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A filosofia como praxis e arte de viver

José de Almeida Pereira Arêdes
Este trabalho foi publicado em Henriques, Fernanda, Bastos de Almeida, Manuela, (coord.) Os actuais programas de Filosofia do Secundário, Balanço e Perspectivas, Colecção Philosophica-Paideia, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, Lisboa, 1998, pp.229-243. Facere docet philosophia, non dicere. Sénec a [1] A Filosofia é, antes de mais, uma maneira de viver que está estreitamente ligada ao discurso filosófico P. Hadot [2]

I - De que se trata
As ideias que ora queremos apresentar surgem no quadro de uma reflexão sobre o Programa em vigor devendo, no entanto, situar-se no contexto mais vasto de alguma interrogação acerca da função da Filosofia, não só no Ensino Secundário, mas em geral, na vida de cada um. É óbvio que a maior e mais fundamental motivação para tal reflexão se prende com a inevitável interrogação acerca do sentido da Filosofia nas nossas próprias vidas o que, diga-se desde já, não pretende ser uma incursão na vida particular e privada de cada um, nem tem qualquer pretensão a ser uma filosofia intimista ou solipsista, fruto de uma subjectividade em busca da identidade perdida. O que acontece é que se quisermos que a Filosofia se adapte aos nossos tempos em que as formas tradicionais de sentido e significado já não satisfazem as nossas angústias, dúvidas e interrogações e, por maioria da razão, as dos nossos alunos, teremos de reconsiderar o nosso posicionamento relativamente a muitas questões a que talvez nem sempre prestemos a melhor atenção. Que não se trata de uma incursão intimista encontra a sua prova na possibilidade de formularmos a interrogação seguinte que bem pode ser o ponto de partida para um diálogo sobre o lugar e a forma da Filosofia no Secundário (leia-se, na vida), a saber, que se altera na vida dos nossos alunos depois de conviverem alguns anos (pelo menos dois) com a Filosofia? (E na nossa?) Todos temos consciência de que ao leccionarmos filosofia nos deparamos com a inevitável questão do impacto e da utilidade do que pretendemos ensinar na vida não só

o sol e a evolução dos astros (…). eventualmente. o que nos propomos trazer à discussão prende-se mais com a função da Filosofia na vida das pessoas. De special. . armados contra os prazeres e os desejos. II . toda a vida é uma festa. então as cidades estariam cheias de felicidade. de todos os bens. [cidade] cujos cidadãos. quando o pensamento não encontra nada de realmente inesperado nos acontecimentos mas embota a percepção como se se tratasse de coisas antigas e usadas). reuniões de políticos.. se eles se tornassem verdadeiramente tais como a natureza quer que eles sejam. é evidente que para tais homens. para que a virtude não se extinga completamente e não seja. fogo da sabedoria mantido aceso nas cidades. observem as potências que aí se encontram como convém àqueles que. em número reduzido. de tal modo que em momento algum a vida seria privada de alegria e o decurso inteiro do ano seriauma festa. servir como propedêutica a um debate a realizar sobre os conteúdos do Programa de Introdução à Filosofia. e ainda que os seus corpos permaneçam na Terra.” Fílon de Alexandria. e todas as reuniões e ajuntamentos de pessoas levianas. evitam as relações com pessoas intriguistas. repletos de uma perfeita excelência [3]. entre os Gregos e os Bárbaros. amantes da sabedoria. que experimentam alegria na virtude. mas na vida tout court.dos nossos alunos. se dedicam à Filosofia e se exercitam na prática da sabedoria. que tem por missão presidir ao governo do Universo. levam uma vida sem mácula nem censura. Deixaremos para mais tarde uma reflexão sobre outros domínios. seguem com o pensamento a lua. II. Leg. Aspirando a uma vida de paz e de serenidade. ou seja. sempre diligentes em manter-se acima das paixões (…) não soçobram sob os golpes da sorte porque calcularam previamente os seus ataques (uma vez que. assim. têm o mundo por sua cidade. eles dão asas às suas almas para que estas. se se alegrassem com o bem apenas por ser bem e considerassem que o bem moral é. praças públicas. a saber. receberam a cidadania da Virtude. assim como com a função das pessoas na vida da Filosofia. a orientação a dar