A invenção do delírio1

Jacques-Alain Miller2
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Resumo: Jacques-Alain Miller retorna às teses lacanianas: todo delírio é um fenômeno elementar, são contínuos e têm a mesma causalidade; e o momento fecundo dos empuxos-ao-delírio traduz a reiteração desses fenômenos. Trabalha o eixo alucinação-interpretação, e explica a significação da significação aplicada à intuição delirante. Propõe pensálas a partir da metáfora e da metonímia, inventa o operador de perplexidade e aponta a equivalência entre o significante da transferência e o início de um delírio. Através do binômio S1-S2 diz que todo saber é delírio e o delírio é um saber. Palavras chave: fenômeno elementar; delírio; binômio alucinaçãointerpretação. Abstract: Jacques-Alan Miller refers back to the Lacanian thesis: every delusion is an elementary phenomenon. They are continuous processes with the same causality; and the fecund moment along the push-to-delusion translates the reiteration of such phenomena. He explores the delusioninterpretation axis and explains the meaning of meaning applied to the delusive intuition. He invites us to consider them as metaphors or metonymies, inventing an operator for perplexity and defining equivalence between the signifier of transference and the beginning of a delusion. According to the binomial S1-S2, every piece of knowledge is a delusion and every delusion, a piece of knowledge. Key words: elementary phenomenon; delusion; delusion-interpretation binomial.

O

binômio

fenômeno

elementar

-

delírio

responde

à

intenção de diferenciar elementos que por sua vez fazem parte do discurso comum; são elementos comuns a todo ser falante. Esta é uma forma de generalizar o conceito de delírio. Na medida em que o eu de cada um é delirante, um delírio pode

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A invenção do delírio

ser considerado uma acentuação do que cada um traz em si, e que é possível escrever como: deliryo.3 A psiquiatria diferencia os delírios ricos e pobres, bem como delírio e alucinação, assinalando que o delírio é um discurso. elementar. O ensino de Lacan permite-nos formular que o delírio é um discurso articulado. a intenção Trata-se de o uma combinação de E nesta perspectiva tem sentido a palavra

elementos

onde

de situar

fenômeno elementar

assume um valor, um sentido: destacar no conjunto do discurso delirante os elementos mínimos, os elementos primeiros a

partir dos quais foi construído, desenvolvido e elaborado o resto. Assim colocado, parece muito geral, mas permite

justificar um primeiro sentido da palavra elementar. Podemos pensar, por exemplo, que uma argumentação

formalizada torna-se útil em lógica matemática; e ainda que esta não seja comum em nossa prática, possuímos dela certa idéia. Não somente é possível deduzir muitas coisas de tal sistema – por exemplo, vários teoremas –, como também, além disso, na apresentação formalizada destacam-se axiomas,

fórmulas primeiras que tomamos como base para a demonstração, para o discurso demonstrativo. De algum modo os fenômenos elementares seriam como esses axiomas de partida que não

podem ser colocados em dúvida. Esta pode ser uma primeira abordagem que, sem dúvida, é possível criticar. Por exemplo, a inspiração lógica conduz Clérambault a propor certo tipo de delírios e destacar os passionais, entre os quais sublinhou a erotomania

propriamente dita; esta inclui postulados – tais como ele me quer, não me rejeita, não diz que não, e outros –, que não modificam a premissa inicial. Trata-se, portanto, da busca de
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elementos iniciais que funcionam de maneira absoluta como princípios de todo desenvolvimento do discurso. em sua consciência. No centro dessa concepção organicista se estabelece uma distinção entre o fenômeno elementar como primário e o delírio como secundário. senão que há uma descontinuidade. Sustentavam que no terreno do nascimento de tais fenômenos havia algo orgânico que determinava a intrusão de um elemento no psíquico que não pode ser explicado por meio de nada anterior. como retomar esse tema? Kraepelin. o sujeito reage tentando dar conta do mesmo com explicações e construções delirantes. seu caráter. algo que assinala na vida do sujeito o surgimento de uma descontinuidade e indica então que não se trata de um desenvolvimento contínuo. Então devemos nos remeter 3 a uma causalidade Opção Lacaniana OnLine A invenção do delírio . Deste modo era situada uma causalidade não propriamente psíquica da psicose. impõe-se a evidência de uma causalidade orgânica: aquele que se tornará paranóico não é alguém de quem se possa suspeitar. Com efeito. por exemplo. que sentimento não inquietude invade sujeito. Todavia. diante desse fato em bruto. que surge nele. Nessa concepção. antecedentes em sua personalidade. Como nada pode explicar o que surge ou se espera. A de tem causalidade estranheza. Devemos acrescentar que aqueles que localizaram os fenômenos elementares eram organicistas. apresentase uma oposição entre continuidade e descontinuidade. postulava a paranóia em continuidade com o desenvolvimento de uma personalidade. e algo totalmente novo se introduz no psíquico. fenômeno elementar. pensava que não podia localizar fenômenos elementares na psicose. bizarro. isto é. Esta perspectiva se opõe àquela segundo a qual há fenômenos elementares. e entre a causalidade própria do fenômeno elementar do de e a que corresponde como o um ao delírio.

