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A CIDADE E A CULTURA

UM ESTUDO SOBRE PRÁTICAS CULTURAIS URBANAS

João Teixeira Lopes, Universidade do Porto Dissertação de Doutoramento em Sociologia [1] Porto, Novembro de 1998
À memória de minha Avó, Eufrásia Pedro Teixeira Lopes, sereno exemplo de dignidade "The times they are a-changin" Bob Dylan "Eu não gosto do bom gosto Eu não gosto do bom senso Eu não gosto dos bons modos Não gosto Eu aguento até rigores Eu não tenho pena dos traídos Eu hospedo infratores e banidos Eu respeito conveniências Eu não ligo pra conchavos Eu suporto aparências Eu não gosto de maus tratos ... Eu aguento até os modernos E seus segundos cadernos Eu aguento até os caretas E suas verdades perfeitas O que eu não gosto é do bom gosto ... Adriana Calcanhoto, Senhas

INTRODUÇÃO
FUGA E PARTITURA OU UMA METÁFORA PARA UMA DISSERTAÇÃO ―I should imagine that this kind of writing might make many and perhaps most of the readers of La Distinction and of this book feel uncomfortable or angry. He is talking about us or, at least, people like us.‖
Jim McGuigan, Culture and the Public Sphere

Este é um trabalho de natureza científica. Obedece a cânones e a protocolos de regras mais ou menos rígidos. Mas encontra-se vulnerável a uma certa margem de imprevisto. Se, inicialmente, o nosso objecto consistia na análise dos públicos urbanos, das suas práticas e dos modos de recepção, em cenários de interacção diferenciados, cedo nos apercebemos do carácter restrito de tal intenção. De facto, subjacente a esta delimitação, encontra-se um conceito fundamental: o trabalho de mediação exercido pela esfera simbólica no decorrer dos processos de mudança social. Mais do que mero interface ou zona de fronteira, falamos, afinal, de uma mediação dialéctica, capaz de transformar os campos que coloca em interacção, ao mesmo tempo que a si mesma se modifica[2]. Aliás, a esfera simbólica remete-nos para um jogo de espelhos entre uma face visível e uma outra recôndita – a evocação de algo ausente. Tornar esse ausente presente é uma das motivações da análise sociológica do simbólico. Se é verdade que a ordem simbólica é um veículo de expressão das sociedades, um conjunto de representações que os agentes sociais elaboram a propósito de si mesmos, da sua interrelação e do mundo em que habitam, então essa esfera transporta consigo os processos de construção de sentido. Mas não se trata de um sentido puramente abstracto, formal ou categorial. Existe uma correspondência, não automática, não semelhante à reprodução em duplicata, face ao real e às práticas sociais. Desta forma, estudar o simbólico e a complexa cadeia do sentido, reenviar-nos-á, simultaneamente, para o homem concreto e real, condicionado pelas suas condições materiais de existência e para o sujeito autónomo, reflexivo, inventivo e imaginativo que, aproveitando brechas, campos de possíveis ou mesmo subvertendo e alargando estreitas margens de manobra, constrói quotidianamente a sociedade e o próprio real, afastandose do modelo do ―sonâmbulo social‖, dependente e encarcerado pelas configurações sociais onde se move.

O itinerário teórico que delineamos no capítulo I (com seguimento, no capítulo II, em termos de teorias de médio alcance que fazem o debate contemporâneo), viagem pelo estudo do simbólico com direito a paragens para esclarecimento e acréscimo de visibilidade, tendo por ponto de chegada (e simultaneamente eterno ponto de partida...) a descoberta da complexidade e as teorias que com ela lidam (damos apenas quatro significativos exemplos que têm o mérito de recuperar, superando-o, praticamente todo o património teórico acumulado ao longo do percurso), leva-nos a não encalhar nos dilemas etc.[3]. Em suma, se é verdade que uma sociologia da cultura e do simbólico deixaria de ser sociologia se aceitasse de antemão a autonomia total da cultura e do simbólico (enquanto estruturas de sentido auto-suficientes cuja compreensão seria necessariamente interna[4]), não é menos verdade que seriam tudo menos culturais e simbólicos, os fenómenos estritamente isomórficos da base societal e dela totalmente prisioneiros. Esta concepção encontra-se magnificamente ilustrada pela metáfora do homem como ―músico de jazz‖, proposta por certas correntes da psicologia social: capaz de criar ―uma verdadeira fuga e improvisação, que tem uma beleza e harmonia próprias‖, a acção do sujeito não está todavia ―desligada do tema proposto pelo seu encontro com o ambiente, mas que não reflecte, como se seguisse uma partitura‖[5]. Corrigiríamos: ―nem sempre reflecte‖. Por vezes, quando a partitura é rígida e não permite experimentações, a melodia segue-a de muito perto. No entanto, mesmo nessas situações, dois intérpretes distintos construiriam duas ―leituras‖ diferentes dessa mesma partitura (é o que tentamos defender quando falamos no trabalho dissimulado de produção patente na recepção cultural e nos vários usos que se dão à cultura, como de resto se encontra patente nos capítulos III e XII). Melodia e partitura, texto e contexto, caminham lado a lado. Um requer o outro. Parafraseando Giddens, diríamos que não são dualismos, mas dualidades. Admitem-se, no entanto, situações de rápida mutação social, em que as partituras são parcialmente esquecidas, realçando-se o carácter aberto, plurívoco, ambivalente e aparentemente indeterminado das interpretações sociais. Segundo a leitura dos dados que constam das contextualizações e enquadramentos que fazemos nos capítulos V, VI e VII, estamos na crista de uma dessas vagas de mudança. No entanto, quem aprendeu a partitura jamais a esquecerá e, por formas tantas vezes inusitadas e surpreendentes, a improvisação revela-se, afinal, contida dentro de certos ―anterioridade do sujeito versus anterioridade do social‖, ―conhecimento versus acção‖, ―sujeito versus objecto‖, ―actividade versus reactividade,

parâmetros. A força da partitura e a irrupção da fuga e da improvisação, bem como o jogo que entre elas se estabelece, encontram-se expostos no capítulo XI que deve ser lido em conjunto com boa parte da reflexão conclusiva (termo um tanto ou quanto absurdo para terminar uma dissertação, em especial quando ela nos inquieta mais do que nos reconforta em certezas ou verdades inolvidáveis), designadamente ao propor-se a existência de um ―continuum chamado (pós)modernidade‖ (capítulo XIII) e a localização (em termos de tempo, espaço e estrutura social) dos movimentos de mudança social. Um dos exemplos porventura mais desenvolvidos prende-se com as representações sociais da noite. Como se terá ocasião de constatar, a partir da segunda parte do capítulo X, os discursos sobre a noite são multivocais, salientando ora os constrangimentos que impedem uma intensificação das saídas nocturnas (em boa parte associados aos recursos de que os agentes dispõem), ora as possibilidades de afirmação de identidade, mútuo desvendamento e autenticidade. Convém explicitar, no entanto, de que práticas ou, seguindo o fluir da metáfora, de que música nos ocupamos. Chamar-lhes urbanas não nos parece ser um delito grave, mesmo estando conscientes da crescente substituição das velhas dicotomias que cortam em dois o território por metáforas de redes e fluxos, próprias de um mosaico de situações. Afinal, a música anónima de um saxofone que se escuta numa esquina de duas ruas cosmopolitas será sempre diferente da flauta pastoril... Ao longo de toda esta dissertação, mas em particular no capítulo IV, tentaremos reflectir sobre a recomposição do espaço urbano e sobre as suas consequências ao nível da esfera pública e das relações que desenvolve com o domínio privado, das políticas culturais, da imagem de cidade e das práticas sociais que nela se desenrolam. Este processo está igualmente longe de ser unívoco, existindo contradições várias e incontornáveis, em especial quando o discurso da ―recuperação e enobrecimento urbano‖ esquece as transformações do espaço público e a emergência de uma ―sociedade dual‖. Ocupar-nos-emos, igualmente, embora de forma breve, com a história da cidade onde se desenrola e tece o enredo desta dissertação (capítulo VIII). Numa época em que a globalização é um lugar comum, mas em que se reavivam, por oposição, localismos e paroquialismos vários, nada como a temporalidade para traçar linhas de continuidade e ruptura, identificar persistências estruturais, dar o devido valor a conjunturas ou episódios esporádicos. Os capítulos V, VI, VII e VIII, no seu conjunto,

fornecem as coordenadas espácio-temporais desta dissertação, a partitura dentro da qual certas interpretações se tornam mais plausíveis do que outras. Foi dentro deste espírito de equilíbrio tenso, de procura de sínteses e complementaridades, sem forçar ao desaparecimento artificial de movimentos de justaposição e/ou conflitualidade entre tendências contraditórias, que organizamos a nossa pesquisa. Os caminhos metodológicos (capítulo IX) traduzem esse mesmo espírito de não recusar à partida a conjugação daquilo que surge como incontornável aporia. Assim, ao accionarmos a―imaginação metodológica‖, usufruímos da combinação de abordagens qualitativas e quantitativas, intensivas e extensivas, ―duras‖ e ―moles‖, única forma, afinal, de respeitar a especificidade de cada dimensão do objecto de estudo. Umas requerem aproximações interpretativas, minuciosas, ―internas‖; outras exigem enquadramentos estruturais e institucionais. Umas e outras não são independentes, tão-pouco se bastam a si mesmas. Possuem um carácter relacional, característica fundadora da complexidade do objecto de estudo. Nada disto é novo e constitui já uma saudável rotina do discurso sociológico. Mesmo a investigação empírica, um passo aquém todavia, fornece cada vez mais exemplos destas fecundas imbricações. Reivindicamos, ainda assim, um pouco de originalidade. Não acreditamos que a produção científica em ciências sociais se limite, como alguns defendem, a um exercício de intertextualidade. Os discursos científicos sobre o social são distintos dos textos literários, bebendo no racionalismo aplicado de Bachelard a fonte dessa especificidade. A nossa abordagem das práticas culturais pretende actualizar criticamente as teorias legitimistas do campo cultural patentes na obra de Bourdieu (claramente desactualizada face às transformações que se vêm verificando quer na produção cultural, quer no consumo, desde os anos 80), com a ajuda de recentes reflexões sobre os novos mundos da cultura e o estudo da recepção, ofício que requer um praticante cultural e não um mero consumidor. A pluralidade das culturas urbanas, a sua variação consoante os cenários de interacção (razão que nos leva a insistir em três estudos de caso), a emergência de novos padrões de gosto e a sua ligação quer a significativas alterações da estrutura social portuguesa (e portuense), quer à centralidade expressiva das redes de sociabilidade, impelem-nos a um questionar de relações anteriormente estabelecidas em universos sociais mais estáticos, menos sujeitos à circulação da novidade e mais cristalinos quanto à correspondência entre práticas e classes sociais. A harmonia desse espaço social ordenado em nítidas hierarquias, e fundado em arbitrários dissimulados, constituiu um desafio poderoso a uma sociologia da cultura de intuitos

críticos e desmistificadores. No entanto, a emergência de novas lógicas sociais, tornando mais opaca a ligação entre interpretação e partitura, para manter a metáfora, envolve-nos no compromisso de manter elevada a imaginação sociológica. Hoje, coloca-se amiúde a questão do ―valor‖ da cultura, ou do que falamos quando falamos de cultura. Terá validade a iconoclasta afirmação do niilista russo Pisarev, de que ―um par de botas equivale a Shahespeare‖? A partir do urinol Fonte de Duchamp e das sopas Campbell de Warhol, esta questão torna-se evidente no campo artístico. Mas ela é uma invariante da história desse campo: o que deve, num dado momento e numa sociedade determinada, ser considerado como Arte? Da mesma maneira, a questão reaparece no domínio das práticas culturais, com o discurso catastrofista do nivelamento cultural, ou com a aura optimista da ―ideologia pluralista‖. Baudrillard refere-se a este propósito à ―mercadoria absoluta‖; mais mercadoria do que a própria mercadoria, fundada no ―êxtase do valor‖: triunfo da equivalência, indiferença perante a questão do valor, maximização de todos os estilos. Em suma, se tudo é arte, a arte morre. Por um raciocínio paralelo, se tudo é cultura (―anything-goes culture‖), a cultura desaparece, nada restando senão as suas carpideiras (os ―apocalípticos‖ de Eco), ou os seus bacantes festivos (os ―integrados‖). Não cremos que a cultura tenha morrido. Caso contrário, de nada serviria este trabalho, a não ser como elegia de um passado que se revisita com nostalgia. De qualquer modo, sobre essa polémica não adiantaremos muito mais. Guardamos intactos os nossos juízos de valor. É um debate que não comandamos, que não queremos comandar embora possamos porventura esclarecê-lo, situando os pontos em discussão. Antes de mais, explicitando que a questão do valor nos remete para os quadros de referência, os discursos e as práticas dos agentes. Precisando em seguida um pouco melhor, ao acrescentarmos que esses esquemas de análise, essas representações e essas acções são pontos de vista em relação (Bourdieu, teoria do campo). Finalizando a incompleta intervenção, com a consideração de que constituem o objecto por excelência da sociologia da cultura. Por outras palavras, as condições sociais em que surgem as questões do valor são, antes de mais, uma questão de pesquisa empírica. Renunciamos a um ponto de vista soberano. Não renunciamos, no entanto, (e mantemos ainda a metáfora...), a analisar com a mesma minúcia e empenho analítico, a relação aparentemente mundana e trivial que os sujeitos mantêm com uma canção pop da moda, ou as formas subtis de recepção do que outrora se chamava a música com maiúscula.

CAPÍTULO I ITINERÁRIO TEÓRICO EM TORNO DA PRODUÇÃO DOS FENÓMENOS SIMBÓLICOS No estudo da relação entre os fenómenos culturais e a estrutura social, têm os primeiros sido vítimas de um erro teórico fundamental: ora são considerados como uma entidade autónoma e desligada dos enraizamentos societais, ora são reduzidos a um mero epifenómeno de outras instâncias com ―verdadeiro‖ poder explicativo, como se fosse possível hierarquizar os diferentes campos da actividade humana em instâncias estanques e incomunicáveis. Estas duas concepções funcionam, de facto, como irmãos gémeos, uma sendo o espelho antinómico da outra, mas em ambos os casos dissolvendo-se o que seria a especificidade da ordem simbólica. Como Clifford Geertz refere, tentando explicar um atraso relativo das componentes culturais, no estudo das relações entre a estrutura social e a ordem cultural, é ―mais difícil lidar cientificamente com as ideias do que com as relações económicas, políticas e sociais‖ [6] . Duplamente difícil (e encontrando-se, por isso, numa situação duplamente periférica) é a análise das formas culturais anódinas e quotidianas, já que estas se movem, por definição, no terreno do implícito, do não sistemático, do não -dito, do não discursivo. Para este efeito, terá contribuído uma deficiente (porque não totalmente sistemática) e conflitual abordagem do simbólico por parte dos ―clássicos‖ fundadores da sociologia, a quem sempre regressamos quando se trata de delinear um qualquer itinerário teórico. No entanto, grande parte do que hoje se escreve a respeito dos clássicos resulta, muitas vezes, de abordagens descontextualizadoras do sentido da sua obra, ou então, aspecto mais grave, de leituras em segunda ou terceira mão, o que, tendo aparecido como resultado de uma bricolagem teórica, nos aconselha a um prudente regresso ao original. A sociologia jamais abandonou, salvo raras excepções, os seus grandes mestres. Aliás, muita da conflitualidade teórica interna encontra -se já em incubação nas obras de cada um deles, assumindo mesmo, como no caso de Max Weber, a obsessão de um diálogo constante e implícito com Karl Marx. Este ―ir beber à fonte‖ não acalenta a esperança de ―descobrir‖ o que ainda não foi descoberto. Trata-se, apenas, de fazer regressar a conflitualidade

sobre os fenómenos simbólicos, não ao seu ponto de partida, tarefa que seria inglória, mas aos pensadores que mais directamente se ligam à moderna teoria social, mesmo que esta não reivindique explicitamente a sua herança. 1. Ponto de partida: a trilogia dos fundadores. 1.1. Karl Marx e o materialismo histórico Ao falar-se de Marx e do materialismo histórico, ocorre-nos sempre a estereotipada ligação entre a infraestrutura, o conjunto das relações sociais de produção, e o seu reflexo legitimador, a superestrutura, onde se enquadram as formulações políticas, jurídicas, ideológicas, religiosas; as ideias, se preferirmos, ou a cultura em sentido lato. Para esta visão simplificadora, muito contribuiu, por omissão, o próprio autor, apesar do esforço posterior de Engels para esclarecer e ―suavizar‖ o aparelho conceptual marxista. A análise do ―movimento histórico das relações de produção‖ e o combate às teses idealistas constituem o motor da produção teórica marxiana. De facto, o paralelismo quase isomórfico que se estabelece entre a produção material e a produção intelectual, resulta, precisamente, da sua concepção de praxis e de mudança social enquanto efeito das contradições e conflitos entre as forças produtivas e as relações sociais de produção. Karl Marx recusa a absolutização dos conteúdos intelectuais e culturais, combatendo todas as abstracções da razão pura desligadas das relações humanas reais e concretas: ―As relações sociais estão intimamente ligadas às forças produtivas. Adquirindo novas forças produtivas, os homens modificam o seu modo de produção, e modificando o seu modo de produção, a sua maneira de ganhar a vida, eles modificam todas as suas relações sociais (...) Os mesmos homens que estabelecem as relações sociais de acordo com a sua produtividade material, produzem também os princípios, as ideias, as categorias, de acordo com as suas relações sociais. Assim, estas ideias, estas categorias, são também tão pouco eternas quanto as relações que elas exprimem. Elas são produtos históricos e transitórios‖ [7] . Em A Ideologia Alemã, Marx e Engels são extremamente claros na crítica aos jovens hegelianos, denunciando tudo o que neles contribui para a

como mistificação. isto é. a possibilidade de existência autónoma das religiões. negação da verdade das condições materiais de existência. O que Marx pretende. Esta é a realidade. mas sim a vida que determina a consciência‖ [11] . A ideologia tende a surgir. segundo algumas interpretações. ―não é a consciência que determina a vida. Para estes autores. como se fossem recipientes vazios. ou seja. As ideias não são abstracções nem produtos da pura lógica. a produção mental depende. então. das relações sociais que os indivíduos mantêm no quadro de uma determinada actividade produtiva. que desce do céu para a terra. o nexo causal defendido pelos idealistas alemães: são os homens reais. invertendo-se. o seu carácter específico e irredutivelmente humano [13] . por possuírem os meios de produção material são também detentoras dos meios de produção intelectual. No entanto. . ―falsa consciência‖. Por outras palavras. da metafísica e mesmo do Estado. de uma só vez. as quais. a forma ―como actuam partindo de bases. através dos quais apresentam os seus p ensamentos e ideias particulares como sendo universais e únicos: ―Os pensamentos dominantes são apenas a expressão ideal das relações materiais dominantes concebidas sob a forma de ideias‖ [12] . ideias e conceitos. da moral. os indivíduos inseridos num determinado modo de produção quem produz as ideias e não o contrário: ―Contrariamente à filosofia alemã. Na mesma linha. a ideologia dominante é a expressão da posição das classes dominantes.autonomização ilusória das representações. deliberadamente ou não. inequivocamente. porque foram construídasna e pela acção humana historicamente situada. Torna-se assim explícito que as categorias mentais não são mais do que a ―linguagem da vida real‖. a relação entre a sua crítica e o seu próprio meio material‖ [8] . a ligação existente entre essas formas mentais e a realidade histórica (o―meio material‖): ―Nenhum destes filósofos se lembrou de perguntar qual seria a relação entre a filosofia alemã e a realidade alemã. Por isso. espelho inverso da realidade. a consagração do princípio da determinação/construção social da actividade intelectual. é. esquecendo. afinal. aqui parte-se da terra para atingir o céu‖ [10] . Nada poderia ser dito de forma tão precisa. Tão-pouco os homens aparecem desprovidos de consciência. Marx e Engels complexificam o seu sistema teórico ao centrarem o essencial da sua proposta na actividade humana criadora. eliminando. por conseguinte. condições e limites materiais determinados e independentes da sua vontade‖ [9] .

pois.critica em Feuerbach o conceito de Homem. isso sim. Althusser realça em especial este ponto: apesar de se opor à dialéctica enganadora de Hegel. Desta forma. apressou-se a combater essa interpretação simplista do legado de Marx.. antes de mais. prática‖. detentores de uma ―consciência real. tido como o principal traço distintivo da espécie. de capitais e de circunstâncias‖ através das sucessivas gerações: ―(. Existe. A sua tese fundamental é. Mas o próprio Marx (isoladamente ou em parceria com Engels) enfatizou. que Marx e Engels admitam a contínua modificação de ―forças de produção. a de que as circunstâncias históricas em que decorre a actividade humana a influenciam de forma irremediável. por isso. Considerar que o contributo marxista se reduz a uma engrenagem teórica mecânica de explicação das sociedades é esquecer a pedra de toque do seu pensamento: a dialéctica. Não se pretende reduzir aqui o marxismo a um humanismo bem intencionado. restituindo aos homens o seu papel de ―autores e actores do seu próprio drama‖ [14] . preferindo falar dos ―homens de carne e osso‖ — ―os homens históricos reais‖. a recusa das noções abstractas e vazias. acentuando a possibilidade de um ―efeito de retorno‖ da superestrutura sobre a infraestrutura. existente sob a forma de linguagem e intimamente dependente da actividade social. é errado pe nsar-se que a contradição é uma unidade simples. inúmeras vezes. produto e produtor da sua história. introduzindo o célebre conceito da―determinação em última instância‖ [15] . dela expurgando as marcas idealistas. o historiador de uma ―história real. Engels. uma acumulação . esse muito mais frequente: o de equiparar o marxismo a um economicismo determinista que reduz tudo o resto a um pálido reflex o da base suprema da realidade. já o dissemos. Marx pretende ser. quando à sua época vingavam as descrições pormenorizadas sobre epopeias e feitos heróicos das grandes figuras e dinastias. simultaneamente.. profana‖. a constante referência à circunstância de o homem ser. e os filó sofos reinavam no vazio das ―grandes ideias‖. condicionando a percepção e a interpretação da realidade.) por consequência. o carácter activo da existência humana. Não é de admirar. Mas não podemos deixar de criticar um outro reducionismo. Marx deixa intacto o sentido da dialéctica em si. é tão verdade serem as circunstâncias a fazerem os homens como a afirmação contrária‖ [16] .

em Marx.. em muito influenciado pelas circunstâncias históricas da sua época (que lhe exigiam uma retórica de mobilização rápida e eficaz das classes trabalhadoras). ao ser desta forma interpretado. coaduna-se o seu núcleo-duro com esta ―releitura‖? Dito por outras palavras. Não existe. Para este autor. Mas. a dialéctica Capital/Trabalho não se apresenta como um esquema simples e unidireccional. já que tal seria equivalente ao ―princípio espiritual eterno‖ presente na dialéctica hegeliana que Marx tão veementemente criticou. por conseguinte.) e a situação histórica interna e externa (esta última cada vez mais importante em contextos de mundialização). nomeadamente — e aqui Althusser mostra a sua preocupação com a importância das situações conjunturais — as configurações da Superestrutura (Estado. A recusa dos princípios redutores é essencial na sua obra. etc. por conseguinte. para a complexidade das relações recíprocas entre estruturas sociais e formas de pensamento.. Assim. A sua análise reenvia-nos.) do económico e do político desaparece em benefício de uma nova concepção da relação das instâncias determinantes no complexo estrutura-superestrutura que constitui a essência de qualquer formação social (. em sentidos opostos [17] . movimentos políticos organizados. apesar do pensamento marxiano ser ele próprio complexo e contraditório.de ―circunstâncias‖ ou ―contradições‖.) de uma parte a determinação em última instância pelo modo de produção (económico). não encontraremos mais facilmente Althusser do que o próprio Marx? O debate vem já dos anos sessenta e seria descabido desenvolvê-lo aqui. . de outra parte a autonomia relativa das superestruturas e a sua eficácia específica‖ [19] . sendo ―sempre especificada pelas formas e as circunstâncias históricas concretas nas quais se exer ce‖ [18] . constantemente... algumas de cariz―radicalmente heterogéneo‖ e actuando. Impossível conceber um modelo economicista ou tecnologicista. recusando qualquer tipo de determinismo unidireccional e aproximando-se. sobredeterminação é o conceito que melhor exprime a complexidade da dialéctica marxista. enquanto justificação ideológica de um particular modo de produção. de um modelo circular de influências recíprocas: ―Em Marx a identidade tácita (fenómeno — essência — verdade. uma dialéctica económica em sentido puro. ideologia. religião. bem como a crítica mordaz à economia política e à abstracção e desumanização patentes no seu conceito de homo oeconomicus.

de acordo com a qual a passagem de um tipo de solidariedade mecânica (baseada na submissão das consciências individuais a um ―tipo psíquico comum de sociedade‖) à solidariedade orgânica (assente na especialização das tarefas. Como refere José Machado Pais. por conseguinte. aspecto essencial para o materialismo histórico [20] . ―Durkheim adopta o lema escolástico individuum est ineffabile. Aliás. o que requer uma coordenação que os transcenda e que parta de interesses comuns. à mesma finalidade. isto é. existem algumas similitudes entre o pensamento de Durkheim e o pensamento marxiano. A consciência colectiva existe sempre. nas suas ideias ou na sua consciência. devendo ser considerados como produtos impessoais. superiormente formado acima das mentes individuais. A consciência colectiva. Nesta linha. na complementaridade entre indivíduos mutuamente dependentes) não implica um enfraquecimento da coesão social. do que é individual não pode falar-se‖ [22] . as ideias e os sentimentos são irredutíveis aos indivíduos. Ambos reiteram o princípio da não consciência e do primado das relações sociais. pois. De facto. isto é. é por Durkheim considerada como um ―composto‖. a chave explicativa da actividade social. Ambos os tipos de solidariedade respondem. jamais depende dos estados de consciência subjectivos. nem tão-pouco o desaparecimento da consciência colectiva. Ao ter vida própria. em qualquer estado societal. É célebre a tese de Durkheim sobre a divisão social do trabalho [23] . apesar do menosprezo por parte do primeiro quanto à constituição de uma sociedade dividida em classes. seguindo a evolução das suas próprias leis e assumindo um carácter universal.1. tanto Durkheim como Marx recusam a ideia de que se possa encontrar no indivíduo. os indivíduos são tidos como tendencialmente egoístas. aliás. colocando uma ênfase especial na sua partilha através dos processos de integração social e de formação de uma consciência colectiva.2. Desta forma. ainda que por vias opostas: . procurando na sociedade e nas relações sociais os factores de explicação da conduta humana [21] . Émile Durkheim e a tendência para a reificação da sociedade Ao contrário do que uma visão superficial possa sugerir. socialmente construídos. assegurando o objectivo primordial de manutenção da coesão social. na diferenciação dos papéis sociais e. Durkheim considera que as representações e as significações são socialmente construídas.

Exteriores porque anteriores. Todas as categorias do pensamento são construções sociais. tal como em Marx. De qualquer forma. este ponto não se afigura totalmente claro. não podemos apressadamente . ao falar da exterioridade e do constrangimento que os fenómenos sociais (incluindo as ideias e as representações) exercem sobre o indivíduo. resultado de um permanente processo de aprendizagem e de interiorização de uma mo ral superior através de processos educativos. que devemos conceber. No entanto. como já mencionámos. está intimamente ligado aos princípios morais da ética cristã. encontramos no autor francês uma clara afirmação da dependência das ideias. Aliás. é a natureza da sociedade. Para Durkheim. Assim. A sociedade assumirá sempre. Desta forma. e não a dos particulares. existe aqui a margem de ambiguidade suficiente para que se possa falar de um idealismo não desejado no pensamento durkheimiano – as ideias e as representações antes do indivíduo. Essa mesma ambiguidade persiste quando analisamos a correspondência entre os fenómenos culturais e os processos societais. preexistindo-lhe. ao mesmo tempo. se é verdadeira a constatação de um declínio da religião nas sociedades contemporâneas (fenómeno extremamente ligado ao enfraquecimento da solidariedade mecânica).a reafirmação da ordem social e moral. Os símbolos com que ela se pensa mudam de acordo com o que ela é‖ [26] . é precisamente por esse mesmo facto (a anterioridade) que podem ser considerados exteriores ao indivíduo. representações e fenómenos mentais face aos processos sociais que estão na sua génese: ―Para compreender a maneira como a sociedade se representa a si própria e ao mundo que a rodeia. um cunho sagrado. o ―culto do indivíduo‖ em torno do qual giram as modernas sociedades. perante os indivíduos. apesar do reconhecimento da existência provisória de um ―hiato moral‖. uma vez que Durkheim. Assim. e como refere Giddens. não é menos verdade que outros ―substitutos funcionais‖ se institucionalizarão [24] . refere. ―a análise funcional de um fenómeno social implica o estabelecimento de uma correspondência entre o social e as ideias colectivas‖ [25] . segundo o autor. o autor rejeita as teses filosóficas que defendem o apriorismo dos conceitos e ideias. Aliás. os factos sociais são exteriores ao indivíduo exercendo sobre ele um poder coercitivo. que eles são-lhe. Desta forma. anteriores. sendo de alguma forma o resultado da morfologia institucional de uma dada sociedade. o que exige a refundação de rituais e símbolos. Apesar de os primeiros estarem dependentes da evolução dos segundos.

e mesmo considerando uma tendência fixista da ordem social (já que todas as categorias são produto da sociedade. não quer dizer que as recebamos passivamente e sem as submetermos a modificações. É o próprio que afirma que―a consciência colectiva é (. um sagrado ―que dá sentido à ordem do mundo‖ e que apenas os sociólogos. por isso. num movimento que vai do radical sociologismo a posições consideravelmente mais moderadas. caindo.) algo mais do que um mero epifenómeno da sua base morfológica. detentores de um habitus científico rigorosamente controlado poderão conhecer e explicar. entendida como um Ser com identidade própria). o próprio Durkheim. ao construir uma espécie de ―metafísica da sociedade‖. Apesar de os reduzir frequentemente a uma espécie de robots sem vontade própria nem intencionalidade. Ainda assim. distanciado do senso comum e assente ―na consolidação de corpos doutrináveis‖. é clara em Durkheim a tentação de reificação e mitificação do ―organismo social‖. A ambiguidade continua a existir na própria concepção de actor social. a ―categoria por excelência‖. considera que o indivíduo tem um papel importante na génese das ―maneiras colectivas de agir e de pensar‖: ―Pelo facto de as crenças e as práticas sociais nos chegarem do exterior. [28] no que Augusto Santos Silva apelida de―posição espiritualista‖ .afirmar a existência de um ―materialismo mecânico‖ em Durkheim.. alimentando uma vez mais equívocos e incertezas. descobrindo e formulando as leis do seu funcionamento [30] . por isso mesmo. O conceito de totalidade é. esotérico. resultando da interdependência de instituições e agrupamentos. Ao . em ―formas elementares de religiosidade (dogmática)‖ [31] . Esta ―crença‖ numa realidade superior leva Machado Pais a falar num sentimento desagrado patente na teoria durkheimiana. no ―culto prioritário de «cortes epistemológicos»‖. Assim. assumindo ―indubitavelmente uma concepção holística e sistémica‖ e―situando-se numa corrente de pensamento sociológico vulgarmente designada por estrutural-funcional‖ [29] . Conhecimento que se torna.. ocasiões existem em que as motivações pessoais dos actores adquirem um papel relevante. tal como a consciência individual é algo mais do que uma simples eflorescência do sistema nervoso‖ [27] . Durkheim aceita a evolução social. considerando esta como uma entidade ontologicamente superior ao indivíduo e irredutível à sua soma. De qualquer forma. a sociedade está em permanente devir. para este autor. Além do mais.

No entanto. não interferisse no próprio processo de observação. o racional e o irracional. então há que levar tal raciocínio até às suas últimas consequências. de facto. o sagrado e o profano. o reconhecimento dos ―limites presentes na ciência. é assim que. entre a ciência e a metafísica. entre sapiens e demens‖ [33] . há que contextualizar a produção teórica durkheimiana no jogo de forças dos subcampos académico e científico de início do século. Por outras palavras. a sua moral. com o seu quadro de representações. no sentido de obediência à integração na realidade social colectiva. Importa. ainda. sem margem para desvios subjectivistas ou tentações de ecletismo. como um campo limitado de possíveis. convenientemente delimitada da psicologia.pensarmos as instituições colectivas. a clarificação rigorosa de fronteiras ―entre a natureza e a história. Eis porque cada um de nós cria. em certa medida. referir uma outra limitação do modelo durkheimiano. a liberdade individual está longe de ser aqui negada. todas as representações colectivas (filosofia. Se esta nota de rodapé figurasse no corpo principal do texto. Afinal. noção que muitos autores irão mais tarde desenvolver. coerência e regularidade do tecido social. ao pensarmos o mundo sensível. A atitude ―imperialista‖ de unificar os procedimentos de conhecimento do social é indissociável da necessidade de conferir legitimidade institucional à análise sociológica. como se este. subsiste a ilusão de um conhecimento independente do sujeito que conhece. o normal e o patológico. ao assimilá-las. a sua religião. talvez Durkheim (e com Durkheim a própria abordagem sociológica) não fosse tão frequentemente acusado de um anti-individualismo e de um sociologismo radicais. O que não impede que o campo das variações permitidas seja limitado‖ [32] . da filosofia social e do direito. O que implica. aparecendo mesmo. . Daí a explicitação do método. a obsessão da procura da ordem. individualizamo-las e incutimo-lhes em maior ou menor grau o nosso cunho pessoal. como forma parcial de conhecimento ligada a contextos sociais específicos‖ [34] . Não há conformismo social que não comporte toda uma gama de matizes individuais. nomeadamente. valores e pressupostos. religião e a própria ciência) e crenças tendem a ser funcionais. a suatécnica. Se. a definição dogmática de um caminho. cada um de nós lhe dá um colorido à sua maneira e que sujeitos diferentes se adaptam de um modo diferente a um mesmo m eio físico.

Weber recusa-se a deixar de lado elementos tão importantes para a análise sociológica como a gestualidade. à psicologia e à filosofia. se por um lado exerceu uma notável influência em posteriores modelos teóricos de base não psicologista.) são inteiramente elásticos. Além do mais. a acção social para assim a explicar causalmente no seu desenvolvimento e nos seus efeitos‖ [37] .).. apesar de privilegiar o tipo-ideal da acção racional. que a constituem na sua objectividade relativamente independente‖ [35] . Max Weber e a produção de sentido Ao contrário de Karl Marx e de Émile Durkheim. mais do que os outros autores referidos. Nas palavras de Franco Crespi. Com estas considerações. para o autor a cultura e as formas simbólicas em geral são indissociáveis da própria sociedade. bem como a afirmação da especificidade da conduta humana e da ordem cultural. Uma parte muito importante dos modos de conduta de interesse para a sociologia (... um comportamento cujo sentido se orienta pelo sentido da acção dos outros. face. em especial aqueles que se situam no que Giddens chama de ―consciência prática‖. normas.Em suma. nas formas culturais (representações. Concepção que.) faz-se na fronteira entre ambos‖ [38] . encontramos em Max Weber uma clara subordinação do objecto face ao sujeito. tanto mais ousada quanto nela haveria a tentação de afirmação da análise sociológica. modelos de comportamento. Por acção entende-se toda a conduta a que o sujeito confere um sentido subjectivo. pensa. por acção social. a análise da obra de Weber afigura-se de uma importância acrescida se pensarmos que ela exerce. designadamente. 1. ao considerar que ―os limites entre uma acção com sentido e um modo de conduta simplesmente reactivo (. Weber faz questão de não ignorar importantes territórios da análise sociológica. a expressão . uma importância decisiva na teoria social contemporânea.3. encontra-se desde logo na definição da própria disciplina: ―uma ciência que pretende entender.. etc. de facto. através da interpretação. ―quando Durkheim se refere a esta última. contribuiu. Aliás. por outro lado. A grande revolução conceptual de Weber. para o esquecimento da força expressiva do agir social e da importância dos processos de interacção social e de reconhecimento do e pelo outro na construção de identidade [36] .

entendida como―meio de conhecimento da essência geral das experiências‖ [42] . O seu comportamento é orientado por significados subjectivos. incluindo tanto os artefactos materiais. sendo esta considerada como a compreensão intelectual de uma ―conexão de sentido‖. como o ―Estado‖. Como menciona Frank Parkin. As ―ciências da cultura‖. na quais se incluem tanto a sociologia como a história (e Weber sempre demonstrou um particular interesse pela sociologia histórica) devem preocupar-se com a singularidade histórica. A oposição a Durkheim não poderia ser mais clara. Assim. em suma. ao considerar que o indivíduo e as suas acções devem constituir o objecto por excelência da sociologia (individualismo metodológico). por conseguinte. os actores sociais têm as suas próprias ideias e explicações acerca da razão pela qual se comportam de determinado modo e essas ideias e essas explicações são uma parte indispensável de uma análise compreensiva das condutas‖ [39] . Como refere Peter Hamilton. obras da actividade humana. na recusa da lógica unilateral do determinismo sociologista. opera-se uma nítida ruptura face às ciências naturais. ―ao contrário das moléculas e dos planetas. sendo heuristicamente ricas as pistas e as ilações que se podem retirar para . na natureza particular de um determinado fenómeno. o objecto da sociologia é o mundo cultural numa acepção ampla. Desta forma. e até mesmo os rituais. opera através da interpretação. A metodologia weberiana. em clara ruptura com a tradição positivista. a ―família‖ ou a ―Igreja‖) produto da ―actuação social de singulares‖. O facto histórico consiste. os afectos e as modalidades ―irracionais‖ da acção.corporal. sendo as estruturas (e restantes ent idades colectivas. as pessoas têm motivos para as suas acções. contra todas as tentativas de reificação da sociedade e da estrutura social: ―acção como orientação significativamente compreensível da própria conduta só existe para nós como conduta de uma ou várias pessoas individuais‖ [40] . se a compreensão visa a análise do sentido implicado numa acção. o pensamento weberiano caracteriza-se por uma ―falta de fé na possibilidade de alguma vez obter respostas irrevogáveis para as questões sociológicas‖ [41] . Weber afirma-se. E só o indivíduo tem competência para produzir uma acção significativa. Por outro lado. todos os comportamentos não verbais e. Mais ainda. as aparentemente insignificantes condutas quotidianas. como os comportamentos e as acções orientados para a prossecução de determinados fins. afinal.

Frank Parkin faz notar. a compreensão da acção humana preocupa-se com os objectos culturais. singular ou típica em relação a outros meios sociais e a outras épocas. a distinção e a complementaridade que Weber estabelece entre ―a compreensão actual do sentido visado de um acto (actuelles Verstehen)‖ e a ―compreensão explicativa (erklarendes Verstehen)‖ [46] . assim. isto é. no fundo. como as versões que ignoram as vivências. ―um quadro de conhecimento alargado‖. preocupando-se sempre em inseri-lo no conjunto da envolvente societal. Weber considera. de descobrir o que num dado meio social e numa dada época se reveste de uma natureza particular. Enquanto que a primeira se pode ilustrar pela ―capacidade que temos de compreender que alguém está irritado pela simples leitura da sua expressão facial‖. as experiências e as emoções individuais. Weber para um reducionismo histórico‖ [44] . num segundo momento. orientados por valores e motivações (factor distintivo das ―ciências da cultura‖ face às ―ciências da natureza‖). Esta ligação do individualismo metodológico com a análise histórica leva A. a segunda requer a inclusão num contexto cultural mais vasto. será igualmente lícito falar de uma tendência em M.outras situações ou individualidades históricas [43] . interpretar a experiência individual dos valores e das normas dominantes actualizadas pelo criador dessas cartas. Trata-se. Em síntese. a esse respeito. mas sempre enquadrados numa determinada individualidade histórica. Durkheim de uma tendência para um reducionismo naturalista. bem como o―conjunto da vida cultural do mundo «envolvente»‖ [45] para. ser fundamental conhecer as condições gerais nas quais essas cartas foram escritas. Este método pretende.ª Stein. Teixeira Fernandes a considerar que ―se é lícito falar em E. encontra-se sempre ligada a um universo pleno de sentido e subjectivamente vivido e elaborado. num certo momento histórico‖ [48] . num primeiro momento. Essa constelação. Assim. não o esqueçamos. É essa . Weber rejeita tanta as modalidades de análise sociológica que consideram o indivíduo de forma a-histórica e descontextualizada. de uma assentada. mediante a intuição patente no acto observacional. Ilustrando este raciocínio com a análise das cartas de Goethe à Sr. dentro do qual se torna possível compreender o fenómeno social [47] . captar a ―constelação única de características que definem a originalidade de cada conduta ou instituição social.

são as mais vazias de conteúdo e as mais distanciadas da realidade. as ciências sociais – e a sociologia em particular – são formas de conhecimento duplamente interpretativo. a sua distância face a Marx. em bruto. Assim. Pelo mesmo .. ou. nas palavras de Parkin. aos interesses e às ―atitudes significativas‖ do cientista. valendo como factos sociais. Nas palavras do autor. como de resto faz recorrentemente.. A análise complexifica-se quando o autor se pretende demarcar da intenção nomotética da ciência experimental "positivista". Daí. a afirmação muito clara da dependência da ciência face a ―determinadas perspectivas especiais e parciais‖ que seleccionam as manifestações sociais que são objecto de investigação. mas sim do facto de sermos seres culturais dotados da capacidade e da vontade de tomar uma atitude deliberada perante o mundo e de lhe atribuir significação‖ [49] .) A pressuposição transcendental de toda a ciência cultural não repousa sobre a nossa opinião acerca do valorde uma certa cultura ou da «cultura» em geral. segmento a que os seres humanos conferem sentido e significação (.) segmento finito de entre a infinitude sem sentido do devir do mundo. que nos leva a salientar a seguinte definição de cultura: ―(. ao quadro cultural de referência. uma ―actividade de segundo nível‖.. ―uma parte ínfima da realidade individual adquire novo aspecto de cada vez que é observada por acção do nosso interesse condicionado por tais ideias de valor‖ [53] . embora nem sempre de forma explícita. É a vez de Weber acentuar. por sua vez. designadamente à sua noção de ideologia como mistificação. ilusão ou falsa consciência. De facto. no seu entender. Por conseguinte. todo o trabalho científico parte de uma orientação subjectiva. os significados subjectivos da acção são. a qual. ideais ―que são tão sagrados para os outros como os nossos o são para nós‖ [52] . Essa parte da realidade é a que se encontra ligada. Mas a demarcação vale também em relação a Durkheim. tal como são‖ [50] . já que ―se reporta a teorias e concepções dos actores sociais e não aos comportamentos desses actores. está intimamente ligada ao ―espírito‖ de uma determinada época histórica. Weber critica as leis amplas e abstractas que. por si mesmos. em especial no que se refere à sua exigência de ruptura face ao senso comum [51] . Desta forma. Deste modo.. precisamente. Weber defende que qualquer operação científica está impregnada de juízos de valor e de ―concepções do mundo‖.característica típica e exclusivamente humana — a produção de sentido -. ingredientes indispensáveis para a sua própria explicação.

indissociável da constatação. considerando-o como a verdadeira origem da acumulação de capital. Parkin diz mesmo que é injustificada a sua tão divulgada ―reputação antimaterialista‖ [56] . no limite. apon ta no mesmo sentido: ―complexo de relações na realidade histórica. Uma outra questão. Weber coloca a ênfase no espírito do capitalismo. Como alternativa. como a própria ciência. através da acentuação unilateral de certas características. prende -se com o lugar da cultura na determinação dos fenómenos sociais. como acontece quando analisa a emergência do capitalismo. É notório que Weber valoriza a dimensão cultural dos factos históricos. anteriormente referido. enquanto conceitos genéticos que se afastam da realidade empírica para melhor captar a sua ―significação cultural específica‖. Assim. Cada exercício de pesquisa deverá. No entanto. obtendo-se. baseado no raciocínio económico legitimado pela ética protestante do trabalho. como acentua Frank Parkin. à maior parte dos seus escritos. fenómeno que se insere no movimento mais geral de alargamento da dominação racional e legal. provavelmente a mais polémica na obra de Weber e transversal. mas parece-nos errado considerar essa componente como sendo exclusiva. tipos-ideais totalmente diferentes apesar de se basearem no mesmo fenómeno. defensável‖ [55] . do ―desencantamento do mundo‖. Contudo. no mínimo.motivo. No entanto. ―existem ideais-tipo tanto de bordéis como de religiões‖ [54] . congregadas num todo conceptual sob o ponto de vista do seu significado cultural‖ [57] . aliás. como no mecanicismo materialista de Karl Marx. ao analisar a génese do capitalismo. recusa todas as imputações causa/efeito de cariz unilateral. Desta forma. é possível acentuar unilateralmente determinados critérios. De facto. Daí apontar para o carácter pluralista e probabilista da causalidade. O próprio conceito de individualidade histórica. partindo do tipo-ideal construído. a partir de um ou mais pontos de vista. verificar o seu grau de adequação aos factos concretos. uma vez que o funcionamento do social se . o procedimento deverá ser lógico e jamais normativo – segundo Weber. lúcida mas algo melancólica. presente tanto no monismo sociologista de Durkheim. o conceito é sempre provisório. um capitalismo racional. Weber é muito claro quando defende a pluralidade causal. Weber propõe a construção de tipos-ideais. a ―afirmação de que os tipos-ideais nos dizem menos acerca da realidade social do que acerca dos preconceitos interiores é.

reduz à obediência de regras impessoais e não ao encanto mágico e carismático das sociedades mais antigas. Ainda assim, é de salientar, ao contrário do que afirmam algumas críticas vulgares, que Weber defende a complexidade e a multidimensionalidade dos fenómenos sociais, recusando as perspectivas unilaterais, sejam elas materialistas ou espiritualistas: ―...com ambas se presta um mau serviço à verdade histórica, se forem consideradas como ponto de chegada e não de partida da investigação‖ [58] . Ponto de partida que, já o referimos, é sempre provisório (instituído numa dada singularidade histórica) e jamais uma verdade eterna.

1.4. Breve Balanço. Da análise destes três autores—―uma espécie de trindade secular de sociólogos, deificada onde quer que se ensine sociologia‖ [59] -, constata-se que muitas das críticas que lhes foram dirigidas carecem de fundamento. De facto, a sua obra é complexa e o seu pensamento vai além da habitual vulgata que muitas vezes se insiste em lhes atribuir. Aliás, a sua obra contém em si mesma elementos de superação de certos aspectos mais criticados: Marx insiste antes de mais no enraizamento social da actividade humana e luta contra os preconceitos do homemoeconomicus e as leis económicas universais; Durkheim admite a criatividade e a diferença individuais; Weber defende o cruzamento de várias lógicas com efeito causal. O principal problema reside nalguma imprecisão conceptual que os caracteriza, marcada por avanços e recuos, afirmações e rectificações. Por outro lado, o único autor a desenvolver uma teoria sistemática sobre a actividade cultural, conferindo-lhe um grau assinalável de autonomia, é Max Weber. Ainda assim, e tal como os outros dois autores, a sua teoria, enquanto grande edifício conceptual, suscita um vasto leque de dificuldades de operacionalização e de conversão para uma linguagem propícia à pesquisa empírica. No entanto, as principais questões que levantam continuam a ser as grandes inquietações da análise sociológica: sujeito versus objecto, idealismo versus materialismo, consenso versusconflito... finalismo versus mecanicismo,

Estudar criticamente as suas obras não é, por isso, um exercício de procura da arqueologia da escrita sociológica mas sim, pelo contrário, mergulhar plenamente na actualidade do debate sociológico, encontrando pontes de contacto com a contemporaneidade e procurando incentivo tanto na exemplaridade de certas análises, como nas formas e métodos ora complementares, ora conflituais de abordagem da realidade. Sem descurar o que, em tais propostas, existe de erróneo, contraditório, precipitado ou simplesmente desadequado. Nas palavras de Peter Hamilton: ―A sociologia tem, pelo menos, a pretensão de ser uma ciência – e nenhuma ciência pode permitir-se considerar o trabalho dos seus principais pensadores como inviolável e imune a críticas. Só explorando os erros dos seus antepassados uma ciência pode progredir‖ [60] . 2. Tendências actuais da sociologia no estudo da cultura. 2.1. A análise da vida quotidiana: fenomenologia social, etnometodologia e interaccionismo simbólico. Uma das principais correntes actuais da sociologia, ramificada em várias escolas de pensamento, encontra a sua origem na análise compreensiva das sociedades, herdando os ensinamentos de Husserl (pela banda da fenomenologia), de Heidegger e Gadamer (pela banda da hermenêutica), de Dilthey, Rickert, Simmel e, principalmente, de Weber. A actividade humana entendida como acção consciente, dotada de sentido e subjectivamente orientada, é o grande traço de união entre a fenomenologia social, a etnometodologia e o interaccionismo simbólico. Desta forma, a realidade social é encarada como o resultado da actividade dos sujeitos, enquanto construção social que resulta da sua contínua produção do mundo, imbuída de intencionalidade comunicativa, base das relações intersubjectivas. Segundo Franco Crespi, estas teorias proporcionam um melhor conhecimento da génese da cultura e da sua dinâmica intrínseca. No que se refere à fenomenologia social, impõe-se uma referência à obra de Alfred Schutz, enquanto busca pioneira dos fundamentos da vida quotidiana e da razão prática. Para Schutz, ―o mundo da vida quotidiana é a região da realidade na qual o homem se empenha e que pode modificar qua ndo nela

opera‖ [61] . Considerando que a realidade se encontra dividida em províncias ou regiões finitas de sentido (a ciência, o sonho, a arte, a vida quotidiana, etc.), Schutz preocupa-se especialmente com o que apelida de realidade primeira: o mundo da vida quotidiana, universo no qual agimos e em relação ao qual adoptamos uma atitude ―natural‖ de confiança. Universo aproblemático até demonstração em contrário (―until further notice‖), é um mundo fundamentalmente igual para mim e para os outros, e que permite, por isso, a compreensão mútua, o contacto intersubjectivo e a troca de posições e de perspectivas através de uma série de realidades dadas como adquiridas. Mundo comum, interpretado, apreendido e construído de acordo com um ―stock‖ prévio de experiências e vivências, mas impondo limites à actuação dos indivíduos, já que as suas acções, apesar de subjectivamente orientadas, criam objectos que exercem constrangimentos à livre acção dos outros e vice-versa. O stock de conhecimento, funciona como guião de referência para a acção prática, isto é, pré-reflexiva, através da qual damos um sentido à realidade envolvente: ―O mundo da vida, compreendido na sua totalidade como um mundo natural e social, é a arena, bem como a entidade, que fixa os limites da minha e da nossa acção recíproca‖ [62] . De facto, as significações consideradas como adquiridas e partilhadas pelos vários sujeitos no mundo da vida quotidiana impedem uma atitude, que seria insustentável, de permanente questionamento de tudo o que nos rodeia. Os outros aparecem como ―corpos dotados de consciência, homens «como eu»‖ [63] e a realidade apenas se torna problemática quando surge algum acontecimento que não encaixa no meu esquema (―stock‖) de referência. Nós sabemos o que o outro faz e porque o faz, já que existe uma reciprocidade de perspectivas que nos permite prever e antecipar a sua acção. A consciência reflexiva actua sempre a posteriori, quando penso nas acções em que estive envolvido e surge a necessidade de as tornar inteligíveis. A forma que possuímos para aceder ao comportamento e à motivação dos outros liga-se, indissociavelmente, às suas performances corporais. É então q ue todo um conjunto de condutas, rituais e linguagens, inclusivamente não -verbais, passam a ser considerados, não só como objectos legítimos da análise sociológica, mas também como sinais de orientação nas rotinas quotidianas. É à volta desse mundo da vida, assente no corpo [64] , que gira toda a teoria de Schutz, negligenciando o fascínio de muitos pensadores pelas magníficas

construções do conhecimento ―culto‖ ou erudito, afinal uma ―província finita de realidade‖. Schutz e a fenomenologia social ocupam-se de tudo o que seja conhecimento socialmente produzido e partilhado, centrando a sua atenção nos ―pormenores‖ supostamente insignificantes e anódinos da vida de todos os dias. Nesta linha, há uma clara aproximação aos esquemas cognitivos e mentais do senso comum, às realidades tidas como adquiridas (taken-for-granted), ao pensamento que não se pensa. Para estes autores, ao contrário dos racio nalistas, não há qualquer necessidade de romper com o senso comum para iniciar um processo de construção científica; pelo contrário, o senso comum é o objecto por excelência da análise sociológica e esta deve-se adequar aos seus esquemas de referência. Em termos fenomenológicos, não é relevante que as interpretações e construções do senso comum sejam erróneas e mistificadoras; o que interessa é o seu papel na percepção e edificação da realidade quotidiana, a realidade primeira e tida como evidente e ordenada, ainda que assim o não seja. Mesmo as experiências que transcendem esta realidade primeira (a experiência científica, estética, religiosa, etc.) acabam por ser apropriadas de acordo com a linguagem da vida ―vulgar‖. Tal como no teatro, quando desce o pan o, assim a consciência regressa à realidade da vida quotidiana, transformando as outras experiências em intervalos mais ou menos curtos: ―A realidade dominante envolve-as por todos os lados (...) e a consciência sempre retorna à realidade dominante como se voltasse de uma excursão‖ [65] . Durante o decorrer de um dia, viajamos ―choques‖ cognitivos‖ por
[66]

várias

províncias do

finitas

de

significado, de

experimentando ou ―estilos

que

resultam

confronto

sentidos

diferentes (sonhar, acordar, estar activo, ler um livro ou ouv ir

música, etc.). Como refere Giddens, apesar de ocorrerem com frequência, estes ―choques‖ fazem parte das rotinas dos agentes, já que estes estão habituados a transitar, de forma habitualmente serena, entre diferentes tipos de linguagem [67] . No mundo da vida quotidiana, também ela uma província finita de sentido, a actividade, o estar-se activo e em vigília é a principal característica do estilo cognitivo. Desta forma, a acção humana empenhada traduz -se por actos performativos (―acts of performing‖) que transformam a realidade. As minhas performances permitem-me aceder ao mundo da vida, alterando-o e apresentando-o aos outros com o poder de uma facticidade externa e objectiva, que limita tanto as suas acções como as deles limitam as minhas. De facto, o comportamento intersubjectivo decifra-se através de determinadas

manifestações exteriores que funcionam como signos e sistemas de si gnos que objectivam, através da comunicação, significados inicialmente subjectivos. Estes, da parte de quem age, traduzem-se por esquemas expressivos que permitem ao interlocutor e/ou ao observador, accionar os seus esquemas interpretativos, baseados em codificações de experiências anteriores. Desta forma, reduz-se a complexidade da realidade social e permite-se, apesar da intrínseca indeterminação do agir humano, uma certa previsibilidade recíproca dos comportamentos [68] . A cultura, nesta perspectiva, não é apenas constituída pelas obras que transcendem o ―aqui e agora‖ da realidade quotidiana. As grandes obras da experiência estética, com os seus imponentes nomes e tradições são apenas uma ―quasi-realidade‖, uma ―província finita de sentido‖, entre muitas outras. Não existe, pois, nenhuma justificação para lhe conferirmos uma superioridade ontológica. A cultura não é concebida apenas em termos de objectos ou artefactos, ela é uma ―cultura-acção‖ [69] , eminentemente relacional e intersubjectiva, constantemente actualizada e instantaneizada nas nossas actuações quotidianas. Assim, e em síntese, a abordagem fenomenológica assenta, não tanto na expressão de um mundo interior, mas, antes de mais, no carácter intencional da acção, mediado pela linguagem enquanto ―canal da actividade social prática diária‖ [70] . Os actos comunicativos e a constante produção de significado constituem, por isso, o fazer qu otidiano da sociedade, entendida como ―uma realização engenhosa dos actores‖ [71] . A etnometodologia, neologismo criado por Harold Garfinkel [72] ,

preocupa-se, por seu lado, com os implícitos subjacentes à acção quotidiana, partindo do princípio, igualmente presente na fenomenologia social, de que os agentes sociais apreendem e constroem a realidade tendo em vista objectivos essencialmente práticos:―Utilizo o termo «etnometodologia» para me referir à investigação das propriedades outras racionais acções das expressões de indicalidade (indexicality) e práticas‖ [73] . Utilizando

situações quasi-experimentais, Garfinkel consegue trazer ao de cima os significados implícitos da acção prática, significados de natureza pré -reflexiva e não exprimíveis discursivamente. Agindo sempre na fronteira do normal e do desviante, este autor tem como objectivo resgatar os tais significados taken-for-granted que os actores utilizam nas rotinas diárias;

significados que, apesar de surgirem como ―naturais‖ (e por isso não explícitos), provam a centralidade da componente cultural da natureza humana, moldada por um poderoso, lento e permanente processo de sociali zação e de adequação às normas e padrões dominantes; socialização que consiste, não tanto na sujeição às normas, mas na sua interpretação — interpretação que, por sua vez, confere um sentido ao mundo da vida. Ora, através dos processos constitutivos dessas interpretações, o sociólogo consegue aceder aos métodos socialmente contextualizados de construção da realidade. Para isso, provoca transgressões à situação estabelecida e observa a reacção ao imprevisto por parte dos actores sociais quando sentem como ―estranhos‖ os quadros mais habituais. Desta forma, ao discutirem-se as regras usualmente mais pacíficas, compreende-se o carácter de permanente negociação a que estão submetidas. A melhor prova da centralidade das convenções (uma convenção, por natureza, é uma marca cultural) reside no facto de as pessoas perderem a orientação cognitiva quando as aparentemente insignificantes regras do dia-a-dia são questionadas ou violadas. De facto, forma-se uma sensação desconcertante quando alter não corresponde ao comportamento esperado por ego. Por momentos, e antes mesma do ruído ser assimilado e porventura compreendido, é como se um universo inteiro de regras e convenções subjacentes à mais anódina interacção desmoronasse, e com ele arrastasse os actores sociais envolvidos. A situação resvala sempre para um contexto de anomia quando não existe uma correspondência entre o acontecimento real e o acontecimento esperado: ―o acontecimento é anómico quando não tem um sentido nos termos das regras do jogo (...) o delinquente é posto fora do jogo: o que lhe é censurado não é ter infringido as regras, mas ter -se comportado de um modo tal que as regras comummente aceites não permitem interpretar os acontecimentos surgidos, e regular a sua conduta de acordo com essa interpretação‖ [74] . De facto, são essas regras ou convenções que organizam as situações de interacção, tornando-as congruentes com as expectativas recíprocas que estão na base da previsibilidade do comportamento humano. Nestas alturas, quando a ordem convencional é subvertida, o senso comum trai-se, revelando os pressupostos raramente pensados sob os quais repousa a sua actividade. O senso comum, aliás, pode ser definido como o pensamento em acção nas rotinas diárias; um pensamento que raramente

reflecte nos seus alicerces mais profundos porque está em situação de permanente performance. Uma vez mais, a análise científica não opera pela definição de um sistema de relações objectivas que enquadram a actividade humana; pelo contrário, a metodologia científica deve partir da compreensão empática, a partir do interior (―from within‖). Desta forma, aceita-se como metodologicamente possível a identificação empática entre observador e observado. As técnicas de observação são, por isso, utilizadas em situação de exclusividade, de forma a poder captar tanto a linguagem verbal, como a não-verbal, tanto a palavra como o gesto, tanto o discurso como o corpo. Aliás, o ―observador social deve, de vez em quando, fazer por usar uma linguagem que seja coerente com a dos sujeitos observados, evitando sobrepor à realidade específica analisada categorias abstractas, elaboradas independentemente do contexto social que se pretende estudar‖ [75] . Assim, respeita-se o princípio da indicalidade, que impede generalizações abusivas, já que to das as explicações são contigentes e devem ser interpretadas de acordo com o contexto específico em que foram emitidas [76] . As estruturas são aqui reduzidas aos processos de atribuição de sentido por parte dos actores sociais, enquanto mero produto das suas interacções e da sua percepção e interpretação da vida social: ―fenómenos estruturais como o rendimento, a distribuição pelas profissões, a organização familiar, as classes sociais e as propriedades estatísticas da linguagem, são produtos que emergem de uma grande quantidade de comunicações, percepções, juízos e outras «tarefas acomodativas» pelas quais as pessoas concertadament e encontram a partir do interior, os meios sociais com os quais a sociedade as confronta, mantém, restaura e altera as estruturas sociais que são os produtos amalgamados do curso temporalmente prolongado das acções dirigidas para esses meios sociais‖ [77] . De facto, só o agir pode ser considerado como relativamente autónomo (ele depende também dos contextos em que se exerce) e é nel e, ou melhor, nas suas interpretações, que assenta a ordem social que, como já referimos, é instável e sujeita a subversões constantes, o que nos afasta de todo e qualquer modelo estático das relações entre cultura e estrutura social.

Finalmente, e para completar este breve olhar sobre as correntes que se situam do lado da produção ritualizada e quotidiana da sociedade e da cultura, importa referir o papel do interaccionismo simbólico e, em particular, de Erving Goffman. Estudando a interacção social como representação, Goffman suscitou sobre si dúvidas acerca da legitimidade científica da sua obra, dúvidas essas que devem ser compreendidas no âmbito das lutas pela consagração no interior do campo científico e do sub-campo da sociologia académica americana. Utilizando um vocabulário pleno de analogias dramatúrgicas, não se coibindo de recorrer à ―pequena história‖ e às suas fontes, ilustrando os seus conceitos com anedotas ou excertos de romances, Goffman não poderia ter deixado de suscitar reacções de repulsa e de desconfiança. No entanto, ele é o primeiro a afirmar o carácter integrado da sua pesquisa, demonstrando mesmo a convicção de que constitui uma nova perspectiva de conjunto sobre a vida social, ―um quadro de referência que poderá ser aplicado a qualquer configuração social concreta‖ [78] . O cerne da sua análise situa-se no estudo dos papéis sociais, enquanto quadros no interior dos quais se exprimem e se individualizam as personalidades individuais dos actores: ―Considerarei o modo como o indivíduo em situações de trabalho habituais se apresenta a si próprio e à sua actividade perante os outros, as maneiras como orienta e controla a impressão que os outros formam dele, as diferentes coisas que poderá ou não fazer enquanto desempenha perante os outros o seu papel‖ [79] . Existem três entidades fundamentais no estudo do tipo-ideal da interacção social: os dois actores (ou personagens...) em presença e ainda a audiência ou público. Cada actor tem como tarefa a gestão da sua apresentação pública, cabendo à audiência o papel de sancionar ou consagrar essa representação. Como refere Nicolas Herpin, ―o Eu só se substancializa pela mediação do público. Os actores de teatro, por melhor que saibam os seus papéis e por mais vezes que os tenham representado com sucesso têm sempre medo; o que não é mais do que reconhecer obscuramente o peso decisivo de cada público na substancialização do papel apresentado‖ [80] . A projecção de uma dada impressão, e a interpretação dessa impressão, constituem dois momentos fundamentais no processo de interacção. O actor, mesmo em situação de silêncio, não deixa de transmitir uma impressão: ―Os actores podem deixar

A impressão adquire um determinado significado. No entanto. Existem. igualmente. o que Goffman chama de ―portadores‖ ou ―indícios‖ de informação. de forma muito clara. Existe aqui. como por exemplo a relação que se pode estabelecer entre a aparência e o estatuto sócio-económico do actor ou entre determinados comportamentos e os rótulos (labels) ou estereótipos associados ao papel em representação (pense-se. de maneira a que seja possível prever reciprocamente o agir dos intervenientes. no conjunto de rótulos que se associam a um determinado papel desde que ele é representado por uma mulher). mas não podem impedir-se de exprimir alguma coisa‖ [81] . face ao qual os indivíduos formam as suas identidades e incorporam os seus papéis [82] . o autor preocupa -se com as regras que estão na base da definição da situação de interacção. atribuindo um grande relevo à comunicação exercida em consonância com a cena social. É conhecido o seu modelo de análise baseado na consideração da oposição entre a fachada (ou região frontal) e os bastidores (ou região de traseiras). . Já H. é natural que exista uma selecção por parte dos actores antes de escolherem os seus papéis. a interpretação da impressão transmitida não depende apenas da representação. A linguagem. de acordo com a valoração positiva ou negativa que fazem dos rótulos que lhes estão intimamente associados. De igual modo. as condutas. Desta forma. de índole macrossociológica. através do quadro de referências contido na objectivação de significados patente no conceito de outro generalizado. designadamente. o que nos leva necessariamente à análise (ainda que tal não seja explicitamente referido por Goffman) da sua configuração estrutural e da importância do espaço na vida social [84] . variam acentuadamente de uma região para a outra. Assim. factores vincadamente estruturais e. uma ênfase nos processos de comunicação e na mediação exercida pela linguagem. rejeita a utilização de dimensões psicol ógicas e/ou existenciais.de se expressar. Aliás. Mead referia o poder constitutivo da ordem simbólica. o que a remete para o seu carácter eminentemente sim bólico. Goffman admite ir mais longe do que os fenomenólogos e os etnometodólogos. Esta mesma tendência verifica-se quando considera a importância dos factores contextuais nas situações de interacção. mantendo a ordem social [83] . as performances verbais. ao considerar a pertinência da interferência d e certos factores exteriores à situação de interacção. por isso.

Goffman respeita o princípio de que ela ―deve ser procurada nos elementos invocados nos próprios episódios de interacção. No entanto. Do mesmo modo. estabelecido através de processos de transformação dos elementos próprios da ordem estrutural em elementos característicos da ordem da interacção‖ [85] . o actor social está imbuído das regras e convenções dominantes numa dada sociedade (a cultura é o seu ―ambiente‖).2. a célebre afirmação de Goffman. João Arriscado Nunes defende mesmo que Goffman considera a articulação entre a ordem social e a ordem da interacção através de um ―«vínculo fraco» (loose coupling) entre as duas ordens. 2. existe um acordo fundamental entre o interaccionismo simbólico e as análises fenomenológicas e etnometodológicas: o objecto de estudo é o homem na sua vida quotidiana e no incessante trabalho de produção simbólica e cultural. sem com isso retirar ao sujeito o seu papel activo. considerando -as como sistemas sociais auto-suficientes [87] . designadamente nas interpretações que fornece. ao procurar essa articulação. Desta forma. Aliás. por um lado. Se. precisamente. etc. os indícios transmitidos. alterando o quadro de referências de que é portador. para a constatação de que a representação não se identifica necessariamente com o ego. por outro lado ele não cessa de produzir novos horizontes de vida. A sociedade como totalidade: funcionalismo. estruturalismo e . enquanto veículo de significados com a força de símbolos. a comunicação exerce um papel mediador fundamental. é nas próprias situações microssociológicas que devemos procurar as variáveis explicativas das práticas sociais. Pode-se ainda acrescentar que as próprias variações nas situações de interacção remetem inevitavelmente para a presença de mecanismos institucionais. A realidade social não é predeterminada do exterior. de que o ―Eu é um efeito dramático‖ remete-nos. devemos considerar o contexto em que esta ocorre: a região. ao colocarem a sua ênfase na génese e funcionamento da cultura. Para uma correcta análise da situação de interacção. as motivações subjectivas da acção acabam por ser realçadas face às suas determinações objectivas. Assim. ela é sempre o resultado da percepção.Aliás. interpretação e avaliação dos actores [88] . o papel e a constituição do público. sem recorrer a uma mudança de procedimentos de análise ou a uma mudança na escala de análise‖ [86] .

como refere Madureira Pinto. Os actores interiorizam. como refere Giddens. exclusivamente.pós-estruturalismo. valores e regras dominantes existe uma continuidade e não uma ruptura. Preocupando-se. como acontece com Parsons. isto é. ou. O seu prin cipal objectivo é a procura das regularidades. Nos antípodas das correntes anteriormente mencionadas. Se entre o indivíduo e as normas. Esquecendo. em obediência à reprodução do sistema social. fenómeno extremamente ligado a uma desigual repartição do poder no seio dos sistemas sociais. Esta análise holística. estrutura ou sistema. isenta de determinações. recusando uma continuidade entre os dados ―sensíveis‖ das experiências vividas e a lógica da explicação científica. codificados e institucionalizados em papéi s sociais‖ [90] . o funcionalismo apaga o sujeito enquanto agente activo. situam -se os paradigmas que encaram a sociedade e os sistemas simbólicos como totalidades. sendo esta constituída por um conjunto de ―valores. assenta num campo semântico onde pontificam conceitos como o de função. Desta forma. limitando-lhe o campo de acção ao espartilho pré-definido de um determinado leque de papéis sociais. um conjunto de modelos e padrões simbólicos que lhes são exteriores e os condicionam. com a ―integração dos valores comuns‖. mais ou menos passivamente e através de processos de institucionalização. ―o carácter negociado das normas enquanto abertas a «interpretações» conflituais e divergentes‖ [92] . padrões institucionais ou ―invariantes‖ que pautam o fluxo das relações sociais. normas e regras definido a nível supra-individual‖ [89] . de cariz objectivista. Esta concepção de cultura e de sociedade tem óbvios efeitos ideológicos. Mesmo quando se referem aos actores. baseada na ruptura face aos saberes e condutas quotidianas dos actores. Os conflitos e os mecanismos de negociação nos processos de interacção que as correntes subjectivistas anteriormente referidas . Parsons defende a obediência a ―conjuntos específicos de valores. a ―um redutor determinismo idealista‖ [91] que tudo limita aos valores dominantes numa dada sociedade. tais perspectivas acabam por privilegiar a situação. Em vez da análise dos indivíduos em termos da sua livre acção social. inclusivamente a própria divisão do trabalho e o sistema de estratificação social. a tendência dos sistemas sociais será para a evolução homeostásica.

estática. Tal como um organismo. reconhece preferencialmente a totalidade como uma entidade em relação e. . enquanto sistema. acentuando-se. a linguagem desenvolve-se num jogo de diferenças internas. aquilo que constitui o ―lado executivo da linguagem‖. liga -se indissociavelmente à linguística. evita a entropia e tende para a integração. Enquanto forma estrutural. enquanto todo composto por partes interdependentes. é definida como ―sistema de signos cujo único traço essencial é a união dos significados e das imagens acústicas‖ [94] .postulavam são aqui negados pelo próprio peso das sanções que se exercem sobre os comportamentos desviantes. em conflito — mais do que as posições dos elementos constituintes da sociedade. Além disso. controlando-o e uniformizando-o. a produção da cultura deve ser procurada no todo social. e como Giddens refere. a linguagem aparece como um sistema abstracto e idealizado. divorciada das suas instantaneizações. Desta forma. aliás. O estruturalismo. A ―função‖ da cultura. harmoniosa e coerente que precede o estudo das partes é essencial para a compreensão do funcionalismo. De facto. aplicações ou usos concretos. importa definir as suas relações e as leis que as regulam. Mesmo quando existem disfunções. em íntima relação com os restantes sistemas ou subsistemas. Contudo. o sistema assegura a sua unidade através da substituição do elemento que ―funciona mal‖ por um outro que lhe é equivalente [93] . mesmo quando é considerada como um sistema relativamente autónomo (Parsons). e nunca como entidade autónoma ou enquanto produto do sentido que os indivíduos subjectivamente atribuem à sua acção. por isso. A língua. Nesta perspectiva. os sistemas sociais asseguram a sua perpetuação pela satisfação da s necessidades que lhe são inerentes. a primeira. fortemente desligado dos seus contextos. o sistema. assegura uma continuidade face aos pressupostos do funcionalismo. de forma a que uma modificação numa delas acarreta modificações nas restantes e no próprio todo. deve ser separada dos seus múltiplos usos ou desempenhos. o seu carácter sincrónico. a explicitação da concepção saussuriana de língua ( langue) e fala (parole). Assim. O significado deriva. Giddens considera fundamental para a compreensão das limitações do estruturalismo. esgota -se na orientação normativa do agir individual. muitas vezes. A noção de uma totalidade integrada. em particular a de raiz saussuriana. enquanto análise holística.

Consequentemente. O anti -humanismo do estruturalismo não consiste tanto na eliminação do sujeito. o sujeito ocupa sempre o lugar do morto. Por outro lado. pode ser ilustrado com a referência à tese da descentração do sujeito. lugares ou posições possuem um estatuto ontologicamente superior ao dos sujeitos que os ocupam. É por ocupar um dado lugar. fala na sua morte anunciada. Derrida. a acção é tida como uma dimensão secundária. os sítios.apenas. ser enquadrado no interior do sistema. bem como o carácter histórico da experiência social. Desta forma. e porque se trata de uma cadeia ou fila de posições em permanente relação (e mutação). imagina ou sonha de uma forma particular: ―Em suma. De acordo com esta perspectiva. derivando o ―lugar‖ de c ada posição desse jogo ininterrupto. o espaço que no momento seguinte será de outro. os sítios num espaço puramente estrutural são primeiros em relação às coisas e aos seres reais que os vêm ocupar e também em relação aos papéis e aos acontecimentos sempre um pouco imaginários que necessariamente ocupados‖ [96] surgem quando eles são . das diferenças estabelecidas entre essa palavra e as demais. mas sim na sua transformação em sujeito nómada. as palavras não significam os seus object os (tese do carácter arbitrário do signo): a linguagem é forma e não substância. o sentido é sempre o efeito de uma posição. apagamento voluntário que não tem . despossuído que se encontra de autonomia ou existência enquanto entidade singular [95] .) a escrita está agora ligada ao sacrifício da própria vida. esta abordagem topológica e relacional considera os sujeitos como estando numa fila para ocupar diferentes lugares na estrutura. defende a autonomia do texto. enquanto Foucault.. Assim.. Assim. a concepção de estrutura remete para um conjunto de posições em permanente relação. e não pelas suas idiossincrasias. ao analisar o momento histórico da emergência da figura do autor. nega-se uma vez mais a possibilidade de acesso à consciência humana através dos actos ou objectos cultura is. circulante e encarnando de forma impessoal as propriedades associadas aos lugares ou posições. moldando a sua personalidade e o seuhabitus de acordo com as características intrínsecas de cada um desses lugares. O programa teórico do pós-estruturalismo. Desta forma. Qualquer elemento para ser compreendido deve. por seu lado. por exemplo. por isso. Desta forma. e lança a questão «o que importa quem fala?»: ‖(. que um determinado sujeito pensa.

O texto. designadamente na falta de ligação às dimensões estruturais da vida social: as pertenças classistas. impõe-se destacar algumas limitações fundamentais das análises compreensivas de cariz fenomenológico. as hierarquias sociais. embora o que saibam seja de primordial importância para a análise sociológica. Como objecto cultural que é. A obra que tinha o dever de conferir a imortalidade passou a ter o direito de matar. De facto. desvanecendo-se. por isso. a figura do autor. é na perspectiva de um racionalismo relacional (procura do sistema de relações objectivas que enquadram os fenómenos sociais) que poderemos detectar o conjunto da situação (a cena total. mas também de equívoco e de imprevisto. mecanicismo versus finalismo. ao pretender constituir-se como uma sociologia da vida quotidiana. Desta forma. afinal. o texto ultrapassa os contextos de co -presença (o ―aqui e agora‖ da interacção) e implica uma distância que acaba por favorecer o papel do receptor/consumidor. naquilo que ela possui de recorrente e rotineiro. de ser a assassina do seu autor‖ [97] . sujeitando-se às múltiplas interpretações e reconstruções dos seus leitores. Que balanço pode ser feito da comparação entre estes dois pólos da produção teórica sociológica e que traduzem profundas aporias (sujeito versus objecto.de ser representado nos livros. segue o seu próprio curso. Não pode esta. os objectos culturais não permitem. a distribuição assimétrica de recursos. A finitude. no entanto. por si sós. arvorar-se como razão dogmática e omnisciente. já que se cumpre na própria existência do escritor. 2. Os agentes não sabem tudo sobre a sua vida. as perspectivas fenomenológica e hermenêutica [98] esquecem que as possibilidades dessa acção só serão visíveis quando se procurarem as regularidades que objectivamente enquadram o devir social. aceder à intencionalidade da acção humana que os gerou. incompletude e assimetria dos pontos de vista subjectivos. competências e poderes são . etc. Breve balanço e reencaminhamento em direcção à complexidade.3. para utiliz ar a linguagem do interaccionismo). Assim. Podemos referir a principal dessas limitações como sendo uma colossal ingenuidade perante todos os constrangimentos que precedem a acção individual.)? Por um lado. alertam-nos para as limitações das correntes fenomenológicas e interpretativas.

Não é a participação empática que leva à identificação entre observador e observado. não se pensa a si próprio [100] . mantenha a distância suficiente para uma perspectiva mais vasta que lhe permita compreender o conjunto de relações que estruturam uma determinada situação. por isso.frequentemente ignorados ou remetidos ao estatuto de variáveis dependentes (produto da interacção. entre ou dos lay um sociologists: são abordagens mas comunicantes elas. reflectir sobre o irreflectível [101] ? Aliás. da interpretação subjectiva ou da atribuição de sentido). por definição. A finitude dos pontos de vista particulares e a sua relativa incongruência exigem do olhar sociológico que. bem como do carácter altamente assimétrico de distribuição das ―máscaras‖ que permitem a cada indivíduo um conjunto limitado de ―representações‖. tantas vezes apreendida de forma ambígua e equívoca [99] . É uma veleidade descabida e desmentida empiricamente. por mais que se aproxime dos terrenos do fluir social. descontinuismo radical) irremediavelmente distintas. esquecendo -se de tudo o que não está presente no ―palco‖. dando a ver mais do que aquilo que sabem efectivamente dizer e explicar‖ [102] . o interaccionismo simbólico. Do mesmo modo. há. sendo constituído por um conjunto de princípios geradores dos desempenhos quotidianos. estas correntes desempenharam um importante papel na recentragem da investigação sociológica na direcção da vida quotidiana e dos seus ínfimos pormenores e rituais. se o cerne da interacção consiste no transmitir de uma impressão. Não se proclame. se como defende Adriano Duarte Rodrigues. Como pretender. Ainda assim. O olhar sociológico move-se na permanente dialéctica entre a aproximação e o distanciamento. Além do mais. apesar de considerar as regras e convenções que estruturam as situações de interacção social. na hipótese de nos colocarmos na pele do observado. O homem ―vulgar‖ ganhou dignidade . mesmo quando os actores possuem um conhecimento competente da situação. a relação entre os actores e a experiência quotidiana ―se apresenta como uma «douta ignorância». a pretensão de resgatar a totalidade do olhar nativo. como postular a adequação aos esquemas cognitivos do senso comum? O conhecimento prático. defende que a subjectividade é um produto dessas mesmas situações. a adequação da análise científica ao discurso do senso (não comum. importa construir os mecanismos conceptuais que permitam detectar essa décalage.

levam os analistas a . Como refere Karin Knorr-Cetina [103] . De facto. os quadros de referência dos actores. Por outro lado. como um esforçado trabalho de adequação ao mundo intersubjectivo. de alguma forma. essencialmente. bem como permitem como taken-for-granted um vasto conjunto de significados. uma vez mais. como se todos os actores tivessem a mesma possibilidade de seleccionar os papéis que desejam. resultam de um acumular de experiências diversas (através da própria estrutura de papéis sociais) e de um aplicar desse ―stock‖ na decifração de novas situações. lembrando-nos o conceito de heterotopia proposto por Foucault. a abordagem fenomenológica chama-nos a atenção para os múltiplos mundos (Schutz chama-lhes ―províncias finitas de sentido‖) em que decorrem os processos interactivos e para os diferentes pontos de vista implicados. as propostas das correntes micro-sociológicas. que os ―esquemas tratar tipificadores‖ do senso comum. A ―espontaneidade‖ das condutas sociais quotidianas aparece-nos. antagonismos socia is. a elucidação dos mecanismos mais profundos que marcam esta multiplicidade de mundos da experiência (sistemas de estratificação social. distribuição do poder. surgem. como refere Adriano Duarte Rodrigues. os seus pequenos gestos.epistemológica. como uma reacção ao modelo normativo da ordem social. No entanto. por exemplo). A ―viragem cognitiva‖ que estas correntes representam. Aliás. as suas múltiplas formas de comunicar e. Ainda assim. trabalho tanto mais eficaz quanto todo o aparece seu imbuído ―stock‖ de de ―naturalidade‖. questionando os mecanismos de incorporação da ordem dominante através do processo de socialização. além de constituirem um desafio para os paradigmas estabelecidos (frequentemente acomodados à pretensa fidedignidade dos métodos quantitativos ―duros‖). bem como o seu discurso. não podemos correr o risco de reduzir as propostas compreensivas a versões mais ou menos sofisticadas do individualismo metodológico. de reproduzir e construir a realidade envolvente. este realçar da coexistência de mundos díspares e por v ezes incongruentes e conflituais. à luz destas correntes. multiplicidade essa correlativa da complexidade e variedade de papéis sociais que os indivíduos vão ostentando.) fica muito aquém do desejado. as suas posturas corporais. conhecimentos. etc. alerta-nos para a relevância de uma série de elementos que estão ausentes da situação de interacção e que os agentes constantemente evocam (a determinação institucional dos papéis sociais.

e como refere Giddens [105] . Como Giddens uma vez mais refere. apesar do inventário de críticas que lhes podem ser dirigidas. conhecer uma linguagem significa adquirir uma variedade de instrumentos metodológicos envolvidos tanto na produção das próprias expressões como na constituição e reconstituição da vida social nos contextos quotidianos da actividade social‖ [106] . e retomando uma vez mais o exemplo da linguagem. igualmente importante. não se reduzem às versões simplistas do subjectivismo. não se compreende como pode a língua ser desligada dos seus usos concretos e da capacidade criativa dos agentes na sua adaptação mais ou menos versátil a diferentes situações. uma vez que os processos de recolha e tratamento da informação devem ser analisados como resultado de mecanismos de negociação patentes nas situações interaccionais. é sabido que a análise estrutural tende. Por outro lado. faz esquecer as realidades a que ele se pode referir: ―Conhecer uma linguagem significa certamente conhecer regras sintácticas mas. mas sim o cruzamento e reciprocidade de intencionalidades e perspectivas nas situações interaccionais.considerar os processos dinâmicos e frequentemente conflituais de definição. Assim. O seu objecto não é o indivíduo. ao pecarem. interpretação. construção e negociação da ordem estabelecida nas situações interaccionais. com a forma. Como refere Giddens. muitas vezes. Desta forma. registamos como principal limitação o seu exagerado formalismo. ser capaz de descrever aquilo que os outros fazem e vice-versa‖ [104] . a uma análise sincrónica . Nesta linha. como já foi referido. ou seja. pela falta de referência aos mecanismos institucionais que transcendem a interacção. elas próprias socialmente condicionadas [107] . a exagerada preocupação com o significante. na procura de invariantes que determinam o fluir social. acabam por validar a ideia de que a situação contém em si todos os elementos necessários à sua explicação. os estruturalistas perdem a dimensão essencial dos usos sociais da mesma. ao remeter o funcionamento da linguagem para as suas diferenças internas. a análise estrutural levanta sérios problemas metodológicos ao nível da construção dos ―dados‖ científicos. De facto. ―compreender o que se faz apenas é possível através do conhecimento. o que confere precisão à linguagem ―vulgar‖ é o seu ―uso em contexto‖. Por outras palavras. estas teorias da interacção social in situ. No entanto. No que diz respeito às propostas estruturalistas e pós-estruturalistas. enquanto parte integrante das estraté gias dos actores na estruturação da sua vida quotidiana.

algumas das perspectivas claramente complementares das diferentes correntes aqui apresentadas? 2. é um dos seus princípios fundamentais . Algumas teorias de ―síntese‖ [109] . por exemplo). isto é. porventura a mais importante. porque não aceitar controladamente alguma heterodoxia (de resto já plenamente assumida pelo mainstream da análise sociológica) e integrar. momentos representativos de significativos avanços substantivos ou ―saltos‖ dialécticos na produção teórica sobre a constituição da cultura. na sua irredutibilidade à intenção humana. a análise estrutural oferece um quadro de inteligibilidade que. liga -se ao que José Madureira Pinto. Por isso. Por outro lado. por conseguinte. visões de conjunto sobre a génese e o papel do social. postulando a existência de universais que nunca se alteram (atente-se nas propostas teóricas de Lévi-Strauss.e. a discussão recorrente em torno de pares epistemológicos (considerada por Bachelard como um poderoso obstáculo ao progresso científico). em grande parte. ao não se reduzir à consciência dos actores. evita muitos erros próprios de uma confiança cega nos discursos e práticas do senso comum. da luta que se desenrola no campo científico pela posse dos critérios de legitimação que seleccionam e credenciam um corpo disponível de teorias. na nossa opinião. resultantes. Impõe-se. Em vez de insistirmos no ―paradigma da simplificação‖. da sociedade e da relação que estabelecem entre si. de forma tensa e dialéctica. retirar algumas ilações destes combates epistemológicos.4. Uma delas. requerem o complemento de outras propostas teóricas que possibilitem um . por isso. As propostas que em seguida se apresentam constituem. no seguimento de Edgar Morin. a falta de ―audácia científica‖ [110] tem frequentemente como resultado o ―marcar passo‖ teórico. com persistentes aporias que têm inibido avanços substantivos em áreas estratégicas da produção intelectual. A teoria social tem-se vindo a debater. enquanto instrumento metodológico. Talvez por essa mesma razão assumam a arquitectura própria das ―grandes teorias‖. A procura da significação objectiva dos factos sócio-culturais. apelida de ―avanço em direcção à complexidade‖ [108] . No entanto. desde há largas dezenas de anos. não histórica.

1. mas como uma ciência interpretativa à procura do significado‖ [111] . a estruturação da significação e.4. ―desafiando‖ o seu potencial de estímulo a investigações concretas. eminentemente simbólicas. desbotado. De facto. Clifford Geertz e a concepção semiótica de cultura. afinal. Geertz acentua. cheio de elipses. um pouco à semelhança de Paul Ricouer. por um lado. designadamente na procura das conexões de sentido e na rejeição das pretensões nomotéticas das ciências sociais:―Acreditando como Max Weber. Geertz considera as práticas sociais. Geertz é suficientemente claro ao defender. Aliás. por outro. Todavia. emendas suspeitas e comentários tendenciosos‖ [112] . 2.acesso mais directo à linguagem da pesquisa empírica. De facto. num conjunto deexplicações de explicações. assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise. forjadas no permanente fluir das práticas sociais. As explicações de segundo grau. analisamos através das nossas construções outras construções. como textos. e o papel do etnógrafo semelhante ao do crítico literário. Ao defender um conceito semiótico de cultura. ao contrário das correntes hermenêuticas. construções do analista. a sua determinação social. A análise cultural consiste. naturalmente. simultaneamente. Assim. seleccionam e dão coerência às explicações que os agentes fornecem sobre as suas próprias condutas. incoerências. Clifford Geertz aproxima-se inevitavelmente de Max Weber. Geertz defende o carácter construído dos ―dados‖ e a análise cultural como sendo duplamente interpretativa. descobrir a sua base social e a sua validade. portanto. Desta forma. o que exige. o carácter activo dos sujeitos na produção dos significados e o papel não menos activo do investigador no deciframento desses significados. a sua tarefa é a de ―tentar ler (no sentido de «construir uma leitura de») um manuscrito estranho. compete ao investigador seleccionar as estruturas de significação. um trabalho de ruptura/construção de um objecto científico por oposição ao objecto real do senso comum. não como uma ciência experimental em busca de leis. que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu. . por isso. interpretá-las.

o etnógrafo não estuda aldeias mas sim nas aldeias. padrão bruto nem de reduzida/simplificada consiste acontecimentos comportamentais‖ [113] ). No entanto.. de ―generalizar através dos casos‖ mas sim de ―generalizar dentro deles‖ [117] . uma nova perspectiva: a da c ultura como narrativa ou contexto de inteligibilidade. com forças e propósitos em si mesma‖) atribuindo-se-lhe (―alegar um que poder ela causal no autónomo.Desta forma. pelo trabalho da escrita. diferença substancial que nos leva à pedra de toque da análise cultural: a interpretação da especificidade de uma situação ou configuração complexa [116] . apesar de incompleto e parcial. . a parcela de conhecimento possível. precisamente. postula-se igualmente uma dupla negação: a cultura não deve ser nem hipervalorizada/reificada (―. No entanto. De facto.impõe-se que o investigador se situe no espírito do que Geertz apelida de ―interpretação densa da cultura‖. autocontida.) apenas se tem acesso àquela pequena parte dele que os nossos informantes nos podem levar a compreender‖ [114] . por isso. assim. das abordagens estruturalistas e sistémicas.. o que equivale a um estudo minucioso. possui uma qualidade insubstituível: a de salvar. postula-se a demarcação face às correntes hermenêuticas que proclamam a necessidade da adequação/identificação/redução do discurso científico ao discurso dos actores sociais. a sua análise é microscópica (não microssociológica). Do mesmo modo..―fabricação‖ ou ―ficção‖ que resulta do trabalho de interpretação do que vai sendo transmitido nas e pelas práticas sociais. Não se trata. recontando-as de acordo com as suas grelhas e instrumentos conceptuais. Todos os factos. se ―as acções sociais são comentários a respeito de mais do que elas mesmas‖ [115] .imaginar que a cultura é uma realidade «superorgânica». traduz. já que rejeita a ideia do estudo da cultura como sendo a análise dos seus elementos constituintes e das relações internas entre eles. aquilo que vai sendo dito e que. todos os indícios devem ser interpretados e relacionados entre si. Depois da dupla negação. A cultura como narrativa distancia-se. esta análise microscópica deve ser entendida essencialmente como uma análise contextual. A angústia da an álise interpretativa da cultura reside. o trabalho do investigador assemelha-se ao de alguém que ouve histórias. na consciência de que nunca se tem acesso à ―verdade‖ dos discursos:‖(. afinal. Desta forma. Por outro lado. todos os discursos.. extensivo e em profundidade das unidades de análise seleccionadas. Como Geertz refere.

Assim. ―é precisamente o duplo carácter da sociedade em termos de facticidade objectiva e significado subjectivo que torna a realidade «sui generis» [119] . pela sua complexidade. todavia. os . a abordagem destes autores complementa. reivindicando as heranças mais diversas. De facto. É óbvio que existe alguma ingenuidade em supor que o outro nos é inteiramente acessível através dos processos intersubjectivos. o universo da vida quotidiana impõe-se como anterior e exterior aos indivíduos. autêntico instrumento da cultura colectiva. Nas suas próprias palav ras. que asseguram ordenação. Considerando. Adoptando a perspectiva de Schutz sobre os esquemas tipificadores do senso comum. É a linguagem.2. através das redes de relações intersubjectivas [118] . Peter Berger e Thomas Luckmann — a construção social da realidade. coerência e estabilidade à vida quotidiana. Berger e Luckmann sublinham. condicionando-os. em particular as lim itadas referências aos constrangimentos institucionais. em especial da obra de Schutz (com o qual Thomas Luckmann colaborou).4. Partindo embora das premissas da fenomenologia social.2. De facto. Desta forma. conseguem superar algumas das deficiências das perspectivas fenomenológicas. Berger e Luckmann conciliam as perspectivas hermenêuticas de raiz weberiana e as correntes mais ―duras‖ de origem durkheimiana. Enquanto realidade objectivada. os nossos autores não se cansam de sublinhar que o seu objecto é o homem comum e o seu conhecimento pragmático. aquilo que os homens conhecem subjectivamente como realidade exerce sobre eles efeitos objectivos que não devem nem podem ser negligenciados. Por outras palavras. que possibilita a permanente objectivação da expressividade humana. que a realidade da vida quotidiana é a ―realidade predominante‖ ou a ―realidade por excelência‖. permitindo que todos os indícios e sintomas da intencionalidade do outro nos sejam acessíveis de forma ―maciça e irresistível‖. não é menos verdade que os fenómenos que resultam desse conhecimento adquirem existência real e exterior aos agentes. o carácter preexistente desse mundo que se oferece às consciências individuais como um ―mundo de coisas‖ com a sua indesmentível facticidade. tal como Schutz. a obra do autor alemão. se é verdade que toda a realidade é socialmente construída.

As instituições [120] . Por outras palavras. aliás. corporizada nos indivíduos através do processo de socialização e promovendo a obediência a determinadas tipificações (representadas pelos papéis) que favorecem um dado estado de coisas. são ―experimentadas como existindo por cima e além dos indivíduos‖. para além de propiciar a localização dos indivíduos numa determina sociedade. desta forma. existe uma permanente tensão entre a tendência para obedecer à ordem institucionalmente estabelecida e a contra-tendência para lhe desobedecer. a proposta teórica destes autores consiste na explicitação de três momentos fundamentais [124] : . conceito herdado de Schtuz. não esquece os constrangimentos so ciais. fundados em sistemas de relações objectivas que contextualizam a acção/interacção social escapam largamente à consciência No entanto. ricas potencialidades heurísticas. se preferirmos. a reprodução social. Esta perspectiva contém. sem no entanto os considerar como uma entidade alienada da actividade humana e com um estatuto ontológico superior ou à parte [123] . ao falarem de toda a armazenagem de conhecimentos e experiências que preexistem a existência individual e são permanentemente transmitidos às gerações vindouras. ―o mundo institucional é a actividade humana objectivada‖ [122] . .constrangimentos individual. Em síntese. e como forma de fugir à reificação da ordem social (como acontece com Durkheim) Berger e Luckmann admitem uma circularidade: as instituições exercem poderosos constrangimentos sobre os agentes. ou. assumindo desvios. possuindo ―realidade própria‖ [121] . incorpora igualmente a consciência dos seus limites. mas. . dando igualmente conta do lado subjectivo do mundo social. probabilidades num campo de possíveis. No entanto. A liberdade e a criatividade são. Berger e Luckmann transcendem em muito a realidade do ―aqui e agora‖ fenomenológico.um segundo momento de objectivação desses significados em tipificações que conduzem a instituições [125] . ao mesmo tempo que se apoia na minúcia das observações fenomenológicas. na medida em que. assim o pensamos. de um conjunto de significados subjectivos produzidos nos processos intersubjectivos. O próprio ―stock social do conhecimento‖.um primeiro momento de exteriorização através da linguagem. por outro lado. relativizar e criticar.

subjectivismo versus objectivismo ainda finalismo versus mecanicismo. defende uma filosofia da acção de tipodisposicional. enquanto ―objectividade de primeira ordem‖. avaliação e acção [127] . enquanto expressão de essências que ignoram o fundamental de uma teoria global sobre a produção da sociedade e das prá ticas sociais. enquanto ―objectividade de segundo grau‖. isto é. liberdade versus necessidade.. enquanto estudo das relações inerentes às ―potencialidades inscritas no corpo dos agentes e nas estruturas das situações onde eles agem‖ [129] . O homem é um produto social‖ [126] . designadamente através do processo de socialização. eliminando a antinomia entre a análise da subjectividade e a análise dos constrangimentos estruturais objectivos. etc. matriz de percepção. na relação prática com o mundo. isto é. englobando os princípios que estão na base da génese das estruturas sociais e que fazem do corpo história incorporada. delimitando um pensamento relacional que se opõe às leituras―substancialistas‖ da realidade. . Desta forma.um terceiro momento de interiorização desse mundo institucional. Bourdieu confere especial importância ao estudo da competência prática dos agentes sociais. espontaneidade versus constrangimento. nem do mundo e menos ainda da sua relação‖ [130] . Assim. nesta visão quase-corporal que não supõe nenhuma representação nem do corpo. se preferirmos. Para explicitar esta posição. por outro lado. 2. A sociedade é uma realidade objectiva. escolha versus obrigação. Pierre Bourdieu e o conhecimento prático do mundo.). esse pensamento que se caracteriza por uma ―intenção sem intencionalidade‖ e que se funda na―«actividade real como tal». aproveitando as contribuições de correntes opostas e eliminando os seus vícios [128] : o seu conceito de habitus remete-nos para as homologias existentes entre as estruturas mentais e as estruturas sociais. Em Pierre Bourdieu. A sua proposta assenta numa dupla leitura da realidade social: por um lado.4. Bourdieu transforma os antagonismos em momentos. ligada à desigual distribuição/apropriação de recursos/lucros materiais e simbólicos. encontramos um pensamento de síntese que supera as velhas aporias sujeito versusobjecto (ou ou. Corolário: ―A sociedade é um produto humano.3.

objecto de constrangimento e fonte de espontaneidade. etc.). de facto. por exemplo. por uma desigual distribuição de recursos ou capitais). como já vimos. como já foi referido. condiciona a matriz de percepção e de avaliação (disposições) que originam um conjunto detomadas de posições. nem o agente é um autómato passivo e comandado pela estrutura social. Desligado da representação explícita ou do conhecimento discursivo. A sua principal vantagem heurística reside. simultaneamente estruturadas e estruturantes. Bourdieu não se esquece de referir que a repro dução se coaduna sempre com a produção/construção/invenção da sociedade. homólogas às condições materiais de existência de que são simultaneamente produto e produtor. sendo o seu produto. resultam. Ele é sempre produto histórico de uma situação. este conhecimento prático. sem cair num mecanicismo de contornos reducionistas. Os sistemas simbólicos. assegura. um determinado espaço de posições (definido. pelas condições materiais de existência e que. devem ser encarados como ―produtos sociais que produzem o mundo‖ [132] : sendo mais do que o reflexo das estruturas sociais. Assim. ser concebido como puro conhecimento. a sua biografia . a correspondência entre as categorias cognitivas/mentais. contribuem decisivamente para as construir. O conhecimento prático do mundo. que o tem o corpo socializado como o seu principal suporte. As práticas sociais são. concilia o interior dos agentes sociais. por conseguinte. próprio de uma concepção de um estruturalismo genético. neste sentido.Este pensamento que não se pensa a si próprio não pode. não é uma noção a-histórica ou uma essência. e as condições de existência objectivas/materiais de uma forma não mecânica. Desta forma. no entanto. O habitus distingue-se do hábito por ser uma noção genética. precisamente. nem tão-pouco age ao acaso ou ao sabor da sua livre criatividade. Os gostos culturais. actualizado de acordo com ocampo [131] em que actua e instância de mediação entre as ditas condições objectivas de existência e a competência simbólica ou representacional. condicionadas. de género. De facto. étnicas. histórica e não inata. O habitus. reprodutoras e transformadoras. produzem-nas também. em última análise. na afirmação de uma visão não idealista sobre as sociedades. em última a nálise. da divisão objectiva das classes (sociais. O conhecimento prático deve ser encarado como um conjunto de operações práticas.

Assim. Assim.individual.. enquanto história tornada corpo e corpo tornado história. se não podemos compreender as taxinomias práticas sem regressarmos às condições sociais da sua produção. como pretende a visão mecanicista.) que tende a reproduzir a lógica dos condicionamentos mas fazendo -os sofrer uma transformação‖ [134] . ―algo de profundamente gerador (. não é menos verdade que não vamos encontrar nas práticas o seu reflexo fiel. uma espécie de mapa cognitivo que vive o presente e avalia o futuro de acordo com uma origem e uma trajectória que formam um capital de experiências. o habitus é uma grelha de orientação no mundo. tanto mais quanto houver uma distância considerável entre as condições sociais que produziram o agente e as exigênc ias sociais inscritas nesse lugar. ou não fosse o conhecimento prático um mecanismo de ―douta ignorância‖ [138] . que a si mesmo se desconhece. o habitus não é mecânico. não resulta de uma acção estratégica e explicitamente pensada. ―O motor – a que se chama por vezes motivação – não está nem no fim material ou simbólico da acção. sendo. Se o habitus é feito para o lugar (ou posto). como pretende o finalismo ingénuo. automático e repetitivo. ele contribui também para fazer o lugar. nem nos constrangimentos do campo. E como os agentes sociais estão envolvidos num jogo – e apesar desse jogo se processar em vários tabuleiros (ou campos) com as suas regras específicas -. com os factos objectivos e exteriores [133] . Em síntese. de uma maneira tal que não podemos passar simples e mecanicamente das c ondições de produção ao conhecimento do produto‖ [135] . o resultado de uma escolha racional e deliberada. acentuando o carácter inventivo e relativamente autónomo do conceito de habitus. pelo contrário. existem espaços (limitados) de invenção e de liberdade. apenas a crença no seu desenrolar (illusio) justifica a existência social. Bourdieu retira parcialmente razão às críticas que o acusam de fundar uma racionalidade dogmática e uma ―circularidade trágica‖ [136] . o conhecimento. ao contrário do hábito.. Ao caracterizar este conceito pelo enfrentar criativo de novas situações de forma ―relativamente imprevisível. O sentido ou investimento no jogo. Assim. ele é o produto e o gerador de certas condições sociais que levam as acções a serem congruentes com determinados interesses que não são. todavia. aproveitando décalages e zonas de incerteza [137] . condição essencial . É a relação entre o habitus e o campo que faz com que o habitus contribua para determinar o que o determina‖ [139] . Enquanto conjunto de disposições encarnadas nos agentes.

Anthony Giddens e a teoria da estruturação. que permitem ao sujeito ―sair da indiferença e afirmar-se como agente activo. Anthony Giddens é. afinal.. 2. subjectivamente. duma missão social‖ [140] . A sua ―teoria da estruturação‖ recupera o primado da análise da acção dos agentes. critica e simultaneamente abordagens hermenêuticas fenomenológicas que esquecem a íntima imbricação entre a ordem da interacção quotidiana e a ordem institucional. revela-nos. de certas No entanto. O seu projecto é estudar a ―actividade social humana e a intersubjectividade‖. iluminar um futuro e o(s) seu(s) projecto(s).4. justificar uma origem e um trajecto. entre a vida prática e os mecanismos de distribuição assimétrica do poder. pretendendo adequar historicamente a teoria social (estagnada por um ―consenso ortodoxo‖ [143] ) às do pensamento sociológico de crescentes solicitações a torná-las mais dos novos operativas e movimentos sociais. Giddens. envoltas na crença no funcionamento do próprio campo. Giddens é bastante claro na afirmação de uma postura anti e pós-positivista. ocupado. habitante do mundo habitado pelo mundo. apesar de recusar qualquer esquema teleológico ou de evolução unilinear.4. repensa as tradições modo . afirmando as significações subjectivas como uma parte integrante e essencial da realidade social. a centralidade do simbólico enquanto conjunto de estratégias. a construir visões sistemáticas e globais sobre as sociedades contemporâneas. muitas vezes inconscientes. a par de Bourdieu. portanto. Fortemente influenciado por um contexto teórico onde se degladiam as perspectivas dominantes (funcionalista e estruturalista) e as novas correntes da etnometodologia (recuperando a tradição hermenêutica e fenomenológica). um dos autores que não renuncia. através de uma ―crítica positiva‖ (no sentido de construtiva) às a sociologias ingenuidade interpretativas [142] .. projectado para finalidades e dotado. De facto.) o homem é um ser sem razão de ser‖ [141] ). envolvido no jogo. à semelhança de Bourdieu. as lutas simbólicas no interior de um campo. Libertando o homem do seu destino (―Consagrado à morte (. em tempos de um agudo relativismo. objectivamente. alcançam o seu objectivo crucial: legitimar uma posição e uma existência.da sua reprodução e transformação.

não possuem «estruturas». Giddens aproxima-se claramente da fenomenologia e da etnometodologia. fornecendo o quadro de inteligibilidade necessário à vida quotidiana – um conjunto de esquemas interpretativos que conferem sentido à realidade. a teoria da estruturação. paralelamente. a dois eixos fundamentais: a importância da consciência prática (practical consciousness) como fonte de conhecimento e de orientação na vida quotidiana e o carácter espácio-temporalmente situado da acção humana. sendo recorrentes e reflexivas.. antes de mais. assim. supera o dualismo da estrutura por uma dualidade em que as estruturas e as acções se constituem mutuamente: ―(. Neste e noutros aspectos. designadamente quando estas correntes defendem que o mundo da realidade quotidiana constitui a realidade primeira ou predominante. existem apenas numa ordem virtual. então. Desta forma. com uma desconstrução crítica do marxismo [145] e as novas pistas da etnometodologia. Assim. situá -la entre o pensamento inconsciente e o pensamento discursivo.. A teoria da estruturação refere-se. Giddens pretende sem dúvida ir mais longe. práticas que. através das suas instantaneizações práticas:―Dizer que a estrutura é uma ordem virtual de relações transformadoras. através de um longo e árduo trabalho de conceptualização com vista à formulação de uma metateoria capaz de servir de antídoto à dispersão teórica existente. . aliás. a contínua reprodução dos sistemas sociais. no entanto. como a descontextualização das práticas sociais e do agenciamento [148] . enquanto que as abordagens holísticas são decididamente fracas na acção [150] . a produção e reprodução das práticas sociais no espaço-tempo. A sua perspectiva. O objecto da teoria da estruturação é.) as regras e os recursos utilizados na produção e reprodução da acção social são ao mesmo tempo os meios da reprodução sistémica‖ [147] . importa. enquanto práticas sociais reproduzidas. permitem.interventivas [144] . As estruturas. não se resume a um ecletismo mais ou menos assumido. O problema das perspectivas interpretativas consiste em serem fracas na estrutura [149] . Começando pela consciência prática. significa que os sistemas sociais. Para esse efeito. para além de conciliar as teorias da acção e as da estrutura [146] . evita-se tanto uma reificação das estruturas enquanto entidades estáticas. mas antes propriedades estruturantes‖ [151] . não se coíbe de articular aspectos das correntes estruturalistas e pós-estruturalistas.

em grande parte.) é sempre e em toda a parte uma realização engenhosa dos seus membros‖ [153] . juntamente com as estruturas (conjunto de práticas sociais codificadas) para a organização dos sistemas. modificando-a. inconsciente. entre conhecimento científico e conhecimento do senso comum. por conseguinte.É através desta consciência que os agentes sabem como prosseguir ( ―how to go on‖). partilhado tanto pelos cientistas como pelos teóricos leigos. mesmo as mais rotineiras – ―os hábitos mais rigorosos ou as normas sociais mais inabaláveis envolvem uma atenção reflexiva. a nosso ver. Giddens não lhe nega. em consequências desconhecidas da acção. Não é o mesmo autor que defende o peso do contexto (não redutível às situações de interacção). ao afirmar que ele permite aos cientistas sociais ―saberem o que o agente ou agentes sabem e aplicam na constituição das suas actividades‖ [155] . O que não nos deve fazer esquecer que. Aquele. Desta forma. contínua e pormenorizada‖ [152] . por isso. No entanto. os agentes contribuem.. necessariamente. ao mesmo tempo que refere a possibilidade de existirem consequências não pretendidas da acção que se transformam. é capaz de reflectir estrategicamente sobre as suas condutas. os agentes são verdadeiros teóricos sociais. o que justifica a necessidade de uma hermenêutica dupla já que.. animados por motivos e razões. através de um conjunto de regras tácitas e de significadostaken-for-granted. capaz de recriar pela sua acção as estruturas sociais que actuamna e pela sua prática. apesar de considerar que a motivação da acção é. como as descobertas dessas ciências acabam por ser assimiladas e integradas na realidade social. o que configura uma espécie de ―conhecimento mútuo‖. um exagerado optimismo sobre as potencialidades deste ―diálogo‖ ou ―conhecimento recíproco‖. os níveis inconscientes da acção social e o desconhecimento de algumas das suas componentes por parte dos agentes (―A produção ou constituição da sociedade é uma realização . existem igualmente especificidades e oposições diversas. não só as ciências sociais são ―contaminadas‖ pela acção dos agentes (eles próprios portadores reflexivos de conceitos). Giddens revela. O agente é. Sendo auto-reflexivos. que os resultados do seu conhecimento vão ser apropriados pelo senso comum e ―nas componentes familiares das actividades práticas‖ [154] . a intencionalidade. O cientista social não pode ignorar. O autor é ainda mais claro na aproximação às correntes interpretativas quando faz a apologia do conceito de agente. por isso. enquanto dotado de competências que o diferenciam do mero sujeito. ―A produção da sociedade (.

