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Aprender antropologia

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tema antropologia
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  • 1.1. A FIGURA DO MAU SELVAGEM E DO BOM CIVILIZADO 27
  • O S´eculo XVIII:
  • O Tempo Dos Pioneiros:
  • 4.1 BOAS (1858-1942)
  • 4.2 MALINOWSKI (1884-1942)
  • Introdu¸c˜ao:
  • 6.1 Campos De Investiga¸c˜ao
  • 6.2 Determina¸c˜oes Culturais
  • A Antropologia Social:
  • A Antropologia Cultural:
  • A Antropologia Dinˆamica:
  • Uma Ruptura Metodol´ogica:
  • Uma Invers˜ao Tem´atica:
  • Uma Exigˆencia:
  • Uma Abordagem:
  • Antropologia E Literatura:
  • 19.1 O Dentro E O Fora
  • 19.2 A Unidade E A Pluralidade
  • 19.3 O Concreto E O Abstrato
  • Sobre o autor:

1

2

Aprender Antropologia
Fran¸ois Laplantine c 2003

2 .

75 . . . 32 2 O S´culo XVIII: e 3 O Tempo Dos Pioneiros: 39 47 4 Os Pais Fundadores Da Etnografia: 57 4. .2 Determina¸˜es Culturais . . . . . . . 76 Con. 60 5 Os Primeiros Te´ricos Da Antropologia: o 67 II As Principais Tendˆncias Do Pensamento Ane tropol´gico Contemporˆneo o a 73 6 Introdu¸˜o: ca 6. . . . . . 27 1. . . . . . . . 80 87 91 95 . . . . . . .2 MALINOWSKI (1884-1942) . .1 Campos De Investiga¸ao . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 58 4. . . . . . . . . c˜ 6. . . .3 Os Cinco P´los Te´ricos Do Pensamento Antropol´gico o o o temporˆneo . . . . . . . . . . . . . . .1 A Figura Do Mau Selvagem E Do Bom Civilizado . . . . . . . . . . . . .Conte´ do u I Marcos Para Uma Hist´ria Do Pensamento Ano tropol´gio o 23 1 A Pr´-Hist´ria Da Antropologia: e o 25 1. . .1 BOAS (1858-1942) .2 A Figura Do Bom Selvagem E Do Mau Civilizado . . . . . a 7 A Antropologia Dos Sistemas Simb´licos o 8 A Antropologia Social: 9 A Antropologia Cultural: 3 75 . co 6. . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Parte Integrante Do Objeto De Estudo: 18 Antropologia E Literatura: 19 As Tens˜es Constitutivas Da Pr´tica Antropol´gica: o a o 19.3 O Concreto E O Abstrato . . . . . . . . 157 163 . . . 20 Sobre o autor: 139 143 149 . . . . . . 19. . . . 19. .2 A Unidade E A Pluralidade . . . . . . . . . 152 . . . . . 149 . . .1 O Dentro E O Fora .4 10 A Antropologia Estrutural E Sistˆmica: e 11 A Antropologia Dinˆmica: a ´ CONTEUDO 103 113 III A Especificidade Da Pr´tica Antropol´gica a o 119 121 125 129 133 12 Uma Ruptura Metodol´gica: o 13 Uma Invers˜o Tem´tica: a a 14 Uma Exigˆncia: e 15 Uma Abordagem: 16 As Condi¸oes De Produ¸˜o Social Do Discurso Antropol´gico137 c˜ ca o 17 O Observador. . . .

permanecem co a muitas vezes fora das cogita¸˜es do curso. de que sua a¸˜o e ı a ca ´ de importˆncia capital como fator por excelˆncia do provir. seus estudiosos em ı ca particular. na convic¸˜o de que nele est˜o as ra´zes ca a ı do futuro. como se fosse algo de somenos co importˆncia. Para tanto ´ requerida uma erudi¸˜o dificilmente ene ca contrada entre os especialistas. . que permite uma a compreens˜o melhor de suas caracter´sticas espec´ficas. o exame cr´tico de todas a ı as proposi¸˜es tem´ticas que foi suscitando ao longo do tempo. em seguida. ou ent˜o os componentes de uma escola bem delimitada. apresenta a ı ı as tendˆncias contemporˆneas e. a ca Trata-se de uma introdu¸˜o ` Antropologia que parece fabricada de encoca a menda para estudantes brasileiros. Os estudantes lˆem e discutem determica e nados autores. tem consciˆncia n´tida de que est˜o criando algo. seus habitantes em geral. O livro do antrop´logo francˆs Fran¸ois Laplantine. E. A hist´ria da disciplina. mostrando como foi variando o seu colorido e c o atrav´s dos tempos. assim co o como da ´rea de conhecimentos a que pertence. nele se vive intensamente. autor de v´rias obras importantes e que hoje efetua pesa quisas no Brasil. re´ne as duas perspectivas: vai balizando o conhecimento u antropol´gico atrav´s da hist´ria e mostrando as diversas perspectivas atuais. pois erudi¸˜o e especializa¸˜o constituem-se ca ca em opostos: a erudi¸˜o abrindo. nos debates que suscitou. como deitou ramifica¸˜es novas que alteraram seu tema e co de base ampliando-o. para chegar e a e . A forma¸˜o nacional em Ciˆncias Sociais ca e (e a Antropologia n˜o foge ` regra. ´ ele que se c e busca compreender profundamente. . finalmente. professor da Univero e c sidade de Lyon II. Pa´s em constru¸˜o. a No Brasil o presente tem muita for¸a. o a conhecimento lhes ´ inculcado atrav´s do conhecimento de um problema ou e e de um ramo do saber na maioria de seus aspectos.se na ˆnsia de dominar a maior quantidade ca a poss´ de saber. um panorama dos problemas coe a locados pela pr´tica e por suas possibilidades de aplica¸˜o. o e o Em primeiro lugar. a especializa¸˜o se fechando no pequeno espa¸o de um coıvel ca c nhecimento minucioso.´ CONTEUDO 5 Pref´cio a A ANTROPOLOGIA: uma chave para a compreens˜o do homem a Uma das maneiras mais proveitosas de se dar a conhecer uma ´rea do conhea cimento ´ tra¸ar-lhe a hist´ria. efetua a an´lise de seu desenvolvimento.) segue a via da especializa¸˜o. nas respostas e solu¸˜es que inspirou. muito a a ca mais do que a da forma¸˜o geral.

um p´blico mais amplo do que simplesmente o dos estudantes e u especialistas de Ciˆncias Sociais.6 ´ CONTEUDO a ela escolhe-se uma unica via preferencial. e por outro lado a multipli-cidade de caminhos que tˆm sido tra¸ados para conse c tru´-lo. Sua difus˜o se far´ sem d´vida entre todos e a a u aqueles atra´dos para os problemas do homem enquanto tal. em e muito boa ora traduzido. que buscam coı nhecer ao homem enquanto seu igual e ao mesmo tempo ”outro”. esta introdu¸˜o ao conhecimento da Antropologia atinge. com esta maneira de ser t˜o mercante. a especializa¸˜o numa dire¸˜o. ´ o refor¸o do conhecimento do passado de sua pr´pria disciplina e e c o da variedade de ramos que foi originando at´ a atualidade. ´ ca ca como se fora dela n˜o existisse salva¸˜o. A necessidade real. a ca No entanto. por um lado. oferece a eles um primeiro panorama geral da Antropologia e seu lugar no ˆmbito do saber. a Constru´do dentro da tradi¸˜o francesa do pensamento anal´tico e da claı ca ı reza de express˜o. a ca na verdade. perdem-se de vista coma ponentes fundamentais desse mesmo provir: o passado. Maria Isaura Pereira de Queiroz 1 Maria Isaura Pereira de Queiroz ´ professora do Departamento de Sociologia e pese quisadora do Centro de Estudos Rurais e Urbanos da I I FLCH-USP. no preparo dos estudiosos brasileiros em Ciˆncias ı e Sociais. Este livro. 1 .

mas nunca cient´ o o ıfico no que dizia respeito ao homem em si.surge * em uma regi˜o o a muito pequena do mundo: a Europa. filos´fico. ser´ preciso esperar a segunda metade do s´culo XIX. Em todas as sociedades existiram homens que observavam homens. desta vez. Finalmente. como diz L´vi-Strauss. na Am´rica. pela primeira vez. Isso constitui um evento consider´vel na hist´ria do pensamento do homem a o sobre o homem. botˆnica.. na Oceania ou na Europa. teol´gico. portanto.´ CONTEUDO 7 Introdu¸˜o ca O Campo e a Abordagem Antropol´gicos o O homem nunca parou de interrogar-se sobre si mesmo. e e e sup˜e uma dualidade radical entre o observador e seu objeto. evidentemente. modelos elaborados ”em casa”. em aplicar ao pr´prio homem os o m´todos at´ ent˜o utilizados na area f´ e e a ´ ısica ou da biologia. ao contr´rio. para que o novo co saber comece a adquirir um in´ ıcio de legitimidade entre outras disciplinas cient´ ıficas. Esse pensamento tinha sido at´ ent˜o mitol´gico. ou seja. a ou zoologia) pela natureza suficientemente diversa dos dois termos presentes. De fato. apenas no final do s´culo XVIII ´ que come¸a a se constituir e e c um saber cient´ ıfico (ou pretensamente cient´ ıfico) que toma o homem como objeto de conhecimento. durante o a e qual a antropologia se atribui objetos emp´ ıricos autˆnomos: as sociedades o ent˜o ditas ”primitivas”. de fazer passar este ultimo do estatuto de ´ sujeito do conhecimento ao de objeto da ciˆncia. e n˜o mais a natureza. Mas o projeto e de fundar uma ciˆncia do homem .n˜o podia existir o conceito de homem enquanto o a regi˜es da humanidade permaneciam inexploradas . ue Para que esse projeto alcance suas primeiras realiza¸˜es. Enquanto que o a separa¸ao (sem a qual n˜o h´ experimenta¸ao poss´ c˜ a a c˜ ıvel) entre o sujeito observante e o objeto observado ´ obtida na f´ e ısica (como na biologia. ue e a o art´ ıstico. a antropoloe gia. ou mais precisamente. conseq¨ˆncias importantes. t˜o antigos quanto a humanidade. Isso trar´. ao menos tal como ´ concebida na ´poca. apenas nessa ´poca ´ que o a e e esp´ ırito cient´ ıfico pensa. pela distˆncia no tempo que separa o historiador da sociedade o a . Houve at´ alguns que eram e te´ricos e forjaram. e se deram tanto na a a ´ ´ Asia como na Africa. o projeto antropol´gico que se esbo¸a nessa ´poca o c e muito tardia na Hist´ria . Trata-se. exteriores as areas de civiliza¸ao europ´ias a ` ´ c˜ e ou norte-americanas. na hist´ria. A ciˆncia. como verea mos mais adiante.´. e a elabora¸ao de um a c˜ saber s˜o. Um evento do qual talvez ainda hoje n˜o estejamos medindo a todas as conseq¨ˆncias. muito e e a recente. o e A reflex˜o do homem sobre o homem e sua sociedade.uma antropologia .

a antropologia percebe que o objeto emp´ ırico que tinha escolhido (as sociedades ”primitivas”) est´ desaparecendo. Mas co c˜ logo ap´s ter firmado seus pr´prios m´todos de pesquisa . como numa situa¸ao de laborat´rio. que tiveram pouo cos contatos com os grupos vizinhos. uma quest˜o se coloca. e notadamente o que ´ chamado de ”sociologia comparada”. j´ que foi deixado de lado pelos outros ramos das ciˆncias do homem. a e c˜ e portanto. de atribuir-se um objeto que lhe ´ pr´prio: e o o estudo das popula¸oes que n˜o pertencem ` civiliza¸˜o ocidental. como veremos neste livro. As sociedades estudadas pelos a a primeiros antrop´logos s˜o sociedades long´ o a ınquas as quais s˜o atribu´ ` a ıdas as seguintes caracter´ ısticas: sociedades de dimens˜es restritas. Ela se vˆ. como diz Paul Mercier (1966). pois o pr´prio Universo dos a o ”selvagens”n˜o ´ de forma alguma poupado pela evolu¸ao social. S˜o tamb´m qualificadas de ”simples”. este ´ c˜ e selvagem de dentro. confrontada a uma crise de identidade. empenhando-se em explorar exclusivamente (mas de uma o 2 . objeto ideal de seu estudo. a qual. nessa ´poca . c˜ a e ue elas ir˜o permitir a compreens˜o. ela consistir´ na antropologia. c˜ o *** A antropologia acaba. Ser˜o nec˜ a a ca a cess´rias ainda algumas d´cadas para elaborar ferramentas de investiga¸ao a e c˜ que permitam a coleta direta no campo das observa¸˜es e informa¸oes. Foi Van uenncp que elaborou os m´todos ¨ e pr´prios desse campo de estudo. a e 2 A pesquisa etnogr´fica cujo objeto pertence ` mesma sociedade que i) observador foi. e 2) Ele sai em busca de uma outra area de investiga¸ao: 0 camponˆs. a a de in´ ıcio. sua morte. ser´ que a a ”morte do primitivo”h´ de causar a morte daqueles que haviam se dado a como tarefa o seu estudo? A essa pergunta v´rios tipos de resposta puderam a e podem ainda ser dados. por assim dizer. permanece desde seu a nascimento: o fim do ”selvagem”ou. Ele resolve a quest˜o da autonomia problem´tica e a a de sua disciplina reencontrando. em conseq¨ˆncia. e nas quais h´ uma menor especializa¸ao das atividades ca ` a c˜ e fun¸oes sociais.8 ´ CONTEUDO estudada. qualificada pelo nome de folklore. portanto. e 1) O antrop´logo aceita. cuja tecnologia ´ pouco desenvolvida e em rela¸˜o a nossa.e por muito tempo a e em uma distˆncia definitivamente geogr´fica. Detenhamo-nos em trˆs deles. e volta para o ambito das o ˆ outras ciˆncias humanas. particularmente bem adequado. da a a c o organiza¸ao ”complexa”de nossas pr´prias sociedades. especialmente a sociologia. Muito rapidamente.no in´ do s´culo o o e ıcio e XX .

dominar hoje em dia. que nenhum ´ pesquisador pode. mas atrav´s de uma abordagem epistemol´gica e e o constituinte.´ CONTEUDO 9 3) Finalmente. e que ser´ desenvolvida no conjunto deste trabalho. uma das voca¸˜es c˜ e co maiores de nossa abordagem consiste em n˜o parcelar o homem mas. o que esse patrimˆnio (que se transforma) o e o deve a cultura? Assim. cultural ou hist´rico c a o particular. Essa ´ a terceira via que come¸aremos a esbo¸ar nas p´ginas e c c a que se seguem. e O estudo do homem inteiro S´ pode ser considerada como antropol´gica uma abordagem integrativa que o o objetive levar em considera¸˜o as m´ltiplas dimens˜es do ser humano em soca u o ciedade. ele afirma a especificidade de sua pr´tica. o antrop´logo biologista levar´ em considera¸ao os ` o a c˜ fatores culturais que influenciam o crescimento e a matura¸ao do indiv´ c˜ ıduo. n˜o mais atrav´s de um objeto emp´ a a e ırico constitu´ ıdo (o selvagem. ecol´gico. dado que essas cinco ´reas mant´m rela¸˜es estreitas entre si. mas tamb´m. O objeto a te´rico da antropologia n˜o est´ ligado. um certo enfoque a e a que consiste em: a) o estudo do homem inteiro. a cultura a ca este patrimˆnio. ao a contr´rio. b) o estudo do homem em todas as sociedades. o . o ac´mulo dos dados colhidos a partir de observa¸oes u c˜ diretas. Ora. a distˆncia social e cultural que co a separa o objeto do sujeito. que inclusive n˜o exclui a o anterior (pelo menos enquanto campo de estudo). mas as quais ele deve ` estar sensibilizado quando trabalha de forma profissional em algumas delas. O que deve. na perspectiva na qual come¸amos o a a c a nos situar a partir de agora. ela analisa as particularie a o dades morfol´gicas e fisiol´gicas ligadas a um meio ambiente. Por´m. bem como o aperfei¸oamento das t´cnicas de investiga¸ao. substituindo nesse caso a distˆncia geogr´fica da antropologia a a ”ex´tica”. a um espa¸o geogr´fico. a e co A antropologia biol´gica (designada antigamente sob o nome de antropologia o f´ ısica) consiste no estudo das varia¸˜es dos caracteres biol´gicos do homem co o no espa¸o e no tempo. o camponˆs). Sua problem´tica ´ a das rela¸oes entre o patrimˆnio c a e c˜ o gen´tico e o meio (geogr´fico. Certa-mente. em tentar relacionar campos de investiga¸˜o freq¨entemente sea ca u parados. forma magistral) as tradi¸˜es populares camponesas. bem como a o o evolu¸˜o destas particularidades. sob todas as latitudes em todos os seus estados e em todas as ´pocas. social). evidentemente. especialmente. e aqui temos um terceiro caminho. conduzem c e c˜ necessariamente a uma especializa¸ao do saber. Pois a antropologia n˜o ´ sen˜o um certo olhar. existem cinco areas principais da antropologia.

Mas continua sempre amea¸ada de ruptura devido a um c c movimento de especializa¸˜o facilmente compreens´ ca ıvel.3 4 antropologia ling¨´ uıstica. Notamos que esse ramo da antropologia trabalha com uma abordagem idˆntica as da antropologia hist´rica e ` o e da antropologia social e cultural de que trataremos mais adiante. n˜o apenas escrita. comparando-a ` coabita¸˜o dos psic´logos e dos especialistas da observa¸˜o de a ca o ca ratos em laborat´rio o 3 . parte do e e ´ atrav´s dela que os indiv´ patrimˆnio cultural de uma sociedade. um pesquisador que trabalha e o e a partir do acesso direto aos textos. isto ´. e suas categorias psicoafetivas e psicocognitivas (etnoling´ ıstica). Seu projeto. objetos no solo. tanto em suas t´cnicas e organiza¸oes sociais. finalmente. com toda evidˆncia. visa reconstituir as socie` dades desaparecidas. que ´ uma disciplina que se situa no encontro e Foi notadamente gra¸as a pesquisadores como Paul Rivet e Andr´ Leroi-Gourhan c e (1964) que a articula¸˜o entre as ´reas da antropologia f´ ca a ısica. longe de consistir apenas no estudo das formas de crˆnios. Ela tem. a e A antropologia ling¨´ uıstica. peso. por exemplo: por que o desenvolvimento psicomotor da a crian¸a africana ´ mais adiantado do que o da crian¸a europ´ia? Essa parte c e c e da antropologia. seus pensamentos.10 ´ CONTEUDO Ele se perguntar´. que se liga a arqueologia. o como eles ıi´ expressam o universo e o social (estudo da literatura. que permite discernir o que diz respeito ao inato e ao adco quirido. E o e ıduos que comp˜em uma sociedade se expressam e expressam seus valores. mas a tamb´m de tradi¸˜o oral). mas tamb´m quaisquer marcas da atividade e humana). isto ´. interessa-se em especial .pela gen´tica c e das popula¸˜es. um papel particularmente importante a exercer para que n˜o sejam a rompidas as rela¸˜es entre as pesquisas das ciˆncias da vida e as das ciˆncias co e e humanas. eles interpretam seus pr´prios e ca o saber e saber-fazer (´rea das chamadas etnociˆncias). a a meu ver.a ”desagrad´vel obriga¸˜o de a ca fazer m´nage ` trois com os representantes da arqueologia pr´-hist´rica e da antropologia e a e o f´ ısica”. a mensura¸oes do esqueleto. sendo que um e outro est˜o interagindo continuamente. A linguagem ´. quanto e c˜ em suas produ¸˜es culturais e art´ co ısticas. O especialista em pr´-hist´ria recoe o lhe. Edmund Leach (1980) fala d. colocando-se do ponto de vista da antropologia social. pessoalmente. anatomia comparada c˜ as ra¸as c dos sexos. Ele realiza um trabalho de campo. O historiador ´ antes de tudo um histori´grafo. tamanho. Apenas o estudo da l´ c˜ ıngua permite compreender: o como os homens pensam o que vivem e o que sentem. como o realizado na antropologia social na qual se beneficia de depoimentos vivos. suas o preocupa¸oes. A antropologia pr´-hist´rica ´ o estudo do homem atrav´s dos vest´ e o e e ıgios materiais enterrados no solo (ossadas.desde os anos 50 . Assim. o como. cor da pele. biol´gica e s´cio-cultural o o nunca foi rompida na Fran¸a.

fazemos quest˜o pessoalmente de acrescentar a um quinto p´lo: o da antropologia psicol´gica. j´ que diz respeito a tudo que constitui e e a a uma sociedade: seus modos de produ¸˜o econˆmica. 4 n˜o diz respeito apenas. Isso posto. e A antropologia social e cultural (ou etnologia) nos deter´ por muito mais a tempo. os menores detalhes dos noso Foi o antrop´logo Edward Sapir (1967) quem. esclare¸amos desde j´ que a antropologia consiste menos no levanc a tamento sistem´tico desses aspectos do que em mostrar a maneira particular a com a qual est˜o relacionados entre si e atrav´s da qual aparece a especifia e ´ precisamente esse ponto de vista da totalidade. o e aquilo que os homens ”n˜o pensam habitualmente em fixar ria pedra ou no a papel”(nossos gestos. e de longe. sua orca o e ganiza¸ao pol´ c˜ ıtica e jur´ ıdica. nossas trocas simb´licas. e sim a indiv´ a a ıduos. suas cria¸˜es co art´ ısticas. 4 . que consiste no estudo dos o o processos e do funcionamento do psiquismo humano.conscientes e inconscientes e dos seres humanos particulares podemos apreender essa totalidade sem a qual ´ n˜o ´ antropologia. E a raz˜o pela qual a dimens˜o psicol´gica (e tamb´m a e a a o e psicopatol´gica) ´ absolutamente indissoci´vel do campo do qual procuramos o e a aqui dar conta. o antrop´logo ´ o e em primeira instˆncia confrontado n˜o a conjuntos sociais. Ela se interessa tamb´m pelas imensas areas abertas pelas noe ´ vas t´cnicas modernas de comunica¸ao (mass media e cultura do audiovisual). cidade de uma sociedade. E e o fato de que o antrop´logo procura compreender. Ou seja. suas t´cnicas. toda vez que utilizarmos a partir a de agora o termo antropologia mais genericamente. Ela ´ parte integrante dele. Aos trˆs primeiros p´los de pesquisa que foram o e o mencionados. somente atrav´s dos comportamentos . mas procuraremos nunca es` quecer que ela ´ apenas um dos aspectos da antropologia. ao estudo dos dialetos a a (dialetologia). Apenas nessa ´rea temos alguma competˆncia. e que s˜o habitualmente os unicos considerados como constitua ´ tivos (com antropologia social e a cultural. suas cren¸as religiosas. come¸ou tamb´m a mostrar que um estudo o c e antropol´gico da l´ o ıngua (a l´ ıngua como objeto de pesquisa inscrevendo-se na cultura) conduzia a um estudo ling¨´ uıstico da cultura (a l´ ıngua como modelo de conhecimento da cultura). como diz L´vi-Strauss. sua l´ c ıngua.´ CONTEUDO 11 de v´rias outras. e c˜ A antropologia psicol´gica. seus sistemas de parentesco. Um dos aspectos e cuja abrangˆncia ´ consider´vel. e este livro traa e tar´ essencialmente dela. Assim sendo. das quais falaremos a seguir) do campo global da antropologia. sua psicologia. seus sistemas de conhecimento. estaremos nos referindo a antropologia social e cultural (ou etnologia). De fato. al´m de introduzir o estudo da lino e guagem entre os materiais antropol´gicos.

h´ alguns anos apenas e a na Fran¸a. a sem objeto. De fato. ıpio Se seu campo de observa¸˜o consistisse no estudo das sociedades preservadas ca do contato com o Ocidente. presos a uma Unica cultura. e cujo encontro vai levar a uma modifica¸˜o do olhar que se tinha ca ´ sobre si mesmo. e das culturas da humanidade como um todo em suas diversidades hist´ricas o e geogr´ficas. que se a especificidade da contribui¸˜o dos antrop´logos em e ca o rela¸ao aos outros pesquisadores em ciˆncias humanas n˜o pode ser conc˜ e a fundida com a natureza das primeiras sociedades estudadas (as sociedades extra-europ´ias). de fato. a e o Ela ´ o estudo de todas as sociedades humanas (a nossa inclusive 5 ). pelo tipo de sociedade ao qual ela a princ´ se dedicou preferencialmente ou mesmo exclusivamente). como j´ comentamos. do setor urbano. apenas a distˆncia em rela¸ao a nossa sociedade (mas uma e a c˜ distˆncia que faz com que nos tornemos extremamente pr´ximos daquilo que a o ´ long´ e ınquo) nos permite fazer esta descoberta: aquilo que tom´vamos por a natural em n´s mesmos ´. Ocorre. c˜ Al´m disso. soci´logos. como c vimos. economistas. mas m´ ` ıopes quando se trata da nossa. . ela. a a perplexidade provo.12 ´ CONTEUDO sos comportamentos). a c˜ o daquilo que n˜o hesitarei em chamar de ”estranhamento”(depaysement). em especial. o juristas. ou seja. c 5 . o o O estudo do homem em sua totalidade A antropologia n˜o ´ apenas o estudo de tudo que com-p˜e uma sociedade. ela se encontraria hoje. . dos aspectos ”tradicionais”das sociedades ”n˜o tradicionais”(as comunidades cama ponesas europ´ias). por´m. ela ´ a meu ver indissociavelmente ligada ao modo de conhee e cimento que foi elaborado a partir do estudo dessas sociedades: a observa¸ao c˜ direta. por impregna¸ao lenta e cont´ c˜ ınua de grupos humanos min´sculos com u os quais mantemos uma rela¸ao pessoal.mente pelos ge´grafos. Visando constituir os ”arquivos”da humanidade em suas dia feren¸as significativas. psic´logos. Disso decorre a necessidade. que faz dessa abordagem um tratamento fundamentalmente diferente dos utilizados setorial. inicialmente privilegiou claramente as ´reas de c a civiliza¸ao exteriores a nossa. dos grupos marginais. em seguida. somos n˜o apenas a cegos a dos outros. A experiˆncia e Os antrop´logos come¸aram a se dedicar ao estudo das sociedades’ industriais o c avan¸adas apenas muito recentemente. aquilo que era evidente ´ Infinitao e e mente problem´tico. e finalmente. cultural. Mas a antropologia n˜o poderia ser definida c˜ ` a por um objeto emp´ ırico qualquer (e.cada pelo encontro das culturas que s˜o para n´s as mais a o distantes. As primeiras pesquisas trataram primeiro. na forma¸ao antropol´gica.

m´ ımicas. nos encontrar. e l´ ınguas. e devemos especialmente reconhecer que somos uma cultura poss´ entre tantas outras. nos emocionar. comemorar os eventos de nossa existˆncia. no reconhecimento.´ CONTEUDO 13 da alteridade (e a elabora¸ao dessa experiˆncia) leva-nos a ver aquilo que c˜ e nem ter´ ıamos conseguido imaginar. c˜ pois se h´ algo natural nessa esp´cie particular que ´ a esp´cie humana.) s˜o. pelo contr´rio. . Aos poucos. que consideramos espontaneamente como indiferenciadas. a meu ver. para elaborar costumes. notamos que o menor dos nossos comportamentos (gestos. conhecimento. participando ao a mesmo tempo de uma comum humanidade. posturas. ´ sua a a e aptid˜o praticamente infinita para inventar modos de vida e formas de orgaa niza¸ao social extremamente diversos. uma ruptura com a id´ia de que existe um ”centro do e mundo”. cotidiano. E. de que a antropologia. ent˜o. que essas formas de comportamento e de vida em sociedade que tom´vamos todos espontaneamente a por inatas (nossas maneiras de andar. do igual. do idˆntico. e que consideramos ”evic˜ e dente”. As sociedades mais die a ıvel ferentes da nossa. caracteriza a unidade do homem. o produto e a de escolhas culturais. como j´ o dissemos e voltaremos a dizer. a nos surpreender com aquilo que diz respeito a c a n´s mesmos. e. mais ainda. Isso sup˜e ao a o mesmo tempo a ruptura com a figura da monotonia do duplo. correlativamente. assim. familiar. s˜o na realidade t˜o diferentes entre si quanto o s˜o da nossa. modos de conhecimento. na realidade. Come¸amos. dada a nossa dificuldade em fixar nossa aten¸ao no que nos ´ habitual. com a maior proximidade poss´ ıvel. ´ a e e e e sua aptid˜o a varia¸ao cultural a ` c˜ O projeto antropol´gico consiste. jogos profundamente diversos. de fato. uma amplia¸˜o do saber 6 e uma muta¸ao de ca c˜ 6 Veremos que a antropologia sup˜e n˜o apenas esse desmembramento (´clatement) o a e . aquilo que os seres humanos tˆm em comum e ´ sua capacidade para se diferenciar uns dos outros. portanto. . rea¸˜es afetivas) n˜o tem realmente nada de ”natuco a ral”. a ´ Aquilo que. A abordagem antropol´gica provoca. dormir. E. extremamente diversificadas. e com a exclus˜o num irredut´ ”alhures”. ıvel mas n˜o a unica. a a a elas s˜o para cada uma delas muito raramente homogˆneas (como seria de se a e esperar) mas. que come¸a por uma revolu¸˜o do olhar. Ou seja. faz tanta quest˜o. Ela implica um deso c ca centramento radical. o juntamente com a compreens˜o de uma humanidade plural. a nos espiar. O conhecimento (antropol´gico) da nossa cultura o o passa inevitavelmente pelo conhecimento das outras culturas. apenas a nossa disciplina c˜ permite notar. uma verdadeira revolu¸ao episo c˜ temol´gica. institui¸oes.

Esta elaborou um orientalismo. por viajantes vindos e ´ da Asia. das culturas. que ´ ´ teria se constitu´ como campo de saber te´rico a partir da Asia. Confrontados a multiplicidade. Como escreve Roger Bastide em sua Anatomia de Andr´ Gide: e ”Eu sou mil poss´ ıveis em mim. mas tamb´m uma a e nova pesquisa e uma reconstitui¸˜o deste saber. mesmo o sendo filosofia social. da Africa ou da Oceania. um americanismo. mas que n˜o devem ocultar a voca¸˜o (evidentemente problem´tica) de nossa a ca a disciplina. nunca se deram como o objetivo o de pensar a diferen¸a (e muito menos. ıdo o Isso posto. ligados ao questionamento da cultura ` qual se pertence. as condi¸˜es de produ¸˜o hist´ricas. Na Gr˜-Bretanha a partir de 1908 (Frazer em Liverpool). um oceanismo. que se expressa no relativismo (de um Jean de L´ry) ou no ceticismo (de um e Montaigne). E os ´ ındios Flathead de quem nos fala L´vi-Strauss eram t˜o curiosos do que e a ouviam dizer dos brancos que tomaram um dia a iniciativa de organizar expedi¸˜es a fim co de encontr´-los. um e africanismo. A romper igualmente com o humanismo cl´ssico a que tamb´m consiste na identifica¸ao do sujeito com ele mesmo. freq¨entemente inclusive de uma forma igualit´ria e com u a do saber. enquanto que nunca ouvimos falar de um ”europe´ ısmo”. e da cultura e c˜ com a nossa cultura. somos ` a aos poucos levados a romper com a abordagem comum que opera sempre a naturaliza¸ao do social (como se nossos comportamentos estivessem inscric˜ tos em n´s desde o nascimento. Mas nesse ponto coloca-se uma quest˜o: ca a ser´ que a Antropologia ´ o discurso do Ocidente (e somente dele) sobre a alteridade? a e Evidentemente. ´ preciso alcan¸ar formula¸˜o e e c ca v´lida. Lembremos que a antropologia s´ come¸ou a ser ensinada nas universidades h´ alo c a gumas d´cadas. criticista com Kant. e na Fran¸a a e a c partir de 1943 (Griaule na Sorbonne. n˜o apenas para um observador honesto mas para todos os observadores poss´ a a ıveis”.14 ´ CONTEUDO si mesmo. A descoberta da alteridade ´ a de uma rela¸ao que nos permite deixar de e c˜ identificar nossa pequena prov´ ıncia de humanidade com a humanidade. Poder´ a ıamos multiplicar os exemplos. seguido por Leroi-Gourhan). e correlativamente deixar de rejeitar o presumido ”selvagem”fora de n´s meso mos. a filosofia cl´ssica (antol´gica com S˜o Tom´s. De fato. o europeu n˜o foi o unico a interessar-se pelos h´bitos e pelas insa ´ a titui¸˜es do n˜o-europeu. mas n˜o posso me resignar a querer apenas a um deles”. Isso n˜o impede que a constitui¸˜o a ca de um saber de voca¸˜o cient´ ca ıfica sobre a alteridade sempre tenha se desenvolvido a partir da cultura europ´ia. . como atestam notadamente e e os relatos de viagens realizadas na Europa desde a Idade M´dia. de pens´-la cientificamente). A rec´ co a ıproca tamb´m ´ verdadeira. hist´rica com Hegel). a o a a reflexiva com Descartes. sociais e culturais da co ca o a antropologia constituem um aspecto que seria rigorosamente antiantropol´gico perder o de vista. bem como as grandes religi˜es. e sim de seus m´todos de pensamento. que visa superar a irredutibilidade das culturas. Como escreve L´vi-Strauss: e ”N˜o se trata apenas de elevar-se acima dos valores pr´prios da sociedade ou do grupo a o do observador. c a e sim o de reduzi-la. a priori enigm´tica. e n˜o fossem adquiridos no contato com a o a cultura na qual nascemos). geogr´ficas.

Mas ela ´. mais ”livres”. como a f´ a ısica. isto ´. mais ”conscientes”. por sua vez. pelo contr´rio.que seria a e o c´mulo em se tratando de antropologia .se sobre a pluraridade irredut´ das o ıvel etnias. Pois essa transgress˜o de uma das tendˆncias doa e minantes de nossa sociedade . Procuraremos.deve ser sempre retomada. considera que. a o c˜ Etnologia ou antropologia? No primeiro caso (que corresponde a tradi¸˜o ` ca terminol´gica dos franceses). No segundo (que ´ mais usado nos pa´ angloe e ıses . mais ”adultos”. O que significa de forma alguma que o antrop´logo esteja destinado. no direito de nos perguntar como a humanidade pˆde pero manecer por tanto tempo cega para consigo mesma. do que em uma ´poca da qual seria errˆneo pensar que est´ e o a definitivamente encerrada. aos estudantes. desses materiais e o u dessa experiˆncia. por sua vez. amputando parte de si pr´pria e fazendo. mostrar nesse livro a que a d´vida e a cr´ u ıtica de si mesmo s´ s˜o cientificamente fundamentadas o a se forem acompanhadas da interpela¸ao cr´ c˜ ıtica dos de outrem. como acabau mos de escrever. ao adotar ipso facto a l´gica das outras socieo dades e a censurar a sua. ao n´ ıvel das palavras. um objeto de exclus˜o. e de forma geral a todos aqueles que tˆm o direito de saber o que verdadeie ramente fazem os antrop´logos) dessa unidade m´ltipla. a si mesmo. tinua n˜o tendo ainda optado definitivamente pela sua pr´pria designa¸ao. e 1) A primeira dificuldade se manifesta. quando se trata de ılia o e dar conta (aos interessados. muito dividida. Desconfiemos por´m do pensamento . isto ´. tamb´m aqui. tamb´m adultas. de tudo que n˜o eram suas ideologias dominantes sucessio a vas. insiste. uma ciˆncia constitu´ cone ıda. e evidentemente. pol´ o ıticas.o expansionismo ocidental sob todas as suas formas econˆmicas. aos seus colegas. das culturas. intelectuais . a e convencidos do fato de que os fenˆmenos sociais que estudamos s˜o fenˆmenos o a o que observamos em seres humanos. c˜ 15 O pensamento antropol´gico. a a e a a ılia fam´ dos antrop´logos ´. ela deve c˜ igualmente aceitar a diversidade das culturas. se eles s˜o tamb´m unˆnimes em pensar que h´ uni-dade da fam´ humana.´ CONTEUDO as melhores inten¸oes do mundo. Estamos. com os quais estivemos vi-vendo. como sempre. Dificuldades Se os antrop´logos est˜o hoje convencidos de que uma das caracter´ o a ısticas maiores de sua pr´tica reside no confronto pessoal com a alteridade. particularmente reveladora da juventude de e e nossa disciplina.6 que n˜o sendo.de que estamos finalmente mais u ”l´cidos”. seja levado por o alguma crise de identidade. assim como uma o civiliza¸ao adulta deve aceitar que seus membros se tornem adultos.

longe de ser uma ”ciˆncia natural da sociedade”(Radcliffe-Brown). um invent´rio a das possibilidades inconscientes. mas como sistemas simb´licos. mas tamb´m por grava¸˜o sonora.16 ´ CONTEUDO saxˆnicos).7 2) A segunda dificuldade diz respeito ao grau de cientificidade que conv´m e atribuir a antropologia. E optando-se por antroo e pologia.que consiste mais no estudo dos comportamentos. sobre a unidade do gˆnero humano. ıvel ca fazer aparecer a l´gica espec´ o ıfica da sociedade que se estuda. isto ´. que ´ preciso tratar as sociedae des n˜o como sistemas orgˆnicos. que n˜o existem em n´mero ilimitado”. e ca a a A etnologia consiste em um primeiro n´ de abstra¸˜o: analisando os materiais colhidos. O homem est´ em condi¸˜es de estudar cientifica` a co mente o homem. com a Radcliffe-Brown (1968). deve-se falar (com os autores britˆnicos) em antropologia social a cujo objeto privilegiado ´ o estudo das institui¸˜es . vale a pena especificar bem o significado dessas palavras. dos fenˆmenos que observamos. Para estes a a o ultimos.ou (com os autores e co americanos) de antropologia cultural . As rupturas manifestas se devem essencialmente a antrop´logos. Estabele¸amos. c como L´vi-Strauss. ´ porque n˜o desespera de despertar entre as ciˆncias naturais na hora do julgamento e a e final”(L´vi-Strauss. finalmente. por uma impregna¸˜o duradoura e cont´ o ca ınua e um processo que se realiza por aproxima¸˜es sucessivas. Estreitamente vinculadas nos e e o s´culos XVIII e XIX. A etnografia ´ a coleta direta. a u 8 Ao modelo orgˆnico dos funcionalistas ingleses. um objeto que ´ de mesma natureza que o sujeito? e e E nossa pr´tica se encontra novamente dividida entre os que pensam. fotogr´fica ou cinematogr´fica. e o mais minuciosa e poss´ ıvel. al´m da e e c e imagem consciente e sempre diferente que os homens formam de seu devir. 3) Uma terceira dificuldade prov´m da rela¸ao amb´ e c˜ ıgua que a antropologia mant´m desde sua gˆnese com a Hist´ria. as duas pr´ticas v˜o rapidamente se emancipar uma e a a da outra no s´culo XX. A antropologia. que as sociedade s˜o sistemas naturais que devem a ser estudados segundo os m´todos comprovados pelas ciˆncias da natureza. a ´ e antropologia deve antes ser considerada como uma ”arte”(Evans-Pritchard). consiste era um segundo n´ de inteligibilidade: construir modelos que permitam comıvel parar as sociedades entre si. mas se se resigna em fazer seu purgat´rio entre as ciˆncias socio e ais. o Evans-Pritchard: ”O conhecimento da hist´ria das sociedades n˜o ´ de neo a e Para que o leitor que n˜o tenha nenhuma familiaridade com esses conceitos possa a localizar-se. procurando ao mesmo tempo se reencontrar perioe dicamente. a etnologia e a antropologia constituem os trˆs moe e mentos de uma mesma abordagem. L´vi-Strauss substituiu. ”seu objetivo ´ alcan¸ar.8 e e e os que pensam. que a etnografia. Esses fenˆmenos podem ser recoco o lhidos tomando-se notas. como verea e mos. seu nome o e a e proclama suficientemente. e mostrou que trabalhando no ponto de encontro da natureza (o inato) e da cultura (tudo o que n˜o ´ hereditariamente programado e deve ser invena e tado pelos homens onde a natureza n˜o programou nada). um modelo ling¨´ uıstico. 1973) e 7 . a antropologia deve aspirar a a tornar-se uma ciˆncia natural: ”A antropologia pertence `s ciˆncias humanas. com Evans-Pritchard (1969). Como escreve L´vi-Strauss.

com a coloniza¸ao. e muitos antrop´logos compartilham sua opini˜o. Bastide. onde come¸o a escrever este livro. O pesquisador torna-se. de ser unˆnime. pensava que seus estudos deveriam permitir a instaura¸˜o de ca uma sociedade melhor. 1975). Quer´ ıamos simplesmente observai aqui que a ”antropolo´ gia aplicada”9 n˜o ´ uma grande novidade. e a hist´ria recente da antropoa a o logia testemunha tamb´m um desejo de coabita¸˜o entre as duas disciplinas. e isso desde seu nascimento.´ CONTEUDO 17 nhuma utilidade quando se procura compreender o funcionamento das institui¸oes”. mais especificamente a aplica¸ao de uma pedagogia c˜ menos frustrante ` sociedade americana. e. ”pr´ximas do grau zero e e o de temperatura hist´rica”. e Come¸aremos examinando o segundo termo da alternativa aqui colocada e c que continua dividindo profundamente os pesquisadores. participando em especial dos programas de desenvolvimento e das decis˜es pol´ o ıticas relacionadas ` elaborac˜o a a desses programas. isto ´. cf. 1971 A maioria dos antrop´logos ingleses. ent˜o. Margaret ´ o a Mead. um milia tante. contribuindo na constru¸ao de uma o a c˜ ”antropologia da liberta¸ao”. que s˜o menos ”sociedades sem hist´ria”. a e c˜ 10 a antropologia teve inicio. a o Essa preocupa¸˜o de separa¸ao entre as abordagens hist´rica e antropol´gica ca c˜ o o est´ longe. por exemplo. c um autor como Gilberto Freyre. realizou suas pesquisas a peo . 9 10 Sobre a antropologia aplicada. empenhando-se em compreender a forma¸˜o ca da sociedade brasileira. entre a pesquisa que se pode qualificar de fundamental e aquilo que ´ designado sob o termo de ”antropologia aplicada”. Hoje v´rios colegas nossos consia a deram que a antropologia deve colocar-se ”a servi¸o da revolu¸ao”(segundo c c˜ especialmente )ean Copans. E por ela que. desde 1933. mostrou o proveito que a antropologia podia tirar do conhecimento hist´rico. o 4) Uma quarta dificuldade prov´m do fato de que nossa pr´tica oscila sem e a parar. Conv´m tamb´m lembrar aqui a distin¸ao agora famosa ca e e c˜ de L´vi-Strauss opondo as ”sociedades frias”. no Nordeste do Brasil. Mais categ´rico ainda. Durkheim considerava que a sociologia n˜o valeria sequer uma hora de dedica¸ao se ela n˜o a c˜ a pudesse ser util. e ca Aqui. Numerosos pesquisadores ainda reivindicam a c˜ qualidade de especialistas de conselheiros. do que o a o ”sociedades que n˜o querem ter est´rias”(´nicos objetos da antropologia a o u cl´ssica) a nossas pr´prias sociedades qualificadas de ”sociedades quentes”. R. especialmente. um ”antrop´logo revolucion´rio”. como veremos. estudando o comportamento dos adolescentes das ilhas Samoa (1969). Leach escreve: ”A gera¸˜o de antrop´logos c˜ o ca o a qual perten¸o tira seu orgulho de sempre ter-se recusado a tomar a Hist´ria ` c o em considera¸˜o”.

etc a 11 Essa dupla abordagem da rela¸˜o ao outro pode muito bem sei realizada por um unico ca ´ pesquisador. a ajuda ao ”Terceiro Mundo”. inclusive. ´ dar muito a elas. franc. elas n˜o tˆm. Fortes estudou os Tallensi a pedido do governo da Costa do Ouro. ele os interroga e a e. a As duas atitudes que acabamos de citar a antropologia ”pura”ou a antropologia ”diluida”como diz ainda L´vi-Strauss encontram na realidade suas e primeiras formula¸˜es desde os prim´rdios da confronta¸˜o do europeu com co o ca o ”selvagem”. ca e ap´s ter lembrado que o saber cient´ o ıfico sobre o homem ainda se encontrava num est´gio extremamente primitivo em rela¸ao ao saber sobre a natureza. Nadei foi a conselheiro do governo do Sud˜o. nada ou quase nada a oferecer. para B transforma¸ao das sociedades o c˜ que ele estuda 11 dido das administra¸˜es: Os Nuers de Evans-Pritchard foram encomendados pelo governo co britˆnico. durante a coloniza¸ao. No extremo oposto das atitudes ”engajadas”das quais acabamos c˜ de falar. c˜ e Perfeitamente a vontade entre os astecas. a ”revolu¸˜o”. no momento. a franc. as estrat´gias daquilo ca e que ´ hoje chamado ”desenvolvimento”ou ainda ”mudan¸a social”) n˜o ale c a tera nada quanto ao amago do problema. Sahagun foi um franciscano espanhol que alguns anos mais tarde realizou uma verdadeira investiga¸ao no M´xico. ele estava l´ enquanto mission´rio ` a a a fim de converter a popula¸ao que estuda.18 ´ CONTEUDO Foi com ela. 1963) se deixa a literalmente levar pela cultura que descobre e que o encanta. que ´ o seguinte: 0 antrop´logo ˆ e o deve contribuir. que se deu o in´ ıcio da Antropologia. enquanto antrop´logo. 1968) participa do que chama ”uma experiˆncia controlada”do desenvolvimento e .. O c˜ a a e verdadeiro meio de permitir sua existˆncia. que podem ser e o ilustrados pelas posi¸oes respectivas de um Jean de Lery e de um Sahagun. mas sobretudo e e n˜o lhes pedir nada”. Longe de procurar convencer seus h´spedes da a o superioridade da cultura europ´ia e da religi˜o reformada. Assim Malinowski chegando `s ilhas Trobriand (trad. c˜ Jean de Lery foi um huguenote* francˆs que permaneceu algum tempo no e Brasil entre os Tupinamb´s. Desde o s´culo XVI.11 c˜ O fato da diversidade das ideologias sucessivamente defendidas (a convers˜o a religiosa.. Mas v´rios anos depois (trad. sobretudo. se interroga. come¸a a se implantar aquilo o e c que alguns chamariam de ”arqu´tipos”do discurso etnol´gico. a c˜ escreve: ”Supondo que nossas ciˆncias um dia possam ser colocadas a servi¸o da e c a¸ao pr´tica. encontramos a posi¸˜o determinada de um Claude L´vi-Strauss que. de fato.

