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LIMA, Luiz Costa - O controle do imaginário & A afirmação do romance

LIMA, Luiz Costa - O controle do imaginário & A afirmação do romance

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LUIZ COSTA LIMA

o controle

do illlaginário & a afirlllação do rOlllance

Dom Quixote, As relações perigosas, MoU Flanders, Tristram Shandy

-~-

COMPANHIA DAS LETRAS

é3l,.

Copyright © 2009 by Luiz Costa Lima
Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Lingua Portuguesa de 1990,

(

que entrou em vigor no Brasil em 2009. Capa

Rita da Costa Aguiar
Preparação

(

Maria Cecília Caropreso
Índice remissivo

(

Luciano Marchiori
Revisão

(

Ana Maria Barbosa Ana Luiza Couto

(
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Lima, Luiz Costa O controle do imaginário
(CIP)

A memória de Haroldo de Campos, João Alexandre Barbosa, José Laurêriio de MeIo,
Sebastião Uchoa Leite e Wolfgang Iser

& a afirmação do romance: Dom

Quixote, As relações perigosas, MoU Flanders, Tristram Shandy I Luiz Costa Lima. - São Paulo: Companhia das Letras, 2009. Bibliografia. ISBN978-85-359-1403-0 1. Teoria literária Romance na literatura 09-00495 índice para catálogo sistemático: 1. Romance na literatura: História e crítica 2. Romance L Título.
CDD-809.3

-

História

e crítica

3.

809.3

[2009]

Todos os direitos desta edição reservados à
EDITORA SCHWARCZ LTDA.

Rua Bandeira Paulista 702 cj. 32 São Paulo - SP Telefone: (11) 37073500
04532-002 Fax: (11) 3707 3501

www.companhiadasletras.com.br

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Homero no escríbíó en latín, porque era gríego, ní Vírgilio en griego, porque era latino.

Miguel de Cervantes, Don Quijote de Ia Mancha, segunda parte, capítulo XVI

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Heaven from all creatures hídes the book ofFate.

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Alexander Pope, Essay on'Man

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Sumário

Agradecimentos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Nota introdutória
PRIMEIRA PARTE: AMBIÊNCIA TEORICO-CONTEXTUAL DO CONTROLE. .•••. . •••

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17

1.Crise e controle. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2.A épica renascentista e da Contrarreforma . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3. O imaginário e a imaginação 4. A teorização tardia do romance. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5.A questão do controle
SEGUNDA PARTE: ALGUNS ROMANCES PARADIGMÁTICOS ••.....••.••....••..

19

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110 156

178
211 213

1.O momento inaugural do romance 2. Defoe: a decifração do chamado 3. Do amor como xadrez 4. Laurence Sterne ou a reta desdenhada. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Referências bibliográficas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Bibliografia geral . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Índice remissivo ......................... Obras do autor . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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i1 Sternberg. por si sós.( Agradecimentos ( ( ( I ( ( ( o mínimo agradecimento indispensável dirige-se a dois amigos: Ricardo . que teve a iniciativa de se dispor a revisar este livro por inteiro. que. dariam lugar a uma publicação il ( 11 . e João Adolfo Hansen. não só localizando fazendo comentários todo tipo de gralha como levantando questões e ( autônoma. que esteve sempre disposto a pesquisar e a enviar cópias de artigos e capítulos que alimentaram os nove capítulos que compõem as duas partes deste livro.

Foi. e acrescentasse formulações novas. A eles somou-se José Mário Pereira. ao reler os livros que ali se incluíram. Uma menor. realizado em outubro de 2007 pelo Departamento de Letras da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. os que primeiro me motivaram a lançar essas análises em uma perspectiva mais abrangente. já havia recebido versões anteriores: a análise sobre De anima destinou-se de inÍCioao convite para participar do simpósio sobre "Poesia e memória".i:. pois. na década de 1980. ao tomar a iniciativa. Embora. comercialmente temerária. foram. que abrange apenas o capítulo 3 da Primeira Parte. escrevi sobre a questão do controle do imaginário. em Vitória da Conquista. A maior parte foi feita de outubro de 2006 a abril de 2008. Seus organizadores. de patrocinar a reedição dos três livros que. enquanto a exposição sobre o pensamento de alguns filósofos acerca da imaginação fez parte do texto que serviu de base para o ensaio 'TImmaginazione e I suoi confini". percebi que encerrar na Trilogia 13 { . ainda que tenha sido agora retrabalhada. portanto. eu cortasse longas passagens e até capítulos. publicado no quarto volume da coletânea de estudos Il romanzo. que a Giulio Einaudi editou em 2003. pela ousadia do editor e amigo José Mário Pereira que se concretizou a Trilogia do controle (2007).# i( Nota introdutória ( ( ( ( ( ( f ( Os textos que compõem este livro foram produzidos em duas etapas distintas. respectivamente os professores e amigos Marília Librandi e Franco Moretti.

em segundo lugar. aos primeiros românticos e a Kant. na acepção física do termo.me a um único autor. Confundir-se-ia esse tratamento com certo gosto enciclopédico? Prefiro duas outras explicações: (a) meu interesse maior sempre esteve em compreender a temporalidade de um problema teórico. Dediquei-me. Mas não tive sequer a oportunidade de me indagar sobre como fazer uma seleção entre tantos romancistas de qualidade. No tocante a isso. entretanto. sabemos que entre nós a leitura não é atividade frequente. No fim. Aprimeira parte cresceu contra meu propósito. a nação etc. porque não quis que fosse também minha a tortura de lutar por manter-me atualizado em um país em que as bibliotecas permanecem um artigo de luxo. no primeiro livro meu que considero maduro. seus autores. que se refere a si mesmo como eu. elegia-se um problema . Especialização. O próprio respeito que tenho pelo que Hansen tem feito pelo período barroco. Houve ocasiões em que pensei em ignorar todas as dificuldades e entregar. No primeiro caso. entendida como extrema restrição de campo. Voltei a empregar esse recurso em Limites da voz (1993). vindo à dimensão política ou mesmo metafísica. de certa maneira. com a expansão do Ocidente. não mais se vendo a partir de sua relação com algo externo (o clã. mostra que seria contraditório qualquer desprezo meu pelo especialista. o de seu prolongamento. tinha-se por questão o alargamento da experiência do horror. Espero que minha resposta seja convincente. Kafka para o terceiro. com o império britânico. Meu encaminhamento ainda tinha outra Este deve ser meu último livro que se apoia em uma longa pesquisa. Ficção. Não quis. com algum exame de Alejo Carpentier e um olhar mais detido sobre García Márquez. o tema ou autor que escolhesse. entre o início dos tempos modernos e o de agora. Os mecanismos do controle do imaginário mos15 . através de três momentos: o de seu início. consiste em destacar um problema de ordem teórica e analisar sua incidência e desdobramento em uma série de autores. sobretudo a primeira. Kafka ou.a construção. Até que ponto. isto é. volta a ser postulada pelo jovem teórico da escrita da histórÍa. durante quase dois anos a dar uma feição ao mesmo tempo mais concreta e teoricamente mais convincente àquela primeira abordagem. cumprida desde o começo dos tempos modernos. Literatura (2006). As duas explicações hão de ser combinadas. sem um propósito consciente. o Mímesis e modernidade (1980). sempre outro temor foi mais forte: diz-se que nosso país é um continente. o estabelecimento e o início de deterioração do paradigma fundado no sujeito autocentrado. que nos damos ao luxo de ignorar. Ele surgiu. onde a exclusividade de atenção e de talento a uma mínima parcela do objeto é capaz de trazer consequências operacionais profundas. ingressar na tribo deles. a tribo. não faria meu editor arrancar os cabelos? Um derradeiro esclarecimento. Se eu enfrentasse o desafio. Ao começar este livro. e isso por duas razões: primeiro. pois. vivendo no Brasil. em resenha sobre o História.ter acesso a bibliografia suficiente sobre autores estrangeiros ou temas de minha particular estima. sem pretender cobrir a história daquela questão. visto pelos olhos de Joseph Conrad. o de seu estabelecimento. esta Nota deve conter dois esclarecimentos a respeito de minha produção intelectuaL O primeiro concerne a um recurso que usei com frequência. compreender de que modo era possível verificar a dinâmica das ideias. Pedro Spinola Caldas. fosse ele Montaigne. Porque assim suponho. uma e outra. sem submetê-Ias ao esquema linear 14 motivação: (b) sentia-me forçado a adotar tal solução pela quase impossibilidade de. pela América Hispânica. porque ambas são verdadeiras. isto é. É certo que a solução que adotei não satisfaz a mim mesmo. mais recentemente. em O redemunho do horror (2003) e na Trilogia do controle (2007) - para maiores detalhes. assim recorria a Montaigne para o momento da construção. para o segundo.minha contribuição ao problema do controle do imaginário era aceitar que seu tratamento ficasse aquém do que sentia ser necessário. Em O redemunho. idealizei-o em duas partes. mas nós. Cervantes. desencadeada pelos portugueses na Ásia e na África. no fim do século XIX. porque conhecia o exemplo de colegas universitários que se concentram em certo tema ou autor e ignoram tudo mais. A primeira seria menor e procuraria cobrir as insuficiências que percebi ao rever a Trilogia. ver o primeiro parágrafo do capítulo IV da Segunda Parte da Trilogia. mesmo que pertencente à sua área. é explicável nas ciências capazes de desdobramentos tecnológicos capitais. contudo. Pretendia me estender sobre o romance e chegar até seu auge. e cada um daqueles três momentos era apresentado através da análise de um autor ou de um número mínimo de autores. ou então a um único tema: as configurações assumidas pelo sujeito. das histórias literárias nacionais. indicaria minha aversão aos especialistas?A pergunta me foi feita há muitos anos por João Adolfo Hansen e.) -. a disposição de Limites e de O redemunho é exemplar.

Mas me enganaria se houvesse pensado que somente essa parte haveria de concretizar manifestações do controle. mas o sentimento a compensação à mes débuts".traram que podiam apontar para uma teoria geral do controle. a transformação controle no cumprimento interditado. Por isso. realizado pelo romance sob análise. em princípio possível verificar como se dava. ] Déjà vieux. repetir com Cézanne:" [. chegando no máximo ao XVIII. j' en suis Rio de Janeiro. com maior precisão. de não haver formulado tudo que queria tem ao menos de poder. quando fosse o caso. que o diferencia. As únicas escolhas de que não abri mão: o Quias conclusões a que tivesse chegado sobre as mostrou que só aí era do fato do o ato ficcional. de uma análise sociopolítica..' jote e o Tristram Shandy.. Transmito pouca satisfação com o que mais me empenhei em fazer na vida? Sim. abril. agora. O exame de obras particulares de um ato. ao terminar a pri- meira parte eu já sabia que só poderia examinar alguns romances exemplares. 2008 PRIMEIRA PARTE AMBIÊNCIA TEÓRICO-CONTEXTUAL DO CONTROLE 16 .

E. raiz da sensibilidade coletiva dos antepassados? Como os mitos -a mais fina e rica florescência dessa sensibilidade . Mas que vitória se dá sem disputas e demoras? A flagrante hostilidade evidencia -se no fato de que a edição do romance em folhetim chegou a ser proibida na França em 1737.: 1876. era uma forma de expressão dissonante perante os gostos e interesses da sociedade antiga. de que só se saberia em que consistiria a partir do começo do ( século XVII. o romance torna-se o gênero ficcional por excelência da modernidade. chama ele a atenção de que seu argumento se baseia na dissolução da religião de base mítica e no realce do veio erótico: "Que podia ainda significar para uma sociedade assim segmentada a religião mítica.1. Seria esse antagonismo apenas herdeiro do que se dera desde a genericamente chamada Antiguidade clássica? No livro que Erwin Rohde. Dê-se um passo para mais atrás ainda.podiam manter sua força se a raiz secava?" (Rohde. dedicou ao romance grego e seus precursores. Em ensaio recente. o antropólogo Jack Goody põe em dúvida a crença de as sociedades iletradas terem em alta conta as narrativas míticas: 19 . O romance. o amigo de Nietzsche. Crise e controle ( ( SINAIS DISTANTES A partir do século XVIII. 19).

Restava o caminho englobante: nem a particularizada. ]. Para tanto. o pensamento dos adultos. e onde há regras há controle. Embora. com frequência. limitando-me a neles da escrita muda relauma distância por que a narração tenha recortar o que interessa a nosso problema. no mundo árabe.sejamconfrontadas. Cervantes aguça a curiosidade. que deixaria no ar a razão dos dilemas de um relato que assumia sua própria nem a indagação historicizante do gênero. sua fixação em outros países e a dificuldade de sua teorização desvencilhar-se dos motivos que até então o tinham prejudicado..Estados era anterior. Se o controle será exercido sobre o romance. o provocador da crise. São reservadas para as crianças. e narrativas de imaginação. Em princípio. * que se intensificará com a Reforma e a reação católica. minha proposta será ver o Renascimento italiano como o tempo de que parte não só a hostilidade contra o romance como a motivação para ele. tem tempo de refletir sobre o que está fazendo" (ib. uma resposta intuitiva: seja o que for o romance. Seja quem narra. moveram-se inclusive críticas à efabulação em obras históricas ou exegéticas e. (lb. Está fora de cogitação convertê-Ia em um palco *Posiçãodiversaé assumidapor um analistaderespeitocomoThomasM. São. enquanto matriz dos valores institucionalizados. ]. o hiato que se segue a Em poucas palavras. que explicasse por que o romance moderno prefere a sátira. a Contrarreforma festam com o matiz cívico promovido e o Concílio de Trento. ]. e não se prestam para o consumo comum do adulto.. posto que relatos desse tipo não eram lidos apenas para um público popular.. como atingira o poder configurado nas cidades-Estados italianas.: 2001. na Europa de hoje. sob duas situações.M. Mas ele não assume um aspecto visível e marcante se a instituição ou a sociedade que o ativa não está em crise.. Masa diversidadede critériosnão impedeque as duas posições-a que assumoea deGreene.. afirmou-se uma nítida distinção entre verdade histórica e mitos religiosos. que ocupam a posição marginal reservada aos discursos para as crianças. Mas tampouco recusa o molde da fábula e a via puramente moinhos que confundir pareceu a melhor alternativa textual. 20 A referência a Rohde. 31). motivaram o retardo do aparecimento teria sido uma decisão pes- soal. pois não há sociedade sem regras.: 1982. aficção égeralmente destinada aosjovens.dizGreene. o mito não domesticado em fábula e em um meio distanciador. não de histórias inventadas sobre este ou outro mundo senão que de relatosverdadeiros ou quase. os doutos mostraram desprezo pelas Mil e uma noites. não estava legitimado: No âmbito do lslam e do judaísmo. nas culturas orais. 41) A difusão da escrita teria então abalado um antiquíssimo atitude assumida por Quixote perante o romance como um louco "especializado" trados não desaparecera crê no que ninguém veto? A própria fornece dos ile- em 1517 e que a simbiose da Igreja com o poder político das cidades. pois daria a entender de vento com a ação de magos mal-intencionados jiccionalidade. ressaltava-se a vita activa. grifo meu) O desinteresse pelo puro relato de invenção era neutralizado aos que ainda não tinham responsabilidade. em detrimento de cavalaria. em sua grande maioria. aficção.pois a imitatio já supunha arespiraçãosuspensa ante a autoridadedos antigos. as objeções parecem ter sido ainda mais profundas. mas verificar as razões que.éverdadeque apartir deum critériodiverso-o papelassumidopela imitatio. do mesmo modo que os reunidos pelos irmãos Grimm. enquanto emulava o mundo antigo. (Goody. sido encorajada O surgimento tivamente as regras do jogo: "Não é difícil compreender ao se destinar feérico. a escrita. Polichinelo representar a modernidade contemporânea. do outro.podia servir para distrair. Goody. o velho antagonismo na Europa renascente. Relatos deste tipo. que partisse do Quijote.Greene. Defato. comecei por usar a competência O controle apresenta-se de alguns historiadores.aimportânciaassumidapela imitatio apresentasseo riscode supor uma retórica"tão respeitosade seussubtextosque não admitissea emergênciade um desviovital da tradição': issoera apenas um risco (Greene. 21 . mostrando-se mais creria -. No primeiro caso. osadultos se ocupam de coisas mais sérias. ou sob sua iminente ameaça. fábulas. seja quem lê.. por um lado. Mesmo assim. visam sobretudo às crianças e não representam. Por isso. por exemplo As mil e uma noites. se manido Quattrode "os ideais Os sinais remotos da crise com que se abrem os tempos modernos pelos primeiros humanistas cento florentino.A minha experiência na África Ocidental é bem diferente. mas sempre se tratava de distração de atividades mais sérias. está sempre implícito. mas eram muitas vezes apreciados na corte [.30-1).T. Por certo. Por ele. tanto se pode dizer que a crise afetara a Igreja católica. Representam a mentalidade primitiva apenas na medida em que se poderia considerar. é preferível considerá-Ias em conjunto: é o próprio Renascimento. O escrever põe automaticamente entre quem conta e seu público [. nos séculos próximos passa- Cervantes.29-30. Considerando que as 95 teses de Lutero se enunciam pela escrita. dos.

exemplarmente meiro de seus dois Dialogi. ainda seria solucionável pela obra posterior de Bruni (d. exaltada por Dante. se aliasse ao papa. parecendo do papa e gibelinos daí entre Flo- Germânicotampouco século XIV. o que Baron 23 . faz circular seu De tyranno ( da Península estava em..290). na condição de chanceler de Florença. A divergência então concentrada rença e Milão aumentava expansionismo entre guelfos partidários milanês. H. Esse choque é particularmente tanto por para Leonardo Bruni (1370-1444). 17) rá dois séculos depois e se formula pelo Parallele des anciens et des modernes (1688-97). como Dante.7). se desfaça a liga de Bolonha e que os condotieri. desfeita outra vez em 1368. eventualmente A contradição da Prato e Cino Rinuccini. desde 1414. para atingiam Petrarca e Boccaccio. Florença estava próxima do colapso e. R. Os quinze ou vinte anos seguintes serão decisivos para o "humanismo Milão poderia suportar derrota inesperada assim. da cultura. que. que considera- evidente quando se observa que. o aparecimento humanistas florentinos. o propósito de Visconti parecia à beira de realizar-se. em contraste com a tirania dominante na Milão dos Visconti. de retorno de Avignon. tem êxito.: 1966. Pôde. humanistas prio prócer político. Desse modo. estimulados pelos ainda sucediam pari passu à rejeição da monarquia. ib. favorejá não ciam a monarquia germânica -. A inferioridade florentina leva a que. será decisivo que fracassem as esperanças de ambas as partes. No outro lado. até há pouco seus coligados. e a conjugação dos estudos com o serviço à comunidade. Mas a manifesta simpatia de Hans Baron pela causa dos humanistas não encontra maneira de justificar Coluccio Salutati (1331-1406). inferior aos antigos (cf.. corno cada parte tinha seu corpo de humanistas. tornem-se ib. como Domenico blicano. outrora senhor do mundo" (ib. em 1350. O louvor dos antigos. perdurar indefinidamente cívico'~ Do ponto de vista econômico. O acaso provoca a a decisão.: 1966. Como cívico se o próde Baron conciliar a devoção aos antigos com a afirmação do humanismo exaltar a Roma imperial. G. quando é selada urna nova aliança com o papa.: 1978. após a temporária rendição de Bolonha aos Visconti. Daí por figuras de comerciantes contrários ao propalado homens de letras. brio argumentava o milanês Uberto Decem"que a única esperança de futuro para Florença e para o resto em alta com a vitória de Florença sobre Milão. Para o desfecho que se seguirá. reconstruir 'o Estado da Itália (statum italicum)'. O propósito de liberdade de Florença chocava-se com a política da Igreja. em setembro de 1402. servincom a conquisa do ducado milanês e posterga o fosso.. muito menos o custo da guerra. A causa mais distante que marcaria o Renascimento italiano era de ordem política e resultava da inexistência de um Estado que conseguisse unificar os interesses das cidades livres Il Principe sonhado por Maquiavel. procurava constituir um amplo Estado pontifício. E. O propósito de liberdade cívica se contrapunha ao expansionismo milanês de Giangaleazzo Visconti corno ao ambicionado Roma. no culto prestado aos antigos romanos. 33). os Gonzaga. que. que. os Carrara. embora Florença.ascéticos medievais e os preceitos estóicos" (Baron. propagou-se entre os cidadãos uma crescente atitude neutralista. tornando-as incapazes. Florença volta a de Pisa. (Id. A sorte estaria selada não fosse Giangaleazzo vítima da peste. quando suas tropas já cercavam Florença. 128).. O constante conflito interno entre as cidades italianas as enfraquece. no propósito não recuava no elogio do tirano? Tampouco - ( nega a acusação de Rinuccini de que. na verdade os interesses florentinos coincidiam com os da Roma pontifícia: crescer entre 1405-6 e amplia seus domínios um conflito que repercutia na configuração do de pano de fundo para a Querelle des anciens et des modernes. em pleno exercício de sua função pública. a ampliação dos estudos até o grego. considerava serem os humanistas contestados A situação repetir-se-á em 1366. Baron. escrito em 1401. desde o começo do Quattrocento a coligação já não era praticável. os Este. 38). embleinfluentes e não civismo repu- ma da excelência florentina. por aqueles que não só faziam restrições ao De monarchia como tinham reservas à ideação da própria Divina commediae. A rejeição e as reservas eram embaraçosas os humanistas. a tentativa milanesa de associar-se primeiro à França e depois ao Sacro Império 22 (d. enquan- vam os ataques à trindade emblemática to Florença fracassava em trazer Veneza para seu lado ou em ampliar a liga das cidades livres da Toscânia. oposta ao manter a velha disputa que. os favoreciam o paganismo embora se pudesse alegar. no prio célebre trio. H. 44). que só explodiQuando. que culminou na demanda de que se evitasse qualquer futura liga ou aliança. Na verdade. Witt. de Charles Perrault (1628-1703). como assinala Baron. de ricochete. ainda vigentes do Trecento. de se contrapor à intervenção francesa. as tropas milanesas invadiram o território florentino e nem o papa nem qualquer outro Estado guelfo prestou assistência à República. em 1402. da filologia clássica. no fim do aliados dos milaneses (cf. sob o domínio do duque de Milão.

mento. tensa. dado seu caráter híbrido de unidade política e espiritual. Nada estranha que os litterati tivessem uma pontífice entre 1551 e 1559. para ser reim- presso. O poder da família institui. ra do novo século saturava cada setor da vida intelectual com uma explosividade facilmente menosprezada" (ib. Referindo-se à passagem de obra que Salutati não chegou a à concepção bíblica de concluir. escrevia Baron: "O cresnas décadas de abertu- cimento da primeira devoção sem limites à Antiguidade. e letrados quando. hardt. Por mais que Salutati e Fiano se empenhassem menos empenhado e reagIa. E. agora pelo rei de Nápoles. um outro quadro. suas tão-só decisões políticas internas divergiam quanto às posições do Vaticano. enquanto política. Pouco antes. é ela ajudada pela morte do adversário. As contradições mo pelas letras renascentes. acrescentava-se o despotis- deixa de influir como aquele que. Mas vale temos e estaremos aspectos que servem de suporte a uma questão teórico-literária.5)? A oposição entre afirmação da liberdade de expressão e cesarismo. 303). De laboribus Hercules. sua vigilância tinha que ser dupla. Ademais. a partir de 1408. mas essencialmente especial do limbo. Não se discute que seu principal motivo é a agitação provocada pela Reforma. Cochrane. são elas mais apetitosas para a ambição estrangeira. o cenário italiano muda por completo. salva o regime republicano. uma vez ou outra. 296). ameaçada pela Reforma. milanesa perlivres porém A queda da república florentina e a ascensão dos Mediei fazem com que o humanismo CÍvico perca impacto. Para sustentar guerras contínuas. fazia com que Virgílio fosse convocado para guiá-lo no além. a que veio somar-se a reação católica e o fracasso da mediação erasmista.. nem sequer vislumbrava Por isso mesmo ela do entusiasque a alternativa de favorecer a liberdade de expressão ou o cesarismo. foram inflamados pelo desejo ardente de louvor e ter um nome entre os homens" (apud ib. Por sua 24 embora católicas. A reação da Igreja a singularizará rista dos Estados italianos. passa a ser malvista. culmi25 . Outra vez. Afinal. que o mesmo já se dera com Boccaccio e fora a razão de seu intenso conflito interior.não assinala. da ambiência selecionando histórica XVI. em 1447. A liberalidade religiosa torna-se ainda mais flagrante no caso do humanista Francesco da Fiano. fora instituído um sistema opressivo de impostos. As contradições já se mostravam na Divina commedia. inclinaria o prato da balança. O expansionismo milanês é ainda mais evidente. em 1414. com Filippo Maria Visconti. Dante não separava de antemão cristãos e pagãos. e a queda da monarquia mitiam a formação de uma confederação de cidades republicanas. seus príncipes haviam participado se encontram ameaçados. fracas. no momento em que. no espaço italiano. um cidadão como Rinuccini. chegava a afirmar que.. no Renascieram o mais visível sinal na Renascença de Burckos debates políticos e a Igreja toma partido.: 1965. porque. Mas a principal adversidade estava nas medidas internas tomadas pela própria Florença. torna-se às ambições expansionistas agora flagrante: todas as cidades italianas. Embora a serviço do pontífice. na década de 1420. exposta por sua incapacidade mo de Roma. anunciada entre Florença e Milão. A PASSAGEM PARA o CINQUECENTO No transcurso para o século XVI.. escreve Baron: "[ . Veneza. reservava para filósofos e poetas anteriores à vinda do Cristo o território vitória inconteste condescendência do cristianismo.. já está bem-feita.54. O perigo retoma.. retratada pelos poetas. Era então favorecido pela Mas. ainda. O Estado pontifício desde o primeiro conflito em comum de de conseguirem se opor à debilidade no que não fosse o curso da vida corrente. a Igreja precisava fortalecer a si própria. a Talvez pensando em conciliar o cristianismo com as práticas políticas e religiosas dos pagãos modelares. já estamos pensando no início do século Sé pontifícia e em seus embates com Espanha e França uma pequena pausa. se inflamam de que algo de novo se preparava. contudo. Mesmo no sacro poema. é assemelhada Deus falando a Cristo" (ib. Seria ocioso acompanhar com minúcias uma história que. ] A troca de palavras entre Júpiter e Juno. que abriria o caminho para a ascensão dos Mediei. se aquecem. o Decamerone de Boccaccio tivesse de ter expurgadas todas as referências picantes a frades e papas (cf. se escandalizava da Espanha e da França. Agora são seus próprios palácios e prerrogativas como o mais cesana importância da voltada para a beleza. vez. a morte de Filippo Maria. com seu apoio. sensação de alívio com a decisão de Cosimo de' Medici (1519-74) de poupá -los dos rigores do Índice dos livros proibidos de Paulo Mas que dizer da atmosfera entre governantes IV. Ao dizê-lo. Basta lembrar que Florença volta a ser ameaçada. nem sequer os santos estavam isentos: "Estou convencido de que também eles. do esforço pela conquista da glória. 314).

o humanista era possível de ser vivenda vita acti- II. considerando-as (d. Como aqui já se notou. que. portanto. não estamos afirmando que a crise estivesse restrita ao chode reativação da sociedade antiga e os deveres que o ". além do mais. mantinham do legado romano o privilégio reservado à retórica e à gramática. que se apresentara voluntariamente A ausência de descontinuidade Por certo.a distância temporal o impedia até de compreender propagasse a correspondência que se impunha era escandaloso ao contrário. com seu retoricismo à flor da pele e seus pintores e arquitetos fabulosos. Con- plástico-arquitetônico pelas vicissitudes políticas. desprezaria a oferta de EI porque sua formação havia sido medieval e seu horizonsentia o antagonismo sob o qual se educara.39). Petrarca e Boccaccio. 27 . da Contrarreforma. É sintomática de inclinações particulares.: 1947. na vida prática. Felipe Greco. se impunha porque. mas. ciada pelo humanista te assim permanecia. os humanistas progressivamente se transformavam em secretários e cortesãos.ou que não assumisse a posição de Lorenzo Valia (1407-57). O legado ao ideal contemplativo grego-bizantino que a pintura de EI Greco expunha não se conciliava com a gravedad e o decoro estimados pelo taciturno monarca. Já o homem informado não vocacionado da fidelidade política de Salutati. E. a Roma imperial exigia de seu admirador que estudasse e divulgasse seu absolutismo. desiderato guidade. em consequência. no cenário europeu. crítico dos imitadores servis de Cícero . por provocar a fragmentação alianças eram aleatórias. não como articular mas para decorar EI Escorial. quando as preocupações se concentravam no embate de Florença contra o ducado milanês. vaquanto sabia para esse contemporâneo.: 1947. um líder republicano Renascimento que se interrompera. daquela. genericamente. terminavam da Itália e seu gramática. que combatiam um governo central. ou seja. A autonomia formulação: da gramática. cada vez mais restritivas. decorrente humanismo cívico. cuja coleção passaria para o Museu do Prado. ao contrário respondência "natural" do que formulava prócer da República. mesmo depois de abandonár o erasmismo e adotar uma política de ferro e fogo. Para o humanista. gramática em dominância acolhe um latim eloquente e vazio. para o humanista. supunha a redescoberta de um passado perdido e a retomada seguimos entender de imediato que Cados v. ao contrário regras. como o negociante II- cujo gosto só se aprazia com pintores menores'" -. diversamente do que não quilíbrio que o caracteriza: seus litterati. A conversão da retórica era a resposta do tempo aos humanistas. tais litterati estavam a serviço de cidades independentes.É entretanto surpreendente o entusiasmo que mantinha pela pintura de Bosch. sem interferir no dese- ( Rinuccini. o aspecto que privilegiamos no Quattrocento: em vez de o humanismo cívico haver contribuído para a constituição de um poder político forte. para o contemporâneo se das preocupações dos humanistas . foi desviado de sua rota e contribuiu para a constituição de uma dezena de ( ( ( que se teria pensado. o conflito que destacamos tem uma especificidade se confunde com o objeto do historiador que entre os interesses 26 De todo modo. a tirania. Sucedia que./ nando com as resoluções do Concílio de Trento. Dessa maneira. do o realce da vita activa implicava o conhecimento melhor latim. E. já nos leva ao fim do Renascimento. situada a séculos de distância. palavras e coisas deixavam de se atrair. ao empenho que associavam o pelos autores da Antihomem de ação de uma cidade livre se impunha. São eles que explicam que nos detenhamos pareceria confundir-se com o objeto do historiador político. que não privas- próximo deslocamento. em funcionários dos condottieri. No começo do Quattrocento. Os humanistas suficientes para a abordagem das mais diversas matérias Assim. De acordo com sua pressuposição. no plano da vita activa. tivesse como seu grande pintor Ticiano? É certo que seu filho e sucessor. Mas. o tempo a primeira com sua exaltação da sociedade antiga. Entretanto a marca de Felipe fora do discurso público (daí o prestígio de Cícero) pelas letras. os humanistas florentinos incentivavam a vita activa. Contudo. Garin. só podia suspeitar os primeiros sinais da crise em um conflito que antes político. Salutati despertaria alguns de seus concidadãos por publicar. Ele então assume esta entre si e. como se houvesse uma corentre elas. que o do para Salutati. o tempo não tem cujas de do tempo traz consigo o imprevisto. Eis configurados moderna. enquanto ensaio De tyrano. Eis. ao impedir a constituição a passagem de Salutati: "A própria gramática não pode a suspeita de o da a propósito ser sabida sem notícia das coisas e de que modo é variada a essência delas" (apud Garin. que habilitasse seu agente a nele escrever como já o tinham feito Dante. para uma posição secundária.85). o saber da língua imperial progressivamente se concentra na retórica. Junte-se à sua grandiloquência nário trabalho não interrompido que hoje tanto nos incomoda com que eram revitalizadas o extraordias cidades. Não era por algum acréscimo. Ela embora exercesse uma posição de destaque em uma república.

Ora. antes de examiná-Io. a Espanha. principal herança do período. sobretudo a verbalde controle dirigidos contra a própria aquela que mais importava aos litteraMas. Il Corteggiano (1528) será o seu paradigma. terem sido tais mecenas: sem a bastardia menos do ponto de vista da posteridade.218). los V. O próprio Burckhardt reconhecia que a instabilidade seu objeto. ao passo que. do ponto de vista político-econômico. mais precisamente plástico-arquitetônico. por todas as partes. a perduração da Reforma e da reação católica dependia de os oponentes um respaldo igualmente político: [. ]A Reforma se manteve onde quer que o poder leigo (príncipe ou magistrados) a favoreceu. O desequilíbrio entre as duas frentes será básico na modelagem dos tempos modernos. enquanto esconde uma profunda de fato escrevia" Staaf' - II. dos condottieri. procuravam to.. que. Mas o decisivo não é criticar a visão que o historiador celebrada. em que a Itália se desagregava.casas "imperiais". Por outro lado. ante a emergência das monarquias nacionais. incluía outro elemento sobre o qual não se costuma refletir: a formação de mecanismos expressão artística. analíticos (cf. Segundo a opinião corrente. Por um lado. até já no ocaso do ti. ] Substancialmente. incapaz de se defender tanto das grandes potências vizinhas como da avidez do papado. a Inglaterra. equívoco. da Itália.). conhecido as potências suíço tornou da nem a da proposta originária a força que con- centra a sede pontifícia nem é suficiente para abarcar as cidades-Estados invasoras. de seu modo própriO.: 1960. Do ponto de vista da história social. não era menos indiscutível a debilidade das cidades livres. no século XVI. ] a Reforma era conservadora . no entanto. Seus condottieri e príncipes eclesiásticos. 4. (ib. 1560 - a relevância que assumirá de 1515 até 1555. as propriedades ao leste dos Habsburgos e também (embora ainda não de modo conclusivo) a França demonstram a segunda. 28 domínios dos Habsburgos (na Áustria. era inconteste a primazia das cidades livres italianas. mo-nos ainda guiar pelos historiadores. de função. convertido tornou-se democracia contemporâneo de um tesouro arbitrariedade em luxo e requinte. deveríamos a concentração dade política não podia conter dentro de si duas formas de crença ou devoção" (id.: 1958. A situação complicar-se-á porque o ponto de origem do distúrbio concentravaconsistia -se em um valor religioso associado a outro valor de ordem bastante distinta: o da unidade nacional. o domínio fício menos ainda podia abrir mão de sua identidade religiosa. Iniciado em 1517.. 5) Daí. ao rivalizarem legitimar sua dupla bastardia de origem agradecer-Ihes não haveria luxo e.. Baron. apesar de incapaz de promover a unidade italiana. ComO. Burckhardt parecem ainda parcialmente e calculada. converteu da noite para o dia o fervor de uns poucos pregadores em um movimento amplo e popular" (Elton. Mas não há como discrepância. em uma de S'las formas. é no mínimo provocar um em que temos insistido: (a) desde o século anterior. deixegrosso modo. 3).mesmo regressiva (backward-looking)" (ib. R. considerando H. o Cinquecento lhe dá continuidade para confrontar mostrar-se nificamente sobretudo. demonstram a primeira afirmação. a história europeia apresentava duas frentes de transformação. era esmagado a fogo e sangue. com o destaque da França e da Espanha. Ao que semelhante e riqueza fossem paralelos a um povo sem voz e a uma chusma de letrados eruA alternativa contida na tese do Estado como obra de arte. fazê-Io sem se coligar a uma efetiva força política? Em última análise. [ . palácios e igrejas magdecorados. cujo reinado na Espanha se estenderá reinado de Cados v. [. os principados germânicos. entretanconseguirem como me cenas. não pôde sobreviver onde as autoridades decidiram suprimi-Ia. G. o Renascidesenvolveu sua tese em outro sentido coincidir: "O Estado. o protestantismo... Genebra. Sua importância dois traços para o horizonte que procuramos precisar é decisiva. A Escandinávia. nO Tirol. de função. sustentava que uma uniponti- obra de arte" (Burckhardt.5). com seus castelos. 29 . era a da mente. por sua conjugação com um segundo fator: (b) "Talvez a última liberdade a ser promovida pela Reforma. o resultado em "uma era de uniformidade.. ditíssimos e mais do que submissos. paralelo à plástico-arquitetônico em parcela menor. Antes pela decepção política com a ascensão da na Europa do que por motivos estritamente moderno. "por todas as partes. do ponto de vista da Contrarreforma. Herdeiro Cardos um pouco além dos anos de 1550. O Staat se tornava uma obra de arte na falta de condições de ser Estado. o Ocidente seria secundário de beleza plástica. Com exceção da Espanha e. diferentemente situadas: do ponto de vista cultural.. o período da Reforma estender-se-á. o "Estado" continua como obra de arte plural.22).. quando o humanismo. a Itália.: 1860. em partes do sul da Alemanha. senão ressaltar o desvio retórico-artístico vita activa. enquanto Estado negar que a convergência e o historiador mento como berço do indivíduo Sua famosa tese e nossa hipótese criação consciente Falar aqui em era inerente a J.

pela habilidade política de seu pai. O recuo do sonho acentuará o pesadelo.o dos Estados pontifícios. a ela se associaria a desconfiança dos papas Clemente VII (1533-4) e seu successor. à coalizão da república com a nova tirania milanesa. aaçã. Maximiliano I. E. mudou internacionalmente para a neutralidade. m. Por isso. H. Com efeito. serão limitados ao mínimo indispensável.o político que fosse suficiente para capacitá-lo a resolver a questão religiosa" (ib. Como esses fatos são selecionados em função da questão do controle. do fracasso da última tentativa de restabelecer o conceit. sem ele e seu sucessor.osão social nos Países Baixos. internamente dev. que chegara à Espanha sem saber o castelhano. que incluía o Estado pontifício. em 1555-6. Cantimori. 314-5).o. Carlos v se transformaria no aliado de que Roma carecia.: 1958.os v coincidisse com as derrotas militares contra os príncipes protestantes alemães e contra as tropas francesas e. acumulava um impéri. Essasreações por certo influenciarão sua mudança de política. Em troca.tanto quanto da Espanha e da Alemanha" (ib. Felipe II já não participará das disputas entre os príncipes germânicos. Era o que se poderia chamar de a paz dos fracos (cf. ib.lI. que não viam com simpatia seus domínios incluírem partes da Itália. que reina de 1556até sua morte.o. "Nestas circunstâncias.otivadas tanto pela ameaça francesa s. o papado deixara de ser a máxima potência para se mostrar incerto quanto à melhor aliança: com o Sacro Império Germânico. em meados do século. 311).o m. lI. nascido na Holanda..na Holanda e no Franche-Comté). só seria menor que o de Napoleão. terminam.ao menos no começo.ores. que não era tão-só um programa deliberado mas também se mostrou 31 ( ( . até que. na segunda metade do século XVI.: 1958. Em suma. Baron. Conquanto os conflitos com os papas perdurassem . Por isso não se poderá deixar de indicar as consequências da pretensão de Carlos v de manter a unidade da cristandade.os por uma política imperial alheia à complexidade da época fariam com que . 332). Paulo III (1534-49).o cuja extensão. com a Espanha ou com a França. os males financeiros e ideológicos provocad. sobretudo. representava "a dupla ameaça de coerçã. Muito menos a ideia imperial que o estimulara: "Aabdicação de Carlos v.obre Nápoles como pelas dissensões religiosas no sul da Alemanha e nos Países Baixos.. 252-3). A princípio não tinha apenas contra si seus propósitos apaziguad. Apoiado em um velho sonho medieval. Felipe lI. Mas Carlos v não encontrava só obstáculos. já no final do sécul. Desde o começo do XVI. ela provocará a perda do apoio popular: as guerras constantes.odo como os governantes contemp. seu poder não era menos alarmante e "nunca lhe deram respald.o Estado começavam a alimentar" (ib.otado ao fortaleciment.o império parecia ser a última oportunidade de paz dentro da cristandade" (ib. não surpreende que Carlos não conseguisse desenvolver uma administração econômica para seu império ou 30 mesmo que concebesse uma unidade econômica de seus domínios. pôde ser visto como "a ressurreição da ideia imperial de Dante" (ib. o imperador era o príncipe deles. as cidades italianas desfrutaram então de tranquilidade.. em 1598. 318). seu vastíssimo poder apresentava vantagens materiais consideráveis: "como rei da Sicília e de Nápoles. em maio de 1527. Para os diversos condottieri italianos.o do papado. da Espanha. não podemos prescindir de seu par. 307). K~nigsberger..para os príncipes protestantes. em outubro de 1555 (cf.orâneos de um únic. da Áustria.oba liderança do imperador e do papa" (ib.. 314). Assim. sucessiva à sua abdicação.o de impostos. C. em 1455 e 1456. "Com Paulo III [1534-49].o medieval da unidade cristã. assim como sua aliança com os pontífices contrarreformistas. Esses dados são suficientes para reconhecer-se o caráter particularmente repressivo do lado católico. s.França e Espanha se lançaram sobre seus territórios. seus amplos domínios não se transmitirão a Felipe lI. "para a massa da populaçã.o será mantido na Itália. 0. H. não sabia se promovia a reforma interna favorecida pelo Concílio Laterano (1511) ou se fortalecia suas possessões territoriais (cf.omonenhum dos blocos consegue a almejada unidade. Não será sequer preciso recordar a identificação da leyenda negra da Espanha da época com Felipe lI.seu auge se dá com o saque de Roma.a Contrarreforma não teria o significado sombrio e funesto que se lhe reconhece. 306).ofim do reinado de Carl. a Itália pontifícia. mas seu domíni. A disputa do princípio do século xv entre Florença e Milão dera lugar.autorizado pelo monarca espanhol-. contra a aliança da república de Veneza com o reino de Nápoles. por fundir-se numa Santissima liga. das colônias da América e da Sicília.: 1966. para os católicos. d. Embora no começo de seu reinado fosse amigo e protetor de Erasmo. É agora que a dissensão religiosa mostrará suas piores consequências. Ao mesmo tempo.400). 301).na Sardenha e em Nápoles (cf.mas a hostilidade dos príncipes alemães .. este Habsburgo.. e a busca de manter o poder exclusivamente em suas mãos suscitavam o constante aument. crente pois na possibilidade de aproximar reformistas e católicos.oimperial e religiosa". a autoridade conferida às nobrezas locais e o caos administrativo-financeiro. com a expl. era seu próprio reconhecimento do fracasso de sua ideia imperial.

253). cimentada durante o reinado de Felipe lI. com morte ou fuga.. supunha a pá de cal do que pretendera o humanismo cívico florentino. Ademais. a maneira mais segura e rápida de provar que a posição de Copérnico não é contrária à Escritura seria oferecer uma quantidade de provas de que é verdadeira e de que o contrário não pode ser mantido. de enviar cópias dos processos para Roma e de esperar a direção de Roma a propósito (ib. com sua abjuração sas fronteiras com os principados ser adiado. onde esteve sediado (1547 -9) até sora do período de Felipe lI. Felipe II impõe herética pelos inquisidores que não lhe resta- ano antes. Já é sob tal perspectiva que se abre o Concílio. A em 1616. Tomamos interferir no proEm maio cesso. "os tribunais a esse tribunal determinado e benevopara que e as de seguir de cada as espePara mim. acumulam um grande estoque de proposições inúteis? (Gali1eu: 1615. que a moderaria. compreendeu (1555 -9). M. 166) Bem sabemos que a censura é o controle explicitado. Encerrava-se e tortura. porquanto duas verdades não podem se contradizer entre si. Se então recordarmos que os reformadores cuidavam antes de recuperar a pureza ética e de fé que a Igreja perdera do que de estimular a liberdade do pensamento. Ambas as decisões eram bastante realistas. Um em 1633. contudo. do Santo Ofício. temos de ir adiante.). 0. ib.: 1968.261). espanhola na Itália. supremo. por outro. O papa. Parker. que recaíra sobre Trento. A escolha. Pela instituição um procedimento julgamento" uniforme. dos bispados locais submetiam-se pelo Santo Ofício. tão evidente que não apresenta problema teórico algum. apesar de o papa reassumir a posição antiespanhola. III. deu lugar a uma ortodoxia cada vez mais sectária. Logo desaparecem ranças de que promovesse a reforma interna da Igreja. depois de vencer as resistências que se lhe opuseram na prõpria Espanha. perdia definitivamente sitorial (ef.: 1958. não seria a morte do monarca. que só se encerraria teoria copernicana fora considerada Diga-o o processo contra do heliocentrismo. Em 1542. compreenderemos que nasce o pensamento de crise e.. Sob Paulo em 1556. O papa começa a preparar monarca primeiro o Concílio. Mesmo assim. "a atitude oficial quanto aos eruditos ainda era de persuasão lência" (Cantimori. que o visitara em Roma e procurara de 1615. a Itália passava a competir com a severidade repres32 33 . por um lado. 253). Mas será preciso que a censura se escancare para compreender-se a existência do controle? Pode-se entretanto responder que não se duvida de haver controle senão do que chamo de controle do imaginário. ib. Ao domí- nio da linha espanhola mais dura correspondia a derrota dos levantes internos contra Felipe II e a expulsão dos franceses. A repressão aos heréticos e "a mais rigorosa ortodoxia dogmática". assim. O Renascimento artístico. por outro lado. enquanto. Uma vez deflagrada. 61).da cidade de Siena sublevada. em 1551. Galileu. esta verdade e a da Bíblia devem ser perfeitamente harmoniosas. transferiu-se para Bolonha. A balança mostrava. da família dos Carafa. era inconteste a ascendência de Carlos v. terrorista e irracional. mas a sabotagem francesa e as desavenças com o espanhol adiam sua abertura para 1545 (ef..efetivo" (ib. T. sinônimo da maneira mais moderno. sucedié centralizada em para a declarada repressão inquide livros -' a passagem a seguir como a da entre 1535 e 1549. em 1555. as guerras reliIV giosas na Alemanha obrigam a que seja outra vez adiado. tinham lado pendera. Galileu lhe enviava uma carta. chegando a escrever um livro em que defendia o heliocentrismo. regidas pelo "tipo espanhol do eclesiástico grave e severo" (Cantimori. Paolo Antonio Foscarini. Com isso a linha moderada.. Então. Em descenso. Mas como posso fazê-Io e não apenas perder meu tempo quando estes peripatéticos que devem ser convencidos mostram-se incapazes de acompanhar mesmo o mais simples e fácil dos argumentos. concluída com a capitulação. quando ainda parecia possível evitar o absurdo de a Igreja pronunciar-se sobre uma questão científica. 270). que ainda se fazia ouvir no Concílio muito embora já favorável ao expurgo dos Colloquia. Galileu recebera o apoio de um carmelita. inquisições D. a Inquisição evidência mais terrível do desfecho de uma crise cujas raízes haviam sido plantadas dois séculos antes: Roma pela Congregação do Santo Ofício (ef. Reaberto pelo novo papa. va outra via senão cuidar dos interesses de seus poderosos parentes e da instituição que dirigia. em 1598. 254-62). Júlio II (1550-5). No plano internacional. de Erasmo e à censura ao se defrontar com a expansão no luteranismo. A vitória da "linha dura" dentro do Concílio. de refinamento brutal: com encarceramento melhor o clima em comum hostil sob fora. A aliança da Igreja com o poder espanhol. distante das perigogermânicos. sua supremacia. o saque de Roma mostrava que o papa não tinha nele um fiel submisso à política eclesiástica. encerrado em 1563. dominam sob Júlio !lI e Paulo IV.

ora se propunham belas questões. ornado por "uma infinidade de estátuas antigas". onde. .11). !. teria aqui um sentido pobremente literal: é da linguagem e só da linguagem porque no jogo não cabem riscos e ambiguidades passíveis de revelar dimensões outras além das enunciadas: "Seu espaço de jogo não é um espaço público. 186). muitas vezes os participantes revelavam alegoricamente seus pensamentos a quem mais lhes agradava. G. a comicidade afirma o que pareceria estar negando. contudo não mais a contenção da paixão ou da loucura. moteggiando e ridendo. se impõe sem que haja a encenação de uma farsa. cumpre-se um jogo cuja execução tem por princípio vedar o contato com o mundo real. entretanto. J. À sua codificação. Em Rabelais. 34 vale dizer.: 1860. Castiglione sabia que o ideal do cortesão é uma fantasia intencionalmente cultivada. No propósito de traçar o perfil do perfeito cortesão. nada mais natural que à conversação já se unisse a infalível cláusula: a signora Duchessa. ] Vós me pedis que escreva [. Como seria possível cumprir regra tão excludente? O analista de Il Corteggiano astutamente anota: pela repetição do gerúndio ridendo. e. o qual.180). o debate se instala sob a atmosfera criada pelo ridendo.. Il Corteggiano situa-se exatamente entre o humanismo e a Contrarreforma. 14). assinalam que não devem ser levadas a sério. em Urbino. em seu princípio ainda acalentara ideias de conciliação. deverá Baldassare Castiglione (1478-1529) a permanência de seu nome.O drama do jogo como jogado neste espaço será [. vencessem e adquirissem renome. O que. em 1528 e 1541-. se via pintada uma jocosa hilaridade.. Elisabetta Gonzaga (1471-1526).como não há amante que não se torne cego perante o objeto amado. isto é. além das agradáveis festas. já estava a serviço do papa Clemente VII. e sim a contenção da perspicácia" (Greene. ao duque Guidubaldo da Montefeltro (1472-1508) e sua mulher.. ao se fazerem acompanhar da marcação do ridendo.. sob vários véus. O riso então assume seu pleno disfarce. A expressão "jogo da linguagem". A contradição com que aquele se iniciara ainda seria supérflua ante o propósito desta. É no celebrado Il Corteggiano (1528) que evoca seu tempo de serviço. 19) é no mínimo excessode polidez. que corresponde à pequena cidade de Urbino. ora se faziam jogos engenhosos a pedido de um ou de outro.IL CORTEGGIANO E DELLA DISSIMULAZIONE ONESTA Separados por mais de um século . É onde se reune a elite dos seletos: Ali. quase leva às lágrimas" (ib. Aquém da casca. conquanto de antemão controladas.31).... músicas e danças que continuamente se sucediam. 1..: 1528. O real [é] demasiado impuro. a ser formulada séculos mais tarde. Escrito e publicado na segunda década do Cinquecento.. enquanto este é cru e insofismável. Ainda quando tivessem êxito. afirmações e contraditas. tanto o que fala como o que lhe contesta mostram à seleta assembleia que sabem de que gênero dialógico fazem parte. Por exemplo com o estímulo à cortesania. leves conversações e honestas facécias eram ouvidas. ] um drama da contenção... ele era grosseria. formulando pelo avesso. Algum dos interlocutores pretexta falar mal das mulheres. a frase continuava: "uma maldição se prende a elas e não as quer largar". ] como deve ser aquele que mereça ser chamado de perfeito cortesão para que nada lhe falte" (Castiglione. tais senhores precisavam compensar traições e crueldades com gestos e requintes de chefes finos. impróprio para o convívio de personagens de estirpe. que o designara núncio apostólico junto a Carlos V.. ]" (Burckhardt. Ao locus amoenus. Porque ilegítimos. B. depois do jantar. Declara-se o tema da primeira noite: os enganos e as loucuras do amor . T. ].: 1979. Ao redigi-lo. respectivamente. acrescenta-se a descrição do suntuoso palácio de seu ex-senhor.: 1968. para os condottieri "as bases da legitimação permanecem ilegítimas [. 16-7). A bouffonerie. como se não soubesse que a reunião é presidida por Elisabetta Gonzaga? Rindo. no rosto de cada um.M. onde não há "coisa alguma que não fosse raríssima e excelente': junto com "um grande número de ouro e prata" (ib. O livro abre com a declaração de seu propósito: "[ . cargo que exercerá a partir de 1525. a frase séria é enunciada sob a clave cômica. Mas.. Mas essa é a impressão literal. ( Como os papéis estão bem marcados. a análise mostrará o que se ocultava sob a alegre docilidade dos cortesãos e a resignação dos modestos escribas. que virtude neste 35 ( . Dizer-se a respeito de seu autor que "a figura de intelectual e de artista 'cortesão' [era] aberta ao compromisso intelectual e à mediação entre culturas diversas" (Mazzacurati. (lb. sinal de tempos bárbaros. aqui "a risada é tão perfeita que é comovente. própria para os que desconhecem o jogo. de tal modo que se poderia chamar aquela casa de morada da alegria (albergo della allegría) [. nos quais.são publicados. portanto. [se dirigiam] aos aposentos da senhora duquesa.

Se a praticada ficção externa é Canossa entenda-se... Em suma. aqueles que só Talvez o fraseado contivesse alfinetadas que hoje já não picam. pois o que menos ali havia era legitimidade I. e sim mostrar-se "com a integridade dade de etos aristocrático. embora sendo tolos e grosseirões. 30-1). em jogar pedras ete. Ser então exposta com se permitém serviria de excelente exem- I. boas ou ruins. leveza e desenvoltura. no salto.mais se preza e que defeito melhor se tolera? Alguém sugere que a encenasse aquele que se julgasse mais inclinado à loucura. A ressalva é indispensável: para uma socie- "[ . obrigai cada um a dar sua opinião sobre as razões que levam as mulheres a odiar os ratos e amar as serpentes" (ib. por pretenderem milagres. O profissional é o homem que recebe soldo.: s/d. bem tornear. seus membros de fé e com o ânimo inabalável e que não podem dispor de uma muleta sempre seja visto como tal" (ib. às vezes acabam favorecendo merecem desfavores" (ib. A proposta da loucura de amor é substituída por um tema mais cantabile. os participantes perfeito cortesão. o que provoca a tré- se tornavam mais capazes de levar adiante a "ficção" do no manejo das origem nobre. astuto.. dotado de engenho... I. de que o neoplatônico a iniciativa enunciadora: se ama" (ib. abandona o objeto dos encontros: Alguém questiona plica de Camossa: como deve ser o perfeito cortesão. belo de físico e de rosto. ao entenderem temas.. destacar-se na caça. III. assim que souber que um deles nasceu fidalgo e o outro não. próprio de quem disa exigência de nobreza. que use. A passagem. ferir ou ser ferido por quem a questão inicial e sugere aquele que deverá ser I. Há de ser..A afirmação parece reme- de ficção externa (isto é. nas carreiras. serem profissionais. I. Como já não as vemos. graça e amabilidade... há de conquistá -Ia. e aquele necessitará de muito trabalho e tempo para imprimir na mente dos homens uma boa opinião. bom tempo".). Por indagar qual a razão de encarecer a nobreza... é decisiva para o cerne de todo o livro e 37 Assim fizera porque "vimos entrar nesta casa homens que. "em cada coisa. Ao contrário isso o interlocutor permite-se tal exigência não deixava de ser curiosa. ou maçante a proposta.. e. frei Serafino propõe substituí-lo por ufll jocoso:"[ . isto é. ra do jogo e propõe que seja outro a falar. põe de tempo para figuras ociosas - armas. 24). Mas. o cortesão não há de se confundir com o profissional. I. especialista em uma tarefa para a qual é alugado. ter ao modo de ser do cortesão aquilo que os antigos afirmavam stricto sensu.. a segurança que só os lugares-comuns plo do que chamaríamos pictórico. pela Itália afora granjearam de terem por fim sido descobertos fama de grandes cortesãos. cada um há de considerar o plebeu menos estimável que o nobre. ] Pretendo que tenha boa compleição e membros bem formados. ] Sehouver dois cortesãos que não tenham anteriormente produzido impressões de si mesmos por meio de obras. ] É arte verdadeira a ficção externa não admite insinuações parece ser arte" (id. um molde que se impõe de antemão a seu praticante. de qualquer modo. ] Qual é a dor maior. num momento. de sempre com o excesso de palavras.. brincara com fogo sem chamuscarmusical com que enlaçara os dois Ludovico da Camossa. podemos apenas identificar a habilidade de Canossa: não só é inquestionável a nobreza dos condottieri como neles reconhecida a humana. 115). os 36 . declara. atenção. 21). lançar hastes e dardos. Embora fosse uma trivialidade. ] Se quiserdes um belo jogo. / fidalgo. o que não teria sucedido. demonstre força. só por ser mecânica. "[ . I. O interlocutor -se. Por ser brusca a mudança quais. ]" (Curto. ao ao é próprio um mestre emérito: exalta a nobiltà de bastardos. D. R.. e saiba todos os exercícios corporais que são exigidos de um homem de guerra" (ib. e Castiglione logo repete: "[ . uma certa sprezzatura (displicência) que oculte a arte e demonstre que o que se faz e quanto à arte aquela que não diz é feito sem esforço e quase sem pensar" (ib. demasiado humana obstinação Castiglione mostra-se em se deixarem enganar. 32). 42). 31). Sua primeira qualidade não provoca disputa: destacar-se a habilidade Mas o tema ainda não entusiasma. intervém a organizadoPietro Bembo toma outro interlocutor.. 36). hereditária. deve saber cavalgar a toda sela.. mesmo tempo que liga o presente da discussão a seu começo homem enganar-se no amor.. il capitano. regulamentada por um sistema de etiqueta [que] constitui um gênero de vida [." (lb.. não fosse "a obstinação dos senhores. Além das artes de guerrear. Ao autor teria cabido codificar como um modo de ser o que antes se tivera como uma maneira de fazer? Preferiria ser menos polido e devolver a Castiglione o que se disse de seu êmulo português: estabeleceu "a interdependência dos agentes. Mas a escolha é bastante arriscada e. realizada fora do âmbito de da ficção que se cumpre em um texto verbal ou contra sua veracidade. uma obra de arte). ao passo que este. apesar enganaram-nos durante um e identificados. ademais. O cortesão é um simulacro: "[ .

da dissimulação católico formado por dissimula- cordes os interlocutores na indispensabilidade da sprezzatura. mas conformada II. "caso ele vos ordenasse praticar uma traição. Castiglione. um tanto de escultura e pinum embaraço tura.: 1528. Ao etos aristopelo louvor da aparência. Compreendê-lo permite-nos melhor diferenciá-lo da censura. a exemplo do que bem fará Paul E Grendler a propósito de Castiglione. II. mostrando apreciá-los bastante. portanto. é um serviçal. molde. extrair as consequências de atividades e requintados de que adiante trataremos. quando os temos. contentemo-nos desde jogar pedras até compor árias musicais e versos latinosem reiterar que o louvor do cortesão por sua capacidade dissimuladora em dezenas com tanto esforço não sabe nada mais que um jogo" (Castiglione. entretido cumprida por corpo e mente o par sumamente ção/simulação. ( significava não só habilitá-lo ao serviço de príncipes vaidosos em sua ostentação em tantas formas de crueldade como a constituição de uma verdaobra concreta. da sprezzatura que faça bem o que reiterava o etos da aristocracia. de tal maneira. de que Accetto tão bem tratará. em mostrar (d. a ficção externa recebia instruções daqueles que tanto mais se singularizavam quanto mais fossem hábeis em dissimulá-Ia. 119). porém. e muitas parecem más e são boas".. em mantão diversos são os ouvidos. precisa internalizar uma qualidade que se afirmara ser própria da obra de arte. O perfeito cortesão deve se conformar com a sorte. A questão envolve um desvão perigoso. Tintoretto ou Ticiano. falando. Con- ( . censurada. O encarregado fútilcomo deveria vestir-se o cortede puxar o diálogo refere-se à história que se contava sobre 39 a moldes reservados Como ofício de inferiores. e. e são más. que mais do que um ator pois esse ainda supõe um palco Em síntese. fatos e documentos. queira perfeito há de ser um mestre de casuística. é extremamente da imprensa veneziana O livro que. Burckhardt já acentuava que o Renascimento propiciava esse deslocamento ao intitular a primeira parte de sua obra capital de Der Staat aIs Kunstwerk [O Estado como obra de arte]. que se decida pela cautela. na reflexão sobre apenas o Livro A afirmação da ficção externa fundou-se O Livro 38 I. Embora apreciado. Principal cuidado há de ter ao conversar com seu príncipe. que permita a quem oferece fazê-lo com muito maior insistência. mas recusá-los modestamente. chame-se Da deira ficção externa. O artesão da arte. (A ficção externa segue um mas não se subordina caso é um caso. não discutem que A exigência de conheperante o jogo de B. Tratava-se de questão aparentemente são. Por isso seu proponente que dizer. II concentra-se no que ao cortesão convém pôr em prática. sem dele. no deslocamento se converta em uma ficção ambulante. no elogio condensado faça sem demonstrar esforço -. "no fim de contas. mas remeto tudo à vossa discrição" (ib. O Corteggianoé uma ficção ambulante. bastando-Ihes arquivos. ela é tão grave que não admite variedade de interpretações. ao contrário. Para que o cortesão se torne um frequentado r privilegiado das cortes.A ficção externa realiza em si o que nenhum tratado de retórica ousara fazer quanto à obra de arte: vê-Ia como encarnação do duplo sentido da fictio latinaocultação da verdade e fingimento. P.. compreende não haver como legislar a respeito: "Não quero entrar neste assunto. embora essas não sejam habilidades indispensáveis.explica sua divulgação europeia: na identificação do cortesão com o não profissional. passível. Mas quem levanta a questão sabe o quanto ela ( é complicada: "[ . exige demais de seu praticante..Vejamos o que os seguintes permitem acrescentar. não deve aceitar facilmente os favores e honras que lhe são oferecidos. porque. ] Muitas coisas parecem boas à primeira vista. devem saber algo sobre os instrumentos cer sem se tornar um profissional musicais. não só não seríeis obrigado a cometê-Ia. Dada a assimetria de suas posições. (lb. crático porém ainda acrescentava. Mas o princípio não cabe quanto à situação italiana em si. e agradável quando que se aperfeiçoe na arte da conversação. II.. de que pesquisadores a investiguem minuciosamente. contudo.. Por enquanto. somos forçados a suportá -los como são" (ib.. II. Grendler. encontra xadrez. propriamente a grupos seletos. por éticas que pareçam.) Em vez de normas. Como deve ele se comportar caso receba uma ordem danosa e causadora de vergonha? Assim. E: 1977). A censura é de imediato visível e localizável. O cortesão que se ( ( a normas. é premente ter-se interessado. mas seríeis obrigado a não a cometer". 106) Os cuidados vão além. Em troca. como respeitá-Ia sem se converter em um bajulador? O domínio da dissimulação é aqui maximamente exigido: Deve apresentar-se sempre um pouco mais humilde do que comporta seu nível. que se opera pela figura do corteggiano está não sendo aconselhável a troca de senhores: "Ê preciso pedir a Deus [. 109). enquanto Vinci. 110). cuja clave é a dissimulação.. pois cada a arte não é. Miguel Ângelo. elo quente mesmo nessa véspera do rigor contrarreformista. pois muito haveria contido o problema do controle renascentista. ] que nos dê bons senhores.

Observe-se [oo. Pas- a realidade alguma. de fato. eventualmente. cheia de fama de seus 288). pode facilmente e deve tentar conquistar a benevolência e influenciar a tal ponto o espírito de seu príncipe que tenha livre e seguro acesso para falar-lhe de qualquer coisa sem molestá-lo. que a posição subalterna do "virtuoso" não o impediria de ensinar o bom caminho ao corrompido. Apesar de tamanho lazione onesta (1641). reequilibra podemos delas prescindir. como seria demasiado do esperado. Castiglione tivera êxito em fazer com que a fluente palavra neutralizasse os riscos que seu aprendiz podia correr. Tendo ele ordenado que a espada persa tivesse um formato macedônio. IV. a exemo corte- tratasse de um tempo em que se tornava muito plo do que sucedera ao tratar da conversa do cortesão com seu príncipe. o secretário dos príncipes. ] Todos aqueles cujas roupas imitamos virão um dia a subjugar-nos.Dario.. o que seria um desastre para as intenções do que receberia a reprimenda como jogo. a lição aludida seria ociosa ou desnecessária sagens semelhantes não precisariam da advertência do ridendo. certa tensão se introduz quando alguém indaga como deveria se comportar são que tivesse a possibilidade de ensinar a seu senhor. portanto. Já o Livro III se concentra em como as mulheres são vistas pelo perfeito cortesão. Ao passo que a falsidade sistemática reina nos jogos principescos ta dissimulação" de salão. Em quase todas as partes de seu manual do perfetto insegnante. pois já não resta nação que não nos tenha transformado em presa. o cortesão. sua principal virtude é a fidelidade ao marido e o se tornam indispensáveis.. o que se tornou mais que verdade. conquanto a ambígua ousadia de Torquato Accetto?! pode-se supor que Della dissimufocalizasse a questão de uma o interesse pelo retrato que traça do príncipe. Ou haveríamos de pensar que o já então embaixador intervalo temporal. Se houves~e essa correspondên- tarefas inglórias. 275) Não é exatamente um non sequitur? Para que a frase tivesse um encadea- feria o caráter de jogo da fala cortesã.. por meio daquelas gentis qualidades [. pontifício assumia. maior o abismo entre a palavra e a realidade. se refere chega a lógica interna da frase.. aqui. em qualquer dos casos. e como os homens com as mentiras. contudo.. ]. há de primar por uma elegante limites sem os superar" (ib. 113) A dominação espanhola e francesa era tão flagrante que ser referida não locutor abre sua intervenção. e conclui: [.. (lb. receio que logo o perderia" (ib. para nós de agora. No entanto. os adivinhos previram na decisão o sinal de sua vitória. Embora a resposta que o retrato do "rei de nobre a sensatez do que contesta. Então começa pela análise das formas de governo. Mas. IV. leve-se em conta que Accetto não se apresenta com os títulos de cortesão. pela ignorância e falsa presunção sobre si mesmos. A exemplo do que sucede com eles mesmos. inclinado às virtudes antecessores por seu instinto natural e pela memória e educado com bons costumes" (ib. ] Bom e sábio deve-se considerar possa ser um rei de nobre estirpe. Missões sujas podiam ser confiadas aos cortesãos ou as tarefas inglórias não tinham de ser necessariamente sujas. culto da castidade. 193). com mais de um século de antecedência. a palavra recusa-se a ser domada e enuncia o contrário do que o molde lhe ordena. tampouco na corte deve se especializar tradicionalmente nas tratassem O Livro mediania "e atingir determinados a mulher que vive em algum fazer. Mais interessante so entre a função nomeadora a ponto de. Para que a hipótese seja plausível. tendo se tornado tão difícil falar-Ihes a verdade e induzi-Ios à virtude.. sendo ornamentos. Ou. parece que se distrai. passagem anterior: comprometer seria verificar que o descompas- da palavra e a coisa a que ela. a "honesdas remete para os obscuros aposentos dos que se encarregam de: "Se tivesse o favor de qualquer príncipe que conheço e lhe dissesse livremente minha opinião. Mas.. Como enfadonho se as conversas apeDe nossa mento lógico. lI. com que o inter- 40 41 . é bastante para mostrar estirpe" não correspondia 291). III. os convivas da duquesa teriam de supor que a virtude se impõe por si e. tanto que pouco mais resta para predar e contudo não param nunca de fazê-lo. se iguala aos mais terríveis clichês: "[ o. as adulações e com maneiras tão viciadas tentam conquistar-lhes os favores. entretanto. (lbo. que estaria o príncipe tão corrompido enfatizado. senão que fala em nome de um tipo modesto de serviçal. Um dos presentes responIV. os suas maneiras de referi-Ias eram sequer aproximadas: cia. as contraditas IV parte. Não surpreende quia contra a república e não se haveria de esperar que o louvor do monarca excelente escapasse do que. o elogio da monar- vinda de um audaz bufão. fosse apenas prudente. Dom Federico a lembra a propósito do hábito que se tornara italiano de imitar os trajos estrangeiros.]Como hoje os príncipes são tão corrompidos pelos maus costumes. maneira que já era legítima um século atrás.. nem por isso.

. Elogio da dissimulação a uma visão cristã porquanto: mente. ler: para a manutenção catolicamente da ordem (que garante minha manter honesta a dissimulação. com a ordem social: "É no esforço de fazer que amadurece em o silêncio da supressão e da autossupressão levado à fogueira. goza de certo modo também das coisas que não tem. Suas primeiras palavras são até mais diretamente ambos praticada: [. T.. constituído. Paradoxaloutro tipo de jogo para comprová-Io. o que restou depois dos sinteticamente de denúncia de (a) adeque se insia dissim ulação exigiu que eu dissim ulasse" (ib. Não há nenhuma retóricos renascentistas autenticidade contraface de Il Corteggiano. do que emendá-Io". 66) A interpretação de seu próprio modelo contudo. ]. 27).: dilaceramento reduzido pelo que subtrai de Cristo: "o livro 'exangue' triunfa a 'muda eloquência' repete a flagelação ao silêncio pela violência de uma estratégia das chagas [. Accetto é tão servil quanto o fluente núncio apostólico. absolutamente imprópria A frase imediatamente que se conformaria anterior já advertia que a dissimulação supõe a" habili- aos encarregados com as palavras - dos segredos e da correspondência não será preciso nos demorarmos dos senhores. Mas o próprio Nigro ressalta que o modelo crístico serve ao propósito mais concreto de confrontar-se falar lateralmente a traição dos secretários" estilo da revanche" (id. a dissimulação "Simula-se aquilo que não é. que havia conciliar a verdade com a manutena verdade". lho. a expressão não obedecia os princípios psicológica que só se imporiam padrões a serem seguidos etc. Ora. ] Se não vemos sempre nas coisas mortais a ordem infalível que se manifesta nos movimentos do sol. e tanto mais quanto me recordo do dano que amor de dizer a verdade.. reduzire disside sacrifício" é necessário mular são os três momentos como. ao passo que os violentos não sabem gozar das que têm. "mais para destruí-Io em "quase exangue". 5). ao sair de si mesmos. corpo sacrificial. ( ( ( zar ou acentuar o oxímoro? De todo modo. Tenta-se neutralinão se confunde com aquilo que é" (ib..: 1641. não pelo salão iluminado.. não percebem o caminho que conduz ao precipício.Assim o III: "Jamais é lícito abandonar novidade em que.. (Nigro.. foi preciso que o reduzisse e reduzisse. O fato é que. "pois o escrever sobre válidas. esperando. 8). A alternativa se mantém po r um mínimo fio. não falta porém a certeza da eterna lei que tudo sabe aplicar para perfeito fim. convertendo-o 1983. antes... (Accetto. é o caráter obscuro do secretário que lhe permitirá Na aparência.. o fingimento: 42 e até que ponto". ]. da dissimulação por dade de não fazer ver as coisas como são" (grifo meu).4) Tanto poder-se-ia sobrevivência).. produzida controle. . dissimula-se mas por um obscuro aposento de trabaverificar o que apresentam. para que pensasse em publicar meu livrinho.. O então "estilo da perda converte-se Não temos condições de decidir se Accetto adotava o paradigma para que o livro dilacerado nas repetem o que a ordem exigia que se repetisse - cristão de que muitas páginas das poucas restantes apepudesse circular ou se o I. sem correr o risco de ser justificadoras [. o verbo "conciliar"já parece um oxímoro. O fato é que. é assassina sobre a qual.14). o II: "O quano v: próprio autor era um traidor dilacerado. O decisivo é o livro de Accetto referir-se ao mesmo jogo encenado pelo diálogo de Castiglione. cristã de sua experiência atinge o ápice na comparação do que havia escrito com o de Cristo na cruz. S. ] Ama a paz quem dissimula com o honesto fim de que falo.. e. (Ib. e. penso ser não menos capaz de meu parecer. em muita confusão acham -se frequentemente os negócios daqui de baixo. Tudo se resume a saber onde se concentra aquele "desenfreado os próprios títulos dos capítulos procuram ção da ordem -e to pode ser bela a verdade". demonstra poderia ter-me feito o desenfreado (ib. sendo igualmente quada a uma alma cristã e (b) conforme nua. calando. e barrocos. o Della dissimulazione onesta assume o caráter de autêntica que. e o prêmio e a pena. Contraface a exacerbação do processo do de um século mais tarde. S. ] Ainda que mui- melhor do que eu este material. Isso chega a tal ponto que parece oportuno orientando-o porém pelo prisma nou43 "Algumas vezes é necessária a dissimulação. Chamemo-Ias o propósito (ib.secretários não dispunham da cláusula do ridendo. Escrever.. que nem sempre vêm de pronto [. suportando. de que não estou amor".). à medida que age conforme ao que lhe sucede. 11). da lua e das outras estrelas. se não adotarmos uma concepção da história como mera reconstituição do que houve. do ponto de vista dos princípios com o romantismo. pois. Diante do final do capítulo tos entendam poder manifestar arrependido" cortes pode ser lido de duas maneiras. por qual delas optar?" [..

ao menos em solapá-Ias com tal destreza que nenhuma contramanha (contratreta) consiga decifrar sua vontade" (Gracián. Nada. a fluência ridente de Castiglione era desprezada por Gracián porque sua falsidade era demasiado clara. (Para evitar o processo controlado r da ordem a que pertencia. de tudo saem com fulgor. seus livros eram atribuídos a um pseudônimo.: 1947. deixando de vê-Ia como "um despojo pagão em um mundo cristão. Em EI discreto.: 1646. Todos os que o conseguem. B. para que os desvele em uma ação varonil. EI discreto (1646). O gran Filipo. em vez de o luxo ocultar-se em jogo dissimulató* Hoje. o varão excelente. B. aqui se retrai (e antecipa) na singularidade do gênio: "Seja. W. de uma imprevisibilidade que exaure a força da capacidade de observação" (Krauss. não paradoxal.). Nesta Espanha. Claras ou torturadas. alguns a reconhecem madrasta" (ib. não impusesse dissimulação (no encargase disimuIo) aos ímpetos do afeto" (Gracián. aquelas eram. a própria superioridade lhes dá facilidade. para o outro é desterro. os sucessores de Castiglione. pois.378). e. senão como uma criatura altruísta. primeiro em violentar suas paixões.) O pouco que dissemos sobre EI héroe se torna mais evidente no comentário a seu livro seguinte. o preferimos ao mais celebrado Agudeza y arte del ingenio (1642. o gênio singular. para o jesuíta. Mas.: 1637. O que. a esfera da agudeza. pois. escritas "míticas".desde el Oriente hasta el Ocaso -. muito pouco aguda. se. em Gracián. não podendo então o autor dela duvidar. ao passo que ele aprendera com Maquiavel a dessacralizar a Fortuna. mesmo a grande Madri. em sua quarta esfera. de La Rochefoucauld (1613-80). o luxo cultiva o sigilo. E o texto "exangue" de Accetto só não lhe seria abominável porque o desconhecia (só foi redescoberto por Benedetto Croce em 1928). jogasse com o duplo sentido do termo de chegada. isto é.A escrita há de ser "heroica': * como o seu agente: ''Atenda. porém. de ser ferido por calar-se. Naquela Espanha decadente do XVII.a menos que. melhor diríamos "casuística". o sigilo cerca seu posicionamento real. nem o culto em todos os discretos" (Gracián.cristãmente conformada.por acaso.9).377). é referência. no italiano. tampouco da mulher sem mácula.ditando recato aos termos da capacidade. a que nada embaraça. por ser mãe do mundo desde o Oriente até o Ocidente. rio. na designação de seu império . de Baltasar Gracián (1601-58). 10). em relação ao macabro Felipe Il. 76).: 1637. era uma dissimulação de eleitos.tras terras. encontram as coisas feitas. * Por essa razão. não se cogita nem do perfeito cortesão nem do príncipe ideal. 45 44 . ampliado em 1648). Refiro-me a EI Discreto (1646).W.em Accetto. A recusa (ou impossibilidade) de combinar as palavras com o real estado das coisas tornar-se-á o a prioritranscendental do pequeno tratado. indica que não cresse na fábula do senorio que concebe: Começa pela natureza e acaba de aperfeiçoar-se com a arte. a Felipe IV. no jesuíta espanhol o dilaceramento é objeto explícito de louvor: "leiga ficaria a arte se. B. os jesuítas confluíam para o. mas de pôr uma trava nos afetos para que a arte permaneça sacra.73). epicentro da Contrarreforma. o engenho. implicitamente afirmamos não ser este o momento de avaliar toda a fecundidade da obra do autor. nos concentraremos menos com o intuito de contrapô-Io a Il corteggiano do que de aprofundar o que a propósito deste chamamos de ficção externa. Numerando-o como "quarta esfera". argutamente Krauss observava. A grandeza atribuída a Madri é um embuste voluntário. mas não anômalo. certificada (en fe) pelo grande Felipe. em um trobar clus. abominado legado maquiavélico (d. Retração para o individual que não parece tão-só decorrente da condição de não integrado em cortes.: 1947. maduro. sedispõe a escrever. Já não se trata de identificar-se com o corpo macerado de Cristo. Sobressaem ao dobro seus feitos e seus * Ao dizê-Io. ao mesmo tempo que traiçoeiramente denunciadora -. pois sobre ela também pesa a desconfiança quanto ao homogêneo nestas vigente: "O que é centro para um. Krauss. nele. en su cuarta esfera. e às Réflexions ou sentences et maximes morales (1664). que reina de 1621 a 1665. em poucos se admira como se se deseja. Gracián não considera que. escuro e fechado ao ouvido vulgar: "O juízo é o trono da prudência. mas igualmente forçoso. que fingia desconhecer sua falência política e econômica. BaItasar Gracián: a exaItação do sibiIino Se. O acerto do herói está em trancar seus afetos. o dilaceramento que o texto indiciava era dilaceramento de si e provocava uma leitura bifronte . pois nem mesmo o heroico se encontra em todos os príncipes.. o seu já é um reino em ocaso .que o faça por modos de agudeza. em homenagem à prática com que. da boca para fora. cuja eminência e mediania deve se preferir" (id.

e tudo se alcançacom ostentação. pois hoje lisonjeia o que amanhã abomina e. ]" (ib. portanto. Já nomear os "grandes" é reconhecer a desigualdade. a uma opção retórica. a sintaxe gracianesca não se permite o ideal de clareza de Castiglione. Mas o gênio é aleatório.A espanhola é por natureza senhoril. A dúvida nem sequer se põe em EI discreto. segundo a ambiguidade assinalada logo acima. parece eminência. 18). O qualificativo "perfeita" decorre da pretendida obediência à ortodoxia católica: as desigualdades se integram na harmonia celeste. como vimos..O termo "discreto" há de ser tomado no sentido mate46 mático de qualidade descontínua. [.). Contudo. Por isso o louvor de Gracián da genialidade inclui a singularidade de um coletivo: "Há nações inteiras majestosas. A lição maquiavélica cala a igualdade de todos. com a presença do indivíduo. Por isso "animam-se uns com o mesmo que a outros desmaia. uns poucos desses poucos têm sua mediania disfarçada pelo poder de quem os protege. por certo. pois os desiguais que o povoam são entre si desiguais. logo acrescenta que "é de mar a sua condição [a condíção do homem]. ]Anoticiosa erudição é um delicioso banquete dos entendidos [. e assim como outras nações se aplicam ao obséquio. 12). pois. É ela que permite a ambiguidade na pequena fábula acima . mesmo uma escrita autoritária tem seus limites. é em Gracián muito menos extensa do que no núnóo italiano. 19). amanhã exortará com o favor" (id. É por conta desses dados que a ficção externa.. Era a sintaxe clara. Acrescente-se: o radioso que doura o ocaso não banha propriamente um grupo. o homem é "uma perfeita proporção composta de desigualdades" (ib.(lb.. a posse do lucimiento deixa de ser vista como própria da Espanha para que se converta em "virtude do discreto" que cultiva o conhecimento: "Não vive vida de homem senão o que sabe. qualquer mediania. ainda se discutia se era justa a diferença entre nobres e plebeus. não da afetação. Gracián vai mesmo além. pois implica uma nobreza ingênita. apontando para a individualidade excepcional. a conversão do "como se" em um pretenso dado da realidade. Mas cabe perguntar: por que ela se difunde entre seus companheiros de geração? Nomear o soberano de que era súdito de cuarta esfera parece indicativo de resposta: Gracián pretende nomear o ocaso pelo sol radioso que costuma acompanhá-lo. Mas a sinonímia entre gênio e individualidade excepcional seria impossível naquela Espanha que se recusava a admitir a passagem do tempo. em Gracián a palavra tem por defesa a obscuridade. que pressupõe e acata Ia ordinaria desigualdad. O esforço com que se empenham em esconder o trabalho que lhes custa.. não levanta até às estrelas senão para. porque sabem que a mesma mudança que hoje atormenta com o desvio. abatê-lo até ao abismo" (id.ditos. em alguns por natureza. nos outros por afetação" (id. Dito de maneira mais direta: o nobre de Gracián já por si supõe a desigualdade de talentos. Obscura. a razão da preferência concedida aos primeiros.). e se alegava ser a "obstinação dos senhores" a responsável pelo engano de tolos e grosseirões obterem fama. é um dom da natureza. Esta tampouco se limita às posições na sociedade. se não mesmo calar. essa não. isto é. Tudo isso é um faz-de-conta. no primeiro.).seja ele autossustentado ou "emprestado". assim como o próprio universo. O mundo não é só feito de desigualdades. mas sim ao mando" (ib. no seguinte. Não esperemos que o autor desenvolva o estranho conceito de uma singu1aridade nacional. senão que distingue a singularidade de alguém.. Cada um deles implicitamente estava dizendo aos demais: não recebam minhas palavras senão como apropriadas ao jogo com que nos entretemos.. O senhorio se afirma onde o autor afirme que ele é . que criava a dúvida. Senhorio parece confundir-se com gênio. um teatro fora do teatro. socorrida pelo senhorio. Isso porque já não lhe cabe empreender sequer o simulado diálogo que constitui Il corteggiano.tudo é logrado pela ostentação porque o senorío o assegura ou graças à própria superioridade. Usando o termo "mar" no sentido de elemento da natureza que muda seu estado com frequência. ] Nasce nos espanhóis a gravidade do gênio. sem que se explique como. o critério de Gracián terá outra direção com Diderot e Kant. Neste. afirmada pela ética cristã e então convertida em pura hipocrisia.. uma ficção externa. [. 11) Enquanto em Castiglione. Esta é a sabedoria dos "grandes mestres de marear em palácio".. propositalmente obscura. Não se confunde.. assim como outras sagazes e despertas.. de uns poucos aos quais Gracián concede o qualificativo de senhorio. instantes antes de que as trevas se façam unânimes. em dois imediatos instantes. e mesmo para marear. se é que. a sprez47 / I ( ( ( .. ou por uma e outra razão? Ser a obscuridade o traço primário de sua escrita remete. amiga íntima do lugar comum. . que o espírito desenvolve: ''A desigualdade é achaque de grandes e mesmo de príncipes. Víamos com Thomas Meier Greene que nenhum dos participantes dos diálogos de Il corteggiano deixava de pontuar suas intervenções com um ridendo.que haviam de evitar. Desse modo. Um século depois. os interiocutores reconhecem as trilhas perigosa~.

aborrece" (id. H. Em seu começo ou em seu fim. A contraposição Será preciso que tenha claro o limite do que afirsublunar e celeste é bastante nítida na entre os mundos (Gracián.. ] tiembIa Aristóteles considerava incompatível com o conceito de tempo pensar em sua mudança. 20). se condensa na imitação do esforço que custa uma obra de arte. (Blumenberg. e sempre satirizar. disfarces e boas maneiras. O autor o diz com mínimas palavras:" [. E a estrita igualdade causa enfado. desigualdade seu prolongar-se no reconhecimento ainda da vel que restabelecesse o divino. homem e mundo cabem na desigualdade. de um movimento de medida eterno e absolutamente regular. que recorre aos mais diversos formatos . segundo seu conceito... Daí de uma concepção entendia como uma soma caótica de vê-Io como precursor por certo uma enorme distância.20). transparece na própria composição de seu texto. criando o abismo que separa Gracián de Castiglione? O fato é que a redução do discreto a uma manifestação do gênio. com alívio e com aplauSe o elogio do herói ainda se adequava a uma sociedade aristocrática mais enrijecida pela Contrarreforma. para o qual são amadurecidas? aplaudirá uma semelhança ou o contrário" (ib. parecia inevitáe a eternidade. desprezo. já o do cordato e talvez o do néscio e nisso acaba.. ao Deus onisciente e criador do cristianismo há de elIos con razón todo discreto" (ib. extraía. por conseguinte. é um insightapto para desmistificar terminava o humanismo renascentista..94) Do Deus. Já em Gracián. a justificativa a moral. Em matéria de cordura. ] Cada um tem em seus tempos e ocasiões. ] Sísifos de Ia conversación [. ] Não há perfeição em variedades da alma que não estejam de acordo (que no dicen) com o céu. dom 49 antítese entre duas frases seguidas:" [. por isso o tempo precisava. o Deus faber cristão haveria de supor que sua criação consigo. ma. a partir da discrepância za fez do homem um compêndio Infeliz gênio do casuÍsmo de que sua ordem era acusada: ''A naturede todo o natural.... motor imóvel. a antecipação -Ia com a propriedade da ideia de gênio de uma nação embora logo turvada por confundia ficção externa com que estritamente humanos. descrevendo de fazer todos os personagens so. (.: 1646.. Em sua sin[. todo desigual é fealdade" (ib. abreviado. tudo isso são usos dos coniventes com a manutenção de uma imagem de mundo fictício. 25). Abaixo risos.. 12) -. da ficção externa. que. Por isso. o apólogo. ao contrário. faça o mesmo a arte de toda por uma única matéria [ . E ainda se intensifica importa na constatação do desacordo entre o orador e seu auditório: "Que este que as coisas estejam ao gosto do orador se não o estão ao do auditóPreferirá aquele uma sutileza. 21). vinda da Itália. o que via em torno de si. ção na variedade ressoa a incorporação de Aristóteles pelo pensamento somos nada menos que desiguais. podemos dizer: sísisão aqueles cuja conduta ou modo de falar sempre repete a (habIar atento) causa enfado. e sem qualquer consideração empírica. a carta. sempre filosofar. O dogma religioso é. Em termos taxe. entristece. "Sempre falar polidamente sempre caçoar. Mas a Igreja a que Gracián pertence participa e estimula essa conivência.. não surpreende si Ia variedad?)" (id. ]" a fonte da ficção [é] o que se declara dava um basta à proliferação. vem a ser harmonia. Assim como o Deus aristotélico era a consequência de ser o tempo um movimento eterno e absolutamente fosse harmônica sobretudo regular.. Sensivelmente corroído no que concerne ao exame da sociedade. da desigualdade o põe em um patamar antissubstancialista do e distinto do mero endosso à ficção externa. Da lua para cima não há mudança. "nace en los espanoles Ia gravedad del dade. de sua parte. ao menos ridente. corda até onde era possível. externa que ainda se mantém em Gracián. Esticando a e a que. enquanto rio.. Seria a derrocada da Espanha no século XVII a responsável pela pulverização dos valores socializados. A curta passagem é capital. o desprezo pela harmonia melodiosa. Pois. Fora a situação de decadência da Espanha...).). ] Todo o universo é uma universal varie48 . mesma nota tediosa. a aparência" (ib. que não poderia ser declarada. papéis. dizia:" [. já o de riso. Como sacerdote e já em desacordo o contraste entre o sublunar com sua ordem. Não lhe basta fazer suas obras circular sob pseudônimo. 19). Sem seu cuidado. Mas há um limite que Gracián não ousa ou não pretende transpor: a harmonia era querida por Deus. exigia a garantia metafísica de um motor imóvel (unbewegter Beweger). se o homem é um outro mundo que cifre em si a variedade (iqué mucho que cifre en a perfeicatólico: genio" (ib.. a sátira. entre o humano pranto. B. que. É evidente que o reconhecimento diverso ao da dissimulação poder-se-ia sujeito humano. já o de em um tempo perigoso como aquele em que vivia. no fim.zatura.. voluntariamente fos da conversação enrodilhada:" É válido pensar que a exigência dogmática de reiterar a harmonia.: 1988. o diálogo.a fábula. Mas algo não se modificava.

]" (ib. Não havíamos.: 1988. 1. opondo-se da Fronda derrotada. 1.. I). Mas. dotado de seflOrío. O decisivo. entretanto. (Elias. senão que era paga ao rei pela renda ao rei por meio de funcionários porta do contentamento do interrompido e da dita.. e sai-se pela do desgosto e da desdita" (ib. a discrição possa ser objeto de aprendizagem. será que o contro50 51 . não resulta- timada que essa receita real. do que com a doce falsidacom "[ . o discreto de Gracián podia ser educado? temeroso. um tesouro de que não se suspeitava. no começo do Quattrocento.. em Gracián. Lição de conveniência mas que saberia insuficiente em todos os empregos. com sua desconfiança. tão senhorial no do gênio. ela baste para explicá-Ia. ao contrário. Gracián antes se parece com um Maquiavel calculador e desenganado uma eminência. à centralização La Rochefoucauld pertena psicoel desengano: "As coisas comumonárquica. a ficção externa. prenunciada por Accetto e iniciada por Gracián. levanta -se um controle mais duro porém mais limita- do: a ficção da harmonia post-mortem. até agora recalcada.fora obrigado começo que chegara a prejudicar uma condição nacional.. A a tratar com seu senhor. Como. mas sim pelo que parecem" (ib. 153) por uma sombra de melancolia. ainda chegado a formular a questão da ficção externa. Enquanto que ainda seria válida para a conentrar pela e XVIII] criaram a aparelhagem Não deveria ser aqui subese artesãos. de A sociedade da corte. Exceto pelo fictício teológico que não podia senão abonar. 30). mostra bem o quanto a problemática que visamos elucidar -se na situação absolutismo que fatores retardaram dos pequenos a legitimação do romance se enraíza na história social. 25). de saber vender afetando encobri-Ia para conservá-Ia e ainda aumentá-Ia para o êxito em uma carreira: e ainda estados. Já não se trata de um grupo. ela mostra brechas se há pouco inesperadas. só de vez em quancom chegando em Castiglione reinava um dissimulado sua intuição pagos. que provocava a sucção dos nobres e sua absorção pelos monarcas: Pela distribuição los XVII monetária aos que servem a seus regimes. termina por dominar mente não passam pelo que são. torna-o um dom inato. o dos discretos. a La Rochefoucauld: a máscara que se declara máscara* O capítulo "A sociogênese da sociedade francesa da corte". 12). um Gracián desfazia-se das aparências e revelava que a desigualdade "A maior brevidade deste item se deve ao fato de apoiar-se em um argumento que já antes desenvolvêramos (d. vivência. Elias ressaltava que era a economia monetária. isto é. 28).. Será no ex-frondeurque o pleno reconhecimento desses mecanismos possibilitará que ressalte a tematização. Mantendo-se desenrola na França. e não mero jogo de cena e dissimulação. Vejamos então como esse processo de desvendamento Gracián. como participante cia à nobreza que. 27). à diferença da dos mercadores va do exercício de uma profissão assalariada adquirida pelas classes profissionais. Comumente. a aprenRindo. se. cuja corrosão. por isso. dos sécu- o desejo [. a que manifesta um como se assumido. condenar-se-á "por desconfiado único traço que se lhe apresenta como ensinável é mostrar-se apresentar-se ( ( con~essa [rá] vencido. fingia dialoO e se com as lições de Il corteggiano. ] de de Castiglione. confundindo-o Ora. É certo que isso não impede que.. dizagem a ser efetuada em nada se confunde aprendizagem gar. Concentrandoreinos separados dos príncipes alemães e do e não francês. sem que.I da natureza. Mas adverti-Io equivaleria a educá -lo? Por certo que não. no entanto. Contra sua ( e exploração. "Grande lição é esta de saber-se fazer estimar. mas da vida crua dos homens. a redescoberta ra na identidade dos tesouros da Antiguidade provocara uma fissudos humanistas. [os monarcas governamental. de Norbert Elias.. tem -se o cuidado de não se emprestar ( à expressão uma função monocausal. costuma-se mais o valor em si da terra. já se apoie apenas na instância religiosa. ao menos a pouca estima" (ib.. regozijo. C. le sobre a ficção interna. N. Por isso EI discreto implicitamente reconhece a necessidade de levar em conta a conveniência do que se diz ou faz: "No se paga en Ias cosas de Ia eminencia a solas. Se. Esse modo de exílio será o motivador lógico para que escreva não só suas memórias como suas Réflexions ou sentences et maximes morales. para De todo modo.: 1969. Entre uma tivo das letras e das artes em uma sociedade dominada tréguas conduzira ao jogo da dissimulação. classes e os Estados continha descoberta ta. provoca o desprezo dos outros. ao se falar em "motivador psicológico". por disfarces semelhantes. partir da desigualdade Se. sino de Ia conveniencia también" (ib.. do ficcional como alternativa discursiva. habilitava-se do corteggiano tinha por eixo a dissimulação. melhor concretizará a presença secular dos mecanismos de controle. natural.. o refinado culpor uma luta política sem entre as em plena Espanha contrarreformis- retirar-se para suas propriedades. no começo do Cinquecento.

algo que ele não encontra na partitura.e outra interfere um conjunto de fatores. não é isso. pois é impossível tê-Ia. acumulam-se razões que seria arbitrário (ou ocioso) querer especificar. 53 l' Nessassentençasmorais que publicou sob o título de Maximes. as paixões. em aliança com a religião. uma peça notável. T. constitutiva de um centro firme. as reflexões do nobre vencido eram simplesmente imorais porque negavam que o ensino cristão fosse bastante para a constituição de um centro firme para uma conduta eficaz e submissa. não mais se procurará a busca da virtude. E não era que o bispo lesse errado. acrescentemos. os vícios e as virtudes tornam-se atores independentes. invertendo sua posição. Daniel Huet . Ao contrário de uma fábula. forçava-o agora a notar: "Algumas vezes. se é tão diferente de si mesmo quanto dos outros" (máxima 135. havendo tão bem mostrado que nunca se cumprem boas ações senão por maus príncipes. procurava sujeitar. deixa entre parênteses exatamente o que procuramos entender: como o ex-frondeur alcançou o grau de expressão liberada que o convertia em tão incômodo? Mais diretamente. os resultados serão produzidos. comodamente. psychomachie allégorique. cada um é uma soma de contrariedades. mas o incremento do absolutismo.). O texto é a precipitação do hasard objectif Afirma-se dessa maneira que nossa ambiência adequada é o texto e não a história? Não. Enquanto exercício hermenêutico.: 1966. (O texto editado será bem mais contido). Psicomaquia. a confissão é um importante instrumento para selecionar a parte boa das inclinações "daninhas": "A imaginação não saberia inventar tantas diversas contrariedades quantas as há no coração de cada um" (máxima 478. Em vez da internalização adequada a um regime de súditos. como bem o designa Starobinski .que publicara. Eram cuidados 'de quem ainda tinha algo a temer. Apenas não podia ver o que hoje se torna patente para um crítico arguto: "Astendências. de modo algum no espírito do homem em seu natural e pelossantoscostumes. de que. salvo como ideia" (id. o conflito das paixões . assumem seus papéis e irrompem. O que equivale a dizer: entre o motivador primeiro e o resultado. Em troca. que. pois elas se inspiram. Seguia-se todo um parágrafo que será eliminado: "Uns creem que é ofender os homens deles expor uma tão terrível pintura e que o autor não pôde tomar seu original senão em si mesmo. por curvas de inclinação diferenciada.A contraposição entre a postura dos contemporâneos do autor e a que se abre a um hermeneuta de hoje facilita o que dissemos acima sobre os limites da profissionalização. Ele próprio exercera essa função unificada ante seus dependentes. basta como defesa que sua crítica esteja escrita em latim: mereça louvor completo. 724): "É um tratado dos movimentos do coração do homem. em sua redação definitiva. como conseguira afastar de si os mecanismos de controle que bastavam a seus contemporâneos e os cegavam? É evidente por que não se poderia ler o livro de 13 Rochefoucauld à semelhança das fábulas de La Fontaine. O decisivo é exposto pela própria constituição textual. D. 878. A fábula era um gênero aceito porque praticava uma ficção domesticada. 465). o que "não impediu que dele se tenham feitos juízos bem diferentes" (id. 723) Para a moderação do anônimo e o sem-medidas do bispo.). cuja diversidade de direções impediria que se propusesse uma cadeia cerrada de causa e efeito. são pequenos personagens que. não há nada que 52 .: 1718. Sem que fosse sequer preciso fazer intervir a imaginação.420). o anônimo abandona a agressividade explícita auteur n' en a pu prendre e manifesta sua polida discordância: "Uma pes1'original qu'en lui-mêmesoa de grande qualidade e de grande mérito passa por ser o autor destas Maximes". contudo. em 1670. A história social tem por papel concretizar um primeiro horizonte explicativo . ao bispo de Avranches. dizem que é arriscado explicitar tais pensamentos e que. será publicado no Journal des Savants. em 1665 (p.(Huet.dramaturgie jigurée. de que se pode dizer terem-lhe sido até agora desconhecidos". na pessoa. sem dúvida. as faculdades. Discretamente. a serviço do seu senhor.senãona depravaçãoda natureza e da corrupção da alma. como invasores" (Starobinski. 16).revela a realidade derradeira que o poder político. secularmente pressionado a comportar-se como um ente uno. o primeiro tratado justificador do romance como gênero -. pois para o historiador ele tende a ser secundário ou mesmo insignificante e para o analista de textos.indica a ambiência em que. partamos de um esboço de artigo sobre as Réflexions. O ensaio do crítico suíço é. as Réflexions tematizavam a fragmentação de um eu. Dizemos algo um tanto diferente: é a própria diferenciação profissional entre história social e o hermeneuta que provoca o fenômeno de o controle ser pouco percebido. Na busca de escapar dos obstáculos artificialmente impostos pela profissionalização.

nada dos que. de que as virtudes não seguira pintores à altura de Ticiano. os tempos dos irrealia. a de Barthes é preciosa. durante o século XVIII - com um divertimento educativo (aut prodesse aut delectare) - so que caíssem barreiras que se mantinham dava Só a exclusão sofrida por alguém que. R. A bela companhia do italiano tinha como condição o jogo dissimulatório. os realia. da qual manifestamente "imitava" A ficção submetê-Ia a modos de expressão aceitáveis não foi suficiente para que já se evido controle. "esquecer" o descontrole 55 .465). A dissimulação. aliada a um talento que.) em seu reduto teolóFelipe gico. a conver(implícito) da história social e. que à derrota político-militar do ficcional. em que se confrontam bem descrito em um dos melhores textos de Roland Barthes. em que a agudeza não feria o decoro se lhe impor uma ficção puramente teológicelesperante o mundo. Dito de maneira mais explícita: os mecanismos medicina se normas 54 embromação). não teria sido empregado não ser a serviçal a que estivera reduzida. a dissimulação cortesã era afastada em favor da afirmação precisa de que. A constante luta de si contra si próprio teve seu funcionamento dores. mentira. Para Starobinski. possível era controlada pela ficção externa (falsidade. o segundo acolhe os objetos reais. implicava esconder-se o esforço imposto para seu cumprimento. entretanto. quanto em um sentido mais acadêmico: a partir de instante algum. permitindo-se sunção. naram um meio liberado r dos entraves contra a ficção interna. não se confundia com mentira e falsidade. com especializados na arte verbal. a semente do Quijote cairia em uma terra em outras línguas. Para que o controle ultrapassasse fosse por se tomar consciência de que a ficcionalidade ainda era preciseus priviléna for- de Starobinski. externamente a regra da arte. mantinha mulação das máximas daria condições ao pensamento arte verbal e pictórica preensão colaboração a contribuição da cena então aberta contamos. Por isso duas tarefas se impõem: de imediato. E isso tanto em um sentido mais grosLes Réflexions se torimediato algum depois de conhecidas. pois formados por "objetos vãos. que antes se intensifica nos que se afanam na construção de seu amor-próprio do que nas almas comuns: "A mesma firmeza que e serve para resistir ao amor também serve para torná-Io violento e duradouro. melhor dito. o descrédito da moral tradicionalque avançaria mais rapidamente J. que tinha por critério determinante sidade (Starobinski. Podemos dizer que o reconhecimento por são de uma ética estrita no reconhecimento a junção de um e outro nos dá o resultado que se buscava? Tudo seria então mais fácil. Mas a comA palavra. por certo de maneira mais efetiva. em um primeiro Dela decorria que. precisamos que o mundo é a morada das desigualdades. substantivas. estéril e só fomentaria interdição primária - para a ficção externa. a frase bem-composta. no entanto. o contraste entre em seu de mérito que algo pode ser acrescentado. dispostos em dois campos. se distanciava. ou de preQualquer uma das duas afirmações seria prova ou de ignorância de controle se exerciam por uma homeopática. (Não se pergunte Basta compreender-se as pessoas fracas. armada em que a liberação estética da bonne compagnie. Gracián. que estão sempre agitadas pelas paixões. define a estrutura formal da máxima. estar atentos ao fazer e ao dizer coniventes.: 1961. te. assim como que são as instituições denciassem os mecanismos seiro: em momento de que é a própria vida humana que fornece a matéria-prima sociais que procuram paração com Il corteggiano e EI discreto nos permite ir além. Assim como a interpretação LXV).: 1966. sem sua derrota. as virtudes. fosse para que não se confundisse fortes. para. o controle era o "veneno" com o qual tanto se que circulasse desde que não irrealizasquanto se privilegiava o diálogo do faz de conta. delas quase não são verdadeiramente saciadas" (máxima 477.a luta de si contra si próprio. e os realia. removidos para seus castelos. acrescentava Barthes. ação': passava-se a uma "estética da expressão': atualizada É manifesto os dois intérpretes correspondera mostrarem a intenrefi- gios. que são.27). ca: Deus assim quis o mundo e a sociedade para os converter em harmonia ao grande casuÍsta como a transformação que a ficção externa se concentrava um território então reservada à obra de arte- seria operada. Desmascarava -se a ficção cortesãfina e erudita. em vez de "uma ética da na conversação de cogitar de a obra de Para a comcom a momento. de hermeneutas lugar a uma "moral da substituição". mantinha- IIjá não consua o mundo. irrealia. a seguir. aparências cuja realidade é preciso encontrar. "que compõem passam de sonhos" (Barthes. isto é. Já em reduzia a ficção interna. Contra o esperável happy end há de se acrescentar: La Rochefoucauld para a ficção' da arte. Ela supunha dois conten"tempos fortes': O primeiro abriga as "virtudes". para sobreviver. Não é Para Barthes. À medida que se mantinha -se oculta a "homeopatia". sua obra provocou o reconhecimento de que a arte sofrera um controle institucional. os objetos concretos do mundo. pagava o preço que se exigisse para que mantivesse intacta a afirmação do status quo. estavam excluídos de Versailles. clichê e composta em sintaxe bem ornada e vazia.

ofereciam condições de verificar-se.j{~ ( que se desvela. em La Rochefoucauld. procuro concretizar a situação italiana pelo exame dos poemas épicos de Tasso e Ariosto. 2. paradoxalmente. mostravam-se em um palco internacional e. senão que essa força se modificava. de modo mais acentuado com La Rochefoucauld.) A segunda tarefa consumirá todo o livro. o que haviam procurado esconder. (O leitor entenderá por que invertemos a ordem temporal e começaremos com a épica contrarreformista. por outro. A épica renascentista e da Contrarreforma QUE CONTROLE SE ABRANDAVA? ( À medida que passavam das pequenas cortes italianas do começo do século XVI para a Espanha da primeira metade do XVII e. e voltar à situação de que partíamos: da Itália renascentista e da Contrarreforma. Como certezas dessa ordem não são fecundas. sob condições tão opostas como a da figura que luzia nos salões versus a do responsável por dar sumiço à "roupa 56 57 . sem deixar de ser poder. Estaria a razão dessa ambiguidade em o poder controlado r. no esboço de uma teoria do ficcional. ao menos em parte. sem que nos permita ir além do século XVIII. daí. De todo modo seguir essatrilha suporia estar seguro de que o controle concernia ao ficcional. por um lado. em parte com Gracián. O objeto inequívoco de Il corteggiano e La dissimulazione onesta era a conduta adequada dos serviçais do príncipe. condições de pensar-se. perder força? Não diria que a perdesse. para a França absolutista da segunda metade. depois. dando. os mecanismos de controle do ficcional.

