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Amor Cativo

(Tender Feud) Nicole Jordan

CAPITULO I
Argyll, Escócia, 1761 Ela só podia estar louca. O estranho que tampava sua boca devia ser produto de urna imaginação fértil demais. Mas talvez estivesse realmente acordada, em plena posse de suas faculdades mentais, e de fato sendo atacada no gabinete de seu tio, no meio da noite. Katrine Campbell arregalou os olhos verdes para o homem de feições duras e cabelos negros como o ébano. Ela voltara à Escócia depois de urna ausência de quinze anos, cm busca do romance e aventura que seu temperamento passional tanto pedia, mas jamais imaginara que fosse encontrar algo parecido com isto! Mas a verdade era que nada até então saíra como o planejado. Ela chegara da Inglaterra naquela tarde, praticamente junto com a carta que enviara ao tio, e o encontrara no meio de um grande tumulto. Pelo que pudera entender, uma centena de cabeças de gado fora roubada pelos inquilinos do duque de Argyll, aparentemente em retaliação pelo aumento dos aluguéis. Sendo o administrador das propriedades ocidentais do duque, Colin Campbell queria ver os ladrões presos e punidos o mais rapidamente possível. _ Esses malditos MacLean! _ berrara ele para o jovem soldado inglês que viera comunicar o roubo. _ Vou pendurá-los na forca por isto! Foi a última vez que roubaram o clã Campbell! Katrine percebeu que a hora era pouco adequada para conversar com o tio pedindo sua permissão para uma estada mais prolongada. E, de fato, se teve tempo para persuadi-lo a deixá-la passar a noite ali antes dele sair batendo a porta, resmungando contra parentes inoportunos e os MacLean ladrões. Ela ficou quase agradecida aos tais MacLean por distraírem a atenção de seu tio logo em sua chegada. Assim teria mais tempo para preparar seus argumentos. Um viúvo sem filhos como Colin Campbell dificilmente aceitaria de bom grado a idéia de hospedar uma sobrinha que não via há anos. Contudo, Katrine esperava convencê-lo a deixá-la ficar pelo menos um mês e em troca se ofereceria para cuidar da casa que, pela aparência das janelas e dos móveis empoeirados, estava precisando da atenção de uma mulher caprichosa.

Decidida a provar que podia ser útil, começou a arrumar alguns cômodos, ignorando os resmungos da criada mal-educada. Terminado o jantar, escreveu cartas para suas duas irmãs e a tia Gardner, avisando-as de sua chegada em segurança. Era bastante tarde quando finalmente recolheu-se para o quarto. Cerca de uma hora e meia depois, como estava alerta, esperando a chegada do tio, Katrine ouviu um som vindo do andar de baixo: um rangido leve de uma dobradiça precisando de óleo. Ela levantou-se rapidamente, jogando um cobertor nos ombros. Sua bagagem maior ainda não chegara e precisava de algo para cobrir a camisola. Depois de calçar os chinelos, olhou-se no espelho para ver se seus cabelos crespos e rebeldes continuavam obedientemente trançados e presos sob a touca dê dormir. Acendendo uma vela, saiu do quarto e dirigiu-se para a escada, de onde avistou luz sob a porta do gabinete. Bateu na porta de leve, mas não esperou a ordem de entrar. _ Tio, o senhor conseguiu capturar os... Num átimo de segundo Katrine viu que o estranho usava uma casaca preta e tinha os cabelos negros presos com uma fita. No mesmo olhar captou um dos livros de registro de seu tio aberto sobre a escrivaninha, iluminado por um lampião. _ Desculpe, mas o que... _ começou, confusa, mas as palavras mal tinham saído quando o estranho, levantando-se de um salto, veio tampar-lhe a boca com a mão. Com os olhos arregalados de susto, ela fitou o homem sob a luz da vela que carregava. O rosto era forte, com maxilares bem marcados e queixo agressivo. Olhos escuros brilhavam sob sobrancelhas espessas. Dhu... a palavra em gaélico, o dialeto escocês, para a cor preta foi a primeira coisa que lhe acorreu ao pensamento. Negro e perigoso. Tudo indicava que havia surpreendido um intruso na casa de seu tio. Ela quis lutar, pedir socorro, mas a palma calosa continuou firme sobre sua boca enquanto o homem a puxava para dentro do gabinete e fechava a porta. _ Fique quieta e nem um pio! _ A ordem veio num tom baixo e assustou-a ainda mais. Foi dada na voz de um cavalheiro de cultura e acostumado a comandar. Além disso, tinha um nítido sotaque escocês. Á luz de sua vela, Katrine pôde ver que os olhos não eram negros, como pensara de início, mas azuis, num tom profundo, escurecidos por cílios espessos. Tirando-lhe a vela da mão, ele disse no mesmo tom baixo e cultivado: _ Quando eu tirar a mão, você não vai gritar. _ Foi uma ordem, não um pedido, embora ele parecesse estar esperando uma concordância. Com o coração aos saltos, Katrine balançou a cabeça lentamente, pedindo perdão a Deus pela mentira. No instante em que o intruso tirou a mão, ela respirou fundo e soltou um grito terrível, esperando que fosse ouvido no castelo de Kirchun, onde ficava a milícia inglesa. O homem reagiu no mesmo instante, levantando novamente a mão, mas desta vez Katrine estava preparada. Com um movimento rápido, ergueu o pé e enfiou o salto do chinelo no peito do pé do vilão enquanto se virava, tentando alcançar a maçaneta da porta. A ação fez o homem deixar cair a vela, que se apagou ao bater no chão. Praguejando baixinho, o intruso atirou-se sobre Katrine, ao mesmo tempo jogando o ombro contra a porta que ela já conseguira abrir. Desta vez ele a pegou por trás, tampando-lhe a boca com a mão enquanto a continha pela cintura com o braço direito. A manta que ela usava escorregou, enrolando-se em sua cintura e quadris, aumentando seu confinamento. Presa, impotente, mal conseguindo respirar, Katrine viu-se arrastada para perto da escrivaninha. O braço musculoso deixou sua cintura para pegar o lampião, contudo ela não foi capaz de se desvencilhar. Só pôde virar um pouco a cabeça, conseguindo ver um rosto furioso antes de o homem apagar a luz... No escuro, o intruso a fez ajoelhar-se e agachou-se ao seu lado. Mantendo a mão sobre sua boca, encostou uma lâmina fria em seu pescoço. O sussurro foi suave como seda, mas mais mortal do que aço _Tente isso de novo e você vai conhecer o fio do meu punhal.

Não se atrevendo a mexer nem um dedo, Katrine ficou ali, trêmula. Agora estava apavorada. Uma lâmina no pescoço, um corpo firme e masculino apertado contra o seu Sensações mais do que suficientes para perturbarem a natural sensibilidade de uma jovem dama finamente educada! E se ele pretendesse mesmo assassiná-la?, pensou, tremendo da cabeça aos pés. No silêncio, podia ouvir a respiração do homem e os batimentos de seu próprio coração. Por que ninguém aparecia? Seu grito, se não tivesse trazido os milicianos, deveria no mínimo ter acordada a criada, a única pessoa daquela casa que não se envolvera na caça aos ladrões. Inútil, pensou Katrine, com desdém. A mulher provara, de novo, ser uma inútil. Com toda a certeza a covarde estava escondida embaixo da cama, com um travesseiro tampando os ouvidos. Desejando poder fazer o mesmo, ela sufocou uma risada histérica e concentrou-se em suas pernas que estavam adormecendo. Se ao menos conseguisse se mexer um pouco... Como que em resposta às suas preces, o intruso abaixou a arma e tirou a mão de sua boca. Mas, em vez de libertá-la, ele a prendeu pelo peito, perto do pescoço. Katrine enrijeceu-se diante do atrevimento. Ora, o braço do homem estava tocando seus seios! O contato íntimo a fez tomar consciência do quanto seu corpo era macio em comparação com o do intruso. O pior era que a proximidade estava lhe causando um efeito estranho e indesejado. Seus mamilos estavam se enrijecendo. Chocada com a reação involuntária, Katrine lançou um olhar para cima. Talvez o homem não estivesse notando onde seu braço se apoiava. Mas talvez ele soubesse muito bem. Ele baixou o olhar. O luar que entrava pela janela aberta fazia seus olhos escuros cintilarem e delineava os planos severos de seu rosto, dando-lhe um aspecto ameaçador. Só que evocava um tipo diferente de perigo. Katrine sentiu a pulsação acelerar. Sua garganta secou de repente e seus lábios se entreabriram de medo. Percebeu o olhar do homem descendo para sua boca. Apesar da sala estar fria, sentia-se esquentar mais a cada minuto que passava. O corpo do homem a aquecia. Podia sentir seu calor e as batidas de seu coração por trás da casaca preta. Ou aquilo seria apenas produto de sua imaginação desenfreada? Katrine tentou engolir apesar da garganta seca. Nenhum cavalheiro que conhecia a afetara dessa maneira. Também nenhum cavalheiro a olhara desse jeito... Era só razoavelmente bonita, tendo pouco da encantadora beleza de suas duas irmãs mais novas. O queixo era pronunciado demais e seus cabelos formavam uma massa indisciplinada de cachos naturais, espessos e vermelhos como fogo. Além disso, tinha um gênio terrível e uma língua afiada que afastara mais do que um possível pretendente. Apesar disso, só continuava solteira aos vinte e três anos por vontade própria. Impusera-se o compromisso de ver suas irmãs bem casadas antes de pensar em arranjar um mando. Mas nesse momento, desejou ter um mínimo de experiência com os homens para saber lidar com esse vilão que agora, além de ameaçar sua vida, ameaçava sua virtude. Ainda olhando para seu captor, Katrine sentiu um arrepio. Sua imaginação estava lhe pregando peças, pensou, pois o calor que emanava dele era quase confortador e o cheiro másculo de sua pele, agradável. Katrine prendeu a respiração quando viu o olhar do intruso descer e se fixar em seus seios. Vestia uma camisola de flanela espessa, mas podia sentir o olhar atravessando o tecido, tocando-a com intimidade. Mal se atrevendo a respirar, ficou observando em tenso silêncio enquanto o olhar descia ainda mais. Ela quase desmaiou quando o homem falou: _ O que é isto, um cobertor? _ Ele levantou um canto da manta com a ponta do punhal. Katrine não conseguiu encontrar a voz, mas sabendo que tinha de responder, só balançou a cabeça, assentindo. O homem esperou um instante e depois afastou-se dela vagarosamente. Ao ver a lâmina

Deu boas vindas à raiva.. Cavalheiro! Ela gostaria de poder dizer claramente o que pensava sobre suas pretensões à fidalguia. O homem abaixou a cabeça para continuar sua tarefa. Lacaio de Argyll? Obviamente ele estava falando de seu tio.. sentiu o sangue começar a ferver. Uma mecha de cabelos negros e ondulados tombou sobre a testa aristocrática. Pela primeira vez em sua vida. usou um tom agradável. era uma emoção mais satisfatória do que o medo e a fazia se sentir bem menos impotente e indefesa. pensou Katrine. Claro. Katrine não conseguiu dizer nada. Ora. encarando-a. Teria respondido à altura se não fosse pela tira de lã enfiada em sua boca. _ Repercutiria muito mal para um cavalheiro das Terras Altas ser obrigado a machucar uma mulher. deslizando pela parte de trás de suas pernas enquanto o homem passava a tira de lã para amarrar os tornozelos. Quando ele terminou. como poderia ficar confortável quando estava sentada no chão frio e amarrada como um peru de Natal? Na escuridão. pegou o cobertor e arranjou-o sobre seus ombros.cintilar sob o luar. quando voltou a falar. e algo mais: raiva por esse vilão de negro exercer um efeito tão perturbador sobre ela. Ele a confundira com uma criada. Mas o desejo de dizer alguma coisa sumiu quando ele a fez sentar no chão e ergueu a barra da camisola para amarrar-lhe os pés. moça. O homem voltou a sentar-se à escrivaninha e debruçou-se sobre o livro de registros. Não quero que grite de novo. Katrine ficou observando a cena com olhos arregalados e estremeceu quando o homem estendeu a mão para ela. Afinal. Ficou só olhando para ele. O tom foi tranqüilizador. Por algum tempo. De onde estava Katrine não podia ver o que ele fazia. assim você ficará mais confortável. _ Você poderia encontrar coisa melhor para fazer do que servir o lacaio de Argyll. ele puxou o cobertor e cortou uma tira com o punhal. _ Não vou machucá-la _ disse ele baixinho _. o calor se espalhando e indo se acomodar em lugares cuja existência uma dama refinada jamais deveria reconhecer. E. ouviu o homem bater uma pederneira e em seguida acender o lampião. A preocupação fingida atiçou a ira de Katrine. a não ser que você me dê motivos para isso. _ Vou ter de amordaçá-la. O estranho parou por um segundo e ergueu o olhar. O intruso. mas nos olhos escuros detectou uma leve zombaria que considerou um insulto. Apreensiva. a língua lhe faltou. _ Pronto. encarou-o cheia de fúria. Vendo-o virar-se. tentou distrair sua mente pensando nas palavras exatas que diria se não estivesse amordaçada. mas Katrine ainda tremia. cortando mais tiras do cobertor _ Na certa confundiram seu grito com o de um gato selvagem. Com um gesto rápido. _ Agradeço você não ter gritado de novo _ observou ele.. _ Você trabalha aqui? _ perguntou ele. mas percebeu que molhava várias vezes a pena no tinteiro. Katrine. apesar do medo. patroas e serviçais eram bem parecidas em trajes de dormir. Tinha a impressão de que aquelas mãos ásperas soltavam fogo ao tocar sua pele. Katrine sentiu uma onda de alivio por escapar do olhar penetrante do intruso. pegando-lhe as mãos e cruzando-as no pulso para poder amarrá-las. Katrine não conseguiu evitar um choramingo de pavor. foi delicado enquanto a amordaçava com a tira do cobertor e amarrava as pontas do tecido por cima da touca de dormir. Ela soltou um soluço de indignação. Katrine censurou-se pela emoção que o olhar e o toque de seu captor lhe causavam. Katrine simplesmente gelou ao sentir os dedos quentes tocando sua pele nua. desviando o olhar.. trêmula e indefesa. os únicos sons na sala foram o raspar da pena e da areia sobre o . _ Parece que os soldados dos Campbell não vão aparecer _ disse. sem dúvida percebendo o quanto ela estava assustada. Enquanto o homem continuava a amarrá-la.

Vendo onde o olhar do homem estava se demorando. cruel e perigoso. bem vestido ou não. Os lábios cheios e os cabelos ondulados deviam ser atraentes para algumas mulheres. estudou atentamente o perfil do invasor para. enquanto se levantava. _Lamento ter de deixá-la assim. Virou-se e encarou Katrine. quando ele estendeu a mão para seus tornozelos. como se tivesse percebido que estava sendo observado. usada para secar a tinta. apressou-se a abaixar a barra da camisola. Sentindo o sangue ferver diante da lembrança.pergaminho. _ Uma nota caçoísta tingiu suas palavras. Ele lhe deu um sorriso. Mas um homem tão selvagem definitivamente não fazia parte de seus sonhos. _Dê minhas lembranças a Colin Campbell. No entanto. Em troca de sua modéstia ela só recebeu uma risadinha cínica. _ É uma grande pena eu ter tão pouco tempo nesta noite. Vários cachos tinham se soltado da trança e escapado da touca de dormir. _ Fez uma pausa e depois colocou um dedo sob o queixo de Katrine. mas já vi do que você é capaz. Já provara isso ao ameaçá-la com o punhal. ela mesma poderia achá-lo bastante atraente se o tivesse conhecido em outras circunstâncias. o estranho virou-se para olhá-la. Katrine descobriu que mesmo tomada de fúria era capaz de corar de embaraço. A camisola estava erguida acima dos tornozelos amarrados. Voltou a guardar a bolsinha na gaveta e levantou-se com um movimento ágil e gracioso. poder descrevê-lo para as autoridades. a testa alta. cujo cabo agora aparecia por cima do cano da bota direita. Quando . captando todos os detalhes de sua desarrumação. Concedendo uma vitória temporária ao vilão. Katrine puxou os pés com um olhar desafiador. mostrando seus pés e uma boa parte das pernas. nunca conseguiria esquecer esse rosto. Katrine ergueu o queixo e encarou-o com expressão indignada. Ele falava bem demais para ser um ladrão comum. valorizando sua figura alta e magra. ele poderia ser considerado bem bonito. fazendo-a ranger os dentes por cima da tira de lã enquanto ele se dirigia para a janela. E. Observando-o cheia de fúria. pensou Katrine com magnanimidade. ele era um criminoso rude. O homem devia ter uns trinta e poucos anos. Examinou-a de alto a baixo. que caíra um pouco para trás por causa da mordaça. O homem fez uma mesura exagerada e zombeteira. ela continuou rígida. talvez me empenharia em aprofundar nosso conhecimento. De fato. Apesar das amarras. deduziu que o pequeno objeto de metal que ele examinava à luz do lampião era um selo. Se não fosse pela barba de dois ou três dias. Em outras circunstâncias. O descarado estava flertando com ela! _Quer que eu deixe o lampião aceso? _ indagou ele. Avistando de relance um bastão vermelho. A casaca e as calças eram extremamente bem cortadas. Mesmo quando o homem abaixou-se diante dela para verificar se a mordaça e as amarras nos pulsos estavam firmes. o queixo quadrado e os olhos azul-escuros como a noite. Mas. salvo pela garganta seca e a falta de circulação em alguns pontos dos pulsos e tornozelos. Ela tentou ocupar o tempo pensando em quem seria o estranho e por que estava mexendo nos livros. posteriormente. ele fechou o livro e começou a procurar alguma coisa nas gavetas. O homem voltou a se preocupar com sua escrita. Nesse momento. _Você tem belos tornozelos. Katrine jurou que acertaria contas com o sujeito. gata selvagem. Desta vez ela recusou-se a demonstrar medo. cobrindo os pés. Um bom tempo depois. o que já era algum conforto. Seria o do seu tio? Ou do duque? O estranho enrolou o selo num lenço e enfiou-o no cinto. Tudo indicava que não seria assassinada tão cedo. na verdade. Katrine arregalou os olhos. Que arrogância inacreditável! O vilão estava tão certo que não seria apanhado que aceitava deixar uma luz enquanto fugia. Ele não a tocou e exibiu um outro de seus sorrisos devassos. Não parecia nem minimamente preocupado com a possibilidade dela identificá-lo. Katrine viu-o tirar uma bolsinha e espalhar seu conteúdo sobre a mesa. Katrine começou a relaxar um pouco. o homem não lhe fizera nenhum mal. Mas. As botas de montaria que lhe chegavam acima dos joelhos não deixavam dúvidas sobre a alta qualidade. erguendo-o para melhor ver seu rosto.

