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A MULHER NÃO EXISTE

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A MULHER NÃO EXISTE: DIMENSÕES DE SABER E VERDADE Mariana Galletti Ferretti Moritz

Freud, ao se questionar sobre os efeitos da diferença anatômica entre os sexos, compreende que a realidade psíquica é pautada pelo reconhecimento do pênis como o único órgão sexual que orienta o desenvolvimento da sexualidade infantil. Isto quer dizer que, para Freud, as criações infantis acerca da sexualidade giram em torno do sexo masculino. Dando continuidade a este trabalho acerca da sexualidade infantil, Freud constata que a existência imaginária de um único sexo pode se manifestar em termos de ter ou não o órgão sexual masculino. Disto decorreu a formulação freudiana de que os meninos vivenciam imaginariamente a posse do pênis e as meninas a sua falta. Tendo como ponto de partida estas considerações freudianas, as quais inspiraram a teoria fálica lacaniana, podemos nos voltar para aquilo que Lacan formulou sobre a mulher. A primazia do significante fálico implica a mulher num lugar particularmente especial na psicanálise, pois por ser aquela a quem o falo lhe aparece enquanto ausência, a mulher não possui um significante que corresponda ao fálico. Desta maneira, a mulher, além de marcada pela impossibilidade – intrínseca à sua condição de sujeito – de ser completamente representada por um significante, ela não é submetida ao falo da mesma maneira que um homem. Disto se infere que a mulher é não toda submetida à lógica fálica. É neste ponto que encontramos a relação entre a mulher e o saber, pois este, assim como a mulher, é não todo. Segundo Miller (2010, p. 11), a clivagem entre duas dimensões da feminilidade – que corresponde aos valores de mãe e prostituta – introduzida por Freud (Nota 1) antecipa a formulação lacaniana de que A mulher não existe, pois introduz a impossibilidade de formalizar um grupo único que caracterize as mulheres como um todo. Ele ainda ressalta que nesta divisão não aparece o termo mulher de forma que, para Freud, o que existe é apenas estes dois tipos de mulheres. A desproporcionalidade radical entre os sexos faz com que o enigma acerca da feminilidade acometa os homens e as mulheres. Já que a mulheres não são regidas pelo significante fálico como os homens, elas também não gozam do significante fálico da mesma maneira. Se há apenas um significante da

sexuação, assim como Freud nos indica com a formulação da primazia do significante fálico, a relação entre sexos fica comprometida, pois não há correspondentes. É disto que decorre o aforismo lacaniano sobre a ausência da relação sexual, que evidencia com toda a clareza o impasse das relações entre homens e mulheres. Lacan diz que, na psicanálise, “se trata de tomar a linguagem como aquilo que funciona em suplência, por ausência da única parte do real que não pode vir a se formar em ser, isto é, a relação sexual” (1975/2008, p. 54). Com isso, fica claro que a inexistência da relação sexual é um efeito do real, daquilo que não pode ser agrupado e nem plenamente compreendido. Lacan é claro ao dizer que “o saber, em sua origem, se reduz à articulação significante” (1969/1992, p. 52) e, sabemos, o real escapa à esta articulação. Dado que o inconsciente não diz tudo, é impossível saber tudo. Assim, o saber da psicanálise é afetado pela própria impossibilidade do saber, que opera enquanto algo que carrega em si mesmo uma falha que o impede de ser todo. Indo mais longe, a mulher encarna a falta do saber a respeito de sua própria existência e faz semblante de seu próprio mistério. Quando Lacan (1975/2008, p. 111) diz que “a mulher, é a verdade” ele se refere ao que faz exceção, o que pode ser entendido como aquilo que está excluído da ordem fálica. A verdade na psicanálise diz respeito ao encontro inevitavelmente faltoso com o real, que está fadado a ser representado pelo vazio de uma lacuna. Assim, penso que a mulher, ao mesmo tempo que é não toda, – como o saber – ela é a verdade justamente por carregar no real do corpo a verdade da não existência, da não correspondência entre os sexos.
Nota (1) Freud trata disto nos textos Contribuições à psicologia do amor, Sobre a mais generalizada degradação da vida amorosa e Sobre um tipo particular de escolha de objeto. Referências LACAN, J. (1969). O Seminário, Livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992. ______. (1975). O Seminário, Livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. MILLER J.-A. “Uma conversa sobre o amor”. In: Opção Lacaniana online. Nova série. Ano I, julho de 2010, n. 2. www.opcaolacaniana.com.br.

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