à nossa própria existência. repletas de tudo o que constitui a alegria e o prazer espiritual. Embora nos pareça imprescindível uma teorização rigorosa e uma sólida educação mental. é claro. e poderá. este texto resume um dos aspectos fundamentais da filosofia tal como ela era considerada na época helenística. § 44 Obviamente inspirado pelo estoicismo. eles contemplam a natureza e tudo o que nela se encontra. São. arrancada à nossa espécie. Mas se em toda a parte os humanos tivessem os mesmos sentimentos que este pequeno número possui. sem mácula nem censura. o único que se pode possuir (…). assembleias. familiarizados com a sabedoria. habituados a não ter em conta os males do corpo e os males exteriores. condenam os locais que estes indivíduos frequentam. exercitam-se a ser indiferentes relativamente às coisas indiferentes [4]. tendo-se tornado realmente cidadãos do mundo. libertas de todas as causas das suas aflições e medos. mesmo as mais penosas são aligeiradas se antecipadamente consideradas. entre as coisas que acontecem sem serem queridas.O que é a Filosofia? Consideremos o seguinte texto: “Todos os que. abstêmse voluntariamente de praticar a injustiça ou de a exercer sobre alguém. Deste modo. como tribunais. elevando-se no éter.

a eterna. num tempo em que constantemente os poderes instituídos nos apregoam que vivemos no melhor dos mundos e somos livres de fazer o que quisermos? . de resto. hoje em dia. da vontade. Ora sabemos que muitos dos que se dedicam à Filosofia. e de Penia. uma ética que aspira a ontologia). os ignorantes que ignoram a sua própria ignorância? Não é a Filosofia a inquietação. assim. a errância em busca da verdade? [8] Não é a Filosofia. no entanto quase inacessível ao ser humano. A filosofia era um método de progresso espiritual que exigia uma conversão radical (em grego. na medida em que implicava a prática de um conjunto de procedimentos tendo em vista a tranquilidade da alma (ataraxia) e a liberdade interior (autarkeia) que. da liberdade e datransmutação de si? Neste sentido. Sabemos todos qual a origem mitológica que os Antigos atribuíam à Filosofia. Não é. como sabedoria de vida. a metáfora que Platão apresentou em O Banquete. quando Sócrates. “a filosofia aparece. o Expediente. a Filosofia a posição intermédia entre os sapientes. perdendo terreno relativamente aos que agem em vez de continuamente se angustiarem. o contentamento descontente. ainda hoje nos orienta. o que acaba. constituía-se já. constantemente se interrogam sobre o estatuto da sua arte. que compromete o ser (do indivíduo) na sua totalidade. já era outro. uma arte (pois exigia uma recriação de si). como uma tentativa de chegar a um estado. uma moral). e recordamos. que significado pode ter. persistente e impaciente busca da perfeição. A filosofia era. e do de Aristófanes sobre o mito do Andrógino Primordial [6]. e os tolos. os Deuses. mais feminino e mais corpóreo [5]. mas um certo modo de conduzir a sua existência. diz Pierre Hadot. a sabedoria. De facto. sem dúvida. mais do que autodomínio. a propósito da distinção entre Eros Urânios. era o desenvolvimento e a criação de um poder tal (em e sobre si próprio) que tornava dispensável esse mesmo autodomínio. sábio e cheio de recursos. uma maneira de viver. como que movidos por uma má consciência acerca da sua própria legitimidade no quadro dos saberes. a Privação. ela própria.uma certa maneira de viver. tal como o Amor. ao definir Eros como filho de Poros . uma vez que o filósofo se tinha já transmutado. o que deve ser entendido não como um certo modo de estar ou de se comportar (isto é. afinal. e se era uma tensão com vista à sabedoria. uma filosofia assim definida. por se produzir é a mais excelente metáfora da Filosofia que. como um exercício do pensamento. reorienta o debate do domínio moral para o ontológico (a interrogação sobre o ser do amor [7]). metánoia). então. e o Eros Pândemos. Ela surge na sequência da discussão empreendida em torno do discurso de Pausânias. definido como mais masculino e mais espiritual. Ora. com efeito. no quadro da questão que a ambos preocupa (como devem comportar-se os amantes). ou seja a busca de um certo modo de ser (isto é. uma transformação da maneira de ser”[9]. operando uma deriva na problematização em curso.

