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Projecto de Reestruturação da RTP

Projecto de Reestruturação da RTP

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Trabalho de Direito Administrativo I - Faculdade de Direito de Lisboa

Justificação Jurídica da Manutenção do actual modelo da RTP assim como proposta de reestruturação a titulo exemplificativo.
Trabalho de Direito Administrativo I - Faculdade de Direito de Lisboa

Justificação Jurídica da Manutenção do actual modelo da RTP assim como proposta de reestruturação a titulo exemplificativo.

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Published by: Jose Lencastre Torres Pouzada on Dec 18, 2012
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Projecto de Reestruturaçao da RTP

Direito Administrativo I Professor Doutor Vasco Pereira da Silva Dr. Domingo Soares Farinho 2º Ano Turma A Subturma 2

Realizado por: Ana Laura Dias, Inês Mourão, José Pouzada, Lara Aquino, Veríssimo Massa

Faculdade de Direito de Lisboa Ano Lectivo 2012/2013

Direito Administrativo I

Introdução e Fundamentação
O presente documento reúne uma análise jurídica sobre o futuro da Rádio Televisão Portuguesa, S.A., adiante designada por RTP. Para a produção deste trabalho atendeuse ao cenário de crise económica que o país atravessa, bem como as realidades jurídicas existentes tanto no grupo RTP como as normas que derivam da Constituição da República Portuguesa. Para este efeito recorremos à Lei n.º8/20071,Estatuto da RTP que a estabelece como Sociedade Anónima de capitais exclusivamente públicos, no seu artigo 1º, número 3. Compreendendo perfeitamente as realidades económicas existentes mas respeitando os limites impostos pela Constituição assim como os demais princípios de um Estado democrático e de Direito optamos por defender a manutenção do actual modelo seguido de uma proposta da sua reestruturação. - Inconstitucionalidade Material da Privatização da RTP O artigo 9º da Constituição da República Portuguesa estabelece como tarefas fundamentais do Estado, nas alíneas b) e d) garantir os direitos e liberdades fundamentais, defender a democracia política, assegurar e incentivar a participação democrática dos cidadãos na resolução dos problemas. A tarefa fundamental enunciada na alínea b) remete directamente para o artigo 38º, número 5, da Constituição que diz especificamente que o Estado assegura a existência e o funcionamento de um serviço público de rádio e de televisão. Seria susceptível de argumentação que embora a presente norma estabeleça a simples privatização do único serviço público de rádio e de televisão como inconstitucional, poderia no entanto assegurar o disposto através de um contrato de concessão. Esta hipótese é no entanto afastada pela clara menção ao sector público, pelo número 6 do mesmo artigo que nos envia para o artigo 82º, número 2, da Constituição que estatui que o sector público é constituído pelos meios de produção cuja propriedade e gestão pertence ao Estado ou a outras entidades públicas. No que diz respeito a alínea d) do artigo 9º da Constituição é preciso manifestar a importância que, dado o valor dos meios de comunicação para a difusão de factos e opiniões, um canal público tem na manutenção da democracia. É conhecimento de todos a possibilidade de manipulação destes meios, muitas vezes mesmo por vias legítimas. Um serviço público de televisão e de rádio tem precisamente o objectivo de impedir que tal aconteça dando sempre aos portuguese a possibilidade de serem informados devidamente, de modo a assegurar uma democracia livre e independente. Só com cidadãos informados e conscientes pode uma democracia funcionar e um
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“Estatuto da RTP” - Lei n.º8/2007 no Anexo I

