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APPOA 2011 Texto Final

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OFICINAS EM SAÚDE MENTAL: costuras entre Real, Simbólico e Imaginário

Andréa Guerra

AGRADECIMENTO

0. A vinda a Porto Alegre é sempre motivo de grande entusiasmo de minha parte. Aqui encontro colegas psicanalistas que presentificam a psicanálise no mundo e não se omitem da tarefa política que nos compete, muito pelo contrário. Não à toa, no folder, convite a essa Jornada sobre “Psicanálise e Intervenções Sociais”, nos convidam ao trabalho nos seguintes termos:
“Nas instituições e espaços inter-institucionais, inserimo-nos em um processo de construção coletiva, nos quais encontramos formações discursivas diversas e em tensionamento constante. Torna-se necessário encontrar um ponto mínimo, algo de um projeto comum que reúna os diferentes saberes. Buscamos inscrever nas práticas sociais as questões que a clínica do sujeito coloca à psicanálise. [...] Que significantes encontramos nestes contextos que justificam a presença da escuta e da intervenção da psicanálise? Quais as incidências subjetivas, sociais e políticas do ato analítico?”

Ponto mínimo ou projeto comum entre os diferentes saberes. É sobre esse ponto mínimo que a jornada nos propõe pensar. A mim, chegou o convite para pensá-lo a partir do tema das oficinas em Saúde Mental.

1. Parto, portanto, de um pressuposto: o de que temos a liberdade de conferir novos usos aos objetos, profaná-los ou desativar os dispositivos de poder que os indisponibilizaram, devolvendo ao uso comum os espaços confiscados (AGANBEM, 2002, 68). Profanar é

ou seja. Avanço com a proposta de uma interdisciplinaridade em ato na prática feita por vários. Ela se realiza em ato. A atitude profanadora na psicose nos ensina que os objetos materiais estão referidos a outra lógica no mundo. no arranjo que torna possível o desejo nas mais diferentes invenções subjetivas.restituir à propriedade e ao uso comum dos homens os objetos sacralizados. assim como uma palavra. E a clínica com as psicoses nos ensina que os objetos se dispõem aos homens para seu uso. ou em um apoio para a bicicleta sem rodas em outra situação. a maneira como a causa do desejo toma forma para cada um. torna-se mais útil como varal de roupas. Assim. 2011). pois presentifica em cada espaço institucional a impossibilidade de qualquer saber apreender a realidade toda da experiência. historicamente. Um carrinho de compras pode servir a diferentes finalidades. 2. ou seja. O ato criador (científico e/ou social) está ligado à realização simples de uma dinâmica combinatória complexa. um carrinho de compras transforma-se em uma parede numa moradia de rua improvisada por um usuário psicótico. suportando o peso da experiência de limite de cada saber. Entendamos melhor a proposta. está associada à complexidade do fenômeno humano . inclusive. Os valores atribuídos aos objetos. e não o contrário. As palavras e as coisas podem ser refuncionalizadas. modificam-se. Uma cadeira desenhada por famoso designer. objetos lançados pelo mercado podem nos servir para uso não previsto pelo mercado (GARCIA. portanto. se eles alteram sua inscrição no circuito do consumo. por exemplo. A interdisciplinaridade. Dessa maneira. que se realiza nas decisões e intervenções cotidianas. Eles não se inscrevem apenas numa série produtiva e repetitiva que os agrega segundo a dinâmica do sistema capitalista. abrimo-nos ao encontro com o imponderável e recolhemos desse encontro o efeito sujeito que se busca ali produzir. que perde sua trança de assento. Nesse sentido.

