UNIVERSIDADE DE SOROCABA

PRÓ-REITORIA DE GRADUAÇÃO

CURSO DE LETRAS PORTUGUÊS COM HABILITAÇÃO EM INGLÊS

Anderson Cristiano Alves

A ORIGEM E O USO DA LINGUAGEM GAY

Sorocaba/SP 2012

Anderson Cristiano Alves

A ORIGEM E O USO DA LINGUAGEM GAY

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como exigência parcial para obtenção do Diploma de Graduação em Letras Português com habilitação em Inglês, da Universidade de Sorocaba.

Orientador: Dr.Luiz Fernando Gomes

Sorocaba/SP 2012

Anderson Cristiano Alves

A ORIGEM E O USO DA LINGUAGEM GAY

Trabalho de Conclusão de Curso aprovado como requisito parcial para obtenção do Diploma de Graduação em Letras Português com habilitação em Inglês da Universidade de Sorocaba.

Aprovado em: BANCA EXAMINADORA:

Ass.:_____________________ 1º Exam.: Ass.: _____________________ 2º Exam.: Ass.: ______________________ 3° Exam.:

Dedicatória

Dedico esse trabalho a todos aqueles que me acompanharam na trajetória desse curso de Letras e na minha vida, em particular aos meus pais que me educaram, as minhas tias professoras que me ajudaram e apoiaram a ser o que sou hoje, aos meus grandes amigos Felipe,Michele e Claudio que eu amo com toda a minha alma e a todos os meus professores que fizeram parte dessa incrível e instigante fase da minha vida.

Agradecimentos

Agradeço primeiramente a Deus que me deu forças e coragem de seguir em frente, a minha família que nunca me desamparou nesse longo caminho, agradeço ao meu amigo e irmão Felipe (atóron perigon), que tive que aguentar as minhas crises emocionais e psicóticas nesses três últimos semestres, a Michele (mona) que suportou as crises amorosas, ao Claudio (queriiida) que sempre que percebe que vou surtar e me propõe um programa legal aos fins de semana regado a muita risada e músicas da Cindy Lauper, aos meus colegas de sala por todos os bons e ruins momentos que vivemos juntos, a todos os professores e professoras que fizeram parte de meu processo de formação de pessoal e isso inclui minhas doces colegas de trabalho (as loucas do Pedrão), não posso me esquecer também daqueles que sentiram a minha ausência e descuido nesse tempo, Madonna e Bob meus cães, Madruguinha meu gato e Chuca minha tartaruga. Deixo aqui os meus profundos agradecimentos e uma declaração de amor e carinho a essas pessoas especiais que só souberam me dar tudo aquilo que um homem pode ter de bom na vida: amizade e companheirismo.

‘‘A verdadeira obscenidade existe e está diante de nossos olhos. É o racismo, a discriminação sexual, o ódio, a ignorância, a miséria. Tem coisa mais obscena que a guerra? E ainda ficam dando importância ao sexo. Quem diz que acha sexo feio é nada mais que hipócrita’’. Madonna

Resumo: Neste trabalho apresento um estudo em caráter de pesquisa sobre a linguagem falada nos redutos homossexuais, o ‘‘Bajubá’’, para isso trago um estudo sobre a história da homossexualidade através do tempo, os movimentos gays no Brasil e no mundo e a formação da linguagem gay. Apresento também textos que falam sobre a necessidade do ser humano em fazer parte de uma sociedade politizada utilizando-se da língua para tal feito, tomando como partida a ideia de língua como identidade social, seguindo então até a inserção de novas palavras ao vocabulário e as definições de léxico nos dicionários. O trabalho realiza uma abordagem sucinta sobre o processo de formação e inserção de novas palavras à língua, neste caso, especificamente a língua das tribos homossexuais. Tendo em vista que a língua possui os processos de formação de palavras como mecanismo de renovação do léxico, observa-se que os neologismos crescentes nesse meio social, tendem a mudar e transformar a língua e assim trata do assunto Bajubá, falando de sua evolução e léxico no meio homossexual.

Palavras-chave: linguagem, identidade, inserção e formação de palavras, dicionário gay, bajubá.

SUMÁRIO
Introdução.......................................................................................................9 Justificativa pessoal.....................................................................................9 Objetivo.........................................................................................................10 1. Fundamentação teórica...........................................................................11 1.1 A linguagem gay.....................................................................................11 1.2 A história da homossexualidade...........................................................12 1.3 Movimentos gays no Brasil...................................................................16 1.4 Origem e evolução da linguagem gay..................................................17 1.5 Linguagem e identidade social............................................................20 2 Estudo lexical..........................................................................................22 2.1 O que é léxico?......................................................................................22 2.1.1 Composição do léxico ......................................................................22 2.2 Criação e inserção de novos termos a língua.....................................23 2.2.1 Os neologismos.................................................................................24 2.3 Os dicionários como registro lexical ...................................................25 2.3.1 Os diversos tipos de dicionários.....................................................25 2.3.2 O dicionário do vocabulário gay......................................................28 2.3.3 A diferença entre a língua africana e o bajubá falado pelos gays...........................................................29 Considerações finais...................................................................................31 Referencias bibliográficas...........................................................................33

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Introdução A sociedade se divide em grupos de diferentes características físicas, linguísticas, geográficas e sociais, criando formas diversas de expressão, as palavras são um meio de sistematizar e expressar ideias e sentimentos comuns e tem fundamental importância na manutenção da coesão do grupo. Cada ser humano no momento em que abre a boca revela muito sobre si e sobre seu contexto social de convivência, assim acontece com todos os indivíduos que fazem parte de uma sociedade organizada. Com a organização da sociedade a raça humana passou a procurar por sua identidade linguistica, e é a partir deste ponto que inicio a minha pesquisa falando sobre a identidade linguistica dos homossexuais. Essa ‘’linguagem gay’’ tornou-se mais conhecida nos dias de hoje e muitas palavras são diariamente adicionadas ao nosso vocabulário sem que percebamos tal fato.