à distribuição assimétrica ou ―diferencial‖ do poder. existem domínios onde o ―conhecimento mútuo‖ não é eficaz. O que implica. Existe. as situações de interacção dependem de uma determinada ordem moral. relações de exercício de poder. já que muitas das acções quotidianas não são nem programadas. como já referimos.elaborada dos seus membros. realizada pelo locutor. Giddens. uma atenção especial à capacidade diferencial de mobilização de recursos. a utilização da linguagem implica a compreensão intersubjectiva das ―pistas contextuais‖. De novo. a linguagem não implica necessariamente um discurso verbalizado. a possibilidade e a ―vontade de enganar. Tal é demonstrado. baralhar. apesar de representarem uma cognoscibilidade que é simultaneamente produto e condição de funcionamento dos sistemas sociais. a sua utilização está longe de ser mecânica. Na ausência de consenso. retirando-lhes a habitual segurança ontológica. os agentes têm que ―demonstrar‖ o seu conhecimento da situação e lutar para impor os seus significados. Na crítica às correntes estruturalistas e pós-estruturalistas. tida como legítima. As relações de interdependência são. a incompletude do agente: a comunicação. que colocam em causa o conhecimento mútuo que orienta os agentes. por Wittgenstein e Garfinkel. . influenciado. ser mal interpretado‖ [159] . mas uma realização que não acontece sob condições totalmente pretendidas ou compreendidas por eles‖ [156] )? Giddens é bastante claro ao referir que a motivação da acção raras vezes é explícita. desapontar. Além do mais. simultaneamente. também. mas sem conhecimento perfeito de como o faz‖ [160] . nem expressas discursivamente [158] . desenvolve a importância da linguagem enquanto elemento de constituição da vida social quotidiana e das significações práticas. o entendiment o do outro nem sempre é fácil ou mesmo possível. necessariamente – e aqui Giddens distancia-se das abordagens interpretativas mais ingénuas –. uma vez mais. entre outros. No entanto. Aliás. Além do mais. permanecendo em níveis habitualmente inacessíveis ao agente: ―inquirir sobre os motivos de alguém para agir de uma certa forma é procurar elementos no seu comportamento de que ele pode não estar consciente‖ [157] . Por isso mesmo. Sendo um conjunto de regras abstractas. é ―qualquer coisa que é feita. geradora de dominação. isto é. pela criatividade e a competência dos agentes na constituição das sociedades através dos encontros e da produção/reprodução contínua das práticas sociais. a linguagem. De facto. existem situações ―problemáticas‖.

a reprodução da constituição permanente das sociedades. Não faz sentido. assentes na busca de um factor determinante da realidade social. uma resposta actualizada e criativa. é precisamente por esse tempo reversível.No que diz respeito ao carácter situado da acção humana. simultaneamente. Giddens. à semelhança de P. em A. a preocupação de analisar o saber prático dos actores sociais. Em suma. a estática da dinâmica. Bourdieu. por isso. por conseguinte. distribuídos ao longo do espaço-tempo e reproduzidos no «tempo reversível» do quotidiano. Negam. Em ambos os autores existe. Nas palavras de Giddens. sendo impossível. considerando-os como elementos integrantes do stock de conhecimento mútuo através do qual os agentes constróem o sentido do que os outros e eles própri os fazem. dos quais são simultaneamente produto e produtor. também. que as práticas sociais estão impregnadas dos condicionamentos estruturais. como entrave e possibilidade da acção humana. As regras e os produtos culturais. os proce ssos lineares de pensamento. sendo rotinas (mecanismos automaticamente accionados). apesar dos constrangimentos derivados do carácter situado da acção humana [163] . muitas vezes proporcionada por a contecimentos imprevistos. separar a estrutura das práticas. As estruturas funcionam. repetitivo e rotineiro se estender tanto à curta duração do quotidiano como à longa duração do tempo institucional. os cenários de interacção funcionam também como possibilitadores de um conjunto de estratégias que libertam a acção humana da dependência face ao contexto (context freedom). permitindo os encontros de indivíduos no espaço-tempo e a produção do sentido [161] . dissociá-las. ―os cenários de acção e interacção. No entanto. responsável pelas suas acções. assim. representam. Esses cenários ligam a acção humana a um determinado contexto. são parte integrante da forma estruturada que tanto a vida social como a linguagem possuem‖ [162] . Ora. . condutas. em busca dos mecanismos de validade universal através dos quais se estruturam as sociedades. simultaneamente. posturas e linguagens quotidianas. o autor britânico acentua o papel dos cenários (settings) de interacção. superando velhas e inoperantes aporias e mantendo um intenso enfoque na historicidade dos sistemas sociais. temos uma teoria de síntese [164] sobre a génese e o funcionamento do social.

elimina qualquer relação de subordinação. preocupa-se com o jogo relacional entre o habitus e o campo. A estrutura não é ―impessoal‖.No entanto. considerando mesmo que as componentes de significação devem ser tidas em linha de conta na estruturação dos processos sociais. da utilidade de um inventário teórico relativamente longo sobre o stock de teorias disponíveis. correspondências que estão na base da construção do espaço social. Da mesma forma. o mesmo não se pas sa com Giddens. podemos colocar em dúvida a real autonomia (relativa) da dimensão simbólica. o autor britânico acentua mais a intencionalidade e a cognoscibilidade dos agentes. acentua as correspondências existentes na trilogia posições/disposições/tomada de posições. em Bourdieu. Em Giddens. 3. Novo ponto [166] de partida em direcção a uma análise pluriperspectivada dos fenómenos culturais. apesar de omnipresente nos processos sociais (enquanto propriedade inscrita nos sujeitos) acaba por se subordinar à lógica das estruturas objectivas. Giddens é mais declaradamente antipositivista e anti durkheimiano. facto a que não serão alheias as influências da etnometodologia e das sociologias interpretativas em geral. Bourdieu. para o autor francês. por seu lado. Duvidar-se-á. produção e reprodução. a interdependência entre estrutura e acção. Com efeito. ainda que mitigada. fomentando as lógicas de reciprocidade. por seu lado. se. onde sobressai de forma nítida um modelo de circularidade. no qual actuam dois grandes princípios de diferenciação: o capital económico e o capital cultural que.. pelo contrário. em especial . salienta-se a ênfase no carácter dinâmico da estrutura e no facto desta não poder ser considerada como exterior ao indivíduo [165] . com alguma pertinência. Em Giddens. nem pode ser ―coisificada‖. Neste sentido. contribuem para o volume total de capital possuído por um agente e que está na base do seu campo de possíveis. o simbólico.. com o seu peso relativo. Finalmente. princípio supremo devisão e de divisão que estrutura diferentemente as categorias de percepção da realidade.

Neste sentido. fornecendo ramificações para as mais variadas pesquisas empíricas. muitas vezes em retóricas de duvidosa legitimidade. não só possibilitam uma reflexão abstracta sobre as próprias condições da reflexão teórica. muitas destas propostas possuem ainda uma qualidade epistemológica fundamental. partindo do terreno onde as teorias unilaterais ficaram. de uma recusa dos consensos dominantes que procuram o conforto epistemológico num dos pólos dicotómicos das velhas aporias. As ciências sociais são. Assim. ciências da cultura. Fazemo-lo partindo dos critérios do que noutra ocasião apelidamos de heterodoxia controlada [167] . Passaremos agora a salientar as principais contribuições deste porventura exaustivo inventário teórico para a construção de um mo delo de análise impulsionador da presente pesquisa. ciências duplamente interpretativas que analisam representações da realidade social. designadamente o metateórico. mais do que um mero ecletismo. ao nível metateórico. . igualmente. Estes. como relacionam conceitos e modelos com aplicabilidade no estudo de problemas concretos. tal heterodoxia não procura. sublinhamos. Argumentar-se-á. de facto. Desta forma. que seria mais frutuoso entrar directamente na discussão de teorias de médio alcance sobre dimensões específicas do nosso objecto de estudo. o teórico e o empírico. a necessidade de abrir vasos comunicantes entre várias propostas teóricas. situam-se no centro da própria teoria social. os corpos teóricos aqui discutidos podem com toda a relevância ser utilizados como esquemas de interpretação dos fenómenos simbólico-culturais. é devedora da atitude relacional anteriormente definida. ou seja. em nome de um espírito de originalidade a todo o custo. subver ter os cânones habituais da validação científica. antes de mais.quando essas teorias cobrem os principais eixos em torno dos quais se articula a produção teórica em sociologia. Esta procura de interpenetração de perspectivas complementares. No entanto. e que consiste em procurar em cada posição teórica unilateral espaços de comunicação com outras propostas. a de articularem diferentes níveis interpretativos. no seguimento da classificação proposta por Weber. tão-só pretende rasgar novos caminhos de pesquisa. ainda que de orientações distintas. Por outro lado. Ao ser controlada. toda a produção teórica lida permanentemente com fenómenos culturais.

desta forma. mesmo nas situações mais desfavoráveis. enriquecido com as importantes contribuições de Bourdieu e Gid dens sobre o conhecimento e a consciência prática. antes. . de que a margem de manobra ou de liberdade dos agentes sociais. apesar de real e efectiva. já que existe uma continuidade entre os fenómenos institucionais e as práticas sociais. capazes.a recusa. por mais escasso ou inconsequente que seja.o conceito marxista de praxis. nomeadamente através dos pressupostos de que qualquer actor. Ao nível teórico. . respeitando o poder de facticidade externa dos fenómenos sociais. enquanto pressuposto de que os agentes sociais são os construtores do seu devir social e da sua própria história. pelo seu alto nível de abstracção. seleccionamos importantes contribuições das teorias anteriormente expostas. Da mesma maneira. parece fazer todo o sentido uma recente inflexão no curso dominante da teoria social na direcção de uma dignificação da cognoscibilidade dos agentes sociais. na defesa de abordagens ―parciais e situadas‖ [168] . .a consequente rejeição de visões essencialistas ou universais dos fenómenos sócio-culturais. deve ser analisada como um espaço finito de possibilidades. . complementar da anterior. a necessidade de conjugarmos perspectivas sociologistas com abordagens compreensivas. dispõe de um espaço táctico e de algum poder.Simultaneamente. designadamente: . não podemos considerar a estrutura social como sendo algo de meramente exterior aos indivíduos. pela interacção das diversas instâncias da re alidade (recusando. mesmo para as situações concretas mais anódinas e aparentemente triviais ou desligadas de um significado sociológico. mas rejeitando um papel de autómatos passivos aos agentes sociais. defende-se uma predominância epistemológica das teorias de conjunto ou ―grandes teorias‖. de superar e integrar uma acentuada dispersão e relativismo que impedem a sistematicidade e coerência dos processos de investigação. igualmente. a hierarquização do real em camadas) [169] . articulação que é necessário explicitar de um ponto de vista analítico. optando. de qualquer forma de determinismo. por conseguinte. . sendo que a ocorrência de determinadas acções acontece com um grau mais elevado de probabilidade do que outras.a consideração.

as múltiplas linguagens e formas expressivas (com especial destaque para a hexis corporal). não é menos verdade que a constituição dos públicos e a sua matriz de gostos influenciam fortemente o campo de possíveis da produção cultural. por isso. por isso. recusando as ―teorias do reflexo‖ segundo as quais a ordem cultural seria um mero espelho da dimensão CAPÍTULO II O LUGAR DOS PÚBLICOS Falar e reflectir sobre os públicos das culturas urbanas leva-nos. e as perspectivas de síntese. na sua autonomia e especificidade relativas. aparecem como elementos de charneira e de mediação entre as estruturas sociais e as práticas sociais. Se é verdade que a desmontagem dos produtos culturais depende. De facto. designadamente a construção simbólica. através da produção e difusão de determinadas categorias de percepção‖[171]. incluindo os processos mentais e cognitivos de formação das identidades. se preferirmos. antes de mais. impondo. entre a produção e o consumo/recepção. ―a criação tem de ser entendida como um processo que visa produzir não só as obras. um ―ver ao perto‖ as múltiplas formas de construção social da realidade. um terreno de análise especialmente vocacionado para as intersecções. uma análise apenas preocupada com a produção de bens e serviços culturais. limites ao trabalho de recepção. dos códigos utilizados na sua fabricação. ignoraria todo o trabalho de reinterpretação/reconstrução exercido pelos públicos na sua apropriação. estudos exclusivamente centrados no pólo da recepção cultural tendem a ignorar a influência da estrutura da oferta de bens e serviços no recrutamento de públicos e de audiências e na construção social dos gostos. ou.a concepção de que os fenómenos simbólico-culturais. Como refere Maria de Lourdes Lima dos Santos. No entanto. a questionar as relações entre a oferta e a procura cultural. constituindo.. em grande parte. as interacções social [170] . apesar de mantermos uma perspectiva materialista e não essencialista sobre os fenómenos sócio-culturais. Howard . os rituais e todas as formas de representação e de ideação. mas também a sua própria recepção.uma particular atenção analítica aos factores que melhor exteriorizam a (relativa) autonomia da ordem cultural na multidimensionalidade do espaço social. pensamos enriquecer os processos de pesquisa com um ―descer ao quotidiano‖. Desta forma. .

etária. em que nobreza e plebe. assentava numa concepção essencialista e etnocêntrica de cultura. fortemente hierarquizado. apresentando como universais um conjunto de representações que. em nada consentâneas com uma grande proximidade física entre os ―eleitos‖ e o povo. a difusão de novidades nos art worlds[173] encontra fortes limitações em clivagens sociais de base classista. para a multiplicidade dos mundos da cultura. o estudo dos públicos da cultura remete-nos. Assim. A centralização e a especialização do poder exigiram práticas e posturas sóbrias e austeras. A imposição arbitrária de um determinado padrão de cultura. Analisar as formas culturais através das quais se exprime a contemporaneidade não é indissociável. A persistente divisão das formas de expressão cultural em ―pequena‖ e ―grande‖ tradição rompe com um longo período de uma relativa indiferenciação dos públicos da cultura. tendem a considerar a divisão de géneros artísticos contidos nos inquéritos por questionário como ―divisões naturais‖efectuadas pelo senso comum. encontra na inculcação pedagógica o seu principal instrumento: . são o património restrito de certas franjas sociais. nem tão-pouco das reconfigurações mais ou menos bruscas que atravessam as modernas sociedades. Como Paul DiMaggio menciona. as análises que apenas se preocupam com a produção concebem os indivíduos como agentes passivos e obrigados a escolher entre o leque de alternativas que os produtores oferecem[174]. conviviam num espaço mais ou menos conspícuo. no mesmo esforço analítico. estudar não só o que os públicos fazem aos produtos culturais.1. De um modelo estático e hierarquizado dos níveis de cultura a um modelo dinâmico e plural. Este modelo. enquanto espaços organizados e socialmente estruturados de produção. importa. expressão e fruição culturais. passa pela constituição de novos públicos[172]. Da mesma forma. os estudos centrados unicamente na dimensão do consumo. de facto. por conseguinte. 2. maugrado as pesadas desigualdades sociais. Por outro lado. da distribuição desigual dos indíviduos na estrutura social. Desta forma. decisivamente. regional ou étnica. opondo os ―homens cultos‖ ou ―cultivados‖ à massa bárbara e ignorante.Becker refere mesmo que uma das formas de criar novas modalidades organizativas e géneros culturais inéditos. como também os públicos que estes fazem. sexual.

geralmente associado ao surgimento. às regras e imposições sociais que regulam a vida do comum dos mortais. O artista medieval. os não-instruídos. vivendo num universo à parte e fugindo. eram considerados perigosos. Com a passagem do artesão ao artista ―profissional‖ criam-se as condições necessárias para a constituição de campos culturais autónomos. longe do bulício e dos conflitos da indústria e das grandes cidades[176]. antes de serem tidos como laboriosos. assiste-se a um amplo movimento de heroicização do autor. formados por hierarquias e instâncias de legitimação próprias. que ganha contornos mais definidos a oposição que aqui vai suscitar o nosso interesse: cultura de elite/alta cultura/cultura cultivada versus cultura de massas/baixa cultura/cultura comum. A grande massa das camadas populares (inicialmente confinada à ―cultura popular‖ ou ―folk culture‖ e mais tarde. conquista. desenvolvimento industrial e da produção em série (fordismo). de uma fracção significativa de tempo livre. das academias. por exemplo. A sua percepção era sempre feita a partir de um ponto de vista soberano e não-autóctone: a única forma de existência das culturas ―menores‖ era a partir da construção que dela faziam os intelectuais das camadas dominantes: a ―folclorização‖ e ―etnologização‖ destas formas de expressão cultural consistia numa forma de aniquilamento do seu potencial criador. aumento generalizado do nível de vida.―(a educação é vista) como símbolo de refinamento. com o advento das sociedades industrializadas. no século XIX. Com o alargamento (ainda que incipiente) dos públicos. singular e altamente dotada. É no século XX. São múltiplos os factores que contribuíram para a génese desta dicotomia: aparecimento da figura do artista e constituição de campos culturais autónomos com a consequente distanciação entre o autor e o receptor. à ―cultura de massas‖) era vista segundo um padrão de negatividade: constituíam-na os não-cultos. processo paralelo ao aprofundamento do Estado-Providência. no entanto. domesticando indivíduos que. também ele. em meados do século XVI. muitas vezes. em íntimo contacto com as mais distintas camadas sociais (pense-se. alargamento e . de maneiras e de comportamentos que devem permitir a distinção face ao «vulgar»‖[175]. reservando-lhes a sossegada ―aura‖ da pré-modernidade. muitas vezes. doravante tido como figura carismática. nos jograis) é substituído pelo intelectual de corte. lugar privilegiado do amplo movimento de secularização da cultura e de formação de uma elite civil[177]. Folclorizar ou etnologizar as culturas populares significava projectá-las para um passado de contornos bucólicos e ruralizantes. os não-cultivados. em especial nas camadas populares. por parte destas.

não conseguem restituir o aqui e agora da obra de arte: ―Poderia caracterizar-se a técnica da . dedica-se a segunda ao estudo das práticas culturais no domínio da experiência existencial(. submetidas a uma estandardização e uniformização intensas.. já que este sugere que a cultura nasce espontaneamente das massas. a expressão ―indústria cultural‖. Reserva-se. partem da esquerda mais ou menos influenciada pela tradição marxista enquanto principal fonte da chamada Teoria Crítica. Afinal. antes se apresentam como o objecto da indústria cultural. As mais interessantes. o conceito justifica-se pelo seu cariz de estandardização e ainda pela racionalização das técnicas de distribuição. Ao destruírem a lonjura. Adorno afirma. proposição que categoricamente rejeitam.. possivelmente pela primeira vez[179]. da produção cultural nobre. que as massas não constituem o sujeito.separação entre uma Sociologia da Cultura. considerando-a mais apropriado do que o conceito de ―cultura de massas‖. supostamente orientada para as necessidades das pessoas. uma Sociologia da Vida Quotidiana e uma Sociologia da Comunicação. desenvolve uma original tese sobre a ―decadência da aura‖ protagonizada pelas indústrias culturais enquanto ameaça à singularidade e à unicidade da obra de arte. apesar de muitos dos processos de produção não serem estritamente industriais. surgimento das indústrias culturais e mercadorização da cultura. em regra. característica essencial da autenticidade. Walter Benjamin. De que forma? Através do controle das consciências individuais.). os detalhes diferenciadores dos produtos das indústrias culturais são mutuamente substituíveis (―interchangeable‖). porque baseadas na reprodução. privilegia-se na terceira o estudo das manifestações da chamada «cultura de massas»‖[178]. não são a sua medida mas sim a sua ideologia[180]. Adorno e Horkheimer utilizam. em artigo mais recente. antecipando sessenta anos um debate que se prolongou até aos nossos dias. a primeira para o estudo das obras. Estes autores apontam o dedo ao carácter ideológico da produção cultural (nas mãos de poderosos monopolistas). A especificidade humana desaparece e as pessoas comportam-se de acordo com os modelos servidos pelas indústrias culturais. todavia. por seu lado. as obras da cultura de massas.diversificação dos públicos... mas realmente empenhada em distanciar os criadores e os consumidores. Muitas foram as críticas dirigidas à massificação e mercantilização da cultura. Não deixa ser curioso verificar que essas críticas cobriam toda a diversidade do espectro ideológico. no domínio do saberconstituído. eliminando todas as resistências que estes últimos possam desenvolver contra um poder cada vez mais centralizado. Por outro lado. A nível da própria análise sociológica criam-se compartimentações sub-disciplinares: ―.

Mesmo considerando que. mecânicas e rotineiras‖ em que o ―o homem é avaliado de acordo com a sua capacidade de realizar.. Apesar de aceitar que existem possibilidades revolucionárias tanto no cinema como na fotografia. Marcuse defende a reconciliação entre o princípio do prazer e o princípio da realidade. da consumação da ―arte pela arte‖. entre a sensualidade e a razão. aumentar e melhorar as coisas socialmente úteis‖[185]. Benjamin considera-os. O capitalismo. por seu lado. Ao multiplicar o reproduzido. essas. aviões e tractores‖[186]. o lazer é objecto de uma apropriação passiva. nos anos 30. um curioso paradoxo: apesar de pretender.) incita a participação das massas através de concepções ilusórias e especulações ambíguas‖[183]. forma última. isto é.. contribuir para ―a formulação de exigências revolucionárias em política de arte‖[182]. utilizavam a técnica como um dos seus principais recursos ideológicos. Habermas. A arte. ainda que actuando de forma oculta. são manipuladas pelas indústrias do entretenimento: ―Não se pode deixar o indivíduo sozinho. o ―sistema de actividades inumanas. defende o reino do espaço público contra a cultura de massas. televisões.reprodução dizendo que liberta o objecto reproduzido do domínio da tradição. fornecendo o relaxamento que permite a recuperação de energias para o trabalho alienado. na medida em que une crítica e diversão (ao contrário da contemplação e do recolhimento exigidos pela obra única). É perceptível. permite que as massas tenham a ilusão da participação. Pelo contrário. entregue a si próprio‖[187]. unindo psicanálise e filosofia crítica num intento emancipador. coloca no lugar de ocorrência única a ocorrência em massa‖[181]. segundo Benjamin. baseada no princípio da realidade e do ―socialmente útil‖. através do cinema. contra ―a definição do nível de vida em termos de automóveis. fundando-se mesmo uma espécie de estética belicista. Só à . torna-se patente uma tonalidade nostálgica e tradicionalista (e por isso conservadora) no seu pensamento. aliado ao fascismo. mas distraído‖[184]. embora se reforce o status quo. nestas palavras de Walter Benjamin. instrumento de combate à relegação dos intuitos transformadores para o terreno inacessível da utopia. como claramente afirma no prólogo da sua reflexão sobre a reprodutibilidade técnica da obra de arte. ―a exploração capitalista do filme (. como instrumentos políticos. antes de mais. se aumenta o significado social da arte. Numa linha diferente. O público do cinema ―é um examinador. aparece como a concretização da ―grande recusa‖. nomeadamente a estrutura das relações de propriedade. As massas. neste contexto. mas que funcionava como reacção a um certo modernismo ligado aos fascismos emergentes que. Herbert Marcuse contesta a sociedade ―ultra-repressiva‖. Contra a produtividade como fim em si mesmo. a esfera pública é ―um reino da liberdade e da continuidade. Para este autor.

tudo se torna visível a todos‖[188]. Habermas retoma a distinção de Wright Mills entre público e massa. baseado no mínimo denominador comum de gostos e atitudes.luz da esfera pública é que aquilo que é consegue aparecer. Enquanto que uns. a crítica à cultura de massas passa. Para que tal acção se concretize. passivo e voyeur. pela força de um consumo nivelador. normalizado e em perfeita continuidade com os seus semelhantes: ―A indústria da cultura de massas reifica o homem num «anthropos» universal. bem como pela autonomia face à autoridade[189]. etc. capaz de superar o preconceito elitista que muitos sustentam e que se prende. o sincretismo destas posições seja hoje evidente. é essencialmente receptiva e dependente face aos meios de comunicação e à autoridade[190]. essas posições formam uma espécie de síntese entre as ―preocupações liberais sobre a cidadania na era pós-fascista. ingenuamente. Em suma. criado pelo seu próprio mercado‖[191]. A massa. pelo contrário. regionais. Como refere Paul DiMaggio. pela constatação da existência de um homem médio. os ―apocalípticos‖ se excluem da multidão. supostamente.. bem como . de conotação negativa. com uma profunda desconfiança face ao homem comum e ao seu processo de mobilidade sócio-cultural. medíocre e médio. O primeiro caracteriza-se pela comunicação e pela reciprocidade.. na nossa opinião. frequentemente ligados aos interesses dos produtores‖[194]. Por outras palavras. ―que acção cultural será possível para que estes meios de massas possam veicular valores culturais?‖[195]. com as noções marxistas da alienação e um desprezo elitista pela cultura popular‖[192]. assistir-se-ia. os ―integrados‖. sexuais. ―desenvolvem um discurso simplista dentro do sistema. acreditam sem reservas na função emancipadora da cultura de massas.. exigindo-lhes uma ―atitude de pesquisa construtiva‖[193]. todavia. étnicas. o autor italiano deplora o uso de―categorias-fétiche‖. como ―homem de massas‖. Eco subverte os termos em que a questão geralmente é colocada (―é bom ou mau que a cultura de massas exista?‖). Mas Eco refere-se igualmente em termos críticos aos comentadores que. propondo uma outra forma de interrogação: sabendo-se que numa sociedade industrial é impossível eliminar a comunicação de massas (patente de forma igualmente explícita no discurso político). implícita ou explicitamente. num contexto histórico e numa ideologia específicos. Umberto Eco vai mais longe e critica os preconceitos aristocráticos de certos homens de cultura. sem qualquer perspectiva crítica. à dissolução das clivagens classistas. Mais concretamente. inevitavelmente. outros. é fundamental distinguir entre os ―produtores de objectos de consumo cultural‖ e os ―produtores culturais‖ (se bem que. O essencial das críticas sobre a cultura de massas assenta.).

Assim. como refere Maria de Lourdes Lima dos Santos e ao contrário do que pensava Walter Benjamin.analisar. Desta forma. modificando. conquistando e surpreendendo novos públicos. etc. como. desenvolvendo-se a ideia do mecenato público e privado. críticos. fornecedores. verifica-se a invasão do capital público e privado. nesta perspectiva. desenvolvendo-se uma complexa rede de mediadores (auxiliares. na expressão de Bourdieu) não é mais do que um elemento numa cadeia de participantes. Num dos pólos. apesar de ser essencial para o processo de reconhecimento da arte (pelo próprio ―milagre da assinatura‖.) e o trabalho colectivo. ou ainda entre o ―espírito‖ e a mercadoria. Os objectos culturais interiorizam um estatuto económico. entrando em decadência os princípios da estética pura kantiana. o carácter expansionista da cultura de massas e a mercantilização. através de uma relação dialéctica em que produtores e fruidores interpretam mutuamente as suas necessidades e aspirações. divulgadores. já que lhe acrescenta ―um suplemento de valor‖[199]. esbate-se a figura mítica do criador singular. não só dos domínios da vida comum e quotidiana. O artista. quase infinitesimal diferença[197]: ―Não deixa de ser curioso que o capitalismo desenvolvido para se manter e reproduzir tenha de obrigar o status quo a constantes mudanças‖[198]. ainda que. entre a arte e o dinheiro. ou. o próprio estatuto de mercadoria. reprodutibilidade e raridade não são dois pólos extremos. Multiplicam-se as ocasiões de divulgação e de comercialização da arte e as próprias carreiras artísticas necessitam de fortes investimentos ao nível do capital económico e social. quebra-se analiticamente o . em maior ou menor grau. se preferirmos. Desta forma. como que a mostrar a possibilidade de convertibilidade do capital simbólico em capital económico. A ideologia carismática do génio artístico não resiste à aproximação crescente entre o trabalho artístico e outras formas de produção. da própria alta cultura. já que estimula a irrupção da diferença. comerciantes. crítica mas construtivamente. numa tentativa de alargar mercados. No entanto. coleccionadores. Neste sentido. por seu lado. Becker introduz o já famoso conceito de Art World como forma de dar conta das transformações organizacionais no mundo da arte: ―os mundos da arte (Art Worlds) consistem em todas as pessoas cujas actividades são necessárias para a produção de trabalhos característicos que esse mundo e talvez outros definem como arte‖[200]. a natureza específica da relação comunicativa de massas[196]. o da cultura erudita. muitas vezes. à custa da pequena. financiadores. muito pelo contrário. propondo que esta se exerça ao nível dos cidadãos. executantes. A primeira não elimina a segunda. impõem uma nova perspectiva sobre esta questão. Por outro lado. intensifica-se a interacção entre o simbólico e o económico.

substituindo o ―pronto-a-vestir‖ pelo ―feito-à-medida‖ e preocupando-se com as audiências parcelares. etc. ainda. festivais.). é tida como rentável e comercializável[201]. revistas e estações de rádio) é um indicador dessa tendência. integrando-os no tecido social como mais uma actividade colectivamente organizada. Além do mais. Se aparece. diversificando os seus produtos. indústria cinematográfica. todavia. As próprias indústrias culturais atendem a esta questão. como as camadas mais favorecidas em termos de capital cultural e escolar revelam tendências ecléticas de consumo cultural. não deixando de abarcar. concertos. exposições. editores de livros e de revistas. O segundo. Não só os públicos mais restritos vêem o seu monopólio ameaçado com a divulgação em série das obras culturais. companhias discográficas. o nome do artista como traço mais visível da consagração da obra de arte. o urban core ou urban culture dirige-se a audiências locais em contexto urbano (rádios locais. um determinado género cultural não tem. Aliás. jornais de grande tiragem). Doravante. o peripheral domain e o urban core[202]. na sua fruição. Diana Crane adianta o exemplo da ópera. tendo em conta os diferentes meios sociais. igualmente apelidado de inflação do estético. O primeiro baseia-se nas indústrias culturais de nível nacional e internacional que trabalham para uma audiência vasta e heterogénea. expoente máximo do dom artístico.misticismo do isolamento dos mundos da arte. existe uma associação entre a segmentação e diversificação dos géneros artísticos e a hierarquização social. Finalmente. necessariamente. teatro. outros jornais). as obras da cultura de massas. performances. referir o fenómeno de diversificação e de alargamento dos públicos como outro factor de dissolução do modelo hierarquizado dos níveis de cultura. os mais vulgares e utilitários objectos revestem-se também eles de uma apropriação simbólica (―culturalização do consumo‖). oferecendo uma produção relativamente padronizada (televisão. Importa. de confinar-se exclusivamente a um destes domínios. Apesar da maior parte das suas manifestações estar associada ao ―urban core‖. o simbólico invade igualmente o quotidiano. De facto. num processo paralelo ao da estetização difusa do quotidiano. é porque essa característica se torna numa das condições de sucesso da sua colocação no mercado. Diana Crane elabora a este propósito um modelo tripolar de conceptualização das actividades culturais constituído pelo core domain. a especialização dos mass media (em especial jornais. Esta classificação contraria o modelo hierarquizado e dicotómico dos níveis de cultura. Em sentido contrário. apesar de se situar igualmente num nível territorial nacional. . divulga os seus produtos para subgrupos caracterizados por diferentes idades e estilos de vida (estações de rádio. A própria assinatura.

através de uma descontextualização dos primeiros significados. Em vez de adoptar um modelo hierarquizado. todavia. o que as aproxima. advindos quer de culturas diferentes. subgéneros. Sendo uma género muitíssimo aproveitado pelas indústrias culturais nacionais e internacionais engloba. nascidos num certo nível. existe a possibilidade de determinadas versões mais populares serem apropriadas pelo core domain. permite uma recontextualização (novas conotações). admite-se a coexistência plural das manifestações culturais. processo paralelo a uma acentuada diversidade de modos e estilos de vida. existe uma relação dialéctica entre o core domain e as esferas periférica e local. em vez de uma concepção que favorece a . ao defender a paridade dos vários níveis de cultura. Como resultado. que permite. Outro exemplo é o do rock. que actuam declaradamente como vanguardas provocadoras. passar da ―alta cultura‖ para a ―cultura de massas‖ (uma sinfonia de Beethoven tocada na rádio. Enquanto que ao nível do primeiro se assiste a uma dominação simbólica por parte de uma elite restrita (os fabricantes de visões do mundo). Paulo Filipe Monteiro sublinha a actualidade dos processos de reciclagem que. numa análise do valor das obras culturais. Eco. defende que os níveis de cultura não implicam. mediante um sistema de ―mediações‖ e ―traduções‖. uma banda desenhada apreciada por um público restrito). Eco salienta a viabilidade de um jogo de influências e passagens recíprocas. Uma das ilustrações mais marcantes encontra-se na performatização das vanguardas artísticas ao nível das culturas populares. graus distintos de complexidade. a produção do risco e da novidade acontecem mais frequentemente nos domínios periférico e local. Em suma. por exemplo. como por exemplo certas versões do punk rock. já que no core domain a principal preocupação é a produção da segurança e a sincronização (nem sempre conseguida[203]) entre os programas apresentados e as audiências. Do mesmo modo. necessariamente. a obras de vanguarda. o que aqui se defende é uma alteração da conceptualização dos diferentes níveis de cultura. sem perda de valor estético. nos últimos verifica-se uma contínua subdivisão dos géneros culturais. sem que esse facto comporte um juízo de complexidade ou de valor‖[204]. não acarreta uma desqualificação de valor: ―Existem produtos que. Desta forma. revelam-se consumíveis a um nível diferente. ou. de algum modo. das expressões da ―alta cultura‖. quer de distintos níveis de cultura[205]. em sentido contrário. por vezes com intervalos de décadas. Desta forma. atingir públicos cada vez mais vastos.designadamente a grupos sociais com elevado capital cultural. operando uma mudança de horizonte receptivo. Além do mais. é dada a possibilidade de nos confrontarmos com uma ―multiplicidade de belos‖.

2. Esta pretensão de elaborar uma economia dos bens simbólicos choca. Diferentes olhares sobre o lugar dos públicos e os gostos culturais. o ―trânsito mútuo‖. Assim. de um modelo etnocêntrico de defesa de consumos elitistas. espécie de ideologia carismática que considera a produção simbólica como o produto encantado de um ―milagre social‖: ―acto puro onde não há outra determinação que a da intenção propriamente estética‖[207]. as suas agências de consagração. Bourdieu questiona as condições que os tornam necessários. encontram como que ―naturalmente‖ . a sua estrutura de posições. Bourdieu considera como pré-requisito fundamental de uma sociologia da cultura e da arte. romper com a concepção do artista como criador. Uma das perspectivas mais discutidas sobre a relação entre a esfera da produção cultural e a esfera do consumo é. Apesar de o campo cultural aproveitar a sua autonomia relativa e a sua pouca institucionalização para impor a sua visão do mundo[208]. enfim. na medida em que este se apresenta como o reino da negação do económico. este autor pretende. em vez. salienta-se a diversificação das escolhas e dos gostos culturais. imbricação e reciclagem.2. Ao analisar a estrutura interna do campo cultural enquanto ―estrutura das relações objectivas entre as posições ocupadas por indivíduos ou grupos colocados em situação de concorrência pela legitimidade‖[211]. a abordagem das homologias defendida por Pierre Bourdieu. antes de mais. com as suas leis de funcionamento.―pureza‖ das diferentes formas de cultura. o seu capital específico. procurando descortinar os interesses e enjeux que se engendram no campo cultural[210]. Nesta procura da génese dos fenómenos simbólicos. sem dúvida. As primeiras definem-se relacionalmente. as suas regras do jogo. Bourdieu ocupa-se de duas espécies de homologia. A primeira diz respeito à dialéctica entre posições e disposições. Ao querer fundar uma economia dos fenómenos simbólicos.1 A lógica das homologias. tendo em conta um certo estado das lutas internas (lutas pela definição legítima da estrutura do campo[212]). combater concepções de cultura que oscilam entre ―um economicismo redutor e um idealismo ou espiritualismo‖[206]. Desta forma. Bourdieu utiliza intencionalmente o conceito deprodutor como forma de analisar a especificidade do trabalho de produção cultural num campo relativamente autónomo[209]. em vez da unidimensionalidade. com as narrativas autolegitimadoras do campo cultural. evidentemente. introduz-se a sua ―contaminação‖. do desinteresse absoluto ou da ―arte pura‖.2. 2. enfim.

desta feita entre a oferta e a procura das obras culturais. e a história do espaço social no seu conjunto. mas que necessita. para compreender a génese da produção cultural na sua globalidade. Desta forma. conjunto de disposições incorporadas através de um trabalho de inculcação/assimilação que deve o seu volume a uma transmissão hereditária fortemente dissimulada) encontra uma correspondência no capital cultural objectivado (capital cultural transmissível na sua materialidade. afirmar que a produção resulta do duplo encontro de duas lógicas distintas.o seu habitus ou sistema de disposições. que constitui a procura: ―Na ordem do consumo. No interior do campo. Importa. que funcionam como produto e produtor das primeiras. No entanto. No domínio do espaço social. depende apenas do que no seu interior se vai passando. a história do campo de produção. em especial no campo do poder. as tomadas de posição encontram-se numa posição homóloga às diferentes posições ocupadas no campo e aos interesses que estas representam. são o produto do encontro entre duas histórias. que tem as suas próprias leis de mudança. ou. as práticas e os consumos culturais observáveis num dado momento. já que. entre o conjunto das obras culturais que constitui a oferta e a matriz socialmente condicionada dos gostos. entre as disposições dos produtores (mais ou menos ajustadas às posições) e as tomadas de posição. pois. os gostos encontram as suas obras e viceversa. se preferirmos. exercem sobre elas um poder efectivo de actualização. que determina os gostos por intermédio das propriedades inscritas numa . Por seu lado. entre o campo dos autores e o campo dos consumidores. A teoria dos campos é multidimensional e o que se processa no campo cultural não é independente do estado das relações objectivas entre posições e disposições nos outros campos. de um volume homólogo de capital cultural incorporado)[214]. não se pense que o estado das lutas internas no campo. o capital cultural incorporado (capital ―pessoal‖. sendo por elas condicionado. Desta forma. a história do campo encontra o seu princípio gerador na relação permanente entre estas duas estruturas: ―a estrutura das relações objectivas entre as posições no campo de produção (e entre os produtores que as ocupam) e a estrutura das relações objectivas entre as tomadas de posição‖[213]. inclusivamente nas trajectórias possíveis. para a sua apropriação. mesmo que isso não resulte (e não resulta. responsável pela sua evolução histórica. Podemos. na maior parte das vezes) de um cálculo estrategicamente calculado. Assim. ter em conta um segundo conjunto de homologias.

Esta questão liga-se indissociavelmente. muitas são as críticas a esta abordagem teórica. salienta a impossibilidade de aplicação do conceito. prefigurando uma espécie de ―douta ignorância‖: ―A inconsciência do grupo estudado era o preço a pagar (. às críticas que são feitas ao carácter estático do conceito de habitus e à circularidade tautológica das propostas teóricas do seu autor.. prossegue Certeau.) e através dos condicionamentos sociais associados a condições materiais de existência particulares e a uma posição particular na estrutura social‖[215]. pela génese das práticas. por outro lado. com a incorporação do novo. Desta forma. já que não se verifica uma escolha entre várias possibilidades. aliás. as que apontam para um efeito―essencialista‖ na pretensão objectivista da sua sociologia. acrescenta. o carácter desmistificador da ciência das obras culturais que Bourdieu protagoniza. antes de mais. De facto. na teoria geral de Bourdieu.posição (. Reside aqui. Afinal. mas sim da lógica certeira de uma dupla homologia.. de ―estratégia‖. e o gosto do consumidor[216]. Por isso mesmo. fundada numa razão que se coloca acima da experiência e que não reconhece legitimidade aos diferentes ―mundos‖ das vivências quotidianas[217]. não existem propriamente ―estratégias‖. entre as divisões internas do campo cultural e do subcampo artístico (das quais resultam os diferentes géneros) e a diferenciação dos públicos e consumidores. existe uma perspectiva de uma integração funcional da ordem social através de graus distintos de correspondência estrutural. No entanto. Assim. as ―estratégias‖ situam-se ao nível inconsciente. mais dinâmico. No entanto. Em última análise. o próprio conflito. esse encontro é fruto da correspondência entre o gosto do produtor cultural. Certeau. De facto.) pela sua coerência‖[219]. adesão e protagonismo dos agentes sociais relativamente à mudança‖[218]. Desde logo. o encontro entre um público e uma obra cultural não é produto de um milagre social. contribuindo de forma decisiva para a sua reprodução. se as práticas constituem sempre uma resposta às conjunturas. Bourdieu explica a sua adequação à estrutura. a este respeito. existe uma minimização de ―questões igualmente relevantes que têm a ver com a permanente premência da socialização.. e com a adaptabilidade. objectivado na obra. funcionando as homologias como uma estrutura omnipresente de regulação social. uma crença (illusio) no jogo. uma aceitação dos seus pressupostos e dos seus resultados. traduzido nas lutas internas do campo. Como refere José Luís Casanova. por mais paradoxal que pareça. a única possibilidade de mudança social situa-se ao nível das estruturas e não do que é interiorizado (habitus): ―(o que se . não é o motor da sua história.. O conflito representa. De facto. tudo se processa como se de um mundo extremamente ordenado se tratasse.

de facto. o habitus é durável mas não imutável[222]. Bourdieu adianta que a margem de liberdade e de inovação é tanto maior. quanto maior for a distância entre as condições sociais de produção do produtor e as exigências sociais inscritas no seu lugar no campo. favorecendo uma concepção passiva e ―nocturna‖ do actor social.adquire) não tem movimento próprio. é o instrumento adequado para explicar a reprodução social através das práticas. Este. De facto. Como o autor francês refere. a tomada de posição depende do espaço de possíveis disponível. encontra-se aberto à mudança. Como refere José Luís Casanova. É o lugar de inscrição das estruturas. existe uma constante dialéctica entre o lugar. como pode pretender transformá-lo. à estrutura das posições. importa reconhecer as constantes rectificações que Bourdieu vai introduzindo na sua matriz teórica. o habitus não pode ser encarado de forma mecânica. Bourdieu atraiçoa a autonomia que confere ao campo cultural quando vê nas suas lutas internas uma tentativa de maximização de um capital simbólico que servirá como instrumento de poder no campo social. O mármore onde se grava a sua história‖[220]. já que as tomadas de posição não correspondem. tanto pode aceitar passivamente o seu lugar num dado campo. dentro do qual se admite um conjunto mais ou menos fechado de alternativas. Antes de mais. Produto da história. necessariamente. As formas culturais caracterizam-se. questão que nos leva a considerar a sua história como uma ―expressão refractada‖ e não automática do que no exterior do campo se vai passando. pensamos ser legítima a crítica que aponta para a existência de uma prioridade do social sobre o simbólico na teoria geral dos campos[224]. por estarem subordinadas à . é da maior importância. Não podemos tão pouco afirmar que o campo cultural é um mero reflexo da estrutura social. devem ser suavizadas. em nossa opinião. No campo cultural. O sistema de disposições não é apenas estruturado. Daí o imobilismo da teoria e o cariz ―místico‖ e ―dogmático‖ do conceito de habitus. De qualquer forma. através de um entendimento rigoroso dos conceitos que Bourdieu amiúde utiliza. De facto. o que permite o preenchimento de zonas de incerteza e de ―lacunas estruturais‖[223]. se bem que parcialmente justificadas pela tautológica rede de homologias. ele funciona também de forma estruturante. já que exerce sempre uma acção transformadora e de actualização do sistema de disposições inscrito numa dada posição social. Por outro lado. A compreensão do habitus enquanto conceito mediador entre as condições materiais de existência e as práticas sociais propriamente ditas. a posição. assim. No entanto. e o habitus[221]. Este. No entanto. as acusações de determinismo. a sua referência à autonomia relativa do campo.

em que produção e consumo. para a necessidade de não cairmos na tentação de que a teoria de Bourdieu tudo explica. oferta e procura. sem dúvida. a procura de novas abordagens. Em síntese. por conseguinte. 2. dentro de uma mesma classe social. Por outras palavras. coexistam gostos e consumos díspares? Como reconhecer. inadequado. a fenómenos mais recentes de uma certa ―desinstitucionalização‖. procura permanente de Perspectivas complementares e/ou alternativas. o produto de uma homologia entre o espaço da produção cultural e o campo social? Como entender processos flutuantes e reversíveis de formação de gostos? Não será a teoria de Bourdieu um espelho da situação francesa dos anos 60 e 70 (data da recolha do material empírico). ―efervescência‖ e circulação de públicos. suscitando. Não faltam exemplos. em formas culturais híbridas e resultantes de um movimento de ―importação-exportação‖ ou de reciclagem mútua entre vários níveis de cultura. em que a noção de serviço público pressupõe uma forte intervenção do Estado pelo lado da oferta. procuramos nesta. Contudo.2. ao contrário do estabelecido no paradigma de Bourdieu. no quadro das políticas culturais dos países ocidentais.2. se encontram desarticuladas. a explicação das suas práticas. em especial nas áreas estruturalmente deficitárias. por conseguinte. associados a um movimento amplo mas difuso de estetização do quotidiano[225]? Não será de admitir. a especificidade do simbólico. as lutas simbólicas acabam sempre por exprimir lutas entre as classes sociais. uma pluralidade social de formas de expressão? Questões que alertam. Actuando os produtores e consumidores culturais de acordo com o seu posicionamento na estrutura social. para além da esfera da cultura ―legítima‖. para além de se preocupar primordialmente com a desmistificação da figura singular do ―artista‖. ênfase na experimentação e na pesquisa. pós-moderna.ordem social. em última instância. Situações existem. diluindo-se.—a questão . ou no interior de uma mesma classe social. Pierre-Michel Menger estudou o caso da música contemporânea em França constatando que. por consequência. como reagir em situações de quebra das homologias? O que dizer de consumos culturais marcadamente ecléticos. apesar do seu crescente esoterismo (ruptura com a tradição tonal. abrangendo largas camadas da estrutura social? Como explicar que. na medida em que existe uma―harmonia preestabelecida‖ entre uma zona de gosto e determinadas produções culturais. Bourdieu desvaloriza o estatuto criativo dos públicos da cultura.

―filhos‖ do espírito do Maio de 68. este atraso do consumo face à oferta só é compreensível no interior de um paradigma que legitima uma ―espiral de autonomia estética e a autarcia sócio-económica da criação erudita‖[226]. afastada do pólo intelectual e artístico e favorável ao sincretismo cultural. pela sofisticação técnica (com recurso à informática) da nova criação erudita[227]. imaginação e superação da obrigatoriedade de submissão a códigos comuns (a partitura pré-existente). ascetismo. traduzido por um público restrito e por uma total impossibilidade de autofinanciamento. A idade é também uma variável diferenciadora: os mais novos constituem uma audiência efémera e equívoca. dos tratamentos e das combinações de materiais. a recusa da imitação entronca com a suprema valorização da singularidade autoral. apenas se pode explicar tendo em conta a forte protecção pública que cria uma espécie de ―mercado assistido da inovação musical‖. antes de tudo o resto. outros tendem a valorizar conceitos tão ambíguos como a ―paixão‖ e a ―felicidade da comunicação imediata‖[228]. uma audiência perplexa perante o seu sentimento de incompetência decifratória e que avalia as obras pela sua falta de legibilidade e de clareza. de grande autarcia e autonomia. Mas. Para estes.). pelo contrário. Se alguns subgrupos revelam uma familiarização laboriosa com este tipo de criação musical. anti-conformismo. se não mesmo pela sua ―agressividade auditiva‖. ausência de um ―código‖ inteligível. a ―máquina homológica‖ desarticula-se perante a ―paralisia que afecta o julgamento estético e as capacidades de discriminação estilística: à extrema singularização dos modelos e das técnicas de composição. Enquanto que os mais competentes se caracterizam pelo proselitismo. a vaga dos auditores familiarizados com a música contemporânea e que apreciam a inovação e tudo o que com ela se relaciona (criatividade. Como refere Manger. dos mais familiarizados com os códigos da música contemporânea. o fechamento desse subcampo não só se manteve inalterado como se acentuou. recrutam-se os públicos assíduos. apesar de uma forte presença de auto-consumo (grande parte do público é constituído por produtores artísticos e profissionais dos mercados culturais). mesmo dentro dos melómanos verificam-se oposições significativas. boa-vontade cultural e voluntarismo. os consumidores ―profanos‖ são frequentadores errantes. De facto. etc. um certo sentimento de humor e espontaneidade). Do outro lado. tal situação.novas linguagens. No entanto. os que acumulam experiências perceptivas e se revelam capazes de uma atitude de investimento ascético. responde a falta . no que ela representa de liberdade. D um lado. A partir dos 35 anos. Para além de um forte capital simbólico dos artistas e do seu público (sobreseleccionado). aos que se interessam. constata-se uma assinalável heterogeneidade de comportamentos perceptivos que vão desde os mais competentes aos mais ingénuos (caracterizados pela sua ―virgindade perceptiva‖).

geração ou classe. no domínio da leitura. é erróneo classificar as obras partindo do seu grau de legitimidade social aferido pelo nível social do público que a consome. características de uma ―recepção impura‖ (falta de inteligibilidade) que se julgaria (segundo Bourdieu) estar reservada aos grupos menos cultivados. Daí a crítica à homologia nível cultural da obra/nível cultural do público: ―Se a tautologia «o nível da obra é o nível do seu público» nos parece de uma sensata crueza sociológica. . no caso da leitura e da classificação das obras em géneros. explicar a composição social dos públicos que consomem determinado género. de deciframento e de avaliação das obras‖[229]. dada a aparente uniformidade sócio-cultural do público. Poder-se-á tentar limitar o alcance desta perspectiva por esta representar um caso extremamente singular. desaparece a ideia de homogeneidade de um público hiperseleccionado. Através da sua investigação Parmentier conclui pela existência de gostos culturais que. atribuindo-lhes certos estereótipos de experiência estética[230]. representativas de gostos de um sexo. muitas vezes. Patrick Parmentier critica a dedução apriorística feita a partir de propriedades supostamente intrínsecas aos géneros e que permitem. transcendem as divisões em géneros[233]. Afinal. a sua aplicação leva a um círculo vicioso na exploração de qualquer inquérito. num subsequente exercício de categorização social. Os limites do raciocínio homológico são aliás evidenciados por duas constatações empíricas. convém não esquecer a especificidade de cada domínio. Eventualmente o modelo de Bourdieu encontra maior correspondência para o estado do subcampo literário numa determinada época histórica. certas associações de géneros. fundamento essencial do conceito de homologia. nada lhe permite aferir sobre a qualidade estética das obras. Mas é incontornável a constatação de que fornece um excelente contra-exemplo. Da mesma forma. segundo Parmentier. a audiência é fragmentada por diferentes atitudes perceptivas.abundantemente comprovada de poderes de categorização. estabelece uma ligação com o estatuto social das obras mas não com o seu conteúdo estético ou cognitivo. ―a hierarquia dos diferentes níveis culturais a partir da hierarquia social dos públicos modais das obras‖[231]. género e subcampo artístico. A composição social dos públicos. De qualquer forma. Da mesma forma. já anteriormente apontadas por Umberto Eco: o mesmo sujeito consome produtos de níveis culturais diferentes e determinados produtos (―socialmente equívocos‖) são consumidos por grupos diferentes (atente-se no caso da banda desenhada). tão-pouco sobre o seu ―nível de dificuldade‖. cruzam os diferentes níveis de legitimidade sócio-cultural. Em suma. parte dela. colocando em relação as classes de obras e as classes de públicos‖[232]. agora. revelando. Se é certo que a Sociologia da Cultura determina. Atente-se.

No entanto. supostamente. Estas seriam. se pensarmos em toda a teoria da distinção social e do capital simbólico desenvolvida até à exaustão por Bourdieu. De acordo com Crane. negadora. Por outro lado. apresenta uma concepção da relação entre cultura e sociedade que se pode mesmo considerar inversa à do sociólogo de La Distinction. empiricamente. fenómenos que resultam do crescente multiculturalismo das sociedades ocidentais e que passaram despercebidos a Bourdieu. há que criticar no autor francês o facto de apenas considerar a existência de uma cultura legítima e legitimadora: a alta cultura. torna-se hoje difícil estabelecer uma homologia nítida entre as escolhas culturais e as pertenças classistas. É esta a principal ideia que permite explicar a hiperfragmentação das sociedades pós-modernas. De facto. socorrendo-se de Bell. etc. o paradigma bourdiano. criticam e tentam desconstruir. De acordo com esta autora. Para Diane Crane. o cenário de uma disjunção entre a economia e a cultura. pretende dar conta dos crescentes cruzamentos e miscegenações culturais das sociedades contemporâneas. no seu essencial. Diana Crane. Menger e Parmentier. museus. Em síntese. ou entre a produção e o consumo. o cerne da proposta de Diana Crane pode ser explicitado através da seguinte proposição. galerias. dentro das várias classes sociais existem importantes clivagens consoante o sexo. os processos de formação das identidades ligam-se cada vez mais ao simbólico e ao estético: ―os objectos materiais adquirem uma maior importância como marcadores subtis de identificação com códigos simbólicos‖[235] ganhando proeminência face ao status social per se. no entanto. da importância do habitus de classe: os membros de uma mesma classe social exibem gostos e práticas culturais muito diversas. Este aspecto. defende uma disjunção entre os valores das instituições políticas e económicas e a constelação normativa das instituições culturais.) de alargarem os seus públicos para obterem maiores financiamentos. salienta uma modificação societal da maior importância: a mudança da classe social para os estilos de vida como base da estratificação social[234]. Crane não rejeita os enraizamentos sociais das práticas culturais. não nos parece ser particularmente inovador. Desta forma. a etnia. a própria oferta cultural torna-se cada vez mais eclética. . Crane salienta a crescente incongruência entre os gostos e a esfera ocupacional/profissional nas modernas sociedades. Também a este aspecto (modificações organizacionais nos sectores culturais) Bourdieu não prestou grande atenção analítica.Se estes dois autores. já que existe uma crescente necessidade por parte das organizações culturais de elite (orquestras. autora americana. Além disso. apanágio de elites muito restritas. Ao mesmo tempo. a região e mesmo a religião.

. quer dizer. mesmo pela negativa. é ainda por relação ao trabalho. a abstracção ou a figuração. Há mesmo quem defenda o nivelamento estilístico da imagem pessoal e da moda. da equivalência geral de todos os usos e discursos. perante o descalabro das ―ambições ecuménicas‖ e das ―expectativas universais‖[237]. apesar de ambos manterem a sua autonomia. viveríamos no tempo da dissolução das barreiras.) vivemos no êxtase do valor. no ponto em que todos os valores estéticos (os estilos. reforçando-se mutuamente a exclusão cultural e a exclusão sócio-económica. o consumo nas sociedades industriais avançadas é indissociável da ordem da produção. vê-se Western. o conhecimento é matéria para concursos televisivos‖[239]. da ideia de projecto e da finalidade da história. figurar no hit parade sem que seja possível compará-los ou ressuscitar qualquer julgamento de valor‖[238]. Segundo Jean Baudrillard vivemos no apogeu da equivalência dos gostos e dos estilos: ―(. das distinções. todos aqueles que se encontram em situação de vulnerabilidade. onde apenas é possível a integração através do consumo. gostos e condutas da ordem sócio-económica aparece contrariado pelos mais diversos inquéritos sobre lazer e tempos livres. somos constantemente interpelados pelas novas questões sociais[241]. As suas formas mais agudas afectam. sem atender a qualquer marcador de classe[240]. em que as profissões manuais não qualificadas se encontram excluídas de quase todas as práticas culturais. No entanto. isto é. onde todos podem. o néo ou o rétro. O espírito da pós-modernidade apenas pode ser apanágio de uma parte limitada da população ocidental e da humanidade. Como refere Robert Castel[242]. as maneiras. usa-se perfume parisiense em Tóquio e roupa «rétro» em Hong-Kong. nas malhas da flexibilização e precarização do trabalho. etc. tolerante e não classificável em termos de diferenças de classe. O desvincular dos comportamentos. Além do mais.) são simultânea e potencialmente maximais. um novo tipo de consumo. Se é verdade que este deixa de funcionar. para muitos. por efeito especial.. do desenfreado ecletismo: ―O ecletismo é o grau zero da cultura geral contemporânea: ouve-se reggae. que os indivíduos se posicionam. Rodeados por ―objectos-fétiche‖. de um só golpe. das hierarquias. o seu desligamento das fronteiras classistas e a sua irreversível personalização. num processo em que cada um organiza a sua apresentação como quer. como o instrumento de integração social. estaremos perante o fim das ―metanarrativas de legitimação‖[236]. como demonstram Christian Lalive d'Epinay e outros[243].Segundo os arautos do advento da pós-modernidade. come-se MacDonald ao meio-dia e cozinha local à noite. a degradação da relação salarial e dos seus mecanismos de suporte social estão na origem de um individualismo negativo que atomiza os actores em indivíduos socialmente inúteis. precisamente. Para sustentar um processo de contínuo aumento da .

todavia. A ordem cultural. Para este autor. as significações e bens culturais não funcionam como . da comunicação e da informação. mas muito mais ao monopólio da gestão da tecnologia e ciência. não deixa de manter com ela importantes interacções. Neste ponto parece existir uma similitude assinalável com a proposta de Bourdieu: afinal. consumir[244]. é uma condição indispensável para o contínuo aumento da produtividade. ligados. O declínio do ascetismo burguês e da apologia do trabalho. necessariamente. ambos defendem uma forte ligação entre a ordem da produção e a ordem do consumo/recepção. Desta forma. de um pressuposto fundamental . a divisão da arte em géneros é simultaneamente produto e condição do agrupamento de gostos. e a sua substituição pelo materialismo hedonista (fun morality) não são fenómenos independentes das novas exigências económicas. Por outras palavras. De facto. o grau de universalidade dos sistemas de classificação e. Para multiplicar. o grau de hierarquização desses géneros. A este respeito. impõe-se destruir. parte do qual regressa ao sistema produtivo sob a forma de consumo. nomeadamente na hierarquização dos consumidores e nos novos mecanismos de desigualdade social. Uma outra proposta de contornos inovadores sobre a articulação entre a oferta e a procura cultural é da autoria de Paul DiMaggio. Este autor parte do conceito de género[245] para considerar que os sistemas de classificação artísticos (―artistic classification systems‖.produtividade. A complexificação da sua proposta é patente nas quatro dimensões que caracterizam um ACS: o grau dediferenciação da arte em géneros institucionalmente delimitados. No entanto. o que impossibilita. de dinheiro e de energias.ACS) são o resultado de duas lógicas complementares: a da produção e distribuição dos bens culturais e a da estrutura de gostos de uma dada população. não sendo uma duplicata da ordem da produção. a destruição de bens. não tanto ao controle dos meios de produção. ou seja.a equivalência estrutural entre produtos culturais e públicos: o género ―consiste naqueles conjuntos de trabalhos que desenvolvem relações similares com o mesmo conjunto de pessoas‖[246]. da inovação. DiMaggio desenvolve um número considerável de hipóteses que partem. as semelhanças ficam-se por aqui. finalmente. DiMaggio não reconhece isomorfismos entre a estrutura social e os padrões de gosto ou de consumo cultural. o grau de ritualização das fronteiras entre os diversos géneros. as modernas sociedades trocam o trabalho pelo salário. que estudemos isoladamente os padrões de consumo e os padrões de produção.

da maior complexidade do sistema de papéis sociais e das redes sociais. o que possibilita uma ―descolagem‖ face aos grupos de pertença e uma maior identificação com . forma círculos de sociabilidade mais ou menos restritos. ao estabelecimento de conversas sobre o seu destino profissional com adultos bem posicionados no mercado de trabalho. Tal resulta. os seus usos sociais. é mais importante estudar o consumo invisível da cultura. Assim. A arte enquanto fonte de sociabilidade reside na concepção dos interesses culturais como―interesses comuns de conversa sociável‖[248]. a uma crescente incongruência entre as várias dimensões do estatuto social. facilita as relações entre pessoas com um elevado estatuto social. do que os objectos ou artefactos culturais materialmente apreensíveis. favorece ou dificulta projectos de mobilidade social. Na sociedade americana. e ainda a um estatuto promissor do futuro cônjuge. na medida em que os actores inseridos em trajectórias de mobilidade social ascendente demonstram uma nítida preferência pelos ―programas culturais‖. que optam pelos programas de entretenimento[249]. o que sem dúvida conduz a um enfraquecimento do valor de raridade a que se associa o capital cultural. Desta forma. menos universais (e por isso mais ecléticos) e menos ritualizados. a fruição da cultura popular tem um carácter acentuadamente lúdico e convivial (a audição da música popular relaciona-se. com o hábito de visitar amigos) e não tanto um uso ―puramente social‖. O ponto fulcral da sua proposta consiste em analisar a esfera cultural como um sistema relacional de comunicação interactiva e de mobilização colectiva.rentabilização de lucros materiais e/ou simbólicos. esbatendo-se as fronteiras entre a alta cultura e as demais formas expressivas. estimula a constituição de mercados matrimoniais. Pelo contrário. precisamente. A cultura. conjunto de ―formas através das quais as pessoas utilizam a cultura para estabelecerem contactos entre si‖[247]. menos hierarquizados. nem tão-pouco para reproduzir a estrutura de poder dominante. por exemplo. por exemplo. DiMaggio refere estudos que demonstram que os estudantes americanos familiarizados com os rituais da alta cultura se encontram associados a elevados níveis de sucesso escolar. ao contrário dos sujeitos em situação de ―mobilidade social bloqueada‖. da maior interacção intergrupal e ainda do acesso mais generalizado aos patamares superiores do ensino. o gosto pela alta cultura. os ACS estão a tornar-se mais diferenciados (a autoridade cultural encontra-se menos concentrada). Assiste-se. o que poderá servir os intentos de quem se encontra numa trajectória de mobilidade ascendente. Estudos sobre práticas culturais efectuados em França corroboram esta hipótese. ao ser tema de conversa. assim. aproxima ou afasta as pessoas.

Baseado nestes pressupostos.a participação e o interesse pela alta cultura não requerem. pensamos que esta última tese. . audiovisual. necessariamente. etc. . teatro. a constatação de que as camadas com elevado capital social mantêm um consumo ultra-abrangente. ou ainda com grupos cujo prestígio ocupacional é mais elevado do que o capital escolar). pois. entre um determinado gosto e um processo mais ou menos demorado de formação/inculcação. enquanto que as camadas populares concentram as suas actividades culturais quase exclusivamente no televisionamento (precisamente — e aqui a explicação é de DiMaggio — porque a sua rede de relacionamento social é limitada e os investimentos na cultura estão longe de ser compensatórios).os grupos de referência (também em franca multiplicação).o gosto não é necessariamente produto de uma transmissão familiar.o gosto e a participação nas manifestações culturais dependem muito mais do prestígio do género cultural (situado na alta cultura ou na cultura popular[250]) do que do suporte utilizado (literatura. . o que possibilita a formação de vastos repertórios de gosto. o que leva a questionar a indissociabilidade. De facto. assiste-se hoje à comunicação .finalmente. objectiva ou subjectivamente. já que os recursos culturais podem ser adquiridos tendo em vista a construção de redes de relacionamento exógenas ao meio de residência. com poucas alterações do seu estado primeiro. um menor espaço de opções. torna-se hoje em dia impensável continuar a falar de um processo estável e contínuo de socialização. segundo DiMaggio. apesar de funcionar como crítica às rígidas homologias bourdianas confere em parte razão ao autor francês. já que um maior leque de escolhas se encontra associado a situações de classe com um alto volume de capitais. enquanto suporte de trajectórias de mobilidade social ascendente. reiterada com particular ênfase por Bourdieu. O contributo porventura mais decisivo de DiMaggio reside. de forma a solidificar a manutenção de redes sociais alargadas e diversificadas. Em vez de um modelo de estrutura social baseado em classes e grupos sociais claramente delimitados. na elucidação das principais tendências de recomposição da sociedade americana. um elevado conhecimento da mesma. em quase todos os géneros e produtos culturais. baseado na incorporação de novas experiências a partir de uma matriz (ouhabitus) inicial. com certas camadas de trabalhadores qualificados. No entanto. de forma a servir aspirações de mobilidade social ascendente (tal como acontece.). possuindo. DiMaggio elabora uma série de críticas às teorias que defendem a existência de relações de homologia entre os gostos e a estrutura social: .

salienta mesmo que ―as identidades estão (. ser relativizadas aquando da sua transposição para outras realidades que não a americana. dito de outra forma. discutir política e comida natural com os amigos da sua mulher e instigar uma admiração por Brahms e Picasso na sua filha ou filho[251]. parece-nos ser da maior importância a sua abordagem sobre os usos sociais da cultura em sociedades cujos sistemas de papéis se caracterizam pela incongruência. com certeza. casado com uma mulher ―colarinho branco‖ deve saber de desportos e de música rock no trabalho. o adaptarmos às modificações na estrutura social das sociedades contemporâneas. . As propostas de DiMaggio devem. não podemos deixar de pensar nos processos de mobilidade social e profissional. marcadas por um certa incongruência dos múltiplos estatutos sociais que vão marcando as nossas trajectórias e onde as ―ocasiões de conversa‖ surgem como fonte privilegiada de formação das identidades. Paulo Filipe Monteiro. diversidade e complexidade. face a uma outra que concentra as suas energias no standing e na acumulação de sinais exteriores de um (relativo) bem-estar[253].) mais associadas aos lugares do que às pessoas‖[252]. o mesmo acontecendo com Bourdieu a partir do contexto francês. com a consequente redução do valor de raridade do capital cultural.. De facto. importa aproveitar as potencialidades deste conceito. De qualquer forma.entre redes sociais difusas. verifica-se um uso cada vez mais selectivo e pragmático das referências culturais de acordo com os contextos de interacção: ―Um pai que seja operário qualificado. Desta forma. sugere a utilização do conceito de investimento para pensarmos nas estratégias de mobilidade diferenciadoras de uma fracção que aposta decisivamente nos usos culturais. Em síntese. ligados à explosão do terciário urbano e ao incremento significativo das taxas de escolaridade. ligadas a uma diversificação de contactos e de círculos de convivialidade. em particular o de habitus e de capital. alerta-nos para uma certa prudência na utilização dos conceitos consagrados da sociologia. A multiplicidade de referências sociais. ou. e no que toca às classes mais desfavorecidas.. para. Assim. Jan Rupp alerta-nos precisamente para a necessidade de não pensarmos nas classes populares como meros protagonistas da interiorização de um habitus definido pela negativa e por oposição aos cânones da cultura legítima. através de uma série de reformulações parciais. aos repertórios associados à diversificada rede de papéis sociais por onde o agente circula. Com efeito. referindo Luhmann. parece-nos que as valiosas observações de DiMaggio se coadunam com as propostas de enriquecimento do conceito de habitus da autoria de José Luís Casanova.

Não se trata. Transformações na esfera das identidades sociais. as desigualdades atingem formas inéditas. numa reviravolta vertiginosa. pensamos ser importante adequar a teoria às novas e profundas modificações das sociedades de ―capitalismo desorganizado‖. questionar o enraizamento social dos fenómenos culturais. o adiamento da entrada na vida adulta (e acrescentaríamos a multiplicação de estatutos juvenis provisórios. para a extensão das redes de sociabilidade como um indicador de vitalidade e protagonismo cultural[255]. a banalização dos contactos interculturais e interétnicos e ainda a multiplicação de contextos de sociabilidade e de situações de interacção interclassistas[254]. como já foi referido. emprego clandestino e desemprego (ligados à compressão e segmentação do mercado de trabalho). Aliás.Dentro desta linha. que essas redes são apanágio de uma minoria (parisienses. claramente. para utilizar uma expressão de Lash e Urry[256]. altamente qualificados. parece-nos claro. a crescente expansão da escolaridade e do ensino superior. a acentuada mobilidade profissional e residencial. . como alguns pretendem. instáveis e precários). ou mesmo. Aceitar as profundas e recentes transformações das sociedades contemporâneas não significa. igualmente. apesar de apontarem. onde o espaço social se fragmenta. o aumento em flecha de situações de sub-emprego. nem tão-pouco de recusar os seus efeitos na determinação social dos gostos. de defender uma perspectiva de fim das hierarquias e diferenciações sociais. demonstram. laços extremamente selectivos. estudos recentes sobre as práticas culturais dos franceses. atribuindo-lhes uma total independência analítica. as rígidas homologias perdem operacionalidade e a imprevisibilidade crescente da acção social e dos seus efeitos não pretendidos obrigam a um constante repensar dos conceitos estabelecidos. De qualquer forma. alargando-se a novos domínios. híbridos. 3. José Luís Casanova apresenta algumas das principais modificações societais que tendem a relativizar o trabalho pedagógico primário de constituição do habitus: a pluralidade (e acrescentaríamos a reversibilidade e a flexibilidade) dos actuais modelos familiares. jovens e celibatários) constituindo. enquadrando-os numa perspectiva dinâmica e diacrónica. por isso. a crescente exposição aos mass media. conferindo-lhes uma espécie de hegemonia no encadeamento causal.

com a pluralidade de papéis e posições sociais e com a transitoriedade das normas reguladoras dos contextos de interacção‖[263]. ―o novo self tem de ser explorado e construído como parte de um processo reflexivo de conexão entre o pessoal e a mudança social‖[260]. fora de ―redes estruturadas de relações sociais‖. em que as identidades se construíam ritualmente. Ao contrário das sociedades pré-modernas.A formação das identidades sociais não acontece no vazio social. tornando esse trabalho crescentemente incerto. nas sociedades da ―modernidade tardia‖ (segundo o conceito de Giddens[259]). ―é no cruzamento da comparação e da categorização que o indivíduo se identifica. descobrindo-se como único e simultaneamente como semelhante. Trata-se. É neste sentido que se tem mostrado que a dimensão social e a dimensão idiossincrática do eu. de salientar os mecanismos de reflexividade que conduzem a um ajustamento entre o plano pessoal e o plano social. afinal. que o sujeito social ―é capaz. Por outro lado. a este respeito. necessariamente. não são dois pólos dum contínuo. provisório e problemático ―com o crescimento da pluralidade dos contextos de interacção. escasseando os critérios de aplicação universal e estando em mutação as instâncias de autoridade. Por isso mesmo. uma coexistência de identidades com graus diversos de . As mais recentes dinâmicas culturais acentuam nitidamente a dimensão do ―Eu‖. negociação e construção social. também. também elas. ainda que o actor jamais possa ser considerado fora do seu contexto. mas igualmente se apresentam fluídas as ―âncoras‖ categoriais nas quais se baseia a construção social das identidades. ou a identidade social e a identidade pessoal. isto é. de comportar uma plurivocidade. tendo o indivíduo que escolher entre uma vasta panóplia de orientações normativas e padrões de conduta. redes de comunicação e de distribuição de poder[261]. Diana Crane refere que os padrões de conduta vigentes nos remetem para ―identidades multidimensionais. Não só se cruzam os tempos sociais[262]. Como refere Jorge Vala. Sendo a complexidade social um dado saliente das modernas sociedades. facilitando ao indivíduo o sentido e a localização da sua acção. As identidades sociais devem igualmente ser consideradas numa perspectiva processual e enquanto locus de conflito. mas duas dimensões que poderão ser representadas como ortogonais‖[257]. nas quais diferentes elementos se salientam consoante as situações‖[258]. a construção das identidades torna-se um processo problemático. historicamente a dialéctica ―Nós-Eu‖ tem sistematicamente favorecido um dos pólos. Otávio Velho lembra-nos. o seu estudo fornece-nos os melhores indicadores sobre as mudanças societais mais significativas.

enquadrada e contextualizada. tendencialmente mais ecléticos. actuando num campo de possíveis. também passam por estas considerações. noção que decerto não desagradaria a Bourdieu e a Giddens. os agentes são actores. não podem ser negligenciadas. em que a identidade está em permanente construção. negociando os significados que dão sentido à existência quotidiana. Não se trata. a aceitação das ―«impurezas» dos sincretismos. necessariamente. apesar de diferentemente (de)limitadas. Os argumentos que em seguida apresentamos dependem de um mesmo pressuposto: o agente social é dotado de uma cognoscibilidade e de uma margem de manobra que. por isso. utilizando recursos de racionalidade e poder que são sempre limitados. mantêm uma relação activa face aos constrangimentos e às condições de acção. remete-nos para os mecanismos de criação/recriação da própria sociedade e da relação entre práticas estruturantes e práticas estruturadas. retomamos as palavras de Augusto Santos Silva: ―Em contextos que são sempre estruturantes — nas várias acepções do termo -. CAPÍTULO III OS PÚBLICOS EM ACÇÃO OU O OFÍCIO DE RECEPTOR 1. a seu modo. de descobrir as formas sempre renovadas da sua articulação. Só não o são. em situações excepcionais. como refere DiMaggio na crítica a Bell. crescentemente flutuantes. as transformações sociais globais. Análise da recepção cultural como prática social. como de resto ficou patente no capítulo I. de conceber os sujeitos sociais como reactores sonâmbulos e passivos face aos constrangimentos estruturais que lhes são impostos. Mas igualmente um processo inventivo. Trata-se. sob pena de apagarmos analiticamente dimensões fundamentais da construção das sociedades. já o dissemos. hibridizações. questionando os papéis sociais e cristalizando. privação e sujeição absoluta. de defender a disjunção entre o social e o cultural. Parece-nos que os mecanismos de formação de novos públicos. Processo problemático. Neste sentido. de desapossamento. e de constituição de gostos e padrões de consumo.compromisso‖[264] o que implica. crioulizações e multipertencimentos‖[265]. A liberdade condicionada. Não se trata. num mundo onde se multiplicam os canais de difusão da informação. certamente. por isso mesmo objecto de particular explicação sociológica‖[266]. as fontes de identificação e os grupos de referência. envolvidos em rotinas práticas. isso sim. .

Como refere Umberto Eco. que as formas de manipulação e dominação simbólica encontram sempre. desmente uma lógica de distribuição de poder do tipo soma-zero.. É nossa convicção. salienta o . Caso contrário. a arte é indissociável das suas estruturas formativas. um acréscimo de informação. uma prática social. sendo do maior interesse analítico verificar em que grau essa atitude altera a natureza da obra e. e como o próprio Umberto Eco refere. De facto. prestaríamos a enorme injustiça de considerar certos grupos como inexistentes no jogo social. ao defendermos que a recepção cultural é. apesar de existirem obras que. em última análise. Paulo Filipe Monteiro[271]. Assim. indeterminado e aberto das obras culturais é outro pressuposto fundamental da teoria da recepção. na sua recepção. ―os autores de vanguarda das obras «abertas» (. estudioso da obra de Eco. é condição indispensável para a inovação. a exclusão de que são vítimas na realidade. como de resto afirmámos noutras ocasiões[267]. ao contrário da previsibilidade.. A mensagem cultural não encontra. o valor do produto fruído é influenciado pelas diferenciações de atitude fruitiva[268]. com maior ou menor sucesso. uma determinada resistência. de tão amorfos e resignados. à partida. para não reproduzir o status quoartístico é imprescindível inovar também no plano formal (daí a crítica à literatura realista). Por outro lado. antes de mais. e reiterando o que foi dito no capítulo anterior. Na mesma linha. escolhem os seus públicos. o seu conteúdo‖[270]. simultaneamente. bem como com os contextos de mediação institucional que separam autores e receptores. Todos os grupos sociais actualizam e protagonizam uma história que. As formas socialmente diferenciadas de apropriação dos produtos culturais devem ser permanentemente relacionadas com a estrutura da produção. rejeitamos os estereótipos de inércia e passividade que comummente se lhe atribui. designadamente no que se refere aos códigos culturais utilizados.Desta forma. jamais elas conseguiram fixar o seu sentido definitivo. De acordo com o autor de A Obra Aberta. um deserto vazio de referências. Como refere Peter Bondanella.) inovam no plano da forma artística. No entanto. O carácter incompleto. a mensagem plurívoca caracteriza-se pela sua multi-interpretabilidade. em cada releitura. proporcionando. que é sempre. quais os ―limites dentro dos quais uma obra é capaz de impor certos valores independentemente da atitude fruitiva com que a abordamos‖[269]. ainda que inoperante ou ineficaz. mesmo quando não lhes possibilita assumirem-se como autores e actores do seu destino. Esta — e aqui reside um contributo da maior importância — ultrapassa o dualismo forma/conteúdo. Este elogio da abertura referencial enquadra-se numa defesa da desordem estética que. no plano teórico. não faz sentido pensarmos a recepção cultural como uma prática unilateral. reforçando.

do ―público/não-público‖. esbate-se a diferença. através de múltiplos e sobrepostos exercícios de interpretação. corre-se o risco de permanecer na análise interna das obras ou nas superficiais determinações e descrições sociológicas dos consumos. de provocar os mesmos efeitos que o conteúdo (absurdo. mas poderosas e eficazes nas fixações sucessivas do sentido da obra. de forma a não cair no dilema do―consumo/não-consumo‖ ou. capaz. mais importante ainda. por exemplo) não coincide. repugnância. Por detrás de uma mesma prática de não-consumo podem estar atitudes de desconhecimento.papel da forma como linguagem. ou actualizar a resposta inicial. não podemos correr o risco de as considerar como unívocas. se preferirmos. não é menos verdade que não cabe apenas ao autor o estabelecimento da sua ―verdade‖ definitiva.. De certa forma. mesmo sendo importante conhecer a frequência de determinadas práticas culturais. necessariamente. e as pequenas e efémeras narrativas do quotidiano. se processa ao nível dos usos e das apropriações. Aquilo que o autor representa é uma resposta a uma determinada pergunta. Cabe aos receptores fornecer a sua resposta própria. decepção e consequente recusa face a uma determinada obra. e como refere Foucault. vergonha cultural ou. como refere Hans Robert Jauss[272]. abissal e intransponível para os defensores da aura. . tornando possível a sua sobrevivência. Mas.). por isso. da singularidade e do génio do criador. familiaridade. com o não público de outro (por hipótese a literatura). na vivência cultural. o que nos deve levar a superar a tendência para raciocinar meramente em termos de ―abundância/indigência‖[274]. Uma história das práticas culturais exclusivamente centrada na figura do autor esqueceria todas as práticas e micro-práticas anódinas e discretas. A noção aparentemente unívoca de autor cede lugar à ambivalência da arte e às correntes da semiologia que entendem a obra como cooperação e não enquanto resultado de uma imposição unilateral de sentido. a escrita representa o desvanecimento e mesmo a morte do autor[273]. a frequência de uma mesma actividade cultural pode ter subjacentes distintos projectos e motivações: recuperar um ―atraso cultural‖.. De facto. Ao negligenciar-se o que. De igual modo. O mesmo índice de frequência (ou a sua ausência) pode comportar uma panóplia de atitudes diferentes. Embora sendo verdade que nem sempre o trabalho de recepção altera significativamente o sentido da obra ou mensagem. pura e simplesmente. impregnando-a de actualidade e concebendo como contemporâneos processos de criação com um longo passado. os estudos sobre audiências têm demonstrado que o não-público de um determinado domínio (as artes plásticas. Da mesma forma. entre um discurso sobrelegitimado de autor.

Jauss é aliás muito claro ao rejeitar para a experiência artística o estatuto de mero reflexo ou imitação da ordem social. não pode existir separadamente do receptor. Desta forma. da norma estética à sua superação por uma nova produção‖[275]. Assim. através do confronto entre a linguagem artística e a linguagem prática e quotidiana. já que funciona como evocação de uma história. deixa de fazer sentido continuar a raciocinar em função de aporias como passado/presente ou sentido original/sentido recebido.. participar no ―ambiente social‖ de fruição cultural. já que contém em si uma ―estrutura de apelo‖: ―A vida da obra literária na história é inconcebível sem a participação activa daqueles a quem se destina. em que se opera uma permanente passagem da recepção passiva à recepção activa. da simples leitura à compreensão crítica. mas também o de produzir uma nova obra.) em que o horizonte não cessa de mudar. como um «monumento» sagrado. experiências e histórias de vida. ao ter como essencial o horizonte de expectativa fundado na experiência de vida do receptor. Assim. descobrir novas obras. Aqui ancora. Além do mais. obstáculo que segundo ele está presente quer na teoria marxista. Ao considerar que a obra apenas atinge a sua singularidade através de um conjunto de comparações. ao intervir no horizonte de expectativa da vida quotidiana. que resulta da sua interpretação e criatividade. Como Jauss refere. etc. Jauss fornece um conceito fundamental para a teoria da recepção: o horizonte de expectativa[276].. . a função social da arte. para além de se escapar a um obstáculo psicologista. dignificando-o. manter-se actualizado. por isso. existe uma cadeia de recepções sucessivas que destróem a ideia da intemporalidade da obra. Jauss valoriza as suas vivências. criando. vista. uma nova obra não constitui uma novidade absoluta. afinal. Com este conceito. uma expectativa que pode ou não ser confirmada pelo trabalho de recepção. a teoria da recepção coloca na ribalta o que habitualmente se processa nos bastidores dos processos culturais. pretende-se traduzir o facto de que a recepção contemporânea de uma dada obra acciona um conjunto de comparações com as obras anteriores[277]. quer na teoria formalista. É a sua intervenção que faz entrar a obra na continuidade mutável da experiência (. criticar e/ou rejeitar a obra que se lhe apresenta. com a evolução do género em que se enquadra e ainda com a experiência de vida do receptor. na miopia objectivista. Ao público é conferido um papel essencial: o de aceitar. Esta. orientando e influenciando os comportamentos sociais. A poética da recepção reside na sua capacidade de abrir ―os mundos do texto‖.compensar um défice de ―cultura geral‖.

como refere Jean Starobinski[279]. a leitura. ou. O posicionamento de Jauss é bastante explícito. o que indica desiguais ritmos de produção para o plano material e o plano artístico. Vários são os estudos empíricos que demonstram a importância do papel do receptor no estabelecimento do sentido provisório da obra. existe uma descoincidência entre os modos de produção e os fenómenos artísticos.De facto. em particular o ambiente sócio-histórico em que se desenrola o trabalho de recepção. Long. Desta forma. O primeiro destes autores refere a importância dos factores contextuais. os críticos e os consumidores. numa troca de questões e de perguntas (método dialógico) que vão sucessivamente recriando a obra inicial. os formalistas. A história literária (e a história dos fenómenos artísticos) consiste. sem negar à primeira a sua especificidade e sem a confinar a ―uma pura e simples função de reflexo‖[278]. É o caso da leitura de romances por parte das mulheres que vivem numa sociedade patriarcal. nem o receptor reproduz sem alteração a obra inicial. refere-se à recepção cultural como um objecto de conflito entre as indústrias culturais. ao considerarem apenas a função social da arte na sua ligação à base material das sociedades. Apesar dos constrangimentos . ao proclamarem a especificidade da linguagem artística tendem a fazer abstracção de todo o seu enquadramento histórico. desmente-se o ―substancialismo do económico‖. Enquanto que as produções culturais apontam para uma realidade fragmentária. os marxistas negam a especificidade da obra artística. Num contexto histórico diferente. diferentes questões vão sendo dadas à pergunta com que inicialmente o autor se debateu e à qual forneceu uma resposta primeira. o monismo da evolução social e a pretensão de encontrar uma perfeita homologia entre os fenómenos económicos e os fenómenos artísticos. por seu lado. afinal. agindo de acordo com um horizonte de expectativa que muito deve à sua trajectória pessoal e social. a primeira concretização da inquietação primordial do artista. Trata-se de compreender a relação entre arte e história. típica de sociedades ―pós-modernas‖. negligenciando os factores extra-artísticos. No entanto. ambos no domínio da literatura. simboliza um espaço de alguma independência e de resistência aos significados culturalmente dominantes. Nem a obra de arte é uma mimesis da estrutura sócio-económica. se preferirmos. Neste contexto. ofício recatado por excelência. acreditando na sua verosimilhança e escapando aos critérios de classificação e de apreciação dos críticos. Por seu lado. Andrea Press[280] refere a este propósito os trabalhos de Radway e de Long. os leitores insistem em identificarem-se com as personagens.

em casos limite. Os leitores misturam com os ensinamentos dos livros. A recusa de interpretações arbitrárias (tão visíveis na deriva de algum ensaísmo «pós-moderno») exige um . Lichterman. tradicionalmente considerada pelos críticos da cultura de massas como a esfera por excelência da alienação. o que confere algum sentido ao conceito de horizonte de expectativa anteriormente avançado. No entanto. o paradigma da recepção cultural não tem sido isento de críticas. por seu lado. a acreditar nessas teses.exercidos pelas instâncias de difusão e de consagração das obras culturais. Além do mais. mais facilmente compreenderemos os subtis processos de negociação de sentido e de resistências localizadas aos significados culturalmente dominantes. Eco. cultural e económica. Maria de Lourdes Lima dos Santos. não deixam de reafirmar o seu aborrecimento com a manipulação de que são alvo‖[281]. Um outro autor referido por Andrea Press. para uma complexificação do próprio horizonte de expectativa. o que não só indica processos de recepção tendencialmente sinergéticos e permeáveis a múltiplas combinações de referências. não deixam de exprimir a sua saturação com as redundâncias e repetições. um instrumento útil de eliminação desobreinterpretações (interpretações ―inverosímeis. se podem tornar ―paranóides‖[283]. refere o papel dos receptores face à publicidade. parecer inevitável a manipulação dos leitores. feminista. que há pouco mencionámos.). os leitores julgam de forma séria alguns dos conselhos. introduz o conceito de Thin Culture (cultura ―ligeira‖.). improváveis ou até impossíveis‖) que. ligado à diversidade de repertórios. Haverá uma crescente tendência. à partida. considera que o centramento no receptor acaba por ser redutor na medida em que esquece a intenção do autor e. Se entretanto pensarmos na crescente diversificação e complexidade dos papéis sociais e nas teses de Paul DiMaggio[282] sobre a incongruência relativa entre as esferas social. etc. o certo é que persiste uma relação ambivalente com estes produtos. ―como encontrar o grande amor‖. em certas ocasiões (especialmente no caso do autor estar vivo). têm a consciência de que são um género menor elaborado para um consumo de massas. Com efeito. do próprio texto. Por um lado. os receptores apresentam-se como agentes críticos dispostos a entrar no conflito da atribuição de sentido. ―superficial‖) para se referir aos manuais de auto-suporte (―como emagrecer‖. como um esbarramento do sentimento de unidade e coerência dos mapas culturais. existe um forte sincretismo na apreciação e apropriação das mensagens. Por outro lado. a compreensão do ―autor empírico‖ pode ser. etc. Apesar de. considerando que estes ―não deixam de denunciar a falsificação das condições de vida quotidiana que aquela opera. conteúdos adquiridos noutras ocasiões (de índole religiosa. por vezes.

pelo contrário. insiste. verifica-se uma suspensão da posição histórica do observador que tende a determinar de forma etnocêntrica o conceito de horizonte de expectativa. Porque nem uma coisa nem outra têm natureza‖[288]. O que acontece pode ser algo tão insólito e idiossincrático que não vale a pena preocuparmo-nos com isso‖[289]. destituído que é de natureza: ―Não há pedaço de conhecimento que nos diga seja o que for sobre a natureza dos textos ou sobre a natureza da leitura. ou seja o que for de que dispusermos. se é verdade que. Daí a proposta para que se considerem. Assim. ao comentar Jauss. No pólo oposto. simplesmente. a valorização da novidade surge como valor dominante (impondo-se. obsessões. Desta forma.). Dizer que um texto não tem potencialmente fim não significa que todo e qualquer acto de interpretação possa ter um final feliz‖[284]. para utilizarmos uma linguagem cara a Jauss. As primeiras. a do leitor e a do texto (―o texto está aí e produz os seus próprios efeitos‖[286]). redefinindo mesmo ―as suas prioridades e propósitos‖[290]. um texto é simplesmente um piquenique para o qual o autor leva as palavras e os leitores levam o sentido‖[285].. três tipos de intencionalidade: a do autor.. contesta a ideia de haver um propósito no texto.determinado controlo por parte da ―comunidade interpretativa‖: ―tentei demonstrar que a noção de semiose ilimitada não desemboca na conclusão de que a interpretação não tem critérios. na actualidade. Na mesma linha. Existe. As segundas. para vermos o que acontece a seguir. Fernando Cascais. Mas o mais paradoxal é que Rorty preocupa-se com isso. já que a procura de objectivação do horizonte de expectativa acaba por exigir uma posição neutra a partir da qual se opera essa objectivação. em interacção. um uso das matérias textuais em função dos estímulos e interesses circunstanciais dos receptores: ―A leitura de textos é uma questão de os lermos à luz de outros textos. Caso contrário. ―como maliciosamente sugeriu Todorov (. Dizer que a interpretação (como aspecto fundamental da semiose) é potencialmente ilimitada não significa que a interpretação não tenha objecto e que corra à imagem de um rio apenas por sua própria conta. Outros autores criticam em Jauss uma certa inclinação positivista. pessoas. arrebatam o receptor. fragmentos de informação. por isso. reforça a ideia da interacção presente na tríade autor/obra/público enquanto diálogo permanente. em nada modificam o horizonte de expectativa do receptor. Richard Rorty. sem esquecer o ―tesouro social‖ em que estão envoltos[287]. jogo de perguntas e respostas entre a produção e a recepção. a ponto de nos propor uma taxinomia dicotómica a propósito dos tipos de leitura: uma oposição entre as leituras metódicas e as leituras inspiradas. uma distância entre a obra e . na defesa do seu pragmatismo. quedando-se pelo teoricismo e por uma ausência de ―apetite de poesia‖ (nota-se aqui o anti-intelectualismo feroz de Rorty).

que cabe fazer uma linguagem mais próxima. fora do tempo e do espaço. Outros autores ainda. são capazes de fornecer respostas distintas. no entanto. Além do mais. não pode ter como obrigação dirigir-se a interlocutores explícitos. Concordamos parcialmente com Eduardo Prado Coelho quando afirma que ―a cultura. crítico e implicado. naufragamos na tentativa de estudar a recepção cultural e artística como objecto sociológico. contudo. não é ao poeta. ao encontrar o sentido último da obra no receptor. Não negamos. se levarmos em conta esta perspectiva. tanto no ensino como na indústria cultural. mesmo sabendo que constituem apenas uma face da moeda.o horizonte de expectativa do receptor[291]) nem sempre tal aconteceu.. Ao lidar com um modelo de receptor abstracto. não existe ―hors-texte‖. capaz de colocar em causa o seu universo simbólico mediante o confronto com a novidade inquietante da obra. De acordo com o primeiro. pretende lidar com um receptor-modelo. a liberdade do criador. desterritorializado e inserido numa situação de ―idealidade comunicativa‖. crítica que retoma a apreensão de U. condenam à impossibilidade qualquer tentativa de fixar um sentido que escapa ao próprio texto. cada vez mais. no sentido de criação artística e literária. muitas. contraditórias e até mesmo conflituais.. O sentido ocorre. Encerrar a produção de sentido no interior das obras é um considerável recuo face à possibilidade. Eco. de estudar os seus usos e modos de apropriação. de tão incomunicante (Adorno levou ao extremo esta posição. vezes. do outro lado o pólo da discussão crítica e do potencial‖[293]. perante a mesma obra. o sentido não é topologizável. o que se verifica é o cruzamento de vários textos de proveniências e temporalidades distintas. tornando-a opaca. De facto. defensor do paradigma da intertextualidade. dois receptores diferentes. ao afirmar que ―a arte só é íntegra quando não entra no jogo da comunicação‖[294]) fecha-se à análise. mesmo que possuam um horizonte de expectativa semelhante. Jauss acaba por conferir-lhe uma ―arbitrariedade interpretativa‖[292]. Jauss. eles fazem a linguagem que lhes é possível dentro do . já que percorre toda a cadeia significante. Jauss. Não é ao filósofo. acaba por negar aos comunicantes o papel de ―actores históricos que incarnam de um lado o pólo do poder e do actual. onde se criam instrumentos de acesso a essa cultura.) A socialização cultural e a formação pessoal fazem-se. aberta por Jauss. Holub considera que a ânsia do novo ancora no contexto histórico contemporâneo em que a revolucionarização da produção (própria das economias de mercado desenvolvidas) arrasta a subversão permanente das formas. a um Outro (. Para o último. A cultura dirigi-se sempre a uma espécie de destinatário longínquo. a obra acontece e. nem pretendemos sujeitá-lo à pressão de um público sociologicamente predeterminado. como Derrida ou Bakthine. Claro que. apesar de preocupado em ligar recepção cultural e história.

conscientemente. através de mecanismos de reconhecimento de ―grupos de sons organizados pelo emissor‖[296]. Os processos de atribuição são.). de não ouvir ou de ouvir de mais. Por outro lado. aos seus cálculos. etc. Os quadros de referência dos agentes (algo de semelhante ao conceito de horizonte de expectativa) funcionam como filtros descodificadores. No entanto. Esta categoriza e rotula os sinais recebidos. ao posicionamento social do agente. Este fenómeno. O receptor usa estrategicamente as suas capacidades decifratórias. a recepção ou descodificação das mensagens está longe de ser uma operação isenta de complexidade. apesar de se verificar através dos mecanismos da consciência prática. pretende entrar em diálogo com um público. Da mesma forma. Os fenómenos da atenção e da desatenção selectiva são disso um exemplo. Com efeito. de resistir à intenção do outro. Impõe-se. que implica ―selecção. exemplos de políticas culturais públicas que utilizam como critério fundamental de valorização das obras a quantidade de público atingido. frequentemente de índole não-verbal. uma breve reflexão sobre os processos comunicativos. bem como do próprio contexto em que aquela se processa. idade. ainda. se é verdade que duas pessoas interpretam diferentemente a mesma mensagem. inclusivamente. de forma a orientar a prestação de alter. virtual ou concreto? Voltaremos a esta questão mais adiante. às suas estratégias. Mas será possível condenar um criador quando este.. a decifração da mensagem não pode ser desligada das situações de interacção social. Para além da percepção da mensagem. entre outros factores. indubitavelmente. De facto. ego actua como um ser em relação. A recepção de uma mensagem implica uma avaliação das características sociais do emissor. fornecendo constantemente sinais da sua descodificação. não é de supor que tal derive apenas de aspectos meramente psicológicos. de cariz sócio-cultural. Se nem todos os sinais registados sensorialmente são objecto de uma atribuição de sentido tal deve-se. Os próprios processos da atenção/desatenção selectiva podem ser relacionados com o uso do poder: poder de não querer entender. Nestas. Não faltam. organização e interpretação dos sinais fornecidos‖[297]. etnia. classificando-os. Compreende-se a posição de Prado Coelho quando tende a proliferar uma cultura de audiências. de escolher os significados mais conformes . é incorrecto pensar-se que este processo depende apenas das características individuais do receptor. sexo. salienta o carácter activo e construtivo da recepção.. ao seu jogo de interesses. a perspectiva do outro não é independente dos seus atributos sociais (classe. aos seus posicionamentos nas várias instituições ou campos.rigor do seu projecto e esse rigor é intocável‖[295]. existe um processo de atribuição de sentido. submetida à pressão do lucro e à lógica do maior número.

É o caso frequentemente referido dos críticos e de todos aqueles que se assumem e são reconhecidos como especialistas em determinado género cultural. A recriação da mensagem. como pelo receptor. Finalmente. Referimos anteriormente a necessidade de não analisarmos as práticas culturais apenas por referência aos critérios da cultura sobrelegitimada. se configura como cultura . formam um espaço de autonomia mínimo que todos os agentes possuem. etc. implicaria reduzir a linguagem a uma utilização descolorida. Tal é o pressuposto das velhas concepções de que a cultura popular. muitas vezes as únicas. procedimento que confinaria as restantes formas de expressão em autênticos territórios residuais definidos pelo critério da negatividade. já que esta não é imutável. a não utilização intencional de certas palavras ou a insistente referência de outras. reflecte mais ou menos claramente a estrutura sociopolítica de poder numa dada sociedade e toma inevitavelmente um ponto de vista. dos não-cultivados. os usos quotidianos da linguagem. as interacções intra e intergrupais constituem factores de estímulo que conduzem igualmente a uma certa selectividade ou orientação no deciframento da mensagem cultural. por exemplo à saída de um cinema ou de um teatro. A capacidade de tirar partido comunicacional de uma situação de interacção. constituem recursos que. enquanto trabalho de reestruturação levado a cabo tanto pelo emissor (que não pode ser considerado um mero retransmissor passivo). axiologicamente neutros: ―A linguagem. propicia uma reconfiguração da atitude em relação a esse evento. estando sujeita aos mecanismos de influência que constantemente a rectificam. De referir que estes fenómenos atingem uma dimensão de maior notoriedade quando existe uma distribuição desigual de autoridade e de competência entre os membros do grupo ou ―comunidade interpretativa‖. apesar de desigualmente transmitidos pelo espaço social e sancionados por instâncias de consagração dos significados legítimos (e da respectiva estruturação da realidade). constituem possibilidades mínimas de actualização/construção da ordem social. 2. enquanto tal. monótona e monolítica. De facto. etc. importa considerar a importância dos mecanismos micro-sociológicos na actividade receptiva. Augusto Santos Silva defende a pertinência do conceito de cultura popular como ―o que. A resistência cultural e as classes populares. o poder de criação de novos vocábulos. isto é: toma posição‖[299]. Os usos da linguagem não são. a sua reformulação de acordo com os contextos. é a cultura dos não-instruídos. por isso.com uma determinada posição social[298]. Negá-lo. para cada grupo e para cada momento histórico. O falar-se sobre um determinado acontecimento. por definição.

Na mesma linha. não impede a actuação circunstancial e casuística. símbolos e modos de expressão específicos que requerem uma análise tão sofisticada quanto a da cultura erudita e sobrelegitimada: ―a «cultura do pobre» não é necessariamente uma cultura pobre‖ e a ―análise cultural que define como objecto as condutas populares não é menos exigente — e. utilizando em seu favor o que é imposto. no entanto. expansionista e centralizada. porventura prescindindo de uma visão relacional. Não é de admirar. dominação das explicações sobre as condutas humanas por uma―cultura de mestres. menos dignado que a história da filosofia ou a sociologia do romance‖[301]. bem como o encarceramento das práticas na matriz do inconsciente. que Certeau critique a circularidade e a imobilidade das propostas de Bourdieu. como os elege à categoria de heróis (ou anti-heróis) anónimos. a utilização do conceito de habituscomo um ―fetiche‖ e um ―dogma‖. A sua crítica ao colonialismo contemporâneo. aquele que se crê ser inerte. A ausência de poder. mais pela fala. mas que surpreende pela agilidade e rapidez de movimentos. reapropriando-os à sua medida. leva-o a enfatizar. Ao contrário dos dominantes. as artes do fraco. numa habilidade que consiste em combinar diversos elementos de um espaço estranho. do que pelo discurso.popular‖[300]. aqueles que . cuja margem de manobra permite a formulação de ―estratégias‖[304]. ao surgirem como instrumentos dos fracos. Michel de Certeau não só toma como objecto de análise as práticas silenciosas e invisíveis dos desprivilegiados (―a maioria silenciosa‖). por isso. utilizam as tácticas. próprias de um ―pensamento que não se pensa‖[303] mas que aproveita em seu favor os espaços-tempos não controlados pelas instâncias do poder. quais as reais possibilidades de transformação da ordem social pelas ―tácticas‖. ―ocasião‖ ou golpe de asa. domínio do tempo. os dominados. operando uma distinção entre a ―produção racionalizada. para criarem ―ocasiões‖ que resultam de um aproveitamento em seu favor dos estreitos espaços deixados livres pela ordem hegemónica. mais pelos usos. ruidosa e espectacular‖ e a produção insinuante. O trabalho receptivo. traduzida por ―maneiras de fazer‖ ou ―artes‖de utilização dos produtos da ordem hegemónica. traduz-se pela arte de manipular o manipulador. A ―arte do fraco‖ reside. mais pela acção. movimento do fraco. recusam-se visões essencialistas e reconhece-se a existência de racionalidades. assim. Resta saber. de professores e de letrados‖[302]. De facto. a ausência de um lugar de onde se fala. decerto. Certeau chega mesmo a considerar que as práticas culturais dos dominados são uma forma camuflada de expressão e de produção cultural. O―praticante‖ define-se. Desta forma. por isso. do que pela língua. do que pelos capitais. senhores de um não-lugar.

