A comunidade dos espectros

I. Antropotecnia

Fabián Ludueña Romandini

A comunidade dos espectros
I. Antropotecnia

Cultura e Barbárie
Desterro, 2012

Título Original La comunidad de los espectros. I. Antropotecnia Publicado originalmente pela editora Miño y Dávila (Buenos Aires, 2010) Tradutores Alexandre Nodari e Leonardo D’Ávila de Oliveira Revisão Marcos Matos e Joca Wolff Conselho Editorial Alexandre Nodari, Diego Cervelin, Flávia Cera, Leonardo D’Ávila de Oliveira, Rodrigo Lopes de Barros

L947c Ludueña Romandini, Fabián A comunidade dos espectros . I. Antropotecnia / Fabián Ludueña Romandini; tradutores Alexandre Nodari e Leonardo D’Ávila de Oliveira. – Desterro, Florianópolis : Cultura e Barbárie, 2012. 304 p. – (PARRHESIA, Coleção de Ensaios) Tradução de: La comunidad de los espectros. I. Antropotecnia Inclui bibliografia ISBN: 978-85-63003-05-8 1. Filosofia moderna ocidental. 2. Ensaios. I. Nodari, Alexandre. II. Oliveira, Leonardo D’Ávila de. III. Título. IV. Série. CDU: 1
Catalogação na publicação por: Onélia Silva Guimarães CRB-14/071

Editora Cultura e Barbárie R. José João Martendal, nº 145 / 304 Carvoeira - 88040-420 Florianopolis/SC Tel:(48) 99605336 editora@culturaebarbarie.org www.culturaebarbarie.org

Índice

Exórdio Primeira Parte: Ius exponendi 1. Antropotecnia 2. Ultra-história do direito sobre a vida 3. Astropolítica da vida e eugenia: o nascimento do Mundo Moderno Segunda Parte: Soberania e normatividade 1. Kyrios Christos: o dilema da nova soberania 2. Espectrologia I. Iconologia de um fantasma 3. Espectrologia II. Necropolítica da modernidade Terceira Parte: Os Trans-humanos 1. Uma sociedade de ultra-tumba: o Reino dos ressuscitados 2. Época VI: Primo PostHuman e o “deus por vir” Epílogo. Zoopolítica: a Sexta Extinção e a analítica espectral Apêndice. Katéchon: a vida suspensa entre dois Reinos e o mito da soberania anômica Bibliografia

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A Emanuele Coccia, “Espera, amigo, até a festa do Duplo Nove, voltarei para desfrutar dos crisântemos”.

EXÓRDIO

Na primeira das conferências que proferiu na Universidade de Vermont em outubro de 1982, Michel Foucault apresentou um panorama retrospectivo de sua obra, agrupando seu campo de atuação a partir de uma quádrupla articulação da “matriz da razão prática”: as tecnologias de produção, as tecnologias dos sistemas de signos, as tecnologias de poder, e, finalmente, as tecnologias do eu que operam sobre o próprio indivíduo em sua constituição como subjetividade ética. A “governamentabilidade” se situa, precisamente, na intersecção entre as técnicas de dominação dos outros e as referidas a si mesmo.1 Nas páginas que se seguem, utilizaremos o conceito de “tecnologias de poder”, desenvolvido por Foucault, declinando-o segundo uma modalidade distinta da sua, descentrando-o de seu uso específico e apropriando-nos dele mediante uma reformulação. Nesse sentido, entenderemos por antropotecnia ou antropotecnologia as técnicas pelas quais as comunidades da espécie humana e os indivíduos que as compõem agem sobre sua própria natureza animal com o intuito de guiar, expandir, modificar ou domesticar seu substrato biológico, visando à produção daquilo que a filosofia, em um primeiro momento, e, logo a seguir, as ciências biológicas e humanas se acostumaram a chamar de “homem”. O processo de hominização e a própria história da espécie homo sapiens até a atualidade coincide, então, com a história das antropotecnologias (econômicas, sociais, educativas, jurídico-políticas, éticas) que têm buscado, incessantemente, fabricar o humano como ex-tasis da condição animal. Sob este ponto de vista, toda antropotecnologia descansa sobre uma politização constitutiva da vida animal que se quer domesticar e
1 Foucault, Michel. “Les techniques de soi”. Em: Dits et Écrits. Edição estabelecida sob a direção de Daniel Defert e François Ewald, com a colaboração de Jacques Lagrange. Paris: Gallimard, 1994. t. IV, texto n. 363, I.