Ou seja. traa a o balhar para a transforma¸ao das sociedades que estuda. no que me diz respeito. sem precedente’ na Hist´ria: o desenvolvimento ca o de uma forma de cultura industrial-urbana e de uma forma de pensamento que ´ a do racionalismo social. parecem-me bastante fracas aqui no Nordeste do Brasil. da seguinte forma: nossa abordagem. sem risco de despersonaliza¸ao? a c˜ Minha convic¸˜o ´ de que o antrop´logo. de fato. Somos. que se convertesse em economista. Caso contr´rio. de se distrair. est´ diretamente confrontada hoje a um movimento de a homogeneiza¸˜o. n˜o deve. organizar pol´ o c e ıtica. pelo menos enquanto antrop´logo. perturbando completamente os modos de vida (a maneira de se alimentar. perceber realmente o fasc´ ınio que exerce este modelo. as e cren¸as. As muta¸˜es de comportamentos geradas por essa forma de civiliza¸˜o mundialista co ca podem tamb´m evidentemente ser encontradas nas nossa. Em compensa¸˜o.´ CONTEUDO 19 Eu responderia. a meu ver. de se vestir. Eu pude. mas n˜o ´ a nossa profiss˜o propriamente ue a a e a dita. os costumes das sociedades que n˜o s˜o as nossas. m´dico. para ajudar os atores sociais a ca e o responder a essa quest˜o. que consiste antes em nos surpreender com aquilo que nos ´ mais e familiar (aquilo que vivemos cotidianamente na sociedade na qual nascemos) e em tornar mais familiar aquilo que nos ´ estranho (os comportamentos. agrˆnomo. econˆmica e o socialmente a evolu¸˜o dessa diferen¸a ´ uma outra coisa. de se encontrar. a n˜o ser que ele seja motivado por alguma concep¸ao messiˆnica a c˜ a da antropologia. mas nas quais poc a a der´ ıamos ter nascido). a partica c e cipa¸ao do antrop´logo naquilo que ´ hoje a vanguarda do anticolonialismo c˜ o e e da luta para os direitos humanos e das minorias ´tnicas ´. o e pol´ ıtico. no decorrer de minhas estadias e sucessivas entre os Berberes do M´dio Atlas e entre os Baul´s da Costa do e e Marfim. diretamente confrontados a uma dupla urgˆncia a e ` qual temos o dever de responder. ao meu ver. por outro lado. uma e e conseq¨ˆncia de nossa profiss˜o. Auxiliar uma determinada cultura na explicita¸˜o para ela ca mesma de sua pr´pria diferen¸a ´ uma coisa. de pensar 12 e levando a novos comportamentos que n˜o decorrem de uma escolha) a A quest˜o que est´ hoje colocada para qualquer antrop´logo ´ a seguinte: a a o e h´ uma possibilidade em minha sociedade (qualquer que seja) permitindoa lhe o acesso a um est´gio de sociedade industrial (ou p´s-industrial) sem a o conflito dram´tico. pr´prias culturas rurais e ure o banas. seria c˜ a conveniente. onde ca come¸ou a redigir este livro c 12 .

ling¨´ uıstica. ` natureza desta obra que a deve apresentar.20 ´ CONTEUDO a) Urgˆncia de preserva¸ao dos patrimˆnios culturais locais amea¸ados (e e c˜ o c a respeito disso a etnologia est´ desde o seu nascimento lutando contra o a tempo para que a transcri¸˜o dos arquivos orais e visuais possa ser realizada ca a tempo. a ´ b) Urgˆncia de an´lise das muta¸oes culturais impostas pelo desenvolvimento e a c˜ extremamente r´pido de todas as sociedades contemporˆneas. pr´-hist´rica. sem itiner´rio no decora a e a rer do qual as partes envolvidas chegam a se convencer reciprocamente da necessidade de n˜o deixar se perder formas de pensamento e atividade unicas. de fato. a pesquisa antropol´gica. por movimentos de migra¸˜o Interna. sem a e nunca se substituir aos projetos e as decis˜es dos pr´prios atores sociais. e tamb´m mais recentemente o caso de Ktoeber. isto ´. o caso hoje em dia. Em suma. de restitui¸ao aos habitantes das diversas regi˜es nas quais trac˜ o balhamos. n˜o fornecer respostas no lugar dos interessados. que e o n˜o ´ de forma alguma. t´cnicas. em um n´mero de p´ginas reduzido. o encontro e de l´ ınguas. e sim fora mular quest˜es com eles. a antropologia econˆmica. No fie nal do s´culo XIX. ao risco de um desenvolvimento conflituoso levando ` c˜ e a violˆncia negadora das particularidades econˆmicas. no limite. sociais. cujo desenvolvimento recente ´ extremamente especializado. uma atividade de luxo. a antropologia do . enquanto os ultimos deposit´rios das tradi¸˜es ainda est˜o vivos) ´ a co a e. de seu pr´prio saber e saber-fazer. mentalidades. c˜ e ca co N˜o h´. evidentemente. dominar o campo e ´ global da antropologia (Boas fez pesquisas em antropologia social. N˜o ´. nossa c˜ e disciplina deve. um campo de pesquisa u a imenso. O antrop´logo considera a e o agora – com raz˜o – que ´ competente apenas dentro de uma ´rea restrita 13 a e a 13 A antropologia das t´cnicas. antropologia sem troca. por muta¸˜es de suas o e co rela¸oes sociais. Atrav´s da especificidade de sua abordagem. que n˜o s˜o a a a a mais ”sociedades tradicionais”. ` o o tem hoje como voca¸˜o maior a de propor n˜o solu¸˜es mas instrumentos ca a co de investiga¸˜o que poder˜o ser utilizados em especial para reagir ao choque ca a da acultura¸ao. sobretudo. isto ´. cultural. baseada na capta¸˜o de informa¸˜es. Isso sup˜e uma ruptura com o o a concep¸ao assim´trica da pesquisa. pol´ e o ıtica. e o e provavemente o ultimo antrop´logo que explorou: com sucesso uma area t˜o ´ o ´ a extensa). finalmente. um unico pesquisador podia. como podemos notar. e por um processo de c˜ ca urbaniza¸ao acelerado. elaborar com eles uma reflex˜o racional (e n˜o mais o a a m´gica) sobre os problemas colocados pela crise mundial que e tamb´m uma a e crise de identidade ou ainda sobre o plurarismo cultural. e sim sociedades que est˜o passando por um a desenvolvimento tecnol´gico absolutamente in´dito. 5) Uma quinta dificuldade diz respeito. culturais de um e o povo. isto ´.

mas de diversos pontos de vista. foram se colocando e o progressivamente as quest˜es que continuam nos interessando at´ hoje. do alcance e da riqueza dos campos abertos pela antropologia. em uma ultima parte. em vez de pretender uma neutralidade. Esta ´ a raz˜o pela qual.´ CONTEUDO de sua pr´pria disciplina e para uma area geogr´fica delimitada. Finalmente. possam ser levados e a utilizar o modo de conhecimento t˜o caracter´ a ıstico da antropologia. o co ´ os principais eixos anteriormente examinados ser˜o. a antropologia dos sistemas de comunica¸˜es. a meu ver. procurando dar conta da pluraridade. n˜o a a dissimularei as minhas pr´prias op¸˜es. N˜o aqueles que tˆm por profiss˜o a antropologia – dua ` e a vido que encontrem nele um grande interesse – mas a todos que. definir alguns conceitos a partir dos quais o u e leitor poder´. entre as quais ´ preciso escolher. de fato. art´ co ıstica. se. em um movimento por a assim dizer retroativo. Muito mais modestamente. interessar-se em ir mais adiante. Ela ´ ao contr´rio claramente plural.a meu ver cinco . entre o inconveniente de utilizar uma linguagem t´cnica e a e e o de adotar uma linguagem menos especializada. das organiza¸˜es sociais. Veremos no decorrer deste e a livro que existem perspectivas complementares. a antropologia permanecesse monol´ ıtica.. a antropologia religiosa. o ´ a 21 Era-me portanto imposs´ ıvel. esbo¸arei os p´los te´ricos . em vez de fingir ter adoe tado o ponto de vista de Sirius.. em algum momento de sua vida (profissional. atrav´s dessa hist´ria da antropologia. E. e e e pertence a todo o mundo. que ´ a ciˆncia do homem por excelˆncia. mas tamb´m mutuamente e exclusivas. Pois a antropologia. esfor¸ando-me ao mesmo tempo para e e c apresentar com o m´ximo de objetividade o pensamento dos outros. dar conta. a Ver-se-´ que este livro caminha em espiral. optei voluntariamente pela segunda. As preocupa¸oes que est˜o no a c˜ a centro de qualquer abordagem antropol´gica e que acabam de ser mencioo nadas ser˜o retomadas. espero. a especificidade da antropologia. Eu queria finalmente acrescentar que este livro dirige-se o mais amplo p´blico poss´ u ıvel. mesmo de uma forma parcial. o parentesco.em volta dos quais c o o oscilam o pensamento e a pr´tica antropol´gica. co . Teria sido. mas tamb´m pessoal). Eu lembrarei em a primeiro lugar quais foram as principais etapas da constitui¸ao de nossa disc˜ ciplina e como. que nas ciˆncias humanas ´ um engodo. dentro de um texto de dimens˜es t˜o restrio a tas. tentei colocar um certo n´mero de referˆncias. reavaliados com o objetivo de definir aquilo que constitui. surpreena o dente. Em o e seguida. Ela diz respeito a todos n´s.

22 ´ CONTEUDO .

Parte I Marcos Para Uma Hist´ria Do o Pensamento Antropol´gio o 23 .

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. 1985). para um per´ e ıodo posterior (s´culo e XVII) Y. religioso: O selvagem tem e e uma alma? O pecado original tamb´m lhes diz respeito? –quest˜o capital e a para os mission´rios. em seguida ` Am´rica. 1979. as Lettres Edifiantes et Curieuses de la a a Chine par des Missionnaires J´suites: 1702-1776. para um per´ e ıodo anterior (s´culo XIII). O Renascimento explora espa¸os at´ ent˜o desconhecidos e come¸a c e a c 1 a elaborar discursos sobre os habitantes que povoam aqueles espa¸os. Andr´ Thevet e a a e a ´ a ´ e escreve As Singularidades da Fran¸a Ant´rtica. G. formando o que e co habitualmente chamamos de ”literatura de viagem”. 1985). a quest˜o ıvel ca e a As primeiras observa¸˜es e os primeiros discursos sobre os povos ”distantes”de que co dispomos provˆm de duas fontes: 1) as rea¸˜es dos primeiros viajantes. bom como a coletˆnea de textos de J. P. em 1558 Jean de Lery. Cf. no Jap˜o. Garnier-Flammarion. d’Evreux (reed. no s´culo XIV. Notamos que se. Dizem respeito em primeiro lugar ` a P´rsia e ` Turquia. j´ que da resposta ir´ depender o fato de saber se ´ a a a e poss´ trazer-lhes a revela¸˜o. a 2) os relat´rios dos mission´rios e particularmente as ”Rela¸˜es”dos jesu´ (s´culo XVII) o a co ıtas e ˆ nc Canad´. de Rubrouck (reed. nessa ´poca. e 1 25 . Consultar tamb´m como exemplo. Duviols (1978). A Hist´ria de Uma c a o Viagem Feita na Terra do Brasil. ´ a seguinte: aqueles que acabaram de serem descoe bertos pertencem ` humanidade? O crit´rio essencial para saber se conv´m a e e atribuir-lhes um estatuto humano ´. Em 1556. por exemplo. A c grande quest˜o que ´ ent˜o colocada. na China.Cap´ ıtulo 1 A Pr´-Hist´ria Da e o Antropologia: a descoberta das diferen¸as pelos vic ajantes do s´culo e a dupla resposta e ideol´gica dada daquela ´poca at´ noso e e sos dias A gˆnese da reflex˜o antropol´gica ´ contemporˆnea a descoberta do Novo e a o e a ` Mundo. Paris reed. e que nasce desse primeiro confronto a e a visual com a alteridade. ` Asia e ` Africa.

pela barb´rie de nosso modo de vida e pela deprava¸˜o de a ca nossos costumes”. a Fran¸a. responderemos que essas ı a a pessoas tˆm aldeias. e cujo corol´rio ´ a boa consciˆncia a e e 2 que se tem sobre si e sua sociedade. ´ e co ı e melhor que a nossa. Sepulvera: ”Aqueles que superam os outros em prudˆncia e raz˜o.) Esses povos igualavam ou at´ superavam muitas e na¸˜es do mundo conhecidas como policiadas e razo´veis... A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA: ´ colocada. por natureza. N´s o mesmos fomos piores. que e e u durar´ v´rios meses (em 1550.) Pois a c o maioria dessas na¸˜es do mundo. e ı em alguns reinos. a fascina¸˜o pelo estranho cujo corol´rio ca a ´ a m´ consciˆncia que se tem sobre si e sua sociedade. senhores e uma ordem pol´tica que. Ela ser´ definitivamente e a e a resolvida apenas dois s´culos mais tarde. n˜o ´ de forma alguma solucionada. os senhores.) Esses povos igualavam ou e at´ superavam muitas na¸˜es e uma ordem pol´tica que. (. os superavam. na Espanha. os pregui¸osos. (. os esp´ritos lentos. ao c ı a contr´rio. as duas variantes dessa figura: 1) a condescendˆncia e a prote¸˜o. em alguns de seus costumes. no tempo de nossos ancestrais e sobre toda a extens˜o a de nossa Espanha. e algumas de nossas regi˜es da Espanha. cidades. por´m. em Valladolid)... aqueles s˜o. vilas. Las Casas: ` ”Aqueles que pretendem que os ´ndios s˜o b´rbaros. e Nessa ´poca ´ que come¸am a se esbo¸ar as duas ideologias concorrentes.. e n˜o eram infeco a a riores a nenhuma delas. Assim.26 ´ ´ CAP´ ITULO 1. mesmo que n˜o see a a jam superiores em for¸a f´sica. (.. igualavam-se aos gregos e os romanos. Eles superavam tamb´m a e e Inglaterra. e que op˜e o a a o dominicano Las Casas e o jurista Sepulvera. e at´. paternalista e ca do outro: 2) sua exclus˜o a 2 . em alguns reinos. reis. foram muito mais pervertidas. que se torna uma controv´rsia p´blica. mesmo que tenham as a e c ı for¸as f´sicas para cumprir todas as tarefas necess´rias. ´ melhor que a nossa. e deram mostra de muito menos prudˆncia e sagae cidade em sua forma de se governarem e exercerem as virtudes morais. co a irracionais e depravadas. os pr´prios termos dessa dupla posi¸˜o est˜o colocados desde a meo ca a tade do s´culo XIV: no debate. s˜o por natureza serc ı a a Sendo. sen˜o todas. e e c c mas das quais uma consiste no sim´trico invertido da outra: a recusa do ese tranho apreendido a partir de uma falta. e a e Ora.

seres da floresta). eles abandonem a barb´rie e se conformem a uma vida mais a humana e ao culto da virtude. enquanto optamos preferencialmente na ´poca atual pelo a e e de subdesenvolvidos. e 1. ca c˜ A antig¨idade grega designava sob o nome de b´rbaro tudo o que n˜o paru a a ticipava da helenidade (em referˆncia a inarticula¸ao do canto dos p´ssaros e ` c˜ a oposto a significa¸˜o da linguagem humana). A FIGURA DO MAU SELVAGEM E DO BOM CIVILIZADO 27 vos.1. como lembra L´vi-Strauss. L´ry (1972) ou Buffon (1984). pode-se e impˆ-lo pelo meio das armas e essa guerra ser´ justa. E ser´ sempre justo e conforme o direito natural ı a que essas pessoas estejam submetidas ao imp´rio de pr´ncipes e de na¸˜es e ı co mais cultas e humanas.3 Como s˜o estere´tipos o e a o que envenenam essa antropologia espontˆnea de que temos ainda hoje tanta a dificuldade para nos livrarmos. estranhas ` vida civil a co a a e aos costumes pac´ficos.. os s´culos ` ca e XVII e XVIII falavam de naturais ou de selvagens (isto ´. e vemos isso sancionado pela pr´pria e ´ o lei divina.1. e sim como uma aberra¸˜o exigindo uma justifica¸ao. ´. mas em e a e um mesmo autor.1 A Figura Do Mau Selvagem E Do Bom Civilizado A extrema diversidade das sociedades humanas raramente apareceu aos homens como um fato. mas ligados entre si por um movimento ca o de pˆndulo ininterrupto. conv´m nos determos sobre eles. por exemplo. permanecem vivas hoje. pode ser encontrada n˜o apenas em uma mesma ´poca. e opondo assim a animalidade a humanidade. quatro s´culos e ap´s a polˆmicaque opunha Las Casas a Sepulvera. e 3 . isto ´. gra¸as ` virtude destas e ` prudˆncia c a a e de suas leis. que consiste em expulsar da cultura. a e Ora. mesmo que n˜o se a a a expressem mais em termos religiosos. a mais comum e e Essa oscila¸˜o entre dois p´los concorrentes. de modo que. O termo primitivos ´ que triun` e far´ no s´culo XIX. Essa atitude. virtuosos e humanos dominem aqueles que n˜o tˆm essas virtudes”. para a natureza toe dos aqueles que n˜o participam da faixa de humanidade ` qual pertencemos a a e com a qual nos identificamos. Tais s˜o as na¸˜es b´rbaras e desumanas. o Renascimento. bem como o declara o a o direito natural que os homens honrados. inteligentes. as ideologias que est˜o por tr´s desse duplo discurso. Cf. E ´ justo e util que sejam servos. E se eles recusarem esse imp´rio.

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´ ´ CAP´ ITULO 1. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA:

a toda a humanidade, e, em especial, a mais caracter´ ıstica dos ”selvagens”.4 Entre os crit´rios utilizados a partir do s´culo XIV pelos europeus para julgar e e se conv´m conferir aos ´ e ındios um estatuto humano, al´m do crit´rio religioso e e do qual j´ falamos, e que pede, na configura¸ao na qual nos situamos, uma a c˜ resposta negativa (”sem religi˜o nenhuma”, s˜o ”mais diabos”), citaremos: a a • a aparˆncia f´ e ısica: eles est˜o nus ou ”vestidos de peles de animais”; a • os comportamentos alimentares: eles ”comem carne crua”, e ´ todo o e imagin´rio do canibalismo que ir´ aqui se elaborar;5 a a • a inteligˆncia tal como pode ser apreendida a partir da linguagem: eles e falam ”uma l´ ıngua inintelig´ ıvel”. Assim, n˜o acreditando em Deus, n˜o tendo alma, n˜o tendo acesso ` a a a a linguagem, sendo assustadoramente feio e alimentando-se como um animal, o selvagem ´ apreendido nos modos de um besti´rio. E esse discurso soe a bre a alteridade, que recorre constantemente a met´fora zool´gica, abre o ` a o grande leque das ausˆncias: sem moral, sem religi˜o, sem lei, sem escrita, e a sem Estado, sem consciˆncia, sem raz˜o, sem objetivo, sem arte, sem pase a sado, sem futuro.6 Cornelius de Pauw acrescentar´ at´, no s´culo XVIII: a e e ”sem barba”, ”sem sobrancelhas”, ”sem pˆlos”, ”sem esp´ e ıritosem ardor para com sua fˆmea”. e ´ ”E a grande gl´ria e a honra de nossos reis e dos espanh´is, escreve Goo o mara em sua Hist´ria Geral dos ´ndios, ter feito aceitar aos ´ndios um unico o ı ı ´ Deus, uma unica f´ e um unico batismo e ter tirado deles a idolatria, os sa´ e ´ crif´cios humanos, o canibalismo, a sodomia; e ainda outras grandes e maus ı pecados, que nosso bom Deus detesta e que pune. Da mesma forma, tiramos deles a poligamia, velho costume e prazer de todos esses homens sensuais;
”Assim”, escreve L´vi-Strauss (1961), ”Ocorrem curiosas situa¸˜es onde dois interloe co cutores d˜o-s´ cruelmente a r´plica. Nas Grandes Antilhas, alguns anos ap´s a descoberta a e e o da Am´rica, enquanto os espanh´is enviavam comiss˜es de inqu´rito para pesquisar se os e o o e ind´ ıgenas possu´ ıam ou n˜o uma alma, estes empenhavam-se em imergir brancos prisioa neiros a fim de verificar, por uma observa¸˜o demorada, se seus cad´veres eram ou n˜o ca a a sujeitos ` putrefa¸˜o” a ca 5 Cf. especialmente Hans Staden, V´ritable Histoire et Descriptiou d’un Pays Habit´ e e par des Hommes Sauvages, Nus. F´roces et Anthropo phages, 1557, reed. Paris, A. M. e JVl´taili´, 1979. e e 6 Essa falta pode ser apreendida atrav´s de duas variantes: I) n˜o tˆm, irremediavele a e mente, futuro e n˜o temos realmente nada a esperar dele (Hegel); 2) ´ poss´ a e ıvel fazˆ-los e evoluir. Pela a¸˜o mission´ria (a partir s´culo XVI). Assim como pela a¸˜o administrativa ca a e ca
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1.1. A FIGURA DO MAU SELVAGEM E DO BOM CIVILIZADO

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mostramo-lhes o alfabeto sem o qual os homens s˜o como animais e o uso do a ferro que ´ t˜o necess´rio ao homem. Tamb´m lhes mostramos v´rios bons e a a e a h´bitos, artes, costumes policiados para poder melhor viver. Tudo isso – e a at´ cada uma dessas coisas – vale mais que as penas, as p´rolas, o ouro que e e tomamos deles, ainda mais porque n˜o utilizavam esses metais como moeda”. a ”As pessoas desse pa´s, por sua natureza, s˜o t˜o ociosas, viciosas, de pouco ı a a trabalho, melanc´licas, covardes, sujas, de m´ condi¸˜o, mentirosas, de mole o a ca constˆncia e firmeza (...). Nosso Senhor permitiu, para os grandes, aboa min´veis pecados dessas pessoas selvagens, r´sticas e bestiais, que fossem a u atirados e banidos da superf´cie da Terra”. escreve na mesma ´poca (1555) ı e Oviedo em sua Hist´ria das ´ndias. o ı Opini˜es desse tipo s˜o inumer´veis, e passaram tranq¨ilamente para nossa o a a u ´poca. No s´culo XIX, Stanley, em seu livro dedicado a pesquisa de Lie e ` vingstone, compara os africanos aos ”macacos de um jardim zool´gico”, e o convidamos o leitor a ler ou reler Franz Fanon (1968), que nos lembra o que foi o discurso colonial dos franceses na Arg´lia. e Mais dois textos ir˜o deter mais demoradamente nossa aten¸ao, por nos paa c˜ recerem muito reveladores desse pensamento que faz do selvagem o inverso do civilizado. S˜o as Pesquisas sobre os Americanos ou Relatos Interessantes a para servir a Hist´ria da Esp´cie Humana, de Cornelius de Pauw, publicado ` o e em 1774, e a famosa Introdu¸˜o a Filosofia da Hist´ria, de Hegel. ca ` o 1) De Pauw nos prop˜e suas reflex˜es sobre os ´ o o ındios da Am´rica do Norte. e Sua convic¸ao ´ a de que sobre estes l´ c˜ e ıllimos a influˆncia da natureza ´ total, e e ou mais precisamente negativa. Se essa ra¸a inferior n˜o tem hist´ria e est´ c a o a pura sempre condenada, por seu estado ”degenerado”, a permanecer fora do movimento da Hist´ria, a raz˜o deve ser atribu´ ao clima de uma extrema o a ıda umidade: ”Deve existir, na organiza¸˜o dos americanos, uma causa qualquer que emca brutece sua sensibilidade e seu esp´rito. A qualidade do clima, a grosseria ı de seus humores, o v´cio radical do sangue, a constitui¸˜o de seu temperaı ca mento excessivamente fleum´tico podem ter diminu´do o tom e o saracoteio a ı dos nervos desses homens embrutecidos”. Eles tˆm, prossegue Pauw, um ”temperamento t˜o umido quanto o ar e e a ´ a terra onde vegetam”e que explica que eles n˜o tenham nenhum desejo sea xual. Em suma, s˜o ”infelizes que suportam todo o peso da vida agreste a

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´ ´ CAP´ ITULO 1. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA:

na escurid˜o das florestas, parecem mais animais do que vegetais”. Ap´s a a o degenerescˆncia ligada a um ”v´ de constitui¸˜o f´ e ıcio ca ısica”, Pauw chega a de` ´ grada¸ao moral. E a quinta parte do livro, cuja primeira se¸ao ´ intitulada: c˜ c˜ e ”O gˆnio embrutecido dos Americanos”. e ”A insensibilidade, escreve nosso autor, ´ neles um v´cio de sua constitui¸˜o e ı ca alterada; eles s˜o de uma pregui¸a imperdo´vel, n˜o inventam nada, n˜o ema c a a a preendem nada, e n˜o estendem a esfera de sua concep¸˜o al´m do que vˆem a ca e e pusilˆnimes, covardes, irritados, sem nobreza de esp´rito, o desˆnimo e a a ı a falta absoluta daquilo que constitui o animal racional os tornam in´teis para u si mesmos e para a sociedade. Enfim, os californianos vegetam mais do que vivem, e somos tentados a recusar-lhes uma alma. Essa separa¸˜o entre um estado de natureza concebido por Pauw como irca remediavelmente imut´vel, e o estado de civiliza¸˜o, pode ser visualizado a ca num mapa m´ndi. No s´culo XVIII, a enciclop´dia efetua dois tra¸ados: um u e e c longitudinal, que passa por Londres e Paris, situando de um lado a Europa, ´ ´ a Africa e a Asia, de outro a Am´rica, e um latitudinal dividindo o que se e encontra ao norte e ao sul do equador. Mas, enquanto para Buffon, a proximidade ou o afastamento da linha equatorial s˜o explicativos n˜o apenas da a a constitui¸ao f´ c˜ ısica mas do moral dos povos, o autor das Pesquisas Filos´ficas o sobre os Americanos escolhe claramente o crit´rio latitudinal, fundamento e aos seus olhos da distribui¸˜o da popula¸˜o mundial, distribui¸ao essa n˜o ca ca c˜ a cultural e sim natural da civiliza¸ao e da barb´rie: ”A natureza tirou tudo c˜ a de um hemisf´rio deste globo para d´-lo ao outro”. ”A diferen¸a entre um e a c hemisf´rio e o outro (o Antigo e o Novo Mundo) ´ total, t˜o grande quanto e e a poderia ser e quanto podemos imagin´-la”: de um lado, a humanidade, e de a outro, a ”estupidez na qual vegetam”esses seres indiferenciados: ”Igualmente b´rbaros, vivendo igualmente da ca¸a e da pesca, em pa´ses a c ı frios, est´reis, cobertos de florestas, que despropor¸˜o se queria imaginar e ca entre eles? Onde se sente as mesmas necessidades, onde os meios de satisfazˆ-los s˜o os mesmos, onde as influˆncias do ar s˜o t˜o semelhantes, ´ e a e a a e poss´vel haver contradi¸˜o nos costumes ou varia¸˜es nas id´ias?” ı ca co e Pauw responde, evidentemente, de forma negativa. Os ind´ ıgenas americanos vivem em um ”estado de embrutecimento”geral. T˜o degenerados uns a quanto os outros, seria em v˜o procurar entre eles variedades distintivas daa quilo que se pareceria com uma cultura e com uma hist´ria.7 o
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Sobre C. de Pauw, cf. os trabalhos de M. Duchet (1971, 1985).

nem mesmo eles pr´prios. O ”negro”nem mesmo se vˆ atribuir o estatuto de vegetal. que. Na descri¸ao dessa africanidade estagnante da qual n˜o h´ absolutamente c˜ a a nada a esperar – e que ocupa rigorosamente em Hegel o lugar destinado a ` indianidade em Pauw – . eles n˜o tˆm moral. e. e escreve Hegel. religi˜o ou Estado. a Am´rica do Sul parece mais est´pida ainda c˜ e u ´ do que a do Norte. que ´ o desses povos que jamais-ascender˜o ` ”hist´ria”e e a a o a ”consciˆncia de si”. poder´ nunca preencher o fosso que os separa da Hist´ria universal c˜ a o da humanidade. nos exp˜e o horror que ele ressente frente ao es` o o tado de natureza. suas guerras s˜o feroze: e sua religi˜o pura supersti¸˜o”. vale a pena notar.1. A Asia aparentemente n˜o est´ muito melhor. Vivendo em uma e o ferocidade bestial inconsciente de si mesma. seu semelhante ´ para eles apenas uma carne e como qualquer outra. nem mesmo as for¸as da coloa c niza¸ao. Mas ´ a a e ´ ´ a Africa. em sua Introdu¸˜o ca a Filosofia da Hist´ria. A FIGURA DO MAU SELVAGEM E DO BOM CIVILIZADO 31 2) Os julgamentos que acabamos de relatar – que est˜o. nada. onde a civiliza¸ao c˜ nessa ´poca ainda n˜o penetrou. o a ´ Tudo. al´m ıs ı a e do dia e da hist´ria consciente. de um objeto sem valor”. fechado sobre si mesmo. o qual. j´ que comem carne a o a humana e fazem com´rcio da ”carne”de seus pr´ximos. da qual falaremos mais adiante. est´ envolto na cor negra da noite”. apenas radicalizam id´ias come partilhadas por muitas pessoas nessa ´poca. publicado vinte anos antes – por excessivos que sejam. ”para o n´ de uma coisa. o pa´s da infˆncia. ´ nitidamente visto sob o signo da falta absoluta: os ”nee gros”n˜o respeitam nada. em especial. nem institui¸˜es sociais. ıvel ”O fato de devorar homens corresponde ao princ´ ıpio africano. Id´ias que ser˜o retomadas e e e a expressas nos mesmos termos em 1830 por Hegel. ` e Na leitura dessa Introdu¸ao. a Africa profunda do interior. e e em especial com o Discurso sobre a Desigualdade. notamos. mais longe que o autor das Pesquisas Filos´ficas sobre os Amerio canos. na Africa. de Rousseau.”Ou ainda: ”S˜o os a seres mais atrozes que tenha no mundo. a a ca 8 . o autor da Fenomenologia do Esp´ ırito vai. em ruptura a com a ideologia dominante do s´culo XVIII. em uma selvageria em estado bruto.1. ”Ele cai”. que representa para o fil´sofo a forma mais e a o nitidamente inferior entre todas nessa infra-humanidade: ´ ”E o pa´ do ouro.8 Pea e co a trificados em uma desordem inexor´vel.

. Mas efetua-se dessa vez a invers˜o daquilo que era apreendido como um a vazio que se torna um cheio (ou plenitude). a a . s˜o bonitas. sem economia. ele tamb´m o para´ o a e ıso. pela c˜ primeira vez.. a sem sacerdotes.32 ´ ´ CAP´ ITULO 1. como tamb´m n˜o h´ terra melhor”. O car´ter privativo dessas sociedades sem a escrita. E n˜o tˆm governo”. instaura-se uma cr´ ıtica da civiliza¸ao e um elogio da ”ingenuic˜ . a e Evidentemente. O selvagem a n˜o ´ quem pensamos. na percep¸˜o e a ca que tˆm os primeiros viajantes. sua irm˜. Am´rico Vesp´cio descobre a Am´rica: e e u e ”As pessoas est˜o nuas. sem leis.2 A Figura Do Bom Selvagem E Do Mau Civilizado A figura de uma natureza m´ na qual vegeta um selvagem embrutecido ´ emia e nentemente suscet´ de se transformar em seu oposto: a da boa natureza ıvel dispensando suas benfeitorias a um selvagem feliz. e a a Toda a reflex˜o de L´ry e de Montaigne no s´culo XVI sobre os ”naturais”baseiaa e e se sobre o tema da no¸ao de crueldade respectiva de uns e outros. pois tudo ´ colocado em comum. sem Estado –acrescentar-se-´ no s´culo a e ´ XX sem Complexo de Edipo – n˜o constitui uma desvantagem. ou sua amiga. essa representa¸ao concorrente (mas que consiste apenas c˜ em inverter a atribui¸ao de significa¸oes e valores dentro de uma estrutura c˜ c˜ idˆntica) permanece ainda bastante r´ e ıgida na ´poca na qual o Ocidente descoe bre povos ainda desconhecidos. e. sem tecnologia.. descobre. em s´guida. como veremos. a a a c Eles vivem cinq¨enta anos. sejam elas sua m˜e. no Romantismo. . sem religi˜o organizada. N˜o deixa e e a por´m de estar presente. daquilo que era apreendido como um menos que se torna um mais. aportando no Caribe. sem pol´ ıcia. pelo menos em estado embrion´rio. u a e Crist´v˜o Colombo. Nenhum possui qualquer coisa que seja. de pele escura. . de corpo elegante. e. Os termos da atribui¸˜o ` ca permanecem. A figura do bom selvagem s´ encontrar´ sua o a formula¸˜o mais sistem´tica e mais radical dois s´culos ap´s o Renascimento: ca a e o no rousseau´ ısmo do s´culo XVIII. entre as quais eles n˜o fazem diferen¸a. ”Eles s˜o muito mansos e ignorantes do que ´ o mal. eles n˜o sabem se a e a matar uns aos outros (. e E os homens tomam por mulheres aquelas que lhes agradam. sem clero.) Eu n˜o penso que haja no mundo homens melhoa res. da mesma forma que e o par constitu´ pelo sujeito do discurso (o civilizado) e seu objeto (o natuıdo ral). rigorosamente idˆnticos. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA: 1.

sobre esses ultimos: ”Podemos portanto ´ de fato cham´-los de b´rbaros quanto as regras da raz˜o.2.. La Hontan: e ”Ah! Viva os Hurons que sem lei. a respeito de e e ”nossos grandes usur´rios”: ”Eles s˜o mais cru´is do que os selvagens dos a a e quais estou falando”. O selvagem ingressa progressivamente na filosofia – os pensadores Um dos primeiros textos sobre os Hurons ´ publicado em 1632: Le Grand Vayage e au Pays des Hurons. referˆncia ` crueldade. Esse fasc´ ınio exercido pelo ind´ ıgena americano. triunfa nos s´culos XVII e XVIII. ´ o mesmo grito de entusiasmo. em 1767. A FIGURA DO BOM SELVAGEM E DO MAU CIVILIZADO 33 dade original”do estado de natureza. em 1744. isto ´. Todos os nossos padres que a a freq¨entaram os Selvagens consideram que a vida se passa mais docemente u entre eles do que entre n´s”. ser ass´duo no trabalho”. entre os Tupinamb´s. P. E Montaigne. . desconhecem o orgulho e a avareza e n˜o trocariam essa u a a vida e seu pa´ por qualquer coisa no mundo”(coment´rios relatados por ). Essa admira¸ao n˜o ´ compartilhada apenas pelos navegadores estupefac˜ a e 10 tos. Seu ideal: ”viver em comum sem processo. L´ry. sem pris˜es e sem torturas passam a o vida na do¸ura. . mas n˜o quanto a a ` a a a n´s mesmos que os superamos em toda sorte de barb´rie”. Se o discurso euroca o peu sobre os Astecas e os Zulus faz. talvez esteja conservado em alguma parte. interroga-se e a sobre o que se passa ”aqu´m”. na Europa. e gozam de uma felicidade desconhecida c u dos franceses”. na maior parte das vezes. esse estado paradis´ ıaco que teria sido o nosso outrora. um marinheiro francˆs escreve em seu di´rio de viagem: ”A inocˆncia e e a e e a tranq¨ilidade est´ entre eles. protegido da civiliza¸ao e que nos convida a reencontrar o universo cac˜ loroso da natureza. de Gabriel Sagard. Duviols. de e e Vol-taire. ıs a 1978). 10 No s´culo XVIII. Nas primeiras Rela¸oes e c˜ dos jesu´ que se instalam entre os Hurons desde 1626 pode-se ler: ıtas ”Eles s˜o af´veis. moderados. Para o autor o a dos Ensaios. ı Do lado dos livres-pensadores. Notemos que de cada popula¸˜o encontrada nasce um estere´tipo. e em especial por le Hu9 ron. o e a discurso sobre os Esquim´s a sua hospitalidade. Ele escreve. a imagem da bondade inocente ´ sem d´vida predominante e u em grande parte na literatura sobre os ´ ındios. estes ultimos n˜o hesitando em oferecer o ´ a suas mulheres como presente. Vlng´nu. 9 . na tranq¨ilidade. Le Supplement aux Voyages du Baron de La Hontan o¨ ion Trouve des Dialogues Curieux entre 1’Auteur et u un Sauvage. de Lafitau. A seguir temos: em 1703. liberais.1. O huguenote que eu interroguei at´ o e encontrou. Moeurs des Sauvages Am´ricains. o contentar-se de pouco sem avareza.

correlativamente fustigam tudo c que pertence ao Ocidente ainda s˜o atuais. 1980): ”Seja dia ou noite. . em vez u e a de simplesmente gozar da cria¸˜o. Tudo lembra a cada a instante as do¸uras do amor. e Manifesta¸oes essas que constituem uma verdadeira acusa¸ao contra a civic˜ c˜ liza¸ao. os que exaltam a do¸ura das sociedades ”selvagens”. pois limitam seus bens ao dinheiro. as casas est˜o abertas. ´ precisamente a a e esse imagin´rio da viagem. como n´s. . A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA: das Lumi`resu 11 – . . Conrad. . pois procuram com muito empenho uma infinidade de e a coisas in´teis. tudo incita ao abandono”. por exemplo. em suma. precisar´ ıamos ir entre os povos mais ignorantes. e especialmente. u O tema desses povos que podem eventualmente nos ensinar a viver e dar Condillac escreve: ”N´s que nos consideramos instru´ o ıdos. 0 e a personagem de um Huron trazido para Paris declama no palco: ”Vocˆs s˜o loucos. a ´poca em que se exibem nas feiras verdadeiros selvagens. e o empenho em agradar ´ sua mais preciosa e e ocupa¸˜o. a a ıdo partir do fim do s´culo XVIII. as ilhas Marquises. ´ e E a ´poca em que todos querem ver os Indes Galantes que Rameau acabou de escrever. mas tamb´m nos sal˜es liter´rios e nos teatros parisiene e o a ses. Melville. ou na casa onde entra. Depois. pelo charme e prazer id´ e ılico que provoca o encanto das paisagens e dos habitantes dos mares do sul. a ilha de P´scoa. . n˜o nos tocariam mais nada. que a etnologia deve grande parte de seu sucesso com o p´blico. o que escreve Bougainville em sua a Viagem ao Redor do Mundo (reed. Aqui um doce ´cio a o ´ compartilhado pelas mulheres. .34 ´ ´ CAP´ ITULO 1. e soe a bretudo o Taiti. Se n˜o o fossem. para aprender destes o come¸o de nossas descobertas: pois ´ soc e bretudo desse come¸o que precisar´ c ıamos: ignoramo-lo porque deixamos h´ tempo de ser a os disc´ ıpulos da natureza” 11 . As mulheres ca pareciam n˜o querer aquilo que elas mais desejavam. ´ montado um espet´culo intitulado O Arlequim Selvagem. c Todos os discursos que acabamos de citar. Cada um colhe as frutas na a primeira ´rvore que encontra. . em especial Samoa. Quase todas aquelas ninfas estavam nuas. a esse desejo de fazer existir em um ”alhures”uma a sociedade de prazer e de saudade. Aqui est´. Ora. uma humanidade convivial cujas virtudes se estendam a magnificˆncia da fauna e da flora (Chateau-briand. ` e Segalen. . dos arquip´lagos e polin´sios.). e. Em 1721. o fasc´ c˜ ınio pelos ´ ındios ser´ substitu´ progressivamente. que n˜o queremos nada a fim ca o a de desfrutar mais livremente de tudo”. n˜o nos seriam a a a diretamente acess´ ıveis. . vocˆs s˜o pobres. .

Mas grande parte do p´blico est´ infinitamente mais dispon´ agora u a ıvel do que antes para se deixar persuadir que as sociedades constrangedoras da ` abstra¸ao. como o militar. Malia c˜ o o nowski ter´ a franqueza de escrever e ser´ muito criticado por isso: a a ”Um dos ref´gios fora dessa pris˜o mecˆnica da cultura ´ o estudo das foru a a e mas primitivas da vida humana.1. e que ´ erroneamente atribu´ a L´vi-Strauss. essa ”nostalgia do neol´ ıtico”. ´ encontrada em muitos o c˜ o e autores. Ele compartilha com os que pertencem a mesma cultura que a ´ sua. vivendo na harmonia e na transparˆncia. A antropologia.-ang´stias. portanto. a Ora. as mesmas insatisfa¸oes. tais como existem ainda nas sociedades long´ ınquas do globo. desejos. op˜em-se c˜ a co o sociedades de solidariedade comunit´ria. essa etnologia do selvagem do tipo ”vento dos coqueiros”(que ´ na e realidade uma etnologia selvagem) contribui para a popularidade de nossa disciplina. ela est´ presente nas motiva¸oes dos pr´prios etn´logos. foi certamente o de a o ”autˆntico”(oposto ` aliena¸ao das sociedades industriais adiantadas).2. era uma fuga romˆntica para longe de nossa cultura uniformizada”. n˜o ´ novic˜ a e dade. pelo menos. Pensou-se alternadamente que o selvagem: • era um monstro. termo e a c˜ proposto por Sapir em 1925. ıdo o Mas conv´m. A FIGURA DO BOM SELVAGEM E DO MAU CIVILIZADO 35 ao Ocidente mort´ ıfero li¸oes de grandeza. que o Ocidente teria substitu´ pelo inferno da sociedade tecnol´gica. como acabamos de ver. O etn´logo. A decep¸˜o ligada aos ”benef´ ca ıcios”do progresso (nos quais muitos entre n´s acreditam cada vez menos) bem como a solid˜o e o anoo a nimato do nosso ambiente de vida. a meu ver. especialmente nas descri¸˜es de popula¸˜es preservadas do contato co co corruptor com o mundo moderno. e ıdo e *** A imagem que o ocidental se fez da alteridade (e correlativamente de si mesmo) n˜o parou. do c´lculo e da impessoalidade das rela¸˜es humanas. ´ recrue o e tado no civil. abrigadas na suntuosidade de uma a natureza generosa. a meio camie nho entre a animalidade e a humanidade mas tamb´m que os monstros e . ir mais longe. que s˜o caracterizadas pela riqueza das trocas simb´licas. Se essa busca do Ultimo dos c˜ u Moicanos. um ”animal com figura humana”(L´ry). fazem com que parte de nossos sonhos s´ aspirem a se projetar nesses para´ (perdido) dos tr´picos ou dos mares o ıso o do Sul. para mim. de oscilar entre os p´los de um verdadeiro a o movimento pendular. e O qualificativo que fez sucesso para designar o estado dessas sociedades. de que fala Alfred M´traux e que ese teve na origem de sua pr´pria voca¸ao de Ctn´logo.

enquanto que o Ocidente era. na paz e na harmonia • era um anarquista sempre pronto a massacrar seus semelhantes. ou. adquirindo sem esfor¸os os produtos maravilhosos c da natureza. Olha-se a si mesmo nele. vivia num e a a estado de beatitude. o outro n˜o ´ consi` c˜ e a e derado para si mesmo. • vivia num eterno pavor do sobrenatural. obrigado a assumir as duras tarefas da ind´stria. at´ e inclusive suas pr´prias e o mulheres. Mal se olha para ele. ou profundamente u virtuoso e eminentemente complexo. ou feio. e o c˜ • levava uma existˆncia infeliz e miser´vel. por sua vez. ou era profundaa a mente religioso. o taitiano. obedecendo estritamente a aos tabus e as proibi¸˜es de seu grupo. ou um comunista decidido a tudo compartilhar. o Pa´ Basco a e e e ıs ou a Bretanha. quanto ao militarismo pol´ ` ca o ıtico. em todos os casos. c • n˜o tinha alma e n˜o acreditava em nenhum deus. ou participava. est´pido e de uma simplicidade brutal. O outro – o ´ ca ındio. u • era trabalhador e corajoso. um ”objeto sem valor”(Hegel). uma ”coisa”. pelo contr´rio. um ser preso. • era um animal. ou essencialmente pre gui¸oso. pelo contr´rio. ou. Taiti. ao inverso. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA: ´ramos n´s. Tais s˜o as diferentes constru¸˜es em presen¸a (nas quais a repuls˜o se transa co c a forma rapidamente em fasc´ ınio) dessa alteridade fantasm´tica que n˜o tem a a muita rela¸˜o com a realidade. Mas. c˜ • era um embrutecido sexual levando uma vida de orgia e devassid˜o a permanente. • era admiravelmente bonito. ou. ou devia ser considerado como uma crian¸a precisando c de prote¸ao. um ”vegetal”(de Pauw). pelo contr´rio. ` convers˜o a a religiosa ou a emo¸ao est´tica. S˜o objetos-pretextos que podem ser mobilizados tanto com a vistas a explora¸˜o econˆmica. sendo que ele tinha li¸oes de humanidade a nos dar. de uma humanidade da a qual tinha tudo como aprender. • era movido por uma impulsividade criminalmente congˆnita quando era e leg´ ıtimo temer. mas recentemente o basco ou o bret˜o– ´ simplesmente utilizado como suporte de um a e imagin´rio cujo lugar de referˆncia nunca ´ a Am´rica. ` co • era atrasado. .36 ´ ´ CAP´ ITULO 1.

n˜o de um saber antropol´gico. e sim diferente. t˜o problem´tico. come¸a a introduzir a d´vida no edif´ do pensamento c u ıcio europeu. perguntase: ´ preciso rejeit´-los fora da humanidade? Consider´-los como virtualidae a a des de crist˜os? Ou questionar a vis˜o que temos da pr´pria humanidade. mas especificamente a ultima) est˜o no en´ a tanto implicitamente colocadas. mas sim de um saber pr´-antropol´gico. Eles abrem o caminho daquilo que laboriosamente ir´ o a se tornar a etnologia. Montaigne (hoje as vezes criticado). entre os ind´ e ıgenas brasileiros. a e Assim. como acabamos de observar. A FIGURA DO BOM SELVAGEM E DO MAU CIVILIZADO 37 Voltemos ao nosso ponto de partida: o Renascimento. tala vez anacrˆnico. Seria em v˜o. N˜o basta viajar e surpreender-se com o que se vˆ para tornar-se e a e etn´logo (n˜o basta mesmo ter numerosos anos de ”campo”. o ponto de vista normativo e o ponto a de vista narrativo). muito mec˜ a o nos de uma ciˆncia antropol´gica. o autor da Viagem n˜o tem resposta. mesmo ` se o que o preocupa ´ menos a humanidade dos ´ e ındios do que a inumanidade dos europeus. Ele testemunha o desmoronamento poss´ deste pensamento. essa ´poca. como se diz o a hoje). Jean de L´ry. e por alguns apenas de e e seus esp´ ıritos os menos ortodoxos. descobrir nele o que poderia aparentar-se a um pensamento o etnol´gico. muito timidamente. reconhecer que a cultura ´ plural? Atrav´s de muitas contradi¸oes (a e e e c˜ oscila¸ao permanente entre a convers˜o e o olhar. Por´m. e a a permite a constitui¸ao progressiva. ainda no final do o a a s´culo XX. Mas as quest˜es a o (e para o que nos interessa aqui. a partir da observa¸ao direta de um obc˜ jeto distante (L´ry) e da reflex˜o a distˆncia sobre este objeto (Montaigne). a a o isto ´.1. ´ verdade. meıvel nos inclusive ao pronunciar a condena¸ao da civiliza¸ao do que ao considerar c˜ c˜ que a ”selvageria”n˜o ´ nem inferior nem superior. numerosos viajantes nessa ´poca colocam problemas (o que e e n˜o significa uma problem´tica) aos quais ser´ necessariamente confrontado a a a qualquer antrop´logo. e o e o .2. seguindo nisso L´ry que transporta para o ”Novo Mundo”os e conflitos do antigo. os objetivos teol´gicos e os c˜ a o que poder´ ıamos chamar de etnogr´ficos.

38 ´ ´ CAP´ ITULO 1. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA: .

ca e E”. O homem ´ uma e inven¸˜o e a arqueologia de nosso pensamento mostra o quanto ´ recente. ene o quanto o s´culo XVII (cujos discursos n˜o nos s˜o mais diretamente acess´ e a a ıveis hoje) interrompe nitidamente essa evolu¸ao. com a explora¸ao geogr´fica de contic c˜ a nentes desconhecidos. de um saber n˜o mais exclusivamente e e a especulaivo. nem o e a e mais constante que tenha sido colocado ao saber humano. a fecundidade do trabalho ou a densidade e ´ hist´rica da linguagem. e n˜o antes. a primeira interroga¸ao sobre a existˆncia m´ltipla do c˜ e u homem. ”o homem n˜o existia. ”qu˜o pr´ximo a o 39 . e sim positivo sobre o homem. na modernidade. Enquanto encontramos no s´culo e XVI elementos que permitem compreender a pr´-hist´ria da antropologia. ca e no qual a evidˆncia do cogito.. e a exclui da raz˜o o louco. enquanto figuras da anormaa c lidade. acrescenta Foucault no final de As Palavras e as Coisas. o homem n˜o ´ o mais antigo problema. h´ menos de duzentos anos (. isto ´. apenas no s´culo XVIII ´ que c˜ e e entramos verdadeiramente. culturais e epistemol´gicas de possibilidade daquilo que c˜ o o vai se tornar a antropologia. ´ que se pode apreender as e a e condi¸oes hist´ricas. Apenas nessa ´poca.) Uma o a a coisa em todo caso ´ certa. ”Antes do final do s´culo XVIII”. a crian¸a. essa interroga¸˜o fechou-se muito rapidamente no s´culo seguinte. E uma criatura muito recente que o demiurgo do sao ber fabricou com suas pr´prias m˜os. o selvagem. e a Como tamb´m o poder du vida. escreve Fou-cauilt. Ser´ preciso esperar o s´culo XVIII para que se constitua o projeto de funa e dar uma ciˆncia do homem.Cap´ ıtulo 2 O S´culo XVIII: e a inven¸˜o do conceito de homem ca Se durante o Renascimento esbo¸ou-se. como mostrou Michel Foucault (1966).. fundador da ordem do pensamento cl´ssico.

de suas instic˜ c˜ tui¸oes. ´ CAP´ ITULO 2. de suas rela¸oes de produ¸ao. de um novo modo de acesso ao homem. c˜ Tornou-se paulatinamente (com de Brosses. Ora. c˜ ca c˜ inicia-se uma ruptura com o pensamento do mesmo. antes dessa ´poca. quando tomada em considera¸ao. Montesquieu. c˜ o 2) a constitui¸˜o de um saber que n˜o seja apenas de reflex˜o. pois somos antes exteriores a ela. dos nossos sistema de organiza¸ao social. Rompendo com a convic¸ao a c c˜ de uma transparˆncia imediata do cogito. n˜o apenas enquanto sujeito. que passa a ser ca e considerado em sua existˆncia concreta. A a sociedade do s´culo XVIII vive uma crise da identidade do humanismo e da e consciˆncia europ´ia. Lafitau se d´ por objetivo o de a . Assim. em O Esp´ ırito das Leis (1748). isto ´. de voca¸˜o cient´ ca ıfica). come¸ando pelo pr´prio c˜ u c o conceito de homem. a line e guagem. que trabalha (economia). coloca-se pela primeira vez no e s´culo XVIII a quest˜o da rela¸ao ao impensado. j´ que consiste em introduzir dualidade e a caracter´ ıstica das ciˆncias exatas (o sujeito observante e o objeto observado) e no cora¸ao do pr´prio homem. Rousseau) o objeto espec´ ıfico de um saber cient´ ıfico (ou. era objeto de filosofia ou exegese. pensa (psicologia) e fala (ling¨´ uıstica).40 talvez seja o seu fim”. das nosca o sas rela¸oes de produ¸˜o. abordagem totalmente in´dita. e a constitui¸ao da id´ia c˜ e de que a linguagem nos precede. tais reflex˜es sobre os limites do saber. Da mesma forma. de sua linguagem. assim como sobre as rela¸oes de sentido o c˜ e poder (que anunciam o fim da metaf´ ısica) eram inimagin´veis antes. . mas enquanto objeto do a saber. abriu o c˜ e e o caminho para Saint-Simon que foi o primeiro (no s´culo seguinte) a falar e em uma ”ciˆncia da sociedade”. de seus comportamentos. 3) uma problem´tica essencial: a da diferen¸a. e sim de ca a a observa¸˜o. O SECULO XVIII: O projeto antropol´gico (e n˜o a realiza¸ao da antropologia como a enteno a c˜ demos hoje) sup˜e: o 1) a constru¸ao de um certo n´mero de conceitos. . ao publicar Os Costumes dos Selvagens Americanos Comparados aos Costumes dos Primeiros Tempos. Assim come¸a a constitui¸˜o dessa posic˜ c ca tividade de um saber emp´ ırico (e n˜o mais transcendental) sobre o homem a enquanto ser vivo (biologia). pelo menos. ao mostrar a rela¸ao de interdependˆncia que ´ a dos fenˆmenos sociais. envolvida nas determina¸˜es de seu e co organismo. Parte de suas elites busca suas referˆncias em um cone e e fronto com o distante. bem como a dos poss´ e a c˜ ıveis processos de reapropria¸˜o dos nossos condicionamentos fisiol´gicos. Em 1724.

no pensamento inglˆs. que. imp˜e-se em especial na Inglaterra. e o livro de Lucien Malson c que the serviu de base. do empirismo em rela¸˜o ao e e ca pensamento francˆs. no seu campo tem´tico2 tanto quanto na sua abordagem: a a a indu¸ao de que falaremos agora. poder´ servir de compara¸ao entre v´rias formas de hua c˜ a manidade. podem a meu e ver explicar em parte o crescimento r´pido (no come¸o do s´culo XX) da antropologia a c e britˆnica e o atraso da antropologia francesa. Os fil´sofos ingleses colocam as premissas de todas o as pesquisas que procurar˜o fundar. que consiste numa emancipa¸ao definitiva em rela¸ao ao c˜ c˜ 3 pensamento teol´gico. com Adam Smith o o e. David Hume. antes dele. a fim de extrair princ´ ca ıpios gerais. evidentemente. caracterizado antes pelo racionalismo (e idealismo). ca a crian¸a-lobo. a e um ”direito natural”. Os grupos sociais e ca a e (que come¸am a ser comparados a organismos vivos. em seu Discurso sobre a c c Origem e os Fundamentos da Desigualdade. o programa que se tornar´ o da a etnologia cl´ssica. que escreve em 1739 seu Tratado sobre a Natureza Humana. cujo t´ ıtulo completo ´: ”Tratado sobre a natureza Humana: tentae tiva de introdu¸˜o de um m´todo experimental de racioc´ ca e ınio para o estudo de assuntos de moral”. VEnfant Sauvage (1970). a 1 . que hoje chamar´ ıamos de leis. podem ser considerados c como sistemas ”naturais”que devem ser estudados empiricamente. que. Esse naturalismo. o filme de Fran¸ois Truffaut. ou ainda uma ”religi˜o natural”. uma moral natural”. al´m da contingˆncia dos e a e e fatos particulares. 3 A precocidade e preeminˆncia. Ele se interroga sobre a comum humanidade ` qual pertencem a o homem da civiliza¸˜o em que nos transportamos e o homem da natureza. n˜o ocorreu da noite e a para o dia. Jean Itard escreve Da Educa¸ao do Jovem Selvagem c˜ do Aveyron. mas que terminou impondo-se j´ que se tornou definitivamente a Cf.41 fundar uma ”ciˆncia dos costumes e h´bitos”. Um evento que a o se deu no Ocidente no s´culo XVIII. c˜ 4) um m´todo de observa¸˜o e an´lise: o m´todo indutivo.1 Mas foi Rousseau quem tra¸ou. a partir du observa¸˜o de fatos. no s´culo XVIII. 2 Rousseau estabelece a lista das regi˜es devedoras de viagens ”filos´ficas”: o mundo o o inteiro menos a Europa ocidental. Em 1801. a *** Esse projeto de um conhecimento positivo do homem – isto ´. de um estudo e de sua existˆncia emp´ e ırica considerada por sua vez como objeto do saber – constitui um evento consider´vel na hist´ria da humanidade.