Ao partirmos da hipótese de que existem diferentes níveis de recepção cultural. o trabalho reinterpretativo do agente social funciona como elo de ligação a práticas culturais de cariz expressivo e participativo. influenciam decisivamente o carácter mais ou menos activo e elaborado da recepção. . ao contrário de Certeau.). lhe está subjacente. o elogio da pluralidade de uma cultura multiforme proferido por Certeau. Por outras palavras. Os interesses em jogo numa determinada situação social. ou ainda o contexto propriamente físico do acto receptivo exercem constrangimentos não negligenciáveis. ao mesmo tempo que mantém toda a actualidade e pertinência a sua crítica às camisas de força teóricas que pretendem unificar o que é múltiplo e que na multiplicidade encontra a sua força. a percepção e a apropriação dos produtos culturais. permanece de inigualável importância para a análise das práticas culturais contemporâneas. por vezes. de fazer) não transponíveis para a condição de ―obra‖ e. Diferentes tipos de recepção cultural e o papel da animação sócio-cultural. Não só o volume e a estrutura dos diferentes capitais condicionam. como o próprio contexto histórico e cultural mais lato... e na medida em que a arte do fraco é um conjunto de actos (de ler. Todavia. O mesmo se passa quando a abissal descoincidência de códigos entre produtores e receptores provoca nestes últimos sentimentos de vergonha e retracção cultural. que nem todo o acto receptivo conduz necessariamente a um trabalho de produção. defendemos. por isso. Se. uma arte da sobrevivência sem consequências na distribuição do poder? Por outro lado. ainda que secundária e dissimulada. efémeros. não morrerá o seu efeito no mesmo instante da sua comunicação? Questões que só a pesquisa empírica poderá elucidar. tal não se revela suficiente para uma afirmação autónoma no jogo social. 3. queremos de algum modo contribuir para a desmistificação de uma certa ―ilusão da homogeneidade‖ que. bem como o espaço de possíveis disponível. nalguns casos. um jogo que não os reconhece como jogadores? Não estaremos em presença de uma mera gestão do quotidiano. de falar.não têm nem lugar nem poder (e é curioso verificar que também Certeau resvala para uma abordagem das culturas populares pela negativa. Nestas situações. noutros funciona a apatia e o grau zero do agir comunicacional. mesmo partindo do pressuposto de que houve uma apropriação reinterpretativa da obra ou mensagem cultural. através da ocupação que se ocupa num determinado campo. serão as tácticas suficientes para a mudança das ―regras do jogo‖.

a reverência face aos artistas. insólito. Por outras palavras. desliga-se da representação do quotidiano (naturalismo. a incomodidade ou a revolta. nem todos os fracos possuem o privilégio de fazer da sua fraqueza uma arte. num ambiente inicial onde tudo era permitido aos artistas[307] (dada a implícita legitimação inerente à necessidade de inventar uma imagem de cultura associada à localidade). Daqui resultam desencontros vários. passando pela ―auto-exclusão assumida‖[308]. a capacidade de explicitação e de consciencialização dos interesses em conflito e das respectivas posições. que vão desde o iconoclasmo não assumido (destruição anónima de instalações artísticas). Públicos atomizados. por parte dos receptores ―leigos‖. da questão da familiarização com determinadas códigos. ilegível. sem dúvida. assentes na impossibilidade de descodificação devido à ausência de incorporação. realismo) para se afirmar enquanto signo polémico. porque a obra de vanguarda. De facto. e como refere Diana Crane[309].Um dos aspectos decisivos é. a indiferença. originou uma série de equívocos e ambivalências. um relevante artigo sobre os (des)encontros entre artistas e ―público leigo‖ nas bienais de Vila Nova de Cerveira[306]. tal fenómeno desdobra-se por uma variedade de reacções. de modo a agradar a todos. o ―descer à rua‖ e o contacto com a população não iniciada nos códigos artísticos mais recentes. no que se refere às audiências minoritárias e mais homogéneas é já possível fazer passar mensagens e produtos de cariz esotérico e heterodoxo. De facto. a proposta teórica de Certeau peca. a percepção que os media têm a propósito das suas audiências. também ela. Trata-se. Idalina Conde escreveu. incomunicante no limite. influencia decisivamente a construção das mensagens e as características dos produtos a transmitir. através das várias formas que o capital cultural pode assumir[310]. visto que essas subculturas funcionam como uma espécie de ―comunidades interpretativas‖. até à vergonha cultural. Marcadas pela arte de vanguarda. No entanto. dificilmente utilizam a recepção cultural para criar ―ocasiões‖ e fazer reverter em seu favor as mensagens em questão. pela seu elevado grau de generalização e pela sua incapacidade em descortinar situações diversas entre as camadas desfavorecidas[305]. Um outro factor que contribui para a diversidade dos estados receptivos é a própria estrutura da oferta cultural. uma vez mais. formalmente depurado. usufruindo da autonomia do campo artístico. descontextualizado. a esse respeito. de uma competência ou de um conjunto de códigos. algumas das quais inconsistentes e mutuamente contraditórias. Pelo contrário. existe a tendência para a transmissão de mensagens estereotipadas para as grandes e heterogéneas audiências. Desde logo. Apesar de difundirem uma grande variedade de visões do mundo e de ideologias. Os próprios mecanismos . sem uma nítida consciência dos recursos e constrangimentos estruturais e conjunturais existentes.

que uma recepção competente é indissociável de um público minimamente familiarizado com os conteúdos e formas das mensagens em questão. Desta forma. convenientemente preparadas ou então levanta problemas morais — mas apenas para os «resolver» no sentido mais edificante. Jauss estabelece uma distinção entre a ―verdadeira‖ arte e a ―arte culinária‖. A segunda. Ao avançar com a noção de―desvio estético‖ como a ―distância entre o horizonte de expectativa preexistente e a nova obra. Maria de Lourdes Lima dos Santos critica esta polaridade e refere uma vez mais a tendência para a ―diversificação da oferta cultural e a permeabilidade entre os diferentes sectores culturais‖[315]. mas sendo de facto fruto de um longo e paulatino processo de aquisição[311].de percepção indicam que a aprendizagem precoce e a familiarização com certos estímulos favorecem o reconhecimento de imagens e de objectos. satisfaz o desejo de ver o belo reproduzido sob formas familiares. sanciona os desejos do público. o sucesso de uma obra não pode ser aferido de critérios aparentemente objectivos. já o dissemos. Na mesma linha. Trata-se. Tal é o caso de um contacto precoce com manifestações de capital objectivado. Só a primeira opera uma ―mudança de horizonte‖ e faz surgir novas experiências estéticas. confirmando as expectativas e satisfazendo aspirações já familiarizadas com os seus códigos.. . mas também ao habitual fruidor de romance policial dispor de uma fruição cultural mais complexa‖[317]. De facto. para lá do carácter implicitamente elitista das suas propostas. Eco retoma a defesa da ―paridade em dignidade‖ dos vários níveis culturais[316].. serve-lhe o «sensacional» sob a forma de experiências estranhas à vida quotidiana. como refere Eco. de uma ―acção político-social que permita não só ao habitual fruidor de Pound recorrer ao romance policial. Jauss retoma a antinomia entre o modelo reconfortante/conformado da cultura de massas e o modelo inquietante da «verdadeira arte»[314]. convertível a prazo em capital incorporado e capital institucionalizado. necessitando de ser enquadrada numa determinada duração temporal. tido pelos agentes como natural. por isso. pelo contrário. o carácter de ―simples divertimento‖: ―(. confirma a sensibilidade nos seus hábitos. como tantas outras questões cuja resposta é previamente conhecida‖[313]. corresponde inteiramente ao horizonte de expectativa de um público. Hans Robert Jauss parece esquecer-se deste factor de primordial importância. cuja recepção pode provocar uma «mudança de horizonte»[312]. Jauss esquece. de forma a testar o carácter duradouro dos seus efeitos. como o sucesso comercial ou o bom acolhimento pela crítica. Com esta distinção.) preenche perfeitamente a expectativa suscitada pelas orientações do gosto dominante. assumindo.

ou. ligada à sensação enquanto avaliação do material captado pelo sentidos ―numa escala entre o desejo e a aversão‖[321]. para os não iniciados. Uma vez mais se constata o reflexo legitimista. como refere Robert Francès. espontâneo e emocional[320]. De facto. Jacques Leenhardt define-a como a distância que a obra apresenta face a um código comum. quanto mais essa distância diminui. longe de implicar uma medida (―Parece-nos difícil medir a diversidade imaginativa dos espectadores‖[324]) interpela-nos para a ligação aos universos simbólicos dos grupos sociais. em que uma audiência convenientemente preparada faz. Em Jauss. pelo menos. a complexidade da mensagem cultural é também importante condicionador da recepção. maior o esforço intelectual de abstracção que os públicos têm de fazer. a título póstumo. liga-se a uma percepção sensorial que aplica a um sistema de códigos desconhecido os esquemas de interpretação tidos como familiares. É uma percepção não instruída e de tipo imediato e emocional. nem nada fazem para encontrar o seu público (uma opção legítima). depreende-se que as diferenças sociais. dilatando o prazo do juízo final da obra. geralmente associados a movimentos de vanguarda. De qualquer forma. Wolfgang Welsch refere mesmo a existência de duas dimensões no domínio do sensível. A primeira. longe de serem despiciendas. por isso mesmo.deste espaço e deste tempo. separadas por todas as gradações intermediárias‖[322]: a fruição e o deleite. ligada à percepção e a dimensão emocional. Pierre Bourdieu distingue igualmente entre ―duas formas extremas e opostas do prazer estético. Esta última é o domínio por excelência do gosto e. no que facilmente pode ser interpretado como uma tentativa de legitimação de todos aqueles artistas. não se vislumbram preocupações sobre o alargamento dos públicos. fortemente criticado por Anne-Marie Gourdon. quando se opõe à ideia de uma hierarquização da percepção por níveis[323]. Quanto maior for a distância em relação às normas e modos de vida quotidianos (como expressivamente aconteceu a partir da ruptura modernista). estabelecem. Além do mais. constituído ―a partir da realidade quotidiana da linguagem ou da figuração‖[319]. A arte ―inquietante‖ apenas capta uma minoria de convertidos a priori. Por outro lado. o elogio do autor. este autor parece fazer uma apologia das obras fora do espaço e do tempo. A segunda.implicando. aliás. condicionada sócio-culturalmente. ganhando a posteridade num tempo vindouro. um árduo trabalho de aprendizagem e interiorização de códigos estranhos[318]. que não encontram. Esta. é apanágio dos instruídos e de todos aqueles que apropriam adequadamente as obras culturais. ―variações de desenvolvimento . mais aumenta a fruição receptiva de tipo imediato. esfera por definição do estético: a dimensão cognitiva.

De facto. não rejeita. resultará mais profícuo começar pelos estratos sensíveis e espontâneos da percepção. sempre vão percorrendo a experiência prática do mundo‖[329]. ligados preferencialmente a uma sensualidade difusa e não tanto à construção do gosto. na realidade. subjacente a uma ―percepção espontânea‖ (que. José Madureira Pinto. bafejados pela sorte que. simultaneamente. importa reiterar o princípio de que a própria ―sensibilidade‖. atingem o nirvana do prazer estético. sujeitando a experiência estética a ―choques culturais‖ que apenas contribuem para aumentar ainda mais o sentimento de frustração de certas camadas sociais[326]. que ―a suspensão dos instrumentos de objectivação possa ser condição de salvaguarda das margens de prazer que. ao considerarmos os actos e as palavras resultantes do contacto com o estético. sem ter necessariamente de se sujeitar a arbitrários culturais que. cabe no campo de análise sociológica. muitas vezes. apesar de não renunciar à objectivação das práticas de―recepção/fruição/recriação‖ estética. sendo que. um certo conceito de animação sócio-cultural impõe. A persistência destas dicotomias associa-se. Afirmar o contrário consistiria numa apologia do dom daqueles poucos. No entanto. Nathalie Heinich refere-se mesmo à necessidade de ultrapassarmos um certo logocentrismo patente nos estudos sobre percepção estética[327]. em jeito de confissão. também este raciocínio não é isento de equívocos. ao falhanço de certas iniciativas da animação sócio-cultural que pretendem impor a ―boa maneira‖ de receber e interpretar as obras. descobrindo regularidades que as remetem para objecto de estudo sociológico. Não há ciências totais. Assim. privilegiamos os indicadores mais visíveis através dos quais se exprimem os gostos: as opiniões e as atitudes. . apesar de tudo. De facto. e de forma dissimulada.perceptivo que dizem respeito quer a aquisições cognitivas. muitas vezes. operação que requer uma matriz avaliativa forjada pelos processos de socialização. pode ser formada e adquirida. algo ―de secreto pelo qual cada um dos espectadores escapa aos determinismos do seu grupo social‖[328]. como que por magia. nunca é imaculada ou isenta de pressupostos). muitas vezes. estratégias de intervenção cultural direccionadas para o alargamento dos públicos não podem deixar de jogar. mais a emoção do que a racionalidade formal que reconstitui o sentido explícito da obra. ao leigo interessa mais a sensação do que as manifestações discursivas. No entanto. Anne Ubersfeld constata a existência de um indizível. com estes dois níveis da recepção cultural. Outra forma de dizer que nem tudo. felizmente. quer ao exercício de aptidões perceptivas‖[325].

pela sua estrutura linguística e semiótica.. com Eduardo Prado Coelho quando afirma que o ―que caracteriza qualquer obra de arte é desejar ter um destinatário que não sabe qual é — é essa a sua dimensão utópica (. no entanto. que se dirigem a um público determinado e calculado à partida não são nem um poema. simultaneamente. Por outro lado. gerando. relativamente paulatinos mas capazes de subverter lógicas de fatalismo social. Não nos parece. devendo respeitar. comprometimento sócio-político não são a . os seus níveis e hierarquias. apenas por fazerem da interacção com um público predefinido a sua pedra de toque. que os efeitos das iniciativas de animação sócio-cultural estão longe de ser unívocos. enquadrados num campo.. de sinfonia. salchichas em forma de poema.Podemos afirmar. e em particular da sociologia. Todavia. de igual maneira resulta contraproducente obrigar os públicos a um ―choque cultural‖ de efeitos imprevisíveis. muitas vezes. Somente os processos de aprendizagem/familiarização. Não concordamos. a liberdade interpretativa dos públicos. impõe-se. de romance‖[330]. sobre práticas culturais. quando se considera o ―choque cultural‖ como o processo de emancipação por excelência de públicos desprovidos de um contacto regular e familiar com certas formas de expressão cultural. que certas obras. um filme. Sem que tal implique uma submissão a critérios comerciais ou ao cálculo cínico de rentabilidade das suas obras. não nos surge como defensável a ideia de uma inocência do criador quanto ao seu público potencial. nem um quadro.) um poema. nem um filme. devam ser rapidamente relegadas ao estatuto de não-arte. um romance.. Pedagogia. nem um romance (. Os próprios trabalhos das ciências sociais.. igualmente. permitem ver mais e melhor. mesmo os mais complexos. nem uma sinfonia. corre-se o risco de aumentar ainda mais as velhas distâncias e fronteiras. bem como sobre as atitudes receptivas dos públicos fornecem um feed back que permite um acréscimo de reflexividade e de objectivação sobre essas questões. O criador habita neste mundo e sabe-o. um quadro. se não podemos exigir aos criadores que as suas obras desçam à rua. abre e fecha possibilidades de recepção. Presumir esta ingenuidade primitiva por parte dos criadores equivale a ignorar a sua existência como actores sociais. É que. as idiossincrasias e singularidades sociais e pessoais. de quadro. isto é.) São. quando muito. por isso. defender a autonomia da arte e dos seus códigos estéticos. uma sinfonia. portadores de um know-how sobre o social e relativamente conscientes sobre o grau de distância da sua linguagem face a um certo mínimo denominador comum. como anteriormente referimos. em síntese. consequências imprevistas e perversas. Qualquer obra. Da mesma forma. intervenção.

uma ―recepção competente‖ é aquela que permite (e retenha-se a similitude com o pensamento e a semântica de Jauss) um alargamento do ―horizonte do mundo onde a obra se situa‖. numa garagem reconvertida ou ainda. a menos que dela se tenha uma definição essencialista.antítese da arte. Factores como este influenciam o grau de ritualidade com que se frequenta um espectáculo. como mais recentemente se pratica. uma denegação do social.. Nunca é de mais insistir na importância dos contextos físicos em que decorre a situação de recepção. naturalizando-a‖[331]. Os contextos da recepção. para utilizarmos uma expressão cara a Bourdieu. isto é. Assim. como salienta Adriano Duarte Rodrigues. esta ―naturalização‖. exclusivamente (embora também passe por aí). conjunto de ―processos de aplicação das formas e das regras‖[332]) constitui um potencial de dignificação do percurso sócio-histórico do receptor. 4. pela mera aprendizagem de um conjunto de regras e cânones. Enfim.) É por isso que a experiência é fundadora de evidências. convém não o esquecer. tida como analítica. No entanto. De facto. as . pode funcionar como uma amnésia da génese e do processo de familiarização com a cultura. abole a estranheza perante a obra original. este apelo à experiência como síntese de um ―sentido global‖ (ao contrário da experimentação.. é consideravelmente diferente assistir a um espectáculo teatral na grandiosidade de uma sala à italiana. Finalmente. importa denunciar uma frequente concepção escolar de animação cultural. embora a contrario da margem de liberdade do criador. um dos possíveis e fecundos caminhos da animação sócio-cultural. num espaço transformável de acordo com as características do espectáculo[334]. De facto. ―ao cabo de uma aplicação rigorosa das formas e de uma exercitação fiel das regras (o receptor) acaba por adquirir uma tal familiaridade com o seu mundo próprio que sabe tirar partido das suas margens e jogar assim adequadamente com as excepções (. a integração dessa aprendizagem numa ―totalidade de sentido‖. Exige-se. O teatro fornece-nos a esse respeito excelentes exemplos. realidade intersubjectiva. elucidativos da maneira ―correcta‖ de as ler. tantas vezes apresentada carismaticamente como dom ou vocação e sobriamente atenta aos indícios de uma familiarização plebeia que se trai no excessivo apego às convenções. De qualquer forma. enquanto legitimação do seu habituse do seu horizonte de expectativa. ―conjunto de referências abertas por toda a espécie de texto‖[333]. o alargamento do acesso às obras não se faz. este ―jogo livre‖. essa sim. Sem deixar de promover o alargamento do conceito de ―mundo‖ enquanto―horizonte de existência‖. limitadora.

Não pretendemos. tanto os estilos comunicativos como os significados requerem uma integração no contexto em que se produzem e difundem: ―o contexto determina a escolha de uma dada palavra precisando-lhe o sentido. através das ―rotinas reflexivas da monitoragem prática‖[338] que. única forma. exercem um efeito de atracção que se exerce para além dos mais familiarizados com os espaços cultivados. a direcção que o interlocutor tem de . no âmbito de uma investigação sobre práticas culturais estudantis em contexto urbano[337]. como refere Idalina Conde[335]. Com efeito. num espaço que pode ser considerado como o prolongamento da casa ou da rua e onde não se exigem posturas rígidas e estilizadas. A grande virtuosidade heurística da análise dos contextos físicos em que ocorre a actividade receptiva prende-se com o argumento de Giddens de que os cenários de interacção se ligam de forma intensa aos factores mais institucionalizados e sedimentados da ordem social. poderá sucumbir perante o peso de um grande edifício de espectáculos. por conseguinte. chamando aqueles que se pautam mais ―pela lógica do reconhecimento do que pela do conhecimento‖[336]. Do mesmo modo. Do mesmo modo. isto é. a sua moldura institucional. no seu sentido mais lato. de compreender a especificidade dos quadros espaciais. Assim. Pelo contrário. o peso específico de cada componente deve ser analisado mediante uma investigação empírica sobre fenómenos concretos. os determinismos estritamente sociais. No entanto. habitualmente frequentado pela elite local. a distância face ao público. uma grande distância entre os bastidores de um espectáculo e as fachadas (para utilizarmos uma linguagem cara a Goffman) propiciará um certo efeito de mistificação do acto criador. longe de se processaremin vacuo.modalidades de apresentação individual e a relação actor/espectador e espectador/espectador. indissociavelmente. Como tivemos ocasião de realçar. que isso fique claro. um actor social oriundo das camadas populares sentir-se-á muito mais desinibido quando um espectáculo se aproxima das características da festa. em clara ruptura com o espaço público da urbe e particularmente exigente quanto aos critérios de desempenho corporal tidos como legítimos. revelam-se incapazes de abordar a multidimensionalidade e a complexidade das actividades humanas localizadas em determinados segmentos de espaço-tempo. o efeito simbólico de certos lugares da cultura. afinal. atribuir às estruturas espaciais um poder causal per se. Cultura e comunicação ligam-se. aumentando. Esta actualiza-se nas interacções recorrentes e quotidianas que apenas podem ser reconstituídas por referência a um dado contexto. implicam uma cena ou cenário e um conjunto de participantes motivados por um objectivo[339].

a oposição entre a «arte» e a «vida» tem vindo a esbater-se. Finalmente. a gestão dos contactos e das performances/posturas corporais. Os cenógrafos entendem adequadamente a importância dos contextos físicos quando utilizam a disposição espacial não como constrangimento. em suma. Com efeito. optando por aquele que mais corresponde às exigências do momento‖[340]. A apropriação espácio-temporal do contexto da comunicação apela a uma série de recursos que estão longe de se confinar ao contexto verbal ou linguístico. A recepção cultural. por conseguinte. ―assim como podemos identificar alguma afinidade com as vanguardas na actual sobrevalorização da função hedonista da cultura e no alargamento das fronteiras do estético. Desta forma. A estrutura social manifesta-se. da distância interpessoal e da orientação[341] possibilitam apreensões e usos alternativos da ordem social. Estas fornecem-lhe um território momentâneo que compensa a falta de um lugar próprio de onde se fala. prévia à situação de interacção. mesmo estes recursos são limitados. No entanto. de papéis e de expectativas socialmente distribuídos. Com efeito. os temas da conversação. talvez se compreenda e precise melhor a proposta de Certeau. um mundo à parte. faz-se sempre — nunca é de mais dizê-lo — a partir de um tempo e de um lugar no mundo social. Como refere Maria de Lourdes Lima dos Santos. a ordem por que se fala. das suas distâncias e hierarquias. da gestualidade. precisamente. mas como apelo à participação no espectáculo: ―todo o encenador. a capacidade de interromper. e Eisenstein compreendeu-o bem. A situação de interacção social não é. De facto. 5. As possibilidades de (re)estruturação da realidade social. caracterizado por uma extensão do simbólico a vastas áreas de onde se encontrava arredado[343]. assiste-se hoje a um amplo movimento de inflação e banalização do estético. encontram fortes barreiras na distribuição. O estético no quotidiano e a dupla função da moda. em particular na esfera que muitos consideram o reino da alienação por excelência: o consumo. as distâncias. coloca em cena o espectador‖[342]. o próprio volume de emissão verbal exteriorizam pesadas hierarquias. através dos processos interactivos. De facto. também podemos . nas mais ínfimas características dos encontros sociais: as posturas. portanto «atrai» um dos significados. a arte do fraco consiste numa habilidosa utilização dos contextos ou das situações interaccionais — uma pragmática. uma análise à recepção cultural ficaria incompleta sem uma referência às suas traduções multiformes nos espaços-tempos quotidianos.seguir para compreender — e.

Por outro lado. encontra-se presente no desejo de conferir um carácter artístico ao quotidiano. as características dos objectos artísticos (universalidade e perenidade) cedem lugar a uma estetização muito mais difusa e ligada à experiência sensorial e corporal. retirando-lhe aura e prestígio. se tornou num fruto tão inesperado‖[346]. na performatização da experiência quotidiana e na ―conversão da linguagem em dispositivo corporal‖[348]. ou. por mais consciente que esteja do seu modo de criar. onde e quando encontrou um certo motivo. já o referimos. quando o estético ou a embalagem se tornam mais importantes do que o produto (veja-se a publicidade) inverte-se . as novas tecnologias assentam numa concepção virtual da realidade. na sementeira. mais tarde. De facto. ao conceber-se a vida como uma contínua sucessão de experiências. este torna-se manipulável e. no plano estético. a arte aproxima-se da sociedade. Wolfgang Welsch vislumbra duas vertentes distintas mas interligadas neste ―boom‖ do estético: uma superficial e outra de cariz mais profundo. Desta forma. locus fundamental do consumo. ao mesmo tempo que combina elementos das mais variadas proveniências. que nunca experimentou directamente. onde e quando arranjou um sinal. uma imagem ou uma palavra. provavelmente. ―crioulização‖. De igual forma. A segunda vertente liga-se ao modo de produção actualmente dominante[349].reencontrar um sucedâneo do projecto do dandismo (fazer da vida uma obra de arte) na actual importância conferida à apresentação de si‖[344]. se adaptou a uma vivência. um modo de falar da linguagem comum‖[345]. não fazendo sentido conferir-lhe um estatuto ontologicamente superior ao da vida: ―O próprio artista. a responder pela negativa. também utiliza.). sujeita-se a um sem número de manipulações e modelações. Não é de admirar. multiplicam-se os fenómenos de ―impureza artística‖ (―reciclagem cultural‖. Desta forma. que. como substância plástica. Mas talvez nunca. por isso. quase não consegue dizer com justeza. A realização individual e o ideal de autonomia do sujeito consubstanciam-se. que também a arte reivindique para si o efémero[347]. centro simbólico de uma experiência que se quer descentrada. Além do mais. Estas tendências aproximam o artista do comum dos mortais. etc. Arnold Hauser refere claramente que o ―artista serve-se da linguagem dos outros. como hoje. se preferirmos numa ―desrealização do real‖. A primeira. favorece-se uma nova constelação de valores assente no desejo e no entretenimento. o corpo se tenha assumido como objecto excitante e excitável. Na aparente ausência de um centro. ―hibridização‖. e não só até ter encontrado a sua. Mas haverá algo de substantivamente novo nesta metamorfose do corpo em discurso e do discurso em corpo? Os antropólogos tenderão.

A moda. Entendida neste sentido amplo. traduzida pelos mecanismos distintivos e baseado no exercitar de competências) em favor de um hedonismo individualista[353]. moral. a moda cumpre uma dupla função: ―indica uma generalidade que reduz o comportamento de cada um a um puro e simples exemplo. ela satisfaz . recurso frequente do praticante cultural anónimo mas também do próprio artista. orientam-se pelo valor instrumental/utilitário (nomeadamente económico) de determinados produtos culturais. alimentada pela ausência de possibilidades de criatividade em outras áreas do quotidiano. esta nunca depende apenas de factores intrínsecos à obra. num entendimento restrito[351]. Certos consumos. Mas até as respostas estéticas podem adquirir diferentes contornos. eminentemente artístico[352]. e como já tivemos ocasião de referir. Como refere Simmel. domínio da plasticidade que se move no limbo da imitação e da novidade. Recebendo os estímulos das indústrias culturais. DiMaggio. a experiência estética alerta-nos para o carácter plurifacetado da recepção cultural. numa aproximação à intertextualidade. nem de respostas meramente estéticas. De acordo com o primeiro autor. num movimento que sugere um trabalho activo e criativo na recepção/selecção de referências.) podem estar presentes e orientar os comportamentos e atitudes. No falhanço de outras fontes de integração social. conforme são de índole artística (fortemente influenciadas por um saber especializado. com implicações na própria representação de si.a relação entre hardware e software. emocional e/ou existencial. o praticante cultural reinventa a imagem de si. no âmbito deste conjunto de reflexões. De facto. a moda torna-se forma viva. num duplo movimento de imitação e diferenciação/distinção. adquirindo este uma importância decisiva. num movimento perpétuo de descontextualização e recontextualização de significados culturais. A função distintiva de certos consumos que requerem um elevado nível de competências e que dependem da aprendizagem de rígidas convenções sociais foi particularmente analisada por Bourdieu. etc. o da História da Arte e baseadas na aquisição de códigos culturais) ou de dominante afectiva. social. de cariz extrínseco (económico. salienta o papel que os produtos culturais ocupam na organização das sociabilidades e viceversa. verifica-se um declínio da importância do conceito de legitimidade cultural (consubstanciado no privilegiar exclusivo de uma função simbólica extrínseca dos consumos culturais. Estudiosos como Yves Evrard ou DiMaggio insistem na tendência actual de relativo menosprezo da experiência estética no seu sentido mais restrito. O estético ―já não é o veículo mas sim a essência‖[350]. mesmo quando mascarados de intenções estéticas. Outro tipo de respostas. fornece-nos um magnífico exemplo da reconstrução incessante de modelos a partir da reciclagem de tipos anteriores. Dito isto. por seu lado. mas está longe de constituir o único exemplo.

à demarcação‖[354]. Esta criação fugaz e tipicamente quotidiana. já que se multiplicam as . favorece tanto a coesão social como a personalização. O Manto 1. Este aparece revestido de uma intensa carga comunicativa. a tendência à diferenciação. tanto a obediência a rígidos cânones e determinações sociais como a desmodelização do social[355]. se tudo é estético. porque mais de 40% da população europeia vive em cidades. nada é estético. Falar de cidade implica abordar um dos conceitos mais equívocos e ambivalentes da análise sociológica. o discurso da cidade e a cidade como discurso são temas aos quais é impossível escapar quando se fala de públicos e práticas culturais. CAPÍTULO IV A CULTURA N(D)A CIDADE "A cidade em que vivemos é a cidade que mais se ignora" Agustina Bessa-Luís . Em Portugal. a realidade é um pouco diferente. ―nem tudo gira em torno de «determinações»[356]. No entanto. percentagem que se eleva a 70% para o caso dos Estados Unidos. mais importante ainda. etnometodologia e interaccionismo simbólico: o corpo. Antes de tudo. à variedade. e o encantamento do quotidiano arrisca-se a ser rapidamente absorvido pela sua banalização e pelo movimento da mera mudança pela mudança. bem pode o extraordinário regredir para o ordinário.também a necessidade de distinção. existe a possibilidade de ―comportamentos intersticiais‖ através dos quais se exprime a novidade. Mas. chama-nos de novo a atenção para um dos objectos preferenciais das correntes da fenomenologia social. A cidade e os comportamentos humanos: diferentes perspectivas. O peso relativo da população que vive em cidades aumentou 40 vezes desde o início da revolução industrial[357]. No entanto. mas também o desejo de autonomia individual e de marcar com criatividade os passos e os caminhos do quotidiano. a alternativa e mesmo a dissensão. Neste caso. suporte de símbolos e rituais e base constantemente recriada a partir da qual exteriorizamos não só um conjunto de disposições duráveis e homólogas a um certo estado de condições sociais de existência (e por isso as modas reproduzem hierarquias e desigualdades). Simmel aponta para a acentuação do presente e da mudança que a moda acarreta. Sem esquecer que ―as modas são sempre modas de classe‖. dissolvendo muitas vezes o passado para o apresentar com nova cara. Se. como refere Machado Pais.

o nível de vida. Por isso. as tensões e as contradições. e segundo proposta de Francisco Cordovil.). Mas é também na cidade que fervilham os conflitos. os traços negros de uma patologia urbana(insegurança. De acordo com este autor[364]. violência. alguns autores apresentam a imagem do ―mosaico cultural‖ para a caracterizar enquanto local de ―justaposição de estratos e funções diferenciadas. Desta forma. assenta no estudo dos efeitos sobre os comportamentos humanos de três dimensões essenciais: a dimensão. nas matizes das suas crenças. É a cidade que lança as modas e as legitima. ―transitórias‖. se considerarmos a freguesia como unidade de análise (e não o concelho. ―superficiais‖. e à qual Louis Wirth prestou porventura a versão mais conhecida. espacialmente segregados e envoltos num ambiente em que o anonimato e a inevitável substituição da entreajuda rural pela competição geram relações ―impessoais‖. Ainda assim. o seu modelo. a definição de um campo semântico no qual a urbanidade. se delimita. Wirth centrou a sua análise no urbanismo como modo de vida. com raízes nas perspectivas teóricas de Durkheim. conotadas com específicas formas de viver o quotidiano. a qualidade do urbano. etc. por muitos classificado como ecológico. Esta realidade torna-se ainda mais esmagadora se pensarmos na concentração da oferta cultural nas grandes cidades. a cidade pode ser definida como um agrupamento vasto. Enquadram-se. etc. como faz o INE) temos como resultado que 45% da população portuguesa vive em zonas urbanas[358]. denso e permanente de indivíduos socialmente heterogéneos. como refere Marcel Roncayolo. No que diz respeito à dimensão. Ao emancipar-se das . neste último caso. as múltiplas lógicas de (des)construção e apropriação do espaço. não escapam a essas contradições[361]. solidão. por outro. a densidade e a heterogeneidade. costumes e representações sociais‖[360]. em vez de se preocupar com uma delimitação física (sempre arbitrária) do urbano. a proximidade das fontes de informação e das novas tecnologias.). Os traços distintivos do que constitui a urbe. ideologias. Desde sempre. Para este autor. urbanidade e urbano são palavras próximas e aparentadas‖[359]. Marcel Roncayolo situa as imagens da cidade entre dois pólos opostos: por um lado. Park[363]. valores.situações intermédias e os cruzamentos entre o rural e o urbano. a escolarização. ―segmentárias‖ e ―utilitárias‖. Wirth salienta a diferenciação que se opera entre os indivíduos. Por isso. as análises pessimistas. as referências aos aspectos positivos da urbanização[362] (a mobilidade. a urbanidade não é um traço exclusivo das cidades. ―civilidade e civilização.

Habituado à análise micro-social. no entanto. A teoria dasobrecarga. doravante. o que origina sentimentos de solidão. isto é. aumentando o sentimento de esquizofrenia. aliás. se revelam de interesse quando vistas em termos objectivos‖[368]. um insignificante ponto na vasta massa. Mas não o faz com uma intenção valorativa. em particular a que se encontra condensada no seu já célebre artigo sobre a vida metropolitana[365]. estuda os mecanismos de habituação e insensibilização que. determinam a forma de vida de modo soberano‖[367]). Dificilmente. Desta forma. na área da etnopsiquiatria e da psicologia social salientaram os efeitos negativos resultantes da distanciação face à natureza e da dissolução das bucólicas comunidades de base rural. aliás. transforma a cidade num mosaico de ―mundos sociais descontínuos‖ que jamais se interpenetram. Em suma. embora indiferentes em si. dimensões da vida de espírito que se encontram em íntima relação com o domínio da ―economia monetária‖ e a sua peculiar característica de encontrar correspondência quantitativa para os traços mais individuais: ―O dinheiro põe em destaque aquilo que é comum. influenciada pelo princípio simmeliano de que a cidade aumenta a estimulação nervosa. finalmente. tensão nervosa e um conjunto de frustrações pessoais. a sua análise pode caber no rótulo optimista/pessimista[366]. A heterogeneidade. o valor de troca. No essencial. Todas as relações emocionais entre as pessoas assentam na sua individualidade. . o indivíduo perde em espontaneidade e em sentido de participação. Vários estudos posteriores. este autor realça a intensificação das redes de relações sociais em actividade nas grandes cidades. o pragmatismo e a indiferença face aos aspectos pessoais. A densidade. despersonalizando-se e estandardizando-se as trocas sociais. O indivíduo é. Vale a pena. por contraste com as pequenas localidades e a vida rural. instintivos e irracionais que. aumenta a competição pelo espaço. deixados a si próprios. geram sentimentos de apatia e de indiferença. assenta num complexo sistema de papéis sociais que dividem a personalidade do indivíduo em vários segmentos. e reduz a um nível puramente quantitativo tudo quanto é qualitativo e individual. enquanto as relações de tipo racional as convertem em números.instâncias pré-industriais de controlo social e afectivo. a permanente procura de previsibilidade (uma forma de ordenar o caos potencial da vida urbana). Simmel realça os principais traços constitutivos da civilização urbana contemporânea: a proliferação do cálculo racional (com a consequente ―exclusão dos traços e impulsos humanos. Para se defender. tratam-nas como se fossem elementos que. ou seja. pelo seu lado. determo-nos sobre a abordagem de Simmel. como reacção à sobrecarga.

Desde logo os teóricos ―optimistas‖. Aliás. Criticando o simplismo do determinismo ecológico que serve de base às teorias anteriormente explicitadas. um conjunto de diversas críticas. distanciamento e alienação. demonstrou-se que entre o rural e o urbano não existe uma radical antinomia. em encontros pouco frequentes e duradouros: ―Para muitas pessoas. a estratégia de captação da atenção de outrem continua a ser a única forma de preservar alguma auto-estima e de salvaguardar o seu sentido de lugar‖[373]. fruto da sua inerente incapacidade de reagir constantemente a novas solicitações. idade e ciclo de vida. por vezes mesmo em antipatia. o indivíduo adopta uma ―atitudeblasé‖. esta perspectiva de contornos pessimistas sobre o urbano sofreu. mas sim das variáveis sociológicas mais clássicas: sexo. em distanciamento e reserva. um profundo tédio[374]. Não se julgue. ela traduz-se em indiferença perante as diferenças. Pelo contrário. . no entanto. que Simmel adopta uma postura crítica face a este retrato nítido de uma cristalina desumanização[369].precisamente. mesmo. não dependem tanto do contexto ecológico. escapando às formas tradicionais de controlo social. por vezes. mas sim um continuum. tão presente no ideário romântico do século XIX. apesar de ser um ―puro reflexo subjectivo da completa monetarização da economia‖[371] (estabelecendo uma conexão entre características psíquicas e sociais). De alguma forma. esta atitude propicia ao habitante da metrópole uma margem de liberdade e de autonomia jamais alcançadas. as diferenças que existem entre as populações rurais e as populações não rurais. ao longo de décadas. da sobrecarga de estímulos que a vida urbana acarreta. Young ou Willmott. a atitude flâneur de Baudelaire encontra correspondência no quadro psíquico traçado por Simmel: a ambiguidade perante a cidade. onde cada um conhece e tem uma relação activa com quase todas as pessoas que encontra. No entanto. mesmo nas zonas mais densamente povoadas das grandes urbes. Lewis. A esta possibilidade de libertação. Além do mais. Em que consiste esta atitude? De acordo com Simmel. multiplicaram os estudos empíricos que provam a persistência dos laços interpessoais e dos grupos primários. deve-se o recrudescimento dos particularismos e das expressões individualistas. o sentimento de angústia. estaríamos completamente atomizados e cairíamos numa condição mental deplorável‖[370]. mesmo quando esses atributos o fazem sentir-se profundamente só no meio das multidões. na ânsia de distinção[372] breve mas intensa. a sua atitude revela compreensão: ―Se aos incessantes contactos públicos das pessoas nas grandes cidades correspondessem as mesmas reacções interiores dos contactos que têm lugar na pequena localidade. como Gans.

Segundo Fischer. Há ainda a acrescentar que largos segmentos da população urbana mantêm no seu habitat características dos modos de vida rurais. De facto. Não se rejeita. etc. defende-se que uma mesma estrutura espacial pode ter efeitos diferentes. o crime. Soczka salienta. que inverte a abordagem sobre os efeitos do modelo ecológico proposta pela Escola de Chicago. que se tornam ingredientes fundamentais para a prática e para a acção sociais. estes autores salientam. De facto. os efeitos das estruturas espaciais no campo de possíveis dos actores. que o espaço possui a sua autonomia. Luís Soczka fala num ―conglomerado complexo de variáveis‖ e numa ―multideterminação‖[375] das (des)regulações que ocorrem em contexto urbano. Em suma. De acordo com este autor. etnia. contribui para a formação de pequenos grupos animados por uma determinada subcultura. o suicídio. tanto pode proporcionar efeitos positivos como efeitos negativos para a . Está bem presente. A mesma tese é defendida por Jean Remy e Liliane Voyé. Uma outra perspectiva. nas suas representações e atitudes. a mesma forma espacial pode ter consequências diferentes sobre as interacções sociais.classe social. sociais e políticos que fragmentam e segregam a vida urbana.. organizando os seus tempos quotidianos e. De facto. onde a visibilidade social é elevada e associada a relações de vizinhança intensas. Estes autores criticam o reducionismo das abordagens ecológicas. não é possível estabelecer uma relação directa entre a densidade populacional e factores como a participação na cidade. a importância das mediações cognitivas e emocionais.). reforçando a lógica de uma relação unívoca entre o espaço e os comportamentos humanos na cidade. também analisado pela Escola de Chicago. etc. consoante o posicionamento social dos actores e os seus mapas culturais. a concentração populacional urbana. este ―mosaico‖ de mundos sociais. Basta pensar na organização autocrata de certos bairros. por outro. longe de favorecer os efeitos salientados pelos teóricos mais pessimistas (enfraquecimento dos laços interpessoais e dos grupos primários. quebra das relações de interdependência e dos consensos normativos. Estes autores chegam mesmo a falar dos efeitos ideológicos das teses ecológicas. por um lado. no entanto. é-nos fornecida por Claude Fischer[379]. intimamente ligadas aos contextos sócio-culturais[376] em que os agentes se movimentam. ainda assim. estaria ligado a um tipo único de interdependência entre funções ou de modo de vida‖[378]. ficam na sombra todos os problemas económicos. a esquizofrenia.. por isso. a recusa da―ideia segundo a qual um modo de composição espacial. descrito no plano da sua materialidade. Ao deslocarem o ―lugar da explicação‖. de acordo com a estrutura social em causa e os modelos culturais vigentes[377].

mas diminuem as hierarquias. Fischer parte de várias hipóteses. Além disso. . a utilização deste modelo ecológico realça o carácter regulado e integrado da vida social. precisamente. Aumenta a diferenciação cultural. o autor não rejeita as determinações ecológicas. do aumento das densidades populacionais. de um aumento da coesão grupal. Terceira hipótese: Quanto mais urbanizado for um local. normas e costumes‖[380] associados às diferentes subculturas. bem como sobre o enfraquecimento das ritualizações que exprimem essas divisões. De certa forma. A intensificação das subculturas resulta. como já vimos. Tudo depende do ―conjunto de crenças. mais numerosas serão as fontes de difusão e maior será a difusão dentro de uma subcultura.ordem social global. inclusivamente.. Esta variedade é tanto maior quanto se associa à divisão social do trabalho e à especialização dos papéis sociais. Segunda hipótese: Quanto mais urbanizado for um local. encontramos abordagens que se coadunam com as propostas de Paul DiMaggio explicitadas no capítulo II. aumentando a tendência para as ―mestiçagens culturais‖ e para o ecletismo de práticas e de gostos. Em síntese. Primeira hipótese: Quanto mais urbanizado for um local. Destacaremos em seguida as que consideramos essenciais para a nossa análise. Desta forma. Por intensidade entende-se. melhor se compreende a análise que em outros capítulos fizemos sobre o esbatimento de fronteiras entre diferentes níveis de cultura. num contexto em que proliferam os mecanismos de troca. A concentração populacional favorece a fragmentação em função de variáveis como a classe social.) alimentam-se da penetração de elementos periféricos das outras subculturas no seu domínio central (―central core‖) e viceversa. por autores como Durkheim e Wirth. forjado pela comparação e competição entre as várias subculturas. maior será a intensidade das suas subculturas. precisamente. a idade e as categorias ocupacionais. Por outro lado. Fischer pretende realçar o papel das cidades enquanto realidades multiculturais produtoras de inovação. Fischer fala. mas analisa outros efeitos de sentido contrário aos de Wirth. valores. os padrões de comportamento não convencionais (que tanto podem estar presentes nas subculturas artísticas como nas criminosas — uma vez mais a ambivalência da cidade. maior será a sua variedade subcultural. Por difusão entende-se a ―adopção pelos membros de uma subcultura das crenças e comportamentos de outra‖[381]. Uma vez mais. Quarta hipótese: Quanto mais urbanizado for um local. esta diferenciação impede os monopólios e a imposição de arbitrários culturais. Desta forma. o contrário da anomia e da desregulação sociais defendidas. maiores serão os índices de não-convencionalidade..

bem como as suas interdições. num prefácio a escritos autobiográficos de Walter Benjamin realça a ―arte de se perder‖ na cidade. becos sem saída e ruas de sentido único‖[385]. curvas. voltas em ―U‖. precisamente. Desta forma. A ―retórica da marcha‖ actualiza os recursos e possibilidades que o espaço oferece. Deste modo. Michel de Certeau presta uma atenção muito especial aos ―utilizadores‖ do espaço. também a marcha está para a cidade. O que caracteriza. singulares e plurais‖ que se―insinuam‖ na cidade. desvitalizando-se os espaços públicos. muito mais marcada pela mobilidade e pelos projectos individuais. assumindo-se como ―espaço de enunciação‖. 2. Constitui. apesar de actuarem num campo restrito de possíveis. sem as eliminar. o pressuposto de que os agentes. A cidade e a apropriação do espaço. ―transumante‖ e ―metafórica‖. não podemos considerar que a lógica de apropriação do espaço urbano seja um mero espelho da lógica da produção. intersecções. cidade onde―o espaço é largo. escapando aos mecanismos de controlo e constituindo ―regulações quotidianas e criações subreptícias‖[382] que constituem uma espécie de cidade ―poética‖. passagens. combinando-se numa determinada ―maneira de fazer‖. traço característico da compressão do espaço-tempo. Certeau opõe as práticas ―microbianas. por isso. Neste sentido. Contra os espaços racionalizados e burocratizados. Tal como a palavra está para a língua. as ligações das bases morfológicas às suas funções sociais. Através dos mecanismos de apropriação do espaço geram-se estilos[383] e usos[384]. segundo Rémy e Voyé as sociedades urbanizadas. Pierre Pellegrino afirma mesmo que existe uma dissociação entre . precisamente. muitos dos conflitos urbanos resultam. uma vez mais. superando os seus limites e constrangimentos. um processo capaz de criar ―ocasiões‖ de contestação e de afirmação face à ordem hegemónica. cálculos e interesses no decorrer da acção social. Aliás. Susan Sontag. atenua. os projectos de pessoas e grupos tendem a distanciar-se de uma base espacial concreta. repleto de possibilidades. do desfasamento e da incompatibilidade que entre si estas lógicas manifestam. posições. A comunicação à distância. actualizam estratégias. é. Colocarmo-nos na perspectiva daqueles que apropriam e utilizam o espaço implica aceitarmos. uma nova forma de apropriação do espaço.negociação e compromisso entre as várias subculturas que fervilham na cidade contemporânea.

tende a integrar as pessoas através do consumo. no seu interior. sendo porventura funcional para travar ―as reivindicações no plano profissional‖[390]. O cosmopolitismo dominante. intimamente ligados à intensidade subcultural referida por Fischer. como um isolamento anómico por ruptura dos laços sociais básicos. Um tipo de vizinhança difusa (―Diffuse Neighborhood‖). Neste último sentido. As sociabilidades de base residencial tendem. Desta forma. mas em papéis sociais específicos e actividades muito particulares. já que os relações sociais processam-se em contextos cada vez mais burocratizados e policiados.o conceito de cidade e a urbanidade. o espaço colectivo deixa de ser um espaço público. não gerem de forma alguma as relações sociais como a formação social global que assegurava a cada um o livre acesso ao espaço público‖[386]. caracterizada por uma fraca participação na vida local e por uma débil ligação à comunidade envolvente ou um tipo de vizinhança (―Stepping-stone Neighborhood‖) onde a interacção com os elementos da área de residência é meramente formal (havendo maior identificação com entidades exteriores ao local de residência) tornam-se dominantes[387]. De facto. ao acentuar da autonomia face à base morfológica da cidade. elemento fundamental para o encontro com o Outro: o espaço público é gradualmente substituído por entidades privadas ―que. precisamente. a ilusão de autonomia que a vida extra-profissional confere. enfraquecendo-se os projectos colectivos e os domínios públicos[388]. não oferecendo uma exterioridade distintiva face ao espaço doméstico. tal deve-se. aliás. em situações não-urbanizadas os vários sistemas articulavam-se pela proximidade espacial e pelo predomínio da relação interpessoal. ao enfraquecimento. desimplicando-os na construção de projectos colectivos e estimulando a actividade económica[391]. multiplicam-se os projectos pessoais. se grupos e ―comunidades interpretativas‖ reagem de forma diferente aos efeitos das estruturas espaciais. vivenciando-o e representando-o de maneira distinta. baseadas não na classe social. inserido em redes de sociabilidade extremamente móveis e difusas. A competição pela igualdade. leva à ―rejeição de tudo quanto é visto como entrave ou simplesmente risco de entrave à liberdade de escolha e de comportamento pessoal‖[389]. igualmente. espaços e equipamentos. Assim. em termos de recursos. Além do mais. Desta forma. tem uma carga ambivalente: tanto pode significar um certo centramento no indivíduo e na afirmação da sua liberdade. também as―solidariedades globais‖ de outrora se vêem substituídas por ―solidariedades parciais‖. das relações de vizinhança e do controlo ecológico de base local. fala-se da ―funcionalização‖ do . Um outro aspecto da maior importância é o que se prende com a descontinuidade do espaço urbano contemporâneo. Pelo contrário.

participa num processo de permanente construção dos espaços urbanos: ―Os elementos móveis de uma cidade. Nestas condições. mas enquanto espaço de fraca especificidade local. Pode falar-se de um processo de redução ou empobrecimento semânticos quando a cidade perde legibilidade. A coesão social será mais fraca e aumentará a desregulação social. a imagem da cidade resultará da conjugação de uma percepção imediata com toda uma evocação de longa experiência do passado[396]. a imagem que fazemos de uma cidade tem uma importância decisiva no estabelecimento de trocas e laços pessoais. Se a imagem de uma cidade é clara e coerente. uma cidade de difícil legibilidade proporcionará fragmentação. especialmente as pessoas e as suas actividades. Pelo contrário. Nesse caso. Tal acontece quando o urbanismo assume a forma de um . e o seu significado caótico e confuso. através de um enfraquecimento da categoria especificadora — colectivo — que conferia sociabilidade à relação‖[392]. capaz de produzir uma imagem clara‖[394]. Não somos apenas observadores deste espectáculo. solidificando ou não as vivências e as práticas quotidianas. discotecas. por isso. Segundo Kevin Lynch. são tão importantes como as suas partes físicas e imóveis. interpretando-a e actualizando-a de forma sempre renovada[397]. se alimenta da riqueza simbólica da cidade. Os principais pontos de referência constituirão autênticas marcas simbólicas que funcionarão como estímulo à interacção. desorganização e isolamento. mas sim uma parte activa dele. desorientação. São espaços que se desvitalizaram. Por legibilidade considera-se a característica que certas cidades possuem e que as identifica a ―uma estrutura física viva e integral. então a vivência urbana tenderá a ser mais intensa.. aquele que. deslizando progressivamente da categoria de público para a neutralidade do não-privado. afectivas e sociais. Redução semântica versus explosão do simbólico. restaurantes. As suas marcas serão dispersas e incongruentes. a cidade torna-se palco de uma explosão de máscaras onde se dissociam as esferas psicológicas. O espaço semiprivado.). funcionando como estímulo ao ―praticante cultural‖ de Certeau. 3. nas suas deambulações. num jogo de opacidade nada propício às capacidades emancipadoras da ―retórica pedestre‖.. por seu lado. Qualquer pessoa. surge como um contraponto ao esvaziamento da esfera pública (centros comerciais. participando com os outros num mesmo palco‖[395].espaço público e da proliferação dos lugares não socializados: ―as praças e ruas das cidades transformaram-se em lugares de passagem percorridos por «multidões solitárias». imbuído de uma lógica de ―desterritorialização universalista‖[393].

Por outro lado. Mais ainda. refere A. Neste contexto. Uma cidade de imagem distinta e familiar. A cidade vivida é também uma cidade imaginada. Neste caso. este autor defende a pluralidade e a multiplicação de formas perceptivas. altamente particulares e referenciáveis a comunidades interpretativas distintas. à partida. nas palavras de Jonathan Raban:―Decida quem você é. ―plurais‖ e ―autoreflexivas‖. A esse respeito. Desta forma. ―transitórias‖. os seus altares e. Decida o que ela é e a sua própria identidade será revelada‖[402]. Desta forma. fruto da destruição criativa. inversamente. sobretudo quando este interdito traz a marca da estigmatização‖[398]. impregnado de significações e rituais[400]. espelho . o que nos leva a pensar no espaço urbano como um texto polissémico. nem o que será importante nos encontros realizados‖[399]. o quando proliferam os processos de segregação e de exclusão. A cidade de hoje é cada vez mais ilegível. como descontínua é a estrutura de classes. um manancial de heterotopias. de facto. O distanciamento é particularmente acentuado quando se dá a segregação social. segundo Carlos Fortuna. Neste caso. num movimento que alguns interpretam positivamente como a ―explosão‖ de uma estética da diversidade. Lynch refere-se claramente à importância da acção do observador na constituição do objecto observado.discurso altamente especializado e orientado para clientelas distintas. ―a propósito dos quais não se pode dizer de antemão nem quem se vai encontrar. assim. torna-se um elemento central na definição das identidades sociais. a multiplicação de espaços públicos e semi-públicos de encontros aleatórios. A cidade possui. representam o fim da segurança ontológica e correspondem a uma sociedade fluída e plasticizada. as próprias identidades tendem a ser. pelo contrário. a diferenciação e o afastamento são extremados e os contactos interditos. a apropriar o espaço de forma descontínua. proporcionará. A urbe seria. o espaço público desertifica-se e torna-se terra de ninguém. Toda a intensa imagística associada à cidade e à urbanidade transformam-na num campo semântico. uma cidade cujo tecido social se apresenta descontínuo e heterogéneo resultará numa babel de imagens. Constantemente ―feitas e refeitas ao sabor das mudanças sociais e das novidades culturais‖[401]. Desta forma. e a cidade mais uma vez vai assumir uma forma fixa ao seu redor. os seus interditos. com os seus espaços de culto. um importante manancial simbólico. o espaço urbano molda e deixa-se moldar de acordo com os desejos individuais e torna-se uma cidade ―suave‖. características fundamentais da legibilidade. Teixeira Fernandes que a ―estratificação social tende. aberto a várias leituras e interpretações.

em geral. independente de importantes transformações societais.)[406]. fragmenta-se a integração das várias esferas da actividade social. aumento dos casais sem filhos ou com apenas um descendente. Estas teses assentam numa das bases primordiais do pós-modernismo: eliminadas as metanarrativas. Não se trata. flutuante e labiríntica. a efemeridade e a fragmentação assumiram precedência sobre verdades eternas e sobre a política unificada e as explicações deixaram o âmbito dos fundamentos materiais e político-económicos e passaram para a consideração de práticas políticas e culturais autónomas‖[403]. a cidade pós-industrial construi-se a partir de um processo de gentrificação[404]. outrora degradadas e socialmente desqualificadas e doravante recuperadas para uma nova classe média em ascensão social[405]. gerando-se o sentimento pós-moderno de esquizofrenia. realidade errante. a uma desindustrialização igualmente acentuada e a uma forte privatização dos consumos. as imagens dominaram as narrativas. O seu impacto e as suas causas são mais vastos e traduzem uma reestruturação global do espaço urbano. inserem-se em pequenas famílias nucleares marcadas pela elevada participação feminina no mercado de trabalho qualificado e por novas atitudes face às várias dimensões da conjugalidade (adiamento do casamento e da idade média de procriação. de um alto nível de escolaridade e de um perfil técnico-científico de profissional liberal. favorecendo interacções à distância e deslocalizadas. Os seus protagonistas. entre as quais se destacam os fenómenos de desindustrialização. tal como as identidades que constantemente (re)cria. extintas as fontes de legitimação.de várias imagens em que alternada e/ou simultaneamente nos revemos. A cidade surge como um palco onde os estilos se confrontam e onde viver passa a ser uma arte. possuidores. . ―a confiança na associação entre juízos científicos e morais ruiu. contra-urbanização e terciarização das cidades. extremamente ligado a uma terciarização fulgurante. fragmentada em miríades de posições a antiga sociedade estratificada. de gestor ou quadro superior. Como refere David Harvey. de um mero processo de reabilitação urbanística. não é na classe social (nem nas variáveis clássicas como o sexo ou as filiações ideológicas) que encontraremos o fio condutor do enredo. a estética triunfou sobre a ética como foco primário de preocupação intelectual e social. no entanto. no entanto. Ao mesmo tempo. Esta nova concepção de cidade não é. de ―filtragem social‖ de certas zonas da cidade. acompanhados por uma compressão no espaço-tempo que liberta as pessoas dos controles ecológicos locais. etc. Assinalando o triunfo da estética sobre o espaço.

assemelhou-se a um amplo movimento de marketing urbano. baseada na colagem de estilos diferentes e na teatralidade tornada possível pelo confronto de uma multiplicidade de papéis sociais. os quadros médios e superiores do terciário. ao guiar-se. patente no tipo de saídas culturais e nos objectos ostentados (distanciados face ao seu carácter utilitário e com um forte valor de signo) metamorfoseados em fétiches ou marcadores simbólicos. Os estilos de vida tornam-se. porque os efeitos da acentuada ―redução semântica‖ dos espaços pretendiam-se anulados através da imagem de uma cidade-espectáculo. então. não apenas indicador de pertença classista. tanto na reapropriação do passado. também aqui. a nova . da estética e do consumo. eis o grande paradoxo da cidade pós-industrial e pós-moderna. como refere Michael Jager. mas igualmente meio privilegiado de constituição das próprias classes sociais. baseado na fórmula ―um espaço. ainda ambíguo. aparentemente. o facto de se dirigir essencialmente para uma certa ―massa crítica‖. de uma ―ofensiva cultural dramática‖[408] capaz de fundar novas distâncias sociais de legitimação do lugar. à imagem dos ―jovens urbanos profissionais‖ (yuppies). enquanto ―sentido de alguma coisa de um mundo de fantasia. como na estilização do quotidiano. uma função‖[410]. da «viagem» ilusória que nos tire da realidade corrente e nos leve à imaginação pura‖[411]. dos jovens gentrificadores[409]. vários autores defendem que o terreno das lutas sociais urbanas deslocou-se do domínio da produção para as esferas da cultura. suportada pela conquista simbólica do tempo). a cidade pós-industrial assinala também o ciclo da cidade-mercadoria. uma vez mais. classes profissionais em ascensão e com uma grande apetência pelos espaços urbanos requalificados. pela ―estética pura‖. defende-se o ecletismo e a ficção. Assim. mesmo essa tentativa de restituir uma imagem positiva às grandes cidades. associam-se. por isso.Baseada no consumo. Enquanto espectáculo. Antes de mais. que aliam poder económico e capital escolar na procura de poder simbólico. é o mercado que comanda as operações. esqueceu a ética e o poder económico diferencial dos grupos urbanos. Os processos de gentrificação das grandes cidades do mundo ocidental. Contra o movimento funcionalista moderno. A estética associada ao processo de gentrificação ilustra bem a dimensão classista do fenómeno. através da recuperação de uma certa arquitectura (essencial para afastar qualquer afinidade com origens mais modestas[407] e impor uma legitimação histórica. O urbanismo pós-moderno. dirigida para sectores específicos do mercado. Estetização e mercado. Mas. gerando exclusão e desqualificação. Mas. ao mesmo tempo que edificava com grandeza e espectáculo. através de sinais exteriores de distinção. Este esforço de autopromoção não consegue esconder. Trata-se. indissociavelmente.

etc. . minando as bases da sua própria sobrevivência enquanto classe. da suburbanização descontrolada. virados para os mass media e apologéticos da cultura-consumo[412]: ―A cultura torna-se.). das finanças e dos serviços cresceu. Para muitos outros. crescimento do desemprego e da precaridade do emprego. Desta forma. David Harvey chama a todo este processo o ―aparato ilusório‖ do capitalismo. muitas vezes. repelindo a cidade ―exterior‖ através de pequenos mundos que funcionam como óculos de Sol (quem vê não é visto)[416] dilui-se o sentimento de familiaridade e cria-se a ideia de uma certa desorientação. tais políticas encontram-se profundamente relacionadas com os efeitos sociais do chamado ―capitalismo vodu‖ ou ―capitalismo fictício‖. as coisas não podiam ter sido melhores.. As classes trabalhadoras. por isso do espectáculo colectivo‖[413]. em particular. que sempre o acompanha. de conhecimentos e de formas estéticas e culturais‖[414].) para os jovens e os ricos. Do ponto de vista da renovação urbana. no entanto. o próprio movimento pós-moderno cair em receitas e em situações em que a ―diferença‖ é apenas ilusória — veja-se o caso dos shopping centers. um acréscimo. Por outro lado — e este é um segundo paradoxo -. assim. ameaçadas habitualmente na esfera da produção. o grau de ―pós-modernidade‖ varia consideravelmente consoante os grupos sociais em questão. acarretou uma ―redução semântica‖ dos espaços urbanos. são também agora atacadas na esfera da reprodução. A imagem de cidade deixa de ser global e limita-se a certos pontos fulcrais e singulares[417]. de qualquer forma. Londres é a cidade do Big Ben e por aí fora. seja qual for a direcção que toma. para os educados e privilegiados. bem como a «massa cultural» dedicada à produção de imagens. da sua situação de exclusão. consumível directa ou indirectamente por quase todos. das suas imagens e fontes de sentido. a legibilidade das cidades diminuiu à medida que aumenta o seu carácter de ―espectáculo‖[415].. encenação e participa. O mundo dos imóveis. enfim. Fragmentando-se (apesar de. sujeitando-se às leis do mercado. Ela é.animação urbana não resistiu à tentação de produzir grandes ―acontecimentos‖.. significou para alguns uma ―explosão do simbólico‖. Preocupada mais com a encenação do que com as pessoas. uma desapropriação de vastas zonas socialmente vedadas.. O ―direito à cidade‖ tornou-se apanágio de uma minoria em ascensão: ―(. ligado à política da imagem e à imagem da política: aumento da desigualdade social. crise do Estado-providência. de consumo e de resposta a solicitações de clientelas específicas. de carácter monumental e que servem como referências ou marcos na memória: Paris é a cidade da torre Eiffel.

na paisagem urbana portuguesa. os adereços. paulatinamente. Com efeito. o espectáculo. crescimento indissociável da relativa pujança de um terciário minimamente qualificado.Impõe-se. o seu sentido e as poderosas ―culturas de gosto‖ impõem o seu domínio na apropriação e produção do espaço.) mas sim por fracções das classes médias. as características destes novos públicos? Ecletismo e polivalência em detrimento da especialização artística. Intervenção cultural no espaço urbano. Não existe uma relação directa entre qualificação social (assegurada pelos movimentos de recomposição sócio-económica de que já falámos) e qualificação cultural. a questão: o que fazer em termos de políticas culturais locais? . constata-se um aumento significativo dos grupos sociais mais escolarizados. em particular nas profissões liberais. aparecendo como o contraponto de uma vida colectiva forte e marcando decisivamente o domínio dosigno sobre o símbolo. Por outras palavras. segundo Rémy e Voyé..) nível‖[421]. os mesmos autores chegam a uma conclusão de grande interesse. muito devedoras do paradigma escolar‖[420].. afirmação de identidades pessoais e grupais. 4. com um alto nível de participação. valorização das sociabilidades. no sentido de familiarizados com as manifestações da ―cultura erudita‖: ―a procura mais consistente. a diversão nocturna. então. um público atento à oferta cultural. quadros técnicos e científicos e pessoal de enquadramento. a moda. Um estudo recente de análise das políticas culturais de seis cidades do Norte de Portugal e das complexas relações entre oferta e procura que aí se verificam. nem sequer é constituída por elites económico-sociais no sentido mais estrito da palavra (. da distinção social sobre a interacção afectiva. então. a dança. as «tribos» e grupos de pares. No entanto. apesar de escolarizados não são necessariamente cultivados. a adesão colectiva a um projecto de cidade perde.. Quais são. Esta tendência encontra-se bem presente. na dispersão que as indústrias de lazer actualmente apresentam. do lazer e da apresentação de si. juvenilidade. Em paralelo. fornece alguma base de sustentação para a hipótese de emergência de um processo de gentrificação[418]. Em suma. do lado da procura. do lado da oferta.Assim. de cariz lúdico e convivial: ―A música. os novos públicos urbanos.. isto é. encenação pública e apropriação/transformação do espaço urbano‖[419]. mas que ―tem ainda muito por onde elevar esse (. tudo isso tende a configurar um modelo de conduta. encontram-se vários ingredientes próprios de uma ―cultura de consumo‖.

quaisquer formas de expressão cultural. então. constata a existência. de diferentes estratégias no que respeita à animação cultural. Perguntamo-nos. Para tal. apesar da inegável diversificação da oferta cultural existente. sobretudo das camadas populares. e considerando que não há produção do novo sem referência a um passado acumulado. quais poderão ser os principais eixos estruturais de uma política de intervenção cultural que se distinga da ―cultura espectáculo‖ do pós-modernismo. Por outro lado. Através das primeiras. Em segundo lugar. uma política cultural de sentido decisivamente democratizante deve diversificar a sua oferta. mediante as segundas. a priori. conferimos um especial estímulo ao alargamento e à formação de novos públicos. José Madureira Pinto avança com algumas propostas. Em primeiro lugar. mas também das visões fechadas e arcaicas da actividade cultural endógena. contrariar todas as teses fatalistas que consideram impossível o acesso de certas camadas desprovidas de capital cultural e escolar às formas . propõe-se ―propiciar a segmentos populacionais vastos. nelas. Enquanto que a maioria dos eleitos locais exprime uma atitude instrumental face ao desenvolvimento de novas políticas culturais. mantém-se ainda viva uma relação com o tecido social organizado (designadamente as associações) marcada por relações de pressão mútua reguladas pela lógica do subsídio. o grau e as formas de coesão social‖[422].Augusto Santos Silva. pouco se tem feito―no plano de uma leitura mais sociopolítica das raízes e do significado das novas sociabilidades e expressões urbanas. impõe-se ―criar e/ou salvaguardar infraestruturas básicas especializadas e promover estímulos duráveis à criação e criatividade culturais em todos os espaços sociais e sob todas as formas em que elas podem desenvolver-se‖[423]. na sua articulação com os desafios e as oportunidades de evitar a degradação das condições e dos modos de vida nas cidades de hoje e melhorar. por parte dos autarcas. Assim. para além das suas responsabilidades no campo do arquivo e do património[424]. Nestas duas frentes combater-se-á a desvitalização do espaço público e a crescente tendência para o retraimento na esfera doméstica. Daqui resulta que. com a consequente diminuição da intensidade e da densidade das redes e cenários de interacção. Pretende-se. outros dividem-se entre critérios ―comerciais‖ e de ―qualidade‖. o contacto com as formas culturais mais exigentes‖[425]. desta forma. dever-se-á apoiar com especial ênfase tanto as associações como as escolas. num outro artigo sobre o mesmo estudo. sem deslegitimar. atingimos públicos habitualmente oriundos das classes populares. sem os procurar compatibilizar.

Madureira Pinto). de construir um ―hipermercado de iniciativas‖[429]. O mesmo se poderá dizer da ―contaminação‖ de géneros. com constante fechamento. No entanto. como defende Ignacio Quintana. Alguns autores sustentam que estas intervenções apenas serão bem sucedidas se estiver preenchido um certo número de condições. justifica-se um intervencionismo activo. como refere A. Se é verdade que o subcampo artístico resiste. Será sem dúvida pela sua mão que muitos dos ―segredos‖ da produção artística se poderão desvendar e. impõe-se que a hierarquizante distinção entre ―artes maiores‖ e ―artes menores‖ não constitua uma realidade insuperável[432]. por isso mesmo. Também neste aspecto. Por outro lado. ser ―possível alargar e complexificar o âmbito das disposições estéticas incorporadas nos habitus‖[428].mais exigentes. uma das quais poderá consistir na diversificação da oferta cultural. dessacralizar. no entanto (e este é o terceiro princípio proposto por J. prescindir do apoio dos próprios produtores culturais? Parece-nos que não. Uma delas. tornar-se-á possível. Defende-se uma intervenção global que signifique uma verdadeira política de cidade e não se limite à produção de grandes acontecimentos mediáticos ou de uma imagem para consumo externo. num outro artigo[427]. ―o princípio de que a cultura «superior» corresponde às élites. Esta opinião. apesar de assumida com moderação (o autor assinala. no entanto. Nada impede. as limitações da ―margem de reconversão‖) coincide largamente com o que defendemos. legitimadas e legitimantes de expressão cultural. Não se trata. esse implicar dos vários actores territorialmente activos reveste-se ainda de maior importância em situações de conflito e de tensão sociais. Desta forma. proporcionada pela subversão de antigas distâncias. cair no ―jogo entre a lealdade e o subsídio‖[431]. com vigor. no capítulo anterior. Santos Silva. sem que tal signifique. que as culturas dominadas terão sempre maiores dificuldades de superação dos estigmas da ―cultura do pobre‖[430]. que se tentem outras iniciativas. coloca-se aqui uma delicada questão. às tentativas de democratização das condições de acesso. Para tal. é a de envolver os vários actores implicados. Madureira Pinto considera. enquanto que o resto pode contentar-se com uma cultura mediana‖[426]. mas sim de impedir a unificação do que é múltiplo e plural. ainda assim. Nessas ocasiões. em especial as que advêm da revitalização da convivialidade urbana. algum ecletismo cuidadosamente preparado poderá favorecer o cruzamento e o enriquecimento mútuo de códigos oriundos de diferentes campos. logo de seguida. Não pode aceitar-se. mais do que a . porventura a mais importante. como refere Augusto Santos Silva. a propósito das potencialidades de uma intervenção junto da esfera da recepção cultural. Sem esquecer. estilos e níveis de cultura. nomeadamente no que se refere ao associativismo. Partindo das teses de Bourdieu.

trata-se de um esforço de cidadania.. inovadora ou de orientação vanguardista? Facilitar-se-á uma ―ditadura de gosto‖ da ―maioria silenciosa‖? Que efeitos na qualidade dos produtos culturais? É que a cultura na e para a cidade nem sempre significa cultura de cidade.possibilidade de comunicação e/ou negociação de jogos e interesses distintos. a insistência em políticas e programas culturais de alargamento e formação dos públicos em muito contribuirá para que as funções de distanciação crítica face à cultura de massas assumam um particular significado. por isso. No entanto. Os actores territorialmente activos ―vêem-se assim convidados a passar da posição clássica de consulta ou de contestação a uma atitude de implicação-negociação na própria elaboração e acompanhamento dos projectos‖[433]. As questões culturais — os processos de comunicação são. não serão. capaz de gerar dinâmicas contratuais de desenvolvimento urbano. numa época em que se acentuam as tendências globalizantes. de resto. falando-se. 25% do volume total de novos empregos. por um lado. desenvolver um ―jogo local‖ de concertações em rede. surge com particular incidência o problema da salvaguarda e da transmissão da cultura e identidade nacionais e regionais. dentro em breve. pelo contrário prejudicados os sectores menos direccionados para o mercado? Não irá a ―indústria‖ devorar o ―cultural‖? Que garantias se colocam para o desenvolvimento e a viabilidade da arte experimental.. existem pontos sensíveis na relação entre o alargamento das indústrias culturais e os processos de democratização cultural. Por outro lado.‖ Rui Vieira Nery. Se é verdade. que certos sectores artístico-culturais serão privilegiados por se dirigirem a vastas audiências. importa.) O que é verdade é que não se pode sentir a falta do que não se conhece. por excelência. como refere Gaudin. ―A esquerda democrática e o princípio do serviço público cultural‖[435] . uma questão cultural — surgem no centro das políticas de desenvolvimento. que o campo das indústrias culturais (também apelidadas de «indústrias do conhecimento» ou da «informação») poderá significar. Não podemos esquecer. Mais do que um efeito de marketing. de facto. a inconsciência de si própria que ela gera nas suas primeiras e principais vítimas (. CAPÍTULO V POLÍTICAS E PRÁTICAS CULTURAIS EM PORTUGAL: PONTO DE SITUAÇÃO E GRANDES TENDÊNCIAS ―Uma das consequências mais dramáticas da carência cultural é. da rápida emergência de um novo sector económico — o quaternário[434]. Não é por acaso que. Esta última só é possível quando se enriquecem os modos de vida quotidianos e os canais de comunicação.

89. Augusto Santos Silva e Helena Santos encontram valores semelhantes: 91% dos inquiridos vêem regularmente televisão.3% vêem televisão regular ou ocasionalmente. bem como de análises contendo uma avaliação sistemática das políticas culturais e abarcando períodos temporais significativos (pelo menos uma década). dar conta dos principais resultados desse conjunto de pesquisas. As práticas culturais dos portugueses encontram-se centradas.1. colmatar em boa parte esta lacuna[441]. Uma visão de conjunto.8% dos inquiridos desenvolvem regularmente práticas domésticas de cariz receptivo. embora recentemente. 1. 90. . embora centrados numa determinada região[437]. direccionados para faixas etárias específicas[438] ou para actividades bem delimitadas[439]. baseadas no estudo de casos e preocupadas com os usos e vivências da cultura nos espaços-tempos quotidianos.1. A domesticidade e a sedentarização cultural. muitas vezes. pesquisas intensivas. Partindo dos dados de Jorge Gaspar para a área metropolitana do Porto.2% dos inquiridos consomem pelo menos uma hora de televisão por dia[444]. especialmente marcados por índices elevadíssimos de televisionamento. nos tempos livres doméstico-receptivos[442]. Procuraremos. Foi apenas a partir de finais dos anos oitenta que se iniciaram os estudos sistemáticos sobre as práticas culturais dos portugueses[436]. De acordo com o estudo já referido sobre as práticas culturais dos lisboetas.3%)[443]. no entanto. sendo quase residual o peso relativo daqueles para quem essa prática é rara ou nula (9. em seguida. estratégias de cariz etnográfico[440]. Dois artigos recentes de Idalina Conde vieram. delineando. Se associarmos a recepção de programas radiofónicos. e na tentativa de superar algumas das lacunas das abordagens extensivas. quer pela produção de estatísticas especializadas. Na década de 90 prosseguiram os estudos de tipo extensivo. Contudo. Até há bem pouco tempo deparavamos com a inexistência de estudos publicados sobre as tendências gerais das práticas culturais dos portugueses. 97. quer através de pesquisas académicas. Segundo o mesmo trabalho. segundo os mais diversos estudos. esgotamos. procurando compará-las com análises similares sobre a realidade francesa. começam a aparecer.

O mesmo se passa em relação ao número de editores e livreiros existentes em Portugal continental (-33.1%). como ir à missa. na rua e no bairro (espaços públicos que. referente a um panorama geral da situação cultural portuguesa durante uma década (com os valores respeitantes a dois anos limite — 1985 e 1995) verifica-se uma quebra de24. ir a discotecas e bares.5% na utilização de recintos para espectáculos públicos. e como refere João Sedas Nunes. Desde logo. os tempos livres de sociabilidade local apresentam-se. os cafés devem ser analisados como espaços semi-públicos.8% dos inquiridos vão ao café pelo menos uma vez por semana. sendo que quase 50% se concentram em Lisboa e Vale do Tejo. No entanto. ―como uma extensão física das redes constituídas pelo fórum doméstico. Ainda assim. pelo aumento substancial do . Em Lisboa. outros autores salientam a intensidade dos vínculos conviviais nestes espaços-tempos de sociabilidade local.587. no acréscimo de outras sessões de espectáculos públicos que não o cinema (+28%)[450]. frequentar cafés e cervejarias. os menos jovens e os que são oriundos das camadas mais desfavorecidas[446]. com Virgílio Borges Pereira.3%. Por outro lado. De acordo. somente 31% dos inquiridos sai para almoçar ou jantar fora.000 espectadores). etc. Para além de desempenhar uma função utilitária. a maior parte das vezes. representando em valores absolutos menos 11. emergindo como forma de combater o isolamento elitista da ―cultura de salão‖ e onde se expressam laços de sociabilidade informal próprios dos cenários de co-presença[448]. O mesmo se passa na área metropolitana do Porto: segundo o estudo de Jorge Gaspar. por exemplo. são «controlados» pela «unidade doméstica»)‖[447]. existem algumas evoluções positivas a assinalar. no entanto. o café surge como lugar convivial. o tempo livre ainda disponível torna-se residual. Situação igualmente negativa é a que se verifica ao nível das sessões de cinema (-21. com consequências ainda mais assinaláveis no que respeita à quebra do número de espectadores (-61%). como é o caso do café. em especial para as mulheres. No entanto. se atentarmos no quadro I. enquanto que a ida a discotecas pelo menos uma vez por mês não representa mais de 10. Ou seja.praticamente ―os canais de acesso ao campo da informação e da cultura‖[445]. através dos agentes específicos que os apropriam.. o que complica a interpretação dos números relativos à sua frequência[449]. Mas.2%). 64. assumem valores elevados. as práticas habitualmente classificadas como indicadores de uma cultura de saídasapresentam valores reduzidos. mais significativo ainda. como também se constata no quadro I. Pelo contrário. Apenas os tempos livres de sociabilidade local.

De facto.número de visitantes de museus (mais 3. . Outro acréscimo. ou seja.489. ou seja. estas mais do que triplicam na década em análise (mais 1080.4%).2%). +202.097 no período 1985/95. extremamente relevante prende-se com o número de bibliotecas. +67.

666 1985 721 1995 482 1985 425 1995 321 TAXA VARIAÇÃO 1985/95 + 48.9% +67.84 18.24. SESSÕES ES CINEMA OUTRAS CINEMA (1000) MODALIDADE S Nº.177 1995 8.984 L 2 6 TAXA VARIAÇÃ O 1985/95 .750 1995 4.2% FONTE: INE.5% (Continuação) ESPECTADOR Nº.09 145.21.799 1985 808 1995 953 1985 534 1995 1614 PORTUGA 185.4% -33.2% .61% + 28% + 17. ESPECTADOR BIBLIOTECA ES OUTRAS S MODALIDADE S (1000) 1985 1995 1985 1995 7.397 1985 3. Desporto e Recreio. Estatísticas da Cultura. SESSÕES Nº.9% + 202.QUADRO I — ESPECTÁCULOS PÚBLICOS: DADOS GERAIS (1985 E 1995) MUSEUS VISITANTES MUSEUS (1000) EDITORES LIVREIROS E RECINTOS 1985 PORTUGAL 229 1995 341 1985 5.1% . 1985 e 1995 .

sofrem durante a década 1985-1995. por isso.3 milhões em 1995. tal queda explica-se pelo acentuado decréscimo verificado no cinema. um recuo considerável. Da mesma forma. se mostra insuficiente para uma evolução positiva da procura. Os portugueses. bailados. Ainda assim. o teatro também perde espectadores. se atentarmos no quadro II. verifica-se que. apesar de se registarem aumentos expressivos em termos relativos (concertos. a queda é brutal: de 19. já a televisão satisfazia tais necessidades‖[452].Todavia. pode-se afirmar que os espectáculos públicos. . traduzindo embora um aumento da oferta nesta área. variedades). associados à um certo tipo da chamada ―cultura de saídas‖. ―quando os portugueses chegaram um estádio de desenvolvimento que deixaria supor uma superior propensão para a procura de informação escrita. partem de valores tão reduzidos que não chegam a superar a forte escassez de espectadores. o que. Quanto aos outros sectores. Em síntese. e ao contrário do que aconteceu na evolução das práticas culturais dos restantes países europeus. António Barreto é de opinião de que este padrão de intensa exposição aos media ―é inalterável e não reagiu significativamente à subida real das taxas de alfabetização e da frequência das escolas‖[451]. como se pode observar. em especial se atentarmos no número de espectadores. Ainda segundo este autor. o qual.8 milhões de espectadores em 1985 para pouco mais de 8. apesar de um aumento significativo no número de sessões. passam muito mais tempo em casa. ao qual não será alheio um acréscimo dos meios disponíveis. quase faz o pleno dos espectáculos públicos. para o total dos espectáculos públicos.

Estatísticas da Cultura.397 339 35 249 82 65 1985 CINEMA TEATRO ÓPERA CONCERTOS BAILADOS MISTA (VARIEDADES) CIRCO TOURADAS 379 37 3 4 8 11 1995 1985 241 40 8 37 19 13 1995 185.916 56 81 152 388 3. SECÇÕES E ESPECTADORES POR MODALIDADES (1985 E 1995) RECINTOS SECÇÕES ESPECTADORES (1000) 1985 1995 7. Desporto e Recreio (1985 e 1985) .984 1.QUADRO II — ESPECTÁCULOS PÚBLICOS: RECINTOS.846 18.512 62 386 214 392 486 36 13 64 9 1 20 1 27 12 2 72 83 98 104 192 8 152 31 OUTRAS 5 MODALIDADES FONTE: INE.092 145.

mediadores culturais — em especial os críticos — e instituições culturais -em particular a escola). representação e construção de visões do mundo. não deixa de ser inquietante verificar o peso esmagador dos tempos domésticos receptivos. Contudo. isolamento) asseguravam. um domínio onde as duas lógicas de consagração encontram um terreno comum: a ênfase no existencial. nas capacidades selectivas e reinterpretativas da recepção cultural. dentro do subcampo artístico. como já tivemos ocasião de o afirmar. outrora. Contudo. agora. Se. . a economia mediático-publicitária acaba também por invadir os círculos restritos da cultura cultivada e ―a grande maioria dos artistas procuram hoje a estratégia ideal que permite acumular o máximo de capital mediático. Por outras palavras. apologistas das análises que falam de catástrofe quando se menciona o efeito dosmass media na (des)estruturação das redes de sociabilidade e das competências cívicas e culturais dos agentes sociais. no interior do que Olivier Donnat apelida de economia mediático-publicitária[454]. no entanto. ―accionando relações inéditas entre a arte. precisamente porque quase esgotam o leque disponível de práticas culturais[453]. onde ainda é significativo o peso dos mecanismos clássicos da distinção (baseados na crença da autonomia do campo artístico e na tríade artistas. existe. hoje tudo se joga na espectacularização. de forma extremamente rápida. a televisão apresenta-se ―de certa maneira como o sistema de consagração da nossa época‖[456] ou como um ―sistema concorrente de distinção‖[457]. a consagração funciona. as características do ―artista maldito‖ (ascese. se actualmente contam ―as trajectórias fulgurantes e o reconhecimento imediato‖[458]. não podemos deixar de reflectir sobre os seus efeitos nos universos culturais[455] dos portugueses. Ao contrário dos universos culturais legitimados da cultura cultivada. esmagadoramente. De acordo com este autor. no carácter excepcional de certas trajectórias e o sentido da provocação. sofrimento. Acreditamos. com as suas formas particulares de apresentação.Não somos. a economia e a tecnologia‖. Desta forma. permitindo encontrar a novidade e a singularidade onde apenas se esperava estandardização e uniformização. contudo. sem perder a consideração do seu meio‖[459]. Apesar das tendências crescentes para a diversificação e especialização dos mass media. um alto capital simbólico. a possibilidade de confrontar informações e estímulos culturais verificar-se-á. como faz notar Olivier Donnat. bem como nos mecanismos cognitivos de mediação dos agentes sociais que impedem o efeito ―estímulo/reflexo‖ e nos distanciam do modelo do ―sonambulismo social‖ dos alegres robots.

a esse respeito. a situação portuguesa? O inquérito coordenado por Jorge Gaspar e relativo às práticas culturais na área metropolitana do Porto mostra que a posse de um aparelho de TV se alargava. Segundo o estudo sobre as práticas culturais dos lisboetas. este trabalho data de 1986. No pólo oposto encontram-se os ―grandes consumidores‖. Esta autora salienta os processos de intertextualidade. telecomando e vídeo. Enquanto que a primeira representou uma difusão massiva de equipamentos. Maria de Lourdes Lima dos Santos refere. De facto. De acordo com Donnat. Uma outra questão fundamental prende-se com os usos da televisão. Desta forma. alargando a quase todos os lares a posse de um aparelho de TV. salientam a persistência de um potencial crítico e criativo na cultura mediático-publicitária. todos os jogos de cumplicidade que animam a relação emissor/receptor. não ultrapassava os 4%. estudantes ou trabalhadores com formação superior. Por outras palavras. habermasiano do termo‖[460]. vivemos na segunda era do audiovisual. essa pequena minoria constitui uma espécie de ―excluídos de luxo‖. a exposição à massificação não só está isenta de intenções críticas e inovadoras. permitindo ―que quem não pertence a um determinado campo possa aperceber-se do modo como os especialistas do respectivo campo elaboram as suas produções‖[461]. Outros autores. no entanto. não ver ou ver pouco televisão torna-se uma prática distintiva de grande valor simbólico. Seria interessante. assim. neste aspecto. De facto. Em 1987. então. reformados e desempregados. Quanto à posse de vídeo. baseados num ―piscar de olhos‖ ao receptor e que possibilitam efeitos ousados de divulgação. ao ser uma actividade rara e quase residual. não possuindo nenhum diploma e pertencentes a um estrato social baixo. nesta discussão. ela é constituída por indivíduos pertencentes a um estrato médio superior. e . a correspondência entre maior público e maior «esfera» pública no sentido intersubjectivo. não havendo qualquer correspondência entre a lógica da quantidade e a da qualidade. constituídos por idosos. existem diferenças assinaláveis entre um espectador que programa selectiva e cuidadosamente o seu televisionamento e um outro que tudo consome indistintamente. conhecer os poucos que não se integram nem se reconhecem na cultura mediático-publicitária. a cerca de 95% da população inquirida. Para estudiosos como Habermas. fica ―comprometida. como provoca ―efeitos regressivos‖. colagem e descontextualização das produções existentes.Muitos autores questionam a ilusão de democratização patente no êxito retumbante da explosão mediático-publicitária. a segunda liga-se a uma individualização das práticas audiovisuais. bem como ao seu carácter interactivo: multiplicação dos canais. Qual é. Contudo.

enquanto que 9. desconhece o que irá ver quando liga o televisor‖[466]. por exemplo. tal número subia para 96. se é verdade que existe uma clara degradação dos conteúdos culturais dos programas televisivos[468]. a posse de televisão quedava-se pelos 82. em larga medida. o espaço doméstico permite outro tipo de práticas. comenta a programação televisiva nos seus círculos conviviais.4%[462].8% possuía uma câmara de vídeo[465].8%.2. alguma informação indicia atitudes menos passivas: 49.8% dos inquiridos. música. pelo menos algumas vezes e mesmo frequentemente. como tal se verifica em quase todas as actividades culturais: cinema. uma última nota leva-nos a realçar que. Contudo. apenas ultrapassado pela posse de fogão. De qualquer forma. no estudo sobre as práticas culturais dos lisboetas verifica-se ―que cerca de 85% da população. etc. para seguir a categoria em que Idalina Conde integra as práticas de leitura. 1. no entanto. Finalmente. designadamente as de cariz amador (por exemplo. O multimédia.3%da população tinha instalada antena parabólica[464] e 7. da existência de um capital escolar elevado. diz respeito ao usufruto do vídeo: em 1995 atingia já 45. leitura. utilizando como suportes equipamentos de vídeo ou de fotografia) e as de tipo intelectivo. pelo menos algumas vezes ou mesmo frequentemente. verifica-se uma certa ―funcionalidade lateral da TV – em contraste com o centramento nas emissões e a fidelização da procura que o conceito de telespectador em princípio subentende‖[467]. Por outro lado. apesar da clara colonização dos tempos livres pela televisão.para o total da população portuguesa. teatro. saídas nocturnas. paulatinamente. não podemos deixar de referir o entusiasmo com que alguns recebem as novas tecnologias da comunicação que vão. Assim. seguindo uma expressão de Idalina Conde. Em 1995. enquanto que a Internet cria novas redes de sociabilidade. . Tais dados apontariam para uma utilização cada vez mais selectiva. substituindo os modelos do ―audiovisual clássico‖[469].3% da população lisboeta tem por hábito mudar de canal (zapping) e 83. O peso do capital escolar. reabilita o texto e requer uma participação activa por parte do utilizador. A diferença mais abissal. Não só a intensidade das práticas se liga à posse de um alto grau de escolaridade. individualizada e interactiva no domínio do audiovisual.2% da população[463]. Os números são claros: o acesso aos bens e aos circuitos da cultura cultivada depende.

a terceira diz respeito à demarcação entre géneros e tipos de produtos (preferência pelos filmes de crítica social nos meios mais escolarizados. . temos três tipos de fracturas: a primeira diz respeito à intensidade das práticas culturais (os mais instruídos ouvem mais rádio. de poesia ou de ensaio. lêem mais jornais diários e semanários. se aproximam das ―classes médias urbanas‖[472]. os camponeses e as domésticas constituem um pólo sistematicamente excluído e retraído. lêem mais romances e poesia. etc. os idosos. dentro da própria burguesia escolarizada. segmentada por ―«pericialidades» eruditas suficientemente restritivas para retraírem a elite do(s) público(s) artístico(s) no interior do(s) público(s) cultivado(s)‖ o que implica ―desajustamentos perceptivos‖ e ―diferentes graus de fechamento nas suas diferentes culturas (artísticas)‖[473]. o capital escolar funciona principalmente como ―revelador‖. o peso do capital escolar é decisivo na demarcação de géneros e usos. vão mais ao cinema e aos concertos. isto é. leitura. e a leitura de jornais desportivos. pelo jazz e pelo teatro ―independente‖.). dentro do sector terciário. práticas de criação cultural. Ou como se constata. etc. possibilita análises mais finas. são o televisionamento. etc. isto é. em que certos sectores ligados ao trabalho braçal se aproximam claramente das ―classes populares‖. pela negativa. em que os não espectadores. Por exemplo. pelos programas televisivos de informação e cultura. como já referimos. gosto pela música clássica. reforço (e. pelos livros científicos. ao mesmo tempo. mesmo no que se refere às actividades mais massificadas.) fortemente ligadas a um alto capital escolar. como por exemplo acontece na pequena burguesia de execução. de que constitui. Por outro lado. os analfabetos (literais e periliterais). a poesia e o ensaio adquirem contornos de distinção. Como referem Santos Silva e Helena Santos. produto e factor de reprodução. alguma alteração)‖[471]. Por outro lado.). ―revelador de diferenças e desigualdades sociais. enquanto que outros. o caso da utilização do zapping na televisão é tanto mais utilizado quanto mais elevado é o grau de instrução dos inquiridos[470]. Assim. igualmente. As actividades que menores clivagens exercem e onde a distinção se faz a contrario. possuem maiores habilitações literárias. não esqueçamos. os reformados. Nas práticas de leitura. confinado a um número reduzido de práticas culturais e aos géneros mais ―populares‖.No que diz respeito às práticas mais generalizadas e massificadas. propiciando demarcações dentro da mesma fracção de classe (revelando a sua heterogeneidade). a segunda refere-se à raridade das práticas mais enobrecidas (frequência de museus e galerias.

noutros casos tal distância aumentou ou manteve-se inalterável. Donnat. existem indicadores de que nem tudo se passa de acordo com os esquemas bourdianos das homologias: os resultados disponíveis de vários inquéritos aos públicos do teatro demonstram que a maior parte dos inquiridos ―não ia ao teatro em criança. verifica-se um certo ecletismo nos grupos sociais mais favorecidos. não é condição suficiente para o acesso aos bens e práticas mais discriminativos. numa dissociação entre o capital escolar e o capital cultural. já que são os maiores praticantes de certos géneros ou estilos fortemente associados à cultura de massas. a escolarização. Por outro lado. Mesmo tendo em conta que a distância face a algumas práticas certamente diminuiu com a expansão/massificação do sistema de ensino (veja-se o caso da música clássica. caracterizando-se tanto pelo seu conhecimento dos valores e nomes ―clássicos‖ associados à cultura escolar. parece fazer sentido insistir-se. Por outro lado. arrastada pela ―inflação dos diplomas‖)[476]. segundo o inquérito às práticas culturais dos lisboetas[474]). as práticas criativas. no contexto português e em termos de acesso. a ida ao teatro e a concertos.. Como interpretar este conjunto desconcertante de informações? Antes de mais. ou entre uma cultura simplesmente letrada e uma cultura cultivada (eventualmente por efeito de uma certa desqualificação das credenciais escolares. Assim. os mais actualizados dos actualizados (―Les plus branchés des branchés‖) acumulam vários tipos de consumo. como refere uma vez mais Donnat: ―Inquérito após inquérito (. De facto. como faz Idalina Conde. É mesmo de salientar que certas práticas massificadas em outros países (como a ida ao cinema) apresentam-se. é preciso não esquecer que determinados consumos da cultura erudita são também minoritários mesmo entre os mais escolarizados (exemplos elucidativos são a leitura de poesia. Tal como refere O. mesmo no interior dos grupos sociais elevados em termos de status sócio-económico e capital escolar. a visita a museus. nem os seus pais tinham o hábito de ir ao . Desta forma. como pelo seu interesse pelo renovação dos stocks culturais através de um perfil mais ―moderno‖: ―eles são os mais modernos porque se interessam por todas as expressões da vida cultural: dispondo das referências mais diversificadas. etc. julgam sem dogmatismo e manifestam nos seus gostos uma concepção aberta de cultura‖[477]. assumindo a necessidade de denunciar todos os discursos ultra-optimistas que defendem o fim das distinções sociais classistas e a sua substituição por meras demarcações estéticas nos estilos de vida. e em particular com o capital cultural‖[478].). bastante próximos da cultura cultivada[475]. apesar de necessária..Desta forma.) os resultados provam que os comportamentos culturais continuam fortemente correlacionados com as posições e as trajectórias sociais.

em 1992. científicos e intelectuais. de um sistema de ensino desarticulado. no conjunto dos países industrializados.5% da população activa não possuía mais do que o 3º ciclo do ensino básico[480]. . em grande parte.teatro‖[479]. os quadros técnicos. Este indicador alerta-nos para um acentuado processo de dualização. na sua composição sócio-profissional. com base nos estudos de Didier Lapeyronnie e François Dubet. Ao nível da sociedade portuguesa verifica-se que. sem possibilidades de mobilizar o seu escasso capital social e exercendo uma ―profunda clivagem entre os que estão dentro e os que estão fora‖[481]. agravado pela crise do Estado-Providência e pela retracção dos direitos de cidadania. Pelo contrário. globalmente inferiores aos dos inquiridos. Alain Touraine. o conhecimento economicamente orientado e os saberes socialmente úteis‖[485]. rígido e baseado em modelos pedagógicos e de aprendizagem desadequados face às crescentes exigências do progresso científico-tecnológico: ―A escola não é um espaço de cultura e de educação. por comparação com países mais avançados. 79. O Estudo Nacional de Literaciamostrou uma população fracamente escolarizada. tal situação agrava-se num país onde apenas uma escassa minoria possui níveis de escolaridade médios ou elevados. que o universo escolar está cortado ao meio. Ao mesmo tempo. constituem. reforça a convicção que aponta para a existência de um número significativo de adultos que vêem dificultada a sua inserção numa sociedade cada vez mais exigente. complexa e competitiva‖[483]. beneficiários de uma mais recente expansão do sistema de ensino. colocando largos sectores da população numa situação de exclusão. um segmento bastante diminuto[482]: ―A existência de cerca de 73% da população com o máximo de seis anos de escolaridade. para além de confirmar os dados internacionais que apresentam para Portugal. tal situação resulta. dos mais baixos níveis de escolarização da população dos 25 aos 64 anos. Para António Teixeira Fernandes. Se parece credível afirmar que o aumento da escolaridade não constitui condição suficiente para o alargamento de acesso às práticas culturais mais exigentes e discriminativas. a par de um apagamento nas lutas simbólicas que animam o campo cultural. os assalariados de fracos recursos económicos e baixas qualificações. reflectindo sobre a realidade francesa. reconhece. Os níveis de escolaridade dos progenitores são. apesar de um franco progresso. cujos pais possuem níveis de instrução ainda mais baixos e em que predominam. mas de mera informação fria e rotineira‖[484]. devido a um grande desconhecimento mútuo entre alunos e professores. aliás. defende uma escola que seja capaz de pensar três ordens de problemas: ―a ciência fundamental.

a que não será alheio o triunfo do audiovisual e a ―morte‖ do livro. a uma forte centralização política. como refere Idalina Conde). se veriam resolvidos os problemas de acesso à cultura através de um irreversível processo de democratização. Em Portugal. não o esqueçamos. conquistar públicos virtuais com certas potencialidades. pelo simples efeito conjugado de uma multiplicação da oferta cultural e de uma expansão dos níveis de instrução. Por outro lado. a criatividade e o espírito de iniciativa. de forma a estabilizar o público já existente. o que constitui um estímulo para a conquista de novas camadas de praticantes culturais. na execução de tarefas básicas. mesmo entre os mais letrados. recentra a análise nos espaços de socialização familiar e na esfera do trabalho. aumentando a intensidade e a frequência das suas práticas. No que se refere ao nível de escolaridade vimos já que. valores como o sentido de autonomia.José Madureira Pinto. importa colocar em questão um modelo de política cultural até há bem pouco tempo tido como intocável: o de que. reprimindo ―disponibilidades de inteligibilidade e de expressão adquiridos em percursos educativos anteriores‖ e criando as condições ―para que postos de trabalho desqualificados se tornem eminentemente desqualificantes‖[487]. por um lado. O não-público. a par de reconhecidas dificuldades. como se verifica. Entretanto. apesar do aumento dos níveis de escolaridade se mantêm elevadas taxas de analfabetismo ―literal‖ ou ―funcional‖. tal deve-se a ―processos de efectiva anulação de aquisições feitas na escola‖[486]ou mesmo regressões que questionam a (in)capacidade de prolongar na família as aquisições feitas na escola. Desta forma. à falta de exploração de alternativas na descoberta dos públicos e dos mercados (note-se. Se. o não-público é uma imensa maioria (a centralidade e não a marginalidade. as aquisições estão longe de ser irreversíveis. o cariz incipiente das iniciativas de mecenato cultural. Por outro lado. marcado pela segmentação e empobrecimento das tarefas. designadamente no que se refere ao seu volume de capital escolar[489]. Augusto Santos Silva pega na mesma ideia para sugerir uma dupla acção: por um lado. não encontram uma efectiva correspondência no mundo do trabalho. apesar de instigados pela escola. associada. consolidar uma oferta cultural coerente e persistente. assiste-se a um certo desprezo pelas referências transmitidas pela cultura escolar. Maria de Lourdes Lima dos Santos refere mesmo a necessidade de ―integrar equilibradamente o apoio privado numa política cultural global‖[488]). Por outro lado. existe em Portugal uma certa contracção da oferta cultural. a esse respeito. por outro. é igualmente maioritário mesmo entre os mais escolarizados. a que nem sempre o poder local consegue contrariar os efeitos e. para além dos seus baixos patamares. no entanto. tudo .

O discurso sobre o falhanço da escola. a existência de novas formas de consagração no campo cultural e no sub-campo artístico. Como resultado. baseada na difusão do saber e do conhecimento como fontes privilegiadas de emancipação política e de acesso à cidadania. rituais e visões do mundo. baseado nos mesmos valores. e como já referimos anteriormente. encontra-se em causa a racionalidade ocidental com origem no Iluminismo. indefinido e sempre adiado infinito. da diversificação da oferta e mesmo. ainda segundo Donnat. os dados que possuímos levam-nos a pensar que as paralelas encontrar-se-ão.isto enquanto se intensificou a massificação do sistema de ensino. por isso. leva. mitos. extremamente vulgar nos países europeus durante os anos 80. Perante a persistência de profundas desigualdades no acesso à cultura. falhanço patente apesar do acréscimo da escolaridade. tanto mais paradoxal quanto aumentam os níveis de escolarização. o individualismo. a conclusões fatalistas sobre um irreversível ―declínio cultural‖. mesmos nos seus níveis intermédios e superiores. o hedonismo. Conceito que se torna mais vasto. cada vez mais. Como em causa está o modelo republicano e laico da escola. Ela deixa transparecer uma grande parte dos receios e incertezas ligados actualmente ao conceito de cultura‖[492]. da eliminação dos constrangimentos materiais (oferta de bilhetes junto das escolas. Em última instância. o ―universo cultivado moderno‖ organiza-se através de outras referências: ―o conjunto imagem-som e as saídas nocturnas como os concertos de jazz e de rock. Mas a preocupação é mais vasta: ―No debate actual que temos procurado precisar. cultura ou mesmo arte. por vezes. No entanto. Uma derradeira utopia pretendeu ver na televisão uma outra escola: a ―escola paralela‖[491]. a juvenilização e a espectacularização do real. Donnat defende. a nova querela escolar desempenha um papel de primeiro plano. . A este novo tipo de práticas culturais associa-se uma superestrutura de valores. instrumentos privilegiados de legitimação do que constitui ou não acontecimento. em alguns casos. prevalecendo. Donnat fala do ―esgotamento das utopias‖. aumentam os processos de construção social da realidade por parte dos mass media. A ―economia mediático-publicitária‖ entra em competição com a cultura ―clássica‖ de cariz escolar e académico. por exemplo). os espectáculos de dança e de cinema‖[490]. perante o falhanço das políticas tradicionais de difusão e de alargamento de públicos. num longínquo. Em contrapartida. elástico e aberto a referências iconoclastas face aos cânones escolares.

televisionamento (a esse respeito. Os jovens são. Idalina Conde defende mesmo que existe uma ―indução juvenil‖ na aceleração verificada na aquisição de equipamentos audiovisuais e informáticos. uma vez que a exposição mediática é cumulativa e se verifica uma atitude eclética face ao conjunto dos media: um médium não excluirá outros‖[494]) e ida ao cinema os jovens são os principais praticantes. a obtenção de um posto de trabalho e a constituição de família própria implicam uma redução drástica das sociabilidades extra-familiares e da ―cultura de saídas‖. Num inquérito às práticas de leitura dos portugueses. os cafés e cervejarias. Segundo Donnat. ao mesmo tempo que se revelam. Maria de Lourdes Lima dos Santos estabelece uma comparação entre as práticas culturais dos jovens portugueses e franceses: ―em França é sobretudo para os jovens que mais regridem. teatro. a domesticidade dos jovens portugueses associa-se também a um modelo de convivialidade informal (recebendo amigos em sua casa ou indo a casa de amigos). como a música clássica e o jazz. os jovens revelaram-se os maiores leitores[493]. não só no que respeita aos livros. com valores muito reduzidos no que respeita a idas a exposições e museus. a um nível muito elevado. Vários são os domínios em que o factor ―idade‖ exerce uma forte influência. centros comerciais e discotecas. os hábitos de leitura e mais se acentua a cultura de saídas de sociabilidade. A juvenilidade das práticas culturais. o rápido processo de envelhecimento cultural que caracteriza os jovens portugueses: em geral. decisivamente. tão ou mais do que os seus congéneres franceses. ainda. como aliás demonstram os trabalhos de José Machado Pais. No entanto. por conseguinte.3. igualmente. os maiores frequentadores dos equipamentos culturais urbanos[495] e os principais protagonistas de uma incipiente ―cultura de saídas‖ (essencialmente direccionada para o cinema. ao mesmo tempo. em Portugal. no pólo dos ―modernos‖ e dos―provocadores‖ (por oposição aos ―clássicos‖ e aos ―conformistas‖) no que isso significa de rejeição dos valores consagrados da ―cultura . uma mais acentuada cultura de domesticidade‖[496]. acentuando-se. os jovens franceses colocam-se. como também aos jornais e revistas. Importa referir. relativamente. os jovens têm uma prática de leitura relativamente mais forte e.1. apesar de desconfiarmos da sua autonomização face a outras variáveis. a domesticidade. em práticas como a audição de rádio e de música. concertos e mesmo espectáculos desportivos). Luísa Schmidt fala de um ―modelo juvenil «media minded». adeptos do audiovisual. bem como em domínios da cultura cultivada. tornando-se-nos difícil falar de ―efeitos geracionais‖ tout court.