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cultivar no processo de civilização. Chamaremos, por razões que ficarão claras na primeira parte desse estudo, de zoopolítica a tal operação originária sobre a vida animal, apesar de – ou em relação conflitiva com – seu êxtase rumo à hominização. Assim, toda antropotecnologia implica um substrato zoopolítico que jaz em seu centro. Em seus Regeln für Menschenpark. Ein Antwortschreiben zu Heideggers ‘Brief über den Humanismus’*, Peter Sloterdijk fez um uso similar do termo, colocando no centro de sua análise as antropotecnias que subjazem ao projeto heideggeriano de questionamento do humanismo clássico. Desse modo, aplicando uma lente de aumento sobre a Lichtung, a clareira heideggeriana na qual surge o humano, Sloterdijk quis mostrar que nela tem lugar um processo de domesticação educativo e eugênico voltado à criação do homo sapiens como sujeito civilizatório. Por um lado, nossa aposta consiste em estender a trilha aberta pelos trabalhos de Sloterdijk – utilizando, contudo, métodos diferentes e chegando, muitas vezes, a conclusões opostas às suas –, ocupando-nos de diversas antropotecnologias que não foram exploradas pelo filósofo alemão. Por outro lado, nosso uso particular do termo antropotecnia se dá a partir das seguintes premissas: Não consideramos que a antropotecnia seja um processo inelutável de fabricação do humano que conduz do “humanismo clássico” a uma nova era antropotécnica da eugenia biotecnológica; ao contrário, consideramos a própria antropotecnia como uma forma contingente assumida pelas tecnologias de poder aplicadas sobre o animal humano. 2. Conseqüentemente, as antropo-tecnologias são a dimensão histórica precisa assumidas pelas tecnologias de poder que o animal homo sapiens aplicou sobre si mesmo e sobre os membros de sua espécie. Que um animal originário tenha se fabricado como homem é o fruto de uma contingência histórica e não de um processo teleológico, inelutável ou irreversível. Por isso,
* [Nota dos tradutores: edição brasileira: Regras para o Parque Humano. Uma resposta à carta de Heidegger sobre o humanismo. Tradução de José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Estação Liberdade, 2000]

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designamos com o nome de vontade antropotécnica esta insistência histórica e contingente na fabricação do humano como processo milenário. 3. Sob este ponto de vista, as antropotecnologias são uma subcategoria das tecnologias de poder especializadas na produção do humano. Por outro lado, aqui não pressupomos que seja o hominídeo quem desenvolve, por si mesmo, uma capacidade de escuta na Lichtung; ao contrário, assumimos que a própria natureza da clareira abriu ativamente, no homem, uma cisão fundamental e este, a posteriori, transformou as potências da Lichtung em tecnologias de poder sobre si e sobre os demais. Isto não implica, porém, pensar que a Lichtung abra o acesso a potencialidades por si mesmas exclusivamente favoráveis ou benignas. 4. Dentre as inumeráveis antropotecnologias existentes, decidimos ocupar-nos, neste livro, do direito e da teologia enquanto matrizes produtoras da comunidade política dos homens. No caso do direito, ele será abordado como uma técnica que, atuando no registro da ficção jurídica, produz efeitos performativos de constituição do espaço político do humano. Nesse sentido, a política é originariamente zoopolítica, pois implica uma decisão fundacional sobre como dirigir o animal humano em seu devir homem. Todavia, nem todas as tecnologias jurídicas operam do mesmo modo, mas, pelo contrário, supõem um jogo de variantes históricas. Assim, neste livro analisaremos a cesura que implicou, para o direito romano antigo, a aparição de uma nova forma de normatividade sob o nome de cristianismo. Justamente por isso, como se poderá ver no transcurso dessa investigação, a teologia pode ser considerada como uma forma de antropotecnologia jurídica de um tipo inédito. Ao mesmo tempo, tanto o direito quanto a teologia serão tratados enquanto dimensões mitológicas do poder. Devido às particularidades da teologia, esta será considerada segundo os princípios de uma ciência mitológica, cuja metodologia, porém, ainda deve aguardar um

