O pragmatismo perdeu!

Pedro Eduardo Zini Davoglio

“Intempestiva esta consideração o é, porque procura compreender como um mal, um inconveniente e um defeito algo do qual a época justamente se orgulha, isto é, a sua cultura histórica, porque eu penso que somos todos devorados pela febre da história e deveremos ao menos disso nos dar conta”. Com essas palavras, Friedrich Nietzsche explicou o vínculo precário entre o seu tempo histórico e o tipo específico de anacronismo que guiava as suas idéias. Foi com base nessa aguda definição que Roland Barthes, quase um século depois, pôde explicitar de modo lapidar o ambíguo significado de um ser contemporâneo. “O contemporâneo é o intempestivo”, disse ele. E o contemporâneo é intempestivo justamente e sobretudo porque ao perceber-se irremediavelmente ligado ao seu tempo, sente-se dissociado dele. Ser contemporâneo é a permanente experiência de um desajuste. Embora esse tipo de elucubração já tenha, em determinados momentos, me parecido despropositada, ela nunca se me apresentou tão pertinente como agora: nunca me senti tão contemporâneo, nunca vi um mundo tão contemporâneo como agora, minutos após receber a notícia de que Angela Albino, do PCdoB, está fora do segundo turno das eleições para prefeito de Florianópolis. Ela que fez uma campanha absolutamente tímida do ponto de vista ideológico, não empunhou “nenhuma” bandeira histórica da esquerda, não enfrentou nenhum interesse sensível daqueles tantos que estruturam o cotidiano dos que vivem na ilha. Foi pálida como o seu nome sugere, e mesmo assim tem sido defendida ferrenhamente, por pessoas e grupos que se reivindicam “críticos”. Sua derrota é analisada sob a alcunha de “a derrota da esquerda”, esquerda que ela não quis e não soube ser, e que, por obra irônica do destino, custou-lhe caro. Alinhar-se, quem diria, foi o principal motivo da sua derrota. Não basta ter história, hay que honrá-la no espaço público. Nunca me senti tão contemporâneo, dizia, porque ao pensar isso, me vejo em total dissincronia com uma parcela considerável do meu meio, embora comigo andem muitos. Segundo corre, a culpa de termos um segundo turno em que disputam duas espécimes puro sangue do que há de mais retrógrado na política brasileira é, pasmem, “de todo

mundo que votou no el50n”. É, no Elson, canditado do PSOL, que superando todas as expectativas, angariou 15% do total de votos. Pois veja, se “essa esquerda extremista” fosse “mais consciente”, dizem os arautos do Facebook, poderíamos ter elegido uma “mulher de esquerda” (sic). O sectarismo mais uma vez foi responsável por impedir que déssemos um passo rumo a uma sociedade melhor, se disse. O sentimento mais generalizado era o “desânimo”, a tristeza por observar que uma força obtusa estragou a “nossa” festa por pura birra. Posições como essa são recorrentes e parecem na maioria das vezes portadoras de absoluta lucidez. Isso porque, são a expressão mais fiel da razão alinhada ao seu tempo histórico. Do Estado como único locus da política, da “esquerda” da democracia como valor universal, a força política de um mundo que representa como extemporânea toda visão que aponte nele as fraturas sociais. A racionalidade de um mundo sem classes, da República como horizonte histórico, que tem numa idéia abstrata de “corrupção” a representação da sua barbárie. Nunca fui tão contemporâneo, porque estou entusiasmado com isso que o tempo histórico impôs à “esquerda” denominar derrota. E isso porque acredito que essa “derrota”, mais do que uma obstrução, é o próprio passo adiante. Quinze por cento dos eleitores de Florianópolis, por vários motivos, se recusaram a olhar o mundo com esses velhos óculos. Essa cifra representa a redução a termo do desejo de romper com o eterno retorno de uma vida no fim dos tempos, com a pós-história em que jazem todas as grandes metanarrativas. Representa o desejo de acabar com o processo no interior do qual o PT, ao capitular quase integralmente, tomou de refém a esquerda radical que, vira e mexe, se vê obrigada a “ir à rua” defender as conquistas mais miúdas que uma governança de conciliação nacional logrou efetivar. Sempre sob o medo pululante de que se perca até esses parcos avanços, em face da permanente assombração dos herdeiros políticos da última ditadura militar, das grandes redes de mídia, e da expansão do charlatanismo religioso. Uma estratégia que, se em muitos casos é tudo o que há para se fazer, não pode, jamais, obnubilar a nossa sensibilidade histórica, a nossa capacidade de perceber que em dados momentos algo mais entra em jogo, dentro e fora das eleições. Mas, sobretudo, não pode acabar com a coragem de abrir mão de um certo conforto, e de uma certa representação linear da história, que nos impede de, na hora certa, tomar a primavera nos dentes, para marchar com ela sobre o inverno que parece interminável.

E é isso que sobressai dessa eleição. A esquerda demonstrou, em Florianópolis e em alguns outros lugares isolados, mas vibrantes, que está encontrando instrumentos pra se libertar. Que o “princípio responsabilidade” é uma chave falsa, que não abre nenhuma das portas em que ela quer entrar. Os eleitores “independentes”, uma parcela relevante da juventude, demonstraram que não estão mais dispostos a encenar a farsa que se tornou a polarização entre o PT e o PSDB no Brasil. E tudo isso, sejamos justos, apesar de uma participação pouco brilhante do PSOL, que enquanto partido nacional é absolutamente incapaz de apresentar caminhos, e mesmo de aglutinar as forças radicais. Apesar disso, e até mesmo de uma timidez da sua militância, de uma campanha que por vezes se deixou institucionalizar. Mas a semente de uma nova esquerda, a puxou de volta, e deu o recado: se ser refém do PT já é duro, não podemos nos tornar reféns de outra organização que defende a ortodoxia antes mesmo de chegar ao poder. E o segundo turno, perguntará a razão alinhada. No segundo turno, no que depender de mim, Florianópolis votará nulo. Não “abrindo mão de um direito conquistado a duras penas”, mas reconhecendo que em certos momentos, a institucionalidade que tenta permanentemente capturar tudo, não oferece mais nenhuma alternativa. Numa cidade em que todo jovem que se preze já apanhou da polícia, votar nulo é dizer, é gritar, que a política deve andar por outros caminhos, que a mudança está em outro lugar. O grande desafio posto, a essas pessoas que compõe uma massa amorfa, porém desejante, é demonstrar que existe política além das urnas, e, sobretudo, além do Estado, fora do conforto dos gabinetes. É preciso buscá-la nesses cantos onde teima em se esconder, agora, fora da eleição. O fechamento e a desesperança não duram para sempre. O pragmatismo perdeu. E Florianópolis, afinal, também é contemporânea.

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