Esta. um segmento jovem. Donnat mostra com clareza que o factor idade não é independente de uma vasta constelação de outras variáveis. A estrutura do seu ―capital informacional‖[497] torna-os mais sensíveis aos efeitos flutuantes da moda e das estrelas mediáticas. possuidora de um capital informacional clássico[500]. adquirindo posturas quer intelectuais.. da «performance». antes de mais. quer do pólo ―conformista‖. tão-só. as instituições. baseado em Donnat. renovam os seus conhecimentos e gostam de jazz. dos valores e consensos dominantes. O facto. delimita três gerações[499]: a com mais de 50 anos. ―pertence a uma sociedade em que se enfraqueceu poderosamente o papel de tutores culturais: os professores.. a esse propósito. os pais. por exemplo. Eduardo Prado Coelho. finalmente. Eduardo Prado Coelho parece esquecer o peso do capital escolar. a geração com menos de 35 anos. a par de uma desvalorização das referências académicas e convencionais. os profissionais. Ora. A grande diferença é a posse de um elevado capital escolar. A novidade deste conjunto de disposições é que a cultura escolar deixou de ser . computadores e jogos educativos (. Maria de Lourdes Lima dos Santos fala. para além da leitura e audição dos ―grandes nomes‖ e do respeito pela memória cultural. da eficácia.) Os seus valores são fundamentalmente os do espectáculo. da ―posição cultivada das jovens gerações diplomadas urbanas de hoje‖[502]. O mesmo acontece para os indivíduos provenientes da região parisiense e que têm uma intensa rede de sociabilidades. ao capital cultural[498]. quer anti-intelectuais. da distracção e da evasão (. da idade como um ―capital transitório‖equiparável. No entanto. rock e banda desenhada. oriundos de um meio culturalmente rico.. este segmento é. segundo ou terceiro aparelho de televisão.. mas o mais correcto é dizer que se trata de uma geração rasa de referências e de memória. como já mencionámos. O próprio Donnat refere. e isto porque se multiplicaram as condições que permitem ao indivíduo aprender «por si próprio»: quartos à parte. arrasada pelo vazio de si mesma‖[501].patrimonial‖. que os mais actualizados dos actualizados (―les plus branchés des branchés‖) se caracterizam pelo ecletismo do seu capital informacional e pela cumulatividade de conhecimentos oriundos quer do pólo ―clássico‖. quer do ―pólo moderno‖. os que. No entanto. Trata-se. onde a socialização familiar funciona como equivalente funcional da escola na transmissão de saberes e competências. a que detém uma idade entre os 35 e os 50 anos. convertida à cultura mediática mas com a persistência de hábitos de leitura e. do inebriamento sonoro. de se ter abandonado precocemente a escola e não possuir um diploma é acentuadamente menos penalizador para todos aqueles. quer do pólo ―contestatário‖.) Podemos falar em «geração rasca». em certas circunstâncias.

em que o desporto aparece claramente como um domínio masculino. por exemplo. utilizando frequentemente o zapping. os jovens portugueses. a uma nova ―ilusão da homogeneidade‖. dos programas televisivos. existe um sem número de pequenas distinções que contribuem. É o caso. Os primeiros. fruto de uma partilhada experiência escolar. os seus mais intensos protagonistas. é precisamente na resistência ao envelhecimento cultural que cedo se distinguem as práticas e se estabelecem as desigualdades e clivagens entre os jovens. uma forte divisão quanto ao âmbito dos ―universos culturais‖ masculinos e femininos. todavia. consumo predominantemente feminino. como a sua estrutura é mais diversificada. ficção científica. existem filmes consumidos preferencialmente por homens e outros por mulheres.4. como anteriormente se viu. ao contrário das telenovelas. 1. mantêm-se atentos à novidade e resistem ao envelhecimento e à ―classicização‖ cultural através de uma―circulação rápida das informações graças a circuitos curtos e difusos‖[504]. para a maior parte do elenco das práticas culturais. desde logo. revelam-se. como aliás DiMaggio sublinha. No primeiro caso encontram-se os filmes de acção. escondem-se ―universos culturais‖ distintos. também. no desenvolvimento de densas redes de convivialidade extra-familiar. por outro. de guerra. De igual modo. para a elaboração de perfis culturais distintos. Os pontos de investimento desta nova atitude erudita centram-se. Por um lado. são os homens quem mais faz um uso selectivo da programação. no cinema. não só possuem períodos mais extensos de tempos livres (porque libertos das tarefas e actividades domésticas). Sob o impacto do ―boom‖ da ―cultura juvenil‖ e de uma ―juvenilização‖ simbólica de todo o tecido social. Por outro lado. Distinções segundo o género No estudo sobre as práticas culturais dos lisboetas verifica-se. pela sua recorrência e sistematicidade. Aliás. Westerns.o eixo estruturante das práticas culturais e a ―cultura-diversão‖ não mais é olhada em jeito de heresia[503]. policiciais. Da mesma forma. uma vez mais. na multiplicidade de papéis sociais exercidos e na estruturação de uma cultura de saídas activa e diversificada. Como refere Maria de Lourdes Lima dos Santos. conduz-nos. as características que Eduardo Prado Coelho atribui à ―nova geração‖ não são unanimemente partilhadas. São eles. Depois. a sua aparente homogeneidade. quem mais sai e mais se autonomiza face ao ambiente doméstico-residencial. Falar de uma ―geração rasa‖. crítica . depressa se revela como uma―homogeneidade de superfície‖[505].

a desintegração do conceito de género (assim como o de raça e classe) levaram a um negligenciar das principais divisões sociais. a existência de masculinidades e feminilidades. um duplo padrão de moralidade que leva as mulheres a confinarem-se ao espaço doméstico-residencial. No campo da leitura. o génerorefere-se a ―um conjunto de padrões comportamentais que se aprendem‖[511]. baseadas nos distintos contextos situacionais e culturais. Por seu lado. Segundo o estudo de Jorge Gaspar para a área metropolitana do Porto. profundos e persistentes mecanismos da socialização familiar. por exemplo. Ao contrário do sexo. preferem os policiais. adverte para o perigo da dissolução da importância das relações sociais de poder. as mulheres escolhem relativamente mais filmes históricos. proporcionalmente. subjacente a estas distinções. com especial ênfase nas relações . os científicos. o panorama é mais equilibrado. Sugerem o exemplo da etnia e da colossal diferença que separa as mulheres negras das mulheres brancas.3% contra 46. lêem muito mais os jornais diários. Eles. Sylvia Walby. os westerns. bem como ao café. devido aos subtis. discotecas e festas e romarias[509]. os pornográficos e eróticos. apesar de insistir na mútua determinação dos conceitos de raça. os político-filosóficos e. cerca do dobro de homens relativamente ao sexo oposto‖[507]. No que respeita aos livros. dramáticos e de terror[506].social. a situação inverte-se. é possível detectar outros indicadores deste duplo padrão cultural. enquanto que os homens se abrem muito mais ao espaço exterior. No entanto. insistem na necessidade de fragmentar analiticamente as noções de masculino e feminino. do privado e do afecto. para salientar ―que a frequência regular de teatros atrai. As correntes pós-modernas. ainda. assentes em mecanismos sócio-culturais de construção do género[510]. os livros sentimentais. as mulheres frequentam mais as feiras e os mercados. Existe. de modo a evitar distinções com base em critérios essencialistas. por isso. os homens orientam-se mais em termos agonísticos e de abertura ao espaço público. ligadas aos Women Studies e inspiradas nos trabalhos de Derrida e Foucault. Pelo contrário. os de culinária. género e classe. finalmente. Um outro exemplo. Os homens. de novo. De acordo com o mesmo trabalho. ligado a diferenças biológicas. românticos. conselhos práticos e religiosos. Práticas sensivelmente equiparadas são a ida a exposições. No caso das revistas. Enquanto que as mulheres valorizam a cultura do íntimo. embora existam proporcionalmente mais leitores masculinos (56. os homens vão mais vezes ao cinema e ao teatro. eróticos e pornográficos. os filmes de aventura e viagens. musicais. as mulheres lêem mais os romances. Defendem.2%)[508]. pelo seu lado. Desde logo.

assiste-se a uma nova fase do patriarcado. Aliás. transitam para um modelo de família de dupla carreira. 2. apesar de as actividades com audiências mais minoritárias se situarem no pólo da chamada ―cultura cultivada‖ (concertos.. Perante tal panorama. teatro e ópera). O principal indicador será. de uma situação de trabalho doméstico não pago.. mesmo práticas próprias da cultura de massas (ver filmes vídeo. a audição de rádio e de música e o televisionamento. apenas é visto com alguma regularidade por 18% de portugueses. em que as mulheres. assistir a jogos. espectáculo público mais frequentado. quando o cinema. impõe-se questionar os resultados das próprias políticas culturais. sem dúvida. Se observarmos agora os dados mais recentes disponíveis sobre as práticas culturais dos portugueses(quadros III e IV[513]) desde logo constatamos a existência de um enorme défice cultural. verificamos que. Uma exclusão amplamente partilhada. Somente cinco actividades conseguem cativar mais de 50% do público: a leitura de revistas e de jornais. registam valores de participação reduzidos.económicas[512]. Para esta autora.). significativamente demonstrado pela quase total ausência de frequentação de um muito significativo leque de práticas culturais[514]. por comparação com o dos homens. o reduzido volume dos seus tempos livres. QUADRO III — Indicadores de Não Frequência de Actividades Culturais (%) Ver televisão Ouvir rádio Ouvir música Ler jornais diários Ler revistas Ler livros Ver filmes de vídeo Assistir a jogos Ir ao cinema Visitar museus/exposi-ções Ir a livrarias Ir a discotecas Praticar desporto Ir a bibliotecas Ir a concertos Ir ao teatro Jogar no computador Ir à ópera Raramente nunca 4 18 29 48 45 71 65 69 82 88 82 78 78 93 92 96 89 99 + Nunca 1 5 12 28 26 36 38 47 51 55 56 60 63 67 71 76 78 91 . onde continuam a ser exploradas.

numa breve comparação entre o estado da cultura em Portugal e as realidades europeias mais avançadas salienta a situação de ―subequipamento em termos de produção e infraestruturas.. menos de uma vez‖. 1998 De facto. bibliotecas.. ou os baixíssimos índices de frequentação. televisão. cada cidadão.)‖[1]. não concordamos com António Barreto quando este autor refere que ―é perceptível um acesso mais generalizado dos cidadãos aos veículos tradicionais de cultura: espectáculos.. mais 200 títulos do que em 1991 (.000 os espectadores (. em média. mediante a análise de estatísticas.) Mas havia mais jornais para ler: em 1973. níveis mais baixos de procura para alguns domínios e défices em continuidade.. ou efeitos de regressão em relação à década de 60 (―No princípio dos anos 60...) Em 1991 eram 30 as salas e 300. actualmente. ―aumento também do número de leitores apenas até aos finais dos anos 70.. mediante uma apropriação mais alargada das suas obras) é um objectivo ainda por atingir.‖[1].) e as idas ao teatro foram um pouco mais de um milhão (. quer no seu sentido mais restrito e imediato (alargamento do campo da cultura erudita. consistência ou activismo da política cultural‖[1]. com algum suporte e coerência.) Em 1973 funcionavam cerca de 80 salas de teatro (... Idalina Conde. mesmo nos casos em que a oferta aumentou significativamente (como acontece com as bibliotecas) o número de leitores não acompanha essa evolução. quer no seu sentido mais amplo e perene (o direito à cultura como direito de cidadania)...) Em 1973 havia quatro vezes mais espectadores de cinema do que em 1991 e quase o dobro das salas de cinema de 1991 (. etc. Uma vez mais. imprensa. a nossa opinião: ―Em 1970.Fonte: Eduardo de Freitas et al. se ―avaliar uma política consiste em determinar os seus objectivos.. Lisboa. em precisar os seus programas de acção. Um Inquérito à População Portuguesa. excepção feita para a televisão. museus. em medir os seus resultados e em verificar se os meios aplicados produzem os efeitos pretendidos‖[1].. Hábitos de Leitura. D. assistiria a três espectáculos por ano. mais de um quarto da população não sabia ler nem escrever (. Eduarda Dionísio corrobora. podemos. baixando a seguir para níveis próximos dos anos 60‖[1]). sustentar a posição de que a democratização cultural. O próprio autor salienta. Nessa medida. Quixote. jornais. QUADRO IV — Não Frequência de Actividades Culturais Segundo o Habitat (%) Total Rural Semi-rural Semi-urbano Urban o Lisboa / Porto .

com implicações poderosas ao nível da auto-estima pessoal e social. A ausência de práticas culturais expressivas e/ou criativas reforça o fenómeno multidimensional da exclusão social. as segundas vincadamente rurais). . sucede-se uma outra concepção que. afastando dos ligames sociais uma vasta parte da população portuguesa. indústrias culturais. não sem conflitualidade. a uma concepção de ―cultura património‖. atomizada e sem mecanismos eficazes de integração social. multiplicam-se as legitimidades culturais mas restringe-se. a ampla exclusão cultural que constatámos apenas pode contribuir para reforçar situações de vulnerabilidade social.Ver televisão Ouvir rádio Ouvir música Ler revistas Ler jornais diários Ver filmes de vídeo Assistir a jogos de futebol Ler livros 71 77 Praticar desporto 78 82 Ir a discotecas 78 81 Ir ao cinema 82 89 Ir a livrarias 82 86 Visitar 88 93 museus/ex-posiçõe s Jogar jogos de 89 94 computa-dores Ir a concertos 92 94 Ir a bibliotecas 93 93 Ir ao teatro 96 99 Ir à ópera 99 100 Fonte: Eduardo de Freitas et al. tudo nos leva a pensar que falharam os objectivos sociais das políticas culturais.. De facto. cit. (Raramen-te + nunca) 4 18 29 45 48 65 69 (<1000 ) 4 23 38 52 54 73 65 (1000/10000 ) 4 19 30 47 50 67 68 73 79 80 86 83 91 (10000/20000 ) 4 12 23 35 40 59 72 66 75 72 72 75 80 (> 20000) 4 14 22 36 40 60 74 62 74 76 74 77 85 2 9 21 42 42 53 67 67 71 73 70 79 79 90 94 90 97 100 87 91 88 92 99 87 90 87 94 99 78 89 88 91 97 Podemos ainda acrescentar que. De facto. da participação pública e da própria densidade das redes de sociabilidade. novas e tradicionais culturas populares (as primeiras de cariz essencialmente urbano. op. a diversidade das práticas. fazendo coexistir. Esta situação é ainda paradoxal face às modificações mais ou menos recentes que estilhaçaram o conceito tradicional de cultura. etc. simultaneamente. perante tais indicadores. se preocupa em abarcar a cultura ―na sua própria polivalência e multivariedade‖[520]. sem desprezar os valores e obras do passado. Alarga-se o campo cultural. fechada e sem integrar as novas formas de expressão. culturas e subculturas de minorias étnicas e outras.

não mais deixaram de descer. a cultura. a braços com um número crescente de questões «imediatas» e prementes (. quando ―uma autoridade política agarra um problema ou um fenómeno social e quando esse «investimento» político produz medidas que afectam grupos sociais‖[521]. a maior parte das vezes desligadas e contraditórias entre si. regredindo. Estas. uma articulação.. Ora. Impõe-se. embora não possa prescindir delas. Não se pense. Uma política cultural inexistente? Apenas com uma excessiva boa-vontade poderemos defender a ideia de que tem existido. mas também devido à existência de insanáveis diferenças programáticas entre os principais actores em presença. por isso. em Portugal. no entanto. que a revolução foi isenta de rupturas. para valores próximos dos anos sessenta. a par de uma incontida vontade de ―fazer arte para o povo‖. logo nos primeiros anos após a revolução assistiu-se a um suceder de iniciativas. Com efeito. a cultura foi frequentemente relegada para segundo plano. um nítido fio condutor. os consumos culturais aumentaram em flecha. convém desde logo distinguir entre o âmbito de políticas públicas de cultura e efectivas políticas culturais. Como refere Urfalino. ―a cultura não será preocupação de um novo poder contraditório. verificou-se uma ―explosão organizativa‖ dos vários sectores da criação cultural. irá construindo a sua história de adiamentos e de exigências do impossível‖[523]. seguir-se-iam inevitáveis reflexos na ―superestrutura‖. que não é uma prioridade revolucionária.) Desde cedo. Para além do desmembrar dos mecanismos repressivos e da censura. facto agravado pela convicção de que. têm sido a tónica dominante.3. através de acções de mobilização e descentralização cultural e de mostrar o que tinha permanecido tanto tempo escondido. Além do mais. uma política cultural articulada e sistemática de intuitos democratizadores. As primeiras verificam-se. que não podem ser acções avulsas. sistematização e hierarquização de medidas. . Por outro lado. uma vez alterada a ―infraestrutura‖. no entanto. em alguns casos. a partir desse altura e para a maior parte dos sectores. no período imediatamente pós-revolucionário de 1974 e 75. a sua emergência depende da convergência e da coerência entre as representações do papel do Estado na relação com a arte e a cultura e a organização de uma intervenção pública que tenha subjacente um mínimo de unidade de acção do poder político[522]. Aliás. as estatísticas demonstram que. segundo Philippe Urfalino.. não só porque a instabilidade política e a sucessão de governos assim o justificava. uma política cultural está longe de ser um inventário ou um somatório de políticas públicas. Como refere Eduarda Dionísio. perante tantas prioridades. Todavia.

não só se alargou o campo cultural e o espectro das práticas culturais. substituição do amadorismo pelo profissionalismo. com carências estruturais e históricas acumuladas. bastante claros: defende-se. com traduções evidentes no campo cultural: ênfase no espectacular e no convivial. num movimento de aumento da diversidade e da pluralidade. que os anos de brasa da revolução constituíram um interregno num processo de inexorável declínio. essa tese peca por excesso de pessimismo. presididos por Aníbal Cavaco Silva. De facto. próprias de ―uma modernidade cultural (ainda) por construir‖[525]. Uma certa visão de um ―liberalismo cultural‖encontra-se presente na concentração de subsídios aos sectores culturais e na consideração do número de espectadores como critério de atribuição desses subsídios (distanciando-se desta perspectiva. a nosso ver. a cultura como objecto de ―gestão‖. o ―assegurar da dimensão cultural no desenvolvimento do país‖. o associativismo cultural e a formação de novos públicos. apesar do apoio crescente do poder local. visão instrumental da cultura como factor de desenvolvimento. quanto o nosso país depara. de facto. como o país se abriu ao exterior e a inovação deixou de ser encarada como subversão. uma ―contenção da intervenção do Estado‖. o XIII governo constitucional. O principal problema reside. a ―salvaguarda do património‖ e a ―diversificação das fontes de apoio com o desenvolvimento do patrocínio particular e empresarial‖. nas suas duas vertentes – economia da cultura e cultura da economia). na enorme dificuldade que a Segunda República tem demonstrado em lidar com o preocupante défice cultural. são. Com os anos 80 assiste-se ao emergir de uma nova constelação de valores. Domínios como a animação sócio-cultural. defende a ―responsabilidade inalienável‖ da intervenção do Estado. Os X. em particular no que se refere ao assegurar da criação de infraestruturas e no apoio às .Há quem considere. a esse respeito. nostalgicamente. com a definição do papel de ―intelectual do regime‖ e a crescente preocupação com a ―Portugalidade‖ (amplamente ilustrado pelas comemorações do 10 de Junho) e a salvaguarda e defesa do património. as novas tecnologias e a abrangência da cultura de massas colocaram Portugal na órbita da ―economia mediático-publicitária‖. cabendo ao Estado uma ―acção supletiva‖. Eduarda Dionísio fala do período de ―normalização‖ como o da implantação de uma ―cultura oficial‖. Quanto a nós. XI e XII governos constitucionais. revelam níveis incipientes de investimento[524]. E esta preocupação é tanto mais consistente. Inevitavelmente. para além dos habituais objectivos de democratização cultural. aposta na rentabilização da arte e da cultura (com a consequente aproximação entre economia e cultura. coordenado por António Guterres.

) sabe fazer da função de arquivo e conservação patrimonial uma garantia. etc. memória viva e inventiva.. a par do considerar da cultura como área prioritária. Por outro lado. também. E. a exibição da cultura institucional em detrimento de uma ―cultura-acção‖. musicais. assente em estratégias activas de difusão e captação de públicos. a valorização do património poderia ser implementada numa perspectiva consideravelmente mais abrangente. aos presentes e vindouros. o excessivo ênfase nas grandes obras do ―regime‖ e nas produções e autores consagrados. visuais. uma política de património que não se contente com a celebração do morto e que seja. mediante a análise dos programas de governo. no entanto. se bem que imprescindível. estamos ainda longe do mítico 1% do PIB. A reduzida percentagem da despesa pública destinada à cultura (apesar de aumentos constantes na última década. o apoio à criação. patente na cultura de consagração dos grandes feitos ou na recuperação dos ―grandes monumentos‖.. científicos.) abarcam também as medidas activas de defesa e divulgação da língua e cultura nacionais.. que quase se tornou tradição em França). para além da habitual salvaguarda da herança histórico-cultural e da preservação da língua e ―valores nacionais‖. que a prioridade das políticas culturais nacionais tem oscilado entre a óptica patrimonialista e o apoio aos criadores. No primeiro caso.entidades com―reduzida capacidade de gerar receitas próprias‖. Imprescindível. para além de uma maior ou menor visão ―conservacionista‖. na medida em . uma certa utilização ostentatória por parte do poder político. suporte para a criação presente e futura. Por outro lado. Em suma. a operações de salvaguarda e conservação de edifícios e documentos emblemáticos (. o distanciamento entre o discurso e a realidade no que se refere aos objectivos da democratização cultural. claro está. das culturas subnacionais. juntamente com a educação. Nas palavras de Augusto Santos Silva: ―As políticas de património não se reduzem. a formação e a ciência).. com intuitos cerimoniais e simbólicos. dos reportórios literários. não raras vezes se tem resvalado para uma instrumentalização reducionista do património como ―cimento cultural comum‖. de bases de continuidade e experimentação para o seu próprio trabalho e fruição‖[527]. em que a maior parte das actividades culturais se foram concentrando numa reduzidíssima elite urbana[526]. a relativa demissão do Estado enquanto promotor da ―cultura como serviço público‖são alguns dos factores que constituem o reverso da medalha dos significativos progressos destas últimas duas décadas. parece indiscutível. – numa estratégia que (. não pode reduzir-se à legitimação arbitrária de expressões ou níveis de cultura. Impossível não descortinar aqui.

Nas palavras de Augusto Santos Silva: ―as políticas de realização de mercados. Requerem intervenções deliberadamente concebidas como formação de públicos. não raras vezes. no cruzamento. tudo se equivale‖. de reforço e alargamento de procuras. que permitam aumentar os consumos culturais e por aí estimular o lado da oferta. Desde logo na vertente educativa de formação de públicos. enquanto quadro (único?) de expressão de culturas dominadas e/ou emergentes[530]. em matéria cultural. seguindo a já célebre lei de Baumol. Para além dos potenciais equívocos gerados por essa confusão: oscilação do papel do Estado entre a figura que garante a independência da criação artística e a velha tentação mecenática de interferência e imposição de cânones que traduzem a tentação de procurar nas artes um espelho onde o poder se reveja na sua majestade. a nosso ver. isto é. necessariamente. assumindo portanto uma forte componente educativa. à invenção de conteúdos culturais na indústria e na investigação de ponta). por vezes diluído na boa vontade do ―tudo é cultura. que não quer dizer necessariamente escolar. porque várias modelos de políticas culturais nacionais têm esbarrado na constatação de que um aumento da oferta cultural não acarreta efeitos automáticos de arrastamento da procura. as actividades culturais são cronicamente deficitárias do ponto de vista financeiro. incentivá-lo a utilizar o espaço público (numa óptica de democracia participativa) e a prestar determinados serviços culturais. ―vasto albergue espanhol onde cada um pode encontrar a resposta mistificadora que espera‖[528]. não podem ser vazadas em moldes puramente Keynesianos. dignificá-lo (isto é. fechamento do campo artístico em regras de autarcia onde apenas os pares usufruem do direito de legitimação do que é ou não arte. Antes de mais porque tende muitas vezes a confundir-se ―política cultural‖ com ―política artística‖. proporcionam avanços ou ―saltos‖ estéticos significativos (proceder de forma contrária seria sucumbir perante a ditadura do grande número e do cifrão. dotá-lo de equipamentos (que Santos Silva apelidaria de ―estruturantes‖). negando ao produto cultural a sua especificidade). Revitalizá-lo. a um conjunto complexo de razões. Mas também insuficiência de actuação do lado da procura e em várias frentes. torná-lo um agente efectivo de mediação entre . Ora. em especial no que se refere às produções que pretendem escapar aos circuitos e aos públicos das indústrias culturais e que. ainda que se respeite a especificidade do património da criação artística. Madureira Pinto aponta complementarmente na direcção do movimento associativo.que. contaminação e complementaridade das várias formas de expressão cultural (das ―velhas‖ e ―novas‖ culturas populares. o que se liga. requerendo um funcionamento em termos de ―mercado assistido‖. a primeira é imensamente mais vasta e joga. dotá-lo de legitimidade própria). Insuficiente. mas não dispensa a escola‖[529].

pluralizando. de comprovada insuficiência. mas também uma aproximação ao acto criador. contribuiria para alimentar lógicas reprodutivas de perpetuação de distâncias e hierarquias[532]. não só pela disseminação de competências decifratórias dos códigos de construção das obras. não só o habitual alargamento de públicos. mas também o teatro e o cinema). actuar simultaneamente nas duas esferas: oferta e procura. democratizando (isto é. assenta num triplo objectivo. da vasta área da animação sócio-cultural. É ainda cedo para afirmar que estamos. abdicando. formando e legitimando as várias expressões da segunda. enquanto um conjunto sistemático. que requer uma atitude particularmente exigente no que se refere aos meios colocados ao dispor de um incontornável serviço público cultural:―simultaneamente repor as pré-condições infra-estruturais da modernidade que não tivemos. como pelo envolvimento de todos os actores envolvidos na criação e acção cultural (dos artistas aos animadores. por vezes incongruentes. continuado e coerente de acções com uma ideia clara sobre os seus critérios e prioridades e assente numa definição consistente e transparente da relação do Estado com o campo cultural e a pluralidade dos seus agentes. da promoção do associativismo. finalmente. paralelamente. por conseguinte. da articulação entre poder central e autarquias e do alargamento e formação de públicos. inclusivamente na sua própria esfera. como realça Vieira Nery. a sua plena operacionalidade em velocidade de cruzeiro e viabilizar os veículos de expressão actual de uma pós-modernidade em que não poderíamos hoje deixar de estar presentes‖[534]. tanto no trabalho como nos lazeres‖[533]. descentralizando e dessacralizando a primeira. Podemos afirmar. Ficar pelo primeiro estádio (alargamento do acesso dos públicos às modalidades cultivadas).obras e públicos seriam algumas das estratégias possíveis para combater a tendência de retraimento doméstico patente nas camadas sociais mais desmunidas[531]. diversificando) a produção cultural. Em ambos os casos. por assim dizer. . no entanto. que muito tempo se perdeu com a multiplicação e justaposição de políticas sectoriais. o desafio colocado à estruturação de uma política cultural na especificidade da formação social portuguesa. espaços onde a população (e não os públicos) age sobre ela mesma. alargando. quase sempre. procurar-se-ia. e com a fixação monotemática em determinados debates (veja-se a questão da existência ou não de uma ―subsidiodependência) e em determinados sectores (o património. a assistir à emergência de uma verdadeira política cultural. Importa. assegurar. diversificando. passando pelos profissionais da cultura e toda a panóplia de intermediários culturais) nos ―lugares de vida. Consolidando. Além do mais. Aproximando-as mutuamente.

tomando como ponto de partida os anos 60. No entanto. de colocar questões pertinentes sobre um dado objecto de estudo. isto é. Como refere Augusto Santos Silva. avaliações e simbolizações‖[536]) é também uma forma de―falar acerca de toda a acção. como se constituíssem um domínio auto-suficiente em termos analíticos. não podem ser estudadas isoladamente. E quem diz política diz poder. O carácter eminentemente relacional do objecto sociológico leva-nos a procurar conexões onde aparente e superficialmente apenas existem factos isolados. diminuindo consideravelmente a capacidade de imaginação sociológica. de trinta anos de transformação estrutural. social e política dos espaços-tempos em que se encontram inseridas. moderni dade versus tradição ou formação versus diversão. Estado versus mercado. com o seu tempo e o seu espaço. De facto. ao mesmo tempo. Analisá-las separadamente. esta postura epistemológica não se coaduna com qualquer tentativa de hierarquizar em instâncias a realidade. Sem esquecer que. articulando-o com outras esferas do real. impõe-se contextualizá-las num determinado momento histórico. a disponibilização dos meios adequados e. ignorando a base demográfica. As práticas culturais de uma determinada população. cultura versuseducação.‖ Fernando Luís Machado e António Firmino da Costa[535] 1. porque todas as práticas combinam posições no mundo e posições sobre o mundo‖[537]. se pode falar. o estudo do simbólico. com propriedade. percepções.Não tenhamos a ilusão de que será fácil conciliar de forma equilibrada intervenções que deparam com aporias tão arreigadas na acção cultural como criação versus animação. seguindo o espírito subjacente ao conceito defenómeno social total. Da necessidade de contextualizar as práticas culturais. a elaboração das sínteses e dos compromissos possíveis. demográficas e socioprofissionais ocorridas na sociedade portuguesa ao longo das últimas décadas alteraram de tal modo a configuração do país que. Mas exige-se a tomada de opções nítidas. conduziria ao grave erro (ou ilusão) de as transformar num microcosmos isolado. é de política que se trata. também neste domínio. CAPÍTULO VI BREVE RETRATO DA SOCIEDADE PORTUGUESA NOS ANOS 90 ―As alterações espaciais. . enquanto estudo de representações (―visões do mundo. económica. já o dissemos.

Se atentarmos no Quadro V. Assim.4 por mil e na década de 60 os valores andavam pelos 80 por mil). verificamos que apenas a Alemanha.3 por mil. tudo se ―acelerou consideravelmente‖ a partir de 60. ou. A década de 60 marca esse particular momento‖[539]. João Ferrão apelida este processo como sendo o ―período de consolidação do Portugal demográfico «moderno»‖[540]. No entanto. mortalidade infantil e crescimento natural.8 por mil). o processo ter-se-á iniciado a partir da década 20-30. há já algum tempo que se desenrolavam processos de transformação social que. que contribuía significativamente para a mortalidade total. mudado muito depressa (. a par do . nas décadas anteriores. consideravelmente inferior à sua média (0. nos níveis dos países mais desenvolvidos (9. No entanto.. uma hierarquização das necessidades humanas. doravante. 2. Mas talvez não tenha. Na realidade. que exige um mínimo de 2. leva a que a análise se concentre com especial incidência neste curto período. ou a partir do qual. o ritmo de mudança se acelerou consideravelmente.. mudaram de forma radical a paisagem física e humana da velha nação. com os primeiros sinais de quebra da natalidade e da mortalidade e de aumento da esperança média de vida. A taxa de crescimento natural é. Os indicadores deste arco temporal demonstram um conjunto nítido de tendências: decréscimo muito significativo da fecundidade. A mortalidade infantil. apesar de ainda ser a mais elevada da Europa comunitária. parece ser o mais adequado para estudar uma realidade tensa. a ―precipitação‖ das mudanças. da sociedade portuguesa que estamos a falar. Nas palavras de António Barreto: ―Portugal não esteve parado até 1960. em 1995. A substituição de gerações. baseado em trocas recíprocas e interdependências (―configurações estruturadas policentradas‖[538]). Portugal duplicou a sua população entre 1864 e 1960. com uma inédita rapidez. a Grécia e a Itália possuem um crescimento natural inferior ao nosso. O Portugal dos anos 90 tem muito pouco de semelhante com o país dos anos 60. a um ritmo sem precedentes.) Portugal conheceu um período durante o qual. A natalidade desce.2 por mil em 1992. a partir da década de 60 até aos nossos dias. a sua última fase. multidimensional e em permanente interrelação. De facto. No entanto.1 filhos por mulher. quando a média comunitária é de 7. necessariamente. enquadra-se. o que representa um dos valores mais baixos da União Europeia. natalidade. o modelo reticular. acima de tudo. a um ritmo nunca antes sentido. deixa de se verificar.Não havendo. quando falamos das práticas culturais dos portugueses é. se quisermos. de apenas 0. Evolução demográfica e reordenamento do território.

mas deixaram quase drasticamente de ter filhos depois dos 40 anos‖[541]. as mulheres têm filhos cada vez mais tarde. Noutras palavras. com especial incidência nos de 15 a 19 e 20 a 24 anos. .índice sintético de fecundidade. assim como nos superiores a 35 anos. ―As taxas de fecundidade descem em todos os grupos etários.

1 101.0 15.1 0.9 1.1 10. FONTE: INE.7 9.0 69.2 12.2 3.3 20.9 1.8 107.1.1 9. 532.1 2.5 103.1 2.6 ITÁLIA 57333.7 5.9 0. 9.5 9.0 (p) 114.4 4.9 13.8 12.2 SUÉCIA 8837.1 (p) 342.1 13.8 10. 3 2 25.3 8.0 (p) 3.8 UNIDO 58694 0 107.1 2.4 4.9 LUXEMBU 412.9 0.2 9. 547.9 12.3 14.6 (p) 17.8 (p)2.5 (p) 399 9 765.6 0.QUADRO V — Movimento da população na União Europeia — Valores Absolutos e Taxas 1995 Países Popula ção em 01.6 10.5 1.7 1.9 5 Nad Óbit Sald os os o vivo natu s ral Saldo migrat ório Crescim ento da populaçã o 1995 Taxa de natalid ade Taxa de mortalid ade Por mil habitantes (população média) (Milhares) UNIÃO EUROPEI A ALEMANH A ÁUSTRIA BÉLGICA (p) 372653.4 10.ESTATÍSTICAS DEMOGRÁFICAS . 1.3 18.0 1.9 8054.8 1.6 FINLÂNDI A FRANÇA 4.9 727. 86.8 63. 103.6 5.3 64.3 (p) 398.3 DINAMAR CA ESPANHA 10143.8 4.1 1.5 8.8 1.9 Saldo migrat ório 2.2 13.2 0.5 4. 2 (p) 3719 .5 17.3 4.6 1.4 7.3 4 NOTA: (p) DADO PROVISÓRIO.5 11.3 119.3 10.7 12.2 RGO PORTUGA 9920.8 (p) (p) (p) (p) (p) 40. 6 81817.8 3.5 1.7 3.6 6.0 5 7 IRLANDA (p) 48.3 9.0 11. 9 5116.1 12.6 (p) (p) 193.2 5.8 12.6 521.9 22.0 278.7 10.2 (p) 104.3 0.9 10.9 (p) 20.5 L 2 9 REINO (p) 732.8 88.5 3.5 11.9 69.1 9.4 3.6 21.2 (p) 47.5 31.4 64.1 28.4 884. 100.1 8. 6 (p) (p) 279.8 39241.5 0. 8 63.9 (p) 359.5 .2 9.9 190.6 787.5 0.8 2.5 11.3 1.4 1.8 .6 86.1 11.8 5.8 14.3 0.5 1.7 58255.4 9. 7 49. 135.4 (p) 9.0 (p) 235. 54.0 5 2 HOLANDA 15493.0.5 9.1 11. ESTATÍSTICAS DEMOGRÁFICAS.5 3. 1996 — REFERÊNCIA: EUROSTAT.1 3615.5 7.6 2.7 10. 195. 3.3 9.7 81.7 35.9 6.3 13.0 Crescime Sald nto o natural natu ral 0.8 1.0 (p) (p) (p) (p) 90.4 8.0 1.6 (p) 1067.8 8 0 GRÉCIA 10465.01.4 6.3 0. 7 5251.6 4.

9 Permilagem no Quinquénio Saldo migratório 0.6 Permilagem Taxa média de mortalidade infantil 8.03%[543]. confirmam valores em diminuendo para a taxa de natalidade. com 10. já a década de 80 se caracteriza por uma estagnação generalizada. revela um forte crescimento efectivo da população[542]. Entre 1986 e 1991 existiu mesmo. Como consequência. reduzidíssimo: 0. O crescimento anual médio é.Dados mais recentes. e em certos casos de forma muito intensa‖[544].5 Permilagem Fonte: INE.4 por mil e a taxa de nupcialidade com 6. os progressos continuam a ser assinaláveis. Assim. Quadro VI — Indicadores Demográficos (Portugal) Designação do Indicador Valor Unidade Índice de envelhecimento 83. o mesmo acontecendo com a taxa de mortalidade infantil. embora de forma não homogénea.4 por mil).8 por mil (ligeiramente acima da taxa de mortalidade. que atinge em 1995 o mínimo de 10. Se. mesmo pensando nos fabulosos ganhos que precederam o ano de 1985.25690 . no caso das taxas de natalidade e nupcialidade as reduções são relativamente ―suaves‖. extensível a todo o território. QUADRO VII — ACRÉSCIMO DE POPULAÇÃO POR NUTS I.6 por milno mesmo ano. enquanto que a década de 70. patentes no quadro VI. II E III Período 1995 1995 1995 1995 1991/1995 1995 ANO 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 PORTUGAL 64960 55170 30830 38590 5770 .26310 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 . importa distinguir entre períodos diferentes. ―a maioria das regiões do País vê a sua população diminuir. Infoline. uma perda contínua de população (Quadro VII).7250 .5 Percentagem Taxa de Mortalidade 10. De qualquer forma. para o conjunto do país. no seu conjunto. de facto. com 7. Pesquisa por Unidade Territorial. limitando-se a confirmar um movimento anterior. já no caso da taxa de mortalidade infantil.8 Permilagem Taxa de Nupcialidade 6.4 Permilagem Taxa de Natalidade 10.

ainda.32210 .2) (16. acompanhada da―transição epidemiológica‖. p. Estimativas da População Residente. visível tanto no topo como na base da pirâmide etária.1) 4571 (46.35360 .7) 1125 (11. op. Firmino da Costa.5) 3968 (46.8) 65 ou + anos 709 (8. F. Recenseamentos Gerais da População. 1971. Luís Machado. os mais elevados dos países da Europa do Sul. desenvolve-se.0) 833 (9. arredondando-a: há cada vez mais idosos e menos jovens (Quadro VIII).4) (15. apesar dos valores serem. em 1960. em especial a partir da década de 90 (fenómeno da precarização das uniões) e das uniões de facto. cit.3)(16.5) (16. aumento moderado da ―família nuclear‖.6) 1972 1610 (20. A. o que Ferrão apelida de fase de ―transição demográfica‖.5) 4718 (49. aumento das taxas de divórcio. bem como dos nascimentos fora do casamento (informalização). in João F. QUADRO VIII — População por escalões etários. diminuição das famílias numerosas. deste modo. situam-se.. Neste último caso (proporção de nados-vivos fora do casamento).12597 4270 22999 19980 8260 13350 FONTE: INE. INFOLINE. 1996 .4) 3105 (14.9) Fonte: INE. que acarreta modificações fundamentais nas causas de morte. DEMOGRAFIA E CENSOS Termina. 314 e Infoline.8) 1716 1595 (17.3) 2452 1359 (28. em 1992. de Almeida.6) (16.8) 2509 1628 (25.2) 5144 (51. a ―transição familiar‖: retardar da idade do casamento[545]. em níveis inferiores aos da média comunitária. Finalmente.. também.4) 1283 (13. 1981 e 1991 (Milhares) 0-14 15-24 anos anos 196 0 197 0 198 1 199 1 199 6 2592 1452 (29.1) 25-64 anos 4136 (46. aumento significativo das doenças cérebro-vasculares e dos tumores malignos). num movimento de aproximação aos países mais desenvolvidos (recuo das doenças infecciosas e parasitárias. Uma consequência da maior importância desta transição (ou conjunto de transições) para o Portugal demográfico «moderno» prende-se com o processo de duplo envelhecimento da população.

o índice de dependência de jovens e de idosos tende a aproximar-se[548]. representam em 1996 17.4 47. no entanto. contra 25.8 17.4 48. por cada 100 jovens com menos de 15 anos existiam 44.2 51. António F. mesmo em meio rural) e a ―dissociação ruralidade-meio urbano‖[550] (as primeiras gerações de origem urbana ou suburbana mantêm vínculos muito mais ténues com a mundividência rural). compreenderemos melhor todo este processo. Convém referir. Antes de mais. Estimativas de População Residente.5 25. Por seu lado.1 18. o índice de envelhecimento atingia já os86. nº25 Por outro lado. em 1981. tal como se verifica no mesmo quadro.3% da população. Aut.1 88.6 31. À acentuada subalternização da agricultura .8 Portugal Continente Reg. os indivíduos com 65 e mais anos constituem neste mesmo ano 14.4 57.9% da população.5 %em 1981. para metade dos valores que registavam 30 anos atrás‖[549]. em 1996. ainda.0 Dependência Idosos 21. o desigual grau de envelhecimento do país: enquanto o Norte e as Regiões Autónomas são. o Algarve e particularmente o Alentejo apresentam elevados níveis de envelhecimento (nestas regiões há já mais idosos do que jovens com menos de 15 anos).Os mais novos. em 1991.4%.9 pessoas com 65 e mais anos‖[546]. ―Enquanto que. zonas relativamente rejuvenescidas. Se a estes factores adicionarmos o aumento da esperança média de vida. Machado salientam que ―tanto a natalidade como a fecundidade passaram.9 22. a Região Centro. da Madeira Fonte: INE. em duas vertentes: a ―dissociação mundo rural-agricultura‖ (deixa de constituir a principal actividade.2 55.9 Dependência Jovens 25.1%[547] (Quadro IX). Aut. verificou-se um intenso processo de ―desagregação da(s) ruralidade(s).9 Envelheci-mento 86. Quadro IX — Índices de Dependência e Envelhecimento em 1996 (Portugal) NUTS I Índices Dependência Total 47. Outras modificações estruturais merecem ser realçadas. dos Açores Reg.1 36. no grupo etário dos 0-14 anos. Atente-se na distribuição da população activa por sectores de actividade. Costa e Fernando L. enquanto em 81 se quedavam pelos 11. Estas alterações foram acompanhadas de profundas mutações no ordenamento do território.

científicas e técnicas (aumento constante desde 1960). profundamente ligado à rápida urbanização e terciarização bem como à melhoria dos níveis de escolaridade. por comparação com o grau de ensino do pai e da mãe[557]. Este fenómeno de autêntica ―mobilidade social estrutural‖ (resultante do ―próprio movimento global da estrutura social‖[556]) encontra ainda uma expressiva tradução nos níveis de escolaridade de ego. igualmente. de um fortalecimento das ―novas classes médias‖.2% e a agricultura não ocupa mais de 11. dos inquiridos portadores de um diploma de ensino superior (5. na última década e de forma fulgurante.4% em 1992). neste âmbito. Pelo contrário. baseado numa amostra representativa da população portuguesa. apontam para um ligeiro aumento da população activa no sector primário (13. embora de forma muito mais paulatina. o sector secundário nunca chegou a ser predominante. sem dúvida. O mesmo acontece com os empregados executantes (geralmente associados ao terciário inferior) que recebem 53.6%[551].7% não detinham mesmo qualquer grau. Aliás.5% em 1981 para 32.6%) e o sector terciário representava menos de 30%[553]. uma tendência de decréscimo de importância dos trabalhadores industriais. Aliás.6% em 1981. diminui drasticamente o peso relativo dos trabalhadores da agricultura e pesca na estrutura da população activa (43. em particular se considerarmos a última década (de 40. Dados mais recentes. o que constitui.8%)[552]. uma transferência maciça.6% em 1960 e 8.sucede-se. sendo que 10. do Inquérito ao Emprego. para o sector dos serviços. em 1960.1% dos pais não possuíam mais do que o 1º ciclo do ensino básico.6%) e dos serviços (54. um dado essencial a reter para se compreender o processo de industrialização português.5%). e por vezes de forma directa. os directores e quadros dirigentes (1.11. Repare-se que. De acordo com o Estudo Nacional de Literacia.3% do seu contigente das mesmas fracções de classe anteriormente referidas[555]. em 1992. paralelamente. os indicadores de mobilidade social demonstram que o lugar de classe associado aos profissionais técnicos e de enquadramento recruta cerca de 30% dos seus efectivos em outras fracções de classe. o .4% em 1992)[554].6%). Em Portugal.2% da população activa portuguesa. constatamos que o sector terciário representa. 55. verificando-se. quase metade da população trabalhava ainda no sector primário (43. aumentam consideravelmente as profissões intelectuais. uma estagnação do secundário (31. nomeadamente junto do operariado agrícola e industrial e do campesinato.5% em 1992). os empregados administrativos e. No que se refere às mães. enquanto o sector secundário se queda pelos 33. se atentarmos nos números. Outro dado extremamente significativo revela-nos que cerca de 40% dos empresários e dirigentes são oriundos do operariado e dos assalariados agrícolas. Consequentemente. 53. Pode-se falar.

o que leva os autores a considerar que ―em Portugal. Esta(s) classe(s). Daí que se mantenham as distâncias sociais relativas entre as diferentes categorias de classe. e no que concerne à análise das taxas de retenção e de recrutamento das diferentes categorias de classe.6% não iam além do 1º ciclo do básico (18. ligado a um certo estilo de vida baseado em padrões de consumo similares e. sobretudo. Entretanto. pelo seu carácter de ―grupo distributivo‖[558]. é a hipótese de Bourdieu (valor das credenciais) que se mostra (. os detentores de capital económico (ou seja. o que leva os autores a salientar que ―a reprodução social nos mais desfavorecidos é bastante acentuada‖[561]. com a agravante de terem sofrido uma acentuada desvalorização. constata-se que ―a estrutura apresenta um grau de abertura elevado e.. onde. aplicando o modelo teórico de Erik Olin Wright chega a conclusões semelhantes. estaremos em presença de uma sociedade dual. são necessárias mais qualificações‖[564]. Tal como no estudo anterior. os ―trabalhadores‖. movimentos substanciais entre as localizações de classe que possuem propriedade. ao contrário dos mais favorecidos que possuem possibilidades acrescidas de mobilidade social. que protagonizam (hipótese a testar) um importante papel nas práticas culturais urbanas. principalmente. autoridade e qualificações‖[560]. no que se refere à mobilidade estrutural. os mais jovens (indivíduos com menos de 35 anos). Assim.abismo é ainda mais acentuado: 62. Um estudo mais recente sobre a estrutura de classes portuguesa e os processos de mobilidade social. principalmente. pelo exercício de competências de autoridade e..) como mais plausível‖[563]. devido ao cariz tardio e limitado da expansão escolar. caracterizam-se por uma grande separação física e simbólica face aos contextos físicos do trabalho manual. a análise da mobilidade relativa[562] permite concluir que os principais obstáculos a trajectórias ascendentes residem na esfera da Autoridade e. fruto da massificação escolar iniciada nos anos 60: ―para os mesmos lugares na estrutura social. na das Qualificações.2% sem qualquer grau). de propriedade) revelam-se como uma categoria extremamente permeável à mobilidade. em particular. por consequência. os desfavorecidos encontram barreiras assinaláveis e oportunidades reduzidas. a importância das qualificações afecta. a um campo relativamente fechado de relações sociais. De facto. por conseguinte. sobretudo os mais valorizados socialmente. apenas recentemente os diplomas se tornaram requisitos obrigatórios de entrada . No entanto. já que. os diplomas escolares apresentam-se como passaporte indispensável de mobilidade social. As excepções são a ―pequena burguesia agrícola‖ e. mas acrescenta novos resultados quanto à mobilidade social relativa e intergeracional[559]. Por outras palavras.

ascendendo a 52. Nos escalões mais jovens esta tendência é ainda mais acentuada: a taxa de actividade feminina quase se assemelha à masculina. como referem F. Em 1997. com a necessidade de complementar os rendimentos dos agregados domésticos. Outro factor de primordial importância para a compreensão da evolução do país nas últimas décadas liga-se ao aumento substancial da participação feminina na população activa. não só pelo aumento da sua participação na população . Barreto. em situações qualitativamente desqualificantes[569]. da autoridade e da propriedade.3% em 1992[566]. visto que a pequena burguesia tradicional continua a investir na propriedade (aproveitando a agricultura de cariz doméstico e o trabalho informal para se instalar por conta própria). De facto. representando a taxa mais elevada da União Europeia. em todas as classes sociais: ―o efeito concertado das qualificações. Além do mais. a estrutura social apresenta-se totalmente permeável‖[570]. Por outro lado. De referir que este notável incremento da participação feminina tem. Estanque e Mendes chegam à conclusão de que as probabilidades de ascensão social são significativamente mais elevadas para as mulheres. para 41.nos segmentos qualificados do mercado de trabalho.0% em 1960. exercendo-se. quando medida em horas de trabalho. a taxa de actividade feminina aumentou de 13. Aliás. o peso relativo dos homens activos tem vindo a decrescer. Desta forma.2% no sector dos serviços. um estudo de Carlos Farinha Rodrigues vem comprovar que as variáveis económicas e de segmentação educacional são as principais responsáveis (e não as de cariz regional ou demográfica) pela desigualdade de tipo inter-grupal durante a década de 80[565]. motivos históricos bem precisos. a taxa de actividade feminina era de 45%[567]. ―sobrecompensando largamente fenómenos semelhantes de envelhecimento na estrutura etária. muitas vezes. Estes autores explicam o fenómeno... No entanto. segundo A. ainda de acordo com os autores. a par da guerra colonial. este processo articula-se. a forte participação feminina na população activa foi de forma a substituir a diminuição da taxa de actividade masculina. em particular a penúria de mão-de-obra causada pela fortíssima emigração dos anos 60 e princípios dos anos 70. apesar da sua indissociável ligação a mudanças estruturais no papel da mulher na sociedade portuguesa (por exemplo. também. Luís Machado e António Firmino da Costa. na generalização do modelo da família de dupla carreira). obriga os homens em Portugal a travar uma luta significativa para melhorar as suas oportunidades sociais (. aumento da escolarização e diminuição de inserções precoces no mundo do trabalho‖[568].) Para elas. a aposta na escolaridade é sobretudo um atributo das categorias sociais que já possuíam algum capital escolar. Paralelamente. enquanto que os trabalhadores são vítimas da função selectiva da instituição escolar.

1970.7) 328 (3.3) 1312 (13. em particular nos patamares mais elevados.8) 987 (10.8) 864 (10.9 (-30. 3. . 1981 e 1991 (Milhares) Norte Litoral Porto Centro Litoral Norte/ Centro Interio r 1640 (18.3) 1480 (15. mas também pelos seus elevados índices de escolaridade.5) 241 (2. em 1960. bem como pelo papel empregador da Administração Pública (fruto da expansão tardia do Estado-Providência). F.0 ) 8664 (100.2) 685 (7.0) 966 (9. O país.3) 1172 (11. ―Recomposição Socioprofissional e Novos Protagonismos‖. devido ao efeito conjugado do retorno das ex-colónias e de algum retorno da emigração europeia) e muito timidamente na década seguinte (pode mesmo falar-se de estagnação). 309. aliás.9) 1635 (16. Firmino da Costa. p. Os saldos migratórios. A..1) 512 (5.2 (-1.8) (+17.0 ) 9833 (100.2) 474 (4.9) (-26. esse crescimento processou-se de forma bastante desigual ao longo do território (Quadro X).1) 324 (3.0 ) 9862 (100.1 (-28. Recenseamentos Gerais da População (1960.5 ) 0 ) ) ) ) Nota: * Taxa de Variação.4) 3220 (32.3) 368 (3.9) 253 (2.8 (+37.3) 1329 (15.. Luís Machado.0) 253 (2.4) 1319 (15.0 ) +973 (+10. Reordenamento do território e assimetrias regionais: retrato de um país a várias velocidades.7) 287 (3. cit. 1981 e 1991).4) +112 +442 +138 -468 +998 -211 +54 -5 -87 (+12.2) 1562 (15.7) 3182 (32.0) 2483 (28.6) 264 (2. QUADRO X — População por regiões. No entanto. Fonte: INE.activa.9) Lisboa / Vale do Tejo 2222 (25. o facto já referido da feminização da população activa ser muito mais nítida no sector terciário (superando a participação masculina). in J. estes valores colocam Portugal numa posição extremamente singular no quadro europeu.3) 243 (2. 1970. revelam regiões eminentemente atractivas e regiões claramente repulsivas.7) Alentej o Algarv e Madeir a Açore s Total do País 8889 (100. sugere algum paralelismo entre o incremento deste sector e o aumento daquela taxa. distanciando-nos dos países do Sul e aproximando-nos das economias mais avançadas[571].7) 269 (3. como já salientámos.5) 269 (3. aumenta consideravelmente a sua população na década de 70 (em especial na sua segunda metade[572].5) (+44.4) 1328 (15. (+10.7) 532 (6.0) 1193 (13.9 ) 1960 1970 1981 1991 1960/91 * 875 (9. Aliás. Finalmente. Ferreira de Almeida.6) 1363 (15. in op.1) 1501 (15.8) 314 (3.

de tão confinadas. segundo João Ferrão. 3. Com excepção do Porto (que mantém a sua população) e de Lisboa (que a vê aumentar). onde as marcas de modernidade. Este factor provoca efeitos muito especiais no interior do país. tal conjuntura ―é um caso quase único no mundo actual.. bipolarização (em Lisboa e Porto) e aglomeração versus esvaziamento. fundamentalmente.De forma geral. Segundo François Guichard. etc. pode dizer-se que as maiores taxas de crescimento efectivo se verificaram no litoral do Minho ao Sado e Algarve[573]. fora de cataclismo natural ou de guerra afectando a metrópole‖[576]. Concomitantemente. três características essenciais: litoralização. dualismo esse com . uma rarefacção da população nas zonas circundantes. apresenta. não conseguiam contrariar a imagem de um país parado no tempo.. se ligam à saturação ―quer do ciclo emigratório intercontinental (EUA e sobretudo Brasil) (. à consolidação do crescimento dos centros populacionais com mais de 10 mil habitantes. promovendo os centros urbanos como as capitais de distrito ou as sedes de concelho que oferecem uma quantidade/qualidade mínima de serviços indispensáveis. Merecem especial destaque a Península de Setúbal e as duas áreas metropolitanas. as migrações internas acentuaram um abandono muito relevante das principais regiões do interior. Em 1981 a situação demográfica portuguesa. apesar de valores de crescimento muito elevados em determinadas regiões do Norte Litoral (Cávado. as densidades populacionais regridem para níveis semelhantes aos de 1911.―os anos de 1960-73 correspondem ao período do Portugal contemporâneo em que as clivagens territoriais atingem a sua expressão máxima‖[575]. assiste-se a uma crescente complexificação das situações-tipo do mapa português. verificando-se. apesar de apenas três décadas se terem passado. por razões que. Durante esse período. Longe. A sociedade dualista Em notável estudo publicado em finais da década de 60. se manterem estas tendências. Por isso mesmo.) quer da ocupação das áreas de charneca do Alentejo e Ribatejo‖[574]. Em Trás-os-Montes. então. Ave.1. Na década de 90. Esta última tendência liga-se. a situação assemelha-se a um cataclismo. Vouga. bem longe. num movimento de generalizado êxodo rural que atingiu o seu pico durante o período 1960-73. ficava o Portugal do ―bom velho mundo rural‖. no essencial. Em muitos concelhos rurais verificam-se perdas na ordem dos 30%. EntreDouro. a densidade média nacional baixa cerca de 2%. por contraponto a esta vertente.). Adérito Sedas Nunes refere-se ao nosso país como uma ―sociedade dualista em evolução‖. por exemplo. apesar de.

o autor não afasta a hipótese de ―regressão e degenerescência‖. incipientemente escolarizado[578]. dos equipamentos. nalguns casos estrutural. A esse sector. a que apenas restava uma solução: ―a fuga. temos uma parcela restrita do território.7 telefones particulares[581]. revele poucas esperanças quanto às possibilidades de alastramento do reduzido ―sector moderno‖ da sociedade portuguesa. não pôde ver-se que só muito parcialmente. Aliás. ainda que assumindo novas configurações‖[580]. que A. apesar de recusar o derrotismo fatalista.várias vertentes: sociológico.8% das habitações possuía cozinha ou onde. dos rendimentos. urbanizado e possuidor dos estilos de vida ocidentais. etc. perdura e se estende toda uma zona social muito mais extensa. a sociedade portuguesa se ia desenvolvendo. dos cuidados de saúde. A complexificação do xadrez territorial A situação. em que apenas 17. não havia mais do que 35. económico e cultural. Nesses tempos. dos capitais. sob a capa de um crescimento global estatisticamente comprovado.. e muito localizadamente. ou mesmo de bloqueio dos esforços progressistas: ―Assim. representando uma sociedade bloqueada. ―o moderno aparece como um conjunto de rasgões e de furos abertos na imensa manta tradicional‖[582]. no entanto. por isso. De rural. com uma agricultura de subsistência. contrapunha-se o resto do país. evoluiu de forma consideravelmente diferente (apesar da permanência. trata-se agora de uma ―ruralidade urbana‖.. o abandono — fuga e abandono numa escala sem precedentes‖[579]. Nada há de comum com o Portugal dos anos 60. por mil habitantes. o êxodo adquire com a emigração dimensões nacionais. etc.) a ruralidade dos campos tenderá a persistir. Sedas Nunes. onde se verifica o aumento de mão-de-obra minimamente qualificada nos sectores da indústria e serviços. Por um lado. Em suma: ―à margem e ao redor de algumas restritas áreas socialmente privilegiadas. nas quais os diversos elementos utilitários da civilização moderna atingiram já um grau notável de difusão. extremamente associada às migrações internas e que tenderá a incorporar-se ou diluir-se nos novos mapas culturais.2. Não admira. João Ferrão fala-nos da persistência da tradicionalidade na sociedade portuguesa: ―(. E mal se começa a aperceber que um restrito desenvolvimento até as possibilidades ou perspectivas futuras do crescimento que se tem verificado pode vir a comprometer‖[583].. concentrada nos meios mais privilegiados de Lisboa e Porto. 3. à medida que vão falecendo os ―avós da «terra»‖. como . Esta sociedade ainda persiste. imersa em condições de vida e formas de civilização tradicionais‖[577]. No entanto. áreas que correspondem à maior concentração do produto interno bruto. de factores e formas de tradicionalidade.

não tanto por movimentos inter-regionais mas sim por fluxos internos[585]. ―traduzindo-se por configurações territoriais em arquipélago‖[586].) e propondo. em parte devido às melhorias no sector dos serviços. que têm subjacentes um suporte de desenvolvimento económico: – a concentração nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. ―área metropolitana‖.. da informação. factor que reforça. igualmente. é cada vez mais complexo (. ―cinco lógicas autónomas‖[584]. Se atentarmos apenas às dinâmicas demográficas do presente. Álvaro Domingues vai no mesmo sentido. marcado. caracterizadas pela estagnação ou redução demográficas.adiante desenvolveremos). referindo-se à evolução demográfica da década de 80 fala do reforço das ―relações de dominação e dependência‖[589] que reduz à . especialmente atractivas nas décadas de 60 e 70. – dinamismo das áreas de industrialização rural difusa. a concentração nas tais ―ilhas‖. o limiar mínimo que justifica a instalação de equipamentos e serviços. quer pelo dinamismo do poder local. todavia. litoral versus interior.) transformando os efeitos geográficos do isolamento ou da exclusão em efeitos de relação‖[588]. Norteversus sul. – concentração de população ao longo dos grandes eixos viários. em especial os da Educação e Saúde. dos bens. onde se consolidam―pontos estratégicos de densidade relacional mínima entre indivíduos. ―urbanização in situ‖. quer ainda pela desconcentração de serviços ao nível regional e subregional. ―conurbação‖. as ―ilhas‖ já mencionadas.. – crescimento das cidades de média dimensão. correspondente a um―contexto em que o quadro da mobilidade das pessoas. referindo as múltiplas metamorfoses do rural e do urbano (traduzidas por conceitos como ―rurbanização‖.) para um modelo multipolar. onde se destacam. ―urbano difuso‖. a par do alargamento das bacias de emprego e da intensificação dos movimentos pendulares. com incremento da suburbanização e declínio relativo das duas grandes cidades durante os anos 80. rodeadas por ―áreas submersas‖. passa-se de um modelo baseado em dicotomias (rural versus urbano. pelo seu dinamismo.. etc. Assim. podemos detectar. de 1985 a 1991 um saldo migratório positivo semelhante ao de Lisboa e Vale do Tejo. dos fluxos financeiros. grupos. etc. situação que se encontra sem dúvida ligada ao potencial turístico desta região. – atractividade do litoral algarvio. onde se verifica. por exemplo. etc. um modelo territorial do tipo ―reticular‖. Não será. ainda mais. muitas vezes. instituições e empresas‖[587]. segundo João Ferrão. algo apressado negar operacionalidade (e actualidade) às ―antigas‖ dicotomias‖? Augusto Santos Silva. colocando-se em risco.

por sua vez. e outro. comunitárias e clericais ao casamento. das famílias monoparentais e dos casos de celibato voluntário. pela diversificação de situações). criando um vasto território ausente. A nupcialidade muito lentamente deixou de desempenhar o seu papel regulador. Mário Leston Bandeira. o país ―parece mais pequeno‖. Assim. a especificidade do processo de transição demográfica português prende-se à coexistência de dois modelos diferentes: um. aponta claramente para uma convergência dos dois regimes demográficos. o desaparecimento dessas limitações e o surgimento de padrões sexuais e familiares modernos foi mais rápido no Sul do que no Norte do país. que. ter sido no Sul que esta mais rapidamente desceu. apesar de no período anterior à transição demográfica o Norte possuir uma taxa de natalidade menos elevada (as mulheres casavam mais tardiamente e. no entanto.dualidade e competição entre as duas maiores cidades as principais questões das assimetrias regionais. por isso. de forma extremamente paulatina. característico das regiões do Norte através do qual se exprime um processo de ―modernização lenta e tardia‖[591]. retoma a questão do dualismo Norte/Sul. que o dualismo que atravessa a sociedade portuguesa não é tanto o do urbano versus rural mas sim o do Norte versus Sul. sempre manifestou afinidades com os outros distritos do Sul‖[592]. Leston Bandeira afirma. os traços distintivos entre populações urbanas e populações não urbanas são ténues: o distrito do Porto esteve sempre mais próximo dos distritos vizinhos do que do distrito de Lisboa. por um aumento das taxas de divórcio. em suma. mais importante ainda. no nosso país. Segundo este autor.. o desaparecimento progressivo dos sistemas demográficos regionais processou-se. apesar de não negligenciarem algumas importantes variações regionais (patentes. Do mesmo modo. principalmente quando falamos do ―mapa (. das práticas malthusianas modernas e dos novos modelos familiares (marcados. tardando a desaparecer as imposições familiares. nos mais diversos domínios da vida social‖[590]. pela informalização e precarização das uniões. quando tomamos ou discutimos opções políticas estratégicas. Desta forma. Fernando Luís Machado e Firmino da Costa. comum às regiões do Sul e semelhante ao conjunto europeu. Prova dessa tendência estrutural é a existência de duas lógicas urbanas autónomas: a de Porto e a de Lisboa: ―No plano demográfico. por seu lado. aproximando-se dos valores europeus.) a que nos costumamos referir. o seu intervalo de fecundidade era mais curto). João Ferrão. Mas. por isso. pelo aumento do número de filhos exteriores ao casamento. incapaz de se fazer ouvir e de se afirmar como problema político a resolver.. como de resto já referimos. por isso. o qual. por . Melhor se compreende.

Portugal não chegou a ficar a par dos vizinhos europeus. distribuição muito desigual das receitas dos agregados económicos. O aumento da função social do Estado (traduzido pela integração de toda a população. Mas. Intimamente relacionado com esta consolidação estrutural. as alterações são também fundamentais: eliminação quase total do analfabetismo juvenil. o aumento da coesão nacional.exemplo. económica. Apesar de reconhecer as limitações e insuficiências deste movimento de progresso (queda real do salário mínimo. etc. religiosa. étnica. Aliás. nem chegará tão cedo. o que reforça. por comparação com o litoral onde se concentra 80% da população) reconhecem o―esbatimento das tradicionais disparidades‖ patente no facto ―de hoje as taxas de natalidade. noutros. com eles‖[595]. culturais e demográficos. não se cansa de assinalar os saltos quantitativos (mais significativos) e qualitativos (mais tímidos): ―Portugal fez. em ambos os casos. penalizando. então. a sociedade dualista delineada por A.3. de cariz económico e social. Barreto. apesar das suas deficiências e limitações. 3. os activos ligados à agricultura e reflectindo uma ―forte desigualdade social estrutural‖[594]. caminha a par do incremento do papel da administração pública na economia. de modo definitivo. incluindo os que nunca contribuíram para a segurança social). segundo A. o processo anteriormente referido de terciarização. sobretudo os económicos. cada vez mais. os Portugueses parecem-se hoje. na enorme dispersão dos valores da densidade populacional e na desertificação do interior. protegendo socialmente os excluídos e ganhando uma cobertura universal. António Barreto traça um cenário bastante optimista sobre a mais recente evolução social portuguesa. em especial na qualidade dos serviços. tinha demorado cinquenta ou sessenta. apesar do reconhecimento da pluralidade cultural. Desta forma. em vinte ou trinta anos. que são. noutros países. tornada a principal rubrica da despesa do Estado. essencialmente. quais foram. Sedas Nunes. fecundidade e mortalidade infantil das várias regiões se encontrarem mais próximas umas das outras do que alguma vez estiveram nos últimos 150 anos‖[593]. taxas de quase . O modelo de desenvolvimento português: rupturas e permanências.). Admitindo a sua ocorrência. os elementos estruturantes dessa acelerada transformação? Antes de mais. encontra-se a redução espacial das assimetrias. política. sobretudo nos sociais. o que. expande-se o Estado-Providência. Na educação. Em muitos aspectos. ―quase não existe mais‖[596].

315 e Infoline.0 17. Firmino da Costa. Luís Machado..7 12.3 Fonte: INE.2 7.3 HM 3. F. Recenseamentos Gerais da População. cuja população ―mais do que decuplicou nas três (últimas) décadas‖[597] (Quadro XI). também.9 19. op. Em 1996. do ensino superior.) a proporção de universitários na faixa etária dos 20-24 anos salta de 3.8 e preparatório) Secundário 4. Luís Machado e António Firmino da Costa realçam que. Ferreira de Almeida. 315...0 8. QUADRO XII — Percentagem de Universitários sobre a População de 20-24 anos 1960 1970 1981 1989 Homens 5. Ferreira de Almeida.6 (unificado e complementar) Médio/Superior 0.4% em 1960 – valor que deixa claro que nessa época andar na universidade correspondia a um estatuto de elite –para perto de 30% em 1991‖[598]. a percentagem de mulheres com um diploma universitário era.4 7. Luís Machado. in J. em especial. Estatísticas da Educação e Recenseamentos Gerais da População. A. p.3 11. a todo o território nacional.8 1970 52.3 1991 64.100% na frequência do ensino básico. in J.8 21. ―em 30 anos (.0 Fonte: INE. Firmino da Costa. cit. Na saúde. Estimativas da População Residente Segundo o Sexo por Idades. as universitárias tornam-se maioritárias. se atendermos à composição sexual da população do ensino superior. em 1992. factor que encontra uma vez mais correspondência no aumento intenso da despesa pública neste domínio[601].0 15. QUADRO XI — Evolução dos Níveis de Ensino Atingidos. ―No escalão dos 20 aos 29 anos.3 Mulheres 1.1 9. Simultaneamente. de 1960 a 1991 (%) 1960 Básico (primário 32.. aumento muito significativo da frequência do ensino secundário e.6 3.5 1. Séries Cronológicas.2% (Quadro XII[599]).6 8.7 12.8 1981 56. p. já claramente superior à homóloga masculina‖[600]. A. F. os cuidados médicos essenciais alargaram-se. F. cit.9 6. op. essa percentagem eleva-se para 35. .

cerca de 88% televisão a cores. Ainda segundo o mesmo autor. contam negativamente o aumento dos desequilíbrios territoriais. 52% automóvel.3% da população possui fogão. 72. apesar da persistência das desigualdades. Outros autores e outros números levantam algumas dúvidas sobre as análises antecedentes. onde se terá mesmo verificado um agravamento das condições de vida. que considera a pobreza um fenómeno multidimensional. no discurso oficial. no que respeita à . 72% telefone. a precaridade do emprego. a contenção dos salários reais. a opinião de A. Barreto coincide com a de José da Silva Lopes: apesar da expansão dos direitos sociais ser uma consequência directa da sua consagração no período pós 25 de Abril. as melhorias na justiça redistributiva foram extremamente modestas[607]. José Pereirinha. doravante em situação de inadaptação face às reconversões tecnológicas (alguns chamam-lhes mesmo os ―novos pobres‖[608]).4% um aspirador. mulheres e jovens) e as extensas manchas de pobreza[605]. 90% aparelho de rádio. dimensões retóricas assinaláveis. principalmente. A este respeito. as reformas económico-sociais precederam e de certo modo pressionaram as transformações políticas imediatamente posteriores. os baixos salários (que penalizam. 99..8% uma máquina de lavar roupa. Em 1995. a ―verdadeira revolução económico social‖[604] antecedeu a ruptura revolucionária e teve lugar ―durante os «anos de ouro» da década de 60 até 1973‖. apesar do crescimento significativo do PIB na década de 80[606]. refere dados de 1990 (Eurostat) que indicam que o nosso país possuía o PIB per capita mais baixo da U. no balanço possível. Quanto ao início deste amplo e variado processo de transformações. persiste um atraso assinalável em relação à média comunitária. cumulativo e estrutural. O próprio processo de modernização acarretou a vulnerabilização de novas franjas sociais. por exemplo. De acordo com esta tese.2% leitor de ―compact-disc‖[603].Mesmo em factores como a posse de equipamentos ou a estrutura dos orçamentos familiares é possível notar.5% frigorífico. apesar de pesarem favoravelmente uma melhoria da situação financeira (proporcionada pela redução do défice do sector público e do endividamento externo). 18. ―uma relativa aproximação dos padrões de consumo por parte dos vários grupos sociais‖[602]. Aliás. foi insignificante nas zonas urbanas e inexistente nas áreas rurais. Alem do mais. Assim. traça uma clara linha de continuidade na evolução económico-social das últimas três décadas. 94. 58. que atingiu. E. a redução da pobreza na década de 80. Fernando Medeiros. com os efeitos da adesão à União Europeia a compensarem as perdas resultantes da quebra da emigração. bem como a média de salários mais reduzida. das infraestruturas físicas e um tímido lançamento do ―Estado-Providência.

são alguns dos principais indicadores deste modelo de desenvolvimento muito pouco exemplar. da ―modernização por excesso de tradicionalidade‖. A não aplicação dos fundos comunitários no terciário intermédio e superior. não só os operários industriais. tendo a proporção crescido de 9 para 14%. os resultados obtidos ―atenuam a tendência registada na década anterior (70) para um forte desagravamento da desigualdade‖[610] que terá beneficiado principalmente as classes médias. desemprego. No entanto. Para além de que se regista um aumento em simultâneo da dimensão ―dos agregados excluídos da actividade produtiva por motivos diversos (idade. de baixos níveis de escolaridade e trabalhando em situação precária nos sectores . os grupos sociais mais desfavorecidos. etc. como referem Estanque e Mendes. mas igualmente um vasto conjunto de indivíduos. principalmente. Este último fenómeno. essencialmente virados para a exportação e. não admira que Fernando Medeiros fale de um processo paradoxal: o do ―crescimento económico sem modernização‖ ou. essencialmente. bem como os montantes per capita são os mais fracos da comunidade europeia. pouco escolarizada e com deficiente acesso à formação profissional que. em particular.)[611]. Como alguns autores sublinham. Aliás.protecção social. na medida em que tende a reproduzir o recurso intensivo a mão-de-obra juvenil barata. não faz mais do que prolongar a taxa de inocupação: ―Há fortes razões para supor que o actual dispositivo da política activa de emprego dos jovens é mais da jurisdição da política de baixos salários que assegura o equilíbrio precário da economia portuguesa do que uma política de educação e de formação profissional viradas de maneira mais resoluta para os desafios sociais e culturais que a integração europeia coloca à sociedade‖[612]. o Estado-Providência português nunca ganhou uma dimensão comparável ao dos países da Europa Central e do Norte. beneficiando. Assim. De qualquer forma. atinge proporções alarmantes. cobrindo para cima de 80% da população mas ainda distanciado dos sistemas de mais longa implementação. se preferirmos. Fernando Ribeiro Mendes fala mesmo de um ―modelo (tardio) de Estado-Providência‖. no proletariado cabem. tendencialmente jovens. As despesas correntes neste domínio. em muitos casos. Carlos Farinha Rodrigues conclui por uma ligeira redução da desigualdade global. a sua concentração nos sectores tradicionais não reconvertidos. ao analisar as repercussões da integração europeia e do forte crescimento económico da segunda metade da década de 80 (superior à média comunitária) na distribuição do rendimento e da desigualdade. em que as despesas em prestações sociais rondam os 25% do PIB (contra os 20% do caso português)[609]. a ―descapitalização humana‖.

Fernando Luís Machado e António Firmino Costa. com repercussões significativas na qualificação da mão-de-obra: 65% dos trabalhadores industriais. não são apenas os analfabetos literais ou aqueles que não possuem qualquer grau de escolaridade completo que se situam neste nível. entre os empresários e dirigentes. a existência de 600 mil pessoas nestas condições‖[619]. da despesa anual por aluno ter duplicado[617]. sem dúvida. igualmente.2% não possuírem qualquer grau[622]. assustadoramente. Existem. No entanto. segundo um estudo de Medina Carreira. o primeiro ciclo do ensino básico. Não só o nosso país revela baixíssimas taxas de escolarização (segundo dados da OCDE de 1993. consideram que ―o baixo nível de qualificações escolares e profissionais da população portuguesa‖ é um dos mais ―importantes défices de modernização‖[621]. apesar.2% (aumento que sobe para 22% entre 1971 e 1976 e para 12. está muito longe do desejável. ―é possível estimar. . igualmente. há um século atrás[615]! Apesar das despesas com a educação. representando 45% da faixa etária entre os 12 e os 22 anos. Dados recentes indicam que a taxa de analfabetismo registada nos censos de 1991 (cerca de 11%) colocam o país ao mesmo nível da Europa do Norte . apenas 18% da população possuía um diploma igual ou inferior ao 1º ciclo do secundário..3% de inquiridos no nível 0. ao grande peso do terciário inferior na nossa estrutura produtiva)[613]. ao considerar que o nosso atraso educativo é um dos principais obstáculos à convergência real face aos países mais avançados da União Europeia. na mesma linha. continuam a verificar-se ―taxas médias de reprovação e repetência 20 vezes superiores às médias de países ocidentais‖[618] e. no conjunto da população do Continente dos 15 aos 64. enquanto que. Henrique Medina Carreira vai no mesmo sentido. ou seja. em 1991. na Alemanha. com a agravante de 16. indivíduos que se revelaram incapazes de realizar qualquer das tarefas propostas. utilizados pelo autor. como a qualidade do sistema de ensino. perto de 18% que completaram o primeiro ciclo do ensino básico e aproximadamente 2% que concluíram o 2º ciclo[620]. finalmente. para os 93%). patente quer na ―quantidade extraordinária das repetências e dos abandonos‖[614]. terem aumentado 17 vezes entre 1961 e 1993. ―o nível de habilitações literárias modal‖ é. quer no altíssimo nível de discriminação sócio-económica. a um ritmo anual de crescimento de 9. O estudo sobre a Literacia em Portugal apurou 10. ao contrário do que seria de esperar. existiam ainda 361 mil jovens fora da escola. apesar dos gastos com o funcionamento dos estabelecimentos de ensino terem quase triplicado.6% entre 1986 e 1992)[616]. Segundo os autores. não têm mais do que o 1º ciclo do ensino básico. por exemplo. enquanto que.administrativos (o que se associa.. em Portugal tal percentagem subia.

Neste modelo. da lógica de ―descapitalização humana‖ de que há pouco nos falava Fernando Medeiros. assente em rígidos e ultrapassados mecanismos de raiz taylorista. e que opõe um Sul urbano-industrial-capitalista-salarial a um Norte e Centro de industrialização difusa. autêntica válvula de escape das décadas de 60 e 70. De acordo com Silva Lopes. Trata-se. também já o referimos. contribuindo para suster os conflitos. entorpeceu e tornou-se ―decepcionante‖. baseado na constatação das ―fragilidades e insuficiências‖[623] do sistema educativo português[624]. enquanto que no período 60-73 se verificou uma importante contribuição da chamada ―produtividade global‖. os resultados são parcos e o desenvolvimento assegurado (melhor seria falar em mero crescimento) revela-se efémero e ilusório. . Reconhecendo embora. Uma das consequências mais visíveis desta situação prende-se com o comportamento da variável «produtividade» no cômputo do processo de crescimento económico. a par da conjugação destes sistemas produtivos com a agricultura de cariz familiar. no período posterior tal contribuição diminuiu. tudo se coaduna para um subdesenvolvimento do terciário superior. um grande esforço de aumento da cobertura escolar e do acesso à educação. no recrutamento de jovens sem qualificação profissional precocemente atraídos para a vida activa e compelidos a abandonar o sistema educativo‖[625]. tal como A. Como principal resultado. intimamente ligada quer à introdução de novas tecnologias e formas de organização do trabalho. uma vez mais. tal como a emigração. o autor regista grandes assimetrias regionais. emaranhadas num sistema de ―industrialização difusa‖ onde as figuras centrais são o―empresário-negociante‖ e o ―camponês-operário‖[627].Também Marçal Grilo defende uma ―prioridade acrescida à formação dos recursos humanos‖. pouco exigentes em termos de qualificação profissional e acarretando um baixo valor acrescentado para a economia e sociedade portuguesas. encontra-se a aposta nos sectores tradicionais da economia. promovendo uma certa coesão social mas. Neste esquema de disseminação de pequenas empresas. Intimamente relacionado com esta lógica. emerge com particular intensidade um novo dualismo. que tem na sua base uma profunda fractura social. quer ―à elevação dos níveis de escolaridade e de formação profissional da mão-de-obra‖[626]. consequentemente. familiarista e clientelar. Barreto. relacionando os valores mínimos de escolarização com certas regiões do país (em especial no Norte) onde se verifica ―um modelo de desenvolvimento assente em mão-de-obra desqualificada e. Desta forma. Portugal mais não pode aspirar do que a receber ―segmentos truncados do sistema industrial exógeno‖. Os fundos comunitários desempenharam uma função ―providencial‖.

É sua a já célebre tese da ―descoincidência articulada entre as relações de produção capitalista e as relações de reprodução social‖[629]. por outro. no quadro de uma sociedade onde ainda possuem bastante peso os mecanismo de ―acção não capitalistas‖. se preferirmos. intimamente ligado ao ―paradoxo da modernização por excesso de tradicionalidade‖. por isso. acentua o peso da industrialização difusa na . Daí que Fernando Medeiros fale de um ―dilema imemorial na sociedade portuguesa‖. Assim. do ponto de vista sócio-económico. uma forte―sociedade-providência‖ que substitui e/ou complementa os défices do Estado-Providência nacional[631]. impedindo o país de caminhar para ―novas formas de estruturação social‖. Boaventura de Sousa Santos utiliza os conceitos de ―sociedade semiperiférica de desenvolvimento intermédio‖ para caracterizar a singularidade da situação portuguesa. têm preenchido. sucessivamente. por um lado. atraso tecnológico. e os ritmos e lógicas de produção. próprias de um Estado capitalista moderno. importantes funções de adaptação ou de resguardamento da sociedade portuguesa às mudanças do mundo envolvente‖[628]. duplamente activo e com uma dupla pertença de classe) que ―alimentam adicionalmente as práticas de consumo. ―esses dois espaços. Se. um grande atraso (baixa produtividade. entre os padrões de consumo. que a sociedade civil portuguesa. Esta ausência de convergência com as economias mais modernas. seja. sócio-morfologicamente bem diferenciados. Não é de admirar. Desta forma. acentuam-se fenómenos como o trabalho infantil e os salários em atraso. baixos salários. geradora de rendimentos complementares e/ou substitutivos (próprio do camponês-proletário. bem como uma estratégia de diversificação produtiva[633]. Portugal se encontra ao mesmo nível das sociedades mais avançadas (como de resto já tivemos ocasião de realçar). igualmente. padrões tradicionais de especialização. verifica-se. a par do reforço das indústrias tradicionais no período 1982-92[634]. para que se registem transformações estruturais ao nível sócio-económico torna-se necessário promover ―uma nova especialização produtiva mais aberta à qualidade das actividades económicas‖[632]. fraca quando se trata de exercer ou gerir pressões. etc. mais próximos dos países periféricos. permitindo que o nível de reprodução social seja mais elevado que o nível de produção capitalista‖[630].perversamente. mais avançados e semelhantes aos dos países centrais. Como realça Augusto Mateus. com um forte desenvolvimento da relação salarial e uma sociedade civil activa e interveniente. no que respeita aos comportamentos demográficos. ainda. consensos e conflitos próprios das sociedades de capitalismo avançado. ou. compensatórios face às deficiências produtivas e intimamente relacionados com a persistência da economia agrícola.).

moderno e tradicional entrelaçam-se constantemente. se consumou o ―regresso à nossa territorialidade‖. um substituto funcional. patente no aumento das famílias de dupla carreira). pois desde logo se projectaram os anseios de inserção num ―novo desterritório. como Mário Leston Bandeira. retrocessos nas políticas sociais. demonstrada. Santos. de S. etc. então descobrir-se-á o moderno ou o rural onde de antemão se esperava que estivessem. trabalho infantil.). aos problemas dos países periféricos (baixos salários. Sedas Nunes. e por vezes lado a lado. etc. Em síntese. espacialmente distribuídos de forma assimétrica: a ―velha‖ pobreza coexiste com a ―nova‖. assistiu-se e assiste-se ainda a um―processo de renegociação‖ da posição de Portugal no sistema mundial[636]. findo o ciclo colonial. traduzida por diferentes ritmos e tempos de desenvolvimento. optam ainda pela tese do dualismo. pela evolução demográfica (e os valores. afinal. atitudes e comportamentos que lhe estão associados) da última década. da qual será. Regresso efémero. no entanto. apesar de ser a ―periferia do centro‖[635]. segundo Medeiros. a Europa da UE e do Acto Único Europeu‖[637]. numa tensão permanente entre rupturas e continuidades. se ele se revelar flexível. Em suma. De acordo com B. que será porventura mais fecundo do ponto de vista heurístico. preferindo abordar as singularidades da posição portuguesa no processo de globalização.propagação dos modelos malthusianos (devido ao aumento da taxa de actividade e à crescente feminização da mão-de-obra. o rural e o urbano oferecem-nos múltiplos exemplos de combinações e metamorfoses. do quadro teórico com que abordamos e questionamos a realidade. situação que ocorre quando. enquanto António Barreto inclui Portugal no centro. Boaventura de Sousa Santos e Fernando Medeiros excluem essa tese. acrescentando novos contornos à tese pioneira de A. aliás. Parece-nos. também ela eclética e heterogénea. Pelo contrário. Outros autores. alargado e imaginativo. encontraremos abertas as . Tudo depende. se considerarmos a situação portuguesa como uma coexistência particular de assincronismos. originando uma matriz simbólica. no entanto. ―o fim da função de intermediação de base colonial fez com que o carácter intermédio que nela em parte se apoiava ficasse de algum modo suspenso à espera de uma base alternativa‖. de várias facetas e dimensões. apesar de acabarem por reconhecer uma certa tendência para a uniformização.). Desta forma. Se ele for fechado. juntam-se os que resultam do ritmo inesperado com que Portugal completou o seu processo de transição demográfica e que se assemelham aos dos países centrais (duplo envelhecimento. cujos efeitos podem ser comparáveis aos da emigração. precaridade dos vínculos laborais. dificuldades do Estado-Providência.

da pré-modernidade e da pós-modernidade‖[639]..portas para a apreensão da complexidade. da modernidade. Idalina Conde. É um processo dinâmico e contraditório. admite a reprodução activa (isto é. universalismo e localismo‖[638]. recuperando o conceito de ―sociedades múltiplas‖ de Fernando Medeiros. ruralidade e urbanidade. Esta atitude epistemológica revela-se particularmente acutilante quando encaramos a questão das mudanças simbólico-normativas no Portugal moderno. Há centros que são margens e margens que são centros.. Segundo o mesmo autor. Boaventura de Sousa Santos. ao contrário do discurso de senso comum que dela se apropriou à medida de um estafado chavão. defende a tese da permanência de valores de matriz rural no quotidiano português.. com tudo o que isso implica de valorização no presente das estratégias e projectos vincadamente pessoais. próprio dos processos de ―desruralização‖. bem como ―a coexistência a muitos (. o ―feito por medida‖ substitui-se ao ―pronto a pensar‖. sob novas formas) dessas constelações normativas nos meios urbanos. se encontram hoje indissociavelmente ligadas. o fim da solidariedade[640]. Num futuro próximo. A globalização. um . Desta forma. não conduz necessariamente à homogeneização. nesta mesma linha. ao contrário do que é propagado por visões essencialistas. João Ferreira de Almeida aponta para assinaláveis mudanças normativas. sem que tal signifique.) com nexos exclusivos. no entanto. a sobrevivência da singularidade portuguesa em muito dependerá. já o dissemos. Existem. mais distintas e lineares. onde se geram indiscutíveis hegemonias. E as relações que entre eles se estabelecem. historicamente. enquanto pequena economia aberta. substituindo-se a crença em valores sistémicos mutuamente exclusivos por um ―novo artesanato das ideias‖[641]. associadas ao recrudescer dos individualismos. vários centros e várias periferias. entidades que.) níveis. Finalmente. mas onde existe também lugar para a associação de forças contradominantes. são de teor complexo e pluridireccional. um dado a reter é o grau de participação de Portugal no amplo movimento de globalização das economias.. No entanto. embora distintas. entre o local e o global. tornam-se frequentes as ―combinatórias diversificadas de opções‖que dificultam as classificações tradicionais. Portugal desempenhou. hiatos ou desregulações entre heranças e mudanças. mas também políticas e culturais. da profundidade e das modalidades de interrelação não só económicas. rejeita cenários exclusivos e avança com a ideia de uma ―modernidade biface ou de várias faces (.

Se tivermos em conta que o grau de assimetria se mede pela diferença entre o valor de cada índice regional e a média nacional (100). qualidade de vida. ao contrário da região Centro. desde já. As assimetrias entre as regiões portuguesas. o Norte apresenta uma pequena regressão. Vejamos. e que integra 25 variáveis ―relacionadas com as características do sistema produtivo e com as condições estruturais (ensino.500 milhões de contos no âmbito do Plano de Desenvolvimento Regional. em que se investiram 3. Por outras palavras. retalhando o território em regiões com desiguais níveis de desenvolvimento. de vantagem comparativa: pluralidade interna de um país a várias velocidades. a sua constituição de país duplamente plural poderá incentivar esse papel dialogante e servir. Quadro XIII : Índice Sintético de Evolução das Assimetrias Regionais (*) . Açores e Madeira que registam no mesmo período ganhos positivos. afastando-se ainda mais uma unidade da média nacional e apresentando um índice igual ao de 1981. referente ao índice sintético de evolução das assimetrias regionais. Aliás. pela positiva. estão longe de ter desaparecido. no período entre 1986 e 1991. CAPÍTULO VII O PORTO DOS ANOS 90 1.papel de ―transporte‖ e de ―ponte‖ entre uns e outros. algo paradoxalmente. enquanto que Lisboa e Vale do Tejo se apresenta como a única região que se distancia. da mesma. dada a ―obrigação‖ histórica de jogar em vários tabuleiros. O Norte no conjunto do país. no espaço de uma década a região Norte manteve intacta a distância que a separa da média nacional. O ―Portugal europeu‖ é um país que avança a várias velocidades. concluímos que tanto a região Norte como a região Centro se encontram a 9 unidades de distância dessa média. etc. Por isso. algumas das dimensões deste problema.)‖[642]. bem patente no quadro XIII. Algarve. habituado à inclusão de uma diferença endógena. como de resto se afirmou no capítulo precedente. Alentejo. transportes. pluralidade no plano exterior.

apesar de ser o que mais contribui para o VAB regional. ―com consequentes impactos pouco favoráveis em termos de produtividade e remunerações médias‖[643]. p. chama a atenção para os baixos padrões de produtividade e qualificação da região Norte. Este.. referente à análise das contas regionais de 1992. No que se refere às remunerações médias. Estudo da análise e Perspectivas de desenvolvimento regional in Leonor Coutinho. Aliás. Avaliando o nível de vida das famílias. com valores de produtividade inferiores à média nacional (importante presença das industrias têxteis e do vestuário[645]). sem tem em conta os processos de . a região ―onde reside 35. art. Aliás. Se tomarmos apenas como indicador o rendimento disponível bruto per capita. cit. ―o Norte pertence ao grupo de regiões onde a contribuição do terciário era inferior à média nacional‖[646].25 da população do país.Região Norte Centro Lisboa e Vale do Tejo Alentejo Algarve Açores Madeira 1981 91 88 123 78 90 80 76 1986 92 90 119 86 97 79 80 1991 91 91 120 83 99 83 82 (*) O grau de assimetria mede-se pela diferença entre o valor de cada índice e a média nacional de 100 Fonte: Ministério da Administração do Território e Planeamento. Direcção Geral do Desenvolvimento. o mesmo acontecendo com a produtividade específica deste sector. concentra apenas cerca de 30% do rendimento primário nacional. a situação afigura-se ainda mais preocupante. o Norte situa-se igualmente abaixo da média nacional. existindo apenas duas regiões (Centro e Algarve) com prestação pior. proporção idêntica à do seu contributo para a riqueza nacional medida pelo Valor Acrescentado Bruto‖[647]. Com efeito. 125 Um estudo de 1997. verifica-se um fortíssimo peso dos sectores tradicionais‖[644] e da construção. Apesar de ser a Região que mais contribui para o emprego nos sectores primário e secundário. o Norte é prejudicado pela predominância das especializações industriais de tipo intensivo. que a colocam abaixo da média nacional no que se refere ao Valor Acrescentado Bruto (VAB) per capita. não concentra a maior parte do emprego (que se encontra localizado no secundário). A situação prolonga-se para o sector terciário.

Aliás. O estudo sobre o poder de compra concelhio é.) por outro lado. no entanto.82 de Alto Trás-os-Montes)[649]. Quase sempre. o Grande Porto possui um poder de compra per capita de131.50. associados às transferências privadas internacionais (remessas de emigrantes).. De facto. logo a seguir ao concelho do Porto — para 69. João da Madeira (158. para 54.08. nas profundas assimetrias internas da região Norte.00 1997 100. para 50.96 de EntreDouro e Vouga). o Norte ocupa a pior posição no cômputo nacional. representando aproximadamente 4/5 do poder de compra per capita do país. em 1997.. para 62. para 58. possuem valores superiores à média da sub-região onde estão enquadrados.18 — o segundo concelho da região Norte neste indicador.00 . É o caso de Braga (102. ―O Grande Porto beneficia de um poder de compra per capita que ultrapassa em um pouco mais de um terço o valor médio nacional. em 1995 e 83. Repare-se. Em todo o país apenas a sub-região da Grande Lisboa supera esta performance (.87 do Douro) e Bragança (82. Viana do Castelo (75. Em 1995. igualmente.18.15. para 71. é notória a situação privilegiada dos centros urbanos.74.97.16. O Norte é a terceira região do país ao nível do poder de compra per capita (81.17 em 1997) logo abaixo do Algarve (que se situa sensivelmente na média nacional) e de Lisboa e Vale do Tejo.40 do Ave).87. S.21 da sub-região do Cávado). quatro das seis sub-regiões que registam menores níveis de poder de compra per capitalocalizam-se no Norte‖[648]. Vila Real (76. a região mais favorecida (Quadro XIV).redistribuição.04 do Minho-Lima). enquanto que o Tâmega atinge apenas 47. Guimarães (67. QUADRO XIV — INDICADOR PER CAPITA DO PODER DE COMPRA CONCELHIO EM 1995 E 1997 1995 PORTUGAL 100. diluidoras de qualquer ilusão de homogeneidade. extremamente elucidativo.

no que respeita à televisão a cores.00 81. traduzindo desiguais possibilidades de prática cultural[651]. com aproximadamente metade do poder de compra nacional[650].6% fica. possuem pertinência enquanto suporte ou veículo de práticas culturais.30 134. Contudo. Tomando em linha de conta apenas os que.17 71.07 142. Número II e III. . divide-se também ela internamente em centro e periferias. fora do Grande Porto.43 64. defendida por João Ferrão e referida no anterior capítulo. desses bens e equipamentos.35 185.62 100. 1995 e 1997. uma vez mais.18 Fonte: INE — Infoline. para outros equipamentos a distância é já considerável.71% dos agregados possuem esse aparelho.CONTINENTE NORTE CENTRO LISBOA E VALE DO TEJO ALENTEJO ALGARVE AÇORES MADEIRA GRANDE LISBOA GRANDE PORTO 102.47 60. Em termos de percentagem de poder de compra. apenas o Ave atinge valores na ordem dos 3%.59 64. detectamos. Se. verifica-se uma sistemática descoincidência entre os valores da Região Norte e de Lisboa e Vale do Tejo.43 101. com 29. João da Madeira possuírem valores acima da média nacional. a diferença é pouco relevante (no Norte.87 71. apenas Braga e S.47 59. com prejuízo nítido da primeira. Impõe-se salientar o facto de.88.94 68. em Lisboa e Vale do Tejo o valor eleva-se para 92. uma vez mais.63 144.54%).63 131. a Região Norte.98 83. claramente periférica a nível do país. fortes desigualdades inter-regionais. A sub-região mais privilegiada é o Grande Porto (15. Das restantes sub-regiões.60 69. Persistindo na análise das condições de vida das populações e observando a posse de determinados bens e equipamentos. o dinamismo das cidades de média dimensão parece conferir credibilidade à tese de uma maior complexificação do xadrez territorial. de novo constatamos que a região Norte.74 188.03 106.7% do poder de compra nacional). a considerável distância face a Lisboa e Vale do Tejo. Estudo sobre o Poder de Compra Concelhio. No entanto.

81% 2.27% 3. o que comprova.56 42. prende-se com os níveis de escolaridade. profissões intelectuais e científicas.55% 3 945 520 Continent 169 702 222 100 293 959 421 440 527 156 322 321 943 714 353 157 651 544 e Fonte: INE.13% 7.76 % % % Lisboa e 39. a composição sócioprofissional da região Norte por comparação com as restantes regiões (quadro XV).Uma outra dimensão de extrema relevância para a contextualização estrutural do Norte do país.54 15.67 % % 15.07 % Total 38.23 % % 16. o que indicia uma lógica de acentuada selecção escolar[652].46 14.99% 3.26 31. trabalhadores da produção industrial e artesãos. Censos de 1991 Pelo contrário.76% 2. a frequência mantém-se praticamente idêntica à registada no secundário (30. quadros dirigentes da função pública e das empresas. enquanto que esta região representa.14 % % Grupo Grupo 7 8 49.06 % 17.2%[653]). profissões técnicas intermédias.46% 5.13 % 3.80% 4. no ano lectivo 1994/95. Por outro lado.85% 6. o que nos leva a supor que o grosso do abandono escolar se processa após o completar da escolaridade obrigatória.17 % 36.3%.64% 4. Já no que se refere ao ensino superior.63 % 49.08% 3.22 % 18.93% 5. condutores e montadores.04 47.82% 5.90% 2.09 51.02 % % 42.37 % Grupo Grupo 5 6 30. níveis significativos de abandono escolar.20 % 37. Apesar de uma nítida melhoria nas taxas de escolarização e de uma redução das disparidades nacionais desde 1987.92 % % % Centro 15. agora. Assim.18 26.62% 3. operadores de instalações industriais e máquinas fixas.45 30. o nível de frequência escolar regional é claramente inferior ao peso dos grupos etários correspondentes. Se analisarmos. no que respeita ao ensino secundário o valor desce para 30.65 28.89% 5.72 % % Grupo 9 33.1% do total nacional de frequência do ensino básico. a região de Lisboa e Vale do Tejo revela uma supremacia relativa nos restantes grupos profissionais: membros de corpos legislativos.14% Grupo 4 30.61 % 12. a região Norte permanece distante face às médias do continente nacional. empregados administrativos e pessoal dos serviços de protecção e segurança e .02 47.15 Vale do % % % Tejo Alentejo 2.93 % % 28. Quadro XV : Distribuição por Regiões dos Empregados por Grupo Profissional Região Grupo Grupo Grupo 1 2 3 Norte 38.26 14. uma vez mais.00% 3.13 18. 40.69% 3.03% Algarve 3. chegamos à conclusão de que existe uma predominância relativa dos seguintes grupos: trabalhadores da agricultura e pesca.

caracterizam-se por um alto nível de escolarização (cerca de 90% possuem um diploma de ensino superior). por isso. por uma forte feminização. chegamos às seguintes constatações: – os membros de corpos legislativos e dirigentes da função pública e das empresas constituem um grupo onde predominam os dirigentes de pequenas empresas que são simultaneamente patrões. e ainda por serem. ligados às grandes empresas – possuem um baixo nível de instrução (59% não ultrapassam o ciclo preparatório)[656] e uma forte masculinização (as mulheres encontram-se. condutores e montadores. directores e quadros dirigentes de empresas. extremamente ligados aos serviços financeiros e de contabilidade. por seu lado. sendo constituídas. o que confirma. trabalhadores da produção industrial e artesãos. fortemente subrepresentadas nos lugares de chefia). já que a região Norte concentra cerca de 1/3 da população nacional. em grande parte. Assim. trabalhadores da agricultura e pesca. extremamente reduzida noutros). na sua maioria. aliás. quadros dirigentes da função pública. bem como ao comércio. no geral – e apesar de alguns núcleos altamente escolarizados e qualificados. em especial no sub-grupo docente. – os empregados administrativos. – as profissões intelectuais e científicas. têm um nível de escolaridade inferior ao do grupo anterior. .dos serviços pessoais e domésticos[654]. a especialização da região Norte encontra-se patente em quatro grupos profissionais: membros de corpos legislativos. mais instruídas que a média da população. – as profissões técnicas intermédias. se bem que 63% possuam o ensino secundário. importa relativizar estes números através da utilização de um índice de especialização profissional a nível regional (―que nos permite confrontar o peso do emprego numa dada profissão em cada região com o verificado a nível nacional‖[655]). Contudo. estudos efectuados a nível nacional[657]. possuem. e revelam uma participação feminina muito desigual (3/4 em alguns sectores. por trabalhadores por conta de outrem e marcadas por uma alta taxa de feminização. no entanto. níveis inferiores aos do grupo anterior (43% lograram atingir o ensino secundário e 37% o ensino superior). trabalhadores por conta de outrem. Se pretendermos caracterizar socioprofissionalmente os grupos de profissões. operadores de instalações industriais e máquinas fixas.

em termos absolutos. o aumento da população activa no . Fracamente escolarizados. essencialmente. baixos níveis de escolarização (70% possuem. em especial nas sub-regiões do Minho-Lima e Alto Trás-os-Montes[661]. com reduzidos níveis de instrução (cerca de 90% têm no máximo o ciclo preparatório). desqualificado e precário. O aumento do nível de actividade feminina é uma realidade quase transversal (cresceu 25%entre 1981 e 1991. a composição socioprofissional da região Norte indica uma forte preponderância do chamado terciário inferior. os trabalhadores não qualificados dos diferentes sectores (que constituem.8%). trabalhadores do terciário. – finalmente. factor que se reflecte nos baixos rendimentos e na alta duração média diária da jornada de trabalho. em especial na agricultura. o segundo grupo profissional mais numeroso na região Norte) agrupam. no máximo. concentrando grande número de trabalhadores por conta própria. também. o grupo em que a região revela uma maior especialização. não o esqueçamos. aliás. – os trabalhadores da indústria e dos transportes[658] revelam-se um grupo desqualificado. com horários laborais superiores à média e baixas remunerações. De notar. pelo contrário. a mais 131 mil trabalhadoras e a um salto na taxa bruta de actividade de 30% para 36. em tudo demonstrando níveis medíocres de investimento tecnológico. próprios de um modelo de utilização intensiva de mão-de-obra barata[659]. Desta forma. Em síntese. Pelo contrário. um grande número de trabalhadores não qualificados e a persistência de trabalhadores por conta própria na agricultura e pesca. o que corresponde. a taxa de actividade masculina desceu ligeiramente (de55.– o restante pessoal dos serviços revela. embora também exista uma componente significativa de operários da indústria transformadora. A participação feminina é extremamente desigual. o ciclo preparatório) e a inserção profissional feminina é. sendo muito significativa na indústria têxtil e no calçado e escassa na construção civil.7% para 54%). têm no seu seio um importante peso de jovens e mulheres[660]. – os trabalhadores qualificados da agricultura e pesca formam um grupo com fortes lacunas em termos de instrução. a par de um significativo peso dos trabalhadores da indústria e dos transportes que constitui. muito desigual. igualmente. sector que conta com uma tradicional forte participação feminina (39%). ligado aos empregos de execução.

alugueres e serviços prestados às empresas — restante sector terciário 17.6% 3.6% 4.6% 3. reparações. bens pessoais e domésticos — administração pública. não ultrapassam.5% . defesa e segurança social obrigatória — outras actividades de serviços colectivos sociais e pessoais.8% 2.5% 4. a respeito dos níveis de escolaridade. quer à acentuada subida da participação feminina[662]. no conjunto da região Norte.7% 2. uma posição subalterna em relação ao sector secundário. na sua maioria.2% 2. famílias com empregos domésticos. manutenção e reparação de veículos automóveis e motociclos. armazenagem e comunicações — saúde e acção social — alojamento e restauração (restaurantes e similares) — comércio. verifica-se.9% 10. em 1992.7% 4.0% — indústria têxtil — construção — indústrias do couro e o dos produtos do couro — indústrias metalúrgicas de base e produtos metálicos — indústrias transformadoras não extractivas — indústrias da madeira e da cortiça e suas obras — restante sector secundário SECTOR TERCIÁRIO 39.3% 0. organismos internacionais e outras instituições extraterritoriais — educação — transportes.período em causa cifrou-se em 9. QUADRO XVI — DISTRIBUIÇÃO SECTORIAL DO EMPREGO NA REGIÃO NORTE SECTOR PRIMÁRIO 11. como se constata pelo Quadro XVI. em ambos os casos. comércio a retalho de combustíveis para veículos — actividades imobiliárias.1% — agricultura.4% 2.2% 3. se quedava em 32. produção animal.2% 7. e apesar de uma situação mais favorável nos primeiros. Desta forma.4%[664]). patente no aumento dos empregados administrativos e dos empregados do comércio e dos serviços pessoais.3% (cerca de 135 mil trabalhadores). o ensino básico – factor que se revela da maior importância para se compreender o processo de expansão do terciário em Portugal e na região Norte.5% 2.9% 10. Comparando este panorama com a situação nacional. ainda. em grande parte devido à importância da indústria têxtil e da construção[663]. os trabalhadores da indústria e dos transportes têm um peso relativo elevado na região (claramente acima dos 40%. No entanto. o sector terciário ocupa.6% 4. enquanto que a média nacional.4% 2.8% 9. um acentuado processo de terciarização. devido quer ao efeito demográfico.9% — comércio a retalho (excepto automóveis e motociclos). caça e silvicultura — restante sector primário SECTOR SECUNDÁRIO 49. Estes.

não podemos esquecer que a inserção da mulher no mercado de trabalho se faz. com a agravante de. anteriormente referida. o índice de envelhecimento é significativamente inferior.Fonte: INE. ainda assim.1 Permilagem 1995 Taxa de Nupcialidade 7. Convém não esquecer. apresenta um valor praticamente idêntico ao de há um ano atrás (2º trimestre de 1996 – 6. a elevada feminização existente no grupo dos quadros.7%).5%. apesar de um decréscimo generalizado patente em todas as regiões. os não qualificados revelam uma predominância feminina. os trabalhadores independentes e. em segmentos precários. além do mais.6% de taxa de desemprego no segundo trimestre de 1997. porventura.5 Permilagem 1995 Taxa de divórcio 0. Retratos Territoriais. nesta Região. agora. com 6. em grande parte. algumas diferenças do panorama regional face à situação nacional (Quadro XVII). e atendendo aos grupos socioeconómicos. A excepção a esta lógica será.2 Permilagem 1995 Taxa de Mortalidade 9. Na região Norte. com uma persistência do campesinato parcial. incluindo-se no âmbito mais vasto dos fenómenos sociais totais). embora de contornos ainda mais expressivos. Infoline. Concomitantemente. desqualificados e desqualificantes. o Norte. a inserção feminina é insignificante no conjunto dos empresários e dos directores/dirigentes. Quadro XVII — Indicadores Demográficos da Região Norte Designação do indicador Valor Unidade Período Taxa de Natalidade 12. De facto.9 Permilagem 1995 Índice de Envelhecimento 65. Pelo contrário. é também um fenómeno de âmbito nacional[665]. articulado com a industrialização rural difusa. com o esbatimento dos sistemas demográficos regionais. notam-se. ao mesmo tempo que a nupcialidade. frequentemente. Finalmente. já que esta. Censos de 1991 O aumento da taxa de actividade feminina. Quanto aos níveis de desemprego. do peso relativo da profissão docente[666] e da expansão dos serviços públicos. muitas vezes. que nos deparamos. é de notar que. se situar uma décima percentual acima da média nacional que se cifra em 6. desempenha funções produtivas na economia agrícola de cariz doméstico. como de resto mencionámos no capítulo anterior. Indicadores Demográficos .1 Permilagem 1995 Excedente de vidas 3. por seu lado. fenómeno que se encontra indissociavelmente ligado a uma sobrecarga de tarefas que prejudica a mulher. de uma relativa uniformização dos comportamentos. De qualquer forma. apesar da tendência. em especial. fruto. e no que respeita às variáveis demográficas (que nunca são estritamente demográficas.7 Percentagem 1995 Fonte: INE. a natalidade continua a ser superior.

a taxa de nupcialidade sofre uma quebra acentuada (14%) entre 1990/91 e 1994/95. revela um movimento de abrandamento. Como salientam demógrafos e sociólogos. experiência familiar. apenas.2%. pelo seu volume demográfico (1. 2. Este abrandamento corresponde a um―abatimento progressivo da natalidade‖. Paralelamente.[668].7% em 1996[671]. observando a série cronológica 1990-96. A área metropolitana do Porto (AMP) representa um papel predominante no seio da região Norte.No entanto. o Norte é a Região menos envelhecida do país. ―a população idosa da Região Norte situava-se (. os anos 80 registam. é nítida uma tendência recente de desaceleração do crescimento demográfico: enquanto que na década de 70 se verificou um aumento de 20%. independência económica.. No entanto. por seu lado. No entanto. já que sofre ainda os efeitos de uma queda mais tardia da natalidade. um acréscimo de 5%.2% em 1990 para 27. Esta tendência enquadra-se num processo mais amplo de atenuação do processo de bipolarização que engloba as duas áreas metropolitanas.. estas alterações demográficas estão longe de ser independentes de profundas transformações nas sociedades globais. deve associar-se também a de um envelhecimento menos acentuado do que o verificado à escala nacional e muito inferior ao de outras unidades territoriais homólogas do País‖[670]. Simultaneamente. mostram que. tão frequentemente invocada. prática religiosa. já apresentados no capítulo anterior[669]. sendo estímulo e efeito de novos comportamentos conjugais:―nível de instrução.. A Área Metropolitana do Porto no Conjunto do Norte.) em 11. com excepção das Regiões Autónomas. etc. verifica-se um gradual duplo envelhecimento. No que se refere ao envelhecimento. tradicionalmente elevada. Aquando do Recenseamento de 1991. em tudo semelhante ao da Região Norte e mesmo do conjunto nacional. seis anos mais tarde aumentara 1%. correspondente a 1/3 da população da referida região[672] e a mais de 1/3 dos empregados. aliás.800 indivíduos). enquadrado. a par .167. O crescimento natural. dados de 1996. Desde logo.. aumenta a idade média em que as mulheres têm o primeiro filho (27. e apesar de a Região Norte ser responsável por mais de 40% dos casamentos celebrados no Continente nacional.16 anos em 1990-91)[667]. cifrando-se nos 6%.4% (.) significa isto que à ideia de relativa juvenilização da Região Norte. o índice de dependência de jovens descia significativamente de 33. participação da mulher no mercado de trabalho. na evolução nacional: em 1990 o índice de dependência de idosos era de 17. em particular das mulheres.

agora.2% para 16.6 153 492 729 584 266 570 1 455 193 45.6 18 947 41. o volume daqueles que deixaram este território foi superior ao dos que para aqui foram atraídos‖[674]. no período 1990-96. facilmente constatamos (quadro XVIII) que as condições de alojamento da AMP são significativamente superiores às verificadas na região Norte.8 279 112 781 542 715 891 2 322 876 81.3 72.5 17 074 23. Norte Continente Fonte: INE. globalmente.6 37 155 51.4 7 849 19. o saldo migratório é negativo (-2%).4 48.M.1 6 480 46.7 78.da ―estabilização das taxas de mortalidade‖[673].9 6 838 33.8 33 104 81.9 12 311 75.8 8 425 32.1 27.3 11 747 83. Quadro XVIII : Aspectos Qualitativos dos Alojamentos (1991) alojamentos de residência habitual ligados a redes públicas de Equipados Água Esgotos 8 549 84.P. ―o que significa que.4 13 099 49.0 86.2 92. No entanto.3 13 180 65.0 Concelhos Espinho Gondomar Maia Matosinhos Porto Póvoa de Varzim Valongo Vila do Conde Vila Nova de Gaia A. Esta situação encontra-se certamente relacionada com os tipos de uso do solo e com o mercado de habitação.5 28 286 62.1 49.2 15 722 77.L.4 89 430 93. A.3 235 808 782 864 479 912 2 014 030 69.0 36 380 80.7 77 648 81. embora.1% em 1996[675]. comparando com o continente. Census 91 Total 10 124 40 863 26 320 45 179 95 453 14 011 20 176 16 251 72 486 340 863 847 004 984 154 2 968 239 alojamentos equipados = alojamentos com electricidade.3 4 965 30.4 6 343 62.8 9 261 66. continuando a ser um valor inferior ao da Região Norte no seu conjunto.8 55 634 76.9 85 304 89. o que. retrete. Se atentarmos.2 20 361 77. é nítido o processo de duplo envelhecimento: no Grande Porto. os números sejam muito semelhantes.8 67.0 34 089 83. No que se refere ao índice de dependência de jovens. uma vez mais a evolução é semelhante. revela um ritmo de envelhecimento no topo superior. o índice de dependência dos idosos aumentou de 15. no sentido de uma quebra: de 28.7 5 755 56. Por outro lado.8% em 1990 para25.9 4 476 27.9 92. água e banho .M. e tal como na Região Norte. numa série de indicadores de qualidade de vida ligados à habitação.9%.

decisivamente. seguida.9%. o que prolonga.3 milhares respeitante ao país e estrangeiro). Por outro lado. água e banho) representam 81. No que se refere a alojamentos ligados a redes públicas de água. Finalmente. os números mostram. Um dado a guardar prende-se com a relevância da AMP no conjunto da região Norte em termos da população empregada. os empregados administrativos (em resultado do processo de terciarização em curso). Este quadro indica ainda. pela média do continente (67. No que respeita à distribuição dos grupos profissionais. no que se refere aos esgotos a situação mantém-se.7% na Região Norte. o lugar cimeiro da AML (92. pela AMP (69. Além do mais.6 milhares de indivíduos num total de 5.2%) e. em grande parte dominado por um alto nível de especialização em indústrias tradicionais de base local. mantém-se muito significativo o peso absoluto e relativo do grupo dos trabalhadores não qualificados. as que se referem à caracterização da população activa. o que. contribui para conferir uma identidade real a este espaço administrativo.3% na AML[676]. constata-se que predominam. retrete. exerce. Outro aspecto significativo é o elevado nível de atracção que a AMP. de novo. embora na maior parte dos concelhos tenham ainda preponderância os trabalhadores da indústria e dos transportes. em valores muito próximos desta. o Norte tem menos de metade dos seus alojamentos ligados a redes públicas de água. já que representa mais de 1/3 do total de empregados desta região[677]. um baixo nível de instrução e de qualificação. de longe. independentemente dos seus processos de distribuição e reorganização internas. de 78. associado ao ―grau de exigência requerido na execução de tarefas neste contexto produtivo‖[678]. o panorama regional mais amplo. Os alojamentos equipados (isto é. possuindo electricidade.3%). sobretudo face à região Norte (4. sem dúvida. Na posição menos privilegiada. para o retrato de cariz estatístico que pretendemos fazer sobre a AMP. face à área metropolitana de Lisboa (AML) a situação afigura-se bastante mais desfavorável. segundo Emília Saleiro e Sónia Torres. . para um valor de 72.9%). constata-se que cerca de 96% dos movimentos pendulares se limitam ao espaço metropolitano. Assim. Desde logo. escasseando os quadros dirigentes e as profissões intelectuais e científicas.Contudo.3% no continente e 92. é patente o seu grau de autosuficiência no que se refere à relação entre a população empregada e o local de trabalho. embora com uma significativa alteração: os níveis de cobertura da AMP (45%) são mesmo inferiores à média do continente (49%). em termos relativos. caracterizado por uma complexa rede de interdependências. no geral. Outras dimensões contribuem.

sendo os jovens e as mulheres os mais prejudicados. Por outro lado. uma variação positiva espectacular (+66. sem dúvida.7%) e uma progressão modesta no sexo masculino (+3. Torna-se imperioso. não podemos deixar de referir um aspecto extremamente relevante: a AMP concentra 46%dos desempregados da região Norte. Esta situação reflecte-se. no sentido ―corrente‖ do termo: aceleração do crescimento do terciário médio e superior. metalúrgica e da construção.9%)[683]. uma percentagem de população analfabeta claramente inferior à do conjunto da região Norte: 5. ―mais de 2/3 do acréscimo que também ocorreu no desemprego do Norte era proveniente daquela sub-região‖[681]. já que continua a verificar-se que a obtenção dos graus de ensino mais elevados é o melhor antídoto contra a vulnerabilização social. com as mulheres a assumirem. Preocupante e grave. o que revela. por isso.9% contra 9. desde logo. com um assinalável salto na população feminina (+11. já que os níveis de partida são .9% em 1991. Ainda assim.7% no número de indivíduos que possuem o ensino básico. salienta-se um aumento de 7. numa taxa de desemprego que é a mais elevada da região Norte[679] e pelo facto de ―concentrar proporcionalmente mais desempregados do que empregados‖[680]. desde logo.9% contra ―apenas‖ +28% no caso dos homens). declínio dos sectores que revelam pouca competitividade num contexto de abertura da economia regional. é a circunstância de um valor superior a 2/3 dos desempregados serem provenientes dos grupos dos trabalhadores administrativos e operários das indústrias têxtil. Aliás. 78% da população desempregada tem o ensino básico como patamar de escolarização mais elevado. o aumento mais expressivo situa-se ao nível do ensino secundário: +45% no espaço de uma década. Aliás. da intermitência. o que revela grandes dificuldades de adaptação e reconversão do terciário inferior e das indústrias tradicionais. a exclusão e o desemprego. estes dados poderão constituir indicadores de um mais rápido processo de modernização económica. da desregulamentação. No entanto. de novo. em geral intimamente associada aos sectores da agricultura e do comércio tradicional.No que se refere ao peso relativo da população a trabalhar por conta de outrem. conhecer os níveis de escolarização da população da AMP[682]. No caso da AMP. importa moderar a apreciação altamente positiva destes valores. destaca-se. Ao fazê-lo. enquanto que na região Norte a percentagem desce para 77%. No que diz respeito aos níveis de escolarização da população residente. Mas também o lado negro dessa modernização: aumento do desemprego. é de notar que na AMP tal conjunto representa 83% da população activa. que existe na AMP um menor peso da população a trabalhar por conta própria. aumento da qualificação da população assalariada. flexibilização e precarização do emprego. ainda.