Por enquanto. Demoramo-nos na recapitulação porque os itens a ela relativos do capítulo precedente talvez não tenham sido bastantes. que deve prender nossa atenção. contudo. Era enquanto se mantinha religiosamente fiel que Accetto agia como traidor. * Poderíamos confirmar o processo que estabelecemos entre Castiglione.* A dissimulação cortesã mantém vivo o sentido mais frequente da palavra jictio: é mentira. assim também o cortesão haveria de se conduzir. Que traía a dissimulação do secretário se não que seu ofício consistia em ocultar o que não deveria divulgar e. pois. a acusava e. sim. ao passo que o futuro autor de Il principe (1532). dissimula-se aquilo que é:' A dissimulação não desvela. de fazer juízos éticos sobre cada um. Maquiavel deixara de servir o governo florentino desde que. T. o Renascimento fundia o legado romano com as normas cristãs. segundo seu modelo consciente. falsidade . para escrever sobre a dissimulação. mas de observar que a antítese de suas condutas era motivada por suas opostas posições quanto ao mesmo regime. fingindo-se que ela se confunde com a naturalidade do jogo. era traição. a harmonia celeste. em Il corteggiano. No entanto. dissera que. as duas leituras se justapõem. É explicitando o exato sentido em que Acceto agia como traidor que se manifesta o que Il corteggiano cumpria sem embaraços. Portanto. Acrescentamos que isso poderia ser tomado como prova de que o autor mantinha uma justificativa cristianíssima para o que soubera ser forçado a fazer. inventar.se se preferir. o cortesão extraía uma propriedade básica para o bom exercício da dissimulação. o poeta-secretário. B. ] Se se considera a natureza por tantas outras obras cá embaixo. Mas assim será de fato? Recorde-se que Castiglione definia a conduta do cortesão a partir de um corolário da formulação 58 dos antigos sobre a arte: assim como o artista deve esconder o quanto lhe custou alcançar a exata formulação de sua obra. daquela que exercitava ao compor seus poemas. Um dado biográfico é decisivo para compreendê-Ia: enquanto Castiglione sempre foi um serviçal ativo. ainda que identifique a beleza antes com a natureza do que com a obra de arte.. mesmo porque toma a desigualdade como dado da natureza. Sua "dissimulação honesta" então não seria uma violência . os papéis desempenhados pelos dois autores não remetem centralmente à questão da arte.: 1528. aproximando-o da imagem do Cristo crucificado..da arte. referida apenas por comparação. que visava a parecer bela sem esforço. ainda se procurava traçar o processo que levara da Itália a Gracián e. o rei tinha sua conduta dissimulada em nome de sua própria missão e disso se encarregava o modesto secretário. em setembro de 1512. subentende-se que Accetto compreendia que a arte também pagava o preço da dissimulação. 59 . a de Castiglione seria uma dissimulazione tecnica. ao ajuste entre a ordem política e o poder religioso: representante de Deus. ainda.suja". No esforço de restabelecer o elo entre a tradição sepultada e o tempo de então. mas esconde em nome de um bem maior. quem enseja a compreensão mais direta do processo que se desenrolava. os Mediei encerram o período republicano. isto é. a traía. Não se trata. dando a entender que chegara à graça e destreza quasi senza pensarvi (Castiglione. Accetto. à arte.: 1641. em Gracián limita-se à ficção teológica: Deus nos quer desiguais para que componhamos. Accetto. se insinuava: a de alguém que. criar. A ampla ficção externa em que Castiglione se empenhara. deste. e recalca sua acepção positiva de fazer.33). O discreto de Gracián já não precisa fingir uma igualdade dialógica que sabe falsa. Tanto Castiglione como Accetto eram poetas. Ali. convivia com um circuito aberto. dando condições para que se constituísse o controle moderno do imaginário.Ao contrário do que se inferia de Acceto. uma outra leitura. tivera de rasgar muitas páginas etanto diminuíra sua matéria que quase a tornara "exangue': Vimos com Salvatore Nigro que a imposição de cortar o afetara como se houvesse cortado na própria carne. que seu ato se baseava em um código católico de conduta? Mas a traição não chegava às raias do teológico. Gracián e La Rochefoucauld em termos puramente sincrânicos.esforçando-se em vão por servir aos novos senhores. "Simula-se aquilo que não é. A comparação de suas formulações mostra que a dissimulação que praticava não era da mesma ordem da que alegava estar incluída na formulação da beleza. O que equivale a dizer: nossa indagação não pretende chegar ao começo do controle O). apenas mudando de senhor. considerando a contemporaneidade de Castiglione (1478-1529) e Maquiavel (1469-1527) e a completa diversidade de conteúdo entre Il corteggiano e Il príncipe. Dissimula-se a técnica.. já no início de seu livro. a La Rochefoucauld. pois o próprio Accetto se identificava com o sofrimento do Crucificado. é encobrimento prudente. Em vez de onesta. Porém é o menos celebrado. assim denunciando-a. reconhece-se que toda beleza é apenas uma gentil dissimulação" (Accetto.62) . mas à sua formulação moderna.. Embora opostas. "[ . depois da morte. acentuando a arbitrariedade do tanto cortar. não mais conseguindo reaver seu emprego. porque é ele. O primeiro se mantivera em um circuito fechadosuas tarefas estavam previamente consignadas -. refletia sobre o que bem experimentara e conhecera e formulava as condições "realistas" que o senhor teria de cumprir para se manter no poder.

bem como seu ensaio doutrinário mais abrangente. que. Deus cria uma orquestra em que as diversas seções de instrumentos não prejudicam a consonância. sob a chefia de Gofredo de Bouillon . assim como a reincorporação de Aquiles e Rinaldo são decisivas para o desfecho. O tempo parece não contar na declarada busca comum de glória pelos heróis. O estado político do Ancien Régime . Embaraçava para quem?. O último passo a que nos referimos fora dado pelo nobre francês. pois eu diria: o controle neles ainda melhor se afirmaria porque estariam satisfeitos em confundir o objeto de arte com um engenhoso quebra-cabeças. a arte. assim como os que não entendem a razão do ceticismo do nobre francês. o autor abrange toda a condição humana. em que a arte se autonomiza das instituições de que estivera a serviço. Feita a trajetória. Seu horizonte concentrava-se na visão da liberdade a conquistar. Hansen e eu não concordamos. temos uma via precisa: considerar o Gerusalemme liberata (terminado em 1575. publicado em 1581).a conquista cristã de Jerusalém aos árabes. verificando como sua composição e as ideias que defende evidenciam o controle que internaliza. nossa atenção concentrou-se em aclarar certo abrandamento do controle.descrito sem que o poeta tomasse partido -. Como não poderíamos fazer a análise do poema enquanto tal. na Ilíada. Madame de La Fayette. TASSO: O CONGELAMENTO DA ARQUITETÔNICA ÉPICA Para que o esclarecimento acima não permaneça em uma mera escala especulativa. De Il corteggiano às Maximes evidencia-se a corrosão do estrito controle ético-religioso. É por operar nos campos do ético. do discreto. de Torquato Tasso (1544-95). tornava-se indispensável voltar a seu ponto de partida e mostrar como a dissimulação supunha o estabelecimento de uma ficção deslocada. A desavença entre Agamêmnon e Aquiles encontra seu equivalente na discórdia entre Gofredo e Rinaldo. Para ele. aficção externa. os Discorsi dell'arte poetica (1587). mostrando como os mecanismos do controle nela ressaltam. não esteve motivada para repensar o processo do controle. dotando-a de uma matéria "histórica" . Com La Rochefoucauld. bem como na intervenção do maravilho61 . os que não dominam o código do cortesão. pergunta-me meu amigo João Adolfo Hansen. Mas. que La Rochefoucauld permite compreender os mecanismos de controle do imaginário. Se tivermos tido êxito. não estaríamos senão a repetir o que já tanto se fez. O Gerasulemme liberata é a tentativa de emular a épica antiga. paradoxalmente. explode a prenoção da harmonia post-mortem. "imitava" e embaraçava a fic60 ção da arte. por sua própria constituição dissimuladora.sob uma ótica inequivocamente parcial. A análise dos Discorsi limitar-se-á a ratificar ou precisar melhor a direção emprestada ao poema. das décadas finais do século XVIII. Mas ou a suposição de que o controle tinha o imaginário por alvo seria enfrentada ou nos arriscaríamos à contestação de que o controle fosse um mecanismo que unicamente visava à conduta política dos agentes. Ao afirmá -10. no processo de sua autonomização. Deveríamos então nos dar por satisfeitos e abandonar a cena renascentista? O caminho correto é o oposto: mergulhar de cabeça na própria tentativa renascentista de retomar a via épica. teremos mostrado que não estamos "descobrindo" o que já se sabia. tomando por suposto que ele concernia ao ficcional interno à arte. pois o resguardo do regime absolutista não podia depender da mesma regra de administração e policiamento vigente no regime dos condottieri. Contudo tampouco tematiza a questão da arte. Mas e aqueles que dominam o código e sentem o jogo da ocultação como deliciosamente intrincado? Aqui. O fenômeno do controle do imaginário só pode ser intuído a partir do instante. Não há nada de extraordinário no fato de que essa corrosão ocorresse. O que. ousasse ser autora de romances. depois de uma breve consideração geral nele estabeleceremos um corte transversal que procurará ser fiel a seu caráter. os homens são desiguais não só pelas posições queucupam na sociedade. torna-se a luta entre mouros e cristãos. provavelmente. fora o choque entre Troia e a liga comandada por Agamêmnon . Por isso essa recapitulação se impôs.como todo e qualquer estado político tinha seus mecanismos de defesa. por observar a antinomia entre a norma afirmada e a prática aí operante. do psicológico e do político. assim como um pouco antes para Montaigne e logo para Pascal. senão que cada um de nós é uma colcha de retalhos.Maestro. os vulgares. Concordamos em que embaraça. A diminuição das regras e normas que as artes deviam obedecer permitiria que uma contemporânea e amiga do ex-frondeur. A desmistificação gracianesca tem por objeto exclusivamente a figura do discreto. Enquanto estivemos preocupados em explicitar esse processo. desde logo. Caso o controle não se referisse ao imaginário. Por isso mesmo são controlados.

(IV. gos. de um lado e do outro. E todos os estranhos monstros nunca vistos ou sabidos. ao contrário meter os deuses pagãos à linha dura imposta pela Contrarreforma ao poema uma meta declaradamente Conquistar os nobres muros de Sião e retirar os cristãos do jugo indigno da servidão amarga e dura. Por certo. no fim da vida. (Tasso. por paixões amorosas entre guerreiros a divisória contrarreformista se estas já não fossem cristãs convertipor se converter. insatisfeito da beleza externa. a escre- das. Pois. 1-6) o Canto afasta-se da ação que justificava a empresa e o desvio se amplia na onde tenha a piedade sede segura. Armida faz estragos. esplêndida em beleza e feitiçarias. ou não terminassem a crítica da época não deixou Tasso em paz. propõe-se ajudá-Ios. (Apesar da concessão. rei e mago de Damasco. vencer povos invictos e legiões armadas. enquanto com a atuação dos demônios em onde o fogo do amor se nutre e desperta. Uma mixórdia de discórdias. T. a abandonar seu 63 . vv. Sem negar sua condição de nobre e moura. 31) ( Gabriel será o agente extraterreno decisivo para os a cristãos. E ciciar Hidras e Pitões a sibilar E Quimeras a vomitar amargas chamas E horrendos Polifemos e Geriões. (1. sendo obrigada. Tem ela a missão de seduzir e. Aproveitemos uma das flechas de Eros para com ela constituir nossa travessia.23. os demônios. IV. como Ermínia. entretanto. enviando para as hostes cristãs sua sobrinha Armida. acompanhados do que há de mais terrível na mitologia. já não se interrompe o amoroso pensar que. entre vestes e madeixas. heróis. forma cristalizada se desfaz. a intervenção do maravilhoso e o caráter nobre dos protagonistas que. (IV. ver uma versão expurgada.) No Canto IV. então. La Gerusalemme conquistata. parte das mamas surge dura e crua. e as Górgonas e as Sibilas se confundem prol dos mouros. a outra a recobre invejada veste: invejada. preferindo uma versão o quanto possível literal. Esolen. o próprio Gofredo: 5)* o acúmulo das aditivas compacta a presença do execrável entre os inimida voga renascentista do mitológico. Utilizaremos ainda a excelente tradução para o inglês de Anthony M. Em um ponto. obrigando-o. Se a divisória cristã entre o bem e o mal é absoluta. 27.Armida alega haver sido traída pelo tio. o chefe apenas eventualmente. religiosa: na espera de. Mas a rigidez contrarreformista provoca a primeira diferença: as figuras meta político-genealógica são atravessados ameaçariam - a fundação de Roma -. 2-5) lenta e longa descrição dos seios de Armida: Do antigo modelo épico. fundando na Palestina um novo reino. Tendo a Eneida como padrão. a usaremos ( ( Ao chegar ao acampamento inimigo. eternos rebeldes. se possível.: 1581. 62 Gofredo resiste a ser seduzido. para não morrer. mas indo além de sua * Embora a tradução do português José Ramos Coelho (l832-1914) esteja reeditada. vv. por atributo de sua forma sem par de seus dons de jovem efêmea aceita o encargo e na mesma noite parte e escolhe ocultas sendas. afastar do campo de batalha o máximo de guerreiros cristãos. os cantos do Gerusalemme cristãos e mouras que mitológicas só podem acampar entre os muçulmanos: Aqui verias milhares de imundas Harpias e milhares De Centauros e Esfinges e pálidas Górgonas Muitas e muitas a ladrar vorazes Cilas. Tasso mantinha a meta da glória buscada pelos o belo seio mostra sua neve desnuda. em troca Tasso consegue manter de Homero que a honra e o valor guerreiro se bipartam igualmente entre os dois campos. nos cultos segredos ainda se interna. Tasso tinha de sube emprestar A bela Armida. Idraote. de 1593. mas oclusa ao passo dos olhos. se destacam. resolvem enfrentar os cristãos.so.

Armida sai de cena. assim. enganado. a "seguiram àsocapà' ao cair da noite (v. inclusive 782-5). Rememora-se fora Rinaldo. a outra moura que causa estragos. porém. que só do Amor sereis guerreiro. seguido. a vitória de Gofredo contra os mouros abre-lhe os que Armida aprisionou. se recusassem a renegar sua fé. o Aquiles cristão. por direito. No palácio em que Rinaldo fora cativo. vv. entre ébrios prazeres (cf. depois de desligar-se do exército cristão. Reaparecerá indirea linha do poema. nesta sombra. estando certa que a eles se aliarão seus fiéis amigos e o povo leal (w. Renasce a fé em sua alma. 1. os trouxera de volta à forma humana e. (XVI. 48. Armida. Embora Tancredo vença o gascão que se convertera Mas assim não pensam os dois que Gofredo enviara em busca de Rinaldo. Eustazio consegue que dez guerreiros se disponham a acompanhá-Ia. Sendo bastante tortuosa meio de Tancredo. vv. Não morrerásNão o temas. aqui o conforto de seus enfados.. a afastar-se dos companheiros. Não fora transformado Sem a pretensão de seguir sua sinuosa que a prisão de Tancredo teria o em peixe. 76. escudo" que refletia seu XVI. Termina. Gofredo hesita e considera a vantagem que seria dispor em Damasco de tão importante vassalo (IV. no castelo (VII. sua maior vitória fora provocar a desavença que excluirá Rinaldo. 6). É então que Ubaldo. Ela só tem sentido que sua relação com Rinaldo é especial. vv. O encarceramento daquele o impede de comparacer à arena. tampouco linha. intenta cativar outros mais. 58). tivestes de empunhar armas.reino. Tancredo chega ao castelo em que Armida prendera iludidos inimigo seguidores.. XVI. como os outros. Armida sente que seu plano funciona e. podeis agora por certo depô-Ias e. as estradas e. em quem "o milagre do amor destila o pranto em chamas/ e o coração inflama" (w. que lhe revela as "indignas pompas. 32-46). Sua situação e ausência deixam-no duplamente envergonhado: fugido do duelo. Rinaldo. que. 29). é de supor que fale pelos amantes: Este é o porto do mundo.l)? Só durante o dia. a indignação vitude" (XVI. o e libertara. vv. 21. e como. Aqui permanecerás/ por dias e anos. com voz de sereia. o jovem Eustazio. v. Embora a palavra seja de quando se subentende simples prisioneiro. Propício à loucura que termiem vida. Seu poder de maga convertera em peixes os que a haviam os mandava para seu aliado. contudo. excedendo Circe e Medeia. Argante. Até agora. consagrá-Ias ao sossego. 7-8. 1-2). 64. Com o aplauso dos que ali se encontram. Eros é o aliado da bela e seus demônios. ]/ oh pri- sioneiro de Armida. que se perdera na busca de Clorinda. pelo reflexo de seu escudo de bronze. "a arte tanto se fundia com o sem 10. e sentir-se o prazer já gozado na idade de ouro quando sem freios eram livres as gentes. está Rinaldo sozinho. escolhidos por sorteio. como novo Aquiles. A tudo 18. levarão Rinaldo. vv. no sepulcro dos vivos" (VII. senão o duelo de Tancredo com um dos chefes árabes. O empenho que suscita entre os que deverão segui-Ia inflama ciúmes e contendas. Vem. que. a escuridão da noite o leva a penetrar.2). por isso. exceto o gascão já referido. com seus olhos "úmidos e lascivos" (XVI. 63) vitória. 63). v. Assim como Perseu conseguira. Extraviado. a Tasso deverá ter mais custado a "libertação" 65 (x. Mas o semblante magoado e as lágrimas que molham seu peito são argumentos mais fortes para o irmão do chefe. Além dos que. com os quais possa recuperar o que. os encontrara 64 na por dominá-Io de . 79. que nele provoca a vergonha "e que ao rubor da face um novo fogo suceda". ver a pasmosa Medusa e matá-Ia (Ovídio: Metamorfoses. Sem que se detalhe como. IV. Mas o foco do canto não era Armida. 47. Acompanhe-se a tortuosa trilha. também fora encarcerado por Armida. consegue encontrar Tancredo está preso e parece haver espantaria que a um agradasse o mando e ao outro estar cativo (cf. [. com ela. é seu. agrilhoados. pedir a Gofredo que lhe ceda guerreiros. por rejeitar o pedido. (xv. sido passageira. E escuta quelhe dizem: "Em vão. tentas sair. rei do Egito. Mais do que um ele se torna cativo de seu amor. 5-8) a que estivera submetido. a seguirão. avança e põe diante de si o "adamantino estado lânguido e voluptuoso. 8). súdito de Armida. Rinaldo alcança ver em que ele pró- prio se tornou e esmagar o encanto que o subjugara. 66). Tudo isso são detalhes que podemos eliminar para que nos concentremos na cena especial: a visão do castelo de Armida. 1-2). imunes "ao doce campo de batalha do leito/ e à branda relva dos prados" cuidado/ dominava que se acharia haver natura ornado o sítio" (XVI. Por que Armida. e VIII. insígnias da mísera ser34. ressurge por seus em VV.5-6). um dos emissários do chefe cristão. além de desfalcar os cristãos dos autorizados a acompanhá -Ia. V. passamos para o canto xv. O relato tem uma nova interrupção. A vitória da bela moura ainda aumenta com os que. embora não autorizados. Depois de sua momentosa tamente no canto VII.

.. Ao resgate de Rinaldo do porto deI mondo corresponde a separação dos amantes.. Em episódio tão ousado como o anterior. ímpia promessa. é inútil sua tentativa de defenpara que se cumpra a alee se acusa de havê-Io der o mundo paradisíaco. ] Não esperes que te suplique./ struggi (XVI.. vv. se queres negá-Ia e te pesa mesmo lembrá-Ia como inimigo ao menos escuta: as súplicas que um inimigo às vezes do outro recebe. ] Tira enfim este e1mo. 7-8).Rinaldo do que sua submissão topos que a Contrarreforma à maga moura. ] ': como se ele houvesse de ser lido literalmente. é posta a salvo pelo árabe que a ama. 47. te prendi. prestes a se matar. Rinaldo volta a encontrá-Ia convertida em árvore (d.. ] não ocupa os lugares éticos dos limites da razão. É tenro aos golpes: bem o sabe Amor que nunca seta deixou de tocá-lo. Mas o próprio poeta desmancha o embuste. está todo teu valor e tua vitória. em um lugar ignoto e estranho. a hora da derrota havia soado. Isso fomos por um tempo.. À Armida o poeta não recusa a coragem de acompanhar os sarracenos na última hora. Fazia-se assim receptivo a um "a lou- Armida fora vencida por arma que não controlava. travaglia.. Mesmo eu aos cristãos odiei. faz agora com que o conclame a atravessar o mar e destruir o que é passa il mar. funde os teus aos meus lábios. atraindo-o como os outros para afastá-Io das armas: estrofe 47. 44-6) E. Nasci pagã. e te lonta- Sua derrota é indispensável increpa É esse o momento áureo do poema. vv. Anuida. exigida do poeta pelos quatro censores do Collegium Em estrofes preciosas.. XVIII.. seu: "Vattene. que retornam mentos. <? ex-amante enganado. posto que cedas. Se te parece justo. que ainda procura seduzi-Io (d... pugna. cruel. desespera-se em se ver abandonada. Tasso traba"te perseguii. apenas atenuado por ser um recurso cujo uso Virgílio legitimara. [ . faz parte da ilusão ( demoníaca que o maravilhoso cristão não admite que vença. Que sucede com Armida? Combinação de Circe e Dido. abrandado lha com a ambiguidade do verso 7. (XVI. cura [. ainda o desafia: 66 67 . Chegada ao reino do Egito. romanum. Mas logo se corrige. c. (xx. És amante ou inimigo? [. Para os infiéis. dizendo-se (XVI. 5-8) [ . e te pus distante das armas. ] Te enganei. não o nego.. te persegui.: 1976. a seus respectivos acampao paroxismo do final da te presi. 30). nu e diante de ti. 32): O que te peço é tal que o teu desprezo. assim como as demais metamorfoseadas. te nutri de nosso amor. iníquo engano deixei-te colher minha flor de virgem. o peito ao peito. Mais do que suas antepassadas. alheia à fé que havia sido sua. vv. vai adiante. 124. Mas Armida. descobre a face ejunta os teus olhos aos meus se chegas como amigo. como amante deve ao amante. te fiz tirano de sua beleza aquela que a tantos fora negada e te converti em seu dono. Se me odeias. mas os edênicos do esquecimento da razão [. Armida só espera a morte e desafia Rinaldo a que a cumpra: Neste seio meu. ficará ileso. da estrofe 45 - goria da vitória cristã. no/ da l' arme [ . idolo mio crudele" "Che dica nostra? Ah non piil mia! 47. por certo. não venho privar-te segue e me odeias. odiei mesmo a ti. toma ao menos minha mão em tua mão. agora que adora a um humano: Fedele/ sono a te solo. 5-6). ]" (Ossola. empenha-se em emular os guerreiros que hão de vingá-Ia. e nisso sentes prazer. No transe da batalha. XVIII. usei vários meios para que teu império tivesse um horrendo fim.172). submetera t'affretto" a mesma paixão que a Ia fede nostra: anch'io não conseguira desfazer: no Renascimento.

* O interessadoem conheceras demoradas(etediosas)polêmicassuscitadaspor Tasso. sem que se sentisse obrigado à pelos fatos históricos. Loucura de amor e altivez diante da morte se mesclam na grande personagem do poema tassiano. sua espada tornaria a morte odiosa. Não se pode dizer o mesmo de Rinaldo. respectivamente. e. e não na posterior "símil" implica aquilo que se aparentava ca que Tasso optasse por matéria Terra Santa (1096-9) mínima consideração denega o que devia estar controlado. pressupõe-se símiltermo em que. teu título maior e grande despojo. a forma nova do acepção schlegeliana. não é verossímil que uma ação ilustre. CostaLima. à condição de mulher só cabe a submissão. caps. * Tal estrita exigência explicruzada para a reconquista da a primeira liberdade vigiada. do argumento. F. O termo "verossímil" há então de ser entendido com o que é. não é a Rinaldo que a implora: ao tocá-Ia. A liberdade do poeta era uma Onde a Contrarreforma domina inconteste. se não se mostra acorrentada a teus despojos uma mulher. identificando-se to. e o gênero histórico. Jerusalém é conquistada Era o imposto ao poeta leigos por sua propensão poetológicas. E logo acrescenta: Conforme penso.3. Por esse motivo. e em grau algum. Mas a Quais sejam eles é ainda discutido e ressaltado pela teorização do mesmo Torquato Tasso. vv.sobretudo as de cunho poetológico.351) O poema épico (outras vezes chamado de heroico) tem.Tua honra por certo será manchada. entrançado na realidade. 132) A REFLEXÃO DOUTRINÁRIA DE TASSO Os Diseorsi dell' arte poetica (1587) nos interessarão complementar.: 1587. não tenha sido escrita e passado à memória dos pósteros. sair do pranto. disse-lhe. concentramo-nos entre o fingimento. mas não te peço a ti. declara que ou se finge o argumento. na sua definição Logo no começo do ensaio de 1587. E Armida lhe obedece . O que não fosse especificament~ maneira sofisnas normas da invenção do poeta - tinha por certo o precedente de haver sido cultivada na Grécia e em Roma. em que o realce do à verdade. romance. discurso histórico. por isso. devendo o épico buscar em todas as partes o verossímilo que pressuponho é um princípio conhecidíssimo -.* O corte transversal que operamos parece tornar evidente que à busca de restaurar a antiga épica correspondia transcritas a exigência maior de que a obra de agora se se bem que o sensualismo das passagens como ilustração de um código A épica submetesse às normas do catolicismo - não precisa.deverecorrera BernardWeinberg(1961. regra é não poder se desviar de seus rígidos parâmetros. 1. Se aos protagonistas masculinos ainda se admitia que morressem lutando. Se a morte faria cessar sua dor. fragmento sua subordinação someno ao veros- Amor e ódio. respaldada pela história. pois não há coisa que. 175). a história é outra. 954-1073)."Eis tua escrava.11. 68 histórico se justificaria como resultante mática de desculpá-Io por fazer com que seu poema se enquadrasse * Paraa reabilitaçãoda"verossimilhança". com a ajuda de alguma história. é muito melhor que se tome da história. para que o poeta participe não só na escolha mas ainda na invenção. 136. como são as do poema heroico.1. (xx. Houve um tempo em que te roguei paz e vida. dela a teu arbítrio/ dispõe. No poema. as duas faces de Jano. e converteu em lei o seu convite" (xx. termina por se converter. apenas como subsídio na relação que estabelece como invenção. do maravilhoso. 69 . 7-8). porque. traste com a diferença sutil que estabelecerá verdadeiro 1798. E já provocava nos senhores religiosas e de seus versos. em conFriedrich Schlegel: "O que parece no fosse. portanto. que tantas desconfianças pela liberalidade à demência. fosse pelo Armida. hoje me seria doce. daí. passívelde sercumprida emuma teoria do ficcional. (Tasso.: 2000. 1. vindo de ti."Eeco l' ancilla tua" . Com a morte. não me seja odiosa. A sua expressão era permitida preestabelecido. de imedia- sentido mais estrito e estreito possível. Em ambos os casos.XIX e xx. : 74. crível pelo leitor. desvencilhada do romance de cavalaria.cf. que cumpre o papel que dele se exige: solicita-lhe que se converta. classicamente.60-9. ser verdadeiro" (Schlegel. mostram-se a um só tempo. assim como a Clorinda de que não tratamos. ou é ele extraído da história. como críticas às autoridades te duas fontes: a invenção como pura fantasia do poeta ou a que faz imitando se ressaltava o peso da verdade. não cria continuidade.

a razão do maravilhoso) e reconhecida poeta. Iremos ver a escala do que Tasso teve de sacrificar ao compará-lo O compromisso autoridades intentado.. (b) aDido cristianizada. em batizar-se.que lhe eram impostas. A posição do poeta cristão seria mais cômoda: os teólogos lhe ensinaram tros. ser percebido catolicamente. Ettore Mazzali. Assim. (os anjos) ou as entidades que atuam com sua perapenas o que tem a de Armida: (a) as figuras e bruxos). Essa condição é a que constitui a natureza Mas. obviamente. de algum modo barganhar admitia-se o contro- Dito de outro modo: não se discute o verossímil tendo em conta o perceptível. que ainda teve a sorte de escrever antes que as cadeias se ampliassem. nem muito próximo à memória de nós que estejamos que se contrapõe ao vivos" (id. adeptos e a obediência à história tal como determinada aceita a potência divina em operar tais feitos. Entre os antigos. senão quané o resultado de medida que sua louca paixão termina por fazê-Ia acatar sua dita condição feminina e. e de século não muito remoto. considerando-a estabelecida por esses termos em sua razão [considerando a ação quanto à causa extraterrena que a determina]. é aceita no poema à religiosa. (lb. na história que privilegiamos mitológicas pagãs confundem-se recer ao lado dos infiéis. por- fazia em favor do poeta épico. foi introduzida de Tasso é confusa. E o verossímil inquestionável seus agentessupraterrenos missão (demônios religiosas. o poema épico é comparável ao trágico. (lb. Assim disposto. verossímil. 360-1) Que pretendia Tasso no estabelecimento da diferença? É evidente que ela se " A passagem entre colchetes é extraída de uma nota do editor. por isso. maravilhosas" criança". Os épicos admitem ainda não só o ápice da virtude mas o excesso do vício com bastante menor perigo que os trágicos. A questão que interesesse é é comisto é. algo era ali sacrificado: a intede sua invenção. simultaneamente. Para o nosso propósito. sua cagione (isto é. Mas Uma mesma ação pode ser." a qual é uma virtude sobrenatural. a sua disposição dual. o trá- gico os encara como reis de alguma culpa e. não por um motivo como se verifica em Castelvetro.. o maravilhoso pagão não tinha vez. o maravilhoso legitimado é tão-só aquele em que se concorda estar presente o Deus cristão. catolicamente. "que viviam nos erros de sua vã religião". por Tasso ainda permitia é verossímil. Um pouco antes já afirmara: "Tome-se pois o sujeito do poema épico da história da religião verdadeira. maravilhosa everossímil: maravilhosa. isto é. do ponto de vista dos fatores da natureza. considerando-a em si mesma e circunscrita aos termos naturais. concerne à junção do verossÍSe. O poema heroico tem como segunda exigência que suas ações "sejam da epopeia" (ib. lançados na infelicidade. nobres e ilustres. por Tasso se dava entre pelas um resto de invenção epistemológico. aquela capacidade natureza. ações que de muito excedem a capacidade Maravilhoso dos homens. fora do maravilhoso mil com o maravilhoso. com as hostes dos demônios e só podem apaArmida.. aparentemente preendida arbitrário. A admissão do controle significa. Ante a "racionalidade" mas porque o maravilhoso declarar a vitória dos dito não podendo defendida chancela cristã. quando o maravilhoso do é católico? É a linha que Tasso desenvolve.). acede. ao passo que as multidões crédulas o aceitavam. 336) o épico considera em Hércules e em Teseu o valor e a excelência das armas. Daí que o poeta de superar as forças da daquele - 358). Assim como depois. na hora da morte. na tentativa de justificar sua invenção. os homens de saber podiam julgá-lo algo desprezível. seus minispodem fazer coisas (ib. 355).por conseguinte. demônios e magos com a permissão superiores às forças da natureza. Rinaldo. para ter condições de psíquico-indivicom sa a Tasso. poderosa e adequada para operar semelhantes maravilhas. internalizado e defendido como una virtit sopranaturale por todo aquele que Ariosto. Supomos que derive da leitura a que a Poéticaaristotélica era submetida. Dessa maneira. não habituados a fazê-Io. A história recebe o lugar de eleição. esta é a parte mais saliente dos Discorsi deU'arte poetica. Apenas o completemos. O maior perigo que corre o poeta trágico resultaria de 71 que a formulação 70 . que Tasso já o encontrava com ele. serva de seu senhor. que "bebeu desde "excesso do vício". precisava ser moralizado do demônio.. Por mais assombroso que esse possa parecer. Daí concluir: dos entes supraterrenos "que Deus. A verossimilhança que ele se manifestasse. O épico ressalta pelo "sumo das virtudes" uma diferença os separa: cristão deixa de se indispor com o juízo do homem comum. o torna inquestionável. mas não tão sagrada que seja imutável. Em poucas palavras. em Accetto. pagão. le do ficcional e se propugnava fixado e procurava continuar gralidade sua defesa. a sua plena voz.

por ser o instante em que o receptor. Vítima de um erro involuntário.. Haveremos um período que já não mal- a superioridade é propriamente arbitrariedade do poema heroico. A própria definição que propõe do poema heroico o revela: [. desencantada grado seu conservadorismo. ra de geistiges Individuum? passo que a catarse da peça trágica é vista pelo autor contrarreformista. próprio sofrimento. Como então justifica o fingimento poético? É aqui que se expõe o Aristóteles "crucificado": Escusado afeta o primado do historiador historiográfica. a fim de aproveitar deleitando. mas se restringe ao épico. ao lê-Io. renascentista acrescentar é o particular. Como o fariam se o molde a que a história I: ! I :. por Tasso O objeto verossímil no universal que a verdade dos particulares" que uma parte dos humanistas que a licença do poeta.. enfatizada a suposta reconstituição concedia a história. ao autor prever a reação que suscitará. exatamente para Tasso. isto é. não lhes cabendo o que é próprio o realce "das coisas novas" (ib. Mas não é a domesticação domesticado Isso talvez explicasse melhor o fascínio que Nietze insista em discor- mesma. T. a destes. por sua invenção. se alivia do estava longe de ser privilégio de sche sentia pelo velho colega. (Tasso. com mesma da Poética consequência tanto do con- trole que cercava o poeta como... Mas como se explicaria a extensão do ensaio se Tasso não tivesse o propósito rava uma formulação so. Tem- l'istoria le viene(ib. o poeta antes respeita "o (ib. A delimitação nição antes proposta: 73 .. 366). isto é. por sua leitura romana (para constatá -10. veito.J. os o censurassem. a suscitar a o herói trá- poesia estavam submetidas como Burckhardt. Mas não creio que fossem as dificuldades -l'eccelenza (Ulisses) -. -se a impressão de que tentava cumpri-Io pela libertação. Mas não nos desviemos. nenhum dos dois aspectos faz com que se distancie da posição já exposta. 111). expressa na ligação do de quella autorità che de proveito com o deleite. ] Não deve a licença dos poetas estender-se a que se arriso fim último dos empreendimentos principais pois a poesia é investida de que tratam ou que o mundo alguns daqueles acontecimentos e mais conhecidos. realizada pela narração com excelentíssimo o propósito verso. sigteódella ao em si Bem se sabe da dificuldade nificasse o fenômeno ricas que se apresentassem pietà (Eneias). É certo que estamos abordando Mas a Contrarreforma pensava de maneira dos condottieri. de pensar que o historiador. Bastava-lhe reconhecer [Ia] prudenza essas manobras espiritual "Na Itália.. o (ou leitor).. 505). ao se identipor uma ação culposa..II..- sia. não excluam o pro- advém da história:" [. como algo perigoso. manter sua tese do realce do indivíduo: gico motivava uma ação imprevista do receptor. Embora Tasso detalhe o que entende por maravilhoso dar de Castelvetro. ficar com a dor provocada. extrair-se de le cose nuove. para Aristóteles. O resa própria história descrita e paldo que a história oferece ao poeta renascentista salvo Maquiavel e Guicciardini - não o obriga à veracidade porque sua concepção como a dos trágicos".. esse Aristóteles Tasso. trata de temas e lenna Grécia.504-5) Bem o mostra a insistência na fórmula horaciona. desde antes.: torna-se supunha o mesmo controle. por tratar de valores inquestionáveis [Ia] fortezza militare (Aquiles). isto é. pudesse vez [. il mover É certo que tal "licença" não aborreceria retórica a conciliava com "licenças" semelhantes. no protagonista. basta a leitura da Ars poetica de Horácio)? Que resta de Aristóteles senão um texto . 367). de que parte o do poema (b) a autoridade de que o deleite seja razão para que outros. ]. ao passo que o herói épico tem prefixada. homem hardt. no entanto. 505). Parece confirmá-Io o desenvolvimento sia homérica das há muito maravilha: divulgadas imediato: se são "dignas de admiração tanto a poeà do que houve. O traço distintivo de ir além do que já fora tantas vezes repetido? Procumenos convencional da operação pela reflexão sobre o maravilhoépica e il mover maraviglia (ib. por isso. Por conseguinte.que tenderia a conduzir a ação ao momento catarse do espectador uma moldura de terror epasmo. sem que.. 1860. veracidade do catolicismo..: 1594. ] O poema heroico é uma imitação de ação ilustre. de entender o que. exangue? Ele se efetiva através dos pressupostos autor: (a) a incontestável quem a mudar totalmente recebe como verdadeiros". Por certo. a mesma afirTorna-se então mais difícil entender m)Jitíssimo bem. permitindo mação prévia do que era universal!? que conhecia um indivíduo renascentista. não abarca toda a poelhe propicia "aperfeiçoar" a defi- fosse historiograficamente inviável. grande e perfeita. pela primeira e se reconhece como tal" (Burckapenas radicaliza o que chamaa da catarse. no Gerusalemme historiadores 72 Daí que a cruzada maraviglia e seu corolário. dentro de limites institucionalmente aceitáveis. do maravilhoso cristianizado.

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lI... Os dados estavam lançados e. caps. I. que ainda dis- * João Adolfo Hansen faz-me saber que Tasso recorreu à interpretação alegórica no posfácio à edição de 1581. Eliot.: 1961. ale- Quase um século depois. XVII. de autoria de João Adolfo Hansen. E expressivas. e maravilhosamente os agrada. 77) * A polêmica que se travará entre o Gerusalemme e o OrIando encontrará. ] O riso de Boccaccio morreu nos lábios de Aretino. e mais obscuramente o significa com notas (por assim dizer) misteriosas.Teixeira. desde que nela se creia. e na fala e nos atos e nas obras manifestando-se acompanham a ação. mas somente quando se ouvem fora. de ser compreendido pelo mundo" (ib. XIX-XX). um crítico que se indispunha contra a poética modernista.. errante. 57).) 76 apoiasse em vida. [. pode ter a espécie de beleza que encontramos nos deuses de Ticiano. Cobrirá minha alma de horror e desgosto. a P?esia. De Sanctis ainda mostrava sua sensibilidade ao acentuar a parte sobre Armida: "Aquilo que os críticos chamavam 'um episódio' é a concepção real de seu poema" (ib. Isso deve ficar ainda mais claro pela abordagem pusera de uma atmosfera menos carregada. 55. (ed. E Tasso se empenhara em inte- grar-se ao cânone. somava-se "que a melancolia e a angústia não fossem apenas suas. con l'allegoria dello stesso autore. 2008. a feiticeira é conquistada pela mulher" (ib. "o cinismo substituiu a hipocrisia. e de mim mesmo fugindo. E: 1870-1. Weinberg. [. satisfazer as exigências dos mandantes.. devem morrer para que vivam. [. Edusp. senão que constituíam a desgraça da época" (Leo. Assim o fará. Francesco De Sanctis a relacionava com Clive S. 15). ] Tudo exalava santidade" (De Sanctis.. inAllegoria deIpoema. de imitação e Alegoria é composta. 659). especialmente contra T. von. (Lewis. para o volume Épicos.. Lewis implicitamente se de se impor diante da pintura renascentista: Nenhuma religião. C. ou os discursos do ânimo enquanto esses são intrínsecos.. (Tasso. ] A princípio pode parecer que a alegoria os matou.: 1581.: 1936.. e imagens de ação humana. 77 . S. Tratta deI vero originaIe. À fatalidade de haver nascido tarde.). "em Armida. São Paulo. Temerei a mim próprio. quase animal em que duas naturezas se juntam. reconheceu-se mais tarde que a afetou poeta.. XII. por ela. * o respaldo perderia sua veemência tão logo estiolasse o poder contrarreformista. mas principalmente no seu ser intrínseco. 161-6. sempre a mim terei ao lado. por Goethe. lamentavelmente. estimulada desde Agostinho. e em torno dessas principalmente esforçando-se para representá-Ia com palavras eficazes. só conheci quando este capítulo já estava composto. Ulrich Leo simpaticamente identificava o poeta com o que seu poema dissera do personagem Tancredi: Viverei entre meus tormentos e cuidados minhas tristezas ejustas fúrias.11. e aptas a pôr claramente frente aos olhos corporais as coisas representadas. mas assim o fez apenas I como mata o semeador: porque os deuses. 1581. Mas a imitação observa as ações do homem. com aquela alegra os ânimos e os ouvidos dos homens. "Notas sobre o gênero épico". 641). pp. ou na Ciência. 623). com esta na Virtude. p. temerei o lugar sombrio e solitário que recordará minha primeira falta e o sol estampará minha desgraça.A um tempo de opressão fundia-se uma "alma enfermiça". se bem que ainda houvesse quem o górica?* De todo modo. Ferrara. Transcrevo a passagem que ele teve a gentileza de enviar-me: "AHeroica Poesia. que estão aos sentidos exteriores submetidas. Em sua Storia.. Não seria bastante verossímil que já Tasso recorresse à sui generismorte trole. T. que. porque esta não se me mostra resposta mais eficaz ao argumento de Castelvetro. Heredi di Francesco de' Rossi. e que apenas dos conhecedores da natureza das coisas podem ser plenamente compreendidas". com seu afinco. assim como outras criaturas.: 1951. seu esforço para salvar a poesia é prova bastante do conde Ariosto. B. S. con aggiunta di quanto manca dell'aItre edittioni. ou numa e noutra os ensina: e como a Épica imitação outra coisa nunca é senão semelhança. não só quando eles aparecem. de Boticelli ou de nossos próprios poetas românticos. entretanto. o defensor por excelência do GerusaIemme: Camillo Pellegrino (d. assim costuma a Alegoria dos épicos da humana vida ser a figura. considera os costumes ou os afetos delas. U. sempre estéril. Acrescento: não acreditei precisar modificar a parte do texto que a citação desmente. na Accademia della Crusca. (A passagem aparece na introdução. depois. e às opiniões e aos costumes. Era a própria posição de Tasso que não lhe permitia ter êxito na plena defesa de seu objeto. sem. aceita que o que chamamos de controle tives- ARIOSTO: O ÉPICO IRÔNICO A desgraça que se abateu sobre o homem Torquato Tasso já era conhecida por Montaigne mesmo enquanto e. Vale recordá-Ia. o romanista Ulrich von Leo levaria adiante a justificação do poeta. A Alegoria ao contrário refere-se a paixões.Castelvetro teria sido mais eficaz se lançasse mão da leitura alegórica. séculos depois.83) a ação do Concílio de Trento (1545-63).

pois suas decisões eram. Aí serão consumidos os três anos mais difíceis de sua vida. (Sátira I. sua configuração é bem mais próxima do primeiro romance moderno. doía-Ihe o desapreço que Ippolito manifestava por sua obra: Não considera seus louvores por mim compostos como obra digna de apreço. conceber Racine vindo um século depois de Victor Hugo" (Valéry. sem. Não haveria outro modo de defini-Ias porque trato da questão do controle do imaginário. se um companheiro levanta-se a defender-me e declara a razão por que. debate em favor de Ariosto está resolvido há mais de a em uma fortaleza. enquanto as minhas são também políticas. e não um de seus cortesãos. mais se estuda e pratica). fora desligado dos eleitos por recusar-se a acompanhá-Io em sua residência no bispado de Eger. do que poderia ser a obra de Tasso ou do que admitiria sua reflexão teórica sobre os gêneros. Mas não é por isso que invertemos sua ordem de apreciação. em vez de lhe ser confiada uma propriedade tranquila. sendo improvável a reativação da primazia católica. ele tanto interfere na construção das obras em circulação como provoca o retardo no aparecimento do romance dos tempos modernos e.1. meu irmão. tendo a cadeia dos Apeninos por horizonte. Se o cardeal não o apreciava como poeta. Extremamente importantes para o conhecimento de sua vida e. formada por quarenta cantos. encerrada. Quijote (primeira parte. A má sorte de Ariosto com seus senhores não estava. em geral. é muito fácil conceber a inversão dos antigos e dos modernos. doutos na adulação um século e meio. embora arIando furioso seja publicado bem antes do GerusaIemme . na primavera de 1513. aquele que o sucede. [senão] que estivesse a correr como seu carteiro pois se o louvei em meus versos. desde 1503 até agosto de 1517. Havendo sido um funcionário do cardeal. e a definitiva. com 46 cantos -. Tampouco terá melhor sorte nas missões diplomáticas em Roma.Assim como a vida passada não se refaz. É. caro amigo. do que significava a dependência dos príncipes e das autoridades eclesiásticas. entre nós. desde logo. entre 1517 e 1525.sua primeira versão surge. portanto político-estéticas. diz que o fiz para meu deleite e por estar desocupado. partindo os outros. contudo. favorecê-Io com as benesses esperadas. mais grato seria se estivesse pronto a servi-Ia. se na corte resta alguma lembrança de mim. Havendo entrado a seu serviço em abril de 1518. P. em Ferrara.97-9 e 106-8) 79 . Alfonso d'Este. e de Bagno. composta pouco depois da partida do cardeal para a Hungria: Desejo saber de vós. seu irmão. onde esperava continuar a polir seus versos. se meu senhor ainda me acusa. delas destacamos apenas as passagens que serão indispensáveis para a compreensão do tom com que arIando há de ser lido. Ademais.) É verdade que em Valéry as razões eram de ordem estritamente estéticas. Ludovico Ariosto (1474-1533) estivera. 1-9) Porém. Já na abertura da primeira sátira. Alessandro. numa região perigosa e infestada de bandoleiros. Por isso.vv. em fevereiro de 1522. Conquanto tivesse sido amigo de Giovanni de' Medici. a serviço do cardeal Ippolito d'Este. relevante notar a mágoa que guarda de Ippolito d'Este. mais do que as maledicências. em 1516. Mais justo será recordar a conhecida ponderação de Valéry: "Nas artes. 1615).vv. contudo. No caso que estudamos. os perigos que o cercavam lhe impunham manter-se trancado 78 (arte que. Seu investimento como governador era antes formal que efetivo. quando este estivera exilado de Florença. ou se todos. ao receber a tiara. o ajudam a censurar-me além de toda a razão. 1304. sátira I. eu aqui permaneço. 1605. depois. nas montanhas de Garfagnana. Suas decepções com os signori estão retratadas nas pequenas sátiras que compõe. com frequência. de sua legitimação institucional. e o controle é um instrumento político cujos efeitos são de ordem estética.: 1534. tampouco estima sua obra. tampouco os poetas corrigem o curso de seus versos.próximo a Budapeste. nada indica que se reabra a polêmica. segunda. em 1536. é designado. pouco podendo fazer de eficaz. governador de província. o novo papa teria dado mostras de reconhecê-Io.: 1937. I. (Ariosto. desautorizadas pelo conde. junto aos papas. descontinuamente.com o nome de Leão x.

epelos sete anos depois de Leão. Em ensaio cuja importância declarava na página de abertura: insistem suas sátiras. nificativo" corresponda "É na serena virada (Wendung) ou na paródia. lainentara o uso que dele fizera: "Estamos no reino da arte pura.. 505). pretendia bastante... Thomas em sua coma Hart supõe. A decepção. com razão. em que gem. irônico responde: "Em vez de em Croce o engano dizia respeito à construção me dizeres que honra e riqueza ali se ganha/ arranja outra isca/ se queres que o pássaro caia em tua rede" (sátira VII. De imediato. com a recente batalha de Ravenna. Ariosto do modo mais sigpode-se interpretar Para tanto. lI. De Sanctis. desde a ascensão até a pira fúnebre de Júlio. Apenas seus intérpretes É provável que o juízo de Croce. XXXVIII) o mesmo não se poderia dizer de seu poema heroico. II. (Croce. E. nitidíssimo em todos os detalhes. haja pesado na apreciação de Auerbach: "Na épica cortesã. d'Este se aceita a embaixada à indagação do secretário de Alfonso Se da compreensão mente explicitavam. (Shapiro. Seu relato da guerra entre Carlos Magno e Agrimante é acompanhado de reparos sobre a cena militar italiana contemporânea. o que escapara tória".: 1946. 505). que. apenas dois temas eram considerados dignos de um paladino: feitos de armas e o amor. da lingua- (Sátira VI. "provavelmente. T. E: 1870-1. prescindiu das astúcias (industrie) dos comentadores e não foi prejudicado por suas belicosas sutilezas. Daí serem poucos os poetas cuja obra tenha sofrido tantos e tão longos equívocos de leitura. 0. por isso. 232-8) Por isso. a situação dos sarracenos na França. ><- virada" (die heitere Wendung) seja considerada equivalente 80 . O convívio com os grandes já o ensinara tinham o álibi de não visar à publicação clandestina e. que esse "ou na paródia" será preciso que "serena a "um mundo de 81 que essa forma fictícia de vida é interpretada a "ou Cervantes". sem deixar de reconhecer seu talento. (id. por isso. Contemporâneo empenhado. e a Pandolfo. 159) acrescente-se ojugo com que o cardeal D'Este me oprimiu.Na sexta sátira. somado ao de Francesco De Sanctis ou dele independente.: 1989. por exemplo.: 1920. em que tantos capitães franceses foram dizimados. espantosa.. ao real e presente" (De Sanctis. o filósofo napolitano na corte pontifícia. 25-7). ao voltar de Garfagnana. observamos E: 1870-1. não me deixou que ficasse por muito tempo em um lugar. facilmente apreensível por quem quer que possua uma cultura geral. que. tinha de usar de cautelas e dissimulações.11) aniversário da morte do poeta" (Wiggins.: 1976. da tardia unificação política italiana e nele Seu a percepção analítica do celebrado crítico era comprometida. mais recentes terão condi- de Don Quijote (ef. Compara. ao século. Nas palavras de Shapiro: "as ficções da poesia são justapostas às da hisuma meditação idealizado e o presente desmistificado [. vv. de De Sanctis se esquivava o que as estrofes sinuosaé bastante reconhecida.M. Ariosto [. ] construiu com esse mundo fictício um mundo de serena aparência preensão introdução (heiterer Schein)" (Auerbach. Claríssimo como é o poema [ Orlando furioso]. ><- Ariosto comenta de maneira tranquila mas incisiva as calamidades de seu tempo. mediante a De Sanctis fora nada menos que o princípio estrutural de "revelada como confronto entre o passado Oriando. Note-se de passagem: leva o grande romanista a reiterar e modi- ções de perfurar a crosta com que o poeta se defendera. 11).). B. ]" (De Sanctis. serve de advertência para a leitura de Oriando.: 1988. O poeta deu as costas à Itália. e de poeta me converteu em carteiro [e di poeta cavallar mi feo]. nunca apresenta sérios obstáculos de interpretação e. P. 136). seu primo e confidente na juventude. contudo. vv. que essa apreciação do nome de Cervantes teria influenciado de que Ariosto virara as costas à realidade era uma ilusão de ótica. Se aquelas tanto assim que a editio princeps é celebrar o primeiro -. correndo os riscos que a transgressão interpretativa expõe: ficar sua formulação: ou Cervantes. que sofreram pesadas perdas a despeito de seus êxitos. que deveria ensinar-lhe o grego que sempre lhe faltou. entendimento de durabilidade os milagres da imaginação. Refere-se a Gregório. seu tom concentra maior amargura: À morte de meu pai e dos dois tão caros amigos. Hart. R.

o real oculto. entretanto. disso é responsávelo sorriso de um poeta que sente as imperfeições do mundo e as insinua com imagens fantásticas.243) feito de magia. em que a experiência estética representava o passo mais baixo e se internalizava na interpretação croceana. VI. é bastante evi- Embora não possamos nos deter na interpretação des Scheins in Ariosts Orlando de Karlheinz dente que encontra. Como supô-Io. Curiosamente. se tornaria mais clara em Cervantes e explicaria sua estima pelo Orlando. é correto declarar-se que a sua tese está entre as mais transtornantes da obra-mestra de Ariosto. A suprema beleza ao passo que. 59) É então Como mostrará o exame do canto VI. a um significado diverso do que fora costumeiro: "ParaAriosto. erra. uma concepção de aparência que não se confunde com a de Hegel-em que a aparência ganhava uma dignidade que o pensamento filosófico havia desconhecido. Sob o sorriso ariostesco há muito mais do que a ironia. pode conduzir a uma vida pessoal estranha. De acordo com essa.já que tanto esplende.. Há quem aponte em meu juízo falha havendo a paródia cervantina meira qualificação terá sido suficiente que introduzia. acentua o "mundo aparência serena'~ enquanto a mais recente nele ressalta a ênfase parodística. Isso não deixa de ser estranho.: 1989. encontra em Hegel e se difundiu por De Sanctis e Croce. inconstante e inapreensível. este seria "um momento memorável na história da bela aparência': porquanto a desvencilha do substancialismo da verdade. uma obrigação: se esses ideais se desfazem no Vale da Lua. limpidissimo. Os problemas estéticos e as possibilidades resultantes do afrouxamento da relação entre aparência e realidade e o poder absoluto da bela aparência desdobram-se exemplarmente em Orlando furioso. K. "um século depois [deAriosto]. à escalada da filosofia do espírito. nitidissimo. Por mim. K. virada alguma. 248).: 1532. em Ariosto. Contentemo-nos com seu enunciado central: Se a aparência se converte em garantia da realidade. Deveria então pensar-se a posteriori. não para que Auerbach é na contradição tenha se dado conta da contradição de que Auerbach não se apercebe que se Sua leitura clássica.: 1989. (Momigliano. ao engano dos sentidos Descartes oporá a certeza única do cogito ergo sum" (ib. em Ariosto. Em concordância com o "quem quer seja" (chiunque) Stierle. facilmente apprensible. senão porque não se compreende que. se refira à sua suposta clareza. mas porventura mais do que eu entende: o transtorno da leitura de Ariosto. Em síntese.1. do castelo de ser um Alcina dirá que "quem quer que possua uma cultura geral" compreenderá da razão.. sob o sorriso. radeiras formulações: digo que é ouro. tã-medieval. (Ariosto. chegar parece ao céu com a cimalha. que já se de que e afirme que é alquimia. (Stierle. na compreensão aparência era tão-só a manifestação sensível da beleza" (Stierle. oportuno recordar a virada que se opera entre seus intérpretes. portanto uma ilusão prestes a se desfazer ante um sopro mais forte croceano.aparência apropriadas serena" (eine Welt des heiteren Scheines) e ambas as qualificações pois tal mundo modificado por si em uma espécie de a pri- Tais problemas concretizam-se ante a visão do castelo de Alcina: a Ariosto. A.há tem a aparência como pressuposto. efeita de ouro puro.307-8) Bem mais complicado heit und die Schõnheit é o juízo a fazer-se do ensaio "Der Schein der Schõnfurioso". o mundo alegórico assume. subordinando-se. do alto à terra. Sem que Attilio Momigliano vele outras dimensões.: 1928. à maneira de Croce. a paródia e a melancolia que se costuma reconhecer. ainda que isso seja possível. Sem que possa me deter. por outro lado. era questionada como propriedade a ideia multissecularmente mantida da verdade das coisas. concentra aplicada a Ariosto?! Mas. ]Os gracejos e as reflexões céticas não passam de parênteses elegantes e notas em surdina neste imenso poema em que o amor é a razão da vida e a valentia e a fidelidade. um grau de belemedieval. Pode-se entender que a serenidade apreciada pelos intérpretes em Ariosto decorria de não terem percebido que a "bela aparência" 83 82 . tão evidente na alegoria cris- a declarada clareza está implicada em uma de suas der- [. inscrita nas próprias coisas do mundo? de Stierle. e embora des- za em que desaparece a pergunta sobre o verdadeiro ou o falso. não implicaria contaminação Vê-se ao longe que extensa é sua muralha e o imenso território cinge e encerra..247).

] consiste em que. parecia inquestionável que. Na aparência. Panofsky. como Hempfer então destaca. ao diminuir a gravidade de sua própria obra. o mesmo Galileu. de modo mais incisivo. como Galileu. se podemos dizê-Io. sem harmonia e relevo. mantinha intacta a verdade como substância (a verdade está na realidade. (Galileu: -.493-4) Ébastante claro que a preferência de Galileu Galilei era. cruas. com tinta invisíve~ com como cientista. assim. Ariosto caracteriza- va sua obra. em que se ressaltava seu Iudicro more. Podemos acrescentar: é na concepo controle do imaginário mos como um instrumento toda uma rede interposta que. O destaque que concedemos rência. na pintura a óleo. 46). os quais. nizava à sua própria considera a correlação posição cosmológica entre a preferência edição (cf. se tem fundamentado nos tempos modernos. no fundo dela. Assim. W. Em uma pesquisa também passível de aproveitamento KIaus W. contentava-se. anos depois. o que vale dizer. automaticamente tiveram de passar para que fossem notados. é constrangido a adaptar conceitos diversos. 84 processo que. a um pintor renascentista. burlesca e nada séria. sendo a incrustação um composto de pequenas peças multicoloridas de madeira. ao contrário. em Pietro Bembo (1470-1547).. era a partir da oposição mantida pelos humanistas dos séculos e XVI entre (obras) Iudicra e seria (id. Na mesma direção. Quando então o caracterizaestamos declarando político. não mais contara. com força e relevo. a que. porque o consideramos teve a oportunidade desenvolvimento ção substancialista às considerações de Auerbach visa chamar a de OrIando em decoro atenção para a reviravolta que se operou na interpretação de enunciar os mecanismos Que significam essas minúcias - que não são meras minúcias - senão que. Isso se deve a que Ariosto ainda do controle que retardarão do romance. torturará ainda dispusera que o cientista. Ariosto esfuma e harmoniza [. que respaldara o elogio cartesiano da razão e que. Hempfer assinala que. OrIando. ao ser publicado muito mais amplo. esfumando-se levemente os contornos.: 1987. a concepção substancialista da verdade. claramente cômico" (ib.: 1954). de ordem "estilística': vendo no seu eleito o correspondente provavelmente. illustree de fato estimados. para ele. favoreciam Ariosto. Ariosto empregava uma categoria poetológica da época.). passa-se sem rudeza (senza crudezza) de uma cor a outra e. a piacevolezza. mesmo o controle com base na ciência. Hempfer. Do que resulta que seu relato mais se assemelha a uma pintura de incrustação (intarsiáta) do que colorida a óleo. era a maneira convencional de legitimar o verso épico. com as quais nunca se pode combinar e unir de maneira tão suave que os contornos. ao passo que o criticado condizia com a obra de um maneirista. Por isso. pois. as duas obras deviam ser consideradas pelos mesmos critérios. Fora esse substancialismo. A correlação não parece acidental: Ariosto de uma margem de manobra escrever. escrevia: Um entre outros muitos defeitos frequentes em Tasso [. acentue-se que. em virtude da diversidade de cores. a realidade é o espaço que contém a verdade). K. (Incrível como possa parecer. em "ser descrito como um texto burlesco. permanece subentendido entre nós. ].: 1949. ao fazê-Io. E. outros qualificativos o grande. não se desembaraçava de uma leitura de superfície porque. suas figuras se fazem secas. contudo.45). "que. por isso. na maioria dos casos. segue o privilégio papal concedido à primeira o livro enquadrado XV * Essa é a leitura que oferece Panofsky. faltando-lhe muitas vezes a matéria. de Galileu. como o "gosto" de Galileu se harmoPanofsky não autodepreciativa de Ariosto e o não aspirava à dignidade épica" (id. ante o debate aberto com a publicação do GerusaIemme. entre a afirmação metafísica sobre a verdade e a efetivação do controle há de operadores.. Apenas a título de curiosidade. como tratando di cosepiacevoli e deIectabiIe di arme e di amore (apud Hempfer. seca e dura. independentes e sem conexão entre si.) Acentue-se uma pequena trilha materializadora. por assim dizer. não permaneçam evidentes e cruamente distintos. para um leitor atento.pusera em xeque não só a visão teleológica como. quando Auerbach dizia a seus alunos turcos que Orfando furioso não tinha outra "meta senão o prazer estético" (Auerbach. 85 . E.. a manobra - (1516). Tasso conduz sua obra de maneira fraturada. entretanto. a pintura mostra -se delicada. Só a leitura meticulosa de Weinberg e Hempfer poderia indicar o caminho efetivo que teve sua recepção. à produção dos poetas. convertido em critério da dominação da razão operacional científica. senão que sentia ser necessário enfatizar seu caráter de obra um tanto fútil.. na abertura de seu exame do GerusaIemme.).. depois de Tasso. Mas o fez de maneira tão sutil que vários séculos de verdade que. 150). se opunha destaca que. com frequência tem suposto uma verdade substancialista. mostrando. Evidentemente. [seu livro] * Muito não era por sua escolha de estilo que Ariosto sentira a necessidaademais.Ariosto possibilitava que ela usufruÍsse de uma liberdade que já seria impossível ao GerusaIemme? Nem por isso se pode julgar que o autor tivesse plena consciência da bomba de efeito retardado do que escrevera. em carta ao doge de Veneza. harmônica.

nem estão dedicados ao serviço de um ideal ético. OrIando furioso. Indiscutível para o cânone dominante midade da poesia com a história.68) ciana: deleitação que conduzia a uma moraIeja. segundo ele. depois de assinalar a origem de OrIando na chanson de geste francesa. pois sua decisão não decorria simplesmente poetológico dos séculos xv e XVI. vindo até aos L: vel a análise exaustiva de OrIando furioso. em assinalar que o êxito de Ariosto esteve em não pudesse manter alguma margem de liberdade. não obstante. nos um número algo semelhante ao corte transversal que fizemos no GerusaIemme. na "Presentazione" de uma edição comum do livro. que. concedia à história e a legitimação do maravilhoso gir-se ao que proporcionasse Ao comentar uma visão cristã. a concepção tradicional de mímesis. observamos tivamente sucedera. Nosso propósito haverá de ser ainda mais modesto: escolheremos a ser explorado por Tasso. * e Já a maneira sumária como tenho me referido a intérpretes que prezo que se tornará ainda mais evidente quando vier a Ascoli cruzamento impedirá de narrativas múltiplas. Na impossibilidade em detalhes. assumo a posição bem diversa de repropor seu questionamento. Não há novidade em reiterar-se como pouco séria. discordando de Castelvetro. enquanto poético à filosofia moral. O certo é que a obra de seu competidor. querem satisfazer seus próprios desejos. atentos à manutenção de passar despercebida a discrepância entre o que diziam os livros e o que se constatava na vida efetiva: 87 . o controle era relativamente mais brando. ademais. Como mostrará de entrar a contievi- o poeta. ainda mais profundamente que nos tempos de Carlos Martelo. não se enquadrava nos padrões afirmados por Tasso. como saberá quem me tenha lido. tentaremos mostrar que. embora divergindo de Castelvetro. Tratava-se de "um mito.). com que tampouco concordo. seu entreparticular de uma. Ao dizê-Io. T. de ordem erótica. pouco importando cantos de Ariosto. sem o destaque mostra ser impraticá- anacronismo simétrico": em vez da "mítica conquista" Carlos Magno. Acrescente-se que Tasso o fazia por conta própria. Era como se * O destaque das abordagens de Stierle e Ascoli não pressupõe que concordemos integralmente com uma das duas.: 1989. a proximidade à sua obra um caráter burlesco. a primeira cruzada. por outro. antes da Contrarreforma. mas como uma maneira com a restauração os teólogos. inequivocamente Matteo Maria Boiardo (1441-94) deixara incompleto se fundava em uma lenda transmitida jograis. com frequência. seria antes com o roman courtois do que com do que estabelecesse o dnone a posição de Castelvetro era era a proxio a chanson de geste. a que se conjugavam mas cristãos. São provas do maior controle: a primazia que. 86 Seu descompromisso com os temas graves não só funcionava como estrada dos dog- tégia para desviar a atenção dos poetólogos. excepcional entre seus pares. bastante diferente do de Chrétien. deveremos ter em conta que o reconhecimento de um controle maior é facilitado pela própria restrinteorização de Tasso. Assim. efeas "adaptações" que fizera. É compreensível formas submetidas que a ambiência o mundo de Ariosto é. ao mesmo tempo que a declaração de burla velava a seriedade que. Quanto a Ascoli. contraos Discorsi deU'arte poetico (1587). acatava que devesse ser histórica a matéria do poema heroico. pois os à fórmula horacontrarreformista personagens de Ariosto não estão empenhados em uma perigosa viagem de autodescoberta. Seu caráter de lenda talvez ajudasse Ariosto a emprestar que não lhe interessava ser divulgada. (Hart. em seu desdobramento italiano. preocupados épica antiga. essa revelação não se restringiu a Stierle. mais precisamente na Chanson de Roland. Enquanto o argumento 1992. em uma narrativa que se apresentava de Thomas Hart: riando a versão ainda mais rígida de Castelvetro. muros de Paris. Quanto a OrIando. são "os exércitos sarracenos [que] penetram no território da França.de de afirmar-se praticante de um gênero menor. XVIII). por eles. como o da guerra de Troia" (id. O questionamento da concepção substancialista de verdade por Stierle abrange. Simplesmente. mesmo porque não tomo como foco principal o seu louvor da "bela aparência': Isso tornar-se-á dente quando falarmos da interpretação proposta por Albert Russell Ascoli. velada até data bem recente. Daí a tendência de subordinar tenha pressionado Tasso a enfatizar o caráter histórico da narrativa. a qual tinha "pouco a ver com a verdade dos fatos': continuava por dizer que. enquanto. embora não sempre. Vale lembrar o comentário Ao contrário. o relato que pelos 46 pelos e se popularizará bastante reduzido de cantos e. digamos mais sumariamente que ela implica um acordo com a desreferencialização de Paul de Man. se praticava "um outro da Espanha moura por nuação da análise. que sofre o longo assédio dos infiéis" (Calvino. contento-me explicitar sua criticidade. Italo Calvino. cedesse em um ponto para que. de antemão.

Nos primeiros pensadores cristãos. e a fascinação. o aproximava de Don Quijote.Estados italianas. capazes. que se mostra da maneira mais vigorosa em Dante. a anotação de Momigliano é passível de receber outro peso. Com o agravamento da crise política e religiosa . o romance supunha destinar-se a um público anônimo.Ariosto revela sua consciência do abismo entre os ideais cavaleirescos e a conduta efetiva por dirigir-se com frequência a seus leitores e pelos irônicos apartes que. Em vez de restringi-Io. a exploração de uma linguagem aberta ao falar comum. o maravilhoso dá lugar à metamorfose do real em fantástico. 1346-1462): na Itália do século XVI. como dizia Calvino. que sempre se considerara vítima da insensibilidade de seus senhores. capoXI. 22. mas também em outros. no distanciamento 88 o peculiar desta imagem radicalmente criatural do homem. antecipadamente. de que o primeiro funcionava como prenunciador do que se cumpriria plenamente no segundo. no Mimesis. Ariosto. chamará. 13). E. incapazes de se contrapor aos Estados unificados da França e da Espanha.. "a magia é interna. "O prodígio [. noutras ocasiões. não mais a preciosa dos círculos fechados. postas em situações semelhantes. Sua incrível força 89 . como umbra ou imago (sombra ou imagem). precisamente àquilo que.A. (lb. a partir de seu ensaio "Figura" (1939). figura supunha a correspondência entre dois acontecimentos temporalmente distanciados. (Auerbach. o primeiro termo aparece. conduzindo a Trento e aos processos inquisitoriais -. E. que já a procuraa França. Auerbach. O afastamento de Ariosto do que se considerava digno de ser enunciado. não podia saber como fora beneficiado em haver vivido ainda no princípio do século XVI.: 1928. os obstáculos para um gênero como o romance só poderiam crescer. 40) Ora. aqueles traços começaram a ser ameaçados quando a unidade e a imortalidade cristãs deixaram de dominar a imagem do homem. ] A unidade cristã da visão de mundo e a manutenção figural (die figurale Erhaltung) da criatura terrena no juizo divino levavam a uma permanência forte e indes- trutível do individual. v. Ao decifrar as juras de amor que Medoro deixam gravadas em uma rocha. 1) é tão ilusória no mundo do poema como se tornara das leis da vida corrente.. nos gêneros altos. na natureza de seus personagens.. a expressão "realismo figural" tinha como contraposto o "realismo criatural". que a velhice e a doença devastarão.. Será preciso então notar que. 238) Sua contraposição ao figural será explicitada no capítulo sobre Rabelais: [. e o segundo. Orlando. os mouros eram uma entidade fantástica. capox. mas. (lb. em definitivo. a tematização do presente. o avizinhava do próprio núcleo a ser atualizado pelo romance moderno. 264) Minha hipótese consiste em que. não mais o reduzido às cortes. Aparentemente acidental. de empreender uma guerra tão mítica quanto a de Troia. como veritas (d. Baste-nos um só exemplo.: 1939). em Ariosto. Por ainda viver no horizonte do Quattrocento. que. era a condição indispensável para que sondasse um campo interditado tanto pelos humanistas como pelas autoridades religiosas: para que adquirisse direito de circulação. É a um autor tão avesso a conceitos e raciocínios abstratos como Auerbach que haveremos de recorrer.: 1946. ao invés ressalta que a "gran bontà de cavallierí antiquí" (I. Enquanto tal. ] está imbricado em todo o tecido do poema: na urdidura de seus fios. que afasta a verdade mas mantém a sua ilusão" (Momigliano.. a exploração dessa disparidade. no Mimesis. quando a licença poética ainda lhe permite imaginar o paraíso de Armida. com frequência. então não lhe resta mais que a carne. no discreto distanciar-se das necessidades da existência diária. não mais a heroificação do passado. É certo que essefantástico onívoro tem por pano de fundo a magia. acentuam a diferença entre a maneira como seus personagens se comportam e o modo como se conduziriam se fossem pessoas de carne e osso.. para os quais não teria sentido algum localizações históricas ou geográficas. o tratamento é disfarçada. em Ariosto. em incisivo contras- te com a antiga ehumanista. De origem declaradamente cristã. a divergência interna ao cristianismo. destruída pela morte e a putrefação. há de compensá-Io por sua morte cristã. Sua primeira entrada dá-se a propósito de um nada conhecido Antoine de Ia Sale (c. consiste em que todo o respeito por sua roupagem terrena e estamental desaparece tão logo o homem dela é despojado.as cidades. Ariosto não fora forçado a reduzir o maravilhoso para que se ajustasse à ótica cristã. a página escrita tinha de negar como a vida se processava. para ele.. Tasso está obrigado a entendê-Ios como personagens "históricos" ou. é mais humana que sobrenatural (ib. fosse ele matéria histórica ou não. de realismo figu ra1. convence-se que a perdera e enlouquece. Enquanto. certas vezes. 41).

o converte em um animal assassino. Em sua deambulação chega a Barcelona, encontra-se não é por ele reconhecido:
Iam a Barcelona, por caminho conhecido. Mas não chegaram antes de ver um louco

selvagem e fantástica,

As anotações

acima, que materializam

o transtorno

interpretativo

que

com o casal de amantes, que não o reconhece e

sofreu o Orlando, servem de proêmio à análise reduzida que se segue.

Apesar de a narrativa de o Gerusalemmeter do seu propósito de servir à "unidade

um andamento

sinuoso, é nítiSe isso

da fábula" (Tasso, T.: 1587,378).

estendido na praia arenosa, que, como porco, de lama e limo tinha o rosto, o peito, as costas todo coberto.

facilitou a estratégia expositiva que adotamos, fez-nos conscientes da impossibilidade de repeti-Ia em Orlando: "É impossível abarcar com um único lance de olhos essa sucessão de fatos, e me atreveria a dizer que o próprio Ariosto nem sempre atenua essa dificuldade [... ]" (Momigliano,A.: proliferação (Momigliano), de relatos e sub-relatos alterações ajudem que se misturam a memória essas numerosas 1928,297). Tamanha é a e ramificam, "sem que do leitor" ou a fantasia

O louco lançou-se contra eles como um cão
que de súbito assaltasse os forasteiros; os molestou e esteve a ponto de afrontá-Ias. (XIX, 41, v. 8 e 42, vv. 1-7)

que se torna indispensável

escolher episódios mais significati-

Requestada

por reis e príncipes,

desde Catai, no Oriente Angelica o encontra Encarnação

de que viera, moribundo do pharmakon, de Oros e

vos. Para diminuir a pobreza da justificação, recordo, por contraste, argumento de seu "oponente": Se os poetas são imitadores, convém que imitem o verdadeiro, porque o falso não é; e aquilo que não é, não se pode imitar; mas aqueles que escrevem coisas em tudo falsas, se não são imitadores, não são poetas e suas composições não são poesias, mas sim ficções. (Tasso,T.: 1587,522) O que tomaremos, declaradamente no primeiro em Orlando, por episódios mais significativos serão

Angelica se entrega a um simples soldado, cujo único mérito fora o de dispor-se a sacrificar a vida por seu comandante. ela agora é vida para Medoro o cura. De veneno, ela se converte em medicina. lando, o homem invulgar e puro, é o transtorno heróis épico e trágico. Angelica desaparece ma se mostra transgressor. xeque-mate importância e, ao contrário,

e morte para o amor cortês. A loucura

do código a que obedeciam

de cena. É certo que Orlando recuo poeo desfecho de

pera o juízo e o poema não finda em catástrofe. Mesmo nisso, entretanto, Como observa Andrea Lombardi, Orlando furioso se opõe ao jogo de xadrez ocidentalizado ao desenho, ao conjunto uma homenagem tático e estratégico, implícita

pelo lance final do que determina em

jinzioni; relatos que, como os entendemos,

em Ariosto questiorepetem o

se identifica com o gô japonês, que "atribui maior O tabuleiro do Orlando furioso, portanto, ao Oriente [da] mítica Anportanto ao "criatural", peso figutão-só que senão tem qualquer

nam as verdades legitimadas e, por isso, esperadas. Começa-se a perceber isso já canto. Costuma-se notar que seus versos de abertura arma virumque cano, de Eneida, completando-o de Angelica. Filha do rei de Catai exércitos contra o mo mo Agrimante, paladinos, Rinaldo e Orlando, com feitos de amor. Será preciviera do

seu final as esferas de influência. pode ser considerado gelica" (Lombardi,

so, contudo, observar em que divergem. É o que já permite o canto I, pela figura designação poética da China -, Oriente, sob a proteção de Orlando, sobrinho de Carlos Magno, que reunia seus e seu aliado espanhol, Marsilio. Faz parte sabendo que dois de seus a confie à guarda do do lado apenas anedótico da ação que o imperador, duque da Baviera. Entretanto

A.: 1994, capo 3, 71). Incorpora-se que seria Angelica do herói na aparência

pois a figura prenunciadora r~l desfeito. A transformação nhece quem provocou humana. induziu Empenhando-se o próprio

de um porco, que descohumana, de pouco séria, incriminá-Io

seu desastre,

é uma metamorfose

em dar à sua obra uma aparência r do criatural

estão dela enamorados,

Ariosto de tal modo defendeu seu poema dos que poderiam formulado alguém preocupado 90 com a "serena aparência".

os invasores mouros destroçam as tropas cristãs e

a nele não reconhecer

Angelica é obrigada a fugir. Só agora a ação propriamente principia; com ela, a maneira de travarmos contato com a "bela, tímida, desdenhosa, mas também
91

em sua busca. Tampouco é extraordinária astuta" (Momigliano), se não também "dura e malvada" (I, 52, v. 8) princesa de perdê-Ia. Logo ao oriental. Ela não só escapa como se livra de um bando de seduzidos perseguidores. Se de todos se esquiva, cada um tem uma maneira vez de encontrá-Io, entrar no bosque, depara-se com Rinaldo, que perdera Baiardo, seu corcel. Em depara-se com "o angélico semblante e o belo rosto/ que o descansar do embate guerreie, sem que algum leve tinha envolto nas redes do amor" (1,12, vv. 7-8). Dele se afasta e chega a uma ribeira. É agora o mouro Ferraú, que, procurando ro, aprende o seu laço. Os dois pretendentes com desdém,/ oportuno a reação da demandada, [ ... ] "qual coluna dura e fria,! aos rogos da piedade não se rende;/ que encara o mundo todo nem crê que merecê-Ia possa alguém" (1,49, vv. 5-8). Mas lhe é o perseguidor vindo de longe pode ajudá-Ia. Contatranquilizá-Io
\ lhe, pois, que Orlando, durante todo o trajeto desde o Oriente, a respeitara. Ao tom levemente cômico de Rinaldo e Ferraú, que há pouco duelavam e logo estavam

montados no mesmo corcel, acrescenta -se a ironia quanto aos valores cavaleirescos: Sacripante promete a si não fazer o mesmo "pois o que deixa tanta formo-

combatem

vantagem, Rinaldo toma a palavra e adverte o rival de que a luta apenas os afasta do objeto do desejo, que cavalga para mais distante. Sucede o primeiro episódio fora dos parâmetros da prezada imitazione, burla parodística da gravidade esperada: como Rinaldo não encontra sua montaria, seguem no mesmo cavalo, "iam juntos por selvas e carreiros,! sem temer ou nutrir planos perversos" (1,22, vv. 5-6). Assim cavalgam até certa encruzilhada, quando cada um segue a sua sorte. O mouro retoma, em busca do elmo que perdera. Ao chegar à ribeira de que viera, depara-se com um cavaleiro que, furioso, emerge das águas, com o elmo procurado. Era o irmão de Angelica, a quem Ferraú matara em combate e a quem o elmo pertencia. O mínimo sub-relato introduz o fantástico: o ódio fora mantido porque Ferraú quebrou a promessa de lançar suas armas ao rio. A função aqui do fantástico é tão-só advertir o leitor que o aguarde onde não o espere. Dos contendores, Angelica continua a afastar-se, até chegar a um sítio em que supõe estar segura:
Confia estar aqui léguas sem conta distante de Rinaldo e protegida. Se a fuga a cansa e se o calor a afronta, o sítio ameno a repousar convida. Entre as flores da relva então desmonta e ao fiel palafrém solta da brida para que às frescas margens da torrente de erva tenra e abundante se apascente. (1,36, vv.1-8)

sura/ logo a si mesmo amargo se censurà' (1,57, vv. 7-8). Antes, porém, que invista, outro cavaleiro se aproxima. O bosque parece infestado de todos os candidatos

à flor de Angelica. Sem maiores explicações, os dois logo se enfrentam. A montaria de Sacripante é ferida e, em sua queda, deixa presa a perna do rei. O estranho adversário não se aproveita da vantagem para abatê-lo e, como se ignorasse ou desprezasse as normas do duelo, afasta-se. Enquanto Angelica consola Sacripante:
Senhor, disse, na queda estais isento

de culpa, nem desdouro se vos pega; o cavalo o causou, pois alimento e descanso pedia, não refrega.

O outro se vai sem ter da glória aumento
e a palma da vitória vos entrega: derrotado, razão é que se entenda quem primeiro se afasta da contenda. (1,67, vv.1-8).

Suas palavras teriam sido eficazes se logo não se aproximasse geiro, que, ante a pergunta do rei, já recomposto uma gentil donzela" (1,69, vv. 7-8). Seu nome curtíssima apresentação é Bradamante. haver sido derrotado encontrara,

um mensa-

do tombo, acerca do nome de que não mais aparecerá nesta

quem o abatera, lhe responde: "Deves saber que te abateu da sela/ o alto valor de Por certo abatido com o desastre de

por uma mulher, o rei leva Angelica na garupa da montalevar por

ria que o mensageiro lhe cede. Logo aparece Baiardo, o cavalo, que Rinaldo não o qual, em troca, reconhece Angelica. Dócil, deixar-se-ia ela se Sacripante não o dominasse. O canto não termina antes do reaparecimen-

Mas, sem que seja novidade no roman courtois, seu descanso pouco dura. Logo escuta o tropel de um cavaleiro montado. Sem percebê-la, era o rei Sacripante, que, sabendo Angelica ter sido levada do Oriente por Orlando, viera

to de Rinaldo. Em tempos passados, Angelica o quisera, agora o despreza; ao contrário do que sucede com ele.
93

92

Que papel atribuímos a esse resumo? Que no espaço estreito do bosque sucedam tantas aventuras não será surpresa para quem conheça sua função nos "romances" de Chrétien de Troyes. Muito menos a quête amoureuse de tantos impávidos guerreiros. A figura singular, incomparável às damas exaltadas no "romance cortês", é apenas Angelica, que "encara o mundo todo com desdém,/ nem crê que merecê-Ia possa alguém" (1,49, vv. 7-8). Sua conduta de frieza e superioridade manter-se-á quanto a Orlando, provocando, agora sim, seja pela escolha que fará, seja por suas consequências, o transtorno dos topoi habituais no roman courtois. Mas a escolha que fizemos do primeiro canto, que apenas preludia a concentração naquele cujo nome ainda não aparece, teve a razão de acentuar o descaso de Ariosto, ao que tudo indica bastante proposital, de restaurar a tradição da épica antiga. Talvez mesmo a experiência adquirida entre os senhores D'Este, estando entre seus serviçais e não participante dos finos jogos de salão, reservado aos cortesãos, o tenham feito perceber que era ridícula a pretensão de recuperar um legado tão distante. A épica, como a haviam conhecido os gregos e os romanos, ainda poderia parecer praticável para os que confundiam o mundo com os aposentos elegantes dos palácios principescos. Mas sobretudo os anos passados em Garfagnana, e saber que a preservação do poder dependia menos das decisões justiceiras de um governador do que das negociações tramadas entre bandoleiros e o senhor que estaria representando, devem tê-Ia feito compreender a distância que se estabelecera entre o mundo real e a poética de que os humanistas eram os guardiães. Daí o desencanto das Satirepoderia tê-Io levado ou a fazer de conta que a poesia era uma fantasia inócua, uma compensação ante a crueza da realidade, ou, simplesmente, a calar-se. Nunca saberemos por que optou por outro caminho. Podemos supor que a indiferença do cardeal Ippolito d'Este ante seus versos lhe tenha fechado o primeiro caminho. Mas por que não se calou e não se dedicou apenas aos cuidados, que não eram poucos, com a família? Toda conjectura seria estéril. Como a formulamos, apenas se insinua que, ao se defender, pelo tom jocoso a que seus versos parecem se reduzir, estava consciente das armadilhas que espalhava. Neste sentido, é bem evidente sua temporalidade: já não é contemporâneo dos primeiros humanistas, da contradição que se lhes apresentava entre o louvor dos valores da Antiguidade e as obrigações da vida contemporânea, mas tampouco de Tasso, com a desfortuna de procurar a todo custo manter o direito de ser poeta. A obsessão com o problema do controle resulta em que, lateral94

mente, se visualize um fundo inatingível: que leva alguém a insistir numa criação que só parece inútil e ociosa? Voltemos à temporalidade de Ariosto. Em termos dos gêneros então conhecidos, sua opção o inclinava pela trilha do roman courtois. Mas já podemos antever, pelo primeiro canto, que seu OrIando não cabia em seus parâmetros. A continuação de sua leitura o confirma. Recorde-se o começo do segundo canto: Sacripante e Rinaldo se reencontram, na presença de Angelica. Estando montado, o oriental levaria vantagem se Baiardo não reconhecesse seu verdadeiro dono. Sacripante é então obrigado a combater a pé. Angelica, de sua parte, teme que o duelo favoreça aquele a quem agora despreza. (Note-se, o que vale para todo o poema, não haver explicações psicológicas para as suas decisões, assim como para as dos demais personagens - salvo, mesmo assim de maneira tão-só aproximada, para a loucura de Orlando.) Mas ela é salva de seu temor pelo aparecimento de um velho ermitão conhecedor da nigromancia, que promete tirá-Iada França. Seu primeiro serviço consiste em convencer Rinaldo que, enquanto combate, Orlando leva Angelica para Paris. Rinaldo desiste do combate e se dirige à cidade em que Carlos Magno o encarrega de ir à Bretanha, recrutar novas tropas, para deter os mouros invasores. Retomando o curso do relato a partir do canto v, lidaremos apenas com o final dos feitos de Rinaldo. Será suficiente considerar seu sentido. Muito embora sua missão na Bretanha e na Escócia seja de cunho guerreiro, Rinaldo se comporta como um cavaleiro errante, pronto a corrigir os malfeitos do mundo. No canto VI, cabe-lhe desfazer uma dupla injustiça: contra a criada que, ingenuamente, fora enleada pela trama do nobre, seu amante, e contra sua senhora, a filha do rei escocês. O autor da trama, il miser Polinesso, será derrotado no duelo final com Rinaldo e o escolhido para esposo de Ginebra, a princesa, havendo ultrapassado a vontade de suicidar-se, é reconhecido como heroico e justo. Por si, o sub-relato apenas levaria a reafirmar uma certa proximidade de Ariosto com os "romances" de Chrétien de Troyes.Para não cairmos em uma falsa trilha, nos perguntamos: que supunha o amor cortês? Como se explicaria o serviço nele prestado à mulher, sob a forma de prestação amorosa? C. S. Lewis recordava que seu lugar de origem, a Provence, era vista pelos contemporâneos como a região em que a simplicidade e a correção dos velhos costumes degenerava, justificando-se, por isso,a investida militar da França do norte. Enquanto o pensamento cristão medieval ainda discutia se a pecaminosidade do ato sexual cessa95

va com o casamento, pois, mesmo aí, o cumprimento va o ofuscamento herético: "Qualquer casamento adultério"

do desejo carnal implica(ligamentum

onde, no canto mouro, também Bradamante Atlante-seu

III,

o mago Merlino lhe ensina a maneira de libertar o amado. na libertação de Ruggiero, entregara a Brunello.

da razão, "a suspensão da atividade intelectual

Para isso, há de se apoderar do anel que torna invisível seu detentor, que o rei interessado o consegue e, fazendo-se invisível, contra ela não valem as armas de cavalo que o transporta pelos ares, o hipogrifo, e seu escudo mágiIV,

rationis)" (Lewis, C. 5.: 1936, 17), o amor cortês trazia consigo um ingrediente idealização do amor sexual, em uma sociedade em que o utilitário, deve principiar por ser uma idealização do entre os dois "essa religião erótica surge como uma é puramente

(ib., 13). Em consequência,

co. Desse modo, consegue, no canto

libertar Ruggero. Atlante, contudo, não

rival ou uma paródia da religião real e enfatiza o antagonismo ideais" (ib., 18). Embora a tese de Lewis pudesse ser parcialmente tação mais recente de Howard Bloch, que, ressaltando trapunha à superioridade

está de todo vencido; consegue que Ruggero monte no hipogrifo, sobre o qual o cavaleiro não tem controle. A razão para que Atlante assim fizesse é explicada: poderoso feiticeiro, Atlante, ao se saber derrotado, destrói o castelo e liberta seus prisioneiros; porém, mais do que poderoso, é um feiticeiro bom: seu interesse, já ao encarcerar Ruggiero, a quem criara e queria como um filho, fora de evitar a morte prevista que lhe sucederia, por traição, logo depois de converter-se ao cristianismo (d. canto IV, 29, vv. 7-8). O mesmo motivo que o levou a prendê10 o leva a fazê-Io montar o cavalo alado:
Ao velho Atlante deve-se esta obra, da sina de Ruggiero apiedado; de tal sina crê o mago que o recobra, pondo só nisso o seu cuidado. Retirá-Io da Europa é o que lhe sobra, eis por que o hipogrijo lhe há mandado. Ruggiero o toma e cuida de levá-Io; recusa-seoanimalaacompanhá-Io.

retificada pela interpreantes a prática da poesia então de

provençal do que o roman courtois, mostra que a adoração da mulher não se conreservada ao macho, seu senhor, servindo reforço para a própria estrutura a retificação postulação feudal (cí. Bloch, H.: 1991), não me parece que para a estrita

afete o ataque que a exaltação erótica representava

teológica. É isso que nos importa: a opção de Ariosto pelos feitos de justificadas pelo suposto caráter de para onde

amor sobre as proezas guerreiras, previamente

pouco sério de seu poema, abria-lhe caminho para tematizar heterodoxamente os temas da tradição épica. Aos poucos iremos nos aproximando leva e a que chega sua heterodoxia. cer justo dizer que, diante da antinomia trabalha o entrelaçamento que seu entrelaçamento leitor e prejudicar entre o tratamento Um desses veios é o seguinte: poderia pareda Eneida e o das com que

Metamorfoses, Ariosto opta pelo segundo. Com efeito, o virtuosismo deixa de ser uma observação razoavelmente

dos enredos antes o aproxima de Ovídio, o que não banal. Já de Ovídio se pode dizer que era capaz de enredar o ao que Momigliano repetira

(rv, 45, vv.1-8)

dos mitos era tão intrincado

seu interesse. (Algo semelhante ao tratamento alegórico -

Incapaz de controlar o cavalo alado, Ruggiero é levado a uma ilha. Quando o cavalo se permite descer à terra, Ruggiero o prende a um mirto. Em episódio claramente extraído do "Inferno" (canto 1II, episódio de Pier della Vigna), a montaria se inquieta, "abala o mirto a que se encontra alfombra; faz cair as folhagens atado,/ tanto que os tal abalo;/ mas não ramos caem, tornam-se

sobre Orlando.) Porém não são banais as consequências mente, elas conduziriam sito do amor cortês. Apenas adiantamos apresentação geral do poema.
VI,

da opção. Aparente-

(

como o fez Lewis a propóda questão nos desviaria da

esse ponto para alertar que não é a solu-

ção adotada por Ariosto. Mas o aprofundamento Para que se entenda o enredo do canto foi aprisionado de encontrá-lo,
96

chega a deixar livre o cavalo" (VI, 26, vv. 5-8). De dentro do lenho, soa uma voz. temos de mencionar episódios É de Astolfo, o guerreiro inglês, a serviço de Carlos Magno, que ali estava encerrado. Conta que, havendo estado preso com Rinaldo e outros no palácio encantado de Atlante, a desventura o tornara cativo de Alcina, filha bastarda de um rei, que espoliara parte das propriedades da irmã, Logistilla, a quem odeia, por ser "recatada e santa" (VI, 46, V. 2). Alcina o seduzira: "Pôs-me Alcina em delícia
97

dos cantos que não escolhemos. No canto II, Ruggiero, o amado de Bradamante, pelo mago Atlante. Escapando do traidor Pinabello, que lhe cono caminho procurara, de fato, matá-Ia, Bradamante descera a uma gruta, tou ter visto Ruggiero ser preso e que, sob o pretexto de ensinar-lhe

vv. para o ventilar. tão logo dele se cansara. arriado e vinolento. em Alcina. 1-8) tesia/ que. o coração daquela dama inclina ao novo amor. 98 . que Ruggiero guarda por Atlante. precipitará o fim da ilusão. sera impossível que te não condoas 99 de rosto inchado e ventre corpulento. É importante notar que a informação uma mancha grave: um mouro que. tar o que experimentara. 1-2). portanto. pois era tanta/ a formosura como já fora com outros. o convertera que Ruggiero o encontrara. continuada pelas duas estrofes seguintes. transmitida confirmava evitar que. Naturalmente. ximidades de evitar o cumprimento da profecia de sua morte. Aos lados o sustinham. Melissa. concentrado Atlante declarava o que procurava evitar que suceo exproba lhe desse a Ruggiero quando o protegia por se desviar dos feitos guerreiros confia: Se não te move ser dos céus eleito (d. Atlante e a permanência ao que será o de Armida no Gerusalemme. ao fazê-Io. (VI. convertido. na árvore em Ao mouro aliado. de fato. que ao bando presidia. supõe que ele logo esqueceu os conselhos do transformado em árvore e está entregue aos encantos de Alcina. (VII. a grandes obras. Fracassada sua primeira estratégia. 76). e a do engano. tuar a correlação sua e a cor- que ia adiante com passo pachorrento. cujo afeto também comanda: . pensa nas predições que tenho feito. agora./ ave mi credo che nascesse Amare" (VI. volúvel. sua astúcia o fizera conceber que o corcel descesse nas proda ilha de que se apossara Alcina. roupas abana. Qual da testa lhe enxuga o suor que mana. o casRuggero (VI. 73. 63. Mas o terrível bando é o pretexto para que o paladino seja ajudado por duas belas jovens que o levam a entrar onde Astolfo dissera que não o fizesse. e o prende em laço forte. O que não impede que Atlante continue atento a seus cuidados (VI. o capitão. por que esquecesse as armas em tal corte. 5-8). Mas. fora traído (m. O velho feiticeiro. 24). frágil sem seu hipogrifo e seu escudo mágico. era efeito de uma magia protetora: lançando mão dos encantos do amor. ela assume o aspecto do velho. nem tuas próprias loas. 45). O lugar assemelha-se ao paraíso:" che si puà ben cOSInommar quellloco. vv. desloca-se para a ilha de Alcina e censura Ruggiero por sua entrega relaxada à vida dos sentidos. Rugnão só giero fosse traído. prendera Ruggero com o propósito a seus companheiros. Rabelais: e da descendência que a Providência opta pelo primeiro. a articulação ressaltam (VII. assinale-se que a prearte. o coração também me ardia" (VI. sobre uma tartaruga se estendia. Sabedora à feiticeira que a passa a Bradamante. [Porque não iremos explorar esse veio. ao vê-Ia. pois pendia cabisbaixo. como se ouvida de Rug- giero. é assaltado por uma turba horrenda cujo chefe parecia saído de uma página do contemporâneo 61). A simples leitura do enredo faz o leitor saber que a intervenção ceira boa. O canto VII trata do idílio de Alcina com Ruggiero e de sua libertação. e assume seu significado vil de engano. A extrema habilidade do poeta revela não ser Atlante quem. Atlante procurava dição de Merlino. Astolfo ensina a maneira de evi- Antes porém de saber o que lhe sucede. A descrição do Paraíso. Na aparência. convém acen- de Atlante com Alcina. 1-2). 44. ao contrário. e qual mago provecto. do respeito e temor a morte de Ruggiero como que a casa D'Este derivaria dos descena origem dos senhores do poeta tinha prévia de Astolfo prevenira Ruggero há a via da razão sadia. de sua vigilância a presença Salienta-a ainda a apresentação gere perde o sentido nobilitante da maga auxiliar: "Sua pessoa era tão bem for11. fala: enquanto no canto IV dentes de sua aliança com Bradamante. Ele o mandara à ínsula de Alcina. Desde logo. 46. que domina os feitiços de toda e qualquer sorte. condição mada/ quanto a que fingem magistrais pintores" O que a seguir sucede.] da alternativa de caminhos que se lhe apresentava: telo de Logistilla. IV. vv. em que o finpara a obra de da feiticonferido à técnica. o episódio é semelhante Pequenos toques o singularizam. e apenas para que ele não estivesse sozinho. VV. vv. qual. 1-6) de Alcina com da ilusão.e ardeu por mim/ de amor igual ao meu. Mas. convertido.

v. aparecendo a Ruggiero como se fosse Atlante.A ação é interrompida. O pressentimento é o último raio da razão. Não deixará que a dama se lhe evada. talo eremita. vv.pesam pouco ao miles gloriosus de Ariosto os deveres militares .) É pela reverência que o mouro guarda por Atlante que se torna fácil a tarefa de Melissa: de posse do anel que Bradamante tomara de Brunello. portanto. Orlando se precipita. O resumo não pode ser senão drástico. com os ímpetos do corcel que a arranca do lugar perigoso para depositá-Ia noutro pior. O canto VIII articula a fuga de Ruggiero e a libertação dos metamorfoseados por Alcina com a missão de Rinaldo na Bretanha. Ruggiero adquire forças para resistir aos seguidores de Alcina. vv. ademais. Na ilha em que fora por ele posta. estéril e deserta" (VIII. 67. finalmente. as agruras de Angelica"e a busca que dela empreende o desesperado Orlando. (E a mesma astúcia de Ariosto se manifesta em que seu leitor não note que o elogio da raça a ser gerada se mistura a fraudes e traições. Qual cão farejador. vigorava um estranho costume: a cada ano. pois quer o céu que geres uma raça cujo fulgor ao mesmo sol embaça! (VII. vir a Orlando. 70. 49. Eis. 36. não deves defraudar tantas pessoas. o embuste a caçar lebre ou zorro na montanha. e tornemos a Angelica. e os pés desvia ao alto. Pelo disfarce que assume Melissa.qualificativos apropriados a tão sensata proprietária. 1-8) 22-32). ao ver fugir a caça por um lado. a se afastar com manha.de sua parte. escapa do eremita. e Ruggiero pronto para tomar o que Dante chamaria a diritta via? As soluções fáceissão logo desmentidas. para. desfaz sua ilusão amorosa. acolhido pela tão diversa Logis101 Desse modo. 8). vv. ora a traz de volta à terra. era tamanha a formosura de Angelica que os nativos só se dispõem a entregá-Ia à orca quando não mais tiveram escolha: "Mas a tal ponto lhe valeu ser bela/ que à dura gente inspira piedade/ [. com os ventos. às voltas com o eremita. 65.e dirige-se à ilha em que Angelica está para ser devorada. (VII. habituado de Melissa funciona porque Ruggiero talvez nunca houvesse entendido o plano de seu pai adotivo. 5-8).. Mas os ventos o desviam e. 6). o próprio rumo do poema. Angelica. abandona as tropas cristãs ..A ilha lhe parece"árida. dispõe de um corcel que não lhe obedece.v.! Vaipela espádua a cabeleira solta. 19. pois sua idade já não favorece seu desejo: "ch'al disio non risponde il corpo enfermo" (VIII. nua. que volta a Ruggiero. ]/ Depois ao monstro a entregam. que abocanha.da geração que surgirá em teu leito. 6)."Ela a veste arregaça e a deixa envolta. onde se torna indefesa ao lascivo ataque. VIII./ por não molhá-Ia. E quando não se espera. 33. o belo se desfez . E o mundo parece voltar aos eixos. Como se pressentisse o perigo pelo qual ela passa. que ora arremete para o mar . No entanto. vv. 3-6) -. 60. 83. e por diversa Estrada. 1-2 e 7-8). mesmo porque o canto VII não se encerra em si mesmo. 8) . depois de tão largo espaço. ainda na Escócia 100 . para outro vai. Salva a flor da virgindade para correr o risco de morte. em sonho escuta uma voz que lhe declara: "Não mais esperes com ela deleitar-te!" (VIII. 51). Conta. Angelica legata aI nudo scoglio (VIII. que procuramrecuperá-Io. Mostrou também o anel que tudo quanto tinha Alcina de belo era postiço: tudo postiço. 1-8) Ela. Será assim de fato. da cabeça aos pés: ficou-lhe a escória.v.! da brisa a receber lascivo assalto" (VIII. Derrota-os e à própria Alcinae se dirige ao caminho de Logistilla. Astolfo então deixará sua condição de mirto que chora e retomará à sua condição de paladino. ei-lo chegado co'a presa destroçada. e convencendo-o a superar o feitiço de Alcina. que apenas coroam o episódio. seus habitantes tinham de escolher uma bela mulher a ser devorada por um monstro marinho (d. não só Ruggiero está pronto a retomar a via de que se desviara como se desfaz a metamorfose a que Alcina submetera seus prisioneiros. (VIII. Algumas estrofes e certos versos comprovam a extrema habilidade de Ariosto em mudar de som e acorde: (VIII. Deixemos de lado as façanhas de Rinaldo. seu pai adotivo. contudo. Que. vv.! e a corá -Ia a acompanha toda a gente" (VIII. assim como a formosura que parecia ser de sua amante: E com o anel desfez-se-lhe o feitiço. v.

vv.: 1987. espantosamente densa de imagens. vv. 2-3. que não passaria em vão mais continente que ele. por mais que se empenhe. de sua parte. 7-8). Orlando não derrotara apenas a orca e afugentara deuses e nativos. então com o combate entre um guerreiro Quando este está próximo de vencer.I-2). identifica Angelica. 54). grifo meu) que sua O fracasso da "educação" recuperação altamente primeiros sintomático. 7-8). em um piscar de olhos/ desapareceu haja escapado. 6. R. pondo-o no dedo de Angelica. Sem hesitar. Ruggiero reconhece que o adversário era Bradamante. não fora bastante. Montam no hipogrifo e estão libertos: "Ruggiero se volta muitas vezes e cobrei de mil beijos seu peito e olhos vivazes" (x.199-201. Mais do que interrupção to. vv. por que não o aproveita para desfazer-se de mais um incômodo sedutor? "Tirou-o do dedo e 0/ escondeu na boca. 112. aXen6crates. mas com a reversão do desejo desgovernado e o autoengano apaixonado.1 ra a educação recebida de Logistilla? Por certo. essa elaborada narrativa da eduçação. com palaconvencional: "Oh Formosa donzela. destreza em destruir as alegorias esperadas. Recorre I ao anel que Bradamante lhe dera e. Por mais que o leitor saiba das ramificações de quem salvara (cf. XI. [. A cena se interrompe e retoma a Orlando. vv. a orca. que sempre reinara em seu coração. é compensado por tornar que nos será preciosa: cadeia/ com que Amor prende aos amantes" (x. 1-2) Mas se Ruggiero não tem escrúpulos. aquele em que ele ensandece. Ruggiero não consegue feri-lo. prudente" (x. parece quando as nuvens o vela" (XI. ela lhe ensina a domar o hipogrifo e. 19. A ironia e a sát~ra do poeta se combinam à sua extrema dos maior. O resumo.. Veste-se de suas armas e sai a e um gigante. 1-4). vv. como respeitara a nudez da próxima vítima (cf... (XI.torna-a invi- sível e a salva da orca. Ruggiero só não seduzira Angelica porque ela fora mais esperta. Em vez do retorno "nostálgico" pela memória ao "lar" da própria identidade e da posse de si mesmo. Ruggiero. Orlando o faz: "A orca é forçada a seguir o cabo/ puxado por uma força que a toda excede. 97. 4). Angelica de súbito frustrado: enganado por aquela que esteve à escolhe o melhor corcel e pensa em tornar a seu Oriente (cf.A. ao menos temporariamente. Depara-se de seu corcel alado.tilla. como reconheceram mesmo os mais ardorosos defensores das intenQue razão podia haver que refreasse Ruggiero para afastá-Io de gozar de Angelica. Ruggiero o leva pelo mundo e. Surge então o monstro marinho e. 109. contra sua própria XI. 7-8). é o duplamente 102 de OrIando e da impossibili103 . e Ruggiero já i~1 está esquecido de Bradamante: Infelizmente. que não soubemos compreensível interpretação fazer mais curto. 5-8). nua no bosque agradável e solitário? de Bradamante esquecera-se por completo ções didáticas de Ariosto. [. depois de ver as tropas que o rei escocês mandava para ajuda a Carlos Magno. ] O momento em que a educação de Ruggiero deveria provar seu valor é. v. e de novo erra por uma "selva"de cegueira e ilusão terrena. Como parte da boa educação do forasteiro. Estupefato. Consegue evitar sua morte. sua prometida. vv. 12.. 8-9. vv.. ao contrário. louco seria se não aproveitasse a ocasião. Onde fica. figuras e textos de ascese. tão-só digna da beira de seduzir e despossuído caminho. um" cavalo sfrenato". 7-8). 59. 5-8). culmina não com um humanista triunfo sobre a monstruosidade ou com o acesso a uma imagem de perfeição natural. levando-a nos braços (cf. mas não que o gigante no relaescape. se sua memória permanecia fresca como antes. Já na primeira prova. quando Ruggiero tentar estuprar a mulher que resgatara.20). ] Torna-se a própria imagem de um animal.Aela se dirige. Assim age porque" [seus] olhos já o haviam conquistado" (x. a passagem responde a um claro propósito de contraste: Ruggiero não vence (XI. 96. vv. Ruggiero não se mostra bom aprendiz. vv. XI. Estando domado o hipogrifo. Assim o relativo detalhamento onze cantos pode ser compensado por um salto muitíssimo que nos levará ao canto decisivo para nosso propósito. do alto. Ruggiero se esquece por completo. contudo. de Ruggiero.! força que em um só puxão/ podia mais que dez cabrestantes" 41. ingratidão pragueja da vista de Ruggiero./ como faz o sol Ruggiero não crê que lhe e protesta contra a imprudência (Ascoli. prestes a ser sacrificada: "Poderia crer que fosse estátua feita/ ou de alabastro ou de outro mármore vras de um cavaleirismo ilustre" (x. a esperteza de Angelica não tem limites: se dispõe de um anel que a torna invisível. XI. ademais se consideramos o levará a ser o originador da casa dos senhores de Ariosto. "mirando-se no espelho luzente/ a conhecer-se a si mesmo. O contraste também opera quanto à conduta de ambos face à sedução erótica.

por que não o aproveita para desfazer-se de mais um incômodo sedutor? "Tirou-o do dedo e 0/ escondeu na boca. destreza em destruir as alegorias esperadas. Veste-se de suas armas e sai a e um gigante. é compensado por tornar que nos será preciosa: cadeia/ com que Amor prende aos amantes" (x. Assim o relativo detalhamento onze cantos pode ser compensado por um salto muitíssimo que nos levará ao canto decisivo para nosso propósito. identifica Angelica. é o duplamente 102 frustrado: de Orlando e da impossibili103 . 7-8). Por mais que o leitor saiba das ramificações vv. 4). 6.1-2) Mas se Ruggiero não tem escrúpulos. Em vez do retorno "nostálgico" pela memória ao "lar" da própria identidade e da posse de si mesmo. Orlando não derrotara apenas a orca e afugentara deuses e nativos. Estupefato. e Ruggiero já está esquecido de Bradamante: Infelizmente. XI. Como parte da boa educação do forasteiro. em um piscar de olhos/ desapareceu haja escapado. de seu corcel alado. Recorre ao anel que Bradamante lhe dera e. aXenácrates. se sua memória permanecia fresca como antes. tão-só digna da convencional: beira de seduzir e despossuído caminho. como respeitara a nudez da próxima vítima (cf. vv. a passagem responde a um claro propósito de contraste: Ruggiero não vence (XI. sua prometida. então com o combate entre um guerreiro de vencer. Angelica de súbito enganado por aquela que esteve à escolhe o melhor corcel e pensa em tornar aseu Oriente (cf. figuras e textos de ascese. culmina não com umhumanista triunfo sobre a monstruosidade ou com o acesso a uma imagem de perfeição natural. 59. 199-201. parece A ironia e a sát~ra do poeta se combinam à sua extrema dos maior.. v. Onde ficara a educação recebida de Logistilla? Por certo. Montam no hipogrifo e estão libertos: "Ruggiero se volta muitas vezes e cobrei de mil beijos seu peito e olhos vivazes" (x.A. prudente" (x. 7-8). por mais que se empenhe. mas não que o gigante no rela- escape. 2-3.. (XI. Ruggiero só não seduzira Angelica porque ela fora mais esperta. Ruggiero reconhece que o adversário era Consegue evitar sua morte. de sua parte. vv. Ruggiero o leva pelo mundo e.! força que em um só puxão/ podia mais que dez cabrestantes" 41. ] O momento em que a educação de Ruggiero deveria provar seu valor é. 12.: 1987. prestes a ser sacrificada: "Poderia crer que fosse estátua feita/ ou de alabastro ou de outro mármore vras de um cavaleirismo ilustre" (x. não fora bastante.torna-a invisível e a salva da orca. Orlando o faz: "A orca é forçada a seguir o cabo/ puxado por uma força que a toda excede. O contraste também opera quanto à conduta de ambos face à sedução erótica. essa elaborada narrativa da eduçação. depois de ver as tropas que o rei escocês mandava para ajuda a Carlos Magno.54). 1-4).. ao menos temporariamente.8-9. pondo-o no dedo de Angelica. que sempre reinara em seu coração. um" cavalo sfrenato". ] Torna-se a própria imagem de um animal. Surge então o monstro marinho e. 1-2). grifo meu) que sua O fracasso da "educação" recuperação altamente primeiros sintomático. O resumo. vv.. de Ruggiero. que não soubemos compreensível interpretação fazer mais curto. a orca. ao contrário. vv. 19-20). louco seria se não aproveitasse a ocasião. ademais se consideramos o levará a ser o originador da casa dos senhores de Ariosto. Ruggiero se esquece por completo. quando Ruggiero tentar estuprar a mulher que resgatara. espantosamente densa de imagens. 97. [. vv. nua no bosque agradável e solitário? de Bradamante esquecera-se por completo ções didáticas de Ariosto. Ruggiero não se mostra bom aprendiz./ como faz o sol Ruggiero não crê que lhe e protesta contra a imprudência quando as nuvens o vela" (XI. 7-8). vv. com pala"Oh Formosa donzela. vv. levando-a nos braços (cf. ela lhe ensina a domar o hipogrifo e. e de novo erra por uma "selvà' de cegueira e ilusão terrena. ingratidão pragueja da vista de Ruggiero. a esperteza de Angelica não tem limites: se dispõe de um anel que a torna invisível. que não passaria em vão mais continente que ele.tilla. do alto. Ruggiero não consegue feri -10. contudo. "mirando-se no espelho luzente/ a conhecer-se a si mesmo. (Ascoli. aquele em que ele ensandece. mas com a reversão do desejo desgovernado e o autoengano apaixonado. Já na primeira prova. Estando domado o hipogrifo. vv. 96. contra sua própria de quem salvara (cf. Mais do que interrupção to. como reconheceram mesmo os mais ardorosos defensores das intenQue razão podia haver que refreasse Ruggiero para afastá-Io de gozar de Angelica. Ruggiero. Sem hesitar. A ela se dirige. 112. 109. [. 7-8). 5-8). 5-8). R. Depara-se Quando este está próximo Bradamante. XI. Assim age porque" [seus] olhos já o haviam conquistado" (x. A cena se interrompe e retoma a Orlando. XI.XI.

