A família lingüística Caribe (Karíb

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Sérgio Meira1

Resumo - Este artigo apresenta um panorama geral da família lingüística caribe (ou Karíb), uma das três maiores e mais espalhadas da América do Sul, junto com as famílias Tupi e Arawak. Dá-se especial atenção às línguas vivas da família, sua localização, classificação e situação atual. Palavras-chave: Caribe (Karíb). Línguas sul-americanas. Famílias lingüísticas. Lingüística histórico-comparativa. Lingüística descritiva.

Introdução

Há, no Brasil, uma grande, embora pouco visível, diversidade lingüística: cerca de 170 línguas indígenas são faladas por aproximadamente 150.000 pessoas, em diferentes regiões e situações. Algumas têm apenas um ou dois falantes e estão prestes a desaparecer; outras contam com mais de 10.000 falantes e parecem ter seu futuro assegurado, pelo menos a curto prazo. Contudo, mesmo nos melhores casos, as populações são pequenas: nenhum grupo chega sequer ao tamanho de uma cidade brasileira de pequeno porte. É essa pequenez dos grupos indígenas que os torna, em geral, invisíveis à maioria dos brasileiros, que se contenta em ver no Brasil um país de uma língua só. As várias línguas indígenas brasileiras são, em geral, bastante diferentes entre si. Algumas delas são tão afastadas umas das outras (e também do português) quanto, por exemplo, o chinês, o inglês e
Revista de Estudos e Pesquisas, FUNAI, Brasília, v.3, n.1/2, p.157-174, jul./dez. 2006

comparáveis à família das línguas neolatinas (português. Tabela 1: comparação de palavras em algumas línguas germânicas e neolantinas português espanhol italiano catalão francês inglês holandês alemão sueco livro homem quatro terra vir libro hombre cuatro tierra venir libro uomo quattro terra venire llibre home livre book boek man vier land Buch Mann vier Land bok man fyra land homme man four land come quatre quatre terra venir terre venir komen kommen komma Esta curta lista já basta para a identificação das línguas neolatinas e germânicas: as semelhanças e diferenças tornam os agrupamentos bastante óbvios. italiano. norueguês. islandês). romeno) ou à das línguas germânicas (inglês. Há. Outras. o espanhol e o italiano.SÉRGIO MEIRA o árabe. portanto. porém. são parecidas entre si como o português. espanhol. O mesmo ocorre com as línguas indígenas brasileiras: Tabela 2: comparação de palavras em algumas línguas indígenas brasileiras Tiriyó tuna konopo ëema okomo je Katxuyana Kuikúro tuna konoho osma okomo jo tunga kongoho ama õkõ i Makuxi Kamayurá tuna kono’ e’ma okong je ’y aman ape kap ãi Aweti ’y aman ape kap ãi Mawé y’y ja’mang mu’aap ngap hãi Português água chuva caminho vespa dente 158 . famílias lingüísticas no Brasil. alemão. sueco. holandês. O parentesco se torna evidente na comparação do vocabulário dessas línguas. catalão. como nos exemplos abaixo. francês.

o Aweti e o Mawé formam outra. As famílias caribe (vermelho escuro) e tupi (verde claro) 159 . o Katxuyana. Pano. o Irantxe etc. algumas grandes (as famílias Arawak. Além delas. sem nenhum parente conhecido (como o Trumai. a qual recebeu o nome de família Caribe (ou Karíb).). e até mesmo línguas isoladas. é fácil ver que o Tiriyó.). Maku etc. Localização geográfica Mapa 1.A FAMÍLIA LINGÜÍSTICA CARIBE (KARÍB) Olhando-se para os exemplos acima. a família (às vezes chamada “tronco”) Tupi2.). há também muitas outras famílias lingüísticas na América do Sul. outras menores (as famílias Arawá. o Kuikuro e o Makuxi formam uma família. enquanto que o Kamayurá. Katukina. cada uma com cerca de quarenta línguas. o Kwazá. Estas duas famílias são bastante grandes. Macro-Jê etc.