17% na AMP (ver gráficos nº 1 e 2).7% dos alunos matriculados nesse ano lectivo.6% na AMP[685]. confirma uma tendência transversal aos diversos níveis de escolarização: ―a Área Metropolitana detém uma situação relativamente privilegiada do ponto de vista educativo em confronto com o contexto regional em que se insere‖[684]: 4. agregando a população que possui o ensino secundário e superior.2% para a região Norte e 7. de 1993/94.. a diferença é ainda mais visível: 11% no caso da região Norte. percentagem que sobe para 11.extremamente medíocres.2%para a AMP. p. ou seja. a ―taxa específica da escolarização superior/pós-graduação. op. Fonte: António Joaquim Esteves. indicam que a população a frequentar o ensino superior na região Norte representa 7. 41 . Dados mais recentes. Finalmente. cit. Num sentido lato.

das indústrias tradicionais. a AMP é ―um espaço relativamente homogéneo cuja competitividade face a outros territórios é manifesta‖ com ―um posicionamento único no contexto regional e supraregional que. representando. este concelho fixa no seu interior a maior parte da população activa que nele reside. em termos comparativos. apesar das suas limitações endógenas. p. etc. 3.. na análise dos movimentos pendulares.). no essencial. O Porto no conjunto da área metropolitana. 41 Em jeito de síntese. Para além de constituir o maior pólo de emprego da região Norte. não encontra ainda verdadeiramente concorrentes no interior da região Norte‖[687]. uma vez mais. a AMP revela um maior protagonismo sócio-económico.Fonte: António Joaquim Esteves op. Uma das melhores provas da indesmentível centralidade exercida pela cidade do Porto encontra-se. cit. Por outro lado. Esta afirmação é reforçada por Paulo Gomes. é ainda relevante o facto de cerca de 2/3 da mão-de-obra . ao mesmo tempo que atrai cerca de 114 mil activos. um dos pólos mais significativos de desenvolvimento no conjunto nacional. podemos dizer que. os traços distintivos da região Norte (grande peso do terciário inferior. apesar de prolongar. da pouca qualificação da população activa. ao considerarem que. Sérgio Bacelar e Emília Saleiro[686]. apesar da perda de dinamismo demográfico.

a um fenómeno de . ao abrandamento da taxa de natalidade: em 1995. assim. Quadro XIX : Evolução da População da A.importada pelo Porto exercerem a sua actividade no sector terciário.6 por mil.P. acelerando-se o processo de suburbanização (quadro XIX). com particular incidência em Valongo. que representa perto de 3/4 da população activa que reside e trabalha no Porto. entre 1981 e 1991.M. do ponto de vista demográfico. a cidade do Porto não demonstra o mesmo dinamismo. Maia.M. art. em grande parte. nota-se uma acentuada desaceleração na componente natural do crescimento demográfico.. cit. conquistando o espaço de adjacência e estruturando o que alguns autores designam por «Cidade-Aglomeração»‖[688]. no Intervalo 1991-994 Concelhos População 1994* 35 620 148 550 97 480 158 110 288 380 56 410 77 500 66 010 257 200 1 184 260 Variação média anual 1991-1994 179 1 177 1 165 1 730 -3 793 437 896 316 2 324 4 431 Variação Média anual 1981-1991 255 1 243 1 147 1 518 -2 490 54 994 43 2 223 4 988 Espinho Gondomar Maia Matosinhos Porto Póvoa de Varzim Valongo Vila do Conde Vila Nova de Gaia A. a taxa de mortalidade era de 11. devido. Matosinhos e Vila Nova de Gaia. Com efeito. com indícios de uma não renovação das gerações. p.P. Na mesma linha.6% da sua população. enquanto que a taxa de natalidade se quedava pelos 10. patente no facto de os óbitos superarem os nascimentos. a ―concentração urbana ultrapassou os limites administrativos da cidade do Porto. * valores estimados Fonte: Isabel Martins. Assim. No entanto. 7 .2 por mil[689] Assiste-se. o concelho perdeu cerca de 7.

3%). constata-se que é nas freguesias do núcleo histórico que se verificam os índices de envelhecimento mais acentuados. Nos restantes concelhos. Em . em 1996. Madureira Pinto elaboram a esse respeito duas considerações: por um lado.9%. os inevitáveis fenómenos de ―degradação física. os concelhos contíguos ao Porto aqueles onde a proporção de idosos é menor.3%). média da AMP: 25. pelo facto de a população do concelho obter níveis de escolarização superiores. as expressivas variações positivas da população com o ensino básico e com o ensino superior representam. por outro. Maia e Valongo) significam. os tímidos acréscimos na população residente que possui o ensino secundário completo (+1. Se atentarmos na taxa de variação (entre 1981 e 1991) da população residente com o ensino básico completo. com a variação de alguns concelhos (superior a 100% em Gondomar. Em termos de escolarização. uma etapa que o Porto já ultrapassou. de acordo com A.1%[690]. média da AMP: 16. Tal situação pode todavia ser explicada. o que dá bem conta de um processo de suburbanização baseado no êxodo de população mais jovem[691]. O que não deixa de ter pesadas consequências na desertificação do centro da cidade.4%). a predominância das mulheres (53.Outro dado relevante indica que são. interpelando as políticas de animação cultural para uma atenção redobrada a esta situação.9%). O índice de envelhecimento. ainda. J. precisamente. pelos diversos níveis de ensino. sobretudo. na realidade. um peso cada vez maior do ensino superior. Desde logo. igualmente. com um aumento da proporção de idosos. média da AMP: 67. Joaquim Esteves[693]. a população deste concelho que possui o ensino superior significa 43% do total de indíviduos da AMP a frequentar o ensino superior. Aliás. De notar. pelo êxodo de populações tendencialmente jovens destas freguesias‖. em especial quando comparados quer com a média da AMP (+45%). O Porto detinha. potenciadora de um abandono do núcleo antigo da cidade. antes de mais.2%. ao possuir a menor taxa de analfabetismo. com diminuição do peso relativo dos mais jovens e no topo. o mais baixo índice de dependência de jovens dos concelhos AMP (Porto: 22. quer.7% contra 46. é significativamente mais elevado (Porto: 108. o facto de que ―o já referido processo de suburbanização foi alimentado.1%) e o mais alto índice de dependência de idosos (Porto: 24.duplo envelhecimento — na base. constatamos que assume valores negativos (-11.3% dos homens). desvitalização e estigmatização sociais‖ associados a áreas profundamente envelhecidas[692]. recorde-se. Esteves E J. em parte. A. em especial à noite. então. mesmo em relação ao valor médio nacional que ascendia. mas prolongando-se. a 86. A nível intraconcelhio.2%. o Porto é o concelho da AMP com um panorama mais favorável. Da mesma forma.

Tornam-se patentes.termos da taxa de escolarização.2% e 9.6% respectivamente). Desta forma.2%.5% de não escolarizados (a percentagem mais baixa da AMP. 0. 25-34 e 35-44 anos) constituem o segmento mais escolarizado. fruto dos progressos relativamente recentes na expansão dos níveis mais elevados de escolarização[694]. enquanto que na AMP se fica pelos7.8% na AMP). a população com instrução superior atinge 13. por isso.2% no Porto. De facto. Pelo contrário. os dados disponíveis sobre os comportamentos familiares indicam que. quando se utilizam expressões como as ―novas classes médias urbanas‖.5% e0. em termos da composição socioprofissional da sua população. em grande parte. profundas modificações na estrutura social. não só porque apresentam um número meramente residual de não escolarizados (0. Por outro lado. em que o consumo aparece com uma certa primazia (há autores que falam mesmo da ―soberania do consumo‖[696]). verifica-se que os jovens adultos (20-24. Aliás.3% e a 17.9% o conjunto de indivíduos que possuem. juntamente com Valongo). É deles que amiúde se fala. em número acima da média do concelho. o Porto é um dos concelhos onde menos se casa (o que se enquadra num movimento mais geral de . Por grupos etários. o ensino secundário e a instrução superior (contra apenas 15. numa reorientação que favorece a expansão dos serviços. mas também ao declínio das facilidades concedidas à instalação de indústrias. ―a concentração de «massa crítica» nas grandes aglomerações‖ ou os processos de ―gentrificação‖. na AMP. da tendência de uma maior concentração de grupos como os directores/dirigentes e os quadros em lugares populosos[695]. a que não são alheias as transformações demográficas e a alterações das estruturas familiares e das atitudes face à família. o Porto beneficia. é notório na AMP e em particular no concelho do Porto uma reestruturação vasta do espaço urbano. ao afastamento das famílias menos favorecidas em relação às áreas residenciais centrais (apesar de continuarem.4%. a trabalhar no concelho do Porto). demarcando espaços sociais e territoriais. na sua maioria. com as camadas mais favorecidas a experimentarem novos modos de vida. a instrução secundária e superior. como atingem. De facto. encontram-se criadas as condições para uma grande visibilidade simbólica destes conjuntos juvenilizados e económica e culturalmente privilegiados que alimentam e se alimentam de consumos mais ou menos demarcados e distintivos. ascende a 19. ligado. o Porto possui apenas 1. Estes dados relativos à escolarização são de fundamental importância para se concluir do grau de qualificação da população activa.4% e na região Norte apenas pelos 4. encontrando tradução adequada em novos estilos de vida. as ―elites urbanas‖. respectivamente.

é igualmente o concelho onde a taxa de divórcio é mais elevada[697] (o que se traduz na maior percentagem de recasamentos da AMP). casamento. por processos de retorno à ―condição juvenil‖ proporcionado pela dissolução da conjugalidade. esquecer o reverso da situação. face à dimensão ―excelência‖ de uma tipologia socioeconómica[700] elaborada para caracterizar os concelhos da região Norte. separados por períodos de celibato mais ou menos longos”[699]. directores e quadros dirigentes de empresas e profissões intelectuais e científicas) e os Quadros‖[701].66%)[698]. O Porto é ainda o concelho onde se regista um maior peso relativo de famílias monoparentais (11. pelo menor número de filhos. A taxa de desemprego. baseados num papel mais activo da mulher (por uma constelação de motivos já mencionados em capítulos anteriores e que passam por um acentuado aumento do seu nível de instrução e por uma fortíssima participação no mercado de trabalho). no conjunto do Grande Porto. . numa maior fragilidade e flexibilidade conjugal. designadamente no que se refere a uma maior disponibilidade face à ―cultura de saídas‖ (favorecida.quebra da taxa de nupcialidade). no entanto. Não podemos. com 257 pontos (para uma média nacional de 100). que o Porto apareça posicionado em primeiro lugar. Não é de admirar. não é menos certo que nele residem um número muito significativo de desempregados. Todos estes indicadores traduzem a disseminação e a diversidade de novos modelos familiares. sendo responsável por mais de 22% dos divórcios da Região Norte. num outro valor dado à criança. numa intensa “«mobilidade matrimonial — união livre. quadros dirigentes da função pública. possui um baixo índice sintético de fecundidade (apenas em Gondomar e na Maia é menor) e a mais tardia idade média em que se tem o primeiro filho (a taxa de fecundidade aos 30 anos é superior à dos 20). divórcio. eventualmente. por tudo o que anteriormente foi referido. apenas abaixo da cidade de Lisboa[702]. etc. Interessará. pelo retardar do ―envelhecimento cultural‖ muitas vezes iniciado com o casamento. Se é verdade que o concelho do Porto concentra cerca de 41% do emprego da AMP. verificar em que medida estes fenómenos de recomposição social e familiar se associam à matriz de consumos e práticas culturais. o concelho do Porto surge em segundo lugar a nível nacional no que se refere ao poder de compra per capita.). Esta dimensão pretende destacar ―os concelhos onde predominam o sector terciário. os níveis de qualificação secundário e médio/superior. recasamento. as profissões tipo 1 e 2(membros de corpos legislativos. num alto número de nascimentos fora do casamento (o mais elevado índice da AMP) enfim. indiciando um crescente intervalo entre a idade do casamento e a idade da fecundidade. agora. Da mesma forma.

0%. enquanto ponto de chegada de grande parte dos movimentos migratórios. existem. 4.3% das sessões espectáculos espectadores.1% das sessões de cinema e 53. de envelhecimento cultural. em que os grupos socialmente vulneráveis engrossam uma underclass caracterizada pela destituição e precaridade. de inadaptação face às novas tecnologias e ao endurecimento das exigências de qualificação profissional[704]. reside nas franjas muito significativas e igualmente visíveis de pobreza urbana. Com efeito. Finalmente.63.6% dos existentes. seguindo-se a Matosinhos com 6. contrastando com a visibilidade. 62. Cria-se. sem a ajuda dos tradicionais instrumentos e instituições de integração social.5% das sessões e 88. por isso. a par da tendencial melhoria dos níveis de vida e das condições de reprodução social dos segmentos incluídos no sistema de garantias estatal e nas zonas de regulação institucional da gestão de mão-de-obra‖[705]. Assim. a 69.7%)[703].7% das públicos bibliotecas e 89. e face à AMP.5% da tiragem anual. Razões acrescidas. assim o pensamos. numerosas situações de vulnerabilidade social e de exclusão. de desvalorização dos diplomas.1%das sessões de espectáculos públicos e 57. 87. entretanto dissolvidos[706].2%). para localizar no espaço social portuense (encarado de forma lata e não nas estritas fronteiras administrativas do concelho) este estudo sobre práticas culturais. De facto.9% da tiragem anual das publicações periódicas[707].6% das publicações periódicas e 96.segundo dados de 1991. a grande cidade é palco de profundas clivagens sociais. de o Porto concentra 60.9% dos espectadores. uma sociedade dual.9% dos espectadores. o lado sombrio da atracção que as duas maiores urbes do país exercem. sendo mais significativa nos indivíduos que apenas possuem o ensino básico (6. nas grandes cidades.1% dos espectadores de cinema. intimamente relacionadas a situações de analfabetismo funcional. um breve olhar sobre os equipamentos e serviços de cultura e lazer leva-nos a realçar a indiscutível centralidade do Porto. o Porto representa 62. Novo ponto de partida . 88. tão esmagadora que não será exagerado considerá-la uma autêntica metrópole cultural regional. é a segunda mais elevada da AMP (6. Por outro lado. muitas vezes opulenta e ostentatória dos grupos sociais mais favorecidos. associadas ao―encadeamento de mecanismos de produção de segmentos sociais sujeitos a novas modalidades de vulnerabilização à pobreza. Quanto à região Norte.

julgamos ter obtido um primeiro esboço da sociedade portuense (e. repentinamente. que exige novos contornos. indissociavelmente. uma coexistência de ritmos sociais justapostos mas com temporalidades . com um especial enfoque no Porto e na sua área metropolitana. é impossível destruir o passado.‖ Marc Augé. Parcial. enquanto quadro de vida específico onde se desenvolve um leque finito de práticas sociais. Não-Lugares – Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade É impossível desprezar o tempo quando se pretende fazer ciência social. Ele surge. Fundamental. constituem passos indispensáveis para a compreensão das condições objectivas de existência da população portuguesa. Enquadrar os objectos no seu contexto histórico. A Era dos Extremos ―. as quantificações. Permite a comparação e a recusa dos absolutos essencialistas. localizadas e territorialmente enquadradas. enfim. revela-se um exercício de extrema utilidade analítica. por definição. restituí-los à duração.. Na análise da vida cultural. da sociedade portuguesa – é impossível retratar o Porto sem retratar o país e viceversa). CAPÍTULO VIII DO PORTO ROMÂNTICO À CIDADE DOS CENTROS COMERCIAIS BREVE VIAGEM PELO TEMPO ―A destruição do passado – ou melhor. bem como todo o capítulo anterior. tornando-se presente. quando menos se espera.A caracterização precedente. dos mecanismos sociais que vinculam a nossa experiência pessoal à das gerações passadas – é um dos fenómenos mais característicos e lúgubres do final do século XX‖ Eric Hobsbawn. Retrato. de forma ainda mais visível.esse tempo sobrecarregado de acontecimentos que enchem o presente e o passado próximo. Desta forma. porque reapropriado no tempo actual. embora necessariamente parcial. em suma. porque as práticas sociais são. Sinal. A contemporaneidade é uma visão sincrética de assincronismos. já que o enfoque desenvolvido privilegia os grandes enquadramentos. da sua exemplaridade e singularidade. desta feita de maior minúcia e proximidade face ao ―vivido‖. Um retrato fundamental. de que o insubstituível processo do trabalho de campo se avizinha.. as análises e comparações genéricas...

uma busca de sentido e de inteligibilidade. das biografias com os seus contextos. à meritocracia e à crença de que qualquer indivíduo. no ―excesso‖ de tempo. Amnésia que ignora a constituição das sociedades como um processo onde indissociavelmente se articulam. no início do século a burguesia era ainda uma classe insegura. abanando. ou o recebedor de um rendimento derivado do capital. de forma a não ficarmos submersos na ―superabundância de acontecimentos‖. Falar da vida cultural do Porto do século XIX implica. em particular depois da vitória definitiva da causa liberal. Por esta mesma razão. J. incapaz de descortinar para além do imediato.distintas. o vertical e o transversal. Além do mais. Apoiados na força conquistadora do lucro. com todas as suas implicações ao nível do aumento da ―memória colectiva. quando alude à fonte primeira da imaginação sociológica: o cruzamento das histórias com a História. a burguesia liga-se. persegue-nos. do que ainda fervilha. Por burguês entende E. às portas do terceiro milénio. . profundamente necessitada de impor como universal a sua própria ideologia (ou. ou um empresário votado à obtenção de lucros. um possuidor de capital. a história acelera-se. um pouco por toda a Europa (embora a ritmos diferentes). Fazê-lo. seria como que reincidir numa espécie de miopia analítica. como o grupo hegemónico do século. I – O Porto de Oitocentos 1. como refere Augé. de forma indissociável. independentemente da sua origem social. carregada de acontecimentos não previstos que nos exigem. com poderosa determinação. exercício cada vez mais plausível num cenário demográfico marcado pelo aumento da longevidade e da coexistência de três ou quatro gerações. uma sociedade baseada nos privilégios do nascimento. Inútil estudar as práticas culturais no Porto contemporâneo sem esse regresso ao passado mais recente. Hobsbawn. A burguesia triunfante. necessariamente. cada vez mais. abordar os modos de vida da burguesia triunfante e da superestrutura de valores e estilos de vida que a ela se associam. Lembremos ainda Wright Mills. de espaço e de imagens que caracterizam as nossas sociedades[708]. a diacronia e a sincronia. como as duas faces de uma moeda. O Porto finissecular de Oitocentos faz tão parte de nós como o Porto dos anos noventa. ―um «capitalista» (ou seja. ou as três coisas ao mesmo tempo)‖[710]. torna-se iminente. Enquanto classe. pode ascender ao estatuto que a sua capacidade de iniciativa lhe permitir. genealógica e histórica‖[709]. os burgueses afirmaram-se.

De qualquer forma. Assim. Maria de Lourdes Lima dos Santos. Simultaneamente. como assinala Hobsbawn. Digamos que. fornecendo inúmeros conselhos de savoir faire e savoir vivre. ao estudar os manuais de civilidade correntes no século XIX. a ―quinta-essência‖ do universo emergente. apenas. cada vez mais representadas e sentidas como ―perigosas‖. obrigatoriamente. então.como diria Bourdieu. para utilizar uma expressão de Hobsbawn. Como refere ainda Hobsbawn. até às instituições especialmente criadas para a mise-en-scène de uma nova constelação de valores e comportamentos. ascenderam a posições cimeiras na sociedade. a educação pelo nascimento. não tendo nascido em berço de ouro. por isso. como acontece nos ritmos de aceleração mais ou menos brusca da história. o século XIX representa o drama. Tal como refere a mesma autora. de todos os meios de legitimação e de reconhecimento. de consagrar a nobreza adquirida como mais meritória do que a nobreza herdada. Daí a ênfase nos procedimentos distintivos. por isso. de impor arbitrariamente umarbitrário cultural). às suas múltiplas dimensões. afinal. de forma a colmatar as lacunas de aprendizagem dos que. Neste sentido. chega precisamente à conclusão de que tais cartilhas consubstanciavam o essencial da ordem social emergente: ―O manual de civilidade terá o seu momento privilegiado como contributo para a legitimação dos que se orientam para um novo destino de classe‖[712]. garante e comprovativo da sua ―superioridade‖: ―neste instável equilíbrio entre democratização e elitismo se estribava a burguesia ascendente para legitimar a sua escalada ao Poder – pela aquisição de várias formas de saber-fazer. de uma reconversão mais ou menos brutal do seu sistema de disposições ou habitus. nos países mais desenvolvidos. A ―educação pelo mundo‖. ela valorizava-se face à antiga classe dominante ao mesmo tempo que se demarcava das classes populares‖[713]. à decoração interior e exterior das casas. ele é. também. se o século XIX é inseparável do triunfo da burguesia ―conquistadora‖. mais resistente à mudança e caracterizado pelo peso da tradição. paulatinamente. uma ordem social tendencialmente igualitária. O mundo da cultura constituía. necessitando. a nova classe dominante não necessitava. de competência. desde o vestuário. a outra face da moeda: a derrota das tentativas revolucionárias de impor. refere-se. de muitos milhões de pessoas à . substitui. E quem diz o mundo da cultura. trata-se. o ―espírito da época‖ colocava ―muita gente na situação historicamente nova de ter de desempenhar papéis sociais novos (e superiores)‖[711]. às formas de apresentação no espaço público. de legitimar a sua ascensão social. as novas condições sociais objectivas necessitavam de um ―espelho‖ correspondente no mundo ―imaterial‖ e simbólico. impunha-se-lhe restringir a mobilidade às classes populares. carecendo.

O ensino primário obrigatório apenas surge. como o Valdez de O Bastardo. poucas décadas atrás. tudo se amorrinha no pesadume crasso e bilioso da digestão flatulenta‖[716]. no Porto do século XIX. como a instauração do sufrágio directo e universal. Coimbra. em 1844. sem gosto. no proliferar de medidas de proibição da mendicidade e de encarceramento dos pedintes. O conceito burguês de cidadania fica desde logo patente. exclusivamente direccionado para a população masculina[717]. a descontinuidade do tecido social urbano era uma realidade incontornável. caracterizada pela sua diversidade interna. esta nova classe dominante. quem se interesse por duas ideias de arte ou literatura..4%. considerada ainda. sem arte. nesta cidade. chato. da alfândega. O burguês surge como sinónimo de ―indivíduo pouco delicado. sobretudo por comparação com outras realidades. a falta de instrução da burguesia portuense. Aliás. antes de mais. Como caracterizar. trivial. somente se conta um liceu (existindo outros quatro em Lisboa. grosseiro. nas manifestações de sociabilidade e na organização do espaço público. ordinário.) depois. bem como a segregação sócio-espacial que lhe está subjacente e que se traduz. acanhado‖[715]. os dicionários da época não cristalizavam. ora identificados com os seus quadros de vida. O Porto de Oitocentos não é excepção. Braga e Évora). a vida do boi sorumbático (. após a vitória liberal. ainda. de forma extremamente visível. Como Maria Antonieta Cruz teve o cuidado de verificar. de Júlio Lourenço Pinto: ―. enquanto adjectivo. ―vadios‖ e ―vagabundos‖ em instituições totais. no Porto. Como adiante veremos.não há quem saiba conversar. como o 3º Estado? A literatura naturalista fornece-nos alguns excelentes retratos. de modos e gestos grosseiros‖ podendo significar. Tardiamente os burgueses portuenses se aperceberão da . ora distanciados em críticos e desencantados comentários[714]. de tipo asilar. Afinal. data em que.. descendo nas grandes cidades para 64%. apesar de incómodas. Segundo os Censos de 1874. Há apenas a vida de escritório.. os novos critérios de hierarquização social originavam ascensões sociais demasiado rápidas para a ―boa sociedade‖ que se mantém fiel a um certo conceito de ―bom gosto‖ e de ―cultura‖. do Banco. sem distinção. assumindo-se os seus autores como atentos observadores do quotidiano burguês. o domínio da nova classe emergente. feito o negócio. marcará irreversivelmente o discurso de muitos personagens dos romances naturalistas. eram ―politicamente inócuas‖. A burguesia portuense surge-nos.escala planetária: a vitória da burguesia trazia benefícios apenas para uma ínfima minoria e as cedências que a custo foi fazendo.. a percentagem de analfabetos rondava os 84. ―vulgar.

a persistência da articulação do factory system com o domestic system. preocupada com o progresso da tecnologia. «trechos de aldeia autêntica»‖[719]. pois. que assistiremos a um notável fervilhar da cidade em termos culturais. juizes e proprietários. Neste contexto. permitindo uma durável imbricação entre os factores de mudança e os elementos tradicionais: ―A mesma geração que vê circular os primeiros carros eléctricos e que se habitua a saber as horas pelo silvo dos comboios continua a acordar ao toque das avé-marias. Na fracção de classe dos negociantes. com a introdução de uma série de melhorias infraestruturais: a iluminação a . Uma primeira. Mais importante do que o progresso económico e os ganhos em produtividade. Gaspar Martins Pereira refere.importância do diploma como garante social de classe.. os livros raramente aparecem. É. que levava Oliveira Martins a definir o Portugal de Oitocentos como ―uma Granja e um Banco‖. à especulação financeira e à posse de terras (sinal duradouro de prestígio e riqueza). se vai modificando. demorará a constituir-se uma elite burguesa de pendor industrial. Aliás. a esse respeito. apenas 9%faziam constar a posse de livros[718]. em especial os negociantes e banqueiros (entre os quais muitos ―brasileiros‖) recém-chegados à esfera do poder. aos poucos. alguns médicos. onde se concentrava uma fatia significativa da burguesia portuense. Vida cultural. tirando. na proliferação da figura do ―burguês que vive de rendimentos‖ e no dispêndio descomplexado. exceptuando as profissões liberais (representadas em reduzido número nos recenseamentos eleitorais). Essencialmente ligada ao comércio. parecia ser a obsessão mimética face à nobreza. a especificidade da burguesia no nosso país liga-se ao seu tardio e incipiente processo de industrialização. é toda a imagem da cidade que. uma vez mais. através da permanente procura de nobilitação.. sociabilidades e estilos de vida da «boa sociedade». 2. Aliás. assente em consumos públicos e privados de cariz ostentatório. o que se pode esperar da vida cultural no Porto de Oitocentos? A resposta faz-nos distinguir duas fases. indiferente à chiadeira dos carros de bois que quotidianamente cruzam as ruas da cidade (. assente em padrões rígidos de conduta associados à procura da rentabilidade económica. Uma segunda fase. na segunda metade do século XIX.) persistem extensas zonas rurais. em que dominava uma ética do trabalho. Nos inventários de bens relatados pelos falecidos de elevados rendimentos. de clara visibilidade do capital simbólico e um paralelo esmorecimento da ética laboral[720]. da ciência e das formas de gestão.

damas todas encolhidas no regalo quente das suas peles. dandys com camélias na botoeira. via-se uma guitarra com manchas gordurosas de suor que punham brilho. favorecendo as ligações a uma cidade em franco crescimento[723]. em especial em tardes de música. Para além do botequim. a electricidade – 1895). Uma das distracções mais frequentes. como aconteceu logo após a inauguração do jardim da Cordoaria. Locais de apresentação pública da burguesia e suportes da ―cultura de aparência‖.. os jovens burgueses não se coibiam de frequentar tascos e tavernas. quino e dominó). Multiplicam-se. cedo estes espaços se tornaram de acesso reservado. este último o café da moda: ―Estava longe de ser um café elegante.) Ao lado. arejado e espaçoso. com um chapéu enorme de seda dum azulado decrépito (. em 1867[727]: ―Aos Domingos e dias festivos. através do surgimento do americano em 1872 (primeiramente movido a tracção animal. proliferando. sem bigodes.gás (substituindo os ―mortiços lampiões de «azeite de purgueira»‖[721]) a macdamização[722] e os transportes. cocottes com vestidos mirabolantes. era para o Porto o que o Marrare era para Lisboa. o que também pode ser interpretado como uma certa persistência dos contactos interclassistas do Antigo Regime. das criadas de servir. e às Quintas-feiras à noite. Camilo Castelo Branco dá conta da atmosfera de um desses botequins: ―Homens de grandes cabelos.. muito desgraçado. os cafés e botequins. Os arruamentos abertos em volta do lago ficavam à disposição das costureiras. parques e jardins. os pontos de encontro da burguesia mais ou menos diletante. estudantes de medicina pondo uma . procurando as suas delícias gastronómicas[725]. o Guichard dispunha ainda de outras salas de jogo nos andares superiores‖[724] (monte. como o Portuense.) a um canto estava um velho de semblante lívido. em especial depois dos progressos na iluminação nocturna. o alegre recinto era tomado de assalto pela burguesia tripeira. como refere Gaspar Pereira. antes de mais. eram osPasseios Públicos: alamedas. apesar dos crescentes intuitos segregacionistas da burguesia. onde se jogava o dominó. o Lisbonense. Clérigos e Almada. nas ruas de Santo António. com fraques coçados no fio e cadeias vistosas de latão a tremeluzir nas calças brancas espipadas nos joelhos e vincadas de surro. posteriormente a vapor e. Mesmo assim. dos soldados da municipal‖[728].. e aos pés um cão de água com o felpo encarvoado‖[726]. voltarete. sobre um mocho. como espaço social. o Águia d'Ouro e o Guichard. finalmente. No entanto. Atente-se na seguinte descrição do cenário humano que invadia esse jardim. que se apossava da avenida fronteira ao coreto. e repare-se como o vestuário servia os intuitos de distinção dos actores em presença: ―burgueses espanejavam ao sol a sua obesidade preguiçosa. bebiam cerveja da pipa com os queixos espumosos (.. o Suiço.

«chicotinhos» ou casse-têtes que serviam muitas vezes de arma nas zaragatas. Importante era. capaz de afirmar a ―nova aristocracia‖. segundo Simmel: a satisfação simultânea da aspiração ao geral (desejo de integração e reconhecimento) e da necessidade do singular (particularização)[731]. dos cuidados pessoais e de higiene (patente. acotovelando os mirones que paravam em frente do coreto. nem por excesso.vaidade espectaculosa nas suas pastas amarelas. evidentemente. na ―difusão do espelho. de fitas vermelhas flutuando. gerir cautelosamente o equilíbrio: nas aparências impunha-se não exagerar nem por defeito. as luvas brancas ou de cor (.. como refere E. para não perderem o gesto largo da batuta do regente‖[729]. a passerelle romântica multiplicava a exibição de signos da ―cultura de aparência‖. o desejo tão próprio do romantismo. no jardim de S. imperava o recato e a ocultação da sensualidade e da sexualidade (―até os objectos que faziam lembrar o corpo (as pernas das mesas) eram por vezes escondidos‖[734]). dos produtos de toilette. as características sexuais secundárias eram grostecamente acentuadas: o cabelo e as barbas dos homens. de certos padrões sociais e morais): ―Camilo usava botas e calças à hussardo. badines. desenhado por um engenheiro paisagista alemão. militares alisando as fardas com luvas de camurça. Manifesta-se. os chapéus (.. as ancas e as nádegas das mulheres. Hobsbawm. o peito. demonstrando a postura exacta dos que se movem. Neste âmbito. Gaspar Martins Pereira encontra factores explicativos para esta explosão dos sinais ostentatórios: por um lado. elemento simbólico fundamental nos jogos de sedução‖[732].. por um lado. Por outro lado. de afirmação individual patente nas nuances interpretativas desses padrões estéticos dominantes. a já referida necessidade de distinção. que atingiam um tamanho exagerado devido ao uso de postiços‖[735]. por outro lado. Adereços indispensáveis eram ainda os colarinhos altos («velas latinas»). do banho e das roupas interiores[730]). um duplo padrão moral (ou uma tensão entre a ―moral oficial‖ e a moral de um capitalismo hedonista) estava omnipresente na moda burguesa. mas também numa redescoberta do corpo. uma ―cultura do bizarro‖ e da excentricidade (dentro. a dupla acção da moda. o cabelo. ainda insegura. uma vez mais. com à vontade e familiariedade. ―uma combinação extravagante de tentação e proibição‖[733]: se. Na rua central do jardim da Cordoaria. Era vulgar andarem sempre de esporas e com bengalas de cana-da-India. todo um público pacato. no papel cimeiro de imposição das modas. proliferavam as alusões e os estímulos ao mundo dos sentidos e das sensações: ―Simultaneamente. J. colete e casaca ou sobrecasaca apertada. laço de gravata à byron e capa à espanhola.) e o lenço branco. no ―bom mundo .).. igualmente. Lázaro. ou ainda no Passeio Alegre. sobretudo. surge. por exemplo. passeando com um método ordeiro na grande álea. por outro. e sobretudo nas décadas de 1860 e 1870.

exigia duros sacrifícios. em particular sobre as mulheres (que representavam a unidade da família. distinguée. Merecem especial destaque osbailes. As mulheres.) como era bom vestir-se de cetim e rendas! Como dá realce à beleza um vestido de baile! (. plácido e firme.. Mas tempos houve. desenvolvem-se actividades propícias ao ―convívio entre iguais‖. pálidas à custa de vinagre e de frequentes jejuns ―desmedravam a olhos vistos e amolgavam as costelas entre as compressas d'aço do colete. submergido sob esse aluvião de brasileiros enobrecidos. de consagração do exagero. a suprema glória. diga-se a verdade. Cautelas redobradas num tempo em que os estatutos adquiridos.) Relanceava a vista inquiridora pela sala com a repousada confiança de quem se sente à vontade. sadias e frescas.. .burguês‖. em especial os mais jovens.. eram patentes algumas das contradições da família burguesa. bem como a concretização de desejos e rituais de sedução reprimidos/estimulados pela ―boa sociedade‖: ―Adelina estava radiosa neste ambiente todo rescendente a emanações palacianas.) vinha na comitiva real (. Impunha-se a criação de espaços de sociabilidade selectiva e de acesso controlado. os impulsos individuais e a ascese espiritual. de burgueses opulentados‖[736]. Morrer de amor era. cada vez mais inacessível ao comum dos mortais. Apesar da repressão. Sofrer. actividade que permitia um interconhecimento rigorosamente vigiado entre elementos de sexo oposto.. como se saíssem do paraíso terreal‖[737]. verifica-se um retraimento na esfera doméstica e uma mais nítida separação entre o público e o privado. a toillette era notada (. os salões e os saraus vão sendo paulatinamente transferidos para instituições com uma indelével marca de classe[739]. sendo igualmente veículo de trocas e estratégias matrimoniais). a sociedade elegante.. Os homens. Desta forma. e o seu olhar. percorria com uma insistência apeciadora as formas de Adelina‖[740]. em que o mundo espiritual. em pleno ultra-romantismo. Estas não são já as mulheres que eu vi.) O visconde Odivelos (. elevados à categoria de passeios públicos. então. como já referimos. cultivavam também a tez pálida ―e tossia-se diante da mulher amada com a dispneia dos últimos tubérculos‖[738]. da propriedade e da empresa.. Os encontros românticos proporcionavam-se nos cemitérios. a sua pessoa atraía as atenções. chegámos a um tempo em que já se não sabe o que é a primeira sociedade... extremamente associados à prática da dança. Tudo confundido. Nestas. forçavam os apertados limites do ethos burguês. suplantavam os herdados: ―— Que. sinónimo de caminhada para o paraíso. Neste novo espírito. Simultaneamente.

o uso de luvas e de leques: ―Se desejais que vos não notem a direcção de um olhar. eis a pedra de toque da burguesia finissecular. grande parte da média e alta burguesia ostentava ainda os sinais visíveis de uma promoção recente. etc. Aliás. de fora da mesa. toda uma panóplia de pequenos pormenores que obrigavam os mais leigos e desconhecedores a um esforço desmedido de descodificação. e invadiam os bufetes dando pábulo provisório às impaciências do estômago (. a todo o custo. os conhecimentos culturais exteriorizados denotavam uma série de défices ainda não superados. do crescimento urbano e dos novos equipamentos culturais. Aliás. o verdadeiro cavalheiro deverá ―ter todo o receio (enquanto dança) de chegar aos vestidos ou ao corpo da dama‖. quanto puder.. nem sempre se conseguia: ―À medida que as senhoras saíam. É toda a apologia de uma moral da contenção e da distanciação/aproximação contida entre os sexos[743]. De facto. para que o cavalheiro não tenha motivo de voltar ao pé d'ella‖[742]. a mesa era invadida sofregamente pelos homens (. crescentemente sofisticada. O que. Por isso. e o ruído alegre da animalidade contente que se expande em risos (. depois de uma noitada lasciva‖[745]. enquanto que esta ―evitará.. A sua primeira preocupação. . tinidos batalhadores dos talheres sobre os pratos. pelas descrições dos escritores naturalistas. é a de evitar. luzes. ocasiões em que era possível aferir da educação de cada um e em que os processos distintivos mais necessários se tornavam.) sentia-se um sussurro forte de conversas entre mastigações. nestas ocasiões festivas..) Os convivas apertavam-se muito ocupados em ingerir abundantemente. pedir alguma coisa. no que se refere aos bailes. pois. Aconselha-se... a linguagem utilizada. e por isso é mister sabê-las reprimir‖[741].. bastante elucidativos. exigia verdadeiros requintes de aprendizagem. a esse respeito. o leque presta-vos gentilmente os interstícios das varetas rendilhadas (.) abafa os suspiros.. Frequentar a vida mundana. desbotada e murcha. diga-se em abono da verdade. os manuais de civilidade estão repletos de advertências sobre as regras de comportamento nos locais públicos e semipúblicos. ―Salvar as aparências‖ e ter ―boas maneiras‖.. a burguesia portuense estava longe de poder exibir os ―bons costumes‖ de uma socialização adequada. Apesar dos progressos técnicos. estendiam mãos rapaces por cima dos ombros. o riso (... por isso. outros.Desenvolvia-se.) Neste momento a mesa tinha o aspecto de um esplendor orgíaco e descomposto.) salva as aparências‖[744]. todos os cuidados são poucos: ―É nos bailes onde se acende o sangue e se estimulam as paixões em razão da música.. os locais públicos não consagrados e destituídos da aura de classe. As suas posturas. como uma bela mulher em desalinho. Os manuais de civilidade são. encobre o rubor.

nesta segunda metade do século XIX. ao gosto inglês‖[746]. A Foz torna-se local de eleição. ao analisarmos. No entanto.)[748]. o Porto orgulhava-se do seuPalácio de Cristal (cuja construção data da década de 60). por exemplo. vontade de uma burguesia que pretende ―modernizar‖ a cidade e fazer concorrência à capital. Os públicos alargam-se e diversificam-se. na Rua do Almada proliferavam as lojas de fotografia onde se podia ―tirar retrato daguerreotipado. o Príncipe Real. multiplicavam-se as festas particulares com ou sem fins caritativos. a cidade estava irreconhecível. dos seus museus (o Portuense – do Ateneu D. de autores em via de consagração. de todos estes equipamentos. em especial de autores estrangeiros (Zola. Não admira. os espectáculos de fogos de artifício nas comemorações mais significativas. que foi totalmente destruído por um incêndio em 1888 e o Teatro dos Recreios. como o Comércio do Porto. No final do século. das suas bibliotecas (em que se inclui uma biblioteca pública). embora em pequena escala. próximo da «Feira dos Carneiros» de resto.. palco de numerosas exposições industriais e hortícolas. que ironicamente A. Menezes considerasse ―que só havia o Variedades. Pedro – o Municipal e o Industrial e Comercial). Os equipamentos culturais sucedem-se a um ritmo quase vertiginoso. mas quase sempre de feição mundana. por isso. La Fontaine. o Gil Vicente. etc. como referimos. apenas o S. Com frequência apareciam novas escolas de música e de canto. E. essencialmente destinado à ópera). João – o mais antigo. que em muito possibilitou a compressão das distâncias. os seus hotéis e mesmo o seu casino. a programação doBaquet rapidamente constatamos da sua falta de coerência e de . dos seus teatros (o S. da sua Academia de Música. João e o Baquet possuíam as condições mínimas para o teatro declamado e lírico[749]. surgiam os primeiros jornais. inaugurado em 1798. Aliás. Eugène Sue. Victor Hugo. antes designado por Teatro Circo. os concertos de bandas. em tom de ouro e azul. novidade que indicia o breve surgimento de uma indústria cultural. embora com tiragens muito reduzidas[747]. no Palácio de Cristal. foi-se desenvolvendo uma cultura cosmopolita com o seu passeio público (Passeio Alegre). os seus cafés da moda. Chateaubriand. em especial no Verão e em particular após a entrada em funcionamento do Americano. das quais se destaca a Exposição Internacional de 1865. surge um grande número de edições populares.. Aqui. Goethe.E no entanto.‖. Joel Serrão. onde se torna habitual a publicação de romances e novelas em fascículos. conclui pela existência de centenas de títulos. em estudo sobre os livros publicados em Portugal por volta de 1870. o Baquet. os famosos bailes de máscara no Carnaval. Camilo Castelo Branco apelidava sugestivamente este teatro de a ―barraca de Liceiras‖[750]. lidos ao serão para toda a família. etc. Júlio Verne. irrisoriamente denominado Teatro Camões.

Maria do Carmo Serén e Gaspar Martins Pereira referem mesmo que o Porto do ultra-romantismo ―está na iminência de se tornar uma cidade amante da música e um dos públicos mais conhecidos da Europa‖[753]. um efeito de homologia: apesar da assinalável homogeneidade cultural do público (aqui o singular impõe-se. o preço da entrada (300 réis) ―era uma extravagância para qualquer operário. o homem-cascável. movendo-o em diferentes direcções (. as famílias burguesas retiravam-se‖[755]. No entanto. as idas ao teatro musicado e à ópera aparecem abundantemente descritas nas obras dos naturalistas em tons pouco abonatórios. De facto. em especial a ópera e o teatro lírico. Muitas vezes. mágicos e meras curiosidades‖[751].. nada supera o gosto da burguesia portuense pela música e pelas artes cénicas. acomodando-se na frente. Via-se o regente gesticular..) a Polícia interveio. dramas. dada a falta de diversidade). prestigitadores. questões com os vizinhos. um rumor surdo saía das torrinhas. Aliás. O panorama não é de forma alguma coincidente.. disputas. os autores não explicitam as fontes ou os argumentos que lhes permitem sustentar essa opinião. num compromisso funesto de enterrar a partitura. – Pouca gente conhecida – e assestava o binóculo. Pelo contrário. de popular têm apenas o nome. pano descido (. existindo aqui. a batuta num voltear vertiginoso. preferencialmente. como o do japonês All Right.. tanto ao nível da oferta (actores com fraca formação. vaudevilles. sucediam-se. por isso. mas que explica bem a ideia da burguesia sobre quem era o povo‖[752]. fica-nos a ideia de um campo cultural fracamente estruturado..qualidade: ―Altas comédias. tentando quebrar os bancos. Em suma. o padrinho! – Aonde? – Ali na superior. uma grande ostentação de toillettepara recompensar a incompreensão da ópera.‖[754]. desmaios nos camarotes.. numa agitação febril. uma balbúrdia. no entanto. Cria-se.) A pateada rebentou furiosa. os comportamentos de grande parte dos frequentadores das grandes ocasiões culturais parece pautar-se. pela lógica do reconhecimento social: ―Senhoras entravam para os camarotes. tragédias. zarzuelas... domadores de Leões. . muitas vezes alternando com espectáculos de equilibrismo... cadeiras rangiam e viam-se dândis numa tarefa inglória. assobiando. cuja diária não excedia o rendimento de 400-500 réis. prenúncios de tempestade na plateia (. operetas.) – Aí o comendador.. Falava-se alto. óperas. gesticulando com veemência. repertórios de duvidosa qualidade) como da procura. olha. No entanto. a figura dos Concertos Populares que.: ―Os coros desafinavam o mais possível.. a mise-en-scène dos espectadores suplantava largamente a apresentação dos actores. uma grande tempestade. inclusivamente.

embora ficcionalmente. O reverso da ―boa sociedade‖. emancipado face à tradição e premiado pelo seu esforço de auto-valorização. O mundo iluminado da burguesia ―contrasta com a ausência de iluminação pública nos arrabaldes rurais e com a presença das velas e dos candeeiros de petróleo nas casas mais pobres ou nos lugares mais afastados‖[761]. capaz de criar um novo modelo de herói. Mas o drama social fornecia ainda. reafirmação simbólica das posições sociais. tinham muitas vezes a ver com lógicas absolutamente exteriores ao campo cultural: ―. esperando encontros com as meninas elegantes ou seguindo as actrizes da ópera‖[757]. mas muito mais à necessidade de espaços estratégicos de convivialidade e de encontro: ―reunia os ultra-românticos e irreverentes filhos-família. os fraquíssimos níveis de instrução não eram de molde a permitir uma familiarização objectiva com códigos culturalmente exigentes. geralmente intervenientes activas nas pateadas e nos confrontos verbais e físicos que se lhes seguiam. os grupos rivais tinham também conotações políticas. a ideia de harmonia social. assente em valores como o progresso e o trabalho. encontra cada vez menos correspondência na realidade. drama realista‖[759]) correspondiam às necessidades de educação e socialização da burguesia em ascensão. O conteúdo do repertório indicia ainda uma fraca autonomia da criação cultural (longe ainda do modelo daarte pela arte). em que a elite recém-empossada não possuía ainda um discurso e uma representação definidas sobre o seu papel na ordem cultural e simbólica. os modos de produção do Antigo Regime. Além do mais. as ―colmeias‖ e as ―casas da malta‖[760] que abrigavam em condições miseráveis os que abandonavam as aldeias em busca do sonho citadino. tardiamente.os seus conhecimentos culturais e artísticos apenas permitiam a viabilidade de uma oferta de medíocre qualidade. O Porto de finais de Oitocentos está longe de se confinar ao universo burguês.. dividindo-se entre patuleias e cabralistas‖[758]. O assinalável sucesso do teatro lírico encontra-se ligado. palco de redes sociais[756]. Nele existem as ―ilhas‖ (que albergavam cerca de 1/3 dos habitantes da cidade e onde se desenvolviam intrincadas relações de parentesco). A formação de claques. . conforme se caminha para o final do século e se abandonam. ocasião de consumo sumptuário. comédia de costumes. Ideia que. Os dramas sociais (ou ―drama da actualidade.. comédia-drama. Tal não é de admirar. num contexto de profunda mutação social. tanto mais que a fruição cultural assentava numa lógica essencialmente instrumental – meio de apresentação pública. 3. não tanto a um progresso nos hábitos culturais.

os malares rompiam agressivamente e os dentes branquejavam na cor escura dos lábios (. limitando a cidadania a vastas camadas sociais. ao fogo. escondendo a sua insegurança através de uma ―moral da rejeição‖ que atinge as prostitutas. Não admira. João Grave. Na década de 70 surgem as primeiras greves e a comemoração do dia do trabalhador torna-se uma realidade a partir de 1890. O crescimento da relação salarial é também visível no significativo aumento das associações operárias de carácter mutualista.. a rede de esgotos cobre somente 27%das habitações. distâncias e (im)possibilidades. ao fogo!. a crescente segregação espacial que a burguesia impõe.) como pragas fulgurantes (. por isso. camaradas! (. igualmente.. As classes laboriosas tornam-se. mostravam os pulsos deformados pelas brutalidades do trabalho áspero e constante. influenciadas pelo surto de associativismo operário.) – Ao fogo. O Domingo dos pobres. explodiam (.. Nas práticas culturais e na ocupação dos (raros) tempos livres reproduziam-se. onde se improvisavam ―grupos de tocadores de «ramaldeiras» em bailaricos e descantes‖[763].. com os casacos remendados ao ombro. o pequeno comércio de rua.‖[762]. assim. pela difusão dos ideais socialistas e instigadas pelas suas miseráveis condições de existência.. oferece-nos um expressivo retrato de uma greve: ―Os homens. a alta taxa de mortalidade e as epidemias que até tarde fustigam a população socialmente mais desprotegida do Porto – em 1889 é a última cidade europeia a ser atingida pela peste bubónica... as actividades artesãs. classes perigosas. o abastecimento de água ao domicílio é de apenas 32%.) – A greve! – Viva a greve! – Abaixo o capital! – Viva o operariado! – Morram os exploradores do povo! – Morram! Morram! – Peguemos fogo às oficinas. Não são de admirar. reunindo cerca de doze mil pessoas. A música e a dança. ao mesmo tempo que as associações operárias reservam nas suas . ao ar livre. os aguadeiros... Nas suas faces lívidas. a canalização a gás não ultrapassa os 47% das ruas da cidade. passava-se na rua. Mas existiam ainda os passeios ao campo ou ao rio. os pedintes... progressivamente. os ―rapazes garotos‖. cobiçando as mercadorias das lojas de moda.. segundo João Grave. um dos raros escritores naturalistas a retratar a vida das classes populares. aliás. esfarrapados.Em 1905. tornam-se o passatempo favorito.) rugidos surdos rebentavam.

) Na taberna da srª Madalena. de resto. O cortejo atravessou vagarosamente toda esta onda de miséria e de infortúnio. A pequena burguesia. abandonado às mãos amigas que o acarinhavam (. Excepcionalmente. que tinha a aparência de uma carruagem de comboio: ―«a carruagem tremelicava. Entre 1909 e 1911 funcionou um original cinema. continua a marcar-se por cadências ruralizantes. dois soldados tocavam guitarra. II – O Novo Século.. É na rua. e pela janela viam-se correr as paisagens projectadas no écran. . oMetropolitano. como se avançasse sobre a linha. contudo.. ursos que fazem vénias. as vistas estereoscópicas das cidades estrangeiras ou da vida de Cristo‖[764]. Aos poucos. a monarquia concedia ao povo ocasiões festivas para ―aclamação dos monarcas ou por ocasião do nascimento de um príncipe ou da vinda da família real ao Porto‖[765]. de viagens a Paris. prolongando. Manuel ia exausto..‖[766]. As novidades. também que se concentram as novidades e os espectáculos: desde os ―artistas populares. mantendo-se uma fortíssima influência do calendário religioso. organizando sociedades recreativas.. os parques de diversões e as sessões de hipnotismo. Outras vezes. a mulher anã. o canário que toca pífaro. sentados entre uma jovial assembleia de vagabundos. com o crescimento do terciário. com as suas procissões e as festas sacro-profanas dos santos populares. as preocupações deixavam pouca disponibilidade para os festejos: ― (. as novidades iam chegando ao Porto.» O espectáculo era total: tocavam campainhas e apitos com ruídos de fundo iguais aos de um comboio autêntico‖[767]. – Parece que já morreu!. Berlim. o espaço doméstico.sedes espaços para essas actividades. em grande parte miméticos face à grande burguesia. O quotidiano. saltimbancos e vagabundos‖. etc. a mulher gigante. sem esquecer o circo.) – Veio da fábrica escoadinho em sangue! – Foi apanhado por uma trave que caiu do tecto.. frequentando os passeios públicos onde são toleradas e alugando ―camarotes de terceira‖ no teatro lírico. Londres. muitas vezes.. num movimento que principia o alargamento de públicos. tão concorrida aos domingos. Os mais desfavorecidos fazem da rua o seu local de eleição. despertando uma compadecida emoção. até aos exóticos ―cães malabaristas. 1. inicia também os seus processos de distinção social.

Nessa linha. portas e janelas amplas. salientamos Raúl de Carvalho. a estreia ficou a cargo da Companhia Amélia Rey Colaço – Robles Monteiro. nas primeiras décadas do século. ―colorida e com 1200 metros‖[770]. logrando-se obter assinaláveis êxitos e muitas lotações . O salão High-Life. considerado pelos seus mais próximos colaboradores como ―um homem dinâmico. como Walter Benjamim tão agudamente observou. o cinema Batalhaserá objecto de admiração pela ousadia estética da sua configuração arquitectónica. O Rivoli. A cidade do Porto mergulhou nesse desígnio. Oscilavam os preços entre os 60 escudos dos Camarotes e Frisas e os 4 escudos da geral. o Sá da Bandeira. que apresentou a comédia em três actos de Marcelino Mesquita ―Peraltas e Sécias‖. Sucedem-se. o Trindade. a preocupação com a qualidade. O seu projecto para a sala de espectáculos assentava numa programação virada para o ―grande público‖. dramas históricos. o que dá bem conta da diversidade de públicos abrangidos. era bastante frequentado pelas camadas populares: ―Pelas sua pantalha passaram as mais espantosas fitas de aventuras. Era seu proprietário o empresário Pires Fernandes. entretanto. importando a tecnologia directamente dos estúdios Lumière. substituindo o antigo Teatro Nacional. sem descurar. uma vasta galeria de espectáculos: teatro de ―tipo romântico‖. no entanto. inaugurado como teatro em 1899 projecta sessões de cinematógrafo. ao mesmo tempo que permite a ―recepção na diversão‖[768]. opereta e mesmo companhias de circo. o Passos Manuel. revistas. Merecem ainda referência. Segundo relatos de jornais. O cinema. o Eden Teatro e o Metropolitan-Cinematour e o Olympia. rodeado por um gradeamento dando a volta à esquina da Praça. o Salão Pathé. O seu maior sucesso concretizou-se na exibição da película A Vida e a Morte de Jesus. o novo teatro do Porto chama a atenção de quem passa‖[772]. como o demontram os seus numerosos cinemas. comédias. Como actores principais destacam-se alguns nomes bem conhecidos: para além da própria Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro. António Vilar e João Villaret. meticuloso e de grande tacto administrativo‖[771]. Posteriormente. dimensões indissociáveis do novo ―espírito do tempo‖. foi inaugurado em 1932. de pancadaria e os Western. situado no local onde hoje se encontra o cinema Batalha. ‖Todo iluminado. por seu lado.Os primeiros anos do século traziam a magia das imagens em movimento. Era um edifício sem grandes condições. que subsistiu até aos anos 40‖[769]. O Águia d'Ouro. na noite de estreia ―o Rivoli mobiliza as atenções de grande parte da cidade‖. marca como nenhuma outra forma de arte a divulgação em massa e a associação à indústria.

o Rivoli entra também na moda do cinema.).esgotadas. os bairros residenciais desertificam-se e o centro fervilha. De qualquer forma. em particular se pensarmos no orgulho e vontade da burguesia oitocentista em rivalizar com a capital. Um período de discrição e semiclandestinidade. mercadorias e informação. No início do século. Com o avançar do século. ―um retrocesso em relação a épocas anteriores da história teatral portuense‖[773]. saúde. Pelo contrário. assistindo-se a uma inédita concentração de funções (cultura. as pesadas imposições do regime ditatorial . fechando para instalação do sistema sonoro. apesar da importante concentração de oferta cultural na cidade. Uma nova realidade: a metrópole. sem dúvida. Noventa anos mais tarde. educação. um olhar de conjunto sobre a programação teatral e musical das principais salas portuenses faz com que nos apercebamos de um défice fundamental: não existe notícia de nenhum espectáculo produzido no Porto – os grandes sucessos eram importados de Lisboa o que representa. Progressivamente. o Porto vê reforçado o seu papel orientador. o panorama é o oposto. através da reanimação de vários pólos urbanos e da delegação de funções e competências. Assim. a cidade especializa-se nas grandes estruturas de enquadramento e na concentração de direcções regionais e sedes de empresa. O centro da cidade desdobra-se em dois. 2. conjugam-se dois factores determinantes na estruturação da vida cultural portuense. administração. No final de 1932. com a importância crescente da Boavista. Cresce a tendência para o esvaziamento dos lugares públicos e. a cultura de saídas ressente-se. dois terços dos portuenses viviam no centro da cidade. A única solução para evitar uma ruptura passou pela integração dos espaços municipais limítrofes. etc. Por um lado. De noite. ―a área pericentral passou de 13 para 20% e a periferia de 21% para 47%. embora a tendência se estenda ao próprio centro moderno que recua de 45% para 27%. e com especial aceleração a partir dos anos sessenta. 3. a mesma proporção de pessoas reside fora dele‖[775]. O centro clássico. diminui: ―de 1900 para 1991 o centro antigo desceu de 21% para 6%‖. o Porto reforça o seu poder de atracção de pessoas. Durante as primeiras décadas do século. esse. De dia. embora no quadro de um ―sistema urbano multipolar‖ mediante a ―conversão progressiva do centro de área produtora e mercantil em espaço gestor e comercial‖[774].

enfraquecendo-se a esfera pública: ―A partir daí o debate só podia limitar-se à intimidade ou adoptar modos de circulação tão disfarçados que escapavam à percepção da maioria‖[777]. a Universidade do Porto que contava. cedo se fizeram sentir. . criavam dificuldades acrescidas. a cidade continua a marcar a sua presença na vida cultural portuguesa. Em 1917 nasce o Conservatório de Música e em 1923 o primeiro cineclube português. em especial nos restritos círculos da intelectualidade e no domínio da expansão escolar. Os curtos anos da 1ª República conheceram ainda uma notável vitalidade. acima de tudo. Lopes Graça. Vitorino Magalhães Godinho. Agostinho da Silva. as suas conferências e debates por onde passaram alguns vultos do maior prestígio da intelectualidade portuguesa do presente século. A título de exemplo. a tradição democrática e cívica do Porto vê-se rodeada de suspeitas. muito pouco dado a manifestações públicas e espectaculares ou mesmo ao incentivo da cultura e da criatividade. das quais se destaca a Águia. Vasco da Gama Fernandes e tantos. fundada em 1911. António Gedeão. As homenagens a Antero de Quental (1942) e a Almeida Garrett (1956) suscitaram a mobilização das energias liberais da velha burguesia. bem como publicações (jornais e revistas) de cariz académico. Mas os sinais de um Estado que se pretendeu Novo. refiram-se os nomes de Miguel Torga. o incentivo dos seus prémios. João Villaret. Por outro lado. Tal como tinha escondido atrás de fachadas austeras a talha dourada. não por mero acaso cafés: a Brasileira – 1903 – e oMajestic – 1921). com mil alunos. com as suas ―manhãs literárias‖. mas de forma indelével. tantos outros[778]. denúncias e censuras. os seus revigorantes concertos e recitais de canto e. embora sem conseguir aproximar-se do fulgor da capital. por esta altura. o salão árabe e os lustres dos seus clubes. os debates e as tertúlias. Exemplo desse espírito é a actuação multifacetada do liberal Ateneu Comercial do Porto. Multiplicam-se.vigente. Hernâni Cidade. em 1911. Discretamente. em 1926. Logo em 1928 é encerrada a Faculdade de Letras (fundada em 1919). Desde essa altura. cortando cerce os ímpetos emancipatórios da Primeira República. Criou-se. A discrição impunha-se como estratégia de sobrevivência. o Porto escondeu a Arte Nova no interior das suas novas residências‖[776] (com duas importantes excepções. Aquilino Ribeiro. a especificidade de uma burguesia utilitária e pragmática leva a que se reserve ―o brilho para a intimidade. adormecida mas não aniquilada. enquanto inevitáveis expressões de liberdade. os cursos livres (em grande parte devido à acção dinamizadora da Universidade Popular e da Universidade Livre).

sentindo a ausência de um quadro de . progressivamente... na esteira de alguns movimentos sociais. e apoiada de forma notável pela actividade insubstituível da Fundação Calouste Gulbenkian. António Ferreira Gomes. o Porto vê surgir inúmeros embriões de associações e grupos culturais. No entanto. Eugénio de Andrade. em especial após a consolidação do chamado período de ―normalização democrática‖ iniciado com o 25 de Novembro e marcado por uma ―institucionalização‖ dos consumos culturais. muitas vezes organizados (?) em forma de tertúlia e extremamente diversos quanto à sua composição. Com um conjunto de equipamentos degradados e a necessitar de urgente reciclagem. Alexandre Alves Costa definiu da seguinte forma o espírito que lhes estava subjacente: ―Foi um puro início. de forma difusa e semiclandestina. inaugurada em 1963). de várias matizes. a sensaboria parece imperar. Manoel de Oliveira. Ruben A. Anuncia-se um novo ciclo. muitos deles revelaram-se luzes fugazes. implanta-se a Fundação Engenheiro António D'Almeida (1969). padecendo de um localismo paroquial. como tempo novo. através de nomes como Fernando Távora e Siza Vieira. até à emergente extrema-esquerda. com a notável excepção da criação do TEP (em 1951). 4. Com a ―explosão‖ revolucionária. Com a nova década um renovado dinamismo faz surgir alguns importantes movimentos: na arquitectura consolida-se o prestígio da ―Escola do Porto‖. indo desde os católicos progressistas inspirados na figura do Bispo D. Agustina Bessa-Luís. Uma nova fase: a aplicação de uma política cultural autárquica. António Cruz. a vitalidade das instituições e dos equipamentos.. com a crescente intervenção do poder político. Entretanto. florescem os pequenos grupos anti-regime.agora confiante do seu papel de metrópole colonial. sem mancha nem vício‖[779]. Óscar Lopes. animados do intuito de fazer do quotidiano uma mescla indissociável de cultura e política. No entanto. Antes dos anos sessenta. mais ou menos estruturados. De facto. emerge o ensino artístico cooperativo (Cooperativa Artística Árvore. na definição dos critérios e domínios de financiamento e enquanto poderoso agente de consagração de certos nomes no panorama cultural[780]. falta a animação colectiva. Fernando Lopes-Graça. criam-se novos grupos de música e de teatro. nos locais especificamente destinados à cultura. Faltava à cidade uma perspectiva estratégica do seu papel de metrópole cultural regional. alguns nomes dos novos intelectuais e artistas portugueses são do Porto: Sophia de Mello Breyner Andresen. As manifestações culturais acantonaram-se.

a vida cultural da cidade. a cidade só começou a usufruir de uma verdadeira política cultural (conjuntos articulados de iniciativas coerentemente planeadas e avaliadas. patente nesta pluralidade de eventos. etc. durante décadas. Nesta vertente podem ainda considerar-se as iniciativas de cariz mais espontâneo e convivial (com uma forte componente de animação de rua) como as Festas da Cidade e Do Natal aos Reis. Em termos mais concretos. bem como meios de acção pública especializados.). diálogo com os potenciais públicos. ―apoio à inclusão do Porto nas digressões de artistas e companhias nacionais e estrangeiras de alta qualidade‖. Na nossa opinião. de cariz sazonal e que vêm marcando. visando a sua revitalização‖. uma cidade onde as iniciativas. criando dinâmicas . Faltarão ainda. as Jornadas de Arte Contemporânea. A diversificação da oferta. ―diálogo permanente com as instituições públicas e privadas da cidade‖. a Irlanda. já o dissemos.suporte ao movimento associativo. um quadro de referências e prioridades. ―desenvolvimento da cooperação com outros municípios‖. o Fazer a Festa — Festival Internacional de Teatro para a Infância e a Juventude. Na primeira é possível incluir uma série de festivais (produzidos ou apoiados pela autarquia). também eles heterogéneos. o País de Gales. proporcionam o cruzamento de artistas e de formas de expressão provenientes de várias partes do globo: é o caso de Ritmos (festival de formas musicais emergentes no espaço afro-latino). a Galiza. etc. objectivos claros e operacionalizáveis. Relembramos alguns dos eixos estruturadores desse projecto pioneiro: ―apoio às associações recreativas e culturais da cidade. não eram enquadradas em qualquer exercício de planeamento sistemático e onde os agentes sócio-culturais sentiam a falta de redes e de interlocutores. etc. excessivamente centrada na rentabilização inerte do seu património histórico e artístico.[782]. as Noites Ritual Rock. ―promoção e/ou apoio à realização de acções de prestígio no campo cultural‖. De tendência claramente cosmopolita. recuperação de infraestruturas. mecanismos eficazes de produção e divulgação. Uma intervenção cultural implica. outra mais recôndita e de longo prazo. o Porto foi. Intercéltico (projecto que procura reconstruir afinidades no seio de uma matriz cultural que engloba países e regiões como o Norte de Portugal. esparsas. ―apoio à criação artística em sentido lato‖. etc. o Festival de Jazz. com a criação do Pelouro de Animação da Cidade. articula-se com o princípio de alargamento dos públicos. no entanto. desde há vários anos. o Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto.[781]. o Festival Internacional de Marionetas. diversificação das actividades. programas que propiciem o cruzamento de formas de cultura. podemos assinalar duas faces complementares dessa política cultural de cidade: uma visível e espectacular.) a partir de 1989.

A outra face. Antes de mais. museus. Importa referir. etc. as co-produções e as iniciativas conjuntas. João e a sua elevação à categoria de Teatro Nacional. que servirá de sede da companhia Seiva Trupe. o esforço de outras entidades neste domínio. por exemplo. por exemplo. em certas peças musicais que tentam associar música popular e música erudita[783]). a relação com as associações (apoio à melhoria de instalações. juntamente com o Rivoli e o Teatro Nacional S. conta com o apoio de fundos públicos e da iniciativa privada. bem como a renovação das casas-museu de Guerra Junqueiro e de Marta Ortigão Sampaio. é actualmente gerido (depois de uma movimentação popular contra a possibilidade de o imóvel ser adquirido por uma organização religiosa) através de fundos municipais e da iniciativa privada. a acção da sociedade civil organizada. destacam-se a construção do teatro do Campo Alegre. apesar do tenso equilíbrio a que tais propostas obrigam. indicador de que houve uma aceleração global no desenvolvimento cultural da cidade. suporte de acções voltadas para a comunidade. de cariz estruturante. A Fundação de Serralves. mais discreta. com a lei orgânica publicada em 1997. Sublinham-se. neste âmbito. arquivos. do Centro Português de Fotografia. Na transição do último para o actual mandato. mas nem por isso menos significativa. aumenta a necessidade de parceria entre os vários agentes culturais locais..) e a ligação às escolas. bibliotecas. mediante projectos de formação de novos públicos[784]. de onde se destaca o programa Descobrir[785]. tendo igualmente recebido apoio do Estado para a sua recuperação após . Como suporte desta política estimulou-se um alargamento da rede municipal de equipamentos. direccionado para as artes. o FITEI (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica) e oFantasporto (festival de cinema fantástico). parques de recreio). o Estado. Salienta-se. proliferando os equipamentos geridos em comum.. constituem o ―núcleo-duro‖ das salas de espectáculo portuenses. para além da renovação do Rivoli (cujo orçamento ascendeu a dois milhões de contos[786]). igualmente. criada com o objectivo de instalar o Museu de Arte Contemporânea. bem como a consagração da Orquestra Nacional do Porto (ainda não sinfónica.transversais que contribuam para superar velhas hierarquias e classificações (como acontece. também.) e a instalação. João. Desta forma. centra-se em três aspectos fundamentais: a recuperação permanente de equipamentos (salas de espectáculo. apoiada pelo Estado e pela autarquia. destacando-se a recuperação do teatro S. A Fundação Ciência e Desenvolvimento resulta da colaboração entre a autarquia e a Universidade do Porto. ciência e tecnologia. formação profissional. O Coliseu do Porto que. no Porto.

respeitante a uma proposta de tipologia das associações. Quanto a editoras. 46 salas (representando um acréscimo. a revista Hei! identifica sete editoras activas. como é o caso do teatro. Em 1997 foram dez os projectos teatrais portuenses apoiados pelo Ministério da Cultura. o inventário da Comissão de Coordenação da Região Norte dava conta de 40 unidades. dinamismo que. segundo dados municipais. o tecido associativo da cidade apresenta. No que se refere a cinemas. nos últimos dez anos o investimento cultural total na cidade do Porto superou os 26 milhões de contos. Finalmente. Por outro lado. num domínio sensível. um conjunto de mais de seiscentas associações e colectividades. Ainda de acordo com a mesma fonte. . tendo outros tantos ficado de fora. definida por um dos proprietários como ―editora de autor‖[789]. nos últimos 7 anos. pode ser contrariado se atentarmos no gráfico nº 3. A nível de galerias e de espaços de exposição. a 1 de Outubro de 1997. em dez anos os grupos e companhias passaram de três a dezoito.o incêndio de Setembro de 1996. apesar de estarem longe de ser uma prática generalizada. no entanto. As co-produções começam igualmente a ganhar algum relevo. Ainda assim. o Grande Porto (incluindo Porto-cidade e Vila Nova de Gaia) possuía. de 32 espaços de exibição)[788]. Segundo cálculos da autarquia. existem três instituições de formação artística nesta área[787]. três delas de carácter quase artesanal. a grande concentração verifica-se na região de Lisboa. sendo que 25 são especificamente galerias[790].

os resultados são mais modestos (apesar dos esforços de revitalização do tecido associativo e de contacto interactivo com o sistema formal de ensino) no alargamento da participação cultural e no contrariar das ―tendências de evasão e demissão . na elaboração ao nível nacional de critérios político-administrativos para o apoio à criação. muitas vezes articulados com determinadas culturas juvenis.De facto. desporto e recreio‖ revela. num efeito de homogeneização: no seu sincretismo. necessária para a legitimação da sua trajectória social. visando um pluralismo assente numa certa ―exaustividade cultural‖. Esta heterogeneização das iniciativas desemboca. por exemplo. não fornece o ―salto‖ qualitativo desejável para uma nova ligação às comunidades. imbuída desta ―polivalência simbólica‖. muitas vezes enquistado numa noção fixista de tradição e especialmente vocacionado para a ocupação convivial dos tempos livres dos seus associados. que ―conferem à acção cultural uma missão de promoção identitária‖[792]. segundo Phlippe Le Moigne[791]. nem tão-pouco aos novos padrões comportamentais emergentes. Todo o pluralismo subjacente à estruturação de uma política cultural municipal encontra a sua génese. num processo de institucionalização e regulação do campo cultural local por esferas exteriores ao próprio campo (patente. ou mesmo o terreno de uma certa despolitização. Existe. Não nos parece que isso aconteça com a nova política cultural municipal. cruzamento de localismo e cosmopolitismo. um risco.) e com uma definição estratégica de prioridades. em mais ou menos rápida recomposição. sendo meritório. articulação entre a oferta e a procura. numa análise mais superficial. acantonado à gestão corrente do subsídio. na sua retórica de conciliação de interesses e de promoção de equilíbrios. enfraquecendo as ligações à sua base sócio-espacial (com tudo o que isso implica de diluição de efeitos de posicionamento na estrutura social e territorial) e tornando-se um foco secundário de luta política. etc. como anteriormente referimos. paradoxalmente. a grande concentração nas categorias ―Associação de cariz popular‖ e ―Cultura. Corre-se então o risco de. um tecido potencialmente envelhecido. a política cultural municipal perder a noção das prioridades e cingir-se a uma lógica de ―acumulação de iniciativas‖ sem orientação estratégica ou fio condutor. No entanto. no entanto. ou para a consagração artística) e na apropriação dos valores das ―classes médias‖. o que. A primeira política cultural de cidade do século XX tem vindo a distinguir-se publicamente por resultados positivos em várias frentes (criação de uma rede de equipamentos. pluridireccional e visando estabelecer compromissos e mediações entre os vários actores em presença. as políticas culturais urbanas tendem a assemelhar-se cada vez mais.

não mais é imune às grandes (e transnacionais) recomposições no domínio das sociabilidades e do espaço público. por exemplo (1992!). ou ainda à pesca à linha e piqueniques junto ao rio. símbolo do traço pretensamente mais distintivo da urbe (a sociabilidade. efeitos automáticos de arrastamento da procura. 5. mestiçagens várias (. uma cidade cristalizada num espírito semelhante ao que ―animava os grandes cafés franceses de antes da guerra‖[795]. nesta dimensão. mas vão noutro sentido as grandes transformações sócio-culturais que atravessaram a sociedade portuguesa no seu ..) fechada mas calorosa. morreu. de cariz a-espacial. uma aglomeração onde os tascos traduzem um típico ―mundo fechado de homens‖[796]. Ainda mais recentemente. ou em alguns segmentos profissionais com particulares enraizamentos territoriais. em franjas etariamente idosas. Não nos parece errado afirmar. Joga-se. outros ritmos. em busca da praia ou de bons ares. e província do Douro (. como de resto mencionámos no capítulo V. que a história cultural do Porto sofreu profundas metamorfoses nos últimos dez anos. Por mais que se estruture a oferta cultural não são de esperar. Cidade improvável. tradicionalista. contra uma lógica global. de gleba transmontana‖[794]) e. ou uma certa sociabilidade). conservadora.cívicas‖[793].) O Porto é a última cidade de Trás-os-Montes. a propósito da rede de cruzamentos proporcionada pelo festivalRitmos. em ambiente de quente cumplicidade. por isso. hábitos bucólicos preferidos pelos mais antigos. para utilizarmos de empréstimo a metáfora de Hobsbawn a propósito do nosso século (um século breve). O tasco seria ―o verdadeiro símbolo da sociedade do Porto (. uma luta desigual entre uma lógica de acção local.. tradicional e ritualizado. Não chegaremos ao exagero de dizer que este Porto. até há algum tempo pouco dada a estas miscelâneas‖[797]. decerto. À lentidão da evolução anterior. O efeito que sobre nós provoca essa aceleração é mais visível quando nos damos conta da inadequação de comentários ainda recentes.. François Guichard. surge uma década breve. deslocalizada e onde se enquadram as tecnologias da comunicação e as indústrias culturais.. As novas faces da cidade. à aparência mesmo de estagnação durante os longos anos do Estado Novo.. alguém afirmava: ―Ritmos.) no Porto. como de resto está patente nas páginas anteriores. O Porto deixou de ser a cidade provinciana de que nos falam grande parte dos escritores que sobre ela meditaram (―O Porto é província. fala-nos de um Porto centrado nas tertúlias de cafés e pastelarias.. Ele permanece. ainda muito masculina‖. com uma ancoragem territorial. Os outros lazeres resumem-se a uns passeios à Foz e Matosinhos. cruzamentos múltiplos.

) urbe densa cujas ruas em geral adormecem cedo e se animam cedo‖[798]. ―gay‖. Se há ruas sossegadas e hábitos domésticos fortemente sedimentados. Edifícios que poderiam estar – e estão – em qualquer local. ―O centro da cidade‖.). a noite juvenil e estudantil. papéis e actores: a noite dos comportamentos desviantes. acid. a noite distinta e elegante. fala-se de uma constelação imensa de ambientes musicais (metal. etc. Não é por acaso que. De facto. elementos estruturantes da imagem dominante da cidade. Outros. Cidades sem geografia..) e surgem curiosas importações linguísticas (por exemplo. Tais símbolos já não são. Tão-pouco esta outra representação de uma ―cidade do trabalho e em certos aspectos pacatamente provinciana. onde milhares de cidadãos passam fatias cada vez mais significativas do seu tempo livre[800]. mito e veículo ultracontemporâneo da sociedade digital. seguramente. muitas vezes em ruptura com a configuração urbana onde se localizam. bem como sugestivos recursos de estilo (portagens refere-se ao ―filtro‖ exercido à entrada de muitos estabelecimentos nocturnos por empregados ou ―seguranças‖). a propósito de dois megacentros comerciais de Lisboa se criaram os seguintes slogans: ―O mundo‖. estilos e linguagens o entusiasmante caleidoscópio pós-moderno. ―pirosa‖. Na própria Internet. Mas um outro tipo de consumos culturais invade o quotidiano portuense. Porque de cidades se tratam. importa particularizar. seguindo o princípio de que ―tudo se combina com o que quer que seja‖. Alguns vêem em toda esta diversidade de espaços. praças e fontes.punk/hardcore. cidades onde as formas urbanas perdem legibilidade e as hierarquias se despacializam embora saiam reforçadas pela ordem do consumo[801]... com as suas próprias ruas.. música antiga. do modem. dos computadores e . representações. Referimo-nos à rápida aparição das modernas catedrais de consumo. música alternativa.. Existem também referências aos melhores dias da semana. a noite mundana. noutras zonas da cidade as noites são longas e servem de suporte a múltiplos usos. etc. abstraídas do espaço e do tempo exteriores. os shopping centers.. E se delas falamos é porque configuram uma radical reestruturação das formas tradicionais da esfera pública. à hora de início da maior animação (por vezes a partir das cinco da madrugada.). Cidades que têm mais a ver com a racionalidade do fax. ao tipo de clientela (―selecta‖. etc. ―A cidade dentro da cidade‖. e orgulhosa de sê-lo (. simbologias. Nele..conjunto e de que demos conta em anterior capítulo. avisam prudentemente que a pluralidade de opções é mais de fachada e as margens de real alternativa apresentam uma reduzida flexibilidade. encontrámos um sitecom comentários extremamente personalizados a propósito de mais de duas dezenas de bares e discotecas do Porto e arredores mais próximos[799]. movida).

Ao mesmo tempo. alguns especialmente vocacionados para as crianças. existe uma ténue fronteira entre convite e exclusão). o centro histórico da cidade perde vitalidade e desertifica-se às primeiras horas da noite. Os centros comerciais tornam-se mesmo locais de encontro social. No extremo. Daí os slogans de que há pouco falámos: os centros comerciais são de facto. misturando-se pormenores barrocos com requintes neoclássicos e pós-modernos. a ruptura face ao exterior é quase total (ausência de ruídos. Se. o invisível olho electrónico dos modernos sistemas de vigilância substitui a presença por vezes incómoda da autoridade (como aponta M. o centro da cidade.dos cartões de crédito do que com a ―velha‖ lógica dos cenários físicos das urbes modernas. Nada nos faltaria: das lojas de múltiplos artigos (embora a diversidade seja mais aparente do que real. israelitas ou mexicanas). Num certo sentido. de oscilações de temperatura. está aqui presente[803]. trânsito. cada vez mais (e não num sentido meramente metafórico). Uma ―viciante droga ambiental‖. outros mais dirigidos aos adultos. pobreza. remetendo-nos para várias épocas. O mais curioso nesta nova arquitectura urbana é o colapso da história e do clima. um despertar simultâneo de estímulos contraditórios. perante a aparente diversidade de lojas e produtos. no dizer de Joan Didion[806]. dada a duplicação de estabelecimentos iguais ou extremamente semelhantes) às praças da alimentação (onde se experimentam tanto o standard do fast food como as delícias das cozinhas mais exóticas. o nosso olhar se assemelha aozapping televisivo. Um paraíso artificial – dirão alguns. Entretanto. oportunidade para conhecer caras novas ou ocasião de passear com o(a) namorado(a). Nestas catedrais encontram-se pastiches de todos os estilos arquitectónicos. de facto. talvez com uma diferença: temos todos os canais num só[802]. . passando pelos centros de lazer. No Cidade do Porto é-nos dada a possibilidade de patinar num lago gelado sem sofrermos os rigores da Invernia[804]. Mas também uma encenação. este ―urbanismo de fantasia‖[805] dissemina uma nova atitude segregacionista. Além do mais. A temperatura é ar tificialmente mantida a um nível constante. toxicodependência. como as grandes cadeias de cinema. onde. as vinte e quatro horas do dia poderiam ser passadas num centro comercial. Cidades-televisão. que tanto passam pela excitação e ansiedade como pela sedação. No Via Catarina. Crawford. na baixa comercial da cidade. música ambiente) todos os aspectos negativos da cidade tendem a ser eliminados: sujidade. podemos caminhar entre miniaturas de casas típicas do Porto. o ―excesso de tempo‖ de que nos fala Marc Augé a propósito das dimensões constitutivas da ―sobremodernidade‖.

Qual a resposta de uma política cultural de cidade face à proliferação de não-lugares? O centro da cidade desertifica-se ao cair da noite e durante o fim de semana. em si mesmos. através do poder da ―atracção adjacente‖[812] que direcciona os olhares e os estímulos para as mercadorias circundantes e omnipresentes. O que leva tantas pessoas a frequentar estes espaços? A resposta é complexa e articula. também ela em trânsito. no dizer de Marc Augé[807]. momentaneamente. Iniciativas de animação (concertos.. mais necessidades são satisfeitas e mais motivos as pessoas . uma tentativa de reforço do ethosconsumista (que talvez se possa definir pela máxima de Augé: ―fazer como os outros para ser ele próprio‖[811]). à qual se abandona com maior ou menor talento ou convicção.. Sabemos que elas constituem. dado o seu cariz fracamente relacional. como qualquer possuído. Por outro lado. a leveza de um novo papel (passageiro. Por um lado. um cartão de crédito. Do mesmo modo. o seu cariz socializador afigura-se fraco. Espaços que. representam um prolongamento da exposição à sociedade de consumo patente nos tempos doméstico-receptivos.. Mas estes espaços podem conter. ao contrário dos ―lugares antropológicos‖ (identitários. geradora de representações ambíguas. goza. Ao abranger a esfera do lazer. centros comerciais e grandes superfícies comerciais fervilham de gente. cliente. Não-lugares. a sensação de libertação face aos constrangimentos habituais (―a obrigação de. défices de formação cultural com a reduzida exposição a uma oferta lúdica alternativa. as alegrias passivas da desidentificação e o prazer mais activo da representação de um papel‖[809].. socializados e localizados (.. certamente. relacionais e históricos. exposições. a pouca riqueza interactiva... sementes de um ―espaço praticado‖ (para utilizar a terminologia de Certeau). aqui e além.). o sentir-se espectador.): ―Objecto de uma doce posse... antes de mais. para além de outros factores. a ―multidão solitária‖..) O não-lugar é o contrário da utopia: existe e não alberga nenhuma sociedade orgânica‖[810].)É à maneira de um imenso parêntese que os não-lugares acolhem um número cada vez maior de indivíduos (.) mas estes não são identificados. em grande medida.‖). Paralelamente. delimitáveis num tempo e num espaço onde se produzem ―formas sociais orgânicas‖) se fixam numa ―contratualidade solitária‖.Espaços de trânsito e de passagem que colocam a nossa identidade entre parênteses. Os não-lugares só lidam ―com indivíduos (.. inclusivamente de si próprio[808]. performances) têm vindo a proliferar nestes cenários. Possuem estes espaços algum potencial de revitalização de uma ―cultura de saídas‖? A resposta deve ser prudente.. Não podemos esquecer que. Mas também o curioso sentimento de um certo anonimato que se refugia numa identidade provisória (apenas quebrada. pela apresentação de um documento.

permite vislumbrar o princípio de que a investigação empírica é ela própria conduzida por hipóteses sobre o carácter social das relações de observação. E. públicos virtuais a serem conquistados. CAPÍTULO IX ESTRATÉGIAS DE PESQUISA ―Il n'y a pas de raison de penser que soient inconciliables l'étude (que l'on veut certainement qualifier d'«objectiviste» si elle menée de manière unidirectionnelle) des structures de vie en commun et celle (que l'on peut certainement qualifier de «subjectiviste». dentro da cidade. Neles circulam cidadãos. Se é legítimo desconfiar das concepções positivistas que encontram nas estatísticas o alfa e omega da cientificidade. não poderão constituir novos cenários de encontro. ―Sur le concept de vie quotidienne‖[813] 1. somos levados a reflectir sobre a necessidade de conjugarmos procedimentos metodológicos diversos. Mas demitirmo-nos de uma acção cultural organizada. si elle est menée de manière unidirectionnelle) du sens en fonction duquel les participants à une existence commune font l'experience des divers avatars de celle-ci. equivaleria a legitimar a fuga da cidade. se em vez de se oferecerem como objecto de uma ―etnologia da solidão‖ de que Marc Augé reivindica a emergência. A proliferação de teorias auxiliares de pesquisa[814]. explicitando os ―processos simbólico-ideológicos envolvidos na elaboração (recolha e tratamento) da informação empírica sociologicamente relevante‖[815].‖ Norbert Elias. também nos parece inadequado resvalar para um ―anti-cientismo‖ totalmente confiante na veracidade da expressividade do . ainda que adormecidos.encontram para frequentar estes locais. com importantes consequências sobre o aparato tecnológico das ciências sociais. Elogio do ecletismo metodológico. Hoje começa a ser predominante a perspectiva dos que consideram que as reconfigurações do social exigem um acompanhamento permanente por parte da construção teórica e da reflexão metodológica. que eles também (e tão bem) representam. Assim. ―agir comunicacional‖ e sociabilidade. deverá igualmente modificar-se a forma de os apreender através de instrumentos conceptuais adequados. quem sabe. Se os fenómenos sociais se transformam.

como já tivemos ocasião de afirmar. como os próprios conceitos de sociedade e relação social. é também criar. pulverizados e em constante mudança‖[819]. de maneira a prever a evolução dos fenómenos. conciliámos técnicas como um inquérito por questionário aos públicos de três organizações culturais. excluir[821]). negando modelos metodológicos unidimensionais e privilegiando a complementaridade. esta dupla desconfiança é o desafio exigido pelas novas condições sociais e teóricas da prática científica.ponto de vista do agente. as No segundo. Se. aliás. o que leva ao centramento da análise nas condutas individuais e interindividuais e no sentido que produzem[816]. centrifugação e centripetação da pesquisa‖[820]. bem como a ―reificação da realidade social‖[817]. como refere António Teixeira Fernandes. No primeiro caso. por número de ocorrências e por definição de categorias . como o mesmo autor refere. captados de através de regularidades e leis. afinal. multiformes. processos de recomposição e movimentos cíclicos de reestruturação. em particular no que se refere ao estado pela luta de classificações legítimas que de alguma forma reflectem: nomear e categorizar. fragmentando-se e flexibilizando-se. nada nos aconselha a aceitarmos a acção social como actuando num campo infinito de liberdade e indeterminismo. a concepção determinista dos fenómenos sociais (associado à crença ―cientista‖ do positivismo) se prende a um mundo de referências seguras e estáveis. que contraria não só a possibilidade de existência de um discurso e prática sociológicos autónomos. da mesma forma as metodologias compreensivas tendem a impor-se num cenário em que os sistemas sociais perdem normatividade e coerência. certamente menos coerentes e previsíveis de acordo com paradigmas teóricos desactualizados. a dissolução aparente do social esconde. próprio de um modelo integrado de cultura. Desta forma. condição. parece-nos mais adequado multiplicar as formas de abordagem do objecto de estudo. No entanto. seleccionar. favorece-se a ―entificação da sociedade como um todo‖. a análise documental de fontes estatísticas (elas mesmas produtos institucionais normalizadores que requerem exame crítico permanente. incluir. Aliás. Assim. exercício de ―compatibilização deliberada entre extensividade e intensividade. Se é verdade que as realidades sociais se apresentam sob novas formas. dos emergem ―paradigmas indeterminismo‖[818] para apreender lógicas micro-sistemas culturais em que se baseiam as identidades plurais. a análise de conteúdo de entrevistas. Os fenómenos sociais são apresentados como ―fluidos.

Revelou-se extremamente . que não se desafie a teoria de partida. importa salientar a omnipresença da teoria (embora em ―doses‖ distintas) ao longo da pesquisa. De facto. estando presente quer na definição de modelos de análise. Sempre que possível. Desta forma. 2. O nosso primeiro exercício. obviamente. ao mesmo tempo sincrónica e diacrónica. quer ainda informação estatística tratada em revistas de estudos do INE. É o próprio carácter relacional do objecto de estudo que assim o exige. ao requerer uma presença muito activa do investigador. impossível de accionar sem quadros teóricos adequados. o qual. regional (Nuts II — Região Norte). testando o seu grau de adequação ao real — exigência crucial em processos que lidam com o simbólico. consistiu na recolha e análise de uma ampla gama de indicadores que fornecessem uma imagem de conjunto. Utilizamos quer informações já recolhidas e construídas em ―segundo grau‖ em trabalhos sobre a realidade portuguesa. metropolitana e concelhia. dos contextos territoriais. já que é necessário seleccionar e definir o que vai ser medido e posteriormente interpretado. prévio mesmo à fase exploratória de trabalho de campo. como salientar as respectivas especificidades. social e cultural. Breve reflexão sobre as técnicas utilizadas. quer uma série de publicações do Instituto Nacional de Estatística (INE). 2. Em todos os momentos do trabalho de campo deparámos com operações quantitativas e qualitativas. onde a informação aparece mais actualizada e desagregada. Do mesmo modo. Análise documental de fontes estatísticas. ou indicadores fornecidos on line pelo site do INE na Internet. pretendemos não só reconstituir imbricações entre os diferentes níveis referidos. inseridas num quadro interpretativo próprio. com a produção. económica. esta unifica os momentos de investigação.temáticas (abordagem qualitativa) e a observação directa metódica e sistemática. O que não significa. impedindo divisões artificiais entre concepção e execução. as metodologias qualitativas não prescindem hoje de uma contabilização estatística mínima da frequência dos fenómenos que observam.1. quer no próprio trabalho de campo. As primeiras nunca o são inteiramente. faz redobrar a necessidade de uma atenta vigilância epistemológica. Assim. de maneira a compor um quadro relativamente completo das respectivas dinâmicas. comparámos quatro escalas territoriais: nacional. Finalmente. tentamos obter dados estatísticos de índole demográfica. ou seja. circulação e apropriação de sentido pelos agentes sociais em contextos específicos.

com pertinência. como aliás ao longo de todo o trabalho. causais ou funcionais. o mérito de não aplicar uma ―camisa‖ de forças aos dados empíricos. numa análise de conteúdo qualitativa dos materiais de publicidade produzidas para divulgar a oferta cultural desses espaços. de índole qualitativa tem. A fase exploratória.‖[823]). 2. 2.elucidativo para o nosso objecto de estudo o trabalho de análise das reconfigurações recentes da estrutura social portuguesa. de vaivém teoria/pesquisa empírica ou de resolução do hiato que tantas vezes as separa. O aprofundamento dos quadros teóricos deve ser um trabalho activo desde os primeiros passos da pesquisa. Ou seja. que esta fase exploratória deva ser meramente empírica. Por outras palavras. etc. pois. bem como a alguns informantes privilegiados sobre os mundos noctívagos da cultura. Baseou-se. procedimentos lógico-dedutivos (partir de modelos teóricos preexistentes) e indutivos (em que se parte dos factos empíricos para produzir ―um esquema de inteligibilidade teórica que possa evidenciar. em doses variáveis. . permitiu-nos orientar as ―grandes teorias‖ ou ―teorias gerais‖[822] do modelo de análise para certos aspectos ―locais‖ da pesquisa. acompanhadas de uma observação incipiente e ―diletante‖ de alguns ―quadros‖ de interacção. num processo em que se combinam. No presente estudo. em particular no que diz respeito à composição socio-profissional e à mobilidade social. deixando-os ―desafiar‖ as teorias de partida. processos.3. não nos parece. as entrevistas exploratórias dirigiram-se aos responsáveis dos espaços culturais em análise. favoreceu uma flexibilização de conceitos abstractos. Entrevistas exploratórias. No entanto. O inquérito por questionário. Estas entrevistas. bem como o accionar das já referidas teorias auxiliares de pesquisa.2. procurou-se. ao contrário do que por vezes se vem advogando. construir um esquema de inteligibilidade da oferta teórica e das representações dos directores artísticos e produtores culturais. ou reduzida a uns vagos conhecimentos sobre o tema que se pretende estudar. permitindo uma selecção das teorias de médio alcance mais adequadas. relações sistémicas. igualmente. essencialmente. Somente desta forma se poderá falar.

por questões práticas. um inquérito longo (Anexo III) que demora cerca de trinta minutos a ser preenchido coaduna-se mal com o espírito de descontracção e diversão das saídas culturais nocturnas. embora esta também seja socialmente condicionada (em especial nos casos de administração indirecta. e à luz .Como vários autores têm referido. De facto. impossibilitando a utilização de uma matriz de construção de lugares de classe. Por outro lado. bem como as clivagens exercidas por variáveis estruturadas e estruturantes como a idade. descortinar regularidades nas práticas culturais dos públicos. como escreveu Virgínia Ferreira. representam apenas cerca de 30% dos inquéritos distribuídos. A resposta. da sua família de destino e de origem. na medida em que. O inquérito que construímos revelou-se inadequado face à reduzida disponibilidade revelada pelos inquiridos. possibilitou-nos a comparação entre os três espaços seleccionados. o sexo. se revelam habituais. De igual modo. Assim. é o ―resultado da identidade social e pessoal estratégica que o respondente definiu como adequada à situação‖[824]. condições de ruído pouco favoráveis (no B Flat e na Praia da Luz) reduziam o tempoefectivamente consagrado ao inquérito. No nosso estudo o inquérito permitiu-nos. para cada um dos espaços. Desde logo. Simultaneamente. os inquéritos recolhidos (547) e distribuídos em várias ocasiões. Deveríamos ter elaborado um instrumento mais ágil e com menos questões abertas. obtiveram índices de não-resposta ou resposta incompleta superiores a 50%. de forma a conseguirmos uma aproximação à real diversidade e constituição dos públicos. Mas há razões mais profundas e que nada têm a ver com este tipo de contingências. nas respostas e na sua posterior codificação intervêm factores sociais que transcendem a situação de inquérito. a possibilidade de inquirir populações relativamente vastas e a comparação de resultados são duas das vantagens dos inquéritos por questionário. na elaboração das perguntas. as respostas às questões respeitantes à caracterização socioprofissional dos inquiridos. Com efeito. bem como a explicitação de lógicas de heterogeneidade internas a cada um deles. desfazendo assim as recorrentes ―ilusões da homogeneidade‖. a aplicação de um inquérito sobre práticas culturais comporta vários riscos e desvantagens. no presente caso. No entanto. em especial em inquéritos sobre práticas culturais. Claro que. de facto. Reacções de prestígio e acomodação aos padrões sócio-culturais que se julgam dominantes são atitudes que. em que se verifica interacção entre inquiridor e inquirido). o inquérito por questionário é frequentemente criticado por reproduzir uma versão oficial da realidade. o capital escolar e a trajectória social. aos quais está subjacente uma definição legítima dessas práticas.

por que razão a leitura de um livro é entendida como recepção de uma «obra cultural» e a resposta a um inquérito (. alto capital escolar. conquanto seja integrado em programas de pesquisa ecléticos no que respeita à utilização da panóplia de técnicas disponíveis. introduz-se. num outro plano. bem como os significados associados ao espaço doméstico e ao espaço semi-público de sociabilidade mundana e cosmopolita.4. se aproxima do perfil social do investigador. tendo-se em conta. bem como definir a frequência estatística das dimensões observadas. O guião revelou-se suficientemente flexível para permitir aos entrevistados a expressão da sua ―realidade‖. relacionando-as com variáveis que traduzem relações e condições objectivas de um espaço social estruturado. etc. tinham como objectivo captar o discurso dos praticantes culturais sobre a relação entre o ―ficar em casa‖ e o ―sair à noite‖. linguísticas e culturais) que está igualmente implícito em cada inquérito e que. opiniões e crenças. mesmo num inquérito em que se utilizam tipologias de práticas culturais que se aproximam de uma visão alargada e diversificada do campo cultural.de todos os anteriores trabalhos neste domínio. Desde que se tome consciência da sua falsa neutralidade e. aplicadas em número de 88 durante a fase central do trabalho de campo.) não o é?‖[825].. os usos quotidianos do tempo. não raras vezes.) o que evita grandes desvios face ao ―inquirido modelo‖ (em termos de competências cognitivas. seria previsível (tal como efectivamente se veio a verificar) uma certa homogeneidade nas características sócio-demográficas dos inquiridos (juvenilidade. 2. Estas entrevistas.. As entrevistas semi-directivas. como se pode constatar pelo respectivo guião (Anexo IV). em paralelo com os inquéritos (embora a indivíduos diferentes). o inquérito é um instrumento útil na contextualização social das práticas culturais e das representações simbólicas.) Por que razão a ida a um museu é naturalmente uma frequência cultural e a utilização daquela linha não o é? Ou. De qualquer forma. ao permitir detectar constelações de atitudes. bem entendido.. paralelamente.. quadros interpretativos e esquemas de referência. De qualquer forma. e como acentua João Sedas Nunes. sem obrigar a entrevistas muito longas . mais ou menos subliminarmente um arbitrário cultural:―por que razão um museu é naturalmente um equipamento cultural e uma linha de metropolitano não o é? (. dentro de uma perspectiva que se pode considerar holística.

pretendeu-se colmatar alguns dos limites inerentes às metodologias extensivas. em especial no que se refere à expressão dos gostos e aos usos da cultura. dicção.) ocupam um lugar central. durante a sua realização. Trata-se. os gostos devem ser captados tanto por sistemas de atitudes verbalizados num discurso coerente. Se iniciássemos agora a pesquisa. etc. imersão nas realidades vividas)[826]. que as regista a coberto do anonimato). posturas corporais. Como refere Serge Collet. a sociabilidade etc. reformularíamos as questões abertas e semi-abertas relativas aos modos de recepção cultural de forma a fazerem parte do guião de entrevista. silêncios. Com a utilização de uma grelha de observação directa. as respostas reflectissem as singularidades dos universos simbólicos dos entrevistados. na defesa de uma ―etnografia dos públicos em acção‖[827]. de maneira a que. de facto. não se pense que a corporalidade é o reino do inefável: as reacções mais íntimas do imaginário do espectador são codificadas e acessíveis à análise. nos intervalos. olhares. um enquadramento menos ―cartesiano‖. 2. hesitações. evitando qualquer lógica de estandardização ou condicionamento prévio. os modos de apresentação em cena. bem como superar a velha divisão do trabalho entre a sociologia (supostamente cingida ao inquérito por questionário. o que se pode relacionar. precisamente. com a maior possibilidade de estruturarem o seu discurso sem grandes limitações prévias. em diferentes momentos (antes do espectáculo. os registos descritivos de comportamentos. em que a paralinguagem (ritmo e timbre de voz. No entanto. Como se sabe. Ao contrário do inquérito.(quinze a vinte minutos em média). como por gestos e mímicas: ―Un spectateur. no final) dimensões como a relação com o espaço físico e a forma como está organizado e regionalizado.) e a linguagem cinética (gestos. a reacção dos entrevistados foi quase sempre positiva. afinal. as modalidades de interacção.5. A observação directa. ça bouge!‖[828]. sem a mediação de um documento ou de um . instrumento da objectividade oficial e garante da separação rígida entre sujeito e objecto) e a antropologia (limitada às técnicas de observação. Estas dimensões requerem. Além do mais. as conversas ―espontâneas‖ (desenrolando-se perante a suposta ausência do investigador. a descoincidência entre práticas efectivas e práticas declaradas obriga a uma utilização crítica das verbalizações dos inquiridos e entrevistados. a pluralidade de formas de recepção de um espectáculo impele-nos a ter em conta. de captar ―os comportamentos no momento em que eles se produzem e em si mesmos. etc. em situação de entrevista.

ao analisarem-se três espaços de fruição cultural com programações diferentes (embora com pontos de convergência) pretendeu-se dar conta da pluralidade de mundos da cultura. no entanto. O carácter multifacetado desta pesquisa não pode ser dissociado do facto de estarmos em presença de três estudos de caso. ao introduzir-se a perspectiva comparativa. não bastará. em que se pretendeu analisar. colocando-se do «ponto de vista» do autor. como por vezes ingenuamente se espera de um estudo intensivo. ao mesmo tempo que se insinuou a possibilidade de cada um deles constituir um tipo-ideal de instituição cultural. de forma a fornecer modelos de análise que possam ser testados em situações semelhantes[832]. ―qualquer processo de empatia do investigador. é alargar os quadros do conhecimento existentes. De facto. todavia. A ser assim. a interacção de factores inerentes às vivências culturais em cenários com identidades específicas. Claro que não se logrou esgotar o leque de dimensões de análise. não pode ficar refém da sua subjectividade ou do sentido. o trabalho de investigação nem chegaria a estar à altura de um trabalho de tradução‖[831]. limitada. obviamente. com um certo grau de exaustividade e profundidade. 4. nomeadamente as que remetem para a interdependência recíproca entre o espaço social e a esfera cultural em processos de rápida mudança social em contexto urbano. como salienta Judith Bell. Finalmente. com a vantagem de ser uma técnica―não-reactiva‖. ganha contornos mais nítidos (a sua singularidade torna-se mais transparente) ao ser posto em relação com os restantes espaços e vice-versa. se o seu sentido não se esgota na intencionalidade dos agentes. Como refere António Joaquim Esteves. clarificou-se a especificidade de cada local. O mais importante. Se a ―verdade‖ dos respondentes não capta a totalidade das relações sociais. Antes se optou pela análise selectiva de questões-chave. A objectivação dos mecanismos simbólico-ideológicos de que os agentes se servem quotidianamente no processo de construção social da realidade revela-se igualmente indispensável. Uma nova grelha de classificação das práticas culturais. como realça Crespi. A generalização é. embora não impossível. utilizar técnicas de cariz etnográfico. . o Teatro Municipal Rivoli. Uma dimensão deste estudo que deve ser realçada é o seu cariz comparativo. 3. Assim. Um estudo de casos comparativo.testemunho‖[829]. por exemplo. ―no sentido de reduzir ao mínimo os efeitos da presença do investigador‖[830].

ir à praia. fazer ―jogging‖. 4. novos critérios de agrupamento das práticas culturais (modificando o conteúdo das categorias) e mesmo algumas alterações conceptuais. ir à missa ou a cerimónias religiosas. III. ir a casa de familiares. ir a concertos de música popular e moderna. dormir a sesta. artesanato. ir à pesca. por um lado. I. ir a discotecas. etc. ler jornais[835]. ir ao circo. ir a bares. ler revistas. Práticas domésticas de abandono: não fazer nada. ela segue relativamente de perto a nomenclatura utilizada por José Machado Pais em vários estudos[834]. Práticas domésticas expressivas. passear. 2. ir à caça. ir às compras (roupa. propomos a grelha seguinte. Como se poderá constatar. de interacção e sociabilidade: receber familiares em casa. 8. Práticas participativas públicas: assistir a jogos de futebol (ou outros espectáculos desportivos). ler livros sem ser de estudo ou profissionais. no entanto. . receber amigos em casa. ir a casa de amigos. Espaço Semi-público 7. e. de mantermos o princípio de cumulatividade do conhecimento científico. Espaço Público 5. Práticas expressivas semi-públicas: ir a cafés. fazer pequenas viagens. por outro. passear em centros comerciais. não excluindo. escrever um ―diário‖. discos. jogar em máquinas electrónicas (casas de jogos). livros. ouvir rádio. pastelarias. operacionalizarmos as categorias e relações entre categorias presentes no modelo de classificação das práticas culturais desenvolvido por José Madureira Pinto[833]. fazer desporto. II. Práticas receptivas semi-públicas: ir ao cinema. Práticas domésticas criativas: fazer ―bricolage‖. almoçar ou jantar fora sem ser por necessidade. cervejarias. Espaço Doméstico 1. ir a feiras. assistir a touradas. 3. 6. de consumo e/ou fruição: ver televisão.). Práticas domésticas receptivas. cozinhar por divertimento.Com o duplo propósito de. ver filmes vídeo em casa. ouvir música. Práticas expressivas públicas: Frequentar festas de carácter popular.

participação e recepção/consumo. rancho. desenhar. coro.). para além do ―público‖ e ―privado‖.). ir a concertos de música clássica. cantar (num grupo musical. 13.9. etc. coro.). fazer fotografia (sem ser em festas ou em férias). etc. Práticas associativas expressivas: ir a associações recreativas ou a colectividades locais. enquanto D'Epinay considera apenas três conjuntos de práticas — expressão. exposições. etc. contos. interacção. tocar (num grupo musical. Práticas de rotina semi-públicas: comprar comida e mercearias. Convém explicitar que a tipologia proposta por José Madureira Pinto assenta no cruzamento de dois critérios: ―modos de relação com os bens culturais‖ e ―espaços sociais de afirmação cultural‖. dançar (dança contemporânea. enriquecendo o leque de modos de apropriação da cultura. bilhar. jazz e folclore). IV. V. Madureira Pinto propõe criação. o espaço organizado e mais ou menos tutelado das subculturas dominadas e/ou emergentes. Por outro lado. visitar museus. Práticas eruditas criativas: escrever (poemas. . Práticas associativas criativas: fazer teatro amador.. segmentado em ―caseiras‖ e ―exteriores‖ (cada um dos conjuntos com várias subdivisões). rancho. Práticas receptivas e informativas de públicos cultivados: ir ao teatro. etc. 11. etc. jogar xadrez. etc. jogar às cartas. Espaço Associativo/espaço semi-público organizado 10. Espaço da cultura cultivada/sobrelegitimada 12. expressão (associada à interacção).). que cruza a posição do actor (dicotomicamente dividida em ―emissor‖ e ―receptor‖) e o espaço das práticas. artes plásticas (pintar. O esquema de Madureira Pinto permite ir mais longe na consideração das hierarquizações do campo cultural ao considerar. A grelha deste autor complexifica o modelo sugerido por Lalive D'Epinay[836]. damas. fazer campismo e caravanismo. o espaço das indústrias culturais e o círculo da cultura cultivada. ballet. informação —.

megaproduções ―comerciais‖. ordenação e abstracção do material recolhido (nomenclaturas. Acrescentamos uma outra categoria. Rivoli: A fénix renascida. todavia. de carácter quase residual no conjunto da tipologia. etc. como em qualquer actividade humana. de acesso quase livre e potencialmente gratuito. Não esquecemos. que constituem ―mundos artificiais‖ onde se exerce de forma velada uma efectiva selecção e controlo sociais. A inclusão dos centros comerciais no espaço público justifica-se pelo facto incontornável de serem o ―passeio público‖ da actualidade (sub)urbana. ao mesmo tempo que facilitam a interpretação. mas sim em espaços colectivamente organizados com finstambém.1. muitas vezes. Quando nos referimos a ―práticas associativas‖ fazêmo-lo num sentido lato. excluem certas dimensões de análise. Ir ao cinema. importa referir que estes mecanismos de selecção. por exemplo). embora não exclusivamente. Finalmente. enquanto processo de recepção tão activo que transforma o receptor em emissor. tipologias). foi separada das práticas receptivas e informativas dos públicos cultivados. ainda que no contexto de uma produção que lhe é exterior (por exemplo. Na pesquisa. Ir às compras sem ser por mera rotina (caso das roupas. CAPÍTULO X ESPAÇOS E TEMPOS DE UMA INVESTIGAÇÃO 1. na ―participação‖ podemos conceber a ―fruição cultural‖. filmes pornográficos. optar acarreta sempre ganhos e perdas. formativos (é o caso de praticar canto ou dança em escolas especializadas).). . enquanto saída cultural relativamente generalizada e abrangendo uma pluralidade de géneros (filmes de ―autor‖ — a chamada ―indústria de conteúdos‖ —. de quebrar a dita rotina. com o intuito explícito. 1. já que não têm necessariamente de ocorrer em associações formalmente constituídas.A nosso ver. conviviais e mesmo formativas (frequentar assiduamente uma livraria. retirada da proposta de José Virgílio Pereira[837] (por sua vez inspirada em Lalive D'Epinay e Norbert Elias) — ―práticas de rotina semipúblicas‖ — e que apenas pode ser incluída no campo cultural se da cultura mantivermos uma concepção ampla e antropológica. assistir a espectáculos desportivos ou de música popular/moderna — o espectáculo dentro do espectáculo). livros e discos) assume-se como um acto de potencialidades lúdicas. Breve Historial.

associa-se. para a estreia de uma peça de teatro de revista ―importada‖ de Lisboa. propriedade de Manuel Pires Fernandes e da família Borges (ligada à banca)...) o teatro aparecia-me enorme na sua arquitectura ágil de desassombrado modernismo numa cidade quase sempre dominada pelo peso granítico dos edifícios oitocentistas (. o concerto de domingo de manhã no Rivoli iniciava-me à dimensão misteriosa do espiritual‖[838]. a uma determinada época da vida de muitos portuenses: ―Para mim o Rivoli com o seu nome de sabor italiano pontuado de vogais abertas é uma memória do princípio da adolescência (. vivências e emoções...) Mais do que a missa. há memória de cinema. ainda em latim.) Apagavam-se as luzes do teatro e soavam os primeiros acordes de afinação. Para outros frequentadores. sobretudo nas camadas mais populares.O Teatro Rivoli acompanha muito de perto a história do Porto neste século.. Lugar de evocações. considero que o Rivoli faz parte integrante de toda a renovação urbana do centro do Porto desde o início do nosso século (. espaço e lugar. outros ainda da metamorfose do teatro em gigantesca discoteca. de forma marcante.. outros de filmes a diferentes títulos memoráveis (alguns de películas de duvidosa qualidade..). é um texto polissémico e gerador de discursos polifónicos: existirá sempre em função de diferentes pontos de vista de actores socialmente situados[839]. enquanto subiam as luzes do palco e algumas tosses renitentes se iam aplacando na plateia (. A sua construção articula-se com . Alguns lembrar-se-ão das soirées de dança. O Rivoli. abrindo as suas portas em 5 de Dezembro de 1913. Como refere Isabel Alves Costa. o Rivoli é um manancial de vozes que a seu modo interpretam os contextos espaciais em que se movimentam. memórias.) o mérito da obra é muito mais exterior do que interior e tem a ver com a sua localização‖[841]. O seu nascimento remonta ao antigo Teatro Nacional. que não tinha idade para perceber.. o Rivoli soará de forma diferente. a formação musical de muitas pessoas foi feita aqui‖[840]. inclusivamente de cariz pornográfico. Ocupava o grandioso edifício todo o espaço do actual Rivoli e da filial da Caixa Geral de depósitos. música ou ópera. Ou ainda Pedro Ramalho. Enquanto lugar de memória. porque muitos foram os que transpuseram as suas portas ao longo de uma história multifacetada e salpicada de imprevistos.. arquitecto responsável pela recente recriação do edifício: ―Do ponto de vista arquitectónico e urbanístico. com uma lotação de 1500 lugares. directora artística do novo Rivoli: ―Esta casa tem um peso muito grande na memória das pessoas: foi um centro de ópera muito importante em determinada época..

pois nenhuma probabilidade havia de se poder obter um juro remunerador do capital a despender. no conjunto dos equipamentos culturais da época[842]. Pires Fernandes. Dois anos antes. ―verificamos que uns bons 90% da programação do Rivoli. apoia a Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto. jamais no estado em que se encontra o Teatro Português‖[843]. a par dos concertos. dada a sua dimensão e arrojo. em 20 de Janeiro de 1932. que aumenta a sua capacidade para 1800 lugares. A partir de 1944. e nunca com fins de especulação rendosa. pinturas. mantendo-se.uma profunda renovação urbanística do ―novo‖ centro da cidade (Avenida dos Aliados. Curiosas e actuais palavras. Pode-se considerar que esta fase. recepção entusiástica da crítica e do público. estilo teatro-comédia. De novo. Como refere Bandeira. tendo em vista a introdução do cinema sonoro.. ainda. claramente rendido à sétima arte. Logo oito meses após a sua inauguração. o novo espaço causou admiração. correspondendo a uma época de ouro da cinematografia americana[847]. nasce. O edifício impressionava pelos seus―átrios. da ―crise‖ do teatro português como dificuldade a superar. começa o que para muitos foi a época áurea do Rivoli. Uma vez mais. com a ascensão de D. propriedade do mesmo empresário. define-se a intenção de uma política de serviço cultural não lucrativo e fala-se. da companhia do Teatro Nacional liderado pela famosa dupla Amélia Rey Colaço — Robles Monteiro. é constituída por cinema‖[846]. o Rivoli. Demolido o Teatro Nacional. bem como o Círculo de Cultura Musical. a capital) como área beneficiária do equipamento. Maria Borges ao cargo de directora. sendo por alguns considerado ―a última palavra em modernismo. Praça da Liberdade) que se inicia na segunda década do nosso século. que durou até aos anos 60. em Assembleia Geral da empresa que viria a gerir o Rivoli. regista-se que ―o desideratum desta empresa era dotar o Porto com uma casa de espectáculos digna da capital do Porto. promovendo igualmente temporadas de ópera e recebendo algumas das melhores companhias teatrais europeias. o Rivoli. No entanto está igualmente presente o teatro para o grande público. comodidade e número de lugares‖[844]. estreia com uma peça produzida em Lisboa. em conforto e em bom gosto‖[845]. Pelos registos da imprensa local. da ópera e da opereta. decoração. simultaneamente. A isso obrigou a pressão do público. a partir da temporada de 1933/34. desde logo. o Rivoli encerra para breves obras. Autêntica mecenas das artes. salientando-se. escadarias. representa .. o cinema de qualidade. Repare-se que o seu sentido permanece inteiramente actual: aponta-se a região do Porto (e não apenas a cidade.

