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o Superior Interesse Da CrianÇa

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08/21/2015

Um novo conceito de "perigo" que se pretende introduzir na Lei de Promoção e Protecção de crianças e jovens em perigo pode não ajudar

a clarificar o conceito de superior interesse da criança (na medida em que são questões absolutamente diversas) e, em bom rigor, uma criança que esteja nas condições mencionadas naquela proposta não estará, necessariamente, numa situação de perigo por forma a justificar e legitimar a intervenção do Estado através de um processo de promoção e protecção. Juiz de Direito Dr. António José Fialho O SUPERIOR INTERESSE DA CRIANÇA Por proposta do Instituto de Apoio à Criança e subscrita por um conjunto de personalidades com o objectivo de clarificar o conceito legal de “superior interesse da criança”, pretende-se introduzir na Lei de Promoção e Protecção de Crianças e Jovens em Perigo um novo conceito de “perigo” com a formulação seguinte: - considera-se que a criança ou o jovem está em perigo quando “está aos cuidados de terceiros, durante período de tempo em que se observou o estabelecimento com estes de forte relação de vinculação e em simultâneo com o não exercício pelos pais das suas funções parentais”. Salvo o devido respeito, esta formulação de novo conceito de perigo não ajuda a clarificar o conceito de superior interesse da criança (na medida em que são questões absolutamente diversas) e, em bom rigor, uma criança que esteja nas condições mencionadas naquela proposta não estará, necessariamente, numa situação de perigo por forma a justificar e legitimar a intervenção do Estado através de um processo de promoção e protecção. Basta pensar, por exemplo, nas situações em que uma criança ou um jovem está, de facto, aos cuidados dos avós, tios, padrinhos ou outras pessoas que o acolheram, por um período de tempo em que se estabeleceu com estes uma relação afectiva forte, sem que os progenitores manifestem cumprir qualquer das obrigações parentais de assistência, formação ou educação. Com efeito, a situação de uma criança ou jovem nestas condições poderá, em abstracto, justificar a instauração de uma providência tutelar cível de inibição ou limitação do poder paternal dos pais (artigo 1915.º do Código Civil), de regulação do exercício do poder paternal com confiança a terceira pessoa (artigo 1918.º) ou de instauração de tutela (artigo 1921.º), todas com vista a garantir a segurança jurídica e a protecção do menor face àquela situação de facto verificada em concreto. Certamente, a formulação proposta nunca poderá justificar a instauração de um processo de promoção e protecção vocacionado para legitimar a intervenção do Estado quando não se verifique perigo para a saúde, segurança, formação, educação ou desenvolvimento do menor, justamente porque os terceiros que asseguram os cuidados da criança acautelam esses seus direitos. Finalmente, a intervenção do Estado no âmbito dos processos de promoção e protecção, por revestir natureza instrumental para a remoção do perigo, pode (e deve) ser dirigida contra os pais, o representante legal ou quem tenha a guarda de facto e, de acordo com a formulação proposta, aquele que tem a guarda de facto acautela o superior interesse da criança, ao contrário dos progenitores que não o fazem. Mas, para este efeito, como se disse, devem ser utilizadas aquelas providências tutelares cíveis que se mostram mais adequadas para salvaguardar com maior eficácia e segurança o superior interesse da criança ao invés de impor uma intervenção do Estado que, em certos casos, pode ser abusiva e desproporcionada. Em conclusão, a formulação proposta não vem trazer nada de novo ao ordenamento jurídico a propósito do superior interesse da criança para além de que “as leis devem ser preparadas com sábia lentidão porque os Estados não morrem e não é conveniente fazer todos os dias novas leis”. António José Fialho Juiz de Direito Artigo publicado na edição de "Público", de 25.04.2008

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