Justificativa pessoal

O interesse em pesquisar esse assunto é resultado da dúvida e da incompreensão de muitas palavras e termos comuns no vocabulário gay, chamou minha atenção a existência de muitas palavras diferentes que só tomei conhecimento de seus significados após questionar as pessoas que as falam. É interessante também mencionar que na sua maioria, as palavras do Bajubá têm sua origem desconhecida e oculta até mesmo para os homossexuais, e foi este também o fato que despertou o desejo de pesquisar o tema.

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Objetivo

Meu objetivo principal é apresentar uma pesquisa detalhada sobre a origem, a evolução e a apropriação desse já citado vocabulário entre os gays e a sua incorporação ao vocabulário normal.Como esse tipo de linguagem é característica nas tribos homossexuais,quero mostrar transcrições de diálogos,estudos lexicais e gramaticais feitos nos lugares frequentados por tal público,esse contexto de trabalho é a pesquisa de campo de coleta de dados. O objetivo da pesquisa é expor os diversos aspectos que envolvem a linguagem do universo GLBT, e quero responder as seguintes questões:  O que é o Bajubá e qual sua relação com o vocabulário gay?  O que é léxico?  O que é vocabulário?  Quais as maneiras de inserção e criação de novos termos na língua?

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1. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Esta primeira parte do trabalho vem expor ao leitor os principais aspectos de caráter científico que envolvem o tema, procuro iniciar com uma breve explicação sobre o que é linguagem gay, como esse tipo de linguagem evoluiu e se mantém presente na sociedade e onde se veicula essa forma diferente de falar. Para entender como e quando o vocabulário gay se formou, apresento uma pesquisa sobre a história da homossexualidade e do movimento gay, analisando sua evolução contextual na sociedade e na comunidade GLBT, para que assim possamos entender em que momento esse grupo específico de falantes passou a procurar por sua identidade linguistica e social através da formação de uma linguagem única e diferenciada das demais linguagens.

1.1. A linguagem gay A linguagem gay ou ‘‘Bajubá’’, é um conjunto de expressões e palavras frequentemente usadas no meio homossexual, sendo concebida como identidade social desse grupo de falantes. Vinda da África, com o tempo o vocabulário veio tomando força e adquirindo novas expressões, passando assim a fazer parte não só do meio GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros), mas também do meio heterossexual. Palavras novas e novos sentidos são incorporados à língua e essa forma cômica de falar caminha através dos meios de comunicação como a TV e a internet, e hoje em dia é muito comum ouvir alguém dizer, por exemplo, “arrasou’’ como forma de hiper valorizar algo ou mesmo usar a palavra “uó’’ para expressar algo que não é bom. A linguagem gay é usada para manter uma identidade cultural e comunicativa do grupo, criando assim uma espécie de sociedade, isso reforça a ideia de que a linguagem é a principal identidade de um povo e que o contexto social e a forma de vida implicam na forma das expressões linguísticas e culturais.

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Os homossexuais têm sua cultura própria, sua moda e jeito de falar carregado de características próprias de seu contexto social,assim como os surfistas,os emos, os góticos e os fãs de heavy metal, os gays também usam sua língua materna o tempo todo e por isso acabam incorporando a ela novas palavras e novos sentidos enriquecendo essa linguagem.

1.2 A historia da homossexualidade

Khnumhotep e Niankhkhnum retirado do site Wikipédia

Para que possamos compreender a linguagem gay como identidade, entraremos no âmbito cultural e sociológico, para isso precisaremos entender como funciona e como se formou a sociedade homossexual. Tomemos por base inicial as definições etimológicas sobre homossexualidade

apresentadas pelo site Wikipédia.
A palavra homossexual é um híbrido do Grego e do Latim com o primeiro elemento derivado do Grego homos, 'mesmo' (não relacionado com o latim homo, 'homem', como em Homo sapiens), conotando portanto, atos sexuais e afetivos entre membros do mesmo sexo, incluindo o lesbianismo.A palavra gay geralmente se refere à homossexualidade masculina, mas pode ser usada em um sentido mais amplo para se referir a todas as pessoas LGBT. No contexto da sexualidade, lésbica só se refere à homossexualidade feminina. A palavra "lésbica" é derivada do nome da ilha grega de Lesbos, onde a poetisa Safo escreveu amplamente sobre o seu relacionamento emocional com mulheres jovens. O

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adjetivo homossexual descreve comportamento, relacionamento, pessoas, orientação etc. A forma adjetiva significa literalmente "mesmo sexo", sendo um híbrido formado a partir de Grego homo (uma forma de homos "mesmo") , e "sexual" do latim medieval sexualis (do latim clássico sexus). (www.wikipedia.com acesso em: 5/6/2012).