vão tornando outros lances impossíveis de serem realizados.e ao desejo de absorvê-lo todo. pensa a estrutura da linguagem. que é por estrutura. Lacan. então. tanto quanto as palavras.vai destacando esse campo de impossibilidade. Nesse ponto de seu ensino. pouco a pouco. ditas científicas. Quando se fala de falta. de certa maneira. Os conceitos. ou o inconsciente estruturado como linguagem. Dá-se. mas antes como elemento que agencia novos caminhos. 2002). Assim. Lacan começa a pensar em furos. O Nome-do-Pai é o responsável pela inscrição desse ponto zero de significação. 1957). Quando a psicanálise se faz parceira de outros saberes. Lacan . dimensão que comporta.a ficção que inventamos como tela para ler o mundo. um quantum de ficção . inapreensível (LACAN. Na medida em que avança em seu ensino. lidando exatamente com a permutação dos elementos na estrutura a partir de uma falta central que permite o acionamento da língua. Pode-se faltar.assim como aconteceu com Freud . espaço vazio que permite à linguagem se ordenar e à cultura se ordenar (LACAN. é necessário retirar uma peça para que o jogo possa funcionar em suas jogadas possíveis que. ela parte da certeza dessa impossível apreensão toda. Como no jogo do “Resta Um”. aproximarmo-nos da estrutura da verdade exige. O saber das disciplinas. sabê-lo todo. na década de 50. ali onde pensava em falta. utilizados para ler a realidade factual e domesticar o comichão (pulsão) que anima a cada um. A falta implica uma ausência que se inscreve num lugar. há a referência a lugares. tornando a convivência entre os homens possível. É porque há um ponto que não apreendemos que produzimos um saber sempre parcial sobre ele. sempre. mas há sempre termos que venham ali se . Ele chama essa dimensão da realidade de real. 2011). firmando assim um campo de possibilidades e outro de impossibilidades. não como elemento que faz parar. são aparatos que criamos e com os quais pactuamos. conta de que todo o aparato de saber que construímos busca dar conta dessa verdade real de nosso ser. não foge a essa lógica. o dado bruto (MILLER.

verificamos que. representa. ao contrário. evidencia o suplemento inventado pelo sujeito para compor a realidade. a do furo. opera com outras figuras geométricas que suplantam a geometria clássica. A mulher encarna. da ordem da combinatória. p. 2002. 1972-73. O todo é exatamente a figura que o círculo. que tem um certo valor bruto. 10). p.. então. o imaginário ou aquilo que é representado enquanto imagem. na Filosofia Clássica. sempre psíquica. de cadeia de significantes. Passando para essa outra topologia. operando com topologia das superfícies e dos nós para pensar o sujeito desejante. destacando a impossibilidade da complementaridade ou. a função fálica. "Por ser não-toda. ao atravessarem um sobre o outro. a inexistência da relação sexual. 99). por seu turno. de causa e de resto. excedente. de metáfora. aonde é que estaríamos! Recairíamos no todo" (LACAN. Daí a falta ser coerente com a idéia de combinatória e de permutação. um gozo suplementar. o efeito seria um furo central em cada um dos registros. A psicanálise. em relação ao que designa de gozo. ela ganha dupla função. Na medida em que essa falta se formaliza e ganha o nome de objeto a. em outros termos. [.. e o simbólico ou o que é estruturado e articulado como linguagem (MILLER. Lacan concebia a realidade como o resultado da amarração entre três registros: o real ou aquilo que é da ordem do dado. ela [mulher] tem.] eu disse suplementar. O furo seria o efeito da ação de um registro sobre o outro. um furo. essa dimensão. A não relação sexual implica. ela comporta o desaparecimento da ordem dos lugares.substituir. de linearidade. Se tivesse dito complementar. Nessas . em seu gozo suplementar. Como não funcionam dentro da mesma lógica.

