Aquele gesto me pareceu tão terno que levantei os olhos. Naquele dia fazia muito calor.. mas que já haviam esquecido: Amor. E essas palavras tão simples adquiriram. Moveu os lábios.Dona Pica. desfazendo-se em lágrimas.gemeu baixinho. descobrindo a fisionomia enrugada. uma mulher idosa e bem-vestida. Irmão Leão . nos seus lábios. a família já não os reconhecia. Pobreza. Sobressaltei-me. Entre eles existiam muitos que mudavam tão radicalmente que. uma gota do bálsamo que se derramava dos lábios de Francisco.murmurei. Extenuado. palavras simples. Enquanto eu o abanava com folhas de plátano. em que estado me restituis o meu filho! . Esperança. por sua vez. ao regressar. . aproximou-se com passos leves e se ajoelhou perto dele. União.. nobre Dona Pica. Francisco dizia-lhes algumas palavras.A multidão afluía sem cessar das aldeias mais longínquas e das cidades grandes: o odor do santo servia de guia. e roçou com uma carícia os seus cabelos encharcados de suor. um sentido profundo.

e Deus as abençoará. .sussurrou -. Nada me resta a fazer no mundo. mãe. . um pobre farrapo que jazia por terra. . Seu filho. Já nem sei como hei de te chamar: meu filho. . Dona Pica. mãe. . .Este homem é meu filho? .Não fui eu.Corta-me os cabelos. Pai Francisco. . não tenho filho.repetiu Dona Pica. É preciso também querer Deus. louvado seja o Senhor! Porém tenho Deus e Nele tenho tudo.Sim . estendendo-lhe os braços. . Deus. .disse. ..tornou a murmurar. mas por amor a Deus".. seu filho querido era apenas uma chaga viva.Meu filho. Lembra-te do leite com que te alimentei e não a recuses. Quero ingressar em San Damiano não por ódio ao mundo. Que graças me queres pedir? . . não basta renegar o mundo. . Trago comigo todas as minhas recordações. banhado no próprio sangue. chama-me Irmã Pica doravante e permite que me refugie no Convento de San Damiano. não. .Dá-me a tua bênção. meu pai.Lembro-me. esforçando-se por conter os soluços.O meu Francisco? Francisco ouviu. não fui eu: foi Deus.Mãe.. . Já não tenho esposo nem filho. tu vieste! . abriu os olhos e enxergou a mãe. Deves dizer: "Já não tenho marido. lembro-me de tudo. . beijo as cinco chagas que Deus te deu e peço-te uma graça.Mãe.Quero ingressar em San Damiano por amor a Deus . .e pousou novamente o olhar turvo sobre Francisco. Ela baixou os olhos. .

Procura a Irmã Clara.disse -. Francisco olhou para mim. .respondi-lhe -. Abriu os braços. Adeus! Talvez não nos tornemos a ver na terra. . reduzem-se a cinzas no braseiro do coração?” . Não te parece? Fiquei sem saber o que dizer. Irmã Pica . Dona Pica começou a chorar. pois não compreendia mais nada. como se renascesses depois de uma longa doença? Rompeste com tudo? . Não possuo mais nada.disse. . enrolou-se na manta preta e partiu na direção de San Damiano.Um dia. levantou o filho e apertou-o ternamente contra o peito.Então recebe a minha bênção.Irmão Leão . . como se fosse uma criancinha. era a tua alma que . ela te cortará os cabelos e te dará um hábito cinzento. colocando a mão sobre a cabeça da mãe.Francisco soergueu-se a custo. . a dor. E não era fogo. recordo-me de que o guarda noturno gritou: "Fogo!" Os sinos começaram a repicar. pai e irmãos. as pessoas corriam pelas ruas. . seminuas.Repartiste todos os teus bens com os pobres? E te prosternaste diante da Senhora Pobreza? Abandonaste a tua rica moradia facilmente e até com alegria. Em seguida. em Assis . "Como? Quer dizer que quem ama Deus não ama mais nada neste mundo? Não sente pena de ninguém? Mãe. Auxiliei-o a se apoiar na pedra que lhe servia de travesseiro. do mesmo modo que o resto: a alegria. Pai Francisco. como podem os homens que não crêem em Deus separar-se da própria mãe para sempre sem que se lhes parta o coração? Como é que conseguem suportar a indizível dor da separação? E no entanto basta apagar-se a luz de uma vela para confranger a alma. .com tudo. a riqueza. .

se eu pudesse ficar em pé e dançar! Eu começo.. frio e gelo. sol. Celebrai-O e glorificai-O na eternidade! "Terra. Repara.Louvai o Senhor.Sim. mantenhamos a cabeça erguida! Tu te lembras do que cantavam os três meninos. estrelas do céu. colinas e montanhas e tudo o que verdeja sobre a terra. leãozinho de Deus. Celebrai e glorificai-O na eternidade! "Louvai o Senhor.ardia. cantemos também. Celebrai-O e glorificai-O na eternidade! "Louvai o Senhor. louvai todas as obras do Senhor. luz e trevas. . Celebrai-O e glorificai-O na eternidade! "Louvai o Senhor. chuvas e orvalhos. imita o meu exemplo! Mal terminou de falar. Pai Francisco? . . Celebrai-O e glorificai-O na eternidade! . Pai Francisco. ergueu-se: . neve e geada. alguém está sofrendo.Deixa que sofra . . começou a cantar com voz alegre e firme. há apenas um instante a tua mãe ficou reduzida a cinzas. Quanto a nós. batendo palmas! Ah. Conservou-se em silêncio. deixa que gema nas chamas. .acrescentou -. . Ardia. Ananias. Celebrai-O e glorificai-O na eternidade! "Louvai o Senhor. Irmão Leão. Reunindo as forças que lhe sobravam. Azarias e Mizael na fornalha onde os lançara o tirano da Babilônia? Façamos como eles. lua. louvai o Senhor! Louvai o Senhor. dias e noites. todos os espíritos do Senhor. Olhou as mãos.Sofres. e com ela o universo inteiro. lívidos. os pés e mordeu os lábios.

rios e torrentes e todas as águas que correm. Irmão Leão. Não é gládio nem balança.. . . Irmão Leão? Até hoje eu chorava. batendo no peito e clamando meus pecados a Deus.dizia. . Deus tem uma esponja e tudo apaga. Curvava-se e bebia-as com felicidade e reconhecimento.Não vês o sangue que escorre em cima de mim? Terei necessidade de sonhos.Tiveste um bom sonho. todos os pecadores salvos. . . . ele sentia-se mais leve e o coração lhe transbordava de certeza. apoiado ao seu travesseiro de pedra."Louvai o Senhor. onde estendia as mãos e recebia gotas de chuva. Naquela manhã. ? Apenas iniciei a frase.. e os pés. Seu rosto luzia como um seixo molhado. e muitas vezes me pedia para levá-lo até a entrada da cabana. batiam também.É a última esmola que peço . porque este último não é outra coisa senão a antecâmara do paraíso. Desde que o Crucificado Celeste o havia tocado.Cala-te . A chama que lhe devorava as feições transformara-se em luz. ao abrir os olhos. Nunca vi Francisco tão eufórico. Francisco fechava os olhos e escutava as águas do céu a escoarem sobre a terra. ao ver as palmas das mãos cheias de água. mares. Francisco tapou-me a boca com a mão.Não diminuas a grandeza de Deus. Mas hoje eu sei. Todos os pecados serão apagados. até o próprio Satanás e o inferno. Pai Francisco? Teu rosto resplandece.pediu. . Começou a época das chuvas. que não conseguia dominar. Queria dançar e não podia. nem de dia nem de noite. . Não saí mais do lado dele. fontes. enxerguei-o sorrindo. é uma esponja! E se tivesse de fazer o retrato do Senhor. Celebrai-O e glorificai-O na eternidade!” Sempre cantando e batendo palmas. .Mas então. havia de representá-Lo com uma esponja na mão.

. tiritando. Desejaste sempre com ardor ir rezar diante do Santo Sepulcro e nunca foste até lá.Banhado dessa alegria constante.Por que não a deixas vir? . Sorriu: .perguntava. Ângelo. Diversos irmãos haviam morrido como mártires nas florestas inóspitas da Germânia. E o caminho mais curto? A morte. Ruffino. não tens necessidade de ver para crer. Na Hungria. .Não tens pena dela? Tu lhe farias um grande bem. Bernardo. enquanto qualquer coisa dele subia ao céu.Qual é a estrada real que conduz ao céu? . Agora distinguiam-se nitidamente os dois elementos que o compunham. acusados de heréticos. os pastores soltavamlhes os cachorros e os aldeões os varavam com aguilhões.perguntei-lhe. . Junípero. . Os antigos companheiros prediletos de Francisco vieram de todas as partes saudar o seu mestre.É o desprezo dos homens. Contava entre os bem-aventurados aqueles irmãos que tivessem conhecido a alegria da perseguição e do desprezo dos homens. Nem tampouco tocar. na neve. Francisco ouvia com expressão radiante. o seu corpo definhava. despiam-nos e abandonavam-nos. Cada dia Francisco afundava um pouco mais na terra. Na França foram espancados. além disso.Pai Francisco . Dom Piero. Permite-me ir adorar os sinais que Ele deixou no teu corpo". a Irmã Clara dirigiu-lhe esta mensagem: "Tu foste tocado pela graça do Senhor.pedi-lhe um dia -. O círculo da tua vida não está completamente fechado. . .Que importa se não me foi dado ir até lá! O Santo Sepulcro há de vir ao encontro do pobre pecador que eu sou. trazendo notícias dos países onde tinham ido pregar o Amor e a Pobreza. não vás embora ainda. Fecha os olhos e me verás". A resposta de Francisco foi: "Irmã Clara. Masseu. Pacífico e o Padre Silvestre vieram vê-lo.

Porém. . Bem sabes que tudo o que sucede decorre de Sua vontade.os melhores são sempre os últimos chegou para se despedir. Os tempos mudaram. Aonde nos levas. ornamentada com afrescos.É justamente porque tenho pena dela que não deixo que venha. As presenças invisíveis não me podem contentar. onde os irmãos estudariam. o coração humano.Parece-me. Assim como todos os que me amam. Irmão Elias? . Irmão Elias. que seria provido de uma enorme igreja. Irmão Francisco. deves habituar-te. precisa habituar-se a me -ver sem o corpo. feito um cão acorrentado. Voltava de uma missão que lhe permitira amealhar muito ouro. E permitiste liberdades perigosas às antigas virtudes que constituíam os fundamentos da nossa ordem. Já lançara em Assis os alicerces de um vasto convento. Desviei os olhos para dissimular as lágrimas. Expulsaste a nossa maior riqueza: a penúria. .. que estás em vias de afastar os irmãos do bom caminho. Essas virtudes eram severas e puras. as virtudes. O lobo entrou no nosso rebanho e eu ladro em vão à porta da Porciúncula. lustres de prata e cadeiras delicadamente torneadas. Adivinhando os meus pensamentos. porém o Irmão Elias . e com o coração humano. discutindo e realizando conferências. Francisco colocou a mão na cabeça do irmão ambicioso. e eu sabia perfeitamente que quando deixasse de enxergar Francisco estaria perdido. com eles. fica tranqüilo. como antigamente. não faziam qualquer concessão à facilidade e ao bemestar. Tem confiança em mim. Acabo de tomar ciência de que recolhes ouro para a construção de mosteiros e que calças sandálias nos pés dos irmãos em lugar de deixá-los andar com a carne em contato com a terra. Deus me perdoe.Aonde Deus me impele. Tu também. Ademais. levo a ordem para o domínio espiritual do mundo. Irmão Leão. O conjunto devia abranger inúmeras celas e uma importante biblioteca. ele ia falar.

Ah. Passavam-se os dias. Quando Elias foi embora. Pacífico vinha dar a lição todas as tardes. . porque nele está a tua verdadeira boca e é por ela que deverias falar às criaturas humanas. Francisco acompanhava-o. Irmão Elias. Não sabes tocar? Eu te ensinarei. A música e a letra eram as mesmas. disse: . cantarolando baixinho a melodia. Celebrou primeiro a beleza da mulher. em seguida a da Virgem Maria.O sangue dos irmãos já começou a correr e a regar as sementes que semeamos. E eisme reduzido a ser apenas um cão que ladra. Seus dedos roçavam o instrumento de alto a baixo. se aplicava a passear os dedos pelas cordas.Pai Francisco.Vem todos os dias dar-me uma lição. dançar e cantar em louvor a Deus. pois. Elias beijou a mão de Francisco e saiu apressadamente para ir fiscalizar os pedreiros que construíam o convento em Assis. . Extraía sons graves ou agudos. Pacífico estava presente. tenho mesmo certeza de que Deus há de intervir. Agora não posso mais. Inclinou-se e mostrou-lhe as cordas. Estou. e tu não me metes medo. Irmão Pacífico. quando vivi não fiz outra coisa senão chorar. A auréola de luz se intensificava em torno do seu rosto e as concavidades das têmporas e da face se enchiam de fogo. Então Pacífico começou a tocar e a cantar. tranqüilo. Para que falar? Permite-me antes tocar alaúde. ouvia os conselhos do professor. se eu pudesse fazer a minha última oração tocando alaúde! Agora toca-me uma ária alegre para me reconfortar. acorrentado à porta da ordem. e Francisco. e Francisco. bom aluno. Como sempre fui tolo e ignorante. as palavras são insuficientes para conter o coração do homem. extremamente atento. Espero. .Tenho confiança em Deus e não peço outra espécie de consolo. só o nome mudava.