Ainda no site Wikpédia, fala-se sobre a primeira aparição registrada do termo homossexual que foi encontrada em um panfleto de 1869 publicado anonimamente pelo romancista alemão Karl Maria Kertbeny argumentando contra uma lei anti-sodomia prussiana. Em 1879, Gustav Jager usou os termos de Kertbeny em seu livro “Descoberta da Alma" (1880),em 1886, Richard Von Krafft Ebing usou os termos homossexual e heterossexual em seu livro "Psychopathia Sexualis", provavelmente emprestando-os de Jager. O escritor inglês Kenneth J. Dover, autor do estudo “Homossexualidade Grega”, baseou sua pesquisa sobre a homossexualidade masculina em representações de ânforas, vasos pintados com figuras que os gregos eram mestres em produzir. Dover mostra em seu estudo que a sociedade grega era completamente favorável a pratica do relacionamento homossexual entre dois homens, o homem adulto copulava com os mais jovens, porém a prática sexual entre homens da mesma idade era considerada algo repulsivo pela sociedade grega da época. A homossexualidade permitida era praticada entre um adulto e uma criança ou adolescente. Durante a Idade Média, com a ascensão do Cristianismo e da Igreja Católica, os gays foram severamente perseguidos e punidos, havia um padrão imposto pela soberania religiosa que impunha a bíblia como única fonte de moral na sociedade. Com o Renascimento criou-se um novo campo para a emergência da homossexualidade, na burguesia Francesa, os homossexuais eram

tolerados, sendo o próprio irmão de Luís XVI, Felipe de Orléans, homossexual assumido. No século XX ocorreu um dos maiores genocídios gays da história, não só gays, mas judeus e negros foram massacrados nos territórios ocupados pela Alemanha nazista comandada por Adolf Hitler. Em março de 1933 foram

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instituídos os primeiros campos de concentração, homossexuais, negros e Judeus foram arrastados aos campos de concentração e liquidados. Na década de 50 precisamente em 1956, surgiram teses como a do psicólogo Evelyn Hooker, segundo a qual não há conexão entre

homossexualidade e psicopatologia. Na mesma década a sociedade tinha a homossexualidade como patologia, tamanho era o convencimento de que a homossexualidade era uma deficiência ou doença, que os próprios homossexuais militantes gays como Harry Hay de Los Angeles discursava em nome de sua organização: [...] Nós, os andrógenos do mundo, formamos este corpo corporativo responsável para demonstrar por nossos esforços que nossas deficiências fisiológicas e psicológicas não precisam ser impedimento na integração de 10% da população mundial na direção do progresso social construtivo da humanidade. Também na citação podemos perceber a necessidade de quantificar os homossexuais no mundo, embora estudos feitos nos anos 80 defendam percentuais de 2 a 5 %, daí o termo minoria sexual,nos anos 90,estudos afirmariam um numero em torno da casa das dezenas. Durante revolução sexual dos anos 60, homossexuais saíram em busca de novos modelos de comportamento, este novo nicho social, em cidades como São Francisco e Nova Iorque e, resguardada em escala brasileira, Rio de Janeiro e São Paulo, que na condição de grandes metrópoles, foram vistas como acolhedoras aos jovens do interior cuja coragem permitia-lhes partir em busca de seus desejos naturais, desde que sem a necessidade, ao menos imediata, de conflitos domésticos. Tais homossexuais logo passaram a se libertar de padrões sociais e a se expressar de forma mais clara em relação às suas condições sexuais. Novos estilos surgiram muito rápidos com a explosão da revolução sexual. Determinando-se pelas propostas da fantasia de cada indivíduo, bares, saunas, e praças específicas fixavam-se como redutos gays. Nos EUA da década de 70, começava surgir o movimento sexual organizado, com instrumentos de mídia e defensores políticos, um culto ao sexo cresceu nos centros urbanos que não concorreu com outro da história da humanidade em termos de sofisticação e acessibilidade.

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Nos anos 80, a contínua ascensão inverteu-se: a deflação que resultou da AIDS e da correspondente confusão moral corrompeu a sexualidade gay masculina. O número de organizações homossexuais aumentou e o reconhecimento e respeito desta parcela da população aumentaria estrondosamente. Contudo, surgiu novamente a separação entre intimidade e sexo, sendo este supervalorizado pela comunidade homossexual, logo então veio a ideia de que os homossexuais eram incapazes de manter relações estáveis e duradouras. Concomitante à revolução sexual, os homossexuais começaram a perceber que a aceitação do sexo livre não implicaria no fim da solidão dos indivíduos da já citada minoria, sem entender que, junto com as liberdades do sexo livre, viriam as epidemias dos anos 80. Ainda dando continuidade à tendência do outing (da expressão americana out of the closet, Sair do armário) no seu final, a década de 80 foi refratária à explosão da revolução gay de sua precedente devido ao surgimento da AIDS. As primeiras vítimas homossexuais não tardaram a aparecer, multiplicando-se em alta velocidade devido ao hábito de alta rotatividade de parceiros e à falta de costume do uso dos até então pouco conhecidos preservativos. Na virada do século a humanidade seria presenteada com movimentos de apoio e prevenção ao HIV nunca antes tão ágeis e prontamente vistos (de início as ações governamentais foram lentas, claramente por crer-se doença de gays, logo, não merecedores de ajuda imediata) em outras epidemias. O cinema gay hollywoodiano (bem como várias outras áreas comerciais que não puderam negar a fonte de divisas) descobriu o público homossexual, e nos últimos anos uma há uma enxurrada de filmes que abordam a temática homossexual na programação das grandes cidades assim como no campo literário há uma grande produção voltada ao publico gay. Em paráfrase à expressão de Oscar Wilde, a revista Veja (3.2.99) transcreve a expressão do seminário norte-americano The New Yorker: ’’ o amor que não ousava dizer o nome agora o repete à exaustão’’.

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1.3 Movimentos Gays no Brasil

Parada gay de Sorocaba 2009, acervo pessoal.

