41064 - Sociologia Geral I

Apontamentos de: Jorge Loureiro E-mail: jorgel@sapo.pt Data: 07.04.2008 Livro: Sociologia (Anthony Giddens) Nota: Matéria do ano lectivo 2007-2008

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1. O QUE É A SOCIOLOGIA
Vivemos hoje num mundo inundado pela mudança, marcado por graves conflitos, tensões e divisões sociais, bem como pelo assalto destrutivo ao meio ambiente natural promovido pela tecnologia moderna. Não obstante, temos mais possibilidades de controlar melhor os nossos destinos e de dar um outro rumo às nossas vidas do que era imaginável pelas gerações anteriores. Porque são as nossas condições de vida tão diferentes das dos nossos pais e avós? Estas questões são as principais interrogações da Sociologia, um campo de estudos que tem um papel fundamental a desempenhar na cultura intelectual moderna. A Sociologia é o estudo da vida social humana, grupos e sociedades. É uma tarefa fascinante e constrangedora, na medida em que o tema de estudo é o nosso próprio comportamento enquanto seres sociais. A esfera de acção do estudo sociológico é extremamente abrangente, podendo ir da análise de encontros casuais entre indivíduos que se cruzam na rua até à investigação de processos sociais globais. A maior parte de nós vê o mundo em termos das características das nossas próprias vidas, com as quais estamos familiarizados. A Sociologia mostra que é necessário adoptar uma perspectiva mais abrangente do modo como somos e das razões pelas quais agimos. Ensina-nos que o que consideramos natural, inevitável, bom ou verdadeiro pode não o ser, e que o que tomamos como «dado» nas nossas vidas é fortemente influenciado por forças históricas e sociais. Compreender as maneiras ao mesmo tempo subtis, complexas e profundas, pelas quais as nossas vidas individuais reflectem os contextos da nossa experiência social é essencial à perspectiva sociológica.

1.1. Desenvolvendo uma perspectiva sociológica
Estudar Sociologia não pode ser simplesmente um processo rotineiro de acumulação de conhecimentos. Um sociólogo é alguém capaz de se libertar do quadro das suas circunstâncias pessoais e pensar as coisas num contexto mais abrangente. O trabalho sociológico depende do que o autor americano C. Wright Mills, numa frase famosa, denominou de imaginação sociológica. Tenha-se em consideração o simples acto de beber uma chávena de café: 1 – O café não é meramente uma bebida. O ritual associado ao acto de tomar café é frequentemente muito mais importante do que o consumo de café propriamente dito (valor simbólico). Duas pessoas que combinam encontrar-se para tomar café estarão provavelmente mais interessadas em estarem juntas e conversarem do que em beber, de facto, café. 2 – O café é uma droga, pois contem cafeína, que exerce no cérebro um efeito estimulante. Os adictos em café não são vistos pela maioria das pessoas no Ocidente como consumidores de droga. O café, tal como o álcool, é uma droga socialmente aceitável, enquanto a marijuana, por exemplo, não o é. Os sociólogos estão interessados nas razões pelas quais estes contrastes existem. 3 – Um indivíduo que bebe uma chávena de café está envolvido numa complicada rede de relações sociais e económicas de dimensão internacional. O café é um produto que liga as pessoas de algumas das partes mais ricas e mais pobres do planeta: é consumido em grande quantidade nos países ricos, mas cultivado fundamentalmente nos pobres. Depois do petróleo, o café é a mercadoria mais valiosa do comércio internacional, representando a principal exportação de muitos países. Estudar estas transacções globais é uma tarefa importante da Sociologia, na medida em que muitos aspectos das nossas

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vidas são hoje afectados por influências sociais e comunicações a nível mundial. 4 – O acto de beber uma chávena de café pressupõe todo um processo de desenvolvimento social e económico passado. Embora seja uma bebida originária do Médio Oriente, o seu consumo maciço data do período da expansão colonial ocidental, há cerca de um século e meio atrás; não é, de maneira nenhuma, um elemento «natural» da dieta ocidental. 5 – O café é um produto que está no centro do debate actual em torno da globalização, do comércio mundial, dos direitos humanos e da destruição ambiental. À medida que o café aumentou a sua popularidade, tornou-se um produto politizado e um assunto de marketing: as escolhas dos consumidores sobre que tipo de café beber e onde comprar tornaram-se opções de estilo de vida. Para os sociólogos, é interessante perceber de que forma a globalização aumenta a consciência das pessoas acerca de questões que se passam em pontos remotos do planeta, incentivando-as a actuar no dia-a-dia em função desse novo conhecimento.

1.1.1. Estudar Sociologia
O divórcio, por exemplo, pode ser um processo muito complicado para quem o atravessa – aquilo a que Mills chama «problema pessoal». Mas, como ele refere, o divórcio é também uma questão pública e na ordem do dia numa sociedade como a britânica nos dias de hoje, onde mais de um terço dos casamentos acaba ao fim de dez anos. O desemprego, para dar outro exemplo, pode ser uma tragédia pessoal para quem foi despedido de um emprego e não consegue arranjar outro. Contudo, é uma questão que vai além do desespero privado, quando dez milhões de pessoas de uma sociedade estão nessa mesma situação: é uma questão pública que expressa grandes tendências sociais. Não é necessário pensar unicamente em fenómenos inquietantes. Considere, por um momento, as razões pelas quais folheia as páginas deste livro – porque é que está a estudar Sociologia. Pode ser um estudante relutante de Sociologia, que tenta fazer o curso apenas por ter de obter uma licenciatura. Ou pode ser um entusiasta que procura saber mais acerca da matéria. Sejam quais forem as suas motivações, é provável que, sem que o saiba necessariamente, tenha muito em comum com outros que estudam Sociologia. Deseja encontrar um bom emprego quando acabar a escola, embora não esteja especialmente interessado nos estudos? Não tem a certeza do que é a Sociologia, embora pense que tem algo a ver com o comportamento das pessoas em grupos? Os estudantes universitários não são uma amostra típica da população no seu todo, pois tendem a ser oriundos de meios sociais mais privilegiados. Poderá ser oriundo de um grupo minoritário ou pobre. Poderá andar pela meia-idade ou ser ainda mais velho. É provável que tenha tido que lutar para chegar onde chegou; pode ter sido obrigado a ultrapassar reacções hostis por parte de amigos e de outros quando anunciou que pretendia ir para a faculdade; ou pode ser ao mesmo tempo aluno do ensino superior e pai ou mãe. Embora todos sejamos influenciados pelo contexto social em que nos inserimos, nenhum de nós tem o seu comportamento determinado unicamente por esses contextos. É tarefa da Sociologia investigar as relações entre o que a sociedade faz de nós e o que nós fazemos de nós próprios. O que nós fazemos tanto estrutura – dá forma a – o mundo

a nossa sociedade. para os moradores dos bairros degradados e com baixos rendimentos. é estruturado por esse mesmo mundo social. tanto mais provável é que sejamos capazes de influenciar o nosso futuro. a não ser que desenvolva uma sensibilidade face às diferenças de experiência social que frequentemente separam brancos e negros. Nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial construíram-se grandes blocos habitacionais de iniciativa pública no centro das cidades de muitos países. As sociedades humanas nunca deixam de estar em processo de estruturação. e movimentos sociais. Mas a estrutura social não é como uma estrutura física. tenham sempre em consideração os interesses dos grupos menos poderosos ou desfavorecidos. 1. ou padronizados. 1. são exemplos de grupos sociais que lograram introduzir reformas práticas com um sucesso considerável.3. de diferentes maneiras. com zonas comerciais e outros serviços públicos à mão. Grupos de auto-ajuda. Não se pode presumir que aqueles que estão no poder.2. 1. simultaneamente. . eles estão estruturados. Elas são reconstruídas a todo o momento pelos vários «blocos» que as compõem – seres humanos como nós. A intenção era providenciar um bom nível de habitação. Auto-consciencialização A Sociologia pode permitir-nos uma auto-consciencialização – uma auto-compreensão cada vez maior. Avaliação dos efeitos políticos A pesquisa sociológica fornece uma ajuda prática na avaliação dos resultados de iniciativas políticas. Consciência de diferenças culturais Um assistente social branco que trabalhe numa comunidade predominantemente negra não irá ganhar a confiança dos seus membros. O conceito de estrutura social é um conceito importante para a Sociologia. como os Alcoólicos Anónimos. Quanto mais sabemos acerca das razões pelas quais agimos como agimos e como funciona. Refere-se ao facto de os contextos sociais das nossas vidas não consistirem apenas em acontecimentos e acções ordenadas aleatoriamente. Contudo. como os ecologistas. ao tomarem decisões. Como pode a Sociologia ajudar-nos na nossa vida? 1. a investigação mostrou que muitos dos que se mudaram para esses blocos habitacionais se sentiam isolados e infelizes.2.2.2.4 social que nos rodeia como. de uma forma global.2.1. que existe de forma independente das acções humanas. como um edifício.

1.3. Comte via a Sociologia como uma ciência positiva. O tipo de questões a que estes pensadores do século XIX procuraram responder – O que é a natureza humana? Porque é que a sociedade está estruturada assim? Como mudam as sociedades e por que razão o fazem? – são as mesmas a que os sociólogos procuram responder actualmente. Os sociólogos discutem entre si frequentemente acerca da melhor maneira de estudar o comportamento humano e da forma como os resultados das pesquisas devem ser interpretados. Contudo. .3. A maior parte da comida que ingerimos e das bebidas que tomamos – o café. nem que seja porque foi ele quem de facto inventou o termo «Sociologia». A segunda grande revolução teve início na Grã-Bretanha em finais do século XVIII. 1. em sucessivas esferas.3. As explicações tradicionais baseadas na religião foram suplantadas. como é óbvio. superstições ou crenças tradicionais. por exemplo – são hoje em dia produzidos através de meios industriais. incluindo muitos dos nossos hábitos pessoais. e foram muitos aqueles que contribuíram para os começos do pensamento sociológico. Porque é que isto se passa assim? A resposta está relacionada com a própria natureza do campo de estudos. por tentativas de conhecimento racional e crítico. cujos inícios remontam aos finais do século XVIII. ou em mitos bem conhecidos. Ficou conhecida como Revolução Industrial – mudou de forma dramática a face do mundo social. por si só. A Revolução Francesa de 1789 foi o início de um movimento dinâmico e intenso que a partir de então se espalhou pelo globo. Estudar-nos a nós próprios é a mais difícil e complexa tarefa que podemos empreender.5 1. Os primeiros teóricos Sempre sentimos curiosidade pelas razões do nosso próprio comportamento. O estudo objectivo e sistemático da sociedade e do comportamento humano é uma coisa relativamente recente. tornando-se algo inerente ao mundo moderno.2.1. é frequentemente atribuído um lugar de destaque ao autor francês Auguste Comte (17981857). O positivismo defende que a ciência deve preocupar-se apenas com factos observáveis que ressaltam directamente da experiência. fundar sozinho todo um novo campo de estudos. Auguste Comte Ninguém pode. O desenvolvimento do pensamento sociológico A Sociologia nunca foi uma daquelas disciplinas com um corpo de ideias unanimemente aceites como válidas. mas durante milhares de anos as tentativas de nos entendermos dependeram de formas de pensar transmitidas de geração em geração. Um desenvolvimento chave foi o uso da ciência para se compreender o mundo – a emergência de uma abordagem científica teve como consequência uma mudança radical nas formas de ver e entender as coisas. Estas ideias eram expressas frequentemente em termos religiosos.

factos sociais são formas de agir.6 Lei dos três estádios de Comte – as tentativas humanas para compreender o mundo passaram pelos estádios teológico. a natureza constrangedora dos factos sociais raramente é reconhecida pelas pessoas como algo coercivo. Queria com isso dizer que a vida social podia ser analisada com o mesmo rigor com que se analisam objectos ou fenómenos da natureza. O seu famoso princípio básico da Sociologia era «estudar os factos sociais como coisas». Pelo contrário. acreditando que estão a agir segundo as suas opções. encorajou a aplicação de técnicas científicas ao mundo social. a principal preocupação intelectual da Sociologia reside no estudo dos factos sociais. pensar ou sentir que são externas aos indivíduos. No entanto. Para o autor. e não sobrenaturais.3. Comte reclamou a fundação de uma «religião da humanidade». como leis. Estádio teológico – as ideias religiosas e a crença que a sociedade era uma expressão da vontade de Deus eram o guia do pensamento. Outra característica dos factos sociais é exercerem um poder coercivo sobre os indivíduos. Estádio positivo – desencadeado pelas descobertas e feitos de Copérnico. examinando-as de modo empírico. dado serem invisíveis e intangíveis. A Sociologia estaria no centro desta nova religião. Durkheim pensava que muitas das ideias do seu predecessor eram demasiado especulativas e vagas. Émile Durkheim Embora se apoiasse em determinados aspectos da obra de Comte. metafísico e positivo. as suas propriedades só podem ser reveladas indirectamente. frequentemente as pessoas seguem simplesmente padrões que são comuns na sociedade onde se inserem. . De acordo com o autor. Embora o caminho de Comte para a reconstrução da sociedade nunca se tivesse concretizado. Três dos principais temas que abordou: – a importância da Sociologia enquanto ciência empírica. Comte estava perfeitamente consciente do estado da sociedade em que vivia: estava preocupado com as desigualdades que a industrialização produzia e a ameaça que elas constituíam para a coesão social. afirma Durkheim. Durkheim reconhecia que os factos sociais são difíceis de estudar. tendo uma realidade própria exterior à vida e percepções das pessoas individualmente. – a emergência do indivíduo e a formação de uma ordem social. pois de uma forma geral actuam de livre vontade de acordo com os factos sociais. Os factos sociais não podem ser observados de forma directa.3. que deveria abandonar a fé e o dogma em favor de um fundamento científico. a sua contribuição para a sistematização e unificação da ciência da sociedade foi importante para a posterior profissionalização da Sociologia enquanto disciplina académica. Na verdade. Estádio metafísico (época do Renascimento) – a sociedade começou a ser vista em termos naturais. 1. e que Comte não realizara com sucesso o seu programa – dar à Sociologia um carácter científico. – as origens e carácter da autoridade moral na sociedade. Galileu e Newton. Durkheim via a Sociologia como uma nova ciência que podia ser usada para elucidar questões filosóficas tradicionais. através da análise dos seus efeitos ou tendo em consideração tentativas feitas para as expressar.

Desafiou os sociólogos a estudar as coisas tal como elas são e a construir novos conceitos que reflectissem a verdadeira natureza das coisas sociais. são destruídos em larga medida pelo desenvolvimento social moderno. No entanto. eles estão unidos em torno de uma experiência comum e de crenças partilhadas. e esses padrões devem ser explicados sociologicamente. o resultado de uma infelicidade pessoal extrema. A especialização de tarefas e a cada vez maior diferenciação social nas sociedades desenvolvidas haveria de conduzir a uma nova ordem caracterizada pela solidariedade orgânica. Os padrões e meios de controlo tradicionais. que factores sociais exercem uma influência fundamental no comportamento suicidário – sendo a anomia uma dessas influências. contudo. Em virtude da maior parte dos membros da sociedade estar envolvida em ocupações similares. defendia Durkheim. O autor defendia que os conceitos científicos apenas podiam ser gerados pela prática científica. Este tipo de sociedades estão unidas pelos laços da interdependência económica entre as pessoas e pelo reconhecimento da importância da contribuição dos outros. naquilo que mantém a sociedade unida e impede a sua queda no caos. fornecidos anteriormente pela religião. Segundo Durkheim. A força destas últimas é de natureza repressiva – a comunidade castiga prontamente quem quer que ponha em causa os modos de vida convencionais. Durkheim relacionou este contexto conturbado com a anomia.7 textos religiosos ou regras de conduta estabelecidas. O suicídio parece ser uma acção puramente pessoal. o que deixa em muitos indivíduos das sociedades modernas um sentimento de ausência de sentido na sua vida quotidiana. . As taxas de suicídio mostram padrões regulares de ano para ano. Estava particularmente interessado na solidariedade social e moral – por outras palavras. Durkheim estava preocupado com as mudanças que transformavam a sociedade do seu tempo. os processos de mudança no mundo moderno são de tal maneira rápidos e intensos que dão origem a problemas sociais importantes. Tal como os outros fundadores da Sociologia. um sentimento de ausência de objectivos ou de desespero provocado pela vida social moderna. as culturas tradicionais com um nível reduzido de divisão do trabalho caracterizam-se pela solidariedade mecânica. A solidariedade é mantida quando os indivíduos se integram com sucesso em grupos sociais e se regem por um conjunto de valores e costumes partilhados. O autor mostrou.

A menor taxa de suicídios em tempo de guerra. e cujos desejos e aspirações se regiam pelas normas sociais. Tinha havido anteriormente pesquisas sobre o suicídio. o suicídio era um facto social que apenas podia ser explicado por outros factos sociais. este tipo de suicídio é característico das sociedades tradicionais. onde prevalece a sociedade mecânica. 1952. O estudo de Durkheim demonstrou que mesmo um acto tão pessoal como o suicídio é influenciado pelo mundo social. Uma análise das taxas de suicídio revela até que ponto podem ser identificados padrões sociais gerais em acções individuais. Ao examinar registos oficiais sobre o suicídio em França. o autor acreditava que este se verificava quando um indivíduo era excessivamente regulado pela sociedade. por exemplo. podem explicarse pela sua forte noção de comunidade social. pode ser vista como um sinal de uma maior integração social. tinham uma menor probabilidade de se suicidar. De qualquer maneira. originalmente publicado em 1897). O último tipo de suicídio é o suicídio fatalista. Desde a publicação de O Suicídio. Embora para Durkheim este tipo de suicídio fosse pouco relevante na sociedade contemporânea. Os suicídios egoístas caracterizam-se por uma fraca integração na sociedade e ocorrem quando o indivíduo está sozinho. . Os pilotos kamikase japoneses ou os «bombistas suicidas» islâmicos são exemplos de suicidas altruístas. Embora os seres humanos se vejam a si próprios como indivíduos livres na sua vontade e opções. segundo Durkheim. ou quando os laços que o prendem a um grupo estão enfraquecidos ou quebrados.8 O estudo de Durkheim sobre o suicídio Um dos estudos clássicos da Sociologia que explora a relação entre o indivíduo e a sociedade é a análise de Durkheim sobre o suicídio (Durkheim. da sua rejeição de influências de carácter não-social sobre o suicídio. os seus comportamentos são muitas vezes padronizados e determinados pelo mundo social. especialmente acerca da sua utilização nas estatísticas oficiais. As baixas taxas de suicídio entre os católicos. O suicídio anómico é causado por uma ausência de regulação social. O suicídio era algo mais do que um simples conjunto de actos individuais – era um fenómeno com características padronizadas. mas Durkheim foi o primeiro autor a insistir numa explicação sociológica para o fenómeno. enquanto que a liberdade moral e pessoal dos protestantes significa que «estão sozinhos» perante Deus. Para Durkheim. Durkheim descobriu que determinadas categorias de pessoas eram mais propensas a cometer suicídio do que outras. foram levantadas muitas objecções a este estudo de Durkheim. O suicídio altruísta tem lugar quando um indivíduo se encontra «excessivamente integrado» – os vínculos sociais são demasiado fortes – e valoriza mais a sociedade do que a si próprio. Durkheim percebeu que as taxas de suicídio tendiam a ser menores durante épocas de guerra e mais elevadas em alturas de mudança económica ou de instabilidade. Durkheim acreditava que as pessoas que estavam solidamente integradas em grupos sociais. esta obra continua a ser um estudo clássico e a sua asserção fundamental permanece válida: mesmo um acto tão pessoal como o suicídio exige uma explicação sociológica. Segundo Durkheim. e da sua insistência em classificar em conjunto todos os tipos de suicídio.

o capitalismo é inerentemente um sistema de classes. Nas palavras de Marx. mas que tem de procurar emprego. fornecido pelos que detêm o capital. capital – qualquer activo. Elementos cruciais nas empresas capitalistas: 1.3.4.3. as mudanças mais importantes estavam ligadas ao desenvolvimento do capitalismo – um sistema de produção que contrasta de forma radical com sistemas económicos historicamente anteriores. máquinas. a sua obra era. ajudando a formar uma classe operária industrial urbana. mas. 1. ou classe operária. Esta classe de trabalhadores é também apelidada de proletariado. Marx acreditava que aqueles que detêm o capital.3.4. que possa ser usado ou investido para realizar futuros bens. sendo as relações entre as classes caracterizadas pelo conflito. Os conflitos entre classes fornecem a motivação para os desenvolvimentos históricos – eles são o «motor da história». mudou-se para as cidades em expansão. Embora os proprietários do capital e os trabalhadores dependam uns dos outros – os capitalistas necessitam da mão-deobra e os trabalhadores necessitam dos salários – a dependência é extremamente desequilibrada. Capitalismo e luta de classes Para ele.9 1. ou mesmo fábricas. A mudança social é promovida acima de tudo por factores económicos. e é. como sempre teve como preocupação relacionar os problemas económicos com as instituições sociais. mas que as sociedades não mais iriam ser divididas entre uma pequena classe que monopoliza o . «toda a história humana é. Segundo Marx. enquanto a grande massa da população constitui uma classe de trabalhadores assalariados. implicando a produção de bens e serviços para serem vendidos a uma grande massa de consumidores. Marx defendeu que tal como os capitalistas se haviam unido para derrubar a ordem feudal.4. Karl Marx A maior parte dos seus escritos centra-se em questões económicas. trabalho assalariado – conjunto de trabalhadores que não detém a propriedade dos meios de produção. rica em reflexões sociológicas. A acumulação do capital está intimamente ligada ao 2. 1. À medida que a industrialização se propagou. a história da luta de classes». também os capitalistas seriam suplantados e uma nova ordem instalada.2. que anteriormente subsistiam do trabalho agrícola. incluindo dinheiro. até à data. Marx não queria dizer que todas as desigualdades entre os indivíduos iriam desaparecer. um grande número de camponeses.1. Mudança social: a concepção materialista da história A perspectiva de Marx assentava no que denominava concepção materialista da história. constituem uma classe dominante. ou capitalistas.

1. mais de um terço da população humana vivia em países cujos governos reivindicavam ser inspirados pelas ideias de Marx. É importante sublinhar que por tipo «ideal» Weber não entendia que essa concepção fosse algo de perfeito ou desejável. no costume e em hábitos enraizados.5. na religião. Weber defendeu que a Sociologia devia centrar-se na acção social. por um lado. Foi influenciado por Marx. sendo antes uma forma «pura» de determinado fenómeno. Pelo contrário. uma grande massa de indivíduos que pouco benefício retiram da riqueza gerada pelo seu trabalho. Weber não acreditava que as estruturas existiam externamente aos indivíduos ou que eram independentes destes. Ao contrário de Durkheim ou Marx.3. Argumentava que as ideias e as motivações humanas eram as forças que estavam por detrás da mudança – as ideias.3. da tecnologia moderna e da burocracia foi colectivamente descrito por Weber .1. é raro existirem.10 poder político e económico. mas as ideias e os valores tinham o mesmo impacto sobre a mudança social. Racionalização Segundo Weber. do outro. e não nas estruturas. se é que existem. sendo estabelecida uma forma de sociedade mais justa do que a que conhecemos hoje. O sistema económico assentaria na posse comum. valores e crenças tinham o poder de originar transformações. Weber era um indivíduo de grande erudição. Um elemento importante da perspectiva sociológica de Weber era a ideia de tipo ideal – modelos conceptuais ou analíticos que podem ser usados para compreender o mundo. e. 1. Na sociedade industrial. Max Weber Tal como Marx. mas mostrou-se também muito crítico em relação a alguns dos principais pontos de vista de Marx. Na vida real. Até muito recentemente. Marx acreditava que na sociedade do futuro a produção seria mais evoluída e eficaz do que na sociedade capitalista. como a União Soviética e os países da Europa de Leste. a emergência da sociedade moderna foi acompanhada por importantes mudanças ao nível dos padrões de acção social. os factores económicos eram importantes. Na perspectiva de Weber.5. Max Weber (1864-1920) não pode ser simplesmente rotulado como sociólogo. onde passou a maior parte da sua carreira académica. os seus interesses e preocupações abrangem muitas áreas. A tarefa da Sociologia era procurar entender o sentido por detrás destas acções. O desenvolvimento da ciência. Grande parte da sua obra dava também particular atenção ao desenvolvimento do capitalismo moderno e à forma como a sociedade moderna era diferente de outros tipos anteriores de organização social. as estruturas da sociedade eram formadas por uma complexa rede de acções recíprocas. havia pouco espaço para os sentimentos e para fazer certas coisas só porque sempre tinham sido feitas assim desde há muitas gerações. Nascido na Alemanha. O autor acreditava que as pessoas estavam a afastar-se das crenças tradicionais baseadas na superstição. Ao contrário dos primeiros pensadores sociológicos. tipos ideais – muitas vezes existem apenas algumas das suas características.

por exemplo. Olhares sociológicos mais recentes Mesmo quando os sociólogos estão de acordo em relação ao objecto da análise.4.11 como racionalização – a organização da vida económica e social segundo princípios de eficiência e tendo por base o conhecimento técnico. Marx e Weber. destruísse o espírito humano.4. Temia uma sociedade moderna que fosse um sistema que. a Revolução Industrial e a emergência do capitalismo eram provas de uma tendência maior no sentido da racionalização. 1. as linhas a tracejado uma relação indirecta. o carácter científico era um dos traços mais característicos do Ocidente. ilustrando a forma como se relacionam com outras instituições. 1. estão directamente relacionadas com Durkheim. O capitalismo não era dominado pelo conflito de classes. esta é conduzida muitas vezes a partir de perspectivas teóricas diferentes. Weber não era totalmente optimista em relação às consequências da racionalização. e o interaccionismo simbólico. Funcionalismo O funcionalismo defende que a sociedade é um sistema complexo cujas partes se conjugam para garantir estabilidade e solidariedade. ao tentar regular todas as esferas da vida social. ainda que as posições deste último autor – sublinhando a natureza intencional e significativa da acção humana – tenham afinidades com os temas estudados pelo Interaccionismo Simbólico. .1. Podemos analisar as crenças religiosas e costumes de uma sociedade. respectivamente. Auguste Comte (1798-1857) Karl Marx (1818-1883) Max Weber (1864-1920) George Herbert Mead (1863-1931) Émile Durkheim (1858-1917) Funcionalismo Marxismo Interaccionismo simbólico As linhas contínuas indicam uma influência directa. Três de entre as mais importantes correntes teóricas recentes: o funcionalismo. mas pelo avanço da ciência e da burocracia – organizações de grande dimensão. Para Weber. a perspectiva do conflito. De acordo com o autor. como Marx defendia. Mead não é discípulo de Weber. pois as diferentes partes de uma sociedade estão intimamente relacionadas entre si.

uma corrente de pensamento que se tornou particularmente importante nos Estados Unidos da América. Aqui. as teorias da acção social dão uma atenção muito maior ao papel desempenhado pela acção e pela interacção dos membros da sociedade na formação dessas estruturas.4. Weber é frequentemente apontado como um dos primeiros defensores das perspectivas da acção social. Perspectivas da acção social Se o funcionalismo e a perspectiva do conflito colocam a tónica nas estruturas que sustentam a sociedade e influenciam o comportamento humano. . O interaccionismo simbólico foi apenas influenciado de forma indirecta por Weber. Weber afirmava que essas estruturas eram criadas pelas acções sociais dos indivíduos. Perspectiva do conflito Tal como os funcionalistas. portanto. entre outras –. Os funcionalistas. os sociólogos que adoptaram as teorias de conflito sublinham a importância das estruturas na sociedade. Tão ou mais importantes são os campos que se caracterizam pelo conflito e pela divisão. 1.3. Esta posição foi desenvolvida de uma forma mais sistemática pelo interaccionismo simbólico. O funcionalismo enfatiza a importância do consenso moral na manutenção da ordem e da estabilidade na sociedade.4. Embora reconhecendo a existência de estruturas sociais – como as classes. o papel da Sociologia é visto como sendo mais o da procura do significado da acção e da interacção social. cuja obra enfatizava o conflito de classes. Em todas as sociedades há uma separação de interesses entre aqueles que detêm autoridade e aqueles que estão em grande medida excluídos dela. os partidos. usaram muitas vezes uma analogia orgânica para comparar a actividade da sociedade com a de um organismo vivo. 1. a raça ou o género – são minimizadas. o pensamento funcionalista foi provavelmente a principal corrente teórica da Sociologia. os grupos de prestígio. do que o da explicação das forças externas aos indivíduos que os compelem a agir da forma que agem. A existência desta diferença de interesses significa que o potencial para o conflito está sempre presente e que determinados grupos irão tirar mais benefício do que outros.2. Tendem a ver a sociedade como algo que é composto por diferentes grupos que lutam pelos seus próprios interesses. em detrimento de factores que produzem conflito e divisão. uma separação entre governantes e governados. Um bom exemplo disto é o sociólogo alemão contemporâneo Ralf Dahrendorf (1929 –). Uma crítica feita recorrentemente ao funcionalismo é a de que este realça excessivamente o papel de factores que conduzem à coesão social.12 Estudar a função de uma instituição ou prática social é analisar a contribuição dessa instituição ou prática para a continuidade da sociedade. muito embora outros sejam igualmente influenciados por Weber. A ênfase na estabilidade e na ordem significa que as divisões ou as desigualdades – com base em factores como a classe social. Durante um longo período. Os pontos de vista de muitos teóricos do conflito remontam aos escritos de Marx. incluindo Comte ou Durkheim. em particular nos Estados Unidos da América.

para observarmos cuidadosamente as influências que dão forma às nossas vidas e às dos outros. Uma maneira de fazermos isso é tornarmo-nos conscientes das diferenças entre os modos de vida que nós nas sociedades modernas consideramos como normais e os dos outros grupos humanos. 1. . Interaccionismo simbólico O interaccionismo simbólico nasce de uma preocupação com a linguagem e o sentido.13 1. Conclusão Por vezes a discordância entre as diferentes posições teóricas é bastante extensa. mas esta diversidade é um sinal da força e vitalidade da disciplina. na verdade. Todos os sociólogos concordam que a Sociologia é uma disciplina em que nós pomos de lado os nossos próprios modos de ver o mundo. Aprender a tornarmo-nos sociólogos não devia ser um esforço académico aborrecido. A Sociologia não é apenas um campo intelectual abstracto. Muito embora a perspectiva interaccionista simbólica possa incluir muitas reflexões em torno da natureza das nossas acções na vida social quotidiana. O interaccionismo simbólico dirige a nossa atenção para os detalhes da interacção interpessoal.4. já foi criticada por ignorar questões mais amplas relacionadas com o poder e a estrutura na sociedade e a forma como ambos servem para constranger a acção individual. as palavras que usamos para aludir a determinados objectos são. A palavra «colher» é o símbolo que usamos para descrever o utensílio a que recorremos para comer sopa. Por exemplo. mas algo que pode ter implicações práticas importantes na vida das pessoas.3. Um símbolo é algo que representa algo. e não uma fraqueza. Gestos não-verbais ou outras formas de comunicação são também exemplos de símbolos.5. Mas os sociólogos estão igualmente interessados num leque mais vasto de assuntos acerca da natureza da interacção social e das sociedades humanas em geral. A melhor maneira de nos assegurarmos de que tal não acontece é abordar a disciplina de uma forma imaginativa e relacionar ideias e conclusões com situações da nossa própria vida. símbolos que representam o que queremos transmitir. e para a forma como esses detalhes são usados para conferir sentido ao que os outros dizem e fazem.1.

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Foram desenvolvidas inúmeras teorias nas diversas áreas de investigação em que trabalham os sociólogos. Robert Merton. De facto. a Europa era uma área bastante insignificante do globo. Algumas são estabelecidas com muita precisão e. foi vital para o arranque do desenvolvimento económico do Ocidente. e as opiniões variam sobre o grau em que é desejável ou útil aos sociólogos empreenderem esforços teóricos de grande amplitude. eram as maiores potências. pois. Um exemplo relevante é o da teoria da privação relativa. o que não é difícil de explicar. Deveríamos ser mais modestos.0. Os chineses. Por definição. O estilo de vida do Ocidente era modesto e frugal. enquanto a China. tenta mostrar Weber. estes grupos não esbanjavam a sua riqueza. ocasionalmente. esteja confinado a um «alcance médio». 2. no Próximo Oriente. a Índia e o Império Otomano. mais difícil se torna testá-la empiricamente. em Sociologia é uma tarefa difícil e formidável. parece não haver nenhuma razão óbvia para que o pensamento teórico. Na realidade. até foram expressas de forma matemática – embora isto seja mais frequente noutras Ciências Sociais (especialmente na Economia) do que em Sociologia. As teorias de médio alcance são suficientemente específicas para se poderem testar através da investigação empírica. embora devam ser suficientemente genéricas para cobrirem uma série de fenómenos diferentes. Não obstante. Encontramos o desejo de acumular riqueza em civilizações muito diferentes. sentir-se-á provavelmente menos carente do que uma que viva numa casa semelhante.1. mas num bairro onde muitas das casas sejam muito maiores e mais opulentas. em vez de tentarmos criar grandes esquemas teóricos. os debates teóricos são mais abstractos do que controvérsias de tipo mais empírico. Uma família a viver numa casa pequena. Esta atitude constitui aquilo a que Weber chama o espírito do capitalismo – um conjunto de crenças e valores defendidos pelos primeiros capitalistas mercantis e industriais.15 2. em Sociologia. e especialmente abordagens teóricas. O PENSAMENTO TEÓRICO NA SOCIOLOGIA Avaliar teorias. onde toda a gente vive em circunstâncias mais ou menos idênticas. . Este conjunto de características pouco habituais. é verdade que quanto mais ampla e ambiciosa for uma teoria. estavam muito mais avançados do que o Ocidente em termos do seu desenvolvimento tecnológico e económico. em especial. defende enfaticamente que os sociólogos deveriam concentrar a sua atenção no que designa como teorias de médio alcance. A abundância de abordagens teóricas e de teorias rivais é uma expressão da vitalidade da Sociologia. A diversidade do pensamento teórico fornece uma fonte rica em ideias que podem ser a base de novas investigações e estimula as capacidades imaginativas tão essenciais ao progresso do trabalho sociológico. O comportamento humano é complicado e multifacetado e é muito pouco provável que uma única perspectiva teórica possa cobrir todas as suas características. Max Weber: a Ética Protestante Durante os cerca de treze séculos que se seguiram à queda da Roma antiga. outras civilizações foram muito mais proeminentes na história do mundo do que a ocidental. por exemplo. Certos tipos de teoria tentam explicar muito mais do que outros. ao contrário dos ricos de eras anteriores e de culturas diferentes. num bairro pobre.

pois tal está predeterminado por Deus. Parece razoável supor que valores . desta forma. à primeira vista. ou quando. indicado pela prosperidade material. Contudo. tornou-se o sinal principal de que uma pessoa era realmente um dos eleitos. na maioria. Quando a realização da vocação não pode ser directamente relacionada com valores culturais e espirituais mais altos. 2 A teoria dá sentido a algo que. Esta motivação foi acompanhada pela necessidade dos crentes viverem uma vida sóbria e frugal. por outro lado. Weber defende que certas doutrinas Calvinistas foram a fonte directa do espírito do capitalismo. segundo a qual apenas certos indivíduos predestinados fazem parte dos «eleitos» – aqueles que irão para o céu após a morte. Uma delas era a ideia de que os seres humanos são instrumentos de Deus na terra e que o Todo Poderoso deseja que eles sigam uma vocação – uma ocupação – para a maior glória de Deus. o indivíduo abandona normalmente a tentativa de a justificar. parece imensamente distante dele – um conjunto de ideais religiosos. esta crença causou tal ansiedade entre os seus seguidores que foi modificada para permitir que os crentes reconhecessem certos sinais de eleição. Impelidos principalmente por motivos religiosos. A teoria de Weber reúne vários critérios importantes no pensamento teórico em Sociologia. Se a tese de Weber for válida. Como Weber assinala: Quando o ascetismo foi retirado das celas monásticas e trazido para a vida quotidiana e se tornou dominante ao nível da moralidade mundana.. o desejo de acumular riqueza juntou-se a um estilo de vida muito severo e simples. o Cristianismo teve um papel na promoção dessa perspectiva. o desenvolvimento económico e social moderno foi influenciado por algo que. mas a força motivadora essencial foi imprimida pelo impacto do Protestantismo – e em especial por uma variedade do Protestantismo. o Puritanismo.16 Em geral. O êxito conseguido pela dedicação a uma vocação. Puritanos.. ao facto de os indivíduos que queriam viver frugalmente se esforçarem ao mesmo tempo por acumular riqueza. ou seja. A teoria de Weber foi criticada por muitos quadrantes. 3 A teoria é capaz de iluminar outras circunstâncias para além das que propusera inicialmente abordar. os primeiros empresários tinham pouca consciência de que estavam a ajudar a provocar mudanças enormes na sociedade. Todavia. não necessita de ser sentida simplesmente como compulsão económica. Os Puritanos acreditavam que o luxo era diabólico e. Alguns argumentaram. Um segundo aspecto importante do Calvinismo era a noção de predestinação. por exemplo. Na doutrina original de Calvino. Os primeiros capitalistas eram. muito antes de se ouvir falar em Calvinismo. desempenhou o seu papel na construção do enorme cosmos da ordem económica moderna . 1 É contra-intuitiva – sugere uma interpretação que rompe com o que nos dita o senso comum. que aquilo a que ele chamou «o espírito do capitalismo» pode ser discernido nas primeiras cidades mercantis italianas. é enigmático. nada do que uma pessoa faça nesta terra pode alterar o facto de ela vir a fazer parte dos eleitos. o essencial da descrição de Weber continua a ser aceite por muitos e a tese que defendeu permanece tão clara e reveladora como quando foi inicialmente formulada. e muitos seguiam os preceitos Calvinistas. de outra forma.

2. Trata-se de saber até que ponto seremos actores humanos criativos. ou das sociedades como um todo. cumpro obrigações definidas pela lei e pelo costume que . as sociedades são afectadas por divisões. Para eles. ou se a maioria do que fazemos será resultado de forças sociais exteriores ao nosso controlo. mas que não pode ser ignorado. nas suas obras. fornecendo um ponto de partida para uma série de investigações e teorias posteriores. Este dilema centra-se na seguinte questão: até que ponto o mundo moderno foi moldado pelos factores económicos que Marx salientou – em especial os mecanismos do sistema económico capitalista? 2. posteriormente. com um controlo activo das condições das nossas vidas. tensões e lutas. (3) Existe um terceiro dilema teórico fundamental ao qual mal se presta atenção nas tradições ortodoxas da Sociologia. Um dos principais dilemas teóricos associados ao género é o seguinte: deveremos considerar o «género» como uma categoria geral do pensamento sociológico? Ou as diferenças de género deverão ser sempre explicadas principalmente em termos das outras diferenças que dividem as sociedades (como as divisões de classe)? (4) Um quarto problema não se prende tanto com as características gerais do comportamento humano. Esta opinião é expressa por Durkheim num parágrafo famoso: Quando desempenho os meus deveres de irmão. (2) Um segundo dilema teórico diz respeito ao consenso e ao conflito na sociedade.17 paralelos aos incutidos pelo Puritanismo possam estar relacionados com outras situações de desenvolvimento capitalista bem sucedido. Dilemas teóricos (1) Um dilema diz respeito à acção humana e à estrutura social. 1987). A sociedade é muito mais do que a soma das acções individuais. os indivíduos parecem «neutros» – «actores» abstractos. 4 Uma boa teoria não é apenas aquela que é válida. Dilema I: Estrutura e acção Um tema importante tratado por Durkheim e. por muitos outros sociólogos.1. praticamente não deram qualquer atenção ao facto de os seres humanos estarem divididos em géneros (Sydie. possui uma «firmeza» ou «solidez» comparáveis às estruturas do meio ambiente. Também é aquela que é frutuosa. marido ou cidadão e mantenho os compromissos que assumi.1. Para eles é ilusório dizer que as pessoas tendem a viver amigavelmente umas com as outras. é o dos constrangimentos sociais exercidos sobre as nossas acções pelas sociedades em que estamos inseridos. a maior parte do tempo. Outros sociólogos acentuam a omnipresença do conflito social. em vez de estarem diferenciados em homens e mulheres. na medida em que gera novas ideias e estimula investigações posteriores. Todas as figuras principais do desenvolvimento passado da teoria sociológica eram homens e.1. mas antes com aspectos do desenvolvimento social moderno. Nos seus trabalhos. A teoria de Weber foi certamente muito bem sucedida neste aspecto.

De acordo com os críticos os fenómenos sociais não são precisamente o mesmo que «coisas». Por outro lado. Não somos criaturas da sociedade. possui uma enorme quantidade de conhecimento socialmente estruturado. A linguagem está constantemente em processo de estruturação. as diferenças entre as duas opiniões podem ser exageradas. como indivíduo.. A perspectiva de Durkheim. O que é a «sociedade». apesar daquilo a que Durkheim chama «factos sociais» poderem exercer constrangimentos sobre nós. perguntam os críticos. A “acção” apenas é possível na medida em que cada um de nós. Embora o tipo de perspectiva que Durkheim exprime tenha muitos seguidores. “Estrutura” e “acção” estão necessariamente relacionadas entre si. os rituais que os estranhos seguem quando passeiam na rua.18 são exteriores a mim próprio e às minhas acções .1. se estivesse firmemente resolvido a isso. Apesar de a sociedade ser exterior a cada indivíduo. Eu poderia decidir não usar dinheiro. distinguem-se facilmente conexões entre elas. estas observações podem ser feitas para cada um deles (Durkheim. É evidente que as instituições sociais nos colocam restrições e constrangimentos. mas dependem dos significados simbólicos de que revestimos as nossas acções. Um termo útil para analisar este processo activo de construção e reconstrução da estrutura social é o de estruturação. 1982. já que existe desde que os pensadores modernos começaram a tentar explicar sistematicamente o comportamento humano. mesmo que viesse a ser bastante difícil viver no dia a dia. A melhor forma de explicar a estruturação é através do exemplo da linguagem.. Além disso. é obviamente errado supor que a sociedade nos é «exterior». Não obstante. .1. 50-1). A forma de ultrapassar a diferença entre a abordagem «estrutural» e a centrada na «acção» é reconhecer que construímos e reconstruímos activamente a estrutura social no decurso das nossas actividades diárias. A linguagem tem de ser estruturada socialmente – existem características da utilização da linguagem que qualquer orador tem de observar.1. pp. também foi fortemente criticado. mas os seus criadores. Pois este mundo continuaria a existir quer houvesse ou não seres humanos. Avaliação É pouco provável que esta controvérsia seja alguma vez inteiramente resolvida. Somos o que somos enquanto seres humanos em larga medida porque seguimos um complexo conjunto de convenções – por exemplo. senão o conjunto de muitas acções individuais? A «sociedade» é apenas muitos indivíduos comportando-se de forma regular uns com os outros. Considerando individualmente cada membro da sociedade. eles não determinam o que fazemos. Apesar de nenhuma ser inteiramente correcta. Este é um conceito que o autor (Anthony Giddens) introduziu recentemente na sociologia. ela não pode por definição ser exterior a todos os indivíduos tomados em conjunto. mas seria perfeitamente disparatado dizer-se o mesmo de uma sociedade. 2. em certos aspectos é claramente válida. da mesma forma que o mundo físico que nos rodeia. tomado por si só.

Esta ideia está muito de acordo com a ênfase que Durkheim põe no carácter restritivo e «externo» dos «factos sociais. A melhor forma de descrever este dilema será comparar um tema que.3.1. por exemplo. composto por estruturas que engrenam umas nas outras. Dado essas desigualdades serem tão pronunciadas. devido às vantagens que ele pode trazer.). Durkheim afirma a certa altura que o homem é «quase inteiramente um produto da sociedade». Partindo destas observações. a sociedade é vista como estando essencialmente carregada de tensão – mesmo os sistemas sociais mais estáveis representam um equilíbrio instável entre grupos antagónicos. mas com a fisiologia de um corpo. as divisões entre grupos raciais ou facções políticas. Dilema III: O problema do género Os temas do género são pouco centrais nos escritos dos principais pensadores que desenvolveram a Sociologia moderna. coração. De outra forma. Há outras divisões que são vistas como igualmente importantes para promover conflitos. aparece nos escritos de Durkheim com outro que aparece nos de Marx. a analogia aqui estabelecida não é com as paredes de um edifício. Por exemplo. Dilema II: Consenso e conflito É igualmente útil começarmos por Durkheim ao contrastar perspectivas diferentes sobre o consenso e o conflito. No decurso da sua discussão sobre o suicídio. Avaliação Tal como no caso da estrutura ou da acção. mas os governantes aristocráticos também recorriam frequentemente ao uso da violência contra os que ousavam opor-se ao seu poder. por vezes. as sociedades estão divididas em classes com recursos desiguais.19 2. o que ambos os lados têm em comum tende a sobrepor-se às suas diferenças.1. há divisões de interesses embebidas no sistema social. fígado.1. Muitos pensadores funcionalistas tratam a sociedade como um todo integrado. enquanto em outras situações acontece o inverso. 2. nos tempos feudais o domínio aristocrático era apoiado pela ideia de que uma minoria de pessoas «nasce para governar». 2.2. diz o seguinte sobre o homem: «os seus . é pouco provável que este debate teórico possa ser inteiramente resolvido algum dia. e. a vida do organismo é ameaçada. Um conceito útil que ajuda a analisar as interrelações entre conflito e consenso é o de Ideologia – valores e crenças que contribuem para assegurar o domínio dos grupos mais poderosos sobre os menos poderosos. Muitos conflitos são sobre o poder. a ideologia e o conflito estão sempre relacionados de modo estreito. As duas posições não são totalmente incompatíveis. O poder. em vez disso. O corpo é constituído por várias partes especializadas (cérebro. pulmões. etc.1.2. Contudo. enquanto a mulher é «em grau muito maior um produto da natureza». Segundo Marx. contribuindo cada uma delas para manter a continuidade da vida do organismo e funcionando necessariamente em harmonia. O conflito aberto não é contínuo. Quaisquer que sejam os grupos conflituosos mais destacados pela análise.

nem a divisão de género nem as divisões de classe estavam presentes. as diferenças de género estão profundamente embebidas em todas as sociedades. . O impacte das tecnologias da informação. Por outras palavras. mas também as mudanças na natureza do trabalho. Segundo Marx.. foram influenciadas pelo pensamento pós-moderno. No seu recente trabalho sobre a masculinidade (1999). Temas semelhantes foram discutidos por Susan Faludi. por conseguinte. Faludi mostra que a ideia de que os homens dominam em todas as esferas é um mito. A identidade feminina é tão moldada pela socialização como a masculina. Algumas escritoras feministas argumentaram ser um erro supor que tanto «homens» como «mulheres» são grupos com os seus próprios interesses ou características. As diferenças entre os géneros assentam fundamentalmente em distinções biológicas entre homens e mulheres. tal como Judith Butler (1999). As discrepâncias de poder entre mulheres e homens reflectem o facto de as mulheres gerarem filhos e serem as responsáveis primárias pela sua criação. porque os homens e as mulheres têm experiências de vida diferentes e vêem o mundo sob perspectivas diferentes. do trabalho e da guerra. por exemplo. Alguns grupos de homens ainda estão confiantes e sentem-se com controlo: muitos outros sentem-se marginalizados e com falta de respeito próprio. Em vez disso. gostos e inclinações diferentes. As suas necessidades. fez com que muitos homens com menos competências sejam redundantes para as necessidades das sociedades. presume que a posição social da mulher e a sua identidade são principalmente moldadas (tal como Chodorow sugere) pelo seu envolvimento na reprodução e na criação dos filhos. A dominação masculina foi não só desafiada na sociologia. nas primeiras formas de sociedade humana. Embora a diversidade dos pontos de vista do feminismo faça com que seja difícil falar nele de uma forma genérica. exibida no que as pessoas fazem e não no que são. as suas aspirações e o seu humor têm em grande medida uma origem colectiva. Elas serão libertadas da sua situação de servidão quando as divisões de classe forem ultrapassadas. Tal opinião não significa necessariamente acreditar que as diferenças de género são principalmente inatas. Se este ponto de vista estiver correcto. pois as mulheres são menos socializadas e estão «mais próximas da natureza» do que os homens. enquanto os da sua companheira são mais directamente influenciados pelo seu organismo.». O sucesso alcançado por algumas mulheres é parte da razão. mulheres e homens têm identidades. como também houve a necessidade de uma reconstrução compreensiva da própria disciplina – tanto nas questões que formam o seu núcleo como na apresentação das discussões em seu torno. Segundo Butler. A opinião de Marx é substancialmente contrária a esta.. As mulheres passaram a ser uma forma de «propriedade privada» dos homens através da instituição do casamento.20 gostos. o género não é uma categoria fixa mas fluida. são bastante diferentes das dela . podemos seguramente dizer que a maioria das feministas concorda que o conhecimento se relaciona integralmente com questões de sexo e género. não constróem a sua compreensão do mundo de modo idêntico. enquanto os homens são activos nas esferas «públicas» da política. Hoje ninguém aceitaria uma opinião expressa nestes termos. As classes não são o único factor que opera na formação das divisões que afectam o comportamento dos homens e das mulheres. Muitas destas escritoras.

origem cultural.2. etc. como uma luta com o legado intelectual de Marx.4. A despeito das novas investigações sobre as mulheres feitas nos últimos vinte anos. Este facto conduz a uma inovação tecnológica constante. o capitalismo. O impulso subjacente à mudança social na era moderna é a pressão exercida a favor de uma transformação económica constante que é parte fundamental da produção capitalista. pois estes dizem respeito às relações entre as identidades e os comportamentos das mulheres e dos homens.4. Por agora.3. É assim que Marx explica a expansão global da indústria ocidental.1. Como já mencionámos. 2. até que ponto outras divisões sociais necessitam de ser explicadas em termos de género. O capitalismo é um sistema económico muito mais dinâmico que qualquer outro anterior.21 2. etnicidade. é um sistema em expansão constante que avança pelo mundo. pelo contrário.4.1. Na verdade. A perspectiva de Weber Um dos primeiros e o mais agudo crítico de Marx foi Max Weber. temos de deixar em aberto a questão de saber se as diferenças de género podem ser elucidadas através doutros conceitos sociológicos (classe. .1. Marx vê as sociedades modernas como capitalistas. A posição alternativa que Weber propôs continua hoje a ser importante. Outros sociólogos argumentaram que Marx havia exagerado quanto ao impacto de factores puramente económicos na produção da mudança e que o capitalismo é menos central no desenvolvimento social moderno do que ele pensava.1.ou seja. Por conseguinte. 2. A perspectiva marxista A obra de Marx lançou um desafio poderoso à análise sociológica que não foi ignorado. «trazer o estudo das mulheres para a Sociologia» não é o mesmo que lidar com os problemas do género.1. Dilema IV: A formação do mundo moderno 2. persistem muitas áreas em que as actividades e interesses distintos das mulheres não foram suficientemente estudados. Avaliação As questões colocadas por este terceiro dilema são da maior importância e baseiam-se directamente no desafio que as autoras femininas apresentaram à Sociologia. Praticamente todos aceitam que o capitalismo teve um papel importante na criação do mundo em que hoje vivemos. os escritos de Weber foram descritos como uma luta contra o «fantasma de Marx» . Contudo. pois aumentar a eficácia da tecnologia usada num processo de produção determinado é uma forma de as companhias poderem adquirir vantagem sobre os seus rivais. segundo Marx.1.) ou se.

Teorias recentes Os temas abordados no dilema quatro ainda são importantes. O nosso mundo está a ser refeito.1.2. o Estado-nação estão em declínio: flexibilidade. 2. Acreditam que a tentativa de Marx para encontrar padrões gerais da história estava irremediavelmente condenada ao fracasso.1. Estudos factuais dos estádios de desenvolvimento das sociedades modernas. Ao invés. 2. portanto.3. mas teóricos mais recentes tentaram ir para além tanto de Marx como de Weber. A burocracia é a única forma de organizar eficientemente um grande número de pessoas e. descentralização e internacionalização estão em ascensão. O mundo pós-moderno não está destinado a ser. as nossas próprias subjectividades estão a ser transformadas. muitos investigadores. ajudam-nos a avaliar até que ponto os padrões de mudança são conformes com um ou com o outro lado. os académicos estão divididos. é um mundo dominado pelos novos media. tão pouco existe algo como a história. A sociedade pós-moderna é muito pluralista e diversificada. esta noção se desmoronou. e dos países do Terceiro Mundo. diversidade. como Marx esperava. comunicação. os autores de esquerda. o capitalismo – uma forma específica de organização do sistema económico – é um entre outros factores importantes que moldaram o desenvolvimento social na era moderna. os do lado B (Weber). Não só não existe uma noção geral de progresso que possa ser defendida.22 Segundo Weber. Além disso. Tudo parece estar num fluxo constante. socialista. Deixaram de existir quaisquer «grandes narrativas» ou metanarrativas – concepções globais da história ou da sociedade – que façam sentido. as nossas próprias identidades. diferenciação e mobilidade. as duas perspectivas estão ligadas a posições políticas diferentes. a grande cidade. Estamos em transição para uma nova era. o consumidor de massas. 2. em geral. Neste processo. e em certos aspectos mais importante que eles. o nosso sentido do eu (self).4. que nos «afastam» do nosso passado. De facto. Um dos teóricos importantes da pós-modernidade é o autor francês Jean-Baudrillard. adoptam os pontos de vista do lado A (Marx) e os liberais e conservadores. Subjacente a mecanismos de economia capitalista. Baudrillard também é da opinião de que os meios de . A produção em massa.2. está o impacto da ciência e da burocracia. expande-se de forma inevitável com o crescimento económico e político. no presente. fazem pouco caso de Marx. Avaliação Mais uma vez. incluindo alguns que originalmente eram marxistas. A teoria pós-moderna Os defensores da ideia do pós-modernismo defendem que os pensadores sociais clássicos retiraram a sua inspiração da ideia de que a história tem uma forma – «tem uma direcção» e conduz ao progresso – e que.

Foucault tentou o oposto: encontrar um sentido no familiar investigando o passado. entre os fundadores clássicos. a Princesa de Gales. por exemplo. associações profissionais e revistas médicas. Comentários semelhantes . morreu em 1997. precisamente porque são familiares. Utilizou o termo para se referir a modos de falar ou pensar acerca de determinado tema que estão unidos por pressupostos comuns. nas sociedades modernas. que a noção de ‘sexualidade’ nem sempre existiu. Muito do nosso mundo tornou-se uma espécie de universo «faz de conta» no qual respondemos às imagens dos media em vez de a pessoas ou locais reais. Foucault atacou de forma enérgica o presente – os conceitos estabelecidos. por exemplo. especialistas médicos. influenciada por signos e imagens. Foucault seguiu algumas das linhas de raciocínio de que estes foram pioneiros. a difusão da comunicação electrónica e dos meios de comunicação de massa revelou-se contrária ao teorema marxista de que as forças económicas moldam a sociedade. Um tema proeminente entre os trabalhos de Foucault. tal como nos programas televisivos. sobretudo. Marx e Weber. Na Idade Média. Baudrillard foi fortemente influenciado pelo marxismo no início dos seus estudos. a ideologia e o discurso com os sistemas organizacionais modernos. O estudo do poder – a forma como os indivíduos e os grupos atingem os seus fins contra os dos outros – é de importância fundamental na Sociologia. O papel do discurso é central no seu pensamento acerca do poder e do controlo na sociedade. invisíveis. Numa era dominada pelos media. contudo. quando Diana. os loucos eram geralmente olhados como inofensivos. colocavam uma ênfase especial no poder. em grande medida. Não obstante.2. estariam as pessoas a chorar por uma pessoa real? 2. o significado é criado pelo fluxo das imagens. a vida social é. Ao invés. houve um enorme constrangimento de dor. diz Baudrillard. Contudo.2. argumenta. execução da lei e disciplina. hospitais. as crenças e as estruturas que são. mas foi criada através de processos de desenvolvimento social. é o modo como o poder e o conhecimento estão ligados às tecnologias de vigilância. Assim. Ao contrário de outros cientistas sociais que procuram dar um sentido ao desconhecido. a «loucura» foi moldada por um discurso medicalizado que enfatiza a doença e o seu tratamento. Deste modo. desenhando analogias com o que é familiar. não só na Grã-Bretanha como no mundo inteiro. estabelecido pelos que têm poder ou autoridade. pegando na ideia de Saussure de que os significados são criados pelas relações entre as palavras e não pela realidade exterior. os discursos podem ser utilizados como uma ferramenta poderosa para limitar formas alternativas de pensamento ou expressão. Este discurso é apoiado e perpetuado por redes de médicos altamente desenvolvidas e influentes.23 comunicação electrónicos destruíram as nossas relações com o passado e criaram um mundo caótico e vazio. Defendeu. alguns acreditavam que até podiam possuir um «dom» especial de percepção. Aqui Baudrillard inspira-se no estruturalismo. pode muitas vezes ser combatido apenas pelo discurso de especialistas concorrentes. Michel Foucault Foucault avançou com ideias importantes acerca da relação entre o poder. O discurso de especialistas.

Mas a cidadania desenvolveu-se tipicamente de maneiras que são muito mais favoráveis aos homens do que às mulheres. etc. em conjunto com o autor deste livro (Anthony Giddens).3.4. são dominados por interesses comerciais. enquanto a vida quotidiana se está a libertar do jugo da tradição e dos costumes. Escritores como o espanhol Manuel Castells e os pensadores alemães Jürgen Habermas e Ulrich Beck.2. tal como a noção de que podemos mudar o mundo para melhor. estão a produzir importantes mudanças sociais para todos nós. 2. Nancy Fraser (1989) sublinha que Habermas. Os sonhos de Marx de uma alternativa socialista ao capitalismo estão mortos. A antiga sociedade industrial está a . A maioria dos teóricos sociais contemporâneos aceita que as tecnologias da informação e os novos sistemas de comunicação. da sanidade e da loucura.2. Todavia. a maioria discorda das ideias culturais nucleares dos pós-modernos e de Foucault. Mas alguns dos valores que guiaram o projecto socialista – os da comunidade social. por exemplo.2. A democracia. não proporcionam um foco para a discussão democrática. em conjunto com outras mudanças tecnológicas. Por isto.5. que argumentam que as nossas tentativas para compreender os processos gerais no mundo social estão condenadas. A esfera pública é essencialmente a base da democracia. por exemplo. 2. A posição das mulheres na família. está ainda muito subordinada aos homens. Por segunda modernidade entende o facto de as instituições modernas se estarem a tornar globais. Outros pontos de vista A vigilância – acumular informação acerca das pessoas de modo a controlar o seu comportamento – é um fenómeno sempre presente na sociedade marcada pelo aparecimento dos mass media. a desigualdade na vida familiar é de relevância directa para a democracia pública. da igualdade e do cuidado dos fracos e vulneráveis – estão ainda muito vivos. tem sido frequentemente assumida como sendo dominada em grande medida pelo mundo masculino. Quando a televisão e os jornais.24 podem ser tecidos acerca das modernas concepções das actividades normais e desviantes. são da opinião de que precisamos. mais do que nunca. Jürgen Habermas: a democracia e a esfera pública Sugere que alguns dos princípios básicos que inspiraram a escrita de Marx têm de ser mantidos. 2. na sua discussão sobre a democracia. de desenvolver teorias gerais do mundo social e de que estas teorias nos poderão ajudar a intervir no mundo e a moldá-lo de uma forma positiva. trata a cidadania como sendo de género neutro. sublinham os críticos. Habermas foi criticado por autores feministas por não ter prestado a atenção devida às relações entre o género e a democracia. Ulrich Beck: a sociedade do risco Mais do que habitarmos num mundo «para além do moderno» estamos a deslocar-nos para uma fase a que chama «a segunda modernidade».