p. nessa operação. . Diante dessa perspectiva lacaniana. seja no toro. seu lugar no centro do nó borromeano. apostamos não na complementação entre os saberes. Assim.figuras. por seu turno. transestrutural. com seu saber. medicina. com o fora do corpo que o falo permite organizar no fundamento do laço social e com o fora da linguagem que o real veicula como substrato sobre o qual a linguagem organizará um campo possível de convivência entre os homens. a partir do furo de qualquer saber. enfermagem. implica o efeito do atravessamento de um registro no outro. o valor do furo reinscreve a falta na estrutura. sustentado pela não-relação sexual. O objeto a ganha. Antes constatam. ao que resta da forma como a amarração do nó pode se escrever. não impede que uma práxis se estabeleça entre várias disciplinas. a partir de uma ética que suporta esse furo central. Seria uma espécie de transdisciplinaridade indisciplinada. cernido (ou currado) pelo atravessamento de um registro sobre o outro. Assim. psicanálise. 118). o que realizamos na prática feita por vários em Saúde Mental. a torção. Há um impossibilidade de qualquer saber em apreender a realidade toda. assistência social. Daí poderem inventar saídas. então. o furo é posição própria ao resto. o reviramento ou o furo implicam uma outra forma de abordar o falasser e sua presença no mundo. eventualmente pouco ortodoxas ou tradicionais. Essa passagem desloca a falta para o furo que. não se degladiam em campo. transformando-os. para os casos atendidos. 1975-76/2005. Como no nó borromeano. Assim. seja no nó borromeano. os limites de sua própria disciplina (e das demais) em responder pelo que é o essencialmente humano. entendemos a interdisciplinaridade na prática feita por vários como a incidência de uma disciplina sobre a outra. Com suplementos mais que com complementos. terapia ocupacional. “É porquanto o sinthoma faz um falso-furo com o simbólico que há uma práxis qualquer” (LACAN. saúde pública. contamos. Esse efeito de furo. mas nas intervenções suplementares que se estabelecem de uns sobre os outros.

vai matar”. A contribuição da psicanálise à coisa pública é exatamente a de mostrar que o gozo não se estanca. anda”. com seu ponto de impossibilidade. me desculpe”. você quer almoçar?” “hein?” “Você quer almoçar?” “Claro!” “Então me dá a faca pra eu cortar seu bife. sabemos também. que há 20 anos atrás havia esfaqueado a noiva. “Tá aqui. Encontrarmos formas de suportar o que faz exceção seria... aprendemos a fazer assim. Cada saber buscava uma solução em seu campo quando Dona Aparecida atravessou todos eles e os atou. enquanto Dona Aparecida servia o almoço. a partir do sintoma de cada um. era hoje um senhor magrinho. da civilização. brigando com usuários. Dona Aparecida. psicanálise. 3. Dona Aparecida. Sabemos que o desejo do mestre. fraquinho e muito doido. Até certo dia em que entra enlouquecido na cozinha e pega uma faca. que a psicanálise sabe que a falha é irredutível. enfermagem. Retomo. sem falhas. dizendo que “vai matar. que o gozo não se erradica e que a singularidade não faz norma. ainda lia Gilson como o assassino. hoje. na soleira da porta da cozinha. ao que ele respondia de pronto. batendo nas estagiárias. O CAPS. Gilson. uma das maneiras de contribuir com o pacto civilizatório. exemplifica essa interdisciplinaridade ou transdisciplinaridade em ato. Resgatar a dimensão subjetiva presente nas singulares modalidades de desinserção e as vias que permitem. tensos. onde iniciei minha prática em Saúde Mental. na figura de seus diferentes saberes: psiquiatria.. ameaçando funcionários. profanando e realizando em ato o corte que resolveu a tensa situação. Os saberes. cozinheira de nosso CAPS em Juiz de Fora. mas pode se tornar possível e domesticado via sintoma. e os demais usuários almoçavam tranquilamente na sala ao lado. Por outro lado.Na clínica com as psicoses. desde o texto sobre o mal-estar de Freud (1929). retomar sua inscrição na . como terceiro aspecto. é o de que tudo funcione por homogeneização. a desinserção. “Gilson. se postam lado a lado e de pé.