Nesse tópico apresento um resumo do texto de Leonardo Mendes autor do blog Llgbtt que fala sobre a historia do movimento gay no Brasil, limito-me a falar somente em parâmetros nacionais para que não sejam invadidas outras áreas de estudos linguísticos desse caráter. Segundo o blog Llgbtt.blogspot.com.br,o movimento de defesa dos direitos dos homossexuais surgiu na Europa, no final do século passado, tendo como principal bandeira a descriminalização da homossexualidade e o reconhecimento dos direitos civis dos homossexuais. Durante o Nazismo, mais de 300 mil gays foram presos nos campos de concentração, e só depois da Segunda Guerra Mundial que o Movimento Homossexual começa a se estruturar na Europa e Estados Unidos. O dia 28 de Junho de l969 é a data que marca o início do moderno movimento gay mundial, quando no Bar Stonewall, em New York, os homossexuais se rebelaram contra a perseguição policial, travando uma batalha de dias seguidos comemorando a partir de então, todo 28 de Junho como o "Dia Internacional do Orgulho Gay e Lésbico". No Brasil, em 1978 é fundado o jornal O Lampião, o principal veículo de comunicação da comunidade homossexual, e em Março de l979, surge em São Paulo os primeiro grupo de homossexuais. Em l980 é realizado em São Paulo, o 1° Encontro Brasileiro de Homossexuais, a partir desse momento, os homossexuais vem se organizando para defender seus direitos e erguer a bandeira de seu orgulho.

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Três são os objetivos básicos do Movimento Homossexual Brasileiro: lutar contra todas as expressões de homofobia (intolerância à

homossexualidade); divulgar informações corretas e positivas a respeito da homossexualidade; conscientizar gays, lésbicas, travestis e transexuais da importância de se organizarem para defender seus direitos de cidadania e políticos. Nestes quase 20 anos de existência, o Movimento Homossexual Brasileiro apesar de contar com reduzidos recursos humanos e materiais, obteve importantes vitórias no reconhecimento dos direitos humanos dos gays e lésbicas. Em l985 conseguiu que o Conselho Federal de Medicina declarasse que no Brasil a homossexualidade não mais poderia ser classificada como "desvio e transtorno sexual”. Em 1989 incluiu no Código de Ética dos Jornalistas a proibição de discriminação por orientação sexual, em l990, nas leis orgânicas de 73 municípios e nas constituições dos Estados de Sergipe, Mato Grosso e Distrito Federal, foi incluída a expressa proibição de discriminar por orientação sexual, em 1995 realizou-se no Brasil a 17ª Conferência da Associação Internacional de Gays e Lésbicas, (ILGA).

1.4 Origem e evolução da linguagem gay

Foto retirada do site Wikipédia

Com a organização do movimento gay e o fim da ditadura militar surgia um sentimento de otimismo cultural que atingia a todos, no meio gay a

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expressividade sobre a sexualidade era maior e havia certa valorização das minorias que refletia na produção de cultura e moda para esse grupo.

[...]a influência dos movimentos da contracultura e os novos interesses, serviram de terreno fértil para o nascimento do movimento gay. O resultado foi a vivência de um período de efervescência da homossexualidade. Talvez se possa explicar es se boom pelo próprio contexto da década de1970, em que a glorificação da marginalidade era um aspecto que atingia a cultura brasileira. Mas o que importa nesse aspecto é o seu desdobramento: a crescente visibilidade das práticas homossexuais, a descoberta desse novo público pelos setores comerciais e o surgimento de uma moderna subcultura gay. (ANDERSON FERRARI 2004).

Essa subcultura gay já comentada antes por Anderson Ferrari abrange não somente o contexto comercial da moda, da musica e afins, mas também pode se conceber por subcultura gay a linguagem especifica do grupo, pois assim como a moda e a música, a linguagem também apresenta a identidade cultural do individuo. Em meio a esse contexto de revolução sexual e cultural, os homossexuais adotaram uma espécie de dialeto que passou a fazer parte do meio social dos integrantes desse grupo, essa linguagem especifica é até hoje conhecida como Bajubá. Segundo Tamires, Monique e Thaísa, autoras do artigo Linguagem das tribos (2007), o Bajubá é a língua africana que os negros trazidos para o Brasil no período da escravidão encontraram para se comunicar nas senzalas, driblando a atenção de seus senhores. Formado por dois dialetos das tribos africanas, o Nagô e o Iorubá, as expressões do Bajubá têm caráter nominativo e se estende apenas a nomenclaturas de objetos, comidas e figuras do dia a, como menino (erê, amadê), homem (anuna, ocó, ekê) ou mulher (mapô, amapoa). Isso porque era praticado por pessoas simples ligadas às atividades de cunho domestico, onde os personagens eram sempre os mesmos.

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Sem o registro escrito como língua, o Bajubá só sobreviveu até os dias de hoje graças ao Candomblé Baiano e Fluminense, e também graças à cultura do movimento gay que se infiltrava nessas religiões. Com a revolução sexual da década de 60, os clubes alternativos das grandes cidades brasileiras passaram a exibir shows de travestis e dragqueens como forma de atrair o público gay, com essa pratica tornando-se comum, no final da década 70 os homossexuais então tentavam assumir o seu lugar na sociedade, mas o que conseguiam era o repudio e o preconceito inclusive por parte das religiões cristãs. Banidos do restante da sociedade, eles só encontravam refúgio religioso nos terreiros de Candomblé e Umbanda, as únicas religiões da época que aceitavam a homossexualidade como algo natural do ser humano. Respeitados/as como pessoas normais, os transgêneros que

frequentavam os cultos adotaram o Bajubá dos negros como sua linguagem pessoal, criando a partir daí uma identidade linguística marcante que tanto os caracterizou. Devido à discriminação o uso da língua tornou-se comum como forma de camuflagem e identidade social. A “língua gay” passou também a ser falada por outras classes de homossexuais sofrendo naturalmente uma série de modificações como acontece com toda língua viva ao passar do tempo.