Qualquer pessoa que pense desenvolver uma relação com outra tem de ter estes factos em consideração e está. nas sociedades desenvolvidas. Ao mesmo tempo. a Finlândia tem um Estado-Providência estável e efectivo que tem sido adaptado para ir ao encontro das necessidades da nova economia. O risco e as relações de género estão intimamente relacionados. No passado. Castells pensa ser possível voltar a obter um controlo mais efectivo sobre o mercado global. . argumenta Castells. certamente. mas sob a de um sistema electrónico de transações financeiras”. envolvida no cálculo de riscos. que assenta nas ligações possibilitadas pelas comunicações globais é. que antes era do domínio dos activistas ecológicos. é marcada pelo surgimento das redes e da economia em rede.25 desaparecer e a ser substituída pela «sociedade do risco». são criadas novas situações de risco diferentes das de eras anteriores. capitalista. passou a preocupar-se com o impacto dos media e das tecnologias da comunicação. A Finlândia é a sociedade de informação mais desenvolvida do mundo. A nova economia. Assim. Castells chama à nova economia global “automaton” – à semelhança de Habermas. Muitas decisões ao nível da vida quotidiana também são afectadas pelo risco. Hoje. foi agora aceite como fazendo parte da agenda política convencional. Castells conclui que a tecnologia de informação pode muitas vezes ser um meio de aquisição de poder a nível local e de renovação da comunidade. Beck não afirma que o mundo contemporâneo é mais arriscado do que nas eras anteriores. Ao invés. por exemplo. o “lugar” das mulheres era em casa. mas que a natureza dos riscos que temos de enfrentar está a mudar. A responsabilidade da gestão do risco não pode ser deixada apenas aos políticos ou aos cientistas: é necessária a participação de outros grupos. portanto. por exemplo. Com o avanço da ciência e da tecnologia. quais poderão ser os riscos dos alimentos modificados geneticamente.6.2. Contudo. Nas palavras de Castells. “o pesadelo da humanidade no qual as máquinas tomam o controlo do nosso mundo está à beira de se tornar realidade – não sob a forma de robots que eliminam os empregos ou sob a forma de computadores do governo que policiam as nossas vidas. A sociedade da informação. A gestão do risco é a característica principal da ordem global. A responsabilidade pelo ambiente. a economia capitalista e a sociedade de hoje são muito diferentes das do passado. ninguém sabe ao certo. Há uma geração atrás. as telecomunicações e os computadores são a base da produção. Manuel Castells: a economia em rede Tal como Baudrillard. muitas pessoas vivem juntas sem estarem casadas e as taxas de divórcio são elevadas. o casamento era um simples processo de transição de vida – passava-se de um estado de solteiro para o de casado e esta situação era assumida como sendo relativamente permanente. é da opinião de que já não controlamos por completo o mundo que criámos. 2. enquanto os homens “estavam fora a trabalhar”.

muitos aspectos da vida que para as gerações anteriores eram ponto assente. As teorias que acabámos de analisar estão entre as contribuições mais importantes para este esforço. Na minha perspectiva. provavelmente. no início de uma nova fase importante do desenvolvimento da teoria sociológica? As ideias dos pensadores clássicos – Marx. Todas as formas da família tradicional baseavam-se no domínio dos homens sobre as mulheres. as nossas vidas são influenciadas por pessoas que nunca conhecemos ou vimos. Vivemos num período de mudança que é.2. A democracia ainda é crucial. É claro que estas novas possibilidades estão repletas de novos dilemas éticos. Anthony Giddens: a reflexividade social Deveríamos colocar a par da noção de risco a de confiança. algo que era sancionado pela lei. 2. É necessário desenvolver novas teorias para compreender os novos desenvolvimentos que hoje estão a transformar as nossas sociedades. que podem estar a viver num lugar distante do nosso. A confiança e o risco estão muito relacionados entre si. tornaram-se objectos de decisão em aberto. pois os grupos existentes na área da “subpolítica” fazem reivindicações divergentes e têm interesses diferentes. A democracia não se pode limitar à esfera pública tal como esta foi definida por Habermas.7.26 2.3. Conclusão Estaremos hoje. . tão profundo como aquele – e que se faz sentir muito mais no mundo inteiro. Para nós. Ao viver numa sociedade mais global. viver na era da informação significa um aumento da reflexividade social. talvez. Durkheim e Weber – foram formadas durante tempos de grande mudança social e económica.

A investigação desta autora abriu uma janela sobre um aspecto da vida que a maioria das pessoas julga entender. Vocês são proprietárias do vosso sorriso enquanto trabalham. 3. enquanto instituição. “O vosso sorriso é o vosso maior recurso. mas que era necessário compreender de forma mais profunda. mas que não estavam genuinamente a sorrir. Da mesma forma. o objectivo da teorização e da investigação sociológica é romper com a forma especulativa como normalmente se consideram certas questões. necessariamente definitivas. tanto na sua teorização como na investigação. são muitas vezes semelhantes aos que preocupam muitas outras pessoas. muito mais rico do que alguma vez o foi? Estará a família. temos de conhecer os métodos de investigação mais úteis para um dado estudo e a melhor forma de analisar os seus resultados. hoje. Para atingir estes objectivos. Nalguns países onde não existe a tradição do sorriso em público. O trabalho de hospedeira de bordo é semelhante a muitos trabalhos que vocês e os vossos amigos desempenham presentemente.” Baseando-se na sua investigação com as candidatas a hospedeiras de bordo. frequentemente. pode vir a sentir-se como uma peça de uma máquina. O braço de um trabalhador. disse o piloto. proceder a muitas pesquisas antes de ser possível obter respostas a perguntas factuais como estas. têm um valor duvidoso como indicador do nível real da . 123 candidatas a hospedeiras de bordo sentaram-se e ouviram um piloto explicarlhes que o sorriso era o seu recurso principal. quero que sorriam realmente”. tal como na Gronelândia. por exemplo. Questões sociológicas Os assuntos que preocupam os sociólogos. de modo algum. em Atlanta. Este facto é interessante se tomarmos em consideração que as emoções são normalmente pensadas como uma parte pessoal e profunda de nós próprios.27 3. Como pode existir fome em massa num mundo que é. Usem-no de facto.1. esta demonstrou ser uma tarefa difícil. exigindo que mais e mais pessoas se envolvam no “trabalho emocional” no local de trabalho. Sorriam realmente. Que formas de crime são mais comuns? Que proporção de pessoas que adoptam um comportamento criminoso são apanhadas pela polícia? Quantas destas pessoas são consideradas culpadas e presas? É necessário. e apenas acidentalmente uma parte da pessoa que o está a mexer. Os empregos no sector dos serviços estão a crescer rapidamente em vários países do mundo. a desintegrar-se? As suas descobertas não são. por exemplo.0. É necessário oferecer aquilo a que Hochschild chama “trabalho emocional” – trabalho que requer que os sentimentos sejam geridos de modo a criar uma “montra” facial e corporal visível (e aceite) publicamente. Algumas das questões que os sociólogos colocam nos seus estudos são em grande medida factuais ou empíricas. Hochschild passou um largo período de tempo nas aulas porque uma das melhores maneiras de compreender os processos sociais é participar neles e observá-los. No entanto. Hochschild foi capaz de juntar uma nova dimensão ao modo como os sociólogos pensam acerca do mundo do trabalho. as estatísticas oficiais sobre o crime. MÉTODOS DE INVESTIGAÇÃO EM SOCIOLOGIA No auditório do Centro de Formação para Hospedeiras da Delta Airlines. “Agora meninas. os trabalhadores do sector de serviços disseram muitas vezes a Hochschild que tinham posto os seus sorrisos.

nem sempre nos dirá se estamos a lidar com um caso pouco usual ou com um conjunto muito genérico de influências. a sociologia é um empreendimento científico. Muitos aspectos do mundo social não podem ser investigados do mesmo modo que o mundo natural e iremos ver porque é assim. podemos investigar. Muitas vezes. Assim. Claro que a informação factual acerca de uma sociedade. como surgiram as primeiras prisões e como estas são presentemente. os sociólogos querem colocar questões comparativas. Muitos sociólogos trabalham em primeiro lugar as questões empíricas. Uma questão comparativa típica poderia ser a seguinte: Como é que variam os padrões de comportamento criminal e da aplicação da lei entre a Grã-Bretanha e os Estados Unidos? As questões colocadas pelos sociólogos são relativas ao desenvolvimento. é pouco provável que o seu trabalho seja esclarecedor. Este argumento é válido mesmo para a investigação efectuada com objectivos puramente práticos.28 actividade criminosa. ou contrastando exemplos oriundos de diferentes sociedades. Precisamos sempre de interpretar o significado dos factos e. começaremos por considerar até que ponto a sociologia pode ser vista como uma ciência. é diferente da observação dos acontecimentos no mundo físico e a sociologia não deveria ser vista . ou lado? tratou-se de algo que ocorreu apenas na Grã-Bretanha ou em alguma região da Grã-Bretanha? Questão de Isto aconteceu ao longo do Quais foram os padrões dos desenvolvimento tempo? resultados escolares das raparigas ao longo do tempo? Questão teórica O que está por detrás deste Porque é que as raparigas têm um fenómeno? melhor desempenho na escola? Que factores deveríamos ter em conta para explicar esta mudança? O que aconteceu? Neste capítulo. por muito importantes ou interessantes que eles possam ser. Segundo esta definição. mas a não ser que sejam guiados na recolha empírica por algum conhecimento teórico. muitas vezes. na análise de dados. relacionando um contexto social com outro.1. Os investigadores que estudaram os níveis de crime descobriram que só cerca de metade dos crimes sérios são comunicados à polícia. contudo. temos de aprender a colocar questões teóricas. as raparigas têm obtido melhores resultados escolares do que os rapazes. Contudo. Analisaremos também algumas investigações concretas – dado que. A sociologia será uma ciência? A ciência consiste na utilização de métodos científicos sistemáticos de investigação empírica. Um processo de questionamento sociológico Questão factual Desde os anos 80. como os sociólogos lhes preferem chamar. As investigações factuais – ou. Questão comparativa Este fenómeno deu-se em todo o Foi um fenómeno global. existem contrastes entre a definição ideal do modo como a pesquisa deveria ser conduzida e os estudos reais. 3. empíricas – preocupam-se em saber como ocorrem as coisas. para o fazer. Estudar os seres humanos. no pensamento teórico e na avaliação lógica de argumentos para desenvolver um corpo de conhecimentos acerca de um objecto particular. a sociologia não consiste apenas na recolha de factos. por exemplo.

as instituições sociais estão continuamente a ser representadas ao longo do tempo e do espaço através das acções repetidas dos indivíduos. indo desde o início da pesquisa até à altura em que são publicadas as suas descobertas ou disponibilizadas sob a forma escrita.29 directamente como uma ciência natural. . Através das nossas próprias acções. e quais as consequências prováveis tanto para os próprios doentes como para o resto da comunidade. uma vantagem para a sociologia. pois sugere assuntos que o investigador não tinha considerado previamente.2.2. Os problemas de investigação surgem como parte do trabalho que se está a efectuar. “O que está a acontecer aqui?”. O facto de não podermos estudar os seres humanos da mesma forma que os objectos na natureza é.1. um projecto de investigação pode facilmente conduzir a outro. Em vez de responder simplesmente à pergunta. Assim. 3. O estudo da sociedade é diferente do mundo natural por outra razão. Os sociólogos podem ser induzidos a questionar o que provocou a mudança de atitude em relação aos doentes mentais. O problema de investigação As pessoas estarão realmente descontentes com o “governo”? Um enigma não é apenas uma falta de informação. que tenha cometido suicídio. Não podemos descrever a vida social de forma acurada a não ser que compreendamos primeiro os conceitos que as pessoas aplicam no seu comportamento. Deste modo. da mesma maneira como agiriam normalmente. estamos constantemente a criar e a recriar as sociedades em que vivemos. os humanos são seres autoconscientes que conferem sentido e objectivos ao que fazem. podemos perguntar: porque estarão os padrões da crença religiosa a modificar-se? Porque é tão diminuta a representação das mulheres nos empregos de estatuto social elevado. Os seres humanos têm capacidade para compreender e responder ao conhecimento social de um modo que não é possível em relação aos elementos do mundo natural. 3. frequentemente. A sociedade não é uma entidade estática ou imutável. a sociologia cria dificuldades que não são encontradas pelos cientistas naturais. As pessoas que têm conhecimento de que as suas actividades estão a ser avaliadas não se comportarão. Noutros aspectos. Ao contrário dos objectos na natureza. de certa forma. a relação entre a sociologia e o seu objecto é necessariamente diferente da existente entre os cientistas naturais e o mundo físico. É desta forma que a sociologia pode servir como uma poderosa força emancipadora. a investigação que tenta resolver um enigma procura contribuir para o entendimento das razões do porque os eventos ocorreram de um modo determinado. é igualmente uma lacuna no nosso entendimento. O processo de investigação O processo de investigação envolve uma série de passos distintos. Não se pode dizer de alguém que se atravesse acidentalmente em frente de um carro e seja morto.

Definição do problema da investigação Se já existe literatura relevante. então. Noutras. . decidir exactamente como vão ser recolhidos os materiais de investigação.2. 3.4. o investigador pode regressar da biblioteca com uma boa noção do modo como o problema pode ser abordado. Como consequência. Por exemplo. estes podem apenas estar a começar! Raramente é fácil avaliar as implicações das informações coligidas e relacioná-las com o problema em questão. tal como o desenvolvido por Arlie Hochschild. as companhias que não o estão a aplicar poderão querer ser alvo deste estudo. pode ser adequado fazer um inquérito (no qual normalmente se usam questionários).2. Neste estádio. pode dar-se o caso de investigações anteriores terem já clarificado satisfatoriamente o problema.2.3. Como é que o tentaram resolver? Que aspectos do problema foram deixados de fora da análise? Discorrer sobre as ideias de outros ajuda o investigador a clarificar os assuntos que podem ser levantados e os métodos que podem ser usados na investigação. Interpretação dos resultados A reunião do material da análise não significa o fim dos problemas do investigador – de facto.2. Para que a investigação seja eficaz.6. muitas investigações não são totalmente conclusivas. Em certas circunstâncias. Realização da investigação Pode revelar-se ser impossível contactar algumas das pessoas a quem os questionários deveriam ser enviados ou que o investigador deseja entrevistar. normalmente o próximo passo a seguir no processo de investigação é rever as evidências disponíveis no campo. 3. 3.30 3. então.5. os resultados poderiam estar enviesados. 3. Elaboração de um plano O investigador deve. os palpites sobre a natureza do problema podem por vezes tornar-se hipóteses definidas. Revisão dos conhecimentos Uma vez identificado o problema.2. deverá ser estabelecida uma hipótese de forma a que o material reunido forneça a oportunidade de a testar.2. podem ser mais apropriadas as entrevistas ou um estudo assente na observação. se o investigador está a estudar o modo como as empresas estão a cumprir o programa de iguais oportunidades para as mulheres. Embora possa ser possível obter uma resposta clara para as questões iniciais que a investigação se propunha analisar. Uma hipótese é uma suposição acerca da relação entre os fenómenos em que o investigador está interessado.

uso das fontes existentes Realize a investigação Recolha dados.8.2. registe informação Interprete os resultados Analise as implicações da informação coligida Elabore o relatório final Qual o significado das conclusões? Como se relacionam com as descobertas anteriores? As suas descobertas são registadas e discutidas na comunidade académica . Elaboração do relatório final No caso de Hochschild este relatório foi o livro The Managed Heart. A realidade intromete-se! A sequência das etapas que acabámos de apresentar é uma versão simplificada do que acontece nos projectos de investigação.31 3. 3. inquérito. Este é um estádio final só em termos do projecto individual de investigação.2.7. Passos do processo de investigação Defina o problema Seleccione um tópico para a pesquisa Reveja a bibliografia existente Familiarize-se com a pesquisa existente sobre o problema Formule uma hipótese O que pretende testar? Qual a relação Entre as variáveis? Seleccione um plano de investigação Escolha um ou mais métodos de Investigação: experiência. A maioria das publicações indica as questões que permanecem sem resposta e sugere investigações adicionais que podem ser feitas no futuro de forma proveitosa. observação.dando talvez origem ao início de investigações posteriores .

Relação causal entre dois acontecimentos ou situações – uma associação na qual um acontecimento ou situação produz outro.2.32 A diferença é um pouco como aquela que existe entre as receitas dadas num livro de culinária e o processo real de cozinhar uma refeição. Existem muitas circunstâncias. 3. Seguir esquemas fixos pode ser excessivamente restritivo e muitas das investigações sociológicas mais famosas não se ajustariam de todo à sequência acabada de mencionar. Estas correlações são armadilhas para os mais incautos e conduzem facilmente a conclusões questionáveis ou falsas. que têm lugar sem pés nem cabeça. mas que na verdade é causada por outro factor ou factores. as razões deste sucesso podem ser realmente compreendidas à luz dos princípios físicos envolvidos. Correlação – existência de uma relação regular entre dois conjuntos de ocorrências ou variáveis. O que é que explica esta correlação? A investigação tende a mostrar que a resposta não reside principalmente na experiência escolar. Correlação espúria – associação entre duas variáveis que parece ser verdadeira. As pessoas com experiência de cozinha podem nem sequer recorrer aos livros de receitas e o seu trabalho é. A idade. Variável – qualquer dimensão ao longo da qual variam indivíduos ou grupos. ganhando velocidade à medida que o faz. as diferenças de rendimento. as taxas de crime e as diferenças de classe social são algumas de entre as muitas variáveis que os sociólogos estudam. Causalidade e correlação A causalidade não pode ser inferida directamente da correlação.1. A vida social não é um conjunto de acontecimentos aleatórios.3. muito mais criativo do que o daquelas que o usam. Se se solta o travão de mão num carro que está numa descida.3. Pode parecer que quando duas variáveis se correlacionam. contudo. O mecanismo causal Analisar relações causais envolvidas nas correlações é muitas vezes um processo difícil. Quanto melhores forem as notas obtidas por um indivíduo na escola. 3. 3. este irá descer. Compreender a causa e o efeito Um dos principais problemas a ser tido em conta nos métodos de investigação é a análise entre causa e efeito. os níveis de sucesso conseguidos na escola são muito mais influenciados pelo tipo de lar do qual a pessoa provém. Soltar o travão causou este acontecimento. Uma das principais tarefas da investigação sociológica – conjugada com o pensamento teórico – é a de identificar as causas e os efeitos. quase sempre. apesar de alguns dos passos poderem estar presentes. Os mecanismos causais neste caso são . não é esse o caso frequentemente.3. uma deve ser a causa da outra. melhor será a remuneração que poderá vir a ter. em que não é tão óbvio o facto de uma correlação observada não implicar uma relação causal.

Nunca poderíamos desenvolver e interpretar os resultados de uma investigação sociológica de forma satisfatória se fôssemos compelidos a testar a possível influência de cada factor causal que pudéssemos considerar potencialmente . No exemplo apenas mencionado. Variável dependente – a variável afectada.3.3. contudo. Tudo depende dos processos causais que estão a ser analisados. Para descobrir se a correlação entre as variáveis é uma relação causal.3. O mesmo factor pode ser uma variável independente num estudo e uma variável dependente num outro. Variáveis de Controlo Ao avaliar a causa ou causas que explicam uma correlação. 3. as crianças parecem prosperar normalmente desde que tenham uma relação estável de amor com alguém que olhe por elas – não tendo esse alguém de ser a própria mãe). Se estivéssemos a analisar os efeitos das diferenças de rendimentos nos estilos de vida. As atitudes que as pessoas têm. a ligação à mãe que realmente importa? Talvez se a criança receber amor e atenção de outras pessoas durante a infância. As relações causais em sociologia não deveriam ser entendidas de uma forma muito mecânica. independentemente de se tratar ou não da mãe. Será. (De facto. 3. A distinção refere-se à direcção da relação causal que estamos a investigar. Identificação das causas Há um grande número de causas possíveis que poderiam ser invocadas para explicar uma dada correlação. mas o segundo não. conjuntamente com as oportunidades para a aprendizagem proporcionadas em casa.33 as atitudes dos pais para com as suas crianças. separando as relações causais. durante o qual está separada dos seus pais. são factores causais nas relações entre as variáveis na vida social. ele ou ela possa ser ulteriormente uma pessoa estável? Para averiguar estas possíveis relações causais. mas receberam amor e cuidados de outra pessoa. com casos nos quais as crianças foram separadas das suas mães.4. poderíamos suspeitar que o cuidado regular de alguém na infância é o que importa. o rendimento seria a variável independente em vez da variável dependente. Se o primeiro grupo desenvolvesse fortes distúrbios de personalidade. e as suas razões subjectivas para agirem como agem. os resultados académicos são a variável independente e o rendimento da profissão a variável dependente. Uma fonte de privação maternal é o internamento de uma criança no hospital durante um longo período de tempo. das não causais. somos capazes de avaliar diferentes explicações de correlações observadas. utilizamos as Variáveis de controlo – variáveis que tomamos como constantes de modo a observarmos os efeitos das outras. Ao fazê-lo. Variável independente – variável que produz um efeito numa outra. deveríamos comparar casos em que as crianças tivessem sido privadas de cuidados regulares de quem quer que fosse. é necessário distinguir entre variáveis independentes e variáveis dependentes.

Nos trabalhos tradicionais de etnografia as avaliações eram apresentadas sem grandes informações sobre o observador. mas os mecanismos causais exactos são em larga medida desconhecidos. São possíveis outras interpretações da correlação. ele ou ela podem ser aceites como investigadores. Durante muito tempo. utilizando a observação participante ou entrevistas para entender o comportamento social. Por vezes. que as pessoas que têm predisposição para contrair cancro no pulmão estão também predispostas para fumar. mas. Os fumadores têm maior probabilidade de contrair cancro nos pulmões do que os não fumadores. as perguntas directas podem ser bem recebidas. pelo que se aceita geralmente a existência de uma ligação causal. Um grande número de pessoas que têm cancro no pulmão são fumadoras ou fumaram durante grandes períodos de tempo no passado. pode tratar-se apenas de considerar como é que a raça. Sob esta perspectiva não é o fumo que causa cancro no pulmão. era normal que uma investigação baseada na observação participante excluísse quaisquer relatos das peripécias ou problemas que tiveram de ser ultrapassados. Em certos contextos.1. o investigador “torna-se” praticamente um membro da comunidade. olhados como estranhos. . as memórias e diários publicados sobre trabalhos de campo são muito abertos a esse respeito. por exemplo. mas. por exemplo. classe ou género afectam o trabalho. Etnografia Etnografia – estudo das pessoas e grupos em primeira mão num determinado período de tempo. Um bom exemplo de como é difícil estar seguro quanto às relações causais envolvidas numa correlação é proporcionada pela longa história de estudos sobre o tabaco e o cancro no pulmão. Métodos de Investigação 3.34 relevante. mas. Existiram muitos estudos que confirmaram estas correlações. Certos tipos de trabalho de campo podem até ser fisicamente perigosos – um investigador que estuda uma quadrilha de delinquentes. mais recentemente. pode ser visto como um informador da polícia ou ver-se envolvido involuntariamente em conflitos com grupos rivais.4. Defendeu-se. ainda assim. 3. mas noutros podem provocar um silêncio gélido. depois de um certo tempo. O processo em que se procura ganhar confiança pode ser longo e difícil. A identificação de relações causais é normalmente guiada pela pesquisa prévia sobre a área em questão. Algumas vezes. e esta probabilidade ainda é mais forte entre quem fuma muito do que entre quem fuma menos. A correlação pode também ser expressa de outro modo. por exemplo. Este objectivo é alcançado através do envolvimento directo dos investigadores nas interacções que constituem a realidade social do grupo que está a ser estudado. mas uma disposição biológica inata para fumar e para o cancro. Têm de se enfrentar frequentemente momentos de solidão – não é fácil alguém adaptar-se a um contexto social ou a uma comunidade estranha. noutros casos. ou de como é que as relações de poder entre observador e observados distorcem o diálogo entre eles. os etnógrafos conseguem muitas vezes construir relações de confiança com os membros do grupo.4.

visto não estarem limitados a respostas rígidas.1. Normalmente. ou mesmo que dois investigadores diferentes possam chegar às mesmas conclusões no estudo do mesmo grupo. Inquéritos Em virtude de apenas um pequeno grupo de pessoas estar envolvido.1. Nalguns estudos. não podemos ter a certeza de que o que é descoberto se poderá aplicar a outras situações. visto envolverem apenas um pequeno número de categorias. os inquéritos tendem a produzir informação menos detalhada. porque se preocupa mais com a compreensão subjectiva do que com dados numéricos. fornece informações muito mais ricas sobre a vida social do que a maioria dos outros métodos de investigação. População – denominado pelos sociólogos o grupo de pessoas a serem inquiridas ou estudadas. Nos inquéritos são utilizados dois tipos de questionário. a informação recolhida é de âmbito restrito. Os inquéritos de resposta fechada têm a vantagem dos seus resultados serem fáceis de comparar e contar. Se as ferramentas de análise forem desenhadas correctamente. Vantagens e limites da etnografia A etnografia. as correlações encontradas através de um inquérito podem ser generalizáveis a um universo mais vasto. Todas . A investigação etnográfica é mais adequada para estudos em profundidade de pequenas fatias da vida social.2. Também podemos aprender mais acerca dos processos sociais que interferem na situação a ser estudada. Por outro lado.2. A etnografia é muitas vezes referida como fazendo parte da investigação qualitativa.4.4. como enviados aos respondentes por correio ou email (os chamados “questionários auto-administrados”). em virtude deste tipo de resposta não permitir subtilezas de opinião ou uma expressão verbal. As questões dos questionários são normalmente organizadas de modo a que uma equipa de entrevistadores possa colocar e registar as respostas segundo uma ordem pré-determinada. Questionários Os questionários tanto podem ser aplicados pessoalmente pelo investigador.35 3. “Sim / Não / Não sabe” ou “Muito provável / Provável / Improvável / Muito improvável”.1. Por outro lado. a população pode ser de muitos milhares de pessoas. quando é bem sucedida. ou mesmo enganador. a falta de estandardização significa que as respostas podem ser mais difíceis de comparar estatisticamente.4. 2. 3. mas que se pode aplicar habitualmente a uma área mais vasta. que são mais quantitativos na sua natureza. 1. Os inquéritos têm como objectivo a recolha de dados que podem ser analisados estatisticamente para revelarem padrões ou regularidades. 3. De respostas fechadas – consistem num conjunto de questões padronizadas para as quais apenas é possível dar um número fixo de respostas fechadas – por exemplo. De respostas abertas – dão oportunidade aos entrevistados para exprimirem os seus pontos de vista pelas suas próprias palavras. este é um problema menor nos inquéritos.

os resultados de um inquérito a uma amostra da população podem ser generalizados a toda a população. O método científico é o modelo para este tipo de investigação.4. Normalmente. Muitos sociólogos argumentam que tal quantificação dá uma aparência de precisão a dados cuja exactidão pode ser duvidosa.3.2. os investigadores podem contratar uma agência especializada em sondagens para reunir o material de que necessitam. e.2. as entrevistas são efectuadas mais ou menos simultaneamente por todo o país. 3. essa amostra deve ser uma amostra representativa da população em geral. pode ser estudado um número elevado de pessoas. Vantagens e desvantagens dos inquéritos Os inquéritos são muito usados na investigação sociológica. Os níveis de “não resposta” são. Um procedimento importante para garantir a representatividade da amostra é a amostragem aleatória. por vezes. 3.2. desde que a amostra seja correctamente definida. A forma mais sofisticada de se obter uma amostragem aleatória é atribuir um número a cada membro da população e usar um computador que escolha números ao acaso. por exemplo. .4. Contudo. A maioria dos inquéritos é precedida por estudos piloto de forma a detectar problemas não previstos pelo investigador. um em cada dez de uma série aleatória. Seria mais apropriado perguntar: “É solteiro. Amostragem Seria impossível estudar todas as pessoas directamente. pois os inquéritos dão uma medida estatística aos investigadores do que estão a estudar. A elaboração dos questionários deve ser feita cuidadosamente tendo em vista as características dos entrevistados. A amostragem é mais complicada do que pode parecer e os técnicos de estatística desenvolveram várias regras para calcular a dimensão e a natureza correctas das amostras. Será que dispõem de suficiente informação para responder de forma útil? Os termos empregues no questionário podem ser pouco familiares aos entrevistados. Estudo piloto – ensaio em que um questionário é preenchido apenas por um pequeno grupo de pessoas. e assim nestes casos a investigação concentra-se numa pequena proporção do grupo total – uma amostra do total. por muitas razões. dada a natureza relativamente superficial da maioria das respostas aos inquéritos. As respostas a questionários podem ser mais facilmente quantificadas e analisadas do que o material produzido pela maioria dos outros métodos de investigação.36 as questões devem ser de compreensão imediata tanto para os entrevistadores como para os entrevistados. Nos grandes inquéritos nacionais realizados regularmente por institutos estatais e de investigação. em que se escolhe uma amostra de forma a que todos os membros da população tenham a mesma probabilidade de serem incluídos. caso os apoios financeiros sejam suficientes. dos quais derivará a amostra – escolhendo. casado ou divorciado?”. para se conseguir tal exactidão. Quaisquer dificuldades encontradas podem ser resolvidas antes de ser feito o inquérito.

Estes efeitos foram tão marcados e o nível de tensão tão elevado que a experiência teve de ser cancelada.). ficaram surpreendidos com o facto de a continuar a aumentar produtividade dos trabalhadores independentemente das condições experimentais a que eram submetidos (intensidade de luz. 1972). de vez em quando. que montou uma prisão simulada. não têm lugar entre as ciências naturais. Apesar disso. 3. O seu objectivo era ver até que ponto o desempenho destes papéis diferentes conduzia a mudanças de atitude e de comportamento. padrões de intervalos. As opiniões dos sociólogos acerca do valor das histórias de vida divergem: alguns acham que o método é demasiado inseguro para .4. etc. os resultados foram importantes. que se pode identificar muitas vezes em situações reais entre prisioneiros. especialmente quando os questionários são enviados e devolvidos pelo correio. Os prisioneiros exibiram uma atitude que era um misto de apatia e de rebelião. as histórias de vida pertencem apenas ao campo da Sociologia e das outras ciências sociais. Os trabalhadores estavam conscientes de que estavam a ser observados e aceleraram o seu ritmo normal de trabalho.37 elevados. Histórias de vida Ao contrário das experiências. dimensão da equipa de trabalho. Nos anos 30. o qual é normalmente narrado pelos próprios. Só se podem levar pequenos grupos de pessoas para um laboratório e nessa situação as pessoas sabem que estão a ser estudadas e podem comportar-se de modo diferente do normal. o campo para esta técnica de investigação em sociologia é muito mais limitado. Efeito de Hawthorne – mudanças comportamentais assumidas pelas pessoas que sabem que estão a ser estudadas. próximo de Chicago. Pouco se sabe acerca dos que preferem não responder ou se recusam a ser entrevistados. Um exemplo é uma experiência engenhosa levada a cabo por Philip Zimbardo.4. Apesar disso. Em comparação com as ciências naturais. Histórias de vida – consistem na recolha de material biográfico sobre determinados indivíduos. Experiências Experiência – pode ser definida como uma tentativa de testar uma hipótese em condições altamente controladas estabelecidas pelo investigador. Não é invulgar os estudos publicados serem baseados em resultados derivados de pouco mais de metade dos apresentados na amostra – embora normalmente se faça um esforço para voltar a contactar os que não responderam ou para os substituir por outros. os métodos experimentais podem.4. pois oferecem grandes vantagens em relação a outros processos de investigação. 3. Zimbardo concluiu que o comportamento nas prisões é mais influenciado pela natureza da própria situação de se estar preso do que pelas características individuais dos envolvidos. atribuindo a estudantes voluntários o papel de guardas prisionais e de prisioneiros (Zimbardo. os investigadores que conduziam um estudo sobre a produtividade no trabalho na Western Electric Company’s Hawthorne Plant. As experiências são muito usadas nas ciências naturais. ser aplicados utilmente em sociologia.3.

de W. muitas vezes. 1980). 3. apenas se pode estender a um período de há sessenta ou setenta anos atrás. por exemplo.5. Por reunir tal variedade de materiais. Estudar a mudança social: o caso da globalização Tomemos como exemplo o estudo da globalização. mas os antigos registos que foram conservados estão também a aumentar de importância como fontes sociológicas e históricas. pois necessitamos frequentemente de ter uma perspectiva temporal. Através da análise de fontes documentais muito diversas. A conjugação entre a investigação comparativa e a histórica Os sociólogos que combinam a investigação comparativa e a histórica adoptam a chamada análise secundária. cujos cinco volumes foram originalmente publicados entre 1918 e 1920 (Thomas e Znaniecki. Este trabalho de pesquisa.1.38 fornecer uma informação útil. Ashworth conseguiu desenvolver uma descrição rica e detalhada do que era a vida nas trincheiras. 3. quando tantos judeus e outros morreram em campos de concentração às mãos dos nazis durante a Segunda Guerra Mundial. Thomas e Florian Znaniecki.4. Sockpol foi capaz de desenvolver uma explicação poderosa da mudança revolucionária. As histórias de vida têm sido utilizadas com sucesso em importantes estudos.6. forçados a estarem juntos durante semanas e semanas. Ashworth estava interessado em analisar o que era a vida para homens que tinham de estar sob fogo constante. quando ainda existem sobreviventes – como é o caso do Holocausto. consequências de resultados não esperados. Demonstrou que as revoluções sociais são. Análise histórica Uma perspectiva histórica é. Um estudo célebre que utilizou muito este material foi The Polish Peasant in Europe and America. cartas e artigos de jornais que recolheram.4.4. obviamente.6. A investigação em história oral implica entrevistar pessoas sobre acontecimentos de que foram testemunhas em dada altura das suas vidas. em grande medida. em compreender como as pessoas se . enquanto outros acreditam que as histórias de vida fornecem fontes de conhecimento que muito poucos outros métodos de investigação sociológica podem igualar. I. que salientava a importância das condições sociais estruturais subjacentes. um dos temas mais importantes que foi enfatizado neste livro. Um exemplo interessante de pesquisa documental num contexto histórico é o estudo efectuado pelo sociólogo Anthony Ashworth sobre a guerra das trincheiras durante a Primeira Guerra Mundial (Ashworth. útil na análise sociológica. Alguns períodos da história podem ser estudados directamente. para que o material que recolhemos acerca de um problema particular faça sentido. Poderíamos estar interessados. 1966). Thomas e Znaniecki conseguiram uma visão mais sensível e subtil da experiência da imigração do que teria sido possível sem as entrevistas. 3.

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adaptam a um mercado global no qual as mudanças de emprego são mais comuns do que no passado. Como todos os grandes processos de mudança, a globalização foi impelida por uma mistura de consequências intencionais e não intencionais. O impacte subsequente da Internet foi muito maior do que alguém poderia ter pensado ou desejado inicialmente.

3.5. Investigação no mundo real: métodos, problemas, escolhas
Quem já tenha desenvolvido investigação sociológica pode dar-se conta do facto de que a investigação no “mundo real” parece bastante diferente dos métodos de investigação tal como são explicados num livro! Ao envolver-se num estudo, o investigador pode pensar que as ferramentas escolhidas originalmente venham a ser de valor limitado para o tema em consideração. Em outros momentos, podem existir dificuldades que não foram previstas, relativas, por exemplo, ao acesso a certa população ou à construção de um inquérito por questionário exequível. A investigação sociológica exige uma certa flexibilidade; não é incomum combinar vários métodos numa única peça de investigação, utilizando cada um deles para complementar e testar os outros num processo conhecido como triangulação.

3.5.1. Investigar a raça e a pobreza nos espaços urbanos
Nos anos 50, Greenwich Village foi o tema de um estudo clássico em sociologia da autoria de Jane Jacobs (1961) sobre a natureza da vida urbana. Quatro décadas mais tarde, Mitchell Duneier estava curioso para saber como tinha mudado a natureza da vida de passeio de Greenwich Village desde o estudo de Jacobs. Como é que um sociólogo estuda o teor da vida na rua? Duneier era um cliente habitual de Hakim e reparou como as pessoas se juntavam frequentemente à sua mesa para discutirem livros, política e filosofia. Hakim era um exemplo de uma “figura pública” – uma importante figura da vida da rua que está em contacto regular com um vasto espectro de pessoas.

3.5.1.1. Repensar o enfoque da investigação
O manuscrito foi aceite para publicação, mas Duneier sentiu-se pouco à vontade. Hakim era da opinião que o manuscrito se concentrava demasiado nele e na sua mesa. Sentiu que o enfoque da investigação de Duneier era demasiado estreito para capturar outras dinâmicas importantes que ocorriam no passeio – que o seu caso não era adequado para abordar a complexidade da vida social nas ruas. As perguntas dos estudantes deram importantes orientações a este respeito: Onde é que Hakim conseguia os seus livros? Como é que os residentes brancos deste bairro interagiam com estes homens? Por abrir o seu trabalho inicial ao escrutínio, Duneier foi capaz de formular uma nova aproximação à sua investigação.

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3.5.1.2. “Entrar” como um observador participante
Como homem branco, formado, de classe média alta, Duneier ocupava uma posição social muito diferente da dos homens pobres negros, estigmatizados, que eram o foco do seu estudo. Duneier reconheceu que seria inútil tentar “adequar-se” – mesmo se tentasse alterar a sua roupa e a sua forma de falar, continuaria de fora. Duneier obteve o consentimento dos homens do bloco para manter um gravador a funcionar continuamente sob a mesa da loja onde trabalhava; os homens familiarizaram-se com o gravador e muitas vezes ofereceram-se como voluntários para o manejar quando ele estava longe da mesa ou fora da cidade. A presença de Duneier foi gradualmente aceite e nos dois anos seguintes tornou-se uma figura regular na rua. Apesar de ter conseguido ser “aceite”, Duneier compreendeu que tolerar um observador participante e confiar nele não eram necessariamente a mesma coisa. Sabia que alguns homens do quarteirão tinham suspeitas sobre os motivos subjacentes à investigação e pensavam que estava a tentar ganhar dinheiro com um livro acerca das suas vidas. Outros achavam que ele tinha boas intenções, mas era ingénuo e por isso um “alvo” legítimo a explorar. No início do seu trabalho na rua, Duneier era muitas vezes interpelado pelos mendigos que lhe pediam pequenas quantias de dinheiro pois viam nele um “outsider rico”. Era difícil dizer “não” a estes pedidos, apesar de ser ele próprio a financiar a sua investigação e não ter dinheiro para desperdiçar. Foi com grande dificuldade que aprendeu a dizer “não” aos pedidos regulares de dinheiro, mas ajudaria de boa vontade de outras formas, como nas negociações com os senhorios ou partilhando o seu conhecimento do direito. Duneier descobriu que um dos grandes desafios com que se deparava como etnógrafo a trabalhar numa comunidade com poucos recursos, era decidir quando seria apropriado intervir nas vidas das pessoas que eram o centro da sua investigação.

3.5.1.3. Publicar a etnografia: anonimato, consentimento e relações de poder
Duneier tinha sido honesto com os homens nas ruas acerca do propósito da sua investigação e da sua identidade como sociólogo, mas também precisava de ter cuidado quanto a problemas éticos envolvidos na publicação das suas descobertas. Os que são objecto de um estudo etnográfico podem achar os resultados publicados ofensivos, tanto porque são retratados sob uma forma que acham pouco atraente, como porque as atitudes e comportamentos que preferiam manter em privado são tornados públicos. Isto era potencialmente problemático na investigação de Duneier: o manuscrito descrevia em detalhe comportamentos como urinar em público, o assédio às mulheres que passavam na rua, a dependência da droga e do álcool e as tensões com a polícia local. Os indivíduos do estudo de Duneier eram vulneráveis e com pouco poder; seria difícil para eles “responder” ao livro e aos seus conteúdos depois da sua publicação.

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Segundo Duneier, os homens da rua não estavam preocupados com o facto de as suas identidades serem reveladas; alguns deles até gostavam da ideia de as suas palavras e fotografias aparecerem num livro. Contudo, ao decidir abandonar o anonimato, Duneier foi cuidadoso, pois assegurou-se de que todas as pessoas que apareciam no livro estavam a par da forma como eram descritas. Levou uma cópia do manuscrito final a um hotel próximo da rua e convidou cada uma das pessoas que apareciam no livro a rever todos os pontos em que eram mencionadas. Muitos dos homens estavam mais interessados no modo como apareciam nas fotografias do que com o argumento que era apresentado no livro. Duneier descobriu que as suas tentativas para mostrar respeito pelas pessoas mostrando-lhes o texto, muitas vezes não funcionavam e que o deixaram com a sensação de estar a impor a sua agenda a uma audiência relutante. Apesar de este processo se ter revelado uma luta constante, Duneier acreditava que ele era necessário para que o livro mantivesse a sua integridade perante os homens da rua. Ao longo da investigação, Duneier tinha sido muito sensível às diferenças de raça, classe e status entre ele e os homens da rua. Acreditando ser importante que os homens no livro deveriam ter alguma oportunidade para responder à investigação que tinha conduzido, Duneier convidou Hakim para escrever o posfácio a Sidewalk. Apesar de Hakim não poder certamente falar por todos os homens do quarteirão, tinha estado envolvido no projecto desde o seu início e podia oferecer uma perspectiva diferente da do investigador. Duneier estava ao corrente da longa tradição dos investigadores brancos para se aproveitarem das palavras e imagens dos negros pobres para os seus próprios propósitos. Para Duneier era importante que a sua investigação não perpetuasse estas formas de exploração académica; fez disposições legais para partilhar os direitos do livro com os homens que eram citados nele.

3.6. Conclusão: A influência da sociologia
A investigação sociológica interessa frequentemente a uma audiência mais alargada do que à comunidade intelectual dos sociólogos e os seus resultados são muitas vezes disseminados de modo mais amplo. A Sociologia não é só, devemos salientar, o estudo das sociedades modernas; é um elemento significativo na vida contínua dessas sociedades. São poucas as pessoas que vivem nas sociedades modernas e que não têm conhecimento destas mudanças em virtude da difusão das pesquisas da Sociologia. O nosso pensamento e comportamento são afectados pelo conhecimento sociológico de forma complexa, e por vezes subtil, redefinindo assim o próprio campo da investigação sociológica. A razão não reside simplesmente no facto da Sociologia apresentar descobertas já conhecidas, mas sim no facto de a investigação sociológica influenciar continuamente o nosso entendimento de senso comum do que é a sociedade.

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como se estivessem bastante desligadas. Sociedade – sistema de inter-relações que envolve os indivíduos colectivamente. A monogamia – a fidelidade a um único parceiro sexual – é um exemplo de um valor proeminente na maioria das sociedades ocidentais.1. Esses elementos da cultura são partilhados pelos membros da sociedade e tornam possível a cooperação e a comunicação.1. enquanto outros podem aprovar o progresso e a ciência. A Grã-Bretanha. CULTURA E SOCIEDADE O conceito de cultura é uma das noções usadas com mais frequência em Sociologia. O conceito de cultura Quando os sociólogos falam do conceito de cultura. estão intimamente interligadas. Muito frequentemente.1. os seus padrões de trabalho. na verdade. 4. Valores – ideias abstractas que atribuem significado e orientam os seres humanos na sua interacção com o mundo social. Sem cultura.43 4. Normas e valores culturais em mudança Muitas das normas que hoje tomamos como assentes nas nossas vidas – como ter relações sexuais antes do casamento e haver . as suas formas de casamento e de família. e a nossa capacidade de pensar e raciocinar estaria severamente limitada. referem-se a esses aspectos das sociedades humanas que são apreendidos e não herdados. A entreajuda entre colegas num exame é reflexo do quanto os russos valorizam a igualdade e a resolução colectiva de problemas face à autoridade. O que será que revela acerca dos valores da sua sociedade? Mesmo no seio de uma sociedade ou comunidade. útil ou desejável são fundamentais em todas as culturas. não seríamos «humanos» sequer. repleta de movimentos globais de pessoas. quando. Nesta época em que vivemos marcada pela mudança. Normas – regras de comportamento que reflectem ou incorporam os valores de uma cultura. bens e informação. Não teríamos linguagem para nos expressarmos. neste sentido. inclui o modo como se vestem. O que une as sociedades é o facto de os seus membros se organizarem em relações sociais estruturadas segundo uma única cultura. cerimónias religiosas e actividades de lazer. Valores e normas As ideias que definem o que é importante. 4. são sociedades. no sentido em que habitualmente usamos o termo.1. As variações culturais entre seres humanos estão relacionadas com os diferentes tipos de sociedade. a França e os Estados Unidos da América.1. não é de estranhar que deparemos com casos de valores culturais em conflito. ou de grupos pertencentes a essa sociedade. nenhum sentido de autoconsciência. 4. discute-se separadamente a cultura e a sociedade.1. Cultura – modos de vida dos membros de uma sociedade. os valores podem ser contraditórios: alguns grupos ou indivíduos podem valorizar crenças religiosas tradicionais.

a migração ou a globalização contemporânea conduziu à emergência de . Diversidade cultural Não são só as crenças culturais que variam de cultura para cultura.2. Acreditam que sorrir e ser gentil para com os clientes é essencial às práticas comerciais numa lógica de mercado. No entanto. Um bom exemplo é representado pelo sorriso das pessoas – especialmente em contextos públicos – de diferentes culturas. o colonialismo. tendem a ser culturalmente uniformes ou monoculturais. a expressão comum japonesa que diz que «um prego saído deve ser martelado». de cumprimentarem os clientes e de sorrirem frequentemente. No Ocidente. em muitos supermercados da Gronelândia. são cada vez mais culturalmente diversificadas. são mostrados aos empregados vídeos educativos sobre técnicas de atendimento cortês. não existe a sólida tradição de sorrir em público que se verifica em muitas regiões da Europa e da América do Norte. mas que sorrir ou ser simpático para com desconhecidos não é simplesmente uma prática comum. Os valores e as normas culturais estão profundamente interiorizados. no Ocidente moderno as crianças de doze ou treze anos são consideradas demasiado novas para casar. com mais probabilidade.1. Por exemplo. Algumas sociedades modernas. como as sociedades de «caçadores-recolectores». pelo contrário. A escravidão. Tal não significa que os Inuit sejam pessoas frias ou hostis. A maioria das sociedades industrializadas. As sociedades de pequena dimensão. e tanto uns como outros são considerados. em outras culturas são arranjados casamentos entre crianças dessas idades. como o Japão. Hoje em dia. Muitos dos nossos hábitos e comportamentos estão enraizados em normas culturais. permaneceram relativamente monoculturais e caracterizam-se por elevados níveis de homogeneidade cultural. Também a diversidade do comportamento e práticas humanas é extraordinária. No entanto. Os gestos. Os Ocidentais consideram o acto de beijar uma parte natural do comportamento sexual. mas em muitas outras culturas esse acto ou é desconhecido ou considerado de mau-gosto. sendo pois demasiado cedo para dizer se uma normativa governamental conseguirá alterar os valores tradicionais do Japão. Todos estes diferentes tipos de comportamento são aspectos das grandes diferenças culturais que distinguem as sociedades umas das outras. por exemplo. Os clientes que são atendidos com um sorriso e com palavras gentis acabam. tendo-se chegado ao ponto de empregados de algumas cooperativas terem sido mandados frequentar acções de formação no estrangeiro! Os empregados do McDonalds foram instruídos no sentido de se apresentarem. 4.44 uniões de facto – contradizem valores que até há algumas décadas atrás eram partilhados por muitos. Entre os Inuit (esquimós) da Gronelândia. por se tornar clientes habituais. ou multiculturais. sugere que levará muito tempo e exigirá muito esforço até que os valores culturais japoneses de conformidade e discrição percam a sua força. comemos ostras. iguarias gastronómicas. a guerra. em algumas partes do mundo. movimentos e expressões são fortemente influenciados por factores culturais. mas não comemos gatinhos e cachorros.

Apesar das críticas da comunidade internacional e de campanhas empenhadas em favor das mulheres afegãs. e ainda não aprenderam a orientar-se na nova cultura. rastas. suspendendo os nossos valores culturais bem enraizados – pode ser algo repleto de incerteza e desafios. fãs de Hip-Hop ou apoiantes de um clube de futebol. Relativismo cultural – uma cultura tem de ser estudada segundo os seus próprios significados e valores – um pressuposto essencial da Sociologia. . Quando saíam de casa. A versão taliban da lei islâmica Sharia é por muitos eruditos muçulmanos considerada rigorosa. a região foi assolada por conflitos e pela guerra civil. Não é possível compreender crenças e práticas se as separamos das culturas de que fazem parte. analisar uma situação segundo os padrões de outra cultura. podendo incluir naturistas. um grupo que tinha como objectivo construir uma sociedade pura de acordo com os princípios islâmicos. Dada a ampla variação das culturas humanas.3. Certos aspectos da vida quotidiana que. étnicas e linguísticas. As culturas podem ser extremamente difíceis de entender quando vistas de fora. hackers informáticos. incluindo o modo de vestir. Etnocentrismo Se já viajou no estrangeiro. A expressão choque cultural é adequada! É frequente as pessoas sentirem-se desorientadas. Grande parte do país passou a ser controlada pelos Taliban. Subcultura – qualquer segmento da população que se distinga do resto da sociedade em virtude dos seus padrões culturais. pois perdem os pontos de referência que lhes são familiares e que ajudam a entender o mundo que as rodeia. os seus movimentos em público e os seus assuntos privados. góticos. são inconscientemente tomados como assentes podem. em determinada cultura. Contraculturas – grupos que rejeitam a maior parte das normas e dos valores vigentes numa sociedade.1. as mulheres deviam estar cobertas dos pés à cabeça e usar uma burka para esconder a cara. não é surpreendente que as pessoas provenientes de uma cultura achem frequentemente difícil aceitar as ideias ou o modo de comportamento das pessoas de uma diferente. ou seja. hippies. não fazer parte do dia-a-dia. A variedade de subculturas é enorme. O relativismo implica que julguemos todos os costumes e comportamentos como sendo igualmente legítimos? Nos anos que se seguiram à retirada militar da União Soviética do Afeganistão. as mulheres afegãs foram sujeitas a regras muito estritas em todos os aspectos das suas vidas. Aplicar o relativismo cultural – isto é.45 sociedades que são culturalmente mistas. Etnocentrismo – consiste em julgar as outras culturas tomando como medida de comparação a nossa. é-lhe provavelmente familiar a sensação resultante de se encontrar inserido numa cultura nova. a sua população é constituída por um determinado número de grupos de diferentes origens culturais. em outras partes do mundo. Durante o governo Taliban. 4. quando se inserem numa cultura nova. os Taliban defendiam que a sua política face às mulheres era essencial ao propósito de construir uma sociedade pura onde as mulheres eram respeitadas ao máximo e a sua dignidade venerada.

à nascença completamente desamparadas. em que a criança absorve de forma passiva as influências com as quais entra em contacto. • Socialização secundária – decorre desde um momento mais tardio na infância até à idade adulta. a família é o principal agente de socialização.46 Será esta política taliban em relação às mulheres aceitável no começo do século XXI? Por um lado. A socialização é. portanto. A criança humana é a mais desamparada de todas as crias. como um processo vitalício em que o comportamento humano é configurado de forma contínua por interacções sociais. instituições. seres activos. Por outro lado. os grupos de pares. aprendam e se ajustem. No entanto. o processo pelo qual as crianças indefesas se tornam gradualmente seres auto-conscientes. Até os recém-nascidos têm necessidades e exigências que afectam o comportamento daqueles que são responsáveis por tratar deles: as crianças são. é inquietante ter que aceitar explicações culturais para situações que vão contra as normas e valores que temos como assentes. As pessoas mais velhas continuam a ser pais quando se tornam avós. portanto. outros agentes de socialização assumem alguma da responsabilidade que pertencia à família. Agências de socialização – grupos ou contextos sociais onde ocorrem importantes processos de socialização. 4. desde o início. É a altura em que a criança aprende a falar e aprende os mais básicos padrões comportamentais que são os alicerces de aprendizagens posteriores.2. com pouca ou nenhuma ajuda por parte dos adultos. Nesta fase. O nascimento de uma criança modifica a vida daqueles que são responsáveis pela sua educação – e eles próprios consequentemente passam por novas experiências de aprendizagem. então. As escolas. A socialização deve ser vista. não inatos. Os animais menores da escala da evolução são capazes de tratar de si muito pouco tempo após nascerem. Socialização – processo através do qual as crianças. frequentemente. ou outros novos membros da sociedade. os animais superiores têm de aprender os modos de comportamento apropriados – as crias são. treinadas nas formas de cultura em que nasceram. A socialização não é uma espécie de «programação cultural». permitindo que os indivíduos desenvolvam o seu potencial. Fases da socialização: • Socialização primária – decorre durante a infância e constitui o período mais intenso de aprendizagem cultural. é importante o esforço para não aplicar os nossos próprios padrões culturais a pessoas que vivem em contextos muito diferentes. tornam-se forças de socialização de um indivíduo. formando então um outro conjunto de relações que ligam as diferentes gerações entre si. com saberes e capacidades. Socialização Como já se tornou claro. e necessitam do cuidado dos mais velhos. os meios de comunicação e eventualmente o local de trabalho. . O papel do sociólogo é o de evitar respostas precipitadas. Nesta fase. aprendem o modo de vida da sociedade em que vivem. a cultura pertence a esses aspectos da sociedade que são aprendidos e. procurando analisar as situações complexas com cuidado e a partir do maior número de ângulos possível.

Embora esta pluralidade de identidades sociais possa constituir uma fonte potencial de conflitos.1. O facto de estarmos envolvidos em interacções com os outros. casado.2. independentemente das suas opiniões pessoais ou maneiras de ver. estas formas de identidade estão intimamente relacionadas. a maioria das pessoas organiza o sentido e a experiência das suas vidas à volta de uma identidade principal que é relativamente contínua no tempo e no espaço. advogado. O género. Pode parecer que somos simplesmente o resultado dos moldes pré-concebidos que a sociedade tem preparados para nós. Identidade – entendimentos que as pessoas têm acerca de quem são e do que é importante para elas. de um modo geral. quem essa pessoa é. Para a sociologia. asiático. por exemplo. Estudante.47 4. No entanto. Identidade Os contextos culturais onde nascemos e crescemos influenciam o nosso comportamento. a nacionalidade ou a etnicidade são algumas das principais fontes de identidade. Na verdade. se tornam agentes. engenheira. Estes entendimentos formam-se em função de determinados atributos que são prioritários em relação a outras fontes geradoras de sentido. Eles não são simplesmente sujeitos passivos à espera de serem instruídos ou programados. disléxico. Tipos de identidade: • Identidade social • Identidade pessoal Embora analiticamente distintas. Estas podem ser vistas como marcadores que indicam. são exemplos de identidades sociais. Os indivíduos aprendem as expectativas ligadas às posições sociais na cultura onde estão inseridos. desde que nascemos até morrermos. a orientação sexual. sem-abrigo. Uma pessoa pode simultaneamente ser mãe. o conceito de identidade é multifacetado. mas tal não significa que seja negada individualidade ou livre arbítrio aos seres humanos. os nossos valores e comportamentos. condiciona certamente as nossas personalidades. 4. a socialização está também na origem da nossa própria liberdade e individualidade. independente dos indivíduos específicos que ocupam essas posições. mãe.2. a socialização é um processo pelo qual os seres humanos.2. esta perspectiva é errónea. desempenhando estes papéis em grande medida tal como foram definidos. envolve um conjunto de comportamentos que devem ser seguidos por todo e qualquer médico. podendo ser abordado de muitas maneiras. Este ponto de vista é errado. muçulmana e vereadora. Papéis sociais Papéis sociais – expectativas socialmente definidas seguidas pelas pessoas de uma determinada posição social. O papel social de «médico». .. católico. Na medida em que todos os médicos partilham este papel. etc. a classe social. Identidade social – características que os outros atribuem a um indivíduo. No essencial. é possível falar em termos genéricos de um modo de comportamento profissional dos médicos.

como viver e o que fazer – sem oferecer grandes orientações acerca das selecções a fazer. Embora o contexto cultural e social seja um factor que dá forma à identidade pessoal. Os indivíduos passaram a ter mais mobilidade social e geográfica.3.3. O mundo em extinção: as sociedades pré-modernas e o seu destino 4. o mundo teve sempre uma densidade populacional muito menor do que hoje.1. A maioria das sociedades de caçadores recolectores foi destruída ou assimilada pela expansão da civilização ocidental. Tal pode ser facilmente verificável. como agir ou como ocupar o tempo – ajudam-nos a tornar-nos quem somos. fundamentalistas religiosos e/ou nacionalistas são exemplos de casos em que uma identidade social comum é construída como uma fonte importante de sentido. facto que libertou as pessoas das comunidades unitárias e relativamente homogéneas do passado onde os padrões eram transmitidos de uma forma rígida de geração em geração. Mas durante a maior parte da história do homem. mais ou menos. os seres humanos viveram em sociedades de caçadores recolectores. Somos o nosso melhor recurso na definição de quem somos. hoje em dia a identidade é mais multifacetada e instável. sindicalistas. como a madeira ou a pedra – uma limitação básica no tipo de bens que podiam ser produzidos. O desenvolvimento da escrita é outro dos factores que mais influenciaram a configuração das sociedades humanas. computadores. por exemplo. pesca e recolecção de plantas silvestres comestíveis. apareceram sociedades em que a maioria da população era constituída por habitantes urbanos. Caçadores recolectores Durante a maior parte da nossa existência na Terra. de onde vimos e para onde vamos. Antes da invenção da fundição do metal. que retiravam o seu sustento da caça. muitas delas vivendo aglomeradas em áreas urbanas. Identidade pessoal – diz respeito ao processo de desenvolvimento pessoal através do qual formulamos uma noção intrínseca de nós próprios e do relacionamento com o mundo à nossa volta. 4.1. As decisões que tomamos no quotidiano – acerca do que vestir. o mundo social confronta-nos com um estonteante leque de escolhas acerca de quem devemos ser. telefones. por exemplo. água corrente. e só na última centena de anos.3. a agência e a escolha individual são de importância central. Tipos de sociedade Os traços culturais estão intimamente relacionados com os padrões gerais de desenvolvimento da sociedade. delimitados pela classe ou nacionalidade. Agora que os sinais tradicionais se tornaram menos determinantes.1. ambientalistas. luz eléctrica – dependem de inovações tecnológicas que surgiram muito recentemente em termos de história humana. estamos habituados a sociedades com muitos milhões de pessoas. 4. no que diz respeito ao nível de tecnologia: muitas das características culturais da vida moderna – carros. Nos dias de hoje. Se antes a identidade das pessoas era em grande medida determinada pela sua pertença a grupos sociais vastos. e não é de todo provável que as que ainda . os bens eram forçosamente feitos de materiais que existiam na natureza.48 Feministas.

mais complexo do que o dos povos caçadores recolectores.49 persistem se mantenham intactas por muito mais tempo. são frequentemente designadas como civilizações. cozinham e tomam conta das crianças. mas. por certo. a horticultura forneceu uma provisão de comida mais certa do que era possível nas sociedades de caçadores recolectores. enquanto as mulheres colhem os frutos silvestres. . Esta prática deu origem ao que é geralmente designado por «horticultura».1. 4. A dada altura. e uma maior ênfase na cooperação do que na competição. Civilizações não-industriais ou estados tradicionais Mais ou menos a partir do ano 6000 A. em termos materiais. Dados os seus hábitos nómadas. As regiões com densos pastos não são adequadas a uma agricultura fértil. a divisão de trabalho entre homens e mulheres é muito importante: os homens tendem a dominar as posições públicas e cerimoniais. Sociedades pastoris e agrárias As sociedades pastoris vivem sobretudo dos seus rebanhos. o número de pessoas no mundo que retira o seu sustento através da caça e recolecção é inferior a um quarto de milhão – apenas 0. Os caçadores recolectores não são simplesmente povos «primitivos» cujos modos de vida já não nos interessam.3. o cultivo de pequenas hortas com recurso a simples enxadas ou instrumentos de cavar. idealizar as circunstâncias em que os caçadores recolectores viveram. apresentando desigualdades muito acentuadas em termos de riqueza e poder. enquanto as sociedades agrárias cultivam plantas (praticam agricultura).2.3. As diferenças de posição e hierarquia tendem a estar limitadas à idade e ao sexo. Estudar as suas culturas permite-nos ver com mais clareza que algumas das nossas instituições estão longe de ser fenómenos «naturais» da vida humana. Não devemos. pelo que podia sustentar comunidades de maior dimensão. No entanto. e estavam associadas à governação de reis e imperadores. impedem que esqueçamos que o mundo criado pela civilização industrial moderna não pode ser necessariamente identificado com «progresso».C.001% da população mundial. em vez de se limitarem a recolher plantas silvestres. Actualmente. Estas sociedades baseavam-se no desenvolvimento de cidades. os homens são quase sempre os caçadores. os grupos de caçadores recolectores começaram a semear as suas colheitas. a ausência de guerra e de desigualdades significativas de riqueza e poder. embora o seu modo de vida seja.3.1. encontramos provas da existência de sociedades com uma dimensão maior do que as que existiam até então. Na medida em que usavam a escrita e tinham uma ciência e formas de arte evoluídas. Tal como a pastorícia. mas mantém bem várias espécies de gado. 4. de qualquer forma. os membros das sociedades pastoris geralmente não acumulam muitos bens materiais.