Maupertuis. era essencialmente o homem f´ ısico que era tomado em considera¸˜o.42 ´ CAP´ ITULO 2. desse discurso. e instaurando uma ruptura do monop´lio desta (especialmente na Fran¸a). Ele a chamar´: a a a etnologia. do que o homem em si. constituindo-se inclusive. Cook. c˜ e e que vai justamente brotar uma atividade de organiza¸ao e elabora¸˜o. o objeto de observa¸ao. a fauna e a flora. Leclerc. *** Finalmente. La Condamine. N˜o basta mais interpretar o que ´ observado. a quest˜o a e a ´: como coletar? E como dominar em seguida o que foi coletado? Com a e Hist´ria Geral das Viagens. precursoras das e e o Cf. Os o viajantes dos s´culos XVI e XVII coletavam ”curiosidades”. o destaque se desloca pouco a pouco do objeto de estudo para a atividade epistemol´gica. dar´ a essa atividade um nome. quando se tratava e deste. o c 2) Simultaneamente. 1979 4 . Os relatos dos viajantes dos s´culos XVI e XVII eram mais uma busca cosmogr´fica do e a que uma pesquisa etnogr´fica. La P´rouse. e realizando o que ´ chamado na ´poca de ”viagens filos´ficas”. ´ preciso c˜ a e e 5 interpretar interpreta¸oes. ou o question´rio que Beauvilliers envia aos intendentes em 1697 para obter informa¸˜es sobre a co o estado das mentalidades populares no reino. e. 5 Cf sobre isso G. de Acosta (1591). o primeiro. nessa ´poca era mais c˜ c˜ e o c´u. ´ no s´culo XVIII que se forma o par do viajante e do fil´sofo: e e o o viajante: Bougainville. . Em c˜ ca 1789. isto ´. Esp´ e ıritos curiosos reuniam cole¸oes que iam formar os famosos ”gabinetes de curiosidades”. c˜ ancestrais dos nossos museus contemporˆneos. passa-se da coleta dos o e materiais para a cole¸˜o das coletas. o s´culo XVIII tra¸a o primeiro esbo¸o daquilo que se tornar´ uma e c c a antropologia social e cultural. O SECULO XVIII: constitutivo da modernidade na qual. ao mesmo tempo. a partir dessa ´poca. entramos. a terra. N˜o basta mais observar. E ´ desse desdobramento. Afora algumas incurs˜es t´ a o ımidas para area das ´ 4 ”inclina¸oes”e dos ”costumes”. examinemos de mais perto o que e a mudou radicalmente desde o s´culo XVI. do padre Pr´vost (1746). ca Ora. ´ preciso proca a e cessar a observa¸ao. No s´culo XVIII. em especial UHistoire Naturetle et Morale des Indes. que se torna cada vez mais organizada. Chavane. A fim e de avaliar melhor a natureza dessa verdadeira revolu¸ao do pensamento – c˜ que instaura uma ruptura tanto com o ”humanismo”do Renascimento como com o ”racionalismo”do s´culo cl´ssico –. e 1)Trata-se em primeiro lugar da natureza dos objetos observados. tomando como modelo a antropologia f´ ısica.

formada e pelos ent˜o chamados ”ide´logos”. 6 . a o a o m´dicos que definem muito claramente o que deve ser o campo da nova ´rea e a de saber (o homem nos seus aspectos f´ ısicos.7 Rousseau: ”Suponhamos um Montesquieu. naturalistas. Modos bastante singulares e inconceb´ co ıveis da parte de pessoas que. na passagem do s´culo XVIII para o e e s´culo XIX. um d’Alembert. o c˜ Mas esse par n˜o tem realmente nada de id´ a ılico. que s˜o moralistas. um huguenote que esteve no Brasil. ou homens de igual capacidade. e para apreender corretamente seu objeto. Suponhamos que e esses novos H´rcules. e submetem imperiosamente a natureza a suas imagina¸˜es. que os viajantes n˜o sejam fil´sofos! Bougainville retruca (em 1771 a o em sua Viagem ao Redor do Mundo): que pena que os fil´sofos n˜o sejam o a viajantes!6 Para o primeiro. Rousa o seau. fizessem a seguir a hist´ria e c a o natural. observando como sabem fazˆ-lo a Turquia. fil´sofos. um Diderot. destinada aos pesquisadores de uma miss˜o a nas ”Terras Austrais”. exemplares. pensa Rousseau. bem como para todos os fil´sofos naturalistas do o s´culo das luzes. quanto a isso. Que pena. ´ preciso ainda que a observa¸˜o seja e e e ca esclarecida. e aprender´ ıamos assim a conhecer o nosso. pois a nova ciˆncia o e – qualificada de ”ciˆncia do homem”ou ”ciˆncia natural-. esse texto ´ uma cr´ e ıtica da observa¸ao selvagem do c˜ selvagem. s´ escrevem e dogmatizam a partir de observa¸˜es o o co tomadas desses mesmos viajantes aos quais recusam a faculdade de ver e pensar”. E ´ assim que se constitui. a Sociedade dos Observadores do Homem (1799-1805). n˜o a tendo observado nada por si pr´prias. viajando para instruir seus compatriotas. em especial o seu Suplemento a Viagem de Bougainville) ` ”esclarecendo”com suas reflex˜es as observa¸oes trazidas pelo viajante. o Egito. o fil´sofo Buffon. Bougainville: ”Sou viajante e marinheiro. de volta de suas andan¸as memor´veis. se ´ essencial observar. isto ´. de De Gerando (1800) s˜o. a respeito dos ´ ındios entre os quais esteve. Uma prioridade ´ portanto conferida ao observador. devendo o observador participar da pr´pria existˆncia dos gruca o e pos sociais observados. moral e pol´ ıtica do que teriam visto. Voltaire. . ps´ ıquicos. que procura orientar o olhar do observador.´ uma ”ciˆncia de e e e e observa¸˜o”. sociais. um Condillac.43 nossas miss˜es cient´ o ıficas contemporˆneas. a Barbaria. Diderot (cf. um Buffon. filosofam c sem fim sobre o mundo e seus habitantes. O cientista naturalista deve ser ele pr´prio testemunha ocular do que observa. culturais) e quais devem ser suas exigˆncias epistemol´gicas. um mentiroso e um imbecil aos olhos e dessa classe de escritores pregui¸osos e soberbos que. 7 Estamos longe de Montaigne. ver´ ıamos nascer de seus escritos um mundo novo. . sujeito que. Pria meira metodologia da viagem. e o As Considera¸oes sobre os Diversos M´todos a Seguir na Observa¸ao dos c˜ e c˜ Povos Selvagens. na sombra de seu gabinete. deve possuir um certo n´mero de u qualidades. que se contenta em acreditar nas palavras de ”um homem simples e rude”.

sobre a produ¸ao e reparti-ti¸˜o das ria c˜ ca quezas.na e o Fran¸a em 1883.9 Os cientistas da expedi¸˜o conduzida por Bodin n˜o eram de forma alguma etn´grafos. o obst´culo maior ao advento de uma antropologia a cient´ ıfica. o homem interroga-se: sobre a natureza. mesmo sendo o abordada. enquanto que a ciˆncia exige a constitui¸˜o de um o e ca saber positivo e especializado. O pr´prio Gerando. miner´logos. a o a ıvel e Mais especificamente. e os objetos etnogr´ficos que recolheram n˜o foram e o a a a sequer depositados no Museu de Hist´ria Natural de Paris. da linguagem (ling¨´ o uıstica). ”observador dos povos selvagens”em 1800. formando o que Foucault chama de ”ontologias regionais”constituindo-se em torno dos territ´rios da vida (biologia). c˜ c˜ Mas n˜o leva ipso facto a constitui¸ao de um saber positivo. publicado em 1800. torna-se o ”visitante dos pobres”em 1824. No final do a ` c˜ s´culo XVIII. mas n˜o h´ biologia e a a ainda (ser´ preciso esperar Cuvier).8 a a Se esse programa que consiste em ligar uma reflex˜o organizada a uma oba serva¸˜o sistem´tica. do trabalho (economia). O final do s´culo XVIII teve um papel essencial na elabora¸ao dos e c˜ fundamentos de uma ”ciˆncia humana”. muito rapidamente (a partir do s´culo XIX). ´ porque a ´poca ainda n˜o o pera o e e a mitia. e n˜o poe a a der´ ıamos credit´-lo aquilo que s´ ser´ poss´ um s´culo depois.44 ´ CAP´ ITULO 2. a o e e considera que o Discours sur l’Origine de l’In´galit´ de Rousseau ´ ”o primeiro tratado de e e e etnologia geral”) e um assass´ ınio ritual consistindo na reatualiza¸˜o de uma ruptura com ca um projeto que permanece filos´fico. N˜o podia ir mais longe. nessa ´poca. sendo depois substitu´ pelo atual Museu do Homem. que ´ pela primeira vez claramente afire mado. no Trocadero). zo´logos. por muito tempo ainda. no sentido no qual a entendemos hoje. a positividade. Evidentemente. mas sobretudo. n˜o apenas do homem f´ ca a a ısico. ıdo 9 A antropologia contemporˆnea me parece. ´ e 8 . mas tamb´m do homem e social e cultural. mas ainda n˜o se trata de economia (Ricardo). ao meu ver. E o primeiro museu etnogr´fico da Kran¸a foi fundado apenas cinco anos c a c antes (em Paris. est´ ligado. e sim dispersados em cole¸˜es o co particulares. a e sim dc saberes que. n˜o ´ de forma alguma realizada. coloca as condi¸oes de produ¸ao de um novo saber sobre o homem. n˜o pˆde ser realizado. o conceito da a e unidade e universalidade do homem. pessoalmente. O que mostra a prontid˜o de uma passagem poss´ entre a ıvel o estudo dos ind´ ıgenas e a ajuda aos indigentes. o m´moire de Gerando s´ foi reeditado. e ca Notemos finalmente que. ca a o e sim m´dicos. Mas neste segundo caso. e n˜o ser´. sobre seu discurso a mas isso n˜o basta para elaborar uma filosofia (Bopp). muito menos uma a ling¨´ uıstica. se rompem se parcee lam. levado em conta. dividida entre uma homenaa gem a esses pais fundadores que s˜o os fil´sofos do s´culo XVIII (L´vi-Strauss. uma certa e ausˆncia de distin¸˜o entre a antropologia principiante e a ”filantropia”. O SECULO XVIII: Por´m. 1) A distin¸ao entre o saber cient´ c˜ ıfico e o saber filos´fico. por exemplo. n˜o mais do saber. a a dois motivos essenciais. o projeto de De Gerando n˜o foi aplicado por aqueles a que se dese a tinava diretamente.

mais marcadamente e ´ o que veremos a seguir. talvez. isto ´. De fato. Restar´ um passo consider´vel a ser dado para que a antropologia a a se emancipe deste pensamento e conquiste finalmente sua autonomia. rigorosamente filos´fico. Estamos na impossie o bilidade de imaginar o que consideramos hoje como as pr´prias condi¸˜es o co episte-mol´gicas da pesquisa antropol´gica. a . historicista: o evolucionismo. e sim um outro indiv´ o ıduo que pertence ele pr´prio a o uma ´poca e a uma cultura. e 2) O discurso antropol´gico do s´culo XVIII ´ insepar´vel do discurso hist´rico o e e a o desse per´ ıodo. e sim indiv´ ca a e ıduos que pertencem a uma ´poca e e a uma cultura. o objeto de o o observa¸˜o n˜o ´ o ”homem”. e o sujeito que observa n˜o ´ de forma alguma o sujeito da a e antropologia filos´fica. isto ´. de sua concep¸ao de uma hist´ria natural. que n˜o pode resignar-se a trabalhar em a o a uma ´rea setorizada. Paradoxalmente.45 O conceito de homem tal como ´ utilizado no ”s´culo das luzes”permanece e e ainda muito abstrato. esse passo ser´ dado no s´culo XIX (em especial com Morgan) a e a partir de uma abordagem igualmente e at´. liberada da e c˜ o teologia e animando a marcha das sociedades no caminho de um progresso universal. para esta. E evidentemente problem´tica para o antrop´logo.

O SECULO XVIII: .46 ´ CAP´ ITULO 2.

´ a a e ´poca durante a qual se constitui verdadeiramente a antropologia enquanto e disciplina autˆnoma: a ciˆncia das sociedades primitivas em todas as suas o e dimens˜es (biol´gica. hoje t˜o desacreditado. e de reconstitui¸˜o de temporalidades ´ incontestavelc ca e mente obra do s´culo XIX. de instaura¸˜o de redes c˜ e ca entre esses espa¸os. percebese que a sociedade mudou mais voltar´ a ser o que era. esse discurso se organiza no s´culo XVIII: ele ´ ”ilue e e e minado”` luz dos fil´sofos. A Europa se vˆ a e confrontada a uma conjuntura in´dita. Com a revolu¸ao industrial inglesa e a revolu¸ao pol´ c˜ c˜ ıtica francesa. isto ´. suas rela¸oes e c˜ sociais sofrem uma muta¸ao sem precedente. e a viagem se torna ”viagem filos´fica”. . Esse s´culo XIX. o essas perspectivas est˜o se tornando individualmente disciplinas particulares a cada vez mais especializadas. Mas a a o o primeira – a grande – tentativa de unifica¸ao. Se o final do s´culo XVIII come¸ava a sentir essas a e c transforma¸oes.um outro est´ nascendo. Dessa vez.. . Ap´s um c o parˆntese no s´culo XVII. trazendo uma duc˜ pla resposta abandonada pela do s´culo que nos interessa agora: e – resposta que confia nas vantagens da civiliza¸˜o e considera totalmente ca 47 . pol´ o o e o ıtica. Um mundo est´ terminando. notamo-lo. psicol´gica. econˆmica. realiza e e a o que antes eram apenas empreendimentos program´ticos. ele reagia ao enigma colocado pela existˆncia de sociedades c˜ e que tinham permanecido ora dos progressos da civiliza¸ao. em se tratando da nossa sociedade. ling¨´ uıstica.Cap´ ıtulo 3 O Tempo Dos Pioneiros: os pesquisadores-eruditos do s´culo XIX e O s´culo XVl descobre e explora espa¸os at´ ent˜o desconhecidos e tem um e c e a discurso selvagem sobre os habitantes que povoam esses espa¸os. t´cnica. religiosa.) enquanto que. c˜ a e. Seus modos de vida.

no s´culo XIX. La Cit´ Antique. conhecimento do primitivo. e sim de administradores. em 1885. a Austr´lia. [es Coutumes. do a ´ Tratado de Berlim. Tylor. a ca Ora.1865. A coloniza¸ao atuar´ nesse sentido. em 1864. das formas simples de organiza¸˜o e ca social e de mentalidade que evolu´ ıram para as formas mais complexas das Morgan escreveu. tornou-se o primitivo. os passos do colono. isto ´. em 1890. n˜o se trata u a a mais de alguns mission´rios apenas. em 1877. S˜o os question´rios enviados por pesquisadores das c˜ a a metr´poles (em especial da Gr˜-Bretanha) para os quatro cantos do mundo. e Bachofen. Asa c˜ a sim a antropologia. la e Relizions. como veremos. o ancestral do e e civilizado. a Africa. o contexto geopol´ e ıtico ´ totalmente novo: ´ o per´ e e ıodo da conquista colonial. e em . Uma rede de a informa¸oes se instala. o antrop´logo acompanhando de perto. o ` ´ E no movimento dessa conquista que se constitui a antropologia moderna. Hegel). o ´ Nessa ´poca. Fustel de Coulanges. que tˆm uma ambi¸ao consider´vel – seu objetivo n˜o e c˜ a a ´ nada menos que o estabelecimento dc um verdadeiro corpus etnogr´fico da e a humanidade – caracterizam-se por uma mudan¸a radical de perspectiva em c rela¸ao ` ´poca das ”luzes”o ind´ c˜ a e ıgena das sociedades extra-europ´ias n˜o ´ e a e mais o selvagem do s´culo XVIII. em 1861. MacLennan. que rege a partilha da Africa entre as potˆncias europ´ias e e e p˜e um fim as soberanias africanas. a ´ e ındia. enquanto que a infelicidade est´ do lado da civiliza¸˜o (Rousseau). O Casamento Primitivo. o – mas sobretudo resposta preocupada. em seguida Frazer (a partir de suas Questions sur les Matii`res. os primeiros volumes do Ramo de Ouro. Frazer. que desembocar´ em especial na assinatura.1 o a e cujas respostas constituem os materiais de reflex˜o das primeiras grandes a obras de antropologia que se suceder˜o em ritmo regular durante toda a sea gunda metade do s´culo. Todas essas obras. Em 1861. assim. Systems of Consanguinity and Affinity of lhe Human Family (1879). Das Mutterrecht. A Sociedade Antiga. Maine publica Ancient Law. O TEMPO DOS PIONEIROS: estranhas a ela pr´pria todas essas formas de existˆncia que est˜o situadas o e a fora da hist´ria e da cultura (de Pauw. Morgan. em 1871.48 CAP´ ITULO 3. A Cultura Primitiva-. a Nova Zelˆndia passam a ser a a povoadas de um n´mero consider´vel de emigrantes europeus. les Superstitions des Peuples 1 . que se expres* sa na nostalgia d´ o antigo que ainda subsiste noutro lugar: o estado de felicidade do homem num ambiente protetor situa-se do lado do ”estado de natureza”. isto ´. fica indissociavelmente ligada ao conhecimento da nossa origem. destinado a reencontr´-lo.

mais a a e ´ especificamente. e Frazer) no s´culo XVIII. bem como na lei de Haeckel. que se tornar´ o documento de referˆncia adotado pela imensa maioria dos ana e trop´logos do final do s´culo XIX. Existe uma esp´cie humana e idˆntica. publica suas pr´prias teorias antes de ter lido A Origem das Esp´cies. e Spencer. ou seja. Procuremos ver mais de perto em que consiste o pensamento te´rico dessa o antropologia que se qualifica de evolucionista. nessa ´poca. as duas vias de acesso privilegiadas ao conhecimento das soNon-civilis´s ou Semi-civilis´s) Le Rameau d’Or (1981-1984). Morgan. passando pelas mesmas etapas. conv´m procurar determinar cientificamente ca e a seq¨ˆncia dos est´gios dessas transforma¸˜es. fundador da forma mais radical de evolucionismo e sociol´gico. para alcan¸ar o n´ final que ´ o c˜ c ıvel e´ da ”civiliza¸˜o”. co e 2 Este ultimo distingue trˆs est´gios de evolu¸˜o da humanidade – selvageria. ´ a consider´vel aten¸ao dada: 1) a essas popula¸˜es e a c˜ co que aparecem como sendo as mais ”arcaicas”do mundo: os abor´ ıgines australianos. que e pretende ser cient´ ıfica. n˜o tˆm hist´ria em e e o a e o sua existˆncia individual (n˜o s˜o crian¸as que se tornaram adultos atrasados. mas que se desenvolve (tanto em suas formas tecnoeconˆmicas como e o nos seus aspectos sociais e culturais) em ritmos desiguais.0 ue a co O evolucionismo encontrar´ sua formula¸ao mais sistem´tica e mais elaa c˜ a 2 borada na obra de Morgan e particularmente em Ancient Society. Parentesco e a religi˜o s˜o. A partir disso. c˜ a a co al´m de se situarem enquanto esp´cies fora da Hist´ria. o o e 0 . ou. notemos que o primeiro ´ bem anterior ao ca e segundo. de Darwin. Uma correspondˆncia e e e intensa circula entre os pesquisadores e os novos residentes europeus que lhes mandam uma grande quantidade de informa¸˜es e lˆem em seguida seus livros. Disso decorre o e a identifica¸˜o – absolutamente incontestada tanto pela primeira gera¸ao de ca c˜ marxistas quanto pelo fundador da psican´lise –dos povos primitivos aos a 3 vest´ ıgios da infˆncia da humanidade a O que ´ tamb´m muito caracter´ e e ıstico dessa antropologia do s´culo XIX. ´ e a ca a civiliza¸˜o – cada um dividido em trˆs per´ ca e ıodos. o ina e e div´ ıduo atravessa as mesmas fases que a hist´ria das esp´cies. barb´rie. Comte. as duas grandes areas da antropologia. Enquanto o e para de Pauw ou Hegel as popula¸oes ”n˜o civilizadas”s˜o popula¸˜es que. 1859) e o e que teria servido de justifica¸˜o ao primeiro. de acordo com as popula¸oes. 3) e ao da religi˜o. Vico elabora sua teoria das trˆs idades (que anuncia Condorcet.49 nossas sociedades. 2) ao estudo do ”parentesco”. Haeckel afirma c a c rigorosamente o contr´rio: a ontogˆnese reproduz a filogˆnese. e a a c e sim crian¸as que permanecer˜o inexoravelmente crian¸as). em fun¸˜o notadamente do crit´rio tecca e nol´gico o 3 Se o evolucionismo antropol´gico tende a aparecer hoje como a transposi¸˜o ao n´ o ca ıvel das ciˆncias humanas do evolucionismo biol´gico (A Origem das Esp´cies.

1981-1984). mais reservado sobre o fenˆmeno religioso do que os dois autores o anteriores. sem a tecelagem. a Austr´lia continuou sendo objeto de muitos escritos. fruto de uma evolu¸˜o lenta e dizendo a e o ca respeito a ”esp´ ıritos superiores” 4 . menos para a compreender a origem da humanidade dn nue a da reflex˜o antropol´gica. sem cerˆmica. Quando Roheim a (trad. o a 1) A Austr´lia ocupa um lugar de primeira importˆncia na pr´pria consa a o titui¸ao da nossa disciplina (cf.50 CAP´ ITULO 3. Notemos em primeiro lugar que a maioria dos antrop´logos desse o per´ ıodo. sem cria¸˜o de animais. de Frazer (trad. a Poder´ ıamos assim multiplicar os exemplos a respeito desse continente que exerceu (junto com os ´ ındios) um papel t˜o decisivo. elas permanecem ainda. a o 5 Frazer era. 1979). Mas ´ c˜ ca e certamente o Ramo de Ouro. n˜o hesita em escrever que ”todas as religi˜es primitivas a o s˜o grotescas e de alguma forma inintelig´ a ıveis”. Por deslize do pensac˜ mento. fr. l967). co e vegetal) e aquilo que atua na cultura: o ”totemismo”. os dois n´cleos a u resistentes da pesquisa dos antrop´logos contemporˆneos. c˜ Desde a ´poca de Morgan. s˜o a n˜o apenas agn´sticos mas tamb´m deliberadamente anti-religiosos. imagina-se um matriarcado primitivo. pois ´ l´ que se pode apreender c˜ e a o que foi a origem bsoluta das nossas pr´prias institui¸oes.. a meu ver. e Tylor deve parte de sua voca¸ao a uma rea¸˜o visceral contra o espiritualismo de seu meio. da magia e da religi˜o deter´ mais nossa aten¸˜o.4 o c˜ 2) No estudo dos sistemas de parentesco. Um papel decisivo inclusive. franc. em especial Evelyn Reed. franc.. Mora o e gan. vivendo na idade da pedra sem metalurgia. ˆe Quando Durkheim escreve Les Formes El´mentaires de la Vie Religieuse (1912) baseia-se essencialmente sobre os dados colhidos na Austr´lia por Spencer e Gillen. por exemplo. O TEMPO DOS PIONEIROS: ciedades n˜o ocidentais. j´ que vˆ nesse um fenˆmeno recente. 1967) decide refutar a hip´tese colocada por Malinowski da inexistˆncia do o e ˆ complexo de Edipo entre os primitivos. e a v´rias gera¸˜es de pesquisadores expressando literalmente sua estupefa¸˜o diante da disa co ca tor¸˜o entre a simplicidade da cultura material desses povos. e 3) A ´rea dos mitos. Feminismo e Antropologia. os mais ”primitivos”e mais ca ”atrasados”do mundo. (trad. absolutamente confiantes na racionalidade cient´ ıfica triunfante. pois a a a ca perece-nos reveladora ao mesmo tempo da abordagem e do esp´ ırito do evolucionismo.5 que realiza a melhor s´ ıntese de todas as pesquisas do s´culo XIX sobre as ”cren¸as”e e c ”supersti¸oes”. os pesquisadores dessa ´poca proe curam principalmente evidenciar a anterioridade hist´rica dos sistemas de o filia¸ao matrilinear sobre os sistemas patrilineares. e a extrema complexidade de seus sistemas de parenca tesco baseados sobre rela¸˜es minuciosas entre aquilo que ´ localizado na natureza (animal. inclusive. id´ia que exerceu tal Influˆncia e e que ainda hoje alguns continuam inspirando-se nela (cf. notamo-lo. escolhe a Austr´lia como terreno de pesquisa. Elkin. um dos textos de referˆncia do movimento feminista nos Estados Unidos).

6 . por etapas sucessivas. o e o qual define o acesso entusiasmante a civiliza¸ao em fun¸ao dos valores ` c˜ c˜ da ´poca: produ¸ao econˆmica. da forma como podemos vˆ-lo hoje. ou est˜o passando. em rela¸ao aos unicos c a c˜ ´ crit´rios do Ocidente do s´culo XIX. Margaret Mead o L´vio e Strauss – conheceram. escreve Frazer. religi˜o monote´ e c˜ o a ısta. da religi˜o ` ciˆncia. compelidas a alcan¸ar o pelot˜o da frente. E e e e quanto a isso compar´vel ` Origem das Esp´cies. o ”arca´ a ısmo”ou a ”primitividade”s˜o menos fases da a Hist´ria do que a vertente sim´trica e inversa da modernidade do Ocidente. e depois. Mas. retira grande parte de seus mateo riais etnogr´ficos dessa obra que todo home 11 culto da ´poca vitoriana tinha obriga¸˜o de a e ca conhecer. propriedade privada. *** O pensamento evolucionista aparece. a primeira ´ a ` a e um impasse total. c o a a mas internacional. Exerceu uma influˆncia a a e e consider´vel tanto sobre a filosofia de Bergson e escola francesa de sociologia sobre o pena samento antropol´gico de Freud que. que muito poucos etn´logos – fora Malinowski. e como sendo ao mesmo tempo dos mais simples e dos mais suspeitos. ´ Le Rameau d’Or ´ uma obra de referˆncia como existem poucas em um s´culo.51 Nessa obra gigantesca. o progresso t´cnico e econˆmico da nossa e e e o sociedade sendo considerado como a prova brilhante da evolu¸˜o hist´rica ca o da qual procura-se simultaneamente acelerar o processo e reconstituir os est´gios. ”A magia”. e as obje¸oes de que foi objeto podem organizar-se em torno de duas s´ries de c˜ e cr´ ıticas: 1) mede-se a importˆncia do ”atraso”das outras sociedades destinadas. da hist´ria do esp´ o ırito humano. ou a melhor. de Darwin. para c a dirigir-se para a religi˜o e a ciˆncia”. que se o constitui num obst´culo a raz˜o. Quanto a seu autor. da magia c a religi˜o. enquanto para Hegel. Como Hegel. alcan¸ou durante sua vida uma gl´ria n˜o apenas britˆnica. Frazer considera que a magia consiste num controle ilus´rio da natureza. mais grosseira. publicada em doze volumes de 1890 a 1915 e que ´ uma das obras mais c´lebres de toda a literatura antropol´gica.6 Frazer e e o retra¸a o processo universal que conduz. pela qual todas as ra¸as da humanidade passaram. ”re` a a a e presenta uma fase anterior. Essas cren¸as dos povos primitivos a e c permitem compreender a origem das ”sobrevivˆncias”(termo forjado por Tye lor) que continuam existindo nas sociedades civilizadas. a qual dar´ a a lugar por sua vez ` ciˆncia que realizar´ (e est´ at´ come¸ando a realizar) o a e a a e c que tinha sido imaginado no tempo da magia. Frazer a considera como religi˜o em potencial. em Totem e Tabu. Ou seja.

a e n˜o dissocia os benef´ a ıcios da t´cnica e os da religi˜o. analisar a significa¸ao e a fun¸˜o de rela¸oes sociais. o o culto aos antepassados. mission´rio que. procedimento c˜ c˜ absolutamente oposto. ao da etnografia contemporˆnea. ´ c˜ ca c˜ Isso colocado. a filosofia do s´culo ante` e rior. identificando-se `s vantagens da civiliza¸ao a qual pertence. na realidade. A convic¸ao da marcha triunfante do progresso ´ tal que. O TEMPO DOS PIONEIROS: fam´ monogˆmica. . encontramo-nos frente a reconstitui¸oes conc˜ junturais que tˆm. moral vitoriana ılia a 2) o pesquisador. os evolucionistas consideram os fenˆmenos recolhidos (o totemismo.52 CAP´ ITULO 3. a exogamia. a aparˆncia de um corpus e e cient´ ıfico. atrav´s da introdu¸˜o de fatos min´sculos recolhidos a e ca u em uma unica sociedade. os exemplos o etnogr´ficos sendo freq¨entemente mobilizados apenas para ilustrar o proa u cesso grandioso que conduz as sociedades primitivas a se tornarem sociedades civilizadas. esmagados sob o peso dos materiais. como ´ f´cil – e at´ irris´rio – desacreditar hoje todo o trabalho e a e o . que procura. co n˜o hesita em esbo¸ar em grandes tra¸os afrescos imponentes. de outro. pode exclamar: ”Viee a mos entre eles enquanto membros de uma ra¸a superior e servidores de um c governo que deseja elevar as partes mais degradadas da fam´ humana”. cujas ambi¸˜es nos parecem hoje desmedidas. Assim. efetuando de um lado a defini¸ao de seu objeto de pesc˜ quisa atrav´s do campo emp´ e ırico das sociedades ainda n˜o ocidentalizadas. a filia¸ao matrilinear. enquanto branco. . E quando faltam documentos. Livingstone. a magia. a e. a qual n˜o tinha por´m a preocupa¸˜o de fundamentar sua reflex˜o na a e ca a documenta¸ao enorme que ser´ pela primeira vez reunida pelos homens do c˜ a s´culo XIX. mas assemelham-se muito. civilizado. juntando e interprec˜ e tando fatos provenientes do mundo inteiro (` luz justamente dessa hip´tese a o central). e Essa preocupa¸ao de um saber cumulativo visa na realidade a demonstrar a c˜ veracidade de uma tese mais do que a verificar uma hip´tese. isto ´. ılia A antropologia evolucionista. . como veremos mais adiante. alguns a (Frazer) fazem por intui¸ao a reconstitui¸ao dos elos ausentes. Assim. atrav´s dos a c c e quais afirma com arrogˆncia julgamentos de valores sem contesta¸ao poss´ a c˜ ıvel. julga-se que ser´ poss´ a ıvel extrair as leis universais do desenvolvimento da humanidade.) como costumes que serc˜ vem para exemplificar cada est´gio. pelo volume dos fatos relatados. o a c˜ ` evolucionismo aparece logo como a justifica¸ao te´rica de uma pr´tica: o coc˜ o a lonialismo.

nessa ´poca o antrop´logo raramente recolhe ele pr´prio os materie o o ais que estuda e. e Tylor no M´xico. do que de estadias tendo c˜ co por objetivo o de impregnar-se das categorias mentais dos outros. Bastian realiza uma pesquisa o no Congo. o a a a Em 1851. e 7 . a julgando que observadores conscienciosos. sendo que ´ provavelmente o ca e que. evidenciando assim tamb´m. guiados a distˆncia por cientistas a preocupados em criticar fontes. Bastian por exemplo insiste sobre a especificidade de cada cultura irredut´ ıvel ao seu lugar na hist´ria do desenvolvimento da humanidade. eram capazes de recolher todos os materiais necess´rios. a teoria da evolu¸˜o ´ nessa ´poca amplamente dominante. a antropologia no sentido no qual a praticamos o hoje nunca teria nascido. N˜o poder´ a ıamos finalmente criticar esses pesquisadores da segunda metade do s´culo XIX por n˜o terem sido especialistas no sentido atual da palavra e a (especialistas de uma pequena parte de uma area geogr´fica ou de uma mi´ a crodisciplina de um eixo tem´tico). ca a ca e e pelo menos at´ o final do s´culo no qual come¸a a mostrar (com Frazer) os primeiros sinais e e c de esgotamento. a mais extensa poss´ no tempo e no espa¸o. Claro. O que importa nessa ´poca n˜o ´ de forma alguma a problem´tica de etnografia e a e a enquanto pr´tica intensiva de conhecimento de uma determinada cultura. sem essa teoria. 8 s pesquisas de primeira m˜o est˜o longe de serem ausentes ne-´ ´poca na qual todos os a a ıa e antrop´logos n˜o s˜o apenas pesquisadores indo de seu gabinete de trabalho ` biblioteca. De fato. Tylor desconfia dos modelos de a interpreta¸˜o simples e un´ ca ıvocos do social e anuncia claramente a substitui¸˜o da no¸˜o de ca ca fun¸˜o ` causa. um singular esp´ e ırito ahist´rico – e etnocentrista – em rela¸˜o a eles. Ratzel o abre o caminho para o que ser´ chamado de difusionismo. em especial das ”mais long´ ınquas”e das ”mais desconhecidas”.7 N˜o e a custa muito denunciar o etnocentrismo que eles demonstraram em rela¸˜o ca aos ”povos atrasados”.8 ´ antes no e decorrer de expedi¸ao visando trazer informa¸˜es. e sobretudo considerando implicitamente que a antropologia a tinha tarefas mais urgentes a realizar do que um estudo particular em tal ou tal sociedade. empenhada em mostrar as etapas do movimento da humanidade (teoria que deve ser ela pr´pria considerada como uma etapa o do pensamento sociol´gico). Morgan publica as observa¸˜es colhidas no decorrer de uma viagem realizada co por ele pr´prio entre os Iroqueses. Alguns anos mais tarde. como diz Tylor. a ıvel c de todas as culturas. eles n˜o tinham nenhuma forma¸ao antropol´gica a c˜ o Da mesma forma que ´ f´cil reduzir toda essa ´poca ao evolucionismo (a respeito do e a e qual conv´m notar que foi muito mais afirmado na Gr˜-Bretanha e nos Estados Unidos e a do que nos outros pa´ ıses). ´ a e a tentativa de compreens˜o.53 que foi realizado pelos pesquisadores – eruditos da ´poca evolucionista. No entanto. Eles se recusavam a atuar dessa forma. quando realiza um trabalho de coleta direta.

mas como poder´ o ıamos critic´-los por isso. compae c˜ c rar as pr´ticas sociais de popula¸oes infinitamente distantes uma das outras a c˜ tanto no espa¸o como no tempo. mas apenas o ue co e resultado de situa¸˜es t´cnicas e econˆmicas. ou. j´ que eles foram a a precisamente os fundadores de uma disciplina que n˜o existia antes deles? a Em suma. e. Bastian ´ m´dico. e At´ Morgan (eu teria vontade de dizer sobretudo Morgan) n˜o tem a rie a gidez doutrinai que lhe ´ retroativamente atribu´ e ıda. o que me parece eminentemente caracter´ ıstico desse per´ ıodo ´ e a intensidade do trabalho que realizou. dos museus como a o que foi fundado no pal´cio do Trocadero em 1879 e que se tornar´ o atual a a ´ at´ dif´ imaginar hoje em dia a abrangˆncia dos coMuseu do Homem. Pode-se sorrir hoje diante dessa vis˜o ılia a grandiosa do mando. das primeiras cadeiras universit´rias. do parentesco c a ou da religi˜o. ge´grafo). dos comportamentos e das cren¸as. como diz Leach (1980). Durante o s´culo XIX. E e ıcil e nhecimentos dos principais representantes do evolucionismo. bem como sua imensa curiosidade. da ling¨´ e o uıstica. das institui¸oes. O TEMPO DOS PIONEIROS: (Maine. as diversas popula¸˜es do globo. esses homens do s´culo passado colocavam e e o problema maior da antropologia: explicar a universalidade e a diversidade das t´cnicas. mas para chegar a um mesmo n´ ıvel final. mesmo se suas convic¸oes foram mais passionais c˜ do que racionais) essa hip´tese mestra sem a qual n˜o haveria antropologia. Atrav´s dessa atividade extrema. Com ele. dentro c˜ da qual concorrem em graus diferentes. o a mas apenas etnologias regionais: a unidade da esp´cie humana. uma das caracter´ co e o ısticas principais do evolucionismo – ser´ que isso foi suficientemente destacado? – a ´ o seu anti-racismo. em contato epistolar permanente com centenas de oba servadores morando nos quatro cantos do mundo. Bachofen. trabalhou doze horas por dia durante sessenta anos. o objeto da antropologia passa a ser a an´lise dos processos de evolu¸ao que s˜o os das a c˜ a .baseada na no¸ao de uma humanidade integrada. sobretudo. da ”fam´ humana”. A obra que ele pr´prio produziu estende-se. Morgan s˜o juristas. Mas s˜o eles que mostraram pela prico a meira vez que as disparidades culturais entre os grupos humanos n˜o eram a de forma alguma a conseq¨ˆncia de predisposi¸˜es congˆnitas. Tylor possu´ ıa um conhecimento perfeito tanto da pr´-hist´ria.54 CAP´ ITULO 3. MacLen-nan. em quase o dois metros de estantes. Assim. quanto do que chamar´ ıamos hoje de ”antropologia social e cultural”do seu tempo. Seu m´rito ´ de ter extra´ (mesmo se o c e e ıdo fizerem com dogmatismo. assistimos a cria¸ao das sociedades cient´ e ` c˜ ıficas de etnologia. dentro de uma biblioteca de 50 mil volumes. como e escreve Morgan. Rata e e zel. Ele dedicava os mesmos esfor¸os ao estudo das ´reas da tecnologia. Frazer.

e sim redes de intera¸˜o formando ”sistemas”. isto ´. a qual. A novidade radical da sociedade o arcaica ´ dupla. para Hegel. no caso. e 1) Essa obra toma como objeto de estudo fenˆmenos que at´ ent˜o n˜o o e a a diziam respeito ` Hist´ria. ca termo que o antrop´logo americano utiliza para as rela¸oes de parentesco. pois o conhecimento cient´ ıfico se d´ sempre mais por descontinuia dades te´ricas do que por acumula¸˜o). a partir de Morgan. como mostrou Kuhn (1983). Por essas duas raz˜es. a liga¸ao entre c˜ esses diferentes aspectos do campo social sendo em si caracter´ ıstica de um determinado per´ ıodo da hist´ria humana. cosa a a tumes considerados bizarros. compreende-se qual ser´ a influˆncia ` Morgan sobre o maro a e a xismo. ca um papel decisivo. e ao acento sendo colocado sobre o desenvolvimento material. Qualifia o o cando essas sociedades de ”arcaicas”. ´ que a antropologia s´ se tornar´ o ca e o a cient´ ıfica( no sentido que entendemos) introduzindo uma ruptura em rela¸˜o ca ´ a esse modo de pensamento que lhe havia no entanto aberto o caminho.55 liga¸oes entre as rela¸˜es sociais.9 o c˜ N˜o h´. . Morgan as reintegra pela primeira vez na humanidade inteira. O paradoxo (aparente. de modelo ore ganizador do saber. Foi ela que deu seu impulso a antropologia. e particularmente. o conhecimento da hist´ria come¸a a ser posto sobre bases totalo c mente diferentes das do idealismo filos´fico. pol´ ıticas. E o que examinaremos agora. conhecimento cient´ a a ıfico poss´ ıvel sem que se constitua uma teoria servindo de ”paradigma”. . jur´ c˜ co ıdicas. o 2) Os elementos da an´lise comparativa n˜o s˜o mais. s´ podia ser escrita. e a teoria da evolu¸˜o teve incontestavelmente. sobre Engels (1954) 9 .

O TEMPO DOS PIONEIROS: .56 CAP´ ITULO 3.

Ele aprende ent˜o. que publica em 1891 uma e obra sobre os melan´sios. at´ ent˜o e e a o ` c˜ e a habitualmente divididas entre o observador (viajante. ou de Junod. de Spencer e Gillen. que relatam em 1899 suas e observa¸˜es sobre os abor´ co ıgines australianos. de condi¸˜es de estudo radicalmente diferentes das que co 57 .Cap´ ıtulo 4 Os Pais Fundadores Da Etnografia: Boas e Malinowski Se existiam no final do s´culo XIX homens (geralmente mission´rios e ade a ministradores) que possu´ ıam um excelente conhecimento das popula¸oes no c˜ meio das quais viviam – ´ o caso de Codrington. mas a viver como eles. O pesquisador comprec˜ ende a partir desse momento que ele deve deixar seu gabinete de trabalho para ir compartilhar a intimidade dos que devem ser considerados n˜o mais a como informadores a serem questionados. a sentir suas pr´prias emo¸˜es dentro dele mesmo. e sim como h´spedes que o receo bem e mestres que o ensinam. n˜o a a apenas a viver entre eles. c˜ e A revolu¸˜o que ocorrer´ da nossa disciplina durante o primeiro ter¸o do ca a c s´culo XX ´ consider´vel: ela p˜e fim a reparti¸ao das tarefas. mission´rio. a falar sua l´ ıngua e a pensar nessa l´ ıngua. recebe. Trata-se. o co como podemos ver. que. como aluno atento. adminisa trador) entregue ao papel subalterno de provedor de informa¸oes. que escreve A Vida de uma Tribo Sul-africana (1898) – a etnografia propriamente dita s´ o come¸a a existir a partir do momento no qual se percebe que o pesquisador c deve ele mesmo efetuar no campo sua pr´pria pesquisa. analisa e o interpreta – atividade nobre! – essas informa¸oes. tendo permanecido na metr´pole. e o pesc˜ quisador erudito. e que esse trabalho o de observa¸ao direta ´ parte integrante da pesquisa.

levada. e 1968). Em suma. Rivers. residindo geralmente fora da sociedade ind´ e ıgena e obtendo informa¸oes por interm´dio de tradutores e informadores: este ultimo termo c˜ e ´ merece ser repetido. um dos fundadores da antropologia inglesa. Radcliffe-Brown estuda os habitantes das ilhas Andaman. a meu ver os mais importantes. desde os primeic˜ o ros anos do s´culo XX. A partir da´ as miss˜es de pesquisas u e e ı. Evanso Pritchard estuda os Azand´s (trad. longe de ser visto como um modo de conhecimento secund´rio servindo para ilustrar uma tese. totalmente pioneiras. impregnado a do pensamento e dos sistemas de valores que lhe revelou a popula¸˜o de ca um min´sculo arquip´lago melan´sio. Nadei. estuda os Todas da ´ ındia. Orientou a partir desse e o momento a abordagem da nova gera¸ao de etn´logos que. Malinowski volta para a Gr˜-Bretanha. as Nupes da Nig´ria. dois entre eles. Suas pesquisas. notamo-lo. a partir dos ultimos anos do s´culo XIX (em particular ´ e entre os Kwakiutl e os Chinook de Col´mbia Britˆnica). dea ter˜o nossa Hlen¸ao: um americano de origem alem˜: Franz Boas. a antropologia se torna pela primeira vez uma atividade ao ar livre. ”ao vivo”. ap´s a . Esse trabalho de campo.1 BOAS (1858-1942) Com ele assistimos a uma verdadeira virada da pr´tica antropol´gica. e e 4. como diz Malinowski. os e insulares da Nova Guin´. os Tallensi. Fortes. realizou estadias prolongadas entre as popula¸oes do e c˜ mundo inteiro. franc. Margaret Mead. iniciadas. o ensina Boas. Em 1906 e 1908.Primeira Guerra Mundial. Boas a o era antes de tudo um homem de campo.58 CAP´ ITULO 4. 1972) e os Nuer (trad. a contribui¸ao desses diferentes pesquisadores na elabora¸ao da etnografia e da c˜ c˜ etnologia contemporˆnea. franc. a ´ .onsiderado como a pr´pria fonte de pesquisa. a c˜ a polonˆs naturalizado inglˆs: Bronislaw Malinowski. em uma ”natureza imensa. como o chamamos ainda hoje. Seligman dirige uma miss˜o no Sud˜o. OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA: conheciam o viajante do s´culo XVIII e at´ o mission´rio ou o administrador e e a do s´culo XIX. Em 1909 e 1910. o outro. o etnogr´ficas e a publica¸ao das obras que delas resultam se seguem em um a c˜ ritmo ininterrupto. eram conduzidas de u a um ponto de vista que hoje qualificar´ ıamos de microssociol´gico. a a Alguns anos mais tarde. etc e Como n˜o ´ poss´ a e ıvel examinar. dentro dos limites deste Inibalho. Em 1901. tudo deve ser anotado: desde os materiais constitutivos das . No campo. virgem e aberta”.

1. na voz dos mais humildes entre eles. e isso muito antes de Griaule. ele foi um dos primeiros a nos mostrar n˜o apenas a importˆncia. o te´rico e o observador est˜o finalmente reunidos. ou diversos ingredientes entrando na composi¸˜o de um alimento). 1 . e isso detalhadae o mente. Por outro lado. Boas considera. As tradi¸oes que estuda n˜o poderiam ser-lhe traduzidas. para o etn´logo. estima-se que para compreender o lugar particular ocupado por esse costume n˜o se pode mais confiar nos investigadores e. a maneira pela qual as sociedades tradicionais. e no detalhe do detalhe. e apreendida em sua totalidade e considerada em sua autonomia te´rica. Assistimos o a ao nascimento de uma verdadeira etnografia profissional que n˜o se contenta a mais em coletar materiais ` maneira dos antiqu´rios.ia c˜ c e partir de Boas. em particular Lowie. mas procura detectar a a o que faz a unidade da cultura que se expressa atrav´s desses diferentes mae teriais. Claro. que n˜o h´ objeto nobre nem objeto indigno da ciˆncia. Tudo deve ser objeto da descri¸ao mais c˜ meticulosa. isto ´. enquanto raramente antes dele as sociedades tinham sido realmente consideradas em si e para si mesmas.4. da retranscri¸˜o mais fiel (por exemplo. a a e As piadas de um contador s˜o t˜o importantes quanto a mitologia que exa a pressa o patrimˆnio metaf´ o ısico do grupo.1 ele c˜ c˜ a mostra que um costume s´ tem significa¸ao se for relacionado ao contexto o c˜ particular no qual se inscreve. As ca primeiras n˜o s˜o as formas An nraanizac˜es originais das quais as segundas teriam deria a o vado. as diferentes vers˜es de ca o um mito. O primeiro a formular com o seus colaboradores (cf. cada uma dentre elas adquire o estatuto de uma totalidade autˆnoma. sociedades ”primitivas”a caminho da ”civiliza¸˜o”. Montesquieu tinham aberto o caminho a essa pesquisa cujo objeto ´ a totalidade das e rela¸oes sociais e dos elementos que a constituem. do acesso a l´ e o ` ıngua da cultura na qual trabalha. ca e Finalmente. classificam suas atividades mentais e sociais. c˜ a Da qual Radcliffe-Brown e Malinowski tirar˜o as conseq¨ˆncias tec ricas: n˜o ´ a ue a e mais poss´ ıvel opor sociedades ”simples”e sociedades ”complexas”. Apenas o antrop´logo pode elaborar o o uma monografia. confiam neles. BOAS (1858-1942) 59 casas at´ as notas das melodias cantadas pelos Esquim´s. Mas a diferen¸a ´ que. deve ser levada em considera¸˜o. ca Por outro lado. muito antes dele. Em especial. Morgan e. sociedades ”inferiores”evoluindo para o ”superior”. Boas anuncia ca assim a constitui¸˜o do que hoje chamamos de ”etnociˆncias”. a a mas tamb´m a necessidade. 1971) a cr´ ıtica mais radical e mais elaborada das no¸oes de origem e de reconstitui¸ao dos est´gios. do qual falaremos mais adiante. da ”metr´pole”. muito menos a nos que. dar conta cientificamente de uma microssociedade. Pela o primeira vez.

