Nº 29 | out | 2010

Por que os professores faltam ao trabalho?
Na Mídia Expressões como sumiço do professor, farra das licenças, professores ausentes são a tônica da cobertura da imprensa Artigos Aparecida Neri de Souza (Unicamp), Silmar Leila dos Santos (PUC-SP), Carolina Catini (FE-USP), Eduardo Amaral (professor da rede pública) Entrevistas Maria Auxiliadora Albergaria (SEE-SP), Maria Izabel Noronha (Apeoesp), Gustavo Heidrich (jornalista), João Kléber Santana (diretor de escola); Késia Alves (mãe de alunos), Agnes Karoline de Farias (estudante). Saiba mais Teses, dissertações e artigos sobre o tema

eportagens com tom de denúncia são frequentes na imprensa: os professores estão faltando ao trabalho, e isso prejudica a qualidade da educação. No entanto, além de não levarem em conta a opinião dos próprios professores sobre o tema, os jornais não relacionam as faltas às condições de trabalho e saúde dos profissionais da educação. Nesta edição do Desafios da Conjuntura, gestores, pesquisadores, jornalistas e professores problematizam as diferentes causas do absenteísmo docente, e como enfrentá-lo.

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DESAFIOS

DA

CONJUNTURA

A falta de professores A
quase universalização do acesso à educação básiestão saindo da educação básica com muitas dificuldades na leitura, escrita e matemática. E a culpa, de quem é? Das professoras e professores, dizem os governantes e ecoam jornais, revistas e até mesmo alguns institutos de pesquisa. A lista das acusações é variada: má formação, desinteresse, falta de profissionalismo, excesso de direitos e irresponsabilidade. O absenteísmo é apontado como a prova desses males. No entanto, como demonstrou o debate Desafios da Conjuntura “A falta do professor”, realizado em 15 de outubro de 2009 e sistematizado nesta publicação, o número de faltas de professoras e professores das redes públicas de ensino estadual e municipal de São Paulo e sua capital esconde a realidade da precarização do ofício docente. Não é apenas a falta de condição de trabalho, ou o salário insuficiente, ou o adoecimento, ou o corporativismo, ou a ausência de controle social na educação que impedem o exercício saudável do ofício docente. São todos esses fatores, eternizados pela ausência de políticas públicas capazes de superá-los. Reafirmando a crença de que a única forma eficiente de construção de políticas educacionais é aquela fundada na participação e controle social, a Ação Educativa, por meio de seu Observatório da Educação, apresenta esta publicação na expectativa de contribuir com a construção da educação pública, universal e de qualidade, efetivada por profissionais da educação em condições de exercer, a um só tempo, sua profissão e sua cidadania. Boa leitura! ca trouxe desafios. A escola que era para poucas pessoas, tornou-se para muitas. Foi preciso, então, ampliar a rede física, formar docentes e formar formadores de docentes. Nesse processo, a escola pública vem sendo criticada, sobretudo sob a acusação da falta de qualidade do ensino. Para explicar esse fenômeno, que é considerado atualmente o principal problema da educação brasileira, governantes têm propagado distintas versões, disseminadas e referendadas pelos meios de comunicação e demais formadores de opinião. Primeiro a culpa recaiu sobre os estudantes pobres, acusados de serem incapazes de acompanhar o bom desempenho de seus colegas pertencentes aos segmentos mais favorecidos da população. Reprovar estudantes até que eles aprendessem todo o conteúdo considerado adequado foi a solução e, ao mesmo tempo, uma das causas da evasão escolar. Numa segunda etapa, considerou-se que o problema não eram os estudantes, mas sim suas famílias que, com sua baixa escolaridade, não estimulavam, não acompanhavam, não ofereciam “capital cultural”. A solução então foi propagar a ideia de que a escola deveria suprir todas “as carências” – da alimentação ao acesso a atividades culturais, esporte e lazer. Diante da impossibilidade de garantir, com qualidade e num curto período, essa escola para toda a população, o momento atual é de rever o papel da escola, valorizar a transmissão de conteúdo e cobrar, medir, e comparar sua aquisição. Os índices – vários –, não deixam dúvidas: os estudantes

EXPEDIENTE
Desafios da Conjuntura/Ação Educativa Assessoria Pesquisa e Informação. v. 1, n.24 (maio, 2009). – São Paulo: Ação Educativa, 2008n. 29, outubro de 2010: il.w Editor: Mariângela Graciano ISSN 1984-7319 (on line) ISSN 1984.7327 (mpresso) 1. Educação. 2. Carreira docente. 3. Professor. 4. Absenteísmo docente. 4. Faltas docentes. 5. Falta de professores. 6. Ensino. I. Graciano, Mariângela. II. Ação Educativa Assessoria Pesquisa e Informação

Coordenação Editorial: Mariângela Graciano Redação e Edição: Carlos Arthur França, Fernanda Campagnucci e Mariângela Graciano Revisão: Fernanda Campagnucci e Mariângela Graciano

Observatório da Educação - Ação Educativa Rua General Jardim, 660 | 01223-010 | São Paulo | SP T: 11 3151 2333 R: 170 observatorio@acaoeducativa.org

Apoio

Apoio institucional

a causa das faltas. Mais de 50% das reportagens ou editoriais que trataram do assunto no período o fizeram com números do “déficit” de profissionais – é o caso do Diário Catarinense. a falta. Diário do Grande ABC (SP). publicou a reportagem “Falta de professores compromete educação”. O Dia (RJ). “Por que o jornal nunca pergunta o motivo das faltas dos professores? (. No Rio de Janeiro. Correio Braziliense. pais e mães e os próprios alunos são ouvidos sobre a situação na maior parte das reportagens. “protesto”. Poucas matérias no período destacaram os problemas de saúde que representam boa parte das faltas justificadas. Tribuna do Brasil (DF). a matéria foi completamente desvinculada da questão do bônus e da discussão sobre a carga horária e o número de alunos que os profes sores assumem. “Há várias ocupações com remuneração e condições de trabalho que não são ideais. algumas escolas não atraem profissionais etc. culpabilizam os professores pelo excesso de licenças e prometem coibir o absenteísmo. Apesar de não ouvir professores em suas matérias. A Folha de S. para receberem bônus integral. Em ambos os estados. Se faltarem mais de cinco. violência de alunos contra professores e progressão continuada (. por exemplo. em 2009 – de 75 jornais impressos. Nem por isso. no mesmo mês. como São Paulo e Rio de Janeiro. Tribuna da Bahia. No entanto. associadas aos termos “denúncia”. o jornal ignora tudo isso”. O Globo. uma carta de professor reagindo ao editorial. Os gestores. Folha de S. Quando abordado. no dia seguinte. diminui o valor do bônus – e uma lei limita o número de ausências justificadas a seis por ano. Se. Estado de S. Zero Hora (RS). O texto trouxe o contraponto de dois professores.. diz um editorial da Folha (13/1/09). Falta “de” ou “do” professor? A carência de professores nas redes. A lógica de denúncia fica mais explícita nos editorias e artigos de opinião. . o jornal publicou. a contratação é burocrática. Também é preciso ressaltar a dificuldade que os profissionais da imprensa encontram para entrevistar professores. os professores não são tomados como fonte em praticamente nenhuma delas. expôs casos de professores que faltam por distúrbios psíquicos. que falaram sobre a questão do excesso de carga horária. Paulo (24/8/09) informou o resultado de uma pesquisa que mostra que os professores faltam cinco dias por ano por problema de voz. Já o Correio Braziliense.. quando tradicionalmente a carreira docente é abordada.. mesmo justificada com atestado médico. em reposta. os professores só podem faltar no máximo dois dias por ano.) Salas lotadas. não recebem bônus algum. o tema foi problematizado do ponto de vista das condições do trabalho. O enfoque das reportagens é muitas vezes quantitativo: há carência de “x” professores na rede. Nem mesmo no dia 15 de outubro. em setembro de 2009. o tema “condições de trabalho” é muitas vezes minimizado. são a tônica da cobertura da mídia em relação ao Outro enfoque predominante da cobertura – cerca de 45% das reportagens sobre o assunto – é a proposta de bônus de algumas secretarias de educação. farra das licenças. ta”. Jornal de Tocantins. inclusive temporários ou substitutos. professores ausenBônus x Faltas tes. A Notícia (SC). por um lado. Não se questiona. na imensa maioria desses casos.. os profissionais deixam de comparecer regularmente ao trabalho”. estresse e depressão. Paulo. o governo vinculou o recebimento de bônus e prêmios para professores ao número de faltas no ano. O Diário do Nordeste (CE). baixos salários e violência que fazem parte de suas rotinas. Pais e alunos indignados pela falta de aulas cobram dos gestores a solução do problema e fazem protestos.) Assim como o governo. gestores. “revolabsenteísmo do professorado nas redes públicas de ensino. O Estado do Paraná e A Gazeta (ES). A conclusão é resultado da análise do Observatório da Educação pelo período de um ano – entre 15 de outubro de 2008 à mesma data. é um dos enfoques mais abordados pelos jornais. Amazônia Jornal. Essas expressões.3| OBSERVATÓRIO DA EDUCAÇÃO Jornais não investigam causas das faltas S umiço do professor. Em São Paulo. Jornal da Paraíba. Paulo. em consequência de mecanismos normativos e culturais de restrição à manifestação de opiniões .