8 3. altura em que também foram fundados outros estados poderosos na região que corresponde à Índia e ao Paquistão dos nossos dias. A maioria das civilizações tradicionais eram também impérios. escritórios ou lojas. A dimensão das principais cidades é muito maior do que a dos centros urbanos das civilizações tradicionais. Nas cidades. sob muitos pontos de vista. baseada no uso de recursos energéticos inanimados (como o vapor ou a electricidade). de qualquer outro tipo de ordem social anterior e o seu desenvolvimento teve consequências que se estenderam muito para além das suas origens europeias.2 6. O nível relativamente rudimentar de desenvolvimento tecnológico só permitia que uma pequena minoria da população estivesse liberta das obrigações da produção agrícola. A industrialização pode ser definida como o aparecimento da produção mecanizada. Ao contrário. a vida social torna-se mais impessoal e anónima do que anteriormente.0 3. O mundo moderno: as sociedades industriais O que terá levado à destruição das formas de sociedade que dominaram o mundo inteiro até há dois séculos atrás? Numa só palavra.1 90. As sociedades industriais (por vezes chamadas simplesmente «sociedades modernas» ou «desenvolvidas») são absolutamente diferentes.8 2. tendo atingido a dimensão que atingiram através de conquistas e da anexação de outros povos. Mesmo nas formas de civilização tradicional mais avançadas. sendo que muitos dos nossos encontros diários e casuais são com estranhos e desconhecidos.1 88. uma característica principal das sociedades industriais actuais é a grande maioria da população activa trabalhar em fábricas.4 2. e não na agricultura. . onde se encontram a maior parte dos postos de trabalho e novas oportunidades de emprego são criadas.0 Mais de 90% da população vive em cidades.2 5. a resposta é a industrialização. 4.2.3. e não com pessoas nossas conhecidas. em 1998 Percentagem de mão-de-obra agrícola País Sociedades não-industrializadas Nepal Ruanda Etiópia Uganda Bangladesh Sociedades industrializadas Japão Austrália Alemanha Canadá Estados Unidos da América Reino Unido 91. As sociedades industriais foram os primeiros Estados-nação – comunidades políticas divididas e delimitadas entre si por meio de fronteiras claras.3 82. a maioria das pessoas estava ligada ao trabalho agrícola.1 64. Mão-de-obra agrícola em países Industrializados e não-industrializados.50 O Império chinês teve as suas origens há cerca de 4000 anos.

pois os dois lados não se envolveram directamente em batalhas.3.3. mais industrializado e rico. a história mundial viveu uma rivalidade global entre. sem que isso tivesse acontecido de facto. Segundo e Terceiro Mundo Se calhar já ouviu falar destes países em vias de desenvolvimento.3. Os países do Primeiro Mundo eram (e são) os estados industrializados da Europa. como o são praticamente todas as outras sociedades no mundo de hoje. O Primeiro. . Desde a fase mais inicial da industrialização. à União Soviética (URSS) e à Europa de Leste.3.1. Este termo foi entendido. o processo do colonialismo foi central para a definição do mapa social do globo como hoje o conhecemos. A tecnologia industrial não foi. como sendo parte do Terceiro Mundo. com cada um dos lados constantemente preparado para entrar em guerra. o que veio alterar radicalmente as formas de guerra. Um poder económico superior. e são frequentemente apelidadas como sociedades em vias de desenvolvimento. a Alemanha de Leste e a Hungria.51 em vez das vagas áreas de fronteira que separavam habitualmente os estados tradicionais. são por vezes colectivamente referidas como o Sul. criando armamento e formas de organização militar muito mais avançados do que os das culturas não industrializadas. Nova Zelândia. aplicada somente em processos pacíficos de desenvolvimento económico. originalmente. As sociedades em que as populações locais se mantiveram em maioria. Eram estados de partido único: o Partido Comunista dominava tanto o sistema político como o económico. dos modos de vida ocidentais por todo o mundo nos últimos dois séculos. 4. por um lado. têm um nível de desenvolvimento industrial muito mais reduzido. em oposição ao Norte. as sociedades capitalistas do Ocidente e o Japão. a coesão política e a força militar estão na origem da expansão. Desenvolvimento global Embora praticamente todas as colónias tenham hoje alcançado a sua independência. o Segundo Mundo desapareceu por completo. 4. que incluíam a Checoslováquia. A Grã-Bretanha é um estado-nação. por outro. aparentemente irreversível. Esta situação de permanente confronto armado ficou conhecida como Guerra Fria. Com o fim da Guerra Fria e a desintegração do Comunismo na antiga União Soviética e na Europa de Leste. Era uma espécie de impasse militar. Tasmânia e Melanésia) e o Japão. os processos de produção modernos foram colocados ao serviço dos militares. como parte de um contraste estabelecido entre os três principais tipos de sociedade dos princípios do século XX. a Polónia. os Estados Unidos da América. a União Soviética e os países da Europa de Leste e. O Segundo Mundo dizia respeito às antigas sociedades comunistas. de forma alguma. a Australásia (Austrália. Em virtude de muitas destas sociedades estarem situadas a sul dos Estados Unidos e da Europa. Por um período de aproximadamente setenta e cinco anos.

a Tanzânia e a Argélia) são disso um bom exemplo. Singapura e a Formosa no Leste Asiático. foi só depois da Segunda Guerra Mundial que a maioria das nações em vias de desenvolvimento se transformou em estados independentes. as economias do leste asiático foram desestabilizadas quando surgiu uma crise financeira global que se generalizou. o Zaire.3. e não para consumo interno. A produção de aço da Coreia do Sul cresceu rapidamente e as suas indústrias electrónica e de construção naval estão ao nível das melhores do mundo.2. São. Os países em vias de desenvolvimento não são simplesmente sociedades que se deixaram atrasar em relação às regiões mais industrializadas. e de países africanos (incluindo.3.2 mil milhões de pessoas a viver em condições de pobreza extrema.3. a Nigéria. em grande parte.3. são estados-nação. Os seus sistemas políticos seguem um modelo de sociedade ocidental – isto é. muitas vezes na sequência de sangrentas lutas anti-colonialistas. o resultado do contacto com a industrialização ocidental. na região e para lá dela. Embora a agricultura permaneça a principal actividade económica. Segundo estimativas. que minou os sistemas tradicionais anteriores. sendo que destes a vasta maioria vivia nos países em vias de desenvolvimento. Os países recém-industrializados O mundo em vias de desenvolvimento não é homogéneo. 4. muito diferentes de formas anteriores de sociedades tradicionais. debatem-se com um problema enorme em termos de dívida. . são.52 4. na África e na América do Sul. As taxas de crescimento económico nos países em vias de industrialização com mais sucesso são várias vezes superiores às das economias industriais do Ocidente. Nos anos de 1997 e 1998. Muitas vezes. o Quénia. o pagamento de juros aos países credores é igual ao total do investimento governamental na saúde. Embora os países de Terceiro Mundo possam englobar pessoas com um modo de vida tradicional. hoje em dia as colheitas são produzidas para serem vendidas no mercado mundial. No entanto. no entanto. a Malásia e Singapura). Os casos da Índia e de vários outros países asiáticos (como a Birmânia. na segurança social e na educação. Muitos dos países mais pobres do mundo. rápida e intensamente. incluem o Brasil e o México na América do Sul. por vezes chamados países recém-industrializados. no início do século XXI havia 1. O Mundo em vias de desenvolvimento Muitas sociedades em vias de desenvolvimento estão situadas em áreas que estiveram sob a dominação colonial na Ásia. por exemplo. Hong-Kong. a Coreia do Sul. Os países que iniciaram com sucesso processos de industrialização.3.

de uma forma geral.temas de mercado livre. Até 1989. Mas isso não é de modo nenhum verdade. mas as mudanças sociais e políticas transformaram-nas em sis. Países recém.53 Tipos de sociedades humanas modernas Tipo Período de Existência Características Sociedades do Do século XVIII ao pre. Diferentes comunidades políticas ou estados-nação. Fortes desigualdades de classe.A maioria da população trabalha na agricultura. Apenas uma pequena parte da população trabalha na agri. a Índia e a maioria da África e da América do Sul. na Iniciativa privada. O rendimento médio per capita é consideravelmente menor do que nas sociedades do Primeiro Mundo. Alguns têm sistemas de mercado livre. o Japão. Diferentes comunidades políticas ou estados-nação. a maioria vive nas cidades. Primeiro sente. A maioria da população vive nas cidades e pouca gente tra. mas com um sistema económico centralizado e estatal. embora menos acentuadas do que nos estados tradicionais. Sociedades do Dos princípios do século Segundo XX (depois da RevoMundo. do dos) ao presente.Antigas sociedades do Terceiro Mundo. As nações fazem hoje parte de uma economia global. As relações políticas e económicas deixaram de poder ser classificadas de acordo com um modelo simples de países de «Primeiro» e «Terceiro Mundo». tornando-se assim sociedades do Primeiro Mundo. lução Russa de 1917) ao início da década de 90 desse século.balha na agricultura.ria. territórios coloniza. Por último. Estados Unidos da América ou outros países industrializados. o crescimento dos países recém-industrializados está a modificar a já mencionada divisão tradicional entre «Norte» e «Sul».Da década de 70 do sé.cultura. Persistência de importantes desigualdades entre classes sociais. O desenvolvimento das economias da Ásia e da América Latina parece não estar relacionado com a vida das pessoas na GrãBretanha. sentes na produção industrial e geralmente na livre iniciativa. utilizando Terceiro Mun.Baseadas na produção industrial e. incluin. pelo que factos que ocorram numa qualquer parte do mundo fazem sentir os seus efeitos e consequências a nível mundial. Parte do produto agrícola é vendido em mercados mundiais.métodos tradicionais de produção. Comunidades políticas distintas ou estados-nação em que se incluem a China. Taiwan. Os processos de globalização traduzem-se numa configuração de poder e privilégio muito mais complexa do que a que existia há um século atrás. compostas pela Rússia e Europa de Leste. Baseadas na indústria. outros de planificação centralizada. Sociedades do Do século XVIII (a maio. o Brasil e o México. Grandes desigualdades entre classes. alguns ainda trabalham na agricultura. Singapura. Incluem-se aqui Hong-Kong. Mundo. a Coreia do Sul. na actualidade asindustrializados culo XX ao presente. mais pronunciadas do que nas sociedades do Primeiro Mundo.do as nações do Ocidente. . a Austrália e a Nova Zelândia. A maioria da população vive em cidades.

4. tudo muda constantemente. Segundo o filósofo grego Heraclito. 4. cada momento um novo instante de tempo. onde os Invernos são longos e gélidos. A população nativa da Austrália nunca abandonou a caça e a recolecção.54 4. selvas impenetráveis ou desertos permanecem com frequência relativamente imutáveis durante longos períodos de tempo. dado que o meio ambiente é completamente inóspito. a influência directa do meio ambiente sobre as mudanças sociais não é muito significativa. na medida em que a água seguiu com a corrente e a própria pessoa também mudou de forma quase imperceptível.1. planeiam as actividades ao ar livre com muito cuidado. pois o continente continha pouquíssimas plantas que permitissem um cultivo regular ou animais que pudessem ser domesticados de modo a desenvolver a pastorícia. Influências na mudança social Podemos identificar três factores principais que têm influenciado consistentemente a mudança social: o meio ambiente. em determinado sentido. já o rio é diferente. Meios de comunicação terrestre de acesso fácil e rotas marítimas disponíveis são igualmente importantes: as sociedades separadas de outras por cadeias montanhosas. Identificar mudanças importantes implica mostrar a extensão das alterações na estrutura subjacente de um objecto ou situação durante um certo período de tempo. dado que não existe uma . 4. Mudança social Como se viu.4. uma pessoa não passa o mesmo rio duas vezes. os modos de vida e as instituições sociais características do mundo moderno são radicalmente diferentes mesmo das do passado recente. o que queremos normalmente dizer é que se trata do mesmo rio e da mesma pessoa que o atravessa em duas ocasiões.1. pois.1. Não obstante. No que diz respeito às sociedades humanas. 4. onde a temperatura média é muito mais elevada.4. Os primeiros passam a maior parte das suas vidas no interior das casas e. Cada dia é um novo dia. Nas sociedades de caçadores recolectores esta influência é mínima.2. nós temos de mostrar em que grau se dá qualquer tipo de modificação nas instituições básicas durante um período específico de tempo. de certa forma. Embora esta afirmação esteja. correcta.4. excepto num curto período do Verão. tendem a seguir padrões de vida social diferentes dos daqueles que habitam em países mediterrâneos. Como é que os sociólogos explicam o processo de mudança que transformou o modo de vida humano? É difícil definir mudança social. A segunda vez que essa pessoa o tentar fazer. a organização política e os factores culturais.1. para decidir até que ponto e de que modo um sistema se encontra num processo de mudança. Organização política Um segundo factor que influencia fortemente a mudança social é o tipo de organização política. O meio ambiente Os habitantes do Alasca.

ser determinado por factores económicos. na medida em que implica a expansão contínua da produção e uma acumulação crescente da riqueza. dado limitarem-se à satisfação das necessidades habituais e costumeiras. A taxa de inovação tecnológica promovida pela indústria moderna é muito superior à de qualquer outro tipo anterior de ordem económica. se tenha assistido a uma tremenda aceleração no ritmo da mudança social? Esta é uma questão complexa. mas não se limita à esfera económica. o período da modernidade. Nos sistemas tradicionais. em grande medida. 4. os sistemas políticos não são expressão directa da organização económica subjacente: tipos de ordem política muito diferentes podem existir em sociedades com o mesmo sistema de produção. tiveram sistemas políticos autoritários (como a Alemanha nazi ou o regime de apartheid da África do Sul). 4.1. Basta pensar nas grandes figuras religiosas (como Jesus). por exemplo. os níveis de produção eram relativamente estáticos.2.2. Factores culturais A religião tanto pode ser uma força conservadora como uma força de inovação na vida social.1. O impacto da ciência e da tecnologia no modo como vivemos pode.4.55 autoridade política com capacidade para mobilizar a comunidade.3. Ao contrário do que Marx acreditava. A mudança no período moderno Que explicações haverá para que nos últimos dois séculos. Influências económicas A indústria moderna é fundamentalmente diferente da dos sistemas de produção anteriores.2. A relação entre o nível de produção e o poderio militar não é linear. enquanto outras são muito mais democráticas (como os Estados Unidos da América.4.4. aumentar a sua riqueza e triunfar militarmente sobre os seus competidores tem .4. para perceber que assim é. A liderança faz parte do conjunto geral de factores culturais. Uma influência cultural particularmente importante que afecta o carácter e o ritmo da mudança é a natureza dos sistemas de comunicação. nos líderes políticos e militares (como Júlio César). Influências políticas A luta das nações para expandir o seu poder. um processo em que é tida em conta de modo crescente a ciência. 4. A ciência e a tecnologia tanto influenciam como são influenciadas por factores políticos e culturais.2. mas não é difícil apontar alguns dos factores responsáveis. 4. nos cientistas e filósofos pioneiros (como Isaac Newton). Algumas sociedades assentes no capitalismo industrial. O capitalismo promove a inovação constante dos meios tecnológicos de produção. a Grã-Bretanha ou a Suécia).

3. por exemplo. uma potente fonte de mudança. mas está pensado em função da capacidade de servir o seu propósito – tratar dos doentes de forma eficaz.5.2. por exemplo. a mudança política estava confinada às elites. Nas civilizações tradicionais. 4. Para além do modo como pensamos. Ideais como superar-nos a nós próprios. por exemplo – mudam e se desenvolvem. igualdade ou participação democrática são. nos últimos dois ou três séculos. criações produzidas nos últimos dois ou três séculos. como. também o conteúdo das ideias mudou. no caso da Alemanha e do Japão depois da Segunda Grande Guerra.56 sido. já não se baseia essencialmente na estética tradicional. A evolução política dos últimos dois ou três séculos influenciou por certo tanto a mudança económica tanto quanto esta foi influenciada pela política. 4. Deixámos de presumir que hábitos ou costumes são aceitáveis apenas porque têm a autoridade ancestral da tradição.4. Influências culturais Entre os factores culturais que afectam os processos de mudança social nos tempos modernos. O projecto de construção de um hospital. as consequências de duas guerras mundiais foram profundas: a devastação de muitos países conduziu a processos de reconstrução que se traduziram em importantes mudanças institucionais. No século XX. em grande parte. Conclusão As mudanças por que o mundo passa actualmente estão a tornar as diferentes culturas e sociedades muito mais interdependentes do que se passava antigamente. o desenvolvimento da ciência e a secularização do pensamento contribuíram para o carácter crítico e inovador da perspectiva moderna. liberdade. . O sistema global não é apenas um contexto no qual determinadas sociedades – como a Grã-Bretanha.

A globalização está a mudar a forma como o mundo se nos apresenta e a maneira como olhamos para o mundo. é difícil controlar a globalização. Embora constituam parte integrante do fenómeno. Uma explicação para o facto pode estar nos padrões de migração global. Em último lugar. Antigamente. da tecnologia de informação e dos transportes. Há uma década. como muitas pessoas fazem. em resultado dos progressos dramáticos no campo da comunicação. maçãs da África do Sul e abacates de Espanha. sociais e culturais. muitos dos produtos mais comuns à venda nos supermercados são hoje em dia distribuídos simultaneamente em muitos países. por razões práticas.1. através de longas distâncias. Se. os produtos que encontra à venda no supermercado foram cultivados ou produzidos em cem ou mais países diferentes. Que dimensões sociológicas estão associadas a esta curta ronda pelo supermercado? Em relação ao passado. 5. Dimensões da globalização Nos últimos anos. É também um fenómeno local. é provável que encontre ananases do Hawai. Em primeiro lugar. iniciar as compras pela secção de produtos frescos. UM MUNDO EM MUDANÇA O supermercado é um local que nos pode dizer muito sobre fenómenos sociais de grande interesse para os sociólogos no início do século XXI: o ritmo vertiginoso da mudança social e o aprofundar da sociedade global. em particular artigos frescos. que afecta a vida quotidiana de todos nós. de modo a tornar o produto acessível a consumidores de muitas nacionalidades. de velozes navios cargueiros de grande dimensão. Os rótulos dos produtos reflectem esta nova diversidade geográfica: as instruções e os ingredientes são muitas vezes impressos em várias línguas. é errado pensar que as forças económicas fazem por si só a globalização – que na realidade é resultado da conjugação de factores económicos. os supermercados são cada vez maiores. era quase impossível transportar tantos produtos. o termo «globalização» era relativamente desconhecido. de modo a albergar a gama crescente de produtos disponíveis. alguns dos produtos mais populares à venda nos supermercados hoje em dia podiam há uns anos atrás ser relativamente desconhecidos – é o caso das «comidas étnicas» referidas atrás. na política e nos meios de comunicação. Em segundo lugar. Em terceiro. que produzem sociedades culturalmente diversas e novos gostos culturais. os grupos e as nações tornaram-se mais interdependentes. Graças ao desenvolvimento de aviões a jacto. políticos. pessoas e bens podem hoje ser transportados de forma contínua através do mundo inteiro.57 5. ainda que estas estejam a milhares de quilómetros de distância. Por globalização entendemos o facto de vivermos cada vez mais num «único mundo». o mundo em que vivemos hoje em dia tornou-nos muito mais interdependentes das outras pessoas. tendo-se acelerado nos últimos trinta ou quarenta anos. o que leva a novos riscos que nos afectam a todos. pois os indivíduos. o conceito tem sido amplamente utilizado em debates no campo dos negócios. e não se destinam a mercados nacionais específicos. Os sociólogos usam o termo globalização quando se referem a estes processos que intensificam cada vez mais a interdependência e as relações sociais a nível mundial. Estas relações entre local e global são bastante recentes em termos de história humana. uvas de Israel. Por constituir um conjunto de processos imprevisíveis. . e de outros meios de transporte de grande velocidade.

1999). foi substituído por sistemas integrados onde grandes quantidades de informação são comprimidas e transferidas digitalmente. o campeonato do mundo de futebol que teve lugar em França em 1998. em 1995 População (milhões) China França Alemanha Índia Japão Suécia Reino Unido Estados Unidos da América 1.447 50 6. n. 1996. 4.58 O seu progresso é devido sobretudo ao desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação. Fonte: Held.). G. Desigualdades a nível mundial em termos da infraestrutura das telecomunicações e do uso do telefone. International Institute of Communications.a. Em 2001.1. O impacto destes sistemas de comunicação tem sido extraordinário.0 56.0 1.300 533 2. alguns jogos foram vistos por cerca de 2 mil milhões de pessoas em todo o mundo. Global Transformations. 5.959 3.0 58.0 68. D et al. fenómeno que teve início na década de 60.a.204 2.244 341 1.900 86. Hoje em dia. em 1997 a capacidade de um único cabo transoceânico elevava-se já a cerca de 600.000 19. 1999.500 135 10. A tecnologia por cabo tornou-se mais eficiente e menos dispendiosa.3 49.. são mais de 700 milhões os utilizadores de Internet no mundo inteiro.9 929. Enquanto os primeiros cabos transatlânticos instalados na década de 50 do século XX eram capazes de transportar menos de cem canais de voz.010 MMiTT = milhões de minutos de conversa telefónica.0 n.016 15.500 1.000 n.. .201.a.140 n. adaptado se Staple.300 13.638 900 4. Tome-se. Graças às redes mundiais de difusão televisiva.804 5. (ed.a.1 8.881 806 1.700 10.737 33.000 (Held et al. de um modo que anteriormente não era possível. foi também importante para a expansão das comunicações internacionais.200 1.1 Linhas telef.379 3. A banalização do recurso a satélites de comunicação. Telegeography. está em funcionamento uma rede que compreende mais de 200 satélites. facilitando a transferência de informação pelo mundo inteiro. 14.3 125. Embora as infraestruturas de telecomunicações não se tenham desenvolvido de igual forma em todo o mundo.000 1. baseado em sinais analógicos enviados por fios e cabos.786 270 1. O sistema tradicional de comunicação telefónica.5 263. que vieram intensificar a velocidade e o âmbito das interacções entre os povos do mundo inteiro.052 2. 63.021 7. como exemplo. o desenvolvimento de cabos de fibra óptica aumentou gigantescamente o número de canais que podem ser suportados.1.1 81.025 5. por 100 habitantes 3. Polity. Factores que contribuem para a globalização A explosão a que se assistiu na comunicação a nível global foi possível graças a importantes avanços na tecnologia e nas infraestruturas das telecomunicações mundiais. um número cada vez maior de países pode ter acesso às redes internacionais de comunicação.0 49.0 Chamadas Chamadas Telemóveis Faxes Computadores efectuadas recebidas (milhares) (milhares) (milhares) (MMiTT) (MMiTT) 3.8 58.600 9.269 1.623 551 2.

59 Chamadas telefónicas internacionais (minutos anuais per capita) em 1995 Suíça 247 Bélgica 100 Canadá 80 60 Estados Unidos da América Austrália 40 Hungria 20 Costa Rica Japão Chile África do Sul Menos de 5 minutos Tailândia 4 Colômbia 3 Egipto 2 Federação Russa 2 Benim 1 Gana 1 Paquistão 1 0 Fonte: UNDP. Com a queda dos regimes comunistas. 1. Ucrânia.2.1. Estados Bálticos. 28. A economia global é cada vez mais dominada por actividades «leves» e intangíveis (Quah. integrando-se cada vez . Polónia. a emergência deste tipo de economia está relacionada com o aparecimento de uma vasta gama de consumidores tecnologicamente instruídos e que integram avidamente nas suas vidas quotidianas novos avanços nos campos da informática. Segundo alguns. e muitos outros – estão agora mais próximos do sistema económico e político de estilo ocidental.1. Este novo conceito económico foi já descrito de várias formas. «era da informação» e. Também a integração da economia mundial está a fazer avançar a globalização. Mudanças políticas Um certo número de influências está a fazer avançar o actual processo de globalização. República Checa. 5. dos produtos multimédia e de entretenimento e dos serviços on line. os países que constituíam o «bloco» soviético – Rússia. 1999). Oxford University Press. seja como «sociedade pós-industrial». Deixaram de estar isolados da comunidade mundial.1. 1999. As causas da globalização crescente 5. Colapso do comunismo de estilo soviético que teve lugar na Europa de Leste em 1989. Human Development Report. p. Hungria. países do Cáucaso e Ásia Central. Economia «light» – define-se como uma economia em que os produtos se baseiam na informação. numa série de revoluções dramáticas que culminaram na dissolução da própria União Soviética em 1991.2. como é o caso do software informático. do espectáculo e das telecomunicações. a economia. a definição talvez mais comum hoje em dia.

um determinado campo de actividades de âmbito transnacional. que acreditava que os direitos humanos e a soberania nacional deviam ser defendidos. Algumas das ONG’s mais conhecidas – como a Greenpeace. Aumento dos mecanismos internacionais e regionais de governo. considerou justificável a intervenção militar. Embora as Nações Unidas o façam enquanto associação de estados-nação individuais. ONG – organização independente que opera a par de organismos governamentais na tomada de decisões políticas e na definição de posições quanto a questões internacionais. a União Internacional do Telégrafo.2. 3. os Médicos sem Fronteiras. 2. a rede global do ambiente. As pessoas estão mais conscientes da sua ligação aos outros e mais dispostos a identificar-se com questões e processos globais do que antigamente. de conflito étnico e de violação dos direitos humanos. muita gente. dado que não estão sob a dependência de instituições governamentais. OIG – organismo estabelecido pelos governos que nele participem e ao qual é atribuído responsabilidade para regular. as ideias subjacentes a estas organizações são provavelmente bem conhecidas. a Cruz Vermelha ou a Amnistia Internacional – estão envolvidas na defesa do meio ambiente e na ajuda humanitária. tanto no caso da Guerra do Golfo em 1991 como aquando dos violentos conflitos na antiga Jugoslávia (Bósnia e Kosovo). Desde então. o WWF.1. Tal como o nome sugere. ou supervisionar. Fluxos de informação 4.2. Embora estes conceitos possam ser novidade para muitos. a União Europeia é uma forma mais pioneira de governação transnacional. embora tais mobilizações sejam mais problemáticas do que em caso de catástrofes naturais. A primeira destas entidades. foi criado um grande número de organismos semelhantes para regular assuntos que vão desde a aviação civil à emissão televisiva.60 mais nela. As organizações intergovernamentais (OIG’s) e as organizações não governamentais internacionais (ONG’s) estão a fazer avançar a globalização. mas deve também ser visto como uma consequência da própria globalização. . foi fundada em 1865. Os desastres e as injustiças de que são alvo pessoas de outros pontos do mundo não são simplesmente infortúnios que têm de ser suportados. onde os Estados membros abdicam de um determinado grau de soberania nacional. Nos últimos anos houve também lugar a fortes apelos em favor de intervenções em contexto de guerra. O colapso do comunismo contribuiu para o incremento dos processos de globalização. passando pelo tratamento de resíduos perigosos. as ONG’s têm uma natureza diferente. As Nações Unidas e a União Europeia são os dois principais exemplos de organizações internacionais que agregaram os estados-nação em fóruns políticos comuns. No entanto. mas constituem causas legítimas de acção e intervenção. 5.

O debate em torno da globalização A maioria das pessoas não põe em causa que estão a ocorrer importantes transformações à nossa volta. Enquanto processo imprevisível e . quando formulam a sua própria noção de identidade. As empresas transnacionais 1. as identidades culturais locais em várias partes do mundo estão a passar por revivalismos poderosos. As transnacionais estão no cerne da globalização económica: são responsáveis por dois terços de todo o comércio mundial. e muitas outras.61 5. com uma ou duas fábricas fora do país onde estão sediadas. General Motors. Numa época em que o controlo tradicional do estadonação sofre profundas transformações.3. ou gigantescos empreendimentos internacionais. por volta da década de 70. Mesmo quando estão claramente implementadas num único país. 282). Na última década. Revivalismo das identidades culturais locais. Estas podem ser firmas relativamente pequenas. Nas palavras de um observador atento. estão a referir-se cada vez mais a outros contextos que não o do estado-nação. o estado-nação está a perder a sua importância em muitas regiões. Tal não é surpreendente. Mitsubishi. A «economia electrónica» é outro factor que sustenta a globalização económica. Enquanto fonte geradora de identidade. cujas operações abrangem todo o globo. 5.1. 5.2. Como veremos no final do capítulo. firmas europeias e japonesas começaram também a investir no estrangeiro.2. mas. p. as transnacionais têm como objectivo conquistar mercados e lucros mundiais. contribui para acelerar. as grandes empresas sediadas em economias industrializadas têm estado particularmente activas na expansão das suas operações em países em vias de desenvolvimento e em sociedades da antiga União Soviética e da Europa de Leste. por sua vez. mas a sua experiência como «globalização» é contestada. Kodak. Algumas das maiores transnacionais são empresas bem conhecidas em todo o mundo: Coca-Cola. Uma perspectiva global significa que as pessoas. as consequências da globalização são muitas e de grande alcance. Empresas transnacionais – empresas que produzem bens ou serviços comerciais em mais do que um país. e são actores decisivos nos mercados financeiros internacionais. Este é produto dos processos de globalização que. 2.. elas são o eixo da economia mundial contemporânea (Held et al. As empresas com sede nos Estados Unidos da América estiveram por detrás da expansão que teve lugar nos anos imediatamente a seguir ao pós-guerra. 1999. são cruciais para a difusão de novas tecnologias em todo o mundo. à medida que mudanças políticas nos planos regional e global enfraquecem o sentimento de pertença das pessoas face aos estados em que vivem. Colgate-Palmolive. No início do século XXI são já poucas as economias do mundo fora do alcance das transnacionais.

Muitos cépticos focam a sua atenção nos processos de regionalização da economia mundial – tais como a emergência de grandes blocos . governação global.. Os cépticos reconhecem que há provavelmente mais contacto entre países hoje em dia. Os «cépticos» desta controvérsia em torno da globalização acreditam que os actuais níveis de interdependência económica não são inauditos. a globalização é concebida e entendida de muitas maneiras diferentes. Madonna.62 conturbado. Escolas de pensamento: • Cépticos • Hiperglobalizadores • Transformacionalistas Conceptualizando a globalização: três tendências Hiperglobalizadores O que há de novo? Uma era global Cépticos Transformacionalistas Blocos de comércio. Ásia-Pacífico e América do Norte. 10. dado que o essencial do comércio tem lugar no interior de três grupos regionais – Europa. 1997). Polity. Como reordenamento enquadramento acção humana Civilização global Combinação de forças da modernidade da da Marginalização crescente Nova configuração dos países pobres do Sul ordem mundial Interesse nacional Transformação comunidade política Conceptualização da globalização um Como internacionalização e Como o reordenamento do regionalização das relações da interregionais e como acção à distância Blocos regionais e confronto Indeterminada: de civilizações integração fragmentação global e Trajectória histórica Argumento principal O fim do estado-nação A internacionalização A globalização está a depende da concordância e transformar o poder dos do apoio do governo governos e a política mundial Fonte: Adaptado de Held. et al.2. Níveis historicamente formas de geogovernança sem precedentes de mais fracas do que em interligação global períodos históricos anteriores Mundo menos Globalização «espessa» interdependente do que por (intensa e volta de 1890 extensivamente) Reforçado ou aumentado Governos e mercados Reconstituído reestruturado e Características dominantes Poder dos governos nacionais Forças motrizes da globalização Padrão de estratificação Interesse dominante Capitalismo global. p. etc. 1999. pelo que a noção de uma única economia global não é válida (Hirst. D. mas a sua perspectiva é a de que a actual economia mundial não está suficientemente integrada para se poder falar numa economia verdadeiramente globalizada. Global Transformations. 5. sociedade civil global Em declínio ou erosão Capitalismo e tecnologia Erosão das antigas hierarquias McDonald’s. Os «cépticos» Alguns pensadores defendem que se exagera a ideia de globalização – que o debate em torno da globalização não passa de muita conversa sobre algo que não é novidade nenhuma.1.

Hirst e Thompson. os níveis actuais de globalização estão a fazer desaparecer as antigas fronteiras entre «interno» e «externo». cujas consequências se podem sentir praticamente em todo o lado. Os «hiperglobalizadores» Os hiperglobalizadores adoptam uma posição oposta à dos cépticos – defendem que a globalização é fenómeno bem real. por norma. incorporando tendências que. pois é o produto de numerosas redes globais interligadas. e não o contrário (Boyer e Drache. como a União Europeia. A globalização não é um processo de sentido único. mas um fluxo de imagens. 5. mas muitos dos padrões tradicionais continuam a existir. segundo a qual a globalização está basicamente a minar o papel dos governos nacionais e a produzir uma ordem mundial onde estes detêm uma menor importância. De acordo com o argumento dos transformacionalistas. as instituições e as próprias pessoas são forçadas a navegar em contextos em que as antigas estruturas foram abaladas. As «cidades globais» mais fervilhantes do mundo são em grande medida multiculturais. 5. 1996. a globalização é um processo «descentrado» e reflexivo caracterizado por uma série de ligações e fluxos culturais que operam de forma multidireccional. A globalização está a evoluir de uma forma contraditória. os meios de comunicação e as telecomunicações estão a contribuir para a difusão de influências culturais. ao contrário do que alguns afirmam. onde grupos étnicos e diferentes culturas se intersectam e vivem lado a lado.2. informações e influências em dois sentidos. Na tentativa de se ajustarem a esta nova ordem. se opõem umas às outras. Para os cépticos. e mais concentrada em bolsas de intensa actividade económica. as sociedades. os governos são as forças impulsionadoras de muitos acordos de comércio e de políticas de liberalização económica. Alguns hiperglobalizadores acreditam que o poder dos governos nacionais está também a ser posto em causa por organismos mais amplos – as novas instituições regionais e internacionais.2. a Organização Mundial de Comércio e outras. os governos nacionais continuam a ser figuraschave. A globalização é vista como um processo indiferente às fronteiras nacionais.63 financeiros e comerciais. A globalização não pode ser vista como algo conduzido a partir de uma parte do mundo em particular. dado o seu papel na regulação e coordenação da actividade económica. Os cépticos rejeitam a perspectiva de alguns autores – nomeadamente o ponto de vista dos hiperglobalizadores –. «local» e «internacional». pode dizer-se que a economia mundial é menos global em termos de amplitude geográfica. De acordo com os cépticos. Os «transformacionalistas» Concebem a globalização como a força motriz de um conjunto amplo de mudanças que hoje em dia estão a alterar as sociedades modernas. 1999). a crescente regionalização é prova de que a economia mundial se tornou menos integrada. Segundo os transformacionalistas.3. Está a produzir uma nova ordem global. . Em comparação com os padrões de comércio que se verificaram há um século atrás.2. Por exemplo. De acordo com esta perspectiva. A migração global. a ordem global está a ser transformada. que deriva de poderosos fluxos de comércio e de produção que atravessam fronteiras.

a forma como nos concebemos a nós próprios e a relação com as outras pessoas estão a ser profundamente alterados. por exemplo. 5. o filho mais velho de um alfaiate pode escolher inúmeros caminhos de vida futuros. enquanto indivíduos. A globalização está a obrigar as pessoas a viver de uma forma mais aberta e reflexiva. estamos contudo perante a emergência de um novo individualismo. Sob a globalização. Os cépticos estão equivocados. as mulheres já não estão confinadas ao espaço doméstico. provavelmente quereria dizer que se iria aprender a profissão do pai e ser-se também alfaiate para o resto da vida. face à situação complexa gerada pela globalização.3. na verdade. o espaço natural da mulher era o lar: a sua vida e identidade eram. na medida em que não têm em conta até que ponto o mundo está a mudar – os mercados financeiros mundiais. Os quadros tradicionais de identidade estão a dissolver-se. como cuidar da saúde e do físico – . quando. os transformacionalistas defendem que os países estão a reestruturar-se para responder às novas formas de organização social e económica que não possuem base territorial (como as empresas. A emergência do individualismo Nascer-se filho mais velho de um alfaiate. vêem o fenómeno demasiadamente em termos económicos e como um processo excessivamente unilateral. a globalização é uma questão muito mais complexa. A globalização está a mudar radicalmente a natureza das nossas experiências quotidianas. no qual as pessoas têm de constituir-se a si próprias de modo activo e construir as suas identidades. Hoje. Isto significa que estamos constantemente a responder ao contexto de mudança à nossa volta e a ajustar-nos a ele. definidas pelo esposo ou pelo pai. Mesmo as mais pequenas escolhas que fazemos no dia-a-dia – o que vestir. A globalização não é algo que simplesmente «exista algures». De acordo com a tradição.1.64 Ao contrário dos hiperglobalizadores. por seu lado. os movimentos sociais e os organismos internacionais). e muitos outros factores que moldavam a vida das pessoas deixaram de existir. em grande medida. O impacto da globalização nas nossas vidas Embora a globalização esteja frequentemente associada às mudanças no seio de «grandes» sistemas. como ocupar os tempos livres. por exemplo. Graças à globalização. que afirmam que os países estão a perder a sua soberania. tais como as telecomunicações.3. os governos vêem-se forçados a adoptar uma postura mais activa e virada para o futuro (Rosenau. enquanto emergem novos padrões de identidade. evoluímos com os contextos mais abrangentes onde estamos inseridos. os efeitos da globalização fazem-se igualmente sentir de forma activa na esfera privada. Os hiperglobalizadores. 5. por exemplo. operando a um nível abstracto sem se relacionar com questões individuais. Alegam também que o mundo em que vivemos deixou de ser um mundo centrado no Estado. a produção e comercialização ou os mercados financeiros mundiais. estão hoje muito mais organizados a nível global do que no passado. 1997).

3. hoje em dia há um número muito maior de indivíduos que criam o seu próprio percurso em termos de carreira profissional. perseguindo objectivos específicos e fazendo opções de acordo com eles. O filme contava também com uma produção sumptuosa. Cultura popular O impacto cultural da globalização foi alvo de muita atenção. «horários de flexibilidade». cujos custos em mão-de-obra são inferiores aos preços praticados nos países industrializados. Uma das temáticas centrais do filme é a da possibilidade do amor romântico vencer as diferenças de classe social e as tradições familiares.3. mas especialmente por meninas adolescentes. Se antigamente a vida laboral das pessoas era dominada pela relação de trabalho com um empregador durante várias décadas – o chamado contexto de «trabalho para a vida inteira» –. Passamos grande parte do tempo a «trabalhar» ou «no trabalho». múltiplos empregos.3.2. onde a informação é partilhada rapidamente e em grande quantidade. 5. e outros (Beck. Padrões de trabalho Embora haja quem considere o trabalho como uma obrigação ou «um mal necessário». contribui para esta mudança de valores. O filme é um dos muitos produtos culturais que conseguiu quebrar as fronteiras nacionais e dar origem a um fenómeno de verdadeiras proporções internacionais. 1992). Estreado em 1997. No entanto. Por outro lado. Muitas pessoas defendem que vivemos hoje numa única ordem de informação – uma gigantesca rede mundial. O filme foi muito bem recebido por todos os escalões etários. tal como muitos outros filmes ocidentais. e as sessões estavam permanentemente esgotadas. Alguns preocupamse com o facto da globalização estar a conduzir à criação de uma .65 são parte integrante de um processo contínuo de criação e recriação das nossas identidades pessoais. outra razão que explica o sucesso de Titanic é o facto de o filme reflectir um conjunto particular de ideias e valores com que as assistências pelo mundo fora conseguiam identificar-se. Um simples exemplo é suficiente para ilustrar este ponto em concreto. Aquando da estreia do filme. pode dizer-se que o Titanic. pelo que muitos aspectos da nossa existência – dos amigos aos objectos de lazer – são directamente influenciados pelos padrões de trabalho. Muitas indústrias tradicionais tornaram-se obsoletas graças aos novos avanços tecnológicos ou estão a perder a sua quota de mercado em relação a empresas estrangeiras. e incluía uma série de efeitos especiais de ponta. projectos de consultoria de curta duração. 5. e é um dos filmes mais populares de sempre. muitas das quais pagaram para ver o filme várias vezes. onde foi dada grande atenção aos pequenos detalhes. o Titanic conta a história de um jovem casal que se apaixona a bordo do fatídico navio transoceânico. a verdade é que o trabalho é um elemento crucial para as nossas vidas pessoais. Os padrões tradicionais de trabalho a tempo inteiro estão a desfazer-se perante esquemas mais flexíveis: o trabalho a partir de casa com o recurso a tecnologias de informação. formaram-se em muitos países filas de centenas de pessoas para comprar bilhete.

1. somos cada vez mais confrontados com vários tipos de riscos manufacturados – riscos que resultam do impacto da acção do nosso saber e tecnologia sobre o mundo natural. Ao contrário dos riscos do passado. Até muito recentemente. no entanto.66 «cultura global». em que os valores dos mais ricos e poderosos – neste caso. Outros autores. as sociedades humanas estavam sob a ameaça de riscos externos – perigos que advêm de secas. dado a globalização ser um processo em aberto e intrinsecamente contraditório. as suas consequências são difíceis de prever e controlar.4. os estilos e as perspectivas ocidentais são divulgados de modo tão agressivo que suprimem as outras culturas nacionais. 1992). No entanto.1. os estúdios de cinema de Hollywood – se sobrepõem à força dos hábitos e das tradições locais. os projectos agrícolas em larga escala. Como veremos. Há poucos aspectos do mundo natural onde a mão do homem não tenha ainda tocado – a urbanização. em que os valores. fome e tempestades que têm origem no mundo natural e não estão relacionados com a acção do homem. terramotos. 1988). mas os riscos são actualmente de uma natureza diferente da dos de épocas anteriores. pelo contrário. os riscos de hoje em dia são incalculáveis e de consequências indeterminadas.4. A multiplicação dos riscos manufacturados Os seres humanos sempre se depararam directamente com riscos de uma espécie ou de outra. De acordo com esta perspectiva. 5. Estaremos a assistir à fragmentação de formas culturais. que tinham causas estabelecidas e efeitos conhecidos.4. muitos dos riscos ambientais e de saúde com que se deparam as sociedades contemporâneas são exemplos de riscos manufacturadas – são um produto da nossa acção sobre a natureza. Hoje em dia. As antigas identidades e modos de vida enraizados em culturas e em comunidades locais estão a dar lugar a novas formas de «identidade híbrida». 5. e não à formação de uma cultura mundial unificada (Baudrillard. a globalização é uma forma de «imperialismo cultural». e . 5. compostas por elementos de diferentes origens culturais (Hall. Uma das consequências do aumento do ritmo de desenvolvimento industrial e tecnológico tem sido o aumento constante da intervenção humana sobre a natureza. Outra forma de pensar esta dinâmica é em termos de risco.1. a produção industrial e a poluição. a construção de represas e barragens hidroeléctricas. afectando praticamente todos os aspectos do mundo social. Globalização e risco As consequências da globalização são de longo alcance. associaram os processos de globalização a uma crescente diferenciação no que diz respeito a formas e tradições culturais. Riscos ambientais As ameaças actuais que derivam do meio ambiente são um dos exemplos mais claros de riscos manufacturados.

As consequências potenciais do aquecimento global são devastadoras: se as calotas polares continuarem a derreter ao ritmo actual. Quem será responsável pelo aquecimento global e o que pode fazerse para impedir o seu avanço? Tal como no caso de muitos outros aspectos deste nosso mundo em mudança. A preocupação com o aquecimento global tem inquietado a comunidade científica há já algum tempo: é hoje amplamente aceite o facto de que a temperatura do planeta tem vindo a aumentar com o acumular de gases nocivos na atmosfera. Embora ninguém possa estar completamente seguro disso. fogos florestais na Indonésia e várias tempestades de gelo na América do Norte. incluindo cheias devastadoras na China. Neste caso – tal como em centenas de casos semelhantes –. Desde então. países como a Venezuela e Moçambique foram devastados pelas cheias. o sul do Afeganistão e a zona central dos Estados Unidos da América. o nível médio das águas subirá e pode ameaçar massas terrestres pouco acima do nível do mar e as populações que aí vivem. a seca tem afectado regiões tão diversas como a Etiópia. pois tanto a magnitude da causa como a do efeito não são conhecidas (Beck.67 os programas de energia nuclear são apenas algumas das formas de impacto dos seres humanos sobre o meio natural. vio-lentos vendavais assolaram algu-mas partes da Europa e uma praga de gafanhotos alastrou no interior da Austrália. As mudanças nos padrões climáticos têm sido citadas como as causas prováveis das graves cheias que afectaram algumas partes da China em 1998 e Moçambique em 2000. Um simples exemplo é bem ilustrativo do facto. 1995). Os cientistas descobriram que os níveis de poluição química tiveram um efeito nefasto sobre determinadas colónias de pinguins da Antárctida. é muito provável que se tenha dado conta de alguns padrões meteorológicos estranhos nos últimos anos ou tenha sido directamente afectado por eles. cuja causa específica não é conhecida e cujas consequências são igualmente difíceis de calcular. por exemplo. Mas foi impossível identificar com precisão quer a origem exacta da poluição quer as hipotéticas consequências para os pinguins no futuro. embora seja praticamente impossível apontar as suas causas concretas. foram registadas mais de oitenta catástro-fes de ordem natural em vários pontos do mundo. Se as emissões de dióxido de carbono que contribuem para o aquecimento global permanecerem sem controlo. os riscos associados ao aquecimento global fazem-se sentir no mundo inteiro. muitas pessoas acreditam que estas catástrofes naturais têm em parte como causa o aquecimento global – o aumento da temperatura da atmosfera terrestre. O resultado colectivo de tais processos tem sido o início de uma destruição ambiental generalizada. não é fácil saber como devem ser enfrentados. furacões na América Latina. é provável que os danos sobre o clima da Terra se tornem irreversíveis. ou quem tem a responsabilidade de agir para os remediar. Em virtude de os riscos ambientais terem uma origem difusa. é provável que não seja tomada qualquer acção concreta para lidar com o risco. Só no ano de 1998. Mudanças no clima a nível mundial Independentemente do local do mundo onde vive. .

e muitos outros pormenores. o nível e a distribuição da doença entre o gado. é um exemplo da dificuldade de avaliar os riscos no mundo de hoje em dia. ainda recentemente em Dezembro de 1999.2. a exposição ao sol tem sido associada a um risco elevado de cancro de pele em muitos países do mundo. Pensa-se que tal está relacionado com a devastação da camada de ozono – a camada da atmosfera terrestre que normalmente filtra os raios ultravioleta. No entanto. e que apliquem protectores solares para evitar queimaduras. A «sociedade de risco» global Em virtude de não haver qualquer guia seguro sobre esses novos perigos. mas defendeu a ideia de que era seguro comer carne de vaca e que tal não constituía uma ameaça para a saúde humana. Em anos mais recentes.2. A Encefalopatia Espongiforme Bovina (BSE). e fez-se aprovar legislação apertada para regular a criação de gado e a venda de produtos bovinos.4. uma doença cerebral degenerativa. dados os malefícios dos raios ultravioleta. 5. É necessário saber se o gado infectado fazia parte de uma determinada cadeia alimentar e quando. o governo inglês tomou medidas para controlar a doença entre o gado. Por exemplo. Dado não existirem respostas definitivas quanto às causas e consequências desse tipo de riscos. pesticidas químicos e herbicidas são hoje amplamente usados na agricultura moderna. tem sido pedido às pessoas. Calcular os riscos que os seres humanos correm devido à BSE. Embora tenham sido promovidas pesquisas científicas exaustivas para determinar os riscos da BSE sobre os seres humanos.68 5. através dos meios de comunicação e de campanhas de promoção da saúde. as pessoas. Os indivíduos que consumiram carne de vaca inglesa nos anos que antecederam a descoberta da BSE podem correr o risco de terem sido expostos à doença. os perigos que os riscos manufacturados colocam à saúde humana têm sido alvo de uma maior atenção. A agricultura e as técnicas de produção alimentar modernas têm sido altamente influenciadas por avanços no campo da ciência e da tecnologia. Riscos de saúde Nas últimas décadas. Foram abatidas milhares de cabeças de gado britânico.1. podiam estar relacionadas com o consumo de carne de vacas infectadas. cada indivíduo é . Por exemplo. os países e as organizações multinacionais têm de negociar os riscos. os resultados continuam a não ser conclusivos. Só em meados da década de 90 se admitiu pela primeira vez que várias mortes provocadas pela doença de Creutzfeld-Jacob. e muitas espécies animais (como o frango ou o porco) estão repletas de hormonas e antibióticos. mais conhecida como «doença das vacas loucas». que limitem a sua exposição ao sol. bem como conhecer a forma como a carne de vaca foi tratada e embalada. Depois da sua descoberta. tal como fazem as suas escolhas quanto à forma como a vida deve ser vivida. o Comité Científico da União Europeia declarou que a «dose considerada infecciosa para os humanos é actualmente desconhecida».4. foi detectada pela primeira vez em gado britânico no ano de 1986.

todo o tipo de decisões implicam riscos para os indivíduos. Globalização e desigualdade A globalização está a desenrolar-se de uma forma assimétrica. e em lugares mais distantes. Lado a lado com o acumular de problemas ecológicos. No final da década de 90. Ao mesmo tempo. é hoje em dia uma decisão muito mais arriscada do que antigamente. Segundo Beck. ao passo que os países do «terceiro mundo» sofrem de pobreza generalizada. um aspecto importante da sociedade de risco é que os seus perigos não são limitados espacial. Mesmo decisões simples acerca do que comer são hoje em dia tomadas num contexto marcado por informações e opiniões contraditórias em relação às qualidades e defeitos dos produtos. sobrepopulação. Desigualdade e divisões globais Como vimos já na discussão em torno dos tipos de sociedade. 5. Uma vez que o nosso futuro pessoal é hoje em dia muito menos previsível em relação ao que se passava nas sociedades tradicionais. O Relatório de Desenvolvimento Humano de 1999. por exemplo. a vasta maioria da riqueza mundial está concentrada nos países industrializados ou «desenvolvidos». é 74 vezes maior que o rendimento médio do quinto que vive nos países mais pobres. os efeitos do incidente fizeram-se sentir bem longe de Chernobyl propriamente dita – por toda a Europa. níveis excepcionalmente elevados de radiação foram detectados muito depois da explosão ter ocorrido. classe. A disparidade entre o mundo desenvolvido e o mundo em vias de desenvolvimento tem aumentado a um ritmo contínuo durante os últimos vinte anos. Para o sociólogo alemão Ulrich Beck.1.69 forçado a tomar decisões acerca dos riscos que está pronto a correr. O impacto da globalização é sentido de forma diferente. sendo hoje maior do que nunca. e não apenas pessoais. género ou estatuto – foram expostas a níveis perigosos de radiação. temporal ou socialmente (1995). somos obrigados a ajustar-nos e a responder constantemente a essas mudanças.5. e pesadas dívidas externas. que escreveu amplamente sobre o risco e a globalização. que vive nos países mais ricos. As decisões quanto às habilitações literárias e a carreira a seguir podem também acarretar riscos – é difícil adivinhar as aptidões que serão valorizadas numa economia que muda de uma forma tão rápida como a nossa. e algumas das suas consequências não são de todo benignas. Contrair matrimónio. quando o casamento era uma instituição vitalícia. revelou que o rendimento médio do quinto da população mundial. À medida que as mudanças tecnológicas progridem de uma forma cada vez mais rápida. publicado pelas Nações Unidas. o aumento das desigualdades entre as várias sociedades é um dos maiores desafios que o mundo enfrenta nos primórdios do século XXI. produzindo novas formas de risco. sistemas deficientes de prestação de cuidados de saúde e educação. 20% da população mundial era responsável por 86% do . 5. esses riscos contribuem para a formação de uma sociedade de risco global. Os riscos de hoje em dia afectam todos os países e todas as classes sociais: as suas consequências são globais.5. Todas as pessoas que viviam na vizinhança de Chernobyl – independentemente da idade.

1980-97 14 EXPORTAÇÃO DE BENS E SERVIÇOS – taxas de crescimento média anual. 1990-97 Coreia Eslovénia Bangladesh 80 Índia Tunísia Maurícias Sri Lanka China Singapura Tailândia Malásia República Dominicana México Roménia Polónia 60 Marrocos República CentroAfricana Senegal Federação Russa Arábia Saudita Argélia Países Árabes Ásia do Sul Leste Asiático Sudeste Asiático & Pacífico Bolívia Mongólia Venezuela Birmânia Equador América Latina & Caraíbas Europa de Leste e ex-União Soviética Brasil 40 Egipto 20 Moçambique Camarões Congo 0 África Subsariana Os números apresentados referentes à Europa de Leste e aos países da antiga União Soviética dizem respeito ao período que vai do fim dos anos 80 até 1996-97 Corre-se o risco de muitos dos países que mais necessitam de crescer economicamente serem deixados ainda mais para trás à medida que a globalização avança (Banco Mundial. 82% dos mercados de exportação e 74% das linhas de telefones. 1980-96 China Tailândia Paraguai México 12 Botswana Jordânia Bangladesh Coreia Nepal Índia 8 Uganda Marrocos Filipinas Tunísia Chile Costa Rica Polónia 4 Argélia Irão Burkina Faso Níger Bulgária Guatemala 0 -4 África Subsariana Países Árabes Ásia do Sul Leste Asiático Sudeste Asiático & Pacífico América Latina & Caraíbas Europa de Leste e ex-União Soviética 100 EXPORTAÇÃO DE MANUFACTURAS – Percentagem de exportações de mercadorias. O comércio livre é visto por muitas pessoas como a chave para o desenvolvimento económico e o combate à pobreza. média anual. pois o processo de integração na economia global não foi equilibrado. O comércio livre . Como fomos vendo ao longo deste capítulo. Desigualdades no nível de exportações entre países de diferentes regiões do mundo. a economia mundial está a crescer e a integrar-se a um ritmo extremamente rápido.70 consumo total mundial. apenas um reduzido número de países beneficiou deste crescimento. 2000). No entanto.

Em comparação com as manifestações de Seattle. e não pelos humanitários.2. grande parte não tem praticamente nenhuma influência directa sobre a política seguida pela organização. e os países mais pobres (e que mais beneficiariam do seu uso) podem acabar por não ter acesso às formas mais valiosas de tecnologia. as manifestações de Londres ou Washington tiveram uma dimensão muito menor. Embora entre os membros da OMC se incluam muitos países em vias de desenvolvimento. não conseguem ter acesso aos grandes mercados dos países desenvolvidos. Muitas amostras de plantas.000 pessoas de todo o mundo encheram as ruas de Seattle num protesto que decorreu durante as conversações da chamada «Ronda do Milénio» da OMC. muitos dos quais permanecem predominantemente agrícolas.71 entre fronteiras é tido como uma «situação em que todos ganham». para muitos críticos. De facto. embora defendam que é necessário ele seja regido por regras diferentes das favorecidas pela OMC. Os protestos de Seattle foram considerados a maior vitória conseguida pelos activistas em favor da «justiça global». tanto os países desenvolvidos como os países em desenvolvimento. têm sido depois transformadas pelas empresas farmacêuticas em medicamentos lucrativos – e patenteados. como também fizeram vir ao de cima conflitos internos entre as várias delegações. Os países industrializados detêm 97% das patentes mundiais. Os países mais pobres. recolhidas em regiões biodiversas como as florestas tropicais. Os organizadores dos protestos estavam triunfantes – os manifestantes não só haviam conseguido interromper as negociações. As negociações foram interrompidas antes do previsto sem que se tivessem alcançado acordos. Os opositores da OMC argumentam que esta é uma organização nãodemocrática dominada pelos interesses dos países mais ricos do mundo – em especial pelos dos Estados Unidos da América. na verdade. As disputas comerciais entre países membros da OMC são resolvidas à porta fechada por um comité composto por «especialistas» não eleitos. um assunto que beneficia aqueles que já estão numa posição confortável. enquanto o conceito de propriedade industrial é alheio ao mundo em vias de desenvolvimento. sem que no entanto a população local indígena receba qualquer compensação pelo facto. não prestando contas aos cidadãos que são directamente afectados pelas suas decisões. Estas críticas são válidas em muitos aspectos. todos os outros Estados membros ficam . Quando uma decisão é tomada. A maioria destes activistas concorda que o comércio mundial é necessário e potencialmente benéfico para as economias nacionais. o comércio livre é.5. pois a agenda é definida pelos países mais ricos. O saber local acerca dos usos medicinais das plantas é muitas vezes usado no desenvolvimento e comercialização dos medicamentos. exacerbando os padrões existentes de pobreza e de dependência do Terceiro Mundo. Em Dezembro de 1999 mais de 50. As agendas de investigação são ditadas por interesses monetários. A campanha a favor de uma «justiça global» Nem toda a gente concorda que o comércio livre seja a solução para a pobreza e a injustiça mundiais. 5. por exemplo. Outra crítica feita à OMC é a de que esta organização opera em segredo. embora tenham sido organizados com o mesmo fim.

5. as respostas a estes problemas também devem ser essencialmente transnacionais. Não é apenas nos países em vias de desenvolvimento. defendem que essa obsessão com a integração económica mundial está a obrigar as pessoas a viver numa «economia» e não numa «sociedade». estão a ganhar uma preponderância crescente sobre a preocupação com o bem-estar da humanidade. dizem. por conflitos domésticos e por transformações caóticas em muitas partes do mundo. impedir o esgotamento de recursos. Nos anos que se seguiram à queda da União Soviética. salvaguardar a saúde pública ou garantir normas laborais ou direitos humanos. Esta última.72 legalmente obrigados a acatá-la. Conclusão: a necessidade de uma governação global À medida que a globalização avança. A década que se seguiu ao fim da Guerra Fria foi marcada pela violência. A OMC pode igualmente pôr em causa ou anular leis nacionais que sejam consideradas «barreiras ao comércio». educação. O que. onde sejam estabelecidas e observadas leis transparentes e padrões de comportamento internacional. Os críticos da OMC. Novas formas de exercício de governo mundial podem ajudar a promover uma ordem global cosmopolita. Muitos dos processos que afectam as sociedades do mundo inteiro estão além da competência dos actuais mecanismos de exercício do governo. como a constituição das Nações Unidas e da União Europeia. pode ser vista como uma resposta inovadora à globalização. Segundo esta perspectiva. não deixa de ser verdade. mas também no mundo industrializado. Embora não pareça realista falar em governação acima do nível do estadonação. à medida que um número cada vez maior de problemas é colocado acima do nível individual dos países. O carácter assimétrico da globalização deve ser visto em parte como um reflexo do facto de o poder económico e político estar concentrado nas mãos de um pequeno número de países. Os interesses comerciais. como a defesa dos direitos humanos. incluindo leis nacionais ou acordos bilaterais firmados para proteger o ambiente.6. formação – se não quisermos que as divisões mundiais se agravem ainda mais. Esta mudança em direcção a uma governação global e a instituições cada vez mais eficientes na regulação é absolutamente apropriada numa altura em que a interdependência mundial e o ritmo vertiginoso da mudança . em particular. foram já dados alguns passos no sentido da criação de uma estrutura democrática global. de alguma forma. sendo provável que venha a tornar-se um modelo para organizações similares em outras partes do mundo onde os laços regionais sejam fortes. ao permitir que as transnacionais operem sem respeitar as normas ambientais ou de segurança. Muitos estão convencidos de que tais medidas irão enfraquecer ainda mais a posição económica das sociedades mais pobres. desigualdades e desafios que transcendem as fronteiras dos países. e não apenas aquelas que estão à partida bem colocadas para daí tirar partido. parece notório que as estruturas e os modelos políticos existentes não estão preparados para enfrentar um mundo cheio de riscos. e de outras instituições financeiras internacionais como o Banco Mundial ou o Fundo Monetário Internacional. os EUA passaram a ser considerados por muitos como a única superpotência mundial. O principal desafio do século XXI é garantir que a globalização beneficie as pessoas do mundo inteiro. que se verifica a necessidade de se investir mais no «capital humano» – saúde pública.

. tal tarefa parece ser da maior necessidade e constituir simultaneamente o maior desafio que as sociedades humanas enfrentam no início do século XXI. Na verdade.73 ligam a população mundial mais do que nunca entre si. Está nas nossas mãos fazer prevalecer o desejo de um mundo social melhor.

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Os habitantes locais podem estranhar os turistas. foi isso que pagámos para ver – juntamente com outras atracções turísticas. INTERACÇÃO SOCIAL E VIDA QUOTIDIANA Interacção Social – o processo em que agimos e reagimos relativamente ao que nos rodeia. As experiências «exóticas» são aquelas que vão contra as nossas expectativas quotidianas sobre a forma habitual das interacções sociais e a interacção com o meio ambiente. O estudo da vida quotidiana A ideia de «olhar turístico» é importante pelo que revela acerca do papel das nossas vidas quotidianas na configuração da percepção que temos do mundo que nos rodeia – o que é corrente e familiar. . um grupo de turistas ocidentais de visita a um país muçulmano pela primeira vez. ou o que é excepcional. para determinar. Este som. 6. por exemplo. as actividades e as vistas que a um turista estrangeiro parecem «exóticas». Imagine-se como seria frustrante viajar a um país estrangeiro e descobrir que tudo era praticamente igual à cidade onde se cresceu. entre outras coisas. esta chamada para a oração faz de tal modo parte da sua vida quotidiana que é sentida de forma mais ou menos inconsciente. Com o aumento do turismo que a globalização trouxe. As regras de trânsito estão tão enraizadas que achamos estranho as violações dessas regras. Fazem-no tanto para melhor compreender as outras culturas como para fazer maus juízos acerca daqueles que são diferentes. os sociólogos terão de observar detalhadamente os padrões de interacção que emergem entre turistas e habitantes locais. desagradando-lhes as suas atitudes exigentes ou o sobredesenvolvimento que normalmente está associado aos destinos turísticos populares. muitas destas interacções são configuradas pelo «olhar turístico». se essas interacções são tendencialmente amistosas ou hostis. Estas vontades contraditórias entre o exótico e o familiar são cruciais ao olhar do turista. tais atracções são o resultado da curiosidade.1. no entanto.75 6. Por vezes. é estranho à maioria dos ouvidos ocidentais. Para os habitantes locais. Tome-se. são uma parte prosaica da vida da população local. A maioria dos turistas não deseja passar por experiências demasiado exóticas. desviando o olhar e evitando olhar nos olhos da outra pessoa. Quando duas pessoas se cruzam na rua de uma cidade. Para muitos europeus que viajam até À Grã-Bretanha o facto de aí se guiar pelo lado esquerdo da estrada é desconcertante. Quais são as características das interacções sociais entre indivíduos de países diferentes? Segundo John Urry (1990). Os turistas podem questionar os habitantes locais acerca de certos aspectos das suas vidas quotidianas. é a cadeia de restaurantes McDonalds. belo e inquietante. a expectativa do turista em passar por experiências exóticas quando em viagem pelo estrangeiro. Em certo sentido. a verdade é que a globalização veio alterar tanto a frequência como a natureza desses contactos. como exemplo. Estes são frequentemente surpreendidos pelo som das «chamadas para a oração» que se ouve cinco vezes por dia a partir dos minaretes de centenas de mesquitas. Na maioria das vezes. trocam à distância breves olhares. mas as pessoas apreciam frequentemente o conforto de comer e beber num ambiente que lhes é familiar. Embora sempre tenha havido interacções entre pessoas de nacionalidades diferentes. Um dos locais mais frequentados por jovens turistas em Paris.