Mead). Foi um dos prie a meiros etn´grafos.2 MALINOWSKI (1884-1942) Malinowski dominou incontestavelmente a cena antropol´gica. foi. Herskovitz. Isso se deve principalmente a duas raz˜es: o 1) multiplicando as comunica¸oes e os artigos. Ele permanece sendo o mestre incontestado da antropologia americana na primeira metade do s´culo XX. . ap´s Boas. ano o de publica¸˜o de sua primeira obra. Finalmente. cf. o o Sapir (1967) e Leenhardt (1946). at´ sua morte. o grande pedagogo que formou a primeira gera¸ao de antrop´logos c˜ o americanos (Kroeber. seja praticamente desconhecido. R. levando em conta o que foi dito. M. isto ´ o e uma antropologia principalmente – sucedem.60 CAP´ ITULO 4. Linton. com ele. e 4. A sua preocupa¸ao de precis˜o na descri¸ao dos fatos o c˜ a c˜ observados. em 1942. em primeiro lugar. e 1) Se n˜o foi o primeiro a conduzir cientificamente uma experiˆncia eta e nogr´fica. em seguida. que Boas. que retratam os prim´rdios da humanie o dade mas expressam simultaneamente os prim´rdios da antropologia. Lowie. a emo¸ao a e c˜ que se pode sentir (como veremos logo) na leitura de um Malinowski. De qualquer modo. a influˆncia de Boas foi consider´vel. Benedict.2 Pode parecer surpreendente. e. isto ´. enquanto professor. a mod´stia e a sobrie edade da maturidade. 2) nunca formulou uma verdadeira teoria. a viver com as popula¸oes que estudava a e c˜ Sobre a rela¸˜o da cultura. ele nunca escreveu nenhum c˜ livro destinado ao p´blico erudito. de 1922. acrescentava-se a de conserva¸ao met´dica do patrimˆnio recoc˜ o o lhido (foi conservador do museu de Nova Iorque). . 2 . Nada que anuncie. t˜o estranho era-lhe o esp´ a ırito de sistema. e os textos que nos deixou s˜o de uma u a concis˜o e de um rigor asc´tico. particular-mente. da l´ ca ıngua e do etn´logo. ou que lembre o charme ultrapassado da prosa enfeitada de um Frazer. As c˜ afrescos gigantescos do s´culo XIX. exceto entre os profissionais da antropologia. Os Argonautas do Pac´ ca ıfico Ocidental. e a generaliza¸˜o apressada parecia-lhe o que h´ de mais distante ca a ` ambi¸oes dos primeiros tempos – quero falar dos do esp´ ırito cient´ ıfico. Sapir. por exemplo. OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA: Ele pr´prio deve recolhˆ-las na l´ o e ıngua de seus interlocutores.

a canoa trobriandesa – voltaremos a isso) aparentemente muito simples. Medimos o caminho percorrido desde Frazer. . a ocupar o lugar do evolucionismo. Murdock. mostrar que a partir de um unico costume. a antropologia se torna uma ”ciˆncia”da alteridade que e vira as costas ao empreendimento evolucionista de reconstitui¸ao das origens c˜ da civiliza¸ao. que tende.2. e se dedica ao estudo das l´gicas particulares caracter´ c˜ o ısticas de cada cultura.) procuraram definir correla¸oes entre o maior n´mero poss´ de c˜ u ıvel vari´veis. e ca (Com Malinowski. e respondia escrevendo essa ”obra ´pica da humanidade”que ´ O e e e Ramo de Ouro. Malinowski considera esse trabalho uma aberra¸˜o. observando-a no a presente atrav´s da intera¸˜o dos aspectos que a constituem. Ningu´m antes dele tinha se esfor¸ado em penetrar tanto. segundo ele. embora tenha sido editado alguns anos apenas ap´s o fim da publica¸ao o c˜ de O Ramo de Ouro. Os Argonautas do Pac´ ıfico Ocidental. Enquanto Frazer o procurava responder ` pergunta: ”Como nossa sociedade chegou a se tornar a o que ´?”. o que sentem os homens e as mulheres que pertenc˜ cem a uma cultura que n˜o ´ nossa. do pr´prio Frazer. e para isso. . MALINOWSKI (1884-1942) 61 e a recolher seus materiais de seus idiomas. no in´ do s´culo. Conv´m pelo a ca e contr´rio. na mentalidade dos outros. e tamb´m com a geografia especulativa (a teoria dia e fusionista. com um pref´cio. adota a o uma abordagem rigorosamente inversa: analisar de uma forma intensiva e cont´ ınua uma microssociedade sem referir-se a sua hist´ria. Malinowski se pergunta o que ´ uma sociedade dada em si e mesma e o que a torna vi´vel para os que a ela pertencem. O que o leitor aprende ao ler Os Argonautas ´ que os costumes e . respondia: ”Deus me livre!”. 2) Instaurando uma ruptura com a hist´ria conjetural (a reconstitui¸˜o eso ca peculativa dos est´gios). radicalizou essa compreens˜o por a dentro. a qual se transmite e a por empr´stimos). notamo-lo.4. Quando pergunt´vamos ao primeiro por que a ele pr´prio n˜o ia observar as sociedades a partir das quais tinha constru´ o a ıdo sua obra. ıcio e e postula a existˆncia de centros de difus˜o da cultura. como ele fez e c no decorrer de duas estadias sucessivas nas ilhas Trobriand. tal como funciona no momento mesmo onde a observamos. e em compreender de dentro. ou mesmo de um unico ob´ ´ jeto (por exemplo. que foi no entanto o mestre de Malinowski. aparece o perfil do conjunto de uma sociedade. procurou romper ao m´ximo os contatos com o mundo a europeu. Boas procurava estabelecer repert´rios a e o exaustivos. e muitos entre seus seguidores nos Estados Unidos (Kroeber. Malinowski considera que uma sociedade deve ser estue dada enquanto uma totalidade. por uma verdadeira busca de despersonaliza-¸ao. conforme o primeiro exemplo que d´ em seu primeiro a a livro.

62 CAP´ ITULO 4. sua preocupa¸˜o em abrir as fronteiras disciplinares. 4) Uma outra caracter´ ıstica do pensamento do autor de Os Argonautas ´. quanto a esse aspecto (que o separa radicalmente. o estudo dos sonhos e c˜ o 3 dos desejos do indiv´ ıduo.). para Malinowski. tˆm uma signia e fica¸ao e uma coerˆncia. c o de n˜o dissociar o grupo do indiv´ a ıduo. do psicol´gico e e c˜ o do biol´gico. educativas. t˜o profundamente diferentes dos nossos. Conv´m em primeiro lugar. Mas devemos reconhecer que ele demonstra uma grande incompreens˜o da psican´lise a a 3´ . cada uma a seu modo. . e ao nosso ver. inclui o ese tudo das motiva¸oes psicol´gicas. e co u Mas nos anos 20 isso era propriamente revolucion´rio.solu¸˜es originais que permitem atender co a essas necessidades. que os homens e a mulheres que nelas vivem s˜o adultos que se comportam diferentemente de a n´s. para o a ele. a 3) A fim de pensar essa coerˆncia interna. j´ que. vai muito al´m da an´lise da e a afetividade de seus interlocutores. ou melhor. devendo o ca homem ser estudado atrav´s da tripla articula¸ao do social. E Malinowski. que constituem. uma verdadeira ciˆncia da sociedade implica. Malinowski elabora uma teoria e (o funcionalismo) que tira seu modelo das ciˆncias da natureza: o indiv´ e ıduo sente um certo n´mero de necessidades. autˆmatos atrasados (em todos os sentidos do termo) o a o que pararam em uma ´poca distante e vivem presos a tradi¸˜es est´pidas. fornecendo respostas coletivas organizadas. uma sociedade funcionando como um organismo. e sim como o seu pr´prio fundamento. como veremos. todos os etn´logos est˜o convencidos de que as sociedades diferentes o a da nossa s˜o sociedades humanas tanto quanto a nossa. jur´ ıdicas. o que decorre do ponto anterior. localizar a rela¸ao o e c˜ estreita do social e do biol´gico. o Hoje. Cada uma realiza isso elaborando institui¸oes (econˆmicas. ´ c˜ E essa vontade de alcan¸ar o homem em todas as suas dimens˜es. pol´ c˜ o ıticas. . Al´m c˜ o e disso. N˜o s˜o puerilidades que testemunham de alguns c˜ e a a vest´ ıgios da humanidade. dos comportamentos. fazendo da observa¸ao participante uma participa¸ao c˜ c˜ psicol´gica do pesquisador. notadamente. e. que faz com que seja um dos primeiros etn´logos o a interessar-se pelas obras de Freud. e cada cultura tem precisamente u como fun¸ao a de satisfazer a sua maneira essas necessidades fundamenc˜ ` tais. e n˜o primitivos”. de Durkheim). OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA: dos Trobriandeses. Ele procura reviver nele pr´prio os seno timentos dos outros. e sim sistemas l´gicos perfeitamente elaborados. que deve ”compreender e compartilhar os sentio mentos”destes ultimos ”interiorizando suas rea¸oes emotivas”. as rela¸oes biol´gicas c˜ o devem ser consideradas n˜o apenas como o modelo epistemol´gico que pera o mite pensar as rela¸oes sociais.

Essa compreens˜o naturalista e marcadamente otia mista de uma totalidade cultural integrada. n˜o mais considerada como forma social ca a anterior a civiliza¸˜o. ligadas ao car´ter sistem´tico de sua o a a rea¸ao ao evolucionismo. Assim sendo. com a ”civiliza¸˜o industrial”.2. no in´ do s´culo. MALINOWSKI (1884-1942) *** 63 O fato de a obra (e a pr´pria personalidade) de Malinowski ter sido provavelo mente a mais controvertida de toda a hist´ria da antropologia (isso inclusive o quando era vivo) se deve a duas raz˜es. o estabelece generaliza¸oes sistem´ticas que n˜o hesita em chamar de ”leis cic˜ a a ent´ ıficas da sociedade”. e e as sociedades tradicionais s˜o sociedades est´veis e sem conflitos. Nesta perspectiva. defronta-se com duas grandes dificuldades: como explicar a mudan¸a social? Como dar conta do disfuncionamento e da patologia c cultural? A partir de sua pr´pria experiˆncia – limitada a um min´sculo arquip´lago o e u e que permanece. c˜ 1) Os antrop´logos da ´poca vitoriana identificavam-se totalmente com a o e sua sociedade. esse funcionalismo ”cient´ e ıfico”n˜o tem a rela¸ao com a realidade da situa¸ao colonial dos anos 20. para o descr´dito do qual ele ainda ´ objeto: o ”funcionalismo”. baseando-se no modelo do finalismo biol´gico. A antropologia vitoriana era a justifica¸˜o do per´ ca ıodo da conquista colonial. que contribuiu. ele elabora – sobretudo durante a ultima parte de sua vida – ´ uma teoria de uma extrema rigidez. e sim como forma contemporˆnea mostrando-nos cm ` ca a sua pureza aquilo que nos faz tragicamente falta: a autenticidade. Em rela¸˜o a esta. considerada como ”a e ca civiliza¸ao”tout court. relativamente afastado dos contatos inıcio e terculturais –.4. toc˜ c˜ c˜ talmente ocultada. que retomam o tema da idealiza¸˜o do selvagem). pois suas institui¸oes est˜o a´ para satisfazer a e a c˜ a ı todas as necessidades. os costumes ca dos povos ”primitivos”eram vistos como aberrantes. n˜o ´ totalmente falso. que postula que toda sociedade ´ t˜o boa quanto pode ser. 50-51 deste livro os coment´rios de a Malinowski. em grande parte. a aberra¸ao n˜o est´ mais do lado das sociedades ”primitivas”e sim c˜ a a do lado da sociedade ocidental (cf. e com seus benef´ c˜ ıcios. isto ´. pp. visando a a naturalmente a um equil´ ıbrio atrav´s de institui¸oes capazes de satisfazer as e c˜ ` necessidades dos homens. pois o que fez a partir dos anos 20 ´ a e e essencial). pelo menos. ao meu ver. O discurso monogr´fico e a-hist´rico do funcionalismo a o . Malinowski inverte essa rela¸ao: a antropologia sup˜e uma identifica¸ao (ou. ca 2) Convencido de ser o fundador da antropologia cient´ ıfica moderna (o que. uma busca c˜ o c˜ de identifica¸˜o) com a alteridade. Malinowski. Al´m disso. situa¸ao essa.

Pois. passando necessariamente de novo a a por seu local de origem. mostra que a agricultura dos Trobriandeses o o inscreve-se na totalidade social desse povo. Os Jardins de Coral. a . as regulamenta¸oes a ` c˜ que definem sua posse. irredut´ a dimens˜o econˆmica apenas. trabalha com a mesma abordagem. efetuando em sentidos contr´rios percursos invari´veis. a 1) Compreendendo que o unico modo de conhecimento em profundidade dos ´ outros ´ a participa¸ao a sua existˆncia. 2) Em Os Argonautas do Pac´ ıfico Ocidental. pois ıvel ` a o nos permite encontrar os significados pol´ ıticos. pela primeira vez. cuja significa¸ao s´ pode ser encontrada nas suas posi¸oes c˜ o c˜ respectivas no interior de uma totalidade mais ampla. pulseiras de conchas brancas. o segundo grande livro de Malinowski. outras. curiosidade ex´tica. ele inventa literalmente e ´ o prie c˜ e e meiro a pˆr em pr´tica a observa¸ao participante. O fato e de efetuar uma estadia de longa dura¸ao impregnan-do-se da mentalidade c˜ de seus h´spedes e esfor¸ando-se para pensar em sua pr´pria l´ o c o ıngua pode parecer banal hoje. Malinowski nos ensinou a olhar. OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA: passa a ser a justifica¸ao de uma nova fase do colonialismo. para alcan¸ar o homem em todas as suas dimens˜es.64 CAP´ ITULO 4. c˜ *** Apesar disso. longe de ser uma pesquisa especializada sobre um fenˆmeno agronˆmico dado. e a muito menos na Fran¸a. o social deixa de ser aned´tico. que n˜o tem mais nada a ver a com a atividade do ”investigador”questionando ”informadores”. e toca em muitos outros aspectos que n˜o a agricultura. as canoas trobriandesas (das quais falamos acima) s˜o descritas em rela¸˜o ao grupo que a ca as fabrica e utiliza. dando-nos o exemplo do o a c˜ que deve ser o estudo intensivo de uma sociedade que nos ´ estranha. est´ticos a e do grupo inteiro. descri¸˜o moralizante ou cole¸˜o o o ca ca exaustiva erudita. religiosos. c o ´ preciso dedicar-se ` observa¸ao de fatos sociais aparentemente min´sculos e a c˜ u e insignificantes. N˜o o era durante os anos 1914-1920 na Inglaterra. ao ritual m´gico que as consagra. al´m das cr´ e ıticas que o pr´prio Malinowski contribuiu em proo vocar. etc. Assim. Deu-nos o exemplo c daquilo que devia ser uma pesquisa de campo. Esse ”estudo dos m´todos agr´ e ıcolas e dos ritos agr´rios a nas ilhas Trobriand”. tudo o que devemos a ele permanece ainda hoje consider´vel. m´gicos. Malinowski mostra que estamos frente a um processo de troca generalizado. Algumas transportando de ilha em ilha colares de conchas vermelhas.

restituindo as cenas da vida cotidiana seu relevo e sua cor. um jurista pode ser cego. Os Argonautas me parece exemplar. e que anuncia as e mais bonitas p´ginas de Tristes Tr´picos. Ora. como mostrou Devereux (1980). consultar o trabalho de Michel Panoff. essa exigˆncia de conduzir e um projeto cient´ ıfico sem renunciar ` sensibilidade art´ a ıstica chama-se etnologia. ir c˜ at´ a destrui¸ao do objeto que pretendia estudar. 1972. sentido. e. publicado com fotografias tiradas a partir de 1914 por seu autor. conjuntamente. ouvido. e c˜ e Mesmo quando estuda institui¸oes. ”Um historiador”. mas a o a escrever. Ora. como ele.2. Malinowski ensinou a muitos entre n´s n˜o apenas a olhar. expressando-se em inglˆs: Joseph Conrad. Os Argonautas do Pac´ ıfico Ocidental.4. a o e A antropologia contemporˆnea ´ freq¨entemente amea¸ada pela abstra¸˜o a e u c ca e sofistica¸ao dos protocolos. 4 Sobre a obra de Malinowski. ele faz reviver para n´s esse povo trobriandˆs que n˜o poo e a deremos nunca mais confundir com outras popula¸oes ”selvagens”. ”pode ser surdo. Seja em Os Argonautas ou’ Os o Jardins de Coral. podendo. E um livro escrito num estilo magn´ ıfico que aproxima seu autor de um outro polonˆs que. O homem c˜ nunca desaparece em proveito do sistema. um fil´sofo pode a rigor ser surdo e cego. MALINOWSKI (1884-1942) 65 3) Finalmente. n˜o s˜o nunca vistas como abstra¸˜es c˜ a a co reguladoras da vida de atores anˆnimos. escreve Firth. . viveu e na Inglaterra. abre o caminho daquilo que se tornar´ a antropologia a 4 audiovisual. a grande for¸a de Malinowski foi ter conseguido fazer ver e c ouvir aos seus leitores aquilo que ele mesmo tinha visto. de L´vi Strauss. uma das grandes qualidades de Malinowski ´ sua faculdade e de restitui¸˜o da existˆncia desses homens e dessas mulheres que puderam ca e ser conhecidos apenas atrav´s de uma rela¸ao e de uma experiˆncia pessoais. o mas ´ preciso que o antrop´logo entenda o que as pessoas dizem e veja o e o que fazem”. da ese c˜ pecificidade da nossa disciplina. Quanto ` ´ a isso.

OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA: .66 CAP´ ITULO 4.

Durkheim. como acabamos de ver. ela exige. Quanto ao segundo. a constitui¸˜o de um quadro te´rico. quanto da c˜ o a explica¸ao biol´gica (o funcionalismo de Malinowski) ou psicol´gica (a psic˜ o o cologia cl´ssica e a psican´lise principiante). fundaram a etnografia. A antropologia precisava ainda elaborar a instrumentos operacionais que permitissem construir um verdadeiro objeto ´ cient´ ıfico. E precisamente nisso que se empenharam os pesquisadores franceses dessa ´poca. recolhendo com a precis˜o de um naa turalista os fatos no campo. isto ´.Cap´ ıtulo 5 Os Primeiros Te´ricos Da o Antropologia: Durkheim e Mauss Boas e Malinowski. nascido em 1858. que pertenciam a chamada ”escola francesa de sociologia”. o que h´ o e a de mais contest´vel em sua obra. e ` Se existe uma autonomia do social. a parte a o te´rica de suas pesquisas ´ provavelmente. conv´m notar desde j´ – e isso ter´ conseq¨ˆncias essenciais para o e a a ue desenvolvimento contemporˆneo de nossa disciplina – que n˜o s˜o de forma a a a alguma etn´logos de campo. o mesmo ano que Boas. para alcan¸ar sua elabora¸ao c c˜ cient´ ıfica. Mas o primeiro. mostrou em suas primeiras pesquisas preocupa¸oes muito distantes das da etnologia. independentes tanto da exo ca e plica¸ao hist´rica (evolucionismo) ou geogr´fica (difusionismo). a a Ora. e sim fil´sofos e soci´logos – Durkheim e Mauss. de conceitos e modelos que ca o sejam pr´prios da investiga¸˜o do social. n˜o era um te´rico. e mais ainda c˜ 67 . o o o de quem falaremos agora – que forneceram ` antropologia o quadro te´rico a o e os instrumentos que lhe faltavam ainda. nos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial.

´ 68 CAP´ ITULO 5. OS PRIMEIROS TEORICOS DA ANTROPOLOGIA: da etnografia. Em As Regras do M´todo Sociol´gico (1894), ele op˜e a ”pree o o cis˜o”da hist´ria ` ”confus˜o”da etnografia, e se d´ como objeto de estudo a o a a a ”as sociedades cujas cren¸as, tradi¸oes, h´bitos, direito, incorporaram-se em c c˜ a movimentos escritos e autˆnticos”. Mas, em As Formas Elementares da Vida e Religiosa (1912), ele revisa seu julgamento, considerando que ´ n˜o apenas e a importante, mas tamb´m necess´rio estender o campo de investiga¸˜o da soe a ca ciologia aos materiais recolhidos pelos etn´logos nas sociedades primitivas. o Sua preocupa¸˜o maior ´ mostrar que existe uma especificidade do social, e ca e que conv´m conseq¨entemente emancipar a sociologia, ciˆncia dos fenˆmenos e u e o sociais, dos outros discursos sobre o homem, e, em especial, do da psicologia. Se n˜o nega que a ciˆncia possa progredir por seus confins, considera que na a e sua ´poca ´ vantajoso para cada disciplina avan¸ar separadamente e construir e e c seu pr´prio objeto. ”A causa determinante de um fato social deve ser buso cada nos fatos sociais anteriores e n˜o nos estados da consciˆncia individual”. a e Durkheim n˜o procura de forma alguma questionar a existˆncia desta, nem a e a pertinˆncia da psicologia. Mas op˜e-se `s explica¸oes psicol´gicas do social e o a c˜ o (sempre ”falsas”, segundo sua express˜o). Assim, por exemplo, a quest˜o da a a rela¸ao do homem com o sagrado n˜o poderia ser abordada psicologicamente c˜ a estudando os estados afetivos dos indiv´ ıduos, nem mesmo atrav´s de alguma e psicologia ”coletiva”. Da mesma forma , que a linguagem, tamb´m fenˆmeno e o coletivo, n˜o poderia encontrar sua explica¸ao na psicologia dos que a falam, a c˜ sendo absolutamente independente da crian¸a que a aprende, ´-lhe exterior, c e a precede e c´ntinuar´ existindo muito tempo depois de sua morte. o a Essa irredutibilidade do social aos indiv´ ıduos (que ´ a pedra-de-toque de quale quer abordagem sociol´gica) tem para Durkheim a seguinte conseq¨ˆncia: os o ue fatos sociais s˜o ”coisas”que s´ podem ser explicados sendo relacionados a a o outros fatos sociais. Assim, a sociologia conquista pela primeira vez sua autonomia ao constituir um objeto que lhe ´ pr´ximo, por assim dizer arrancado e o ao monop´lio das explica¸˜es hist´ricas, geogr´ficas, psicol´gicas, biol´gicas. o co o a o o . . da ´poca. e Esse pensamento durkheimiano – que, observamos, ´ t˜o funcionalista quanto e a o de Malinowski, mas n˜o deve nada ao modelo biol´gico – vai atrav´s de suas a o e novas exigˆncias metodol´gicas, renovar profundamente a epistemologia das e o ciˆncias humanas da primeira metade do s´culo XX, ou, mais exatamente, e e das ciˆncias sociais destinadas a se separar destas. Vai exercer uma influˆncia e e consider´vel sobre a pesquisa antropol´gica, particularmente na Inglaterra e a o evidentemente na Fran¸a, o pa´ de Durkheim, onde, ainda hoje. nossa disc ıs ciplina n˜o se emancipou realmente da sociologia. a

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Marcel Mauss (1872-1950) nasceu, como Durkheim, em Epinal, quatorze anos ap´s este, de quem ´ sobrinho. Suas contribui¸oes te´ricas respectio e c˜ o vas na constitui¸ao da antropologia moderna s˜o ao mesmo tempo muito c˜ a pr´ximas e muito diferentes. Se Mauss faz, tanto quanto Durkheim, quest˜o o a de fundar a autonomia do social, separa-se muito rapidamente do autor de As Regras do M´todo Sociol´gico a respeito de dois pontos essenciais: o ese o tatuto que conv´m atribuir a antropologia, e uma exigˆncia epistemol´gica e ` e o que hoje qualificar´ ıamos de pluridisciplinar. Durkheim considerava os dados recolhidos pelos etnol´gos nas sociedades o ”primitivas”sob o angulo exclusivo da sociologia, da qual a etnologia (ou ˆ antropologia) era destinada a se tornar uma ramo. Mauss vai trabalhar incansavelmente, durante toda sua vida (com Paul Rivet), para que esta seja reconhecida como uma ciˆncia verdadeira, e n˜o como uma disciplina anexa. e a Em 1924, escreve que ”o lugar da sociologia”est´ ”na antropologia”e n˜o o a a inverso,. Um dos conceitos maiores forjados por Mareei Mauss e o do fenˆmeno social o total, consistindo na integra¸ao dos diferentes aspectos (biol´gico, econˆmico, c˜ o o jur´ ıdico, hist´rico, religioso, est´tico. . .) constitutivos de uma dada realio e dade social que conv´m apreender em sua integralidade. ”Ap´s ter for¸osamente e o c dividido um pouco exageradamente”, escreve ele, ”´ preciso que os sociol´gos e o se esforcem em recompor o todo”. Ora, prossegue Mauss, os fenˆmenos soo ciais s˜o ”antes sociais, mas tamb´m conjuntamente e ao mesmo tempo fia e siol´gicos e psicol´gicos”. Ou ainda: ”O simples estudo desse fragmento de o o nossa vida que ´ nossa vida em sociedade n˜o basta”. N˜o se pode, ainda, e a a afirmar que todo fenˆmeno social ´ tamb´m um fenˆmeno mental, da mesma o e e o forma que todo fenˆmeno mental ´ tamb´m um fenˆmeno social, devendo as o e e o condutas humanas ser apreendidas em todas as suas dimens˜es, e particularo mente em suas dimens˜es sociol´gica, hist´rica e psicofisiol´gica. o o o o Assim, essa ”totalidade folhada”, segundo a palavra de L´vi-Strauss, coe mentador de Mauss (1960), isto ´, ”formada de uma multitude de planos e distintos”, s´ pode ser apreendida na experiˆncia dos indiv´ o e ıduos”. Devemos, escreve Mauss, ”observar o comportamento de seres totais, e n˜o divididos a em faculdades”. E a unica garantia que podemos ter de que um fenˆmeno ´ o social corresponda a realidade da qual procuramos dar conta ´ que possa ser ` e apreendido na experiˆncia concreta de um ser humano, naquilo que tem de e unico: ´

´ 70 CAP´ ITULO 5. OS PRIMEIROS TEORICOS DA ANTROPOLOGIA: ”O que ´ verdadeiro, n˜o ´ a ora¸˜o ou o direito,e sim o melan´sio de tal e a e ca e ou tal ilha”. N˜o podemos portanto alcan¸ar o sentido e a fun¸˜o de uma institui¸˜o a c ca ca se n˜o formos capazes de reviver sua incidˆncia atrav´s de uma consciˆncia a e e e individual, consciˆncia esta que ´ parte da institui¸˜o e portanto do social. e e ca Finalmente, para compreender um fenˆmeno social total, ´ preciso apreendˆo e e lo totalmente, isto ´, de fora como uma ”coisa”, mas tamb´m de dentro e e ´ como uma realidade vivida. E preciso compreendˆ-lo alternadamente tal e como o percebe o observador estrangeiro (o etn´logo), mas tamb´m tal como o e os atores sociais o vivem. O fundamento desse movimento de desdobramento ´ ininterrupto diz respeito ` especificidade do objeto antropol´gico. E um oba o jeto de mesma natureza que o sujeito, que ´ ao mesmo tempo – emprestando e o vocabul´rio de Mauss e Durkheim – ”coisa”e ”representa¸ao”. Ora, o que a c˜ caracteriza o modo de conhecimento pr´prio das ciˆncias do homem, ´ que o o e e observador-sujeito, para compreender seu objeto, esfor¸a-se para viver nele c mesmo a experiˆncia deste, o que s´ ´ poss´ porque esse objeto ´, tanto e oe ıvel e quanto ele, sujeito. Trabalhando inicialmente com uma abordagem semelhante a de Durkheim, ` a reflex˜o da Mauss desembocou, como vemos, em posi¸oes muito diferena c˜ tes. Estamos longe do distanciamento sociol´gico que sup˜e a metodologia o o durkheimiana, e pr´ximos da pr´tica etnogr´fica de Malinowski. Este ultimo o a a ´ ponto merece alguns coment´rios. a Os Argonautas do Pac´ ıfico Ocidental, de Malinowski, e o Ensaio sobre o Dom, de Mauss, s˜o publicados com um ano de intervalo (o primeiro em a 1922, o segundo em 1923). As duas obras s˜o muito pr´ximas uma da oua o tra. A segunda sup˜e o conhecimento dos materiais recolhidos pelo etn´o o grafo. A primeira exige uma teoria que ser´ precisamente constitu´ pelo a ıda antrop´logo. Os Argonautas s˜o uma descri¸˜o meticulosa desses grandes o a ca circuitos mar´ ıtimos transportando, nos arquip´lagos melan´sicos, colares e e e pulseiras de conchas: a kula. O Ensaio sobre o Dom ´ uma tentativa de e esclarecimento e elabora¸ao da kula, atrav´s da qual Mauss n˜o apenas vic˜ e a sualiza um processo de troca simb´lica generalizado, mas tamb´m come¸a o e c a extrair a existˆncia de leis da reciprocidade (o dom e o contradom) e da e comunica¸˜o, que s˜o pr´prias da cultura em si, e n˜o apenas da cultura troca a o a briandesa. Enquanto Os Argonautas, a obra menos te´rica de Malinowski, o evidencia o que Leach chama de ”inflex˜o biol´gica”, o Ensaio sobre o Dom a o j´ expressa preocupa¸oes estruturais. a c˜

influenciados por ele. fundador da etnografia francesa. fundador da etnopsiquiatria) o consideram como seu pr´prio mestre. em Georges Devereux. em Claude I. Mauss ocupa na Fran¸a um lugar o c bastante compar´vel ao de Boas nos Estados Unidos. Muitos a mestres da antropologia do s´culo XX (estou pensando particularmente em e Marciel Griaule. ´ pr´prio de toda obra c˜ u c˜ e o importante. e . de suscitar interpreta¸oes m´ltiplas. procuraram promover a especificidade e a unidade das ciˆncias do homem. e a obra de Mauss est´ incontestavelmente entre estas.71 O fato de poder ser abordada de diferentes maneiras.´vi-Strauss. ou mesmo voca¸oes diversas. e pai do estruturalismo. especialmente para toa dos os que.

OS PRIMEIROS TEORICOS DA ANTROPOLOGIA: .´ 72 CAP´ ITULO 5.

Parte II As Principais Tendˆncias Do e Pensamento Antropol´gico o Contemporˆneo a 73 .

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antropologia da comunica¸˜o. antropologia pol´ ıtica. . psicologia. antropologia industrial. ca 1 75 .1 Campos De Investiga¸˜o ca A primeira via. antropologia religiosa. (poca c˜ ` o dendo manter paralelamente canais e espa¸os de articula¸˜o e confronto). N˜o se trata evidentemente de apresentar aqui um panorama coma a pleto desse per´ ıodo que cobre mais de meio s´culo (1930-1986). especializando-se e instaurando c o a at´ subespecialidades. . antropologia urbana. Rivers. hist´ria.1 e Especialidades: antropologia das tecnologias. – e pelos primeiros te´ricos da nova ciˆncia do social o e – Durkheim e Mauss –. o e e 6. Contentar-nos-emos. que me recusarei a adotar por raz˜es que come¸aram a ser o c expostas no in´ desse livro. dentro de sua pr´pria pr´tica. Malinowski. t˜o grande ´ a e a e diversidade e a riqueza do campo antropol´gico explorado. e tamb´m porque o e nos falta distˆncia para fazer o balan¸o dos trabalhos que nos s˜o propriaa c a mente contemporˆneos. A antropologia n˜o apenas tende a progredir a por disjun¸˜o em rela¸ao a filosofia.. . consistia em levantar as ´reas de investiga¸˜o ıcio a ca e estudar os resul tados obtidos em cada uma ou em algumas delas. Podemos fazer isso de trˆs diferentes maneiras. . sociologia. em abrir a algumas trilhas (mais pr´ximas da trilha do que da auto-estrada) que pero mitam destacar as tendˆncias dominantes do pensamento e da pr´tica dos e a antrop´logos de nossa ´poca. antropologia o dos sistemas de parentesco. antropologia econˆmica. . O desenvolvimento do pensamento cient´ ıfico implica uma diferen cia¸ao cresc˜ cente dos campos do saber.Cap´ ıtulo 6 Introdu¸˜o: ca Com o trabalho efetuado pelos pais fundadores da etno-grafia – Boas. O que examinaremos agora s˜o os desenvolvimentos contema porˆneos. mais modestamente. podemos considerar que a antropologia entrou em sua maturidade. antropologia art´ ıstica. c ca mas avan¸a.

a religi˜o. bem como das produ¸oes culturais caracter´ c˜ ısticas de uma etnia ou na¸˜o. conduzido mais a partir da observa¸ao c˜ dos comportamentos individuais do que do funcionamento das institui¸oes. a nosso ver. as varia¸˜es praticamente ilimitadas que aparecem quando se comparam co as sociedades entre si. e a A antropologia americana: Tendo tido um crescimento r´pido com o impulso especialmente do evolua cionismo e de seu principal te´rico Lewis Morgan. como se este fosse um bloco homogˆneo e Imut´vel. etnomedicina. que apenas esbo¸aremos aqui. n˜o ´ de forma alguma um campo de investiga¸ao dado a e c˜ (a tecnologia.2 Determina¸oes Culturais c˜ Uma segunda via. de definir uma disciplina (qualquer que seja). Ou seja. Esse estudo. essa area. consistiria em mostrar o c que a pesquisa do antrop´logo deve a cultura ` qual ele pr´prio pertence. pode ser caracterizada da o seguinte maneira: 1) trata-se de um tipo de pesquisa que destaca a diversidade das culturas. o parentesco.76 CAP´ ITULO 6. Limitura o a nos-emos a trˆs: a antropologia americana. c˜ visa evidenciar a especificidade das personalidades culturais. Mostraree a mos quais foram os caracteres culturais distintivos que marcavam profundamente e continuam influenciando v´rias sociedades nas quais o pensamento e a a pr´tica (antropol´gicas est˜o hoje particularmente desenvolvidos. INTRODUCAO: ¸˜ Se deixamos de lado essa primeira forma poss´ ıvel de exposi¸˜o do campo ca antropol´gico contemporˆneo. e n˜o seria satisfat´rio relacion´-las `penas ao a o a a ”Ocidente”. mas. o ` a o As condi¸oes hist´ricas e sociais de produ¸˜o do saber antropol´gico s˜o c˜ o ca o a eminentemente diversificadas. ´ porque consideramos que uma disciplina o a e cient´ ıfica (ou que pretende sˆ-lo) n˜o deva ser caracterizada por objetos e a emp´ ıricos j´ constitu´ a ıdos. o a a a . pelo contr´rio. e sim a especificidade da abordagem o utilizada que transforma esse campo. etnomusicologia. 6.). muito menos uma area a ´ geogr´fica ou um per´ a ıodo da hist´ria. . de que s´ se domina a pr´tica para uma ´rea geogr´fica limitada. esse per´ ´ ıodo em objeto cient´ ıfico. a arte. Disso decorre a ca Subespecialidades: etnoling¨´ uıstica. a britˆnica h francesa. etnopsiquiatria. . a unica coisa pass´ ´ ıvel. pela constitui¸ao de objetos a c˜ formais.

indo das sociedades ”primitivas”`s ”civilizadas”. o que a op˜e a antropologia amee o ` ricana. tal como se apresenta no momento no qual a observamos. das rela¸oes da etnologia com a psicologia a c˜ ou a psican´lise: a 2) a antropologia americana n˜o se interessa apenas pelos processos de ina tera¸ao entre os indiv´ c˜ ıduos e sua cultura. em contrapartida. que se constituiu desde Malinowski e em oposi¸˜o a uma compreens˜o hist´rica do social (as reconstru¸˜es hica a o co pot´ticas dos est´gios. bem e a a como a abordagem da historiografia). em especial. a abordagem evolucionista sob a forma do a que ´ hoje chamado neo-evolucionismo e A antropologia britˆnica: a Seu crescimento. nem pelo que empresta a seus vizinhos. Dedica-se preferencialmente a inves` tiga¸ao do presente a partir de m´todos funcionais (Malinowski). .2. e. 2) ´ uma antropologia antidifusionista. tamb´m muito r´pido. O modelo pode portanto ser qualificado de sincrˆnico. Pode ser caracterizada da ` a e seguinte maneira: 1) ´ uma antropologia antievolucionista. estruturais (Radcliffe-Brown): uma sociedade deve ser estudada em si. deve ser e a relacionado a importˆncia de seu imp´rio colonial. em seus deo senvolvimentos contemporˆneos. Para a maioria dos pesquisadores ingleses. a qual se preocupa em compreender o processo de transmiss˜o dos a elementos de uma cultura para outra. independentemente de seu passado. ao contr´rio do que ocorreu na Fran¸a e na Inglaa c terra. ´ o ındia e portorriquenha). mas. reatualizou e renovou ao mesmo tempo. c˜ c˜ aos problemas colocados por suas pr´prias minorias (negra. 4) acrescentemos finalmente que se a antropologia americana contribuiu muito cedo em grande parte (Boas) para pˆr um fim a arrogˆncia das reconstitui¸˜es o ` a co hist´ricas especulativas. mas tamb´m entre as pr´prias1 e o culturas: forjou. uma sociedade n˜o deve ser explicada nem pelo que herda de seu a passado. aos processos da coloniza¸ao e descoloniza¸ao. DETERMINACOES CULTURAIS ¸˜ 77 importˆncia. em sec˜ e guida. 3) nunca foi confrontada.6. como nos Estados Unidos. nos Estados Unidos. o enquanto a pesquisa baseia-se no levantamento da totalidade dos aspectos que constituem uma determinada sociedade: a monografia. o conceito de ”acultura¸ao”ao qual voltaremos c˜ mais adiante.

que se desenvolve muito rapidamente. c˜ ´ Quando se falava de antropologia. c e e e Lembremos tamb´m a importˆncia que teve a antropologia f´ e a ısica e pr´-hist´rica na Fran¸a e o c (em rela¸˜o notadamente ` influˆncia consider´vel exercida no final do s´culo XIX pelas ca a e a e ciˆncias positivas e experimentais no pa´ de Pasteur e de Claude Bernard) e ıs 2 . tratava-se da antropologia f´ ısica. que era ent˜o ilustrada pelos trabalhos de Broca. INTRODUCAO: ¸˜ 3) ´ uma antropologia de campo. a e partir do in´ do s´culo. a partir ca de um trabalho exigindo longas estadias no campo) e indutivo da pr´tica dos a antrop´logos ingleses ap´ia-se numa longa tradi¸˜o britˆnica: o empirismo o o ca a dos fil´sofos desse pa´ que se pode opor ao racionalismo e ao idealismo o ıs. e e e As preocupa¸oes da antropologia francesa estavam voltadas para outra area. que considera o estudo do homem apenas sob o ˆngulo da a ra¸a. Hoje ainda. mais ainda que Malinowski. que pua blicou em 1876 uma obra intitulada simplesmente A Antropologia. a influˆncia de um Tylor (inglˆs) ou de um Morgan (americano). com Radcliffe-Brown. e vˆ a abordagem de um e e L´vi-Strauss como tipicamente francesa: racionalista e idealista. c o a etnologia francesa dessa ´poca permanecia ainda uma etnologia selvagem. ´ uma antropologia social que. Nenhum pesquisador francˆs teve. com Malinowski e. e que n˜o era praticada por etn´logos e sim por mission´rios e por alguns ada o a Notemos que Gobineau. um antrop´logo que pode ser considee o rado como um dos mais importantes da Gr˜-Bretanha. Enquanto que um a a a ıcio e campo emp´ ırico e te´rico consider´vel se constitu´ tanto nos Estados Unidos o a ıa como na Gr´-Bretanha. e 4) finalmente. nesses dois pa´ a ıses. nunca das culturas (Essai sur iln´galit´ des Races Humaines. enquanto. Quatrefages ou Topinard. A antropologia francesa: A Fran¸a est´ praticamente ausente da cena da antropologia social e culc a tural da segunda metade do s´culo XIX. 1853) era francˆs. privilegia o estudo da organiza¸ao dos sistemas sociais em detric˜ mento do estudo dos comportamentos culturais dos indiv´ ıduos. antes. e e nessa ´poca. um dos pais fundadores de quem a maioe ria dos antrop´logos britˆnicos contemporˆneos se considera sucessora.78 CAP´ ITULO 6. do pensamento francˆs. ao contr´rio da antropologia e a americana. n˜o hesita em a a qualificar-se de ”empirista”. administradores utilizavam cada vez mais os servi¸os de antrop´logos formados nas universidades. Leach. o ıcio e qual ´. Esse o a a car´ter emp´ a ırico (observa¸˜o direta de uma determinada sociedade.2 Esse atraso da etnologia francesa – muito importante se considerarmos a intensa atividade que se desenvolvia do outro lado do canal da Mancha e do Atlˆntico – n˜o ser´ recuperado no in´ do s´culo XX. e at´ de ”materialista”.

conv´m lembrar os noves de Tauxier. a antropologia francesa entrou em sua maturidade. com o impulso especialmente dos o homens que acabamos de citar. c˜ o o o sem d´vida. Publicou notadaı mente Les Noirs de 1’Afrique e L’Ame N`gre (1922). DETERMINACOES CULTURAIS ¸˜ ministradores de colˆnias francesas. Nem a a a a Durkheim (cujo pensamento vai impregnar profundamente a antropologia inglesa). Entre os pioneiros desse africanismo e francˆs principiante. O segundo se tornou professor na Escola Colonial. nunca realizou uma investiga¸ao no campo. mission´rio da Su´ca romanche a ı¸ 3 . O pr´prio Mauss. Lembrea mos apenas aqui alguns aspectos relevantes: • as preocupa¸˜es te´ricas dos antrop´logos franceses que aparecem parco o o ticularmente quando confrontamos seus trabalhos (e debates) a pr´tica ` a da antropologia anglo-saxˆnica. A partir da mesma ´poca. empreendeu trabalhos (1946. 1985) que podem ser qualificados de pioneiros. manual de investiga¸ao e c˜ etnogr´fica (1967). enquanto Paul Rivet passava a ser um dos principais artes˜os a da organiza¸ao da antropologia no nosso pa´ A partir dessa ´poca.3 o 79 Mais uma vez. • um objeto de predile¸˜o que ´ o estudo dos sistemas de ”representa¸˜es” ca e co Clozel e Delafosse estudaram no in´ ıcio do s´culo o sistema jur´ e ıdico das popula¸˜es co do Sud˜o. exercer˜o uma influˆncia decisiva na constitui¸˜o cient´ u a e ca ıfica da etnologia.2. freq¨entemente mais emp´ o u ırica. as pesquisas foram prosseguindo. e que permaneceu por mais de 20 anos na Nova Caledˆnia como mission´rio o a protestante. Seria dif´ ıcil. que s˜o e e a administradores coloniais eruditos. Maurice Leenhardt. A partir desse momento. e s´ a partir dela. a c˜ Ser´ preciso esperar os anos 30 para que uma verdadeira etnografia proa fissional comece a se constituir na Fran¸a. mas c˜ ıs. principalmente em algumas frases. A primeira miss˜o de car´ter c a a cient´ ıfico (a famosa ”Dacar-Djibuti”) ser´ efetuada por Mareei Griaule e a seus colaboradores em 1931. estendendo o aprofundando-se em um ritmo ininterrupto. mas n˜o s˜o sustentadas por nenhuma pr´tica etnogr´fica. diretor da Revue a d’Ethnographie e co-fundador do Institu´ d’Ethno-logie de Paris (1924). caracterizar os desenvolvimentos propriamente contemporˆneos dessa pesquisa francesa. nem L´vy-Bruhl efetuaram qualquer observa¸ao. e c˜ o que ´ paradoxalmente autor de uma excelente obra. Labouret.6. cuja riqueza a n˜o tem mais nada a invejar dos Estados Unidos ou da Inglaterra. as preocupa¸˜es francesas est˜o voltadas para outros aspecco a tos: trata-se dessa vez de preocupa¸oes te´ricas de fil´sofos e soci´logos que. Monteil. e sobretudo ]unod. pode-se considerar que.

