Como Foram Criados os Meridianos Texto publicado no blogue: http://acupuntura.blogas-pt.

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Os meridianos são descritos como canais através dos quais passa o Qi. Cada órgão possui o seu próprio meridiano. Os meridianos podem ligar-se em pares ou a outros meridianos acoplados. Existem diferentes meridianos como os tendino-musculares ou os distinctos. A questão que se coloca é: como foram criados os meridianos? Existem vários factores a levar em linha de conta para responder a esta questão como a ignorância em anatomia e fisiologia humana, observação clínica de sintomas, observação das sensações que os pacientes sentem quando lhes é feita acupunctura, etc… Iremos analisar cada uma delas em separado. Em primeiro lugar vem a descoberta dos pontos de acupunctura. Por vezes quando uma pessoa sente dores tem tendência para pressionar localmente. E muitas vezes sente alívio quando o faz. Os chineses passaram do simples acto de pressionar para o de inserir agulhas em alguns destes pontos. Com o tempo começou a catalogar-se uma série de sensações e os seus percursos. Através destas sensações começou por definir-se o percurso dos meridianos. Ao puncturar o 36E sente-se uma sensação de choque em direcção ao pé. Vários pacientes referem a mesma sensação. Logo esse deve ser o percurso do meridiano. É uma primeira abordagem que permite criar uma teoria que explique as sensações dos diferentes pacientes. Em segundo lugar, e menos frequentemente, vem a análise das doenças e sintomas do paciente. Muitos sintomas relacionam-se com o percurso do meridiano. A sensação subjectiva de dor é das mais importantes. Estas duas abordagens podem ajudar a explicar a formação de parte dos meridianos, em particular o seu percurso junto das extremidades. Quando em 1350, os mestres Yangjie e Zangji, publicaram a sua obra mostrando a relação entre o percurso dos meridianos e do sistema nervoso e vascular, não se alterou a teoria dos meridianos. Poder-se-ia ter

trocado a teoria dos meridianos pela teoria do sistema nervoso. Pelo menos conseguirse-ia observar o sistema nervoso. Na realidade a teoria dos meridianos permitia explicar muito mais coisas que os conhecimentos antigos sobre sistema nervoso ou cardiovascular. Se por um lado, o percurso dos meridianos nos membros, é semelhante ao do sistema nervoso, o seu percurso total é muito diferente. O meridiano do Mestere do Coração pode coincidir com o percurso do nervo medial no antebraço. Mas o seu percurso total é diferente do do nervo medial. A resposta é simples. Os meridianos são formas de se juntarem pontos com funções especificas. Ao longo do tempo os chineses observaram que a maioria dos pontos tratava problemas locais. No entanto, começaram a conhecer, cada vez mais pontos, que também podiam tratar problemas distais como 4IG para dor de dentes, o 40B ou 60B para lombalgia, o 34VB ou 38E para dor no ombro, etc… O ponto 36E localiza-se na perna mas também trata problemas digestivos como dor de estômago, vómitos, dor epigástrica, etc… Com o tempo associaram-se pontos locais que tratavam esse tipo de problemas com pontos distais. O princípio que levou à formação dos meridianos é tão importante que é a base para formulação de protocolos de acupunctura. O princípio universal de qualquer protocolo consiste na selecção de pontos locais, distais e sintomáticos. Outros princípios importantes como selecção de pontos do mesmo meridiano, selecção de pontos de meridianos acoplados, etc… são todos baseados nas observações clínicas que os chineses fizeram. A complexidade de um protocolo acaba por ser uma consequência das múltiplas interacções entre pontos locais e distais de diversos meridianos. O sistema nervoso ou o sistema vascular não permitia explicar a razão de o 36E poder tratar problemas no estômago ou no Pulmão. Não conseguia explicar a razão pela qual o 6MC aliviava vómitos ou acalmava palpitações. A teoria dos meridianos consiste, basicamente, numa teoria criada por uma cultura que não conhecia os fundamentos do funcionamento neurofisiológico ou cardiovascular. A teoria dos meridianos, permite explicar os sintomas do paciente, permite seleccionar

pontos de acupunctura com grande eficácia, permite prever reacções ao tratamento ou possíveis sensações que o paciente possa obter e… dá resultado. Até agora observámos como a observação dos sintomas, das sensações da punctura, da análise de pontos de acordo com efeitos clínicos semelhantes e da ignorância científica levaram à criação da teoria dos sistemas de meridianos. Culturalmente, existe ainda outro factor muito importante para o reconhecimento dos meridianos. Está associado à prática do Qi Gong. Muitos praticantes referiam sensações de circulação de Qi ao longo do percurso dos meridianos. Historicamente, este factor foi muito importante e está relacionado com o desenvolvimento de outra faceta da cultura chinesa, as artes marciais. O desenvolvimento do Kung Fu, Qi Gong ou Tai Chi está relacionado com a crença na existência de Qi e de meridianos. Não posso afirmar que foram as análises clínicas dos chineses que deram origem às artes marciais, mas sem dúvida, que a sua capacidade para procurar relacionar diversos fenómenos, entre os quais clínicos, levou a um relacionamento profundo entre diferentes esferas da cultura chinesa. É daí, provavelmente, que vêm a sua unicidade.

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