Em segundo lugar. mas é de uma importância fundamental no nosso diaa-dia. Na verdade. terminar a faculdade e começar a trabalhar. o estudo destas formas aparentemente insignificantes de interacção social é da maior importância para a Sociologia. Longe de ser desinteressante. A desatenção civil não é. Esta noção de construção social da realidade é crucial para a perspectiva do interaccionismo simbólico. é uma das áreas mais empolgantes da investigação sociológica. como. A desatenção civil é um de entre os vários mecanismos que conferem à vida social urbana. Cada indivíduo demonstra ao outro o reconhecimento da sua presença. de modo nenhum. . a realidade não é rígida ou estática – é uma criação das interacções humanas. Demonstrar desinteresse civil é algo que fazemos de forma mais ou menos inconsciente. Por outras palavras. estes indivíduos ilustram o que Erving Goffman (1967. relativamente estáveis e regulares. Pode-se ser levado a pensar que estes aspectos triviais do comportamento social – tal como passar por alguém na rua ou reagir a práticas desconhecidas como a chamada para a oração – são menores e desinteressantes. com as suas multidões e contactos impessoais. o mesmo que ignorar a outra pessoa. o estudo da vida quotidiana é revelador quanto à forma como os seres humanos podem agir de modo a moldar a realidade. mas evita qualquer gesto que possa ser entendido como intromissão. Se ocorre uma grande mudança na nossa vida. Se tanto um como outro foram dias de semana. temos normalmente de efectuar grandes alterações nas rotinas do dia-a-dia. mês após mês e ano após ano. 1971) designou como desatenção civil.76 Ao fazê-lo. Em virtude de os indivíduos serem capazes de agir de forma criativa. as suas características próprias. terse-á levantado sensivelmente à mesma hora (uma rotina importante em si mesma). em muitas situações. aquilo que. estão continuamente a configurar a realidade através das decisões que tomam e das acções que praticam. semana após semana. É claro que as rotinas que seguimos diariamente não são idênticas e que os padrões de actividade aos fins-de-semana são diferentes dos padrões próprios dos dias úteis. mas então será novamente estabelecido um conjunto de novos hábitos. As nossas vidas estão organizadas de acordo com a repetição de padrões semelhantes de comportamento dia após dia. exigimos uns dos outros. por exemplo.

por sua vez. por maior que esta última seja. os construcionistas sociais esforçamse por documentar e analisar os processos pelos quais a realidade social é construída. tentar «explicar» a realidade social seria menosprezar e reificar (conceber como uma verdade dada) os processos pelos quais essa realidade é construída. estamos constantemente em contacto com estranhos. como o capitalismo ou o sistema de patriarcado. Giddens. criando-se teorias para explicar os padrões observados.1. embora a realidade possa ser uma perpetuação construída das crenças do senso comum. as duas encontramse estreitamente imbricadas (Knorr-Cetina e Cicourel. pelo que quaisquer diferenças entre os jovens considerados delinquentes e os que escapam a esse rótulo devem ser atribuídas à construção da etiqueta «delinquente». os construcionistas sociais defendem muitas vezes que o comportamento inicial dos jovens é idêntico. os jovens de classes altas eram mais facilmente entregues aos cuidados dos pais. Aaron Cicourel descobriu que os procedimentos policiais com os jovens dependem de concepções do senso comum acerca de como os delinquentes juvenis «são realmente». e mesmo para diferentes pessoas da mesma cultura. como se torna claro se compararmos o ciclo diário de actividades de uma cultura tradicional com a vida característica num ambiente urbano industrializado. A tarefa da investigação transforma-se então na análise dos processos pelos quais os indivíduos entendem o que é «real» para eles como real. 6. 1984). Macrossociologia – estudo dos sistemas sociais em grande escala. Microssociologia e Macrossociologia Microssociologia – estudo do comportamento quotidiano em situações de interacção directa. quando jovens de famílias de classes baixas eram detidos. Em última análise. 1981. em análises em que examinam que tipo de jovens etiquetados como delinquentes. de modo a esclarecer a forma pela qual os membros da sociedade ficam a saber o que é real e simultaneamente a criá-lo. Este contacto pode ser indirecto e impessoal. Peter Berger e Thomas Luckmann sublinham que os factos «óbvios» da realidade social podem não ser os mesmos para pessoas de culturas diferentes. Em vez de assumirem que a realidade social existe de uma forma objectiva. As formas como as pessoas vivem o seu dia-a-dia são largamente afectadas pelo enquadramento institucional mais amplo de que fazem parte. pode parecer que a micro e a macro-análise são bastante diferentes uma da outra. Os construcionistas sociais aplicam as ideias de Berger e Luckmann à investigação de fenómenos sociais. Os estudos microssociológicos. Na maior parte da produção sociológica. O construcionismo social foi também ele alvo de críticas. mas. Desta forma. No entanto. os dados relativos a taxas e registos de delinquência juvenil são tomados como assentes (ou seja. Suponha que se está a estudar uma empresa na qual muitas das actividades podiam ser estudadas em . enquanto entende que o processo de rotulagem é subjectivo (Woolgar e Pawluch. Nas sociedades modernas. Deste modo.1. pelo que os retinha sob custódia. por sua vez. Autores críticos desta abordagem defendem que o construcionismo social considera de forma inconsistente os comportamentos iniciais como objectivos. reais). na verdade. A macro-análise é essencial para se poder compreender a base institucional da vida quotidiana. essas mesmas crenças podem ser resultado de factores sociais preexistentes. como o sistema político ou a ordem económica.77 A construção social da realidade Em Sociologia são usados múltiplos enquadramentos teóricos para explicar a realidade social. A interacção face-aface é claramente a base principal de todas as formas de organização social. de forma a que esta construção sirva. Por exemplo. À primeira vista. A abordagem teórica chamada construcionismo social defende que o que os indivíduos e a sociedade concebem e entendem como realidade é uma criação da interacção social dos indivíduos e dos grupos. alguns críticos têm defendido que. são necessários para entendermos os padrões institucionais mais amplos. pois a polícia e os pais acreditavam que estes podiam receber em casa a disciplina adequada. a polícia tinha tendência a considerar as suas ofensas um resultado de uma orientação deficiente ou da ausência de exemplos adequados. 1985). por exemplo. para confirmar-se a si própria como realidade social. o construcionismo social oferece-nos uma abordagem teórica para a compreensão da realidade social que é radicalmente diferente da maior parte das outras abordagens sociológicas. Por exemplo.

Da mesma forma. Como não podiam ter visto outras pessoas a comportarem-se desta forma. tudo isto varia de acordo com diferentes culturas. repugnância.2. os movimentos precisos dos lábios e de outros músculos faciais. factores culturais e individuais influenciam a forma exacta que os movimentos faciais adquirem e os contextos em que são considerados apropriados. de modo a verificar até que ponto as suas expressões faciais seriam idênticas às dos indivíduos sem essas deficiências em determinadas situações emocionais (Eibl-Eibesfeldt. A face. Comunicação não-verbal Comunicação não-verbal – troca de informação e sentido através da expressão facial. já que muitas das relações comerciais envolvidas são transacções através de documentos impressos. A comunicação não-verbal é por vezes designada como «linguagem corporal». por sua vez. em parte. os nativos foram capazes de identificá-las. cartas. Contudo. em sinal de elogio. Ekman e Friesen levaram a cabo um estudo sobre uma comunidade isolada da Nova Guiné. Desta forma. ou mesmo da maioria das culturas.78 termos de comportamento face-a-face. cujos membros não tinham tido praticamente nenhum contacto prévio com o exterior. tristeza. 6. de gestos ou movimentos corporais. mas a expressão é enganadora. a forma como as pessoas sorriem. Por exemplo. Paul Ekman e os seus colegas desenvolveram.1. 1978). os sistemas macro influenciam contextos particulares da vida social. Segundo Ekman. tudo indica que estas reacções são determinadas de forma inata. é .2. Não há gestos ou aspectos da postura corporal que se tenha provado poderem ser característicos de todas. Serão analisados outros exemplos do modo como a interacção em contextos micro afecta processos sociais de âmbito maior. O autor reconhece que as provas que apresentou não o conseguem demonstrar de forma conclusiva. aquilo a que chamam Sistema de Codificação da Acção Facial (SCAF) (Ekman e Friesen. na medida em que usamos tradicionalmente tais sinais não verbais para eliminar ou expandir o que é dito por palavras. medo e surpresa). 1973). sendo possível que possam estar em causa experiências culturais de aprendizagem amplamente partilhadas. os gestos e as emoções Um dos aspectos mais importantes da comunicação não-verbal é a expressão facial da emoção. Eibl-Eibesfeldt estudou seis crianças cegas e surdas de nascença. e como. e até que ponto um sorriso é fugaz. para descrever os movimentos musculares faciais que dão origem a determinadas expressões. o resultado do seu e de outros estudos levados a cabo entre diferentes povos reforça a ideia de que as expressões faciais das emoções e as suas interpretações são características inatas dos seres humanos. 6. inatas. telefonemas e computadores. o gesto que consiste em colocar o dedo indicador direito no centro da bochecha e depois rodá-lo. ira. Quando lhes foram mostradas imagens de expressões faciais ilustrando seis emoções diferentes (felicidade. não poderíamos obter uma imagem desta organização no seu todo. as suas conclusões são apoiadas por outros tipos de pesquisas. Mas embora as expressões faciais de emoções pareçam ser.

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frequente em certas regiões de Itália, mas parece ser inexistente no resto do mundo. Tal como sucede com as expressões faciais, os gestos e a postura corporal são constantemente utilizados para «completar» expressões verbais e também para transmitir significados sem que nada seja dito. As expressões faciais, os gestos e a postura corporal podem ser usados com a intenção de brincar, mostrar ironia ou cepticismo. As impressões não verbais que usamos de forma não consciente indicam frequentemente que o que dizemos nem sempre corresponde propriamente ao que estamos a sentir. Corar é provavelmente o exemplo mais óbvio, mas existe um número de indicadores mais subtis que podem ser captados pelas outras pessoas. O suor, a excitação, o olhar fixamente ou o piscar os olhos, e expressões faciais que permanecem no rosto de forma prolongada (as expressões faciais genuínas tendem a desvanecer-se depois de quatro ou cinco segundos) podem indicar que uma pessoa está a tentar enganar.

6.2.2. «Face» e auto-estima
A palavra «face» pode também relacionar-se com a estima que os outros têm por um indivíduo. Não nos referimos a episódios do passado de um indivíduo ou a características suas que se fossem mencionadas poderiam resultar em embaraço. Abstemo-nos de piadas acerca da calvície quando notamos que alguém presente usa capachinho – a não ser que seja entre amigos íntimos. O tacto é uma espécie de mecanismo de protecção que cada um emprega, na expectativa de, em contrapartida, as suas próprias fraquezas não serem deliberadamente expostas. Algumas pessoas são especialistas no controlo da expressão facial e da comunicação com tacto da interacção com os outros. Um bom diplomata, por exemplo, tem de ser capaz – transmitindo uma imagem de à-vontade e conforto – de interagir com outros com quem esteja em desacordo ou mesmo achar repelentes. O grau de sucesso com que esta capacidade é utilizada pode afectar o destino do mundo inteiro.

6.2.3. Género e comunicação não-verbal
Em virtude de as interacções serem moldadas pelo contexto social mais amplo, é natural que tanto a comunicação verbal como a comunicação não-verbal possam ser percebidas e transmitidas de maneira diferente por homens e mulheres. As concepções de género e os papéis de género são, em grande medida, influenciados por factores sociais, estando de um modo geral relacionados com questões de poder e posição social. Estas dinâmicas são bastante óbvias, mesmo em interacções comuns da vida quotidiana. Um homem que «olha» fixamente para uma mulher pode ser interpretado como estando a comportar-se de forma «natural» ou «inocente». Por outro lado, uma mulher que olha fixamente para um homem é muitas vezes considerada como estando a comportar-se de forma sexualmente provocante ou insinuante.

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6.3. Conversa e regras sociais
Embora usemos rotineiramente muitos sinais não verbais no nosso comportamento, e recorramos a eles para entender os outros, muita da nossa interacção é levada a cabo através da fala – trocas verbais casuais – que decorre durante conversas informais com outros. Os sociólogos sempre reconheceram que a linguagem é fundamental para a vida social. Contudo, foi recentemente desenvolvida uma abordagem preocupada especificamente com a forma como as pessoas usam a linguagem nos contextos normais da vida quotidiana. O estudo das conversas tem sido fortemente influenciado pela obra de Erving Goffman. Mas a influência mais importante para este tipo de estudos é a de Harold Garfinkel, o fundador da Etnometodologia (Garfinkel, 1984). Etnometodologia – estudo dos «etnométodos» – os métodos populares ou não eruditos – usados pelas pessoas para entender o que os outros fazem e, especialmente, aquilo que dizem. Frequentemente, podemos apenas atribuir um sentido ao que é dito durante uma conversa se conhecermos o seu contexto social, que é exterior às próprias palavras. Parte do sentido está nas palavras e outra parte na forma como o contexto social estrutura o discurso.

6.3.1. Entendimentos partilhados
As formas mais inconsequentes de conversa diária pressupõem uma compreensão partilhada complexa e conhecimentos trazidos a lume pelas partes envolvidas. De facto, as conversas de ocasião são de tal modo complexas que até ao momento tem-se provado ser impossível programar mesmo os computadores mais sofisticados para conversarem com seres humanos. Entendemos o tipo de resposta que a pergunta exige, desde que conheçamos, entre outras coisas, quem interroga, o tipo de actividades que quem interroga e quem é interrogado fazem em conjunto e o que faz habitualmente o último num dado dia da semana.

6.3.2. Experiências de Garfinkel
As «expectativas de fundo» com as quais organizamos conversas banais foram realçadas por algumas experiências levadas a cabo por Garfinkel entre estudantes voluntários. Foi solicitado aos estudantes que conversassem com amigos e familiares, insistindo, contudo, em que fosse esclarecido o sentido de toda e qualquer afirmação, nomeadamente de frases banais ou comentários gerais. Porque é que as pessoas se enervam tanto quando outros não respeitam convenções aparentemente menores das conversas? A resposta é que a estabilidade e o sentido da nossa vida social quotidiana dependem de pressupostos culturais implícitos e partilhados acerca do que é dito e porquê. Se não tomássemos isto como adquirido, a comunicação verbal com sentido seria impossível. O que, à primeira vista, parece ser um conjunto de convenções de conversação banais, acaba por ser fundamental para o próprio funcionamento da vida social, razão pela qual a sua transgressão traz sérias consequências. Isto pode ser feito para provocar o outro, brincar com ele, causar embaraço ou chamar a atenção para um sentido duplo do que foi dito.

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6.3.3. Vandalismo na interacção
Vimos já que a conversa é uma das principais formas de manter a vida quotidiana estável e coerente. Sentimo-nos mais confortáveis quando as convenções tácitas das conversas banais são respeitadas. Quando estas são quebradas, podemos muitas vezes sentir-nos ameaçados, confusos e inseguros. Estando atentos uns aos outros, os participantes de uma conversa «cooperam» no princípio e no fim das interacções, falando alternadamente. Mitchell Duneier e Harvey Molotch (1999), dois sociólogos americanos, investigaram as trocas verbais entre transeuntes e «pessoas das ruas» de Nova Iorque, com o objectivo de perceber porque é que tais interacções são vistas frequentemente como algo problemático. Análise de conversação – metodologia que procura sentido em todas as facetas de uma conversa – das palavras «de ligação» mais pequenas (como «hum» ou «ah») ao «timing» preciso das trocas verbais (incluindo pausas, interrupções e sobreposições). Ainda que raramente os comentários dos homens fossem em tom hostil, as mulheres tendiam a apressar o passo e a desviar a cara. Saber negociar subtis «aberturas» e «fechos» de conversas é uma exigência fundamental para o civismo urbano. Duneier e Molotch descobriram que estes aspectos cruciais da conversação eram altamente problemáticos quando se tratava de interacções entre homens e mulheres. Numa conversação, o «timing» é um indicador muito importante: na maior parte das interacções quotidianas, adiar uma resposta, ainda que por uma fracção de segundo, traduz o desejo de mudar o curso da conversa. Quando as regras normais de abertura e fecho de conversas não são respeitadas, os indivíduos sentem uma noção de profunda e inexplicável insegurança. Vandalismo na interacção – uma pessoa subalterna quebra as regras tácitas da interacção quotidiana valiosas para os mais poderosos. As mulheres podem muitas vezes entender o comportamento dos homens como uma prova de que são de facto perigosos, sendo melhor evitá-los. O vandalismo na interacção está intimamente relacionado com a classe, o status, o género e as estruturas raciais. O vandalismo na interacção é parte de um «sistema auto-sustentado de suspeitas e falta de civismo mútuo».

6.3.4. Modos de falar
É uma experiência intrigante ouvir uma gravação ou ler uma transcrição de uma conversa em que se tenha participado. Uma conversa é muito mais fragmentada, inconsistente e avessa à gramática do que a maioria das pessoas imagina. Quando tomamos parte numa conversa banal, temos tendência a pensar que aquilo que é dito é razoavelmente refinado, na medida em que completamos inconscientemente o sentido das próprias palavras; mas as conversas reais são muito diferentes das conversas dos romances, nas quais as personagens trocam frases bem estruturadas e gramaticalmente correctas. Tal como no caso das ideias de Goffman acerca da desatenção civil, pode presumir-se que a análise de conversas banais é um assunto relativamente marginal face às principais preocupações da Sociologia; de facto, por esta razão, muitos sociólogos são críticos assumidos das pesquisas etnometodológicas. Estudar a linguagem quotidiana provou

mas permitiram um vislumbre do exercício de poder político ao seu mais alto nível (Molotch e Boden. 1981). 6.5. ou são coisas que tentamos banir conscientemente sem sucesso. e nós delas. Segundo Freud. O fundador da Psicanálise. a exclamação pode ser proferida por alguém que observa um lapso de outra pessoa. como este exemplo parece sugerir. 1975). outrem.3. no decurso das suas investigações sobre a «psicopatologia da vida quotidiana».82 ser tão complexo quanto o domínio da linguagem que a maioria das pessoas tem. uma resposta involuntária. através do som. Além do mais. consistindo em exclamações murmuradas ou o que Goffman chamou gritos de resposta (Goffman. contudo. entre o presidente Nixon e colaboradores seus. não eram mais do que uma transcrição de conversas. má utilização de palavras ou gaguez. analisou numerosos exemplos de tais lapsos de língua (Freud.3. as outras pessoas esperam de nós. A exclamação demonstra às pessoas que assistem que o nosso lapso é sem importância e momentâneo. prestamos assim tanta atenção ao que dizemos? Em situações de interacção. Lapsos de língua «Ups!» é uma resposta a um pequeno incidente. na medida em que reagimos assim normalmente quando estamos na presença de outros. As imensas dificuldades que implica programar computadores a fazerem o que os seres humanos fazem sem nenhuma dificuldade no decorrer de uma conversa são uma prova desta complexidade. nunca é realmente um fenómeno acidental. «Ups!» parece ser somente uma resposta reflexo e sem grande interesse a um infortúnio. ou pode ser usada para avisar. 6. Gritos de resposta Algumas expressões não são fala. «Ups!» não é. Para quê estar a analisar com pormenor uma expressão tão inconsequente? Será que. Ou. incluindo uma má pronúncia.6. que mostremos aquilo a que Goffman chama um «alerta controlado». nunca se espera de nós que estejamos apenas presentes no local. Estes erros têm motivos inconscientes e são sintomas de sentimentos reprimidos pelo inconsciente.º . alguém é questionado «Em que regimento está o seu filho?» e responde «No 42. «Ups!» é geralmente dirigido a outras pessoas presentes. como num exemplo citado por Freud. Sigmund Freud. 1985). «Ups!» só é usado em situações de falhas sem grande importância. Uma parte fundamental de se ser um humano consiste em demonstrar continuamente aos outros a nossa competência e capacidade nas rotinas da vida do dia-a-dia. da mesma maneira que se pestaneja quando alguém faz um movimento brusco próximo de nós. a fala é um elemento essencial a todos os aspectos da vida social. cometer erros de fala. Além disso. «Ups!» é normalmente um som curto. e não algo que possa pôr em causa o controlo que uma pessoa tem sobre as suas acções. mas o som «u» pode ser prolongado em algumas situações. As fitas gravadas que deram origem ao Caso Watergate. e não na presença de grandes acidentes ou calamidades – o que demonstra que a exclamação faz parte da nossa gestão controlada dos acontecimentos da vida social.

mesmo que não falem directamente entre si.4. por momentos. 6. 6. colegas – que ocorrem frequentemente tendo como pano de fundo a interacção desfocalizada com outras pessoas presentes em cena. que Freud acreditava serem muitas vezes motivados inconscientemente – como quando alguém não se apercebe de que o que disse tem um duplo sentido óbvio.1. na medida em que podem facilmente ocorrer mal-entendidos acerca da natureza do encontro que está a ser estabelecido (Goffman. Quando estranhos se encontram e começam a conversar – numa festa. Caso a abertura não tenha sido aceite. Espera-se igualmente que este seja mais perfeito do que as conversas do dia-a-dia. jogos e contactos rotineiros face a face (com bilheteiros. 1971). o momento de suspender a desatenção civil é sempre arriscado. Consequentemente. Isto também pode passar por anedótico se forem ditas de uma forma deliberada. que por detrás da calma profissional está um indivíduo comum. Daí que a tentativa de estabelecer contacto visual possa a princípio ser ambígua e hesitante. Tendemos a rir mais dos erros verbais quando são cometidos por locutores (ou professores nas aulas) do que quando ocorrem em conversas comuns. Excepto quando um indivíduo está sozinho – numa festa. Uma das melhores maneiras de ilustrar estes aspectos é observar os lapsos no discurso de locutores de rádio e televisão. estas são muito mais óbvias e evidentes do que se decorressem em conversas banais. e assim por diante) são exemplos de encontros. .4. por exemplo – toda a interacção envolve tanto trocas focalizadas como não focalizadas.83 de Assassinos» («Mörder» em alemão. os indivíduos mostram ter consciência mútua da presença dos outros. em vez de «Mörser». Quando indivíduos estão na presença uns dos outros. Os lapsos de língua são frequentemente engraçados e podem passar por anedotas. As falhas de linguagem articulam-se com outros tipos de discurso considerado «não apropriado». corpo e fala na interacção Como veremos em seguida também organizamos as nossas actividades nos contextos da vida social para alcançar os mesmos fins. com menos hesitações e melhor articulado. Goffman chama Encontro – unidade de interacção focalizada. O discurso dos locutores não é igual às conversas banais. Descobrimos. de outra forma. por exemplo –. mantêm uma constante comunicação não verbal. amigos. Encontros Interacção desfocalizada – tem lugar sempre que. mas. num dado contexto. Conversa fiada. e grande parte da nossa vida quotidiana consiste em encontros contínuos com outros indivíduos – família. mas está escrito. Face. quando os locutores dos noticiários se «engasgam» ou cometem outras «gafes». trata-se de lapsos na produção controlada da fala que se espera das pessoas. Interacção focalizada – ocorre quando os indivíduos prestam uma atenção directa ao que o outro diz ou faz. que significa morteiros). através da sua postura corporal. empregados de balcão e de mesa. facial e gestual. discussões de grupo. uma vez que não é espontâneo.

ao mesmo tempo.2. quer quando possa existir ambiguidade sobre o que se está a passar. 6. se deixaram muito no prato ou estará a atentar no tom de voz usado para exprimirem a sua satisfação. Marcadores É provável que cada um destes encontros esteja separado dos outros por Marcadores – ou por aquilo a que Goffman chamou parênteses. os outros não podem demonstrar subitamente desinteresse e podem continuar numa espécie de conversa lenta e hesitante. Gestão das impressões O conceito de papel social. É igualmente difícil os estranhos não serem vistos a olharem as outras pessoas mais intensamente do que o permitem as normas da desatenção civil. o papel do professor consiste em actuar de modo específico em relação aos seus alunos. estará a observar se os seus clientes. agir como se nenhum movimento tivesse sido intencional. Nem é fácil igualmente às outras pessoas presentes demonstrar. 1974). tem origem na cena teatral. então. não estou a olhar». Goffman . é difícil demarcar uma área de interacção focalizada. como os elevadores. parecem realmente satisfeitos. é deter uma posição específica. como normalmente fariam noutras situações. olhando para o vazio ou para os botões do elevador – para qualquer lado menos para os restantes passageiros. que não estão a ouvir as conversas à sua volta. Os papéis são expectativas definidas socialmente que uma pessoa com um determinado estatuto. o dono de um restaurante ouve com um sorriso atencioso as opiniões favoráveis dos clientes sobre o quanto gostaram da comida servida – enquanto. Tal marca simultaneamente os limites do episódio e transmite a noção de que é desprovido do significado sexual que. segue. de outro modo. poderia ter. à medida que vão comendo. 6.84 uma pessoa pode. Do mesmo modo. por exemplo. se várias pessoas estão sentadas a conversar e uma delas recebe uma chamada telefónica. Despir-se e vestir-se em privado permite que o corpo seja exposto e ocultado repentinamente. Expressões que os indivíduos «oferecem» – as palavras e as expressões faciais. Assim. as pessoas adoptam normalmente uma pose exagerada de «não estou a ouvir. Em situações mais formais.4. são usados frequentemente sinais reconhecidos para assinalar o começo e o fim de determinado encontro. através das quais as pessoas tentam produzir impressões em outras.4. Por exemplo. Ser professor. em casa ou no escritório. que servem para distinguir cada episódio de interacção focalizada do anterior e das interacções não focalizadas que têm lugar no mesmo contexto (Goffman. As conversas são geralmente suspensas ou limitadas a breves trocas de palavras. Em espaços muito limitados. Os marcadores são particularmente importantes quer se trate de um encontro que está especialmente para lá das convenções comuns da vida quotidiana.3. ou posição social. Expressões que os indivíduos «revelam» – as pistas que podem ser usadas para verificar a sinceridade e a honestidade de uma pessoa. por exemplo. em elevadores.

85 concebe a vida social como se fosse algo que vai sendo representado num palco por actores – ou em muitos palcos. de modo a assegurar que os outros reagem da forma desejada. ao contrário. num encontro entre pessoas que não se conhecem. Desta forma. Quando estão a salvo nos bastidores. Os sociólogos demonstraram já que. para discutir intensamente apenas quando os filhos já estão nos quartos a dormir.4. Maridos e mulheres estão muitas vezes de acordo em não discutir à frente das crianças. Estatuto primordial – estatuto com prioridade sobre todos os outros. como a raça. Regiões da frente – situações sociais ou encontros em que os indivíduos desempenham papéis formais – são «actores em cena». grande parte da vida social pode ser dividida em regiões da frente e da retaguarda. Quando alguém tem de estar presente numa reunião de trabalho. o sexo ou a idade. pode usar jeans. a mesma pessoa. determinando em traços gerais a posição geral de um indivíduo na sociedade. Isto é gestão das impressões. veste normalmente fato e gravata. «atleta» ou «funcionário».4. Esta abordagem é por vezes apelidada de modelo dramatúrgico – a vida social vista como uma peça teatral. «mulher» ou «adolescente» são exemplos de estatutos atribuídos. uma das primeiras coisas em que se repara é no género e na raça (Omi e Winant. a sociedade pode provar o contrário. comportando-se séria e formalmente. «negro». Espaço pessoal Existem diferenças culturais na definição do que é o espaço pessoal. já que os nossos actos dependem dos papéis que desempenhamos em determinado momento. Estatuto alcançado – estatuto que as pessoas ganham com o seu próprio esforço. As pessoas são sensíveis ao modo como são vistas pelos outros. por exemplo. Embora isto possa ocasionalmente ser feito de forma consciente e premeditada. as pessoas geralmente permanecem mais próximas do que é aceitável no Ocidente. usando muitas formas de gestão das impressões. Uma empregada de mesa pode ser a imagem da serenidade quando atende os clientes e ser agressiva e barulhenta para lá das portas da cozinha do restaurante. Regiões da retaguarda – aquelas onde armazenamos os adereços e os indivíduos se preparam para a interacção em contextos mais formais.4. entre amigos ou assistindo a um jogo de futebol. preservando uma fachada de harmonia. as pessoas podem descansar e libertar as emoções e estilos de comportamento que ocultam quando estão em palco. como. «licenciado».5. Os estatutos primordiais mais comuns são aqueles que se baseiam no género e na raça. Regiões da frente e da retaguarda Segundo Goffman. uma sweatshirt. está usualmente entre as muitas coisas que fazemos sem disso termos consciência. Estatuto atribuído – estatuto que é atribuído ao indivíduo com base em factores biológicos. 6. 1994). 6. Zonas de espaço privado: . Apesar de gostarmos de acreditar que os estatutos alcançados é que são os mais importantes. rir e contar anedotas. No Médio Oriente.

Interacções mais banais.5 mt) – é reservada a muito poucos contactos sociais. O seu tempo semanal é também delimitado: provavelmente trabalham nos dias úteis e passam os fins-de-semana em casa. Se estas zonas forem invadidas.5 até 3. ou talvez dos subúrbios para o centro da cidade. As acções que decorrem quotidianamente tendem a ser «demarcadas» tanto no tempo como no espaço. Assim. Distância social (de cerca de 1. Distância pública (para além dos 3. empilhando livros a delimitar o seu espaço (Hall. se houver mais do que um andar. Os homens gozam tradicionalmente de maior liberdade em relação às mulheres no que diz respeito ao uso do espaço – por exemplo. movimentos no espaço pessoal de mulheres de que podem não ser necessariamente íntimos.5 mt) – preservada por aqueles que actuam perante uma assistência. as zonas mais sensíveis são as das distâncias íntima e pessoal. Distância pessoal (de cerca de 0.86 1. as pessoas tentam readquirir o seu espaço. como entrevistas. Uma habitação moderna está regionalizada em quartos. numa mesa de biblioteca apinhada. Distância íntima (até cerca de 0. na análise dos contextos da interacção social é bastante útil analisar os movimentos das pessoas e reconhecer esta convergência espácio-temporal. alterando o padrão das suas actividades ao sábado e ao domingo. como também áreas demarcadas no tempo. Interacção no tempo e no espaço Compreender como as actividades são distribuídas no tempo e no espaço é fundamental na análise de encontros. pode ser estabelecido um certo tipo de fronteira física. mais ou menos à semelhança do que se passa com outras formas de comunicação não-verbal. É preciso notar que as questões de género desempenham aqui um papel. corredores e pisos. mas tende a ser estritamente limitada. bem como para entender a vida social em geral. Nos casos em que pessoas são forçadas a uma proximidade. À medida que avançamos através das zonas temporais do dia. 6. . demarca fisicamente o espaço privado.5 mt) – é a zona normalmente estipulada para contextos formais de interacção. estamos muitas vezes a movermo-nos também no espaço: a distância a percorrer de casa para o trabalho pode levar uma pessoa a andar de autocarro de uma zona da cidade para outra. 4.5 mt) – é a distância normal em encontros com amigos e conhecidos relativamente chegados. Estes vários espaços da casa não só são áreas separadas fisicamente. O conceito de regionalização irá ajudar-nos a compreender como a vida social está dividida em zonas no tempo e no espaço. o fenómeno contrário – uma mulher que invade o espaço pessoal de um homem – é muito frequentemente tomado como um engate ou insinuação sexual. A interacção que tem lugar nestas várias «regiões» é delimitada simultaneamente por divisões de tempo e de espaço. 1959. 1966).5 mt até 1. 2. como quando um leitor. Toda a interacção é situada – ocorre num determinado espaço e tem uma duração específica no tempo. 3. A sala de estar e a cozinha são normalmente usadas durante o dia. enquanto os quartos o são à noite. É permitida alguma intimidade de contacto.5. No entanto. maior do que a considerada desejável.

Qualquer dinheiro que se deposite é uma pequena parte do investimento financeiro que o banco faz no mundo inteiro. na medida em que a comunicação é quase imediata. nas sociedades modernas estamos constantemente a interagir com outras pessoas que nunca vimos ou conhecemos. Hoje em dia. é internacional. não há praticamente nenhum grupo ou organização que não o faça – quanto maior for o número de pessoas e os recursos em causa. Praticamente todos os nossos encontros quotidianos. de que a Internet é exemplo. 6. médicos e outro pessoal. A medição do tempo pelos relógios está hoje estandardizada em todo o mundo. como as compras no supermercado ou uma ida ao banco. Segundo alguns autores. existia um período de tempo em que a carta era transportada através da terra e do mar até chegar ao destinatário. Tempo do relógio Nas sociedades modernas. fazem-nos entrar em contacto – indirecto. tanto mais precisos têm de ser os horários. a distribuição das nossas actividades é fortemente influenciada pelo uso de relógios e pelo tempo do relógio. O globo terrestre foi então dividido em vinte e quatro zonas temporais. têm de ser organizados no tempo e no espaço. As nossas vidas seriam muito difíceis de imaginar sem a comunicação instantânea. Um grande hospital moderno tem de funcionar durante vinte e quatro horas por dia e conseguir coordenar o pessoal e os recursos é uma tarefa altamente complexa. Conclusão: a compulsão da proximidade Ao contrário do que se passa nas sociedades tradicionais. tornando possível a existência de sistemas complexos de transporte internacional e de comunicações. Quando se enviava uma carta a alguém no estrangeiro. separadas por uma hora.87 6. De acordo com esta .5. a fazer uma chamada telefónica ou a enviar uma mensagem electrónica a um amigo no estrangeiro.2. das quais dependemos.5. por exemplo. as nossas sociedades estão a tornar-se «afónicas». Em 1986 o termo «hora de Greenwich» (GMT) foi substituído pelo tempo coordenado universal. mais os recursos de que necessitam.1. que é difícil imaginar a vida de outra forma. 6. O sistema mundial estandardizado de tempo só foi introduzido em 1884 no decorrer de uma conferência de nações que teve lugar em Washington. As novas formas de tecnologia.6. Estamos tão acostumados a poder mudar de canal televisivo e a assistir ao noticiário. e que podem estar em qualquer parte do mundo. Os mosteiros do século XIV foram as primeiras organizações a tentar programar com precisão as actividades diárias e semanais dos seus internos. à medida que as potencialidades da tecnologia aumentam ainda mais. não obstante – com pessoas que poderão viver a milhares de quilómetros de distância. O sistema bancário. tornaram possível que interajamos com outras pessoas que nunca vimos ou conhecemos antes. A vida social e o ordenamento do espaço e do tempo A Internet fornece outro exemplo de como as formas de vida social estão intimamente relacionadas com o modo como controlamos o espaço e o tempo. Enfermeiras. Também estão a alterar a percepção do tempo.

mas não há ninguém que deixe de reconhecer que assim sentiriam a falta da proximidade e intimidade das celebrações face-a-face. Segundo Boden e Molotch. argumentando que. a «co-presença» facilita o acesso à parte do corpo humano que nunca mente – os olhos. ou interacção face-aface. e da sua sinceridade. na medida em que as situações de «copresença». mas pode também passar informação acerca da idade. que estudaram o que eles próprios chamaram a Compulsão da proximidade – a necessidade que os indivíduos sentem de se encontrarem com outros em situações de «co-presença». longe de ser impessoal. aos grupos de discussão electrónica e às salas de chat que agora se tornaram elementos da vida de muitas pessoas nos países industrializados. não deixam de estar presentes em reuniões (às vezes tendo mesmo de viajar de avião através de meio mundo). 2000). género. não partilham. as janelas da alma. A voz humana. do que qualquer forma de comunicação electrónica. quando aparentemente seria muito mais simples e eficaz negociar através de vídeo ou tele-conferência. os seres humanos continuam a valorizar o contacto directo – talvez ainda mais do que antes. Não há dúvida de que as novas formas de comunicação estão a revolucionar a forma como as pessoas comunicam. por exemplo. . a comunicação on line tem muitas vantagens próprias. ao sistema de mensagens instantâneas. uma vez que as pessoas podem criar as suas próprias identidades on line e falar de uma forma mais livre do que o fariam noutros contextos. mas mesmo numa altura em que é cada vez mais fácil a interacção de forma indirecta. Apenas pelo simples facto de estarmos na presença das pessoas que tomam decisões importantes que nos dizem respeito. as pessoas estão a isolar-se crescentemente. Qual será a natureza das interacções ligadas ao correio electrónico. cujas opiniões noutros contextos são por vezes desvalorizadas (Pascoe. raça ou posição social do emissor – informação que pode ser usada em seu prejuízo. por exemplo. pelas razões apresentadas por Goffman nos seus estudos sobre a interacção. as pessoas sujeitam-se a muito para estarem presentes em reuniões. à medida que o ritmo de vida aumenta: interagimos hoje em dia mais com os nossos ecrãs de televisão e os monitores de computador do que com os vizinhos ou membros da mesma comunidade.88 perspectiva. e que complexidades estão daí a emergir? Muitos adeptos da Internet não estão de acordo. A interacção electrónica é muitas vezes apresentada como algo que liberta e confere poder. Segundo sugerem Boden e Molotch. pode ser superior em termos de expressão de emoções e subtilezas de sentido. Isto pode constituir uma grande vantagem para as mulheres ou para outros grupos tradicionalmente desfavorecidos. Os membros de uma família poderiam tratar de arranjar reuniões virtuais ou encontros em dias de festa com recurso a comunicações electrónicas «em tempo real». As pessoas no mundo dos negócios. fornecem informação muito mais rica acerca de como as outras pessoas pensam e sentem. como o telefone e o encontro face-a-face. Uma explicação para este fenómeno é apresentada por Deirdre Boden e Harvey Molotch. sentimo-nos capazes de perceber o que se passa e confiantes de que podemos impressioná-las com as nossas opiniões e sinceridade. que as formas de interacção tradicionais.

Teorias sobre as classes e a estratificação 7. A mobilidade social – movimento de ascensão e descida na estrutura de classes – é muito mais comum do que noutros tipos de estratificação. • Estados – faziam parte de muitas civilizações tradicionais. • Classe – grupo grande de pessoas que partilham recursos económicos comuns. a posição de classe não assenta numa posição herdada.1. pelo menos em parte. determinada pela lei ou pelo costume. acima de tudo.1. os factores não económicos – como a influência da religião no sistema de castas indiano – são geralmente mais importantes. na qual alguns indivíduos são literalmente possuídos por outros como sua propriedade.89 7. as classes não são estabelecidas por disposições legais ou religiosas. como é comum em outros tipos de sistemas de estratificação. (No sistema de castas. ESTRATIFICAÇÃO E DESIGUALDADE Estratificação social – desigualdades que existem entre indivíduos e grupos nas sociedades humanas. o Ao contrário dos outros tipos de estratificação. A teoria de Karl Marx O conceito de classe de Marx teve de ser reconstruído a partir do conjunto dos seus escritos. Os sistemas de classes são tipicamente mais fluidos do que os outros tipos de estratificação e as fronteiras entre as classes nunca são precisas. Na Europa. Enquanto instituição formal. CLASSE. com os mais favorecidos no topo e os menos privilegiados perto do fundo. ou indivíduos de casta inferior e superior. têm . A posição de classe de um indivíduo é. Noutros tipos de sistemas de estratificação. que influenciam fortemente o seu estilo de vida. a escravatura foi sendo gradualmente erradicada. alcançada e não simplesmente dada à nascença. às culturas do subcontinente indiano e à crença Hindu no renascimento.1. Sistemas básicos de estratificação nas sociedades humanas: • Escravatura – forma de desigualdade extrema. incluindo o feudalismo europeu. Nos outros tipos de sistemas de estratificação. As classes dependem de diferenças económicas entre grupos de indivíduos – desigualdades na posse e no controlo de recursos materiais. • Casta – está associada. o o o 7. As sociedades podem ser vistas como constituindo “estratos” hierarquizados. Pode ser útil pensar-se na estratificação como uma sobreposição geológica de camadas de pedra sobre a superfície da terra. a mobilidade individual de uma casta para outra não é possível). o estado mais elevado era composto pela aristocracia e pela pequena nobreza rural. tendo hoje em dia desaparecido quase por completo. as desigualdades são primordialmente expressas em relações pessoais de dever ou de obrigação – entre servo e senhor. Em virtude de as várias passagens em que discute a questão das classes não serem inteiramente consistentes. escravo e dono.

1. Contudo. Embora em tempos anteriores os aristocratas levassem uma vida de luxo. as sociedades agrárias eram relativamente pobres. Nas sociedades industriais modernas as duas principais classes são constituídas 1. fisicamente desgastante e mentalmente entediante – como no caso do operário de fábrica cujo trabalho consiste em tarefas rotineiras levadas a cabo. para produzir colheitas consumidas por estes e pelo seu séquito. ou no termo actualmente algo arcaico de Marx.1. a fonte de exploração é menos óbvia. Mesmo que não houvesse aristocracia. a relação entre as classes é uma relação de exploração.1. por aqueles que possuíam a terra (aristocratas. Por conseguinte. pequena nobreza rural ou donos de plantações) e 2. Marx usou o termo pauperização para descrever o processo pelo qual a classe trabalhadora se torna cada vez mais empobrecida em relação à classe capitalista. embora com o desenvolvimento da indústria moderna a riqueza fosse produzida a uma escala nunca antes vista. os trabalhadores produzem mais do que é realmente necessário aos patrões para que estes reponham os custos de os contratar. De acordo com Marx. Contudo. Estas desigualdades entre as classes capitalista e trabalhadora não são apenas de natureza estritamente económica. escravos e camponeses livres). as linhas gerais da sua perspectiva são bastante claras. uma classe é um grupo de pessoas com uma posição comum face aos meios de produção – os meios pelos quais ganham o seu sustento. pelos que estavam activamente envolvidos no cultivo das mesmas (servos. os trabalhadores tinham pouco acesso à riqueza gerada pelo seu trabalho. . o “proletariado”. muitas vezes. Os servos eram obrigados a ceder uma determinada parcela da sua produção aos seus senhores aristocratas. totalmente diferente da do campesinato. por aqueles que possuem os novos meios de produção – industriais ou capitalistas – e 2. indubitavelmente. 7. Nas sociedades capitalistas actuais. ou tinham de trabalhar durante um certo número de dias por mês nos campos dos senhores. num ambiente imutável. aqueles que ganham a vida vendendo a sua força de trabalho aos primeiros – a classe trabalhadora. A natureza das classes Para Marx. a exploração assumia frequentemente a forma de uma transferência directa de produtos do campesinato para a aristocracia. Marx argumentou que. e Marx devotou muita da sua atenção a tentar clarificar a sua natureza. O trabalho que é a fonte da nossa riqueza é. no decurso do dia de trabalho.90 existido muitas discussões entre os estudiosos acerca “do que Marx realmente queria dizer”. Nas sociedades feudais. Esta mais valia é a fonte do lucro que os capitalistas usam em seu proveito próprio. os níveis de vida teriam sido. nas sociedades pré-industrializadas as duas principais classes eram constituídas 1. baixos. dia após dia.

Weber acreditava que a posição dos indivíduos no mercado influencia fortemente as suas “oportunidades de vida”. os trabalhadores especializados são capazes de assegurar melhores ordenados do que os semiespecializados ou aqueles que não têm qualquer especialização. mas é modelada por dois outros aspectos: o status e o partido. A um nível inferior. Wright designa a posição de classe deste tipo de trabalhadores de “contraditória” porque eles nem são capitalistas . a estratificação social não é simplesmente uma questão de classes. Na teoria de Weber. o status passou a expressar-se através dos estilos de vida das pessoas.2. nas sociedades modernas. Na maior parte das vezes. Em vez disso. Os recursos incluem especialmente os saberes e credenciais ou qualificações que afectam os tipos de trabalho que as pessoas são capazes de obter. ao contrário do modelo bipolar proposto por Marx. nenhum destes factos pode ser reduzido a divisões de classe. existem. e de acordo com Weber. Nas sociedades tradicionais. por sua vez. Os escritos de Weber sobre a estratificação são importantes. o status era frequentemente determinado com base no conhecimento directo da pessoa. Estes três elementos da estratificação produzem um enorme número de possíveis posições na sociedade. ambos podem. Os partidos em que as pessoas estão filiadas expressam tanto diferenças religiosas como de classe.1. por conseguinte. porque são capazes de influenciar alguns aspectos da produção. ainda que cada um seja influenciado por estas. influenciar as condições económicas dos indivíduos e grupos e. conhecimento esse ganho através de múltiplas interacções em diferentes contextos ao longo de anos. e pode influenciar a estratificação independentemente da classe e do status.1. Weber argumentou que. afectar as classes. Weber salienta que. 7. Enquanto Marx acreditava que as diferenças de status são o resultado das divisões de classe nas sociedades. objectivos ou interesses comuns. na verdade. Weber argumentou que o status varia frequentemente de forma independente das divisões da classe. contudo. Estas pessoas situam-se no que Wright designa como localizações contraditórias de classe. Os “novos ricos” são geralmente vistos com algum desprezo pelos ricos bem instalados. entre os trabalhadores manuais. entende-se por status – as diferenças entre grupos sociais em matéria da honra ou prestígio social que lhes são conferidos. influenciam fortemente a vida das pessoas. pois mostram que outras dimensões da estratificação. a formação de partidos é um aspecto importante do poder. mas é-lhes negado o controlo de outros.3. que é mais rígido. Partido – grupo de indivíduos que unem os seus esforços na medida em que têm origens. grupos cuja posição é mais ambígua – os gestores e trabalhadores de colarinho branco anteriormente mencionados. para além das classes. um partido trabalha de forma organizada com vista a alcançar um objectivo específico que é do interesse dos seus membros.91 7. A teoria de classes de Erik Olin Wright No meio das duas classes principais. A teoria de Max Weber De acordo com Weber.

como os gestores e supervisores. como é o caso dos que . os empregados da classe média que possuem competências necessárias no mercado de trabalho são capazes de exercer uma forma específica de poder sobre o sistema capitalista. Wright argumenta. Wright toma em consideração dois factores: a relação com a autoridade e a posse de competências ou perícia. os empregadores são obrigados a assegurar a sua lealdade e cooperação. A medição das classes Como vimos anteriormente. concebendo-a como parte da ordem social natural. Este tipo de modelos têm sido favorecidos por académicos que não vêem a estratificação como problemática. por exemplo. na emergente economia do conhecimento. em primeiro lugar. De acordo com Wright. O segundo factor que diferencia as localizações de classe dentro das classes médias é a posse de competências e de perícia. são um dado que ilustra este ponto. Alguns esquemas são em grande medida de natureza descritiva – reflectem a forma da estrutura ocupacional e de classes na sociedade sem se ocuparem das relações entre classes sociais. recompensando-os em conformidade. o termo classe é compreendido e usado numa ampla variedade de formas. Dado existirem poucas pessoas com a sua perícia. Assim sendo. Por outras palavras. usufruem de relações com a autoridade mais privilegiadas do que os indivíduos da classe trabalhadora. que muitos trabalhadores da classe média. As posições lucrativas acessíveis aos especialistas em tecnologias da informação. são capazes de ganhar um salário superior. embora tenham características comuns a cada um deles. a ocupação é um dos factores mais críticos no posicionamento social. ou conduzindo avaliações de desempenho dos mesmos – e são recompensados pela sua “lealdade” com maiores salários e promoções regulares. 7.92 nem são operários. oportunidades de vida e nível de conforto material dos indivíduos. são simultaneamente exploradores e explorados. De forma a diferenciar as posições de classe dentro desta grande população. Quer nos circuitos académicos quer no uso quotidiano. Uma característica comum da maior parte dos esquemas de classes reside no facto de serem construídos com base na estrutura ocupacional. como é possível aos sociólogos e investigadores medir um conceito impreciso como o de classe. Isto significa que ele foi definido de forma suficientemente clara e concreta para ser testado através da pesquisa empírica. Um grande segmento da população – de 85 a 90% de acordo com Wright (1997) – pertence à categoria dos que são forçados a vender a sua força de trabalho porque não controlam os meios de produção. Embora não tanto como em outros tempos.2. Wright argumenta que. tendo em vista a realização de estudos empíricos? Conceito operacionalizado – conceito abstracto que. São chamados pelos capitalistas a dar assistência no controlo da classe trabalhadora – controlando o trabalho dos empregados. o conceito de classe está longe de estar bem definido. O desenvolvimento do capitalismo e do industrialismo tem sido marcado por uma divisão crescente do trabalho e por uma complexificação crescente da estrutura ocupacional. num estudo. na medida em que os empregados com conhecimentos e competências são mais difíceis de monitorizar e controlar. é transformado numa variável passível de medição. Além disso.

Nos seus escritos recentes.1. mas argumenta que se trata de um segmento tão pequeno da sociedade que não é significativo enquanto categoria em estudos empíricos. O Registrar General’s Social Class (RGSC) é usado na Grã-Bretanha pelos estatísticos do governo como uma de duas classificações oficiais das ocupações. uma “classe intermédia” (Classes III e IV) e uma “classe trabalhadora” (Classes V. as localizações de classe são comprimidas em três níveis principais de classes: uma “classe de serviços” (Classes I e II). segurança do trabalho e perspectivas de progresso. refere-se a questões de controlo.2. a classe social do indivíduo é determinada em estreito acordo com a sua ocupação. enfatiza as recompensas materiais e as “oportunidades de vida” gerais. pelo contrário. no seu uso comum. 1992). O mapa de classes de Erik Olin Wright é um exemplo de um esquema de classes relacional. pois procura descrever os processos de exploração de classes a partir de uma perspectiva marxista. Porém. mas antes como uma representação da natureza “relacional” da estrutura de classes contemporânea. De acordo com Goldthorpe. John Goldthorpe: classe e ocupação O sociólogo John Goldthorpe criou um esquema para ser usado na pesquisa empírica sobre a mobilidade social. No âmbito do esquema RGSC. Outros esquemas são mais informados teoricamente – muitas das vezes baseando-se nas ideias de Marx ou de Weber – e preocupam-se com a explicação das relações entre classes na sociedade. Goldthorpe tem enfatizado as relações de emprego dentro deste esquema. de forma a demonstrar as divisões e tensões existentes na sociedade.93 trabalham no âmbito da tradição funcionalista. poder e autoridade na ocupação. VII). O esquema de Goldthorpe que incluiu onze localizações de classes é mais detalhado do que muitos outros. A situação no trabalho. Os esquemas de classes “relacionais” tendem a ser favorecidos por sociólogos que trabalham no âmbito de paradigmas do conflito. . VI. enquanto um contrato de prestação de serviços tem um elemento “prospectivo” como a possibilidade de aumento do salário ou de promoção. É um exemplo de um esquema de classe “descritivo”. As categorias do RGSC são pensadas para reflectir as noções amplamente partilhadas de vantagem e desvantagem ocupacional na sociedade britânica. Um contrato de trabalho supõe uma troca de salários e de esforço que é especificamente definida e delimitada. a classe trabalhadora é caracterizada por contratos de trabalho e a classe de serviços por contratos de prestação de serviços. Goldthorpe reconhece também a presença de uma classe de elite no topo do esquema constituída por detentores de propriedade. O Esquema de classes Goldthorpe foi desenhado não como uma hierarquia. em vez da noção de situação no trabalho acima descrita (Goldthorpe e Marshall. 7. não um esquema teoricamente derivado. A situação no mercado de um indivíduo diz respeito ao seu nível salarial.

(em grande medida administrativos). Tal é particularmente verídico no que respeita aos membros mais ricos da sociedade. por Goldthorpe – de os ricos poderem ser excluídos dos esquemas que descrevem a estrutura de classes por serem tão poucos em número. Grandes gestores e proprietários. financiadores e “velhos ricos”. por vezes. por conta própria.2. Crompton. Porém. supervisores de trabalhos manuais. Trabalhadores manuais especializados. pensionistas e crianças. imensamente desproporcional . por exemplo. 67. que nos devem precaver contra a utilização indiscriminada. “é a intensa concentração de poder e privilégios em tão poucas mãos que faz destas pessoas o topo. Trabalhadores semi-especializados ou não especializados. Contrato de trabalho. John Westergaard é um sociólogo que desafiou a ideia – defendida. como as relacionadas com a saúde e a educação. mas é mais provável que esta prática tenha sucesso em casos em que o campo de estudo se correlacione de forma próxima com uma ocupação específica (tal como a engenharia ou medicina). estudantes. Empregados não manuais de rotina na administração ou comércio Intermédia. Agricultores e pequenos proprietários. Contrato de trabalho. Pequenos gestores e proprietários. 7. 1998. serviço. Os esquemas das classes ocupacionais são difíceis de aplicar aos indivíduos economicamente inactivos. bem como na revelação de dimensões da classe em aspectos como os padrões de votação. administradores e funcionários de Relação de serviço.94 Esquema de classes de Goldthorpe Classe Serviço I II Intermédia III IIIb IV IVb IVc V Trabalhadora VI VII VIIb Relação de Emprego Profissionais especializados. Trabalhador por conta própria. Profissionais especializados.ª edição. ser classificados de acordo com a sua área de formação. Polity. Os esquemas de classes baseados nas distinções ocupacionais são também incapazes de reflectir a importância da posse de propriedade e de riqueza material para a classe social. Têm sido úteis na revelação de desigualdades da classe. Empregador. incluindo empresários. o posicionamento político e as atitudes sociais. de grau menor que os ante.2. cujos títulos ocupacionais de “director” ou “executivo” os colocam na mesma categoria de muitos profissionais de recursos muito mais limitados. O seu peso socioestrutural total. Técnicos de menor grau. como os desempregados. é importante salientar a existência de várias limitações significativas neste tipo de esquemas. Avaliação dos esquemas de classes Quer o esquema de classes do RGSC quer o de Goldthorpe têm sido amplamente usados na pesquisa empírica. de trabalho (mulheres) Pequenos empresários e artesãos. Class and Stratification. embora tal possa ser problemático no caso de desempregados de longa duração ou de pessoas com histórias profissionais esporádicas. Fonte: Adaptado de R. Empregados não manuais de rotina. Os indivíduos desempregados e os aposentados são muitas vezes classificados com base na sua anterior actividade profissional. contrato riores (a maior parte dos empregados do sector dos serviços). Como argumenta Westergaard. Intermédia. Pequenos empresários e artesãos sem trabalhadores. outras pessoas com Empregador ou trabalhador emprego próprio na agricultura. administradores e funcionários de Empregador ou relação de nível elevado. Trabalhadores agrícolas.Intermédia (homens). Os estudantes podem. Contrato de trabalho. menor nível. p. 2.

A posse de acções e títulos é mais desigual do que a posse de riqueza no seu todo. O certo é a riqueza estar de facto concentrada nas mãos de uma pequena minoria. estão a aumentar a sua presença entre os super ricos (Lista dos Ricos 2000. 3º. muitos dos membros mais ricos da sociedade são bastante jovens – estão na casa dos 20/30 anos. pois em 1979 apenas 5% da população detinha acções.95 para o seu reduzido número. O aumento é ainda mais dramático quando observado no contexto de um período mais longo. quando em 1986 essa percentagem era de 14%.1. Sunday Times). é possível traçar amplas mudanças na composição do segmento mais rico da sociedade: 1º. tem sido várias vezes salientado que se sabe muito mais sobre os pobres do que sobre os ricos. as minorias étnicas. a medição e cartografia das classes sociais está repleta de dificuldades. Tal como a pobreza. 1% da população possui 19% de toda a riqueza pessoal (a riqueza que é possuída por indivíduos e não por organizações). Estão a emergir novas categorias ocupacionais. ocorreu uma mudança geral da produção industrial para os serviços e a economia do conhecimento. 2º. Embora seja difícil recolher informação precisa sobre os bens e as vidas dos ricos. faz da sociedade em que constituem o topo uma sociedade de classes. Os esquemas de classes ocupacionais baseados na ocupação não estão necessariamente bem adequados para capturar os processos dinâmicos da formação de classes. 4º. os “milionários que se fizeram a si próprios” parecem estar a constituir uma grande proporção dos indivíduos mais ricos. Os “ricos” não são um grupo homogéneo. quaisquer que sejam os padrões de divisão abaixo deles” (1995. um número crescente de mulheres está a entrar nas fileiras dos mais ricos. Normalmente. 127). . e a posse institucional de acções – acções detidas por companhias em outras firmas – está a crescer mais rapidamente do que a posse individual de acções. As divisões de classe nas sociedades ocidentais da actualidade 7. Mesmo no âmbito de uma estrutura ocupacional relativamente “estável”. a riqueza deve ser vista no contexto dos ciclos de vida. 7. e um número enorme de mulheres entrou na força de trabalho em décadas recentes. p.3. principalmente as de origem asiática. A maior parte destas carteiras de acções é pequena (com valores inferiores a 1000 libras. a preços de 1991). Westergaard ou Goldthorpe? Uma forma de abordar estas questões é observar até que ponto a riqueza e o rendimento estão concentrados nas mãos de poucos. da mobilidade e da mudança provocadas por tais transformações sociais. nem formam uma categoria estática. os ricos não tornam público o leque total dos seus bens. Cerca de 25% da população possui acções.3. Na Grã-Bretanha. É difícil obter informação fiável sobre a distribuição de riqueza. A questão da classe alta Quem está certo.

na perspectiva de Scott. A classe alta pode ser rudemente identificada como o 1% dos possuidores de riqueza. É verdade que a classe média não é tão homogénea como a classe trabalhadora.96 Embora a composição dos ricos esteja certamente a mudar. bancos.3. Aqueles a quem Goldthorpe chama de “classe intermédia” são. os membros da classe média podem vender a sua capacidade de trabalho intelectual e física para ganhar a vida. dada a diversidade dos seus membros e os seus diferentes interesses (Butler e Savage. A composição “solta” da classe média. todavia. John Scott apontou três grupos distintos que no seu conjunto formam uma constelação de interesses no controlo – e obtenção de lucros – de grandes negócios. mas são muitas vezes capazes de acumular carteiras de acções. não é um fenómeno novo. De acordo com a maioria dos observadores. como acontece frequentemente com as camadas superiores da classe alta. os seus membros não partilham as mesmas origens sociais ou culturais. mais simplesmente apelidados de classe média. Podemos concluir que precisamos simultaneamente dos conceitos de classe alta e de classe de serviços. o que os liga aos empresários industriais à moda antiga e aos “capitalistas financeiros”. Os executivos seniores das grandes corporações podem não ser proprietários das suas companhias. a ideia de que já não existe uma classe alta distinta é questionável. porventura. ainda só uma pequena minoria beneficia substancialmente da posse de acções. Indivíduos como os médicos e os advogados que podiam ter sido empregados por conta própria anteriormente. tem sido uma característica duradoura da classe média desde a sua emergência no início do século XIX. estão. a natureza dinâmica da estrutura ocupacional e a possibilidade de mobilidade ascendente e descendente torna difícil definir as fronteiras da classe média com grande precisão. desde empregados na indústria de serviços a professores e profissionais da medicina.2. A classe média O termo classe média cobre um largo espectro de pessoas que trabalham em ocupações muito diferentes. tendem agora a trabalhar em ambientes institucionais. 1995). no centro da classe alta dos nossos dias. A classe média não é internamente coesa e é pouco provável que se torne assim. e que são capazes de transmitir os seus privilégios aos seus filhos. Embora o padrão de posse de acções possa ser mais difuso do que anteriormente. fundos de investimento e outras organizações que são grandes accionistas institucionais. Classe alta – consiste numa pequena minoria de indivíduos que têm riqueza e poder. 7. O crescimento de profissionais técnicos é um reflexo da expansão do número de pessoas que trabalham em sectores da economia onde o governo desempenha um papel importante. Os técnicos podem ser vistos simultaneamente como um . a Classe média – engloba actualmente a maioria da população da GrãBretanha e a maioria da população dos outros países industrializados. Embora esta distinção seja útil para formar uma divisão grosseira entre as classes trabalhadora e média. Os capitalistas financeiros. Ao contrário da classe trabalhadora. uma categoria que inclui as pessoas que gerem as companhias de seguros.