Um dia. Irmão Leão. . Deus o enviou aqui para que eu o protegesse. que . vais ver como bate o coraçãozinho dele. irmã Raposa . do qual não se fartava de admirar a beleza: "Irmão Faisão".Põe a tua mão. Estávamos falando em nosso Pai. Nunca falara assim com um homem. se chama Irmão Leão e o meu nome é Francisco de Assis. apavorado. enquanto perambulávamos sob os carvalhos do Alverno. Na certa uma raposa o perseguia. Francisco aproximou-se dele e começou a falar-lhe tranqüilamente e com doçura. Uma ocasião. Desde então o coelho não deixou mais Francisco. Francisco dirigiu-se ao animalzinho com tanta ternura que fiquei assombrado. "levanta a cabeça e agradece a Deus por te ter feito tão belo". o animalzinho permaneceu enroscado a seus pés. Este homem. um coelho-do-mato. no inverno. como a um amigo: "Irmão Lobo. surgiu um lobo famélico à nossa frente. disse. Peço-te perdão. abrindo as asas. mas impedirei que o comas. dizia-lhe. E a ave. pois de longe ouvimos o grito penetrante da fera. e durante os poucos dias em que este último travou combate com a Morte. que treme de medo porque não te conhece.Ficou contente ao constatar que aprendia depressa e em breve iria poder falar a Deus e aos homens tocando alaúde. Todos os bichos amavam Francisco porque adivinhavam o amor que ele lhes devotava. pavoneava-se ao sol como um fidalgo. buscou refúgio em seu hábito. "queremos tua licença para passear sob tuas árvores. tremendo e recusando qualquer alimento.disse -. Ofereceram-lhe um faisão de presente. grão-senhor da floresta".

Se quiser outros títulos nos procure http://groups.com/group/Viciados_em_Livros. como refresca as nossas entranhas! com que perfeição o corpo humano se adapta à terra e a alma.A bondade divina é infinita. . não há sexta-feira que valha quando se trata do Natal.Irmão Morico . tagarela. Ao ouvir a voz serena de Francisco. o fogo e a água. Se as paredes pudessem comer carne. eu lhes daria Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras. porém. depois em rio que desce ao mar a cantar! À sua passagem.2também é o teu: falávamos em Deus. Acima de tudo. o nosso irmão fogo chega mais perto. transformando-se em regato. Peço-te. não interrompas a nossa santa palestra". gostaria de cantar e dançar. benevolente. convidou-o a sentar-se à mesa perto dele. Francisco amava a luz.google. irmão Lobo. Certo ano a data caiu numa sexta-feira. a água! Corre. o lobo afastou-se docilmente e deixou-nos passar. será um prazer recebê-lo em nosso grupo. quando o sol nasce e distribui a sua claridade conosco. Ele preferia o Natal a todas as outras festas importantes. . a Deus! Quando penso em todas essas maravilhas. não me é suficiente falar e andar. Ora sobe à lâmpada para nos iluminar. E a água! Que milagre. lava e purifica tudo! Quando sentimos sede. Estamos rodeados de prodígios! De manhã. 2 . quando ele se põe.disse-lhe -. Irmão Leão .repetia-me sempre. Como um dos novos irmãos recusasse comer carne nesse dia. ora se instala na lareira para nos aquecer. já reparaste com que ardor cantam os pássaros e como o coração dos homens palpita no seu peito? Notaste como as pedras e as águas riem? E à tarde.

Meu irmão . dando-lhes de comer. Tomou logo um naco de carne e esfregou as quatro paredes da Porciúncula com ele. .Tudo se fará segundo os teus desejos. .Às tuas ordens. um boi e um jumento iguais aos de Belém. .respondeu Dom Belita. porque nesta época do ano a terra fica coberta de neve. em tua companhia. Ele tinha na cidade um bom amigo piedoso. e até as horas. Queria que me fizesses o favor de enviar para lá. . Aliás. . os que possuem bois e burros nos seus estábulos seriam obrigados a lavá-los com água morna. Se o rei fosse meu amigo. embora não possam comer.Verei pela última vez o Menino Deus agitar os pezinhos no presépio. Pois Cristo nasceu. este ano. Dom Belita. impaciente para celebrar a grande data cristã. Pai Francisco . Depois tornou a sentar-se.acrescentou -. tenho uma grande vontade de comemorar a noite santa do Natal. vou satisfazer-lhes o gosto. contente. deveriam abrir as portas aos pobres. e com Ele a dança. a fim de alimentar os nossos irmãos pássaros. Existe uma vasta caverna na floresta vizinha.Se o rei fosse meu amigo . Francisco contava os dias.para que festejassem também o nascimento de Cristo. além de fornecer ração dobrada.explicou Francisco -. pobre pecador que sou. a alegria e a salvação! Era dezembro e o Natal se aproximava. Porque este é o meu último Natal na terra e eu gostaria de presenciar a simplicidade em que Cristo nasceu para salvar os homens e para me salvar. e este acorreu apressadamente à Porciúncula. Isso por amor a Cristo. . .anunciou. e eles não têm o que comer. Mandou chamá-lo. havia de lhe pedir que ordenasse a todo mundo que espalhasse trigo pelos pátios e pelas ruas. que nasceu numa manjedoura. nestes dias de festa. na véspera da Natividade. Quanto aos ricos.É o meu derradeiro Natal .

a pele bronzeada pelo sol. observando o que se passa lá dentro. com as faces cobertas por uma penugem loura. o outro. Chegaram: um era velho.Irmãos pastores . ajuda-me a celebrar o meu derradeiro Natal com alegria e recolhimento! Chamou Egídio: . Preciso falar-lhe". . Louvado seja o Senhor. . Encarregou Junípero de ir buscar dois pastores na montanha. . não terão nada a fazer além de permanecer à entrada.confiou-me. esqueceu-se de seus sofrimentos e inquietações para se consagrar aos preparativos da festa. Representarão os pastores em contemplação diante de Jesus que acaba de nascer.dizia-me -. de baixa estatura.vou ver a Crucificação. Não precisam ficar com medo.Irmão Egídio.vou ver o nascimento de Cristo disse-me Francisco alegremente.Escolhi-a por se chamar Agnes. que ainda me dá forças para fruir o ciclo completo: Natividade. . apoiados em seus bordões. ainda vigoroso. Em seguida poderei morrer. Arranja também um bordão para te apoiares. depois a Ressurreição. vocês levarão os seus carneiros à gruta que Dom Belita lhes mostrará.Será ela quem fará a Virgem Maria .recomendou-lhes Francisco -. Mandou dizer à Irmã Clara: "Que a tua Irmã Agnes venha me ver. tu serás José.Beijou a mão do santo e saiu. na noite de Natal. adolescente. . .Irmão Leão . Crucificação e Ressurreição! A partir desse momento. . Terás apenas de colar um pedaço de algodão no queixo para teres uma barba branca.

Francisco baixou a cabeça e entrou. para representarem os anjos e segurarem cueiros e fraldas cantando: "E Ela deu à luz o Seu primogênito. que alegria imensa acaba de ser concedida aos homens! Vocês se dão conta daquilo a que vamos assistir? O Menino Deus! A Virgem Maria amamentando o Senhor! Os anjos descendo do céu e cantando hosanas! Irmão Pacífico.Meus irmãos. À meia-noite.Depois pediu-me para ir buscar alguns jovens noviços na Porciúncula. Dom Piero. seguidos por alguns irmãos. havia um boi e um . Os camponeses das aldeias vizinhas se reuniram na floresta e os seus archotes iluminavam as árvores. Na noite passada sonhei que a Virgem Maria depositava o Menino Deus nos meus braços. seguido por todos os irmãos. Irmão Pacífico os acompanharia ao alaúde e o Padre Silvestre celebraria a missa.Não posso conter a minha alegria. entre os quais Bernardo. Dom Belita mandou dizer que estava tudo pronto e que podíamos ir. que felicidade. Ao fundo. O ar estava gélido e o céu. dá-me esse prazer. estacou: . Irmão Leão. Repara como caminho direito! Não sinto mais dores nos pés. enrolando-O nos cueiros e deitando-O numa manjedoura". levando o alaúde a tiracolo. enrolando-O nos cueiros e deitando-O numa manjedoura". Curvou-se e segredou-me ao ouvido: . de uma grande pureza. Francisco andava em passo de dança. Na véspera de Natal. A gruta já estava cheia de gente. junto da manjedoura guarnecida de palha. Masseu e o Padre Silvestre. As estrelas desciam e quase roçavam a terra. toma o teu alaúde e canta: "E Ela deu à luz o Seu primogênito. pusemo-nos a caminho. Cada um de nós tinha uma por cima da cabeça. Pacífico caminhava ao lado de Francisco. De repente.

Francisco fez uma volta completa de gatinhas.Pai Francisco . Os aldeões correram para fora com os archotes e começaram a revistar a floresta à sua procura. levando o recém-nascido. com o rosto voltado na direção de Belém. Deitamo-nos de bruços no chão. Francisco levantou-O bem alto em frente às tochas acesas e exclamou: . Enquanto isso. a fim de tocar no Menino Jesus. uma claridade azulada iluminou a manjedoura e todos puderam ver Francisco inclinar-se. . brandindo os archotes. brilhava e dançava no Oriente. paz na terra aos homens de boa vontade!". a manjedoura ficou novamente envolta em trevas e percebeu-se que Francisco havia desaparecido. No dia seguinte horrorizei-me com o seu aspecto. sempre balindo. mas um feixe de ossos coberto de farrapos. que lia o Evangelho. os camponeses se precipitaram sobre ele. Nesse momento. O Padre Silvestre parou na frente do berço divino como se estivesse diante de um altar e começou a rezar a missa.pedi-lhe beijando-lhe as mãos -. a estrela da manhã. maravilhados com o milagre. . Os aldeões. segurando um recém-nascido nos braços.Meus irmãos. depois levantar-se. gemeram. solitária. sorrindo e agitando os pés pequeninos. porém. O dia nascia. mas em vão! O céu começava a clarear. Tinha os lábios roxos de frio. extasiados. Mais tarde encontrei Francisco à porta de sua cabana. Já não era um corpo. na sua exaltação. eis o Salvador do mundo! Então. deixa-me apanhar lenha para acender o fogo.jumento. atingiu esta passagem: "Glória a Deus nas alturas. Ergui a cabeça e vi o menino estender os bracinhos e acariciar a barba e as faces de Francisco. ruminando tranqüilamente. e quando o sacerdote. Depois.

À proporção em que o tempo passava. mais as chagas o faziam sofrer.Estou preocupado com os irmãos que foram pregar . vem e acende a lareira. Levantava a cabeça. a expressão sempre cheia da mesma beatitude: . .exclamei -.dizia-me . . está fazendo um frio terrível.ele sofre. quero tremer de frio junto com ele. estou doente!” Uma manhã encontrei-o completamente nu. falou-lhe docemente como a uma criança: "Irmão Arganaz.. Espero um mensageiro que me traga notícias..em todos os meus irmãos que têm frio pelo mundo afora.e mostrava-me o peito.Pensei . se encontrares fogo em todas as cabanas e em todas as pobres palhoças. batendo os dentes . as mãos e os pés.Ele sofre. castigo-me tendo frio com eles. estou doente! Irmão Arganaz.respondeu. . conjuro-te em nome de Deus: vai-te embora. Um arganaz veio me visitar e distrair um instante. Agora espero.Dá a volta ao mundo . .e. . Enquanto houver um só homem tiritando de frio sobre a terra. Como não os posso aquecer.Este aqui! . .respondeu . tiritando no seu enxergão. Acordado em sobressalto.disse-me no dia seguinte. mas era um bom arganaz. olhava para mim.Penso neles o tempo todo. um arganaz entrou na cabana e começou a lamber e morder os pés ensangüentados de Francisco.Quem? . pedi-lhe que partisse e obedeceu imediatamente. . para resistir à dor.Pai Francisco . . Encontrei-o várias vezes cerrando os dentes. Uma noite. dobrado em dois. por que te despiste? ..

