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A Vingança do Seu Madruga

A Vingança do Seu Madruga

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Conjunto de três contos baseados na série Chaves (El Chavo del Ocho no original):

A Vingança do Seu Madruga.

Chapolin Begins

Seu Madruga Milionário

Conjunto de três contos baseados na série Chaves (El Chavo del Ocho no original):

A Vingança do Seu Madruga.

Chapolin Begins

Seu Madruga Milionário

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CABRAL, Tiago. A vingança do Seu Madruga. Edição do Autor. Barra Mansa – 2011. Capa confeccionada pelo autor.

Este livro tem caráter de fan-fic (ficção criada por fã), ou seja, não pode ser comercializado de nenhuma forma sem que os autores originais das séries Chaves (El Chavo Del Ocho, TELEVISA) E Chapolin (id) sejam comunicados.

Todos os personagens presentes nessas histórias são de direito de seus respectivos autores. Reprodução não comercial autorizada.

TIAGO CABRAL: Twitter: @wordmen. Facebook: facebook.com/tiagocabral. Site Pessoal: www.kbgames.com.br/tiagocabral Publicado Originalmente pela Bookess®. 2011

Tiago Cabral

A VINGANÇA DO SEU MADRUGA

2011

“A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena” - MADRUGA, Don Ramón.

SUMÁRIO

I. A VINGANÇA DO SEU MADRUGA. II. CHAPOLIN BEGINS. III.SEU MADRUGA, O MILIONÁRIO.

I A VINGANÇA DO SEU MADRUGA Uma pequena vila mexicana amanheceu silenciosa como era de costume. Tudo estava em seu lugar no pátio daquele pacato lugarejo: o triciclo esquecido de brincadeiras do dia anterior, assim como a bola e as gaiolas de passarinhos ao lado das portas das casas; o velho barril vazio jazia ainda solitário ao lado da escada que levava para as casas de cima. Foi então que o barulho do motor de uma Brasília amarela quase nova quebrou o silêncio. Lentamente ela parou diante do portão da vila e desligou. Dela saiu um homem muito gordo e meio calvo, tinha um bigode e usava um terno preto. Ele pegou sua pasta. Era o Senhor Barriga, como era conhecido, era o dono da vila e religiosamente no dia primeiro de todo mês ele ia recolher o aluguel de seus inquilinos, mas ele estava lá naquele horário por causa de apenas um em especial: um tal de Seu Madruga que já tinha atrasado quatorze meses de aluguel. Barriga entrou quase na ponta dos pés, fazia silêncio por duas coisas que poderiam arruinar a sua “missão”: primeiramente ser acertado pelo menino Chaves, o que sempre ocorria quando ele ia receber o aluguel; depois ele não queria acordar Seu Madruga, pois este já estava a fugir dele havia meses. Então ele caminhou desengonçado próximo às paredes, mas para seu azar, Chaves havia acordado cedo, pois finalmente Quico, filho de dona Florinda, havia lhe emprestado seu caminhãozinho novinho. Ele estava vindo alegremente do outro pátio empurrando o brinquedo. Foi quando ele inocentemente empurrou o caminhão com mais força, fazendo-o parar exatamente debaixo do pé de Seu Barriga, que ao pisar

nele caiu para traz fazendo um grande estardalhaço e acordando a todos da vila. – Tinha que ser o Chaves de novo – exclamou Seu Barriga. – Foi sem querer querendo! – defendeu-se Chaves. – Mas o que está acontecendo aqui? – perguntou um velho e magro homem colocando seu chapéu surrado tal qual eram suas roupas, ele era Seu Madruga. – Não tem nada acontecendo – continuou ele tentando fechar a porta e fugir, mas Seu Barriga ainda deitado esticou uma das pernas e obstruiu a porta com um dos pés, o que foi extremamente doloroso, pois ele deu um grito que terminou de acordar a vila. Superando a dor ele se levantou ainda com o pé na porta, olhou determinado nos olhos de seu Madruga e estendeu a palma da mão num gesto de cobrança dizendo: – Pague o aluguel! Seu Madruga contorceu a face numa careta totalmente embaraçada. – Não tenha tanta barriga senhor pressa, digo, não tenha tanta pressa, Senhor Barriga! Acontece que ainda estamos no começo do mês e eu ainda não consegui um emprego. – Talvez seja por que o senhor não procura. – Sabe que eu ainda não tinha pensado nisso! – Não me aborreça ainda mais! Saiba que todos os inquilinos estão em dia, menos o senhor que vem com esta mesma ladainha durante esses quatorze meses! – Esbravejou Seu Barriga. – Mas o senhor tem que entender que a vida hoje está muito difícil... – Tentou Seu Madruga. – A vida está difícil para todos, seu Madruga! Já tive compaixão pelo senhor por muitas vezes, mas juro pela minha honra que desta vez será a ultima: Eu lhe

proponho que se o senhor arrumar um emprego eu parcelo essa dívida, do contrário não terei piedade novamente e o despejarei! – Disse Seu Barriga totalmente convicto. Seu Madruga ainda tentou abrir a boca para argumentar, porém Seu Barriga virou-lhe as costas e foi embora caindo novamente ao pisar no caminhão de Quico, que havia acabado de entrar no pátio. – Viu Chaves? – disse Quico – Não te disse que esse brinquedo era mesmo dos bons? Resiste até a pisadas de elefante! – Devo considerar seriamente a hipótese de contratar um funcionário para cobrar o aluguel dessa vila, pois se as coisas continuarem como estão, não sobreviverei por muito tempo! – Pensou alto Seu Barriga, que se levantou e foi embora. Seu Madruga entrou em casa cabisbaixo, sua filha Chiquinha acabara de acordar. – O que foi papaizinho lindo? Por que está tão triste? Arranjaram algum emprego pro senhor? – perguntou ela. – Não minha filha, – respondeu Madruga – mas se eu não arrumar seremos despejados! O que farei? Já sei, vou até a banca comprar um jornal, talvez haja algum emprego lá! Então Madruga saiu de casa as pressas com o único dinheiro que tinha no bolso para comprar um jornal, mas voltou decepcionado, pois ele não tinha experiência nem escolaridade suficiente para ser aceito em nenhum dos empregos lá dispostos. Ele caminhava lentamente olhando para o seu Jornal para ter certeza de que não havia passado despercebida nenhuma oportunidade. Enquanto isso Chaves e Quico brigavam. – Mas eu estou brincando com ele, você me emprestou! – Gritou Chaves.

– Ele é meu, me devolve agora por que eu quero agora! – Gritou Quico. – Eu to bricando! – Devolve agora! – Então toma essa porcaria de caminhão! – disse Chaves arremessando o caminhãozinho em Quico, que se abaixou e o brinquedo voador acabou rasgando o jornal de Seu Madruga ao meio, e fazendo caretas ele pegou o caminhão foi em direção aos garotos para dar-lhes uma bronca. – MAMÃE! – Gritou Quico, e Dona Florinda, uma mulher quarentona usando um vestido rosa debaixo de um avental e com a cabeça cheia de bobes, apareceu quase que imediatamente. – Ele queria atirar em mim o meu caminhãozinho! – Continuou o garoto. – Atirando os brinquedos do meu filho, que bonito não? – disse Florinda para seu Madruga, que ainda não tinha percebido o engano. – Sim, e ainda rasgou o meu... – Tentou dizer Seu Madruga, mas é meio difícil completar uma frase quando se toma uma bofetada. Para maior azar de Madruga aquela mulher tinha uma força maior que aparentava e o tapa o fez rodopiar. – Venha Quico, e não se junte com essa gentalha! – Disse nona Florinda fechando a porta da casa numero quatorze. – Gentalha! Gentalha! PUF – Disse Quico dando um soquinho em seu Madruga, que após isso retirou o seu chapéu, arremessou-o no chão e começou a sapatear sobre ele fazendo caretas, mas sua raiva passou assim que um homem alto usando um terno muito bem ajustado e passado entrou fumando um charuto, ele era o Professor Girafales.