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CAP´ ITULO 6. INTRODUCAO: ¸˜ (particularmente a religi˜o, a mitologia, a literatura de tradi¸ao oral), a c˜ termos que devemos a Dur-kheim, enquanto L´vy-Bruhl j´ se interese a sava pelo que chamava de ”mentalidades”; • uma renova¸˜o metodol´gica, com o impulso especialmente: ca o

1) do estruturalismo (do qual L´vi-Strauss ´ evidentemente o representante e e mais ilustre), 2) de pesquisas conduzidas dentro da perspectiva do marxismo;

• um crescimento muito recente, mas apoiado em uma s´lida tradi¸ao, da o c˜ etnografia, da museografia e da etnologia da pr´pria sociedade francesa, o em suas diversidades e muta¸oes. c˜

6.3

Os Cinco P´los Te´ricos Do Pensamento o o Antropol´gico Contemporˆneo o a

´ Uma terceira via deter´ mais nossa aten¸ao. E para essa que finalmente a c˜ optaremos, e ´ a partir dela que se organizar´ a segunda parte desse lie a vro. Pareceu-nos que, desde sua conslitui¸˜o enquanto disciplina de voca¸ao ca c˜ 4 cient´ ıfica, a antropologia oscila entre v´rios p´los te´ricos que aparecem a o o freq¨entemente como exclusivos uns dos outros, mas s˜o de fato pontos de u a vista diferentes sobre a mesma realidade. Tentaremos, portanto, dar conta do desenvolvimento contemporˆneo da ana tropologia, n˜o nos colocando mais do lado dos territ´rios particulares (tera o rit´rios tem´ticos como a antropologia econˆmica, a antropologia religiosa, a o a o antropologia urbana), nem do lado das colora¸˜es nacionais, explicativas das co tendˆncias culturais da pr´tica dos pesquisadores, mas do lado dos m´todos e a e de investiga¸ao. c˜ A pluralidade dos modelos mobilizados e utilizados n˜o tem, a meu ver, a nada de desvantajoso. E seria errˆneo atribuir exclusivamente a impress˜o o a de cacofonia que d˜o freq¨entemente os congressos e reuni˜es de antrop´logos a u o o
As funda¸˜es antropol´gicas de Morgan, o aperfei¸oamento de instrumentos de invesco o c tiga¸˜o verdadeiramente etnogr´ficos com Boas, Rivers e Malinowski, a elabora¸˜o de um ca a ca quadro de referˆncia conceitual com Mauss e Durkheim e
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´ ´ ´ ˆ 6.3. OS CINCO POLOS TEORICOS DO PENSAMENTO ANTROPOLOGICO CONTEMPORANE a uma imaturidade cient´ ıfica e ao car´ter ainda principiante de nossa discia plina. Novamente, procurando estudar a pluralidade, seria o c´mulo se a u antropologia n˜o fosse ela mesma ”plural”. A pluralidade ´ pelo contr´rio a e a para mim, uma das garantias (n˜o a unica evidentemente, pois pode haver a ´ pluralidade de dogmatismos e ortodoxias) de que nossas pesquisas aceitam sujeitar-se a cr´ ıticas rec´ ıprocas e passar por processos de invalida¸˜o (cf. K. ca Popper, 1937), cada um dos modelos te´ricos sendo apenas uma perspectiva o sobre o social e n˜o o pr´prio social. a o Em As Palavras e as Coisas, Michel Foucault distingue o que ele chama de trˆs ”regi˜es epistemol´gicas”, em torno das quais se constitu´ e o o ıram, a partir do s´culo XIX, os diferentes saberes positivos sobre o homem: a biologia, ciˆncia e e do ser vivo; a economia, ciˆncia da produ¸ao e das rela¸˜es de produ¸˜o; a e c˜ co ca filologia, ciˆncia da linguagem e de suas diversas express˜es (mitologias, lie o teraturas, tradi¸oes orais. . .). Mais precisamente, diz Foucault: c˜ • a biologia ´ o estudo das fun¸˜es do homem nas suas regula¸oes fie co c˜ siol´gicas e nos seus processos de adapta¸ao, bem como o estudo das o c˜ normas reguladoras dessas fun¸oes; c˜ • a economia ´ o estudo dos conflitos entre o homens, a partir das rela¸oes e c˜ sociais do trabalho, bem como das regras que permitem controlar esses conflitos; • a filologia ´ o estudo do sentido que elaboramos em nossos discursos, e bem como do sistema que constitui sua coerˆncia. e A ”regi˜o”biol´gica, considera Foucault (1966), encontra um de seus proa o longamentos no campo psicol´gico que estuda nossos processos neuromotoo ` res, mas tamb´m nossa aptid˜o em elaborar fantasias e representa¸oes. A e a c˜ ”regi˜o”econˆmica pertence o campo sociol´gico que explora as rela¸˜es de a o o co poder. Finalmente, a ultima regi˜o vai dar lugar ao espa¸o ling¨´ ´ a c uıstico, as ` disciplinas que chamamos hoje de ciˆncias da comunica¸˜o, que se d˜o como e ca a objeto a an´lise de todas as manifesta¸oes escritas, orais e gestuais. a c˜ O que ´ importante notar, ainda de acordo com o autor de /ls Palavras e e as Coisas, ´: e 1) o car´ter inconsciente das normas, das regras e dos sistemas, em rela¸˜o a ca as fun¸˜es, aos conflitos e `s significa¸oes; ` co a c˜ 2) o fato de que esses diferentes pares conceituais (fun¸˜o/norma, conflito/regra, ca

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CAP´ ITULO 6. INTRODUCAO: ¸˜

sentido/sistema) podem deslocar-se para fora dos territ´rios nos quais apao receram. Assim, por exemplo, o estudo do social tende a apreender o homem em termos de regras e conflitos. Mas tamb´m pode ser conduzido a partir e dos conceitos de fun¸oes e normas (Durkheim, Malinowski) ou a partir do c˜ sentido e do sistema (Griaule, L´vi-Strauss). e Dispondo dessa orienta¸ao, o que procurarei mostrar agora, falando em meu c˜ nome pessoal, ´ que: e 1) o objeto da antropologia ´ t˜o complexo que n˜o podia dotar-se de um e a a unico modo de acesso sem correr o risco do esp´ ´ ırito de ortodoxia. E efetivamente, no per´ ıodo de aproximadamente meio s´culo que estudaremos, e veremos nossa disciplina utilizando sucessiva ou simultaneamente v´rios moa dos de acesso. 2) a reflex˜o antropol´gica n˜o pode deixar de lado o conceito de inconsa o a ciente, forjado no ˆmbito do discurso psicanal´ a ıtico, mas do qual este n˜o tem a evidentemente o monop´lio. Somente o car´ter inconsciente das normas, o a regras e sistemas nos permite compreender que a partir dos trˆs campos do e saber determinados por Michel Foucault estaremos confrontados com pesquisas etnol´gicas de car´ter emp´ o a ırico e a pesquisas preocupadas da constru¸˜o ca de seu objeto cient´ ıfico; o qual nunca ´ dado, e sim conquistado, sendo por e assim dizer arrancado da percep¸˜o consciente imediata tanto dos atores soca ciais quanto das observadoras do social. Levando em conta o que foi dito, parece a meu ver poss´ localizar cinco ıvel p´los em torno dos quais a antropologia oscila constantemente. o 1) A antropologia simb´lica. Seu objeto ´ essa regi˜o da linguagem que chao e a mamos s´ ımbolo e que ´ o lugar de m´ltiplas significa¸oes,5 que se expressam e u c˜ em especial atrav´s das religi˜es, das mitologias e da percep¸ao imagin´ria e o c˜ a do cosmos. Esse primeiro eixo da pesquisa caracteriza-se mais, como veremos, por um tipo de preocupa¸oes do que por um m´todo propriamente dito. c˜ e Trata-se de apreender o objeto que se pretende estudar do ponto de vista do sentido. O que significam as institui¸oes ou os comportamentos que enconc˜ tramos em tal sociedade? O que se pode dizer a respeito daquilo que uma sociedade expressa atrav´s da l´gica de seus discursos? e o

Sobre a defini¸˜o antropol´gica do s´ ca o ımbolo, autorizo-mo a indicar meu livro t.es 50 Mots Cl´s de /’Anthropologie. Toulouse. Privai, 1974. e

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1970). a articula¸ao) entre a ordem da natureza e a da cultura. no caso c de L´vi-Strauss. ´ uma antropologia freq¨entee u mente emp´ ırica. Bateson). ´ o de fun¸ao o ıcio e c˜ (Malinowski. com autores de quem est˜o. mas tamb´m Durkheim). os mais numerosos. muito afastados. Mas o que permite essencialmente caracterizar essa tendˆncia de nossa disciplina ´ o crit´rio da continuidade ou e e e descontinuidade entre a natureza e a cultura de um lado. o conhecimento. E um eixo c˜ c˜ co de pesquisa que n˜o se interessa diretamente para as maneiras de pensar. escolhem um modelo ling¨´ uıstico. e entre as pr´prias o culturas. em si. e para a e co Devereux uma ”universalidade da cultura”). privilegiam a des-continuidade. matem´tico. isto ´ a coerˆncia e e interna e a diferen¸a irredut´ de cada cultura. Seja o modelo utilizado. de quem falaremos adie ante. sentir. expressar-se. ou ling¨´ uıstico (Sapir. 1967). OS CINCO POLOS TEORICOS DO PENSAMENTO ANTROPOLOGICO CONTEMPORANE 2) A antropologia social. para Malinowski. Mas a e e . do sentido. esfor¸am-se em pensar a continuidade (ou.3. Qual a finalidade de tal institui¸˜o? Para que serve ca ca tal costume? A que classe social pertence aquele que tem tal discurso. cibern´tico (L´vi-Strauss. Estudaremos aqui n˜o s´ uma. que se situa do lado da fun¸ao ou. freq¨entemente ligado ao estudo dos e u ´ processos de normaliza¸ao destas fun¸oes (= as institui¸˜es). Uns utilizam um modelo a o psicanal´ ıtico. mais ainda. ca b) Enquanto um grande n´mero de antrop´logos salienta a universalidade u o da cultura (para Morgan. acima M. as sociedades s´ s˜o pens´veis porque pertencem a o a a um tronco comum. outros finalmente. a) Enquanto autores como Bateson ou L´vi-Strauss. outros um modelo proveniente do que Foucault designa como o campo epistemol´gico da economia (Mauss elabora. psicol´gico o o (Kardiner. Seu objeto situa-se claramente no campo epistemol´gico oriundo da economia (cf. a partir da qual podem ser estudados o pensamento. mais exatamente. e c˜ os que chamamos ”aculturalistas”. privilegiam claramente a solu¸˜o da descontinuidade.´ ´ ´ ˆ 6. Foucault). biol´gico. e mais para a organiza¸ao interna dos c˜ grupos. no que diz a respeito ao essencial. c ıvel c) A antropologia estrutural e sistˆmica. e a o mas v´rias correntes do pensamento antropol´gico. como vimos. h´ uma permanˆncia das fun¸˜es. a conhecer. Um dos conceitos opeo o o rat´rios a partir do qual essa perspectiva de in´ se instaurou. sobretudo a respeito disso. como Evans-Pritchard ou Devereux. Nada distingue o realmente seu territ´rio do territ´rio do soci´logo. e qual ´ o n´ de integra¸ao dessa classe na sociedade global? e ıvel c˜ 3) A antropologia cultural. as regras o explicativas da troca). a linguagem. de outro. c˜ em detrimento da norma e do sistema. a emo¸˜o. os culturalistas mais uma vez.

fora. na obra de arte?. e Enquanto nos situ´vamos por exemplo do lado da fun¸ao. do sentido e o o o o do n˜o-sentido. ´ a pertinˆncia dos pares a e e antinˆ-micos do normal e do patol´gico. Invers˜o de perspectiva o a a neste caso. Assim. existe uma ”mentalidade primitiva”exclusiva e de tudo que ´ pr´prio do homem da l´gica. quando a atividade epistemol´gica come¸a a o a o c situar-se do lado da norma (e n˜o mais da fun¸ao). Para Griaule. quanto no mito. isto ´. INTRODUCAO: ¸˜ qualquer que seja o modelo adotado. que se reorganizar´ o conhecimento antropol´gico contemporˆneo. do sistema (e n˜o mais do sentido). de fato. 5) A antropologia dinˆmica. ent˜o. Para a ete a e nologia de L´vy-Bruhl (1933). ´ porque. mas que se inscreve no mesmo horizonte c˜ epistemol´gico. o alteridade sempre a c˜ corria o risco de ser considerada (e rejeitada) no espa¸o da extraterritorialic dade: ao lado. estima-se que al´m da surpreendente diversidade das forma¸˜es psicol´gicas ou das e co o produ¸oes culturais localizadas a n´ emp´ c˜ ıvel ırico existe o que Bastian j´ chaa mava de ”unidade ps´ ıquica da humanidade”. o normal e o anormal n˜o tˆm nada em comum. a Se insistimos tanto desde j´ sobre esse quarto p´lo da pesquisa. como na antropologia estrutural. Reunimos nesse termo um eixo da pesquisa a antropol´gica contemporˆnea que se situa no horizonte do que Foucault6 o a chama de campo sociol´gico. Uma das principais quest˜es que se colocar´ ent˜o ´ a seo a a e guinte: quais s˜o as estruturas inconscientes do esp´ a ırito que atuam. mas ao n´ do sistema a ıvel co ıvel (inconsciente). do conflito c˜ para a regra (Mauss). o c˜ . em rela¸ao ao anterior. a o a Na antropo logia psicanal´ ıtica. e que procura estudar as rela¸oes de poder. a o e com ele. Saussure. finalmente (1966). p. para a psicologia e pr´-freudiana. do sentido para o sistema (L´vi-Strauss). e os a mitos ”insignificantes”. e o o ´ as institui¸oes e mitologias plenamente significantes da Africa tradicional. tanto nas formas elementares e complexas do parentesco. ele realiza uma passagem do consciente para o inconsciente: passagem da fun¸ao para a norma (Roheim). ”absurda”. n˜o ´ mais poss´ pensar que a a e ıvel os doentes mentais s˜o ”loucos”. . e depois Jakobson (a l´ ıngua explicativa da palavra). da regra (e n˜o mais do a c˜ a conflito). Ao contr´rio. E e ´.84 CAP´ ITULO 6. do l´gico e do il´gico. . 53 deste livro). em torno das obras de Freud (o inconsciente explicativo do conse ciente). Mas esta deve doravante ser pensada. de L´vi-Strauss e dos estruturalistas (a prio ridade dada ao sistema sobre o e sentido). o campo epistemol´gico do sabei sobre o homem muda radicalmente o pela segunda vez desde o final do s´culo XVIII (cf. O que desmorona. para sempre diferente. ` c˜ op˜e-se a insignificˆncia do Ocidente industrial. n˜o mais ao n´ das significa¸˜es vividas. a ”mentalidade primitiva”.

por exemplo. e alguns inclusive preferem qualificar-se de sociol´gos. Uma o das caracter´ ısticas de suas contribui¸˜es para a antropologia do s´culo XX. Kardiner.´ ´ ´ ˆ 6. por exemplo. consiste. se a examinarmos do ponto de vista. 7 .dos objetos preferencialmente estudados (os mitos). pelo contr´rio. no final de sua vida (1968h a universalidade da fun¸˜o ca superou finalmente a particularidade das culturas. entre a antropologia estrutural e a antropologia dinˆmica a (Godelier. Mas seu projeto o diz respeito ` antropologia social (´ o nome do laborat´rio que L´vi-Strauss chefiou no a e o e Coll`ge de Francel e sua abordagem pertence evidentemente (e ´ at´ constitutiva dele) ao e e e quarto eixo de pesquisa definido acima. ´ dif´ imaginar como se poderia conciliar uma ca e ıcil antropologia baseada na no¸˜o de integra¸˜o social (Malinowski) e uma antropologia de ca ca orienta¸˜o dinˆmica (Balandier) ou psicanal´ ca a ıtica (Devereux). ou mesmo de um unico ´ 7 pesquisador. mas e o a tamb´m dentro de uma mesma disciplina. 1970) sobre os e culturalistas americanos. a antropologia cultural e a antropologia funcional (Malinowski). 1973). ao mesmo tempo a hist´ricos (sociedao des im´veis que podem ser estudadas como se a coloniza¸˜o n˜o existisse) o ca a e finalistas (institui¸oes visando satisfazer as necessidades). por exemplo.3. Em compensa¸˜o. Mas. em reorientar a antropologia social. conv´m n˜o isolar essa area particular do homem que a e a ´ seria a hist´ria. esta situa-se. exerceu uma influˆncia evidente (cf. operando uma ruptura total com o funcionalismo em seus pressupostos. do lado do que chamamos de antropologia simb´lica. Existem portanto afinidades entre. Esta ´ parte integrante do campo antropol´gico. Evidenciando a especificidade da sociedade trobriandesa (1963). A escolha da pieeminˆncia do que Devereux (1972) chamou de motivo opee rante (ou modelo epistemol´gico principal. a meu e ver. que constituem divero sas perspectivas poss´ ıveis visando dar conta de um mesmo objeto emp´ ırico. o come¸o da obra de Malinowski aparece como muito pr´ximo da c o antropologia cultural.. da segunda metade do s´culo XX. Considerando agora a obra de L´vie Strauss. constitutivo da abordagem adoo tada) – o qual pode ser exclusivo (ou n˜o) do lugar concedido a um motivo a instrumental (ou modelo de investiga¸ao complementar) –explica os debac˜ tes. OS CINCO POLOS TEORICOS DO PENSAMENTO ANTROPOLOGICO CONTEMPORANE As interroga¸˜es dos autores dos quais trataremos n˜o est˜o distantes das co a a da sociologia. S˜o tendˆncias de pesquisa que podem a a e a e coexistir dentro de uma mesma escola de pensamento. a que assistimos n˜o apenas entre disciplinas. Para esses auc˜ tores. se estes n˜o tiverem plena consciˆncia do falo de a e que efetuam respectivamente escolhas metodol´gicas. Assim. o e o as quest˜es colocadas s˜o as seguintes: qual ´ a dinˆmica de tal sistema soo a e a cial? De onde vem? Quais s˜o as modalidades atuais de suas transforma¸˜es? a co Esses cinco p´los em torno dos quais se organiza a antropologia contemo porˆnea n˜o tˆm nada de exclusivo. Por isso. e ´ afirmando em seguida a n˜o-existˆncia do complexo de Edipo nessa popula¸˜o melan´sia a e ca e (1967-1970). co e e mais especificamente. ou at´ as discuss˜es. A incompreens˜o entre os pesquie a sadores pode se tornar total.

por exemplo. s´ pode ser. em termos cient´ ıficos. ”aproxio a mado”. o Comte. psicol´gicos (a introdu¸˜o dos conceitos o o ca de inibi¸ao. repress˜o e sublima¸ao para pensar o social). mas n˜o podem subsiitu´ a ı-lo.86 CAP´ ITULO 6. segundo a express˜o de Bachelard. e u a nunca esquecer que se trata somente de modelos. Estes podem ser. Conv´m. como se diz hoje. . biol´gicos (Spencer. INTRODUCAO: ¸˜ Esse problema diz respeito em especial a quest˜o da transferˆncia dos mo` a e delos em antro pologia. hist´ricos (Morgan). ling¨´ o uısticos ou. de instrumentos da e pesquisa que visam explicar o real. pois este. Malinowski). se quic˜ a c˜ e sermos escapar daquilo que ´ freq¨entemente apenas um di´logo de surdos. isto ´. ”informacionais”(a antropologia estrutural e sistˆmica referindo-se as no¸˜es e ` co de mensagens. c´digos e programas).

1962). de que trataremos no pr´ximo o cap´ ıtulo). n˜o apenas o africanismo francˆs. por assim dizer. da m´sica. Dieterlen (1965). a literatura de tradi¸ao oral (mitos. esse pensamento o Cf. 1972). dan¸as. .Cap´ ıtulo 7 A Antropologia Dos Sistemas Simb´licos o Foi a antropologia que se empenhou essencialmente em mostrar a l´gica preo cisa dos sistemas de pensamento mitol´gicos. Dielerlcn (1951. c a Para o conjunto dos etn´logos. o estudo da l´gica dos o saberes (filos´ficos. . prov´rbios. teol´gicos. G. e para Griaule em especial. D. Esses trabalhos1 v˜o marcar duradouraa a mente. m´scaras e outros objetos culturais. primeiro da mitologia dos Dogons. Paulme. bambara. lendas. art´ o ısticos. D Zahan (1960. . religiosos. dos e o u cantos. a compreens˜o das rela¸oes de poder entre os diferentes protagonistas de uma a c˜ sociedade (assunto da antropologia social. Griaule e G. Griaule (1938. que o o o s˜o os das sociedades qualificadas de ”tradicionais”. Toda uma corrente a de pesquisas aparece na Fran¸a. co o c˜ contos. Calame-Griaule (1965).) e dos instrumentos atrav´s dos quais essas e e produ¸oes se constituem (particularmente as l´ c˜ ınguas). 1966). 1963). . M. G. 1 87 . em suma. particularmente representativa dessas preoc cupa¸oes: ´ a que. a partir dos anos 30. etc. M.. da religi˜o dos Bambaras. cosmol´gicos. cient´ ıficos) existentes num grupo (o que abre o caminho para uma antropologia do conhecimento e para o que hoje qualificamos de ”etnociˆncias”). mas tamb´m a pr´tica etnol´gica a e e a o dos pesquisadores franceses. tal como se expressa atrav´s dos mitos e est´rias tradicionais. Deixando de lado. de tudo que Griaule e seus e sucessores chamam de ”filosofia”das sociedades dogon. e a depois. leva Mareei Griaule e seus colaboc˜ e radores a efetuar estudos sistem´ticos. por exemplo. estes orientam sua aten¸˜o para os seguintes aspectos: o estudo ca das produ¸˜es simb´licas (artesanato).

Como estamos longe do tempo era que Morgan considerava que ”todas as religi˜es primitivas s˜o grotescas e de alguma forma inintelig´ o a ıveis”. que explicaria a fun¸ao dos mitos dentro do sistema social. a natureza e a cultura. ıcio Tempels. que. Percebe-se ent˜o que o conjunto a do edif´ das sociedades africanas baseia-se numa filosofia (cf. e que far˜o em esa pecial. pois s˜o. de fora. e ap´s os ´ o ındios. e n˜o projetando. Mauss (1960). G. a c esperan¸as frustradas”. R. Mas como estamos longe tamb´m das aprecia¸˜es que s˜o no entanto as de muie co a tos pesquisadores contemporˆneos de Griaule. [. S˜o elabora¸oes grandiosas. recolhendo o e mais fielmente poss´ o discurso dos iniciados. . M. Luneau (1975). ritos. e L. e a . por exemplo e Durkheim (1979). v˜os esfor¸os. das fal´sias de Bandiagara (Mali) e de seus habitantes (os Dogons). os abor´ ıgines australianos e os trobriandeses. pelo contr´rio. M. dos ritos de inicia¸˜o. Rouch (1960). para n˜o dizer absurdas e incompreens´ a o a ıveis”. impregnando-nos de sua sabedoria.´ 88 CAP´ ITULO 7. o homem e o animal.Bruhl. J. de Heusch (1971). ıvel a categorias caracteristicamente ocidentais. De Frazer. por exemplo. um dos mais importantes lugares da antropologia. Ou de L´vy-. Van Gennep (1981). a interrogando-se sobre os mitos e as pr´ticas rituais aos quais havia no ena tanto dedicado sua vida. Thomas e R. 1949) e at´ numa ”ontologia”que comanda a concep¸ao toda que e c˜ se tem do mundo e das rela¸˜es dos homens na sociedade. Favrct-Saada (1977). tempo perdido. op˜e-se totalmente ` busca de uma determina¸ao o a c˜ pela economia. c Toda essa tendˆncia do pensamento antropol´gico de que procuramos aqui e o dar conta coloca-se (a partir de observa¸˜es minuciosas) contra esses julgaco mentos. m´scaras. A. A ANTROPOLOGIA DOS SISTEMAS SIMBOLICOS simb´lico e as pr´ticas rituais a ele relacionados2 e que constituem com ele o o a patrimˆnio do grupo. S˜o a a o a elas que devem ser tomadas como fundamentais. L..) que acabam impondo-se ao observador ocidental. Cf. M´traux e (1958). de uma complexidade e riqueza inestim´veis. Leiris (1958). A. c˜ As pr´ticas simb´licas em quest˜o n˜o tˆm de ser fundamentadas sociologicaa o a a e mente. Bastide (1958). M. da religi˜o e da magia aparece a ca a como uma constante da antropologia francesa do conjunto do s´culo XX. 2 . . que anota em seus Carnets: os c e mitos s˜o ”est´rias estranhas. Aug´ e (1982). L´vi-Strauss (1964). Da mesma forma. . escreve: ”loucuras. por exemplo. Durand (1975). a c˜ a E ´ precisamente esse esplendor e essa grandeza (dos mitos. V. n˜o se caracterizam apenas por sua profunda coerˆncia o a e – os sistemas de correspondˆncia extremamente precisos entre os vivos e os e mortos. se aceitarmos finalmente compreendˆ-las de dentro. fundadoras da ordem c´smica e social. ´ e acrescenta: ”E preciso um esfor¸o para se interessar por eles”. C. co O interesse para a ´rea dos mitos.

Mostra que. existem outras formas de c˜ e conhecimento tamb´m autˆnticas. e ca c de sociedade. de personagem”. N˜o se pensa um s´ instante.) como uma ´rea a ”` parte”. apresentado como um ”longo caminhar pelas trilhas canae ques. Esse protesto para o direito ` existˆncia e e a e de identidades culturais e espirituais (o que Senghor. quando o a a n˜o s˜o pura e simplesmente ocultadas. deixando de a c˜ oa se interessar pelo que acontece ”na adega”. a e . pol´ e c˜ ıticas. art´ c˜ ısticas. Dedicando exclusivamente sua aten¸ao ao ”s´t˜o”. na hip´tese de que as sociedades tradicionais possam. . com Grio aule) na Nova Caledˆnia. um trabalho consider´vel sem o qual a a antropologia provavelmente n˜o seria o que ´ hoje. . ”ser movidas a ideologia”. ela efetua a reconstitui¸ao dos c˜ sistemas de pensamento e conhecimento em si pr´prios. de sua no¸˜o de espa¸o. por a a a o exemplo. Mas ser´ que essa abordagem que se e a limita a recolher as representa¸oes conscientes dos mais s´bios entre os inicic˜ a ados locais pode servir de explica¸ao antropol´gica? c˜ o O que conv´m destacar ´ que essa tendˆncia da etnologia cl´ssica inscreve-se e e e a num projeto de reabilita¸ao das formas de pensamento e express˜o que n˜o c˜ a a s˜o as nossas. Assim sendo. chamar´ a de ”metaf´ ısica negra”). Finalmente. fora o saber cient´ a ıfico. As rela¸˜es que estes o co mantˆm com as rela¸oes sociais. a Pessoa e o Mito no Mundo o Melan´sio (1985). ´ profundamente subversivo na primeira mee tade do s´culo XX. Leenhardt considera que o mito ´ e fundador da ”vida e da a¸˜o do homem e da sociedade”. n˜o deixa de haver a um ac´mulo de pesquisas extremamente aprofundadas que contribu´ u ıram em dar a etnologia francesa seu prest´ ` ıgio. o unico a beneficiar de ´ uma plena legitima¸ao no Ocidente do s´culo XX. Trata-se evidentemente mais que de uma renova¸ao: o c˜ de uma invers˜o de perspectivas em rela¸ao a arrogˆncia dos julgamentos a c˜ ` a ocidentalocˆntricos sobre o primitivo.89 Uma abordagem muito pr´xima orienta as pesquisas efetuadas por Mauo rice Leenhardt (um dos primeiros etn´lo-gos franceses de campo. ca Cr´ ıticas n˜o faltaram a essa antropologia que tem de fato tendˆncia a aprea e ender as representa¸oes (religiosas. narrativas. negadas pelas pr´ticas coloniais e que coincide com a a descoberta de ”arte negra”. se n˜o existe nenhuma teoria griauliana e a propriamente dita (retomamos mais uma vez o exemplo de Griaule porque ele nos parece o mais representativo dessa abordagem). o discurso etnol´gico ` o tende a confundir-se com a teoria que a sociedade estudada elabora para dar conta de si pr´pria. como diz o Althusser. atrav´s do pensamento dos insulares. de tempo. econˆmicas da sociedade em um o determinado momento de sua hist´ria s˜o consideradas secund´rias. Em Do Kamo. por exemplo. de palavra.

´ 90 CAP´ ITULO 7. A ANTROPOLOGIA DOS SISTEMAS SIMBOLICOS .

e tamb´m e o valor inestim´vel. ou. pelos deo posit´rios habilitados do saber de uma parte do grupo. religi˜o. n˜o deixam de lembrar os princ´ a ıpios da antropologia simb´lica. tal como se elabora especialmente na Inglaterra com o impulso de Malinowski e sobretudo de Radcliffe-Brown (1968). O antrop´logo o ´ que deve descobrir as leis de funcionamento da sociedade.) permanece. . se o interesse para os sistemas de representa¸˜es (mico tologia. O a a que ´ ent˜o tomado como explicativo precisa ser explicado. esses discursos suntuosos e que expressam menos a sociedade em sua realidade do que a sociedade em seu ideal? Assim. pode ser tamb´m encontrada dentro de cada sociedade. c a c˜ o car´ter integrativo da fam´ da moral. na coerˆncia l´gica dos sistemas de pensamento. mas tamb´m dissimulam. por sua vez. e sobretudo da religi˜o (Durkheim. a e t˜o grande ´ a diferencia¸ao interna dos grupos sociais que comp˜em uma a e c˜ o mesma cultura. A antropologia e a simb´lica realiza em muitos aspectos uma redundˆncia sofisticada daquilo o a que era dito pelos pr´prios fatores sociais. Esta insistia. ao estudo da cultura como sistema de rela¸oes vividas. Essa alteridade da qual a procurava-se mostrar o significado profundo (cap´ ıtulo anterior). A e o antropologia social. um dos primeiros. Assim. ´ para mostrar o lugar e a fun¸ao a e c˜ que s˜o seus dentro de um conjunto maior: a sociedade global em quest˜o. magia. . o como acabamos de ver. a ılia. come¸a destacando a coes˜o das institui¸oes. c˜ Malinowski. mais precisamente.Cap´ ıtulo 8 A Antropologia Social: Os princ´ ıpios da antropologia social. pede que se substitua o estudo da sociedade como sistema de rela¸˜es reais. Perguntamo-nos a agora: o que mostram. que escapam aos atores sociais: ”Os objetivos co sociol´gicos nunca est˜o presentes no esp´ o a ırito dos ind´ ıgenas”. Mas essas duas perspectivas s˜o muito diferentes. e As produ¸˜es simb´licas s˜o simultaneamente produ¸˜es sociais que sempre co o a co 91 . a 1979).

Louis-Vincent Thomas (1975)). E. sublinha-se e c˜ que n˜o se deve atribuir-lhe nenhuma existˆncia autˆnoma pois est´ vincua e o a lada a uma outra coisa. entre grupos sexuais. capaz de explic´-la: as rela¸oes de produ¸ao. para co a a Estamos apenas dando conta. Balandier (1967) para quem a religi˜o ´ a ”linguagem a e do pol´ ıtico”. Evans-Pritchard (1969). N˜o devem ser estudadas em si-. ainda nessa perspectiva (durkheimiana). tamb´m. muito representativos da antropologia social britˆnica da religi˜o. Brad-bury e col. por sua vez. mas enquanto a a representa¸˜es do social. E um ramo da sociologia cujo estudo se liga mais especificao mente `s sociedades primitivas”. esse autor utiliza o exemplo de um processo que confronta juizes. as cr´ ıticas formuladas por M. a ou ainda na Fran¸a. os pensamentos e sentimentos do r´u. mas que s˜o sempre rela¸oes de poder encontrando a c˜ ao mesmo tempo sua express˜o e sua justifica¸˜o nesse saber integrativo e a ca totalizante por excelˆncia que ´ a religi˜o. vai co ´ exercer um papel consider´vel. Aug´ (1979) quanto ` e a no¸˜o de ”representa¸˜o”. assim como podem variar a a idade. pelo menos imediatamente. particularmente na constitui¸ao de uma ana c˜ tropologia social da religi˜o. testemunhas. G. Rogei Bastide (1970). e. mais recentemente. a Henri Desroche (1973). todos esc˜ tes n´ ıveis de realidade. de a c˜ c˜ parentesco. recusam-se a conceder uma pertinˆncia ` distin¸˜o entre a antroe a ca pologia social e a sociologia.92 CAP´ ITULO 8. consagrado por Durkheim.1 e e a Uma outra caracter´ ıstica desse segundo eixo de pesquisa. em uma persa a e pectiva sensivelmente diferente. estreitamente vinculada ao que acabamos de dizer. advogados e r´u: e ”No decorrer desse processo. Douglas (1971). Evans-Pritchard. para o per´ c ıodo contemporˆneo. as rela¸oes entre faixas de idade. jurados. (1969) escreve: ”A antropologia social deve ser considerada como fazendo parte dos estudos ´ sociol´gicos. Cf.. Quando se diz nessa perspectiva que a religi˜o a a (da mesma forma que a arte ou a magia) ´ uma ”representa¸ao”. diametralmente oposto ao de Mauss. do j´ri e u e do juiz sc alterar˜o de acordo com o momento. Este ultimo termo. mas essas varia¸˜es n˜o s˜o de nenhum interesse. os trabalhos de R. ca ca 1 . considera Radcliffe-Brown. Cf. e n˜o dos menores (Radcliffe-Brown (1968). Georges Balandier (1974). a cor dos cabelos e dos olhos dos diferentes protagonistas. E uma ”sociologia comparativa”. (1972) ou de M. de uma op¸˜o poss´ a ca ıvel inscrevendo-se na abordagem da antropologia social. merece ser sublinhada: um certo n´mero de u autores. a Para ilustrar seu ponto de vista. A ANTROPOLOGIA SOCIAL: decorrem de pr´ticas sociais. A antropologia social n˜o ´ profundamente a e ´ diferente da sociologia. a partir do exemplo da religi˜o.

. e notadamente para os que est˜o ligados ` antropologia cultural. Este n˜o se interessa pelos atores do drama enquanto ino a div´duos”. e. mas se inscreve a no prolongamento da sociologia francesa. se efetuarem independentemente suas respectivas pesquisas. ı As rela¸oes entre a perspectiva antropol´gica e a perspectiva psicol´gica. c˜ o o prossegue Evans-Pritchard. 1971). o extremamente proveitosas. A tal ponto que. e a o Estamos frente a uma abordagem tipicamente durkheimiana. nesse caso. seguindo os m´todos que lhes s˜o pr´prios”. podem ser formuladas nos seguintes termos: ”As duas disciplinas s´ podem ser proveitosas uma a outra. que examinaremos a a agora.93 o antrop´logo. a antropologia social n˜o faz parte da antropologia. em especial Lowie. para muitos autores americanos (cf.

94 CAP´ ITULO 8. A ANTROPOLOGIA SOCIAL: .

a ` Quanto a isso. tamb´m a ca e hierarquizados. A antropologia social e a antropologia cultural tˆm portanto um mesmo e 95 . uma hist´ria da antropologia como a de Kardiner e Preble o (1966) – que est´ longe de ser uma das melhores hist´rias de nossa discia o plina.) e para com outros conjuntos. . De outro. e co co c˜ ca de domina¸˜o.). .) que os grupos mantˆm entre si dentro de um mesmo ca e conjunto (etnia. regi˜o.Cap´ ıtulo 9 A Antropologia Cultural: A passagem da antropologia social (particularmente desenvolvida na Fran¸a c e mais ainda na Inglaterra) para a antropologia cultural (especialmente americana) corresponde a uma mudan¸a fundamental de perspectiva. mas essa n˜o ´ a quest˜o – ´ muito caracter´ a e a e ıstica dessa atitude americana. J´ de in´ e a ıcio. . art´ co ısticas. religiosas. . na¸˜o. freq¨entemente quau lificada (de forma um pouco pejorativa) de ”culturalista”. que s˜o considerados reveladores da cultura a qual pertencem. a Para compreender a especificidade dessa abordagem. parece-me importante especificar bem o significado dos conceitos de social e de cultura. De um c lado. bem como suas produ¸˜es originais (artesanais. a e o mas considerado dessa vez sob o ˆngulo dos caracteres distintivos que aprea sentam os comportamentos individuais dos membros desse grupo. . totalmente indepeno dente da sociologia. de explora¸˜o. quanto de suas id´ias. . dedica-se uma aten¸ao muito grande menos c˜ ao funcionamento das institui¸˜es do que aos comportamentos dos pr´prios co o indiv´ ıduos. Trata tanto da personalidade dos principais pesquisadores apresentados. A cultura por sua vez n˜o ´ nada mais que o pr´prio social. O social ´ a totalidade das rela¸˜es (rela¸˜es de produ¸ao. coloca o que ´ uma constante e da pr´tica antropol´gica nos Estados Unidos: sua rela¸˜o a psicologia e ` a o ca ` a psican´lise. a antropologia se torna uma disciplina autˆnoma.

. de encontrar. de pensar. o que distingue a sociedade humana da sociedade animal. Detenhamo-nos um pouco para sublinhar que. a especializa¸ao hier´rquica a c˜ a c˜ a das tarefas (tudo isso existe n˜o apenas entre os animais. trabalhar. Fechemos aqui esse parˆntese. trata-se do social tal como pode ser apreendido atrav´s dos come portamentos particulares dos membros de um determinado grupo: nossas maneiras espec´ ıficas. s˜o animadas por um objetivo e uma a ambi¸˜o idˆnticos: a an´lise comparativa. Finalmente. que podem ser regidas por modos de intera¸ao antagˆnicas c˜ o ou comunit´rias. existe o que hoje n˜o se hesita mais em e a chamar de sociologia celular. bem como de modos de organiza¸ao complexos (em fun¸ao a c˜ c˜ das faixas de idade. a antropologia ´ por sua vez especificamente e e humana. ao contr´rio da de sociedade. sendo que.96 CAP´ ITULO 9. que n˜o nos afasta de forma alguma do nosso e a prop´sito. a nosso ver. ´ estritamente humana. mas dentro de uma a unica c´lula!). se distrair. a doen¸a. levantou mais de 50. ıcil ca o Kroeber. um dos mestres da antropologia americana. n˜o ´ de forma alguma a transe a e miss˜o das informa¸oes. e at´ da sociedade celular. da divis˜o hierarquizada do trabaa lho. se pode haver uma sociologia animal a a (e at´. dos grupos sexuais. A ANTROPOLOGIA CULTURAL: campo de investiga¸˜o. Pois. pelo contr´rio. o que se compara no prica e a meiro caso ´ o social enquanto sistema de rela¸oes sociais. existem sociedades animais c at´ formas de socie abilidade animal. Propomos esta: a cultura ´ o conjunto dos comportamentos. c ´ E dif´ dar uma defini¸˜o que seja absolutamente satisfat´ria da cultura. mas. apenas a no¸˜o ca e cultura. reagir frente aos acontecimentos (por exemplo. repetimo-lo. e . Assim. nunca se viu algum soprar as velas de seu bolo a ´ de anivers´rio. enquanto homens e mulheres de uma determinada cultura. a divis˜o do trabalho. e examinemos mais adiante o a 1 Muito mais afirmada por´m na antropologia cultural do que na antropologia social. . se os animais s˜o capazes de muitas coisas. pelo que se sabe. e transe mitidas ao conjunto de seus membros. no e c˜ segundo. define-o melhor. Al´m disso. o nascimento. celular). a morte). saberes e sabere fazer caracter´ ısticos de um grupo humano ou de uma sociedade dada. utilizam os mesmos m´todos (etnogr´ficos) ca e e a de acesso a este objeto. sendo essas atividades adquiridas atrav´s de um processo de aprendizagem. e por elabora¸˜o ca das atividades rituais aferentes a estes. e sim essa forma de comunica¸ao propriamente cultural que se ´ e c˜ d´ atrav´s da troca n˜o mais de signos e sim de s´ a e a ımbolos.). E a raz˜o pela qual. Da mesma a e forma que existe (isso n˜o ´ mais sequer discutido hoje) um pensamento e a e uma linguagem nos animais.1 Mas. Indo at´ mais adiante.

*** Um certo n´mero de obras representativas dessa abordagem – escritas em u sua maior parte por americanos 2 – merece ser citado. salienta a originalidade de tudo que devemos ` sociea dade ` qual pertencemos. difus˜o. a 2) Ela conduz essa pesquisa a partir da observa¸ao direta dos comportac˜ mentos dos indiv´ ıduos. bem como suas t´cnicas u e de investiga¸ao (por exemplo. 1972) e a que pode ser considerado como o mestre da antropologia cultural francesa. de ado¸ao (ou imposi¸ao) das normas de uma cultura por c˜ e c˜ c˜ outra. que est˜o. 2 . pelo indiv´ ca a ıduo. encontra v´rias a preocupa¸oes comuns aos psic´logos. esse campo de pesquisa. para o per´ a a ıodo contemporˆneo. designado pela express˜o ”cultura e personalidade”. sem que estes o percebam). J. c o Deter-nos-emos em trˆs deles. Rabain (1979) e lembremos a a influˆncia consider´vel que exerceu e continua exercendo Roger Bastide (1950. estreitamente ligae a dos entre si. a partir dos anos 30. os trabalhos de Ortigues (1966). mas ıvel ` ` sobretudo espaciais). isto ´.97 os tra¸os marcantes dessa antropologia que qualifica a si pr´pria de cultural. Procurando compreender a natureza dos processos de aquisi¸˜o e transmiss˜o. 1) A antropologia cultural estuda os caracteres distintivos das condutas dos seres humanos pertencendo a uma mesma cultura. Erny (1972). Citemos notadamente. intera¸ao e ˆ a c˜ acultura¸ao. como uma das areas da antropologia na qual o ´ a colabora¸˜o pluridisciplinar se torna sistem´tica. e ca particularmente sob o angulo dos processos de contato. extremamente desenvolvido a nos Estados Unidos e relativamente negligenciado na Fran¸a e Gr˜-Bretanha. 1927: Margaret Mead Notemos por´m que a contribui¸˜o dos pesquisadores franceses na ´rea da antropologia e ca a cultural est´ longe de ser negligenci´vel. Atenta as descontinuidades (temporais. os testes projetivos. ca a 3) Finalmente. como veremos. mas modela a o comportamento dos indiv´ ıduos. sempre singular (a forma como esta n˜o apenas informa. utilizados pela primeira c˜ vez em etnologia por Cora du Bois). Utiliza porc˜ o tanto freq¨entemente os modelos conceituais destes. Assim. c a imp˜e-se. considerada como uma totalidade irredut´ a outra. tais como se elaboram em intera¸ao com o grupo e o c˜ meio no qual nascem e crescem estes indiv´ ıduos. 1965. psicanalistas e psiquiatras. de uma cultura. a antropologia cultural estuda o social em sua evolu¸˜o.

. A ANTROPOLOGIA CULTURAL: publica Corning of Age in Samoa. na qual os homens se dedicam aos filhos. a maneira com que descansamos. ´ que conv´m n˜o atribuir a natureza o que diz respeito ` cultura. como alguns na Asia. 1943: Roheim. Asc˜ c sim como na sociedade Chaumbuli. apoiando-nos em uma s´ perna. ıvel qualificada por Kardiner de ”personalidade de base”. 1944: e c˜ ca Cora du Bois. dificilmente suportam a maciez de um colch˜o. multiplicaremos os exemplos. co e e a ` a ou seja. este ultimo coment´rio deve a porem ser relativizado no que diz respeito a Rohem. 3 . Assim. 1) A varia¸˜o cultural pode ser encontrada em cada um dos aspectos de ca nossas atividades. . n˜o considerar como universal o que ´ relativo. e n˜o nos passaria pela cabe¸a a c ´ descansar. 1945: Linton. na ilha de Alor. a Consideremos agora os comportamentos adotados para penetrar nos edif´ ıcios religiosos. s˜o as mulheres que a c a cultivam a terra enquanto os homens cuidam da educa¸ao das crian¸as. que desenvolve a id´ia de que a cultura c˜ e ´ uma sublima¸ao decorrente da imperfei¸˜o do feto humano ao nascer. solo. as mulheres se dedicam ` cerˆmica. sentimos dificuldade em dormir – a como me aconteceu no Brasil – em uma rede. 1934: Amostras de Civiliza¸ao. que ser´ retomado em H´bitos e Sexualia a dade na Oceania. Como essa corrente de pesquisa. enquanto as mulheres v˜o pescar. c e Como mostrei em meu livro sobre A Etnopsiquiatria. Nas sociedades nas quais os homens dormem diretamente no. sempre baseadas em numerosas observa¸˜es. Inversamente. 1939: Kardiner. Inversamente. quando. de Ruth Benedict. 2) ao n´ da totalidade da nossa personalidade cultural. observamos que os fi´is tiram e o chap´u e permanecem com os sapatos. O Povo de Alor. Nas a sociedades do Oeste africano. e os mu¸ulmanos tiram os sapatos e permanecem com o chap´u. enquanto a a os homens v˜o para a ro¸a. Origem e Fun¸ao da Cultura. 1950: Roheim. o Tomemos um outro exemplo: a divis˜o do trabalho entre os sexos. ao penetrar numa igreja. Psican´lise e Antropologia.98 CAP´ ITULO 9. em uma mesquita. em 1935. certamente a obra mais caracter´ c˜ ıstica do culturalismo americano. a O que mostram essas diferentes obras. um livro que foi um marco. que procuraremos apresentar o mais fielmente poss´ ıvel. Os Fundamentos Culturais da Personalidade: 1949: Herskovitz. Na Europa.3 Essa compreens˜o a e a da irredut´ diversidade das culturas que ´ o eixo central da antropologia ıvel e cultural – aparece ao mesmo tempo: 1) ao n´ dos tra¸os singulares dos ıvel c comportamentos. O Indiv´ ıduo e Sua Sociedade-. As Bases da Antropologia Cultural.

Assim. n˜o apenas de a a uma civiliza¸ao para outra. decorrentes da cultura a qual pertencemos.99 As formas de hospitalidade tamb´m testemunham de uma extrema diversie dade podendo. Finalmente. e e a ca enquanto que nas sociedades asi´ticas e norte-europ´ias. uma a c casa da juventude) que tem como objetivo encorajar os jogos sexuais. acec˜ nar a cabe¸a e sorrir. De um lado. enquanto os Muria da ´ ındia (cf. olhar fixamente a e algu´m com insistˆncia causa um incˆmodo que se traduz por uma impress˜o e e o a de amea¸a e agressividade. sentados no terra¸o a c de um bar ou passeando na rua. sul-americanas e sula europ´ias. como h´spede. durante minha primeira estadia em pa´ Ba´le (Costa ıs u do Marfim). fiquei pessoala mente impressionado. assinala um encontro amig´vel na Nova Guin´ ou na c a e Europa. que n˜o era nada menos que a filha mais bonita da casa. com o convite que me era sistematicamente feito o de uma refei¸ao preparada em minha homenagem. por outro lado. na idade da puberdade. Elwin. 1959) institucionalizavam essa pr´tica preservando um espa¸o (por assim dizer. Por outro lado. Imp˜e-se pelo contr´rio. mas ´ censurada por ser considerada indecente no Jap˜o. como no exemplo acima. Esses mesmos interlocutores. As trocas e a de contatos cutˆneos entre dois interlocutores s˜o extremamente reduzidas a a nos pa´ ıses anglo-saxˆnicos assim como no Jap˜o. o a o a como express˜o normal do prazer de encontrar o outro nas sociedades media terrˆneas e sul-americanas. Na Melan´sia. a Diferen¸as significativas. os rituais amorosos s˜o profundamente diferentes. Aqui c˜ c˜ est´ um exemplo recolhido por Margaret Mead que merece ser relatado. tender˜o a diminuir a distˆncia que os separa nas sociedades arabes ou latinoa a ´ americanas. isto ´. consistir na invers˜o pura e simples a daquilo que tom´vamos espontaneamente por natural. a . em um cˆmodo e separadamente de meus hospee o deiros. iniciados nas t´cnicas amorosas por a e monitores experimentados. sob pena de sentir um certo mal-estar. ir˜o manter um certo espa¸o entre si na a c ´ Europa do Norte ou na Asia. mas dentro de -uma mesma civiliza¸ao. mas que devia ser consuc˜ mida isoladamente. meninos a e e meninas s˜o. nas sociedades ´rabes. por exemplo. Assim. poc ` dem tamb´m ser encontradas nos menores detalhes dos nossos comportae mentos mais cotidianos. reservavam-me um presente muito inesperado para um ocidental. os quais. desviar o olhar ´ considerado como um sinal de m´ educa¸˜o. as formas de comportamento sexual detiveram particularmente a aten¸ao dos observadores. a educa¸ao sexual ´ eminentemente c˜ c˜ e vari´vel de uma sociedade para outra. c A sauda¸ao visual consistindo em levantar rapidamente as sobrancelhas.

Na mesma ´tica. o h´bitat. . o beijo. russos ou alem˜s) quanto em nossos jardins. . A antropologia cultural foi assim levada a retoo mar. ao confrontar duas popula¸˜es vizinhas da co Nova Guin´. Georges Sand. Os a c˜ co GIs consideravam as inglesas mulheres levianas. para as inglesas. mas tamb´m os escritores (Chateaubriand. tentou evidenciar a pree ocupa¸ao dos japoneses em nunca perder a face em sociedade. c˜ 2) O peso da cultura n˜o se manifesta apenas nas formas diversificadas de a comportamentos e atividades facilmente localiz´veis de uma sociedade para a outra (como a alimenta¸ao. chocadas ´ que os americanos quisessem beij´-las t˜o precipitadamente. e inversamente. s´ deseja paz e o e serenidade. As inglesas ficavam.O. sob pena de c˜ um desmoronamento da personalidade que se traduz por um sentimento de vergonha e culpa extremo. Esses soldados e as jovens inglesas que freq¨entaa u vam acusavam-se mutuamente de m´ educa¸ao nas rela¸˜es amorosas. aparecer´. soldados americanos estavam mobiliza´ dos na Gr˜-Bretanha. isto ´ conforme ao a e ideal do grupo. enquanto que. a dos doces e ternos Arapesh. os jogos. as inglesas achavam que os americanos comportavam-se como marginais. quando tinham aceito o beijo. Q¨iproqu´s desse tipo pontuam nosu o sas rela¸oes interculturais. ` Mas ´ sobretudo ao estudo das formas contrastadas da personalidade nos e povos das sociedades ”tradicionais”. A ANTROPOLOGIA CULTURAL: Durante a ultima guerra mundial.) e chamavam de ”alma”ou ”gˆnio”de um povo. a dos violentos Mundugumor. ou que passassem t˜o rapidamente para a etapa a seguinte. Margaret Mead (1969). Cada um dos grupos reagia normalmente. a qualificados precisamente de ”jardins a francesa”. . a maneira de se vestir. ou ainda. Assim. considera que uma. o receio dos franceses frente ` natureza a que deve ser domesticada pela raz˜o.100 CAP´ ITULO 9. o que os ca a o folcloristas. que interv´m muito cedo nas rela¸˜es de nae co moro. n˜o tinha grandes conseq¨ˆncias. como perfeitamente normal. O que ´ ent˜o considerado e a como personalidade desviante entre os primeiros (o indiv´ ıduo violento). enquanto a outra. cognitivas e afetivas constitutivas e da pr´pria personalidade. era a ue a ultima etapa antes do ato sexual. c˜ a mas tamb´m nas estruturas perceptivas. e estes n˜o ena a a tendiam que as inglesas fugissem deles por causa de um ato t˜o insignificante a quanto um beijo na boca. que a antropologia americana deve a sua fama. ´ comandada e por uma agressividade propriamente canibal. nos fundamentos da observa¸˜o e da an´lise etnopsicol´gica. mas a norma era diferente de uma cultura para outra: para os americanos. Ruth Benedict (1950) op˜e o o . entre os segundos. receio que se expressa tanto no car´ter a a ”bem-comportado”dos nossos contos populares (sempre menos extravagantes que os contos escandinavos. portanto.

uma e ca l´gica que se encontra ao mesmo tempo na especificidade das institui¸oes e o c˜ na dos comportamentos. mas cultue ca a o ral). ´ manifesto. Cada um de n´s possui em si todas as tendˆncias. sentem as mesmas inclina¸˜es e avers˜es. Ruth Benedict elabora sua teoria do ”arco cultural”. foi Georges Devereux (1970). do que a constru¸ao rigorosa de um o ` c˜ objeto cient´ ıfico. Toda cultura persegue um objetivo. tende a efetuar uma redu¸ao dos comportamentos huc˜ manos a tipos. indiv´ ıduos que n˜o tenham nenhum sentimento de suspei¸˜o. ritos de inicia¸ao) pretendem – c˜ inconscientemente – fazer com que os indiv´ ıduos se conformem aos valores pr´prios de cada cultura. Les 50 Mots Cl´s de 1’Anthropologie. O que u c˜ co o caracteriza uma determinada sociedade ´ uma ”configura¸˜o cultural”. de acordo com os termos de Michel Foucault aos quais nos referimos acima). e pp. Al´m disso. As institui¸˜es (e. a meu ver. mas a culo e tura a qual pertencemos realiza uma sele¸˜o. todos os membros de uma mesma sociedade compartilham um certo n´mero de preocupa¸oes. n˜o faltaram aos cul-turalismo americano. 1973. 33-36. nenhum a ca gosto pelo roubo. e a esbo¸ar tipologias que devem muito mais a intui¸ao e a c ` c˜ ` pr´pria personalidade do pesquisador. Se houver. Atrav´s de um processo de sele¸˜o (n˜o biol´gico. n˜o deixar˜o de aparecer como margia a nais. colocando-se no cora¸˜o mesmo do campo de estudo privilegiado por essa tendˆncia da antropologia. desenvolve uma concep¸˜o do e ca Autorizo-me a indicar ao leitor dois de meus livros anteriores (L’Ethnopsychiatrie. escolas. Valoriza um determinado segmento do grande arcode c´ ırculo das possibilidades da humanidade. Trae a ca balhando com uma abordagem muito emp´ ırica (a localiza¸˜o das fun¸oes. ` ca co as institui¸˜es educativas: fam´ co ılias. o Cr´ ıticas. 4 . freq¨entemente severas. entre estes. em uma sociedade.101 a sociedade ”apoloniana”dos ´ ındios Pueblos do Novo M´xico a exalta¸ao e e ` c˜ rivalidade ”dionis´ ıacas”permanentes que mantˆm entre si os habitantes da e ilha de Dobu. Ed. Privat. Fortune. e detestem brigar. das co ca regras e dos sistemas. e em conseq¨ˆncia mesmo dos pressupostos que e ue s˜o seus (a observa¸˜o daquilo que. quem ca e propˆs a cr´ o ıtica mais radical desta. em detrimento da investiga¸˜o das normas. em detria ca e mento daquilo que ´ recalcado e inconsciente). desconhecido dos indiv´ ıduos. 1972). Encoraja um certo n´mero de comportamentos em detrimento de outros que se vˆem u e censurados. em especial. 1974. Universitaires. pp. Cada cultura realiza uma escolha. 46-50) e a sublinhar que. Ed.4 u a que est´ longe de fazer a unanimidade entre os antrop´logos. A partir de exemplos desse tipo. sobretudo na a o Fran¸a onde o m´ c ınimo que se pode dizer ´ que n˜o tem boa reputa¸˜o. dos ca c˜ conflitos e das significa¸˜es. este povo de feiticeiros (R. enquanto estariam perfeitamente bem adaptados (e considerados como conformistas) na sociedade pueblo.

materiais recolhidos. tamb´m. particularmente a obra de Ruth Benedict). Isso n˜o impede que. represente a uma contribui¸ao bastante consider´vel para nossa disciplina. pela importˆncia dos problemas colocados. A ANTROPOLOGIA CULTURAL: relativismo cultural (express˜o forjada por Herskovitz) que o impede de dar o a passo que separa o estudo das varia¸˜es culturais da an´lise da variabilidade co a da cultura. a antropologia cultural. pela area de investiga¸ao que ´ sua e que ´ ´ c˜ e e freq¨entemente deixada de lado em nosso pa´ pela amplitude do campo dos u ıs. o fato de que o projeto desses autores ´ freq¨entemente menos ame e u bicioso do que geralmente se diz (cf. c˜ a . levando-se em ’conta essas cr´ a ıticas. variabilidade esta que ser´ o objeto das pesquisas examinadas no a pr´ximo cap´ o ıtulo. levando-se em conta.102 CAP´ ITULO 9.