Kp Kapong. É fácil ver que as línguas Caribe se situam. Ch Chayma. Ik Ikpeng. em sua maioria. Pi Pimenteira. Pn Panare. Localização atual das línguas Caribe (línguas vivas em negrito. e parecia estar em plena expansão para o norte. Wy Wayana 160 . a família Caribe se estendia também pelas ilhas do Caribe. podem-se ver as áreas onde há falantes de línguas das famílias Caribe (em vermelho) e T upi (em verde). Wm Waimiri-Atroari. Km Cumanagoto. Kh Karihona. Hk Hixkaryana. na Venezuela. no Suriname e na Guiana Francesa. Pm Palmella. Ar Arara. Yu Yukpa. linguas mortas em tipo claro). Mk Makuxi. Siglas: Ak Akuriyó. encontradas sobretudo ao sul do Amazonas. Ka Karinya. cerca de quarenta membros. Tm Tamanaku. repartidos entre vários países da região amazônica: além do Brasil. na Guiana. ao norte do rio Amazonas. como já foi dito acima. Ks Katxuyana. Bk Bakairi. há línguas desta família na Colômbia. Ww Waiwai. No mapa ao lado. Yw Yawarana. Dk Ye’kwana. Antes do descobrimento. ao contrário das línguas Tupi. Ti Tiriyó. Mp Mapoyo. Pe Pemong. Mapa 2.SÉRGIO MEIRA A família caribe tem.

no sul do Pará. cuja língua (embora muito mais remotamente) apresenta certas características que a ligam a línguas guianenses (p. o nome “Caribe”. ainda mantêm em sua tradição oral a memória de que “vieram do norte” onde “atravessaram rios enormes”4. o que sugere que tenham vindo há não muito tempo no Suriname). encontramos apenas algumas línguas no sul: o Arara. registra apenas sua presença histórica. uma emigração a partir da área central venezuelo-guianense: os Karihona são claramente recém-chegados à Colômbia (e sua língua é muito próxima à de certas línguas das Guianas. como o Tiriyó. no Suriname. Como se pode ver no Mapa 2. Parece haver razão para se supor. com o Apalaí). e os Bakairi. com exceção de algumas aldeias Karinya (p. ou “Mar das Caraíbas”. na Colômbia. perto do lago Maracaibo. no Alto Xingu. ou Galibi. na Venezuela. nos rios Paranatinga e Arinos (parte formadora do Tapajós).A FAMÍLIA LINGÜÍSTICA CARIBE (KARÍB) A distribuição atual das línguas Caribe. para esses casos. mas desde o século XIX já não se encontram lá falantes destas línguas3. o Ikpeng e o Kuikuro (com seus dialetos Kalapalo. no norte da Venezuela. e o estado de Roraima. Também quase não há mais falantes de línguas Caribe no litoral norte da América do Sul. como seria de se esperar. 161 . no Brasil. ambas às margens do rio Maroni ou Marowijne). e o Karihona. com alguns poucos falantes ainda vivos no rio Caquetá. Awala na Guiana Francesa. reflete a evolução histórica das relações entre as populações originais e os invasores europeus. ainda mais ao sul. e umas poucas línguas geograficamente isoladas.ex. As línguas Caribe modernas concentram-se no interior do Maciço das Guianas e na região entre o rio Orinoco. e o Bakairi. Nahukwa e Matipu).ex. não há mais línguas Caribe nas ilhas caribenhas. Fora desta área. como o Yukpa.