– Ainda ensaiando esses passos de dança moderna, Seu Madruga? – Perguntou ele. – Dança moderna? Escute Professor lingüiça... – Iniciou Seu Madruga. – Ta! Ta! Ta! Não sou lingüiça nem meu nome é Professor, sou professor e meu nome é Lingüiça – exclamou o professor. – Digo, sou professor e meu nome é Girafales! – Professor Giralafales, desculpe! Escute, é que to passando por uma situação difícil e to precisando arrumar um emprego. – declarou Seu Madruga pelo canto da boca, como se procurar emprego fosse motivo de vergonha. – O quê? – Espantou-se Girafales. Ele colocou a mão na testa de seu Madruga para ter certeza de que ele não estava com febre ou algo do tipo. – O senhor está passando bem? – É que Seu Barriga ameaçou me despejar seu eu não arrumar um emprego! – Ah sim. Agora compreendo, mas diga-me: o senhor tem um currículo? – Mas o que isso tem haver com um emprego? – Ora, tudo! – Claro, agora entendo: não se contrata pessoas aleijadas né? Eu tenho um sim! Sabe, eu fui ao banheiro hoje de manhã e... – No que o senhor está pensando seu Madruga? Eu digo “currículo”, um documento dizendo quais são suas habilidades, escolaridade, cursos que o senhor tenha feito e etc... – Ah sim, eu não tenho um desses, mas pode-se dizer que eu sou um autodidata, pois sou quebra galho profissional mesmo sem fazer curso! – Quebra galhos?

– O que eu estou querendo dizer é que se o senhor ou alguém que o senhor conheça precisar pintar uma parede, ou embolsar algo, mesmo capinar um quintal... – Bem, então quer dizer que o senhor é pedreiro? – Pedreiro, marceneiro, sapateiro, lutador de Boxe, Jardineiro, toureiro... Em fim, ‘quebra galhos’. – Sabe que um amigo meu estava comentando que tinha uma parede na casa dele que precisava ser embolsada... – disse Professor Girafales, mas ele foi interrompido pelo fogo da paixão quando ele viu dona Florinda na janela: seu sorriso aberto, as rugas em torno de seus olhos, seu avental velho e surrado, seus bobes prendendo seus supostamente sedosos cabelos... Bem, existe gosto pra tudo. – Professor Girafales! – Disse Dona Florinda. – Dona Florinda – Disse Girafales se aproximando da janela de braços abertos ignorando completamente seu Madruga. Era como se só existisse Florinda no mundo para ele, e todos os sons eram como uma música romântica de um filme antigo, que fazia o coração bater mais forte numa cena romântica, e com certeza era o mesmo com ela. – Que milagre o senhor por aqui! – Declarou ela, mesmo sendo visitada pelo professor quase toda semana. – Vim lhe trazer esse humilde buquê de flores – Respondeu Girafales entregando o “inédito” presente a ela. – Não precisava se incomodar tanto! Mas, não gostaria de entrar para tomar uma xícara de café? – Não seria muito incômodo? – Claro que não! – Por favor, a senhora primeiro. – Mas eu já estou em casa!

– Ah, sim, perdoe-me. – Disse o professor entrando. – Já vi que meu “bico” já era até o fim do cafezinho. – Pensou alto seu Madruga que presenciou toda a cena. Depois de muitas aflições, seu Madruga conseguiu ser indicado pelo Professor para o seu amigo, que fez questão que ele começasse logo, mas quando entrou na casa teve uma surpresa: havia baús, serras, coelhos, varinhas, capas e cartolas desorganizados pela casa. O amigo do professor era um mágico. – Prazer. Sou Mésmer, o Ilusionista – Cumprimentou o homem que vestia um uniforme completo de mágico, ele tirou a cartola em reverencia e Seu Madruga viu que havia um coelho branco que imitou a reverencia em cima de sua calva cabeça, mas ele decidiu não falar nada. – Sou Ramón Valdez Madruga, “o quebra galhos”, mas todos me chamam apenas de Madruga. – Perdoe a bagunça, é que geralmente a minha assistente arruma, mas houve um acidente com o truque da serra e creio que ela não poderá arrumar mais. – Disse ele andando a frente de seu Madruga que engoliu seco alisando o pescoço ao ouvir as palavras do mágico. – Foi uma brincadeira! A faxineira não pode vir essa semana. – Continuou ele gargalhando. Eles andaram até chegar a uma parede recém construída. – O pedreiro que começou essa pequena obra não pode continuar por motivos pessoais, então a parede ficou sem acabamento, é só embolsa-la, o material está aí. São vinte mil mangos por dia, fechado? – Sim seu Marmita, mas devo levar uns dois dias. – É Mésmer... Dois dias para fazer o acabamento dessa paredinha? – Ou mais, pois tenho que “plumar” e dar um “liso” nela. Se o senhor quiser um serviço mal feito eu acabo em um dia!

– Espero que o seu serviço fique realmente bom. Estou indo fazer o meu show, por favor, peço que não mecha em nada! – Claro seu Mesmo. – É Mésmer! Vejo-te no fim do dia. – Bom show seu Mário, e “quebre a perna”! – Disse seu Madruga. Mésmer ao ouvir isso botou a mão no rosto, mas não disse nada, então partiu. No fim do dia quando Mésmer voltou, se decepcionou com apenas um terço da parede acabada. Ele tinha ouvido a história do pobre Madruga, por pena ele não o despediu, mas pensou numa coisa melhor a se fazer para ajudar o pobre homem: – Seu Madruga, observe esse relógio que meu avô me deu. – disse o mágico retirando um relógio-de-bolso dourado que começou a balançar de um lado para o outro. Seu Madruga nunca havia visto algo de ouro genuíno e fixou os olhos na peça. – Isso, olhe atentamente o relógio dourado. Você vai dormir, e quando dormir vai gostar de trabalhar... – Continuou o Mágico, mas foi interrompido pelo carteiro que lhe bateu à porta. Sem resposta o folgado funcionário dos correios foi logo entrando. Seu Madruga que estava com uma cara mais feia que o normal sentiu-se estranho, mas novamente consciente. – Aqui estão as contas de água da vizinhança seu Mésmer. – Disse o gordo e velho carteiro, acompanhado de sua bicicleta, seu nome era Jaiminho. – Sim, mas qual delas é minha? – Perguntou Mésmer aborrecido. – Ora, a que estiver com o seu nome! A propósito, poderia entregar aos seus vizinhos suas respectivas correspondências? – O quê? Quer que eu faça o seu trabalho?

– É que eu quero evitar a fadiga... E é assim que se faz lá em Tangamandapio. – Mas que absurdo! Onde você disse que se faz isso? – Tan-ga-man-da-pio, é a minha cidade natal. – Ora, vá catar coquinhos seu Jaiminho, eu já disse que não vou fazer o seu serviço! – Resmungou Mésmer pegando sua correspondência e expulsando o homem – Onde estávamos? – perguntou ele a Seu Madruga. – Nos vinte mil que o senhor ia me pagar pelo dia de hoje! – Respondeu Madruga. Seu Madruga retornou para casa contente com o dinheiro que conseguira, não era o suficiente para pagar o aluguel, mas era no mínimo suficiente para que Seu Barriga não o despejasse. Como era noite o pátio da vila estava iluminado somente pelas luzes provenientes de dentro das casas, o que não possibilitava muita visibilidade, por isso ele só percebeu que Chaves estava agachado a sua frente quando ele tropeçou no garoto e caiu. – Deixe-me adivinhar... É o Chaves. – Chutou seu Madruga. – Foi sem querer querendo... – Desculpou-se Chave. – Ora, o que você esta fazendo agachado no meio do pátio? – To empurrando essa caixa cheia de ferro velho, que eu encontrei jogada ali no outro pátio, vou vender pro homem do ferro velho no fim da rua de baixo pra conseguir comprar um “sanduíche de presunto”. – Só que a essa hora o ferro velho já está fechado. – Ah... – Lamentou chaves.