estranha e inquietante. pois se trata de uma concepção harmônica. pode-se dizer muito sobre isso. e outra em que há fenômenos elementares. Abrem-se assim duas vias: uma em que não há fenômenos elementares e aparece o desenvolvimento de uma personalidade que acentua seus traços em situações vitais cruciais ou em momentos traumáticos. ele apresenta a teoria dos fenômenos elementares e utiliza o exemplo de uma causalidade que não é da personalidade. Este é o paradoxo de sua tese que se observa muito bem nos capítulos três e quatro da primeira parte. E as duas vias se opõem. É uma questão árida. trata o de delírio um tem uma causalidade para porque esforço intelectual explicar esta intrusão curiosa. Opção Lacaniana OnLine 4 A invenção do delírio . ou seja. precisamente neste capítulo. Porém.orgânica. na qual defende uma concepção personalista da paranóia e integra nesta concepção os fenômenos elementares pertencentes a uma idéia organicista. o que a torna justamente mais interessante. No terceiro capítulo concebe a paranóia como desenvolvimento da personalidade. psíquica Por outro se lado. mas ao mesmo tempo os integra em uma teoria da personalidade. O curioso de Lacan é que ele sustenta em sua tese a posição de que há fenômenos elementares. enquanto que no quarto capítulo ela aparece determinada por um processo orgânico. a intrusão de um elemento heterogêneo de fonte orgânica que obriga o sujeito a um grande esforço de elaboração delirante para explicá-la. Em sua elaboração do caso Aimée. Ali a palavra essencial é a personalidade que encontramos no título de sua tese – Da psicose paranóica em suas relações com a personalidade4 –. Lacan opõe-se ao organicismo. mas ao mesmo tempo não se encaixa bem. é a tese de Lacan – cuja leitura torna-se facilitada pelo trabalho de Silvia Tendlarz. Entretanto. Com efeito.

Talvez seja algo que devemos aproveitar. No trabalho anterior sobre a estrutura da paranóia. Pelo único fato de transladá-lo a uma teoria continuista e de desenvolvimento da personalidade. o fenômeno elementar é totalmente distinto e heterogêneo em relação ao delírio. esse tema. Trata-se então de para algo muito delicado. também em O Seminário 3.Aimée com Lacan – e devemos considerar que é a base de nossa discussão quando aludo ao tema. e em 1958. Nessa direção foi trabalhada a metáfora da planta incluída em O Seminário 3 de Lacan. 5 Lacan restabelece uma Opção Lacaniana OnLine A invenção do delírio . escrito dois anos antes. de acordo com a concepção organicista. em seu escrito “A direção do tratamento”8. o exemplo da planta está presente na tese. seu mestre. concentramo-nos muito em como entender o tema do delírio e do fenômeno elementar. Certamente. e resulta tanto mais necessária quanto no primeiro sentido. A frase de Lacan em O Seminário 3 diz que o delírio é um fenômeno elementar9 – se aceitamos reduzir a citação –. Lacan utilizava o termo anelídeos de Clérambault. e comentada por Cláudio Godoy5 com a indicação de que também se encontrava na tese. Ao que responde esta curiosa posição de Lacan? Talvez estejamos no terreno da personalidade de Lacan. Lacan continuou com a metáfora da planta mais tarde. Situa-se ali onde Lacan assinala que antes utilizava a referência aos anelídeos e logo depois preferiu a metáfora da planta6. e encontra-se não somente a propósito da psicose como também da neurose. já Mas que o forneceu-nos elementos entender deixaremos de lado por um momento para retomar o debate e as apresentações escutadas hoje. Com efeito. termo que suprime. E como sublinhou Juan Carlos Indart7. visto que coloca claramente em jogo sua relação com Clérambault. em 1958.

considera que esse sonho de uma histérica é capaz de indicar toda a planta da histeria. Poderíamos entender o delírio é um fenômeno elementar como o delírio tem a mesma estrutura que o fenômeno elementar. e afirma que o conjunto da neurose está presente em uma formação do inconsciente minúscula. Fazemos construir uma uma figura. por exemplo. partir célula inicial. encontramos de maneira mais e mais extensa a mesma estrutura. Em meu ponto de vista. É algo que se entende.continuidade entre o fenômeno elementar e o delírio. e que não há necessidade de um instrumento especial para reconhecer que a folha tem os traços de estrutura da planta com a qual está relacionada. essa Juan Carlos Indart indicou a maneira de de traduzir frase. assinala que nada disso é microscópico. Lacan acrescenta: enquanto que elemento significa estrutura. uma vez que imediatamente depois falar do delírio como fenômeno elementar. Poderíamos traduzir essa frase da seguinte forma e submetê-la à discussão. Opção Lacaniana OnLine 6 A invenção do delírio . tal como um sonho. Em outras palavras. é interessante o termo elemento gerador utilizado por Roberto Cueva10. de tomamos figuras a a que diagonal respondem da e às podemos mesmas série modo proporções. De que. Nesse sentido. Quando Lacan alude a essa famosa planta em “A direção do tratamento” – dentro do texto em que analisará o sonho da Bela Açougueira –. através do modelo do gnômon grego. Ele relaciona claramente essa formação do inconsciente que é o sonho com a neurose.

