rdes de Lou l Maria stadua E Escola

Volume 2, Edição 2
Outubro 2012

Papirando
“No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é”
Há quinhentos e doze anos todo dia era dia de índio, mas na sociedade brasileira atual como é que podemos definir quem é índio? Quais os critérios para definir o pertencimento? Darcy Ribeiro, insistia com eloquência que o “ p o v o brasileiro” é muito mais indígena do que se suspeita ou supõe. O homem livre da ordem escravocrata, para usar a linguagem de Maria Silvia Carvalho Franco, é um índio, o caipira é um índio, o caiçara é um índio, o caboclo é um índio, o camponês do interior do Nordeste é um índio. Índio em que sentido? Ele é um índio genético, e genérico e não apenas 33% da população brasileira no sentido de que somos o produto de uma história, uma história que é a história de um trabalho sistemático de destruição cultural, de sujeição política, de “exclusão social” (ou pior, de “inclusão social”). Não é possível fazer todos os brasileiros deixarem de ser índios completamente, são muito maiores os laços que nos unem do que os que nos separam, na visão do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro; essa viagem de campo seguramente servirá para aprofundar o

Nesta edição:

No Brasil, todo mundo é índio... Etmologia

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História e Distribuição Espacial A Organização Social A Cultura Bororo A Situação do Território O Funeral Bororo

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Viagem de Campo A o S í t i o Arqueológico Abrigo do Garças "Pesquisar é ver o que outros viram, e pensar o que nenhum outro p e n s o u . "
(Albert Szent-Gyorgyi)

OS PCNS ASSEGURAM:
Através da aula de campo o estudante tem oportunidade de desenvolver habilidades e atitudes fundamentais para educação científica. No campo se aprende a fazer fazendo, essa opção contribui de forma direta com a maturidade necessária para quem terá que em breve tomar decisões

importantes para toda a vida, seja no campo profissional ou no seu dia-a-dia.
HABILIDADES ATITUDES ESTIMULADAS:

QUE

SERÃO

Observação, participação, disciplina, capacidade de descrever, ordenar, organizar, classificar, interessar, comunicar, cooperar, medir, ser responsável, calcular, ser objetivo, relacionar variáveis, ser criativo, consultar bibliografias, analisar, preparar relatórios, expor dados de pesquisa, entre

ETMOLOGIA
O termo "bororo" é um nome atribuido pelo homem branco e supostamente teria surgido quando os e x p l o r a d o r e s perguntaram aos nativos qual o nome da tribo e o indígena teriam entendido o nome do local onde estavam, como estavam no bororó, que, para a língua bororo, significa "pátio central da aldeia” o nome passou a ser utilizado para designar a tribo. Ao longo da história também foram denominados bororós, bororo, coxiponé, ar aripoconé, araés, cuiabá, cor oados e porrudos Falam a língua bororo, autodenominada boe wadáru, que pertence ao tronco linguístico macro-jê e estão distribuídos entre as terras de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

HISTÓRIA E DISTRIBUIÇÃO ESPACIAL
A nação bororo distribuía-se por extensa região compreendida entre a Bolívia, a oeste; o rio Araguaia e o rio das Mortes, ao norte; e o rio Taquari, ao sul. Atualmente em MT habitam a região do planalto central de Mato Grosso distribuídos em cinco terras indígenas demarcadas:
O antropólogo Darcy Ribeiro (Os Índios e a Civilização, Petrópolis, Vozes,1970:293), ao analisar o censo de 1932, afirmou que o alto grau de vulnerabilidade dos Bororo indicava as últimas etapas do processo de extinção. Em Guiratinga esse povo já foi completamente dizimado, restando apenas vestígios nos s ítios arqueológicos, c uj o principal está prestes a ser inundado em função da construção de usinas hidrelétricas

Jarudore,Meruri, Tadarimana, Tereza Cristina e Perigara. Sua população atualmente é de cerca de 2 000 indivíduos, q u e s ã o tradicionalmente caçadores e coletores além da agricultura, de subsistência. Destacam-se pela confecção de artesanatos de plumagem (cocar e braçadeiras em pena) e também pela pintura corporal em argila, entre outros.