Não te zangues. descalço. acalmouse aos poucos e terminou lançando-se nos braços de Junípero. Deus criou os porcos a fim de serem comidos pelos homens. encontrou o camponês. O aldeão. Agora o meu irmão está passando bem. "Estás perdoado". Por acaso não somos todos irmãos. ouve. fui eu que cortei a pata do teu porco. gemia. "Ah". reza pelo dono do porco e pede a Deus que lhe perdoe os pecados. apareceu no limiar. irmão. replicou Junípero. não te zangues. trouxe-lhe um pé. e no entanto alegre. procurando até encontrar um porco que se alimentava de bolotas. Durante os anos heróicos do início de nossa confraria. Francisco repreendeu-o: "Não sabes. corri à floresta. Francisco riu com gosto: "Se tivéssemos". pelo amor de Deus. disse-lhe. correu de volta à Porciúncula. pois. encontrei um porco. Cortou-lhe um pé. a princípio indignado. lançou-se em seus braços e disse: "Meu irmão. filhos de Deus? Fizeste uma ação piedosa e eu te ajudei a realizá-la. não tenhas medo.Mal terminou de falar. coberto de feridas. Certo dia. Vem. abraça-me". e dá-me um abraço. Junípero se precipitou ao bosque vizinho. Um doente gritava: Só me curo se comer um pé de porco! Então tive pena dele. não recomeces!” Quando Junípero contou o fato. Junípero. cozi-o e dei-lhe de comer. Ao tomar ciência do furto. um irmão ficou doente.” Percorreu o bosque. "Mas o coitado do guarda dos porcos chora e lamenta-se. muitas vezes nos fizera rir com as suas brincadeiras. exclamou. buscando o culpado por toda a floresta!" "Pois bem. febril. "se eu tivesse um pé de porco para comer!" Sem esperar. que não devemos tocar nos bens alheios? Por que fizeste isso?" "Esse pé de porco satisfez tanto ao nosso irmão que não sentiria o mínimo remorso mesmo que tivesse cortado o pé de cem porcos". cozinhou-o e serviu-o ao enfermo. "um bosque de juníperos como este!” . "mas. Irmão Francisco. vou ao encontro desse homem e hei de tornar-me seu amigo. um dos nossos irmãos mais ingênuos e estimados.

conduzidos por um padre que trazia um Evangelho encadernado em prata e um hissope. Era só o que eu esperava. Afinal. ocupando uma extremidade.Venho de Rimini.Eu te abençôo. ficaram contrariados. disse-lhes. . vociferaram fora de si: "Esse aí não é um santo. Enxugou a boca com o dorso da mão e começou assim: . No entanto. E balançamo-nos os três. no mínimo me tomaram pela tua santidade. Desci então da gangorra e prossegui no meu caminho para Rimini. Corri até elas: "Meus filhos". Nisso consiste a verdadeira humildade. e cada uma. Irmão Junípero. eu não estava com a menor intenção de abandonar a gangorra. pois seus olhinhos rutilavam. acorriam e se comprimiam ao meu redor para beijar a minha mão. . ao me aproximar de uma aldeia perto de Rimini. Vendo que eu brincava. então. É preferível que nos tomem por loucos a nos tomarem por santos. "brinco com vocês. se balançava. rindo" às gargalhadas. Como se eu pudesse fazer tal coisa! Eu punha a mão na cabeça deles como tu fazes. porque os camponeses. Sentem os dois de um lado que eu me coloco no outro". é louco! Vamo-nos embora!”E partiram. Um dia. homens e mulheres. . Pai Francisco. Também traziam doentes para que eu os curasse. Que pensas que fiz? Duas crianças brincavam de gangorra: tinham posto uma viga atravessada noutra. O que vi e sofri até chegar lá foi indescritível! Nas aldeias.Decerto agora trazia-nos uma mensagem importante. depois de aguardar um bom tempo. esperando que eu me dignasse a acabar com a brincadeira para receberem a bênção e fazer com que eu curasse os doentes que haviam transportado até lá. Finalmente chegaram os peregrinos. . soube que o povo se pusera a caminho para me acolher. Francisco começou a rir. porém só pensava em escapar àquela horda que se lançava em cima de mim para me beijar os pés.

tornou-se um santo! Um santo. e um grande milagre também! Se não o tivesse presenciado com os meus próprios olhos. ao largo. molhou os dedos no mar e fez o sinal-da-cruz. os olhos semelhantes a dois buracos negros. Então Antônio levantou a mão. atrás os médios. Irmão Junípero? . sapos do mar. Assim como tu.E que fizeste em Rimini.. Vocês se lembram de um noviço de cara pálida que esteve conosco na Porciúncula. Em seguida. Percas. meus irmãos. não teria acreditado. Vendo-o com os seus próprios olhos. esse nobre elemento. andorinhas do mar. que sei eu!. entrou na água até os joelhos e começou a gritar: "Meus irmãos. tubarões. . os grandes. Alguns vinham de muito longe. muito. abençoou-os e se pôs imediatamente a pregar com voz forte: "Meus irmãos peixes. as faces cavas. outros subiam das profundezas. . linguados. em nome do Nosso Pai do céu.. pargos. Todos punham a cabeça fora d’água para escutar. magro. conjuro-os a vir escutar a palavra do verdadeiro Deus!" No mesmo instante o mar se agitou. acreditem. é fresca. chamado Antônio? Pois bem.perguntei. Vocês não o reconheceriam de tanto que mudou. Alto. . Pai Francisco. Uma multidão numerosa se mantinha atrás dele. formada na maior parte por heréticos. Os menores à frente. peixes do mar e do rio. peixes-espada. e mais longe. as mãos tão longas e ágeis que davam quase duas vezes a volta ao seu bordão. peixes caçadores apressavam-se para a margem. muito. peixes de espuma. . Antônio se inclinou. peixes-agulha. . Parou no local onde o rio se joga ao mar.Sim.. dourados. Que dons Ele concedeu a vocês! Quanta riqueza possuem! A água. . o rio transbordou e os peixes começaram a se reunir. ele pregou aos peixes em Rimini. . sim! E opera milagres. aos quais repetira muitas vezes em vão: "Acompanhem-me até o mar e provarei que o Deus que proclamo é o único verdadeiro. Vi com os meus próprios olhos. chamei-os a fim de louvarmos juntos o nosso Pai do céu. hão de acreditar!" Eu também estava lá. que Deus me perdoe. bogas.Deves ter muita coisa para contar. pregaste uma vez aos pássaros.

Os assistentes. E mal chegados. Que cores.. vocês podem subir à superfície e brincar na espuma. é o sol que se levanta. não quer que a sua espécie desapareça. porém não ouvi -. Luzia e agitavase feito um peixe fora d’água. Estou extenuado. perdi a luz. graças aos milhões de ovos que põem. onde reina uma paz imutável. Deus os ama infinitamente. Esse outro é jovem. O mar e o rio ficaram brancos de espuma. Uma vez que os peixes te escutaram. depois de o terem abrigado três dias a fio.é bem capaz que tenham cantado algum salmo.Irmão Antônio .exclamou Francisco. Ergam a cabeça.pura e límpida. os homens. . Vão em paz!" Os peixes abriram a boca. vocês sulcavam calmamente as águas encapeladas. sê bem-vindo! Faço votos que chegues aonde não consegui chegar. meus irmãos peixes! Durante o dilúvio. E quando o profeta Jonas caiu no mar.. não fazer o mesmo? Toma a dianteira e conduze-nos". e agradeçam ao Senhor. trouxeram-no para a margem. Com Antônio caminhando à frente. já não sirvo para nada. e foram embora. mas outro acaba de nascer. chegamos a Rimini em triunfo. com a cauda ereta. podem refugiar-se nas profundidades. Morro. Quando a tempestade troveja. Saudemo-lo! Estendeu os braços na direção de Rimini: . que leveza e beleza o Senhor lhes deu. mexeram os lábios . perdoa-nos. meus irmãos. emocionado. Vocês são o mais belo ornamento da água. como poderíamos nós. bradando: "Tens razão. A semente de Deus sobre a terra é imortal. Irmão Antônio. lançaram-se aos pés de Antônio. sou o sol que entra em ocaso. e. A longa narrativa deixou Junípero transpirando. Quando o sol brilha no mar sereno. cheio de força.disse -. entramos no bispado para glorificar o Senhor. de alegria e de fervor. . E agora recebam a minha bênção. cheios de medo. assim. durarão eternamente. enquanto os animais terrestres se afogavam. alegres.Louvado seja o Senhor! .

Junípero me fez sinal. De vez em quando. saiu. No meu coração misturavam-se a alegria e a amargura. Arrumou-a na lareira e acendeu o lume. lançávamos um olhar ansioso a Francisco. Eu também sofro frio e fome com ele. Já há algum tempo recusa-se a aquecer o corpo. Irmão Junípero. oferecendo-lhe primeiro as costas. Sentados diante da lareira. por levares uma vida tão dura.A gente não pode prestar atenção a tudo o que ele diz aconselhava-me Junípero. . A chama dardejou.cochichou. nada percebera. faço o possível. Como podes resistir? . Contemplei-o com uma ternura indizível.Mas ele não deixa. .Eu te admiro. Aproximei-me avidamente do fogo.. remenda-lhe o hábito às escondidas. não o deixes definhar. absorto em seus pensamentos. e reapareceu em breve com uma braçada de lenha. sobretudo. contentes.Finge que não entendes e acende o fogo de noite. as mãos e os pés.Que ralhe! Enquanto isso se aquecerá um pouco. Não acende o fogo. .vou buscar lenha para acender o fogo . Aproximei o ouvido de sua boca: . Agora me envergonharia de retroceder.Não posso. . enquanto ele dorme. porém é por amor-próprio e não por piedade. . Dizendo isso. que. Irmão Junípero. dá-lhe de comer. depois o estômago. Irmão Junípero.Vergonha de quem? . Junípero e eu ríamos à socapa. . . iluminando a cabana. . Onde encontraremos outro guia como ele para nos conduzir ao paraíso? . . Mergulhado no êxtase. não escutava nem via mais nada ao seu redor: estava longe.Mas ele não vai querer. Irmão Leão. Ralharia conosco.Ficamos calados. O calor me invadiu até a medula. . .

espalhaste a maior confusão com o teu pretenso amor a Deus. Sorri: . é um pecado desdenhá-las. todo o segredo reside em conciliar o dever e o interesse. . Irmão Leão. diz. apóstolo do Amor . Ele se virou. apaguem! . que queres que eu te diga? Emprego bem o meu tempo. a minha oração não sai exclusivamente do meu coração.insistiu.Irmão Junípero. . Assim. de Francisco. As palavras de Junípero foram-lhe direto ao coração.Pai Francisco. por que o queres matar? Não sentes pena dele. tu que tens dó da terra que pisas? Também é filho de Deus. das minhas mãos. dos meus pés aquecidos e de todo o meu corpo.Deus criou todas essas coisas boas para os homens.Pobres de nós se fosses o nosso guia. quando rezo e agradeço ao Senhor. abraçando os joelhos de Francisco -. de comer um bom prato nos dias de festa. é o nosso irmão fogo. . graças a Deus. digamos. não me mates!” Francisco calou-se. beber um gole de vinho e dormir num colchão macio? .De todo mundo: de Deus. "também sou uma criatura de Deus.disse rindo -. Junípero ia retorquir quando vimos Francisco agitar-se de leve. de mim mesmo. mas também do meu estômago. Virou-se para a lareira: . celerado . Escuta como grita! Estás ouvindo? "Irmão Francisco". Prendemos a respiração com o coração a bater. Quanto a mim.disse Junípero. mas iríamos diretamente para o inferno. e é por nos querer bem que veio se instalar na lareira.Como é que não te dá vontade. .. Irmão Junípero! Estaríamos bem nutridos. viu o fogo e começou a gritar.Quem acendeu o lume? Tragam água depressa.

podes te libertar.. Francisco me empurrou com o pé: Levanta-te. perdoa-me.Só pensas em comer . Já te fiz sofrer demais. Será que com o homem acontece o mesmo? Será que para rezar e cantar é indispensável comer? . anda! Eu também destruí as minhas! Ampara-me para que eu não caia. impossível recuar.O que dizes é verdade unicamente para os que não crêem em Deus. a fim de se aniquilar sob os seus raios. perdoa-me. .Então. .Irei para onde me levares . O enxame de estrelas já se afogara na vaporosa claridade matutina. Estou com vontade de morar ali. não voltes mais. sorrindo.As aves. Realmente me fizera sofrer muito. Dizendo isso.respondi.replicou Francisco. Mas. No nosso . . exceto.Meu irmão fogo. Não se ouvia ainda nenhum grito de pássaro. Serás capaz de abandonar este conforto para me acompanhar? Suportarás a sua privação? Mede as tuas forças. . Na madrugada do dia seguinte. Agora vamos para San Damiano. . Fazia um frio cortante. Lá há uma cabana de troncos ao lado do convento. Irmão Leão! Estamos muito aquecidos e refestelados aqui. . podes me deixar quando quiseres. o canto de um galo. muito longe. . Somente Vênus esperava alegremente o sol. não encontram nada para comer comentei -. leãozinho de Deus. Caso contrário. durante o inverno. mas fora por excesso de amor. por isso não cantam. por favor. não te escorraço de nossa humilde casa. ergueu-se e foi sentar-se longe do lume.Destruí todas as possibilidades de fuga.

sem ruído..exclamou Francisco. . Irmã Clara adiantou-se em primeiro lugar. os ofícios matinais. irmã cotovia! . queria morar perto de vocês durante alguns dias. o oposto é que é verdadeiro.Que felicidade! . à janelinha da capela e paramos ali para ouvir o cântico das doces vozes femininas. a cotovia. . Ao passarmos à sombra de um pinheiro copado. Avistando Francisco. . Dá-me a tua permissão. e tomando a mão ensangüentada de Francisco banhou-a de lágrimas. e as lágrimas corriam de seus grandes olhos. vestidas com os seus mantos brancos. madre superiora. A oração substitui os alimentos. um passarinho.murmurou.caso. e as irmãs. dirigiram-se para o claustro. O dia nascia e o Oriente se tingia de vermelho. Pai Francisco. . e é graças a ela que nos saciamos.A luz. Quando chegamos ao convento. sentindo a luz nas pálpebras fechadas. . agitou as asas para se desentorpecer e lançou-se a cantar pelo espaço.. começaram a soltar gritos de júbilo. A missa terminou. . com a voz sufocada de emoção. Vamos para San Damiano.bom dia.Irmã Clara. as noivas de Cristo acordando cedo para glorificar o Bem-Amado!. . . como pombas esfaimadas ao ver grãos de trigo. . . Irmã Clara olhava Francisco. vem conosco! A ave surgiu de baixo dos ramos.disse Francisco. com os olhos turvos de lágrimas. as irmãs estavam ainda nos ofícios matinais. de habitar a cabana de troncos ao lado de teu convento.Pai Francisco. começou a trinar. . antes de ir embora.saudou Francisco. Distingo a voz de Irmã Clara. Dirigimo-nos.O seu San Damiano é o céu . . porém.

