Noções de análise histórico-literária Antonio Candido

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ASSOCIAÇÃO EDITORIAL HUMANITAS Presidente Milton Meira de Nascimento Vice-Presidente Gabriel Cohn CONSELHO EDITORIAL Titulares Vera Lúcia Amaral Ferlini Sueli Angelo Furlan Victor KnolI Beth Brait José jeremias de Oliveira Cícero Romão Resende de Araújo Filho Antonio Dimas de Moraes Valéria de Marco Beatriz Perrone-Molsés Berta Waldman Jorge Mattos Brito de Almeida Suplentes Maria Luiza Tucci Carneiro Wagner da Costa Ribeiro Caetano Ernesto Plastino Margarida Maria Taddoni Petter Vera da Silva Telles Gildo Marçal Brandão Osvaldo Humberto Leonardi Ceschin Véronique Dablet Paula Montero Moacir Amâncio Fábio Rigatto de Souza Andrade

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS Diretor Sai Hirano Vice-Diretora Savdra Margarida Nitrini

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ISBN 85-98292-18-4

Noções de análise histórico-literária

ANTONIO CANDIDO

ASSOCIAÇÃO EDITORIAL HUMANITAS

ISBN 85-98292-18-4 1.839 Capa Camila Mesquita Revisão de originais Angela das Neves . 28. Milton Meira do Nascimento Coordenação Editorial Mª. Helena G. Antonio Noções de análise histórico-literária / Antonio Candido — São Paulo: Associação Editorial Humanitas. Dr. Consoli Jacintho — MTb. 2005.840 Diagramação Marcos Eriverton Vieira Projeto Gráfico Selma M. Rodrigues — MTb n. 114p.Literatura — história e crítica 2.9 Associação Editorial Humanitas Editor Responsável Prof. n. Título. CDD 801.© Copyright 2005 Antonio Candido Serviço de Biblioteca e Documentação da FFLCH/USP C217 Candido. Crítica textual I. Literatura — teoria 3. 28.

SUMÁRIO Explicação Sumário do curso Introdução Primeira Tarefa: o texto manuscrito Bibliografia da Primeira e Segunda Tarefas 1. O manuseio da edição Trabalho prático 7 11 13 17 18 19 27 38 45 47 47 52 64 70 76 . O manuscrito e suas modalidades 2. Edição Crítica: fixação do texto 3. “Edição”: sua necessidade e critérios 2. Problemas de leitura 3. Localização do manuscrito Trabalho prático para as sessões de estudo Segunda Tarefa: o texto impresso 1. Edição crítica: apresentação do texto 4.

Conceito e configuração da autoria 2.Terceira Tarefa: a autoria Bibliografia 1. Determinação de autoria Critérios de atribuição e autenticidade 79 79 80 90 101 .

E nem lembro o que aconteceu com o resto. que correspondem mais ou menos à terça parte. O curso era de “Introdução aos estudos literários”. em 1959.EXPLICAÇÃO Foi meio constrangido que. resolvi autorizar a reprodução. para uso interno de nossa Faculdade. deste texto parcial de um curso introdutório que dei na faculdade de Assis para o primeiro ano. depois de muita relutância. mas acabei fazendo isso apenas para os tópicos iniciais. O curso foi então dividido em duas 7 . e eu propus que se desse aos problemas de crítica textual mais atenção do que lhe costumavam dar os currículos de Letras. A minha intenção naquela altura era redigir o curso à medida que o fosse ministrando com base em anotações.

1952.partes. E sei que os estudos sobre o que pode ser denominado “corpo do texto” se desenvolveram de maneira considerável depois que deixei a prática profissional dos estudos literários. Portanto. As partes que redigi foram mimeografadas e distribuídas aos estudantes. Talvez por isso a Professora Telê Ancona Lopez vem querendo amistosamente dar-lhe destino mais visível. Ao falecido Professor Naief Sáfady coube a iniciação à análise de texto. Storia della tradizione e critica del testo. valendo para mostrar como se podia ver 8 . Os meus argumentos em contrário não a convenceram. seja feita a sua vontade. onde elas acabaram se difundindo um pouco entre interessados e parece que prestaram algum serviço. numa edição para uso da Casa. sobretudo no Instituto de Estudos Brasileiros. Firenze: Le Monnier. que a meu pedido o poeta Murilo Mendes mandou de Roma para Assis. Mais tarde eu as utilizei uma vez ou outra na Universidade de São Paulo. O leitor eventual verá que este texto é obsoleto na maior parte. Basta dizer que só depois de mimeografado e distribuído pude ter em mãos a obra fundamental de Giorgio Pasquali. cabendo-me esta. O que está aqui deve ser considerado peça menor de museu. além de ser fruto de informação reduzida.

quem sabe terá valido a pena a insistência amável de minha cara amiga e colega Telê Ancona Lopez. Se interessar sob este aspecto.o problema há meio século. junho de 2003 Antonio Candido de Mello e Souza 9 . São Paulo.

O texto impresso (abril) 3. O destino da obra (junho) 2ª PARTE: O AUTOR 5. A biografia (agosto) 11 . A autoria (maio) 4. O texto manuscrito (março) 2.SUMÁRIO DO CURSO 1ª PARTE: A OBRA 1.

3ª PARTE: O TEMPO 6. Períodos e gerações literárias (outubro) 8. Cronologia comparativa (novembro) 12 . Fatores do meio e da época (setembro) 7.

quando. tipo.). onde. É. por assim dizer. Este apresenta dois aspectos básicos: a) acessório b) essencial O primeiro é a sua realidade material (aspecto. caligrafia. o corpo da obra literária e a história deste corpo. É. 13 . papel. significado. a sua alma. O segundo é a sua realidade íntima e finalidade verdadeira: natureza.INTRODUÇÃO O estudioso de literatura visa essencialmente ao conhecimento e análise do texto literário. em que condições foi escrito). estado do texto etc. como. de certo modo. mais a sua história (por quem. alcance artístico e humano.

deste primeiro ano. como ao leitor comum e mesmo ao amador do bom gosto. O estudioso da literatura não pode dispensar o conhecimento adequado dos aspectos externos. isto é. mas indispensáveis. O fato de estarem separados no curso de introdução. A denominação dada a esta parte do curso foi “análise histórico-literária”.Na parte que me toca do presente curso. em relação aos segundos. será estudado o corpo da literatura e a sua história. que podem. porque não lhe basta. assumir grande importância. é devido a motivos de ordem meramente didática. no estudo sistemático da literatura só compreenderemos a integridade da obra tomando um aspecto em relação ao outro. que deseja todavia significar o seguinte: análise dos elementos que dão à obra individualidade 14 . racionalização e facilitação do ensino. Denominação imperfeita e incompleta. sentir e gostar. aspectos acessórios. Pois assim como alma e corpo são indissoluvelmente ligados e mutuamente dependentes. que constituem. tais conhecimentos principiam pelos elementos mais humildes da obra (o seu corpo ou configuração material). a sua tarefa não se perfaz sem os conhecimentos obtidos pela erudição literária. como veremos. Ora.

É o estudo de como ela é. preencher lacunas. como o ambiente artístico e social influi no seu estilo. visando as componentes artísticas que despertam a emoção). de estética. porém. poder-se-ia dizer que o nosso curso é de Filologia. como as obras possuem características gerais que permitem distingui-las por períodos etc. ou seja. averiguar quem a elaborou.material e estudam a sua gênese e duração no tempo. mostrar como se leva em conta o seu autor. daí falarmos em Erudição e História Literária. 15 . dar fidedignidade ao seu texto. um significado lingüístico. Se o termo filologia não tivesse. no mais amplo sentido. não convém usá-lo. como os autores se agrupam em gerações. Dado aquele fato. de como se faz para decifrar letras. em língua portuguesa. o estudo dos elementos técnicos e culturais que permitem esclarecer um texto literário (enquanto o curso do Professor Sáfady seria. e se o uso mais corrente noutros países não o limitasse às literaturas antigas.

Localização do manuscrito 17 .PRIMEIRA TAREFA O TEXTO MANUSCRITO 1. Problemas de leitura 3. O manuscrito e suas modalidades 2.

2 1 Trad. Introducción a la Literatura Medieval Española. Louis.}: Association Guillaume Budé. Bem: LOPEZ ESTRADA.d. Paris: Gigord. Madrid: Gredos. F. Wolfgang. L.. 1959. WELLECK. Règles pour les éditions critiques. 1959. 1948. GESLIN. New York: Macmillan. 2 Trad. Wilson. R.1 Das spracbliche Kunstwerk.l. MARTINS. Lázaro. 1958. Diccionario de términos filologicos. Appunti de filologia italiana e storia della critica. K. SANDERS.}: Anhambi. 1948. Madrid: Gredos. Chauncey. Carmine. Manuel pratique de littérature. New York: Harcourt Brace. Trad. CONSEJO Superior de Investigaciones Cientificas — Escuela de Estudios Medievales. 18 interpretação e da análise literária. {s. Dictionnary of World Literature. 1950. {s. Austin. JANNAC0. v. 1952. Francke. portuguesa: Fundamentos da Armênio Amado. WARREN. {s. KAYSER. 1944. Madrid: Gredos. 1949. Normas de transcricion y edicion de textos y documentos. J. Textual criticism. New York: The Philosophical Library. T. An Introduction to Research in English History. Madrid. 1949. Coimbra: . Apostilas. espanhola: Teoria literária. 2 v. In: SHIPLEY. 1952.l. 1957. HAVET. espanhola: Madrid: Gredos. Morgan. Theory of Literature. II. A palavra escrita. CARRETER.}.BIBLIOGRAFIA DA PRIMEIRA E SEGUNDA TAREFAS (Não se inclui a dos exemplos) ABBOT.

se o seu alvo é a análise objetiva. virão assinalados entre barras. não a impressão (embora esta seja indispensável para ele. estes constituem um dos seus campos de estudo. numa literatura oral. pois o estudo da literatura propriamente dita pressupõe a expressão registrada por meio da escrita. ela parte dum ORIGINAL. ele 19 As palavras em venal devem ser objeto de uma ficha. contudo.3 A condição para ser definido deste modo é que o autor. As indicações das abreviaturas usuais que o leitor encontra. o considere ponto de partida para a divulgação. datiloscrito ou impresso. bem como dos diapositivos projetados em aula para exemplo. um escrito emanado direta ou indiretamente de um AUTOR e destinado em princípio à divulgação. O MANUSCRITO E SUAS MODALIDADES Pode-se falar.1. ou alguém por ele. e. relativamente isolados nas sociedades civilizadas. como vimos. Com efeito. ou seja. Embora o estudo sistemático da literatura não parta necessariamente de originais. objeto da etnologia e do folclore. sem dúvida. 3 . para utilização posterior. como a que existe entre os povos primitivos e os grupos iletrados. em que os alunos fixem bem o seu sentido. o básico. podendo ser manuscrito. Por isso. Ela é. e suficiente para o leitor comum).

não havia registro civil) — não o informe de um biógrafo. portanto. por exemplo. ou a exposição por ele feita. se pudermos utilizar no caso. não a sua reprodução ou alusão. docs. Chamam-se assim os documentos /doc. que requer necessariamente uma técnica de leitura.deve visar a uma leitura técnica. Em teoria. Embora os estudiosos só possam manusear os originais em escala limitada. como se sabe. a fonte primária para conhecer o seu casamento é o respectivo assento eclesiástico (àquele tempo. como uma espécie de fonte primária. será uma fonte secundária. o ponto de partida para conhecimento de uma obra é o seu original.. para esclarecer. se for fidedigna. Na biografia de Gonçalves Dias. podem (como veremos na próxima Tarefa) se valer das edições feitas por quem entrou em contato com eles./ mais puros e originais sobre um dado fato. tão cabal quanto possível. op. do texto de uma obra /ob. em literatura. que. obtendo assim as condições elementares de objetividade crítica. que valeria. Como nem sempre as fontes originais existem.. 20 ./. este conceito tomado à ciência histórica. serão considerados primários os seus traslados — mostrando assim a relatividade do conceito. E esta principia pelo conhecimento.