Alguns autores viram neles e em outros grupos de topo um conjunto que viria a formar uma classe específica – a “classe gestora e técnica” (Ehrenreich e Ehrenreich. Os técnicos. Tal como foi mencionado anteriormente. As condições em que a classe trabalhadora vive. Ao conduzir o estudo. a entrada para a profissão é restringida aos que satisfazem um conjunto apertado de critérios (qualificações). o rendimento dos trabalhadores manuais aumentou consideravelmente desde a viragem do século.97 produto da era moderna e como um contributo central para a sua evolução e expansão. diplomas e outras qualificações. cerca de 50% dos trabalhadores manuais são proprietários das casas em que habitam. Houve três dimensões de profissionalismo a permitir que tal acontecesse: 1. o grau de divisão entre estes e os trabalhadores de colarinho branco em geral não parece ser suficientemente nítido ou profundo para tornar tal perspectiva defensável. a aparência e os estilos de vida desta. e 3. e os estilos de vida que segue. 2. 40% da população trabalhadora estava em empregos manuais. gestores e administradores de nível superior ganham a sua posição em grande medida devido à posse de credenciais – graus académicos. Todavia. com o gosto característico dos sociólogos por nomes embaraçosos. os autores argumentaram que. Através de tais canais. Esta crença era a base da sua visão de que a classe trabalhadora iria criar as condições para uma transformação revolucionária da sociedade. estão a alterarse. Apenas há um quarto de século. uma associação profissional regula e disciplina a conduta e desempenho dos seus membros. A mudança de natureza da classe trabalhadora Marx acreditava que a classe trabalhadora – pessoas que trabalham na indústria como trabalhadores manuais – tornar-se-ia progressivamente maior. os empregados manuais abastados deveriam ser virtualmente indistinguíveis dos trabalhadores de . à medida que ficam mais abastados. tornou-se conhecida como a tese do aburguesamento. Havia a crença amplamente partilhada de que o progresso na sociedade industrial estava a ter um forte efeito na configuração da estratificação social. A classe médica organizou-se com sucesso de forma a proteger a sua posição na sociedade e a assegurar elevados níveis de recompensas materiais. é geralmente aceite que apenas os membros desta profissão estão qualificados para praticar medicina. Nos anos 50.3. 7. Nos anos 60. Será que os trabalhadores manuais. os seus apoiantes argumentaram que muitos dos trabalhadores manuais que ganhavam salários de classe média iriam também adoptar os valores.3. 1979). se tornam mais classe média? Esta ideia. John Goldthorpe e os seus colegas efectuaram aquilo que veio a ser um estudo muito conhecido sobre a hipótese do aburguesamento. Actualmente. quando a tese foi pela primeira vez avançada. as associações profissionais autogeridas são capazes de excluir da profissão indivíduos indesejáveis e incrementar a posição dos seus próprios membros no mercado. se a tese do aburguesamento fosse verdadeira.

e um apoio ao colectivismo instrumental no local de trabalho (a acção colectiva através de sindicatos para melhorar salários e condições de vida). em certo grau. em torno de escolhas de estilo de vida – como vestirse. O seu trabalho era. numa grande extensão. não está claro até que ponto as conclusões de Goldthorpe e seus colegas. em comparação com a maioria dos outros trabalhadores manuais eram de facto bem pagos. o que comer. postas de lado. No entanto. a pesquisa foi publicada em três volumes. Sob certos pontos de vista. poucas oportunidades de promoção e baixa satisfação no trabalho. o número crescente de pessoas envolvidas na apresentação e representação de bens e serviços – simbólicos ou reais – de consumo no sistema capitalista. Estes trabalhadores não estavam em vias de se tornarem da classe média. O sociólogo francês Pierre Bourdieu vê os grupos de classes como identificáveis de acordo com os seus diferentes níveis de capital cultural e económico (1986). essencialmente. No essencial seria difícil questionar a ideia de que a estratificação no seio das classes.4. Os autores deste estudo constataram que os trabalhadores abastados tinham uma orientação instrumental face ao seu trabalho: viam-no como um meio para um fim. As identidades pessoais dos indivíduos são estruturadas. Com base em entrevistas a trabalhadores das indústrias automóvel e química da zona de Luton. O interesse por andar a cavalo e o interesse pela literatura clássica podem ser acompanhados por uma fascinação por desportos radicais como a escalada e o gosto por raves e pelo Ecstasy. Esta relativa prosperidade foi obtida através de posições caracterizadas por benefícios pobres. Existiam poucos indicadores de que estes trabalhadores se estavam a mover no sentido dos valores e normas da classe média. uma sociedade de consumo é uma “sociedade de massas”. bem como entre as classes. Aos olhos dos seus autores. Muitos dos trabalhadores manuais tinham migrado para a zona à procura de trabalho bem pago.98 colarinho branco em termos das suas atitudes face ao trabalho. repetitivo e desinteressante. os resultados deste estudo eram esclarecedores: a tese do aburguesamento era falsa. acaba por depender não só de diferenças em termos de ocupações.3. por isso. o de ganhar bons salários. Os trabalhadores abastados partilhavam com os seus colegas de colarinho branco padrões semelhantes de consumo económico. e tinham pouco compromisso directo com o mesmo.. uma visão do mundo centrada na família. onde as diferenças de classe são. continuam a ser verdadeiras hoje em dia. Os indivíduos são ajudados neste processo pela proliferação de “comerciantes de necessidades”. como o emprego. como cuidar do corpo e onde relaxar – e menos em torno de indicadores de classe mais tradicionais. ainda que válidas na altura. mas também de diferenças ao nível do consumo e dos estilos de vida. 7. Classe e estilo de vida A nossa era é uma era em que os “símbolos” e os marcadores relacionados com o consumo estão a jogar um papel ainda maior na vida diária. estilo de vida e posicionamento político. ganhando mais do que a maior parte dos trabalhadores de colarinho branco de baixo nível. 1968-9). É muitas vezes identificada como o estudo do Trabalhador Abastado (Goldthorpe et al. as . Não foi feita desde então qualquer pesquisa comparável e.

1. as mulheres podem ser . Porém. A determinação da posição de classe das mulheres A ideia de que as desigualdades de classe governam em grande medida a estratificação de género foi. mas acaba por ser de difícil resolução. 7. A subclasse “Subclasse” – termo usado muitas vezes para descrever o segmento da população localizado no fundo da estrutura de classes. ou transitam de emprego em emprego. as divisões de classe são tão fortes nas sociedades modernas. por isso. 7. A “posição convencional” na análise de classes é a de que o trabalho remunerado das mulheres é relativamente insignificante em comparação com o dos homens. o próprio género é um dos exemplos mais profundos de estratificação. A subclasse é frequentemente descrita como “marginalizada” ou “excluída” da forma de vida mantida pela maioria da população. A natureza – e a própria existência – de uma subclasse é debatida de forma calorosa em Sociologia. Um dos principais problemas colocados pelo estudo do género e da estratificação. que não existem dúvidas de que se sobrepõem substancialmente às desigualdades de género. ou como se não tivessem importância ou interesse quando se analisavam questões de poder. Pelo contrário. Para a maior parte dos autores. de riqueza e de prestígio. É a questão de se saber até que ponto poderemos entender as desigualdades de género nos tempos modernos em termos principalmente da divisão de classes.4. Género e estratificação Os estudos sobre a estratificação foram durante muitos anos “cegos em relação ao género” – foram escritos como se as mulheres não existissem. 1998). É um grupo caracterizado por múltiplas desvantagens. Muitos são desempregados de longa duração. As desigualdades de género estão historicamente mais enraizadas do que o sistema de classes. Contudo.4. ou não têm um sítio permanente onde viver. embora mantendo estas mudanças em mente. as suas circunstâncias de vida são constrangidas por factores relacionados com a estrutura ocupacional e económica (Crompton. uma assunção não assumida. até muito recentemente. A subclasse é frequentemente associada aos grupos étnicos minoritários menos privilegiados.3. os negros e asiáticos estão desproporcionalmente representados na subclasse. Na Grã-Bretanha. Contudo. Alguns são sem abrigo. os indivíduos que suportam privações extremas em termos sociais e materiais não estão a fazê-lo como parte de uma escolha de estilo de vida. é impossível ignorar o papel crucial desempenhado pelos factores económicos na reprodução das desigualdades sociais. nas sociedades modernas parece simples. e que. 7. 1986). os homens detêm uma posição superior às mulheres mesmo nas sociedades de caça e recolecção onde não existem classes.99 diferenças de classe podem igualmente ser intensificadas através de variações nos estilos de vida e nos “gostos” (Bourdieu.5.

1º. O facto de os indivíduos estarem sós ou integrados num agregado doméstico . a classe III do esquema de Goldthorpe foi dividida em duas subcategorias de forma a reflectir a preponderância das mulheres em trabalhos de colarinho branco de nível inferior. ainda que pertençam ao mesmo agregado familiar. sem referências específicas às suas circunstâncias domésticas. no trabalho de Gordon Marshall e seus colegas num estudo sobre o sistema de classes no Reino Unido (Marshall et al. a classe IIIB (trabalhadores não manuais nos serviços e vendas) é tratada como a classe VII. Numa proporção substancial de agregados familiares o rendimento das mulheres é essencial para manter a posição económica e o estilo de vida da família. alguns autores sugeriram que a posição de classe de um indivíduo deveria ser determinada sem referência ao agregado familiar. o que pode ser problemático se já não trabalharem há algum tempo. Em vez da classificação baseada “ganha-pão masculino”. a classificação do agregado é agora determinada pelo “ganha-pão dominante”. 7. e tendam a ter uma maior experiência de emprego intermitente. de forma independente para cada indivíduo. e a sua mulher ser gerente de uma loja.4. Goldthorpe e outros autores têm defendido a posição convencional.. como tendo posições de classe diferentes. Pessoas reformadas e desempregadas podem ser classificados de acordo com as últimas ocupações que tiveram. por exemplo. 3º. a posição profissional dela pode ser o factor-chave que influencia a classe do marido. É mais provável que as mulheres tenham empregos a tempo parcial do que os homens. Isto é visto como uma representação mais precisa da posição das mulheres não especializadas ou semiespecializadas no mercado de trabalho. pois podem retirar-se por longos períodos para dar à luz e cuidar das suas crianças. Para além disso. 4º.100 consideradas como pertencendo à mesma classe social que os seus maridos (Goldthorpe. Para fins de pesquisa. Mesmo quando uma mulher trabalhadora ganha menos do que o marido. Em situações em que existem agregados familiares de “classe mista” – nos quais o trabalho do marido pertence a uma categoria diferente do da esposa – poderão existir certos objectivos para os quais será mais realista tratar os homens e mulheres. Dado a maioria das mulheres ter tradicionalmente uma posição de dependência económica em relação aos maridos. quer essa pessoa seja um homem ou uma mulher. Para além do agregado familiar? Desenvolvendo o debate acerca da atribuição de posições de classe. 1983). Por outras palavras.1. no caso de o marido ser um trabalhador manual especializado ou semiespecializado. Esta abordagem foi assumida. o parceiro de classe mais elevada pode ser usado para classificar o agregado familiar. por exemplo. a classe social deveria ser avaliada a partir da ocupação. A argumentação de Goldthorpe tem sido criticada de variadas formas. contudo foram incorporadas no seu esquema algumas modificações importantes. A proporção de famílias em que a mulher é a única fonte de sustento está a aumentar. conclui-se que a sua posição de classe é determinada na maior parte dos casos pela posição de classe do marido.1. Quando o esquema é aplicado a mulheres. 2º. 1988). Isto pode acontecer.

entre “agregados com dois ganhadores” de rendimento elevado e. Mobilidade intergeracional – até que ponto os filhos estão no mesmo tipo de ocupações dos seus pais ou avós. por um lado. 1992). Mobilidade intrageracional – até que ponto ascenderam ou desceram na escala social no decurso das suas vidas profissionais. Um número crescente de mulheres está a mover-se em direcção a posições técnicas e de gestão e a ganhar salários elevados. Mobilidade através das gerações. A mobilidade vertical e a lateral estão muitas vezes associadas. Diz-se que aqueles que ganham em termos de propriedade. O casamento tende a produzir associações em que ambos os indivíduos são relativamente privilegiados ou desprivilegiados em termos do seu estatuto profissional (Bonney. um indivíduo que trabalhe numa empresa numa determinada cidade pode ser promovido a uma posição mais alta numa sucursal da firma localizada noutra cidade ou mesmo noutro país. Mobilidade social Mobilidade social – termo que se refere ao movimento de indivíduos e grupos entre diferentes posições socioeconómicas.5. em que ambos trabalham. 7. Estudos comparativos sobre a mobilidade A quantidade de mobilidade vertical numa sociedade é um indicador maior do seu grau de “abertura”. por outro. nas sociedades modernas. revelando até onde podem subir na escala socioeconómica os indivíduos talentosos de origem humilde. Neste sentido. rendimento ou status têm uma mobilidade ascendente.5. Por exemplo. a mobilidade social é um assunto político importante. particularmente entre as mulheres profissionais. Mobilidade vertical – movimento ascendente ou descendente na escala socioeconómica. particularmente em estados comprometidos com a visão liberal de igualdade de oportunidades para todos os cidadãos. Até que ponto os países industrializados são “abertos” em termos de mobilidade social? . O número crescente de casais sem filhos. agregados “com um único ganhador” ou “sem qualquer ganhador”. O impacto da associação entre dois parceiros que trabalham é ampliado pelo facto de a idade média para se ter filhos estar a aumentar.101 pode acarretar grandes diferenças em termos das oportunidades de que dispõem. O impacto do emprego das mulheres nas divisões de classe Este impacto tem sido sentido de forma desigual e pode estar a conduzir a uma acentuação das divisões de classe entre agregados familiares. 7. enquanto os que se movem na direcção oposta possuem uma mobilidade descendente.1. à movimentação geográfica entre bairros.4. 7. cidades ou regiões. Isto está a contribuir para a polarização. está a ajudar a aumentar o fosso entre os agregados com maior e menor remuneração.2. Mobilidade lateral – refere-se.

está sujeito às críticas anteriormente enumeradas – todas as pessoas estudadas eram do sexo masculino. englobando frequentemente comparações internacionais. A reestruturação das empresas e o emagrecimento são os principais motivos que levam a estas mudanças. A razão para tal é o facto de os empregos de colarinho branco e técnicos terem aumentado muito mais rapidamente do que os manuais.5. é ainda assim um fenómeno bastante difundido. esteja a aumentar na Grã-Bretanha. o trabalho.2. e como a maioria dos estudos sobre mobilidade. Contrariamente às suas expectativas. Foram extintos empregos de colarinho branco e azul a tempo inteiro – e substituídos por ocupações mal pagas a tempo parcial. Eslovénia. Embora o movimento descendente ocorra. A falta de trabalho é outra das principais causas de mobilidade descendente. 1984). Usando dados empíricos de dez países – Bulgária. como acontece nos Estados Unidos da América. Na sua opinião. no que respeita à expansão de empregos de colarinho branco. 7. inter e intrageracional. uma mudança que criou oportunidades para os filhos de trabalhadores manuais se moverem para posições de colarinho branco. Grusky e Hauser. O estudo internacional sobre a mobilidade mais elaborado talvez seja o efectuado por Seymour Martin Lipset e Reinhard Bendix (1959). Polónia. Um estudo importante foi conduzido por Peter Blau e Otis Dudley Duncan nos anos 60 (Blau e Duncan. o rendimento e a política. Mobilidade descendente Embora a mobilidade descendente seja menos comum do que a descendente. a comunidade.102 Durante um período de mais de cinquenta anos foram conduzidos estudos acerca da mobilidade social. . Este tipo de mobilidade está muitas vezes associado a problemas psicológicos e a ansiedades. é muito menos comum do que a mobilidade ascendente. estavam a passar por mudanças semelhantes. a antiga Checoslováquia. 1981. 1967). a mobilidade ascendente é. A mobilidade descendente intrageracional é também comum. de uma forma geral. Estados Unidos e Reino Unido – Marshall e Firth examinaram se a mobilidade de classe estava relacionada com um maior sentido de satisfação ou insatisfação com aspectos da vida quotidiana como a família. não encontraram provas no sentido dos EUA serem mais abertos do que as sociedades europeias. Estónia. tanto ao nível das carreiras dos indivíduos como a nível intergeracional. argumentando que se teriam encontrado diferenças significativas entre os países se tivesse sido prestada maior atenção à mobilidade descendente. característica das sociedades industriais e contribui para a estabilidade e a integração social. Rússia. A sua investigação continua a ser o estudo mais detalhado da mobilidade social até agora conduzido em qualquer país. Outros autores têm questionado os seus resultados. Até agora foram realizados poucos estudos sobre a mobilidade descendente no Reino Unido. que a mobilidade descendente. (Por muito vasto que tenha sido. Alemanha. e se a mobilidade de longo alcance tivesse sido considerada (Heath. dado os indivíduos deixarem de ser capazes de manter o estilo de vida a que estavam habituados. É provável. Lipset e Bendix concluíram que todos os países. contudo.) A mobilidade de “largo alcance” é rara.

as mulheres que tentam conjugar o trabalho.103 Actualmente. p. no período pós-guerra – embora uma vez mais virtualmente toda a pesquisa se tenha concentrado sobre os homens. Glass concluiu que a Grã-Bretanha não era uma sociedade particularmente “aberta”. enquanto 4% dos homens com funções manuais eram oriundos de meios “técnicos” ou de quadros directivos. Porém. Mulheres que usufruíam de um estilo de vida moderadamente confortável e de classe média. com base em achados de um inquérito de 1972 (Goldthorpe. a educação dos filhos e as responsabilidades domésticas consideram difícil atingir os seus objectivos (Schwarz e Volgy. conhecida como o Estudo de Mobilidade de Oxford. 7. quase 50% dos filhos dos trabalhadores em profissões técnicas e profissionais de nível elevado ou de gestão estavam em ocupações semelhantes às dos seus pais. . No conjunto. encontram-se frequentemente a viver de forma precária e ao nível da subsistência depois de divorciadas. Mobilidade social na Grã-Bretanha Os níveis gerais de mobilidade foram estudados extensivamente na GrãBretanha. Cerca de 30% dos técnicos e quadros superiores provinham da classe trabalhadora. 1988. Llewellyn e Payne. de facto.3. a maior parte desta era de pequeno alcance. A mobilidade ascendente era muito mais comum do que a descendente. Os principais achados do trabalho anterior foram corroborados. 1992). O Estudo de Mobilidade de Oxford foi actualizado com base em novo material recolhido cerca de dez anos depois (Goldthorpe e Payne. as proporções encontram-se ainda enviesadas contra as mulheres cujas hipóteses de mobilidade estão limitadas pela sua excessiva representação em trabalhos rotineiros não manuais. os efeitos integrais de tal processo não serão visíveis antes de passar uma geração. tanto em termos de mobilidade intrageracional como intergeracional. Contudo. Existe uma quantidade substancial de fluidez na sociedade britânica: é. Outra importante pesquisa. e estava sobretudo concentrada nos níveis médios da estrutura de classes.. Um primeiro estudo foi dirigido por David Glass (1954). 1980). possível para muitas pessoas subir na hierarquia social. mas foram encontrados novos desenvolvimentos. se a sociedade se está a tornar mais “aberta”.5.138). As pessoas no fim da escala tendiam a permanecer aí. Marshall e os seus colegas concluem: “a existência de mais espaço no topo não tem sido acompanhada por uma maior igualdade de oportunidades para aí chegar” (Marshall et al. a mobilidade descendente nos Estados Unidos é particularmente comum entre mulheres divorciadas ou separadas com filhos. a pensão de alimentos é pequena ou inexistente. quando eram casadas. Embora existisse uma boa percentagem de mobilidade. 1986). deve ter-se em mente algo que já foi salientado anteriormente: a mobilidade é um processo a longo termo e. foi conduzida por John Goldthorpe e colegas. Em muitos casos. Os autores procuraram investigar até que ponto os padrões de mobilidade social se tinham alterado desde os tempos do estudo de Glass. concluindo que o nível geral de mobilidade dos homens era de facto mais elevado do que no período anterior e tinha uma maior amplitude.

particularmente em termos das identidades das pessoas. adiaram o casamento e os filhos. nos últimos anos começou a ser prestada maior atenção aos padrões de mobilidade entre as mulheres. Embora hoje em dia muitas mais mulheres estejam a organizar as suas vidas domésticas de forma a prosseguirem uma carreira. Género e mobilidade social Embora a maior parte da pesquisa sobre mobilidade social se centre nos homens. pelo menos em parte. Ter-se-á a estrutura ocupacional tornado mais “aberta” para as mulheres ou serão ainda as suas oportunidades de mobilidade guiadas em grande medida pela sua origem familiar e social? No inquérito mais recente aos participantes. porque constitui uma força motivadora que encoraja à inovação e à acção. As mulheres da classe média foram as principais beneficiárias da maioria das mudanças referidas anteriormente: é tão provável que entrem na universidade e se movam para cargos bem pagos como os seus pares do sexo masculino. devido à sua crença de que “as mulheres não estão verdadeiramente interessadas em carreiras”. é tentador concluir-se que as desigualdades entre os géneros podem estar a diminuir na sociedade. Muitos autores argumentam que. a globalização e a não regulação dos mercados económicos estão a conduzir a um alargamento do . a influência tradicional da classe esteja em certa medida a enfraquecer. existem ainda grandes obstáculos no seu caminho. mas porque são de facto forçadas a escolher entre a progressão na carreira e a maternidade. aos vinte e seis anos de idade.104 7. Os gestores e empregadores do sexo masculino ainda discriminam as candidatas mulheres. Numa altura em que as raparigas estão a superar o rendimento dos rapazes nas escolas e as mulheres estão em maior número que os homens no ensino superior. desde desigualdades nas expectativas de vida e na saúde física em geral a desigualdades no acesso à educação e a empregos bem remunerados. Será o crescimento da desigualdade entre classes o preço a pagar para assegurar o desenvolvimento económico? Este pressuposto foi particularmente proeminente durante o período do governo Thatcher.4. as divisões de classe permanecem no centro das desigualdades económicas. mas permanecem dois grandes obstáculos. As hipóteses das mulheres desenvolverem uma boa carreira estão a aumentar.6. 7. Fazem-no.5. o estudo constatou que as mulheres de hoje estão a encontrar oportunidades muito maiores do que as suas congéneres da geração anterior. Isto não acontece por não estarem interessadas em construir carreiras. No seu conjunto. e de que é provável que abandonem o seu emprego quando iniciarem uma família. descobriu-se que a classe de origem e os antecedentes familiares continuam a ser influências poderosas tanto para os homens como para as mulheres. O estudo concluiu que os jovens que estão a lidar melhor com a transição para a idade adulta são os que obtiveram uma melhor educação. e a pertença de classe está associada a uma série de desigualdades. O argumento era o de que a busca da riqueza cria o desenvolvimento económico. Conclusão Embora nas sociedades modernas. actualmente. e têm pais em ocupações técnicas ou profissionais de nível elevado. As classes continuam a exercer uma grande influência nas nossas vidas.

mobilidade social. . é importante relembrar que as nossas actividades nunca são completamente determinadas pelas divisões de classes: muitas pessoas experienciam. de facto.105 fosso entre os ricos e os pobres e a “acentuar” as desigualdades entre as classes. Porém. Tais desenvolvimentos estão a desgastar cada vez mais os velhos padrões de classe e de estratificação e a contribuir para uma ordem mais fluida e meritocrática.

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Porém. Argumentam que é mais apropriado utilizar o conceito de pobreza relativa. O que é a pobreza? O que é a pobreza e como deve ser definida? Os sociólogos e investigadores têm favorecido duas abordagens diferentes sobre a pobreza: a da pobreza absoluta e a da pobreza relativa. O seu principal objectivo é conseguir mudar-se com as crianças para uma área mais segura e desejável.1. Por exemplo. que relaciona a pobreza com o padrão de vida geral prevalecente numa determinada sociedade. Considera-se que o conceito de pobreza absoluta é universalmente aplicável. 8. Podem concluir que a sua pobreza e baixa posição na sociedade decorrem das suas capacidades naturais ou são consequência da sua educação. independentemente do local onde vivem. de casas de banho com autoclismos e o consumo regular de frutas e vegetais são vistas como necessidades básicas para uma vida saudável. Contudo. Estas apreciações serão correctas? É função da Sociologia analisar estas suposições e desenvolver uma visão mais alargada da nossa sociedade que possa conferir sentido às experiências de pessoas como a Carolina. Todos os meses recebe do seu ex-marido uma pequena pensão para as crianças. O conceito de pobreza absoluta está enraizado na ideia de subsistência – as condições básicas que permitem sustentar uma existência física saudável. As pessoas que trabalham com ela no centro de atendimento são todas mulheres.1. em qualquer parte do mundo. mas esta nunca parece ser suficiente para cobrir as despesas. elas diferem entre sociedades e no seio destas.1. Defende-se que os padrões de subsistência humana são mais ou menos os mesmos para as pessoas de idade e constituição física equivalentes. POBREZA. PREVIDÊNCIA E EXCLUSÃO SOCIAL Carolina é uma mulher de 24 anos que trabalha num centro de atendimento telefónico que fornece informação e serviço de apoio a clientes que pretendem marcar viagens por telefone. Carolina está demasiado exausta para fazer mais do que ver televisão. na maioria dos países industrializados a existência de água corrente. Quando as crianças adormecem. mas em muitas noites é uma luta para conseguir adormecê-las. em muitas sociedades em vias . Se estiver com sorte. Tal como muitas das suas colegas. Carolina e os seus filhos são apenas um exemplo dos muitos agregados familiares que vivem em condições de pobreza na Grã-Bretanha. não quer ficar dependente da segurança social. vive na pobreza se estiver abaixo deste padrão universal. A pobreza 8. Embora esteja a lutar para lidar com a sua presente situação. É errado assumir que as necessidades humanas são idênticas em todo o lado – de facto. Coisas vistas como essenciais numa sociedade podem ser consideradas luxos supérfluos noutra.107 8. Os defensores do conceito de pobreza relativa afirmam que a pobreza é culturalmente definida e não deve ser medida de acordo com um padrão de privação universal. as crianças adormecem assim que as levar para casa. Pode afirmar-se que qualquer indivíduo. nem todos aceitam ser possível identificar tal padrão. Carolina é uma mãe sozinha.

108 de desenvolvimento tais itens não estão difundidos no seio da população e não faria sentido medir a pobreza de acordo com a sua presença ou ausência. até entre as famílias com menores rendimentos. os seus rendimentos nem sequer cobrem as suas necessidades básicas de subsistência. os padrões de pobreza relativa são gradualmente ajustados num sentido ascendente. digamos. Por exemplo. os trabalhadores de escritórios que passam os seus dias sentados. numa dada altura. baseada no preço dos bens essenciais à sobrevivência humana em determinada sociedade. Porém. o custo das necessidades básicas será diferente de região para região. é muito mais caro viver em algumas zonas do país do que em outras. Percentagem de pessoas em agregados familiares com acesso a equipamentos e serviços domésticos entre os 10% da base da distribuição de rendimentos. É provável que indivíduos que desenvolvem actividades físicas em espaço aberto tenham maiores necessidades nutricionais que. na maioria das sociedades industrializadas de hoje são vistos como necessidades básicas de uma vida plena e activa. utilizar um único critério de pobreza pode ser problemático. por exemplo. Por exemplo. o aquecimento central e os telefones foram considerados bens de luxo. de facto. A utilização de um único critério de pobreza pode levar a considerar alguns indivíduos como estando acima da linha de pobreza quando. 1979 e 1993-4 Frigorífico ou combinado 32 86 47 Telefone 77 40 56 69 88 42 78 Carro ou carrinha Máquina de lavar Aquecimento central Vídeo 78 0 10 20 30 40 % 50 60 70 80 90 1979 1993-4 . os frigoríficos. É verdade que há presentemente um maior acesso a bens e serviços do que há duas décadas. porque tais definições não tomam em consideração as variações nas necessidades humanas existentes entre sociedades e no seio destas. os carros. Porém. À medida que as sociedades se tornam mais prósperas. Uma técnica comum para medir a pobreza absoluta consiste em determinar uma linha de pobreza.

a existência de sanita e banheira no interior do domicílio. Medir a pobreza 8. o qual procurava determinar quais as necessidades que. Dados dos finais dos anos 90 revelaram que aproximadamente 10. questionando-se ainda se o seu rendimento actual correspondia a essa quantia.7 milhões de britânicos estavam a viver abaixo de metade do rendimento médio.1. . excedia ou se ficava aquém da mesma. Entre um grande número de agregados. seria errado supor que tal assinala uma ausência de pobreza.2. as estimativas do rendimento necessário foram em média 61% superiores ao mínimo requerido pelo governo para a provisão de benefícios. e a pobreza é medida agora mais frequentemente por referência ao número de agregados que vivem abaixo do rendimento médio (mediana) ou com metade do rendimento médio e abaixo do mesmo.1. Medidas oficiais de pobreza O “rendimento mínimo” consistia num subsídio monetário atribuído às pessoas cujos rendimentos não atingiam o nível considerado necessário à subsistência. Mack e Lansley realizaram um estudo de opinião destinado a um programa de televisão chamado “Grã-Bretanha Paupérrima”.2. Mais de 90% dos participantes estavam de acordo quanto à importância de outras cinco necessidades: a alimentação.109 Porém.2.2. criaram uma lista de 21 necessidades básicas que mais de 50% dos participantes consideravam ser importantes para uma vida normal. Índices de privação semelhantes baseados em critérios subjectivos têm sido utilizados para medir a pobreza infantil e para realizar comparações internacionais de níveis de pobreza relativa. Com base nestas respostas. uma cama para cada membro da família e uma casa livre de humidade. com o número a aumentar para 14 milhões ao tomar-se em consideração os custos do alojamento (Howarth et al. Enquanto a sociedade britânica em geral tem vindo a tornar-se mais próspera.1. Medidas subjectivas de pobreza Peter Townsend é um académico que acredita que as medidas oficiais de pobreza são inadequadas.1. Pessoas cujo rendimento se situava entre os 100 e os 140% do mesmo eram definidas como vivendo “no limiar da pobreza”. Este subsídio foi recentemente substituído por um de apoio ao rendimento. 8. no entender das pessoas. o fosso entre os membros mais ricos e os mais pobres da sociedade é cada vez maior. 1999) 8. deviam ser satisfeitas para se atingir um padrão de vida aceitável.. Foram solicitadas aos participantes nos estudos as suas opiniões pessoais acerca do rendimento necessário para sustentar adequadamente o seu agregado.

Uma combinação de factores.12. cujos frutos iriam afluir aos pobres. Algumas das principais conclusões de 1999 são: Mais de dois milhões de crianças vivem em agregados nos quais não existe nenhum adulto empregado. com resultados comparáveis. O fosso entre os membros mais ricos e os mais pobres da sociedade aumentou dramaticamente durante os anos 80: a Grã-Bretanha estava em segundo lugar.ª Thatcher era a de que a diminuição das taxas de imposto sobre os rendimentos dos indivíduos e das empresas iria gerar níveis elevados de crescimento económico. 29 (1999). Mais de um milhão de pensionistas estão completamente dependentes das pensões e subsídios do estado para subsistirem. Um ponto de partida lógico é considerar as desigualdades crescentes existentes. A teoria subjacente às políticas do governo da Sr. As desigualdades na saúde são proeminentes entre a população britânica. conduziu a esta mudança rápida. . quadro 5. entre os que “têm” e os que “não têm”.. Crown copyright. 1995 Comer carne dia sim/dia dia/não Portugal Grécia Espanha Grã-Bretanha Irlanda Itália França Bélgica Áustria Dinamarca Holanda Luxemburgo Alemanha 6 35 2 10 4 6 5 4 8 2 2 3 5 Comprar roupa nova 47 32 9 15 7 15 10 10 10 5 13 5 15 Ter uma semana de férias 59 51 49 40 38 38 34 26 24 16 15 14 12 Fontes: Social Trends. 8.1. Padrões recentes de pobreza no Reino Unido A Fundação Joseph Rowntree e o New Policy Institute compilaram uma lista de 50 indicadores de pobreza e exclusão social que são monitorizados anualmente de forma a avaliar a eficácia dos programas de erradicação da pobreza (Howarth et al. Mais de dois terços dos chefes de família que vivem em habitações sociais estão desempregados.3. enquanto nação industrializada com o crescimento mais profundo da desigualdade económica no período que decorreu entre 1977 e 1990. na Grã-Bretanha e noutras sociedades industriais. Políticas semelhantes foram implementadas nos EUA durante a presidência de Ronald Reagan.110 Percentagem de agregados familiares que consideravam não poder adquirir certos itens. atrás da Nova Zelândia. Mais de três milhões de crianças vivem em agregados em que o rendimento é menos de metade da média nacional. comparações na EU. 1999). muitos dos quais relacionados com políticas governamentais específicas cujo objectivo era revitalizar uma economia estagnante.

tal aconteceu para posições que são mal pagas e com poucas perspectivas de melhoria. Muito frequentemente trabalhadores em ocupações não especializadas ou semiespecializadas tiveram dificuldade em reentrar num mercado de trabalho em rápida mudança onde as qualificações académicas e a competência tecnológica estão em crescente demanda. É possível que o desemprego seja o factor com maior influência na pobreza. onde ninguém está activo no mercado de trabalho. Isto pode parecer evidente. As diferenças entre agregados de dois assalariados. mas é um facto muitas vezes sobrevalorizado. De facto.0 0. o impacto dos seus ganhos pode ser enorme. e de “trabalho pobre”. A entrada das mulheres no mercado de trabalho tem significado uma divisão crescente entre agregados de “trabalho rico”. Uma investigação recente demonstrou que perto de 1/5 das crianças da Grã-Bretanha – mais de 2 milhões – estão a viver em agregados onde não existe nenhum adulto empregado.5 0 1990 1993 1996 1999 Millions . de um e de nenhum ganhador estão a tornar-se cada vez mais visíveis. Os ganhos das mulheres tornaram-se mais relevantes para o rendimento dos agregados do que anteriormente. e com um número cada vez maior de mulheres a ocupar posições influentes e bem remuneradas. Número e percentagem de crianças em famílias em que ninguém em idade para trabalhar o faz Número de crianças da Grã-Bretanha em famílias em que ninguém em idade para trabalhar o faz 2. Um rendimento fixo não é suficiente para garantir uma vida livre da pobreza.5 2. os trabalhadores em funções manuais e sem especialização viram muitas vezes os seus salários reduzidos.0 1. à medida que os direitos incluídos na Lei de Protecção do Emprego (Employment Protection Act) foram reduzidos. O crescimento dos empregos técnicos e de gestão foi acompanhado por declínio relativo na força de trabalho manual. Embora tenha havido uma expansão evidente das oportunidades no sector dos serviços. mas é um pré-requisito importante.111 Entretanto. é um dos factores mais importantes na mudança do padrão de distribuição de rendimento. caracterizados por terem dois assalariados. o sucesso dos agregados com dois ganhadores.5 1. particularmente os sem crianças. A relação entre pobreza e ausência de emprego é evidente em dados sobre a pobreza infantil.

segundo.0 2.0 1. as pessoas com mais de 65 anos representam o maior grupo de indivíduos que recebem subsídios estatais. terceiros.1. Quem são os pobres? É impossível apresentar um perfil para descrever “os pobres”.4. um mercado de trabalho activo que permita um bom acesso a empregos é uma prioridade de topo.5 0 Poorest fifth 2nd 3nd Income quintiles 4th Richest fifth Na Grã-Bretanha. Milhões de pensionistas. quinto mais rico 3.112 Percentagem de crianças da GrãBretanha em famílias em que ninguém em idade para trabalhar o faz 20 15 % 10 5 79 90 92 93 94 Ano 95 96 97 98 Para governos empenhados no combate À pobreza. A pobreza está disseminada entre os idosos que vivem de pensões. a face da pobreza é diversa e encontra-se em constante mutação. 8. é mais provável que certas pessoas de certas categorias vivam num estado de pobreza do que outras. Se mais pessoas estiverem empregadas. Porém. à educação e a outros serviços sociais. em 1998.3 .5 Millions of pensioners 2. quintos de rendimento – quinto mais pobre. A concentração de pensionistas na metade inferior da distribuição de rendimento. existirão mais recursos disponíveis no orçamento para ser destinados à saúde. Muitas vezes pessoas que estão em desvantagem noutros aspectos da vida têm maiores hipóteses de serem pobres. quarto.0 0.5 1. 1.

1999). órfãos ou incapacitados – fazem parte de uma categoria diferente daqueles que pertencem à cultura da dependência. Apesar da visão popular acerca dos níveis elevados de embustes à segurança social. o aumento da proporção de trabalho mal pago e o número cada vez maior de famílias monoparentais. a pesquisa sobre a pobreza na Grã-Bretanha constatou. estavam enraizados na crença de que a pobreza era o resultado de um desajustamento ou patologia dos indivíduos. mas de uma atmosfera social e cultural mais lata na qual as crianças pobres são socializadas. II e III. Oscar Lewis (1961) lançou uma das mais influentes destas teorias.6 (8.5. A posição social era tida como um reflexo do esforço ou talento da pessoa. onde o desemprego é particularmente elevado.113 milhões estavam dependentes exclusivamente de pensões e subsídios concedidos pelo Estado (Howarth et al.1 milhões de pessoas) e entre os hispânicos é de 25. menos de 1% das candidaturas envolvem pedidos fraudulentos – número muito menor do que no caso das declarações do imposto sobre o rendimento. à fraqueza física ou moral. com alarme. Os efeitos da pobreza sobre as oportunidades de vida das crianças são bem visíveis: é 20% mais provável que os bebés nascidos nas classes sociais IV e V tenham peso a menos do que os nascidos nas classes sociais I. Os esforços iniciais para atender aos efeitos da pobreza. argumentando que existe uma cultura da pobreza entre muitas pessoas pobres. 8. a pobreza não é o resultado de inadequações individuais. Nos anos 90. à ausência de motivação. a etnia e a pobreza estão estreitamente ligadas: a taxa de pobreza entre os afro-americanos é de 26. Explicar a pobreza As explicações da pobreza podem ser agrupadas em duas categorias principais: – Teoria da “culpabilização da vítima”: consideram os indivíduos pobres responsáveis pela sua própria pobreza. e os resultados escolares continuam a reflectir a classe social de origem (Howarth et al. enquanto os menos capazes estavam condenados a falhar. Muitos acreditam que as pessoas dependentes da segurança social poderiam encontrar trabalho se estivessem determinadas a fazê-lo. Os pobres eram vistos como os incapazes – devido à falta de talento. a existência de elevadas taxas de pobreza entre agregados familiares de origem paquistanesa e do Bangladesh. os que mereciam ser bem sucedidos. ou a capacidades abaixo da média – de vencer na sociedade.1 milhões de pessoas) – sensivelmente três vezes superior à taxa de pobreza entre a população branca. A cultura da pobreza é transmitida entre gerações porque os jovens desde cedo não vêem razão para aspirar a algo mais..1. A existência de “vencedores” e de “vencidos” era vista como um facto da vida. onde se . e – Teoria da “culpabilização do sistema”: consideram a pobreza como produzida e reproduzida pelas forças estruturais da sociedade. De acordo com Lewis. As causas mais importantes do aumento da pobreza infantil são as altas taxas de desemprego. Nos EUA..1% (9. eram-no. as taxas de morte acidental são maiores entre as crianças das duas classes da base do que entre as das três superiores. 1999). Os indivíduos que são pobres “sem culpa própria” – viúvos. como as Casas dos Pobres do século XIX.

O dinheiro não pode ser posto de lado para o futuro e as contas são uma fonte de preocupações constantes. viver à custa da segurança social não é uma opção que muita gente escolheria se tivesse outra verdadeira alternativa. Uma visão comum é a de a pobreza ser uma condição permanente.1. Apesar da sua importância.1. 8. e que a maioria das pessoas que estão nessa situação lutam provavelmente de forma activa para escapar tanto quanto possível da mesma. Prever o futuro é difícil. o género.6. . Carol Walker encontrou uma realidade muito diferente da retratada por aqueles que defendem que viver à custa da segurança social é uma opção fácil. 8.114 estima que mais de 10% dos impostos são perdidos devido à evasão ou falsas declarações. As forças estruturais de uma sociedade – factores como a classe. Porém ser pobre não significa necessariamente estar atolado na pobreza. a etnia. Apenas 12% das pessoas a viver dos fundos sociais durante a década de 90 afirmou estar “a viver razoavelmente bem”. Walker concluiu: “Apesar das manchetes dos jornais mais polémicos. Os investigadores que advogam explicações estruturais para a pobreza argumentam que a falta de ambição entre os pobres muitas vezes tomada como “cultura da dependência” é. Para praticamente todos. Os críticos da perspectiva da cultura da pobreza acusam os seus defensores de “individualizarem” a pobreza e de culparem os pobres por circunstâncias que estão além do seu controlo.1. a alimentação é vista como uma coisa em que se pode poupar quando o dinheiro é pouco. Dizem que “viver da segurança social” é algo visto comummente como uma fonte de vergonha. alguém que está desempregado e atinge os sessenta anos é catalogado como tendo direito a pensão e pode reivindicar benefícios superiores em 30% ao que recebia anteriormente. a vida passou a ser muito mais uma luta constante. a assistência social trouxe benefícios ao nível das condições de vida. para uma minoria. Por outro lado. Os resultados estatísticos do British Household Panel Survey (BHPS) mostram que mais de metade dos indivíduos que estavam no quinto inferior de rendimento em 1991 estavam na mesma categoria em 1996. de facto.5. uma consequência das suas situações condicionadas e não uma causa das mesmas. Abonos de família. Dependência da segurança social A ideia de dependência da segurança social é controversa e alguns negam que tal dependência esteja disseminada. Avaliação Ambas as teorias têm gozado de amplo apoio e variações de cada perspectiva são encontradas sistematicamente em debates públicos sobre a pobreza. um salário mínimo e níveis mínimos de rendimentos garantidos para as famílias são exemplos de medidas políticas que procuraram emendar as desigualdades sociais persistentes. Pobreza e mobilidade social Tem sido prestada tradicionalmente menos atenção ao “ciclo de vida” da pobreza – as trajectórias de saída da pobreza (e muitas vezes de nova entrada) das pessoas ao longo do tempo. a posição ocupacional. Por exemplo. a escolaridade e outros – moldam a forma como os recursos são distribuídos.

Entre os 20% mais pobres da população por rendimento. 85% permaneceu nos 40% mais pobres. Esta visão sugere que as desigualdades entre os ricos e os pobres na sociedade não são terrivelmente críticas. Mesmo indivíduos em posições seriamente desvantajosas podem agarrar oportunidades para melhorar as suas . Crown Copyright. John Hills do Centro de Análise da Exclusão Social defende que devemos ser cépticos face a argumentos que apresentam a pobreza como uma situação “excepcional” vivida pelas pessoas de forma mais ou menos aleatória à medida que se movem na hierarquia dos rendimentos. De acordo com este tipo de argumentação. 1999). Mais de 30% dos alemães foram pobres (ganhando menos de metade do rendimento médio) (metade da mediana) pelo menos durante um ano no decurso da década examinada.1996 20% mais pobres Agrupamentos de rendimento – 1991 20% mais pobres Próximos 20% 20% do meio Próximos 20% 20% mais ricos Próximos 20% 20% do meio Próximos 20% 20% mais ricos Todos os adultos 52 25 11 7 4 26 35 21 12 6 12 22 33 20 11 7 12 23 37 21 4 6 12 23 59 100 100 100 100 100 Fontes: British Household Panel Survey. o BHPS revela que existe de facto uma quantidade significativa de mobilidade de médio alcance entre aqueles que vivem na pobreza. De Social Trend. 29 (1999). pelo que a ideia de pobreza já não é causa para grandes preocupações. O BHPS revelou igualmente que um em cada dez adultos permaneceu consistentemente entre os 20% mais pobres durante cinco dos seis anos em que o inquérito foi administrado. por exemplo.115 Adultos que se moveram dentro da distribuição de rendimentos entre 1991 e 1996. é enganador pensar-se que ao longo do tempo a população “se mistura” gradualmente pelos grupos de rendimento. na Grã-Bretanha (percentagem) Agrupamentos de rendimento . Sessenta por cento dos adultos nunca estiveram entre os 20% mais pobres em nenhuma altura entre 1991 e 1996. os resultados de pesquisas indicam que o movimento para dentro e para fora da pobreza é mais fluido do que muitas vezes se pensa. 65% estavam ainda nesse grupo no ano seguinte. toda a gente tem a hipótese de ser um vencedor ou perdedor em dada altura. alguns indivíduos azarados podem acabar por ter rendimentos baixos ao longo de vários anos. mas o rendimento baixo é essencialmente um fenómeno aleatório. Institute for Social and Economic Research. 98. De acordo com Hills. Estes resultados sugerem que cerca de um terço dos rendimentos baixos são de natureza “transitória”. Os investigadores sublinharam que devíamos interpretar tais resultados de forma cautelosa. isto representa um resultado mais de três vezes superior ao número máximo de pobres em qualquer ano (Leisering and Leibfried. Como salienta Hills. p. 46% estavam ainda ali no ano seguinte. Embora a escalada para fora da pobreza se encontre seguramente repleta de desafios e obstáculos. Entre os indivíduos que integram os 10% mais pobres. na medida em que os mesmos podem ser facilmente usados por aqueles que querem diminuir as provisões de segurança social ou evitar que a pobreza se transforme numa questão política e social. Entre aqueles que “escapavam” à pobreza. o rendimento médio obtido era cerca de 30% superior à linha de pobreza. enquanto os restantes dois terços não o são.

São indivíduos que passam por longos períodos de desemprego (ou histórias de trabalho altamente fragmentadas) e que estão em grande medida dependentes de subsídios estatais para poderem sobreviver. ladrões e vagabundos que se recusavam a trabalhar e em vez disso sobreviviam às margens da sociedade como “parasitas sociais”. 8. O termo “subclasse” é bastante contestado no contexto de um agitado debate sociológico. cujas visões sobre este assunto vamos retomar brevemente. A controvérsia da subclasse Subclasse – um segmento da população que vive em situações severamente desvantajosas nas margens da sociedade.2. a noção foi aplicada às “classes perigosas” de indigentes. Marx escreveu sobre um lumpenproletariat composto por indivíduos localizados persistentemente fora das formas dominantes de produção e troca económica. mas existem também muitas primeiras e segundas gerações de imigrantes na pobreza e encurraladas . Antecedentes do debate em torno da subclasse Debates recentes em torno da subclasse foram provocados por vários trabalhos importantes publicados por sociólogos americanos sobre a posição dos negros pobres a viver em zonas centrais das cidades. etnicidade e migração. o poder da agência humana para provocar a mudança não deve ser subestimado. a União Europeia e a imigração A tendência para a divisão económica e a exclusão social agora característica da América parece estar a fortificar-se tanto na GrãBretanha como noutros países da Europa Ocidental. em termos do rendimento médio individual. A subclasse está estreitamente ligada a questões de raça.1.2. tem também a maior percentagem de pessoas dependentes da segurança social e no desemprego – 40% acima da média nacional. Mais recentemente. Hamburgo é a cidade mais rica da Europa. a ideia de uma subclasse que é dependente dos subsídios da segurança social e despojada de iniciativa gozou de um renascimento. Posteriormente. 8. As velhas barreiras racistas estão a desaparecer. novamente devido em grande medida aos escritos de Charles Murray. A maioria das pessoas pobres e desempregadas dos países da Europa Ocidental são nativas dos seus países. Estão também em desvantagem devido a uma fraca infraestrutura urbana – em termos de transportes públicos deficientes e de instalações comunitárias e instituições escolares desadequadas – que reduz ainda mais as hipóteses de se integrarem social. 1999). política e economicamente na sociedade (Wilson. É um conceito que integra um largo espectro de significados.2. alguns dos quais vistos como tendo uma carga política e uma conotação negativa. os negros estão “presos” em guetos em virtude de desvantagens económicas. 8. A subclasse.116 posições.2. e tem a maior percentagem de milionários da Alemanha.

o conceito de subclasse é demasiado simplista (e politizado) para reflectir a complexidade da pobreza e da desvantagem social na sociedade contemporânea. Em casos em que membros da família se tentam juntar ilegalmente a um imigrante para que a família possa estar reunida. Estes indivíduos são extremamente vulneráveis. não existe ainda uma subclasse claramente definida na Grã-Bretanha. Incluirá não só membros de minorias étnicas. que é provável que a subclasse emerja. onde houve um declínio da indústria manufactureira e um crescimento em larga escala de desemprego. mas brancos de áreas empobrecidas onde a desintegração social está a avançar. Existe uma subclasse na Grã-Bretanha? De acordo com Charles Murray. 8. Os que estão desempregados há mais de um ano estão ainda preocupados com a procura de emprego. Migrantes em busca de melhores padrões de vida são muitas vezes relegados para trabalhos ocasionais que oferecem baixos salários e fracas perspectivas de carreira. não criaram uma cultura antitrabalho. os rendimentos dos imigrantes são frequentemente enviados para o país de origem de forma a sustentar os membros da família que aí ficaram. Para além disso. em deterioração das cidades. Na perspectiva de Lydia Morris. que a maioria dos desempregados de longa duração tinham parceiros que estavam também desempregados e que tinham a maior percentagem de amigos desempregados. o potencial de exclusão e de marginalização é particularmente alto. Foi conduzida apenas numa parte do país. Os homens das Caraíbas e os asiáticos estão mais concentrados em trabalhos semiespecializados e têm maiores taxas médias de desemprego que os homens brancos. Verificou que as pessoas que estão desempregadas por longos períodos de tempo estão mais comprometidas com o conceito de trabalho do que outras.2. Morris estudou três grupos de trabalhadores desempregados: 1.117 nos bairros. mas está a desenvolver-se rapidamente. constituído por casais em que o homem manteve o mesmo trabalho pelo menos nos últimos 12 meses. Morris verificou. . e numa parte onde as minorias étnicas não se encontram fortemente representadas. Duncan Gallie é um dos sociólogos que argumenta que existem poucas bases para a ideia da existência de uma subclasse com uma cultura distinta. os imigrantes sem estatuto oficial são incapazes de obter apoio do estado de forma a manter um padrão mínimo de vida. constituído por casais em que o homem começara um novo emprego nos últimos 12 meses. O trabalho de Murray tem sido contundentemente criticado. encurralados em condições extremamente constrangedoras com poucos canais de recurso em caso de crise ou infortúnio. É em áreas como Hartlepool. 3. Não tendo direito aos subsídios da segurança social. 2. por outros sociólogos a trabalhar neste país. Os padrões de vida dos imigrantes recentes podem ser precariamente baixos.3. A pesquisa de Morris não é de modo algum conclusiva. constituído por casais em que o homem estava desempregado há pelo menos 12 meses. todavia. todavia.

Como iremos ver brevemente. Às pessoas que vivem em bairros sociais degradados com escolas pobres e poucas oportunidades de emprego na área.118 8. 8. (1) Exclusão económica. Avaliação A ideia de subclasse foi introduzida nos EUA e continua a fazer sentido nesse país.1. por exemplo. na medida em que as pessoas não têm a possibilidade de usufruir de muitos dos serviços que os bancos fornecem aos seus clientes. As pessoas a quem falta um lugar de residência permanente descobrem ser quase impossível participar em termos igualitários na sociedade. Do lado da produção. (2) Exclusão política.3. estas parecem ser menos pronunciadas que nos EUA. vestir e pagar alojamento. As taxas de desemprego são frequentemente altas e as oportunidades de trabalho são geralmente limitadas. É um conceito mais amplo do que o de subclasse. instalações de saúde e transportes públicos. Foca a atenção num conjunto mais amplo de factores que impedem que indivíduos ou grupos tenham oportunidades que estão abertas à maioria da população. É também uma questão diferente da da pobreza em si. os indivíduos devem não só ser capazes de se alimentar. Em países europeus é provável que tal não aconteça. A participação popular na política é uma pedra angular dos estados democráticos liberais. Exclusão social A ideia de exclusão social tem sido utilizada por políticos. é importante que os seus membros partilhem instituições como escolas. A exclusão e inclusão podem ser vistas em termos económicos. De modo a viverem uma vida plena e activa. Embora existam condições semelhantes de desvantagem na Europa. Exclusão social – as formas pelas quais os indivíduos podem ser afastados do pleno envolvimento na sociedade. vizinhos e membros da comunidade. Não ter uma conta num banco é outro indicador de exclusão social. a levantar as suas vozes em apoio ou oposição. ser “sem-abrigo” é um dos exemplos mais precisos de exclusão social. políticos ou sociais.2. mas devem também ter acesso a bens e serviços essenciais como o transporte. mas foi primeiramente introduzida por sociólogos para se referirem a novas fontes de desigualdade. Para uma comunidade ou sociedade estar socialmente integrada.3. a contactar os seus representantes eleitos com preocupações e a . e tem a vantagem de enfatizar processos – mecanismos de exclusão. Nos EUA os extremos de riqueza e de pobreza são mais vincados do que na Europa Ocidental. podem ser negadas oportunidades de melhoramento pessoal que a maioria das pessoas na sociedade possui. A ausência de um telefone pode contribuir para a exclusão social – o telefone é um dos principais pontos de contacto entre indivíduos e o seu universo de amigos. Os cidadãos são encorajados a permanecer a par das questões políticas. família. os seguros e a banca. o emprego e a participação no mercado de trabalho são centrais para a inclusão. o telefone. Em comunidades com elevadas concentrações de privação material existem menos pessoas a trabalhar a tempo inteiro e as redes informais de informação que podem ajudar os indivíduos desempregados a entrar no mercado de trabalho são fracas.

(3) Exclusão social. A exclusão pode também ser vivida no domínio da vida social e comunitária. 8. actividades políticas e eventos comunitários. enquanto um agregado familiar em que os adultos estejam desempregados ou em empregos com baixa remuneração poderá estar restringido a opções menos desejáveis no sector público ou no privado de aluguer de habitações. as pessoas que vivem em lugares menos privilegiados estão muitas vezes dependentes das poucas instalações disponíveis. Porém. Existem certamente instâncias em que os indivíduos são excluídos mediante decisões situadas fora do seu próprio controlo. da interacção entre a acção e a responsabilidade humana e. a começar carreiras e famílias. 8. Como tal.2. a participação política pode estar fora do alcance dos socialmente excluídos. Em comunidades carenciadas pode ser difícil às pessoas superar a exclusão e dar passos no sentido de participar mais plenamente na sociedade.3. As redes sociais podem ser fracas. Mas a exclusão social não é apenas o resultado da exclusão de pessoas – pode também resultar de pessoas que se excluem a si mesmas de aspectos centrais da sociedade. comunidades inteiras podem ser excluídas de oportunidades e actividades que são a norma para o resto da sociedade.1. os adolescentes e jovens adultos estão a entrar na primavera da vida. a palavra “exclusão” implica que alguém ou alguma coisa está a ser afastada de outra.1.3. Tal como indivíduos menos privilegiados são excluídos das opções de habitação desejáveis. Os espaços comunitários como parques. a .1. Afinal. Afinal. Os níveis de participação cívica são frequentemente baixos. a informação e as oportunidades necessárias para participar no processo político.3. um casal sem crianças em que ambos trabalhem terá maiores hipóteses de obter uma hipoteca para uma casa numa área atractiva. Ao considerarmos o fenómeno de exclusão social devemos estar conscientes. isto reduz a circulação de informação acerca de empregos. Alojamento e bairros A natureza da exclusão social pode ser observada claramente no sector da habitação.1. áreas desportivas e bibliotecas podem ser também limitados. Jovens Poderíamos pensar que os jovens não serão prováveis candidatos à exclusão social. por um lado. Formas de exclusão social 8. Tais problemas alimentam uma espiral que se autoreproduz. Um empregado dispensado pode ver serem-lhe recusados outros empregos com base na sua idade. que podem não ter os recursos. Porém.119 participar a todos os níveis no processo político. por outro. do papel desempenhado pelas forças sociais na moldagem das situações em que as pessoas se encontram. à medida que as vozes e as necessidades dos socialmente excluídos deixam de ser incorporadas nas agendas políticas.

a serviços e a equipamentos não é tão grande como em áreas densamente povoadas.3. Áreas rurais Embora muita atenção seja prestada à exclusão social em cenários urbanos. Muitos jovens têm dificuldade em encontrar trabalho. como nas cidades. Embora ainda herdem direitos e estatuto político.. Todavia. se não mesmo maiores. Alguns trabalhadores sociais e prestadores de cuidados acreditam que os desafios da exclusão na província são tão grandes.. é mais fácil permanecer integrado na sociedade. 1999). Desde os anos 80.1. na Grã-Bretanha. Os cortes na segurança social desde os anos 80 deixaram alguns jovens mais vulneráveis do que anteriormente. 1. Em 1997. escolas. o acesso a bens. as necessidades de acomodação flexível e comportável por parte dos jovens não são necessariamente acolhidas por um mercado de habitação dominado pelas opções de alojamento privadas e públicas. plena e saudável. as pessoas que vivem nas regiões rurais podem também sentir exclusão. postos de correios.25 milhões de jovens adultos na Grã-Bretanha com idades entre os 16 e 24 anos foram pagos a taxas inferiores a metade da remuneração horária média dos homens (Howarth et al. os direitos sociais dos jovens ao emprego. Na maioria das sociedades industriais. Se um agregado possui ou tem acesso a um carro. os trabalhos não especializados estão a dar lugar a posições que requerem capacidades e perícia nas novas tecnologias. Mas os que residem em áreas rurais têm muitas vezes um acesso limitado a estes serviços e estão dependentes dos equipamentos existentes nas suas comunidades. aproximadamente 160 000 jovens adultos com idades entre os 16 e os 18 anos não estavam na escola. Em pequenas aldeias e áreas pouco povoadas. O fenómeno dos “sem-abrigo” é uma das principais expressões da exclusão entre os jovens. 1999). Porém a transição da adolescência para a vida adulta é problemática. particularmente numa altura em que os níveis salariais entre muitos jovens estão a cair. Agora. Os jovens podem . um aumento do número de jovens sem-abrigo sugere que o actual sector da habitação está mal equipado para lidar com os padrões em mutação da mobilidade juvenil. porque muitos jovens têm recursos limitados.120 construir o seu futuro. 8. o mercado de trabalho para jovens é menos seguro que anteriormente. Porém. igrejas. O acesso ao transporte é um dos principais factores que afectam a exclusão rural. em actividades de formação ou a trabalhar (Howarth et al.3. tornando menos directa a transição de casa dos pais para a vida adulta independente. Existe também preocupação quanto à possibilidade de o sistema educacional estar a excluir um número crescente de jovens – quer formal quer informalmente. a proximidade de serviços básicos como médicos. existem poucas opções disponíveis em termos de habitação que sejam comportáveis para os mesmos. à educação e à habitação estão a ser reduzidos. bibliotecas e serviços governamentais é considerada uma condição necessária para se poder ter uma vida activa. Na primavera de 1999.

Pelo menos alguns destes indivíduos estiveram internados durante muito tempo antes dos anos 60. No Unsafe Streets (“Ruas Inseguras”) (1999). A pesquisa tem indicado que aqueles que são mais propensos a tornar-se sem-abrigo são pessoas da classe trabalhadora baixa sem quaisquer qualificações profissionais específicas e rendimentos muito baixos. a vontade do governo de poupar dinheiro – o custo do internamento de pessoas em hospitais psiquiátricos. A imagem que emerge é a de pessoas sem-abrigo vítimas de elevados níveis de violência nas ruas. São pessoas que acabaram por se encontrar nas ruas devido a problemas pessoais. foram empurradas para o abismo. mas que são também excluídas dos sistemas de protecção legal e policial que poderiam possivelmente oferecer alguma assistência. tal como ir para o trabalho. Tornar-se sem-abrigo raramente é o resultado de uma sequência directa de causa-efeito. 8. Frequentemente. com horários reduzidos ao fim de semana e feriados. Toda e qualquer pessoa que pudesse ser tratada em consulta externa. deveria sê-lo. O desemprego de longa duração é um bom indicador. Quem são os sem-abrigo da Grã-Bretanha? A categoria é. 2. conversar com os amigos ou mesmo receber cartas pelo correio. heterogénea. Quase metade dos mesmos foram assaltados. de que a hospitalização de longa duração muitas vezes fazia mais mal do que bem. Dormir ao ar livre é algo de perigoso. as pessoas que não têm acesso ao seu próprio transporte estão dependentes dos transportes públicos e em áreas rurais tais serviços tendem a ser limitados. o IPPR revelou que quatro em cinco dos que dormem ao ar livre foram vítimas de crime pelo menos uma vez. tornando-se sem-abrigo devido a factores para fora do seu controlo. manter uma conta bancária. de facto.121 ser trazidos para casa após as festas. A grande maioria nunca desejou tal sorte. Algumas aldeias. e nenhum horário à noite. muitas vezes mais do que um em simultâneo. Todavia. a crença.2. Este processo de desinstitucionalização foi desencadeado por vários factores. grande parte dos sem-abrigo não são ex-doentes mentais. Contudo. 1. porém apenas 1/5 opta por reportar o crime à polícia. por parte dos líderes da profissão psiquiátrica. Os sem-abrigo A falta de lugar de residência permanente é uma das formas mais extremas de exclusão social. Cerca de um quarto são pessoas que passaram por hospitais psiquiátricos. As pessoas sem residência permanente podem ser excluídas de muitas das actividades diárias que os outros têm como garantidas. altura em que as pessoas com doenças mentais crónicas começaram a ser libertados destas instituições em resultado de mudanças na política de saúde. podem ser servidas por autocarro apenas algumas vezes por dia. por exemplo.3. é elevado. . tal como em outros hospitais. nem alcoólicos ou consumidores regulares de drogas ilegais. As quebras de relações amorosas e familiares parecem ser também influências-chave. foram tomadas poucas acções concretas para assegurar um acompanhamento adequado aos doentes a quem tinha sido dada alta médica.

a socialização e educação das crianças é enfraquecida. formação para o trabalho e esquemas de favorecimento. . ansiedade e ausência de casa. da violência e de abusos.3. grupos de caridade como o Exército da Salvação assumem uma abordagem diferente: enquanto existirem pessoas a viver nas ruas. Enquanto enfrentam o sedutor engodo do mercado e dos bens de consumo. quer as casas sejam directamente financiadas pelo governo ou não. Embora esta não seja a solução final. e entretanto. Os defensores dos semabrigo concordam que é necessária uma abordagem de longo termo – incluindo aconselhamento. Ao tentar focar a atenção na necessidade de soluções permanentes. O crescimento da exclusão social é sentido em comunidades locais. Porém. salientando que ser sem-abrigo tem apenas a ver em 20% com “tijolos e argamassa”. Currie argumenta que a sociedade americana é um “laboratório natural” que já está a demonstrar o “reverso sinistro” de uma política social orientada pelo mercado: pobreza crescente e incremento do número dos sem-abrigo. A questão é controversa.3. sacos cama e roupa quente aos sem-abrigo nas ruas. Crime e exclusão social As taxas de crime podem estar a reflectir o facto de um número crescente de pessoas não se sentirem valorizadas – ou sentirem que têm um investimento – nas sociedades em que vivem. e em 80% com trabalho social e com o ir mais longe para enfrentar os efeitos da fragmentação da família. que sofrem a perda de meios de subsistência. o aumento no custo do alojamento e o enfraquecimento da coesão social. Por consequência. e da depressão. abuso de drogas e aumento nítido no número de crimes violentos. 1999). serviços de mediação. particularmente entre jovens. Os adultos de muitas famílias pobres são forçados a ter múltiplos trabalhos para sobreviver – uma situação que produz um contínuo stress.122 Embora a constituição dos sem-abrigo como prioridade de topo tenha sido universalmente louvada. muitos grupos de voluntariado estão relutantes em suspender as suas medidas de curto prazo como a distribuição de sopa. Elliot Currie é um sociólogo americano que tem investigado as ligações entre a exclusão social e o crime nos EUA. irão continuar a ir em seu auxílio e a prestar tanta assistência quanta lhes for possível. a “Czarina dos semabrigo” Louise Casey salientou que as “pessoas bem intencionadas estão a gastar dinheiro servindo o problema nas ruas e mantendo-o aí” (citado em Gillan. existe pouco consenso sobre o modo como se devem levar as pessoas a sair da rua para um alojamento permanente e a ter uma vida mais estável. a maioria dos sociólogos que estudou o problema concorda que o fornecimento de habitações em condições é um aspecto importante para acabar com os sem-abrigo. 8. da adição a drogas e alcoolismo. O autor sublinha que os jovens estão cada vez mais a crescer entregues a si mesmos sem a orientação ou o apoio que precisam da população adulta. os jovens são também confrontados com a diminuição das oportunidades no mercado de trabalho para angariar os meios de subsistência. Porém. o “empobrecimento social” geral da comunidade significa que existem poucas oportunidades para os pais recorrerem a outras famílias ou parentes para obterem apoio. o impacto de populações transitórias. Outros discordam.