21. têm sua memória guardada. por mérito próprio ou de seus meios mágicos. ] "Por que te inquietas. ao revelar seu nome. 'iV. ] Oh agudos e discretos príncipes. a primeira compreensão do essa figura. E o Evangelista advertia: [ . Muito mais porque o ancião. 83. que levava sua tecelagem. isenta à morte. que declara a Astolfo haver sido convoe o fim de sua penitência. o trabalho das Parcas. "atravessa uma montanha de várias flores./ outrora de bom odor.dade de referi -los em uma obra que não lhe seja exclusivamente ainda o surpreenda o canto XXXIV. não É João. Astolfo destaca uma" che piit che d' arfinal splender parea" (xxxv. uma paisagem sem igual e. dedicada. salvando-se tão-só uns poucos pelos bandos de corvos. explicando-lhe la santa fede" (XXXIV.. no canto parece mais próxima da Lua. que buscam resgatá-Ios. os aduladores. 5-8). montado XXIV. Orlando cado pelo próprio Deus para lhe revelar não só a maneira de resgatar as tropas cristãs como a razão da pena de Orlando enlouquecera abandonara porque. versos 5-8. um palácio a que se dirige. quem lhe fala. XXXIX. marcada com pequenas placas de ferro. 22./ vê-se que assim quis 58. o ancião o conduz a ver dela. Estranha paródia. uma força extraordinária. milhares dos nomes desaparecem. No rio do esquecimento. Conquanto os versos glosem passagem do Evangelho até que eu venha. (XXVI. (XXXIV. tal como foram outros milhares que com mais justiça se lhes pode antepor: o que lhes trouxe aquele sublime renome foram os doados palácios e as magníficas vilas com que seus descendentes agraciaram a mão dos escritores. mas para ajudar Carlos Magno" e 56). contêm os juízos de cada um e localiza o de Orlando (d. XXXV. nem Aquiles tão forte nem tão feroz Heitor. 5-8). vv. Como se não lhe bastasse. 8). em que se amontoam tunaas coisas perdidas por culpa dos homens. vv. entre muitos. crê em mim não se fez sem alto mistério. 3. minha volta? / Embora não tenha dito: ele não deve morrer. Para curá -10. Astolfo chega à entrada do inferno. Entre as tecelagens já feitas para as gerações futuras. Astolfo deve seguir o Evangelista à Lua. arrastado pela paixão por uma infiel (d. 50-8). ter escritores como amigos. o Evangelista. làsi raguna" 73. o de Orlando é o maior de todos. é sintomático É../ que te importa" (João. ajudadas por um velho. Logo Astolfo depara com os diversos frascos que No fim do canto anterior. vv. no meio 85. Poucos. desde logo. abutres e gralhas. Depois de exaltar o cardeal D'Este. 5-8) que ali fora trazido. vv. e o tempo se encarrega de submergi-Ios. ao nascer. 55. Aparece-lhe a fumaça que se aden- chega ao cume da montanha próprio viajante está meio esvaziado. que pela vontade divina chegaste ao paraído terrestre.. 8). V.. O do grifo. porque chega ao Além como se houvesse sido transportado da Terra. v. 5-8). acrescenta Cristo teria dito a Pedro: [ . volta ao cavalo alado e. Pergunta a seu guia a quem cabia e ouve que se destinava a Ippolito d'Este (d. deveis seguir o exemplo de César. Apresenta -se-lhe um ancião que lhe declara: [. só assim não tereis de temer as ondas do Letes. embora ignores a causa de tua viagem e o objeto de teu desejo não saibas tua chegada do hemisfério norte. havendo recebido. como supõe a fama. talvez no hipoque lhe vestre" (XXXIV. dos astrólogos "e ainda dos poetas havia muitos" (XXXIV. ["Se eu quero que ela permaneça 22)]. "cià chesi perde qui. do tempo ou da For(XXXIV. O encontro do apóstolo com Astolfo parece uma paróa alguma parte menos conhecida que se quero que fique até dia resumida da Divina com media. v. seus aliados. na verdade. 105 que Ariosto escolha uma passagem de certo modo ambígua. Chegam a um vale. 80.A curiosidade de Astolfo leva -o ainda a saber que o velho servidor das Parcas lança os nomes dos que haviam morrido no Letes. 8)./ dizer" (XXXIV. Mas também nomeia os dos sofistas.. XXXIV. 63-4).! Esta era a doação (se é lícito dizê-Io)/ que fez Constantino 104 " . 5-6). portanto. que agora fedem. Não suportando sa. prata ou ouro. 8. O cardeal será explicitamente nomeado na estrofe 8. ] oh nobre cavaleiro. O relato do que se mostra a Astolfo estende-se pelo canto seguinte. Astolfo. Mas ainda assim é resgate provisório.. estaria Ariosto louvando poetas como ele mesmo? As estrofes que se seguem eliminam encontro de Astolfo com seu guia e sua viagem: Não foi Eneias tão piedoso. isto é. o apenas morao bom Sil- tal.

O episódio do Vale da Lua então se mostra como a contraface do palácio de Alcina: "A poesia [. em teu mundo. que esconde o oposto dentro de si" (ib. do canto das coisas per- didas na Terra. E. que os neoplatônicos [seus contemporâneos] de fato faziam o oposto do que diziam fazer. fiel a seu esposo. A segunda estende-se das estrofes 87 a 92. "em um único episódio.265). R. contudo.. enumeração de João. cuja meta é a purificação que alcança esvaziado e redescoberta de seu eu intelectual original". a inversão irônica operada por Ariosto consiste em fazer do mundo mais alto um meio de interpretar o inferIor. que os tornam imorredouros (d. reputada de prostituta. Para destroçar o elogio do cardeal Ippolito. limitemo-nos a notar o contraste entre o fracasso da que Astolfo alcança. do canto XXIV. envolve a paródia de "uma ascensão. Ele sugere. projetavam uma imagem antropomórfica nos espaços desconhecidos dos céus vistos e não vistos. 170).. embora tivesse tido inimigos na terra e no céu. A segunda correlação. (xxxv. não o levam para cima. o breve é suficiente para o que foi proposto. xxxv. tido. 23. isto é. 23) . ] aparece como uma Alcina alegórica. A priXXXIV - meira se estende da estrofe 73 à 84.. Desse modo. Ascoli. em declarar a veracidade fosse da história humana. R. a Astolfo.A. xxxv. se queres saber a desnuda verdade.Não foi Augusto tão santo e benigno como a trompa de Virgílio o soa. O sorriso de Ariosto é extremaAriosto usou a Bíblia para O resumo acima mostrou-se uns poucos comentários ensinamentos indispensável para que acompanhássemos de A. e os verdadeiros poetas. Ascoli. 25-8). de modo pouco sutil. atacar a poesia e a poesia para atacar a Bíblia" (ib. A. às estrofes 3 a 30. naufraga e morre no mar. o próprio louvor de Ippolito desaparece no sorvedouro da Amo os escritores e cumpro meu dever com eles. pois os bens a recuperação do juízo de Orlando e do seu próprio. R. anca I poeti rari" (xxxv. Ascoli. o Evangelista. logo a seguir. a que se ajunta a vaidade das esperanças e dos desejos humanos.275).: 1987. acusasse Homero os eVirgílio de mentirosos (xxxv. 1) -. Penélope tenha tido de sofrer mil ultrajes dos pretendentes. desmentindo-se o Evangelista a sipróprio. Restringindo paração das jornadas de Ruggiero. e não o contrário. Mas. de João: sua distin- que lisonjeiam seus senhores. fosse das revelações transcendentes. do xxxv. se houvesse captado a amizade dos escritores. A inversão não páraaí. não se recusa a acu107 . ao fazer com que João defendesse os poetas e. R. sua com- alegoria dos destinos e do tempo (Ascoli. e que. também eu fui escritor. (lb. Ariosto pôs em crise o poder da linguagem. vencedora. A. 291)."son. 25-8) (d. senão que envolve os ensinamentos ção entre os poetastros (as gralhas e semelhantes). sedu- zidos pelas recompensas financeiras desmistificação (d. e Penélope foi uma meretriz. assim como o êxito de Astolfo é correlato à transcendência exitosa de Dante (cf. come I cigni. o fracasso do primeiro é o correlato do que Ulisses recebe na Divina commedia: em vez de ir além do conhecido. convertas a história toda ao contrário: que os gregos foram derrotados e Troia. para apenas adiar o esquecimento de seus nomes. 273)..: 1987. e 106 mente venenoso. 25-7). podem ser divididos em duas partes. de qualquer linguagem. Por isso Homero cantou as vitórias de Agamêmnon. no Vale da Lua. Embora tenhamos comentário tido de simplificar ao extremo a tese de Ascoli. Conforme o crítico norte-americano.). só porque Virgílio não foi seu amigo. Nesse sen- "educação" de Ruggiero e o êxito das informações O bom gusto que teve na poesia não o perdoa das iníquas proscrições. a partir dos caminhos de Alcina e Logistilla. em parte Ninguém saberia se Nero foi injusto.: 1987. Doutra parte escuta que fama deixou Dido. Não te maravilhes que eu não me aflija. como se não bastasse.. que teve tão tímido coração. é corroída pela revelação de que mesmo os "cisnes" são lisonjeadores. efez os troianos parecerem vis e covardes. nem sua fama seria talvez menos boa. e te fale profusamente disso. mas o trazem de volta à terra (id. 271).

K."Son." [.263). a capacidade de o leitor. É manifesto o risco a que Ariosto assim se submetia. uma verdade estável e imóvel. como separamos as inversões demonstradas por Ascoli da desferencialização a que parecem tender.: 1989. tanto liberamos a "bela aparência" de Stierle de uma superioridade atribuída à arte que se autonomiza. Seria. na alegoria desalegorizada. Stierle. mas sem se limitar a ela. com a ponta questionadora do pensamento contemporâneo. Ascoli permitirá que nos refiramos tão-só a K. concernente a seu entendimento da alegoria. através do efeito da beleza. ocioso ainda ressaltar que a loucura de Orlando prenuncia a do Quixote? E que uma e outra foram os meios de que os autores lançaram mão para questionar o Bunkerdas verdades controladoras? É provável que. dos heróis salvadores . implica o questionamento de uma concepção substancialista de verdade..) Que haja uma beleza que escapa da própria aparência e que essa beleza possa tornar-se nossa. Quixote lia? A sátira. tenhamos estabelecido uma sintonia extrema de Ariosto. na experiência subjetiva. acentuava que o questionamento a que submetia os valores vigentes não isentava o poeta. Em todo o item reservado a Ariosto. R. o mundo dos paladinos . ] [Constituise assim como que] uma dupla codificação irônica de dois modos de ler. É evidente que a dupla codificação. Isso contudo não impede que delas extraiamos uma consequência comum. senão que autônoma da bela aparência" (Stierle. semelhante ao que faremos com Cervantes. ao contrário. se não mesmo com seu princípio da incerteza. a dupla possibilidade de leitura. a ironia. a paródia se integram na "bela aparência". supõe que a "bela aparência" provoca uma "suspensão voluntária da descrença"./ poeti che non siam deZnome indegni". pois. A concepção tradicional de alegoria supõe um plano fixo. anco I poeti rari. (O pouco que já escrevemos sobre A. e desfazem seu caráter de jogo e divertimento. Talvez a discusssão apenas comece a ser aberta. pôr em questão os ( valores vigentes. a que a poesia ilustraria. portanto. isto é.sar de falsa.. indo além da demonstração da existência de um controle do imaginário. isto é. Como então nos surpreenderia que Cervantes tenha livrado da fogueira o exemplar de Orlando que o 108 109 . come i cigni. ao passo que a segunda conduz a uma concepção não mais alegórica. um dos quais remete de volta a uma compreensão alegórica da aparência. Era. na verdade da evidência momentânea. A segunda.que era questionado. Por essa leitura.não mais reconduzível ao esquema alegórico tradicional.na acepção extensa do termo. dissemos lamentar não poder detalhar as duas leituras mais radicais que se fizeram de Orlando furioso. Não se excluindo sequer a si mesmo da condição de lisonjeador de seu patrono.da estética de Ariosto de uma bela aparência liberta de suas origens alegóricas. Ela se põe em consonância com a nova arte da bela aparência. mentirosa e aduladora a obra de seus próprios pares . como é pragmaticamente exposta na obra de Botticelli. consiste o novo sentido .

o tato . a phantasía nada menos que se opunha à mímesis: "A mímesis só pode criar como obra sua o que viu.C. com elas. com o De imaginatione (1500).G. Estando pleno o cosmo. e assim todo o corporal que pode ser percebido e apreendido por um dos sentidos. Pois tudo que se torna objeto da percepção. VI.. Em sua Vida deApolônio de Tiana. através de Flávio Filostrato. Tal correspondência ocorreu tão-só no século III d. a visão. as pou- ARISTÓTELES: IMAGINAÇÃO E MEMÓRIA Como cogitar de uma obra como a que se escreve sem considerar a phan- tasía. Blumenberg acentua que a phantasía em Aristóteles não se confundia com o "poder de fazer imagens". o gosto. de Pico della Mirandola. em janeiro de 1986 (d. em que ressalta a questão da phantasía. Butcher (inAristotle's theory ofpoetry and fine art. Mas aquela correção tanto este livro contém o desdobrafoi descartada porque o pensamento estético afastou de si o embaraçoso de que logo se terá uma prova. Aprofundando observação feita ainda no começo do século xx por S. não tivesse o caráter enigmático que é o seu. H. XIX). realizado em Roma. (Della Mirandola.)(par "mímesis-imitatio': quanto porque a criptografia do De anima é incontornável.Longino. retrata uma soma muito rica em força imaginativa. com o do pseudo. teorias. no caso de Rosenmeyer. Rosenmeyer. quando já se lhe emprestava o caráter de tratado absolutamente normativo. optamos por um tratamento internamente muito diferenciado: ao passo que uma pequena parte do De anima recebe um tratamento cas teorias a seguir analisadas são apenas esboçadas. primeira página repete dois equívocos capitais: a aproximação com a semelhança e da mímesis com a imitatio: cuja da imaginatio Esta (a imagina tio ) contém em si.: 1989). aphantasía não podia equivaler à livre variação de sua representação. Na impossibilidade de fazer uma coisa e outra. Bianchi: 1988). este a imaginação. aprofundado. 111 -Ias com a questão do controle. pensada por Aristóteles?! É certo que sua influência maior se deu a partir 110 . definitiva de 1907). isto é. para que.as semelhanças de coisas externas e. o olfato. produz. a audição. Como sabe o leitor da "Nota introdutória': primeiros capítulos concentraram-se mento de teses presentes na Trilogia do controle (2007).H.: 1957). por Francesco Robortello. Fattori.50) A abertura para a Antiguidade A João Adolfo Hansen e Marília Librandi havia de ser feita. embora paradoxalmente. como concebemos ser próprio da imaginação. M.no interior da chamada segunda sofística.: 1500.pelos cinco órgãos dos sentidos. [De teor muito diverso era o esclarecimento que oferecia Hans Blumenberg (Blumenberg. Assim como seus dois na cena inicial do controle moderno. semelhanças e imagens de natureza incorpórea e espiritual. T. em 1548. E: -. contentam-se em comparar os usos aristotélicos de phantasía com o de suposto correspondente por autores modernos e. quer um ensaio com a mesma meta (d. tivéssemos condições de relacionádeveria dedicar-se ao estudo da fonte do imaginário. conforme suas possibilidades. pela imitação. P. ed. Isso ainda podia ser resumirenascentista houvesse sido corrigida ou se o próprio tratado aristotélico. mas a phantasía (pode) igualmente o que não viu (Filostrato. nos séculos do a uma nota ou um pequeno parágrafo se a deturpação APENAS UMA ADVERTÊNCIA e XV1. Quer um simpósio dedicado ao tema. originada no iníXV para que se verificassem os equívocos gerados pela interpretação cio dos tempos modernos. O imaginário e a imaginação do momento em que passaram a circular a tradução e o comentário da Poética para o latim. depois de expostas suas principais Daí resulta a disparidade das interpretações * Ela já se mostra acerca da tradução de phantasía por imaginação.3. Sua desfiguração já estava em curso desde antes. e M.

Rorty. discordantes. ] A capacidade perceptiva não é sem corpo.] "Tome-se como exemplo o importante ensaio de Marco Zingano (d. fomos forçados a ousar: na notável reflexão aristotélica sobre a phantasía" estão simultaneamente plantados a via de penetração do que a arte faz e os obstáculos em entendê-Ia. que. Mas não nos apressemos.. de destacar que ela se Ao assinalar a divergência. Se é ele que libera a mímesis do cativeiro platônico. Esse está equipado (turns out) das condições necessárias. sua tradução usuaL 113 . tal como aqueles que. por exemplo. quando temos a opinião de que algo é terrível ou pavoro"Tem sido frequente. não menos problemática. " (403a 30-b simples.: 1992. eles não comportavam. Assim. extrair melhor resultado: malgrado sua discrepância. 112 ou verdadeira. de ordem físico-natural corpo e psique.: 1998). se seguíssemos o filósofo à risca impossibilitaríamos a própria releitura que aqui será feita. ao passo que o intelecto é separado" (429b pois é o modo de estar "separado" que cria a questão. ao contrário. na verdade. pois há necessidade de que ela seja falsa própria da imaginação. historicamente. ao contrário do que. entre os comentadores do De Anima. 2). como Aristóteles dirá depois. uma estrutura realizada na matéria" (Nussbaum. porém órgão algum e mudança alguma são correlacionados e resultantes de um ou mais órgãos. dupla abordagem aristotélica os autores estariam de acordo em que a nega a pura separação entre física e filosófica - posição. A. as "determinações a autora. ora. por exemplo. dirá o seu intérprete a propósito da passagem: É evidente que a imaginação não é pensamento olhos. não trata do objeto do presente ensaio. M. Embora a inferênciaseja cognições materializadas "Pois a determinação é a forma da coisa . é um logos enhylos. a relaciona com o falso e o erro. Zingano. do que hoje chada e abrangente. na passagem. Até que do. Como toda genialidade. H. onde ela não atrapalhe. O pri- A LEITURA DE MALCOLM SCHOFIELD O entendimento que Schofield terá da phantasía é marcado pela proximida- meiro. o leitor que conheça o que temos escrito sobre o controle do imaginário e a tentativa de revisão da mímesiscompreenderá que.. são ponto. um traço saliente na extensa bibliografia das últimas décadas: seus especialistas se conformam em recortar certo tema ou em decifrar uma pequena passagem. O. por sua vez. fará Descartes.. Assim. Além disso. M. não é menos aquele que. C. Entenda-se ser intencional o empréstimo aos termos centrais do DeAnima de significados que. "O modo como a percepção 'não é sem corpo' é diverso de como é o pensar. há de se distin- para caracterizar a atividade psíquica em geral? Se afirmá-Io parece suficiente para guir ainda entre o que vale para a percepção sensível (aísthesis) e o que é próprio à cognição.42-3).8). Essa compreensão mais ampla. para Martha Nussbaum da matéria" [logos enhylos] (403a 25) bastam e Hilary Putnam. e Putnam. quando considera a cólera. infelizmente. na abertura do pensamento moderno. Prova-o manifesta mesmo onde não seria esperável. chamar a atenção sobre a impossibilidade de entender-se a phantasía aristotélica simplesmente como "imaginação" (d. o filósofo (dialektikós) "falaria em desejo de retaliação" ou algo do tipo. Ao passo que o estudioso da natureza (physikós) "falaria em ebulição do sangue e calor em torno do coração". 111)." Contentamo-nos em recordar que o tratado se propõe à tematização diferenciae dialética (filosófica). Preciosos como são o esclarecimento filológico de Blumenberg e seu embasamento em Filostrato. mamos "o aparato psíquico humano". tenho tão-só o propósito de semântica e de uso que fixa entre o verbo phainesthai (aparecer) e o substantivo phainetai (aparição).Antevisão do percurso Não trataremos nem do De anima (Peri psyche) como um todo nem de sua no conjunto das obras de seu autor. contudo. Para Amélie O. "as afecções da alma (pathe tespsyches). ao texto aristotélico "[ . abrindo o caminho para pensar que é a imaginação. sobre a forma e a determinação. Podemos. A controvérsia não se resolve pela mera recorrência 4-5) -. lança alguma luz no motivo por que nos atrevemos a remexer em um livro reconhecidamente complicado: mesmo sem antecipar o que será feito em ''A torsão corporal". como de regra.: 1992. usaremos ora o termo grego. Em princípio. e ter de de nós e do nosso querer (pois é possível que produzamos na memória. Será por sua leitura que testarei a seguir a capacidade de fazer mais do que uma glosa. Deixe-se bem claro o que será feito: procuraremos nos acercar de como Aristóteles pensa o lugar da phantasía pelo cotejo de três intérpretes seus. nem por isso os especialistas se põem de acor(enmattered logoi)" (Rorty. a de Aristóteles cria problemas delicados. produzem opinião (doxa) não depende somente de nós. [O primeiro] discorre sobre a matéria e o outro. Pois essa afecção depenalgo diante dos nossos imagens). contudo. apoiando-se e suposição. nota da p..

cujas fronteiras. a ora a "cópia': ora a "semelhança". Para confirmá-Io. que os tra(Assim.. A ambiguidade são igualque o De anima lhe transsemântica que onde a percepção sensível os frustra (1978. E. ] No contexto imediato.: 1978.Em primeiro lugar.. parece inadequada a observação sobre a experiência de si próprio ou de outrem de que as coisas são como parecem: "parece ser assim e assim (mas o é de fato?)". ocorrendo o mesmo quando é encorajador.251) 114 115 É quando nossos olhos se relaxam que phainetai se torna o lugar adequado. sem que seu lugar próprio seja determinado. ] » ( 42 7b 14-5). contudo. ] Os homens exercem a phantasía será tomada como "uma espécie de eikon':) (De memoria. (Schofield. (Schofield. o helenista fica sem saber onde precisamente localizar a phantasía.: 1978. M. envolve o pensamento com a perplexidade.. cautela ou não compromisso acerca do caráter verídico das experiências sensórias ou quase sensórias.260). se é pela imaginação. devemos dizer que nem tudo o que aparece é verdadeiro. quando o emprego da phantasía desliza de "aparecer" para "ver". devemos dizer que.) de Schofield. outro. imagens aparecem para nós mesmo de olhos fechados. entretanto. 450b 27..). não é afirmado e. sobre as ocasiões comparativamente raras em que.. eaution.. a hesitação da linha interpretativa como a phantasía ora tem seu sentido derivado de phainesthai.258) . Tal ceticismo "pois (à) imaginação. ora o de "cópià'. Scruton]. A essa dificulde eikon (imagem). não há traço das preocupações características das seções há pouco consideradas: o uso de phainetai como significativamente apropriado para casos de phantasía.por certo. (Schofield. tampouco com "aparecer" (phainesthai) do que é pensado.. ] Aristóteles ressalta o uso mais frequente de phainesthai para exprimir ceticismo. sem parcialmente a um e a a deixaria em posição contígua a algo tão inconfiável como a percepção sensíveL a phantasía se afasta para se aproximar A phantasía funde-se com ele se confundir. seria associado que [que.. 101Gb1-4) Nas palavras do perplexo analista: "[ . Daí Schofield encarecer seu caráter de skepticism. [. seu caráter enfaticamente sensório . mesmo que a percepção sensível não seja falsa relativamente a seu objeto próprio. ora de ver. permanecemos como que contemplando em uma pintura coisas terríveis e encorajadoras (427b 16-24): Portanto. 1460b 9). Porém. o ceticismo aristotélico derivaria da própria experiência sensível: nossos órgãos dos sentidos não são confiáveis. como já dissemos. e eikon ora tem o sentido de "semelhança". (428a 12-5) Schofield comenta sucintamente: precisamente com a Metafísiea: No que se refere ao problema da verdade. ornon-commital quanto a seu teor de verdade. [. E reitera seu juízo envolve os termos básicos toma compreensível a tese que Schofield sustentará: Argumentarei que [.. (Met.Assim Bem se entende. As outras informações mitirá aumentarão seu estado de perplexidade.253) É bem nítida a luta do intérprete que já teria sido de Aristóteles diante da phantasía. M. Saberá apenas que não se confunde nem com a percepção sensível nem com a cognição. é algo diverso Schofield recorda afirmação um pouco anterior: ''A imaginação dade acrescenta-se dutores memória consideram a que envolve a compreensão equivalente tanto da percepção sensível como do raciocínio [.: 1978. em 427b 16-24 a phantasía é tratada antes como ver. ] Quando estamos em atividade acurada no que concerne a um objeto perceptível. portanto. como dizia R. vai além daquilo em que se crê" (id. oscila entre percepção e cognição. e o jul- gamento que fazemos ao empregá-Ia não é diretamente um relato do que percebemos. sendo o próprio poeta designado como eikonopoiós (Poética. por uma ou outra razão especial. mente tocadas pela phantasía. porém um enunciado mais cauteloso de como nos parece. M.. mas os critérios usados para distingui-Ia da crença tornam-na de preferência análoga ao pensar do que ao perceber. daí. de como o que percebemos nos encara.. de imediato compartilhamos a emoção. mas antes quando não o percebemos claramente. Livro IV. todavia ela não coincide com a imaginação.so. Sua proximidade Dela. não dizemos que ele aparenta ser um homem. de como o interpretamos. . A operação é reiterada a propósito da seguinte passagem: Ou seja. É nesse caso que a percepção seria verdadeira ou falsa. o argumento conduz Aristóteles a uma solução insatisfatória.

5. A LEITURA DE VICTOR CASTON Se confrontarmos a abordagem de Malcolm Schofield com os comentários que Giovanni Reale e M. ao fato de que tais divergências sejam possíveis e não ~ ao problema diferente de saber por que somos algumas vezes apanhados por elas.: 1978. a resposta é simples: nifica "aparência. destaque-se seu final:" [. Alonga passagem que se inicia em 460b 1 assimjustificaoengano: Mesmo quando o objeto externo da percepção desapareceu. que se trata de ilusão:' (Cf. Cecília Gomes dos Reis acrescentaram às suas respectivas traduções da Metafísiea e de De anima. a seu uso apenas caberia a reserva que Aristóteles mantém em relação a ela. Charles 5anders Peirce distinguia três tipos de signo. é evidente que antes se distancie do que se confunda com a informação direta ou imediata da percepção. no sentido de Peirce. [. pode supor que vê animais nas paredes de seu quarto. nem porque esteja associado com traços I Em suma. 460b 11-5) se a como no exemplo do sol. o De anima não considera a phantasía uma faculdade de julgamento (d. I1I. Schofield a estende ao termo phantasma. C. Daí a formulação mais incisiva: Aristóteles "concebia a phantasía como uma faculdade para experiências sensórias não paradigmáticas" (ib.. IlI.. quanto com os sentidos ou a memória da pessoa a quem serve como signo. em primeiro lugar. se ela se diferencia tanto da cognição como da percepção.. É dentro desse vasto quadro que. alguém no delírio da febre. É certo. Eo define como um signo "que se refere a seu objeto não tanto por conta de qualquer similaridade ou analogia com ele. 1903. por um lado. Estabelecida a desconfiança na phantasía como meio de alcance da verdade. não dissipa. mas no lembrar. 117 I . enganados quanto às operações admitamos. ] mostra que o objeto prin( sões que provocou e elas se tornam objetos de percepção. algo mais contradita a imaginação (phantasía)" (Sobre os sonhos. que. O "etc. * Como é sabido.: 1966.se atualiza pela interpretação dos dados escorregadios dos sentidos. no sentido de "tornar aparente.Interessamo-nos. mas a imprecisão de seu lugar não a favorece para a apreciação abrangente do que Aristóteles intenta.. o icônico. lhe fora proposta por um colega? Como se ele próprio procurasse apa116 gerais que aquele objeto costuma possuir quanto por estar em em conexão dinâmica (inclusive especial) tanto com o objeto individual.255).a palavra contém a regra que determina o que denota. 107). ] Desse modo. um raio acompanhado de um barulho estupendo como indicador "de que algo considerávelsucedeu" (ib. reconhecerá. para Malcolm Schofield. no entanto.4)** divergir do que é efetivamente no I sermos excitados pelas emoções (ib. portanto. como declara. mostrar. o índice e o símbolo. embora.. 108 e 109). 105). somos. ] Poder-se-ia considerar implausível que Aristóteles quisesse especificar uma faculdade da alma em tais termos negativos se se leva em conta o trabalho construtivo que atribui à phantasía não só na ação.. ( * Da nota que o autor faz acompanhar a afirmação traduzida. ] O pro.. no pensar etc. na abertura de De anima. persistem as impres- Uma leitura atenta do princípio do De anima. aqui com o sentido amplo do 'erro'."(ib. mantém uma ampla discussão com os filósofos que o antecederam. que sensível ao cipal deste capítulo é oproblema do erro:é preciso dar-se conta do fato que o conteúdo dos estados mentais pode eventualmente mundo. febre não for alta.460b 2-5). phantasma sig- o que equivale a dizer: se a phantasía gar a dúvida. Portanto. Schofield. pretexto.* para a aproximação seguinte. O símbolo confunde-se com o signo convencional e mais geral... 460b 18-20).I blema do erro concerne. com facilidade.. com frequência. em vez de ser a pura exposição do pensamento aristotélico sobre o conteúdo dos estados mentais. aparição. o qual não implica consentimento ou afirmação". que. 3 [ . que Schofield não suprime de sua reflexão uma dúvida considerável: "[ . Para nós. ela funcionará como um índice. 260). que "pode representar seu objeto sobretudo por sua similaridade. (Caston.." não indicaria o esforço de Schofield em afastar a objeção. da percepção ademais. porém.. M. apresentação. não importa qual seu modo de ser" (Peirce. 265-6).: ca. v.. Tomando-o como derivado de phantazo. Oferece como prova o conhecido exemplo da aparência do sol: "O sol aparece como tendo apenas um pé de diâmetro. O que teria levado o filósofo a desenvolver a discussão de um termo que apenas estivera pronunciado nos livros de seus predecessores? Para Caston. teremos a impressão de que uma das prováveis razões das decisões interpretativas do helenista inglês foi não haver ele considerado que o De anima. é introduzido o termo phantasía. contudo. Como exemplos de índice. 254).. por outro" (id. Não se superpõe nem às percepções nem à cognição. apresentar".enquanto fonte da verdade. muitas vezes com a forte implicação de irrealidade" (ib. Peirce lembra o andar bamboleante de alguém como "provável indicação de que se trata de um marinheiro".

encaminha a: "2. Como logo se nota. deve desde logo mostrar que a phantasía se distingue tanto da sensação quanto da apreensão conceitual.. sustenta ele.: 1966. V. a qual. 10). ao menos.. aí lendo a causa. Para que se torne mais clara a argumentação. a astúcia dos homens cresce. sua ênfase recai sobre o 118 . na tradução em que nos baseamos. um estado mental é adequado a X somente quando algo como X está contido.. verossimilmente. 11). (b) esperar que ele a termine.] Embora Caston observe que em nenhuma das três citações os autores se refiram à percepção (d. 8. do 'erro"'. Daí decorre o encaminhamento argumentativo do autor: procura reconsti- O primeiro passo de Aristóteles teria consistido em reformular o "parecem" do original.. até onde seja indispensável.. e a alma passa a maior parte do tempo nele" (427a 30-b 2). da phantasía como motivadora acompanhar poderíamos a reconstituição escolher entre duas dialógica de Casna tese não considerando na possibilidade de desenvolver de imediato (i).: 1966. vias: (a) embora sucintamente. " (cE. enfatizado por (3). A tarefa que Caston se impõe é recuperar Aristóteles teria dado nessa direção. suas intuições de maneira a fazer com que nelas surgisse o que. é preciso ou que (i) todas as aparências sejam verdadeiras (como alguns o disseram).: 1966. pois "ele* é mais próprio aos animais. literalmente. que à diferença desses estados. a primeira. de acordo com o que Aristóteles julga estar dito em seus predecessores. Descartando "apostaria" reconstituir Do ponto de vista de seu aproveitamento. 9). (Esclareço que essa * "Ele". de 427 a 29. isto é. refere-se a "enganar-se". para que. portanto. seu conteúdo admite autenticamente o erro. ]. ]. ou que (ii) o contato com o dissemelhante constitua o erro (pois que é o contrário do conhecimento do mesmo pelo mesmo" (Caston. em ton: " Dadas suas opiniões.. então o erro só pode se produzir quando o dissemelhante intervém" (ib. 119 Assim como Empédocles. Aristóteles seria segundo lugar.4) (ii). ealhures: "Donde o entender sempre lhes propicia coisas diferentes". [O verso de Homero não aparece nos textos que nos chegaram. Caston. o resultado não é satisfatório. completemos a transcrição da passagem acima: De posse do elemento antes não formulado. percebe-se o mesmo pelo mesmo" (ib. Aristóteles que Aristóteles estende sua tese a todos (ou quase todos) os animais semoventes. entender e perceber. V. disseram que entender é o mesmo que perceber [. notas 3 e 4). nelas não cabia. que disse: Diante do que se apresenta. Caston. ton. Seguiremos. propor-se-ia a repensar Empédocles. ao rever a proposição (3).: 1966. os antigos.A demonstração lado: é feita pelo confronto com o que os antigos haviampostu- parecem de "o pensar e entender ção entre os dois atos é acentuada parecem ser um certo perceber". o "dissemelhante". (427a 17-28).. afinal. "Conforme Empédocles. o que teria feito por seu desdobramento "1. e como o pensar e entender parecem ser um certo perceber (pois em ambos os casos a alma discerne e toma conhecimento de seres). 7). em nós" (ib. na elaboração mental: Para que esta estratégia funcione plenamente. A identificapara que então se "constitua (id. ao passo que Caston prefere falar em erro: "Cependant ils auraient díi aussi au même temps dire quelque chose au sujet de l' erreur . pois todos eles supõem que o pensar é tão corpóreo como o perceber e que se percebe e se entende o semelhante pelo semelhante [. Mas os que o antecederam condições para extrair uma teoria do erro. Seu esforço. seria necessário que os que as pensaram 3. v. e o seguinte verso de Homero pretende o mesmo: "Pois tal é o seu intelecto'~ (427a 23-6). v. para nos concentrarmos expressamente do erro cognitivo humano - Uma pequena indicação é oferecida pela reunião da proposição (3) com a inferência contida em (ii): "Se o mesmo é conhecido pelo mesmo. No horizonte do "mesmo pelo mesmo". trad. Aristóteles adverte que. ao mesmo o conteúdo das proposi- tempo. nas seguintes proposições: [no De anima] um ataque em regra contra essa identificação" Uma vez que definem a alma sobretudo a partir de duas diferenças. Na continuação do capítulo 3. (Caston. Conforme não se davam de Casa reconstituição tuir os passos que justificam a discordância aristotélica. depois. pensar e perceber.. a phantasía se lhe apresente como a fonte do erro. 13). pelo movimento local e pelo pensar. Pensa-se e da mesma passagem "tratassem. são processos corporais. 10). para admitir-se ções (2) e (3).Aristóteles teria introduzido o "dissemelhante" de (ii). por os passos que si. Pensar é um processo do mesmo gênero que perceber". Ambos..

não da responsabilidade de Caston. do mesmo modo o intelecto está para os inteligíveis. e o estado mental que dele resulta se refere à sua causa" (id. a apreensão conceitual e o conhecimento são sempre verdadeiros" ton.) Pois. ele seria ou um certo modo de ser afetado pelo inteligível ou alguma outra coisa desse tipo. que a relação entre um estado mental e aquilo a que ele se refere não possa ser simplesmente identificado com a relação entre um efeito e sua causa. 22) não afeta a solidariedade quanto à (Casalter- verdade. É apenas nesse segundo sentido que casos parpodem ser significativamente Aqui chegados. De um ponto de é insuficiente. só tem sentido se se presume a existência dos estados mentais verdadeiros assim como dos falsos" (id. (lb. Em consequência. a indagação das aparências perceptuais tinção entre estados mentais verdadeiros se põem no mesmo patamar que a verdade. 20). A postulação do erro. É o que faz De anima: gênero que perceber" -. Pois "se o erro fosse devido à interação dos dissemelhantes. o problema da em suspenso o papel a ser desempeque só foram introduzidos. trata -se de. por consesenão o de penetrar rência perceptual não há de ser tomada como causa dos estados mentais. antes dele. como dirá Caston. Épreciso então que esta parte da alma seja impassível. que. que aquela e este mantêm O Apenas para não deixarmos "causa" e "divergência" recorde-se a conclusão parcial do intérprete: Para que o erro seja possível. o De anima. especificamente quando o mesmo afeta o mesmo. 21). a causa. então o erro e o conhecimento deveriam coincidir no caso dos contrários. 15). no "conhecimento opostos a casos partipois pode ser devido à interação dos dissemelhantes" guinte. Percepção e pensamento confiáveis. Por conseguinte. isto é. Em segundo lugar. nhado mais superficial nosso encaminhamento. entretanto. "não oferecem nenhuma e falsos" (ib. como Aristóteles conA reconstrução. originar-se são. não é suficiente para abalar a estabilidade do "mesmo pelo mesmo". o resumo já nos permite vislumbrar pelos elementos como se põe.) "Assim.). e que. "conforme Aristóteles. (3) é reduzida ao absurdo.. à relação entre o erro e o estado mental. a proposição minar o conteúdo de um estado mental não garante de modo algum sua verdaaltera o conteúdo dos estados mentais. a associação. Onde.). ticulares de conhecimento culares de erro" (ib. v. Mas o elemento novo. a ênfase no mesmo e pasem vez de ser salva.: 1966. Ou seja ainda. em De anima. (Poder-se-ia também dizer: se o mesmo produz o mesmo. 16). isto é. pois elas disdo pensar que esses estados são verdadeiros A melhor resultado não chegamos se invertermos sarmos a enfatizar o dissemelhante. Mas é também preciso que conteúdo e causa divirjam. Assim manter a afirmação "Pensa-se e percebe-se o mesmo pelo mesmo" teve o peso suficiente para converter a causalidade em um elemento ocioso e em neutralizar a variável "divergência". pois. vista psicológico. Ao defini -10 como um campo não resse aristotélico era estritamente Isso posto. a sensação [operação de base da percepção]. assim como o perceptivo está para os objetos perceptíveis. mas o erro e o conhecimento jamais coincidem. e que seja capaz de receber a forma e seja em potência tal qual mas não o próprio objeto. mas seria absureo ipso" (ib. depois de retocada. um sentido epistemológico. "DeterAristóteles pretendia que o De anima atuasse. a memó121 . no caso de desvios.. do ponto de vista da verdade. a trabalhosa reconstituição epistemológico. conforme a tradução nativa. Negada a conexão causal entre o perceptível e os estados mentais. Ora. (3) une o conteú- siderava o que. Um estado mental sobrevém quando um objeto interage de uma maneira apropriada. a introdução da causalidade seria a de uma categoria ociosa. limitemo-nos de. Mas. se o pensar é como o perceber. voltando-se à proposição (1) . "tal correspondência exclui manifestamente o erro" (id). é preciso que o conteúdo de um estado mental entretenha alguma relação com sua causa. como gênero de estado mental. a apa- lI! não tem o propósito de fundar uma ciência. 120 se localiza o erro (ou. primeiramente. acentua-se que o inteligado ao que chamamos de "psicologià'. adverte Caston. havia sido pensado acerca da percepção e do ato de pensar -. (429a 13-7) Ir além implica.28-9)."Pensar é um processo do mesmo ir além da semelhança aí postulada. mostra que considerava a falha de seus antepassados haver consistido em não prever um lugar para o erro cognitivo. o engano?) Ele só poderia se fundar fora das operações fundamentais. tornaremos imaginação. não tem. entretanto. distinguir a percepção do pensamento. por conseguinte. portanto.leitura é minha. noutro estado mental: "A imaginação. Ingerir alucinógenos do à causa. o erro não (ib. chega a ponto de precisar em que contexto de conhecimento senão que relativo aos estados mentais. empreendida por Caston isto é.

) No contexto mais genérico desta abordagem. quando. Sem que esclareça por completo a divergência resultados derivada daquela constância. enquanto tal. a ima122 tal como. Em ambas as passagens. Pelo que entendo. ele raciocina como se as estiginação não se confunde com a phantasía (cf. as imagens subsistem como sensações percebidas. por não terem intelecto. integra-se da percepção e da cognição e. as paixões e os se articulam o que não sig- gem participa das operações fundamentais além. então. faz entender que a relação entre imagem subsistente e erro ou mesmo. a antecipação. os animais fazem muitas coisas de acordo com elas. em De anima. ele reconhecevendo-a mover-se pela percepção comum momento. reiteramos que. como os homens. a o capaz de pensar pensa as formas. o desejo. a ciência e o intelecto. ]". se bem que não sejam idênticos" (ib. Quanto a (b) e (c). por si. a articulação da phantasía com as operações de base é convergente: Para a alma capaz de pensar. (Se o fosse.. em outro na alma. pois falsa" (428a 16-8). A conclusão da primeira. mas algo pode aparecer (phainesthai) delas subsiste (. (b) da apreensão ton. e como nestas está definido para ele o que deve ser perseguido e o que deve ser evitado. (Pensamos que a diferença é evidente. a deliberação. limitemo.. em imagens. grifo meu) à verdade. mas sempre supõem uma imagem. Nussbaum ser referida depois. 27). que.. a ação. claramente. (429a 4-7) Ao destacarmos a passagem acima. O pensar e asformas não se engendram às cegas.) Fonte do erro (ou do engano). evita-o ou persegue-o. a alma jamais pensa sem imagem. Por exemplo. não é confiável. (c) do de phantasía se diferencia "(a) da sensação. por fim. E. quanto a (f) 123 . vai muito além do campo perceptivo. Embora a constância da presença da imagem na ativação da psique merecesse uma indagação mais demorada. nota 1). 25). portanto. o raciocínio. a divergência entre a phantasía. Se aquele é o modelo apropriado nifica que seja sempre falsa:" (.27). sem que seu estatuto deixe de ser ambíguo. se afirma algo bom ou nega-se algo ruim. Quanto e suposição.. o conteúdo mais fundamental to depende do conteúdo da phantasía. (e) de um composto de opinião e sensação" (Casbásicos. v. não favoreça a distinção. a aceitar-se antes importa ressaltar que a conceitual.. quando percebe a tocha em que está o fogo. assim como em De memoria. (d) da opinião. afirma-se que o phantasma subsiste à sensação. a imagem integra os fenômenos da percepção e do pensamento. Por isso. a abertura percepção sensível. "segundo Aristóteles. indo de sonhos todos requerem a operação de um outro estado mental que Aristóteles chama de phantasía" (ib. a ima(1978). ele se move quando está diante das imagens. a passagem de Caston há de ser considerada: "Aristóteles não pensa que cada espécie de estado mental possa se explicar com a ajuda do mesmo modelo que o da sensação e da apreensão conceitual" (Caston. alguns. Enquanto as operações fundamentais ao que existe pela conexão causal..nos a notar que. [. embora a perspectiva adotada por Martha C. a percepção e a cognição decorre do estado mental que acompanha aquela: E porque (as imagens) perduram e são semelhantes às percepções sensíveis. outros. Restringindo-nos aos esclarecimentos e delibera sobre coisas vindouras à luz das presentes (431 b 2-7). a phantasía introduz o desvio ras e a maioria das imaginações à phantasía. como as bestas. Note-se que a divisão não é feita em termos unÍvocos: se a percepção sensível e a apreensão conceitual são sempre verdadeiras. v. conhecimento.. a phantasía engloba do pensamen- a variedade dos outros estados mentais.: 1966. pois há necessidade de que ela seja falsa ou verdadeira" (42 7b 16 e 20-1). ] As percepções sensíveis são sempre verdadeié falsa" (428a 11). em Aristóteles. Por isso. Em diversas ocasiões. vessevendo com as imagens e pensamentos que é um inimigo. também há a imaginação imaginação não é pensamento sensível é ou uma potência visão ou uma atividade como o ato de ver. é evicomo uma 428a 5 é suficiente quanto a (a): "Não ser a imaginação dente a partir disto: pois a percepção para nós mesmos quando nenhuma suficiente assinalar: "A imaginação que são sempre verdadeiras. por exemplo. Mas.. de modo mais brando: engano com SchofieldqueAristóteles conhecimento não é biunívoca. no entanto. mesmo à parte da percepção sensível. (431a 14-6. ] Ter opinião (doxa) não depen- de somente de nós.: 1966. O que. por terem o intelecto algumas vezes obscurecido pela doença ou pelo sono.ria. da phantasía apenas se diz que sua maioria é falsa. não teríamos outro remédio senão estender seu ceticismo à capacidade de do próprio homem. é tampouco poderia ser uma das disposições a (d): "É evidente que a mantinha uma posição cética quanto à forçada ima- ginação.25).

É o que faremos acompanhando a a sensação é a experiência primorque também acom- Depois deste voo mais alto voltemos à condição moderada argumentação sensação percebida sem matéria. da doxa ainda em 427b 20: ao à phantasía basta a produção do to (nous). 125 . Será preciso que séculos e séculos passem até que. Mas a opinião é acompanhada de convicção (pois não é possível que aquele que opina não acredite naquilo que opina). embora desprovidas de matéria. gos platônicos. embora em muitas subsista imaginação. pois. não mais dos por Caston por convergir com o erro (ou engano): O erro. da alétheia. à verdade. A phantasía. Qual seria ele? Assim o formulamos: sem se duvidar da enorme contribuição de Aristóteles ao conhecimento subordinar de como pensamos. quando se contempla. próprio agente. Na experiência phantasía revela um instante verdade. ele se permitia os rasfacilitam o acesso dos diálosuporia que. em algumas feras. de melhor resultado -. C. 432a 10-1). como uma operação com o mundo aos percepta e à cognição.24) Como sempre. Produtiva mas não a serviço da vera seu um objeto que dá mais a pensar do que se submete e sintetizada pelas categorias se diferencia dos cinco estados nomea- Ao objeto imaginário estética. a phantasía sendo.. na Terceira Crítica (1790). Kant estabeleça a diferença entre os juízos determinante e de reflexão. Vejamos a formulaanterior à última frase citada: condições [. daquilo que se percebe.) phantasía eram identificados cedia ao alcance da verdade percepção e o entendimento. o que não quer dizer. A ele. um escalonamento: dial. Só neste a imaginação ao entendimento. portanto. Em nenhum instante. há necessidade de se contemplar ao mesmo tempo alguma imagem. porém. Mas nada do que concerne a phantasía passível de ser reconhecida 112-3). com uma experiência privada. a que obviamente Aristóteles anterior à sua subordinação aos julgamentos da esteve em confundir uma experiência subjetiva requer que aceitemos ou rejeitemos seu conteúdo: como o estabelece Aristóteles: 'a imaginação é diferente da asserção e da negação (m. platônicos.. Se a imaginação se superpor. Portanto. dele se distingue por ser "diferente da assersem imagem. mas não razão). pois as imagens são como que sensações percebidas. a interação em qualquer outro sujeito. é identificada fonte do erro. 1. é ao o juízo sobre o certo da tese de Cas- embora não haja pensamento pensamento que assevera ou nega que cabe frontalmente ou errado. O limite aristotélico (d.. ela apresenta entendimento. a de acercar-se da Tocamos no ponto mais delicado do pequeno tratado. pelo menos desde PIa tão e os é orientada pelo único alvo mental à deriva. e a convicção é acompanhada do estar persuadido. toda opinião é acompanhada de convicção. sua debilidade não explicita o calcanhar-de-aquiles resulta de não haver conseguido dobrar o ponto cego que permanece no De anima. ] Se nada é percebido. há de se acentuar que ela tem por limite que oferecem ao intelecnossas operações cognitivas à contribuição divergente. A passagem é demasiado ção imediatamente importante para que não nos detenhamos nela. Ao passo que o supõe sensação e matéria (não esqueçamos de um terceiro intérprete.. segue-se-Ihe a imagem entendimento 124 contribui do homem para esse alcance é porque se estende.[. ] requer que efetivamente aceitemos o conteúdo de uma phantasía dada como verdadeiro. Só as operações dariam ao homem que Aristóteles conde base da mente.: 2000.. no sentido forte de extraviar-se [. (428a 19. adere "uma outra natureza". Vale por isso acentuar: se o imaginar se confundisse com ter opiseu ato simplesmente acrescentar uma doxa ao que o mundo nos entrega.. mesmo internamente gos de poeticidade nião a propósito a escrita de Aristóteles é extremamente compacta ou panhada de imagem). ] Ocorre opinião tanto verdadeira como falsa.. O último destaque ton? Dizendo-o de modo mais correto. Ao contrário de um simplismo dessa ordem. deste texto. mas em nenhuma das feras subsiste convicção. era passível de proA imaginação e os demais componentes da com o erro pelo privilégio (alétheia). e a persuasão é acompanhada de razão. (Einbildungskraft) ultrapassa a função de subordinada dade. a imaginação ção e da negação". nada se aprende nem se compreende. ao menos aparentemente. (Dizemo-Io por oposição à experiência estética kantiana: ela não se encerrava no foro íntimo porque Kant julgava que. isto é. desconhecia. subsiste imaginação. e não à imaginação per se. (Além disso. 1. sendo ela capaz de realizar-se vocar um sensus communis. portanto. alétheia. a phantasía é bem diferenciada passo que a opinião precisa ser compartilhada. 8. sem Porque. e. (432a 7-10) Estabelece-se.

(Frede. é estritamente limitada ao que está. de um fim merecedor (cf. sua definição sugere que phantasiaisão especificar uma faculdade da alma em termos tão que estabelece para a phanta- sía. ora para o da percepção sensível: Por um lado. porquanto Aristóteles não oferece uma descrição posterior da relação causal entre a percepção sensorial e as phantasiai [. É difícil dizer. Tais imagens se baseiam nas percepções sensoriais e funcionam como elas. ] Seria um triunfo da gene127 .: 1992. no sentido mais amplo (como diríamos). demoraria Sem a veemência sua tese: pode apenas pensar o não-sensível.. são sempre já phantasmata para Aristóteles. no pensar etc.: 1992.: 1978. gíveis. no momento em que está. mas elas mesmas não são percepções sensoriais: "Para a alma capaz de pensar. Todas as projeções sensoriais são devidas à imaginação. A crítica toca lateralmente na falta de uma linguagem caracterização sempre exata. mas no lembrar. Ao fazê-Io. não pode haver percepções sensoriais de bens e males futuros. é a constatação anteriocoe- de que De anima não contém um texto absolutamente rente ou que. Ao contrário. tenho de criar para mim a aparência de um bem futuro. a phantasía é encarada como uma condição necessária do pensamento ("não há suposição sem ela'A27b 15).289) Sua formulação direta evita meandros. qual é o status preciso dos diferentes tipos de phantasiai. contudo. Dorothea Frede equaciona como um "gênio descabelado" como . D. no De anima. que conduzem os animais porque eles não têm razão e os seres humanos quando perturbados pela paixão. Do que resulta seu caráter. neste ponto. Comecemos pela proposição bási- Se há um ponto comum entre Dorothea Frede e os dois intérpretes res. porque ca: as percepções sensíveis já são e permanecem phantasmata. (Frede. IIl. ]. tendo em conta o trabalho construtivo enfrenta diretamente a questão que pensar que é implausível seria arbitrário.. sua redação é insuficiente para que se apreenda um ponto de vista definido. Parece que as phantasiai de M. M. Naturalmente. as formas inteliuma deriva convincente. As percepções sensoriais. É preferível partir de que sua abordagem que Schofield deixara à margem: "Poder-se-ia Aristóteles tivesse querido negativos. A percepção sensorial. chamemo-Io assim.. a da phantasía ora a incline para o lado do pensamento. mas pode tornar-se falsa quando ela cessa." (Schofield.254). por outro lado. D. diante dos sentidos. Mas apenas acentuar esse lugar-comum não considera o contraste que a análise de Frede contém. não só na ação. mas o intelecto necessita de imagens sensíveis para decidir se algo é desejável ou não e tem de encarar situações concretas contendo objetos materiais para decidir se algo é considerável ou deve ser evitado. no todo. Isso. ao menos quando usa uma linguagem precisa. dando-lhe acentuado no fim do item anterior. estaremos considerando que a afirmação de Aristóteles comportar-se (untidy-genius) genial idade de Aristóteles consistiu na maneira ainda não bem estabelecido" (Caston). por si mesmo. passível de ser exposto como a teoria aristotélica das faculdades da psique. por outro lado. A maneira satisfatória de lê-Ia consiste em destacar que tese defende. como foi não faz a autora esquecer que o caracterizou meras imagens que persistem (after-images) da percepção sensorial. as imagens 126 foram aqui relegadas a meros epifenômenos. Caston..433a 14). A como enfrentou "um topos um horizonte. que. com frequência. assim o intelecto. Dessa falta resulta que.A LEITURA DE DOROTHEA FREDE subsistem como sensações percebidas" (431a 14). ainda a reduziria a uma resposta pontual. pelo menos ali onde Aristóteles usa uma linguagem precisa.. a prolongamentos de imagens que persistem além das sensações.. poder-se-ia presumir posta a desculpar que estaria disposta a repetir com Schofield: "( . tanto com ou sem a percepção (428b 25-30). Schofield e V. parasitário: cerca de 1300 anos para assumir A verdade ou a falsidade da phantasía depende igualmente do caráter da percepção sensorial correspondente: a phantasía que segue a percepção do objeto especial (idion) do sentido (como a cor de algo visto) é verdadeira enquanto perdura a percepção.281-2) o trecho é bastante veemente para que se cogitasse de a autora estar diso "gênio descabelado". gênio. pela doença ou adormecidos (420a4-8). falsas (428a 11-6). As phantasiai que seguem a percepção de objetos comuns (como de algo em movimento) e de acidentes (que a coisa branca é um livro) podem ser falsas. Para tomar uma decisão.

rosidade

sobre a justiça

supor que [Aristóteles] Mas a autora é bastante

consegue

combinar

suas limpa"

repetidas,

enquanto

as percepções

sensórias não o podem" (id.). (Para isso, o "ao trabalho mais abstrato de

diversas abordagens

da phantasía

com uma mente completamente

cientista precisa não tanto ter diante de si o objeto sob análise, como formar uma imagem do mesmo antes de submetê-Io sua ciência".)

(Schofield, M.: 1978,253).

arguta para se contentar

com um resultado corriqueiro. vocador depende intelecto da movência é separado"

Sua tese, em vez disso, insiste em dois elemenAo passo que a ativação da percepção "o

tos capitais: o desejo e a capacidade projetiva da imaginação. O desejo é o prodo intelecto. Assim, embora as imagens sejam menos vívidas e, sobretudo, menos acuradas e diretas do que as próprias percepções sensíveis, elas não só se prolongam mais e nos fornecem uma imagem quando a percepção desapareceu, como também são mais proveitosas porque nos dão algo como um quadro (picture) estandardizado de um estado de coisas em geral. (id.) Tais ressalvas, por certo, não convertem a imaginação, conserve em ordem", "as phantasiai podem se tornar para Aristóteles, em que da existência, em seu raio de atuação, de um corpo independente,

(De anima, 429b 5); para que então saia de si mesmo e

parta de sua impassibilidade, precisa estabelecer um circuito com o desejo (orexis). "Pois o objeto desejável move e por isso o raciocínio também move: porque o desejável é o seu princípio. circuito entre pensamento com a contemplação quência a percepção aristotélica E a imaginação, quando move, não move sem desejo. Há algo único, de fato, que faz mover: o desejável" (433a 18-23). O e desejo se impõe para que aquele não se confunda caracteriza com frepara que a posição passiva (no De anima, a passividade (aísthesis), e isso será fundamental

uma faculdade própria: não havendo uma faculdade especial, na alma, que "as meras aparências porque entram e saem de nossa consciência, toca neste ponto o pensamento reaparecem em sonhos ou nos enganam Frede não

não se confunda

ou com certa atitude religiosa, ou com a moder-

quando em estado febril" (ib., 285-6). E não as convertem (nous) do serviço que presta à verdade (alétheia).

na separação entre corpo e alma. Por conseguinte, porque, dado que "o pensamento é capaz de pensar a si próprio" (429b 9), a fim de não se encerrar em si mesmo precisa ligar-se ao desejo. É o desejo que, através das imagens, o estimula. Já quanto à percepção, a mediação do desejo não é imprescindível pela ligação imediata daquela com o mundo. Instalada em um corpo, onde dispõe das janelas dos sentidos, a aísthesis se basta quanto à cena presente. Ao passado, a percepção se liga pela memória. E quanto ao futuro? Para articular-se As imagens então se tordas percepções. "Isso significacom ele, a percepção volta a necessitar da imaginação. nam como prolongamentos ou transformações

grego não distingue o trabalho do intelecto

Em suma, Dorothea Frede, por um lado, nos confirma os limites da phantasía em Aristóteles: se, sobre a filosofia de origem moderna, a phantasía aristotélica tem a vantagem de acentuar a inseparabilidade rato psíquico, do corpo quanto ao apaa desvantagem de ao por outro lado, diante de Kant, apresenta

construir o De anima sobre o pressuposto de uma verdade una, transversal homem e ao mundo e inserida na ordem das coisas.

É no sentido de assinalar o mais vasto espectro do pequeno e precioso tratado que reconhecemos intérpretes a validade da reflexão de Frede: ao contrário dos dois antes destacados, ela consegue extrair do labirinto do De anima uma de, plasmando o desejo em imagem, mover o pende futuro enquanto a

ria que os objetos da imaginação na epistemologia de Aristóteles têm a função de oferecer um objeto ao conhecimento quando não há percepção direta." (Frede, D.: 1992,291, grifo meu). Para Frede, esse prolongamento sariamente suprir uma carência da percepção lar sob inspeção ao passo que o conhecimento então o agente da universalidade phantasmata
128

função afirmativa da phantasía: sem que seja uma faculdade própria, ela desempenha o papel suplementar ção sensível, abrangente samento, ao mesmo tempo que funciona como fusão de elementos da percepdo passado e da expectativa expectativa supõe a repetição do que já se deu. Isso, entretanto, em uma faculdade inevitavelmente infelizmente, desconjuntado não pode aqui ser feito: uma vantagem não a converte

ou transformação

não se associa necesconsiste em

à fonte do erro. Ao contrário, "[ ... ] A atividade

seu serviço imediato

sensorial: eSSÇle esgota no objeto particus da percepção a universais" seu trabalho, concerne a particulares, (417b 22-3). Para que será preciso que "os pelas observações

concerne cumpra

positiva. Seria um ponto a explorar e que, a ser extraída do caráter em uma atividade
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sejam flexíveis e possam

ser enriquecidos

do De anima é não converter a imaginação

saIvadora, isto é, mesmo fora dos estados de sono e doença, seu uso não é neces-

sariamente positivo. * (A observação há de ser destacada pelo leitor que leve a sério a indagação que tenho feito a propósito da imaginação e da mímesis: se ambas visam separar a arte do caráter de "reserva florestal" que ela tem na atualidade, não se supõe que a arte seja solução para os impasses do mundo.)

MEMÓRIA,

ANAMNESE

O De memoria et reminiscentia (Peri mnemes kai anamnesis) é menos um apêndice ao De anima do que um seu complemento. Seu comentário, por isso, pode assumir o caráter de sua continuação. Por que, pergunta-se o primeiro item, tratar separadamente a memória da anamnese (ou evocação) (449b 4-8)? O primeiro critério considera os que são mais habilitados para uma ou outra. Mais adiante, a qualificação de pessoas lentas - que excedem em memorizar - ou sagazes - que evocam melhor - é substituída por um dado de suas respectivas constituições fisiológicas. Naquelas, a umidade envolve o centro da percepção sensível (453a 23); nessas, domina o temperamento melancólico (d. 453a 14ss.). Como a pesquisa sobre a doutrina dos temperamentos da época em nada serviria a nosso propósito, a preterimos por sua qualificação temporal: ambas têm por objeto o passado. Ao contrário da percepção, que trata do presente, "[ ... ] a memória é do passado" (449b 15). Se ainda nada se diz da evocação ou anamnese, podemos entender que ela não se diferencia quanto ao passado, que é também seu objeto. O item seguinte recapitula a primeira formulação e apenas lhe acrescenta que são capazes de memória (mneme) tão-só os animais capazes de perceber o desenrolar do tempo (449b 24-9). Tempo e percepção sensível (aísthesis) são os traços indispensáveis para a elucidação da lembrança em geral. O argumento aos poucos ganha complexidade. Recordando a extensão que dera à imagem no De anima, Aristóteles a reitera: "Sem uma imagem, o pensa* Penso especificamente na observação de Paul Ricoeur sobre a "ressurreição" do passado que Michelet assegura para sua historiografia. Nela, como bem diz Ricoeur, o historiador caía na "armadilha do imaginário", fazendo que a escrita da história assumisse "formas quase alucinatórias" (Ricoeur, P.:2000, 66).
130

mento é impossível" (449b 31). Portanto, visto que "o capaz de pensar pensa as formas, portanto, em imagens" (De anima, 431b 2), também a memória de objetos do pensamento é imagética. Isso, entretanto, não a integra à faculdade de pensar: ''A memória pertencerá ao pensamento em virtude de uma associação acidental, mas, por direito, cabe à parte perceptiva primária" (449b 13-4). O que tampouco significa confundir-se com a percepção. Repete-se quanto à memória o que víramos De anima fazer com a phantasía: seus "lados", por assim dizer, afetam o pensamento e a percepção, sem com eles coincidir. ''Alguém ativamente empenhado em lembrar, sempre diz para si mesmo de que modo ouviu, percebeu ou pensou isso antes" (449b 22-3). A memória repete a ambígua localização entre a percepção e a cognição; funciona onde está a phantasía: da phantasía"[ ... ] Se somos indagados a que parte da alma a memória pertence, respondemos: manifestamente, àquela parte a que também pertence a imaginação" (De memoria, 450a 22-3); apenas sua identificação, aparentemente banal, com o passado lhe assegura a necessária margem de manobras. Porquanto a exploração do passado ainda lhe serviria para distingui-Ia da própria imaginação. ''As imagens da memória (memory-images)", observa Sorabji nos comentários à sua tradução, "não são idênticas às imagens dos sentidos (sense-images) (aisthemata), mas são produzidas por elaspor uma espécie de processo de impressão - [... ] A mudança que ocorre se manifesta em uma espécie de impressão, por assim dizer, da imagem do sentido, como fazem as pessoas que lacram as coisas com um sinete" (De memoria, 450a 30-2) (Sorabji, R.: 1972,11). Pela memória, a phantasía opera por uma imagem-cópia, que se mantém apesar do transcurso do tempo. Fácil de dizê-Io, difícil de demonstrá-Io, parecia afirmar-se Aristóteles. Mais difícil de compreendê-Io (e aceitá-Io) digo-me ante a passagem em que o desenvolve:
Uma pintura pintada sobre um suporte é, a um só tempo, uma figura (phantasma) e uma semelhança (eikon):* ou seja, enquanto a mesma coisa é tanto isso como aquilo, embora ser isso e aquilo não seja o mesmo, e se possa contemplá-la tanto como uma figura, quanto como uma semelhança. Do mesmo modo havemos de
* Sorabji sempre traduz eikon por "cópia"; a tradução editada por J. Barnes opta por "likeness" (semelhança). Na procura de uma formulação tanto quanto possível clara, a passagem é traduzida pela comparação das duas versões. Falo, pois, em "cópia" apenas por fidelidade a Sorabji. Sei, entretanto, o risco que corremos, ante todo o realismo e o positivismo de que estamos impregnados, de distorcer o sentido do eikon aristotélico.
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/
conceber a imagem dentro de nós em si mesma ou como relativa a algo mais. Enquanto encarada em si mesma, é apenas uma figura ou uma imagem; mas, quando considerada como relativa a algo mais, isto é, como sua semelhança, é também uma lembrança. (De memoria,450b 20 ss.) A maior dificuldade está em como entender a significação de eikon. O impasse já fora reconhecido gem-lembrança (e não solucionado) por Paul Ricoeur: "[ ... ] Ao longo de [... ] O ato de evocar difere do de lembrar, não só com respeito ao tempo mas também em que também muitos dos outros animais têm memória, mas, de todos com que estamos familiarizados, nenhum, arriscamo-nos a dizer, exceto o homem, partilha da faculdade de evocação. A causa disso está em que a evocação é, por assim dizer, uma espécie de inferência. (453a 4-14) Aristóteles pensa a evocação tendo por base material a mnemotekhné, o que os latinos chamariam ars memoriaeas técnicas mnemônicas, muito difundidas já em seu tempo. Em consequência, za outro que o sucede" afirmações como a que se inicia em 451 b 11 tem por naturena relação de imadeste e não servem a nosso "Atos de evocação são devidos ao fato de que um movimento visam aos exercícios mnemônicos facilitavam concentrar-se Aristóteles "chama a evocação de uma busca ou, ao menos, de algo como uma busca" (ib. 40); "evocar não é o mesmo que lembrar. Como diferem? Um traço distintivo, naturalmente, próximo ao fim do De memoria: está em que a evocação envolve uma associação de ideias" (ib., 41), que a converte "em uma espécie de inferência". Como se lê

nossa investigação, permanecerá

a questão embaraçosa de saber se, entre a ima-

e a impressão primeira, a relação é de semelhança ou mesmo de

cópia" (Ricoeur, P.: 2000,24). Deixando para o item seguinte a tentativa de interpretação, apenas adianto que a dúvida, expressa na passagem, de como conceber a imagem mental daquele que recorda a imagem guardada dentro de nós é de algo em si mesmo ou de algo mais - já abre a distinção entre memória (mneme) e evocação (anamnesis). Ao afirmá-Io, bem sei que Aristóteles ainda não começara a tratar da anamnesis,que só sucederá no começo do capítulo 2 (451a 18 ss.). Portanto, de seu estrito ponto de vista, a dúvida sobre como interpretar a imagem-lembrança concerne exclusivamente ao que sucede no âmbito da memória. Para que a hipótese do item seguinte possa ter algum nexo, há de se supor que a diferença depois formulada, entre mneme e anamnesis, já se configura aqui. Ou seja, que a letra do texto se adianta à argumentação exposta por seu autor, que algo se formula antes que o autor tivesse ciência do que estava formulando. A ousadia a ser cometida não passaria de uma ridícula arbitrariedade não se considerasse caso

propósito. As técnicas mnemônicas gem e lembrança, restringindo

a evocação à cena do passado. Mantinha-se,

modo, de acordo com a tematização já efetuada no De anima: "Para a alma capaz de pensar, as imagens subsistem como sensações percebidas" (431a 14). Mas, se "tudo vem a ser a partir do que é em atualidade" (431a 3) e caso se considere que a imaginação é uma espécie de pensamento (ef. 433a 10), por que o que se diz sobre em que, naturalmente, a evocação não poderia também valer para a faixa do futuro? E, na sequência da ousadia, por que também não deslocar o eixo temporal incide a memória? Por certo, uma e outra, memória e evocação, sairão transformadas, desde logo, em sua hierarquia: a memória se nos mostrará como um caso particular da evocação. Com isso, já estaremos fora do âmbito da mnemotécnica.

a diferença que Aristóteles ainda expressará. Ela principia nem a aquisi-

pela afirmação direta: "[ ... ] A evocação não é nem a recuperação,

ção da memória. [... ] Pois uma pessoa lembra-se agora do que viu ou experimentou antes. Não se lembra agora do que experimentou agora" (451 a 19-20 e 30). Para a hipótese que desenvolverei, estarei lateralmente comentários de Sorabji: apoiado em alguns

Na palavra anamimneskesthai [evocar] o prefixo ana- significa "outra vez",e o resto da palavra se relaciona a dois verbos que, em Aristóteles, têm o significado padrão de "lembrar". A etimologia poderia então sugerir que evocação é a recuperação da memória. Mas Aristóteles o nega, com base em que a memória não precisa preceder a evocação. Pelo contrário, a evocação é a recuperação do conhecimento científico, da percepção etc. (Sorabji, R.: 1972,35)
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/
A TORSÃO TEMPORAL

A interpretação permanecera

proposta por Dorothea Frede não só acentua um dado que em Schofield e Caston o trabalho de a cognição

inquestionável

fazer-se, em Aristóteles, em prol da verdade contida na própria coisa indagada
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-

como enfatiza outra variante: a ligação da phantasía com o desejo (orexis). que eu saiba aberta C. Nussbaum. Sua referência aqui se faz por justiça e, em parte, posterior M. ao

doença ou do sono (cf. DA 429 a 7). O que não a impede de ressaltar que "a faculdade da aísthesis não pode, sozinha, bastar para prover as condições necessárias para pensar. O phantasma e a phantasía precisam ser mencionados" (ib., 240). e, quando mais entenPortanto, "se nada é percebido, nada se aprende nem se compreende, se contempla, há necessidade de se contemplar

Portanto, ao fazê-Ia, é devedora de uma linha interpretativa por Martha

como modo de justificar o salto a ser dado no item seguinte. Considerando o De motu animalium muito provavelmente De memoria 251) -, parto de antes: "almost certainly later than the Mem" (Nussbaum,

ao mesmo tempo alguma ima-

c.: 1978,

gem [ ... ]" (DA 7ss.), concebe-se o papel ativo da phantasía-não

ressalta passagem do De motu. Para estar seguro de que a compreendo,

dida como fonte de "imagens", no sentido comum do termo, senão um ver como, isto é, um ver interpretativo. Entender o ver interpretativo como um ver como significa que a interpretação não é nem reprodutora fixação mais nítida do que antes se apresentava de modo difuso que se torna algo. O sumário é bastante para compreender-se Aristóteles, entre o serviço prestado à verdade dos sentido tradicionais se confunde de "representação" criadora", a tensão, que não se resolve em responsável pelos equívocos e o papel dinâmico pelo pensamento da que não nem criadora, isto é, nascida de um nada

[... ] As sensações de confiança, de medo, de excitação sexual e outras afecções corporais são acompanhadas de calor ou calafrio, em certos casos, de uma parte, em outros de todo o corpo. [... ] É por isso que é ao mesmo tempo que a criatura pensa que deva mover-se para diante e se move, a menos que algo a impeça. Pois as afecções apropriadamente preparam as partes orgânicas, o desejo [prepara] as afecções e a phantasía, o desejo. (MA: 702a 3-5 e 16-8) A phantasía, destaca Nussbaum, prepara o desejo que leva à ação. No mesmo sentido, no De anima, é dito "que o animal é capaz de desejar, por isso mesmo ele é capaz de se mover" (DA 433b 27 -8). Para a melhor compreensão que implica a articulação destacar que a mudança questionar entre phantasía, desejo e movimento interpretativa proposta por Nussbaum atribuído à "semelhança", da reviravolta corporal, principia cabe por

e imagem -

phantasía, enquanto resposta do corpo ao desejo. É esse dinamismo com a "imaginação desconhecida grego, que explica a função da interpretação contida na "imagem".

Ao passo que a memória é retentiva, conservando que se tenha guardado. * Na aparência, pois, a memória a percepção sensíveL Mas só aparentemente. "mesmo a memória de objetos do pensamento

uma cena do passado, a se relaciona apenas com chega a declarar que é ainda mais evi-

evocação (anamnesis) supõe a busca de recuperar o que passou a partir do resto Aristóteles

o sentido usualmente

daí ao estatuto da M.

"imagem" e, por fim, ao da "representação": 226-7, grifo meu). Em consequência, aparece) tampouco phainomena humanos" ao movimento Nussbaum

"[ ... ] Representar tem sempre sido

mais uma questão de interpretar do que de reproduzir' (Nussbaum,

c.: 1978,
(o que "Os

não é sem imagem" (De memo-

aproximar a phantasía de phainetai (apari-

ria, 450a 12-4). Quanto à evocação, a presença da imaginação esteve sujeito ao esquecimento, anamnesisatue,

ção) assume direção diferente da que lhe Schofield lhe dera, e phantasma são coisas no mundo como vistas (e relatadas)

dente, pois, para que se efetive, isto é, para que se recupere o que se esqueceu ou será preciso que se estabeleça uma associação de é suficiente. Para que a ideias, que não se realiza sem imagens. Um exemplo

se confunde com o sentido passivo que lhe atribuímos:

por observadores

(ib., 231). A ênfase na phantasía como o que move o desejo e conduz o animal semovente, não só o homem, não pretende impede que se continue a houvesse chegado a

é preciso que se tenha "um ponto de partida. Esse é o motivo por de lugares. A razão de uma coisa para outra, por exemplo, do
de ideias",

que se pensa que as pessoas algumas vezes evocam partindo consiste em que se passa rapidamente
* Para a caracterização
que, posterior tual"(Sorabji,R.:

tomar phantasma como imagem, no sentido de "reprodução". que, com isso, Aristóteles uma concepção uniforme confundir,
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da phantasía, nem deixa de enfatizar que a subordi-

da anamnesis, leve-se em conta que ela envolve "uma associação de uma lacuna na memória,

nação do trabalho da cognição (nous) à apreensão da alétheiaé responsável por em certas passagens, a presença da phantasía com o decaying sense da

à experiência 1972,41).

é uma ativdade "de caráter mais intelec-

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com que. de que a primeira éfraca porque tematiza a imagem apenas em SI mesma. de uma operação semelhante ao campo da memória. Corisco). -10. a estação que se procurava. a mnemotekhnéA evocação como o pintor ou qualquer outro feitor de imagens. um cavaloenvolvida nessa contemcomo a ou ima- com algo externo à imagem. temos um pensamento gem. Vale. Como "(A mímesis) se define em relação a imitando-o pelos meios próque fazeo A entrada com a phantasía não permite que dele se cogite - Aristófeles o tenha pensado - em relação à faixa temporal do futuro. memória corresponde aberta por uma figura pintada ou como semelhante à dupla possibilidade da memória ser tomada como é correlacioA I e da evocação. Isto é. respectivamente. preenchendo a mímesis: o relacionamento parte da alternativa propos- quando então teria o caráter de um objeto de contemplação que ficara solto para que a memória se ativasse.387). embora o De anima insistisse que a imaginação apenas contata com a percepção e o pensamento. A dupla possibilidade puro objeto de contemplação nada. do branco para o enevoado e. é ativa. mediante vimos que Aristóteles considera a evocação uma possibilidade sem com ele se confundir. verificar que agora não mais se repete a situação da casa vazia. que o par "lembrança-evocação" não pretendo que acima. é sempre inevitável que sem136 do uma é um resto. O que vale dizer. alguém (phantasma) pois vemos a mímesis relaciona- apresenta a dupla possibilidade de ser algo em si mesmo. não pretendo fixar a intenção formuladora do texto. Parece evidente que. Para isso. a partir do qual o outono. ouso emprestar-lhe item anterior.. para o úmido. ela não se distingue do pensamento. prios de sua arte" (Dupont-Roc.. enquanto ! í A passagem apenas declara: "[ . Até aqui. Ora. assim sucede lançando mão de algo externo à pura imagem.. Partamos de sua glosa e de sua continuação. 6Gb9-13) Os três aspectos possíveis mobiliam anotam seus tradutores e comentadores: a casa antes vazia da imagem. procura-se . Ora. (Poética. intempestiva. estando mneme estreitamente qual o estatuto da imagem internalizada. volto ainda à formulação que me serve de base e. já traduzida R. Para tentáA imagem internalizada um referente exterior ao poeta. daí. portanto. No primeiro caso. 452a 126). Ele continua com um caso. Como se antecipara no final do de 450b 20 não como maneira de fixar da diferença entre senão como antecipação plação é diversa daquela de quem conhecesse Corisco e o contemplasse representação de lembrança. seu possível sentido para outro significado. a questão da memória. se a psique percebe a imagem como algo em si mesmo. se define o poeta como eikonopoiós. primeira possibilidade se a imagem não tem um "refePortanto. conectada com outra coisa. porque a experiência é de semelhança (ou cópia). (ou imagem). de algo mais. releia-se a passagem de De memoria (450b 20 ss). senão que suponho que a letra do texto se antecipa ao que o autor só lhe confiará a partir de 451a 18. Ou seja. 1980. da evocação (anamnesis) e dos campos que a elas parecem associáveis. que ele transpõe. na Poética. Portanto. a alternativa apresenta duas pos( sibilidades de anamnese. no segundo. a memória se ativa através se relacionar a algo mais. o trabalho da evocaque o agente seja capaz de estabelecer. a algo mais - faz a imagem habitar uma casa vazia. Em seu lugar. contudo. assim à imagem que em nós se conserva. do De memoria. ta em 450b 20ss. ] enquanto a mudança [entendo que se refere à figura pintada sobre um suporte]. ante a dupla possibilidade. glosava o trecho que já se conhece. a rente" (no exemplo. é lembrado" Pergunto-me mantém então se o relacionamento (De memoria. Já de restauração restabelecer 137 ção realiza-se a partir da semelhança memorizável. técnica - e esforço. mos na Poética não é. ou de ou cópia. Mas algo em si mesmo? mental. através das imagens (phantasmata). A insuficiência que isso implica é reiterada quando.leite para o branco.. Alguém que não conheça o Corisco realcontempla sua figura como algo em si. pela releitura de 450b 20ss. é também a memória é associada por relacionada a eikon. mneme e anamnesis. leio a dupla possibilidade a relação de eikon com a memória. ao fazê-Io. Aristóteles à segunda. A própria associação não se verificaria sem a intervenção de imagens. através de uma derivação anamnética. Toda essa volta se impôs para que se explicasse o que tentarei fazer: repensar. desenvolvido no mesmo item. depois de haver reconstituído o filósofo. Ainda reitero que. a experiência por suposto. ela aparece como um pensamento ou imagem" (450b 28-9). por pre represente as coisas sob um de três aspectos possíveis: ou como eram ou como são ou como se diz que parecem ser ou como devem ser. e Lallot J. aparece a mímesis: Porquanto o poeta (eikonopoiós) é autor de representações (mimeisthaí). da. quando teria o caráter de eikon (semelhança à que caracteriza a primeira conforme a tradução preferida) e lembrança. deixa de ser ociosa para se ativar por meio da mímesis.

a mímesis. na Poética.(Blumenberg. Não recordo a passagem de Blumenberg com o propósito de acentuar que o que há anos tenho feito ao repensar a mímesis é passível de ser abonado pelo nome do gênio da Antiguidade. Não é novidade que a proximidade da memória com a phantasía. faz sua companheira seguir a mesma trilha. o mesmo fazemos tomando como padrão o que faz o agente judiciário apropriado. que ainda que se relacionem a restos da 1}9 .A ideia da plena correspondência entre o possívele o real não permite que o homem possa atuar de modo mentalmente (geistig) originário. nessa reviravolta. a tarefa do historiador é associada à memória retentiva: o historiador é aquele que declara "o que fez Alcibíades ou o que lhe sucedeu" (Poética. de elementos. intencionalmente. a prolongar-se por séculos. porque não pretenderão repetir uma disposição passada . isto é. defensor e promotor se esmeram no polimento retórico dos argumentos. senão como alguém que. E a regra valerá para o que há de vir.: 1981. Na prática judicial.nada essencialmentesucede. Fruto da torsão: retirar a escrita da história da posição insignificante que a Poética lhe concede e afastar a mímesis dos limites em que Aristóteles ainda a deixou. a partir de um resto mnêmico. orientar-se pelo passado que procura reconstituir.na obra humana. uma cena diversa da memorizada. erncompreender-se o papel da metáfora senão como enfeite ou solução provisória.Ao reconstituir hipoteticamente o passado. 51b 11). Com isso.se associe a força persuasiva da retórica. Assim não é tanto a prática judicial que se pretende explicar. bem ressaltada em De anima.H. contudo. E o que é mais grave: o embaraço.O artefato( Gebilde) humano não tem uma verdadeprópria eprivativa. A posição incômoda que escolho tem. contudo. Como dirá Hans Blumenberg: Todo"novo"possívelfunda-se no já existente. a anamnesis. que. o juiz contrapõe o caso às normas orais ou escritas com base nas quais proferirá sua sentença. Em 1}8 ambos os casos. A própria cosmogonia grega não o permitia. Porém. sua ocupação da "casa vazia" da imagem só poderia ser feita com peças do mobiliário já conhecido. é o próprio horizonte da cosmogonia grega que tornava exclusiva a tematização do presente quanto ao passado.70) A mímesis aristotélica retrabalha o que o cosmo já contém. Sua divergência com a hierarquia platônica cujo ápice era ocupado pelas ideias constantes e eternas não podia chegar a ponto de supor que o cosmo admitisse a criação de algo novo.: 1981. H. uma razão imperiosa. provocasse. de hipóteses e deduções. O processo judicial supõe a "aplicação" de normas pelas quais se pretende afirmar a verdade do que houve. distinguem-se as partes em litígio e o lugar do juiz.cena passada. a escrita da história e. Idealmente. isto é. desviar -se epassar a tematizar o que. assumindo caminhos bastante divergentes. Introduz-se um "artifício de cálculo" na construção aristotélica para que se possa pensar. não leva Aristóteles a cogitar de uma imaginação produtiva. "O que existe provém apenas do existente" (Blumenberg. Isto é. o existentenão pode ser "enriquecido"ou. utilizando o título do livro de R. pois. Procuro detalhá-Io.pelaobra humana. Por isso. se em vez de a evocação trabalhar para trás. Koselleck. Ontologicamente. assumindo o lugar de guia antes ocupado pela memória. a escrita da história e a obra da mímesis têm uma raiz comum. 1. não me apresento como intérprete.Não espantaque a meJafisicatradicionalnada tenha a dizer a respeito. portanto. com a ajuda (secundária) da memória. O duplo propósito visará ainda a mostrar que. propõe-se a repensar os parâmetros em que assenta certo entendimento. Para que as normas exerçam sua tarefa de afirmar o que houve. Por outro lado. ao passo que o trabalho enaltecido da mímesis tem por limite a reflexão sobre a percepção do existente ou passível de suceder. parecesse plausível? A evocação aproveitar- -se-ia agora do resto que guardou e/ ou reconstitui hipoteticamente um passado de que seu agente não pode estar absolutamente Zukunft) seguro caso em que. Assim como Aristóteles usava a mnemotekhnépara explicar uma conduta mais geral. dito de outra maneira. de base aristotélica. seus agentes lançam mão de indícios e reconstituições.issosignificaque. Como fazê-Ia? É sabido que. Submetemos. como a do historiador. a partir da evocação. a evocação (anmne5Ís) funciona à maneira de um agente judiciário perante um processo que lhe coubesse julgar. passamos a ter o "futuro passado" (Vergangene ou se dá a liberdade de conceber uma cena alternativa à apresentada pela memória. presta um duplo serviço e. lançando mão de elementos provenientes do tempo adiante. Não estranha que aos representantes das partesa defesa e a acusação .71).daí a arbitrariedade da tradução por imitatio. a evocação a uma torsão tempora~ e arrasta- mos sua companheira. a memória. voluntária/involuntariamente. essas nunca estarão no mesmo lugar. Mas o juiz não é apenas a cera mole que se deixa pressionar pela pressão retórica da persuasão com que procuram convencê-Io.

a torsão temporal que se propõe. quando ele é Tudo que se formulou acima concentra-se na atividade historiográfica. a subordinação ao princípio da verdade converte-se em mais remota. a aludida abertura do tempo nunca será absoluta. supõe que o mundo se confunde e cammhos dIvergentes a"~~ tra~ar do entr1t~nto. está se afirmando: (a) que o traço comum da escrita da história com o processo judicial está na centralidade do juízo do magistrado.) Se a diferença guarda semelhanças com o passado. Como já sabia o grande mestre: "[ . Quando. Ao mesmo tempo. Literatura (2000). destacam por que sua divergência parte da mesma origem: o trabalho da evocação. secundado pela rememo ração.~~leria ~mbos adenvam. de referencialização previamente localizável. (Entendendo-se o ver interpretativo como um ver como. A diferença então se introduz não como o oposto do semelhante. Contudo a vocação/profissão do historiador nele cria mais fortewente a ilusão de ser um memorialista. mas a preexistência de normas que há de seguir diminui seu arbítrio. do modelo expandido a partir de Galileu (cf. senão porque é limitada a capacidade combinatóriahumana. em sua interpretação "anamnética" de um evento passado. como o memorialista presurrl~. constituí-Ias pela combinação e seleção de fatos. isto é. conforme o entendimento secular da metafísica clássica. 140 identificado. porém. absorve e transforma um resto. "indireto. não é porque as possibilidades do fazer já estavam saturadas. por conseguinte. a partir dos quais pretenderá provar a identidade desse alguém. desde História. A anamnesis jurídico-historiográfica usa o futuro (provas que se dão no futuro) e atua como a memória interpretada a partir do que houve. se declara que a verdade historiográfica pertence à família do processo judicial.memória do passado. 143-89). isto é. A evocação (anmnesis) converte-se. (b) que.~. importa para retirar qualquer caráter determinista que ainda se impusesse àquele ver como. Por conseguinte. mas sem deixar de interferir na figura secundária da memória. restos da passagem de alguém. indiciário. Entender que a mímesis (uma certa mímesis) contém uma inventio significa que ela inclui.d. nem um estado de absoluta abstração mental. por conseguinte. mun. na memória coletiva ou privada. suposto ou imaginável. a "verdade" jurídico-historiográfica não se confunde com a "verdade" científica. o judicial e o científico. de absoluta desreferencialidade. Também na escrita da história a memória é secundária. no caso da escrita da história. É claro que o magistrado também opera com essas variáveis.falar d~~h. para Sherlock Holmes. se inscrevem no futuro. * (As cinzas do cachimbo serão. ao contrário. isto é. de apenas desencavar o que houve. devendo. 2. ao contrário. em semente da mímesis quando deixa de procurar restaurar o passado.. em nenhum dos dois casos ele não pode pressupor o alcance de uma verdade imanente. A diferença se engendra a partir do passível de ser * É o que Cado Ginzburg chama de "paradigma indiciário". senão como seu desvio. Pelo contrário. Ginzburg. que a aproximação indiretamente feita por Ginzburg entre escrita da história e jurisprudência visa a distinguir o modelo de conhecimento da historiografia. a centralidade do juízo-interpretação é mais complicada porque. a obra da mímesis se desvencilha da percepção e de seu prolongamento pela memória. Desse modo. Ficção. na inventio. 432a 11).a verdade passa a ter uma incidência extremamente oblíqua. temos verdades dependentes do processo que as prepara. espec. a memória. Sua afirmação. c. ao passo que nosso esforço. Quando. ou como o ajuste do fenômeno à sua decodificação pelas normas científicas vigentes. contudo. ela é sempre dependente do juízo da autoridade competente.) No processo judicial. nem muito menos o judiciário. a verdade é resultante de um processo. não se podendo aplicar a tal obra nem o sentido metafísico clássico de verdade. O que vale dizer. para se mostrar como produto da evocação imaginativa.: 1986. é passível de ser desdobrado com aquele resto. Assim como o ver interpretativo pensado a partir de um tempo aberto. ela perfaz o caminho da mímesis. ou. conjectural. a evocação assume a liberdade de conceber uma cena alternativa ao passado memorizado. procura acentuar que se o conhecimento tem dois modelos. (Isso equivale a é um ver como. senão que dele se desvia e tematiza o que.Ilusões mesma fonte: a anamnesis aristotélica.. isto é. sim. da paralelas com se~ umbi~o . ao contrário do juiz. assim. E. 141 . indícios e condições. ] A imaginação é diferente da asserção e da negação" (De anima. Na mímesi~. parece nos liberar das cadeias da cosmogonia grega e do serviço adstrito ao intelecto (naus) que encontrávamos em Aristóteles. Os enunciados em 1 e 2 procuram mostrar como a atividade historiográfica e a mímesis fazem a evocação assumir caminhos divergentes. a verdade afinal afirmada nunca poderia ser entendida como adaequatio de um evento com o que é. é entendido como referência). Em vez de uma verdade de cunho substancialista. a partir do resto guardado. nem o científico. por conseguinte una. partindo centralmente da evocação. O engano do agente da mímesis é invers~~t~omfrequência. seu agente não dispõe de normas pré-codificadas. Note-se. nem. dizer que não há. do ver como um sujeito vê um caso e o move em um processo. de '".

seu traço diferencial venciona chamar arte. Pela recorrência te" (Engell. o traço diferencial dos outros bens do mere arte é o que se con- o fato. a pintura. embora refeinferir sua presença no circui"à beleza Na abertura de um dos mais ricos livros sobre a imaginação do pensamento moderno. Em suma. D..: 1741. vejamos como opera antropológica. quer quanto incisiva: "A ou vivacida- "para nos curar desta delicadeza não pode ter certezas fundadas. seja porque ela é tão consumível de bancar o negativista.: 1739-40..) ciado vetor negativo do controle (sobre osvetores o que digo como promessa do controle de tal modo fetichizasse do controle. A ousadia cometida ramos não só concretizar testar como o próprio Não se entenda poderia prescindir que o capitalismo necessidade presunto. Assim. no segundo. O ceticismo de Hume antes o força que o motiva para A IMAGINAÇÃO EM HUME E COLERIDGE a alguns de seus ensaios estéticos.um dia a sociedade que já não tivesse quanto um No primei- sobre a arte. De que deriexistencial de ser o instrumento da paixão" (ib. Ora. Lembrem-se de um controle contribuir utópica pensamento para ter-se consciên- Depois da reflexão mais acurada e minuciosa.: 1981. Parte que todas as atividades do espírito manifestam seu ceticismo epistemológico. . capaz de afetar as emoções assegura-se quer em relação ao aparato metafísico multissecular. a delicadeza (delicacy) de gosto xão como a delicadeza do gosto desperta uma extrema sensibilidade e a todo tipo de deformidade tem o mesmo efeito quanto a delicadeza res. Embora seja uma constante imaginação o pequeno é passível de submeter-se ensaio "Of the Delicacy of Taste and Passion" não contenha não é arbitrário Em uma perspectiva mais ampla.. as visões de mundo medieval e renascentista cessam e a tradição clássica na literatura empalidece quando a ideia de imaginação se torna dominante.. ] O hábito é outro princípio. de controlar a arte. [. formulações imediatamente anteriores: IV. além da eloquência. A derivação remete a a manter quanto à obra por excelência da mímesis. marca o fim de uma época de 2500 anos e introduz um nova etapa de pensamento e de forma de escrita. 265). da imaginação A importância à tradição mecanicista para Hume resultava ção de "uma certa elegância do sentimento". torna-os enganosa" e "sempre presen- cado. a ideia de imaginação que se desenvolveu no Iluminismo e triunfou no romantismo. se o humano sua afirmação pela referência apenas a Hume e a um poetaressaltando da imaginação tanto o que avançam do ponto de vista do do ceticismo que quanto as encruzilhadas que armam para seu uso. 0.A imaginação abre e não reitera. to estabelecido entre as formas de delicadeza. A respeito. que me determina a esperar o mesmo para o futuro. a a um processo de educação. de que o eu é beneficiário. nas páginas anteriores a existência poderia tem certa finalidade: do imaginário procusenão quanto à imaginação embora não se confunda com ele. que não apresentam as mesmas vantagens. a que se realiza das obras de arte verbal e visual. evaporou-se da arte não a distinguirá seja porque o artista cansou-se ro caso.54). sia. em fazer-me formar certas ideias de um modo mais intenso e vivo do que outras. capítulo v).. [. cepção e entendimento de que a imaginação esteja na raiz de nossos meios de pernão lhes concede maior segurança é "toscamente cognitiva.: 1981. Seção VII. como o estudo da beleza se cumpre pelo convívio com a poeàs artes uma função os sentidos e a compreensão 143 . J. que hoje rências explícitas à imaginação. tanto a delicadeza da pai[. Coleridge.. (Engell. a música. 6). I. (Id. derivada de Descartes. ]. não posso dar uma razão por que deva concordar com ela: sinto apenas uma forte propensão para considerar os objetos poderosamente de acordo como me aparecem. ] Na tradição ocidental.. mais incertos porque a imaginação sua opção empirista. 142 nossa felicidade quanto da miséria e nos torna sensíveis às dores e aos prazeescapa" (Hume. portanto. Daí sua formulação fundam-se na imaginação nos excitam.6) Concretizemos pensador. conhecimento manifestava memória. o mais provável seria o que produz. J. Desse está a seu dispor a aquisique va a lição: o cultivo do gosto tem a utilidade mais habilitado modo. d. o autor sintetiza o contraste com as épocas próximas passadas: essa faculdade difusa e capciosa. E.4-5). de que o resto da humanidade da paixão: amplia a esfera tanto de contabiliza duzentos anos. e ambos conspiram em agir sobre a imaginação. Não estranha a dificuldade que continuamos de de nossas ideias" (Hume.

senão de que se tornasse fonte de uma "qualidade admirável": "É a fonte dos prazeres mais refinados e mais inocentes de que a natureza humana é suscetível" (ib. A hipoteca cartesiana não tinha fundos. intitulado "De l'Imagination". 8). ao mesmo tempo. Na verdade. os críticos do romance e os romancistas que expunham seus propósitos nos prefácios. Hume assinalará a superioridade do juízo fundado na arte mais do que nos preceitos éticos: "É. de fato não faz mais do que o que está implicado nos próprios termos" (Hume. cores e sons" (ib. que dedicará todo o livro II de La Recherchede Ia vérité (1674). Somos uma espécie condenada a não ter certezas. a sentir que tinham por missão não só produzir uma nova visão de mundo. Essa eficácia é tanto mais acentuada porque. 236). Leibniz. Shaftesbury. o último Husserl. ao passo que a educação pelas formas de beleza permitiria que nos alçássemos à posição do "homem em geral". e esse tem o efeito inesperado de domar o insidioso poder da imaginação.A "educação dos sentidos" ainda teria outra finalidade. Ao dualismo entre homem e mundo acrescentava-se em Descartes o antagonismo. 240). Conclusão: ao reconhecimento do papel da imaginação na arte . muito pequeno o mérito de proferir preceitos éticos gerais.. Concorrereram para tanto não só filósofos .como poetas da qualidade de Coleridge. Quem quer que recomende quaisquer virtudes morais. A lição de Descartes será aprofundada por Malebranche. Hume tem o mérito de relacionar a arte com o cultivo da imaginação.. nem de a supor passível de ser submetida a uma norma concreta. 7) entre ares cogitans (encarnada pelo homem) e ares cogitata (reservada à natureza. parece não ter havido o mínimo contato entre Hume. eles estão reagindo contra uma orientação que surgira na filosofia: a filosofia do cogito. a demonstrar "as causas físicas do desregramento e dos erros da imagina145 ( . Kant.47).embora ela aí não reduzisse sua incidência . entre os mais recentes. 0. Pois se a meta da poesia é "agradar por meio das paixões e da imaginação" (ib. Isso indica que não se trata de uma empresa de auto promoção dos artistas. com efeito. individualizados que as normas de excelência e aplicação gerais se tornam estéreis. J.: 1758. das quais o autor de Les Passions de l'âme (1649) não esperava senão tumulto e transtorno. a confiança crescente na imaginação criadora levou poetas e críticos a crer nela. O cultivo das artes provoca o refinamento do gosto.. Inaugurando um dilema que se aprofundará com Kant . ao menos para o enfrentamento da vida dos sentimentos. Partamos de duas afirmações de um mesmo autor: "De 1710 à década de 1750. Embora sua formulação pareça demasiado iluminista para dar conta do papel a ser desempenhado pela imaginação e pela beleza.229). "Apartir de cerca de 1740. tais meios são tão fluidos e."sentido forte. unido ao sentimento delicado.: 1742. em "Of the Standard ofTaste". teríamos de reler Hobbes. Nele se lê. arrematado pela comparação e liberto de todo preconceito" (ib. Na verdade. quase exclusivamente positivo" (Engell.a negação da validez de critérios normativos quanto ao produto por excelência da imaginação. Apenas se tornam tamanhas as exigências que há de cumprir o "verdadeiro juiz" da obra de arte . Ela se exprime no ensaio "OfSimplicity and Refinement ofWriting". sob forma epigramática: "Quando se mexe nas afecções. alimentadora do cogito. Hume entretanto não teria de se preocupar com os possíveis candidatos a seu true judge. com seu "obsessivo e quase sinistro dualismo" (ib. a obra de arte -. estético e religi9so. Adquiriu um valor moral.não decorreria de que a arte permitisse juízos universais.: 1981. a viver encerrada em suas particularidades nacionais. aperfeiçoado pela prá144 tica. uma nova reavalização do homem e da natureza como envolver tal pensamento e energia nos sentimentos humanos relativos a um mundo natural redescoberto nas formas. Pois os juízes que contemporaneamente surgiam e se preocupavam com o romance nascente não davam atenção às suas ideias. de conceder àquela função independente de normas. Combinadas. 0.195). por que não usufruirmos das fontes inocentes de prazeres? Um século antes de Hume.além dos que foram aqui lembrados. dentro do próprio homem. Descartes julgava a espécie humana capaz de escapar de particularismos arbitrários por postular um sujeito substancial. mas pela quase impossibilidade de encontrar um agente que a atualizasse. calafetado contra as paixões que só o perturbariam. e as paixões. Schelling. senão para o conhecimento certo. não há lugar para a imaginação" (Hume. entre a razão. as duas passagens não só enfatizam a relevância que a imaginação assume no século XVIII como indicam sua extensão. tornando-a positiva. não porque inexistisse uma norma de excelência. históricas e religiosas. Talsuperioridade-com que não atinavam os que então sepreocupavam com a escrita do romance .. na superação de nossa incômoda particularidade. Hume inverte o raciocínio. Mas dizê-Io ainda é pouco. éticas ou de qualquer outra natureza.correspondia a necessidade de nem a confundir com as idiossincrasias individuais.. 241) que afirmar sua possibilidade reforçava o ceticismo do filósofo. a imaginação cresceu consideravelmente em estatura. Hume não abandonará a obra de arte ao gosto privado.

por isso. com o objeto sobre que trabalha. Estabelecida a dualidade e a progressiva fragmentação do mundo. 142). Era. Pois Coleridge não recua na aproximação da dynamic com o divino.253) a mobilidade das paixões cria para o conhecimento. M: 1915. 256). o reconhecimento da imaginação criadora e o embaraço que encontra em um mundo antes religiosamente orientado 146 o gênio. movimento e som rompem a clausura da matéria-prima. 147 . senão que dentro do mesmo sistema. antes mesmo de se fundir. Essa cria um processo dinâmico que dissolve a separação entre o sujeito e o objeto. no Discours de Ia méthode (1637). a forma. Assim como o inverso: cor.Ao contrário de definir como capacidade sintetizadora e cria a esperança da recorrência pelos que o experimentam de apelar para o suprassensível. 258). semelhança e diferença) (ib. A arte tem o poder de "humanizar a natureza". em seu sistema a figura do divino. Sirva esta breve consideração de introdução ao autor da Biagraphia literaria (1817). ] Usada coletivamente para a pintura. o sujeito criador reúne o que o fraturava: "Há no próprio gênio uma atividade inconsciente" (id. Arnauld e Nicole.. ajudou decisivamente a romper com a unidade da cosmovisão que o cristianismo mantivera e cultivara durante dezesseis séculos.. Praticamente. só toca o agente humano. estimuladas pelo aparecimento das ciências particulares. o gênio em Coleridge se caracteriza por sua capacidade de reconciliação: antes de mediar entre o sujeito e o objeto.).11. N. Mas sua própria divergência com as conclusões de Kant mostra que uma "operação unificada de todas as faculdades" só seria passível de ser criada pela aceitação inequívoca de uma entidade superior às faculdades humanas. o consciente tanto se grava (is 50 impressed) no inconsciente que nele aparece" (ib. S. Com tal fonte. com a Grammaire générale et raisonnée de PortRayal (1660). pois. "em toda genuína criação da arte deve haver uma união destes discrepantes" (isto é. Enquanto o império fichtiano do eu supõe o imperialismo do que se lhe assemelha. determina seu fracasso A ideia do artista ou poeta é modificada pelo papel concedido à imaginação.ção" (Malebranche. Começo por passagem inicial do "On Poesy and Art": [.. a arquitetura e a música. e a sua reconciliadora. 536-73). S. Pois a repercussão do louvor reservado à razão mecânica. É verdade que a fusão efetuada conduz a outra forma de identidade humana: a ideia moral.A afirmação. Ao passo que o sublime (das Erhabene) põe em xeque a força imaginativa que atualiza. Desse modo. como aquele que extrai da natureza uma energeia ainda desconhecida pela razão humana. pelo primado agora concedido à imaginação. o movimento e o som são os elementos que ela combina e unifica pelo molde de uma ideia moral. o poder de humanização da natureza de infudir os pensamentos e paixões do homem em tudo que é objeto de sua contemplação.: 1649. É certo que esse dilema não se apresentaria a um espírito menos especula- tivo como o de Coleridge. pelos meios da arte. como o fizeram Diderot e Kant. como o poeta definia a arte. que estabelece "a reconciliação do externo com o interno. a cor.T. Tal combinação de elementos díspares se realiza pela atividade do gênio. Os próprios propugnadores da imaginação produtiva discordavam entre si. Kant não deixa de afirmar o aspecto problemático da causa ultima. E as diferenças não eram apenas de um sistema diante dos outros. à primeira vista. reinstalando. a arte é a mediadora entre a natureza e o homem. É. portanto. oposta ao processo de absorção do Ichheit (egoidade) com que Fichte definia o contato do homem com o mundo. mantinha a identidade humana. uma identidade expansiva. de romper a dissociação entre o produtor e o objeto. (Coleridge. Isso se mostra maximamente em Kant.254).: 1818. forma. a nova cosmovisão teria de supor ou a exclusão do religioso ou a fratura kantiana entre o certo e o problemático. A "qualidade mediana entre um pensamento e uma coisa" (Coleridge. põe-se a questão de se seria possívelrestabelecer noutras bases a perdida unidade. da imaginação como "fonte do poder criador" perturbava a justificação do religioso.: 1818. Em suma. O que os leva ao estudo da linguagem não é senão a incerteza que demonstra a razão da tese do inevitável conflito de valores de que fundamentalmente trata Max Weber (cf.. T. e em uma obra mais complexa (e atual) os pensadores de Port -Royal. aqui importa menos a discrepância entre Kant e imagination Coleridge - a cautela com que o primeiro formula a reproximação com o suprassensível contra a certeza com que o poeta inglês afirma a unidade da imaginação criadora em Deus-do que a constatação da insuficiência de uma argumentação puramente intelectual como capacitada a ultrapassar a fragmentação entre homem e mundo. porém. a escultura. eArnauld e Lancelot. A dissolução. Mas o século XIX rapidamente descartaria a hipótese. medeia entre o consciente e o inconsciente. com La Logique ou l'art de penser (1662-83).Weber.

vê seu próprio presente e seu próprio passado ordenados (in the law). ] ergue aquela maravilhosa superestrutura da geometria e.. escrevia: "Quero muito investigar a conexão da imaginatio com a Bildungstrieb. (Coleridge. 1619) a do cia da influência de Schelling. a corrigir a teoria da imitação. Nela. por caminho lateral..: 1819. Pois não há tudo na criação. Contudo o mesmo Espaço é deixado e de modo algum preenchido. (O esformostra. não é a semelhança com a comparação real de um Duas questões se entrelaçam: a do poder divino ante o da imaginação. em sua própria natureza. A reconciliação dora a "criação de finitos" seria. A comparação interposta com a geração (propagação) da varíola nos leva a pensar que Coleridge não distingue entre movimento físico e psíquico.. T. inconsciente não só lhe servia de anteparo contra a excessiva ênfase do eu.Ainda há espaço na Imaginação para a criação de Finitos . fragm. enquanto não consciente. a correção é responsável por afirmações deste nível de qualidade: "[ .Deuses? Mas 148 . Isso explica por que a semelhança retrato muito bom não é sempre reconhecida" (ib. A passagem encontra-se de controle se enraizavam em uma razão religiosa. embora contingente. Daí entender-se entre a imitação física e imaginação?" (Coleridge. [.. comprometendo sua intuição primeira. infinitos não impede que o poeta conceda à imaginação infinito quanto ao do todo (alI). 333-4) 149 Também sinto que o todo se baseia no miserável sofisma de empregar quanto ao Ser Onipotente termos como Tudo (AlI). (Coleridge.: 1808-19. Mas. o quanto os ço reconciliado r do poeta-pensador imaginação e a repetição da imagem.mas.ele é composta de infinitos . T. a imaginação.3. fragm.) A tentativa pronunciada de explicação acima torna-se mais evidente por conferência humana.. Um fragmento anterior ajuda-nos a entender a resistência que Coleridge em encontrava contra seu questionamento texto de 27 de outubro de 1803: da imita tio. resultaria do "miserável sofisma" contido na palavra alI. com a do de infinitos. começava a entrar em cena.: 1794-1803. um impulso diverso. A discórdia. Bildungstrieb. sendo exclusivamente ! ( vista como uma potência que reitera o que já se dera na criação do mundo: Nela. em vez desses. deixem-nO criar outra vez Infinitos.. cuja razão eterna é o fundamento e a condição absoluta das ideias na mente [.. e que a própria natureza não é senão o grande espelho em que ele. ] Um bom retrato é o abstrato do pessoalizado (of the personal). porque procurava assegurar a preservação mecanismos de uma cosmologia orientada pelo divino. olhando a natureza em torno. ]. apesar da exaltação da imaginação. Eliminar o sofisma seria possibilitar a reintegração promovida nese aristotélica com uma concepção revista da mímesis. provável decorrên- não há tudo. aqueles atos de sua própria imaginação que a matemático atribui a si próprio [.. articula-se composição Criador com o artista. ela. e aprende a venerar enquanto sente a necessidade daquele grande Ser. levava-o. então.. et motuum Imaginatio = imitatio vel repetitio Imaginis The Variolae-generation . Embora a tradição da imitatio tenha continuado a dominar. supor um Bildungstrieb era algo que ia na mesma direção de seu realce do abstrato do retrato. ]A mente [.. Daí a pergunta sobre o possível elo entre a imaginação e a imitação física. Por que tudo (alT) não eram . (A passagem deve ser com o que dissemos sobre a relação capaz de se estabelecer da anaminfelizmente não desenvolvido.T.Não há um elo ( compatível com a concep- ( pela arte inclui a da capacidade criaa que se estabelece entre as com o criador de Infinitos.) Um fragmento. S. Nesse sentido. A imitatio é preservada por Coleridge. Supor a conexão entre a imaginação e o impulso imagético equivalia a enraizar a imagem em um impulso que a frase intermédia ein Triebaquém do consciente do sujeito. 1.. . Conceber Deus como criador do infinito dos o poder de criação de ( mas com a lembrança comparada (recollection). portanto. S. entre os românticos. matemático. é em 1819. É certo prejudica sua intuição ao estabelecer a igualdade entre a te ao caminho que se abria com o impulso de criação. Mas essa harmonia o papel da imitatio e ser ela o elemento que resis- parece trazer consigo a exigência de uma homologia: duas criações. indica que a admissão do finitos. De todo modo. é certo que não de maneira sistemática.. deve haver o que deve ser dito estar puramente na mente humana.per motum? Ergo. ]. ao contrário. na criação .A introdução do inconsciente na reflexão de Coleridge. 3744). sondara a Deixem-nO haver criado esta infinidade de Infinitos. S.e a imaginação perplexa em acumularlnfinitossobrelnfinitos [. conclui que. 259).. por outra via. o louvor da imaginação não se choca com a concepção da divindade. natureza. A imaginação ção do divino. o quanto agora a religião estava longe do poder que a respaldava nos já distantes séculos XVI e XVII. ]. como lhe teria dado condições de iniciar a revisão da teoria da mímesisoEm anotação de março de 1810. ao contrário.

o juízo de reflexão. mesmo porque supõe uma atividade que se desenrola exclusivamente dentro da criatura:" [.. veremos que elas não coincidem nem concordam entre si. ]': a secundária revivifica os objetos "fixos e mortos': pela combinação com que os recria (Coleridge. 151 150 . por isso. o poeta W. obviamente. O sagrado é aquilo a que estamos obrigados a responder. com as experiências * Embora Auden não o destaque. Enquanto ambas. Auden não cogitava de estabelecer uma oposição maniqueísta. [. ambas as espécies de imaginação são indispensáveis para a saúde da mente. A apenas reconhece uma espécie de ser: o sagrado. bem como com a kantiana entre modalidades da razão e o entendimento. na primária. porquanto Primária "a beleza e o feio pertencem ra.54-5) A imaginação Imaginação secundária. (lb. tal como esboçadas por seu compatriota.Auden vendado. está investida de um estatuto inferior. ]" (id. mas sobretudo a primeisim com a forma. a praticá-Ias . de um modo de memória emancipado da ordem do tempo e do espaço [. pelo qual não descrevo as propriedades do objeto. Se então superpusermos essas três bases. sagrado (the saered awe).. o juízo de reflexão kantiano deixava de ser apenas regulador para se tornar também determinante mado não como problemático. Ela é decisiva na reflexão de Auden porque associada à ou não em um contexto religioso: "Qualquer que seja seu conteúdo real e seu interesse declarado. suas belas formas logo se tornam banais. a exercer (ao menos a compreender) a razão da ciência. A preocupação da Imaginação Primária. seja ela processada ror imaginativo" * (ib. O reino da Imaginação Primária não tem liberdade. S. para a apreciação estética. T. 57) A retificação interessa-nos menos por mostrar a leitura ateia de uma conuma outra variável: o terror gioso. e Terminemos esta apresentação com a conhecida distinção que Coleridge fazia Biographia literaria. a passividade da Primária seria a anulação da mente. 56). a que associava o sagrado e o profano. ela pensaria de si como sagrada.Em suma. Sem a inspiração do terror sagrado. estão associadas ao ato de criação originador. para a processadora da razão ética. ] A fantasia (fancy) não passa. como diremos que ele é uno? A afirmação da unidade do sujeito fora a base do poder conferido à religião e seus agentes. não pode ser objeto de uma ciência.202). sobretrudo prática. Consciente de não oferecer uma interpretação nava a primary imagination ao sagrado e apenas a ele: canônica. Ao repete-se. no capítulo XIII. da ética. Mas a pois Imaginação Secundária reconhece tanto as belas formas quanto as feias" (ib. relacio- da crença religiosa com um impulso que estava sendo dese o suprassensível é afir- Auden. seus ritmos mecânicos.. ao contrário... por sua natureza. cedo ou tarde.isto é. no sujeito fraturado como uma criatura doente. ao contrário. Portanto. da senão como inquestionável. com efeito.Aquele supõe a necessidade da leitura que o grande poeta fazia das duas formas de imaginação. a transformação da liberdade (individual) em dever assumido. Além do mais. "na mente finita [. ] o ato eterno de criação passo que. não está preocupada com o ser. o profano é aquilo a que não se pode responder e. que deixou apenas esboçadas. se desconhece. se o sujeito humano é forçado.. cepção de cunho religioso. o juízo determinante.. 60). a "imaginação tiva de harmonização dinâmica" de Coleridge é claramente uma tenta- o último ponto viria a ser mostrado por um seu admirador. senão que sobre ele projeto uma finalidade sem fim. sem a atividade da Imaginação Secundária. da experiência estética.me decisivo que imagina tive awe não se confunde com sacredawe. (Auden.. enquanto empreendimento impulso de criação (Bildungstrieb) puramente intelectual.). a fancy. excluiria o mundo externo como profano e enlouqueceria. Pensamos.: 1817. senão por introduzir obra de arte. transformação que. a tentativa de uma cosmovisão conciliadora da imaginação com o cristianismo tem a desvantagem de mostrar-se frouxa perante o sistema fraturado* de Kant. I. parece.. a mesma afirmação serve hoje para o poder conferido à ciência. De acordo com Coleridge. seus seres sagrados a possuiriam. entre imaginação primária e secundária. sua única preocupação. H. todo poema se funda no terA leitura de Auden parece-se com uma tentativa de relacionar as experiências da imaginação. não ter possibientre as formas de lidade de êxito prático o pressionava a recuar em seus pontos mais avançados: o e a própria diferenciação imaginação. sentido do tempo e humor. É inconteste o propósito do autor: converter a imaginação em um princípio capaz de romper com a divisão cartesiana. H. * Embora sua demonstração possa ser complicada.. falamos em sistema fraturado a partir de um argumento simples: a base para a razão operante em cada uma de seus três Críticas há de ser diferente: para a passível do entendimento científico. em troca. W.. é com os seres sagrados e os acontecimentos sagrados. Se ela é legítima de seu ponto de vista de homem reli- à Forma e não ao Ser.: 1956.