Duas freiras se ofereceram para preparar a cabana. porém.Que mais posso desejar. à tarde. Da testa. Não tens mais que ordenar. pegando-lhe pelos braços. Dize-lhes que não necessito nada. Irmã Pica.Mãe. Irmão Leão? Tenho tudo! Fechou os olhos.recomenda às irmãs que não me venham ver. resplandecia de felicidade. Trouxeram-lhe um cobertor. os pés e as mãos de Francisco estavam roxos de frio. Tentou em vão levantar-se. abriu os olhos. saíam chamas. . Depois as irmãs se retiraram e ficamos sós. calmamente.declarou. Irmã Clara pusera um colchão cheio de palha e um travesseiro fofo em cima de uma esteira. A mãe de Francisco apareceu. . do convento e de todas as irmãs.falou -. de todo o corpo. As vigílias e o jejum tinham empalidecido o seu rosto.Irmão Leão! . . . Extenuado. Francisco colocou a mão nos seus cabelos grisalhos e abençoou-a: . dispõe de tudo: da cabana. levaram-no lentamente até a cabana. Francisco se sentou debaixo da janelinha do coro e esperou.Tragam-me uma vassoura.Desejas alguma coisa? . Quero apenas ficar só. Então duas freiras acorreram e. .Pai Francisco . ao ouvido. Ajudamos Francisco a se deitar. . . Delirou a noite inteira. contemplava-o com os olhos transbordantes de dor e de orgulho. A mãe. fazendo-me um sinal de despedida. Os lábios.vou eu mesma . murmurou mãe. Curvou-se e beijou os dedos de seu filho.perguntei-lhe baixinho. uma bilha de água e a jarra de flores que se encontra em minha cela. . retirada a um canto do pátio. No dia seguinte. nem fogo nem comida.exclamou . . ele e eu. mas Clara as mandou embora. Havia emagrecido muito. . porém ele o rejeitou. E também o pintassilgo que o bispo nos deu outro dia. das mãos. .. .

. Tem o Diabo no ventre. . após um silêncio.Quando perder o medo e começar a cantar. . imortal.A Morte. Irmã Clara! Ela suspirou e baixou a cabeça.Ele cantou ontem? .murmurou. Pôs a sua mão ardente na minha. Nada respondi. . joga-o fora. . A gaiola já estava aberta e sua alma pronta a partir na direção das almas que cantam. . e tem pressa que chegue: a Ressurreição. decerto estava com medo.Queres dizer: a Morte? . abafando os soluços para não atrair a atenção de Francisco.Que podemos fazer. Irmã Clara. só espera uma coisa. talvez Pai Francisco não queira morrer tão depressa. Diz que terminou a sua ascensão.Pegou o travesseiro e atirou-o longe. No cume. meu companheiro de viagem. .Irmão Leão. . .Não. simplesmente não quer. Agora.Mas ele não quer ficar vivo. um canto muito mais doce. Irmão Leão. Irmão Leão? Que podemos fazer para lhe conservar a vida? . . Irmã Clara veio à minha procura.Leva-o. Irmã Clara. Sentei-me no limiar da cabana e comecei a chorar. Não me deixou dormir a noite toda. encontrou a Crucificação. -. que vinha de um lugar bem mais alto que as nuvens e as estrelas. pois sabia que um outro canto o fascinava. perdoa-me. Está crucificado.O pintassilgo talvez o ajude a viver ainda um pouco comentou. meu companheiro de luta. Prefiro uma pedra. E fechou os olhos.

chamou-me.” Caiu no colchão e pareceu acalmar-se. e que assim. delirava sem cessar. ordena! . perto de ti. indaguei.Estou aqui.Irmão Leão! . De vez em quando levantava-se bruscamente do colchão.Tens uma pena e tinta contigo? .Sou todo ouvidos. virou-se para mim e disse: . onde estás? Não te vejo. perfurar-me.Sempre tenho.Irmão Leão. regresse cantando ao Seu eterno juncal. Fecha os olhos para não chorares ao vê-la desaparecer. . Pai Francisco. atemorizado por presenças invisíveis.Escreve! A pressa de ditar antes que a visão desaparecesse fazia-o tremer. Mas enquanto me levantei para apagar o lampião que lhe fatigava a vista.No terceiro dia a sua febre aumentou. Socorro! Escreve! "O Arcanjo negro me tomou pela mão. Pai Francisco. sobressaltou-se de novo: . De repente. quase de manhã. Aonde vamos?. . .” Após curta pausa.Escreve! "Sou um junco que verga ao sopro de Deus. Tinha as faces vermelhas e os lábios ressequidos. Espero que a morte venha ceifar-me. comprimido entre os lábios do Senhor. Pai Francisco. ordena! . continuou: . transformando-me num pífaro. num grito que era quase um urro. Pôs um dedo na boca: Deixamos a terra.

A terra é bonita demais. perguntou. Que procuras. és tu que possuis o meu coração.Ainda estás aí.Escreve! Onde estás. Abriu a porta: surgiu um pequeno pátio com um vaso de manjericão e um poço. Eva se aninhou no peito do esposo e. Sem dúvida enxergava Eva fazendo esse gesto de ameaça. é um lírio. esse sangue? Não é uma cruz. Ao lado do poço. povoada de terror. Porém parou bruscamente e se desfez em pranto. subia da terra e descia do céu.” Os olhos lhe ardiam. Irmão Leão? Escreve! "Quando o arcanjo expulsou Adão e Eva do paraíso. Eu aguardava com a pena na mão. A primeira ave-do-paraíso já fez a sua aparição. no céu. Ele erra na direção que lhe indicas. A leviana! Passemos adiante rapidamente! Apareceu um carpinteiro do interior de sua oficina. era primavera. Teve medo. eles se sentaram numa pedra em silêncio. esses pregos.Soltei as velas. estava uma jovem cosendo a roupa de um recém-nascido. O arcanjo parou no limiar e os seus olhos se encheram de lágrimas. Atrás de mim. Irmão Leão? Escreve! "Quando o Arcanjo Gabriel desceu à terra.. Aqui é Nazaré. Onde fica a casa de Maria? A casa de Maria? O carpinteiro se pôs a tremer. Soprava um vento glacial. À noite. . e por cima. E quem te envia? Deus! Foi como que uma punhalada no coração do carpinteiro. "Senhor.” . pensou. Oh! Estou perdido!. brandiu o punho recém-nascido e disse: O Velho não levará a melhor sobre nós!” Francisco começou a rir. . O sol tinha se posto. quando se sentiu aquecida. pensou. todo o corpo estremecia. meu filho?. à frente: a imensidão negra. Que cruz é essa que trazes. sem limites. como se fosse um foguete: a Estrela do Norte. a terra coberta de vegetação.

. Que podia responder? Estava escandalizado diante da insolência com que o coração do homem se dirigia a Deus. sou o coração do homem!” Ofegante. Apanha a pena e escreve.Que tal te parece. o coração do homem é de uma insolência sem limites. Mas no mesmo instante um pintassilgo de unhas vermelhas pousou no seu ombro e começou a gritar: Não existe repouso nem tranqüilidade. sim. leãozinho de Deus . descansemos um pouco! E ordenou ao sono que viesse. Irmão Leão? Fiquei embaraçado. apaga. não durmas. mas Deus o criou assim. não durmas! Ficarei dia e noite no teu ombro a gritar: Não existe repouso nem tranqüilidade. Se já escreveste.Infeliz Maria. Foi o Maligno que falou pela minha boca. Adivinhando o meu pensamento. Não quero levá-la comigo para o túmulo.Irmão Leão . As suas próprias palavras lhe infundiram medo. murmurou. . por favor.com os olhos cheios de lágrimas como o arcanjo. Francisco sorriu.disse -. depois de lavar as mãos sujas de barro. Francisco suspirou: . . . Não te deixarei dormir. Estou cansado.disse em tom súplice -.Ainda resta uma pequena canção no meu coração prosseguiu. . não escrevas o que acabo de dizer. Desejou que fosse tal como é. infeliz mãe que sofrerá a Morte! Se o pranto da humanidade inteira corresse no mesmo caudal durante um ano formaria uma torrente que tragaria a Tua casa. insolente e indócil. . sentou-se à sombra de uma árvore do paraíso e fechou os olhos. "Quando Deus criou o mundo. Porém és onisciente e as lágrimas correm uma a uma. .Sim. Senhor. Francisco caiu no colchão.

contemplava-o demoradamente.Já chegamos? Tornou a escutar. os olhinhos redondos a fixar a luz do exterior. Eu dormia a seus pés. . Então.13 Nunca até então o seu corpo sofrera tanto como durante aqueles poucos dias em que permanecemos em San Damiano. Um dia em que os seus ouvidos já não lhe zumbiam.perguntou-me. Irmão Leão. Calava-se de repente e começava a bicar furiosamente as grades da gaiola. observar o filho através dos ramos do teto. Às vezes notava um pardal empoleirado numa árvore. Dona Pica vinha. O esforço e a fadiga do canto lhe avermelhavam o bico: estava inebriado. Logo aos primeiros clarões da aurora. E retomava o canto. às escondidas. até que. voltava para a sua cela. esforçando-me ao máximo por conservá-lo ainda na terra.Ah. E nunca tampouco a sua alma mergulhara em tão profunda beatitude. a garganta intumescida. com a expressão marcada por uma intensa felicidade. boquiaberto e de olhos presos à gaiola. As chagas já não sangravam. ficou ouvindo. em silêncio. mas no íntimo o mal o minava sorrateiramente. . o desejo de liberdade se tornava imperioso.É uma ave-do-paraíso? . cada vez mais feliz. pousando outra vez no junco que lhe servia de poleiro na prisão. punha-se a cantar. Dos olhos lhe escorriam ainda sangue e lágrimas. A própria . . com a mão diante da boca. se soubesses o que ele está dizendo! exclamou com alegria. . Depois se acalmava. Durante muito tempo. ouviu o pintassilgo.Que prodígio se esconde naquele peito pequenino! O pássaro se habituara conosco. velando por ele.

perguntou-me. Apoiou um ao ombro e serviu-se do outro à maneira de arco. Não há vida cotidiana sem milagre! Noutra ocasião. . Arregalou os olhos na direção da porta aberta e soltou um grito. Nas mãos de Francisco.suspirava .Irmã Clara velava freqüentemente a soleira de nossa cabana. Francisco se entregara ao canto. com uma expressão de infinita alegria. por favor.Pensei nisso a noite inteira. . Mas aos poucos os meus ouvidos se acostumaram. Como o pintassilgo. tocaria alaúde para mim! Ele não se enganou quando me disse que o alaúde é a boca angélica do homem. um grito que continha . de olhos fechados. . . enquanto tocava o seu violino.Todos os pedaços de madeira são alaúdes e violinos . enlevado. É assim que os anjos certamente falam no céu. Sentado no leito. a cabeça jogada para trás. Vai me buscar dois pedaços de madeira. Todos têm uma voz para louvar o Senhor. . Não ousava entrar. alegre e lancinante ao mesmo tempo.Escuta! A princípio ouvi apenas o rangido dos pedaços de madeira esfregando-se mutuamente.se Irmão Pacífico estivesse aqui. tocou e cantou durante muito tempo. tinha a alma alegre. Imagino-os palestrando em forma de canções enquanto voam. seu semblante se entristeceu como se uma sombra densa se tivesse repentinamente abatido sobre ele. Porque. o que era lenho se convertia em violino.Ouves o canto deles? . -. Um dia soergueu-se na cama e pôs-se a aplaudir. nem dor sem apaziguamento. minha alma acordou e comecei a discernir a suave melodia que subia dos dois galhos secos. não há madeira sem som. Eu trouxe o que me pedia. e as melodias que cantava antigamente debaixo das janelas das moças tornavam-lhe aos lábios. nos últimos tempos.Ah! . mas escutava as canções jubilosas do moribundo.segredoume.Estás ouvindo? Quando se crê em Deus.

Quem é? . Os cães também tinham visto e por isso se puseram a uivar com tanto terror. minha irmã. . . a Irmã Clara se aproximou e perguntou. os cães ladravam. Pai Francisco. inquieta: .Minha irmã. Pai Francisco? . cantavam no ofício. dispersaram-se pelo claustro e entraram no refeitório para fazer a refeição matinal: um bocado de pão e um copo d’água. Virei-me para constatar quem o provocara: não havia ninguém! O jardim do convento estava deserto.perguntou.e abria os braços como se quisesse abraçá-la. Naquele dia o sol passava através das nuvens.perguntei. . e ouviamse. não havia mais bruma sobre a planície: o inverno sorria como uma primavera. apavorados.murmurou -. As freiras. deu um grito e abriu os braços para acolhê-lo. . Compreendendo. Quando o viu. . . a Morte . Ele vira o Arcanjo negro. Saí para dissimular o meu pranto.Por que gritaste? Ficou muito tempo sem me responder. em todas as casas da aldeia. Um vento violento arrancava as folhas das árvores. Irmã Clara. louvores ao Senhor. As irmãs saíram da igreja. nas suas doces vozes. .Por que está chorando? Será que. olhava para fora com as pupilas prestes a saltar das órbitas. . Avistando-me.Pai Francisco viu o Arcanjo negro.Que estás vendo? .insisti. Largando os dois pedaços de madeira sobre o colchão. . A Irmã Clara mordeu uma ponta do manto para abafar os soluços. . Porém ao longe. calei-me.toda a euforia e todo o sofrimento humanos. . . . semelhantes a uma assembléia de aves.O que foi que viste. a Morte. .Que foi que ele disse? Ficou contente? .