A diferença de opinião entre os modelos de previdência institucional e residual está no centro dos actuais debates em torno da reforma da segurança social.4. De acordo com Currie. Argumentam que o estadoprovidência deve ser mantido e até mesmo expandido de forma que o estado possa limitar a dura polarização dos efeitos do mercado. porque o estadoprovidência precisa de ser bem financiado. Aqueles que adoptam uma visão residualista acreditam que a segurança social deve apenas ser disponibilizada aos membros da sociedade que verdadeiramente precisam de ajuda e que são incapazes de satisfazer as suas próprias necessidades de previdência. Os sistemas de previdência assentes em benefícios universais são desenhados para assegurar a todos os cidadãos a satisfação das necessidades básicas de previdência de modo contínuo. Em sistemas de previdência que fornecem benefícios universais. Os serviços da segurança social têm de ser financiados através de impostos. Consideram o estado-providência como dispendioso. A avaliação dos meios é feita muitas vezes com base no rendimento. O objectivo da previdência é contrariar os efeitos negativos do mercado em pessoas que. 8. 1998a). Clamam que é uma responsabilidade de qualquer estado civilizado cuidar dos seus cidadãos e protegê-los. perda de emprego e envelhecimento. . uma das dimensões mais problemáticas desta conexão entre exclusão social e crime é que os canais legítimos de mudança são ultrapassados em favor de canais ilegais. como o sistema político ou a organização da comunidade (Currie. A avaliação dos meios refere-se ao processo pelo qual os candidatos à segurança social são tidos como elegíveis ou não elegíveis para um dado serviço. por uma variedade de razões. Os apoiantes da visão institucional da previdência social argumentam que o acesso aos serviços de segurança social deve ser proporcionado a todas as pessoas como um direito.123 Finalmente. O crime é favorecido em detrimento de meios alternativos. ineficaz e demasiado burocrático e pedem que o mesmo seja reduzido. lutam por satisfazer as suas necessidades básicas. Alguns acham que os níveis de impostos deveriam ser altos. É uma forma de gerir os riscos enfrentados pelas pessoas no decurso das suas vidas: doença. a previdência quando necessária é um direito que deve ser usufruído igualmente por todos. incapacidade. os padrões de estatuto económico e de consumo que são promovidos na sociedade não podem ser satisfeitos por meios legítimos pela população socialmente excluída. Por exemplo. estados em que o governo desempenha um papel central na redução de desigualdades entre a população através da provisão ou subsídio de certos bens e serviços. independentemente do nível de rendimento ou do estatuto económico. O sistema sueco tem uma maior proporção de subsídios universais que o britânico. Defensores da abordagem do estado-providência como “rede de segurança” salientam que apenas os mais necessitados – como demonstrado através da avaliação de meios – devem ser receptores de benefícios da segurança social. A segurança social e a reforma do estado-providência Muitos países industrializados e em vias de industrialização no mundo de hoje são estados-providência – isto é. mesmo que isto signifique uma grande carga fiscal. o qual depende mais de subsídios concedidos com base na avaliação dos meios dos indivíduos. o subsídio de habitação pode ser oferecido apenas a pessoas com rendimentos baixos.

Esping-Andersen avaliou o nível de segurança social não comercializável – designação que significa simplesmente o grau de independência do mercado dos serviços da previdência social. Porém. 8.1.2. de acordo com Marshall. e a participar no processo político. o futuro do estado-providência está sob intensa avaliação. cuidados de saúde. Marshall via na segurança social um resultado do desenvolvimento progressivo dos direitos de cidadania a par do crescimento das sociedades industrializadas. embora os trabalhos de Marshall sobre direitos de cidadania permaneçam relevantes para as discussões contemporâneas são de utilidade limitada. 8.4. Os críticos têm salientado que Marshall focou exclusivamente a Grã-Bretanha no desenvolvimento da sua perspectiva acerca dos direitos de cidadania. A visão de Marshall tem sido influente nos debates sociológicos acerca da natureza da cidadania e das questões de inclusão e exclusão social. Num sistema de ausência elevada de comercialização.4. O direito dos cidadãos à segurança social e económica através da educação. foi a época de aquisição dos direitos civis. estas ideias estão a gozar de popularidade nas discussões actuais sobre o modo como se deve promover a “cidadania activa”. Marshall: direitos de cidadania Escrevendo nos anos 60. Os escritos de T.1. H. obtiveram-se direitos políticos: o direito ao voto. Esping-Andersen: os três mundos da segurança social O livro The Three Worlds of Welfare Capitalism (1990) do escritor Gosta Esping-Andersen é um contributo posterior para as teorias do estado-providência. No século XIX. a previdência é fornecida publicamente e não está . alojamento. As teorias do estado-providência Porque é que se desenvolveram estados-providência na maioria dos países industrializados? A face da segurança social é diferente de país para país. Ao criar uma tipologia tripartida de “regimes de previdência”. Têm sido avançadas muitas teorias para explicar a evolução do estadoprovidência.124 Em todos os países industrializados. O século XVIII. porém no seu conjunto as sociedades industrializadas devotaram uma grande parte dos seus recursos para responder a necessidades públicas. não é claro que a evolução da segurança social tenha ocorrido da mesma forma noutras sociedades. pensões e outros serviços foi consagrado no estado-providência. Os conceitos de direitos e responsabilidades estão intimamente relacionados com a noção de cidadania. o direito a assumir cargos políticos. 8. Marshall e Gosta Esping-Andersen foram talvez os contributos mais influentes para as teorias do estadoprovidência. O terceiro conjunto de direitos – os direitos sociais – foi obtido apenas no século XX.4.1.1.

o âmbito da segurança social foi alargado para incluir todos os membros da sociedade. Em sistemas comerciais. os serviços de previdência podem estar em grau elevado fora do mercado. Conservador-corporatista – Em estados conservadorescorporatistas. a principal fonte de previdência era uma vaga rede de casas de beneficência privadas. A guerra tinha sido uma experiência intensa e traumática para toda a nação – ricos e pobres. Liberal – Os EUA são um exemplo de um regime de previdência liberal. os serviços de segurança social são tratados mais como mercadorias – isto é. muitas vezes considerado o plano-modelo do estado-providência moderno. as suas raízes recuam à época da Rainha Isabel I. Há benefícios disponíveis para os muitos necessitados com base na avaliação dos seus meios. Para manter a ordem social e reduzir as desigualdades acarretadas pelo capitalismo. são vendidos no mercado como qualquer outro bem ou serviço. 8. como a França e a Alemanha.2. mas estes tornam-se altamente estigmatizados. famílias fortes e lealdade ao estado. no seguimento da II Guerra Mundial. mas as reformas da segurança social desde 1970 têm vindo a aproximá-la mais de um modelo liberal de previdência com níveis elevados de comercialização. A segurança social está altamente comercializada e é vendida no mercado.125 de forma alguma ligada ao rendimento ou aos recursos económicos da pessoa. O Reino Unido. É possível dizer que o actual estado-providência data desta época. mas para manter a estabilidade social. Este tipo de regime de segurança social pode não estar dirigido para a eliminação de desigualdades. muitas das quais ligadas à igreja. Em vez de se concentrar somente nos destituídos e doentes. Esta mudança de uma visão restrita para uma visão universalista da previdência tinha sido sintetizada no Relatório Beveridge de 1942. A emergência do estado-providência britânico O estado-providência como actualmente o conhecemos foi criado em meados do século XX. As Leis dos Pobres foram a primeira tentativa do governo para impor alguma ordem na provisão de ajuda e assistência aos pobres e doentes. Tipos de sistemas de previdência: Social-democrata – Os regimes de previdência sociaisdemocratas estão em grau elevado fora da esfera do mercado. A legislação que estabeleceu a administração nacional da educação e saúde pública em finais do século XIX foi uma percursora dos programas mais extensivos que viriam a existir alguns 60 anos depois. foi necessário oferecer assistência aos membros da sociedade que se encontraram na periferia da economia de mercado. A maioria dos estados escandinavos são exemplo de regimes de previdência sociais-democratas. porém. anteriormente estava mais perto de um modelo social-democrata.4. Os serviços de segurança social são subsidiados pelo estado e disponibilizados a todos os cidadãos (benefícios universais). A . Nesse tempo. mas não são necessariamente universais.

Os legisladores enfatizaram o impacto potencialmente esmagador da “bomba temporal demográfica” sobre o sistema de segurança social: o número de pessoas dependentes dos serviços de segurança estava a crescer com o envelhecimento da população. São três as premissas sobre as quais assenta o estado-providência. 8. O desemprego. O “retrocesso” conservador Várias críticas principais estiveram no centro das tentativas para reduzir a previdência. 3.3. Para o estado-providência trabalho era o mesmo que trabalho pago e a crença na possibilidade de pleno emprego estava enraizada. a segurança social foi considerada como uma espécie de seguro que podia ser empregue contra os problemas potenciais de um futuro imprevisível. A segurança social era uma forma de fortalecer a conexão entre o estado e a população.3. 2. Estes princípios estiveram subjacentes à enorme expansão do estadoprovidência nas três décadas que se seguiram à guerra. Apenas aqueles que eram incapazes de pagar a sua própria previdência receberiam assistência do estado. Nos anos 90 tanto a esquerda como a direita reconheceram que as condições sob as quais o estado-providência fora formado tinham mudado. O estado-providência era concebido como um instrumento da promoção da solidariedade nacional. O estado-providência estava implicado na gestão dos riscos que ocorriam como parte natural do curso da vida. O objectivo derradeiro era construir uma sociedade em que o trabalho pago desempenhasse um papel central para a maioria das pessoas. a doença e outros infortúnios na vida social e económica do país podiam ser geridos através do estadoprovidência. Uma segunda linha de críticas estava relacionada com a noção de dependência da segurança social. tornando a visão de Beveridge um modelo desactualizado e a necessitar de uma reforma significativa. o debate acerca da dependência da segurança social esteve ligado a críticas ao “estado-ama”. Os programas de previdência eram desenhados em torno do modelo tradicional de família. com uma segunda fileira de serviços destinados às famílias em que o ganhapão masculino estava ausente. A reforma do estado-providência 8. 1. um título que sugere que o estado respeitosamente (mas desnecessariamente) tomava conta de todas as necessidades dos cidadãos.4. Serviços anteriormente fornecidos pelo estado a taxas elevadamente subsidiadas foram privatizados ou tornaram-se sujeitos a avaliações de meios mais apertadas. porém o número de jovens em idade de trabalho a descontar para o sistema estava a declinar. Neste sentido. Na Grã-Bretanha. mas onde a previdência poderia tratar das necessidades dos que estavam fora da economia de mercado devido ao infortúnio do desemprego ou à incapacidade.4. Um exemplo disto pode ser encontrado na privatização das habitações camarárias .126 Lei Nacional de Assistência de 1948 forneceu apoio com base na avaliação de meios para aqueles que não estavam cobertos pela Lei Nacional de Segurança.1.

Embora não negue o grande crescimento de desigualdades como resultado da reforma da segurança social nos anos 80. mas rejeita a noção de que está “em crise”. como a política de habitação e subsídio de desemprego foram.127 nos anos 80. 8. uma grande maioria da população continua a depender .4. Argumenta que os gastos sociais foram mantidos razoavelmente constantes e os componentes-chave do estado-providência permaneceram no lugar. salienta que no conjunto a política social não foi reformada como o foram as relações industriais ou as políticas reguladoras. Isto porque o financiamento para uma instituição seria baseado no número de estudantes e de pacientes que escolhia utilizar os seus serviços.2. em última instância. O “retrocesso” conservador da previdência incluiu também apoio à desinstitucionalização. preparando o terreno para uma venda em larga escala do stock de habitação camarário. Este movimento no sentido do residualismo na provisão de alojamento foi particularmente prejudicial para os que estavam posicionados logo acima do limite que permitia aceder ao subsídio de habitação. Pierson vê o estado-providência como estando debaixo de severa tensão. embora o processo também tenha tido implicações significativas para os membros das comunidades e famílias a quem foi dada a responsabilidade pelo seu cuidado. As instituições que fornecessem serviços abaixo do padrão seriam obrigadas a melhorar ou forçadas a encerrar. Em vez de fornecer serviços directamente através de grandes burocracias. aqueles em que os grupos de interesse foram impedidos. mas dificilmente aguentavam arrendar acomodações ao preço de mercado. Na GrãBretanha. em geral. com sucesso. emergiu um novo tipo de actividade política: foram feitas tentativas para minimizar a oposição compensando os grupos “perdedores” ou trabalhando para prevenir a formação de alianças entre grupos de interesse. superiores ao que qualquer governo poderia superar. as decisões acerca da diminuição da previdência foram guiadas principalmente pelo medo do alarido e da reacção fortemente negativa por parte do público. Como resultado. Os programas sociais em que a redução realmente teve lugar.3. De acordo com Pierson. tal como um negócio. de se mobilizar. Os deficientes e mentalmente doentes estavam entre os grupos mais directamente afectados pela desinstitucionalização. Os políticos descobriram que o retrocesso do estado-providência estava longe de ser a imagem oposta da sua expansão. Avaliando o “retrocesso” conservador Christopher Pierson argumenta que os obstáculos ao retrocesso da previdência foram. o processo pelo qual indivíduos ao cuidado do estado (em instituições) foram devolvidos às suas famílias e comunidades. na medida em que já não podiam ter acesso ao alojamento público. o estado canalizou cada vez mais fundos para a segurança social através de grupos particulares. A Lei da Habitação de 1980 permitiu que as rendas das casas camarárias fossem aumentadas significativamente. argumentando que a qualidade e eficiência seriam muito aumentadas.

o New Labour argumentou que são necessárias novas políticas de previdência para lidar com a pobreza e a desigualdade. A ajuda é concedida de forma mais directa. e é aumentada a participação local na tomada de decisão.128 de serviços públicos de educação e de saúde. embora haja um consenso geral de que a mudança é necessária. Argumentando que as velhas soluções para a pobreza e a desigualdade já não eram aplicáveis. A ideia subjacente a esta abordagem é a de que o mercado não se limita a criar desigualdades. Uma das principais dificuldades que o sistema de previdência enfrenta reside no facto de as condições em que foi criado terem mudado significativamente. podem ser introduzidos esquemas inovadores de pequena escala. Entre as reformas mais significativas introduzidas pelo governo do New Labour estão os programas de incentivo ao trabalho cuja intenção é mover os receptores de assistência pública para trabalhos remunerados. O papel do governo reside em ajudar as pessoas a obter emprego e um rendimento estável. porque muitas pessoas estão fora dos . A abordagem trabalhista não está isenta de críticas. mas que também pode ser parte da redução das mesmas. criando dependências. e não simplesmente a dar-lhes assistência quando estão fora do mercado de trabalho. O emprego tornou-se um dos pilares da política social trabalhista e tem sido prestada grande atenção ao papel dos mercados de trabalho dinâmicos na reforma da previdência. a pais/mães sós é concedido um subsídio para ajudar nos custos com a educação dos filhos e a desempregados de longa duração são oferecidas lições sobre como se apresentar aos empregadores durante as entrevistas de selecção. bem como para melhorar a saúde e a educação. Argumentam que a pobreza e a privação não estão concentradas apenas nas áreas designadas. Os cépticos referem que as iniciativas localizadas não podem substituir uma estratégia de âmbito nacional de erradicação da pobreza.3. Colocar as pessoas a trabalhar e fazer chegar rendimento aos agregados familiares é um dos principais passos que podem ser tomados para reduzir a pobreza. Aos jovens com menos de 25 anos é oferecida formação e oportunidades de emprego em vez do apoio financeiro do estado. Prioridades recentes na reforma da segurança social Concordando em alguns aspectos com as críticas conservadoras à previdência (e cortando com as políticas tradicionais de esquerda). o New Labour avançou com a ideia de um contrato de previdência entre o estado e os cidadãos baseado nos direitos e responsabilidades de ambos. O estado-providência é ele próprio muitas vezes parte do problema. oferecendo um “subsídio” em vez de “ajuda”. enquanto que nos EUA os serviços de previdência são mais residuais. mas que os programas são concebidos como se todos os pobres vivessem juntos.4. O debate acerca da reforma da segurança social não diminuiu. 8.3. Tais programas promovem uma forma mais activa de previdência na qual os cidadãos são totalmente envolvidos na construção de vidas melhores para si em colaboração com o estado.

. sociais e culturais do que em gerações anteriores e estão a ser feitos significativos avanços legais e sociais entre as minorias. À medida que começamos a responder a estes novos desafios. os políticos de esquerda pretendiam erradicar a desigualdade redistribuindo a riqueza dos ricos pelos necessitados. A poluição. fomentando redes de interdependência e a maximização das capacidades das pessoas para se auto-ajudarem. sociais e fiscais. incluindo as democracias liberais que estão abertamente comprometidas com a ideia de igualdade como parte integral da cidadania. São ameaças pelas quais todos somos responsáveis e que exigem mudanças nos estilos de vida de todos de forma a serem geríveis. 8. No passado. As mulheres estão em condições muito mais iguais em termos económicos. o papel do estado e dos serviços de segurança social estão necessariamente em revisão. Os direitos e responsabilidades estão a assumir uma nova importância – não apenas para aqueles que estão na base da sociedade a tentar sair dos braços da segurança social para os do mercado de trabalho – mas para aqueles que estão no topo cuja riqueza não lhes dá direito a fugir de deveres cívicos. Conclusão: repensar a igualdade e a desigualdade A desigualdade económica é uma característica persistente em todos os sistemas sociais. A política social está preocupada com a promoção da coesão social. O estado-providência e os elevados níveis de impostos foram duas formas pelas quais tal foi tentado. a destruição do ambiente e o crescimento acelerado das zonas urbanas são problemas que nós próprios construímos. O conceito de igualdade está a ser revisto de forma mais dinâmica. enfatizando a igualdade de oportunidades e a importância do pluralismo e da diversidade de estilos de vida.5. Os nossos entendimentos da desigualdade estão também a começar a mudar. Estão cada vez mais a ser avançadas novas visões da igualdade divergentes das anteriores agendas de política social da “esquerda” e da “direita”. Embora as desigualdades económicas persistam.129 limites das ditas zonas em que houve um fortalecimento das capacidades do poder local. a nossa sociedade está a tornar-se mais igualitária de outras formas.

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Londres era. crescem sedes de multinacionais. A Grã-Bretanha. De quem são as cidades? Com a disseminação da globalização. As casas mais próximas são vendidas acima do milhão de dólares. a maior cidade que alguma vez havia existido no mundo. cafés. comercial e financeiro no coração do império britânico. foi também o primeiro país a passar da ruralidade para um estado predominantemente urbano. Características do Urbanismo Moderno Todas as sociedades industriais modernas são fortemente urbanizadas. no mesmo passeio e ao mesmo tempo’ (Duneier. a ‘cidade das cidades’. O termo teve origem na Grécia Antiga para designar a cidade-estado planeada para ser a inveja de todas as civilizações. Greenwich Village é. uma conurbação com cerca de 450 milhas desde o norte de Boston ao sul de Washington D. mas o seu uso corrente tem pouca relação com esse sonho. Foi usado pela primeira vez nos tempos modernos para designar a faixa marítima do nordeste dos Estados Unidos. sobre os bairros empobrecidos. . As cidades mais povoadas dos países industrializados chegam a atingir os vinte e cinco milhões de habitantes e as conurbações urbanas – conjuntos de cidades formando vastas áreas construídas – podem ter muitos mais. artistas e escritores. No início do século XX. 9. então ainda em expansão. O passeio de Greenwich Village é um microcosmo dos fortes contrastes e desigualdades que caracterizam as grandes cidades do mundo. desde há muito. 1999). um enorme centro industrial.1. AS CIDADES E OS ESPAÇOS URBANOS As áreas residenciais que circundam Greenwich Village no coração de Nova Iorque atingem alguns dos valores mais elevados em todos os Estados Unidos. incluindo lojas de livros em segunda mão. de longe. A forma mais extrema da estrutura urbana actual é representada pelo que se designou como megalópolis. a primeira sociedade a conhecer a industrialização. esta população de ‘utilizadores das cidades’ continuará a crescer na periferia do crescimento económico cujas reivindicações à cidade são também legítimas. As ruas do bairro agitam-se e murmuram com uma actividade que está longe da afluência acima descrita. enquanto os condomínios mais pequenos podem atingir o dobro daquele valor. os super-ricos e os que não têm direitos civis são ‘utilizadores’ das mesmas cidades. aos doutorados e aos que não têm escolarização. Neste capítulo investigaremos o processo de urbanização que esteve na origem – e continua a moldar – das cidades modernas. os pobres e os desfavorecidos são uma presença crescente nos centros urbanos do mundo. É um bairro conhecido pela riqueza das suas ofertas culturais. o ‘bairro boémio’ de Nova Iorque – o lar de gerações de intelectuais. O rendimento médio dos agregados familiares na região é superior a 65.000 dólares por ano. Segundo o sociólogo Mitchell Duneier. mas muitas vezes menos bem vindas.131 9. A justaposição de vidas e meios de vida é crescentemente visível nas cidades em todo o mundo. Nestas cidades globais. A globalização e a disseminação da tecnologia de informação estão a intensificar os processos de urbanização arrastando grande número de pessoas para as cidades e aí concentrando a economia. é um bairro que ‘se oferece aos ricos e aos sem-abrigo.C. mas as suas realidades quotidianas não poderiam ser mais diferentes. Os imigrantes. galerias de arte e teatros.

bem como da migração de pessoas das zonas rurais. A urbanização no século XX é um processo global. O desenvolvimento das cidades modernas A expansão das cidades é uma consequência do aumento da população.000 Percentagem 50 40 30 2. Não constituiu surpresa o facto de os primeiros estudos sociológicos de relevo e das teorias sobre as condições urbanas modernas terem surgido em Chicago. de acordo com estimativas das Nações Unidas.000 3. Urbanização das regiões do mundo por graus de desenvolvimento. que viu a sua população crescer para mais de 2 milhões de habitantes em 1900. riqueza.500 3.000 1.500 20 10 1. 1975-1995 e projecções para 2015.1. aldeias e vilas. mas a migração nacional para as cidades também se estendeu entre países da própria Europa. para o qual os países em desenvolvimento são cada vez mais arrastados. A imigração de grande número de europeus provenientes de zonas rurais pobres para os Estados Unidos é o exemplo mais óbvio. prevê-se que este número seja de 50 por cento no ano 2000 e de 63 por cento em 2025. Os camponeses e aldeãos mudaram-se para as cidades (tal como hoje acontece de forma maciça nos países em desenvolvimento) devido à falta de oportunidades nas zonas rurais e às vantagens e atractivos aparentes das cidades.1. os Estados Unidos eram uma sociedade mais rural do que os principais países europeus da época. 9. 1975 2015 .132 Em 1800.500 Milhões 2. onde as ruas eram ‘pavimentadas a ouro’ (empregos.000 500 0 0 1995 2015 1995 2015 1995 2015 1995 2015 1995 2015 1995 2015 1995 2015 1995 1975 1975 1975 1975 1975 1975 1975 Mundo Regiões mais desenvolvidas Regiões pouco desenvolvidas Regiões menos desenvolvidas As populações urbanas estão a crescer a um ritmo muito mais rápido do que a totalidade da população mundial: 39 por cento da população mundial vivia em zonas urbanas em 1975. um leque amplo de bens e serviços). A extensão da pobreza urbana e as grandes diferenças entre os bairros da cidade foram dos principais factores que estiveram na origem dos primeiros estudos sociológicos sobre a vida urbana. uma cidade marcada por um extraordinário grau de desenvolvimento e por desigualdades muito pronunciadas. 80 70 60 4. quando era quase desabitada até aos anos 30 do século XIX.

133 9. por exemplo. A Escola de Chicago acreditava que a implantação dos principais sítios urbanos e a distribuição de diferentes tipos de bairros nos mesmos podiam ser entendidos segundo princípios semelhantes. que se .1. que misturam a prosperidade das grandes empresas com a decadência dos edifícios de habitação. a caracterização do urbanismo como um modo de vida. A escola de Chicago Alguns escritores ligados à Universidade de Chicago. onde levam uma existência precária.2. Teorias do urbanismo 9. insectos e outros organismos se faz de forma a alcançar um equilíbrio estável entre eles. Em vez de concentrar a sua atenção na competição por recursos escassos. que foram estimulados pelo pensamento ecológico. Embora durante algum tempo a abordagem da ecologia urbana tenha caído em desgraça. entre os anos 1920 e 1940. No interior ficam as áreas centrais. Podemos encarar as cidades como sendo formadas por círculos concêntricos. Ernest Burgess e Louis Wirth. 1. Os equipamentos urbanos desenvolvem-se e os locais de trabalho tornam-se mais atractivos. vemos que a competição entre as várias espécies de peixes. 9. divididos em segmentos.2. 1950. sendo a hora de ponta um bom exemplo disso. 1938). a chamada abordagem ecológica à análise urbana. É este o sentido em que a ‘ecologia’ é utilizada no contexto de problemas de ambiente em geral. Uma cidade pode ser representada como um mapa de áreas com características sociais distintas e que contrastam entre si. Merecem atenção especial dois conceitos desenvolvidos pela ‘Escola de Chicago’. Se repararmos na ecologia de um lago no seu estado natural. Hawley salienta a interdependência das diferentes áreas da cidade. havendo uma maior competição pela sua aquisição. Este equilíbrio é perturbado quando há uma ‘invasão’ de novas espécies. em especial por Amos Hawley (Hawley. O predomínio das actividades económicas. 1952. A diferenciação – a especialização dos grupos e dos papéis ocupacionais – é a forma principal pela qual os seres humanos se adaptam ao seu meio ambiente. exprime-se não só nos padrões de utilização do solo. 2.1. Alguns dos organismos que costumavam proliferar na área central do lago são afastados para as margens. é o estudo da adaptação de organismos vegetais e animais ao seu meio-ambiente. Wirth. desenvolvido por Wirth (Park. 1968). Houve muitos estudos globais sobre cidades e bairros específicos. como no ritmo das actividades quotidianas.2. A Ecologia Urbana Ecologia é um termo oriundo da Física. em especial Robert Park. foi mais tarde retomada e desenvolvida por vários autores. tal como o tinham feito os seus antecessores. que tentam fazer do lago o seu lar. desenvolveram ideias que foram durante muitos anos a principal base da teoria e da pesquisa em Sociologia Urbana.1.

além de só se revelarem adequados a alguns tipos de cidades americanas. pois a maioria conhece-se numa base pessoal. A maior parte dos contactos entre os habitantes da cidade são passageiros e parciais. as relações pessoais são relativamente fracas. Os contactos com os empregados de balcão das lojas. em muitos aspectos. Nas áreas de imigrantes. pessoas e actividades diversas (Wirth. Como foi mencionado.134 preocupava. que valem não por si. podem-lhe ser feitas várias críticas com toda a justiça.2. porque reconhece que o urbanismo não é apenas parte da sociedade. até certo ponto. encontram-se formas de relacionamento tradicional entre as famílias. as cidades antigas eram. O urbanismo como um modo de vida A tese de Wirth sobre o urbanismo como modo de vida preocupase menos com a diferenciação interna das cidades do que com o urbanismo como forma de existência social. caixas de banco. p. 342). e constituem maios para se atingirem objectivos. mas pelo fim que têm em vista.1. Burgess e os seus colegas foram retirados da experiência americana. bastante diferentes das cidades das sociedades modernas. como constitui o centro de fomento e de controlo da vida económica. política e cultural que levou as comunidades mais remotas do mundo para a sua órbita e transformou num cosmos lugares. 1938. Wirth observa: A influência que as cidades exercem sobre a vida social humana é maior do que o rácio da população urbana indica. a teoria de Wirth baseia-se principalmente em observações feitas em cidades americanas. O urbanismo não é a mesma coisa em todos os tempos e lugares. por exemplo. As pessoas estão envolvidas em actividades e situações diferentes todos os dias – o ‘ritmo de vida’ é mais acelerado do que nas áreas rurais. quanto mais essas áreas são absorvidas pelos padrões da vida citadina. com os processos de ‘invasão’ e de ‘sucessão’ acima mencionados. pois a cidade é não só o local de habitação e de trabalho do homem moderno. por exemplo. . A teoria de Wirth é importante. A vida da maioria das pessoas nas cidades antigas não era muito mais anónima ou impessoal do que a das que vivem em comunidades rurais. No entanto. em vez de serem intrinsecamente gratificantes. O carácter impessoal de muitos contactos diários nas cidades modernas é inegável – e. Não obstante.2. Dado a população das áreas urbanas tender a ter grande mobilidade. 9. são desadequados em relação às cidades da Europa. Os modelos de organização espacial elaborados por Park. por exemplo. Tal como a perspectiva ecológica. mas exprime e influencia a natureza do sistema social mais global. o mesmo acontece com a vida social em geral nas sociedades modernas. mais desapareceram estas características. do Japão ou do Terceiro Mundo. Os aspectos do modo de vida urbano são característicos da vida social das sociedades modernas no seu conjunto e não só das actividades dos habitantes das grandes cidades. com a qual tem muito em comum. viajantes ou revisores dos transportes são encontros passageiros. mas que são generalizadas ao urbanismo em toda a parte.

Os grupos. mas à luz de contribuições posteriores percebe-se que é excessivamente generalizador. é uma das características do meio ambiente criado que a expansão do capitalismo industrial produziu. os bairros que envolvem laços de parentesco próximo e laços pessoais parecem ser criados muitas vezes pela vida na cidade. 1973. Tal como Edward Krupat comentou: Não obstante. 1982. 1983). David Harvey e Manuel Castells. a verdade é que. A agricultura mecaniza-se e é dirigida simplesmente de acordo com considerações de preço e de lucro. Estas áreas de ‘etnia branca’ estão provavelmente a tornar-se menos significativas nas cidades americanas do que antigamente. são atraídos para áreas onde vivem outras pessoas com origens linguísticas e culturais semelhantes. devido à diversidade dos estranhos – cada um é um amigo potencial – e à variedade dos estilos de vida e interesses na cidade. mas são também fonte de diversidade e. como aqueles a quem Herbert Gans chama ‘aldeãos urbanos’. de intimidade. Aqueles que formam comunidades étnicas nas cidades.2. O urbanismo e o ambiente criado As teorias do urbanismo mais recentes salientam que o urbanismo não é um processo autónomo e que deve ser analisado em conjunto com os principais padrões da mudança política e económica.2. sente que a simpatia dos habitantes é apenas uma forma de gentileza pública – e que pode levar anos a ser-se ‘aceite’. Castells. Claude Fisher formulou uma interpretação para explicar porque é que o urbanismo em larga escala tem tendência para promover subculturas diversas. Pode ser difícil ‘conhecer pessoas’ para alguém que acabe de chegar a uma grande cidade. estabelecida. mas estão a ser substituídas por comunidades de novos imigrantes que se estabelecem no centro das cidades. Não são apenas vestígios de um modo de vida anterior que sobreviveu durante algum tempo na cidade. Mas quem quer que vá viver para uma comunidade rural pequena. as pessoas conseguem penetrar no grupo. Os seus ‘aldeãos urbanos’ são os americanos de origem italiana que vivem num bairro no centro de Boston. Harvey: A reestruturação do espaço O Urbanismo. no entanto. em vez de aglutinar toda a gente numa massa anónima. Uma grande cidade é um ‘mundo de estranhos’. 1985. Mais importante ainda. mas. As ideias de Wirth ainda mantém uma certa validade. são comuns nas cidades modernas (Gans. 1962).2. a cidade e o campo eram claramente diferenciados. realça Harvey.1. apoia e origina relações pessoais. Nas sociedades tradicionais.135 As comunidades onde existem laços de amizade ou de parentesco são mais correntes nas colectividades urbanas modernas do que supôs. . 9. foram fortemente influenciados por Marx (Harvey. por vezes. As cidades modernas implicam frequentemente relações sociais impessoais e anónimas. 1977. 9. e assim se formam novas estruturas subcomunitárias. Os dois principais autores sobre a análise urbana na actualidade.2. quando chegam.

deu-se uma enorme expansão dos subúrbios nas principais cidades dos Estados Unidos. bem como pela concessão de créditos especiais por parte das organizações financeiras. o espaço é permanentemente reestruturado. quando se altera o clima financeiro. por exemplo. ou que a empresa muda de um produto para outro. Castells vê a cidade não só como uma localização distinta – a área urbana –. No urbanismo moderno. os escritórios e as fábricas são encerrados num dado local e abertos noutro. quando estão em jogo lucros consideráveis. a procura de produtos industriais como. serviços de transportes e complexos . mas como parte integral de processos de consumo colectivo.2. Os arranha-céus. Castells salienta que a forma espacial de uma sociedade está intimamente relacionada com os mecanismos gerais do seu desenvolvimento. Desde a década de 60. Muitas o que é lucrativo num certo período não o é noutro. pelo controlo dos governos sobre os terrenos e a produção industrial. podem ser construídos com objectivos lucrativos. Contudo. os automóveis. temos de perceber os processos através dos quais as formas espaciais são criadas e transformadas. por exemplo. À medida que a produção se torna mais barata numa dada área do que noutra. bem como pelos juros dos empréstimos e pelos impostos estipulados pelos governos centrais e locais. mas os edifícios gigantescos também ‘simbolizam a força do dinheiro na cidade por meio da tecnologia e da autoconfiança e são as catedrais do período de desenvolvimento do capitalismo empresarial’ (Castells. argumenta Harvey. pode existir uma grande actividade de construção de edifícios de escritórios no centro das grandes cidades. As casas. Por contraste com os sociólogos da Escola de Chicago. salienta Harvey. 9. O processo é determinado pelo local onde as grandes empresas decidem construir as suas fábricas. a uma dada altura. 103). o qual é por sua vez. por exemplo.2. uma dimensão inerente ao capitalismo industrial. isto só foi possível porque o Governo decidiu conceder benefícios fiscais aos compradores de casas e às empresas de construção.2. Para entender as cidades. Nesse sentido. e este processo reduz as diferenças nos modos de vida social das populações urbanas e rurais. e pelas actividades dos investidores privados que compram e vendem casas e propriedades. o crescimento e a prosperidade das cidades do sul da Grã-Bretanha estão directamente relacionados com o declínio das velhas indústrias no norte e a subsequente transferência do investimento para novas oportunidades industriais. Castells: urbanismo e movimentos sociais Tal como Harvey. As actividades dos compradores particulares de habitações são fortemente influenciáveis pelos investimentos comerciais. Após a segunda guerra mundial. centros de investigação e desenvolvimento e outros. escolas. p. 1983. simultaneamente. Estas medidas foram a base da construção e compra de edifícios para a habitação nas periferias das cidades e promoveram.136 tal como a actividade industrial.

De certa forma. O aspecto físico das cidades é. 9. que se estendem nacional e internacionalmente. exactamente como quaisquer outros produtos nas sociedades modernas. mas para mercados nacionais e internacionais e na agricultura mecanizada a terra é rigorosamente subdividida. as ideias de Harvey e Castells são frequentemente apresentadas de forma bastante abstracta. estes factores económicos de longo alcance são ‘filtrados’ pela acção das organizações locais. e são determinados. dos bancos e dos organismos governamentais. mas os mercados que estruturam o ambiente das cidades são influenciados pela forma como os diferentes grupos de pessoas desejam utilizar as propriedades que compram e vendem. Castells e Harvey enfatizam o facto de as cidades serem. Os locais – terrenos e edifícios – são comprados e vendidos. em conjunto com as actividades dos compradores particulares de casas. Para Logan e Molocht. Avaliação As visões de Harvey e Castells têm sido profusamente debatidas e o seu trabalho foi importante para a reorientação da análise urbana.3. construídos pelas próprias pessoas.2. em sua opinião.137 recreativos são formas pelas quais as pessoas ‘consomem’ os produtos da indústria moderna. afectarem a vida urbana de forma bastante directa. na sua quase totalidade. antes do mais. um produto tanto das forças de mercado como do poder do governo. de acordo com padrões físicos que pouco têm a ver com as características naturais do meio ambiente. Os alimentos não são produzidos para os habitantes locais. os contrastes entre as áreas da cidade são mais variáveis do que os membros da Escola de Chicago pensavam. incluindo as actividades económicas do bairro. Aqueles que vivem em propriedades agrícolas e nas zonas rurais mais isoladas estão económica. Não obstante. Surgem muitas tensões e conflitos na sequência deste processo – e estes são os factores principais da reestruturação dos bairros citadinos. Ao contrário da abordagem ecológica. submetida a usos especializados e ordenada. Logan e Molocht estão de acordo com Harvey e Castells quanto ao facto de as características gerais do desenvolvimento económico.2. as grandes empresas financeiras e comerciais nas cidades modernas tentam intensificar . política e culturalmente ligados à sociedade mais ampla. e não estimularam uma tão grande variedade de pesquisas como o trabalho efectuado pela Escola de Chicago. pelas influências sociais e económicas analisadas por Harvey e Castells. ambientes artificiais. os pontos de vista apresentados por Harvey e Castells e pelos sociólogos da Escola de Chicago complementamse com utilidade e podem ser combinados de forma a dar uma imagem global do processo urbano. por muito diferentes que sejam os seus modos de comportamento em relação aos dos habitantes das cidades. mas na forma como a terra e o ambiente criado são um reflexo dos sistemas do poder social e económico. portanto. de acordo com Logan e Molocht. Harvey e Castells não colocaram a ênfase nos processos espaciais ‘naturais’. Mas. Não obstante.

os subúrbios americanos continuam a ser predominantemente brancos. o facto de residências antigas e atraentes serem demolidas para dar lugar a grandes edifícios de escritórios. Grupos locais podem defender o aumento das áreas protegidas. A imposição da integração racial nas escolas pode ser visto como um factor importante na decisão do abandono dos centros das cidades. com as suas vivendas semiseparadas e os jardins bem arranjados cobrindo as zonas limítrofes das cidades inglesas. Quanto mais o podem fazer. trabalhadores da classe média. as zonas centrais das cidades tiveram uma taxa de crescimento de 10 por cento. A mudança para os subúrbios foi uma opção atractiva para as famílias que preferiam que os seus filhos frequentassem escolas só para brancos. na sua maioria. por exemplo. a deslocação da população residencial das áreas centrais da cidade para os subúrbios e cidades-dormitório (aglomerados situados fora dos limites da cidade.138 constantemente o uso da terra em áreas específicas. ‘a suburbanização já não está relacionada com factores de raça. a rápida perda da indústria também afectou os centros das cidades. 9. 9. Tal como as pessoas que iniciaram o êxodo para os subúrbios nos anos 50 são. Contudo. a dominação dos brancos nos subúrbios está a desaparecer à medida que cada vez mais membros das minorias raciais e étnicas deixam o centro das cidades.3. habitados principalmente por pessoas que nela trabalham) ou para as aldeias nos anos 70 e início dos anos 80 significou que a população da grande Londres baixou cerca de meio milhão naquele período. impedir a construção de novos edifícios em zonas verdes ou em parques.1. Estas empresas preocupam-se pouco com os efeitos sociais e físicos das suas actividades num dado bairro – não têm em consideração. A decadência dos centros das cidades A decadência dos centros urbanos que marcou todas as grandes cidades americanas nas últimas décadas é uma consequência directa do crescimento dos subúrbios.3. Durante esse período. Nos Estados Unidos.2. enquanto a das áreas suburbanas foi de 48 por cento. Ainda hoje. A suburbanização Alguns convertidos à vida nas grandes cidades olharam com desdém para a grande expansão dos subúrbios. Nas cidades industriais do Norte. Na Grã-Bretanha. o processo da suburbanização atingiu o seu apogeu nos anos 50 e 60. mas de classe’.3. De acordo com o Presidente da Autoridade para a Habitação de Chicago. Tendências no desenvolvimento urbano ocidental 9. . enquanto a população dos subúrbios e das cidades mais pequenas – e a deslocação para sudeste – se expandiu novamente durante o boom económico do final dos anos 90. ou exercer pressão para serem publicadas leis de arrendamento mais favoráveis. maiores são as oportunidades de especulação e construção lucrativa de novos edifícios.

por exemplo. Inseguranças e incertezas emergem dos três primeiros factores. janelas entaipadas. um quarto é simplesmente a insegurança. Em muitas áreas urbanas americanas. outro. . são tristemente aspectos normais dos distritos e paróquias de que nos ocupamos – as habitações do centro são mais antigas do que as outras. Conflito urbano Foi o que aconteceu em Los Angeles. Henry Cisneros. o efeito tem sido terrível – especialmente nas cidades mais antigas como Nova Iorque. No entanto. Naquela quinta-feira à noite. O relatório da Igreja de Inglaterra sobre 1985. alguns centros urbanos.3. 18). Em certos bairros destas cidades. avisou Harrison. Os conflitos urbanos também atingiram as cidades britânicas – em Brixton. quando eclodiram tumultos em vários locais da cidade. está a emergir ‘uma sociedade barricada de autodefesa’. 1985. muitas autarquias urbanas ficaram com menos rendimentos e foram compelidas a fazer cortes em serviços tidos por todos como essenciais. onde um polícia foi assassinado. maiores são os problemas dos centros citadinos. mas a proporção nos centros urbanos situa-se entre os 40 e os 60 por cento’ (Igreja de Inglaterra. secretário do Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano. Perto de um quarto das casas inglesas foram construídas antes de 1919. Apesar da Poll Tax ter sido finalmente abandonada em virtude da forte oposição. como. em particular entre brancos e negros. O resultado é um círculo vicioso. um assalto a todos os sentidos. as autoridades locais foram fortemente pressionadas para limitar os seus orçamentos e reduzir os serviços locais mesmo nas áreas urbanas mais degradadas.3. tomadas de pânico somente com um som alto ao longe (Cisneros. Liverpool. pessoas de olhos esbugalhados. no qual quanto mais os subúrbios se expandem. sejam os indivíduos afectados directamente ou não por eles. Uma das razões para que tal acontecesse é que a crise financeira afectou muitos centros das cidades na Grã-Bretanha. As autoridades locais que excedessem os orçamentos estabelecidos pelo governo nacional podiam ser penalizadas. a norte de Londres. em Oxford. descreve os centros citadinos em termos sombrios: ‘Paredes cinzentas. 9. Boston ou Washington. Los Angeles era o verdadeiro apocalipse urbano numa espécie de fumaça laranja. ruínas e escombros. estão tão delapidados como alguns bairros das cidades americanas. Na Grã-Bretanha. a deterioração da propriedade é provavelmente mais grave do que em qualquer dos maiores centros urbanos dos outros países do mundo industrializado. em Broadwater Farm em Tottenham. é a divisão e o antagonismo étnico. 1993).139 Desenvolve-se um ciclo de deterioração. p. Um factor é certamente a pobreza. Fé na Cidade. O fumo era tão denso que ofuscava as luzes de um helicóptero que por ali sobrevoava. a decadência do centro das cidades foi menos marcada do que nos Estados Unidos. ruas cobertas de lixo. dirigiu-se à cidade para investigar em primeira mão o que estava a acontecer: O que eu vi foi uma cidade com fumo por todo o lado. Bristol e outras cidades. um terceiro é o crime. na Primavera de 1992. escritos nas paredes. A partir de finais da década de 70. Em áreas como Hackney. marcada também por uma rápida erosão das liberdades civis’.

. Em direcção ao Renascimento Urbano: o relatório da Urban Task Force A renovação urbana não é apenas a recuperação das áreas dos centros da cidade. Há um conjunto tão grande de circunstâncias opressivas nos centros das cidades. de que as áreas rurais sejam engolidas e a poluição.3.140 Na primeira metade dos anos 90. notou a Task Force.4. para além do efeito propagandístico. em qualquer caso. O elemento espacial para a exclusão social é claramente perceptível neste caso.4. a pobreza separa largos segmentos da população da sociedade mais lata. As previsões do governo são as de que serão formados mais de 3. 9.8 milhões de lares entre 1996 e 2021. mas também o desenvolvimento sustentável das regiões em redor da cidade. a proporção da população a viver abaixo do limiar da pobreza é a maior desde há um quarto de século. na verdade. deixando que elas fossem estragadas por um design pobre. defendem os autores. 9. Sem os seguintes princípios fundamentais. dispersão económica e polarização social’. e uma transformação social alargada pode ser sentida num aumento da esperança de vida e o significado das escolhas de vida nas vidas profissionais e pessoais das pessoas. por exemplo. A revolução tecnológica produziu novas formas de tecnologia de informação e novos modos de trocar informação. Os estudos realizados indicam que. extraordinariamente difícil.1. a crescente ameaça ecológica despoletou a necessidade de desenvolvimento sustentável.3. por exemplo. que a inversão dos processos de declínio é. existe um perigo real de que as cidades se fragmentem. ‘Desde a revolução industrial que perdemos a propriedade das nossas vilas e cidades. No Reino Unido. foram introduzidos um conjunto de esquemas nacionais – envolvendo. programas de subsídios para a reabilitação de casas pelos seus proprietários ou incentivos de impostos para atrair os negócios – para reavivar as fortunas dos centros das cidades. diminutas (Macgregor e Pimlott. Sem o aumento da despesa pública – que não é verosímil num futuro próximo – as possibilidades de uma melhoria radical são. Em particular quando origina subclasses privadas. muitos dos grupos mais pobres concentram-se nos centros das cidades que se estão a degradar. o congestionamento do trânsito e a degradação social se agravem. 1991). já a média de deslocações para os trabalhadores britânicos é 40% mais elevado do que há 20 anos atrás. O trânsito automóvel deverá crescer 1/3 nas duas próximas décadas. dar incentivos e esperar que a iniciativa faça o resto. Renovação urbana Como pode ser controlada a rápida expansão dos subúrbios para prevenir a erosão das áreas verdes e dos campos? Uma política de renovação urbana é particularmente desafiante porque exige acção simultânea em múltiplas frentes. não é uma via eficiente para lidar com os problemas fundamentais da ordem social gerados pelos centros urbanos.

9. Atingir a excelência na gestão das áreas locais – Um renascimento urbano dependerá de uma forte liderança política local e de uma participação democrática alargada dos cidadãos. Um crescente número de empresas que se estão a expandir neste domínio escolhem implantar-se no centro das cidades em vez de nos subúrbios. Em Londres.4. A educação. de programas de planeamento. o perfil económico da nova economia do conhecimento é muito favorável aos centros das cidades. a construção de novas casas deveria ser feita em terras anteriormente urbanizadas. arbitrárias e muito duras. actualmente. como lojas e restaurantes.3. produziram indubitavelmente centros de cidades menos perigosos. O relatório assinalou que. as Docklands foram um notável exemplo de ‘reciclagem urbana’. Os bairros devem estar mais bem ligados entre si para encorajar as pessoas a andarem a pé ou de bicicleta ou de transportes públicos. Gentrificação e ‘reciclagem urbana’ A reciclagem urbana – a renovação de edifícios antigos para novos usos – tornou-se bastante comum nas grandes cidades. Os fundos públicos deveriam ser utilizados de modo a atrair investimento privado através do mercado. trabalhar e socializar nelas. Um factor que promove a gentrificação nos Estados Unidos é a queda das taxas de criminalidade. em vez de em locais verdes. Apesar da lei da ‘tolerância zero’ e das políticas de ordem favorecidas por muitas cidades norteamericanas – de forma mais proeminente em Nova Iorque – terem sido severamente criticadas por serem racistas. às vezes. Os casais mais velhos cujos filhos deixaram a casa também podem ser tentados a regressar ao centro das cidades pelas mesmas razões.2. Esse processo faz parte. O governo está a projectar 60% de novas casas antecipadas a serem construídas em locais ‘reciclados’. . 1. Melhorar o ambiente urbano – As áreas urbanas existentes têm de ser mais atractivas para que as pessoas decidam viver. Uma das razões é económica e demográfica. Finalmente. Desenvolver a regeneração – Deveria ser dado maior poder às autoridades locais e responsabilidade para identificarem recursos direccionados para a regeneração de longo termo das áreas degradadas. o debate e a troca de informação serão cruciais em trazer uma ‘renovação urbana’ (1999). O relatório da Urban Task Force enfatizou que a renovação urbana não pode ser o produto apenas do esforço político.141 Reciclagem da terra e dos edifícios – Sempre que possível. mas mais frequentemente é o resultado da gentrificação – a renovação de edifícios em bairros degradados para serem utilizados por grupos com rendimentos mais elevados. ou para servirem para equipamentos dedicados a servi-los.3 milhões de edifícios residenciais e comerciais estavam vazios na Grã-Bretanha.

142 Docklands: renovação urbana ou desastre urbano? O exemplo mais importante deste facto é representado pela renovação da área das Docas.5 biliões de habitantes urbanos em 2025 serão residentes das cidades nos países em desenvolvimento. as finanças e a produção. ou diante de um desastre mais ou menos completo? Cada um destes pontos de vista tem os seus defensores. Não se definem apenas pelo seu tamanho – apesar de ser uma vasta aglomeração de pessoas – mas também pelo seu papel como pontos de ligação entre populações humanas enormes e a economia global. 9. as cidades funcionam como ímans para os países ou regiões em que estão localizadas. Hoje em dia. 1º. Urbanização no mundo em desenvolvimento Segundo algumas estimativas. As Docas estão próximas do dis-trito financeiro da City de Londres. O crescimento . mas também estão próximas das áreas pobres da classe trabalha-dora no outro lado. 4 milhões dos 2. Deveríamos tentar criar ruas que não se limitassem a ser seguras mas que fossem também ‘cheias de vida’ de um modo contrário ao que ‘as artérias do tráfego. Deveríamos inspirar-nos nas áreas antigas das cidades. as comunicações. é difícil conciliar a degradação que continua nos bairros a pouca distância destes centros revitalizados. Segundo Castells. As taxas de crescimento populacional são maiores nos países em desenvolvimento do que nas nações industrializadas. As Docklands estão divididas entre ‘ricos’ e ‘pobres’ a um ponto que tem poucos paralelos noutros lugares. As pessoas são arrastadas para as grandes regiões urbanas por vários motivos. A zona comercial suburbana com os seus passeios e lojas uniformizados está tão distante da ‘cidade humana’ como a auto-estrada. os media. As megacidades são bolsas concentradas de actividade através das quais fluem a política. A criação de espaços públicos interessantes nos centros urbanos degradados de Baltimore a Pittsburgh foi anunciada como triunfo da renovação urbana. Manuel Castells refere-se às megacidades como uma das principais características da urbanização do terceiro milénio (1996). em Londres. como as que se encontram em muitos centros das cidades italianas. Contudo. a área é nítida e visivelmente diferente dos bairros empobrecidos que a ladeiam. desde o momento em que a economia entrou em recessão. nas megacidades estão tanto aqueles que conseguem perfurar no sistema global. Porque é que a taxa de crescimento urbano nas regiões menos desenvolvidas do mundo é muito mais elevada do que em qualquer outro lugar? Têm de ser tomados em conta dois factores em particular. como os que não conseguem. embora todos concordem com o facto de o progresso do processo de rejuvenescimento das Docas ser menor do que o esperado pelos seus defensores. apesar de todo o seu movimento de veículos o não são’.4. que são à escala humana e misturam a diversidade com a elegância do seu desenho. Estaremos perante um caso único de sucesso em matéria de regeneração urbana.

As oportunidades geradas pela economia informal são uma importante ajuda para milhares de famílias a sobreviverem em condições urbanas. saneamento inadequado e reservas de água pouco seguras são problemas crónicos para as cidades nos países menos desenvolvidos.1. é a economia informal que permite aos que não conseguem encontrar trabalho sobreviverem. Também é menos produtiva do que a economia formal.4.4 milhões de casas habitáveis em 1996. mas o inverso tende a acontecer nos países em desenvolvimento. 9. As cidades. Implicações económicas Na maioria das cidades no mundo em desenvolvimento. onde os emigrantes povoam o que tem sido designado como a ‘franja séptica’ das áreas urbanas. 9. onde muito do ‘excesso’ da força de trabalho é provável que se concentre nos próximos anos. Os desafios do ambiente Poluição. perdido a sua posição nas suas comunidades de origem. Nas áreas urbanas do Ocidente. A economia informal não tem impostos e não é regulada.143 urbano é estimulado pelas elevadas taxas de fertilidade entre as pessoas que já vivem nas cidades. Alguns analistas do desenvolvimento são da opinião de que deveria ser prestada atenção à formalização ou regulação da economia informal. O baixo nível de produtividade também afecta a economia em geral – o volume de PIB gerado pela actividade económica informal é muito mais baixo do que a percentagem da população envolvida no sector. O alojamento é um dos problemas mais agudos em muitas áreas urbanas. mas a maioria é forçada a ficar.4. estão muito congestionadas. 2º. A OCDE estima que serão necessários mil milhões de novos empregos até 2025 para sustentar o crescimento estimado da população das cidades do mundo em crescimento. a taxa de imigração interna é muito elevada para a oferta de habitação existente. Alguns investigadores estimam que esta quebra se eleva aos 20 milhões. Alguns regressam. Desafios da urbanização no mundo em desenvolvimento 9. As pessoas são arrastadas para as cidades no mundo em desenvolvimento motivadas tanto porque os seus sistemas tradicionais de produção rural se desintegraram como porque as áreas urbanas oferecem maiores oportunidades de trabalho. mas também têm aspectos problemáticos.4. É pouco provável que todos estes empregos sejam criados na economia formal.1.1.1. se a definição de ‘casas habitáveis’ for interpretada de forma mais estrita. os recém-chegados estabelecem-se normalmente perto dos centros das cidades. tendo.2. Existe uma migração interna muito dessiminada das zonas rurais para as zonas urbanas – como no caso da megacidade em desenvolvimento de Hong Kong – Guangdong. Muitas famílias . Em São Paulo. por um ou outro motivo. como Calcutá e São Paulo. estima-se que houve uma quebra de 5. falta de habitação.

De facto. as escolas fecharam e 40 por cento de carros foram proibidos de circular na cidade. Onde um nível de ozono de cerca de menos 100 pontos foi considerado ‘satisfatório’ para a saúde. as cidades eram entidades autodelimitadas que se mantinham afastadas das áreas predominantemente rurais em que se localizavam. Estima-se que viver na Cidade do México é o equivalente a fumar 40 cigarros por dia. derivando o resto de poluentes industriais. as áreas urbanas mais . Alguns argumentam que a estrada mais realizável é a de melhorar as condições nas favelas – fornecer electricidade e água corrente. autocarros e camiões que se amontoam nas ruas inadequadas das cidades.5.3.1.2. Os governos urbanos e regionais nos países menos desenvolvidos são muito pressionados para acompanharem a procura em espiral de habitação. educação e formação. A poluição é o maior problema. de aconselhamento do planeamento familiar. como veremos brevemente. 9. pavimentar as ruas e atribuir endereços postais. O número de ‘espaços verdes’ – parques e espaços abertos de terra verde – é muito inferior ao encontrado nas cidades norte-americanas ou europeias mais populosas. Mas o quadro não é de todo negativo. A Cidade do México é disso um importante exemplo. Uma população jovem necessita de apoios e de educação e. 9. originada principalmente pelos carros. As cidades e a globalização Nos tempos pré-modernos. naquele mês o nível subiu para os 398 pontos.144 acreditam que é melhor partilhar uma cozinha e uma casa de banho com centenas de outras famílias do que viver nas ruas ou nas favelas. muitas cidades no mundo em desenvolvimento já se estão a juntar às listas das ‘cidades globais’ do mundo. Os sistemas rodoviários uniam. muitas crianças têm de trabalhar a tempo inteiro ou têm de tentar sobreviver nas ruas. O governo teve que obrigar algumas fábricas a fechar durante algum tempo. os jovens não são membros economicamente produtivos. durante este período. pode ser difícil perspectivar a mudança e o desenvolvimento.4. Quando as suas famílias são pobres.4. A pobreza está disseminada e os serviços sociais existentes não conseguem ir ao encontro das necessidades de assistência médica. Outros temem que os bairros de lata improvisados sejam fundamentalmente inabitáveis e deveriam ser demolidos para darem lugar a habitação própria para as famílias pobres. mendigando o que poderem. 9. O futuro da urbanização no mundo em desenvolvimento Ao considerar o objectivo dos desafios que enfrentam as áreas urbanas nos países em desenvolvimento. Efeitos sociais Muitas áreas urbanas nos países em desenvolvimento estão sobrelotadas e sem reservas. por vezes. em bairros de lata improvisados às portas da cidade.

4. que seguiram o trabalho de Sassen. A maioria destas são. Todavia. não é a produção de bens materiais. Estas cidades são os lugares-chave onde se encontram as firmas financeiras e de serviços especializados. A comunicação entre as cidades era limitada. vendidos ou submetidos a quaisquer outras operações. São os principais centros de produção e inovação destas novas actividades em expansão recente. são contextos de produção. notaram que. Outros autores. há muito. Em vez de conduzir ao desaparecimento das cidades. a globalização está a transformá-las em centros vitais na economia global. Londres e Tóquio. mas a produção de serviços especializados exigidos pelas organizações económicas para administrar escritórios e fábricas dispersos pelo mundo. são as maiores cidades do mundo que compreendem os principais circuitos através dos quais ocorre a globalização (Sassen. e a produção de inovações financeiras. 1998). No início do século XXI.1. Muitas das funções tradicionais das cidades podem agora ser desenvolvidas no ciber-espaço em vez de o serem nas densas e congestionadas áreas urbanas. os laços físicos e virtuais entre as cidades abundam e estão a emergir redes globais de cidades. à medida que a globalização progride. Os serviços e bens financeiros são as ‘coisas’ que a cidade global faz. neste caso. É nestes locais que o ‘trabalho’ da globalização é efectuado e dirigido. existe uma enorme quantidade de actividade organizativa que tem de ser feita de modo a manter e a desenvolver estas redes globais. No presente. As cidades globais A globalização é muitas vezes pensada em termos de dualidade entre o nível nacional e o global. estas previsões não se esgotaram. 9. muito mais do que meros lugares de coordenação. São mercados onde os ‘produtos’ dos sectores financeiros e de serviços são comprados. são cada vez mais as cidades que . Contudo. À medida que os negócios. 3. as cidades globais. mas têm actualmente quatro novos traços: 1. cuja influência sob o desenvolvimento económico se tornou mais importante do que a produção fabril. mas viajar era uma actividade característica de mercadores. tecnológicos e de consultoria. a publicidade e o marketing assumem uma escala global. Assistimos a uma dispersão e concentração simultâneas de actividade e poder num conjunto de cidades em torno do globo (Castells. Em A Cidade Global (1991). 1996). bem como os mercados. Utiliza o termo Cidade global – centro urbano que é a sede de grandes empresas transnacionais e de uma superabundante oferta de serviços financeiros. Sassen baseia o seu trabalho no estudo de três destas cidades: Nova Iorque. Transformaram-se em ‘pontos de comando’ – centros de direcção e de decisão – da economia global. Contudo. O importante. a produção. o quadro é muito diferente. até aí.5. Saskia Sassen foi uma das principais contribuidoras para o debate sobre as cidades e a globalização. O funcionamento da nova economia global depende de um conjunto de localizações centrais com infraestruturas de informação desenvolvidas e com uma ‘hiperconcentração’ de serviços. soldados e outros que precisavam de atravessar distâncias com alguma regularidade.145 importantes. centros de comércio internacional. 2.