uma desinserção originária. p. Ele é a conseqüência lógica e estrutural da constituição do sujeito. É sobre o apagamento desse traço que. o sujeito poderá falar de si. em psicanálise. A “exclusão” ou desinserção. a saberfazer com isso (GUERRA e GENEROSO. ponto a partir do qual inconsciente e desejo se estruturam. fato é que o faz às custas do sintoma. contra a idéia de precariedades de diferentes ordens por parte dos sujeitos em lidar com o mal-estar na civilização. Há. “O sujeito está. Jacques-Alain Miller (2004-2005). introduz o sintoma como real no vínculo social. no seu estilo. Nesse sentido. Ela denuncia uma perda originária. do que perde de gozo e de sentido ao se inscrever na linguagem. 1998. que comporta a inscrição do significante no sujeito. 2003). é menos a proliferação do mal-estar que seu tratamento possível no laço civilizatório. p. depois dupla perda. por sua vez. Nesse sentido. ela é o preço da entrada na civilização. é o que há de mais apagado do primeiro encontro com o objeto. O que estamos chamando de desinserção não equivale à exclusão (social). seria sua pragmática (MILLER. assim. 58). como condição para nomeação e assunção do sujeito ao campo do Outro ou da linguagem. do vazio que dela se instala. nessa perspectiva. é lógica e necessária para que. nem à desadaptação (moral). no nascimento do sujeito enquanto ser de linguagem. o sintoma possa advir como amarração possível do sujeito ao campo do Outro. quanto mais faça obstáculo à existência subjetiva e ao . estrutural. 822-23). Se o sujeito “encontra sua morada num ponto situado no Outro” (LACAN. a psicanálise opera de forma a que os sujeitos aprendam. do ser e do sentido. e não um mal a ser extirpado. Essa primeira identificação. E essa perda nunca se recupera.trama social. trabalhando sobre o final do ensino de Lacan. em uma exclusão interna a seu objeto” (LACAN. 2011). O sintoma. É o real em jogo no processo civilizatório. Primeiro temos corpo e nome disjuntos. 1962-63. permitindo tratar a desinserção como um dos nomes do real de nossa época. se permitem dizê-lo.

O psicótico é o sujeito. é efeito de um posicionamento de rejeição radical do sujeito diante da linguagem. . fazendo-se paradigma de seus modos de solução. Sob a ótica da psicanálise. singularíssima.desejo. ou interseção. da escrita ou de outro recurso. Em sua ótica. A solução de cada um pode ser mais ou menos típica. Nesse sentido. a psicanálise não pode determinar sua direção e seu fim em termos de adaptação da singularidade às normas. ao contrário. termo técnico que designa a loucura. resta a cada um inventar uma solução particular. entre sujeito e Outro. Ou pode. busca conseguir que cada sujeito encontre um certo acordo de convivência consigo mesmo e com a civilização. o que se denomina castração. mais insuportável será um sintoma – motivo pelo qual ele se torna um elemento central e operatório no trato com a desinserção. leva ao extremo a experiência da desinserção. seja através do delírio. ao contrário. mais ou menos apoiada sobre a tradição e as regras comuns. que se apóie sobre seu sintoma. Ele nos mostra o uso possível do sintoma na radicalidade da vivência do desamparo em relação ao Outro. 2006). contando com a dimensão do inconsciente. o fora-da-norma não se apresenta como “desadaptação” ou “desvio”. por excelência. Se não há satisfação plena e se não há norma universal. Assim. a saber-fazer com seu sintoma. a desinserção se coloca para todos. No uma-um. é acolhido e ganha seu valor central na forma de resistência. da arte. diante da impossível síntese. invenção subjetiva. em seu percurso. Ela aborda. a impotência do sujeito em alcançar a satisfação plena. que aprendeu a lidar. E. portanto. podem-se abrir novas vias que permitam aos sujeitos extrair o necessário saber-fazer com seu sintoma para ultrapassar os obstáculos e as conseqüências subjetivas da desinserção. Ao contrário. Assim. A psicose. a psicanálise reinterpreta a experiência da loucura fora do eixo Razão-Desrazão. desejar realçar a ruptura ou uma certa clandestinidade (LAURENT.