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trabalho ulterior para sua enunciação programática. Não obstante, podemos dizer, provisoriamente, que abordaremos a teologia como um objeto da Kulturwissenschaft, no sentido outorgado a este termo por Aby Warburg. Por outro lado, como se verá, o livro buscará assentar as primeiras bases de uma espectrologia como forma de ontologia política, dado que, diferentemente de muitos dos estudos agrupados sob a denominação de “biopolítica”, nossa perspectiva – que, por muitas razões, preferimos chamar zoopolítica – implica que a relação entre a vida e o poder, entre a vida e o direito, entre a vida e uma forma, em suma, entre a vida e uma ontologia que dê conta dela, não pode estabelecer-se sem fazer referência a uma dimensão distinta à da zoé, isto é, a espectralidade. Postulamos aqui que sem o estudo da dimensão espectral resulta de todo impossível a compreensão cabal, não apenas da deriva política contemporânea em geral e da zoopolítica em particular, mas também das novas possibilidades da ontologia. Isso pressupõe que a conformação da comunidade humana, do direito e da política implica a presença da espectralidade como elemento constitutivo primordial. Aqui nos dedicaremos à análise de um dos “tempos fortes” da espectrografia que o advento do cristianismo implica, com a intenção de estender a análise, em uma pesquisa futura, para outras formas do direito antigo, de modo a, em seguida, inclinarmo-nos ao presente visando abarcar algumas dimensões centrais de nossa contemporaneidade político-econômica. Do mesmo modo, a espectrologia se inscreve em uma ontologia, cujos contornos – radicalmente distintos daqueles da ciência clássica do ser – abordaremos em um trabalho posterior. Por ora, entenderemos por espectro, em primeiro lugar e em sentido amplo, as criaturas incorpóreas como, por exemplo, os anjos. Nesse sentido, até Deus pode ser concebido como uma forma espectral que se manifesta através do Espírito. Ainda que seja possível estabelecer uma distinção entre Espírito e Espectro, acreditamos que ambos pertencem a uma região ontológica comum.2
2 Derrida, Jacques. Spectres de Marx. Paris: Galilée, 1993. p. 25 [ed. brasileira: Espectros de Marx. Tradução de Anamaria Skinner. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994. p. 21].

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Além disso, também denominaremos espectro, em sentido estrito, os entes que sobrevivem (mesmo que sob a forma de um postulado) à sua própria morte, ou que estabelecem um ponto de indistinção entre vida e morte. Sob esse ponto de vista, o espectro pode ser completamente imaterial ou adquirir diferentes “consistências” que, como dizia um filósofo, podem chegar até a obstinação de uma materialidade de carne e osso, ainda que de natureza eminentemente sobredeterminada pelo Espírito. Neste ponto, a mitologia dos ressuscitados que se estuda aqui apresenta tal característica de modo extremo e acabado. O leitor também poderá reconhecer nas páginas que se seguem a dívida que o autor tem com a filosofia de Giorgio Agamben, como igualmente poderá comprovar que a distância crítica tomada em relação à obra do filósofo italiano não pretende ser outra coisa senão uma discussão que acreditamos ser sumamente necessária na conjuntura filosófica e política pela qual o mundo contemporâneo está atravessando. Finalmente, impõe-se um esclarecimento metodológico. Em uma mesa-redonda com historiadores prestigiados que teve lugar em maio de 1978, Foucault julgava que seus livros “não são tratados de filosofia nem estudos históricos; no máximo, são fragmentos filosóficos em canteiros históricos”.3 Poder-se-ia dizer, parcialmente, o mesmo deste estudo, dado que se nele utilizam-se certos aportes da filologia histórica, é com o propósito exclusivo de transformá-los, de imediato, no material de uma reflexão filosófica que se adentra em uma dimensão morfológica que transcende os mundos históricos originais nos quais cresceram certas problematizações para des-territorializá-las na direção dos labirintos de uma onto-espectrologia do presente.

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Foucault, Michel. “Table ronde du 20 mai 1978”. Em: Dits et Écrits, t. III, texto n. 278.