tensão pré-menstrual. no início de carreira. nos discursos apresentados na mídia. A falta de assiduidade de professores ao trabalho colocanos problemas a serem pesquisados. ingressam em escolas localizadas nas periferias urbanas e em regiões classificadas como mais degradadas socialmente e. na França. As razões apresentadas foram 1 Ver “Acão na Mídia”. A profissão docente é considerada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) como uma das mais estressantes. neurose de ansiedade. anorexia. sobre os reflexos das condições de trabalho na saúde de professores e constaram que há poucos estudos no campo da educação e da sociologia sobre as relações entre saúde física e mental e a organização e condições do trabalho docente. no período entre 1997 a 2006. sobre os professores belgas em final de carreira. 1999). bulimia. numa perspectiva sociológica. se expressam em amenorreia. sobre as relações e as condições de trabalho do docente. melancolia climatéria. verbalmente. sexo. Outro estudo. 2008). Os professores. em particular da psicologia e da fonoaudiologia. estudos da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE) apontam que as difíceis condições enfrentadas pelos professores no trabalho têm efeitos sobre a saúde. muitas vezes. Hansez (2005) citado por Lantheaume e Hélou (2008). São poucos os trabalhos sobre os professores: um inventário realizado na base de dados SciELO apontou escassos (21) estudos sobre absenteísmo e predomínio de pesquisas sobre trabalhadores/as em hospitais. classe social. psicose depressiva (Esteve.4| DESAFIOS DA CONJUNTURA Ausentismo de professores: fuga ou adaptação? Aparecida Neri de Souza | Professora da Faculdade de Educação da Unicamp A temática absenteismo. No Brasil. sobre saúde e condições de trabalho dos professores no início da carreira. pelo Observatório da Educação. gênero e faltas ao trabalho? Quais são as relações entre as condições nas quais o trabalho se realiza e faltas? Como escapar da culpabilização do professor. mal formado e não assíduo? Leite e Souza (2007) realizaram um balanço sobre as pesquisas produzidas. cefaleia. Os efeitos do estresse. frigidez. Mal-estar docente O mal-estar docente3 é um fenômeno social do mundo ocidental.br . numa categoria profissional fortemente marcada pela presença de mulheres. ausentismo.observatoriodaeducacao. do que nas pesquisas. Os docentes (26%) estariam submetidos à síndrome de burnout. na França. Sem fronteiras O fenômeno do absenteísmo docente não é restrito a um espaço geográfico ou temporal. com forte incidência dos elementos que provocam a síndrome de burnout 2. nos informa que 46% dos professores estiveram em licença saúde e ausentes do trabalho em 2005. refere-se aos efeitos permanentes e negativos que dade ao trabalho conhece mais popularidade na mídia . nas pesquisas existentes há um predomínio de temáticas do campo das ciências biológicas. que provoca esgotamento emocional e ou físico. Hélou. Lantheaume. uma profissão de risco. http://www. 2008). em 27 de outubro de 2009. falta de assidui1 doença. Uma pesquisa. especialmente. Hélou. indaptado. o sentimento de impotência diante dos problemas sociais que vivenciam (Souza. atualmente. considerado como. indica que a desvalorização da profissão e a falta de reconhecimento social do oficio de ensinar levam também os professores a se aposentarem prematuramente. 2006 citado por Lantheaume. sentimento de despersonalização. 2007. matéria publicada. Segnini. em média duas vezes ao ano por cerca de 11 dias (MGEN.org. manifestam. O que leva os professores a faltarem ao trabalho? Qual é a frequência? O tempo de trabalho perdido é maior do que o de outros trabalhadores? Qual é a relação entre tempo de trabalho na profissão. redução da produtividade no trabalho. e 1/3 destes professores afirmaram ter fatiga e estresse. As consequências da síndrome de burnout em professores se manifestam no seu desempenho profissional e na qualidade de seu trabalho.

I. prólogo da terceira edição). Afirma que a expressão mal-estar “é intencionalmente ambígua (. 2008. LEITE. citado por Carvalho. A. Referências bibliográficas: Estratégias de sobrevivência CARVALHO. 2003 CNTE. . et al. 2005. 4 Refiro-me às pesquisas que tenho realizado e orientado sobre condições e relações de trabalho. N. 68. Bauru: EDUSC.mgen. frequentemente.pdf.br ESTEVE. mas. entender por que o professor se ausenta de seu trabalho. o absenteísmo ou ausentismo dos professores pode ser enfrentado pela formulação de políticas públicas. 1999. O mal-estar docente – a sala de aula e a saúde dos professores. resultantes das condições nas quais os professores trabalham. Pontifícia Universidade Católica. no. há exigência de certa experiência e formação profissionais. . Fin de carrière des enseignants: vers une explication du stress et des retraites prématures. 193-223. LANTHEAUME. L.. alguns contornam os problemas dando ênfase aos saberes escolares ou à avaliação. 1999. Trabalho e formação profissional no campo da cultura: professores. remoção entre escolas até o ausentismo no emprego. 2007. outros (a maioria) adotam estratégias de fuga. acesso em 06/03/2008. os professores constroem diversas estratégias de sobrevivência. como aquela em que o professor permanece no posto de trabalho na mesma escola. São Paulo. mas não somos capazes de definir o que não funciona e por quê” (p. Paris: PUF. Estado da Arte. MGEN. Os professores passam a se questionar sobre a sua escolha profissional e o próprio sentido da profissão.) sabemos que algo não vai bem. desloca o foco da análise do indivíduo isolado na sala de aula para colocá-lo na organização do trabalho na escola e no entorno social em que ele se encontra. na direção de criar condições para que o trabalho docente possa ser realizado mais satisfatoriamente. com formas mais ou menos visíveis. Assim. Fátima Araujo de. p. não se trata de observar as consequências do absenteísmo e ausentismo. 2003).N. v. analisados por Leite e Souza (2007).5| OBSERVATÓRIO DA EDUCAÇÃO afetam objetiva e subjetivamente o trabalho dos professores. Relatório de Pesquisa. sugerem a intervenção nas condições de trabalho que geraram o mal-estar docente.org.12. Le Travail Humain. O abandono da profissão é menos frequente. C. Mas há fugas mais sutis. além de exaustão emocional. http://www. bailarinos e músicos. HELOU. atualmente. pois os professores são trabalhadores na função pública com certa estabilidade no emprego. Há evidências que os professores estariam vivenciando um abandono da profissão pelo ausentismo e licenças que caracterizam o mal-estar. SEGNINI. F. Entrar em burnout significa chegar ao limite da resistência física ou emocional” (Cristina Malash e Michael Leiter. http://www. pelo Estado. As mudanças de função são mais limitadas. Retrato da Escola1.3. ansiedade e desmotivação.fr/fileadmin/user_upload/ documents/Solidarite/Enjeuxdavenir/santeetconditionsdesenseignants.. Teacher burnout: a reserch agenda. Poucos são os professores que falam claramente sobre este mal-estar na profissão. é um valor importante no mercado de trabalho. Pode se manifestar em sentimentos tais como angústia. 3 Esteve (1999) utiliza o termo mal-estar docente para designar o conjunto de dificuldades e constrangimentos profissionais que afetam o trabalho docente. A mobilidade (remoção) entre escolas é um recurso bastante utilizado. alienação. 2007 2 Burnout “significa sofrer por exaustão física ou emocional causada por longa exposição à situação estressante. insensibilidade face às dificuldades dos alunos. Este se manifesta também de diferentes formas: licenças sem vencimento por motivos particulares e ausência ao trabalho. o que. a síndrome de burnout ou estresse. Os estudos. Condições de trabalho e suas repercussões na saúde dos professores da educação básica no Brasil. pois. P. A contribuição destes estudos sobre o mal-estar docente coloca em evidência as condições sociais em que o trabalho docente se realiza. chamas devastadoras (burnout) às flamas da esperança-ação (resiliência).cnte. Santé et conditions de travail des enseignants em début de carrière. mesmo quando expressam certa amargura com o desenvolvimento de sua atividade profissional e com as condições nas quais realiza o trabalho4 . A. procurando escapar da deriva ou impotência. São Paulo: Fundacentro. mas opera um desengajamento profissional. mudança de função. antes. La soufrance des enseignants – une sociologie pragmatique du travail enseignant. SOUZA. Mestrado em Psicologia da Educação. José Manuel. M. UNICAMP/FAPESP. O Mal-Estar Docente: das Face às difíceis condições nas quais o trabalho docente está submetido. os professores se deslocam das escolas “difíceis” das periferias urbanas para as escolas consideradas “menos difíceis”. Assim. que vai do abandono da profissão. HANSEZ. SOUZA.