E nessas condi¸oes. reuniremos nesse cap´ ıtulo um certo mimero de tendˆncias do e pensamento e da pr´tica antropologica. as culturas s˜o apreendidas. que. e o o al´m da variedade das culturas e organiza¸˜es sociais. frutos de uma pr´tica parceladora. aparentemente bastante distantes a entre si: • o que se pode qualificar de antropologia da comunica¸ao. ´ e e um pouco compar´vel as pe¸as de um quebra-cabe¸a. a relacionando-o ao conjunto das rela¸˜es sociais (antropologia social). cada cultura particular. com o c˜ impulso de Gregory Bateson e da escola de Paio Alto. e sim constru´ a e ıdo: o do sistema. S˜o entidades parcea ` c c a ladas.’e muito co menos tal cultura particular na l´gica que lhe ´ pr´pria (antropologia cultuo e o ral. n˜o a partir dos ca a interlocutores que seriam considerados como elementos separados uns dos outros. a cultura ´ a c˜ e concebida como uma esp´cie de mosaico. que se elaboram sem que estes tenham consciˆncia disso. procuraremos explicar e co a variabilidade em si da cultura: o que dizem e inventem os homens deve ser compreendido como produ¸˜es do esp´ co ırito humano. mas a partir dos processos de intera¸ao formando sistemas c˜ de troca. mas tamb´m simb´lica): trata-se de estudar a l´gica da cultura. e Isso colocado. a tratadas.Cap´ ıtulo 10 A Antropologia Estrutural E Sistˆmica: e Para a antropologia cultural. Na perspece tiva na qual nos situaremos agora. integrando notadamente tudo o que. em um n´ ıvel que n˜o ´ mais dado. estuda as diferentes modalidades da comunica¸˜o entre os homens. se d´ ao a 103 . Ou seja. N˜o se trata mais de estudar tal aspecto de uma sociedade em si. caracterizada por um conjunto de tendˆncias tais como aparecem empiricamente ao observador. ou melhor. no encontro. um traje de Arlequim.

e Partindo do ”princ´ ıpio de incerteza”de Heiscnbcrg (´ imposs´ determinar e ıvel ao mesmo tempo e com igual precis˜o a velocidade e a posi¸˜o do el´tron. ca c˜ mostra que o que ´ verdadeiro no campo da f´ e ısica quˆntica ´ mais verdadeiro a e ainda no das ciˆncias humanas e. Devereux. o etn´grafo) provoca uma perturba¸ao do que ´ o c˜ e observado. at´ ent˜o n˜o ca e a a utilizadas para abordar os sistemas interativos em jogo nas nossas trocas. Mas re´nem-se no entanto em torno de um certo a u n´mero de op¸oes. diferen¸as essenciais entre essas diversas correntes da ane c tropologia contemporˆnea. o primeiro. e que ´ uma e e pr´tica claramente pluridisciplinar. a ling¨´ a e a uıstica). assim como a quest˜o da validade da a transferˆncia dos modelos. longe de ser uma fonte de erros a ser neutrac˜ lizada. L´vi-Strauss. mais precisao ˆ e mente. ´ pelo contr´rio uma fonte de informa¸˜es que conv´m explorar. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA: n´ (n˜o verbal) das sensa¸oes. de volta de Bali. procurando compreender ao mesmo a tempo a dimens˜o ´tnica dos dist´rbios mentais e a dimens˜o psia e u a col´gica e psicopatol´gica da cultura. das ferramentas. finalmente. cujo fundador ´ Georges Devereux. quase tanto quanto Bateson. e a co e Partindo da cibern´tica inventada por Norbert Wiener em 1848 a partir da e elabora¸ao da pilotagem autom´tica. a neurofisiologia. da etnologia: a presen¸a e c de um observador (no caso. a psican´lise. a ca e pois sua observa¸˜o cria uma situa¸ao que o modifica). e essa perturba¸ao. mas que eu considero a a pessoalmente como mais atual do que nunca. Bateson. • a enopsiquiatria. Ora. das m´ ıvel a c˜ ımicas. recorre a esse modelo nascido e . do qual muitos gostam hoje de e dizer que est´ h´ muito tempo ultrapassado. ´ claro. e da posturas. dos gestos. da necessidade de um confronto entre abordagens aparentemente t˜o afastadas uma das outras quanto a etnologia. as maa tem´ticas (e no campo das ciˆncias humanas. e. percebe que c˜ a os princ´ ıpios de Wiener podem trazer uma renova¸˜o total para o estudo ca da comunica¸˜o humana. particularmente. o o • o estruturalismo francˆs. *** Existem.ˆ 104CAP´ ITULO 10. u c˜ 1) Trata-se em primeiro lugar da importˆncia dada aos modelos epistea mol´gicos formados no ambito das ciˆncias da natureza ou. Todos os autores que acabamos de citar colocam o problema da passagem de um modo de conhecimento para outro. particularmente.

e o interacionismo e americano. express˜es do rosto por m´ o ınimas que sejam) consistindo em trocar mensagens freq¨entemente involunt´rias. m´ ımicas. das palavras. e que conv´m analisar. Para este ultimo. tratando-se simplesmente o a de recolhˆ-los. Disso decorre a met´fora da orquestra participando a o a da execu¸ao de uma partitura ”invis´ c˜ ıvel”. Os antrop´logos americanos que se inscrevem nessa u a o corrente insistem sobre o fato de que ( imposs´ ıvel n˜o comunicar. na realidade.105 da fecunda¸ao m´tua da eletrˆnica e da biologia. a tarefa do pesquisador ´ precisamente a u a e de evidenciar essas regras gramaticais constitutivas da linguagem tanto verbal quanto n˜o verbal. e sim fenˆmenos provocados em uma situa¸ao de intera¸ao e o c˜ c˜ particular com atores particulares. a e relutando at´. e 2) A partir dos anos 50. expressando o pr´prio inconsciente da sociedade. c˜ regida por leis inconscientes de inclus˜o e exclus˜o. e tamb´m o ”mestre”a quem Devereux dedica seus Ensaios de Ete e nopsiquiatria Geral). come¸a a desenvolver-se. a cultura. tanto na Europa quanto c nos Estados Unidos. cuja l´gica ´ irredut´ a e o e ıvel a soma de seus elementos. procurando come preender a natureza da perturba¸˜o envolvida na pr´pria rela¸ao que liga o ca o c˜ . mas como um complexo de elementos em situa¸ao de intera¸oes a c˜ c˜ cont´ ınua e n˜o aleat´ria. Desde a sua Introdu¸ao ` c˜ u o c˜ a Obra de Mareei Mauss (o qual ´ incontestavelmente o pai do estruturalismo e francˆs. ´ claro. Ora. na execu¸ao da qual cada um dos c˜ m´sicos est´ envolvido. toda cultura ´ uma moe c˜ ´ e dalidade particular da comunica¸ao (das mulheres. o Se a etnopsiquiatria de Devereux n˜o deve nada a essa abordagem ”sistˆmica”. todo comportamento humano (do vozerio mais a intenso ao mutismo absoluto. ` Lembremos mais uma vez que existem. diferen¸as muito importane c tes entre o estruturalismo europeu. em particular francˆs. E quando o autor da a a Antropologia Estrutural realiza. esta ultima n˜o sendo mais concebida a maneira tec˜ ´ a ` legr´fica de um emissor transmitindo em sentido unico uma mensagem a um a ´ destinat´rio. ela acentua o car´ter eminentemente relacionai do objeto das ciˆncias humaa e nas: os fenˆmenos estudados tanto pelo cl´ o ınico quanto pelo etn´logo s˜o o a fenˆmenos que nunca s˜o dados em estado bruto. o estudo dos mitos. isto ´. pontuado por gestos. L´vi-Strauss refere-se a Wiener e Neumann. posturas. dos bens). refere-se tamb´m a imagem de uma partitura musical n˜o escrita e ` a e sem autor. frente a quaisquer empreendimentos de formaliza¸ao ling¨´ e c˜ uıstica. na parte mais recente de sua obra. um modelo que Winkin qualifica de ”modelo orquestral da comunica¸ao”. Mas eles visam juntos a constru¸˜o do que L´vi-Strauss chama ` ca e uma ”ciˆncia da comunica¸ao”.

O autor estuda os diferentes ` tipos poss´ ıveis de rela¸oes dos indiv´ c˜ ıduos para com a sociedade e. a maneira da antropologia cultural. isto ´. o que e e interessa Bateson. especialmente. inconsciente estrutural e e para L´vi-Strauss. as primeiras. de forma o o a e alguma. caracterizada notadamente pela monografia. ningu´m insistiu mais que L´vi-Strauss e Devereux sobre o fato de e e Essa problem´tica. menos no que as palavras expressam do que no que escondem. que escreve em La Pens´e Sauvage que ”a etnologia co e e ´ antes uma psicologia e 1 . emp´ e e e u ırica como nos Estados Unidos). A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA: ”observador”e o ”observado”. mas tamb´m inconsciente ´tnico para Devereaux.1 mas que n˜o ´ concebida. ´ a possibilidade de aceder a uma teoria transcultural. e a e Enquanto estas ultimas ”aceitam sem reticˆncias estabelecer-se no pr´prio ´ e o amago de sua sociedade”. das ”ciˆncias do comportamento”) e n˜o no das ciˆncias sociais. de um encontro – se d´ no inconsciente: inconsciente freudie a ano. mais especificamente. Ou seja. o sentido do que fazem os homens deve ser procurado menos no que dizem do que no que encobrem. 4) Todo o pensamento antropol´gico que procuramos aqui descrever inscreveo se claramente no quadro das ciˆncias humanas (ou. como se diz nos Estados e Unidos. mas al´m dessa cultura. freq¨entemente. Ora.ˆ 106CAP´ ITULO 10. e sobretudo. devido a sila exigˆncia ` e de pluridisciplinaridade (e. como escreve L´vi-Strauss (1973) – ´ o caso da ˆ e e economia. A Cerimˆnia do Naven (1936) o parece-me particularmente revelador. e cujos conceitos poder˜o ser utilizados na com preens˜o de outras sociedaa a des. mas estrutura que se expressa sempre na ”hist´ria particular dos indiv´ o ıduos e dos grupos”. do direito. da demografia –. tanto para o estruturalismo quanto e para etnopsiquiatria (mas isso j´ ´ menos verdadeiro para o conjunto da anae tropologia sistˆmica americana. Em seguida. de pluridisciplinaridade entre a abordagem etnol´gica e psicol´gica). 3) A experiˆncia etnol´gica – que ´ antes experiˆncia de uma rela¸ao hue o e e c˜ mana. O exemplo da primeira obra de Bateson. colocam-se aqu´m de todo e indiv´ ıduo e de toda sociedade”. as rea¸oes dos indiv´ c˜ ıduos frente as rea¸˜es de outros indiv´ ` co ıduos. visando ”apreender uma realidade imanente ao homem. ”estrutura inata do esp´ e e ırito humano”. por seu car´ter inovador no campo da antropoloa gia anglo-saxˆnica da ´poca. da sociologia. produzindo constantemente aspectos in´ditos. que ´ o eixo de toda a obra de Devereux ´ tamb´m uma das a e e e preocupa¸˜es maiores de L´vi-Strauss. cuja tendˆncia ´. situada no ponto de encontro entre a natureza e a cultura. A o e partir da cultura dos latmul da Nova Guin´. Em primeiro lugar. Isto ´.

como pelo projeto freudiano. a antropologia assim cono siderada ´. sou agido. e ´ e n˜o existem nunca rela¸oes de causalidade unilinear entre dois fenˆmenos. como no ”id”da psican´lise. como escreve L´vic e Strauss. e emia nentemente fundador da possibilidade da comunica¸ao tanto intersubjetiva c˜ quanto intercultural.107 que as culturas particulares n˜o podiam antropologicamente ser apreendidas a sem referˆncia a ”cultura”(Devereux). por isso. ca o e mas tamb´m qualquer forma de historicismo. e. a qual se vˆ descena a ` e e trada pelo projeto estrutural. 5) Quer´ ıamos finalmente insistir sobre o fato de que essas diferentes abordagens s˜o abordagens da totalidade. eu sou pensado. considerando apenas um aspecto parcelar da realidade social. ´ claro. isto ´. Para L´vi-Strauss como para Bateson. Rompendo com a tagarelice do sujeito. as e ideologias do sujeito considerado enquanto fonte de significa¸oes. A metoc˜ dologia estrutural inverte a ordem dos termos em que se apoiava a filosofia. E se a abordagem da etnopsiquiatria em co rela¸ao ` da antropologia estrutural ou sistˆmica ´ claramente anal´ c˜ a e e ıtica. Por todas essas raz˜es. e atrav´s de um instrumento unico. inventivo de modelos que conv´m qualificar ca e de ”complexos”. a antropologia como a psican´lise intro-duzem uma crise na epistemologia da racionalidade: a o lugar atribu´ ao sujeito transcendental ´ questionado pela irrup¸ao da ıdo e c˜ problem´tica do inconsciente. a 2) Ruptura em rela¸˜o ao pensamento hist´rico: o evolucionismo. que ´ nee ´ e . de acordo com o termo proposto por Jean-Marie Auzias (1976). enquadra-se dentro de uma epistemologia da complementaria e dade. A abordagem de L´vi-Strauss ocupar´ portanto agora nossa aten¸˜o. que est´ rigorosamente no oposto do ”culturalismo”. preocupado em n˜o deixar escapar nada na a investiga¸˜o do social. Essa e a ca abordagem procede de uma s´rie de rupturas radicais. ”essa crian¸a mimada da filosofia”. O sentido n˜o est´ mais dessa vez ligado a consciˆncia. e 1) Ruptura em primeiro lugar com o humanismo e a filosofia. Assim. e um ”pensamento dos conjuntos”. a sou atravessado por estruturas que me preexistem. fundada sobre a necessidade da articula¸ao de enfoques habitualmente c˜ tomados como separados. ”esse capital comum”(L´vi-Strauss) e ` e que utilizamos para elaborar nossas experiˆncias tanto individuais como coe letivas. Para este ultimo. sou falado. isto ´. as significa¸oes devem ser doravante buscadas no ”ele”da ling¨´ c˜ uıstica. e n˜o sint´tica. Disso decorre o car´ter claramente ”metacultural”(Devereux) desse a pensamento. refrat´rias a qualquer atitude reducia a onista. Ou seja. a c˜ o e sim ”correla¸˜es funcionais”.

levirato. op˜e-se a inteligibilidade estrutural. muito menos ao n´ dos sentimentos ıvel . ´ prec e ciso primeiro repudiar o vivido”. com o empirismo. ` a uma estrutura ´ um sistema de rela¸oes suficientemente distante do objeto e c˜ que se estuda para que possamos reencontr´-lo em objetos diferentes. As rela¸oes de alian¸a entre homens e mulheres pac˜ c recem. Mas oscilam sempre entre alguns grupos: comunismo sexual. inteligibilidade ca o combinat´ria de uma institui¸ao. agnosticismo. . n˜o mais. A a e mos de explica¸˜o causai. de um relato. estas c˜ s˜o apenas os materiais utilizados para alcan¸ar a estrutura. e sim do sistema que ignoram. E toda a diferen¸a c entre o estruturalismo inglˆs e o estruturalismo francˆs. a primeira vista. casamento por rapto. . que considera os elementos independentemente da totalidade. conv´m colocar-se ao n´ c˜ a e ıvel n˜o mais da a palavra e sim da l´ ıngua. monogamia. . Da mesma forma. abrindo uma compree a o ens˜o nova da sociedade. o filho. poligamia. Para isso. o parentesco ´ uma linguagem. Ou e o seja. uni˜o livre. o objeto cient´ ıfico deve ser arrancado da experiˆncia da impress˜o. a 4) Ruptura. voltaremos a isso. mante´ ısmo. Mais precisamente. . Para este. diz L´vi-Strauss em Tristes Tr´picos.). explicar ´ procurar uma anterioridade. O modelo do estruturalismo sendo ling¨´ uıstico. e e e Radcliffe-Brown confunde a estrutura social e as rela¸oes sociais. atrav´s da invers˜o epistemol´gica que realiza. praticamente infinitas. as rela¸oes dos hoa c˜ mens com a divindade sempre se organizam a partir de um pequeno n´mero u de op¸˜es poss´ co ıveis: o monote´ ısmo. Para L´vi-Strauss. o pensamento estrutural nos mostra que a extraa ordin´ria variedade das rela¸˜es emp´ a co ıricas s´ se torna intelig´ a partir do o ıvel momento em que percebemos que existe apenas um n´mero limitado de esu trutura¸oes poss´ c˜ ıveis dos materiais culturais que encontramos. finalmente. Foi a partir do campo do parentesco que se constituiu o estruturalismo de L´vi-Strauss. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA: cessariamente gen´tico. o tio materno e a ıvel em uma sociedade matrilinear. polite´ ısmo. a *** Assim. sororato. um n´mero u limitado de invariantes. ”Para alcan¸ar o real. Ora. o c˜ 3) Ruptura com o atomismo. isto ´. a qual n˜o tem a c a como objetivo substituir-se a realidade e sim explic´-la.ˆ 108CAP´ ITULO 10. de um comportamento. o sentido de um termo s´ pode ser compreendido dentro de sua rela¸ao as outras palavras o c˜ ` da l´ ıngua ou do que for an´logo a esta. tentar e e e ` an´lise dos processos em tercompreender o presente atrav´s do passado. N˜o se pode compree e a endˆ-lo efetuando a an´lise ao n´ dos termos (o pai. ate´ ısmo. da e a percep¸ao espontˆnea. da hist´ria consciente a o ´ do que fazem os homens.

informa¸oes que se comunicam. embora n˜o possam. de bens (economia). j´ que o jogo de baralho ´ um dado da hist´ria a a e o e da civiliza¸˜o. Mas ´ porque a hist´ria dos historiadores est´ presente nele e o a – nem que seja na sucess˜o de chacoalhadas que provocam as reorganiza¸˜es a co ”As pr´prias mulheres”. mas que permanecem em todos os casos independentes da natureza dos parceiros 2 . e a a cartas que n˜o inventou. estamos na realidade frente a diferentes modalidades de uma unica e mesma ´ fun¸ao: a comunica¸ao (ou a troca). interpreta nos termos dc v´rios sistemas.2 c˜ • no ponto de encontro entre a natureza e a cultura. permitem e a compreender essa invers˜o de perspectiva que realiza a metodologia estrutua ral. regidas por regras de troca an´logas ıvel co a as leis sint´ticas da l´ ` a ıngua. com a mesma distribui¸˜o. S˜o os exemplos do baralho e do caleidosc´pio: a o ”O homem ´ semelhante ao jogador pegando na m˜o. a combina¸˜o de elementos idˆnticos sempre d´ noo ca e a vos resultados. ao sentar ` mesa. a que podem ser comuns ou particulares: regras de um jogo. reorganiza incessantemente estes mesmos materiais. Fm segundo lugar.109 ´ que podem animar os diferentes membros da fam´ ılia. a reciprocidade – que ´ a troca atuando e que e exige uma teoria da comunica¸ao – pode ser localizada em v´rios n´ c˜ a ıveis: • ao n´ ıvel da cultura: ´ a troca de mulheres (parentesco). que. fornecer com uma determinada distribui¸˜o qualquer partida”. E preciso colocar-se no n´ das rela¸˜es entre estes termos. mulheres. Existem as distribui¸˜es que s˜o sofridas. isto ´. como cada jogador. escreve L´vi-Strauss. e se d´ independentemente ca a da vontade de cada um. ou regras de uma t´tica. diferentes dc uma sociedade para outra. E sabe-se bem que. Mais precisamente. jogadores diferentes a ca n˜o fornecer˜o a mesma partida. ”s˜o tratadas como signos dos quais se o e a abusa quando n˜o se d´ a elas o uso reservado aos signos. mas que co a cada sociedade. al´m da contingˆncia dos materiais e e programados. compelidos tamb´m a a a e pelas regras. palavras e bens sendo termos que se trocam. que ´ a pr´pria cultura emergindo da c˜ c˜ e o natureza para introduzir uma ordem onde esta ultima n˜o havia previsto ´ a nada. a linguagem ou a economia. Quando se estuda o parentesco. de palavras e (ling¨´ uıstica). que ´ de serem comunicados”. Mas a an´lise estrutural das rela¸oes de alian¸a a c˜ c e parentesco est´ longe de ser a aplica¸˜o pura e simples de um modelo (o a ca da ling¨´ uıstica). a a e E a antropologia tem como tarefa a de estabelecer as regras da troca. cada reparti¸˜o das cartas resulta de ca ca uma distribui¸˜o contingente entre os jogadores. ao n´ de e ıvel um inconsciente estrutural. ca ”Em um caleidosc´pio. Dois exemplos a que L´vi-Strauss recorre v´rias vezes em sua obra.

a e mais ainda as regras das partidas jog´veis. o pr´prio dea ` c˜ o senrolar do jogo de baralho ou os movimentos do caleidosc´pio que n˜o para o a de girar. Pouillon recorre notadamente ` dupla met´fora do bridge e e a a do jogo de xadrez. da explora¸ao e a u c˜ restrita das possibilidades te´ricas”. E.ˆ 110CAP´ ITULO 10. 2) as diferentes estrutura¸oes poss´ c˜ ıveis destes materiais (isto ´. c Tal ´ o significado do conceito de estrutura que Pouil-lon (1966) define como e ”a sintaxe das transforma¸˜es que In/em passar de uma variante para ouco tra”. isto ´. como as cartas ou os elementos do caleidosc´pio. a hist´ria ´ um jogo no qual o o e a identidade dos parceiros tem menos importˆncia que as partidas jogadas. Enquanto no bridge ´ indispens´vel conhecer as cartas e a que acabaram de ser jogadas. ou de uma ´poca outra) que n˜o est˜o em n´mero ilimitado. no xadrez. com algu´m que observa esse processo – o etn´logo – dirigindo. as maneie ras com as quais se organizam entre si quando passamos de uma cultura para outra. de outro. pois ”´ essa sintaxe que d´ conta de seu n´mero limitado. de um lado desconfia de um o ”ecletismo apressado”que confundiria as tarefas e misturaria os programas”. Ao comentar o pensamento a de L´vi-Strauss. sobre o que percebe.” a Todo o programa e toda a abordagem do estruturalismo est˜o nesses dois a textos: 1) a existˆncia de um certo n´mero de materiais culturais sempre idˆnticos. a ıvel e o Essa consciˆncia hist´rica do ”progresso”n˜o carrega consigo nenhuma vere o a dade. pois e a a u s˜o comandadas pelo que L´vi-Strauss chama de ”leis universais que regem a e as atividades inconscientes do esp´ ırito”. e L´vi-Strauss n˜o ignora a diversidade das culturas – j´ que procurar´ precie a a a samente dar conta dela – nem a hist´ria. Mas. qualquer posi¸ao do jogo pode ser c˜ compreendida sem que se tenha conhecimento das jogadas anteriores. no e o caso do autor de Tristes Tr´picos. compar´veis a aplica¸ao de leis gramaticais. . um olhar que conv´m o e qualificar de est´tico. Ou seja. 3) finalmente. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA: da estrutura – e as chances para que reapare¸a duas vezes o mesmo arranjo c s˜o praticamente nulas. ´ um mito que conv´m estudar como os outros mitos. e u e que. considera que para compreender o movimento das sociedades ´ e preciso n˜o se situar ao n´ da consciˆncia que o Ocidente tem da hist´ria. Ora. estendendo e e e no espa¸o aquilo que o historiador percebe como escalonado no tempo. podem ser qualificados o de invariantes.

a .111 L´vi-Strauss considera que o est´gio da partida jogada pelas sociedades ocie a dentais ´ hoje desastroso. enquanto que as que foram jogadas pelas sociedades e que se insiste em qualificai de ”primitivas”s˜o infinitamente mais humanas.

ˆ 112CAP´ ITULO 10. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA: .

est˜o animadas por uma abordagem claramente antia a 113 . notadamente atrav´s de o e sua reivindica¸ao antietnocentrista. acabamos de distinguir. por sua vez. A antropologia estrutural. Diferente. ligados tanto ao c dinamismo interno que ´ caracter´ e ıstico de toda sociedade. c˜ e e de sociedades (”primitivas”. e sobre a unidade de cada uma delas. com o impulso particularmente ca da an´lise estrutural. ´ sua rea¸ao comum frente ` orienta¸˜o. para maior clareza. de fato. uma perspectiva muito pr´xima da anc˜ o terior.Cap´ ıtulo 11 A Antropologia Dinˆmica: a A antropologia cultural insiste ao mesmo tempo sobre a diferen¸a das culc turas umas em rela¸ao `s outras. quanto as rela¸˜es ` co que mantˆm necessariamente as sociedades entre si. ”selvagens”ou ”tradicionais”)harmoniosas e integradas. em proveito do estudo dos processos de mudan¸a. simb´lica. para o muitas. cultural) e que conhecem. a e c˜ a ca do seu ponto de vista conservadora. uma renova¸˜o durante os anos 50. que pode ser encontrada dentro dos quatro p´los de pesquisa que. mas que se empenha em explorar particularmente um certo n´mero u de conte´dos materiais (os mitos. os ritos) e de estruturas formais (a espeu cificidade das l´gicas do conhecimento expressando-se notadamente atrav´s o e das l´ ınguas). o a Pr´ximo. todas as perspectivas etnol´gicas que se elaboram a partir o dos anos 30 (a antropologia social. porque opera uma ruptura total com a concep¸ao de Malinowski ou de Durkheim. porque evidencia a articula¸ao de diferentes n´ o c˜ ıveis do social dentro de uma determinada cultura. O ultimo p´lo u ´ o do pensamento e da pr´tica antropol´gicos que estudaremos agora aparece a o como ao mesmo tempo pr´ximo e diferente da antropologia social cl´ssica. mas tamb´m de L´vi-Strauss. uma identidade formal (um inconsciente universal) informando uma multiplicidade de conte´dos materiais diferentes. Pratio camente. faz aparecer. e O que caracteriza essencialmente as diferentes tendˆncias dessa antropologia e que qualificamos aqui de dinˆmica. A c˜ a antropologia que qualificamos de simb´lica abre. como acabamos de ver.

E dissocia-se. O car´ter especulativo da antropologia dominante do s´culo a e passado explica em grande parte essa rea¸ao a-hist´rica de nossa disciplina. Insistindo tanto sobre a natureza repetitiva e rotineira das sociedades vistas como im´veis ou. e fa¸a esquecer a realidade das rela¸oes sociais. s´ ´ poss´ porque se e o oe ıvel consegue enquadrar o fenˆmeno assim recortado nos moldes de um quadro o te´rico que funciona. em muitos aspectos. devemos temer que essa quase-transmuta¸ao est´tica.114 ˆ CAP´ ITULO 11. ”pr´ximas do grau zero de temperao e o tura hist´rica”. e de um contexto (os grandes acontecimentos o mundiais do s´culo XX) considerado como aleat´rio. pois estaria cm si ainda puro de qualquer esc´ria da modernidade. existissem dentro de um c˜ quadro econˆmico e geogr´fico mundial. as miss˜es cat´licas e protestantes abalaram o o h´ muito tempo o edif´ a ıcio das religi˜es tradicionais Recusando-se a tomar o em considera¸˜o a amplitude e a profundidade das mudan¸as sociais. A partir de u o a uma cr´ ıtica vigorosa tanto do funcionalismo quanto do estruturalismo. Essa separa¸ao artificial de um objeto que ca c˜ poderia ser apreendido em estado puro. c c˜ Ora. e ignorassem tudo das contradi¸oes. tudo se passa freq¨entemente como se as sociedades preferenu cial. c˜ o No entanto. como uma oculta¸˜o da realidade. estabilidade e harmonia dos grupos humanos que souberam preservar uma arte de viver). o a c˜ dos antagonismos e das rupturas que seriam pr´prias apenas das sociedades o ocidentais. em que evacuam-se as garrafas de Coca-Cola e a tanques de gasolina da Standard Oil para preservar a beleza das imagens. o ca Pois as sociedades emp´ ıricas `s quais o etn´logo do s´culo XX ´ confrontado a o e e n˜o s˜o nunca essas sociedades atem porais inencontr´veis. A ANTROPOLOGIA DINAMICA: evolucionista. como diz L´vi-Strauss. somos ca c levados a apagar tudo o que n˜o entra no quadro que se pretende estudar a –um pouco como nesses filmes magn´ ıficos sobre os ´ ındios da Amazˆnia ou o os abor´ ıgines da Austr´lia. ficticiamente ara a a rancadas da hist´ria. um n´cleo considerado essencial. Mas ent˜o. essa preoa c˜ e cupa¸ao que tem o etn´logo na realidade. unico objeto da ”ciˆncia”(a u ´ e integridade. ´ precisamente contra essa tendˆncia do pensamento etnol´gico que e e o um certo n´mero de antrop´logos contemporˆneos se levantam. o c˜ por isso mesmo. nas quais. fossem isentas de rela¸oes com seus vizinhos. toda . e uma sujei¸˜o julgada acidental (as perip´cias ca e da rea¸˜o com o colonialismo). ou at´ exclusivamente estudadas pela maioria dos antrop´logos do s´culo e o e XX. menos em realizar ele pr´prio uma c˜ o o obra de arte do que contemplar modos de vida que seriam em si obras de arte (de Malinowski a L´vi-Strauss. passando por Griaule e Margaret Mead). o c˜ pegando apenas um exemplo. chega-se a considerar anormal a transforma¸ao. e sim sempre sociedades’ em plena muta¸ao.

e deve. a ´rea ´ a Se praticamente toda a antropologia do s´culo XX teve tendˆncia. particularmente forte nos Estados Unidos. com o impulso de Leslie White (1959). essencial para L´vi-Strauss. relegada at´ ent˜o. tal tendˆncia a a e ´ provavelmente mais forte na fran¸a. formando o que o a pr´prio Morgan chama de ”estruturas”. Uma das correntes contemporˆneas mais marcantes desse pensamento ´ certamente a e a que nasceu nos Estados Unidos. se tornar um dos pontos e o centrais da an´lise do social.) a libertarem-se desse ponto de vista considerado passadista e a preferirem a terminologia de ”sociologia”. insiste notadamente c˜ sobre o seguinte ponto: prolongar a problem´tica. Ou seja. a ecologia. pois esta e a c ´ co-extensiva ao pr´prio social. e. da contribui¸˜o de um certo n´mero de antrop´logos franceses de orienta¸˜o ca u o ca marxista. falar a dos trabalhos de Max Gluckman (1966). pela maioria ca e a dos pesquisadores. ou ainda. ca c u Balandier. e do qual encontramos uma das mais importantes realiza¸oes nos trabalhos de Marshall Sahlins (1980). Descobre assim que essa obra cont´m uma intui¸˜o e ca fecunda que conv´m explorar: n˜o se trata. por exemplo.. em primeiro lugar. sobre e a e ca a a qual os advers´rios do antrop´logo americano tanto insistiram para desacredit´-lo.2 1 . j´ instaurada por Morgan a a h´ um s´culo. mas sobre bases dessa vez indiscutivelmente etnol´gicas. e que qualifica a si pr´pria de neo-evolucionismo.115 sua abordagem consiste. Disso decorre o a rea¸˜o que leva na Fran¸a um certo n´mero de pesquisadores (Baslide. durante os anos 50. portanto. as institui¸˜es pol´ co ıticas. durante os ultimos 25 anos. de Jacques Bergue (1964). a fam´ ılia. e e e a considerar que as sociedades ”tradicionais”s˜o sociedades imut´veis.. A conseq¨ˆncia desse novo enfoque ´ o desaa ue e parecimento da oposi¸ao. que evoluem dentro de per´ o ıodos sucessivos. Desroclic. ao esquecimento. esta c n˜o ´ mais de forma alguma apreendida como a destrui¸ao de uma identia e c˜ dade que se caracteriza por um estado de equil´ ıbrio e harmonia. at´ recentemente. de acordo com as palavras de Paul Mercier (1966). dar conta da riqueza e diversidade das pesquisas que de uma forma ou de outra participam hoje do desenvolvimento extremamente ativo dessa antropologia que qualificamos de dinˆmica. Este realiza. Para eles. a religi˜o) estreitamente imbricadas.’. dessa ”periodiza¸˜o”sistem´tica. devido notadamente ` preocupa¸˜o de muitos e c a ca etn´logos de nosso pa´ em rela¸˜o aos sistemas m´ o ıs ca ıtico-cosmol´gicos. ca N˜o ´ evidentemente poss´ a e ıvel. conv´m deixar de ter uma compreens˜o negativa da mudan¸a social. em aceitar ”a morte do primitivo”e ”reabilitar”a mudan¸a.1 Esse neo-evolucionismo. que a e o n˜o devem mais nada as reconstitui¸˜es hipot´ticas do s´culo XIX e que pera ` co e e mitem pensar numa evolu¸˜o resolutamente ”plural”da humanidade. o uma releitura e uma reabilita¸˜o da obra de Morgan. Thomas. Seria conveniente. mas a o a de sua descoberta de uma indissociabilidade de n´ ıveis do social (a tecnologia. ´ claro.tre as ”sociedades c˜ e frias”e as ”sociedades quentes”. que notadamente renovaram. desaparecimento que pode levar a recusa de ` uma outra distin¸˜o que tamb´m deixa de ser reconhecida como pertinente: ca e a da antropologia e da sociologia. dentro do quadro limita do desse trabalho.

dissimulando uma realidade colonial. na realidade. Ou seja. E. antes mesmo da Primeira Guerra Mundial. assim como para os trabalhos da antropologia cultural que se desenvolve durante o p´s-guerra. na mesma ´poca e em muitos aspectos. Por outro lado. ”choques culturais”. por sua vez. Mas a compara¸˜o entre Grica aule e Balandier p´ra evidentemente a´ O primeiro efetua o levantamento a ı. c˜ Uma das preocupa¸oes de Balandier. Essa perspecitva de um estudo da mudan¸a social integrado ao pr´prio obc o jeto de investiga¸ao do pesquisador n˜o tinha sido. Mas os conceitos que s˜o ent˜o utio a a lizados (especialmente nos Estados Unidos) para dar conta da mudan¸a. que o levar´ a c a empreender. a e simples – Balandier considera que n˜o se deve opor uma in´rcia – para ele a e absolutamente fict´ ıcia – que seria perturbada de fora por um dinamismo. pelo contr´rio. que implica a realidade de ´ ca uma rela¸ao social de domina¸˜o. A ANTROPOLOGIA DINAMICA: da antropologia econˆmica. quase sempre sistematicamente ocultada c˜ ca na antropologia cl´ssica. renunciando a ` atitude ”romˆntica”que era sua na ´poca de suas estadias nas ilhas Trobria e and. totalmente c˜ a ausente da cena antropol´gica da metade do s´culo XX. s˜o c a sempre conceitos neutros. P. terc˜ minologia que far´ sucesso. como dissemos. Fala-se em ”contatos culturais”. Meillassoux (1964). da a e a mesma forma que Griaule havia. Cl. c˜ c˜ que seria localiz´vel a partir da observa¸ao de grupos sociais ”preservados”. Balandier prop˜e a substitui¸ao pura e simples a o c˜ deste ultimo termo pelo de ”situa¸˜o colonial”. Conv´m lembrar o e e que. a 3 Cf. caracter´ ıstico apenas das nossas sociedades. Godelier (1973) . Malinowski. pois toa ca dos fazem parte do campo de investiga¸˜o do pesquisador. de uma tradi¸˜o ancestral. no decorrer de suas obras a constitui¸˜o de uma antropologia ca da modernidade. no final de sua vida. enquanto ca a o segundo coloca as bases de uma teoria da mudan¸a social. mas tamb´m e os mission´rios. envolve-se. e sobretudo em ”acultura¸ao”. a c˜ Considera. que toda sociedade ´ ”problem´tica”. ca Balandier nos prop˜e uma cr´ o ıtica radical da no¸ao de ”integra¸ao”social. ´ mostrar que conv´m interessar-se para toe e dos os atores sociais presentes (n˜o mais apenas os ”ind´ a ıgenas”. a E o mesmo se d´. para a reflex˜o a e a de Margaret Mead. P Rey (1971).3 Dois autores ir˜o deter mais demo-radamente o a nossa aten¸ao: Georges Balandier e Roger Bastide. mostrado que o complexo n˜o ´ um produto derivado de formas originais – que seriam. os administradores e outros agentes da coloniza¸˜o).116 ˆ CAP´ ITULO 11. em uma perspectiva dinˆmica (1970). concebida por ele como quase imut´vel. desde a publica¸˜o de suas primeiras c˜ ca ´ obras sobre a Africa negra (1955). M. Terray (1969).

isto ´. e A obra de Roger Bastide aparece ao mesmo tempo muito pr´xima e muito dio ferente da anterior. que ´ dar conta das varia¸oes. e depois. inscrevem-se plenamente no projeto mesmo da antropologia. ela n˜o opera apenas uma transforma¸˜o do objeto de estudo. Oscar Lewis e (1963). no Nordeste do Brasil. Muito diferente cm primeiro lugar. ´ que nos permitem apreender n˜o apenas as mudan¸as e a c estruturais em andamento. que instaura uma ruptura com a tendˆncia intelectualista da e etnologia francesa. de outro. sobre a interpenetra¸ao das o c˜ civiliza¸oes. por exemplo. tecnol´gica. notadamente das mudan¸as. Paul Mercier (1954). porque a abordagem desse autor inscreve-se claramente. lugar privilegiado de observa¸˜o c˜ ca dos conflitos. das tens˜es sociais e das reeetrutura¸oes em andamento (cf. M¨hlmann (1968). da descoloniza¸ao ca c˜ se torna parte integrante do campo que se deve estudar. tamb´m insiste. ca a Dito isso. enquanto o processo da coloniza¸˜o.). seria no entanto irris´rio pensar que a abole. sob a forma de cultos sincr´ticos. tanto quanto Balandier. sobre as mudan¸as sociais ligadas ` dinˆmica e c a a pr´pria de uma determinada cultura. sob a forma de movimentos o messiˆnicos (Balandier. mais uma vez freq¨entemente muito diferentes uma u das outras. que provoca um movimento de transforma¸oes ininterruptas. F I. ling¨´ c˜ e o o uıstica. essa antropologia da modernidade (segundo a express˜o a de Balandier). enfatizando a realidade conflitual das sio tua¸oes de dependˆncia (econˆmica. de um lado. mas as respostas as mudan¸as tais como se ela` c boram. leva o pesquisador a interessar-se diretamente pela sua pr´pria sociedade. procura incluir os diferentes protagonistas sociais no campo de seu objeto de estudo. mas inicia uma a ca verdadeira muta¸˜o da pr´tica da pesquisa.4 ou tais como estou observando neste moa mento em Fortaleza. al´m dos trabalhos de Balandier citados acima. nas metr´poles congolesas. Correlativamente. . a o 4 Cf. ou outros semelhantes. e de ter aberto novos luco o gares de investiga¸ao: a cidade em especial. o c˜ quanto a isso. c˜ c˜ Todas essas pesquisas. ”complexifica”e ”problematiza”a antropologia cl´ssica. Uma de suas e c˜ e c maiores contribui¸˜es ´ de ter participado de forma consider´vel do deslocaco e a mento das preocupa¸˜es tradicionais dos etn´logos. Lantemari (1962). W E. como vimos acima. Esse processo. . Finalmente. 1955). Ademais. Mas Bastide. no horizonte da antropologia cultural. Jean-Marie Gibbal (1974) ).awrence (I974V e u . militar.117 A partir disso. tamb´m V. n˜o se fala mais em primitivos ou selvagens e sim em ”povos a colonizados”. se essa antropologia reorienta.

A ANTROPOLOGIA DINAMICA: .118 ˆ CAP´ ITULO 11.

Parte III A Especificidade Da Pr´tica a Antropol´gica o 119 .

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Pois a a o e etnografia. de seus ideais. Favret. a cip´s vivos”. an´loga a organiza¸˜es vegetais. ”foi-me o e preciso mudar completamente minhas categorias l´gicas”. de suas ang´stias. ele pr´prio co o deve rezar com seus h´spedes. Se. uma grande e e quantidade de informa¸oes. quaisquer que sejam por outro lado suas op¸oes te´ricas. a sociedade tem preocupa¸˜es religiosas. escreve Roger Baso tide (1978). por exemplo. s´ se pode fazˆ-lo a o a o e comunicando-se com eles: o que sup˜e que se compartilhe sua existˆncia de o e maneira dur´vel (Griaule. e que alguns ainda e hoje preferem qualificar-se de ”etn´grafos”(J. isto ´.Cap´ ıtulo 12 Uma Ruptura Metodol´gica: o a prioridade dada ` experiˆncia pessoal a e do ”campo” A abordagem antropol´gica de base. acrescentando: ”Eu procurava uma compreens˜o mineral´gica e. a que todo pesquisador considera hoje o como incontorn´vel. O etn´grafo ´ aquele que u o e deve ser capaz de viver nele mesmo a tendˆncia principal da cultura que ese tuda. estudar os homens ` maneira do botˆnico examia a a nando a samamb´ia ou do zo´logo observando o crust´ceo. atrav´s de um m´todo estritamente indutivo. que n˜o estaria baseado na observa¸ao direta e a c˜ dos comportamentos sociais a partir de uma rela¸ao humana. Para poder compreender o candombl´. de fato. mas em impregnar-se dos temas obsessionais de c˜ uma sociedade. que ´ fundadora da etnologia e da antropologia – a tal ponto que e alguns dos mestres de nossa disciplina (estou pensando particularmente em Boas) consideram que toda s´ ıntese ´ sempre prematura. c˜ N˜o se pode. Leenhardt) ou transit´ria (L´vi-Strauss). 1977) – n˜o consiste o a apenas em coletar. a o mais ainda. a c˜ o prov´m de uma ruptura inicial em rela¸ao a qualquer modo de conhecimento e c˜ abstrato e especulativo. a co o 121 .

longe de compreender c˜ uma sociedade apenas em suas manifesta¸oes ”exteriores”(Durkheim). arriscando-se a ıvel e perder em algum momento sua identidade e a n˜o voltar totalmente ileso a dessa experiˆncia. Com a diferen¸a. e 2) Diante de qualquer problema que lhe seja apresentado. por´m. e termine seu discurso insistindo sobre tudo o que deve a esses ´ ındios do Brasil.122 ´ CAP´ ITULO 12. e 3) O etn´logo evita. ´ significativo que. devo c˜ interioriz´-la nas significa¸˜es que os pr´prios indiv´ a co o ıduos atribuem a seus comportamentos. tem algo de errante. proclame c˜ que. o ind´ ıgena”. o observador deve ficar com a ultima palavra. consistindo e e a em uma verdadeira acultura¸ao invertida. abre o caminho para essa etapa ulterior da pesquisa). constituem informa¸˜es co . na qual. As tena a tativas abordadas. como o o etn´logo. de que a sociologia cl´ssica pensou poder tirar tantos benef´ a ıcios cient´ ıficos. pelo contr´rio. o c e c por raz˜es metodol´gicas (e evidentemente afetivas). mas e ca que. Quanto a isso. Nunca encontra testemunhas vivas. como diz L´vi-Strauss a respeito do pensamento durkheimiano. parece ser capaz de encontrar uma explica¸˜o e fornecer solu¸oes. Recolhe e analisa os testemunhos. a etnografia ´ antes a experiˆncia de uma imers˜o total. o autor da Antropologia Estrutural comece sua e exposi¸ao por uma ”homenagem”ao ”pensamento supersticioso”. bem como a utiliza¸ao de protococ˜ c˜ los r´ ıgidos. Essa apreens˜o da sociedade tal como ´ percebida de dentro pelos atores a e sociais com os quais mantenho uma rela¸˜o direta (apreens˜o esta. o a e ca 1) Comporta um distanciamento em rela¸˜o a seu objeto. em sua Li¸˜o Inaugue ca ral no Coll`ge de France. Objetar-se-´ que pode. pelo contr´rio. de fato. uma ue programa¸ao estrita de sua pesquisa. UMA RUPTURA METODOLOGICA: Assim. nunca entra em contato direto com os homens e mulheres das sociedades que estuda. O historiador. dar conta o mais cientificamente poss´ o ıvel da alteridade a qual ´ ` e confrontado. pelo menos em suas a a principais tendˆncias cl´ssicas v´rias caracter´ e a a ısticas a distinguem da pr´tica a etnol´gica considerada sob o ˆngulo que det´m aqui nossa aten¸˜o. se procura. A busca etnogr´fica. Quanto ` pr´tica da sociologia. n˜o apenas por temperamento mas tamb´m em cono a e seq¨ˆncia da especificidade do modo de conhecimento que persegue. que n˜o ca a a ´ de forma alguma exclusiva da evidencia¸˜o daquilo que lhes escapa. ´ a e que distingue essencialmente a pr´tica etnol´gica – pr´tica do campo – da a o a do historiador ou do soci´logo. ser o caso do etn´logo. de quem se considera um ”aluno”. de que este se esfor¸a. ´ ca c˜ a e claro. em co-colar-se o mais o o perto poss´ do que ´ vivido por homens de carne e osso. e cono ´ tra o observador. ”contra o te´rico. os erros cometidos no campo. e ”deca sencarnado”. e algo frio.

por´m. Da mesma forma a e a que o fato de ter alcan¸ado uma cura anal´ c ıtica n˜o garante que vocˆ possa a e um dia se tornar psicanalista. a o o a e com uma experiˆncia que comporta uma parte de aventura pessoal. Pois a o e c˜ a pr´tica antropol´gica s´ pode se dar com uma descoberta etnogr´fica. o evento que ocorre quando n˜o u a esper´vamos.123 que o pesquisador deve levar em conta. Como tamb´m o encontro que e surge freq¨entemente com o imprevisto. quanto `s virtudes do campo. isto ´. e . Trata-se por´m de condi¸oes necess´rias. a N˜o nos enganemos. um grande n´mero de temporadas passadas em u contato com uma sociedade que se procura compreender n˜o o transformar´ a a ipso jacto em um etn´logo.

124 ´ CAP´ ITULO 12. UMA RUPTURA METODOLOGICA: .

n˜o formalizados. por exemplo. a maior a a e parte de nossa existˆncia) s˜o ent˜o rejeitados para o registro inconsistente e a a do ”folclore”. Assim. e sobretudo as formas menos ore c˜ ganizadas de socialidade. em detrimento das associa¸˜es de menor importˆncia co a num´rica. Os fenˆmenos sociais n˜o escrio a tos.1 E uma abordagem claramente microsso´ol´gica. a vida cotidiana dos homens c˜ torna-se uma esp´cie de res´ e ıduo irris´rio.Cap´ ıtulo 13 Uma Invers˜o Tem´tica: a a o estudo do infinitamente pequeno e do cotidiano A hist´ria. como as associa¸oes religiosas. n˜o institucionalizados (isto ´. na realidade. e a Disso resulta um deslocamento radical dos centros de interesse tradicionais das ciˆncias sociais. que privilegia dessa a o vez o que ´ aparentemente secund´rio em nossos comportamentos sociais. bem como as formas de atividades institu´ ` ıdas. privilegiam nitidamente as c˜ a grandes. da ciˆncia. quando estudam as associa¸oes volunt´rias. Nessas condi¸oes. . . suscet´ ıveis de influenciar diretamente a (grande) pol´ ıtica: os partidos. a sociologia cl´ssica d˜o uma prioridade quase sistem´tica a socieo a a a ` dade global. a 1 125 . do que de uma de suas vestimentas e ideol´gicas que escolhe os fatos estudados de acordo com crit´rios e pertinˆncias estranhas o e e a qualquer preocupa¸˜o cient´ ca ıfica. a partir da representa¸˜o o ca mestra do . consciˆncia e e raz˜o. para o que chamarei de infinitamente pequeno e cotidie Trata-se evidentemente menos. a n˜o ser em se tratando (para o o a historiador) da vida dos ”grandes homens”. e os batiza de ”hist´ricos”.acesso progressivo das sociedades humanas a um maior bem-estar. os sindicatos. A abordagem etnol´gica consiste precisamente em dar uma aten¸ao toda o c˜ especial a esses materiais residuais que foram durante muito tempo considerados como indignos de uma atividade t˜o nobre quanto a atividade cia ´ ent´ ıfica. no caso.

de fato. . nessa perspectiva. n˜o h´. as preocupa¸˜es dos etn´logos me parecem indefectivelnica co o ente ligadas a um certo n´mero de crit´rios. como escreve L´vi-Strauss (1958). que permitem definir as socieu e dades nas quais nossa disciplina nasceu: grupos de pequena dimens˜o. se n˜o encona tra objetos emp´ ıricos capazes de lembrar-lhe os bons tempos da etnologia cl´ssica. . em seguida. por aquilo que n˜o a e e a Essa predile¸˜o pelos abandonados (”laiss´s-pour-compte”) (ou advers´rios) do proca e a gresso – o estudo dos indigentes sucedendo ao dos ind´ ıgenas – parece claramente na ´rea a n˜o ex´tica da antropologia americana. e higiene. UMA INVERSAO TEMATICA: ano. E as diferen¸as entre os modos de vida e de pensao c mento s˜o t˜o localiz´veis nas nossas sociedades (constitu´ a a a ıdas de m´ltiplos u subgrupos extremamente diversificados. acrescentaremos. ´ um fato. e. propriamente nenhum a a a territ´rio da etnologia. 2 o Dito isso. . o etn´logo tende a estudar as formas de comportao mento e sociabilidade mais excentradas em rela¸ao ` ideologia dominante da c˜ a sociedade global ` qual pertence. Se. conv´m distinguir (mas n˜o dissociar) as quest˜es de fato e as e a o de direito. 2 . cient´ o o ıfico. adeptos de seitas religiosas. nos a quais as rela¸oes (exclusiva ou essencialmente orais) s˜o personalizadas no c˜ a extremo.as express˜es corporais. E. ”Se e o etn´logo”. a o nas quais a comunica¸ao aparece como cada vez mais anˆnima? Resposta: c˜ o ele vai em primeiro lugar procurar. voltar-se-´ em primeiro lugar para a comunidade a e a camponesa (e n˜o para a cidade industrial). . As doutrinas. em aparˆncia. os e u o h´bitos alimentares.) s˜o. para a fam´ tradicional (e n˜o a ılia a para a fam´ desmembrada). Em suma. ”interessa-se sobretudo por o e aquilo que n˜o ´ escrito”(e tamb´m. que d´ uma aten¸˜o toda especial aos guetos a o a ca negros ou portorriquenhos dos Estados Unidos. para as popula¸oes co c˜ desenraizadas (e n˜o para a burguesia decadente). e nos quais v´rias ideologias est˜o a a em concorrˆncia) quanto nas sociedades qualificadas de ”tradicionais”. Assim. a percep¸ao dos ru´ a c˜ ıdos da cidade e dos ru´ ıdos dos campos.as produ¸˜es do pensamento c˜ co erudito (filos´fico. para as pequenas confrarias religiosas (e n˜o ılia a para as grandes organiza¸˜es sindicais). seus objetos a de predile¸ao ser˜o os grupos sociais que se situam mais no exterior da socic˜ a edade global do observador: os que qualificamos de marginais: camponeses bret˜es. cona sideradas menos como iluminadoras do que como devendo ser iluminadas. mais f´teis: os gestos. teol´gico. 0 problema que se vˆ aqui colocado ´ evidentemente o seguinte: e e como far´ o etn´logo quando se ver confrontado a sociedades gigantescas. Embora o objeto emp´ ırico da etnologia n˜o se confunda com o campo aberto a pela coloniza¸˜o. feiticeiros do Berry. de direito. dentro dessas sociedades. .126 ˜ ´ CAP´ ITULO 13. as constru¸oes intelectuais. a aten¸˜o do pesquisador passa a interessar-se para as condutas mais ca habituais e.

as ciˆncias das e religi˜es n˜o consideram mais o cristianismo ”ao n´ das doutrinas e dos o a ıvel doutores. ıdo. objeto tabu. o h´bitat popular. ao meu ver. Mas ´ sobretudo na hist´ria. na pr´tica cient´ a a ıfica. no caso. que as influenciou (direta ou indiretamente) designando-lhes novos terrenos de investiga¸ao e convencendo-as de c˜ que n˜o deve haver. ´ e e pass´ de ser aplicado a toda realidade social. e sim uma abordagem. o e dos grandes eventos para a vida cotidiana. Sob a influˆncia da escola dos e Annales. pois a etnologia n˜o tem objeto que lhe seja pr´prio (e a o que poderia ser-lhe ipso jacto designado pelo car´ter ”primitivo”ou ”tradicioa nal”das sociedades estudadas). dos ”grandes homens”para os atores anˆnimos. sendo este a express˜o de uma cultura que se procura compreender nos seus a m´ ınimos detalhes. Conv´m. ”n˜o ´ tanto porque os povos que ese a e tuda s˜o incapazes de escrever. ıvel O que me parece importante sublinhar. deixar de colocar o problema das rela¸oes da sociologia e e c˜ da etnologia sobre as bases emp´ ıricas das ”sociedades industriais”e das ”sociedades tradicionais”(mesmo incluindo-se os lados ”tradicionais”existentes dentro das primeiras). ao meu ver. u do Estado para o parentesco. ´ que grande parte da e renova¸ao das ciˆncias humanas contemporˆneas deve-se incontestavelmente c˜ e a a sua abertura para nossa disciplina. est´ passando do estudo dos pal´cios. que assistimos a um deslocamento e o radical do campo da curiosidade. portanto. o . uma hist´ria da cotidianidade material. e sim das multid˜es anˆnimas”. templos e t´mulos impea a u riais para o conjunto do meio ambiente constru´ inclusive o mais humilde. e a reabilitar todo esse ”recalcado”da a cultura material que ´. pelo menos na Fran¸a. finalmente. uma hist´ria das mentalidades e sensibilidao o e o des. tornou-se uma o a c hist´ria antropol´gica. Trata-se de ir do p´blico para o privado. A aro o quitetura come¸a a perceber que o estudo dos monumentos ”de estilo”forma c apenas uma parte ´ ınfima do h´bitat.127 ´ formalizado e institucionalizado). um olhar. um enfoque particular. como escreve Ean Delumeau. Assim. Um deslocamento absoe a lutamente an´logo pode ser encontrado em qualquer area: ”a arqueologia. mas porque aquilo que o interesse ´ diferente a e de tudo que os homens pensam habitualmente em fixar na pedra e no papel”. absolutamente unico no campo das ciˆncias humanas. isto ´. a ´ por exemplo. a hist´ria contemporˆnea.