o fenômeno elementar representa para a psicose o que a formação do inconsciente representa para a neurose. podemos conhecer a planta ou a árvore. tal. Ele percebeu esta questão. que como também excessivo. porém o fato de estrutura está ali. a partir da folha. como avaliá-lo? Simplesmente porque acreditamos na estrutura. Tomemos como exemplo o trabalho do passe. E esta comparação é válida devido ao conceito de estrutura.Que às vezes os pacientes relatem três ou quatro sonhos em uma sessão. talvez algo a Não somente é mas do um pouco simples. O objeto que se vê pode modificar. pois. meia hora. Opção Lacaniana OnLine 7 A invenção do delírio . ou seja. por exemplo: ao fechar os olhos ou ao olhar uma página ou uma sala. minha proposta é simples: em certo sentido. a diplopia não desaparece. formação sugere devemos com o trabalhar fenômeno comparando inconsciente elementar. em que é a mesma coisa tomar um texto enorme ou somente presente uma de página. alguém relata a análise de outra pessoa que durou dez anos! Como é possível esse trabalho e. na diplopia. assim como a partir do osso de uma pata é possível reconstruir um dinossauro. Foi o que Roberto Cueva tentou mostrar ao tomar como exemplo um fenômeno elementar do caso Aimée e indicando que o fenômeno se repete no transcurso da elaboração do delírio. uma hora. enquanto forma. pode-se fazer uma boa extração e conseguir apropriar-se da estrutura em um fragmento. far-nos-ia acreditar que um sonho é pouca coisa em todo o trajeto de uma análise. Na via do que elaboramos. mostra-nos toda a estrutura da enfermidade. além disso. no qual em um tempo muito curto. ainda que em escala reduzida. com uma torção específica. a estrutura está quando existem qualquer Pensem dificuldades visuais. porém a tese de Lacan é que.

os significantes vinculam-se entre si e o sujeito permanece um pouco relegado. e às vezes. Avancemos inconsciente e a partir da estrutura a da formação do do tentemos elaborar estrutura fenômeno elementar em oposição a ela. nas formações do inconsciente. E talvez possamos afirmar. Retomando o anterior Lacan sustenta que. em uma primeira aproximação. Digamos que representa não se sabe o quê para alguém. isso surge para o sujeito como um lapso e surpreende-se pelo que ele próprio produziu. porém não se sabe muito bem o quê. o significante vincula-se ao significante e o sujeito surge como efeito desta vinculação. quando um significante chama outro. que no fenômeno elementar o signo elementar representa um x para o sujeito. Conforme recordarão. o sujeito não está a par desse procedimento. trata-se da definição de signo de Peirce na qual Lacan se inspirou: o signo representa algo para alguém. Esta formulação apresenta um problema para resolver: como formalizar o fenômeno elementar a partir da fórmula de Lacan das formações do inconsciente? Opção Lacaniana OnLine 8 A invenção do delírio . No fenômeno elementar é interessante o para alguém porque se trata da significação pessoal que se dirige a ele. conforme verificamos no lapso.Então um curto-circuito é apresentado: qual a estrutura das formações do inconsciente? A resposta de Lacan permite-nos afirmar que sua base é a alienação significante – o significante representa o sujeito para outro significante –. Pois bem. formação do inconsciente fenômenos elementares ~ neurose ~ psicose O fenômeno elementar representa algo. para o sujeito.

com um conceito de muito útil para e Falamos fenômeno elementar duvidamos naquele momento de onde ele procedia. o e O conceito onde se de estrutura os o reformaliza conceitos elemento é e de a redistribui personalidade campo opunham caso.Seguiremos um pouco mais com essas questões. porque Lacan indica que provém de Clérambault. Por enquanto tratamos de indicar o caminho no qual é possível seguir trabalhando. A princípio Lacan trabalhou essa idéia de que o elemento é a estrutura. Assim introduzir deparamo-nos no debate. ao mesmo tempo. Em dado momento o sujeito aparece embaraçado. Há então um momento de calma e outro de empuxo. bruto. seu caráter imediato. organismo. Assim como Lacan se inspira em alguns exemplos para construir suas fórmulas. em distintos níveis. a idéia de uma continuidade. quando dará a luz a um novo episódio do delírio. Godoy o cita em relação ao texto sobre a estrutura da psicose paranóica. e precisamente a concepção dos momentos fecundos pode situar-se como repetição dos fenômenos que algo elementares. O fenômeno elementar aparecia como tal pela sua simplicidade. há um conceito clínico exclusivo de Lacan em relação à psicose que é o de momento fecundo. cristalização finaliza. sobrevirá. quando na realidade não o encontramos aí. Portanto. Além disso. O que é o momento fecundo? Com esta idéia Lacan indica os empuxos-ao-delírio. nós mesmos. um trabalho. e O sujeito há está uma o inquieto. Existem fórmulas aproximadas nos textos de Jaspers que Lacan critica. momento fecundo é esta reiteração gnomônica da estrutura do fenômeno elementar que fornece. uma vez que não damos o trabalho por terminado. Neste estrutura que se repete como o gnômon. sente uma depois precipitação. inspiremo-nos na fórmula de Lacan para fazermos. Opção Lacaniana OnLine 9 A invenção do delírio .