no caso das escolas. E chamando atenção para: No município de São Paulo. uma possível diminuição das mesmas. Paulo. abrangendo cerca de 350 professores. descrevendo que esse custo é mínimo. Tudo porque antes era preciso ir ao departamento de saúde da prefeitura para comprovar uma doença . uma vez que “o cálculo não contabiliza faltas abonadas” e que. Paulo destacou . Meu segundo passo foi identificar na legislação quais eram os termos que regiam a possibilidade dos professores se ausentarem ao trabalho e. ocorre no interior das escolas é que motivou a realização de pesquisa acadêmica que culminou em minha dissertação de mestrado. identifiquei que o Estatuto dos Funcionários Públicos do Município de São Paulo. abril/2007). A primeira constatação realizada foi a de que. posteriormente. deve ser apresentado ao diretor das mesmas. bastou relaxar o critério para justificar as faltas para os pedidos aumentarem de 6. o que me fez interpretar que a possibilidade de se ausentar ao trabalho.949 por ano. Alguns dos resultados obtidos Legalmente. trata-se de uma concessão e não de um direito propriamente dito. de fato.que as Faltas de servidores custam R$ 290 milhões por ano a SP (título da matéria). o jornal O Estado de S. dentre os itens apresentados. destacada pelo título: Prefeitura de São Paulo quer diminuir nº de falta de professores. assim.989 de 1979. A preocupação da mídia concentra-se na ausência do profissional docente em sala de aula e também com O absenteísmo docente tem sido pauta de matérias relação às perdas financeiras que essas faltas. edição 201. Esse diretor tem a prerrogativa de atender ou não a essa solicitação. no século passado. Assim nasceram as chamadas faltas abonadas (Nova Escola. fato que me fez desenvolver uma metodologia específica para a coleta dessas informações. prevendo.e por um tempo bastava ir a qualquer consultório (Nova Escola. seis faltas justificadas e até 60 faltas injustificadas. Elas sofriam com as cólicas menstruais e. exemplo disso é a publicação do Jornal Folha de S. a possibilidade de se ausentarem do trabalho utilizando-se de até 10 faltas abonadas. abril/2007). defendida em 2006. possivelmente. A pesquisa foi realizada entre os anos de 2004 e 2005. A notícia fazia menção a uma Portaria. via formulário próprio à chefia imediata do departamento público que. se for incluído pagamento dos substitutos”. o valor pode dobrar. a todos os funcionários públicos do município paulistano. a Prefeitura de São Paulo não possuía dados quantitativos disponíveis referentes às faltas dos professores. 2. . assinada pelo Prefeito da cidade de São Paulo.359 (num universo de 54 mil profissionais) para 84.356 deixam de dar aula na rede municipal” [de São Paulo]. estas últimas.em edição de 15 de abril de 2007 . Contudo. garante não só aos professores. acarretam aos cofres públicos. prevista legalmente aos funcionários públicos municipais paulistanos.6| DESAFIOS DA CONJUNTURA Absenteísmo docente Silmar Leila dos Santos | Mestre em Educação pela PUC/SP e professora na educação básica e no ensino Superior jornalísticas na mídia brasileira. tentei identificar quais as razões expressas pelos professores para faltarem. em cinco escolas da rede municipal de São Paulo que ofereciam o ensino fundamental. apenas as faltas abonadas não acarretam descontos pecuniários aos professores e que as mesmas devem ser solicitadas formalmente. e intitulada As faltas dos professores e a organização de escolas da rede municipal de São Paulo. na época da realização da pesquisa. mas. eram obrigadas a se ausentar da escola. Lei 8. estavam as faltas diárias dos professores como sendo originárias de Uma profissão dominada pelas mulheres quando ainda não havia remédios eficazes contra a dor. Verificou-se ainda que. possíveis desde que sejam interpoladas. localizadas em regiões periféricas do município. a revista Nova Escola (edição 201) trouxe como tema de capa a Profissão Professor e. Ainda no ano de 2007. sobre a contabilização das denominadas faltas-aula aos professores municipais. Também fazendo menção a esta nova Portaria e informando que “todos os dias. “na educação. em fevereiro de 2008. edição 201. a simples apresentação de tal problemática sem a constatação do que. por um ou dois dias.

foi possível constatar que entre as estratégias possíveis. o adiantar-se aula. se verificou também que. Algumas considerações Faz-se necessário destacar que a pesquisa não objetivou vitimizar ou culpabilizar os professores da rede municipal paulistana. 26% descreveram se ausentarem por questões particulares. justificadas. ou seja.7| OBSERVATÓRIO DA EDUCAÇÃO Constatei que os professores faltam sim ao trabalho. a utilização de outros espaços da escola para que os alunos pudessem realizar atividades que não necessitassem da presença de um professor. a seguir: ESCOLA 1 Faltas Abonadas Justificadas Injustificadas Licenças TOTAL 2004 312 39 29 210 590 2005 337 35 11 10 433 2004 646 126 149 N/A 921 ESCOLA 2 2005 684 106 127 N/A 917 2004 508 100 76 38 722 ESCOLA 3 2005 271 07 N/A N/A 278 2004 312 39 29 210 590 ESCOLA 4 2005 303 12 N/A N/A 315 2004 600 98 56 N/A 754 ESCOLA 5 2005 550 111 119 36 816 A tabela especifica o número de faltas abonadas. 2007. para tentar minimizar o problema. 50% dos professores que participaram da pesquisa alegaram que costumam faltar ao trabalho para ir ao médico ou por questões de saúde. Fundação Victor Civita abril Cultural. acarretando a dispensa dos alunos antecipadamente ao horário previsto e a solicitação de que os alunos aguardem. viagens ou não responderam. Revista Nova Escola. no entanto. como esse fenômeno atinge o cotidiano das escolas. sem nenhuma orientação pedagógica à próxima aula. além das constatações apresentadas acima. destaca-se que o número de faltas justificadas e injustificadas também é relevante. ocorrem: a utilização de professores substitutos (denominados professores adjuntos à época da pesquisa). Concomitante a essas questões. mas sim constatar. 2006. Dissertação de Mestrado: PUC/SP. grosso modo. Constata-se que o número de faltas abonadas é o maior. 7% justificaram questões familiares e. como pode ser observado na tabela. Referências bibliográficas: Jornal Folha de S. Porém. quando esses estavam disponíveis nas escolas. como a legislação respalda a possível ausência de professores e demais funcionários públicos sem. Ao serem questionados sobre o porquê de faltarem ao trabalho. Paulo. os demais 17% apresentaram justificativas diversas como ir à faculdade. a solicitação a outro professor que ministre aula em duas turmas. Edição 201 . Edição de 15/04/2007. Paulo. Edição de 01/02/2008. SANTOS. verifiquei também a carga horária de trabalho desses professores e constatei que 67% dos que responderam ao questionário apresentado durante a pesquisa alegaram exercer diariamente mais de uma atividade profissional. A pesquisa revelou que ao se tratar do absenteísmo docente é necessário observar toda uma cultura escolar e que questões do tipo: como funcionam nossas escolas? Quem são nossos professores e alunos? Qual o papel da escola na sociedade contemporânea? Devem nortear qualquer reflexão ou problematização sobre a educação contemporânea. Jornal O Estado de S. levando-se em conta que as mesmas ocasionam descontos salariais e possíveis prejuízos quanto à evolução funcional desses professores. As faltas de professores e a organização de escolas na rede municipal de São Paulo. injustificadas e de licenças médicas.abr/2007. em cada uma das cinco escolas pesquisadas durante o biênio 2004 e 2005. a divisão de alunos entre as demais turmas de mesma série/ ano. Assim. estratégia corriqueiramente denominada de “aula vaga”. cabe às escolas e demais repartições organizarem-se como podem. 2007. prever qualquer tipo de substituição desses funcionários. Nas escolas pesquisadas. Silmar L. 2008. ao mesmo tempo. por meios acadêmicos. ocorrendo o registro de que alguns chegam a lecionar mais de 250 horas-aula por mês. .