a física tinha como função dar ao indivíduo consciência do seu lugar no cosmos e facilitar-lhe a aceitação das leis da natureza e da vida a que ninguém pode fugir. pelo que as regras da lógica não se destinavam a ser decoradas mas aplicadas ao pensar e ao conversar. uma vez que as teorias filosóficas tinham de estar ao serviço da vida . muitas vezes. se reduzir a um discurso sobre a vida.Será que a nossa alma está tranquila e temos verdadeira liberdade interior para fazer opções conscientes? Será que vivemos sem angústia? Senão (e parece bem que não). Eça de Queirós. qual o contributo da filosofia para encarar sem medo o momento em que faremos o balanço final da nossa vida? Para que servem todos os discursos filosóficos se continuamos perdidos no oceano da existência? Não ironizava já. a ser assim. mas a sua prática. com a jangada às costas. até. tendo sempre em atenção a sua relação com os outros. por exemplo. Assim. não por estudar tratados de música. prossegue o seu caminho. que o discurso filosófico diz ser seu apanágio e meta? A resposta está talvez nisto: é que. e criticava os filósofos peritos na arte dos silogismos mas que se contradiziam na sua vida [11]. paulatinamente. a condução quotidiana da sua vida com vista à efectiva transmutação de si. mas visava a transmissão de um modo de vida filosófico. num tempo aparentemente mais pacífico. exteriores e interiores ao próprio. deixou de ser uma experiência para se transformar. e tal como aconteceu com a religião. que entre os que dedicam à filosofia seja difícil encontrar a grandeza de alma. para quem a filosofia não se situava apenas ao nível do conhecer. a filosofia deixou de ser uma prática e uma arte de viver para. coisas a que se dá o pomposo nome de exigência e rigor do trabalho científico. mas ao nível do ser. a sabedoria de vida. Ora é evidente que esse rigor é indispensável. e a ética não tinha por objectivo apenas a discussão do que é o bem e do que é o mal. o seu ensino da filosofia não se resumia à transmissão das teorias. Era para evitar esse perigo que os antigos estóicos. e distinguiam cuidadosamente três partes da filosofia: a física (uma teoria ou uma ciência da natureza) a lógica (uma teoria e regras do bem pensar) e a ética (uma teoria da acção acompanhada dos respectivos exercícios). um instrumento que não nos deveria levar a confundir a árvore da lógica com a floresta da vida pois. mas é-o apenas como uma condição sine qua non. ao mostrar que todos os sistemas filosóficos (e os avanços da tecnologia) não tornavam Jacinto mais feliz? [10] Como explicar. mas por se exercitar na prática dos instrumentos. diferenciavam claramente entre o discurso filosófico e a filosofia. isto é. progressivamente. num discurso de legitimação e de segurança psicológica de quem o produz. dado ter sido um dos dirigentes da Academia Antiga). Talvez fosse por isso que Polémon. cristalizado nas certezas do seu intelecto. estaremos na situação daquele que depois de construir uma jangada e de a ter usado para transpor um rio. (embora pertencente a outra Escola. percorrendo montes e vales. dizia que um indivíduo se torna músico. sendo os discípulos incentivados a viver e experienciar cada uma das partes teóricas do discurso filosófico.