Devemos considerar o caráter diferente apresentado pelos mss. que cercam a obra.. que se apresentava sob forma de cópias feitas para circularem. A investigação ou pesquisa erudita consiste em grande parte no esforço de localizar. estilo. aos originais... quer referentes à ob. Dentre esses originais. mas a esta. sem dúvida. a dificuldade se deve à falta 21 . pena etc. Antes. obter e explorar sistematicamente as fontes primárias de interesse para a literatura./. era não apenas o original. (Para nós. quando emanado direta ou indiretamente do autor. Mss. Ms. quer ao A. ms. chamaríamos fontes primárias. só por analogia. no estudo histórico-literário.Ele pode. aplicar-se aos documentos referentes à biografia e condições históricas em geral.). mss. vamos por ora concentrar a atenção nos manuscritos /MS.. antes e depois da invenção da imprensa. os que foram escritos à mão../.. mas o próprio livro. MSS. que representam a vontade mais pura do autor /A. elaboradas a capricho em caligrafia especializada e — para os coevos — alto grau de legibilidade. com instrumento não mecânico (pincel. manuscritos ou não. cálamo. isto é. Neste caso. AA..

de hábito com o tipo de escrita.) /Diapositivos: ms.. periféricos (discriminação que logo veremos). e os docs. 4 . (A. objeto da paleografia — disciplina que visa ao deciframento dos mss. não interessa diretamente o problema dos mss. há portanto o ms. O seu valor cresceu à medida que se estabeleceu e precisou a técnica das edições críticas (que veremos na próxima tarefa). ou inédito a ser impresso. Aqui o leitor encontrará apenas menções. ms. subsidiários. para serem bem compreendidos. o ms. Para o moderno estudo erudito. a ser consultado. marcando o momento em que deviam ser projetados. interessa ao estudioso como (se pudermos usar a expressão) fonte primária para estudo de um texto impresso.4 Sendo o nosso curso de introdução ao estudo das literaturas modernas. duma especialização adequada. Não sei o que foi feito deles. ou original. 2004). ou doc. A partir da imprensa. reservando-se freqüentemente o seu emprego para designar as obras — não os docs. antigos e medievais. propriamente dito. referentes a dados biográficos.. que dependem. carolíngeo. em uncial/. c. históricos etc. ou mss. 22 Durante o curso usei abundantemente diapositivos que tornaram a exposição mais clara e mais viva.

cópia. conforme a fonte de que emanaram: AUTÓGRAFO APÓGRAFO Chama-se autógrafo ao ms. Em pesquisa literária trabalhamos com os dois tipos. Lembremos. que não se pode. entende-se qualquer escrito. chamar autógrafo a qualquer original de autor. um autor inglês. mas não há necessidade de adotálo. sobretudo em fases de caligrafia muito padroniza- 23 . num autógrafo de Machado de Assis. Convém o estudante precaver-se com o fato de este termo ser vulgarmente usado em sentido restrito. havendo por vezes certo perigo de confusão entre eles. apógrafo de Gregório de Matos/. evidentemente.Os mss. mas apenas aos mss. referindo-se apenas à assinatura. de um escrito original /Diapositivos: autógrafo de Alexandre Herculano. propõe o termo hológrafo para os originais de punho do autor. ainda. isto é. que em boa técnica deve ser chamada de assinatura autógrafa. Chama-se apógrafo ao traslado. feito em letra de mão pelo próprio A.) Quando se fala. não a assinatura. pois. em linguagem técnica. originais se dividem em dois tipos. Sanders. (Para remediar este inconveniente.

nem é possível isolar uma categoria da outra. com o fim de serem apreciados. juntos. contas. os escritos da primeira categoria (A) são escritos feitos com intuito artístico. sendo geralmente feitos por terceiros (em relação ao autor) — como certidões. autógrafos e apógrafos em caligrafia caprichada. do século XVIII. ou se registram fatos. diários. Quanto à natureza. Em princípio. nos mss. os mss.da. informes de todo tipo. exprimindo sentimentos ou circunstâncias de ordem pessoal. os da terceira categoria (C) são escritos em que se informa algo. os da segunda categoria (B) são feitos. notas etc. 24 . e por isso despersonalizada.. sem intuito artístico nem finalidade de divulgação. Assim. Os advérbios já sugerem que a fronteira não é rígida. (C) documentos propriamente ditos (“periféricos”). (B) manifestações pessoais. de Cláudio Manoel da Costa. há. geralmente. com que se defronta um estudioso variam muito. como cartas. podendo-se entretanto dividi-los essencialmente em: (A) obras literárias propriamente ditas. conservados na Coleção Lamego da Universidade de São Paulo. destinados à divulgação. podendo levar a dúvidas o leitor desprevenido.

que passam a ter finalidade em si. cheio de elementos autobiográficos precisos. No Brasil. por assim dizer. ao contrário. É se dá com as famosas memórias. que valem como B ou C. em si. de Aluísio de Azevedo é citado nos livros de sociologia e história como documento sobre o preconceito de cor. as de Rousseau. geralmente um fato positivo. C podem ser redigidos com um teor artístico que os aproxima de A — como é o caso do relatório de Graciliano Ramos quando prefeito de Palmeira dos Índios. valem. Germinal. mas como meio para se chegar a algo. respectivamente. e são publicados como se fossem A. David Copperfield. revestir-se de tal caráter estético. O Mulato. C. mesmo sem isto. Peppys. diários. não em si. B têm um caráter misto e intermediário. B podem ser feitas com um olho no público e a intenção de atingi-lo. não tendo outra finalidade além do seu próprio conteúdo.Daí resulta que A valem. Todavia. de Émile Zola sobre a vida dos mineiros de carvão. Leopardi. No primeiro caso temos o romance de Dickens. certos romances documentários do naturalismo. A podem ter um tal conteúdo de depoimento. que chamou sobre ele a atenção dos literatos e le- 25 . Finalmente. cartas. ou podem. no segundo. Por sua vez.

a distinção se mantém como enunciado de tipos ideais. são mais importantes A.vou o editor Schmidt a lhe perguntar se não teria algum romance inédito. mas a importância real de cada um varia segundo a finalidade do estudo em andamento — lingüística. e foi o seu livro de estréia. Assinalemos para terminar. padrões elaborados com abstração de características dos múltiplos casos particulares. Em tese. que valor pode ter para a compreensão da sua personalidade e obra). guardado cinco anos na gaveta. estética. do que um poema inédito sobre a democracia. histórica. Se estivermos. biográfica etc. quaisquer se chama CÓDICE /Cod. embora um pouco fora do esquadro. num determinado caso./. Em princípio. interessados em estudar a doença de Castro Alves (para averiguar. isto é. Efetivamente ele o tinha. 26 . Caetés. todavia. que uma coleção cosida ou encadernada de mss. terá mais importância um relatório médico do facultativo que o tratou. em última análise. a fim de possibilitar a sua classificação lógica. e deste modo ordenar o material encontrado no trabalho de investigação.

no segundo. modificou-se e em grande parte se perdeu (por desnecessária) a antiga arte caligráfica. levando a comprimir para poupar espaço /Diapositivo: página da História ck Barlado e José/. todavia.2. devidas. No primeiro caso estão a caligrafia e as abreviações. Até o século XX. PROBLEMAS DE LEITURA Aos nossos olhos. foi feito 27 . da pontuação. como vimos nos diapositivos projetados. da separação e ligação entre palavras. medievais a caligrafia é geralmente perfeita. seja a elementos formais. a raridade do papel. Eram de caráter muito diverso do atual os seguintes elementos: o uso das maiúsculas e minúsculas. Com a invenção da imprensa. o vocabulário e a sintaxe. conceito pictórico das letras capitais (capitulares). o original ms. seja a elementos de redação. como: espaço reservado às iluminuras. além de fatores que influíam no aspecto geral e legibilidade do ms. tendendo a ser instrumento privado de cada um. cada vez mais. mas obedece a moldes com que não estamos mais familiarizados.. pode apresentar dificuldades de leitura. que se foi tornando. habituados a papel impresso ou datilografado. individual e natural. Nos mss.

com a formação dos moldes caligráficos e tipográficos modernos. “redonda” etc. na infância.à mão todo o serviço administrativo. das Cartas chilenas e do Hissope (Antônio Dinis da Cruz e Silva). comercial. o século XVI foi verdadeira ponte. No que tange à literatura. como antes. em livros adequados. no Brasil e em Portugal. Nele radicam as letras mss. do Livro de Marco Paulo/. como verdadeiros mss. não de sua divulgação. no século XVIII. /Diapositivo: exemplos de itálica e inglesa no fim do século XVI/. jurídico etc. Em geral. à qual estava ligada a princípio. o treino da “leitura manuscrita”. /Diapositivo: pág. hoje cada vez mais confiado à máquina. Foi o caso. houve uma tendência da caligrafia se aproximar da letra tipográfica. “inglesa”. político. embora em países de nível cultural mais baixo. e maior opressão de pensamento. chamadas “bastarda”. “itálica”. chegando alguns livros a serem concebidos e compostos graficamente. Neste sentido.. a cópia ms. conservasse grande importância neste sentido. a caligrafia se tornou sobretudo instrumento de redação das obras de cada um. 28 . e muitos de nós ainda se lembrarão de ter aprendido. que se foi por sua vez afastando pouco a pouco da caligrafia medieval.

(imediatamente). Mas até o século XX. que a terra de Nemeu agarra. Um velho talvez ainda escreva hoje: pa. imed. houve tendência para florear maiúsculas. dispensando o conhecimento paleográfico. bordar letras. contrações. com lamentáveis conseqüências para o conhecimento e exata interpretação do texto literário.. a partir do século XVII. às vezes começando esta com maiúscula.Daí por diante. a fim de marcar a diferença: oSeu. recentemente restaurado por Rodrigues Lapa na sua forma original./ do seguinte modo: A mão. jqm. Tais hábitos caligráficos podem dar lugar a erros gravíssimos de leitura. em si. ~q ou q. 29 . com a palavra seguinte. duv. palavras pequenas. vv. segundo o hábito tradicional. (para). (Joaquim Carneiro de Mendonça) — além de ligar. veja-se o de um soneto de Alvarenga Peixoto. (que). e a difusão da máquina de escrever. o talhe da letra ms. lia-se o primeiro verso /v. abreviar com abundância. não apresenta. doMesmo etc.a (dúvida). Nas edições. sobretudo pronomes. ligar palavras etc. problemas de leitura. Para dar um exemplo disso no caso das ligações. Carn° de Mendça. isto é.te. preposições.

cujo sentido é totalmente diverso e melhora consideravelmente o verso e os créditos do poeta: “a força de Hércules. da 9ª Parte de Marília de Dirceu: Tu não verás. Vejamos agora um caso menos grave. 1811). Na verdade. Assim se imprimiu desde a primeira vez (Tipografia Lacerdina. que infunde terror à ferocidade do Leão de Neméia” (mão e garra são sinédoques). Na sua Antologia dos poetas brasileiros dá 30 . deve-se ler: A mão. em todas as edições do poeta. Ou do cerco dos rios caudalosos. na belíssima Lira 9ª. Ou da minada serra. melhor que todas. cem cativos Tirarem o cascalho.ou seja. inclusive a excelente. a mão (de Hércules) que agarra a terra do Leão de Neméia — hipérbole forçada. de Rodrigues Lapa (1937). Trata-se do verso de Gonzaga. pois não fere a atenção do erudito. por isso mesmo de molde a perdurar. Marília. e a rica terra. que aterra de Nemeu a garra. embora formando sentido.

onde se publicaram outras liras de Gonzaga. Neste caso. andou mal Olavo Bilac “melhorando” certos versos que citava ou incluía em trabalhos seus. mas houve incontestável melhoria do ritmo e da expressividade estética. de 1813. na revista O Patriota. não houve alteração radical do sentido. portanto. É um imperativo da ética intelectual a que nenhum pretexto vale para alguém se eximir. ao contrário do de Alvarenga Peixoto. como o de Gonçalves Dias. ainda que a correção viesse prejudicar. com a leve pausa subseqüente. na admirável maldição do “I Juca Pirama”: 31 . Por isso. Seria. seria obrigação do erudito adotá-la.fase colonial (1952). possivelmente à vista de autógrafos em alguns casos. se achasse que correspondia à vontade do A. para explicar a variante da Lacerdina. e nela lemos da seguinte maneira o último verso: Ou da mina da serra. a versão original. Mas. como se pode ver pela idéia de profundidade resultante do acento recair na primeira sílaba de “mina”. Sérgio Buarque de Holanda retomou uma publicação isolada dessa Lira. que faz pensar num possível erro de leitura devido ao mesmo vezo caligráfico de ligar palavras.

de Pascal. que não passa dum escorço de átomo.. homem tão ínfimo. 32 . Exemplo famoso dum erro de leitura que conduz a erro grave de interpretação é o de Victor Cousin. ce raccourci d’abîme. Mas uma leitura posterior. e construiu uma divagação metafísica sobre este admirável conceito do homem como “escorço de abismo”. ou feliz. leu a certa altura: L’homme. que. Isto é. ce raccourcï d’atôme. Implorando cruéis forasteiros. cuidadosa.Possas tu. decifrando a péssima letra dos mss. Seres presa de vis Aimorés — em que substituiu o último verso por: Ser a presa de vis Aimorés.. descendente maldito Duma tribo de nobres guerreiros. mostrou que a frase era bem mais prosaica: L’homme. que se justificava por outros trechos em que Pascal fala do abismo que o homem ladeia constantemente.

Aqui tocamos num fator de dificuldade da leitura. mas sem problemas graves depois de certa familiaridade. perdeu a regularidade. como Eça de Queirós ou Shelley /Diapositivo: ms. chegamos a certos casos de clareza equivalente à da letra impressa. como Stendhal. rabisco ilegível. Certos autores constituem por isso um problema grave. a escrita se difundiu e a letra de mão piorou. no limite. tendo a imprensa despojado a caligrafia do seu caráter de arte. como Coelho Neto ou Stefan George /Diapositivo: ms. de Shelley/. e tendo a generalização da instrução suprimido o seu caráter de prática restrita a uma minoria especializada. que divergem freqüentemente no deciframento duma palavra ou trecho. pode constituir problema para os estudiosos. Herculano/. como Castro Alves ou Inocêncio Francisco da Silva /Diapositivo: ms. a despeito de uma exploração meticulosa. Como se viu. outros. de Inocêncio/. Mas o caso 33 . nalguns casos. trechos ininteligíveis ou de leitura contestável. cujos mss. de clareza que não dá lugar a dúvidas. como Alexandre Herculano ou Machado de Assis /Diapositivo: ms. Outros são de difícil entendimento. apresentam ainda hoje. de A. outros são claros. de Stefan George/. tornando-se. a letra do ms.

nas literaturas modernas. Nesta categoria entram as gralhas ou erros tipográficos. as diferentes formas que. em erudição literária. vars. O seu estudo é dos mais importantes na erudição literária. que nos vieram por cópias copiadas de cópias anteriores. Chamam-se assim. não apenas se dá o caso do deciframento. p. devido à diferença entre dois ou mais mss. 332. tipógrafo. no caso de imprensa. inteligibilidade ou fidedignidade do seu texto. mas da exclusão de uma forma em benefício de outra. Aí./. é geralmente devida a duas circunstâncias: 1) alteração feita pelo A.. que nos interessam. o da escolha entre mais duma forma possível.) A var. ou. 2) alteração quase sempre involuntária.. permitem isto. elas permitem uma versão mais satisfatória. dentro de um mesmo trecho.mais importante é. aparecem nos mss. (Definição adaptada de Lázaro Carreter. revisor etc. feita por um copista. No caso das obras modernas. ou edições de um mesmo texto. quando não 34 . com o intuito de aumentar a beleza. dá-se o nome de VARIANTES /var. A estas diversas formas. No caso de obras antigas. as vars.