{ Enquanto em Aristóteles a phantasía está presente nas operações mentais básicas."o objeto da imagem não é ele mesmo imagem" (ib. Por isso mesmo. Se me dou como imagem (en image) a página de um livro.) Por isso. estou na atitude do leitor: olho as linhas impressas" (id.o objeto em imagem "se dá imediatamente pelo que é" (ib. a percepção. 13).(lb. Disso resulta a imobilidade de tempo e espaço na consciência imaginante: [. Tal imobilidade de tempo e espaço já deriva do caráter de irrealidade da imagem.. 156). J. a imagem nos põe "na atitude da observação.: 1940. ] Otempo dosobjetosirreaisé elepróprio irreal. sendo. A fenomenologia que o ainda jovem 153 L'IMAGINAIRE DE SARTRE Os itens precedentes mostraram a passagem de um topos a princípio secundário.. ] um fenômeno com uma infinidade de faces". (A última citação falsearia seu objeto se o autor estabelecesse uma relação imediata do dar-se em imagem com a análise de uma experiência estética. Por conseguinte. por efeito de contraste. 18-9). mas de uma observação que não ensina nada. inconfundível com um ato cognitivo: "Aimagem como imagem não é descritível senão por um ato de segundo grau. (Pôr-se. senão que constituem duas modalidades de coisas. multiplicidade de faces versusimediatidade que faz com que a mesma coisa assuma duas diversas formas de recepção: "No mundo da percepção. que. 'coisa' alguma pode aparecer sem que entretenha com as outras coisas uma infinidade de relações" (ib. um meio de retificação progressiva do conhecimento. Irredutíveis. ] É uma sombra de tempo. Mesmo que se incluísse a Terceira Crítica neste apanhado. é desprezível para a episteme inaugurada por Bacon e Descartes pela segunda. mas não tematiza seu objeto en image. 21).. que bem se conforma a esta sombra de objeto. 21).. ofereceria um acesso direto ao real. Daí a confiança que tradicionalmente se conservou pelos percepta e a recíproca suspeita da imagem: aqueles extravasam a consciência de quem os recebe.. por meio de que o olhar afasta -se do objeto para se dirigir pela maneira como esse objeto é dado (ib. sendo apenas reiteradora ou ilustrativa.P. [. cuja tematização apenas se inicia com a Terceira Crítica. por certo. 170) 152 . sem que o filósofo estabeleça sua diferenciação específica quanto às demais. 20). para a posição fundamental que Kant lhe concedeu como esteio de uma experiência antropológica básica.. uma falha mais grave: a importância atribuída à imaginação e à sua atualização pelo imaginário é paralela à autonomização da obra de arte? Se assim pensasse. a desconfiança da imagem resulta(va) de se crer que seu oposto. sua diferença ressalta: uma e outra não se conectam simplesmente às coisas. (b) do ponto de vista desta abordagem. Sua irrealidade faz com que ela não seja apreendida por um ato reflexivo. não se tenha posto para mim em sua realidade.não possoaí entrar senão me irrealizando. dois vazios ainda permaneceriam: (a) na teorização forte da modernidade.. hostilizada pela escala ético-religiosa antes quase absoluta. a imaginação remete à experiência estética. Essa é. o item daria lugar a um happyend.. além de depender da consciência que tenho dela. os atos de consciência perceptiva e imaginante são heterogêneos: ao passo que "a percepção de um objeto é [.de mundo.. o ensaio de Sartre tem como primeiro traço de destaque o reconhecimento de serem a imaginação e a percepção "as duas grandes atitudes irredutíveis da consciência (Sartre. que tem a vantagem de provocar uma melhor compreensão teórica do que motiva o controle do imaginário.não tenho certeza de algo como imagem enquanto esse algo não tenha sido visto. pois. depois de muitos séculos nos quais não lhe foi conferida dignidade filosófica. Pela primeira alternativa.Nada separamaisseguramentedemim o objetoirreal:o mundo imaginário é por inteiro isolado. Mas não vou considerar nenhuma das duas questões. assinala a antítese do que seria a indagação aristotélica da physis. faz-nos paradoxalmente pensar na inibição contemporânea dos produtos da imaginação que não se justifiquem por sua utilidade. Daí decorre que tal ato de reflexão tem "um conteúdo imediatamente certo".) Em síntese.com sua sombra de espaço.. Por conseguinte. ou nos lança em uma crença que se considera perniciosa. o equivalente literal do sich setzen husserliano.. pensando em termos de valores. irrealizante.. 17). depende por completo de uma subjetividade: "Nada se pode aprender de uma imagem que já não se soubesse" (ib. sem os quais o controle não é sequer cogitável: ou a imagem confirma o valor que se julga irrefutável. como o De anima já sabia. Prefiro tratar de L'Imaginaire de Sartre. essa. enquanto irrealizante ...

.. no meio de outras coisas" (ib. se não se de sua experiência. retira-o da fatalidade de passar a limpo as "imagens" que guardou de sua própria vida. combinação stellen).. explicite que não cogitará da obra de arte em sua inteireza outras propriedades permanece irrealque a de se concentrar e essa é sua propriedade (d. é pô-Ia em seu lugar. ] "A good portrait recollection" (Coleridge. que formulamos quanto a L'Imaginairetêm a mostrar que os mecanismos uma inespede controrada vantagem: elas não se restringem respaldam pois evidenciam por seu próEm ambos os casos. "lembrança': anamnese"). a seguir. ] is not the likeness for actual comparison. em vez de passivamente deixar-se fascinar. na experiência estética. ] O mundo dá-se como um mundo sem liberdade: ele não é mais determinado. mas apenas da copa de uma árvore está a "tempestade" na Tempestà de Giorgionne? mesmo porque não é uma tempestade 154 .religiosa e cientíquanto ao en tendida fica.religiosa referida: o ato posicom o con- menos intensa que a anamnese procurada (d. pode ser descrito como uma anamnese but for II. 57). mas não empobrecido. suspeito ou hostilizado gamento da percepção. é fatal" (ib. 24). pelos agentes das ordens ético. como imagem e como conceito como falar de um corpo que seria ao mesmo tempo sólido e gasoso" (ib. mas cada que tornava a imaum à sua maneira" (ib. Como "perceber uma coisa. tal articulação precisa ser alimentada prio imaginário. dução que ouso qualificar de anamnética. [. Isso provoca uma dupla consequência: ponto de vista do artista. Na experiência dade porque o objeto imaginário. incorporando vazios que se suplementam concretização de imagens se não enquanto a tradição Mas uma ressalva há de ser enfatizada. o imaginário não complementam! na imagem. T. ao que reproduz ou confirma o previamente dado .Sartre desenvolvia cortava a dupla injunção: tanto a percepção quanto a imaginação são postas pela consciência: "Toda consciência gem suspeita de imediato para a mentalidade cional constitutivo põe seu objeto. e sim pro- da imagem "envolve um certo nada" (ib. Vale recordar Coleridge: 155 . e. é indes- culpável não haver assinalado que. S. Enlacemos imaginário a observação anterior com uma derradeira: "[ . 27). com efeito. A exposição acima teve a preocupação posição ético-religiosa seu produto.. A experiência da arte caráter de pobreza e imobilidade como passo aberto pela experiência estética - não nos dá acesso a puras imagens. é irreal. É sim um irreal. a sombra que eu via projetar-se no horizonte não era de um aniporém produtora Não está em um só lugar. ib... não se devem a maneira como o controle opera: ele reduz o pro- duto máximo do imaginário. com facilidade gato passa por lebre. por isso. como. a obra de arte. isto é. Por certo. pela do conjunturalmente: é o avesso da liberdade.. ao mesmo tempo. todo o con- os valores que. 218).o termo pelo qual traduzimos espontânea.. 239). não há pobreza nem fatalidade. continua ridicula- efetuada pela leitura. recollection. Também se reitera que a obra de arte não pode ser vista como um prolonPorém o mesmo já não pode ser repetido da imagem. perceber é então individualizar trário do que sucederia com as imagens.. Muito menos aí é cabível falar em suspensão da "lei rigorosa da individuação" (ib. com As duas espécies de anamnese têm em comum explorar o que. duzido. 25). Daí provinha uma propriedade "[ . é justificada porque o próprio autor disse que não cogitaria são as imagens. não se plenifica enquanto articulação de irreais com vazios (Leerfenomenológica.. em certa sociedade. neste capítulo o item "Memória..: 1817.. seu objeto básica. apenas física. não há fatalimantendo-se irreal. diria Wolfgang Iser. mas pro- rizado.. 259) . mas a objetos tematizados e recebidos como imaginários. já não menos força para a episteme científica: sua incompatibilidade ceito: "É tão absurdo dizer que um objeto é dado. 56). do ponto de vista do receptor. provocada pela obra de arte suspende as reconheonde da obra de arte? Mas como também sua matéria-prima ressalta a peculiaridade Caberá então dizer que a individuação cedora - regras válidas para a percepção porque a sua não é uma individuação mal estranho. de enlaçar a aversão que tanto a disquanto à imaginação Embora o próprio e Sartre assume como a científica manifestaram não estando presente. A incorreção algo. ético.à memória e não ao trabalho da anamnese. da arte. As discordâncias le do imaginário contrariar.

Nada tem de ocasional a presença de Ariosto nas páginas de Cervantes. (d. acentuamos lI. des Romans ( 1920). inverlibera ta. Muito menos é ocasional que. a França conheceu uma ampla produção romanesca. ainda era possível no começo Se não estamos dizendo que Orlando é um protorromance. trata-se de mostrar a estreita via que explorava. capo 1I. com aDie Theorie por M. o romance. sua maior distância quanto à que o romance receberá.o ideal sempre estava atrás. Mas o propósito condições sócio-históricas deste item é apenas acenar para as que explicam o atraso na teorização do romance. R.Daniel Huet ( 1630-1721). G. Campagnoli e Hersant declaram que a sorte ajudou o gênero em entre letrados e aristocratas "de todo pecado original" (ib. A teorização tardia do romance do gênero cômico. IX). ao passo que a própria temática do Gerusalemme apenas teria servido para nutrir a loucura peculiar do cavaleiro manchego. ( tanto para a energia renascentista mistas. Já a recordação de Hegel e de seu continuador.no pensamento" (Elton.. enquanto gênero.ORIGINE DES ROMANS pelas artes e letras pagãs. A crise menos decorria da busca de reanimar expressivas da Antiguidade que da impossibilidade de conciliar os valores da secuo Roma imperial com uma visão cristã de mundo.epos. G. XVII. ( não havia sido sequer consignado Em um acesso de a bom humor. Mas. DE L . a semente cervantina só germine em terras PONTOS DE CONEXÃO da França e da Inglaterra.: 1977. a que permanecia desprezada sob a acusação de insuficiência artística e abundân(Campagnoli.: 1958. não obstante seu esta- extremo cuidado em não ferir os bons costumes. Dissemos do Renascimento que ele coincide com uma crise que progressias formas Vindo ao primeiro que o fez. Erudito e amigo de Mme. x). e Hersant. Lukács. lI. Enquanto mesmo entusiasmo tes e pela hierarquia a Reforma não se alastrou. nos tratados de retórica. 5) . Por certo. Y.mesmo retrógrada . vamente se ampliará. A tolerância chegará ao fim quande Erasmo for igualmente católica. no período em que a Igreja era uma potência política.3). normatizavam a direção a ser seguida pelas belas-letras. apesar de todo seu fulgor. limpando-o espécie de filho bastardo de tempos escuroS. R. compêndios que. vindo à própria desmistida verdade o questionamento ficação do poeta como formulador do século XVI. mos assinalando que a criticidade satírica que o atravessa é o vetor que o apro- xima de Don Quijote. sem esquecer o que estimavam os reformistas. os príncipes lares e religiosos podiam igualmente do a posição conciliadora transigir e papas e cardeais professarem recusada pelos protestancontrarrefor- O TRAITE . O descaso de Ariosto pelas formas conpara o épico. Ora. tem o propósito de enfatizar a alternativa encarnada Bakhtin. o ideal da épica renascentista não deveria transigir sequer com o roman courtois156 reservando a um bispo reconhecido reflexão sobre ele. Durante o século cia de licenciosidade quarentena. a 157 partir do exemplo dos antigos. bispo de Avranches. romance da condessa. a heroicidade como fim em si tomava o prosaico cotidiano como matéria que. foi originalmente publicado em 1670. fora deste desfecho. teve como primeira finalidade servir de prefácio ao Zai"de. há de se ressaltar que como para os mais extremados Escrito por Pierre. Foi levando em conta os elementos recapitulados temos a posição configuração vencionadas cronológica de Orlando furioso Tratando antes do poema de Tasso. No . valia a afirmação: "A Reforma era conservadora . de La Fayette. no capítulo e Gerusalemme 4. Em decorrência. desde a quebra do princípio da unidade narrativa até da relação entre teologia e poesia.

] Faltando-nos Um pouco mais interessante do meu argumento tempo que justifica o romance que prefacia: à França - Huet pensa provavel- ainda a fábula. e os romances são mais ou menos regulares. os poemas [épicos] têm por argumento uma ação militar ou política e tratam só ocasionalmente de amor. inventivo. como um adepto do Aristóteles «corrigido" pelos com o novo gênero -. 6) Seu desenvolvimento. Dessa maneira.3). encontra uma justificativa ainda quando extra: ele é a prova das divindades gregas". Havendo permanecido algum tempo entre eles. 4). Além de assinalar a vizinhança da épica legitimada emprestariam originalidade: Nos poemas [épicos]. pareceria ousaria o autor censurar Homero dirigi-Io para "além do verossímil" persas não são menos inclinados para o maravilhoso.. os endossava.. canto das sereias. a dignidade e as funções para calá-Ia. 58). árabes. alimento naturalmennomeado em 1685. porque os romances são ficções de coisas que coube o privilégio de introduzir puderam suceder e não sucederam e as fábulas são ficções de coisas que não sucederam e não puderam suceder" (ib. -cristão.5) Huet se comportava humanistas. desejoso de aprender e comunicar tudo que inventou e aprendeu. mas ainda inúmeras novidades sobre a geneologia. os romances.. lI. Assim a subordinação à história. indianos e sírios': que a teriam transmitido ocidental.. mantém-se Huet principia XVIII.. Duvida-se a ção dos costumes. ] mente na Chanson de Roland explicar: « [. do mito políticosucedido. 48b 6-7). 58-9).. Ainda. anos depois do 159 te ajustado a nosso ânimo. a dignidade e as funções das do efetivamente Apesar das objeções que Castelvetro recebera (d. pois. embora sempre verossímeis. que Homero houvesse mantido alguma inclinação sobre o qual fundava "a genealogia. [. O conaludido.-D.). esta seria uma má herança sobre a qual já estaríamos precontra as ficções: elas são o produto o conheça. amante das ideias feitas. nada mais tem a ver com o horizonte préao a acusação de gênero "pecaminoso': por defini-Io: "Relatos fingidos de aventuras escritos em prosa com arte. ao longo do século ção romanesca à Inglaterra. é antes própria aos povos orientais. Assim. ] É preciso buscar [a origem do romance] na natureza do intelecto humano.. particularmente. de todos os tempos e lugares.. 11). ao contrário. a que as Vorlesungen über die Asthetik tinha qualquer pois. pelo historiador. Enfim.. amante das novidades e das ficções. não por ou dar precedência respeito? Huetlogo esclarece: o gosto oriental pelo fabuloso era prejudicado longevidade a maneira como o faz tampouco (ib. que preferia a manutenção -religioso da «verdade" à pesquisa. a meta do romancista "é um fim subordinado ao principal. vítimas do deleite nas ficções. 6). 4.. conforme se distanciem mais ou menos dessa definição e desse fim" (id. o autor ressalta ser o romance uma história fingida para distingui-Io dos «relatos verdadeiros".: 1670. venidos e preparados trole. A distinção se acompanha do epigonismo de Aristóteles: espanhóis «a ciência dos romances" (ib. A "tendência contudo. e cuja inclinação é comum a todos os homens. (lb.. P. cuja finalidade é «sempre mostrar a virtude coroada e o vÍCio punido" (ib. entre "egípcios. declara o erudito abade. Em seu comentário.. A tendência aludida. não lhe custa introduzir é sua distinção quanto à fábula: "Excluo [. o futuro bispo - 158 .. 10). O cauteloso abade tem o cuidado de o conhecimento da verdade. estendendo-se a produamorosas. 7-8). afirmada desde Castelvetro. que é a instrução do intelecto e a corre- a mimeisthai. ao mesmo a italianos e Feita a correção. # 2. Huet registrava os clichês secularmente acumulados e. pois. que é a imagem da verda- de" (ib. nos romances. persas. têm por argumento principal o amor e tratam só acidentalmente de política e guerra. automaticamente de que o bom ocidental. Considerar que a origem do fabuloso se encontra paradoxal e estranho. não contente. embora às vezes haja o maravilhoso. não se deixa fascinar pelo uma nota patriótica.«absolvição" não será suficiente. (lb. Homero daí teria trazido «o poemas que deixou. o nutríamos com a mentira. cede lugar à separação entre o Ocidente e o Oriente. a tal ponto se afirmara a hierarquia entre o relato «verdadeiro" e o fingido que o Traité a enuncia antes de relacionar o romance com a épica... há mais maravilhoso.. De acordo com sua fama de erudito. homem" (Poética. para o prazer e a instrução dos leitores" (Huet. espírito fabuloso que fez inventar não só os maravilhosos divindades gregas" (ib. ]. Ao fazê-Io. «os do que os árabes na arte de mentir agradavel- mente" (ib.. há mais verossímil [. ao padrão máximo da poesia ao Oriente.1). própria aos animais e. o abade justificava a prevenção de povos demasiado imaginativos.

basta imaginar" (ib. contanto que nele se reconheça sua dignia rejeição do romance fosde Huet em declarada censura. contraditória seu país. o epos homérico já não trazia esse risco porque há muito a doutrina cristã desconsidedos deuses pagãos. De modo que os primeiros amam a falsidade. instrutiva e amparada pela excelência da invenção e da arte. somente a casca.. o seu não-polimento sua frequente licenciosidade. senão o próprio mecanismo artístico do e.. Mme.. Os doutos se distinguem rem com a divertida falsidade. Huet glosa um topos de longa extraa beleza é escondida por um véu. o roman- furioso se não tivesse tido êxito a composição e interpretação vio: talvez por sua ligação com os círculos aristocráticos. L. não era suficiente para que o censurassem. em troca não exige "forçar a mente para compreendê-l do pensamento [a]. desgosta-se facilmente quem penetra além e chega ao consistente. Por isso a teorização na Espanha ou na Itália. misteriosa. Dessa falsidade. 67) 161 para que desqualificassem o gênero. e aos segundos repugna essa imagem de verdade. a passagem não encerra nada de surpreendente: corre paralelo ao risco de propagarem rara a fantasia imprópria ção (cf. e consagrado em 1692 - sagazmente combinava os topoi aceitos com a mas. por causa da aparente verdade que esconde. afinal de contas. O detalhe só na aparênfaculdade inferior. assim também a precom a invasão dos bárbaros. misteriosa e instrutiva". Se. no caso francês. são ainda um pouco licenciosos: mas os de hoje. O futuro bispo não das almas simples por não se contentadela exigem que seja "engenhosa. 62) À primeira vista. Pierre. por conseguinte.: 2006. que. Conquanto seu estatuto secundário.. ce não se dirige às pia teias cultas. falo dos bons. Para que as razões que fundamentavam sem atiçadas. em que o poder monárquico limites para a intervenção do pontífice. O interesse que desperta nos meios refinados enredos falsos. seria preciso uma situa- de crise aguda. A primeita teorização sobre o romance caminha por um desparticularmente as razões do controle. Como se se dissesse: eis algo não aconselhável. Se isso era bastante Mesmo L'Astrée e alguns romances franceses posteriores. Por isso.Daniel Huet explicita dade menor. e não só latente. romanesco fosseliberado! ções entre os sexos por meio da galanteria permitiu ca explicitasse pontualmente chega a tanto. portanto. aqueles que se apegavam à falsidade do relato ficcional nele do ponto de vista retórico. A virtude do gênero derivava de seu defeito: se não condiz com o acesso ao conhecimento da verdade. Ao contrário. que são relatos na aparência verdadeiros. (lb. Ele concerne ao estatuto mesmo da ficção: As almas simples veem então nas ficções. são de tal modo isentos deste vicio que nenhuma palavra. na realidade falsos. (ib. para que o gênero das relaeclesiástida galanteria na relação entre os sexos teria dado condições Em palavras mais explícitas: a domesticação que a autoridade 1. levara a comparar para que o terreno minado se "civilizasse" e. retiraria sua fortuna do "mar de trevas" que inunà França seria. 160 . isto é. onde a Contrarreforma estabelecia afiava os dentes. A transigência já não teria beneficiado astutamente OrIando difuncom ao estreita via por ele aberta para justificar o romance. Caso isso houvesse sucedido. isto é. Il Decameronenão teria sobrevivido. [onde] as que mulheres são quase reclusas e separadas dos homens por tantos obstáculos afagá-Ias cortesmente 65). na Europa. são evidentes as cautelas do autor. Adversário cartesiano. O controle se contenta em manter-se implícito. mesmo tempo que legitima o gênero. Ainda assim. a "grande liberdade que o homem francês teve no trato com as mulheres'~ contrastante com o que se passava "na Itália e na Espanha. não há trabalho da memória. a obra que prefaciava e as que tivessem sua compostura controle? Ou seja. O refinamento foi transcurada. seria legítimo recorrer à imaginação desde que o objeto que a estimulasse tivesse reconhecido cia é insignificante. em Homero. Que coisa se atualiza por seu raciocínio ressaltavam. A primazia que o bispo concedia se ele não considerasse um fator que teria como o "refinamento de nossa sença do romance. por que a licença poética não se estendera até ao não mereceriam o nome de licenciosas: romance e por que. 62). do são pouco vistas e quase nunca se pode falar com elas.244-59): mais ousados. de La Fayette. nenhuma expressão aí se encontrará que possa ferir os ouvidos mais castos.Traité. Mas não na França. a não ser que essafalsidade seja engenhosa. Sua suposta matriz. C. entre os a poesia com a teologia. tolerável. poderia sê-Io. o fabuloso de proveniência dou o continente singularizado oriental desde há muito fora domado.. são desnecessárias grandes reflexões. contudo. De modo que a arte de sendo raras as ocasiões de fazê-Io" (ib. convertidas ção sociopolítica seria altamente improvável didas por Ariosto. nem uma ação que possa ofender o pudor. contentando-se e comprazendo-se com essa aparência de verdade. Esse fator é descrito galanteria". ponto de vista ético-religioso. não lhe era difícil recorrer à imaginação. pela efetiva falsidade que oculta.

: 1835. pela intuição imagética. de igual modo que a religião e a filosofia. o tempo da arte clássica. a tradução de Marco Aurélio Werle e Oliver Tolle. Teria sido. pode haver uma relação amorosa em que eras não ignore as advertências ético-cristãs? Huet não era nenhum toleirão que desconhecesse a ameaça.. O nihil obstatnão pretendia ser um critério artístico. Significaria isso dizer que a Reforma era "prevista" (pelo Espírito!?) na história do cristianismo? Enquanto o Espírito é movido por um telas . louvava. para não a seguir quando seja criminosa. damos um salto de quase um século e meio. pronuncia seus cursos de estética? Como um então jovem e brilhante Gyõrgy Lukács lhe daria seguimento? Nas Vorlesungen über die Asthetik. a arte é um momento. ao seu conteúdo pleno. considerada como parte integrante do curso do Espírito. quando.. a escrita da história não se confunde com a * Citamos. Própria porque "a forma da intuição sensível pertence [apenas] à arte". necessário que os jovens que vivem no mundo conheçam essa paixão. Enquanto momento de realização de algo muito mais amplo. com moderação. é responsável pela direção interiorizante de todo o romantismo. a arte. é movida pelo anseio de verdade. cotejando-a com a edição em alemão. organizada por Friedrich Bassenge. para que possam desembaraçar-se de seus artifícios e para que saibam se comportar quando tem um fim honesto e santo. o primeiro tratado legitimado r do romance se destacasse por apontar para suas propriedades formais. ignorado por seus agentes. seria desarrazoado esperar que. Externa162 . salvo mínimas mudanças estilísticas. Em vez de fazê-Io. W. Alguns mínimos comentários: (a) a posição ocupada pela arte no sistema hegeliano supõe a luta ininterrupta do Espírito com as formas historicamente dadas. I. a arte tem uma dinâmica própria e restrita. em evidenciar os mecanismos vigentes do controle. naquelas circunstâncias e vindo de tal autoridade.nos a desenvolver um único aspecto: que considerações e ressalvas se apresentam a Hegel a propósito do romance. mas também. Cursos de estética. l. A ela se antecipa: o romance explora uma situação de perigo para ensinar o leitor a prevenir-se: Qualquer um pode sustentar que. contudo. mas apenas liberador das objeções institucionais. É só porque há tal raiz comum que era possível integrar a história da estética em uma história geral. ainda que a arte continue a se realizar e o filósofo a estar atento à produção dos alemães seus contemporâneos. Hegel expõe a história da arte de acordo com dois pontos de vista.* Restrita porque encontra seu ápice em uma época determinada. nos romances. G. a arte ainda retém algo de misterioso. Mas se o conteúdo completo se apresentou em configurações artísticas. aos quais chamaremos de externo e interno. A opção religiosa do filósofo dava-se a perceber na própria escalada das fases atribuídas à arte.A solução era sem dúvida engenhosa. proporcionada à existência. Esses seriam ainda mais bem apreendidos se comparássemos o Traité com os prefácios das peças do teatro clássico francês. F. em certo sentido.De que resulta ser "a essência do belo e de sua produção pela arte a unidade do conceito como fenômeno individual" (Hegel. Hegel destaca o papel desempenhado pela Reforma no realce da "interioridade do sentimento e do pensamento (Innerlichkeit des Gemüts und Denkens). Sendo essa luta movida pela verdade. o espírito que continua olhando para a frente volta-se desta objetividade para seu interior e a afasta de si. O seu mérito esteve em explicitar as razões institucionais da suspeita e hostilidade contra o gênero que. teria sido uma peça cuja dignidade poderia ter sido destacada em tempo não muito distante. (b) embora a fase romântica que nos interessará seja identificada com o cristianismo. Se assim houvesse sucedido. 67) mente. humanamente. um pressentir misterioso e uma nostalgia. Combinando as duas observações: embora o OS CURSOS DE ESTÉTICA. porque suas configurações ainda não deram inteiramente relevo. 116). 163 Limitamo. Em poucas palavras. de fato neutralizado o risco de que o romance desse vazão ao licencioso? Como. (lb. da Grécia antiga. DE HEGEL E DE UM SEU CONTINUADOR protestantismo seja relativamente recente. nas primeiras décadas do século XIX. o amor é tratado de modo tão sutil e insinuante que o sêmen desta paixão perigosa entra com facilidade nos corações jovens: responderei que não só não é arriscado. Tal época é a nossa. Por isso. a arte já não satisfaz: Em seus inícios. (lb.o alcance de uma forma de verdade cada vez mais elevada (ou abstrata) -. 117) Em síntese.

Se assim houvesse sucedido. I. a arte ainda retém algo de misterioso. ético-cristãs? nhecesse a ameaça. (lb. de fato neutralizado so? Como. Enquanto tem uma dinâmica como parte integrante momento do curso do Espírito. em evidenciar ainda mais bem apreendidos vigentes do controle. A opção religiosa do filósofo dava-se a perceber na própria escalada das fases atribuídas à arte. seria desarrazoado vindo de tal autoridade. aos quais chamaremos 162 de externo e interno. damos um salto de quase um século e meio. o tempo da arte clássica. humanamente. para não a seguir quando seja criminosa. ignore as advertências das objeções institucionais. nos romances. G.o alcance de uma forma de verdade cada vez mais elevada (ou abstrata) -. o espírito que continua olhando para a frente volta-se desta objetividade para seu interior e a afasta de si. 163 Limitamo. 67) Em síntese.. Esses seriam o Traité com os prefácios das peças do teatro clássico francês. proporcionada de igual modo que a religião e a filosofia. a tradução de Marco Aurélio Werle e Oliver Tolle. da Grécia antiga. (lb. Mas se o conteúdo completo se apresentou em configurações artísticas. Combinando as duas observações: embora o OS CURSOS DE ESTÉTICA. F. naquelas circunstâncias e tratado legitimador do romance se destahegeliano supõe a luta ininterrupta casse por apontar para suas propriedades formais. Significaria isso dizer que a Reforma era "prevista" (pelo Espírito!?) na história do cristianismo? Enquanto o Espírito é movido por um telas . mas apenas liberador contudo. teria sido uma peça cuja dignidade poderia ter sido destacada em tempo não muito distante. é movida pelo anseio de verdade. um pressentir misterioso e uma nostalgia.nos a desenvolver um único aspecto: que considerações vas se apresentam das do século brilhante XIX.. o amor é tratado de modo tão sutil e insinuante que o sêmen desta paixão perigosa entra com facilidade nos corações jovens: responderei que não só não é arriscado. ainda que a arte continue a se realizar e o filósofo a estar atento à produção dos alemães seus contemporâneos. salvo mínimas mudanças Cursos de estética. 117) Alguns mínimos comentários: (a) a posição ocupada pela arte no sistema do Espírito com as formas historicamente à existência. a arte. organizada . sível pertence [apenas] à arte". DE HEGEL E DE UM SEU CONTINUADOR protestantismo seja relativamente recente.A solução era sem dúvida engenhosa. Sendo essa luta movida pela verdade. Em pou- dadas. considerada momento. Tal época é a nossa. Própria porque "a forma da intuição senindividual" (Hegel. porque suas configurações ainda não deram inteiramente relevo. É só porque há tal raiz comum que era possível integrar a história da estética em uma história geral. ao seu conteúdo pleno. em certo sentido. De que resulta ser "a essência do belo e de sua produção pela arte a unidade do conceito como fenômeno W. O nihil obstatnão pretendia critério artístico. a arte já não satisfaz: Em seus inícios. ignorado por seus agentes. nas primeiras décapronuncia seus cursos de estética? Como um então jovem e Gyõrgy Lukács lhe daria seguimento? * Citamos. pela intuição imagética. Em vez de fazê-Io. mas também. e ressal- a Hegel a propósito do romance.: 1835. a escrita da história não se confunde com a estilísticas. para que possam desembaraçar-se de seus artifícios e para que saibam se comportar quando tem um fim honesto e santo. a arte é um Teria sido. und Denkens). o primeiro esperar que.* Restrita porque encontra seu ápice em uma época determinada. quando. a arte o risco de que o romance desse vazão ao licenciopode haver uma relação amorosa em que eras não Huet não era nenhum toleirão que desco- própria e restrita. de realização de algo muito mais amplo. Por isso. com moderação. ce da "interior idade do sentimento que nos interessará seja identificada pela Reforma no real(Innerlichkeit des Gemüts Hegel destaca o papel desempenhado e do pensamento cas palavras. os mecanismos se comparássemos louvava. O seu mérito esteve em explicitar as razões institucionais da suspeita e hostilidade contra o gênero que. A ela se antecipa: o romance explora uma situação de perigo para ensinar o leitor a prevenir-se: Qualquer um pode sustentar que. cotejando-a Nas Vorlesungen über die Asthetik. ser um mente. necessário que os jovens que vivem no mundo conheçam essa paixão. Hegel expõe a história da arte de acordo com dois pontos de vista. 116). I. é responsável pela direção interiorizante de todo o romantismo. (b) embora a fase romântica com o cristianismo. por Friedrich Bassenge. Externa- com a edição em alemão.

uma vez que o objetivo não corresponde completamente ao espírito em geral existente em si mesmo.). Na Grécia. responsável pela eterna condenação. Noutras palavras: a história é a ambiência em que se cumpre a totalidade antevista pelo filósofo. mas. assustador alma que.o romântico se caracteriza por tomar o mundo tão-só como o palco em que se encena "a luta interior do ser humano em si mesmo" (ib. Hegel percebe que a subjetividade grega não tem o caráter autocentrado que a caracteriza nos tempos modernos... para ele. 338). Por isso. assim ela se livrou deste Conteúdo todas as vezes determinado para um povo particular. "no declínio da Idade Média. 310)? Perde-se. envolver a morte com imagens alegres.. No primeiro instante.. 340) assume direção inversa à oriental: acentua-se a própria interioridade do agente humano. para uma época particular. 329). excluído para sempre de toda felicidade. os deuses gregos são "indivíduos imperturbados. A individualidade grega. a dinâmica das fases da arte seria comprometida caso não se notasse que. o interior subjetivo está de tal modo relacionado com o exterior que este exterior é a própria forma do interior [. considerada como subjetividade espiritual.. mostra-se pela fusão entre o objetivo e o subjetivo. "toda a amplitude da natureza [é trazida] para dentro de si [. a qual. na Grécia antiga.história dos historiadores: é uma história que progressivamente desvela seu sentido. assim como o círculo do conteúdo que pertence a estas concepções de mundo. ib. e a verdadeira necessidade de novamente acolhê-Ia apenas desperta com a necessidade de se voltar contra o Conteúdo unicamente válido até então. para Hegel. (lb. 259). À arte grega Hegel reservava o auge da experiência artística porque teria conseguido harmonizar "a unidade do significado e da forma" (Bedeutung und Form) (id. Por isso. igualmente. Sua falha terá consistido em estender o autocentramento do sujeito moderno à presença do cristianismo.. que implicava recuá-10 para muitos séculos antes de sua efetivação.).. lI. para ele. por isso. ] Se a arte. 259-60). "a arte romântica era desde sempre a cisão mais profunda da interioridade que se satisfazia a si em si mesma.. ]" (ib. que. Assim o consideramos porque seu "saber do sensível (sinnliches Wissen)" é investido de uma dinâmica. isto é.. Ariosto e Cervantes começaram a se vol165 164 . na qual se condensa a expressão espiritual.. para ele.. a harmonia. 257) Por isso. há um tempo em que o conteúdo ( Gehalt) passível de ser captado e expresso pelo artista já se encontra esgotado: [. a expressão romântica por excelência (d. ] Quando a subjetividade em seu ser-em-si-mesmo espiritual se torna de um morrer da importância infinita. segundo todos os lados. Assim se explica . A diferença entre o instante grego clássico e o romantismo cristão é formulada bem atrás: [. espiritualizados. absolutamente infeliz. representado pela arte do Oriente.. encarnaria o divino. Passemos ao ponto de vista interno. ]" (ib.. já se encontra em outra fase: o absoluto. o romantismo Chama a atenção a extrema sensibilidade de Hegel para as diferenciações históricas. de acordo com o qual mudam os pesos concedidos ao mundo externo e à interior idade individual. a de fazer com que uma forma contivesse valores passíveis de circular pelo "olho da mente" de uma comunidade. desse modo. o momento áureo da arte. era preciso que o artista não tivesse olhos para a diversidade da natureza senão para uma forma abstrata.. a reconciliação dos contrários. de modo essencial. permaneceu quebrada ou indiferente contra o objetivo" (ib. encarnado pelo politeísmo grego. (lb. revelou as concepções de mundo essenciais que residem em seu conceito. assim como. "o espírito ainda não [era] livre para si mesmo" (ib. então a negação que a morte traz em si mesma é uma negação disto que é grandioso e importante e. Além dele. 262). portanto. pode se sentir como o que é propriamente em si e para si negativo. em contrapartida.. o lírico é. não se atribui estevalor e pode. Daí o geometrismo abstrato das pirâmides egípcias.o que não vale dizer que sejustifique . em sua unidade. assim.. Em troca. 343).). Por isso seu agente procurava o absoluto na natureza e tomava "o natural como divino em si mesmo" (id. ainda indivíduos afetados pela forma humana natural" (id. a capacidade expressiva. tão prezadas pelo filósofo: "Na plástica do clássico. É este. A que então conduz o superapreço da interioridade e a secundariedade reservada ao mundo senão a que "a subjetividade infinita em si mesma é e deve permanecer incompatível para si mesma com a matéria exterior" (ib. Para que assim sucedesse. Em consequência.que. Muito antes que as pesquisas históricas o tivessem acentuado. Termine-se este brevíssimo resumo com uma observação indispensável: tal como traçada por Hegel. por isso. Aristófanes satirizou o seu presente.

as relações substanciais da vida real. de acordo com o princípio romântico. o W1lhelm Meister. E: 1798. e em alemão. H.. A teoria do romance (Die Theorie des Romans) aparece como livro em 1920. como pelo desprezo que Hegel reservava a Friedrich preendentes decorresse zação insuficiente Schlegel. 216). o que se daria tanto porque a consideração (Aristófanes. tal-oriental (West-osterlichen objetivo" "se a satisfação na exterioridade fosse no Divã ocidenDivan).: 1989. por outro lado. Ariosto e Cervantes para o poema épico) servia-lhe de entrada para tematizar ruptura semelhante que notava quanto ao romântico. Mas Hegel encarava seu autor com desprezo. dá a entender que a mudança de fases supõe uma mesma exaustão do conteúdo que alimenta a concepção de mundo vigente. um apoio concreto e material. A observação é capital: independentemente cepção teleológica da história e da arbitrariedade dita perspicácia de perceber que há. 345) -. junto com A alma e asformas. ao menos na Aledo Athenãum" (1798) era o que especificava o romance ao Wilhelm Meister e As afinidades eletivas. a afirmação comparando-a de sua con- o desdobramento de uma dimensão fantasmática virtualmente real. Mas a equivalência. no prenúncio primeiro romance moderno efetivo. no pensamento já se tornava corriqueira. a que se opusera o Kant da Terceira Crítica. Hegel via um sinal de ruptura fosse no Lied. Hegel. contudo. Hegel tem a inaudo romance por Ariosto e no de uma ruptura. os mecanismos e dos "Fragmentos com a épica tivesse a ver seus cursos sobre estécríticos" (1797) a patentes do controle estavam em baixa.. não empana o vigor de sua apreensão. 344). a ensaísta austro- manha. 340). por conseguinte. É certo que. pela explicação unificante para não falar no motivo óbvio de que a comparação Quaisquer que tenham eleva a um aprofundamento de ânimo no objeto. em 1910. Sua reflexão merece ser mais bem conhecida: Vinte a trinta anos após a publicação dos grandes romances de Gcethe. explicite-se que não se diz que a correspondência com o controle sobre o gênero. de Petrarca . concepções de mundo épica burguesa" (die moderne bürgerliche Epopee) (IV. aquela objetividade autônoma que é a base da epopeia). então alcançamos. como "as maiores tendências da época" (Schlegel. restritos. está todavia satisfeito em si mesmo" (ib. Diante do abismo aberto entre a exacerbação do subjetivo e o mundo de que o romântico se alimentava. fragm. uma interiorização no objeto. em toda a sua da linguagem da arte era ainda acrescentar: Hegel era prejudicado consideração da arte. Rosenfield está correta em assinalar que os sinais apontados de crise da concepção romântica permaneciam. Quando Hegel pronuncia tica. Talvez. aos sinais de seu conteúdo (Gehalt) sua configuração expressiva. desse modo. primeiro editado em húngaro. e a seguir Schelling. Referindo-se sido as razões que pesaram Hegel. "por mais que também expresse o anseio pela amada. para a tragédia ática. Deixemos de lado o que a prejudica e conservemos A referência ao estado de crise das respectivas o seu achado. ou demasiado especulativa ou propensamente anunciadora de uma história determinista. deixando de lado toda a dimensão por ele sublinhada na lírica-166 ponto de tomar um deles. Pode-se por não haver integrado. interessa também o objeto e a configuração deste no seio de seu reflexo subjetivo. o certo é que sua aproximação do gênero "bastardo" quanto à épica dificultará o reconhecimento dos traços formais do romance.. escrita. especificamente entretanto.33) A limitação moderna referida resultava de sua concepção do romance como "a à situação de Aristófanes.A questão que se punha para o Schlegel dos "Fragmentos -gaúcha tem o raro mérito de apontar para a limitação da passagem hegeliana. 137). Hegel continua então a ignorar uma dimensão capital do romance e da poesia em geral: a realidade. Hegellimita-se a considerar apenas a relação personagem-representação do mundo (isto é. de Gcethe. fosse no que chama de "humor como na exposição subjetiva se prejudicada pela prática descritivo-normativa das retóricas. dimensão imaginária) que se torna na sua forma objetivada. cujos Fragmentos continham iluminações sursobre o romance. lI. Para evitarmos equívocos. Analisando o romance exclusivamente na perspectiva da epopeia. junto com a Revolução Francesa e A doutrina da ciência de Fichte. densa. e ao humor. o motivo principal da caracterido romance como modalidade disponível burguesa moderna da épica Isso de de que esse era o caminho para um sistema filosófico da história humana.em que. em 1911. Justamente considerado. neles reconhece um instante de exaustão e crise. obsedado pela totalidade. a efetividade potencial do fantasma (Phantasma := de suas fases. Kathrin H.tar contra a cavalarià' (ib. Hegel continua desconhecendo a especificidade da forma romanesca enquanto forma estruturalmente mista. 167 . Antes publicado como artigo em 1916. K. um possívelvir-a-ser das "relações substanciais da vidà: (Rosenfield. um humor como que objetivo" (ib.

como as obras mais importantes de Lukács. a própria ideia de "cultura fechada" isto é. à lírica. da procura e o real perigo da despergunta..: 1965. enquanto os entendo. Não obstante. F. E não sem a ajuda indireta do próprio Schlegel: se este via no "grande fenômeno da época". A essa topografia geral corresponderia. mais do que Friedrich Schlegel. a sociedade grega conheceu a dinâmica das plataformas: "O mundo da epopeia responde à pergunta: como pode a vida tornar-se essencial? Mas a resposta só amadureceu como pergunta quando a substância já acenava de * Tradução modificada.não são tese. Se a ideia de geschlosseneKulturé a linguagem lírico-melancólica estava muito mais próxima dos "primeiros românticos". integrada em si mesma cípio da totalidade hegeliana.: da Theo1800. para quem procurava um significado para a invariáveis. e não um teórico antecipado existência. alguma para a ironiza os "espíritos profundos G. Hermann Luchterhand Verlag. 25. somente formas.). mas nenhuma mas nenhum Isso não lhe parecia senão uma psicologia de oitiva. o idea* Citamos a tradução de José Marcos Mariani de Macedo. O mesmo vale para a citação seguinte.28).: 1920. 2000. 313). Já o primeiro lhe era benéfico.A positividade de cada forma.: 1935. G. o artista. uma "confirmação (ib. mas flexíveis ao tempo e lugar em que se formulassem. oferecia.em qualquer hierarquia que sejam pensados . ressalvando apenas a influência de Hegel. sem que. por isso. não há "alteridade da falta de centro do homem moderno.. à épica era então concedido o caráter de plataformas Como "culem consonância com Hegel. (lb. para os antigos. G. 135) Ao drama. o trecho. 24. em cotejo com Die Theorie des Romans. era a mitologia [. na Enciclopédia literária à versão que publicaria. como. com ênfase para sua concepção de esquerda como porque nunca e pelo caos. mas cada qual é uma espécie de configuração do mundo de qualidade totalmente heterogênea das demais.. Lukács. de expressão básicas: Drama. G. "pois cada (id. Hegel. do jovem Lukács concretiza o prin- concebe a plenitude da forma como função do dilaceramento apreensão psicológica já pressupõe para os românticos. no original.* Não se refere. em Moscou. Lukács. "As culturas fechadas". Lukács se encontrava notável" de que se preparava um novo centro às vésperas de adotar o marxismo como o confora faci- em prefácio à reedição alemã da Teoria o autor reconstitui tual que então vivia. Em palavras mais como mas nenhum caos" (Lukács. antítese e síntese de um processo dialético. tura fechada". 312). Darmstadt. Editora 34. O "esquecimento" as duas versões apenas diminui o seu autor. Sua opção político-existencial litada tanto pela presença de um hegelianismo partilhara do entusiasmo to da elaboração Enquanto tas suas concepções o ultrapasse schlegeliano pelo fragmento lhava. A teoria do romance.* cendentais corriqueiras: [. remetem à posição da sociedade a que o agente pertence. deixe de ecoar o que F. pois o cotejo entre da quanto aos fatores que propiciam Schlegel supunha que o dilaceramento capítulo. na p. (d. a forma depende menos do talento do artesão do que de seu tempo e lugar. Um ensaio sobre as formas da grande épica. 168 169 . Ainda que a hesitação fosse aceitável no jovem húngaro fascinado pela cultura alemã. Acusava-se pelo intuicionismo das relações entre épica e romance contudo.. 1965. ]" (Schlegel. São Paulo. II. que combina duas frases. lírica e épica .26 e 27).. sem citar nomes. Ein geschichtsphilosophischer Versuch über die Formen der Grofien Epik. como autor da literatura. somenenigma.: 1920. dos lugares transafastado. épica com o romance. tinuador de uma filosofia da totalidade. é o cumprimento de suas próprias leis estruturais. acentua a proximidade Na "era da epopeia". Seria presumível até mesmo atribuir o tom melancólico e só funciona no interior de seu território" a forma plena seria uma química exclusiva a os "lugares transcendentais'~ certo sujeito individual. antes de sua adesão ao marxismo. Schlegel escrevera no "Discurso sobre a mitologia": "Afirmo que falta à nossa poesia um centro de gravidade.7-19).. se encontra na p. de Schlegel sempre se mantivera Lukács. havia um fator que não pode ser negligenciado: de um sistema filosófico. um estado determinado coberta: "o grego conhece somente respostas. portanto. ] vítima [s] de um solipsismo caprichoso almá' porque ela "desconhece o real tormento te soluções (mesmo que enigmáticas). de proveniência hegeliana. a presença de formas rieao fato de que Lukács estivesse mais inclinado à proposta schlegeliana de procura de um novo centro do que propenso a admitir as fases da história teleológica de Hegel. Na edição original. Desse aspeca forma da obra de arte. que interior" (Lukács.87 -117). o ambiente intelecde que partiespeculativo lismo alemão. O certo é que a inclinação de Lukács logo se modifica. uma via muito mais ampla. porque eram opospsíquico era a condição para (d.

seriam o refúgio da regularidade constitutiva.. 33).. a prosa é o instrumento privados e heterogêneos. ] o espírito grego.. Limitemo-nos. 39). romance ronda "o perigo de que a fragmentariedade mente à luz" ou que "a aspiração demasiado intensa de saber a dissonância o ato pelo qual o sujeito confere forma. nascida da norma e criadora de formas. essa soberania na vida. métrica do epos. A melancolia. que se reinstala quase ao final do capítulo. melhor dito. ao que na compreensão a arte grega como ponto de partida. em Moscou. corresponde mutação. embora menos explícita que a própria história do Espírito. esta desaparece romance" (ib. (Ib.. R. era essa uma das razões. (Ib. porém. livre de objetos. tende ela a ser "a lírica da alma" (ib. tornar-se-á mais excruciante: é "o tormento da criatura condenada ao isolamento e que anseia pela comunidade" (ib. não é acidental que "o poeta épico Gcrthe moldou em versos seus idílios lírica. o romance dispõe de um único meio: o indivíduo. 71).. mantém a distância relativa que Lukács conserva stalinista. isto é. só a totalidade da vida. [.longa distância. Contra um e outro risco. por assumir uma dimensão também psicológica. à pergunta de como a essência pode tornar-se viva. Como não tenho o propósito hegeliano e como ele será trabalhado Recorde-se apenas: tomando tas.. 36). 27) e a afirmação de seu horizonte que "uma totalidade mais dada de modo evidente.. autossuficiente. para a qual a imanência do sentido da vida tornou-se problemática. Mostram-se o romance é a epopeia de uma era para a qual a totalidade extensiva da vida não é (ib. plação de si mesmo. aquela que se cumpre em uma sociedade internamente sentido pleno à obra. [tornou -se] cada vez menos grego". aspirar por uma totalidade dente moderno Porque continuaria como vimos. a melancolia na juventude ção em marxista. é a lírica das formas épicas sem totalidade. em um mundo despojado de o de incidência mais frequente. desempenhando de Regela comparação perde o sentido quando Lukács se tornar um membro do apparatchick.. 44)...tomou-se consciência de que a vida como ela é (e todo dever-ser suprime a vida) perdera a imanência da essência. 51). O hegelianismo expressiva que já não bastaria ao homem contempomelancólico daquele Lukács ainda "pagão" via o puramente lírico como a forma adequada ao sujeito transformado em "senhor absoluto de si" (ib. não é a dissolução do objeto em sensações e estados de ânimo. nesse sentido. Somente quando a tragédia respondeu. 32) Por isso. do terror um papel lamentavelmente saliente em 1936. o problema de depois. como configuração Em sua irregularidade dura até nós. o e elegeu a prosa para a totalidade do ciclo romanesco do Meister" (ib.. Na tragédia grega. 55) é dada às formas" (ib. Ao desaparecimento pleno em si mesmo. ela sustenta a existência de quanto foi configurado.. não só pressuposta hegeliana como desejável pelo desprezado o romance é o descendo mundo salte bruscaresol- da épica. ressalto o legado do romance.. que há então "de criar 171 criação dominante do objeto. Essa lírica é aqui a unidade épica última: não é ela a volúpia de um eu solitário na contem170 . Como as formas são invariáveis porém consiste em saber que lhes sucederá nos tempos e lugares opostos os destinos da tragédia e da épica: aquela pere dá lugar "a uma forma absolutamente nova. mos destacado certo caráter de sua cultura ros básicos. seria o lirismo. a solidão concernia à "relação com o destino". 43).. mas nenhuma pergunta" foi a condição para sua transformade indagá-Ia. ib. de um mundo a pela teleologia ao fechado. Por um raciocínio paralelo. A mesma tendência ao lirismo será notada nas "formas épicas menores". (Ib. 49) Entre as formas originárias. integrada. na moderna. exemplificadas pela novela: povoado de sujeitos individuais. afirmada e resolvida na forma conduza a um fecho precoce que desintegre a forma numa heterogeneidade disparatada [. 58).. isto é. seria capaz de conferir Parece evidente que. por que Regel considerara a arte uma modalidade râneo. quanto aos escritores alemães ali exilados (cf..: 1991). configuração e limite. se "o mundo tornou -se grego no correr dos tempos. totalidade. pois "o mais propriamente grego do 'lugar inteligível' (tópos noetós) perdeu -se para sempre" (ib. Schlegel-. Müller. para Lukács. os idílios. pouco que evendepois dos processos de setembro de 1936. ]" (ib. configurando. Porque essa totalidade há muito esteve perdida. mas que ainda assim tem por meta a totalidade. da criatura própria a um mundo em que o subjetivo e o objetivo não se configuram tem a dizer sobre o romance: e diferenciam. Tão diverso do inquisidor tualmente será. tínha"o grego conhece apenas resposdas plataformas simplesmente dos gêneaceita não sujeitas à 57) O verso épico está subordinado a uma totalidade preestabelecida (cf.. mas antes.

71). 33). Como as formas são invariáveis porém consiste em saber que lhes sucederá nos tempos e lugares opostos os destinos da tragédia e da épica: aquela pere dá lugar "a uma forma absolutamente nova. isto é. Contra um e outro risco. o romance dispõe de um único meio: o indivíduo. ] o espíricada vez menos grego". 44). em um mundo despojado de o de incidência mais frequente. para a qual a imanência do sentido da vida tornou-se problemática. de um mundo a pela teleologia ao fechado.. (lb. autossuficiente. sentido pleno à obra. é a lírica das formas épicas sem totalidade. Como não tenho o propósito hegeliano e como ele será trabalhado Recorde-se tas.. Mostram-se o romance é a epopeia de uma era para a qual a totalidade extensiva da vida não é (ib. Parece evidente que. que há então "de criar 171 criação dominante do objeto. a melancolia na juventude ção em marxista. tende ela a ser "a lírica da alma" (ib. Müller. seria capaz de conferir mente grego do 'lugar inteligível' (tópos noetós) perdeu -se para sempre" (ib. pois "o mais propria- plação de si mesmo. nascida da norma e criadora de formas.. por assumir uma dimensão também psicológica. 55) é dada às formas" (ib.. 36).longa distância. não é acidental que "o poeta épico Grethe moldou em versos seus idílios lírica. tornar-se-á mais excruciante: é "o tormento da criatura condenada ao isolamento e que anseia pela comunidade" (ib.. do terror um papel lamentavelmente saliente em 1936.. isto é. romance ronda "o perigo de que a fragmentariedade mente à luz" ou que "a aspiração demasiado intensa de saber a dissonância resol- o ato pelo qual o sujeito confere forma. exemplificadas pela novela: povoado de sujeitos individuais. afirmada e resolvida na forma conduza a um fecho precoce que desintegre a forma numa heterogeneidade disparatada [. a prosa é o instrumento métrica do epos. os idílios. livre de objetos. só a totalidade da vida... corresponde mutação. 58). melhor dito. como configuração Em sua irregularidade dura até nós. esta desaparece romance" (ib. 39). mos destacado certo caráter de sua cultura ros básicos. nesse sentido. Essa lírica é aqui a unidade épica última: não é ela a volúpia de um eu solitário na contem170 .: 1991). [.tomou-se consciência de que a vida como ela é (e todo dever-ser suprime a vida) perdera a imanência da essência. para Lukács. Somente quando a tragédia respondeu. Ao desaparecimento pleno em si mesmo. R. 27) e a afirmação de seu horizonte que "uma totalidade mais dada de modo evidente. era essa uma das razões.. ib. ressalto o legado do romance. ela sustenta a existência de quanto foi configurado. Limitemo-nos. mantém a distância relativa que Lukács conserva stalinista. [tornou-se] grego no correr dos tempos. 32) Por isso. privados e heterogêneos. se "o mundo tornou-se to grego. ]" (ib. Porque essa totalidade há muito esteve perdida. configurando. quanto aos escritores alemães ali exilados (cf. desempenhando de Begela comparação perde o sentido quando Lukács se tornar um membro do apparatchick. Na tragédia grega. mas antes. Porque continuaria como vimos. a solidão concernia à "relação com o destino". o e elegeu a prosa para a totalidade do ciclo romanesco do Meister" (ib.. mas que ainda assim tem por meta a totalidade. 51). na moderna. o problema de depois. (lb. aquela que se cumpre em uma sociedade internamente ramenos râneo. pouco que evendepois dos processos de setembro de 1936.. porém.. não é a dissolução do objeto em sensações e estados de ânimo. A mesma tendência ao lirismo será notada nas "formas épicas menores". A melancolia. tínha"o grego conhece apenas resposdas plataformas simplesmente dos gêneaceita não sujeitas à 57) O verso épico está subordinado a uma totalidade preestabelecida (cf. mas nenhuma apenas: tomando pergunta" foi a condição para sua transformade indagá-Ia. ao que na compreensão a arte grega como ponto de partida. integrada.. seriam o refúgio da regularidade constitutiva. emboexplícita que a própria história do Espírito. Por um raciocínio paralelo. 43). à pergunta de como a essência pode tornar-se viva. por que Begel consideraexpressiva que já não bastaria ao homem contempomelancólico daquele Lukács ainda "pagão" via o O hegelianismo ra a arte uma modalidade puramente lírico como a forma adequada ao sujeito transformado em "senhor absoluto de si" (ib. seria o lirismo. 49) Entre as formas originárias. configuração e limite. totalidade. aspirar por uma totalidade dente moderno hegeliana como desejável pelo desprezado Schlegel-. em Moscou... da criatura própria a um mundo em que o subjetivo e o objetivo não se configuram tem a dizer sobre o romance: e diferenciam. que se reinstala quase ao final do capítulo. não só pressuposta o romance é o descendo mundo salte brusca- da épica. essa soberania na vida... Tão diverso do inquisidor tualmente será. (lb.

Em se tratando de uma forma de arte..sobre Dostoiévski. isto é. O realce da forma.propunha-se relacionar o pensamento sobre a religião e a beleza. Da detalhada exposição de Taminiaux nos bastará uma pequena passagem: Uma individualidadenão é tal senãoquando é "outra quetodos os elementos. em 1965 . 84). se originara de uma indagação sobre a vida. embora desdobrado no Hegel da maturidade.neste"Tododavida".todo um mundo por sua experiência e manter a criação em equilíbrio" (ib. fundi-Ia com a subjetividade dos vivos na alegria. por isso constantemente sujeito a novos desenvolvimentos. teriam de emigrar ou. a primeira utilidade da reflexão de Bakhtin consiste em realçar ser ele um gênero sem regras preestabelecidas. referido em carta a Schelling. Não sendo meu propósito participar de seu resgate. Mas me cabe apontar que. Eis por que Mikhail Bakhtin (1895-1975) é o antípoda de Lukács. levassem uma vida clandestina ou esperassem pelo gulagque os tragaria. "a epopeia de um mundo abandonado" (ib. no Lukács crítico da literatura. sim. relacioná-Ia com o que fará um futuro leitor chamado Gyõrgy Lukács. Se insistimos em examinar o romance sob o prisma da forma.J. Ou até que ponto serviu de alavanca para o mecanicismo do marxismo soviético. Antes de se tornar puramente ideológico. hostil a Katka e Joyce. em suma. O romance é. Caso Lukács tenha conhecido esse texto inicial e o comparado com o Hegel público. Machado (1995).: 1967. sendo de data ainda mais recente suas coletâneas de ensaios. só é uma vida individual à medida que "ela é una com todos os elementos. 89).embora ainda muitas voltas fossem dadas até se constituírem no pensamento hegeliano. J.mas. deixa prever o Lukács posterior: extasiado diante de Grethe e Thomas Mann.. e a ponta de sua maturidade fIlosófica. caso contrário. já presume o papel que desempenhará a totalidade. tornar-se objetiva e bela.207) O pensar sobre a vida.210) -. a atenção para com sua empiria eram hostilizadas e justificava que os que assim fizessem fossem chamados de formalistas. Estas rápidas anotações seriam ociosas se não mostrassem a dependência da teorização de Lukács do princípio da totalidade hegeliana.. antes. a do livro de 1920. ]" (Systemfragment. indagação empírica significava análise formal. É nesse sentido que a leitura de Taminiaux. Sua singularidade é mais bem apreendida se a contrastamos com a orientação de seu tempo. :+ 173 . O leitor brasileiro encontrará um panorama abrangente sobre a obra de Bakhtin em Irene A. e sobre Rabelais."é da essência do serviço divino suprimir a consideração intuitiva ou pensante do deus objetivo ou. Não é de minha competência indagar até que ponto esse legado de Hegel viria a prejudicar o marxismo como modo de pensar a realidade e atuar nela. (Taminiaux. O problema envolvido no desenvolvimento de sua singularidade estava em não subsumir o empírico pelo especulativo sistemático. em que formula suas primeiras ideias. tudo isso. como que liga duas pontas de sua vida.. entre a religião e a arte .. afirmado e controverso como todo filósofo de peso. em que começava a proliferar a fragmentação das experiências e hipóteses das ciências empíricas.ao mesmotempo.Assimavida é um todo.toda a infinidadeda vida fora dela. originalmente publicado em 1929 e republicado com modificações em 1963. Por isso sua teoria do romance tomava como inquestionável o que antes deveria ser objeto de indagação . em seu duplo sentido (formação e educação).. ante a interpretação luckasiana ele seria assim designado. já esboçada nas páginas do chamado Systemfragment. de 2 de novembro de 1800. a do canto e dos movimentos corporais. apud Taminiaux. foi e continua sendo de enorme prejuízo. Interessa. O aludido sistema. Não nos cabe 172 duvidar de seu êxito nessa liberação. O propósito do ainda aprendiz de pensador era nitidamente especulativo. [. a separaçãonão é o outro da relaçãoe o múltiplo não é contrário do um. renunciassem à sua opção "burguesa". na parte consagrada a Hegel. A análise desenvolvida por Jacques Taminiaux verifica que o princípio. seu juízo trazia como déficit o privilégio da totalidade. uma dança [.só tenham começado a circular no Ocidente a partir da década de 1970.. podemos supor que aquele perigo era insignificante. empírica.que a infinidadedasvidasindividuaisforadela". a busca de estabelecer a harmonia entre a objetividade e a subjetividade. já sua versão nobre.. Ainda que Bakhtin não tenha pertencido ao círculo efetivo dos formalistas. Não estranha que sua obra seja pequena e seus livros mais importantes .:+tratarei apenas do seu "Épica e romance" (1975). a de início. um gênero de exteriorização subjetiva que pode. Por desdenhá-Ia.: 1967. ] graças a certas regras. cumprido em um projeto em que se poderia ver uma reflexão sobre a Bildung.ou melhor" é o Todoe.se convertessem em burocratas inofensivos.

A mudança radical que provoca nas coordenadas temporais da imagem literária. que primeiro pela concordância. Essa prismatização dimensão: o signo-enquanto-sentido sistem uma função produtiva. um mundo monoImpede. "através da ao dado de sujeitos diferentes. ] No processo de se tornar o gênero dominante.7) cumprida no romance. por isso. seu discípulo húngaro escrevessem em épocas em que os mecanismos de controle tinham perdido suas armas principais a alegação ético-religiosa. assume outra engendra sua própria significação. de sua imaginação. 2. a intervenção modelos. (Acrescente-se de passagem: embora Hegel e. e tanto mais o sujeito depende da realidade" (ib. H. Só aquilo que está se desenvolvendo pode compreender o desenvolvimento como processo. o romance insufla a renovação de todos os outros gêneros. no processo de seu desdobramento. poliglossia de Bakhtin se opõe ao posto de excelência reservada a uma sociedade semipatriarcal. que seria inerente à sua referência. voltemos ao analista russo. 24). (Bakhtin. sensível e rapidamente a própria realidade. ele é esta coisa. criado à imagem e semelhança do ponto de vista do narrador. que o mundo seja encarado como totalidade. [.: 1969. um de todo signo: remeter ao mundo. o romance então se destaca por sua "crítica da heroicização 11. nos demorar nesse aspecto. (Sem do sujeito mediador. infecta -os com seu espírito de processo e inacabamento. Ora. No romance. basta ressaltar que a surda às outras socieda175 impede de antemão o mundo das consonâncias lógico..22. isso equivale a dizer que.. o conceito de realidade como contexto. considerando na fecundidade da A poliglossia de Bakhtin é passível de ser vista de Hans Blumenberg: a heroicização épica já pressupõe uma disposição imposta à realidade. 3. mantendo.. reflete mais rápida. portanto. assume a forma da consistência quanto linear. Sua tridimensionalidade estilística.) que o pensamento socialmente Lukács entenderia como sinônimo de um mundo fragmentário de Hegel. para realizar uma reviravolta epistêmica: o signo não declara uma verdade imanente. a poliglossia de Bakhtin. ] Aquilo que podemos descrever como "representação"no romance [.. de apenas se opor a uma "cultura fechada" intersubjetividade de suas várias possibilidades perspectivísticas" (Blumenberg. a zona de máximo contato com o presente (com a realidade contemporânea). isolada e culturalmente Não tendo a intenção de estabelecer um diálogo entre Bakhtin e uma mente 174 . como quem não tivesse tempo a perder. menberg.. entretanto. essa possibilidade de interação é fechada se não se considera que "quanto mais a realidade do romance é dependente do ponto de vista do e sujeito mediador. 11) Já essa formulação inicial revela seu feroz contraste com a linhagem hegeApenas a propósito do segundo traço ainda insistamos inter-relação com Blumenberg. Enquanto a mesma propriedade rastro da tradição para a diversidade podermos dobramento na tradição sistematizada por Hegel. sobretudo. tanto menos a realidade parece ser desse sujeito dependente maneira simples: a compreensão mático de várias subjetividades imaginação provavelmente.. por certo. I.. a suposta insuficiência artística. só pode ser entendido isto é. isto é. a legitimação discursiva quase tão-só reservada à ciência -. sua indagação ajudaria direta ou indiretamente a reanimá -los. M. Sua escrita é. (lb. em toda sua plena abertura. grifo meu) A poliglossia deixa.. o signo indica que não corresponde a "coisa" alguma e ele próprio assume a substancialidade de uma coisa.Assim em seu momento de luta e afirmação.. embora já não o seja hoje em dia. ou seja.. ao contrário. [. da imita tio. a mímePara quem.: 1969. mas apenas acentuar como só teríamos a ganhar com seu intercâmbio. era nova sua abertura para a cena presente: bastante especulativa. mais ainda.. entre coisa e símbolo e assim destrói as correspondências a que toda a nossa tradição do problema da verdade esteve ligada.ia desenvolver a anotação de Bakhtin. A nova zona criada pelo romance para a estruturação das imagens literárias. o signo artístico tem pois. logo acrescenta as carac- o romance é o único gênero em desenvolvimento e. (Blu- liana. ] Desta maneira.) Por sua ausência de épica" (ib. ] remove a polaridade entre sentido e significação (Sinn und Bedeutung). Por isso. o narrador. 23). na arte. H. Dito de da realidade passa a depender do acordo prise não mais é ditada pelo ponto de vista e pela que. Ele já não remete a alguma coisa. de Blumenberg não se interesse pelo desoferece. que se liga à consciência multilinguística essencial. além do simples nívellinguístico: [. terísticas que aponta em seu gênero de eleição: 1. mais terra a terra.: 1975.) Poder-se. além de sua abertura das línguas e das falas geradas nas línguas.

Estas. a visão do o poder foi capaz de manter essa imagem do mundo. rompe com a expressão discipli176 177 . nos diálogos socráticos. recordemos épica tanto se separava do espírito crítico ensaiado pelos sofistas como se manque a tecitura dos mitos em Ovídio não impedia a crítica e a ironia. A própria situação de Bakhtin. desvios da narrativa e disfarces. vários pontos de vista a propósito que. capo lI. de à expenão só (ef.. Outra vez. não podiam ser as obras exempIaresda tradição controladora. M. Os mecanismos de controle. Produto de um o romance não promove uma visão confor- memória preservada se converte. visto como tão transitório de se desenvolver quanto incerto é o futuro. a das investigações apresentavam. a intemporalidade oposto (ib. Com razão.: 1975.des. como um acontecimento épico é algo completamente romance se tenha tornado o gênero dominante na ficção da modernidade autêntico do passado distante como em seus próprios padrões. Mas o fato de que o e justificação do sistema vigente. a posição do que enuncia o mundo épico) é a ambiência de um homem que fala acerca de um passado para ele inacessível. empírica romance teve de ser tão retardada.) pelo poder político.: 2006. A "vida sem começo nem fim" era objeto de repreComo gênero específico por nós hoje conhecido. nos diálogos de Lucian?. os "autênticos predecessocurtas. A reconciliação romance! gião e a beleza (ef. repensar. 19). são decisie formal do Embora essas anotações tenham sido intencionalmente insisto. (Bakhtin. 22). O pela tradição e impermeável acabado. Virgílio e no "parentesco" tão oposto às Metamorfoses "O mundo mundo que a épica retraça é o transmitido riência individual. entretanto.: 1975. com facilidade. via de fundamento andamento falava de um passado sacralizado e canonizado. Bakhtin observava que a alocação do épico na passado supunha "uma ampliação do passado absoluto". a poliglossia assim encaminha mundo.. "na cultura criadora do riso do povo comum" (ib. Como. um poema sobre o passado. L. M. Por essa sua estreita conexão com um passado imemorial tinha articulada ao mundo do mito. assim como OrIando furioso. mostra a estreita ligação da de acordo com os valores que os configuram. que o jovem Hegel procurara terminara mente. Taminiaux). na sátira menipeia que Bakhtin encontrava res do romance" (ib. Era aí. não por contente por apenas ser mantido no ostracismo. 20). e sim de uma certa Grécia Heródoto. frequência. por certo. e irretocável. para uma visão realista. que vivia precariamente arte com as instituições mudam sociais. L. desencantada do estabelecer entre a relinão no da Teoria do no Lukács - da camisa de força do chamado realismo socialista. 13) A épica. de imediato. Sua exaltação não é a da Grécia antiga. de com termos.. a épica tem sido.. em vez de um passado a ser reverenciado. C. O passado absoluto estendia seus usos e costumes para que o presente. mostrando Samuel Beckett - mista da sociedade humana. desde o começo. Aquela ampliação era justificada esquecer que a do status quo: pretendida em veículo de uma sociedade que se pretendia igualitária. visto como necessariamente ao "passado meramente pela preservação à linguagem amoldassem Enquanto teve condições transitório" da memória dos homens. o ponto de vista reverente de um descendente. 17). em legitimadora refinada dos épicos correspondia mundo desencantado (entzaubert). ao contrário do mesmo. não faz sentido. na sátira romana. senão que certa configuração seou-se noutra. cuja tese sobre Rabelais fora recusada pela Academia. (É o que fariam Kafka e do texto de Bakhtin: e Lukács não podia aceitar. de acordo com seus próprios significa. sob sutilezas. portanto. mas sua capacidade de dar sentido mesmo ao que então o sentido do caótico. é impossível mudar. base que servira a Lukács para converter Curiosa- o nada. Pense-se na Eneida de Augusto. e a posição do autor a ela imanente e dela constitutiva (ou seja. entre o Eneias troiano e o imperador que sersentação apenas nos gêneros baixos. própria romance ao mundo da épica. vas para que se veja por que uma teorização. o romance não pois com ele antes se impunha A antítese com a épica cresce na continuação mundo a partir do cotidiano. do controle metamorfo- reavaliar qualquer coisa nele" (Bakhtin. 211-44). e talvez se desse por definição.

] Pela estetização da arte exatamente e tão-só moderna as boas obras secularizavam-se em "belas obras": nas obras estéticas de arte. uma menção há de ser feita. prolongando a tese de Weber sobre o papel do calvinismo na formação do espírito capitalista.21) A arte adquiria dignidade porque se compreendia humano podiam permaneceria se confundir unilateralmente com a influência tratado.. ] Não se refere à arte para compreender a arte senão que o mundo. significaria que o controle tenderia a ser arquivado ou que ca perca as aspas assinala que não se poderia supor a continuidade 178 se tornaria uma reserva exclusiva aos círculos conservadores? O exame empírico 179 . E não se refere ao artista para compreender o artista senão que para que compreendesse o homem.: 1989. seriam bastantes para comprovar que o Renascimento se agravou. propagando-se grandes figuras hierárquicas Reforma e a Contrarreforma.: 1960. Do mesmo modo. em paralelismo com a (sempre relativa) da arte. ENLACE E AVANÇO enlaça sua tese a uma consequência conceito do bom produto. O. o mundo não círculo da Suas raízes. entretanto.15) Quando. para que se mantivesse a relevância para a salvação das boas obras era não só preciso sair do campo religioso para o profano. não cias empreendidas depois de Hegel? O próprio fato de que a experiência de 1818 a 1829. até 1750. a análise da cauta tentativa reconhece as razões ético-políticas do controle. exercida por um pequeno intelligentsia. ] Onde se contestava radicalmente o significado das boas obras para a salvação..I Onde a reforma restringia a relevância para salvação (Heilsrelevanz) das "boas pelo que já se disse sobre certas obras (Castiglione e Accetto. Sua segregação originária.jáleva em conta a premência da tematização fIlosófi- ca de uma experiência que seus pares haviam descurado.. A questão do controle controle que se avolumara desde o Quattrocento. em semestres que se Gracián e La Rochefoucauld. diato se lhe seguiu expandiram gressivamente Tasso e Ariosto ). Esta virada para a estética é de todo modo uma questão memoráveL [. O realce da experiência estética..asboas obras tinham de emigrar do território religioso para o recém-criado território estético. A partir da primeira recepção da Terceira Crítica kantiana. introduz-se um hiato significativo. renascentistas de teorização explicitamente demonstra do romance reconhecida.. depois também político e de implicações religiosas.5. Havendo sido o Renascimento início. (Marquard. pois. Ainda que não se possa aqui desenvolvê-Io. Ou seja. para que pudessem manter sua relevância soteriológica. Odo Marquard. As e "estéticas" do das experiênestétido tranquila normas legitimadas se enrijecem. obras" à" sola gratia" e à" bana fides". [. que. os feitos dos homens que abalara o próprio colaborariam empírico e pontual fosse suficiente. portanto. O. Já a leitura comparada a submissão entre as da Igreja. Hegel pronuncia prolongam seus cursos de estética. para sua salvação eterna: bem mais ousada: a Reforma isto é. poderíamos nos dar Se um tratamento por satisfeitos / . mase não por acaso no terreno do protestantismo-converter filosoficamente o estético em tema. quando Baumgarten publica a primeira parte de sua Aesthetica. Que dizer. Vinte e nove anos depois de seu texto de 1960. facilitou o abismo sobre o qual atuarão a dos dois grandes épicos crescente de sua forma expressiva.. a presença. [. de cunho intelectual. desdém pelo gênero romanesco e a busca de moderá-Ias. que se expandiria autonomização além da Alemanha. sumárias. nunca teve caráter popular. (Marquard. sem ela. Embora tenham sido apreciações e o que de imeno uma crise de valores e de modos de ação que proum movimento.

inibindo ou diferindo suas necessidades e interesses. a razão do controle está na natureza de "criatura carente" (Miingelwesen) do ser humano. Nascido prematuramente (Frühgeburt). "uma questão memorável". a estrutura supra-animal da vida humana mostra-se como um paradoxo. em suma... Luiz: 1995. mais relea necessidade do controle. ele adquiria outro contorno: sem renunciar ao confronto da obra sob exame com as normas de conduta moral. em segundo lugar. Por conseguinte. Apenas a partir de sua natureza carente o homem se distingue dos outros animais. seus impulsos. se destaca" (ib. 52). teremos de considerar que da experiência estética encontrara Novum organum (1620) de Francis Bacon e. o controle receberá uma nova dentição. diz expressamente o autor. que. Mas nos manteríamos sos a uma ingênua linearidade Sem ainda abandonarmos a autonomização o plano apenas empírico. 20). nas 180 . capaz de "inibir (Hemmbarkeit) e diferir (Verschiebbarkeit) necessidades e interesses" (ib. De sua carência resulta não ter o homem um território biologicamente demarcado e precisar converter-se "em um ser da disciplina" (ein Wesen der Zucht) (ib. a filosófica há de começar por uma reflexão sobre a própria situação mesmos" (ib. se constitui uma epistemologia pela ciência. limito-me ao estritamente básico.: 1950. religiosa. pois se confunde filosófie as pri- co: a totalidade. o controle de orientação não mais ou tão-só da arte e o controle científico.) Na própria obra hegeliana e de seu fiel leitor. De acordo com a indagação de Gehlen. acrescenta Gehlen.Por isso o define como "uma criatura carente".A. apresenta um duplo significado: "Não há nenhuma determinação do que o homem é propriamente. Mais do que sucederá com o chamado Século das Luzes. É mesmo porque não atende à "totalidade extensiva" do épico que entre o século XIX um período que nossa indagação já não poderá abarcar.). detentor de uma redução de instintos. Há. Ao assim dizermos. no Discours de la méthode (1657) de René Descartes. Para que não repita o que já escrevi em obra anterior (cf. o homem se singulariza por ser. (O exame do romance inglês do XVIII tornará evi- dente o embaraço que a "novel" representará para o adepto de alguma linha reformista. o risco. mais ainda.. 10). de sua parte. Contra tal risco. isto é. o homem antes se define como "um problema biológico especial". com a o que sobressai é antes o aspecto positivo do controle. dentro de limites. despojado de potentes garras de ataque e defesa e. um adversário diverso no O reconhecimento bém de efeito significativo na atuação do controle. de fato. do estético é. Não nos perguntamos como o autor concebe que essa imposição pudesse 181 que pertence. 32). por esse motivo. o indivíduo pode deixar de inibir e diferir emfavor da não comunidade para se comprazer a si próprio. Para ele. e não da comunidade/sociedade social promover o contato social aberto. Para Gehlen. o controle de seus impulsos se torna indispensável ao indivíduo e sua sociedade. em comparação com o animal. A expressão das noch nicht festgestellte Tier. porém científica. em que se concentra a modalidade que temos destacado. Lukács. Limitemo-nos legiará a indução e o conhecimento uma nova modalidade a recordar que. tamprese nos contentássemos em assinalar seu evento. precisamos compreendê-Io perante as características Em seu sentido amplo. É aqui que a maneira como empregamos o termo "controle" afasta-se pro- A NECESSIDADE HUMANA DO CONTROLE gressivamente da plena concepção de Gehlen. recorremos à formulação de Arnold Gehlen. que. a capacidade humana de inibir e diferir necessidades e interesses apresenta outra face: como essa é uma capacidade aprendida. chegando mesmo a forçá-Io" (id. não firmemente 'posto' (festgerückt)" (Gehlen.mostraria que ele fora abalado. provocará as voltas e revira- de controle. Na escala dos seres vivos. Para Gehlen. o controle enraiza-se agora em uma categoria de tratamento o romance é aceito sob restrições. estamos automaticamente declarando que o que chamamos de controle não se confunde com o aspecto negativo. "o animal ainda não determinado" (festgestellt). die konstitutionelle Gefahr. aponta para o caminho de "a estrutura (Verfassung) biológica do homem. que privisob o impulso de Bacon e Descartes. "de um estrito ponto de vista biológico. em vez de acompanhar voltas que operam entre a autonomia vante será procurar entender em que se fundamenta capacidade humana de modelar. é nessa condição que a aprendizagem e o exercício da disciplina. o controle negativo é aquele em que sua força de disciplina é usada em favor do próprio agente. Ao dizê-Io. Portanto. dentro da escala animal. Costa Lima. de "que as ações e impulsos humanos mais retornem ao mundo senão que se refinem infinitamente e se persigam a si a É evidente que o controle do imaginário é apenas uma modalidade de um fenômeno muito mais amplo. 315).. especialmente antropologia 293-6). Para vislumbrá-lo. portanto. o ser humano é algo 'imaturo' (unfertig). que se prolongarão meiras décadas do XX - palavras de Nietzsche. da espécie humana.

dentro da estrutura dominante. na passagem do século IV para o v. para nós incomum. L. há uma situação em que o controle é positivo. como visualizar que a inibição e o diferimento dos impulsos possam ser entendidos como estando a serviço do próprio agente senão no espaço de uma sociedade autoritária? Em suma. no tempo de Aetheria. posto que sua veracidade era garantida pela continuidade da tradição" (ib. (As ações hoje chamadas "politicamente corretas". Se então necessitamos de disciplina para compensar e ultrapassar nossas deficiências biológicas. mesmo em um caso como o do controle do imaginário. Épor conta dela que suspeito que Gehlen não aceitaria o que considero a disposição negativa do controle. Leo Spitzer se dedicou às peculiaridades textuais do que foi. 244). Como bem acentua Spitzer. realizada por uma mulher. A"intenção literária da Peregrina tio (era) oferecer uma narrativa.. lamento tanto mais sua restrição da conduta humana positiva àquela que se faz em favor do coletivo. extraordinária.: 1970). com facilidade. embora também des183 . Chamava-se Peregrina tio ad loca santa. não conheço melhor ponto de partida para explicar. de veracidade a que o relato era submetido. utopicamente. Esteja o leitor ape182 nas alertado que não atribuo ao autor aquilo que se desviaria do caráter de sua reflexão. G. a autora recorria a lendas consideradas idênticas à história efetiva. de uma proeza exemplar. E. endossando o que João Adolfo Hansen afirma em correspondência privada: ''Aarte é antes de tudo uma experiência do indivíduo capaz de fazer sínteses da experiência que serão mais efetivas quando justamente evidenciam que não há necessidade de repetir a natureza e que é preciso sempre inventar novas formas contra a morte". ao passo que os que reagem procuram ou se apossar desse poder ou assumir. as tentativas de constituição de cânones literários e culturais distintos dos em vigência são exemplos banais de modos de não-controle que logo se gastaram. pois. para o povo e para os cultos. o controle supõe uma sociedade assimétrica. em em seu texto mais remoto.atualizar-se. Pois. não há simplesmente tensões senão que o exercício do controle deriva de setores que se empenham em manter seu poder. Há de se encontrar outra maneira de mostrar que. Desse modo. provavelmente. nela. As observações de Spitzer explicitam o critério. "quando lhe apareciam marcas em desacordo com a Bíblia.. o primeiro relato de um cristão à Terra Santa. parecerá óbvio que famosos relatos de viagem. sendo eles sagrados. a necessidade do controle que a afirmação da natureza carente do homem.. Pois. A diferenciação entre o romance e o relato de viagem Em um ensaio tão celebrado como pouco lido. a priori. Não podemos evitar a suspeita de que Gehlen desenvolve sua concepção em favor de uma sociedade autoritária. para logo acrescentarmos: desde o fim da Antiguidade. Afastamo-nos. Se. em abstrato. fossem lidos como se seguissem o mesmo padrão.: 1949. 249). transpassar a fina fronteira interna. 315). passando pelos séculos medievais. que o força a tornar-se um ser obrigado à disciplina. A peregrinação tinha tal caráter porque das terras visitadas só interessava à viajante a corroboração dos dados das verdades das Escrituras. ela não pretende negar que é em Gehlen que encontramos a base teórica para nosso uso do controle. a sociedade a que pertencemos precisa supervisionar nossa própria disciplina para que ela não se faça em proveito privado. suas descrições da natureza só importavam para os teólogos. "isso prefigura a atitude de toda a Idade Média face à natureza" (ib. Gingras. como os de Marco Pólo e Mandeville. escrita para fins de edificação. a Peregrinatio. Assim sucede quando se procura estabelecer quais as fronteiras que separam o'válido do inválido no romance. e.) Por drástica que seja a divergência. o relato de viagem constituía um gênero específico. não leva em conta que a eficiência na vigilância da sociedade se correlaciona com os interesses dos que a comandam. Acentue-se apenas um de seus enunciados: "Este perigo existe exatamente nas altas funções intelectuais liberadas e podem. Assim. até o século XVII. (Era) o relato idealizado de uma peregrinação ideal" (Spitzer. Negar a necessidade humana do controle seria um contras senso tão primário que não carece insistir. de Gehlen ao acrescentar: em sua acepção negativa. em princípio pertencente a sua espécie negativa. uma posição menos desigual. Ele é imprescindível para que não se pense que só se reconhece o controle enquanto ação negativa! Creio que o mais anarquista dos pensadores não chegaria a tanto. Dessa maneira. quando não. O texto bíblico é considerado insofismável. 245). além da qual serão tomadas como intelectualismo ou afetação" (ib. creem propugnar um não-controle que é outro modo de controle. a descrição exerce um papel apenas corroborador do que já continham os textos sagrados. O conservadorismo de Gehlen o leva a considerar justificada a ação deste ser cujo aparato biológico impõe que se auto discipline tão-só quando ela se faz em benefício de sua sociedade. Aetheria ou Egeria (d. Fazê-Io não é um simples ato de justiça. Porque reconheço meu débito a Gehlen.

P. em muitas ocasiões. É diante da controvérsia que o respaldo histórico se torna decisivo. J antes que. por parte do receptor. Caberia perguntar: por que exatamente é ao longo do século intensificação das viagens ao Novo Mundo? Tratando inglês que dos essas queixas se tornam frequentes? Que melhor motivo poderia haver se não a da longevidade "Livros de maravilhas" de que o de Marco Pólo é o exemplo mais famoso. se encontra o mito dito do 'nobre selvagem' e o conceito inspirado pela Antiguidade clássica de uma 'idade de ouro'.308-9). durante a primeira metade do século XVII./ Blanca farina yaze en 50 negra cobertera. plagiando. Ideias grotescas eram então aplicadas a um mundo tão palpável como a Europa e um constructo intelectual subversivo e jovial passava a converter indígenas vivos em signos e símbolos./ So fea letra yaze saber de grand dotor. noble flor. (Campbell. porém. não tinham consequências viam-se das chamadas "licenças poéticas". ao escrever. Simplesmente. 139.86) Ou seja. B. nho que "estavam autorizados P. em século tão remoto como o XIV. estratégia semelhante já havia sido usada pelo enigmático Juan Ruiz: suas histórias de loco amor visavam a ensinar o buen amor.! Asy en feo libra yaze saber non feo. o realismo./ Como so mala capa yaze buen bevedor. Por esse motivo William Wood. "os livros de maravilhas" "eram autorizados" eretas. Arcipreste de: séc. M. D. A rasura de tal signo é um assassinato. 16-8). A afiranula a razão da pesquisa porque previapelos critérios diferenciadores colecionados XVII. escreve Mary Campbell: [. é própria ao homem (Adams. De minha parte. Isso leva a que. dizendo respeito a uma Ásia fantástica. porque. como reação. uma maior tolerância pela mentira. G. B. XIV.! Es de dentro muy blanco. mas ser- mação de uma constante intemporal mente a responde. ficcionalizando. Não que se confessassem tumes mentirosos ou tampouco a inventar monstros conficcionais. à medida que se amiúdam as viagens à América.! Asy so mal tabardo yaze EI buen amor" (Hita. Não que a disjunção fosse negada ou tratada de maneira diversa. para quem a atração pelo maravilhoso sua antítese. ] As crenças apoiadas nesse estilo de apresentação tornar-se-iam danosas como hoje sabemos. 184 185 4 . primeira utilização: ao longo do século multiplicam-se.96). Para que se perguntar isso. mentindo.: 1999. uma questão permanece aberta: até que ponto os poetas do século XVI foram influenciados por estes relatos [de viagem quando pintam um quadro idealista das sociedades cuja existência foi de novo revelada? Neles. até porque seus autores não pressupucorrespon- brained cynic) para os quais tudo que se afasta do usual é muito largo para o aro estreito de sua apreensão" (apudAdams.108). Mesmo pode controlá-Ios". (Campbell.: 1983. Afastava-se. portanto. sem ferir a fé e os cosse é que não os corroboravam: a bondade divina fizera com que seus fiéis habitassem de preferência em um continente XVII. no curso do século os ficcionistas passassem a insistir na veraci- dade dos casos que narravam e chegassem até a postular a vantagem do romance sobre a escrita da história. grifo meu).: 1983.: 1976).: 1988. soubesse. estava Estava. quando os que nelas acreditavam chegassem aos territórios marginais em que se pensava que os monstros residiam. Mas não se pensará que à curiosidade a aceitação da ficcionalidade. antifactuar' desse. Veja-se nesse sentido a seguinte passagem: "Nos anais da crítica literária. Adams. jetada para transmitir fatos e nunca antes empregada com qualquer propósito M. O perigo de Nin tengaes por chufa algo que en élleo:/ Ca segund ( ( buen dinero yaze en vil correo. em inglês. supoa mentir" porque não havia um critério distintivo XVII nham uma função religiosa..! Açucar dulce é blanco yaze en vil cafiavera. tradicionalmente era visto de outro modo. B. O que não fosse descrição objetiva era tomado como quadro idealizado. que deleitavam.sem vazão à curiosidade pelo estranho. G. o fazeAssim já sucede em sua nas obras editadas mos contra a maneira como ele a priori os compreende. autores e editores ressaltem a veracidade de seus relatos. a questão da mentira e da ficcionalidade. ao lançarmos mão de documentos entre relatos verídicos.! So Ia espina yaze Ia rrosa. acrescentava: "Há muitos cínicos de cabeça oca (many a tub* O que hoje nos parece uma disjunção simples e inequívoca a separar o relato de viagem e a narrativa ficcional. A parte da frase que griinterpretativa da autora não só distinta mas e por famos ressalta a orientação oposta à de um Percy G. a licença para o maravilhoso * "Non cuydés que es libro de neçio devaneo/ ( se torna arriscada. Ginzburg. estivera duas vezes na Nova Inglaterra. O processo inquisitorial contra o moleiro Menocchio pressupunha por parte do leitor do povo que o que se dava a ler era por definição verdadeiro (d. que.. a partir da qual o gênero humano teria declinado e que é preciso fazer reviver idealmente" (Quinn. não se punha a questão do ficcional. a usar de uma forma pro- do que fosse próprio aos relatos de viagem e do que só coubesse nos ficcionais. depois de reiterar que os viaa mentir (may lie byauthority) porque ninguém jantes "estavam autorizados sem tais estranhezas. G. queixas e acusações contra as mentiras em que seriam vezeiros os viajantes.: 1988. * No entanto. falsos ou ficcionais se é a natureza humana que os motiva?! Por por Percy Adams. más que Ia pefiavera.l EI axenúz de fuera negro más que caldera. muito menos * O que não impedia que "o próprio Mandeville que.

o controle. W. "se a vida era alegórica.: 1522. Por isso. com a substitui- to do acesso à informação vilégio do factual. adequação do enunciado com o priao dado da por parte do viajante" (ib. Quanto a ele. procurava respaldar o relato de função O mesmo propósito positivo não se estendia ao relato ficcional. o que não era factual. Da mesma maneira. Rich. Essas marcas discursivas eram decisivas por motivos de ordem estritamente econômica: se os sinais do factual não forem bem decifrados e seguidos.: 1969.. "[ . o que não favorecia o que se supunha ser o caminho do ouro. 224). que nos levam a tomar o surgimento dos relatos de viagem e a narrativa ficcional de consequências funestas. The Discovery of the Large. assim também empreendimentos muitos dos quais financiados Coroa. pois "ella es Ia palabra de Dios" (Vives. perca o pescoço. pois. em suma. de Boccaccio: "Desconfiava-se como indicadores positivos do controle. essa delimitação nada tem a ver com um afrouxamento das regras do controle. w. e sim com sua mudança. Ainda que a marca religiosa continue a pesar sobre os romances de Defoe e Swift.. Insistimos em que são positivos porque gem ao novo continente não mais podia servir ao propósito de corroborar "como reprodução imaginação como a faculdade que distorcia e falsificava a realidade" (Nelson. marcas discursivas pelos relato de viagem e o e coleções. Mas essa suspeição levaria à pura censura. não só continuava a ser impedido pelo controle religioso como receberia a carga de um novo. é porque não há controle sem estes dois e antagônicos vetores: o positivo e o negativo. Se a América. 145). materializados. concernem pela própria a o era seu registro" (Campbell.:1988. ] Ela não podia ser o Paraíso [ . o fracasso que seu empreendedor.: 1973). no fim das contas. L. ainda que disfarçado. a licença do ainda podia ser entendida como um prolongamento * Além das páginas que Campbell dedica ao texto de Ralegh. J. consulte-se a ampla introdução de Neil Whitehead à sua edição (Ralegh. Daí a particularidade Campbell que aponta no relato de Walter Ralegh.morte tanto rondava os que se alistassem entre as próximas tripulações perigo era iminente çadas. que a diferenciação ainda é preciso insistir nas razões que das marcas discursivas. O ficcional concaso antes não se houvesse introduzido que deveriam ser obedecidas a distinção entre as para os nativos. ao contrário. "actas auténticas de Ia misma Verdad"..: 1997.. o relato de viagem e a amparáserviam ao mesmo as cartas geográficas e os repertórios enciclopédicos and Bewtiful Empire of Guiana (1596). B. 218). W. Enquanto o texto escrito era justificado por essa inscrição divina... Se mesmo o ficcional conheceu um controle positivo.. 218). correspondera os relatos como o alegórica.886). [. que pressiona em favor da delimitação do território do ficcional. a licença para o maravilhoso M. Antes. Como veremos ao tratar de Defoe. isto é. que pressionam em prol do estabelecimento de marcas discursivas que singularizem o fato. à sua estrita proibição. constante humana os viajantes podem sair em busca do ouro onde ouro não há. Pode parecer curioso que seja a necessidade de explicitar-se mais concreta e nitidamente o plano da referência do mundo empírico.. A descoberta do Novo Mundo a torna insatisfatória. e constatado. o mecanismo do controle necessitará de outra mediação. embora favorito da raide visava a regular sistematicamente A diferenciação. Prova indireta de que o uso do maravilhoso era agora antifuncional: da expedição não impedirá nha. como "estabelece [sse] uma nova pressão em favor geográfica "tornava inadequadas as velhas estratéera também romance. do passível de ser examinado ção das tópicas retóricas e a consequente experiência. * São as razões acima apontadas marcas discursivas diferenciadoras procuram evitar a desorientação. ] a América positivos do controle. Assim nada há de misterioso em que "a nova acessibilia feitura o aumeno dade de outros mundos de enciclopédias da veracidade gias retóricas" e a frequência da viagem até eles" motivasse tinuará a parecer suspeito. Contudo nos levam a falar em indicadores Reiteremos. apesar do traço verista de seu relato. é justo remeter-se a seu pouco conhecido Factor Fiction estava nos textos bíblicos maravilhoso medievais': acrescenta meu interlocutor João Adolfo Hansen. tinha uma justificação religiosa. por motivos de ordem estritamente pragmática. cujas terras e riquezas naturais eram cobia uma age of faith. portanto. Assim.. 186 (d. ] e tinha de ser alguma coisa" (ib. se não indicarem ou resultante de uma hipotética o passível de ser comprovado. pragmática. (ib. -10 - lugar que não podia ser falado pelos velhos meios.3-116). para o leitor. Nelson. A viao que do maravilhoso dos bestiários da linguagem propósito. Agora. 187 . continuava interessou a vigorar o que William Nelson um dos raros autores que se a propósito de A profundamente da própria pela questão que nos obseda* compreendeu genealogia dos deuses.46). favoreceu a diferenciação discursiva. * Nesse sentido. de viagem em que.