Raith me cortaria a cabeça! _Bem. O vilão poderia voltar. antes que eu comece a gritar chamando a milícia. Viu-se obrigada a parar por um instante. _Raith. Mas pelo menos parte de seu cérebro devia funcionar adequadamente. Katrine percebeu duas coisas em rápida sucessão: primeiro. com um om- . onde está você. subiu no peitoril e saltou para dentro do gabinete. assim que se viu do lado de fora. não. só olhando para seus pulsos amarrados. do patife? . Com um suspiro de alívio. Katrine acrescentou: _.. ia ser novamente silenciada. Mas.No entanto. _Oh. Ficou imóvel. ela voltou a bater inutilmente nas costas cobertas de tecido xadrez. _Pensando melhor. mais habituados com o inglês. _Acho que foi Raith quem a amarrou assim _ disse com um forte sotaque das Terras Altas. com o coração batendo forte. Katrine sufocou um soluço de susto ao ver um outro homem na janela. _ Sou Katrine Campbell. Estava estendendo as mãos para os tornozelos quando ouviu um outro som de passos no lado de fora da casa.A milícia vai gostar de conhecer sua identidade! O ruivo obviamente percebeu o erro que cometera ao revelar o nome de seu cúmplice. Não tinha a menor intenção de se submeter pacificamente a ser amordaçada com o trapo molhado! No entanto. eu cortarei. cauteloso. então esse é o nome do. usava o xale xadrez proibido preso ao ombro.. Doerá do mesmo jeito. o que.. _ Eu cheguei hoje! Agora me solte. passando o braço pela sua cintura. rapaz? _ O sussurro veio acompanhando um braço grosso que abria a vidraça. Os gritos abafados que soltou enquanto atravessavam o jardim também foram em vão pois. porque acabou tomando uma decisão. furiosa. poderei usar de uma certa demência se você desamarrar minhas mãos. Esse era mais baixo e robusto. quando o homem saltou a janela. de cabeça para baixo. mas finalmente sentiu-a se afrouxar. por medo de rachar a cabeça no peitoril. E mais. pois ele ficou ali parado. mas se seu primeiro captor tinha mãos de aço. a sobrinha de Colin Campbell. era a confirmação de suas intenções perversas. para ela. Katrine esperou vários minutos antes de levar as mãos atrás da cabeça para soltar a mordaça. Com uma agilidade surpreendente para seu físico robusto.. exibindo uma boa parte de pernas peludas sob o saiote escocês. ela arrancou a lã sufocante da boca e massageou os lábios inchados. o próprio duque seria informado sobre o acontecido com todos os detalhes! Ela ainda fazia seus juramentos quando o homem saltou pela janela e fechou a vidraça atrás dele. dissera a coisa errada. pegou a mordaça caída no chão. De fato. moça. e exibia cabelos tão vermelhos como os dela sob a boina. segundo. pois fez um ar consternado. mas não causou mais efeito do que uma mosca batendo num touro. Ofegante. se ele não cortar. Tentou lutar. O recém-chegado encarou-a com igual surpresa.. que pareceu estranho aos ouvidos de Katrine. claro. Depois. Por alguns instantes Katrine imaginou que o homem era mesmo retardado. Ele a subjugou como se estivesse lidando com uma criancinha e a amordaçou com facilidade. seu bobo. A janela rangeu de novo quando foi aberta. ergueu-a como se fosse uma pena e atirou-a sobre o ombro. Dava a impressão de não ser muito inteligente. ela não teve escolha. esse possuía duas vezes mais força. Ajoelhando-se ao lado dela. _ Raith. se empenharia ao máximo para ver esse valentão mal-educado caçado por todos os soldados e magistrados do condado de Argyll. Ela sentiu o sangue ferver. Agora quer fazer o favor de me soltar? _ Ninguém nos contou que Campbell tinha uma sobrinha aqui. você não vai denunciá-lo. _ E quem é você? _ perguntou o homem. devido ao peso muito maior.seu tio voltasse. Katrine socou as costas do bruto. Foi difícil soltar a tira com as mãos amarradas.

O golpe no estômago que Katrine recebeu quando o cavalo avançou a silenciou por alguns minutos. conseguiu reunir forças para se desvencilhar. pronta para a batalha. Rangendo os dentes sobre a tira. refletiu enquanto avançavam pelo meio da noite. parecia ainda mais perigoso. Não tinha mais respiração para tentar gritar. Segure a língua! Katrine rangeu os dentes sobre a mordaça. quando ele a pegou pelo braço para ajudá-la a ficar em pé. Jurou se vingar dele. Quando de relance ela avistou um cavalo amarrado a um tronco. como se ele fosse um tigre e ela um cachorrinho atrevido. usava um xale escocês em tons de verde preso no ombro. inclusive o vilão de cabelos negros como ébano que invadira a casa de seu tio. _Agora segure a língua _ disse seu captor. A falta de respiração a atordoou por um instante. contorcendo-se e chutando desesperadamente. Katrine.bro poderoso enfiado em seu estômago. E agora. Vagarosamente ela virou a cabeça e sentiu o coração dar um salto quando viu que era o alvo de vários olhares ferozes. E agora não havia mais sinal da arrogante . incapaz de chutara canela do bruto. ela mâl conseguia respirar e menos ainda articular o que faria com seu raptor se ele a soltasse. Agora. exausta e dolorida. seu bruto! Vou vê-lo pendurado na forca por isto! O cobertor há muito caíra de seus ombros. com os cabelos desgrenhados. Jurou matar o bruto. uma mão pesada apertou-a contra a sela. O lugar estava cheio de homens. Mesmo assim. Mas. Ouviu o homem resmungar sobre diabinhos encrenqueiros enquanto ele a devolvia à posição anterior e montava.enchera a cabeça da filha com bobagens românticas sobre a Escócia. dolorida. Apunhalando seu raptor com os olhos. Katrine enfrentou o robusto escocês. levantou as mãos e conseguiu puxar a mordaça. Foi então que Katrine percebeu que não estavam sozinhos.. Cambaleante. devia ter prestado mais atenção às palavras de tia Gardner. com um impulso dos pés e um empurrão com as mãos amarradas. em vez de casaca e colete. Talvez. dirigindo-se para um arvoredo. Seu gemido de indignação foi cortado quando o bruto atirou-a de bruços sobre a sela. sentindo que a espinha’ se transformara em geleia. Ela não poderia dizer quanto tempo levou aquela cavalgada. mas apesar de estar com péssimo aspecto. Desistindo de socar. O desejo de matar o superara por completo. Katrine deixou-se deslizar para o chão e permaneceu ali. Quando finalmente a recuperou e começou a arranhar a perna peluda que aparecia sob o saiote. Havia outros cavalos e o pequeno bosque estava iluminado com tochas. à moda das Terras Altas. tentando morder suas patas.. redobrou seus esforços para escapar. Finalmente o cavalo diminuiu a marcha e a cavalgada dolorida terminou. com mais preocupação do que ameaça na voz. Ele modificara um pouco seus trajes. mais de uma praga violenta chegou à sua língua afiada. atacou-o inutilmente com as mãos amarradas. imóvel. Katrine tentou arranharas costas poderosas. caindo de joelhos no chão. Sua raiva estava explodindo. menos de doze horas depois de sua chegada. recebeu uma palmada no traseiro. _ Raith não vai gostar nada quando souber que eu revelei o nome dele ou que você ameaçou chamar os soldados. Estavam todos olhando fixamente para ela. Em troca. desistiu da luta. Um arrepio gelado percorreu sua espinha. estava sendo raptada por um maluco. vestindo roupas escocesas e brandindo pistolas ou espadas. queixando-se com freqüência que seu cunhado . mas o homem continuou correndo. O homem só ficou olhando. Sua tia inglesa sempre se referia aos parentes de seu pai como “os montanheses selvagens e pagãos”. Não sentia mais medo. tentou lembrar-se de sua educação cristã enquanto era sacudida sem piedade quilômetro atrás de quilômetro. como gostaria de fazer. A visão gelou seu sangue e no mesmo instante acabou com todas as idéias românticas que alimentara sobre os valentes habitantes das Terras Altas. Katrine. _ Seu pateta idiota! Seu. mas quando seu captor afastou as mãos para pegar as rédeas. enquanto seu captor desmontava. quase quebrando-lhe as costelas. conseguiu deslizar para fora do cavalo. Nessas roupas. mesmo que levasse a vida toda tentando.

que invenção foi essa? CAPÍTULO II Raith MacLean ficou olhando para seu parente. Ficara encarregado de vigiar a guarnição no castelo. Lachlan não primava pela inteligência e não seria a primeira vez que desobedecia ordens. Na condição de lorde de Ardgour. vestida em trajes de dormir. exceto pelo fato de ele ter sido surpreendido no gabinete pela moça de cabelos de fogo. dois outros destacamentos de MacLean tinham criado uma diversão que obrigara o administrador do duque e os soldados partirem numa louca perseguição. ficando expostos à perfídia de Argyll. Fora por isso que Raith viera em seu auxílio. inclusive seu chefe. Mas ele também estava bravo por ter sido forçado a esperar por Lachlan. que escureciam quando ela estava brava. tinha a obrigação moral de proteger e defender seus parentes. desconfiaria deles devido ao roubo do selo. E. A esta altura ele e seu bando já deveriam estar muito longe para escapar de qualquer tipo de perseguição. havia uma expressão de fúria nos olhos que iam do homem robusto para ela. menos sangrento do que uma guerra e mais eficaz do que ambos. Um plano inteligente. Mais fácil do que roubar gado. alterar os livros de registro. Seu próprio clã não sofrera tanto como os outros. para compensar a constante traição dos Argyll. Raith olhou para a moça que estava vermelha de indignação. Não esperava encontrá-la na casa de Campbell e não tinha a menor idéia do que ela fazia ali. Raith modificara as anotações para indicarem rendas maiores do que as recebidas e agora os livros estavam tão confusos que nem o administrador conseguiria arrumálos. Raith poderia usar o selo de Argyll para emitir recibos atestando o pagamento dessas rendas mais altas. A execução do plano correra sem perturbações. Campbell.zombaria. A ausência de Colin Campbell dera a Raith a oportunidade de executar seu real propósito. sem dúvida. Raith tivera uma imensa satisfação em prejudicar o clã Campbell dessa nova maneira. Tudo indicava que ficara nervoso e partira em sua procura. vítimas de aluguéis exorbitantes. Mais ao sul. até agora a invasão do território dos Campbell saíra exatamente como o planejado. Os MacLean de Dura haviam perdido tudo. Lachlan. embora desconfiasse que ele era o único culpado pela situação. _ Com todos os diabos. Aliviaria a carga dos MacLean da ilha de Mull. . se fosse necessário. Seu rosto parecia escuro. como agora. Também não chegara ao ponto de encontro na hora combinada. Os MacLean de Ardgour eram um dos poucos que não tinham perdido suas terras depois dos levantes de 1715 e 1745. Os dois deviam ter se desencontrado na escuridão. mas não se encontrava em seu posto quando Raith terminara sua tarefa no gabinete de Campbell. e afetaria o duque no bolso. No entanto. contendo a raiva até ouvir uma explicação para o que saíra errado. Tinha olhos verdes e brilhantes. mas não teria como provar que eram falsificados.

não? Katrine sentiu suas palmas ficarem úmidas quando os olhos azuis se fixaram nela. Resgate! _ berrou.. de cabeça erguida. assustou-se com a ferocidade que viu brilhar nos olhos azul escuros. como se não tivesse entendido. Se o homem não queria nada com ela. Sua expressão combinou com o tom gelado que imprimiu à voz enquanto seus olhos examinavam Katrine com desdém: _Leve-a de volta._Lachlan _ ele repetiu com clara impaciência _ . O termo em gaélico denominava todos nascidos na Inglaterra. não é o dinheiro dele que queremos. rapazes. _Uma Campbell inglesa _ murmurou Raith. percebeu que todos os outros montanheses compartilhavam dessa antipatia. Houve uma pausa antes de Raith responder. Além disso. _Agora me diga por que eu deveria confiar na palavra de uma Campbell? O tom suave e sarcástico. Montem. _Não. Ela decidiu que já era mais do que hora de desencorajar a especulação. Não precisou pensar muito para compreender que a reação surgira diante de seu sobrenome. Já nos vingamos de Colin Campbell. parada ali. _Você enlouqueceu? O que posso querer com ela? _É a sobrinha de Colin Campbell. mas essa é a verdade. e por que não? _Porque meu tio mal me conhece e o duque nunca pôs os olhos em mim. você não entendeu! Pense bem. mas não adiantaria nada. A gritaria dessa mulher deve ter atraído os soldados. _Vocês não podem me prender para conseguir um resgate! _disse de supetão. Lançando um olhar à sua volta. O líder dos bandidos não parecia aprovar a idéia de prendê-la em troca de um resgate mas.. Cheguei ontem da Inglaterra. _Mas Raith. _Bem _ disse o ruivo um tanto decepcionado _ . Foi Raith quem deu palavras ao que o grupo pensava. alarmado. _ De fato. mas sou meio escocesa _ disse Katrine.Minha mãe pode ter sido inglesa e eu posso ter vivido na Inglaterra a maior parte de minha vida. Katrine ficou dividida entre o desejo de retrucar e a idéia mais sensata de manter a boca fechada. filo tentaria fazê-lo mudar de idéia. . tremendo de frio. Começara a soltar um suspiro de alívio quando seu robusto raptor interveio novamente. _ Isto é. Katrine devolveu o olhar procurando mostrar a mesma arrogância. Colin Campbell pagará uma boa soma para tê-la de volta. _Você não é obrigado a acreditar. Ele a desprezava por ser uma Campbell. Não pretendo ficar em companhia de uma parente de um Campbell sanguessuga. a irritou. _Ora. Ela é uma Campbell. a olhava como um predador observando o alvo de sua destruição. Lachlan. não ficaremos aqui para sermos pendurados numa forca. _ Uma maldita sassenach. Katrine. quem diria _ resmungou Lachlan. mas o de Argyll. por que não nos conta que invenção foi essa? O ruivo ficou olhando. O bom senso venceu. seu tom ácido transformando a frase numa . com o leve sotaque escocês. _Ora. é possível que o maldito duque. Raith examinou-a de alto a baixo antes de balançar a cabeça. A idéia é boa. tenho este nome por causa do lago Katrine. A família de minha mãe é inglesa e eles nos acolheram quando. Duvido que meu tio pague para me ver de volta. _ Ele virou-se abruptamente para os cavalos amarrados nas árvores. mas não necessária. eu trouxe a moça para você. Disse que se chama Katrine Campbell. por outro lado. esteja disposto a pagar. _Quem disse isso? _Ela mesma. _Oh. poder vocês podem. mas na boca de um montanhês era um palavrão. _ Sua revelação não pareceu fazer nenhum efeito nos montanheses. vestida de camisola enquanto seu destino era decidido. Raith estreitou os olhos fitando Katrine. fazendo seus companheiros pararem e Katrine segurar a respiração de novo.