nas diversas provas tipográficas. rejeição dum primeiro termo ou trecho. neste caso. nos originais e representam. O estudo dos originais de Marcel Proust.há originais. percebemos tentativas que não lograram satisfazer a consciência artística do A. É sabido que Balzac reescrevia os seus livros no decorrer de sucessivas provas tipográficas. mostra uma espantosa capacidade de emendar e alterar. Albert Feuillerat. quando os há. Todavia. Isto permitiu a um estudioso. bem como a evolução estética de um A. nos datiloscritos. mesmo escritores menos obcecados pelo problema da expressão costumam alterar consideravel- 35 . de que podemos ver exemplos abundantes no livro de Pierre Abraham (Proust). As vars. descobrir algumas diretrizes que presidiram à concepção e desenvolvimento da sua grande obra. Sob a correção. analisando as provas tipográficas do primeiro romance da série. que não chegou a ser adotado como bom. As correções às vezes se multiplicam. Caminho de Swann (Comment Marcel Proust a composé son roman). podem abrir perspectivas sobre o processo de criação.. permitindo avaliar o seu sentido profundo. que se manifesta nos mss. e podem provir de alteração dum texto pronto e impresso. que abrange não raro largos trechos. podem provir de correções do A.

ou pequeno grupo de palavras. não sendo conveniente tomar os dois vocábulos como sinônimos. e às vezes com redação diversa. que neste momento se substitui ao A. surge para o estudioso o problema de determinar qual deve ser preferida. geralmente com muitas variantes. é do texto. e que recebe o nome de leitura ou LIÇÃO.. segundo ocorre freqüentemente. implicam. Leitura não é apenas o deciframento do ms. de Alexandre Herculano/. Notese que a var. enquanto a versão é o conjunto do escrito. como dizemos nós. pois. a existência de variantes.. As vars. redações. ou. A versão (que não deve ser confundida com outras acepções da mesma palavra) implica. A var. de certo modo. elas recebem o nome de VERSÕES — embora correntemente não se estabeleça a distinção entre estes termos. 36 . como dizem expressivamente os franceses. Em face das vars. a existência de mais dum estado do texto. Quando se trata de redações que apresentam diferenças entre si.. pois. mas a lição depende da responsabilidade do erudito.mente os seus mss. e representam estágios que o A. e orig. é a versão diferente de uma palavra. considerou provisoriamente satisfatórios. /Diapositivo: rasc. mas a forma adotada pelo estudioso entre mais de uma.

p. através dele. As modificações do texto ms. dando lugar a obras parcial. do referido estudo. vars. publicar uma outra versão da sua obra. embora apenas a última seja o texto por ele finalmente escolhido e dado a lume. que o A. cujas versões vêm publicadas nas boas edições. basta lembrar que ela pode constituir verdadeira revolução no texto. como Eça de Queirós com o Crime do Padre Amaro. Poets at Work. de Stephen Spender. como é o caso para A Assunção. mas como modalidade muito mais ampla. mostrando as sucessivas correções e seu significado/. ou versões. Noutros casos. considerava superior à publicada. podem ter grande importância para conhecer os intuitos de um A. EUA (“The meaning of the discarded poem”. sobre os rascunhos do belo poema “The Express”. de todo o processo criador — como se pode ver pelo estudo de Karl Shapiro.. de Frei Francisco de São Carlos. 89-121). mas essencialmente diversas.. /Diapositivos: as págs. É o caso da Tentação de Santo Antão. Às vezes sabemos que há uma versão perdida. conservados na Coleção de Poetas Modernos da Universidade de Buffalo. de Gustave Flaubert.Para demonstrar que não devemos considerar versão como sinônimo de var. vemos o próprio A. e. 37 .

ou de mera consulta. no Brasil. costumam ser designadas por abreviações. conservação e catalogação. O critério mais simples é designálas por maiúsculas. LOCALIZAÇÃO DO MANUSCRITO Entende-se por localizar um ms. para mss. procurar onde ele se encontra e fixar a sua data. do Arquivo Nacional e dos Estaduais. números etc.. letras. C etc. Esta busca tem um caráter ou de descoberta. A localização tem pois um aspecto espacial e um aspecto temporal. ou de setores especializados de repartições civis. 3. quando se trata de ms. militares e eclesiásticas. conservado e catalogado por particular ou instituição. nome do descobridor. pública ou privada — havendo algumas que se especializam na sua guarda. o problema básico. ou. B. academias etc. medievais e antigos. Na pesquisa literária. versões ou não. É o caso.. é o da sua busca — e nisto se cifra o conceito vulgar de pesquisa. institutos históricos. bibliotecas públicas.Notemos que as diferentes cópias de um ms. Dá-se o segundo caso quando apenas vamos manusear um ms. sua descoberta: A. segundo a data da sua fatura. 38 .

. sem alterar ortografia. não estão publicados. Outras vezes. como é o caso dos Autos da Devassa da Inconfidência Mineira. 72). que facilitam sobremodo o trabalho do estudioso: 1) publicação de catálogos dos seus mss.. a “Relação dos documentos sobre o Brasil existentes no Arquivo Real de Haia”.Quanto aos mss. 2) publicação na íntegra do ms. existentes em outras instituições. nos Anais da Biblioteca Nacional. a relação dos mss. Quando os mss. Assim. As instituições que possuem mss. Assim é que podemos ver. a sua busca requer um trabalho por vezes muito difícil. tomam muitas vezes duas iniciativas. não raro na dependência do acaso. as instituições tomam a iniciativa de arrolar os docs. em geral ordenados por assuntos. o estudioso que desejar fazê-lo deve enfrentar o problema da sua 39 . não conhecidos. temos. ou não localizados. no volume acima citado dos Anais. reproduzindo em geral o ms. de Gonçalves Dias em seu poder (v. dados à luz pela mesma instituição numa série de sete volumes. pontuação ou sintaxe. exatamente como se encontra. Estas publicações obedecem a certos critérios. sobretudo estrangeiras.

de interesse para o Brasil.: o microfilme ou fotografia em película de 35 mm. por exemplo. foi fotocopiada pela altura de 1920 em Viena. elaborar trabalhos baseados em documentação original. Atualmente temos um recurso técnico cada vez mais difundido. só lhe estava ao alcance o meio mais falho. que pôde assim obter um texto perfeito para a sua edição crítica. que se lê depois com o auxílio de um aparelho como este que aqui temos. sem sair de onde mora. Deste modo. Augusto Magne. Até há pouco. Freqüentemente as instituições e governos promoviam o traslado sistemático. todavia. mediante catálogos bem-feitos e serviços de documentação.reprodução. como foi o caso de João Francisco Lisboa e Gonçalves Dias. acarretando erros e confusões de deciframentos. começou-se a utilizar a fotocópia.. é possível a um estudioso. a cópia manual ms. copiando ou fazendo copiar mss. evitando erros. A Demanda do Santo Graal. que permite a reprodução exata do original. em missão do Governo Imperial. 40 . que permitiu verdadeira revolução na utilização dos mss. a pedido do Pe. A partir do fim do século XIX. que estiveram na Europa.

contribuindo a sorte e o acaso. pois. o caso do longo romance Jean Santeuil. de Proust. numas caixas amontoadas no acervo conservado por sua sobrinha. Entra então em cena o esforço de descoberta do estudioso. Exemplo de puro acaso é o do achado dos importantíssimos mss. por um estudioso que estava realizando uma busca organizada. de docs.O caso mais delicado é o da busca de mss. não registrados ou não reunidos em depósito. Este estudioso estava em Roma e pôs-se a averiguar tal problema. por Sérgio Buarque de Holanda. encontrado em folhas por vezes rasgadas. como foi. portanto. desde a consulta direta de um ms. Há. no decurso duma investigação sistemática. Exemplo de investigação orientada foi o encontro. conhecido 41 . descobrem-se obras da maior importância. que provam a admissão de Basilio da Gama à Arcádia Romana. vários graus e tipos de localização espacial. havia. um intuito definido. num leilão da biblioteca do poeta José Maria de Heredia. Em alguns casos. que em geral só ocorrem em meio a um continuado esforço. recentemente. em Paris. totalmente ignoradas. de Cláudio Manoel da Costa por Caio de Melo Franco. contendo peças outrora pertencentes à Biblioteca dos Condes de Valadares.

Tais problemas interessam sobretudo ao aspecto histórico da investigação literária. mas podem ter importância para a interpretação. No en- 42 . não sou nenhum vaqueiro” — foi escrita por Gonzaga a fim de mostrar a sua valia pessoal. muito aproximativa. A ser verdade. seria isto um elemento interessante para mostrar a motivação direta da sua obra pelos elementos da sua vida. afirma. Tomás Brandão. por erro ou qualquer outra circunstância. ricos e afidalgados. A localização temporal consiste essencialmente no problema de determinar a data e as condições em que foi redigido — o que pode ter grande importância para preparar um bom texto (como veremos na próxima Tarefa). baseado em tradição de família. antigos e medievais os problemas são mais graves. Assim. que a bela Lira nº 1 da 1ª Parte — “Eu. Nos mss. conhecer a biografia do autor. descontentes por ele ser pobre. sem nobreza e relativamente velho. modernos freqüentemente vêm datados. totalmente ignorado. e a fixação da data. Os mss. no seu livro Marília de Dirceu. mas a data pode ser falsa. a gênese da sua obra e a estrutura dos períodos. até o encontro fortuito dum ms.e catalogado. ante as objeções levantadas ao seu casamento pelos tios da moça. Marília.

e portanto anterior aos seus amores com Marília. eles radicam num estado de ânimo anterior. se ele teve a idéia de utilizar aquele sistema de imagens e conceitos para o fim indicado por Tomás Brandão. Ora. e só podem ter significado biográfico parcial.tanto. E assim vemos que a data dos mss. — que se enuncia mais ou 43 . mas do aproveitamento de um lugar comum poético. Xavier de Matos. sem poder atribuir-lhe uma data precisa. É mesmo possível que nem partam de uma situação individual. minha Nise. há um fato que abala a informação do erudito: há um poema publicado pela primeira vez em 1812. pegureiro que apresenta os mesmos temas. averiguou todavia que é anterior à vinda de Gonzaga para Minas. Talvez seja possível reconhecer a origem dos ditos poemas em peças anteriores de Correia Garção e J. principiado pelo verso Eu não sou. não constitui um problema meramente exterior de erudição. Estas considerações levam a um problema final: o da autenticidade do ms. mas pode apresentar elementos relevantes para a interpretação. a localização temporal. Isto mostra que.

Mendonça de Azevedo precisava demonstrar que o depoimento de Cláudio 44 . Nestes casos. como a grafologia ou estudo sistemático da letra ms. desesperado pelo que havia feito sob o império do pânico. a quem se atribui este ms. provando a falsidade dum depoimento que revela fraqueza moral. “Autoria”. E o suicídio o reabilita. a abertura do processo.menos do seguinte modo: será realmente de Fulano o ms. a erudição recorre a disciplinas especializadas. Esta tradição vem talvez do desejo de limpar a memória do poeta. justamente. é que ele se haja suicidado. adiantemos desde já alguns dados. O mais verossímil. confusão. atribuído a ele. ou seja. Mas para provar a sua tese. de que Cláudio Manoel da Costa não se suicidou na prisão: foi morto pelas autoridades. sem autenticidade. Não são raros na literatura os mss. Ou: existe Fulano. APÓCRIFOS. má-fé etc. já defendida por outros e baseada numa tradição local de Ouro Preto. assim.? Embora seja parte da nossa Terceira Tarefa. devidos a erro. que servisse de peça incriminatória contra os seus amigos e permitisse. a fim de se poder atribuir a ele um depoimento falso. O erudito brasileiro Mendonça de Azevedo sustenta a tese. todavia.

de um ms. 8: “Exposição Fúnebre e Simbólica das Exéquias. no caso. tomada em absoluto. projetado na tela. familiarizandoos com as suas peculiaridades caligráficas. infanta de Por- 45 . as fases da investigação. Seção de Mss.era falso. a fim de os iniciar no deciframento de letra mais antiga. TRABALHO PRÁTICO PARA AS SESSÕES DE ESTUDO Cópia. o que procurou fazer submetendo a uma perícia grafológica a respectiva assinatura. pois a assinatura tem pouco valor. Mas vejamos na tela. Maria Francisca Dorotéia. que à memorável morte da Sereníssima Senhora D. A prova não me parece convincente. inédito e não descrito do século XVIII (provavelmente 1771). de um ms. n. pelos alunos. conservado na Coleção Lamego da Universidade de São Paulo. Trata-se. que servem para ilustrar a técnica.. comparada com outros exemplares da mesma./Diapositivo: os diversos elementos fornecidos no estudo citado/.

seria este um modo de associar diretamente os alunos ao trabalho. Sr. e Exmo. fez oficiar no Arraial do Paracatu o limo.” Pretendendo eu prepará-lo para publicação. limitaram-se os alunos a preparar fichas das palavras em versal no quadro-negro. o microfilme fornecido pelo Serviço de Documentação da Universidade de São Paulo fora feito em escala que não se adaptava ao nosso aparelho. Ante o contratempo. com a finalidade já referida. etc.tugal. 46 . Conde de Valadares. Governador e Capitão General da Capitania de Minas Gerais etc. Infelizmente.