mas se coloca como categoria responsável pelas mudanças da relação escolar como meio de imprimir a formação necessária para a sociedade que se quer. Hoje. personalizado na figura de políticos isolados. sobretudo. entre outras transformações ocorridas na educação. até o topo da hierarquia da organização política de um sistema público de educação. Mas as análises sobre as condições da formação docente. Transforma-o em alvo de acusações por não ser bem formado nos cursos de pedagogia e licenciaturas. ou as causas da violência e indisciplina na escola. por não deter a antiga autoridade de mestre. Isso mostra que os jovens estudantes sabem que a educação é um processo social que envolve diversas relações. às agressões sofridas cotidianamente. A atividade de formar novas gerações faz sentido quando há uma coletividade envolvida num projeto de sociedade. que não dizem respeito apenas a um ou outro agente envolvido no processo educacional. explorada de modo expressivo nas mídias formadoras de opinião. As causas do fracasso escolar. e da investigação da relação entre escola e sociedade. Aparecida Neri de Souza. à quantidade de alunos por turma. ao aumento da carga horária e exploração do trabalho.SP. por não conter a violência e a indisciplina na escola etc. também já o esteve o trabalho de cada docente em sua sala de aula. diz que falta o quanto tem direito porque não tem condições físicas e psíquicas de trabalhar todos os dias em sala de aula. as famílias das camadas populares. com o grau de imposição de políticas públicas para educação e. revela a mesma forma de tratamento unilateral dos problemas da educação. na cidade de São Paulo. Tal desgaste é diretamente proporcional à intensidade do trabalho. antes evidenciado pela falta de democratização do acesso aos diferentes níveis de escolarização e altos índices de repetência e evasão escolar dos alunos e. Diz ainda que o professor foi abandonado e perdeu sua dignidade profissional. em sua pesquisa intitulada “Sou professor. atualmente. “A sociedade que nos critica é a mesma que nos O que parece é que o professorado tem feito falta. ainda que tenhamos acesso à pesquisa qualitativa acerca da produção social do fracasso escolar.8| DESAFIOS DA CONJUNTURA A falta que o professorado faz Carolina Catini | educadora e doutoranda do programa de pós-graduação em Educação da USP educa” é uma inscrição pichada do lado de fora dos muros de uma escola pública de ensino médio no bairro de Pinheiros. não apenas na sala de aula. sobre as mudanças na relação entre docente e aluno. a culpa é atribuída aos professores. Mas também se relaciona com a deterioração de mecanismos de participação coletiva e desenho de um projeto pedagógico específico de cada unidade escolar. em Itaquaquecetuba . já contaram com análises unilaterais dos problemas da educação. Para quê se educa hoje? Se a educação já esteve relacionada com um projeto de transformação social. como um jogo vão de culpabilização de segmentos envolvidos nos processos educacionais formais . Assim como delas dependem a compreensão de uma conjuntura social e política que faz o docente faltar nos seus dias de trabalho ou mesmo abandonar a carreira. . pela não garantia do aprendizado dos conteúdos considerados elementares. de João Jardim. ao grau de dificuldade nas relações com os outros profissionais. Uma ofensiva contra o magistério. dependem de uma discussão da posição social que hoje o magistério ocupa.desde a base. Desgaste No documentário “Pro dia nascer feliz”. culpadas por serem incapazes de fornecer meios para o desenvolvimento saudável e cognitivo das crianças. a professora Celsa da escola Parque Piratininga II. sim senhor” (1999) mostra que dois terços dos docentes em atividade durante as décadas posteriores ao regime militar se consideravam trabalhadores especiais por terem sua representação social relacionada com um projeto de mudança social. à desconfiança empregada socialmente. Quem é ou já foi professor sabe que a tarefa é desgastante e bastante cansativa. coletividade esta que se manifesta não apenas entre os muros da escola. com o sentido do trabalho educativo.

observatoriodaeducacao. entrevistas. mas a falta que faz o professorado. da falta de domínio coletivo sobre a finalidade das práticas sociais. da individualização dos projetos. o que contribui para um decréscimo das perspectivas de vida de jovens e altera sua relação com a educação formal. livre de determinações de constantes transforma- ções na divisão social do trabalho e do desenvolvimento das forças produtivas. À diminuição da participação na sala de aula e na escola.org.br Acompanhe no twiter: obseducacao Participe com críticas e sugestões. que parecem caminhar sem sujeitos. N. que transformariam a atividade docente numa forma de trabalho apêndice das máquinas. Falta-lhe a possibilidade de colocar-se enquanto sujeito social e coletivo. se fizeram capazes de mudar seus vetores: a participação tomou ares de consumo de serviços e controle da qualidade. Se não há modos de forjar ação coletiva no interior das escolas. como coisa externa a ele. Isso porque a atividade docente é um trabalho e não se encontra. Se o professorado falta em sala de aula é porque falta um sentido à sua prática. nas ruas. Se depois da esperança de formar sujeitos críticos para uma sociedade não autoritária. portanto. Tudo isso desqualifica o trabalho docente enquanto atividade intelectual e política. pesquisas. Referências: SOUZA. restou a possibilidade de formar trabalhadores que tivessem a chance de uma vida digna. Observatório da Educação Informe-se e opine sobre a conjuntura educacional por meio de reportagens.9| OBSERVATÓRIO DA EDUCAÇÃO De sujeito a assujeitado Durante estes trinta anos. o currículo e os métodos educativos. Tais conhecimentos . acompanhamento da mídia. Acesse e receba os boletins: www. o magistério foi deslocado de seu papel de sujeito. A questão não é. sim senhor! Educação em Debate (CESA/UFC). porque o professorado falta. . Os mecanismos criados para a participação e democratização do acesso foram invertidos em formas de homogeneização e controle da prática docente. nos fóruns de discussão. As políticas de gestão do trabalho docente acataram as antigas reivindicações. generalizados pela aplicação das políticas de avaliação de sistemas educacionais que determinam. soma-se a redução da capacidade de contestação. mas. portanto.o Estado. Sou professor. em parte.passam a se concentrar na gestão da educação e se opor às capacidades intelectuais do magistério. a prática educativa. que dirá nos conselhos. pela expansão e imposição do uso de recursos didáticos pré-formatados. nem das imposições de seu contratante . 61-63. porque falta à sociedade sua voz e sua participação num projeto educacional para além da sala de aula. da privatização das gestões públicas. o controle social da educação se materializou apenas em avaliações externas.sobre os meios de trabalho e seus resultados . o empoderamento das camadas populares por meio da educação se transformou em contenção social. que se manifesta mais ou menos favoravelmente à autonomia docente de acordo com a correlação de forças políticas e pressões econômicas. O trabalhador da educação perde o controle sobre os meios de trabalho. a coletividade inverteu-se em competitividade de indivíduos pelo mérito de seu ensino. hoje nem isto é garantido. e sobre o controle dos resultados de seu trabalho por mecanismos de cobrança impessoais e pretensamente objetivos. 1999. São Paulo. banco de fontes e debates. para o de assujeitado. Há ainda uma tendência de aumento de emprego de tecnologias. porque é limitado em sua condição de trabalhador. p. Tudo bem ao gosto da manutenção da dinâmica social. A. do emprego da lógica da produtividade. participação política e formulação dos objetivos da educação. aos poucos. relacionada às inúmeras políticas que tem criminalizado a pobreza.

como se diz: “cada um com os seus problemas” – tais exceções “heróicas” do sacrifício pelo trabalho e da abnegação. há pesquisas que apontam para uma questão de saúde. por um lado. é de se supor que isso traga alguma desordem ao planejamento dos demais professores presentes. puni-los severamente pela falta cometida. Contudo. ou deixá-los sozinhos no pátio? Seja quais forem as alternativas encontradas para driblar a ausência de um ou mais professores no período de aula. Idiossincrasias à parte – ou. Bode expiatório O “absenteísmo” tornou-se mais um entre outros bodes expiatórios de nossas mazelas educacionais. em se tratando de professores das escolas públicas. tornam-se a medida para julgar quem falta ao trabalho. particular. Esta é a abordagem que o tema tem recebido nos inúmeros artigos. Qualquer um preferiria ficar de repouso em casa quando acometido por alguma enxaqueca ou outra indisposição física qualquer.10 | DESAFIOS DA CONJUNTURA Para além do silêncio e da culpa* Eduardo Garcia C. No entanto. Problemas de saúde Se fossem casos isolados e não repercutissem nas estatísticas. é certo que em princípio não recairia aí nenhuma culpa. por outro.wordpress. O professor faltoso é réu acusado de boicote ou sabotagem às melhorias da educação. pois os motivos fogem completamente à sua vontade. entre censura e complacência. ou para dar auxílio a algum familiar adoentado. entre alegadas. Ora. quando sua idiossincrasia estará exposta à complacência de uns e/ou à crítica de outros. Trata-se aí de uma avaliação do caso concreto. A recorrência das “aulas vagas”. sua falta também parecerá absolutamente pessoal. se comprometem a aprendizagem dos alunos. trata-se ainda assim de uma escolha entre ir ou não ao trabalho. também trazem prejuízos à normalidade da rotina escolar: juntar turmas. Senão. escorados em uma legislação demasiadamente permissiva.com . segundo a opinião do gestor e de seus colegas. não: a ausência. ao encontrá-los. e indicam primeiramente as faltas motivadas por consultas médicas ou doenças relacionadas ao exercício profissional. dá-se a entender que agiriam por simples má-fé. Entretanto. que na escola. pois haverá aqueles “heróis” da causa educacional que não faltariam nem mesmo em situações análogas. e entre justificativa e desculpa. “adiantar aula”. vejamos: para aquele que se ausenta. pouco discutamos o chamado “absenteísmo docente”. se alguém falta ao emprego e sabe que este dia poderá ser descontado do salário. é razoável pensarmos que ninguém deixa de comparecer sem motivos. a despeito de quaisquer “circunstâncias atenuantes” É curioso. por ser ausência. nada tem de pedagógico. editoriais e reportagens na imprensa. dispensar os alunos. pelo contrário. A ausência do professor revelaria sua “falta de compromisso” com a escola. senão sintomático. ela revela antes uma renúncia pedagógica. Se a educação vai mal – e essa é a impressão geral que se tem presente na sociedade – corre-se a procurar os “culpados” e. poderíamos supor que se tratasse de contingências e acidentes tratados de forma singular por cada professor. Mas a que se renuncia? Perguntar pelo silêncio sobre esta questão talvez diga muito do porquê os professores faltam. do Amaral | Professor efetivo de Filosofia da rede oficial de ensino do Estado de SP os professores. É evidente que nestas condições haja um “constrangimento moral” que impede qualquer discussão aberta sobre o tema que não recaia no caso específico. ou então. * Texto também disponível na página do professor na internet: http://edu74. mas desculpável – e só há desculpas onde exista sombra de algum sentimento de culpa que lhe seja introjetado e do qual deseja se desvencilhar. valorizados profissionalmente. bem como no discurso das autoridades e nas medidas governamentais adotadas contra o absenteísmo. Não seria este um tema candente para uma reunião pedagógica? Contudo. seus motivos parecerão mais ou menos aceitáveis.