É esta aparente contradição entre o rigor teórico e a necessidade da exemplaridade vivencial que nos provoca alguma perplexidade quando. como um imenso exercício (askesis) de transformação de si. Além das armas e da estratégias. isto é. uma crise e uma transmutação de valores que exige um redimensionamento da nossa atitude face ao que é a transformação da modernidade. uma tomada de posição. o que deixa claro que todo o debate dialéctico que o discurso filosófico encerra se apresenta. como no caso da desagregação das virtudes tradicionais na Atenas do tempo de Sócrates e de Aristófanes.” [12]. Se dissermos que modernidade não é apenas um acontecimento singular cronologicamente situado. e aceitarmos que esta desintegração exige do indivíduo uma determinada relação à realidade. para além das indispensáveis exigências teóricas. mostrar a filosofia como atitude face à existência. de seduzir. dada a função fundamentalmente pedagógica e dialógica que a filosofia tem de assumir. pois a filosofia não viveu apenas no passado. ou seja. naturalmente. pois a presença do outro no diálogo não visa tanto expor uma doutrina mas alterar uma atitude. em vez de lhes regurgitar um pronto a comer criador de dependências. uma atitude específica. e do fim da metafísica no tempo de Kant. consequência do aniquilamento do referencial de sentido. como mais tarde afirmou Epictecto. que outros também já viveram. um discurso verdadeiro. tanto a vida como a morte. na nossa prática lectiva. É óbvio que. ao insistirmos na apresentação do paradigma socrático. além do que tem de ter. obviamente. inferir qualquer intenção de relegar a filosofia para a categoria da História das Ideias. “vazio é o discurso filosófico se não contribuir para curar as doenças da alma. Assim. se. a transformação do interlocutor.A Filosofia como exercício Do que fica dito antes não se deve. nos confrontamos com a necessidade de transmitir conteúdos e. não podemos esquecer que o principal objectivo do diálogo não é tanto o que se diz. ele tem de ser. Tem de ser exemplo vivo daquilo que ensina. se quer efectivamente ensinar os seus discípulos a pescar o peixe da liberdade. simultaneamente. o que inclui. a saber. o auditório. III . a capacidade para o demonstrar. exercício prático de transformação de si daqueles que se dedicam ao seu auto aperfeiçoamento (tarefa que deveria ser de todos os humanos). para isso. como . do declínio do mundo helenístico. mas uma conjuntura histórica caracterizada por uma crise. Mas ao filósofo exige-se mais. como muitas outras vezes já aconteceu na história. arma última e radical no combate da emancipação. Acontece apenas que vivemos hoje. e o poder de persuadir. em última análise. o filósofo tem de ter estar dotado de três armas no combate contra a ignorância. mas a transformação de quem o diz. uma vez que à dialéctica está reservado um papel de auxiliar da ética (entendida como prática de si). por exemplo.filosófica. pois certamente para ele. Ora isso só será possível se a filosofia se apresentar como arte de viver e cuidado de si. ela se apresentar como askesis. aquilo a que alguns já chamaram o post-moderno.

pelos Gnósticos e pelos Estóicos. é antes fruto elaborado a partir de um olhar de frente os problemas da vida. o êthos de Aristóteles. em Alexandria. em nosso entender. Ora esta função onto . II (d.poiética. o cura sui dos Latinos. tomar em mãos o que Foucault designou por cuidado de si (souci de soi) ao traduzir a expressão epimeleia heautou. desde a sua origem. É claro que esta preocupação e ocupação onto . designou por êthos).C)? O cuidado de si pode ser definidos como um conjunto de técnicas de meditação (melete) e exercícios (gymnasia). Depois do que anteriormente afirmámos. a prática da transmutação de si com vista a um novo nascimento. por Kant por ocasião da Aufklärung e. consistindo  a meditação numa representação antecipadora dos males. uma vez que a Filosofia. se se preferir. tornada carne e osso do filósofo. se por espiritual entendermos precisamente o que se refere ao acesso de um indivíduo a um certo modo de ser e às transformações que esse indivíduo deve operar em si mesmo para aceder a esse modo de ser. no diálogo com os que já viveram problemas eventualmente análogos. como se encontra claramente dito por Kant. a partir dela. de facto. .terá sido a atitude adoptada por Tucídides. o éthos de Heidegger. que nomeava a persistente preocupação que encontramos nos autores da literatura filosófica do séc. a ontologia. se operacionalizada através de exercícios tendentes à transformação (metanóia) do que enveredou pelo caminho da filosofia. por Michel Foucault (e que este.poiética só pode. Essa operacionalização assume nitidamente a forma de exercícios espirituais. um ideal que não tem fronteiras nem tempo. no nosso tempo. como adverte Kant). na Grécia.