Edição crítica: apresentação do texto 4. Edição crítica: fixação do texto 3. que possa consul- 47 . “EDIÇÃO”: SUA NECESSIDADE E CRITÉRIOS No estudo da literatura. O manuseio da edição 1.SEGUNDA TAREFA O TEXTO IMPRESSO 1. “Edição”: sua necessidade e critérios 2. o estudioso precisa valer-se de um texto impresso fidedigno.

publicada pela Companhia Editora Nacional. que a melhor edição de Gonçalves Dias é. mormente no que se refere aos textos antigos e medievais. palavra que deve aqui ser diferençada do uso corrente. Em erudição literária. constituindo problema que para alguns é o mais importante da erudição literária: o da EDIÇÃO. termo adequado para substituí-lo. dizemos. ela designa a iniciativa da confecção material do livro. edição crítica. chamando-se editor ao estudioso que o faz. Na linguagem comum predomina o primeiro sentido. usando sempre o qualificativo: editor crítico. chamando-se editor ao comerciante que a isto se dedica. por saber que está escoimado de erros e corresponde o mais possível ao original do A. edição é o preparo do texto de uma obra conforme técnicas adequadas. a de Manuel Bandeira. dizemos que a atual edição corrente de Aluísio de Azevedo é feita pelo editor Martins. só poderemos fazer a distinção à luz do contexto da frase (vejam-se os exemplos acima: o editor Martins e o editor Manuel Bandeira). neste sentido. quando for o caso. Assim. ao contrário de certas línguas. 48 . como adiante veremos. Neste. Assim.tar com segurança. e como não temos. O preparo de semelhante texto é tarefa por vezes complicada. atualmente. ou então.

Como não temos acesso à maioria dos originais. com as lições mais recomendáveis: é a EDIÇÃO CRÍTICA. inclusive erros notórios: é a EDIÇÃO DIPLOMÁTICA ou PALEOGRÁFICA. que. nem escolha entre textos: toma-se o que se deseja reproduzir por quaisquer motivos e faz-se com que isto seja feito sem alterações. que aparece deste modo com todas as suas características gráficas. mas não dão o texto escoimado /Exemplos: eds. é preciso nos estudos literários recorrer a uma edição. 49 . Nos dois primeiros casos. esperamos. É claro que tais processos valem para tornar acessíveis ao estudioso certos textos ilustres. c) tomar vários textos disponíveis da mesma obra e procurar compor um texto melhor. De que modo agir? Podemos adotar três soluções principais: a) fazer urna reprodução fotográfica do texto. não há trabalho de preparo. é a EDIÇÃO FAC-SIMILAR. tenha sido feita de modo a nos dar a melhor reprodução dele.Vejamos como se coloca o problema da “edição” (usando aspas para acentuar o sentido técnico). b) fazer uma reprodução do texto em composição tipográfica comum. mas conservando-o exatamente como está.

cronologias. O intuito ffindamental da edição crítica. que convém retomar e acrescentar. ou introdução crítica. portanto. mostrando como ele foi sendo reproduzido através dos anos. e se impõe na investigação erudita. pela combinação de dois elementos principais: um TEXTO CRÍTICO. notas elucidativas e interpretativas. de Matias Aires. vimos as suas características. ed. Para alguns autores é elemento indispensável o prefácio. Podem-se ainda juntar (e freqüentemente se juntam) outros elementos de estudo como: biografia do A. na qual o editor justifica o seu método e faz a história do texto. e um APARATO CRÍTICO. é chegar o mais perto possível da vontade 50 .fac-similares de Uraguai. para que os interessados possam avaliar os seus critérios. Alguns estudiosos preferem chamar ediçio erudita à edição crítica provida destes elementos complementares. Ela se configura. de Basílio da Gama. dizendo que é feita por um estudioso que comparou as variantes disponíveis. a fim de escolher as melhores. diplomática do Cancioneiro dá Vaticanal. a sua razão de ser. preparado por seleção. glossários etc. É a edição crítica que nos interessa aqui. e das Reflexões sobre a vaidade.. Pela indicação acima. registrando em nota as rejeitadas. que é o registro das vars.

18) Na sua organização. a que se pode chamar APRESENTAÇÃO DO TEXTO. podemos distinguir duas etapas: 1) preparo do texto. A importância da tarefa está neste verdadeiro trabalho de restauração. . assume a responsabilidade de corrigir o texto baseado exclusivamente no seu critério pessoal. o estudioso se esforça por escolher as que correspondem realmente à sua intenção final: e em certos casos.3 pressuposto e chave de todas as outras. comerciais etc. domínio seguro do método e longo estudo.do autor. É de cerro modo a operação mais delicada da Filologia. de toda espécie foram através dos anos trazendo ao texto. notas etc. embora se refiram principalmente ao filólogo clássico: O preparo de um texto crítico é trabalho que requer grande habilidade e finura. 2) preparo dos elementos elucidativos (aparato. na medida em que é [.). apuração ou estabelecimento. Daí compreendermos bem as seguintes palavras de Jannaco. 51 . entre as modificações que as vars. (p. as edições escolares. e a mais importante. que faz do texto por ele preparado um padrão para o estudo. que se chama FIXAÇÃO.

ser vítima de lapsos. Embora o segundo caso seja o nosso. Imagine-se. muito antigos. ao cabo de alguns séculos. o caso de obras apre- 52 . cometer erros. Ao fazê-lo. raramente um livro era absolutamente idêntico a outro — como são hoje os compostos em série por meios mecânicos. ter interpolações — isto é. sendo os livros feitos em letra ms. de modo que uma cópia podia conter passagens que outra não tinha. ser menos ou mais completa. havia versões fragmentárias.. em relação ao qual se desenvolveu a técnica das edições críticas. cada exemplar era uma peça individual de artesanato. que se redescobriam.Vejamos cada um em separado. isto é. 2. o copista podia decifrar mal. anteriores ou posteriores à invenção da imprensa. convém principiar por algumas indicações sobre o anterior. Antes da invenção da imprensa. no caso de mss. EDIÇÃO CRÍTICA: FIXAÇÃO DO TEXTO O problema varia conforme se trate de textos antigos e medievais ou de textos modernos. trechos intercalados não devidos ao A. como um sapato feito à mão dificilmente é idêntico ao outro. Além do mais.

(b) os leitores ficavam sem saber se o editor tivera razão na escolha. por critérios acentuadamente subjetivos. Apesar disto. Seria exagero dizer que cada uma era necessariamente muito diversa da outra. eruditos mais capazes. restam. mas. Ainda hoje. chama-se tradição manuscrita ou diplomática. de Boécio. 400 da Consolação da Filosofia. assim legados através do tempo. sobretudo. corrigindo arbitrariamente. e se realmente adotara a lição mais recomendável. mas é claro que o número de vars.ciadas e portanto mais copiadas. prezadas orçavam por centenas e talvez milhares. Durante a Idade Média. sem garantia de que fosse o melhor. depois do Renascimento. as cópias das obs. dentre a multiplicidade de cópias textos dos grandes autores. as edições críticas eram feitas com base no arbítrio do erudito: ele consultava as cópias acessíveis e ia escolhendo vars. a apurar. houve.C. Já na Antiguidade este problema se colocou. e os sábios reunidos em torno da Biblioteca de Alexandria consagraram-se. Até o século XIX. Resultavam dois graves defeitos: (a) o texto obtido. era um novo texto que vinha juntar-se aos outros. desde o século III a. que conse- 53 . Ao conjunto de exemplares duma obra.. por exemplo. seria considerável. que lhe pareciam melhores. sobretudo Homero.

de tal modo que este possa avaliar para cada caso particular o tipo de comprovação sobre o qual o texto se baseia. formando verdadeira árvore genealógica de parentesco (Stema Codicum). que — reduzida ao essencial para simplificar — consiste em duas etapas: (1) levantamento dos mss. servindo de ponto de reparo um ms. que visa reconstruir o texto original de uma obra com base nos indícios dos mss. Os poucos que restam são dispostos em grupos segundo as suas afinidades. escolhido como bom (exemplar de colação). fundador da moderna CRÍTICA TEXTUAL. existentes para escolher os mais dignos de fé. espúrios. O seu estudo comparativo permite 54 . finalmente selecionado.guiram excelentes edições. e apresentar a prova ao leitor crítico. para limpar a tradição de mss. bem como a solidez do critério do editor. corrigindo os textos com grande intuição. (Abbott. mas o preparo verdadeiramente sistemático principia com o filólogo alemão Karl Lachmann (1793-1851). 137) Para isto. A primeira operação se chama RECENSIO e comporta a contribuição mais pessoal de Lachmann. (2) correção do ms. Ele começa por uma minuciosa comparação (COLLATIO). Lachmann criou uma técnica objetiva. p.

além de superada nos detalhes por critérios mais flexíveis. cujo autógrafo se perdeu há séculos. reconstruído hipoteticamente. mas não corrigidas por ele. Nos nossos trabalhos. opera-se a correção dos erros que ainda ficaram da Recensio. que nos interessam diretamente. que visa fazer com que possamos passar desse apógrafo-pai. e do qual. que. 55 . a uma aproximação maior do autógrafo perdido. portanto. Edições autorizadas pelo A. foi estabelecida para mss. antigos. Assim chegamos às edições de literatura moderna. Cópias de um texto autêntico que se perdeu 4. evidentemenre. Apógrafos corrigidos pelo A. devendo cada erudito adaptá-las ao seu caso. não aplicaremos. indo tão longe quanto permitem os elementos jerivos e a penetração pessoal do erudito. Com isto termina a Recensio e começa a segunda etapa.vislumbrar qual teria sido o apógrafo que lhes serviu origem. Edições supervistas pelo A. 3. Autógrafos 2. Mas as suas linhas gerais servem de base para o trabalho com textos modernos. todos derivam (Arquétipo). Para isto. a técnica de Lachmann.. 5. Emendatio. Vejamos de início que tipos de textos se apresentam a um editor crítico: 1.

A providência inicial é a escolha daquele que servirá como base para a comparação. não raro muitos textos que o editor precisa comparar. e nós já vimos que este varia no decurso da sua vida. 7. unicamente efetuar uma correção conjetural.6. Em muitos casos (sobretudo quando se trata de obra de valor). principalmente ms. por exemplo. por pior que seja. ou quando há uma única edição da obra. Edições póstumas. 98-9). e se chama TEXTO ou EXEMPLAR BÁSICO. a última expressão do seu intuito criador. trazendo correções do A. nenhum serviria melhor para isto que o original. À primeira vista. por mais desnorteadoras que se apresentem as dificuldades” (p. publicadas antes ou depois da sua morte. p. O ms.. Neste último caso. sem elementos comparativos. “é obrigado a usá-la. (Conforme Sanders. Haverá todavia casos em que 56 . assim. pode. então. não base da comparação. Mas ocorre que o texto básico deve representar a vontade final do A. 100). O seu trabalho será. representar um início. Muitas vezes o editor não tem opção. e que podem ou não representar a sua intenção. quando há. apenas o autógrafo. diz Sanders. sem qualquer original restante. e servir como elemento. há mais de um. Edições não autorizadas.

. como os seguintes. em resposta. 3. quando o texto impresso reproduz um texto impresso tenor. por Sanders (p. 57 . quando o texto impresso se baseia numa versão anterior à do ms. preferisse o ms. os casos enuerados. quando o ms. tendo em mãos a versão impressa definitiva da Tentação de Santo Antão. inicial.. quando o texto impresso pode estar baseado num agrafo posterior ao que possuímos. que se foi modificando até as provas tipográficas finais. que era versão posterior à contida no ms. Não se deve usar o ms. Mas há casos. 2. pode ser cópia descuidada do texto ipresso. e que se perdeu. 4. num sentido e noutro. em que o ms. 99). erraria quem. Lembremos o que foi dito respeito de Proust e Balzac: os autógrafos não repretariam a sua intenção. de Flaubert. quando o texto impresso contém correções feitas nas provas.: 1. deve ser preferido para texto básico: 1. pois aquela é diferente e posterior.deve ser escolhido? Vejamos. Alguns destes casos já estavam tacitamente contidos em exemplos referidos. Do mesmo modo.

tendo sido a única feita em vida do A. quando o texto impresso não é autorizado e difere do ms. que possam apresentar interesse por conterem sinais da intenção do A. 3.. 4. Todavia. e que se chama EDIÇÃO DEFINITIVA... quando o texto foi impresso com assentimento do A. 58 . que não mais a alterou.. antes ou depois da sua morte (pois uma edição póstuma pode estar baseada em correções deixadas por ele). na forma latina) ou ORIGINAL (embora alguns reservem cada designação para casos especiais) e a última dentre as que foram feitas com participação do A. quando o texto impresso foi atenuado por medo da censura.2. a escolha de um texto básico é geralmente precedida pela comparação entre textos existentes. Em grande parte dos casos. que se chama EDIÇÃO PRÍNCIPE (PRINCEPS. Nestes casos.. Muito freqüentemente a edição príncipe tem valor de definitiva. são de importância fundamental para a escolha do texto básico a primeira. impressos ou mss. ou qualquer outro motivo. não representando o intuito real do A. mas apenas as sucessivas edições do livro. mas é uma reprodução descuidada ou adulterada do ms. em boa técnica... não restam mss.