Um santo é uma grande riqueza para uma cidade. Portanto. "vou avisar o bispo". as quatro criaturas mais caras ao Altíssimo. mas o meu coração não poderia deixá-los sem lhes fazer as últimas recomendações. com uma fisionomia calma e feliz. A notícia de que Pai Francisco está gravemente enfermo se espalhou. a Morte". Uma irmã os reconheceu. A Irmã Clara baixou a voz. os acompanhem na Eternidade. No fim colocarei o meu sinete: uma cruz.” Quando voltei à cabana. Meus filhos: que a Pobreza. Irmã Clara. Mais nada. a Morte.Meus irmãos e minhas irmãs: Deus me enviou hoje o seu Arcanjo negro com o convite para a "grande viagem".Não sei. Nunca se esqueçam de que o Arcanjo negro os acompanha desde o dia em que nasceram. . deixou-me às pressas e esgueirou-se para o interior da igreja. Simplesmente murmurou: "Minha irmã. Parto.. Ponderava cada palavra demoradamente. com muita calma: . pensei. vou te ditar uma circular que será lida por todos os irmãos e todas as irmãs. a Pureza e a Obediência. Irmão Leão. "a fim de que nos envie soldados para protegê-lo. .Escuta. Tem cautela! De uns dias para cá.Pega a pena. de costas contra a parede. sê muito prudente! Escondeu o rosto. Pareceu contente em me ver: . homens estranhos rondam o convento. minha irmã. e alguém os enviou até aqui a fim de raptá-lo. há uma coisa que me preocupa. onde quer que estejam. Repitam sempre: "Chegou a minha última hora. encontrei Francisco sentado no colchão. Tomei da pena e sentei-me perto dele. e escreve minhas derradeiras recomendações. Parece que são salteadores de Perúsia. Irmão Leão. o Amor. devo . .

suplico-lhes. parentes e amigos partilham os haveres. Que todos os que aceitarem essas palavras sagradas e as transformarem em ações. irmãos e irmãs. reparte os teus bens. ludibriado pelos seus soluços e lamentações. sabedoria e as belezas de que tanto se envaidecia ficam perdidos. "Tu te arrependes dos teus pecados?". Faze tudo o que puderes. O corpo fica doente. entrego a minha alma e o meu corpo. meu companheiro. E lá. não seria!" "Por quê?" "Porque já entreguei tudo à minha família e aos amigos. Então amigos e parentes se inclinam e dizem ao agonizante: "Põe a tua casa em ordem. os filhos. meu filho! Nunca te esqueças do que dizíamos quando caminhávamos pelas estradas. às mãos fiéis de vocês". os amigos e vizinhos o cercam e fingem chorar. Enquanto isso. tragados com ele no reino dos mortos. sim". vais morrer". Irmão Leão.preparar-me!" E cuidado! Não acreditem no homem. de repente se apossa de sua alma e a arrasta para o inferno. que recebam as palavras de Cristo com modéstia e devoção. Imediatamente os parentes e amigos chamam o padre. de acordo com os teus meios. sejam abençoados por toda a eternidade. a Morte se aproxima. assim como todos os meus bens. "Serias capaz de devolver tudo o que adquiriste fraudulentamente durante a tua vida?" "Não. recebe o adeus de teu Irmão Francisco. que sorria maliciosamente por cima da cabeceira. dando assim exemplo aos demais. riquezas. reúne todas as suas forças e diz: "Sim. responde o moribundo. humilde servidor de todos vocês." E morre sem poder remir as suas faltas. O infeliz. amaldiçoando-o e dizendo: "Maldito seja! Devia ter juntado mais!" E assim a terra e o céu o renegam. E sê fiel a Nossa Senhora da . "E tu. sofre pelos séculos afora. Então o Diabo. em nome do Amor que é o próprio Deus. Eu te abençôo. A esposa. "Por isso eu. a fim de agradar a Cristo e seguir as Suas pegadas. mas unicamente em Deus. E todos os seus dons. no meio da pez borbulhante. pergunta ele. "Arrependo-me. grande pecador que sou. Que lhe resta? O inferno. poderes.

um pintassilgo. Abriu os olhos.A carne.Estamos na Quaresma. . adeus. porque em determinados momentos o moribundo se acalmava. fala abertamente. O Arcanjo negro aparecia-lhe e conversavam.disse-me. . . cerrando os olhos. . um lampião aceso. fechou os olhos e encolheu-se sobre o colchão. ele jamais comeria carne. Por que o deixara tanto tempo no exílio? Não sabia que a terra profana o homem? Que um talo de grama. Os seus padecimentos deviam ser insuportáveis. . meus irmãos e minhas irmãs. corri à procura da Irmã Clara.perguntei-lhe. . Irmã Clara. Encontrei-a na cozinha do convento. Ao amanhecer. Pai Francisco? . e a Morte decerto lhe respondia. enviou-lhe de presente. . podem levá-lo a recusar-se a abandonar a terra para sempre? Francisco delirava. . Vitória! Vitória! Vencemos. companheiro de viagem. . Delirou a noite inteira. Irmão Leão. os meus lábios são capazes de te responder! Adeus. tudo desapareceu.O que era. .Um homem honrado nos trouxe um frango . vou preparar-lhe um pouco de caldo.Só posso te dizer que estou feliz e cheio de contentamento. Irmão Leão.Ao saber que Pai Francisco estava doente. esgotado. Se ainda tens alguma coisa a me perguntar. tinha soçobrado num abismo profundo. Desde o dia em que nasci. Francisco queixava-se que demorara demais: esperava-o há anos. bem como à Santa Obediência. As têmporas lhe ardiam. .Penúria. companheiro de luta!” Extenuado. é fortificante. um aroma. Horrorizado.respondeu. parava de se lamentar e sorria. como não ficar contente? Agora.. . não podia levantar as pálpebras e. seu corpo estava rígido.. E agora. Pai Francisco? .Estás sofrendo. qualquer coisa dentro de mim repudiava Deus.

Devia estar distraído. Comecei então a lhe dar um bocadinho de carne. irritado. pois engoliu maquinalmente. . como se tivesse perdido alguma coisa. . peço-te desculpas. abre a boca. uma estranha personagem entrou na cabana e se pôs a remexer em tudo. Ouvindo isso. Aos poucos.reclamei.Irmão monge . e com a graça de Deus! Peguei o caldo. tu vais levá-lo. entremos para fazer uma oração". Se me queres bem. Francisco abriu os olhos. meu irmão . Em nome do Santo Amor.Em nome do Santo Amor. mas sempre de olhos fechados. Enquanto me ocupava em alimentá-lo. .murmurou sorrindo.Não vês que há um doente? . Irmã Clara lança-se a teus pés e suplica. mas aqui não é Jerusalém? Senti um odor de santidade e disse comigo mesmo: "Aqui deve ser Jerusalém. que tomes este caldo. .Pai Francisco. . murmurou. Mas onde está? Não a encontro. Francisco estava deitado de costas. apanhei também o frango e me dirigi para a nossa cabana. ..Estás louco. ofegante. Não abandones o teu corpo. sem oferecer a menor resistência. . obediente. tornou a abrir a boca e a tomar outra. Aproximei-me: . ao qual ela juntara uma gema de ovo. Pai Francisco. esvaziou o prato. . Tomou uma colherada.Se Deus decidir não o chamar imediatamente. Espera.Que estás procurando por aqui? . pareceu satisfeito. . Pai Francisco tomará este caldo para ficar ainda um pouco conosco.respondeu-me -. em nome do Santo Amor.

quando o diácono renovou o convite.Que Deus me castigue! . É Nela que devemos confiar.. podemos apenas assumir as nossas próprias culpas.disse eu. porém já desaparecera. .Tu me enganaste! Tu me obrigaste a cometer um pecado mortal. De vez em quando o bispo enviava o seu diácono para saber notícias do doente.Somente Ele pode assumir os pecados dos outros.Não tanto como tu .Sim. Levantei-me para expulsar o insolente visitante. vais terminar matando-o. Francisco me olhou com ar de censura. os homens. lembrando-me do que Francisco me dissera um dia .replicou a estranha personagem. não tanto como tu. Um dia.respondi-lhe. Cometes um assassínio. . Infringes o grande mandamento do Senhor: Não matar!” Francisco ouvia a repetição das palavras do clérigo em silêncio. "vem morar comigo. Francisco virou-se para mim: . meu filho". meu filho. Os irmãos visitavam Francisco freqüentemente. . . Nós.é maior do que o Seu espírito de justiça. No dia seguinte. mandava dizer-lhe. que pretendes entrar no paraíso e comes frango em tempo de Quaresma! Francisco soltou um grito e desmaiou.Eu o assumo . Pobres de nós se Ele fosse apenas justo! Os dias transcorriam entre a vida e a morte. O corpo humano também é uma dádiva sagrada de Deus.É Nela que devemos confiar. . com o sofrimento que o fazes suportar. .A bondade de Deus . tens razão. "Vem para Assis.

Ergueu-se na cama e abençoouas. portanto.. Na manhã de sábado. a Irmã Pica e todas as outras freiras também romperam em pranto. Na Sexta-Feira Santa. minhas castas virgens. noivas de Cristo.Irmão Leão. o bispo tem razão. Havíamos recebido inúmeros presentes de Assis e eu sentia realmente que Cristo ressuscitara. as cinco chagas. "deixa que arda a noite inteira. .murmurou. Durante a Semana Santa ele se consagrou inteiramente à Paixão de Cristo. Deiteime cedo e adormeci em seguida. pobre pecador. A Irmã Clara.. com círios acesos. . as irmãs. "Não apagues hoje o lampião". minhas irmãs. há muito tempo cicatrizadas. Francisco seguia os menores movimentos de Jesus. emocionado -. É preciso que ele também se regozije com a Ressurreição de Cristo.De fato. tivesse sido digno de me tornar evangelista. . reabriram e o pouco sangue que lhe restava começou a correr. Foi traído. pegou a minha mão e disse: . falta muito para eu ser degolado na Páscoa?” No Domingo de Páscoa.” Eu dormia satisfeito e. Quero rever a minha Assis e me despedir dela. condenado. no recôndito mais íntimo. não seria um leão que se veria representado ao meu lado.Minhas irmãs . Cometo um crime matando o meu corpo. depois da Ressurreição. uma águia ou nem mesmo um anjo. mas um cordeiro com uma fita vermelha ao pescoço. flagelado e crucificado junto com Ele. Eu tinha comido bem naquele dia. nem um touro. onde se leria: "Senhor. Eu lia todos os dias o Evangelho em voz alta. Só passarei. vivia a Ressurreição. pedirame Francisco. as festas da Páscoa em San Damiano. Chorava. mesmo durante o sono. sentado ao seu lado. vieram beijar-lhe a mão. se eu. e depois irei morar no bispado.

O pintassilgo. já acordado. humilde. a glória. quando velho e decrépito a transcrevo. e especialmente pelo nosso irmão sol. Senhor. Que criaste no firmamento. Altíssimo. Ainda estava dormindo quando Deus iluminou novamente o mundo. com a sua claridade imensa. suportando a Crucificação e ressuscitando com Ele. mais me convencia profundamente de que o último fruto da morte é a imortalidade. no seio deste tranqüilo mosteiro: "Altíssimo. bem como por qualquer espécie de tempo! Louvado sejas. sentado em minha cela. começara a cantar. Onipotente e Senhor de Infinita Bondade. Senhor! Louvado sejas. gozando intensamente a delícia do sono. pura! E louvado sejas. oh. porém. Eu. . brilhantes. gravou-se na minha memória até hoje. Vi-o sentado no colchão. e ninguém é digno de pronunciar o Teu nome! Louvado sejas. Apesar de passados tantos anos. Senhor. por nosso irmão vento e pelo ar e pelas nuvens e pelo orvalho. cantando e tocando violino com o auxílio de seus dois pedaços de madeira. por nossa irmã água. preciosas e belas! Louvado sejas. é para nós um Testemunho de Ti. por nossa irmã lua e pelas estrelas. se ajustam. Cristo passo a passo. De repente a voz de Francisco me fez abrir os olhos. Senhor.Parece-me que todas as almas deste mundo seguem. na medida do possível. E que é belo e resplandecente e que. Senhor. não despertava. A Ti os louvores. que nos dá o dia e com o qual nos iluminas. a honra e todas as bênçãos! A Ti unicamente. Senhor. Nunca poderei esquecer a letra daquela canção nem a melodia alegre e triunfante que a acompanhava. Quanto mais vivia ao lado de Francisco. por nosso irmão fogo. por todas as criaturas. sofrendo. amável.

sorriu. severa e tortura o homem. . flores e árvores! Louvai e abençoai o Senhor! Dai-Lhe graças e servi-O com grande submissão!” Sem fazer ruído. com a cabeça inclinada para trás. Por cima de nós o pintassilgo calara-se. cantava. O sol.Irmão Leão . Não posso andar. . Junípero e Masseu. extenuado. para me levarem até lá.exclamou. robusto e alegre! E louvado sejas. ia regressar à cidade. o fogo e a água. encontrei-o tocando violino e cantando. ao terminar. a canção da noite precedente. Senhor. Que nos alimenta e sustém E dá uma infinidade de frutos. Ajuda a alma a se libertar da carne! .disse-me ao meio-dia -. visado pelos raptores. Quando voltei à cabana. O dia nasceu. Chama dois irmãos robustos. Parece-me que a própria Morte veio fazer-lhe companhia. Porém Francisco nada via. Colocou os dois pedaços de madeira no chão e ergueu os braços ao céu: .Louvado sejas. por nossa irmã e mãe terra. por nossa irmã Doença. mandei chamar os dois irmãos e pedir ao bispo que nos enviasse uma escolta armada. e Francisco. apoiado contra a parede. sinto saudades de Assis. retendo o alento para melhor ouvir. . arrastei-me lentamente até os pés de Francisco e abracei-os. Senhor. porque Francisco.Esqueci-me de agradecer a Deus a nossa irmã Doença. penetrando na modesta cabana. cercaram Francisco e puseram-se também a escutá-lo. A canção escorria dele como o próprio sangue. nem ninguém.com o qual iluminas a noite E que é belo. É boa. enlevado. a fim de ouvir. e as grades da prisão se afastavam para dar passagem à sua alma. Saí. a lua.Ah! .