primários. Consideremos agora um nível no qual se opõem alucinação e interpretação. já que ambos estão estruturados como uma linguagem. enquanto que o fenômeno elementar não está articulado. e a alucinação estar que concerne de a uma um fenômeno Afirmamos diante verdadeira alucinação psicótica quando o que aparece tem o caráter de certeza. entendemos que há uma oposição entre a interpretação perceptivo. tal como assinala Mazzuca. caráter organizado do fenômeno. Descobrir que os fenômenos elementares são estruturas que incluem uma combinação impede opô-los ao delírio. em certo nível. e podemos dizer que o sujeito é passivo enquanto Opção Lacaniana OnLine 10 A invenção do delírio . sem organização.quando a propósito que ela é da interpretação feita de dados delirante. Lacan parece esquecê-lo e mistura ambas as noções. no delírio de interpretação. pequenos anéis iguais sem articulação ou estruturação. isolado e diferente de um anel. sem organização racional. Porém pouco tempo depois. Trata-se de um elemento simples. com o argumento de que este último é uma articulação. entre ambos uma comunidade estrutura. geral pode-se dizer que o delírio é um fenômeno elementar e que o fenômeno elementar é um delírio. Em Portanto. vamos mais além desse ponto. e aqui se estabelece a comparação com Clérambault. Se relerem a “Resposta ao comentário de Jean Hyppolite” vocês verão o quê diferencia radicalmente a alucinação e o fenômeno interpretativo. O Lacan11 quase não assinalou intuitivos. Eis aqui a descoberta de Lacan: o fenômeno elementar está estruturado e sua estrutura há é a da linguagem. a intervenção de Roberto Mazzuca inclui uma valiosa referência a Lacan. Então. Nesse sentido. com a metáfora dos anelídeos. tal como de a do delírio. aparece como específico do fenômeno elementar. Entretanto.

segundo descobre Lacan. no acting Opção Lacaniana OnLine 11 A invenção do delírio . se estudamos as alucinações verbais.padece da alucinação como independente dele. padece. passa por momentos de dúvida. Todo o escrito “De uma questão preliminar” serve para indicar que. veremos que respondem a uma estrutura de linguagem. mas ao mesmo tempo. a perspectiva da estrutura permite tratá-las de maneira conjunta. que no caso do Homem dos Lobos a falta de um significante na estrutura do sujeito faz com que o foracluído retorne no real. no que pese às diferenças fenomenológicas evidentes. qual são alucinação com o interpretação distintas. e entre mensagem e código. A interpretação é do sujeito. Não obstante. Para podemos ampliar o nossas texto Lacan referências “Resposta sustenta E o ao que em relação ao de tema Jean e a retomar no comentário a Hyppolite”. De forma que esses dois fenômenos têm muitos traços distintos. que encontram uma diferença entre significante e significado. que ambas são completamente distintas em certo nível. prova exemplo freudiano do Homem dos Lobos a respeito da alucinação do dedo cortado. isto é. as alucinações têm estrutura de linguagem. mas que. Conforme assinala Mazzuca. pois respondem à mesma estrutura. Mostra que o acting out está estruturado como uma alucinação. e introduz imediatamente o famoso caso do Homem dos Miolos Frescos. um exemplo de acting out. O esquema de vivência sujeito é da interpretação não é totalmente mas sim diferente: atua e ali o ativo. Porém em que termos Lacan fala deste fenômeno de acting out? Ele o refere à interpretação. Lacan pôde sustentar que algo vale tanto para a alucinação como para a interpretação. Apesar de todas as diferenças fenomenológicas existentes entre alucinação e interpretação. Evidentemente a interpretação também se funda em um fenômeno de linguagem. em outro. a diferença não importa.

Ele o diz claramente e explica que se produz quando os analistas abordam algo na ordem da realidade e não no interior do registro simbólico. tratei de convencer aos que o assistiam que a tese de Lacan era jaspersiana. ao mesmo tempo podem se opor alucinação e interpretação. Lacan antecipa precocemente Clérambault como “meu único mestre em psiquiatria”. Nos Escritos. Lacan o formula ali como a recusa de uma relação oral não simbolizada que retorna como se fosse uma alucinação. Retomemos agora a história da relação de Lacan com seu mestre Clérambault que constitui todo um tema. entendi que Lacan havia introduzido desta maneira sua leitura na França. alucinação e interpretação opõem-se. Não se trata de uma contradição. para um Deste justifica-se distinguir Em nível.out Lacan mostra. Em um seminário que ditei em 1988. No mesmo texto. provocando um movimento de paulatino interesse pela personalidade e pela obra do referido psiquiatra. usar um exemplo de alucinação e outro de acting out em sua vinculação com a interpretação analítica. Alguns anos depois. e em outro têm a mesma estrutura. que falta um significante na interpretação do analista e surge na conduta do sujeito um ato que ele não pode entender. e finalmente modo construir a mesma estrutura níveis. podemos quase supor que há uma foraclusão. Lacan trabalha assim mesmo esse tema de enorme importância em seu seminário12: o acting out equivale a um fenômeno alucinatório de tipo delirante. quando saíram os Escritos. Mas Opção Lacaniana OnLine 12 A invenção do delírio . se alguém sabe lê-lo. ambos. senão de distinguir níveis. comecei a lê-lo. em uma apresentação que fiz de um texto de Lacan que falava de Clérambault. Como eu não conhecia Clérambault em 1966. isso quer dizer que encontra a mesma causalidade em ambos os fenômenos.