O EXTERMÍNIO DE UMA NAÇÃO
Os guerreiros sucumbiram diante de um vergonhoso plano de extermínio articulado pelas autoridades constituídas. Defendiam seu território, sua cultura e suas famílias, mas os bororos ocidentais foram extintos no fim do século passado; viviam na margem leste do rio Paraguai, onde os jesuítas espanhóis fundaram suas missões. Muito amigáveis, serviam de guia aos brancos, trabalhavam nas fazendas da região e eram aliados dos bandeirantes. Desapareceram como povo tanto pelas moléstias contraídas quanto pelos casamentos com não-índios.
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Em função da resistência ao avanço das frentes e expansão de territóriosos bororos orientais eram citados nos relatórios dos presidentes da província de Cuiabá como nômades bravios e indomáveis, que dificultavam a colonização. Foram organizadas várias expedições de extermínio. Estimados na época em dez mil índios, os bororos sofreram várias guerras e epidemias, até sua pacificação, no fim do século XIX, quando foram reunidos nas colônias militares de Teresa Cristina e Isabel e estimados pelas autoridades em cinco mil pessoas, entregues aos salesianos para catequese.
Papirando

A ORGANIZAÇÃO SOCIAL

A tribo bororo obedece a uma organização social rígida. A aldeia é dividida em duas partes – exare e tugaregue – que, por sua em vez, clãs se com subdividem

determinam seus mitos. Dentro de cada clã, há uma comunhão

cantos,

pinturas,

adornos,

enfeites, seres da natureza) que só podem ser usados pelos membros desse determinado clã, a não ser que este direito seja participado a outras pessoas em "pagamento" por favores recebidos.
O território tradicional de ocupação Bororo atingia a Bolívia, a oeste; o centro sul de Goiás, ao leste; as margens da região dos formadores do Rio Xingu, ao norte; e, ao sul, chegava até as proximidades do Rio Miranda (Ribeiro, 1970:77). Estimase que esse povo tenha habitado essa região durante pelo menos sete mil anos (Wüst & Vierter, 1982).

deveres muito bem definidos. Eles reconhecem a liderança de dois chefes hereditários que sempre pertencem à de bens culturais (nomes, metade exare, conforme

A CULTURA BORORO
Os Bororo se autodenominam Boe. O termo "Bororo" significa "pátio da aldeia" e atualmente é a denominação oficial. Entre suas autodenominações, destacam-se aquelas vinculadas à ocupação B ó k u t e r r i t o r i a l : Mógorége ("habitantes do cerrado") são os Bororo das aldeias de Meruri, Sangradouro I t ú r a e G a r ç a s ; Mogorége ("habitantes das matas") correspondem aos Bororo das aldeias de Jarudori, Pobori e Tadarimana; Orari Mógo Dóge ("habitantes das plagas do peixe pintado") remetem aos Bororo das aldeias de Córrego Grande e Tóri ókua Piebaga; Mogorége ("habitantes dos sopés da Serra de São Jerônimo") era o nome dado a um grupo atualmente sem

aldeia remanescente; Útugo Kúri Dóge("os que usam longas Kado flechas") ou Mogorége ("habitantes dos taquarais") são os Bororo da aldeia de Perigara, no Pantanal. Entre as principais manifestações culturais destacam-se: A "Festa do Milho Novo"celebra a colheita do cereal.

A LÍNGUA
Boe Wadáru é o termo usado pelos Bororo para designar sua língua original. Os lingüistas Rivet (1924) e Schmidt (1926) classificaram-na como isolada e possivelmente vinculada ao ramo Otuké. Posteriormente, um novo paradigma simplificou a classificação das línguas indígenas, reunindo-as segundo

certas semelhanças, de modo que a língua bororo foi enquadrada no tronco lingüístico Macro-Jê (Manson,1950; Greenberg,1957). Atualmente, a língua bororo é falada por quase toda a população. Até o final da década de 1970, contudo, crianças e jovens sofriam a imposição de um regime escolar da missão indígena que proibia que se falasse a língua nativa nas

aldeias de Meruri e Sangradouro. Um processo de reavalização e autocrítica dos salesianos culminou no resgate da língua original e do ensino bilingüe. Assim, em todas as aldeias, a maioria da população fala português e bororo. No cotidiano, a língua falada é a nativa, acrescida de neologismos assimilados do português regional, o qual é acionado apenas nos contatos

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EDITORES

PROFESSORES Ciências Humanas João Antonio Pereira Marli Gonçalves Eremisis Santana Epitácio Gervásio
Coordenação Regimar Dias Gilson Tupan Direção Carlos Renato