cada vez mais frequentes. que seriam amenizadas caso certas condições para o trabalho docente fossem observadas. Trata-se. Não se quer aqui justificar o absenteísmo por uma simples questão salarial. mantendo ainda inalteradas as condições de trabalho. um discurso defensivo em que os professores seriam as vítimas. denunciando as precárias condições de trabalho em extenuantes jornadas. quando a educação ganha centralidade para uma sociedade altamente complexa de conhecimentos e informações e é preconizada como “prioridade de todos” — isso. são a outra face da moeda. desde há muito na pauta de reivindicações do movimento sindical. por umas poucas merrecas. argumento mobilizado inclusive para não se aderir a uma greve. por causa dos salários apequenados. De outro. isso encontra eco entre os professores. em um mundo cuja precariedade tem sido a marca para quem vive do trabalho. em condições de trabalho que não correspondem ou até mesmo sejam adversas a tais exigências. “mal formados” etc. Precarização Por um lado. qualquer que seja. um sentimento de impotência e frustração enormes frente a novas injunções escolares e a cobranças cada vez maiores. como se existisse alguma relação mecânica e necessária entre “dinheiro” e “compromisso”. mas por aquilo que tal posição revela. o discurso da culpabilização: os professores seriam maus profissionais. mas também. As causas aqui ainda são as conjunturais. pois. isentas assim de quaisquer responsabilidades pelo absenteísmo. Trocando em miúdos. “mais-valia” ficar em casa. e para o qual o patrão o reconheça suficientemente capaz para a execução de uma determinada tarefa. numa versão bastante heterodoxa da teoria econômica. De parte a parte. quando o silêncio é rompido. em uma espécie de campanha sistemática e repetida que em tudo lembra o assédio moral. O salário traduziria assim o baixo reconhecimento ou baixa valorização social da profissão. como redução do número de alunos em sala de aula e jornada de trabalho adequada — nada que seja novidade. Paga-se mais a quem tiver mais “compromisso”. em primeiro lugar como desvalorização profissional: ser apenas um professor já não serve de “distinção” a ninguém. se é que distingue os “melhores”. sendo. somos tão trabalhadores quanto qualquer outro operário assalariado se não há mais qualquer . A valorização do “mérito”. mantém o conjunto da categoria com salários em nada condizentes com a suposta “nobreza da ocupação”. Vários estudos sobre a questão apontam para um mesmo diagnóstico: a escola tornou-se insalubre. isto é. algo nos escapa — mas que não é incomum a nenhuma outra ocupação profissional e que tem a ver com as transformações recentes no mundo do trabalho. à nossa resistência ao rebaixamento de custos não faltará quem aceite o “preço”. ou – permitam-me o chiste – o professor falta porque. ter assiduidade e “alto desempenho no exercício de suas funções”. A imagem do professor perdeu seu brilho: ofuscou-se entre outras ocupações mais ou menos rentáveis. Com efeito. Um malestar veio residir no espaço escolar. do reconhecimento de que vendemos. abandono dos vínculos afetivos com os alunos e colegas. os direitos são “flexibilizados” a fim de conter os custos da produtividade e a exploração do trabalho chega ao seu máximo. por tão pouco. descritos também como “incompetentes”. O absenteísmo então será uma estratégia defensiva à experiência dolorosa deste mal-estar. além disto. prometem prêmios e bônus aos professores. com sintomas de estresse. na medida em que as condições de trabalho promovem fadiga física e psíquica. Também as recentes políticas públicas que. a serem mensuradas em exames padronizados. pela profunda perda da identidade que sustentava a carreira do magistério. O sintoma maior desse mal-estar são as inumeráveis faltas motivadas por doenças psíquicas. e sobretudo. indício que também se pode notar na baixa procura de cursos de formação de professores nas universidades. disponível para ocupar um “emprego”. dando voz a uma posição defensiva (e um tanto cínica) segundo a qual a baixa remuneração justificaria o baixo comprometimento com a escola. A situação é levada ao paradoxo: ou o professor não falta porque seu salário curto receia qualquer desconto. Perda da autoria “Proletário” é o trabalhador indistinto. responsabilizados pelos prejuízos educacionais. nossa força-de-trabalho.11 | OBSERVATÓRIO DA EDUCAÇÃO Este é um indício importante a ser analisado. quando o desemprego é crônico. afastados ou não da sala de aula. no entanto. Ou seja. Ao tentar corresponder às expectativas. soma-se a isso ainda um alto índice de professores medicados. o professor “compromissado” sucumbe à Síndrome de Burnout. a título de “valorização do magistério”. os professores se ressentem ao reconhecerem sua “proletarização”. nervosismo — e depressão. cujo efeito é o avesso: descomprometimento com a escola.

do professor é “desautorizado” porque esvaziado em uma rotina estabelecida alhures. da rede pública estadual. há que se estabelecer metas e objetivos. quando encontra condições para sua realização. técnicas e tecnologias estão à disposição para “ensinar mais e melhor”. sem prejuízo “pedagógico”. só poderia residir no trabalho autônomo. “proletário”. barateada. livre e autoral. e de sua própria identidade. uma transposição do discurso do administrador de empresas. as artificiosas apologias do “espírito de equipe e trabalho coletivo” que povoam as orientações técnicas dadas aos gestores escolares – revelarão a causa de um certo mal-estar. portanto. O silêncio sobre essa questão é sintoma de um processo doloroso de perda e culpa e também de desespero. tomada aqui sem nenhuma especificidade “docente” e talvez porque esta especificidade também já tenha se perdido. controlar cada procedimento adotado. massa de mão-de-obra disponível e. Assim. em apostilas. penso que é o caso de inverter questão: por que é que um professor ainda vai à escola? Para além do emprego. do fluxo de promoção dos alunos até sua diplomação. em que o processo de produção é dividido entre vários artesãos. Antes o professor tinha em seu trabalho a marca de sua identidade. na verdade. profissional. devo também indicar a leitura de um precioso ensaio do professor Roberto SCHWARZ. forjada pela sua experiência desde a própria formação e depois. São Paulo. mas nas práticas adotadas dentro da escola. o trabalhador já não é mais senhor de nada. ou seja. para dar conta da “produtividade” escolar. Sobrou a ocupação de um posto de trabalho. sob condições em que ele mesmo é dispensável e. 1 O sugestivo argumento que desenvolvo a partir deste ponto se deve um relato que chegou a mim através do professor Matheus Lima. nem mesmo voluntária. Mais do que isto. repetidas e exaustivas vezes. substituível por outro professor: basta saber operar a máquina. nos materiais e recursos que julgava mais adequados. para tanto. Tudo se passa agora como se a escola se convertesse em uma fábrica. primeiramente com as manufaturas. divisão que culminará depois na produção fabril. aí. como o do operário na linha de produção. Contudo. Talvez o ofício docente tenha sofrido algo de semelhante ao que se sucedeu antes a outros ofícios quando da revolução.12 | DESAFIOS DA CONJUNTURA “distinção” em ser professor ou outra coisa — e eis o sentido mais entranhado dessa proletarização: somos força-de-trabalho. ao desencanto com a escola e ao ofuscamento da imagem distinta. inclusive as tediosas “dinâmicas motivacionais”. as tarefas podem ser desempenhadas por qualquer um. reconhecer-se a si mesmo nos resultados de seu trabalho — o sentido dessa experiência docente lhe foi extorquido. julga e cria. No trabalho artesanal. e o trabalho artesanal perdesse lugar para a linha de produção1 . nas avaliações que realizava de seu próprio esforço e também para acompanhar a progressão dos alunos. vídeos e toda sorte de metodologias e pedagogias. como o artesão. coisas que podem até servir de “complemento curricular”. O trabalho intelectual. “Didatismo e Literatura” in O Pai de Família. nem sempre consciente. dos meios de produção e finalmente do produto de seu fazer. Quando o aumento na demanda da produção extrapola as condições dadas. o trabalhador era senhor de seu próprio fazer. digo. Não por acaso um tal discurso educacional é. o que o move? O sentido da ausência é uma resistência. da habilidade técnica de que dispunha. valorada em si mesma e carregada de afetividade que tínhamos da profissão. Gestão e produtividade A recente universalização do acesso à escola trouxe aumento na “demanda” e exigência por aceleração no ritmo da “produtividade”. até: exige-se da escola uma “gestão competente”. autoral. entretanto. É certo também que a produção era assim limitada. Companhia das Letras. a apostila. livros didáticos. desde que dê conta antes da programação que lhe é alheia — ocupa o tempo regulamentar de uma aula. A motivação de um professor está em nenhum outro lugar a não ser em si mesmo. que faça o trabalho render e ter qualidade e. cujo sentido. no plano de aulas. de modo que poderia. sob o ritmo das máquinas e com acelerado aumento da produção. monitorá-los e avaliá-los. A despeito de si mesmo — de tudo o que pensa. Esta contaminação da educação pela administração – não apenas discursiva. Quanto à passagem. 1989 . trabalhador indistinto. Novos recursos. porque também o artesão é senhor de seu próprio tempo: ele trabalha no ritmo de sua destreza e de suas possibilidades. uma reconfiguração no trabalho é exigida. Vende seu “tempo” em troca de um salário e qualquer especificidade que conferia identidade à obra é esvaziada. de uma conversa com um colega. Por que ser professor Então.