Se forem iguais em tudo. (2) o editor faz uma correção conjectural (emenda). e abaixo dela a linha correspondente nas várias edições. 101-8). por exemplo). dispensando qualquer alteração. Uma vez escolhido o texto. Ocorrem duas alternativas. neste caso. inclusive de pontuação (ver Sanders. ser alterado. toma-se um exemplar para registro. 59 . e as boas edições com que se quer fazer a comparação. p. todas as discrepâncias. No caso de textos longos (livro. e o texto básico se transforma no texto fixado ou crítico. pergunta-se que relação deve ter com o texto final. p. as discrepâncias (Sanders. põe-se um sinal de identidade (ou id. porém. escrevendo cada linha numa ficha. marcando naquele.Como se faz esta comparação? No caso de obras curtas. registra-se. a colação para a sua escolha bastou como trabalho de fixação. antes de se considerar definitivo. Pode entretanto achar o editor que o texto básico deve. cada uma traz indicação abreviada do texto a que pertence. cores diferentes. de outros textos e certas lições do texto básico. 91). duas possibilidades que não são mutuamente exclusivas: (1) o editor prefere vars. neste caso. por mínimas que sejam. havendo. 101 e Kayser. Pode o editor achar que ele representa algo plenamente satisfatório.).

citado por Sanders (p. comentados. representa a vontade do A. agora. sugestões de emendas deveriam ser livremente propostas em nota. o texto básico representa o original do A. é uma espécie de salto mortal da inteligência.. mas sobretudo no último. Os trechos enigmáticos deveriam ser assinalados. para retificar lições inaceitáveis e chegar o mais perto possível da intenção do A. 27): A atitude do editor em relação às emendas deveria ser extremamente conservadora.. embora baseado em elementos positivos. mas nenhuma lição deveria ser introduzida no texto se não houvesse prova. como conhecimento da obra. verossimilhança etc. deve-se ter em mente que. restaurando a pureza do texto. uma vez adotado. ou razão muito forte pata acreditar que ela. Vejamos alguns exemplos que mostrarão melhor este procedimento. devendo ser tratado com o escrúpulo que este requer. Mas isto deve ser feito com o maior cuidado.Em todos estes casos. A delicadeza da operação é grande. 60 . é preciso recorrer à correção conjectural. como adverte Greg. porque o editor crítico deixou para trás os elementos objetivos de retificação. manipulados na comparação. Freqüentemente. não o original.

este corrigiu sem comentário. D. poderia nos compreender mais do que os governantes reinóis. Diz que o menino. nem se deveria alegar que a sua estirpe fazia dele um português. pois mesmo assim poder-se-ia lembrar que muitos estrangeiros servem melhor a pátria de adoção.Tendo nascido no Brasil um filho do Conde de Cavaleiros. Em nota final. sendo nascido aqui. Alvarenga Peixoto escreveu o poema comemorativo conhecido por “Canto Genetlíaco” — a sua peça mais famosa — aproveitando a circunstância para expressão disfarçada de nativismo. acrescentando um s ao nome próprio do terceiro verso: O grande Henriques era Lusitano? 61 . governador de Minas no século XVIII. de Januário da Cunha Barbosa. isto é. sentimento de apego e exaltação da terra natal. no Parnaso brasileiro (1889-1891). e pergunta: Rômulo porventura foi Romano? E Roma a quem deveu tanta grandeza? O grande Henrique era Lusitano? Quem deu princípio à glória portuguesa? Deste modo está na edição original do poema. Tomás José de Menezes.

consultando esta. Entendo que este é dos tais casos de imprudência. que estaria assim mais perto da vontade do poeta. fundador da Monarquia Portuguesa.Pareceu-lhe naturalmente que o hiato formado pela colisão de vogais era erro de metrificação inadmissível num bom poeta. Henrique. dada a raridade da primeira. contra os quais prevenia Greg. Afonso Henriques. Domingos Carvalho da Silva reeditou toda a obra conhecida de Alvarenga Peixoto. Estamos diante duma típica emenda. não recolhendo a correção. pai de Afonso Henriques. retomada por Domingos Carvalho da Silva. O que desnorteou os dois estudiosos foi a busca de uma forma mais perfeita e mais lógica. Recentemente. uma correção conjectural de Januário. contra a lição do apógrafo (creio que não teria sido autógrafo) de que aquele extraiu o poema. primeiro senhor 62 . adotando a retificação de Januário. por ter sido o primeiro rei. ou. com o fundamento do hiato e a alegação de se tratar de D. que reproduziam doutras edições. Mas os editores seguintes deixaram o verso como estava. Uma leitura cuidadosa mostra que o texto que serviu a Januário é melhor. não davam importância à nota final. provavelmente ignorada pela maioria deles. pois o sentido pede que se trate de Conde D.

provando a estadia de Gonzaga no Salvador (onde sabemos hoje que esteve dos 10 aos 17 anos). Outro exemplo: a estrofe da Lira 94 da 2ª Parte da Marília de Dirceu: Pintam que os mares sulco da Bahia. enquanto o verso preferido pelos dois estudiosos. Onde passei a flor da minha idade: Que descubro as palmeiras. era forasteiro como Rômulo em relação a Roma. em relação ao qual. Como não havia docs.}”...) Henriques (z) era {. Além disso. sendo ele francês. 63 . ele força uma pausa inquiritiva.semi-independente do Condado Portucalense.. isto é. Vemos assim que uma emenda pode ser feita por critérios históricos e formais e rejeitada pelos mesmos motivos. e em dois bairros Partida a grã Cidade. Onde passei à flor da minha idade. sendo tecnicamente certo. parece que o hiato dá força ao verso (como diria Sousa da Silveira dos versos fracos. produz um sibilo desagradável “(. metricamente defeituosos. de Camões). propôs-se a leitura seguinte. .

. aos 38 anos. Por aí se vê o perigo da correção conjectural e do afã de interpretar a todo o preço qual teria sido a intenção do autor — vendo-se ao mesmo tempo a reserva prudente que o editor deve manter. tendo ele dito no processo da Inconfidência que não estivera no Brasil antes de vir para Minas — naturalmente com o fim de reforçar a sua condição de português nato e afastar da sua pessoa a suspeita de nativismo—. não seria crível que o afirmasse em poema escrito na prisão. Descoberta a prova de que lá vivera. E propõe: Pintam que os mares sulco de Lisboa. EDIÇÃO CRÍTICA: APRESENTAÇÃO DO TEXTO Entende-se por APRESENTAÇÃO DO TEXTO a maneira pela qual o texto fixado (ou crítico) é apresen- 64 . alegou Alberto Faria que. onde ia assumir o cargo de Ouvidor.. que poderia cair a cada passo nas mãos dos juízes. 3.para dizer que ali estivera de passagem para as Minas.

O aparato crítico registra. biografia. 65 . Não decorrentes diretamente da crítica textual. Neste sentido podemos distinguir algumas modalidades. necessariamente. já mencionado. glossários etc. em princípio. e que se juntam à edição crítica propriamente dita como complementos elucidativos de vários tipos. formando no conjunto o que alguns chamam de edição erudita. reportando-nos ao que foi dito quanto à fixação do texto — de cujo critério depende o critério do aparato. isto é. não todas. cronologias. que o editor rejeitou. mas as que o caso requer. formar o nosso próprio juízo a respeito da fixação e ter à mão subsídios necessários ao cabal entendimento. I. a maneira pela qual se juntam a ele esclarecimentos que nos permitam avaliar o critério do editor. Decorrentes da crítica textual. que se reúnem ao texto fixado para formarem com ele a edição crítica propriamente dita. Podemos distinguir na apresentação dois grupos de elementos: I. É o chamado APARATO CRÍTICO. as vars. II. listas de edições. notas esclarecedoras.tado ao leitor. que não passa de uma modalidade mais completa: introduções.

p. sem registrar. segundo Jannaco.) Estes critérios serão talvez mais bem compreendidos à luz da seguinte classificação. isto é. não incluindo. (Notemos que o editor escrupuloso. temos o caso da correção tácita. que reúne e sistematiza as distinções de Giorgio Pasquali. deve vir obrigatoriamente registrada no aparato. Se o texto básico foi considerado definitivo. 2. Quanto ao âmbito: 1. conforme a importância que lhe der. de outros que o editor julgar importantes por qualquer motivo. pode ou não registrar no aparato a lição rejeitada do texto básico. Negativo 66 . de outros textos para aprimorá-lo. 42 e ss. Positivo 2. recebendo vars. substituindo uma lição dele por outra. registramse as vars. lidando com obra importante. trata a pontuação como var. Se o editor modifica o texto básico. O aparato crítico pode ser: A. Se o editor faz no texto básico uma correção conjectural. ela não pode ser tácita. 3.1.

B. Externo 2. subentendendose que C e D dão a lição adotada. Estes casos pressupõem a escolha de uma lição adotada por colação prévia. grafará no texto crítico “fulgor” e indicará no aparato: “C” e “B” — entendendo-se que é a lição adotada nestas edições. Se adotar o processo negativo. nas edições C e D: “O sol brilhava com fulgor”. dentre as que resultaram da colação. Interno A. E e F: rigor”. sem registrar outras vars. grafará “fulgor” e porá no aparato: “A e B: vigor. como 67 . e nas edições E e F: “O sol brilhava com rigor”. e indicar os textos que a abonam. B. Imaginemos que nas edições A e B do livro X se encontre a seguinte frase: “O sol brilhava com vigor”. Supondo que o editor adote a segunda lição. O processo positivo consiste em adotar uma var. poderá agir de duas maneiras quanto ao aparato: se preferir o processo positivo. O processo negativo consiste em registrar só as lições rejeitadas. Quanto à natureza: 1. Mas o editor pode. ficando implícito que as outras edições seguem a que se adotou.

que se trata dum lapso e corrige: “moscas”. Suponhamos que. pelo seu reistro.”. edição ou cópia. No exemplo dado. ocorrentes. para receber as lições rejeitadas por correção conjectural. de que só há um ms. deverá pôr no aparato: “A e B: vigor. Se não quiser fazer correção tácita. e que o editor emenda. O editor entende. (“vais. as vars. está obrigado a pôr no aparato: “Original: roscas”. Deste modo. autógrafo. comporta aparato. Por aí se vê que mesmo um texto sem qualquer outra versão. e nada mais. Quanto à natureza. e estarão fornecidos todos os elementos para o leitor crítico avaliar a sua pertinência. 68 .vimos. com razão. E e F: rigor”. imaginemos que o editor rejeite as vars. servindo para mostrar. do aparato: (a) podem ser de caráter informativo. C e D: fulgor. há o caso de um trecho sem vars. B. como diz Giorgi) — mostrar a evolução do seu critério e da sua arte. Finalmente. fornecidas pela colação e entenda que o original do A. Neste caso.. na obra Y. se leia: “Carlos afugentou as roscas”. rejeitando todas as vars. deveria trazer: “O sol brilhava com fervor”. a sua conjectura ficará patente. fazer uma correção conjectural. como o texto evoluiu e a sua feição se modificou. de A. (b) podem — quando devidas ao A.

gralhas. em mss. o texto básico (igual ao da edição definitiva) se considere texto fixado. Os elementos que não decorrem da crítica textual são os que o editor acrescenta ao texto com a finalidade de esclarecê-lo. omissões etc. antigos.O primeiro caso é importante sobretudo no que toca aos mss.. como se dá freqüentemente. exigindo. numa obra que tem pouco mais de trinta anos. ou edições. que deram pela primeira vez um texto escoimado de erros gravíssimos de decifração. como vimos. podendo-se exemplificar com a recente edição de À la Recherche du Temps Perdu. Isto constitui dado precioso para estudar o próprio mecanismo criador em literatura. e que se acumulam através dos séculos em cópias mais ou menos discordantes. Mas se aplica também à literatura moderna. através da “luta pela expressão”. como diria Fidelino de Figueiredo. muito rica sob 69 .. Embora. /Diapositivos: os elementos da ed. de Malherbe por Jacques Lavaud. grande esforço para lhes restaurar a fisionomia tanto quanto possível pura. na edição completa. é muito útil que possa haver um aparato que registre lições anteriores rejeitadas pelo A. de Clarac e Ferré. de que não há autógrafos. II.

assinalados de cinco em cinco. A solução ideal. Nos exemplos fornecidos adiante. como se pode ver nos exemplos n. editado por Menendez Pidal. pois. verão o caso verdadeiramente grandioso do Cantar de Mio Cid. 10 e 11. é dispor o aparato separado das notas. 5. ou. e não intercalados. alunos praticarem o manuseio das edições críticas. correspondendo a cada linha ou verso. deverão obedecer à numeração posta à direita de cada palavra ou período a que correspondem. quando os srs. embora nem sempre adotada. Já as notas históricas.. o aparato é registrado por números postos à esquerda do texto. uma vez fornecidos os elementos anterio- 70 . letras minúsculas. como é freqüente. O MANUSEIO DA EDIÇÃO Os estudantes devem se familiarizar com edições críticas. A nitidez e a facilidade de consulta são então máximas. subentendendo-se que as intermediárias se numeram tacitamente. apresentados a seguir. biográficas. para não confundir com as chamadas do aparato.este aspecto/. estéticas etc. Em boa técnica.

as edições abaixo. da Silva Ramos. Curiosa edição conciliatória (como critério). Gonçalves Dias. ao menos na intenção. O critério de fixação é duvidoso. uma bastante posterior. mas fàlta o aparato. Geraldo de Ulhoa Cintra. Aparato de consulta incômoda. relativo sobretudo ao cotejo entre as duas famosas primeiras edições do poema. Com este intuito. 1. Saberão. J. são postas à sua disposição. F. pois o texto é fixado. ed. Os Lusíadas. Francisco de Morais. estarão em condições de analisar o seu critério. observar como foram feitas e se preenchem as finalidades. Palmeirim de Inglaterra. que é facsimilar e traz o aparato crítico. edição José Maria Rodrigues. A edição não é crítica. Poesias. 71 . acompanhada cada uma de ficha indicando as características principais. ed. 2.res. sem razão convincente. pois o editor não teve em mãos a edição príncipe (fundamental no caso) e tomou. sobretudo. Luís de Camões. ver nelas um exemplo mais vivo que as palavras descritivas. para manuseio durante uma sessão de estudo. 3.

quanto a este. sem motivos convincentes. os casos em que dela se afasta. que recaiu no das primeiras edições. Fagundes Varela. menos no fundamental. que o próprio editor prefere não chamar tal. de L. registrando certas vars. ed. Em compensação. Pode ser considerada razoável. tendo em vista o uso corrente. a parcimônia e bom-senso do aparato crítico. Poesias Completas. registrando em notas finais. todas póstumas. Miécio Táti e Carrera Guerra. Assinalemos todavia. ou em notas de rodapé. o rigor e a racionalidade das abreviações. Funda-se nas primeiras edições. Outra lacuna 72 . Luís de Camões. baseada em edições que nem sempre são as mais fidedignas para o rigor da apuração. segundo a numeração dos versos. Redondilhas e Sonetos. N. E pois um aparato sobretudo negativo.Edição crítica insatisfatória. 4. a escolha do texto básico. São de notar-se: a descrição das edições colacionadas. Utiliza discretamente a correção conjectural e traz boa introdução literária. ed. Edição crítica de tipo elementar. o erro de técnica freqüente entre editores brasileiros: vir entremeado nas notas. Tipo de edição crítica boa em tudo. 5. Hernani Cidade. compara os textos de mais de uma.