o Avarikoto etc. Em seu extenso Saggio di Storia Americana (Ensaio de História Americana.). A própria palavra “caribe” provém de uma língua desta família (onde há freqüentemente termos parecidos.. Carib) ou “galibi” (ou Karinya. karifna. todos significando “ser humano”. publicado.SÉRGIO MEIRA Histórico Na época do descobrimento. pois os falantes de línguas Caribe tinham a reputação de comerem carne humana. ou “peixe caribe”. Cumanagoto) já na época do descobrimento da América. onde se falavam o Tamanaku. mesmo hoje em dia. Gilij refere-se ao “caribe” (ou galibi) 162 . a língua mais falada da família chama-se “caribe” (em inglês. o Pareka. (Note-se que. em quatro volumes. entre 1780 e 1783). na Venezuela. até hoje. um dos nomes da piranha no espanhol dos países amazônicos é “pez caribe”. o que impressionou os europeus. mas seu parentesco permaneceu desconhecido até que um missionário jesuíta. o padre Filippo Salvadore Gilij. e foi o termo adotado pelos europeus para se referirem aos falantes de línguas Caribe que encontraram nas ilhas do Caribe e nas costas das três Guianas e da Venezuela. como kari’na. línguas da família Caribe estiveram entre as primeiras a serem encontradas pelos europeus (junto com línguas da família Arawak. para os seus falantes). De fato. que também eram faladas nas ilhas do Caribe). “gente”). karipono.) As primeiras línguas Caribe foram encontradas pelos europeus nas ilhas do Caribe e no litoral das Guianas (Galibi) e da Venezuela (Chayma. observou a semelhança entre as línguas Caribe da área onde ele trabalhava (o médio Orinoco. Da palavra “caribe” deriva-se também “canibal” (freqüentemente “caribe” ou “caribal” nos primeiros textos europeus). karipuna etc.

incluindo comparações com outras línguas e análises supreendentemente argutas e modernas das estruturas do Tamanaku. e pela de Ruiz Blanco em 1690. estendendo. a família até o Brasil central (o rio Xingu. Gilij estava obviamente interessado na língua que descrevia como tal. não apenas como instrumento para a catequese de seus falantes (ao contrário de Yangues. para o Kuikuro. no final da década de 1880. ainda mais ao sul. 163 . este último incluindo também o Kalapalo.A FAMÍLIA LINGÜÍSTICA CARIBE (KARÍB) como “língua-mãe” a partir da qual se derivaram várias outras faladas na bacia do Orinoco. Karl von den Steinen. assim. outros pesquisadores se interessaram pelo parentesco entre as línguas Caribe. Contudo. logo seguida pela de Yangues em 1683. com os quais forma um continuum dialetal). logo seguida pelas de Biet (1664) e Breton (1665). entre os quais exploradores como merece menção Lucien Adam. não foi a primeira: já em 1655 aparecia a primeira lista de palavras do Karinya (Galibi). Já antes disso. em 1893. no século XVIII. para os Bakairi). a gramática de Gilij destaca-se como a mais bem escrita. tão diferentes do que se encontra normalmente nas línguas européias com que Gilij tinha familiaridade. e o Kuikuro. e. em 1680. havia encontrado línguas Caribe ao sul do Amazonas (o Bakairi. e mesmo de autores missionários posteriores. A descrição do Tamanaku por Gilij. por um lado. publicada por Pelleprat. um explorador alemão. Após Gilij. Tauste e Ruiz Blanco. o qual publicou uma coleção de Materiais Destinados ao Estabelecimento de uma Gramática Comparada dos Dialetos da Família Caribe. os rios Paranatinga e Teles Pires. como Vegamián. Tauste publicou uma gramática do Cumanagoto. o Nahukwa e o Matipu.