nos Escritos.é muito curioso que em seus “Antecedentes”. Lacan já havia elogiado Clérambault em seu texto “Formulações termos: sobre a que causalidade minha tese psíquica” responda nos ao seguintes método de “pretendo Clérambault”. na tese Jaspers mata Clérambault. por tudo.6. “meu e retorna único . na primeira lição de O Seminário 3 fala de Freud. o qual. “para não correr o risco de ser plagiário. Lacan não diga uma só palavra sobre Jaspers. rende uma homenagem a Clérambault e depois critica radicalmente Jaspers. mas nos Escritos só se refere a Clérambault. e que. entretanto retorna e mata Jaspers. isto é. Realiza uma tese jaspersiana. é jaspersiana. referência está em um artigo Ornicar?. tudo que diz deveria ser uma homenagem a Clérambault. é necessário render-lhe homenagem por cada um de nossos termos” 13 . a partir da relação com a compreensão. quando se refere ao uso da imagem dos anelídeos – que dois anos depois substituirá pela metáfora da planta – e sublinha que usa esta imagem que resume o fenômeno elementar do ensino oral de Clérambault. Neste movimento. nota n. Opção Lacaniana OnLine 13 A invenção do delírio aparece Lacan primeiro a metaforizado ele em termos por de Jaspers. em uma pois como recordarão. De algum modo. Clérambault pensava causalidade fundamentalmente orgânica. Clérambault finalmente mestre”. Que momento conclusões Lacan A se podemos extrair um de tudo isso? Em um por em coloca como discípulo orientado publicado Clérambault. e ainda que não o evidencie explicitamente. Todavia a tese que escreverá dois anos depois está feita contra ele. Trata-se de uma tese anti-organicista. Lacan defende sua tese em 1932 depois de ter sido interno de Clérambault. a quem deve muitas coisas em relação ao método. Por outro lado.

e o justifiquei comentando a frase de Lacan sobre a significação de significação e o vazio enigmático. também buscava fenômenos Seguramente em 1931 houve um esbarrão entre ambos. Extraí esse adjetivo da referida frase e o expliquei. no qual oferece uma nova tradução do fenômeno elementar. elementares. afirma que sempre foi o método do referido psiquiatra. o título do seminário – que ditei – “A experiência um enigma enigmática para na os psicose” continuava sendo também docentes. Sobre esta questão.Jasper s Clérambault Clérambault Jasper s Clérambault Nesta nota há uma continuidade: elogia e recomenda o método de Clérambault. porém explica que a expressão fenômeno elementar encontrada em Jaspers era atribuída finalmente a Clérambault. pois sem dúvida Clérambault devia ser muito suscetível ao roubo de seus termos. Supomos isso pela homenagem que Lacan lhe rende. Clérambault E devemos pensar os que. Trata-se de algo que depois se encontra bem explicado no artigo de Colette Soler. Neste ponto encontramos discussões sobre o que Lacan14 expõe no famoso parágrafo de “De uma questão preliminar” ao referir-se à significação de significação. além disso. Após esse périplo através de nossos antecedentes podemos retornar ao tema da estrutura do fenômeno elementar. Opção Lacaniana OnLine 14 A invenção do delírio . mas ao mesmo tempo afasta-se das teses organicistas. como organicista. o que complica as coisas para nós a nível histórico.

Então do que se trata? Digamos que se trata de um momento curioso. uma produção de significação. Contudo Lacan refere-se ali a esses fenômenos intuitivos que são os fenômenos elementares evidentemente conectados às questões de significação. Em minha opinião. que o persegue ou o escritor P. pseudo-alucinações. porém vale para todos os demais e os põe em evidência. domínio fenômenos elementares. fenômenos perceptivos. onde a questão da significação não é tão evidente nem tão pura. aparece iluminação: a senhora Z. a Minha da proposta esse movimento partir metáfora e da metonímia. 15 No no seminário que ditei. que em implica. Finalmente. senão que se refere à necessidade de reformular os fenômenos intuitivos. diz fenômenos intuitivos porque quer ocupar-se da significação nos fenômenos elementares e deixar em aberto que. uma produção – que seja inacabada para hoje ou é difícil pensar – muito especial. elementar. creio que alude a esse setor dos fenômenos elementares. isso está dirigido obelisco a mim”. pretendemos fenômeno fenômeno Opção Lacaniana OnLine A invenção do delírio . estão relacionados a uma significação que invade. Lacan não fala de fenômeno elementar nem de fenômenos elementares no texto “De uma questão preliminar”. tal como: em “O uma fala comigo”. dos É possível estender a aos significação. determinado Nos fenômenos não há a somente momento. esta não o se apresenta. utilizei o exemplo do carro vermelho qual o sujeito se sustenta: “Isso me diz algo. em alguns deles. onde a coisa aparece pura. ou qualquer Desta outra coisa.Agora interessa-nos retomar o comentário de Lacan de um modo diferente do meu seminário. forma. 15 Partindo o daí.B. permanece perplexidade misteriosa: o fenômeno intuitivo ao qual somamos a intuição um delirante vazio. Porém. por quê? Porque são os dois grandes mecanismos situar da o produção de sentido.