As cidades nem sempre estão necessariamente no centro da economia regional. estavam envolvidas na economia do território que as rodeava e reflectiam o seu perfil. distribuição e finanças separados no globo. As disparidades na capacidade de produção de lucro são esperadas nas economias de mercado.5. a relativa prosperidade de Moscovo – a única “cidade verdadeiramente” global da Rússia – é motivo de ressentimento. estão a desenvolver-se como nós-chave na economia global um novo conjunto de ‘centros regionais’. Os habitantes do Estado de Nova Iorque são da opinião de que a cidade absorve uma quantidade desproporcionada de impostos e que os problemas que a assolam tendem a dominar a agenda política do Estado. Jakarta e Buenos Aires estão a tornar-se em centros importantes para a actividade entre os chamados ‘mercados emergentes’. 9. na pior das hipóteses abertamente antagónicas. São Francisco é muito conhecida como um centro de alta tecnologia pela sua proximidade de Silicon Valley.146 se juntam a Nova Iorque. na nova economia global. Pelo contrário. A habitação com preços . Seul. Para a grande maioria dos Russos que empobreceram desde a queda do comunismo. Os que trabalham na economia e nos serviços globais usufruem salários elevados e as zonas em que habitam são gentrificadas. indiferentes. À medida que os salários e as gratificações dos muito ricos continuam a subir.3. um centro urbano que surge como um gigante sobre o estado de Nova Iorque. a relação entre as cidades e as áreas circundantes está-se a transformar. os salários dos empregados que limpam e vigiam os seus gabinetes estão a descer. As relações entre a city e o Estado são. as cidades representavam as fundações das economias regionais. mas a grandeza destas disparidades na nova economia global tem tido um efeito negativo em muitos aspectos do mundo social. da habitação ao mercado de trabalho. Em tempos. ao terem como função ligar os pontos de produção. e a “desvalorização” do trabalho que se desenrola por detrás do cenário (1998). Moscovo e as cidades periféricas da Rússia são um exemplo da deslocação entre uma cidade global emergente e o resto da nação como um todo.5. Londres e Tóquio na lista das ‘cidades globais’. tal como nos lembram Sassen e outros. na melhor das hipóteses. A cidade e a periferia A globalização está a alterar a relação entre os grandes centros urbanos e as regiões em que estes se localizam. Cidades como Madrid. A desigualdade e a cidade global A nova economia global é muito problemática de muitas maneiras. A justaposição entre o centro de negócios da cidade e as zonas centrais empobrecidas de muitas cidades globais deveriam ser vistas como fenómenos interrelacionados. Um bom exemplo é o da cidade de Nova Iorque. Em mais lado algum isto pode ser mais claro do que nas novas dinâmicas das desigualdades visíveis na cidade global. afastam-se crescentemente das áreas circundantes que são altamente periféricas a este processo de crescimento económico. Sassen argumenta que estamos a testemunhar a “valorização” do trabalho localizado na frente da nova economia global. 9. Moscovo.2. Contudo. São Paulo. Abaixo destas.

desenvolvimento e telecomunicações. as cidades podem ser forças positivas para a integração social.6. Contudo. está a tomar forma uma geografia de “centralidade e marginalidade” – tal como revelou o estudo de Mitch Duneier sobre Greenwich Village de Nova Iorque. 1997). forçando a expansão de bairros de baixos rendimentos.147 acessíveis é rara nas zonas gentrificadas. 1º. Os espaços públicos acessíveis foram substituídos por complexos fechados. para ser produtiva. 9. são muito “pequenos” para conter estas forças. o número de casas de banho públicas é menor do que em qualquer outra cidade da América do Norte e. esta força de trabalho necessita de um forte sistema educacional para as suas crianças. 9. o contacto habitual entre eles pode ser surpreendentemente mínimo. As cidades desenvolvem um importante papel em assegurar a integração sociocultural entre as várias populações multi-étnicas. Onde o Estado-nação é incapaz de agir efectivamente. bons transportes públicos. linguísticas ou outras. foram instalados sistemas de aspersão para dissuadirem os sem-abrigo de aí viverem. poderão daí resultar a fragmentação e a intolerância. . os estados-nação também continuam a ser muito “grandes” para chegarem adequadamente às necessidades encontradas nas áreas urbanas cosmopolitas. 2º. Os países. As cidades que se tornaram mais importantes do que nunca como Estados-nação são crescentemente incapazes de gerir as tendências globais.1. Apesar destes dois mundos coexistirem. os governos locais e das cidades podem representar formas mais “ágeis de gerir o global” (Borja e Castells. as zonas marginalizadas são deixadas com poucos recursos. A competitividade económica na nova economia depende de uma força de trabalho qualificada produtiva. As cidades contribuem para a produtividade económica e para a concorrência ao gerir o ‘habitat’ local – as condições e serviços que formam a base social para a produtividade económica.6. bairros guardados pela vigilância electrónica. Se o intenso pluralismo encontrado nas cidades cosmopolitas não for contrariado pelas forças da integração. Os bancos nas paragens de autocarro têm a forma de barras para impedir que as pessoas durmam neles. e “cidadelas corporativas”. aplicação da lei capaz. Em particular nos casos onde a eficácia dos estados-nação na promoção da coesão social é comprometida por razões históricas. Nas cidades globais. habitação adequada e económica. em muitos parques. Governar as cidades na era global A par dos novos potenciais criados pela centralização e pelo crescimento económico estão os perigosos efeitos da marginalização. Gerir o global Apesar de a globalização estar a agravar muitos dos desafios que afrontam as cidades em torno do mundo. serviços de emergência efectivos e recursos culturais interessantes. mesmo os mais poderosos. Enquanto as zonas centrais de negócio são os recipientes de fluxos maciços de investimento em imobiliário. também tem dado espaço para que as cidades e os governos locais desempenhem um papel político revitalizado.

O governo municipal de Barcelona e dez corpos adicionais (incluindo a câmara do comércio. O papel dos presidentes da câmara À medida que as cidades assumem uma nova importância no sistema global. os presidentes das câmaras das cidades mais pequenas podem ter um papel crucial em fazer com que a cidade seja conhecida internacionalmente e na atracção de novos investimentos económicos. a cidade e as autoridades locais são fóruns mais acessíveis para a actividade política. Singapura e Banguecoque têm sido particularmente eficazes como actores económicos. obrigados a trabalhar dentro dos parâmetros . As cidades são importantes forças para a representação e gestão política.2. organizar um evento à escala mundial foi crucial em duas frentes: valorizou o perfil da cidade aos olhos do mundo e gerou entusiasmo adicional na própria cidade para concluir a transformação urbana (Borja e Castells. reconhecendo a importância da velocidade da informação nos mercados internacionais e a necessidade de estruturas produtivas e comerciais flexíveis. Os presidentes da câmara de Lisboa e Barcelona. 9. melhorar a qualidade de vida dos habitantes de Barcelona.2. a autoridade portuária da cidade e os sindicatos) estão a fiscalizar a implementação dos três objectivos principais do plano: ligar Barcelona a uma rede de cidades europeias melhorando a infraestrutura das comunicações e dos transportes. Lisboa. Da mesma forma. a universidade. Lyon. por exemplo. Como parte da devolução do poder às autoridades regionais no Reino Unido. Glasgow e Barcelona são exemplos de cidades europeias que desenvolveram planos de renovação urbanísticos com a ajuda de planos estratégicos. estavam a desenvolver esforços para elevar as suas cidades ao nível dos maiores centros urbanos mundiais. A realização dos Jogos Olímpicos em Barcelona permitiu a Barcelona “internacionalizar-se”. Em casos em que o Estado-nação está muito distante para representar interesses culturais e regionais específicos. os recursos e a visão da cidade estavam à vista para que fossem vistos por todo o mundo. 9. tal como Seul. As cidades como agentes políticos. No caso de Barcelona. inclui as cinquenta maiores cidades da Europa foi formado em 1989. Os presidentes da câmara das grandes cidades são capazes de dar uma liderança personalizada que pode ser crucial na promoção das agendas urbanas e promover um perfil internacional das cidades.6. foram. Birmingham.6.148 3º. Os presidentes das câmaras norte-americanos tradicionalmente. o papel dos presidentes da câmara também está a mudar. As cidades asiáticas. e tornar o sector industrial e de serviços mais competitivo. Amsterdão. ao mesmo tempo que promovem novos sectores económicos promissores.1. o conhecimento do governo de que as necessidades especiais da capital de Inglaterra seriam geridas de forma mais eficaz através de um sistema de presidência da câmara. presentemente. económicos e sociais O movimento das Eurocidades que. 1997).

Os presidentes da câmara são muitas vezes capazes de moldar a agenda política para áreas que estão fora dos limites das cidades. 9. estão incluídos no contexto maior da economia global.7. cada vez mais as políticas e as reformas terão de ser direccionadas para as populações que habitam em zonas urbanas. Conclusão: as cidades e a governação global Redes informais e formais de cidades estão a emergir à medida que as forças da globalização aproximam zonas do mundo. Uma estrutura como esta já existe – a Assembleia Mundial das Cidades e das Autoridades Locais é organizada em simultâneo com a Conferência sobre Habitat das Nações Unidas. migração internacional. À medida que a população urbana mundial continua a crescer. .149 financeiros e políticos definidos pelo governo federal em Washington. Os governos das cidades serão parceiros necessários e vitais nestes processos. entrando em acordo com as comunidades da área metropolitana. novos padrões de comércio e poder da tecnologia de informação. Os problemas enfrentados pelas maiores cidades do mundo não são isolados.

150 .

Apesar de não ser atractivo. os sociólogos estão interessados em saber de que forma as mudanças no trabalho afectam a vida privada dos indivíduos e das famílias. o trabalho tende a ser um elemento estruturante na constituição psicológica das pessoas e no ciclo das suas actividades diárias. As horas de trabalho são muitas e o casal preocupa-se com o facto de poder negligenciar os seus filhos. contudo. fornece um ambiente estruturado no qual as energias de uma pessoa podem ser absorvidas. do compromisso e dos objectivos a longo prazo. com notícias sobre fusões empresariais e redução do número de efectivos. e discursos contraditórios sobre o impacto das tecnologias de informação no local de trabalho. o facto de poderem estar a dar um mau exemplo. 10. o trabalho e a vida económica estão a conhecer enormes transformações. Todavia. Ao que parece. O casal apercebe-se de que. as boas amizades de Rico e Jeanette têm desaparecido. o trabalho de Enrico era seguro. O que é o trabalho? Para a maioria dos indivíduos o trabalho é. a que ocupa a maior parte das suas vidas. Embora estivesse orgulhoso do seu árduo e honesto trabalho. protegido por um sindicato. na sociedade veloz da actualidade. Rico. não tem um papel fixo e o seu destino está largamente entregue ao destino dos seus contactos. Há diversas características do trabalho que são relevantes a este respeito: Dinheiro – O salário é a principal fonte de rendimento de que a maioria das pessoas depende para fazer face às suas necessidades.1. temem que as suas próprias vidas contem uma história diferente: Rico e Jeanette são exemplos da forma de trabalho flexível e de curto prazo que tem vindo a ser privilegiada na sociedade da modernidade tardia. ou as pessoas não se sentiriam tão perdidas e desorientadas quando ficam desempregadas. Mas mais problemático do que fazer malabarismos com tempo e horários é. Nas sociedades modernas ter um emprego é importante para se preservar o respeito por si próprio. Como consultor. Enquanto tentam ensinar aos seus filhos o valor do trabalho árduo. os novos vizinhos e comunidades nada sabem sobre o seu passado: de onde vêm ou que pessoas são. Nível de actividade – Mesmo quando o trabalho é rotineiro. somos sistematicamente confrontados com o discurso do “fim das carreiras”.151 10. Sem ele. De forma similar. Apesar do seu sucesso. “as qualidades do bom trabalho não são as qualidades do bom carácter”. O TRABALHO E A VIDA ECONÓMICA Tal como tantos outros aspectos da sociedade. Mesmo quando as condições de trabalho são relativamente desagradáveis e a tarefas a realizar monótonas. Jeanette sente que o seu vínculo ao emprego é ténue. sente a falta de controlo sobre o tempo e o seu trabalho: os contratos são vagos e mudam constantemente. a história não é totalmente feliz. Enrico não queria o mesmo futuro para os seus filhos. de todas as actividades. as oportunidades para exercitar as capacidades poderão ser reduzidas. O trabalho é mais do que escravidão. . Era importante criar condições para que os seus filhos pudessem ascender. Rico e sua mulher preocupam-se por estarem em risco de “perder o controlo das suas vidas”. para além destes aspectos públicos dos padrões de trabalho contemporâneos. e Enrico e sua mulher podiam planear o seu futuro e o dos seus filhos com confiança. filho de Enrico. Devido às suas constantes deslocações por todo o país.

opressivo. As actividades efectuadas pelos próprios. O trabalho doméstico. por exemplo. por exemplo. Face aos itens que constam desta lista.1. No entanto. habitualmente não é remunerado. a auto-estima está frequentemente ligada à contribuição económica que dão para as despesas domésticas. O trabalho remunerado e o não remunerado Consideramos muitas vezes como trabalho apenas aquele que é remunerado. como muitas formas de auto-aprovisionamento que as pessoas efectuam em casa e fora dela. a base da economia. as ferramentas e os aparelhos domésticos. os indivíduos podem apreciar fazer qualquer coisa diferente das suas actividades domésticas. A economia informal inclui não apenas transacções «ocultas» de dinheiro. é um trabalho frequentemente bastante duro e exaustivo. Para os homens. 1983). a troca de dinheiro por serviços prestados. por todas as razões anteriormente enunciadas – mas a categoria «trabalho» é mais abrangente.1. pode ser paga em dinheiro sem haver recibo ou factura detalhada do trabalho efectuado. proporcionam serviços e bens que de outra forma teriam de ser pagos (Gershuny e Miles. Identidade pessoal – O trabalho é habitualmente valorizado pelo sentido de identidade social estável que oferece. com o objectivo de produzir bens e serviços para satisfazer necessidades humanas. No entanto. em particular. O trabalho é. O termo economia informal refere-se a transacções fora da esfera do emprego regular. mas que também implicam frequentemente a troca directa de bens ou serviços. este é um ponto de vista demasiado simplista. por vezes. Ter um trabalho remunerado é importante. A pessoa que vem a nossa casa arranjar uma televisão. dá um sentido às actividades diárias. por vezes. na sua maioria. Muito do trabalho realizado na economia informal não é registado directamente nas estatísticas oficiais de emprego. Ocupação ou emprego – trabalho efectuado em troca de um pagamento ou salário regular. levado a cabo pelas mulheres. . em todas as culturas. Embora este possa ser. que tem sido tradicionalmente. Contactos sociais – O ambiente de trabalho possibilita a criação de laços de amizade e a oportunidade de partilhar actividades com os outros. Aqueles que estão desempregados têm frequentemente como maior problema o aborrecimento e desenvolvem um sentido de apatia em relação ao tempo. 10. Trabalho remunerado ou não – a realização de tarefas que envolvem o dispêndio de esforço mental e físico. não é difícil perceber porque é que estar sem trabalho pode diminuir a confiança dos indivíduos no seu valor social. o dia encontra-se habitualmente organizado de acordo com o ritmo de trabalho. que implicam. Estrutura Temporal – Para os indivíduos com um emprego fixo. mesmo quando as tarefas são relativamente aborrecidas.152 Variedade – Na esfera do trabalho.

153

10.2. Tendências no sistema ocupacional
O trabalho é sempre intrínseco a todo o sistema económico. A indústria moderna, tal como tem sido sublinhado, difere, no essencial, dos sistemas de produção pré-modernos baseados sobretudo na agricultura. Nas sociedades modernas, pelo contrário, só uma pequena percentagem da população trabalha na agricultura e o próprio cultivo da terra se tornou industrializado – é levado a cabo em grande escala mais por máquinas do que manualmente. A indústria moderna está em constante transformação – o desenvolvimento tecnológico é uma das suas principais características. Tecnologia – o uso da ciência na inovação e desenvolvimento de máquinas para atingir uma maior produtividade. No início do século, o mercado de trabalho era dominado pelo trabalho manual de “colarinho azul”, tendência que, posteriormente, viria a sofrer uma inversão no sentido do crescimento do trabalho de “colarinho branco” no sector dos serviços.
População em idade activa, por género e classe, Reino Unido, 1999
Homens (% de) Categorias ocupacionais Profissionais de nível superior Profissionais intermédios Trabalhadores especializados Trabalhadores manuais espec. Trab. parcialmente espec. Trab. manuais não espec. Outros Mulheres (% de)

30

20

10

0

0

10

20

30

40

Mudanças no emprego dos homens e das mulheres por ocupação, 1992-8
Trab. altamente qualificados Trabalhadores administrativos Trabalhadores de vendas e serviços Trabalhadores manuais especializados Trabalhadores manuais não especializados -0.4 -0.2 0 0.2 0.4 0.6 0.8

Variação anual sobre a % do total de emprego em 1992 Homens Mulheres

Existe grande discussão em torno das causas destas mudanças. As razões parecem ser inúmeras. Uma delas é a introdução sistemática de máquinas que substituem o trabalho humano, culminando com a generalização da tecnologia da informação e o uso crescente de computadores na indústria. Outra é o aumento das indústrias fabris fora do Ocidente, especialmente no Extremo Oriente. As velhas indústrias nas sociedades ocidentais passaram por grandes recessões por causa da sua incapacidade para competir com os produtores mais eficientes do Extremo Oriente, cuja mão-de-obra é mais barata.

154

10.2.1. A economia do conhecimento
Perante estes dados, alguns observadores sugeriram que o que ocorre hoje é a transição para um novo tipo de sociedade já não baseada fundamentalmente na indústria. Alegam que estamos a entrar numa fase de desenvolvimento que vai além da era industrial. Tem sido utilizada uma variedade de termos para caracterizar esta nova ordem social, tais como os de sociedade pós-industrial, era da informação e “nova economia”. O termo mais utilizado tem sido economia do conhecimento. É difícil formular uma definição precisa para economia do conhecimento; porém, em termos gerais, entende-se por tal uma economia na qual as ideias, a informação e as formas de conhecimento sustentam a inovação e o crescimento económico. Uma economia do conhecimento é aquela em que grande parte da força de trabalho está envolvida não na produção material ou distribuição de bens materiais, mas na sua concepção, desenvolvimento, tecnologia, marketing, vendas e serviços. Estes empregados podem ser denominados como trabalhadores do conhecimento. A economia do conhecimento é dominada pelo constante fluxo de informação e de opiniões, bem como pelo poderoso potencial da ciência e da tecnologia. O trabalho de Enrico era típico de muitos empregos da era industrial, na medida em que envolvia trabalho físico que produzia resultados tangíveis (um edifício de escritórios limpo e ordenado). Rico, em contrapartida, é um trabalhador do conhecimento – o seu trabalho como consultor está centrado no uso e aplicação de informação. Não produz directamente nada que possa ser observado ou medido de forma tradicional. Um estudo recente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico tentou avaliar a extensão da economia do conhecimento entre as nações mais desenvolvidas, através da medição da percentagem da produção total dos negócios de cada país que podem ser atribuídos a indústrias baseadas no conhecimento.

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O peso da economia do conhecimento no investimento e na produção, por país e região económica, 1995-6
Conhecimento Bens materiais Percentagem da economia do conhecimento na produção empresarial, 1966

Suécia

50.7

França

50.0

Grã-Bretanha

51.5

Estados Unidos

55.3

UE

48.4

OCDE

50.9

Alemanha

58.6

Austrália

48.0

Japão

53.0

Itália 0 5 10 15 20 25 30

41.3

Percentagem de Investimento no PIB de 1995

É mais fácil medir o valor das coisas físicas do que ideias “sem peso”. É, no entanto, inegável o facto de a criação e a aplicação do conhecimento assumirem crescentemente um papel central nas economias das sociedades ocidentais, tal como iremos ver ao longo do capítulo.

10.3. A divisão do trabalho e a dependência económica
A existência de uma divisão do trabalho extremamente complexa e diversificada constitui uma das características mais distintivas do sistema económico das sociedades modernas. Nas sociedades tradicionais, o trabalho não agrícola baseava-se em ofícios, cujo domínio perfeito era adquirido depois de um longo período de aprendizagem. Com o desenvolvimento da produção industrial moderna muitos dos ofícios tradicionais desapareceram, sendo substituídos por especialistas que operam no âmbito de processos de produção mais amplos. Antes da industrialização, a maior parte do trabalho tinha lugar em casa, sendo realizado de forma colectiva por todos os membros do agregado familiar. As fábricas pertencentes a empresários tornaram-se pontos fulcrais do desenvolvimento industrial: a maquinaria e o equipamento concentravam-se na sua esfera, e a produção em massa de bens começou a eclipsar o artesanato de pequena escala produzido em casa. As pessoas que procuravam empregos nas fábricas seriam treinadas para desempenhar uma tarefa específica, recebendo um salário por tal trabalho. O desempenho dos empregados era supervisionado por directores, que se preocupavam com a implementação de técnicas para melhorar a produtividade e a disciplina do trabalhador.

1. A solidariedade seria reforçada através de relacionamentos multidireccionais de produção e consumo. era economicamente autosuficiente e produzia os seus próprios alimentos.156 O contraste entre a divisão do trabalho nas sociedades tradicionais e nas modernas é verdadeiramente extraordinário. Seriam obrigados a desempenhar tarefas rotineiras e monótonas que despiriam o seu trabalho do seu valor criativo intrínseco. apesar de também estar consciente de a solidariedade social poder ser perturbada se a mudança ocorresse demasiado depressa. Pelo contrário. através do qual os trabalhadores auferiam salários de acordo com as suas taxas de produtividade. Os empregados eram fortemente controlados pela gestão de forma a assegurar que o trabalho era finalizado eficaz e rapidamente. vestuário. Uma vez empregados numa fábrica. a mutação para a industrialização e o trabalho remunerado iria por certo desembocar na alienação entre os trabalhadores. de modo a dividi-los em operações simples que podiam ser cronometradas e organizadas com exactidão.3. de acordo com as especificações precisas estabelecidas a partir de cima. o estabelecimento de linhas de produção mecanizadas é muito dispendioso. mas deu pouca atenção aos resultados dessa eficiência. um desenvolvimento dos princípios de gestão de Taylor. entre outros bens essenciais. todas as tarefas podem ser examinadas rigorosa e objectivamente de forma a determinar a “melhor via” para serem levadas a cabo. quando terminou o fabrico do Modelo T. Até 1929. 10. não era meramente um estudo académico – teve um impacto generalizado na organização da produção industrial e na tecnologia. As limitações do Fordismo e do Taylorismo O sistema só pode ser desenvolvido em indústrias. foi introduzido um sistema de pagamento por incentivos. uma das principais características das sociedades modernas é a enorme expansão da interdependência económica. uma vez instalado um sistema Fordista. implicava o estudo pormenorizado dos processos industriais. é o nome usado para designar o sistema de produção em série associado à criação de mercados de massa. Chamou a este sentido resultante de falta de normas anomia. como a automóvel. O Taylorismo e o Fordismo A gestão científica.2. De acordo com Taylor. as pessoas estariam ligadas entre si por laços de dependência mútua. os trabalhadores perderiam todo o controlo sobre o seu trabalho. este é . Para Marx. e o industrial Henry Ford foi dos primeiros a perceber esta ligação. Uma das inovações mais significativas de Ford foi a construção de uma linha de montagem móvel. Durkheim viu este arranjo como sendo altamente funcional. Taylor estava preocupado com a melhoria da eficiência industrial. De facto. a maioria da população trabalhava na agricultura. Em vez de viverem em unidades isoladas e auto-suficientes. que fabriquem produtos estandardizados para grandes mercados. A produção em série necessita de mercados de massa. Por forma a encorajar a eficiência no trabalho. O Fordismo.3. Nas comunidades tradicionais. como Taylor lhe chamou. 10. como a gestão científica veio a ser chamada. O Taylorismo. tinham sido fabricados mais de quinze milhões de carros.

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bastante rígido; para se alterar um produto, por exemplo, é necessário um novo e substancial investimento. A produção fordista é relativamente fácil de copiar, caso haja fundos suficientes para se montar a fábrica. Mas nos países onde a mão-de-obra é cara, as empresas têm dificuldade em competir com as das regiões onde os salários são mais baixos. Este foi um dos factores de sucesso da indústria automóvel japonesa (embora, actualmente, os níveis salariais japoneses já não sejam baixos) e, mais recentemente, da Coreia do Sul. O Fordismo e o Taylorismo são aquilo a que alguns sociólogos industriais chamam sistemas de pequena responsabilidade. Os trabalhos são estabelecidos pela administração e são ajustados ao funcionamento das máquinas. Aqueles que desempenham o trabalho são atentamente supervisionados e é-lhes conferida pouca autonomia de acção. Por forma a manter a disciplina e padrões de produção de elevada qualidade, os empregados são constantemente controlados através de diversos sistemas de vigilância. Esta supervisão constante tende, no entanto, a produzir o resultado contrário: o compromisso com o trabalho e a moral dos trabalhadores são frequentemente debilitados, na medida em que pouco têm a dizer sobre o seu trabalho e a forma como é desempenhado. Onde existem muitos postos de trabalho com pequena autonomia, verifica-se um elevado nível de insatisfação e de absentismo dos trabalhadores, e o conflito industrial é habitual. Num sistema de grande responsabilidade, por contraste, é permitido aos trabalhadores controlar o ritmo e mesmo o teor do trabalho conforme regras gerais.

10.4. A transformação do trabalho
As práticas fordistas começaram a ser vistas como limitativas, na medida em que eram mais adequadas à manufactura de grandes quantidades de bens padronizados. Estavam, contudo, a ocorrer importantes mudanças no consumo global; os mercados de massa que haviam contribuído para o sucesso do Fordismo estavam a ser suplantados por “nichos de mercado” de bens inovadores e de alta qualidade. As técnicas Fordistas eram demasiado rígidas para responder às solicitações de um mercado em mudança rápida, pelo que, ao longo do tempo, muitas empresas tentaram modificar a rigidez dos seus padrões de produção e operar de maneira mais flexível.

10.4.1. O Pós-Fordismo
Ao longo das três últimas décadas, têm sido introduzidas práticas flexíveis num determinado número de esferas, incluindo o desenvolvimento de produtos, técnicas de produção, estilo de gestão, ambiente de trabalho, envolvimento dos empregados e marketing. Os grupos de produção, as equipas de resolução de problemas, a «multitarefa» e o «marketing de nichos», são apenas algumas das estratégias que têm sido adoptadas por empresas que procuram adaptar-se à mutação de condições em que operam. Alguns comentadores têm sugerido que, no seu conjunto, estas mudanças representam uma ruptura radical com os princípios do fordismo; afirmam que estamos agora num período que pode ser compreendido como pósfordismo. O pós-fordismo, um termo popularizado por Michael Piore e Charles Sabel na obra The Second Industrial Divide (1984), descreve uma nova era de produção económica capitalista, na qual a flexibilidade

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e a inovação são maximizadas por forma a ir de encontro às solicitações do mercado em matéria de produtos diversos e padronizados. A ideia do pós-fordismo é, contudo, algo problemática. Alguns autores argumentam que a tendência para o pós-fordismo pode ser encontrada em esferas tão diversas como os partidos políticos, os programas de segurança social, as escolhas do consumidor e os estilos de vida. Apesar de os observadores das sociedades da modernidade tardia apontarem frequentemente para muitas das mesmas mudanças, não existe consenso sobre o significado preciso do pós-fordismo e se esta é, de facto, a melhor forma de compreender os fenómenos de que somos testemunhas. Iremos agora considerar alguns exemplos das primeiras três tendências; a emergência de padrões de trabalho mais flexíveis será tratada mais adiante.

10.4.2. A produção flexível
A ideia de produção flexível, ou especialização flexível, assenta na utilização de técnicas de produção inovadoras e de novas formas de tecnologia por pequenas equipas de trabalhadores altamente qualificados para produzir menores quantidades de bens mais individualizados que os oferecidos pela produção em massa. As mudanças na concepção, nas opções e nas características dos produtos podem ser introduzidas mais frequentemente do que os lentos tempos de rotatividade comuns aos métodos de produção fordista permitem. Os resultados da produção flexível podem também ser observados em muitos outros tipos de empresas, que introduziram linhas de produtos “amigos do ambiente” – dos produtos de limpeza aos champôs e cosméticos – em toda a sua gama.

10.4.3. A produção em grupo
A produção em grupo tem sido, por vezes, implementada conjuntamente com a automatização como forma de reorganização do trabalho. O objectivo principal é aumentar a motivação do trabalhador, permitindo que grupos de trabalhadores colaborem no processo de produção ao invés de exigir que cada um passe um dia inteiro a realizar uma tarefa única e repetitiva como atarraxar parafusos na maçaneta da porta de um carro. Um exemplo de produção em grupo são os círculos de qualidade (QCs), constituídos por grupos de cinco a vinte trabalhadores que se encontram regularmente para estudar e resolver problemas de produção. Os círculos de qualidade tiveram a sua origem nos Estados Unidos, foram adoptados por empresas japonesas, sendo repopularizados no Ocidente nos anos oitenta. Eles representam uma brecha nos princípios do Taylorismo, pois provam que os trabalhadores possuem capacidade para contribuir para a definição das tarefas que realizam e do método pelo qual são realizadas.

10.4.3.1. Trabalho de equipa
Em locais de trabalho não automatizado, os grupos de trabalho estão também a tornar-se populares como forma de desenvolver a eficiência e de melhorar a relação entre custo e eficiência no

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desenvolvimento de produtos e na resolução de problemas. Em lugar de serem designados para uma posição fixa, com um conjunto definido de responsabilidades, espera-se agora que muitos empregados trabalhem de forma mais flexível, reunindo-se com outros colegas e consultores externos para projectos de curto prazo e rodando depois para outra tarefa. Esta abordagem é muitas vezes utilizada na indústria de marketing e publicidade. As equipas são muitas vezes formadas para construir uma campanha e “lançar” determinado produto, sendo dissolvidas pouco depois e os seus membros deslocados para novos projectos. Como afirma o recrutador de uma empresa de media britânica, “Um dos inimigos do pensamento criativo é o hábito. Trabalhar num destes grupos é como produzir uma peça teatral.

10.4.4. O «trabalhador polivalente»
Uma das crenças dos comentadores pós-Fordistas é a de que novas formas de trabalho permitem aos empregados implementarem a amplitude das suas competências mediante o envolvimento em tarefas variadas, em vez de desempenharem vezes sem conta uma tarefa específica. A produção em grupo e o trabalho de equipa são vistos como promotores de uma força de trabalho “polivalente”, capaz de levar a cabo um conjunto alargado de tarefas, o que, por sua vez, conduz ao aumento da produtividade e da qualidade dos bens e serviços. Os empregados com capacidade para contribuir para o seu trabalho de múltiplas maneiras serão mais bem sucedidos na resolução de problemas e na formulação de abordagens criativas. Se outrora a base para as decisões em matéria de contratação residia na educação e nas qualificações, muitos empregadores olham agora para indivíduos que são flexíveis e que podem adquirir novas competências rapidamente. Desta forma, o conhecimento especializado de determinada aplicação informática poderá não ser tão valioso quanto a capacidade demonstrada para entender prontamente o que está em questão. As especializações constituem frequentemente mais-valias, porém, se os trabalhadores demonstrarem dificuldade na aplicação de competências específicas de forma criativa em novos contextos, a sua existência poderá não ser encarada como benéfica num local de trabalho flexível e inovador. Os autores do estudo da Fundação Joseph Rowntree concluíram que, tanto nos sectores ocupacionais qualificados como nos não qualificados, as “qualificações pessoais” são cada vez mais valorizadas. A capacidade quer para colaborar e trabalhar de forma independente, quer para tomar a iniciativa e adoptar abordagens criativas perante desafios estão entre as melhores competências que um indivíduo pode levar para um emprego. Num mercado onde as necessidades individuais dos consumidores são gradualmente satisfeitas, é essencial que os empregados, numa gama de cenários que vai do sector de serviços à consultoria financeira, sejam capazes de se socorrerem das “competências pessoais” no local de trabalho.

já que não reduz significativamente as horas de trabalho e permite que todos os empregados envolvidos possam alargar a sua base de competências. segundo Pollert. No entanto. Tem sido sugerido que a ideia de uma transição linear suave de um período dominado por técnicas fordistas a um dominado por técnicas pós-fordistas exagera a verdadeira natureza do trabalho em ambos. homens e mulheres têm contribuído para a produção e reprodução do mundo social em que estão inseridos. A formação no emprego O investimento num núcleo de empregados que se podem tornar trabalhadores valiosos para toda a vida é visto como uma forma estratégica de acompanhar os tempos em rápida mudança. As mulheres e o local de trabalho: uma visão histórica Para a grande maioria da população nas sociedades pré-industriais (e para muitas pessoas nas sociedades do Terceiro Mundo. Este argumento tem sido adoptado por aqueles que alegam estarmos a passar na actualidade por um período de “neo-fordismo”.160 10. Anna Pollert sustenta que as técnicas Fordistas nunca estiveram tão arreigadas quanto alguns de nós acreditam. 10.1.4. as actividades produtivas e as actividades domésticas não estavam separadas. É também um exagero. A autora sublinha que as técnicas de produção em massa são ainda dominantes em muitas indústrias. O tipo de formação no local de trabalho é eficiente em termos de custos. A formação no local de trabalho pode ser uma importante forma de os trabalhadores desenvolverem as suas competências e perspectivas de carreira.1. Muitas vezes as mulheres tinham uma grande . Até recentemente. Os estudos feitos sobre jovens nascidos entre 1958 e 1970 revelaram que era mais provável que os empregados que possuíam qualificações recebessem formação no local de trabalho do que os desprovidos de qualificações. 10.5. As mulheres e o trabalho Ao longo da história. é importante notar que as oportunidades de formação não estão de modo igual disponíveis para todos os trabalhadores.4. ainda hoje). nos países ocidentais o trabalho remunerado era uma característica dominante dos homens. afirmar que a era da produção em massa tenha sido substituída pela flexibilidade total. Críticas ao Pós-Fordismo Uma crítica comum é a de que os analistas pós-fordistas empolam a real dimensão do abandono das práticas Fordistas.5. 10. tanto no quotidiano como ao longo de grandes períodos de tempo. especialmente naquelas que têm como alvo mercados de consumidores.4.5. por transformações das técnicas Fordistas tradicionais (Wood 1989). isto é. A produção era levada a cabo em casa ou perto dela e todos os membros de uma família trabalhavam a terra ou ocupavam-se em trabalhos artesanais.

implicaram que as mulheres fora das famílias tradicionais.5. . Como já se observou. Em 1981. mais de 75 por cento das mulheres na Grã-Bretanha. A força de trabalho feminino consistia essencialmente em jovens mulheres solteiras. o trabalho é central na sociedade contemporânea. e o emprego é. em todas as classes. A actividade económica crescente das mulheres tem sido central neste processo (Crompton. As dificuldades maiores eram suportadas pelas mulheres mais pobres. quando trabalhavam em fábricas ou escritórios. 1997). quer por opção quer por necessidade. eram enviados directamente para os pais. estejam também a entrar no mercado de trabalho.161 influência dentro do lar em consequência da sua importância nos processos económicos. com idades entre os 25 e os 44. 98 por cento dos homens. Ainda em 1910. O trabalho era realizado ao ritmo das máquinas por indivíduos contratados especialmente para realizar as tarefas em questão.2. As mulheres vieram a ser associadas aos valores “domésticos”. Também era vulgar as viúvas possuírem e dirigirem os negócios. mas por volta de 1997 o número caía para 91 por cento. O crescimento da participação das mulheres na actividade económica Ao regressar da guerra. eram economicamente activas. Outras mudanças na estrutura dos agregados. O factor principal da mudança foi provavelmente a passagem da produção para as fábricas mecanizadas. Em 1971. 10. um pré-requisito para uma vida independente. As taxas de emprego da mulher fora do lar. Os números referentes a mães solteiras são significativamente mais baixos – só 36 por cento das mães sozinhas com crianças em idade préescolar exerce uma profissão (HMSO 1999). sendo responsáveis por tarefas como o cuidado das crianças. com idades entre os 45 e os 54 anos. Muitos lares descobrem que é necessário ter dois rendimentos para sustentar o estilo de vida desejável. eram economicamente activos. a manutenção da casa e a preparação da comida para a família. que. incluindo o elevado número de solteiros sem filhos. os homens ocuparam de novo os empregos. Em 1997. A ideia de que «o lugar da mulher é em casa» teve um sentido diferente para mulheres de estratos sociais diferentes. para além de realizarem as tarefas domésticas. É também evidente que a divisão do trabalho doméstico entre homens e mulheres se tem atenuado ao longo do tempo. apenas metade das mulheres era economicamente activa. É provável que esta redução da desigualdade entre os géneros continue nos próximos anos. quase sempre. apesar de ainda caberem às mulheres mais tarefas domésticas do que aos homens. na Grã-Bretanha. bem como o crescimento de lares de mães solteiras. o que significa que exerciam ou procuravam um trabalho remunerado. mas o padrão pré-estabelecido tinha sido quebrado. tinham de trabalhar na indústria para suplementar o rendimento do marido. mesmo sendo excluídas do mundo masculino da política e da guerra. A ideia de esferas separadas – pública e privada – enraizou-se nas atitudes populares. mais de um terço das mulheres com emprego eram criadas ou empregadas domésticas. eram bastante baixas mesmo já bem entrado o século XX. cujos salários.

entre as nações industrializadas. por vezes. A concentração no emprego a tempo parcial Os empregos a tempo parcial oferecem mais flexibilidade aos trabalhadores do que o trabalho a tempo inteiro. 99 por cento dos empregados de escritório eram homens.3. A segregação horizontal pode ser pronunciada.3. 10. com base na ideia de que há «empregos para homens» e «empregos para mulheres». Os trabalhos de secretariado e os que envolvem cuidados a terceiros (como a enfermagem. quase 90 por cento dos escriturários e 98 por cento das secretárias no Reino Unido eram mulheres. ser um escriturário significava ter uma posição de responsabilidade.2. isto pode ser feito com sucesso. já que. que de outra forma poderiam renunciar ao emprego. O caso da Grã-Bretanha é específico. A segregação horizontal diz respeito à tendência para homens e mulheres ocuparem diferentes categorias de trabalhos. o trabalho social e a educação infantil) são esmagadoramente detidos por mulheres e. enquanto os homens ocupam posições mais poderosas e influentes. . A segregação ocupacional com base no género refere-se ao facto de homens e mulheres estarem concentrados em diferentes tipos de trabalho. no Reino Unido. Género e desigualdades no trabalho Apesar de possuírem igualdade formal em relação aos homens. o Reino Unido tem uma das mais elevadas taxas de emprego feminino a tempo parcial. que requeria conhecimentos de contabilidade e. 10.5. A segregação vertical diz respeito à tendência para as mulheres se concentrarem em postos de trabalho com pouca autoridade e espaço para ascender.1.5. estes empregos são muitas vezes os preferidos pelas mulheres que procuram equilibrar as obrigações da família e do trabalho. Alterações na organização do trabalho. As modificações no prestígio e nas tarefas dos escriturários são um bom exemplo disso.5.3. Em 1850. Muitos destes empregos são comummente vistos como “trabalhos de mulheres”. as mulheres são ainda alvo de uma série de desigualdades no mercado de trabalho. tornam-se então economicamente activas. pois a remuneração e o prestígio que lhes estavam associados diminuíram. considerados como ocupações femininas. têm contribuído para a segregação ocupacional. na generalidade. assim como estereótipos do papel dos dois sexos. A segregação ocupacional As mulheres que exercem uma profissão têm-se concentrado tradicionalmente em ocupações rotineiras e mal pagas. Em muitos casos.162 10. envolvia funções de gerência. Em 1998. Por esta razão. Muitas vezes. e as mulheres. As mulheres vieram a ocupar estes empregos.

De acordo com tal abordagem. As mulheres que têm essa responsabilidade (bem como outras obrigações domésticas). não assumem a responsabilidade principal na educação dos filhos.163 Porque é que há muito mais mulheres com empregos a tempo parcial do que homens? Houve pesquisas que revelaram que os empregos a tempo parcial são muito mal pagos. instáveis e. por forma a cumprir as obrigações domésticas tradicionais. Hakim refuta o argu-mento de que o acesso a cuidados às crianças constitui uma barreira para mu-lheres que desejam trabalhar a tempo inteiro. Com base numa amostra transnacional de entrevistas a mulheres trabalhadoras na Rússia. . de um modo geral. Os escritos de Hakim têm provocado ve-ementes respostas por parte de muitos sociólogos que discordam da ideia de que os padrões do mercado de trabalho sejam apenas um resultado das opções femininas (Ginn et al. Alguns académicos argumentam que há diferentes “tipos” de mulheres – as mulheres comprometidas com o trabalho. muitas mulheres preferem trabalhar a tempo parcial. na Grã-Bretanha. há hoje em dia dois tipos de mulheres trabalhadoras: as que estão “comprometidas” com o traba-lho a tempo inteiro e as que “não estão comprometidas” com o trabalho. Pelo contrário. 1998). argumentando que a posição das mulheres no mercado de trabalho é resultado das suas escolhas racionais. 1996. a rela-tiva falta de instituições para cuidar das crianças e a discriminação persistente com base no género para explicar por-que é que as mulheres aceitam empre-gos a tempo parcial e porque é que pa-recem satisfeitas com eles. Os que se opõem às suas teses acreditam ser errado ignorar os vários constrangimentos subjacentes às escolhas que as mulheres fazem. 1998). em França e na República Checa. Hakim alega que estes e outros “mitos” são avançados por académicas feminis-tas que cumprem uma agenda política. O proponente principal de tal visão é Catherine Hakim (1995. não acreditando que estas sejam exploradas em empregos a tempo parcial. atitudes familiares e normas culturais. Muitos sociólo-gos têm sublinhado constrangimentos como a segregação ocupacional. na Noruega. rejeitam a ideia de que as decisões das mulheres sejam «racionais» e tomadas fora de qualquer contexto. muitas trabalhadoras a tempo parcial diziam estar satisfeitas com o seu emprego a tempo parcial. muitas vezes. 1996. Os homens. dando prioridade às responsabilidades domés-ticas e trabalhando apenas a tempo par-cial fora de casa. e as mulheres não comprometidas com o trabalho. No entanto. quando questionadas. que acham que a divisão sexual do trabalho tradicional é inquestionável (Hakim 1996). O debate sobre o trabalho a tempo parcial Têm sido avançadas diversas explicações para justificar a posição de relativa desvantagem das mulheres no âmbito do mercado de trabalho. de trabalhar em empregos remunerados são da opinião de que o trabalho a tempo parcial é a opção mais viável. as decisões em relação à carreira são moldadas por desafios reais. Crompton e Harris. Crompton e Harris concluíram que os percursos biográficos das mulheres revelam que as atitudes em relação à família e ao trabalho são complexas e variáveis. ou precisam. Outros ado-ptam uma abordagem marcadamente diferente. mas que mesmo assim querem. De acordo com Hakim. mais flexíveis para o empregador do que para o empregado! No entanto.

As perspectivas de carreira. quaisquer que fossem. Diversos processos estão a afectar tais tendências. Isto é especialmente verdade para as mulheres que são chefes de família.164 10. . já que muitas mulheres se concentram em ocupações – como a de cabeleireira ou empregada de mesa – que durante muito tempo foram pagas abaixo do salário mínimo nacional. ou seja. A desigualdade salarial O salário médio das mulheres empregadas na Grã-Bretanha está bem abaixo do dos homens. em 1999. A introdução de um salário mínimo nacional. desapareceram. a probabilidade de as mulheres jovens com boas qualificações conseguirem um emprego lucrativo é idêntica à dos homens. A sua “perda feminina” será relativamente baixa e não irá sofrer a mesma “situação de desigualdade vivida pela mãe”. enquanto pouco mais de 20 por cento dos homens aufere de tal rendimento. A segregação ocupacional em função do género é um dos factores principais da persistência de uma disparidade de salários entre homens e mulheres. Esta tendência geral para a extinção da “disparidade dos salários” é correctamente observada como um passo significativo no movimento para a igualdade entre os dois sexos. A pobreza é especialmente grave para as mulheres com crianças pequenas que necessitam de cuidados constantes. A proporção substancial de mulheres no Reino Unido a viver na pobreza é reveladora dessa situação precária.5. também contribuiu para diminuir a disparidade de salários entre homens e mulheres. As mulheres estão sobrerrepresentadas nos sectores com empregos mais mal pagos: mais de 45 por cento das mulheres ganha menos de 100 libras por semana. Na actualidade. a disparidade de rendimento entre uma mulher sem filhos e uma mulher com filhos. Um factor significativo é o de hoje mais mulheres ocuparem posições profissionais mais bem pagas do que no passado.4. apesar de a diferença se ter atenuado de alguma forma nos últimos trinta anos.

Oportunidades crescentes para as mulheres no topo. é provável que uma mulher com baixas qualificações e mãe de dois filhos se confronte com uma situação de “desigualdade vivida pela mãe” no valor de 285. a “situação de desigualdade vivida pela mãe” e a “disparidade entre homens e mulheres” nos rendimentos auferidos pelas mulheres durante uma vida inteira A disparidade de salários As três categorias de ‘tipo de mulher’ A disparidade de rendimento nas três categorias A “perda feminina” – diferença de rendimentos durante uma vida inteira entre homens e mulheres – mesmo que estas não tivessem filhos – com qualificações semelhantes. Casa aos 21 anos e tem o primeiro filho aos 23 anos e o segundo aos 26. Trabalha como administrativa (por exemplo secretária). A “disparidade entre homens e mulheres” – disparidade de rendimento entre homens e mulheres com qualificações semelhantes. A segregação ocupacional com base no género é menos pronunciada entre os jovens licenciados que entram actualmente no mercado de trabalho.000 £241. Ao todo. Casa aos 28 anos e tem o primeiro filho aos 30 anos e o segundo aos 33.165 A “perda feminina”.5. Mulher com elevadas qualificações: licenciada e profissional especializada (por exemplo. resultante da “perda feminina” e da “situação de desigualdade vivida pela mãe”.1.5.. que no caso de uma mãe com qualificações médias com o mesmo número de filhos a desigualdade seja de 140.5. Mulher com qualificações médias: obtém aprovação no exame nacional do ensino secundário. Casa aos 26 anos e tem o primeiro filho aos 28 anos e o segundo aos 31.000 £285.000 libras – isto além da sua “perda feminina”. As mulheres oriundas da classe média têm a mesma probabilidade que os homens pertencentes à mesma classe de serem admitidas .000 libras (comparativamente ao que um homem com qualificações equivalentes iria ganhar).. há sinais de que as desigualdades extremas de género se estão a atenuar e de que as atitudes que as sustentam continuam em mudança.000 Em contrapartida. 10. está nove anos fora do mercado de trabalho e permanece num emprego a tempo parcial durante 28 anos. Ao todo. As desigualdades de género a nível ocupacional estarão a desaparecer? 10.5. Mulher com baixas qualificações: abandona a escola sem atingir o nível mínimo de qualificação escolar. 2000). Apesar do enraizamento da segregação ocupacional e da disparidade salarial.000 £140.000 £381. É mais provável que as mulheres pertencentes às duas últimas categorias regressem rapidamente ao trabalho e recorram a estabelecimentos para cuidar dos seus filhos durante a infância e adolescência (Rake. professora).000 £197. Trabalha a tempo parcial somente durante um ano e a tempo inteiro durante toda a sua vida. Trabalha como empregada numa loja. £197.000 £19. está apenas dois anos fora do mercado de trabalho e trabalha a tempo parcial 12 anos.000 £143. A “situação de desigualdade vivida pela mãe” – disparidade de rendimento no decurso da vida entre uma mulher sem filhos e uma mulher com filhos.000 libras e no de uma mulher altamente qualificada nas mesmas condições seja de 19.000 £162.

O emprego entre as mulheres com filhos pequenos está a aumentar substancialmente. 10. Neste modelo convencional. e os resultados só serão visíveis daqui a alguns anos. Tendências na «economia informacional» parecem estar a incrementar a cisão entre as mulheres que ocupam posições de topo e as que ocupam posições de base.5. . Em todos os grupos socioeconómicos é mais provável que as mulheres tenham um emprego a tempo inteiro se não tiverem filhos em casa. Porém. Exemplos semelhantes podem ser encontrados noutros domínios da economia. Isto é especialmente verdadeiro para as ocupações bem remuneradas.6.2.5. Contudo. factor que contribui para o elevado poder financeiro de agregados com dupla remuneração. Embora os serviços privados de cuidados infantis estejam a aumentar. regressando ao mesmo emprego e ao mesmo patrão.5..1. É possível que ocorram actualmente profundas transformações.5. às tarefas domésticas. A existência de creches deve ser vista como um dos elementos mais significativos que afectam as possibilidades de entrada das mulheres no mercado de trabalho. é maior do que nas últimas duas décadas. devemos ter presente que ainda demorará algum tempo até aquelas mulheres que estão a iniciar as suas carreiras atingirem o seu máximo no desempenho das mesmas. O trabalho doméstico tem sido tradicionalmente encarado como o domínio das mulheres. Para estas mulheres uma preocupação principal é cuidar dos filhos. hoje em dia a tendência para as mães retomarem o trabalho a tempo inteiro.. Mas as mulheres que se encontram na base permanecem desfavorecidas. a divisão doméstica do trabalho – a forma como as responsabilidades domésticas são partilhadas entre os membros do agregado familiar – era bastante clara: as mulheres dedicavam-se mais. 4 em cada 5 empresas não têm mulheres na sua direcção. por vezes de forma exclusiva. enquanto o domínio do «trabalho real» fora de casa era reservado aos homens.166 em boas universidades e de encontrarem uma ocupação bem remunerada. Alguns estudos revelaram que as posições de nível intermédio são mais acessíveis às mulheres do que as posições de topo. Menos de 5 por cento da direcção de companhias britânicas é exercida por mulheres. Contudo. são na maior parte das vezes demasiado caros. estes avanços nas oportunidades profissionais das mulheres não são iguais para todas. 10. enquanto os homens «sustentavam» a família com o seu salário. A divisão doméstica do trabalho 10.6. O trabalho doméstico O trabalho doméstico tornou-se «invisível». pois o «trabalho real» foi sendo gradualmente definido como aquele que recebe um pagamento directo.

O modelo do ‘homem ganha-pão’ tornou-se mais a excepção do que a regra. No entanto. O motivo para as mulheres trabalhadoras continuarem a ser largamente responsáveis pelo trabalho doméstico levou o sociólogo americano Arlie Hochschild a falar em ‘segundo turno’ (1989). bastante diferente. há provas de que mesmo este padrão pode estar a mudar. o trabalho em casa era difícil e penoso. O padrão das suas actividades é. descobriram que a distribuição dos recursos financeiros é. os homens assumem uma maior responsabilidade em relação à casa. parecem ser a excepção. A lavagem da roupa semanal. A instalação de água corrente quente e fria em casa pôs termo a muitas tarefas demoradas: anteriormente a própria água tinha de ser levada para casa e aquecida. mas hoje são poucas as mulheres donas de casa a tempo inteiro. feita de forma mais justa do que no passado. A canalização da electricidade e do gás tornou os fogões a carvão e a lenha obsoletos. Através de entrevistas a casais. relacionada com questões de classe. mas o fardo ainda não é partilhado de forma igualitária. permanecendo. então as actividades domésticas deverão ser organizadas de forma muito diferente nos dias que correm.2. ainda assim. por exemplo.5. As formas de trabalho remunerado e não remunerado estão estreitamente relacionadas como o demonstra a importância do trabalho doméstico para a economia global. quer na tomada de decisões financeiras. Os homens estão a contribuir mais para o trabalho doméstico do que no passado. As pequenas reparações no lar. embora os investigadores que analisaram o fenómeno afirmem que é um processo de ‘adaptação retardada’ (Gershuny et al. existindo um maior . em seis comunidades britânicas distintas. as finanças «conjuntas» tendem a ser geridas por ambos. evidentemente. Quer em termos de trabalho doméstico. e o aumento da independência económica das mulheres significa que estas estão em melhor posição para abandonar os papéis de género no lar se o escolherem fazer. No global. Se a quantidade de trabalho doméstico não diminuiu. 1994). o transporte do carvão e a limpeza constante do fogão foram em grande medida eliminadas. em Manchester. sempre que fosse necessário ter água quente. Entre os casais com rendimentos elevados. e as actividades como o habitual rachar da lenha. era uma esfera pesada e exigente. no conjunto. revelou que a divisão do trabalho doméstico era mais igualitária entre casais jovens do que entre os mais velhos.6. tarefas frequentemente executadas pelos homens.167 Antes das invenções e equipamentos proporcionados pela industrialização terem influenciado a esfera doméstica. Um inquérito conduzido por Warde e Heatherington (1993). Mudanças na divisão doméstica do trabalho Um dos resultados da entrada maciça de mulheres no mercado de trabalho reside no facto de certos padrões familiares tradicionais estarem a ser renegociados. 10. os papéis domésticos tradicionais das mulheres estão a sofrer mudanças significativas.

quer em casa. Estudos como o do Instituto da Educação são sublinhados por activistas que afirmam que as mulheres deveriam ter o direito legal de regressar ao trabalho um ano após o nascimento de uma criança.3 horas. Os longos horários estarão a tornar-se norma? Alguns acreditam que sim e que esta não é uma tendência particularmente saudável. 10. O trabalho e a família Até agora examinámos algumas das principais transformações que estão a ocorrer no mundo do trabalho. sugerindo que as crianças cujos pais saem para trabalhar podem ficar numa posição desfavorecida face às que usufruem da companhia de um dos progenitores em casa durante os seus primeiros anos de vida. praticamente em toda a Europa.1. os que trabalham.2. a introdução de técnicas de produção flexíveis pós-fordistas e a entrada das mulheres no mercado de trabalho.6. mais horas: 45. A relação problemática entre família e trabalho O declínio do lar tradicional com ‘ganha-pão masculino’ tem sido acompanhado por uma maior igualdade para as mulheres. os empregos são extintos ou “reduzidos”.6. as horas de trabalho estão gradualmente a usurpar o valioso ‘tempo de descanso’ que a saúde das pessoas exige. Muitas são controversas. De acordo com os críticos.6. Em famílias com baixos rendimentos. em média. . como é prática corrente. a média da EU (HMSO 2000. As empresas esforçam-se para obter uma maior eficiência e “emagrecem”. e muitos empregados vivem momentos de ansiedade face à instabilidade das suas posições.7 horas por semana comparativamente a 41. 10. as mulheres são frequentemente responsáveis pela gestão diária das finanças do agregado. 74). 10. quer na esfera profissional.168 grau de igualdade no acesso ao dinheiro e na tomada de decisões sobre as despesas. mas não são necessariamente encarregues de decisões estratégicas sobre a gestão do orçamento e das despesas.6. O prolongamento da semana de trabalho Os homens britânicos com empregos a tempo inteiro são.1. Como são vividas estas mudanças no mundo do trabalho no seio da família? 10.1.1. como a mudança para uma economia do conhecimento. e não mais cedo. O emprego dos pais e o desenvolvimento da criança Estarão as mães trabalhadoras a “menosprezar” as suas crianças? Esta questão tem suscitado opiniões distintas. p.

Para as mães solteiras.00 38. Concluíram que as crianças têm melhor desempenho escolar quando ambos os pais trabalham.00 15. que não estavam dispostos a fazer quaisquer concessões pelo facto de as . ir buscar a criança no final do dia.00 30. Surpreendentemente. apesar de estarem em casa. quer com a mãe.1. deixá-las no infantário.65 16.00 42. de alguma forma.169 Como complemento dos questionários. embora sejam muito mais as mulheres no mercado de trabalho.70 15. passar o tempo com as crianças à noite. as crianças passavam menos tempo quer com o pai.00 75.00 13. Após mais de duas décadas.25 74. nos lares onde o pai trabalhava a tempo inteiro e a mãe estava em casa. mas que os resultados são. Relato das crianças relativo ao tempo passado com os progenitores segundo a situação laboral destes (horas e minutos) Situação perante o trabalho Semana (5 dias) Fim-de-semana (2 dias) Total Tempo despendido com os pais Agregados onde ambos os pais trabalham Mãe (Trabalho a tempo parcial) Pai (Trabalho a tempo inteiro) Ambos os pais trabalham Mãe (Trabalho a tempo inteiro) Pai (Trabalho a tempo inteiro) Agregados onde apenas um trabalha Pai (Trabalho a tempo inteiro) Mãe Pai 26.6. Barking e Dagenham foi o local de um importante estudo sociológico conduzido por Peter Willmott. as crianças com mães a trabalhar a tempo parcial exprimiram. no conjunto. Muitas citaram a inflexibilidade dos empregadores.3. A pressão sobre as mães trabalhadoras Para muitas mães trabalhadoras.0 68. o que se aplica particularmente aos fins-de-semana.30 36.30 20. nos anos cinquenta.40 33.00 15. trabalhar o dia inteiro. mais satisfação do que aquelas cujas mães trabalham a tempo inteiro.20 Mãe Pai 22.50 18. o quotidiano é uma confusão: levantar as crianças e prepará-las pela manhã. mais baixos entre aquelas cujos pai e mãe trabalham a tempo inteiro. o acesso das crianças às mães era mais fácil nos casos em que a mãe trabalhava a tempo parcial.00 12. na medida em que há menos ajuda e menos “rede de apoio”.75 Mãe Pai 22. tais desafios são ainda maiores. de alguma forma. embora a diferença não fosse significativa. em particular quando a criança adoece e necessita de cuidados. tratar dos afazeres em casa e arranjar tempo para as suas próprias necessidades. a região sofreu poucas mudanças (a maior parte dos homens continua a trabalhar em actividades manuais).60 38. 10. Observaram que. No que diz respeito à qualidade das relações entre pais e filhos.25 18. De acordo com as narrativas das crianças. foi pedido às crianças que elaborassem diários durante uma semana e que relatassem por escrito as suas rotinas diárias.00 Não se registaram diferenças significativas entre as ocupações dos pais nos três grupos. as mães não trabalhadoras não passavam necessariamente mais tempo com elas. incluindo o tempo que despendiam com cada um dos pais.

