Apoio: Patrocínio: Realização: .

O Navio Negreiro Castro Alves .

eletrônico ou impresso.com.É proibida a reprodução do conteúdo deste livro em qualquer meio de comunicação. sem autorização escrita da Editora. virtualbooks. .Copyright © 2000.br Todos os direitos reservados a Editora Virtual Books Online M&M Editores Ltda.

Dois infinitos Ali se estreitam num abraço insano. E as vagas após ele correm. plácidos. voam. . Doudo no espaço Brinca o luar ... Bem feliz quem ali pode nest’hora Sentir deste painel a majestade! Embaixo .. . ..... Azuis.. O mar em troca acende as ardentias. Donde vem? onde vai? Das naus errantes Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço? Neste saara os corcéis o pó levantam. ‘Stamos em pleno mar. Qual dos dous é o céu? qual o oceano?. Galopam. mas não deixam traço.. Abrindo as velas Ao quente arfar das virações marinhas. sublimes. dourados. cansam Como turba de infantes inquieta.Constelações do líquido tesouro.... ‘Stamos em pleno mar.o mar em cima ....o firmamento. Veleiro brigue corre à flor dos mares..O Navio Negreiro Castro Alves 1 ‘Stamos em pleno mar. Do firmamento Os astros saltam como espumas de ouro.dourada borboleta. ‘Stamos em pleno mar..... Como roçam na vaga as andorinhas. .

Sacode as penas.. que ruge pela proa.doudo cometa! Albatroz! Albatroz! águia do oceano. que nas cordas assobia. Donde é filho. Tostados pelo sol dos quatro mundos! Crianças que a procela acalentara No berço destes pélagos profundos! Esperai! esperai! deixai que eu beba Esta selvagem. Por que foges assim. E o vento. qual seu lar? Ama a cadência do verso Que lhe ensina o velho mar! Cantai! que a morte é divina! Resvala o brigue à bolina Como golfinho veloz. barco ligeiro? Por que foges do pávido poeta? Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira Que semelha no mar .é o mar. Presa ao mastro da mezena Saudosa bandeira acena As vagas que deixa após..E no mar e no céu . Tu que dormes das nuvens entre as gazas. . Lembram as moças morenas. 2 Que importa do nauta o berço.a imensidade! Oh! que doce harmonia traz-me a brisa! Que música suave ao longe soa! Meu Deus! como é sublime um canto ardente Pelas vagas sem fim boiando à toa! Homens do mar! ó rudes marinheiros. Leviathan do espaço. livre poesia Orquestra . Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas. Do Espanhol as cantilenas Requebradas de langor.

.As andaluzas em flor! Da Itália o filho indolente Canta Veneza dormente.. Ou do golfo no regaço Relembra os versos de Tasso... Lembrando. Vós sabeis achar nas vagas As melodias do céu! . Meu Deus! Meu Deus! Que horror! . Junto às lavas do vulcão! O Inglês . histórias De Nelson e de Aboukir. Que cena infame e vil. . ó águia do oceano! Desce mais . Rijo entoa pátrias glórias..marinheiro frio.. Que Deus na Mancha ancorou)... 3 Desce do espaço imenso. Nautas de todas as plagas.predestinado Canta os louros do passado E os loureiros do porvir! Os marinheiros Helenos...... não pode olhar humano Como o teu mergulhar no brigue voador! Mas que vejo eu aí. Vão cantando em noite clara Versos que Homero gemeu . . Que tétricas figuras! . O Francês . Que quadro d’amarguras! É canto funeral! .. Homens que Fídias talhara. Belos piratas morenos Do mar que Ulisses cortou. (Porque a Inglaterra é um navio.Terra de amor e traição.. orgulhoso.. Que a vaga jônia criou. Que ao nascer no mar se achou.. inda mais.

Ouvem-se gritos. geme e ri! No entanto o capitão manda a manobra. Tinir de ferros...... marinheiros! Fazei-os mais dançar!.. que martírios embrutece. Em ânsia e mágoa vãs! E ri-se a orquestra irônica.. o chicote estala.. E da ronda fantástica a serpente Faz doudas espirais. estalar de açoite... suspendendo às tetas Magras crianças.. Presa nos elos de uma só cadeia. E voam mais e mais.. cujas bocas pretas Rega o sangue das mães: Outras moças.4 Era um sonho dantesco. Outro. Cantando. . outro enlouquece... E chora e dança ali! Um de raiva delira. E da ronda fantástica a serpente Faz doudas espirais .. E após fitando o céu que se desdobra. Se o velho arqueja.. mas nuas e espantadas. Horrendos a dançar. Legiões de homens negros como a noite.. . o tombadilho Que das luzernas avermelha o brilho.. . Diz do fumo entre os densos nevoeiros: “Vibrai rijo o chicote.” E ri-se a orquestra irônica. Tão puro sobre o mar. Em sangue a se banhar.. se no chão resvala. estridente. estridente. Negras mulheres. A multidão faminta cambaleia. No turbilhão de espectros arrastadas..

