P. 1
Desmundo - verbete entregue

Desmundo - verbete entregue

|Views: 23|Likes:
Published by Leandro Saraiva

More info:

Published by: Leandro Saraiva on Sep 25, 2012
Copyright:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as DOC, PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

08/03/2014

pdf

text

original

DESMUNDO (8.

400 toques)

Desmundo (2002), de Alain Fresnot Histórico apresentação Dirigido por Alain Fresnot (1951-), Desmundo é um drama histórico adaptado do romance homônimo de Ana Miranda (1951-), publicado em 1996, pela Companhia das Letras. Produzido em 2002, o filme foi lançado no ano seguinte e recebeu diversos prêmios, entre eles, o Grande Prêmio BR de Cinema Brasileiro (2004), o prêmio de melhor filme no Festival de Cinema Brasileiro de Paris (2004) e prêmio de melhor atriz para Simone Spoladore da crítica no Festival SESC dos Melhores Filmes de 2003, em São Paulo. Falado em português arcaico, o filme contou com a assessoria do linguista Helder Ferreira na criação dos diálogos. Sinopse No início da colonização do território brasileiro, Oribela (Simone Spoladore) é uma das órfãs enviadas de Portugal pela Coroa para casar-se com um colono e contribuir para o povoamento da região. Graças a seu comportamento arredio, ela é entregue a Francisco de Albuquerque (Osmar Prado) que a leva para morar em seu engenho de açúcar no sertão paulista. Apesar de rude, Francisco trata Oribela respeitosamente para que ela assuma o papel de senhora da casa e mãe dos seus filhos brancos. Contudo, na fazenda moram a mãe e uma jovem irmã de Francisco, num estranho e incestuoso núcleo familiar. Durante uma tentativa de fuga, ela é recapturada pelo marido que a mantém presa, com a esperança de domar a rebeldia da mulher. Ela, no entanto, arquiteta outro plano e foge novamente, quando reencontra Ximeno Dias (Caco Ciocler), um cristão novo (judeu) e mercador de escravos que havia passado pela propriedade de Francisco. Apaixonados, eles tentam fugir da região, mas Oribela é novamente capturada pelo marido. Análise O filme de Alain Fresnot narra os primeiros momentos da formação da sociedade brasileira, fundada na conquista do território sobre a população indígena e baseada no

Oribela. No prólogo. donos absolutos dos poderes locais e das redes de influência que recaem sobre homens pobres. expressão viva da força colonizadora. simboliza o palco do drama como um mundo invertido. com a rebelião da esposa fugitiva. Oribela se encontra em condição semelhante. capazes de povoar o novo território e afastar os colonos da prática do incesto com suas filhas e mães e do concubinato com mulheres indígenas. Além de Oribela. Sob os créditos do filme. no entanto. contra a agenda da política colonial: foge. pequenos comerciantes e frágeis representantes da Coroa ou da Igreja. suspenso sobre o mar e transferido da embarcação para as terras do Novo Mundo. observando o mundo pelas frestas das paredes. ao enquadrar em primeiro plano a cara de um boi. numa aparente imobilidade que acumula as energias para momentos de ira ou de fuga. A imagem seguinte confirma este estranhamento. Este modelo de família patriarcal. ainda em gestação. Em seu projeto de conquista do território inóspito ele sofre. presa ou escondida. a colonização é vista como processo violento de submissão às conveniências e interesses do homem branco. escravos indígenas. não aceita seu destino de mulher pobre e se rebela. desde o início.poder concentrado em torno dos chefes de famílias e proprietários de terras. . um jogo de campo e contracampo entre o olhar de Oribela emoldurado por duas traves horizontais de madeira e o trabalho dos marinheiros que preparam o navio para aportar prefigura o cárcere como destino da personagem. mais cinco moças brancas trazidas do reino chegam à colônia para serem entregues como esposas aos colonizadores. Pelos olhos da jovem órfã Oribela. no qual tudo parece inóspito e incompreensível para a protagonista. Em outras sequências. por sua vez. a tonalidade da dor e o ritmo lento da angústia pontuam a trajetória de rebeldia e controle que marca as relações da protagonista com a sociedade colonial. é encarnado por Francisco de Albuquerque. Sua altivez a transforma em corpo estranho naquele mundo dominado pelos proprietários de terra. arquiteta planos para escapar do sertão e embarcar em algum navio que a leve a outros lugares. um longo plano noturno da praia. nega-se a consumar a relação sexual. de ponta cabeça. desobedece o marido. Desde o início. num esforço combinado da Coroa e da Igreja Católica para garantir a formação de famílias cristãs. “desmundo”. dissimula.