Era madrugada. A vila ainda estava silenciosa quando a porta da casa 72 de Seu Madruga se abriu, então o próprio saiu por ela: olhos abertos e fixos no nada, braços eretos como madeira enquanto as mãos estavam moles. Seu andar era tão duro quanto o de um robô. Ele tomou uma vassoura que estava ao lado da porta da casa de Dona Florinda e começou a varrer o pátio, e continuou até de manhã quando Dona Florinda saiu para estender as roupas lavadas para secar. – Finalmente o senhor está fazendo algo que preste! – Declarou Dona Florinda, mas ele a ignorou e continuou o serviço. A segunda (e única reserva) calça de seu madruga estava estendida no varal, Dona Florinda simplesmente a jogou no chão e continuou estendendo suas roupas. Seu Madruga então jogou a roupa que ela havia colocado no chão e pendurou novamente sua calça. – Seu atrevido! – Esbravejou Dona Florinda arregaçando as mangas para dar uma bofetada no pobre homem. – Mamãe... – Tentou dizer Quico antes de receber uma bofetada de sua mãe. Quando seu Madruga se abaixou ela acertou o garoto. No mesmo instante, Chaves levantou do barril e acertou uma cabeçada em seu Madruga que voltou ao normal. Quando ele percebeu o que havia acontecido tratou logo de fugir. Mais tarde quando seu Madruga voltara do serviço ele se encontrava inexplicavelmente atordoado de sono. Ele acreditou que isso se devia ao stress de trabalhar, o que não lhe agradava nem um pouco, mas mal sabia ele que não havia dormido a noite inteira, que havia limpado e varrido o pátio. Então ele cambaleou até a sua porta, seu andar lembrava um filhote ao dar seus primeiros passos, um filhote de algum bicho muito magro e de pernas finas. Verificou quase sem forças a maçaneta da porta e constatou que ela estava trancada, então ele se

arrependeu dos sermões que havia dado a sua filha Chiquinha sobre sair e abandonar a casa aberta, mas onde ela estaria? Ele decidiu então se sentar ao lado da porta e aguardar a sua volta. Cair no sono foi inevitável. No numero quatorze, Chiquinha que havia se esquecido totalmente da chegada eminente do seu pai vindo do serviço, estava empolgada ao lado de Chaves e Quico acompanhando a sessão de terror na TV. Chaves e Quico estavam encolhidas de medo num canto, enquanto Chiquinha torcia pela vítima dando-lhe dicas de onde o monstro estava. – Chiquinha, eu não quero ver mais, estou com medo! – Pediu Quico. – Ora, você é “um homem ou um rato?” – Respondeu Chiquinha. Do lado de fora de sua casa Seu Madruga levantava novamente em seu “transe hipnótico”. Saiu caminhando como um zumbi dando voltas no pátio: procurava o que fazer. No numero quatorze Chaves já havia se entediado com o filme e decidiu ir embora. – Ora bolas, esse filme é chato e mentiroso! Não existem zumbis e eu vou embora! – Reclamou Chaves. – Quem te garante que não existem zumbis? – argumentou Chiquinha – Dizem que algumas pessoas são amaldiçoadas e voltam de seus túmulos para se vingar daqueles que os trataram mal em vida! – Continuou ela. Chaves ignorou o que ela disse, mas quando ele abriu a porta da sala a vila já estava escura e tenebrosa. Foi então que ele viu uma figura ainda mais tenebrosa vindo em sua direção, suas roupas surradas evidentemente se deterioraram com o tempo dentro do caixão, sua cara era feia, pois já devia estar se decompondo e seu andar era duro e debilitado. Ele só não percebeu que era seu Madruga em transe. Chaves agachou-se levemente, estendeu um dos braços dobrou-o em frente ao rosto e

fixou seu olhar no nada, evidentemente ficou paralisado de medo. Seu Madruga ainda sob seu transe constatou que não havia nada a fazer naquele pátio e seguiu para o outro. Sem falar nada Chiquinha foi até a cozinha, pegou um copo, encheu de água, voltou calmamente à sala e arremessou todo o seu conteúdo no rosto de Chaves, que voltou a si imediatamente. – Um zumbi! Eu vi um zumbi! – Exclamou Chaves, então Chiquinha friamente botou a cabeça pra fora da porta deu uma boa olhada no pátio e confirmou o que havia pensado. – Vamos assistir aos desenhos Quico, tem gente que se impressiona fácil! – Disse ela. – Isso! Desenhos! Aí agente assiste o desenho, e ri e come pipoca e Zaz! – Declarou Chaves, sapateado de empolgação. Quando ele entrou Chiquinha fechou novamente a porta. Seu Madruga continuou a rodar a vila a procura do que fazer. Aquela ainda seria uma longa noite. Dona Clotilde entrou na vila imponente com seu velho e manjado vestido azul, no alto da cabeça um chapéu que ela dizia ser “exótico”, mas que a maioria achava “extravagante”. Seu Madruga encontrava-se “assombrando” perto do numero setenta e um, o primeiro pensamento que veio à cabeça da senhora apaixonada era que “o amor de sua vida” estava esperando a sua porta para se declarar. Clotilde já beirava os setenta e era um caso grave de solteirona, não é por acaso que se apaixonou logo por um homem do calibre de Seu Madruga, seu vizinho e solteiro mais próximo de sua casa. Ela deu uma leve ajeitada no cabelo, no chapéu e tornou ainda mais elegante o seu andar. Na verdade ela não andava, desfilava por uma passarela imaginária que estava entre brinquedos e vasos de flores espalhados pelo

pátio. Uma senhora de setenta anos desfilando é uma coisa que não se vê todo dia. – Madruguinha! Acabei de chegar da casa de minha irmã, mas o que você faz a essa hora em frente a minha casa, quer me dizer algo? – Perguntou ela. Seu Madruga por sua vez continuou com os braços eretos, e soltou o leve gruindo como se fosse um cão, sua careta agora era de alucinação. – Devia ter imaginado...-, continuou a velha, - É claro que seria impossível existir algo entre nós dois! Eu sei que é muito trabalho se envolver com uma mulher da minha idade... – E continuou falando, mas quando Madruga ouviu a palavra “trabalho” segurou a senhora pela cintura, a inclinou como num filme romântico e tascou-lhe um beijo. Existem muitas palavras que podem descrever uma cena, mas poucas delas se adequariam à peculiaridade desta. Só se poderia descrever com certeza e exatidão o arrependimento daquele Madruga quando tomasse consciência daquilo. Dona Clotilde entrou em sua casa eufórica, não sabia o que pensar. Madruga continuou “assombrando”, mas quando passou em frente à porta da casa numero quatorze ele foi golpeado pela mesma, despertando de seu estado. – Papai? O que está fazendo aqui? – Disse Chiquinha, que saiu da casa. – Eu não sei, hoje eu acordei fugindo da Dona Florinda (um péssimo modo de começar o dia), a última coisa que me lembro e de estar te esperando na porta de casa. – Respondeu Madruga. – Será que você é sonâmbulo? – Não diga besteiras filha! Deve ter outra explicação, vamos pra casa! Dona Florinda acordou com o som de tesouradas abaixo da janela da sala. Vestiu um roupão, e foi verificar:

Seu Madruga se encontrava podando as plantas da frente de sua casa, como de costume, ela se aborreceu. – Fazendo vandalismo tarde da noite! – Esbravejou ela. – Isso é coisa do seu tipo de gentalha. - Em seu quarto, quando Quico ouviu isso seus ouvidos se aguçaram. Ele saiu de casa de pijama, um pijama muito peculiar de cor azul, não mais peculiar que sua roupa de marinheiro usual, e com um gorro enorme na cabeça da mesma cor virou-se para seu Madruga, e disse: – Gentalha, gentalha, PUF! – E deu um soquinho no peito de seu Madruga. Ao fazê-lo retornou para seu quarto e conseqüentemente para sua cama. Dona Florinda retirou a tesoura-de-jardineiro da mão de Seu Madruga, ao ouvir a confusão, Dona Clotilde saiu e viu a cena ameaçadora: Seu madruga com olhos esbugalhados, focados no nada, ela imaginou que estivesse com medo. Já era tarde da noite e dona Florinda empunhava uma enorme tesoura nas mãos com o olhar agressivo de sempre, ainda sonolenta, a “a bruxa do setenta e um” temeu pelo seu amado e sem pensar tomou uma jarra cheia de molho de tomate. Sim, uma jarra com molho de tomate, uma bela e antiga jarra. Com tantos objetos existentes dentro de uma casa por que alguém arremessaria uma jarra de molho de tomate? Vai saber. O molho que tinha sido feito no almoço foi arremessado na cabeça de dona Florinda, então voltou a senhora do setenta e um a dormir, certamente ela não tinha ideia do que fazia. Dona Florinda estatelou-se no chão. O molho espirrou em Seu Madruga fazendo-o acordar, foi então que ele viu a cena: uma tesoura banhada em um líquido vermelho viscoso, assim como Dona Florinda inerte no chão. Suas mãos estavam sujas de “morte”, assim como suas velhas roupas, seu Madruga entrou em desespero. “O que será que eu fiz?”, pensou ele.