José Ramos Coelho. que interessam para compreender a estética do poeta. 7. Antonio Dinis da Cruz e Silva. O Hissope. Tendo rejeitado as vars. junta anotações abundantíssimas. 8. mas faz correções conjecturais e dá as vars. o editor não as registra sistematicamente. cuidada pelo A. registraram-se no aparato apenas as vars. ed. das edições póstumas. Nesta boa edição. Frederico e Péricles da Silva Ramos. ed.é o uso de chamada numerada para as vars. mas.. que auxiliam a inteligência do texto e constituem verdadeiro manual de análise métrica. O texto foi apurado com atenção. mais consideráveis. Obras de Casimiro de Abreu. Boa edição crítica destinada a uso corrente. ed. dado o caráter comercial da tiragem. o texto básico foi a edição príncipe. além das correções conjecturais. Sousa da Silveira. segundo critério justificado no prefácio. 6. Foram comparadas as edições príncipes (consideradas textos básicos por serem póstumas). Além de um breve prefácio crítico. 73 . Álvares de Azevedo. apesar de haver numeração dos versos (à esquerda). Poesias Completas.

Faz falta um prefácio crítico minucioso. de Malherbe. de interesse. provida de todos os requisitos necessários e. recolhendo as vars. provida de aparato abundante. ed.. 74 . sem um sistema muito claro de chamada. exigido pelas vicissitudes da obra. 9. além duma grande riqueza de elementos complementares. 10. La Bmyère. aparato e notas elucidativas (no fim do volume. além de muitas notas elucidativas — tudo rejeitado para o fim do volume. ed. prefácio crítico plenamente satisfatório. Jacques Lavaud. ao mesmo tempo.Boa edição. 279-80. Vê-se por elas que o editor adotou um determinado texto básico e procedeu à colação com grande número de edições e cópias mss. para não sobrecarregar a página de uma edição que se destina ao público). fácil de manusear. em parte suprido pelas indicações das p. Note-se o texto rigorosamente fixado. que circulou muito tempo em ms. Oeuvres Complêtes. dando os motivos para a escolha do texto e demais critérios adotados. Julien Benda. Excelente edição crítica. tanto pelo cuidado na fixação do texto quanto pelo critério discreto do aparato. Edição exemplar.. Les Poésies de M.

necessários ao estudo da obra e do A. Menéndez Pidal. Poisies. Cantar de Mio Cid. sendo. tábuas cronológicas. nela. ed. com notas abundantes para justificar e esclarecer as leituras. ligadas à compreensão do texto. 2) Reprodução diplomática do ms. portanto. Excelente edição. básico. devidamente separado das abundantes notas esclarecedoras) e o prefácio crítico.). consultar o aparato crítico (de uma extraordinária riqueza. (prefácio. em que se devem notar: 1) Dois volumes consagrados ao estudo do vocabulário. as que preenchem com rigor rodas as finalidades. mas para os estudiosos. Racan. verdadeiro prodígio de erudição. interessa. 12. com um amplo trabalho de correção conjectural. 3) Texto crítico. 11. 75 . arrolamento de edições críticas etc. não para o público em geral. das questões históricas e outras. fruto duma vida de especialização e coleta de material. Louis Arnould. da gramática. Esta edição e as seguintes são feitas. Edição monumental.

TRABALHO PRÁTICO As noções dadas anteriormente não foram apresentadas como matéria teórica a ser “aprendida”. Ed. Crítica (Apresentação do texto) 13. Texto crítico {7. Elementos complementares {12. nas sessões de estudo. Edição 2. fac-similar 3. dentre a matéria exposta. Ed. definitiva {8. Ed. guardassem como esqueleto as seguintes noções: 1. Ed.. Aparato critico {9. Ed. a partir de quatro versões apresentando vars.Texto básico 4. príncipe (Fixação do texto) {5. Emenda ou correção O trabalho prático consistiu em fazer a fixação e aparato de três estrofes da Lira 3 da 3ª parte da Marília de Dirceu. Recensão ou Levantamento {10. Colação ou comparação {11. mas como elemento para o trabalho prático que os alunos realizaram paralelamente. tendo sido feito previamente o esclarecimento sobre o 76 . diplomática {6. Pediu-se a eles apenas que.

Eliminação 4.valor das respectivas edições. Elementos históricos e biográficos (dados pelo Professor) 2. registrando as vars. necessárias. Apresentação do texto A.. Fixação do texto B. Como guia para o trabalho. ETAPAS: A. Escolha do texto básico 77 . FIXAÇÃO DO TEXTO 1. foi dado o seguinte esquema: FINALIDADE: Chegar ao texto que exprima o mais exatamente possível a vontade do A. Levantamento e comparação (1) 3.

Geslin. Registro eventual de uma ou outra var. reputada boa. Sanders. Outros elementos (Não há necessidade.. 2. Kayser. Aparato crítico A. Comparação (2) 6.5. Carreter.) Bibliografia posta à disposição: Abbott. Jannaco. Welleck-Warner. 78 . APRESENTAÇÃO DO TEXTO 1. Correção conjectural 7. Texto fixado B. de versões inferiores. Registro de vars. rejeitadas. das versões que se reputam boas. B.

DAVIS. Wolfgang. 119-36.TERCEIRA TAREFA A AUTORIA 1. 77-100. English Institute Annual — 1942. KAYSER. New York: Columbia University Press. DAWSON. Authenticity and Attribution in the Jacobean and Caroline drama. Herbert. Giles E. 101-17. The Canon of Swift. p. Idem. cit. 79 . Ob. Authenticity and Attribution of Written Matter. p. 1943. Determinação de autoria BIBLIOGRAFIA BENTLEY. Conceito e configuração da autoria 2. p. Gerald E. Idem.

Ob. A autoria é parte integrante desta.. pois ela recebe 80 . 2. Ob.MARTINS. em literatura. WELLECK. como rezam os dicionários. 3. R. cit. sendo um dos seus elementos constitutivos. Não abordaremos especialmente o segundo aspecto. Referindo-se a problemas de ordem estética. Ob. Importância na estrutura da obra. portanto. o fato de uma pessoa ter feito determinada obra. pertence mais diretamente à crítica literária no sentido estrito. pois o seu interesse para a erudição é lateral. WARREN. Conceito e configuração. Chaunsey. cir. Entende-se por autoria a qualidade ou a condição de autor. É. SANDERS. Wilson. CONCEITO E CONFIGURAÇÃO DA AUTORIA O estudo da AUTORIA se desdobra em três partes: 1. Austin. 1. Determinação. cit.

costumase falar de obras coletivas anônimas. a distingue das demais. Qual o autor de tais obras — se pudermos chamar obras às narrativas e cantos não registrados? Difícil precisar. anônimas. e vai sofrendo as alterações a que este processo está sujeito. Devemos aí distinguir a literatura oral popular da literatura erudita. apresentando o povo como criador anônimo de obras orais. são deformações e degradações de obras eruditas. marcando a sua individualidade própria. por entrarem na competência do folclorista. e isto. por oposição às populares. transmite-se por tradição. as que são escritas e integram a tradição literária. mais do que outra coisa qualquer. geralmente. mas elas escapam à nossa alçada. veremos que a autoria é elemento 81 . Mas deve haver sempre algum. ao contrário do que se sustentou no século XIX.em grande parte as características do escritor que a fez. as obras populares. Se considerarmos as obras eruditas. Pode haver obras sem autores? Durante muito tempo — dos fins do século XVIII até o nosso — deu-se grande importância a teorias que falavam da criação coletiva. de boca em boca. De qualquer modo. A primeira exprime estados de espírito comuns a um grupo e apresenta relativamente pouca originalidade. isto é.

bem como o reconhecimento de uma posição e uma função social do escritor. sobre os proventos da sua obra. que constituem a sua projeção no terreno jurídico e econômico. O desenvolvimento do conceito de autoria termina necessariamente pelo estabelecimento dos DIREITOS AUTORAIS. Antes. ele era protegido ou marginal. o que leva a deixar bem clara a sua qualidade de autor de algo que se pode tornar. mais forte a noção de que é preciso considerar o autor de uma obra. cada vez mais. à medida que chegamos mais perto do nosso tempo. e aquelas cujos autores são ignorados. Mas aí convém distinguir as obras cujos autores são conhecidos.indispensável à sua caracterização. e mais acentuada a reivindicação que ele faz sobre ela. durante a sua vida e 82 . e portanto considerados parte delas. Contribuíram diretamente para isto o desenvolvimento do individualismo e as teorias que dão papel preponderante ao artista no processo criador. O aspecto profissional é decisivo. mais agudo se torna o problema da autoria. pois vincula o escritor à necessidade de ganhar a sua vida com o produto da sua obra. De modo geral. por um motivo qualquer. passou a ser um profissional. Chamam-se deste modo os direitos assegurados por lei ao escritor. No mundo moderno. fonte de renda.

uma Convenção Universal de Direitos Autorais. portanto. em benefício dos herdeiros (60 anos. de 1886. na Inglaterra (1709). 1908. Mas os direitos do A. revista em 1896. A partir da invenção da imprensa. vários países foram adotando medidas no mesmo sentido. 442-60. 1928. Neste sentido. Pouco a pouco. se prolonga em aspectos econômicos. tentando-se atualmente. mas o reconhecimento de direitos de autor estrangeiro. o marco importante é a Convenção de Berna. 1948. apareceram as concessões de privilégio ao impressor.) Vemos. (b) adoção pelos diversos países de leis internacionais estabelecidas por convenção. e à qual aderiram até hoje quase cinqüenta nações. (Ver W. em duas etapas: (a) leis internas assegurando o direito de estrangeiros. p. a partir de 1955. a extensão dos direitos aurorais ao âmbito internacional. só começaram a ser preservados no século XVIII. no sentido de lhe dar exclusividade de publicar determinada obra por certo número de anos. Há além disso convênios pan-americanos. Até o século XV nada houve de semelhante. que a autoria. isto é. Martins. sendo problema literário no ponto de partida. Modernamente ela se manifesta pelo nome 83 . só se deu a partir do século XIX.durante um prazo variável depois da morte. no Brasil).

no lugar do próprio. em parte se esconde e em parte se apresenta”. pelo qual o A. 2. “quando as letras iniciais do nome são postas em um nome novo. usado por Bocage. o ANAGRAMA. anagrama de Manoel. o uso de um nome diferente. Robério (Ribeiro). “o uso de um nome inteiramente diverso no lugar do próprio” — que.do autor. com 84 . Minésio (Menezes) etc. “pelo qual o novo nome decorre de uma outra combinação das letras contidas no nome” — como é o caso de Elmano. Kayser distingue três tipos (p. o CRIPTÔNIMO. 3. podemos acrescentar. mediante certas precauções. viria a ser o pseudônimo propriamente dito. são criptônimos de personagens Matúsio (Matos). 40): 1. que vem a ser um nome completo. Nas Cartas chilenas. que sempre acompanha a ob. Os seus direitos são todavia assegurados mesmo em casos de anonimato ou nome suposto. ou seja. com vezos de real. para figurar como do autor de determinada obra ou série de obras. nas edições e citações.. E isto nos leva ao problema do PSEUDÔNIMO. fictício em geral. É preciso ainda juntar o HETERÔNIMO.

Guy (Guilherme de Almeida). D. O estudo do pseudônimo pode constituir subsídio importante para determinação da autoria. como Malba Tahan. dando realmente a impressão de que foi escrita por outrem.Noções de análise histórico-literária o qual o A. cobrir mais de um colaborador etc. entre outros. Motivos publicitários Geralmente para ajustar o nome ao conteúdo da obra. Hábito literário ou jornalístico É o caso das crônicas que os periódicos costumam publicar com nomes supostos. Hélios (Menotti dei Picchia) etc. 2. aguçar a curiosidade do leitor. para criar uma atmosfera poética. que 85 . Xiquote (Bastos Tigre). assina obra qualitativamente diversa da que subscreve com o seu próprio nome. e passou a ser considerado na crítica depois do poeta português Fernando Pessoa. João do Rio (Paulo Barrem). Daí indagarmos: por que é usado? Podemos distinguir. Na literatura brasileira alguns ficaram fhmosos: Hop-Frog (Tomás Alves). como adiante veremos. mas também para o estudo psicológico do A. os seguintes motivos: 1. É um caso especial e um extremo que vai além do pseudônimo. de modo a atrair o leitor.

ao publicar um romance algo livre sobre a vida noturna de S. Motivos sociais Quando o escritor se julga incompatibilizado com a publicidade literária por sua posição. de Mello e Sousa. responsabilidades. Ou Suzana Flag. C. As mulheres preferiram durante muito tempo o pseudônimo a fim de escaparem às censuras do meio: Georges Sand (Aurora Dupin).passou muito tempo por um árabe autor de contos orientais. Assim. 3. Moda literária Foi o que se deu no Renascimento. Meu destino é pecar — sendo afinal de contas o teatrólogo Nelson Rodrigues. quando não os traduziam: Melanchton (de Schwarzerde. na Inglaterra. 4. quando os humanistas adaptavam os seus nomes em formas latinizantes ou helenizantes (Gouveanus. publicado em folhetins. sendo na verdade o matemático carioca J. Paulo — Madame Pommery —. o magistrado Malta Cardoso assinou-o com o nome de Hilário Tácito. natureza da obra etc. por Gouvêa). George Eliot (Mary Ann Evans). autora do romance sensacional semiescandaloso. 86 . sexo. na França.

excesso de autocrítica. Erasmo etc. 87 . Coridon Erimanteu (Corrêa Garção). que expulsam o seu nome para segundo plano. para todo o sempre: Voltaire (François-Marie Arouet). vaidoso. Termindo Sipílio (Basílio da Gama) etc. G. como José de Alencar.. como insegurança. instabilidade mental. Stendhal (Henry Beyle). sem falar no anonimato puro e simples com que também se cobriu: Ig. Sênio. susceptível. as citadas Georges Sand e George Eliot etc. usou vários pseudônimos nos 20 anos da sua vida literária. É interessante notar que um homem tímido. terra preta). 5. em que os escritores adotavam sistematicamente um pseudônimo lírico para fingir de pastores: Glauceste Saturnio (Cláudio Manoel da Costa).. Novalis (Friedrich von Hardenberg).isto é. Certos pseudônimos se incorporam de tal modo ao A. Liga-se geralmente a outros sentimentos. M. Foi ainda o que se deu no Arcadismo. Moliére (JeanBaptiste Pocquelin). Timidez Devido ao receio de entrar na vida literária.Jean Paul (Friedrich Richter). ou à excessiva susceptibilidade em face da crítica..

podendose então distinguir (1) colaboração e (2) co-autoria. é um só indivíduo. quando o A. Convém distinguir o pseudônimo do NOME LITERÁRIO. e como tal se apresenta. Deve-se reservar a primeira designação pata definir os casos em que uma pessoa coopera. tendo validade legal. Feitas estas considerações. autoria plural. principal. Manuel Bandeira são nomes abreviados dos seus portadores. é mais de um. ou até mero auxiliar. há basicamente um elemento maior ou menor de simulação. O nome literário pode ser registrado em cartório com firma. inclusive o disfarce de sentimentos e as roupas de fantasia. Podemos dizer que há autoria singular quando o A. Em boa terminologia. enquanto o outro é o A. que é uma redução do nome próprio por conveniências de eufonia ou simplicidade: Machado de Assis. Monteiro Lobato. passemos ao problema da singularidade e pluralidade de autoria. constante psicológica do homem que se manifesta de vários modos. 88 . auxilia outra na feitura de uma obra. Mário de Andrade. é autor secundário. adquirindo em certos casos desenvolvimento patológico.Em todos estes casos. conservando-se de qualquer modo em segundo plano.