O tempo altera todas as coisas, não existe razão para que a língua escape a essa lei universal. (Ferdinand de Saussure)

Com essas modificações, o bajubá então tomou um lugar maior no meio gay e também no meio heterossexual, novas palavras foram incorporadas ao vocabulário tornando-o mais rico em flexões e conjugações de verbo, por exemplo, o que não havia em sua forma original vinda da África. Os homossexuais mais modernos incorporaram a língua expressões novas retiradas do estilo de musica pop, da internet e da TV, algumas delas surgem espontaneamente de acontecimentos cômicos e automaticamente passam a fazer parte do vocabulário.

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1.5 Linguagem e identidade social

Os seres humanos são indivíduos dotados de características gerais semelhantes, a sociedade humana se subdivide em grupos diferentes, essas características sejam elas físicas, linguísticas, geográficas ou sociais, criam formas diversas de expressão e comunicação, ou seja, todo ser humano é igual em características gerais, mas em suas características especificas somos completamente diferentes.

Assim como acontece no universo heterossexual, os indivíduos do universo gay também se dividem em incontáveis “tribos”, onde encontram pessoas com quem possam dividir similaridades de estilo e gosto. Da mesma forma que, por razões de identificação cultural, um ser heterossexual pode em nada se familiarizar com um outro ser heterossexual, o mesmo pode acontecer entre dois indivíduos homo. O que se percebe é que o fato de uma pessoa ter preferência sexual por alguém do mesmo sexo não a classifica automaticamente como indivíduo do mesmo círculo social de uma outra pessoa que sinta o mesmo desejo. (TAMIRES, MONIQUE, THAÍSA 2007)

A linguagem é um meio de sintetizar a língua e a comunicação verbal, expressar ideias e sentimentos comuns e tem fundamental importância na manutenção da coesão do grupo, já que será por meio dela que os indivíduos poderão partilhar valores e experiências vividas em seu meio social. De acordo com o dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, a palavra linguagem pode ter varias referências dependendo da área terminológica em que é utilizada, em linguistica, refere-se ao meio de comunicar ideias ou sentimentos através de signos convencionais, sonoros, gráficos ou gestuais, pode ser também sinônimo de língua enquanto sistema. A escolha das palavras, dentro de um grupo de pessoas é determinada pelas interpretações de mundo em comum entre os falantes da língua, as palavras não existiriam se não houvesse os grupos, tão pouco as línguas ou os sistemas de códigos de linguagem. Os signos linguísticos só podem existir em um plano de comunicação, mesmo assim não se pode tratar o uso das

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palavras unicamente como “natural’’, não basta haver dois indivíduos da mesma espécie para se obter comunicação, é fundamental a organização social e a formação de um grupo, só assim um sistema de signos pode se fazer real. No decorrer da história, a humanidade foi subdividindo-se, formando os grupos sociais que expressam ideais através da linguagem, com a formação do grupo ou sociedade, cria-se uma espécie de campo semântico, todos os indivíduos dessa determinada sociedade dividem valores importantíssimos como a cultura, a culinária, o lugar em que vivem e uma ou mais línguas, nesse contexto, surge uma identidade social que diferencia esse suposto grupo de outro que partilha de valores diferentes e uma identidade social diferente. É fácil para qualquer brasileiro dizer as diferenças de características culturais ou linguísticas de qualquer região do país, no Sul, por exemplo, o Gaúcho fala um português cantado que soa diferente ao ouvido de um Paulista. Todos falamos a mesma língua, mas em um país grande em território temos uma diversidade cultural e linguistica incrível, que nos dá a possibilidade de reconhecer um individuo pelo simples ato da fala, pelo sotaque ou pelo uso de expressões especificas de seu vocabulário regional.
Um falante revela muito sobre si mesmo no momento em que abre a boca, estamos acostumados a fazer inferências a respeito de um falante, baseando-nos em sua linguagem. (COULTHARD, 1991, p.15)

A linguagem reflete o grupo em que vive o falante, e carrega consigo sua identidade social. No momento em que fala, verbal ou corporalmente, o individuo revela muitas características de seu grupo social, mostrando assim sua identidade social, fora de seu contexto de vida, ou em uma sociedade diferente.

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2. ESTUDO LEXICAL Esta parte do trabalho trata-se de um estudo lexical sobre o vocabulário dos homossexuais e da língua em si, procuro trabalhar nesse tópico as definições de léxico e vocabulário para poder introduzir a pesquisa mais aprofundada sobre esse vocabulário, apresento também um estudo sobre os diferentes dicionários de língua portuguesa e seus objetivos. 2.1 O que é léxico? Segundo o site Wikipédia, léxico pode ser definido como o acervo de palavras de um determinado idioma: todo o conjunto de palavras que os falantes de uma determinada língua têm à sua disposição para expressar-se, oralmente ou por escrito. Pode-se dizer que uma característica básica do léxico é sua mutabilidade, já que toda língua que é falada está em constante evolução. Algumas palavras se tornam arcaicas, outras são incorporadas, outras mudam seu sentido semântico, e tudo isso ocorre de forma gradual e quase imperceptível. O sistema lexical de uma língua expõe e traduz as experiências culturais e linguísticas acumuladas por uma sociedade através do tempo, ou seja, o léxico pode ser considerado como o patrimônio vocabular de uma comunidade linguística através de sua história, um acervo que é transmitido de uma geração para a geração seguinte. O usuário da língua utiliza o léxico, esse inventário aberto de palavras disponíveis no seu idioma, para a formação do seu vocabulário, para sua própria expressão no momento da fala e para a efetivação do processo comunicativo. Assim, o vocabulário de um indivíduo caracteriza-se pela seleção e pelos empregos pessoais que ele faz do léxico. Quanto maior for o vocabulário do usuário, maior a possibilidade de escolha da palavra mais adequada ao seu intento expressivo. 2.1.1 Composição do léxico O léxico de um idioma é composto por palavras agrupadas em classes do mesmo sentido semântico, conforme pede a gramática do idioma. Há