Acertada por uma vasilha de molho de tomate, Dona Florinda encontrava-se inerte no chão, seu Madruga estava desesperado ao seu lado, já era praticamente dia. – Acorda dona Florinda, acorda! Eu juro que a senhora pode me bater à vontade. – Tentava inutilmente Madruga. – Tomara que ainda esteja viva! – Continuou ele e saiu para buscar ajuda. Dona Florinda despertou sem saber o que havia acontecido, tomou um banho e ainda voltou para limpar o pátio. No mesmo instante em que ela acordou, no outro pátio seu Madruga desmaiava de sono, desta vez o sono era tanto que nem o estado hipnótico conseguiu vence-lo. Mas esse sono durou somente meia hora, pois arremessaram do andar de cima um balde d’água e Seu Madruga despertou novamente. Ao passar pelo pátio ele viu leves marcas vermelhas na porta da casa de dona Florinda, mas nada de corpo. Ele presumiu que já fora removido. Ao entrar em casa ele encontrou Chiquinha e Chaves assistindo aos desenhos na humilde TV preto e branco da casa. – Chiquinha, Chaves... Dona Florinda está morta! – Declarou seu Madruga. – O seu pai andou bebendo? – Perguntou Chaves a Chiquinha. – Isso não é brincadeira, eu a matei! Estava sonâmbulo! Eu não sabia! – Disse Madruga entre caretas de desespero. A julgar pelas caras feitas pelos dois, Madruga entendeu que eles não acreditaram. – Chiquinha, eu vou dormir, tranque meu quarto pelo lado de fora, talvez um bom sono me seja o suficiente. – Ordenou Seu Madruga, Chiquinha obedeceu sem pensar.

Naquele dia Nhonho, o roliço filho de seu Barriga, apareceu na vila (que estava mais quieta que o normal) para visitar seus amigos. Logo que entrou foi calorosamente recebido com uma bolada. Chaves e Chiquinha brincavam de “bater pênaltis”. Chiquinha era o goleiro e Chaves marcou um gol bem na cabeça do moleque. – Ai minha cabecinha! – Reclamou Nhonho. – Foi sem querer querendo! – Desculpou-se Chaves – Mas você também ocupa todo o espaço por onde passa! – Que será que ele quis dizer com isso? – Pensou alto Nhonho – Mas isso não importa, vocês já estão sabendo? – Sabendo do que? – Indagou Chiquinha curiosa. – Da mulher que mataram! Meu pai não quis dizer quem foi, mas dizem que mora aqui perto! – Respondeu Nhonho. Chaves e Chiquinha ainda não tinham ligado os fatos e não deram muita atenção. – Por falar nisso, estava pensando: por que você e seu pai nunca vêm juntos a vila? – Perguntou Chiquinha. – É por que não cabem os dois ao mesmo tempo! – Respondeu Chaves! – Olha ele ein! Olha ele ein! – Reclamou Nhonho. – Esqueçam! Agora é minha vez de chutar! – Anunciou Chiquinha. Ela se aproximou da residência numero quatorze, completamente fechada, preparou o impulso e saiu correndo, mas deteve-se como uma estátua diante da mancha ver melha no chão. Então de olhos esbugalhados ela ligou os fatos, teria seu pai matado mesmo a dona Florinda e obtido sua vingança por bofetadas injustas todos esses anos? No interior do numero quatorze, Quico divertia-se com sua nova coleção de brinquedos, e começou a fazer gestos

demasiadamente longos tentando mostrar a sua mãe que estava com calor, mas ela não lhe deu atenção, pois estava a passar um creme verde no rosto. Quico não podia vê-lo, pois ela estava de costas. – Mamãe, por favor, deixe-me abrir a janela! – Pediu o menino, Florinda virou-se e Quico caiu para traz de susto: ela parecia um zumbi do filme que assistira ontem. – Agora entendi por que ela não quer que eu abra a janela – Pensou alto Quico. – Estou passando esse creme, ele promete acabar com as rugas em doze horas. – Amanhã é dia do professor vir não é? – Sim meu filho... – Respondeu Florinda encabulada. – Realmente está quente aqui dentro, vou abrir a janela. Chiquinha mostrou o que havia encontrado aos meninos, depois do que ouvira de seu pai, pensou que aquela mancha vermelha no chão deveria ser de sangue. Eles contaram o que ouviram de seu Madruga para Nhonho, então os três ficaram a espiar a casa de dona Florinda em busca de alguma pista. Foi quando a mesma abriu a janela: seu rosto estava verde como um abacate, e ele já não era muito apreciável antes. Os rumores de que ela havia morrido ativaram a enorme criatividade daquelas três crianças que saíram correndo desesperadas. Para eles, Dona Florinda havia morrido e se tornado um Zumbi! Seu Madruga acordou em seu quarto. Realmente acordou. Não estava em transe, mas estava com uma imensa vontade de ir ao banheiro. Calmamente ele caminhou até a porta e girou a maçaneta: estava trancada. Então ele se lembrou do pedido que havia feito a Chiquinha. – CHIQUINHA! – Começou ele a gritar inutilmente.

No outro pátio, Chiquinha, Chaves e Nhonho recuperavam o fôlego. Era como se acabassem de sair de um filme de terror genuíno. – É verdade! Meu pai a matou, e ela retornou dos mortos para se vingar! – Disse Chiquinha. – Ai! E se for igual ao filme ela não vai descansar em paz até se vingar! – Observou Chaves. – E agora o que fazemos? – Perguntou Nhonho. – Temos que impedir a “velha carcomida e zumbida” de se vingar do meu pai! – Mas como? - Perguntou Chaves. – Bom, se for igual ao filme ela ainda não deve ter ideia de que está morta, então quando ela sair (...) – Começou Chiquinha e continuou contando o plano aos garotos. Seu Madruga estava desesperado dentro de seu quarto, queria muito ir ao banheiro. Depois de quase perder a voz berrando por sua filha, deu uma olhada em volta para pensar num outro jeito de sair. O quarto era tão modesto quanto seu dono: sua mobília era uma cama velha, coberta por um lençol já também muito velho (e remendado), um criado-mudo feito de madeira antiga, um velho guarda roupas caindo aos pedaços e uma inexplicável cadeira, uma cadeira que deveria estar na sala, mas que inexplicavelmente estava no quarto. Ela parecia ser de madeira sólida, firme e resistente. Vendo que não tinha outra alternativa ele pegou a cadeira para quebrar a janela com ela, mas quando ele o fez a cadeira se partiu como se fosse feita de isopor ou um material parecido. – Essas cadeiras de hoje em dia... – Pensou alto. Dona Florinda saiu inocentemente para estender suas roupas ao varal ainda com a cara cheia de creme, foi então que eles atacaram. Nhonho saiu de seu esconderijo (embaixo do tanque) correndo e arremessou um balde de

terra na mulher, que depois recebeu outro balde, mas d’água de Chiquinha e por fim uma porretada (de um porrete estranhamente flexível) de Chaves, que foi o suficiente para que ela ficasse estirada no chão. – Não vai se vingar do meu Papai! – Disse Chiquinha. Para sorte de Florinda e azar dos garotos Girafales, o professor, chegou no mesmo momento. “A inocência das crianças pode ser ameaçadora”, concluía professor Girafales ao ouvir a história das crianças. Mésmer já havia contado o que havia feito ao professor e viria em breve para desfazer a hipnose incompleta. Aquela história soou como incrível para o professor, mas depois de ligar os fatos ele achou totalmente plausível (além de hilária é claro) e depois de tudo esclarecido, a vida continuou no mesmo ritmo, naquela vila esquecida no México, tão esquecida quanto Seu Madruga trancado em seu quarto: - CHIQUINHA! CHIQUINHA! Pelo amor de Deus, tem alguém aí? Eu to preso! Vou fazer nas calças (...) opa...