_Posso sim. Você servirá como garantia contra a perseguição dos MacLean de Dura. esquecerei o incidente. O homem interrompeu sua tagarelice histérica. frustrada. Mas mesmo ele não gostaria de ver uma parente maltratada. _Então não pretende me libertar? _ Katrine engoliu para controlar o tremor em sua voz. pois o homem lançou-lhe uni sorriso enviesado. srta.. _Não estou pensando em resgate. _Pode ter certeza disso. coberto com o xale escocês. depois de você me socar e arranhar como um bicho.. que ninguém pagaria para tê-la de volta. _Da mesma forma que concordou em não gritar no gabinete de seu tio? Como as mentiras saem fácil da boca de um Campbell. _E por que eu faria isso? Para você mandar a milícia atrás de nós? _Não farei isso. _E como você pretende voltar? _Andando. Seus pensamentos devem ter se refletido em seu rosto. _Por favor. pois todos a olhavam como se fosse um objeto vil. Duvido que seu tio avarento esteja disposto a se separar de sua prata. Mas discutir com Lachlan não lhe traria nenhum proveito nem a tiraria da difícil situação. Lachlan. _Estou morrendo de medo. disse bem devagar. Você não precisa se preocupar com meu bem estar. esquecerei que o vi. Os ladrões de gado. Ele ainda a examinava com a mesma expressão dura.. mas houve uma ligeira modificação no seu olhar. Já sabia muito bem quem era o chefe. juro. e vestindo apenas uma camisola? _Eu não me importo. _Bem.Imprudente seria não me libertar. Katrine devolveu o olhar de seu raptor com indignação. O duque ficará furioso. Olhou inquisidoramente para o homem chamado Raith. Não há propósito em me prender para conseguir resgate. Eles o caçarão. agora que sabe quem somos nós. eu estou bastante desejosa de voltar para casa. vendo que suas ameaças não surtiam efeito. neste lugar isolado. queixando-se amargamente. pensou Katrine com um misto de temor e desagrado. Afinal. Olhou feio para Katrine. De fato. Além do mais.obscenidade. não tenho a menor vontade de aprofundar nosso conhecimento. não permitam que isso os detenha. _Quer dizer que espera que a deixemos aqui. . Essa ousadia era não só insolente. _Eu devia saber. porém. esperando que ele fosse cavalheiro o bastante para libertá-la. Tenho muita gente com quem me preocupar. Num desespero crescente. sangue é sangue. Gosto muito de andar. juro. os soldados do castelo. _Não tão ansiosos assim. Ele parecia acusá-la por não ser a presa valiosa que imaginara. Katrine pôde ver que ele falava pelos seus compatriotas. acho melhor ir me despedindo. parecia mais preocupado com o fracasso de seu plano. Nunca nos encontramos. como se estivesse falando com uma criança: _Você acaba de dizer que não quer o dinheiro de meu tio e eu já lhe expliquei que o duque não se interessará em pagar por mim. Alarmada com o que suspeitava. como também temerária. Vocês devem estar ansiosos para partir.. . _Não pode fazer isto comigo! _ protestou Katrine. Se me deixar ir. Raith cruzou os braços sobre o peito musculoso. Meu tio ficará furioso. assim... _Você deve entender como seria imprudente libertá-la. para se cuidar sozinha. O que você está planejando é uma loucura. _Imprudente! _ Nem por um instante ela acreditou que o atrevido estava preocupado com a possibilidade dela identificá-lo. Campbell. Katrine não teve resposta. MacLean. Katrine tentou dar um passo para trás e quase caiu por esquecer-se que estava com os pés amarrados.

Mas se ele se atrevesse a tratá-la como fizera antes. posso lhe garantir _ declarou Katrine. srta. certa satisfação diante do protesto do ruivo. O aborrecimento de Katrine diante dessa declaração foi quase tão grande como o de Lachlan. vai me resultar em grande satisfação. _Devo lembrar-lhe srta. dizendo com clareza que ele não via nada de encantador nela. sua pouca roupa não parecia atiçar o interesse do insolente moreno.. atiçando a ira de Katrine. vestida de camisola. _ Eu não cometeria a tolice de tentar escapar Não vai resultar em nada. Ele. .. captando seu olhar. imaginou que Katrine estava novamente pensando em fugir. a obrigava a entortar o pescoço para encará-lo. Pelo menos conseguira obter um saudável respeito pelas suas unhas. Ele se aproximou montado no cavalo. Incapaz de pensar em algo violento o suficiente. _Eu sugiro _ interrompeu-a Raith falando do outro lado do pequeno bosque enquanto montava _ . Havia um leve sorriso em seu rosto. que tal grosseirão ou monstro? Esses adjetivos se aplicam a todos vocês. _O sentimento é mútuo. procurando um jeito de fugir. porque disse: _Não pense em tentar escapar. mas o homem logo percebeu sua intenção. _Eu não vou com você! _Lamento enormemente ter de desapontá-la. Katrine olhou em volta procurando uma arma qualquer. De repente se deu conta de que estava à mercê de um bando de criminosos. montado como estava.. Antes de ela poder responder com azedume que seria impossível para urna pessoa fugir com os pés amarrados. sem olhar para. que seu bem-estar depende de sua boa vontade. E pior. um pedaço de pau. trás. um animal tão preto como seus cabelos. Os olhos azuis a examinavam com ceticismo. No entanto. O bruto era muito mais alto do que ela e. _Espero que os soldados o apanhem! _Você irá com Lachlan _ respondeu ele. já vou avisando. mas a ferocidade na expressão de Lachlan a fez dirigir seu azedume para Raith. Katrine sentiu uma. _Eu não quero essa mulher! Prefiro cavalgar com um gato selvagem. estava exposta aos olhares lascivos dos doze homens comandados pelo demônio de cabelos negros. _Sei que você também não quer carregar essa diabinha. Ele não gosta de ouvir desaforos. Será bem pouco digno termos de caçála. Katrine olhou feio para as costas de Lachlan. Oh. ele virou-se e dirigiu-se para seu cavalo. Eles podiam raptá-la ou matá-la e espalhar seus pedacinhos por todas as Terras Altas. Campbell. como gostaria de lhe dar um bofetão. _Meu pobre bichinho _ resmungou para consolar o animal.A zombaria voltara aos olhos azuis. _ Não me agrada nem um pouco ser atirada sobre um cavalo como um saco de batatas por um pateta que não tem a menor. com igual desdém. _E eu encontrarei a mesma satisfação em impedi-la. Se não estivesse com os tornozelos amarrados. _Pelo contrário. O frio letal que surgiu em seu tom e olhar lembraram a Katrine o quanto o homem era perigoso e a fragilidade de sua situação. mas a senhorita não tem escolha. Ela lançou um olhar aflito a sua volta. para acabar com o sorrisinho sardônico. Ele também se virara para pegar o cavalo e agora estava afagando a crina de um alazão. que você encontre outros modos de descrever Lachlan. O tom sardônico teve como claro objetivo enfurecê-la. Ela estremeceu e apertou os braços contra o peito. _Se ele não gosta de ser chamado de pateta. sapatearia de ódio. A resposta: “Que brilhante?” estava na ponta da língua de Katrine. Campbell. uma pedra..

podia esquecer a idéia de passar algum tempo nas Terras Altas. enquanto lançava um olhar para o xale. _Você não precisa se desmanchar em mostras de gratidão. _ Eu não tentarei lutar corri você se mantiver as garras escondidas _ disse o ruivo. Uma onda de desespero tomou conta de Katrine. sentiu uma pontada de remorso por criar um problema para Colin Campbell. mas você será inútil para nós se morrer de frio! Consideração encantadora. Na manhã seguinte. E os ferozes montanheses que a cercavam estavam muito longe do escocês altivo. Apesar de não ter tido a menor culpa no seqüestro. mas conheço a lei. Endireitando os ombros. enrijeceu o corpo para não encostar nem um centímetro dele em seu captor. Se não conseguisse soltar antes do alvorecer antes de notarem sua ausência. inglesa ainda por cima. Mas então as tochas foram apagadas e a escuridão a fez se esquecer do montanhês atrevido e se concentrar no pateta que a precipitara nessa triste situação. que criara cm sua imaginação. preparada para se defender de qualquer violência. Raith hesitou por um segundo e depois tirou o longo xale xadrez do ombro. A cavalgada foi melhor do que a anterior porque agora ela estava sentada. _Tome.Vendo-a estremecer e captando o medo em seus olhos. _ Deixe Lachlan ajudá-la a montar. E então. pegou o a peça de roupa e. Quando se acomodou. ela fechou os olhos para não ver o seu fim. acrescentou: _ Apaguem as tochas. Assim. Katrine não se dignou a responder o sarcasmo. Ouvindo Lachlan se aproximar. Ela levantou o olhar para Raith e viu-o assistindo sua luta íntima com cínica zombaria. _Posso ter estado distante da Inglaterra por um bom tempo. Apesar de se agarrar à crista do animal. você quer ou não o xale? Katrine não queria aceitar nada senão sua liberdade mas. meio sem jeito por causa das mãos amarradas. No entanto. estaria somente se prejudicando. creio que ele a deixará sentar na sela. Como não podia abrir as pernas. Seqüestro não era o que tinha em mente quando sonhara com romance e aventura. rapazes. _ Depois. Fies não tinham a menor pena dela. Temos um longo caminho pela frente antes de amanhecer. Fumegando em silêncio. pensou Katrine. e teria caído se um braço poderoso não a segurasse pela cintura. o medo era praticamente o mesmo. lançou-lhe um olhar de tão completo desdém que o insolente deveria ter tombado morto. bem consciente que o homem preferiria vê-la congelada. No entanto. estendeu-o para Katrine. com toda a certeza. se deixasse de aceitar o xale. ela foi atirada contra o peito largo do escocês. que estava montando. fique com isto. Ele era decididamente odioso. porém carinhoso. Katrine também não queria lutar porque sabia que levaria a pior. O uso do xadrez dos clãs está proibido nas Terras Altas. De má vontade. e vamos partir. pensou Katrine de mau humor. ela ficou tensa e fechou os punhos. Agora desciam uma ravina íngreme e envolta em neblina sob a luz fraca do luar e Katrine teve certeza de que o cavalo iria tropeçar a qualquer momento e atirála para longe. aceitou o tipo de trégua que ele ofereceu. Mas ele simplesmente riu. Se você conseguir segurar a língua e se comportar de maneira civilizada. estaria cheia de hematomas em várias partes do corpo. enquanto olhava para as costas de Raith. Oferecer conforto para uma Campbell. foi difícil evitar o contato quando Lachlan esporeou o cavalo para partir a galope atrás de seus companheiros. Tio Colin a mandaria embora. Manhã. enganchando o joelho na maçaneta da sela. apesar de ser quase verão. Começava a se arrepender por ter vindo à Escócia. deixando-se ser colocada no cavalo. _Não reconheço o direito do governo inglês de decretar o que devo vestir e que armas tenho de usar. é algo que vai contra meus princípios. A noite eslava mesmo fria. virando-se para os homens. sentou-se de lado. erguendo o queixo. Agarrando-se desesperadamente à crina do animal. mas já que você conhece a lei. conseguiu colocá-lo sobre os ombros. corno não tinha escolha. deve saber que o xadrez não é proibido para mulheres. A .

Katrine cortou-a com a unha e deixou-a cair no chão. só conseguia entender uma ou outra palavra. além de calor. Não se atreveu a olhar para trás para ver se seu estratagema tinha dado certo. que há séculos provia a proteção e o sustento do clã Campbell. Mas Katrine não tinha a menor intenção de abrir a boca ou chamar atenção. Por mais atenção que tentasse prestar às sílabas dissonantes da língua das Terras Altas. desanimada. ainda agarrada á crina do cavalo. olhara a sua volta tomada de encantamento. Katrine tentou distinguir o terreno. Uma trilha. Na extremidade oposta do lago ficava o castelo Kilchurn. Decidida a captar informações sobre sua localização. mas os montanheses falavam gaélico. Ao norte avistou o Ben Cruachan. se não recebessem notícias dela em dois dias. começou a repetir o . ele lhe proporcionava um escudo para esconder suas ações. descobrir mais sobre o lugar onde estava e para onde os montanheses se dirigiam. Como não houve nenhum grito de alerta por parte de Lachlan. Soltando vagarosamente a respiração que estava prendendo. À luz fraca da lua só conseguiu divisar as costas largas dos MacLean e os cabelos negros de seu chefe. pensou enquanto arrancava a renda ponto por ponto. pensou Katrine. Puxando o tecido da camisola centímetro por centímetro. ela precisava deixar uma trilha para os homens de seu clã. Nunca imaginara que sua teimosia se revelaria tão útil. Só via morros altos e não conseguiria dizer qual deles era o Ben Cruachan. Sim. Katrine obrigou-se a sair da depressão. Katrine abriu os olhos e tentou ver alguma coisa a sua frente.última coisa que pretendia era dar trabalho e agora ele teria de sair em seu socorro. Agarrando-se ao banco da charrete. Quando estava com uma tira de uns dez centímetros. que ela mesma costurara desafiando os princípios presbiterianos de sua tia Gardner. Seria útil. Como tudo pudera mudar tão drasticamente em tão pouco tempo? Fora mesmo na véspera que chegara à Escócia? Fora na véspera que estivera aguardando ansiosamente a primeira visão das colinas das Terras Altas. a uns trinta quilômetros mais para o interior. Teria de escapar de seu captor sozinha ou então precisaria encontrar algum modo de avisar os soldados que certamente viriam no encalço do bando sobre seu paradeiro. encontrou a barra e as duas fileiras de renda que a adornavam. Deixara os criados na cidade. largou a crina do cavalo e enfiou as mãos amarradas sob o xale xadrez. ficava o lago Awe. Respirando com cuidado. mentalmente se punindo por estar se deixando desanimar. Agora estava grata pelo xale pois. o que sugeria a presença de uma floresta que os encobrira bem rapidamente. uma das mais altas montanhas da Escócia. Vagarosamente. a distância. uma enorme construção de pedra com uma torre retangular que fora construída por um Campbell e servira como quartel general das tropas governistas durante o levante jacobino de 1745. percebeu. Na manhã seguinte. Se pudesse encontrá-la. Fora impossível para ela se orientar na escuridão estando de cabeça para baixo na sela. coberta do verde vivido da primavera. _Não comece com gritaria senão eu a porei de bruços outra vez _resmungou Lachlan. com um cuidado infinito. perto de um grupo de pequenos sítios. Ele estava inclinado para o homem ao seu lado conversando baixinho. contratara um charreteiro para levá-la à casa do tio. ela decidiu que o ruivo não desconfiara de nada. Katrine aguçou os ouvidos para captar os sussurros que ocasionalmente chegavam até ela. O pior era que os pinheiros a sua esquerda estavam começando a aumentar. Navegara pelo estuário de Lorne e ao desembarcar hospedara-se numa estalagem no pitoresco porto de Oban. Katrine mudou de posição na sela. A pouca distância do castelo. ficava a casa de dois andares que ela recordava de sua infância. O quanto estaria longe da casa de seu tio agora?. depois de tantos anos? Ela sacudiu a cabeça lembrando-se de seu entusiasmo. A grandiosidade das Terras Altas era tudo o que ela lembrava. Lançando olhares disfarçados para os dois lados. Ao leste. Katrine deixou cair os ombros. com instruções para mandarem sua bagagem para a residência de Colin Campbell e voltarem para a Inglaterra.