Devem-se mencionar aqui também os trabalhos de C. J. a qualidade da sua descrição só foi ultrapassada com o aparecimento das primeiras descrições feitas por lingüistas. em 1968.SÉRGIO MEIRA em 1978. por C. Foi necessário esperar até o século XX para que aparecessem novas descrições. bem como comparações mais detalhadas. os quais. KochGrünberg. No século XIX. contudo. ela inclui também uma comparação detalhada das palavras do Bakairi com as de outras línguas Caribe do norte e algumas tentativas de classificação e reconstrução da proto-língua da família. a qual atraiu o interesse da comunidade lingüística devido a certas propriedades inusitadas das línguas Caribe (a “ordem OVS”. e. a descrição do Bakairi. sobre o Waiwai 164 . mais tarde. crescia a olhos vistos. bem como uma descrição gramatical do Taurepan (uma variedade do Pemon) em 1916. se bem que problemáticos em certos aspectos. sem dúvida. Seguiram-se outras. são contudo muito ricos e detalhados. sem. A quantidade de material disponível. H. um explorador alemão. O trabalho de Lucien Adam. Armellada (em 1943). sobre o Karinya (Galibi) do Suriname. também compara palavras e estruturas gramaticais das línguas Caribe. de Goeje (em 1909. A primeira descrição gramatical de uma língua Caribe feita por um lingüista profissional foi a de B. o Wayana e o Karinya (Galibi). em 1979 (refeita em 1985). Derbyshire. Hoff. acima citado. adicionar grandes novidades. por Steinen (publicada em 1892) é. publicou também extensas listas de palavras de várias línguas Caribe. sobre o Yukpa). a melhor. vejase a próxima seção). Logo em seguida veio a descrição do Hixkaryana por D. e o interesse dos especialistas. de línguas como o Tiriyó. em 1946).

o Arara (Souza. o Yawarana. Devem-se também mencionar novos estudos comparativos. nos quais se discute a evolução histórica das línguas da família. Meira (2000). MacDonnell. 1993). como a maioria das línguas indígenas brasileiras. 1991. e sua produção científica vem aumentando concomitantemente. sobre línguas como o Bakairi (Souza. e também um número crescente de teses e dissertações de pós-graduação. e seus últimos falantes podem inclusive desaparecer antes da publicação deste artigo. o Panare (Mattei Muller 1994). 2005). 2004). um dos quais menciona uma nova língua da família. Publicaram-se também mais artigos sobre todas essas línguas. 1994). A comunidade de especialistas em línguas Caribe vem crescendo. e três delas (Karihona. o Apalaí (Koehn & Koehn 1986). Gildea (1999). Tavares. 1999. Somando-se todos os números da Tabela 3. o Waimiri-Atroari. o Makuxi (Abbott. um número bastante pequeno. o Ye’kwana (Hall 1988) e o Tiriyó (Meira. as línguas Caribe. Estas últimas estão em vias de extinção. há grande vitalidade e entusiasmo neste campo.000. o Ikpeng (Pachêco. têm em geral poucos falantes: metade das línguas ainda existentes possuem menos de mil falantes. 1994). Akuriyó. Mapoyo) têm menos de dez. o total não chega a 53. 1972. 165 . o Pémono. o Yukpa e o Mapoyo (1997). de grande importância para a sua classificação: Girard (1971). Carlin. sobre o qual ainda há poucos dados publicados (Mattei Muller 2003). 2001).A FAMÍLIA LINGÜÍSTICA CARIBE (KARÍB) (Hawkins 1998). Situação atual Como se pode ver na Tabela 3. o Wayana (Jackson.