II CHAPOLIN BEGINS ]Numa metrópole mexicana um renomado médico atendia em um humilde consultório. Seus cabelos brancos confirmavam sua avançada idade. Seu nome era Chapatim, Doutor Chapatim. Um homem meio calvo e obeso encontrava-se deitado na velha cama do consultório médico. – Ora bolas! Diga logo onde dói – pediu o velho médico. – Dói nas partes baixas – Revelou o obeso. – Acho que sentei em algo. – Com um traseiro deste tamanho vai ser difícil achar este ‘algo’ – Declarou o velho doutor caçoando do homem gordo que se esparramava na cama que parecia pequenina sob ele. – Por favor, Doutor, não faça piadas com a minha tragédia! – Então tire logo esse paletó para que eu possa te examinar! – Ordenou o doutor. Então o obeso obedeceu e permaneceu deitado somente de camiseta e cuecas, que serviriam facilmente de lençol. – Vou ter que toca-lo! – Avisou o Doutor colocando suas luvas e iniciando o procedimento. De repente homens usando ternos, óculos escuros e exóticos sombreiros invadiram a sala. – Doutor Chapatim? Desculpe interromper a sua consulta... – começou um deles observando que o médico apalpava o traseiro de um gordo homem. Ele arregalou os olhos, surpreso, mas logo continuou. – O senhor está sendo levado pelo S.I.M.

– Mas e se eu disser N. Ã. O? – Retrucou o Doutor impertinente. – É S.I.M ! – Tentou esclarecer o agente. – N.Ã.O! – Insistiu o doutor. – S.I.M: Serviço de Inteligência Mexicano! - S.I.M! – concordou o Doutor. O velho então pegou seu cachecol listrado, vestiu seu surrado casaco cinza e ainda agarrado a sua misteriosa sacola de papel, partiu. Os homens do governo levaram Chapatim a sua base secreta, cuja entrada localizava-se num dos becos sombrios da metrópole mexicana. Por muitas vezes Chapatim retirou os óculos não acreditando no que via, principalmente quando leu “você está entrando na área 52”. Ao chegar onde tinha que chegar, Doutor Chapatim foi apresentado a Juan Carlos, o bochechudo chefe do lugar. – Doutor Chapatim, é uma honra conhece-lo. – Disse o cientista cumprimentando o velho doutor, Chapatim não pode deixar de reparar nas grandes bochechas do cientista que lhe davam um ar de ‘retardado’. – Bem vindo a área cinqüenta e dois! Você deve está se perguntando “será que nós estamos imitando os americanos?”, pois saiba que a área cinqüenta e um é uma base militar nossa bem debaixo do nariz deles! – o Cientista não conteve umas gargalhadas. – O senhor deve estar se perguntando também por que o trouxemos aqui. Bom, essa é uma longa história: Saiba que estamos preocupados com o aumento da criminalidade no nosso país, então decidimos criar um super-herói. Claro que poderíamos chamar o capitão patriota, o supersan e assim vai, mas pensamos que precisávamos de algo que fosse nacional. Fizemos algumas tentativas. Nosso herói precisava ter um símbolo nosso. Então desenvolvemos o

homem sombreiro. Mas não conseguimos encontrar o candidato ideal. Foi então que resgatamos os nossos projetos em bio-robótica e voltamos ao estudo dos chapolins. – Chapolins? – Perguntou Chapatim surpreso. – Você se refere aqueles gafanhotos vermelhos? – Sim, descobrimos que eles são as criaturas mais interessantes de nossa fauna! Suas antenas são capazes de captar vários sinais que os demais insetos não captam, além do mais sua carapaça é muito mais resistente do que a dos demais gafanhotos! Por isso desenvolvemos uma armadura que vai dar grandes poderes a um homem, baseadas no chapolin. – Disse o cientista. Ele descobriu então a vestimenta que estava diante deles. Era um macacão vermelho com uma bermuda amarela por cima, além de uma touca também vermelha da qual saíam duas anteninhas. Nas costas uma pequena capa que imitava o formato de asas de gafanhoto. Compunham também o uniforme: Um par de tênis amarelos e uma marreta vermelha com o cabo amarelo. – Mas para que precisam de mim, ora bolas? – Perguntou Chapatim. – Os seus grandes conhecimentos em medicina nos ajudarão a encontrar o candidato perfeito. – Bom, tudo pelo nosso país! O cientista então o levou diante de um grande painel cheio de luzes que piscavam intermitentes. Havia um monitor no meio. – Por que este painel tem tantas luzes? – Perguntou chapatim. – Não ligue, são de enfeite. – Respondeu o cientista. – Agora observe, esse é o candidato numero um, aqui está sua ficha. – Continuou. – Esse não. – Disse logo Chapatim.

– Por quê? – perguntou o cientista. – Muito feio. – respondeu Chapatim. O cientista ficou olhando intrigado. – Ora, sabe que os heróis devem ser galantes, como os da tevê. – Que coisa não? – Pensou alto o cientista. – Que tal este? – Continuou entregando a ficha do outro homem alto e forte que apareceu no monitor, uma televisão velha para ser menos eufêmico. – Muito alto. – respondeu Chapatim. – E este? – Muito baixo. – Que tal este? – Forte de mais, vai assustar as crianças. – Então? Esses são os candidatos que selecionamos de todo o México! – Mas não servem! – Mas são os melhores! – Ora, você disse que queriam que eu escolhesse, eu não escolho nenhum destes! – Revoltou-se chapatim. – Mas tem que ser um deles. – Então, escolho o mais forte. Então eles colocaram o homem mais forte dentro da câmara com a roupa. Como que por um efeito especial mal feito, num piscar de olhos ele apareceu vestido com a roupa, que ficou demasiadamente curta no grande homem. – Ok. Vamos testar agora as habilidades da roupa. Por favor, o teste de resistência. – ordenou o cientista. Então veio um braço mecânico mal feito que deu uma martelada na cabeça do homem. Um estranho barulho de gongo ouviu-se e em alguns instantes depois ele estava duro no chão.

– Não disse que essa “armadura” protegeria o homem? – perguntou chapatim. – Sim, protegeu. Uma martelada daquela mata! A roupa ainda o deixou consciente durante três segundos! – respondeu o cientista. – Bom, se é assim, sim. – Agora vem o teste mais importante: as anteninhas de vinil. Comecem! – Ordenou o cientista, e outros homens começaram a mexer em painéis na sala. – Eu deveria estar sentindo alguma coisa? – Perguntou o homem depois de alguns instantes. – Senhor – chamou um dos que mexiam nos painéis. – Não houve sincronização com o cérebro. Parece que o sinal enviado pelas antenas é simples de mais para que um cérebro humano possa interpreta-las. – Precisamos então de um indivíduo com uma baixa capacidade cognitiva. – concluiu o cientista. – Então? – perguntou Chapatim. – Precisamos de alguém mais burro. Doutor chapatim saiu de uma cabine telefônica no beco escuro, cujos tijolos da parede pareciam ter sido desenhados. Era a entrada para a base secreta. Sua missão era encontrar um homem burro o suficiente para sincronizar com as anteninhas de vinil. Mal sabia ele que esta tarefa seria mais fácil do que ele imaginava. Chapatim estava carregando os planos do projeto Chapolin quando foi rendido por um homem muito magro, mais magro do que você imagina, com uma carranca feia de dar dó. Ele vestindo roupas sociais bem aprumadas, além de um amarelo chapéu na cabeça. – Boa noite, senhor – cumprimentou o assaltante. – Sei que o que carrega são os planos do projeto secreto. Passe pra cá!

Chapatim segurou forte sua bolsinha de papel e deixou cair à maleta com os projetos, que se espalharam pelo chão. – Oh! E agora? Quem poderá me defender? – Pensou alto Chapatim. – Tripa-Seca! – exclamou um homem de estatura muito baixa, que lembrava muito o doutor chapatim, só que sem a peruca branca e o bigode da mesma cor. – Não acredito que está assaltando velhinhos! Sua mãe não lhe ensinou que deve respeitar os mais velhos? – Saia daqui Bolaños, ou vai sobrar pra você também, “chespirito”. Aliás seria um favor eu te dar um tiro agora e te fazer acordar desse seu sonho de ser ator. – disse Tripa-Seca, o assaltante. – Ora, deixe esse velho homem partir em paz, pois... – Disse Bolaños se recostando numa grande caçamba de lixo que deslizou sobre suas rodinhas fazendo-o cair. A caçamba por sua vez, bateu em uma escada de ferro que estava no começo do beco, que caiu em cima da caçamba, mas antes acertou uma escada de incêndio do prédio do lado deles, que soltou e acertou a cabeça de Tripa-Seca. Ouviu-se um som de gongo e ele caiu no chão, inerte. – Você é perfeito! – Disse o Doutor Chapatim levantando o homem que o salvou. – Obrigado, gostaria que as mulheres também pensassem assim. – gabou-se o homem. – Você vai ser o super-herói mexicano! – continuou Chapatim. – Se aproveitam de minha nobreza. – Pensou alto Bolaños. – Como você se chama? – Perguntou Chapatim. – Bolaños senhor, Roberto Bolaños.