mas sim a audácia dele em desnudar suas pernas quase até a coxa. estudou o enfeite de renda. uma meia hora. O mesmo pensamento deve ter ocorrido a Raith MacLean porque ele subitamente deu meia-volta e veio se aproximando dela. _ Ela odiou o modo como sua voz tremeu. _Há quanto tempo? _Alguns minutos! _ gritou ela. _Um prisioneiro tem o direito de tentar escapar. Mesmo sob a luz fraca do luar Katrine pôde ver que a raiva substituíra a expressão de zombeteiro desdém que ele usara antes..procedimento. três. Quando ele freou o cavalo abruptamente. _O que está fazendo? Ele não respondeu. _ Você não percebeu o que ela estava fazendo? _Eu não pensei. _Largando o braço de Katrine. virou-se novamente para Katrine. Katrine sentiu um aperto no coração. quero que volte atrás no caminho e encontre até a última tirinha de pano. não conseguiu responder. acrescentou: _ Talvez mais do que isso. trate de silenciá-la. _Ela deixou uma trilha de renda branca para os soldados de seu tio seguirem _ anunciou Raith enquanto se aproximava dela. O tom deu nos nervos de Katrine. imaginando se não valeria a pena dar um bom grito para atrair os habitantes. ele a chocou afastando o xale que a cobria. prendendo a respiração. Ele não demorou muito a chegar.. tão envergonhado que Katrine quase sentiu pena dele. _ Lachlan abaixou a cabeça. Katrine imobilizou-se. Katrine teve a sensação de que ele pretendia usar algo mais eficiente do que uma mordaça. _Se a senhorita está tão ansiosa para se desfazer de partes da camisola. Examinava a frente da camisola à procura de indícios incriminadores.. no entanto ela não teve chance de responder. Campbell? Katrine. mas não Conseguiu evitar.. O primeiro à ser repreendido foi Lachlan. Não foi a falta de confiança que a fez corar. Os olhos escuros fulminaram Katrine. _ Depois. _Você não se atreveria! . Katrine enrijeceu-se enquanto ele avançava. _ Ewen. Levantando a barra. _ Se ela der um gemido. Conseguira deixar cair o terceiro pedaço de renda quando o grupo se aproximou de um dos muitos casebres que se espalhavam pelos vales da Escócia. Não emitiu nenhum som enquanto passavam pelo casebre nem quando todos se juntaram perto de algumas arvores esperando a volta do líder. com a boca subitamente seca. srta. Sabendo o que iria encontrar. Ele obviamente queria passar sem ser notado e sem dúvida estava preparado para amordaçá-la ou coisa pior se ela se atrevesse a abrir a boca.. _Continue em frente e espere por mim _ ele ordenou a Lachlan em voz baixa. _Há quanto tempo a senhorita está espalhando suas pequenas pistas. Aparentemente. mas o tom fez Katrine estremecer. Sua simples presença a desencorajou de gritar. não se atreveu nem mesmo a respirar... mas Katrine a olhou com esperança. nada mais. Encolheu-se assustada quando ele estendeu a mão para pegar-lhe o braço sem nenhuma delicadeza. comparando a parte que faltava ao pedacinho que tinha na mão. vendo os olhos escuros se estreitando. _Pelo seu próprio bem espero que esteja dizendo a verdade. pois logo Raith chamou um dos homens. Quando Raith deixou cair a barra da camisola com um gesto de desdém. Katrine ergueu o queixo numa atitude de desafio. serei obrigado a removê-la de vez. _ E quantos pedacinhos de pano deixou cair? _T. não confiara na palavra dela. A tirinha de renda era perfeitamente visível luz do luar. ela virou a cabeça. mas. _ A senhorita tem o direito de ficar imóvel e manter a língua entre os dentes. Notou que o olhar do homem estava fixo na escuridão atrás dela. Ela pensou em negar sua culpa.. A moradia humilde estava escura e silenciosa. Depois. quando viu a expressão no rosto do homem.

Raith foi cavalgando atrás de sua prisioneira. a pele que cobria os ossos fortes de seu rosto possuía um brilho quase luminescente. porém. Os cabelos ruivos deviam ter lhe dado uma pista. pensou Katrine. por mais bonita que pudesse parecer. Prendeu a respiração enquanto um arrepio de estranho temor percorria sua espinha.. sua reação a ela fora apenas um impulso carnal. Naturalmente não deixaria de tentar escapar. Não podia existir combinação mais traiçoeira. de descobrir os doces segredos que seu corpo esguio prometia. Por mais de uma vez ela surpreendeu-se cabeceando e nessas ocasiões se repreendia por esse lapso em sua força de vontade. E pensar que no gabinete de Colin Campbell ele se sentira atraído por ela. Os cachos flamejantes diziam que não se tratava de uma moça calma e recatada como a mulher com que ele se casara. perturbada pelo calor dos dedos longos e firmes em sua cintura. Intensa virilidade. Força vital. Ela agarrou-se a ele numa tentativa desesperada de se equilibrar. Sen4ado a falta de movimento. pensou. viu Raith MacLean em pé ao lado do alazão. pegou no sono. quase ao mesmo tempo. Membros musculosos. reconhecendo sua derrota temporária. Não. Katrine acordou e deu-se conta de que estava encostada no peito largo de Lachlan. Desta vez. Unia Campbell com sangue inglês. não se apresentaram no transcorrer da longa noite. Raith MacLean era um ladrão e um patife malvado.. Mas. Ela não tinha saída. Devia ter imaginado que ela possuía a mesma argúcia do resto do seu clã. Katrine Campbell também não tinha grande beleza. por enquanto. olhando exasperado para a tirinha de renda que tinha na mão. E as respostas espirituosas que tinham despertado seu interesse não eram mais do que um indicio de um gênio terrível. Mas. a manteria em seu poder. Suspirou desanimada. No entanto. Katrine fechou a boca enquanto o grupo voltava a avançar. eu a esganarei! Fumegando. Ele definitivamente subestimara a engenhosidade da moça. Também ficaria com ela até Argyll reconsiderar o aumento abusivo dos aluguéis e impostos. A ameaça de Lachlan foi mais violenta: _Se ela tentar algo desse tipo de novo. esqueceu-se de todo o desconforto ao descobrir que suas pernas adormecidas não iam suportá-la. sem nos criar atrasos. Katrine começou a cansar-se de manter os olhos abertos à procura de acidentes geográficos que poderiam ajudá-la a descobrir sua posição. Com um gemido. enquanto erguia as mãos para ajudá-la a desmontar. tombou para a frente no instante em que Raith virava-se para se afastar. Por um perigoso momento sentira o impulso de tomá-la nos braços. Raith repreendeu-se em silêncio. um pouco antes da lua desaparecer. Katrine teve a clara impressão de que ele . Katrine ficou tensa. Katrine Campbell era urna virago e um estorvo. Raith fez uma careta de desdém. Sua falecida esposa teria ficado chocada ao se ver comparada com uma megera de cabelos de fogo. Mas. com pouca roupa._Então queira ter a gentileza de agir como uma refém exemplar por algumas horas. Mas por enquanto conservaria sua energia e limitados recursos para ocasiões mais propícias. de modo a ficar de olho nela. Endireitando-se de repente. Pondo um fim a essa linha de pensamento. Essas ocasiões. de cobrir possessivamente os lábios entreabertos de medo. Mas. como uma radiação. Estava escuro como breu quando o alazão finalmente parou. contudo. Queria ter certeza que os homens de seu clã não iriam retaliar contra os MacLean de Dura pelas ações dessa noite. que qualquer homem sentiria ao tocar uma mulher bem feita. _ Esperaremos aqui por Ewen _ informou ele. a descoberta de sua verdadeira identidade destruíra essa atração. por mais que afetasse as partes de sua anatomia que ele não podia controlar. O corpo esguio de Raith MacLean se enrijecera com o impacto e apesar de ter erguido as mãos no mesmo instante para ampará-la. Seu coração começou a bater com tal força que teve certeza de que ele era capaz de sentir. com um olhar impaciente. masculino. quando ele a colocou no chão. pois ameaçara deixá-la sem a camisola.

pronta a ser entregue a um marido e ao mundo. _E como você espera que vou chegar até lá? Eu não posso andar com os pés amarrados. Tanto tia Gardner como seu marido eram presbiterianos convictos e viam com desconfiança qualquer coisa que se assemelhasse a alegria ou diversão. Nunca deveria ter glorificado as besteiras românticas que seu pai enfiara em sua cabeça. tentou ver alguma coisa na escuridão. Continuava sentindo o contato com coxas esguias e seios fartos e macios. a alguns passos de distância. Ao ver Roseline usando o rico vestido de noiva. A temperatura caíra drasticamente. Devia estar se juntado aos outros homens que haviam se reunido a uma certa distância. Tia Gardner tinha razão. com suas magníficas paisagens e povo indomável? Deixara a Escócia aos oito anos e com essa idade não tinha como esquecer as histórias que ouvira sentada no colo do pai. sentiu o desespero voltar com toda força e deixou os ombros caírem. _Você pode sentar naquela pedra. cheio de lembranças e de dor da separação ver a irmã que criara como se fosse uma filha se transformar numa jovem mulher. desanimada.gostaria de estar em qualquer lugar. Depois da morte da mãe. Era uma boa oportunidade para ela se livrar de um outro desconforto. Tremendo. Katrine fizera o possível para poupar suas irmãs dessa criação rígida. Todos os ossos de seu corpo doíam. Como podia ver alguma coisa quando a noite estava escura como breu? Mas. Dois meses antes Katrine estivera organizando a festa de casamento de sua irmã mais nova. de modo que prudentemente decidiu não voltar a cometer o erro de tocá-la tão intimamente. sobre ferozes lealdades e ódios. Não podia vê-los. impenetrável na escuridão. indo morar com uma irmã. como era conhecida a rebelião de 1745. embora tivesse vestido a casaca preta que o fazia se misturar tão perfeitamente com a noite. Katrine sentiu seus olhos se marejarem. por ocasião do casamento da outra irmã. que agora. Tomara para si a responsabilidade de cuidar das meninas. Raith pensou em pegá-la no colo. Roseline. menos ali. sobre os clãs e suas disputas. teria se deitado e pegado no sono imediatamente. Fora um momento emocionante. Tinham sido anos muito sóbrios. Descendo da pedra e indo vagarosamente até o outro lado dela. olhando melhor para o negrume atrás de Raith MacLean. Sim. e supervisionando o ajuste 4o vestido de noiva que fora de sua mãe. quando suas lembranças mais antigas estavam relacionadas com as Terras Altas. Raith MacLean também devia estar sentindo frio. Com um gesto ágil. levantou a camisola meio sem jeito e conseguiu atender sua necessidade. Anne Campbell voltara para a Inglaterra com suas três filhas. depois de três anos já estava esperando o segundo filho. Ele esperou até ela recuperar o equilíbrio e depois deixou cair as mãos. Procurando por ele. Quando voltou para a pedra. Katrine olhou para o rosto de Raith. pensou. conseguiu divisar os contornos de uma rocha plana. lógica e também com sua língua afiada. anos sóbrios mas também felizes que haviam passado depressa. Arrastando as pernas. mas ainda estava perturbado devido ao momento anterior. fria. A melancolia de Katrine durante aquele momento com Roseline a fez confessar sua . ódio pelos ingleses. mas escutava seus murmúrios enquanto conversavam. Louise. Katrine lutou com as mãos amarradas para puxar o xale para mais perto do corpo. Mas. histórias sobre os homens rudes e corajosos que habitavam a região. Mas. _Que pedra? _ Katrine ainda estava rouca de sono e seu tom foi bastante ríspido. Com o coração ainda batendo acelerado. _ A voz dele foi severa. Katrine dirigiu-se para a pedra e sentou-se. como se fosse uma velha. em especial. Já experimentara essas sensações antes. Seu pai lutara com o clã Campbell ao lado dos ingleses durante a Quarenta e Cinco. involuntariamente abraçado a um corpo semidespido. retirou o punhal da bota e inclinou-se para cortar as tiras. Se estivesse menos frio. e. quando preciso. em nada combinando com o calor que seu corpo momentaneamente oferecera. com sua morte na batalha de Culloden Moor. aumentando seu desconforto. suavizando os rígidos princípios de sua tia e intervindo com persuasão. como poderia ter evitado.

mas que saiba ser gentil. Os ferozes montanheses continuavam a uma distância segura. o que a fizera se sentir solitária e um tanto estranha. Apesar do frio. desconhecida para os animais. eles se espantariam. famosa apenas pela sua excelente produção de repolhos e nabos. contudo... onde tomara o navio para a Escócia. Decidira então que chegara a hora de procurar seu próprio futuro. mas mal conseguiu engolir de tão nervosa. Então. Quando Raith voltou para perto de seus homens... o desejo ardente de conhecer a vida fora da cidade de Ramsey. ou pelo menos atrasá-los. Katrine sentiu as palmas úmidas de suor enquanto tentava calcular quanto tempo Raith levaria para alcançá-la e se conseguiria sobreviver a sua fúria. Raith apareceu ao seu Lado justamente naquele instante. começasse subitamente a saltar. Como estivera entusiasmada com sua chegada no dia anterior! Agora. Ela ficou surpresa e grata com essa atenção. não sem pelo menos uma única vez tentar satisfazer sua vontade de viver um romance e uma grande aventura.. sacudindo os braços e gritando a plenos pulmões. Contou à irmã sobre o desejo que vinha crescendo dentro dela há muitos anos. . ela abriu a boca para emitir um rito de gelar o sangue. dando-se conta de como fora inadequada essa conversa para os ouvidos jovens de sua irmã. Não fora fácil convencer os tios que estava mesmo decidida a voltar para a Escócia.determinação de um dia voltar ao seu local de nascimento. Sempre achara que havia algo em falta nos cavalheiros ingleses que conhecia. Katrine começou a comer vagarosamente o biscoito. Se não tentasse agora. ousado e corajoso. Não se dando tempo para mudar de idéia. Para sua surpresa. jamais se perdoaria.. Os cavalos estavam soltos para pastarem. _Quando eu me casar _ dissera a Roseline _ . sendo apenas uma planície extensa que jamais poderia se comparar com o selvagem esplendor das Terras Altas escocesas.. mas como era maior de idade e tinha seus próprios meios. e entregoulhe um frasco de água e uma bolacha de aveia. Então Roseline se casara. será com um líder. acabara vencendo a disputa. Apenas por causa deste sonho havia permanecido solteira. Assim. depois de respirar fundo. mas decidiu não agradecer. Um seqüestro não poderia continuar sem cavalos. A paisagem da região era tristonha e pouco inspiradora. Estava cansada demais para pensar em fugir e só conseguiu forças para amaldiçoar baixinho os bandidos que a haviam raptado e agora pareciam decididos a matá-la de exaustão e fome. viajando numa confortável carruagem e acompanhada por uma criada e um guarda armado. não conseguia mostrar o menor interesse no terreno que a cercava. No entanto. um homem lutador. Não se contentaria em permanecer ali. tio Gardner insistira em tornar sua viagem o mais segura possível. ouvindo o tilintar de arreios enquanto os cavalos pastavam a pouca vegetação que conseguiam encontrar no terreno pedregoso. Embora ainda protestasse. ignorando sua presença. Katrine terminou o último pedaço de bolacha de aveia.. talvez nunca tivesse uma melhor oportunidade do que essa para tentar escapar. como papai. Eles eram dóceis demais e pareciam sem graça para seu coração passional. Cavalos? Katrine endireitou-se de um salto. pegou unia ponta do xale meio desajeitada e levantou-se cautelosamente. Sua pulsação se acelerou desordenada quando ia percebeu que tinha o meio perfeito de estragar os planos dos MacLean. _ Ela se interrompera corando. um homem com fogo no coração que incendiará meu sangue. ela atravessara a Inglaterra até Liverpool. Se uma mulher de branco.

. Alarmada com suas reações e as dele.. Katrine já se virara para fugir. Os montanheses gritaram. Apesar de ele ter esticado um braço para amortecer a queda e suportar o impacto no quadril direito. mas não conseguiu fôlego para um outro grito. Ele resmungou algo em gaélico que ela deu graças por não entender e depois rolou para o lado. excitado. que saíram a galope pela escuridão. no peito poderoso apertado contra suas costas.. As micagens de Katrine assustaram os cavalos. mas só soltou um gritinho abafado quando sua face foi dolorosamente arranhada pela barba de Raith. um ligeiro enrijecimento. e desembainharam punhais e espadas para se defenderem de um ataque inimigo. Certo de que Katrine era a causa do caos e não a vítima.. um leve palpitar. consciente de que Raith tirara a mão de sua boca. logo abaixo dos seios.CAPÍTULO III O pandemônio foi instantâneo. um calor sutil fluindo entre eles. Ela lutou. sua maldita sassenach? _ Já lhe disse que sou só meio inglesa! _E a outra metade é uma porcaria de Campbell! Katrine levantou a cabeça para protestar. porque preferida viver _ e conseguiu chutar a canela de Raith. Ela quase parou de respirar. Sentiu um braço firme se fechar em torno de sua cintura e erguê-la dolorosamente do chão enquanto a mão tampava sua boca para por fim ao berreiro. o tombo tirou a respiração do corpo de Katrine. Todos menos Raith. Raith levantou-se de um salto e puxou-a pelo braço. respirando com dificuldade. Ele praguejou de novo antes de suas pernas se entrelaçarem com as dela. será que não vai parar de se debater. _ Será que você está cortejando a morte? Katrine sentiu a fúria de Raith em cada parte de seu corpo que estava em contato com ela. obrigando-a a se erguer.. determinada a prosseguir até a morte _ ou quase. Katrine moveu os quadris tentando aliviar a pressão. Sentiu a reação viril à proximidade. Não havia outra palavra para descrever o choque de estar apertada contra os contornos masculinos de seu captor. _Por todos os santos _ ele sibilou _ . no braço que esmagava suas costelas. sobressaltados. nas coxas musculosas que aninhavam seu traseiro. fazendo os dois caírem estatelados. mas só conseguiu se insinuar mais sugestivamente no ninho formado pelas coxas de Raith. ofegando. ele soltou um palavrão e correu para ela. . Ela ficou ali no chão.. mas não foi rápida o bastante. deixando-a sofrer a indignidade de cair de bruços sobre as agulhas de pinheiro. Seu próprio corpo estava quente e. consciente da intimidade da posição. _ Pelo amor de Deus! _ resmungou Raith.