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Estado ser intitulado Estado de Direito. As crises económicas testam os verdadeiros alicerces do Estado e mostram os seus limites, assim como a sua capacidade de resposta, desfocando muitas vezes as linhas que estamos dispostos a ultrapassar para sobrevivermos enquanto Estado independente. Numa a altura em que ultrapassamos já várias que não queríamos nem pensávamos ultrapassar, mesmo talvez que justificadamente, pensamos que aquela que nos deve ser intransponível é a da via democrática. Só a democracia transparente e informada pode pretender manter permanentemente todos os outros direitos fundamentais do cidadão. É a base do nosso sistema e apenas daí podemos ter esperança de edificar. Se destruirmos a possibilidade de um serviço de rádio e televisão publico, independente das influências particulares, se o Estado não garantir um serviço de informação factual e objectiva, então a democracia será esvaziada de todo conteúdo e perderá o seu significado. - Inviabilidade do modelo de «Golden Share» Quanto ao modelo alternativo de privatização do grupo RTP S.A. com a manutenção por parte do Estado da chamada «golden share» é de referir o Acórdão relativo ao processo C-171/08 do Tribunal de Justiça Europeu2, que opôs a Comissão Europeia contra a República Portuguesa e decidiu que, ao manter na Portugal Telecom SGPS SA direitos especiais como os previstos nos estatutos da referida sociedade a favor do Estado e de outras entidades públicas, atribuídos em conexão com acções privilegiadas («golden shares») do Estado na Portugal Telecom SGPS SA, a República Portuguesa não cumpriu as obrigações que lhe incumbem por força do artigo 56.° CE. Assim este modelo não pode ser adoptado pelo Estado Português sem incorrer contra as disposições do artigo 56º do Tratado de Roma. Em Portugal segundo o número 4 do artigo 8º da Constituição, são aplicáveis na ordem interna tanto o Tratado de Roma ao qual aderiu, como o Acórdão referido. - Ajustamento do Orçamento de Estado 20133 como possibilidade financeira de reestruturar a RTP. O orçamento previsto para 2013 para a RTP S.A. é de cerca de 273 milhões de euros4. Podemos observar que, de acordo com o relatório5 do mesmo orçamento, com a reestruturação que a RTP sofreu uma diminuição significativa de 38 milhões de euros nas indemnizações compensatórias. É ainda de reparar a redução de despesa com aquisição de bens de investimento no valor 4,8 milhões de euros. Relativamente às entidades públicas reestruturadas, na qual a RTP se insere, verifica-se uma redução da

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Acórdão C-171/08 do Tribunal de Justiça Europeu no Anexo II Orçamento de Estado 2013 – Anexo III 4 272 600 000€ - Mapa V do Orçamento de Estado de 2013 no Anexo IV 5 Pág. 56,57 e 58 do Relatório do Orçamento de Estado.

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despesa efectiva de cerca de 5,5% ou seja menos 17,8 milhões de euros devido ao processo de reestruturação que ainda se encontra a decorrer. - Critério do Interesse Público Para a determinação dos conteúdos e objectivos dos canais e estações da RTP adoptamos um critério estrito de interesse público. Uma vez que este é um conceito indeterminado será concretamente estipulado numa possível revisão dos estatutos. O interesse público deve ser prosseguido sem esquecer os direitos e interesses legítimos dos cidadãos. A RTP como será abordado mais a frente irá passar a prosseguir apenas fins programáticos de âmbito nacional, cultural, informativo e recreativo conforme o número 2 da cláusula 2ª do Contrato de Concessão do Serviço Público6, mas interpretado num sentido mais limitado. Este critério irá sobrepor-se sempre à procura das audiências. Acreditamos que o serviço de rádio e de televisão público deve existir para prosseguir um fim específico, podendo escolher que programas e que canais manter com base numa distinção entre que satisfazem o interesse público e os que nele não se encaixam. Esta distinção não só permite uma melhor qualidade do serviço público como também muitas vezes uma poupança considerável com a extinção de programas que não prosseguem este fim.

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- Canais a extinguir: Em função de uma reestruturação eficiente, afigura-se necessário proceder à extinção de determinados canais televisivos e reprogramação de grelha dos remanescentes. Desta forma, somos da opinião que deviam ser extintos a RTP Madeira, RTP Açores, RTP África, RTP Informação e RTP Mobile, permanecendo assim activos, a RTP 1, RTP 2, RTP Memória e RTP Internacional. Os motivos que levam à extinção da RTP Madeira e RTP Açores, prendem-se essencialmente com a redução de custo. Estes canais não se justificam de incluir num serviço público de âmbito nacional visto que o interesse assegurado por ambos é regional. Deste modo, propomos que se encarreguem as Regiões Autónomas, nos seus respectivos orçamentos, dos custos associados à manutenção dos respectivos canais. A fusão da RTP África com a RTP Internacional depreende-se com os objectivos consagrados no novo plano da RTP Internacional abrangerem, de forma a economizar os recursos, também a informação do continente Africano. Esta fusão permite em concreto concentrar os interesses inerentes às duas estações numa só, evitando, deste

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Contrato de Concessão no Anexo V Pela própria natureza do trabalho apenas foram sujeitos a análise os canais televisivos da RTP