intuitivo. Então no enigmático não há satisfação. no momento de É perplexidade.. Recordemos que Wittgenstein sustentava que o critério da compreensão é a satisfação. o sentido não pode emergir. satisfatoriamente. De maneira que o fenômeno elementar assemelha-se a uma metonímia imóvel.. fixa. enigmático. como conexão de um significante a outro. sem que apareça o sentido completo.S’ (-) s O que dizer desses fenômenos de significação de significação descritos por Lacan? De algum modo poderia dizer que.. mas sim um menos de s minúsculo.. que não preenche a satisfação.. A metáfora situa um significante que permite a emergência do sentido: é a unicidade do significante. um momento o de sentido espera não de aparece sentido. se nos permitirmos este oximoro. Ao passo que na metonímia. (-s). ao contrário.. na medida em que não desliza. produz-se um efeito positivo de sentido com a emergência de um sentido novo. segundo explica Lacan.. Muitas vezes surge um único significante que fixa o sujeito nesse momento e pode rodeá-lo. Sabemos que na metáfora há substituição e que.. ou se apresenta como uma metáfora impotente. Tampouco se trata de metonímia. imobiliza. instala-se uma falta-a-ser na relação de objeto e o sentido desliza sempre na cadeia significante.. porém impotente para fazer surgir um sentido. metáfora S’ (+) s S metonímia S. Opção Lacaniana OnLine 16 A invenção do delírio .

um operador que significa a interrogação. explicito ou implícito. como metonímia imóvel. Então afirmamos que sempre há. em lugar de um deslizamento produz um estado de confusão difuso.O fenômeno elementar. pode-se acrescentar um signo lógico. Isso é coerente com a teoria de Lacan que indica que a estrutura se revela na psicose. quer dizer que utilizamos os conectores de Lacan: s0 – sentido zero – para a experiência a metáfora enigmática e a (estabelecemos e uma comparação com metonímia). e assinalamos que é a situação normal do ser humano enquanto efeito de significante. na medida em que todo sujeito tem que decifrar um significante. S (?) s Inventamos o operador especial. e como metáfora impotente. mas sim o menos. um significante no fenômeno elementar. uma fixação absoluta. Assim. Da automatismo forma. é mental lícito apresenta-se afirmar que mesma fenômeno elementar evidencia nossa relação com o significante. Seria um modo especial de vinculação do significante e o sentido no fenômeno elementar. (?) s operador de perplexidade A perplexidade é este operador de perplexidade simples. ou algo que deveria ter este curioso efeito de interrogação sobre o sentido. Opção Lacaniana OnLine 17 A invenção do delírio . como podem ver. e que devemos dar conta do véu neurótico. um signo de interrogação. a questão de que de o desejo e o discurso são do Outro como o nos tema fenômenos aberto. que a introduz. operador de perplexidade. Mas como escrever este curioso sentido? Poderíamos escrever que emerge não o sentido.

Ao contrário. o delírio é equivalente a S2. S1. O começo para todo sujeito é que os demais falam dele. o secundário. Quando inconsciente. é sempre elementar. cuja relação com este fenômeno elementar levou-me a sustentar que tal significante é equivalente ao início de um delírio. Trata-se do que Lacan denomina significante da transferência. vejamos mais de perto. no início de uma análise. Por isso não há porque fascinarse com a aprendizagem da linguagem. E concluo por aproximação que o que denominamos fenômeno elementar põe-nos em presença de um S1. S2. etc. Quer dizer que o sentido ocorre a partir do delírio. fenômeno elementar S1 ----------------- S2 delírio s Opção Lacaniana OnLine 18 A invenção do delírio . Somente quando aparece o significante Dois. o qual corresponde à descrição sobre o primário. Traduzimos então que há significante para interpretar. pode surgir a significação de S1. quer dizer. o significante sozinho. Lacan ele estuda a estrutura este das formações do estabelece primeiro momento assinalando que “Isso fala dele”16. algo semelhante se produz para que possa começar a interpretação. O significante Um. que precipita a emergência do sujeito suposto saber. por exemplo. não se sabe o que significa. Observamos que às vezes falase mais da criança antes de seu nascimento do que depois dele. Porém. por isso a significação não se desdobra. visto que o importante é que os outros e o Outro falam. sustenta a interpretação.É possível falar de uma paranóia inicial de todo sujeito ou entender que.

esse primeiro objeto lançado no espaço que verificou muitas coisas. Newton era um homem do século XVII que se apaixonava decifrando o significante da Bíblia para conhecer o futuro. Conforme sustenta Lacan. somos poucos os que pensamos que Lacan não delira. Escutando repetidamente o que Lacan afirma sobre o interessante da invenção de saber. Assim mesmo existem muitas coisas delirantes em Newton que dedicava mais tempo à alquimia do que à matemática. Nesse sentido. mostra-nos que todo saber é delírio e o delírio é um saber. nesse sentido. Esta fórmula que se encontra em “Da psicose paranóica em suas relações com a personalidade” é a frase mais lacaniana da tese. Recordem. Em um breve prefácio. é. indica que a publicou com reticência. mas sim que o delírio é uma interpretação. Bunge. Retornando então à coerência entre saber e delírio. pois ao colocar o delírio no lugar de S2 – quer dizer.A partir destas precisões. o Sputnik. porque ali nem tudo é lacaniano. O Sr. É verdade que o Newton não sabia tantas coisas como ele. do saber –. O Sr. que também se diz que o analista não deve retroceder diante do psicótico. Lacan comentou que não queria publicá-la e que o fez porque as editoras lhe pediram. vamos nos perguntar o que isso implica.Bunge não pensa deste modo e o deprecia por isso. pois não considerava Opção Lacaniana OnLine 19 A invenção do delírio . certo tipo de fenômeno elementar. e apaixonava-se decifrando o livro de Daniel e o Apocalipse na Bíblia. por exemplo. observamos um curto-circuito. o psicótico se apresentaria como o delirante que não retrocede diante da elaboração de saber com o elemento de delírio que sempre há nessa invenção. Falar de delírio não é somente falar de delírio de interpretação. Sem dúvida sempre existe algum risco na ciência. pensa que Freud era delirante. por outro lado. porque pode ser um delírio.