Cheia de desdém. Pelo menos os montanheses tiveram uma grande dificuldade em recuperar suas montarias na escuridão. A neblina escondia a altura dos morros próximos. Quase em pânico. _ Só temos uma única montaria. _Fique quieta! Para choque e enorme embaraço de Katrine. surpresa. ficou observando ele amarrar as tiras. _Mas. Katrine olhou para Raith. _Escute aqui _ disse Raith com um gesto impaciente. seja feita a sua vontade! Katrine encarou-o. ele acrescentou: _ Quer reconsiderar? _Certamente que não! Em resposta. pensou Katrine com a satisfação da vingança. a não ser que prefira andar.. mal contendo o desejo de esganá-la. Raith começou a cortar tiras de flanela da barra da camisola. _Concordo inteiramente. _Não quero cavalgar com você. Ela ficou ainda mais assustada quando ouviu-o dizer aos homens que prosseguissem sem ele. srta. _ Ela engoliu em seco. Raith fez da cortesia um insulto o que deixou Katrine mais irada. Com as faces em fogo. formando uma corda improvisada. Você não tem opção senão ir comigo. _Então vou mudar minhas palavras._Eu não devia ter confiado em você. Ele estava sentado ao seu lado na pedra. vendo a expressão cruel nos olhos azuis.. com um joelho erguido e a mão no cabo do punhal. Campbell. Katrine prendeu a respiração e recuou.. arrastou-a até a pedra e a fez sentar. Certamente teriam de descer ravinas e subir encostas e não parecia haver uma trilha. o que a deixou com a metade inferior das pernas expostas. vai ficar aqui quietinha e fechar o bico! Seus dedos ossudos continuaram enfiados no ombro de Katrine enquanto ele ordenava aos homens que fossem procurar os cavalos e os esperava voltar. _Quer dizer que vai me fazer andar? _Parece-me que você disse que gosta muito de caminhar. _Você. O horizonte a leste estava começando a clarear com a aproximação do alvorecer. deixando-a sem um guarda por perto _ disse. Agora não haveria ninguém para servir de testemunha e ele poderia silenciá-la de uma vez por todas usando seu punhal.. provando que falai-a a verdade. seu cavalo a espera. quando o último homem voltou. Ainda agarrando seu braço. Ewen já viera se reunir aos companheiros depois de passar um bom tempo caçando pedacinhos de renda. _É mesmo? E por que não? _Porque você precisa de mim.. _ Seria tolice matar uma prisioneira antes de fazer uso dela. Raith ajoelhou-se ao lado dela e tirou o punhal da bainha. _ Se tem alguma vontade de atingir a meia idade. pois agora tinha de enfrentar a expressão colérica de Raith e pensar no que aconteceria em seu futuro imediato. cerca de uma hora depois. neste terreno? _ Sua voz foi quase um gritinho enquanto ela olhava a sua volta. _ Depois de uma pausa.. _Prefiro mesmo! _Então. madame. _Seus desejos não significam nada. _ Agora venha. Seu coração deu um salto quando notou os dedos se apertando. _ Ele levantou-se e estendeu a mão. _ Posso quebrar uma perna _Estou disposto a aceitar o risco. mas posso pensar em outras formas de castigo para seus truques. Recuso-me a cavalgar com você. mas o chão era pedregoso e tinha uma vegetação áspera. Fora pouco conforto para ela o montanhês ter voltado com apenas mais duas tirinhas. olhou para ele e depois para o único cavalo restante. Ela hesitou quando recebeu a ordem de estender as mãos amarradas _O que pretende fazer? . desejando que sua voz não estivesse saindo tão esganiçada. você não se atreveria a usar o punhal em mim _ disse trêmula.

ela seguiu-o. ele desmontou. Mostraria ao bando todo que um Campbell seria capaz de suportar qualquer tortura que um MacLean inventasse. _ Presumo que você quer ser amordaçada de novo. embora da má vontade. mas ao olhar para seu rosto fechado. continuou em frente. Deixou-se cair de novo com um gemido de dor. desejando que um raio caísse na cabeça do malvado. quando a estava conduzindo para perto do cavalo. Temos muito caminho pela frente. E quando ele pôs o cavalo em andamento. Campbell. Seus olhos verdes prometiam vingança cada vez que Raith olhava para trás. determinada a recusar sua ajuda. Os dedos que se fecharam em torno de seus braços foram surpreendentemente delicados. _ Quando a rispidez de seu tom fez Raith erguer os olhos para ela. tentando recuperar o fôlego e piscando para afastar lágrimas indesejadas. mal tendo tempo para estender as mãos amarradas para amortecer a queda. _ Você estava tão ansioso em pôr um fim à minha existência que não tive coragem de atrapalhá-lo. Por anos se debruçara sobre livros tentando descobrir o máximo de informações sobre as Terras Altas. _Agora levante-se. resolveu não correr o risco. No entanto. A ameaça fez Katrine se calar. O terreno ia ficando cada vez mais inóspito à medida que subiam. Estava decidida a suportar a dor sem um pio embora estivesse guardando um arsenal de nomes para chamar seu maldito captor quando se dignasse a falar com ele. Como suas preces não foram atendidas. Katrine não encontrou o que dizer. grosseirão. _Por que não me avisou? Então a culpa era dela?. no solo úmido. chamou-o de ladrão. Raith ajudou-a a sentar e nesse momento viu a bolha estourada em seu calcanhar. _E como eu conseguiria? _Imagino que. Com o rosto queimando de humilhação. pensou Katrine. Urna das bolhas em seus calcanhares estourara e havia raspado o joelho na queda. Katrine estava em dúvida se ele faria mesmo isso. com algum tempo. Estavam indo para o norte. Raith amarrou a corda improvisada em torno dos pulsos de Katrine e depois passou-a pela tira de lã que já a prendia. olhando-a com ceticismo. mas a caminhada poderia ser pior. Depois. em clara dúvida se devia descer para ajudá-la ou não. com plantas que arranhavam suas pernas. acrescentou: -_ . você encontraria um jeito. srta._Evitar que você fuja. quando tinham atingido um terreno plano. E Raith ia devagar. Tornou-se um ponto de honra para ela não esmorecer. ela tropeçou numa raiz e caiu de barriga. Os chinelos úmidos por causa do orvalho começaram a fazer bolhas em seus pés. Katrine tentou levantar-se sozinha. queixou-se amargamente contra o tratamento enquanto ele a posicionava atrás do cavalo e montava. chegando a uma decisão. Rangendo os dentes contra a dor em suas pernas e as bolhas nos calcanhares. Mas ela logo teve de desistir de formar um mapa em sua cabeça para concentrar-se em manter o equilíbrio. Talvez fosse por isso que achou terrivelmente humilhante quando. _ Eu não vou fazer isso! Não vou andar atrás de você como se fosse uma vaca sendo levada para o mercado! _ Então serei obrigado a arrastá-la. Dando um nó bem forte. O céu clareara e Katrine podia ver onde pisava. acrescentou mais um item a sua lista de coisas das quais pretendia vingar. Foi uma subida. obediente. Ocupada com seus infortúnios. depois de quase uma hora de caminhada. puxando-a pela corda. Katrine parou. monstro e de todas as outras palavras que lhe acorreram à mente. tentando se lembrar o que teria à frente. Ele pegou-a pelo braço para ajudá-la a levantar mas. pensou Katrine. e pés de urze que lhe chegavam à altura do ombro. Ficou ali. levantou-se com a outra extremidade da corda na mão. mas calculou mal a extensão de seu ferimento e colocou peso demais no joelho machucado. E o malvado montanhês que era a causa de seus ferimentos continuava sentado na sela. parando o cavalo preto sempre que ela precisava se desviar de algum obstáculo para evitar torcer o tornozelo. desafiadora.

re velando o selo que roubara do gabinete de seu tio. _Por quê? Raith lançou-lhe um olhar zombeteiro. tentando analisar seus sentimentos... Katrine tornara-se subitamente consciente da força latente que existia nele e de sua própria vulnerabilidade. não se preocupe demais _ disse por entre os dentes cerrados enquanto ele tirava os chinelos de seus pés. retesando a tira que a amarrava. notando os cílios espessos e as faces bronzeadas. mas a preocupação suavizara os traços. quando era tocada por ele. e só deixou escapar um pequeno soluço quando colocou os pés em seu colo e começou a refrescá-los com o lenço umedecido. achando absurdo ter julgado a fisionomia dele pouco atraente ou assustadora. _Não. _ Agora queira ficar quieta por alguns instantes. começou a estudá-lo. _Eu desviarei o olhar _ respondeu Raith. _ O que é gomerel? _ Ela sabia muito bem que Raith a estava chamando de idiota. Raith endireitou-se enquanto olhava para o céu. _ Suspirando. _Posso fazer isso sozinha! _Deixe-me cuidar dele. Ela forçou-se a se manter em silêncio quando ele voltou com o lenço e o frasco de água. fazendo-a prender a respiração. Katrine ficou totalmente imóvel. como procurando respostas. mas ele levou um bom tempo para responder. _ O que vou fazer com você? Katrine sentiu uma certa satisfação ao perceber que possuía o poder de irritá-lo. _Não pretendo ameaçar sua virtude _ disse Raith secamente. Ele não respondeu. ignorando o olhar indignado de Katrine e a tensão em seu corpo. Mas você tem um jeito especial para acabar com a paciência de um homem. . quase ternamente. Não sentiu dor porque o toque foi delicado. _ Por favor. nunca pensei em machucá-la. com voz rouca. Agora tinham a cor de um céu noturno coberto de nuvens. Cada vez que ficava perto desse homem. _Porque eu já comecei e porque você não está em condições de fazer isso sozinha. pensou. Com todo o cuidado. sem sinal da agudeza de antes. recuperou sua rebeldia quando ele empurrou a barra da camisola para expor o joelho. completamente diferente do medo ou da fúria que seriam esperados. mas jamais se dignaria a perguntar. mas não preciso de seus cuidados.Um Campbell não maltrataria um prisioneiro desta maneira. não quero que você fique olhando meus tornozelos de novo. ele limpou o sangue e examinou o ferimento. _Vejo que é muito observador _ retrucou ela. __Já pensou na hipótese de me soltar? O olhar que Raith lhe lançou explicou claramente o que pensava sobre a possibilidade. A barba por fazer contribuía para o aspecto de ferocidade. _Que pena para você. _ Posso estar arranhada e sangrando. _Escute aqui. Contra sua vontade. Katrine cerrou os punhos. Mas queria vê-lo totalmente envergonhado. _Tenho de limpar esse joelho. Katrine sentiu uma leve satisfação ao ver a expressão de culpa e remorso no rosto moreno. _ Ei! O que pensa que está. mas os dedos longos em sua pele causaram o mesmo calor de antes. mas seu tom foi fraco. Voltou para perto do cavalo e mexeu dentro de uma bolsa de couro. mas não quis admitir que entendei-a o insulto. Por que fizera isso?. sentando-se ao seu lado. _ No entanto. Katrine viu-o extrair um lenço e abri-lo. sentia uma estranha excitação. Como pudera esquecer o quanto era perigoso? _Seu joelho está sangrando _ murmurou Raith. fazendo-o parecer menos onipotente e mais humano. _Você vai viver _ diagnosticou. Mas então ele ergueu os olhos azuis. curvando a boca num sorrisinho maldoso. _ Não seja mais gornerel do que o necessário.

Mostrava a mesma devoção severa de seus tios ingleses. e dos piores. mas depois da virada do século. . Ontem. Seu filho tomara-se o quarto duque de Argyll e o chefe do poderoso clã Campbell. A amargura tingiu cada palavra de Raith. mas Katrine sentiu mais desânimo do que medo quando ele cortou a tira de lã que prendia seus pulsos. mal prestando atenção em Raith quando ele pegou as tiras de flanela que usara para puxá-la. Então por que não era ele quem estava defendendo seus parentes? _Eu imaginava que esse fosse um assunto para ser resolvido pelo lorde de Duart. Se estava bem lembrada. não os seus. Katrine pôde entendê-la._Não. quando cheguei. Lembrou-se de ter visto uma tarja preta no braço de seu tio. Ele tirou o punhal da bainha com o gesto ágil que a assustava. achando difícil acreditar. havia muito poucas famílias escocesas que não haviam perdido pelo menos um ente querido nos muitos anos de lutas. depois de um instante. mas não foi bem-sucedida. Katrine lera nos jornais que o velho duque morrera subitamente devido a uma doença grave. Mas. Mas acho que agora não existem mais motivos para você ficar amarrada. Antes de sair da Inglaterra. De fato. Ele era um reformista convicto. O tom foi muito seco e Katrine levou alguns instantes para entender. ouvi-o dizendo que os MacLean tinham se recusado a pagar os impostos ao duque de Argyll. Ela procurara escolher com cuidado as palavras. com a união da Inglaterra e da . _Você é um dos arrendatários do duque? Raith lançou-lhe um olhar sombrio enquanto terminava de colocar a atadura no joelho e passava para as bolhas nos calcanhares. _O que vai fazer agora? _ perguntou ao vê-lo se ajoelhar novamente ao seu lado. _Graças a Deus. No entanto. tão sisudo e rígido. Katrine saiu de seu desânimo para perguntar por que ele a tomara com prisioneira. Katrine olhou-o pensativa. Não existe justiça na tirania. pois perdera o pai nesse levante. pobres infelizes. _Ladrão é uma palavra forte demais. _Pode ser que tio Colin só queira justiça. era o senhor de Duart que exercia a chefia do clã MacLean. ele prosseguiu: _Colin Campbell? Esse é um ladrão. Katrine esfregou os pulsos doloridos. Um tanto surpresa com a consideração. como tantos de seus pares. um dos escoceses anti-católicos que tinham jurado defender o presbiterianismo como a única fé cristã. _Não existe mais um lorde de Duart. estou livre dessa maldição. Desconsolada. _Aplacar minha consciência. Katrine teve vontade de dizer que se Colin estivesse enchendo cofres seria os do duque de Argyll. inclusive as ilhas nas costas das Terras Altas.Katrine arregalou os olhos. As sobrancelhas negras de Raith se uniram numa expressão de profundo desagrado. envolvendo-se em atividades ilegais. _O velho duque nem tinha esfriado na tumba quando seu filho aumentou arbitrariamente os impostos e taxas de arrendamento a um ponto muito além do que seus inquilinos poderiam pagar. Ele foi morto no quarenta e cinco. não acha? E o que ele fez para merecer esse termo? _Nenhuma palavra é forte demais para um Campbell que enche seus cofres com a prata dos MacLean. Não podia imaginar seu tio.. achou prudente não fazer esse comentário inflamado. Não estaria sendo libertada se seu captor tivesse a menor suspeita de que ela poderia fugir ou ser salva. _Você odeia meu tio em particular ou todos os Campbell em geral? De início Raith só emitiu um resmungo e Katrine pensou que fosse parar por ali. Os montanheses sempre tinham estado divididos em suas lealdades. Na posição de administrador das terras ocidentais. Só percebeu o real significado das palavras quando ele enrolou o tecido macio em torno de seu joelho. Os que têm de agüentar o despótico governo de Argyll são os MacLean de Duart. nem um centavo a mais nem menos. ele se empenharia em ver o duque recebendo os aluguéis e impostos devidos.