128 ˜ ´ CAP´ ITULO 13. UMA INVERSAO TEMATICA: .

´ a rede densa das intera¸oes que estas constituem com a totalidade e c˜ social em movimento. cultural. mesmo que n˜o diga respeito diretamente ao assunto que pretendemos estudar. De outro. de fato. pol´ o o ıtico. as ciˆncias jur´ c˜ e ıdicas. se tornar um especialista.Cap´ ıtulo 14 Uma Exigˆncia: e o estudo da totalidade Uma das caracter´ ısticas da abordagem antropol´gica ´ que se esfor¸a em o e c levar tudo em conta.). social. um outro: os sistec˜ e o mas de produ¸ao e troca de bens. ”o homem ´ indivis´ e ıvel”e ”o estudo do concreto”´ ”o estudo do completo”. de estar atenta para que nada lhe tenha ese capado. As ciˆncias pol´ e o a e ıticas se d˜o por objeto de investiga¸ao um certo aspecto do real: as institui¸oes a c˜ c˜ que regem as rela¸oes do poder.) sem correr o risco de abolir o que ´ a base da pr´pria especificidade de sua pr´tica. isto ´. jur´ o a ıdica. . o direito. o menor fenˆmeno deve ser apreendido na multiplicidade de suas dio mens˜es (todo comportamento humano tem um aspecto econˆmico. e ´ E a raz˜o pela qual toda abordagem que consistir em isolar experimentala mente objetos n˜o cabe no modo de conhecimento pr´prio da antropologia. A especializa¸˜o cient´ ca ıfica ´ mais problem´tica para o antrop´logo do que e a o para qualquer outro pesquisador em ciˆncias humanas. vivido. psicol´gico. tudo deve ser observado. No campo. De um a lado. anotado. um perito de tal ou tal ´rea e a particular (econˆmica. s´ adquire significa¸ao antroo o c˜ pol´gica sendo relacionado a sociedade como um todo na qual se inscreve e o ` dentro da qual constitui um sistema complexo. as ciˆncias econˆmicas. O antrop´logo n˜o e o a pode. . . a o pois o que esta pretende estudar ´ o pr´prio contexto no qual se situam esses e o objetos. demogr´fica. as ciˆncias e 129 . isto ´. Como escreve Mauss (1960). .

2) tentar. dentro do espa¸o da cultura c cient´ ıfica (e n˜o da cultura humanista. a e o O drama das ciˆncias humanas contemporˆneas ´ a fratura entre uma atitude e a e extremamente reflexiva (a da filosofia ou da moral) mas que corre o risco de cair no vazio. as ciˆncias religiosas. . um risco essencial: o de um desmantelamento do a homem em produtor. Edgar Morin (1974). voltaremos a isso. est´ relacionada a abordagem menos diretiva e program´tica da pr´pria a ` a o pr´tica etnogr´fica. ´ freq¨entemente levada a participar desse o e e u processo que pode causar uma verdadeira mutila¸˜o do ser humano. . a respeito desse aspecto. . . e em especial do cap´ o ıtulo intitulado ”Da pauperiza¸˜o das id´ias gerais em um meio especializado” ca e 1 . e c˜ uma cientificidade extremamente positiva. comparada a outros modos de coleta de informa¸oes: a a c˜ N˜o posso deixar de recomendar particularmente. a antropologia me parece ser o ant´ ıdoto n˜o filos´fico de uma a o concep¸ao tayloriana da pesquisa. isto ´. . consumidor. . por estar baseada no parcelamento de territ´rios e. sobre uma forma o de objetividade que as pr´prias ciˆncias exatas descartaram h´ muito tempo.1 o e a Essa preocupa¸ao que tem a antropologia de dar conta. ou at´ transformar os fenˆmenos que se estuda. . os processos cognitivos e afetivos. A pr´pria antropologia. das condutas suicidas. de fato. no horizonte cient´ ıfico contemporˆneo. e ue o o pesquisador tende a se tornar o especialista de um campo exclusivo: sociologia dos lazeres. Assim. ´ claro. de que se ca procura. a leitura a da obra de um soci´logo. de uma ma´ a neira pragm´tica. Mas todos estes s˜o para o antrop´logo fenˆmenos c a o o parciais. como pode ser a cultura filos´fica ou a o liter´ria). Pessoalmente. . os siso e temas de cren¸a. por exemplo. do esporte. abstra¸oes em rela¸˜o ao enfoque n˜o parcelar que orienta e c˜ ca a sua abordagem. parente. a a pesquisa sociol´gica est´ cada vez mais especializada: estuda fenˆmenos o a o particulares: a delinq¨ˆncia. um lugar privilegiado a partir do qual ainda se pode perceber que a toda pr´tica hiperespecializada. que consiste em: 1) cumprir sempre a c˜ mesma tarefa. a criminalidade. o alcoolismo. atrav´s da fragmenta¸˜o e do desmembraa e ca mento que imp˜e ao real. costurar de novo os retalhos recortados. Mas permanece. cidad˜o. em um segundo tempo (a pluridisciplinaridade). o div´rcio. dada a fraca positividade de seus objetos de investiga¸ao. ser o especialista de uma unica ´rea. UMA EXIGENCIA: psicol´gicas. a partir de um c˜ fenˆmeno concreto singular. mas pouco reflexiva. O parcelamento disciplinar comporta.130 ˆ CAP´ ITULO 14. acaba destruindo o pr´prio objeto que pretendia o o estudar. modificar. a meu ver. do multidimensionamento de seus aspectos e da o totalidade complexa na qual se inscreve e adquire sua significa¸ao inconscic˜ ente.

mais uma vez. baseada sobre uma extrema proxia midade da realidade social estudada. E a raz˜o c˜ a a pela qual muitos entre n´s se recusam a entrar nas vias de uma hiperespecio aliza¸ao. como mostrou Husserl. jun¸ao hist´rica absolutamente singular c˜ o unica at´ na hist´ria da humanidade. por mais apero e a fei¸oados que sejam. E a raz˜o pela qual somos provaca ` ` c a velmente. o projeto que foi o da filosofia cl´ssica. O projeto antropol´gico retoma. esta ultima disciplina n˜o ´ mais hoje um pen´ a e samento da totalidade dando-se como objetivo compreender os m´ltiplos asu pectos do homem. c˜ ` ´ em rela¸˜o a sociedade a qual perten¸o). e nos quais as atividades s˜o pouco especializadas. hoje. pela dis-. Tal preoc u cupa¸ao diz respeito tamb´m. como sugere hoje em dia Laborit. mais surpreendidos. paradoxalmente. Como escreve L´vi-Strauss. o marxismo e a antropologia. c˜ a e podendo at´. chegar a impedir o pr´prio e o exerc´ do pensamento. para n´s. mas a observa¸˜o direta de ca ´ suas produ¸oes concretas). enquanto antrop´logos. de fazer surgir um questionamento m´tuo. a natureza das sociedades nas c˜ e ` quais se desenvolveu nossa disciplina: conjuntos relativamente homogˆneos. al´m de todos os question´rios. a ciˆncia e a religi˜o. o A pr´tica da antropologia finalmente. apenas trˆs formas de pensae e mento s˜o. e que se d˜o uma ideologia a a mestra (de tipo mitol´gico) dando conta da totalidade social. que nossa pr´pria cultura realizou entre ´ e o o a ciˆncia e a moral. a ciˆncia e a filosofia.131 trata-se. e. antagonista da reflex˜o. mas sobre bases completamente diversas (n˜o mais a espea cula¸ao sobre as categorias do esp´ c˜ ırito humano. sup˜e tamb´m. de fato. no mundo contemporˆneo. um o e grande distanciamento (em rela¸ao a sociedade que procuro compreender. ıcio . podendo tornar-se. em primeiro o lugar. e e a e Se olharmos de mais perto. o a meu ver. capazes de responder a essa defini¸˜o: a a ca o islamismo. mais tocados do que outros.

132 ˆ CAP´ ITULO 14. UMA EXIGENCIA: .

notadamente. quando uma crian¸a nasce. a ´ praticada. Cada um o j´ notou que. da inaugura¸ao de o c˜ um edif´ ıcio. Pois. permanece totalmente incompreens´ se n˜o o relacionarmos ıvel a as cerimˆnias de apropria¸˜o do espa¸o que. nas sociedades tradicionais. esse cerimonial. se vˆ totalmente integrado a sua pr´pria fam´ e o ılia. na Africa. por exemplo. o marido recupera seus direitos de paternidade c (nas sociedades. con` o ca c sistem no sacrif´ de um animal ou numa liba¸˜o de alcool aos esp´ ıcio ca ´ ıritos. uma ruptura com qualquer forma. Ora. os parentes e amigos da fam´ a c ılia endere¸am seus cumprimentos ao novo pai. at´ o in´ do s´culo. pelo menos uma vez na vida. de etnocentrismo. e c notadamente na Borgonha. isto ´. como um verdadeiro revelador de si. Tudo se passa como se a e ıcio e parturiente n˜o fosse outra sen˜o o pr´prio pai. e adquire com isso um estatuto de perfeito genitor.Cap´ ıtulo 15 Uma Abordagem: a an´lise comparativa a Est´ ligada ` problem´tica maior de nossa disciplina que ´ a da diferen¸a. na realidade. Todos n´s participamos. a a a e c implicando uma descentra¸ao radical em rela¸˜o a sociedade de que faz parte c˜ ca ` o observador. O mesmo se d´ quando nos interessamos para a defesa de uma tese de doua 133 . e que se encontrava tamb´m na Fran¸a. amigos nos convidaram para festejar a entrada em uma nova casa ou em um novo apartamento. nas quais o parentesco biol´gico ´ dissociado o e da paternidade social). Participando efetivamente a a o do nascimento da crian¸a. mas que n˜o suspeit´vamos. Esse costume aparentemente c insignificante ganha todo seu significado se o olharmos ` luz da couvade. Essa experiˆncia de arrancamento de a a e si pr´prio age. apenas o que percebemos (em estado manifesto ou latente) em uma outra sociedade nos permite visualizar o que est´ em jogo a na nossa. tamb´m bastante e insignificante. dissimulada ou delibee rada.

o da feiti¸aria entre os Azand´ do Sud˜o c e a que permite a Evans-Pritchard compreender alguns aspectos do comunismo sovi´tico. N˜o se trata mais de comparar as sociedades entre si. mas quase nunca do estudo dos processos de variabilidade da cultura. A abordagem comparativa – que se confunde com a pr´pria antropologia o – ´ uma das mais ambiciosas e exigentes que h´. especialmente Frazer). os Trobriandeses. escreve: ”A Africa me ensinou muito sobre o a Oceania”. n˜o ´ de ana c co a e trop´logos. atrav´s de monografias. Com o funcionalismo.134 CAP´ ITULO 15. toda a etnologia posterior (a ruptura a epistemol´gica introduzida nos anos 1910-1920 por Boas e Malinowski) ir´ o a adotar uma posi¸˜o radicalmente anticomparativa. temos de reconhecer que a maioria dos etn´logos de hoje n˜o ´ de o a e antrop´logos. As extrapola¸oes e generaliza¸˜es que e o c˜ co operam os pesquisadores eruditos desse per´ ıodo v˜o aparecendo aos poucos a como t˜o abusivas que. e sim de soci´logos. de um aspecto desta cultura. Ora. conv´m lembrar algue mas grandes posi¸oes que balizam a hist´ria de nossa disciplina. no caso. como se realiza a integra¸˜o das difee ca 2 ren¸as fun¸oes em jogo em uma mesma sociedade. praticamente. o o 1ˆ . c c˜ E nessa perspectiva que Maurice Leenhardt. ca a sociedade estudada adquire uma autonomia n˜o apenas emp´ a ırica. ou at´ de o e um segmento. Mas antes de examinar os e a problemas que coloca e as dificuldades que encontra. mas e o a de mostrar. dizia ele. 2 O que leva o antrop´logo americano Murdock a dizer que a maioria dos antrop´logos o o britˆnicos. UMA ABORDAGEM: torado. c˜ o A primeira forma de comparatismo – o evolucionismo – ordena os fatos colhidos dentro de um discurso que se apresenta como hist´rico. Confrontando o essencialmente costumes (cf. na melhor das hip´teses de alo gumas variedades de culturas. procura reconstituir uma evolu¸˜o hipot´tica das sociedades humanas (de todas as sociedades) ca e na ausˆncia de documentos hist´ricos. o que aconteceu a Malinowski: ”pensar durante toda a sua vida em fun¸˜o de um unico tipo ca ´ de sociedade”. ap´s ter trabalhado durante mais de 20 o ´ ´ anos na Nova Caledˆnia e ter estado na Africa. deixando de lado o estudo das diferen¸as entre as civiliza¸˜es. mas tamb´m te´rica. Suas pesquisas tratam de uma cultura particular. Este mestre da antropologia britˆnica recomendava a seus alunos e a o estudo de duas sociedades a fim de evitar. que adquire todo o seu significado a partir do momento em que a confrontamos com os ritos de inicia¸ao e passagem que pudemos observar em c˜ outras sociedades.1 Poder´ ıamos multiplicar os exemplos: o estudo dos jovens de Samoa que permite a Margaret Mead dar conta dos comportamentos de crise dos adolescentes americanos.

mais problemas do que solu¸˜es. essencial. t˜o caracter´ o c˜ a ıstica de nossa disciplina. a partir de correla¸oes entre um grande n´mero de c˜ c˜ u vari´veis (das t´cnicas materiais as representa¸oes religiosas) em 75 culturas a e ` c˜ diferentes. co Esses exemplos mostram que. Mas esse programa. O empreendimento gigantesco dos Human Relations Area Files. de uma area geogr´fica para ´ a outra – n˜o mais por uma ”periodiza¸ao”no tempo. Vale a o co dizer que o pesquisador deve ter uma prudˆncia consider´vel. preferencialmente. o de confrontar os come portamentos humanos os mais diversificados. quando n˜o imposs´ a ıvel. na realidade. elaborado por Murdock e seus colaboradores a partir de 1937 ´. sem arriscar-se a ultrapassar os limites de uma abordagem que se quer cient´ ıfica. Como ` a conceber ao mesmo tempo. qualquer empreendimento de compara¸ao c˜ (´ a posi¸ao de Boas). para serem estudadas antropologicamente. pois ´ precisamente o estabelecimento dessa rela¸ao u e c˜ que fundamenta a pr´pria abordagem da compara¸ao. e n˜o mais o a apenas etnograficamente. devido a sua pr´pria preocupa¸ao de exauso c˜ tividade. Este deve passar pelo caminho lento e trabao lhoso que conduz da coleta e impregna¸ao etnogr´fica a compreens˜o da c˜ a ` a l´gica pr´pria da sociedade estudada (etnologia). o caminho ´ dos mais estreitos. como na ´poca de Mora c˜ e gan. coloca. essas varia¸oes devem ser relacionadas a um certo c˜ n´mero de invariantes. de fato. os materiais recolhidos devem ser meti- . as institui¸˜es pol´ co ıticas dos habitantes da Patagˆnia e as dos groen-landeses. O pr´prio empreendie c˜ e o mento que orienta a antropologia sup˜e a tomada em considera¸˜o de uma o ca humanidade ”plural”. por uma extens˜o no espa¸o –. Visa estudar o leque mais completo poss´ dos comportamentos ıvel e institui¸oes humanos. entre a tenta¸˜o de um comparatismo sisca tem´tico (como no evolucionismo) e o ceticismo geral dos que consideram a prematuro. s˜o as varia¸oes que interessam em primeira instˆncia a c˜ a ao antrop´logo: mas. repree sentativo. Detenhamo-nos sobre esse ponto que ´. os ritos religiosos dos bantos e os dos o ´ ındios da Amazˆnia? o Lembremos em primeiro lugar que a an´lise comparativa n˜o ´ a primeira a a e abordagem do antrop´logo. Em seguida apenas. ao meu c˜ e ver. Claro.135 Se o projeto da antropologia cultural ´. poo o der´ interrogar-se sobre a l´gica das varia¸˜es da cultura (antropologia). a esse respeito. mas. Mas como dar conta de fenˆmenos que n˜o perteno a cem as mesmas sociedades e n˜o se inscrevem no mesmo contexto. Antes de see a rem confrontados uns aos outros. o postulado a c da irredutibilidade de cada cultura termina impedindo o pr´prio empreeno dimento da compara¸ao.

deixaremos escapar o essencial. gra¸as `s quais descobrimos propriedades co c a similares em sistemas aparentemente diferentes”. n˜o a e a a deve mais nada a abordagem do comparatismo dos primeiros etn´logos. os termos da c˜ compara¸ao n˜o podem ser a realidade dos fatos emp´ c˜ a ıricos em si. enquanto hip´teses operat´rias. como diz Kroeber. n˜o s˜o sempre as mesmas. 5 e c e ”Se postulamos apressadamente a homogeneidade do campo social e nos confortamos na ilus˜o de que este ´ imediatamente compar´vel era todos os seus aspectos e n´ a e a ıveis. s˜o sistemas de rela¸˜o. o que outros se encarregavam de ver por procura¸ao) nas sociedades ”primitivas”. chegaremos apenas a ca e evidenciar algumas analogias. UMA ABORDAGEM: culosamente criticados. 5 ”S´ ´ estruturado um arranjo que preencha duas condi¸˜es: ´ um sistema regido o e co e por uma coes˜o interna. as ”universalia dades”encontradas poderiam muito bem ser apenas a proje¸˜o de ”categorias ca l´gicas”pr´prias somente da sociedade do observador. nem em geral e. a ca A partir de uma descri¸ao (etnografia). supunha saber) de nossa pr´pria sociedade. na maior parte das vezes. um outro comportamento. institui¸oes. da religi˜o. quando estaremos nos limitando a descrever propriedades superficiais ou a enunciar tautologias”. O que se e a compara hoje s˜o costumes. Mas ent˜o. um outro costume. Ele o a e n˜o procura atingir a natureza da arte. comportamentos. Pois. o a a nem est˜o sempre em mesmo n´mero. s˜o recolhidas c a a pelo etn´logo. com o que sabia c˜ (ou melhor. tal comportamento. escreve L´vi-Strauss (1973). e pensaremos estar formulando as leis da natureza a u social. c˜ o o o a partir destes fatos. N˜o ` o a utiliza mais os mesmos m´todos e n˜o tem mais o mesmo objeto. nem a a mesmo.136 CAP´ ITULO 15. Assim o evolucionismo o o comparava o que via (ou. confrontadas umas com as outras. de uma an´lise (etnoloc˜ a gia) de tal institui¸˜o. procura-se descobrir ca progressivamente o que L´vi-Strauss chama de ”estrutura inconsciente”. e 4 O etn´logo contemporˆneo ´ infinitamente mais modesto que seus predecessores. em particular. dos conjuntos estruturados. escreve L´vi-Strauss (1973). Em suma as diferen¸as nunca s˜o dadas. tal costume. Se a antropologia contemporˆnea ´ t˜o comparativa quanto no passado. que e pode ser encontrado na forma de um arranjo diferente em uma outra institui¸ao.4 mas sistemas de rela¸oes que o pesquisador constr´i. e sim fazendo parte destes. isto ´. n˜o mais isolaa c˜ a dos de seus contextos. do parentesco. Ou seja. e aquilo que ´ finalmente o e comparado ´ o sistema das diferen¸as. se come¸armos comparando os costumes de c tal popula¸˜o africana com os de tal outra europ´ia. Disso decorrem as o analogias que n˜o faltaram entre os abor´ a ıgines australianos e os habitantes 3 da Europa na Idade da Pedra. e essa coes˜o – que ´ impercept´ ` observa¸˜o de um sistema a a e ıvel a ca isolado – se revela no estudo das transforma¸˜es. e depois. e 3 . Desconheceremos que as coordenadas necess´rias para a definir dois fenˆmenos aparentemente muito semelhantes.

Estado. pois o estudo dos textos c˜ c˜ etnol´gicos nos informa tanto sobre a sociedade do observador quanto sobre o a do observado. isol´-la de seu pr´prio contexto. A antropologia evolucionista que lhe sucede est´ estreitamente a ligada `s pr´ticas coloniais conquistadoras da ´poca vitoriana. O funcionalismo. c˜ empresta seu vocabul´rio `s ciˆncias da natureza que lhes parecem a garantia a a e 137 . Seria ingˆnuo. Seria paradoxal. n˜o mais sobre o saber etnol´gico em si. c˜ ou momento da hist´ria deixar de aplicar a si pr´prio o mesmo tratamento. praticamente irreconhec´ e ıvel. um c s´culo depois. transforma-se. o a o sobretudo para uma pr´tica da qual um dos objetivos ´ situar os compora e tamentos dos que ela estuda em uma cultura. portanto. que nunca ´ um produto a o e acabado. a antroe a pologia por sua vez est´ na sociedade”(1973). classe social.Cap´ ıtulo 16 As Condi¸oes De Produ¸˜o c˜ ca Social Do Discurso Antropol´gico o A antropologia nunca existe em estado puro. e se torna. o o Como escreve L´vi-Strauss. na¸ao. sobretudo da e parte de um antrop´logo. alguns exemplos estudados anteriormente. interrogar-se e agora. quanto a si. consiste a na racionaliza¸ao do expansionismo colonial. dentro dessa nova perspectiva. Retomemos rapidamente aqui. e permitir fundar um novo ”conc˜ trato social”. ”se a sociedade est´ na antropologia. Em seguida. mas sobre suas condi¸oes de produ¸ao. Sustentada a a e pelo ideal de uma miss˜o civilizadora (a certeza que se tem de si). e em contato com as grandes mudan¸as sociais que se produzem. ´ que estas podem dar ao Ocie e dente li¸oes sobre a natureza das sociedades. Seu atestado de nascimento a inscreve-se em uma determinada ´poca e cultura. Conv´m. O que interessa a antropologia filos´fica do o s´culo XVIII nas sociedades da ”natureza”.

foi (e ainda ´) t˜o forte nos Estados Unidos. explica-se notadamente pelo fato de a que os Estados Unidos nunca tiveram colˆnias (mas apenas minorias ´tnicas). como parte integrante de seu objeto de estudo. Um ultimo exemplo nos ser´ dado ´ a pela antropologia americana em sua tendˆncia culturalista. co e a essa sociedade formada de uma pluralidade de culturas. que ´ necesa a e sariamente a de um pesquisador pertencendo a uma ´poca e a uma sociedade. o a e estudar objetos novos. a meu ver. Mas estas nunca s˜o ca a hist´rica. por exemplo. ”as ciˆncias humanas a c˜ e s˜o falsas Ciˆncias. Mas est´. Al´m disso. se se tem raz˜o em insistir sobre e a o fato de que o pesquisador deve considerar o lugar s´cio-hist´rico a partir do o o qual fala. ser considerados como um instrumento. Nosso pertencer e nossa implica¸ao a e a a e c˜ social. cultural. AS CONDICOES DE PRODUCAO SOCIAL DO DISCURSO ANTROP ¸˜ ¸˜ da cientificidade. variar as perspectivas. O ”relativismo e cultural”. ligado ` crise hist´rica do e a a o pensamento te´rico do Ocidente confrontado com a alteridade. expressam diferentes formas da cultura ocidental quando esta encontra os outros de uma maneira te´rica. na realidade. Permitem coloa car as quest˜es que n˜o se colocavam em outra ´poca. ca e A distˆncia ou participa¸˜o etnogr´fica maior ou menor est´ eminentemente a ca a a ligada ao contexto social no qual se exerce a pr´tica em quest˜o. Mas o objeto da antropologia n˜o leva em conta as pr´ticas a a coloniais. . pol´ o ıtica. podem pelo contr´rio. o etn´logo pode esquecer (freq¨entemente de boa-f´) as condi¸˜es– o u e co sempre particulares – de produ¸˜o de seu discurso.138CAP´ ITULO 16. e de outras fora mas de antropologia que as combatem. seria irris´rio reduzir a antropologia apenas as condi¸oes de seu o ` c˜ surgimento e desenvolvimento. comparando-a a com a antropologia britˆnica ou francesa. em detrimento do funcionac˜ mento de nossas institui¸˜es. n˜o s˜o ciˆncias”. perguntar-se por que essa preocupa¸ao pelas ”coc˜ lora¸oes nacionais”de nossos comportamentos. seria errˆneo cono cluir – como faz. Foucault – que. A pr´pria c˜ o o observa¸˜o nunca ´ efetuada em qualquer momento e por qualquer pessoa. em conseq¨ˆncia das distor¸oes ue c˜ perceptivas atribu´ ıdas ` nossa rela¸ao com o social. termo forjado por Herskovitz. Esses exemplos bastam para nos convencer de que a antropologia ´ o ese tudo do social em condi¸oes hist´ricas e culturais determinadas. o Isso posto. ao contr´rio do evolucionismo. o o e car´ter nitidamente mais anticolonialista dessa antropologia. longe de serem um obst´culo ao conhecimento cient´ a ıfico. e Quando pensa estar fazendo aparecer a racionalidade imanente ao grupo que estuda. que as justificava. Al´m disso. ´ qualificado por este de ”resultado e das ciˆncias humanas”. e socialmente neutras. afinal. o e Seria conveniente.

´ sempre. parece-me. e sim sujeitos observando outros sujeitos. Assim uma verdadeira antropologia cie ent´ ıfica deve sempre colocar o problema das motiva¸˜es extracient´ co ıficas do observador e da natureza da intera¸ao em jogo. distinguir aquele que observa daquele que e a ´ observado. Al´m disso. e at´ necess´rio. ´ parte integrante de sua pesquisa. nunca observamos os comportamentos de um grupo tais como se dariam se n˜o estiv´ssemos ou se os sujeitos da observa¸ao fosa e c˜ sem outros. pois o estudo da totalidade de um fenˆmeno social sup˜e a o o integra¸˜o do observador no pr´prio campo de observa¸˜o. o que detesta ou gosta).Cap´ ıtulo 17 O Observador. ´ por sua vez eminentemente c˜ c e perturbado por essa situa¸ao. Nunca e c˜ a a somos testemunhas objetivas observando objetos. a e sintom´tica da insuficiˆncia de sua pr´tica. pensa ter recoo lhido fatos ”objetivos”. Pois a antropologia ´ tamb´m c˜ e e 139 . Aquilo que o pesquisador vive. em compensa¸ao. Parte Integrante Do Objeto De Estudo: Quando o antrop´logo pretende uma neutralidade absoluta. impens´vel dissoci´-los. e at´ e o ca e cria uma situa¸ao nova. convencido de ser ”objetivo”ao libertare se definitivamente de qualquer problem´tica do sujeito. elimina dos resultados de sua pesquisa tudo o que contribuiu na sua realiza¸˜o e apaga cuidadosamente as marcas de sua imca plica¸ao pessoal no objeto de seu estudo. Essa auto-suficiˆncia do pesquisador. de uma a e a forma estrat´gica e reivindicada) do princ´ e ıpio de totalidade tal como foi exposto acima. se o etn´grafo perturba determinada situa¸˜o. Ou seja. em sua rela¸˜o c˜ ca com seus interlocutores (o que reprime ou sublima. a meu ver. Esquece (na realidade. ca o ca Se ´ poss´ e ıvel. devido a sua presen¸a. ´ que ele corre o maior risco de c˜ e afastar-se do tipo de objetividade (necessariamente aproximada) e do modo de conhecimento espec´ ıfico de sua disciplina.

respectivamente. c˜ a a a a fim de controlar. e a facilidade das rela¸˜es sexuais com as co adolescentes. de lev´-la em conta. pelo contr´rio. a noiva permanece rigorosamente separada do mundo exterior. da proje¸ao e do etnocentrismo. redigidos por ”credores”. tive. serem ”possu´ ıdos”pelos esp´ ıritos ancestrais – ´ prov´vel que o gato veja no cachorro ´ ındios. ou. trancamento) que se inscreve no quadro da prepara¸˜o das jovens ao c˜ ca casamento. E a a uma esp´cie particular de gato.140CAP´ ITULO 17. Passa por um tratamento est´tico cujo e objetivo ´ deixar sua pele o mais branca poss´ e ıvel. e particularmente do universo masculino. as conseq¨ˆncias. longe de eliminar a ıcio a natureza afetiva (mas. enquanto o cachorro. Por que a esses relat´rios anˆnimos. e que ignoram a rela¸ao o o c˜ dos materiais colhidos com a pessoa do coletor j´ que. aplicada a jovens djerbianas que ser˜o entregues c´ ´ a a maridos que n˜o conhecem. a aptid˜o consider´vel que tˆm os homens e as mulheres para entrar em a a e transe. O OBSERVADOR. a a ca a a¸ucar. PARTE INTEGRANTE DO OBJETO DE ESTUDO a ciˆncia dos observadores capazes de observarem a si pr´prios. com certeza. mais precisamente. o Alguns anos atr´s. a o ıs u o espa¸o ocupado pelos esp´ c ıritos. Se isso me surpreendeu. se ele tiver talento. crist˜os. pois era de fato esta que me questionava em alguns o aspectos da cultura dos ba´les e me questiona quando observo hoje. Se ambos fazem. Essa pr´tica de superalimenta¸˜o (` -base de ovos. como se esta n˜o fosse parte da pesquisa. nunca se enganam por muito tempo sobre os sentimentos pelos quais passa o etn´logo. estava realizando. isso ´ realmente o m´ e ınimo que se possa exigir do antrop´logo. perturbadoras ue tanto para mim quanto para meus interlocutores que. como todos os interlocutores. o que me marcou muito na ocasi˜o de o a minha primeira miss˜o etnol´gica em pa´ ba´le foi o respeito pelos velhos. de in´ repugnava-me. importa muito que o etn´logo (isso faz parte da o aprendizagem de sua profiss˜o. uma pesquisa no sul a da Tun´ sobre um fenˆmeno chamado hajba (que significa em arabe: clausısia o ´ tra¸ao. de tentar elucid´-la. freq¨entemente inconscienu tes. e o car´ter cient´ a a ıfico dos resultados de suas pesquisas depende disso) controle as armadilhas. Da mesma forma. africanos – do grupo. e visando a e o que uma situa¸ao de intera¸˜o (sempre particular) se torne o mais consciente c˜ ca poss´ ıvel. por sua vez. a pode sempre escrever suas confiss˜es? Como ´ poss´ que tudo o que faz a o e ıvel originalidade da situa¸˜o etnol´gica – que nunca consiste na observa¸ao de ca o c˜ . No decorrer de um per´ ıodo variando de algumas semanas a alguns meses. veja em e seu dono uma outra ra¸a de cachorro. no Brau sil. ´ porque essas condutas questionavam e a minha pr´pria cultura. na medida do poss´ ıvel. e por um regime alimentar que deve engord´-la. torradas com oleo). Ora. ligada a cultura a qual perten¸o) de ` ` c minha rea¸ao. a pedido do CNRS. c˜ Conv´m aqui interrogar-se sobre as raz˜es que levam a reprimir a subjee o tividade do pesquisador. cac nicentrismo e cinomorfismo.

u neste caso. uma das tendˆncias das ciˆncias humanas contemporˆneas ´ eliminar e e a e duplamente o sujeito: os atores sociais s˜o objetivados. Essa elimina¸˜o encontra sema ca pre sua justifica¸˜o na id´ia de que o sujeito seria um res´ ca e ıduo n˜o assimil´vel a a a um modo de racionalidade que obede¸a aos crit´rios da ”objetividade”. ou pelo menos substitu´ ıvel. Incluir-se n˜o apenas socialmente mas subjetivamente faz parte a . funcionando em muitos ca aspectos como um ritual de exorcismo? Ou seja. que seja africano ou europeu. nem mesmo na filosofia. dissimulados. e os observadores a est˜o ausentes ou. E foi Devereux quem. c e ou.141 insetos. A perturba¸ao que o etn´logo imp˜e atrav´s de sua presen¸a `quilo que observa c˜ o o e c a e que perturba a ele pr´prio. Ora. longe de ser considerada como um obst´culo o a que seria conveniente neutralizar. por que. que o e foi o da f´ ısica at´ o final do s´culo XIX. como diz L´vi-Strauss. e sim numa rela¸ao humana envolvendo necessariamente afetividade c˜ – possa transformar-se a tal ponto em seu contr´rio? Tornar-se esquecimento a ou recalcamento de uma intera¸˜o entre seres vivos. Disso tirou (em 1927) seu famoso ”princ´ ıpio de incerteza”. que reintegra a reflex˜o sobre a problem´tica do a a sujeito como condi¸ao de possibilidade da pr´pria atividade cient´ c˜ o ıfica. a c e ıvel a e objetivar um campo de estudo do qual o observador estaria ausente. pertinente quando se trata de medir ou pesar (pouco importa. Heisenberg mostrou que n˜o se podia observar um el´tron sem criar uma situa¸ao a e c˜ que o modifica. N˜o pode ser conveniente para compreender a comportamentos humanos que veiculam sempre significa¸˜es. sentimentos e co valores. c˜ e sem d´vida. que o observador tenha 25 ou 70 anos. segundo a express˜o a de Edgar Morin. isol´-los. que o levou a reintroduzir o f´ ısico na pr´pria experiˆncia da observa¸˜o f´ o e ca ısica. em primeiro lugar (em 1938). de que a consciˆncia seria ”a inimiga secreta das e e ciˆncias do homem”. E a cren¸a de que ´ poss´ recortar objetos. mas que os pr´prios f´ e e o ısicos abandona´ ram h´ muito tempo. pelo menos. a volta do observador para o campo da observa¸ao n˜o c˜ a se deu atrav´s das ciˆncias humanas. Nessas condi¸oes. e sim por ine e term´dio da f´ e ısica moderna. n˜o haver´ ent˜o outra escolha sen˜o e c˜ a a a a entre uma cientificidade desumana e um humanismo n˜o cient´ a ıfico? Paradoxalmente. ´ uma fonte infinitamente fecunda de coe nhecimento. socialista ou conservador). essa ”esquizofrenia profunda e permanente”das ciˆncias do e homem em sua tendˆncia ortodoxa? e A id´ia de que se possa construir um objeto de observa¸ao independentemente e c˜ do pr´prio observador prov´m na realidade de um modelo ”objetivista”. comum a toda abordagem cient´ ıfica. mostrou o proveito que a etnologia podia tirar desse princ´ ıpio. Esse modelo de objetividade por objetiva¸ao ´.

desde que se saiba aproveit´-lo. a a . A an´lise. ´ o pr´prio instrumento capaz de fornecer a nossa disciplina vane o ` tagens cient´ ıficas consider´veis. PARTE INTEGRANTE DO OBJETO DE ESTUDO do objeto cient´ ıfico que procuramos construir. n˜o apenas das a o a a rea¸oes dos outros ` presen¸a deste. O OBSERVADOR. mas tamb´m de suas rea¸oes `s rea¸˜es c˜ a c e c˜ a co dos outros.142CAP´ ITULO 17. bem como do modo de conhecimento caracter´ ıstico da profiss˜o de etn´logo.

ou. ”tropical”. popula¸˜es projetadas. Ele ´ tomado pela beleza de um espet´culo que o encanta a a e a e mobiliza n˜o apenas seu olhar. po´ticas e. O antrop´logo. de Chateaubriand. e Entre as obras que acabamos de citar. mais recentemente. . de Loti. de Melville. de Cailli´. ´ freq¨entemente levado a procurar formas narrae u tivas (romanescas. Atala. A Procura do Ouro. Typhon. de Conrad. de qualquer intrus˜o da civiliza¸ao co a c˜ 143 . de Gilles Lapouge. . Sexta-Feira ou os Limbos do Pac´ ıfico. A Ilha. Viagem no Oriente. Basta citar O Itiner´rio de Paris a Jerusalem. Os Pequenos Poemas em Prosa.Cap´ ıtulo 18 Antropologia E Literatura: O confronto da antropologia com a literatura ´ imprescind´ e ıvel. o que realiza uma experiˆncia nascida do encontro do outro. Inumer´veis s˜o os esa a critores para os quais o pr´prio ato de escrever implica uma situa¸ao de o c˜ deslocamento. de Gauguin. uma rela¸ao e c˜ – por sinal. Aziyad´. de Antonin Artaud. mas o conjunto de seus sentidos: uma naa tureza grandiosa. A Modifica¸ao. cinematogr´ficas) capazes e a de expressar e transmitir o mais exatamente poss´ essa experiˆncia. Os Tarahumaras. de Gide. Les Nour-ritures Terrestres. ıvel e *** Uma parte importante da literatura mant´m. atuando como e uma metamorfose de si. . de Robert a c˜ Merle. algumas se enquadram nessa famosa literatura de viagem (”oriental”. de Baudelaire. Oviri. de Michel Butor. A`ipi. de Roussel. Descobrindo novos horizontes. como a etnologia. entre a nossos contemporˆneos.) conhecida sob o a nome de ”exotismo”. M. extremamente complexa – com a viagem. Os a Natehez. Impress˜es da Africa. de Ner-val. Boure o linguer. de Cendrars. le Cl´zio. A e ´ Viagem para Tombuctu. de J. Equinoxiais. de Michel Tournier. o escritor se d´ conta a (e geralmente aprecia) do fato de que sua cultura n˜o ´ a unica no mundo: a e ´ o que o leva a mudar radicalmente no relato o cen´rio tradicional do campo a liter´rio cl´ssico. oceˆnica. .

. mas tamb´m para os etn´logos. mais recentemente na Fran¸a (cf. A Volta ao a e Mundo em Oitenta Dias. de Carlos Castaneda (1982). Chebika. de o Georges Balandier (1957). de Georges Cone e dominas. Miguel Strogoff. La Statue de Sei. de Jean Duvignaud (1968). faz a experiˆncia de uma felicidade e c˜ e sobretudo de uma liberdade de que n˜o suspeitava. Forˆt. Femme. Soleil Hopi. o Conv´m finalmente lembrar que no Ocidente nossos grandes livros de aprene dizagem s˜o relatos de viagem: Robinson Cruso´. A Viagem de Nils Olgerson. o Isso n˜o impede que a quest˜o das rela¸˜es entre a experiˆncia propriamente a a co e liter´ria e a experiˆncia etnol´gica permane¸a colocada. . L’Herbe du Diable et la Petite ıra. livros de etnologia. ANTROPOLOGIA E LITERATURA: ocidental. Fum´e. menos. de forma ca a a alguma. n˜o apenas para os a e o c a autores que acabamos de citar. . mas que constituem a meu ver uma contribui¸˜o que seria uma pena deixar de lado. de Oscar Lewis (1963). Nesse espa¸o fora do espa¸o e nesse tempo fora do tempo. . enquanto se interroga a sobre sua pr´pria identidade. Nous Avons Mang´ la Forˆt (1982) ou L’Exotique Est Quotidien (1977). desenvolvidas e e o de in´ nos Estados Unidos. Os Filhos de S´nchez. nos ensinam apenas muito subsidia e riamente a olhar para os outros. geralmente a margem de suas produ¸oes cient´ c˜ ıficas. Ma´ de Darcy Ribeiro (1980). que ´ a autobiografia de um ´ e ındio pueblo. pois o escritor freq¨ente mente sai do seu u papel – tentando ser etn´logo –. ed Albert Memmi a . Estou pensando nesses numerosos relatos escritos por profissionais de nossa disciplina.144 CAP´ ITULO 18. t˜o grande ´ o seu desejo de resolver seus o a e pr´prios problemas escapando do Ocidente um instante. Conv´m citar tamb´m essas hist´rias de vida. Folie. a cole¸˜o ıcio c ca ”Terre Humaine”. ´ verdade. para a ca e ciˆncia antropol´gica estritamente falando. Moby Dick. do que para o conhecimento ane o tropol´gico. para quem a etnologia ´ tamb´m (o que n˜o quer dizer exclusivae e e a mente) uma maneira de viver e uma arte de escrever. N˜o nos enganemos sobre a natureza dessas obras –por sinal. O Pequeno Pr´ ıs ıncipe. Trata-se apenas de alguns exemplos – de Afrique Ambigiie. da editora Plon) nas quais se procura compreender o funcionamento e a significa¸ao das rela¸˜es sociais a partir do relato de indiv´ c˜ co ıduos singulares: o discurso do velho dogon Ogotemˆlie publicado por Mareei Grie aule (1966). de Jacques Doure e nes (1978). Alguns. ou pelo menos e o para os que consideram que a descoberta do outro vai junto com a descoberta de si: isto ´. Alice no Pa´ das Maravilhas. at´. lic c bertado das obriga¸oes da sociedade. e. elas s˜o muito a a diferentes entre si – nem sobre a nossa inten¸˜o: essas n˜o s˜o.

La Forˆt d’Eineraude. e procura ”escrever”as pessoas taitianas de uma maneira adequada `quela com a a qual Gauguin as viu para pint´-las: ”neles pr´prios. Em Roger Bastide. as rela¸oes que as unem: a c˜ ”Passando de uma atividade quase exclusivamente liter´ria para a pr´tica a a da etnografia. se diz ”dividido entre um grande fervor e o desejo de fazer uma pesquisa objetiva”. qualificada precisamente de romance etnol´gico. levar e ca a a o ao contato. por outro lado. e 1 . 1 O limite que separa essa etnologia romanceada. n˜o apenas uma fonte de informa¸˜o. de Carlos Lizzani (1980). de Werner Herzog (1984).. dos irm˜os Taviani (1977). Yol. eea de Yilmaz Guney (1981). e n˜o do Rousseau do o e a Contrato Social) e com L’Afrique Fantˆme. eu pretendia romper com os h´bitos intelectuais que tinham a sido meus at´ ent˜o e. mas um meio de a ca conhecimento verdadeiramente antropol´gico. Le Pays oii Rˆvent les Fourmis a e ´ Vertes.. de Michel Leiris. de —ohn Boorman (19851. a meu ver. para quem a etnologia ”foi o prolongamento da experiˆncia e po´tica”(1972). a Conv´m mencionar aqui a produ¸˜o de um certo n´mero de obras cinematogr´ficas e ca u a contemporˆneas – e n˜o apenas obras pertencendo ao gˆnero do filme etnogr´fico cl´ssico a a e a a – que constituem. o contr´rio. por si s´. a atitude de esp´rito ca a ı pr´pria do observador sendo uma objetividade imparcial inimiga de qualquer o efus˜o”(1934). nos lembra freq¨entemente em sua obra que u se considera como o disc´ ıpulo de Jean-Jacques Rousseau. do romance propriamente dito. em Imagens do Nordeste M´ e ıstico em Branco e Preto (1978). a literatura da ciˆncia o e (cf. que distingue o perfeitamente sua pr´tica profissional de etn´logo e sua experiˆncia de escria o e tor e poeta. Le Christ a s’est Arrˆt´ ` Eboli. e de dentro para fora”. Padre Pudrone. e a etnografia s´ podia me decepcionar: uma ciˆncia humana n˜o deixa de o e a ser uma ciˆncia e a observa¸˜o a distˆncia n˜o poderia.145 (1966). que. de Claude L´vio o e Strauss (que. Estou pensando particularmente em Moi et o un Noir. ´ as vezes extremamente tˆnue. Fontamara. Concebida dessa forma. para ele. dos irm˜os Taviani (1984). Estou pensando e` e principalmente em Victor Segalen. mas indica-nos quais s˜o. e em filmes mais recentes como A Arvore dos Tamancos. de )ean Rouch (1958) que teve a influˆncia que sabemos sobre o cinema de )eane ´ Luc Godard (especialmente Picrrot le Fou). 1982). e considera que ”o soci´logo que quer o compreender o Brasil deve transformar-se em poeta”. Gilberto Freyre. no contato de homens de outra cultura e outra ra¸a. em Les Imm´moriaux (reed. 1974). Kaos. de Francesco Rosi (1979). e a c derrubar as paredes entre as quais me sentia sufocado e ampliar meu horizonte at´ uma medida verdadeiramente humana. talvez implique. a o Em Jean Monod. de Ermanno Olmi (1977). que. e mais especificamente do Rousseau das Confiss˜es e das Rˆveries. por defini¸˜o. Mas o ”romance etnol´gico”culmina com Tristes Tr´picos.

reluta frente a reflex˜o sobre o ` a homem. exigir uma viagem mais radical. o e 1) A etnologia. uma comunh˜o pela dan¸a. a e de outro. uma bandeira org´aca. A etnologia e o romance (ambos – voltaremos a isso – nascidos na Europa) . Por outro lado. ´ para. como Michaux em Um ıcio o e ´ B´rbaro na Asia ou em Equador. e pode caracterizar-se para levar a um ”esquecimento do ser”. nas cores do momento. Primeira manifesta¸˜o dos negros. Citarei trˆs delas. na qual o pesquisadore escritor renuncia a ser o unico sujeito do discurso. mas tamb´m seu objeto. a *** O estudo das rela¸oes entre etnologia e literatura (especialmente o romance) c˜ merece ser levado mais adiante ainda. a raz˜es mais fundai mentais. pelo menos tal como a concebo. a um sentido religioso. a A rela¸ao ao outro– e a viagem – n˜o ´ evidentemente a mesma se consic˜ ` a e derarmos de um lado a rela¸ao de Griaule com os Dogons. Mergulhados ı e a em rajadas de ar quente vindas dos tr´picos. de —acques Berque com os ´rabes. de Michel Leiris ou —ean Rouch com os africanos. nos assolava. o jazz trazia restos significativos o de civiliza¸˜o acabada. o meio mais eficiente de acabar com o desn´vel que separa ı os indiv´duos uns dos outros em qualquer esp´cie de reuni˜o. segundo a an´lise por Husserl: essa crise do pensamento ocidental c˜ a que. o erotismo latente ou mania c festo. Suas afinidades deve-se. Mas quando L´vi-Strauss expressa seu ´dio e o pelas viagens. de Leenhardt com c˜ os Canaques. de Margaret Mead com as mulheres da Oceania. esfor¸a-se por apreender da forma c mais pr´xima poss´ a linguagem dos homens da alteridade e em transmitio ıvel la na nossa l´ ıngua (j´ era um dos objetivos de Mali-nowski). embora ainda sem forma. Agia de a ı uma forma m´gica e seu modo de influˆncia podia ser comparada a uma posa e sess˜o.146 CAP´ ITULO 18. de humanidade submetendo-se cegamente ` m´quina. mitos dos ca ´ ´ ´dens de cor que deviam me levar at´ a Africa e. ANTROPOLOGIA E LITERATURA: ”No per´odo de grande permissividade que sucedeu `s hostilidades. e a bebida. ´ e dentro de uma aventura. O tipo de etnologia no qual estamos aqui convidados a entrar ´ uma etnologia eminentemente amorosa. a meu ver. no in´ de Tristes Tr´picos. at´ e e e e a etnografia”(1973). o jazz ı a foi um sinal de uni˜o. n˜o se contenta com a sia tua¸ao. por estar cada vez mais especializado. Era o melhor elemento para dar a essas festas seu verdadeiro sentido. para al´m da Africa. ca a a para expressar t˜o totalmente quanto poss´vel o estado de esp´rito de pelo mea ı ı nos alguns entre n´s: aspira¸˜o impl´cita e uma vida nova na qual um espa¸o o ca ı c mais amplo seria dado a todas as ingenuidade selvagens cujo desejo. a rela¸˜o de um Antonin Artaud com os tarahumaras ou de um ca )ean Paulhan com os malgaxes.