O modelo organizacional e gestionário é inédito na história cultural da cidade. decide-se proceder a uma ampla reconstrução do edifício. Mas contando igualmente com um pequeno auditório para cerca de 180 espectadores. a contas com grandes dificuldades financeiras e com uma degradação extrema da sua programação. entre 74 e 75. camarins. e com a criação do Pelouro de Animação da Cidade. é desenvolvido um período de programação cultural que serve para testar projectos. exibindo mesmo. renascido de um teatro esventrado que pouco mais conservou do que algumas fachadas. o Rivoli foi ainda uma danceteria e cobiçado por empresas imobiliárias.2. Um novo modelo organizacional e de programação cultural. A intervenção camarária salva o edifício e submete-o a obras urgentes de remodelação. Com efeito. por unanimidade dos partidos representados na autarquia. Mesmo com a primeira fase das obras a decorrer (que incluíram a remoção das cadeiras da sala de espectáculos) teve lugar o ciclo de teatro Rivoli Vazio. Antes de ser adquirido. e antes de as obras se iniciarem. sendo o projecto da responsabilidade do arquitecto Pedro Ramalho. Desde logo o grande auditório com lotação de 858 lugares. ao mesmo tempo. a agonia toma conta do Rivoli. pela Câmara Municipal do Porto. sem os velhos camarotes e com uns polémicos painéis acústicos. um amplo foyer e. um café-concerto e um restaurante. uma sala de ensaios que reproduz o palco. baixos-relevos e traços arquitectónicos de identificação. O edifício afigura-se bastante remodelado e com uma multiplicidade de espaços. colecções de filmes pornográficos. Nos anos 70 (D. cumprindo. confinada exclusivamente ao cinema. O ―novo‖ Rivoli.uma reorientação do Rivoli em direcção a públicos mais cultivados. em 1989. em zona reservada. Muitas outras dimensões mudaram com o ―novo‖ Rivoli. sendo ventilada a ideia de demolição. burilar o futuro modelo organizacional e apreender algumas características dos públicos potenciais. com o intuito de experimentar as potencialidades cénicas de um espaço ―despido‖ e provisório[848]. organização e produção das actividades do Rivoli Teatro Municipal‖[849] é uma das principais incumbências da CulturPorto — Associação de . é inaugurado a 16 de Outubro de 1997 com um concerto da recém-criada Orquestra Nacional do Porto. 1. Maria Borges morre em 1976). um bar de artistas e um espaço amplo para o sector administrativo. em forma de anfiteatro. A partir de 1991. é consagrado como Teatro Municipal. ―a programação. Entretanto. a função de representação simbólica da burguesia portuense instruída. Ainda em 1989.

através de três possíveis hipóteses: . com todas as indicações técnicas precisas.. um dos objectivos declarados da nova direcção artística.Produção Cultural. sendo proposto a um grupo de escolas o mesmo texto para que. onde se encontram integradas as Escolas Superiores de Teatro e de Música e. de Dança. estimula-se a possibilidade de fomentar a educação artística. apresentado por Teresa Lima e que tem por lema.. sujeita que está a uma vasta panóplia de obrigações burocráticas[850]. composta por dois associados fundadores: a Câmara Municipal do Porto (que assegura a sua direcção. como nos referiram os responsáveis autárquicos. Implica fazer uma visita séria ao auditório. obrigando-os a uma participação activa nas actividades do teatro.―convidar um encenador para fazer uma produção no teatro.―convidar uma companhia de fora para residir durante um certo tempo no teatro. obrigando contratualmente os artistas. a formação do espectador. aliás. obtém-se um grau de flexibilidade e operacionalidade que jamais se conseguiria caso fosse a autarquia a gerir o Teatro. nesse documento. que o contacto com as escolas e o movimento associativo são a pedra de toque de uma política de formação de públicos. Considera-se. ainda não concretizado. Por outro lado. De facto. igualmente.) tentar saber antes de elas serem residentes qual o tema. Insiste-se. convidar as escolas para virem ver o espaço e dizer-lhes «este é o teatro onde podem apresentar o vosso trabalho de fim de ano». Podendo fazer ensaios abertos.. de maneira a quebrar eventuais efeitos de fechamento. dentro desta mesma linha. montando e fazendo a estreia de um seu espectáculo (. Por um lado. Parte-se de uma apreensão do espaço para uma criação‖[851]. pudesse haver encontros e discussões. futuramente. partindo de um texto ou de uma criação colectiva e propor essa problemática ao grupo das escolas‖ . para lá da promoção de novos artistas e do serviço público de apoio à criação artística propõe-se contribuir para a formação. Existe. toda esta vertente é pensada articuladamente com a formação de públicos em geral. um interessante projecto. . em conferências. participar em colóquios.. precisamente. na dessacralização da produção artística através do contacto próximo com as técnicas da criação e com os próprios criadores. Várias são as razões subjacentes à escolha deste modelo. durante o processo de montagem do espectáculo profissional.) queria recuperar a ideia de residência.― a terceira maneira era partir de um espaço. e na sua dimensão juvenil em particular. em contacto com o público e com outros agentes culturais. tertúlias (. Aliás. através da vereadora do Pelouro de Animação da Cidade) e o Instituto Politécnico do Porto. Eles saberiam o que tinham para fazer. tornando os jovens que trabalharam aquela mesma história em público privilegiado do espectáculo‖ .

De certa forma. a sua ―natureza‖ de instituição cultural de serviço público. para além do contigente já cativado. conferir uma certa identidade às várias iniciativas. repartidas por espaços de características diferentes (o grande auditório. mais um eventual com um Pedro Abrunhosa. precisamente. Tivemos de conciliar as diversas situações possíveis‖[853]. embora sem deixar de lado o eventual trânsito e intercâmbio que um .No entanto.. cinema. com públicos-alvo diferenciados. A própria filosofia inerente à polivalência é de molde a suscitar sérias apreensões. Quando se afirma que ―formar espectadores significa formar melhores espectadores e não angariar mais espectadores (vocação da publicidade e marketing)‖[852] resvala-se para uma aporia de contornos duvidosos. simultaneamente. se preferirmos. etc. o Rivoli é composto por uma pluralidade de espaços onde. um dos pressupostos revela-se no mínimo discutível. Uma das preocupações da direcção é.). o supermercado da cultura. como discutimos noutros capítulos. especialmente tendo em conta a vocaçãomunicipal do Rivoli. já que. De facto.. embora quase sempre complementares.. de comodidade. de acústica. se podem realizar actividades diversas. o café-concerto. nunca seria possível criar condições óptimas para cada um dos diferentes espectáculos. No entanto — e essa é uma enorme vantagem -. de forma a evitar a imagem de fragmentação. Nós sabemos que em termos de visibilidade. como realça o arquitecto responsável pelo novo projecto: ―Como espaço polivalente. uma ideia-mãe metamorfoseia-se numa miríade de modalidades.) portanto. já que uma destas actividades ou mesmo todas resultarão menos boas (. Preocupações igualmente presentes na direcção artística: ―A ideia da polivalência tem aspectos muito complicados. o foyer. Um deles é o de não haver uma identidade definida‖[854]. habituado a relacionar um dado espaço com um determinado género ou produção cultural. que tornava eventualmente mais fácil a opção do espectador. etc. mais uma ópera. é um compromisso difícil que se tem de encontrar para se fazer um bom concerto com uma orquestra. tal diferendo deve ser assumido como uma tensão em permanente busca de compromisso. como lhe costumo chamar. um teatro. tem os seus perigos. permite a captação de correntes diversificadas de públicos. ou. a filosofia da polivalência elimina a velha especialização das casas de espectáculo. Um outro ganho prende-se com a possibilidade de explorar uma unidade temática através de várias formas de expressão e níveis de cultura. desde logo na concepção do espaço. Outro eixo estruturante da programação liga-se à polivalência do Teatro. Como já referimos.

confronto.Chá das 6: conversa com Francisco Camacho. .espaço destes propicia. da discussão. concerto de Domingo. cruzamento. A Libertação de Prometheus(música). Nascer da Noite: A canção alemã. partindo da peça Máquina Hamlet de Heiner Muller ou ainda. em menor dimensão. aleatoriamente. programa Chá das 6[859]: A propósito do jazz. Os reflexos deste espírito estão nitidamente patentes na programação. formação. etc. deve-se dar oportunidade às pessoas de fazerem mal. discussão. se almeja que cumpra um espírito de democratização cultural e onde a experimentação tenha um cunho de aprendizagem. versatilidade. ―Pretende-se que o Rivoli possa ser um centro de convívio. ciente. o mesmo acontece com a unidade teatro alemão. Inventão (teatro). Francisco Camacho. Muller. Repare-se como muitas das actividades se encontram articuladas. não deixa de assumir as suas vantagens: ―Eu gostava que o Rivoli fosse um Centro Cultural do Porto. Esta questão é indissociável da vocação municipal do teatro. já que o autor de Gust. por oposição ao status quo de um Teatro Nacional: ―Um teatro municipal é um espaço mais democrático. tem mais direito ao erro.. mas um centro cultural no sentido positivo do cruzamento.‖[856]. Máquina Hamlet (teatro). por ser um espaço mais democrático. O Rivoli.. do encontro. . A mesma directora artística. Ao olharmos. João devia ser um exemplo do melhor que se faz. do diálogo entre as várias expressões‖[855]. com a dança contemporânea. etc.. por exemplo). Não um centro comercial de cultura.Grande Auditório: Festival de Jazz.Café-concerto: programa Nascer da Noite[858]: club jazz. deparamos com a seguinte repartição: . Não só se pretende que atinja um público vasto. É um espaço que tem outra dinâmica. Fausto e Prometeu no Imaginário Ocidental(conferência). na medida em que tem de haver uma indicação mais fechada em relação à definição dos seus objectivos (. das acrescidas dificuldades desta polivalência. Gust (dança contemporânea). como. mais importante ainda. A unidade temática jazz reparte-se por vários espaços e iniciativas. Democrático no sentido nobre da palavra. etc. ciclo de vídeo H. participa igualmente na tertúlia. como há pouco vimos. Um Teatro Nacional é um espaço menos democrático. . Nascer da Noite: Frei Fado d'El Rei (música portuguesa). ali podem errar porque só assim aprendem‖[857].) o S. para um qualquer mês de actividade (Novembro de 1997. A directora artística define desta forma essa vocação intrínseca..Pequeno Auditório: Cinema e Jazz.

que vai da música clássica à música ligeira passando pelo jazz e pela dança contemporânea. uma vez mais. o Pequeno Auditório. Naturalmente que alguns espectáculos podem dar prejuízo. contempla os grandes concertos (embora se note aqui uma grande pluralidade. obrigando à definição rigorosa de critérios e prioridades. João e para o Coliseu) obriga a uma profunda articulação de programas. performances teatrais. numa lógica assumida de serviço público. a recente implantação e/ou recuperação no Porto de diversos pólos culturais (com especial destaque para o Teatro Nacional S. dadas as suas características físicas e simbólicas. a par de conferências. o Café-Concerto.Olhando para a programação que acompanhou a duração do trabalho de campo.. Dizia muitas vezes que esperava que nunca me dessem dinheiro suficiente para perder a imaginação necessária a criar formas de fazer capazes de vivacidade e não produtos institucionais (. música erudita contemporânea.. alberga peças de teatro que requerem menores recursos cénicos. acolhe espectáculos de magia. porque um teatro municipal depende de fundos municipais de municípios que não são ricos num país que não é rico‖[861]. na forma de um festival internacional). de longe o espaço com programação mais heteróclita. Outra importante consequência deste estatuto de Teatro Municipal ancora na assunção da natureza não-lucrativa (ou mesmo deficitária) do seu funcionamento. não só para. precisamente. Uma das formas de contornar custos económicos elevados e de fomentar a colaboração entre instituições culturais de perfil complementar é a realização de co-produções. Trata-se. torna-se igualmente patente a especialização de cada um dos espaços. rentabilizar recursos e fomentar intercâmbios. ciclos de vídeo e de cinema. Esta lógica de serviço público tem naturalmente consequências financeiras significativas. E de exercitar o espírito inventivo dos programadores: ―A minha experiência anterior do Festival de Marionetas habituou-me a trabalhar com pouco dinheiro e a tentar encontrar soluções interessantes e baratas. o foyer destina-se quase exclusivamente a exposições.. sem esquecer o teatro e o cinema. por seu lado. música de raiz trovadoresca. jazz.) Tivemos uma atenção quase política. Finalmente.‖[860]. de forma a optimizar recursos escassos. hip-hop. Aliás. bem como lançamento de revistas. tertúlias. etc. Como refere a vereadora da Animação da Cidade: ―A CulturPorto vai ser financiada pela Câmara precisamente porque presta um serviço público. O Grande Auditório. de delinear políticas.. mas igualmente tendo em vista eliminar formas .

é certo que prestará alguma atenção aos pedidos dos seus colegas do Rivoli.―negativas‖ de concorrência. Outro dos terrenos onde essas organizações investem cinge-se às actividades de animação cultural e de formação. no sentido de criar obras multiformes e de fronteira. As expectativas do campo cultural portuense. Razões de procura de fontes complementares de sobrevivência económica estão também na origem deste exercício da polivalência. Assim: – A maior parte das entidades (12 em 16) desenvolve outras iniciativas. Apesar do fraco índice de respostas. é-nos possível delinear um conjunto de conclusões que. mediando contactos e trazendo informação. bem como a representação que elaboram sobre o posicionamento virtual do Rivoli. frequentemente usada pelos produtores do Rivoli. Se um desses produtores mais afortunados tem a possibilidade de se deslocar amiúde ao estrangeiro para se inteirar das dinâmicas recentes do mercado internacional. . a magreza dos orçamentos não tem só consequências negativas e não é uma fatalidade incontornável. tendo em vista a obtenção de uma informação complementar que permita um conhecimento diversificado de novas propostas artísticas. uma das nossas abordagens exploratórias consistiu na auscultação às organizações culturais sediadas no Porto sobre as expectativas criadas perante a renovação do Rivoli. referente às estratégias metodológicas. a música e as artes plásticas). Tudo isto contribui. sacrificando a ideia de uma ―pureza‖ e linearidade originais[862].3. eventualmente mais abonadas. em utilizar redes informais de conhecimentos. Tal deve-se à vontade de colaboração inter-artística (juntando. 1. é bastante restrito e não se coaduna com a exibição. em nossa opinião. de certa forma. o teatro. perante a falta de verbas avultadas para as suas áreas. por exemplo. de produções de cariz semelhante. Como tivemos ocasião de esclarecer no capítulo IX. junto de produtores de outras instituições. Outra estratégia. para além da actividade principal a que se dedica. O próprio público. consiste. exprimem as posições ocupadas por essas instituições no campo cultural portuense. os audiovisuais. não o esqueçamos. em simultâneo. para criar dinâmicas de colaboração no interior de um campo habitualmente conflituoso e competitivo. Por outras palavras. o que de alguma forma confirma tendências recentes da produção cultural. os seus interesses específicos.

difusão e animação cultural citadina e metropolitana. aliás. debates. que dinamize o teatro infantil. recorrente. que contribua para a ―criação de hábitos culturais e de públicos regulares‖. que ―todo o espaço seja cultural: exposições de fotografia. não só a confiança de alguns dos principais agentes culturais na viabilidade do seu projecto. que seja um espaço gerido por ―pessoas inquietas e apaixonadas‖. teatro. etc. – um altíssimo nível de expectativas face ao ―novo‖ Rivoli. Uma das instituições inquiridas afirma mesmo a sua aspiração de que ―o Rivoli se torne um centro cultural digno. uma fortíssima carência de um equipamento com o perfil anteriormente delineado.. que tenha ―uma gestão moderna‖.– A maior parte optaria também por uma conciliação entre ruptura e continuidade (8 respostas em 16 possíveis) no funcionamento do Rivoli. Repare-se que do Rivoli se espera. Esta ideia de centro cultural e de pólo é. Que seja um pólo de atracção e de animação permanente‖. mas equipando simultaneamente o espaço com as melhores condições técnicas e com uma maior zona de trabalho para os artistas. que promova ―actividades regulares de atendimento ao público muito jovem‖. que a cidade não possui. que estimule ― a realização de exposições. nomeadamente pela possibilidade de maior abertura a múltiplas e heterogéneas formas de expressão. os orifícios e os buracos do teatro‖. que convide ―estudantes de pintura para mostrarem os seus trabalhos e dar-lhes a oportunidade de se tornarem jovens cenógrafos. tanto para espectáculos de bailado. sem dúvida. político. como ópera. que satisfaça. reuniões direccionadas para diferentes temas e áreas de interesse social. escultura. design. etc. que promova regularmente workshops e oficinas diversas. o que revela. inclusivamente para além do domínio das artes do espectáculo. As entidades que advogam a ruptura justificam-na pela inexistência anterior de um modelo de contornos precisos e pela degradação a que o espaço tinha chegado. ―ninhos de artistas‖. cultural. parece consensual a legitimidade atribuída ao Teatro Municipal enquanto entidade privilegiada de criação. à semelhança do que acontece com as empresas. etc. que acarinhe a abertura de uma Escola Municipal de Dança. que invista nas ―actividades multimedia e interactivas. – 12 destas instituições defendem a polivalência (no que se refere aos espaços. estético. simultaneamente. ético e artístico‖. . com especial destaque para todas quantas contribuam para o ―consumo activo‖ da cultura e da Arte. entre muitas outras funções. Por outras palavras. a par de uma diversificação das áreas de expressão cultural. pintura. ―gostos populares e eruditos‖. que crie. às actividades e aos públicos-alvo) e a multifuncionalidade do Rivoli. conferências.‖. ocupando os corredores. mas. igualmente. de forma a preservar uma certa memória e uma tradição de qualidade.

e em bar noctívago a partir do fim da noite e início da madrugada. os seus bares.. o Rivoli irá desiludir parcial ou totalmente alguns destes agentes. Propriedade. durante todo o dia. pela hora do jantar. uma noção relativamente recente de estetização do quotidiano e de alargamento sem precedentes do campo cultural. como pelos espectáculos que nele se realizam e que traduzem. com as suas inúmeras esplanadas. iluminada durante a noite. A definição de uma política pública a isso obriga. na altura do trabalho de campo. inerente a uma experimentação/negociação do seu lugar no campo cultural portuense. as suas praias.Em suma. transformando-se em restaurante. Aliás. A nossa análise centrar-se-á neste último (e primeiro. este espaço comercial possui também alguma polivalência. Antecâmara de outras saídas. espaço . A esplanada da Praia da Luz. por exemplo. para utilizarmos uma expressão cara a Goffman: a esplanada. quando questionados sobre as suas aspirações face ao Rivoli remodelado.. e o café-restaurante-bar. os agentes culturais deixam transparecer a lógica sectorial dos seus interesses e a singularidade do seu posicionamento no campo cultural. quase nunca manifestam consciência dos constrangimentos e condicionantes a que um equipamento desta natureza está inevitavelmente sujeito. 2. o estabelecimento Bar da Praia da Luz funciona como palco privilegiado de uma certa cultura mundana e cosmopolita. as reais potencialidades de um teatro municipal. comerciais e atrofiantes (quando não clientelistas) da pseudo-gestão nacional da cultura‖. muitas delas. 2. no seu exagero de expectativas. outros insistem na rejeição das ―formas funcionalistas. não só por nele se concentrar de forma extremamente visível uma certa ética de apresentação e encenação social. com o decorrer do tempo e a concretização/actualização do seu projecto (com todas as prioridades. Enquanto que uns. No limite. Uma certa cultura mundana. de um empresário ligado à animação comercial nocturna. O que significa que. zona de lazer por excelência. trata-se de visões inconciliáveis e que transcendem. espécie de anfiteatro sobre a praia. servindo de café e esplanada. colocam a ênfase num tipo de gestão de rigor tecnocrata. o espaço Bar da Praia da Luz caracteriza-se pelas suas duas ―regiões‖.1.) período do dia. Situado na Foz. como veremos. inclusões e exclusões que contempla).

uma casa comercial. ao mesmo tempo. na Praia da Luz assiste-se a uma combinação de um cenário de interacção. O sentimento de deslocalização (ou descontextualização. por uma sucessão de imagens. Em qualquer outro lugar do mundo aquelas imagens seriam visíveis. com esse não-lugar das imagens televisivas. Esse sentimento traduz a emergência da separação. apesar de mais recatado. de certa forma. embora apropriadas de forma plural. indiscutivelmente. aprofundar esta ideia. duas filas de écrans de televisão penduradas no tecto de forma a poderem ser vistos por todos os clientes. O seu interior. Como nos referiu um gerente de um conhecido e moderno estabelecimento nocturno do Porto: ―Há lugares que pretendem estar na moda e nunca conseguem estar (. traduzindo uma determinada ―cultura social‖ e uma específica ―experiência social da visão‖[865]. mais adiante. aumentava o seu ritmo vertiginoso.. assim o pensamos. vazio. A programação desses écrans era constituída.) locais onde se muda o ambiente. as imagens sucediam-se em silêncio. algumas delas extremamente bizarras.fantasmagórico. os requisitos postulados por Marc Augé para a sua existência[864]). na altura. extremamente associada à ―euforia da alta tecnologia‖ e à celebração da ―versão tecnológica do pós-modernismo‖[866]. o seu principal objectivo. O estabelecimento da Praia da Luz é. antes de mais. entre o espaço e o lugar.2. um lugar (identitário. com o terceiro paradigma da ―teoria da visão‖ explicitado por Jameson. quase invariavelmente. ali bem visível. deslocalizado. tornam o ambiente em algo que não tem nada . A programação: uma ilustração da expansão do campo cultural. ostenta uma decoração mínima e sóbria. Tentaremos. uma ―superabundância de imagens‖ que elimina a reflexividade. Como refere Jameson. este novo paradigma da visão social ―significa uma mais completa estetização da realidade que é também. abundantemente forrado de madeira. A sua colocação ali não é inocente.. uma visualização ou colocação em imagem mais completa dessa mesma realidade‖[867]. embora com amplas vidraças sobre a paisagem marítima. o que. relacional e histórico. inseridas em vídeo-clips de uma estação internacional de televisão exclusivamente consagrada à música pop-rock. ver e ser visto com facilidade. possibilitando. na acepção de Giddens[863]) era acentuado pela ausência de volume. ao analisarmos as formas sociais de apresentação dominantes na Praia da Luz. Dito de outra forma.rectangular coberto. A rentabilidade é. 2. lavam a cara. Sobressaíam. De facto. Ela articula-se.

Como acentua Jameson. evidentemente.a ver. não sabem aproveitar ou gerem mal ou fazem daquilo um clube de amigos e para isso não dá. por uma ligação estreita com os cenários lúdicos da noite e por uma predominância do jogo e do gosto visuais. as Elektra Nights. decorar a casa com papel branco e apostar no jogo de luzes. Surpreender um público vacinado contra a novidade pela constante exposição à mesma. Durante o período de duração do trabalho de campo assistimos à noite Dry Martini & Lounge Music. de longe a iniciativa mais fulgurante. onde estes fazem as festas. Fazemos festas completamente loucas e fora de tudo.. apelidada por Jameson de ―tendência cultural dominante‖[868]. . ilustra bem o novo espírito das franjas recém-incorporadas no campo cultural (moda. de um segmento peculiar do campo cultural. ―é o próprio visual que abstrai esses públicos dos seus contextos sociais imediatos‖[872].): como declarou um dos responsáveis da escola de formação de modelos e manequins que organizou um dos dois desfiles a que assistimos (onde participaram os finalistas dos primeiros cursos)..) Este ano a nossa festa de Carnaval marcou o Porto pela diversidade dos temas e pela forma como foi feito. marcado pelas novas tecnologias (veículo e estrutura de sentido). ―o mundo da moda funciona como qualquer outra empresa‖[871]. tentamos recriar o salão nobre dos bombeiros. igualmente com DJ's convidados (um deles vindo do estrangeiro)[870]. A programação da Praia da Luz enquadra-se no movimento de estetização do quotidiano. a começar pela panóplia de meios utilizados. Trata-se. a noite ADN. como se entre ambos houvesse uma implícita transacção — a bebida culturaliza-se e a música mercantiliza-se[869]). Mas dela depende a sobrevivência económica dos espaços comerciais de animação nocturna. uma passagem de modelos. mexer com as pessoas (. Uma das estratégias consiste na invenção de ocasiões. programa mais vasto que abarcou dois meses e que incluía Live Performances. A passagem de modelos. não é tarefa fácil. A noite é muito cara. Até metemos lá dentro um carro dos bombeiros!‖.. dar um ambiente diferente. Começou com um baile dos bombeiros. com dois Dj's convidados (atente-se na íntima associação entre um produto comercial alcoólico e um género musical. design. arranjar festas com patrocínios. pelo efémero. tem de se facturar‖.. correlativo da expansão e flexibilização de fronteiras do campo cultural. lançamento de livros. DJ's convidados e ainda uma Scrooge Night Party. numa espiral interminável de busca da novidade:―Todos os dias temos de pensar em coisas diferentes para trazer cá as pessoas. ao qual os próprios aderiram a 100%. publicidade.

denuncia a ambição dos seus responsáveis: ser um clube de jazz. B Flat: um clube de jazz? 3. toda a gente quando me vê. durante o período em que decorreu o trabalho de campo. possuem larga experiência de trabalho e de contactos neste subcampo artístico. o B Flat reivindica. embora no restrito círculo dos conhecedores: ―Lá fora — no «milieu». Um deles fala-nos mesmo. O piano e todo o esquema de iluminação dão indícios do que à noite se passa. E não por dinheiro — eu trabalhava na Ópera de Paris. em grande parte. rodeado de uma certa aura romântica e desinteressada: ―Vim para Portugal porque em França as pessoas já não se interessam por certos valores. o suporte de uma centralidade cultural no concelho através do jazz. garante sempre a oportunidade de se assistir a música ao vivo.3. um subsídio à criação e difusão artísticas. indirectamente. de nacionalidade francesa. Um francês em Portugal. nos colóquios em que eu participo me pergunta logo pelo B Flat. sobressaindo desde então na noite de Matosinhos pela sua permanente e diversificada oferta neste género musical.. Esta apoiou durante todo o ano os dois clubes de jazz do concelho (e da Área Metropolitana do Porto).. Neste âmbito. no entanto. o B Flat parecia viver algumas dificuldades financeiras. do reconhecimento internacional que o B Flat obtém. O B Flat jazz club nasceu em 1994. Situado em pleno coração da cidade de Matosinhos. Temos o e-mail cheio de mensagens de artistas que querem vir cá tocar‖. No discurso deste fundador. a escassos metros da Câmara Municipal. com indisfarçado orgulho. porque aqui. o B Flat é um projecto artístico. como justificação. na medida em que . não no «povo» — toda a gente conhece o B Flat.‖. Os seus proprietários. oriundas. Mas parece-me que vou ter de continuar a procurar esses valores. A cave reconfigurada. de uma relação sinuosa com a autarquia local.1. num lugar muito bem remunerado. Aberto apenas de Quinta-feira a Domingo. uma projecção que em muito ultrapassa os estreitos limites concelhios. que serve de bar e sala de espectáculos. As cadeiras de veludo e as mesas baixas sucedem-se até ao palco. De facto. assumindo. surgiram dois programas: O Jazz desce à cidade e O jazz desce à escola. Com o primeiro apoiava-se a oferta permanente dejazz ao vivo nos dois bares (o que acaba por constituir.

E agora não há dinheiro para o B Flat!‖. depois do último festival: ―Com o Festival a Câmara gastou todo o dinheiro que tinha para o jazz. quanto à menor qualidade dos grupos que vêm ao B Flat. A fasquia subiu muito alto com o festival. três critérios fundamentais: a prioridade aos novos valores (uma vez mais a função de suporte de um clube de jazz). A opinião da autarquia é divergente. Se calhar é verdade. é um clube de jazz‖. explica. realizado no grande auditório da Exponor (com capacidade para duas mil pessoas) com a presença de grandes nomes do jazznacional e internacional. de um ―bilhete‖ de 500 escudos: quem quiser assiste apenas ao espectáculo — razão de ser do estabelecimento — e não bebe nada. O B Flat. a par de um pequeno concerto comentado. ―não é um bar. quebra-se a lógica do mercado assistido e.. Alguns responsáveis por nós contactados referem o carácter comercial do estabelecimento para limitarem o apoio financeiro. Se houvesse espectáculos com grupos consagrados os bilhetes poderiam a subir a ??? dois mil escudos e a audiência poderia ser de mil pessoas. aliás. gera-se uma inevitável degradação na qualidade da oferta: ―Ultimamente têm surgido críticas. que justifica o pagamento. com o segundo pretendia-se uma formação contínua de públicos. Isso dava dois mil contos só numa noite‖. em especial no que se refere à drástica diminuição sentida nos apoios concedidos. Se eu apostasse nos consagrados. mediático mas efémero. ainda segundo o proprietário. É nessa linha. de acordo com os responsáveis. mas isso acontece depois do festival. Foi um acontecimento gigantesco. E agora há dificuldades financeiras. O já citado proprietário do B Flat revela-se descontente com a estrutura e as intenções subjacentes a este projecto. Mas eu opto por ajudar os grupos mais jovens. No que se refere à programação. existem. Mas esse epíteto — ―comercial‖ — é liminarmente rejeitado pelo nosso interlocutor. Desta forma. conteúdos sobre a história do jazz e da pluralidade dos seus géneros. O culminar destas dois programas consistia num festival de grandes dimensões. as dificuldades económicas não seriam problema.. extra-consumo. nomeadamente na imprensa. .cria uma lógica de mercado assistido para o jazz). através da deslocação às escolas do concelho de bandas de jazz com o intuito de fornecer. pedagogicamente.

. inquéritos. que ficaram pelos anos 50 — veja-se o caso do Hot Club — . de novo. não só pelas excelentes condições técnicas de que dispõe (―Posso dizer com conhecimento de causa que o B Flat está melhor apetrechado do que qualquer dos clubes de jazz de Paris!‖). as práticas culturais que estudámos merecem o epíteto de ―nocturnas‖. Aliás. deambulações etnográficas.. ―A noite é liberdade‖ (Das entrevistas) ―A noite traz no (Ivan Lins) rosto sinais de quem tem chorado demais‖ O nosso trabalho de campo (entrevistas. se for preciso volto a ser intérprete num grupo de jazz‖. como pela actualidade da programação (―ao contrário da maior parte dos conhecedores portugueses de jazz. os responsáveis enfatizam a singularidade do B Flat no panorama do jazz português.) e a combinação tradição/inovação[873]. herética face aos critérios de legitimação do subcampo cultural em questão[874]: ―Se isto não der. etc. O que vem colocar a ênfase. na faceta propriamente artística do local (uma sala de espectáculos).) desenrolou-se sempre durante a noite. 4. através da apresentação de vários tipos de jazz (de vanguarda — experimental -. vendo isto e vou-me embora. de ―mestiçagem‖ — mistura com ritmos latinos e africanos. Mas que significados associam os praticantes culturais à ―cultura de saídas‖ noctívaga? Que representações possuem desses espaços-tempos de tonalidades tão ambíguas (a noite do medo e da insegurança versus a noite das ocasiões de ―reencantamento‖ do mundo)? A análise das entrevistas fornece-nos alguns contornos de um interessante campo semântico. na maior parte dos casos a partir das 22 horas e algumas vezes até às duas ou três horas da madrugada. omitindo a dimensão comercial (um bar). nós procuramos estar na vanguarda‖). ―clássico‖. o intercâmbio internacional. conversas informais.. As ―vozes‖ da noite. se deixar de ter prazer no que faço.- o ecletismo. Por isso.

Cinema . Esplanadas . Em suma. Ribeira . Nas palavras de uma entrevistada:―faltam locais onde se vá sem ter uma ideia predestinada. eu gostava que houvesse zonas onde eu pudesse . Centros comerciais Nota: (*) — Número de ocorrências 40 22 7 6 14 4 2 11 27 5 3 2 5 (*) A noite do Porto tem os seus territórios próprios. Com menor frequência. Discotecas . as salas de espectáculos.. Como se constata pelo quadro anterior. B Flat ..4. uma acentuada restrição territorial. Concertos . como refere um dos nossos entrevistados). Os lugares da noite. Sabendo-se que estas actividades se concentram em alguns — poucos — pólos de animação. Teatro . Casa de amigos . zona industrial paralela à Via Rápida e os grandes centros comerciais das salas multiplex (o ―cinema pipoca‖. Foz. Jantar fora . Bares . é-nos possível traçar o mapa noctívago da cidade: zona da Ribeira. ao cinema e a discotecas. Cafés .1. consentânea com a especialização de certas áreas da cidade nos lazeres nocturnos e um leque aparentemente pouco diversificado de práticas. há uma nítida preferência por três tipos de práticas: ir a bares. Foz . Quadro XX — Lugares associados a ―sair à noite‖ .

um nariz que cheira‖[875].. sem ter que decidir logo à partida onde quero ir. 29 anos. uma voz.entrar num bar. advogada) Restrições que. dorminhoco embrutecido.. gostava que fosse mais livre a escolha. A noite e os seus ―paradoxos‖.2. tipo mapa. mudo. Que discursos suscita a noite? O que se revela e o que se oculta nessas narrativas? 4. ectoplasma do vivo. sexo feminino.. O homem da noite reencontra um sexo. sem contacto. Quadro XXI — Significados associados a ―sair à noite‖ . noutro e noutro.‖ (B Flat. um robot. descrita nos seguintes termos por Anne Cauquelin: ―O homem do dia é um fantasma. desde logo. uma mão que apalpa.. contrariam a tão propagada representação romântica da noite exo-domiciliar como lugar privilegiado do exercício de uma liberdade plena.

. Diversão/Distracção . Quebrar a rotina . Descansar . Conviver/sair com os amigos . Conhecer pessoas novas .Comunicar de forma mais aberta e autêntica . Liberdade . Fazer coisas diferentes . Ouvir música . Ribeira . Foz . Bares . Discotecas . Insegurança . Pouca diversidade

16 11 6 16 2 4 6 4 4 4 2 3 2 2 10 (*)

Nota: (*): Número de ocorrências.

Anne Cauquelin afirma que ―a noite não é nudez: ela veste-se, pinta-se, perfuma-se‖[876]. Nós acrescentaríamos que a noite também tem uma voz, um discurso, uma narrativa. Plurais e polifónicos. Atente-se no quadro anterior. Há uma série de significados que nos remetem, simultaneamente, para uma noção de continuidade e ruptura face ao dia. De facto, quando se refere ―Quebrar a rotina‖,―descansar/descontrair‖ ou mesmo ―Fazer coisas diferentes‖, somos aparentemente levados a acentuar o lado da ruptura. Aliás, grande parte da mitologia da noite passa por esse eixo de ―quebra‖, ou ―cisão‖ redentora. No entanto, essa mesma ruptura é, para uma boa parte dos entrevistados, indissociável da estrutura do dia. De facto, a face diurna aparece claramente associada à

actividade produtiva e ao desgaste por ela provocado. Desta forma, a noite surge como oportunidade de compensação e de recuperação de energias. Neste sentido, torna-se difícil manter a ideia de uma absoluta ruptura ou de uma ―pureza‖ original entre os dois períodos, noite e dia: ―Sair à noite é para desanuviar do dia, quebrar a rotina‖ (Praia da Luz; sexo masculino; 19 anos; estudante); ―descansar do stress do dia‖ (B Flat; sexo masculino; 25 anos; estudante); ―quebrar a rotina do quotidiano, quebrar a rotina para espairecer‖ (B Flat; sexo feminino; 16 anos; estudante); ―é aquela quebra em relação ao trabalho‖ (B Flat; sexo feminino; 17 anos, estudante); ―descontrair ao fim de uma semana de estudo‖ (Rivoli; sexo masculino, 20 anos; estudante); ―é aliviar de uma semana de rotina de aulas‖ (Rivoli; sexo masculino; 17 anos; estudante); ―eu já não estudo, por isso para mim sair à noite é muito importante para manter a minha jovialidade‖ (Rivoli; sexo feminino; 19 anos; estudante); ―distrair do dia-a-dia‖ (Praia da Luz; sexo masculino; 25 anos; professor); ―A noite transmite uma certa paz, de dia é muito agitado‖ (Praia da Luz; sexo feminino; 24 anos, vendedora). Muitos tendem a ver nesta ―compensação‖ uma funcionalidade propícia ao modo de produção capitalista: trata-se, afinal, de recuperar a força de trabalho... Nesta óptica, as saídas nocturnas só serão compreensíveis por referência à esfera laboral. Os lazeres noctívagos aparecem, então, como expressão alienada de uma ilusão, a de transgredir a ordem estabelecida. Como refere Anne Cauquelin, essas ―transgressões‖ não se colocam no plano da subversão das normas e das barreiras sociais, mas sim no seu permanente restabelecimento. De dia, ao acordar, a experiência da noite anterior dilui-se nas exigências de um novo dia... Claro está que toda esta linha explicativa, nas suas diferentes nuances, desemboca na impossibilidade de conceber uma acção (relativamente) autónoma dos agentes. No entanto, tal como anteriormente defendemos[877], não podemos esquecer a capacidade de produção de novos significados permanentemente associada à acção social. As práticas quotidianas não são uma mera reprodução da ―engrenagem‖ social mais vasta. Tal não significa, no entanto, que aceitemos sem distanciamento crítico

todas as representações mitológicas da noite, aquelas que, por definição, seriam um discurso que se explica a si mesmo e que estão implícitas nos fragmentos seguintes: ―A noite é liberdade‖ (Praia da Luz; sexo feminino; 19 anos; estudante) ―As pessoas são muito mais abertas à noite‖ (Praia da Luz; sexo feminino; 27 anos; técnica de informática industrial); ―O pessoal à noite solta-se mais, bebe uns copos, é mais porreiro do que de dia‖ (Rivoli; sexo masculino; 23 anos; estudante); ―fazemos o que nos apetece‖ (Rivoli; sexo masculino; 20 anos; formando de um curso profissional); ―à noite as pessoas são diferentes‖ (Rivoli; sexo feminino; 28 anos; professora); ―a noite para mim é tudo‖ (Rivoli; sexo feminino; 23 anos; estudante); ―permite fazer o que não é possível durante o dia‖ (Rivoli; sexo masculino; 25 anos; designer); ―de noite as pessoas estão muito mais desinibidas, aquele stress do dia desaparece e as pessoas ficam mais saudáveis‖ (Praia da Luz; sexo masculino; 33 anos; jornalista); ― a cidade à noite , acho que é uma das mais belas da Europa... é antiga, então tem toda uma atmosfera muito romântica, todo o século dezanove... o rio e o mar‖ (B Flat; sexo feminino; 29 anos; advogada); ―para mim a noite é luz‖ (Rivoli; sexo feminino, 23 anos; estudante). A noite é luz. Metáfora poética enunciadora de todo um discurso de aura que cobre, diáfana, a realidade das práticas nocturnas. Esquece, por exemplo, que a noite, para os que estão do ―outro lado‖ (por vezes a escassos metros — do outro lado do balcão...) se reveste de outra tonalidade. Como nos referiu um gerente de um estabelecimento nocturno, ―a noite é cara‖ e surge para muitos como oportunidade de emprego e fonte de hierarquias: ―... arrumadores de automóveis que são nossos, não são espontâneos, são pagos por nós, até aos apanha-copos, que têm um trabalho menor (apanham copos, trazem gelo), até ao pessoal dos bengaleiros e às pessoas dos bares que não são empregados directos, porque são pagos por quem explora os bares. Contamos também com um responsável pelas relações públicas, o DJ, o gerente, as pessoas dos transportes (temos também uma carrinha para levar a casa quem já não está em muito bom estado...) e temos duas pessoas que são chamadas de arrumadores e que servem para tratar de por

na rua quem não se porta bem. Já não existem seguranças, neste momento a nossa segurança é a polícia‖. Repare-se como todo este vocabulário nos reenvia para um campo diferente. Desde as referências a um sistema de divisão do trabalho, até à presença de agentes de dissuasão, cujo principal objectivo é zelar pela ordem estabelecida, sem esquecer os representantes da vigilância oficial — a polícia. Anne Cauquelin, numa linha foucaultiana, realça esta última presença com especial ênfase. Não só a luz que ilumina à noite a grande urbe permite preservar a memória da cidade diurna e dos seus códigos normalizadores, hierarquizando, ao mesmo tempo, o espaço urbano (os locais iluminados, lisíveis, são os locais disponíveis, os únicos que existem) como sinalizar e localizar os comportamentos desviantes: ―o olhar deve poder ver tudo‖[878]; ―toda a miséria fica apagada, toda a vergonha escondida‖[879]. Mas os próprios agentes sociais identificam o ―outro lado‖ da noite. Nessas ocasiões, omitem-se as referências à liberdade de acção e mencionam-se os constrangimentos: Quadro XXII — Obstáculos associados a sair à noite .Falta de dinheiro .Falta de vontade/preferência por ficar em casa .Falta de companhia .Falta de tempo .Insegurança/mau ambiente .Os pais .Os filhos pequenos .Os poucos transportes/não ter carro .Ter de trabalhar/estudar no dia seguinte .O cansaço . Não há obstáculos 24 11 8 2 7 10 2 7 18 5 9 (*)
Nota: (*) — Número de ocorrências

Como se pode verificar pelo quadro anterior, a principal dificuldade em sair à noite reside na falta de disponibilidade financeira, o que nos remete, de forma pelo menos implícita, ou para a situação de dependência dos entrevistados (muitos deles estudantes), ou para factores como o seu capital económico, o que se relaciona, por sua

vez, com níveis de escolaridade, de qualificação, de autoridade, etc., ou ainda com eventuais atitudes de poupança (motivadas, por exemplo, pela consciência de elementos de imprevisibilidade no futuro virtual — admitamos a instabilidade no vínculo contratual) ou de subalternização das actividades lúdicas e culturais. Por outro lado, o mundo diurno — do trabalho e/ou do estudo — surge explicitamente como a segunda maior dificuldade do sair à noite. Necessidade de recuperar a força de trabalho despendida, ou os seus reflexos(―cansaço‖, ―falta de tempo‖, ―falta de vontade‖...). De novo, ambas as faces da moeda indissociavelmente ligadas. Outros constrangimentos afloram na análise deste quadro. O receio das ―patologias urbanas‖ (sentimento de insegurança ); a dificuldade de mobilidade na cidade à noite; obstáculos associadas a condições sociais específicas (no caso da juventude, o prolongamento da escolaridade e o retardamento de entrada na vida adulta, com a consequente dependência face à família; no caso dos jovens casais, os filhos pequenos) e ainda a subordinação das saídas a redes de sociabilidade mais ou menos estruturadas: ―A cidade à noite tem vários perigos, roubos, violações, é preciso ter cuidado...‖ (Rivoli; sexo masculino; 37 anos; publicitário); ―a cidade, a maneira como está estruturada para um nível etário até aos 30 anos, é bastante negativa, condiciona muito a liberdade de escolha das pessoas... em Espanha não é como aqui, não há a preocupação se a pessoa está bem ou mal vestida, não há aquele cartão, as pessoas da noite estão ali para servir as outras e não para ditar um status‖ (Praia da Luz; sexo masculino; 29 anos; estudante); ―o Porto tem uma noite muito cara‖ (Praia da Luz, sexo masculino; 30 anos; oficial do exército); ―a noite do Porto é elitista‖ (B Flat; sexo masculino; 43 anos; professor); ―só é pena os transportes colectivos serem poucos‖ (Rivoli; sexo masculino; 24 anos; estudante); ―... há as violações, os roubos e também a preocupação dos nossos pais quando vamos sair, as horas a que chegamos‖ (Rivoli; sexo feminino; 17 anos; estudante); ―por eu ser rapariga os pais não dão muita liberdade e depois há os problemas da escola, estamos cansados e não apetece fazer mais nada‖ (Rivoli, sexo feminino; 17 anos; estudante); ―não arranjar companhia, eu às vezes posso sair mas os outros não podem e eu então não saio‖(Rivoli; sexo feminino; 27 anos; publicitária);

―não ter carta de condução e carro, não ter dinheiro, morar longe das pessoas e ter de me levantar cedo‖ (Rivoli, sexo masculino; 20 anos; formando de um curso profissional). Aos poucos, outras realidades saem da sombra. A aparente diversidade da oferta de lazer é contrariada por discursos que denunciam uma ausência de alternativas, homogeneizadas no seu conteúdo substantivo, apesar de diferentes no ―invólucro‖. Por vezes, os circuitos nocturnos traduzem ―a passagem do idêntico ao idêntico‖[880]. Mas daí advém um outro mito: a noite do Porto está ―atrasada‖ em relação a outros lugares. A ―verdadeira‖ noite situa-se algures, em Lisboa ou Espanha: ―em termos de noite, o Porto deixa um bocado a desejar... há muito pouca coisa, em especial quando comparado com Lisboa‖ ( B Flat; sexo feminino; 29 anos; especialista de marchandising); ―acho a noite muito desinteressante, a noite está muito confusa, as pessoas saem porque não têm mais que fazer e por isso ao fim de quatro noites já estamos fartos... há falta de alternativa, é tudo muito igual‖ (B Flat; sexo masculino; 46 anos; médico) ―acho que o Porto à noite é muito igual, são sempre as mesmas pessoas, as mesmas conversas‖(Praia da Luz; sexo feminino; 19 anos; estudante); ―o Porto está cada vez mais igual. Gosto imenso da noite de Lisboa‖ (Praia da Luz; sexo feminino; 18 anos; estudante); ―Não acontece nada... é sempre o mesmo rame-rame, a mesma situação, divirto-me com as mesmas pessoas, a música é sempre a mesma, há falta de oferta, é horroroso...‖ (Rivoli; sexo masculino; 24 anos; estudante). No entanto, noctívagos de fora da cidade enaltecem as qualidades do burgo: ―o Porto à noite é muito interessante, por isso é que moro a 40 Km daqui e venho para cá. É tudo diferente, a vida na nossa terrinha é muito pacata, limita-se a ser sempre a mesma coisa, é muito banal‖(Praia da Luz; sexo feminino; 21 anos; estudante). Há mesmo quem não se incomode com a falta de diversidade: ―o Porto à noite é muito giro, é igual a todo o lado‖ (Praia da Luz; sexo masculino; 24 anos; chefe de cozinha);

―o Porto à noite é uma cidade muito bonita, menos movimentada do que Lisboa, as pessoas saem menos do que em Lisboa. O Porto é mais íntimo, mais acolhedor‖ (Praia da Luz; sexo feminino; 25 anos; professora). É certo que as interpretações são ambivalentes. Para ao arautos da pós-modernidade, ou mesmo para um defensor da modernidade tardia e radical, como Giddens, a possibilidade de escolha múltipla é uma realidade contemporânea e o desdobramento de escolhas uma consequência do acréscimo de reflexividade dos agentes[881]. No entanto, como outros autores salientam, ―se as escolhas aumentam, os elementos a escolher tornam-se, eles próprios, idênticos para todos (...) ao mesmo tempo que os objectos se multiplicam, a industrialização e a estandardização parecem ganhar muitos domínios e uniformizar as cidades e a vida quotidiana (...) Por um lado, a gama das escolhas alarga-se; por outro, as escolhas propostas parecem irrisórias‖[882]. Mas também no domínio das sociabilidades deparamos com paradoxos. De facto, podemos considerar, seguindo Giddens, que a busca de autenticidade, supostamente mais presente nas interacções nocturnas (―Á noite as pessoas estão mais desinibidas... ficam mais saudáveis...‖), é, enquanto processo de recontextualização, uma reacção à impessoalidade dos sistemas abstractos onde não há amigos mas sim ―conhecidos‖ ou ―colegas‖, alguém que nos é imposto pela participação num determinado cenário de interacção. As práticas culturais nocturnas seriam um contexto favorável ao processo de busca de identidade através do auto-desvendamento dos agentes e da abertura ao outro. Mas não será esse, precisamente, um requisito de manutenção da ―ordem diurna‖? O contraponto necessário à estranheza de um sistema onde ―o impessoal submerge cada vez mais o pessoal‖[883]? Por outro lado, esta procura de autenticidade nas relações sociais parece contrariar a tese de Simmel segundo a qual a atitude blasé, de reserva e distanciamento perante os outros habitantes da metrópole é um requisito necessário para a manutenção de uma esfera de liberdade[884]. As entrevistas mostram de forma clara uma associação entre a liberdade que a noite confere (emancipando as pessoas face aos constrangimentos ―diurnos‖) e a possibilidade de uma sociabilidade mais íntima e transparente. Claro que a tese de Simmel se desenvolve tendo em conta uma determinada evolução do subsistema económico capitalista (o novo papel da técnica, o calculismo, a economia monetária) e , nesse aspecto, adequa-se preferencialmente ao espírito ―diurno‖.

Em suma, noite e dia, produção e consumo, norma e transgressão, constrangimento e liberdade, distanciamento e proximidade, eu individual e eu social devem ser vistos como pólos relacionais, em permanente tensão. Se a noite e o dia estão indissociavelmente ligados, como irmãos gémeos de temperamentos diferentes, tal não desemboca na impossibilidade de os contextos noctívagos propiciarem ocasiões autónomas de produção de sentido, marcadas por rituais específicos e por uma criatividade mais ou menos generalizada ou por momentos de autêntica recomposição identitária. Não podemos, no entanto, caucionar a tese de que a noite exo-domiciliar é um palco autónomo, isento de constrangimentos, libertador e irruptivo por excelência. Lugar de heterogeneidade, ela é um contexto da variedade das práticas citadinas nas microssituações mais diversas‖[885]. Talvez o conceito de heterotopia de Foucault nos forneça algumas pistas ao sugerir a coexistência justaposta de uma grande multiplicidade de ―mundos possíveis‖, por vezes mesmo incongruentes. Mas isso não significa, necessariamente, mergulhar na visão caótica, tão do agrado de certa pós-modernidade, do ―hipermercado dos modos de vida‖[886], ou, dito de outra forma, da total desregulação, dispersão e indeterminação dos comportamentos e valores sociais.

CAPÍTULO XI DOS PÚBLICOS, DA CULTURA E DAS SUAS PRÁTICAS 1. Caracterização genérica. 1.1. Uma ―cultura jovem‖? Uma das nossas principais preocupações, no tratamento quantitativo da informação recolhida e seleccionada, consistiu em aplicarmos, sempre que possível, a panóplia de testes estatísticos disponíveis. Assim o fizemos com grande parte dos cruzamentos efectuados com a variável idade, como de resto se verifica pelo quadroXXIII.

Quadro XXIII - Variáveis correlacionadas com a idade
Variáveis Correlacionadas Práticas Domésticas de Abandono Práticas Receptivas Semi-Públicas Cinema – Consagrados Clássicos Cinema – Não Consagrados Música1 Grau de Correlação com a Variável Idade 0,146** 0,195** 0,355** -0,227** 0,367**

fruto de um processo relativamente recente de expansão do sistema de ensino português. a maior disponibilidade associada à condição social juvenil e que encontra suporte em factores como o já referido prolongamento da escolaridade (associada a uma tendência de progressiva inclusão escolar de um grande número de jovens.7%) 63.101* * Correlação significante para P <0.1 21-30 N=262 (50. Quadro XXIV .6 31-40 N=89 (17.7 Mais de 40 N=92 (17. 65.374** Música3 -1. mesmo quando se dissimulam formas mais subtis de selecção[887]). designadamente quando associam a cultura de saídas a uma forte componente juvenil.0%) 5.1 ** Correlação significante para P <0.135** Práticas Expressivas Semi-Públicas 0.4 3.3 1.9 9.3 1.133** Práticas Associativas Criativas 0.1 Vários factores podem explicar articuladamente esta situação.3%) 7.4 17. os maiores níveis de escolaridade (como adiante teremos ocasião de comprovar) das gerações mais novas.01 Ao observarmos o Quadro XXIV constatamos que existe uma acentuadíssima juvenilização na amostra obtida. ao observarmos o mesmo .Estado civil por escalões etários Escalões Etários Até 20 N=78 (15.1% dos inquiridos não têm mais do que 30 anos o que vem comprovar análises anteriores sobre práticas culturais.182** Espaço Doméstico 0.Música2 -0.324** Práticas Receptivas e Informativas de Públicos Cultivados -0.0 1.9 15.1 40. De facto.3%) Divorciado N=21 (4. Aliás.0 Estado Civil Casado N=120 (23.153** Passeexp 0. a entrada cada vez mais morosa no mercado de trabalho. Por outro lado.128** Práticas Eruditas Criativas 0.9%) 93.1%) 42.8%) União de Facto N=15 (2. a par de uma fecundidade mais tardia.4 7. com a consequente dilatação do chamado ―período de moratória‖ e o aumento da idade média do casamento.0%) Viúvo N=15 (0. Por um lado.6 90.0%) Solteiro N=361 (69.2 0.

ligados aos serviços. são os mais jovens (no escalão até aos 20 anos) quem mais adere às práticas domésticas . ao contrário do que se poderia esperar. verificamos que a esmagadora maioria destes jovens são ainda solteiros. Esta maior disponibilidade dos jovens traduz-se em acrescida visibilidade pública. nos processos de estetização do quotidiano e de modelação de estilos de vida). Hollands. consumo cultural e construção e significado social do espaço urbano‖[894]. no seguimento desta crítica. mesmo nos segmentos pós-industriais. embora estejam longe da ideia do estereótipo do―viver gratuito‖. o declínio das formas tradicionais de transição para o trabalho (como refere Hollands. que. de forma ―explosiva‖. acumulam factores de propensão a uma maior disponibilidade cultural preservando dimensões de autonomia[888]. Pelo contrário. aprisionarem os jovens nessa mesma ―passagem‖[890]. os ―ritos de passagem‖ tendem a ser cada vez mais prolongados) abre caminho a que a esfera do consumo e a vivência urbana surjam como espaços alternativos de recomposição identitária. Ao procurarmos analisar a relação entre a idade e uma série de práticas culturais. ―é o único viver sério quando se é jovem.quadro. a esfera de construção das identidades tende a transferir-se progressivamente para o campo simbólico (patente. como alguns teóricos da pós-modernidade (veja-se o exemplo de Baudrillard). ―que o factor classe surge como questão do passado‖ e que as ―identidades relacionadas com a casa e o trabalho são esmagadas por um verdadeiro carrossel de consumos culturais (desprovido de qualquer componente económica‖[893]. Não se defende. flexível e precária no mercado de trabalho. pouca propícias à formação de identidades sólidas e em espaços-tempos precários e provisórios. Como salienta Robert G. Assim. O próprio tecido social adopta referenciais simbólicos comuns à imagem dominante de juventude. Por outro lado. rectificações de trajectórias e períodos de experimentação[892]). ser-se jovem na contemporaneidade implica um esforço de constante adaptação a situações de contornos imprecisos. segundo Enrique Gil Calvo. Como refere Mike Featherstone. Por outras palavras. verificamos. ―existe de facto alguma evidência de que os estilos e estilos de vida juvenis estão a galgar a escala etária‖[891]. pelo seu prolongamento. na medida em que se verifica uma certa dissociação entre os modos de vida juvenis e o mundo do trabalho (à já referida dilatação do período de moratória acresce uma entrada sinuosa. manifestando-se através de ensaios. ― há uma relação muito íntima entre transformação económica. implicando uma mescla do desportivo fair play com o estético da arte pela arte‖[889]. desde logo (Quadro XXV). que. apesar dos actuais ―rituais de passagem‖.

0%) Raramente/Nunca N=324 (68. Ela manifesta-se.4 68. como de resto já adiantámos. por exemplo.Frequência das práticas domésticas de abandono por escalões etários Práticas Domésticas de Abandono Escalões Etários Até 20 21-30 N=74 N=243 (15. no significado atribuído a ―não fazer nada‖ (Anexo V/Quadro I.1 Frequentemente N=33 (7. os que menos aderem às práticas de abandono. as nossas dúvidas sobre a pertinência heurística de uma auto e heterodenominada ―cultura jovem‖.7%) (51. a idade não pode ser considerada.7%) 4. precisamente. vários estudos têm demonstrado a existência de um envelhecimento cultural extremamente precoce. Por outro lado. Aliás. Os elementos mais idosos da nossa amostra são.4 Mesmo o escalão de ―mais de 40 anos‖ contempla essencialmente adultos e não idosos. Repare-se como os inquiridos com idade até 20 anos são os que mais aderem a esta prática).3 74. negar a existência de uma ―tipicidade juvenil‖[897]. como o volume e a estrutura do capital escolar e a trajectória social.0%) Com Alguma Frequência N=113 (24.3 Mais de 40 N=74 (15. seria razoável prever que. pela própria circunstância da sua idade ser mais avançada.6 55.7%) 14. muitas vezes.0 17. por isso. estar provisoriamente desocupado em termos de uma actividade socialmente reconhecida (como estudar ou ajudar nas tarefas domésticas) ou simplesmente conversar com familiares ou amigos sem tema fixo . como adiante veremos. Estaremos em presença de um grupo de ―activistas culturais‖ que. no entanto. a movimentos de anomia cultural? Não pretendemos. Além do mais.7 25. deambular sem destino no espaço doméstico.7 78. a nossa amostra. Esta expressão condensa modos de ocupação quotidiana dos tempos livres de difícil definição categorial (condicionada pelo código do investigador). com o avançar da idade.9 5.9%) 29. Daí resultam. é muito pouco envelhecida. designadamente no que se refere à ―ilusão de homogeneidade‖ que fomenta[896]. Quadro XXV . independentemente de outras variáveis. acumularam experiências e reforçaram predisposições inculcadas. De facto. aliás.8 31-40 N=79 (16. ―Não fazer nada‖ é.de abandono[895].9 19. mas facilmente identificáveis pelos praticantes juvenis. intimamente ligado à entrada estável na vida activa. crescesse a propensão para uma certa desvitalização das práticas culturais. resistindo.8%) 6.

Como refere expressivamente E. mesmo tratando-se.7 14. que o tempo vale ouro‖[898].7%) Raramente/Nunca N=74 (14. sendo pelo contrário sempre elevado o valor dos que raramente ou nunca as exercitam.7 40. (re) inventam formas de passar o tempo.6 Nos extremos etários situam-se os que menos as praticam.1%) 33. apesar das diferenças detectadas.5 7. Mas. No entanto. por conseguinte.6 30. na sua diversidade. pensamos que as culturas juvenis. que o tempo corra.7%) Escalões Etários Até 20 21-30 N=76 N=252 (15. Quadro XXVI .2%) 44. Se atentarmos agora nas práticas receptivas semi-públicas (referentes à ida ao cinema — Quadro XXVI) notamos que o escalão dos 21 aos 30 anos é o mais aderente. Não podemos deixar de associar à frequência cinéfila a necessidade de uma certa disponibilidade financeira. ―os jovens são multimilionários em tempo. de uma interminável ―sala de espera‖.Frequência de práticas receptivas semi-públicas por escalões etários Práticas Receptivas Semi-Públicas Frequentemente N=259 (51. em particular os mais idosos.3 Mais de 40 N=86 (17. é reduzido o peso relativo dos que frequentemente aderem às práticas domésticas de abandono. que penalizará os mais jovens. não interessando apenas aos jovens que a sua vida passe a correr. O mesmo autor acrescenta que.6%) Com Alguma Frequência N=159 (31.8 28. logo seguido pelo grupo dos 31 aos 40 anos. como se diz.5 31-40 N=88 (15.7 33.1%) (50. Gil Calvo. aos jovens interessa encontrar ―uma espécie de máquina do tempo (…) que sirva para conseguir que o tempo passe.ou predeterminado.9 17. que o tempo voe (…): uma máquina do tempo que o mate‖[899]. De qualquer forma importa salientar que. simultaneamente. ao contrário do autor. propício a uma postura juvenil de maior .5%) 52. para muitos. se é verdade. importa enquadrar o cinema no âmbito de um paradigma cultural do som e da imagem (culto do audiovisual e da ―imagem‖).0 32.7 63. embora seja fundamental avaliar da qualidade desse tempo (no caso dos desempregados pode equivaler a um tempo livre forçado) e da sua distribuição pelas distintas condições juvenis.

distanciamento face às formas tradicionais da cultura cultivada ―clássica‖ e de maior renovação e actualização do capital informacional.4 11. Com efeito.0%) (52.0%) 7. verificou-se que os posicionamentos próximos de um pólo contestatário no eixo provocação/conformismo associavam os jovens a uma preferência pelos artistas e géneros fora do sistema de consagração.2 34. tal orientação dependia mais da idade do que do nível de escolaridade. Quando questionados.4 Olivier Donnat chegou a constatações idênticas ao estudar as práticas culturais dos franceses.8 31-40 N=41 (15. embora por uma diferença escassa.Grau de identificação com filmes "consagrados clássicos" por escalões etários Cinema – Consagrados Clássicos Escalões Etários Até 20 21-30 N=52 N=144 (19.6%) 46.6%) 34. o que nos poderá remeter para uma eventual ―pertença geracional‖.7 Nulo Grau de Identificação N=49 (17. entrando no domínio da memória e da acumulação de referências convencionais e consagradas.2 35.1 29.8 21.9%) Médio Grau de Identificação N=40 (14.6 32. o pólo grau de identificação nulo/baixo. sobre o seu grau de identificação face a determinados filmes (indicador que revela a estrutura ―moderna‖ ou ―clássica‖ do seu capital informacional e cultural — como refere Olivier Donnat a identificação e o conhecimento revelam quase sempre uma orientação cultural. enquanto que. bem como a sua preferência por modelos mais ou menos consagrados do subcampo artístico em questão) nota-se uma muito menor identificação em relação aos consagrados clássicos por parte do escalão mais jovem (não havendo mesmo um único inquirido com um alto grau de identificação).3 32.6 18.4 36. essa identificação aumenta significativamente. Desta forma.6%) Alto Grau de Identificação N=40 (14. com o pólo médio/alto grau de identificação a superar. Repare-se no Quadro XXVII. Quadro XXVII . O ―classicismo‖. próprios de um cânone oficial e por vezes escolar. rejeitando os valores ―clássicos e patrimoniais‖.6 19.9%) Baixo Grau de Identificação N=93 (33. a partir dos 31 anos. de gosto[900] —.5%) 2.7 26. pelo contrário. Na mesma linha podemos compreender a nítida preferência do escalão mais jovem pelos filmes não consagrados (Quadro . em concreto. tende a aumentar com a idade.3 Mais de 40 N=37 (13.

Repare-se nos quadros que cruzam idade e grau de identificação face aos nomes incluídos nas categorias dos ―consagrados clássicos‖ .3% exprime.9%) 26.4%) Alto Grau de Identificação N=27 (9.2 12.2 67. Tal constatação leva-nos a tirar ilações sobre a estrutura do gosto dominante da amostra em análise.5%) 21.0 8.8 25. Neste caso. face aos mesmos.7 Mais de 40 N=37 (13.Grau de identificação com filmes "não consagrados" por escalões etários Escalões Etários Até 20 21-30 N=52 N=144 (19. mas causando repulsa nas instâncias de consagração do campo artístico.9 52.4 25. alcançando legitimidade na esfera ―comercial‖ própria das indústrias culturais.7 13.3 4.0%) (52. um mais elevado capital informacional. a sua postura teria menos a ver ―com a ignorância ou com a existência de resistências face à cultura consagrada e mais com uma real competência moderna‖[901].6 Cinema – Não Consagrados Nulo Grau de Identificação N=66 (24. muitos dos filmes não consagrados alcançaram notáveis sucessos de bilheteira. designadamente no que se refere aos seus critérios selectivos que a levam a rejeitar maioritariamente os filmes que fogem aos cânones da consagração.8 51. não havendo um único inquirido a sentir-se muito identificado.2 10. Aliás.1%) Baixo Grau de Identificação N=136 (49.6 32. Quadro XXVIII . um grau médio de identificação. exprimindo. por isso.0%) 31. pelo contrário (ou em simultâneo) de um ecletismo baseado na busca da actualização e diversificação cultural e das referências modernas.9 Resta saber se esta atitude de maior abertura ao pólo não consagrado por parte dos jovens radica numa maior permeabilidade à economia/cultura mediático-publicitária ou advém. Ao nível da música passa-se algo que ajuda a reforçar a ideia de uma especificidade geracional. onde apenas 4.7 31-40 N=41 (15. De qualquer modo importa não perder de vista que o pólo constituído por um médio e alto grau de identificação é claramente minoritário em todos os grupos etários. embora com muito maior incidência na categoria mais jovem.XXVIII) e a elevada ausência de identificação dos mais velhos (grupo dos inquiridos com mais de 40 anos).6%) Médio Grau de Identificação N=45 (16.6%) 15.

Quadro XXIX .3 47.1%) 43.0 20. de forma expressiva. ainda não terminou).8 Nulo Grau de Identificação N=52 (13.3 16. Quadro XXX .0 23.1%) Alto Grau de Identificação N=96 (25. na medida em que o seu ―período formativo‖.9 Não se trata. para utilizar um conceito de Inglehart. uma vez mais.6%) Baixo Grau de Identificação N=154 (40.8%) 22.0 25. nos inquiridos com mais de 40 anos (o afastamento verificado por parte dos adolescentes — 52.2%) Médio Grau de Identificação N=81 (21. No primeiro caso nota-se uma maior identificação por parte dos inquiridos com idade entre os 31 e mais de 40 anos e um claro afastamento dos que têm idade inferior aos 21 anos (os adolescentes). pela insuficiente acumulação de ―competências modernas‖.6% revelam um ―baixo grau de identificação‖ — pode aqui ser explicado.4 18.8 22. No segundo caso.(Quadro XXIX) e dos ―consagrados modernos‖ (Quadro XXX).0 Mais de 40 N=72 (18. de um simples efeito ―natural‖ de atracção dos jovens e dos adultos pelas referências etariamente próximas (identificarem-se com nomes de idade semelhante)[902].Grau de identificação com compositores "consagrados modernos" por escalões etários Música – Consagrados Modernos Escalões Etários Até 20 21-30 31-40 Mais de 40 .9%) (48.8%) 2.6 31-40 N=67 (17.9 43.9 56.8 17. o perfil clássico começa a ser predominante (com uma rejeição maioritária dos ―consagrados modernos‖) a partir dos 31 anos e.Grau de identificação com compositores "consagrados clássicos" por escalões etários Música – Consagrados Clássicos Escalões Etários Até 20 21-30 N=57 N=187 (14.2 14.5%) 6.1 19. como provou Donnat.

9%) Médio Grau de Identificação N=76 (19. Dito por outras palavras.3 8. também.N=57 (14.Grau de identificação com compositores "não consagrados" Escalões Etários Até 20 21-30 N=57 N=187 (14.8%) 5. aliás.5 31-40 N=67 (17.3%) 57. um certo ―comportamento geracional‖.3 12. na própria cultura . que se notariam preferencialmente.9 4. onde tal não se verifica (atente-se no Quadro XXXI onde se constata que o distanciamento face aos não consagrados é esmagador entre todos os grupos etários). que existam clivagens devido a diferenças assinaláveis de capital cultural e escolar (como veremos mais adiante.7 40. Donnat questiona-se: ―como explicar que os adolescentes de hoje.9%) (48.7%) Baixo Grau de Identificação N=185 (48. se sintam tão pouco identificados com a cultura escolar? A resposta pode encontrar-se.8 6. Quadro XXXI . a amostra é relativamente homogénea nesse ponto).9 46.3%) Médio Grau de Identificação N=76 (5.8 Mais de 40 N=72 (18. em boa parte.6 55.4 59.5 N=187 (48.8%) 33.8%) Alto Grau de Identificação N=30 (7.9 Música – Não Consagrados Nulo Grau de Identificação N=175 (45.8%) 56.4 17.8%) 26.5 Existe.4%) Baixo Grau de Identificação N=237 (61.5 53. que são mais escolarizados que os seus antepassados e mais próximos das aprendizagens escolares. em consequência. mais escolarizados que os seus progenitores.3 46. no eixo da consagração.4 4.9%) Nulo Grau de Identificação N=40 (10.3 Não nos parece.7%) Alto Grau de Identificação N=30 (0. também encontrado por Donnat na sua análise às práticas culturais dos franceses e que se traduz por um forte distanciamento dos mais jovens (em especial dos adolescentes) face à cultura consagrada clássica.2 12.2 20.5 2. como explicar que os adolescentes actuais.0 N=72 (18.5%) 41.6 73.5 26.6%) 10.8 0. estejam assim em recuo mesmo em relação aos seus predecessores imediatos?‖.5%) 6.1 69.9 N=67 (17.

nas palavras de H.escolar e nos contextos da sua prática pedagógica (distanciamento face à pluralidade e complexidade dos quotidianos estudantis[903]. publicidade e indústrias culturais. existe uma massiva adesão trans-etária a esta prática. verificamos que são os inquiridos com idade até aos 20 anos quem mais se identifica com a esfera das práticas expressivas semi-públicas[908]. ao seu papel determinante na―cadeia criação-manipulação-transmissão de bens com elevado conteúdo de informação. No entanto. facto que estará certamente relacionado com o forte peso dos espectáculos musicais no conjunto da programação cultural dos três espaços em estudo. De facto. face ao fracasso da escola e dos tradicionais agentes que asseguravam a transmissão/reprodução da cultura consagrada. mediante a difusão de valores ―que globalmente são os do universo cultural dos jovens (hedonismo. intimamente ligadas à superestrutura ―juvenil‖. convivialidade. de insuficiente consolidação dos ensinamentos escolares. criam-se as condições para a emergência de formas alternativas de consagração e distinção. embora longe de um modelo simplista de manipulação. Ou ainda. cuja centralidade se deve. se analisarmos a frequência com que os inquiridos ouvem música (Anexo V/Quadro II). torna-se difícil estabelecer clivagens. cujo valor simbólico é preponderante‖[907]. ―mal estar docente‖ e dificuldade no estabelecimento de condições mínimas de comunicação pedagógica[904]). Mas também nos processos de socialização familiar que. Ao atentarmos. anticonformismo. Desta forma. muitas vezes. e mediante a poderosa aliança entre mass media. Gil Calvo) à emergência de uma nova classe de intermediários culturais. no quadro XXXII. devido à pouca experiência de escolarização dos progenitores. ou pela identificação preferencial com certos géneros ou subgéneros. tem vindo a modificar o ―conjunto dos procedimentos de reconhecimento e de legitimação‖ do campo artístico tradicional. Laura Bovone associa a ascensão da economia mediático-publicitária (ou da ―moda audiovisual‖. velocidade. Se no caso das idas ao café. Por isso. ameaçado na sua ―pureza‖ (enquanto distanciamento face à mercantilização e à economia) e autonomia[905]. cervejaria e pastelaria poderemos estar em presença de investimentos relacionais no quadro de práticas de sociabilidade local . de uma forma mais ou menos intensa. gosto do risco…)‖[906]. a diferenciação estabelece-se de formas mais subtis. em boa parte. com reflexos poderosos na formação dos gostos das novas gerações. agora. representantes privilegiados da hibridez e ecletismo pós-modernos. a uma maior permeabilidade em relação às instâncias d a ―economia mediático-publicitária‖ que. propiciam efeitos de autêntica regressão cultural ou. pelo eixo ―clássico/moderno‖. pelo menos.

ir a concertos de música clássica ou visitar museus e exposições. em particular.4%) 15. tenderão a dirigir a sua ―cultura de saídas‖ preferencialmente para ―templos‖ da cultura erudita. em particular os que são detentores de elevados capitais escolares.1 17.7 72.que de certa forma prolongam o espaço residencial encarado no seu sentido mais amplo.8 62. quer estejam ou não associadas a processos de reestruturação urbana do tipo gentrificação. respeitante ao cruzamento entre a idade dos inquiridos e o grau de frequência de práticas receptivas e informativas de públicos cultivados reparamos que.4 48. .2%) (51. embora não isentos de constrangimentos sociais.5 31-40 N=79 (16. como propõe Idalina Conde em relação à ópera[911]).9%) Escalões Etários Até 20 21-30 N=72 N=243 (15. já as idas a restaurantes. o que não significa que as actividades aí incluídas não atraiam também contigentes de jovens relativamente elevados (sem perder de vista que falamos nestes casos de públicos extremamente exíguos ou mesmo de ―clientelas‖.7%) 7.7 30. para todos os grupos etários. os inquiridos com idade até aos 20 anos são os que mais raramente ou mesmo nunca frequentam estas práticas.7%) 1.4%) Raramente/Nunca N=118 (24.3 9.3 66.Frequência de práticas expressivas semi-públicas por escalões etários Práticas Expressivas Semi-Públicas Frequentemente N=41 (8. ao observarmos o quadro XXXIII. Aliás. de exposições. desenvolve-se toda uma ―cultura de saídas‖ que requer rituais e formas de apresentação em cena adequados. De qualquer forma. como julga encantatoriamente o pós-modernismo mais ingénuo[910]. ou. Neste último caso. de teatro. de uma forma geral.6 Mais de 40 N=79 (16.).6 18. bares e discotecas[909] remetem-nos para a crescente centralidade das funções de consumo que a cidade desempenha. Quadro XXXII . para o espaço semi-público sobrelegitimado (salas de concertos.7%) Com Alguma Frequência N=314 (66. fomentando-se uma série de espaços socializadores que tendem a escapar à lógica e controle domiciliar e familiar e estimulando-se a consolidação de estilos de vida relativamente plásticos e autónomos.1 Os grupos etários mais idosos. apenas uma escassa minoria (à volta dos 9%) é público assíduo de actividades como ir ao teatro. etc.0 50.

3 9.4%) 4.4 22.0 39.7 31.1 54. de novo.Frequência de práticas receptivas e informativas de públicos cultivados por escalões etários Práticas Receptivas e Informativas de Públicos Cultivados Frequentemente N=46 (9.5%) Raramente/Nunca N=259 (53. Com efeito.6 81. antes pelo contrário.4 .8%) 9.7 50.6%) 9.5 51. Quadro XXXIV .8 6.5 31-40 N=84 (17.0 39.4%) Com Alguma Frequência N=183 (37.4%) (49.5 Mais de 40 N=87 (17.2 36.3%) Com Alguma Frequência N=106 (21.7 Práticas Eruditas Criativas Frequentemente N=31 (6.1%) Escalões Etários Até 20 21-30 N=75 N=242 (15. o grupo etário em que o pólo ―frequentemente/com alguma frequência‖ adquire valores superiores é dos inquiridos com idade compreendida entre os 21 e os 30 anos.2%) 32.0%) (50.5 78.7 14.7 Uma vez mais a necessidade de acumular um volume mínimo de capital informacional (com tudo o que isso significa de incorporação de capital cultural — embora a relação não nos pareça automática — e de familiarização com códigos artísticos marcados por um acentuado desvio em relação às linguagens quotidianas) favorece idades mais avançadas.5%) 10. No entanto.5 16.5%) Raramente/Nunca N=356 (72.8 59. rarefacção relativa de jovens na esfera erudita mas sim um limiar mínimo de recrutamento que tende a afastar os públicos propriamente adolescentes (reflecte-se.0%) 4.8 Mais de 40 N=86 (17.0 31-40 N=84 (17. embora não seja necessário galgar a pirâmide etária.0 56.Quadro XXXIII . esse afastamento já não se verifica quando se trata de práticas criativas eruditas (Quadro XXXIV)[912]. o facto de não estar ainda completo o seu ―período formativo‖). O que mostra que não existe.8 71.Frequência de práticas eruditas criativas por escalões etários Escalões Etários Até 20 21-30 N=74 N=249 (15.2%) 9.

4 Frequentemente N=12 (2.3%) 2. um massivo afastamento por parte de todos os grupos. Para outros. a criação (com a aprendizagem que requer e os repertórios e redes de sociabilidade que lhe estão associados) contribui como canal socializador alternativo. sendo globalmente reduzida. Atente-se em dois exemplos ilustrativos das diferenças entre práticas criativas e receptivas situadas na esfera erudita (Anexo V/Quadros V e VI).3 6. decresce com a idade (o mesmo acontecendo com as artes plásticas). Aliás. Pelo contrário. no entanto. eventualmente desmunidos à partida desses recursos. Não deixa de ser significativo. quer de cariz expressivo (Quadro XXV)[913]. Tal poderá explicar-se pela tendência. Analisando agora a adesão etária às práticas associativas.4 Mais de 40 N=83 (17.3%) (50. quer de cariz criativo (Quadro XXXVI)[914]. transformado em produtor. de forte componente convivial. No que se refere à prática de escrita literária.Frequência de práticas associativas expressivas por escalões etários Práticas Associativas Expressivas Escalões Etários Até 20 21-30 N=74 N=244 (15.4 .7 2. aumenta com a idade.1%) 2. de diagnóstico de fins a atingir. treino de novas competências que poderão servir como utensílio de mobilidade social. a ida a museus (símbolos precisamente.8%) 20. as primeiras exigindo uma intervenção activa do emissor/receptor.5%) Com Alguma Frequência N=62 (12. da acumulação patrimonial e da memória social). a sua frequência. de escalonamento de prioridades e objectivos. para jovens oriundos de camadas sociais favorecidas. de acentuado desinteresse face à participação na acção colectivamente organizada. Provavelmente estas estarão igualmente ligadas a formas de expressão e consolidação das identidades em formação.Note-se que. de equacionamento de meios e recursos.3 14.3%) 2. com tudo o que ela representa de regulação institucional. é frequente defender-se que a participação juvenil se verifica em contextos informais. Quadro XXXV . podemos constatar.0 8. verificada em múltiplos estudos. o exercício criativo pode funcionar como forma ultrafamiliar de confirmação e concretização da incorporação dos códigos estéticos mais exigentes. embora mais generalizada. que o ―envelhecimento cultural‖ se revele mais precoce nas práticas criativas do que nas informativas e receptivas. desde logo.5 31-40 N=84 (17.

família). a monotonia da oferta cultural. não admira que o afastamento face ao espaço associativo seja tão expressivo[917]. e tendo em conta a persistente valorização por parte dos jovens de dimensões normativas ligadas à possibilidade de autorealização e a dominância de um individualismo de tipo relacional. capaz de gerar uma ordem normativa extraoficial. No que diz respeito ao movimento associativo identificaram-se ainda como obstáculos à participação juvenil a excessiva burocratização. que nas sociedades dotadas de uma relativa prosperidade ou sujeitas a períodos relativamente longos de crescimento económico. assente numa rede de grupos de iguais (―rede de companheirismo. Inglehart.3%) 20. com fundamento numa impressionante base de informação empírica. tem vindo a defender.0 31-40 N=85 (17.2%) 6.4 Mais de 40 N=83 (17.8 3. onde se concentram os principais grupos de pertença. Desta forma.Raramente/Nunca N=411 (84.6 73.0 9.7 89. aparelhos ideológicos diversos.5 3.3 88. desde há algum tempo (nos países mais desenvolvidos desde a . por exemplo.7%) 77.2 94. com especial destaque para a escola.1 96. Podemos ainda enquadrar estes dados numa tendência mais vasta.Frequência de práticas associativas criativas por escalões etários Práticas Associativas Criativas Escalões Etários Até 20 21-30 N=75 N=245 (15. falhando em conseguir adesão e eficácia.0%) Frequentemente N=12 (2. Quadro XXXVI . os agentes de socialização formais não logram funcionar enquanto meios de transmissão de informação e de preparação cultural.4 Assim.2%) Raramente/Nunca N=431 (88.0 83. existe.4%) (50.4%) 2. relações intrassociativas de cariz vertical e excessivamente hierarquizadas (contribuindo para afastar dirigentes e associados) e uma falta de articulação entre objectivos pessoais e objectivos associativos[916]. mas sim nas modalidades de organização informal. amizade e ajuda mútua‖[915]) onde frequentemente se constrói uma nova definição da realidade (baseada amiúde em grupos de referência).2 Henrique Gil Calvo considera mesmo que a chave para a compreensão das condutas juvenis não se encontra nos ―canais de regulação primários‖ (partidos políticos.7 2.2 91.5%) Com Alguma Frequência N=45 (9.

num claro recentramento em torno de um individualismo fortemente aglutinador. convém salientar que o grupo etário dos inquiridos que têm até vinte anos revela uma maior adesão ao espaço associativo. de acordo com a sua posição na estrutura social e com o ritmo global de mudança. marcados por conjunturas demográficas e económicas desfavoráveis (pautadas pela escassez de postos de trabalho. não o esqueçamos. Por outras palavras. por comparação com o contigente de pretendentes). etc. na valorização da livre escolha.primeira geração pós segunda grande guerra) uma nítida preferência pelos valores pós-materialistas. A música. como já referimos. existe uma ligação à fortíssima componente musical da categoria em questão. entre outros. a vertente hedonista deste individualismo coaduna-se mal com tudo o que implique uma cedência do espaço pessoal de manobra. grupos de pertença — família. entre outras dimensões. constitui uma das vertentes fundamentais de suporte e difusão das culturas juvenis. das preocupações ambientais. Para além dessa tendência ser compatível. por oposição aos endogrupos. Esta constelação de valores assenta. a uma participação em organizações que se caracterizam por altos níveis de burocracia e centralização de iniciativa. Por outro lado.). em especial enquanto veículo privilegiado de constituição de redes de sociabilidade e convívio intimamente associadas à organização informal dos seus quotidianos. em particular no que se refere às práticas criativas (fazer teatro amador. tocar ou dançar. em universos crescentemente competitivos. da saúde e das redes de sociabilidade. Torna-se pouco propícia. quais os exogrupos (grupos de referência ou grupos de iguais. da satisfação no trabalho. ao considerar que o seu principal objectivo é informar cada jovem das modificações ocorridas nas condutas dos demais. Henrique Gil Calvo apresenta uma concepção algo maquiavélica da função da música (e em geral do que ele apelida de ―moda audiovisual‖[919]) na estruturação das culturas juvenis. num clima de veloz . apesar da falta de identificação com o espaço semi-público organizado alcançar níveis extremamente elevados. torna-se imprescindível para os jovens saberem em tempo útil e a baixo custo. De qualquer modo. por isso. mesmo que em nome de interesses colectivos. por exemplo) que melhor defendem os seus interesses. ou ainda pela erosão dos centros tradicionais de autoridade (religião. na defesa da realização pessoal. estado) devido a uma valorização acentuada do indivíduo e da sua necessidade de auto-expressão[918]. na tolerância face à diversidade de orientações normativas. do lazer. distintivos. com um processo de construção de identidade e com a necessidade de expressão/consolidação de traços emergentes de personalidade. pela prioridade concedida à ―maximização do bem-estar subjectivo‖ em detrimento do crescimento económico.

a música e toda a cultura da imagem e do som constituem veículos privilegiados de suporte. difusão e construção das identidades juvenis. o que confere importância acrescida a todos os processos de apresentação de uma imagem de si (roupas. é vertiginosamente substituído pelo figurativo — imagens). todavia a questão tem de ser encarada pelo outro lado da moeda: tais fenómenos representam. de qual é a subdivisão social ocupada por todos e cada um dos demais jovens competidores. a respeito de si mesmos. dentro do repertório de subdivisões estabelecido pela divisão social dos jovens‖[920]. de diferenciação estilística e cultural[922]. Claro que esta visão nos parece simplista e unidimensional. simultaneamente.) como âncora de identificação e. Marca a moda quem se adianta em imitar os demais antes que os demais: superando em rapidez de imitação os próprios exemplos do modelo a imitar. por comparação com inquéritos nacionais. posturas corporais. por exemplo. os jovens mergulham numa pluralidade de modas (em que a música aparece como o campo mais paradigmático com a proliferação de combinações de géneros e subgéneros) que fornecem preciosas informações sobre aquilo que os divide (e não sobre o que os une. . mediante a atenção prestada à moda audiovisual. Esse seria.mudança social. descontextualizadoras e fragmentadoras dos seus significados tradicionais (o discursivo. como acontece em conjunturas demográfico-económicas favoráveis):―assim. se nos surge como igualmente viável a hipótese de alguma associação dessa cultura aos fenómenos da moda e da diversidade/competição intergrupal. cada jovem fica perfeitamente informado. Dito por outras palavras. etc. No entanto. num tempo em que o padrão de uma cultura unificada cede lugar a práticas difusas. Círculo vicioso que é o imperativo categórico do depredador audiovisual‖[921]. tentativas de auto-expressão criativa e os seus conteúdos funcionam como uma narrativa que os jovens contam a si próprios. e a baixo custo. para ultrapassar os outros na fila de espera que caracteriza a sua condição social. adornos. luta: estabelece com eles uma corrida de velocidade de imitação em que vence quem correr mais depressa no seguimento da moda audiovisual. Se é verdade que a intensa adesão juvenil a uma cultura da imagem e do som se liga a uma necessidade de rápida actualização de conhecimentos num contexto axiológico extremamente mutável. igualmente. aliás. Ou seja. o único interesse desta categoria social — adiantar-se face aos concorrentes na ―interminável‖ fila de espera da sua condição: ―se não os podes vencer. Uma última nota para realçar que não existe na nossa amostra um comportamento distintivo dos grupos etários mais jovens face a um indicador crucial de adesão à cultura audiovisual como é o caso da frequência com que se vê televisão (Anexo V/Quadro VII).

da existência de uma ―cultura jovem‖? A resposta é sim e não. uma maior adesão dos inquiridos com idade compreendida entre os 21 e os 40 anos (jovens e jovens adultos) ao espaço semi-público.). o sexo. como já referimos. mais passiva? Voltaremos a este aspecto quando relacionarmos um conjunto de práticas culturais com o capital escolar dos inquiridos. Assim. aliás. se a entendermos enquanto uma especificidade geracional (a tal ―tipicidade juvenil‖ de que fala Machado Pais e que apressadamente rejeitamos. ao contrário do que se poderia pensar. qualidade de vida como prioridade. participação. podemos falar. entre outras dimensões. relacionadas com este comportamento? Não deixa de ser curioso verificar a frequência com que se vêem filmes vídeo em casa. gratificação individual. não se pode afirmar que os inquiridos mais velhos assumam uma lógica clara de desinvestimento neste espaço. bem-estar subjectivo. um ―pano de fundo‖ que cobre processos de socialização necessariamente distintos consoante a classe social. Estarão outras variáveis. etc. o que reforça a tendência para que o período formativo dos mais novos tenha ocorrido em situação de segurança económica[925] propiciando a identificação com valores pós-materialistas que favorecem um recentramento na esfera do simbólico (auto-expressão. como é o caso de Portugal. Sim. baseada na comparação de um mínimo denominador comum face às demais gerações. o contexto residencial. A nossa amostra mostra. ligada à possibilidade de escolha. produzido sócio-culturalmente pela exposição a um mesmo período histórico. Godard fala mesmo da criação de um ―mercado cultural da juventude‖[924]) e nas práticas conviviais. que não a idade. em síntese. em trabalhos anteriores). como um substituto parcial da recepção televisiva. Apresentar-se-á esta prática. de um afastamento face aos padrões clássicos de cultura e às vias tradicionais de consagração e legitimação. etc. Aliás. Neste âmbito. Inglehart também salienta a existência de significativas diferenças intergeracionais em sociedades sujeitas a períodos relativamente longos de crescimento económico. o escalão etário dos inquiridos com idade superior a 40 anos é o que menos . com especial ênfase nos espaços-tempos de lazer (F. maxime a escola. os jovens tendem a explorar e a investir em vias alternativas de legitimação cultural. a etnia. No entanto. Ela alcança níveis superiores precisamente junto dos mais jovens.verifica-se uma menor adesão dos jovens da amostra face a essa prática[923]. em particular as que se enquadram na ―economia mediático-publicitária‖. Serão por isso mais visíveis as disposições inculcadas que vão no sentido de uma valorização da apresentação estilística e do consumo cultural urbano. Podemos então falar.

―ninguém é doravante um adolescente se toda a gente o é‖[926].3 Mais de 40 N=62 (15. essa especificidade dilui-se se estiver presente em determinados estratos de outras gerações ou grupos etários. saber onde essa cultura surge eque grupos sociais a protagonizam.6%) Com Alguma Frequência N=264 (66.2 Espaço Doméstico Frequentemente N=18 (4.9 29. funcionando mesmo como espelho. 2. Género: o fim do ―duplo padrão‖ de comportamento? .Frequência do espaço doméstico por escalões etários Escalões Etários Até 20 21-30 N=67 N=202 (17. O que nos remete para o outro lado da pergunta inicial.8 68. Ou. Eventualmente os inquiridos mais idosos que a constituem estão longe de serem representativos do comportamento médio da sua faixa etária. citando um colunista de uma revista juvenil. na nossa amostra. de uma sociedade inteira[927].6%) 70.3 23.0 35. à identidade descentrada e ao individualismo relacional (e também narcísico) eliminou hierarquias e estruturas simbólicas tradicionais. conhecer o habitus desses grupos juvenis que. O que nos alerta para o facto de.1%) 6.0 31-40 N=64 (16. Da mesma forma. de forma mais visível. as clivagens com base na idade não serem muito significativas (veja-se o caso da generalizada falta de identificação com o espaço associativo). importa. como acrescenta o mesmo autor. Urge.8 61. Outras variáveis interferirão na sua resistência diferencial ao ―envelhecimento cultural‖.0 4. Quadro XXXVII .5 De facto.2 25. Até que ponto a adesão às imagens e à imagem como apresentação de si. não existe uma ―cultura jovem‖ se considerarmos que apenas certos segmentos da categoria social ―juventude‖ adoptam comportamentos e atitudes como os anteriormente descritos. muitas vezes.adere ao espaço doméstico (Quadro XXXVII). parecem representar toda uma geração. generalizando e democratizando códigos outrora restritos e apanágio de grupos dominantes. por isso.2%) 6.7%) 3.0%) (51.8%) Raramente/Nunca N=113 (28. para além de tentar analisar os conteúdos da mudança cultural (em direcção ao que muitos apelidam de ―cultura pós-moderna‖). Como refere Featherstone.1 66.

. Apesar de as mulheres terem definitivamente conquistado os vários níveis de ensino.1 Nesta medida. de acção livre e independente nos ambientes da vida social‖[932].0 Sexo Feminino N=237 (53. os estereótipos masculinos. Trata-se. Por outras palavras. por isso. na medida em que persiste uma apropriação desigual de recursos baseada na diferença sexual. apesar do afastamento face ao espaço público ser comum aos dois sexos. de forma expressiva. bem como importantes segmentos qualificados do mercado de trabalho [930].4%) 0.7%) Com Alguma Frequência N=76 (17. segundo Giddens) necessita de resolver situações que.1 8. pertencem a uma ordem tradicional.0 91. um programa que coloca no centro das orientações normativas a procura quase obsessiva da auto-identidade e a concretização das ―decisões da vida‖[929]. mesmo antes de se embrenhar na ―política da vida‖ (ligada à pluralidade de escolhas e estilos de vida da ―modernidade tardia‖. Quadro XXXVIII . na esfera profissional.4 Espaço Público Frequentemente N=3 (0.1%) Raramente/Nunca N=365 (82. Giddens considera que a autonomia é o principal ―princípio mobilizador‖da perspectiva emancipadora: ―A emancipação significa que a vida colectiva é organizada de modo que o indivíduo é capaz — de uma maneira ou de outra —. Assim. a mulher liberta-se não só das obrigações familiares e da ―mística feminina‖ como se recusa a seguir.4 72. de acordo com o autor inglês.Frequência do espaço público por sexo Masculino N=207 (46. de um défice de cidadania que justifica a continuação de políticas e práticas emancipadoras. se atentarmos no Quadro XXXVIII constatamos que. pode-se afirmar que a identidade de género. A ―política da vida‖encontra-se pois intimamente ligada à definição da identidade de género. o ensino superior. incluindo.6%) 1.2%) 27. não lograram ainda abrir as portas do espaço público[931].Anthony Giddens coloca a reflexividade feminina no centro daquilo que apelida de ―política da vida‖[928]. a exclusão das mulheres é muito mais significativa. No entanto.

Apesar de os inquiridos do sexo masculino.7 70. os nossos dados revelam. Quadro XXXIX . uma sobreexclusão feminina. é no espaço associativo (espaço semi-público organizado). Desta forma. Por outras palavras.Frequência de práticas expressivas públicas por sexo Práticas Expressivas Públicas Frequentemente N=6 (1. certamente que as mulheres revelariam uma muito maior dependência face ao espaço doméstico. a minoria que participa é mais alargada (Quadro XL). uma vez mais. No entanto.9%) Masculino N=210 (46.2 41. igualmente. Onde se verifica. Este fenómeno pode funcionar como uma forma relativamente dissimulada de reprodução das desigualdades sexuais. que não há diferenças assinaláveis na adesão ao espaço doméstico (Anexo V/Quadro XII). a manutenção de padrões de desigualdade de oportunidades pode estar associada a uma sobrecarga de trabalho doméstico e a um défice de tempo disponível para actividades de lazer. Aliás. muitas vezes contra poderes e lógicas tutelares [934].0 A exclusão feminina volta a ser muito mais significativa que a reduzida participação masculina.7 56.tradição e pós-tradição não são momentos sequenciais. em grande parte devido à recente conquista feminina dos níveis elevados de escolaridade e do mercado de trabalho. participação e acção colectiva.0%) 1. Veja-se o quadro referente às práticas expressivas públicas[933] (Quadro XXXIX). etapas de uma qualquer progressão. Não sendo tão visível e explícita como há décadas atrás.4 Sexo Feminino N=247 (54. Se porventura tivéssemos medido o tempo de permanência em casa.3%) Com Alguma Frequência N=159 (34. o que à partida poderia parecer paradoxal.8%) Raramente/Nunca N=292 (63. vêem-se amputadas da aprendizagem de uma lógica política de . não nos podemos esquecer que a nossa tipologia de actividades culturais se enquadra no tempo do não-trabalho.0%) 1. mas sim dimensões coexistentes. as mulheres encontram-se privadas de contextos de socialização onde se incorporam valores de mobilização. se revelarem igualmente afastados desse círculo.9 28.