Muitos dos chefes escoceses foram executados e outros fugiram para o exílio. Enquanto eu a tiver em meu poder. Você servirá de garantia para impedir que os Campbell se vinguem nos MacLean de Duart. _A maioria das terras de Duart já estavam perdidas antes disso _prosseguiu Raith. que haviam se posto ao lado do príncipe Charles. quem seria? Um ladrão de gado. Alterara os registros em favor de seus parentes. _Já lhe disse. em pagamento pela suposta traição de seus compatriotas. Ela não teve dificuldade em imaginar Raith MacLean liderando seus parentes em ataques contra outros dás para saquear ou executar ferozes atos de retaliação. a violência aumentara. eu esperava entrar e sair sem ser notado. certo? Raith estreitou os olhos. Ele viera em socorro dos MacLean por orgulho de clã. Sabe disso. mas não disse nada. A pior e última insurreição ocorrera em 1745. Só os soldados que serviam nos exércitos do rei tinham permissão de usar o saiote e o xale. quando os dás haviam se levantado em favor do Belo Príncipe Charlie. cuja intenção era destruir o velho sistema de clãs. O levante de 45 terminara na derrota amarga e sangrenta dos jacobinos. da linhagem dos Stuart. por que aceitou o louco gesto de Lachlan me seqüestrando? Creio que a última coisa que você queria era me ter em suas mãos. Armas. pensou Katrine. ou tartan. seria tolice continuar a expressar suas dúvidas ao homem que a tinha em seu poder. Realmente a última coisa que desejo é ficar perto de uma Campbell matreira e de língua afiada. O que restou delas foi parar nas mãos do terceiro duque. No entanto. . em Culloden. com origem em épocas feudais. lembrou. não é? Seus espiões não lhe contaram sobre minha chegada. Várias propriedades foram confiscadas. Os duques de Argyll tinham sido sempre leais partidários da coroa inglesa durante os anos de rebelião. _ Você não esperava me encontrar lá. não? _ disse com fingida confiança enquanto Raith voltava a calçar os chinelos em seus pós. neto do deposto rei James II da Inglaterra e filho do homem que os. muitos montanheses haviam se tornado renegados e roubavam o gado de seus vizinhos. _Acertou. como eu me ajusto aos seus planos? Você disse que não queria resgate. Ele dissera não ser inquilino do duque. fazendo Raith largar a atadura que estava aplicando. os defensores do príncipe tinham sido impiedosamente caçados pelos ingleses vitoriosos. com base na lei das Terras Altas. _ De novo ele pronunciou o nome com ódio. _Os livros! _ exclamou em triunfo. seriam o alvo da animosidade e calúnia de montanheses como os MacLean. No entanto. Naturalmente. _De fato. Subitamente Katrine endireitou-se. Katrine sabia que estava certa. _Então. O olhar de Raith a alertou que estava pisando em terreno perigoso. Mas e quanto a Raith MacLean?. Para sobreviverem depois do Quarenta e Cinco. seu tio pensará duas vezes antes de partir para a retaliação pelo que fiz esta noite. passaram a ser proibidas para os escoceses. interrompendo os pensamentos de Katrine _graças às maquinações dos primeiros duques de Argyll. ele estava envolvido numa tarefa mais adequada a um estudioso ou contador. montanheses ainda consideravam como seu verdadeiro rei.Escócia sob um único governo. Depois do Quarenta e Cinco. _Meu tio virá atrás de você. _Então. Katrine irritou-se diante da acusação. Então. o mesmo acontecendo com o padrão xadrez. Tropas britânicas haviam sido convocadas para sufocar os freqüentes levantes e o resultado fora sempre sangrento. como o punhal que Raith MacLean carregava. Mas isso não explicava por que a mantinha cativa. Uma tal ocupação não era incomum nessa região turbulenta. voltando a sua tarefa. ou partidários da linhagem do rei James II. _ Você estava mexendo nos livros de registro de meu tio! Foi algo ligado aos aluguéis. quando o vira pela primeira vez. Katrine não estava tão certa de que seu tio mudaria seus planos ou trairia seu senso de justiça apenas para salvar-lhe a pele. a altiva insígnia da individualidade e orgulho de cada clã.

Gozaria a gloriosa manhã e não pensaria demais sobre seu futuro imediato. há muito reprimida. E um homem com um corpo esguio e flexível que parecia ser o complemento masculino para seu próprio corpo. criava uma música que parecia ecoar na quietude. Depois abaixou a barra da camisola e levantou-se. Sentiu seu espírito voando com ela.. Katrine prendeu a respiração ao ver o céu azul e uma águia dourada pairando orgulhosa. por entre as nuvens. Eles seguiam o curso de um riacho e a água. Uma grande empolgação. Quando chegaram ao alto do morro. desanimada. Katrine ficou aliviada quando sentiu uma mão forte em seu ombro. _Não. apesar de sua óbvia virilidade. As sensações deixaram Katrine totalmente desconcertada. só que dessa vez montou como homem. Por um momento ela imaginou se afetara seu captor do mesmo modo que ele a afetara. tentando ignorar seu toque. começou a desabrochar em semi íntimo. E não a encontrarão. _ Acha que pode continuar agora? _Eu tenho escolha? _ disse Katrine. _Que nobre oferta! Sua consciência deve estar mesmo perturbando-o. Apesar de tudo por o que estava passando. enquanto corria sobre pedras e troncos caídos. O contato era perigoso. ele estremeceu e praguejou em silêncio. E tornou-se mais perturbador quando Raith fez o cavalo andar. mas sim um proscrito. fazendo-a se endireitar. Subitamente Katrine percebeu que estava feliz cm ter voltado às Terras Altas.. Raith MacLean não era um herói de sonhos conjurado pela sua imaginação. _ Será um prazer _ sorriu Raith com alguma relutância. Raith MacLean. Katrine não tinha nenhum desejo de dividir um cavalo com ele. não ia deixar que o seqüestro estragasse sua volta ao lar paterno. Mas depois repreendeu-se por seus tolos pensamentos. não se importando por exibir as pernas até os joelhos. pondo um ponto final no assunto. o coração de Katrine começou a bater mais forte. O sol se infiltrava por entre as árvores e em todos os cantos ela via roseiras silvestres ainda envoltas pela névoa da madrugada. o modo como seus olhos cintilavam enquanto ela captava cada detalhe da paisagem. Não. Os MacLean têm sido perseguidos a ferro e fogo pelos Campbell muito antes do Quarenta e Cinco. cavalgara e trabalhara durante toda sua vida. nunca se sentira tão viva. mas você pode cavalgar comigo. era totalmente indiferente a ela. sentiu-se de repente fraca e impotente. um ladrão. mas estava grata por não ter de andar. entretida em admirar a beleza majestosa das montanhas das Terras Altas. _ Acho que você está disposta a ser sensata. sua aparência. Depois de algum tempo Katrine quase se esqueceu de sua difícil situação. E seu calor. _ Tem certeza que pode tolerar minha presença num mesmo cavalo? Eu não gostaria de ser um estorvo. Raith falou com segurança. Estava totalmente arrependido de ter mandado seus homens à frente . Um peito amplo que oferecia apoio e conforto. Esse acelerar do sangue não devia acontecer com alguém como ele. Incapaz de se mexer sem chamar a atenção. No entanto. Apertada contra os contornos musculosos de um homem que obviamente lutara.. Raith observou a expressão de enlevo de Katrine em rígido silêncio. Ele simplesmente não queria vê-la encostada nele. ela sentiu o perigo do arranjo assim que Raith montou. Ignorando a ironia. A segurança era melhor do que a modéstia. seus cabelos indomáveis brilhavam como fogo à luz do sol e quando uma madeixa escapou da trança já meio desmanchada e foi soprada contra seu rosto pelo vento. Raith estendeu a mão. Fora um erro aceitar ficar tão perto dele. empolgante. Logo começaram a subir em linha reta. Dali em diante ela concentrou-se em manter o contato entre eles dentro do limite mínimo. pois as bolhas doíam muito. Permitiu que Raith a pusesse na sela. como se fossem perfurá-las. coxas poderosas que acomodavam as dela numa maneira flagrantemente sugestiva. Sabemos como evitar a captura._Não faz mal. Eles não me prenderão. Mas ele era também um homem..

Campbell.. porém. a excitação era total. cujo corpo esguio tinha a capacidade de acender nele chamas ardentes da exata cor de seus cabelos. que flertara com ele durante sua última estada na cidade. Havia uma explicação simples para ele estar tão fisicamente atraído para uma Campbell. Era perigoso um bando de montanheses armados estar trafegando por aquela região à luz do dia. Se por acaso as tropas inglesas estivessem em seu encalço. quando a tocava. mas não quisera atrasá-los mais.. que devia descer e caminhar. Ele precisava muito se aliviar. Estivera meio excitado desde que conhecera a tentadora mulher de cabelos de fogo e. já que não parecia mais ter controle sobre o corpo. Talvez então não ficaria tão afetado pela proximidade de uma mulher. movendo-se ritmicamente acompanhando o passo do cavalo. Mas o desejo carnal era uma necessidade básica e fácil de ser atendida. poderia visitar os bordéis de Edimburgo para algumas noites de farra. uma Campbell geniosa. Se preciso. daria um mês de aluguel de seus próprios arrendatários só para ter uma outra montaria. . Agora. em Corran. em Strontian. sua condição de senhor do clã e sua consciência o impediam de conseguir vantagens de seus dependentes. enfurecedora. como fazia no tempo em que cursava a universidade. pensou Raith rangendo os demites. apesar de conhecer uma dúzia das que moravam em sua propriedade e viriam a sua cama de bom grado. em especial por uma mulher como essa. que ficaria encantada em servi-lo e uma graciosa filha de um taberneiro. Fazia um bom tempo que não tinha uma mulher porque. Havia uma simpática viúva.enquanto lidava com ela. Era ele. talvez. ele seria o único responsável pelo rapto da srta. quando sentia o corpo macio junto ao seu como agora.

só parando de tanto em tanto para esperar por respostas que nunca vinham. assassinaram seus anfitriões. Katrine continuou tagarelando com uma cordialidade melosa. guardando longas lembranças de feitos passados. olhando-a atentamente. . Os montanheses tinham um rígido código de leis. Ou será que os Campbell têm a conveniente mania de esquecer suas traições? Ela não respondeu. Talvez Raith MacLean não quisesse conversas com uma Campbell. _Você seria capaz de me amordaçar de novo só por eu admirar uma flor? _ Ela arregalou os olhos em fingida inocência. Ouvira falar muito no vale de Glencoe. com um leve sarcasmo. Tudo por culpa de Raith. _Não. cercado por picos altos. _Agora este lugar é chamado de vale das lamentações. _Que lugar maravilhoso _ disse ela finalmente. _Você não consegue ficar de boca fechada? Surpresa com o ataque. embora soubesse que não conseguiria captar todo aquele encanto rude. bombardeando-o com perguntas sobre a região que percorriam. _Sabe onde estamos? _ perguntou Raith de repente. Tem certeza de que não está sentindo o sangue manchando suas mãos de Campbell? Katrine lançou-lhe um olhar intrigado. Raith teria o maior prazer em fazê-la descer do cavalo. contemplando o vale relvado. acamparam junto com os MacDonald neste local por quinze dias. liderados por Robert Campbell de Glenyon. Eu deveria saber? _Pensei que agora fosse a hora de sua consciência a alfinetar. Você deve ter ouvido falar deste lugar. Katrine virou-se para novamente apreciar a paisagem. Ele que sofresse de culpa! Afinal. _ Aposto que sua consciência não lhe daria sossego. com seu pequeno lago cintilando ao sol. embora já não possuísse a mesma beleza. mas não era algo bom de lembrar. Ele respondeu com monossílabos mal-humorados até finalmente perder a paciência. Durante a meia hora seguinte. Mas quando chegaram ao alto de um morro. desejando que Raith não a olhasse com tanto ódio e desprezo. de aparência selvagem. perdeu a voz diante de tanta beleza. torturar uma indefesa prisioneira ia fazêlo se aborrecer mais ainda. _Aqui é Glencoe _ explicou Raith. O assassinato dos quarenta MacDonald pelos Campbell acontecera setenta anos antes. Katrine pensou na última pergunta que fizera e não achou nada errado em indagar o nome de uma florzinha vermelha que avistara nas fendas das rochas. Desejou ter trazido suas tintas e pincéis. _Acho que precisarei refrescar sua memória _ disse Raith. Depois. que a fizera sentir-se um verme por ser uma Campbell. como se estivesse culpando-a pelos feitos de seus antepassados. mas ainda sentia remorso por causa das bolhas e do ferimento no joelho. Katrine de repente tomou-se muito falante. Katrine quase sorriu ao ver um músculo se contraindo no queixo moreno.CAPITULO IV Para o aborrecimento de Raith. Quer que eu continue? _Não _ murmurou Katrine. _ As tropas inglesas do regimento de Argyll. quebrando todas as leis da hospitalidade civilizada.

Raith afastou-o com a ponta do dedo. inalando o ar frio e úmido da manhã. De repente sentiu-se minto cansada de lutar contra ele. mais surgia o sotaque escocês. estava muito cansada. mas era atraente. ele aproveitou a oportunidade. claro. não parecia disposto a deixá-la esquecer de seus antepassados. E. Deixou a cabeça cair para a frente. Depois de algum tempo. ficou satisfeita em deixar a cena de incrível beleza. escolhendo que trecho da paisagem gostaria de pôr numa tela. Um pouco depois. Katrine apertou os lábios. A cabeça da moça tombou para trás. Katrine Campbell parecia indefesa e inocente como uma criança. Ao respirar mais fundo. Ela deixou cair os ombros. Na verdade. Tentando afastar a depressão. Raith não conseguiu ser cruel o bastante para lhe negar o conforto. aninhando o corpo mole de Katrine na curva de seu ombro. rígido. _Não tenho a menor dúvida de que vocês cometeram crimes igualmente atrozes quando perseguiram os Campbell? _Pare com esse falatório ou eu a calarei à força. Com um suspiro. como se assim pudesse apagar a lembrança do massacre. Ele balançou a cabeça. Com os atrevidos olhos verdes fechados e os longos cílios castanhos sombreando as faces pálidas. voltando a recostar-se no peito de Raith. afastando-a de sua terra e sua família. e mordeu o lábio. mas quanto mais eles entravam nas Terras Altas. Ele a fez se endireitar com Um gesto brusco. _Por Deus! Sente-se direito e pare de me fazer de travesseiro! Katrine obedeceu por alguns instantes. Contra a vontade. e. deixando-o ver perfeitamente seu rosto. Pelo menos assim evitaria que sua língua afiada o provocasse a tornar realidade a ameaça de amordaçá-la de novo. mas logo o cansaço falou mais alto e ela pegou no sono. sentiu a leve fragrância de lavanda que emanava dos cabelos ruivos. contudo. num tom que afetou os nervos de Katrine. de ser obrigada a se defender de seu ódio e desdém. porém ela o ignorou. Mas. Raith. quando adormeceu. Talvez devesse tentar cochilar um pouco. Katrine contemplou o vale com olhos de artista. não tinha como ignorar a presença do corpo jovem amoldado ao seu. Tinha de tomar cuidado para não irritar esse homem cruel que a raptara. ela respirou fundo. Sim. Quando um cacho vermelho caiu na testa de Katrine. ficou olhando para ela. desanimada. por esse código. avisando-a do contato íntimo. no momento. Raith mudou de posição na sela. Raith forçou-se a desviar o olhar. O corpo que a sustentava era quente e confortador. _Cortesia dos soldados ingleses _ disse causticamente. Havia nela um encanto sutil que o afetara. a moça Campbell não tinha uma beleza especial. Quando saíram pela passagem na extremidade oposta de Glencoe. Katrine olhou para o rosto másculo e atraente. atos de violência resultavam em ferozes inimizades entre famílias e retaliações sangrentas. uma emoção não desejada agitando-se dentro de seu peito. relaxou contra o corpo de Raith. impressionando-se com a pele clara e luminosa. não tinha a força de vontade para se negar esse consolo. Teria mesmo o direito de trazêla para a amarga disputa que mantinha com os Campbell? Seria certo usá-la como peão no jogo . disse consigo mesmo. ela era tão culpada pelo massacre como seus antepassados. esperando ser capaz de se manter ereta para evitar um contato maior com seu captor. No entanto. Ele endireitou-se. examinando os traços firmes e ao mesmo tempo delicados. despertando e vontade de protegê-la. Mesmo assim. que agora tinham o tom das nuvens tempestuosas do norte da Escócia. Foi apenas um ato reflexo.Nas Terras Altas. e praguejando em silêncio deixou-a dormir. que a acordou. A raiva fazia escurecer seus olhos azuis. Raith MacLean falava um inglês perfeito. lembrando-se quem era a mulher que dormia em seus braços: uma Campbell e meio inglesa para piorar a situação. sentiu um aperto no coração. Mas não foi bem sucedida. Talvez seu modo de falar mudasse quando suas emoções eram atiçadas. com os descendentes vingando-se de crimes cometidos por gerações anteriores. enquanto olhava para o rosto adormecido. Um sinalzinho de alerta soou em seu cérebro. Quando passaram pelas ruínas calcinadas de uma granja.