sem contar a farmácia na qual se maquia. trago Maria das Flores. Não há o que adaptar ou incluir. algumas vezes ajuda com a limpeza em troca de abrigo ou comida. Além disso. Além disso. seu estilo ganha um valor central na clínica. mas antes o que suportar desse embaraço da experiência da loucura com a civilização. a singularidade de sua história e da lógica que constrói em decorrência dessa posição face à linguagem demarcam a estrutura de sua posição subjetiva e de seu pacto com a civilização.O tratamento construído pelo psicótico para tratar dessa disjunção com o corpo e com o Outro é a direção seguida para lidar com sua desinserção originária. visita conosco nada menos que dez referências: barracões na Estação da cidade. ao apresentar seu espaço de moradia. Com ela. ao se referir a uma internação hospitalar por conta de uma pneumonia. janelas e seus cômodos. ela diz realizar o roteiro de visita às suas “moradias” todos os dias. mas nunca se prostituiu. portas. E. relata que ali se “hospedou”. aprendemos que uma casa pode ser habitada de maneiras muito diferentes daquelas dispostas no espaço arquitetônico tradicional das moradias com paredes. três casas de amigos e uma de familiar (irmã). Quando hipotetizamos que apropriar-se de uma casa perfaz uma ação sócio-simbólica na qualidade de reparação ou invenção do ponto de ruptura do sujeito com o Outro ou com o corpo. Para ilustrar a desinserção. correndo risco de vida e presenciando tiroteios. Nos bares. além de ruelas das duas favelas contíguas por onde circula. . Já dormiu muitas vezes na rua com mendigos ou nóias. havendo a preferência pelas casas nas favelas – salvo a da irmã. um hospital. estabelecida a cada caso. Ela dorme a cada dia em um desses espaços. usuária de um serviço de Santo André (SP). como lhe convidaram a fazer alguns dos donos desses bares. quatro bares. Maria vive na cidade de Santo André-SP e. Com isso. com quem não conversa mais. fazemo-lo em função de situações inusitadas como a que ela nos fez conhecer.

pois não quer ter que dar nada em troca. uma espécie de intimidade bem particular. nem me lembro. rouba. Revejamos sua estratégia de ocupação. não estabelece diálogos ou um laço de afeto. por isso. M. sem avisar a . pois. Poderíamos. não se fixa. Esse laço aparentemente bambo. verificamos que ela forja. a sua maneira.“Estava hospedada por alguns dias. mas era criança e. Dorme. construída por Maria. A cada casa. perde a paciência com ela. apenas aceita o que lhe dão. em sua posição na relação com o Outro. mas nunca todas. Fiquei amiga de todo mundo. De fato. sua dispersão. A mãe sempre foi assim. é mais branca que a mãe e as irmãs. Como resposta. Na falta de um espaço simbólico no campo do Outro no qual pudesse se alojar. Foi casada e teve um filho. Não sou irmã de sangue das minhas irmãs. Ela atrapalha. Entretanto. das três por onde circula. frágil. não tem notícias: eu não tenho pai. solto. parece sinalizar para uma resposta possível. Eu o vi uma vez. Sua resposta é a errância em relação ao Outro. Não as recolhe. não fala direito. ela deixa parte das. perdia um vínculo com as coisas do mundo. observamo-la mais de perto. nos parece. com quem permanece até hoje. segundo ela. nem com uma irmã. dizer que ela não consegue habitar. Maria responde com sua falta de lugar. mas ainda se relaciona com a mãe. me trataram muito bem”. Ninguém consegue conversar bem com ela. um ponto. A cada relacionamento posterior. Meu pai não ficou com a minha mãe. porém. ela tem problemas. com quem não se parece muito. O Outro a espolia. tendo perdido sua guarda para o pai do menino. as suas roupas. Do pai. mesmo com essa. tendo seu apartamento sido ocupado pelo último namorado. A cada endereço. não a deseja. diante dos modelos de moradia que conhecemos. Precisava me tratar de uma pneumonia e fiquei hospedada. não pede nada. ela não fala nem com um irmão. Se. Maria não se compromete com ninguém. com esparsos pontos de fixação. no improviso. Quanto à relação com a família. uma proteção ao olhar do Outro.