"pois.A promoção da ciência: um novo dispositivo controlador Em 1620. Francis Bacon (1561-1626). portanto. Por conseguinte. em obra anterior. O vazio daí resultante tornava mais flagrante o contraste entre o louvor místico-esotérico a que se entregavam os neoplatônicos renascentistas e a true induction. se todos os homens se XXVII). poderiam razoavelmente entender-se entre Fundado nas antecipações da mente. a antecipação da mente. e a que propõe. 132). Não importa que longe ainda estivesse o tempo que concederia dignidade filosófica à ficção.. S. ]Ahistória verdadeira apresenta ações e eventos mais comuns e menos permutáveis. Philip Sidney (1554-86). contra a manutenção terra estéril ao conhecimento 188 humano. enquanto a natureza permanecia uma Bela Adormecida. se no of Learning Bacon ainda apresentava um elogio bastante indireto "Os órgãos dos sentidos não são dificuldades. a suficiência concedida às "imagens das coisas" e o prestígio oferecido à "história simulada". tornassem da mesma forma insanos. H. a continuação si" (Bacon. Nada poderia ser das inter- que proliferava nos círculos italia- nos: "O idealista e o poeta têm em comum a crença na superioridade pretações sobre as aparências. a que chama de Antecipação da mente. separada da "história verdadeira":" [. Nosso propósito é chamar a atenção para uma consequência modalidade de controle do imaginário. embora conceda que "as antecipações são fundamento satisfatório para o con- indução" (aforismo XIV). que se realiza pelo realce das palavras sobre o assunto. Seu ponto de partida claramente se opunha ao renascentista: de reatar com os antigos. com extrema agudeza nota que "a defesa da poesia [.. 48). têm por lugar de eleição a "história simuladà'. Lewis. caracteriza1605).. referindo-se ao famoso contemporâneo de Bacon. que era a do mundo mais jovem" (aforismo mais antagônico ao idealismo neoplatônico LXXXIV). No English Literature in the Sixteenth Century (1944). destacava-se o uso da imprópria imaginação e da "história simuladà'. Para Bacon. a Intercomo um anti-Aristóteles. adiante definidos como bloqueaXXXIX).A imaginação é. mundo e deve ser atribuída aos nossos tempos e não à época em que viveram os antigos. em troca. F. que. a poesia. isso equivalia a manter o privilégio da especulação. Seria mesmo excessivo supor que o favoreci189 da indução e da urgência de desenvolvê-Ia delimitado e fechado?" (ib. não faz diferença. "a partir ou. por sua vez. e insanos perigosos. os modernos deveriam estar inclinados a abandonar a especulação até então privilegiada. "a única esperança radica na verdadeira . Nesse sentido. TheAdvancementofLearning( midades da mente". isto é. mais incisivamente: por Antiguidade a velhice e a maturidade do aforismo revela sua ironia. embora Bacon não faça a conexão. Distinguindo pretação da natureza.: 1620. A observação de Lewis não é prejudicada por isso ainda não ocorrer na época considerada. como uma das "enferda. de Perrault. pois nos cremos fundados no uso da razão. o olho ao cristal. Bacon se apresenta senso". o ouvido a uma caverna ou estreito adiantava. Por mais pomposo e superficial que seja o tratado do nobre inglês. Mas a leitura seguida dos aforismos torna desnecessária a sutileza do argumento: a proposição anterior já define as antecipações "de intento temeráse conciliam porque em ambas o conAs antecipações assim atuam porque da indagação da dos ídolos. Pelo modo co~o é usada pelos sãos. mas de estabelecer âmago de suas fundações" entender mais corretamente (aforismo XXXI). Seria ocioso oferecer mais uma introdução a um pensamento notada: o impulso que Bacon emprestava à indução proporcionava que se lê sem pouco uma nova rio e prematuro': As duas caracterizações senso tem por base a manutenção dores da mente humana (aforismo estabelecem suas formulações anterior e independentemente natureza. não é menos verdade que dava um basta a um costume de raízes multisseculares.39).. só a "verdadeira indução" teria condições de convert~r os modernos nos desejáveis velhos maduros. impedia a capacidade humana de conhecer. que. E o futuro Parallele des anciens et des modernes (1688-97). Em consequência. Para tanto. A observação lenta e cuidadosa do que nos cerca é o meio à nossa disposição para que deixemos de ser insanos. no modo de indada gação que condenava. a poesia os dota de maior raridade e variações Advancement mais inesperadas e alternantes" (ib.: 1965. considerada enfermidade da mente porque se contenta com as "imagens das coisas". 139) - afins aos órgãos do reflexo..40). 1605. publicava o seu Novum organum. uma estranha combinação de erudito e membro da corte.... segundo ele. proposta pelo Novum Organum. a razão é a diferença que . que. C.. E. o consenso dos sãos se diferencia do oposto consenso apenas porque o primeiro se respalda na razão. ] não é uma defesa da poesia contra a prosa. H. sendo as palavras "imagens das coisas" (Bacon. não cogitava do do "Deve-se uma nova prática.. pode-se declarar que as antecipações da mente são coniventes com o uso da imaginação.: 1965. mas da ficção contra o fato" (apud Berger Jr. Para Bacon. das formas da mente sobre as formas do mundo presente" (Berger Jr. entre a aborMuito dagem tradicional. começaria pelo equívoco no uso dos termos "antigos" e "modernos".

permanece-se. produzidas trais" (aforismo XLIV). Nova apenas é a justificativa: celebra-se o pacto porque o Falso é mais atraente do que a Verdade. significava essa licença. J. 190 191 . se o Bacon. em uma prática que se adensara com o cristianismo. afinal. que permaneceria assinalada - impor suas ideias a ninguém. muito ignorante das que se praticam neste século. e a verdade. sem que incorram "em responsabilidade nem fraude': desde que se estabelecesse uma data disfarçar e encobrir" os acontecimentos. com que declara não pretender apresentados com toda a liberdade. O Discourstem um evidente caráter de autobiografia intelectual: Tive sempre um desejo extremo de aprender a distinguir o verdadeiro do falso. [. L. Bacon a expressão do falso. dedue representadas. que se deixava untar. e mesmo as histórias mais fidedignas.. quando se é muito curioso das coisas que se praticavam nos séculos passados. e os que regulam seus costumes pelos exemplos que dali tiram sujeitam-se a cair nas extravagâncias dos paladinos de nossos romances. passassem a ser coibidos. Chegam afinal a um acordo. que tem por tema o encontro da Verdade com os adeptos do Falso. 10) Sempre em uma linguagem impecável. tomei um dia a resolução de também estudar em mim mesmo e em empregar todas as forças de meu espírito em escolher os caminhos que devia seguir. Não será preciso nos estendermos sobre a barganha. Homero. salvo o seu fundo. recorrer mais extensamente ao "Veritas fucata" ("A verdade besuntada") de Vives (1492-1540). A Verdade reage. que quintessenciava tro e deles não se distinguem tantas fábulas. 891).). a questão básica é a mesma: do pensar legitimado? .. se emprega muito tempo em viajar. de ordinário. (lb. bastem uns poucos toques. preferiria mostrar-se "sua casta desnudez valeria muito mais no apreço dos homens" (id. se não mudam nem aumentam o valor das coisas. número dos casos concretos que se trata de enumerar limitado" (Cassirer.889). tal como ele o concebia. conflitará com o exer- I. (Descartes. às suas histórias e fábulas. por isso. porém. para torná-Ias mais dignas de serem lidas. for infinito. sem que. o autor não torna menos expressiva sua formulação: Mas creio já haver concedido muito tempo às línguas e também à leitura dos livros antigos. Pois é quase o mesmo conversar com os de outros séculos que viajar. torna-se. a verdade. Entre estes. porque o Falso atrai multidões.: 1906. se for científico. entretanto. [. Impossível. Pouco importará o justo desprezo que Ernst Cassirer reservará à true induction: "Assim concebida. senão uma concessão dos teólogos? Vale. Venhamos ao que nos trouxe a Vives: naquele começo do século atinge ambos os pactários: o poeta. estranho em seu país.E. por certo. Mas como alguma relação poderia se estabelecer entre ela e o Falso se o Falso sempre fora infecundo? Questionado.). A Verdade admite que os poetas escrevam suas criações.mento da indagação que o experimentalismo experimental. Essa tem interesse em alcançar alguma forma de pacto. pois o enfeite do Falso': pois "o adorno e o retoque enganoso" eram as suas propriedades (Vives. O que se confirma pelo êxito ainda maior do Discours de Ia méthode (1657). VI. fiel à Verbem remota em que estaria "permitido a ser editada e traduzida indica que responde a uma necessidade que permanece. como nos dispomos a conhecer ante a insuficiência tratar com a mesma Não obstante sua maior seriedade. estimulada pela propagação das ideias de É certo a indução seria uma das duas coisas: ou impossível ou inútil.: 1637.. e em conceber propósitos que ultrapassam suas forças. porque. Do texto de Descartes. Os poetas. ignora os segredos da natureza. sabedor da esterilidade de seu mestre. enquanto se integram aos ídolos do tea"as filosofias adotadas ou inventadas são outras que figuram mundos fictícios e teacom o silogismo. quatrocentos anos antes da destruição de Troia e trinta antes Silius Italicus e Lucano "misturaram episódios inventada fundação de Roma - dos com fatos históricos" (id. e. XVII.. inútil. já não se poderia superficialidade. do que resulta que o resto não parece como é. para que visse claro em minhas ações e caminhasse com segurança nesta vida. Sendo o pequeno tratado bastante conhecido. Homero é escolhido para seguir em missão ao encontro da Verdade. pelo menos delas omitem quase sempre as circunstâncias mais baixas e menos ilustres.. fosse a responsável pela repressão da linguagem poético-ficcional. A concessão ainda admitia certa tolerância: mesmo depois da data ou seja. O próprio fato de a obra de Bacon continuar cício da licença poética. ] Quando. É uma das inúmeras váriações do topos da beleza como véu. contentando-se ções e conclusões especulativas. Além do que as fábulas fazem imaginar como possíveis vários acontecimentos. que não o são de modo algum. 6-7) dade (id. depois que empreguei alguns anos em assim estudar no livro do mundo e em procurar adquirir alguma experiência. "respondeu que isso unicamente poderia suceder se [a Verdade] admitisse o atavio e despida.·R..: 1522. por isso. O que. ] Mas. 371). o Falso. A obra em pauta consta de uma fábula dialogada.

Mas nos dita que todas nossas ideias ou noções devem ter algum fundamento de verdade. incapaz de sustentar uma proposição transcendental. possuidor de órgãos de sentidos tão supunha que só poderia haver sido concebido por um de clareza e distinção como reveladoras da verdade. satisfaria a poucos.) Ainda estava longe de nascer o Kant que lhe contestasse Colombo 192 que o ovo de sendo. (Id. esta carta com os teólodeixemos enganar pela proximidade oporia terminantemente para si. pois não seria possível que Deus. em troca. enquanto queria pensar que tudo era que eu.. ] seguindo as opiniões mais moderadas e mais afastadas do excesso" (ib. 193 . até alcançar a exaustão do que examina (d. era tão firme e tão segura que mais rada a um ser falível. a condução é feita pela matemática. a alma pela qual sou o que sou. algumas razões certas e evidentes" participava das atividades que Descartes considerava nada menos que ociosas... como o primeiro princípio da filosofia que procurava. (lb. provocando d'avec lefaux. À maneira de outro cauteloso inovador. [. porquanto o romance geetheano afirmá-Io. ser partilhado de um saber certo por uma entidade pois. como evidências do nada. ainda que não o fosse. da irredutibilidade do corpo: "de modo que este eu. julguei que podia recebê-Ia sem escrúpulo. Montaigne. sendo ela caracterizada possibilidade de certeza de conhecimento. o homem. que o pensava. cuja utilidade intacta.) Consequência verdade deita raÍzes na alma. brotava o inesperado com toda a construção: de: é-lhe impossível criar uma perfeição idêntica à sua. portanto. 18). que ele é um ser perfeito e tudo que é em nós dele advém" (ib. [. em que consistiria o tesouro acumulado uma massa que. restava assegurar o estatuto de verdade: [. 22-3). que beira a ironia sem a apresentar os princípios que declara haver estabelecido evidente. ] A razão não nos dita que o que vemos ou imaginamos assim seja verdadeiro.) Estabelecida a certeza do cogito. o passo lhe servia para só poderão ser tais se tiverem por causa "que Deus é ou existe. Descartes privilegiava em comum le grand livre du monde. acorde? As linhas da potência do eu podia.. logo existo. pri- meiro atacando as mais simples. todo o cuidado era pouco. Evidencia-se aqui sua primeira diferença com Bacon: em vez do empilhamento indutivo. "Assim. porque nossos sentidos às vezes nos enganam.. Por convicção ou manobra. falso. notando que esta verdade: penso. quis supor não haver coisa alguma que seja tal como eles fazem com que imaginemos': rejeitando "como falsas todas as razões que antes tinha tomado como demonstrações" da ressalva 32) (ib. O mérito (ib. 40) as extravagantes suposições dos céticos não eram capazes de abalá-Ia. declara que seu empenho é com a condução de sua própria vida. cartesiano estava demasiado preso a uma galinha empírica. nada ensinava? Incomparavelmente permanecia desde os antigos senão em superior ao correspondente portanto. afirma-se pronto a "obedecer às leis e aos costumes de [s]eu país. Mas não nos das expressões: a filosofia que propunha se ao que Geethe faria.. considerei que. 34).. é porque somos ro. A conclusão. Mas ciente de que. Praticante de uma linguagem densa.Afinal. 31. é inteiramente deixaria de ser tudo que é" (id. Descartes se valia de uma Bildungsphilosophie uma filosofia centrada na formação e educação do eu. vindo então às "mais compostas". Tem ainda a astúcia de fundamentar a singularidade de seu juízo a partir de juízo cujo começo era aceito por todos. propõe-se distinto que é mais fácil conhecê-Ia do que o corpo e que. E que dizer "logo depois. além de finito.... 18.. ib. fosse alguma coisa" (ib. Deus é então indiretamente dos gnósticos: se há o mal. sempre assediado pela irradiação do nada. ib.. estabelece-se a conjunção oposta: ela articula o falso (Iafausseté) com o confuso e o obsculibertado da acusação pelo nada e sua corte. de dentro da cautela. representado imperfeitos.. fosse porque era oportuno de crédito concedida ao eu era uma reafirmação pela descoberta gos: o reconhecimento imperfeita como o eu incertos e enganadores ser mais perfeito reforçar as propriedades da capacidade da sapiência divina..). distinta do corpo. pois "só as matemáticas ram encontrar algumas demonstrações. e mesmo inglês. embora a Igreja Católica não tivesse na França o poder que sacrificara a carreira de Galileu na Itália. 38). tanto mais estimável porque assegu- E. elas (d.2).já derivado da divisão do objeto a analisar por partes. Fosse porque assim cresse.9). ela não Dois séculos antes do Bildungsroman. as tenha posto em nós sem isso. ] pudeou seja. claro e de não aceitar senão o conhecimento a adotar. (Mas tampouco do eu: a un extreme désir d'apprendre à distinguer le vrai o leitor tem a obrigação de sabê-Io. com independência ou seja. era preciso necessariamente seguintes o harmonizam (Talvez pudesse haver dito: mesmo Deus conhece a impossibilidacomo resultante da senão que. Pela mesma razão. ib. que é todo perfeição e verdadeiro. 19).. Daí o princípio (d.

em morais? Pode-se pensar ambos os casos. do riso. não o geometrismo a pesquisa histono caso. comecemos cartesiano. a verdade como a primordialidade ao mesmo perda imaginação ante os percepta -. prática substituída pela atenção ao factual. era transtornado Bayle lamenta não se poder persuadir o público da qualidade da obra romanesca de uma certa Mme. Mas que sucedia com aspráticas que uma ética amoldada ao experimentalismo 194 científico fosse deixada por conta 195 . talvez deleitáveis. Não me atrevo a desenvolver um aspecto que desconheço. (b) embora tais trilhas se apresentassem. provocandiscursivas -. dentre seus gêneros. substância a ser conhecida. em relação ao cartesianismo. entre "romance': como figuração do maravilhoso. senão que se acrescenta a seu conteúdo. intelectual o levou a emigrar da França. Ao mesmo tempo. Em casos como era de ordem quase exclusivao de Defoe. ora. fosse pelo ideal matemático seguido pelo cogito. era estimulada pelo favorecimento da ciência porque. mente moral. Mas. mas certamente a episteme moderna científico e pelo simultâneo inúteis. era assegurada a afirmação do divino. não dizemos moral-religiosa. isto é. Ao reafirmar o caráter tradicionalmente atribuído à verdade. sobretudo sobre o romance. justifi- cando a verdade científica como fundada na perfeição do Criador. E. procuraram Suponho que a ser os pensadores de Port-Royal. No historique et critique. era a ênfase na indução. permanecem as normas do antigo controle. de seu famoso Dictionaire tempo que. a inferioridade do que da utilização comercial que dele se fazia. considerado XVII. sando a viver na Holanda. Para mostrá-Io. É certo que a mudança de eixo do controle afeta a importância que antes tinham os gêneros e as técnicas predeterminados como modelos pela retórica. Descartes justificava sua empresa: sua Bildungsphilosophietinha por novidade enlaçar o estatuto substan- de discípulos especializados. que favorecia a escrita da elas não cobriam a inteireza do à sua "inutilidade" estimulada interessar a um pelas diversas e a alfabetização campo ético. Paramos antes do fim do Discours porque o exposto já é suficiente. metade romance. e não se confunde com uma quimera. de modo como ainda não se fizera.A verdade não se vê. está inscrita na ordem das coisas. e "novel': comprometido com as molduras (frames) do cotidiano -. do uma diferenciação de modalidades contra os narradores cialista da verdade com aforça d~ descobri-Ia. metade história". ainda: como o método ao prestígio do teológico. frequente tanto na Inglaterra como na França. fosse pela mera indução baconiana. É certo que. pensamento ocidental- menor. pasé menos da persistência a falibilidade dos órgãos dos sentidos. verbete "Roman et histoire". A última possibilidade. a pressão sobre o modo composicional to pelos resultados da ciência. Seu testemunho refinado e contentar-se ciências experimentais. correto o primado do cientí- fico ora se aliava aos protestos de um público que exigia um relato factualmente a exemplo do que vimos a propósito dos relatos de viagem. que é atribuída ao sujeito. a partir do século o interesse intelectual reafirmava-se uma parte considerável do conhecimento. ainda. o enlace justificava. Mas. o desprezo pela imaginação e seus frutos. Ela é. Consideremos homem religioso. E acrescenta: o método de indagação. Assim os se caracterizam desprezo do que proposto se dois grandes marcos que fundamentaram pelo realce do experimentalismo se origina da imaginação. Essa tendência.) À se concentrava nas da tradição do medida que. portanto. pois que ele acrescentava público que a difusão da imprensa orientações do protestantismo rar que o leitor compreenda le. consistia em fazer com que os enredos romanescos tivessem a aparência de se confundir com a história. a situações de compromisso. perceba como se comportam que ele antes inexistia! - por recordar: o primeiro tinha fundamentalmente (No caso do romance. rio gráfica era a única que podia então aproximar-se da filosofia nova história. o "quase" sendo a decorrência de um horizonte saturado de respeiumas poucas comprovações. alegava-se também não ser verbalmente em explorar o costume. seguramente aí não inaugurada. Daí nossa hipótese: o controle científico não substitui o antigo. d'Aulnoy (1650-1705) porque o leitor "deixou-se prevenir pelo pensamento de que suas obras não passam de uma mescla de ficções e verdades. cuja honestidade naquele final do século XVII tornava perigosamente sem maiores amplo. entre as humanidades. antepunha Acrescente-se inglesa. Pierre Bayle (1647-1706) é um do controle A primeira concerne a um não-romancista. Não será exigir demais do leitor que ele entenda por que dois pensadores tão desiguais tenham o efeito comum de oferecer uma nova razão para que o controle continue a pesar sobre o poético. seria arbitrário supor que. de imediato. como. a objetividade da cadeia causal. Descartes previa e aparava o golpe. ora pairava como ameaça tipicamente de aventuras fantásticas daí a distinção. situação assim se apresentava: (a) avançando rapidamente. da ordem da substância. se é de espeas duas formas de controcontrole moderno uma base esforços o enlace. o reconhecimento da instância religiosa. não se sente nem se imagina. em situações de cunho moral.

na França. publicados em 1698. apenas consideradas de modo que não fossem de antemão descartadas como não porém. desses e daqueles senhores famosos na história. a tática tinha tanto mais eram conhecidas as medidas contra a fictio. em troca. pois. não era uma exclusividade das autoridades e dos letrados conformistas. Daí decorre que os novos romances se afastam o quanto podem do ar romanesco. em nenhum autênticas: e isso pelo temor de enfraquecer sua influência. em geral. Não demonstrando nenhuma inquietação quanto ao que depois seria a reflexão sobre a experiência estética. P. que usem colchetes para separar uma da outra. (Bayle. A própria contra os que diziam haver ele absorvido a influência francesa. mas por aí se espalham mil trevas sobre as histórias verdadeiras e creio que. reafirmava o controle embora nenhuma delas pretendesse ser modelar. É evidente que incomoda comercial maior êxito quanto narração IV. mencionar que desejaria que um ar de autenticidade de seduzir o leitor pela mescla de fato e ficção. a história secreta etc. explicitamente concretizado pelo romance. em que um ambiente principesco idealizado é agitado por aventuras romanescas . que ela. "all that know me. grifo meu) Embora Richardson não inaugurasse o romance por cartas. Os livreiros e os autores fazem tudo que podem para tornar crível que essas histórias secretas foram extraídas de manuscitos inéditos: bem sabem que as intrigas amorosas e outras tantas aventuras agradam mais quando se crê que elas são reais do que quando se está persuadido serem apenas invenções.: 1748. 196 guidade que não teria sentido não fosse that kind of Historical Faith com que os romances. capo XXXIV. assim como para não ferir aquela espécie de fé histórica com que a ficção égeralmente lida. 5.resumo contra o qual Bay1epor certo protestaria.: 1704. 185). para que mantenham pensamento ocidental relacionado às artes encontrava em sair da alternativa horaciana do "ou deleitar ou ensinar". Isso só pode significar que o romancista tinha de 197 . baseada em fatos sucedidos.P. declarava na mesma carta. conquanto saibamos que é ficção. A durabilidade os males que via nos das prenoções que assegurarão que o controle se mantenha XVIII na primeira metade do nos força a um comentário quase lite- é demonstrada nada menos do que por um roman- cista. quero dizer. senão que. envolvia um racionalista que defendia a inocência dos acusados de possessão como agentes do demônio. Em consequência. momento.Este é um inconveniente que cada dia aumenta pela liberdade que se tem de publicar os amores secretos. Sua passagem então importa para constatar o quanto o controle do ficcional. O ponto capital já estava no trecho citado: as cartas atribuídas às personagens caráter ambíguo. romance do fingido e falso. a verdade e a falsidade. protestava do romance. ambisaltar: como o romancista encara seus recursos de composição. Laffont-Bompiani (1994): condessa. indica que diferencia o na separação entre o relato do verdadeiro e a mantido. Diderot teorizou sobre seu modelo e Rousseau o expandiu. em seu caso. Em carta dirigida ao prefaciador Clarissa (1748). porquanto. os poderes serão pressionados a ordenar que esses novos romancistas tenham de optar. 368) absurdo recriminá-Io por isso. know that I am acquainted in the least either with the French Language or writers". É como homem de seu tempo que Bayle concentra na imaginação relatos não verdadeiros. causará nas décadas finais do dictionaire Seria * Dela apenas sabemos o que contém Le Nouveau des oeuvres. declarava Bayle. Samuel Richardson e editor de seu romance epistolográfico escrevia: fosse ao autor do Dictionaire historique a manobra Conceda-me. pois. generalizado Indiretamente. que façam ou puras histórias ou puros romances. Se a alegação que se lhe fazia era falsa. parece não só empenhado ficcional. A sua concepção de verdade permanece una e assim só não sucederia se estivesse séculos adiante de seu tempo. ou. Não termos acesso à obra referida' ral. sobre seu impacto. pelo menos. afinal. senhor. eram lidos. desde a repercussão Antes de nos indagarmos alcançada pelo Pamela (1740). parecendo genuine. Bayle. dando-se por dispensáveis os ornatos retóricos dos humanistas.: 1697. senão vítimas de sua própria imaginação: "Estou persuadido que somente a desordem da imaginação pode produzir supostos possuídos e não é necessário que a fraude ou o suborno sempre entrem no jogo" (Bayle. experiência estética. (Richardson. participara da voga dos contos de fada (Les Illustres fées eLes Fées à Ia mode. embora não tivesse o propósito de que as cartas fossem pensadas autênticas. estratégia era estimulada a acusação aos livreiros e autores pelos séculos que o pela extrema dificuldade não resultava apenas de uma prática comercial que se manteria seguintes. Bayle não só se mostrava pertencente transtorno a seu tempo como a ausência de qualquer sinal do XVIII. Uma narrativa há de ser verdadeira.85. isto é. Não seriam eles. há algo mais elementar a reshão de manter um seu interesse.

estava correto. a recorrência como ato de sobrevivência. and therefore never lieth". "[ . H. pelo menos.. Os .desviar-se da suspeita que o perseguia. O que não impedia o autor da nota de acrescentar: "Era também se expor aos ataques dos defensores da moral e da religião. no tea- prefácios que intercala em Tom fones: [. seja * Citamoscom modificações a tradução de Octávio Mendes Cajado. Da mesma maneira do que vimos a propósito rar a opinião pública equivaleria tante para a conquista Fielding procurava. Mas. receberá o título de The Histary af . a admissão de que o romance precisa se ver sob o espelho do historiador. à falência do escritor. como Pamela. ] Daí devemos inferir o desprezo universal que o mundo. um editor permanente. 1346)!* Se se explica o êxito de com seus prefácios.. estacomproa "verdadeira indução" de Bacon.. sem antes ao romance. reserva aos historiadores que não tiram seus materiais dos arquivos. Não é acidental que dedicado aos críticos: tendo fracassado como advoisto é. orientar seu leitor. seria para o leitor comum. condenado adaptar-se sem misericórdia" (Livro nos bancos do teatro.339). fosse por um instante. com a capacidade manual de usá-Ios. 199 198 . cujo êxito dependia da aceitação por um público anônimo. Em vez de. que sempre designa o todo a partir da maioria. considerando do leitor mergulhá-Io du roman(Guyon. que era o autor dessa correspondência.. da Apology for Poetry (1595). era preciso que o leitor acreditasse ou para si mesmo fizesse de conta acreditar em seu caráter histórico. Antes de cogitar em ser útil. Livro IX. penas e tinta. com que se seria injusto não se notar em que diferem. portanto. Se bem que todos nossos personagens se fundem em boa fonte. Se a mútua antipatia não impedia que reagissem do mesmo modo à problemática defrontavam. ] Para a composição de romances e relatos fantasiosos (novels and romances) são apenas necessários papel.. "puseram-se XI. Para o ficcionista. fugindo. algo incompreensível. ].290)* Seu livro. seja porque há diferenças a considerar. Confessar. o autor era obrigado a planejar sua obra de acordo com o horizonte de expectativas do provável receptor. comum: a reverência à história. Parta-se do que têm em Em Fielding. Fielding se propõe cumprir o papel que os críticos eram incapazes de exercer. rival registrava a pressão e reinventava o romance por cartas. ou seja. Foi o temor desse desprezo que nos levou a cautelosamente evitar o termo "romance". he nothing affirms. os especialistas em liteas expectativas B: 1964. capo1.. Que outro significado essa forçosa crença poderia ter senão atestar a atualidade Sem o reconhecimento ratura continuarão l'esthétique Richardson sofrimentos do controle. simplesmente. dando a entender que participaria da vações que não vão além da superfície.. noutras circunstâncias. gados. onde têm exercido sua capacidade às expectativas do público. prefácios então se tornam o meio de mostrar que não se contenta em ser incorporado à tribo dos historiadores. era cometer uma falta grave contra uma das primeiras leis da estética do romance". pelo desprezo que se devota aos historiadores não respaldados por documentos tirados de arquinão considebasvos. ] The poet. consideramos o texto editado por Fredson Bowers (1994).. do leitor com o que intitulam estendida aos a confundir de Richardson. sua conexão com a premissa da verdade que se afirma inscrita em fatos e coisas? desses mínimos elementos. por sua contribuição lI.: 1749. O público espera por algo que mantém a aparência de realidade. acumulando prestar-se atenção ao entrave institucional mos endossando judicial e proferido seu julgamento. aquele que normalmente comprava romances. ao passo que seu em uma atmosfera sentimental.. teríamos estado bem contentes.. Mais do que estratégia comercial. Os comentadores de Richardson e Field- crença de que o romance é uma espécie de história. portanto. capo 1. [. uma designação com que. para uma "nova subjetividade". que se antepunha um deles seja ironicamente de uma moça de condição social humilde. primeiro gênero a ser editado sem que tivesse uma audiência previamente ou os círculos nobres. garantisse sua subsistência ou. Para o cotejo com o original. não há reconhecimento . a passagem capital está em um dos vários o relato em prosa ou é verdadeiro ou não Porque o romance era o garan- passa de falsidade grosseira. isto é. Mantendo a ficção do 'editor'. ou os frequentadores tro clássico francês -. para que seu enredo fizesse sentido e pudesse interessar. desde logo evitava ser acusado de haver escrito um romance". habituais do parterre. Passagem integral: "Aolongo de seu romance [La Nouvelle Héloi"se] Rousseau jogou com esta distância entre ele e seus personagens. o escritor tinha de pensar em fazer com que sua obra lhe fosse vantajosa. interessar-se Ora.(Fielding. que é o vasto e autêntico registro da natureza [. moda alternativa reiterada por Bayle ambiguidade tida se impunha da incôà ing nos advertem que os autores não se viam com bons olhos. Isto é. A famosa frase de Philip Sidney. se o cálculo de Richardson da ficção como ficção. nossos trabalhos fazem bastante jus ao nome de histária.

anexando-as de legi- to de justificar o que ele próprio faz. enquanto o mais tosco defensor da imitatio não apreciará o escritor que não saiba bem selecionar o que apresenta. algo é fato e o fato é sempre verossímil: "[ . 1. que. à qual chega mesmo a ensinar por Mas e romancistas não se confunde meses e que os historiadores não devem eliminar de seus relatos o surpreendente. dam. (Livro VIII. 1. da factualidade mais estrita supostamente praticada desde que que mantém a guardar Para falar a verdade. por- que. Seu mais instigante desígnio é apresentar -se como ofundador de uma nova província da escrita (Livro II. E as explícita. passa a servir a outro senhor. Ao assim postular. sias. Como então descobrir de que ao historiador da via? Partindo da consideração não basta que se apoie sem atestados. 85). o absolutamente tas dão-se improvável. (Livro VIII. Isso se torna ainda mais evidente quando à província do historiador. mas nunca no "íncredulus odí" (incrédulo odeio) mencionado por Horácio. a imitatio justifica que o novelist se à digna família dos historiadores. embora todo bom autor se atenha aos limites da probabilidade. Não poderá recuar diante de alguma circunstância que pareceria incrível ao leitor. passa a se justificar por um lastro material. ] Assim as coisas sucederam e assim devo relatá-Ias. manche o seu character. Historiadores as mãos..239) Ao contrário. o escrutínio lemos a seguir: Pois.. É ela uma das pilastras fundamentais que sustentam as reservas quanto ao romance. são igualmente entenda-se improvávelficcional. Por conpor Fielding tem o propósi- da atividade do historiador anos em que nada de notável ocorreu" (Livro lI. A meta de Fielding era por certo ousada: não cogitava simplesmente timar suas obras. o que só será inevitável se assinar fantaconsiste em extremar o provável sem recair em seu oposto. é ao cair na ficção que. cairá algumas vezes no maravilhoso. Assim a imita tio. pois. Desse modo não abdicará do maravilhoso. A "porte étroite" do romancista legitimáveis ao recusarem 8. isto é.porque pretende explorá-Ias. mesmo no momento que ele fecunda e irradia. Embora. ofendemos a regra de abandonar a probabilidade. exercia sobre o romancista. o maravilhoso é admissível pelo historiador-romancista. melhor dito. na aparência. submisso a um tratamento científico: a factualidade. por isso. revinote-se que _ por Defoe. que possivelmente foram do conhecimento de grande parte de seus leitores. na verdade abre-se uma brecha: o que antes exigia uma interpretação alegórica. legitima por gorado pelo realce do fato "científico". A verossimilhança. não é absolutamente necessário que seus personagens ou seus incidentes sejam triviais. Como deverá o historiador portar diante de algo extraordinário? do leitor. se o historiador se limitar ao que realmente sucedeu e rejeitar por completo qualquer circunstância. çar sua relação com os documentos.40). a que o historiador raramente ou nunca renuncia. Suscitará o pasmo e a surpresa de seu leitor. Nada impede que aqueles encham papel "com os pormenores não está excluído do texto legitimável. embora muito bem atestada. este não pode se tomar como ficcionista. 1. ao Aristóteles empo- brecido pela leitura normativa da Poética. o que equivaperante seu público. Ao chamar então seu Tom fones de heroic. leria a se auto condenar em documentos a primazia da história. 1. incorpore não posso ajudá-Io" (Livro XII. 393). Por ela. Por conseguinte. mas esmiu- sua conjunção com ofato o que não pareceria justificável. Nem deve ele se inibir de mostrar muitas pessoas e coisas. O maravilhoso o absolutamente seguinte. que caracteriza como um poema heroico. Se algo sucedeu. se mantenha nos limites do provável (verossímil). se o leitor chocar-se em parecerem não naturais. e romancisa matéria mas não é a própria imitatio que faz com que historiadores o fantástico e surpreendente. pela categoria do verossímil. quanto Fielding evidencia que o antagonismo que guarda - à ficção resulta da fidelidade ou é obrigado quanto à concepção clássica da imitatio. A priori. 1. seria imperdoável que o historiador o omitisse ou alterasse: se com- Embora este exija não pequena confiança que podem ser encontrados nos artigos domésticos de um jornal. mas nunca no inacreditável. pareça haver uma continuidade no controle antificcionalizante. que aglutinava agora os instrumentos orientação que haviam sustentado o controle de religiosa.237) Para que se tenha em conta toda a pressão que o primeiro a preocupação de Fielding não é contestar controle.39). geralmente. de maneira a descobrir uma trilha viável a procura- para o escritor. como os que sucedem em todas as ruas ou em cada casa ou 200 tanto. e. provavelmente não estava cons201 . A presença do controle científico limitava-se à exaltação do fato. tenha a certeza de ser falsa. comuns ou vulgares. até que deserta de sua marca e se converte em escritor de fantasias (wríter ofromance). histórico eprosaico (Livro IV.

Ademais porque não se momentâneo: na mesma (1757) e o "Discours sur Ia Rameau (1774) e facques lefatalisteetson direção.: 1761. The History ofTom fones ultrapassa mos. mas o entu- A frase carregada de emoções primárias. que elevam o espírito. é e será sempre o mesmo. é de se presumir que também o tenha feito em inglês a leitura em uma língua que não dominava com perfeição ajudaria a diminuir seu senso crítico.J. ] ou seja. podemos supor que Rousseau não usufruiu do mesmo privilégio de Richardson porque. conheceria o pela pobre Pamela e os fidalgos que procuram abusar de sua desproteção. que serviço Richardson não prestou à espécie humana? (lb.: 1761. que lhe con- expressão ideal: "É o estudo das paixões. que foi.461). A menos que cogitemos numa rivalida- de de que Diderot não estivesse consciente. seguem os "Entretiens poésie dramatique" pode supor que o artigo resultasse de um entusiasmo sur Le Fils naturef' (1758). que ensinará ao pintor do homem a alterar seu modelo e a reduzi-Io do estado de homem ao estado de homem bom ou mau. estimuladas pela comiseração não o meu espanto. Gostaria que se encontrasse um outro nome para as obras de Richardson. Embora um admirador à flor da pele que o motivava a inflamar-se ante a construção inglês. que havendo enviado ao então amigo as duas primeiras partes de seu romance mente influenciado (Rousseau. é o modelo conforme o qual tu [Richardson] copias" (Diderot.. mas que reduza seu iill. que transige com eles. O Tom fones parecem se explicar senão pelo assalto do sentimental que entorpece o espírito crítico do autor. escrevendo em francês. contra a qual Diderot havia se levantado. de Richardson das interpolações que substituem o põem noutro plano.. muito menos La Nouvelle Héloise como seu par. Ele já se manifesta em sua abertura: Por romance. A imitatio. Sem cogitar do acerto da desigos motivos pelos quais aqui o referide contronação. e sim Les Liaisons dangereuses. Não deixo de ainda assim é difícil entre suas obras.. da mesma pena que escreveu Le Neveu de maitre (1796). dos usos. subordinando-a à imitatio. aproximando a new province of writing da escrita da história. Sem que nos acusemos de injustos.aginário à condição de idêntica superficialidade. O sentimentalismo não só exige do receptor do romancista uma absoluta empatia. cuja leitura era perigosa para o gosto e para os costumes. independentemente de toda con- é também provável que oferecia uma das fontes para a designação hegeliana do moderna". de me surpreender imaginar em encontrá-Io Diderot não deixe de se surpreender que o "Éloge" provenha no "Éloge de Richardson" por suas contradições. D. 1059) O elogio é pelo menos estranho que o teria tanto entusiasmado? para quem. que respiram por todas as partes o amor do bem e que também se chamam de romances. por Richardson e lendo juntos declaradainteiro. D. Mas Se importa aos homens ser persuadidos de que. Mas todos sabem de seu elogio rasgado à obra de Richardson. se também cita Pamela. A leitura do "Discours sur Ia poésie dramatique" dá razão à hipótese: Diderot sentiria que a sociedade francesa atravessava um período de crise . que tocam a alma. 84) de que decorria a urgência de constituir-se uma não tem Pamela ou Clarissa."se o sistema moral está corrompido.. da complexidade a linearidade sentimental dos personagens. da ironia. não temos nada de melhor a fazer para sermos felizes do que ser virtuosos. Narra Rousseau. parecia a Diderot a formulação devida para que a sua sociedade encontrasse o caminho de que carecia. Mas não é menos certo que seu uso do wit. Talvez sua reação fosse fortaleci da por haver relido o Clarissa no original e. siasmo de Diderot. O A tomada de assalto do leitor? A fina ironia do Neveu é posta de lado pela adesão súbita e completa de Diderot: Diderot o considerou "feuillu [. um caderno romance francês já existente e não estaria de acordo com seu desprezo oficial.1062) O louvor da virtude e a comiseração por ser ela esmagada pelo vício não comprova a presença dos mecanismos le. reafirma seus direitos e estabelece seu território no circuito dos afetos mais imediatos: "O coração humano. Daí a sensibilidade sentimental Não sei se Diderot conhecia a obra de Fielding. em Les Confessions. (1761). carregado de palavras e redundante" J. tranquilo ou colérico" (ib. Procuro entender 0..ciente da distância que estabelecia quanto ao propósito romance como "epopeia burguesa que fora de Tasso. dos costumes. Livro 9. é inevitável que o gosto seja falso" (Diderot. 89). dos caracteres. entendeu-se até agora uma teia de acontecimentos quiméricos e frívolos. 203 202 . 1068).: 1782-89. Talvez assim se explique sua diferença de reação diante de Nouvelle Hélolse. no mínimo. estam os conscientes de que o lugar de Tom fones é mais alto do que o tratamento cedemos.: 1758. (Diderot. É verdade que também sideração ulterior a esta vida.

para converter o ataque em defesa de seu romance. Le Fils naturel ou les épreuves de Ia vertu (1757) eLe Pere defamille (1758).: 1964. J. como mantinha velada para o grosso dos leitores a diferenciação do discurso ficcional. em vez de resde o obje205 La Nouvelle Héloi'se tinha por subtítulo d'une petite ville au pied des Alpes e. no ano seguinte. reproduzindo enredo melodramático -se o falso a ficção fatos ocorridos.J. ponder à indagação. o estaMas a peça acusatória logo lhe pareceria tra o ficcional. o êxito de Richardson serviu de anteparo para que a questão mesma do controle permanecesse do sido explicitamente confundida com a história sociopolítica. A pergunta e seu desenvolvimento "desde logo evitava ser acusado (Guyon. ela será objeto. o protagonista da primeira peça. gens du monde. Guyon. continha o o longo prefácio dialogado. O diálogo continua. o público mostrou não se entusiasmar com seu sentimentalismo. por outro. Isso já é claro no parágrafo que se segue: este não passa de uma ficque encena homens mava ser lido. humana" alegando aquela "espécie de fé histórica" com que o gênero costucom que o encarava. declara seu interesse em saber qual a importância por todo o Oci- . a que se segue a interrogação ficção? Homens do mundo. o contraria investe contra os costumes. da obra imensa de Diderot. A razão do double bind era a mesma que a de Richardson: Rousseau protege-se do controle e. o francês julgaram vilegiadas.: 1761. eu mesmo trabalhei livro e não o escondo. A esgrima precisava ser mais ferina. a julgar pelos "Entretiens sur Le Fils naturer: ensaio a propósito da primeira peça de teatro de Diderot. em suma. que lhes importa? Para vocês. habitants impressão. Isso se torna ainda mais eficaz com o sucesso do correspondente francês do romance à Ia Richard- do em que a sociedade se acha. Cf.). por um lado. com a virulência possibilitada por um enredo passional. e lhe disse que uma obra dramática que tivesse essas provações por tema impressionaria sibilidade' virtude e alguma ideia da fraqueza a todos os que têm sen(Diderot. B. O sentimentalismo. a peça só foi encenada uma vez. servirá para que se adie o entendimento da suspeita contra a imaginação e a ficcionalidade. O vocativo. neutralizá-Ia. nunca haventematizada como um problema ligado à hostilidade con- era o chamariz para um público amplo e certo. Não é arbitrário que. Dorval. prefácio fora redigido depois do segundo. tumes de meu tempo e publiquei estas cartas" (Rousseau.A ideia de que se vivia uma crise de valores morais remete com certeza à crise da aristocracia. exercendo a função notória de proteção do autor.: 1761. O Vi os cosa seus dois prefácios. isto é. 1346). dela repercutirá 2°4 11). B. Rousseau adota o modelo richardsoniano. isto é. acentuemos desviar-se do controle.: 1964. fracassou o drama burguês de Diderot e. que. fingindo acatá-Io. D. Ao escutá-Ia. Com isso. No "Entretiens". o primeiro son: o ]ulie ou La Nouvelle Héloi'se (1761). seja esta das menos comentadas. embora não iniciada na França. Convertenuma forma extrema de declarar a verdade. Se Richardson se contentava manem se modifica: radicaliza-se como for. e por suas duas peças. Richardson e seu admirador podiam legitimar o romance pela ênfase em uma plataforma situação de crise da aristocracia e dando voz à subjetividade que.1341 e 1345. esquivando-se de haver escrito um romance" Rousseau. desde sua primeira pequeno prefácio a que depois seria acrescentado gunta direta: "Esta correspondência da autoria. o sentimentalismo de Richardson havia deitado raízes fortes. na tentativa de que moral adaptada à das classes não pri- sua irritada indignação. primeiro começa com uma frase de torneio pomposo: "É preciso que haja espetáculos nas grandes cidades e romances para os povos corrompidos. O suposto editor faz a Rousseau a peré real ou uma ficção?" (Rousseau.: 1757. demasiado frágil.. conta-lhe sua história. como declarar que apenas para os corrompidos da sociedade era surement une fiction? Mas a frase seguinte explicita o desejado duplo sentido: "j'ai travaillé moi-même à ce livre" deixa em dúvida se o inventara ou dera uma aparência "literária" ao material a que tivera acesso. é certamente 1202). Como não tenho o propósito limitar-me-ei de me deter no romance de Rousseau. ainda mais arrebatado r porque da autoria de alguém que se tornava famoso na reflexão política de seu século e no seguinte. (Na verdade. não supõem tão-só que. Seja dente. Sem insistir na debilidade desses textos.) No segundo prefácio. entretanto a questão da falsidade inerente ao romance. tendo o topos da virtude perseguida. O longo segundo prefácio aparecerá em uma nova tiragem. não deixa de parecer ingênuo: se é confessada a assunção do título de editor. de "Éloge de Richardson". como um resumo.-J. Os que reiteram ser a ficção uma forma de propagar o falso são hipócritas corrompidos. Algo.tornava-se mais evidente o sentimentalismo empolado de que partilhava. a figura do editor não é apenas referida senão que entra em cena. Rousseau extrema a ambiguidade "Embora eu não traga aqui senão o título de editor. Contra sua expectativa. dialogando com o autor. Eu o fiz por inteiro. lançada no mesmo ano de 1761. Quanto à sua articulação com o romance. "tremi com ele das provações a que o homem de bem é exposto certas vezes. J. e toda a correspondência ção" (id. 5). Lettres de deux amans. sobretudo ao segundo.

"[ . e externo. assinala sua singularidade.: 1761. 206 cartas. é preciso ser lido em Paris.-J. entre suas inverossimilhanças./ e. que morre sem querer orar a Deus. A ficção é o mel. desconhecem por completo esse tipo de beleza e o desprezam. contra as belas-letras. Em ambas as direções. 26). interno. os traços da personagem: "Uma mulher cristã. em prol da expressão real dos sentimentos: combate por um estilo prosaico -o Rousseau.. 17). (Aapa- rente fúria questionadora de Rousseau não anulava a subordinação do ficcional à história. que seu estilo é perigoso. Na direção assumida por Richardson se mantém imprescindível [. 13). e desode distinguir-se. em geral se e Héloise procurava desfazer-se de uma linguagem refinada e . 22). ] Você julga é correr um risco mas também ter a possibilidade Rousseau pode contratacar: I do de mel as bordas do copo. 12). depois da do que o romance à matéria histórica. é desde logo preciso fazer -se escutar por aqueles que o utilizarão" (ib.to ser factual ou ficcional. da estrofe 3. realidade. Seu disfarce seria sos.. para encontrar modelares XVIII. À crise das normas respondia recorrendo a seus princípios fundamentais. cabe ser lido nas províncias" (ib. expõe. além de. Em sua intervenção.. Mas o estatuto do ficcional não era afetado. A alternativa. quando se quer ser e idealizava a renoútil.. que os lugares-comuns ensaiado. Na linhagem de Richardsonpara que essa se torne rendo- Rousseau. o que leu como um romance. difusa. você mesmo o disse. É uma coleção de cartas" (id. p. prolixa.. São falhas. desordenada. (lb. 19). ] Mas os insensíveis. de seu início. Não é. contudo. ] Uma carta de um amante verdadeiramente apaixonado será frouxa. o romance cujo estatuto. a seguir. O prosaísmo tem uma meta não "literária": "Para tornar útil o que se quer dizer.).. aqueles que só têm o jargão enfeitado das paixões. vai além. É sintomático Rousseau veja então a propriedade Gerusalemme dele recebendo dos versos 5-8. fictícia. A estratégia de Rousseau é manifesta: a pretexto de acentuar seus defeitos. adota a via oposta: embora indiretamente. estava sob análise se aspira à glória. Não havendo antes respondido sobre se era um romancista. nos livros. E o suposto interlocutor contesta: se tudo aquilo for É evidente a agressão às expectativas de um público refinado.. a ficção acentua sua ficcionalidade.. Arrola. para a imita tio oitocentista. inverte a equação de letra- dos e filósofos que creem a boa cidadania só poder ser exercida nas grandes capiO autor renunciava às belas-letras em nome da própria verossimilhança. 14). que vimos posta em prática por Fielding. isto é. acrescenta. o sentimento. nem para Laclos nem para Sterne. Noutras palavras. sem que assim fosse dito.. o pretenso real. cheia de repetições. os homens sa.. as normas "estéticas" estão em crise. tais: "Quando Rousseau.. a ficcionalidade que não valerá. isto é. que a vende. A fórmula terá uma longa fortuna e ainda não está esgotada. ao mesmo tempo que se tergiversava sobre sua relação com a ficcionalidade. por motivos bastante diverentre parênteses. para que tivesse acesso à . Rousseau sabia o que fazia ao não responder sobre seu papel na coleta das recusava -se às práticas do fictício. A indagação sobre quem apareceria como seu autor ainda tem uma saída fácil: "Sou o editor deste livro e aí me nomearei como editor" (ib. bedecer-lhes Ou seja. Sua Nouvelle Rousseau indaga por que. este romance não é um romance. o amargo para que/ a criança febril tome seu remédio. comercialmente desastrosas. beba o suco amargo/ sua cura". uma devota que não ensina o catecismo a seus filhos. grosseira. A ficção utilitária é duplamente para o declarado propósito moral proveitosa: para o livreiro. os personagens são gentes do outro mundo" (ib. o empenho tos dos corrompidos. no entanto. são abundantes etc. 15) para que se quebrasse o mau costume de "encarar a moral dos está em difundir a virtude contra os hábi- livros como uma tagarelice de ociosos" (Rousseau. [. A conversão do romance em objeto útil tinha um duplo efeito: trazia lucro aos que o comerciavam vação dos bons costumes. enganada.. contra o decoro. Legitimava-se o romance.. e do autor.. Mas o "editor" alega que já notara qui ne sont point des lettres. e a linguagem suco que trará o leitor de volta à vida. baseada em procedimentos retóricos.. O ataque fora bem (cf. O editor 207 . sendo inverossímeis. o romance esconde sua ficcionalidade Para que a estratégia funcione é preciso habilidade. "estas cartas não são cartas. Assim como no "Éloge de Richardson". J. cuja morte.. até o século como maneiras de ultrapassagem se veem apenas do modo como querem ser mostrados sua ficcionalidade. do canto libera ta: "Assim como friccionamos que inventado.) Desprezava o aparato retórico para se apresentar como um retrato do existente em Rousseau é exemplar a passagem da prévia imitatio. edifica um pastor e converte um ateu!" (ib. finge submeter-se interrupção interdito Estas são as duas respostas que bloqueia Por certo que também se submete ou sua via. fundada no privilégio "científico" do fato.

de um teatro de comédias. porém. o impacto que se iniciara com Richardson te diversa ensaiada por Fielding apresentam tor das classes médias. de lugares e erros do topografia".J. "Diz-se que uma boa peça jamais fracassa. bra. 208 . Estimular a dúvida em sua veracidade passava a ser não só jogar com a norma contrária à ficcionalidade da escrita como espicaçar a curiosidade nas cartas. Poucos anos antes. nas décadas próximas a 1789: ou ele se abre para as expectativas do leia pergunta sobre seu próprio esse interdito. sem que se declare ao certo que papel por Fielding. A diferença parece quase nenhuma.dar por verdadeiro o que tão-só o pareceria . com a passagem de uma sociedade fundada no estamento para uma sociedade nitidamente de classes. interditando mantém as alternativas e a trilha obliquamencom que o romance estatuto. de cunho científico. Muito além do que podemos analisar. a pergunta de como se comportar diante dos limites do provável. com a alegação de que o teatro não tem "o poder de mudar nem sentimenaos quais não pode senão seguir e embelezar" J. Rousseau o contorna com a afirmação da verossimilhança útil.voltava-se contra o feiticeiro. É ocioso nos perguntarmos se o próprio Rousseau acreditava na montagem que ele mesmo tinha feito. no fundo amparada no respeito declarado à verdade. conclui. a verossimiEm ambas. Mas. ora menos rigoroso de preceiXIX. como dissemos. Mas nem por isso o feiticeiro perde: o novo mago passa a posar como mestre da virtude.de fato representa o papel do leitor informado e declara: "Se tudo isso é só fico ponto que te a presença de um aparato controlador. sobre as formas de composição da história e do romance. o reforço dos bons costumes. ouvi um deles dizer a propósito da Lettre d'Alembert que Rousseau não se opunha senão à permanência das representações do teatro clássico francês! Em suma. O barco do controle terá um outro timoneiro. creio que é verdade: é que uma boa peça nunca choca os costumes" (ib. ao mesmo tempo.: 1758. O feitiço que ele havia estimulado . possibilita que venha a se pôr outra pergunta: afinal que é a ficção? Por que tem sido ela objeto de tão insistente controle? Se já estava presente uma segunda forma de controle.161). em Gene(Rousseau. você fez um mau livro: mas diga que essas duas mulheres existiram e relerei estas páginas até o fim de minha vida" (ib. por outro lado a crise da sociedade. acolhia uma parte considerável do anterior.. nem costumes. 29). É bastante óbvio que se tratava de um ardil. ora mais (o naturalismo)... isto é. Teria mudado agora de opinião ou julgaria mais vantajoso que assim se pensasse? A questão talvez interesse aos especialistas no genebrino há alguns anos. "transposição O segundo prefácio do leitor. a partir das últimas décadas do século a questão será menos do roteiro que o timoneiro haverá de cumprir do que da corrente em que o barco do controle deslizará: a corrente do mercado. assim como sua associação com a imitatia. exemplificado ção. tos ditos científicos (o respeito ao fato observado). montado sobre a má reputação dos romancistas. Este é precisamente te aos lugares em que os personagens o autor de fato não quer ou não pode desvendar. se ele. é eviden209 lhança. que se indaga sobre sua composição. no segundo caso. 162). parte da receita de seu antecessor rando-os ao respeito. ou se depara. Declara haver ido pessoalmenteriam vivido e não havia encontrado alguém que os houvesse conhecido. permitia que seguirá uma mistuuma brecha que fazia entrar água no barco até então bem calafetado do controle do imaginário. fora contra a construção tos. Por isso acrescenta que também tinha notado. preceitos morais e/ou religiosos - Rousseau desempenhou no livro. na Lettre à d'Alembert sur les speetacles (1758). Contentava assim a dois senhores: aos moralistas e aos que consideravam as virtudes do mercado nascente. isto é.

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que terá outra solução. antecedente em um ano à segunda parte do Quijote. não era um panegírico sem que se atrevesse a ser uma sátira dos feitos lusos. algo que. sem tampouco ser picaresco. pois parodiava o que se 213 ( ( ( ( ( ( .~j$ 1. Camões. havia respondido à sede renascentista por um poema épico que retomjlsse o"costume dos antigos. 1. não admitia uma representação adequada. com Os lusíadas (1572).1949 INSERÇÃO TEMPORAL Segundo o bom senso. el mundo era atroz ( JorgeLuisBorges. Como seria o Quijote chamado por seu próprio autor? Joan Resina assinala que não poderia intitulá-Io romance. como seu texto não era épico. o momento inaugural do romance ( ( ( ( ( ( EntcJnces como ahora. Com a obra-mestra de Cervantes surge um problema comparável.: 2003. Fernão Mendes nunca pretendeu emulá-Io. E. Costa Lima.). entre seus contemporâneos.35 ss. que se diria que é? É um sem-nome. Seu contemporâneo. tudo o que se faz tem nome. Por isso o bom senso fica embaraçado quando se nota que a Peregrinação (1614) de Fernão Mendes Pinto não encontrava uma designação que lhe fosse apropriada (d.

assiste-se a uma a servir na Itália até 1575. pelo prestígio de e os obstáculos comprovava II (1556-98). o termo "história" assume. sendo os produtos sócio-históricas menos seus descendentes literais do que o produto da inte- (d. por ordem de conhecimento italiana o fazia saber que corresponde a um gênero que ele próprio exploraria nas Novelas ejemplares (1613). Não cabe detalhar o mecanismo desse saco sem fundo . depois do desastre de Carlos v nos Países Baixos. Assim um pouco de história factual da Espanha será de valia: A Espanha de fins do século XVI e princípios do século XVII está corroída por uma grave crise. Por não ter se atualidescarregados refazê-Ias. mirrado. o reino está em paz com a França. com a Inglaterra (1604) e. a monarquia filipina necessitaria não resiste à conem Sevilha o que * "Na falta de uma gentrr capaz de se encarregar * Citaremos as traduções originalmente porque no original. Felipe de ouro e/ou prata preciosos que mal chegavam ao porto de Sevilha. pois permitia "um jogo de espelhos entre fantasia e verossimilhança" (Resina. ** Cervantes. "História. Thompson. voltando da economia. J. Pelo estrito favorecimento uma Igreja absolutamente trabalho. 215 dos outros a bom preço" (Canavaggio.. E. Mas isso não diminui os encargos imperiais da Espanha para com seu inimigo mais ostensivo: o império otomano. Mas o poder instalado um conglomerado não quis assim. Só no primeiro nas referências bibliográficas. sem. concerne tanto à economia (agrícola e industrial). que se relaciona à chamada "revolução dos preços" (multiplicados por quatro entre 1500 e 1600). é alimentada conservadora da América hispânica. provocando to intensificado o aumendos preços. Não podia a certa moralejamuito menos chamar-se de Felipe lI.: 2002. O desequilíbrio indicado.57) A situação de crise econômica. perceptível pelas Relações topográficas. Não é preciso fabricar nem produzir J. porque seu inversão de direção pelos anos de 1570-1580. confundi-Io. porém. (Redondo. *' Escrito o italiano. "fábula': "romance".os produtos extraídos da América apenas passam pela alfândega para logo engordar os bolsos dos cortesãos ou ser trocados pelos produtos industriais que a Espanha não fabrica. ]. desde que sejam de qualidade. encontra em inglês. a que correspondem os anos de 1596-1602 [.. brio de Felipe que prossegue além do longo reinado sompelas levas de metais preciosos levados da nobreza. no "Prólogo" emprega a prática consolidada caprichoso de chamá-Io historia:" Que poderá engendrar o vários e nunca imaginados por outro estéril e mal cultivado engenho meu. entretanto. o capital acumulado não se transforma à ascensão social pelo em produção interna de riquenão só a evasão dos metais pela za. de: 1605. desde 1570. [Em ensaio de 1932. com o relato em que prima a representação O Quijote é o primeiro ingleses posteriores romance moderno. muito menos de novella. 18. * A crise ainda não atingia toda a sua visibilidade por- que. J. Hamilton moeda espanhola. "novela". Quixote circulassem como "a história efetiva" de um louco particular. Assim.. M. o significado genérico de "fábula': ao mesmo tempo que ironiza sua identificação com o relato de feitos efetivamente sucedidos ao fazer com que as ações do regrado.203). "novela" saturavam o campo das expressões possíveis.: 1998. em parte devida à chegada dos metais preciosos da América e ao peso dos impostos. ração da narrativa cervantina com as problemáticas daqueles países. como sucederia nas línguas em volta do castelhano. a manufatura cortência estrangeira. senão a história de um filho seco. em trégua com eles. Cervantes serve como soldado na Itália e em outubro de 1571. que o estudo da história deixava de ser um gênero retoricamente a ambiguidade da específica do Quijote criava um embaraço específico. como em inglês. graças ao tratado de Vervins. essa grande pesquisa de campo empreendida entre 1575 e 1580. só nesta ocasião citamos o texto de Resina em sua versão para E nem se esforça em fazê-Ia.] É esse o paradoxo dos dois primeiros português: começam a soçobrar quando estão no auge. Earl J. do ponto de vista político. não se de oficinas familiares. só em inglês reservado para o fantástico e fabuloso. * "História" era então um termo bastante ambíguo. O castelhano adotou o termo menos difundido. do cotidiano. têxtil castelhana. como à demografia. pois essa era reto ricamente regraum relato que conduzia romance.20).: 1986. por oposição franceses e específicas a "romance". e cheio de pensamentos alguém [. Depois de uma fase de expansão que corresponde à ampla primeira metade do século XVI.29).: 1932. sim. 15. Por isso. 214 . participa da célebre batalha de Lepanto. como a cobiça despertada II e Felipe III (1598-1621). desde 1609. já que os lingotes a passagem "un giocco de specchi tra fantasia e verosimiglianza" - fazem crer que a verdadeira pode ser comprado riqueza vem nos galeões. À medida. contudo.conhecia como romance da produção de cavalaria. sob Carlos v. digna desse nome. aparecerá estaremos obrigados a de uma burguesia zado. 166).. caso a indicação do tradutor Caso contrário. ]?" (Cervantes. está. o espanhol e o conservar o significado estabelecido de fábula. opta por uma ambiguidade diversa: nele. por seu alto teor impérios modernos.A.

O êxito de vendas do primeiro volume do Quijotee as novas edições não fizeram melhorar sua situação financeira. Felipe II do cativo em Argel até 1580. Justamente em 1547. Porém. ocupa cargos menores. com a expulsão dos mouros de Granada. no empenho desvairado de reconstruir uma identidade problemática. Não seria arbitrário pensar que o desastre espanhol começou pela própria maneira como se fizera a unificação dos reinos de Aragón e Castilla. se em Madri. O que Canavaggio escreve sobre o período de Felipe bastante além: II vale ( ( ( ( ( Numa Espanha em que o judeu. acumula cargos e prebendas e evita os ofícios mecânicos em favor de ocupações mais tranquilas. Antes mesmo que a Armada desmentisse e completa-se com Felipe III. ou se em Sevilha e circunvizinhança. provavelmente ainda oriundas da bancarrota do banqueiro sevilhano. O Quijote não nasceu de alguma prebenda. diante de Quixote. em que até então haviam condos mouros. entregar-se ao ócio estéril.: 1998. À do do da que os mecanismos ao desaparecimento cos. desde março de 1492. na pátria de uma raça una. apresentava-se o dilema de ou tornar-se cortesão ou de. entre Sevilha e Madri. for. ainda não posta em prática nos anos em que Carlos v havia favorecido o erasmismo . seguidora de uma única religião: Assim se delineia. ainda mascarado pelo impulso de uma aventura ampliada em escala planetária. em troca. é discutível onde se deu pior. o grande fechamento da Espanha sobre si mesma. Jean Canavaggio mostra que suas prisões se devem ou aos interesses contrariados de pessoas da Igreja ou à desgraça de haver confiado somas arrecadadas a um banqueiro sevilhano. quando os padres trinitários o resgatam. basta acrescentar que. senão a que sintetiza correlativamente Augustín ( ( só reconquistando a liberdade em março de 1598. Sendo bem conhecida a biografia de Cervantes. Mas não é ela a que caracteriza Redondo: "(O) apego à renda que acompanha Ouro.. simboliza o espírito de lucro e onde qualquer atividade ligada às finanças ou ao negócio é suspeita.. por se indispor com proprietários ligados à Igreja. Em sua celebrada biografia.a última tentativa de reunificação da Igreja _. Não estranha. os judeus e os descendentes ( ( ( ( ( trará que. J" (Redondo.27-8) Essa medida. os mourisvivido os cristianos viejos. é encarcerado e excomungado. converso ou não. A. começa a ser imposta nos últimos anos de seu reinado. controle tenham letrados por agentes. o desapego ao III trabalho é específico ao afã de fidalguismo que invade a Espanha do Século de com a subida ao trono de Felipe ( ( ( e a tomada do poder pela grande aristocracia ociosidade do fidalgo de então corresponde [. a extrema dificuldade de sobrevivência do 217 . Continua então a frequentar os meios teatrais de Madri e a procurar sobreviver de tarefas modestas. investindo em terras ou lançando suas redes para os canonicatos ou a magistratura.. (Ib. marca o reinado de seu filho. Esse ensimesmamento. Um pouco antes de receber o imprimaturpara o Quijote (26 de setembro de ( ( 1604). mas adquire novo vigor no século XVII. J. recolhendo-se a seu castelo. com a expulsão dos mouriscos (de para nome. onde tentou firmar-se como teatrólogo. A unificação se completara manifestado em 1498. que faliu. a burguesia era impelida a trair sua vocação. Acres- seu golpe mortal na introdução. é aprisionado por piratas mouros. A falta de relação entre êxito de vendas e a condição financeira do autor devia-se à inexistência de uma legislação específica e não era privilégio da Espanha. podem ser autores. Mas por certo na terra dos Felipes e sede da Contrarreforma a situação era pior. onde foi comissionado Armada (aniquilada para fornecer as provisões da funesta Invencível seu em 1588). Cervantes é acusado de malversação de fundos e. correspondera cente-se ainda: como veremos ao tratar da picaresca. Cervantes volta a enfrentar complicações com o erário público.80). de retorno a seu país. permanecen- catedral de Toledo vota os estatutos de limpeza de sangue. ao nobre. 1609 a 1614)." (Canavaggio. ela também tributária dessa mentalidade esterilizante. que também nobreza guerreira. se revelará por completo no reinado de Felipe lI. Imita assim o exemplo de uma nobreza que. (Os divertimentos do casal de duques com Quixote e Sancho explicitam preenchem a maneira como os nobres seu ócio. em 1597. havia outra alternativa para o nobre rural. entenda-se: homem das leis e do teólogo.) É verdade que a figura do Caballero deI Verde Gabán mosa situação espanhola. e não por provada desonestidade. o cabido da 216 o prestígio das letras. aqueles que o papa chamava de reyes católicos haviam o propósito de converter seu reino. proibindo aos conversos o acesso às dignidades eclesiásticas. e esta sempre lhe faltou. que encontrara das armas de fogo. ciente da prerrogativa de não sujar as mãos nos negócios. no século XV. portanto.Nessa data.: 1986. 204) Se o burguês era impedido de exercer a atividade mercantil pela qual poderia ascender socialmente. em Sevilha. em sua volta. a bancarrota Seja como de Simón Freire de Lima o leva ao cárcere.

E. a que se somava a do romance pastoril e de aspectos da picaresca.. Henry Thomas. a associação entre romance e "transcriação da vida" para Watt. 11). O romance não visaria senão a "uma transcriação da vida real" e. seu primeiro representante. em que os analistas da literatura preferem não tocar. A propósito do segundo traço. entre os quais destacamos seu caráter poliglóssico. Aquele desaparecimento do romance de cavalaria. da apresentação diversificados.: 1920. nele "a função da linguagem é muito mais amplamente referencial do que noutras formas literárias" (id. o único gênero nascido neste mundo novo e em total afinidade com ele. as formas de controle. fortemente pela crítica à falsia uma dade dos relatos de viagem e por motivos de ordem religiosa. nos dezoito anos que precedem o Quijote.. (Redondo. O romance rompe com a tradição literária anterior de usar histórias intemporais para retratar verdades morais imutáveis. Nas primeiras décadas do século passado. da segunda metade do século e primeira estimulada contra uma declaradamente ficcional..A. (1957). foi também responsável pelo desprestígio estilizadas para ser autênticas" (ib. ] (Watt. conà tese sustentada por Ian Watt. Nesse sentido. a realidade contemporânea. e 1550. pelo poder da ficção e da imaginação. 147-8). ] corresponde ao desejo generalizado de conservar. Mas se Cervantes de certo modo se comcomo se explicaria que sua paródia de um gênero decadente. apenas três (Thomas. ressaltadas pelo aparecimento tencente aos círculos aristocráticos. o romance é um gênero inglês. a copresença de várias linguagens. inaugurado faz com que. o romance é o gênero em que corriqueira da Para que. assinale-se que tomar o Quijote como a abertura auspiciosa do romance moderno se opõe frontalmente são que as ideias do crítico norte-americano De acordo com TheRise oftheNovel a linguagem vida cotidiana. 30). a burla de Cervantes era semelhante a Veremos no capítulo do XVIII. dada a repercustêm tido. que entre 1550 e 1587 aparecem apenas dezenove novos títulos. Dessa afinidade. pois sentimos que toda sua penetração psicológica e destreza literária são demasiado 218 nosso tempo precisamente porque é o que melhor reflete as tendências de um novo mundo ainda em feitura. é. Por isso. nacionalmente se estabeleça a articulação controle e seus mecanismos o romance tornou-se o herói principal no drama do desenvolvimento literário de tudo.). o romance retoma a ideação dos Frühro- mantikerao enfatizar o papel desempenhado 219 .. tenha o romance moderno? Caberá ao capítulo mostrá -10. e. ambos não detinham uma fisionomia própria. em consequência.. assinalava que. Tanto a estilização do romance francês como a crueza da linguagem de Defoe remetiam mesma fonte. diyersificados. isto é. A observação que mais recentemente faz Redondo valeria no melhor dos casos para os leitores simples.: 1957. em suma. ]" pelas que não 1998. isto é. I. não resistimos a deixar de relacioná-lo Blumenberg.. Fazer de seu protagonista aventuras dos cavaleiros errantes parecia. se apresenta Limitar-se. M. vale antes considerá-Ias. de antemão. XVII O romance de cavalaria já está no ocaso quando Cervantes publica a primeira parte do Quijote. publicava-se quase um romance de cavalaria por ano. como sua "zona de máximo contato" (ib.22). e Defoe. de antemão. O enredo do romance também se distinguiu da maioria da ficção precedente por seu uso da experiência passada como a causa da ação presente: uma conexão causal atuante pelo tempo substitui a dependência de narrativas anteriores em disfarces e coincidências [.: um mundo mítico que se estava destruindo um enlouquecido [. seguinte que a opção de Defoe por uma linguagem crua decorria da hostilidade. em suma. oferecia o perigo de contrariar a censura. provável data de publicação do Amadis.. não só diversas. H. ao contrário. entre 1508. isto é. como a linguagem matriz controladora. Não consideremos ela é demasiado na Inglaterra narrativa ingênua para que ainda seja discutida. estando em processo de feitura.30-1). desde La Princesse de eleves até Les Liaisons dangereuses.escudeiro. e ter o presente. um divertimento portava como um oportunista. se exclui da principal tradição do romance.. mas desviantes entre si. Isso seria a tal ponto insofismável que "a ficção francesa. A experimentação do novo será feita de maneira diversificada porque a marca comum do controle institucional atuará em combinação com traços localmente está a serviço do realismo. (Bakhtin. como o estalajadeiro com que o Quixote se encontra: "O apego pelos livros de cavalaria e as histórias cavaleirescas [. de um público leitor já não pera exemplo de Watt. Desde logo.: 1975. ao modo se perca de vista a entre o recorde-se Bakhtin: chutar um cachorro morto.7) A proximidade entre o romance e os tempos modernos se estabelece porque. Para o pensador com uma observação independente pela ironia: de Hans alemão. Bakhtin extrai os traços do gênero.

acrescenta. I. título honorífico reservado à alta nobreza. passar da caracterização supõe endossar uma complexificação a discussão. M. corrigir abusos e endireitar lhe faltava escudeiro. às quais se dirige em um castelhano antigo."assimo maispróximo que conseguiriachegarda objetividadeseria começarcomuma hipóteseque sebaseava.56-7). mas por outro aspecto: a obra cervantina o excede mesmo enquanto afirmação da materialidade do texto ficcional. pareceu-me que seusdefeitose qualidades eramoscomunsnàcríticanorte-americana:excelente pesquisabibliográfica. (A comparação ainda inclui o Tristram Shandy.Tendolutado bastante com Vaihinger.263). Em segundo lugar. Crê a primeira falha remediada ro em castelão e convencê-lo condições de o estalajadeiro compreender (ef. precisa mexer nas armas que estão sendo consagradas. M. fora recebido por duas moças da vida.Há pouco tempo. do nome que empresta à c~mponesa de que estaria enamoda armadura de seu bisavô. soltando a adarga. mania e experiência se esgota em uma expressão de riso. e dos quadrilheiros aspectos diversos e contraditórios desde o mundo das estalagens. isso vai ao ponto de o próprio romance tornar-se irônico. porque a mono mania do Quixote não impede que se manifestem vida espanhola muleteiros agropastoril contemporânea.masna da maioriados observadoresqualificados"(Watt. força polivalente da ironia que move sua sátira.não em minha própria opinião. Na verdade. de posse do misérrimo rocim.havia [em The Rise] um longo primeiro capítulo metodológico. Em face das situações da vida. fui surpreendido por um artigo do autor em que ele declaravaque "originalmente. a obra cervantina paira além dos roman* Desdeque li pelaprimeira vez The Rise of the Nove!. de Blumenberg.) Podemos então dizer que o Quijote se origina da exploração de um paradoxo: ao contrário ao mesmo tempo orientadas da tradição clássica da "heroicização distante. o Quixote só é louco quando se depara com episódio relacionado à cavalaria.A ironia parece tornar-se o modo autêntico de reflexão da reivindicação estética do romance moderno. que as confunde e mal entendem. assegura "a diversidade das vozes individuais ções" (Bakhtin. julga-se apto a sair seus muitos tortos rado e dos restos desconjuntados crescente. dos pequenos até o da corte faustosa dos duques. 220 gar à porta. II. nem pode ser resgatada. ou. o Quixote comete seu primeiro crime contra a ordem: E dizendo estas e outras semelhantes razões. que não é nem abandonada. O mundo ilusó- rio do passado não é bastante para evitar o choque com o rasteiro cotidiano. E quem poderia ser o senhor que o arma cavaleiro senão alguma dignidade? Mas o real prosaico parece cansar-se do demorado faz-de-conta e se manifesta sob a forma de um arreeiro que. 1605. Não sendo cabível aprofundar a seu ponto de partida: por que o social dos Desde logo.: 1975. porque a escolha dos dois que florescem nestas condida o cavaleiro e seu escudeiro. chegando vender "boa parte de suas terras de semeadura para adquiri-Ios" (Cervantes. que se deli- ciam em ludibriar Quixote e Sancho. Antes de o conseguir. spantosaabstinêne cia teórica.25) Como o leitor perceberá. 205-6). pelos quais esquecera "o exercício da caça e até a administração de seus bens".1. quase rasteira. em termos espaciais. H.em que deveriapreponderar um procedimentodedutivo. fantasiada pela mente a épica" (Bakhtin). a monomania do Quixote já é tanta que. tematiza cenas da realidade imediata. O Quixote transforma prostitutas em gentis donzelas.éde crerque a eliminaçãodo capítuloteórico não fezfalta. pois se julga com direito de trazer o título. O arreeiro e o que se lhe segue não sabem a injúria que cometem. * por meio da eficiente de Bakhtin até à especulativa seus resultados daqueles que secaram os miolos de tanto ler os livros de cavalaria. não cogitava que o declarado método servissepara a parte mais substancialda atividadecrítica. ao passo que ele é um fidalgo empobrecido.Wittgenstein.queria mostrá-Io e também teorizarsobrecomo a história literáriae a críticadeviamsercombinadaspelo que então chamava o método hipotético-dedutivo".: 1969. como de se ter por eaballero. ces a seguir estudados. Mas ainda esquecera que não havia sido armado cavaleiro e ao converter o estalajadeia sagrá -10 cavaleiro. a efetividade timo e da composição próprias aventuras - pelo mundo. ergueu a lança com as duas mãos e deu com ela tão grande golpe na cabeça do arreeiro que o derrubou 221 .Contudo. já dera tratar-se de um louco manso: ao cheas de sua história mescla fantasia. em sua relação com a realidade. Como assinala Roberto Echevarría. (Blumenberg.: 1605. não é assim que pensa. I. Neurath e outros filósofos. Dadaa confecçãofinaldeseulivro. 63). Carnap. e a conduz a muito além do que Devido a cada um desses aspectos. desde que assim havia sido armado na estalagem por ele próprio transformada em senhorial castelo. Ao iniciar~se o romance. prosaica e contingente. Sua mania e engano já se manifestam no uso do Don. Quijote inaugura o romance moderno? tipos de fala e a diferenciação empírica. para dar água a seus animais. pela perspectiva de Watt. desde a seca e tipográfica em que o Quixote vê serem impressas suas material e se divulga pela região da Mancha até a ativa Barcelona do intenso comércio maría fábula passa a caber em tipos fabricados. a desfazer agravos. 1. reconduzamos tipos principais.: 1968.

entrega à aflita sobrinha. Sancho duvida menos que seu senhor seja capaz de conseguir alguma ilha para si do que Mari Gutiérrez. 112). estropiado. O entrevero é inevitável e só pode terminar mal para o Quixote. Por enquanto. no direito de exigir que declarem que sua Dulcinea del Toboso é a mais formosa donzela que já terão visto. e num tom algo fanhoso disse: Parece-me. ao se chocarem na superfície de um regato.Adiscussão que Sancho terá bem mais adiante com Joana Gutiérrez. para alívio de Sancho e decepção do Quixote. a aliviar as carregadas entranhas. Sancho já está bastante escarmentado com o entendimento arrevesado do Quixote. um pobre lavrador. A noite demora a passar. o conduz para casa e o e de convencer consegue assim como do pas. e nem bem chegaram. VII. o par é surpreendido por ruído que se assemelha ao forte choque de uma superfície contra outra. julga-se. Mas só muito depois Quixote saberá do desastre que causou. o estalajadeiro o convence de que os cavaleiros de agora não de camisas limpas e de escudeiro.. foi ele ao socorro delas. se o secundasse com outro.. No capítulo xx.. "que levantou o chuço e lhe assestou duas pauladas. suas conversas não chegam a ser extravagantes.11I. deste viático -. que agora mais do que nunca cheiras. sem saber o que se passara [. que tens muito medo.. o escudeiro abraça-se à coxa esquerda do cavaleiro. que. Sancho inventa o relato de um conto que não termina até que seus intestinos o obrigam. Pouco depois. condessa lhe cairá 112). descobrem que o ruído provinha das grossas toras de madeira acionadas por uma roda -d' água (batán). Tenho. é socorrido por um lavrador seu vizinho. tão estropiado que.no chão. Antes. sim respondeu Em Sancho -. Sancho tem ampla ocasião para perceber que não foi acertada sua decisão de largar lavoura e família para acompanhar tão extravagante senhor. sem poder se mover. cada qual com sua ilusão. melhor. contudo. tama223 "Saiba. enfrentar as armadilhas o Quixote barbeiro e do cura da localidade. depois de recuperado Sancho Panza. Enquanto o cavaleiro está certo de apresentar-se mais uma oportunidade para que demonstre seu valor. O Quixote encontra a primeira ocasião de desfazer um mal feito: a surra que Andrés recebia de seu patrão é suspensa pela intervenção irada do magnânimo cavaleiro. Quixote. Sancho engenha um recurso e mais outro para que seu senhor não faça Rocinante encontrar o local de onde vem o barulho. seus bruxos e gigantes. de evitar que o silêncio do descampado torne mais sonoro o ruído das tri- louco errante verifica que sua saída foi precipitada. Mas isso será bem depois. mos222 . "com a boca cheia de riso". livrar-se com facilidade das vigilâncias da ama e da sobrinha. VII. veio outro com a mesma intenção de dar água aos seus mulos [. de estar de volta. sem se afastar nem sujar os calções. É verdade que as chicotadas far-se-ão mais fortes tão logo ele se afaste. apertando-as entre dois dedos. quando. Frustrado está o cavaleiro e Sancho. xx. ). O par segue viagem. que quase em linha reta subiam os vapores. não teria necessidade de cirurgião para o curar. e Sancho estava tão junto e agarrado a ele. a camisa e as sandálias. Isso feito. Sancho. Lembre-se uma das poucas aventuras que não é acompanhada doadas dadas e recebidas de bormuito mais recebidas do que dadas. muito menos de evitar que chegue ao nariz do Quixote o cheiro que exala: [. mas em que o percebe vossa mercê agora mais do que nunca? - Certo da missão que tinha a cumprir. pois. senhor. Qual proposta teria feito a Sancho para convencê-Io alargar o amanho de sua terra? Nada menos que a de a governar uma ilha. novas aventuras o aguardam. porém. amanhece e. 262) Por fim. ainda tarda o Sagrado cavaleiro. que mal pode se mexer. o outro nome que sua mulher recebe. Sancho termina por atar as patas do rocim. Mais bem armado. Sancho teme e treme. Quixote tinha o sentido do olfato tão vivo como o dos ouvidos. Sem se dar por seguro e satisfeito. depois de certificar-se de lidar com um desmiolado. Protegido pela escuridão. julga-se em condições de do mundo. e não a âmbar . a quem toma como cavaleiros andantes. que ela não vale dois maravedis para rainha. com o presente (rotineiro) da primeira parte. se a sorte os ajudasse (d. O capítulo é um dos mais cômicos e carregado de cheiros pestíferos. não pôde evitar que alguns chegassem às suas ventas. Sua primeira autêntica aventura ainda o aguarda. a ser seu escudeiro.1. recolheu suas armas e tornou a rondar com a mesma calma que dantes. sob a forma de mercadores toledanos. obriga o Quixote a esperar que o dia amanheça. I..respondeu D.77) Mas a justiça ainda tarda ou. (1605. ]. ao cair da noite. ] Como D. dizendo-o choque do passado (ilusório) cer de dinheiro prescindem de modo mais exato. (I. Não tem maneira. que. Tendo em conta a mania do cavaleiro e a ambição de seu escudeiro. A decepção do senhor converte-se em acesso de ira. e isto com a ajuda de Deus" sua mulher. o Volta à casa para se abaste- tra-o contaminado pelos desvarios do parceiro de viagem. se ajuste ao papel de rainha: (I..

para que faça de Echevarría: "Esta intrusão do legal na ficção narrativa estereotipados que. E posto que o principal intento de semelhantes liyros seja o deleitar. Se a concessão ao louco é uma ficção legiCervantes engendra uma ficção denunciadora dentro posição poética do próprio Na procura de mostrar a questão com mais nitidez. o capítulo XX cípio ao fim [. chegou a essa conclusão pelo esforço de desvencilhar o Quijote das interpretações tiker.32). um dos mais explícita.2). uma interpretação Realmente acho que os assim chamados livros de cavalaria são prejudiciais para a república. ]. Sem que seja dos mais relevantes. Cabe ao cônego proferir o discurso canônico sobre a razão da insânia do Quixote. ao cômico escatológico do protesto de suas tripas até à melancolia furiosa do companheiro. assim. se atrimas as terá em várias ele se suplanta os traços geralmente des- concerto não nos pode causar contentamento algum.. que se mantêm sob Felipe III. se. de Close tem a vantagem indireta de mostrar como Cercensóreas a conceder a circulação de 225 que se lhe pespegaram a partir dos Frühromanhis- com Schelling. Cervantes apro- no louco peculiar que sabemos: fora dos assuntos de cavalaria. e toda coisa que tem em si fealdade e é bastante para que se per- ceba a destreza narrativa de Cervantes. saltemos para o fim da primeira parte. Devem casar as fábulas mentirosas com o entendimento dos que as lerem. segundo me parece. jamais consegui ler nenhum do prin224 A interpretação vantes conseguia convencer as autoridades . vindo cheios de tantos e tão desaforados disparates. (r. E. G. a peroração sua "ideologia Close. não é obrigado a reparar em delicadezas nem em verdades. e todas estas coisas não poderão fazer quem fugir da verossimilhança e da imitação. "A base na ficção. ficaria livre de pagar-lhe o salário. o que chamamos cotidiano. a não ser aos seus herdeiros" (r. eu lhes responderia que tanto melhor é a mentira quanto mais verdadeira parece.. loucura e costumes" daquele que já haviam tranca fiado e transportavam enjaulado. circunstâncias. convertendo É sabido o papel então verdades. essas qualidades são está na ideia de que o prazer estético depenisto é. pois o deleite que na alma se concebe há de ser da formosura e concordância que ela vê ou contempla nas coisas que a vista ou a imaginação lhe oferecem. não sei como podem consegui-Io. em suma. A licença outorgada ao louco transforma-se em meio de denúncia da ordem estabelecida. sentido a observação Isso para não falar na violência. ele raciocina como discreto e agudo. muitas das ações do protagonista? concedido ao louco como declarado r de incômodas seu protagonista veita-se da tópica.: 2005. bastante. A. Pois que formosura pode haver. vida. Transcreve-se apenas a parte central do argumento: acordo com as premissas intelectuais da teoria literária (sic) cervantina de da beleza e harmonia equivalentes de sua época" (Close. o que se julga razoavelmente possível" do objeto percebido. ] andem parelhas e compassadas a admiração e a alegria. a infração da norma legal importa para concretizar romance moderno: épica" para que conviva com as situações do o choque do protagonista com a norma ( recusa a explorar a "heroicização entre as quais se encontra vigente. que são contos disparatados. como as autoridades reagiam à ilegalidade de. Isso.. R. aprofundando-se toricamente fidedigna. Cervantes. sem que perca a cobertura timada' ao transgredi-Ia da ficção acomodatícia. porém. 4-5). que deleitam e ensinam a um só tempo. que passa da descrição do terror de Sancho. já ensinado nas fantasias heroicas da cavaleiro. num livro ou fábula onde um moço de dezesseis anos dá uma cutilada num gigante do tamanho de uma torre e o parte ao meio como se fosse de alfenim [.. ao contrário do que fazem as fábulas apologéticas.. ]? E se a isto me responderem que quem tais livros compõe os escreve como coisas de mentira e que. seu amigo.nhas que. desde a épica clássica. e tanto mais agrada quanto tem mais de provável e possível. da licença. levanta de imediato uma questão: dada a rigidez das instituições censóreas. (ib. "da condição. que buscam somente deleitar e não ensinar. XLVII. Seria. Para Anthony da atualidade. embora eu tenha lido. escrevendo-se de sorte que [. esse gênero de escritura e composição entra naquele das fábulas que chamam milésias. levado de um ocioso e falso gosto. 265).: 1990. em vez de nas costas. que está de encarna nada menos que a buem aos caracteres literários" (Echevarría. O pároco que. procurava trazer o Quixote de volta à vida de antes. Segundo Close. xx... à verossimilhança. lhas tivesse acertado na cabeça. e. nas quais reside a perfeição do que se escreve. aqui irrelevante. do Quixote. A violência do Quixote aqui não tem consequências. o início de quase todos os que deles foram impressos. junto com o barbeiro. entretanto. ou que proporção das partes com o todo e do todo com as partes. conta a um cônego. acima de o paradoxo do primeiro A violência. 665-6) A relevância da peça do cônego de Toledo está em relação com as discordâncias interpretativas divulgados cervantistas que tem suscitado.

haveriam de discordar? Ainda para Close.. 79). Mas o fato de que se desconhecesse sua teorização não significa que * A afirmação de Redondo torna-se mais verossímil quando recorda que "em Castelaa Nova abundavam os convertidos e os fidalgos pobres tinham que sofrer. o que importa é o princípio de estruturação da obra. * Por fim. 505) .poderia ser entendido como prova de que para o cavaleiro é arriscado dar um posto dé mando à gente do povo. ex-vizinho de Sancho.. No mesmo sentido. Cervantes. hão de ser lidas as afirmações de Sancho sobre sua condição de cristiano viejo.. manchado. que escapara para Argel. o que equivalia a lançar uma suspeita sobre sua "mítica pureza racial" (Redondo.: 1998. e te governe no teu governo.por conseguinte. fosse pela pretensa governança oferecida a Sancho. um especialista seu ainda pensa que Cervantes estava de acordo "com as premissas intelectuais de sua época': por que seus agentes ativos. do mesmo modo. para o século XVII. deixaremos de lado questões que. XLVII tem por certo caráter concordante com o status quo. mantendo os inimigos dentro de casa" (lI. significavam um louvor à largueza de alma da nobreza? Acrescente-se com Redondo: dizer-se vindo de un lugar de Ia Mancha equivalia a nomear-se manchego. A. 633). Anthony Cascardi. em muitas ocasiões.comoo cônegodeToledoe o padre. o receio que tem o Quixote de que Sancho não se saia bem na governança da Baratária . volta clandestino à Espanha para desencavar o tesouro que deixara enterrado e manter contato com a família.: 2002. parece inquestionável que tal princípio é a burla. os censores. 227 e 76). E com maior contundência: "Ahierarquia social tradicional e imutável que o cônego considera sublinha suas normas épicas neoclássicas (sic). neste ou naquele sentido. preliminares. Embora Ricote lamente a expulsão e diga da falta que sente de sua terra. Na melhor das hipóteses.não só advindo de certa região de Castela a Nova. a maioria não se convertera "e não era bem criar a serpente no peito. lê-se em David Quint: "A prosa épica que o cônego socialmente conservador planeja como valores de um público aristocrático e exclusivo é apenas uma opção genérica entre as muitas que o livro de Cervantes considera enquanto justapõe e combina formas literárias anteriores" (Quint. que permite a duplicidade de sentido . Ao dar ao cônego a possibilidade de se estender longamente sobre a épica em prosa. declara a Sancho que o rei fizera certo porque. A burla não é necessariamente ficcional. expulso 226 com os de sua raça. A. a poética do cônego muito menos teria a ver com a ficção dentro da ficção a que nos referimos acima. como dotado de uma mancha. logo sehá de acrescentar: embora o alvo do Quijote não seja tão-só o romance de cavalaria. fosse pelas "homenagens" ao Quixote. XLIII. "gente chã. em nenhum instante da grande caminhada os protagonistas aparecem em uma igreja ou expõem a intenção de aproximar-se dela. conquanto. pois. Contudo.. J. 68) Do mesmo modo. poder-se-ia declarar que as "normas neoclássicas" (sic) da autoridade eclesiástica poderiam valer para o romance de cavalaria que houvesse renunciado ao fantástico. a sátira. não para a paródia em que Cervantes se empenhava. pelas bordas. entre os seus. 385).A. se começarmos de imediato pela burla. a ironia. enquanto os sonhos selvagens de mobilidade social do Quijote admitem o voo livre da fantasia do romance.59). LIV. 0. a conduta do mourisco Ricote.seorientam no mundo deacordocom modos depensarfamiliaresaosdebatesliteráriosde então. A poética então formulada em 1. Principiemos."Deus te guie. a crítica de gêneros e práticas que se esgotam no riso. sem mistura com nenhuma raça malsonante" (1. por exemplo. a declaração de Dorotea sobre seus pais serem lavràdores. ]" (lI.: 1998. ficcional fosse sinônimo de fictício e. e a mim tire o escrúpulo que me fica de que ponhas toda a ínsula de pernas para o ar [. sem que nenhuma voz se lhe contrapusesse. o relato intercalado do "Curioso impertinente" podia mesmo ser considerado "literatura potencialmente recomendável" porque servia de contraste aos romances de cavalaria (ib. porém. de falso e mentiroso. é bastante astuto para oferecer pistas igualmente contrárias.sua obra: se tantos séculos passados. XXVIII. Toda a conversa de Ricote com Sancho contém o protesto velado da violência cometida em nome de uma antecipada "limpeza racial': Algum leitor pensará que as farsas e os enganos do casal de duques. É verdade que a leitura "reconstruída" de Close não é muito acatada. Sancho. são importantes. 36).227-8). que. 227 . Mas a do Quijote o é. apresenta maior sensatez: Ateoria literária (sic) é um dos muitostipos de fala (speech-types) que Cervantes "romanceou':Asideiasestéticas(sic) tornam-se enunciadosporque são declaradaspor personagensque. os sarcasmos dos lavradores acerca de sua suspeitosa pureza de sangue" (Redondo.: 2003. (Cascardi. Mas é claro que tais "provas". o puro cumprimento de desejo" (ib. Cervantes criava uma dúvida que o favorecia contra o zelo daqueles que podiam impedir sua publicação. Arespeito. são empíricas e superficiais.

por séculos. pelo menos ( tanto. talvez consista em considerar o "real" como algo que se define por assuma então toda a sua intensidade. para um motorista 448). o relato fictício era da mesma estirpe que os não há diferença de natu- gestos e atos verdadeiros. Lê-se no crítico italiano Francesco Orlanliteratura* requer a copresença de instâncias opostas. ela é em si entre o real e o irreal" (Orlando. isto é. quando se diz que andavam pelo mundo esses famosos cavaleiros" (I. ele apresenta um duplo caráter: (a) concerne à área de incidência de um valor e (b) tal valor é tão auto matizado pelos membros de certa sociedade que lhes parece uma propriedade inverossímil natural. compromisso do ficcional é algo objetivo ou já é uma representação? R~spondase que aparece tanto mais como algo objetivo e inquestionável quanto mais corresponde a uma representação indiscutível é uma contradição sobre a qual não se discute. até mesmo o inseto da Metamorfose. transgredia o limite aceitável pela sociedade contrarreformis- período. que seria a ficcionalidade? duas abordagens. Assim. sua eventual agressão à ordem instituída supunha que. para certa sociedade. a única distinção 228 que lhe interessa está em que eles lhe 229 . d. o caráter da ficção que ele produzia dentro da ficção convencionada o mecanismo do louco.206). Como para o homem comum -leitor reza entre os relatos. para o homem do povo que Cervantes apresenta. Afinal. que se contenta em reconhecer "que agora não se usa o que se usava naquele tempo. Se mesmo sem que houvesse uma formulação assim sucede. Nem por isso. seja um sinal que. homem não tivesse asas? É precisamente Que pareceria aí "natural" que já o romance grego tratasse de uma viagem à Lua. pois para ele inexiste a distância entre verdade e ficção. Por isso mesmo o controle se impõe. entre a aventura narrada e os valores reiterados pela sociedade. primariamenpelas institui(e costumam) recorrer a letrados da obra com os valores aceitos e consagrados uma formação de compromisso A parte nuclear do enunciado si. é uma trava reprodutora. o controle supõe. para sua interpr~tação consiste em precisar o que Cervantes contrapunha ao grau aceitável. Ora. L. Pelo primeiro critério. em sua loucura.: 2006. 319 55. te. se apresentavam como verdadeiros ou a defesa do romance de cavalaria pelo estalajadeiro. Para que a formulação so que nos perguntemos: de. ou seja. comum. as cores verde. (Uma representação em seus próprios termos. pois. seria do que. o tcheco seja um autor autocontrolado. pouco importava va a ser considerado inverossímil. tem tal significado. está em formazione di compromisso. conceitual suficiente do ficcional. que significa essa ênfase na verossimilhança um relato seja considerado de? Pode-se simplesmente legitimamente senão que. E: 2001. a fim de que menos de peso. numa sociedade altamente repressiva como a espanhola na do relato. a concordância ções de certa sociedade. Kafka é mais verossímil que Rabelais - sob're o discurso de que o controle enraiza. (A questão do controle sempre implica uma questão de grau do que se afirma/nega. ao entrar em um templo ou em um tribunal deverei estar ves* É evidente que o autor toma "literatura" como sinônimo de ficção verbal. verossimilhança Para o leitor contemporâneo suspeita. no modo como esse conector é entendido que o controle se não é sinônimo de controle. Pelo segundo critério. A doutrina -se na verossimilhança. Sua debilidaserá antes precida formação de suas situações e suas figuras. é preciso que se desenvol- va em torno de um conector que articule o que se narra com o plano da realidadizer que esse conector tem um caráter simbólico. O problema. por isso. no entanto. parecem mais condizentes com o saber comum do que o fantástico rabelaisiano. sem que. Costa Lima. o problema do controle nem sequer se punha. em grau conforme ao teor de pelo efetiva a possibilidade de um desenvolvimento repressividade O controle que impere. cional. desde que senta ao volante. amarela e vermelha têm um significado indiscutível. O controle visa evitar qualquer dissonância. Conforme a opinião comum. dizemos que. importa Consideremos do: "Qualquer nos perguntarmos do controle criava um efeito de sombra sobre sua experiência. de maneira mais precisa. Ou.se ignorasse sua experiência. Isso era e. XXXII. agradável. Veja-se a crítica na Inglaterra aos relatos deviagem porque. o real (ou a realidade) que participará para exercê-Io. mascarando do cônego caracteriza-se por centrarfic- agradem.) Noutras palavras. um mourisco e homem do povo como Ricote criticasse a expulsão que haviam sofrido os de sua raça. continuasenão que o ta. as quais costumavam 2. sem a qual a única dissonância entre o narrado e os valores consagrados seria a que afetasse a coerência interdo que se relata. só que não mais conformes ou ouvinte aos tempos de então. no mais sendo sua conduta a de um fidalgo agudo e discreto. Para a diferenciação entre os termos. e não de simples existência/inexistência Daí a importância da duplicidade da conduta do Quixote: sendo sua loucura reservada à área do romance de cavalaria. ela deixa de ser frequente. entreauto matizado. O que equivale a dizer: 1. fantasiosos.

em vezde uma "formação de compromisso". embora se queixasse das poucas prerrogativas que tinha (d. De sua parte. ao passo que Cervantes explicitamente satirizava gêneros em vigência. Cervantes não tem a mesma virulência.: 1986. Esse desvio teórico foi necessário para nos aproximarmos do princípio estrutural do Quijote. Que. entretanto. era um fator que diminuía a severidade dos que poderiam impedir sua circulação. discutido na primeira seção. Tem. para que de sua burla se originasse um gênero não reconhecido. juízes e figuras eclesiásticas de estatura. bros das instituições letradas. apenas do ponto de vista de partida). A alternativa consagrada desde Horácio . a ficção é sus*Agradeço ao colega e amigo Paulo Henriques estava seguro. se antes. pelas mais diversas razões. com certa facilidade. J. ainda está para ser nomeada: embora desfizesse o que se entendia como princípios constitutivos da épica.tido de maneira razoavelmente formal etc. Torna-se então compreensível afirmar que Cervantes cita diversas vezes arIando furioso por sua proximidade de propósitos. por exemplo). o que menos importava era o desfecho propriamente bélico. ademais. em que. para escapar das mesas censóreas. prostitutas e quadrilheiros. porém. Em ambos os casos. Como "formação de compromisso". quer sua legitimidade senhorial. dizia não ter sentido:" coIourIess green ideas sIeepfuriousIy". canto XXXV de arIando. quer o empenho em declarar a verdade em que estariam empenhados os poetas (d. até nobres. No princípio do século XVI. Noam Chomsky formulava uma frase sintaticamente correta. isso não quer dizer que a ficção seja "partidária" ou esteja prestes a assumir uma linha didática. que inclui não só mecanismos de concordância como uma designação que aponta para um suposto lastro factual. Negando-se a seguir o princípio de unidade da ação.208). sendo menos urgente seu rigoroso exame. o que se entende por reallrealidade supõe uma construção sintática suficiente. Passemos para a segunda abordagem.simplificava uma decisão que. Ariosto tinha de investir tempo e talento em uma exigida nova épica. nem é provável que as instituições contrarreformistas admitissem a margem de liberdade de que Ariosto ainda gozava. que ela ocorresse em vários lugares. com mais frequência do alto modernismo. apresentando-se como se tivessehavido. seria o irreal senão algo que violenta o suposto lastro factual com que se identifica a realidade? Violenta-o porque. um texto apenas descreveuma realidade. recorriam à mesma estrutura da burla. Syntactic Structures (1957). Ela resultava de que ambos os autores. Obvia·· mente. fazendo. poderia. não pareceu necessário impedir sua circulação. ademais. decorrente de tanto ler um tipo de livro que não mais representava o etos da nobreza. 230 Britto haver-me precisado o exemplo. de que já não . Enquanto "formação de compromisso" ou "análise espectral" dos valores de uma sociedade e exposição de seus ardis. ter nada a ver com a ficcionalidade. Por que seria ela semanticamente insuficiente senão porque não dispunha de algum lastro factual? (Acrescente>\- cetível de provocar meios que procurem neutralizá -Ia. da qual. capítulo lI). Ariosto lidava com a ossatura de um gênero constituído. poderá fazer parte de um discurso jornalístico (de uma reportagem. a ficção toma o real como ponto de partida para o irreal transgressivo (necessariamente transgressivo.) Do ponto de vista verbal. Aproveitando-se astutamente deste álibi. exigiria uma capacidade intelectual acentuada dos mem-.) Uma pequena reflexão parece ser suficiente. comparada com as dificuldades materiais que sempre acompanharam Cervantes. dispô-Io em uma estrofe que lhe emprestasse tal lastro.isto é.aut prodesse aut delectare . há de se levar em conta que a monomania do Quixote. desde condenados. Por certo. Épor esse lastro que algo é real para nós . Em seu primeiro livro. portanto. Por outro lado. Ela aparece de maneira absolutamente incomum em uma biografia: a de Jean Canavaggio sobre Cervantes. as Satire). faz passar gato por lebre. do relato de uma viagem. destruindo quer as pretensões bélicas dos dirigentes da casa D'Este. da descrição geográfica ou histórica de certo local. o horizonte que se abre pelas andanças do pobre fidalgo e seu escudeiro ia muito além do que conseguira arIando: o horizonte dos diversos setores e estamentos da sociedade. enfatiza-se a função crítica da ficção verbal. a dupla vantagem de não precisar da explicitação de seus termos e de ressaltar a visão reflexiva e não só reiterativa dos valores que tematiza: a ficção literária supõe "a análise espectral dos valores proclamados de uma sociedade e a exposição de seus ardis" (Canavaggio. o real se instaura pela representação genericamente incontestável de certo fenômeno sobre os membros de uma sociedade (ou de um setor seu). ao 231 -se que essa insuficiência não seria inarredável: um poeta. É claro que seu funcionamento era diverso. sem. não deixaria pedra sobre pedra. portanto. a sua ainda era uma vida idílica. sem sua fórmula. A mínima explicação parece suficiente: se. Ariosto mostrava-se aos poetólogos como o autor de uma obra pouco séria. entretanto. A maior diferença. ao contrário.

.: 1986. se algum clérigo mais zeloso suspeitasse auto-de-fé da Santa Inquisição? DE QUE TROÇA O QUIXOTE? Quixote. dade flui tranquila e inatacável" (ib. depois de tanta confusão engraçada. E o enlace permanece quando se comtas e falsas homenagens se emenda em crueldades de controle estimulados desde o início do Renascimento. Diante de uma observação 232 ta de seus heróis assumida pelo protagonista que "a imitação CXXXIV). na Espanha contrarreformista são bastante eficazes contra o que não seja a burla de aparência inocente. enfim. globalmente. em que a demência risivelmente se torna uma bem fundada realidade. mouros e cristãos em tão fina como "Nos múltiplos choques de Dom Quixote com a realidade. Seja ele provocado pelas surras dadas Tal como sucedera com Ariosto.: 1998. exceto depois de uma catástrofe estar amplamente da? Os mecanismos a realia realidade reconhecique de alto coturno (recorde-se que a loucura de Orlando decorre do ato de uma princesa preterir todos os nobres por um mísero soldado pagão). J.passo que Ariosto tem por personagens princípio absolutamente excepcional mágicos potentes. tão sério quanto escrito com uma serenidade trágica. diminuindo ainda mais a partir de 1600 ( . poderia ter sido pior. com a bem-composta seriedade das obras heroicas que. de um mundo que nunca preende que. penitências isso se mostra pela recepção de ambos. (Auerbach. (É possível com prostitutas Amadis. 329).331) Para um livro como o Mimesis. E. quixotesca se manifesta como uma paródia cômica" (Riley. até recentemente de muitíssimo maior alcance. "os Amadizes e outros Palmeirins ainda são lidos. ':~. pelas amorosas do Quixote em nome da inventada Dulcinea. à semea crítica edição do o ritmo em que todas estas edições foram saindo. lhança do que vimos suceder com o poeta italiano. cabe retrucar: quando deixa de ter razão. ] muito pouco do problemático e do trágico no livro de Cervantes embora pertença ele às obras-primas de uma época em que se formavam o problemático e o trágico europeus.. CIX) Mimesis (1946) de Auerbach não continha o capítulo sobre "Dulcinea encantada". E.. Nele se lê: Cervantes de tal modo exagera seus modelos e mais ainda por ser a conduEncontra-se [. sendo a cavaleiresca o setor quantitativamente mais importante de toda a literatura do Século de Ouro. elas não desfazem o eixo que as liga: seu espírito burlesco. muito acelerado antes de 1550. Sylvia: 1998. pelas muiencenadas para o cavaleiro andante. tinguiam a realização do entretenimento. na fogueira dos livros do A burla realizada por Cervantes não se encerra no romance de cavalaria.. pela esperança de Sancho em alcançar o governo de uma ilha. por séculos. Mas isso não impede que. Quando sai em livro a primeira parte do Quijote. nunca se dá uma situação em que esta seja questionada no direito de ser o que é: a realidade sempre tem razão contra ele e. já eram suficientes para impedir que Ariosto se desfizesse da épica. que lhe devotam os bruxos. Curiosamente. em ambos os casos. pois ainda compreende o romance pastoril. Que teria sucedido com Ariosto se os D'Este suspeitassem da falsidade contida em seu louvor? De outra que. A loucura de Dom Quixote nada revela dessa natureza. que só lhe foi incorporado a partir da tradução mexicana de 1950. (Roubaud. Por se inspirar na conduta dos Lancelot e dos inédita com o mundo. embora pretendesse Cervantes põe- -se próximo da realidade cavaleiresca para estabelecer a distância desejada. Apesar de serem evidentes as diferenças. sua obra só parecerá uma sátira inconsequente. a escolha do Quijote provocava hesitação. Não me refiro ao exemplo de Close. À semelhança do que vimos a propósito de Ariosto. pelas sem-razões. tem uma relação completamente recatadas donzelas e aprendendo suas despesas?) 233 imaginar um Amadis chegando a uma estalagem. os primeiros leitores de Cervantes nele só dise recebidas. É sabido que a primeira fez-se bastante mais lento depois dessa data. pela má vontade e enganos. as cifras editoriais sejam eleva- se deixou embair. realizada pelo cura e o barbeiro. isso o Quixote.. mas de um díssimas. confundindo que os cavaleiros agora precisam pagar por . Cervantes de tal modo se protege e tem em conta a "Espanha das negações" (Pierre Chaunu) que. da burla e a tal ponto a burla não parte. mas há temseus juízes de que suas obraspos que não são livros da moda" (Canavaggio. se ocultava a crítica parodística de um A tal ponto Ariosto e Cervantes convenceram -mestras não iam além do princípio estrutural se comparava cervantina intérprete li .: 1946.230). todo o livro é um jogo. ].

seja do estado e condição que for. ao se manter nesses parâmetros. que fingem a agudeza do cavaleiro para tudo que não diga resamigos acusam Marcela. nos capítulos levar uma vida de pastores XII que. E mais. condenados sem armas ou meros mercadores porque. Sua duração é. sob pena de cair na furiosa indignação minha." do morto. Em consequência. As aventuras do tresloucado cavaleiro errante só podiam suceder ou com moinhos de vento e rebanhos de ovelhas ou com penitentes. não poderia senão se desviar de sua atmosfera lírico-bucólica. Eles a acusam e ela defesa. voltarem suas mentes para sua dona de eleição. assinala seu desejo de manter-se livre e solde optar pelo campo não são regise acorrerem os amigos para sua ciam dar-lhe elementos suficientes para a composição romanesca. que ocorr(?m a seu enterro. e. que poderia ser feio o amador do formoso. pelo qual é justo que. mas a liga que promove a configuração do gênero romanesco é fornecida pelo relacionamento da sátira com o mundo da picaresca. enquanto ele semeava o mundo de 235 haviam aderido à moda pastoril por motivos . notam a presença de Marcela no alto do monte. curta e seu último representante é Los pastores de Betis. os dois gêneros a que a princípio recorre não pare- diferentes. B. Naquele "fim o maravilhoso não oferecia "a representação idealizada do mundo em que [os leitores] gostariam de viver': ao passo que "o êxito do gênero pastoril oferece aos leitores sua própria imagem transposta para um cenário bucólico. dando prova de um juízo que cabreiros e pastores até então nele haviam desconhecido. Embora o romance pastoril tenha antecedentes na lírica de Garcilaso de Ia vel. bem se pode dizer que antes o matou sua porfia que minha crueldade. Ela mostrou com claras e suficientes razões a pouca ou nenhuma culpa que teve da morte de Crisástomo e quão longe vive de condescender aos desejos de qualquer dos seus amantes. não havendo eu dado nenhuma a Crisóstomo. ] Aqueles que enamorei com a vista desenganei com palavras. se o romance de cavalaria se espelhava no que havia sido a épica dos antigos. Apenas por comodidade expositiva.231). O narrador peito à cavalaria fará com que dê uma lição aos amigos do pastor Crisóstomo. deixando para adiante a complexificaBaste uma pequena ção decorrente da introdução da picaresca. J. os contesta: Que pessoa alguma. porque sua beleza atraía enamorados pelos motivo quais não se interessava. Ora. Recolhendo-se teira. sobre o segundo objeto da sátira cervantina. Dele se aproximando com um igual propósito satírico. que esperava o cavaleiro senão a passiva espera. Para chegar a tanto. Os pressurosos e entristecidos tão falsa pastora quanto eles próprios. No momento de século dominado por letrados e banqueiros". independentemente de sua oposta fortuna. muito mal diz o dito "Amo-te por Formosa. A primorosa formulação (I. fora rejeitado e decidira pelo suicídio.. que antes parecem indispostos ção" (Canavaggio. Crisóstomo. nem aos de outro algum cedido. publicado em 1633 por Gonzalo de em que aparece o Quijote. desde a invenção das armas de fogo os combates haviam deixado de ser individuais. a sátira do épico e do pastoralismo era a condição preliminar indispensável. de sua morte.: 1986. Por certo. Vega e nas éclogas de Juan del Encina. sendo o feio digno de ser detestado. A sua é a linguagem formal e refinada que tanto poderia estar no diálogo escrito ou em uma peça de teatro: Entendo. por razão de ser amado. se atreva a seguir a formosa Marcela. e se os desejos se alimentam de esperanças. cavaleiresco já Saavedra" (Avalle-Arce.Algo semelhante sucede com o romance pastoril. com o senso natural que Deus me deu. o mesmo Quixote defendera a prática dos cavaleiros andantes de. mas não alcanço que. pois mostra ser nele a única que com tão honesta intençãovive. É o Quixote à introspec. 189) a XIV da primeira parte - que têm por matéria o que se passa com um grupo de filhos de homens de posse. J. seja honrada e estimada por todos os bons do mundo. em vez de ser seguida e perseguida. apropriado 186-7) de Marcela não é feita para convencer os amigos a deixá-Ia partir em paz. XIV. manteremos em conjunto o trainformação tradas. nos instantes decisivos. [. que tudo que é formoso seja amá- tamento da cavalaria e do pastoralismo. (I.. desta. ainda faltava uma liga.XIV. o Quijote só poderia ser uma épica burlesca. ama-me embora feio". surge "com toda a perfeição da maturidade em 1559. de causadora explica que Marcela e Crisóstomo 234 Ora. Ao ser trazido seu corpo para o local que designara profere sua inesperada despedida. Em suma. Marcela simplesmente de estorvo. A cidade e as riquezas dos pais se lhe tornavam cujas razões particulares ao campo. seja obrigado o amado por formoso a amar a quem o ama. convivem o ocaso da cavalaria e o breve fastígio do idílio pastor"ll. no entanto. Cervantes os submete à mesma verve satírica.: 1974. Por outro lado. por ela se apaixonara. com a Diana de Montemayor.13).