eles se arvoram contra. são reforçadas por pessoas que não são pesquisadores. professora da rede pública estadual Orientação O problema não é por que eles faltam. são 35 alunos por sala. a falta não se torna um caso grave. doutorando em sociologia Mãos atadas Comprometimento Ao mesmo tempo em que se sente a necessidade da parO professor não falta porque quer. é muito estafante. é preciso criticar o Estado. O professor comprometido tem o direito de uma falta ou outra. Wilson. mas tem gente que trabalha 50. 60. por exemplo. A verdade é que o professor enfrenta problemas que não se resumem às questões que a escola pode resolver. do projeto Cidade Escola Aprendiz Valorização ticipação do professor. O Estado cobra profissionalismo. eu nunca percebi qualquer preocupação com o professor que adquire problemas no desempenho de suas funções. Marta. é o corporativismo. o professor ter dois empregos. E não só professores com uma doença específica. porque ele mantém o vínculo. dois filhos. porque envolve várias dimensões da educação. É muita aula. se olharmos as condições de trabalho. tive muito prejuízo salarial. Num ano letivo de 200 dias. como seria possível não faltar? Mas. que não vivem a realidade da escola pública. As políticas que esse governo implementa não valorizam o professor. que não é valorizado. Eu consigo viver com esse dinheiro. Essas duas questões vão mostrar o limite de cada discurso. Por exemplo. tem família. Ele falta para conseguir ir depois. O limite do discurso dos sindicatos. eles também conhecem as condições. Eu tive muitos problemas de saúde. E. qualquer fala vinculada a cobrar do professor responsabilidades. mas o que é feito quando eles faltam. uma casa. Lia. não preciso acumular. que são suas. afastada por um mês devido a problemas nas cordas vocais quer. Mas ninguém tem dois empregos porque Tem um problema na questão da identidade do professor. Eles vêm com “n” necessidades diferentes.800 do Estado [rede estadual de ensino] e R$ 1. Porque a gente lida com alunos que são criados e vivem em uma realidade fora da escola. e não de formação e de reciclagem ou de construção da identidade do professor dentro da escola.13 | OBSERVATÓRIO DA EDUCAÇÃO Depoimentos Sindicatos O tema é complexo. E nas ações do governo. mas não dá condições para o professor fazer um bom trabalho. nesse ponto. vejo esse professor quase impedido de participar em razão das condições de trabalho: falta de tempo. é essencial discutir a formação inicial e as condições de trabalho. ensino fundamental . É um paradoxo. pior ainda. Ele tem necessidade porque é um ser humano. de conhecimento.700. Professor acumula porque precisa. E. Edna. muitas vezes. O substituto vai dar três aulas. A questão é: qual a orientação necessária para que ele substitua de fato o titular? Magno. mas não tenho carro e nem filho. E.600 da Prefeitura [rede municipal de ensino]. porque ele preparou o aluno para aquela falta. Qualquer mudança. se o professor é comprometido na sala de aula. Por outro lado. mas por uma causa estrutural e maior. no máximo. Eu trabalho 28 horas por semana. Muitas vezes ele prefere fazer qualquer outra coisa a estar na sala de aula. graduando de pedagogia da USP Dupla jornada Algo que atrapalha é o fato de. professora da rede municipal. As condições de trabalho afastam o professor do seu local de trabalho. A minha impressão é que a falta se tornou uma condição para o professor conseguir trabalhar. professora da rede estadual de ensino. Beatriz. de fato. se ele ganha R$ 1. Eu ganho cerca de R$ 1. Entre outras coisas. assumi minhas faltas. de oportunidade. Só a partir daí é que se pode falar de qualidade. Aí ele junta R$ 3. Quais são as medidas em relação a isso? Lembrando que a gente nunca vai substituir um professor titular. E não é só por causa da indisciplina do aluno. faltei muito.400 por mês para conseguir manter um carro. Transformam a hora-extra do trabalho coletivo em trabalho burocrático dentro da escola.

A distribuição geográfica de nossas escolas não é boa. Achamos que essa legislação levava à falta e fizemos algumas propostas de modificação. Nossa primeira hipótese era então de que a legislação era um pouco frouxa. Mas uma das coisas que detectamos é que a Secretaria tinha uma legislação que não se preocupava muito com a questão. Ter normas de trabalho não é condição ruim. E quais são as medidas da SEE-SP para garantir a realizaExiste previsão de alteração? Existe sim. normas de conduta. às vezes.Maria Auxiliadora Albergaria. respeito ao professor. O professor precisou. uma escola muito longe da outra. Mudamos e melhorou a presença deles. Mas ainda assim são medidas que não transformam as condições de trabalho. Tomamos medidas de ter regras de conduta. pois não sabemos exatamente o que está sendo chamado de condições de trabalho. quais são as causas do absenteísmo? Não há pesquisa aprofundada sobre o tema feita pela Secretaria. Não acho que isso seja uma causa. Estamos avaliando. Como avalia o impacto de medidas como o bônus? O bônus tem medidas para preservar a permanência do professor em sala de aula. Se é a relação de escola e Secretaria. E questões como a atribuição de aulas. para tudo. Estamos valorizando muito a permanência do professor em sala de aula para questão de promoção. porque ela é atribuída num âmbito muito grande de uma diretoria de ensino que tem. e estamos tentando formas de aumentar a carga. Nosso mecanismo é o professor eventual. isso vai levá-lo a faltar. assessora da SEE 14 | DESAFIOS DA CONJUNTURA “SEE ainda não pesquisou razões das faltas” Maria Auxiliadora Albergaria. mas estamos com 25 por sala. contagem de pontos. precisa ficar mais claro isso. pode contribuir sim para a falta do professor. Não posso dizer quando. ção da aula em caso de falta? Às vezes é uma contingência faltar. houve redução. em média. O professor não falta da escola perto de casa. Mas vamos ver se foi a medida certa. Vamos ver ainda se há impacto ou não. mas se pega aula numa outra escola muito longe. A causa seguinte que procuramos sanar é a relação aluno-professor. admite que o sistema de atribuição de aulas estimula a falta e afirma que a SEE não sabe o que os professores entendem por condições de trabalho adequadas. Desde a aplicação da lei. porque achamos que nós devemos incentivar isso. mas não tenho série histórica ainda. em abril de 2008. Para a SEE-SP. facilita que o professor complete sua carga horária em uma escola muito longe. Se é número de alunos. Também procuramos não retirar o professor da sala de aula. Algumas escolas ainda têm número alto. Então. não resolveu. por exemplo? Nossa atribuição de aulas favorece um pouco à falta. que permitia que o professor faltasse por dias e dias sem desconto. . porque é muito longe. A ideia é mudar. pois se o professor se sente desprestigiado isso pode o levar à falta. mas isso está em estudo ainda. o que facilita a ausência dele. O eventual é o principal instrumento que temos atualmente. inclusive do âmbito da diretoria do ensino. Precisa ficar claro que há mecanismos que privilegiam a presença deles e se faltar será prejudicado. temos de melhorar. mas a ideia é mudar. E a limitação de faltas por motivos de saúde? Ela já impactou. o tipo que fazemos. A não obediência às regras pode fazer com que o professor se sinta desprestigiado e falte. de consequências para os alunos. assessora da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. Número alto de alunos por sala também ajuda? Hoje o número não é grande. mas melhorou. acho que a nossa atribuição de aulas. Isso não era feito e levava à falta. Os relatos de professores sobre condições de trabalho precisam ser especificados. Acho também que falta motivação por parte dos professores. Procuramos estabelecer regras de valorização do professor em sala de aula. acho que é muito pequeno o número de escolas com salas superlotadas. não é? Não sei o que o professor entende por condições de trabalho. mas isso não exime a Secretaria de cumprir seu dever com o aluno que precisa da aula.