2000). os empregadores descobrem que estes são mais leais e empenhados. as políticas flexíveis são vantajosas para os empregados porque. 10. Lisa Harker (1996) evidenciou quatro objectivos-chave a ter em conta: 1. aos empregados. As políticas devem apoiar a igualdade de género e a partilha de compromissos familiares entre homens e mulheres. pela sua própria natureza. Embora estes resultados sejam importantes para revelar os enormes desafios que as mães trabalhadoras enfrentam no mundo contemporâneo. Wilson. Trabalho flexível O trabalho flexível é uma das opções bastante adoptada pelos trabalhadores. tendendo também a ser mais eficientes e produtivos por despenderem menos tempo de trabalho a tentar coordenar as várias dimensões da sua vida. 4.1. Em primeiro lugar. a articulação entre os compromissos da casa e do trabalho. as empresas mais flexíveis e os estilos de gestão mais “suaves”. Tal como o seu nome sugere. por exemplo. 10. As políticas laborais de ‘apoio à família’ Se entrámos verdadeiramente numa era na qual o ritmo de trabalho é mais rápido. Devem ser implementadas em condições de trabalho razoáveis e apoiar as necessidades dos empregados. 3. As políticas não devem discriminar. Contudo.6. As políticas devem ser orientadas para facilitar. Os defensores das políticas laborais de ‘apoio à família’ afirmam que estas são uma proposta “vencedora”. Um segundo aspecto fundamental das políticas laborais de ‘apoio à família’ reside no facto de serem vantajosas para o empregador.2. o trabalho flexível permite aos trabalhadores escolher as suas próprias horas de trabalho no âmbito de limites estabelecidos. Uma política laboral de apoio à família não é bem sucedida se não alcançar um equilíbrio – um ‘compromisso invisível’ – entre as necessidades do trabalhador e as do empregador.6. estará a legislação do trabalho também em mudança para facilitar aos empregados a gestão da relação entre família e trabalho? Não há consenso sobre o critério exacto para uma política ser considerada como política laboral de ‘apoio à família’. mas algumas visões estão a tornar-se cada vez mais populares com a expansão das novas tecnologias de informação.170 mulheres que regressaram terem novas obrigações adicionais para com um bebé (J. As políticas laborais de apoio à família estão longe de ser universais. um esforço complexo e trabalhoso. ao permitirem-lhes tomar decisões sobre o tipo de trabalho mais adequado ao seu caso.2. proporcionam-lhes um maior controlo sobre as suas vidas. devemos também ser cautelosos ao interpretá-los. no seu inquérito sobre os vários tipos de políticas de trabalho de apoio à família actualmente existentes na Europa. Ser mãe ou ser pai é. 2. que uma mãe trabalhadora comece o seu dia às 7 . Ao trabalhar com os empregados na criação de padrões de trabalho mais adequados. o que pode significar.

entre os casais onde os dois auferem de um rendimento e podem utilizar o trabalho flexível para coordenar os seus horários de trabalho e as necessidades das crianças – não é aplicável a todos os tipos de trabalho. Por esta razão. A partilha do trabalho A partilha do trabalho é uma proposta que repensa a forma segundo a qual o trabalho está organizado. 10. Apesar de o trabalho flexível ser popular entre muitos empregados – em particular. O trabalho em casa Apesar de o trabalho realizado em casa ser hoje mais aceite.171 horas da manhã por forma a estar em casa na altura em que o seu filho termina a escola à tarde. Em muitos outros países europeus têm sido implementadas políticas relativas à licença parental no sentido de encorajar. A partilha de empregos pode também ser organizada entre dois trabalhadores a tempo parcial que precisam de flexibilidade para compromissos fora da esfera do trabalho. A licença parental O grau de apoio de uma empresa à família pode ser avaliado em função das políticas de licença para assistência aos filhos. se for estabelecido um sistema eficiente de registo e comunicação.2. tal pode constituir uma opção atractiva. Finalmente. alguns empresários são hostis ao trabalho flexível. por lei não são obrigados a fazê-lo. 10. No entanto. em que ambos os indivíduos têm idênticas habilitações ou competências. em . este tipo de trabalho oferece grande flexibilidade aos empregados e às empresas. 10. muitas empresas no Reino Unido estão a utilizar as propostas acima descritas para diminuir o fardo sobre os jovens pais. já que transforma simplesmente a carga de trabalho num novo padrão. não é necessariamente a opção preferida por todos os empregadores. porque ambos os indivíduos devem permanecer informados sobre as tarefas que foram executadas e as que ficaram por fazer.2. No âmbito da implementação de políticas mais favoráveis aos empregados. Os críticos também argumentam que o trabalho flexível não pode criar nenhum tempo extra para passar com a família. novos tipos de controlo são frequentemente colocados em casa dos trabalhadores por forma a garantir que eles não abusam da sua ‘liberdade’.3. Apesar de alguns empregadores concordarem com licenças de maternidade e paternidade mais generosas.4.6. pois permite que um deles esteja disponível para cuidar das crianças a qualquer momento.6. É bem mais difícil supervisionar o trabalho de um empregado quando este não está no local de trabalho. afirmando que os trabalhadores precisam de estar no local de trabalho durante as horas de trabalho para prestar serviço aos clientes e colaborar com os colegas. Para um casal casado ou a coabitar.2.2. Há desafios práticos envolvidos no desenvolvimento normal da partilha de empregos.6.

a taxa de usufruto de políticas flexíveis varia bastante. sendo frequentemente concedidas apenas a empregados privilegiados. Um inquérito aplicado aos membros do Instituto de Dirigentes Empresariais revelou que 45 por cento considera que as mulheres com crianças pequenas devem ser preteridas face a outros grupos. São concedidos dez a quinze dias por ano aos pais para o caso de a criança adoecer. .. 1999.2. O compromisso com o pleno emprego tornou-se parte da política governamental praticamente em todas as sociedades ocidentais. um receio que não parece despropositado. de que o facto de concordarem com políticas flexíveis significará um fraco ‘compromisso’ com o local de trabalho. p. a partir da Segunda Guerra Mundial. o que pode estar relacionado com o receio. o pai a tirar licença para auxiliar a cuidar dos filhos. A situação na Suécia é. por parte de algumas mulheres. Como notou o Comissário Europeu para o Emprego e Assuntos Sociais. Durante cerca de um quarto de século. um modelo ao qual o Reino Unido deve aspirar. e o crescimento económico foi mais ou menos contínuo. e o Keynesianismo foi abandonado. a taxa de desemprego na Grã-Bretanha foi inferior a 2 por cento.7.5.. na opinião de alguns comentadores. Durante os anos 70 e 80. as tentativas inovadoras para auxiliar os empregados na gestão da vida familiar e profissional podem ser vistas como uma resposta dinâmica e positiva às mudanças na economia e na natureza do trabalho. O desemprego As taxas de desemprego têm flutuado consideravelmente no decurso deste século.172 particular. 1999). em grande parte. Porém. é a redução da semana de trabalho para todos. devido a conflitos de interesse potenciais entre a profissão e a família. para ultrapassar a cultura de horários longos (Creighton. Em primeiro lugar. 10. os índices de desemprego dispararam em muitos países. 82). pela raiz. persiste a ideia de que estes cuidados são da responsabilidade da mulher’ (PNUD. ‘mesmo onde há instrumentos de política orientados para acabar com o desequilíbrio entre os géneros no que toca aos cuidados à criança. Até aos anos 70. 10. A solução. apenas 5 por cento da força de trabalho masculina na UE – o que inclui países onde as políticas são relativamente generosas – trabalha a tempo parcial ou tirou licença de paternidade em 1995. Em segundo lugar. tal como estão actualmente implementadas. deste problema que assola as famílias contemporâneas. estas políticas pareciam ter sucesso. segundo sustentam alguns activistas e decisores políticos.6. Avaliação Por um lado. as políticas de trabalho flexível não estão implementadas em muitos locais de trabalho. como meio de regulação da actividade económica. as políticas de trabalho orientadas para o ‘apoio à família’ ficam aquém do que se esperava no que diz respeito à resolução. Por exemplo.

por um curto período. não é fácil interpretar as estatísticas oficiais de desemprego. e não de circunstâncias que afectem os indivíduos. por vezes designado como «desemprego temporário». refere-se à entrada e saída habitual. Significa «estar sem trabalho». desemprego e não-emprego População com idade superior à idade escolar Empregados? Sim A tempo inteiro Não Pretende um horário mais alargado? Sim Pode começar já? Sim Empregados a tempo inteiro Não Sim Subempregado Desempregado Semidesempregado Nem empregados nem desempregados Sim Ainda não Não Não Deseja trabalhar? Sim Procura de emprego? De momento não De forma nenhuma Empregados Economicamente activos Também não é fácil definir o desemprego. de indivíduos no mercado de trabalho. Um deles.173 10. Análise do desemprego Contudo. As estatísticas globais do desemprego são também problemáticas devido ao facto de englobarem dois «tipos» distintos de desemprego.7. Muitas estatísticas oficiais são calculadas de acordo com a definição de desemprego utilizada pela Organização Internacional do Trabalho (Internacional Labour Organization). os reformados não são contabilizados como «desempregados». O registo do desemprego efectuado pela Organização Internacional do Trabalho inclui os indivíduos que não têm emprego. Em contrapartida. Uma taxonomia dos estados possíveis de emprego. o desemprego ocasional. entende-se por desemprego estrutural a falta de emprego resultante de mudanças estruturais na economia. por razões como a mudança de emprego. que estão disponíveis para iniciar uma actividade no prazo de duas semanas e que procuraram um emprego no mês anterior. a procura de uma ocupação após a licenciatura ou um período de saúde débil.1. Muitas pessoas têm empregos remunerados a tempo parcial ou só têm empregos pagos esporadicamente. .

sendo maiores as dificuldades económicas dos desempregados. enquanto aqueles cujos pais provinham da classe social V. 10. Na Primavera de 1998. Na população de origem indiana.3. os indivíduos podem cair em períodos de depressão e profundo pessimismo sobre si próprios e as suas perspectivas de emprego. mais baixa é a taxa de desemprego. No caso dos Estados Unidos.7. em média. Até certo ponto. incluindo uma elevada proporção de indivíduos que nunca trabalhou (ESRC. o processo de adaptação é eventualmente completado. e os indivíduos resignam-se à sua situação (Ashton. A probabilidade de os homens desempregados terem trabalhado anteriormente era duas vezes maior do que entre as mulheres. ou eram filhos de mães solteiras. Se o período de desemprego se prolonga. A taxa de desemprego para os que têm idades compreendidas entre os dezoito e os vinte e quatro anos é quase o dobro da taxa total. O desemprego na Grã-Bretanha Na Grã-Bretanha as variações na distribuição do desemprego. tal como este é definido pelo governo. encontram-se bem documentadas. 1986). detinham as taxas de desemprego mais elevadas. estas taxas são artificialmente elevadas. a taxa de desemprego entre os afro-caribenhos era de 19 por cento e entre os paquistaneses e os oriundos do Bangladesh de 21 por cento. Quando essas expectativas não são retribuídas. mais elevado entre as minorias étnicas do que entre a população branca. seguido de um optimismo face a novas oportunidades. enquanto estão a estudar ou a frequentar cursos de formação. O desemprego é mais elevado entre os homens do que entre as mulheres. 1997).7. A experiência do desemprego A experiência do desemprego pode ser muito perturbadora para os que se habituaram a ter empregos seguros. A classe social e as taxas de desemprego estão correlacionadas. O Inquérito à População Activa revelou que quanto mais elevado é o nível de qualificação. A consequência mais imediata é. Embora a experiência seja individual. De acordo com o estudo do ESRC efectuado junto dos jovens nascidos em 1970.2. a taxa era de 8 por cento – um dos factores que levou alguns a sugerir que a população britânica de origem indiana havia praticamente alcançado a paridade socioeconómica com a população branca. O desemprego é. A probabilidade de as mulheres registadas no desemprego terem estado em casa a cuidar das crianças ou do lar é dez vezes maior do que entre os homens (HMSO. 1999). aqueles cujos pais provinham das classes sociais I ou II tinham as taxas de desemprego mais baixas. como sucede frequentemente. Os jovens são particularmente afectados pelo desemprego. os indivíduos recentemente desempregados vivem muitas vezes um sentimento de choque. os apoios ao desemprego são atribuídos por períodos de tempo mais reduzidos e a assistência médica pública não é universal. . 1999). Pelo contrário.174 10. As taxas de desemprego estão igualmente associadas às qualificações educacionais. obviamente. pois incluem estudantes que têm empregos a tempo parcial ou temporários. a taxa de desemprego entre os indivíduos sem qualificações era quatro vezes maior do que a existente entre os indivíduos com elevadas qualificações educacionais (HMSO. a perda de rendimentos.

vivem hoje a precarização do trabalho. têm sido submetidos a elevados ou mais baixos níveis de precarização. níveis mais baixos de precarização do trabalho. O inquérito também examinou as categorias de trabalhadores que. os “profissionais” deixaram de ser o grupo ocupacional mais seguro para se tornarem o menos seguro.8. ao longo dos anos. Para os indivíduos posicionados no último nível da escala de rendimentos. um sentimento de receio a respeito da estabilidade futura da sua posição e do seu papel no local de trabalho. 10. 10. 44 por cento dos inquiridos afirmaram que era “pouco” ou “nenhum” (Burchell et al. . Alguns críticos argumentam que estudos como o projecto sobre a precarização e intensificação do trabalho (JIWIS) não passam de uma resposta pouco fiável à percepção da precarização entre as classes médias. O desacordo gira em torno da dimensão do fenómeno nos últimos anos e. as consequências do desemprego são sobretudo sentidas a nível financeiro. É importante sublinhar que a experiência do desemprego também varia em função da classe social. dá-se quanto à identificação dos segmentos da população trabalhadora que são confrontados com a precarização do trabalho de forma mais acentuada. 10.8. O esforço no sentido da eficiência e do lucro faz com que os indivíduos com poucas qualificações – ou as qualificações ‘erradas’ – sejam relegados para empregos precários e marginais. registando o valor mais elevado desde a Segunda Guerra Mundial (Burchell et al. A ‘classe média insegura’: haverá um empolamento da questão da precarização do trabalho? A expansão da era da informação acarretou a perda de emprego de muitos funcionários públicos. à medida que os sistemas foram dominados pela utilização dos computadores. Quando questionados quanto ao zelo da administração pelos interesses dos empregados. em diversos tipos de ocupações. sobretudo.1. 1999). Uma das principais razões desta precarização parecia ser uma falta de confiança na administração. Sugeriu-se que entre os indivíduos da classe média o desemprego era perturbador sobretudo no que respeita ao seu estatuto social e não ao nível financeiro. no tipo de gestão utilizado e na forma como as tarefas são distribuídas e executadas.1. Muitos investigadores concordam que a precarização do trabalho não é um fenómeno novo. O aumento da precarização do trabalho O estudo da Fundação Joseph Rowntree concluiu que a precarização do trabalho está agora no seu auge. Entre 1986 e 1999. de alguma forma. Os trabalhadores. A mudança brusca pode ser perturbadora. A precarização do trabalho A difusão das tecnologias de informação está também a provocar transformações na estrutura das organizações. 1999).175 A solidez das comunidades e dos vínculos sociais pode ser também perturbada por níveis de desemprego elevado. enquanto os trabalhadores manuais registaram. vulneráveis às mudanças nos mercados globais.8.1.

tem permanecido constante desde 1970 e o desemprego continua a afectar apenas 1 em cada 5 britânicos durante a sua vida. revelaram que a mudança de emprego está associada a duas tendências divergentes.2. 1996). de alguma forma. como hipotecas consideráveis. cuja fé na estabilidade dos seus empregos os levara a assumir compromissos financeiros significativos. educação privada para as crianças ou actividades de lazer de custos elevados. Esta ligação é fundamentada por dados do . O termo foi utilizado para descrever os trabalhadores de colarinho branco. como o ritmo de trabalho e a confiança na progressão da carreira (Burchell et al. 1996). e 13 por cento tinha estado no emprego vinte ou mais anos. Para além disso. 10. mesmo assim a probabilidade destes trabalhadores se encontrarem numa situação de desemprego era menor do que a dos indivíduos menos qualificados (Lilley et al.176 Enquanto os operários se habituaram. 1999). A precarização do trabalho continuou a ser um tópico central nos círculos mediáticos e “profissionais”. outras fontes de informação contradizem os resultados do estudo sobre a precarização e intensificação do trabalho (JIWIS). Em 1995. O estudo observou uma forte correlação entre a precarização do trabalho e a fragilidade da saúde. muitos vêem diminuir as suas oportunidades de promoção. aplicado a uma amostra representativa da população adulta com dezoito anos ou mais. um dado que permanece virtualmente inalterado desde há vinte anos para cá (Jowell et al. Os efeitos nocivos da precarização do trabalho Ao mesmo tempo que as exigências sobre os trabalhadores aumentam. a média de permanência nos empregos hoje está ligeiramente abaixo dos cinco anos. Os analistas do Inquérito sobre as Atitudes Sociais dos Britânicos concluíram que as crenças populares em relação à quase universal precarização do trabalho eram exageradas.8. embora os gestores e os “profissionais” enfrentassem agora a ameaça do desemprego muito mais do que anteriormente. a viver com a ameaça da perda de emprego. de que estão a ‘perder o controlo’ sobre importantes aspectos do seu emprego. Esta ansiedade entre os profissionais especializados levou alguns a falar de uma ‘classe média insegura’. os trabalhadores de colarinho branco estavam menos preparados para as mudanças introduzidas nas suas ocupações. No entanto. De acordo com os críticos. Por outro lado. apesar de alguns acreditarem ter sido uma reacção exagerada quando comparada com a precarização mais crónica vivida pelas classes trabalhadoras. sugerindo que a precarização do trabalho é um «mito» que se estendeu ao grupo dos quadros superiores. Os resultados do Inquérito sobre as Atitudes Sociais dos Britânicos. Esta combinação conduz ao sentimento. entre os trabalhadores. este «mito» não é partilhado por grandes segmentos de opinião. A proporção de pessoas que estão verdadeiramente preocupadas com o desemprego – menos de 10% . 33 por cento dos inquiridos estava no seu actual emprego há mais de dez anos.

preferindo manter os seus próprios empregados a ir buscar novos. apesar de ser elogiada por dar aos trabalhadores mais liberdade na orientação da sua trajectória individual. nas palavras de Gorz. A diminuição da dimensão organizacional das empresas é uma realidade.2.. esta situação é ainda a excepção e não a regra. cada vez mais indivíduos se tornarão no que designam como trabalhadores polivalentes. juntamente com a expansão do trabalho a tempo parcial.» (Gorz. Para encontrarem um novo emprego.8. ou se de qualquer modo é opressivo ou enfadonho. mesmo que isso signifique pagar acima do valor de mercado. De acordo com estes autores.9.1.. compromisso. Isto é particularmente necessário nos casos em que o trabalho é organizado numa perspectiva Taylorista. Declínio da importância do trabalho? A identificação do «trabalho» com «emprego remunerado» é muito limitativa. no futuro. A taxa de falência das empresas em Silicon Valley é muito alta: cerca de 300 novas empresas surgem todos os anos. 67). O aumento do desemprego. 10. «é cada um libertar-se do trabalho . já criaram o que chama «uma não-classe de não- . versáteis e dispostos a correr riscos – contradizem directamente muitas das características intrínsecas a um carácter forte: lealdade. Os trabalhadores manuais são hoje uma minoria – e uma minoria em declínio – da força de trabalho. o qual revela que a saúde física e mental dos indivíduos se deteriora com episódios de precarização laboral prolongada. confiança e intenção. a ideia de um «emprego para toda a vida» está ultrapassada. Em vez de a classe trabalhadora se tornar o maior grupo da sociedade (como Marx sugeriu) e chefiar uma revolução bem sucedida. 1982.177 Inquérito aos Agregados Domésticos Britânicos. argumenta Gorz. O fim do «emprego para toda a vida»? À luz do impacto da economia global e da procura de uma força de trabalho flexível. alguns sociólogos e economistas defendem que. As razões parecem residir no facto de os gestores reconhecerem que um alto grau de rotatividade entre os trabalhadores é dispendioso e negativo para a sua moral. 10.3. Um estudo recente de Silicon Valley. 10. na Califórnia. cumprimento de objectivos a longo termo. a flexibilidade também impõe novos e rígidos constrangimentos. defende que o sucesso económico de uma área já está definido nos «portefólios de especialização» da sua força de trabalho. A ‘corrosão do carácter’ As expectativas hoje colocadas nos trabalhadores – as de serem flexíveis. «O que interessa». adaptáveis. O autor argumenta que.8. Sennett sugere que este tipo de tensões são inevitáveis na nova era da flexibilidade. p. podem ser forçados a desenvolver e diversificar as suas capacidades. mas um número equivalente fracassa. atirando para o mercado de trabalho muitos milhares de trabalhadores que podiam pensar que tinham um emprego para toda a vida. No entanto. na verdade ela está a diminuir.

a produção e a administração política serão organizadas de modo a maximizar a eficiência. o progresso neste sentido tem sido lento. Não obstante. parecemos estar ainda longe da situação prevista por Gorz. através do qual irá decidir sobre as várias possibilidades de trabalho que poderá realizar em diferentes momentos da sua vida. os reformados. pelo menos até à data. Até que ponto estas ideias serão válidas? É um facto indiscutível que estão a ter lugar grandes transformações na natureza e na organização do trabalho nos países industrializados. Para muitos um trabalho remunerado continua a ser a forma básica de gerar os recursos materiais necessários para assegurar uma vida diversificada. Num sector. paralela aos que têm empregos estáveis. no crescimento económico e nos bens materiais. É certamente válido. encarar o desemprego não como algo inteiramente negativo. De facto. Talvez um número cada vez maior de indivíduos se possa dedicar ao planeamento da vida. pois a proporção da população com empregos estáveis a tempo inteiro em qualquer momento é relativamente pequena – a “não-classe” inclui os jovens. O resultado parece ser uma mudança no sentido da rejeição da perspectiva «produtivista» da sociedade ocidental. a maioria das pessoas pertence a esta «não-classe». juntamente com as pessoas com emprego a tempo parcial ou desempregadas. . os doentes e as donas de casa. mas como algo que dá aos indivíduos a oportunidade de poderem dedicar-se ao que lhes interessa e de desenvolverem os seus talentos. com a sua ênfase na riqueza.178 trabalhadores». como Gorz sugeriu. O outro sector será uma área na qual os indivíduos se ocupam de tarefas não laborais que oferecem satisfação ou realização pessoal.

caso não sejam contidas. Foi apenas necessário um século – de 1800 a 1900 – para que a população duplicasse para 2 mil milhões. O aumento da população nos países menos desenvolvidos parece estar a ultrapassar os recursos que esses países podem gerar para a alimentar. A tendência geral dos números era ascendente e.000.179 11. Malthus salientou que. É claro que este quadro não passava de uma ficção de pesadelo para concentrar a atenção na importância do crescimento da população.000. Durante algum tempo. foram efectuadas dezenas de previsões acerca das consequências potencialmente catastróficas de um crescimento contínuo da população. a não ser que praticassem o que designou como “restrição moral”. existiriam 60. Enquanto viajantes da “nave terra”. O progresso em termos de desenvolvimento económico e do aumento do nível de vida nos países em vias de desenvolvimento poderá ser significativamente atrasado pelas exigências de uma população em crescimento. O receio de que a escassez e a fome poderão acompanhar o crescimento da população não é descabido. O ritmo do crescimento da população no mundo pré-moderno era regido por um determinado tipo de auto-regulação.000 (60 quadrilhões) de pessoas no planeta terra daqui a 900 anos! Este número seria o equivalente a cento e vinte pessoas por metro quadrado da superfície terrestre.000 anos para a população mundial atingir mil milhões de pessoas. muitos esperaram a chegada de uma nova era em que a escassez seria um fenómeno do passado. as preocupações que suscitou são reais. o Malthusianismo foi ignorado. incluindo a terra e a água. os casamentos eram adiados e o número de nascimentos baixava. CRESCIMENTO DA POPULAÇÃO E CRISE ECOLÓGICA As taxas de natalidade das sociedades pré-modernas eram muito elevadas por comparação com os padrões do mundo industrializado de hoje. se algumas vezes existiam períodos de maior crescimento populacional. O fim inevitável é a fome que. enquanto o aumento da população é exponencial. actua como um limite natural ao crescimento da população. Contudo. Como é . Foram necessários 10. O grau de rapidez e criatividade com que formos capazes de responder a estes desafios é de crucial importância para todos nós. qualquer que seja o lugar onde vivemos. estes eram logo seguidos pelo aumento das taxas de mortalidade. não é surpreendente.000. Por isso. somos todos afectados por mudanças que influem no mundo natural. o crescimento da população é apenas um dos factores que afecta a escassez em muitos países do mundo. Malthus previu que os seres humanos viveriam sempre em circunstâncias de miséria e de fome.000.1. As tendências actuais representam um sério risco para o bemestar futuro das sociedades humanas em qualquer local. Nos anos 60 do século XX. quando as colheitas eram más. Durante o período de ascensão do industrialismo. O crescimento da população mundial Ao longo dos anos. estimava-se que se as taxas actuais do crescimento não fossem controladas. a alimentação depende de recursos fixos que apenas podem aumentar se se cultivarem mais terras. que muitas pessoas se preocupem com o que nos reserva o século XXI. Na Europa medieval. 11. Mas. como veremos. enquanto a mortalidade aumentava. combinada com a influência das guerras e das pragas. pois o crescimento da população nos países ocidentais seguiu um padrão muito diferente do prognosticado por Malthus.

Alguns países europeus têm taxas de crescimento negativas – por outras palavras.180 que as sociedades humanas irão gerir estas mudanças? E como é que o planeta será afectado? 11. as estatísticas demográficas são muito menos fiáveis. muitas pessoas não estão registadas nas estatísticas oficiais da população. sociais e culturais. bem como as migrações da população. mesmo nestes países as estatísticas demográficas não são totalmente exactas. de facto. Os padrões demográficos são orientados por três factores: nascimentos. a diferença é enorme. Então porque é que a população mundial aumentou de forma tão dramática? Na maioria dos países menos desenvolvidos. ainda que estes dados sejam recolhidos de forma rigorosa. . houve um rápido decréscimo da mortalidade.3. omitem o seu registo. Análise da população: a demografia Chamamos demografia ao estudo da população. existe um censo exaustivo de dez em dez anos e.2. No Reino Unido.1. num dado período. em larga medida. Estes números podem não parecer muitos diferentes das taxas dos países industrializados mas. as pessoas de passagem e outros que. por várias razões. têm estabilizado. em particular nos que têm registado recentemente elevadas taxas de crescimento populacional. Em muitos países menos desenvolvidos.1. A razão reside no facto de o crescimento da população ser exponencial. 11. por uma razão ou por outra. são conduzidos estudos sobre amostras da população. numa altura em que as nações começaram a recolher estatísticas oficiais sobre a natureza da população e a sua distribuição. 11. desde então. Dinâmicas de mudança na população As taxas de crescimento ou de declínio da população são medidas subtraindo o número de mortes por mil. As taxas de crescimento populacional eram elevadas nos séculos XVIII e XIX na Europa e nos Estados Unidos mas. Contudo. regularmente. O termo foi inventado há cerca de um século e meio. em virtude da introdução relativamente rápida da medicina moderna e dos métodos de higiene. o período de tempo que a população leva para duplicar. Normalmente. Contudo. A precisão das estatísticas oficiais é ainda mais baixa nos países da África Central. são. a demografia é tratada como um ramo da sociologia porque os factores que influenciam o número de nascimentos e de mortes num dado grupo ou sociedade. Muito do trabalho demográfico tende a ser estatístico. a sua população está a diminuir. mortes e migrações. incluindo-se nelas os imigrantes ilegais. Podemos medir este efeito através do período de duplicação.1.1. as pessoas sem abrigo. O crescimento da população nos países em vias de desenvolvimento Virtualmente todos os países industrializados têm hoje pequenas taxas de natalidade e de mortalidade em comparação com o registado no passado. Hoje em dia muitos países menos desenvolvidos têm taxas entre 2 e 3 por cento. a um número de nascimentos por mil – e são normalmente calculadas anualmente.

Este conceito foi introduzido pela primeira vez por Warren S. que actualmente tem uma população de mais de mil duzentos e cinquenta milhões de pessoas – quase um quarto da população mundial.4. que começou na Europa e nos Estados Unidos no início do século dezanove – com grandes variantes regionais –. Fora da China este programa também teve um apoio limitado: o programa exige um grau de controlo centralizado pelo governo que não é aceitável ou não está disponível na maioria dos países em vias de desenvolvimento. Esta combinação fez com que a estrutura etária dos países menos desenvolvidos seja completamente diferente da dos países industrializados. Esta é. Em 1974 os contraceptivos foram banidos da Argentina como parte de um programa para duplicar a população do país tão rapidamente quanto possível. A transição demográfica Os demógrafos referem-se frequentemente às mudanças na proporção entre nascimentos e mortes nos países industrializados desde o século dezanove como transição demográfica. algumas famílias foram ao extremo de matarem as suas filhas de modo a que o seu filho único fosse rapaz. No primeiro estádio inserem-se as condições características da maioria das sociedades tradicionais. As crianças consomem muitos recursos nos campos da saúde e da educação numa altura em que elas próprias ainda não são produtivas em termos económicos. Ter um grande número de crianças é ainda muitas vezes considerado algo de desejável. Um exemplo é a China. nas quais tanto as taxas de natalidade como as de mortalidade são elevadas e a taxa de mortalidade infantil é particularmente alta.1. portanto. . enquanto as famílias que têm mais de uma criança têm dificuldades especiais (os ordenados são reduzidos a quem tiver um terceiro filho). O segundo estádio. Em resposta a este programa governamental. Em muitos países a contracepção é rejeitada pelos líderes islâmicos e pela igreja católica. à medida que o número elevado de nascimentos é mais ou menos equilibrado pelo nível de mortes. 11. já que estas são uma fonte de trabalho nas explorações agrícolas familiares. O governo institui incentivos (como melhor habitação e saúde e educação gratuitas) para promover famílias com apenas um filho. que descreveu um processo de três estádios no qual um tipo de equilíbrio da população seria eventualmente substituído por outro à medida que a sociedade atingia um nível avançado de desenvolvimento económico (1929). cuja influência é especialmente marcante na América Central e do Sul. A população cresce pouco ou nada. Thompson. ocorre quando as taxas de mortalidade caem enquanto as taxas de fertilidade continuam elevadas. uma fase de marcado crescimento da população. tendo em vista desenvolver a sua força económica e política.181 Mas as taxas de nascimento continuam elevadas. A fertilidade continua a ser elevada nas sociedades menos desenvolvidas porque se mantêm as atitudes tradicionais relativas ao tamanho da família.

A segunda tendência afecta os países desenvolvidos que já passaram pela transição demográfica. pela redução das zonas agrícolas e pela degradação dos solos – processos que reduzem a produtividade agrícola em vez de a aumentarem. e apenas 230 kg per capita nos países em vias de desenvolvimento. a terra tem de ser limpa. . os recursos globais poderão já estar abaixo dos necessários para a criação de condições de vida no mundo menos desenvolvido comparáveis às dos países industrializados.182 11. Os avanços tecnológicos na agricultura e na indústria são imprevisíveis. mesmo de acordo com os efectivos actuais da população. as agressões humanas ao ambiente são tão intensas que há poucos processos naturais não influenciados pela actividade humana. este cenário é improvável. À medida que a população cresce.5. as árvores têm de ser abatidas e as ervas daninhas e a vegetação selvagem devem ser eliminadas. O que costumava ser natureza selvagem quase inacessível transformou-se em reservas naturais. por isso ninguém pode ter a certeza quanto ao número de pessoas que o mundo poderá eventualmente alimentar. É difícil prever com precisão a taxa de crescimento da população mundial. Estas sociedades passarão por um ligeiro crescimento se é que este chegará a existir. o vento pode remover a camada superficial do solo. Algumas paisagens que hoje pensamos serem naturais.8 mil milhões de pessoas em 2150. Quais serão as consequências destas mudanças demográficas? Alguns observadores pensam que se estão a criar as condições para uma enorme agitação social – em particular nos países em vias de desenvolvimento que estão a passar por uma transição demográfica. Como veremos mais à frente. O impacto humano no mundo natural Para que as colheitas cresçam. 11. como as zonas rochosas e inóspitas do sudoeste da Grécia. em 2010.5 mil milhões de pessoas. É muito provável que tanto a população da Índia como a da China atinja 1. que as Nações Unidas supõem ser o mais provável. os níveis de produção alimentar terão de crescer de modo a evitar a escassez generalizada. assume que estes níveis estabilizarão em apenas duas crianças por mulher. Quando as árvores das florestas são cortadas e os terrenos limpos para serem cultivados. Hoje. da sua população. É quase certo que o volume da produção de alimentos não será de molde a permitir a auto-suficiência. Contudo. são o resultado da erosão do solo provocada pelos agricultores de há cinco mil anos. O cenário “médio” de fertilidade. muitas das zonas mais pobres do mundo são particularmente afectadas pela falta de água. mas as Nações Unidas estabeleceram vários cenários de fertilidade. Será necessário importar grandes quantidades de comida e de cereais de zonas em que existem excedentes. resultando numa população mundial de 10. Contudo. os países industrializados estarão a produzir 732 kg de cereal por pessoa. Projecções do crescimento da população para o futuro Diz-se que as alterações demográficas que irão ter lugar no próximo século serão maiores do que quaisquer outras ocorridas na história da humanidade.2. Segundo a Food and Agricultural Organization (FAO). Quase toda a terra cultivável é utilizada para a produção agrícola.1.

Contudo. 1974). se um mineral como o magnésio começar a escassear. A ideia básica de Os Limites do Crescimento era a de que existem influências sociais e naturais que limitam a capacidade da terra para absorver o desenvolvimento económico continuado e o crescimento da população. esta visão foi criticada por outros como pouco plausível e desnecessária. na actualidade. Contudo. porque é o modo de aumentar a riqueza do mundo. o seu preço irá subir. e os produtores poderão encontrar um modo de prescindir deste mineral se o seu custo aumentar excessivamente. formado na capital italiana. como veremos. O progresso tecnológico é imprevisível. A conclusão principal do relatório do Clube de Roma foi a de que as taxas de crescimento industrial não são compatíveis com a natureza finita dos recursos da terra e a capacidade do planeta para comportar o crescimento populacional e absorver a poluição. foi provavelmente afectado pelo desenvolvimento global da indústria. de acordo com diferentes taxas de crescimento dos factores considerados. era constituído por um grupo de industriais. As descobertas do relatório do Clube de Roma foram utilizadas por muitos grupos para sugerirem que o desenvolvimento económico deveria ser severamente reduzido de modo a proteger o ambiente. As questões ambientais não têm apenas a ver com o modo como podemos lidar melhor com a deterioração do ambiente e contê-la. consultores de negócios e funcionários públicos. Ao mesmo tempo que o seu preço sobe. O desenvolvimento económico pode e deverá ser promovido.183 visitadas rotineiramente por milhares de turistas. será menos utilizado. . Um problema que todos enfrentamos diz respeito à ecologia do ambiente. Este Clube. e é possível que a terra possa gerar recursos suficientes que permitam processos de industrialização. a oferta mundial deste tipo de recursos energéticos e de matérias-primas é limitada e alguns recursos-chave estão condenados a desaparecer se o seu consumo global não for limitado. As projecções foram alteradas para gerar um leque variado de possíveis consequências. Por exemplo. mas estão também vinculadas com os modos de vida fomentados nas sociedades industrializadas.1. 11. o relatório teve um forte impacto na consciência pública. argumentaram. Preocupação com o ambiente: existem limites para o crescimento? Podemos datar o aparecimento dos movimentos ambientalistas e a preocupação pública com os problemas ambientais a partir da divulgação de um famoso relatório publicado no início dos anos 70 do século XX pelo Clube de Roma – The Limits to Growth (Os Limites do Crescimento) (Meadows et al. será necessário proceder a reajustamentos globais. O próprio clima mundial. tal como parece possível e se os países do Terceiro Mundo alcançarem níveis de vida moderadamente comparáveis aos existentes neste momento no Ocidente. Quaisquer que fossem as suas limitações.2. Contudo. O relatório do Clube de Roma foi muito criticado e mesmo os próprios autores vieram a aceitar mais tarde que algumas das críticas eram justificadas.

Segundo os críticos. O desenvolvimento sustentável foi definido como o uso de recursos renováveis para promover o crescimento económico. instituições e sociedades. o consumo per capita tem crescido a uma taxa de 2. artigos pessoais. serviços. férias. pois o comité organizador foi presidido pela senhora G. O consumo está ligado ao desenvolvimento económico – à medida que os padrões de vida sobem. e apareceu subsequentemente noutros encontros ecológicos organizados pelas Nações Unidas. Consumo. no Rio de Janeiro em 1992. As desigualdades de consumo entre ricos e pobres são significativas. a ideia de desenvolvimento sustentável tende a concentrar a atenção apenas nas necessidades dos países mais ricos.2. Brundtland.3. H. etc. ter mais tempo de lazer. pois este país tem uma necessidade maior do que os países industrializados das receitas a que terá de renunciar se aceitar a conservação desses bosques. a exigência imposta à Indonésia de conservar as suas florestas tropicais poderia ser considerada injusta. Na Ásia Oriental o crescimento foi ainda mais rápido – 6. As reservas de peixe . pelo menos idealmente. na altura Primeira Ministra da Noruega. Nos países industrializados. a protecção das espécies animais e da biodiversidade. mas também têm um impacto severo no ambiente. O desenvolvimento sustentável Em vez de apelarem a uma travagem do crescimento económico. e o compromisso em manter o ar. não considerando o modo como os níveis de consumo nos países mais ricos são satisfeitos à custa de outros. Os padrões de consumo actuais não são apenas muito desiguais. energia e recursos que são utilizados pelas pessoas.3 por cento. Desenvolvimento sustentável significa que o crescimento deveria ser conduzido.184 11.2. as pessoas podem comprar mais comida.3 por cento ao ano. de forma a reciclar os recursos físicos em vez de os esgotar e a manter os níveis de poluição no mínimo possível. Depois da publicação de O Nosso Futuro Comum. È também conhecido como o Relatório Brundtland. Foi utilizada na Cimeira da Terra das Nações Unidas. a expressão ‘desenvolvimento sustentável’ passou a ser usada amplamente tanto pelos ambientalistas como pelos governos. roupas.1 por cento ao ano. 11. enquanto os 20 por cento mais pobres são responsáveis por apenas 1. a água e a terra limpos.2. pobreza e ambiente O consumo diz respeito aos bens. Our Common Future (O Nosso Futuro Comum). carros. Por exemplo. os desenvolvimentos mais recentes voltam-se para a noção de desenvolvimento sustentável. O termo ‘desenvolvimento sustentável’ foi introduzido pela primeira vez em 1987 no relatório encomendado pelas Nações Unidas. As tendências no mundo do consumo ao longo do século XIX são espantosas. os níveis crescentes de consumo no mundo significam que as pessoas estão a viver em melhores condições do que no passado. É um fenómeno que tem dimensões positivas e negativas. Por um lado. Os críticos acham que a noção de desenvolvimento sustentável é demasiado vaga e que ela negligencia as necessidades específicas dos países mais pobres. Os 20 por cento mais ricos da população mundial são responsáveis por 86 por cento das despesas de consumo privado.

3. à medida que a população aumenta. que emite dióxido de enxofre e fumo negro para a atmosfera. Os padrões de consumo não estão apenas a esgotar os elementos naturais. as espécies selvagens estão a extinguir-se. que actualmente são muito utilizados na Grã-Bretanha e noutros países industrializados. a poluição do ar era causada. não serem tão limpos como combustíveis modernos.7 milhões de vidas por ano. Fontes de ameaça 11. pela prática corrente de se queimar carvão. as pressões sobre os recursos de base são cada vez maiores. para regular as emissões das chaminés. as estradas principais. Poluição e desperdício 11. as auto-estradas e os aeroportos estão muitas vezes localizados perto de áreas de baixo rendimento.3. estão também a contribuir para a sua degradação através de resíduos nocivos e de emissões prejudiciais.1. nas fábricas. podemos observar um processo semelhante: a degradação do solo.1. será responsável pela perda de mais de 2. Finalmente. sobretudo. até meados do século XX. As fábricas de produtos químicos. 11. Tradicionalmente entendia-se que a poluição do ar era um problema que atingia os países industrializados com o seu grande número de fábricas e de veículos motorizados.1. as reservas de água e as áreas florestais estão a diminuir (PNUD. como o querosene e o propano. as emissões de chumbo e a poluição do ar estão concentradas nos países em vias de desenvolvimento. apesar dos ricos serem os principais consumidores. 1998). como a madeira e o estrume. Assim. É possível distinguir dois tipos de poluição do ar: a ‘poluição externa’ – produzida sobretudo por poluentes industriais e pela emissão de gazes pelos automóveis – e a ‘poluição interna’. o prejuízo ambiental causado pelo consumo crescente faz sentir o seu maior impacto sobre os pobres. como o querosene. o gás propano e o gás natural. Tal deve-se ao facto de muitos dos combustíveis queimados pelas pessoas nos países em vias de desenvolvimento. numa tentativa para reduzir esta poluição tóxica. foi promulgada uma Lei do ar Limpo (Clean Air Act). Na Grã-Bretanha. Poluição do ar Pensa-se que a poluição atmosférica. causada por emissões tóxicas. Os ricos estão em melhor posição para gozarem dos muitos benefícios do consumo sem terem que lidar com os seus efeitos negativos.3. a desflorestação.185 estão a diminuir. A um nível global. a falta de água. Acredita-se que mais de 90 por cento de mortes relacionadas com a poluição do ar têm lugar nos países em vias de desenvolvimento. Foram promovidos combustíveis sem fumo. causada pelo consumo de combustíveis em casa para o aquecimento e para cozinhar. O carvão era muito utilizado no aquecimento das casas e em medida relativamente menor. Em 1956. As emissões dos veículos são particularmente nocivas porque entram na atmosfera a um nível muito mais baixo do que as . as centrais eléctricas.

pois a sua origem tem lugar fora das fronteiras nacionais. as colheitas e a vida animal. . Contudo. é difícil combater a chuva ácida porque ela é transnacional nas suas origens e consequências. Como sucede com muitas ameaças ambientais. muitas vezes. apesar de ter sido gradualmente abandonada em muitos países desenvolvidos. Uma consequência nociva da poluição do ar são as chuvas ácidas. Em alguns casos foram estabelecidos acordos bilaterais ou regionais para tentar reduzir a severidade da chuva ácida. A variação no alcance das emissões produzidas por diferentes tipos de veículos é muito grande. a Polónia e os países do norte da Europa têm sido particularmente atingidos pelas chuvas ácidas. Em muitos países em vias de desenvolvimento. 1998). a poluição da água continua a ser um sério problema em muitas partes do mundo. está relacionada com a produção industrial no Estado de Nova Iorque.3. 2000). O Canadá. já sofreu enormes abusos às mãos dos seres humanos. onde restos de mercúrio. Os níveis de poluição do ar são particularmente elevados em muitos países da Europa de Leste e na ex-União Soviética. continua a haver emissões elevadas em algumas áreas e estas estão a crescer rapidamente no mundo em vias de desenvolvimento. para ribeiras. Só nos últimos 50 anos é que muitos países começaram a desenvolver esforços para proteger a qualidade da água. Pensa-se que a poluição atmosférica seja responsável pela morte de 6. para preservar os peixes e a vida selvagem que dela dependem e para assegurar o acesso a uma água limpa à própria população humana. Estima-se que as mortes de 12 000 a 24 000 pessoas na GrãBretanha.2. e conduz ao aumento da acidez dos lagos. nos Estados Unidos. Alguma da água mais poluída pode ser encontrada perto de antigas áreas industriais. Os sistemas de saneamento continuam subdesenvolvidos em muitos dos países mais pobres e os dejectos humanos são escoados. Pensa-se que muita da chuva ácida de que padece o leste do Canadá. um fenómeno que ocorre quando as emissões de óxido de enxofre e de nitrogénio num determinado país passam as suas fronteiras e produzem chuvas ácidas num outro país. Embora a poluição exterior tenha sido há muito associada aos países industrializados. rios e lagos. a gasolina com chumbo ainda é utilizada.400 pessoas por ano na Cidade do México (PNUD. em 1998.1. A chuva ácida é perigosa para as florestas. possam ter sido motivadas pela sua exposição à poluição do ar (HMSO. está a crescer rapidamente nos países em vias de desenvolvimento.186 emissões das chaminés. chumbo ou de outros metais se alojaram nos sedimentos que continuam a introduzir poluentes no abastecimento de água durante anos. por exemplo. Poluição da água Apesar de a água ser um dos recursos naturais mais valiosos e essenciais. Outros países que sofrem com as chuvas ácidas também descobriram que o controlo deste problema não está ao seu alcance. 11. Apesar destes esforços.

187 Na Europa Oriental e na antiga União Soviética. a grande procura de água não consegue ser satisfeita pelos recursos existentes. Contudo. 2000).2. nos países em vias de desenvolvimento. os animais e a vida vegetal. Na maioria dos países do mundo industrializado.3. quando comparada com o total de lixo doméstico produzido. a poluição dos rios continua a ser uma ameaça real. 11. 90 por cento era de lixo doméstico. para as pessoas em muitos países do mundo.3. A deterioração de recursos renováveis é motivo de grande preocupação para muitos ambientalistas. Estimou-se que. Chama-se frequentemente a estes elementos recursos renováveis porque. contribuindo para que as doenças alastrem. Em 1997-1998. Os aterros estão a esgotar rapidamente a sua capacidade e muitas áreas urbanas já não têm espaço para colocar o lixo doméstico. há poucas coisas que possamos comprar que não estejam embaladas. A água Se morarem na Europa ou na América do Norte provavelmente não pensam muito na oferta da água. Nos climas áridos do Norte de África e do Médio Oriente.2. Muitos tipos de plástico empregues nas embalagens dos alimentos transformam-se em lixo não reciclável. O esgotamento dos recursos As sociedades humanas dependem de muitos recursos do mundo natural – como a água. num ecossistema saudável. a madeira. Aproximadamente 2 milhões de toneladas de lixo doméstico foram separados para reciclagem ou compostagem através de iniciativas desenvolvidas localmente (HMSO. excepto ocasionalmente. 11. quando. é muito provável que os países em vias de desenvolvimento venham a enfrentar problemas ainda mais agudos do que os actualmente enfrentados pelos países industrializados. Com o passar do tempo. o seu uso é mais limitado. Em algumas regiões mais densamente povoadas. As sociedades industrializadas têm sido por vezes denominadas como “sociedades do desperdício” porque o volume de lixo desperdiçado é muito elevado. não existe modo de o reciclar e destina-se a ser enterrado em aterros onde permanecerá durante séculos.1. contudo. dos 27 milhões de toneladas de lixo produzidas. por exemplo. nos meses de Verão.1. mas é cada vez mais difícil libertar-se da enorme quantidade de resíduos. Alguns dados sugerem que o processo de desaparecimento poderá estar a ocorrer. uma grande parte deste lixo não pode ser facilmente reciclado ou reutilizado. o acesso a uma fonte constante de água é um problema mais crónico e severo. os serviços de recolha do lixo são quase universais. entre 20 a 50 por cento deste lixo não é recolhido. a pressão sobre os recursos de água é aguda e os seus cortes . 11.3. o peixe.3. eles substituem-se automaticamente com o passar do tempo. Os sistemas sanitários pobremente geridos são sinónimo de lixo a acumular-se nas ruas. Resíduos sólidos No presente. Apesar de esta quantidade de reciclagem parecer baixa.

A primeira razão reside no facto de ser provável que muito do crescimento populacional projectado para o próximo quarto de século se concentrar em zonas onde já há escassez de água. Em muitos países da América do Sul. são particularmente vulneráveis às mudanças que afectam a sua capacidade de viverem dela.2. foi o destino das florestas tropicais aquele que atraiu mais atenção. é também provável que o subsolo não a consiga repor tão rapidamente como antes e que taxas de evaporação também aumentem. pela seca ou por serem fertilizados inadequadamente. São também o lar de muitas plantas e óleos que servem de base para a elaboração de medicamentos. É quase certo esta tendência vir a intensificar-se nos próximos anos. algumas comunidades pobres que tinham sido capazes de angariar o seu sustento nas florestas ou de encontrar nelas um suplemento de subsistência já não são capazes . Os efeitos de longo prazo da degradação do solo são muito severos e difíceis de reverter. onde as florestas tropicais têm uma extensão maior. As florestas tropicais. Em muitas zonas da Ásia e da África que estão a passar por um rápido crescimento populacional. À medida que as temperaturas aumentam. libertam oxigénio para a atmosfera e previnem a erosão do solo. são o lar de um grande número de espécies animais e de plantas que contribuem para a biodiversidade da terra – a diversidade das espécies das formas de vida.3. Em muitos casos. Apesar de muitos tipos de floresta estarem a passar por processos de desflorestação. Em termos de custos humanos. 1998). Porque são muito dependentes da terra. que cobrem cerca de 7% da superfície da terra. Entende-se por desertificação a degradação intensa da terra que culmina em condições semelhantes ao deserto em áreas muito vastas. 11.2. As florestas tropicais estão a diminuir a uma taxa de um por cento ao ano aproximadamente e poderão desaparecer na totalidade no final do século XXI se as tendências actuais não forem interrompidas. 11. normalmente através do corte de árvores para exploração comercial. dos alimentos que pode plantar e recolher e da caça que consegue apanhar.3. o problema da degradação do solo ameaça empobrecer milhões de pessoas.2.3. as pessoas são forçadas a migrarem à procura de terra mais fértil. Por desflorestação entende-se a destruição das florestas. Desflorestação As florestas são um elemento essencial do ecossistema: ajudam a regular as reservas de água. Contudo. será necessária maior quantidade de água para beber e para irrigar. estas foram queimadas para dar lugar a mais terra para a criação de gado. Degradação do solo e desertificação Segundo o Relatório do Desenvolvimento Humano das Nações Unidas (PNUD. um terço da população vive mais ou menos directamente do que a terra lhe proporciona.188 tornaram-se comuns. A degradação do solo é o processo pelo qual a qualidade da terra piora e os seus valiosos elementos naturais são esgotados por serem utilizados de forma excessiva.

as florestas têm a importante função de absorver e reciclar muita da água das chuvas. que não são produzidos naturalmente. com uma temperatura média de cerca de 18 graus abaixo de zero. Estes riscos não são discriminatórios em termos de nacionalidade. O sociólogo Ulrich Beck. A maioria dos cientistas está de acordo em atribuir o grande aumento de dióxido de carbono na atmosfera ao facto de se queimarem combustíveis fósseis e a outras actividades humanas.1. O processo de aquecimento global está directamente relacionado com a ideia do efeito de estufa – a acumulação na atmosfera de gases que agarram o calor actuando como uma estufa.4. . a terra seria um local muito mais frio. O aquecimento global 11. é uma tarefa difícil encontrar o balanço entre os benefícios potenciais e os desastres possíveis. pois são o resultado da expansão da ciência e da tecnologia. O risco e o ambiente A maioria das questões relativas ao ambiente relacionam-se directamente com o risco. alguma desta radiação é reflectida. O que é o aquecimento global? O aquecimento global é considerado por muitas pessoas como o desafio ambiental mais sério do nosso tempo. sugeriu que muitos dos riscos que as pessoas enfrentam hoje são de alcance global. Acredita-se que o aquecimento global seja causado em larga medida pelos seres humanos. a agricultura intensiva. os aterros e as emissões de gases pelos veículos.1. tem o potencial para alterar de forma irreversível o funcionamento do clima terrestre e para produzir um conjunto de consequências devastadoras para o ambiente que serão sentidas a nível mundial.1. O efeito de estufa natural é o que mantém as temperaturas da terra a um nível de conforto razoável – acima de 15 graus centígrados. O princípio é simples.4. Os custos ambientais da desflorestação incluem a erosão dos solos e as cheias: quando estão intactas. riqueza ou origem social – são uma ameaça potencial para todas as sociedades humanas. a extracção de minério. Se muitas das previsões científicas forem verdadeiras. pois os gases que se acumularam e alteraram a atmosfera são gases produzidos em grande quantidade pelas actividades humanas.189 de o fazer. Apesar da maioria da radiação solar ser absorvida directamente pela terra.4. a desflorestação. Se não fosse pelo papel dos gases do efeito de estufa em reter o calor. o primeiro a introduzir o conceito de “sociedade do risco”. as de óxido nitroso aumentaram cerca de 15 por cento e os gases do efeito de estufa. foram produzidos pelo desenvolvimento industrial humano. como a produção industrial. Chama-se aquecimento global ao aumento gradual da temperatura média da terra devido às mudanças na composição química da atmosfera. As concentrações de metano duplicaram. 11. 11. De facto.

As emissões de metano também provêm da decomposição de desperdícios orgânicos em terrenos onde são deixados e da criação de gado. energias fósseis (petróleo. sejam . enquanto muitas outras poderão sofrer inundações e tufões. de facto. A África Subsaariana. da África e da América Latina seriam provavelmente as mais afectadas. Alguns dos efeitos potencialmente prejudiciais incluem: O aumento do nível dos oceanos – o aquecimento global pode derreter as calotes polares e aumentar a temperatura dos oceanos e a sua dimensão. gás natural e petróleo. É possível que a redução do gelo possa ser o resultado de mudanças naturais. Algumas tendências associadas ao aquecimento global parecem estar a desenvolver-se muito mais rapidamente do que o que os cientistas previram inicialmente.4.190 O que são os gases do efeito de estufa? O dióxido de carbono é liberto na atmosfera quando os resíduos sólidos. O óxido nitroso é emitido durante as actividades agrícolas e industriais. um estudo por satélite mostrou que a capa de gelo do Árctico está a diminuir muito mais rapidamente do que os cientistas acreditavam – um processo que poderia ter efeitos dramáticos no clima mundial nos próximos anos. Em Dezembro de 1999. é provável que as suas consequências sejam devastadoras. As populações do sudoeste asiático. gás natural e carvão) e a madeira e os derivados da madeira são queimados. bem como durante a combustão de resíduos sólidos e de combustíveis fósseis. 1998 foi o ano mais quente de que reza a história. Más colheitas – A produção agrícola poderá diminuir em muitas das zonas mais pobres do mundo se o aquecimento global aumentar. a ter lugar. Mudança dos padrões climatéricos – Os padrões climatéricos que se mantiveram relativamente estáveis durante milhares de anos podem sofrer perturbações rápidas em resultado do aquecimento global. Dos anos 90 do século XX. como os mosquitos que espalham doenças como a malária e a febre amarela. o Médio Oriente e o Sul da Ásia serão afectados pela desertificação e pela intensa erosão do solo.2.1. mas. Quarenta e seis milhões de pessoas vivem presentemente em zonas que poderiam ser destruídas por tempestades marítimas. As cidades costeiras ou situadas em zonas baixas serão inundadas e tornar-se-ão inabitáveis. A desertificação – O aquecimento global pode contribuir para que muitos terrenos férteis se desertifiquem. 11. por exemplo. O metano é emitido durante a produção e o transporte de carvão. As consequências potenciais do aquecimento global Se o aquecimento global está. A propagação de doenças – O aquecimento global pode aumentar o alcance geográfico e ampliar a dimensão sazonal de organismos.

Em resultado da ajuda internacional. Respostas ao risco do aquecimento global Durante muito tempo o aquecimento global foi um tema controverso. a taxa de mudança climatérica seria menor. em particular nos países que estão a passar por uma rápida industrialização. Condições climatéricas extremas: o preço de um mundo mais quente? Em Março de 2000. ninguém pode estar realmente seguro sobre quais serão os efeitos do aquecimento global. sofreu cheias maciças. As emissões do mundo em vias de desenvolvimento estão também a aumentar rapidamente. enquanto outros defendiam que as alterações climatéricas mundiais eram o resultado de tendências naturais. O aumento da temperatura foi particularmente elevado nos últimos vinte anos. Mesmo que os países envolvidos no Acordo de Kioto atinjam os seus objectivos – o que parece pouco provável – tal desiderato pode ser pouco e pecar por demasiado tardio. Para ficar abaixo do tecto dos 500 ppm as emissões teriam de representar 25 por cento dos níveis actuais e deveriam posteriormente ser reduzidas. as cheias não teriam ocorrido ou poderiam ter sido contidas. sendo os responsáveis por quase metade das emissões europeias. o gelo parece estar a derreter-se a grande velocidade. É necessário mais de um século para o dióxido de carbono ser removido da atmosfera por processos naturais. Muitos cientistas defendem que as emissões deverão ser reduzidas até 70 ou 80 por cento se se quiserem evitar sérias consequências climatéricas. Será que estas cheias foram simplesmente algo de “natural”? Muitos cientistas acreditam que estes desenvolvimentos são um resultado directo do aquecimento global.191 quais forem as suas origens. presentemente. a antiga colónia portuguesa estava a recuperar dos 16 longos anos de guerra civil que tinham terminado apenas em 1992. Contudo. Tendo introduzido reformas de mercado livre e instituições democráticas. É provável que os países em vias de desenvolvimento sofram de forma desproporcionada as consequências do aquecimento global porque têm menos recursos para criarem as fontes de protecção necessárias. Se as margens do Limpopo fossem bem construídas. a maioria dos cientistas aceita que o aquecimento global está. Todos os especialistas estavam de acordo quanto ao facto de o aquecimento global ser um fenómeno real. Moçambique. e não da intervenção humana. no final dos anos 90. estava a crescer economicamente a uma taxa de 10 por cento por ano. Antes do desastre. um processo que cria grande instabilidade no clima mundial.3.4. As suas causas são muito difusas e é difícil . mas não desapareceria. Na Europa.1. Alguns cientistas duvidavam da realidade dos seus efeitos. Moçambique. 11. Como sucede em muitas outras novas formas de risco. a Grã-Bretanha e a Alemanha são os maiores produtores de dióxido de carbono. apesar de extremamente pobre. muitas pessoas apanhadas pelas cheias foram salvas e o esforço para a reconstrução recomeçou. de facto. Se se assumisse que as concentrações do dióxido de carbono na atmosfera iriam estabilizar. no sul de África. a ocorrer e que o efeito de estufa é o seu responsável. Foram as piores cheias de sempre naquela zona.

4. Há cientistas que são da opinião que a estirpe geneticamente modificada de “super-arroz” poderia aumentar a produção de arroz em 35 por cento. por exemplo. de facto. apesar de os produtos geneticamente modificados comercializados até ao momento não envolverem este tipo de bioengenharia radical. como o arroz. a ameaça de fome não está distribuída de modo igual. Será que a estabilização dos níveis de emissão de dióxido de carbono poderá proteger a maioria das pessoas do mundo dos efeitos negativos das mudanças climatéricas? Será possível que os actuais processos de aquecimento global já tenham provocado uma série de futuros distúrbios climatéricos? O clima da Terra é extremamente complexo e diversos factores irão interagir para produzir consequências diferentes em países distintos em pontos variáveis da Terra. Chama-se a este processo modificação genética. que é provável que a escassez de cereal se torne um problema crónico. os fungos e as pestes virais. como os porcos. com o objectivo de fornecerem eventualmente órgãos para transplantes em seres humanos. mas. Os produtos alimentares feitos de organismos geneticamente modificados. Muitos preocupam-se com o facto de as técnicas actuais de cultivo não serem capazes de produzir quantidades de arroz suficientes para apoiar a população crescente. É nos países mais pobres. é possível aumentar a velocidade de fotossíntese e produzir colheitas maiores. ou que contêm traços de OGMs. Através da manipulação da composição genética de produções básicas. Os OGMs são produzidos através de técnicas de manipulação de genes que podem ser utilizadas para transplantar genes tanto entre animais como entre plantas. os insectos. foram introduzidos genes humanos em animais de criação. Os alimentos geneticamente modificados Com o aumento da população mundial nos próximos anos.192 avaliar as suas consequências. há medo de que as carências de alimentação possam ainda vir a ser maiores. Em experiências recentes. Também foram genes humanos nas plantas. Nas áreas mais densamente povoadas. Os cultivos geneticamente modificados são diferentes de quaisquer outros. Poderia pensar-se que estes avanços na biotecnologia seriam recebidos entusiasticamente por todos. . Tal como muitos dos desafios ambientais. onde as projecções de crescimento populacional são maiores. as plantas produzidas desta maneira são designadas como organismos geneticamente modificados (OGMs).2. as pessoas dependem muitíssimo das colheitas de alimentos básicos – como o arroz – cujas reservas estão a decrescer. Noutros casos existem plantas geneticamente modificadas que são resistentes aos herbicidas usados normalmente para matarem as ervas daninhas. porque envolvem o transplante de genes entre organismos distintos. são conhecidos como alimentos geneticamente modificados. a modificação genética tornou-se um dos temas mais controversos do nosso tempo. 11.

2.1. regressaram aos seus cultivos tradicionais.2. Avaliação dos riscos dos alimentos GM Apesar das declarações de Robert Shapiro em contrário. Este gene teria garantido que as sementes que a Monsanto vendia aos agricultores seriam estéreis depois de uma geração. No Reino Unido. No curto período entre estas duas revelações. Alguns agricultores nos Estados Unidos. todos os anos os agricultores tinham de comprar sementes à empresa. 11. de facto. Foram organizados numerosos debates de rádio e de televisão para discutir este tema. Em virtude de os cultivos geneticamente modificados serem muito recentes.193 11. Ninguém pode afirmar com certeza que as colheitas geneticamente modificadas estão isentas de risco. Pusztai foram criticadas por outros cientistas de relevo e ele acabou por ser despedido depois de ter falado na televisão acerca das suas preocupações quanto aos alimentos geneticamente modificados. foi publicada investigação alemã que afirmava que um gene frequentemente utilizado para modificar o óleo de colza tinha saltado a barreira das espécies indo fazer parte dos intestinos das abelhas. ninguém pode estar certo acerca dos seus efeitos uma vez introduzidos no ambiente. Em Maio de 2000. A controvérsia sobre os alimentos geneticamente modificados Além dos Estados Unidos. Em virtude de a tecnologia ser tão desconhecida. a hostilidade relativamente ao crescimento comercial das plantações modificadas geneticamente foi estimulado pelas descobertas do Dr. os cultivos geneticamente modificados também estavam a difundir-se amplamente na China. Apenas algumas semanas mais tarde. um geneticista de renome internacional que trabalhava num laboratório estatal na Escócia. foi forçada a “exterminar-se”. Os seus críticos defendiam que a empresa estava a tentar atrair os agricultores para uma forma de ‘escravidão biológica’. As descobertas do Dr. a própria . O código genético é muito complexo – juntar novos genes às plantas ou organismos poderá originar doenças imprevisíveis ou outras consequências prejudiciais. como afirmou um comentador espirituoso. que tinham estado envolvidos na produção de grandes cultivos de produtos geneticamente modificados. A Monsanto foi forçada a abandonar um dos seus projectos mais controversos – a ideia de utilizar um gene chamado “o exterminador”. desta forma. Por fim. as preocupações dos críticos dos alimentos modificados geneticamente são reais. a Monsanto.2.4. Muitos membros do público britânico mostraram a sua oposição em relação às culturas geneticamente modificadas. Arpad Pusztai. sido contaminadas por materiais geneticamente modificados.4. envolvendo-se alguns na “acção directa” – arrancando essas plantas em locais oficiais em todo o país onde estavam a ser testadas. novas descobertas são reveladas com muita frequência. o governo britânico admitiu que milhares de hectares de sementes convencionais de óleo de colza plantadas por agricultores tinham.

Hoje. assumia-se geralmente que a maioria das formas de desenvolvimento industrial e a protecção ambiental eram incompatíveis. é uma profunda consciência da autoria humana das instituições sociais. Tal está a suceder com sectores inteiros da produção industrial. ao contrário de muitas das antigas formas de produção industrial. contudo também está à beira do desastre ecológico. Quanto maior for o seu papel na produção industrial. algo inimaginável para as gerações passadas. é ambientalmente limpa. os riscos envolvidos são imprevisíveis e é difícil calculálos. Olhando para o futuro Às portas de um novo século. Este princípio propõe que. porque a tecnologia da informação desempenhará um papel muito maior. pelo menos. Nalgumas áreas de produção. Neste contexto. um meio de levar a inovação tecnológica mais longe. não podemos prever se os próximos cem anos serão marcados por desenvolvimentos sociais e económicos pacíficos ou por uma multiplicação de problemas globais – cuja resolução talvez esteja fora do alcance da humanidade. O desenvolvimento tecnológico torna muito mais económico produzir jornais impressos em papel reciclado do que recorrendo à pasta de papel. As possibilidades oferecidas pela modernização ecológica podem ser ilustradas pelo que se passa com a indústria do tratamento do lixo – a indústria que nos liberta das toneladas de resíduos que as indústrias e os consumidores produzem todos os dias. mas com custos mínimos para o ambiente. A ideia central envolvida na tese da modernização ecológica é a de que este pressuposto é falso. como vimos acima. o lixo não é apenas uma descarga perigosa de materiais. Mesmo os defensores mais fortes da modernização ecológica são forçados a admitir que é provável que a salvação do ambiente global exija mudanças nos . muitos ambientalistas defendem o princípio da precaução. é preferível aterem-se às práticas existentes do que modificá-las. Entende-se por eco-eficiência o desenvolvimento de tecnologias eficazes em termos de crescimento económico. Sabemos que é possível controlar os nossos destinos e modificar as nossas vidas para melhor. a maioria deste lixo era simplesmente processado e queimado. Até ao final dos anos 80. contudo. nos casos em que existem dúvidas suficientes sobre os possíveis riscos de novos avanços. 11. de algum modo. o nosso mundo é populoso e rico. quando surgiu o relatório Brundtland. os OGM podem desencadear uma torrente de efeitos destrutivos que serão difíceis de monitorizar e controlar. Não são só as empresas individualmente que estão a perseguir o objectivo do “desperdício zero” – isto é.5. A tecnologia de informação. Apesar de a modificação genética poder ter enormes benefícios potenciais. Uma vez libertos no ambiente. como era prática corrente. poderá ser possível chegar a um rápido desenvolvimento económico sem a poluição produzida pelas velhas economias industriais. Até há pouco tempo. Se há uma coisa que a sociologia nos oferece.194 Monsanto reconheceu que os seus grãos de soja geneticamente modificados – o OGM cultivado intensivamente para fins comerciais – continha fragmentos inesperados de genes que não tinham sido previamente detectados. Mais do que nunca. a reciclagem total de todos os desperdícios para utilização industrial futura. Face a este dilema. maior será a probabilidade de o ambiente ser menos afectado. mas um recurso para a indústria e. toda a indústria está a ser transformada.

6. o desenvolvimento sustentável não pode ser visto como algo separado das desigualdades globais. os países industrializados representam apenas um quinto da população mundial. FIM . O ambiente: um tema sociológico? Por que é que o ambiente deveria ser uma preocupação para os sociólogos? Não estaremos a falar de assuntos que são puramente do âmbito dos cientistas e dos técnicos? O impacto dos seres humanos na natureza não será de carácter físico.195 níveis de desigualdade que presentemente existem no mundo. criado pelas tecnologias modernas da produção industrial? As origens do nosso impacto no ambiente são sociais e muitas das suas consequências também o são. são responsáveis por 75 por cento das emissões que causam a poluição da atmosfera e aceleram o aquecimento global. Desta forma. são poucas as hipóteses dos países do Terceiro Mundo sacrificarem o seu crescimento económico em virtude de problemas ambientais criados em larga medida pelos países ricos. Como vimos. No entanto. 11. Dadas as vastas desigualdades globais.