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Havelock Ellis - Psicologia Sexual

Havelock Ellis - Psicologia Sexual

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A BIOLOGIA DO SEXO; O IMPULSO SEXUAL NA JUVENTUDE; DESVIOS SEXUAIS E OS SIMBOLISMOS ERÓTICOS; HOMOSSEXUALIDADE; CASAMENTO; A ARTE DO AMOR
A BIOLOGIA DO SEXO; O IMPULSO SEXUAL NA JUVENTUDE; DESVIOS SEXUAIS E OS SIMBOLISMOS ERÓTICOS; HOMOSSEXUALIDADE; CASAMENTO; A ARTE DO AMOR

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Já foi assinalado que o impulso sexual nas crianças tende a ser mais difuso do que virá a
ser posteriormente nos adultos. Provavelmente, como consequência dessa difusão, ele
não se concentra de maneira precisa nos indivíduos do sexo oposto. Max Dessoir foi ao
ponto de dizer que até à idade de quatorze ou quinze anos, tanto nos meninos como nas
meninas, o instinto sexual é normalmente não diferenciado. Mais recentemente Freud
(seguindo William James e outros) afirmou repetidamente que em todos os indivíduos
jovens há normalmente um traço homossexual. Teoricamente, essa concepção é
perfeitamente correta. Considerando que todo indivíduo contém os germes físicos do
sexo oposto, é razoável admitir que ele contenha também os germes psíquicos, e desde
que na infância seus próprios caracteres sexuais, física e psiquicamente, ainda não estão
desenvolvidos, é de esperar que os caracteres opostos sejam relativamente
pronunciados.

O aparecimento de uma tendência homossexual na vida infantil está de acordo
com as conclusões alcançadas isoladamente pelos fisiologistas. Assim Heape conclui que
os fatos mostram que “Não há tal coisa, ou seja um animal puramente macho, ou um
animal puramente fêmea; ...todos os animais contêm, na mesma proporção, os
elementos de ambos os sexos.” Algumas das razões para esta conclusão são
perfeitamente óbvias e reconhece-se há muito tempo que esta é a explicação mais
razoável da inversão. É perfeitamente compreensível que o elemento sexual latente
venha facilmente à tona na vida infantil, quando o elemento sexual dominante está
muito pouco desenvolvido para poder reprimi-lo. Freud escreveu em 1905: “Até hoje
nunca fiz a psicanálise de um único homem ou uma única mulher, sem ter de levar em

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consideração uma corrente muito ponderável de homossexualidade.” Se podemos
aceitar essa afirmação de um pesquisador tão profundo e experimentado como
verdadeira para os casos mórbidos da psicanálise, deve-se acrescentar que, para pessoas
mais normais (entre estas e aquelas que se tornam pacientes não há um nítido limite de
demarcação), esta corrente também pode estar presente, por leve que seja, e não ser
encontrada depois da adolescência.
A aceitação da corrente homossexual não implica, por conseguinte, a crença em
um estado totalmente indiferenciado do impulso sexual na vida infantil. Em algumas
escolas grandes (principalmente em algumas das grandes Public Schools inglesas), sabe-
se que floresce a homossexualidade, favorecida, parece, por uma espécie de tradição.
Estas, porém, parecem ser exceções. Muitos de nós somos incapazes de recordar, com
base em nossas lembranças da vida escolar e nas primeiras associações, qualquer
evidência clara da existência das atrações homossexuais, sendo as raras atrações
existentes, exclusivamente para o sexo oposto.
Resta como verdadeiro, o fato de que se encontra entre meninos uma certa
inevitabilidade de afeições homossexuais mais ou menos românticas, enquanto as
meninas, com muito mais frequência, cultivam afeições entusiásticas por outras meninas
um tanto mais velhas do que elas próprias e, com muita frequência, por suas
professoras. Contudo, mesmo quando esses sentimentos são retribuídos, e mesmo
quando levam a manifestações e satisfação sexual definidas, não devem ser
considerados, muito apressadamente, como indicadores de vício que exija punição
severa, nem de doença que exija tratamento. Na grande maioria desses casos estamos
diante, simplesmente, de uma fase inevitável da juventude.
Por isso ao lidar com essas manifestações, que são na maioria dos casos
puramente sentimentais e com uma tonalidade sensual apenas vaga, embora tomem às
vezes formas rudes e até cruéis, é importante compreender que provavelmente estamos
na presença da fase inicial de um processamento que pode ser mais ou menos normal.
Muito mal pode ser causado às características nervosas e mentais de um menino, sem
falar na sua reputação futura, pela presunção excessivamente apressada, de que tais
manifestações são doentias ou viciosas. Elas poderão ser controladas adequadamente,
quando houver necessidade absoluta disso, por um professor ou tutor bondoso que, no
decorrer de instruções gerais sobre sexo, incuta no menino o respeito a si próprio e a
atenção ao bem-estar dos outros. Nas meninas essas manifestações fogem a um
tratamento sério, em parte porque são tão comuns, e em parte porque as mulheres,
com mais frequência do que os homens, tendem a encará-las com indulgência, se não,
realmente, a compartilhá-las por vezes.
Contudo, ainda é de considerável importância, distinguir entre essas
manifestações temporárias de homossexualidade e a inversão sexual congênita que,
provavelmente, indica uma tendência permanente dos impulsos e ideais sexuais em todo
o decurso da vida. Em algumas crianças, o impulso sexual, longe de ser indiferenciado ou
dirigido para o sexo oposto, dirige-se nitidamente para o mesmo sexo. Contudo, nem
sempre pode ser feito um diagnóstico de inversão congênita com segurança, antes que