SITUAÇÃO ATUAL DO TERRITÓRIO
Atualmente, os Bororo detêm seis Terras Indígenas demarcadas no Estado do Mato Grosso, num território descontínuo e descaraterizado, que corresponde a uma área 300 vezes menor do que o território tradicional. As TIs Meruri, Perigara, Sangradouro/Volta Grande e Tadarimana estão registradas e homologadas; a TI Jarudori foi reservada aos índios pelos SPI (Serviço de Proteção ao Índio), mas foi sendo continuamente invadida, a ponto de hoje estar totalmente ocupada por uma cidade; já a TI Teresa Cristina está sob júdice, uma vez que sua delimitação foi derrubada por decreto presidencial. Na década de 1970, o alto grau de insatisfação dos Bororo fez surgir um movimento reivindicatório pela recuperação de suas terras tradicionais e pela melhoria dos serviços de saúde e educação. Um caso emblemático desse movimento foi a luta pela terra do Meruri, que culminou no famoso massacre levado a cabo pelos fazendeiros de General Carneiro. No momento, o movimento congrega todas as aldeias Bororo e busca solucionar as questões fundiárias das áreas de Teresa Cristina, Jarudori e Sangradouro. Outra importante reivindicação tem sido a inclusão dos Bororo nos EIA/Rimas (Estudo e Relatório de Impacto Ambiental) das Hidrovias Paraguai-Paraná e Araguaia-Tocantins. Lutam, ainda, pela alteração do traçado da ferrovia

E.E.M. Dª MARIA DE LOURDES R. FRAGELLI E.MI/2012

Ferronorte, nas imediações da área Teresa Cristina.

O FUNERAL BORORO
"Pode parecer paradoxal, mas é exatamente por meio do funeral que a sociedade Bororo reafirma a vitalidade de sua cultura. Este é um momento especial na socialização dos jovens, não só porque é nessa época que muitos deles são formalmente iniciados, mas também porque é por meio de sua participação nos cantos, danças, caçadas e pescarias coletivas, realizados nessa ocasião, que eles têm a oportunidade de aprender e perceber a riqueza de sua cultura. Mas por que fazer de um momento de perda, como a morte de uma pessoa, um momento de reafirmação cultural e até mesmo de recriação da vida? Para os Bororo, a morte é o resultado da ação do bope, uma entidade sobrenatural envolvida em todos os processos de criação e transformação, como o nascimento, a puberdade, a morte. Quando uma pessoa morre, sua alma, que os Bororo denominam aroe, passa a habitar o corpo de certos animais, como a onça pintada, a onça parda, a jaguatirica. O corpo do morto é envolto em esteiras e enterrado em cova rasa, aberta no pátio central da

MENTOS WWW.FRAG LOGS IA.B NAMEMOR POT.COM
animal assegura a vingança do morto, por meio daquele que o representa, sobre o bope, entidade causadora da morte. Esse momento marca o fim do luto e indica a vitória da vida sobre a morte. Esses rituais criam e recriam a sociedade Bororo, revelando os mistérios de uma sociedade que faz da morte um momento de reafirmação da vida" (Novaes, 1992). "Além do funeral e da nominação, a intensa vida ritual Bororo ainda inclui a perfuração das orelhas e do lábio inferior, a festa do milho novo, a preparação de caçadas e pescarias, as festas do couro da onça, do gavião real e do matador da onça, entre outros. Em todos esses casos, novas relações são sobrepostas às antigas, resultando numa configuração social em que os i n d i v í du o s ma n t ê m r e la ç õ e s provenientes de várias instâncias, com diferentes direitos, deveres, abordagens e formas de tratamento. A ênfase num ou noutro tipo de relação depende da situação social em que essas pesso as se encontram" (Novaes, 1986).

aldeia circular. Diariamente, esta cova é regada para acelerar a decomposição do corpo, cujos ossos deverão, ao final desse processo, ser ornamentados. Entre a morte de um indivíduo e a ornamentação de seus ossos, que serão depois definitivamente enterrados, passamse de dois a três meses. Um tempo longo, em que os grandes rituais são realizados. Um homem será escolhido para representar o morto. Todo ornamentado, seu corpo é inteiramente recoberto de penugens e pinturas, tendo em sua cabeça um enorme cocar de penas e a face coberta por uma viseira de penas amarelas. No pátio da aldeia já não é um homem que dança e sim o aroemaiwu, literalmente, a alma nova que, com suas evoluções, se apresenta ao mundo dos vivos. Dentre as várias tarefas que cabem ao representante do morto, a mais importante será a de caçar um grande felino, cujo couro será entregue aos parentes do morto, num ritual que envolve todos os membros da aldeia. A caçada desse

Fonte: http://pib.socioambiental.org/pt/c/no-brasil-atual/quem-sao/povos-indigenas acesso em 15/10/2012

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