... com número aproximado de falantes Makushi Karinya (Galibi) Pemon (Arekuna. Há ainda outras mencionadas por exploradores (p.000 3. o Pareka. o Palmella.ex.000 2.000 1.) Kapon (Akawaio. Patamona.) Ye’kwana (Makiritare) Panare Yukpa (+ Japreria) Waiwai Tiriyó Wayana Waimiri-Atroari 12. um número considerável de línguas Caribe já se 166 . já desapareceram. Muitas das primeiras línguas Caribe encontradas na época do descobrimento estão hoje extintas: das línguas mencionadas por Gilij em 1782. enquanto outras. na área entre Roraima e o Orinoco). e outra no Piauí.000 1. e temos delas apenas os pequenos vocabulários coletados pelos exploradores que as mencionaram.000 Bakairi Hixkaryana Kuikuro Apalaí Yawarana Ikpeng (Txikão) Arara Katxuyana Karihona (Carijona) Akuriyó Mapoyo 900 600 500 400 300 300 200 50 5 3 3 Esta situação se deve sobretudo às conseqüências do contato com os invasores europeus.. ambas não mais existem. Aparentemente. como o Tamanaku.000 10.500 2.000 5. apenas o “caribe” (Karinya.100 3.. o Pimenteira. Taurepan.000 5. ou Galibi) continua a ser falado.000 5. o Cumanagoto e o Chayma. Sapará e Wayumará.SÉRGIO MEIRA Tabela 3: Línguas Caribe ainda faladas. por Koch-Grünberg. Havia uma língua Caribe falada no estado de Rondônia.

os Panare. o que dá alento a uma modesta esperança. um destino compartilhado por muitas línguas indígenas de todas as famílias lingüísticas da América do Sul. por enquanto. naquela em que B. Hoff realizou a maior parte da pesquisa que levou à publicação de sua Carib Grammar em 1968). onde todos falam a sua língua (por exemplo. aqui. e há sinais de perda lingüística incipiente na aldeia de Santana). sinais positivos das sociedades envolventes: os governos dos países amazônicos mostram atualmente certo interesse em manter e apoiar as línguas indígenas (destaque-se. das línguas nacionais envolventes (o português. entre os quais há aldeias onde o português tornou-se a língua de uso cotidiano.A FAMÍLIA LINGÜÍSTICA CARIBE (KARÍB) extinguiu. na Venezuela. 167 . (Para mais informações sobre a situação das línguas indígenas em geral. 2006). Há. Há ainda grupos relativamente saudáveis. Uma situação semelhante ocorre também entre os Makuxi do Brasil (da Terra Indígena Raposa-Serra do Sol. O futuro das línguas ainda faladas permanece. é provável que nunca venhamos a saber quantas exatamente existiram. exceto por alguns falantes mais idosos. entre outras aldeias. é conhecido por todos os Bakairi. no Brasil central). Mesmo nos grupos maiores. contudo. veja-se Moore & Gabas. ou os Bakairi. encontramos sinais de perda lingüística: entre os Karinya (ou Galibi) do Suriname. por exemplo. em Roraima). incerto. cuja iniciativa parece ser a mais bem elaborada). o governo colombiano. sempre forte. devido à presença. J. e o número de tais aldeias tende a aumentar (informações mais recentes confirmam que isto aconteceu. já há várias aldeias onde a língua original foi abandonada. mas a maioria compartilha os mesmos perigos.

portanto. seguidas por um (†). As línguas com classificação mais duvidosa aparecem com uma interrogação entre parênteses (?). Algumas (não todas) línguas já extintas ocorrem na classificação. Durbin. ser vista como uma primeira aproximação. Há bastante polêmica em certos casos (não há certeza. 168 . Outros nomes da mesma língua. Tiriyó-Akuriyó. e uma delas (a de Durbin) apresenta problemas de tal monta que deve ser rejeitada. os dados disponíveis não permitem uma conclusão definitiva). sugerida pela primeira vez por Meira (2005). sobre o Waimiri-Atroari. sobretudo porque ainda há muitas línguas Caribe sobre as quais praticamente não há materiais confiáveis. são dados em parênteses. ou nomes de dialetos ou variedades de uma mesma língua. A classificação da Tabela 4. por exemplo. Kaufman. a qual poderá ser modificada à medida que forem aparecendo mais informações sobre as línguas menos conhecidas.ex. uma tentativa inicial.SÉRGIO MEIRA Classificação A classificação da família Caribe ainda apresenta vários pontos duvidosos: os especialistas ainda não estão de acordo sobre o grau de parentesco entre as várias línguas. WaiwaiHixkaryana) não têm nomes específicos. Subgrupos menores (p. 1994) discordam em muitos aspectos importantes. o qual talvez seja um ramo isolado dentro da família. As classificações mais recentemente publicadas (Girard. deve. 1977. mas talvez também faça parte de um subgrupo junto com o Mapoyo e o Yawarana. 1971.