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se complete de maneira cabal o período da adolescência. Na universidade, por exemplo,
um jovem requintado e intelectual, com gostos estéticos, cercado de pessoas do mesmo
sexo, atraentes e semelhantes a ele, pode conservar-se indiferente a mulheres e
continuar a cultivar amizades e admirações sentimentais e ardentes, chegando â
conclusão de que deve ser, por natureza, invertido. No entanto, quando ele troca a
universidade pelo mundo, descobre que, afinal de contas, ele compartilha as paixões
comuns à humanidade em geral. Na verdade, somente depois de ser alcançada a idade
de vinte e cinco anos, ou mesmo mais tarde, é que podemos estar razoavelmente certos
de que os impulsos homossexuais não constituem uma fase do desenvolvimento normal.
Mesmo quando a maioridade foi há muito tempo atingida, o impulso homossexual pode
mudar para o heterossexual, ou então tornar-se nitidamente bissexual.
Mas em um período muito anterior pode ser possível ter boas razões para julgar
que estamos em face de um invertido congênito. Se encontramos uma precocidade
sexual incomum, combinada com uma concentração sexual completa no mesmo sexo,
sem nenhuma atração sexual para o sexo oposto, embora, talvez, com uma atração por
interesses e ocupações femininos, e se a história da família apresenta uma tendência
ponderável a anormalidades nervosas ou excentricidade, podemos suspeitar, embora
não possamos ter certeza, que estamos diante de um determinado tipo de invertido
congênito.

Contudo, em outros casos a tendência homossexual pode não aparecer até mais
tarde. Outrora admitia-se que nestes casos a anomalia é adquirida e não congênita.
Hoje, no entanto, isto é contestado por muitos que consideram estes casos como
devidos ao desenvolvimento tardio de uma tendência realmente congênita, a inversão
congênita retardada.

Acontece, desse modo, que temos de distinguir entre a verdadeira inversão
sexual congênita (precoce ou tardia), a atração bissexual, na qual o impulso sexual do
indivíduo se extravasa em direção a indivíduos de ambos os sexos (muito embora nem
todos esses casos sejam, aparentemente, invertidos que adquiriram hábitos normais), e
o grande e vago conjunto de pseudo-homossexuais, cuja anomalia é devida, seja a
circunstâncias temporárias (como entre marinheiros), seja à impotência senil, seja ainda
à procura deliberada de sensações anormais. Mesmo na pseudo-homossexualidade
temos de reconhecer, segundo o ponto de vista predominante, que a homossexualidade
repousa em uma base germinal natural, e por isso não pode ser considerada como
totalmente adquirida, mas sim como o desenvolvimento de uma tendência latente.
A inversão sexual tem uma significação particularmente importante porque tende
a ocorrer em indivíduos que estão acima da média quanto à inteligência e ao caráter,
mesmo quando deixamos de considerar muitos monarcas, estadistas, poetas, escultores,
pintores, compositores, eruditos notáveis, tanto do passado como do presente. Talvez
seja esse o motivo pelo qual eles não são reconhecidos facilmente. Muitos médicos
acreditam que nunca tenham visto um invertido. Mesmo um alienista experimentado
como Sir George Savage declarou uma vez que possivelmente nunca havia encontrado
uma inversão. A experiência de outro alienista eminente é ilustrativa. Nunca tendo

