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Fernando Pessoa ortónimo – Fingimento poético - Português – 12º ano

I - O poeta como fingidor
“Observa Pessoa que «três espécies de emoções produzem grande poesia – emoções fortes mas rápidas, apreendidas para arte logo que passam mas não antes de haverem passado; emoções fortes e profundas na recordação que deixam longo tempo depois; e falsas emoções, ou seja, emoções sentidas no intelecto. A base de toda a arte é, não a insinceridade, mas sim uma sinceridade traduzida». Assim, o poeta «finge» emoções só imaginadas, «sentidas no intelecto», artisticamente sinceras, e «finge» também, outras vezes, emoções que humanamente sentiu. No segundo caso, há ainda fingimento porque as emoções passam a ser forma, são filtradas, transpostas em função da expressão poética – e dizer por palavras implica um processo de intelectualização. «A arte da intelectualização da sensação (do sentimento) através da expressão. A intelectualização é dada na, pela e mediante a própria expressão». Lembro, para melhor elucidar, a máxima de Campos: «Toda a emoção verdadeira é mentira na inteligência, pois se não dá nela». Para a emoção ser esteticamente verdadeira tem de dar-se (ou de repetir-se transformando-se) na inteligência do poeta. A emoção do leitor será ainda outra porque as palavras do poema são estímulos que, provocando um estado de alma, não o determinam na totalidade. No acto de ler convergem o objectivo e o subjectivo.”
Jacinto Prado Coelho, A Letra e o Leitor

“A composição de um poema lírico deve ser feita não do momento da emoção, mas no momento da recordação dela. Um poema é um produto intelectual, e uma emoção, para ser intelectual, tem, evidentemente, porque não é, de si, intelectual, que existir intelectualmente. Ora, a existência intelectual de uma emoção é a sua existência na inteligência, propriamente tal, que pode conservar uma emoção.”
Fernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias

A crítica da sinceridade ou teoria do fingimento está bem patente na dialéctica da sinceridade/fingimento que se liga à da consciência/inconsciência e do sentir/pensar e que leva Pessoa a afirmar que «fingir é conhecer-se». O poeta considera que a criação artística implica a conceção de novas relações significativas, graças à distanciação que faz do real, o que pode ser entendido como acto de fingimento ou de mentira. Artisticamente, considera que a mentira «é simplesmente a linguagem ideal da alma, pois, assim como nos servimos das palavras, que são sons articulados de uma maneira absurda, para uma linguagem real traduzir os mais íntimos e subtis movimentos da emoção e do pensamento (que as palavras forçosamente não poderão nunca traduzir), assim nos servimos da mentira e da ficção para nos entendermos uns aos outros, o que com a verdade, própria e intransmissível, se nunca poderia fazer (…)» .(in Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, de Bernardo Soares).
Fátima Areias

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