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Desde a Antiguidade que a sociedade e os meios de produção de baseiam numa analogia existente entre exerce o poder e quem cumpre

ordens. A consolidação das grandes monarquias na Idade Moderna reacende, e mostra-nos de forma clara, a ligação existente entre o Rei e os seus súbditos: uma ligação baseada nas relações familiares entre pais e filhos, em que o monarca exerce o poder com vista a promover o bem-estar dos seus dependentes. Para Gerald Dworkin, “o paternalismo é a interferência na liberdade de acção de uma pessoa, justificada por razões que se referem exclusivamente ao bem-estar, à felicidade, às necessidades, aos interesses ou aos valores da pessoa condicionada.” Esse poder é, portanto, tornado como necessário e protector, aos olhos da sociedade, legitimando as restrições à liberdade dos indivíduos. Uma das principais características do paternalismo, enquanto ideologia política, é a preocupação em justificar o domínio pela necessidade do dominado, cuja dependência, imaturidade e irresponsabilidade é associada à infância. Como argumento de legitimação, o paternalista age para bem daquele que oprime, quer este seja o seu escravo ou o seu trabalhador. Apesar de este ser um modelo posto em prática e conhecido desde há muito, o termo a si associado surge apenas no século XIX, no contexto das relações entre patrão-empregado. O modelo paternalista surge assim como detentor de uma meta dupla: por um lado apresenta-se com uma função de domínio e, por outro, como uma função ideológica, que pretende legitimar a existência da primeira. Tome-se o exemplo da acção legislativa da rainha Isabel, na Inglaterra do século XVI e, posteriormente, de Carlos I, já no século XVII. Ambos os monarcas trabalham no sentido de garantir a protecção dos mais pobres em épocas de carestia e fomes agudas. Os órgãos de governo estariam encarregues de promover a ordem nos mercados locais, impedindo os abusos dos fazendeiros relativamente ao preço dos cereais. Os preços eram também fixados pelos juízes da Coroa. Quanto aos agricultores, “estes não deviam vendê-lo [o cereal] enquanto ainda estivesse no campo, nem deviam retê-lo na esperança da elevação dos preços”1. Os mercados eram, por isso, fortemente controlados pelos oficiais ao serviço do poder central, e aqueles que se encontravam nos estratos mais baixos da sociedade estavam protegidos (pelo menos na prática) sentiamse protegidos dos abusos que os mais poderosos poderiam exercer contra si. Neste processo deve ser reconhecido o papel activo que a Igreja exerceu tanto junto dos mais carenciados como dos mais ricos, através dos seus sermões de consciencialização.
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In Oliveira, Maria Izabel Morais, “Motins da fome na Inglaterra e da França no século XVIII”, Temas&Matizes, vol. 8, 2005, p. 83

2 3 In idem. criada em séculos anteriores como um modelo paternalista que lhe dava proteção. 85 In idem. p. o conhecido laissezfaire (…)”2 e. p.No século XVIII. “a multidão lutava para impedir que a economia moral dos pobres. consequentemente. saiu vitorioso o modelo da nova economia política na questão da regulamentação do comércio de cereais interno. nos campos ingleses. 82 . “(…) em detrimento da antiga regulamentação paternalista do mercado. caísse no esquecimento”3.