A Irmã Pica entrou. e os bandidos de Perúsia não rondam as estradas a esta hora. dize-lhe adeus para sempre. Veio Irmã Clara. Decerto procurava a mãe.Meu filho. . Irmã Pica! Os irmãos podem levá-lo agora. baliu lamentosamente e tornou a sair correndo.Está dormindo . Ajoelhou-se. mas a Irmã Pica mordeu os lábios e o soluço se extinguiu. beijou-lhe as mãos e os pés e sentou-se calada à sua direita. vacilante. nunca mais. Quando anoiteceu por completo.. trazendo o perfume das flores que desabrochavam no pátio. Porém ninguém se moveu. a Irmã Clara se levantou: . nós o deitávamos no chão florido e o pranteávamos. em silêncio. . nunca mais! À hora do crepúsculo. retive as lágrimas. Estendido de costas. . Surgiu um cordeiro na soleira. De repente. nada ouvia. é o melhor momento. nada via. É noite.É melhor acordá-lo e ir embora.. A brisa primaveril entrou pela porta.murmurei -. Francisco.murmurou Junípero. Todos tínhamos os olhos fixos em Francisco. tive a impressão de que ele era Cristo no sepulcro.Minha alma . Começa a anoitecer. seu rosto irradiava felicidade. em êxtase. não o tornarás a ver.começou.Vamos embora. de mãos postas. Por um instante um soluço cortou o silêncio. a seus pés. Prosternou-se diante do filho e colocou-se à sua esquerda. enxugando os olhos: . Junípero e Masseu chegaram e sentaramse. A mãe se ergueu. . . mas a Irmã Clara pegou-a pelos ombros e cruzaram a soleira com passo vacilante. Fazia um tempo de primavera.A custo.

Logo em seguida o pátio ressoou com fortes soluços: as duas mulheres não conseguiram reter as lágrimas por mais tempo. Francisco abriu os olhos, avistou os dois irmãos e sorriu. - Chegamos? - perguntou. - Ainda nem partimos, Pai Francisco - explicou Junípero. - E eu que já me julgava em Assis, na Igreja de San Ruffino! suspirou Francisco. - Admirava os vitrais multicores. Contavam a história de Cristo. Ele acabava de romper a pedra tumular e subia ao céu, levando uma bandeira branca, onde estava escrito em letras azuis: "Pax et bonum!” Levantei-me. - Em nome do Senhor - disse -, partamos! Junípero e Masseu fizeram, com as mãos entrelaçadas, uma espécie de assento onde instalaram Francisco, que lhes passou os braços pelos ombros. Saímos. - Anoiteceu? - perguntou. - Sim, Pai Francisco, as estrelas já estão no firmamento. - Como o ar está perfumado! Que lugar é este? - O claustro de San Damiano, Pai Francisco. É primavera respondeu Masseu. - Não queres te despedir das irmãs? - Amargo é o momento da separação, Irmão Masseu, muito amargo. Mais vale partirmos como ladrões. Subimos a encosta em direção a Assis. Duas mulheres estavam na frente do claustro, debaixo de uma árvore. Quando nos viram, uma delas quis se lançar sobre Francisco, de braços abertos, mas a outra a reteve. Ouviu-se um grito agudo à sombra da árvore e em seguida tudo mergulhou em silêncio. Avançávamos. Inquieto, eu perscrutava

a escuridão, procurando vislumbrar os bandidos de Perúsia. Numa curva do caminho, surgiram cinco ou seis silhuetas sombrias e armas brilharam à luz das estrelas. "Estamos perdidos!", pensei, correndo ao encontro dos desconhecidos a fim de identificá-los. Felizmente era a escolta enviada pelo bispo. Quando os soldados vieram beijar a mão de Francisco, ele se admirou: - Para que essas armas? - exclamou. - Malditas sejam! - Para te proteger se os salteadores de Perúsia tentarem te raptar, Pai Francisco - respondeu alguém, provavelmente o chefe. - Raptar-me? Para quê? - Não sabes - continuou o chefe, rindo - que um santo representa um tesouro? Festas, milhares de peregrinos, velas, incenso. . . - Irmão Leão! - clamou Francisco, como se me pedisse socorro. Onde estás? É verdade o que ele diz? - Os homens são capazes de tudo, Pai Francisco respondi-lhe. Podes escapar a Satanás, mas não aos homens! - Senhor! - exclamou, desesperado. - Leva-me! E não tornou a abrir a boca até chegarmos a Assis. O bispo estava à nossa espera no limiar de sua residência. Ajudou-nos a colocar Francisco no chão, depois inclinou-se e beijou-o na testa. - Sê bem-vindo, meu filho - saudou. - Tem confiança em Deus. Tua hora ainda não soou. - Tenho confiança em Deus, Padre Reverendíssimo - retrucou Francisco -, tenho confiança, sim, porém minha hora soou. O quarto que lhe estava reservado tinha uma vasta janela. Descortinavam-se a cidade inteira, o olival, a planície com seus

parreirais, e o rio que corria mansamente entre as margens verdes. Adivinhava-se ao longe San Damiano, e ainda mais abaixo, a Porciúncula. No dia seguinte, soerguendo-se na cama, ao avistar aquelas paragens bem-amadas, Francisco começou a chorar. - Oh, mãe... - murmurou - oh, Assis, minha mãe, Úmbria do meu coração! Quis que me deitasse num canto ao seu lado. Assim, podia adormecer e acordar ao mesmo tempo que ele. Duas andorinhas tinham construído o seu ninho num ângulo da janela. Já de madrugada o macho, sem dúvida para encorajar e distrair a fêmea, que cobria os ovos, pusera-se a esvoaçar e gorjear à sua volta. Francisco ficou completamente embevecido. - Irmão Leão - disse-me -, a gente não pode levantar os olhos e prestar atenção sem encher a vista e os ouvidos de prodígios. Basta deslocar uma pedra para se descobrir debaixo dela uma vida imutável a serviço do Senhor, um humilde verme que trabalha até a eclosão de suas asas para voar, transformado em libélula, ao sol. Não é a mesma coisa o que os homens fazem na Terra? As últimas palavras foram cobertas por um ruído de vozes vindo da rua. Em frente ao paço episcopal devia estar reunida uma numerosa multidão. Ouvia-se grande tumulto, e golpes surdos abalavam a porta. Alguém proferia um discurso. O diácono do bispo entrou no quarto: - Não te inquietes, Pai Francisco. O prefeito da cidade declarou guerra aberta ao bispo. Ora, ele juntou o povo e o atiça contra o inimigo. E ainda por cima impede as pessoas de entrarem na igreja. Francisco ficou perturbado. - Mas que vergonha! - exclamou. - Devemos restaurar a paz!

Depois que o diácono se retirou, ele virou-se para mim. - Irmão Leão - disse -, o hino a Deus ainda não está terminado. Pega a pena e escreve: "Louvado sejas, Senhor, por todos os que perdoam os seus inimigos por amor a Ti! "Bem-aventurados os que sofrem injustiças e atribulações por amor à paz! "E bem-aventurados os pacificadores, porque por Ti, Senhor, hão de ser coroados!” Fez o sinal-da-cruz: - Irmão Leão, ajuda-me a levantar-me e ampara-me. Quero ir até a porta para falar ao povo. . . ou antes. . . não. . . não falarei, ficaremos apenas um ao lado do outro, cantando os louvores que há pouco brotaram do nosso coração. Tomei-o pela cintura, atravessamos o pátio e abri a porta. A multidão ia se precipitar no paço episcopal, furiosa, mas estacou ao deparar com Francisco. - Meus filhos - disse ele, abençoando o povo -, vou comunicarlhes uma recomendação que Deus me incumbiu de fazer. Pelo amor de Cristo, deixem-me falar! Fez-me sinal, apoiamo-nos os dois contra a porta e, de mãos postas, começamos a cantar bem alto: "Louvado sejas, Senhor, por todos os que perdoam os seus inimigos por amor a Ti! Bem-aventurados os que sofrem injustiças e atribulações por amor à paz! "E bem-aventurados os pacificadores, porque por Ti, Senhor, hão de ser coroados!”

Entrementes, o bispo apareceu. Era um venerável ancião, os seus olhos contemplavam o povo com infinita bondade. Pôs-se a cantar junto conosco. Então operou-se o milagre. O prefeito abriu caminho no meio da multidão, adiantou-se e ajoelhou-se diante do prelado: - Por amor a Cristo e a seu servidor Francisco declarou -, esqueço a nossa disputa, Padre Reverendíssimo, e estou pronto a agir segundo a Tua vontade. O bispo, emocionado, inclinou-se, ergueu o adversário, abraçouo e cobriu-o de beijos. - O meu cargo - afirmou - impunha-me a obrigação de ser bom, humilde e pacífico. Infelizmente sou colérico por natureza. Por isso por favor, perdoa-me. O povo se ajoelhou e louvou a Deus. Depois, todos se precipitaram sobre Francisco, para lhe beijar os pés, reconhecidos pela restauração da paz. Quando tornamos a entrar, Francisco estava radiante. A alegria fizera-lhe esquecer os padecimentos e caminhava sem custo. - Irmão Leão - disse -, conheces esta história? "Era uma vez um lindo principezinho que uma fada malvada transformara numa fera monstruosa que devorava homens. Estes a odiavam e perseguiam com armas para exterminá-la. A crueldade da fera aumentava cada vez mais. Então surgiu uma moça que se aproximou dela com compaixão e beijou-a na boca. No mesmo instante, a figura atroz desapareceu, dando lugar ao lindo príncipe. E assim é o povo, Irmão Leão.” Essa nova luta esgotara Francisco. Para operar o milagre reunira as suas últimas forças. Mal entrou no quarto, caiu desfalecido na cama. Chamei o diácono. Foi buscar essência de rosas e conseguimos reanimá-lo. O bispo veio vê-lo.

- Francisco, meu filho - disse -, vou chamar o médico. Estás em minha casa, sou o responsável pela tua saúde. Francisco, porém, fez um gesto negativo com a cabeça. - Deves respeitar a Vida, Irmão Francisco - insistiu o prelado -, não só a do teu semelhante ou a do verme, como também a tua. A vida é o alento de Deus, não tens o direito de suprimi-la. Peço-te que obedeças em nome da Santa Obediência! Francisco cruzou os braços e calou-se. Chamou-se o médico. Era um velhinho de tez amarelada e olhar ardente. Despiu o doente, virou-o, tornou a virá-lo, auscultou-lhe o coração. . . - com a ajuda de Deus o seu estado pode melhorar diagnosticou. Francisco meneou a cabeça. - E sem a ajuda de Deus? - indagou. - Julgo que podes durar ainda até outubro, Pai Francisco. Depois, o teu destino ficará nas mãos do Senhor. Francisco permaneceu silencioso um instante. Mas

imediatamente levantou as mãos ao céu: - Serás, pois, bem-vinda com as primeiras chuvas, oh minha irmã Morte! Sorriu e dirigiu-se a mim: - Que achas, Irmão Leão? Não seria justo agradecer a Deus pela nossa irmã Morte? Pega, pois, novamente a pena, meu companheiro mártir, e escreve: "Louvado sejas, Senhor, pela nossa irmã Morte, à qual nenhum ser vivo pode fugir!

"Desgraçados os que morrem em estado pecaminoso, mas bemaventurados, Senhor, os que obedeceram aos Teus dez mandamentos! "Esses não temem a Morte, amam-na". Recopiei o hino inteiro numa folha de papel e entreguei-a a Francisco, para que lhe apusesse o sinete: uma cruz. Apanhou a folha, olhou-a e abanou a cabeça. - Ainda teria muito a dizer, meu Deus - murmurou -, devia também louvar-Te por uma porção de coisas, porém Tu conheces o meu coração e os meus rins. Portanto, louvado sejas por tudo, Senhor. Tomou da pena e escreveu: "Louvado sejas por tudo, Senhor!" Depois traçou uma grande cruz por baixo do hino. - Terminei - declarou. - Dou graças a Deus por tê-lo permitido. E agora, cordeiro de Deus, manda alguém ir à Porciúncula para pedir a Pacífico que venha com o seu alaúde. Aproximo-me de Deus, só posso e só quero cantar. Enviei alguém à procura de Pacífico, que chegou de tardezinha, com o alaúde a tiracolo. Francisco recebeu-o de braços abertos. - Salve, trovador de Deus, salve, verdadeira boca do homem! Neste papel está escrita uma canção, toma o teu alaúde e canta! Cantarei junto contigo; o leãozinho de Deus, que está aqui, também cantará, assim como as quatro paredes de nossa cela, as pedras, a cal, os afrescos. . . Pouco tempo após, a cela retinia de estridentes e alegres canções. A janela estava aberta, o sol já se escondia, as folhas das árvores ficaram douradas de luz. O campanário de San Ruffino repicava as vésperas, e o seu som, muito suave, espalhava-se pelo ar. Francisco cantava cada vez mais alto, marcando o compasso, e todo o seu corpo martirizado dançava.