êtho . daqui resultando a necessidade de restaurar a dimensão filosófica como Logos Bioêthikos e.poiética não é nova. ficaremos legitimados na nossa pretensão de desenvolver alguma arqueologia com vista a encontrar. e isto permite-nos reforçar a ideia da Philosophia. como no caso exemplar dos Pensamentos de Marco Aurélio. interlocutores válidos na busca de soluções para os nossos problemas. A ser assim.êtho . ao definir como saída (Ausgang) para a nossa menoridade o nascimento de um Homem Novo [13]. mas a constituição de si. pois constitui o êthos de qualquer Filósofo[15]. uma espécie de imaginação pessimista destinada a diminuir-lhes o poder efectivo de causar mal. longe de resultar de uma necessidade de evasão dos problemas da existência. e já claro que o êthos que nos importa não é o comportamento. como podemos.êtho . ser efectivada. como sobejamente o documenta o Sócrates da Apologia que se apresentou em Tribunal como Mestre do cuidado de si [14]. como já vimos. como umatekne tou biou (arte de viver) que. ou da tentativa de buscar uma liberdade interior que compensasse a perda de liberdade política (uma espécie de consolatio. delinear um Bios Theorétikos. como se alguém fosse livre agrilhoado no fundo de uma qualquer prisão ou pudesse ser livre por lhe ser consentido pensar mas não comunicar esse pensamento. uma vez que ao discurso filosófico é atribuída uma função onto . ou. a fim de evitar a confusão com qualquer estado anímico subjectivo. não é algo para ser sabido mas para ser experienciado.

uma autoaprendizagem de si. basicamente. e que veio mais tarde a ser assimilada pelos Cristão sob o nome de salvação. No caso da intenção político-social pode dizer-se que agrupava as preocupações em torno de um projecto de existência. É óbvio que este cuidado de si. muitos séculos mais tarde. a) a forma estrutural. possibilitando um distanciamento crítico do indivíduo relativamente aos condicionalismos do meio exterior (existindo ainda algumas outras práticas intermédias. como era o caso da praemeditatio malorum e da melete thanatou ou meditatio mortis. 2) A sua função pedagógica . dir-se-ia que agrupava as preocupações espirituais e religiosas. I e II d. o exercício da morte. mas no sentido de uma auto construção de si próprio. tinha uma enquadramento. 3) A sua função dialógica e comunitária . Em suma. 3) a sua função dialógica e comunitária 1) O seu telos . o exercício no treino efectivo de si através da prática de privações e de uma vida austera na prevenção de dias piores.A importância do outro no conhecimento de si é particularmente valorizada nos sécs. recomendado por de Séneca. c) como terapêutica. que se organizava em torno dos três seguintes parâmetros: 1) o seu telos. a saber. segundo três formas. 2) a sua função pedagógica. No caso da intenção metafísica. o exame de consciência. assumindo a dimensão de uma estética da existência. uma espécie de revolução permanente. como o retorno a uma condição perfeita que o ser humano já teria desfrutado. b) como luta ou combate permanente consigo próprio. pois a construção de si exige o outro como espelho onde cada um se reflicta (diria Lacan. talvez melhor. não no sentido de uma descoberta do que cada um realmente é. que o que nos constitui é o olhar do outro). pois se trata do esforço para desaprender maus hábitos e definir uma autonomia no caminho da vida. tornando-o capaz de escolhas concretas e não apenas de definição de princípios . C. dado que as paixões são uma patologia que precisa de cura. na Grécia Clássica.. defendido por Platão. as relações de harmonia entre o êthos do pensar e o êthos do ser que podemos procurar para o nosso próprio presente estabeleciam-se. que impunha ao logos um função prática. b) a forma instrumental. que determinava a soberania do logos sobre os desejos. poderia haver quer uma intenção metafísica quer uma intenção políticosocial. célebre já desde Platão [16]. inventário crítico das acções realizadas.Se o cuidado de si é. sendo uma tecnologia do eu.Relativamente à definição do objectivo final a atingir com o cuidado de si. exercícios do desprendimento de si). recomendados por Epicteto. a sua função pedagógica é óbvia e exerce-se a três níveis:    a) como crítica ou. e a relação (cognitiva) consigo passava necessariamente por um Mestre. como ocontrole das representações mentais [17]. autocrítica. a interpretação dos sonhos.