Tem também a questão da violência. do que falta do professor ao trabalho enquanto contratado da rede estadual. ou pela exposição ao pó de giz que se assenta nas cordas vocais. Qual o principal problema das políticas públicas para a educação em São Paulo? O principal problema é a falta de investimento. o pó de giz etc. como o número de alunos por sala de aula. por causa de uma sala muito numerosa. que tem levado professores a terem problemas emocionais e comportamentais muito sérios. Se [o governo] investisse na estrutura. por exemplo. por exemplo. tem que pagar o substituto. Porque o problema da voz é causado tanto pelo uso excessivo dela. cria problemas. haja uma escola positiva. Faltam inspetores e pessoas para recepção no portão da escola. principalmente porque há uma grande quantidade de professores em contrato temporário. o professor. Em relação às faltas. os departamentos médicos e por aí vai. presidente da Apeoesp 15 | OBSERVATÓRIO DA EDUCAÇÃO “Concurso público para a área de educação deve ser prioridade” Nos últimos anos. Podia ter um microfone. É urgente também organizar o ambiente escolar para que. Eram profissionais que olhavam se tinha algo de estranho nos corredores. entre outros argumentos. Essas faltas afetam a qualidade do ensino da rede pública? Não deveria. o apagador e as carteiras. ao absenteísmo docente. Os professores da rede pública faltam muito ao trabalho? Há muito mais falta de professores. e vai continuar arrebentado do mesmo jeito. Se alguém tem problema de voz e é afastado por licença médica. Se o professor e o diretor continuarem sobrecarregados. esse blecaute que está ocorrendo. se coloca um professor contratado precariamente por um tempo. pode ser diferente.Maria Izabel Noronha. É um choque mesmo. coletivamente. A primeira questão é investimento. o fraco desempenho dos estudantes da rede pública de ensino de São Paulo foi atribuído. Só giz não. fala sobre o tema nesta entrevista. como a ausência de funcionários. esse profissional não seria substituído. Não mudou uma linha no Brasil. presidente da Apeoesp (o sindicato dos professores da rede pública). Hoje quem faz isso é o diretor. E há a irresponsabilidade do governo em não tratar questões que temos debatido há anos. as carteiras. É preciso que haja concursos públicos para cobrir essa demanda de profissionais de educação. o projeto arquitetônico da escola. Se investir só em estrutura e não tiver valorização. ele vai dar aula em duas escolas. no sentido de que falta um número adequado na rede. Muitos também passam a ter rinite e outros problemas. secretaria estadual de educação entre 1995 e 2002]. . Há também outras questões. Pesquisas da própria secretaria de educação já foram veiculadas nos jornais indicando que as principais doenças que afetam os professores são relacionadas à voz e LER. Porque todo profissional também precisa de sua ferramenta de trabalho atualizada. porque quando um profissional se afasta. a lousa. o giz. como síndrome do pânico. principalmente tendinite. Nós temos que avançar também nesse conjunto de questões que permite ao professor trabalhar melhor. E há muito tempo que não se faz concurso para funcionário de escola. A verdade é que os materiais pedagógicos se mantêm desde que foi inventada a escola. não precisaria pagar duplamente. Não será o mesmo professor que vai dar continuidade ao projeto político pedagógico discutido por todos no início do ano. um choque de problemas. já comprovado por pesquisas. porque não se discute o adoecimento da categoria. Olha só a irracionalidade na forma de administrar o tal “choque de gestão”. Maria Izabel Noronha. esta é uma questão muito maquiada. envolvendo a secretaria de saúde. Uma cadeia de problemas que vai se ampliando. Se não se pensar em alterar o ambiente da sala de aula. não vai ter atratividade. O professor dá aula para um aluno que já mexe na internet. nós sempre tivemos esses funcionários nas escolas. Foi ela quem acabou com este apoio. depois infraestrutura e a valorização dos profissionais. vai acontecer isso aí. principalmente porque esses profissionais estão deixando a profissão em virtude da falta de atratividade da carreira. Até a Rose [Neubauer. ou na entrada dos alunos. A sala. mas como a forma de contratação [de professores] é incerta.

jornalista da revista Nova Escola. O jornal vai mais pelo lado da denúncia e do que reverbera mais na opinião pública. E para melhorar o diálogo é preciso atuar nessa questão do meio acadêmico. não constrói nada. e deixa de lado a investigação desses motivos ligados ao desencanto com a profissão. que não tem mais aquela importância. mas também do fato de o professor não se ver como alguém que precisa se colocar e participar do processo educacional.Gustavo Heidrich. não se sinta desamparado diante de uma realidade que se sabe que é ruim. em geral. com sua função social. de não ler. ficou acuado. . sobretudo. No entanto. houve uma degradação muito grande da imagem do professor ao longo do tempo.é um absurdo pensarmos que estamos discutindo agora um piso salarial de R$ 950. comenta a cobertura do absenteísmo docente Como entende a questão do absenteísmo? Tivemos uma discussão muito interessante no seminário . não há o equivalente em educação para interlocução na mídia. que antes tinha. de fora do que acontece em sala de aula. Seria muito importante que professores da rede básica e da academia se colocassem. que tem que fugir dessa situação de estar acuado. de forma que o educador. Às vezes. Pelo senso comum. Esse é o principal motivo dessas características da cobertura da imprensa? Quando a gente “vende” uma pauta a um editor. o que sai na imprensa é produzido por economistas. com a produção científica e colocação no debate. É fundamental que o jornal levante o que está errado. jornais e na Internet. sinto esse desconforto em se colocar. o “desencanto” pela atividade docente. Outra forma é a divulgação de pesquisas. jornalista 16 | DESAFIOS DA CONJUNTURA “Professores da rede básica e da academia devem se colocar” Gustavo Heidrich. pode parecer que o professor falta por absoluta falta de comprometimento com os alunos. Os jornais reproduzem e reforçam essa imagem do coletivo de que o professor falta por que não está interessado. Não sou contra isso. quando converso com professores. sobretudo a acadêmica. Acho que isso tem vários motivos: as condições de trabalho dos professores . às vezes reativa. que trazem a visão de que aumentar salário não traz benefício. além da luta contra anacronismos como a Lei da Mordaça. Os acadêmicos em educação deveriam saber se colocar melhor diante dos órgãos de imprensa. É um salário muito aquém do que imaginaríamos que um professor. São poucos os professores com visão bacana. Não há preocupação. Não culpo apenas a imprensa pelo fato de não termos uma cobertura educacional tão aprofundada. Essa atitude. Quando abordamos as questões de educação. É um absurdo impedir funcionário público de colocar suas opiniões. Mas não se passa da superficialidade por que é difícil sustentar uma pauta com essa discussão de fundo. a área da educação. ou não respeitar a imprensa. E o próprio professor precisa se entender como agente do processo. Foi associado como uma profissão menor. Procuramos [referência ao seu trabalho de repórter em uma revista especializada] fazer isso. que é nosso leitor mais imediato. O professor. pois não muda o que está acontecendo. nesse ponto. vai ao encontro desta ideia de que o absenteísmo é por falta de comprometimento do professor. da valorização da carreira do ponto de vista social. mas avaliamos as razões que estão por trás disso. Isso se reflete na universidade. de interesse profissional. pela importância social que tem. na baixa atratividade que pedagogia e as carreiras de licenciatura têm. e não simplesmente a denúncia. é preciso trabalhar com o “valor notícia”. que achei muito pertinente. Isso vem um pouco dessa opressão. é muito despreparada para fazer a divulgação da investigação científica para a mídia. tentamos trazer discussão mais de fundo e de maneira propositiva. de procurar ter visibilidade e atitude menos reativa. sobretudo nos Quais são as principais dificuldades enfrentadas na cobertura educacional? Tem relação com o desencanto geral pela profissão docente. H questões da jornada de trabalho. a importância daquilo diante do coletivo. E. Em geral. prestígio. Tem um lado importante que poderia ser pensado no meio acadêmico. pois fomos a fundo nessas razões. Foi utilizado o termo. dentro desse sistema de educação. Como avalia a cobertura da mídia sobre o tema? A cobertura dos jornais. É um profissional que está submetido. deveria ganhar. Em educação isso é muito importante. com uma atitude formativa.

principalmente em São Paulo. e coordena o Conselho dos Representantes dos Conselhos de Escola (Crece). Muito. A gente parte para outro canal. res? Não. vejo várias escolas da periferia com esse tipo de problema. Talvez por causa de uma cultura que não temos. Mesmo os órgãos públicos. dos diretores. Os alunos de hoje são mais rebeldes. Agora. Os pais são informados sobre a falta dos professores? Os motivos nunca são divulgados. A maioria. aí ele “eventuava” e dava aula de português durante a aula de matemática. sim.Késia Adriana de Araújo Alves e Agnes Karoline de Farias 17 | OBSERVATÓRIO DA EDUCAÇÃO Tabu impede discussão Késia Adriana de Araújo Alves é mãe de duas crianças da rede municipal de São Paulo. Ou seja. a não ser que a gente acione um veículo de comunicação. em que o aluno vai até a escola e não aprende nada. vê os pais como problema. que deveriam nos ajudar. . Qual a influência da política pública? Não temos política pública na área de educação. Vocês eram informados das razões da falta dos professoE que tipos de atividades eram feitas nas aulas vagas? Ficava no pátio. eram raras as vezes em que explicavam. tanto por parte dos superiores. tudo é proibido. Existem canais para os pais reclamarem da situação? O canal é o conselho de escola. Como coordenadora do Crece. faltava o professor de matemática. A gente não forma seres pensantes e também não temos professores pensantes. que também não resolve. (Conjunto José Bonifácio. apoio. estudou na Escola Estadual de Ensino Médio Ruth Cabral Trancarelli. nem os próprios profissionais [de educação]. atrapalham. e quando eles faltavam. não como solução. A escola tem formas para que os alunos recuperem o conteúdo perdido? Eles propõem uma reposição de aula. Temos uma repressão educacional. Tem o pátio da escola. que é a instância da coordenadoria. Mas se. quanto dos alunos. Há um tabu. e tinha um eventual de português. não conteúdo. por exemplo. Itaquera) Os professores faltavam muito? No fundamental nem tanto. Enquanto a gente não conseguir ter uma política voltada para essa situação. Não tinha uma atividade para preencher o tempo? Na maioria das vezes não. no noturno. de participação. na zona leste de São Paulo. Não há alternativa para “aula vaga” Agnes Karoline de Farias. eles davam a aula. mas isso não resolve. Sofrem pressão psicológica. não vamos reverter. o eventual. para os pais resolverem isso diretamente é difícil. O que a escola propõe é repor horas. e a gente permanecia ali até completar os 50 minutos da aula e voltava para a sala. 19 anos. Algumas vezes tinha um professor que faz substituição. não só de trabalho. Qual o papel dos conselhos de escola na garantia da realização das aulas? Eu acho que o conselho tem um papel fundamental nisso. E o secretário também não recebe ninguém. A gente não consegue identificar o que acontece. no EM. Mas as pessoas não querem discutir isso. 80% das escolas. principalmente. Não consegue compor. e os professores não estão preparados para isso. Qual o principal motivo das faltas dos professores? Eles têm uma sobrecarga muito grande. mas infelizmente não é respeitado. com antecedência nunca.