Katrine Campbell ainda não reunira todas suas forças. Tentando ignorar o cheiro forte de peixe que exalava do pequeno barco. perguntou: _ Vamos ter de atravessar? _Sim. por que sentia tão pouco controle? Por que sentia-se tão acossado quando nem mesmo chegara a seu destino? Nesse instante Katrine mexeu-se em seus braços. ela endireitou-se e pigarreou. vira-se na obrigação de ajudá-los no que fosse possível. se não quisesse. Precisava manter a cabeça fresca para estar à altura da astúcia de sua refém e defender-se de sua língua afiada. Sua casa era muito grande e lá não precisaria ver a moça. coberto por uma barba de alguns dias. mesmo se isso implicasse em manter como refém uma moça inocente e indefesa. Katrine esteve a ponto de dar uma resposta malcriada. Quando o homem lançou-lhe um olhar desconfiado. Abriu os olhos pouco a pouco e viu um pescoço bronzeado. Valendo-se de sua determinação. Deu graças por Raith não dizer uma só palavra. conseguiu ignorar quase por completo a tentadora feminilidade que ameaçava seu controle. Ele contraiu os músculos ao contato com os quadris que se pressionavam contra sua virilha. Pouco depois. o que se devia ao impacto do seqüestro e ao cansaço. absorvendo a força e o calor que emanavam dele. No momento não tinha como escapar da proximidade. Apertou os lábios quando pensou na ironia da situação. mas assim que chegasse a Cair House se livraria dela. Katrine continuou dormindo por quase uma hora. _ Fique de boca fechada _ cochichou Raith no ouvido de Katrine. engoliu o palavrão que aflorara a seus lábios e forçou seus pensamentos a seguirem uma linha menos perigosa. Eu mesmo já pensei em fazer isso algumas vezes. mas conteve-se por medo de ser atirada na água gelada enquanto Raith negociava a travessia. Quando chegaram à margem do lago. Nunca conhecera alguém que se ajustasse menos a essa descrição. Continuou aninhada no ombro de Raith. ela começou a se mexer. Corando. Curiosa. amarrará uma pedra em seu pescoço e a jogará no meio do lago. Katrine lançou um olhar para Raith e viu-o olhando para a margem oposta com impaciência. acordando vagarosamente. Ao ver que ela continuava num sono profundo. que haviam se humilhado a virem pedir seu auxílio. e um queixo agressivo. Mas Katrine Campbell não era tão indefesa assim. Sentia que conhecera apenas uma pequena parte dela. Depois de algum tempo eles avistaram um pescador que dirigia seu barco para a beira da água. acomodando-se mais confortavelmente entre suas coxas. Fez o cavalo seguir pela margem pedregosa do lago.perigoso em que havia se envolvido ao desafiar a soberania de Argyll? Mas ele sabia que havia uma única resposta para essas perguntas. Usaria qualquer meio a sua disposição. imaginou o que ele teria dito ao pescador para explicar seus estranhos trajes. esperando que suas origens inglesas não fossem tão evidentes. Lembrou-se dos orgulhosos homens de Duart. supostamente. E era o que estava fazendo. Ele a mandaria para a cozinha e nunca mais a veria. _ Que Deus tenha pena dos pobres diabos que atravessarem seu caminho quando chegar essa hora _ resmungou Raith. os dois estavam sendo transportados para a outra margem. mas o cavalo está cansado e não vou obrigá-lo a carregar nós dois. Então. pensou com um sorrisinho sardônico. _ Eu não sei nadar. _ Se esse sujeito descobrir que você é inglesa. mas logo . enrolando-se mais no xale por causa do vento frio. Quando estavam deixando os montes para trás e aproximando-se do lago Linnhe. rezando para seu captor não fazer nenhum comentário. puxou o xale para cobrir-se melhor. Katrine. falando em gaélico com o pescador. quem estava no comando. enquanto o cavalo nadava atrás. _ Raith lançou-lhe um olhar de menosprezo. Ela levara sua paciência ao limite com suas tentativas de enganá-lo. Esse pensamento ajudou-o a esfriar o sangue. com tendões salientes. Ele era o raptor e. mas não respondeu. Os criados eram de absoluta confiança e a vigiariam de perto. A súbita descoberta de onde e com quem estava a alarmou. Mesmo não sendo o chefe desse ramo do clã.

aquelas só podiam ser as montanhas Ardgour. Então ele era Raith MacLean. _ Rápido _ disse ele ao vê-la mancando em sua direção. tentando não demonstrar o quanto estava impressionada. Contudo. aninhada entre as ásperas encostas das montanhas de Ardgour. gelada como estava. pois. E também ser facilmente vigiada para impedir a fuga de um prisioneiro. Ora. Katrine rangeu os dentes quando enfiou os pés na água gelada e olhou feio para Raith que conversava baixinho com o animal. _ Creio que você não está disposto a me contar para onde pretende me levar _ disse Katrine. A estrada larga que atravessava as plantações ia se estreitando à medida que se aproximavam das montanhas. sem grandes gentilezas. com escarpas rochosas em ambos os lados. Raith. _ Você é um chefe de clã? Você é o lorde de Ardgour? _Por que tanta dificuldade em acreditar em mim? _Porque você é um ladrão de gado! _ Não tirei nada que já não tivesse sido roubado por Argyll ou seu administrador. Com um brilho sardônico no olhar. assim que o barco tocou a terra. com árvores em ambos os lados. Recusando-se a ser intimidada pelo olhar orgulhoso e penetrante. Isso explicava seu jeito arrogante. O décimo segundo MacLean de Ardgour. A planície que agora percorriam estava salpicada de granjas de aparência próspera. estudando o terreno que percorriam procurando captar todos os detalhes para uma futura fuga.decidiu que Raith MacLean era arrogante demais para se dignar a dar explicações. _ Minha avó era uma MacRaith. aveia e ervilhas. com uma casa deste tamanho. No fim da alameda. erguia-se uma cadeia de montanhas. depois de uma larga faixa de terra plantada com cevada. Raith nem mesmo é um nome típico dos MacLean. eles com toda a certeza sabem onde você mora. não esperando resposta. Campbell. Katrine parou abruptamente. Katrine ficou olhando-o boquiaberta enquanto seu cérebro assimilava a revelação. _ Então a senhorita deseja uma apresentação formal? Pois bem. afagando-lhe o focinho. Estava acostumado a comandar e seu obedecido. _ Ela olhou por cima do ombro para ver o efeito de suas palavras. Será que esqueceu que estou toda machucada? Raith apertou os lábios engolindo o palavrão que estivera prestes a dizer. Como fora tola! Devia ter percebido desde o início que seu captor não era um homem comum. Logo alcançaram um trecho que mal dava para uma carroça passar. ficava uma grande mansão construída em pedra. . colocou-a na sela. _ Você disse que os soldados ingleses não o encontrariam. Ora. para obedecer um tirano grosseiro? _ Minhas bolhas estão ardendo. o senhor de Ardgour. Desanimada. Ficou claro até mesmo para seus olhos não treinados que a passagem poderia ser facilmente defendida de um clã inimigo ou soldados ingleses. _ Temos quilômetros pela frente. Ela virou-se para a frente. montando logo em seguida. por que teria de correr. A distância. ao seu dispor. décimo segundo MacLean de Ardgour. se lhe interessa saber. saltou para a margem e pegou as rédeas do cavalo para tirá-lo da água. como tinham deixado o vale de Glencoe para trás. _Imagino que essa é sua sede ancestral _ disse Katrine. tentando absorver melhor a revelação. Ele também não se mostrou nada cavalheiresco. _ Hum. Sou Raith Alasdair Hugh MacLean. não fazendo nenhuma menção de ajudá-la. pelos seus conhecimentos sobre a geografia das Terras Altas. Katrine manteve-se em silêncio até a estradinha de terra subitamente se transformar numa alameda coberta de cascalho. srta. Então pegou-a nos braços e. calculou que. Sim. Katrine examinou o rosto moreno com curiosidade. Raith fez uma leve mesura com a cabeça. _ Penso que não quer me dar maiores informações por medo que eu possa denunciá-lo. Katrine silenciou. o nome tinha um som áspero e arrogante que combinava bem com seu dono.

enquanto caminhava para a casa com passos decididos. _A senhorita é mesmo tão terrível como me contaram? _ Um brilho maroto cintilou nos olhos de Callum enquanto ele se afastava da porta da cocheira e vinha ao encontro deles. Katrine avistou uma série de construções em pedra e madeira. mas sua voz transformou-se num soluço quando ele a puxou da sela e pegou-a no colo com um gesto brusco. No térreo abrigava uma cocheira e o andar de cima devia ser um tipo de alojamento. _Devo dizer que não esperava encontrar boas maneiras num covil de ladrões de gado _ disse. Ia acrescentar mais alguma coisa. Katrine enrubesceu quando eles se demoraram em sua camisola e nas pernas expostas até o joelhos. O animal. _Fico satisfeita com isso _ disse Katrine. porque assim que eles entraram no pátio calçado. _Seja bem-vindo. Katrine lançou um olhar na direção de onde viera a voz e viu um homem alto e magro encostado no batente da porta da cocheira. Raith resmungou enquanto apeava do cavalo. estendia os braços para ajudá-la a descer. Todavia. Contudo. Esses olhos a examinavam ousadamente. Sou Callum MacLean. Um acidente de nascença. Bem-vinda a Cair House. todos a olhavam com hostilidade. juntando o que restava de sua dignidade. _Tenho de ficar quieta porque estou em grande desvantagem. Callum . no mesmo tom bemhumorado. dirigindo o cavalo para uma continuação mais estreita da alameda. que levava para os fundos da mansão. pôde notar que seus olhos eram castanho-escuros. Ela não pôde . obviamente conhecendo o caminho das estrebarias. disse com sarcasmo: _Estou curiosa para conhecer as tramas maldosas que são arquitetadas num ninho de jacobinos. com cara feia. _A senhorita parece ter afetado os nervos de meu primo _ sorriu Callum. _Não é difícil uma sassenach me dar nos nervos _ disse Raith. Grata pelas palavras que tinham rompido o clima hostil. _ Posso garantir que não são tão venenosas quanto as elaboradas num covil dos Campbell _ retrucou Raith. Eram os que tinham participado do ataque aos Campbell. Katrine Campbell. Olhando mais atentamente. apertou o passo. primo _ disse alguém num tom bem-humorado. surgiu um grupo de homens. A resposta deixou-a ainda mais desanimada ao confirmar sua crença de que Raith pretendia atirá-la numa masmorra. Quando o cavalo se aproximou dele. O senhor dos MacLean devia estar sendo esperado com ansiedade. _ Talvez seja o último. A maior delas. ao seu dispor. mas eu também sou meio inglês. Katrine ergueu o queixo. pensou Katrine. era uma estrutura de dois andares. Valorize este momento. _ Permita que eu me apresente. Callum dirigiu-se a Katrine falando por cima do ombro de Raith. mas o rosto era mais fino e o nariz mais adunco. _Meu primo prefere esquecer. eu diria. que ficava no centro. querendo disfarçar o medo. Não se deixando abater pelo clima hostil. Seguindo-os mais calmamente. uma praga. Ele lançou a Katrine um olhar tranqüilizador e ao mesmo tempo galante. Katrine sorriu e imaginou como esse homem polido e bem-humorado podia ser parente do sisudo Raith. Katrine agarrou-se ao seu pescoço. Temerosa de ser atirada longe. foi que eles não encontrariam você. olhando para Raith que. Ela reconheceu alguns deles. quebrando o pesado silêncio.exclamou Raith. _ Eles são. _Então essa é a impetuosa Campbell _ murmurou o homem. mordiscando uma palha. uma pestilência. _ Ele pegou a mão de Katrine e beijou-a de leve como faria se estivessem na corte. notou a semelhança que ele tinha com seu captor._O que eu disse. Possuía os mesmos cabelos negros e traços fortes de Raith. usando o mesmo tom ligeiro de Callum.

com correntes nos pés. vai ajudar na cozinha. _Não vou me submeter a isso! _ protestou Katrine. Um brilho maroto dançou nos olhos de Callum. primo. ergueu uma sobrancelha. _Que vergonha. _E então. esperou Callum abri-la.Pensei que fosse ser posta numa masmorra. áreas de serviço e despensas. Katrine ofendeu-se com o termo. Quando entraram num longo corredor. Raith. ela pôde ver um tipo de sala de trabalho. que fez uma reverência apressada e saiu correndo. primo? Devo lembrar-lhe que não seria apropriado mantê-la em seus aposentos. Um pouco mais animada. Realmente queria perguntar para onde estava sendo levada. O assoalho brilhava como espelho. primo. uma porta se abriu e uma criada bem vestida entrou no corredor e arregalou os olhos para a cena a sua frente. Nesse instante. dezenas de janelas e várias chaminés. mas calou-se diante da ameaça. Quando a desceu. _ Você nem mesmo tem uma masmorra! Katrine sentiu um enorme alívio. A casa em si possuía três andares. garanto que a moça não terá interesse em usála com outro propósito que não seja o prazer. _Prefere ficar trancada? Katrine fuzilou Raith com os olhos. Escandalizada. _Não me tente. fazendo Katrine corar e reconsiderar sua impressão favorável de Callum MacLean.deixar de sorrir. ameaçar assim uma moça _ censurou Callum. Os vidros muito limpos refletiam o sol da manhã. Quando passaram por um cômodo com porta aberta. obviamente chocado com as palavras do primo.ofereceu com magnanimidade. Katrine desviou o olhar com as faces em fogo. com um ar impaciente. pensou Katrine. _Se você não a quer. Tudo indicava que não seria colocada numa cela úmida. _Quem é Flora? _ indagou Katrine. livrando-a da humilhação de ser vista nos braços de Raith. Quando ela se recuperar de seus ferimentos _ ele fez questão de ressaltar a palavra _ . Essa idéia me é muito simpática. não ficará tão ansioso em tê-la como parceira de cama. iria gostar de Callum MacLean. _ Quando você experimentar a língua de víbora desta mulher. Katrine viu que o interior da casa era tão elegante como seu exterior. primo. você está gravemente enganado se pensa que tenho segundas intenções com esta moça. Katrine olhou a sua volta e notou que o lugar onde estavam denotava cuidados e riqueza. O pátio calçado fora cuidadosamente varrido e a horta que avistava mais adiante parecia bem organizada e livre de ervas daninhas. Katrine deu graças por todos estarem ocupados naquela casa. usando uma camisola suja e com as pernas nuas. Callum.sondou ela. _Callum. Raith começou a subir um estreito lance de escadas. mas ao mesmo tempo se tranqüilizou por saber que sua virtude não estava ameaçada. Acontecesse o que acontecesse. ela pode dormir em minha cama . A ala que se estendia numa linha perpendicular à mansão devia abrigar a cozinha. piscou para Katrine. As paredes acima dos lambris eram revestidas de brocado. _Se eu experimentar a língua dela. porém. onde algumas mulheres limpavam prataria e consertavam roupas. . onde os criados a vigiarão. _ Vai prendê-la no alojamento dos criados? _Não. Eles chegaram a uma robusta porta de carvalho e Raith. _Devo dizer que estou espantada . enquanto subiam um outro lance de escadas. Eu jamais me deitaria com uma cadelinha gerada por um Campbell. A passagem dos criados. Quando chegaram ao terceiro andar. surpresa por estarem subindo e não descendo para os porões. o que pretende fazer com ela? _ insistiu Callum. _Diga a Flora para vir aqui _ ordenou Raith para a mocinha. _Onde você pretende acomodar a dama. onde ficaria? Callum deu voz aos seus pensamentos quando chegaram ao primeiro patamar. Mas então. não esperando resposta. Raith entrou à esquerda e depois parou numa porta .

. Havia dezenas de modos que poderia usar para se vingar do seqüestro e. mordendo o lábio. Ele amaldiçoaria o dia em que havia posto os olhos nela pela primeira vez. Felizmente não era uma cela úmida. ela tem o mesmo tamanho de Ellen. E não havia correntes à vista. de sabotar seus planos até ser resgatada ou conseguir fugir. não é? _ disse Callum. Raith olhou feio para o primo. acrescentou: _Flora arranjará alguma coisa para ela usar. Podia ser prisioneira de Raith MacLean. parado na porta. Uma fuga. talvez. Quanto tempo ficaria ali até seu tio conseguir libertá-la? Uma semana? Um mês? A perspectiva de permanecer prisioneira nesse covil de ladrões a apavorou. _Suponho que você vai arranjar algumas roupas para ela. O arrogante senhor dos MacLean imaginava que ela se submeteria mansamente ao cativeiro. endireitando as costas. Sozinha. Triste consolo. e fique longe desta moça. o que significava que Raith pretendia tratá-la mais como uma criada do que como uma prisioneira. E ela não fora trancada a ferros. Ignorando-a. Callum. com crescente irritação devido ao modo como os dois falavam dela como se não estivesse ali. Encontraria meios sutis de enfrentá-lo. uns centímetros mais alta. era nisso que tinha de se concentrar. avistou uma cama estreita. Ao entrar. Callum abriu-a e Katrine pôde ver que era um quartinho de sótão. pensou. _ Depois. pensaria nisso. Katrine olhou ao redor.situada no final do corredor. que subitamente se tornara fechado e sombrio. O quarto era muito limpo e razoavelmente confortável. Ela aproveitaria cada oportunidade que surgisse para tornar a vida de Raith MacLean miserável. mas não perdia por esperar. pensou. Mas Katrine logo se recompôs. um lavatório e um pequeno baú para guardar roupas. assim que estivesse mais descansada. Sua carcereira . Katríne teria ficado desconcertada com esse escrutínio masculino se sua atenção não tivesse sido desviada para o rosto de Raith. mas não estava a sua mercê. _Quem é Ellen? _ perguntou. olhando com desdém para Katrine. Sim. _ Ë. _Meta-se com sua própria vida._ informou Raith laconicamente e ganhando a última palavra ao fazer o primo sair e fechar a porta atrás deles. e um pouco mais de busto. enquanto Raith a depositava sobre a cama... Fuga e vingança. _Quem é Flora? _ quis saber Katrine.