Na época de minha prática e pesquisa sobre as oficinas. política e social. 4. Se lhe fecham a porta. ela se vira. aquela eleita e amada por ela. o solo. fixa seus pontos de moradia através das roupas e outros pertences que deixa ali sob os cuidados do outro. a partir de seus desacertos pela via da normalidade moral. parti das seguintes questões que. porém. essas pessoas deixam o campo das confiáveis e passam para o outro lado. ela tem criado um espaço de intimidade resguardada do Outro. resguardados. ainda animam o trabalho de oficineiros em Saúde mental: . E avanço tentando pensar os diferentes registros da realidade psíquica: real. como aconteceu com uma irmã e uma das donas dessas três casas. E tem se virado muito bem com ele a seu modo. Daí em diante. simbólico e imaginário. a partir da relação que estabelece com elas. acredito. tornando-se hóspede do outro. enquanto instrumento de intervenção clínica. espaço de “exclusão interna”. E. das espoliadoras. produzindo seus efeitos diretamente recolhidos pelos oficineiros e técnicos da Saúde Mental. Não é mais sua família de coração. para um trabalho que suporta a singularidade do cada um no contexto do “para todos” das políticas públicas. Nesse quarto e último aspecto. retomo a discussão com a qual iniciei a abordagem do tema ao descobrir uma certa “densidade simbólica diferenciada” no trabalho das oficinas.ninguém onde se encontra. Maria inventa um jeito muito próprio de habitar seus espaços.. E discuto finalmente as oficinas e seu potencial de mobilização subjetiva. Até então.. nessa costura em que a desinserção se apresenta como elemento operatório e a interdisciplinaridade em ato na prática feita por vários. Parece-nos que. O saber-fazer com a habitação que Maria inventa orienta-se pelas pessoas e espaços que elege.

nem sempre encontra respaldo no universo simbólico que rege o funcionamento das normas sociais.1) Como podíamos articular a demanda “oficial” do serviço público por ocupação através das oficinas com a demanda pessoal . radica numa topologia marcada pela torção. Pois bem. recolhida de uma oficineira: “aqui encontramos uma certa ‘densidade simbólica diferenciada’ ”.que nem sempre existe . o fato de se inscrever na Cultura sem partilhar de sua ordem formal comungada pelos demais) com a demanda assistencial pela normatização de seu comportamento. menos que pela intersecção. seja pela via do trabalho. Por que. Somos todos desinseridos. Do que ela estaria falando? Partamos da lógica que articula a presença da . onde situar as oficinas? A estrutura dessa relação. exclusão ou incompatibilidade. da atividade. então. que sua relação com o trabalho.de cada paciente por atividades? 2) Como recolher no estilo e no texto do sujeito elementos para pensar sua inserção em uma oficina? 3) Vimos. o que se entende por ‘trabalho’ de uma oficina? O que faz uma oficina funcionar para alguns de seus participantes? 7) Como compatibilizar a especificidade da inscrição do louco no simbólico (ou seja. muitas vezes desvio do uso da atividade? 8) Entre uma intencionalidade sócio-política e outra clínica. me parece. tentar inseri-lo nesse campo normativo. com a produção e com a própria sociabilidade. em particular no caso do psicótico. nosso achado se resumiu em uma expressão. da arte ou da reabilitação social? 4) Como inserir e suportar a diferença e a singularidade no campo social? 5) Em que as oficinas nos serviços substitutivos difeririam das antigas experiências artísticas e das Terapêuticas Ocupacionais que há tempos habitavam os hospícios? 6) E mais.