a nossa relação com a morte é a nossa relação com a vida. sobretudo na meditação dos males e na meditação da morte. a meditação sobre a liberdade aconselha. desprendimento de si. meditação sobre os sonhos e atenção ao seu conteúdo e à sua transformação em função das práticas meditativas. da identidade. do saber. a forma concreta e precisa que estes exercícios assumiam ser resumida? Se tivermos como pano de fundo a experiência da impermanência de todas as coisas (do poder. sob a forma de controle das representações. De entre todas estas técnicas de si a melete thanatou é. estética da existência. da vida e da morte) que é imediatamente acessível a todos e a cada um de nós. mas até por causa da atitude que a modernidade e a contemporaneidade têm perante a morte. c) a forma gnóstica que conduzia ao auto (re)conhecimento ontológico do indivíduo. a mais famosa. e consiste na antecipação não mórbida (é de sublinhar que a morte não se deve recear nem desejar) do que é inevitável com vista a fazer-lhe perder o seu carácter doloroso e sem dúvida trágico. o exercício da morte só pode ser um exercício de vida pois. um momento de paragem na agitação do quotidiano. desaprende a servir.teóricos. da verdade. Assim. apoiado no estudo e na reflexão. não só pelo seu carácter radical. isto é. os exempla. ou arte de viver. sem dúvida. de uma consciencialização de si sob a forma de uma espécie de epoché. é um exercício prático da liberdade. se viver é exercitar-se na liberdade. técnica estóica eventualmente hoje sob a forma de comunicação na internet. exame de consciência. na verdade. somos tentados a apresentar a seguinte tópica ascética como proposta e ponto de partida para uma reflexão que terá de ser pessoal para ser real:        a prática do retorno a si. ser exemplo vivo da sua própria teorização. isto é. a escrita de si. uma vez que ninguém realmente vive se a sua existência for uma permanente tentativa de se ocultar da morte. atenção ao presente. . na prática de uma vida regrada e. fuga aos estímulos alienantes do mundo exterior. então. uma elegância da palavra e do gesto. dada a relação entre a liberdade e a meditação da morte já claramente estabelecida por Séneca quando aconselhou “Medita na morte! Quem isto diz. sob a forma ascética da atenção ao quotidiano e do controle dos desejos.” [18] Este exercício de meditação da morte que encerra uma séria proposta de desprendimento. e a correspondência. passe a redundância da expressão. na ironia crítica de si. Quem aprende a morrer. Sendo a morte o tabu supremo da sociedade do sucesso na medida em que se vê obrigada a reconhecer o seu fracasso perante a Grande Senhora. esta terá de ser relação de poder com a morte. Como pode.