7%) 27. as arenas urbanas onde se forma a opinião .2 Finalmente. se denota uma ligeira adesão superior por parte das mulheres.4 11.6%) Raramente/Nunca N=65 (13.4 11.9%) 0.3%) 36.Frequência do espaço semi-público por sexo Masculino N=213 (45. a nosso ver. o que não deixa de ser funcional para a manutenção das desigualdades de índole sexual. não só não se verifica qualquer discrepância.contornos emancipatórios. em relação ao espaço semi-público.0%) Raramente/Nunca N=431 (90. Quadro XL -Frequência do espaço associativo por sexo Espaço Associativo (Semi-Público Organizado) Frequentemente N=5 (1.1%) 1. no que se refere à abertura ao espaço exterior amplo. Escapam-se-lhes.2 Sexo Feminino N=253 (54.1 Em suma.2 5. Esta constatação pode-se explicar. como.8 Espaço Semi-Público Frequentemente N=151 (32. inclusivamente. Quadro XLI .9 94.4 86. pela combinação de dois factores: i) a presença nesta categoria de práticas como ―ir às compras‖. entre os dois sexos. a associação existente entre o espaço semi-público e as práticas de sociabilidade local (ir a cafés ou pastelarias) que prolongam os quadros identitários de base doméstica. de forma ímpar.4%) Com Alguma Frequência N=250 (53.2 17. competências comunicacionais que favorecem a acção cívica e política) as mulheres sofrem uma significativa discriminação.4 52. ii). em termos de tendência.9 Sexo Feminino N=260 (54.9%) 55.1%) Com Alguma Frequência N=38 (8. por isso.9%) Masculino N=214 (45. o Quadro XLI mostra-nos que. ―ir à missa ou a cerimónias religiosas‖ ou ainda ―comprar comida e mercearias‖ que são tradicionalmente feminizadas. à lógica da esfera pública (onde se desenvolvem.

embora numa lógica distinta das instituições e hierarquias tradicionais. não são apenas locais onde se consomem signos culturais. convém realçar que. Por outras palavras. bar e local ocasional de espectáculos. mostrando como as esferas da cultura e da economia se aliam e interpenetram (apesar das suas lógicas relativamente autónomas e amiúde conflituais). o modelo de um formalismo exagerado e abstracto. o que acaba por reduzir a gama de estilos de vida possíveis. a tendência mais ampla é transversal aos dois sexos (afastamento do espaço público e do espaço semi-público organizado) e exige a implicação de outras dimensões explicativas. perfis de públicos e formas de apresentação. .1. como já foi referido[936]. inserindo-se num movimento relativamente recente de dinamização da zona marítima da cidade. de forma a propiciar cruzamentos e encontros de públicos e níveis de cultura distintos. como local de atracção metropolitana. dividindo-se internamente em espaços de vocação diferenciada. Atente-se nos espaços que estamos a analisar. O Rivoli. fomentando a diversidade de linguagens culturais e ―baralhando‖ hierarquias e sistemas de classificações. Mas igualmente na crescente implantação de pólos de atracção cultural. existe a intenção de transgredir significados estáticos e tradicionais de cultura. Com efeito. contribuindo para a imagem que o município de Matosinhos pretende transmitir de ―cidade do jazz‖. assume-se como centro cultural polivalente. 3. cedem cada vez mais o lugar à urbe onde a iconografia urbana desempenha um papel fundamental no imaginário cosmopolita dos seus habitantes.. funcionando. A ―imagem de cidade‖ torna-se pois crucial para a atracção de investimentos. indiscutivelmente. A esplanada da Praia da Luz apresenta igualmente um perfil híbrido. No entanto. Espaços. aliás. são eles próprios signos que se consomem e que contribuem para a imagem de cidade. O B Flat combina a lógica informal de bar com a função de sala de espectáculos. ligado a uma racionalidade económica de cariz tecnocrata (a cidade meramente funcional). funcionando como café. apesar de estarmos indiscutivelmente na presença de uma lógica de género. subjacente a qualquer um destes três espaços. Mike Featherstone chama a atenção para a crescente importância dos factores culturais no contexto da competição entre cidades.pública e onde se confrontam modelos díspares. ou a exploração de uma tradição baseada na história e nas artes. De certa forma. O processo de gentrificação enquadra-se. neste amplo processo[935].

como espaços de expressão cultural consagrada (o B Flat e o jazz. viradas para a expansão de públicos (multifuncionalidade) e mescladas com o lazer e a diversão. com particular incidência na Praia da Luz. B Flat e Rivoli têm um peso relativo mais significativo dos inquiridos com idade compreendida entre os 31 e mais de 40 anos (respectivamente 41. Nos três espaços o grupo etário modal é o que congrega os inquiridos com idade compreendida entre os 21 e os 30 anos. Serão estes objectivos atingidos? Atente-se no quadro XLII. Apresentam-se por isso. existe uma distribuição mais equilibrada. a dança.9%) 21-30 N=263 (50. o Rivoli e o teatro.0 4.8%) 25.8%)[938].3 22. apesar da já referida elevada concentração no grupo etário 21-30 anos. No primeiro destes lugares o público adolescente é quase inexistente.7%) 54.1 45.0 Escalões Etários Até 20 N=79 (14. lugares de ―complexa interacção de campos e sentidos‖ onde se flexibilizam categorias e papéis instituídos e onde não existem critérios universais de classificação e legitimação[937].5% e 37. a música erudita. à partida.9 58.8% do público total da amostra.8 16.8 Rivoli N=289 (55.3 19.2%) Mais de 40 N=93 (17.5 11.1%) 3.3 21. Quadro XLII -Escalões etários por espaços Espaço B Flat N=142 (27.5 Praia da Luz N=93 (17. as clientelas afiguram-se consideravelmente juvenilizadas.1%) 17. não só um local de convívio mundano (Praia da Luz) se abre às novas expressões do campo cultural (moda. o que já não é verdadeiro para a Praia da Luz onde representam 25.2%) 31-40 N=90 (17. música alternativa).5 . design.Repare-se que. como espaços liminares. Em suma. No caso do Rivoli. o cinema de autor) adoptam lógicas democratizadoras.

paródia.3. Nas centenas de pessoas que invadiram o bar-esplanada numa noite de passagem de modelos. embora também se vislumbrassem alguns jovens adultos. a esmagadora maioria era adolescente. Curiosamente. As indumentárias. ao mesmo tempo que exigem uma estrutura moderna do capital cultural. a par da organização do próprio espaço — grande informalidade. a ocupação de regiões frontais. numa primeira impressão. O espectáculo dentro do espectáculo: estão ali para assistir à passagem de modelos. estilo de vida e pela incessante busca de novas experiências‖[939]. lembram uma citação de Mike Featherstone: ―Estão fascinados pela identidade.1 Praia da Luz ou a cidade e a moda: em direcção a um habitus plasticizado? Vários são os factores que podem explicar esta composição etária. imprescindível para se decifrarem as linguagens e os códigos ―do momento‖. música pop passando a alto volume) — propiciam as sociabilidades juvenis e a cultura diversão. uso do kitsch. ser cada um artista de si mesmo. através dos seus . supostamente. Segundo Featherstone. Nestes casos. A sua individualidade exprime-se. denunciavam. consomem um produto cultural e como tal são consumidos. a estilização da presença em cena. aparência. Fazer da vida uma obra de arte (adoptar a divisa ―a vida pela arte e a arte pela vida‖[941]). No entanto. absorção do passado[940]. a aparente uniformização das vestes juvenis (informalidade. aliás. estetizar o momento. raparigas com chapéus em citação de tempos idos.1. mas apresentam-se a si próprios como possíveis ―modelos‖ a seguir. As nossas deambulações etnográficas permitiram-nos reforçar estas primeiras observações. Colagem. O tipo de oferta cultural existente na Praia da Luz. um olhar mais atento permitia detectar ―regiões‖ onde dominava a sofisticação. muitas delas assistindo ao ―espectáculo‖ a partir da rua sobranceira. calças justíssimas com terminação à boca de sino. importante (omni)presença do audiovisual (écrans de televisão onde se sucedem imagens vídeo. rapazes de cabelo multicolor. Uma inscrição num folheto de divulgação das actividades promovidas na Praia da Luz não podia ser mais explícita: “Quem não está in está out”. botas negras até ao joelho. t-shirts por debaixo de camisas abertas. ―valorização‖ do corpo — jeans. algumas raparigas de mini-saia). trata-se do colapso das fronteiras entre a arte e a vida quotidiana. as pessoas mais velhas adoptavam uma postura bastante mais reservada e discreta. Adolescentes pintadas de forma por vezes exótica (máscaras pós-modernas?). especialmente patente nos estilos juvenis. apresentação. o look trabalhado.

―Ponte‖ que nos liga a alguns ―outros‖. O ―eu‖ torna-se também um efeito de representação. Vale a pena descrever o momento da passagem de modelos para elucidar um pouco melhor a íntima relação que se estabelece entre estes estilos de apresentação em cena e as franjas emergentes do campo cultural: Num palco muito próximo do mar prolonga-se uma passerelle erigida em plena praia. da sua face. sugerindo a iconografia de um cenário de ficção científica. ―colado‖ a outras referências e apreendido em paródia de forma fragmentária. aproximam-se da assistência. Os rapazes denunciam um porte viril. ostentando músculos trabalhados (a imagem constrói-se. ―Ritual confirmativo‖ (na expressão de Goffman) e. imitando cadências ―tribais‖. Começa o desfile. uma versão legítima do corpo. os bailarinos ondulam ao som de ritmos africanos. por isso. Antes do desfile actua um grupo de dança. O comportamento em matéria de traje revela-se indissociável da teatralidade da vida quotidiana (―é uma maneira de se representar e de se apresentar‖[943]). ora ainda ―provocadoras‖. Simmel fala. boa parte deles adolescentes. um happening. da sua indumentária e adornos. O exótico é descontextualizado. Semi-nus. As modelos são extremamente magras (o corpo da ―moda‖. acompanhados dos respectivos rostos em poses ora ―exóticas‖. isolando-o ao mesmo tempo dos demais‖[944]. despem o casaco em pose provocatória e retiram grande ovação à assistência (paródia da inversão dos papéis sexuais tradicionais — o homem como objecto de desejo. Os modelos são muito jovens. serve também de demarcação face aos restantes. o seu corpo como mercadoria num tempo em que toda a . como de resto os interaccionistas não se cansam de referir. ao mesmo tempo. burila-se — tudo se passa nos limites do ―descontrole controlado‖ do habitus). da sua hexis. De entre o grupo destaca-se um executante de peito nu e longos cabelos pretos. ou como as pressões sociais reaparecem onde menos se espera. os bailarinos surgem em traje ―futurista‖. ora descontraídas. Num outro quadro.corpos. emblema de exclusão. Imediatamente antes passa num grande écran constituído por doze televisores uma lista contendo os seus nomes. ―porta‖ que de ―outros‖ nos afasta. Símbolo de identificação a um estilo de vida (e aos grupos que nele se reconhecem). tiram os óculos escuros de lentes oblíquas. numa dupla função da moda: ―construir um círculo. fitando longamente o público sem fixar ninguém em concreto. em suma. um ―eu‖ performativo (―performing self‖[942]). no próprio terreno do ―eu performativo‖[945]). Caminham a passos largos ao longo da passerelle.

Maquilhagem de múltiplas matizes. embora dentro dos cânones da moda.mercadoria se culturaliza. tornam-se predominantes. Começam a aparecer grupos de aparência estilizada. no entanto. provavelmente oriundo de um dos muitos casamentos que se realizam no Verão. ainda o desfile não terminara irrompe uma intensa chuva. alguns topsousados. ou mesmo adolescêntrico. Os grupos de amigos desfazem-se. Convém referir. com tendência para um ligeiro envelhecimento. A música aumenta de volume e a luz enfraquece. Muda-se de província finita de sentido (Schutz). Nota-se troça e desconforto. na casa dos vinte anos. Esplanada cheia. em geral negros. com especial destaque para as raparigas. que exista aqui um ―colapso das hierarquias simbólicas‖[947] e dos . A realidade quotidiana regressa como realidade primeira. Vestidos de alta costura. Mas não resultará este jogo numa confirmação/reforço da ordem normativa tradicional?). O DJ convidado inicia a sua actuação. Os seus fatos e vestidos são igualmente formais. Muita gente pergunta por alguém que se perdeu. mas visivelmente fora de moda. Os olhares dos habitués não descolam daquele grupo. calças pretas justas. que os grupos de jovens onde se distingue a indumentária sofisticada (ligada à―exploração lúdica de experiências transitórias e aos efeitos estéticos de aparência‖[946]) representam uma minoria face ao conjunto da assistência onde predomina a informalidade e os estilos de apresentação mais ―vulgares‖ (menos ―trabalhados‖). As vestes são claramente informais. Surge um grupo nitidamente desadequado face ao cenário. Ambiente vincadamente juvenil. Não se pode afirmar. com excepção de alguns — poucos — casais. De repente. Por vezes. O restaurante metamorfoseia-se totalmente em bar. As pessoas correm para debaixo das árvores e dos guarda-sóis. De repente. onde a panóplia de adornos e a profusão de signos decorativos é abundante. a perplexidade apodera-se dos presentes. A partir da uma hora da madrugada a composição do público vai-se progressivamente alterando. surgindo a dissonância e mesmo o ruído: 10 horas da noite. o ―choque‖ de estilos provoca situações desconcertantes. Os jovens adultos. quase desportivas. por isso.

De certa maneira. indissociavelmente ligada ao espírito do tempo. ao vai-e-vem‖[952]. É difícil. Para Lipovetsky. Mas já Simmel falara da presença do efémero e do forte sentimento de presente que a moda acarreta. a integração social (através da tendência para a imitação) e a diferenciação. para instituir um espaço público aberto. no entanto. não deixa de o enquadrar num sistema orquestrado e unificado das práticas sociais. A sua análise. Se assim não fosse. Mas se não exclui ninguém. a fusão no grupo. ao mesmo tempo. como aumenta a gama de combinações e de escolhas possíveis. a moda marca distâncias e torna-as mensuráveis. mais madura. afinal.rituais de distinção. a moda contribui para o fortalecimento das democracias e das sociedades livres: ―é a idade da moda que mais tem contribuído para arrancar o conjunto dos homens ao obscurantismo e ao fanatismo. a este respeito. mais céptica‖[949]. nada fica a dever aos comentários de alguns ensaístas da pós-modernidade. Simmel acrescenta ainda que ―as modas são sempre modas de classe‖[948] mas não deixa de realçar a componente de criatividade e expressão individual patente neste fenómeno. ocorre-nos referir. Seguindo Simmel. vendo nela um instrumento ―iluminado‖ de emancipação individual. Se é verdade que Bourdieu refere a singularidade de cada habitus e a sua capacidade estratégica de improvisação e criatividade (e. por isso. os diferentes. do que pela propriedade. Não só porque os símbolos envolvidos na construção de uma imagem tendem a complexificar-se. fazer juízos automáticos sobre a pertença de classe dos portadores de um determinado estilo de apresentação (e representação). o carácter duradouro e irreversível das . o paradoxo que a moda resolve: ela permite. excepto no optimismo desmesurado com que encaram a questão. Dito de outra forma. O gosto é sempre um produto relacional. traduzindo a ―«impaciência» específica da vida moderna‖[950] e a perda de terreno das ―grandes convicções duráveis‖[951] e exprimindo a ―atracção formal inerente à fronteira. de abertura à mudança). as disposições incorporadas (hexis) e os esquemas simbólicos e valorativos (ethos) de percepção e classificação da realidade. Ela está. deixaria de o ser. a moda são os outros. a distinção (na busca constante do novo). reflectindo mediações subtis entre as condições objectivas de existência. por conseguinte. por exemplo. se a moda se alargasse infinitamente. ao começo e ao fim. Na Praia da Luz essas distâncias são visíveis na forma de ocupação do espaço e de apresentação em cena. Há códigos simbólicos que manifestamente não estão generalizados e seguem as leis da escassez. para moldar uma humanidade mais legalista. São relativamente poucos os indivíduos que conseguem fazer da sua aparência uma obra de arte. valorizando-se. o habitustende a tornar-se mais plástico. de resto. Realça. na medida em que se define mais pelo desejo de possuir.

1. Estes grupos são quase sempre mais idosos. No entanto. aberto à permanência dos processos de socialização e à pluralidade de quadros de interacção e de grupos de referência com quais os agentes se identificam. do lúdico e da estilização da vida sobre as segmentações e hierarquias do espaço social. no entanto. este menor investimento na imagem acaba por criar a impressão de uma maior homogeneização. no entanto. A indumentária é bastante informal (jeans. um investimento extremamente visível nos modos de apresentação. paradoxalmente. por uma necessidade de preservar a liberdade interior. fisicamente inscritas — incorporadas[953]. 3.2. Como Simmel refere. o conceito acaba por se revelar demasiado estático e inoperante aquando de situações ou conjunturas de aceleração do ritmo de mudança social e de permeabilidade face ao novo. Os usos sociais da moda e a complexificação/multiplicação dos estilos de vida fazem parte desta tendência de velocidade de circulação que se associa. ao valor de signo das mercadorias e ao seu curto prazo de validade. estão praticamente ausentes. Em algumas noites. No B Flat. se tornam uma ―quase-natureza‖. Nesses casos.disposições inconscientes. extremamente dependentes das suas ―condições primitivas de aquisição‖ que. Mas a realidade não cessa de existir e impele-nos a desmistificar a ilusão de uma vitória da estética. Serão estas diferenças resultado de uma representação diferenciada sobre os usos sociais da ―cultura de saídas‖. A estilização da vida quotidiana não é aqui um traço dominante. por exemplo). Voltaremos adiante a esta questão crucial. ritualizada)? Não existe. a observância à moda surge como refúgio: ―a obediência cega às normas da . apesar de uma maior variedade etária. por isso. por vezes a moda pode conferir a impressão de que as pessoas ―estão de uniforme‖[955]. De certa maneira. como em certos grupos da Praia da Luz.. Tal pode acontecer. t shirts. entendida por alguns como um acto banal e por outros como uma ocasião especial e de ―cerimónia‖ (ou seja. a presença de jovens adultos é significativa. com excepção de alguns grupos onde se realçam da parte masculina o uso de gravata e da parte feminina um estilo ―clássico‖ (saia e casaco. por isso.. pólos). Os adolescentes. mas. O que não significa que as pessoas não se apresentem à moda. Impõe-se. Os grupos tendem a ser etariamente homogéneos. O fundamental é saber que modos de vida estas modas exprimem. B Flat — Ecletismo. por seu lado. nas nossas sociedades. destaca-se o predomínio dos adultos com idade entre os 30 e os 40 anos. tornar mais plástico o conceito de habitusinserindo-o numa ―perspectiva processual‖[954]. aliás.

Por outro lado. em espanhol. Em pontos estratégicos. Programa dedicado à comemoração da revolução.generalidade. Como se depreende por estes dois breves ―retratos‖ o tipo de espectáculos apresentados no B Flat revelam a preocupação de. propiciar uma mistura de géneros e lançar pontes em direcção a outras formas de expressão. Sala decorada com posters da bandeira nacional. Na sala exibe-se uma colecção de pinturas. Actuam Fernando Tarrés e o seu grupo. A oferta cultural é também elucidativa. Repertório alusivo à canção de intervenção. os públicos adolescentes). estilo banda desenhada. Atente-se nos seguintes ―retratos‖: Noite de 24 de Abril de 1997. retratos de José Afonso. A apresentação dos músicos é feita pelos próprios. O espaço. em tudo o que é exterior. quer na apresentação dos músicos (extremamente sóbria. O quadro retrata dois polícias a arrancarem uma flor do cabelo de um jovem. e quadros de pintura abstracta. quatro grandes fotografias: uma multidão em manifestação. Anunciam uma homenagem a Astor Piazzolla. na sua aparência de ―cave‖ e na sua horizontalidade favorece muitíssimo a apreensão de um sentimento de informalidade. dentro dos limites do jazz. Não só algumas das menções implicam a acumulação de referências históricas e políticas (que afastam. numa parede. bebendo cerveja no intervalo entre cada composição). quase descuidada). be rough with love”. No entanto. como favorecem uma recepção mais intelectualizada (e por isso menos dispersa pela forma. a alguns compositores brasileiros e a Pablo Picasso. noutra. Sérgio Godinho e Adriano Correia de Oliveira. com colagens de papel de jornal e grandes incrições: “If love be rough with you. A informalidade é a nota dominante. recriada com arranjos jazzísticos. pelo . A partir da uma da madrugada a sala começa a esvaziar-se. Setembro de 1997. o repertório não deixa de impor limites dentro dos quais se recrutam os públicos. eventualmente. a grande proximidade face ao ―palco‖ (que apenas se distingue por lá estarem os artistas e os instrumentos) impele a uma maior concentração no espectáculo. representa para eles o meio consciente e deliberado de reservar o seu sentimento pessoal e o seu gosto‖[956]. Ouvem-se palmas quando soam os primeiros acordes de “A Pedra Filosofal”. quer na sua postura durante o espectáculo (por exemplo.

7 9.3. enquanto que os inquiridos mais idosos frequentam preferencialmente o grande auditório (69.0%) (44.6%) Café Concerto N=104 (36.3 47. no garrido das cores das paredes junto às janelas.9%) 20.7 Rivoli – Espaços Internos Grande Auditório N=134 (47. ao nível do café concerto.8 14. na grande proximidade face ao pequeno palco. torna-se importante compreender que o espaço não é . enquanto que. embora dentro de universos culturais modernos (a exposição de pintura abstracta. embora existam algumas produções de difícil classificação..7%) 31. Quadro XLIII .Sub-espaços do Rivoli por escalões etários Escalões Etários Até 20 21-30 N=48 N=126 (17. certamente que nenhum repertório caberia nessa categoria.3 21.3%).1 41. Giddens é um dos autores que mais tem insistido nesta questão. Rivoli Se atentarmos no quadro XLIII.0 Mais de 40 N=62 (22.1. A estrutura de interacção que se desenrola nestes cenários não é independente da sua configuração.3%) 37. na sensação de horizontalidade que predomina. apesar da des-sacralização patente na sua remodelação. No grande auditório predominam os espectáculos que se enquadram na ―cultura erudita‖.7 47. ao enfatizar que―os agentes movem-se em contextos físicos cujas propriedades interagem com as suas competências (.0%) 67. constatamos que o público adolescente se concentra de forma nítida no café concerto (48%). as referências a Picasso ou Piazzolla). a lembrar peças multicolores de um puzzle gigantesco). Assim.3 22. responde a objectivos de representação simbólica e de prestígio. Mas existe igualmente um ―efeito espaço‖que não podemos negligenciar. respeitante à distribuição etária por espaços internos do Rivoli (e respectivos espectáculos)..5%) Pequeno Auditório N=44 (15. o café concerto caracteriza-se pela sua informalidade (patente na distribuição das pessoas por mesas.6 31-40 N=46 (16. dado o seu carácter iconoclasta (caso dos Repórter Estrábico).) ao mesmo tempo que os agentes interagem entre si‖[957].―invólucro‖. pela apresentação). Enquanto que o grande auditório.9 38. 3.6 Tal não admira se atendermos à estrutura da oferta de cada um dos subespaços.

embora os seus constrangimentos e/ou recursos não sejam indissociáveis dos projectos dos agentes na construção diária da realidade. o brio na indumentária salta à vista. como acontecia na Praia da Luz. ilustrarão melhor o que se pretende demonstrar: Segunda noite de estreia do novo Rivoli[958]. Há poucos jovens. certamente porque o grau de formalidade e de ritualização é superior.neutro. Vestem calças larguíssimas. O espaço de entrada contíguo ao grande auditório está impecável: tons claros e suaves nas paredes e colunas. Quase não há homens sem gravata. Os cânones são aqui mais restritos. através do espaço-tempo os padrões institucionalizados de comportamento ligam-se às micro-situações de interacção quotidiana. As mulheres ostentam vestidos de cerimónia. Por todo o lado. provocatório e anti-sistema: . constituído por quatro rapazes de média etária que pouco deve ultrapassar os vinte anos. chão de mármore ou alcatifado. de forma sincopada. Contam-se pelos dedos as calças de ganga. No entanto. Concerto pela novel Orquestra Nacional do Porto. de maneira a conseguir um certo efeito vocal. um grupo emergente de hip-hop. no entanto. apresentam a barba por fazer. o vocalista canta tapando o nariz com o dedo. Respira-se a solenidade de uma grande ocasião. Desta forma. Café concerto. assistentes de sala cuidadosa e uniformemente vestidos por uma marca consagrada. Alguns ―retratos‖. Algumas trazem casaco de pele. Alguns versos das suas canções denotam uma certa agressividade agonística: “O inimigo foi vencido/chegou a hora da sua morte” “Quem sobrevive é o mais forte/não serei vencido/nem depois da morte” “Rap duro como o aço” Outros uma ética de diversão: “Dêem-me aquela garrafa de absinto” “Toda a gente vai ficar a curtir” “Agora que te encontrei estou super-contente” “Põe a ganga na mortalha” Outros ainda um sentimento iconoclasta. não há uma grande variedade estilística. e os que estão presentes não se distinguem. dada a sensação de selecta uniformidade. Movimentam-se ao som da música. Espectáculo com os Mind da Gap. Sala apinhada de gente. dois deles usam boné com a pala virada ao contrário.

Espectáculo com os Repórter Estrábico. Há também algumas pessoas que aparentam ter à volta de trinta anos. O vocalista pergunta: “O que seríamos nós sem ela? Uma palavra vale por mil imagens. A sua apresentação é uma paródia de certos tipos sociais: veste um fato de treino com um telemóvel à cintura e uma camisa de alças branca. desta feita com o símbolo da Expo 98. O vocalista inicia o concerto com um grito:“Free me!”. Outro diapositivo mostra um crânio a ser aberto como uma lata de conservas. . Aparece uma imagem do galo de Barcelos. O vocalista intervém com sarcasmo: “Faltam 767 dias para o ano 2000. mostrando tubarões de boca aberta e dentes afiados. uma imagem por mil palavras”. rondando a média etária dos artistas. Um dos slides (com a legenda: ―Tiburones vivos‖) é alusivo a cartazes de um circo espanhol. notando-se poucos adolescentes.“São fachadas as figuras/do ministro e presidente” “Governo e corrupção/arrogância e ignorância/dinheiro e poder” “Têm mais merda na cabeça/do que a fralda de um bébé” “Quem não se sentir bem/faça-me um favor e saia” Há também referências a uma certa desorientação normativa: “O pensamento é a minha droga/a droga é o meu pensamento” (refrão) “Andei perdido/confundido/completamente à toa” Mas existem versos de afirmação de ―autenticidade‖ e de livre-arbítrio: “Somos nós. O vocalista é simultaneamente um actor. há quem se apresente de forma extremamente trabalhada. No entanto. Nota-se com particular visibilidade a presença de uma ―tribo‖ juvenil: os rapazes caracterizam-se pelos seus longos cabelos e boné vestido com a pala ao contrário. Para 98 eles que façam as contas”. meu/encontremos a solução/luta sempre/o destino está na tua mão” (refrão) A assistência é bastante jovem. somos nós/não copiamos ninguém” “Quem me dera que o mundo fosse como eu queria/mas a vida é madrasta/já há muito se dizia/o mundo é teu. Novo slide. A actuação é acompanhada pela projecção de slides. Café concerto. Eles e elas usam brincos. A indumentária é claramente informal. O vocalista vai mostrando cartões com inscrições em inglês (“Tall”/”Clean”/”Bright”/”Very Tipical”). ainda que simulando uma postura négligé. muitos deles no nariz e nas sobrancelhas.

próprio . joga com a provocação. Não há grande lugar para o diferente. Diana Crane refere características que se enquadram perfeitamente na análise feita ao espectáculo dos Repórter Estrábico: provocações intencionais à audiência. com a apresentação de cantores como Sérgio Godinho). Não admira. No caso do grande auditório a aproximação à cultura consagrada e ao seu aparato simbólico é evidente (apesar de haver alguns laivos de ecletismo. o panorama geral é outro.Sucedem-se slides com palavras ou interjeições (“Baby”/”hum”). Torna-se notória a existência de um certo grau de homologia entre a oferta cultural destes subespaços e o perfil etário dos públicos. traduzida pela sua formalidade e sofisticação dentro de cânones estéticos relativamente rígidos de distinção social (embora essa distinção se atenue num contexto de grande homogeneidade. fazendo apelo a audiências relativamente pequenas. Por outro lado. As provocações e as analogias com outros símbolos são evidentes: num slide com as inscrições “Com Some” as letras imitam o ícone da Coca Cola. o iconoclasmo e a cumplicidade (o ―piscar de olhos‖) do receptor (desenvolveremos mais adiante esta dimensão). Num dos últimos slides surge um telemóvel. Exigem uma certa actualização cultural que favorece claramente os públicos mais jovens. diluição das fronteiras entre arte e vida quotidiana. por vezes mesmo não consagrado. Podemos situá-los no âmbito do que Diana Crane apelidou de urban culture ou urban core: ―cultura urbana produzida e disseminada em cenários urbano para audiências locais‖[959]. entre o suporte auditivo e o suporte visual (onde se encaixa a própria imagem e apresentação dos artistas). A maior parte dos artistas situa-se à margem das grandes organizações de produção e distribuição. que a média etária do público seja superior e que os modos de apresentação traduzam uma postura adequada. Por vezes podem ser considerados como o equivalente pós-moderno das vanguardas. uma selectividade onde as contradições aparecem mirificamente resolvidas. por isso. O vocalista aproveita a ocasião e coloca o telemóvel a tocar junto ao microfone. justaposição de objectos e comportamentos díspares. bem como o sentimento de efémero. Os universos culturais dominantes situam-se claramente no pólo moderno. Os corpos respiram poder. No café concerto. própria do convívio entre pares). apesar de grandes variações nos perfis de públicos consoante os espectáculos. Acrescentaríamos ainda a importação/descontextualização/reciclagem de imagens-símbolo. o permanente jogo de ―fronteira‖ entre a crítica social e o puro gozo narcísico. O ambiente revela. então.

Trajectória escolar por espaço Espaço B Flat N=122 (27.0%) as situações de reprodução social. já que41.3 Rivoli N=241 (54. a apropriação do vernáculo.0%) Médio Capital Escolar Tradicional (=) . Por isso. estes caracterizam-se por uma fortíssima sobrerepresentação de indivíduos com um alto capital escolar e por uma consequente subrepresentação dos inquiridos em que esse capital é baixo[960]. optimizada pelos grupos juvenis.9) 1.9 Trajectória Escolar Baixo Capital Escolar Tradicional (=) N=9 (2. Note-se igualmente.6%) 0. correlativas de uma crescente fragmentação em subgéneros artísticos (produtos de fronteira e de cruzamentos vários) estimulam a tendência. por isso. de diferenciação em estilos de vida e práticas quotidianas. embora sem perder as suas funções de regulação/controle social e de manifestação de distâncias várias. Espaço. de públicos restritos. De facto. Quadro XLIV . 3.2.8 Praia da Luz N=79 (17. a moda é para eles uma forma privilegiada de auto-expressão. com especial destaque para a Praia da Luz. sob este ponto de vista.5%) 2. Estamos em presença.da performance e do happening. onde predominam de forma clara (62.9% dos inquiridos são oriundos de um agregado familiar em que o capital é igualmente elevado (por isso incluídos na categoria ―alto capital escolar tradicional‖). Todas estas características. existe uma assinalável homogeneidade entre os vários espaços estudados. competências e modelos simbólicos dos públicos. no caso dos Mind da Gap. na maior parte dos casos ―herdeiros‖ de uma posição privilegiada. Se observarmos agora o quadro XLIV referente ao cruzamento entre o espaço e o capital escolar dos inquiridos. concluímos que.

quanto mais . A este respeito convém realçar que o jazz conta com uma divulgação muito mais restrita do que a música clássica.3 8. No Rivoli. corrobora outros trabalhos. realçar algumas especificidades.3 14. Importa.7%) (=)Situações de reprodução 5. programas de divulgação e bandas sonoras[962]. Nos restantes espaços tais inquiridos dividem-se.6 3. genéricos televisivos.9%) Baixo Capital Escolar Moderno (-) N=2 (0. invalida a possibilidade de estarmos em presença do mesmo grupo de status. ―alto capital escolar moderno‖ e ―tradicional‖.8%) Alto Capital Escolar Tradicional (=) N=185 (41. mas igualmente na penetração na vida quotidiana. na Praia da Luz os inquiridos com um alto capital escolar constituem uma elite tradicional. à partida. assente não apenas na difusão discográfica (de que o jazz também usufrui).8%).0 13.N=30 (6. nacionais e estrangeiros.3 0.6 6.1 39.1%) Médio Capital Escolar Moderno (+) N=23 (5. de forma quase igual (B Flat) ou mesmo equitativa (Rivoli) por uma elite emergente.7 5.4 41. João Sedas Nunes fala mesmo. O B Flat é claramente o espaço mais selectivo. o que.9%) Alto Capital Escolar Moderno (+) N=56 (12.9 5.9 (-) Situações de mobilidade decrescente (+) Situações de mobilidade ascendente Nos outros espaços o peso relativo dos indivíduos com ―alto capital escolar moderno‖ é significativo (B Flat:44. por isso.8 48. enquanto pano de fundo de publicidade.0 32. Rivoli: 39. Por outro lado. de uma relativa dessacralização.1 7.2%) Alto Capital Escolar Moderno (+) N=110 (24. aliás. além disso. Por outras palavras.8 1.3%.5%) Médio Capital Escolar Moderno (-) N=27 (6. equivalem-se. as trajectórias de mobilidade ascendente (Anexo V/Quadro XII). o que.9 24.3 6. adquirindo particular importância as formas de transmissão do privilégio. aliás.4 4. também.9 12. como adiante teremos ocasião de comprovar.7 12. a respeito desta última. com reflexos na diversificação dos universos culturais e dos estilos de vida. sobre o perfil do público de jazz[961]. Não são de negligenciar. para utilizar a terminologia weberiana.

4%) 4.3%) 2.6 17. maior será a tendência de a participação do público adquirir um carácter distintivo.Frequência do espaço semi-público por lugar estudado B Flat N=139 (28.5%) Raramente/Nunca N=343 (69.9%) 21. Atentemos agora nos padrões de gosto dominantes.um género se revela selectivo. mesmo sendo verdade que a adesão à cultura sobrelegitimada se associa positivamente a um alto capital escolar. O que nos conduz a uma situação de homologia imperfeita que contradiz em parte as teses de Bourdieu. necessariamente. Por outras palavras.0 64.6 74. A Praia da Luz revela um relativo empolamento dos inquiridos com médio capital escolar. seguindo-se o B Flat e.6 Espaço Praia da Luz N=80 (16. a Praia da Luz. que ainda não completaram o seu percurso escolar. ao peso dos estudantes adolescentes. o que vem comprovar outros estudos nacionais e locais. o dado mais importante a realçar centra-se no facto da esmagadora maioria dos inquiridos ter uma baixíssima frequência desta esfera. O Rivoli é dos três espaços o que revela um maior ecletismo. apenas uma pequena parte dos públicos privilegiados que possuem esse alto capital adere aogosto legítimo. No entanto.3%) 3. embora mantenha as características dos restantes.3 No entanto. por último. Ou seja.8 80. Tal facto poderá estar associado à diversidade interna desta instituição (em termos da organização dos subespaços e da estruturação da oferta).5 31. De acordo com o quadro XLV.5 Rivoli N=272 (55. uma heterogénea dispersão pelo restantes universos de gosto (―médio‖ e ―popular‖).0 Espaço Semi-Público Frequentemente N=18 (3. mas isso deve-se. esta ausência de identificação com a cultura sobrelegitimada atenua-se se somente considerarmos a adesão às práticas receptivas e informativas de . Quadro XLV . De qualquer forma. apenas uma pequena elite dentro da elite revela um grau médio ou alto de participação nas práticas da cultura cultivada. tanto mais que a trajectória virtual desses estudantes virá reforçar ainda mais o peso dos inquiridos com um alto capital escolar. o seu público é igualmente um círculo restrito.7%) Com Alguma Frequência N=130 (26. antes de mais. o que significa. o público do espaço Rivoli é o que mais se identifica com o espaço da cultura sobrelegitimada. reforçando o seu fechamento[963].

públicos cultivados (Quadro XLVI).8 É curioso analisar a comparação entre o Rivoli e o B Flat. pode ser associado como traço de especificidade de uma cultura juvenil predominante neste espaço.Frequência de práticas receptivas e informativas de públicos cultivados por espaço Práticas Receptivas e Informativas de Públicos Cultivados Frequentemente N=48 (9.2 75. já que a maior parte dos espectáculos se pode incluir nesta esfera (a diversidade existe. a distância dos públicos do B Flat em relação à cultura sobrelegitimada pode-se eventualmente interpretar como indicador de uma concentração mais exclusiva no jazz sem trânsito assinalável para outros géneros musicais ou diferentes formas de expressão artística ―nobre‖.2 59. De qualquer forma. com especial ênfase na Praia da Luz o que.9 35.3%) 5. os inquiridos que raramente ou mesmo nunca frequentam estas actividades sofrem uma redução significativa. mantém-se a mesma distância relativa entre cada espaço: os públicos do Rivoli são os que mais frequentemente aderem a estas práticas. enquanto que a rejeição dos ―não consagrados‖ é transversal aos vários espaços (Anexo /Quadro XIV). Quadro XLVI .2 19. De facto.6%) Com Alguma Frequência N=189 (37.3 42. Por outro lado. O que não é de admirar.2%) 4.8 44. a média e alta identificação com os ―consagrados modernos‖ apenas é superior a 50% na Praia da Luz (Anexo V/Quadro XIII). está mais fortemente ligado à cultura erudita. . Inversamente.6 Espaço Praia da Luz N=81 (16. mas a identidade do espaço afirma-se preferencialmente através da adesão à cultura consagrada).9 Rivoli N=278 (55. Sinal de uma maior coerência/homogeneidade de gostos? O Quadro XLVII referente ao grau de identificação com os autores musicais classificados como consagrados clássicos mostra idêntica orientação: a média e alta identificação é maioritária entre os inquiridos que frequentam o Rivoli e minoritária nos restantes espaços. Segue-se o B Flat e em último a Praia da Luz. com 75.3% dos inquiridos a declararem o seu afastamento. uma vez mais. apesar da polivalência em termos de oferta cultural que se orgulha em assumir.7%) B Flat N=142 (28. O primeiro.5%) 12.7%) Raramente/Nunca N=264 (52.

constitui. A adesão à categoria que apelidamos de ―práticas expressivas semi-públicas‖. que os estilos de vida dos ―novos intermediários culturais‖ se generalizaram[965].3 É curioso constatar que esse perfil juvenil (internamente multifacetado) encontra uma grande correspondência na descrição que Bourdieu faz dos ―novos intelectuais‖. Tendo em conta o papel dominante que exercem ao nível da produção e difusão de informação (designadamente ao nível de um controle das posições-chave nas indústrias culturais e nos mass media)[967] parece credível que surjam como os intermediários culturais por excelência da contemporaneidade[968].4%) 41. Uma das características desses novos estilos de vida. anteriormente referida em várias ocasiões.6 20.3 25. ou ainda. . em nossa opinião.7 Espaço Praia da Luz N=63 (16.3 20.Grau de identificação com os compositores "consagrados clássicos" por espaço Música – Consagrados Clássicos B Flat N=103 (26. fortemente propiciadoras de redes de sociabilidade em contextos de interacção.2 4. como Featherstone. é a informalização dos padrões de consumo e das relações sociais.7%) Médio Grau de Identificação N=84 (21. designadamente quando o autor francês acentua o ―repertório de «recursos» da anti-cultura adolescente‖ ou o seu ―humor anti-institucional‖ avesso a hierarquias e a todas as formas de classificação[964].4%) Alto Grau de Identificação N=100 (25. rígidas e consistentes[969]. simbolizando nos seus valores e estilos de vida o espírito do tempo. Se considerarmos.2%) 8. poderemos compreender melhor a similitude entre o conteúdo da actual tipicidade juvenil e a ―nova pequena burguesia‖. que os valores das primeiras gerações pós-materialistas (que terão surgido na década de 70 nos países ocidentais mais desenvolvidos) se tornaram dominantes[966].8%) 11.7 46.6 Rivoli N=227 (57.0 37. no seguimento de Inglehart. um sinal de inserção nessa orientação normativa mais vasta.5%) Baixo Grau de Identificação N=156 (39.0 24.Quadro XLVII .8 31.0%) 28.5 Nulo Grau de Identificação N=53 (13. marcada pela diluição e flexibilização (para muitos indicador de anomia) de regras outrora precisas.

Quanto à literatura (Anexo V/Quadros XVIII.6%) 75. É patente a diluição dos pólos ―clássico‖ e ―moderno‖ no que concerne aos filmes ―consagrados‖. O melhor indicador da posse de uma competência cultural legítima encontra-se na clara rejeição. Vejamos o caso do cinema (Anexo V/Quadros XV. Quadro XLVIII .0 16. o grau de identificação é. dos autores ―não consagrados‖.3%) 5. a própria frequência do lugar constitui uma actividade passível de ser enquadrada na referida categoria.6 66. as clivagens são muito menos significativas. diferenças significativas (exceptuando uma proximidade ligeiramente superior por parte dos inquiridos da Praia da Luz no que concerne aos autores ―consagrados modernos‖). a sua identidade específica.5 Rivoli N=274 (56.Ora. uma vez mais. aliás. amplamente partilhada. a ―nobreza cultural‖ de quem . convém referir que. Mesmo o eixo ―consagrado‖/‖não consagrado‖ afigura-se pouco discriminativo : apenas se verifica uma maior adesão (dentro de índices globalmente muito baixos) por parte dos inquiridos da Praia da Luz. para ambos os casos. traduzindo. no que se refere ao cinema e à literatura.8 32. baixíssimo.8 Frequentemente N=43 (8.7%) 8. eventualmente.1 Espaço Praia da Luz N=78 (16. XVI e XVII).3 12. a literatura surge como a prática mais distintiva (identificação generalizada com o pólo consagrado). é de novo a Praia da Luz o espaço onde os inquiridos mais aderem a esse conjunto de práticas.Frequência de práticas expressivas semi-públicas por espaço Práticas Semi-Públicas Expressivas B Flat N=135 (27.7 62. como já referimos.8%) Com Alguma Frequência N=324 (66. Em suma.1 No entanto.0%) 20.5%) Raramente/Nunca N=120 (24. Aliás. de acordo com o quadro XLVIII. De facto. que passa. XIX e XX) os praticantes culturais revelam-se mais competentes: diminuem os índices de reduzida identificação e a resposta modal centra-se no médio grau de identificação embora não se registem. É por aí.

9%) 39. Na música.Frequência de leitura de livros por espaço B Flat N=143 (26. mais se lê (apesar de um ligeiro recuo nas classes etárias menos elevadas face a idêntico inquérito de 1988[972]).3 Rivoli N=294 (55.5 15. relativamente elevada já que apenas uma minoria (apenas ultrapassando os 20% na Praia da Luz)[970] declara não ler. Quadro XLIX . na referida investigação detecta-se que a leitura de livros é inversamente proporcional à idade.4 40. o que sem dúvida estará articulado com o elevado volume global de capital escolar da amostra[971].8%) Com Alguma Frequência N=229 (43. Em relação a um estudo de âmbito nacional sobre hábitos de leitura. Ora. verifica-se uma clivagem ―clássicos/modernos‖.2%) 46. a inexistência de qualquer eixo de diferenciação (consagração/não consagração e clássicos/modernos) pode estar relacionado com o seu estatuto menos prestigiante de ―arte média‖. Ao observarmos agora a prática de leitura de livros (quadro XLIX) verificamos que ela é. quanto mais jovem se é.6 Ler Livros Frequentemente N=217 (40. Os inquiridos da Praia da Luz são quem lê menos.4 27.4 12. Por outras palavras.5 47. no geral. De .2%) 45.9%) 25.9 Há no entanto um aspecto dissonante face ao estudo de âmbito nacional.2 Espaço Praia da Luz N=95 (17. adiantámos a hipótese de se articular. com a composição etária dos diferentes públicos. é visível a sobrepresentação na nossa amostra dos inquiridos que afirmam ler frequentemente ou com alguma frequência.possui um elevado capital cultural. Para além de se ligar à identidade específica de cada espaço e da sua programação cultural. não deixando de se registar um distanciamento face aos nomes não consagrados.0%) Raramente/Nunca N=86 (16. Necessitaríamos de ter aprofundado esta dimensão no inquérito para podermos construir uma interpretação fundamentada. No caso do cinema. igualmente.

Olivier Donnat fala de uma ―transformação dos actos de leitura‖[973] que privilegia não só suportes alternativos fora da esfera da leitura. Tornam-se especialmente visíveis certos grupos (não só pela disposição cénica do espaço. etc. um espaço marcado pela informalização das relações sociais e da estilização dos modos de apresentação. O próprio livro. uma concepção que tende a ver o livro como símbolo do passado e da tradição. maxime a escola.3. podemos delinear da seguinte forma o perfil distintivo de cada um dos espaços em análise (apesar de características transversais. Existirá. nomeadamente no que diz respeito a um afastamento dos mecanismos de educação e consagração cultural tradicionais. ao divulgar-se e banalizar-se. já que este sofre ―um défice de imagem junto daqueles que são os mais sensíveis aos valores da juventude ou à imagem de modernidade veiculada pela economia mediático-publicitária‖[975]. Esta última hipótese explicativa não nos parece porém aplicável ao caso português. Esta hipótese interpretativa parece-nos plausível e aplica-se aos principais eixos de caracterização do universo simbólico dos utentes desse espaço. 3. ―deslegitima-se‖. como pelo cariz restrito dessas ―tribos‖) que investem fortemente numa indumentária pouco comum. . publicidade. marcado por altíssimos níveis de iliteracia e por níveis de escolaridade globais ainda bastante afastados da média europeia. nomeadamente o audiovisual e a microinformática (―o lugar cada vez maior que ocupa o audiovisual na formação dos saberes e das representações do mundo induz maneiras de ver. correlativo de um dissipar de fronteiras entre as ―boas‖ e ―más‖ leituras. como a acentuada juvenilização dos seus públicos e uma alto nível de credenciação escolar): A) Praia da Luz: constitui. revistas. perdendo o seu cariz de prática distintiva. junto dos públicos da Praia da Luz. a par do café-concerto do Rivoli. é provável que favoreça o desenvolvimento de faculdades específicas que as «gerações-TV» utilizam em cada uma das suas actividades‖[974]) mas igualmente o recuo do livro face à imprensa escrita (livros. de raciocinar e sentir diferentes. explorando as suas potencialidades distintivas. design.). Breve Síntese. música alternativa) nas quais assenta a programação do local.qualquer forma ela consolida ainda mais o perfil que temos vindo a traçar sobre o universo simbólico dos inquiridos da Praia da Luz. Em suma. Existe uma clara identificação destas fracções (diminutas) com a legitimação de franjas emergentes do campo cultural e artístico (moda.

sendo permeável a franjas de público cujo alto capital escolar resulta de uma trajectória ascendente (sendo por nós classificado de ―moderno‖). No entanto. o que revelará uma orientação ―moderna‖. a nível da composição social. igualmente. podendo mesmo falar-se de um certo fechamento social. como ainda à composição social (tomando como indicadores o capital escolar de pertença e de origem). virada para canais e conteúdos alternativos de consagração cultural. a imagem mais ampla do Teatro Municipal associa-se à identidade do grande auditório. Cada subespaço possui. um peso inferior de ―herdeiros‖ em relação à Praia da Luz. ocupando os públicos do primeiro uma posição relativamente próxima do pólo cultivado. com prolongamento numa fraca adesão à cultura cultivada. é semelhante à forma como os músicos surgem em cena. Na sua programação misturam-se. sendo informais. fenómeno que não deixa de ser curioso tendo em conta o já referido grande peso do ―alto capital escolar tradicional‖[977]. Eventualmente tal disposição estará mais presente na homogeneidade do estilo ―desportivo/informal elegante‖ que marca a imagem global dos praticantes deste espaço. Já Simmel consagrava numa tipologia a possibilidade de existência de ―modas pessoais‖. aliás. No que se refere às constelações de gosto. por assim dizer. embora aparentemente sem grande investimento simbólico. neste caso exprimindo-se pelaimitação de si através da ―concentração da consciência nesta única forma ou neste único conteúdo‖[976]. B) B Flat: Sendo o espaço mais selectivo em termos de capital escolar tem. é de referir um maior afastamento face ao pólo ―clássico/patrimonial‖. C) Rivoli: Dentro das limites das características globais da amostra apresenta-se como o espaço mais eclético.Apesar de. não deixam de obedecer aos cânones da moda. . assim. se estar em presença de grupos socialmente favorecidos. consagrado e clássico. como de resto sugere o significativo peso relativo do ―alto capital escolar tradicional‖. mais efémeras mas igualmente potenciadoras da tensão entre o desejo de distinção e a tendência mimética. O universo de gostos dominante (e que constitui. no entanto. tanto no que se refere à diversidade etária. Os modos de apresentação do seu público. a sua clientela específica. o que. não é automático que esse grupos de apresentação estilizada construam a sua fachada simbólica em termos rigidamente classistas. a identidade específica do espaço) situa-se a meio caminho entre o Rivoli e a Praia da Luz (embora mais perto do teatro municipal). referências clássicas e consagradas com conteúdos iconoclastas e não legitimados pelo campo cultural tradicional.

2 72. relação paradoxal. que se medem pela antiguidade‖[978]. ou seja. a tipologia que construímos[980]. inspiramo-nos em Bourdieu quando afirma: ―a capital escolar equivalente. 4.. O Quadro L confirma-nos essa mesma constatação. nomeadamente quando este distingue entre universos culturais ―clássicos‖ e ―modernos‖. trajectórias sociais e práticas culturais. antes de tirarmos conclusões apressadas sobre a pretensa homogeneidade de tal elite. De facto. tendo em conta o efeito de trajectória. com toda a carga simbólica que tal circunstância acarreta. nas últimas décadas têm ocorrido. não só . as diferenças de origem social (cujos efeitos se exprimem já em diferenças de capital escolar) estão associadas a disparidades importantes (. Quadro L . outra mais recente e dependente de uma ―aprendizagem institucional‖. escolar.. O autor francês pretende por conseguinte distinguir entre duas estruturas diferentes de capital escolar dentro das classes dominantes: uma marcada pela antiguidade e exprimindo uma precoce e paulatina familiarização com a ―cultura nobre‖ (privilégio do verdadeiro ―conhecedor‖. Capital escolar.8 No entanto. Tivemos anteriormente ocasião de realçar o facto de estarmos em presença de uma amostra bastante seleccionada em termos de capital escolar.9 27. feita dessa mistura de segurança e de ignorância (relativa) onde se afirmam os verdadeiros direitos de burguesia. convém analisarmos com alguma minúcia a estrutura do capital escolar dos inquiridos. recolhe também importantes contributos de Olivier Donnat. No entanto. Nesse sentido.tendencialmente ligado à cultura consagrada clássica. Estrutura do capital escolar: o peso da origem social e a correcção da trajectória. 4. capaz de se distanciar dos universos escolares para demonstrar o seu ―natural‖ à vontade[979]).) O peso relativo do capital escolar no sistema dos factores explicativos pode mesmo ser mais fraco que o peso da origem social já que apenas se pede aos inquiridos que exprimam uma familiaridade estatutária com a cultura legítima ou em vias de legitimação.Capital escolar de ego Capital Escolar de Ego Baixo Capital Escolar Médio Capital Escolar Alto Capital Escolar N 30 109 372 % 5. enquanto uma das principais salas de espectáculos da cidade.1.

não menos importante. com um outro modelo de escola[982]. No primeiro caso. compreender situações de quebra de homologia. uma inculcação das predisposições da cultura ―legítima‖ (ela própria em processo de diversificação. os grupos de pares e as redes de sociabilidade em geral apresentam-se como canais de difusão e produção de novas formas culturais. ou seja. Ou seja. ganha particular relevância a emergência de novos critérios e instâncias de socialização ligadas à ascensão da cultura audiovisual e das indústrias a que nenhum campo artístico escapa. necessariamente. sem as .) a grande maioria dos artistas procuram hoje a estratégia ideal que permite acumular o máximo de capital mediático sem perder a consideração do seu meio‖[981]. dissimulada). penetrando com uma intensidade inaudita no próprio espaço privado. Donnat refere a necessidade dos artistas em gerirem ―o equilíbrio instável entre dois registos. na medida em que. Tal tenderá a acontecer com os indivíduos portadores de um alto capital escolar de cariz moderno. muitas vezes alternativas e/ou conflituosas). dada a pluralidade de instâncias de consagração. situações em que a um alto capital escolar não corresponde... embora extremamente visível no caso português) e à consequente inflação e desvalorização dos diplomas..) cada um deve procurar em permanência conciliar estas duas temporalidades visto que a notoriedade acumulada sobre o terreno mediático funciona como um capital susceptível de ser convertido nos capitais específicos do domínio de origem (. quebrando o monopólio do duo família-escola: os mass media. o do seu campo de pertença e o da economia mediático-publicitária (. Assim. em especial para as jovens gerações. Esta distinção permite. No caso da procura assiste-se a uma forte recomposição social ligada a uma massificação escolar (muito recente. se sobrepõem os comportamentos e aquisições cognitivas posteriores mercê de um contacto mais prolongado com a escolaridade e. Os aparelhos ideológicos (para utilizar a terminologia althusseriana) apresentam-se crescentemente de maneira difusa e informal. torna-se fundamental perceber se a estrutura do capital escolar é de índole ―clássica‖ (resultando de uma situação de reprodução da posição social de origem) ou ―moderna‖ (resultando de um processo recente de mobilidade social ascendente ou descendente). Por outro lado. ameaçada no seu monopólio de agência oficial de educação formal (e de aplicação daviolência social legítima: uma violência simbólica.transformações significativas no campo da oferta. diversificam-se as fontes de transmissão e aquisição de capital cultural.. para além do que Bourdieu afirmou. como na composição dos públicos. às condições iniciais de transmissão e inculcação familiar de um certo volume de capital cultural. para alcançar uma posição social privilegiada torna-se necessário acumular cada vez mais credenciais escolares.

os níveis de escolaridade do agregado . é mais difícil impor pela socialização familiar um conjunto durável de disposições estéticas e de orientações normativas. em grande parte devido a um maior investimento no capital escolar. estamos em crer que a um capital escolar tradicional (resultante de uma lógica de reprodução social) corresponderão universos culturais relativamente mais ―clássicos‖. Mesmo a acção pedagógica escolar vê-se confrontada com a escola paralela (cultura audiovisual) e com a renovada importância das redes de sociabilidade. pelas lógicas de classe diferenciadas na relação com a escola.. aumenta. maior será a impermeabilidade das qualificações. Além do mais. É certo que existirá uma tendência transversal (e de certo modo transclassista) ligada à condição juvenil. ou seja uma cultura particular apresentada como a única. De qualquer forma. mais decisivo será o facto de se possuir ou não um diploma escolar‖[986]. torna-se cada vez mais frequente a existência de descoincidências entre a origem e a actual posição social. No entanto. verificamos que. como de resto já mencionámos. com as suas hierarquias e sistemas de classificação. a universal. isto é.antigas condições de impor arbitrariamente o seu arbítrio cultural. Por outro lado. Estes indivíduos tenderão a ver a cultura legítima tradicional. com a correspondente superestrutura de valores dominante. como uma das várias divisões da realidade possíveis. Com efeito. tal facto será ainda mais pesado.. a necessidade de plasticizar o conceito de habituse de homologia[987].quanto mais se moderniza um país semiperiférico. numa sociedade como a nossa. globalmente. A centralidade do capital escolar nas estratégias de mobilidade e reprodução social intergeracional da sociedade portuguesa encontra-se aliás eloquentemente demonstrada por estudo recente: ―. pelo que já anteriormente foi explicado: o período formativo das novas gerações coincide com a ―explosão‖ da economia mediático-publicitária e da cultura audiovisual. Uma boa parte destas considerações encontra tradução adequada no Quadro LI. De facto. as formas de incorporação de capital cultural extra-familiar tenderão a ser predominantes nas situações em que o cariz ―moderno‖ do capital escolar resulta de trajectórias intergeracionais de mobilidade ascendente (correspondente aos inquiridos com capital escolar ―moderno‖ e alguns casos de médio capital escolar ―moderno‖[985]). em que se revelam elevadas taxas brutas de mobilidade social intergeracional. dada a clara juvenilidade da amostra. a legítima[983]. aumentando a sua predisposição para o ecletismo e para o que Donnat apelida de universo cultivado moderno[984]. Desta forma.

8% ascendem a patamares mais elevados. encontra-se bem patente no Quadro LIII.5% decaem em relação à situação familiar de origem.9%).Situação na trajectória de ego Situação na Trajectória Trajectórias Ascendentes N 189 % 42. contabilizando 12.7% e outra. mais ―suave‖.8 De qualquer forma. Esta constatação. Quadro LI . o que de alguma forma dá conta da inércia da estrutura social.familiar de origem são bastante mais baixos.7%) Alto capital escolar moderno (24.9%). Quadro LIII .8%) Médio capital escolar moderno (6.0%) Médio Médio capital Escolar moderno (5. impõe-se registar. No que se refere aos inquiridos provenientes de um agregado familiar com alto capital escolar. Com efeito.8 . é visível a tendência para a mobilidade ascendente ser muito superior aos fluxos descendentes. 17. fruto do cruzamento entre um médio capital escolar de origem e um alto capital escolar de ego. deparamos com o Quadro LII. apesar de quase 50% dos agregados já possuírem um alto capital escolar. com 24.5%) Baixo capital escolar moderno (0.2%) Médio capital escolar tradicional (6.9 33.9%) Alto capital escolar tradicional (41. quando observamos a situação de ego. uma quebra de 2/3 no que respeita ao baixo capital escolar e um aumento superior ao dobro no que toca aos inquiridos com alto capital escolar (?). enquanto que dos inquiridos com baixo capital escolar apenas 0. Por outro lado.3 46.Capital escolar do agregado familiar Capital Escolar do Agregado Familiar Baixo Capital Escolar Médio Capital Escolar Alto Capital Escolar N 90 151 212 % 19. Assim.1%) Alto Alto capital escolar moderno (12. referente à situação na trajectória. quer tradicional (situação de reprodução social: 41. de resto. somente 6.1% sofrem uma descida para o médio capital escolar e nenhum para o baixo capital escolar. comparando o capital escolar com o efeito de trajectória. resultante do cruzamento de um baixo capital escolar de origem com um alto capital escolar de ego. Quadro LII — Trajectória social com base no capital escolar Agregado Familiar Baixo Médio Alto Ego Baixo Baixo capital escolar tradicional (2%) Baixo capital escolar moderno (0.9%) Aí é marcante o peso do alto capital escolar. quer moderno (duas situações possíveis: uma de ascensão ―brusca‖. cujo capital escolar é médio.

7 6. nota-se uma grande capacidade de retenção por parte das camadas mais privilegiadas em capital escolar (a aposta nas qualificações escolares como factor de reprodução social. o que é consentâneo com as teses de Bourdieu). que analisaremos adiante. os mecanismos simbólicos da distinção. situação que abrange 12. por exemplo. ―um título que se torna mais frequente é por essa mesma razão desvalorizado. dada a inflação dos títulos escolares. característica que. Assim. automaticamente. também já referida. ―a elevação do nível da . a circunstância de se deter um alto capital escolar não implica. Apesar da sua importância ser central na sociedade portuguesa. por exemplo. nalguns casos ―saltando‖ mesmo patamares (passando. ainda assim. mas ele perde ainda o seu valor ao tornar-se acessível a pessoas sem valor social‖[990]. este autor considera que a grande fractura social se estabelece em torno da mobilidade.6 Assim. A segunda ressalva liga-se à desvalorização dos títulos escolares. Bourdieu refere ainda uma dimensão complementar a este fenómeno de inflação dos diplomas: a perda de ―qualidade social‖ dos seus detentores. o autor francês reconhece que a massificação escolar e a democratização dos patamares mais elevados do sistema de ensino modificaram a relação dos agentes sociais com a cultura sem afectar. uma inserção privilegiada no mercado das categorias sociais. outros factores devem ser tidos em conta. segundo Jean Viard. confere igualmente relevo aos recursos em meios de produção (propriedade) e aos recursos organizacionais (autoridade)[989]. em especial nos seus segmentos mais qualificados. no entanto. estabelecer duas ressalvas. Importa. Com efeito.7% dos inquiridos). dividindo os grupos sociais ―móveis‖ dos ―imóveis‖[988]. Como é possível tal paradoxo? De acordo com Bourdieu. Por outras palavras. A primeira prende-se com a influência desta mobilidade com base no capital escolar face à mobilidade social global. No entanto. de um baixo capital escolar de origem para um alto capital escolar de pertença. ao mesmo tempo que se verifica uma enorme porosidade por parte dos grupos com médio e baixo capital escolar de origem para ascenderem a posições privilegiadas. A teoria de Erik Olin Wright.Situações de Reprodução Trajectórias Descendentes 224 29 50. Podemos pois afirmar que a nossa amostra se caracteriza por segmentos sociais extremamente permeáveis ao movimento social. Outros autores falam ainda da importância das redes de sociabilidade. a par de uma compressão do mercado de trabalho. De facto. é essencial para se compreenderem as novas formas de estruturação social e os conflitos daí decorrentes. as expectativas em alcançar uma determinada posição social adequada ao capital escolar obtido tornam-se cada vez mais difíceis de cumprir. como de resto tivemos ocasião de realçar.

com a cumplicidade objectiva dos aparelhos de estado..) ao menos raro‖[991]. Assim. de os consumir ou frequentar. princípio gerador das práticas. dada a generalização de tal situação (apesar da capacidade de resistência ser socialmente diferenciada). pela maneira. contrariam o círculo vicioso da reprodução social via escola) somos levados a pensar que haverá mais do que uma alteração de superfície (mera translação. passando. Da mesma forma funcionam as estratégias de ―reconversão‖ destinadas a manter as posições herdadas ou para reproduzir a relação anterior entre o título escolar e o posto de trabalho (procurando. estrutura hierárquica. tornando-se elemento integrante das condições de existência (―estrutura estruturante‖. Por outro lado. À medida que certos bens ou práticas culturais se vão tornando comuns. marcando a sua diferença ―natural‖. as homologias tenderão a ser menos rígidas e unívocas e aumentará a probabilidade de se cruzarem níveis diferentes de legitimidade cultural. através da manutenção de uma―representação antiga do valor do título que favorece a hysteresis dos habitus‖. Muitas dessas estratégias funcionam. Algo semelhante está presente na conceptualização de Berger e Luckmann quando referem que ―cada papel abre uma entrada para um sector específico do acervo total . Podemos evocar aqui o conceito de ―pluralização de mundos de vida‖ que Giddens importa de Berger e que o autor inglês relaciona com a multiplicidade de ―ambientes de acção específicos‖ na ordem pós-tradicional (menos sujeita ao peso da tradição e da reprodução social)[993]. por isso. facilitando. assim. por exemplo. só por si. cada vez mais subtil. segundo Bourdieu). poder de unificação. cada vez mais ―diversos e fragmentados‖[994]. as fileiras menos desvalorizadas do sistema de ensino).procura determina uma translação da estrutura dos gostos. muitas vezes. O habitus. que vai do mais raro (. a existência de situações subjectivas de mistificação e negação da despromoção social (―hysteresis das categorias de percepção e de apreciação‖[992]) e a reprodução aparente da ancestral legitimidade.. No entanto. perante as múltiplas rectificações feitas aos capitais escolares de origem pelos movimentos de trajectória (que. com manutenção das distâncias relativas) na escolha e hierarquização dos gostos e práticas culturais. Ou seja. de acordo com Bourdieu. as classes dominantes accionam processos simbólicos de ―reintrodução da raridade abolida‖. a objectivação e incorporação da relação entre o título desvalorizado e o posto afigura-se incontornável. perde. haverá maior probabilidade de complementaridade e/ou choque entre dimensões contraditórias das condições objectivas de existência associadas a uma diversificação das vias e conteúdos de aprendizagem social e. dos percursos de acesso a uma determinada posição na estrutura social. consequentemente.

novo papel da informação e do conhecimento. Torna-se mais opaca. a relação outrora ―transparente‖ entre condição de classe e representações simbólicas. altos níveis de mobilidade social (como é o caso da nossa amostra. Estes sem deixarem de remeter para os condicionamentos sociais. precisamente. ascensão do mito individualista. proclamando com pompa e circunstância o fim das classes sociais[997]. deixando de depender estritamente da inculcação inicial (familiar) e do percurso escolar. busca de auto-expressão e pluralização das formas identitárias. oferecem maior resistência a serem classificados e a clarificarem. em que pouco mais de 50% das situações se reproduzem) tenderão a aumentar o leque de práticas rotinizadas disponíveis. menos identificável se torna a formação de classes. Os contextos de mediação entre as estruturas de classe e as práticas sociais multiplicam-se. desejosos de romperem com as mais ténues reminiscências marxistas e/ou weberianas. Outros desistem mesmo de procurar as cumplicidades e interacções entre práticas e estrutura social.) procuram restringir o conceito de classe social a uma função meramente descritiva (recusando-lhe poder explicativo ou a sua existência enquanto entidade autónoma que represente mais do que a soma das suas partes). científicas. factores como os modos de vida e os estilos de consumo. o nosso caminho. Com efeito. incluindo os papéis sociais e os estilos de vida[996]. assim.do conhecimento possuído pela sociedade‖[995]. Não será esse. para além da posição ocupada na divisão social do trabalho e na propriedade dos meios de produção. Alguns autores. Assim. da nossa amostra o que obriga a considerar. todavia. apesar de identificarem com argúcia alguns epifenómenos (crescente importância do consumo e dos estilos de vida. etc. De acordo com vários autores[999]. é precisamente nestes grupos que se tendem a desenvolver novos estilos de vida e modas sociais enquanto especialistas da produção simbólica e privilegiados intermediários culturais. Giddens. há que assinalar que estes fluxos de mobilidade social via capital escolar não são independentes de recomposições recentes na estrutura socioprofissional da população portuguesa. nomeadamente as profissões intelectuais. designadamente no que se refere às categorias mais exigentes em termos de qualificações escolares. Aliás. Esse é o caso. considera as oportunidades de mobilidade social como um dos mais importantes factores de ―estruturação mediata das relações sociais de classe‖[1000]. visibilidade dos novos movimentos sociais. quanto maior for a probabilidade de mobilidade (intergeracional ou no ciclo de vida individual). técnicas e de enquadramento. aliás. Giddens chama a atenção para o funcionamento dos grupos distributivos como um dos elementos deestruturação . pertencentes às novas classes médias urbanas ou à nova pequena burguesia[998].

1%) Raramente/Nunca N=253 (52. competência e qualificação. como princípio de complexificação e desagregação das principais divisões de classe e podem existir simultaneamente. com base nos resultados do inquérito às práticas culturais dos lisboetas. Com efeito. referente ao cruzamento entre práticas receptivas e informativas eruditas e capital escolar dos inquiridos.0%) 10. somos levados a reafirmar conclusões de anteriores trabalhos. concertos de música clássica e museus e exposições (Anexo V/Quadros XXI. XXII e XXIII).5%) 9. Quadro LIV .6 13.2 49.0 Vários autores têm reflectido sobre esta questão. João Sedas Nunes e Maria Paula Duarte desmentem. Os grupos distributivos funcionam. Ao observarmos o Quadro LIV. como causa e consequência de um diferencial acesso ao mercado dos bens simbólicos. na nossa perspectiva. a despeito de os indivíduos terem ou não algum tipo de avaliação consciente da sua honra ou prestígio relativamente a outros‖[1001]. cada vez mais centrais na economia política dado condensarem níveis desiguais de informação.3 Capital Escolar de Ego Médio N=98 (20.4 75.9 59. Da insuficiência do capital escolar como princípio explicativo.4%) 7. 4. a crença de que ―ao aumento de uma «impregnação» escolar corresponderia . Repare-se. Atente-se ainda na frequência de idas ao teatro. por isso. a falta de adesão é massiva.1 Alto N=353 (73.7%) Baixo N=29 (6. que não existe qualquer clivagem imposta pelo capital escolar entre os indivíduos que declaram aderir frequentemente a estas práticas.7 41. aliás. Com excepção das visitas a museus e exposições.2. apesar de o capital escolar fazer sentir a sua influência (os indivíduos com formação superior são os que menos se localizam na categoria ―raramente/nunca‖). esta revela-se insuficiente para contrariar a tendência transversal de forte afastamento.Frequência de práticas receptivas e informativas de públicos cultivados por capital escolar de ego Práticas Receptivas e Informativas de Públicos Cultivados Frequentemente N=44 (9.imediata das relações de classe: ―relações sociais que envolvem padrões de consumo de bens económicos.8 33.2%) Com Alguma Frequência N=183 (38.

Esta resulta. Os autores concluem que ela ―é. amiúde. mas sim que a instituição escolar garante cada vez menos uma real intimidade com o património literário e artístico que as elites transmitiam de geração em geração‖[1006]. . Paulo Filipe Monteiro.um acréscimo de apetência pelas obras da «grande cultura»[1002]bem como a ingenuidade de pensar que a escolaridade ―se tratará de uma condição simultaneamente necessária e suficiente‖. muito provavelmente. intimamente associadas aos fenómenos da juvenilização e espectacularização trazidos pela economia mediático-publicitária. constata-se que o alongamento da escolaridade foi acompanhado de um recuo no conhecimento dos autores ou dos artistas que. Olivier Donnat fala. sobretudo quando frequentou graus mais elevados de escolaridade‖[1005]. À mesma conclusão chegam Augusto Santos Silva e Helena Santos. Mas a relação do capital escolar com as práticas culturais pode ser ainda analisada por outros prismas. certamente insuficiente‖[1003]. Com efeito. em consequência. figuravam entre os nomes mais prestigiados da cultura escolar. necessária. de um cenário em tudo idêntico. o mercado assistido — política de baixos preços — a massificação escolar e a disseminação da televisão). fragmentação e legitimação de novas formas de expressão cultural. a propósito de um outro estudo sobre práticas culturais. da qualidade social dos seus praticantes e do grau de raridade do capital escolar que possuem. Donnat assinala que ―no final de mais de trinta anos de democratização escolar. o esgotamento das utopias ligadas à emancipação do povo pela educação (designadamente. por seu lado. nomeadamente pela inversão dos critérios que estão na base da classificação ―arte média‖. mas. em contrapartida. desta feita dirigido à população da área metropolitana do Porto: ―a escolarização não representa uma condição suficiente — não chega esperar que a massificação dos níveis relativamente elevados do sistema escolar opere o milagre da democratização cultural‖[1004]. levando-o a registar. Isso não significa que o «nível baixa». com cru realismo. No que respeita à escolarização. ao estudar uma série de inquéritos sobre frequentadores de teatro constata que a maior parte tem progenitores com reduzido capital escolar: ―é um público que criou ele próprio esse hábito. de uma profunda recomposição no arcaico modelo unitário e coerente do «homem cultivado». O autor fala. a respeito das práticas culturais dos franceses. Hoje a cultura erudita vê-se inserida em processos de hibridização. ainda há quinze ou vinte anos. a proliferação de equipamentos culturais. No entanto. se atentarmos numas actividade tradicionalmente enquadrada nesta taxinomia na sua relação com o capital escolar dos inquiridos (fazer fotografia com intuitos artísticos — Anexo V/Quadro XXIV) compreendemos a inoperância de tais critérios.

de acordo com a amostra. É difícil atribuir-lhe a carga de variável explicativa quase universal com que surge em certas pesquisas[1009]. Os inquiridos com alto capital escolar lêem-nos mais frequentemente. E entre o médio e o alto capital escolar não há clivagens a assinalar. A correlação apresenta-se variável ou mesmo inexistente. Tais dados são.no caso da fotografia. De forma paralela há práticas generalizadamente profusas. No entanto. É uma prática generalizadamente escassa. quer o capital escolar adquirido dos inquiridos. as análises que se cingem ao estabelecimento de relações entre o capital escolar e um leque de práticas culturais deparam com as limitações intrínsecas a tal procedimento. De facto. Em particular na ―cultura de apartamento hegemónica‖[1010] e nos tempos doméstico-receptivos (―colonizados pela televisão‖[1011]). não de revistas). ainda que não sejam muito significativas. As práticas de leitura tornam-se mais intensas à medida que sobe quer o capital escolar de origem. No caso da leitura (de livros e de jornais. Em suma. Trata-se de práticas criativas situadas na esfera erudita (como por exemplo as artes plásticas ou a escrita literária — AnexoV/ Quadros XXVI e XXVII) em que não se nota qualquer discriminação significativa com base no capital escolar. Apesar de uma ténue clivagem entre os detentores de baixo capital escolar e os demais (os primeiros são espectadores mais assíduos) é nítido tratar-se de uma prática amplamente partilhada. no entanto. descoincidentes face ao recente inquérito nacional aos hábitos de leitura onde a relação com o capital escolar apresenta uma ―«causalidade nítida»‖[1008]. existem diferenças (Anexo V/Quadros XXIX e XXX). o valor modal de cada grupo etário situa-se na mesma categoria (―frequentemente‖). mesmo nas ―práticas intelectivas‖[1012] ligadas à leitura e na ―cultura de saídas‖. mesmo entre os que detêm maior capital escolar[1007]. torna-se difícil considerá-lo como grande princípio explicativo. uma vez mais. Há ainda outra espécie de casos ―atípicos‖. No que se refere ao cinema (Anexo V/Quadro XXV) a nobilitação dá-se não pela raridade em termos absolutos dos seus praticantes. ser maioritariamente composto por inquiridos com alto capital escolar. Ainda assim. a raridade gritante de praticantes distribui-se de forma idêntica pelos níveis de capital escolar. Se é verdade que a selectividade social de certos públicos e práticas continua a ser uma ―evidência‖. como refere Idalina Conde que as barreiras persistem mas de outro modo e com outra complexidade: ―perduram com segmentações . não é menos verdade. onde o capital escolar impõe distinções. mas sim pelo seu público. Atente-se no exemplo do televisionamento (Anexo V/Quadro XXVIII). a ―arte média‖ nobilita-se e torna-se distintiva tal a raridade absoluta dos seus praticantes.

No entanto. com excepção dos consagrados musicais clássicos.9 Alto N=340 (74.5%) 30. quer em especializações cultivado(s)‖[1015]. o cruzamento da situação na trajectória (ascendente. O pólo constituído pelo grau nulo e baixo de identificação é sempre superior ao conjunto dos níveis médio e alto (este último quase sempre residual. 4. o espaço semi-público é muito mais frequentado que o espaço público que quase se pode considerar terra de ninguém. Em segundo lugar. por tradição.3. literatura e música não nos fornece qualquer contributo significativo (Anexo V/ Quadros XXXI a XXXIX). de reprodução.9%) Com Alguma Frequência . correspondendo na modernidade a um maior pluralismo de referências com os seus vários centros de legitimidade‖[1013]. no entanto. não exercendo. De facto. Duas constatações ressaltam com nitidez.Frequência do espaço semi-público por capital escolar de ego Baixo N=25 (5. algumas delas ―incompetentes‖[1014]. de um poder simbólico que lhes permite apresentar o seu padrão de gostos como universal e o único legítimo. descendente) com o grau de identificação face aos pólos consagrado/não consagrado e moderno/clássico nos domínios do cinema.0 Capital Escolar de Ego Médio N=94 (20. Esta constatação. porém.7 ou ―«pericialidades» eruditas suficientemente restritivas para retraírem a elite do(s) público(s) artístico(s) no interior do(s) público(s) Espaço Semi-Público Frequentemente N=151 (32. baseada quer em atitudes receptivas heterogéneas.0%) 34. a posse de capital escolar encontra-se associada à frequência do espaço semi-público (quanto maior é o capital escolar. amplamente banalizados e divulgados pelas indústrias culturais e mass media). detentoras. mais elevada se torna a frequência). já que contribui para derrubar o mito de que o credencialismo escolar é um passaporte seguro para a apropriação distintiva da alta cultura. Atente-se nos Quadros LV e LVI. Mesmo as classes dominantes.mais precisas que imbrincam na expansão eclética do «cultural». vêem-se confrontadas com uma crescente segmentação. a principal conclusão a que se chega prende-se com o grau global de incompetência dos públicos da amostra. Da desertificação do espaço público e suas consequências. qualquer efeito em relação à esfera pública. Quadro LV . não é de somenos importância. Em primeiro lugar.5%) 16.

caracteriza-se por ser.8 13.N=245 (53. por seu lado. De facto.6 Espaço Público Frequentemente N=2 (0. ir à missa ou a cerimónias religiosas. quer em termos de crenças (frequentar a Igreja.3 10.). etc.3%) Capital Escolar de Ego Médio N=89 (20. Por outro lado. a desaparecer). nalguns casos. .2 85. por exemplo). acessível a qualquer um e indiferente às redes de afinidades electivas (efectivamente. etc.8 Ora. fazer compras. no entanto.Frequência do espaço público por capital escolar de ego Baixo N=23 (5. com vínculos de intensidade distinta). requerem um investimento em redes de sociabilidade de entes afectivamente próximos (embora em graus diferentes. os quadros de vida do habitat residencial (certos cafés ou cervejarias.9 54. a frequência do espaço semi-público liga-se a um conjunto de práticas que prolongam.0 21.5%) Com Alguma Frequência N=73 (16. mais o espaço público tenderá a restringir-se ou.) ou que. no limite. quer em volume de capital económico (ir almoçar ou jantar fora. a origem clássica deste conceito remete-nos para o sujeitopúblico. certos segmentos do espaço semi-público apresentam um acesso diferencial. ir a bares e discotecas.4%) Raramente/Nunca N=63 (13. quanto mais fechada for uma sociedade e certos recursos forem monopólio de grupos. classes. à partida.4%) 0. o espaço público. a nosso ver.6 Tais distinções ligam-se.1 25.7%) 56. etnias ou sexo. noutros casos.4%) Alto N=325 (74. ela própria.7%) Raramente/Nunca N=362 (82. quer ainda em recursos culturais (por exemplo. Quadro LVI . às características intrínsecas de cada esfera na sua relação com as características sociais dominantes no espaço-tempo em que vivemos.7 28.8%) 26.0 47. Como faz notar Habermas. portador da opinião pública e garante de uma esfera comum a todos os cidadãos livres (categoria que na antiguidade greco-latina era.9 74.5 73. ir ao cinema).

. a interacção desvaloriza-se. para tamanha desvitalização do espaço público? Antes de mais. Através da conversação (lexis) e da prática comunitária (praxis).. em que a natureza de classe do poder é mistificado pela crença nas qualidades pessoais dos actores políticos. devemos enfatizar o carácter relacional deste conceito. longe dos―gabinetes dos príncipes‖.. mais do que isso. exercendo o público um verdadeiro poder de supervisão: ―a totalidade do público constitui um tribunal que vale mais do que todos os tribunais reunidos‖. hoje em dia. desenvolve-se a identidade específica do espaço público: ―tudo se torna visível a todos‖[1017]. O mundo torna-se ―um espelho de mim‖[1020]. Este processo impede-nos de ―compreender o que pertence ao domínio do self e da auto-gratificação e o que lhe é exterior‖[1019]. procuramos saber o que o interlocutor íntimo significa para nós. Ora. superfície onde se reflectem os contornos de um eu omnipresente. perdemo-nos na busca perpétua de ―quem somos‖.extremamente selectiva. a sós connosco próprios e com a família e amigos íntimos. aumenta a ansiedade e a desordem emotiva. Como refere Sennett. na medida em que o outro perde o seu significado social e a sua própria especificidade. por definição propiciadora de cruzamentos mais ou menos aleatórios com estranhos. ―tornamos o facto de estarmos em privado. da redução da complexidade da realidade social (e da sua divisão em classes. na medida em que o self se encontra num processo de auto-absorção narcísica.. como a preocupação principal reside nas pessoas. o que tende a verificar-se actualmente é a omnipresença do privado. Do mesmo modo. A vida social e os assuntos públicos passam a ser tratados como sentimentos e emoções pessoais. O público só existe em função do privado e vice-versa. os fundamentos da ordem social são discutidos e analisados. com a destruição do equilíbrio e da tensão que entre ambos existia. Mais do que a sua identidade. em suma. um fim em si mesmo‖ [1018]. O espaço privado. doravante o principal critério de avaliação das suas acções). De certa forma.. A ―tirania da intimidade‖ resulta. No fundo. o privado torna-se o padrão de tudo: não só o auto-conhecimento se tornou uma obsessão.)[1016]. por isso. deixa de estar confinado a barreiras precisas. pessoas que avaliaríamos pelas suas acções (gestos. na sua psique e não nas suas acções ou projectos (veja-se o que se passa na esfera política. A grande ―armadilha‖ reside no aumento de expectativas face às recompensas pessoais. Mas o que acontece. Tudo se torna um assunto de âmbito pessoal e de resolução íntima.) a um só princípio subjectivo: a autenticidade dos sentimentos de cada um. De facto. Mas. estamos a assistir a uma obliteração do carácter social da existência humana. negligenciando o significado social dos encontros na esfera pública.

Compare-se o quadro anterior com os que em seguida apresentamos. características transversal aos três níveis de capital escolar e que se reflecte com especial incidência nas práticas receptivas. por si sós.6 36.3%) Baixo N=28 (6.1%) 75. locus por excelência do espaço privado. por destruir o espaço público.6 28. portanto.Práticas domésticas receptivas de consumo e/ou fruição por capital escolar de ego Práticas Domésticas Receptivas. de ―sentimentos congelados‖ e não de expressividade. revela-se hiperpovoado. afinal. o espaço doméstico. A casa e a família emergem como refúgios moralmente seguros e tornam-se um claro contraponto à ordem pública. Por outras palavras.8 Alto N=332 (73.posturas.4 Capital Escolar de Ego Médio N=94 (20. . referentes às práticas domésticas receptivas.8%) Raramente/Nunca N=6 (1. Desta forma. de observação e voyeurismo e não de participação activa. para além do retraimento na esfera do ―lar‖. ao isolamento.2 22. Qualquer pormenor pode revelar a estranhos as nossas idiossincrasias mais pessoais. O espaço público passa a ser um lugar de passagem e não de encontro. e às práticas domésticas expressivas. de interacção e sociabilidade (Quadro LVIII) como ir a casa de amigos e familiares ou recebê-los em sua casa. de Consumo e/ou Fruição Frequentemente N=331 (72. de silêncio e não de diálogo.9%) Com Alguma Frequência N=117 (25. Toda a apresentação no espaço público (a começar pela indumentária) acaba por ter um significado associado às características humanas. desertificado. discurso) através da ―objectividade dos signos expressivos‖[1021] e não mediante a sua personalidade. Duplo retraimento.6 1.7%) 63. Quadro LVII . O ―mercado de troca de auto-revelações‖[1022] acaba. o exercício da sociabilidade. assim. a sociedade íntima torna-se uma ameaça. de consumo e/ou fruição (Quadro LVII). essencialmente baseadas na cultura audiovisual. nota-se um maior centramento nas actividades que não requerem. psicologizando-se.8 Ao contrário do espaço público. A sociedade íntima condiz.2%) 71.

5%).5%) Com Alguma Frequência N=216 (45.Quadro LVIII .‖O meu quarto‖ . A casa surge como um manancial de imagens que sugerem uma idealização.8 16. contra os discursos sobre o seu ―fim‖ iminente. persiste em revelar a sua centralidade.0%) Baixo N=27 (5.Uma obrigação . de interacção e sociabilidade por capital escolar de ego Práticas Domésticas Expressivas. uma ―âncora‖ que funciona como ―bastidor‖ de uma ―região de fachada‖ (para utilizarmos conceitos caros a Goffman). de Interacção e Sociabilidade Frequentemente N=187 (39.Paz e tranquilidade . a autenticidade.6%) Raramente/Nunca N=71 (15.5 A análise das entrevistas torna esta constatação ainda mais clara. a segurança afectiva e o relaxamento.Solidão .Um aborrecimento .O local ideal .5 45. Perante a .7%) 37.As pessoas/a família .‖Onde nos sentimos bem‖ ―O ninho‖ Total * Número de ocorrências Nº * 16 13 13 12 10 9 9 6 6 3 3 2 105 Negativas .Relaxamento/descanso .Refúgio . Como se pode observar pelo Quadro LIX.8 14.0 Capital Escolar de Ego Médio N=101 (21. Um local que permite o desvendamento.O sítio onde se dorme Nº * 9 5 4 3 3 3 Total 27 Mas repare-se que a casa é.0%) 40.Local de passagem . ao contrário do controlo social e da vigilância presentes nas ―regiões frontais‖ ou ―fachadas‖.Conforto .Privacidade . antes de mais.4 14.‖O meu espaço‖ . Quadro LIX — Imagens associadas à casa e a ―estar em casa Positivas .2 48.Não fazer nada .3%) 37.1 45.Práticas domésticas expressivas.6 Alto N=346 (73.Isolamento e introspecção .5%) suplantam largamente as negativas (20. as referências positivas sobre o espaço doméstico (79. a célula familiar que.

a habitação surge como uma confortável arena privada e uma expressão da identidade pessoal e social do seu proprietário[1027]. mostrando. Normalmente passo o dia fora de casa e regresso à noite. a oposição dominante afasta casa e trabalho/estudo (―o mundo de fora‖). ―Ficar em casa é um porto seguro‖. No entanto. Transforma-se em signo e local de apresentação e representação (Allan analisa a este respeito o papel ritual dos jantares de cerimónia[1028]. ―Ficar em casa é mais para descansar e conviver com a família‖. ―é uma forma de refúgio. um exemplo de capital cultural objectivado. Desta forma. pode usufruir da urbanidade. uma vez mais. tempo de desgaste e tempo de recuperação e repouso (―o mundo de dentro‖).―selva‖ exterior. o que não impede que a habitação surja como ―ponto fixo‖ (o ―pivot‖ das sociedades-arquipélago[1024]) em contextos de acentuada distância casa/trabalho e de crescente mobilidade sócio-profissional[1025]: ―Ficar em casa é uma oportunidade de ficar com a família. conforto. ―A casa é o abrigo. a casa familiar assemelha-se a um ―baluarte‖ afectivo. enquanto local preferencial de sociabilidade e espaço privilegiado onde se recebem os amigos. por vezes a dicotomia interior (casa)/exterior (cidade) remete-nos para as questões da (in)segurança e das patologias urbanas. ou. de acordo com a terminologia bourdiana. enquanto ocasião de dar a conhecer a versão pública do espaço privado). do dia-a-dia. parecem ser extemporâneos os Requiems pelo fim do trabalho e do seu carácter estruturador das rotinas diárias. Neste sentido. da selva que é a cidade‖. cresci e espero envelhecer e ficar em casa é passar uma noite agradável na companhia de familiares ou de amigos‖. a sua estreita ligação. Assim. A casa é um refúgio‖. libertando as amizades dos constrangimentos do círculo social onde nasceram. Habermas acentua essa relação entre uma esfera profissional que se autonomiza e a família que ―se recolhe a si mesma‖[1023]. ―A casa é o sítio onde nasci. a casa torna-se ―um meio efectivo de descontextualizar e alargar os parâmetros da sociabilidade‖[1026]. embora nada nos permita concluir da generalização de uma representação que a tende a ver como um domínio ―moralmente superior‖ em regime de autarcia. de esquecer o mundo cá fora e os problemas‖. ―A casa é um refúgio do dia. por isso só estamos juntos ao fim do dia. Graham Allan refere a este propósito a importância de que a casa se reveste para as novas classes médias. . De facto. o refúgio onde nos sentimos mesmo à vontade. é o reino‖. Aliás. Sennett fala de uma ―sociedade incivilizada‖ em que apenas uma minoria de favorecidos. e não directamente espaço público e privado. morando em zonas recatadas e seguras.

são obrigados a permanecer na dependência dos pais. Repare-se na utilização recorrente do determinante possessivo: ―Em casa estou mais no quarto. Em compensação. deixando de ser o prolongamento privado do espaço colectivo: ―Caso olhemos para o interior de nossas moradias. o que de certa forma confirma tanto as análises de Sennet como as de Giddens e Featherstone quando estes autores identificam. devido ao prolongamento do período de moratória. sendo decorados de modo característico‖[1029]. o lugar de permanência em comum (. ―ficar em casa é como encontrar um lugar para mim... ―Apesar de viver com a minha namorada eu tenho um espaço meu.. de forma a sentirem-se sociáveis‖[1030].) tornou-se cada vez menor ou desapareceu por completo. para estar sozinha‖.. Um dos entrevistados não podia ser mais explícito: ―quando estou em casa estou comigo‖.mas também pode ser o meu quarto‖.No entanto.) Os seres humanos necessitam de alguma distância em relação à observação íntima por parte dos outros.. os quartos privados de cada um dos membros da família tornaram-se cada vez mais numerosos. é o meu espaço‖. Existem situações. é onde tenho mais privacidade‖. em que a casa se dissocia da família e em que os modos de habitabilidade traduzem a necessidade de mobilidade associada a uma .o meu canto privado. Esta necessidade de protecção e de isolamento em relação ao ―clã‖ familiar será ainda maior no caso dos jovens que. é o meu território (.. mais do que as outras categorias sociais. brincar com a viola‖.. Eles. onde gosto muito de estar..... ―na casa gosto do meu quarto. importa relativizar o papel de âncora da família. apesar de daí retirarem ilações antagónicas. o meu quarto.. as minhas brincadeiras... a busca de auto-identidade enquanto traço característico da contemporaneidade. sinto-me lá bem.ouvir música. as zonas comuns são muitas vezes preteridas pelo espaço que mais directamente prolonga a intimidade. então descobre-se que o «espaço familiar». Existe uma hierarquia interna que tende a privilegiar o quarto e a possibilidade de total recolhimento e privacidade. Esta ênfase no recolhimento no interior do espaço doméstico parece dar razão a Senett quando este autor refere a necessidade de haver barreiras que protejam a intimidade das pessoas e impeçam a vigilância e o controlo permanentes: ―As pessoas são tanto mais sociáveis quanto mais existam barreiras tangíveis entre elas (.. Dentro do ―lar‖. Habermas realça esta modificação em que a casa se torna menos um espaço familiar e mais um espaço feito à medida do indivíduo..as minhas coisas pessoais. ―A casa. inclusivamente.) está tudo à minha medida.entendo isso como o meu canto. são os especialistas da construção de micro-casas: a casa dentro da casa.

..‖. umas coisas do género. mas também não existe uma reprodução inerte dos velhos ... quando não estou saio (.. Coincide. Aquilo parece a tortura inquisitória.. Eu lá estou. Neste sentido. é um dormitório‖ Esta minoria constrói. a par do desenvolvimento de uma cultura auto-centrada que.uma mala cheia de brocas... quando é preciso pagar as contas ao fim do mês está toda a gente lá reunida para o bem e para o mal. mas depende das idades. têm necessariamente efeitos de diluição de uma pretensa omnipresença familiar... A única função da casa parece ser a de assegurar a passagem entre o dia que acaba e o que começa: ―A casa é o pousio. ao contrário do que muitos propagam. um tipo porreiro. de sociabilidades amorfas.tem lá nos frascos umas dentaduras. ―ficar em casa é uma monotonia‖.aeroportos. tão-pouco o seu fim. praticamente nunca se vêem. Em suma..tenho outro colega meu que é de medicina dentária...vida independente.. Em síntese..Estou em casa sem ter casa‖ (Sexo masculino. por isso. parece extremamente precipitado concluir que é em seu redor que se estruturam os espaços-tempos domésticos.por isso tem o quarto extremamente bem decorado.mas pronto... Quebra-se.. com pessoas que vivem sós ou fora do local onde habita a família. de vez em quando. não se deve a motivos de índole estritamente psíquica. apesar da instituição familiar aparecer como núcleo-duro da afectividade. parafusos horríveis. Para uma minoria ela é sinónimo de prisão e de tédio. a procura de introspecção e recolhimento.. ―a casa hoje em dia é mais um local de passagem. ―ficar em casa é pastar.. mas é engenheiro. a certa altura é só para comer e dormir‖.. A fuga para o quarto. As pessoas lá de casa. estações de comboios.... uma representação muito favorável das saídas nocturnas e de todo o espaço-tempo exterior à casa. igualmente. 22 anos. muitas vezes. É um tipo agradável. sem vínculos afectivos associados ao espaço residencial.. mas é engraçado .) a casa é para dormir‖. É engenheiro. não se confirma uma desestruturação da família. encontrando-se pelo contrário radicada nas transformações sócio-culturais mais amplas das sociedades contemporâneas.. gestor) Mas o significado da casa não deixa de ser ambivalente. a imagem da casa como lugar identitário: ―Felizmente ―barra‖ infelizmente vivo acompanhado . é tipo uma comunidade franciscana. para contactar de quinze em quinze dias. somos levados a reforçar a ideia já anteriormente avançada de que os contextos de reprodução social extra-familiares têm vindo a ganhar importância. ―eu fico em casa quando estou cansado.um colega meu dedica-se a orçamentar estruturas móveis.o que se passa é uma coisa extremamente cómoda.em que as pessoas como têm horários completamente diferentes...

François Ascher refere. O espaço privado tende.Jogar no computador . contrariando a ―mitologia comunitária‖ do bairro da cidade industrial.Ver programas em vídeo . Esse domínio é mais visível nas práticas referentes aos próprios entrevistados. não podemos deixar de realçar a importância relativa das práticas de leitura. o que não será de estranhar dada a grande juvenilidade (comprovada pelo inquérito) dos utentes dos espaços em estudo.Lides domésticas . ―os verdadeiros vizinhos metapolitanos ignoram-se‖[1033].Trabalhar . aliás. apesar do claro domínio televisivo.Sair com amigos .Ouvir música .modelos familiares.Ver TV .Conversar . neste âmbito. Como refere Ascher. de acordo com as declarações dos entrevistados.Ver TV . a ser penetrado por influências cada vez mais distantes. criando-se uma espécie de ―lugar fantasmagórico‖.Ler .Ver programas em vídeo .Ler .Jogar . nem tão-pouco a diversidade de actividades mencionadas. No entanto.Lides Domésticas . Quadro LX -Actividades Predominantes no Espaço Doméstico Dos entrevistados .Falar ao telefone * Número de ocorrências * 58 44 30 18 17 14 13 11 8 5 3 3 2 Dos familiares . segundo a expressão de Giddens. O espaço doméstico não é atravessado por uma lógica unidimensional de apropriação cultural. Os mass media contribuem intensamente para este esvaziamento do espaço e para a perda das relações de proximidade. ―distantes de qualquer situação de interacção face-a-face‖ . também a este nível. Atente-se no Quadro LX referente às actividades predominantes no espaço doméstico. jogar no computador).Dormir .Jogar no computador .Escrever . contribuindo para fazer dos parentescos sistemas cada vez mais complexos‖[1031].Ouvir música . aumentando a―indiferença possível‖ perante os outros que partilham a mesma unidade residencial.Ir ao café * 37 18 8 8 7 4 4 4 3 2 Ver TV é sem sombra de dúvidas a actividade hegemónica. o que exprime. Podemos mesmo afirmar que existe um nítido domínio da cultura audiovisual e da dupla som/imagem (ouvir música. promovendo relações com interlocutores [1032] ausentes. que ―o reforço dos laços familiares opera-se igualmente num quadro de autonomia crescente de cada um dos membros.Trabalhar/estudar .Tocar um instrumento . Mesmo os usos que se fazem da televisão .Conversar . assistir a programas em vídeo. o processo de individualização.

o autor alemão fala de consumismo e da constituição de uma pseudo-esfera pública (mass media) que se assemelha a uma ―espécie de superfamília‖: ―Mesmo ao se ir junto ao cinema. ao se escutar conjuntamente rádio ou a olhar televisão. O resultado é a transformação do que seria um público numa massa. ouço música. fenómeno agravado pela dissolução dos contextos de comunicação pública ―em actos estereotipados de recepção isolada‖[1035]. contribui para uma mudança de paradigma do ―homem pensador de cultura‖ para o ―homem consumidor de cultura‖: ―Se der um bom filme na TV vejo. senão posso alugar um filme ou então vou para a cama‖. Só se conversa à hora das refeições‖.―Quando fico em casa vejo TV. a este respeito. o telefone para pôr a conversa em dia e jogar cartas. mesmo tendo gente em casa procuro estar sozinha. uma perspectiva claramente pessimista. Habermas tem. Alguns entrevistados denotam ainda uma tendência para uma certa especialização de gostos e escolhas: . ―Os meus familiares estão em casa a dormir ou a ver televisão‖. expressivo e mesmo criativo. através de processos complexos de recepção cultural que contribuem para interpretações social e culturalmente diferenciadas (ou mesmo divergentes) sobre as mensagens transmitidas. A família deixa de ser uma ―esfera privada protectora e sustentadora‖[1036] e o indivíduo. pode ainda ser o computador. ―A minha mãe vê televisão ou está na lida da casa. segundo a qual o esvaziamento da função socializadora da família. nem sempre convivemos‖. Há também posicionamentos críticos em relação à programação televisiva. dotando-os de um conteúdo convivial.podem conduzir a práticas interactivas. Ao fim de semana descansar ou passear pelos arredores‖. sem a distância necessária ao exercício das capacidades emancipadoras e sem a ―oportunidade de poder dizer e contradizer‖[1038]. entre outros factores. Algumas afirmações dos entrevistados parecem dar razão à análise de Habermas. perante uma cultura que serve meramente como integração. Ao falar dos modos de socialização ―imediatos‖ que se imiscuem no espaço privado. o que vai contra a figura do consumidor passivo e adormecido (próprias do sistema do ―don't talk back‖) e da descrição que Habermas faz do público telespectador. Mas muitos outros excertos demonstram a preocupação em diversificar os espaços-tempos domésticos. ―ficar em casa é deitar no sofá e ouvir música o dia todo‖. desafiando o papel tradicional da família. ―Trabalhar e dormir. dissolveu-se a relação característica da privacidade correlata a um público‖[1034]. ―Os meus familiares vêem muita televisão. ―torna-se um número no programa dos astros da rádio e da televisão‖[1037]. Às vezes. o meu pai ou está com os comboios dele ou está a ver televisão‖.

pela globalização da informação e pelos novos meios electrónicos de comunicação[1040].. as nossas sociedades são. a actividade social e as relações sociais são ―arrancadas‖ dos ―contextos locais de interacção‖ e reestruturadas ―através de extensões indefinidas de espaço-tempo‖[1043]. em relação a este conjunto específico de entrevistados (seleccionados em situações de saída cultural nocturna. a representação do território e das escalas de intervenção. ou.. vejo filmes. ―televisão vejo cada vez menos. O que. gosto de ler. o território torna-se . basicamente é isso‖. nós. modifica-se. ―sociedades-arquipélago‖. não invalida a constatação de hipertrofia do espaço público urbano e de desvitalização dos valores de uma certa mundanidade e cosmopolitismo. Neste sentido. somos de opinião que. Não faltam igualmente referências às saídas nocturnas: ―Os meus pais só ficam em casa para trabalhar. converso com os amigos. bem entendido. mas com reflexos em todo o tecido social. senão saem‖.. por exemplo ao Sábado à noite há o Big Show Sic e coisas do género. ―Ouço música. Consequentemente. Seguindo Giddens. baseada na interacção face-a-face. designadamente no que se refere à compressão do espaço-tempo. ―Ouço música. muitas vezes ler. ―Costumo ler e pintar‖. A música é escolhida por mim‖.―Vejo filmes vídeo. cada vez mais. Ao contrário da concepção de esfera pública do autor alemão. convivo com os amigos. mesmo tendo em conta situações de potencial reprodução de uma―ordem social negativa‖ em que ―integração e inanição deixam de se distinguir com nitidez‖. vejo às vezes filmes‖.ler. O vizinho passa a ser o desconhecido próximo de nós. a televisão não presta. entre outros factores. Em síntese. conversam. em especial para os agentes ―multipolares e multi-informados‖. não se pode falar. nós conhecemos alguns detalhes do planeta inteiro‖[1041]. nas palavras de Viard. ―o longínquo pode estar mais próximo do que o próximo e o próximo mais longínquo que o longínquo‖[1042].. leio e escrevo‖. propiciando situações de ―anomia implosiva‖[1039]. importa salientar a inadequação da teoria habermasiana da esfera pública às novas condições da cultura. ―Os meus pais saem à noite. com uma probabilidade eventualmente elevada de serem praticantes culturais assíduos) de uma total subjugação a uma lógica unidimensional de consumo.. No entanto.‖.‖. ―Fico em casa e vejo um filme. marcadas por um maior conhecimento do longínquo face ao geograficamente próximo: ―Lá onde o camponês conhecia cada detalhe de alguns hectares. socialmente minoritários. lêem. tornada possível..

. Em suma. a propósito da sua ―Metapolis‖. sem deixar de lado a arte. imbuídos da lógica das transacções distantes no espaço-tempo. A gama possível de sinais expressivos e de variações de estilo[1045] reduzem-se a um conjunto de procedimentos e linguagens minimais (como o Basic English da informática ou as abreviações e ícones da comunicação/conversa via Internet) que não exploram as características de um ambiente específico rico em pormenores que dignificam a comunicação. processo inserido numa ―complexa trama histórica e social‖[1046]. A relação que estabelece com a cultura de massas enquadra-se na descrição que DiMaggio tece sobre certas perspectivas teóricas que fazem a síntese das ―preocupações liberais sobre a cidadania na era pós-fascista com as noções marxistas de alienação e um desprezo elitista pela cultura popular‖[1047].descontínuo. os media e as modalidades afectivas e quotidianas de construção de sentido e de identidade. conceito de urbanidade que substitui a metrópole. François Ascher. Em suma. Outra dimensão criticada em Habermas é o seu alegado elitismo. Desenraizados face aos contextos físicos de interacção. não é menos verdade que a dissolução dos encontros e cenários de co-presença contribui para um enfraquecimento da imaginação social e dos processos sociais de comunicação. ―um imenso patchwork‖ que resulta da montagem que cada um faz das suas deslocações na ―cidade invisível‖[1044] que em muito ultrapassa os velhos limites materiais e administrativos da urbe. Jim McGuigan propõe que não se trate a esfera pública como uma entidade abstracta e universal. Todos estes contributos. uma esfera pública adequada a uma realidade sócio-cultural multidimensional. os agentes perdem toda a riqueza da comunicação não-verbal e das suas componentes extralinguísticas. mas sim como ―uma referência normativa assente nas suas formas plurais enquadradas em contextos específicos‖[1048]. Se é verdade que o distante e o próximo se interligam de forma complexa e que a mobilidade está no centro das estratégias dos actores sociais (diferentemente mobilizável consoante a distribuição de poder). Nesta linha. a lembrar o retrato dos ―intelectuais apocalípticos‖ traçado por Eco. Cultura e redes sociais. fala das ―combinações múltiplas. flutuantes e relativamente diluídas‖ dos modos de vida e das mentalidades urbanas. fragmentário. envoltos em sociabilidades e redes virtuais ou intermutáveis.4. 4. no entanto. não nos devem fazer esquecer a necessidade de preservação das condições de comunicação face-a-face. baseado em redes e fluxos.

padrões culturais.Modalidade em que costuma aparecer por espaço Costuma Frequentar este Espaço B Flat N=135 (30. saídas culturais. amigos. Atente-se por conseguinte no Quadro LXI. Além do mais. tornam-se um ―meio portátil e por conseguinte potente.) bem como articular variáveis macrossociológicas (estrutura social. enquanto elemento fundamental de circulação de informação utilizada nos processos sociais de construção do gosto e de reposicionamento social. Quadro LXI . Apenas nesta última instituição têm algum relevo as modalidades de aparecer acompanhado por familiares ou sozinho. em suma. um tema de conversa que permite. o gosto cultural é simultaneamente causa e consequência de interacção social e de mobilização de redes sociais relativamente extensas. No inquérito e entrevistas que aplicámos. Os interesses culturais são.3 Rivoli N=231 (51. etc.4 Espaço Praia da Luz N=80 (17. a sua análise enquanto ―sistema relacional‖ que estabelece uma mediação entre os contextos e círculos sociais e o espaço pessoal permite.)[1051].9 65.8%) Acompanhado por Amigos N=272 (61. família.2 Só N=26 (5. Os amigos constituem os companheiros mais frequentes das saídas nocturnas em qualquer dos espaços em análise.0%) 71. variáveis ecológicas como a densidade e dispersão da população. sistemas comunicantes que exprimem categorias e classificações. Por outras palavras. relações de amizade. de troca interaccional‖[1050]. Se os bens culturais são signos.) com análises microssociológicas (personalidade.8%) 8. vida associativa. procurámos testar a validade e o potencial heurístico da proposta de DiMaggio para os contextos em estudo.Paul DiMaggio é um dos autores que mais tem tentado relacionar a estruturação dos campos culturais (ele apelida-os de ―sistemas de classificação artísticos‖) com a existência de redes de sociabilidade.0 53. nos contactos com estranhos que se estabelecem na esfera pública e semi-pública. como referem tanto Claire Bidart como Félix Requena Santos. estabelecer um olhar transversal aos vários domínios do social (empresa. seleccionar os elementos que desejamos integrar nas nossas redes de sociabilidade. etc.3%) 4. A sua proposta centra-se na análise das ―formas através das quais as pessoas utilizam a cultura para estabelecerem contactos entre si‖ [1049]. o acto de os consumir. estilos de vida. seguido do namorado(a) no B Flat e Praia da Luz e do cônjuge no Rivoli. pelo seu carácter efémero e evanescente. etc.9%) 1.2 .

em particular o casamento e o nascimento do primeiro filho.7 33.9%) Acompanhado por Familiares. mas especialmente saímos muito os dois‖ (Praia da Luz.5 Mais de 40 N=72 (16. os novos e solteiros possuem uma mais intensa sociabilidade externa. O ―efeito idade‖ na estruturação das saídas culturais encontra-se bem visível no Quadro LXII. aumentam também os inquiridos que se fazem acompanhar pelo cônjuge: ―Geralmente vou com a minha namorada. a partir dos 31 anos. mais importante ainda. Com efeito.6 45. onde o grau do decréscimo depende essencialmente da posição social[1054].2%) Familiares. há certos casais com quem também nos damos.. decresce com a idade. o facto de ser celibatário retarda o retraimento na disposição de estabelecer contactos com outros que se verifica com a idade.8 3.7%) 67. intimamente ligada à cultura de saídas.Acompanhado por Cônjuge/Namorado N=148 (33.0 30.5%) 9.2 31-40 N=73 (17. Pelo contrário. apesar de ser extremamente expressivo em todos os grupos etários.Modalidade em que costuma aparecer por escalão etário Escalões Etários Até 20 21-30 N=61 N=219 (14.. Quadro LXII . sexo masculino. a orientação endo-domiciliar é reforçada com o casamento (instituição que marca verdadeiramente o ―fim da juventude‖) aumentando com a idade até um certo ponto.2%) 5. .8 Quando esta sobe.9%) 8.8 23.2 66.1 35.9 45.4%) (51. 32 anos).4%) Acompanhado por Amigos N=263 (61.8 38. Aliás. 23. Repare-se que o item ―costuma aparecer acompanhado por amigos‖. Mas.7 58. Cônjuge/Namorado N=139 (32.5 Claro que esta centralidade dos amigos está ligada à juvenilidade da amostra e ao facto associado da existência de um grande número de solteiros. Claire Bidart[1052] e François Héran[1053] salientam o facto de a sociabilidade decrescer claramente com o aumento da idade e com determinadas etapas do ciclo de vida. a idade e o estado civil relacionam-se intimamente com a orientação das práticas sociabilidade.3 Costuma aparecer Só N=23 (5.

etc. importa relativizar o significado destas dimensões. cinquenta por cento com grupos de amigos.. À partida a amizade tem quatro características fundamentais: autonomia (carácter voluntário da escolha de amigos — eleição mútua). a amizade (assim como a sociabilidade em geral) não deixa de estar situada em espaços sociais e imersa em constelações de valores. Assim. Os usos sociais da cultura não são neutrais e os seus veículos e suportes .. a sociabilidade é aqui entendida. desprovida de qualquer autonomia e incapaz de produzir efeitos na distribuição do volume global de capital. para utilizar a terminologia de Bidart[1057]) por sua vez inseridos em contextos sociais mais vastos (profissionais.―Digamos que saio cinquenta por cento sozinho. institucionais. modelos culturais. enquanto ―capacidade de estabelecer relações sociais‖em círculos e contextos determinados[1059]. retomando o seu significado primeiro. sexo masculino. Pelo contrário. formas de mediação entre o social e o individual.é ao acaso. esquemas perceptivos. etc. informalidade. entendem-se aqui esses processos relacionais como práticas culturais. somos confrontados com um fenómeno eminentemente cultural. salientando a inclusão das escolhas pessoais num campo mais ou menos restrito de possibilidades. 38 anos. é preciso que fique claro que não encaramos o capital relacional como mera variável dependente. intimamente associadas aos quadros de interacção (ou ―círculos sociais‖. não raras vezes. a proposta de DiMaggio salienta a utilização instrumental da cultura através das redes de sociabilidade. ou seja.. expectativas. pessoalização e vínculo emocional (não instrumental)[1055]. Neste sentido. No entanto.par hasard‖ (B Flat. Mesmo o seu cariz mais elementar — a relação pessoal — é uma fonte de aprendizagem social: ―É no encontro e na interacção com o outro que o indivíduo apreende as diferenciações sociais. Por outras palavras. ao contrário da aura ―romântica‖ da amizade pairando acima das vicissitudes e constrangimentos terrenos (que. símbolos. director financeiro). residenciais. distinguir a amizade das relações familiares ou de parentesco.). Sendo do domínio do íntimo. se associa a uma psicologização reducionista da pesquisa).. exige-se ao investigador que analise as relações informais em relação com os aspectos estruturais da vida em sociedade[1058]. Graham Allan defende a mesma ideia ao referir que a sociabilidade deve ser analisada através de uma articulação entre as regularidades do ―ambiente social imediato‖ e as convenções culturais dominantes. por conseguinte. do privado e da escolha pessoal. No entanto. Importa. aprendendo a situar-se. a negociar o seu lugar na sociedade‖[1056]. a filiar-se. Ao contrário de Simmel que concebia a sociabilidade e a amizade como ―sentimento puro‖ ou ―forma lúdica‖.