– Venha comigo. – Disse Chapatim enfiando o homem dentro da cabine telefônica e entrando em seguida. A cabine desceu como um elevador. Antes de tudo, Chapatim havia recolhido as folhas que haviam se espalhado pelo chão, mas esqueceu uma, que estava do lado de Tripa Seca, quando ele voltou a consciência, ele levantou-se e a pegou. Então esforçou-se para ler, pois ainda estava meio zonzo da pancada. A marreta Biônica. Arma desenvolvida para o projeto Chapolin. Capacidade para quebrar paredes de concreto,revestidas com aço. Deixa inconsciente, ou atordoado, qualquer um que recebe um golpe dela. – Era tudo que eu precisava – pensou alto o Tripa Seca. Já de volta ao laboratório do Doutor Juan, Chapatin andava a passos largos com Bolaños aos seus calcanhares. Juan, o cientista, encontrava-se calmo tomando café e lendo jornal. – Esqueceu alguma coisa Doutor? – Perguntou o cientista. – Não, já encontrei o homem com a inteligência que o senhor precisa. – Ora, mas já? Achei que demoraria mais uns cinco anos para encontra-lo! Assim nós aqui do laboratório poderíamos voltar ao nosso cotidiano de café e jornal o dia inteiro. –Achei que trabalhassem.

– Trabalhar? Somos funcionários públicos, esqueceu? Esse projeto ta aí a mais de trinta anos, mais cinco não fazem diferença. – Ora, botem logo esse homem dentro da câmara. E comecem os testes! – Ei! Eu sou o chefe aqui! – Reclamou o cientista e todos pararam novamente. – Façam o que ele disse! – E todos retomaram o trabalho. Logo Bolaños já estava vestido, e depois de duas ou três pancadas ele desmaiou. Quando acordou todos ficaram apreensivos para a transmissão do sinal. O cientista apertou o botão. Após alguns instantes Bolaños começou a olhar para os lados desconfiado, ouviu-se um som semelhante a um código Morse vindo de um aparelho bem antigo. – Silêncio! Minhas anteninhas de vinil estão detectando o perigo! – disse ele. Quando ouviram isso, os cientistas que estavam no laboratório comemoraram. – Ele não só sincronizou com as antenas, como também já possuí até uma frase feita! – comemorou o cientista. – Não contavam com minha astúcia! – gabou-se Bolaños, que agora era “o Chapolin Colorado”. – Ou a falta dela... – Observou Chapatim. Durante semanas os cientistas ficaram satisfeitos com os resultados de seu árduo trabalho. Eles acompanhavam os resultados pelo jornal, sempre seguido de café. O Chapolin Colorado era sempre manchete de jornal: “Drácula, o vampiro, é detido por herói misterioso” “Louco perigoso é capturado por herói

apelidado de ‘Polegar vermelho’” “‘Polegar vermelho’ salva bebê (o cachorro) de um assalto” Tripa-Seca estava de volta ao beco onde era à entrada da área cinqüenta e dois. Ele leu atentamente o papel para seus dois comparsas encapuzados. – Aqui diz que a marreta quebra paredes, bom, e aqui diz que ela vem de encontro a um assobio. Bom, assobie! – ordenou ele. – Por que eu? Assobia você – Questionou o comparsa. Tripa seca colocou o trinta e oito na cara de seu comparsa e rosnou fazendo uma careta. – Ta bom, ta bom! – disse o comparsa, em seguida ele assobiou uma cantiga rancheira. – Não está dando certo! É pra assobiar igual homem! – Reclamou tripa seca. Então o comparsa continuou assobiando a mesma cantiga, só que num tom mais grave. – Ora, é um idiota mesmo. Assobie como, como o Zorro assobia para chamar o Tornado! – Tentou tripa seca. – Ora, mas quem chama tornados não é aquela mulher dos X-MEN? – Tornado, o cavalo! – Ora, cachorros respondem a assovios, cavalos não. Tripa seca engatilhou o revolver e voltou a rosnar. – Eu assovio! – Disse o outro comparsa. Em seguida ele assoviou. No laboratório, Chapolin levava a marreta para reparos. Ele a colocou em cima da mesa do cientista. – Trouxe a marreta como pediu. – Disse ele.

– Sim, sim. Amanhã eu a consertarei. – Responde o cientista. – Mas, por que não a conserta agora? – Por que eu estou em horário de almoço. – Mas já são quatro da tarde! – Meu horário de almoço é até quinze para as quatro. – Então eu espero até lá. – O expediente acaba as cinco, não dá tempo. Ora, relaxe um pouco, ela não vai sair daqui tão cedo. – Disse o cientista pegando a xícara para dar uma golada no café. Misteriosamente, a Marreta Biônica saiu voando derrubando o seu café e quebrando as paredes, que pareciam feitas de tijolos de isopor, até acertar o comparsa que havia assobiado. – Vamos – começou tripa seca. – Vamos dar o fora daqui! – Era esse o defeito. – Observou Chapolin no laboratório. – Toda vez que alguém assobia ela vai e acerta. Fiquei com tanta pena do garoto que chamava seu cachorro... Chapolin saiu então em busca de sua marreta, mas quando chegou ao beco ele só encontrou um bilhete: “Se quiser ter sua marreta de volta, compareça no depósito de brinquedos a meia noite.” Ele então mostrou ao cientista o bilhete. – Tenho que recuperar a marreta! Em mãos erradas ela pode causar muitos danos! Vou até lá! – Disse Chapolin. – Ora deixe de ser burro Chapolin. – Começou o cientista. – Eles estão com uma das armas mais poderosas já desenvolvidas por esse laboratório, e devem ter consciência disso. Eles vão é te matar lá! Você nunca

viu um filme policial? No depósito de brinquedos Tripa Seca contava seus planos aos seus comparsas. – ... burro do jeito que é, ele vai estar aqui a meia noite, e então nós o encheremos de marretadas. – contou ele. –... Você vai, mas antes eu vou deixar você estrear mais um aparato contra o crime. – disse o cientista ao Chapolin no laboratório. – Tome isso. Esse vidrinho contém pílulas de nanicolina. – Nanico o que? – perguntou Chapolin. – Pílulas de nanicolina! Você toma uma e fica mais baixinho ainda. Do tamanho de um polegar, para ser mais específico. Veja. – Disse o cientista. Ele tomou uma e encolheu de repente, ficando do tamanho de um polegar. Com esforço ele subiu em cima da mesa. – Nossa! – exclamou chapolin. – Viu? Pode servir para mim uma outra xícara de café? – pediu o cientista. Chapolin obedeceu e colocou uma xícara cheia em cima da mesa. O cientista colocou a mão dentro da xícara para saber se estava muito quente, então ele enfiou a cabeça dentro do café e deu umas boas goladas. – Usávamos isso pra fazer o café render mais. Mas tem um problema – disse ele se levantando. – A pílula tem efeito de apenas alguns minutos. Depois você volta ao normal. Chapolin seguiu então para o depósito de brinquedos. Havia muitos bonecos, bonecas, triciclos e grandes bolas espalhados pelo lugar. Havia também muitas prateleiras de brinquedos. No meio do depósito havia uma mesa onde Tripa Seca e seus comparsas, inexplicavelmente ainda encapuzados, jogavam cartas e fumavam. – Um ais. Ganhei! – disse um comparsa. – Não! Eu ganhei. – retrucou Tripa Seca.