São os casos conhecidos. Rosny. os autores se associam de tal modo para conceber e executar a obra. No segundo caso (co-autoria indivisa ou essencial). Assim. tivessem planejado a obra em comum. diviso ou indiviso. na Teoria da literatura. em que há distribuição das partes conforme a competência de cada um. que a dirigiu. mas dão lugar a uma extensa gama de 89 . É claro que estes dois tipos não se excluem necessariamente. mas feita por vários autores. é atualmente. com grande autonomia de concepção e execução. realmente fruto de uma autoria. que ela aparece como resultado comum no todo. mas seria impossível a eles próprios determinar com segurança a parte respectiva. e ocorre sobretudo nos trabalhos didáticos e científicos. na literatura francesa. no romance policial.A co-autoria é o fato de mais de uma pessoa ser A. A obra é. Tharaud. nome que recobre dois amigos. No primeiro caso temos a co-autoria dividida ou ocasional. de Erckmann-Chartrian e dos irmãos Goncourt. então. expressa por dois indivíduos. em pé de igualdade. embora. ode Ellery Queen. sendo a obra produto de esforço comum. Caso ainda mais típico é o da Literatura no Brasi4 concebida e planejada por Afránio Coutinho. ‘Welleck e ‘Warren se encarregaram de capítulos diversos.

combinações, às vezes no caso de um mesmo A., como ocorreu com Alexandre Dumas Pai e seus colaboradores — freqüentemente co-autores, sobretudo Auguste Maquet.

2. DETERMINAÇÃO DE AUTORIA Chama-se DETERMINAÇÃO DE AUTORIA o conjunto de critérios utilizados para averiguar quem é o A. de uma ob., no caso — seja de haver dúvida a respeito, seja de haver ignorância. É necessário, pois, distinguir, na determinação, a autoria duvidosa (quando há indícios que permitem supor) da autoria ignorada (quando nada há neste sentido). Autoria ignorada é, por exemplo, a do Pervigilium Veneris, admirável poemeto amoroso do terceiro século da nossa era. É, ainda, o do famoso Tratado do Sublime, uma das obs. mais importantes da crítica tradicional, que se atribuiu sem fundamento sério ao retor sírio Cássio Longino, que viveu no terceiro século, quando o tratado é do primeiro. Quanto à autoria duvidosa, pode-se distinguir:

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1. Autoria duvidosa por se haver perdido a referência certa e inequívoca ao A., como é, de certo modo, o caso do romance Satiricon, que a maioria dos eruditos concorda em atribuir a Petrônio, favorito de Nero, cognominado Árbitro das Elegâncias, primeiro século, o que é todavia posto em dúvida por outros — embora todos saibam que o nome do A. era de fato Petrônio. 2. Autoria duvidosa por anonimato original, caso de muitas obras, mesmo na literatura moderna, como os Discursos sobre as paixões do amor, já atribuídos a Pascal. 3. Autoria duvidosa por nome próprio falsamente alegado, como a Arte de furtar, publicado sob o nome do Pe. Antônio Vieira, e sobre cujo A. até agora não há acordo, apesar de a obra recente e monumental de Afonso Pena Júnior retomar a atribuição a Antônio de Sousa de Macedo. 4. Autoria duvidosa por pseudônimo não identificado, como o do Critilo das Cartas chilenas. (Registraremos, a propósito dos dois casos anteriores, os contos e crônicas de Machado de Assis, que vêm sendo abundantemente exumados nos jornais e revistas do tempo e reunidos em livros por Raimundo Magalhães Júnior. Eles se apresentam em grande parte anônimos ou sob pseudônimos que, pelo que sabemos,

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eram usados em comum por outros escritores, que se revezavam nas secções daqueles periódicos, como Max Fleiuss. Isto poderá dar lugar a problemas sérios de atribuição de autoria.) 5. Autoria duvidosa por fraude, mais ou menos dolosa, relativa à própria identidade do A. É o caso dos escritores ou quaisquer outras pessoas que falsificam obras, atribuindo-as a outrem, que inventam no todo ou em parte. Assim se deu com as poesias de Clotilde de Surville, em França, e os cantos de Ossian, na Inglaterra, no século XVIII, como veremos adiante. Foi também o caso pitoresco do Teatro de Clara Gazul (1825) e do Guzla do Emir (1827), ambos de Prosper Mérimée, que simulou, no primeiro, uma pretensa comediante e autora espanhola, cujo nome é anagrama de guzla, viola turca, de que se utilizou para o segundo livro, coleção de falsas canções líricas, também inventadas por ele. No fim do século XIX, Pierre Louys publicou as Canções de Bilitis, suposta tradução (logo denunciada pelo famoso helenista alemão Willamowitz — Moellendorf) de um ms. grego. 6. Autoria duvidosa por suspeita quanto à validade de originais atribuídos a autores conhecidos — como as vars. de Shakespeare, inventadas por Collier e

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ou substancialmente diversos das cópias que extraiu para os divulgar? São motivos vários e às vezes complexos. que poderíamos esquematizar do seguinte modo: 1. ou semiforjados por Macpherson. pois os originais atribuídos a um escritor podem ser de boa-fé. Sede de renome ou vaidade autoral É o que se dá no caso mais famoso da literatura moderna. para colecionadores. O “Major Byron” viveu algum tempo das citadas falsificações. pelo aventureiro que se intitulava Major Byron.Ireland. Quais os motivos pelos quais uma pessoa falsifica originais. bibliotecas. Interesse Financeiro Os originais ou apógrafos de escritores conhecidos podem ter valor econômico elevado. que se tornou famoso através do 93 . o dos cantos de Ossian. editores etc. forjados. dizendo-se filho do grande poeta deste nome /Diapositivos: documentação ilustrando a marcha desta fraude/. ou por falsificação — campo explorado por muitos malandros. ou alega ter tido em mãos originais na verdade inexistentes. 2. E assim tocamos no importante problema das FRAUDES LITERÁRIAS. ou as cartas de Shelley. Este último caso é dos mais freqüentes.

É. o caso de Collier. e de que estava convicto. seja por motivos jocosos. que desejam provar materialmente aquilo de que estão convencidos. e que os outros só acreditarão mediante provas inconcussas. de Prosper Merimée.renome do suposto bardo gaélico. que inventou vars. Mistificação É o desejo de embair os outros. 5. Seria também em parte o de Pierre Louys. Orgulho nacional ou de estirpe É o caso do Marquês de Surville. Zelo de provar É o motivo mais estranho e complexo. de Shakespeare. erudito competente e conhecido. na literatura inglesa. seja por malícia. Um dos casos mais interessantes é o citado. e tão empenhado em provar o que afirmava. inventando totalmente a obra poética duma suposta antepassada. 3. 94 . sábio de alto renome. desmoralizando-se em conseqüência. forjando etapas que faltavam para completar o seu esquema evolucionista. sendo o caso de estudiosos possuídos pela paixão científica. No terreno das ciências biológicas. e deste modo dando lustre ao nome da sua família. 4. há o fato lamentável e célebre de Haeckel.

já referida. porém. São todos os fatores enumerados. onde pode reinar a má-fé pura e simples) encontramos a provável tendência para simular.Freqüentemente. uma vez aceita a fraude. sendo que. todavia. desde a perda da informação certa sobre um autor. vejamos de mais perto dois dos exemplos aludidos de fraude literária. e. Antes de conceituar e analisar as técnicas adequadas. desejoso de mostrar o glorioso passado poético da sua terra. Não haveria também orgulho nacional na iniciativa de Macpherson. 95 . para melhor ilustração. até a falsificação consciente de originais. interesse financeiro. pois graças a ela pôde passar de modesto professor da roça a homem público em boa posição? E em todos os casos (salvo talvez no primeiro. os motivos se misturam. nem sempre é possível chegar à certeza. que levam à necessidade de determinar a autoria em grande número de casos.

Estimulado pelo êxito e o apoio de críticos famosos. além de amparado por uma subscrição para colher mais material. que destruiu os originais. em 1760. isto é. mas acabou morrendo sem o fazer. espalharam-se 96 . celtas. como Blair. chegando alguns a achar que eram inteiramente escritos por ele. alguns poemas. impedindo. conservados na tradição oral das Terras Altas da Escócia. publicou Temora.OS CANTOS DE OSSIAN James Macpherson (1736-1796) publicou anonimamente. alegando serem tradução de antigos cantos gaélicos. ainda mais longo. Em 1807 foram revistos e publicados por Ross. para todo o sempre. Em 1763. Fingal alegando ser a tradução dum velho bardo cego do século III. Macpherson prometeu então publicar os textos colhidos diretamente em gaélico da tradição popular. As obras de Ossian tiveram êxito espetacular. filho de Fingal. Desde o começo surgiram dúvidas e mesmo contestação quanto à autenticidade de tais poemas. Ossian. deram nome e fortuna a Macpherson. a certeza plena quanto ao problema. herói tradicional das Terras Altas. seguido em 1765 pelas Obras de Ossian. publicou em 1762 um poema épico.

estão cheios de erros redigidos numa língua artificial. orais ou escritos. (5) os mss. A polêmica relativa à sua autenticidade só se resolveu em parte no fim do século XIX. pelos quais se prova que o texto de Macpherson é em grande parte fruto da sua imaginação. XX. por motivos como os seguintes: (1) inúmeras reminiscências de Homero. melancólica e pitoresca. (4) no texto gaélico de 1807 o poema Temora é muito diferente do publicado em 1763. corresponde apenas à metade das traduções inglesas. que deveria corresponder aos originais todos. (6) os nomes de Morvem e Selma sao inteiramente inventados por Macpherson (Art. (2) confusão de dois ciclos diferentes de epopéia céltica — o ulsteriano e o feniano. com os trabalhos de Macbain e Stern. “Scottish Literature”. Milton e os Profetas. (3) o texto publicado por Ross. a tradução não é uma transcrição genuína de originais antigos” (Noedleman 97 . gaélicos.por toda a Europa e influíram decididamente no advento do Romantismo. que representam supostamente o registro da tradição oral. embora baseada em parte sobre fragmentos autênticos. faltando pois abono para a metade da alegada obra de Ossian. Encyclopaedia Britannica. v. 1952). Em resumo: “A opinião comum é que. originando a moda da poesia “primitiva”.

POESIAS DE CLOTILDE DE SURVILLE Foram publicadas em 1803 por Vanderbourg e tiveram êxito. mais ou menos. a análise de estilo mostrou que os poemas eram anacrônicos — 98 . O interesse residia no fato de a poetisa. mas fora obrigado a queimá-los com outros papéis de família para evitar complicações com os revolucionários. tão renovadora era a sua arte — alegava o Marquês — que despertara ciúmes dos escritores do tempo.. Um escritor mais drástico chegou a dizer. Tratava-se de mss. porém. pitorescamente. que os originais estavam no Arquivo do seu castelo. mas surgiram desde logo dúvidas quanto à autenticidade.and Otis. demonstrar grande modernidade. com os quais estava ligada por relações de amizade. que nas poesias de Ossian a sexta parte é da tradição e o resto de Macpherson. aparecendo como precursora de desenvolvimentos poéticos posteriores. que vivera no século XV. II. Desde o primeiro instante. English Literature. onde os descobrira. Dizia ele. copiados pelo Marquês de Surville. fuzilado em 1798 por estar a serviço de Luís XVIII. p. v.. 421).