Enquanto isso, a porta se abriu, dando passagem ao bispo, cuja expressão bondosa parecia preocupada. - Francisco, meu filho - pediu -, que Cristo te abençoe, mas pára de cantar. As pessoas que passam na rua estão te ouvindo. "O bispo está bêbado", comentam. "Venceu o prefeito, e rega a vitória!” Francisco, porém, ainda sob a suave influência do canto, respondeu-lhe: - Padre Reverendíssimo, se minha presença te pesa, vou embora. Canto porque não posso fazer outra coisa. Aproximo-me de Deus. . . como poderia deixar de me alegrar e de ir cantando ao Seu encontro? - Tens razão, meu filho, mas os que não se aproximam de Deus não estão em condições de compreender e se escandalizam. Canta pois em voz baixa, já que insistes replicou o prelado, abadonando o quarto. - Irmão Pacífico - disse Francisco -, todo mundo tem razão. Tanto o bispo como nós. Cantemos, pois, mais suavemente, para não ofender ninguém. Dá-me o alaúde, querido mestre, agora sou eu quem vai tocar. Pegou o instrumento e começou a tocar lentamente por causa dos dedos doloridos. Enquanto isso, louvávamos Deus em voz muito baixa. Quando ficamos saciados de música, Francisco devolveu o alaúde a Pacífico e fechou os olhos. Estava cansado. Pacífico afastou-se na ponta dos pés. - Não saias de Assis - pedi-lhe. - Ele talvez precise de ti amanhã. Ingressou no reino da música. Mas, no dia seguinte, uma nova inquietação veio atormentar Francisco.

me ordenou: "Abraça-os. Como.O Senhor . e uma corda à guisa de cinto. o próprio Francisco interrompia o ditado. Portanto. da seguinte maneira: no tempo em que ainda chafurdava nos meus pecados. Sabendo tudo o que sofri e o quanto lutei. Começou pela narração de sua juventude. remendado por fora e por dentro. Depois contou como fora à guerra. elevando a voz. Noutras. talvez alguma alma se anime a tomar o meu lugar. uma noite.ditou-me . beija-os. E todos aqueles que concordaram em me seguir tiveram. despe-os e lava-lhes as chagas!" E assim que os abracei. e escreve! Passei aquele dia inteiro escutando Francisco com recolhimento e a escrever o que me ditava. Antes de deixar este mundo. . a voz de Deus e ficara tomado de terror. Deixei esse mundo vão. ouvira subitamente. Francisco de Assis pecador. Então Deus.Não podemos perder tempo . Tudo o que outrora me parecia amargo tornou-se doce como mel. mais tarde. em busca de insígnias pela morte dos inimigos. Irmão Leão. Andávamos descalços. gastava as noites a correr. E só ficamos com um único hábito. E Ele me deu irmãos e me revelou. na companhia dos amigos.. a obrigação de repartir o que possuíam com os pobres. costumava sentir uma repugnância invencível pelos leprosos. Tive de parar muitas vezes para enxugar as lágrimas. As palavras se revelavam insuficientes para exprimir o seu pensamento e ele rompia em pranto. graças ao Santo Evangelho. sobretudo. E éramos . as regras que devia impor à minha vida e à dos meus irmãos. despi e lavei-lhes as chagas! o mundo mudou de feição. trajando seda e veludo. de festa em festa e cantando debaixo das janelas. . faze a ponta em tua pena. abandonei a vida mundana. para ser sagrado cavaleiro e voltar a Assis. quando. e confessar diante de todos a minha vida e os meus pecados.dignouSe salvar-me. preciso redigir o meu testamento aos irmãos e irmãs. com os seus bens temporais. . coberto de glória. e consagrei-me a Deus com toda a minha alma. com uma pluma vermelha no chapéu.falou-me logo de manhã cedo. Pouco tempo depois.

aquela nobre senhora que usava sob o vestido. Depois. meu irmão. Não visando lucro. indo à igreja em sua companhia e ajoelhando-se a seu lado na frente do altar. Só quando nos era inteiramente impossível ganhar a vida trabalhando podíamos mendigar de porta em porta. em nome do Amor. Então o seu coração se confrangeu. um por um. E eu exigia que todos aprendessem um ofício honesto e trabalhassem. que opera milagres?" "Sim. eu te suplico. do arrebatado Domingos. não o degoles!" O rude carniceiro tivera um riso escarninho: "Que queres então que lhe faça?" "Deixa-o entregue às minhas mãos e que Deus inscreva a tua boa ação nos Seus livros e te reserve. o missionário espanhol que conhecera em Roma. Vês? Fizeste um novo milagre!" Francisco levou o bichinho de presente ao Irmão Jacopa. disse: "Em nome de Cristo. apavorado. Lembrou-se até do cordeirinho de Roma que um carniceiro levava às costas para matar. O Senhor revelou-me que devíamos dizer sempre: "Pax et bonum!” Durante esse dia inteiro e o seguinte. meu irmão. Toda a sua vida desfilava assim diante de seus olhos fechados. Falou em seu pai. decidiu o carniceiro. E desde então o cordeiro nunca mais a deixou. O animalzinho balia. sou Francisco de Assis. morto inconsolável. o pecador. na Irmã Clara. mas para dar exemplo e fugir à ociosidade. abraçando-o. Suplico-te. um rebanho imortal. de olhos fechados. "Porventura és Francisco de Assis. exclamou o homem. Mas quem disse que opero milagres? Não passo de um mísero pecador que chora. narrou a sua vida e a terrível ascensão que efetuara. ofegante e de pés ensangüentados. em todos os irmãos.todos ingênuos e ignorantes. Francisco. o hábito franciscano. ele correu para o carniceiro e. como se fosse uma segunda pele. a escarpada e santa montanha do Alverno elevou-se em seu . tirando o cordeiro dos ombros. olhando para Francisco atrás dele. agora freira no Convento de San Damiano." "Oh!". para a outra vida. em sua nobilíssima mãe. Cada um obedecia ao outro. "É teu. como se lhe pedisse socorro. e finalmente do "Irmão Jacopa". não o degoles!" "Toma-o". comovido.

meu filho. porque muitas vezes.Senhor.saudou Francisco. Senhor.disse. o meu Irmão Leão! "Ele é obediente. concede-me a Tua direita. o leãozinho de Deus. olhando-me com ternura -. o testamento estava concluído. . para me acompanhar. teve de lutar contra a sua própria natureza. Irmão Leão. . . Abriu os olhos. Cantaremos juntos para aliviar o meu coração. À hora do crepúsculo. Todos em coro! .espírito. sou um ladrão crucificado. teve de subjugá-la!” Caí a seus pés e beijei-os. Senhor .preveni. cansei-te muito. porém os soluços me sufocavam. É justo que acrescente umas últimas palavras ao hino que oferecemos a Deus: "E louvado sejas. corajoso. pelo cordeirinho de Deus.O bispo vai ralhar conosco . Quis falar. Senhor! "Mas é mais meritório do que eu.bradou. sofri novamente todas as minhas dores.Entra. Rouxinol Divino . atormentei-te. alegremente. Chama o Irmão Pacífico. .Irmão Leão . .Ele tem razão em ralhar. sinto-me exausto. . raio resplandecente. com voz lancinante -. e nós temos razão em cantar! Chama Pacífico! O irmão menestrel chegou. caiu de novo em cima dele. seguiu-me na minha ascensão até Ti.Acabo de recapitular toda a minha vida. e Jesus crucificado.

redargüiu Francisco. Francisco interrompeu o canto bruscamente. de aspecto severo. Que alegria intensa! A Morte de espreita à porta.falou Elias. o pescoço tenso feito aves. contendo a ira -. comentou um deles com Elias.Irmão Francisco . esquecemos o bispo e os transeuntes. O sangue subiu às faces de Francisco. não fica bem para a tua reputação de santo tocar alaúde e cantar sem te importares com os passantes que te ouvem. despreocupados. e entre as vozes reconheceu a de Francisco. Que irão dizer de ti? E da nossa ordem? Será então que consiste nisso a vida austera e santificada que pregamos? É assim que conduziremos as almas ao paraíso? . . que se esforçava por esconder o alaúde atrás das costas. Vários caminhantes estavam parados no meio da rua escutando. como uma criança repreendida pelo professor. Uns riam. autoritário. e as nossas vozes se elevaram triunfantes num cântico de louvores ao Altíssimo. Até parece uma taverna!” Ao ver Elias encolerizado. ouviu cantar. porém. . Regressava de uma viagem frutuosa e viera a Assis fazer os pagamentos aos mestres-pedreiros que construíam o grande mosteiro.acusou Elias. indicando com desdém Pacífico. Irmão Elias? . Logo. transformávamos a Vida e a Morte num canto imortal. É o responsável pela tua conduta . a fim de não chamar a atenção. "só se ouvem cantigas no palácio do bispo. "Ultimamente". e nós. .De que outra maneira. dando passagem a Elias. outros se escandalizavam.A princípio Pacífico tocou baixinho e cantávamos sottovoce. com voz tímida. Passando pelo paço episcopal. Estávamos no auge da euforia quando a porta se abriu. entusiasmados.Cantando? Acho que o trovador aqui presente te arrastou.

até mesmo daqui.Disseste alguma coisa. Francisco e eu. "já não serves para mais nada.Irmão Leão .atalhou Elias. que vai ser de nós? Levanta-te. desaparecera. Basta que não cantes. Pai Francisco. Sou eu que responderei por todos vocês perante Deus. porém as palavras lhe ficaram presas na garganta. toma o teu alaúde.Tu próprio confessas . Irmão Leão? . Irmão Francisco. Não falei."Quem vive no meio de lobos precisa ser lobo e não cordeiro". de uma nova espécie de loucura. Pai Francisco? Já é noite. . expulsou-te da ordem.. até mesmo daqui nos expulsam. E amanhã de manhã age segundo a inspiração divina! Curvou-se.conseguiu finalmente articular. foi o que disseste e é o que dizem todas as pessoas sensatas. assim como arrastei o Irmão Leão. E se canto é porque Ele mesmo ordenou que cantasse: "Francisco". retira-te e canta!” . vamos embora! . . aterrorizado. em pleno centro de Assis. beijou a mão de Francisco e retirou-se. . Elias apossou-se da tua autoridade. disse-me. ..retorquiu Elias . Irmão Francisco . Para onde iremos. Francisco quis contestar. . Mas Deus me dotou de loucura.Nada. virando-se para mim -.que Deus te ordenou que cantasses na solidão e não aqui. . . Ficamos sozinhos. Desculpa-me. Pacífico. mas sou o vigário da ordem e tenho responsabilidades.Dize antes que fui eu quem o arrastou. .Mas para onde. e digo: "Quem . .Até mesmo daqui nos expulsam. . Ninguém está te expulsando. vem. repetia sem parar. tu mesmo e a ordem inteira.Fica ainda por hoje.

ajuda-me. A notícia de que Francisco deixava Assis para se . Eu mergulhava no regaço de Deus e desaparecia. Irmão Leão. . soerguemos Francisco e saímos. Francisco acordou alegre: . como se o guitarrista passeasse de um extremo da cidade ao outro. Irmão Leão. teria morrido de euforia. De repente. quando raiou o sol. só me faltam dois pedaços de madeira. fez-se ouvir o som de uma guitarra debaixo de minha janela. Ouvi passar os últimos transeuntes.Se aquela música tivesse durado um pouco mais. não tenho necessidade de Pacífico nem do alaúde dele. . Esta noite.vive no meio de lobos precisa ser cordeiro. No dia seguinte. Irmão Leão.Pois bem. Sorriu: . Procurou levantar-se. esta pobre ruína que se chama Francisco não conseguia adormecer de tanto que sofria. para a nossa cabanazinha da Porciúncula. Em vão. ninguém consegue comer a alma. Às vezes bem perto. pela primeira vez. provei uma alegria tão intensa.Vem. a doçura imutável. compreendi o que são a música e o canto.Ei. pronto para ser comido por eles!" Como se chama o que temos de imortal? . Escuta só: enquanto ressonavas. era beatitude. a alegria. Mais que alegria. os cães latir e as portas e janelas fechar-se.. vamos embora. O bispo estava viajando pelas aldeias. prosseguindo logo: . Bem feito para ele! Deus enviou um anjo para me fazer uma serenata. O infeliz sofria e o seu sangue estagnava em cima do leito. Irmão Leão.Alma. Calou-se. outras mais longe. Depois reinou a calma.Elias não queria que eu tocasse alaúde nem cantasse. Chamei Pacífico. Nunca. Iremos para onde possamos cantar livremente.

não tão depressa -. para mim é a última vez. que ia morrer. as oliveiras. os parreirais. nas torres. .suplicava Francisco. e. . nas igrejas. O olhar de Francisco demorava-se em cada casa.Não sabemos. todos sabiam que era para se despedir de Francisco. No entanto.foi a resposta. mulheres e crianças abandonava as casas e oficinas.dirigir à Porciúncula circulava já de boca em boca.Devagar. exclamou: .Vocês terão tempo de rever estas terras queridas. os flancos ensolarados do monte Subásio e as grutas onde outrora gostava de se retirar para invocar Deus.Por quem estão dobrando os sinos? . ouviram-se os sinos a dobrar. Enxugando as lágrimas. por favor. . Cruzamos as portas da cidade e depois. A planície recendia a relva queimada pelo sol. A multidão que nos seguia também parou em silêncio. as parreiras estavam carregadas de cachos. ele se esforçava por divisar Assis.Esperem. Estávamos em agosto. à saída do olival. Quero contemplá-la pela última vez e dizer-lhe adeus! Paramos de maneira que ficasse virado para Assis. E quando por fim a cidade bem-amada estava quase desaparecendo na retaguarda. . mais além. meus filhos. subimos a colina. . . no alto da cidade. procurava ver o espetáculo da natureza e levar aquelas derradeiras imagens consigo para o céu: Assis. e em todas as ruas por onde passávamos uma multidão de homens. .perguntou. . De repente. e mais acima. meus filhos. ceifado. . não sabemos . . . nas ruínas da cidadela. fazia muito calor. As figueiras vergavam sob o peso dos frutos. caminhem lentamente! Apesar dos olhos doentes. juntando-se a nós e brandindo ramos de mirto e loureiro. o trigo.