1984. IV . Fac. Pierre. a saber. University of Massachusetts Press. Amherst. dado que. o auto aperfeiçoamento com vista à liberdade. um terminus para o cuidado de si). Paris. tal como a história no-la apresenta. Gallimard.Com efeito. Techonologies of the Self. e o único ensino possível é o do exemplo” [20]. Hadot. Neste sentido poderíamos também interpretar a célebre dialéctica hegeliana do domínio e da servidão. 1984 vol III Le souci de soi. (ed. Michel. que a filosofia. mas apenas fazer uma pausa para pensar. aproveitando para nos apropriarmos das palavras de Pierre Aubenque quando diz. Michel. só pode conduzir ao desprendimento e à liberdade que será a autonomia ontológica de nós no decurso da nossa curta existência. 1988. Paris. Foucault. Paris. como diz ainda Séneca. de facto. 1992. Hadot. Huck Gutman. Patrick Hutton. é uma tarefa interminável. ou a impaciência da liberdade. ontem. a Seminar With Michel Foucault. Blackwell. . Histoire de la sexualité vol I La volonté de savoir. dissertação de Mestrado. Fayard. pois se tal não acontecer seremos apenas funcionários e perderemos uma excelente oportunidade de trabalhar para o fim último de toda a existência humana. Luther Martin.).. de Letras de Lisboa. Études Augustiniennes.e. Bibliografia Arêdes. Gallimard. Philosophy as a way of life. Pierre. a propósito de Epictecto que “a única sabedoria é a sabedoria de vida. 1987. Assim. como hoje. se a liberdade é um exercício do poder na prática das relações que mantemos com o outro exterior e interior a nós. Foucault. se tivermos em consideração que o escravo só se torna verdadeiro Homem Livre quando vence o medo que tem da morte. Arnold.Para não concluir Do que foi proposto como tema de meditação resulta uma única conclusão possível. Oxford. Exercices Spirituels et Philosophie Antique. Foucault. É por isso que não podemos terminar (não há . “Não estamos sob o poder de ninguém quando a morte está sob o nosso poder” [19]. Davidson. 1996. 1995. a meditação da morte. 1976 vol II L’usage des plaisirs. se quisermos ser Professores de Filosofia teremos de ser também Filósofos. Gallimard. i. Paris. como técnica de transformação de si. La citadelle intérieure. Paris. ed. José. enquanto a nossa humana imperfeição mostrar tão copiosamente os seus amargos frutos.

P-M. O. 204 a-b.).Hadot. Oswald. 1995. não a falar. Cartas a Lucílio. IV. Garnier-Flammarion. Séneca. passando por Was heisst: sich im Denken orientiren? (Que significa orientar-se no pensamento?). 220. Qu’est ce que la philosophie antique?. p. 1997. com o tornar-se um Homem novo. (1793). 18. 13-30. op.193 c. O Banquete. p. 1995.. o bibliotecário apenas coleccionara os que irreconciliavelmente se contradizem) havia mil oitocentos e dezassete!”. [11] Diogenes Laercio. Séneca. [4] “ser indiferentes relativamente às coisas indiferentes”. (Kant’s Werke. p. Lisboa. para poupar espaço. AK. Editorial Notícias. Universidade Complutense. [8] Platão. Les Stoïciens. 1965. 1981. 180 c . Market relaciona a proposta kantiana para uma saída (Ausgang) da nossa menoridade. Civilização. Oxford University Presse. [9] Hadot. Market. [5] Platão. 19 [3] Arete. Paris. apud P. Gallimard. O Banquete. [10] “Só sistemas filosóficos (e com justa prudência. [6] Platão. [1] A filosofia ensina a agir. 1962. VI. Rinpoche. 13-30. pp. (ed. Pierre. Exercices spirituels et philosophie antique. a Die Religion innerhalb der Grenzen der blossen Vernunft (A Religião nos limites da simples Razão). Anales del Seminario de Historia de la Filosofia. Gallimard. Universidade Complutense.. Diálogo com a morte. Vie. O Banquete. Qu’est que la philosophie antique?. 218. Hadot. Annaei Senecae ad Lucilium Epistulae Morales. isto é. pp. O livro tibetano da vida e da morte. Paris. Eça de Queirós. cujas ressonâncias filosóficas são visíveis no texto de Fílon.181 d. [13] Como demonstra Oswald Market em “La gran léccion de Kant sobre la naturaleza del filosofar”. L. Marie de. vol. Epicurea 222. Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses. 1965. a referir uma conversio mas . 1995. o que o Universo produz não deve ser objecto de diferenciações segundo padrões humanos. Pierre. Schuhl. 2. La gran léccion de Kant sobre la naturaleza del filosofar. Madrid. Anales del Seminario de Historia de la Filosofia. Sogyal. p. cit. 20. não estabelecer diferenças valorativas entre as coisas ou acontecimentos. Lisboa. Paris. vol. [7] Platão. 1987. Madrid. [12] Usener. II. (1786). através de uma orientação autonómica do pensar. Hennezel. Oxford. 203 b. Estabelecendo uma linha que vai de Beantwortung der Frage: was ist Aufklärung? (Resposta à pergunta: que é a Aufklärung?). 1981. O Banquete. in Contos Escolhidos. Études Augustiniennes. 47). neste caso. (1784). [2] P. Hadot. 98. Gallimard. uma conversio apontada em Die Religion: “Sólo se puede devenir un hombre nuevo mediante un modo de renascer (durch eine Art Wiedergeburt) por una nueva creación”. II. Segundo os estóicos. 189 d . Lisboa. Não estamos. doctrines et sentences des philosophes illustres. Difusão Cultural.