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modo, os custos de manutenção de ambas sem ter que prescindir da utilidade de cada uma. A extinção da RTP Mobile surge por ser um meio supérfluo de acesso à programação da RTP1. Não nos parece essencial a manutenção de um canal que gera custos elevados tratando-se de um acesso de luxo, através dos novos meios tecnológicos, ao principal canal estatal. Assim sendo, e numa perspectiva de optimização de recursos disponíveis, propomos a extinção deste serviço. - Canais a conservar RTP1: Os motivos pelos quais consideramos imperativa a manutenção da RTP1 surgem da necessidade de manter a própria estrutura da RTP. A sua importância reside na sua variedade programática e a na qualidade informativa. Sendo um dos canais com mais audiências e tendo conquistado uma posição de confiança na sociedade é a própria marca de toda empresa. Atendendo a primazia do canal esperamos dar-lhe um foco na área da informação, transformando-o num canal primeiramente noticioso, destacando os objectivos de imparcialidade e veracidade em toda a informação. RTP HD: Somos da opinião que se deve manter a RTP HD uma vez que não se trata de um canal autónomo, ou seja, a programação é igual à programação da RTP 1 mas em Alta Definição. Como os equipamentos necessários a esse serviço já foram adquiridos pela empresa significa que não haverá custos acrescidos com o material que é a maior despesa da RTP HD. RTP2: Este canal visa acima de tudo um interesse público fundamental, a promoção da cultura nacional. Estamos perante um canal aclamado entre os portugueses como o primeiro na difusão da sua cultura, história, costumes e turismo. É um dos canais que se pode responsabilizar por programas de verdadeiro desenvolvimento intelectual através de uma programação cuidada e direccionada para a educação nas mais diversas áreas ao contrário dos “chamarizes de audiências” que se observam em outros canais. A defesa da língua e da cultura são pontos indispensáveis para manter uma identidade própria como meio de comunicação complementar à RTP1. A programação criativa e variada advém da divulgação dos melhores conhecimentos sobre o planeta, a civilização e a sua história. RTP Memória: Tem como função prioritária a retransmissão dos programas disponíveis do arquivo de cinco décadas da RTP, muitos deles verdadeiros monumentos da televisão portuguesa. Também dá o seu contributo à reflexão sobre temas da actualidade através de espaços com produção própria. É portanto uma forma de divulgar a cultura histórica não só do país mas igualmente a internacional. Um canal complementar à RTP2 com um foco na saudade dos grandes programas que passaram pela televisão nacional.
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RTP Internacional: Os conteúdos que são transmitidos provêm dos canais nacionais e regionais da RTP, das estações de televisão privadas SIC e TVI e, também da produção própria, em especial, com origem nas comunidades portuguesas. Será então um ponto de partida para a cultura portuguesa chegar às comunidades lusófonas em todo o mundo, sem distinção entre os continentes mas dando especial atenção quando esta for necessária. Este canal procurará legendar os seus programas em inglês de forma a poder abranger uma maior audiência.

Apreciação Final
Pelos fundamentos expostos somos obrigados a concluir que a RTP deve manter um modelo semelhante ao actual com algumas restruturações importantes. Como vimos esta solução é imposta pela própria Constituição e delimitada pela União Europeia. O orçamento deste ano mostra-nos que é exequível tentar reduzir significativamente os custos da empresa mesmo sem as alternativas aqui propostas. Não só é importante para a própria imagem do Estado, como argumentamos ainda ser essencial para o bom funcionamento da Democracia. Citando o Professor Jorge Miranda: “Não há Democracia sem Estado de Direito e também a experiência histórica mostra que não há Estado de Direito sem Democracia”8. Um Estado não se pode assim afirmar de Direito se é susceptível da manipulação explícita do voto, ferramenta mais importante da Democracia, pelo controlo exercido sobre os meios de comunicação social, venha este do próprio Estado ou de entidades privadas. O equilíbrio entre os dois gera uma disposição dos meios de comunicação que julgamos ser a mais propícia ao desenvolvimento de qualquer Democracia e Estado de Direito. Não se julgue no entanto que os argumentos económicos relativos à crise por qual passamos não têm, nem devem ter, lugar nesta discussão. É imperativo a redução das despesas do Estado e por isso compete ao mesmo arranjar soluções alternativas que podem passar pelo projecto que configuramos. A privatização afigura-se inviável em todas as formas sugeridas mas existem outras soluções. Foi a nossa intenção incluir um conjunto de medidas, mesmo que abstractas, que levariam a uma redução significativa da despesa gerada pela RTP. Esta solução não só parece agregar o maior número de vantagens do lado do serviço público como também faz frente ao que é exigido pela restrição económica. O problema que se coloca perante o Governo não é portanto o de optar entre a segurança económica e um direito fundamental social mas sim escolher entre uma solução rápida, sem esforço mas ineficaz e uma solução que tenta assegurar um dos princípios básicos de um Estado de Direito ao mesmo tempo que se ajusta à realidade económica.

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Jorge Miranda in “Entrevista realizada pelo jornal «Estado de Direito»”, Lisboa, Abril de 2010

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