Mazon.o que se foi confirmando por análises posteriores. incongruências históricas. art. v. como a satélites de Saturno. XX. Béranger de Surville (que realmente viveu e era antepassado do Marquês) ter morrido 20 anos depois da data indicada nas poesias. Grande Encyclopédie. ausência de hiato etc. pastiche visível de poetas do século XVIII. descobertos apenas nos séculos XVII e XVIII. como o fito de o referido Béranger ser casado com uma senhora chamada Marguerite Chaslin. “Surville”. como alternância de rimas masculinas e femininas. Larousse du 19 siècle. ignorados ao tempo da suposta composição. p. traços estilísticos e métricos que só apareceram na literatura francesa depois do século XVII..) Estes exemplos já nos permitem duas verificações: (a) há um problema de autoria que necessita ser resolvido. em muitos casos. que nada tinha de literário. Mas durante cerca de 50 anos andaram pelas antologias e tiveram voga apreciável. (b) há para isto diversos 99 . e falsidades totais. como o fato de o marido da poetisa. 729. v. XIV. Critérios para demonstrar a falsidade: referências internas impossíveis.. bem como a Lucrécio e Anacreonte. históricos. como Berquin e Voltaire. de A. (Art. que são em grande parte consagradas a lamentar a sua morte.. e afinal com docs. “Surville”.

143). pois. e sob os seus aspectos mais interessantes. conhecido. Embora os problemas de autenticidade não sejam exatamente os mesmos da atribuição.. De maneira geral. foi escrita por um A. O problema de determinação é.. um problema de atribuição. Mais raramente se vai à descoberta de autores desconhecidos. ou impressa.critérios. Lembremos que a maioria de tais problemas. por outras palavras. os dois se misturam a tal ponto que será de todo conveniente tratá-los juntos. chama-se em pesquisa literária ATRIBUIÇÃO à assertiva de que uma dada obra foi realmente escrita por um determinado A. prende-se à questão de saber se determinada ob. ou. p. Devemos no entanto ter em mente o fato de que um problema de atribuição é resolvido quando pudermos responder à pergunta: “Quem escreveu este livro?” Mas a autenticidade requer uma resposta afirmativa a três perguntas: “Esta obra foi escrita pela pessoa que se julga tê-lo feito? Foi escrita no tempo alegado como data da composição? Foi escrita nas circunstâncias e com o intuito alegado?” (Sanders. 100 . ms. em grande parte. que é de sua autoria. em literatura moderna. que cabe neste passo diferençar do problema gêmeo de determinação de AUTENTICIDADE.

feito com elementos adaptados de Sanders. Materiais: 1. externas e internas — o que nos leva a sistematizá-las no seguinte quadro. p. Testemunho do autor 3. Existência do ms. 2. p. ou. na tentativa de resolver problemas de autenticidade e atribuição. Tipo de composição tipográfica II. Testemunho de terceiros 101 . internas e bibliográficas” (Sanders. podem ser classificadas em externas. Históricos e biográficos 2. Externos: 1. Elementos grafológicos 3. 142-61: CRITÉRIOS DE ATRIBUIÇÃO E AUTENTICIDADE I.“As provas a que devemos recorrer. Tinta 5. 143). Papel 4. por outras palavras: materiais.

Neste tópico adquire por vezes grande importância a diferença de valor entre autógrafo e apógrafo. quando alegado. Estilo 3. Provas do texto I. que as Cartas chilenas corriam mss. Noutros. ora para o caso da atribuição. só resolvem uma delas. mas só o autógrafo provaria a autoria. e o registro da tradição oral. Sabemos. No problema Clotilde de Surville. Internos: 1. Macpherson deu azo a que se duvidasse da sua autenticidade. Referências internas 2. os autógrafos resolveriam as duas questões. pois a existência do ms. 102 . ora para o da própria autenticidade da obra. as transcrições de velhos documentos. provam a sua existência real. 1 — Existência do ms. que dizia estarem na base da sua edição. esses mss. Por não ter querido mostrar os originais dos cantos.. em cópias (apógrafos). dá lugar a uma dúvida razoável de que não existe ou é fraudulento. O principal critério deste grupo é a verificação de existência do ms. em Vila Rica no tempo indicado como de sua composição. é importante.III. assim. se não for apresentado. isto é.

a caligrafia é o mais importante dos critérios materiais. mas não se obtém aproximação maior de meio século — quando se trata de localização temporal — sem outras provas auxiliares (p. mas também ela está sujeita a reservas.I. A atitude de Dawson é pessimista. que analisou o caso citado das fraudes do “Major Byron” (The Shelley Legend. pois o tipo da letra manuscrita varia com o tempo. criando problemas de reconhecimentos. 2 — Elementos grafológicos Segundo Dawson. enquanto é francamente otimista a de Robert Metcalf Smith. pela letra. é preciso ainda considerar que a escrita de uma pessoa varia com a idade ou com a finalidade e circunstâncias em que é traçada. inclusive pela possibilidade de verificar aproximadamente a data. A perícia grafológica — isto é. as anotações. embora saídos da mesma mão. o exame por um especIalista em grafologia — poderia em princípio resolvêlos. Os rascunhos. Quando se trata de identificar o A. os originais correntes. A cautela se impõe ainda mais no caso de comparação de assinaturas com outro autógrafo do mesmo 103 . no caso. as cópias caprichadas podem apresentar profundas diferenças. p. 80). 36-9).

3 . Mas a diferença. pois a fabrimecânica só foi iniciada no fim do século XVIII. pois ela tende a assumir caracteres por vezes diversos do resto da escrita. Pouca coisa podemos afirmar além de verificações como estas: — se é feito a mão. a menos que seja de caráter surpreendente. I. depois). 85). — freqüentemente. os apógrafos das Cartas chilenas. e é de estudo relativamente breve e fácil. o papel do século XIX tem data em marca d’água. p. para solver dúvidas como a de saber se ele é do tempo em que vivia o autor alegado. Na realidade. “a acentuada similaridade entre uma assinatura e outra peça constituiria prova positiva. Assim. o papel é de pouca utilidade na maioria dos casos.Papel No caso de originais mss. puderam ser localizados: dois. e apresenta. o papel posterior não as apresenta (deste modo. é anterior ao século XIX. 104 .autor. portanto. procura-se utilizar o papel como prova. nada prova em si mesma” (Dawson. um. conservados por Saturnino da Veiga. antes de 1798. linhas devidas à forma.

daí não se poder executar muito bem uma escrita supostamente velha com tinta moderna. pois até mais ou menos 1800 toda tinta era aproximadamente a mesma. 145). como Ireland nos apócrifos de Shakespeare (Sanders. I. Além do mais. um forjador pode usar papel coevo da obra cuja autenticidade procura simular. p. p. 79-80). p. e nenhum esforço de exame microscópico ou análise química nos dirá se uma amostra é velha de cem ou de duzentos anos.Tinta “A tinta comum se torna parda com a idade.” Os forjadores recorrem a estratagemas que nunca chegam a enganar definitivamente os peritos. mas em todo o caso a sua pesquisa constitui elemento duvidoso (Sanders. 80) 105 . Mas tudo isso não permite. p. identificar mais do que o meio século a que a folha pertence (Dawson. 4 . 144-5). Daí o pessimismo de certos técnicos: A tinta não tem utilidade alguma.— os papéis do século XVIII e fim do século XVII podem freqüentemente ser identificados pela marca d’água. (Dawson. em geral.

de um impresso contemporâneo. No que se refere às Cartas chilenas. o tipo de composição tipográfica pode ser elemento ponderável para o caso de fixar a data e.I. Baskerville etc. II. sob este aspecto. surpreender certo tipo de fraudes. a descoberta por Luís Camilo de docs. sabendoexemplo. que o chamado “monotipo Bell” foi fundido pela primeira vez pelo tipógrafo assim chamado. evidenciando a disputa entre Gonzaga e o governador Luís da Cunha Menezes trou- 106 . Deste modo. Os tipos mais famosos serviram de modelo para tipos subseqüentes. Com efeito. Aldino. 1 — Elementos históricos e biográficos São os dados fornecidos pelo conhecimento a respeito da vida do autor e da época em que viveu. permitindo-nos esclarecer e mesmo resolver problemas de autoria. na segunda metade do século XVIII. e são conhecidos pelos nomes dos que os inventaram Elzevir. deste modo. daremos como falso um escrito impresso nele e datado de 1750. 5 — Tipo de composição tipográfica Tratando-se de obra impressa. Basta abrir um volume do século XVII para ver como difere. sabemos que os desenhos de letras tipográficas foram sendo feitos pelo tempo afora. por tipógrafos inventivos.

identificá-lo como o autor oculto por aquele pseudônimo. autor de Sonhos d’ouro e O Gaúcho. Não havendo motivo ponderável contra. Mas se os nossos pósteros tiveram em mãos a curta autobiografia de José de Alencar. 3 — Testemunho de terceiros É o caso de uma pessoa autorizada.xe um argumento poderoso a favor da sua autoria. II. Para voltar às Cartas chile- 107 . Imaginemos que dentro de alguns séculos não se saberá quem foi Sênio. denunciando a arbitrária autoridade. Testemunho do autor São as informações prestadas pelo próprio autor de uma obra cuja autoria é duvidosa. II. intitulada Como e por que sou romancista. pois certos trechos do poema são quase iguais ao de ofícios de Gonzaga à rainha. ou qualificada de qualquer modo para isso. a afirmar que Fulano é autor de determinada obra. pelo seu próprio testemunho. pudemos ver que o estudo das condições de vida da suposta autora e a cronologia real de fatos alegados nos poemas pelo forjador foram definitivos para liquidar o debate. Na questão Clotilde de Survilie. semelhante testemunho é sempre uma prova importante. poderão. 2 —.

seja ou não Melo Franco. Tomás Antônio Gonzaga) dissera que estava reformando o que nela falta.temos o seguinte depoimento de um coevo. como o que realmente seja. mas o e atento de uma “Epístola” da sua lavra. 1 — Referências internas Dá-se este caso quando no próprio texto o tere à autoria. mas não em estado de se copiar. direta ou indiretamente. III. que dou e copiou apógrafos do poema. e viveu em Vila tempo de sua composição e divulgação — Frantís Saturnino da Veiga: “E que ao copiar do original esta carta o autor (o dr. escrita de a um tal Armindo. Não havendo A. o Patriarca. devido a testemunho de terceiro. Muitas vezes o testemunho se dissolve numa alusão direta. em 1785. forçando o gor analítico dos eruditos. Neste falou-se de José Bonifácio. e ainda paira certa de colaboração ou mesmo co-autoria.” Isto constitui forte elemento para presunção de autoria. houve tempo em que isto se ignorou. Embora saibamos hoje que O reino da estupidez é de Francisco de Melo Franco. e por isso mesmo duvidosa. teria mostrado que este foi o autor. se 108 .

Sendo este o título de um livro seu.prova em contrário. imaginemos que se perca a informação de que Cláudio Manoel da Costa é o autor do poema Vila Rica. o problema se complica. Os versos abaixo seriam suficientes para identificá-lo? . onde mais tarde se perdeu outro deputado da melhor casta — aquele Calisto Eloi de Silos Benevides de Barbuda que eu chorei na Queda de um anjo. Gênio do pátrio rio. mas muitas vezes. onde Camilo Castelo Branco escreve.. como se ouvira. no caso das alegações indiretas. caso não soubéssemos quem escrevera “O filho natural”. 109 . encontramos. na novela “O filho natural”. nem a lira Tenho tão branda já. ali em Lisboa. a clara referência deslindaria qualquer ignorância ou dúvida. falando de um personagem que se tornara deputado em Lisboa: Ser-lhe-ia mais custoso ser honesto. entre outros. Para termos uma idéia de referência indireta de difícil solução.. deve-se aceitar o indício como expressão da verdade.eu já te invoco. Exemplo de referência interna direta. se ensaiasse a fábula de Daniel na caverna dos leões.

sabemos que sua obra anterior é grande parte bucólica. 2 — Estilo É o mais importante e o mais falacioso dos eletos internos de identificação. invoas suas ninfas. Consiste em decidir sobre a autoria de ito mediante a comparação do seu estilo com o de outras obras do autor suposto. há o seguinte a considerar: 1) O estilo é uma característica pessoal. Sabemos que ele se refere insistentemente na sua ao Ribeirão do Carmo como “pátrio Rio”. além passando Do oitavo lustro.Quando Nise cantei.. 110 . só devendo ser usado quem possui a indispensável competência estética :ica. No caso. e pastores. quando os amores Cantei das belas ninfas. tendo ele mais de 40 anos (oito lustros seriam elementos suficientes? Em torno de os semelhantes se digladiam os estudiosos. que é a todos. sendo a maneira por que um autor se utiliza da língua. e que o poema foi composto de 1770. Vão os anos correndo.. III.

seja deformadores da realidade. trocando idéias. Procura-se. escrevem muitas vezes de maneira bem aproximada no que se refere a particularidades de linguagem e imagem. de uma escola. pois os três poetas. No caso das Cartas chilenas. como é o caso sabido de Gonzaga.2) Mas é. próprio de uma época. seja dificilmente comprováveis. 4) A semelhança pode ser devida a pastiche bem-feito. gerando confusões. e muitas vezes tem-se de chegar à conclusão de que as atribuições são arbitrárias. Cláudio e mesmo Alvarenga. de um grupo. vinculados a uma mesma estética. admirando-se mutuamente. 3) O estilo de um escritor pode ser influenciado por outro. me- 111 . Daí utilizarem-se certos métodos objetivos. mais moço e admirador de Cláudio. ver estatisticamente para onde pendem os traços. como o estudo estatístico do número de palavras por período ou a freqüência e natureza da pontuação. então. 5) A avaliação das semelhanças pode repousar sobre critérios demasiado subjetivos — o que os torna. há disputas de atribuição pelo estilo que batem sempre na dificuldade apresentada pelo fato de haver traços estilísticos comuns a Gonzaga. também.

em vez de serem coligidos para esclarecerem o problema. são as referências à pendência com o Governador. — que. à construção da cadeia. aos festejos pelo casamento dos infantes etc.diante os quais Arlindo Chaves atribuiu a Gonzaga a autoria das famosas Cartas. são assinalados no próprio texto da obra. Estes indícios internos só adquirem sentido. . Nas Cartas chilenas. as mais das vezes. quando correlacionados a documentos. 3 — Provas do texto Sob esta rubrica se reúnem os elementos de vários tipos — históricos. biográficos etc. III.

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