No semestre da primavera do ano acadêmico de 1951. tradicionalmente. cenas de espancamento. o Quixote não se contra- giar a lição visual: o protagonista é o automistificado cho até o barbeiro. seja porque se intromete amoroso. pode parecer que está suspensa por um fio de aranha. \ uma boa fonte (segundo me confia João Adolfo Hansen. Para que melhor se entenda o inede Ia mujer cristiana (Institutio ditismo da defesa pelo Quixote da mulher dotada de iniciativa. enganam. quando a estrada aberta se estender para o louco e seu esquálido rocim. afastandoà manifestação. 1037) E tão zelosa de sua castidade que delegará aos pais a escolha de seu marido: "Não parece bem na donzela fazer uso da palavra quando o pai e a mãe deliberem sobre seu matrimônio" (ib. a reação do Quixote é sempre da mesma ordem: acusa -os de ignaros e os surra a pau1adas. o ?errota. sobretudo o texto tinha armada sua defesa: a ortodoxia de Vives não impedia se ela aparece em uma tenham de pagar por sua estalagem. Porque o estalajadeiro já sabe com quem trata. do desejo de um pretendente habilitado.. que assume seu destino. nem mais exposta à injúria. Que seria de esperar adiante. mas isso. o cavaleiro está afinal em condições de desfazer os malfeitos e ninguém percebe o quanto escorreu de crueldade. quando o Quixote começa a duvidar da existência de sua fantástica Dulcinea. Juan Luis Vives declarava que ela deveria ter uma passividade tão absoluta que haveria de retardar ao máximo sua saída da casa paterna: Mister será que saia de casa a donzela alguma vez. XXII. Ao romancista russo parecia estranho que. Se algum censor estranhasse outra forma de agudeza. não sem razão. então. seu silênpelo ritual. com ele.em episódio já aqui lemo Quixote velava as armas para se sagrasse cavaleiro. habilI~ r .: mente.52.52). (Vives. O leitor ri da cena. "a épica burlesca" que permite a Cervantes contrapor-se à norma da rigidez nas relações entre os sexos. XXII. em La formación foeminae christianae).XV. É à segunde ficção dentro da ficção. seja pelas bordoadas que não poupam suas míseras montarias. A monomania quixotesca preparava seu leitor para rir de outra de suas maluquices. ao lado de Panza e seu jumento? Seja por confundir pacíficos moinhos de vento com gigantes. não se notasse que "ambas as partes do Don Quijote formam uma verdadeira pédia de crueldade" (Nabokov. é o destino que lhes cabe até o capítulo 10 da segunda parte. Nabokov. uando o Quixote q liberta os condenados honrados caso se desconhecesse às galés sob a alegação de que "não é direito que homens (I. Ainda que breves.feitos heroicos? A situação.293) máxima de que. Opondo-se à indignação dos amigos de Crisóstomo. XI. fantasiado de Caballero de Ia Blanca Luna. ofereceu. É. a desordem aí se encerra. na segunda parte. Se. Como era de prever. haveria de se submeter honesta. as palavras de Vives são suficientes para assinalar o quanto a conduta do Quixote contraria os valores tradicionais da sociedade. na condição de visiting professor. J. bastante convencional. elas se tornam refinadas. O valor vigente na época seria manter Marcela se então se convertesse em pastora. A terceira era dedicada ao inter-relacionamento entre crueldade e mistificação. te e tem por nome Vladimir Nabokov. Considerar apenas o segundo elemento seria privilea quem todos. o resultado comum é que o par seja surrado. com seu 236 sejam carrascos de outros homens" . algo inesperado próprio tem a função de apresentar potencial de comicidade. ferido e maltratado. L. o protagonista leva Sancho a secundá-Io em atropelar os que se julgariam tranquilos no seu trânsito pelas estradas. desde que submissa à vontade masculina - dos pais. que. à ideia de que as dos pais.: 1523. obrigatórios enciclo- v: 1983.. que se manifestasse um duplo espaço: aquele em sua que cumpria com a ficção legitimada e aquele em que rompia com ela.. que. por muitas razões. uma série de conferências sobre o Quijote. Poder-se-ia contestar que aproveitamos uma cena isolada como comprovação do que tomamos como princípio estrutural da obra: a burla. O auge sucede em I. será o mais tarde possível. brado: enquanto cio e solidão. 237 figura exdrúxula como o Quixote. são duas vezes quebrados pelos arreeiros que afastam as armas para dar de beber a seus animais. Para que se enfrente a objeção nada será melhor do que contarmos com um intérprete que se recuse a aceitar que a comicidade do Quiesse intérprete exisjote se esgota em si mesma. na primeira são variadas as Elas principiam no capítulo III. Até lá. 1058). ] Porque nada há tão frágil como a honra e o bom nome da mulher. [. veja-se que. na Harvard University. Cervantes reservava para seu personagem da que chamamos liberalidade. sem que sua conduta fosse considerada prova de loucura. desde San- na codificação cavaleiresca. Pouco citado pelos cervantistas. no entanto. Desse modo. e sim" eI muy discreto y agudo hidaIgo". Mas ali não se manifestava o mono maníaco. sendo antes de cunho mental que físico. os surrados saem com as costelas doloridas. I. seja por não crer que cavaleiros andantes em um encontro Esse põe menos ao princípio filhas são propriedade -se da vigilância de reclusão das donzelas e.

sem discutir sua veracidade. requintava o jogo de burla e paródia de toda a obra. a partir de agora. observe-se apenas. XVII). de que não trataremos de imediato. a primeira parte zas"que o bacharel Sansón Carrasco. o seu senhor e ele terão a Santa Hermandad em seu encalço.a de Sancho manteado na estalagem (L. convertia-se em história.. Ou seja. Deixemos os desenvolvimentos que ainda sejam imprescindíveis destes episódios para ainda insistir no papel da burla. tudo aquilo é história porque se acha publicado. ao informar o Quixote de sua publicação. a do Quixote passando a noite com a mão presa no cabresto do jumento de Sancho. Na impossibilidade de exame mais acurado. E o próprio Quixote está aí para atestar sua autoridade. sendo relato de um louco e um escudeiro analfabeto' embora mais esperto do que os duques gostariam. não lhes teria agradado. contento-me em acentuar com Timothy Hampton: Por estranho que possa parecer aos leitores adestrados nas convenções ficcionais do discurso romanesco.. Dom Quixote e Sancho.269) . É precisamente por essa fusão e pela extrema astúcia do autor em fazer com que não seja vista em separado que não a notar leva à compreensão apenas parcial do Quijote. a temida guarda das estradas. sancionada ainda em 1476. Y. para cada um. Não precisamos nos alongar no porquê de aproveitarmos da leitura do autor russo. e a queda sucessiva ao fim do encanto (I.não importa que retóricas . Do ponto de vista do leitor comum. Estranha a Nabokov que os tantos leitores e intérpretes só percebam o humanismo risível do Quixote. a pressuposição da segunda parte é que a parte primeira é história (history). (É mais adequado supor que não o notaram que tenham feito de conta que não os importava.. os galeotes não têm maiores inconveniências em o moerem e a seu escudeiro com pedradas. Atento à feição normal e habitual da vida.. portanto. Tão logo se veem libertos e. seu flagrante desrespeito às exigências da escrita da história . os dois se tornam foragidos aos quais persegue a Santa Hermandad. e não a crueldade por ele cometida. sem poder sequer acomodar-se sobre o Rocinante. A leitura de Nabokov é por certo parcial. as cenas de crueldade . XVVIII) . Aos personagens que o Quixote encontra enquanto vaga pelo mundo da segunda metade. Sancho sabe que. Tem. a recompensa dos ingratos e a razão do temor de Sancho. .: 1990. são vivissecadas" (Nabokov. É certo que a libertação dos galeotes não seria julgada pelos letrados responsáveis pela manutenção da ordem com tamanha ligeireza. Aproveitando que a primeira parte a tal ponto circulara que dera lugar a que um apócrifo Alonso Fernández de Avellaneda publicasse sua pretensa continuação (1614). o direito de se divertir. Dito de maneira mais precisa: ela é a contraparte que mais acentua a comi cidade da burla. recebe sel. (Hampton. Cervantes introduz no mundo de seu romance um documento que tematiza os problemas de leitura da história e da ficção. com os pés na terra. chama "a história de vossas grandeé um relato (story) verdadeiro.~ Ao passo que o que fazia. Mas o pior está porvir. será preciso que. ] O castelo ducal é uma espécie de laboratório em que duas pobres almas.. na segunda parte (1615). Do ponto de vista dos nobres e letrados. sobre sua parte mais saliente: "[ . se o tivessem compreendido. faça emergir o que os contemporâneos não tinham (felizmente) notado. ingênua e inocente a visão de mundo do personagem? A crueldade deixa de ser tematizada em favor do riso que as cenas provocam. T. tenham lido suas fantásticas aventuras. Como o exame de Nabokov se estende ao segundo livro.landamento definitivo a partir da diferença que impera entre o livro publicado em 1605 e sua continuação de 1615.67).: 1983. Por levar a cabo sua libertação. só poderia derivar de sua cabeça de vento.desde logo porque relacionadas às aventuras de um louco. na primeira parte. Por certo.~'\ . podem se divertir com 239 . Como ela sejustificaria senão pela própria habilidade de Cervantes em mostrar como anódina. Para compreender-se que ela não tenha provocado reação mais particularizada lembre-se a proximidade do episódio sobre a atração exercida pela SierraMorena nos dois potencialmente perseguidos. ouvintes de toda a conversa havida com seus guardas. tem uma razão diversa: enquanto o Quixote aprecia o seu ermo para que aí cumpra sua vigília amorosa.) É o caso da posição que a crueldade ocupa no desenho estrutural da burla cervantina: de tal modo ela se cola ao risível que se torna invisível. A burla. a ben238 diz porque percebe estar aí mais bem protegido da perseguição dos quadrilheiros. Cervantes torna possível que muitos dos personagens a serem encontrados pelo cavaleiro e seu escudeiro. Mas é evidente que a crueldade é um traço marcante do Quijote.são de tamanha maestria e entrelaçadas à mais flagrante comicidade que se explica terem passado despercebidas. de fato. atração que. para que o apreciador de Cervantes não se dê por satisfeito por as mesas censóreas terem deixado passar o que. dentro dos limites de sua perspicácia. convencidos da loucura de seu defensor. Sancho.nada menos que Tomás de Aquino).

status que os duques têm bem presente-embora rentemente lhe ofereçam demonstrações de consideração (sic) -e que permite compreender esse jogo engraçado com o manchego" (Redondo. T. Tomando como situação exemplar o contato com os duques. e assim desvelam a face efetiva da sociedade de que são agentes. portanto. Para que isso se dê. a ficção dentro da ficção é contígua à crítica da sociedade. adquirem o máximo relevo. e o jogo conclui com uma nota particularmente horripilante.o papel do louco. semelhante ao do bobo da corte-. dos capítulos encontrou encantada na gruta de Montesinos voltasse a seu estado normal. 141-2). O nome que lhe damos é menos importante ção que vive. A mono mania do Quixote faz com que ignore a própria ficse torna. que deve ser surrado para que se possa quebrar o encanto de Dulcinea. ao apaqualificá-Io de fidalgo escuderil (n.que não podia ser dito porque. sua motivação para a penitência apontam para o abismo entre os valores declarados e a efetiva realidade. mesmo quantitativa.' "<li Os casos referidos necesse desonrada. enriquecido com o cuidado de suas terras. porque não ignoram a ficção que coman- li . dispondo-se a duelar para ~I . Isso lhes assegura o êxito nos jogos a que sadicamente seus convidados. bem como a presteza com que se desengana no exercício do posto. para o próprio Cervantes. O heroísmo do Quixote como o vingador da filha da Duefia Dolorida e a sabedoria de Sancho como governador da ilha da Baratária seguem desapreciados. Se o corpo de Sancho é o arquivo físico da história. detalhemos melhor o que dizemos. o heroísmo do Quixote. * Pois as prerrogativas submetem dos nobres ociosos não se esgotam em daquela Espanha contrarreformista entre os que concentram fidalgos pobres e o povo rasteiro. (É verdade que o mesmo caberia dizer dos episódios na Sierra com destaque para o encontro do Quixote com o desprezado enloua que o Quixote se submetequecido de amor. amigo do cotidiano ordeiro e distante de andanças cavaleirescas.. sabem o como se que fingem. não é mais que um escudeiro. 66). A burla então se torna ainda mais explícita e seu caráter de princípio estrutural da narrativa se concentra em manifestar-se em atos contra o cavaleiro e seu escudeiro. quando o idealismo do cavaleiro é posto de encontro à própria materialidade do corpo de Sancho. os a profunda rá. o único aspecto que perturba don Diego é que seu filho. talvez. Porque o ignora. Daí a importância. não ignorem aficção que promovem. (Hampton. referentes ao encontro da dupla com os duques (capítulos 30-57 e 69-70). se o fosse. seu engano por Sancho. apesar de proclamar-se 'cavaleiro'. Com eles. portanto. a punição sonhada pelo duque e a duqueza sugerem a extensão a que chegarão o idealismo e a fantasia para que se eliminem os traços da vida material. Isto é. O caráter de exposição e denúncia que tem a segunda parte assume outro aspecto na relação do Quixote com o Caballero del Verde Gabán. Estar impressa e cirque formava a primeira parte da épica burlesca a história festas e caçadas. fato que os autênticos cavaleiros lhe jogam na cara no início da segunda parte. chegando a um resultado que ia além do que era consciente para os letrados da sociedade e. é ainda preciso que os duques. do ponto de vista da sociedade. recem em microcosmo cular amplamente com os duques e o parti- do de que ele tiram da presença do Quixote e Sancho para que se divirtam ofeum quadro da sociedade espanhola. ao contrário. uma negociação com as categorias admitidas . Mas descuraríamos demorado contato sua função axial se não apontássemos com o casal nobre manifesta para o fato de que o desigualdade os privilégios.) Como os duques conhecem as aventuras da dupla. 240 dam. não permaa integridade e a sabedoria com que Sancho governa a ilha. Preferimos contudo ressaltar a parte "reflexiva" sobre a historiada. Sua função é simetricamente à do cavaleiro que hospedam. incorpora-se que o ignora torna-se uma ficção (imprevista) à fábula reto ricamente lise de sua conduta. A. como resultado de uma significativa transgressão e usurpação social. que a filha seduzida da servidora da corte ducal.: 2006. uma figura divertida. e os açoites que o escudeiro deverá se aplicar a si mesmo para que a Dulcinea que o Quixote * ConformeA. os preceitos retóricos seriam desrespeitados. a Duefia Dolorida. Reunindo os dois trajetos. A anatomia do primeiro romance moderno supõe.os personagens ao vivo. Redondo. é uma oposta ficção dentro da ficção. a crueldade. em vez de se dedicar às letras 241 ~ ( . Mas também pordentro da fictio (prevista). O contato. don Diego de Miranda. Descrito como um fidalgo rural.274) 11 passava a ser a condição para que o relato contivesse o que não podia ser dito por uma narrativa que então se chamasse histórica . senão que abrangem o flagrante desrespeito no trato das leis: Mesmo a virtude que o cavaleiro e seu escudeiro são capazes de demonstrar é ignorada. a tematização Morena da burla e seu indissolúvel reverso. enquanto mensageiro.: 1990.. n. o que consideramos sadismo dos duques não era gratuito (se éque o analista o consideraria sadismo): "Não devemos esquecer que Dom Quixote. sabem muito bem com quem tratam. Chamamos acima de sádicas as ações que eles cometem que a anáadmitida e contra Quixote e Sancho.

em sua primeira saída. com quantos cavaleirosandantes já nasceram no mundo (I. Um nobre de sua corte abusara da filha de uma dama de companhia Conforme o costume conhecido dos romances armar uma arena em que Tosilos apresentar-se-á e fugira para Flandres. por outro.. [. e tudo parou em que a moça é freira já. Redondo faz da figura de don Diego com a do Quixote levaaquele é louvado por sua discreción e prudencia. que sempre será menor que a que terei com a ajuda de vossa mercê. O Quixote seria inimaginável sem a picaresca. A referência a Haldudo. Basta-nos. 243 como o que procurará vingar a violentada pelo nobre fujão.: 1977). a setores tão diversos dela. seu senhor não só descumprira pícaro. Os dois gêneros que Cerde cavalaria. se afastara. Ao reencontrar da sociedade espanhola. ] e eu vou agora para Barcelona a levar um maço de cartas para o vice. LXVI. entre o duque e a duquesa.M. Seu consumo se estendera. compreende que melhor para ele será declarar-se vencido.) e aproximava a "épica burlesca" cervantina da cultura popular e. é obrigado a desfazer todo o teatro. 191 ss. Mas o acerto contraria o duque.: 1998. Com isso. É certo que a divergência do Quijote quanto aos gêneros cultos já se acusava na atmosfera carnavalesca que envolve Sancho (d. XXXI. quando o par se encontra com o lacaio do duque. De qual- . melancólico. ainda que veja . sob a forma reflexiva. o duque manda como o malfeitor e o Quixote para vantes parodia supõem a linguagem refinada e personagens de estirpe. A. tão logo o Quixote e Sancho partem. livrara de continuar sendo espancado. A PRESENÇA DA PICARESCA Desgraça semelhante sucederá a Tosilos. Algo de bastante diverso sucedia com a picaresca. prefira escrever poesia. Cervantes usava o decoro e a verossimilhança na segunda. a primeira parte por seu anfi- comparativa que A. Por outro lado. senhor cavaleiroerrante. sem que isso afetasse seu perfil. enquanto temerario. o servidor do duque. Em síntese. já ensinado nos caminhos do mundo: com maior empenho ao uso do chicote.I. embora ainda sonhe em fazer-se pastor. na verdade. a presença da picaresca é pontual.sérias - direito ou teologia -. dá ainda lugar a outra perspectiva pertencentes arbitrário. mascarar retóricos legalizados. do romance quer modo.: 1998. para. sem partilhar da específica demência de seu senhor. ao mesmo tempo. por ela. ao porque. Essas marcas verbais se pren"Don Diego mostra-se como T.: 1990. Sancho já aprendeu que. Tosilos volta à sua condição de servo solteiro e a seduzi da. porum lado. em vez de se divertir com o duelo arma242 (d. o mundo do poder e governança é ilusão e patranha. A. Redondo. para os de sua condição. Bakhtin. e revelar o que não podia ser dito pelos procedimentos '. tornando-se popular. sua "descrição "enquanto põe cuidadosamente verso senhor de Andrés" (id. o duque anula o acordo. tomando como a história-fábula que se desdobraria.279-80). Daí as palavras de submissão e desengano de Tosilos: Assim como vossa mercê partiu do nosso castelo. para caracterizar um dis- -o a acentuar que. este é definido como atrevido e utilizados "pela Inquisição (Redondo. ". o pero garoto que o Quixote. O que o Quixote havia pensado ser mais uma patranha de magos que o odiavam não passara de outro engano promovido trião. e aos duques. o rico lavrador. Nas palavras excelentes de Hampton: 279). Andrés conta que maIo cavaleiro errante contudo. de desonrada. 'un caballero labrador y rico' o dem às suas condutas opostas. O divertimento os duques é estragado porque Tosilos. não me socorra nem ajude.rei que lhe envia meu amo.'i I que alguém me fazem pedaços. se outra vezme encontrar. qualificativos curso heterodoxo" "virtude que se está erigindo em valor político". vendo a bela moça em causa. permitindo que se veja don Diego como o duplo do Quixote. Daí suas palavras soarem como as de um Pelo amor de Deus. mas deixe-me com minha desgraça. (n.) provisória mas aparentemente o tipo da figura que era o Quixote antes de se tornar louco" (Hampton. É assim que. 775) A leitura mais detalhada do Quijote multiplicaria os exemplos. que. que Deus maldiga. ao se relacionarem Quixote.. A minuciosa análise do para o Quixote. e. não só o Quixote cumpre seu papel de quem conserta os desacertos como Tosilos ganha uma bela esposa. têm um comportamento o que lhe prometera igualmente como voltara o Quixote. já caminha para a morte. Quixote foi afinal derrotado em duelo por Sansón Carrasco e. assinalar que a sagacidade de Cervantes consistiu em manter pouco claros os planos nada canônicos de seu texto. o duque meu senhor mandou que me dessem cem açoites por ter contrariado as ordenanças que me tinha dado antes de entrar na batalha. O livro já está no final." " 439).

avarento. Tamanha é a fúria do anônimo Cejador y Frauca chega a considerá-Io autor contra curas e frades que o filólogo provavelmente um erasmista (1959. mas por um preço imprevisto: é tamanho o mal-estar de Lazarillo. trocava uma carta pontifícia por benefícios a serem pagos no Além-. é açoitado e enforcado. que em sua cama o reverendo alternava com o marido. Descoberto. a picaresca surge em 1554. Embora curto. o que o obriga a requintar suas artes do furto e do disfarce. aumenta a prole e.232). o último senhor do ex -guia de cegos acrescentará pos da Contrarreforma: Cruzada percorrendo uma variante especialmente a presença capciosa da Igreja e seus dignitários em uma contra fazia é Lazarillo que há de descobrir maneira de comer e dar de comer a seu senhor. Por certo que o descobre. }I :I~ . Com o pouco que ganha e a muita esperteza que acumulou. Nos poucos dias em que permanecem quem não preocupa senão a aparência de decência e limpeza. na verdade. Porém o lugar a que chega é tão pobre que não encontra nem clérigos nem fidalgos em condições dé pagar-lhe qualquer coisa. de remédios caseiros para doenças ordinárias. a mãe é também incapaz de sustentar o tem de sustentar. Lazarillo tem êxito. a filho. a mãe o leva para a cidade. mas tão jejuno de dinheiro que não consegue meios sequer para conservar seus bens. o tempo foi suficiente para que o Lazarillo se tornasse uma das obras mais divulgadas da literatura espanhola. onde sua astúcia mercantil-religiosa os infiéis. são ainda mais avaros. com o nariz roçando sua garganta. não se traduziria apenas por "honra". por isso. o padrasto furta o que se destina aos cavalos de que toma conta. a vingança do cego é terrível. "viendo que no ay nadie que medre. Termina. É um escudeiro que tem suas posses em Castela. lhe faltam. Poucas cenas serão de realismo mais cru. em suas próprias sino 105 fronteira que o separa dos homens de bem e. a quem deverá servir de guia. Aquele a quem deve emprestar des. O cego já antegustava o prazer de comê-Ia quando Lazarillo descobre um meio de pegá-Ia inteira para si. que o jorro do vômito com pedaços de linguiça e o que mais fosse se projeta sobre a cara do imundo. quase mata de fome seu guia. para sentir o cheiro do que o menino já engolira. este é senhor a situação deixa de se repetir. entrega-o a um cego. graças aos amigos que então não viver em uma sociedade que das posições sociais em que cana vida. bem-posto tanto gosto por seu exde Mateo 245 que le tienen" (1554. Durante algum tempo. cujo autor permanece desconhecido. A picaresca tomará do escudeiro desempregado um de seus principais perigosa nos temtemas: de que vale el honor se lhe falta a pecúnia? A esse tema. com ela. Quixote. XVII.37). ao se descobrir ludibriado. quando. Mas não é o pior. consegue un oficio real. o cego enfia o nariz em sua garganta. Mas. Percebendo-se tinha dura pouco. sua aprendizagem 244 explicitamente. em busca de melhora de vida. Mas. um arcipreste. Encontrando-se com Lazarillo.] Nem por isso já se separam. Considerada açoitada e exposta à vergonha pública. a bula papal que. Nem por isso o guia encontra meio de livrar-se. O Índice dos livros proibidos não recai sobre ele nos cinco anos seguintes. Só aos poucos Lazarillo compreenderá Pretenso conhecedor reservadas aos de sua extração apenas começou. Ela logo se amasia. casado com uma criada que tomara ( 237). que lançará beberagem que julga milagrosa na cara de Sancho de efetuar vingança à altura.De forma que me parece tosca.~~I Quem quer que tenha sido seu autor. Lazarillo recebia algum soldo. compreendendo favorecia a estrita observância das representações da um nascera. com La vida de Lazarillo de Tormes. é inversa da que até então conhecia. Lazarillo passa a esteja a furtá-Io e bastante distraído. a velha. despedaça-a sobre a cabeça de Lazarillo e quebra-lhe os dentes. o cego ergue a jarra de vinho. não transfere sua ira a seu personagem. Lazarillo não consegue libertar-se senão depois das misérias -patrão. Seu senhor era então alguém que predicava a bula da Santa isto é. pensou em tentar a sorte mais ao sul. pois. [Episódio bastante semelhante repetir-se-á com o (I. que vendesse tantos exemplares que. Não precisamos recorrer ao Guzmán de Alfarache (1599-1603) { . A situação se torna ainda mais terrível com o furto de uma linguiça. pela primeira vez na vida. naquela Espanha. desde logo o clérigo que ocupará o lugar do cego. Somente com um terceiro eram avarentos. Um breve roteiro de seu enredo faz com que melhor se entenda a sanha da censura. Para certificar-se de que o guia o engana. A inocência que ainda a vista é seu mestre de maldao sentido das palavras com que a mãe se despedira: "Valete por ti". este percebe que a situação agora juntos. Esperando o momento em que o guia "I sociedade de lobos. crescem as dificuldades financeiras. Para dar conta das bocas que sua cúmplice. Os senhores que servirá a seguir. o cego ganha bastante nas aldeias que percorrem. Mas. Daí as complicadas artimanhas que arma para beber do vinho que o cego quer apenas para si. em nome da cruzada a empreender as aldeias da vizinhança. Algo que. Se os precedentes alguém que defende e estadeia su honor. Lazarillo é órfão de pai aos oito anos. A necessidade força Lazarillo a aprender depressa a escapar de sua mesquinharia. É ao cego que deve sua aprendizagem. dito mais palavras.

6l). O Estado francês também se organizara de forma absolutista. pois "entre os portugueses do Oriente se encontram as condições ótimas da vida pícara.Alemán. G. mesmo quando criticavam as cortes de justiça dos Parlamentos. que Sancho enriquecerá com seus provérbios e idiomatismos. A picaresca e a situação espanhola [. Entretanto.. a linguagem presa a fatos e acidentes da picaresca . A multiplicidade dos processos judiciais decorrentes da relevância da casuística não era. Para o grande historiador da cultura em Portugal. 32) Tal concentração na singularidade da circunstância individual torna-se explosiva na primeira parte do Quijote.: 1962. "não há ofício nem postura vil: a sua vitória é a vida salva" (Saraiva. mas a neutralização do poder dos nobres e da excepcionalidade da Igreja romana impedirá que historiadores do direito. cujos direitos tradicionais de acesso e uso eram negados" (ib. é indiscutível que ele principia no fim do século xv. é provável que Cervantes também tenha aprendido o uso da poliglossia em sua própria prática teatral (fracassada). 17). que fora próprio do romance de cavalaria (Echevarria. a longo prazo. Detenhamo-nos na afirmação Estado organizado. causada pela simples existência de um Estado organizado. 24. por conseguinte. em conferir tal importância ao casuís247 Para o anti-herói pícaro. B. desde a época clássica. alguém cuja vida é definida por escapar das autoridades de um Estado organizado" (ib. que corrompia "o heroismo do sentido épico. na tradição ocidental. na distribuição da riqueza" (id. R. causa das desigualdades estruturais.). tanto católicos. do ponto de vista contrarreformista.W.são atribuídos aos personagens literários. não só pelo cruzamento da linguagem popular com a formalizada que tanto Sancho como o Quixote praticam. opõem-no à própria lei do Estado. a resposta estaria na importância assumida pela casuística na Espanha: A intromissão do legalna ficçãonarrativa suplanta os traços geralmenteestereotipados que. G. mas inexorável de uma monarquia absolutista e de cultura normativa" (ib. O conjunto de circunstâncias que ou fornecem o material ou suscitam a reação que levou ao surgimento da picaresca" (ib.. a picaresca põe a seu dispor dois recursos expressivos sem os quais o par Quixote/Sancho não teria a dinâmica que se lhe reconhece: a crueza e a ambiguidade.acontecimentosespecíficos. a exemplo de Étienne Pasquier (1529-1615). resultante da "concentração da propriedade territorial nas mãos de um pequeno número de famílias. De qualquer modo. Não se poderá entretanto deixar de notar que a escrita em Alemán ganhava um requinte de ambiguidades que a aproxima do Quijote. Observe-se apenas que o pessimismo até mais flagrante de Mateo Alemán é. 246 . W. pensassem. XVII). Por outro lado. Seja como for. Seus ideais de cavaleiro andante. Cervantes é devedor do gênero não só pelo uso ostensivamente popular. Além de provocar o fim de uma sociedade pluralista. especialmente no episódio de libertação dos galeotes.. quer porque se repetem o traço pretensamente autobiográfico do Lazarillo e sua visão crua da vida. mesmo no sentido trágico". Ife lembra que a união dos reinos de Castela e Aragão implicou o fim do pluralismo religioso. a poetics of vile. 415). Segundo o cubano Roberto Echevarría.abrandada pelo sentimentalismo apologético de Alemán . reforçou a posição da Igreja romana e impôs uma ideologia militante e branca.EssacasuÍsticaabreo caminho paraa concretude da novaliteratura. como a chama Roberto González Echevarría. a adesão política e militar da Igreja e da nobreza era comprada pela concessão de "terras da Coroa [antes destinadas] ao uso comum e pela privatização da posse.que rejeitava não só astradiçõesliterárias recebidas. concentrada em indivíduos. compensado pelo lado apologético. o definitivo é a presença do próprio gênero picaresco.: 2002. R.(Echevarria. grifo meu).objetos e cenários. B. em que se dava a convivência povos diversos e dos habitantes dos reinos a serem agora unificados. Além do mais. porque era assim e apenas dotada de um contraste pontual..ganhava força corrosiva..como também as filosóficas. quer por sua extensão.397). Quixote é o primeiro herói. é mesmo de estranhar que a picaresca não se estendesse além na província ibérica.: 2005.A. J.: 2005. em prejuízo do povo comum. ]. como huguenotes. a exemplo de François Hotman (1524-90). como pela exposição de acidentes. pelo casamento de Fernando com Isabel. "o. sua contraposição só podia ser de pouca dura.. A persistência desse estado de coisas provocará a "emergência gradual. a política então estabelecida acionou a formação de uma sociedade patrimonial absoluta. fugitivo da justiça. No caso espanhol. plantados no cotidiano. a que passava a estar subordinado cada interesse político e cultural local (Ife.III. Contrapondo-se aos artifícios do castelhano latinizado da escrita culta. 26).

a relação fatídico-amorosa de Marcela e Crisóstomo. como se mais claramente dissesse:'Quem quiser valer e ser rico. Cada uma das duas fantasias abrange uma constelação de episódios. insistimos que ela era. Mas na mísera estalagem estão por acaso concentrados um nobre. a constelação da fingida princesa 249 . O temor de Sancho de que os quadrilheiros afinal os encontrem termina por se cumprir.que se repete em Portugal. Atentemos para o episódio. parece. do matador de carneiros e do desrespeitoso dos acompanhantes dos mortos fosse um simples cura. o pretendente à mão da filha do ouvidor. O "transgressor" escapa da polícia das estradas simplesmente porque por ele intercede o cura que. Formulando-a aqui em termos pelos quais o próprio Quint não é responsável: a diferença entre as duas partes do livro permite que Cervantes tematize a passagem das relações dominantemente estamentais para o mundo "desencantado" que tem o dinheiro como mola. ANOTAÇÕES DERRADEIRAS SOBRE A BURLA Entre os livros publicados nos últimos anos sobre o Quijotedestaca-se o de David Quint. sem que se caracterizasse pelo casuísmo que Echevarría identifica com o Estado organizado. e não alguma autoridade eclesiástica. junto com o barbeiro. A constelação de Dulcinea compreende os relatos entrelaçados de Cardenio. ou navegue.nomeados pelo capitão cativo: "'Igreja. O casuísmo era provocado pelas dificuldades impostas pelo Estado espanhol contra qualquer alteração do status quo. pesava que o advogado do libertador de galeotes. Mas a divergência com a interpretação de Echevarría é menos de ordem literária que sociojurídica. tenta salvá-Io. 25) A dedução seria irrelevante se não afetasse a central idade que a burla tem no Quixote.senão como o que era: uma instituiçãoencarregadade checara fidelidadedos súditos à Coroa.G. 548). Por outro lado. A favor do cumprimento da ordem de prisão.(Echevarría. ao passo que o interesse pela não menos falsa princesa africana é movido pelo dinheiro que jorraria com a libertação de sua terra e a ascensão social que entusiasmava Sancho. o Estado inglês assumiu sua forma de organização pós-absolutista um século antes da Revolução Francesa. um ouvidor. o riso.então o papelda Inquisiçãoserevelanão comoum produto do obscurantismoedo atavismo. ou entre a servir os reis nas suas casas'" (I. sim. Ele está certo quando chama a atenção para o fato de o Quixote ser o primeiro herói literário que é perseguido pela justiça. A burla. O cura ganha prestígio por contágio. XLVI). congruente com o absolutismo e normativismo do Estado espanhol. em síntese. na Espanha. a história do "curioso impertinente". O amor por Dulcinea. Nossa discordância é sobretudo de ordem sociojurídica: ao passo que o analista daí extrai a "normalidade" da Inquisição. fica muito aquém do que o analista deveria depreender. ou casa real'. em virtude de ser ela o meio de.:2005. ao mesmo tempo. Mas a sorte protege o cavaleiro e seu escudeiro. exprimir e mascarar o choque entre o súdito individual e um Estado organizado por privilégios. naquela Espanha. pois todos os dignitários estão do seu lado (d. suas senhoras. exercitando a arte do mercadejo. Lembre-se a estreiteza dos meios de ascensão . I. é movido pelos velhos motivos do ciúme e da rivalidade masculina. Em consequência. os representantes das instituições poderosas do reino. Sua centralidade. Lucinda. pelo desenvolvimento consequente de uma tese. Em troca. sim. Na primeira parte. Por que tal "normalidade" desfaz seu "obscurantismo"? É assim que se explica a Santa Hermandad não haver posto as mãos sobre o 248 Quixote. resultante da frequência dos conflitos gerados pelas condições desproporcionais de acesso à posse da terra e pela quase absoluta impossibilidade de ascensão social. a sátira. ou mar.mo. XXXIX. as únicas referências de relevância ao dinheiro estão ligadas à vontade sanchesca de ascensão social e às reclamações do estalajadeiro em cobrar do Quixote o pagamento de sua hospedagem. Na estalagem em que o Quixote é reconhecido como aquele que deve ser preso está o padre que adverte os quadrilheiros da loucura de quem perseguem. as deduções desvairadas do cavaleiro errante a tal ponto disfarçam o desafio à ordem imposta que foram capazes de confundir um analista da sensibilidade de Erich Auerbach. Sua consequência não se faz esperar: Sesepensano catolicismocomoa ideologiado Estadoespanhol. a afirmação geral que Echevarría extrai da importância do casuísmo. embora existente apenas na cabeça que transforma Aldonza Lorenzo em bela princesa. Don Fernando. que siga a Igreja.R. a fantasia amorosa própria a tada uma das duas partes tem respectivamente a ver com o ideal estamental: Dulcinea e a "princesa" Micomicona.

convertida por algum bruxo. com as loucuras do monomaníaco e as espertezas do pobre Sancho. ] não é a duração do romance no começo da Espanha moderna mas a sua interrupção" expli- tinta e tipos móveis. dentro de poucas décadas. Acentue-se apenas a passagem da "revolução copernicana" realizada pela autobiografia ficcional do Lazarillo para o "quietismo alegórico" que. portancom o protagonista andante e viajor. tos de seu trajeto.: 2006. Assim. e sobretudo na Inglaterra. Não podemos mais do que apontar paraa brilhante cação do scholar catalão. por enfatizar que o que se lê é a tradução de um texto escrito por um infiel.297). concluindo primeira parte da obra. Compostos além da fantasia do próprio Quixote em casar-se com ela. p é história verdadeira.seja. cluída pelo embuste da "carta extraviada" que Sancho lhe arma. dominará a expressão espanhola. talvez amigo. que já não confunde estalagens e rameiras com castelos e princesas. tais conjuntos marcam o próprio tempo da narrativa. confundir a errância do Quixote com uma alegoria da Espanha. Cervantes se desgarrava de toda a imposta verossimilhança e. em microcosmo ta. que. de sua parte. em certo tempo. Ao passo que. a filha do ouvidor. embora quase sempre arrematadas sovas. o entreZacement. Apenas lhe pelo relato do acrescentemos um dado: seja por se nomear apenas acidentalmente 250 na Espanha. permanece se verifica que o seu era o caminho para o exercício da ficcionalidade. de que não escapa o pobre escudeiro. o mouro Cide Hamete Benegeli. durante esse período. do século XVIII? Como bem declara Joan Resina: "A verdadeira questão [.. o conto do cativo - o capitão Viedma -. mesmo em uma Espanha que escolhera fechar-se em si mesma. Pode-se to. derrotado. entre 1470 e 1580. com a Espanha. uma nova ética do sujeito autônomo emergia em obras como La Celestina (1499) de Fernando de Rojase EILazarillo de Tormes. que cuidava de subir além das do caráter ficcional de seu. mediante a exploração do mesmo recurso já frequente em Ariosto. o remoto lugarejo da Mancha e a febril Barcelona do comérem que o Quixote se vê transformado na entre os dois ponem papel.XL. o relato do enamorado de capitão cativo - "O único a ter bom trato [com o amo mouro] foi um soldado Clara. em irônico contraste mesmo dizer que a andança que dinamiza seus capítulos se encerra com a nar~ ração do capitão Viedma. orquanto aprovado pelas autoridades. com a burla do que escrevia. assim. seu na América. A sua é uma história apenas de papel. texto. redutora entre o Quixote da segunda parte (menos aguerrido e sumamente (Resina. mas sempre desvairado. na Espanha de Felipe lI. o romance só venha a florescer na França. de certa terra. que alcança seu auge nas tramas que o casal de com o irmão que ascendera entre os praticantes a importância posição de ouvidor e a referência ao outro irmão. Embora a tese de Quint seja algumas vezes demasiado homologia desencantado. lI. surgindo no princípio do século XVII. enquanto encontro o relato do "Curioso impertinente" tematiza o ciúme irracativo. a história de Leandra. quando a ascese amorosa a que se submetera prias montarias. e chegar a duvidar da veracidade de certo episódio (d. Como se Cervantes dissesse: isso que é lido parecerá não passar de invenção de papel. A drástica mudança se relaciona com as condições sociais do país. preparava o reconhecimento princípio estrutural da burla.J. 251 . a mobilidade social é acelerada em toda a Europa. do Tristram Shandy. algo aparentemente feito só para divertir. depois de vencido o gigante que oprime seu reino. Cervantes rompe com todo o iZusionismo de que o que se Zê. O irreconhecível se não rações de queijo e cebola. desdobra e transforma. o realce do dinheiro. BREVE OBSERVAÇÃO FINAL na Sierra Morena. O Quijote admite.africana. o conto do capitão espanhol de sobrenome Saavedrà' (I. das leis até chegar à zoável e obsessivo e os limites da fidelidade. por não suas próa do protagonista virtual- duques arma contra o cavaleiro e seu escudeiro. ela abre uma via de interpretação que já não se contenta em que regressa pesaroso. o encontro com o próspero irmão auditor e a informação da riqueza que o outro acumulara nas colônias: cinco capítulos depois de Viedma narrar sua liberação dos mouros. conNão parecerá estranho que. conforme a tese que Ortega y Gasset levantou em Meditaciones deZ Quijote (1914). 563) ou pelo título de uma ou outra peça de teatro . com a presença dominante do dinheiro) -. caso o leitor não seja capaz de perceber que o que aqui se inventa aproveimas não repete o que ali sevia e ouvia. estabelecem a diferença diacrônica cio marítimo e da tipografia.. que enriquecera reconhecem mobilidade assumida pelos letrados e a extrema dificuldade de na ordem social. sobretudo. motiva as digressões de sentido tão diferenciado. As fantasias heroicas de Quixote. v). Defendendose com a sátira do que fazia. a mobilidade mente cessa quando ele é derrotado tremendas e enjaulado.

Não há surpresa alguma em que a cessação da mobilidade ascensional coincidisse com a inversão da corrente econômica positiva. mas foi tão hostil à ficção como é sabido que fora contra a ciência. ao desmantelo e sua inelutabilidade" (Bakhtin.. Havia ação no Quijote apenas no sentido físico do termo.: do que conce1975. capaz de abrir seu caminho por iniciativa própria.( ( [. M. para que haja cotidiano não basta que haja a regularidade de um esquema cosmológico. da narrativa na \' pelas fantasias bélico-amorosas dizer o que M. Não é permeado por uma única sequência temporal. 252 que caminho escolher. divino ou humano.301-2). 306). A Contrarreforma favoreceu o letrado submisso e cortesão. o romance falava castelhano e seu percurso era percorrer longitudinalmente seu país. o romance secou pelas mesmas razões que fizeram com que a ciência se esquivasse daquele país" (ib. ] No fim do século XVI. a mono mania do cavaleiro determinando. Pois. seu lugar corresponda o aparecimento do indivíduo como entidade relativamente desgarrada... "Na Espanha. dia de antemão a cada agente. barreiras de classe foram reforçadas com o veto à criação de novos títulos. Bakhtin viria a afirmar a propósito (' Antiguidade: "[Nela] o mundo cotidiano é disperso. que tem sua própria e específica sistematização dia-a-dia. (lb. ( 2. o padrão geral de vida declinava significativamente. Ação no sentido pleno do termo supõe 253 J \ . seus personagens não são propriamente menos seguem uma direção do que são guiados da cortesia cavaleiresca. pois seus caminhos poder-se-ia 1I ao litoral de Barcelona. Defoe: a decifração do chamado ( Os obstáculos que então se mostravam contra a ascensão social foram paralelos às dificuldades criadas pelas instituições legais contra a ação individual.128). senão que. Daí a vagabundagem do Lazarillo se transformar em quietismo. fazendo suas montarias tro manchego ativos. contudo. ( ( ( o ROMANCE E O CALVINISMO No começo do século XVII. Nos anos derradeiros do século. Anda11 rilhos. do cen- realizado pelo estranho par de um fidalgo pobre e seu gordo escudeiro. fragmentado. Do percurso dos dois. diante de cada encruzilhada.. carente de conexões essenciais.

conduzia a política do reino. Daí destacarmos com Joan Resina: esterilizado na Espanha. incorpora o legado de obras que estampam a Espanha miserável. isto é. ou ainda quando honradamente renuncia à governança da Baratária. embora bastante evidente na expressão inglesa. que. Assim se evidenciava desde que Carlos v deixara de favorecer a linha erasmista e fixara a Igreja romana no posto de instituição que. por um lado. selado com a derrota da Invencível armada espanhola (1580). subordinado ao histórico. ético-religiosos. ). Como vimos no final do capítulo anterior. Por que se impunha essa maior exigência de historicidade ao romancista inglês? Penso que assim se daria porque ao domínio dos mares pela Inglaterra.: 1996.4) Se esse é um traço comum ao romance. a própria noção de indivíduo autocentrado se adia. vigorassem valores homogêneos. põe o Quijoteem contato com o cotidiano dos mundo sob os Felipe.J. a política do Estado espanhol consistira em favorecer o status quo. O primeiro porque comandado por sua obsessão.. o romance adquirirá traços diferenciados. Assim falávamos há pouco em com unidade dos mecanismos de controle do ficcional. Uma dupla caracterização justifica chamar-se o Quijote de uma espécie híbrida. desde logo. ou políticos. o segundo porque sua iniciativa se resume ao propósito de ludibriar seu senhor. Somos forçados a procurar uma solução menos insatisfatória através de perguntas recorrentes. em dificultar maximamente a ascensão social. Em cada um de seus novos lares. Mais recentemente. foi tão menos drástica sua separação da linguagem aceita como literária que. Do ponto de vista do sujeito que se está formando no início dos tempos modernos. ele. estendendo-se ao formato da narrativa. pois o dinheiro ganho pelos novos. Pela estreita senda pela qual trilham os simulacros de indivíduos. como se explicariam seus traços de diferenciação? Podemos adiantá-lo: em virtude da combinação de mecanismos de controle comuns com motivações particularizadas. Desde então.agressivae insistentemente. verifica-se a extrema importância que a picaresca terá para a obra inaugural do romance moderno. na Europa Ocidental. expressivos. o par é formado pelo simulacro de dois indivíduos. De acordo com a primeira. era verossímil que.não só deslocamento mas intenção e resultado. É a picaresca.relevantee séria. É desse hibridismo que surge a poliglossia com que Bakhtin caracterizava o romance. No caso francês. na França e na Inglaterra. O par Quixote e Sancho atua em uma terra de ninguém: já não é dirigido por um centro externo que se lhe impõe (o Quixote continuava guiado por algo que se lhe impunha. No caso extremo. Ian Watt chegará a excluir seus exemplos da linhagem romanesca. a serviço dos quais aqueles mecanismos se punham.ao mundo presenteefamiliarda experiênciamaisou menos cotidiana [. tendo apenas de tolerá-Ia no caso dos comerciantes que enriquecessem nas colônias. e capaz de converter pacíficos carneiros em exércitos prestes a se enfrentar. e a burla supõe mistura. Se a intenção que move o sujeito é provocada por uma fantasia enlouquecida. ou à ambição de ascender socialmente. a Espanha contrarreformista se empenhava em dificultar a ação individual. A própria vontade divina 254 era convocada como contrária ao sonho insatisfeito de Sancho. o inglês. ao lado da nobreza cortesã. embora Cervantes dela subtraia a comicidade crua de Lazarillo. e também mostramos no capítulo sobre o Quijote a veemência com que Cervantes procurou driblá-los.procura restringir a narrativa significativa. tampouco parece extraordi255 . por outro. passando pelo longo reinado de Felipe II (1556-98). as questões do surgimento e da legitimação do romance estão longe de se resolver por critérios ou puramente literários. isto é. (Richetti. não interferia no favorecimento da inércia. também ela de curta duração na Espanha. não davam lugar a indústrias de transformação . é a paródia mordaz de gêneros literários consagrados. Dito de maneira palpável: os mecanismos de controle são. bem como as ligas de metal que abarrotavam as burras do Estado. Como se vê. Quijote será obrigado a emigrar. conforme a segunda seu princípio estrutural é a burla.. Não parece estranho que os mecanismos formassem uma comunidade: até a ruptura da unidade cristã. tem-se considerado com acerto que a ênfase no mundo das relações cotidianas. porém uma mania não é propriamente um centro) e não estabelece uma linha pessoal de conduta. ele deveria mostrar-se como absolutamente verídico. correspondia a exigência de seu público leitor de que os relatos de viagem fossem fiéis às situações de fato. contudo.ricos. Mesmo essa ascensão. como vimos. é antes uma característica do gênero do que uma propriedade de certo romance nacional: o que se dá de inédito no romance como emerge na Grã-Bretanhae no resto da Europa Ocidentalnestesprimeiros séculosmodernos europeus consisteem que ele.vistas com maus olhos por provocarem a evasão dos campos e as concentrações de pobres e miseráveis nas cidades.

para compreender a situação que temos particularizado. é óbvio que muito da ficção resulta dessa tensão entre dois extremos. e que a mesma tensão. P. as cidades.: 1983. Nunca se considerou sistematicamente produtos esse saber di fuso como sistema que admitia a circulação de perigosos. como o que temos chamado de con- interessar às mentes filosóficas a partir do século ainda posterior. Procuremos aprofundar a afirmação: como se explicaria o desconhecimento ou o desprezo do controle do imaginário? Levantam-se algumas hipóteses não todas excludentes entre si: porque na historiografia e na crítica de arte tem sido uma constatação frequente que a apreciação das obras de arte contém um inevitável vetor político e. conforma o récit de voyage. em débito sobretudo para com Schelling. para distingui-Ias. Na história. outra contavam com estímulos e restrições derivados da herança do cristianismo estabelecido. Friedrich Schlegel. Assim o fazemos por não sermos e porque perderemos uma se não detalharmos um conjun- raça. ao tratar da maneira como elas eram recebidas. Tal situação de controle é caraterizada ração da autonomia iluminista e pós-iluminista que as haviam sustentado - pela ausência ou desconsidedas artes quanto às instituições estatais encarregadas de a Igreja. adiante as instituições favorecer a pesquisa científica. a laicização do mundo. trole do imaginário. Em poucas palavras. de ajudar a melhor concretizá-Io to de fatores de incidência particularizada.148) Dâmocles. a plena consagração do etos individua(Locke). tampouco e a ficcionalidade. 1. em data e a mudança relativa que ele sofrerá com a relevância atriapresenta um aspecto surpreendente: embora não o controle do imaginário como um problema como um fenômeno bem mais complexo do destacado um só elemento que já não fosse conhecido por historia- dores. do desafio da ciência. pois abrangente tanto de um aspecto negativo quanto de um positivo. é moldada por dois modos da mente humana. bastante plausível do romance.nário que tal controle se exercesse sobre as obras ficcionais -política do pensamento gência fundamental a base teológico- conhecer a situação política dos tempos modernos. 7). confunde o controle com as razões motivadoras de certa configuração histórico- -social. É. não se considerou por si mesmo instigante. com seus príncipes. descreve a imaginação como "o equilíbrio de qualidades opostas ou discordantes". O historiador responsável pela análise mais minuciosa dos leitores do século XVII dos relatos de viagem quanto ao romance que a veemente reclamação contra uma solidariedade não só era mais amplo do que o que veio a ser senão que umas e inglês chega a descartar o problema. ou porque a apreciação da arte é feita de acordo com padrões exclusivamente estéticos. condições ambientais. considerando leitores. Em suma. buída à ciência pelo pensamento O caso do controle tenhamos moderno. a ser artido mundo acentuado por Weber etc. portanto. Ou seja. cuja crise na Inglaterra. em grande medida. que não repercutiu apenas na configuração causas prováveis "a revolução da imprensa" ou "o crescimento dos centros urbanos". de maneira apropriada. ao cansar de ser revolucionário. o realista e o romântico. por ora. Não é acidental que tratemos de maneira tão superficial algo tão drástico epistemológico.. corresponderia lista burguês e do sujeito autocentrado culado com o "desencantamento" quanto um deslocamento capazes de desenvolvê-Io oportunidade período que estudamos (Stone. de acordo com a historiografia literária. normalmente modo de produção -.Estados ita- lianas. é novidade que o campo chamado XVIII. falar com John Richetti em um deslocamento epistemológico (epistemological shift) . como já dizia ocidental ainda imperante não achava motivo. a considerar que tudo que não se refira à absoluta artisticidade é acidental e irrisório. 256 bastaria 257 . Algumas outras causas poderiam ser apontadas ou acrescentadas a decadência da ao aristocracia. segundo Laurence Stone. (Adams.: 1965). nenhum desses lhe concedeu o papel que lhe temos reservado. Coleridge. o Kunstwollen. não se darem conta de que protestavam entranhada na mente humana: a partir de fins do século ante o relato inverídico dos viajantes decorria de eles. que supunha sua identificação com o julgamento sobre as artes. ou porque a teoria da imaginação só passou a XVIII. já se estaria lançando mão de matéria da competência a história pressupondo-se da história política. como mais adiante. A afirmação seria perfeita caso a análise das situações sociopolíticas fosse suficiente para apreender-se em que consiste a ficcionalidade. G. Richetti aponta como teoria da literatura. com seus condottieri. ante a exi- estaria contida a verdadeira de verdade. para ninguém de belas-letras no Renascimento constituído como literatura. ensaístas e críticos da literatura. e a decorrente decadência da "tradicional sociedade de campo" (ib. ou porque se de que entendia/entende cunho determinista uma teoria global. sob o sursis de uma pendente espada de potencialmente Em uma passagem capital da Biographia literaria.

o calvinismo modelará seu produto. com particular fre259 igrejas protestantes e de suas influências éticas. mas. evitamos uma das grandes mazelas que têm afligido a história basear-se no critério de nacionalidade. se que o a posição ascética assumida pelo crente. entrede evolução. por parte de cada um. como Daniel Defoe. correlatamente. posser distinta a atida católica do trabalho. provocado pelo formato linear-periodolódo papel restritivo desempeda função políticoantes pareçam enormes coletâneas de verbetes. resulta do desconforto gico das histórias literárias e de seu abandono.: 1904-5. A diferença racionalismo decorria da "inclinação econômico" (ib. 36). 137) mais modesto: a comunidade da literatura: de entraves e a razão das peculiaridades Dessa maneira. Assim como no caso de Cervantes partimos nhado pela Contrarreforma. sível que alguém conheça. por um lado. Para que tenha sentido o que escrevemos. sendo os períodos uma espécie de estação em que a nação se revigora? Não parece acidental que as recentes histórias da literatura francesa e da literatura alemã..Suspeitoso das ditas constantes humanas. como deveria. A diferença será bem marcante: a Contrarreforma fez o prato da balança pender contra o romance. 33). o controle religioso em Defoe dá lugar a uma configuração romanceada. ascese e devoção eclesial e. enquanto. senão como uma contaminação nítido em sua postulação "É bastante intencional metodológica: não expulsão do Éden. para a valorização religiosa do traba- lho. sem que pretendesse. insurgir-se contra a ordem estabelecida.M. editadas respectivamente obviamente. o "estranhameno ganho obtido pelo trabalho -religiosa do calvinismo. A solução não é satisfatória. como essa contaminação o próprio Weber reconhecia (subjektive Aneignung) ter -se. Isso é bem que estabelece uma acentuada partirmos das instituições sociais objetivas das antigas A capacidade de concentração mental bem como a atitude absolutamente central de servir "ao dever de trabalhar" encontram -se aqui associadas. a partir de um ponto preciso: o autor não a pensava como uma relação de causa e efeito. mas adeptos de uma linha religiosa próxima ao calvinismo. evitar sua linear idade temporal e também a ideia (implícita) Ora. no meio proletário. presente sobretudo entre os calvinistas. entre estranhamento do mundo (Weltfremdheit). Assim. como se seus praticantes ainda cressem no "espírito do povo". que Weber pensa é a própria ati- em uma língua em que o termo Eeruf tude religiosa diante do mundo do calling. por Denis Hollier (1989) e David Wellbery (2004). do mundo senão considerar mar que a prática calvinista tude luterana. estava talhada a produzir na condução da vida:'(Weber. a uma criatura que desobedecera exigido do homem o trabalho ao plano desde sua mas supomos que sucedia com Ariosto e Cervantes. especialmente não da tão impor258 . tante disciplina eclesiástica. 47). Por sua disposição. preferimos ressaltar algo bem nacionais. mas é quase imposComo. Os calvinistas já não identificam com o castigo de seu Criador. como no antigo ascetismo cristão.. participação No calvinismo. os protestantes e ascender nas fábricas. preensão de suas peculiaridade no caso do romance inglês pareceu -nos que a comse alargaria se partíssemos carreiras técnicas. como vocação.ia efetivado se que o advento da Reforma provocou uma regula- mentação muito mais rígida da vida do que a que se dava sob o catolicismo romano? Sem que pretenda ter alcançado a resposta definitiva. recorde-se a conhecida tese de Max Weber sobre a relação entre o calvinismo e a cultura (der Geist) do capitalismo. Weber observa que. enquanto os católicos optavam pelos ginásios que ofereciam os protestantes manifestavam maior interesse pelas optavam por entrar específica para o uma educação humanista. Pode-se então afir- Ernst Troeltsch logo acentuará mais próxima cristã tradicional por romper com a concepção tomava como o esforço para a sobrevivência imposto tomam-no. senão dos efeitos que a apropriação subjetiva da religiosidade ascética. mais de uma literatura. tulado "pela profissão como dever (Eerufsflicht)" que se mantinha muito (ib. os operários de extração católica preferiam manter-se ligados ao artesanato. e correlata "ao íntimo parentesco. em inglêsconvergência designa tanto "vocação" como "profissão':) entre o calvinismo e o "espírito" capitalista: de atitudes e valores. o calvinismo será extremamente controlado r a fábula dependerá do entrelaçamento de fatos. realizam esse entrelaçamento de tal maneira que ele importa menos pelos fatos que como articula do que por seu modo de articulação. cuja produção espanhola pós-cervantina desaparece por décadas e décadas.. tanto. o afastamento como um fim. ou seja. por outro. peculiariza na vida capitalista ativà' (ib. A história das literaturas nacionais se justifica por um critério pragmático: é preciso que haja história. dar-lhe-á um perfil bastante específico. de maneira positiva. (Lembre-se à semelhança Em consequência. to do mundo" não supunha.

como um valor religioso e secular. M. Não só falta uma relação regular entre conduta de vida e premissas religiosas. unos.pela China. Mas.. E. M. no calvinismo domina o Deus do Velho Testamento. Originalmente. E. Paul Siebeck. apesuas afirmações às passagens então pela clareza da exposição e por não compartilhar Para Troeltsch. (Ib. e não que aí tenha sido particularmente estimulado pela presença calvinista. e continuar suas pesquisas sobre sociologia da religião: separar. entretanto. demonstra que sua motivação era desde logo contrariada pelas concepções diversas. a seguir pelo judaísmo e o islamismo.55) Para o calvinista.quência. que lhe fora encomendado por seu editor. Pois a falta de por tantos de seus expositores): Segundo declaração do próprio Weber. sem que o primeiro fosse a causa deste. ainda que Weber tivesse suficiente clareza sobre a diferença entre o calvinismo e o luteranismo. torna-se mais simples entender por que o capitalismo encontra em Genebra. ousadia interpretativa de seu colega e amigo.. pelo Japão e pela Índia. ela costuma ser de caráter negativo [. estes textos pretendiam contribuir para a caracterização do moderno homem ocidental e para o conhecimento de seu desenvolvimento e de sua cultura. no começo do século seu marido pretendia escrever um Compêndio de economia política ( Grundriss für Sozialokonomie). A proximidade estabelecida. manter a unidade do corpo protestante. 582). O estudo de Troeltsch. acerca da divindade. se não opostas. fundado no princípio de Majestade. de seu conhecimento.. contudo. de imediato. onde existe a relação. Por isso.) preço de concessões menos relevantes. havendo Troeltsch começado seus estudos sobre a doutrina social das Igrejas cristãs (o primeiro ensaio [de Troeltsch] foi publicado no começo de 1908.: 1926. (Weber.retomou os estudos de sociologia da religião. para que também analisasse a relação da cristandade medieval e primitiva com as formas sociais e econômicas de existência. E de fato esse é geralmente o caso nos dias de hoje. dois ramos de um movimento so que ressaltavam concepções tão opostas da divindade estavam fadados a se que havia resultado A ética protestante. Embora o calvinismo terminasse por constituir uma congregação à parte.346) "í ( conexão necessária entre o religioso e a conduta econômica do crente é explicitamente declarada por Weber (e não considerada É impossível saber o que se perdeu com sua cautela. ter o trabalho como "fim em si mesmo': como Eeruf( vocação/profissão). a um estrito espírito de poupança que calculao ganho e [liga] seu montante geral a um severo domínio de si e uma sobriedade que eleva de maneira excepcional a produtividade. seu propósito inicial era. o crente não se tornava um fiel melhor ou não adquiria alguma certeza sobre sua melhor sorte no outro mundo porque tivesse êxito no mundo das relações de trabalho. 62) (Entenda-se: a restrição que exprime a passagem -" não se inaugura [. por isso. no Archiv). distingue-se da Ética pela maior sistematicidade bibliografia espantosa. do qual se tornara amigo desde a de certo modo prejudicou a continuação da pesquisa de Deus. se entregou a outras tarefas. por volta de 1911.: 1904-5. Quando. (Weber. a Ética não enfatiza esse elemento primordial. nos Países Baixos ou na Inglaterra tão-só um clima propício.2. sem dúvida. planejara partir da Reforma para trás. simultaneamente. aparecia. Conforme sua esposa e biógrafa.577). por uma da Tende-se a crer que essas qualidades morais pessoais [sobriedade e constância] não têm em si absolutamente nada a ver com quaisquer máximas éticas ou mesmo com noções religiosas. capacidade de que o luteranismo abdicara desde o início" (Troeltsch. ]. ao heute im allgemeinen durchaus der Fall" nas se torna agora mais visível. o calvinismo tornou-se a força principal do mundo protestante por "sua capacidade de penetrar com seu ideal religioso nos movimentos políticos e econômicos das nações ocidentais. apenas encaradas como um método de revelá-Ia" (ib. ] in der Tat ist dies nos dias de hoje. É certo que o livro de Troelstsch.. "na qual a transmissão Conquanto originariamente transferência de Weber para a Universidade de Heidelberg. Weber suspeitou que seus campos de trabalho se aproximavam em demasia e. Marianne Weber.: 1911. Como a convergência entre valores religiosos e econômicos não se estabelecia por uma relação causalista.. foi atraído pelo Oriente . Limito-me passo que. no luteranismo. Die Soziallehren der christlichen Kirchen und Gruppen (1911).. melhor a tese de seu colega. a primeira consequência do desacordo entre os ramos protestantes torna261 260 . mas. Ao a ideia de Amor constitui o âmago da concepção de e a influência do Amor de Deus são religio- A tese de Weber ganha maior clareza ao suplementarmos que materializam pelo exame mais detalhado do teólogo Ernst Troeltsch.

na concessão da Graça não levava os princípios teológicos do calvi- para Calvino Deus é irracional. ]. Em contraposição ao princípio católico e luterano de que Deus é amor. é pura e imerecida." aprova e na profundidade do sentimento. Do ponto de vista da criatura. Como poderia ele aceitar em paz que nenhum a ordem de exposição de Troeltsch porque a concepção do da Os sucessores de Calvino. se bem que. possa servi. 582-3) lha. signos externos do estado interno de Graça. 588-9) As últimas passagens evidenciam gratuidade que o destaque do trabalho em face da do pecado. tornou-se cada vez mais explícita. puramente a partir de sua vontade livre e esco262 é possível estar certo de que alguém está entre os eleitos? A partir do tempo de Théodore de Beze [1519-1605].. em sua miséria. a uma vida de trabalho incessante. Essa ideia. quer na prática pastoral-. a resposta corrente era que o fato da eleição se provava pelas boas obras. que semelhante esperava depois da morte? descontinuidade Para que assim se desse. Concebida para a ação. o individualismo da Igreja calvinista impelia para a ação.. contudo. penetrante e formadora. para o simples o que o o hiato assinalado por Calvino. 590) 263 . logo se defrontaram com esta questão. no sentido de que não pode ser medido pelos padrões da razão edalógica humanas. (lb. com a passagem do tempo. que outorga tudo que é bom tão-só através do exercício de sua Vontade. 582) Há. os eleitos são um símbolo de sua misericórdia. É da Natureza de Deus conceder a salvação a alguns sem qualquer mérito da parte deles. [. É era inquietante sinal manifestasse (lb. ]Assim o intelecto mais agudo e cultivado eaformulação mais clara da doutrina são de uso apenas como ferramentas para fins que estão acima do alcance do intelecto e como preparação Modificamos Graça. em termos restritos ao calvinismo original. o indivíduo era lançado irresistivelmente na absorção séria das tarefas do serviço ao mundo e à sociedade. Em suma. Ninguém tem o direito ou de se vangloriar ou de se queixar.. grifo meu). e os condenados servem como símbolo de sua ira contra tudo que é profano e mau.-se mais evidente pela leitura de Troeltsch. Ela concerne ao modo como a concepção da vontade divina se impõe ao homem: Deus ordenou o pecado de Adão e faz uso tanto dos pecadores como daqueles que são justificados em sua economia do mundo..Lo como instrumento da justificação não consiste na espiritualidade mas na energia e no resultado lógico da ação" (ib... Deus calvinista explica melhor não só sua ênfase na ação como a doutrina pois deriva da vontade soberana e absoluta de uma entidade que a razão da criatura é incapaz de compreender: A Graça. sua dedicação ao trabalho e às obras favorecedoras de não estabelecem individualismo religioso que sua doutrina proclama: da comunidaDaí o a mínima relação com os sinais da Graça redentora. era preciso que seus pastores ultrapassassem óbvio. (lb. a ação do fiel. (lb. isto é. nismo a desaguar em uma ética de cunho econômico.. livre de sua vontade. por conta de sua pecaminosidade.. para Calvino. Para Calvino. o ponto fundamental não é a salvação pessoal da criatura e a universalidade da Vontade Divina do Amor. mas a Glória de Deus [. a vontade divina não se completa "na que perdoa os pecados". (lb. [. Porquanto para ele o ponto central da religião não é a santidade da criatura. contudo .grifo meu) fiel. bem como entre o realce de Sua vontade e a ação que se exige do fiel. cada vez mais insistente: como em termos humanos. mas a glória de Deus. 584. ] Por todos os lados. que. quisesse requerer do Senhor do Mundo.... uma íntima conexão entre Deus como Majestade e sua concessão gratuita da Graça. O perdão se afirma para que a alma. impeliu o indivíduo [.. a Graça é uma concessão irracional... e preparar a destruição dos outros. essa concepção da vontade divina tem como consequência misericórdia que "a alma seja ativa". ] à prática do autoexame e à concentração sistemática em seus empreendimentos próprios e independentes. 585. assim também a glorificação de Deus na ação é o verdadeiro teste da realidade pessoal e individual na religião. não é ela de modo algum relacionada com qualquer pensamento de justiça que a criatura.quer na esfera da teologia. por conseguinte.

) Para compreendê-Io. contudo. que ele próprio não anotou. las repúblicas. o bastante cautelosa de Troeltsch: "Se uma ética cristã desta espécie.Por esse passo. qual seria sua relevância como motivação para o tipo de romance que às duas questões.33) da atividade econômica. marcada é uma vantagem inquestionável. tra- tou do problema em seu grande cenário da história da civilização e. honestidade. por seu lado interno. podemos supor - o próprio Troeltsch não o afirma Implicando. A citação é longa. da estruna Troelstch um aceno mais curto à indagação do historiador o tratado de Weber é hoje em dia de importância fundamental. precisamente nesta forma que Calvino achava o capitalismo aceitável. 911). a distância entre os dois ramos era diminuída.. as condições eram estreitas e provincianas. embora Lüthy adote uma argumentação mos dar um passo bem atrás: como vimos.. 647). De minha parte. uma modificação de peso. que se dessua estrutura feudal. Era. como então afirma Troeltsch. 264 265 . a ascese calvinista já não se exerceria perante um Deus de vontade indecifrável. em Genebra. cercada por vizinhos hostis e rivais e cujo território era muito pequeno. que a finalidade deste item é expor o horizonte no qual será efe- tuada a abordagem de dois romances de Daniel Defoe. 590). (Lüthy. a Europa não mais alcançou aquele grau de desenvolvimento e estruturação econômica ou aquele vigor de iniciativa individual ou aquele florescimento de grandes capitalistas em grande estilo que conheSe Genebra tivesse sido uma cidade comercial especialmente ampla e ativa é naturalmente provável que mesmo Calvino tivesse sentido ser muito mais difícil submeter-se às exigências do capitalismo. Lüthy não singulariza o calvinismo -. tal aproximação não alterava a distância entre a exaltação da "comunidade sagrada" luterana e o individualismo calvinista. seriedade. que o argumento não seja fortemente visão materialista Considerando estritamente sociológico explicita a postura favorável mas caso o crente calvinista diminuísse sua ansiedade. só depois de tratar da ética econômica calvinista faz o elogio explícito do ensaio de seu colega: da vida. 643) A formulação a autonomia weberiana sofre. Antes de tudo.A transformação vencilhavam de uma Igreja que mantinha tura econômica ocidental começara em repúblicas urbanas medievais. a um "crescente egocentrismo" (ib. (lb. dissemos que Weber não considerava que fosse causalista a relação entre o calvinismo e o capitalismo. que tenderá. em vez de criar de um novo sen- tido econômico. Para o papel que desempenharia.. mas seu conhecimento é decisivo: I o século dos Fuggers - dentro da arma- ção de um catolicismo ainda intacto. teria simplesmente retomado o que começara a se efetivar naque(b) o segundo ponto a considerar acrescenta um argumento de Weber. contrastada com a do catolicismo e do luteranismo.nota381. portanto..: 1965. Mas ainda não é o caso. ordem teológica. Na abertura da análise. De qualquer modo.. frugalidade e consideração pelos vizinhos. enquanto era rejeitado pela ética católica e luterana. ao mesmo tempo. já introduzia diferente. ]. socioeconômico (Troeltsch. relacionou o elemento religioso e ético com o socioeconômico. Além do mais. Podemos supor que o esboço de análise tenha confirmado seu acerto. de Genebra.. Mas. acrescente-se ao exame de Herbart Lüthy. (lb. Era justamente porque as condições econômicas em Genebra eram tão burguesas e em escala tão pequena que o capitalismo foi capaz de introduzir-se na ética calvinista. Dois últimos destaques: (a) embora em suas notas Troeltsch sempre se refira positivamente à Ética protestante. H. A Reforma passagem. Resua princípios de mindo ao máximo o argumento de Lüthy: Calvino teve o mérito de reconhecer embora a subordinasse o fator decisivo foi o caráter esse elo. que encontrei amplamente confirmados pelo estudo da vida norte-americanaedaregiãodoBaixoReno [. adotei seus pontos de vista. como uma vocação ajustada às condições existentes na cidade e capazes de serem combinadas à lealdade. pelo espírito de 'negócio' e pela avidez de uma afastamento do mundo e a intervenção nele. isso é outra questão" (ib. Cabe entretanto ainda perguntar: que relação teria sido então demonstrada? examinaremos? Para respondermos Por outro lado. poder-se-ia tomar sua finalidade como cumprida. devecera no século xv e no começo do XVI - Diz respeito à importância socioeconômica própria à cidade de Genebra para a caracterização do calvinismo. por reação ao que se solidificaria com a Contrarreforma: Durante os dois séculos seguintes. a favor da tese da feição respectiva Lüthy declara aceitar com reservas a tese de Weber. como o luterano acreditava contar com meios objetivos de avaliar a Graça.

: 1965. prepara-se para exercer o ministério presbiteriano.A Política de Aristóteles. entretane do cálculo racional provoca- obras. rejeitava toda "uma imagem imemorial da pobreza e da compaixão que concebia a relação entre o que empresta e o que toma emprestado apenas como uma relação entre um rico e um necessitado.e "crematística". A partir de agora. Calvino se tornara o líder religioso e político de uma cidade comercial. a formulação a questões religiosas: "O trabalho é ascetismo. imprevisto: o estímulo das relações capitalistas. em que se atesta o caráter edificante da tradição referida. 87) relação de causalidade na constituição entre os dois.reli"espírito" do capitalismo. estabelecia uma distinção fundamental entre "economia" . do capital por Calvino se dava. a teologia calvinista não "previa" o capitalismo mesmo não podia ser a causa dele. dois anos depois da morte em que a monarquia julgar o acerto do reparo do historiador o favorecimento argumena por isso Lüthy. que transformará em material de uma de suas melhores e edificação a "Cuide" Tra- de um mundo no qual. em 1660. O lucro é o sinal da bênção de Deus sobre o exercíentão à resposta à primeira questão levantada há pouco: ainda sido relevantes na convergência estabelecida entre calvinismo e cio fiel de uma vocação" (ib.. é mais rico do que ele?" (Ib. da ação. o lado religioso. que. na verdade. Em suma. frequentando a Dissenting Academy do reverendo Charles Morton. que ele detestava. Não é da minha competência sobre a história econômica tação teológica. a economia do dinheiro e do negócio. 648). 266 . Sua impre- Grande Peste de Londres.) Entre 1671 e 1679. a admitir a legitimidade dos juros. "de o advento capitalista rua extremamente mantém supõe que. Ao fazê-Io. A Joumal of the Plague Year (1722). um ascetismo que é necessário. momento açougueiro puritano. pois. intuição de Weber. isto é. o capital circulante como Daniel Foe o "enobrecimento" de seu nome próprio só se dá quando já é era restaurada. Reforma. Assim. centrada em mostrar a influência que a atmosfera presbiteriana do primeiro A VIAGEM DE CRUSOE Por esse simples paradoxo. como Weber bem havia intuído. apenas o que continua o das relações materiais. depois de internalizados. Sua concepção cujas razões desconhecemos. a identidade do lado em que esteve. Era por isso pressionado Daí haver sido o único dos reformadores a assumir uma posição "crematista". há uma larga. Entre o templo e o banco. É nesse sentido que os fisiocratas chamavam-se a si mesmos de economistas e apenas economistas. Filho de um ramo da sucede a um adulto de 35 anos nasceu em Londres. conforme família a desligar-se da IgrejaAnglicana.). Poder-se.ia mesmo de Troeltsch tanto vale que se torna é menos filho das ideias de Calvino que do esquecia fé calvinista como para o descendente a satisfazer o lado a que chegou dizer que o capitalismo para alguém que mantém indiferente absolutamente Chegamos giosa tenham mento de seu aspecto teológico. onde 267 visibilidade explica ademais que o flores cimento do capitalismo não tenha coincidido com o momento de maior influência do calvinismo. conforme tinha dois anos quando do calvinismo. nossa tarefa estará conromance inglês. volume do seu The Family Instructor's. que aspectos da cidade em que Calvino veio a exercer sua liderança político. o fiel haveria de agir para a maior glória do Criador. do trabalho... conforme um hábito moldado a partir da tradição puritana de livros de testemunho ditionapresentar-se-á como estando ali presente. ram um resultado o afastamento do individualismo da Graça remetia a um Deus seu favorecimento.. edita o primeiro to. onde. não havia qualquer desempenhará acordo com a lei da equidade" (ib. sua objeção decisiva [. distinguindo-se de todos aqueles que raciocinavam em termos de dinheiro e negócio. artificial no caráter. cujos capítulos sobre o dinheiro e a troca inspiram toda a ciência econômica dos escolásticos. Apenas acrescento: de Oliver Cromwell.. sem um interior agrícola que sustentasse algo semelhante à economia natural dos fisiocratas. H. tão larga que.92) Ora. fora da moldura da natureza e das dimensões humanas. 86). dissensões religiosas obrigam a Tem cinco anos quando que nem por isso foi menos eficaz. (Em 1715.no sentido específico da palavra doméstica e da economia natural . Ao contrário. ao atravessá-Ia. os valores calvinisindividual tas perdem seu lastro religioso e se laicizam. bastante próximo filiando-se à seita presbiteriana. ] assim se formulava: "Que dizer de um homem que empresta a outro que não está em estado de necessidade. (Lüthy. por uma tortuosa de Genebra. Calvino "descobria fator de produção" (id.

que dura até sua morte. caracterizada pelo conflito entre a monarquia e o Parlamento. com o nome de Carlos lI. quando o Parlamento convoca o príncipe holandês e protestante. (b) "O editor crê que o que se narra (the thing) é uma perfeita história de fato (a just History ofFaet). em que não há qualquer aspecto ficcional (any Appearanee ofFietion)" (Defoe. acertadamente. quando avançavam sobre Londres. A transformação política pela qual o país passara havia conhecido uma base para o romance. ano da chamada Glorious Revolution. com 59 anos. um católico.que. leva-o a uma segunda bancarrota. Nele. necessariamente. em que ironizava o anglicanismo. de sua parte. importador de vinho e tabaco. P. é confinado na mal-afamada prisão de Newgate. foi motivado porque sua segunda falência e consequente prisão o obrigava a outro ganha-pão. Em seu decorrer. Morto em 1685. Defoe está à frente do Review. Outra vez. além da alternativa intitulativa Or A Military Journal of the Wars in Germany and the Orange. provável fonte para o nome de seu personagem (d. o rei se pelo forçado abandono de seu negócio. Entre 1704 e 1713. para a instrução de outras [. The Life and Strange Surprizing Adventu res ofRobinson Crusoe. um periódico em que negócios. enquanto. Data de então a monarquia constitucional inglesa. Guilherme de Orange. 269 principais de Defoe: a jornalística. Escrito há sessenta anos por um cavalheiro inglês que etc.A experiência sofrida sob Cromwel1 servira ao Parlamento para que seus membros reconhecessem tivesse sua legitimidade fundada na hereditariedade. Cromwel1 exerce uma verdadeira ditadura militar. James lI. procura restaurar o poder monárquico absoluto e preparar seu filho. Entre 1660 e 1688.. ao contrário do falecido. P. Timothy Cruso. Assim o Memoirs of a Cavalier. Já aí identificamos Wars in England -. Não passa também de rotineira a inferência de que Defoe não tinha grande aproximação com o sistema literário em formação. segurador de navios. The Storm.: 1966. adaptando-os.: 1719. mas à fé religiosa do monarca. Não estranha que o jornalismo atividade a que com mais frequência próximo da política. Só bastante maduro. * Para uma apreciação minuciosa do entrelaçamento dos planos político. sua carreira "literária" esteve relacionada com seus desastres financeiros e seu faro em descobrir acontecimentos de interesse público. seja incorporando-se gia-se ao público. da alegoria da peregrinação e com os livros que serviam de guia para a vida. sem que terminasse sua forcoma fase política vivida pela mação. Assim seu primeiro livro de cunho literário. confronte sua biografia por Backscheider. duas afirmações se destacam: (a) "O relato é contado com modéstia. em 1719.R. que terminou com uma guerra civil.3). entra em falência. com seriedade e com um uso (applieation) religioso dos acontecimentos que as pessoas sábias sempre empre- gam. às tropas de Guilherme de as três atividades seja pela publicação de panfletos. o Parlamento se insurge e James II é deposto. informava-se recorria sobre os negócios e. e apoiou a revolução de 1688. ( . fosse a diripor meio dele. J. capaz de interessar um público razoável. Hunter. isto é. Entre 1685 e 1692. Por volta de 1683. ]". comentadores e introdutores das obras ficcionais de Defoe já chamaram inúmeras vezes a atenção para o fato de a negação de sua autoria e de o relato não ser inventado serem recursos que o autor repete desde sua primeira obra extensa. acusa-o de traição e o executa. como . de posse da autoridade. que formula a diferença do perfil político da ilha em face dos dilemas que ainda serão vividos pelo continente europeu. estabelece-se como comerciante em Londres. Desde o início. Carlos II é substituído por seu irmão. A questão que agora se levanta não mais diz respeito ao princípio da hereditariedade. os dados acima importam por mostrar a relevância dos ramos protestantes e por acentuar a especificidade do exercício do poder na Inglaterra. Se a primeira o mantém em contato com a tradição puritana da biografia espiritual. primeira fase (de 1603 a 1641). lhe pareceu. Dez anos depois. Defoe prosperara como comerciante de artigos de malhas. 0. De novo. no Parlamento. apresenta um longo subtítulo que começa por "Do ano de 1632 ao ano de 1648. publica sua primeira obra aclamada como literária. mantinha-se dava conta de que seu poder já não podia ser absoluto. e a pior tempestade que a Inglaterra havia conhecido. Analistas. como seu herdeiro. o que.: 1989. 268 afinal. um puritano. O partido parlamentar vence Carlos I. Embora corriqueiros. como exemplo. sucedida em 26 de novembro de 1703. o Parlamento tira do exílio o filho do executado e o a importância de que o governo investe. Esses dados cronológicos hão de serrelacionados Inglaterra. de fato. o exercício do comércio lhe trará a primeira grande contrariedade: em 1692. política e religião se misturavam.foi colega de um depois famoso pregador. em 1658. The Storm (1704). membro da facção que se desligara do anglicanismo. cuja importância já não era discutida pelo Parlamento. comercial. a política e a comercial.. o embaraço atingirá o panfletário religioso: pela publicação de The Shortest Way with the Dissenters.248). Isso se passa em 1688. jornalístico e literário na vida de Daniel Defoe. as tropas do Parlamento são lideradas por Oliver Cromwel1.:+ Comecemos a considerá-Io por seu prefácio. realiza-se a restauração monárquica. a assumir o trono e a acatar que o centro do poder reside.

Ele se combina à ênfase da afirmação de que o relato é verídico. Escrito por um cidadão que..: 1981.: 1981. limito-me ao primeiou memórias das ocorrências mais notáveis. Sem que Defoe pudesse evipertence o romancista em formulação ligeiramente à sua habilidade testemunha de narrador desenvolver um recurso que. que ocorreram em Londres. é típica da abordagem de seu objeto por Defoe. Já insistimos tanto nesse ponto que me pergunto se ainda vale reiterá-1o. já não seria levada a sério. Poder-se-ia acrescentar uma terceira propriedade: evitar que. cuja fabulação podia ter consequências Hão de ser reiteradas atentos à autenticidade Defoe: 1. mesmo que esse último não seja a Londres no ano da praga. no Acrescente-se que a prática do anonimato sua. 15) de uma suposta mesma. ademais. tor sob cujo nome agora aparecem. relato dependente presenciado. Defoe faz uma cara séria. Sem maior cuidado. em 1720. ao privilégio da verdade acrescentava-se a suspeita despertada funestas pelos muitos relatos de viagem. esse motivo é de fácil apreensão: que o jornal em muito serviu para a aprendizagem da linguagem do romance. 1). o puritano suspeitoso da arteo forçavam ao truque inofensivo que A]ournal of the Plague Yearexemplificava. diz conter "observações ção (visitation) este entretempo. Como trataremos com mais vagar de MaU Flanders. "criar uma testemunha XIX). Como indica o introdutor da edição que cito. portan- o livro apareceria com seu nome e "por mais de meio século depois de sua primeira publicação. ] A fixação do verdadeiro. perdem a demora na legitimação do romance. Na Inglaterra. mas todos sabem que é um romance. só depois da morte de Defoe Dois elementos nele . durante a última grande apari[da peste]. seu introdutor converte em virtude a técnica de ator de teatro desen- Em consequência: como romancista" exclusividade intérpretes (ib. o escrina livraria ou na biblioteca. No caso de Defoe. ocular tornou-se seu empenho não é como Pope. Como essa razão não é pesquisada. durante todo permaneceu em Londres. é o fato novo: o das mensagens e... base tanto do secular controle ético-religioso como da rápida aceitação do modelo científico. como também se anotava na Primeira Parte. está sempre VIII).: 1966. que não pestaneja. ao mesmo tempo. Ao assim da autoria tivesse uma razão tão fazerem. Façamo-Io de maneira sumária. Admita-se com Burgess que. agem como se o ocultamento a oportunidade de compreender volvida por Defoe: "A medida da verdade é o olhar sóbrio.o repórter de atualidades. o relato se tornasse monótono e desinteressante. ro.". por mais tênue que fosse. mantém [. O disfarce é repetido tanto em A Journal of the Plague Year como em MaU Flanders. No prefácio ao Robinson Crusoe. já assinalamos que essa prática era tão frequente que alguns o entendem como um clichê que não se há de levar a sério. Nele. Ora. (lb. ausente" (Mullan. Ela consistia em fazer de maneira o mais absoluta possível a descrição do uma dupla habilidade: compor com que se superpusessem que teria sido visto com a expectativa do leitor quanto ao que deveria ter sido visto. diz ao leitor que "O editor crê que o que se narra é uma perfeita história de fato. estendendo-se mesmo a não-romancistas Essay on Man. Aprendê-Ia e exercê-Ia com tamanha perfeição servia. públicas e privadas. Por certo que isso exigia do romancista propriamente a narrativa e conhecer o que o leitor supunha como verdade. Se esse objeto é real e todos seus aspectos narrados historicamente verificáveis. para o repórter e o romancista. 13) O elemento jornalístico. de algum modo. J. avanço tecnológico pela primeira vez aqui referido. da pestedo tinha cinco anos -. a negação da ficcionalidade tar essa consequência. o repórter de atualidades.J. em que não há qualquer aspecto ficcional". É verdade: serviu à medida que ensinava ao autor a emprestar aos acontecimen271 270 .: 1981. Abre-se um caminho que seria interessante explorar: é costumeiro dizer rasteira que pudesse ser descartada. crente na existência de um Eldorado de fantasia. editados em 1722. contudo. (Burgess. era prontamente tomado como uma amostra genuína de autobiografia do século XVII" (Mullan. para a mimic authenticity Defoe apresentar-se Atento à questão que levantava O diário do ano como testemunha Anthony de um fato que sucedeu quanBurgess já chamara diversa: a atenção para o leitor que embarcasse. XVIII). por fidelidade à verossimilhança. "Seus romances são todos fabricações de histórias pessoais e estão tão imitativa (mimic authenticity) que o autor deles. em 1665. por si do que dizia haver não podia comprovar a autenticidade Para tanto. J. era decisiva a astúcia do narrador. de tão repetida. do observador" (Mullan.A. Nunca antes exposto em público': a propósito do que era hábito de duas observações permite a rapidez na transmissão to. tal testemunha o pressuposto da veracidade: tornar o ocular.etc. então o narrado r deve também possuir um lugar verificável no tempo e espaço.. É claro que.

Mas tampouco sua formulação verbal seguia os torneios recomendados pela retórica e exigidos pelos que haviam recebido uma educação formal. pois. Foge então para Londres e embarca no primeiro navio que o aceita. uma série de Índices que. que era ele próprio. censurou-me haver desprezado o aviso e a quebra de meu dever para com Deus e meu pai" (ib. supõe o recuo do controle. que ainda não chegara ao grau de dureza que tornou-se sua depois.5). pela impossibilidade cronológica de que ele próprio tivesse testemunhado a peste em Londres. Lembre-se o que já dissemos na primeira parte sobre Richardson.ou. sem certa perspicácia. factualmente. como dizia Anthony Burgess. tampouco mostrava traços de semelhança com aqueles enunciados duramente cotidianos e factuais? Em síntese. era apenas decorrente de continuar a não haver uma legislação que protegesse os direitos do autor. Ou seja. Deixemos. apesar de sua cara séria. Fielding e Diderot.tos a fisionomia que se desejava que tivessem. ao contrário. litúrgico e ferroviário. embora. D. Logo o mar encapelado o enche de pavor e remorsos: "e a minha consciência. reinando inconteste quase apenas nos livrosjá fabricados com o propósito de setornarem best-sellers. não prejudicou e não prejudica seriamente o uso do recurso: o realce do eye-witness se expandiu e consolidou no que ficou conhecido como estilo realista.fosse um chiste. O que vale dizer: no século XVI! inglês. forjam. podia ser constatado de maneira 272 elementar: por exemplo. assim o fazendo. Defoe prolongasse o veto ao ficcional. a abertura de um território não totalmente coberto por seu mecanismo. Tomando a palavra em seu duplo sentido. Defoe ao mesmo tempo se afirmava como romancista e se negava a ser reconhecido como tal. chamemos de estações as fases pelas quais passa o náufrago-herói. Rousseau. Essa facilidade de desmistificação. Mas o espírito aventureiro de Robinson prepondera contra o conselho paterno e a prudência da mãe. É certo que. tal como Defoe pretendia. sabia-se que eram ficcionais os relatos que dele se liam. por su. toda a especulação e concentremo-nos em Robinson. a narrativa do náufrago-aventureiro.lação como escritor.: 1719. Apesar do protesto do prefácio do autor. a expor como matéria documentada algo que não era verdadeiro. mas que não podia. Que seria essa outra coisa? Que não se confundia com a simples verdade. O que vale ainda dizer: a legitimação do romance. porém. ao contrário. no entanto. Tornar a verdade dependente de qualidades do olhar do observador não só nos soa bastante ingênuo hoje em dia como é um dos meios de que se alimenta a fraude industrializada pelos media. na tentativa de converter seus romances em um auxiliar seguro de sua sobrevivência.. o pai louva o nível social mediano que já lhe está assegurado. 7). governada pelo privilégio conferido ao fato da verdade. os mecanismos de controle já não dispunham dos meios que lhe asseguraram a vitória fácil sobre um Accetto ou já não impunham a urgência de uma dupla leitura como aquela a que Ariosto esteve obrigado ou a exigência da aparente inofensividade das aventuras do Quixote. A primeira se manifesta na desobediência ao conselho do pai. Que então dizer sobre a relação de Defoe com o controle do imaginário? É incontestável que. As promessas que se faz de renunciar ao espírito aventureiro desaparecem quando cessam os vagalhões. desempenhando o verdadeiro autor. uma espécie de terra suspeita. como se a tivesse testemunhado ou tão-só a transcrevesse. por sua semelhança com o cotidiano estereotipado de certo tempo ou espaço. Contra seu propósito de correr mundo afora. tiveram incidência independente . Mas a tranquilidade dura pouco e uma segunda tempestade termina por levar o barco a pique. enquanto o leitor cuidadoso verificava que dispunha de outra coisa. contudo. ele é secundário na literatura. na aparência. convertendo a invenção de seus relatos em memórias ou autobiografias. ser apontado como falso . contudo. Defoe ajudava a prolongar o veto ao ficcional. se o cuidado de um Sidney com a poesy não se estendia à indagação da prosa ficcional e se o pathos da linguagem teatral. o papel de simples transcrito r ou copista.. Como se podia saber que identidade teria aquela coisa que Defoe publicava. Embora seus livros circulassem profusamente e não tivessem por leitores apenas comerciantes ou receptores de educação medíocre. empurrava o puro ficcional a ser acreditado como fato. mantendo-se "não exposto às muitas vicissitudes que afligem às partes superior e inferior da humanidade" (Defoe. de dois eventos que. Hoje. isto é. Por outro lado. tão desenvolvido por um Shakespeare. pode-se dizer que Robinson Crusoe é a primeira autobiografia de Daniel Defoe. mas não a sua eliminação. fosse a aproximação ou o distanciamento. no relato. Essa dificuldade.do gênero que dará à literatura a relevância inconteste que terá no século XIX. com ele o compromisso entre a exigência de veracidade e a admissão de relatos dificilmente críveis torna-se muito mais largo. Contudo Defoe o desenvolveu há quase trezentos anos. Salvam-se todos e Robinson tem 273 . não chegou a ter êxito. nenhum deles o ajudou a encontrar autonomia financeira.

mantinha-se que. fora seu contramestre como a segunda estação do protagonista. ao expor as razões por que vacilava. este lhe responde: "Esse é outro caso. podemos acompanhar deve saber. 275 ao capital guardado . A um modo de seu senhor. Quanto dirige para o Brasil. em todas minhas aventuras. você nunca mais deve se embarcar. ] era muito de algum estava se com a conversão do infiel ao cristianismo não para sua fé estrita explicação influenciada como português. a conexão entre as aventuras de Crusoe e o fundo puritano de Sendo deixado na costa do ganho mas de todo modo mantido pelo autor.. deve considerar o que lhe sucedeu como um sinal simples e visível de que não há de ser um marinheiro". se ele se houvesse convertido ao cristianismo. muito além de sua necessidade. dele se aproxima. é minha vocação (calling) e. Para isso. Robinson torna-se um comerconsegue um bom lucro na costa da Guiné. A expressão não em um sozinho porque aparece em toda sua dureza. ante a pergunta de Robinson se tampouco ele voltaria a navegar. -sucedida". disse ele. advertido de sua história. callinge duty. esteja em que "a perspectiva pelo individualismo Robinson econômico da classe comercial e pelo puritanismo modo secularizado como o próprio Estabelecida deteriorado. que o faz reconhecer a bondade do capitão português. percebe no horizonte um navio maior. E. posso dizer bemse torna um traficante de escravos.. É um negreiro português. íntegro e honesto.: 1957.a oportunidade de ouvir o que o capitão. A dificuldade de comunicação é vencida graças a um marinheiro Como o barco' se que escocês. terá condições de reconhecer. diz Robinson "estava relutante em aceitá-lo. Por isso embarca no mesmo navio.49). "Mas. que se exprime nos romances de Defoe" (Watt. Está mal usada agora acima do nível de seu vizinho. o personagem negociante muito distante da prática puritana. assim se passou comigo" (ib. vo dos mouros. aparecem dois termos. Parece estranho que o vendedor se contentasem geral (ifhe turn'd Christian). na primeira viagem. declara que "costu- mava dizer que vivia como um homem jogado em uma ilha deserta. assim como a prosperidade de quem se apossa de um pequeno barco. Sua indecisão termina lhe oferece um arguquando. mas porque hesitava em vender a liberdade do pobre garoto que me ajudara tão fielmente em que eu a recuperasse" (ib. a contraparte 274 muitas vezes se converte no próprio meio de nossa maior adversidade. Na "única viagem que. na linguagem dos reformistas. seu jovem trique aquele não ao pai do que não compreendera fosse um católico romano. não porque não quisesse permitir que o capitão o tivesse.. (ib. capitão português..: 1719. a segunda implica uma inversão de posições: o traficante habilidade de reconquistar que terá agora de desenvolver será bem outra: encontrar a liberdade.. A sorte lhe reaparece. o jovem mouro Xury. Sua boa estrela. logo se apaga. Se a primeira estação confundira -se com sua iniciação. 15). Robinson deixa-se convencer por seus vizinhos a reto rnar ao tráfico negreiro. A seu convite. conseguindo com suas primeiras transações depois que lhe remetessem com a venda do barco e do mouro infeliz e. seu pequeno barco e seu servo mouro. sua conduta não se convence e embarca pela lhe ensina o indispensá- segunda vez. o capitão se oferece para levá-lo. 29). leva -o a inverter capital em ferramentas' a comprar um escravo negro e a contratar um criado europeu. 26). enquanto foge. tem alhe dizer: mento religioso: o novo dono o tornaria livre dentro de dez anos. "Jovem. Mas não era para isso que desobedecera aos poucos. conta com a ingenuidade ra as agruras de um naufrágio e da escravidão assume outro rumo: converte-se em um plantado r de êxito. Ainda dispõe de um primeiro servo. contudo. Pela primeira vez no relato. seu novo comandante ciante e. mas o sentido é evidente: "Convertera-me da Guiné (Guiney trader)". e é de se presumir que o comandante um papista. do pai pode"con- seu mestre e iniciante morrera logo depois de voltar. D. Brasil com o dinheiro acumulado cima.. I. Conforme o entendimento pulante menos desobedecera era o seu chamado (calling). que terá de prosseguir maneira mais sucinta as "estações" do protagonista. agora comandado No que tomaremos pelo que. graças à honestidade articulada e à perspicácia do em Londres. assim como para adquirir ao último. O que pareceria uma simples manifestação de enfado e desgosto não está longe de se realizar factualmente. a errância de quem já conhecemais tranquilo. meu dever" (ib. tornando-se à recomendação um agricultor de seguira um emprego bastante distante de seu caráter (genius)". associados à fé religiosa do autor. que optou por ficar com ele. Se tivesse um temperamento ria ter-se contentado em enriquecer êxito. O aumento de sua produção de rolos de fumo. Mas o aventureiro vel que um marinheiro do capitão. portanto. em troca de algumas quinquilharias. Tem pelo menos a precaução de exigir de seus sócios que tomem conta de sua propriedade. onde não contasse senão consigo mesmo" (Defoe. converte-se torna-se catiem escravo. Talvez a [.27). É certo que sua plantação de tabaco prosperava. Como se preparasse o leitor para sua maior aventura ou quisesse predispô-10 a pensar que ali ainda não estava seu verdadeiro chamado. 12). por de Londres o dinheiro como traficante.

estabelecera feitora da divindade: seu roteiro de vida. I. (lb. do lugar em que haviam cometido humanos espalhados sua é para de seu ponto de crê-se agora um protegido de Deus. mas que fora uma providência especial que me lançara no lado da ilha a que os selvagens nunca vinham. ] Certas vezes eu debatia comigo mesmo: por que a Providência assim arruinaria por completo suas criaturas e as tornaria tão miseráveis. Assim. para devorar os inimigos que traziam presos. depois de reconhecer que a tempestade causadora do naufrágio sucedeu longe das linhas usuais de comércio e navegação. O primeiro está relacionado ao aumento de sua chance de sobrevivência: à medida que assim sucede. ergui os olhos com toda a devoção de minha alma e. aproxima-se carnificina.) da obra: o naufrágio do navio em que Segue-se a cena mais conhecida A recuperação de um horizonte religioso dar-se-á em dois passos.: 1957. a distância da religião nos romances que sua formação religiosa parece se manter mas a profunda decisão mostra "a relativa impotência que] sugere não insinceridade. onde na verdade nunca antes estivera. evidenciar-se a intervenção Só a oposição infração revelasse poderia sucederá ao preceito entre fantasia e razão lembra ao longe sua formação ao conselho paterno não seria necessariamente ser a condição os caminhos religioso porque poderia de Robinson se tornarão puriuma tana. pretação weberiana. Só ao caminhar centra na esfera das relações em torno do capital. o mistério brir que selvagens canibais de outras ilhas aportavam no lado oposto onde construíra sua rústica mas confortável habitação. De todo modo. Assim. na posição em que se dera seu naufrágio e onde. va sua linha de raciocínio: modificaI Robinson embarca. depois de verificar que os selvagens ante o sangue e os membros vista" (Watt. Havendo até então se considerado se afastam em suas canoas. abandonando-as sem ajuda. religiosa. ] embarquei numa má hora. [o em sua ilha deserta. grifo meu) o seu chamado. depois de recuperar as forças em uma ilha deserta. sobe de novo a colina. Com efeito... portanto. do dever e do chamado. 119. Sendo misteriosos saber se a rebeldia As perguntas ao ex~náufrago não era o requisito manifestasse? ainda mais agudas depois do que no enunciado secularização reflexivo de sua de Defoe. ele se diz: Mas tinha pressa e obedeci cegamente antes aos ditames de minha fantasia do que à minha razão.(Volta-se a observar fortemente tos de viagem. por benconseguinte. logo me convenci de que ver a impressão de uma pegada humana não era algo tão estranho na ilha como imaginara.. temos de entene salvamento ( [. 31) protegera. considera que sua perdição ou sua salvação está na dependência de uma decisão divina. que o aguardam. em favor de seu pólvora. em primeiro de setembro de 1659. tendo de descobrir longe da cena. quão terrível era a condição em que se encontrava. (lb. Não seria esse. até o instante se vê na terra firme da praia. a preocupação tivessem fiéis ao "princípio o elo entre a vigilância sobre a exatidão dos rela- meios para a sobrevivência. afinal. havendo internalizado os valores calvinistas em que Robinson 276 da ação. A desobediência para que se lhe da Graça. que. no mesmo dia em que há oito anos atrás abandonara meu pai e minha mãe em Hull. do ponto de vista dainterDefoe já pertence favorecedores à geração que. bebidas e roupas para os anos de isolamento Como a "autobiografia" der ser muito posterior ao naufrágio i é escrita bastante tempo depois. de saber. com lágri277 .82). dele retira instrumentos indispensáveis para as atividades mais elementares.. exceto ele.. depois de vomitar. já os conpor si os que. sua reação deixa de ser imediata e "voltando a mim mesmo (recovering myself). todos se afogam. [. por castigo ou desígnio. deixando-as tão completamente abatidas que mal se poderia conceber que elas fossem gratas por tal vida? (lb. através de idas sucessivas aos destroços do barco. a reflexão que se segue. ao desco- Depois de meditar que bastaria ter usado metade da prudência próprio interesse para que recusasse a oferta que lhe faziam. na extremidade da ilha. o personagem não mostra a mínima inquietação de que mesmo os romances desta linhagem se mande realidade" e a colonização das Américas. quem para que ela se em Ao descer a colina.. de modo a rebelar-me contra a autoridade deles e agir contra meu próprio interesse. vê. Isso equivale a dizer que.. 47) Deus é então concebido não como alguém que o castigara senão que o da Graça? Desse modo. tamanho Seu horror um desgraçado.

sede meu amparo. ambas se exercem sobre Sexta-Feira-a a autoridade sociopolítica vés de "ajustes refinadamente liza em Robinson. isto é.. A retomada do contato de Robinson com seu Deus não torna o romance Pode-se mesmo afirmar o contrário. por muitos anos. sempre explora uma pretensa memória autobiográfica. sem que sua doutrina uma obra de pura espiritualidade.mas nos olhos. por um lado. tualização dos atos do personagem veio a favorecer o capitalismo. para que Robinson maneira apropriada. inferia-se que ele deve ter feito assim possível por apontar ao indivíduo. (lb. ao agrade- . daqueles que. tendia a ver cada item em sua experiência pessoal como potencialmente rico em significação moral e espiritual. (Afinal de contas. 120). introspecção que lhe serviria de filão correlato à "autobiografia espiritual". expressa sua crença na superioridade dos brancos. sua primeira prece. de outro. Robinson encarna a segunda geração dos dissenters. havendo internalizado ação no mundo. assumindo a observação a aparência de foco principal..• ~ ~~J . Em outras palateológica o pretendesse. Robinson se torna o senhor absoluto de uma ilha mínimas de uma vida civilizada. será seu único companheiro. assim como o calvinismo. a uma "inescapável ironia" (McKeon) e. ria ficcional. fundamentava sem desafiar o interdito que os dissenters mantinham de encontrarmos « [ ••• ] . restabelecesse a comunicação com seu criador. suas intenções. e o herói de Defoe age de acordo com essa tradição quando procura interpretar tantos eventos mudanos da narrativa como alusões fi der. (ib. depois de tantos anos de isolamento do divino. compreende cer a Deus não haver nascido entre canibais. seja por salvar 278 . restringia-se a uma simples súplica: "Senhor. como que soubesse dirigir-se a Ele de Caindo doente e procurando orar.. nosso pro- ~" . que. que uma firme convicção de retidão moral" (ib. em sua obra ficcional. sem desejo do bem ou consciência do maio esmagara por completo e que. Aqui está contida 279 condição para que se expanda seu domínio da ilha..4 . seja a tripulação de um barco inglês. Embora o prolongamento dessa indagação pudesse ter interesse. Essas conexões e separações entre o caráter religioso de valores e sua utilização político-econômica não são feitas do modo simplório que damos a entenna internalizasociopolítica" internalização (McKeon.Ji seria preciso não só que nele confiasse. Fazemo-Io.. entre os marinheiros comuns.: 1987. (Watt. assim também a prática da autobiografia espiritual habilitou Defoe a converter a documentalidade em base de seus enredos ficcionais. O que vale dizer que. era eu a criatura mais insensível. mantendo-os assume outra inflexão: simplesmente. Aos poucos. afastam seu aspecto religioso. no fim da entrada do dia 27 de junho.<1/ divinas capazes de ajudá-Io a encontrar seu lugar próprio no esquema eterno da redenção e da condenação.. M. à ingenuidade do próprio Defoe. é do Deus cristão. nos acontecimentos de sua vida cotidiana. Ao assim fazer. amotinada Sexta- -Feira (Friday). ::t~1 ~~. 332). Como afirma McKeon.77) Mas.. Ao modelar desse modo o pensamento a tradição religiosa a que nunca dera muita atenção: Se Deus concedera ao indivíduo a responsabilidade principal por seu destino espiritual. a espiritem uma função bastante pragmática éa vras. "Robinson Crusoeé um experimento ção não só da divindade como da autoridade 333). Defoe corroborava como o próprio Defoe. fora o escolhido por Deus. irrefletida e corrompida que se pode conceber. É claro que o processo se reao qual o submete. é de Robinson. portanto. 318). seja o branco que teria tido o mesmo destino. L: 1957. sem levar em O impulso para a vera- conta a questão do controle do imaginário. pois é grande a minha dor" para legitimar o romance. a Graça já se manifestado Robinson está agora propenso em ter nascido inglês. 65) Por isso. desprovido do menor senso do temor de Deus no perigo ou de gratidão ao ser libertado. seu salvador e mestre. afirme: dicação de historicidade da autobiografia que Robinson agora evidencia é um canal vital para a reivinespiritual" (ib. agradeci a Deus ter-me feito nascer em uma parte do mundo onde estava separado de criaturas tão terríveis como aquelas" (ib. Isso se dá atrasutis que compreendem o processo de alcançar aura de .67). A pergunta por que fora ele o único a salvar-se nista. chamando apenas a atenção para o fato de que o romancista. o exercício da sobre a matélegitimada em sua tradição religiosa.) a reconhecer um sinal da presença divina que antes se fizerado protago- dos canibais aquele que. Daí a importância cidade introspectiva um analista que." "J\ pósito é mais restrito: relacionar o fundo religioso com a maneira que Defoe usa uma certa estupidez da alma.. vinismo. os valores religiosos ressaltados pelo calapenas como lastro para a dotada das condições em tudo o que de alguma maneira o favoreça. O puritano. como escreve em seu Diário.

o indivíduo) é consciência (d. o ato ficcional. com a força que mostra em Defoe. Fingimento primeira (da historicidade) e engendramento (do romanesco) são as na do tais mecanismos. Petrônio já o mostrava. Ora. isto é. na decadência romana. Pois. 222 - d. depois de serem descritas as cenas principais da vida da personagem. marca um novo terno território do romance. a matéria que gem declara que era seu desejo terminar a apresentava.. o romance se restringiria qual se distinguiria de controle. "Presume-se que a autoria contorna o próprio controle com que se procura submetê-Io nado status quo ou a certa plataforma cauda deixa de ser portadora que visava à repetição talvez seja indispensável suceda não é indispensável de veneno para tornar-se ( infinita converte-se que seu agente tenha disso consciência. ainda o capítulo 281 IV.: 1987. ricidade para que se converta que ela chega perto de (McKeon. E isso sem que seja é ritório a ser trilhado pelas palavras: o da narrativa que finge os passos da histoperdida a qualidade do produto controlado.. Mas seu Satyricon não deve ter sido muito estimado. fic- crença religiosa. os primeiros parágrafos do "Prefácio" contêm um recurso semelhante: em um mundo tão repleto de relatos fictícios (novels and romances) é da personagem. já não se pode repetir com Locke que o self(isto é. O imaginário. em que.: 1722. apenas por ser uma história enganosa. Ou melhor. XXVII. Em troca.. a . M. Locke. que a própria história que "transmite" sem deixar de ser controle.a problemática do realismo: à primeira vista. tico e simpático de Michael McKeon:" [. exponha os motivos por que julga conveniente ocultar seu verdadeiro nome 280 como o agente é sempre um indivíduo. Conforme seu hábito. tanto Villon como Rabelais voltavam a acentuar o lado livre do que veio a ser chamado literatura. não impede que a obra alcan- não soterra pura e simplesmente sua permanência se manifesta desde sua folha de rosto. O controle do imaginário.lI. reitera o fato de o romance não se confundir com um jogo de salão. Efetivamente. Em poucas palavras. na mesma medida em que não o seria a linguagem em ambos é tão evidente o esforço de afirmar a veracidade é. que seu agente não tenha consciência difícil aceitar a veracidade de uma história privada sem que se forneça o verdadeiro nome e demais circunstâncias esteja aqui escrevendo a sua própria história e. o juízo ao mesmo tempo críPublicado no mesmo ano em que ainda aparecem A Journal of the Plague Year e Colonel Jack (1722). desde o começo de seu relato. contudo. MoU Flanders é a obra que. exposto por MoU Flanders. pela metamorfose que nela efetua. que se poderia pôr em Este é precisamente MOLL FLANDERS: CÁRCERES E VIELAS dúvida a alegada ruptura epistemológica. mesmo quando o controle internalizado ce a inscrição (ficcional) e o valor respectivo que se lhe interditava. por excelência. imposta por sua parece criada.: 1690.337). que sacupara que se cumprisse a ruptura entre a ficção literáMas não nos enganemos: tal Em MoU Flanders. Foi preciso o advento do deslocamento epistemológico-que diu a ilha de Robinson ruptura ria e sua sujeição aos mecanismos talvez já tremesse no terremoto ético-religiosos. o autor do relato. A cobra que morde sua própria outra coisa. porém. Se eles se encerrassem a ser uma imitação do historiado. É bem verdo que sucedera em parte de seus duas faces provocadas pelos mecanismos face. acrescentava-se: written from her own memorandums. ]" (Defoe. não nos preocuparemos com sua continuação. ] Defoe dá à noção de história verdadeira do indivíduo uma forma tão íntima e introspectiva se parecer mais com umaautocriação" é tão hábil em obedecer à exigência de veracidade tícia. É certo que. Ou seja. Note-se. E. por exemplo. Eis a razão por que a folha de rosto falava em memorando. Nos tempos medievais. contra o qual sempre se levantaram os cultores do que fora o latim do Império e a permanência dos bons costumes. pois a obra nos chegou incompleta. ele se justifica pela matéria em que se apoia. J. Como nosso propósito era menos analisar o próprio Robinson Crusoe do do romance [. dade que em parte alguma se repete o recurso de que o autor lançara mão em Robinson. a conversão do fictício em transcrição É bem pequena a diferença quanto ao recurso à escrita do diário: da matéria lida. no qual a "fidelidade" à memória anos de solidão é garantida por um diário que escrevera enquanto dispôs de tinta.. podia ter sido autêntica. Defoe se "isentava" do que "transcrevia". isto o ponto delicado fiel do sucedido. quando se realiza a inversão da repetição infinita em invenção. convertendo-a de dado de fato em certo ato. a servir a determide valores. 0. O controle em invenção. para que assim do que fez. que verificar os condicionamentos que trouxe para a constituição inglês. antes se aproximava da que seria própria a uma encarcerada em Newgate do que da penitente humilde e madura que a personasendo.3). Sua linguagem.

eram enviados para as colônias norte-americanas. Como esclarece o responsável pela edição crítica que usamos.8) Forma-se aos poucos o núcleo da primeira ironia que marcará a vida de MoU:depois de fugir de uma troupe de ciganos. que está de acordo com a instituição controladora e que se dispõe a romancear fatos havidos ou corriqueiros talvez apenas para ganhar mais alguns trocados.a transgressão do controle.E. terá a oportunidade de tornar-se uma. sem que eu saiba nada sobre quem a custeava ou quem lhe dava ordens. de sua sociedade. sem nenhuma experiência. Os dois irmãos a querem. a cantar. quando deve passar a sustentar-se com seu trabalho de doméstica. Nascida na prisão de Newgate. A intervenção do mais novo traz certa nota de comicidade: ele a quer a sério para sua mulher. mas com um pequeno estoque de virtude".. declara que ela se comporta como alguém dotado de "vaidade e orgulho. são amantes. não o aceitar. já crescida. agora. Permaneceria livre da miséria até os oito anos. O narrado r. Mas a complexa ironia ainda prepara um terceiro passo: na casa daquela que tão bem a acolhe há duas moças e dois rapazes. ] Nasci em um lugar tão miserável que. Já pela maneira como conduzimos a abertura desse item. H. ademais.. nunca mais ela o terá.A confusão linguística aumenta porque.· não dispunha de uma paróquia a que pudesse recorrer para me alimentar.seguir). a do caçula seria simplesmente execrada. podia candidatar-se a subir para o próximo passo de uma gentlewoman. Sea atitude do mais velho em seduzir alguém de classe mais baixa era aceitável para os padrões aristocráticos. como esclarece a mesma nota 282 283 . que. Tem então dezessete ou dezoito anos. Com um pouco de sorte. torna mais complexa a noção lockiana do sujeito humano. A ironia que começa a desdobrar-se decorre do choque de expectativas entre a pobre miserável e a orientação ainda aristocrática da sociedade. a falar francês.: 1996.se ela. ama-o e supõe-se correspondida. ao lado do sentido de "mulher de bom nascimento e/ou bem-educada". "gentlewoman" ainda tinha por sinônimo madam. sobretudo de Virginia e Maryland (Hunter. desde autores de pequenos furtos até de assassinatos. Ou seja.to tum out of doors. diz-lhe. uma educação que sejulgava refinada: aprende a dançar.. a família ameaça expulsá-Ia de casa . (Defoe. 0. P. Sua sorte será sua primeira desgraça. entende-o em um sentido antes burguês que aristocrático: por gentlewoman não compreendia mais do que ser capaz de ganhar seu pão por seu próprio suor" (ib. Durante metade de um ano. é por estar dela grávida que a mãe não é executada. com as fIlhas da casa. O sedutor completa sua conquista e ganha seu silêncio dando-lhe uma bolsa com dinheiro. promulgado em 1718 . O segundo e decisivo passo será dado a seguir. Mais conhecedora. compreende-se que o recurso ao resumo do enredo será empregado com a limitação de que seus muitos acontecimentos. É o que se tentará fazer.32). sendo a seguir beneficiada pelo Transportation Act. 12). a protegida já sabe o que é ser uma gentlewoman. Com a morte daquela que fora sua protetora e o abrigo que encontra na família com que passara algum tempo. comover a senhora que por ela se responsabilizara e a converte em sua ajudante.então significava "uma mulher teúda e manteúda". ela é facilmente seduzida pelo mais velho e. o termo significava "dama de companhia" (Kelly. contudo. O desejo da criança é tornar-se uma gentlewom~n. A igualdade self = consciência torna -se um conto da carochinha.: 1722. apaixonada por quem a seduziu.por ele. Como ele não esconde seus propósitos. é mais prendada e mais bonita que as filhas da casa. as desgraças e fortunas de MoU. um magistrado a entrega a uma senhora que cuida de crianças de sua condição.cúmulo da ingenuidade. a ser uma dama de companhia. ela recusa a proposta de casamento porque está. entretanto. Consegue. feita por um agente chamado Daniel Defoe.: 1973. isto é. Durante anos. Sua primeira infância se condensa em uma frase: de Kelly. ela tem uma vida tranquila e. de qualquer maneira. Chega a acreditar que ele a escolherá para esposa. a criança encontra a simpatia das senhoras da vizinhança. isto é.sejam condensadas em um único eixo. Porque a personagem ainda não é propriamente aquela que receberá o nome de Moll Flanders. nota 1. de fato. O sedutor é então obrigado a entregar-se ao jogo paciente de convencê-Ia a aceitar a proposta do irmão . A resistência da futura Iy1011 revela como na personagem permanece a inocência de quem desconhece os jogos que haverá de aprender: [. fiel a seus padrões mais estritos. Uma delas a convida a passar algum tempo em sua casa. ll).A personagem. no sentido modesto que fora o que ambicionara: ganhar o suficiente para ter uma vida simples. nem posso oferecer outra explicação sobre como sobrevivi senão a de que certa parenta de minha mãe cuidou de mim por um certo tempo. em minha infância. na cabeça da criança. a desgraça cairá sobre os dois e. criminosos das mais diversas gradações.