Na sequência seguinte. uma vez postos em prática. a comédia contemporânea Ed Mort (1997) e a atmosfera densa e subjetiva do drama histórico do seu novo filme. Tratada como animal arisco. Esta alternância maior se articula à alternância dramática entre os dias de trabalho ao sol e as noites longas. num cômodo da casa. A praia é a fronteira intransponível deste circuito fechado. depois de ser capturada. oferece-lhe passivamente o primeiro ato sexual e aceita sua condição submissa. em terceira pessoa. O ritmo lento. mas soberanos. tensas. apelos de compreensão e paciência. Ela. Ely Azeredo lamenta que o essencial do romance não está . em segundo lugar. destaca-se as diferenças e os desafios da adaptação do livro para o cinema. na colônia portuguesa. expressão desesperada da menina transformada à força em mulher. é espaço de ações decisivas. ao mesmo tempo. traz sempre o mar consigo e a esperança de retorno. incapaz. Passam-se dias até que ela reage numa explosão de ira incontrolável. de expressar o amor que parece alimentar pela mulher. durante o século XVI. entretanto. Francisco revela seus desejos e vontades em gestos curtos. Oribela é encarcerada pelo marido. ora ternos. ressalta-se a diferença entre o estilo do filme anterior de Fresnot. Fortuna Crítica A crítica especializada aponta. alimentada por uma índia. mas proibida de ver o marido ou sair de seu cárcere doméstico. Oribela refaz suas estratégias: simula afetividade ao marido. a uma obra literária definida pelo tom psicológico. fazem Desmundo compor um movimento de vai e vem entre sertão e litoral. a economia de diálogos e os longos planos contemplativos valorizam o olhar subjetivo da protagonista sobre sua condição e evitam. Rosane Pavan sugere que Fresnot ofereceu um tom realista. Neste sentido. Entre esta esperança de libertação e o poder quase onipresente de Francisco se institui o duelo maior de Desmundo. estruturado por uma narradora-protagonista.De pouca fala. também em silêncio. Numa cena expressiva desta condição feminina. pois Oribela. arranjos ora opressivos. em linhas gerais. enquanto organiza uma nova fuga. na aparente submissão. de um convívio feito de sinais de comando. ela fica acorrentada. na cena de confronto aberto entre Ximeno e o marido. concebe planos de fuga que. quase onírico. dois traços relevantes em Desmundo: em primeiro lugar. que a moldura histórica sirva apenas de cenário insípido para um melodrama supostamente universal.

Desmundo. 2001). pela forma dramática. em um mundo sombrio descortinado por movimentos de câmera que seguem o olhar tenso da jovem oprimida. Acervo . como Hans Staden (1999. 2003). presente no cinema brasileiro desde Descobrindo do Brasil (1937. Luiz Zanin Oricchio.presente na tela. cujo primeiro plano revela a personagem tentando se libertar de uma corrente amarrada ao tornozelo e a cena final é sua explosão de ira. Cinema e Vídeo Ltda Direção: Alain Fresnot Fotografia: Pedro Farkas Música Original: John Neschling Seleção de Trecho 00:44:03 .00:49:37 sequência da prisão de Oribela. Humberto Mauro). insere o filme de Fresnot no contexto das comemorações dos 500 anos da descoberta do Brasil e afirma que Desmundo esmiuça a antiga questão da identidade nacional. não converge para uma leitura grandiloqüente. F. no livro Cinema de Novo – um balanço crítico da retomada (Estação Liberdade. visto que o filme fica na “epiderme” do tema central. Luís Alberto Pereira). mas particularmente relevante em produções mais recentes. Lúcia Murat) e Caramuru – a invenção do Brasil (Guel Arraes. o sonho irrealizável de Oribela. O filme de Fresnot retoma o universo emblemático da formação do país. entretanto. como no filme de Mauro. a violência constitutiva das engrenagens do sistema colonial em sua fase incipiente. Brava Gente Brasileira (2000. como na obra de Arraes. Ficha Técnica Desmundo (2002) Companhias Produtoras: A. recuando às origens como estratégia de desvendamento do “caráter nacional”. nem aposta na leitura bemhumorada e farsesca da colônia. entre outros. mas expõe.

p. Alain Fresnot aventura-se em livro de Ana Miranda. Fontes de Pesquisa AZEREDO. Ely. O Estado de São Paulo.Cinemateca Brasileira Bibliografia ORICCHIO. Caderno B.2. Luiz Zanin. RJ. 11 fev 2003. p. no. “Desmundo” sem clima. maio 2003. . Luiz Zanin. Desmundo uma aventura histórica da formação do Brasil.37. Jornal do Brasil. Rosane. Estação Liberdade. p. v. PAVAN. 30-34. 2003. 1-2. Caderno 2.4. ORICCHIO. Cinema de Novo – um balanço crítico da retomada. São Paulo. Revista de Cinema.

You're Reading a Free Preview

Download
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->