Destaquemos também que Lacan não duvida em enfrentar-se com certa homogeneidade entre a estrutura. em um primeiro momento. indica a emergência do sentido sob a forma de uma intuição que preenche o sujeito. o delírio e o saber. S1 (S2) s0 Opção Lacaniana OnLine 20 A invenção do delírio . fenômeno A fim de esclarecer coisas elementar. o qual é coerente com toda a concepção freudiana da teoria da libido. e a fórmula reiterativa e vazia permanece mais do lado da metonímia. para verificar o que exponho em relação à metáfora e a metonímia. Pois bem. de esvaziamento da significação.que tudo fosse lacaniano. de uma grande densidade. é algo análogo à teoria dos nervos divinos de Schreber. O delírio é o duplo perfeitamente visível do que foi colocado na investigação teórica. o mais lacaniano da tese é a frase o delírio é uma interpretação. e isso produz o fenômeno de sentido zero. a qual assinala que no próprio texto do delírio encontramos uma verdade explícita e quase teorizada. Porém em seu seminário opõe a fala e a fórmula. Creio a metonímia. Contudo. é necessário retomar o texto “De uma questão preliminar” de Lacan e observar que ele utiliza metáfora somente a propósito da metáfora paterna. argumentando que no delírio de Schreber há falas plenas de sentido. e ordena muito há bem fórmulas a vazias e e repetitivas. A fala que que metáfora condensa todo o sentido é de estrutura metafórica. podemos afirmar que nos encontramos diante da falta de S2. vamos introduzir a metáfora e a metonímia como binômio operativo as para considerar em relação o ao delírio. Portanto.

Tentar não entender o que ocorre é uma disciplina. Ensinanos a não apagar o momento da perplexidade. isto é. o chamado normal. não devemos esquecer que ele não é sempre algo grandioso. Por quê? S1 s0 a Porque neste vazio simbólico S2 a’ absorve-se a estrutura imaginária. pois deve fazer uma elaboração de saber não tão natural. dá Opção Lacaniana OnLine 21 A invenção do delírio . Por que não traduzir desta forma a foraclusão do Nome do Pai. mas sim que às vezes é muito reiterativo. por exemplo. a partir da qual se desenvolve o delírio. É o que Lacan demonstra no caso Aimée: a relação de rivalidade com a irmã repete esse desdobramento iniciado com a mãe. Quando se inscreve nessa vertente dos delírios pobres. Mesmo que eu tenha elogiado muito o delírio. em determinada circunstância ele sabe o que deve dizer. para decifrar e afirmar que não temos nenhuma dificuldade e entendemos o que se passa. E Lacan nos convida a ser um pouco mais psicóticos. a não sair correndo com nosso S2. para o psicótico implica em um grande trabalho. um pouco mais perplexos. e nesse ponto o delírio é reiterativo. nosso saber apoiado em nossa fantasia. se me permitem.É deste ponto que o neurótico – pólo normal – traz em si o S2 que necessita. Esta é nossa compreensão precipitada. Ainda que a relação com a mãe fosse muito boa. a-a’. a forclusão deste S2 que para o neurótico permite-lhe decifrar tudo sem perplexidade? Isto que no neurótico. Convida-nos a ler as coisas sem entendê-las e ajuda-nos com seu estilo que produz a perplexidade. reiterativos. magnífico. na paranóia. o desdobramento se repete em todo seu delírio. surge tão naturalmente.

Todavia não o desenvolveremos agora. quando algo da realidade chama esse significante que falta. Mas não Opção Lacaniana OnLine A invenção do delírio . com a diferença existente entre libido egóica e 22 libido sexual. A questão é saber o que aconteceu com ele. tampouco do começo da psicose. o ato realizado por Aimée faz cair o delírio como biombo. Neste sentido. capturado no simbólico. Em seu comentário sobre Schreber. Em todo caso a questão é saber em que momento ela se desencadeia. ao elaborar sua primeira teoria. o qual deveria ser mobilizado. Esta é a primeira aproximação ao gozo. Portanto. com esse sujeito em particular. Lacan formula que a psicose não tem préhistória19. De forma que o eu. modifica Não se a perspectiva de sobre os o fenômenos tempo e a trata desconhecermos cronologia. Esta perspectiva acentua seu caráter de cenário.lugar ao que Lacan descreve em seus Escritos como sua função de biombo17. encarcerado. Por isso. Para Lacan. fica evidenciado que ele falta e começa a catástrofe. em Lacan. em O Seminário 3. desfaz-se o imaginário. para que tudo se coloque em andamento e desencadeie a psicose. a libido é imaginária e circula entre o mundo e o eu. uma é necessário entre saber e imprescindível e estabelecer dialética interpretativo delírio como cenário. escapa e modifica sua distribuição e a distribuição de sua libido. Lacan elementares. Acontece que a estrutura indica que a psicose já existe. segundo a expressão que Lacan emprega em O Seminário 3 sobre as psicoses18. Reduz totalmente a história e isso é justamente a teoria do Nome do Pai: a estrutura existe e falta o significante que o sujeito deveria ter à sua disposição. Por quê? Onde está o gozo nessa história? Quando fala nesses termos deve entenderse que o gozo circula entre a-a’. Lacan sugere que.