.) Pimenteira † (?) 169 .A FAMÍLIA LINGÜÍSTICA CARIBE (KARÍB) Tabela 4: Classificação provisória das línguas da família Caribe Karinya (Galibi) Wayana Apalaí (?) Palmella † (?) Ramo Guianense Grupo Taranoano Tiriyó Akuriyó Karihona Waiwai Hixkaryana Katxuyana Tamanaku † Grupo Costeiro Grupo Pemonguiano Chayma † Cumanagoto † Pemong (Arekuna.) Makuxi Panare Ye’kwana (?) Mapoyo (?) Yawarana (?) Ramo Waimiriano Ramo Yukpano Waimiri-Atroari (?) Yukpa (Motilón) Hapreria (Japreria) Bakairi Arara Ikpeng Grupo Parukotoano Família Caribe Ramo Venezuelano Ramo Sul (ou Pekodiano) Grupo Xinguano Ramo Kuikuroano Kuikuro (Kalapalo.. ..) Kapong (Akawaio.. ... .

publicado em 1886 (e também em sua gramática de 1892). EUA. L.SÉRGIO MEIRA Notas 1 Doutor pela Universidade de Rice. ADAM. Berlin: Mouton de Gruyter. com uma estrutura interna (“subfamílias”.17. Texas. Contudo. Uma interessante exceção parcial é o Garifuna. o Caribe das Ilhas (Island Carib): uma língua de base e gramática arawak. uma vez que há um grande número de estruturas internas diversas para famílias lingüísticas. Guatemala). falando ainda por vários milhares de pessoas na América Central (Belize.) mais ou menos complicada. O termo “tronco” é às vezes utilizado para referir-se a uma família de estrutura complexa (uma “família de famílias”) e de maior antigüidade. Pesquisas mais recentes sugerem que a hipótese de uma origem no norte. (Eds. Note-se que as várias famílias lingüísticas do mundo podem ter poucos ou muitos membros. onde estão atualmente os Bakairi. K. devido ao contato com os europeus. O Caribe das Ilhas extinguiu-se.3. Trata-se do descendente moderno de uma “língua mista”.. “ramos” etc. 2 3 4 Bibliografia ABBOTT. Handbook of Amazonian languages. PULLUM. Macushi. 1991. apoiada também por Aryon Rodrigues em seu trabalho sobre possíveis relações históricas entre línguas Tupi e Caribe (1985). Matériaux pour servir à l’établissement d’une grammaire comparée des dialectes de la famille caribe. 2005). v. mas não antes que falantes escapados pudessem levar a língua até a América Central. Pesquisador do Departamento de Línguas e Culturas da América Indígena da Faculdade de Letras. C. Karl von den Steinen lançou em seu trabalho sobre o Bakairi.). em Houston. In: DERBYSHIRE. com graus maiores ou menores de antigüidade. Paris. 170 . Esta idéia. Universidade de Leiden. parece-nos mais simples usar somente o termo “família”. é mais convincente. como as outras línguas indígenas da região. Kuikuro e Ikpeng. Bibliothèque Linguistique Américaine. M. mas com a maior parte do vocabulário tomado a uma língua caribe (provavelmente o Karinya). a hipótese de que as línguas Caribe teriam sua origem no sul. com migrações posteriores para o norte. D. v. apresenta sérios problemas (veja-se Meira e Franchetto. p. 23-160. sem que se veja uma fronteira óbvia entre “troncos” mais complexos e “famílias” menos complexas. na Holanda. em algum ponto na área de maior concentração de línguas Caribe. G. 1893.

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