147 visam precisamente (por vias muito diferentes) a explorar de uma maneira n˜o especulativa esse ser do homem esquecido pela tendˆncia cada vez mais a e hiper-tecnol´gica e n˜o reflexiva da ciˆncia. o 2 . sejam colocadas as bases de uma ”teoria a do conhecimento”. A medida que o universo conhecido vai sendo explorado. e em ambos os casos.. como em Madame Bovary. das concep¸oes do homem e do social. notadamente. em ambos os casos. e o mal de outro. na qual a inteligibilidade c˜ ` e ` a ´ constitu´ e n˜o constiuinte: a relatividade dos pontos de vista. O que o escritor c˜ c˜ procura ´ a an´lise dos fatos com o objetivo de tirar leis gerais. na Montanha e O romance come¸ou como a etnologia: pela perspectiva. dos vae ıda a lores. e. ´ contemporˆnea desse moe e a mento de nossa hist´ria no qual os valores come¸am a vacilar. o abandono da id´ia de uma c˜ e verdade absoluta situando o bem de um lado. como diz ainda Proust. se for bem es´ colhido. Assim. como a da etnologia. Sua ambi¸˜o ´ nunca se ater as sensa¸oes que ”afetam ca e ` c˜ sem representar”. e para o detalhe do detalhe. como a l´gica o o o da etnologia sup˜e a pluralidade das sociedades. Assim. A vida ´ inclus˜o e confus˜o. Isto ´. pelas ”grandes c˜ o a dimens˜es dos fenˆmenos sociais-. o volta-se para o pr´ximo e.2 A l´gica do romance sup˜e a pluralidade dos personagens. o a e 2) A literatura (e. segundo o termo de Proust. articulada com outras leis. para os ”eventos min´sculos”e os ”pequenos fatos”de que fala Proust. 3) A gˆnese do romance. um ”escae vador de detalhes”. aberta pelas viagens. chegar a uma lei geral e que levar´ a conhecer a verdade sobre os milhares de fatos an´logos. a literatura romanesca) desenvolve um interesse todo especial para o detalhe. e sim. essa o pluralidade ´ irredut´ e ıvel ` identidade. comum a todas as ideologias. da c aventura ilimitada (Jacques le fataliste. a arte ´ ` c˜ e a a e discrimina¸ao e sele¸ao. O que caracteriza tamb´m o modo de conhecimento liter´rio ´ que n˜o se e a e a reduz a faculdade de observa¸ao. fazer surgir o ”geral”do ”particular”. bem como mostrou Henry James. explicativas e a dos comportamentos humanos. essa preu ocupa¸ao pelo microsc´pico – e n˜o. no Processo n˜o a a ´ nem totalmente culpado nem totalmente inocente. mas tamb´m a filosofia cl´ssica. e pera a mitir´.).vai ao encontro da abordagem que ´ a da o o e etnologia. Ora. O que ´ ent˜o e a proposto n˜o ´ nada menos que um descentramento antropocˆn-trico em a e e rela¸ao a teologia. a partir de um unico pequeno fato. Dom Quixote. Ele ´. no qual ´ o c e questionada uma ordem do mundo legitimada pela divindade. Joseph K. o ` long´ ınquo deixa lugar ao pr´ximo.. explora-se o cotidiano. Depois.

que privilegia o car´ter eminentemente social e a at´ s´cio-econˆmico das situa¸oes (descritas em sua exterioridade) e das personagens (que. n˜o somos mais confrontados com os mon´logos paralelos do a o observador do observado. etc. sem nunca ser absoluto. c˜ ` de Joyce. corresponde ` ca a tendˆncia sociologizante da antropologia. a e O mesmo se d´ para Zeno em rela¸ao a Augusta. para o etn´logo. na Consciˆncia de Zeno. para o narrador de Em busca do tempo perdido em rela¸ao aos c˜ Verdurin. para Leopold Blum em rela¸ao a ”gente de Dublin”. ´ comum `s correntes positivistas das ciˆncias humanas e naturalistas do romance. o ponto de vista esfor¸a-se em ser total. n˜o ´ ca e ca e a veio de repente. deliberadamente perspectivista. con fundem-se com sua fun¸˜o e seu estatuto social). me parece. essa abordagem ´ an´loga (o que n˜o significa de modo algum idˆntica) e a a e a da etnologia. divergentes) de uma ca mesma fam´ mexicana. mas aos olhares cruzados (convergentes. mas foi gradualmente preparada por escritores como Stendhal. a c˜ e de Svevo. coloca-se o problema dos limites que se deve impor ao olhar. e Hans Castorp n˜o ´ a medida de Settembrini. reintroduz no ca o espa¸o romanesco a multiplicidade dos pontos de vista. paro a ticularmente. os pension´rios do Berghof n˜o detˆm a verdade a a a e dos habitantes da ”plan´ ıcie”. a partir da revolu¸˜o romanesca da d´cada de 1920.3 Ora. ´ portanto claramente ane 4 titotalit´ria. Pode ser apreendida da forma mais pr´xima poss´ ` o ıvel nos trabalhos de um etn´logo como Oscar Lewis. Flaubert. c Essa abordagem. Em ambos os casos. mais modestamente. De que romance se trata? E de que antropologia? ca Parece-nos por exemplo que a abordagem que visa ` investiga¸˜o mais completa poss´ a ca ıvel de um grupo humano atrav´s da documenta¸˜o e da observa¸˜o distanciada da ”realidade e ca ca social”. fames. A rela¸˜o entre o afetivo e o social inverte-se e ca quando passamos para o romance psicol´gico ou para a antropologia psicanal´ o ıtica. esses exemplos bastam. ılia Em suma. profundamente dividida em rela¸˜o a si pr´pria. renuncia-se a id´ia de que a rea` e lidade possa ser apreendida em si. mas. Ou seja. como para o o romancista. c 4 As rela¸˜es (no caso convergentes) que acabamos de esbo¸ar entre o romance e a co c antropologia exigiriam uma afina¸˜o. essa personagem. Em Os Filhos de S´nchez. ´ claro. ANTROPOLOGIA E LITERATURA: M´gica. alternadamente considerados como os unicos p´los ´ o da observa¸˜o. em Ulisses. a perspectiva de Balzac. a E mesmo quando o romance est´ totalmente organizado em torno de uma personagem a unica. revolu¸˜o esta que. para fazer-nos compreender que no romance tanto quanto na etnologia. sempre a partir de um certo ponto de vista. e o o c˜ na obra de Balzac. de Thomas Mann. e a e Da mesma forma.148 CAP´ ITULO 18. 3 .

o a 19. de um Michel Leiris (que escrevia em seu di´rio de miss˜o: ”eu a a preferiria ser possu´ a estudar os possu´ ıdo ıdos”). a compreens˜o ”por c a dentro”e a compreens˜o ”por fora”. Roger Bastide escreve. freq¨entemente polˆmicas. naturalizar por ela. toda vez que um c˜ dos p´los em quest˜o domina o outro. Correla-tivamente. . parece-me que c a a antropologia tem todas as chances de engajar-se em um impasse. ıcio corre-se o risco de voltar ”perdido para o Ocidente”. em um desvio em rela¸ao ao modo de conhecimento que persegue. Trata-se de interpretar a sociedade c˜ estudada utilizando os modos de pensamento dessa sociedade. o ponto de vista do mesmo e o ponto a de vista dos outros. por assim dizer.1 O Dentro E O Fora Uma pulsa¸ao bastante espec´ c˜ ıfica ritma o trabalho de todo etn´logo. pois. Mas essas tens˜es s˜o verdadeiramente constitutivas o a da pr´pria pr´tica da antropologia. por exemplo: 149 . O que n˜o tem realmente nada de um a ´ exerc´ intelectual. ou de um Roger Bastide. parece-me particularmente representativa dessa atitude. o u e esfor¸a-se em pens´-las e dar conta delas. vive dentro de si essas tens˜es. Esta ultima s´ come¸a a existir a partir o a ´ o c do momento em que o pesquisador se entrega a um confronto entre esses diversos termos. como diz Georges Balandier a respeito da Africa. A abordagem de um fean Rouch. . O prio meiro tempo ´ o da aprendizagem atrav´s de um conv´ e e ıvio ass´ ıduo e de uma verdadeira impregna¸ao por seu objeto.Cap´ ıtulo 19 As Tens˜es Constitutivas Da o Pr´tica Antropol´gica: a o Encontramos no conjunto do campo antropol´gico um certo n´mero de tens˜es o u o importantes. opondo a universalidade e as diferen¸as. deixando-se.

o etn´logo vai tornar estranho para esses atores o que lhes parecia o familiar. nenhuma escapa de suas armadilhas conscientes. ou ainda. diferente. Conv´m portanto insistir aqui sobre a opacidade das estrat´gias sociais. e e Parece-nos de fato. come¸ando por Leenhardt e Griaule – se o tiver pelo menos enc contrado e atravessado. a e os professores de filosofia para compreender os professores de filosofia. exterior. o que vivem os membros o de uma determinada sociedade n˜o poderia ser compreendido situando-se a apenas dentro dessa sociedade. e onde. o pesquisador s´ ultrapassar´ esse primeiro est´gio que ´ o o a a e do encontro. E sobretudo.. deus do trov˜o dos Iorubas. da experiˆncia. chega inelutavelmente para o etn´logo ca o o da distˆncia. ou de Zeldin e C983). pois ´ pr´prio da linguagem. A nosso ver. que ´ americano. ´ inclusive a condi¸ao que torna poss´ a compreens˜o das l´gicas e c˜ ıvel a o que escapam aos atores sociais. O olhar distanciado.˜ ´ ´ 150CAP´ ITULO 19. onde lhe revelam que ´ e a e e filho de Xangˆ.1 pois as significa¸oes proc˜ duzidas n˜o residem apenas naquilo que uma cultura ou microcultura afirma. e por que n˜o? da convers˜o (pelo menos metoe a a dol´gica). que ´ inglˆs e e 1 . Nenhuma sociedade ´ de fato perfeitamente transa e parente a si mesma. Cada grupo humano. que. sobre esse ponto. os trabalhos de L. at´ a sua morte. ocupar´ o a e a um lugar na hierarquia sacerdotal. mas tamb´m. Devia portanto converter-me a uma outra mentalidade A pesquisa cient´fica exigia de mim a passagem pr´via pelo ritual de inicia¸˜o”. os camponeses de Cevennes s˜o os pior situados para compreender os camponeses de Cevennes. ı e ca Roger Bastide ´ ent˜o entronizado no candombl´. mas sobretudo. e que podemos ilustrar com os trabalhos dos fundadores de nossa o disciplina. Devia deixar-me penetrar por uma cultura que n˜o era a minha. Wylie (1968). em entender e o que lhes escapa e s´ pode lhes escapar. os franceses para compreender os franceses. e particularmente da linguagem a e o cient´ ıfica. a mas naquilo que n˜o diz. como tamb´m cada indiv´ e ıduo. Ao familiarizar-se com o que de in´ parecia ıcio estranho. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: ”Eu abordava o candombl´ com uma mentalidade moldada por trˆs s´culos e e e de cartesianismo. a inteligibilidade ca procurada n˜o consiste apenas em compreender uma sociedade da forma a como seus atores sociais a vivem. atuar no sentido de uma separa¸˜o. De fato. do estranho. Mas passado o tempo da impregna¸˜o. de um determinado ponto de vista. fornece a si pr´prio e aos ouo Cf.

com a convic¸ao de sempre c˜ permanecer com a ultima palavra. a abandonar um moe e delo de pensamento por outro. mas sobretudo. podendo contribuir na morte do outro (e na morte das civiliza¸oes). Alguns etn´logos tˆm e a o e tendˆncia a supervalorizar o discurso do outro. mas o essa contradi¸ao. a . Assim. E e o edades long´ ınquas que permite notadamente que o pesquisador. Existe. por exemplo. e sim o a analisar. Se a etnologia conseguir superar a ide´ ologia da idealiza¸˜o amorosa. de volta a sua pr´pria sociedade. Qualifica e u a a primeira de ”astronomia das ciˆncias sociais”. isto ´. Quando o discurso sobre o outro tende a a dominar o discurso do outro. O DENTRO E O FORA 151 tros racionaliza¸oes de suas condutas. n˜o desprez´ a ıvel. ´ claro. ou at´ por uma ”convers˜o”. possa olh´-la a distˆncia E ´ o car´ter microsc´pico o a a e a o de sua abordagem que fundamenta paradoxalmente a natureza telesc´pica o de sua abordagem. e o L´vi-Strauss compara freq¨entemente a antropologia ` astronomia. ”o etn´logo que tentasse compreender o universo dos bororos e exo plic´-lo de dentro.. deixando-nos ensinar e a e aculturar como crian¸as. parece-nos que essa tens˜o entre pesquisadores. Enquanto nossa profiss˜o de c˜ a etn´logo exige que comecemos toda pesquisa pela aprendizagem da mod´stia. Mas em tais condi¸˜es. e diz do olhar antropol´gico e o ´ a proximidade desse olhar sobre socique ´ um ”olhar de astrˆnomo”. todo etn´logo a encontrou pelo menos uma vez na vida. parece-me que n˜o ca a a a deve ser para voltar ao estatuto etnocˆntrico da racionalidade ocidental.19. ´ de estarmos carregando conosco um e modelo de leitura. a a o O risco inverso pode apresentar-se na ocasi˜o do segundo momento do proa cesso (a ”compreens˜o de fora”). nossas produ¸˜es eruditas terminam quase semc co pre tomando as outras sociedades conformes a inteligibilidade que organiza ` a nossa. da fus˜o e da confus˜o. seja a retranscri¸˜o. em termos erua ca ditos e na forma de uma redundˆncia.1. que consistem em modelos conscientes c˜ que o etn´logo n˜o deve cortejar e adaptar. nem contornar e exorcisar. uma contradi¸ao aparente nesse olhar e c˜ pr´ximo do long´ o ınquo que age como um olhar long´ ınquo do pr´ximo. c˜ o Em suma. do que foi expresso. a pelo camponˆs ou pelo oper´rio em termos populares. O risco. O paradoxo merece ser sublinhado. o risco do primeiro momento (habitualmente designado pela express˜o a ”compreens˜o por dentro”) ´. n˜o seria mais um etn´logo e sim um bororo”. de sociedade em sociedade. que e ´ apenas uma forma de l´gica entre tantas outras. o e por uma ruptura cultural. como diz MarcAug´ co e (1979). degenera habitualmente em um discurso a ` revelia do outro. seja uma participa¸ao cega e uma ”empaa e c˜ tia”que n˜o se consegue mais controlar.

ao estudar os Trobriandeses (1963). um dos primeiros antrop´logos: a e o ”Existe uma esp´cie de fronteira aqu´m da qual ´ preciso estar para sime e e patizar com o mito. como vimos. que Lembramos. o e u na pr´tica. em seguida. Tylor. e al´m da qual ´ preciso estar para estud´-lo. f´cil encontrar uma contradi¸˜o. que Malinowski no in´ ıcio de sua carreira. por exemplo. que se esfor¸a em dar conta da e c especificidade irredut´ dos insulares trobriandeses. os homens s˜o em toda parte os mesa mos. A abordagem t˜o exigente do etn´grafo. o e ´ utilizado como a ilustra¸ao de um processo unico que sempre conduz ao e c˜ ´ idˆntico. na obra de Malinowski. o questionamento de nossa disciplina. de a ca um lado a experiˆncia pessoal do observador. Como escrevia. quando elabora sua Teoria Cient´ ıfica da Cultura (1968). de uma mentalia c˜ dade em outra. entre. Coma ca preendemos. finalmente. apenas uma tradu¸ao de um discurso em outro. termina dis-solvendo-se no dogmatismo unit´rio da fun¸˜o. Mas essa tendˆncia da pr´tica antropol´gica atua tamb´m em abore e a o e ´ dagens que. essa vontade de ”poder e o ca c˜ pensar e sentir alternadamente como um selvagem e como um europeu”(E. como escreve Mauss. estranhos a minha c˜ sociedade. E. pois considera que. 1969) – ´ constitutiva de nossa profiss˜o. e a h´ mais de um s´culo. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: em um mesmo pesquisador. uma ”unidade do gˆnero humano” e • tal costume.2 entre a situa¸ao de outsider e a de insider – que c˜ ´ a pr´pria defini¸˜o da ”observa¸ao participante”. 19. E unidade. e a convic¸˜o do te´rico ıvel ca o que. Temos a e e a sorte de viver perto dessa faixa fronteiri¸a e de poder passar e repass´-la ` c a a vontade”.˜ ´ ´ 152CAP´ ITULO 19. o ”primitivo”n˜o ´ visto como sendo realmente a e diferente de n´s. no final de sua vida. que evidencia as diferen¸as que a o c observa. 2 . reduzido a mera figura do a ca ´ notadamente o caso do evolucionismo que dissolve a alteridade na mesmo. pois. reflete sobre o funcionamento da humanidade em geral. Evans-Pritchard. apresentam-se como radicalmente opostas. uma extens˜o e anexa¸˜o do outro. d´ prioridade a um mo’do de a conhecimento claramente distanciado. por exemplo. tal institui¸ao. dentro desse quadro. s˜o realmente diferentes a 1) Esse descentramento te´rico de si por abertura ao outro ´ freq¨entemente. no entanto.2 A Unidade E A Pluralidade Fazer antropologia ´ segurar as duas extremidades da cadeia e afirmar com e a mesma for¸a: c • existe. tal comportamento. Encarna a forma social ultrapassada do que fomos outrora. privilegia um modo de conhecimento por ”dentro”.

embora n˜o se trate a de ciˆncias. que seria a racionaliza¸˜o desse processo. e e as quais ”aceitam sem reticˆncias”. os ”saberes sobre o corpo”asi´ticos. e procurando menos o advento com os outros daquilo que n˜o a pensava. antifuncionalista. as gram´ticas indianas. igualit´ria e convivial. . atravessa o pensamento a e antropol´gico contemporˆneo. do que a verifica¸˜o sobre os outros daquilo que pensava. Baldwin. e consiste dessa vez em considerar as difeo a ren¸as como irredut´ c ıveis. a sociologia ou a demografia. que encontra uma de o suas primeiras express˜es em Montaigne (os costumes diferem tanto quanto o os trajes. Adotevi. e a natureza. antiestruturalista. mas claramente culturalista. Clastres (1974). coloca um ca problema essencial: a unica ciˆncia ´ ocidental? e a antropologia teria apenas ´ e e uma modalidade do conhecimento por objetiva¸˜o? Nossa disciplina – pelo ca menos tal como a concebo – aspira a uma forma de racionalidade que n˜o a ´ a das ciˆncias sociais. a 2) Esses ultimos coment´rios nos levam a nos voltar para o segundo p´lo ´ a o dessa tens˜o entre a unidade da cultura (o outro ´ um homem como n´s. A UNIDADE E A PLURALIDADE 153 se expressa notadamente pela voz dos intelectuais do ”terceiro mundo”(cf. existem. no qual o u a unica racionalidade presente estaria conferida por um sujeito ativo a um ´ objeto passivo. apelar para os recursos das matem´ticas modernas. 1972) pedindo o fim da antropologia. para compreendˆa e las. este mon´logo tranq¨ilo do Ocidente consigo mesmo.19. no sentido ocidental do termo. e ca Preconiza-se ent˜o uma rela¸ao emp´tica. encontrada em autores como Castaneda (1982). E. antimarxista. por exemplo Fanon. O que ´ evidenciado nessa perspectiva3 ´ o car´ter assim´trico da rela¸ao e e a e c˜ entre o observador e o observado. . ”estabelecer-se e e dentro mesmo de suas sociedades”. A pare tir desse segundo p´lo. h´ uma verdade al´m dos Pireneus. 1973). fore mas de conhecimento cuja l´gica n˜o tem realmente nada a invejar da nossa: o a por exemplo. por outro lado. a domina¸˜o que uma civiliza¸˜o estaria ca ca impondo deliberada ou dissimuladamente a todas as outras. organiza-se toda uma corrente. 1952. Delfendhal (1973). 3 . ou a a ainda as institui¸˜es familiares tais como foram elaboradas pelos abor´ co ıgines australianos. em outras culturas. Essa acusa¸˜o segundo a qual o conhecimento dos outros estaria reduzido ca ao Saber verdadeiro por um observador possuindo infalivelmente a verdade do observado. 1972. como diz L´vi-Strauss. t˜o complexas que precisamos. da ciˆncia. que proa c˜ a a Perspectiva ao mesmo tempo antievolucionista. no Ocidente. considerada repressiva.2.). (aulin (1970. a e o como vemos na trag´dia shakespeariana) e a diversidade das culturas. tais como a economia.

o e 1975). freq¨entemente.˜ ´ ´ 154CAP´ ITULO 19. aos c˜ o quais se prefere o de povo (no plural) e de etnologia. pelo Ocidente das diferentes culturas do mundo. o ` e u consegue se impor a esta. Op˜e-se ent˜o radicalmente a sabedoria das sociedades tradicionais o a a violˆncia fren´tica da sociedade racionalista. que ia levar ` unifica¸ao da ´ a c˜ India. como tamb´m. que ´ hoje uma das primeiras metr´poles a e o industriais do mundo. Sabemos de fato que. mas no c˜ o ıs. Mais uma vez. nem mesmo pelo pensamento te´rico. contra o cosmopolitismo. De volta de uma miss˜o cient´ a ıfica no Nordeste do Brasil. a reabilitar a identidade das regi˜es (cf. Disso a o decorre a oposi¸ao aos pr´prios conceitos de homens e de antropologia. encontr´veis no menor coma portamento da vida cotidiana. A cultura popular n˜o a s´ resiste notavelmente a cultura dominante. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: ´ porcionaria a possibilidade de dessolidarizar-se do mundo europeu. quanto mais uma sociedade tende a uniformizar-se. Da mesma forma. o Brasil contemporˆneo me parece particularmente a revelador a esse respeito e nos leva ainda mais adiante. Encontrei pessoalmente membros das classes superiores da sociedade brasileira que. como falamos de ”medicina mansa”. J. no decorrer das cerimˆnias de umbanda. posso relatar o seguinte: uma popula¸ao constitu´ em sua c˜ ıda maioria de descendentes de europeus. Procuremos analisar as implica¸oes de tal atitude. que parea e cia exclusivamente niveladora. considera-se que o que ´ separado pela barreira das u e culturas n˜o deve ser reunido. . e que n˜o se deixam de forma alguma alterar a pelos modelos culturais vigentes em Paris. da revolu¸ao industrial do s´culo XVIII que c˜ e permtiiu a radicaliza¸˜o dos diferentes estatutos entre os grupos (as classes ca sociais). foi acompanhada correlativamente de uma divis˜o da sociedade em castas. c˜ 1) Em primeiro lugar. E uma forma de conhecimento mais humana. H´lias. a hegemonia ariana. e confrontada hoje a uma conjuntura econˆmica internacional que lhe ´ eminentemente desfavor´vel. ao estudar os c a cultos afro-brasileiros.. acentuou-se e confirmou-se. Finalmente. Assim. mais tende simultaneamente a diversificar-se. Aquilo que Bastide come¸ava a notar. Ora. ca me parece pouco fundamentada. por exemplo. Rio de Janeiro ou em S˜o Paulo. foi a influˆncia. visando. soube criar o e a formas de sociabilidade plenamente originais. a inquietude que demonstram esses autores com respeito a uma homogeneiza¸˜o. de uma maneira dificilmente imagin´vel no Ocia dente. Londres ou Chicago. que poder´ ıamos qualificar de ”etnologia mansa”. s˜o sucessivamente ”possu´ o a ıdos”pelos esp´ ıritos das divindades dos ´ ındios e dos ancestrais africanos do tempo da escravid˜o. P. por exemplo. da qual a antropologia seria ` e e c´mplice. a esse fenˆmeno pode ser melhor apreendido. n˜o nas regi˜es mais exteriores o a o em rela¸ao ao desenvolvimento econˆmico do pa´ como o Nordeste. trinta anos atr´s.

por Turnbull (1972). co o 4 . o a 3) Essa celebra¸˜o da sabedoria e do conv´ ca ıvio dos outros n˜o resiste ` oba a serva¸˜o dos fatos: decorre da constru¸ao de uma alteridade fantasm´tica ca c˜ a que se faz passar por realidade. de selvagens que n˜o tˆm realmente nada de ca a e ”bons selvagens”. o e e Novo Mundo ´ de fato um outro mundo. . enquanto e que. O e e fato de a alteridade ser aqui valorizada. A UNIDADE E A PLURALIDADE 155 2) A id´ia de que o outro ´ radicalmente outro. o que tem como corol´rio a culpa ou a difama¸ao da o a c˜ 4 ocidentalidade. pois olha-se para si mesmo dentro do espelho do outro –. e sim si pr´prio e sua pr´pria sociedade (masoe o o quismo). Jean Monod. n˜o se deveria fazˆ-lo) a diferen¸a absoluta que a e c o separa de n´s. participa de um etnocentrismo invertido que n˜o deixa de o a lembrar de Pauw ou Hegel. ”n˜o impede que ´ a o a os trobriandeses sejam matrilineares. que tamb´m fala em uma ”essˆncia”dos africanos. o 4) A id´ia de que os que visam compreender racionalmente a alteridade ese tariam se comportando praticamente como Cortˆs com os Astecas. possa sentir o o ´dio em rela¸˜o a estes. a que se acusa de ser um ”rico canibal”). e o fato de que o etn´logo. mesmo se fosse poss´ ıvel. aquele que est´ submetido a um processo de domina¸˜o e humilha¸˜o n˜o a ca ca a ´ mais o outro (sadismo). por exemplo. tudo se passa como se esse protesto indignado – o fato de querer devolver sua dignidade aos outros – devesse passar inelutavelmente por um processo consistindo em acusar-se a si pr´prio de indignidade. causou escˆndalo entre os etn´logos. . A descri¸˜o. e de que n˜o se poderia preencher e a (e. Ou seja. o ´ ındio.. como lembramos. A excelente imagem que se deve ter dos outros acompanha-se de fato da m´ imagem que se tem de si (cf. enquandra-se mais em uma experiˆncia religiosa. O africano. e escrevˆ-lo. nem her´is”. as sociedades selva´ gens s˜o totalmente diferentes das sociedades hist´ricas. E ”um outro mundo a o cultural”. h´ uma recusa de assumir a sua pr´pria identidade.2. atrav´s dessa deontologia do olhar para o outro – o qual acaba e inclusive perdendo-se. como diz Panoff (1977). Para estes. se poderia talvez chegar.19. como pode sˆ-lo e com vistas ` emo¸˜o est´tica ou a militˆncia pol´ a ca e a ıtica. Em suma. o bret˜o. n˜o afeta e o a em nada a natureza ideol´gica do processo em quest˜o. por um agrad´vel movimento de a pˆndulo ao qual nos acostumou o pensamento para-antropol´gico. indo at´ o fim da ruptura com o Ocidente. nem que os Nuers levem uma vida ritmada p las necessidades pastorais e pelas condi¸˜es meteorol´gicas”. como qualquer ser humano. e . por exemplo. E correlativamente dessa vez. diz Hegel. a coincidir com a vere dadeira natureza do outro. 1972. Mas que estes ca e a o ultimos n˜o sejam ”nem santos. s˜o mobia a lizados mais uma vez como suportes do imagin´rio do ocidental culto. como a objeto-pretexto utilizado aqui com vistas ao protesto moral. de que. e atrav´s de um conhecimento por assim dizer amoroso.

Apenas o ´ ındio (e. do que na ciˆncia. isto ´. a rigor. J´ passamos por isso. Apenas a mulher est´ em condi¸oes de come a a c˜ preender a mulher. Apenas o bret˜o ´ capaz de falar corretamente o bret˜o. a permanecer entre si. a e a e e se atreve a falar de medicina? Deixe a medicina aos m´dicos. a c˜ e antropologia nos engaja por´m nessa aventura que nos ensina que n˜o se deve e a identificar integralmente consigo mesmo. ao insistir tanto sobre o car´ter irreo a dut´ das diferen¸as. passam a ser apreendidas do interior mesmo de sua diferen¸a. isto ´. c˜ . a Bretanha aos bret˜es. Mas ent˜o. Apenas o prolet´rio pode a e a a saber o que ´ a classe oper´ria. como eu dele. Esse descentramento m´tuo do observador e do obseru vado n˜o pode mais ser. segurar as duas extremidades da a e a cadeia. um erro. o sujeito transcendental a e do humanismo. Por todas essas raz˜es. tudo nos impele – na esteira dessa para-antropologia que identifica a abordagem do pesquisador com o ponto de vista dos pr´prios atores. suas mulheres. o acesso a compreens˜o do outro por si e a compreens˜o de e ` a ` a si pelo outro. de uma abordagem de pequisa cient´ ıfica. . adotando sua l´ co ıngua. a o Se levarmos at´ suas extremas conseq¨ˆncias esse princ´ de n˜o-distancia¸ao e ue ıpio a c˜ e n˜o-media¸ao. Mas nem por isso as identidades de uns e outros est˜o aboa lidas. a religi˜o aos e a cleros. no final dessa experiˆncia. O outro ´ uma figura poss´ de e ıvel mim. Como vocˆ. que o afirma que ´ preciso ser origin´rio de sua cultura para compreendˆ-la reale a e mente – a ficar em casa. N˜o ´ f´cil. E al´m o e e disso. essa tendˆncia da etnologia exclui-se por si mesma.˜ ´ ´ 156CAP´ ITULO 19. a c e partir de uma rela¸ao. a ıvel c e meu ver. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: que faria do etn´logo um iniciado ou um eleito. n˜o se trata mais de estud´-la. evidentemente. encontrados por L´ry. Acabamos de ver que a uma forma de universalidade que tende para a redu¸ao do outro ao ocidentalismo (o dogmatismo de uma natureza ou de uma c˜ essˆncia humana sempre idˆntica a si mesma) responde uma forma de mae e jora¸ao da alteridade (o dogmatismo da relatividade de culturas heterogˆneas c˜ e justapostas). que n˜o ´ m´dico. o proletariado aos prolet´rios. seus costumes. ` maneira desses aventureiros normandos. . Se a identifica¸ao integral com este ´. aquele que se tornar seu adepto) ´ capaz de compreender o ´ e ındio. a meu ver. a a e que haviam naufragado na costa meridional do Brasil e tinham-se tornado selvagens no contato dessas popula¸˜es. e sim de a a a adot´-la. devemos nos tornar membro efetivo da sociedade que prea c˜ tend´ ıamos estudar.

al´m dessa descri¸˜o (mas a e ca a partir dela). nos deixar esquecer a o e a e especificidade por assim dizer carnal dessa Am´rica ´ e ındia dos Nhambiquaras de que tanto gosta o autor de Tristes Tr´picos. das culturas. ou. a an´lise da a a variabilidade cultural evidencia o que n˜o vejo diretamente quando passo de a uma cultura para outra. a preocupa¸˜o do concreto.3. A tomada e’m considera¸ao da variedade cultural me ca c˜ leva a perceber que perten¸o a uma cultura entre muitas outras. a poesia. Vaiv´m a e meu ver ininterrupto que pode ser ilustrado. A rejei¸ao desta ultima leva inclusive inec˜ ´ vitavelmente a adotar a teoria do senso comum. De um lado. trata-se de uma atividade claramente te´rica de constru¸ao de um obo c˜ jeto que n˜o existe na realidade.19. que eu qualificaria de tenta¸˜o emp´ ca ırica. a religi˜o s˜o abordagens muito u a a mais indicadas do que a antropologia para nos fazer coincidir com os seres. e. Proporcionam-nos incontestavelmente mais emo¸oes.3 O Concreto E O Abstrato A terceira tens˜o que examinaremos agora ´ a da observa¸ao daquilo que ´ a e c˜ e vivido. pelo formalismo l´gico de um L´vi-Strauss. Pelo contr´rio. O trabalho do antrop´logo n˜o consiste em fotografar. e da teoria constru´ para dar conta dessa observa¸ao. de fato. da constru¸ao cient´ e c˜ ıfica. do registro ficticiamente passivo dos ”fatos”. realizada por n´s mesmos. a que estiver vigente na sociedade que se estuda ou a qual perten` cemos. o qual n˜o deve. vem da submiss˜o d´cil ao campo. mas que s´ pode ser empreendida a partir a o da observa¸ao de uma realidade concreta. a literatura. a pintura. decorre do fato de que n˜o nos situamos. no mesmo n´ de a ıvel investiga¸˜o do social. de estar junto delas. do campo e do m´todo. que d´ a o a ao observador a impress˜o de situar-se do lado das coisas. para dar conta deste. mais prazeres. nem atividade cr´ a a a a e ıtica nem mesmo coleta de fatos sem teoria. por exemplo. em buscar uma compreens˜o das sociedades humanas. c˜ o 2) O segundo risco pode ser qualificado de tenta¸˜o idealista (ou nominaca . o a mas em decidir quais s˜o os fatos significativos.Mas c˜ n˜o s˜o a antropologia. mas o meu c olhar at´m-se a observa¸ao da realidade emp´ e ` c˜ ırica. portanto. o 1) O primeiro risco. ciˆncia. e A incompreens˜o entre os que enfatizam a unidade fundamental da cultura a e os que privilegiam a diversidade. nos dois casos. anotar. mas me permite perceber que perten¸o a uma figura c particular da cultura. a ”opini˜o”. gravar. a exigˆncia. de ca outro. se prefeıda c˜ rirmos. A m´sica. a ideologia do a momento. N˜o h´. por´m. supostamente irredut´ ıvel. a Essa suspei¸˜o frente a abstra¸˜o e ` teoria parece-me perfeitamente leg´ ca ` ca a ıtima. O CONCRETO E O ABSTRATO 157 19. Ou a seja.

o ar. do ponto de vista do obsere e a e vador”(´ assim que L´vi-Strauss define a sociologia). Da mesma forma. u mas tomam-se ent˜o as palavras por coisas. a terra. Alguns exemplos v˜o permitir mostrar que um certo n´mero de condutas. mas tamb´m contra nossas c˜ e observa¸˜es. o que permite afirmar. Nossos sistemas de representa¸ao. em sua intersec¸˜o. acaba-se tomando a constru¸ao do objeto pela pr´pria realidade social. s˜o capazes de agir como reveladores de aspeca a tos culturais inteiros. traduzindo-a em uma outra linguagem. a realidade social estudada. ou melhor. uma teoria cient´ a ıfica nunca ´ o reflexo do e real. o fogo). de um lado. a partir de nossas observa¸oes. que o inconsciente de uma cultura pode ser encontrada no consciente de uma outra. o objeto que constru´ a ımos a partir de uma determinada op¸˜o disciplinar e te´rica. Por outro lado. nossas impress˜es. podemos dizer que se trata o o de ”ilus˜o”. psicol´gicas. o manifesto (de minha e da outra sociedade) e o recalcado a (de minha e da outra sociedade). mas tamb´m a especificidade da antropologia no campo das e ciˆncias sociais. de ”deslocamento”ideal de uma realidade mais a c˜ ”fundamental”. com Georges Devereux. Ora. Podemos reduzir a inadequa¸ao entre ca c˜ os dois pensamentos de que acabamos de falar. Os fatos etnogr´ficos s˜o fatos cientificac˜ a a mente constru´ ıdos. e da nossa pr´pria rela¸ao com ca o o c˜ o psicol´gico e o social. ´ que n˜o sendo ”a ciˆncia social. Podemos tamb´m compreender essa adequa¸ao atrav´s de um o e c˜ e confronto ininterrupto e de uma articula¸ao entre o pensado e o impensado. e sim uma constru¸ao do real. No t´rmino do empreendimento a e de modeliza¸ao que transforma fenˆmenos emp´ c˜ o ıricos em objetos cient´ ıficos. o ´ podemos dizer que realiza ”sublima¸oes”cujas ”verdadeiras”raz˜es s˜o s´cioc˜ o a o econˆmicas. Existe portanto uma inadequa¸ao eno c˜ a c˜ tre. as interpreta¸˜es dos interessados e nossas co o co pr´prias interpreta¸oes espontˆneas. a u observ´veis em outro lugar. e sim uma pr´tica que surge em seu a limite. c˜ o dito e o n˜o-dito. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: lista). quando um n´mero consider´vel de indiv´ u a ıduos que comp˜em a sociedade brasileira tende a interpretar suas dificuldades (socio ais. que n˜o ´ nem esgotada nem a e esgot´vel pela etnologia. Situamo-nos dessa vez do lado das palavras (ou do lado dos n´meros). biol´gicas) em termos religiosos. c˜ o a popula¸ao que estudamos n˜o nos esperou para atribuir significa¸˜es a c˜ a co suas pr´ticas. em mat´ria de doen ¸a. cuidadosamente dissimulados em nossa cultura. s˜o hoje em grande c˜ e c a .˜ ´ ´ 158CAP´ ITULO 19. Por exemplo. e de outro. quando o pensamento tradicional classifica as coisas segundo categorias c´smicas (a agua. tamb´m n˜o ´ a ciˆncia e e e a e e social do ponto de vista do observado. o *** O paradoxo. de ”proje¸ao”.

5 . para minha sociedade. como uma calamidade a ser eliminada. algo desse pensamento ocidental ter´ sido utilizado como mediador e como a instrumento: n˜o uma cultura (a nossa) que serviria de referencial absoluto a e daria sentido a fenˆmenos que inicialmente n˜o tinham. Se a antropologia ´ ”filha do colonialismo”. e os sintomas. o a e ocidental. podem ser utilizados como reveladores da abordagem antipsiqui´trica inglesa – e partia cularmente de Laing – que expressa ao n´ do discurso o que os brasileiros ıvel realizam ao n´ do corpo. nos modos mission´rios ou messiˆnicos da conquista o a a (pois essa racionalidade ´ provinciana. que nasceu em Viena. o que tra¸a as c figuras. nem o de estender a racionalidade as ` dimens˜es do universo. ´ indefectivela e mente ocidentalo-cˆntrica. conhecido e correto (o que e equivaleria a suprimir essa alteridade). e e c A etnologia. como escreve L´vi-Strauss (1973). pela sua origem hist´rica e cultural. da exclus˜o em um grupo que se quer hoo a mogˆneo. torna-se particularmente claro e ”desocultado”quando nos refee rimos ` feiti¸aria que ´ uma regula¸ao social estruturalmente universal. chamadas ”adorc´ c˜ ısticas”e que correspondem as duas figuras do m´dico-louco e do paciente-or´culo. ´ claro. a c e c˜ De tudo isso. pelo contr´rio. conhecido dos psicossoci´logos. mas reatualiza antes algo recalcado). ıvel Poder´ ıamos assim multiplicar os exemplos. n˜o o a apenas como experiˆncia e como aventura. abre essa estreiteza monocultural. como dizer que a psican´lise. mas que subverte a e o racionalidade ocidental. ´ espec´ e a e ıfica e exclusivamente vienense.5 Seria t˜o absurdo dizer que a antropologia. ”nada seria mais e falso”. seja poss´ e e ıvel. E no entanto. Est˜o simplesmente recalcadas. que nasceu no Ocidente. nem por isso est˜o au` e a a sentes. e mostrar que o processo. Da mesma forma. mas como ciˆncia. que n˜o produz o a realmente algo novo. ”do que consider´-la como a ultima reencarna¸˜o e a ´ ca do esp´ ırito colonial”. ou de a uma cultura para ela mesma no tempo (da nossa psiquiatria cl´ssica para a a corrente que qualifica a si pr´pria de ”antipsiquiatria”.19. limitada no espa¸o e no tempo). bem conhecidas entre n´s.3. e Mas as representa¸oes inversas. e tornam-se manifestas se passarmos a de uma cultura para outra (dos exorcistas thonga aos xam˜s shongai). e sim um m´todo. a para que o pr´prio empreendimento que caracteriza ”nossa disciplina. do doente-v´ o ıtima e do m´di-co-exorcista. tais como os estou a estudando neste momento em uma grande cidade do Nordeste. isto ´. os cultos de possess˜o afro-brasilei-ros. resulta que o objetivo da etnologia n˜o ´ o de traduzir a alteria e dade nos moldes do que ´. etc. O CONCRETO E O ABSTRATO 159 parte exorc´ ısticos: a doen¸a ´ considerada como um mal que deve ser esmac e gado.

e este ´ o n´ de inteligibilidade que a antropo´ e ıvel logia pretende alcan¸ar: n˜o o consciente. Tomemos o exemplo de uma conduta que n˜o ´ minha. para analis´-lo. mas de dois inconscientes em espelho. esse envolvimento do pesquisador (ao mesmo a tempo psicoafetivo e s´cio-hist´rico) as voltas com a diferen¸a.). pois cada sociedade tem seus pr´prios te´ricos) n˜o s˜o interpretados pela antroo o a a pologia segundo a maneira como seus atores sociais os vivem. etc. e que a antropologia seja uma o metalinguagem. nos gestos e discursos dos interessados. mas na sua jun¸˜o e na sua ca intersec¸˜o. Isso n˜o significa que o a antrop´logo seja o homem de nenhum lugar. o o ` c Resumiremos da seguinte forma essa ambig¨idade e essa tens˜o (que atua u a evidentemente muito mais no estudo dos sistemas de representa¸˜es e valoco . AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: Dito isso. como a feiti¸aria. a realidade normalizante do discurso ”erudito”(do psiquiatra. para o antrop´logo. ca Nesse caso espec´ ıfico. nem segundo a maneira com a qual os observadores os percebem. do padre. e a e c que pertence seja a uma ”matriz prim´ria”de uma sociedade outra. a realidade. As pr´ticas simb´licas o co a o e os discursos vividos (que podem ser sistematizados em qualquer lugar. que ´ espelham uma imagem deformada. Sistemas de interpreta¸oes aut´ctones.˜ ´ ´ 160CAP´ ITULO 19. O conhecimento antropol´gico surge do encontro. . a mas que ´ tamb´m a express˜o de uma realidade social. c˜ o modelos conscientes e gˆneros s˜o freq¨entemente deforma¸˜es e racionae a u co liza¸oes de estruturas inconscientes (que fornecem no entanto possibilidades c˜ de acesso a estas ultimas). com os gˆneros e e que s˜o classifica¸˜es ind´ a co ıgenas expl´ ıcitas. E o discurso sobre a diferen¸a (e sobre c minha diferen¸a) baseado em uma pr´tica da diferen¸a que trabalha sobre os c a c limites e as fronteiras. o tipo em sua rela¸ao com o gˆnero. Seu significado antropol´gico o s´ pode ser apreendido relacionando-a aquilo que para minha sociedade tem o um sentido. ou aquilo que a pr´tica e a l´gica da feiti¸aria dizem por si mesa o c mas. o segundo. A antropologia. mas o inconsciente em sua rela¸ao c a c˜ com o consciente. a l´gica das condutas e das insttiui¸oes que o etn´logo procura evio c˜ o denciar tamb´m n˜o se confunde com os sistemas de interpreta¸oes aut´ctones. c˜ e Concluiremos essas reflex˜es com as observa¸˜es seguintes. s´ come¸a a adquirir um estatuto cient´ o c ıfico partir do momento em que integra. seja a um a segmento marginal de uma sociedade minha. e constituem. ”feitos em casa”(L´vi-Strauss). a realidade alucinada e desviante. e e a portanto. o primeiro. n˜o apeo a nas de dois discursos expl´ ıcitos. . e a c˜ o com os modelos conscientes. do professor prim´rio. constitui-se do cono fronto de dois discursos interpretativos que se juntam.

19.3. O CONCRETO E O ABSTRATO

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res do que da cultura material). N˜o posso ser ao mesmo tempo eu mesmo e a um outro, e no entanto, para ser totalmente eu, eu devo tamb´m sair de mim e a fim de apreender uma figura recalcada, mas poss´ ıvel- de mim. N˜o posso a situar-me simultaneamente dentro e fora de minha sociedade, e no entanto, para compreender minha sociedade no que nunca diz de si pr´pria por que o n˜o o percebe, devo fazer a experiˆncia de uma descentra¸˜o radical. a e ca Finalmente essa atividade continua interrogando-me na pr´pria atividade o pela qual contribuo a fabric´-la como objeto cient´ a ıfico. *** A separa¸˜o teol´gica, filos´fica, e depois cient´ ca o o ıfica, do homem e da natureza (especialmente os animais, mas tamb´m nossa animalidade), do homem e e de seu semelhante, a separa¸ao do sujeito e do objeto, do sens´ c˜ ıvel e do intelig´ ıvel, constituem os termos de uma tens˜o que, a meu ver, n˜o admite a a resolu¸ao em uma unidade superior como em Hegel. Esses termos, a n˜o ser c˜ a em uma solu¸ao fisiol´gica, formam uma complementaridade conflitual, mas c˜ o n˜o uma ”dial´tica”, conceito para o qual se apela (na verdade, cada vez mea e nos) quando se procura uma receita, uma tr´gua poss´ e ıvel, e que tem, como diz Jean Grenier, ”uma virtude m´gica infal´ a ıvel”. S˜o as diferentes dosagens a realizadas, as diferentes combina¸oes obtidas entre uma compreens˜o ”por c˜ a dentro”e uma compreens˜o ”por fora”, entre a alteridade e a identidade, a a diferen¸a e a unidade, a subjetividade e a objetividade (mas tamb´m a sinc e cronia e a diacronia, a estrutura e o evento) que comandam o pluralismo antropol´gico, mas tamb´m as incompreens˜es, ou mesmo as discordˆncias o e o a entre antrop´logos. Se, por exemplo, minimizo a alteridade cultural, arriscoo me a realizar uma atividade de descodifica¸˜o, isto ´, de transcri¸˜o de um ca e ca discurso em outro. Mas ao superestimar essa alteridade (ponto de vista do culturalismo), torno totalmente imposs´ e impens´vel aquilo que precisaıvel a mente fundamenta o projeto antropol´gico: a comunica¸ao dos seres e das o c˜ culturas. A aposta da antropologia ´ precisamente a de viver esse movimento inintere rupto. N˜o pretendo pessoalmente tˆ-lo conseguido profissionalmente. Digo a e apenas que tentei essa experiˆncia. Esse empreendimento, por mais exigente e e cheio de armadilhas que seja, n˜o tem nada de imposs´ a ıvel. Roger Bastide entendeu de dentro o que chamava de ”pensamento obscuro e confuso”dos s´ ımbolos, e, mais que qualquer um, empenhou-se no pensamento ”claro e distinto”dos conceitos. Totalmente integrado ao candombl´ brasileiro, ele foi e totalmente antrop´logo. o

˜ ´ ´ 162CAP´ ITULO 19. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA: A fixa¸ao sobre um p´lo em detrimento de outro, a rejei¸ao dessas tens˜es c˜ o c˜ o que constituem contradi¸oes estimuladoras, as solu¸oes de meio-termo e de c˜ c˜ compromisso levam inelutavelmente a acabar com a especificidade de nossa disciplina – que ocupa um lugar todo particular nas ciˆncias humanas – e e a todas as esp´cies de desvios ideol´gicos. Demonstram a recusa ou a ime o possibilidade de enfrentar as dificuldades (que s˜o tamb´m chances a ser a e aproveitadas e exploradas) inerentes ` pr´ticas da antropologia. a a Fortaleza (Brasil), setembro de 1984 Lyon, abril de 1985

Cap´ ıtulo 20 Sobre o autor:
´ Fran¸ois Laplantine ´ professor de Etnologia na Universidade de Lyon II. E c e ´ autor de A Etnopsiquiatria (Editions Universitaires, 1973), As Trˆs Vozes do e ´ Imagin´rio: o mecanismo, a possess˜o e a utopia (Editions Universitaires, a a 1974), A Cultura do Psiou O Desmoronamento dos Mitos (Privat, 1975), A Filosofia e a Violˆncia (Presses Universitaires de France, 1976), Doen¸as e c ´ ´ Mentais e Terapˆuticas Tradicionais na Africa Negra (Editions Universitaires, e ´ 1976), A Medicina Popular na Fran¸a Rural Hoje (Editions Universitaires, c 1978), Um Vidente na Cidade: estudo antropol´gico do gabinete de consulo ´ tas de um vidente contemporˆneo (Editions Payot, 1985) e Antropologia da a ´ Doen¸a (Editions Payot, 1986). c

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164 CAP´ ITULO 20. SOBRE O AUTOR: .

e Bougainville. Auzias. Colin. Flammarion. 1957. Gallimard. Paris. Jean-Marie. e Bastide. (ames. Bateson. Symbole. Paris. Paris. Paris. Sociologie des Maladies Mentales. Paris. 1955. Flammarion. Balandier. Payot. Anthropologiques. PUF. Mouton. Cujas. Beattie. la Transe. 1964. 1980. PUF. Voyage Autour du Monde. Gallimard. Sociologie des Brazzavilles Noires. Georges. PUF. Le Candombl´ e de Bahia. Anthropologie Politique. Ajrique Ambigue. 1972. L’Anthropologie Contemporaine. Paris. Paris. Gregory. 1971. Pandora. Introduction a 1’Anthropologie Sociale. A. 165 . Histoire. Paris. D´possession du Monde. 10/18. Paris. lacques. Le Racisme en Ouestion. 1978. 1972. Louis Antoine de. —ohn. Images du Nordeste Mystique en Noir et Blanc. Sociologie et Psychanalyse. 1965. Paris. Marc. Le Seuil. N´gritude et N´grologues. Sociologie Actuelle de l’Afrique Noire. 1974. Paris. ` ˆ Benedict. Paris.Bibliografia Adotevi. Berque. 1950. 1971. la Folie. Paris. 1955. Paris. 1972. Flammarion. 1972. 1959. Hachette. – C´nie e du Paganisme. e e Paris. 1979. 1982. Ruth Echantillons de Civilisations. e e Auge. Stanislas. Roger. Plon. PUF. La C´r´monie du Naven. Paris. Paris. Paris. ee Baldwin. PUF. 1970. de Minuit. 1967. 1976. Anthropologie Appliqu´e. 1950. Ed. Le Rˆve. Paris. Paris. Paris. Calmann-L´vy. Gallimard. Fonction. Paris. Le Prochain et le Lointain.

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BIBLIOGRAFIA Escaneado e diagramado por MathCuei R . com o auxilio de A L TEX 169 .

170 BIBLIOGRAFIA .

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