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encontrado um invertido, pelo menos que soubesse, Näcke escreveu certa vez a
Hirschfeld, cuja experiência nesse campo é mais ampla do que a de qualquer outro
médico, pedindo-lhe que mandasse um invertido a sua casa. Grande foi a surpresa de
Näcke quando verificou que o visitante era uma pessoa bastante conhecida dele, seu
parente próximo pelo casamento. Geralmente, somente quando alguma circunstância
abre nossos olhos é que começamos a verificar que em todos os círculos sociais são
encontrados invertidos. Contudo, geralmente somente os de classe mais baixa, mais
degenerada e às vezes mercenária, é que desejam revelar sua particularidade. Os
suicídios e desaparecimentos misteriosos que ocorrem de tempos em tempos, entre
pessoas da alta sociedade, muitas vezes de grande competência, estão quase sempre
relacionados com a inversão, embora mesmo depois que o destino os tenha vencido, a
causa do fato permaneça como um mistério paira o público em geral. Essas pessoas
provavelmente nunca confiaram em um médico. Elas imaginam que seria inútil, que o
médico comum é completamente inapto para tratar de seu caso, se, na realidade, não se
sentir chocado ou nauseado.

Certo médico, homem de caráter e inteligência elevados, ele próprio invertido
congênito, embora suas tradições morais não lhe tenham permitido procurar a
satisfação de seus impulsos, escreveu o que se segue com relação à sua educação em um
centro médico mundialmente famoso: “A primeira referência relacionada, de maneira
concreta com o assunto da perversão sexual foi feita na aula de jurisprudência médica,
onde houve alusão a certos crimes sexuais, — de maneira muito resumida e inadequada
—, porém nada foi dito a respeito da existência da inversão sexual como característica
normal de certas pessoas infelizes, nem foi estabelecida nenhuma distinção entre os
vários atos anormais, os quais foram classificados em sua totalidade como manifestações
de depravação criminosa, por parte de pessoas reles ou dementes. Para um estudante
que começava a sentir intensamente que sua natureza sexual diferia profundamente da
de seus colegas, nada poderia ser mais desconcertante e perturbador, e mais do que
nunca isso fez com que eu me fechasse em meu recolhimento. Foi ainda mais lamentável
que, nem na aula de medicina sistemática, nem no decorrer das preleções sobre clínica
médica, houvesse a menor alusão ao assunto. Toda espécie de doenças raras, — algumas
das quais nunca encontrei em vinte e um anos de clínica intensa —, foram examinadas
de maneira completa; mas fomos deixados inteiramente ignorantes de um assunto de
importância tão vital pessoalmente para mim, e, como me parece, para a profissão a que
eu aspirava.” Esta falta de referência aos problemas sexuais no ensino médico tem sido
sentida provavelmente pela maioria de nós, embora tal deficiência de ensino seja
geralmente menos lamentável para o estudante pessoalmente, do que para aqueles aos
quais ele poderia ser útil. Felizmente esse é um estado de coisas que agora deixará
rapidamente de existir.