Qual um sonho dantesco as sombras voam!. Ontem simples. Perante a noite confusa. São os filhos do deserto.. São os guerreiros ousados Que com os tigres mosqueados Combatem na solidão. Astros! noites! tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares. Musa libérrima.. Dize-o tu. sem ar.... Gritos. audaz!.. por que não apagas Co’a esponja de tuas vagas De teu manto este borrão?.. sem razão. 5 Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós. Sem luz.. fortes.. maldições. preces ressoam! E ri-se Satanás!. severa Musa. Onde a terra esposa a luz. . bravos... Senhor Deus! Se é loucura. ais. Onde vive em campo aberto A tribo dos homens nus. Hoje míseros escravos. se é verdade Tanto horror perante os céus?! Ó mar.. Se a vaga à pressa resvala Como um cúmplice fugaz. tufão! Quem são estes desgraçados Que não encontram em vós Mais que o rir calmo da turba Que excita a fúria do algoz? Quem são? Se a estrela se cala.. .. .

Ai! quanto infeliz que cede.. Ontem a Serra Leoa. Adeus. Nasceram crianças lindas. a caça ao leão. Trazendo com tíbios passos. ó choça do monte. bem longe vêm.. E cai p’ra não mais s’erguer!. amores. imundo. apertado. .. Como Agar sofrendo tanto. E a fome.... Como Agar o foi também... Adeus... desertos só.. Viveram moças gentis. o oceano de pó...lágrimas e fel.. Mas o chacal sobre a areia Acha um corpo que roer... Das palmeiras no país.. Depois. . Filhos e algemas nos braços. Adeus..... Que nem o leite de pranto Têm que dar para Ismael. adeus!.. Lá nas areias infindas. A guerra. a sede. Depois.. Passa um dia a caravana. o cansaço. O sono dormido à toa Sob as tendas d’amplidão! Hoje. fundo.. Quando a virgem na cabana Cisma da noite nos véus .. o areal extenso. . palmeiras da fonte!. Que sedentas.... Vaga um lugar na cadeia.São mulheres desgraçadas. Infecto... . De longe. o porão negro.. alquebradas. N’alma . Depois no horizonte imenso Desertos....

lúgubre serpente Nas roscas da escravidão. E assim zombando da morte. Dança a lúgubre coorte Ao som do açoute. ou se é verdade Tanto horror perante os céus?!. e chora tanto Que o pavilhão se lave no teu pranto! . Prende-os a mesma corrente ...... Auriverde pendão de minha terra. Senhor Deus..... E o sono sempre cortado Pelo arranco de um finado. tufão! .. .. chora. Que impudente na gávea tripudia? Silêncio. . Nem são livres p’ra morrer. Ó mar. Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós...... E o baque de um corpo ao mar.. E deixa-a transformar-se nessa festa Em manto impuro de bacante fria!.. Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta. Musa.. 6 Existe um povo que a bandeira empresta P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!. Se eu deliro..Férrea. por que não apagas Co’a esponja de tuas vagas Do teu manto este borrão? Astros! noites! tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares.Tendo a peste por jaguar. Hoje. A vontade por poder. Ontem plena liberdade... cúm’lo de maldade..... Irrisão!.

.. heróis do Novo Mundo! Andrada! arranca esse pendão dos ares! Colombo! fecha a porta dos teus mares! FIM .. da liberdade após a guerra. Estandarte que a luz do sol encerra E as promessas divinas da esperança. Foste hasteado dos heróis na lança Antes te houvessem roto na batalha. Fatalidade atroz que a mente esmaga! Extingue nesta hora o brigue imundo O trilho que Colombo abriu nas vagas. Da etérea plaga Levantai-vos. Que servires a um povo de mortalha!. Tu que...Que a brisa do Brasil beija e balança. Como um íris no pélago profundo! Mas é infâmia demais! ..