OSBLÉTICO1! NÃO?

Estávamos lá pelo ano de 1967, meados dos memoráveis tempos de minha adolescência. Ah, quanta saudade! Eu era feliz e nem sabia disso. Missão Nova foi meu berço de nascimento. Distrito de Missão Velha. Esta me perdoei, talvez pela aparente ingratidão. Digo isso porque apenas nasci lá, mas quem foi meu verdadeiro berço, aquele que me acolheu e que me viu crescer e adolescer foi Barbalha. Onde estudei (Instituto Dom Bosco, Escola Martiniano de Alencar e por fim, Colégio Santo Antônio). A timidez é uma opressão que esmaga, deforma, limita, distorce e mata o indivíduo com todos os seus ideais, se este não reagir e não lutar contra isso, buscar superá-la e reverter o curso de via vida. Eu tinha muitos sonhos e foram estes que me deram força para lutar e vencer cada obstáculo que se interpunha diante deles A timidez legou-me algo fascinante, embora deteste ser tímido. Como não tinha coragem de enfrentar o novo, inusitado, o desconhecido, digamos assim, eu descobri um mundo esplêndido, osblético - a leitura. Como era (e ainda é) gostoso viajar pelas páginas daquelas histórias, sentindo-me muitas vezes parte delas. Principalmente quando havia certa identidade com as personagens. Menino de Engenho me fascinou, pois muitos daquelas pessoas que elencavam a trama faziam parte do meu dia-a-dia., Embora não tivesse sofrido o trauma abrupto que o menino de engenho sofrera, identifiquei-me muito com ele, pois fui criado com meus avós que possuíam um engenho em sua fazenda. Via-me em Corumbá, sentindo-me o quarto, dos três amigos. Isso ajudou-me a desenvolver o meu raciocínio. Procurava vencer desafios. Quando alguém dizia detestava matemática, procurava entender o porque e findava me aprimorando nessa ou naquela matéria. Achava interessante ver que certos garotos se ajustavam bem, socialmente, enquanto eu ficava sempre a observar, de longe. Louco para participar do seu rol de amizade, mas receoso de ser rejeitado. E isso era coisa que nunca tolerei. Procurei vencer os obstáculos. Aproveitei cada oportunidade que me ajudasse a vencer aquele horroroso verdugo da timidez. As reuniões do grêmio da escola foram de grande importância para essa vitória. A princípio relutei em aceitar, mas findei concordando em participar das apresentações. Aquilo foi como um bálsamo e o início da ruptura da blindagem que eu teimava em colocar ao meu redor para me autoproteger. Nesse mesmo tempo entrei para o Grupo de Escoteiros. Depois fundamos o Grupão, Grupo Jovem Barbalhense, tendo como orientador espiritual o Pe. Manfredo, e como cabeça do grupo Maria Helena Cardoso. De alguns componentes ainda consigo me lembrar: Tébio, Joãozinho, Eutrópio, Marcos Freitas, Maria Helena, Maria Isa, Pompeu e outros. Encenamos a peça de Maria Clara Machado "Pluft o Fantasminha" e iniciamos a montagem de "Chalé à Margem da Estrada", todas dirigidas por Stellita de Freitas. Pena que não a levamos a público. Algo que me fascinava e ainda hoje mexe comigo é música. Tem um grupo musical que até hoje subsiste - Os Águias. Um tipo de "cover" de "os Beatles". Alguns colegas meus tocavam e cantavam nesse grupo, como Émerson Nunes, Libério (o bandleader), Silvino, Rômulo, Zé Alênio (verdadeiro nome Heleno). Por causa deles fui despertado para aprender tocar violão. Socorro Barreto fui uma pessoa que muito me incentivou e encorajou a nunca desistir. Geralmente, à noitinha, nos reuníamos na varanda de sua casa. Tocávamos e cantávamos do folclórico, popular e MPB. A Libânia e a Rita Inês sempre participavam. Era muito divertido e instrutivo também. Foi lá na casa de Socorro, num desses saraus que, pela primeira vez ouvi a palavra "osblético". Elas haviam retornado das férias em Aracaju - SE e em tudo colocavam esse novo vocábulo. E eu abestalhado ficava sem saber do que se tratava. Então perguntei-lhe: "E o que é 'osblético'"? Eu achava uma palavra meio que coringa. Daí explicaram-me: "Nada disso. Osblético é algo assim, esplêndido, extraordinário. Algo que te deixa com cara de "blé"; boquiaberto; de queixo caído". Eu nem sabia, mas aquela palavra já era de uso comum em toda a região. Então lhes respondi: "Ah! É isso? Então encontrei algo pra lá de osblético". E elas, curiosas, logo perguntaram: "Quem? O que?". E eu: "Vocês". Osblético, não? Quanto á timidez eu mesmo só consegui vencê-la plenamente quando encontrei-me com o Senhor Jesus, o qual deume espírito, não de timidez ou covardia, mas de coragem e ousadia. Sobre isso, falarei especificamente noutra crônica.
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Osblético = provavelmente uma corruptela de 'os “black tie” '.

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