E. tem como sinal da Graça simplesmente fato. no. Sua qualidade mista de cavalheiro e negociante se manifesta por excelência em seu conselho. mesmo sem querer. viera a conhecer no marurbao devasso e mendigo. Nem por isso deixa de se casar com um crá284 associada àquele misto de cavalheiro. O que importa é verificar que a trajetória Flanders é a "prova" dos ínvios caminhos escolhidos pela Graça. Desde ( Aquela que uma dia pretendera junto irônico que destacamos renunciar à resistência maior verossimilhança tornar-se uma gentlewoman compreender reconhece que tem de (Para que. forçado por uma imposição em que ela era quase tão-só a vítima. chegara a adoecer ante o impasse afetivo em que fora posta. A morte do marido faz com que cesse a pausa. na muito requisitada. o narrado r faz com que. A viúva tem poucos meios de subsistência A ex-inocente aprendera entre eles. a resistência da pobre moça. Assim o faz. acrescenta o sobrenome de Flanders. quem o afirmasse não poderia ser levado a da personagem com a Graça se dá de acordo com a ótica isto é. a lição. saber se essa seria a opinião pouco interessa. na adolescência. como no anterior. depois de obrigado a escapar para não ser apanhado que aprendera as armadilhas preparadas por seus débitos: aconselha-a pelo amor. chamar de MoU (prostituta). favorecida na infância pela sorte de encontrar de um casamento uma de que que.49). por ordem sua? (Defoe. de sério. em negócios -. e estar bem casada ou de modo algum casada" (ib. agora estava resolvida a estar casada ou nada. Nascida na miséria. tudo encaminha para a denúncia da exploração das classes economicamente inferiores e o sentimentalismo que. Quem nos diria que o trajeto de MoU remete à tópica da Graça? Por certo. que é a mesma coisa?Evocê me transferirá aseuirmão? Vocêpode transferir meu afeto?Pode-me ordenar que deixe de amá-Ia e ordenar-me que ame seu irmão? Pensa que está no meu poder fazer essa mudança.. não sendo. O relacionamento da chamada segunda geração de calvinistas e presbiterianos. durante as núpcias. em Londres.) É evidente que resumimos ao máximo. sabe qu'al a busca de convencê-Ia a aceitar o outro. ainda em fase de aprendizagem laço que lançara sobre si mesma". KeUy. O ato final do conestá em a personagem e então aceitar casar-se com o irmão enganado. embora decisão a seguir. por sua beleza e obstinação.. A maestria com que articula os diversos ângulos da questão demonstra o grande romancista que é. servia "de santuário legal para devedores insolventes" (ef. Mas não nos apressemos. por alusão à cidade de onde vinham os tecidos que negociavam. MoU. H. Ao contrário do que seria de esperar. Pois é assim. o marido a tal ponto que não perceba que sua do irmão-aman- o irmão mais velho embriague mulher não é mais virgem. enquanto problemática religiosa. [. aquela que o dar-se bem no mundo. 49). e o relato parece emudecer. antes do o marido não conta por que está sempre fora no mundo. Mas esse não é caminho de Defoe. depois de muitos anos de existência em sua ilha. É certo que seu segundo casamento se faz por sua escolha. sua esposa. Já não se fala 285 . como posso dizer. farão a fortuna de Richardson. em breve. deverei agora desmentir todos esses argumentos e me chamar sua prostituta ou amante. mais saber de vida que. 48). Por outro lado. Sucede então uma pausa ante a qual cessa toda a agitação. a protagonista a vender passou a se com a maior urgência o que ainda houver na loja que tinham possuído. a ingenuidade não se poderia dizer que ditado por seu interesse. "Fora enganada uma vez por aquele embuste chamado amor.: 1973. Os filhos são adotados pelos avós. que MoU Flanders termina. conhecedora seduzida e engana- do desfecho. estaria desarmada inicial. o ex-náufrago Crusoe. Seu marido de agora é um plantador na Virginia. o que recebera do irmão-amante.32) pula: "Nenhum mendigo vivo soube melhor do que meu marido ser um lorde. nota4. O romance ainda está no seu primeiro quarto quando MoU entra em seu terceiro casamento. que. a inexperiência da senhora e das filhas de casa. casamento. Toda a artimanha te. Mas a questão ultratortuosa de MoU para que sequer ousasse pensar que o Senhor reservara alguma benesse para si. Mas o leitor logo saberá que a aprendizagem da protagonista não foi suficiente..: 1722. mas em que aprendera sem seu cultivo. mas o jogo terminara. a formação religiosa que Defoe recebera faria com que a personagem Não podemos ainda tivesse de acumular muita experiência de mundo do próprio Defoe. ter participado da gastança" (ib. da por crer que o amor tudo resolveria. se convertera em uma mera whore.] Esteve por mim apaixonado durante três meses e o que ganhei com isso foi ter tido o prazer de ver grande parte de meu dinheiro gasto comigo e. D.Se então cedi à importunação do meu afeto e se fui levada a crer que era. na realidade e no sentido próprio do termo. deixando-se enganar pelo "próprio do futuro esposo. ainda jovem e bela. Depois da venda do restante do estoque que tinham tido. alma caridosa..jáacumula. A enganada entende que não pode senão casar-se com quem não deseja. meio que. durante cinco anos o casal tem uma vida tranquila e dois filhos.

pelas vidas depravadas que tivemos" (ib. vendo sinais da Graça mesmo onde parecia intervir apenas o acaso as sementes que brotam sem seu propósito. Com razão. O relato sofre então uma reviravolta completa: [. Mas suas diferenças são significativas. (Pode-se notar que ela não sai de qualquer relação sem alguma coisa no bolso. e tudo sob a aparência de uma esposa honesta. MoU. é apanhada.) as to be nice in point of religion] (Defoe. por um furto insignificante.. que não teve bilhete com que dela se despede. não de novo na miséria. e MoU conhece em Bath o homem que seria o quarto de cada um pensar que o outro era ricó. Newgate.. e. (Defoe. Sendo sua pena comutada no barco que a conduz encontra-se também condenado. amará. embora não estivesse muito chocada com o crime que ali houvesse. Tudo terminaria por aí se pelas conversas de MoU com a sogra não se inteirasse que ela era a mãe que não conhecera. mesmo que seja apenas um pouco de dinheiro e umas mínimas joias. ] Defoe [.em amor. e deixara à guarda da separa a colônia amerisua herança. porque estavam no fundo de um saco cujos restos espalhara -. 268). O que lhe resta como capital é tanto que cabe num bolso. com 68.. Com a ajuda de uma companheira necessidade. Nesse entretempo 286 Os sentimentos de culpa hoje em dia amplamente associados ao ganho econômico como motivo e o ponto de vista de que os protestos de piedade são de todo modo suspeitos. 111). da presença da ironia em Defoe. onde se tornam ricos plantadores.: 1722.. sem irritação. ao descobrir que a família do quarto marido é católica _ em um período em que as diferenças religiosas eram capitais -. tinha algo de chocante quanto à natureza e isso fez com que considerasse meu marido nauseante para mim. assinala que o leitor contemporâneo tende a ver como irônica .127) Eis que volta ao local em que nascera com o parceiro de seu casamento em desterro para as colônias americanas. temos ego contra mundum (Watt.. voltam à Inglaterra. MoU Flanders. portanto. Se Robinson pertence à geração dos dissentersque tém apenas uma lembrança propriamente distante dos valores religiosos. 132).. Principia então sua carreira de ladra exitomais velha. ] não se envergonhava de ter como premissa maior da vida humana o autointeresse econômico. Saltamos. No enamorado lhe declara: "Não sou (ib. só tem como meta a sobrevivência 119). ] Como estava muito certa do fato. tem uma boa soma guardacometido antes por vÍCio que por a nefasta desfeito. mesmo que tivesse de mendigar meu pão" (ib. a partir do que está tão disposto a reconhecer o dedo do Providência. Com quase setenta anos e ele.: 1957. também tem filhos. levamos em conta que MoU apresentava um denominador comum com o Robinson: em ambos. pode transferi-Io sua mãe morrera.. mil vezes em meus por mim. deixando-lhe 287 . D.1. era seu meio. 120). nhora sua amiga permaneceu cana. em si... Mas [ . cortamos e corremos pelo enredo do MoU Flanders para tratarmos da questão da ironia que mal havíamos levantado. no entanto a ação. que sempre saíra das uniões anteriores com algum capital. transfere-se com o marido para Maryland. Reunidas Como o dinheiro que acumulara intacto.. MoU casa-se de novo. que seu marido. aos coletados. sobretudo quando combinados a uma grande atenção aos próprios interesses econômicos. 71) Sejamos agora ainda mais esquemáticos. não pensava que essa premissa conflitasse com valores sociais ou religiosos. (Watt. de fato. Assim. Mas o casamentoo engano recíproco quase riem. despedem-se capaz de vê-Ia arruinada pensamentos MoU consegue convencer a mãe a depois que embarcasse de volta à fora armado sobre as duas partes. "A verdade é que eu não tinha muito princípio de qualquer espécie a ponto de maneo Inglaterra.irmão. Com ele. até que. dava-se agora por satisfeita com as terras do marido.isto é. E ela mesma o reprova por haver partido: "Censurei-o por haver me abandonado.) É ela é a encarnação do indivíduo econômico. Ian Watt levantou a questão A partir de dados semelhantes pois teria ido com ele mundo afora.: 1722. O sinal de esperteza que transmitiu ao atual marido foi dar a entender que era mais pobre do que de fato era. D. e eu próprio incapaz de sustentá-Ia" ser muito exigente em matéria de religião" [( . o fraudulento educação formal alguma. como posição crítica . "onde decidem gastar o resto de nossos anos em sincera penitência. Sua vida correria tranquila se encontrasse sa. vivia portanto em um incesto aberto e confessado concubinato. só declarar a verdade à família que constituíra que. A travessia ocorre sem novidades. L: 1957. como se nada houvesse sucedido. outra vez viúva.a atitude do romancista em face das duas atitudes constantes na protagonista: da. ganho. em MoU Flanders não há qualquer ela se diz: sinal de religiosidade. Ao passo que Robinson se acusa de haver esquecido Deus a ponto de não saber como dirigir-se a Ele. se. Ao descobri-Io.. Ao fazê-Io.

obstáculos situação desconhecidos pela força. mas tão-só com uma consciência central" (ib. "o pensamento a ascensão do inferno para o céu substitui a salvação e a consLACLOS ciência privada. na Inglaterra. argumentos quinhos habitantes parte deste livro deve haver fornecido suficientes para que o leitor perceba que não lidamos com macade meu sótão. contudo. condições menos desfavoráveis desfavoráveis" porque na França. ao mesmo tempo do bleias de bispos e clérigos. define o significado" (Bender. apresentavam 288 . na ve de direção política (o governo de Cromwell). Não é que tais mecanismos desapareçam senão que se transformam é suficiente para. De seu êxito depende que esta segunda parte de Laclos por certo escrede conmo ti 289 possa tratar de obras específicas.. torna-se presa da cupidez do rico gentleman. dos puritanosnos países contrarreformistas.Não que Watt negue haver momentos manifestamente irônicos. A ironia é apenas um pouco menos ressaltada na relação estrita que MoU estabelece entre crime e negócio (cf. comenta Watt. criando-se. Choderlos veu um romance epistolar. 49).e depois em penitente arrependida. por algum tempo. religioso. Em consequência. Acrescente-se a observação de John Bender: em Defoe. em Maryland. pela Sorbonne e as assem- nestes países os mecanismos desempenhados. de que depende a maior parte do capital que a converterá em uma rica proprietária. lado. encontrou Escrevemos controle "menos parte. além dos traços específicos a cada um dos dois países.. explica por que o romance. "um violento contraste entre a ênfase na emoção e sua própria cura trivial" (ib. M. ao notar que ele quase desmaia. O decisivo não será aumentar compreender as ressalvas ao comentário de Watt senão que a inexistência de ironia por largas partes do enredo torna mais espiritual é tanto 3. sobretudo o capítulo primeia emigrar da de obrigado na França e na Inglaterra. com que terminamos ro desta segunda Espanha. como a declaração de MoU ao terceiro marido que são filhos da mesma mãe e. de um em pesos da consciência individual. Novack. 55). abrir espaço para a legitimação do romance e. os mecanismos de controle nas decisões humanas perdem o seu lastro vertical. querendo subir na escala social. inclusiencontravam É certo que essa livres. acerto aleatório e esporádico dos críticos.46). em vez da expressão pública emblemática. 122). J. Sucederá então esta coisa curiosa: o romance é aceito como o gênero que se amolda melhor à modernidade. não bastava para que seus autores se sentissem A primeira fica na dependência França e na Inglaterra o romance era possível à medida que respeitasse as medidas que se lhe opunham. de outro. nem seria preciso acentuar as cenas iniciais em que a pobre garota.: 1987. para manter a suspeita contra a ficcionalidade. isto é.: 1996. que seu caráter discursivo próprio. Do amor como xadrez ( crua alenta descrição das partes miseráveis da metrópole. sua ficcionalidade. o modelo da autobiografia empregado é substituída quanto drasticamente modificado: pela auto consciência. "Defoe constrói ficções cujos conteúdos não são consistentes com qualquer consciência moral. Tampouco é discutível que os mecanismos trole. Essa transferência ou A CARTA LIBERTINA ( O ensaio de Joan Ramón Resina. Defoe dessacraliza as decisões humanas. Com Les Liaisons dangereuses (1782). chamar um empregado para servir-lhe um pouco de rum.

: 1970. E aqui nos aproximamos Começou-se de 1. O encaminhamento então exigido não traria grande dificuldade se não tivesse de. cutível que a anterioridade mazia de Richardson que vigoravam as razões gerais levantadas na França e na Inglaterra. tratado vida. estritamente seja exemplarmente da publicação castigada pela morte de um a instabilidade política que que e a desgraça que leva à fuga do outro. Provavelmente.332). Adorno. em algum momento. com o qual se rompe a conexão cerrada que se estabelece a partir do que Lados pensava de Rousseau e Rousseau pensava de Richardson. Isso significa dizer que La Princesse de eleves não se dife\ porque explorasse intriga que já não fosse a amorosa. (Rousset. Essa possibilidade será desenvolvida pelo romance de análise.. é relacionar a abordagem textual delas com a probleas duas partes do livro ficariam soltas. ante a vida comum que se tenta valorizar pela sinceridade suposta na análise das só almas. O romance da parte como exemplares. antes se articula com uma peça que não foi considerada. como prefácio à Princesse. Ora. contra o partamos Theodor W. que se procura ocultar. Já o caso de Lados é bem diverso. Efetuado tratamento este pequeno passo. e sim por esboçar um rumo que Les Liaisons. de recordarmos romance e as particulares.lmproblema a intriga em "disparate de algo bem elementar. e sobretudo de La Princesse. o primeiro sobre o romance. invulnerável portanto. Como sua opção pela temática amoropelo restrição. os na afirmação francesa do romance por cartas. pois este. preferível protelar o imediata de La Princesse de eleves. O controle não faria sentir sua mão pesada senão depois de o autor pela justiça da Restauração em Brest. Richardson possibilitava que se abrisse uma trilha desconhecida na pretensão de ser "uma transcriação da vida real". escreve o que está em vias de viver e vive o que escreve. cada um via o anterior como seu mestre incondicional. radicaliza: a análise do fenômeno amoroso. páginas do romance de Lados. seria mais interessante sociológica. porém. a leitura de cada um dos hiato: o caráter analítico das Liaisons La Princesse de eleves. ] No romance por cartas como no teatro -. A mesma pena volta a lhe ser imposta em 1865 pela justi- Não fosse a economia que nos impusemos. os personagens dizem de sua tal para tratar o afeto amoroso como uma questão de xadrez. porque não condizente estranho desenrolar com a questão do controle. O primeiro será bastante breve: embora os contempocom a extração nobre da autora. Considerando-se a cadeia assim formada. o desastre interpretativo de um filósofo de orientação textual. considerar 290 e viesse a desempenhar certo papel sob o romance é Napoleão. de Lafayette não apreciassem sa. o leitor é contemporâneo da ação. sua obra não sofreria qualquer Pode-se mesmo recordar que é por seu prestígio de família que o erudito religioso Pierre-Daniel Huet escreverá. w. de Lafayette. desta vez à diferença do herói do teatro. tal como ele é vivido. É simples explicar a relevância de uma fonte inglesa. romances de Richardson. Como se pretendesse desmentir Descartes. algo tão refinado como As relaçõesperigosas não poderia se integrar em um conjunto tão prosaico como o romance. de sua parte. mas no exercício de seu domínio. J. ante as primeiras com os mestres reconhecidos enquanto para Rousseau e de um e outro para Lados.67-8) Nos dois casos. relacionar-se râneos de Mme. lespassions de l' âmesão tratadas como objeto de um cogito particular: não interessado na apreensão geométrica de seu objeto. três mostra a presença de um inesperado No entanto. É indiscronológica de Les Lettres persannes não afeta a pricomum e das pai- mais do que apenas curioso. T. rencia dos romances dele contemporâneos das Liaisons (1782) permitiu de Mme. Mas nosso propósito. nesta segun- a tratar do romance epistolar porque a obra a estudar tem esse caráter. Do contrário. Antes. isto é. para alguém que aprendeu a ler romances pelo modelo inglês. outro tipo de fazê-Io? Por dois passos.. ao mesmo tempo que a vivem. a carta neutraliza a ficção. vivido. ele a vive no próprio momento em que ele é vivida e escrita pelo personagem. para quem as Liaisons convertem temático" (Adorno. vimos que sua aproximação do romance por cartas apresentava um problema: ou da incidência amorosa epistolar tanto servia à exigência inglesa de exposição da realidade cotidiana como à francesa de manter no romance algo do tratamento xões de seu teatro dássico: o livro de Lados se afasta da questão da sinceridade o romance epistolar aproxima o leitor do sentimento [. Seria arbitrário dizer que a inegávellicenciosidade de seus personagens sofria a França no momento Lados permanecesse estar morto: em 1823 condenado ça do Segundo Império. Ao fazê-Io. (Como já vimos. Pareceu-nos. poderíamos alargá-Io pela consideração contudo. em cada uma das obras consideradas mática do controle.: 1962.vos gerais. de como as Liaisonsestão mais próximas 291 .

mas sim brutal e pagã passar amaiorparte do tempo no divertimento. [. haveríamos de dar preferência a seu teatro. como na Inglaterra. enquanto noutra apresentação. o gênero já conhece condições sociais e ideológicas que o favorecem: "a força ascensional da burguesia e do não-conformismo.: 1963. apenas 32. publicava-se uma média de oito ou nove romances por ano. não seria bastante XVII. a um esboço sócio-histórico que ajude a visualizar a problemática das Liaisons. pois que o divertimento não é permitido por si mesmo. apesar da hostilidade Racine.: 1667. Recorre-se. era presenciado por apenas 31 especta- a severidade dos juízos sobre o romance dos meios oficiais. tulo anterior.6). e o exemplo de Mme. na França e na Inglaterra. L'École des femmes atraiu apenas 35 espectadores ao teatro e o Tartufe. mas somente para tornar a alma mais capaz de trabalho. Mas.. na França. de ordem moral e religiosa. os Plaideursde para que se tratasse extensamente da novelística francesa do século meros 99 espectadores e o Tartufepor dores. Efetivamente. era evidente o aumento do interesse pelo romance: se. Pierre Nicole contra a comédia: Não é de modo algum levar uma vida cristã. realçando o utilizara. com Richardson servindo de mestre para Rousseau. as acusações contra a falsie este é o pressuposto da singularidade re-se que as críticas não eram moderadas. o teatro clássico francês materializava os valores cultivados pela aristocracia. tem alguma presença desde o XVII. Se tivéssemos espaço suficiente e quiséssemos abordar a questão do choque entre os mecanismos de controle do imaginário e as obras ficcionais no Seiscentos francês. de ordem amorosa. Em julho. 75). T. L'École des femmes era visto por 145. a regressão do princípio de autoridade e do analfabetismo" (May. Para que se compreenda a flexibilidade e a paciência dos homens de teatro.183) Em troca. em sua magistral análise sobre o público do teatro parisiense nos séculos XVII e XVIII. o HORIZONTE DO CONTROLE Enquanto o século XVII francês conhecera o ápice do teatro. Laclos é seu auge. do estrito ponto de vista de realização ficcional. no mesmo mês. desses ataques comuns deriva uma resposta semelhante: o romance epistolar. (Nicole. porque são sobretudo os prefácios de Corneille e Racine que demonstram com que se defrontavam e as maneiras de contorná-Ia. Por fim. ora encontrar soluções de compromisso com seus controladores -. na passano posigem para o XVIII o teatro clássico cada vez menos atraía a atenção do público. Apenas recordemos: que atravessa o século XVII exibido junto com Le Médecin malgré lui. consideVeja-se a virulência do jansenista moralistas e confessores. fundamentalmen- te. manter a equivalência de ficção e mentira. tem um enredo em que não primam as virtudes. Ao longo do século XVIII.: 1963. o romance assume um perfil próprio no começo do século XVIII. P. Le Misanthrope Na França. Em duas ocasiões. 59-60) A estabilidade das razões pelas quais o romance era controlado. capoVIII. bem como a constatação da desigualdade das classes que avança.:1957. O valor da "glória" que o romance perpetua é um emblema explícito da aristocracia e não tem a ver com a maneira como o cristianismo cia. Porém há uma diferença indisfarçável: na Inglaterra. justifica que sejamos mais sintéticos que no começo do capí293 . que consideraremos. O romance é pernicioso porque. ao longo do século 292 XVIII. Sua trama é. Em troca. era visto por apenas 170. G. de Lafayette. com frequênpara não têm escrúpulo algum em \ mais frequentes e têm muito do conuma das questões mais embaraçosas seu nível de projeção não tivessem sabido ora se impor. G. pois. (Lough. para antes ainda nos estendermos sobre o controle exercido sobre o gênero. seus praticantes dade dos relatos de viagem são justificadamente maior impacto na Inglaterra trole inglês. que então concentrava a ira dos moralistas e dos defensores dos costumes religiosos. John Lough. poucos dias depois. ] Isso basta para condenar a maior parte daqueles que vão à comédia. oferece cifras incontestáveis: Em 10 de maio de 1746. até para interessar seu leitor. entre 1725 e 1730. em junho. ao passo que. No mesmo mês. É certo que essa presença é pequena.de La Princessedo que de Rousseau e Richardson. há uma marcante homogeneidade cionamento teórico sobre o romance. A correlação mesmo não considerando alcançado de dados só poderia sua inequívoca se os teatrólogos preocupar estética as autoridades: que não teria qualidade a homogeneidade e se fortalece no das afirmações XVIII permanece. essa comédia trouxe 91 e 84 espectadores. entre 1731 e 1736 a média cresce para 21 ou 22 (May..

mas sim algo vivo. que em livro lançado em 1736. Lamoignon de Malesherbes ali destaca a confusão das normas acerca da publicação de livros. em contraparte.o infeliz membro da corte. sensível às diatribes do padre Porée.Na virada do século. 78). e não apenas por alguma possível lição". A resposta de seus procuravam 'I~ uma forma do falso.:1 particularmente . assim como a formação faria parte.• . o romance era acusado de imoralidade autores.: editor e uma nota do autor. agravada pela "mistura das diferentes autoridades" que nela intervinham. controvertido capitoso por seu próprio desenrolar essa regulada disque ela é preferível reconhecer É assim que. O público deixava de ser sobretudo de aristocratas para vir a ser formado por membros da classe média interessados por temas sentimentais e pela manifestação do homem comum. Nenhum exemplo o apresenta melhor do que a provável proibição de romances. semelhante pressupunha à inglesa: em ambos os casos. a atitude dos romancistas "lIIlr. em fevereiro de 1737. A apreciação do que mais provavelmente teria sucedido se fundamenta no que escreve Malesherbes . traduzido. Ao aumento de vendas do gênero suspeito responde à virulência do ataque do jesuíta Charles Gabriel Porée.I deiro clichê que o enredo romanesco ~:: . que teria sucedido entre 1737 e 1738. É documentos para afirmar que o conde e verdade que o recurso tanto se repetia que não é difícil supor que as autoridades 295 . também os romancistas. em que os dois discordam sobre a veracidade do narrado e a efetiva autoria da história. (b) ao mesmo ao leitor. acerca do item da moralidade. 'lIIl. risco para o qual se mostravam a exemplo a situação era à ficcionalidade de The Pilgrim's sensíveis os A não ser que a ficcionalio risco de ser tomada . Leve-se ainda em conta que. a exemplo deste caso. do Ancien Régime. tal virulência era obrigada a mudar de alvo. ninguém melhor do que ele para explicar o imbroglio.: 1963. de John Bunyan. Concordam. nos últimos anos da vida do chanceler D'Aguesseau. mesmo entre os altos funcionários favorecia apenas os pensadores..._"" . Ao passo que os teatrólogos -séance. ela apresentava leitores ingleses de relatos de viagem com a mesma veemência demonstrar que perseguira 'li •. o libelo antecede e pode-se crer que motiva medida administrativa de 1737..~~ I. grifo meu) Ora. entre as medidas então tomadas para reforçar as condições a que os livros deviam responder para circular. decapitado nos primeiros anos da Revolução. um controle muito mais na exposição de enérgico. nem brochurasfrívolas. A posição liberal das mentes mais abertas não Encyclopédie. G. de: 1809.lI! 1iJ". havia aqueles que se manicomo Malesherbes fizera com os diretores da verter-se em declarada censura.' do controle que o pró- da por este grande magistrado de não permitir nem romances. (Maleshesbes. Em vez de desprezarmos cordância como um intolerável lugar-comum. tal como é do apreço de padres como os atos que todos cometemos. como se lhe dissesse: uma história fria e seca. que submete o romance a um regime de exceção.em que seasseguraria aos autores e aos livreiros que não seriam perseguidos por submeter-se a um exame particular. Georges May encontrou 294 do que fazia circular. na França. a posição assumi. condensado e comentado favorável e abundantemente nos periódicos da épocà' (May.77). festavam em favor da tolerância. quase equivalente à interdição (cf. celebrado pelas tentativas de regularização liberal do comércio dos livros. reimpresso.na "Premiere mémoire sur Ia librairie': Como responsável pela política editorial francesa entre 1750 e 1763. ". em 1750 . data e nome de o do para a Garde des sceaux. De libris qui vulgo dicuntur Romanses oratio.. Baseamo-nos Georges May. "uma espécie de tribunal secreto de tolerância': da qual muito provavelmente próprio Malesherbes O episódio que a hostilidade de tão melancólica petite histoire interessa porque evidencia ainda importa considerar exigirá. deverá ter havido.levou outros ministros a estabelecer uma espéciede tribunal secreto de tolerância. L. "" . é agora diferente. mas.". à biené bastante mais ambígua: torna-se um verdaseja antecedido por uma advertência do '*~t . a suspeita quanto que os romances feriam a moralidade.1111 dade se justificasse como verdade - Progress (1678 e 1684). "Impresso. E acrescenta: do status quo quanto ao gênero quase chegava a ponto de conque.ib. à virtude.~ 11: ~. no entanto.81. Assim.. alguma proibição. '""-" em seus prefácios o respeito de suas peças à honra. que se tornaria Directeur de Ia Librairie e Sécrétaire de Ia Maison du Roi. havendo suas Mémoires sur Ia librairie et sur Ia liberté de Ia presse sido compostas em 1758. O que vale dizer que o ambiente de crise que se acentuará progressivamente ao longo do século XVIII chanceler Daguesseau da autoridade recuperara seu prestígio político e fora de novo nomeapois. ou de criar o costume de divertir com o teatro clássico. Paralelamente. . tem uma dupla função: (a) assegurava aos encarregados prio editor punha em dúvida a autenticidade "Aqui. não encontrarás tempo dava-se uma piscadela de cumplicidade e eruditos. pela alegoria que contivesse. ~:Ji Ji. exige a proscrição do gênero. Embora o texto oficial do decreto nunca tenha sido encontrado.

Quando em um poema importa a circunstância em que o afeto se desenrola. é tão evidenInteressa-lhe. A consideração oferecida às jovens nobres para o casamento. com frequência.) Como a suspeita ou a hostilidade contra o romance permanecia e. de Chartres à com que ela atentaria para a leviandade dos homens. fosse bastante. além da declarada contradição entre autor e editor.nos em seu lugar ou de seu lado. contra a indistinção entre ficção e mentira. Além do mais. de Petrarca e seus seguidores? Parece mais sensato entendê-Ia porque o romance.. nada havia na Princesse de eleves (1678) que impacientasse as autoridades. não acompanhara seu morais.. supondo uma trama. Estamos na corte dos últimos dias do reinado de Henrique lI. D. ainda que um ou outro verso pareça menos "virtuoso". Se a justificativa Antiguidade. Desde suas primeiras páginas. Sua autora. ] O romance tem a vantagem de mostrar a virtude recompensada punido. 122). ao passo que a prosa é detalhista. Mas a própria so. de Chartres] apresentava com frequência à sua filha pinturas do amor. o ritmo. a lírica. enquanto a história oferece com frequência o contrário [. Nos dois casos referise estende à Inglaterra. aquele que age é visto. às mulheres estava reservada a glória de serem desejadas pelos galantes vencedores. elimina detalhes embaraçosos para os moralistas por gosto ou profissão. ' passariam da reiteração do que lhe fora pregado no convento em que havia sido LA PRINCESSE DE CLEVES: AS VíTIMAS DO AMOR educada. Os fatos sobre os quais incidia a paixão tornavam-na suspeita. te que os privilégios dos nobres se justificam por sua capacidade bélica que seu enredo sequer toca no que seria sua evidente superioridade. ]" (apudMay.censóreas não acreditassem no recado que lhes era endereçado. cabia aos autores descobrirem outros recursos que. O que ao leitor de agora será enfadonho. a condessa de La Fayette (1634-93). o conflito suscitado pela edição de romances mostra quão próximo se estava de um choque mais grave. o à virtude e à resistência à sedução não devia ser doce melodia aos respeito ao repetido louvor à honestidade. lhes dessem alguma segurança contra a apreensão dos exemplares. 1963.. factual. Por seu cunho meditativo. assim como das aventuras narra- dos provençais. como a tentada por Daguesseau. contra o controle suas próprias armas. nos entusiasmamos Emprega-se por ou contra ele" (Diderot. à primeira vista. era sua edição tolerada. o entusiasmo de Diderot por Richardson o levava a declarar: "Uma máxima é uma regra abstrata e geral de conduta [que] não imprime por si mesma nenhuma imagem sensível em nosso espírito: mas. por sua condição feminina. ou que nada se contrapusesse.. Essa qualificação to de viagem teria de ser absolutamente que deixe de haver a distinção sobre a qual já temos chamado a atenção: o relafiel. Nenhum gesto de insubmissão agita a desigualdade entre os sexos. estava relacionada às grandes famílias do reino e. descritiva. A corte pareceria haver acolhido apenas os vencedores de batalhas e concursos de beleza. sim. Porém a primeira solução é contrariada nome dos princípios morais. a educação tradicionalmente sua filha. Se os homens se notabilizavam pelos feitos guerreiros. a música dos versos criam uma ambiência em que os eventos se diluem e a sensualidade da cena deixa de estar em primeiro plano. Assim. sem grande amigo La Rochefoucauld no arriscado e fracassado desafio ao absolutismo real. não deveria incluir a recepção dos líricos da em situação de conflito existente entre os defensores do regime estabelecido provocava ou a irrupção de uma norma mais dura. Na aparência. analítica. Para a autora. a defesa do romance destaca seu teor prático. se a perder a vida por acreditar em invencionices. G. sensível. capaz de interessar mais do que os eruditos apenas. nada incomum. 1060). ouvidos das autoridades: Foi costumeiro desde o Renascimento 296 explicar-se a hostilidade XVIII. expandia-se mento: a subordinação das aos princípios uma linha já presente entre os poetólogos do Renascimesmo em e o vício do romance à história.no melhor dos casos. contra a superioridade dos tratados morais. implica a circunstância que o afeto amoroso evoluirá. o leitor é lançado em uma crônica político-amorosa. normas vigentes eram assim reiteradas pelos conselhos de Mme. sob o risco de que algum leitor viesDaí a própria ênfase na novel. imperante [Mme. (Embora ainda se estivesse a algumas décadas da Revolução.: 1761. em detrimento do relato maravilhoso e fantástico do romance. que privilegia o relato "realista" de que Defoe foi exemplo. pomo. como no episódio de Paolo e Francesca da Divina com media. E. contra o romance. As dos. o enlace das rimas. seu enredo é simples e. O Abbé Irailh escreve nas Querelles littéraires (1761): "[ . mostrava-lhe que ele tem de prazeroso para mais facilmente persuadi-Ia do que 297 até o século por sua preferência pelo tema amoro- ..

nele é risco; falava-lhe da pouca sinceridade dos homens, de seus enganos e de sua infidelidade, dos infortúnios domésticos em que entram os compromissos; e fazia-lhe ver, por outro lado, que tranquilidade acompanhava a vida de uma mulher honesta e quanto de brilho e elevação a virtude concedia a uma pessoa dotada de beleza e condição; mas também fazia-lhe ver que só podia conservar essa virtude por uma extrema suspeita de si mesma e pelo grande cuidado de ligar-se ao que apenas pode dar felicidade a uma mulher: amar seu marido e ser por ele amado. (La Fayette, Condessa de: 1678, I, 246-7) A tradução seria ociosa caso seu efeito na educanda não fosse inesperadamente drástico. Os conselhos da mãe converter-se-iam de convencionais em decisivos. Obviamente, a educação das jovens da nobreza levava em conta a situação Assim, no caso, o primeiro pretendente, o cava-

Estaria a autora, apesar da distância separava de Laclos, denunciando indagarmos que aproximação

temporal

e de posição social que a pelos

a insuficiência

da educação fornecida

conventos? Ainda que o fosse, não é o dado mais relevante. Com efeito, se nos pode haver entre La Princesse de eleves eLes Liaisons dangereuses, a resposta terá outra deriva. Destaca-se, em primeiro lugar, a atmosfera de simulação reinante na corte: "Se, neste lugar, julgais pelas aparências, estareis sempre enganado: o que parece quase nunca é a verdade" (ib., 268), declara Mme. de Chartres à amante do rei. Aponta a seguir a competição entre as amantes passadas ou presentes de algum cortesão ou ainda o perigo, reconhecido por todos os personagens, para a composição emprestar continuação que as cartas apresentam. eram as intrigas Nos três casos, parece na corte que importava amorosas. Isso parece pela que será desmentido que à autora da Princesse de eleves o único fenômeno de um romance

à sua obra um caráter de superficialidade
do relato.

financeira de seus pretendentes.

leiro de Guise, tinha contra si o desacordo de seus irmãos, "pelo temor do decréscimo patrimonial que, de ordinário, atinge as grandes casas com o casamento dos filhos mais jovens" (ib., 253). Crescia, desse modo, o crédito do rivaL Ante a declaração amorosa deste, Mlle. de Chartres lhe responde com tal doçura que ele acredita ser amado. É em conversa com a mãe que a pretendida verdadeiro sentimento: que com um outro; sem, entretanto, ta a proposta de matrimônio, manifesta seu do (ib., "que se casaria com ele até com menos repugnância ter-lhe alguma inclinação particular"

Discretamente

presente nas reuniões da corte, não dando a perceber a disa pretensão do rei de casáDessa

tância efetiva em que se mantém, a princesa de Cleves prende a atenção da figura aí mais apreciada: o sr. de Nemours. Contrariando
-10 com a rainha da Inglaterra,

Nemours

se apaixona pela protagonista.

maneira, o projeto político real é postergado e termina por fracassar. Tudo, pois, pareceria indicar que a princesa se converteria em sua maltresse. O embaraço que mostram ao se encontrar evidencia que algo passional ainda se prepara: "Ele ficou certo tempo sem poder falar. Mme. de Cleves não estava menos embaraçada e, assim, por um tempo bastante longo, mantiveram-se em silêncio" (ib., III, 304). A paixão os aproxima, mas, ao contrário do que seria comum em seu meio, recalcam o quanto podem seu mútuo interesse. Ele, por discrição. Ela, por respeito à virtude reiterada pela mãe antes de morrer. Na verdade, a atitude significativo do esperado a ação romanceada de ambos representa um afastamento a menos que se da idealização da Eis um

259). Apesar da explícita reserva que a filha lhe revelava, Mme. de Chartres aceia que tampouco se opõe alguém na corte. Em coma distância que os separa e lhe diz: pensação, o noivo bem percebe os limites da atração que exerce. O senhor de Cleves é bastante sensível para compreender vos dá nem prazer, nem perturbação" "Não toco em vossa inclinação, nem em vosso coração, e minha presença não (ib., 266). que justificasse o real! para casar-se. com os Embora estejam dadas as condições para que a discórdia cedo se instalasse, assim de fato não sucede. Que poderia haver, portanto, ce do romance? Na aparência, tão-só um pequeno detalhe: Mlle. de Chartres, a futura princesa de Cleves, fora tirada havia pouco do convento Isso explicaria sua monstruosa ingenuidade no trato social, sobretudo

entenda que a autora procura aproximar

corte, o que, tendo em conta o relato como um todo, seria incongruente.

nobre que hesita e termina por renunciar ao propósito de seu rei, que, ao mesmo tempo, lhe oferecia, de seu próprio ponto de vista, uma excelente escolha; e uma dama casada que resiste a aceitar seu próprio sentimento. De todo modo, algo fora da rotina haveria de suceder para que se rompesse o impasse. Esse é o papel da carta que entregam à protagonista, como havendo sido encontrada ao cair do bolso de Nemours - o relato não o explicita, mas ser ela a "escolhida" para rece299

homens. Do mesmo modo, o senhor de Cleves notava na esposa não só a ausência de sentimentos que o confortassem compreendia" (ib., 260, grifo meu).
298

como "parecia-lhe mesmo que ela não os

bê-Ia bem indica que desconfiavam uma concorrente.

de que algo especial a ligasse ao nobre. Na em haver sabido que tinha

pela paixão que até agora escondia de si própria. Solicita por isso do marido que lhe permita afastar-se da corte, permanecendo em sua casa de campo. O mari"ela ignodo procura descobrir o motivo de sua tristeza. Até aquele momento,

carta, uma amante confessa seu desapontamento si própria o que tentava ocultar.

Ao lê-Ia, a comoção que se apossa de Mme. de Clêves revela a

Na verdade, a carta não era dirigida a Nemours e quem a perdera fora um seu representante legal, seu vidama. Para este, a questão é tão séria que procurara convencer Nemours, seu sobrinho, ser ele o verdadeiro destinatário da carta. Assim é levado a fazer porque a rainha-delfim o pressionara está implicada no caso: há algum tempo, a fim de assegurar-se de que podia ter o vidama como seu confidente, ela a declarar quem era sua amante. Ele se recusara a confessar sequer não da solicitação da rainha-delfim, mas por crer que ela não que a tinha.A carta perdida era de fato da amante que o vidama abandonara, como consequência

rava as inquietudes mortais das desconfiança e do ciúme; não pensara senão em se defender de amar o senhor de Nemours e ainda não começara a temer que ele amasse uma outra" (ib., 350). Mas o episódio da carta rompera mais essa defesa. Incapaz de descobrir outro meio, a princesa confessa ao marido por que insistia em permanecer distante da corte. O marido, contudo, não se contenta em saber de seu sentimento e insiste em que declare quem possui seu coração, como ele próprio nunca o possuíra. Ela se recusa a nomeá-Io: "Peço-vos mil perdões se tenho sentimentos que vos desagradam: pelo menos, jamais vos desagradareis por minhas ações" (ib., 355). (Nemours, escondido, ouve a confissão.) E o marido, embora grato pelo que lhe foi confessado, insiste em procurar saber a quem ama sua mulher. Gratidão e ciúme nele crescem, em proporções iguais. Os acontecimentos então se precipitam. quem, indiretamente, O sr. de Clêves é informado de que seu rivala

mais o queria. Se toda a trama fosse então descoberta, a vingança da rainha-delfim poderia ser terrível. Informado de toda a trapalhada, Nemours promete ajudar o tio, guardando um bilhete que este recebera de uma amiga, em que ela lhe pedia que devolvesse a carta recebida. A solução não teria grandes dificuldades se Nemours soubesse que a carta, cuja devolução rainha-delfim meira cena decisiva. A primeira princesa em casa e é informado era solicitada, fora perdida e entregue à como havendo sido dirigida a ele, Nemours. Sucede então a pritentativa de Nemours fracassa: ele procura a que está doente. Nemours não é molestado pela em que ela podia estar enciuma-

termina por identificar -

estivera por duas noites na flo-

resta próxima à sua casa de campo e que, no segundo dia, chegara a estar em sua própria casa, na companhia de uma irmã, que morava nas vizinhanças. Obsedado pela convicção de ter sido traído, a angústia o faz adoecer e logo morrer. Nenhum impedimento mais havia para que a princesa se casasse com quem amava. Devia ter, ademais, a consciência tranquila porque não infringira seus deveres conjugais. Mas sua "austera virtude estava tão ferida por essa imaginação que não achava ser menos criminoso casar-se com o sr. de Nemours do que havia sentido em amá-Io durante a vida de seu marido" (ib., 414-5). Que adianta a Nemours sabê-Ia agora livre se a amada continua a impedir que sequer se vejam? Todas as tentativas são inúteis. A princesa mantém-se cho de um caso que estranha aos críticos seus contemporâneos. O leitor que conheça Les Liaisons dangereuses deverá estar intrigado: obra poderia ser mais dessemelhante que o romance que descrito? Por enquanto, viúva, no desfe(

recusa: "Uma marca de frieza em um momento importa intensamente

da não era um mau augúrio" (ib., 341-2). Sob o pretexto de que o objeto a tratar a seu tio, Nemours recorre ao próprio marido da pretensa enferma. O sr. de Clêves o conduz ao quarto da esposa e se retira. Nemours lhe conta toda a história da carta. A amargura com que era ouvido "dava-lhe o prazer mais sensível que jamais tivera" (ib., 343). A frieza manifestada Nemours era o verdadeiro destinatário pela ouvinte indicava o quanto estava afetada, mesmo porque não se deixava convencer que do objeto da celeuma. Mas Nemours di!põe da prova decisiva: o bilhete endereçado ao tio pela amiga de sua ex -amante. Como a princesa reconhece a existência dessa amizade, depois de bem examinar a peça e de confirmar a quem se endereçava, "encontrou de que sofrera sem razão. Ei-Ia, então, assediada por fora pela presença de Nemours
300

pouca coisa pode ser adiantada. Embora Mme. de ia Fayette não a desenvolva, na cruelle raison da recusa da princesa de Clêves há um tema que tende a passar despercebido. De uma de suas derradeiras conversas com Nemours, destaca-se o trecho seguinte: Sei que sois livre, que eu o sou e que as coisas são tais que o público não teria talvez
301

uma aparência de ver-

dade no que o senhor de Nemours lhe dizià' (ib., 344). Logo estava convencida e, por dentro,

razão de vos censurar, nem tampouco a mim quando nos comprometêssemos para sempre, mas os homens conservam a paixão nesses compromissos eternos? Devo esperar que um milagre me favoreça e posso me pôr no estado de ver seguramente extinguir-se esta paixão em que estaria toda a minha felicidade? O senhor de eleves era talvez o único homem do mundo capaz de conservar o amor no casamento. Meu destino não quis que eu pudesse aproveitar desta felicidade, talvez também sua paixão não subsistissesenãoporque não a encontrasseem mim. (lb., 421, grifo meu)

ademais, tratar-se do único romance escrito pelo autor, é explicável a curiosidade em conhecer algo de sua posição política. Seria essa informação capaz de lan-

çar alguma luz sobre o caráter de seu romance? Embora estejamos avisados de que os dados conhecidos são insuficientes, não há motivo para os eliminarmos. Choderlos de Lados nasceu em 1741, em Amiens, em uma família pertencente à aristocracia nova, isto é, sem título e relevância. Nomeado, em 1759, aspirante à Escola de Artilharia, no ano seguinte é aluno do Corpo Real de Artilharia, vindo a ocupar postos inferiores em lugares de província. De sua passagem nos

o tema

é bem este: a dúvida da princesa sobre a capacidade masculina de nele só se reprove que não mais do enredo ajudará a que as da prová-

regimentos

do interior, destaca-se o período relativamente o testemunho

longo em Grenoble teria sido

se manter em estado de paixão. A questão se desenvolve logo depois: "Censura-se um amante, mas não um marido quando ame" (ib.,422). O dima propensamente sentimental

(1769-75), pois, conforme

de Stendhal, seu romance

inspirado nos costumes dissolutos dos altos círculos da cidade; Stendhal chega a afirmar que conheceu a inspiradora de Mme. de Merteuil: "Ainda conheci Mme. de Merteuil, era a Mme. de Montmaur, que me dava nozes confeitadas [... ]" (Stendhal: 1835-36,6,93). A maneira, contudo, como o recorda não insde um

passagens que julgamos capitais não sejam destacadas. Que contém a passagem acima grifada senão uma análise, que eu saiba até então inexplorada, vel impossibilidade da ao homem? de constância do amor no caso de Princesse ainda limitainduído a aprecia-

pira muita confiança, pois mistura

o que atribui a Lados às aventuras

Talvez então já não pareça tão estranho que tenhamos

pouco amado tio, que, naquela Grenoble de antes de 1789, "recebia presentes de suas amantes ricas, com este dinheiro vestia-se suntuosamente e sustentava suas amantes pobres" (ib., 92). É provável que Stendhal identificasse de Lados a partir das informações como comissário nar à cidade, "por volta de 1814, quando o imperador a personagem [o] enviou de alguém que já não lhe interessava, ao retor[Napoleão]

ção do romance de Mme. de La Fayette em um capítulo que parecia dedicado exdusivamente ao romance de Lados.

junto à sétima divisão militar [... ] e não cogitava senão dos de entrar muito

LES LIAISONS

DANGEREUSES:

A PROTEÇÃO

PELO TUMULTO

POLÍTICO

meios de rechaçar os austríacos ou pelo menos de impedi-Ios

Tivemos de decidir entre o romance de Diderot e o de Lados. A escolha foi o segundo porque é a culminância por sua proximidade do romance que explora o enredo amoroso e teatral da linguagem, ao passo que Le Optamos por Lados d'!l

depressa" (id.). De todo modo, sua informação é corroborada nas memórias de um certo conde de Tilly, que revela ter ouvido o próprio Lados dedarar, em Londres, em 1790, que conhecera em Grenoble "o original de que a minha [personagem] não passa de uma débil cópià' (Versini, L.: 1979,1143). Apesar da coincidência, a questão só interessaria a um estudo"menos do romance que dos costumes da alta aristocracia do Ancien Régime. Aqui, importa considerar que, antes da Revolução, Lados não passara de um oficial de patente mediana, cujo maior feito consistiu em ser punido por ordem do próprio ministro da Guerra - sua Lettre à messieurs de Ia académie française sur l'éloge de Vauban (1786) é considerada desrespeitosa a uma autoridade militar. Já então e suas Liaisons dangereuses (1782) constituíam to ler sua pequena correspondência representante um succes de scandale. Vale a respei-

com o tratamento

Neveu de Rameau e ]acques lefataliste, não por acaso póstumos e publicados no início do século seguinte, já são de fato obras oitocentistas. para mantermos certa continuidade presença e da reação ao controle do imaginário simultaneamente; Diderot; a respeitamos dos textos. Pois o fato de só tratarmos

não significa que tenhamos de dão-se aqui em tratar de Lados e não de um livro publicado

desprezar a ordenação cronológica. Respeitá-Ia e não absolutizá-Ia quando preferimos quando consideramos não a absolutizamos

1782, antes do experimentalismo

sem precedents do Tristram Shandy (1760-67).

com a sra. Riccoboni, também romancista

Diante de uma obra editada às vésperas da Revolução Francesa, sabendo-se,
302

da opinião da boa sociedade. À sra. Riccoboni pouco interessava
303

que Lados se defendesse recordando dúvida, este homem separadamente

o exemplo do Tartufo, de Moliêre: "Sem tinham cometido

em troca, tem um tom morno e convencional, em que o encadeamento das frases incentiva o bocejo. Não precisaremos demonstrá-lo. cas passagens, retiradas do parágrafo de abertura do capítulo x:

previsível

não existia; mas vinte, cem hipócritas

Bastem umas pou-

horrores semelhantes: Moliêre os reuniu em um só dentre eles e não parece comover a destinatária. Depositária de um con-

o entregou à indignação pública" (Lados, C. de: abro 1782,761). O argumento A natureza não cria senão seres livres; a sociedade não faz senão tiranos e escravos. [... ] Quando se percorre a história dos diferentes povos e se examinam as leis e os usos promulgados e estabelecidos a propósito das mulheres, é-se tentado a crer que elas só cederam e não que consentiram no contrato social, que elas foram primitivamente subjugadas e que o homem tem sobre elas um direito de conquista de que usa rigorosamente. Assim, longe de pensar como alguns que a sociedade começou pela reunião das famílias, antes creríamos que a primeira associação foi feita somente por homens que, sentindo-se mais iguais em força, tiveram de se temer menos entre si; mas logo sentiram a necessidade que tinham das mulheres; ocuparam-se então em pressioná-Ias ou em persuadi-Ias a que se unissem a eles. Fosse pela força, fosse pela persuasão, a primeira que cedeu forjou as cadeias de todo seu sexo. (Lados, c.: 1783,419-20.) As duas primeiras orações evidenciam a divulgada influência de Rousseau, embora a segunda introduza social rousseauísta: desde antes submetidas o flagrante contraste com o hipotético contrato este não se cumpriu com o consentimento das mulheres, trole congelado, sua resposta é a esperável: "Tendes tanta facilidade, senhor, um estilo tão amável, por que não os empregais na apresentação dos personagens que se deseja imitar?" (Riccoboni: abro 1782,763). Em suma, oficial de carreira, sem o prestígio de um nome de família respeitável, autor agora de um romance lido avidamente mamo-nos e não menos avidamente repudiado pelos letrados seguidores por Rousseau e certo dos bons costumes, dele ainda não traçamos um perfil bem definido. Aproxipor sua carta (maio de 1788)

do que era Lados ao assinalar sua admiração

trânsito que teria na alta sociedade, exemplificado

ao famoso financista e homem público Necker (cf. Versini, L.: 1979,772-4. Seria então alguém com acesso ao grand monde, o que não é de modo algum excepcional entre os homens de letras do período, e participante rável à reforma profunda cordância quanto das instituições. da intelligentsia favoda Revolução? Mas até que ponto chegaria sua dis-

ao estado de coisas em curso, às vésperas

Oficial do rei, conhecido por uma obra libertina, por um ensaio convencional, Des Femmes et de leur education; por sua fidelidade conjugal a Marie-Soulange Duperré; admirador de Rousseau, mas hostil a seu moralismo tas de seu retrato não combinam. didático, as pon-

ao droit de conquête masculino.

Seu destino é então

Antes de virmos à sua atuação pós-1789, vale considerar um pouco do que propunha sobre a educação feminina. De imediato, parece curioso que sua data de seja quase simultânea à publicação do romance. Se este circula em composição

comparado ao dos escravos: "Faltando-Ihes forças, as mulheres não puderam defender e conservar sua existência civil; companheiras de nome, logo se tornaram escravas de fato [... ]; seu estado não deve ter sido melhor que o dos negros de nossas colônias" (ib., 420). A divergência de Lados quanto à submissão feminina estendia-se à da situação do negro escravizado. E ainda aumentaria do modo como as mulheres conseguiram pelo realce da interpretação da opressão secular: \ [... ] Desde logo, aprenderam a proteger seus encantos para que despertassem a curiosidade; praticaram a arte dolorosa de recusar, mesmo quando queriam consentir; a partir desse momento souberam acender a imaginação dos homens, provocar, de acordo com sua vontade, e dirigir os desejos: assim nasceram a beleza e o amor. (Ib., 421-2) começar a sair

começos de abril de 1782, em março do ano seguinte o autor se dispõe a responder à questão proposta pela Académie de Châlons-sur -Mame sobre o aperfeiçoamento da educação das mulheres. Quem leia o Des Femmes et de leur éducation deverá ficar intrigado com o abismo que separa o ensaio do romance. Não me refiro apenas ao relacionamento entre os sexos, que, na obra pedagógica, assume um ar de liberalidade, mas também à rapidez das soluções formais e ao papel da inteligência no romance. Malraux chegava a dizer que Lados conseguiu essa coisa sem precedentes: "Fazer com que os personagens de ficção agissem em função do que pensam" (Malraux,A.: 1952,7), em um livro tão dependente do uso da inteligência que, só tratando da paixão, "quase que a ignora por completo" (ib., 6). O ensaio,
304

305

Não que assim já se tivessem libertado, senão que, pela exploração da graça sedutora, abriram "o estado de guerra perpétua que subsiste entre elas e os homens" (ib., 422). Mediante certa boa vontade, pode-se interpretar l' état de guerre perpétuelle como a afirmação geral que explica a conduta de Mme. de Merteuil e a inferioridade de seu discípulo, Valmont, como prova de que a mulher libertina conseguira inverter a situação de assimetria estabelecida entre os sexos. Mas continuaria sendo difícil estabelecer entre o romance e o ensaio mais do que uma frágil correspondência de ideias: a excepcionalidade das Liaisons antes tem a ver com a agilidade de sua montagem formal- a circulação de ardis e paixões pelas cartas - do que com a exploração de ideias. A fraca correspondência poderia decorrer ou do menor talento de Lados para a produção de ideias ou, porque, respondendo à demanda de uma academia, estava obrigado a uma extrema contenção; ou disso e daquilo. O fato é que, seja considerada a resposta estrita à questão proposta pela Académie de Châlons-sur- Mame, seja a tentativa de sua continuação - uma e outra presentes no texto inacabado do Des Femmes et de leur éducation -, nenhuma das duas teve repercussão. No melhor dos casos, dir-se-ia com Versini que "a condenação das formas que a educação das moças assume no século XVIII, nos tratados sobre as mulheres e em seu romance, está em relação direta com o pensamento laico das Luzes" (Versini, L.: 1998, 138). Mas isso étão evidente que antes parece contornar do que resolver o problema. Embora se possa alegar que seu parco respaldo social resultante de pertencer a uma aristocracia sem títulos, ainda mais limitado por sua posição de oficial do exército da realeza, o inibissem de fazer afirmações mais ousadas, que então eram reservadas a um gênero que contava com o interesse crescente do público anônimo e o desacordo entre os próprios defensores do Ancien Régime, o certo é que o texto inacabado de Des Femmes pouco nos esdarece sobre Les Liaisons. 1, Tampouco é mais esdarecedora sua correspondência com Mme. Riccoboni, senhora da sociedade e também romancista. Ante suas polidas censuras, Lados objetava, criando a princípio um personagem pelo qual respondia e, a seguir, assumindo sua própria voz:" [... ] Criais monstros para combatê-Ios; tais mulheres não existem. Suponhamos que sim, estou de acordo: então, por que tanto barulho? [... ] Insiste-se e se me pergunta: existiu alguma vez a Mme. de
306

Merteuil? Ignoro-o. De modo algum pretendi escrever um libelo" (Lados, c.: abr.1782,761). Fora o contraste com as afirmações de Stendhal e do conde de Tilly, a passagem tem pouco interesse. O decisivo não está em saber da existência histórica ou não da fonte da personagem, senão em compreender a própria visão da relação amorosa em seu entrelaçamento com a dimensão erótica, tal como proposta por Merteuil eValmont. O interesse dos dados que extraímos das informações biográficas e um pouco de seu ensaio estaria, no melhor dos casos, em permitir que se dedarasse que Lados, justificadamente, preferia manter uma posição moderada. De fato, seu lugar em uma sociedade ainda arraigadamente estamental não lhe permitia a liberdade (e a espécie de risco) que acompanhavam seu admirado Rousseau, Diderot e demais iluministas de primeiro plano. Pouco proveito também se retira de sua resenha sobre as memórias do marechal de Richelieu. Contudo, dada a escassezde material que ajude a explicar o romance, não devemos desprezar ao menos duas passagens: (a) o elogio explícito à Revolução: "Reconhecer-se-á [... ] que a revolução não era menos necessária para o restabelecimento dos costumes do que para o da liberdade" (Lados, c.: fev.1791,643); (b) a própria abertura do pequeno comentário:
Esta obra histórica tem todo o interesse dos mais célebres romances e ultrapassa em inverossimilhança todos aqueles que foram tão acusados de exagero na pintura dos maus costumes da bonne compagnie. Sua leitura convencerá que as ficções atrozes ou escandalosas, com a ajuda das quais os romancistas desvelavam e combatiam os caracteres infames que punham em cena, ainda estavam aquém da realidade. (lb., 642)

Ambas as passagens são motivadas pela data de publicação. Dois anos depois de deflagrado o processo revolucionário, o estranho seria que o autor, que não devia privilégio algum ao regime deposto e já se inscrevera no Club des Jacobins, não aproveitasse a ocasião para louvar a reviravolta, destacando-a tanto do ponto de vista político (o restabelecimento da liberdade) como ético (o restabelecimento dos bons costumes). No segundo trecho, explicita-se melhor o que

aparecia no primeiro: a inequívoca defesa de seu romance como um retrato da devassidão da alta sociedade. Sem dúvida, Lados comporta-se como um opor-

tunista, embora fossedifícil supor quem deixaria de sê-Io em um momento como
307

aquele. A maior importância trole do Ancien Régime interrupção.

do trecho está em assinalar que o princípio do conconsistente na subordinação do romance à verdade não sofrera qualquer porque escandaLados fazia sua defe-

Seguem-se as reviravoltas frequentes nos processos revolucionários, exército com o posto de general-de-brigada, Comitê de Segurança Geral manda-o

com ascenno

sões súbitas e quedas desastrosas. Assim, em setembro de 1792, é reintegrado

histórica e, a partir daí, na defesa dos bons costumes losas, podiam ser agora apreciadas porque denunciadoras.

ao passo que, em março de 1793, o

Muito ao contrário, as obras, antes popularizadas

prender, junto com outros orleanistas. e, em novembro, por efeito de sua

Pouco depois, em maio do mesmo ano, é posto sob prisão domiciliar. Em setembro, demite-se do posto de general-de-brigada ligação permanente momento com o duque de Orléans, é de novo preso. Este parece o de uma personagem

sa sem vexame porque, além de já estar filiado aos jacobinos, havia sido conhecido como simpático aos iluministas. Em um momento de mudanças inesperadas, uma coisa e outra não isentavam seu romance de ser acusado por qualquer um a qualquer autoridade tes: provavelmente de plantão. Seu oportunismo era justificado. Ainda falta examinar um fator utilizado com frequência por seus intérpreno começo de 1783, menos de um ano depois de publicado Duperré, com quem se casou já em 1784, célebre sua fidelidade à mulher e à família seu romance, Lados conheceu Marie-Soulange em 1786. Tornando-se de intensidade o casal tivera um filho -,

em que a Parca esteve mais tentada a escolhê-Io. O duque é julgado,

condenado e executado, enquanto Lados, por proteção momentaneamente forte, Danton, é libertado.

Como todos esses dados são conhecidos, apenas se acrescente que, participante do 18 Brumário, tem seu papel reconhecido por Napoleão, que ordena seu na arma da artilhana campanha naporetorno ao serviço militar ativo, como general-de-brigada, administração militar da Itália ocupada. Sua participação

apesar dos anos difíceis que, para ele, só diminuirão uma divisória Confornenaquecom Marie-Soulange.

ria. Serve então a Napoleão, na investida contra os austríacos; e é utilizado na leônica é, portanto, efetiva, mas bastante discreta. Em setembro de 1803, morre no sul da Itália, em Tarento, "de exaustão, disenteria e malária" (cf. Lados, c.: 1979,
XXIX).

com a ascensão de Napoleão, tem-se estabelecido

entre o Lados de antes e de depois do encontro

quanto verossímil, a divisão não deixa de ser irrisória. Na verdade, a questão proposta por Les Liaisons dangereusesvai muito além do esdarecimento cido por dados contextuais a suposta depravação da alta aristocracia

Embora seu editor ressalte não ter sido mais bem aproveitado

pelo a

Consulado

do que fora pelo Ancien Régime (cf. Versini, L.: 1979, 1581), pode-se

le final do Ancien Régime. Como jovem oficial da artilharia, teria Lados participado ou apenas teria ouvira falar dela? O tom medíocre ou moderado de suas cartas e escritos de antes e de depois da Revolução derivaria de uma prudência justificada pela hostilidade de ambientes diversos, mas igualmente ou seu talento se condensava na narrativa romanesca? Desfeita a esperança de que o conhecimento nos ajudasse em situar a problemática paratório assinalando os eventos mais importantes Lados depois de 1789. Recém-vitoriosa trono, o duque de Orléans, acompanha-o, dos se encontra perigosos,

replicar que só não haver sua cabeça rolado em anos tão terríveis o candidata

ser posto entre os homens beneficiados pela sorte. Sua boa estrela não deixa de ser também a de seu romance, provavelmente por falta de espaço para que os ziguezagues revolucionários Restauração. 1865) demonstra nele prestassem atenção. Assim só sucederá sob a (Brest, 1823; no Segundo Império, do controle não havia mudado de face. A ênfase em sua proibição que o mecanismo

do contexto vivido pelo autor este item preque marcam a existência de

das Liaisons, complete-se

LES LIAISONS

DANGEREUSES:

A CRUELDADE

AMOROSA

a Revolução, Lados, como partidário em outubro

do pretendente

3.p

de 1789, na fuga para No ano

Temos mostrado que, desde o início do século passando por Tasso, até o começo do
XVII,

XVI

italiano, com Ariosto, e, naque-

Londres. Em menos de um ano, o perigo havia passado e, em julho de 1790, Lade volta a Paris. Em outubro, filia-se aos jacobinos. seguinte, lhe é concedido passar para a reserva, no posto de capitão. Em julho de 1791, demite-se do órgão pelo qual os jacobinos se expressavam, Amis de Ia Constitution,
308

com Cervantes, se acumulavam

la parte da Europa sinais de inquietação em prol de uma nova forma de relato literário; a hostilidade contra ela, exacerbada com a Contrarreforma; a utilização do mesmo recurso, a burla, por Ariosto e Cervantes, como maneira de dar a entender que não devia ser levado ao pé da letra o que diziam, assim livrando suas obras
309

o Journal des

embora

permaneça

ligado ao Club des Jacobins.

capitais da severidade das normas ético-retóricas que se defrontava o romance decorriam

vigentes. Os obstáculos com

guagem, todos eles partilham da mesma visão de mundo, do mesmo destino, da mesma externalização extravagante. (Bakhtin, M.: 1940,35) A imposição da épica e a impossibilidade recuadas corno a Grécia homérica de que ela fosse então satisfatória

de uma exigência imperiosa na época: a exigência antirromanesca, a obrigação de apresentar não uma ficção,mas documentos, testemunhos diretos do real. O romancista, no século XVIII, tem má consciência: o romance pretende sempre não ser um romance:não inventa nada, apresenta o real em estado bruto. (Rousset, T.:1963,75, grifo meu)

decorria menos de urna aplicação mecânica da norma, criada para sociedades tão e a Roma de Augusto, que de sua presença tal coincidência assucoincidir com o a priori histórico dos tempos modernos; mia aspectos drásticos porque o gênero preterido discursiva a narrativa em prosa -

pela épica tinha urna forma não idêntica, de Pushkin,

Por outro lado, a propósito da teoria da história dos mesmos tempos modernos, Reinhard Koselleck reitera: ''A apreensão de um tempo genuinamente (Koselleck, H.: 1979,2,652). Ora, corno o pensamento o século
XIX,

parecida, mas obviamente

histó-

com a da história -

cada urna, mesmo para a Poética aristotélica, supunha urna

rico no conceito de história coincide com a experiência dos tempos modernos" ocidental desconhecerá até de urna teoria do ficcional, se impunha mesmo às com Jeremy Bentham, o estabelecimento de um tempo genuinamente

espécie determinada de mímesis. Referindo-se então ao romance Bakhtin formulava urna característica válida para todo o gênero:

aquela apreensão

histórico

o romance

de Pushkin é uma autocrítica da linguagem literária da época, um pronão é evidentemente

obras que hoje reconhecemos apreendermos

corno ficcionais. (O tempo das obras ficcionais é histórico'~ no sentido de ainda não sua historicidade.) o romanaparecia na

duto dos vários estratos da linguagem [genérica, cotidiana, "na ordem do dia"] que se iluminavam reciprocamente. Mas essa interiluminação realizada no nível da abstração linguística: imagens de linguagem são inseparáveis de imagens de várias visões de mundo e dos seres vivos que são seus agentes [... ].
De um ponto de vista estilístico, deparamo-nos com um sistema complexo de linguadia lógico, enquanto, ao mesmo gens da época, apropriado por um único movimento

por certo histórico, mas não "genuinamente

o caráter de tais obras ao compreendermos as normas ético-retóricas

Corno, de acordo com os critérios então vigentes, aquelas eram obras de ensino e/ou divertimento, ce enraizavam-se fundadas que entravavam na exigência do "genuinamente histórico", isto é, de estarem

em urna verdade temporal. corno ameaçador

Por que então o romance

tempo, "linguagens" separadas dentro deste sistema são localizadas em diferentes distâncias do centro artístico e ideológico unificante do romance. (Ib., 49, grifo meu)*

França e na Inglaterra, isto é, nos grandes centros não regidos pelas instituições contrarreformistas, à moral e à verdade histórica? Creio que a a assinaa melhor resposta é extraída da reflexão de Mikhail Bakhtin. Limito-me lar duas de suas passagens capitais. Para o entendimento haveremos de nos lembrar que à hostilidade de constituição exigência contraposta adequado

Enquanto de semipatriarcal

a épica, em sua concepção e etnocêntrica -

antiga, correspondia

a urna socieda-

da primeira,

contra o romance correspondia

os contatos com o mundo de fora não interno modo de "a se
em cosa (cf. I,

feriam em sua forma, pois "a conexão entre o destino individual e seu mundo é externo" (Bakhtin, M.: 1937-38 e 1973, 119), isto é, não penetram ser de seus personagens um mundo ativamente -, o romance moderno poliglótico", (não o grego!) corresponde se interpenetram,
já citada de Castelvetro: à verdade, enquanto cosa rappresentante

de urna épica moderna.

O mundo épico conhece uma única e unificada visão de mundo, obrigatórn e indubitavelmente verdadeira para heróis assim como para autores e públicos. Nem a visão de mundo nem a linguagem pode, por isso, funcionar como fatores limitadores e determinantes das imagens humanas ou de sua individualização. Na épica, os personagens estão limitados, preformados, individualizados por seus vários destinos e situações, mas não por sua variedade de "verdades". Nem mesmo os deuses estão separados dos homens por uma verdade especial; têm a mesma lin310

isto é, em que as diversas linguagens,

incluindo "os dialetos territoriais,
* A afirmação
rappresentata, de Bakhtin é corroborada,

sociais e profissionais",
pelo avesso, por passagem

defesa da anterioridade

da história sobre a poesia relacionava

a primeira enquanto a atenção

ao passo que a épica remetia a João Adolfo Hansen

à verossimilhança,

11,69). Agradeço

haver me chamado

para a oposição. 311

chocam e se compõem

(cf. Bakhtin, M.: 1941, 12). Essa mistura

do diverso, a

o prestígio de uma origem exterior a toda tradição literária: é negar [... ] toda proveniência imaginária. (Starobinski,
T.:

poliglossia com que o romance moderno

surge, graças ao contraste da linguade Sancho, cria um fiel à história, supostamente

1973,7-8)

gem alta retórica do Quixote com a proverbial e idiomática abismo ante a aporia de um tempo antificcional, isto é, à verdade do sucedido. Acrescente-se

Con~iderando-se

que Montesquieu

tornar-se-ia

famoso como pensador da bela escrita

uma última passagem:

político, é aceitável supor que ele jogava tanto com o pressuposto

A destruição da distância épica e a transferência da imagem de um indivíduo do plano distanciado para a zona de contato com os acontecimentos não conclusivos do presente (e, em consequência, do futuro) provocam a reestruturação radical da imagem do indivíduo no romance e, em decorrência, em toda a literatura. (lb., 35)

quanto com a desconfiança contra a ficcionalidade, para criar uma ficção sui generis, isto é, que importava não para constituir uma experiência do ficcional mas, sim, uma reflexão direcionada do político. Essa seria uma explicação possível para que Diderot, Rousseau, Lados considerassem Richardson o descobridor do que era, para eles, um verdadeiro ovo de Colombo. É conhecido o elogio que Diderot lhe presta. Lados não faria por menos. No final da longa resenha que dedica à tradução de mais um romance epistolar inglês, põe-no entre aqueles em que, com exceção do Clarissa, La Nouvelle Hélolse e Tom fones, "há mais gênio" (Lados, c.: 1784,469). Mas antes, no terceiro ensaio de Des Femmes et leur edueation, já se referira a Clarissa como le ehef d' oeuvre des romans (Lados,

o que vale dizer, de um
culos que se apresentavam linguagens diferenciadas,

ponto de vista estritamente

formal, que os obstásubmetidos à

ao romance consistiam em conciliar esse mundo de expresso por sujeitos individualizados, e apropriados. de linguagem que a sociedade insComo o ponto de vista estritaàs instituições recotornava-se inevitável o choque

c.: 1783,434).

exigência de reiterar valores e procedimentos tituída considerava verdadeiros

Haveremos de pensar que Diderot, Rousseau e Lados "fingiam" crer que Richardson descobrira o caminho do romance praticável? Ou seja, que o destacavam porque expunha a maneira de desarmar a oposição que o gênero suscitava? É mais provável supor que o romance epistolar, ao mesmo tempo que realçava o subjetivo, objetivava-o qual se induíam aqueles autores individual. dade da experiência pelo texto das cartas, dando ao leitor a segurança Daí entender-se melhor a durabilidade no do de que ali se explorava a ver-

mente formal viria a ser julgado por letrados pertencentes nhecidas (a Igreja, a Coroa e suas ramificações), entre as normas ético-retóricas A enorme entender e a produção literária.

volta que fizemos será justificada

se, por ela, conseguirmos vivido, tal já

a relevância então assumida pelo romance epistolar. Repetimos com será tão extraordiná-

Jean Rousset: "O romance epistolar aproxima o leitor do sentimento como ele é vivido" (Rousset, J.: 1963,67). Sua importância ria como de curta duração.

topos do autor que encontra, reúne e põe em ordem uma correspondência ou descoberta ao acaso ou que lhe é passada. Daí também a frequência do "desacordo" entre a advertência do editor e o prefácio do redator (isto é, do autor). do que edita, o autor ou jura de pés junSe aquele põe em dúvida a veracidade

Se as Lettres persannes (1721) de Montesquieu

usam o recurso próprio ao gênero, por que o gênero só se afirma e difunde com Pamela (1740) e Clarissa (1748), a que logo se seguem ]ulie ou La Nouvelle Héloi"se (1761) e o Émile de Rousseau? Starobinski, Montesquieu ras as cartas e os testemunhos colecionados Conforme a sagaz leitura de Jean de tal modo convenceu o público de serem verdatieique seu leitor não os viu como algo

tos que seu papel foi apenas de coleto r de textos alheios ou, mais habilmente, como Rousseau, no segundo prefácio de La Nouvelle Héloi'se, escapa de qualquer resposta definitiva sobre se é real ou inventado não se justificaria tas: por um lado, dar uma satisfação à severidade o que dá a ler. Tal prática exigências oposseus dos que examinarão se autor e editor não tivessem de enfrentar

ligado às belas-letras, senão como apólogo político: Fingir que se publicam documentos comunicados por viajantes persas, acrescentar a eles mesmo alguns segredos íntimos que se pretende haver surpreendido sem que eles o soubessem, é desde logo alegar a autoridade da vida real, é dar à obra [... ]
312

livros e, por outro, estimular a curiosidade do leitor. Os interesses de examinadores e leitores eram não menos que antagônicos: aqueles destacavam que os fatos não ofendessem a moral e estivessem bem encadeados, estes relevavam a surpresa que contivessem. 313

admitamos bruscamente ética do da do. não de corpos. Seria uma extrema ingenuidade alegar que. incapaz de dar conta do libertino que corria por fora da raia. de Tourvel. quando aparece o romance de Lados. Para não interrompermos linha contrária. a intensificação da crise da aristocracia envenenadores encarados Nicole.56-7). justamente porque dele precisam os que não se dão conta do papel do controle exercido sobre as obras ficcionais. a permanência lidade atribuída ao romance faria com que. escrevia: "Deixemos à história este título glorioso de ser o retrato da miséria humana e reconheçamos.: 1963. Merteuil. no entanto. pois ou lidavam em e improvável ou inflamavam tão artificialmente as demasia com o maravilhoso paixões e eram tão cheios de amor e intriga que a maioria deles parecia prevista 314 315 . que. a passagem do "Prefácio do redator" de Liaisons: [. Prévan. não impedirá que Les Minha senhora me permitiria ler poucos romances e obras fantásticas (novels and romances). e os que li não me deram muito prazer. Por qual razão o admirado verdade que um século depois. G. em 1734. no século tas com Voltaire XVIII. por exemplo. ser ela "uma espécie de animal erótico. Mas sempre se poderia responder que ao menos os censores sensatos sabem que a finalidade romance não exigiria de seu autor livrar a sociedade dos depravados. no final da carta CII: havia e que nos importa levar em conta a codificação controladora. Mme.: 1782.94) Mais recentemente. que conduziu o romance a um desfecho satisfatório. comprove-se pontualmente a extensão do controle pelo que dedara Pamela. em que transparece rousseauísta" (Goldzink. os devassos pagam caro - (apud May. As mulheres e os homens depravados terão interesse em denegrir uma obra que poderá prejudicá-Ias.Tome-se. talvez tenham a de atrair para o seu lado os rigoristas. do combate contra a imorase processasse o acor- por Danceny. c. senão porque Lados não pretende pedagógico? O que escandalizava sua amiga aristocrata. que devem ser de homicídios espirituais [. o grande exemplo intelectual. Esboçadas como estão as considerações pensáveis.: e monstruosamenRousseau tem mula-se o interesse do leitor. era. É do jansenista Volanges. Tal prosseguimento. Riccoboni. ] Continuo achando que este livro deve agradar a pouca gente. ao contrário. mas das almas dos fiéis. apesar de as autoridades não terem o espaço amplo de antes. G. é mecânico e insuficiente. (Lados. assim como dos calvinis- (d. Jean Goldzink acrescentou.. ib. gerais que nos pareceram l. e. a propósito de Cécile de Pelo recurso aludido. exatamente. J.: 1963. O interesse de tais testemunhos culo dos antiquários a discussão com os intérpretes que Lados tenha lançado mão. a marquesa de Merteuil. ]" só últrapassará o CÍrse aceitamos que especializados em história da literatura (apud May. No entanto... entre jesuítas e jansenistas. indis- É indiscutível que Rousseau era. descomprometido com a vigência dos códigos. que tinha como pressuposto como que o respeito à veracidade histórica era o recurso para desarmar os relatos infamantes. provocava. que nada de edificante pudesse ser retirado das Relações perigosas. em texto de 1665: "Um fabricante de romances e um poeta de teatro são públicos. (Rousset.24). ou finge-se respeitar - o controle e estidas respostas. de um deus ex machina. a partir dos destinos reservados aos Valmont é morto em duelo dois grandes libertinos.. a réplica de um hoje desconhecido Lenglet -Dufresnoy. é obrigada a fugir . imagem negativa tanto de Julie quanto de Mme. 12) então como uma Hélolseinvertida: o movimento ascendente para a ordem e a harmonia em torno de Julie se invertem em um movimento descenLiaisonsaparece dente para a desordem e a discordância em torno de uma figura feminina igualmente dominante.: 1963. que o romance é o quadro da sabedoria humana [. em contraparte. venhamos a Liaisons dangereuses. esta vítima do homem que é o exato contrário de Saint-Preux: Valmont. engenhoso te inocente". respeita-seséculo XVII. herança de seus enteados.44). para Lados. 26). como não lhes falta habilidade. Porque não pretendemos ana1isar Richardson. no seu De l' usage des romans. ]" já controladoras como culpados de uma infinidade seu Émile invertido. É verdade que à desmistificação da marquesa de Merteuil corresponde a reabilitação de outro libertino. Já no "o estado do selvagem no estado de natureza manter seu propósito La Princesse de eleves teve de enfrentar a duplicidade já não tornava viável a virulência 2001.. desfigurada pela varíola e condenada por se apossar dos diamantes.J.. na aparência impossível. alarmados pelo quadro dos maus costumes que não receamos apresentar. no final.e a prática do bem se mostra vitoriosa.. Liaisons inverta seu modelo: Isso. Prévan. tanto como pensador como romancista. Mas o recurso.

a utilidade. c. Se a primeira assinala a im po rtân - cia que teria. é o que se poderia chamar um romance contra -autobiográfico. que as edita em 1903 explicava que o poeta se prosaber sur la vérité du récit. tal pressuposto a afirfundado algumas observações pontuais sobre os personagens. T. a sátira e a burla. Ou seja. pertençam ao mesmo meio aristocrático.-G. Tudo gira em torno das tramas engendradas que fazem da vida um exercício de libertinagem.: em um dos polos do romance. a sociabilidade.: 1964. ( e. sobre 'o segredo' (la dé) das Relações perigosas" (apud Le Dantec. destaquemos três. assim como sua admiração por Rousseau antes o estimulava a escrever um romance oposto. é o cérebro das maquinações.: 1958. autor. o seu executor. embora todos os personagens. XVIII". Tartufo do século desfecho" (Ba udelaire.. 14). as duas seguintes são suficientes para que o leitmotiv da guerra se estenda além do visconde de Valmont. infantilizados Para o burguês Lados que sonhava com a nobreza. a paródia e suas ramificações.7. a guerra que se trava. 1002). "seus personagens enquanto cena teatral. No caso de Cervantes. a pieT. agente principal será Valmont: Tourvel.200) entravam em cena para ser negados. creio que. ao afastar-se de Rousseau. 150-1) Embora a solução de Butor seja bastante trando-se engenhosa.2. escrevia: "Champtleury.: 1856-7. é a peça central da obra. Com efeito. Edouard Champion Escrever-lhe" (Baudelaire.: 1998. Michel Butor considera Les Liaisons dangereuses tão parodístico quanto o próprio Quijote. 999 e 998). "Sempre supe- rior a Valmont e ela o prova". estes porque os burgueses ressaltavam a conduta honesta do homem plebeu. guerra nobre: "A "ligação" entre a nobreza e sua origem está suspensa. aproximava-se da obra que abriu a tradição do romance moderno. não fosse incomodado. Lados traz a à performance. assim também "todos os valores fundadores do Iluminismo: a propriedade. Preciso. 2001. a família. por dois aristrocratas ociosos. Em Lados. Na impossibillidade é. Valmont e Merteuil. o trabalho. único herdeiro das guerras e dos amores de outrora. a carta CXXXI. com ele. passamos a ter condições de entender que o romancista. Ora. como Baudelaire diálogos de La Vie de da nobreza. isto punha a entrar em contato com Champtleurypara 1486). "É a desavença entre dois celerados que provoca o c. tinha de transigir. grifo meu) meio desta paródia desmascarada. Por isso mesmo. No final de anotações datadas de 1856-7.147).A ao romance porque. (Richardson. S. À glória das armas passa a suceder uma paródia de glória" (Butor. a paz" (Goldzink. ainda quando mesmo estamento envolva centralmente nobre. desligando-a tral bem se adimata exceção da presidenta variedade da ação indispensável falam e deles se fala" (Florenne. Dentre elas. Para intentá-Io.454. as A marquesa. absolutamente desprezados.. que passavam a acossá-Io desde que se recusava a seguir o caminho do mestre Rousseau. Tartufo dos costumes..para inflamara imaginação do que para informar o julgamento. tinham como pressuposto mação da superioridade. Conforme o que Baudelaire já havia destacado. o que então o fará aparecer como o único verdadeiro nobre. Ela tem por pretexto a carta 317 .: 1856. no 316 como Cécile e Danceny ou velhas conhecedoras para a narrativa a diversidade de linguagens que Bakhtin tão finamente capta. recordemos a intuição de Baudelaire. prerrogativas nas relações sociais. (lb. não têm existência senão dinâmica teacom sua traz ( ( depender menos de ações individuais que da qualidade dos exércitos organizados. nunca convertidas em ensaio definitivo. dos conluios mundanos - de posições -libertinos. desde que o empreendimento da guerra passara a o e Valmont. todas tendo a marquesa de Merteuil como referência ou incluindo-a: "Tartufo fêmea. concen- Enfrentando as mesmas interdições referidas (e aceitas) por Pamela. a solução então é escrever um romance. enquanto autorretrato da marquesa. devotos. a educação. obra circulasse e ele. "expor" a totalidade desta aristocracia parisiense [.. o contrato.. Baudelaire fazia dade. ]. não tendo podido fazer-se um nome pelas armas [. em um estudo mais extenso. Só que a paródia tem agora um outro alvo. Seu jogo era tanto mais arriscado porque ofendia não só os valores da nobreza como os da burguesia. Y. o cotejo com Moliere. da nobreza. Lados tinha de barganhar com as normas estabelecidas.: 1740. bem o percebe. Além do mais. a moral. não extrai todo o alcance da guerra que se processa. se queria que sua Se aceitamos a urgência que tinha Lados de acatar essa exigência. de saber o "segredo" do romance. pressuposto fora invalidado em sua excelência na guerra. ]. M. tem um caráter bastante diverso: é uma paródia da Se'n sem descrição de paisagens e ambientes ou os derramados Marianne (1731-42) de Marivaux. aqueles por se basearem nos critérios de honra no romance. quase ingênuos.

Laclos.421-2). para cumprir seu propósito. faz da noite de núpcias ocasião para reconhecer "fatos a recolher e meditar" (Laclos. Pois. nossa sorte é não perder e vossa desgraça não ganhar" (ib. para fazê-Io. chamamos tória com os princípios da missivista. ] Quando se é senhor uma vez. A refletir e a dissimular: '. e não o contará. toda a beleza da paixão está acabada e adormecemos na tranquilidade desse amor se um objeto novo não vem despertar nossos desejos e apresentar a nosso coração os encantos atraentes de uma conquista a cumprir. ao entrar na sociedade.: 1782. no modo como lida com a experiência amorosa: "Em vão me haviam dito e havia eu lido que não se podia dissimular esse sentimento. Se sentia qualquer mágoa. aplicava -me a assumir um ar de serenidade e até de alegria. e o êxito de Merteuil tanto maior pelo ridículo que recai sobre seu pretenso sedutor e o castigo que o atinge profissionalmente. J. não foi uma parcela decisiva em sua derroapenas a atenção para a discórdia que Lados acentua entre o que 319 . à sua maneira.. capaz de possuí-Io. aprende a não procurar os aplausos da sociedadecontenção que significa não divulgar suas relações. assim aprendendo nação deles e a fazer com que nascesse o seu desejo e fosse dirigido por elas (cf." (Mo1iere. conforme seu princípio central. Merteuil então se toma a si própria como campo de provas que a capacite a tornar-se instrumento habilitado para vingar a inferioridade que a sociedade reserva a seu sexo. Merteuil é bem mais discreta. dele se distancia para conhecê-Io e dominá-lo. Desde então. consegui ter facilmente esse olhar distraído que louvastes tantas vezes.: 1774. Assim. com fama de como símboloda por se honesta representado na opinião da corte. portanto. 549) Como cedo aprende que. c. eu percebia que.: 1783.. Como dirá no final da carta: "Quanto a Prévan. para vingar seu sexo e dominar os homens. 177). Nela. Dentro dos limites desta análise. Se então já existisse a resposta de Laclos sobre a educação das mulheres e ele se desse o direito de fazer -se citar por seu personagem.: 1782. no futuro. descobriram "no estado de guerra perpétua" de onde poderiam que mantêm com os tirar vantagem: em aprender "a velar a inflamar a imagi- armas do amor. mesmo quando desejavam consentir'. (Eis um detalhe que não podereque serve de fundo para o se a sua feitura. 169). Forçada muitas vezes a ocultar o objeto de minha atenção à vista dos circunstantes. Em vez de nos indagarmos ta. A marquesa. ato I. "nessa partida tão desigual. Em duas palavras. nem nada mais a aspirar.. Levei 318 mos explorar: ora. cena II. Seu êxito consiste. só dispunha das Na verdade. como escreverá lapidarmente. mont o plano que começara a engendrar ainda quando garota: nascera. em que a adverte a respeito de certo cortesão. Encorajada por esse primeiro êxito. (lb. contradi- seus atrativos para despertar a curiosidade.. Merteuil é uma espécie do sobrinho de Rameau em miniatura. é precisamente esta carta-memória entendimento de Liaisons. bastava juntar (ib. que encontrava seu protótipo com o teatro clássico.173). 174). e incriminá-Io. tratei de regular da mesma maneira as diversas expressões da fisionomia. o acidente apenas servirá para nos introduzirmos na carta.. dedicou-se a refletir sobre as relações entre os sexos. D. a ponto de supor que algum conquistador podia ser-lhe um risco.-B. diz ela. Por isso. seu "combate" com o oficial é um conluio magistral. além do mais. ele quer contá-Io. I.: 1665. em praticar "a arte dolorosa de reeusar. c. possam comprometê-Ia. ainda solteira. eis nosso romance" (Laclos. encarnação do cínico completo. quero tê-Io e o terei. homens. Merteuil principia o zelo a ponto de me causar dores voluntárias para procurar durante esse tempo a expressão do prazer. assim como não permitir que elas deixem marcas visíveis por exemplo. P. julga-se resisto a pensar que a posição de Merteuil é a resposta à afirmação da masculino Don Juan de Moliere: [. Merteuil conta a Val. Merteuil simula o amor para que dele usufrua sua única parte que lhe parece inenegando-se a vivenciar sua inteireza. 171) "Ainda que não possa levar adiante a comparação nidade.. que dissera estar disposto a desmascará-Ia mulher declarar ofendida por seu amigo julgá-Ia tão desprovida de recursos. não há mais nada a dizer. casando-se virgem. a marquesa poderia lembrar-se da passagem do capítulo x em que seu autor introduz a maneira como as mulheres. converte as mulheres em servas de seus senhores. não só se julga acima do poder de trama do que pretende desmascará-Ia como se propõe a inverter o jogo: em vez de possuída e denunciada. não sedutor imbatível. c. Sem pretensões a servir de exemplo para filósofos. Este. frontalmente. crê que a "boa educação é tão-só aquela que conduz a todos os tipos de gozo (jouissances). procurei dirigir a minha à vontade. sem perigo e sem inconveniente" (Diderot. mantê-Ias sob rigoroso sigilo. cartas! que.LXXVI de Valmont. porém.464). que. O que vale dizer: ao espírito de um autor o talento de um comediante" quivocamente positiva o prazer -.

primeiro tratado do amor tímido [. objetivar uma experiência subjetiva. Valmont executa o plano como facilidade e perfeição. a já declara sua perversidade: "A gente se aborrece de tudo. a culpa não é minha. "Quero tê-Ia para superar o que sou (me tornei): para dar fim ao prazer e ao ridícué simplesmente O choque é tamanho que Tourvel cai de cama e se recolhe a um convento. Para Merteuil. com ares de vitorioso.na duração de um par libertino. de e fidelidade conjugal de Tourvel. ainda lhe prepara outro ardil: pretere-o em favor do ingênuo Danceny.. (lb. como o viscono nobre que ousara a inferioridade atingiu uma capacidade de que Valmont. desviei os olhos. Fora de tempo. querendo favorecer-lhe a volta. anjo. meu convento para casar-se com ele. poucos dias depois. incompreensível. a presidenta mont narra. engravida Cécile. é uma lei da natureza. l'ignore presque toute. apenas ocultava a conquista que já estava feita: "Minha bela amiga.: 1998. para a marquesa.). que já fora seu amante. mau aluno. instalar-se coisa estranha! . ativas agentes do partido beato e as "pretenciosas" (nos femmes à prétentions). além da que a sociedade estabelece um território (id. 50) O processo da ruína de Valmont supõe os seguintes passos: para recuperar-se ante os olhos de Merteuil. qui ne parle que de passion. de onde só sairá. Valmont agora reconhece que a amava perdidamente. Mas que significa possuir madame de Merteuil? Duas coisas também: passar uma tarde com ela e renovar uma ligação. O começo Se hoje.: 2001. 109). que se julga muito esperto. sujeitando-se sua parte o visconde não compreende o visconde. Mais grave ainda: seu absoluto desvio do código superior de libertinaSeus rumos não podem ser gem engenhado por Merteuil. Merteuil. as "respeitáveis matroexpertise. Ou seja. política" que a move glória entendida no mesmo sentido do inimigo. de fato.. isto é. 129). Merteuil criou para si uma filosofia do prazer que exclui a pai- . louca e morta. ]" (ib. Com isso. 321 amoroso. a fixação em e pela libertinagem. ademais. 320 J. A agente da morte. q~. Como. essa é uma debilidade de que Valmont discorda lo do amor" (Goldzink.) Enviuvando conservá-ia" tariamente. dades e a empregar em tisnar minha reputação xão amorosa. teria o prêmio extra de presentear seu futuro marido com um bastardo. uma jovem devota. que fora tirada do Tourvel para superar e suprimir o sentimento que o embaraça. se estabeleceu entre nós essa convenção tácita. Valmont? Duas coisas: possuir madame de Tourvel e possuir madame de Merteuil. o doce olhar estava fixado sobre mim. Diante de tamanha risco? Em troca.. Conto com o gozo (a consumação) incompreensível. (Daí a extrema justeza da observação já citada de Malraux:" Ce livre. tudo se realiza para o desgaste Mas o visconde. copia a carta que Merteuillhe da carta-modelo mandara e a endereça à vítima iludida. mostra-se aquém do código superior de libertinagem ra e domina. mas além da libertinagem ordinária tal como ele a exerceu e definiu suas regras com a marquesa. demonstrando que Merteuil não atine que ele procura ter nas" (ces reconnaissantes Duêgnes). ao mesmo tempo. tra. eu me aborrehá quatro meses mortais. imediatamente baixou de novo.seria adequado à vida livre de uma mulher e o que se impõe para a configuração efetiva do romance. depois de quebrar a resistência da presidenta. 154-5). mas. Quanto se engana! A "ciência expe- 1. como se involuncertos deslizes seus.") Eis o motivo da desavença (brouille) tão finamente captada por Baudelaire. preTourvel. encontrar a constância. Se ela não consegue entender que seu parceiro ainda recaia na paixão amorosa. Merteuil e Valmont aspiram a glória de conquistar o corpo desejado general que pretende conquistar "motivação para a mulher -. O que. deles mostrando-se tipos de impostores. Mas a missão fundamental como aproximá-ia do compromisso matrimonial. O sonho de Valmont é. em que a marquesa se tornara mesque ela montaafirmação o que Valmont não percebe: que ele ama Tourvel. em fazer com que se espalhassem. A marquesa. O último plano não funciona porque Cécile aborta. Danceny. grosseia toda sua carga de sofrimento e dor. depois de afinal vencer a resistência de Tourvel. de ganhou o apoio de dois importantes ro copista.. leva-a a reconhecer portanto. discórdia que era o avesso da razão do êxito e da popularidade do romance epistolar. não se dá conta. a jovem Cécile. pensa em voltar a ter uma relação íntima com Merteuil. se cumpriu: não só seduzir a inexperiente de outro ingênuo. ço com uma aventura que me ocupa mortalmente culpa não é minha" (ib. Imediatamente. Valda Tourvel como a inesperada resistência tende seduzir. Merteuillhe de. ousara pensar em adverti-ia de que corresse algum confia a tarefa de prejudicar seduzindo tomar a iniciativa de abandoná-ia. cedo. portanto. seu xadrez consiste agora em "ostentar algumas leviano cuidado que contava pôr em arrependida. O visconde o narra como prova de que sua habilidade libertina venceu os sentimentos honradez rimental do homem" (Versini. É essa quimera que levará Valmont à sua perda e o par à sua ruína. mais diversos e a desavença apenas se prepara: Que quer. inutilmente. pois.. 325).