.Ergueu a mão lentamente e fez o sinal-da-cruz por cima da cidade querida. Os primeiros grous passaram por cima da cabana. Em breve uma grande ave também virá buscar-me para partir. Chegados à Porciúncula. minha mãe . minha bem-amada. irmãos. percebemos que Francisco desmaiara em nossos braços. olhando-nos com ternura. e depor-te aos pés do Altíssimo! Mas não posso. por esta cidade onde viveram Dom Piero Bernardone. pelas suas casas. Dona Pica e seu filho Francisco. A multidão se dispersou e os irmãos que ainda viviam ali . depois de bem acomodado. o povo chorava. as folhas das parreiras começavam a avermelhar.tornou a murmurar -. . Ruffino. Fizeram a vindima. adeus! Rompeu em pranto. e a cabeça descambou-lhe sobre o peito. três.Boa viagem. Deitamo-lo suavemente no chão da pequena cabana. por esta graciosa cidade. . os vasos de manjericão e manjerona colocados sobre os parapeitos. Egídio e Eduardo vieram beijar-lhe as mãos. Passou-se uma semana. "São suas últimas vontades". Sentados ao redor.Louvado sejas. punha-se a falar nas suas eternas senhoras: a Penúria. Louvado sejas. Assis. os seus habitantes.Os grous precedem as andorinhas . . "Não é somente .disse. Francisco ouviu os seus gritos e abriu os olhos: . Depois duas. nós o escutávamos.Adeus .Adeus. . o pobrezinho de Deus. Às vezes procurava a minha mão para se soerguer e.murmurou. Assis. os figos se encheram de mel.Junípero. pensávamos. rumo ao sul. esforçando-nos por não perder nenhuma palavra. a Paz e a Humildade. Ah! Se eu pudesse tomar-te toda nas minhas mãos. os parreirais. . Senhor. Senhor. . À retaguarda. as azeitonas ficaram luzidias e as andorinhas se prepararam para uma nova partida. adeus!. .

porque na compaixão há duas facções: o que sofre e o que se compadece. põe-te a caminho da Porciúncula logo que receberes esta mensagem. . peço-te um último serviço: leva esta mensagem.perguntava-nos. No Amor. Na bondade é a mesma coisa: o que dá e o que recebe. não me encontrarás vivo. Se tardares. Irmão Junípero. que o fim de minha vida se aproxima.Obrigado. irmãos? É mais que compaixão e bondade. toma uma folha de papel e escreve: "Do Irmão Francisco. mas para todos os irmãos e irmãs. Nosso dever é gravá-las profundamente no espírito a fim de que persistam para sempre!” . Mas de repente calou-se.O que é o Amor. Se ainda queres ver-me uma vez nesta terra. já não é necessário que vás a Roma. Um dia pegou a minha mão: .Irmão Leão. . ao Irmão Jacopa: Fica sabendo. .” Virou-se para o irmão sentado perto dele: Irmão Junípero. Traze um sudário de tecido grosseiro para amortalhar o meu corpo e círios para o meu enterro. não percas tempo. o pobrezinho de Deus. antes de morrer tenho vontade de rever Irmão Jacopa. por pouco que seja.para nós que ele fala. graças a Deus. .O que é o Amor. voltando-se para a porta. há apenas uma: as duas partes se fundem numa única e nunca se separam. porém. . desviou o rosto como se tivesse ouvido algo e um doce sorriso lhe iluminou o semblante. meu caro irmão. . . . meus irmãos? .disse. abrindo os braços como para nos estreitar. O eu e o tu desaparecem. Faze-me um favor. porque Amar significa desaparecer.

"Vai.bom dia. A nobre senhora entrou.Quem? . Pai Francisco.” Depôs o sudário aos pés de Francisco: . lançou-se aos pés de Francisco e começou a beijar-lhe as chagas e a acariciar-lhe as mãos. Suspirou: . estou tão feliz. Então levantei-me precipitadamente para verificar quem era. Irmão Jacopa. . Ouviram-se passos que se aproximavam. tão feliz. perdoa-me.Ei-lo! .murmurava. Estendeu o braço e apontou algo do lado da porta. os pés e tateou o peito ferido e sangrento. . . Leva o sudário que lhe teceste e círios para o enterro. olhou as mãos. . e antes de alcançar o limiar deixei escapar um grito: Irmão Jacopa achava-se à minha frente. . . corre". com a lã do carneiro que me deste.Todos olharam na mesma direção. Ele se ergueu. que fedor te devolvo ! E enquanto falava o medo crescia cada vez mais em meus olhos. Sorriu amargamente: .Perdoa-me também tu. . meu corpo quebrado. mãe venerável. torturei-te. disse-me. Quem te preveniu? . terra.Pai Francisco.A Virgem Maria veio ver-me em sonhos. . . chorando. meu irmão. Deste-me um corpo resplandecente e vê que lodo. Pai Francisco. .Meu pobre burrinho.Teci-o com minhas próprias mãos. "Francisco está à morte. ..

. Nossa viagem terminou.Sorri e me abre os braços. Baixa o capuz. as freiras. em San Ruffino. pois continuava a bradar: . Cobriu os olhos com a outra manga. por sua vez. não tremas.O mendigo! O mendigo. . . . . trêmulo. Em San Damiano. ajoelhadas diante do crucifixo. . . Os irmãos chegavam de toda parte para se despedir de Francisco. recomendava.murmurou -. Escondeu os olhos na manga do hábito para não ver. . atrás da cabeceira. socorro! Abraçou-me.Já está aqui. Está no limiar.. . aqui.Fundiram-se num só. .murmurou. sou eu. as marcas do ferro nas frontes. . depois procurou com a mão direita. .Vem vindo. a cruz na minha testa. desceu da montanha trazendo um cesto de uvas e figos de presente. levanta a mão furada e saúda. ninguém! E logo. pensativo: . imploravam a Deus que não lhes levasse ainda o seu Francisco. eu. Entrou na ponta dos pés e aproximou-se da cama. . Elias corria de aldeia em aldeia.Oh. . dia e noite. se aproxima. . deita-se ao meu lado! Irmão Leão. . . vem vindo. "Que todos estejam prontos para ir ao enterro com círios acesos". . . . Ele vem. Francisco abriu os olhos e o reconheceu: . Reconheço a minha própria fisionomia.Pai Francisco. estamos todos fundidos num só.Ninguém . sou eu. . O Lobo. reunindo a multidão e anunciando que o santo agonizava. . à esquerda. porém isso não o impedia de ver. O fim se aproximava. Dissera ao bispo que ordenasse que os sinos dobrassem. . . . Irmão Leão. Oh! .

A cabana estava cheia de irmãos. meu irmão. Nunca mais! Setembro chegou ao fim.Irmão Cordeiro. .disse. Adeus. Muitos haviam se acocorado no chão. De vez em quando. trouxe-te alguns figos e uvas para que os comas pela última vez. em seguida apanhou um figo e sorveu o sumo açucarado que dele se desprendia. Tirando um bago de uva.Adeus. vais partir. Deus e não eu. Parecia que a terra repousava sob o ar úmido. Ao mesmo tempo. beijando-lhe a mão -. Francisco colocou a mão sobre os frutos maduros e sentiu prazer com o seu frescor. Reunidos ali desde manhã cedo. .Deus te perdoe. Desde o início de outubro o céu ficou nublado e os primeiros orvalhos principiaram a cair. . Os gaviões do Alverno decerto te anunciaram que eu ia morrer. Fica tranqüilo. enxugando as lágrimas. contemplavam o agonizante em silêncio.Somos nós que morremos.Pai Francisco . Um tênue nevoeiro estendia-se sobre as oliveiras e os pinheiros. uma doçura inefável espalhava-se pelo mundo.Não és tu quem morre. meus irmãos. figos e uvas.Pai Francisco.. tudo ficará salvo. pesada de frutos e feliz. Irmão Cordeiro. Pai Francisco . . Francisco abriu os olhos. Perdoa-me tudo o que fiz. Nenhum ousava romper aquela mudez sagrada. .respondeu o feroz irmão. adeus. . subirás ao céu. Francisco saudou-os com a mão. saíam para desabafar mais à vontade. Bernardo ajoelhou-se. até mesmo os carneiros que comeste no tempo em que eras lobo. Depôs o cesto de frutos aos pés do moribundo. não são roubados. . bom dia. levou-o à boca. Fala-nos mais uma vez. outros ficaram de pé. E se salvares a tua alma.

.Não tens mais nada a dizer-nos. Amor. no limiar da porta. na terra. tu. . meus irmãos. que chorava a um canto. que escutava. Paz. . Desconhecem a tua nobre mensagem e por isso têm medo de ti. e ajoelhamo-nos ao redor dele. Olhou em torno: . porém. nada mesmo? .exclamou Egídio.Francisco meneou a cabeça: . meus irmãos.Por que choram. deitem-me nu sobre a terra. arrasada. . ou sangue a verter.. tirem-me a roupa. Não tenho mais nada. Em vão. De repente. .disse -. com o rosto escondido por um lenço. . Tentou erguer-se. Francisco admirou-se: .Meus filhos. Paz.Meus irmãos . Nós lhe tiramos a roupa. O Arcanjo pairava sobre a sua cabeça. Quero tocar o chão. Foi então que começamos a nos lamentar. Deus me reteria na terra. Se tivesse ainda algo a dizer. Todo o sangue do meu coração já foi dado. . Não víramos chegar a Irmã Clara. só isso. Pobreza. que aguardas do outro lado da porta. perdoa os homens. meus irmãos? Ninguém respondeu. quero que o chão me toque. Amor. um soluço chamou nossa atenção e vimo-la.Pobreza. deitamo-lo conforme pedira. tudo o que tinha a dizerlhes já foi dito.A vida é tão doce assim? Ou será que pouco confiam na vida eterna? Minha irmã Morte. em pranto. meus pais.

desciam piando e vinham pousar ao redor de Francisco.Onde estás. verdejante.. Miríades de pássaros. Ao longe. Não se ouvia coisa alguma. ao erguer os olhos. e doze irmãos. saíam da floresta e misturavam-se aos animais domésticos. a Porciúncula. com o rosto virado para o céu. A cabana. Não havia ninguém em torno de Francisco. . Milhares de anjos cercavam o moribundo. Eu estava entre eles e. que se estendia. . cavalos.” Mas enquanto eu cantava. Francisco morria. iniciou o canto mortuário. Senhor. arrancando as próprias penas. Súbito o céu se encheu de clarões dourados. cães. rebanhos de carneiros.murmurei -. salvo as suas lamentações. Todos os irmãos. Pondo-me em pé. Foi uma perdiz que. por todas as tuas criaturas e sobretudo por nosso irmão sol. Um perfume suave de relva queimada recendia de um campo vizinho. azuis e purpúreos. raposas. colocavam-se atrás dos irmãos. os cumes das montanhas estavam cobertos de ligeira neblina. vi. . Assis desapareceram e encontrei-me numa terra desconhecida. a perder de vista. com bramidos queixosos. mais ao longe. agasalhados em seus capuzes. Caía um leve orvalho. meu bem-amado Francisco. ursos. esperando alegremente o momento de levar a sua alma. chacais.Meu bem-amado Francisco . . lobos. mas de repente o ar pareceu tornar-se mais denso. de cabeça baixa. que. . Deitado de costas no chão. Em alguma parte o mar suspirava. com as asas fechadas. Pacífico? Toma teu alaúde e cantemos juntos louvores ao Senhor: "Louvado sejas. Levantei a cabeça. bois. tive um momento de distração. juntando os seus gemidos aos nossos. reunidos no céu. verdes. todos os animais vieram ao teu enterro e choram. Feras selvagens. surgiram debruçados sobre o moribundo. . avistei à retaguarda milhares e milhares de monges de crânio raspado cantando o ofício fúnebre.

tomaste a aparência de um pardal. ouvi a sua voz: . Paz. escrevia estas últimas palavras. Pai Francisco. fraca e distante como se viesse do outro mundo. A Irmã Pica rodeava-lhe a cabeça com os braços. O seu rosto resplandecia. Os grandes olhos abertos fitavam qualquer coisa no espaço. Três mulheres se lamentavam. . E és tu. Amor. a Irmã Clara abraçava-lhe os pés e o Irmão Jacopa apertava-lhe a mão contra o peito.Pobreza. para me ver. Lá fora a chuva impregnava a terra. cobrimo-lo de beijos. . Aproximei-me. Velada. um a um. Moveu os lábios. . agarradas ao corpo de Francisco como se o quisessem reter. Reuniu as últimas forças. esperando a continuação. lançamo-nos todos juntos por cima dele e.Repentinamente fui acordado por gritos lancinantes. Prendi ainda a respiração. Foi então que divisamos duas asas negras estendidas por cima de Francisco. porém não pronunciou mais nada. . que. na minha cela. chorando. virou a cabeça para nós e olhou-nos longamente. . . Nascia o sol. . Então. Levantei-me para abrir a janela. sentia frio. soluçando à lembrança do meu querido mestre. Tinha as asas molhadas. No bendito instante em que. um pardal veio bater na vidraça.

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