Les Stoiciens. epistrophé supõe uma mudança de orientação e implica a ideia de um retorno à origem. Se um homem fala ou age com a mente impura. cf.” [18] Séneca. quando este afirma: “[…] Tudo o que somos hoje é resultado do que temos pensado. 173-182. . a limite. diferentes graus de Sócrates. Fédon. 1962. 1987. The Art of Memory. A Short History of Chinese Philosophy. [16] melete. P-M. 10. têm significados diferentes. Tal como Sócrates. onde se lê: “The stoics. exercício prático. 10. o pensamento reflexivo e o conhecimento constituíam uma unidade no Filósofo. e do ponto de vista conativo ensaiava. […] Consequentemente. do ponto de vista cognitivo andava sempre às apalpadelas.”. 29 e. 26. p. attached great importance to the moral control of the fantasy as an important part of etics. [20] In Schuhl. 21. “Conversio”. York. 2. [14] Platão. 1. pode dizer-se que a sua filosofia se confundia com a sua biografia”. Cartas a Lucílio. McMillan Publishing. a nossa vida é criação da nossa mente. na verdade.. mas antes um sistema de preceitos para uso prático do próprio Filósofo. (ed.). ou tentava ensaiar. nele estava presente a síntese do Filósofo no sentido original do termo. p. o conhecimento e a virtude eram unos e inseparáveis. Hadot. Dictionnaire Grec-Français. as we know. E isto por que a ética. N. “Os Filósofos chineses foram. Sobre a problemática destas diferenças veja-se Pierre Hadot. 81 a. Gallimard. nem era um Filósofo poeirento e bolorento encerrado no seu estudo. Apologia de Sócrates. Paris. Dhammapada. novos comportamentos.uma metanóia. na sua totalidade. Exercices Spirituels et Philosophie Antique. Cartas a Lucílio. p. Bailly. A expressão melete thanatou surge em Platão. nele. O que pensamos hoje é o que seremos amanhã. pp. Pierre. [17] Constata-se a existência de paralelismo com os preceitos do Budismo. [19] Séneca. A importância do controle das representações e fantasias mentais está também referida em Frances Yates. 91. A sua filosofia exigia ser vivida e ele próprio era o veículo dessa filosofia. 805. [15] Como afirmou Fung Yu-Lan. o sofrimento acompanha-o tão de perto como a roda que segue a pata do boi que puxa o carro. Com ele dificilmente a filosofia era apenas um modelo conceptual proposto à compreensão humana. Viver em concordância com as suas convicções filosóficas fazia parte da sua filosofia. a política. Études Augustiniennes. E uma vez que estes dois aspectos não podem ser separados.Metanóia significa transformação de pensamento e implica a ideia de uma mutação e de um renascimento. não se ocupava da filosofia apenas durante as horas de expediente. I. E isto porque conversio é a tradução latina para os termos gregos metanóia e epistrophé que. sentado na periferia da vida.