Há uma descontinuidade inclusive do modelo de educação que se quer para a rede pública. Por exemplo. comenta o absenteísmo na perspectiva da gestão escolar. . Há muitos que tem 40. ter alguém que possa fazer esse procedimento [de reposição] em outro momento também é complicado. Mas se não há professor para o momento normal. à medida que o professor se ausenta e não é substituído. e agora estão abrindo a contratação de outros. esse número é o triplo do setor privado. Os professores fazem isso como forma de melhorar o salário. Quando é uma situação muito crônica. em geral os pais procuram a escola para que se tomem providências. Na rede pública. que podem estar distribuídas em muitas turmas. Existe relação entre absenteísmo e o sistema de atribuição de aulas? Existem vários problemas do ponto de vista de organização da escola. há previsão de como isso vai ocorrer e. no caso de uma consulta médica. Nós tentamos. não necessariamente de atribuição das aulas. Os profissionais do magistério estão na contramão de todo o movimento de trabalhadores: enquanto os trabalhadores lutam por redução da jornada de 40 horas ou menos. As escolas não conseguem ter autonomia para seus projetos próprios. E depois vêm os problemas relacionados à Lesão por Esforço Repetitivo. há perda da qualidade. novos projetos. Qualquer ausência de professores onde já há déficit de pessoal é sentida. mesmo um curso de formação. e esse acúmulo repercute na qualidade do trabalho. tendinite. que o professor está de licença. Para completar a jornada máxima. porque não se completou o quadro previsto. sobre investimento em educação. O absenteísmo docente afeta a qualidade da educação? Por que e como? Afeta. Outra questão são os professores que adoecem. É preciso fazer um debate maior.600 alunos. não entramos em detalhe sobre o tipo de problema que o professor está enfrentando. novos programas. Mas a escola não tem autonomia para a resolução do problema. esse professor pode pegar até 40 turmas – o que. O principal motivo de adoecimento tem a ver com a saúde mental. enquanto diretor de escola. diretor da rede municipal de ensino 18 | DESAFIOS DA CONJUNTURA “O aluno não consegue atingir a carga horária mínima legal” João Kléber Santana.João Kléber Santana. bursite. Ou então o tema é debatido nas reuniões de pais. É inviável o trabalho. Há uma descontinuidade absurda. Nós temos déficit de professores em geral. diretor da rede municipal de ensino de São Paulo. Novas propostas. Aí se avalia que tem a ver com as condições de trabalho às quais os profissionais da educação estão submetidos. Raramente um secretário de educação permanece mais do que dois anos na pasta. dá 1. nem as horas-aula propriamente ditas. tem uma aula por turma. Houve um concurso no ano passado. É comum essa pauta. Não falo nem da possibilidade de escolha de quem contratar. porque cria uma descontinuidade pedagógica. mas no sentido de dizer o número de profissionais necessários para o trabalho de rotina da escola. na educação há uma tentativa de ampliar essa jornada. um índice alto de acúmulo de cargos – na rede municipal esse índice chega a mais de 60%. mas eu. A criança está aprendendo um conteúdo. da grade curricular. É normal que as escolas trabalhem com um número de professore aquém do necessário. coisa que o setor privado tem. Em geral. a forma como se distribui a jornada. tenho consciência de que o aluno não consegue atingir a carga horária mínima legal. A escola tem propostas para que o aluno recupere o conteúdo perdido? As escolas tentam suprir. e afeta inclusive a saúde mental. no município de São Paulo. Não tem como suprir. Tem uma deficiência na organização da grade curricular. Outro aspecto é que a área de educação passa por mudanças praticamente todo ano. Quais as causas desse problema? São variadas. Dependendo Como a comunidade escolar é informada sobre o absenteísmo? O aluno chega em casa dizendo que não teve aula de determinada disciplina. Nem dias letivos. 50 ou 70 aulas. ou do conselho de escola. um professor de sociologia da rede estadual. multiplicado por 40.

Brasil. absenteísmo. Universidade Federal de Uberlândia. pp. Lucia Figueiredo. vol. FARIA.18. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. 2010. 2009. LUCHESI. Isabel Maria Teixeira Bicudo. 2006. faltas.1. Bahia. A situação de trabalho e saúde mental de professoras da primeira fase do ensino fundamental em escolas públicas do município de João Pessoa. . Rev. nº 2. Rev. Perfil sociodemográfico e condições de saúde e trabalho dos professores de nove escolas estaduais paulistas. 291-297.41. Rev. vol. 2006. PENTEADO. Isabela GASPARINI. n. nº 5. Artigos REIS. Silmar Leila dos. NAKAMURA. Síndrome de Burnout: um estudo qualitativo sobre o trabalho docente e as possibilidades de adoecimento de três professoras das séries iniciais. p. pp. nº 1.12. Abr 2007. 2009. ASSIS. Qualidade de vida e saúde vocal de professores. 2005. Tatiana Giovanelli. p. mar. Saúde Pública [online]. Trabalho e distúrbios psíquicos em professores da rede municipal de Vitória da Conquista. Organização do trabalho do professor: jornada. out 2005.42. condições de trabalho. Ana Claúdia Leal. nº2. PORTO. p. Universidade Federal de São Carlos. de Sousa. pp. Problemas vocais no trabalho: prevenção na prática docente sob a óptica do professor. Dissertação de Mestrado. docente. 818-826. p. Marcos Henrique. Dissertação de Mestrado. PEREIRA. pp. Saúde e Sociedade. 2008. BARRETO. As faltas dos professores e a organização de escolas na rede municipal de ensino de São Paulo. vol. fev 2010. Sandhi Maria. ago.41. para o período de 2005 a 2010. Tânia Maria de. Dissertação de Mestrado. contrato e conflitos trabalho-família. Educação e Pesquisa (USP). vol. USP São Paulo. Dissertações e teses VASCONCELOS. Rev. 2007. MONTEIRO. VEDOVATO. Rev. Karen Fontes. 673-681. vol. vol. 236-243. Saúde Pública. SANTOS. Educação & Sociedade. Graciela Sanjutá Soares.15-20. Organização da escola. Emilse Aparecida Merlin e RUELA.109-114. nº. Saúde Pública. Fernanda Bernardes de. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. CNPq e Scielo. Rev. CEFAC. 2008. CARVALHO. vol. Brasileira Psiquiatria. [online].427-449. Impact of the psychosocial aspects of work on the quality of life of teachers. nº 2. escola. Helenice Yemi. Regina Zanella e PEREIRA. Sandra Maria. SERVILHA. Escola Enfermagem. Associação entre distúrbios psíquicos e aspectos psicossociais do trabalho de professores. Ada Ávila.5. FERNANDES. Tese de Doutorado. GESQUI. PENTEADO. Cad. p. Lauro Antonio et al. Qualidade de vida e saúde vocal de professores. nº 107. Isabel Maria Teixeira Bicudo. vol. p. vol. KITAMURA. Regina Zanella. . absenteísmo docente. 31. ASSUNÇÃO.1480-1490. Fernando Martins.31. Eduardo José Farias Borges dos et al.40. vol. 2006. ago. Saúde Pública [online]. Maria Inês. dissertações e artigos identificados nas bases de dados da Capes. Vera Maria da. Condições de trabalho docente e saúde na Bahia: estudos epidemiológicos. ROCHA. Luiz Carlos.236243. no. ARAÚJO.30. as condições de trabalho e os efeitos sobre sua saúde. discente e rendimento escolar.189-199.4.21. Riscos ocupacionais à saúde e voz de professores: especificidades das unidades de rede municipal de ensino.2. Satoshi. no. Universidade Federal da Paraíba – 2005. 2009.19 | OBSERVATÓRIO DA EDUCAÇÃO Produção de conhecimento Teses. com base nas palavras-chave: professores. educação. Dissertação de Mestrado. O professor. MOURÃO.

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