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classes de palavras que existem em praticamente todos os idiomas, como os substantivos, os adjetivos e os verbos. O léxico, ou uma parte do léxico de um idioma pode ser encontrado em dicionários de diversos tamanhos e funções. 2.2 A criação e a inserção de novos termos à língua Tendo em vista que neste tópico faremos uma abordagem teórica analítica sobre as formações neológicas em torno das palavras, para entendermos melhor essa questão sobre a inserção e criação de novos termos à língua, inicio apresentando a ideia de que a língua é uma unidade viva que está em constantes mudanças, isto significa que, todos os dias surgem novas palavras que passam a ser utilizadas pelos falantes de uma língua. Desta dessa forma, podemos dizer que a língua está sujeita a mudanças e em decorrência disso os falantes criam novas palavras para suprir suas necessidades de comunicação em determinadas situações de uso da língua. Assim novos vocabulários surgem com o objetivo de renovar o acervo lexical, podendo variar de acordo com cada região ou mesmo com cada grupo social de indivíduos. O linguista Ferdinand Saussure (1970) apresenta a definição da língua como sendo um veículo social, e a fala como ato individual. Ao se fazer a união entre fala e língua, obtém-se como resultado a linguagem, segundo Saussure, a linguagem tem duas partes: a língua como sistema de signos organizado culturalmente pelos falantes e considerada essencial, e também a fala que se refere ao ato individual de escolha das palavras para a expressão do que se deseja. A língua só existe na coletividade não podendo ter efeito na individualidade. Nesse ponto, entende-se que, para Saussure, os sujeitos, sozinhos, não podem materializar uma língua, ou mesmo criar um processo de modificação de uma língua já existente.

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Ela é a parte social da linguagem, exterior ao indivíduo, que, por si só, não pode nem criá-la nem modificá-la; ela não existe senão em virtude duma espécie de contrato estabelecido entre os membros da comunidade (SAUSSURE, 1970, p. 22).

Bakhtin (2006) também se apresenta bastante útil com as intenções dessa pesquisa, pois o estudioso ilustra outro aspecto sobre a língua que é o fato de que a língua é viva e evolutiva na história da comunicação social, também observa que a verdadeira essência é o fenômeno social da interação verbal, que se realiza através da enunciação. Dessa maneira, essa interação é a essência da mutação da língua. Considerando-se que os processos anteriormente citados influenciam e modificam uma língua de formas diferentes, o estudo de Bakhtin é baseado na perspectiva, de que novos léxicos são acrescentados à língua e os sentidos se modificam em função do uso que os indivíduos fazem dela.

2.2.1 Os Neologismos Levando em consideração que a cada dia surgem novos vocábulos e expressões, é importante destacar que o falante faz a atualização da língua, além de utilizar a retomada de palavras arcaicas, que adquirem novos significados ou a utilização de termos estrangeiros para ampliação do léxico de uma língua. Esses novos vocábulos são chamados de neologismos, e servem para suprir as necessidades expressivas dos falantes, há também as palavras que surgem espontaneamente em um determinado grupo como é o caso dos grupos homossexuais. Esses vocábulos são criados de momento e acabam tomando força até se tornarem conhecidos por uma grande parte da população, podendo chegar até a fazer parte dos dicionários.

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2.3 Os dicionários como registro lexical Dicionário é uma compilação de palavras ou dos termos próprios de uma determinada língua, ou ainda uma lista de vocábulos de uma língua, em um dicionário as palavras são dispostas em ordem alfabética e com a respectiva significação ou a sua versão em outra língua. Cada dicionário possui classificações em harmonia com objetivos e finalidades as quais se compromete em abranger. Isso muito se deve a uma constante necessidade de atender aos diversificados níveis e áreas de conhecimento, o que resulta na minuciosa classificação dos diferentes dicionários disponíveis que conhecemos hoje. O dicionário pode ser mais específico e tratar de termos próprios de uma cultura restrita ou de estudos específicos como dicionários de artes e ciências. 2.3.1 Os diversos tipos de dicionários Os dicionários não são exclusivamente para pesquisa dos significados das palavras de uma determinada língua, são muitos os tipos e finalidades de estudos dos dicionários.Existem dicionários voltados a área médica, judicial, histórica, artística e etc. que tratam de assuntos específicos a um acervo lexical de uma determinada área, segue abaixo uma lista dos principais tipos de dicionários e suas funções: Dicionários gerais da língua: são compilações de versão extensa ou com adaptação a usos escolares. Possuem um considerável número de palavras, definidas em suas várias acepções e significados. Exemplos: Dicionário Michaelis; Dicionário Aurélio. Dicionários etimológicos: contém a origem de cada palavra através de sua formação e evolução através do tempo.