que inclusive pode ser descrito como não sou nada. Agora passemos ao tema que mencionou Cecilia D’Alvia20. Opção Lacaniana OnLine 23 A invenção do delírio . com o objetivo de compará-las. Não se sabe ser se o delírio por de grandeza enfermidade que deve tratada outro delírio ou se é o próprio tratamento.tocaremos este tema. Todo mundo tem um delírio de grandeza. Porém como delírio. e Freud o expressa assim. Portanto. em certo modo. A construção freudiana funda-se em um paralelismo entre psicose e neurose de transferência. o simbólico. Ainda que traduzido por uma queixa. que é diferente do delírio como biombo. como elaboração. e com este nível de circulação que supõe e contribui à elaboração do delírio. e isso é justamente a enfermidade. O delírio de grandeza é. é o próprio delírio de grandeza. E não situa exatamente no mesmo momento o delírio de grandeza: momento de processo patológico e tratamento. É verdade que o texto de Freud o formula rapidamente. que suprime todo o fecundo ou o agradável. Então aparece o delírio como tratamento. neste ponto é possível reconhecer duas perspectivas. aquele que se produz quando o significante. porque foi efeito de uma leitura muito precisa do texto que apontou como Freud não situa exatamente no mesmo lugar o delírio de grandeza. o delírio fundamental. não pode encarcerar o eu e dar-lhe seu lugar. estase libidinal e intenção de canalizá-la. ou então não posso nada. representa também um domínio sobre a libido. porém podemos interpretar que não diz a mesma coisa. na medida em que é o delírio por excelência do eu. É importante alojar essa dupla posição do delírio de grandeza que escapa em certo nível. no sentido do delírio do eu. Podemos destacar então que aqui o gozo está em primeiro plano. já que expressa uma capacidade de o sujeito sempre estabelecer uma comparação com os ideais. é a tratamento. É uma questão difícil.

8 Lacan. pp. In El saber delirante. livro 3: as psicoses (1985[19551956]). (2005[1995]). livro 3: as psicoses. p. cit. cit.. Em Espanhol. al. 59. Rio de Janeiro: Forense-Universitária. p. 16 Idem.. ciframento de gozo. em 1995. J. p. In El saber delirante. Paris: Navarin. (1998[1957-1958]). (1985[1955-1956]). 18-19 e 30. pp. 38. cit. “Posição do inconsciente no Congresso de Bonneval”. Op. Diretor do Departamento de Psicanálise (Paris VIII). cit. “Fenómenos elementares y delirio en la tesis doctoral de Jacques Lacan”. O Seminário. p. 10 Cueva. (2005[1995]). 9 Idem. Opção Lacaniana OnLine 24 A invenção do delírio . 5 Godoy. 849. (1987[1932]). “Structure des psychoses paranoïaques”. 15 Cf. 52-54. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. J.. J. “Structure des psychoses paranoïaques”. “Discussão”. Op.. (2005[1995]). (1998[1958]). 28. Tradução: Marcia Mello de Lima 1 Conferência proferida em Buenos Aires. conforme sugeri para a alucinação-interpretação. termo que Freud utiliza e que teria que ser verificado no texto em alemão. cit. “Automatismo. cit. que ou um em delírio nossa alcança certo certo linguagem. Op. p. 10. mas em outro. 11 Lacan. p. sem freio. 7 Indart. 3 N. no original. Op. 12 Idem. nota n. libido. há um jogo de palavras com ‘delírio’ e yo (eu). Op. In Ornicar?. Da psicose paranóica em suas relações com a personalidade. (44). (1988[1931]). 627. (1964[1960]). (1985[1955-1956]). p.6. cit. cit. livro 3: as psicoses. 2 Jacques-Alain Miller é psicanalista. e publicada em: Miller. Op. p. sobre a portanto. fenómeno elemental y delirio”. J. C. 6 Lacan. A transcrição e estabelecimento do texto foram realizados por Oscar Sawicke. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. o delírio de grandeza apresenta-se escapando. 4 Lacan. 96. In Escritos. enquanto delírio implica um domínio sobre a libido. Op.. Buenos Aires: Paidós. J. 13 Idem. pp. In El saber delirante. Op. O título foi deduzido a partir do tema desenvolvido e proposto por Leonardo Gorostiza. R. In Escritos.-A. El saber delirante. livro 3: as psicoses. O Seminário. (1985[1955-1956]). 28.. “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”. cit.C. In Escritos.Proporia então distinguir níveis. domínio Ensina. Em um nível. 544-545. J. (2005[1995]). desenvolvido em O seminário. Op. “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”.. et. 14 Idem.T. O seminário... (1988[1931]).

(1966[S. p. In El Saber delirante. 70. “De nos antécédents”. In Écrits. 18 Idem. cit. (2005[1995]). Paris: Seuil. Ibidem. 19-31. 17 Opção Lacaniana OnLine 25 A invenção do delírio . pp. cit. 104. C. 52 e 83. p. pp. O seminário. 19 Idem.Idem. (1985[1955-1956]).. p. 20 D’Alvia. Op.d]).. livro 3: as psicoses. [NT] O termo “biombo” foi traduzido em os Escritos como “anteparo”. “Comentário de um párrafo de ‘Introducción del narcisismo’”. Op. 66.

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