. estabelecendo um ponto comum para o circuito de trocas sócio-simbólicas. amparado pelo imaginário. de trocas. extraindo dele. Estamos falando do excesso do próprio psicótico que não cessa de produzir psiquicamente na tentativa de fazer uma inscrição no Outro da Cultura. dos serviços abertos. possui uma materialidade concreta. As oficinas são construídas a partir do chamado à participação e à produção na cultura. de trabalho. Ao contrário. está referido ao objeto perdido que funda a ‘humanidade’ do sujeito. caracteriza-se justamente por não se inscrever nessa norma simbólica contando com aqueles recursos que a normatizam e que permitem a equivalência e a inscrição num registro sexual. maneira que civiliza o gozo fazendo-o suportável” (SOLER.psicose em relação à linguagem. Possuem um viés clínico. Seu operador central seria uma certa densidade simbólica diferenciada. entendida enquanto densidade que particulariza e diferencia o uso da atividade nas oficinas das demais intervenções. abrindo para o portador de sofrimento mental a possibilidade de reinscrever-se nas relações pessoais. Esse objeto-produto possui ao menos quatro características que o especificam simbolicamente: • • • 1. neuróticos. há uma materialidade do produto ao final. o psicótico não se encontra submetido às mesmas normas de funcionamento da linguagem que a maioria de nós. 2. 1998). do cotidiano. face ao tratamento possível do real. por conta de sua constituição. na qual a dialética simbólica é substituída pela literalidade das coisas (LACAN. Mesmo inserido na Cultura. um viés sociabilizante e um viés político ao mesmo tempo. O psicótico constrói uma via particular para lidar com a Linguagem e a Cultura. o seu lugar no circuito simbólico. é endereçado ao Outro social. na Linguagem e no cotidiano. sobre um fundo de linguagem. 1990: 16). de circulação. enfim. O trabalho aí seria uma “maneira de operar conversões. coletivas ou não. 3. qual seja. num trabalho incessante de tentar por ordem ao caos interno que nele se instala.

talvez o psicótico estivesse extraindo do ventre do Outro objetos reais que. apresenta-se no circuito de trocas com valor social... enquanto ao falar. de outro. tentava recolher dele insígnias para se inscrever no campo do Outro.. Filho de um pai “cigano”. Em outras palavras. que se mudava constantemente com a família. objeto-resto. por exemplo.) delirava com as palavras. Vivia. A face do objeto.talvez lhe conferisse uma densidade simbólica sobre sua corporalidade real. recolhendo palavras dos jornais em que o pai trazia compras embrulhadas. concernente ao equivalente do produto buscado no circuito das trocas sociais. seria regida pela tensão entre clínica e política. Assim. no aparelho psíquico. com materialidade social e econômica. está com 54 anos. excertos de uma experiência de oficina em Saúde Mental. via oficineiro ou qualquer outra pessoa ou instituição. fala que: “A voz simplesmente não saía (.. o psicótico de um lado produziria um esvaziamento no Outro absoluto que o aterroriza. econômico e simbólico. portanto. Aos 26 anos. hoje. ao mesmo tempo. ao extrair da própria realidade um produto concreto inédito. produtor de um objeto com consistência simbólica e. Sua ética. Para mostrar essa função.um objeto inédito . desde sempre perdido.• 4. objeto a.) perdi a voz (. eu não sabia escolher o que eu ia falar”. Com essa operação. em relação de radical exterioridade com a linguagem. em sua juventude. o neurótico produz mais de gozo ou objeto a. ao mesmo tempo. ou seja. poderia deixar o lugar de objeto de seu gozo para ocupar o lugar de autor. permitindo-lhe produzir um resto nessa operação . ao criar coisas concretas. quando sua psicose se desencadeia. . endereçado ao social. fixando-o numa imagem. desloca ou separa o psicótico da posição de objeto do gozo do Outro ao criar um objeto ex-nihilo. seria o interior-exterior (ex-timo) em relação a sua outra face. Vitor. trazemos Victor e nossa rotina de trabalho com seus impasses sempre aparentemente insuperáveis. e. entre objeto e produto.