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Dicionários de sinônimos e antônimos: definem o significado das palavras mediante equivalências ou afinidades (palavras sinônimas) e significados opostos (palavras antônimas). Dicionários analógicos: reúnem as palavras por campos semânticos, ou por analogia a uma idéia. Geralmente não são dispostos em ordem alfabética. Dicionários temáticos: organizam vocabulários específicos de determinada ciência, arte ou atividade técnica. Exemplos: Dicionário Jurídico, Dicionário de Comunicação, de Astronomia e Astronáutica, Dicionário odontológico. Dicionários de abreviaturas: são muito úteis por facilitarem a comunicação ainda mais nesta época de abreviaturas e siglas. Dicionários bilíngues: explicam o significado dos vocábulos estrangeiros e suas correlações com os vocábulos nativos. Além dos dicionários acima citados, existem também outros que se propõem a atender diversas finalidades como dúvidas e dificuldades de uma língua, de frases feitas, de provérbios, de gírias e expressões

regionais,alguns de caráter bem curioso e cômico como os da lista abaixo que foram retirados do site de compras Submarino.com.

Titulo: Dicionário de Porto-Alegrês Autor: Luis Augusto Fisher Editora: L&PM

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Titulo: Dicionário Inglês-Humorês e Português-Humorês Autor: Paulo Tadeu Editora: Matrix

Titulo: Dicionário de Politiquês Autor: Vito Gianotti e Sergio Domingues Editora: Mauad

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2.3.2 O dicionário do vocabulário gay

Titulo: Aurélia, a dicionária da língua afiada Autores: Fred Lib e Angelo Vip Editora: Editora do bispo Dentre esses curiosos dicionários destaca-se um deles no contexto desta pesquisa, ‘’Aurélia a dicionária da língua afiada’’. O titulo do livro de Fred Lib e Angelo Vip é uma alusão ao famoso dicionário "Aurélio", de Aurélio Buarque de Holanda, um dos maiores lexicógrafos do Brasil, morto em 1989. "Aurélia" contém 1.300 verbetes, todos descritos, na forma de um dicionário tradicional. O livro foi produzido no contexto de pesquisas realizadas há cerca de dez anos, o tom de "Aurélia" é bastante informal podendo ser chamado até de politicamente incorreto. Na primeira página os autores já avisam: "Este dicionário não tem a pretensão de ser politicamente correto. Muitos termos são chulos e pejorativos, podendo ser ofensivos para determinadas pessoas ou grupos. Nesse caso, recomendamos a interrupção imediata da leitura". Apesar de escrito para atingir o publico gay, a linguagem do livro várias vezes tira sarro dos próprios gays, no verbete "Piti", por exemplo, eles explicam: "Nervosismo, histeria, ataque de bichice". Mesmo soando um tanto quanto agressivo, o livro tem caráter humorístico e o teor da linguagem deve ser aceito como linguagem literária para que não seja confundido com qualquer forma de agressão.

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Seguem abaixo alguns verbetes retirados do livro: A- art, def, fem- No mundo gay, o artigo definido feminino é, em muitos casos, anteposto a substantivos próprios ou comuns do gênero masculino, sendo que, no caso dos comuns, o substantivo ele próprio também passa, se possível, para o feminino. Ex.: A Pedro, A Mário; a prédia; a fota; a relógia; a dicionária. Jogar o picumã- Virar a cabeça, mudando os cabelos de lado, tal como as loiras fazem, só que de um modo um pouco mais inteligente e com a intenção de menosprezar ou ignorar alguém. Picumã-Peruca, cabeleira, cabelo. Bafo-Termo referente a algo ou alguém que causou alguma coisa. "Ex. Aquela noite foi bafo, bi!" Jurando-Estar pensando ou acreditando no hype; se sentindo (Expressão usada unicamente no gerúndio). Bicha-bofe- Homossexual não efeminado, mas nem sempre ativo. Bofe-Homem heterossexual ou homossexual ativo. Aquendar-1-Chamar para prestar atenção, prestar atenção; 2- Fazer alguma função; 3-Pegar, roubar. Forma imperativa e sincompada do verbo: kuein

2.3.3 A diferença entre a língua africana e o bajubá falado pelos gays Vale lembrar que, a palavra ‘’Bajubá’’ foi adotada pela sociedade gay para nomear a linguagem adotada por eles, linguagem essa composta por milhares de termos adicionados recentemente através das mídias e do estrangeirismo, o Bajubá oriundo das tribos africanas não contem tantas palavras e possui um acervo lexical mais pobre em relação à língua gay falada hoje, isso se deve a frequente atualização e adição de novas palavras e expressões que surgem no meio onde a linguagem é veiculada.

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Palavras como ‘’Aloka’’,‘‘Boy magia’’,‘‘beecha’’,‘‘maricona’’, entre outras, foram adicionadas ao vocabulário com passar do tempo devido a entrada de novos elementos ao grupo.A parte dos gays que trouxeram o bajubá para a sociedade na década de 70 era composta em sua grande maioria por travestis e homossexuais reprimidos e a língua ficava restrita a esse grupo,com a explosão do movimento,novas correntes de culturas gays se aproximaram da linguagem e deram novos sentidos e significados às palavras e expressões,tornando o bajubá mais rico de flexões verbais e flexões de gêneros por exemplo. Seguem abaixo duas tabelas compostas de palavras coletadas em entrevistas com homossexuais, a tabela mostra as palavras e seus referentes significados,na primeira tabela temos as palavras vindas diretamente do vocabulário das tribos africanas onde se falava o bajubá,na segunda temos as palavras adicionadas posteriormente a esse conjunto de palavras. PALAVRA AMAPÔA NECA EDÍ PICUMÃ MONA OCÓ ALIBÃ ALEIJO AKUEN SIGNIFICADO VAGINA PÊNIS ANUS CABELO MULHER HOMEM POLÍCIA PROBLEMA CONVERSA PALAVRA RACHA BOFE ELZA PANQUECA STRAIGHT TRAVA SIGNIFICADO VAGINA HETERO ROUBO PASSIVO HETEROSSEXUAL TRAVESTI