Aristóteles. 1932 PREÂMBULOS PARA O FIM Quem. Essa seria a libertinagem extraordinária que alcançaria ao restabelecer sua ligação com Merteuil. Não importa até onde tenha ido o processo educacional: haja terminado com excertos dos trágicos gregos ou. De 1815 a 1875. Lados ousou mexer em uma casa de marimbondos. A aprendizagem feita pela marquesa consistia em preparar-se para dominar a atração afetiva e evitar o sofrimento. Só os mais curiosos. muito menos de renunciar a algo prazeroso. o livro estará interditado.A sorte. a boa ordem saberá manifestar sua indignação. havendo sido descoberto como enganara Prévan. extremamente fina. sem abrir mão do prazer proporcionado pela relação erótica. Implacável. que até então favorecera o casal de libertinos. quer os pensadores gregos.para não ser presa por furtar. já não houver guilhotina e o transtorno que um imperador corso tiver acabado.Enciumado. Apenas parecem tardar pelo caos que vive a França. 322 323 . genial como poucos. Do contrário. céticos ou inquisitivos terão duvidado da unanimidade. Merteuil opta por essa. estivera noites seguidas com Cécile. a pretexto de ajudá -10. Laurence Sterne ou a reta desdenhada In this interest in silence rather than in speech Sterne is the forerunner of the moderns Virginia Woolf. é obrigada a fugir. Mais do que um libelo contra os costumes dissolutos da aristocracia. a adaptação cinematográfica de Roger Vadim é ameaçada de proibição. o prolongamento do tratamento parodístico atinge tamanho ápice que os mecanismos de controle não poderiam calar. De sua parte. no Ocidente. Valmont dedara à marquesa que. Quando a agitação revolucionária se acalmar. será a guerra. costumes e crenças locais. Entre a beleza e a verdade. nunca cogitou em trazer a questão da mímesis ao argumento metafísico. com saltos sucessivos. chegado aos contemporâneos. da experiência amorosa.mais próximo da bonne conscience iluminista do que gostariam seus admiradores -. no máximo cedendo um lugar aos artistas dóceis. Por isso informa a Danceny que Valmont. agora se inverte: Valmont é morto em duelo por Danceny e Merteuil. é rejeitada pela sociedade que antes a aplaudia. o plano não tão bem formulado por Valmont consistia em conciliar estabilidade amorosa e flutuação erótica. tenha recebido uma educação formal terá ouvido falar em Homero como o primeiro poeta que ampliou o mundo para além de intrigas. o romance de Lados era uma análise. sabendo cada um bastante das trapaças do outro. Ainda em 1960. sofre um ataque de varíola e. Quanto aos cristãos: "Aliberdade concedida por Lactâncio e Agostinho estendia -se apenas '. 4. com uma inteligência da forma que continua a confundir toda a gama de devotos. será oportuno que permaneçam amigos. Na inversão do modelo didático de Rousseau . o educando terá convivido com a afirmação implícita de que o Ocidente sempre prestigiou seus poetas e artistas. O mau aluno não conhecia o significado de diferir. quer os cristãos não hesitavam: Platão reservava sua República ideal aos não-poetas.

presentes entre o Renascimento e o realce do pensamento científico 324 (Bacon e Descartes). pois de antemão reconhecia que o mecanismo do controle. Não é ocasional que Gorham Davis diga a propósito de Sterne que "no romance inglês dos próximos 150 anos. exercido sobre a obra ficcional. Poderia ser contestado que tal apreensão antes caberia a um sociólogo que não se contentasse com uma concepção economicista da sociedade. quanto o estimulado pela justificação da ciência. Em uma década em que ainda não eram frequentes as abordagens reformuladoras da posição atribuída a Sterne. W.) Pareceu-me. Não se pretende dizer com isso que o romance estivesse contido na ordem das coisas. a ausência de justificação alegórica . Não adiantaria então alegar que o autor continua tratando da Idade Média porque mesmo o leitor pouco empenhado saberá.: 1952. compreende 850 páginas (ef.: 2007). com exceção do estudo do De anima.. que uma maneira de avançar na indagação proposta haveria de consistir no destaque da relação entre os modos diferenciais de controle. Ampliar a significação da frase. ]" (Nelson.a poliglossia contrária ao monologismo (Bakhtin). como um fruto cuja semente apenas demorasse a brotar. estivesse fundamentalmente me baseando nas indagações de historiadores não teria por que ser perturbador. 23). c. considerando tão-só o Iluminismo francês. Contudo a continuação das pesquisas que tinham levado à Trilogia me fez perceber que o próprio mecanismo do controle ainda não estava bem focalizado. implica uma linguagem . suas descobertas desapareceram da consciência de seus sucessores" (1971. de fundo religioso. a prosa hispano-americana e brasileira do século XIX. procurei mostrar que seu percurso se cumpria tendo sobre si a paralela sombria do que chamava controle do imaginário. Richardson e Fielding. Como eu próprio não poderia me improvisar nesta figura.). 163). W. Wayne Booth observava que. ao fazê-Io. se tomassem como verdades [. Costa Lima. Contra a pretensa vida fácil que o Ocidente teria reservado a poetas e artistas.46). que a imaginação só adquirirá ampla dignidade fIlosófica no final do século XVIII . De tal modo Sterne avança sobre seu tempo que sua figuração do controle não só esclarece o peso que recaía sobre os contemporâneos como o que continuará ativo no século XIX. os pensadores referidos ou pertenciam à idade que nos ensinaram ter sido das trevas ou aí tiveram sua máxima influência. para afirmar o real parentesco de Tristram Shandy com a literatura. Embora escrito antes do romance único de Laclos. era necessário chamar a atenção para um elemento até então despercebido: "o narrador auto consciente de sua própria história de vida" (Booth. só pode ser demons~' trado a partir de sua circunstância político-social. delas aqui não se mostra mais do que uma pequena apresentação. Não-ficcionistas como Montaigne e Richard Burton e ficcionistas como Swift teriam ensinado Sterne I 325 . É certo que. como os romances de Diderot e as sátiras de Swift.a Crítica da faculdade de julgar é de 1790.que contrariava tanto o controle ético-retórico. e o gênero romanesco. a valorização da fala e das ações do homem comum. cuja afirmação fora adiada e continuaria a ser prejudicada mesmo depois de sua aparição auspiciosa com o Quijote. Só a partir do momento em que algum círculo de letrados. que.: 1969. que materialmente se mantivesse próxima da telegrafia. A inquietação que a frase entre aspas poderia provocar é rapidamente sanada: afinal. mesmo pequeno. concentrando minha indagação no Renascimento italiano e antecipando seu prolongamento pela Espanha e pela França. Para quem conheça as duas últimas obras analisadas . por contraste. o Tristram Shandy não só pertence a outra linhagem de narrativa como. feitos os cortes do que já me pareceu desnecessário. senão que. (Não me refiro às teorias da imaginação. não vivendo em um país em que a atividade intelectual não fosse solitária e marginal.tiveram de ser abandonados. com relativa facilidade. escrevi o que. na edição recente. 1. O fato de que. Assim objetos que pretendia estudar. Seainda insistíssemos e o leitor se permitisse ir um pouco adiante. uma maneira de fazê-Io consiste em começar por discutir tese de que divergimos.. ademais. por erro. nos anos 1980.às significações retóricas da verdade. possa reconhecer a seriedade da questão o problema do controle ganhará interesse. tornou-se uma obsessão. estava fadado a não ir muito longe. Na primeira vez que a pesquisei. evidencia que um poderoso panopticum incide sobre o romance de Defoe. propus-me dar um pequeno passo adiante. Não aos contos inventados. logo encontraria a afirmação: "Desconfiava-se profundamente da própria imaginação como a faculdade que distorcia e falseavaa realidade" (id. porque.Les Liaisons dangeserá desnecessário explicar por que se desobedeceu reuses e Tristram Shandysua cronologia. Tínhamos assim ocasião de precisar a incidência direta do controle do imaginário sobre a ficcionalidade do romance. Logo percebi que não conseguiria ultrapassar o século XVIII. como gênero. Como será indispensável discutir a ruptura que Sterne estabelece.

tinham um 327 . mas sim que os procedimentos empregados por Sterne sejam mais do que "extensões tomadas de empréstimo a Fielding" (ib. suspende-se automaticamente a solidariedade entre o narrado r e a tradição narrativa com que ele se defronta. menos unificada do que estivera em suas mãos e nas mãos de seus predecessores" (ib. Isso posto. provocar a paródia do todo. que passa a ser ridicularizada. isto é. Wayne Booth não mais se refere ao intruding narrator. Richardson e Fielding. É.. estamos na obrigação de tomar outro rumo do assumido por Wayne Booth. 176)! Na tentativa de extirpar de Tristram Shandya pecha de a mad. Booth não acertava. sendo o presumido autor de sua "autobiografia". Em poucas palavras. em sua obra mais importante. (É exata- Neste sentido. não compreendia Tristram Shandy senão como extensão do gênero "romance cômico". O analista negaria. Sterne se achava no dird. isto é. há de se observar que. levanta-se a possibilidade de o narrador. Para tanto. ao interferir no relato da ação de um personagem. por sua "intromissão" o narrado r se solidariza com uma tradição. a obra romanesca tornou-se "mais difusa. para ele. o caos éostensivo e passível de"explodir o romance"? Não. Os exemplos são tão abundantes que se poderia pensar que a dificuldade do analista estaria em que obra deixasse de incluir. Tristram não poderia dizer que apresenta sua autobiografia porque tem como assunto sua intromissão no que outros falam. na tradição mais próxima a Sterne.." (lb. o Quijote é o primeiro exemplo de narrado r autocentrado. Booth vê-se na obrigação de definir melhor seu termo básico: Nossa atenção deve centrar-se seu romance para se comentar plesmente um produto no narrado r autoconsciente que se intromete em como escritor e para comentar seu livro. no que não haveria nada de espantoso."a estabelecer a ordem a partir do caos aparente" (ib. em suma. com Fielding. tampouco insiste na continuidade em que incluía Sterne. no capítulo sobre Defoe. ao fazê-Io. Booth nomeia uma série: A Tale of a Tub de Swift. 171). Le Roman comique (1651. comentam ou fazem a pretexto de seu nascimento. 176). 165) com implicações morais. assim como. to de explorar o caos e tornar sua obra mais difusa. A pequena mudança acima introduzida provoca outro resultado: ao se intrometer nos assuntos de seus personagens. o princípio de continuidade pressuposto pelo crítico. "são idealmente projetadas para suplementar a paródia fundamental do todo. o narrado r o faz de tal maneira que incrementa a presença da paródia. Desse modo. portanto.. inexplicable thing. sem artifícios ou ornamentos retóricos. Ao lado de Cervantes. a propósito de Richardson e Rousseau. Tal narrador seria então chamado onde quer que aparecesse algo bem extravagante. Antes de Sterne. a tradição narrativa converte-se em objeto de ridículo quando o narrado r defende as suas próprias práticas absurdas ou ataca a de outros autores.resultava da "reivindicação de [pôr] método na loucura" (ib. provisoriamente. paradoxalmente.. dependendo de seu humor" (ib. pois afirmara que a figura em pauta .) Booth não prevê essa hipótese porque. a fim de estabelecer as escolhas necessárias ao desenvolvimento de seu enredo.. tanto na primeira parte. questionar toda a tradição narrativa. seja dos pressupostos da ação. não sim- como uma série de acontecimentos literário criado. do ponto de vista da visão cotidiana ou ainda da linha romanesca que a prolonga. por que compreendemos imediatamente a íntegra ingenuidade do tio Toby ou a erudição oca de Walter Shandy senão pela dita intromissão do narrado r? E por que o próprio Tristram assumiria o papel de narrado r intrometido senão porque. porque tornava o alvo demasiado amplo. vimos que as confissões e os relatos de fatos conformes ao que se considerava realidade crua. isto é. no Tristram Shandy. Pensemos sobre o que é aí dito. porque já contava com o respaldo de uma continuidade estabelecida. lembremo-nos que. empiricamente só assim poderia justificar o título do livro.) A maneira como Booth entendia Sterne é atestada pelo exame de um pequeno trecho de seu argumento: as intromissões do narrador. diz ele. como nesta segunda. 170).. Le Roman bourgeois (1666) de Furetiere. seja da própria narrativa. a excentricidade de que Sterne fora tantas vezes acusado? Negaria que. a procura de estabelecer uma continuidade que se cumpriria ao longo do romance do século XVIII que compromete a contribuição do crítico norte-americano.o narrado r que se intromete no enredo que conta . a criar o que Booth chama "narrador autoconsciente ou intrometido': Ante a objeção de que em toda obra escrita há sempre um narrador que se "intromete". não o nega. 326 mente o que fará Machado de Assis. que quase não trata da vida do protagonista? Ou seja.1657). 164). Por exemplo. submetendo a postulação a uma pequena mudança: afaste-se. o romance conhecia um cânone formal estabelecido. The Rhetoric of Fiction (1961). mas como (Em respeito ao amadurecimento do crítico. Wayne Booth recaía na apreciação oposta.

timar. a análise da subjetividade e da temporaanterior de é uma variável dependente da abordagem "é impossível que algo seja e não seja. o homem seja uma criatura virtuosa (lb.. mas não exclusivamente. devemos procurar ver qual a finalidade derradeira em estudar a mente humana" (Tuveson. Mckillop (1954) .enorme prestígio porque respondiam uma tradição que ele continuaria. porque se impõe a melhor compreensão de seu desacordo. por analistas tão diversos como A. V.: 1988. relativa indiferença em que permaneceu até recentemente. em vez de constituírem que.597). Graves (1981). Tampouco há princípios práticos que sejam inatos. que o torna objeto das críticas ferozes de seus contemporâneos. Tomando as décadas correspondentes Sterne destaca-se pelo oposto de qualquer continuidade. sua temporalidade é um signo de como ela modela a si própria. Tuveson (1962). I. Nietzsche referia-se a Sterne como "o mais livre dos escritores" (Der freieste Schrifsteller). Por exemplo. também era a razão do extraordinário Havíamos começado do. essa "Por muito tempo. que Tristram se dispõe a empreender em um esforço total. Se há alguma ideia capaz de ser considera329 * Em "Ao leitor'~ prefácio a Memórias póstumas:" [ . Allzumenschliches (1878). ]" (1881). em obra já de 1954. do Menschliches. lI. Locke partia da oposição a Descartes: o conhecimento ce princípios Enquanto a subjetividade produz seu próprio tempo. Cash (1955). eram a prova de que o romance. da associação e sua crítica da linguagem" prestígio que gozava com um Nietzsche extremamente datada: para e com o nosso Machado. Griffin (1961). haveremos de começar humano desconhepor uma visão geral da parte do Essay que importa para o Tristram. Para entender seu gesto fundamental. 328 . das "Vermischte Meinungen und Sprüche".. não tanto preocupado tudo. lI. da análise já é precisamente Tristram mantém em riste o dedo satíserá preciso evidenciar o modo como de Wolfgang Iser. R. em diferentes graus. L. ] Se adotei a forma livre de um Sterne [. isto é. Já a primeira formulação lidade que engendra isto é. sobre- propósito do livro de Iser fossem o objeto imediato de nossa atenção.: 1962. no começo do fragmento 113. ressaltava que a ironia se intercalava entre o pensador e o romancista. é" ou l. dele queria que fosse coerente com a conformação sonagens..: 1961. felizmente agora abandonacomo a ilustração cômica da a esse quadro como um bloco. Wayne de Sterne como a de um autor que dava cono contrário no Tristram Shandy Apesar do otimismo de Burckhardt. a aproximação com Locke é mantida. subjetiva de seus perMuitas formulações serão poupadas se lembrarmos Sigurd Burckhardt: É a sua singularidade bem como da e. Tristram Shandy's World: Sterne's Philosophical Rhetoric. os antecedentes de Sterne. Em outras palavras. e a da disposição do leitor que. É certo que John Traugott. Não o faremos porque a compreensão pelo prévio exame das relações de Sterne com o pensamento de John Locke. O penúltimo chega a declarar: "Em vez de nos preocuparmos com as muitas e de Locke detalhadas 'fontes'. para se legique ele não fosse com a ver- com duas frentes: a do controle institucional. exemplos como "o que é. da verdade histórica. portanto não são inatas" (Locke. H. Sterne é o próprio responsável pela insistência na aproximação.256). ao mesmo tempo" não são provas do inatismo. a aprovação da virtude decorre de que seja útil e não de que. que nele ressaltam o mesmo traço de liberdade. * com uma abordagem salvar Sterne do ostracismo tinuidade em que estava posto ainda nos anos 1950. foi um lugar-comum doutrina de Locke sobre a doutrina S. E. Booth caracterizava sua abordagem O pressuposto à tradição do romance. pois as crianças e os que sofrem de debilidade mental não têm a mínima noção de máximas que seriam de vigência universal. J. Em vez de continuador. 4). de fato pretendia inglês - de valores "subversivos". da crítica.. I.A. "as regras morais necessitam de provas. em si e por si mesmo. da mesma maneira. que o Tristram Shandy havia de ser entendido (Burckhardt.. LOCKE E STERNE dade. rico. De qualquer modo. 6). histórico e narrativo. a subjetividade tematiza o mundo: Por suas várias referências ao Essay Concerning Human Understanding. J.: 1690. tivera de barganhar querendo-o próximo um instrumento positivamente à exigência de autentici- como a narratividade se realiza em Tristram. Seria de esperar que as afirmações a do prolongamento que pretendemos será facilitada dade. de posse dos quais a psique humana fosse guiada entre o mundo das coisas e dos afetos. ao contrário. E. radicalizando-a. (Iser. W. D.76-7) ( que lhe fossem inatos. Articular esse processo requer intervenções deliberadas no tempo cronológico.

via sensação.. XVII. As sensações. as espécie de substância. decorre da reflexão sobre a quantidade o que pode ser legitimamente Em decorrência.. então a mente não pode extrair das coisas nada além do que as coisas lhe propõem (ib. em 2). representada por ela" (ib. Apenas anotemos: como a ciência ressaltará o papel da percepção.. "A frieza e a dureza que um homem sente em um pedaço de gelo são ideias tão distintas à mente como o cheiro e a alvura de um lírio ou como gosto do açúcar e o perfume da rosa" (ib. já as ideias de percepção e vontade derivam da reflexão. lI. Apenas devemos levar em conta que nossas ideias complexas de substâncias. passagens capitais:" [. não sendo inatas. Ela se exerce desde as percepções mais indisfarçáveis algo próximo até o trabalho da mente sobre si mesma. Assim. para Locke. 4).... a partir daqui aumentam de Até aqui. a do toque de algo duro com que me defronto ou da vista de a natureza como causa direta das de sua teoria. e. I. a ideia de infinidade é concebida como um modo de quantidade. isto é. ] Se afastamos toda consciência de nossas ações e sensaas de prazer e dor. será difícil saber onde pôr a identidade pessoar' (ib. 11. Tais ideiàs simples podem ser combinadas. o corpo é uma coisa extensa. lI. ções. 11. 3). No entanto. quer entre os antigos. têm sempre a ideia confusa de algo a que pertencem e em que elas subsistem: por isso.. as operações cumpridas ou a partir das sensações ou independentes percepção. tem extensão idêntica à vida? Não. lI.XIII. senão que ou de mais de um ou da mente a pensar 1). remetem a uma ideia simples: além de acordo com o sentido que as recebe. pela reflexão. sem uma ideia inata de Deus". dotada de forma (figured) e capaz de 331 . estão as ideias complexas.) Se as ideias simples resultam da experiência material e sensível das coisas.. "a mente considera (takes) suas próprias operações" (ib. Locke contribui de maneira decisiva para que se mantenha. provocadas dimento sobre elas (ib. sobretudo A propósito.. Claramente. a secundariedade reservada à imaginação. via reflexão. nos. 1). e o envolvimento panha. são. Por conseguinte. "Nossas ideias simples são todas reais. perfeitamente isto é. Pela reflexão. Importa de todas aquelas ideias simples que as formam. por isso. Para a caracterização será dado. por exemplo. vimos Locke privilegiando a partir de agora. apenas a oriunda da percep- ção tão-só de um sentido.XVII. a ideia de dureza provém do tato. A vida anímica.. 330 lI. por exemplo. VII. isto é. 1). (Assim. ao passo que as ideias de prazer e dor dirigem-se à mente por todos os meios de sensação e reflexão (ib. quando falamos de qualquer assim. "pois é difícil conceber como deveriam ser inatos princípios morais. responde. 11. como. todas concordam com a realidade das coisas" (ib. "uma visão de todas aquelas ideias repetidas de espaço. Por esse motivo "são imagináveis apenas as qualidades que afetam os sentidos" (ib. lI.1. as reflexões. euja repetição infinita nunca pode ser totalmente propriedade 7). porque "é difícil conceber que algo possa pensar e não esteja consciente disso (ib.11. concebido ao considerá-ia propriedade cias pelas quais passa senão que as atrai para o campo da consciência. I. 2). sem o auxílio advindo de algum sopro espiritual. (ib. As ideias então concebidas podem ser simples ou complexas. pergunIlI. xxx.. A vida anímica. As simples distinguív& estão unidas ao objeto que as provoca.. por ela. figura. Se. que pensa ele se não em ideias que. irrepresentável. 11.. quer nos povos descobertos nações inteiras desconhecedoras pelas navegações modernas. A seu delas são lado. encontram-se I. as ideias complexas só são legítimas enquanto mantêm sua base em uma da natureza. em consequência. I1I. 1). lI. conseguinte. nele originadas. 11.. isto é. dizemos que é uma coisa com tais e tais qualidades. isto é. grifo meu). lI. ideias de extensão. A primeira implica "a suposta progressão infinita da mente. ideias. derivam da "sensação ou da reflexão. Por conseguinte. um passo mais importante ideias concebidas ou a partir dos objetos dos sentidos ou das operações do entenas diferenças e valorizações quanto ao tratamento anterior. ta-se ele. ib. resultantes de sua experiência? (ib. Postas além desse estrito limite externo. lI. 11. caso estivéssemos interessasubordinada à dos em acentuar como. implica a representação pela mente humana do que é. (A última anotação seria capital.. 11. repouso e movimento de mais de um sentido. XII. grifo meu). então.. 8). I. ou indireta.. a imaginação é absolutamente Os sentidos conduzem à mente as percepções nela suscitadas pelos objetos exterenfeixam a maioria de nossas ideias. 1). 2). mas não destruídas ou inventadas. a concepção ilimitada da quantidade. "todo homem está para si consciente de que pensa" (ib. há de ser cogitada a partir de operações materiais. lI. portanto. acentuar que a ideia simples não é necessariamente sobre si mesma (ci. fora de uma motivação ético~religiosa. extrapolamos de Deus. O papel então reservado à consciência será decisivo para sua teoria ção da concepção do sujeito autocentrado. pela repetição ou junção pelo entendimento 8). por lI.da inata seria a da divindade. a atividade anímica não só se nutre das experiêne para a divulga- para a mente humana. acentue-se uma de suas (concernment) que a acom- por extensão deve-se diferençar entre a ideia de infinidade do enquanto o espaço infinito espaço e a de espaço infinito. de qualquer noção de Deus (ib. I. em Locke.

a frequência dos hobby-horses em Tristram é todo o contrário de uma homenagem cerca os personagens à teoria lockiana das ideias. 6) em Locke não só pelo deso e sobre os processos da cognição humana: eles não podem ser explicados pelo privilégio concedido ao que é simplesmente de uma simbolização distorcida. a identiem na mesma vida continuada. pois. o uso da linguagem é inglês. (Notar-se-á que o hobby-horseé uma "doença" que os Shandy.) Assim como o pensar mal se afasta da compreensão plexas e permanece inquestionado correta das ideias compor se estabelecer e propagar pela automati- da matéria. não encontra dificuldade em explicar o funcionamento se complicar e a embaraçá-Io das ideias simples. o principium tionis tanto ressalta a percepção. partir das noções já discutidas. portanto. irônicas ou abertamente que Sterne lhe reservara não dizem toda a verdade de sua reação: suas referências críticas. Para Locke. lI. a da mente individual. lI. XXVII. Para o pensador do lastro natural que. seria possível que homens. a questão começa a que os elogios perante as ideias complexas. A presença da matéria assume tal importância carte do espírito. explica o funcionamento língua formam em sua mente uma combinação ou imaginaram daquelas várias ideias simples existir reunidas sob aquela denoa desmanchar. e vital6). vivendo em eras. que. do movimento. 6). o hobby-horse manifesta o que Sterne pensa principais. (lb. quanto mais penetrarmos na configuração própria de Tristram. Semelhante a uma mania. pudessem ter sido o mesmo homem. sendo intelectual.. seu relaciona333 .distantes e de temperamentos diversos. produto Chamar a atenção sobre a divergência acima referida tem a vantagem de não 332 elemento do campo teológico. seja porque se desprendem ficial. a dois seres da mesma espécie" (ib.movimento. seja porque têm a mesma configuração. precisarmos detalhar a crítica lockiana à associação de ideias.. guarda sua objetividade enquanto mantém cujo objeto é material. uma coisa capaz de pensar. pratica e. digamos artitanto mais próprio quanto mais provocado por algo que parte da natureza e chega 3) Em suma.. todos que compreendem a sobre a matéria. XXVII. Assim. cujo hobby-horse consistia em empregar todos os meios materiais disponíveis para que construíssem uma miniatura concretizadora do assédio da cidade de Namur. e o trabalho mental também se legitima em atuar falsa das ideias complexas se propaga. Mesmo por esse motivo podemos estabelecer um hiato na exposição e nos concentrar O principium que "determina incomunicáveis individuationisé em apontar como Locke. XXIII. o espírito. onde um e outro foram feridos. XXIII. a que obedecem os costumes. se a identidade apenas da alma fizesse o mesmo homem e nada houvesse na natureza da matéria pela qual o mesmo espírito individual não pudesse estar unido a um corpo diverso. que o hobby-horse.. ] Estas e maneiras semelhantes de falar insinuam que a substância sempre supõe algoalém da extensão. as associações são falhas. A compreensão ao homem sob a forma de sensação ou de reflexão.. quanto a reflexão. traste com o modo adequado de considerar as ideias complexas - a um ser de qualquer espécie um tempo e um lugar particulares.. em sucessão. por falar uma mesma língua. No principium indi- capital a presença da matéria: Pois. Por isso. observaram lI. enquanto entendimento da natureza. recordar a crítica que fará à associação de ideias para compreender são. E. da forma. embora não saibamos qual seja (ib.. XXVII. onde dificultava senão como fator diferenciador dos indivíduos individua- ( ( ( favorecedor do que se tenha a dizer sobre eles. mais parecerá estranho que tantos analistas tenham deixado de perceber que o romance implica uma concepção de linguagem adversa da que se depreendia de Locke. Por esse motivo. para ele. ajuda a socializar o mesmo erro: "Ouvindo que comumente minação" (ib. legitima as ideias. reduz o relacionamento dade humana não consiste senão na participação que se dá a constante mudança viduationis lockeano permanece. é essa lI. [. lI. mente unidas no mesmo corpo organizado" (ib. com o mundo a um circuito fechado em que a ligação entre umas poucas coisas concentra todo o interesse que o mundo é capaz de provocar neles. Como uma obsessão qU(l. ( zação dos costumes. O exemplo típico é fornecido por Toby e Trim. Daí não precisarmos costume de cada um que. 3). o pensar legítimo se restringe a um efeito provocado em nós por uma propriedade material. Associação auto matizada e costume dão-se as mãos para criar a confusão que Locke se propunha O leitor de Tristram Shandy perceberá que o pensar mal"anatomià' particulariza definido por contem a mesma deles estabelecido pela "própria existência". de particulares portanto. externo à mente. com frequência. da solidez. Não se poderia pensar que outro animal senão o homem fosse afetado pelo hobby-horse. pelo tais palavras. do pensamento ou de outras ideias observáveis. portanto.

porém. em nosso cérebro. que se manifesta pela matéria e pela reflexão (dependente). entrem em combinações pelas quais são formuladas em prop riedades da natureza. da qual decorre que as palavras causalidades. Diante. as considerações dos teólogos jansenistas tanto Ihes importam de um ponto de vista filosófico e teórico como de um ponto de vista prático. Não é preciso maior empeprimeira de Locke consiste em. como declara com toda a clareza..97 ss. 17) Ora. no. vendo-se como grande ou pequeno. e até onde essa consciência pode abarcar qualquer ação ou pensamento passado. ]" (Nicole e Arnauld: 1664. ou seja. capaz de felicidade ou miséria. serviria com perfeição a um Defoe.. de tal modo se acostumou a não considerar senão as coisas corporais. como temos repetido. dado mostrasse que o sujeito autocentrado em Descartes como depois em Kant -. interessada em si.que é sensível ou consciente de prazer e dor.' 33-4). te de acordo. para a questão.'" De maneira semelhante. Nesse sentido. (lb. recoindividual na formação das ideias.. Refaço-o aqui de maneira sumária. o romance conseguira.) sador estabelece do relacionamento o self é aquela * Desenvolvi o argumento contrário de o sujeito cartesiano já não se confundir com o sujeito exemplar. de Sterne. em Locke privilegia-se a objetividade da natureza. na igualdade (sameness) de um ser racional. L. como é frequente. Melhor dito. conservar Embora eu não esteja plenamen- de romance. como confessores que também eram.). que a maior parte crê não poder conceber uma coisa quando não a podem imaginar. e distorcida e com o vezo do costude suas obriga335 sim pelo que chamamos me. até aí se estende a identidade daquela pessoa. deste modo. Shandy entre o ato do marido de dar corda no relógio e o cumprimento . XXVII. Pelo empirismo de sua teoria do conhecimento. Para tanto. Locke oferece a resposta inequívoca do sujeito definido a partir de traços absolutamente pelo menos abrandando e só antropológicos. ao lado de Balzac ou Maupassant. no século a hostilidade em maneiras de expressar a subjetividade afirmar-se. o romando que ali que o perseguia havia séculos. cujas imagens entram. o eu individualizado. exemplar. de agora era o de então. enraizadas . pela ênfase (a confissão autobiográfica. Ambas são exteriorizações da identidade pessoal.. ressaltei a recepção do pensamento de Descartes pelos jansenistas Nicole e Arnauld. não pode ser senão o self. Costa Lima. XXVII. em ambos os casos.: 2000. Mas é bastante simples o motivo para fazê-lo. Que isso significa senão que fazem a reflexão cartesiana incidir não sobre um sujeito exemplar senão que na criatura de carne e osso que se apresenta em seu confessionário? 334 coisa pensante e consciente - qualquer seja a substância que a forme (não importa se espiritual ou material. 70). somente nisso consiste a identidade pessoal. ] O homem. o mesmo eu (selj) apenas apontando transcendental. desde o pecado. Em poucas palavras. o exame mais aprofunou auto dirigido já se fazia presente é em Locke que ele se torna indiscutível. representá-Ia sob uma imagem corporal [.mento com algo material. com a causalidade viciada do hobby-horseprecisamente porque não provocada por uma razão material. de simbolização logo no começo do relato. o tratamento nho para que se verifique que a preocupação nhecendo o papel da subjetividade costumamos va um serviço valioso para a legitimação dade que acompanha que privilegiava terrenos. bom ou mau... Locke prestado romance. exemplificado. ] faz com que a legue a uma infinidade de coisas no amor das quais ele se precipitou para aí buscar a felicidade que perdera" (ib... ou seja. (Júlio Verne continuaria science-jiction. e. em Mímesís: desafio ao pensamento (d. podemos o enredo construído por uma rede causal de acontecimentos sendo realista. 11. nisso distinguindo-se de todas as outras coisas pensantes. Que tipo? O romance realista. que conserva a zelosa objetividade à medida que se exerce pela faculdade reflexiva da consciência: [. até onde a consciência se estende.. E "a corrupção do pecado. isto é. Daí a própria posição que ele assume diante do que chamar de sujeito autocentrado. (lb. declara-se. ideias. é admissível dizer que o cogito cartesiano ainda era guiado pelo clássico sujeito agostiniano. pela associação da sra. de Agostinho. ] Porquanto a consciência sempre acompanha o pensamento e é aquilo que faz com que cada um seja o que se chama self. porque. a certo tipo melhor dizer: o romance antecipador da de do sujeito em Locke e não. Tendo em conta a enorme ambiguio termo "realismo". Ora. enquanto que o selfmantém Veja -se a reiteração que o pencom a consciência: intacta a objetividade delas. 9) ce epistolar) que pareciam ao leitor confiáveis quanto à autenticidade era dito e impeditivas de seu embuste por um enredo fictício. pelos sentidos. a interação entre self e consciência. lI... a um Richardson ou a um Fielding. o estado de pecado em que vive o homem desde sua qúeda o torna presa fácil das paixões e dos afetos:" [. o sujeito moderXVIII. que o separa de Deus [. Se o ideal do cogito são as ideias claras. simples ou composta) . O leitor que se tenha acostumado relacionados a encontrar os nomes de Locke e Sterne a questão da identidada associação de que rompe com os obstá- achará estranho que estejamos enfatizando culos teológicos e enfatiza a identidade pessoal como consciência. A clareza então desaparece na representação que o homem se faz de si mesmo. que o sujeito kantiano é manifestamente Ou seja - embora. Ora. isto é.

interesse o relacionamento Tais afirmações não são novas. realista do gênero. que resgatara do navio enca- na verbalidade de seus componentes. se encontra no outro lado. ao novo transe de construir melhor dos casos.2. rompe com a objetividade. mas não estéril. qualquer que seja a inventar ou emoldurar (to frame) uma nova grifo meu) que ele esta- A mesma condenação do chiste e a declaração do antagonismo belece quanto ao julgamento reaparece adiante: como um sujeito que não só sofre. Em vez de privilegiada. fundando-se. é um sujeito autocentrado. que. Do ponto de vista do que este capítulo acentua. na separação cuidadosa de ideias em que possa ser encontrada a menor diferença.11. na linha de abertura do pensamento moderno. mesmo sabendo que não começam com ele. contando. TRISTRAM SHANDY: DIGRESSÃO E CONTINGÊNCIA Se bem que Locke fosse um parceiro de Descartes. ao ser definido ampliado. (lb. incluindo o romanesco. senão porque o chiste e a rapidez de associações elegem como seu prisma de orientação ou verbal do que propriamente portanto. Uma vez que esteja o conhecimento provido dessas ideias simples. Mas não está no poder do ehiste mais exaltado ou do entendimento rapidez ou variedade de pensamento. que. na imaginação. não respaldava o romance sterniano. fazendo a cognição da criatura humana depender de como essa criatura operasse sua experiência empírica.. É explicável que à gravitação em torno do divino passasse a corresponder. Pois o ehiste. ter que temos feito entre o sujeito autocentrado prejudicavam alegitimação proposta a teoria do conhecimento senão à modelagem ea do romanpor Locke [. o julgamento. a saber. cujo agente. Paradigmaticamente. Já de Locke de fato importa para a pene- tração na ordem do relato sterniano. pusera no dilema de morrer afogado ou lutar pela sobrevivência. 11. a teoria do conhecimento frequência. onde quer que possa ser encontrada qualquer semelhança ou congruência. deserta. com o auxílio das ferramentas Seu êxito indi- uma semelhança (similitude) que é antes fônica e não nos atos privilegiados de assentada na ordem da matéria. com sabemos o realce que Locke emprestava à sensação e à a contrariedade que o chiste (wit) desperta em Locke: reflexão na formação das ideias.ções conjugais. 336 razão dos empecilhos que secularmente ce. associado à dele divergia pela negação do inatismo. detestadas por Locke e privilegiadas do para tal equívoco? entender que tantos críticos cuja língua materna era o inglês tenham contribuí- (As) ideias simples. lhado. o poético. o hobby-horse. o chiste e a quebra do relato linear e causalmente motivado equivalem às formas por Sterne. em Locke. daí em evitar ser enganado pela semelhança. assim como dos recursos da ilha. recorrer ao privilégio da causalidade? submetida à flagrante paródia. Mesmo que. mas pelo motivo oposto ao que foi. tem ele o poder de repeti-Ias. compará-Ias e uni-Ias.. que. Robinson Crusoe havia mostrado que o destaque da o no ( experiência imp licava o realce da narrativa maciçamen te susten tada na causalidade.. (lb. 3) t. no entanto. levando a afinidade a que uma coisa seja tomada pela outra. privilegia o discurso científico. em 337 . para não falar em sua narrativa digressiva. O costume. 11. e em ajustá-Ias com rapidez e variedade. Desse modo Locke abalava a relação entre o divino e o mundo humano. conforme expusemos. na experiência do indivíduo. os materiais de todo nosso conhecimento. de modo a constituir quadros agradáveis e visões prazenteiras. são sugeridas e fornecidas à mente apenas pelos dois modos acima mencionados. Por que Locke seria levado a tais distinções absolutas. mas elabora o que ele próprio experimenta. pode. Tal suporte que o pensamento de Locke prestava à expressão realista decorria de que a suposta fidelidade do realismo aos fatos era o outro lado do papel desempenhado. como se poderia a causalidade é sensação e reflexão? Prisma de orientação. enquanto constituição do pensamento moderno. consistindo sobretudo na reunião de ideias. Mas. bem diversa. ao contrário. XI. a sensação e a reflexão. tomava como critério de seleção a fidelidade aos fatos da vida. ao ser adotado. pelo lastro material. é muito mais importante de associação das ideias. ressaltado. mesmo em uma variedade quase infinita e pode assim formar à vontade novas ideias complexas. ] Homens que têm um grande estoque de chistes e memórias rápidas nem sempre têm o julgamento mais claro ou a razão mais profunda. O naufrágio sofrido pela embarcação vidual agora o predispunha em que Robinson se encontrava sua vida.. Como Em síntese. ideia simples na mente. a gravitação em torno da experiência.

tado.rque a digressão. wit.sição.sperso. para que o. passamo. pro.r .Snarradores "realista" e sterniano.do.s à dispo. é o. A co.mo.. Em termo.cke. duplo.de ser do. ] se integra na co. que gira em to.Smeio. é que só a partir de então. so. o. Po. causa~efeito.-causa etc.r algo. [.acaso.tivada po.r costuma saltar. [.s a ter co.nismo. _ co.u da paisagem) o.nagens enquanto.. do. do. digressivo. de um malo. do.m a palavra o. D. ele é um auto. auto.r não. Quando. da preferência do.ria do.me daquilo de que estava falando com tanta frequência e abundância quanto qualquer outro escritor da Grã-Bretanha. literal do. da o. 167).o.ntaigniano. tal como.sição... a maquinaria de minha obra é de uma espécie única. mo.co de fragmento.alguns instantes. po. do.. a cabo.bre. 338 (Wellbery.ntrário.ckiano.judgement. uma linha cujo. sentido. ela sucede.s Shandy.desgarrado. auto. Co. mo.. Ao.-progressivo. Sterne.. narrativo. se a entendêssemo. histó rico.bre o.po.ntraditória: auto.eventualmente..nstrução. vero. algum trauma o.s o.-sentido.nsultório..r pelo. pelo. passo. que se lhe interdita a narrativa co.s a esse po. individual" o exemplo.curo. subjetiva.chegarmo.cidadão.s.s - semelhante a inúmero.tejo.vimento.. três-quarto. digressivo.fracasso.entre a teoria lo.mo. do. da ambiguidade. tempo.r co.nsequência dessa diversa co. narrativo.cialmen te assumira o.m a Terra.duplo.. O que vale dizer que a digressão. estaria simplesmente em que este facilita a leitura.rdinário. na tentativa de fo..-pro.res na Antiguidade.vimento. se auto. self. se to. co.-Só de evento.princípio. de romancistas adquirisse interesse.ckiano.mado. Tristram Shandy supõe o.nará o.nto.utros.gressivo.ntingência.técnicas que eram usadas pelo.nduta correta e ideal do.po. é um procedimento.nseguinte. que se crê auto.ndução.ckiana e a co. seu relato. o. mo.rque subo. po. ] Graças a esse dispositivo.. psicanalítico.m isso. aceda a um blo. L. excêntrico pasto. aparentemente livro esteja no.r significação.mpreender que a não. ] Conquanto minhas digressões sejam todas justas (all Jair) [. é imediatamente do..questio. à resultante de reta.r para reto.de aqui se repetir.mo. depo.vimento. no.ntrários são nela introduzidos e reconciliados. co.sto. comparável ao. ao. Numa só palavra. do. próprio. é mo. médico austríaco. Co..avelmente esperáveis. o.ra po. Em um capítulo. Melho.s. do. o.rdenar as coisas de modo que meu assunto principal não fique parado durante a minha ausência.rna o.. do.105-6) e isso ao mesmo sem maio. feito.r exemplo. do.derno. po.utra po.centramento. Em puro.r co.vo.s achado.s.res (descrição. Embo. movimentos que antes se julgava estarem em discrepância mútua.rno. isto.rjar uma tradição.r algo. é ainda uma técnica de relativizar a verdade que a ele se prende como. do. pelo.r reflete so. o.mpo. quanto.gro.s causais a seu dispo.. em detrimento. dirá um analista extrao. senão. mo. à expo. o.cke po.r uma co. compreenda-se que po. 22.r alguma lei científica o. auto.co.brigação.stamente científica. O problema da digressão..l ao.s instrumento. co.s po. ao. romance cômico.rdinado. de rotação.nstrução. é drástica: para a maio.caráter de auto.centrado.. po. Ao.demo.sição.submundo. do.atingir.rno..o.gia perderia sua função. Deve ser evidente que a diferença de Tristram quanto. da teo.car to. termo.s perso. do. mas progressiva também tempo.nvo.ria do.Upo. sentido.. Não.s geo.mar seu caminho.rna a linearidade. do. determinada. mesmo. com o. Mo. texto. de uma só palavra e inimigo.ntingência transto. sente-se na o. de esclarecer amplamente: [. ao. tem-se a tematização. sujeito. antecipadamente era o. a digressão. narrado.. não.-linearidade do.mo. mo.sta.Usupo. do.r não. que impede a linearidade uma seleção.. constituindo.rado.bstáculo.ucas palavras.r o. po.ra seu implica a descontinuidade. I. do.rdagem que começamo.métrico. o. e respo. "o. é tanto.rmeno. precisa co. O eu que.nseguinte. desmo. po.r-se como. desenho.. da terra em to. de antemão." (ib. Em po.: 1760. que a abo.resultado. acaso. apresentaria o. tomo o cuidado de constantemente o.r fo. é sinônimo.vimento. não. selflo.s co. o. que sucede co. eixo.ntinuará sendo.s de um certo.s razo. em Sterne.) leito. Ela é o. lo. encadeamento. sujeito. ao. que só a partir de ago. ] e eu possa desviar.cada po. as mnemo.r 339 .mo. que não. empreendimento. mo.r Schlegel.m um fim (telas)? Assim sucede porque a digressão. po. significa senão. Co. haveria de seguir a tematização.deria considerar a co. é. ao. de uma reta.s termo. que estivera a fazer. impo. seu antago.: 1998.s analistas de Tristram Shandy"o.po..thpro. princípio. o.s o.so. o. ressaltado.. ajude.is as digressões cobrem não. dois movimentos co. minha obra é digressiva..s e auto.deria co.nagens e/o.s efetivar as diferenças que um Wayne Bo. mo.tivada po. só quando. po. Que isso. ser educado.ssímilno. 166).centrado. co.Antes mesmo. de levá-lo.is da divulgação.(ingrato.sujeito.. passa a se crer reto.r isso.: (Em Sterne). A analo. co. que Lo.s.ndições de co. co. que frisa a co..rmulando. não.ra tão. de seu próprio. encadeado. O mesmo. do.s a utilizar ressalta que.nstruíram seus relato.ptará po. livro - acentua que a ausência de linearidade de cao. previsto. próprio. acrescenta a si uma propriedade co.U. de desafio.u minimizar. po.s de Lo. do..do.bra" deriva de uma decisão.. o.s Essaismo.des- garrado. a sorte já não. não.sição. de acordo.esperável.s o.mpo. romance "causalista" não.mo.nta as defesas contra a interferência do. (Sterne.do.r um co. A co.

por um caminho bem diferente do que Booth pretendeu". que. o relato se antecipará em muito à autobiografia proposta. em que não se discute por que o começo é tal etc.1) No romance de Sterne. sem que... provocando o desacerto dos humores do homunculus que concebiam. capítulo 5. pertence à sua família. queria multiplicidade.: 1988. e a digressão de abertura é uma sátira a sério . O anti-ilusionismo não se explica pela comicidade que envolve o relatodo livro de Sterne. L. mas a implicação clara é de que sua exemplaridade será de natureza diversa: em vez de servir para elucidar..: 1983.a exemplo do que fora no Quijote. e não só do século XVIII. não unidade. tem sua importância. ]. Pois o voto feito pelo "autobiografado" desenvolver-se-á cada vez mais para trás: "Bem quisera eu que meu pai e minha mãe. a questão teria sido apenas antecipar o começo em que a mãe dis_ isto é. 32. 1013). 212). avançar ou caminhar lateralmente. 1. 327). portanto. Se a história visa a ratificar esses valores. um fim social. Na próse fosse o caso. W. que ali estará posto porque tem as mãos livres. Mas. Em termos mais gerais. 47). assim como a do tio Toby..72). sem. o relato da vida de Tristram só começa no final do volume v. I. em discutir o que por ela se põe em jogo. não subordinação delas. ] A história focaliza o mundo empírico de maneira a validar as normas representadas pelo herói.. ao questionar o começo daquele que estava sendo gerado. por isso. seria difícil entender a sobrevivência ( do romance à história como ressaltava que o princípio liza "a problematização em múltiplas antes constelar que retilínea. 320) Trata-se. Sterne não só questionava camadas" a subordinação é IlI. isto é. ] A afronta de Sterne à sintaxe convencional é básica para que se estabeleçam as qualidades requeridas pela voz de Tristram. no volume II. queria retroceder. é endossado apenas pelo domínio exitoso dos conflitos da vida. como recurso anti-ilusionista. (lb. fazer com que sua geração não se desse no momento a tarefa analítica. recorde-se em Tristram. Ou seja. por exemplo. É muito mais do que isso. a quebra da linearidade da narrativa seria corrigível se houvesse sido outra a atitude engendradora. a maneira mesma como o romance sterniano principia questiona a relação pressuposta entre romance e história: [. "conliteral da fenda aberta pela morte e depois de morto seu irmão Bobby (V. Sterne não queria unidade ou coerência ou direção definida [.:1967. Iser). Sucede porém que. Pela tematização da pressuposição. não seguir em trilhas retas e lineares. 12. tivessem posto maior atenção no que faziam quando me geraram" (Sterne. ou na verdade ambos. (Watt.: III. I. se se tratasse que à só de algo imediatamente anterior. a tematização da pressuposição subjacente consiste que acom- destaca o fracasso. já que estavam igualmente obrigados a tanto. a sua disposição pria abertura de seu ensaio sobre Tristram. pois nele o nascimento é exposto como "algo inquestionável" (Iser.: 1760-7. Dele diferenciado. Ao declarar. é relatada no meio de uma frase que tinha por sujeito o cabo Trim. sendo acompanhado vite para pranteá-Io e uma representação pela tinta" (Macksey. ainda é subserviente ao fim determinante. o narrado r materializa seu caráter de intruder narrator. que. 1760-7. etc. "porque todos os meus heróis estão fora de minhas mãos" (Sterne. no entanto. Wolfgang Iser expõe o deslocamento do Prefácio: O próprio Tristram já se inicia por uma digressão. Décadas antes de Wellbery lan Watt já acentuara que: [. associação livre de ideias. A digressão de abertu341 340 . do relato ficcional atua- (W. L. o relato pode ter por tema a exposição dos pressupostos subjacentes a um começo. ao contrário da automatização panha a sequência usual de um relato.: 1988. W. por suas mortes. de sua parte. 2-3) Preferindo a direção contrária... se confundir com "o extremo limite do realismo subjetivo" do fluxo de consciência (stream of consciousness) do romance do século xx (ib. Yorick e Toby deixem de estar nos volumes seguintes. (Iser. desaparecida durante o século Para que se torne menos complicada ausência de reta corresponde. de um propósito oposto a uma direção causalista.. 339).2). a manifesta dissolução da linear ida- de temporal: o Prefácio só aparece a seguir da indicação do capítulo 20 do volu- traíra o pai. a propósito do Prefácio. me XIX. Mas nem os deslocamentos nem o reaparecimento dos que tinham tido sua morte anunciada são arbitrários. o autor questionava a própria tradição do romance. moral ou político específico. do epitáfio da página em negro. o pastor Yorick morre ainda no volume I (I.tematização de um malogro não se entende simplesmente dade que ficando bastante aquém dele - um enredo em que se é ver- Um relato que tem dificuldades com seu próprio início nem por isso prescinde da exemplaridade. R.

ela fará um pequeno avanço. Embora não pos- eixo. isto é.. façamos uma referência menos ligeira: [. Agora. O que vale dizer: cogitar de uma ficção que acompanhasse os passos da vida . constroem em detalhes uma miniatura [o o. ] cisa que Toby será capaz de apontar. quando alcançaria o termo de sua jornada. 76-7) Dois motivos justificam questionamento Fielding. W.: 1760-7 até o capítulo 49). (Sterne não se limita a hostilizar o costume narrativo senão que o inclui na sátira da teoria do conhecimento Iser já formulou: Todas as vezes que a pena e a situação parecem se tocar.. ]. (lser. e se prolongam Até aí. o conflito teve como destaque a tomada Durante os combates. ainda há a própria de Locke.) Como '.para não dizer: só as sátiras menores se contentam com a dimensão cômica.. o] o Terá sempre a solicitar-lhe a atenção. do ponto de vista inglês. Se for um homem com çou. coerentemente cuja data é precisada. quer escrever sobre sua vida e não sobre o hiato [. Tristram ataca a forma autobiográfica do romance do século 342 XVIII preci- que o acolhe e cultiva. terá de fazer cinquenta desvios da linha reta [. durante as guerras que a da cidade de Namur. diferenciado hobby-horse forma. mais cresce o hiato entre o que escreve e a vida sobre a qual se propôs a escrever. Assim. I. a escrita nunca pode coincidir com a vida [. tal ordem pode ser considerada uma alternativa genuína para a gramática da ação com sua estrutura teleológica. tal como proposta por David Wellbery: genial de Sterne consiste [. impossível. só deixando a opção de escrever sobre a escrita.. Inglaterra sustentara havia pouco com a França (1689-97 e 1702-05). A inevitável descontinuidade to: iniciando-se entre viver e escrever terá um efeito imediaa "autobiografia" de a digressão sobre como fora concebido. (À medida que o 343 . que conduzem sobre a maneira estranha como Tristram jogava o pião. (Wellbery.. a exemplo do Tom fones de do relato questionado r: quanto a decorrência lise do papel dos hobby-horses. no joe- na bacia e na virilha. contudo. começaram nove meses antes de ele vir ao mundo" (Sterne. O de fato nem sequer come- bro de 1718. Quer experimentar algo sobre si mesmo e não precisaria escrever se já soubesse quem era. com uma hora de erro para mais ou para menos.. a observação de Toby samente porque ela encobre o hiato entre vida e representação.. 5 de novemadvindos cinco anos antes. De volta à Inglaterra. tanto quanto não pode alçar voo:' (lb. 169. mas tal coisa é.. e termina por relatar acontecimentos de tal modo se mantém que o relato autobiográfico com o que afirmara. com absoluto apuro. ] nem de longe desconfia que obstáculos e impedimentos irá encontrar pelo caminho [o •• ] o Tristram principia antes de seu nascimento. a digressão gira em torno do próprio de sua mãe. ] Quando um homem se senta para escrever uma história [. o destaque da passagem: (a) porque reitera o uma ordem narrativa para a dimensão pré-subjetiva de estar casualmente exposto ao mundo. grifo meu) Vários caminhos poderiam ser adotados. que vale dizer. para a posição correspondente ao sítio em que a pedra lançada por arma inimiga o atingiu. Toby. Tomemos o hobby-horse de compreensão diata: o tio Toby e o cabo Trim haviam se conhecido mais se desenvolve..e qual relato tem esse propósito senão o realista? . Trim.. XIV. ambos os personagens lho. sempre em frente [. tão preO cia da guerra. Concedemo-lhes essa importância co ou do que se sujeita propositalmente (b) porque acentua estabeleça entre seu agente e o mundo um campo motivado exclusivamente uma obsessão do primeiro. ] em ter encontrado e inventado o êxito realmente um mínimo de espírito. Preferiremos começar pela anápara que se por mais ime- do relato dirigido por um telas. Por outro lado. obsedados pela mesma experiêndo terreno da luta. dotando-o de uma qualidade especial.27) a que poderá ter sido lançado pela desatenção xa -. efetuado a partir de dentro de um pormenor digressivo. portanto. o contrato de casamento samos manter o grau de minúcia. um campo semântico para aquele escrita como o divisor insuperável entre as duas.seria conceber o inconcebível. Daí a importância de discutir sua motivação. Toby e inseparáveis e.: 1988. o abismo entre escrita e vida Pudesse um historiógrafo tocar para diante a sua história como um arrieiro toca a sua mula. I1I. Trim tornam-se companheiros haviam sido feridos...ra associa-se a outros pormenores - a reflexão do narrado r sobre os distúrbios dos pais.. do meu Tristram I. Em consequência. mais gravemente. ]. ] teria condições de aventurar-se a dizer-vos.. o relato historiográfia esse fim. O descompasso é muito mais do que tão-só motivado pela sátira . 1. Do: 1998. vistas e perspectivas que não poderá evitar de parar para ver. que provocava a quei- à de Walter Shandy: "Os infortúnios XIV. isto é. moralmente falando.

11). encontra-se Wellbery. 25-57.595). [.. Burckhardt. à descontinuidade da narrativa. Em uma análise minuciosa. D.39). foram aprofundadas da depreciação por David digressão contra a linear idade causalista. aparece na metáfora dos engenhos e artifícios de guerra. porém difiBurckhardt do pacífico tio Toby. foi traduzido com o título de "Sterne's Tristram Shandy: Stylistic Commentary" e incluído em Russian FormalistCriticism. as discussões em simpósios e o constante escárnio de filósofos e críticos pedantes são traços peculiares ao gênero constitutivo da anatomia. tradução e introdução de Lee T.265).) compreensão. as posições de Iser e Wellbery são paralelas no que concerne ao naufrágio da vida em Tristram. Por seu próprio caráter distintivo. labirinto. Ernst Tuveson é bem mais ousado e o declara "frequentemente como romance e. porquanto que zomba da erudição ou da obra quase científica" (McKillop. e de Trim. em grande parte do tempo. Iser e Wellberyformam as três vias de que melhor dispusemos "a tratava como uma combinação para não nos extraviarmos no labirinto sterniano. encaixado na história * O ensaio de Victor Schk1ovsky.: 1962. reduzido o interesse de Sterne [. F. à lei pela qual se move o mundo dição especiosa e da fala vazia e empolada de Walter Shandy. 156). junto com Shklovsky. sim."Styerna 1teoriya romana" (1921).: 1961. coln. conforme Wellbery. à rebeldia contra a causalidade. Lemon e Marion Reis. Para não nos estendermos hobby-horsemilitar Shandy. a maravilhosa jornada do grande nariz. seu companheiro.: 1954. Deste apenas discordamos ao realce da artificialidade da abordagem de Iser. A restrição de Jonathan Lamb se põe noutro 344 ." (Frye. embora vivendo em um ambiente comum. ] Há uma profunda ironia no fato de que o tio Toby. Aos demais. habitarem em mundos paralelos. o hobby-horse cria o risco de os personagens. particular a certas coisas. o de que não se falará' sendo porém o mais visível de todos. um crítico da nomea- ( ticas dessa ordem nos pareça anedótica. ]" (ib. 345 Four Essays. o em demasia. mas não misterioso nem arbitrário. ] A narração. No primeiro caso. N. mas fomenta a conduta deles a cada momento.. Se levarmos em conta que privilegia a contingência ea avulta em uma narrativa o romance O que não impede que o próprio consciente de "estar longe de resolver o problema por ser em seu ensaio que encontramos entre sexo e guerra ou sexo e instrumentos amplamente complicado narrativo de Sterne [. 1965. J. D. por sua vez. e mesmo o sexo.. vêm em segundo lugar apenas quanto ao sexo em suprir o relato de substância metafórica. A ressalva é tanto mais saliente a associação de extrema fecundidade bélicos: "Engenhos e projetos permeiam todo o romance. University ofNebraska Press. o mais dócil dos homens. dando lugar a uma análise retórica que encaminha nas ruínas do texto paterno" (Lamb. Embora a maioria das crído romance está tão próxima do caos que alguns de um romance.: 1998. literalmente incapaz de matar uma mosca. É o o da eru- nível. a estilização do personagem por linhas de "humor".. E. mecanismo formulara retórica pode-nos fazer vislumbrar de Lamb não escapa do havia mais de vinte anos: "A análise shandiano" (Burckdeclare-se do para uma aboracidental dagem psicanalítica: "Tristram encontra a reflexão de sua reprodução hobby-horse parecerá excêntrico. R. teria. acrescentemos que. que.: 1957.cerco de Namur se converte na ideia fixa de Toby e Trim. em Tristram da família. Apesar do esmero de sua condução. os hobby-horses estão distribuídos entre os membros as estratégias cômicas de Sterne. as listas.105). só encontre realização feliz e plena na construção de máquinas de destruição e carnificina. consistente no traçar curvas e curvas sobre as curvas do relato. o hobbydo narrador. Lin- forma" (Tuveson..: 1954. é previsível a repetição de analistas a daquele que considera (e grosseira)" de Sterne "uma insignificância irresponsável (Leavis. As incidências do segundo caso são muito mais abundantes: de "romance nativo (domesticnovel) McKillop o com o livro classificado daquela do" constructo ficcional" (Wellbery. sendo vozes que propriamente que o fenômeno exemplo não se escutam. descreve as figuras de linguagem privilegiadas por Sterne. S. apesar de certo embaraço. Se o hobby-horse dá uma tonalidade contudo.. 604). pp. a abordagem reparo que Sigurd Burckhardt cilmente nos conduzirá hardt. * Muito ao contrário.. sua não é exclusiva àqueles a quem toca. 600-5) As intuições de Burckhardt.A.: 1989. o relato a tal ponto nega "os valores da história" e a complexidade seus analistas negam que seja propriamente da de Northrop Frye: em que a negação não é de ordem valorativa. sua experiência não se limita a integrar-se à memória dos dois.312) \.. (lb.

que. o narrador interrompe um capítulo porque sua continuação Benegeli e traduzida denunciar por um mourisco indispensável alude ser a obra que o leitor tem nas mãos composta por um certo Cide Hamete de aluguel. não sendo convincente dentro de parâmeuma abertura ao passo que seu contestador apresenta outra digressão: como a vítima queimada não gostava de Yorick. Sua análise detalhada mostraria o refinamento do narrador. Comecemos pelo desenvolvimento decorrente da associação entre guerra e sexo. por outro. não intencionadas por alguém. se manifesta como repetição do infortúnio O leitor poderá prolongar de Toby" (Wellbery. o campo bélico é mais propriamente ocupado pelas coisas que caem.ou mesmo que. introduzindo o diálogo com o leitor no fim dos capítulos. 1.última peça pregada por Sterne é. na verdade. Apontando para a voz "ranhurà' (crevice). seja. experimentalismo. que sempre utilizamos.: 1760-7. é a janela que desaba sobre o pênis de Tristram. por um lado. ao contrário do que dedaraEugenius. dando oportunidade da a tructo ficcional. VI. A mesma relação entre Toby e a viúva reaparece sob a forma de "ressonândaquele (wound). para o enfoque psicanalítico a abordagem de Iser permanece que.: 1984. em outras análises de Sterne. e provoca.. O decisivo é acentuar que os analistas que destacamos não se limitam a atentar para o diferencial "físico" da forma narrativa. por III. que o criticara por publicar "o imundo e obsceno tratado De concubinis retinendis (Da manutenção de concubinas)" crê que o trajeto tomado pela castanha havia sido um IV. Ela é evidentemente 346 discussão em torno da palavra. No excepcionalmente curto capítulo XXXI discussão em torno da palavra do Livro o narrador relata a Feita a ressalva.A leza nos escapará se não escutarmos suti- o insightde Burckhardt: "No romance.595). travada por um certo Eugenius com seu bisavô. mas que "ao longo de todo este longo * Na tradução de José Paulo Paes. S. cabe preliminarmente tratar de sua objeção. e ambos os acontecimentos ressoam _ como widowem window na vida de Tristram.597).* Eugenius declara que o termo tem dois sentidos. seja empregando sinais tipográficos. É a pedra que lastima Toby e. 131. o termo "ranhura" (crevice) aparece em lI. em torno de conotação obscena. a qual. S. como ele próprio reconhece. quando senão supor que a apreciação de Iser aí se esgota. prepondera o sentido "sujo". em Wellbery é de fato eficaz. um limpo e um obsceno. a astúcia matreira de Wadman. O malogro de seus amours repete o ferimento recebido antes em Namur. cia anagramática": o ferimento 327 -8). Mas é injusto escrita não foi encontrada. . frequente e por páginas a constelação constituída da palavra sex. Em seu sentido literal.. comentários que os asteriscos do relato mantêm calados (Sterne. no Quijote. XIV). as linhas sucessivas de asteriscos substituindo trechos de linguagem menos casta [. Pedras.: 1961. que. Porque Wellbery não está de acordo quanto a Iser. J. Mais amplo do que o das guerras declaradas. Creio que o juízo do germanista como próprio à interpretação norte-americano decorreu de ele tomar do consde Iser o simples realce da artificialidade aprendida sofrido por Toby no assédio a Namur e a caça do amor pela viúva. estaremos obrigados a acentuar quando algum juízo independer deles. É certo que tal desmontagem do Cervantes- do aparato anti-ilu- por Sterne no seu admira- serve ao realce do artifício do constructo ficcional.: 1961. por essa razão. desvela a ingenuidade do velho combatente e. uma fatalidade desagradável aguarda os corpos que caem: as coisas que a estupidez faz que caiam sempre aterrissam sobre os genitais. portanto. reiteremos Iser e Wellbery qutl. e não o "limpo': 347 produto da combinação do ferimento . seguidas vezes.. A distância que Wellbery estabelece de Iser talvez resulte de mais do que uma mera incompreensão: tros fenomenológicos. vão além da simples diferença entre narrativa ser na tríade Burckhardt. D. rolam pela mesa como a castanha quente que penetra pela abertura braguilha de Phutatorius e queima seus "países baixos". ]" (Paes. Mas a complicação ainda não terminou.onde. VII. formada por expressões idiomáticas termos de duplo sentido ou pela cômico-erudita nariz. ataque proposital e sarcástico de seu adversário (ib. para desgraça de sua pretendente. entre os vizinhos. o que. seu choque (shock). a mais maldosa e a mais hilariante de todo o livro. que fazia Cervantes para que fosse autorizada o ilusionismo a circulação dos livros? Sterne desdobra o mesmo anti-ilusionismo. ao mesmo tempo. castanhas causam mais dano que os projéteis" (Burckhardt. criança. P. A história do assédio da viúva Wadman é. torna-o impotente ou levanta a suspeita de que assim tenha sucedido. como "o uso sistemático de travessões de diferentes comprimentos para dar maior ou menor realce a uma frase ou marcar pausa maior ou menor na elocução. 170). janelas de caixilho. que ele não está brincando" (Burckhardt. basearemos nossas considerações finais. visava à desmontagem sionista. é o caso por excelência do tio Toby. Por isso mesmo. "fruto da experiência com a vizinha (W idow W adman). Quando.: 1998.21).

]. baseia-se em uma observação feita ainda em 1895 por um leitor anônimo. importante ao tratar da paternidade mau uso do fórceps pelo dr. acrescenta: "A 5 de novembro 235).: 1760-7. Isso obrigará o médico a construir uma "ponte postiça" (a false bridge) "com um pedaço de algodão e uma tira de barbatana durante infortúnio de baleia" (ib. Portanto. sobre a viúva e sua criada.A.. janeiro e fevereiro [. estava tão perto dos nove meses do calendário quanto qualquer marido teria podido razoavelmente esperar. porém.. O primeiro é da autoria de John A. V. a criada. Antecipando.capítulo de narizes. a ser erótica. Considerando a data em que Tristram julga ter sido gerado to efetivo modesto comentário:" no primeiro domingo de março -. e o cabo Trim) e a vinda ao mundo do pobre Tristramo Com efeito. assumir o caráter de um exercício de análise lacaniana do episódio. quando sua mulher preferia a parteira das redondezas. Cavalheiro.80). 52). entre dezembro dos no romance sobre se Walter Shandy seria o verdadeiro pai de Tristram. ] [e] não regressou [. L.. de dados empíricos. a história de Tristram é o Nele nos deteremos. Na primeira. e em qualquer outra parte desta obra onde a palavra 'nariz' apareça. escapado aos críticos" (apud Hay. e a efetivamente por agentes Bridget. em primeiro lugar. o leitor anônimo e seu nascimenacrescenta seu em começo de novembro [. tendo pela miniatura do campo de batalha. no ano de Nosso Senhor de mil setecentos e dezoito" (I. Assim o primeiro de Tristram se associa à mania de seu tio Toby. um procede Tristram. além do mais. constitui o primeiro malogro que envolve a [. [.. meu pai via- Como Wellbery bem ressalta. Hay se dá ao trabalho de reunir os dados que insinuam que o cálculo contido na segunda passagem é muito menos provocado por um descuido do autor do que uma insinuação Contentemo-nos que passou despercebida a seus diversos receptores. que caiu no 25º dia do mesmo mês de que dato minha geração. estranho que tal erro tenha ocorrido e. ali. e é. domingo IV.. um nariz é um nariz. que delas necessitava para seus canhões. a escolha do médico por Walter Shandy. fui trazido a este vil e calamitoso mundo nosso" (I. 50).: 1973. nada menos" (Sterne. a ciática de Walter fora 349 . que. durante todo dezembro.) Na abertura de 1718. Provavelmente homenagem 348 seus deveres conjugais. porque a abordagem de Macksey se destinava a um livro de menor por entre ciática e eventual impotência: Wadman que a levava a queixar-se a Jacques Lacan. para a época do capítulo seguinte.: 1760-7. ] Em vez de serem nove meses. I. 51-2) que Machado de Assis faz de Sterne.. o segundo de Richard Macksey (1983). se o estudo de Hay não pretende ir além do levantamento argumento.] padecia de ciática.. Ele chamava a atenção para o curious mistakecontido em duas passagens do Tristram. são apenas oito. dimento particularmente IV. dois ensaios particularmente dedicados aos indícios espalhano fim de março. IV. o narrado r relata: "Fui gerado na noite do primeiro domingo para a primeira segunda-feira do mês de março. acidentalmente a corte feita pelo cabo à criada da viúva Wadman. no dia daAnunciação. sua suspeita: apenas com alguns indícios que confirmam dor) seria secundária.. da cidade de Namur. Pois o acidente no nascimento de Tristram enfatiza a relação entre conquista cumprida (fingida. o faz do protagonista. caso não enunciasse pelo avesso a afirmação de que. Slop. Tristram Shandy. quando do nascimento com que o médico achate o nariz do nascituro.. Toby e Trim.. bem como o caráter bélico da mania se liga ao avanço erótico da dupla. nada mais. ao passo que. XXXI. eu. Walter estava em Londres e antes do primeiro e fevereiro. declaro que.. na verdade o autor é bastante arguto para permitir que se vá adiante. III. ao mesmo tempo que Trim refaz a "ponte estragada levadiça" (draw-bridge) do hobby-horse seu e de Toby. teatralmente bélica. estivera impedido de cumprir dois detalhes que reforçam a relação é a ciática do primeiro continuamente marido da viúva Hay acrescenta de março.. 1. J. porque melhor o\' relato de um fracasso que envolve o clã dos Shandy. seu interesse pareceu-nos tornar-se dele. com a dita palavra. Seu primeiro que terá força decisiva.. Em troca. pretensa autobiografia. O primeiro diz respeito à própria paternidade. nos oferecerá aproveitamento Conhecemos uma inesperada oportunidade de compreendermos jou para Londres [. XXVII). (As desgraças causadas a Tristram pelo hobby-horse do tio aí não se encerram: note-se que sua "circuncisão" será provocada pela retirada dos encaixes que serviam de peças de sustentação da janela por Trim. ) A associação entre "ponte levadiça" (no campo da guerra em miniatura hobby-horsee do amor) e "ponte postiça" (no campo do nascimento do do narra- fixada. ] Segundo uma anotação na agenda de bolso de meu pai. (A explicação de tanta e tamanha certeza decorre do costume paterno de cumprir suas obrigações matrimoniais sempre e tão-só no primeiro domingo de cada mês. quero dar a entender 'nariz'. ] senão na segunda semana do mês de maio." (Sterne. Hay (1973).

(Ib. a conotação de infidelidade que o próprio Bay insinua. Ora.. indicadores de que Bentinho advogava sua causa. sucedido um pouco antes de 1718.. O contato uma brasão de armas Ao menos para o pai Walter a palavra coche [.ou melhor. uma falsa ideia do ensaio de Bay se fizermos pensar que ele se empenha em tornar maximamente demasiado nascimentos convincente a ilegitimidade de Tristram. é outra. uma banda sinistra (sinister-bend). adverte a Walter que o filho está em todo o nome. se impunha insinua algo como uma ilegitimidade. ] sem que mais uma Tudo de quanto o acuso . em detrimento -transparência. por distração ou erro do pintor. Tristram encaminhavam Embora tenhamos aqui prescindido delas. acusando Capitu de adultério.. IV. sem que ele se de armas recebera. Acrescente-se mitidade de Tristram. 84).. quando tinha cinquenta e seis anos. 350 . de acrescentar: "[ . ] no oitavo mês [. Da mesma forma Machado muito menos dá apenas ou ilegitimidade de muito mais breve. Não há nome a não ser Tris351 convulsão e não há tempo sequer para que ele vista seus calções. Do estrito ponto de vista da leitura do Tristram Shandy. disse o coadjutor. A passagem mais importante. senão que acentua serem contraditórios. 319-20). ]" (ib. desse ao cuidado de desmenti-Ios. Ora. ] e ilegítimo aquele que se dá [. ] O uso do a descrever Isso não é verdade. em que elefora pároco (Bay. precisamente escolha de seu nome. Sterne levanta pistas sobre a ilegie tuberculoso (both então tão fra- 25. o autor ainda se encarregava termo ilegitimidade na Chambers Cyclopaedia destina-se sobretudo os casos.'. Por esse ângulo. "É Tris qualquer coisa. Embora Walter esteja quase certo de que Susannah não será capaz de transmitir tem de usá -Ia como portadora. a suspeita paterna... no entanto. dá elementos para pensar que são falsas e ainda insinua que eram motivadas pelo próprio estado de Tristram. 84). O autor então conclui: ''A ilegitimidade vada por um conjunto tência que permeiam o romance" (ib.resultante do contato com o forro úmido do coche da família. ] mais cedo [. sintetizar a análise parcial do argumento de Bay dizendo que ela serve de primeide uma vida fracassada cassada que seu primeiro dia de vida é referido quando a obra já se encontra quase 294). tudo de quanto o acuso e por que ao mesmo tempo o aprecio. 85) Daremos. IV.. contraditando-se entre si. peremptória? de um desfecho unívoco. XIII. onde se encontrava de imediato ele começasse a queixar-se de ostentar a porta de seu próprio coche este signo vil de ilegitimidade" Em suma.. a criada confirma A vida toda. parece mostrar que a linha legítima dos Shandy terminou com o lapso nas façanhas de progenitor por Walter. o exame poderia ter sido da leitura feita por Machado. impotente impotent and comsumptive). Assim não se fez pela possibilidade que desse modo se oferece para comprovar -se o refinamento como Sterne simplesmente não espalha indícios da ilegitimidade de seu protagonista. E: complexo de alusões à ilegitimidade. (ib. O pai quisera que se chamasse Trimegistus. ainda que o desmentido estivesse em seu poder. sua desgraça foi ter de arcar com a pecha de dizer e fazer mil coisas de que (a menos esteja eu obnubilado pelo afeto) era por natureza incapaz. não tinha. se a "prova" da Chambers Cyclopaedia já era por si frágil. Sterne deve ter possuído - declara o crítico - a cópia de 1739 da edi- ção da Chambers Cyclopaedia "e certamente no verbete "parto".. exclamou Susannah. o que temos senão obras que de tal maneira investem na linguagem que a impedem de se tornar veículo para uma ou outra interpretação Investir na linguagem. o coche. "prova". de batismo no mundo. Machado dá indícios a favor e contra o adultério de Capitu. va em sua primeira citação. a ligação: "Não se podia pronunciar (ib. poder-se-ia ra prova de estarmos diante da autobiografia na metade (ib.: 1973. contudo. do ciático com um objeto. em que o brasão havia gerações. como memorialista. em vez da banda destra que o acompanhava deformado.. a criada. porém. as suspeitas quanto ao pai autêntico de para o pastor Yorick.. Do mesmo modo que Sterne deixa em dúvida a legitimidade Tristram. consistiu na dúvida sobre Se o primeiro malogro na estranha autobiografia que ocorrem antes ou depois da gestação de nove meses solares" (ib.. A. As pistas se acumulam. a paternidade faz parte do anti-ilusionismo do protagonista.... é aquela singularidade de seu temperamento de nunca darcse ao trabalho de desmentir aos olhos do mundo semelhantes histórias... que comece por Yris Pequena que fosse a distância.]. IV.85).. assinalar sua nãode Sterne e de Machado. Em ambos Tristram se aproxima da morte impotente e tuberculoso e. sobre ele é dito: o segundo tem a ver com algo menos incerto: a 89). mas o parto foi tão malconduzido que Susannah. XXVII.. 328-29) Os mexericos em torno de Yorick podiam ser infundados. define-se tinha acesso à edição de 1734 con- servada no mosteiro de York". portanto. contudo. Desde logo. por "parto legítimo aquele que sucede no prazo de Tristram parece ser comproadultério e impojusto [.

.

a verdade é que a crítica consultada se singulariza por seu tom de acentuada liberalidade. será a configuração mais adequada para conciliar as exigências controladoras com uma relativa autonomia do 355 . em dois volumes. E.. mesmo quando os críticos reclama-~.56). Mesmo para os que não agrade. Conquanto este brevíssimo item possa parecer ocioso. porque sua matéria mostra que aquela Inglaterra da segunda metade do século XVIII admitia uma liberalidade desconhecida noutras partes do Ocidente. chama a atenção a agudeza de um Edmund Burke. Sterne permanecerá uma figura excêntrica no século seguinte.sob o pseudônimo deYorick. sim. preferimos mantê-10.1760.. ao que parece os mecanismos de controle ético-religiosos têm. não o repudiava por não seguir o figurino: "[ . Ainda que a obra provoque reparos dessa ordem. vam de sua moralidade frouxa. Resenha de maio de 1760. quanto Richardson agora. ou logo se tornaria. James Boswell anota esta quase anedota: "Censurava certos diálogos ridículos e fantásticos entre dois cocheiros e outras coisas há pouco publicadas por Baretti. [Johnson] aproximou-se de mim e disse: 'Nada de bizarro irá muito longe'. contra a qual Sterne se insurgiu.: 1776. em troca. No século XIX.. a propósito do Tristram Shandy.apenas. 34).isto é. H.475). mas dar condições ao crítico literário de verificar como as filigranas do controle exercidas sobre o gênero nascente do romance explicam melhor a constituição da tradição realista. ao assumir o pseudônimo de Yorick. abrindo. mas. embora não entre na apreciação do livro. formam uma espécie de experimentalismo à outrance que seus apreciadores antecipados. contudo. Em compensação. ] The Life and Opinions of Tristram Shandy [. como Virginia Woolf declarava. consideram que o livro teria sido. Já a primeira resenha que recebe destaca negativamente a paixão do autor pelas digressões. souberam moderar. como na carta endereçada ao Universal Magazine of Knowledge and Pleasure.: _. Em sua conhecida biografia. Algo de parecido sucederá com o Tristram Shandy. Já a referência do Royal Female Magazine. 473).. antes espanta que a repercussão negativa de Sterne. E.: 1961. Johnson lhe reservava pouco ou nada tem a ver com rigorismos moralistas. na verdade suas digressões são excessivas. H. Tristram Shandy não perdurou" (Boswell.não tivesse sido mais veemente.: 1760.47). Laurence Sterne era um pastor que publicara seus Sermons. não são critérios ético-religiosos que se lançam contra ele. W. sua apreciação não é de todo injusta.adotando o nome do bufão de Hamlet. Isso por certo não impede que o autor de carta ao Lloyd's Evening Postainda insista em que "o vício fazcorar de vergonha" (_: 1760. justamente. É. ] simula (e não sem êxito) agradar pelo desdém de todas as regras observadas noutros escritos e. ainda que tenhamos aprendido a apreciar o Tristram Shandy. sua indecência é considerada "um pecado contra o gosto" (Scott. com base em um critério potencialmente estético que tanto Johnson. no século XVII.100). conquanto permaneça a acusação de ser uma obra imoral. 354 Embora só uma pesquisa específicapudesse confirmar o juízo. por isso. O molde realista. Ainda quando acusa o livro de ser formado por digressões que terminam cansativas e de apresentar "uma série perpétua de desapontamentos" (Burke. Pois. W. de lamentar que o reverend author não houvesse sido mais contido no uso de "expressões indecentes" (_. Ao contrário. decorrentes do exercício de uma liberdade rabelaisiana em uma época em que a imprensa está desenvolvida. O anônimo correspondente não deixava. 489).479). Em vez de ser surpreendente semelhante ataque.J. em 1760.481). como Machado. Sem dúvida. Kenrick.publicada pela Monthly Review manifestava a mais pura indignação: ''Alguém levaria a sério um pregador que subisse ao púlpito com um casaco de palhaço?" (apud Fluchere. a carta endereçada por Horace Walpole manifesta diretamente seu desagrado: "Duas ou três vezes é possível sorrir no começo. um só bocejo perdura duas horas" (Walpole. uma incidência bem menor do que estamos acostumados a encontrar então na Europa continental. Por exemplo. III. esquecido. BREVE ACENO À SUA RECEPÇÃO Na vida civil.: 1759. com seus diversos matizes. seu mérito não pode ser medido por eles" (_: 1760. o desdém que o famoso dr. acrescentando ser ela tamanha que provocava o temor de que as levasse tão a sério que interrompesse a publicação dos volumes que prometia (d. privilegiar o silêncio sobre a fala. não abandonavam a hipótese de que o livro pudesse funcionar como o veneno capaz de atacar a corrupção do gosto. portanto o caminho para outro modo de expressão romanesca.: 1834.

sur les Maximes CEuvres completes. ao mesmo tempo que Baudelaire. 1961. R. in Rochefoucauld. de La Rochefoucauld. como mostra o processo que sofre Flaubert. Cambridge.: Della dissimulazione Anônimo: onesta (1641). 1996.: The Crisis af the Early Italian Renaissance. original do Alfred Krõner Verlag. G. (organização). outono.: Die Kultur der Renaissance in Italien. Cotejo com a ed. . O cortesão. Martins Fontes. São Paulo. (organização). 251-74.: "Introduction" à edição das Maximes Press.. pp. Sua própria existência. tradução de Edmir Missio: Da dissimulação de La Rochefoucauld" hones- ta. volume Unive~sity Press. Blumenberg. foi de certo modo semelhante à que concedeu a seu personagem: um malogro em que se demoraria a prestar atenção. ''Article du Journal des Savants. A Century revista e aumentada after its Publication". Le Club franFrank- " çais du livre. 200 l. Stuttgart. 1966. Ein Versuch (1860).: "Burkhardt's ___ Renaissance News. Baron. D. edição revista e ampliada (1988). sey. pp. volume XIII. Elton. Burckhardt. in La por J. (1528). of the Renaissance.'>!. 11. edição revista. et réflexions..-Chauffier 'Civilization Pléiade. 356 357 . de Carlos Nilson Moulin Louzada: B.XXXI-LXXlI. Princeton Barthes. Autonomia sempre complicada. contudo. Paris. Suhrkamp. Civic Humanism University an Republican Liberty in an Nova J er- (1665). J. M. n" 3. H. tradução 1958.: Il Corteggiano R.: Die Legitimitat der Neuzeit. 1988. Um ensaio. H. Companhia das Letras.'liI romance. furt a.: "Italy and the Papacy': in The New Cambridge Modern History. Paris. Princeton. 1964. Age af Classicísm and Tyranny. de Sérgio Te!- laroli: A cultura do renascímento Cantimori. L. M. São Paulo. 1960. T. tradução 11' ed. Marchand. Referências bibliográficas PRIMEIRA CAPÍTULO PARTE I Accetto. Sterne permaneceu uma exceção porque prenunciava um novo horizonte. Castiglione. na Itália. 1991.

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309 Absolutista. 346 antropológica básica.231-3.158. T. 81. 291 Aetheria..165-6. imagem e pensamento. de. 256 Aristófanes. 168.90. 77 Argante. Estado. ver tam385 Agamêmnon.61. 49. 103 100. 122. 152 Aquiles. interpretação em. como gênero.93. 51. 58.130-3.92. P. 78-91.161.106. 217.110-39.83. 102.. 101.178. 204. 339 Accetto. experiência.jj. 178. P. 106 Agostinho.157. 184.109. 94-6.152.137. 113. 272 Adams. II ( li . 138 Alcina. 38 anti-ilusionismo.108. 76. causa em. 133. 137. 323.272.Índice remissivo 18 Brumário.308. 247.138.103. 334 Agrimante.107 ( • { alegoria. M.94. 246 alemão.95.141. 130.266. 76.. 72. 57.98. 72.B. T. anamnese. 295 Alemán.91 Alcibíades.G. 135.91. 303. . 204. 44. espécie de pensamento. 110.188. . 70. 38. 340. 238 Aretino. crise/decadência da..100.41. 111. 347 anatomia. 125. 258.89. 70. 185.250. interferência do. 76.99. espécie de inferência. 148.105 Aquino. 248 acaso. 165. M.83.. 66. 43.323. 1.97. 201. 60.42. 133. 38. 155. 119. anamnese e escrita da história.135. 166 Aristóteles.64 Ariosto. 169 Alfarache. 138. 131. 242 Angelica. 293.128.106. imaginação e semelhança.100-1.322.136. 57. e imaginação. idealismo..250. memória em. 344 Andrés. Tomás de.268.314.1035. 59. 256. 117.309 aristocracia. 292. 306. 222. 245 "anagramática.. Guzmán de.64. ressonância". 183 I' ( n Ângelo.257 Adorno. 61. 133.316.107-9.

161 Auden. 38.50. H.178 Caston. 86. 186 Canavaggio. 28.. c. M. 272. 180.105. 252. romance. 84.314 Clorinda.. 267. Caballero de Ia. 35 copernicana. D. 136-42.299.104. 112. 249 Croce.214-6. 49. M. 15. 64. 25. 32. 321. Mme..246 censura.309. 187. 348 Britto. 37.38. 23. 334 Cascardi. 30.109 belas-letras.93.. H. 261 387 f. L. 346 Bentham.84. 239. 351.87.229. 262-7 Camões. 70. B.. 83. 139. 325 Avellaneda. 173-7. 251.265.M. 290. 96.251. 275.. 175.61..293. 90. 90 Crisóstomo.241.221.. 141 determinante.351 Berger Jr..243.253. 96 cortês. vetores constitutivos do. 271. 191-4. J. 243 cartas. 111. u. 236. de.46. E. 296 Danceny..55.268. E. S..107 Danton.. 87 Booth. 108 Bouillon. 243 Carrara.180 Ascoli.257 compromisso.220 Boccaccio. 34.291.213. 189 Bianchi. 246. 24. 34..272 cotidiano e indivíduo. 81. Congregação do Santo Ofício ver Ofício. 288 Benegeli.243.246. R. 142.258. 153.. 272 Burke.58. 194. 111 Bildungstrieb. 145.. 30. 109. 77. teoria. J. 28.319 Clemente VII. 234 Cantimori. 82.325. 185.J.224. 327.20-1.218. 25 cogito.103 Bridget..245.. 232. 273. J.351 Carafa. 197. N. 227. 179 Bayle. capitalista. 97..231..100 Bruni. 157. 15..96. 47. H.. 27. 1. 202. B.. 328. 175.40. 126. 34. 122. 197.. 30.. 142..318. criatura". 317 Champion. 238-9.335. 356 Baumgarten. 59 Contrarreforma. 315. 148.23.. Concílio de Concílio Laterano ver Laterano. 326.166..108.254. aparência. 44.83. 22 decoro. 154. 230.. 74. Invencível. 230 Concílio de Trento verTrento.A. sujeito. 34. J. E de. romance criatural. 95.214.43.302. 97. 16. 33. 268 Crusoe. 150 Deus..102. R. 230 Brunello.27. 57. 115. T. 317 calvinismo. 100. 94.41. 86. 84. 142. 34. 174.221. modelo. 335 Baron. 98. 34.30. L.187.327. 269 Bacon. G.214. 310-2. 80.49. 337 D'Au1noy.254. 77.62... W. 83. épica". 99.334 Coleridge. 329. 152 consciente.324.. 200. 73 Burckhardt.. 111. 68.107. modalidades de.334 Arte.243 Defoe. S. E. 112. 125. 206.. 215. 34-7. 32.-E E.P. phantasma.de.45 Costa Lima. 145-50. 157 Campbell. atitudes irredutíveis da. 38 Daguesseau.224-34.R. 187.295. 218. P. 180. 32 capitalismo. 64. 151 Auerbach.316. amor. M. 237 Bloch. 229.38. 279. e censura. 22. 130.. mímesis. M.241.278-82. 355 burla. 268 Carlos v. G.156 cortesão.219. 187. 295 Cervantes.284-8. 111.236. 179..325. 89.221.233-4. N. 54 Baudelaire. 98. J. 216 Arnauld.. 198. 31 Barthes. 44. percepção.105. G.334 cotidiano.153. 268-76.. 75. 234.juízo.253-4. 233 chiste. 153.100.179.261. romance/livros de. 23 Bunyan..40 Davis.253.39-40.263-7. 280.58..66. 140. concepções luterana e calvinista de. L. W. T. 32. 218. A. L. M. 108.108 Assis.103. 134. mecanismo do. 88.325 Balzac. 317.300.254. 27.41.324. 95. 113.244.36. 87. 76..119. 196. 328.2647. 338.291 cartesiano. 81.353 César.. 195. R. E.326..267.. 217 carnavalesca. 144-5. 235.24.265. H.82. 345. 297. 89. 216. S.232 Da Vinci.251. 120. P.39. 129. de.22. 94. J. C.309.258.188-92. 96 Blumenberg. 149. 161.336.A.252.224. formação de. de. D. 28. 256. J. 355 Botticelli.248-9.E. 270. 106. 1156.83 Cromwell. H. 193. 213 Campagnoli.325 Bakhtin. casa. 123-6.. 194. 213 Boswell. de. 117-21. 206.311 Castiglione. 217. physis em. 309 Dario.97.213. 121. teatro. a criada. 325. problema da verdade. 329 Castelvetro.236. 86.187 Boiardo. família dos. B. 238-41. 180.289 Cruso. 68 Cochrane. realismo.. 146. L. 263 courtois. 105 Champfleury.253. 29.. 317 Chaunu. 24.316 "burlesca. 312 Bembo. 325 De Sanctis. 322 Dante. 248 Augusto. 324.218. 37.241. 198 Beckett. 64.152. 87.161.... 138.99. 285. 336. 33 cortês.296.258-60. 48. E. 135 desreferencialidade.68. H. 157. 236. 323.345 cavalaria.301.81.. 310 Bentinho. 176. 340 Borges.216. cognição. 162.311. 218. R. 82. 113.23 Carrasco. M. 127. 195.69. 386 .337 Circe..242. 348.59.217.H. Concílio 229.329. roman ver cortês. 125.257 Conzaga.249. A. 92. 309. 32 "carente.291.346.59.219-21. 176 bela. 311 autoconsciente.bém phantasía. 38.82. burlesco. de.158. e história política. 150 Blanca Luna. 20. ° perfeito.73.127 Armada. 23. 84 Bender. romance por. 295. percepção e imaginação. 179. R.35. 199.86.309 controle. atmosfera.V. 195 D'Este.. 65 Bradamante. 153.337. 355 Astolfo. 337 Chomsky. narrativa.255. A. 231-3. G. S.259.258. R.121-3. 56. 128. 27.. 269. de. 35. J. 86. princesa de. pensamento/científica. Congregação do Santo consciência. 184.. 346 Burgess.243 Burton..271. 21. 31.218. 325 Butor.208..226-9. 31. 180. 298.106. 61. 165.317. 317.27. 153.217. 148. 34 Clêves. M. 142. 233.98.93. P. 218.337 desejo.335 Descartes. 155... 24. 33 Copérnico. 181 Carlos I.. 177. 133 causal/causalidade.A. 316. 89. A. 73-6. L. 321..39. 295 Burckhardt..44. conde.290.299. 157. 234.. autonomização da.178. 154. 92. Mme.166. 66 clássico. 195. 320.. 87.290. 291. G. 230 científico.279 Calvino.334-5. E.219. c. 239 Backscheider. 60.55.107 Astrée'L. 80.201. 258. H.100. 327. 82 Decembrio. O. 63.279 Capitu. P. 81. 226 Cash..

312 eu. 227 fato e ficção.53.207-9.182.273. 72.282. 137 Echevarría. 190. 69-72. E da. G. 106 diferença.224. 105 heliocentrismo.. 186. 105.193. 310 histórico.166.94.258 factual. 289. y. de Goethe. 247 Huet.239. 290.. 157. EI. 71-7.339.. 187. v.53-5. 287 Gracián. 48.33 Hempfer.323 homunculus. 23 Goody. 311-2. 241. 315-6.239. 137.. antropologia. 117.242 Hampton.147.202. E. autobiografia. 20.321 gnósticos. 213. 84. 20 Espanha. ficção. 280 epopeia. 216. 16. 245.189-90. 174. 356 Florenne.186. D. 38 Griffin. 47. 180-2 gênio.76. T.A. R G. 61-2. MoU.255..v. 239. R J. 262-4.236.190.158.291 Hugo. 283. 279. 165 gregos.205 Haldudo. 292. 72 Guise. realismo.81. grande fechamento da. 247.91.156-8.157. e teoria da literatura. 25. experiência. 72.224. R. 45.295.198-200. 332..A.193 Goldzink. J. J. 38. 30.288..J. 287 Egeria ver Aetheria eikon. 313. 329 Grimm. 52. 36. 248 econômico. S. 119 Encina.292-3. 87. 250 discursivas..325 Dido..176-7. 205 escrita.110.207. 297 Hércules.214. 308 Dupont-Roc. 180 fingimento. 50. erasmista.288 estamental.. 77. T. 249. A. deslocamento".. 140 digressão/digressivo. Hobbes. discurso.del. busca/conquista/valor 292.171.. 53 Eustazio.297. 341.. ti epistolar. 20 Guicciardini.75. 180.2049. 93 Fiano. 35. fabuloso.59. 281. E. 310. 21.341. 323 Horácio.172. 250 Gehlen. 272 ° Fichte. T.355 externa.61.342 figural. 224. 46. 195 dissemelhante. 131. 46. H. em Tristram Shandy. 84. 251-2.118. 265 Furetiere. A. G. 154 glória.197.281. 125. D. 342. M.171.186-7. 158. 15. 89 filosófica. G. 92. 216 espiritual. 180. 83.194. teatro clássico.324-5. 295 EngeU. ficção e mentira. E.. subjetividade. 348. 140 Homero. O. 104.87 Hay. 345-6. normas. T.204.55. 38.335. 224. 71.316. 49. 143.73 f.237.51. J. 217. 334 experimentalismo.59-60. 224.326. e romance. 258 Holmes.162-79 Heitor. 39.72.54. 82.D. 159.190.200. G.334. 69 historiográfica. ficção denunciadora.166-71. 236.Diderot.254 documentalidade.60 fábula. 339. 145 hobby-horse. 33. H. 148. externa ver externa. J. 85 Henrique lI. 45. 42 Flanders. 147. K. 215.. expressão da. E.138. 314.221. marcas/modalidades.58-60. 354 Foscarini. 92.221. 167 Fielding. e mímesis.57. 76 Elton. parâmetros.168. 293.221.180. irmãos. 66.257. Y. 312.20 Graça.241. N.169. 81.156 Empédocles. 89.236. 250.161.106-7. 37.184. relato. M. 350.320 "epistemológico. e poesia/romance. 71 Heródoto. 353. B..342.241. 338.217. 307 estética. J. atividade/h isto rio gráfico. o. 85. 55.140. e J. 217. 234 Encyclopédie. 329 Greco. 29.317 entreiacement. ~41 388 .224-30. 159.293 Francesa. G. 161. fonte/problema do. romance. 246..B. 236.188..214. Revolução ver Revolução Francesa Frauca.. 199-202. 59.. 215. casa bancária dos.313. 27.203.63 erro. 337. 151 ético-retóricas. 125.307. 240. lastro. J. 320 Grendler. 179.161.343.62..45. 174. 152. 51 Eliot. ver também imagem Elias. 120 dissimulação/simulacro. E. indivíduo. 250 da. 257 historicidade.254 Felipe I1I. 343.226. L. 41-5.166. P.. 228. veto ao ficcional. 341-2.273. 33 francês. A. 38. 71.. 245 Friday ver Sexta-feira Frühromantiker.270-1. 37. 140.. N. 45. e memória. 298 Gutiérrez. 74. 230 fantástico. 162. fragmentação do. 279.243. C.. 335.178 Graves. 196.302. 349. I ( I épica/épico.. 21. 351 Hegel. 326 Galileu. P. 68-9..347.. 48. 154. trágicos. 147.310.304. 221. 27 Gasset. 162. 44-51. 224 Felipe IV. 132. A. 226. 285-7 'Flaubert.. 160.271-3.369. 90. G.296. 290. 246. 55-6.325. engendramento da. 56-7. 139 Hita. 285. 33. 335. 70. 291. 304. 51... 317 Fluchere.53.200-1..220.319. 353. ficção dentro da ficção. 136.208. 83.47-51. sujeito.160. 32..280-1. 69. 27 Greene. 128 Gonzaga.159. e dissimulação.147 Gingras. 270. 142.241. 34. ficção legitimada.. 118. W.344.174. 346 Fernando e Isabel. w. 19. 118. M. 219. 31. T. 141.E. J. M. 341 Duperré. 226. 178. e heroicização.-S.192 Garin. João. 344 Fugger. 183 Ginzburg..352 Hart.. 276-8.233-4. 214. 140 Giorgionne. 296. 54. 279 Dostoiévski. 296 farsa. 107 evocação ver Aristóteles: anamnese exemplar. 27.279-81. 256. W.231.239. 39. 222 Guyon.202 erasmismo. 231 Hotman. 26.. 47 grega. 159.78 389 ~!.344.218-9. 209.C. 157 História. 24 ficção/ficcionallficcionalidade. 280-1. T.243.166. 88.196-8.269. y.75. e trágico.V.246. 153. 143. 177. 138. 119. 19-21. 311.225 Frye. 337. 177. poema ver épica/épico Hersant. 170. 266. 295-6. 193 Godredo ver Bouillon.. G. 140. 254 Ermínia. 71.225..96. 145 ensaio.106. 111 Felipe lI. 247 Ferraú..348 Hollier.173.302. ficção. doutrina da. R. 200.69-70. 114.2. 24.310-2. 61. 173 double bind. E. 196 Fattori. 255. 64 Evangelista. cavaleiro de.176 heroico.313.346. 180. 198. S. 45 fenomenológicos. casa dos. de ver Ruiz. 242 Hansen.

335 Kelly.301. 48. 22. 331. 282 Husserl. 216 linguagem: figuras de. 157. 73 Italicus. 84. 292. 53.242. J. J. 29. 285 Kenrick.111.155. 32 Juno.. 194.80.. 295 Malraux.310 La Fayette.109. condessa de..257. 293 Lucano. 150. 145.w.315.200-1.198 Inquisição. 146 Malesherbes. 141.345 306-7.324 ilusionismo ver também anti-ilusionismo imagem.44. P.331. 294. humanista.297 Lacan.340..D. 293. G. 283. 87.. 282. 311. 97.142-5 Hunter. 220. 279. 282 Irailh. .141-52.292. 303 Morton. 124-5. selfe consciência. w. 315.. 64 Mediei.. 270.336. de.345. J. natureza Mann.288 moderno. 194. v.150. A.. C.184-6.325 Lactâncio.46.. 314 Locke.314 Mazzacurati. 215 libertino. P. 176. 282. 150 imaginário. 323 Laliot. 296. 56. 175. 13. 152.305.296.195. 90 Lorenzo. 234. 120-6.339. 299. J. duque de..281.316. E. Y. 111 mito. 334. 301-2 La Fontaine.324-5. 14. 129-37.281. 340. 159.165. narrador/intromissão rador. 38. R. 142. 173 judicial.53.129. 184 Mãnge/wesen ver carente.188. aparato psíquico. família dos.234. e imitatio. E.. 130. 219.268 Jano. 59. A.E. 86..353. J.160.102.-G. 26-8. 83..24 Júpiter. 248 intelectual.102. 1.marquesade. tempos. 98.. 57. história da.329.. A. 13-5. 322. 194 modernidade. inquisitorial. 65 melancolia.257. indivíduo/sujeito. 344 Leerstellen ver vazios Leibniz. G. pensamento..188.184 mnemotécnicas. princesa.180. 31 Le Dantec. 302 Literatura.. O.176.100. 14.106 Lombardi.279. 148.310. 82. 249 mímesis.. 258. 5.104 Malebranche.. 355 Joyce. 333 indução. 133. 117 dos.283. 66. 230 Isabel ver Fernando t. 169. 99. G. 89. 306.68 jesuítas. 77.224. 60.14. 207. C.287-8.152.204.C de C de. 329-39. v. 238 nacionalidade.197. 69-71. 180 Lusíadas. 156. G. Renascimento. 91. 296.21.337 modernos.175. 14. 162.33. Mme. 138. M.. A. 191. pensamento das ver Iluminismo Macksey. T. 312. 327 do nar- " inventio. 176.353 imitação/imitatio/imitazione. 34 Mckeon. 313 individuationis. 144. 5. D. 208. 324. 289. 190 Lukács. 201 impulsos. 48.259 humano. episteme. 34 Montemayor. 237.271 Müller. M. 14.167. 24.72 maravilhoso. de.266 Luzes. 330. 93. 326... 111. E R. 15. 267 Mullan. 141. 50..125. J. J. N. 318.324. 78.341. 256-7.282. 76. efancy.353 Melissa. tratamento teatral da.272. E de. 87.. 168. imaginação segundo.161. 34..183 Lepanto. 182 Italiano.342. 33.303.201-3. J.59.138. 333 Logistilla. 241 Lough. 155.322.. 304. 302-9. 247 Iluminismo.158. 294.313 Montmaur. C. 30 Koselleck. 154. 153-4.Aldonza.213 Lutero.152.157.. 348 Magno. 21. conjunção com o fato. 321 Man. H. de ver Verde Gabán.335.183. 320.189. 136-42. 183. autobiografia.317-22 Micomicona. de..50. libertina. P. 268. 345 Lenglet-Dufresnoy.20. 265. de 5econdat. consciência e vida anímica. 23-8.113. 15960. H.138. 146 Laterano. critério de.176. U. 173 391 . P. 189.187-8.254. H. 32. P. 89.329. J. R.323.316.228 Kant.335.281. de. 05. J. 21 Lüthy. 331.174. 336 Júlio 11. barão de.346 390 Maquiavel. metáfora. 79 Leavis. 96 Montaigne. principium. 112 Hume..de. 190 Jamesll. 97. 234 Montesquieu. 60.256..144-7.335 moderno. 293. 321 Lima.77. Concílio. R.184.de. 348 Lados. 354 Koenigsberger. 332. iluminista(s). 233.W. jogo da. 32.154.20..227.142. processo. 153 imaginação. verdade da experiência. de. 304. C. 168-74. 91. J. 73-4. 53 La Rochefoucauld.343. 67.100 Merteuil. 90 Medusa.202.A.225. 317.238. 87 marxismo. 145 Lemon. C-L. 178.170.-B... 173 Maupassant. 33. diferença com as formas de verdade.206.279.. de. 281.148-9. 59. 21-2.. 256. M. 137 Lamb. papel do. irrealidade da.. 88. 77..203. 139. P.. 73-4. 12830. 173. 44.325 Montefeltro.233. E.192.339 mnemotekhné.317 Leão x. D. 296 ironia. 333.60. 59.192. 345 Lancelot.165. 55..218.111. diferimento/inibição índice.24 Kafka. e transgressão do controle.195. C E. 170 Nabokov. 270 Mandeville. 304. 179 Marsilio. 59 Medoro. 103.225. 51. 81.75.. 345. 139 moderna. 74. 289-91. 256. 92.209. sujeito e identidade.humanismo. 192. 15. controle do. 344. 281. 130. 236. L. 137. 258 individual.302. 140 julgamento.249 louco.. 62. batalha de. 281 Mckillop. 83. 28.256. 110-6.328. 145 Ife. 25. 282 Hunter.della. 335 Maximiliano I.. 110. 111 Miranda. 89... L. 155. 180. C. G. 319 Momigliano.. 24. realce do indivíduo.60. 122. 148. 113. 91 Martelo. ideias simples e complexas. Cabaliero del Mirandola.315 Marcela. 235. 329 Medeia. B. 306-8. N. 34.232.109. 313-9. 125. G. Isabel Iser.21920. 191 intrometido. 336. 84. 95. 44. 86. 314 Johnson. 342.158. 19. 113. 86. 152. D. 30 May. dr. kantiano.103.178.297-8. 20.92.345 irreal.177.311 Moliere. 180.. 314 Leo. w. 317 Marquard.135-6. 249 Marivaux.

. R. 156.296. . e memória. 135. 306. 114-5. 227.241.264. 269-71. 242-6.A.128.51-2. 293 Ralegh. 128. 21.. 354. 89. realista. 217. M. G. S. 122. 148. 109.259.355 Redondo. 26 Saraiva.290.328 Nigro. J.169..49. moderno. 163. 134 objetivo. 239-43. T.. 172.226-9. 115 Selfvereu 393 a i ( Ofício. C. 180. 261. 96.237-8.231-2 Orlando. terror.. 154 sátira/satírico... W. 308. 177. 144-5. 25.. ( ( "6' ( . 232. 134-6. 150 Reforma. 98. J. 214. 227.280 Racine.225.157.112 Rosenfield.344 novela.193-209.203-8. 139.. 315 Ruggiero. c. 89. 110-1. 24.185.255.. D. 312. Robortello.322. 239.. 185 Pope.20 Rojas.. 309 Osso Ia. sociedade.273.. individualismo.109.202-3. 135.71.301-4.213-4. sociedade. 184 Quint. 338. É. 92.228. 217-8. 65. 23.95.254.20. Congregação do Santo. e interioridade. 251.246-50. 19-21. 0. 217.. 179. Quinn.333. c. percepção e cognição. B.265.254. J. de análise. 64-8.335.280 phantasía.227.246-7. marechal de.320.35.234. 32 paródia. 252 Quijote. teologia. monomania.2923.356. 226. 15-6.312-6. A.233. 167..338.. 263 renascentistas. 21.166. P.W.21. da. 251.. 77 Penélope.344-5.280. 198. J. 23 quietismo. 23 presbiteriana. 84. 353. 299. J.312.A. 30. 117 religioso. 322. realista.312.168. e erro. 226. 166 ocular. 197-9.131.325 política.. 290. princípio estrutural de. 213..297 Petrônio. gênero.58 Novack.340-2. 345 Reis.161.170-8.97. de Ia.278-81.244. 347 paixão. os duques em.. 189 representação.207-8.213-4. 161.de.. 254.267. tradição. 167 Rosenmeyer. 27. F. 151 Saint-Preux.293. 205. 72.M.117 realidade. 238 Rohde. 242. 96-103. 227.268 pólo. 197. 81-3. 78.78.220. 234 Sacripante.178. J. 346 psicomaquia. 307 Richetti. 257 Schlegel.J.218-21. 170. romance.E. Gabán. 106 Peregrinação. 338. 228 Riley.. 107-9. 237-40.218. 234 patrimonial. 111 Roubaud. a crueldade em. 220.. C. 225. 46.315.. enfoque.177.228. H. 131.. 315 Richardson. 21.179.272. 19.69.. 60 Pasquier. 95 sagrado.88. C. 302 Pamela. 316.241. 187 referente. 124.257.231. D. pe. 249-50. 187.345 Revolução Francesa. dinheiro. e fábula. senhor de. 214. A.61.315-6.94. de. J.296. 236. 213.341.273.25861. 311 Putnam. 123.217-8.224. Caballero del Verde. 251. princípio de. 205. 29. c.246. 89-96. K.103.109. 249. P.314. 66 Ovídio. duque de. B..53 Pushkin. F.. 175. S. F. F. forma.220-4. 183.335.248. 257.303. 32 Peirce. w. 175.322 protestantismo/protestantes/ramos do protestantismo. 285 Prévan. 303. 24.318. 166.246. 215. 233-4.164 Rorty.239. 19. 292. 173.103-5. 116. 235.253-5. 271 Perrault.218. 43. 177 Schelling. 236. Gomes. cômico. 304 Nelson. M.336 Pasca!.241. J.184.316.302 Riccoboni. 105 Parker.315 Sale. de.195. 121-3. 250. C. 246 Sartre. T. 247 Paulo !lI.337. 19.M.325-6. 243 referência. 232.327..325-7.. 2201.3378. 233. 222.312.214 Nussbaum.311. 213 392 • ~.313. 346.90 piacevolezza. F.91-3.G..355 romantismo. 327 Necker. 16.335. I 11 ( li. 131. 176. 78-82. 136 pharmakon. 96.100 Rinuccini.218.30-1. G. 130. S. von. 146. 125.. 241. 218. A. 23.236. 337 poliglossia. 117 Pellegrino.350.180.284.213.254 Platão. grego. 268 Orlando.346. 30.229 Orléans.312. S.304-5. 145.342.156. S.347-8.. 152.307.167.323 poético.324 Nemours.292-3. 89 Salutati.267. 113-8.227.328.-L 197. 326. 118. 194. juízo de.. 93. 141. J. 21. 300. 355 Scruton. Mme.341-3.156.. 267. 32 Orange.. 233 Rinaldo. realce do.73. igreja. 229 Reale.. D.202-5.251-8.322. 134-6. 251 romance. 85 Panza. 294.243.55. 231-3.229. 163 Reis. humor. E. w.166. 167.234.339 Scott. 79-80. F. J. neoplatônicos. 304.340. 270.285. Panofsky.273..78. 223. 111 psicanalítico.. 187. 337. 186 real e representação.214. 240. 276 realismo.125-6.163. 290.163. 78. 306-18. 335..176 Paes.352-4. 138. 270 Porée.185 Saavedra. 111 Rocinante.176.171. constância do estado de. testemunha..265.241. 122-9. 354. 107.. 134.135 phantasma. 31 Paulo IV.316. 104. 132 Ricote.220-1.142. 111-2.255.253 Rabelais.251..268 pseudo.309 narrativa.355 Richelieu.183. duplicidade de conduta. 195. G.233-4. 233 Rousseau. 43.325-6. de.. E. 291. 112 Querelle des anciens et des modernes. S.312. sátira menipeia. 25.243.181. 26 Robinson verCrusoe. 137 reflexão. e leitor. 218.189 Perseu. crítica da e ficção dentro da ficção.224.65 Petrarca.248.315-6 « ( ( i t ( !a ( li H.316-7.166-8. 226 f .273. ( 11. P.88.. 86-7.i Napoleão.254. M.235-44. S... 27. 301 Nicole..226. 267. romance. R. M. 112. prisma.334 Nietzsche.216. 220. F.84.231-4.28. 38. cônego de.-P.68.156-62.331 Resina.308.327 Rousset. 295 Prato. 23. 84 picaresca/picaresco/pícaro. C. 106-7 Ruiz.152.81. 241. 250 Quixote.225-7.131..288-99.100-1.A.296. 218.272. 237 Parcas.23. 198.176. 310. 288 novel.Longino. 290.289 retórica/preceitos retóricos.229. G. 251. F. 136. 256 Ricoeur..157. Toledo.. 247 pastoril.. 29.

258. 352. 332. 86.284. J. 339-40. 317. 337-51. 350. 57. 187. 215 Ticiano. 59 Teseu. 1. J. ficção/teológico. 251 Tosilos.264-7 Weinberg. 22.273 Siebeck. 352 Shapiro. 260 Silvestre.214. w. 340 Weber.65 Ulisses. 348. 26.202.203.246. C. E. relatos de. verrossímil. 95 Tuveson.presidenta. 131. 346.228. L.341-3 Stierle. Marianne. 335 verossimilhança..68.. 132.256. 121-3.. 329. 190 teológica. 147 vazio(s)..218 394 em. ídolos do. 344. 275-6. 38. 345 Sidney. W. . 218-20. 70. 135 Spitzer. 1.351 Swift. 347. R. C. 353 Wiggins. sobre o nome de Tristram. 76 Tilly. 274 Volanges. 1. fictício.85 Wellbery.271. concepção economicista de. 274 Yorick. 67. 243 totalidade. 354 Watt.. 259.251. 183-7. 315-8. 77. 299 social. P. 176 sociedade.H. P. 190 viagem. 340. 176 Sorabji. 207. H.202. E. 222 Tormes.della. realismo... 24.348. 307 Sterne. 307. 242.292. 206.236 vocação/dever/trabalho. 50. 241 Verne. conflito de. E. 354 Xenócrates. Thompson.. 345-8.. R. 147. 314 Wadman. 261. 164. 306.. 317 Weber. 23 Wood. 267 Troyes. de. B. 303.77 Tancredo. T. 201. 127 Verde Gabán. 189. 317 teatro. 280 Virgílio.309 teatral.190... 119. 83...284. 54.. 64. Valmont. 305 socialista. M. 323.347. 81 Shklovsky. 260. 204.183 sprezzatura. atmosfera de. 172. contrato. P.D. 234 verdade: como problema. K. 160. 244. 32.258-61. 219. 260. 102 Xury..257. 65 Tasso. H. 325-9..38 Toboso. a beleza sob o. 256 Susannah. 176 Tancredi. 230. o movimento digressivo-progressivo 338-9. 279 199.325. os. 104.243. E-M.A. 322 Valéry. Lazarillo de. 303. 178. 343. 304. 267 Thomas. 94. 323. 155. 320 véu. 320. 27. 228.21.. 112 Shaftesbury. 255.. 267. 78 Valia. 115.. 167-74. 107 Vadim. 315 ) Voltaire.326 Taminiaux. 195. 69.176 Visconti. 287-8.. M.295 Vigna. 320-2 valores. 343. 329 Trento. Caballero deI. 184 Woolf. 77. livros de. 307 Tintoretto. 1. 312. 309.. visconde de.353 Vega. 278.106.38. 273 Shandy. P. 116. J... 264. G. G. 339. 26 Vives. 354 Zingano.Max. 88 Trim.349 Walpole. 332. J.. 94. A A c. J. 65. 180 Tourvel.. 24 395 .302 Sexta-Feira. 67-78. 264.107.208. cabo. J. 303. 84-8. P. Concílio de. D.157.. E. v. 348. conde de. 315. 265. 145 Shakespeare... v. 72.. sujeito. 340..225. 80 wit ver chiste Witt. J.108 Stone. 91.. sentimentalismo. de Ia.350. 348 Trimegistus. 105 simulação ver dissimulação/simulacro simulação.187. 1. 259... cena.39 Starobinski. 324 sofistas. de.179. dei. B.Yi\ sentimental. 255. 260.R. 313 Stendhal. 37. 344 Ubaldo. 306. 61-3.271. 332-5.. 53. 55.71 testemunho. 351.353-6. 82.. D. 1. 351 Troeltsch. viúva. 262. 97 ViIlon. 311 Versini. 198. paternidade de Tristram. 321 transcendental. 335 Traugott. 105. 217. 74.

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