Informeação e Atualidades. na errância. Ao sair. totalmente estrangeira. sua desinserção. Em torno dos 40 anos comete um homicídio contra o ex-cunhado. de tratar. escrevendo para o jornal do CAPS. vive na rua. mesmo sem saber seu significado. pois não sabe se ela está certa. sendo sempre permeadas pela escrita. É quando começa a participar de uma oficina. É internado em hospital psiquiátrico e cumpre três anos de medida de segurança. Escreve as palavras ou frases que se fixam em sua mente e também os conteúdos das vozes que ouve. bem como se as pessoas poderão entender o sentido dela. ora conserva grande parte da escrita que vem dessa exterioridade que lhe é. ele já era encantado pelas letras e as copiava de forma a desenhá-las no papel. enfim. para Vitor. A primeira palavra que aprende a escrever sozinho aos 4 anos de idade: “casa”. sendo tal codinome sugerido pelo coordenador da oficina de Jornal do CAPS. . insere-se na rede de serviços substitutivos ao manicômio. ele a escreve na parede onde morava e é obrigado a apagá-la pela avó brava. Ele ganhou o codinome Voa-Voa1 com o qual assina seus escritos. uma das funções do CAPS é ser um lugar no qual pode publicar seus escritos. Mas sempre retorna à família. Antes mesmo de saber ler e escrever. de localizar-se simbolicamente no campo do Outro. Ele via as propagandas afixadas nas ruas e queria saber o que elas diziam. Veremos que suas tentativas de tratamento para as rupturas com a realidade foram muitas. vemos seu movimento na tentativa de se alojar na linguagem. juntamente com a namorada. tal como ao dar os jornais para a irmã que os coleciona. a princípio. e entra no mundo das drogas quando se afasta do pai. podendo endereçá-los aos outros. que são endereçados a três seções do jornal: Loucomotivo. Ora rasga.Ele demonstra uma relação muito própria com a palavra desde criança. morando na capital mineira há nove anos. Podemos dizer que. Do pai “cigano” ao movimento de “fincar raízes”. 1 VOA-VOA: refere-se às iniciais do nome de Vitor de Oliveira Alves (pseudônimo adotado no texto para evitar sua identificação). Foge várias vezes de casa. onde faz tratamento desde 2006.

cuja especificidade situase exatamente no fato de não vir sozinha. um espaço no campo público. um elemento de apaziguamento do gozo. permitindo a . temos aqui a tal ‘densidade simbólica diferenciada’. a nosso ver. culturalmente. com seu codinome. que o avassala. cuja imagem costura. cuja assinatura deixa sua marca de autoria no Outro. tratando o real indomesticado de Vitor. Além disso. é um sujeito que trabalha para lidar com a dispersão do gozo. esse lugar do louco como elemento desqualificado. inscrevendo-se na Linguagem ou inventando uma possibilidade de circunscrição de gozo. é um batalhador. com as dificuldades pulsionais. fazendo às vezes de uma vetorialização de sua posição subjetiva. “Voa-Voa” condensa. Com a atividade de produção nas oficinas. As oficinas.a um lugar social. 5. então. Essa prática possibilita desfazer politicamente. o psicótico pode produzir sentidos históricos a sua produção a partir de fragmentos de coisas e imagens. mas antes incluir os outros dois registros da realidade: o real e o imaginário. Como se vê. pelo simbólico do nome. dentro dessa formulação. reside no fato de permitir uma costura entre o simbólico do codinome.Além disso. tornar-se aquele que escreve para o jornal do CAPS o aloca a um semblante. nessa nomeação Voa-Voa. Trata-se de uma clínica positiva. A diferença dessa densidade simbólica. destaca-se. um tratamento do real. o semblante do escritor e o endereçamento do produto-objeto escrito no campo do Outro. aos moldes de uma metáfora. nomeia sua ausência de “raízes”. um nome próprio. Trata-se de elementos fundamentais para o apaziguamento e para a fixação desse sujeito em um ponto do Outro. configuram-se enquanto formas de cifrar o gozo ou significantizar o real. atividades de circunscrição de gozo. Ao mesmo tempo. Concluindo: A inscrição cultural dos psicóticos sempre foi negativa. O louco.

um laço para que ele não seja deixado cair. sobretudo. o ponto mínimo ou projeto comum que nos articula a todos causados e aprendizes da clínica com as psicoses. a falta central na estrutura do saber na práxis que essa ética política engendra e sustenta. no entanto. .construção de uma outra superfície para localização desse gozo. a desinserção ou falta de cabimento de cada um e. orientada por uma ética que suporta o mal-estar de todos. poderíamos assim resumi-lo: O minimal entre nós seria o pacto em torno de uma política dos corpos. É uma separação para que o sujeito possa se inscrever no laço social e. finalmente. Retomando. dos objetos e das palavras.

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