BEE(lê-se bi) BICHA MARICONA SAPATÃO GAY VELHO LÉSBICA

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

As criações e adições lexicais no vocabulário dos homossexuais não criam apenas um efeito social, mas também podem contribuir para a caracterização ideológica da mensagem. Infere-se, portanto, que no discurso do Bajubá as escolhas lexicais são conscientes, revelando tanto uma habilidade do falante em flexionar uma linguagem inovadora e diferente, como também viabiliza chamar a atenção das pessoas para a sua expressão social. Assim podemos interpretar que todo grupo de falantes, independente de localidade ou cultura utiliza-se da linguagem como forma de diferenciação e identidade social e cultural. A criação lexical é um dos meios que contribuem para a renovação da língua, uma vez que o léxico de uma língua está em constante renovação.De fato,o léxico constitui um vasto universo de limites imprecisos e indefinidos e constantemente se renova, por meio de novas necessidades de nomeação, seja para satisfazer uma necessidade momentânea, nomear um novo item, ou como forma de identificação social. Muitas vezes, não percebemos a criação de novas palavras, pois um neologismo só se torna conhecido quando atinge um grande número de integrantes da comunidade linguística, isso ocorre por intermédio dos meios de comunicação em massa como televisão, músicas, jornais, internet e etc. Este trabalho utilizou-se da constante renovação do léxico e do vocabulário para reunir neologismos e novas expressões da linguagem gay , comprovando a mobilidade da língua, e reiterando a intenção de provar que a língua é um organismo vivo e mutável. Ao propor a pesquisa do processo de formação e inserção de novas palavras ao vocabulário, procuro mostrar através da abordagem teórica, que é no processo da formação discursiva que a palavra assume significados diversos e, dessa forma, elementos linguísticos e discursivos se manifestam na formação e interação social do leitor com a linguagem.

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Portanto, é possível considerar que o estudo da formação e inserção de novas palavras e expressões à língua revela não só a riqueza de recursos linguísticos implícitos, mas também valores de uma sociedade, atitudes, a cultura de um determinado grupo, região ou país, ou seja, vai além da simples comunicação.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Bibliografia consultada:
BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1996. CRISCIO, Tamires Criscio, FONSECA, Monique Fonseca, BURANI,Thaísa

Burani.Linguagem das tribos: os homossexuais. 2007. DIAS, Luís Francisco. Os sentidos do idioma nacional: As bases enunciativas do nacionalismo linguístico no Brasil. Campinas: Pontes, 1996. ALVES, Ieda Maria. Neologismo: criação lexical. 2. ed. São Paulo: Ática, 1994. São Paulo: Duas Cidades, 1984. BASÍLIO, Margarida. Teoria Lexical. São Paulo: Ática, 1990. BARBOSA, Maria Aparecida. Léxico, produção e criatividade: processos do neologismo. São Paulo: Global, 1981. BAUER (IN ROCHA, LUIZ CARLOS DE ASSIS). Estruturas Morfológicas do português. Belo Horizonte: UFMG, 1998. 21 BIDERMAN, Maria Tereza Camargo. Teoria Linguística: linguística quantitativa e computacional. Rio de Janeiro, LTC, 1978. BRAIT, Beth. CAMARA JR. Joaquim Matoso. Estrutura da língua portuguesa. 34. ed., Petrópolis: vozes,2001 CARDOSO, Elis de Almeida. Os processos de criação de novas unidades lexicais em língua portuguesa. Estudos acadêmicos – Unibero (São Paulo), v. VII, p. 64-67, 1998. CARVALHO, Nelly de. A palavra é. Recife: Liber, 1999. ILARI, Rodolfo. Introdução ao estudo do léxico. 4. ed. São Paulo: Contexto, 2008. LAPA, Manuel Rodrigues. MARGARIDA, Basílio. Formação e classes de palavras de palavras no português do Brasil. São Paulo: Contexto, 2004.

Bibliografia citada:

Chauí, Marilena. Política cultural. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1984. LOPES, Luiz Paulo da Moita. Por uma linguística aplicada indisciplinar. São Paulo: Parábola editorial, 2006.

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COULTHARD, Malcolm. Linguagem e sexo. São Paulo: Ática, 1991 SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de lingüística geral. São Paulo: Cultrix, 1970. (Org. Charles Bally e Albert Sechehaye). As vozes bakhtinianas e o diálogo inconcluso. In: BARROS, Diana Luz Pessoa. São Paulo: Edusp, 2003.

Sites: A importância das palavras no uso diário da vida - Luísa Galvão Lessa Karlberg <http://www.ufac.br/informativos/ufac_imprensa/2005/02fev_2005/artigo1882.html> Acesso em 14 de mai.2012 Quando os idiomas calam - Cláudia Albuquerque <http://www.narizdecera.jor.br/novo/display.php?acao=mostra&col=22> Acesso em 14 de mai.2012 Homossexualismo: doença ou opção? - FONTE: ABC da saúde <http://www.abcdocorposalutar.com.br/artigo.php?codArt=345> Acesso em 24 de mai.2012 HISTORIA do movimento LGBT brasileiro. Historia da homossexualidade; contexto histórico; evolução; cronologia; revoluções e reuniões sociais. <http://www.entretextos.jor.br/page_txt.asp?smn=5&txt=88&sbmn=0> Acesso em 24 mai.2012.

MOVIMENTO homossexual brasileiro. Parada gay ; pessoas transexuais e travestis ;datas marcantes. <http://pt.wikipedia.org/wiki/Movimento_homossexual_brasileiro> Acesso em 30 mai.2012.

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