– Deixe-me ver sua mão. – Pediu o comparsa. Tripa Seca mostrou o trinta e oito e rosnou fazendo uma careta. – Sim, o senhor ganhou. Enquanto isso, Chapolin caminhava sorrateiramente entre as prateleiras e caixas de brinquedos. Ele passou por uma mulher, que lembrava muito uma certa dona Florinda, que estava amarrada e amordaçada, mas ele, muito atento, não percebeu. A mulher começou a se contorcer e gemer para chamar a atenção. – Ora, parece que eu ouvi alguma coisa! – Pensou alto Chapolin. A mulher voltou a se contorcer, mas o ele ainda apoiou o braço em sua cabeça e bocejou. – Não é que eu tenho a impressão de que tem alguém aqui – Continuou. – Olhe, uma mulher amarrada! – Percebeu o herói finalmente. Então ele tirou a mordaça da mulher. – Achei que ia me deixar aqui! – reclamou a mulher. – Claro que não. Mas, me diga. O que você está fazendo aqui? – Perguntou Chapolin. – Estou aqui descansando. Não sabe que dormir amordaçada e amarrada é a última moda em Paris? – ironizou a mulher. – É obvio que eu fui capturada pelos bandidos, que pretendem pedir resgate a minha família! – Suspeitei dês de o princípio! – Mas venha, vamos dar o fora daqui! – sugeriu a mulher. – Não, antes eu tenho que recuperar a minha marreta roubada. – Pois desarmado como você está, já ta até com a roupa ideal. Com esse uniforme vermelho o sangue nem vai aparecer. – O que será que ela quis dizer? – Pensou alto Chapolin. – Escute, eu vou chegar até eles sem que eles me vejam, vou pegar a marreta e fugir rápido.

– Mas como? – Usarei isto. – Disse Chapolin tirando o frasco de pílulas de “nanincolina” do bolso. – Com apenas uma pílula eu ficarei do tamanho de um polegar, e eles nem notarão a minha presença. – Então, o Polegar vermelho tomou uma pílula e encolheu num piscar de olhos, ficando do tamanho de um polegar. – Não contavam com minha astúcia! – Gabou-se ele. – Nossa! Boa sorte! – Desejou a mulher indo embora. Chapolin foi caminhando por entre os brinquedos silenciosamente. Ao caminhar, debaixo de uma prateleira ele viu um monstro de brinquedo e se assustou e saiu correndo. Ele se cansou do pique e apoiou-se em uma bola de futebol que rolou e acabou acertando uma vassoura que caiu e derrubou alguns brinquedos fazendo barulho. – Ouviram isso? – Disse Tripa-seca. – Não fui eu! – respondeu um dos comparsas. – Vou ver o que foi. – disse tripa seca se levantando. – Sigam-me os maus! – Ordenou ele, mas os comparsas continuaram sentados. – Venham idiotas! – Então eles o seguiram. Chegando no meio das prateleiras, eles ficaram atentos. Os comparsas vinham em fila atrás de tripa seca. Quando tripa seca parou subitamente, os dois se chocaram com ele. Tripa seca se virou pra traz e rosnou fazendo cara feia para eles. Então eles continuaram procurando a fonte do barulho. Chapolin os viu vindo e colocou um carrinho de brinquedo no caminho deles. Tripa-Seca pisou nele caindo para trás, em cima de seus dois comparsas. – Levantem-se seus idiotas! – Ordenou tripa seca. – Olha, é melhor nos separarmos! Você volta pra mesa e

vigia a marreta, o outro vai pra direita enquanto eu vou para esquerda. – Sim senhor. – Disseram os comparsas em coro. Um voltou para a mesa enquanto o outro foi para o mesmo lado que Tripa-Seca. – Não disse para ir para direita? – Perguntou TripaSeca – Estou indo para a minha direita. – Respondeu o comparsa. – A sua e a minha direita são as mesmas, seu idiota! Com muito esforço Chapolin conseguiu subir na mesa, agarrou então o cabo amarelo de sua marreta biônica e começou a arrasta-la. Para seu infortúnio, o comparsa chegou a mesa. – Olha só, um boneco daquele tal de polegar vermelho. – disse ele. Quando ele ia pegar o Chapolin, este voltou ao tamanho normal, quebrando a mesa de isopor. Chapolin agarrou então sua marreta e acertou um golpe na barriga do comparsa, que se curvou, então ele desferiu outro golpe em sua cabeça, deixando-o inconsciente. – Não contavam com minha astúcia! – Disse chapolin. Porém, sem que ele visse, T ripa-Seca chegou sorrateiramente por traz e lhe deu uma coronhada. Chapolin permaneceu de pé por alguns instantes, deu uma coçada na nuca e depois caiu duro. Mas para a sorte de Chapolin, a mulher que ele salvara acertou uma cadeira em Tripa-Seca, esta se quebrou como se fosse feita de isopor, e o vilão caiu inconsciente no chão. – Você está bem? – Perguntou a mulher ajudando o herói a se levantar. – T odos os meus movimentos são friamente calculados. – Declarou Chapolin. – Você não tinha ido embora?

– Bom, eu decidi voltar para ver se você estava bem. Então, novamente de posse de sua arma. O Chapolin Colorado continuou combatendo o crime no seu país, mantendo assim a segurança, a ordem e a paz no México. Toda vez que alguém estiver em perigo, assim como uma gentil senhora entrando desavisada num beco escuro repleto de marginais que dirá: – Oh, e agora? Quem poderá me defender? O Chapolin surgirá do alto, imponente, ou mesmo de uma tampa de esgoto, ou de uma lata de lixo, e atenderá dizendo: – Eu, o Chapolin Colorado! E os dias seguiram, então, mais tranquilos, sob a vigilância do Polegar vermelho.

III SEU MADRUGA MILIONÁRIO – Chaves, Chaves! Vamos brincar de Milionário e mordomo? – Perguntou Quico, o menino bochechudo vestindo roupa de marinheiro ao pobre Chaves no pátio da vila. – Sim, e eu era o Rico! Que tinha muito dinheiro! Que comprava toneladas de sanduíches de presunto e Zás! – Concordou Chaves sapateando. – Mas eu vou ser o Rico! – Protestou Quico. – Então não. – Mas depois eu deixo você ser o rico! – Então ta! Quico forçou seus pequenos e tortos joelhos para ficar ereto, colocou uma mão no peito e outra nas costas fazendo o que ele achava que era uma pose esnobe. – Criado! – começou Quico. – Prepare minha limusine! – Sim, senhor Rico! – disse Chaves. Chiquinha entrou no manjado pátio, saltitando e cantarolando no seu velho vestido verde. – Do que tão brincando? – Perguntou ela. – Estamos brincando de Rico e mordomo! – Respondeu Chaves. – Mas que idéia, de onde tiraram isso? – Perguntou Chiquinha. – Não viu na televisão? O ganhador da loteria dessa semana vai ficar muitissíssimo rico. Por que o prêmio está acumulado. – Respondeu Chaves. – É uma bela duma grana! – Acrescentou Quico.

– Imagine quantos sanduíches de presunto não daria pra comprar. – disse Chaves lambendo os lábios. – Dava pra tirar da miséria até um pobretão como você Chaves! – Brincou Quico. – Sou pobre, mas sou honrado! – defendeu-se Chaves. – Mas também é mal lavado! – Insistiu Quico gargalhando. – Agora você vai ver, eu vou te pegar! – irritou-se chaves pegando uma pedra no chão. Para a sorte de Quico, Seu Madruga entrou no pátio e tomou a pedra de Chaves na hora em que ele ia arremessa-la. – Hei, hei, hei! – começou seu Madruga. – Está ficando louco? – MAMÃE! – gritou Quico, e Dona Florinda saiu com seus bobis e seu típico avental da casa de numero quatorze. – Ele queria me dar uma pedrada! – Que bonito, não? – disse Dona Florinda a seu Madruga. – Ainda bem que eu cheguei a tempo, mas... – iniciou seu Madruga, mas foi interrompido pela bofetada de dona Florinda. – Vamos Quico, e não se junte com essa gentalha. – completou ela. – Gentalha, gentalha. PUF – disse Quico dando um soquinho em seu Madruga. – E vá atirar pedras em sua avó! – acrescentou Dona Florinda. Seu Madruga fez caretas, cerrou os punhos, e por fim, retirou seu chapéu, o arremessou no chão e começou a pisoteá-lo. – Seu Madruga, sua avó gosta que atirem pedras nela? – Perguntou Chaves inocente. Seu Madruga levantou o

gorro de Chaves, colocou o punho na boca e deu um coque no garoto. – Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! – chorou o pobre Chaves entrando em seu Barril. – Só não te dou outra porque... – Resmungou seu Madruga. – Papai! – Começou Chiquinha. – Já está sabendo que o prêmio da loteria está acumulado? – Sim filhinha! Não param de falar no rádio! – respondeu seu Madruga recolhendo o chapéu do chão. – Vamos comprar um bilhete? Não custa nada tentar! – Pediu Chiquinha. – É, por que não? Depois que você ganhou aquela viajem para Acapulco eu não duvido de mais nada. – Disse seu Madruga retirando três mangos do bolso, o único dinheiro que tinha. – Vá comprar você que é pra dar sorte! Chiquinha saiu saltitante do pátio em direção a rua cruzando com o professor Girafales, que se aproximou de seu Madruga. – Não é recomendável que se estimule às crianças a jogarem estes jogos de azar! – Aconselhou o professor. – Eu ia comprar o bilhete mesmo – Começou seu Madruga. – Além do mais, não é todo dia que a loteria fica acumulada. – Sim, reconheço que até eu comprei um bilhete. Mas... – Disse o professor Girafalaes, mas quando viu dona Florinda sair a porta ele perdeu a linha de raciocínio. Florinda por sua vez, até deixou cair à roupa que segurava. – Professor Girafales! – Disse ela. – Dona loteria! – Respondeu o Professor. – Digo, dona Florinda.