Não obstante, a inversão sexual não é encontrada somente entre pessoas que,
em outros aspectos, são manifestamente excepcionais, sejam “degenerados”, sejam
homens de gênio, — embora na realidade ela pareça predominar entre estas. Ela
também é encontrada em razoável proporção, na população aparentemente média,
entre pessoas que não se distinguem da média. Os próprios médicos muitas vezes se

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referem aos invertidos como uma classe “efeminada”. Não é bem esse o caso. Certo
conjunto entre eles parece, na verdade, ser desse estilo. São física e mentalmente lassos,
ciosos de si mesmos, fúteis, amantes de joias e ornamentos. Esses homens têm os gostos
das prostitutas e em alguns casos se tornam realmente prostitutas do sexo masculino.
Eles, porém, não são mais típicos da inversão do que a prostituta, verdadeira ou de
temperamento, é típica da feminilidade. Na verdade, um grande número de invertidos
são excepcionalmente requintados, sensíveis, ou emotivos, porém o mesmo pode dizer-
se de muitas pessoas levemente neuróticas que não são homossexuais. Outros, tanto
homens como mulheres, não se distinguem claramente por nenhuma característica
especial que pudesse sugerir de maneira razoável, uma tendência anormal do impulso
sexual, Este fato é que explica a existência de tantas pessoas que acreditam nunca terem
encontrado um invertido, embora e não obstante, a proporção de invertidos na
população em geral tenha sido considerada, através de pesquisa cuidadosa e bem feita,
tão significativa, a ponto de situar-se, no mínimo, bem acima de 1 por cento.
Parece provável, como já assinalado, que a incidência da inversão varie apenas
ligeiramente em diferentes países, embora em certas regiões especiais da Europa
Meridional se diga que ela é grande, talvez em virtude dos hábitos ou tradições
peculiares do povo. Os naturais de vários países dizem às vezes que a inversão sexual
não predomina tanto em seus países como acontece no estrangeiro. Eles, porém, falam
sem conhecimento dos fatos. As aparentes variações são simplesmente superficiais e
devidas em grande parte à atitude social e legal que prevalece em um país, em relação à
inversão. Isto não significa que ela floresça onde as leis são indulgentes, porque a
existência de leis violentamente repressivas pode servir simplesmente para despertar
uma propaganda entusiástica por sua abolição, o que chama a atenção para a
predominância da inversão. A homossexualidade é o mais predominante de todos os
desvios sexuais, porque, embora os simbolismos eróticos, em uma ligeira e pouco
acentuada proporção, sejam provavelmente mais comuns, eles quase não são
encontrados com tanta frequência, em um grau completo de desenvolvimento, como o é
a inversão. Em muitos casos, esta predominância é ainda mais destacada pela energia e
caráter dos portadores da anomalia.
O reconhecimento gradativo da predominância da inversão em pessoas comuns,
de inteligência e comportamento normais, é que tem modificado as opiniões dos
alienistas com relação à natureza desta e, na verdade, de outras anomalias sexuais. Nos
tempos medievais e primitivos, a homossexualidade, reconhecível como tal em suas
únicas formas, sodomia e tribadismo, era um pecado e um crime, expiado muitas vezes
na fogueira. Ela continuou a ser considerada apenas como uma manifestação de
depravação repugnante até em pleno século XIX. Houve então uma tendência a
considerá-la como um indício de demência, ou pelo menos de degeneração. Essa
concepção está agora ultrapassada, como é inevitável, quando verificamos que tais
desvios e outros ocorrem em pessoas mentalmente sadias, de bom comportamento
moral e equilibradas, muitas das quais de maneira nenhuma são dominadas ou
obcecadas por seus impulsos, e algumas das quais nunca cederam a eles, absolutamente.
A homossexualidade ocasional é uma tendência à qual o homem está sujeito juntamente

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com aquela parte do reino animal com a qual ele mais se assemelha. A inversão sexual
congênita é uma anomalia, uma variação que nasce com o indivíduo, e cujas causas
estamos começando a compreender. Mesmo quando extrema, ela é patológica apenas
no mesmo sentido em que o é o daltonismo ou o albinismo, ou ainda a transposição das
vísceras.

BIBLIOGRAFIA

MOLL, The Sexual Life of the Child.
HAVELOCK ELLIS, Studies in the Psychology of Sex, Vol. II, “Sexual Inversion”.
FREUD, Collected Papers, Vol III.
KATHARINE DAVIS, Factors in the Sex Life of Twenty-two Hundred Women.
EDWARD CARPENTER, The Intermediate Sex.

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