Esta mesma característica reflecte-se na organização das saídas culturais. valores e condutas. o que não é de admirar.Fonte através da qual tomou conhecimento do espaço frequentado Como tomou conhecimento do Espaço Frequentado Através das Redes Sociabilidade N=255 (73. mais rígido e formal).2%) Espaço Praia da Luz N=76 (21. Embora não visando o ―lucro‖ ou a procura de vantagem. o equilíbrio relacional requer um regular ―give and take‖[1061]. importa considerar a ―economia afectiva do intercâmbio recíproco‖[1060] presente nas relações de amizade e a sua combinação de aspectos expressivos (os mais salientes em termos de senso comum) e instrumentais (revelados pela análise social. No entanto.1 O Rivoli parece ser a excepção.9 B Flat N=119 (34.0 6. igualmente. O carácter distintivo da amizade reside ainda no carácter relativamente voluntário da sociabilidade (em especial por oposição ao parentesco. Como refere Graham Allan. se somarmos os . Tínhamos já observado que a indisponibilidade dos amigos para sair é um dos principais obstáculos ao deslocamento para o exterior do espaço doméstico.8%) Rivoli N=153 (44. Se analisarmos o Quadro LXIII constatamos precisamente que as redes de amigos funcionam como circuitos privilegiados de informação e mobilização para a frequência de locais e práticas culturais. Desta forma. do que se passa na família. com uma maior fragmentação das respostas e uma valorização relativamente superior dos mass media.— as redes sociais — também não. no seu cariz não hierárquico (ao contrário.7%) de 84.6 45. Quadro LXIII . Assim sendo.0%) de 16. tanto mais que geralmente se partilham códigos. em que existe sempre uma distribuição diferencial da autoridade e do poder) e menos ligado ao contexto do que o mero colega (de trabalho ou de estudo) ou vizinho. mas igualmente explícitos em situações de conflito ou quebra de vínculo). já que é a única instituição a utilizar esses veículos de divulgação.3%) Através dos Meios Comunicação Social N=93 (26. funciona como uma relação potencialmente mobilizadora da acção em conjunto.0 93. tanto no plano material como emocional (mesmo não existindo um cálculo explícito nem tão-pouco uma obrigação de reciprocidade imediata). sendo uma relação de igualdade (por oposição às relações de mercado) a amizade exige uma equivalência de transacções.4 54.

Ou seja. namorado.0 Este novo indicador reforça a ideia de um maior à-vontade nos códigos e circuitos do campo artístico por parte de uma fracção significativa desses públicos.9 Rivoli N=205 (59.9%) 25. precisamente. o cluster de inquiridos do Rivoli (representando 32%) que possivelmente constrói o seu gosto pela relação de proximidade (se não mesmo de homologia) com a cultura ―nobre‖ e que denota a incorporação de uma disposição cultivada.1%) Referências através das Redes de Sociabilidade N=168 (49.3 23.2%) 7. neste caso o ―conhecimento do percurso e da obra do artista‖ (Quadro LXV). De igual modo.7%) B Flat N=86 (25. familiares.1%) Familiaridade com os Artistas e a sua Obra N=112 (32. na constituição do seu universo simbólico continua a ser importante a aquisição de competências específicas na esfera da alta cultura.Conhecimento do percurso/obra do artista por espaço Conhecimento do Percurso / Obra do Artista ou Executante B Flat N=142 Espaço Praia da Luz N=84 Rivoli N=281 . ao observarmos o Quadro LXIV concluímos que o principal factor que motiva os inquiridos a estarem presentes para assistirem a um determinado espectáculo. cônjuge) atingimos valores elevados. dominava a imagem de uma ligação privilegiada à cultura consagrada.2 16.Motivos para estar presente por espaço Motivos para estar presente no Espaço Frequentado Referências através dos Meios de Comunicação Social N=62 (18.9%) 5.7 70. No que se refere à idade (Quadro LXVI) confirma-se uma vez mais a tendência para a identificação ao pólo consagrado aumentar com a idade.5 42. colegas. radica nas referências e convites oriundos das suas redes de sociabilidade.6 32. novamente com a excepção do Rivoli.índices respeitantes aos vários tipos de relações de sociabilidade (amigos. Recordemos o que anteriormente referimos sobre o perfil cultural dos seus públicos: apesar da sua diversidade e ecletismo. identificamos.0 Espaço Praia da Luz N=51 (14. Quadro LXIV . Quadro LXV . No caso do Teatro Municipal o destaque vai para a familiaridade com os artistas e suas obras. Atentando agora num dos indicadores que foram agregados na categoria ―familiaridade com os artistas e sua obra‖.9 76.

o autor americano defende que as referências simbólicas e culturais funcionam como recursos importantes nas situações de interacção em redes sociais difusas.3%) Não N=388 (79. de situações de classe. por exemplo.5 (16. mas com um grande raio de acção.4%) 32. a maior complexidade social (traduzida por uma diversidade na estrutura de papéis) requer repertórios alargados. De facto.5 73. tanto mais que tende a aumentar a incongruência entre os papéis oriundos de diferentes contextos sociais (a categoria ocupacional.0 91. Ou seja.2 Mais de 40 N=87 (17. Ora.5 18.9%) 8. uma acentuada multiplicidade de laços. a imensa maioria.0 Quadro LXVI . necessita de manipular com habilidade (embora não necessariamente com profundidade) uma gama vasta de referências culturais.2 94. confirma a tese de DiMaggio segundo a qual a participação e o interesse pela ―alta cultura‖ não se associa necessariamente a um elevado conhecimento da mesma.1%) Não N=405 (79.(28. Assim se compreende que DiMaggio refira com acutilância que essa classe média utiliza ―interruptores‖ para ligar ou desligar um determinado discurso de acordo com o círculo social a que se dirige. ainda mais esmagadora nos restantes espaços.7%) Escalões Etários Até 20 21-30 N=73 N=243 (15. como refere François Héran.[1062].5 31-40 N=84 (17.Conhecimento do percurso/obra do artista por escalão etário Conhecimento do Percurso / Obra do Artista ou Executante Sim N=99 (20.0%) 5.8 No entanto. Desta forma.5 100. por isso.6%) (55. etc. o vínculo emocional dessas redes difusas sugere ―laços fracos‖. de estilos de vida. Já anteriormente tínhamos concluído pela disseminação de uma atitude de falta de identificação com referências cruciais (autores e obras) da ―alta cultura‖.7%) 32.3%) 26.0%) (50. a móvel e novel classe média.5 81. pode não encontrar correspondência no stock disponível de recursos e competências culturais e um elevado capital cultural institucionalizado — .0%) Sim N=102 (20. Exigem.0 68. Este tipo de redes são característicos das grandes cidades onde a proliferação de subculturas se liga à grande diferenciação estrutural (em grande parte derivada da especialização económica e espacial) patente na diversidade de estatutos ocupacionais.8 67.

resultante da sua multiplicidade. Em primeiro lugar. como é o caso de segmentos privilegiados de .capital escolar —. contribuindo para ―uma mútua validação da legitimidade dos diferentes gostos‖[1063]. esta tendência não nos parece poder ser alargada a toda a estrutura social. dada a incongruência das várias dimensões de posicionamento social. O contraste entre os vários círculos sociais. cuja posição social não é facilmente assinalável de acordo com parâmetros clássicos e cujo destino social virtual não se encontra nitidamente definido. Daqui resulta. mas igualmente um maior conhecimento e cruzamento de géneros diferentes. Nos grupos menos móveis manter-se-ão. Fischer corrobora de certa maneira esta tendência para a des-classificação cultural e o ecletismo simbólico ao considerar que a diversidade subcultural urbana aumenta a probabilidade de normas e gostos heterogéneos e desviantes face a um padrão geral. padrões clássicos de familiarização ou distanciamento face a classificações culturais mais tradicionais. como de resto observámos. Neste contexto. com o desenvolvimento de justaposições e combinações ecléticas. que nos impossibilita a comparação entre comportamentos e atitudes culturais representativos da globalidade da estrutura social. que a dicotomia bourdiana distinção/destituição deva ser substituída por um continuum que melhor ilustre a especificidade dos posicionamentos face à cultura. dada a proliferação de obras e consumos de fronteira. pode não se traduzir em capital cultural incorporado). Importa compreender um pouco melhor a especificidade destas redes. mantém toda a pertinência a análise dos consumos culturais como marcadores de status e de identificação/diferenciação identitária. são redes caracterizadas por uma homofilia[1065] apenas relativa. Aliás. por sua vez. contribui para consolidar esta tendência aventada por DiMaggio. não queremos nem podemos ir muito mais longe. em curso na sociedade portuguesa. ao mesmo tempo que a diversificação de fontes de difusão de informação possibilitará ―a adopção por parte dos membros de uma subcultura das crenças e comportamentos de outra‖[1064]. na medida em que reduz substancialmente o valor de raridade do capital cultural. a par de um esbatimento das classificações rituais. o alargamento do acesso aos patamares superiores do ensino. origina não só fenómenos de interdependência como também de competição e de conflito. dada a relativa homogeneidade sócio-demográfica da amostra em análise. uma maior diferenciação nos géneros artísticos. assim o pensamos. embora nos pareça. fronteiras e hierarquias. DiMaggio salienta a sua abertura a trajectos sociais ascensionais. No entanto. Nesse aspecto. Ela aplica-se essencialmente às novas classes médias em movimento.

na medida em que apenas podemos generalizar determinadas expectativas face a conjuntos limitados de outros. As duas densidades variam em sentido inverso‖[1068]. os agentes com um elevado capital cultural e relacional caracterizam-se pela vastidão da sua rede extensa. um acesso diferencial à variedade subcultural[1070]. Existe. na sua teoria de um espaço social a duas dimensões (económica e cultural). fora dos círculos de parentesco e vizinhança. As expectativas multiplicam-se em ritmo paralelo à diversidade de situações. papéis e relações sociais. a relações socialmente mais ―rentáveis‖. Por outras palavras. Rupp salienta. Nestes casos. habitando grandes conjuntos residenciais onde não se desenvolvem fortes laços de pertença e se proporcionam contactos mais heterogéneos e diversificados. Claro está que nas redes sociais difusas. heterogénea. pouco densa.minorias étnicas ou das classes trabalhadoras. Claro está que a profundidade dessa competência multicultural depende do grau de poder desigual dos agentes. estão associadas a um maior fechamento social e a uma elevada ―estreiteza de relações‖: ―A densidade das trocas no seio de um meio social não reside na densidade das redes interpessoais mas sim. Pretendemos ilustrar com esta expressão a constatação de François Héran segundo a qual os circuitos de interlocutores diversificados e distantes associam-se. formada pelos conhecimentos dos elementos que constituem a nossa rede efectiva. Jan C. mas com ramificações em domínios sociais cruciais. a existência de uma ―fracção cultural das classes populares‖ com investimentos em certos tipos de arte e em determinados estilos de vida[1067]. Graham Allan refere a este propósito. Assim. igualmente. Estas redes funcionam com base nos contactos de ―segunda ordem‖. extremamente ligado à crescente especialização profissional que se desenvolve nessas sociedades. na sua dilatação. redes sociais muito densas. com vínculos emocionais intensos. A este propósito alguns antropólogos falam do multiculturalismo presente na vida quotidiana das sociedades hodiernas. as altas expectativas de mobilidade social suscitam uma participação em círculos sociais onde os recursos culturais interaccionais são centrais. ou seja. próprias das novas classes médias urbanas os ―laços fracos‖ são ―laços ricos‖. . a qual é constituída por um círculo de pessoas estreitamente ligadas entre si. pelo contrário. as características distintivas da nova classe operária. de acordo com a terminologia utilizada por Barnes e retomada por Félix Requena Santos[1069]. Ora. permitindo aumentar o repertório cultural e informacional dos agentes neles inseridos. desta forma. aumenta a competência subcultural dos agentes. interacções accionadas na rede extensa. todavia. desenraizada das suas comunidades de origem. em detrimento dos modelos tradicionais de sociabilidade centrados na vizinhança e na família[1066].

estudante do ensino superior). O estudo recente de Elísio . senão acham uma seca. sexo feminino. estudante do ensino superior). enquanto que para um bar alinham todos‖ (Rivoli. e apesar do ―acréscimo da «mobilidade de sociabilidade»‖[1072]não se pode generalizar a ideia de uma permeabilidade interclassista isenta de obstáculos. esta constatação obriga-nos a relativizar o papel das redes difusas de sociabilidade. Aliás. mas podia ter vindo com um grupo de amigos que gostassem de música clássica. arqueólogo). estudante do ensino superior) ―A escolha do local depende dos amigos. étnico. se houverem bons concertos. De facto. sei lá. mas com os amigos saio mais‖ (B Flat. 22 anos. em redes de amigos relativamente homogéneas (a nível etário. professora de educação física). combinamos sempre e quando temos que sair. acabarei por ir também a concertos de música brasileira.. rock. Por exemplo. sexo masculino. 23 anos.‖ (Rivoli. ou quando é para ir a um bar de jazz tem de se gostar mesmo. Mas também organizamos programas para sair no grupo da faculdade‖ (Praia da Luz. de tudo um pouco.. a pessoa só vai a um certo sítio se souber que estão lá amigos‖(Praia da Luz. Eu só consigo curtir a noite se estiver com os meus amigos‖ (Rivoli. Depende um pouco: se for com amigos que gostem de outro género de música de que eu também goste. sexo masculino.Esta multiplicação dos laços de sociabilidade e dos repertórios culturais (cada novo conhecimento abre-nos os seus pequenos mundos) está bem patente no discurso de alguns entrevistados: ―Hoje vim assistir a este espectáculo com os meus pais. sozinha não saio. estudante de um curso de tinturaria). sexo masculino. 25 anos. Convém no entanto frisar que as saídas nocturnas a lugares de consumo cultural parece basear-se mais no grupo de amigos relativamente próximos (na rede efectiva) e não tanto nos circuitos difusos com interlocutores mais distanciados (rede extensa): ―A importância dos amigos é grande. sexo feminino. ―Saio com a namorada ou com os amigos. Por conseguinte. como múltiplos estudos comprovam[1071]) a informação circulará ainda mais facilmente e a uma velocidade maior. porque não. saímos sempre juntos. dada a probabilidade de existir um forte consenso sobre os pressupostos da comunicação evitando-se ―ruídos‖ e facilitando-se a comunicação. música portuguesa também. Sou capaz apenas de ir ao teatro ou ao cinema sozinha. sexo masculino. ―Nós temos sempre o nosso grupo de amigos. ―Quando é para o teatro há pessoas que gostam mesmo. de status social e mesmo de género.

sendo as qualificações a dimensão estruturadora das relações sociais de amizade‖[1073]. simultaneamente.%) 2.9.5 98. precisamente.3%) Não N=529 (96. Quadro LXVII .Estanque e José Manuel Mendes indica. e uma maior electividade. Importante. Na medida em que os circuitos sociais são heterogéneos e assentes em várias esferas da actividade social. dando lugar ao desenvolvimento de relações pessoalizadas.7%) B Flat N=145 (26. chegando mesmo a introduzir uma distância simbólica acentuada entre posições de classe estruturalmente próximas.0 97. diminui a evidência da pressão social. é mais fácil tratar como iguais aqueles que realmente são iguais‖[1074]. fornecem uma renovação intensa do capital informacional. Concluem por isso os autores que―estamos perante uma estrutura social relativamente rígida também na constituição de amizades. é o facto dessas redes não consistirem em contactos redundantes. Nos nossos dados encontramos igualmente indícios de um certo fechamento nas redes sociais. que as saídas culturais não se organizem sempre com os mesmos amigos já . O que contribui para a ideia de que as saídas culturais se enquadram em redes de sociabilidade já estabelecidas e não funcionam como uma esfera propícia à sua dilatação. De acordo com o Quadro LXVII são em valor residual os inquiridos que consideram que ―conhecer pessoas novas‖ é um dos motivos que os levam a frequentar espaços de vocação cultural. na ligação ao capital cultural. Graham Allan realça.5 Espaço Praia da Luz N=98 (17.Possibilidade de conhecer pessoas novas por espaço É a possibilidade de conhecer pessoas novas que o leva a frequentar este local? Sim N=18 (3. desenvolvem ao máximo relações de intimidade. com base em vários trabalhos anteriores. que a pressão dos círculos sociais vai no sentido de se ―defender‖ um determinado estatuto social através do recrutamento de amigos com uma afinidade de habitus: ―Claramente.5%) 5. Estas não só possuem redes mais vastas como.0 Rivoli N=304 (55.6 94. Pelo contrário. por isso.4 De qualquer forma. ainda. que as qualificações. É de supor. são a dimensão menos permeável das fronteiras de classe nas redes de amizade. as ressalvas anteriores não desmentem nem são incompatíveis com os múltiplos estudos que apontam para uma cumulatividade por parte das classes médias e superiores nas diferentes modalidades de sociabilidade.6%) 2.

ao contrário das classes populares. O autor americano nunca o referiu com exactidão. como adiante explicaremos) aos chamados ―novos intermediários culturais‖ ou à fracção que Bourdieu apelidou de nova pequena burguesia e que nós temos vindo a designar. e mais amigos e relações electivas não limitadas a um meio ou quadro de inscrição‖[1075]. embora diversificados. Dito por François Héran. referências e aspirações. pensamos que ela representa hoje em dia o pleno do capital cultural. indicadores de trajectos. constituem signos sociais‖[1078]. Esta maior independência face aos contextos e quadros de interacção liga-se intimamente à noção de rede. Esta vivência em mundos sociais supra-locais articula-se. em especial para as novas classes médias urbanas:―As relações. embora inscritas objectivamente no espaço social. sem lhes reconhecer a devida importância. ―venda de bens e serviços simbólicos‖. distanciando-se do conceito de ―comunidade‖. próprio de segmentos tradicionais e doravante minoritários das classes operárias[1077]. por sua vez. O autor francês associa os seus comportamentos culturais à tensa ―pretensão à distinção‖. pretendentes à reclassificação‖[1080]). muitas vezes exercida através do bluff cultural (em especial na sub-fracção caracterizada por trajectórias descendentes). ao contrário de Bourdieu. aumentando por isso a sua privacidade. talvez com excesso de conforto. os poderosos recursos de que esta . Em suma. Finalmente. de uma forma bem mais expressiva. ao definir os seus domínios profissionais (―apresentação e representação‖. quer porque não se conseguiram conservar as elevadas posições de origem (indivíduos em trajectória descendente. tal como os lugares de residência. importa precisar um pouco melhor o alcance (e os limites) das propostas de DiMaggio para uma nova conceptualização das relações entre cultura e estrutura social. quer porque se pretende rentabilizar o diploma obtido através de um processo ascensional. ―em matéria de relações sociais o capital atrai capital‖ (―Le capital va au capital‖)[1076]. afiguram-se pouco frequentes e os amigos conhecem-se menos entre si. mas igualmente mais laços reforçados. No entanto. que vê na relativa indeterminação social desta fracção de classe o resultado de uma―trajectória interrompida‖[1079]. portadoras de sentido e geradoras de representações subjectivas.que. os encontros. mas as suas teses aplicam-se nitidamente (e essa é uma das suas limitações. com a importância de que se reveste a mobilidade social. as classes privilegiadas ganham em vários tabuleiros: ―possuem mais laços fracos. No entanto. oriundos da burguesia — ―pequeno-burgueses desclassificados. ao mesmo tempo que cada agente apenas revela uma parte do seu self. por novas classes médias urbanas. ―produção e animação cultural‖ e profissões artísticas[1081]) Bourdieu salientou.

maior importância dos códigos simbólicos do que do estatuto social e das pertenças de classe. aumento do espaço pessoal e dos repertórios de gosto. A nossa amostra fornece-nos informação limitada. a respeito da preponderância destasnovas classes sociais nos públicos de certas instituições culturais urbanas. ligação das posturas corporais e modos de apresentação à expressão do self. A questão reside. dispersão e fragmentação libertadoras (causa e consequência da novas formas de acumulação do capital. escasseiam os dados sobre a profissão e a situação na profissão dos inquiridos. diluição de hierarquias e classificações. na unidimensionalidade da perspectiva do autor francês ao colocar-se no extremo oposto da ―ingenuidade‖. na fruição. apenas vê criticamente dominação e imposição arbitrária onde podem existir dimensões existenciais não negligenciáveis (autoexpressão. que os modos vestimentários e cosméticos são um elemento capital do modo de dominação‖[1085]. ditas flexíveis) e demarcadas de lógicas classistas (estilização das experiências de vida. precisamente. na poupança. fundada na abstinência. As nossas afirmações têm essencialmente em conta os dados sobre a mobilidade social com base no capital . a um padrão comum. Desta forma.. etc. quer ao consumo simbólicos. na sobriedade. A nova lógica da economia substitui a moral ascética da produção e da acumulação. assim como pelas suas capacidades de produção‖[1083]. por uma moral hedonista do consumo baseada no crédito. por ausência de resposta. como da produção dos próprios produtos. a argúcia analítica do autor francês capta o essencial dos seus modos de vida: ―A nova burguesia é a iniciadora da conversão ética exigida pela nova economia da qual retira a sua força e os seus lucros e cujo funcionamento depende tanto da produção de necessidades e de consumidores. a nosso ver. indirecta e parcial. pela sua posição face quer à produção. no gasto. o seu standing. Voltaremos a este ponto nas conclusões e reflexões finais. De facto. Esta economia pretende um mundo social que julgue os homens de acordo com as suas capacidades de consumo. de forma a tornar a dominação mais doce e dissimulada: ―Apenas os ingénuos podem ignorar. O seu estilo de vida obedece. como já foi referido. no cálculo. depois de tantos trabalhos históricos sobre a simbólica do poder. uma vez mais. projectos de vida) e lógicas sociais mais complexas. autorealização.) é analisado por Bourdieu como mera eufemização do habitus e simulacro de descontracção.fracção actualmente dispõe. em íntima associação com a ―nova burguesia‖[1082] e que lhe conferem um estatuto central na reprodução social global. o seu estilo de vida. definido. O que os pós-modernos vêem como a desarticulação dos modelos fordistas[1084] em direcção a uma pluralidade. Sem constituir uma surpresa. exploração lúdica do quotidiano.

um inquérito realizado pela direcção do B Flat (e por nós tratado) fornece-nos alguma informação que em parte complementa a lacuna antes referida.2 1. mercados de trabalho e nichos de consumo‖[1088]. São estas as camadas sociais que mais concentram as suas energias rotineiras na obtenção de capital simbólico. bem como o volume de que este se reveste. Realçamos. mediante a produção. e se somarmos o peso relativo dos dirigentes e quadros superiores ao das profissões intelectuais e científicas. pelas imagens. em dissociação. No entanto. pela efemeridade.4 21. pelo acaso e pela flexibilidade em técnicas de produção. pela fantasia. obtemos 52. mas muito provavelmente estaremos em presença do que Bourdieu apelidou de nova burguesia e nova pequena burguesia e que outros simplesmente apelidam de novos intermediários culturais[1087] (designação também presente em Bourdieu). .8 13. Necessitaríamos de desagregações mais finas. reformados e domésticas Estudantes TOTAL N 24 231 66 45 1 8 2 106 483 % 5 47. em particular. A dominância do estético e das dimensões ontológicas encontram correspondências materiais e objectivas nos processos sociais globais. Atentemos no quadro seguinte: Quadro LXVIII — Composição profissional dos públicos do B Flat Grupos Profissionais Dirigentes e quadros superiores Profissões intelectuais e científicas Profissões técnicas intermédias Empregados e outros assalariados do terciário Trabalhadores da agricultura e pescas Operários qualificados Desempregados. pelo imaterial (particularmente do dinheiro).9 100 De acordo com estes dados. embora fora de lógicas de determinação unilinear. por seu turno. a intensidade das trajectórias de mobilidade social ascendente em direcção a situações de posse de grande volume de capital escolar como um indicador significativo. por conseguinte. Aliás.8%.7 9. Os seus estilos de vida encontram-se em íntima conexão com as tendências mais ―avançadas‖ do chamado capitalismo tardio‖: ―A flexibilidade pós-moderna. pela análise da composição etária. é dominada pela ficção. pelo capital fictício. a sua grande maioria frequenta o ensino superior. A ―economia vodu‖ e as tendências culturais mais visíveis e marcantes da contemporaneidade não estão.7 0. difusão e consumo de bens e serviços que assentam o seu cariz distintivo na sua estrutura igualmente simbólica.3 0.escolar[1086]. Muitos dos estudantes presentes nesta amostra irão certamente engrossar o peso desta categoria.

Sem negarmos a existência de amplos movimentos. bastante diferente do que habitualmente é proposto. urge aceitar. Só assim conseguiremos localizar nos planos social e espácio-temporal. as linguagens dos espectáculos . Nenhum conjunto de mudanças. de tipo preferencialmente não verbal e aparentemente não intencional‖[1089]. o grau de generalização e/ou localização de significativas mudanças sócio-culturais que aqui foram sendo assinaladas. em tempos de ávida circulação/substituição de referências) de novos modos de vida. se furta à história e à geografia de uma dada formação social. simultaneamente. a multiplicidade de factores que estão associados (embora seja por vezes extremamente difícil saber em que medida funcionam numa relação directa de causa e/ou efeito) à emergência e consolidação (por mais paradoxal que possa parecer este termo. da modernidade tardia e da pós-modernidade em vez da sua sucessiva superação e incompatibilidade) e sublinhando a ambivalência de que se revestem. CAPÍTULO XII DA RECEPÇÃO CULTURAL A Activista Cultural O passo decidido não acerta com o cismar do palácio O ouvido não ouve a flauta da penumbra Nem reconhece o silêncio O pensamento nada sabe dos labirintos do tempo O olhar toma nota e não vê Sophia de Mello Breyner Andresen in O Búzio de Cós e Outros Poemas 1. ritmos e tempos culturais contraditórios e assincrónicos (por exemplo a coexistência conflitual da modernidade. por vezes mesmo quase inconsciente[1090]. por mais profundo e revolucionário que seja. A análise das expressões transmitidas mas sobretudos emitidas (―de tipo mais teatral e contextual. como Goffman sublinha) fornece importantes indícios de como os indivíduos percepcionam. por isso. a um nível nem sempre consciente. A recepção. o corpo e os seus contextos.A questão afigura-se. As formas de ocupação dos cenários de interacção pelos agentes sociais e as posturas corporais que lhes estão associadas traduzem uma determinada atitude receptiva face ao ambiente social circundante.

apropriarmo-nos analiticamente da apropriação social presente na corporalidade. assumindo as posturas corporais e sensitivas como plenas práticas culturais. patente nas versões mais etnocêntricas e logocênticas de um objectivismo que ―constitui o mundo social como um espectáculo que se oferece a um observador que adopta «um ponto de vista» sobre a acção. não pretendemos reduzi-la a uma mera representação interna de um mundo social exterior. ao considerarmos a corporalidade como conceito integrante do habitus. por sua vez. Trata-se. traduzem o processo mais vasto de socialização das posturas e performances corporais. Como refere Serge Collet. por forma a alcançar.Normalmente através das reacções que se observam nos intervalos ou no final dos espectáculos. ―que não supõe nenhuma representação nem do corpo nem do mundo‖[1094] que nos propomos em seguida falar. por assim dizer. em particular em locais como os que se encontram em estudo. face aos interlocutores e à audiência. ou. No entanto. a sua transgressão mais ou menos intencional. uma representação de segunda ordem a que o investigador acede pela sua grelha de análise. Assim. Muitos desses indícios (que são efectivamente formas de comunicação) conseguem ser captados pelos produtores e programadores culturais mais atentos às reacções e performances dos públicos: ―P. um consenso operacional sobre a situação de interacção[1092]. Tal démarche. Em alguns casos só mesmo por observação.que presenciam. É dessa visão ―quase-corporal‖ do mundo. porque não conheço as pessoas e elas não se dirigem a mim. retirando-se para a observar‖[1093]. Noutros casos conheço as pessoas e falo com elas e há ainda outras que vêm ter comigo porque percebem que estou ligada ao teatro e gostam de expor a sua opinião‖ (programadora cultural do Rivoli). Ou seja. se é verdade que o ―corpo socialmente informado‖ não escapa ―à acção . assistir a um espectáculo cultural constitui uma ocasião de relativa fuga à rotina. No entanto. a incorporação corporal de hierarquias e sistemas de classificação. Nesse sentido. Podemos seguir os modelos interaccionistas e afirmar que grande parte dos significados não verbais captados pelo investigador no decurso de um processo de observação directa fazem parte de uma intenção mais vasta de desempenho. obriga-nos à abdicação de qualquer ponto de vista soberano. conduz-nos à multiplicidade de actos perceptivos em contextos de recepção cultural.Através de que indicadores é que captas a adesão dos públicos? R. de um espectáculo dentro do espectáculo. ―o espectador é «actor» no seu corpo no próprio lugar do espectáculo‖[1091]. considerando não só a raridade relativa das saídas culturais. pelo contrário. como o grau de ritualização e poder simbólico que exprimem.

Dito de outra forma. As palmas ou a ambivalência dos comportamentos. Ao mesmo tempo. O significado não pode ser reduzido a um símbolo que existe num nível separado. De facto. se não nos contentamos com o estudo da verbalidade e da escrita (as ―práticas de inscrição‖[1096]) somos obrigados não só a relacionar o corpo com o corpo social (lugar de memória social permanentemente actualizada) mas igualmente a entendê-lo como disposição afectiva. Cláudia de Oliveira. Pretendemos em seguida.1. torna-se um indicador precioso do carácter efémero. único e irrepetível. de acordo com vários exemplos extraídos das nossas incursões etnográficas. uma forma de conhecimento e de mobilização de atitudes[1098].) ao cultivarmos o hábito é o nosso corpo que compreende‖[1097].. o fim do seu diálogo silencioso‖. também ele..estruturante dos determinismos sociais‖[1095] não é menos verdade que ele transcende a mera exteriorização das aprendizagens sociais e das estruturas simbólicas. produz e experimenta continuamente o mundo. 1. igualmente. ao tornar-se. se não analisamos apenas as representações mentais e cognitivas. O bater de palmas fornece-nos. Ora. reduzindo o corpo ao estatuto de símbolo. fonte e veículo dos vínculos relacionais. peça . a esse respeito. bater palmas em diferentes momentos de um espectáculo é considerado uma das formas mais visíveis (audíveis. se não nos quedamos somente pelos conceitos que os agentes produzem enquanto lay sociologists. Como refere Vale de Almeida: ―A experiência corporizada não pode ser entendida só pelo cognitivismo e pelo modelo de significação linguística. exterior às acções do corpo (. A Vida em Silêncios Comunicantes[1099] Algumas das situações que presenciamos traduzem com acutilância a ligação das posturas corporais ao conjunto de convenções interiorizadas de forma socialmente diferenciada de acordo com os meios sociais dos agentes. de cada concerto. ―Bernard Dort escreveu um dia que os aplausos são o fim de tudo. intersubjectivos. É. a emoção é também um estado cognitivo.) e socialmente reconhecidas de demonstrar o (des)gosto e o grau de apreço pelo desempenho dos artistas. interessantes pistas... o último momento do confronto entre actores e público. Além do mais. problematizar e ilustrar o que anteriormente defendemos. o corpo não será o produto de uma simples domesticação social.

a incompetência cultural de boa parte do público. pouco familiarizado. penteados cuidados.. pelo contrário. apesar da presença de várias figuras ilustres do mundo da política e dos negócios. excluindo-se mesmo o momento de interrupção para intervalo. Eu também fazia isso quando era criança e envergonhava muito o meu pai‖. o cenário da ocasião afigurava-se diferente das habituais soirées do Rivoli. multiplicavam-se os sinais de inter-reconhecimento. uma senhora não deixou escapar uma crítica implícita ao aggiornamento da etiqueta da ―cultura nobre‖: ―Aquelas pessoas que batem palmas antes do tempo. Tal comportamento suscitou interpretações ambivalentes por parte dos próprios espectadores.. O autor francês quiçá iria mais longe e aventaria a hipótese de uma reacção ao ultraje dos pergaminhos culturais de certas classes sociais. Casacos de peles. ensina-se o padre-nosso a quem tão bem sabe rezar e se movimenta com sobejo à-vontade nas liturgias culturais. As conversas que conseguimos captar e registar remetiam para . ao sentarem-se nos seus lugares. confirmando a aparência sofisticada das formas de apresentação em cena. os espectadores eram confrontados com um folheto onde se pedia expressamente para apenas se aplaudir no final do concerto-récita. Com efeito. Assistimos a um momento em que convenções sócio-culturais estabelecidas e sedimentadas (institucionalizadas) foram subvertidas.. não sem ambivalência. Afinal. No entanto. gravatas e laços surgiam com profusão. ao contrário de tal solicitação.de teatro ou performance. as palmas irromperam não só no final da primeira tarde. Outras pessoas com quem conversámos salientaram. como que a confirmar o carácter restrito de um círculo social relativamente homogéneo. Ora. intercalada pela leitura de Eunice Muñoz de fragmentos de O Viajante Magnífico. Weber e Bourdieu certamente que não deixariam de descobrir aqui um efeito de ―defesa de honra‖ que caracteriza certos grupos de status. Aliás. com os rituais e competências deste tipo de espectáculo. onde destoavam fortemente alguns grupos minoritários de jovens com traje informal ou ―pormenores‖ provocadores (cabelos multicoloridos). No espaço de entrada. evidenciando a base instável e evanescente de transmissão de significados das artes vivas. por fracções significativas do público que assistia a um concerto em que Maria João Pires interpretava Schubert. Alguns registos de observação abonam a favor desta hipótese interpretativa que enfatiza a relativa disjunção entre capital económico e cultural. como depois da leitura particularmente expressiva de alguns textos ou ainda posteriormente a cada andamento.. Houve quem assumisse uma atitude iconoclasta de afronta a um pedido tido como impertinente ou quase ofensivo (qualificando o folheto de ―ridículo‖ e ―desnecessário‖.

No caso presente. No final. traduzido em palmas. assiste-se à preparação de uma dose injectável de estupefacientes. pouco socializada em saídas culturais frequentes e atraída pelo valor simbólico do ―nome‖ de Maria João Pires e Eunice Muñoz e a subversão momentânea das regras por quem se sentiu ofendido pelo implícito questionamento da sua competência cultural. era nítido o agrado dos primeiros. Dito de outra forma. Um comentário dissonante ficou ainda registado no diário de campo : ―Hoje cheira muito a naftalina‖. No entanto. trocando sorrisos cúmplices com os artistas durante as actuações e escutando muitas as vezes a música de olhos fechados. a um dado momento. De facto. Um outro caso relacionado com a exteriorização do gosto através do bater de palmas ocorreu com a representação da peça de teatro Hotel Orpheu de Gabriel Gbadamosi. compreenderemos melhor esta recepção diferencial.universos exteriores à cultura cultivada. em estado de aparente sintonia receptiva. com um forte grau de improvisação. numa atmosfera algo claustrofóbica de um pequeno quarto de uma pensão lisboeta. Numa espectáculo de jazz ―experimental‖. oscilaram entre a incompetência cultural de uma burguesia incapaz de converter eficazmente o seu capital económico em capital cultural (o que mais uma vez nos alerta para a heterogeneidade dos comportamentos das classes dominantes). só para mencionar o exemplo talvez mais elucidativo. Moral da história: as palmas podem ter vários significados. o falar de alguém ausente que ainda no dia anterior foi reconhecido na missa. e perante o pequeno auditório dividido entre um grupo de jovens oriundo de escolas secundárias e um outro de idosos. como é o caso do B Flat. como fazia notar uma das programadoras do Rivoli que entrevistámos. situada em frente ao palco (se é que se pode ainda falar de palco quando existe. Apenas uma minoria activa. e o embaraço dos segundos. Nada. os códigos (sistemas de signos) transmitidos não se integravam no seu ―modo habitual de percepção‖[1100]. um quadro suficientemente afastado das categorias cognitivas dos idosos para lhes causar estranheza. uma total continuidade com a sala) aplaudia no fim de cada ―melodia‖. a situação económica de uma determinada empresa. perplexidade. a seringa. Um último exemplo. reenviando-nos para um pequeno mundo mundano: os brinquedos que o filho recebeu no Natal. o isqueiro. se tivermos em conta o realismo cru da peça. provenientes de instituições públicas. e em particular de determinadas passagens. a desatenção selectiva do público generalizava-se a grande parte da sala. De facto. com todos os utensílios que lhe estão associados: a colher. denunciado pelo silêncio. eventualmente repulsa. Se fizéssemos um travelling etnográfico pelo resto do . que não caiba no universo de possíveis do jovem público.

2. noutra altura da tua vida. Se calhar. mas incompatível com a ―rigidez‖ do teatro municipal. possível em espaços informais e conviviais como o B Flat e a Praia da Luz. a beber e a conversar. visível. verificamos que os espectadores têm no foyer o espaço de representação para um público imaginário. tornou-se explícito que o intervalo retirava ao público o anonimato da sala. O que observámos foram indícios de uma completa desatenção perceptiva. Enquanto que a ―selectividade perceptiva‖ da minoria de espectadores familiarizados com as regras sem regra da improvisação jazzística os leva a evidenciar sinais corporais de atenção. Numa mesa um grupo de homens fala de negócios que envolvem ―para cima de 700 contos‖. depararíamos com muita gente de pé. que os conduz a atitudes de desorientação e perplexidade perceptiva.) através das observações desenvolvidas. de facto. Theatrum mundi ou o palco do público. com excepção de um aspecto fundamental: o público-alvo desta representação ―secundária‖ não é meramente imaginário.espaço. um casal disserta igualmente sobre dinheiro: ―Para que queres o dinheiro? Para gastar em coisas que te digam alguma coisa. quase palpável e sujeito a uma avaliação . tens filhos. Não poderíamos estar mais de acordo. Noutra mesa. sem sequer bater palmas. uma casa. perto do balcão.. distensão e prazer. Se a sala os ―bane‖ da cena. conforme consta do folheto que publicita o espectáculo. eles encontram nesse recanto do teatro a sua própria cena. 1.. em especial homens. desinteresse. naquela actuação marcada ―pela improvisação colectiva‖. nem tão pouco de sentimentos de ―agressão auditiva‖ de que nos fala Pierre-Michel Menger[1102] e que Robert Francès também regista em situações em que se rompe o equilíbrio entre os códigos habituais da oferta e as competências treinadas do público homólogo[1103]. Agora não!‖[1101]. devolvendo-lhe a possibilidade de usar o seu corpo e a palavra‖[1104]. não se encontra sintonizado e sincronizado com os tempos da mesma. É um público real. fuga (para locais distantes do palco ou para temas de conversa totalmente dissonantes com a actuação). a maioria da clientela exibe desconhecimento. uma forma de recepção pela não-recepção. a maior parte dos presentes. pelo ―risco e a urgência‖. Não deixa de ser curioso constatar que. Cláudia de Oliveira retoma Bernard Dort para defender a ideia de uma delimitação de fronteiras entre espaços de representação distintos: o dos artistas e o dos espectadores: ―De facto. onde se ―representa‖ a peça do público (. Não se trata sequer da falta de inteligibilidade dos ―melómanos profanos‖. totalmente abstraídos do espectáculo.

que levam o público a uma grande exuberância de sinais. traduz-se corporalmente em estados receptivos exteriorizados e captados pelas grelhas analíticas do investigador. Um cantor de um grupo de blues que salta repentinamente para uma mesa. aliás muito próximos fisicamente. sem deixar de compartilhar com a representação ―primeira‖ qualidades ―lúdicas. mas encontraria . depois de ―trabalhadas‖ de acordo com o horizonte de expectativa de cada agente. fazer referência a signos e valores ausentes da percepção imediata (carácter simbólico da interacção)[1105]. teria grande probabilidade de ser recebido com entusiasmo no B Flat. não há mimesis na recepção das obras. em modos de percepção estabelecidos que são. em que se desconstrói a pluralidade de conteúdos e de mensagens do espectáculo a que se assistiu. batendo palmas sincopadamente com o ritmo. Tudo depende. de forma intelectual ou analítica. que remetem para diferentes posições nos processos de construção social da realidade. de acordo com as novas apropriações perceptivas. Há espectáculos no B Flat. mediante a utilização desses sistemas codificados (linguísticos.. apesar de não se manifestar verbalmente. Nos restantes espaços do teatro municipal. ficcionais e ilusórias‖ o jogo social acarreta. Por isso. como de facto aconteceu. de uma tríade fundamental: a estrutura da obra. que lhes permitem. ou no café concerto do Rivoli. a nosso ver. de forma a integrá-las. accionam uma panóplia de rituais e de competências avaliativas. corporais no sentido mais vasto). em especial quando se toca um tipo de jazz dançável. consequências reais e objectivas. De facto. esta cadeia de interrelações e negociações. tão pouco mera interiorização indiferenciada e mecânica dos seus significados. assentes em convenções culturais de apresentação em cena. igualmente.pragmática no contexto de interacção. eles próprios. objectos de uma acumulação de repertórios e de capital informacional sujeitos a uma constante reprodução interpretativa[1106]. gestuais. contaminando a assistência com a sua espontaneidade (calculada?). na Praia da Luz e no B Flat a informalidade reinante (embora por vezes estudada) permite a interacção entre artistas e público. modalidade frequente através dos comentários e das conversas em comum.. Frequentemente. o sistema de referências e o projecto cultural do receptor (ou a sua ausência) e o cenário de interacção onde se desenrola a apreensão da mesma. quebrando e desmistificando (ainda que para a reforçar.) a fronteira que divide artistas e audiência. Esta constitui uma forma frequente de recepção activa. As regras de cortesia tradicionais atingem nos intervalos de determinados espectáculos do Rivoli que se realizam no grande auditório (em especial na música e bailado clássicos) a sua expressão mais visível. Os actores que são também o público do seu próprio espectáculo.

ao nível da consciência prática e dos juízos estéticos implícitos e não formulados . De acordo com este autor. a ênfase que DiMaggio coloca na cultura como motivação para a mobilização grupal e para a interacção colectiva. a sociedade íntima destruiu a expressividade na arena pública. mesmo que tal se faça com sacrifício dos seus significados intencionais. temos a recepção feita corpo. onde o próprio conforto reinante convida a uma agradável posição de espectador calmo e corporalmente menos activo.barreiras físicas e cognitivas no grande auditório do teatro municipal. as conversas direccionadas para o debate e apreciação do espectáculo são apenas maioritárias no pequeno e grande auditório do Rivoli. No entanto. bem como uma diversidade assinalável de reacções face à definição da situação. a criatividade existente na distância que existia entre a representação e o self. Dito de outra forma. ainda segundo Sennett. as máscaras. nesta afirmação. reenviando-nos para um tipo de recepção mais analítica e reflexiva. Reencontramos. em particular através da crítica especializada[1111]. desenvolvendo mesmo a competência de pensar sobre a sua própria percepção[1110]. de um espectador a outro. as convenções e as regras de relacionamento são consideradas obstáculos ao processo mútuo de auto. Geralmente são os espectadores mais familiarizados com o género artístico em questão. Sennett interpreta toda a teoria da interacção desenvolvida por Goffman como um sinal de que os papéis sociais se tornaram meramente acomodativos face à situação[1108]. todo o nosso trabalho de observação directa metódica e sistemática permitiu-nos registar uma grande variedade comportamental associada à componente contextual da representação de papéis em que se mantêm distâncias significativas entre a apresentação em cena e os domínios recônditos do self. Esta questão leva-nos a exprimir uma discordância face às teses ultrapessimistas da teoria crítica de Richard Sennett sobre os comportamentos na esfera pública e semi-pública. transmitindo uma sensação que a nosso ver se aproxima do significado que Eco pretendia com o conceito de ―obra aberta‖.desvendamento de que nos fala Giddens[1107]. De facto. outrora mais resguardado. que conhecem o percurso dos artistas e que acumulam informação de várias fontes. de um espectador a um futuro espectador‖[1109]. em que o receptor integra e relaciona várias dimensões. já que a moral da autenticidade desenvolve uma relação hostil com a teatralidade dos papéis sociais. Perde-se. ou após o seu fim. No outro oposto do continuum. Todavia. registamos centenas de pequenas conversas que ocorriam no intervalo das actuações. Serge Collet defende que o espectador é ainda um actor ―no momento de circulação das impressões e de julgamentos.

nos ―palcos‖ em que os espectadores se tornam actores. etc. à percepção analítica ou percepção do―esteta‖ ou do ―sábio‖ à da ―gente comum‖[1114]. importa considerar o projecto cultural dos agentes em questão. antes mesmo de analisar o tipo de recepção em eixos que podem ir da percepção imediata/espontânea. gastronomia requintada (adultos. o que confirma pistas interpretativas lançadas em capítulos anteriores. Seguem-se as dimensões intrínsecas ao espaço em questão e apenas em terceiro lugar as motivações ligadas à aprendizagem e fruição culturais. comum aos três espaços). ou ainda da percepção intelectual à percepção corporal/sensual[1115]. combinações entre estes e outros possíveis motivos? O Quadro LXX fornece-nos algumas pistas a esse respeito.. futebol (Praia da Luz. desejo de distinção e reconhecimento social?. querer estar na moda e manter-se actualizado?. apreciações sobre pessoas ausentes (comum aos três espaços e a todas as faixas etárias). no quadro de uma ética de diversão?. se não contarmos com os inquiridos que assinalam vários elementos) a factores extrínsecos ao próprio lugar e que têm a ver com as redes de sociabilidade. vontade de ―aprender‖ com o contacto com a obra e os artistas. Em suma. um tipo específico de recepção (constitui um registo cognitivo. De certa maneira fora deste eixo está a não-recepção que é. como se pode constatar. a escolha de um dos três locais em análise. atracção pelo cenário onde decorre o espectáculo. percursos escolares (estudantes universitários. Dito de outra forma. antes de mais (22. impulso convivial. os comentários cosmopolitas e mundanos sobre destinos de viagens (jovens adultos quer do B Flat. versando desde as insinuações sexuais mais ou menos subtis (público adolescente da Praia da Luz). Ou seja. obedece. curiosidade.. familiarização preexistente. adolescentes e jovens adultos). etc. paradoxalmente. B Flat). adolescentes).)?. compensando um défice de formação cultural?. urge conhecer a constelação e hierarquia de motivos que os levam a estar presentes num determinado local para assistir a um determinado espectáculo: razões intrínsecas ao mesmo (qualidade.2%. avaliações do grau de diversão da noite anterior (Praia da Luz.) estabelece uma relação mais sentida que conceptualizada entre os diferentes significantes do espectáculo e os seus significados‖[1112].discursivamente: ―o espectador está preso ao que percepciona (. uma atitude) e que encontra expressão adequada nas várias dezenas de registos de situações de interacção em que os temas de conversa se desviavam totalmente do campo semântico da representação. muitas das pessoas que frequentam os locais de espectáculo fazem-no também por outras razões que não as directamente . quer da Praia da Luz[1113]). Com efeito.

6%) 12.3 Médio N=99 (22. Por outras palavras. Se analisarmos o Quadro LXXI constatamos que o espectáculo a que os inquiridos acabaram de assistir apenas frustrou as expectativas para uma minoria.6%) tores Extrínsecos de Sociabilidade N=98 (22. igualmente.ligadas à sua vocação principal (com excepção da Praia da Luz. Quadro LXX .0 2.0 21. os códigos utilizados.0 13.1 11.7 25.9 25. Tal poderá indicar um grau elevado de familiarização com o género em questão.Factores predominantes para a presença no local por capital escolar de ego Capital Escolar de Ego Baixo N=24 (5.5 38. o mesmo aconteceu para a maioria dos inquiridos com um baixo capital escolar. as expectativas foram correspondidas e para um número significativo.4%) 8. a relativa adequação mútua entre o espectáculo e as expectativas criadas a seu respeito.5%) 15. onde as apresentações culturais aparecem como reforço da função principal de bar/restaurante/esplanada).9 29. Não há grande . Por um lado.4 s Predominantes para a presença no local actores Intrínsecos N=82 (18.1%) 20.2 12. uma recomposição profunda do campo cultural e das suas práticas. os usos dos locais de cultura não se cingem às utilizações culturais no seu sentido mais estrito e denunciam. Para a maior parte dos indivíduos que possuem um médio ou alto capital escolar.6%) Factores Vários N=135 (30.2 Alto N=318 (72.2%) Extrínsecos de Cultura de Saídas N=57 (12.9%) tores Extrínsecos de zagem e Fruição Cultural N=69 (15. Recepção cultural e horizonte de expectativa. a exibição excedeu as expectativas. Podemos mesmo considerar que o peso relativo dos ―activistas culturais‖ é reduzido e minoritário. Algumas ilações podem ser retiradas a partir destes resultados.2 34.4 17. Aliás. ainda que menor. a interpretação dos artistas ou o seu percurso.1 15.

. O julgamento estético e a apropriação activa da obra.) o novo texto evoca para o leitor (ou auditor) o horizonte de expectativas e de regras do jogo com o qual os textos anteriores o familiarizaram‖[1116]. A recepção actua no horizonte de uma certa previsibilidade. Sempre que a obra confirma um determinado horizonte de expectativa. abre-se o espaço à inovação e à ―mudança de horizonte‖. que preenche essencialmente funções de ―simples divertimento‖[1117].3 5.7 Alto N=289 (73. Conhece-se a este respeito o critério de qualidade estabelecido por Jauss.1%) 70. mesmo actuando num sistema de referências ou guião preestabelecidos relativamente rígido. não esgota o campo de possíveis da recepção..6%) trou as Expectativas N=40 (10. característica seminal do artístico.8%) 25. não são isentos de novidade e modificação.margem de manobra para surpresas. Esta. no entanto.0 15.) não se apresenta como uma novidade absoluta surgindo num deserto de informação (. .Opinião sobre o espectáculo por capital escolar de ego Capital Escolar de Ego Baixo N=20 (5.4%) pondeu às Expectativas N=199 (50. existindo um desvio ou hiato entre o horizonte de expectativado receptor e a obra.2 4.. a recepção está em boa parte inscrita na própria obra e na relação que o receptor estabelece com as obras antecedentes. que no conjunto dos que não foram ―surpreendidos‖ pela representação não coexistam atitudes receptivas heterogéneas.0 47.9 ão sobre o Espectáculo cedeu Expectativas N=139 (35. Starobinski acentua este aspecto. sejam elas agradáveis ou decepcionantes.8 Como o próprio Jauss refere.4%) 35. para a maior parte dos inquiridos com baixo capital escolar. ao sublinhar que ―que uma obra (.6 53. Estas hipóteses compreensivas não invalidam. bem entendido.0 Médio N=84 (21. Quadro LXXI . Provavelmente estes inquiridos ―usufruem‖ de uma maior liberdade e indeterminação interpretativas na medida em que foram menos colonizados e socializados pelas regras legítimas do jogo receptivo. Repare-se que.2%) Outra Resposta N=15 (3.5 9. as expectativas foram ultrapassadas pela positiva. Pelo contrário. ela aproxima-se da ―arte culinária‖..0 1.5%) 32.

seguindo à letra estes critérios. A grande vantagem da teoria da recepção de Jauss reside. apoiando-se no relativismo cultural e sociológico.. satisfaz o desejo de ver o belo reproduzido sob formas familiares. Se aqui levantamos este paradoxo foi com a intenção de colocarmos em evidência algumas das ambiguidades que a proposta de Jauss acarreta. para fazer sentido. o conceito de horizonte de expectativa reconcilia a história da arte com as histórias de vida dos agentes sociais mas. somos levados a concordar com Nathalie Heinich quando a autora refere que a questão crucial em . não podemos expulsar o problema do valor do campo da discussão (voltaremos a esta questão no último capítulo). na síntese que efectua entre as correntes que defendem a irredutibilidade do estético a qualquer coordenada político-ideológica ou histórico-social (defendendo que as questões estéticas essenciais são de todos os tempos e espaços) e as que recusam a existência do valor estético em absoluto. os inquiridos que são surpreendidos pelo espectáculo (e que são maioritários. mesmo que se trate de uma obra que joga com as disposições cultivadas (herdadas e/ou adquiridas em diferentes níveis de aprendizagem e socialização) de determinadas audiências. Por outras palavras. De qualquer forma. por parte de ―públicos legítimos‖. então estamos em presença de uma atitude receptiva que aponta para a presença de uma ―arte culinária‖. se estes vêem mais ou menos confortavelmente (re)confirmado o seu ―horizonte de expectativa‖. confirma a sensibilidade nos seus hábitos‖[1118]. ao mesmo tempo.) ou então levanta problemas morais — mas apenas para os «resolver» no sentido mais edificante‖[1119]. E se é verdade que as apreciações estéticas (do especialista ou do leigo mais ou menos ―competente‖) são histórica e culturalmente contigentes. E no entanto Jauss pensa fundamentalmente na sociedade do espectáculo. entre os que possuem apenas um baixo capital escolar) constituem supostamente o núcleo que experimentou novas experiências estéticas. De facto.. reconfigurando o seu sistema de referências. postula um critério de validade artística. aquela que ―serve o «sensacional» sob a forma de experiências estranhas à vida quotidiana (. a nosso ver. ao distanciar a Arte ―com maiúscula‖ da frugal e banal ―arte culinária‖. poderíamos um tanto ou quanto apressadamente pensar que a maior parte dos inquiridos com médio e alto capital escolar se confronta com um tipo de arte que cumpre perfeitamente―a expectativa suscitada pelas orientações do gosto dominante. deve ser aplicada às formas de recepção competente da ―arte legítima‖. convém não esquecê-lo. Neste mesmo sentido. Não só a dicotomia ―arte culinária‖/‖verdadeira arte‖[1120] se revela reducionista como. em termos de eficácia da pesquisa científica.Ora.

é. ou sentem. relativamente baixa. intelectual e analítica. Ou seja. é-lhes exigido o domínio de um mínimo denominador comum cultural que sustente repertórios suficientemente ágeis. próprias de uma apreciação mais cuidada. Atente-se no Quadro LXXII. etc. Neste âmbito. por outras palavras. ―causou-me incómodo e terror‖. rudes.termos de análise da percepção estética é: ―O que vê quem? O que vêem aqueles que vão ver. ao contrário da primeira categoria que se associa claramente a uma dimensão emocional e vivida. ela pode residir numa definição ―defensiva‖ de identidade face ao objecto ―legítimo‖ de recolha de informação que é o inquérito por questionário. 3. como anteriormente registámos. ou tocam) é por eles apreendido em termos de beleza ou ausência de beleza?‖[1121]. E se a incompetência cultural destes públicos.9%) mpressões do Espectáculo ão Pessoal do Espectáculo . Aparentemente ao contrário do que anteriormente constatámos (veja-se. inseridos em redes vastas de sociabilidade. não pode haver qualquer cedência a critérios ou julgamentos de valor sobre a qualidade das obras. a esmagadora maioria dos inquiridos declara que as principais ideias e impressões que lhes foram transmitidas pelo espectáculo a que assistiram se relacionam com características intrínsecas ao espectáculo[1122]. Quadro LXXII .) seria um ―atestado‖ de incompetência receptiva que a si mesmos passariam. ainda que superficiais. tendo subjacente ou presente a imagem ideal de si projectada pelas suas representações sobre o espectáculo.0%) Alto N=197 (76. ingénuos. poderá ter havido uma crença amplamente partilhada. nesta aproximação à percepção estética da gente comum. Tão pouco podemos aferir da qualidade das obras pela qualidade dos públicos e vice-versa. por exemplo. nada nos garante que ignorem o seu nível de ignorância.1%) Médio N=46 (18. ainda que a níveis pouco conscientes da acção. de que a revelação de estados emotivos totalmente subjectivos (―fez-me sentir bem‖.Ideias e impressões do espectáculo por capital escolar de ego Capital Escolar de Ego Baixo N=13 (5. constituiria uma confissão involuntária de actos receptivos pouco elaborados. Representações sociais da recepção. e em que condições o que eles vêem (o que entendem. Ou seja. enquanto frequentadores de espaços de fruição de cultura. o Quadro LXX e os comentários que tecemos a seu respeito). em termos dos códigos e referências da ―cultura legítima‖. Como explicar tal disparidade? A nosso ver.

1 33..5 2. mas em ―situação de comunicação‖ falam uma ―linguagem comum‖ e é essa linguagem que faz dele ―uma estrutura social.5 70..5 13. ainda que aparente..0 Uma vez mais os inquiridos respondem maioritariamente (e com um peso relativo que se torna mais elevado em razão inversa ao capital escolar) que o essencial para justificarem o grau de adequação do espectáculo a que assistiram face às suas .N=63 (24. Como sustenta Jorge Vala.5 29.7 53.6%) erísticas Intrínsecas ao Espectáculo N=193 (75.5%) 66.3 24. Veja-se o Quadro LXXIII. ―a identidade social pode ser concebida como decorrendo da resposta que os indivíduos se dão à interrogação seguinte: «Quem sou eu?» (. um público não chega a ser um grupo social[1124].3%) 22. de competências culturais se revela central na reflexividade associada à definição de uma identidade real e/ou imaginária.) e a identidade que dele decorre são determinados tanto por factores sócio-estruturais como por fenómenos de comunicação.4%) 7.9%) lidade do Espectáculo N=124 (46.) é provável que uma parte da resposta a esta questão provenha de uma associação entre o eu e diversas categorias sociais.0 Médio N=54 (20.2 Alto N=200 (74.1%) 22.5%) ção Pessoal do Espectáculo e da Interpretação N=4 (1.9 92. para alguns.Razões de sustentação da opinião sobre o espectáculo por capital escolar de ego Capital Escolar de Ego Baixo N=15 (5. Este processo de associação do eu a uma categoria social (. de aprendizagem e de reflexividade‖[1123].1%) e da Interpretação/Execução N=82 (30. ainda que muito amorfa‖[1125].7 42.6%) 20. Quadro LXXIII .1 Estaremos assim eventualmente em presença de processos sócio-cognitivos de auto-categorização social em que o domínio.0 de sustentação da opinião obre o espectáculo ento pessoal da obra/género N=59 (21.3 95.. É certo que.7 6.

como refere Russell Belk. Com efeito. enquanto tema de conversa. nas capacidades individuais de tratamento da informação[1127]. As razões relativas à qualidade da interpretação e execução da obra (uma dimensão particular da qualidade global da representação) aparecem a seguir. fragmentado. em favor de uma aparente descodificação da estrutura da obra. O mais curioso nestas representações consiste no afastamento face aos estereótipos da doxa pós-moderna de um consumo socialmente descentrado e desinteressado. aliás. O que nos causa perplexidade. a aproximação a um conjunto de representações sociais da recepção contribui para a elaboração reflexiva de um conceito de self (simultaneamente real. obedecem ao valor de signo dos consumos culturais e aos interesses do e no jogo social. como a dimensão mais significativa de organização das saídas culturais. Em suma. rejeitando qualquer tipo de etnocentrismo epistemológico. o que. aproximar a análise das atitudes perceptivas ―leigas‖. um entendimento . As teses de DiMaggio podem. nem informações sobre outras obras. aspirações de mobilidade social. no entanto. Esta concepção permite-nos. ao mesmo tempo orientado para si (auto-identificação) e para os outros (componente relacional). A recepção dominante revela. pelo contrário. favorece as interacções em grupos de status privilegiados. assente numa desordem de significantes e sustentado pela emoção e afectividade efémeras de quem pretende unir arte e vida. O que. com excepção de um segmento minoritário. somos levados a pensar que a apropriação dominante é de tipo estético. uma vez mais a construção de uma fachada relativamente frágil de adesão a essas expressões culturais se coaduna com tais expectativas. de novo. Se o interesse pela ―alta cultura‖. Os usos da recepção não são por isso neutros.expectativas é a qualidade intrínseca do próprio espectáculo. uma vez mais. levando-nos a falar de um efeito de construção de imagem com intuitos comunicativos é a tão fraca ênfase colocada nos estilos cognitivos. nos remete para processos de familiarização com a educação artística. por vezes esquizofrénico. fornecer-nos esclarecimentos adicionais. em vez de se referir unicamente às características físicas. opondo a recepção estética à recepção propriamente artística. A apropriação pessoal do espectáculo tem um valor insignificante. embora possamos falar desta categoria em sentido amplo. puramente hedonista. canalizando. em que as motivações ligadas à sociabilidade apareciam. intrínsecas da obra‖[1126]. surge contraditoriamente face a outras respostas. para além de se desligar de uma componente afectiva. ideal e social[1128]). ou seja. enquanto que uma apreciação artística ou própria da história de arte se funda sobre um tal saber. Ou seja. inclusivamente. ―a apreciação estética de um obra não requer nem o conhecimento do seu contexto histórico.

4.4 6.3 Alto N=364 (73.1%) 89.8%) Não N=46 (9.Comenta programas de TV por capital escolar de ego Capital Escolar de Ego Baixo N=29 (5. em que esta se transforma no árbitro do acesso à existência social e política‖[1131]. A própria noção de horizonte de expectativa pode ser aplicada a este domínio. no entanto.6 Médio N=105 (21. Quadro LXXIV .1%) 93. Vários correntes e autores têm vindo a alertar para a necessidade de não analisarmos a exposição aos mass media e em particular à televisão sem considerar o efeito de filtragem de instâncias mediadoras. independentemente do nível de capital escolar que . tomando-as como objectos analisados intrinsecamente e não a partir de estados flutuantes de espírito.2%) 3. Pierre Bourdieu resvala para esta posição dramático-fatalista ao considerar.surpreendentemente ―estável‖ e coerente das produções culturais. com nada ou quase-nada‖[1130].7 10. acentuando o seu potencial de ―opressão simbólica‖ que preenche ―o tempo raro com vazio. como a família. o Quadro LXXIV. Televisão e fast thinking.6 a Programas de TV com legas ou Amigos? Sim N=452 (90.8%) 96. Observemos. Bourdieu sugere a universos orwellianos ―em que o mundo social é descrito-prescrito pela televisão.4 A esmagadora maioria dos inquiridos comenta habitualmente os programas televisivos com colegas ou amigos. vivencial e cognitivo dos receptores como variáveis activamente implicadas nos processos de recepção e descodificação da mensagem televisiva. por exemplo. Esta perspectiva contraria a visão largamente difundida que atribui aos mass media um impacto directo sobre a forma como as pessoas fabricam e imaginam o mundo social. os amigos e outros círculos sociais. de forma a realçar a importância do património cultural. que ―a televisão tem uma espécie de monopólio de facto sobre a formação dos cérebros de uma parte muito importante da população‖[1129].

assim. não podemos negligenciar os mecanismos micro-sociais de influência.7 Médio N=56 (20. acrescentando-lhe novos contornos. A nossa amostra.2%) 16.2%) ção à Vida Política e Económica N=4 (1. suscitando interpretações que superam a banalidade‖[1132].3%) 1.3 41.9%) 5.9 14. ―a passagem a uma situação de grupo acarreta pouco a pouco um aumento importante do número de respostas dos indivíduos. segundo os inquiridos. de índole intragrupal. Certamente que a hipótese de uma reprodução acrítica e passiva não pode ser posta de lado. corrigindo-a. em particular quando as mensagens não são unívocas. Quadro LXXV . O mesmo autor acrescenta.Razões por que comenta programas de TV por capital escolar de ego Capital Escolar de Ego Baixo N=6 (2. (re)trabalhando a mensagem inicial. transmitindo vários significados possíveis.9 O ofício de recepção prolonga-se.2 83. é extremamente singular.6%) Sabe/Não Responde N=104 (38. convém uma vez mais referi-lo. .6 Alto N=206 (76. Como refere Robert Francès. Contudo. em particular se pensarmos nos mais desapossados de capital cultural e socialmente isolados.9 26.possui.6%) ogar/Trocar Opiniões N=31 (11.3 11. para além do momento imediato de apropriação. contendo uma notória sobrerepresentação das camadas sociais mais favorecidas.8 14. sujeita igualmente a debate e troca de impressões. este comportamento tão claramente registado? De acordo com o Quadro LXXV.1 36.5%) tica dos Programas N=66 (24. assimilando selectivamente conteúdos.3 19.8 24.3 da Resposta à questão: a Programas de TV com olegas ou Amigos? a de Impressões Sobre Programas N=14 (5.8%) Outras Respostas N=49 (18.9%) 3. Quais as razões que justificam. a resposta reside na capacidade de criticar os conteúdos da programação.

timidamente (. a par de uma forte tendência para a produção de conteúdos reconfortantes e uma fraca inclinação à promoção do risco e da novidade[1134]. etc. a priori a possibilidade de expressão de mundividências emancipadoras. que caminho é que devo seguir? — Isso depende bastante do sítio para onde queres ir — respondeu o Gato. — Pouco me importa para onde — disse Alice. No entanto. ao verificarmos. sugerindo uma atitude activa de negociação de significados. precisamente. Diana Crane. O grande contributo do estudo dos usos da cultura e das formas da recepção é. a partir daqui. ―atenção à vida política e económica‖. fala de uma subrepresentação dos trabalhadores manuais nos programas televisivos e de uma sobrerepresentação das profissões liberais e empresariais. não se podendo erradicar. a mesma autora salienta as diferentes formas de ―ver‖ televisão... contrariamente à visão extremamente negativa que Bourdieu revela sobre os novos intermediários culturais. em particular sobre os profissionais da comunicação. o seu cariz plurívoco e conflitual. CAPÍTULO XIII DOZE CONCLUSÕES PARA UMA TESE ―— Gatinho Cheshire — começou Alice.) — Diga-me. — Então não tem importância para que lado vais — disse o Gato. por favor. por exemplo. Aliás. Além do mais. Claro que isto não significa que sejamos ingénuos ao ponto de negarmos um efectivo poder de manipulação e ―opressão simbólica‖. o de restituir a um objecto a sua multiplicidade. o significado das categorias contidas no quadro anterior. através de um trabalho técnico-político de bastidores que selecciona conteúdos (implicando mecanismos mais ou menos voluntários de censura) e constrói realidades fictícias e fantasiosas. a sua íntima associação às novas formas mediadoras de pensar e dizer o social.. ao mesmo tempo que sublinha as dificuldades das grandes sistemas organizacionais ligados à comunicação de massas em percepcionar correctamente as suas audiências. com mais pormenor. ―debate/troca de ideias/discussão/comentários‖. deparamos com respostas como ―crítica à programação‖. . importa reintroduzir uma perspectiva conflitual que exprima os conflitos de interesses e a ambivalência do campo mediático (e as diferenças internas às novas classes). ―crítica à falta de qualidade‖.mostrando a importância das redes de sociabilidade que ―a influência micro-social sobre a percepção é mais intensa quando a vida em grupo é feita de trocas e de interacções entre os seus membros‖[1133]. factor que os leva frequentemente a errar o ―alvo‖ quanto ao perfil-tipo dos potenciais destinatários. onde se confrontam e cruzam lógicas diferentes.

pela sua adesão a um consumo ostentatório e a uma ética corporal de apresentação em cena. Uma das conclusões mais marcantes tem a ver com o alto grau de juvenilidade da amostra. São igualmente constituídos por jovens os grupos relativamente restritos que demonstram.— Contanto que vá dar a qualquer parte — acrescentou Alice. 1. com importantes consequências na configuração das identidades tendencialmente desligadas da esfera do trabalho. por investimentos preferenciais no domínio do lazer. em várias ocasiões. Prolongamento da escolaridade. ―importação-exportação‖. da vizinhança e do parentesco e orientadas para a fruição da vida quotidiana. assim. contrapõe-se a generalização actual de tais atitudes e comportamentos. possuem objectivamente maior disponibilidade temporal para uma cultura de saídas relativamente intensa. como dominavam apenas pequenas regiões no interior dos espaços que analisámos. tais grupos. constituem peças interligadas de um mosaico em que sobressai a dilatação do período de moratória que torna os jovens de certa forma prisioneiros de um eterno estado de passagem.. — Ah. não só se revelaram numericamente restritos. intimamente associada a grupos etários que. usufruindo também de um estado civil liberto de compromissos familiares. multiplicação dos estatutos híbridos.1. a sua proximidade e familiaridade com os artistas. a especificidade destes estilos juvenis seria jogada numa espécie de ―racionalidade expressiva‖ que aposta tudo na comunicação[1135] e na complexificação simbólica. transformados em signos. Alice no País das Maravilhas 1. segundo alguns. intermitentes e precários. Doze conclusões. não foi esse o grau de difusão que encontrámos. de certeza — disse o Gato —. em estilos que se traduzem por graus diferenciados de informalização. isso é que vais. dificuldade de ingresso no mercado de trabalho. como já referimos. A gestão do provisório passa. a vontade de transgredir as fronteiras entre vida e arte. Perante o argumento de que a estilização da vida (ou mesmo. Todavia. o triunfo da arte sobre a vida) e a implantação de uma ordem artificial baseada no consumo são fenómenos historicamente recorrentes. adiamento da formalização do laço conjugal. convivial ou mesmo festivo. o que nos leva a dizer que se trataria. se andares o suficiente. explicando-se melhor. assente em estilos de consumo distintivos. Era notória..‖ Lewis Carroll. de acordo com a terminologia de Diana Crane (inspirada . Com efeito. Dissimulando o valor de uso dos bens. descontextualização e recontextualização de estilos e mestiçagens várias. mediantes processos de ―colagem‖. altos níveis de consumo e por um individualismo de tipo relacional. através de um novo projecto de dandismo.

a presença juvenil orienta-se. experimentais ou emergentes. tal como aconteceu na Praia da Luz e no Café-Concerto do Rivoli. num descomprometimento aparente face a qualquer narrativa da vida quotidiana de contornos excepcionais ou extraordinários. dotado de um relativo fechamento (Network-oriented/isolated network[1136]). favorecidas quando existe uma maior disponibilidade de tempo. ligada à própria estrutura do consumo cultural nos cenários de interacção. como de certa forma se verificava nos pequenos grupos anteriormente referidos. o que sublinha a existência de um patamar etário mínimo de recrutamento para actividades que exigem a acumulação de um certo volume de capital informacional e cultural. num processo paralelo (e de mútuo reforço) ao aumento da oferta urbana de lazer. São igualmente praticantes assíduos do espaço semi-público. porém. de novo. os segundos aderem mais às práticas receptivas semi-públicas. Dominam. Este afigura-se mais precoce no campo das práticas criativas. 1. em termos de apresentação pública. enquanto eventual possibilidade de ―fuga‖ ao controle endodomiciliar (acentuado pelo seu estatuto de grande dependência económica face à família) e de experimentação de novos cenários de interacção. com a assimilação comum de convenções culturais iconoclastas. Da mesma forma. por uma grande familiaridade entre artistas e consumidores. Por outro lado. mas enunciadoras de um espaço-tempo difuso e distanciado de enquadramentos institucionais. embora internamente diferenciada entre públicos adolescentes e pós-adolescentes. Verifica-se a existência de uma especificidade ou tipicidade juvenil.em Becker) de um tipo particular deCulture World: um trabalho artístico orientado em rede. em particular na sua vertente convivial e expressiva. formando um estilo singular. Poder-se-á ainda pensar que tais actividades serão enquadradas e/ou motivadas por actividades paraescolares (como as que a autarquia tem vindo a desenvolver nas áreas da criação e formação de públicos) e ainda por uma necessidade de expressão de todo o trabalho de .2. como é o caso dos adolescentes. exigem ritmos desiguais de envelhecimento cultural. por uma certa uniformidade informal. bem como às iniciativas eruditas de cariz informativo. Os primeiros aderem tendencialmente mais às práticas de abandono. assim. as imagens próprias de rotinas conviviais reproduzidas no dia-a-dia. ligadas. a um quotidiano de pequenas narrativas aparentemente sem história. Na maior parte dos casos. caracterizado. em vez da heroicização dos aventureiros de espírito e de estilo das anti-narrativas pós-modernas[1137]. precisamente.

A diferença de possibilidades de acção consoante o género encontra-se bem patente no desigual acesso ao espaço público e ao espaço semi-público organizado. 1. amortizando a acção pedagógica dos grupos de pertença. numa sociedade como a portuguesa. importa ter em consideração a importância das redes de sociabilidade e dos grupos de pares. da autorealização e da multiplicação/fragmentação de referências.construção das identidades e de conquista de autonomia. não parece desprovido de sentido falar de um efeito-família. De . Esta tendência. em que o processo de massificação escolar é tardio e ainda incompleto. Por outro lado. do individual relacional. Além do mais. ligada à mercantilização (em grau diferencial) das várias franjas do campo cultural e artístico (doravante colocado no centro da economia política do capitalismo tardio da ordem mundial pós-fordista) e à emergência nesse campo de novas expressões que seguem vias alternativas de consagração e legitimação. em boa parte responsáveis pela relativa invasão juvenil do espaço semi-público não erudito. mas muito mais uma profunda mutação sócio-cultural. da autoexpressão. Essa tipicidade juvenil encontra ainda prolongamento numa particular estruturação e orientação dos universos e mapas simbólicos. prescrito e difundido pelas instâncias formais de ensino. algumas estreitamente ligadas à cultura audiovisual e ao que Donnat apelida de economia mediático-publicitária. 1. tão-pouco com a consciência minoritária de um qualquer movimento contra-cultural) da norma escolar. Finalmente. na medida em que os novos universos culturais se distanciam visivelmente (não de forma meramente dissimulada. colocando em cheque currículos. a própria instituição escolar não escapa ao cerne da discussão. das instituições e das organizações associativas e propagando uma normativa e uma simbólica do informal. tantas vezes associada a uma representação mortificadora do ―declínio cultural e civilizacional‖. fruto de um mínimo denominador comum ―oficial‖. já que. De facto.3. práticas pedagógicas e políticas educativas. do difuso. não significa tanto um ―nivelamento por baixo‖. factor central para quem se encontra envolvido em prolongados rituais de passagem. boa parte das aquisições obtidas em sede escolar correm o risco de se diluir em meios sociais distantes e pouco confiantes face à validade e utilidade da cultura escolar. as faixas mais jovens demonstram uma menor adesão às referências ―clássicas‖ ou ―patrimoniais‖. com alianças mais ou menos espúrias na globalidade dos discursos e aparelhos ideológicos tradicionais.4. enquanto agentes de rápida circulação de valores e informação exterior à família e à escola.

A identidade específica do B Flat remete-nos para públicos predominante adultos que gerem a sua apresentação em cena de forma intencionalmente informal e desprovida de signos de consumo ostentatório. bar e restaurante e consolida a sua clientela com expressões de novas tendências no campo cultural. necessita do complemento activo das políticas emancipadoras. própria do movimento associativo. Especifiquemos: o B Flat. é um compósito de subidentidades e de subculturas. estandarte de uma modernidade inacabada. lazer e diversão.facto. procura diversificar a sua oferta através da exploração criativa de cruzamentos com outros géneros musicais (os ritmos latino-americanos. Contudo. resta ainda o muro que impede a expressão legítima de uma identidade de género e de uma pluralidade de estilos de vida que lhe estão associados. como que a reforçar a sua concentração na percepção intelectual do espectáculo. um défice na utilização dos mecanismos comunicacionais que permitem a representação dos seus interesses específicos e a discussão e o questionamento da ordem oficial. as mulheres sofrem um défice de cidadania e de participação nos quadros de mediação e regulamentação normativa. No entanto. o techno. se veicula e se controla. não exageraremos se afirmarmos que sobressai a ligação à . igualmente. etc. sugerida por Giddens. a Praia da Luz. apesar de se dedicar a um género musical consagrado (o jazz). O Rivoli. Todavia. a homologia relativa existe.). Ultrapassada a barreira da escolaridade. 1. ao mesmo tempo que funciona como sala de espectáculos e bar. enquanto cenários de interacção internamente regionalizados. o que significa. as mulheres encontram-se relativamente mais arredadas da esfera onde a opinião pública se forma. Existe uma certa homologia entre o perfil dos espaços que estudamos e o tipo de públicos que os frequentam. assegurando igualmente funções de representação simbólica. símbolo da superestrutura de valores da modernidade tardia. dada a sua assumida pluralidade. oferece desde repertórios clássicos até projectos iconoclastas de contracultura. afirmam-se lógicas de transgressão de fronteiras e hierarquias simbólicas. finalmente. é esplanada. traduzida por altos níveis de capital escolar. ora na estrutura da sua programação cultural. Dito de outra forma. ora na sua configuração física. bem como da acção colectiva organizada. Os espaços possuem um cariz híbrido e multifuncional. A política da vida. o rock. vencido o desafio da entrada no mercado de trabalho.5. ora ainda pela pluralidade de funções que desempenham. o Rivoli. espaço plurifacetado. O seu perfil liga-se de igual forma a uma elevada selectividade social. sob essa relação de correspondência.

com a excepção de uma elite dentro da elite que mantém uma postura de ―familiaridade estatutária‖ com a ―alta cultura‖. de uma forma difusa e provavelmente inconsequente. ou. o que de certa forma traduz disposições de uma ética hedonista relativamente contida. traduzem o desejo de inverter odesencantamento de um mundo secularizado. que. para a coexistência. quer de feição clássica e consagrada. bem como o cerimonial e a ritualização de uma instituição ligada ao poder. Caído o pano sob o mito da escolaridade como condição suficiente para o acesso à cultura cultivada. elevados níveis de desconhecimento e/ou falta de identificação com os cânones da cultura clássica consagrada.cultura ―erudita‖. revelam-se. Esta jeunesse dorée afastada dos referenciais clássicos e atenta à celebração de novas formas de expressão. talvez se compreenda. reflectindo combinações díspares da ―componente clássica‖ e ―moderna‖ do capital escolar. O título não só não se transforma em posto. racionalizado e burocratizado. não assegura. Ressalta. A Praia da Luz. por fim. apesar de uma alta capacidade de retenção das classes privilegiadas. embora ―elegantes‖. o aparato simbólico necessário a um campo cultural local em vias de expansão. a alta mobilidade intergeracional revelada em particular através de trajectórias ascendentes que partem de estratos baixos e médios. De facto. o que nos leva a falar de um fechamento social relativo. um estatuto de nobreza cultural. complexificando as relações outrora mais transparentes entre classes sociais e classes simbólicas. como. através de qualquer quase-automatismo. de forma quase transversal. quer ainda de tipo experimental. com acréscimo de lucidez. Uma homologia imperfeita está subjacente na diversidade das trajectórias da amostra analisada. entre condições objectivas inscritas na posição ocupada e práticas sociais. tal como era . em vias de consagração. se preferirmos. essa cultura. Dito de outra forma. entretanto.6. apresenta-se predominantemente dentro de estilos informais e desportivos. 1. outros recém-chegados. é o reino dos adolescentes privilegiados. pelo estudo que nos ocupa. muitos deles acumulando ―heranças‖. entre os detentores do capital cultural institucionalizado. contribui. bourdiano do termo. Prova disso é o alto grau de incompetência cultural no sentido estrito. ainda. de relações relativamente desordenadas e dispersas com os universos de gosto. Destacam-se algumas ―tribos‖ que fazem da transformação da vida numa obra de arte o seu passaporte simbólico de entrada num universo que em nada se identifica com as disposições ascéticas descritas por Weber e que. quer de referências contemporâneas estabilizadas.

deixou de existir para uma grande maioria dos diplomados. apesar da sua recomposição e mutação. Assim. Aliás. as representações da noite estruturam-se em torno do eixo amigos/diversão. não nos confere. apesar de se basearem em laços pouco intensos. uma enorme restrição na disponibilidade para sair. o direito de defender o fim da estrutura social e a morte das classes. De facto.7. Ou seja. cada vez se associa menos a uma idade particular. as homologias tenderão a ser menos rígidas e unívocas e haverá a probabilidade de se cruzarem níveis diferentes de legitimidade cultural‖. os seus círculos sociais e os contextos estruturais mais vastos onde se movimentam. o alargamento de repertórios e o contacto com teias complexas de papéis sociais. dessa forma. o que acentua a dimensão mundana e convivial da fruição cultural. De igual modo. Transcrevendo o que anteriormente escrevemos. O compromisso conjugal significa. consolidam-se como instâncias de mediação entre o ―espaço pessoal‖ ou ―ambiente social imediato‖ dos agentes. quando não é imediatamente seguido de uma recomposição familiar. As redes de sociabilidade extensas. o divórcio. ou então tornou-se apenas uma de muitas possibilidades de fruição cultural. possibilita a recuperação mais ou menos provisória da condição juvenil que. consequentemente. num alargamento efectivo do mercado cultural. facilitando. Desta forma. se nos permite falar da necessidade de plasticização do conceito de habitus. permitindo-lhes. O que. como é o caso de boa parte da nossa amostra. a maior parte das vezes. . inclusivamente para a mesma pessoa. extremamente diversificados. desta forma. obtendo-se. de forma alguma. e a sua importância como núcleo de mobilização e consolidação de redes sociais que se expandem tentacularmente a diversos contextos de interacção. densas nas interacções que proporcionam. deste modo. bem entendido. 1. através das regras de uma economia afectiva de intercâmbio. associadas a uma diversificação das vias e conteúdos de aprendizagem social e. a probabilidade de modernização permanente do seu capital cultural afigura-se elevada. são características de agentes sociais com posicionamentos privilegiados na estrutura social.concebida. sendo encarado por muitos autores como o ―fim da juventude‖. ―haverá maior probabilidade de complementaridade e/ou choque entre dimensões contraditórias das condições objectivas de existência. complementando-o com a pluralização dos papéis sociais e dos códigos e repertórios que lhes estão associados. sai-se principalmente à noite com amigos e a seu convite. uma rápida circulação e actualização da informação. em especial quando se é jovem e solteiro. dos percursos de acesso a uma determinada posição na estrutura social.

uma certa afinidade de habitus. longe de se encontrar generalizado ou democratizado a toda a estrutura social. permitindo que ancestrais fronteiras se des-sacralizem e des-ritualizem. A sintonia de referências e a sincronização de rotinas que estão subjacentes à eficácia comunicacional das redes de sociabilidade requerem um certo nível de homogeneidade social. do contexto social onde foram recrutados os amigos com quem se sai. em boa parte. esfera ou nível cultural. são os laços mais ―ricos‖ em termos de recursos e capitais). urge não perder de vista a localização específica no espaço social destas novas tendências dos mundos da cultura. ainda que recente. amigos para passar a noite numa discoteca. Assim. localizadas em grupos socioprofissionais de perfil dirigente. embora ágil. Este modelo cultural está. aliás. O seu carácter frequentemente fragmentário. Ao mesmo tempo. esta orientação e disponibilidade para o consumo e fruição culturais encontram certamente correspondência no significativo acréscimo dos contigentes das novas elites urbanas. no entanto. amigos para ver um filme. 1. Na mesma linha. apenas uma minoria relativamente escassa organiza as suas saídas culturais em função da familiaridade com as referências e os conteúdos intrínsecos de um determinado campo cultural. poderemos falar de uma cultura self-service. aumenta a tendência para um conhecimento superficial. em que o repertório dominante depende. intimamente ligadas a funções de produção e intermediação cultural. Estas classes sociais encontram-se. ao mesmo tempo que difundem estilos de vida baseados em padrões relativamente altos de consumo cultural. evanescente e efémero contribui para dissipar a relação de mútuo reforço que estabelecem com os processos emergentes de recomposição social e reestruturação económica. Por outro lado.8. ligados à administração pública e ao terciário superior e à franca. Há amigos para assistir a uma peça de teatro. intelectual e científico. . expansão dos níveis mais elevados de ensino. de combinações plurais.inúmeras vantagens e benefícios sociais que reforçam e motivam trajectórias sociais ascendentes (os ―laços sociais fracos‖ em termos de intensidade do vínculo. de cada sistema de referências. e dado não existir uma concentração exclusiva num único género. Em suma. etc. A centralidade das redes de sociabilidade na definição dos modelos dominantes de consumo cultural propicia uma legitimação de vários universos de gosto e das múltiplas formas pelas quais se cruzam.

. os papéis sociais não se cingem a uma simples acomodação a ordens normativas preexistentes ou previamente codificadas. afectivas e existenciais de um self activo e performativo. o processo de reprodução interpretativa da obra em interacção. Pode querer afirmar uma atitude iconoclasta e provocadora. importa superar a visão/ilusão de que os produtos culturais contêm em si mesmos características objectivas suficientes e unívocas para a compreensão dos universos simbólicos dos seus consumidores. Dito de outra maneira. tem implícitas plurais imbricações com a praxis social. o corpo se assume enquanto veículo e produtor de modos particulares de percepção. de frequência. Mais ainda. etc. o qual supera. não se esgota emmimesis empobrecedora. O agente cultural revela-se um ―actor no seu próprio corpo‖. se opera uma mudança de paradigma que sublinha as poderosas interacções estabelecidas entre a intenção do autor. dentro de contextos específicos e delimitados. A diversidade inerente às práticas culturais pode ainda ser analisada de um ângulo substantivamente diferente. De facto. na sua expressividade e nas impressões que a partir dele se captam. com a passagem do conceito de consumo (níveis de posse. a interiorização passiva e mecânica de um conjunto limitado de condições objectivas de existência. somos levados a compreender como. 1. o sistema de referências do receptor e o projecto cultural que o anima. assumir formas celebratórias mais ou menos ritualizadas. além de se traduzir por diferentes modalidades consoante os cenários de interacção.1. Da mesma maneira. a estrutura da obra. Cada papel social é também uma porta de entrada num mundo novo. O corpo em acção sublinha as dimensões cognitivas. se partirmos dos usos da cultura patentes nas actividades de percepção e recepção cultural. urge compreender que. de forma a captar o que os públicos fazem das obras que fazem os públicos. ao recusarmos um logocentrismo arrogante. se preferirmos.9. Através do corpo. adicionando história à obra. O enfoque na relação entre as obras e os públicos leva-nos a abordagens mais finas e de pendor qualitativo. por exemplo.) para o de percepção/recepção. acrescentando significados ao significado. exprimir graus diferenciais de competência cultural e poder simbólico ou ainda níveis díspares de selectividade perceptiva. Bater palmas.10. ou.

Espaço público e espaço semi-público organizado (associativo): duas terras de ninguém. Por outras palavras. A cidade do Porto não é excepção. Desterritorialização e descontextualização da acção social. somos levados a enfatizar a existência de um eventual efeito ou reacção de prestígio. um mal-estar profundamente enraizado nas vivências urbanas. se é verdade que investem culturalmente para uma modificação profunda da imagem de cidade. Ao contrário do que o discurso neo-liberal propaga. feitos de cruzamentos e combinatórias várias. Perante o contraste que se estabelece entre uma panóplia de discursos (incluindo os corporais) que salientam a apropriação pessoal e idiossincrática e uma recepção aparentemente artística (ou estética no sentido restrito). compressão do espaço-tempo. as representações continuam a fabricar um mundo de uma harmonia antiga. analítica. igualmente. a motivações conviviais ou pelo menos assentes nas redes de sociabilidade. precisamente. intelectualizada (a referência a significados intrínsecos às obras) e confirmadora do horizonte de expectativas (ausência de surpresa. dois desertos que ferem de morte as crenças emancipatórias no poder reflexivo da esfera colectiva. com o aumento em flecha da lógica segregacionista dos . se as suas práticas nos remetem para universos aparentemente desordenados (ecléticos. Os modos dominantes de recepção apresentam características aparentemente contraditórias. por vezes esquizofrénicos).12. em que sobressai. são factores habitualmente associados a este fenómeno. Os processos em curso de ―enobrecimento e regeneração urbanos‖. apesar da dispersão e ecletismo dos seus universos de gosto. 1. fantasmagoria. Ao lado de tentativas de reanimação do velho centro da cidade. o respeito por formas de legitimidade que julgávamos ultrapassadas. A desvitalização de ambos denuncia. mediatização da comunicação. classificações e hierarquias tradicionais. os públicos. e tendo em conta ainda os elevados níveis de ―incompetência cultural‖ anteriormente registados. considerar a cultura no âmbito estrito do ―marketing de cidade‖ não é suficiente para criar dinâmicas de envolvimento colectivo. com a reabertura de espaços culturais renovados.1. nem sempre respeitam a especificidade e autonomia de tal esfera. novidade e choque) dos públicos. Inquietante paradoxo.11. Se é verdade que a eleição de um local de fruição cultural se associa. apostando no estético como estratégia de atracção de capitais e ―massa crítica‖. agudizam-se tendências de privatização crescente das sociabilidades. nomeadamente critérios de qualidade. continuam maioritariamente a imaginar a cultura em volta de esquemas. antes de mais. De facto. a apropriação das obras apresentadas é relacionada com características que lhes são intrínsecas.

sob a aparência da explosão do simbólico e do consumo. 2. Em sociedades de intensa mobilidade. Os impulsos regeneradores da economia baseada na sociedade de informação dos serviços e alta finança têm feito esquecer. apesar da sua lógica selectiva. Os usos da casa e as lógicas expressivas patentes na organização do espaço doméstico desmentem a hegemonia absoluta de um real artificial e estereotipado. com a energia do transitório e da mera passagem. No entanto. A gentrificação é amiúde sinónimo de yuppificação e contribui para reificar as lógicas especulativas do mercado. onde. não só a despolitização. com a sua obsessão pelo privado e pelo ego e a sua espiral de auto-revelações. por mero acaso. legitima algum optimismo. não resvalamos para o pensar fatalista que considera o voyeurismo e a banalidade como únicas alternativas à ordem representacional da esfera pública. a casa surge como o único lugar habitado. onde a representação e a linguagem se politizam e a palavra se desprivatiza[1139].condomínios privados (os ghettos dos ricos) e a abundância dos mundos artificiais. Uma tese: a (pós)modernidade num continuum. com o seu jogo de papéis que oscila entre o secreto e o manifesto[1142]. uma espécie de baluarte afectivo contra a pressão exterior e a vigilância. os vastos ―interesses materiais envolvidos na reconstrução da vida urbana na época pós-industrial‖[1138]. A tirania da intimidade. um prolongamento da pessoa e da sua segurança ontológica e não tanto um espaço comum do clã familiar. estranhos se cruzam e se conhecem. As tendências de crescente dissolução e privatização dos espaços públicos tem efeitos corrosivos no ideal romântico da cidade errática. . uma recusa da teatralidade pública e da ordem representativa. acaba por nos fazer perder a ideia da singularidade do Outro. o povoamento do espaço semi-público. Da mesma forma. selectivos e vigiados dos centros comerciais. não se vislumbrando as condições para uma ―praxis comunicativa do quotidiano‖[1141]. em que os lugares públicos se atravessam de um só fôlego. Ora. ao contrário de Sennett. neutralização e esvaziamento da esfera pública. mas igualmente ―o esgotamento das energias utópicas‖ numa situação de opacidade em que―o futuro é ocupado negativamente‖[1140]. que Sennett anuncia. onde a conversação e a acção comunicativa transformam o público em sujeito de discurso. o que está em causa é.

comboios a vapor subindo laboriosamente uma colina algures na Ásia. Vendo de mais perto. do prazer e do irracional. outra ainda publicidade mediática. A base político-económica e. das finanças e dos serviços cresceu. você está equipado com o tipo de tecnologia que lhe permite ver as cores dos olhos das pessoas e os números das matrículas. Você pode ver todo o movimento e sintonizar todas as comunicações que estão a decorrer. fluxos financeiros e transacções. da subversão . Salvador à cidade da Guatemala. que passa ainda horas a fio a recolher água‖. a grande distância para além dos actuais satélites. da imaterialização e estetização da vida quotidiana e do conjunto das transacções.―(. Vendo ainda de mais perto existem camiões e autocarros. uma mulher — entre muitas outras — descalça. A maior distância estão os satélites. literatura. algures na África sub-sahariana. invulgarmente para alguém que apenas tem intenções pacíficas. toda a cultura das cidades foram transformadas. Existem fax. o longo caminho entre Londres e Tokyo e o salto de S. já de tudo se viu e experimentou). lá estão os barcos e comboios. termo inicialmente circunscrito a uma elite de ensaístas (mormente na crítica literária) e a áreas artísticas delimitadas (música. arquitectura).‖ David Harvey. outra é negócio interpessoal. depois os aviões. redes de distribuição de filmes. do ponto de vista cultural. do culto do corpo. O mundo dos imóveis. Condição Pós-Moderna ―Imagine por um momento que está num satélite. Uma parte desta paisagem são pessoas a movimentarem-se. com a persistência de atitudes e conceitos ambivalentes e propiciadores de uma multiplicidade de interpretações. bem como a ―massa cultural‖ dedicada à produção de imagens. Fala-se.) para os jovens e os ricos. com ela.. Para alguns autores. para os educados e privilegiados. a época em que vivemos pode. mas rapidamente alargado ao debate sobre a mudança social contemporânea. e aproximando-se mais do chão. da morte de uma sociedade baseada em classes sociais. e-mails. você pode ver o ―planeta Terra‖ a partir de um ponto distante e. de conhecimento e de formas estéticas e culturais. das sensações. as coisas não podiam ter sido melhores. então. ao longo deste trabalho. incluindo as económicas. ser correctamente apreendida por uma ampla transformação societal que dá pelo nome de pós-modernismo.. da ascensão dos estilos de vida fluídos e plurais como base da estratificação social. Doreen Massey[1143] Fomos confrontados. do fim da ideia de originalidade e de vanguarda (já se disse tudo.

etc. Outros autores. sem compreender que as formas de vida se encontram ―ameaçadas por uma colonização interna‖[1147]. Habermas apoia-se na ―modernidade cultural‖ como ―único fundo ao qual poderíamos ir beber‖[1148]. adoptam aqui e ali uma atitude mais prudente. Os críticos da pós-modernidade.. cerne do que Giddens apelida de modernidade tardia oumodernidade radicalizada. como Habermas. condições necessárias para uma salutar sociabilidade[1149]. Lash. em particular no que se refere ao papel central da auto-identidade reflexiva[1146]. subjacente ao conceito de pós-modernidade. Perante tal cenário. O autor caracteriza o estado actual do ego como o de . apenas nomadismo). considerando que a ideia de superação. da ética para estética. vêem neste movimento uma expressão neoconservadora que dá prioridade ao mercado em detrimento do Estado social e aposta num retorno ―ao romantismo social do capitalismo‖. Sennett. por seu lado.das narrativas e da linearidade pelo caos e pela desordem. do fim dos monopólios simbólicos. do colapso do público e do privado. já o sabemos. fala com pessimismo no fim do homem público e da cidade. como das correntes que glorificam a concentração no self como fonte de auto-realização e auto-descoberta (linha em que Giddens se situa).[1144]. da negação da história ou pelo menos de uma direcção ou teleologia. em prejuízo da civilidade que consiste na manutenção de uma ordem teatral através da qual a ―máscara‖ e as convenções nos protegem da ―obrigação‖ de nos desvendarmos. da emergência do glocal. da compressão do passado e do futuro num presente contínuo (nem origens. bem como da vigilância dos outros. nem utopia. em favor de uma idolatria intimista em que a auto-absorção narcísica surge como o único princípio válido. a família e a esfera pública. de desintegração de domínios como a escola. apesar de acentuarem e valorizarem as mesmas tendências. da negação dos heróis singularizados e das suas façanhas épicas em favor do encantamento do anónimo e do quotidiano. mas distanciando-se tanto das críticas ao excesso de narcisismo ou egoísmo da cultura contemporânea (muitas vezes fundada em princípios morais duvidosos). é um paradoxo evidente (como falar em superação. se é colocada a ênfase na negação de qualquer evolução ou direcção histórica?). da inversão da ética ascética em ética hedonista e de uma reorientação da produção para o consumo. preferindo defini-la como o conjunto de ―possíveis transformações para além das instituições da modernidade‖[1145] e tirando ilações políticas das novas configurações societais. insiste igualmente na presença do ego. expressão de uma geografia imaginária de cruzamento do global e do local. etc.

representando ―a outra face‖ de um quotidiano laboral igualmente degradado. pois. Não nos repugna. em função de determinados critérios e juízos.uma dependência face ao mundo imaterial do consumo degradado. então? Antes de mais. em defender que existe um continuum e não uma dicotomia redutora entre modernidade e pós-modernidade. qualquer das linhas de interpretação aqui traçadas. retomar a afirmação de David Harvey segundo a qual ―o grau de fordismo e modernismo. importa não renunciar à localização dos factos sócio-culturais no espaço e na estrutura social. É uma ilusão pensar. A nossa perspectiva analítica rejeita. sob a aparência de uma glorificação quotidiana da estética. defendida por Giddens. nem tão-pouco de rejeitar o esforço subjacente a uma opção nítida entre as alternativas em presença. afinal. uma ―dissolução do mundo das coisas substanciais‖[1151]. sob uma pretensa possibilidade ilimitada de escolha (definida por Lash como ―ideologia pluralista‖[1150]). verificar-se-ia uma nítida perda de identidade. Por outro lado. por isso. Ao contrário da procura reflexiva de identidade. nos permite escapar a posicionamentos por vezes essencialistas. O passado ainda não acabou e o futuro já começou. Desenvolve-se. O que. Em que consiste. tanto a opção de enfileirar por uma das correntes já existentes como a de criar ex abrupto uma nova linha teórica. Existe. Desta forma. que tal processo significa o mesmo em todos os lugares. fundada numa―tecnologia do ego‖ como única possibilidade de escapar à desintegração e ao vazio. Perante este breve esboço de uma complexa polémica que traduz. uma estratégia de sobrevivência. nem sempre explicitados. em todas as épocas e para todos os grupos sociais. assim. ou de flexibilidade e pós-modernismo. afinal. De facto. o narcismo representa. varia de . Não se trata. em nosso entender. por conseguinte. somos levados a não rejeitar. a priori. a sobrevivência torna-se o principal motivo da existência. num mundo em que tudo se transforma em imagens. de delinear uma qualquer síntese (as famosas ―terceiras‖ ou ―quartas‖ vias). composta por ritmos espácio-temporais desiguais. em que o ―eu‖ se vê cercado e desprovido de referências estáveis. desde logo. assente na gestão das impressões transmitidas. numa coexistência de assincronismos. uma realidade sócio-cultural tensa e contraditória. Por outras palavras. há realidades em que se cruzam temporalidades distintas. as múltiplas formas de interpretar o ―espírito da época‖ e a dificuldade de obter um consenso sobre os eixos significativos pelos quais se pauta a mudança social. que definem uma ou outra como intrinsecamente positivas ou negativas.

desejos e aspirações. por isso. Ele torna-se essencial para o accionar de complexas redes de sociabilidade. E um palco. desmentem quer a lógica de uma total autonomização da esfera cultural. universos culturais relativamente actualizados (modernos). etc. altera-se o significado de legitimidade cultural. Acrescentamos: e de grupo social para grupo social. Abandona-se o espaço público. de forma alguma.) quer a teoria dos ―espelhos‖ de um economicismo redutor e automático. . pela sua constituição. ser alargada artificialmente a toda a estrutura social) mas igualmente com pontos de divergência e heterogeneidade internas. No entanto. valores e estilos de vida são dificilmente enquadráveis em categorias tradicionais. embora restrito e selectivo. com uma identidade comum (que não pode. embora superficiais. reprodução da lógica capitalista através da constante produção de novidade. precisamente. para a maioria. sem que se auto-excluam previamente. um passo atrás das práticas. Há que. está activo e recomenda-se. elevado grau de imaterialidade da estrutura económica actual. Estes elementos constituem a dimensão dominante dos universos culturais dos grupos sociais que estudamos e que podemos enquadrar no que Bourdieu apelida de nova burguesia e nova pequena burguesia e que. reforçar esta tese. Há uma minoria que segue esquemas consagrados de familiarização com a ―alta cultura‖. na medida em que se adaptam com facilidade à ―pluralidade dos mundos de vida‖ e ao complexo sistema de papéis sociais dos grupos urbanos favorecidos. importância da ―destruição criativa‖ de bens e recursos tendo em vista a implantação de novas necessidades. associação entre crescimento económico e circulação de informação. onde a apresentação de si. mas. por isso. assenta ainda em representações de uma ordem cultural anterior. habita-se a casa. o discurso. uma cena. já que as suas práticas culturais. porquanto se associam a poderosas transformações económicas (peso crescente dos serviços. Traduzem. permite. em cujos esferas e domínios específicos podem ter validade os sistemas teóricos há pouco esboçados. fornece um ―terreno comum‖ de entendimento. reconstituir essa totalidade em interrelação. mas sai-se à noite para fruir cultura em locais específicos. sob o signo da ―máscara‖ ou da ―autenticidade‖ cumpre funções simbólicas de expressão de uma condição social que reproduz heranças ou investe em trajectórias ascendentes. diluído em combinações eventualmente menos sólidas mas mais ágeis. no interior de uma mesma classe. provisória e situada. A população estudada reflecte posicionamentos sociais privilegiados. O estudo de públicos e das suas práticas que levamos a cabo.época para época e de lugar para lugar‖[1152]. O espaço semi-público não morreu.

à procura de umas gotas de água. mudando de súbito o ângulo e a escala de análise. Outros Olhares. como faz Harvey. Para além de se verificarem outras clivagens. Visto de outro planeta. Lisboa. elementos emancipadores: ―um modo de pensamento anti-autoritário e iconoclasta. como falar de uma pós-modernidade generalizada a todas as classes sociais e a todos os espaços. a Terra é uma unidade e podemos cair em generalizações fáceis e abusivas. que celebra a diferença. BIBLIOGRAFIA 1. Mas. . esquecendo a sua variação de acordo com níveis de desigual acesso ao poder. Ou insistir na mobilidade e na compressão do espaço-tempo como traços distintivos do ―novo mundo‖. etc. fala. de ―sobredeterminação‖. Na mesma linha. O que permite. AAVV. ―sobreposição de modos de produção‖. Livros AAVV.revelando igualmente um papel activo do sujeito na apropriação. tem de ser radical. histórico e social — eis a nossa proposta. não nos admiremos se encontrarmos uma impaciente fila de espera numa paragem de autocarros (nada que se compare à circulação dos cibernautas ou ao tráfego do ciberespaço. Instituto de Ciências Sociais.. em vários momentos. 1994. recepção e transformação das obras culturais. ―descontinuidade histórica‖. a descentralização e a democratização do gosto. bem como o poder da imaginação sobre a materialidade. Dinâmicas Multiculturais. Tudo depende. resgatar do cerne distintivo dessa condição. consoante o segmento geográfico.. que insiste na autenticidade de outras vozes. Nas mãos dos seus praticantes mais responsáveis. toda a bagagem de ideias associadas com o pós-modernismo podia ser empregue para fins radicais‖[1153]. não menos interessantes e que não podem ser reduzidas à mesma base material. 1996. Jameson. Associação Portuguesa de Sociologia. por isso. na aridez sub-sahariana. Dinâmicas Culturais.) ou aquela mulher que caminha há horas. baseadas na idade e no género. ―interacção recíproca‖. Lisboa. mesmo quando usado indiscriminadamente. crítico marxista da condição pós-moderna. outro crítico marxista a manter uma relação simultaneamente crítica e ambivalente com o pós-modernismo. Admitir a possibilidade de graus diferenciais de modernismo e pós-modernismo. do ponto de onde parte a análise e da escala de observação. Novas Faces. Cidadania e Desenvolvimento Local.

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