– Mas que milagre o senhor acumular por aqui. – Disse Dona Florinda confundindo sua fala já tão manjada. – Digo, que milagre o senhor por aqui. – Vim lhe trazer esse humilde buquê de flores! – Declarou o professor entregando um bilhete de loteria a dona Florinda, o buquê encontrava-se em outra mão. – Devo comprar as flores com o dinheiro do prêmio? – Observou dona Florinda. – Desculpe-me, mão errada. – Corrigiu o professor entregando o buquê a dona. – Mas, não gostaria de entrar para tomar um bilhete de café? – errou novamente Florinda. – Digo, uma xícara de café? – Não seria muito incômodo? – Claro que não? – A senhora primeiro. – Disse o professor. Seu Madruga estava em casa sentado na mesa lendo seu jornal quando Chiquinha entrou com o bilhete de loteria que havia comprado na mão. – Aqui está! – Disse ela. – Deixe-me ver quais foram os números que você escolheu. – começou seu Madruga pegando o Bilhete. – Filha! Não acredito que você fez isso... – O quê foi? – Você apostou na sequência 1,2,3,4,5 e 6? – Sim, o que há de errado? – É que já é difícil acertar na loteria, com esses números então é mais ainda! Mas quem sabe... – Papai, ligue logo o rádio, já deve ter saído o resultado! – Pediu Chiquinha. – Posso escutar também? – Pediu Chaves entrando.

– Sim, pode vir. – Respondeu seu Madruga ligando o rádio. – Então, para os sortudos de Platão o resultado da loteria federal já saiu. E esse é o resultado mais louco que eu já vi, senhores. – Disse o rádio. – Ande! Fala logo! – Pediu Chiquinha aflita. – Calma! Eu já vou falar! E o resultado é: 01, 02... – Começou o rádio. – Aí meu Deus. – Vibrou Chiquinha. – Estão acertando? – Perguntou Chaves que acabara de entrar. –... 03, 04... – Continuou o rádio. – Impossível! – declarou seu Madruga. –... 05 e, finalmente, 06! Se você é o louco que apostou nessa seqüência, alegre-se! Pois você está milionário! – Terminou o Rádio. – Estamos ricos! Ricos! – Comemorou seu Madruga. – Chaves, eu vou te dar milhares de sanduíches de presunto, melhor, você vai morar com agente! Vamos construir uma casa, não, uma mansão! Melhor, um prédio! Eu nunca mais vou precisar trabalhar! Quico passava pela janela de seu Madruga e ouviu tudo. Ele saiu correndo, desengonçado, para contar a sua mãe. – Mãe! Seu Madruga ganhou na loteria! – Tem certeza disso? – Perguntou Florinda surpresa ao garoto. – Eu os ouvi conferindo os números! Eles ganharam. Algum tempo depois, Seu Barriga atravessou o pátio a passos largos, carregando sua maleta. Ele parou em frente ao número quatorze e bateu na porta. Dona Florinda atendeu.

– Boa tarde, seu Barriga. – Cumprimentou ela. – Boa tarde, Dona Florinda. – respondeu ele. – Vou pegar o dinheiro do aluguel. Por favor, entre. – Disse ela entrando. Seu Barriga entrou e se sentou no sofá. – Será que eu vou encontrar seu Madruga hoje? É dia três e ele nunca está em casa. Foge de mim para não pagar o aluguel. – perguntou seu Barriga. – Ora, pois eu acho que hoje o senhor vai ter uma surpresa. – Disse dona Florinda trazendo o dinheiro. – Por que? – É melhor que o senhor mesmo veja! Seu Barriga cumprimentou dona Florinda, e saiu. Então ele decidiu passar no numero 72 antes. Ele sempre deixava para passar lá por último, pois sabia que seu Madruga arrumaria alguma desculpa para não pagar, mas o que dona Florinda lhe disse o deixou curioso, então ele bateu a porta da casa de seu Madruga. Para surpresa de Seu Barriga, Madruga estava vestido com um velho e surrado terno, usando uma gravata que já havia servido de coleira de cachorro e corda de pular para as crianças da vila, mas o tênis ainda era o mesmo, assim como o chapéu. – Seu Barriga! Chegou em boa hora! – Disse seu Madruga. – Não adianta, hoje eu vou receber aqueles aluguéis atrasados e... – começou Seu Barriga, mas pelo visto ele havia entendido mal. – Disse que cheguei em boa hora? – Sim, claro. Entre! – Pediu seu Madruga terminando de abrir a porta para o gordo homem passar. Seu Barriga, pasmo, entrou e sentou no velho e surrado sofá amarelo de seu Madruga.

– Eu não sei o que o senhor está tentando fazer, mas não vai dar certo. – resmungou seu Barriga. – Senhor Barriga. Diga-me, quantos meses de aluguel estão atrasados? – Quatorze. Quinze com este. – Quer saber, passe aqui amanhã. Eu lhe pagarei os atrasados. Melhor eu vou te pagar adiantado! Eu estou rico! RICO! – Riu-se seu Madruga. Seu barriga saiu pálido da casa de seu Madruga. – Seu Madruga vai me pagar os atrasados, vai me pagar um ano adiantado. E ainda por cima eu não tomei nenhuma pancada do Chaves? Só pode ser um sonho! – Pensou alto seu Barriga. Mas para infortúnio do obeso homem, uma bola voadora acertou a sua redonda barriga deixando-o sem ar. – Foi sem querer querendo! – Desculpou-se Chaves. – Estava bom de mais. – reclamou o pobre seu Barriga. Ele se recuperou e foi embora. Quico entrou no pátio pedalando o seu triciclo dando voltas e voltas. Chiquinha saiu de casa usando seu vestido vermelho, o mais novo. – Quiquinho meu amiguinho do coração! Deixe eu dar uma volta no seu triciclo? – Pediu a menina. – Não! – Respondeu secamente Quico. – Ora, ora. – Chegou dizendo seu Madruga. – Pois saiba que agora eu posso comprar dez desses triciclos se eu quiser, um de cada cor, para a Chiquinha. Dona Florinda saiu de casa e começou a estender as roupas sem prestar atenção na conversa. – E venha Chiquinha. – Começou seu Madruga. – Não se junte com essa gentalha.

Com gosto, Chiquinha foi até dona Florinda e virou a mulher. – Gentalha, Gentalha! – Disse ela dando um soquinho na mulher. – Ora, mas que desaforo! – Reclamou dona Florinda. A aquela altura, toda a vila já estava sabendo da mudança de seu Madruga. O mais novo milionário da cidade. Seu Madruga deixou o rádio ligado para ouvir o que deveria fazer para pegar o prêmio, e ouviu. – Se você também é um sortudo... – Começou o rádio. – Como assim “também”? – Resmungou seu Madruga para Chiquinha. – Se você é um dos duzentos mil ganhadores da loteria federal, que já surpreendeu muito essa semana, passe na casa lotérica mais próxima e retire seu prêmio de cinqüenta pratas. É isso mesmo, sortudos. Cinqüenta pratas! – Continou o rádio. – Como assim cinqüenta pratas? – Perguntou Chiquinha. – É que houve muitos ganhadores, parece que 1,2,3,4,5 e 6 são números apostados freqüentemente. Então houveram muitos ganhadores. Por isso vá agora mesmo com o seu bilhete premiado a loteria mais próxima e retire suas cinqüenta pratas! 132 Seu Madruga olhou para Chiquinha, que olhou de volta para o seu pai. A vida na vila não ia mudar, muito menos Seu Madruga. Pelo menos por enquanto as coisas ainda seriam as mesmas naquela vila mexicana esquecida numa cidade do interior.

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