Se lembrava-se que os Campbell haviam massacrado os MacDonald durante a rebelião. trabalhar era muito melhor do que passar dias e dias trancada no quarto. Foi obrigada a admitir. sisuda. Katrine era habituada aos afazeres domésticos e a governanta sabia dividir as tarefas com justiça. suportando a indignidade com severa determinação. Isso a fez decidir que esperaria até seus captores relaxarem a guarda.CAPITULO V Para sua imensa frustração. Foi humilhante ser perseguida pelo pátio enquanto os MacLean a observavam com desdém. que teria de esperar tempos mais favoráveis. aprendera a duras penas que teimosia e orgulho não lhe valeriam de nada. Ela nunca fora dada à indolência e uma ocupação a impedia de pensar demais em seu infortúnio. Flora MacDonald era uma mulher trabalhadeira. Todavia. além de raptá-la. o que a deixaria maluca. Na primeira tentativa um robusto criado barrou seu caminho no instante em que pôs os pés fora da casa. na chegada a Cair House. o olhar de Raith. Katríne não teve oportunidade de colocar seus planos em prática nos primeiros dias de cativeiro. o trabalho era bem-vindo. mas o pior era o tratamento que recebia. e obviamente haviam recebido ordens de não conversarem com ela. contudo. Katrine. Os criados que cuidavam do interior da casa a tratavam com frieza e rancor. Na segunda. como prisioneira. Cair House era um típico lar escocês. de cabelos grisalhos e faces rosadas. ela não tinha dúvidas de que o repúdio devia-se principalmente ao fato de ser uma Campbell e meio inglesa. lhe dera plenos motivos para acreditar que se fosse além das medidas. esperava que. mesmo não possuindo uma masmorra. ganhasse seu próprio sustento. mas sem hostilidade. De certa maneira. No dia em que chegara a Cair House testara por duas vezes os limites de sua prisão. Uma fuga parecia impossível. O trabalho era extenuante. No dia em que chegara. Por sorte. mas esse comportamento. de má vontade. Sua rebeldia anterior resultara em doloridas bolhas e um joelho ferido. fora posta para trabalhar na imensa cozinha. No entanto. não deixava transparecer. onde não existia o desperdício e oúde todos os moradores contribuíam com uma parcela de trabalho. Podia jurar que alguns deles teriam preferido atirá-la aos urubus. Seus captores a vigiavam de perto. tinha de reconhecer. Sua principal carcereira. ele a colocaria a ferros. Seus planos de tornar a vida de Raith MacLean um verdadeiro inferno também tiveram de ser adiados porque nem sequer voltara a encontrá-lo. a tratava com frieza. Decidira então continuar a desempenhar as tarefas que lhe tinham sido impostas. Katrine correu de volta para a cozinha. continuava tendo grandes motivos para lembrar-se de seus votos de retaliação porque o senhor dos MacLean. limpando verduras e areando praios de estanho. E mais. ela sabia bem. devia-se ao fato de ela estar assumindo muitas de suas tarefas. Só a ajudante de cozinha demonstrava alguma gentileza. pois não tinha a menor intenção de ser novamente carregada no ombro do grandalhão como se fosse um saco de batatas. a governanta de Cair House. estava quase na cocheira quando Lachlan a viu e gritou. E. Flora aceitara a presença de Katrine em seus domínios com a severa admoestação de . que comandava com perfeição os seus domínios.

Jamais pensara em Raith MacLean como sendo humano o bastante para ter uma família. lhe restava muito tempo livre para pensar. enquanto Katrine limpava nabos. _ Faz sete anos que estou aqui e há seis sou a governanta _ contou Flora. uma mesa comprida onde as roupas secas eram dobradas e uma grande banheira de cobre. os cabelos estavam embaraçados e empoeirados. _ Ellen MacDonald era a mais doce das criaturas. como pressentindo que alguém a observava. _ Ellen era a mãe do lorde? _ perguntou Katrine. que também era uma MacDonald. se estivesse mais limpa. Levantando a saia para não tropeçar na barra e erguendo a colher de pau pronta a se defender com ela. Agora entendia porque ele ficara tão furioso quando Callum falara que ela e Ellen tinham o mesmo tamanho. de fato. teria alguma perspectiva de sucesso? No terceiro dia de cativeiro. Também não se encontrara com Callum ou outra pessoa disposta a desobedecer as ordens do chefe falando com ela. mas a patroa insistiu. _ Este emprego exige alguém acima de minha posição social. Ela mexia um imenso caldeirão onde as roupas brancas tinham sido postas para ferver quando sentiu os cabelos de sua nuca se eriçarem. claramente decidira que ela não precisava de supervisão. Foi grande seu espanto ao ver uma menina com cerca de oito anos encolhida de medo. além de banquetas e cadeiras. Era uma criança bonita.que ela não seria maltratada se cumprisse suas obrigações. Katrine ficou sabendo que a governanta viera a Cair House acompanhando sua falecida patroa. Os olhos escuros a . estranhava não ter ninguém com quem desabafar. e a saia xadrez bem encardida. só viu os apetrechos da lavanderia: uma tina com a tábua de esfregar. Com o passar dos dias Katrine tivera de admitir. querendo extrair o máximo do momento de nostalgia de Flora. ElLen era a mulher do Lorde. Katrine não via o arrogante lorde de Ardgour desde sua chegada. Esse. Um igual sacrilégio seria Katrine usar o xadrez dos MacLean. Quando virou-se. pois a governanta. Katrine atravessou o cômodo pé ante pé e espiou atrás da banheira. quando fazia-se sempre as mesmas perguntas: Quando seria libertada? Quanto tempo se passaria antes de seu tio descobrir que ela estava nas montanhas das Terras Altas? Poderia esperar que um destacamento de soldados ingleses viesse em seu socorro? E seu tio Colin. O silêncio forçado lhe fazia mais mal do que a prisão. a mais caprichosa das donas de casa. num raro momento de tranqüilidade. Alguns instantes depois voltou a virar-se para trás e dessa vez viu de relance uma sombra perto da banheira. O orgulhoso lorde de Ardgour não quisera macular a memória de sua falecida esposa permitindo que uma Campbell inglesa usasse suas roupas. _ Uma sombra de tristeza escureceu seus olhos azuis. mas a estranha sensação continuava a perturbá-la. Que Deus tenhà piedade de sua alma. Katrine estava tão ansiosa para conversar com alguém que veria com agrado até mesmo o grandalhão Lachlan. pois providenciara um lenço de linho para ser amarrado cobrindo o decote do vestido. Acostumada a compartilhar todos seus pensamentos com as irmãs e a discutir com as primas. Flora lhe arranjara um vestido marrom de lãzinha. Mesmo os rápidos diálogos com Flora estavam escasseando. além de algumas roupas de baixo. tão parcimonioso com dinheiro. mas mesmo assim Katrine estava contente por ter algo mais que vestir do que a camisola. _ Não. Apesar de suas tarefas. com mau humor. Sua generosidade não fora a ponto de fornecer um espartilho ou anáguas. como acontecia com as criadas mais jovens. se mostraria disposto a pagar um resgate? E se tentasse fugir. Flora também devia se preocupar com a decência das criadas. teria admirado a capacidade e eficiência de Flóra. como algumas das criadas. comprido demais para ela porque fora feito para ser usado com anquinhas. que sua tia Gardner. pensou Katrine. depois de observar seu trabalho. contudo. Sua intenção era obter informações sobre seus captores que poderiam ajudá-la na elaboração de seus planos de fuga. Katrine arregalou os olhos. era o motivo de Katrine estar sozinha na lavanderia. O rostinho mostrava uma boa camada de sujeira. Ou seria bonita. com faces rosadas e longos cabelos negros. Ela voltou para seu caldeirão.

se a garotinha já não fora avisada de sua presença. enquanto Flora saía da lavanderia. em contato com o pano áspero da saia. Com passos rápidos atravessou o cômodo e pegou Katrine pelo braço.olhavam com receosa cautela. como se preparando para fugir. seu rosto ensombreou. Flora era bem capaz de acusá-la de estar querendo fugir. sabe? Eu estava louca para conversar com alguém. _ A governanta levantou o queixo. percebeu que a mulher estava mais preocupada com a garotinha do que com as roupas. Eu jamais maltrataria uma criança! _ Fique longe dela. obstinada. Mas Katrine não queria perder a platéia. _ Que idéia foi essa? Fique longe da menina! Katrine levantou-se indignada. _ Tem biscoitos frescos na cozinha. mas usando de delicadeza. Más. Era injustiça Flora repreendê-la por ter parado de mexer o caldeirão por um minuto. _ Se você se virar para cá um pouquinho mais eu terei uma melhor visão do que pediu sua atenção. você é grande demais para ser um rato. com toda a certeza. Pensei que você fosse um rato. fazendo-a se levantar. Ela parou. Eu não ia bater em você. _ Por quê? Quem é ela? _ Você não precisa saber. usando um colete comprido de couro e sapatos de fivela. Katrine deixou cair a colher de pau e sorriu aliviada. Katrine sobressaltou-se a ouvir a voz masculina. mas quanto mais pensava no insulto da governanta. mas resolveu não abrir nenhuma. agachando-se perto da menina. _ Agora vá cuidar da roupa. porque. Depois. ao ver a governanta por uma mão protetora na cabeça da menina. _ Deve ser bem desconfortável ficar ajoelhada neste chão duro. _ Não tenha medo. Katrine voltou para o caldeirão. Katrine deu vazão a sua fúria. Lembre-se do que eu disse. com os braços cruzados sobre o peito. Callum MacLean estava encostado no batente. O calor do fogo também não estava ajudando a acalmar seu mau humor. _ Não acrescentou o sobrenome. no caso de você querer me morder. E bonita demais também. deixando cair a colher de pau no caldeirão. Flora dirigiu-se à menina. Depois de passar três dias sendo evitada por todos. _ Só conversei com ela por um instante. Estava só preparada para me proteger. _ Como conseguiu andar por aí sem fazer barulho? E qual é o seu nome? Eu me chamo Katrine. a faria sair correndo. sabe? A brincadeira não causou nenhuma mudança na expressão da menina. Ela considerou-se ofendida. eu devia saber que Flora jamais admitiria ver ratos nesta casa. Afastando um cacho úmido que lhe caíra na testa. _ Nossa. Não houve resposta e Katrine sorriu para a criança de ar tão solene. inclinou-se e levantou a saia até o joelho para examinar o ferimento. Por que não vai se sentar naquela cadeira? Assim me fará companhia enquanto eu trabalho: Você apareceu na hora certa. ficaria grata por ser notada até mesmo pelo gato do quintal. Branquinha! _ E eu que pensei que você fosse uma pessoa compreensiva _resmungou Katrine indignada. ao notar que Katrine estava fora de seu posto de trabalho. Flora irrompeu na lavanderia nesse exato momento. Jamais faria mal a uma criança! Mas. _ Mas claro _ continuou Katrine _ . agora que estou vendo melhor. Depois que a garotinha levantou-se de um salto e fugiu correndo. Quero essa roupa branquinha. E. Depois de algum tempo começou a transpirar e o joelho arranhado. mais seu sangue fervia. _ Agora saia daqui. voltou a arder. franzindo a testa. não ia divulgar um fato que. os olhos assustados. . De tanto em tanto lançava um olhar para a porta. mocinha _ ordenou ela. Ela lançou um olhar esperançoso para as janelas. você me assustou _ disse. A menina continuava encolhida. antes que pudesse protestar. quando viu a menina.

E ainda perigoso. quero dizer. . mas sem desviar o olhar zombeteiro de seu rosto. Bonito era uma palavra muito fraca. porém. Tinha os cabelos presos numa trança amarrada com uma fita azul._ O que está fazendo aqui? _ perguntou ela. como fazendo uma pergunta. Raith observou a cena com cinismo: Katrine. com o máximo de dignidade que conseguiu reunir. _ Precisa de ajuda? Com suas saías. fixamente para seu captor. Katrine transferiu toda a fúria para ele e recusou-se a responder.. Katrine fuzilou-o com o olhar. e precisou olhar com mais atenção. enfezada. Katrine levantou a colher de pau e atirou a camisa ensopada na direção de Callum. apesar da humilhação de ter sido surpreendida dando vazão a sua fúria contra o primo atrevido. sr. desejando que Callum parasse de atormentá-la. Logo. O jabô branco e engomado contrastava com sua pele morena e os cabelos negros. apesar de ainda não ter afastado o olhar da elegante figura masculina do lorde dos MacLean. _ Quer fazer o favor de sair daqui? Estou certa de que tem coisas mais fascinantes a fazer do que ficar me espionando. teria conseguido. Que atrevimento o sujeito espiando-a daquele modo! Mas Callum não mostrou o mínimo arrependimento enquanto a olhava abaixar a saia com um gesto furioso. MacLean. Mais uma observação provocadora e ela iria gritar. _ Garanto-lhe que tenho ótima pontaria. No entanto. com um ar travesso. Creio que não existe algo mais fascinante do que assistir um ataque de fúria de uma moça bonita. resmungou uma praga contra o malvado lorde dos MacLean. tentou pescar a colher de pau da água. Em seguida. _A srta. o responsável por tudo o que estava passando. grande e finamente pregueada. ignorando seu ar inocente. antes de voltar seu olhar para Katrine.Foi alguma coisa que eu disse? Katrine rangeu os dentes. Via-o pela primeira vez sem a barba de vários dias. Ela atingiu a parede perto da porta. _Eu não errei! _ Ela conseguiu responder com acidez. _Se me perdoa a ousadia. mas não conseguira evitar. Estava vestido como qualquer outro cavalheiro de riqueza e posição. Se eu quisesse atingir o sr. irritada. Ao se dar conta que os duros olhos azuis estavam voltados para ela. Os olhos escuros pareciam estar furando suas costas. Poderia ter chorado de raiva e frustração. pensou. Campbell não tem por hábito respeitar as normas sociais. Para . talvez. _ Por que tanta irritação? . _ Observando você _ sorriu Callum. A casaca azul de veludo realçava os ombros largos e o porte masculino. ela voltou a tomar consciência da presença do primo do vilão. As botas de cano alto brilhavam.. Nas mãos enluvadas. ou explodir. possuía uma elegância aristocrática indiscutível. Virando-se de costas para ele. tentando assimilar essa mudança em sua aparência. Callum. ergueu uma sobrancelha para o primo. MacLean _ repetiu Katrine. Impressionante. Lembrando-se de novo de seu cativeiro. Katrine sentiu o sangue afluir ao seu rosto. Apesar de não ter estado em real perigo. ele carregava um chapéu de três bicos. com os olhos ainda em Katrine. _ Obrigada. _Foi sorte ela ter errado a pontaria _ observou Raith secamente. de punhos cerrados e olhar furioso. Não lhe perdôo a ousadia! _ retrucou Katrine. _ Acho que não.perguntou ele. _Meus amigos me chamam de Callum. mas não preciso de sua ajuda. _ Não. Foi nesse exato momento que seu primo surgiu na porta. Quando finalmente conseguiu pegar a colher. mas queimou os dedos. ela trouxe consigo uma camisa de homem. Fora pega olhando. é uma visão e tanto. a roupa molhada caída no chão. zombeteiro. _Que bom. Ela sentiu o coração parar com a súbita chegada de Raith. deixando claro que não pretendia usar o nome de batismo. Sem dúvida pertencia ao dono da casa. ele recuou instintivamente. Foi a gota d’água. Quando Callum disse que viera ver como ela estava passando.

sim. mas não gostou de ouvir isso da boca de Raith. depois de vê-la labutando perto do fogão. Katrine estava mesmo fumegando. pensou. sugiro que se afaste dela por . E. _Como você está fazendo? _ zombou Callum. _É bom você se lembrar quem ela é e por que está aqui. se não consegue dominar suas inclinações galanteadoras melhor do que isto. Raith. E muitas vezes ela brincara com sua irmã mais nova dizendo que Roseline era uma rosa inglesa enquanto ela mesma era um cardo escocês. antes que pudesse responder. ela simplesmente evita chamá-los de “grosseirão” ou “patife” _ disse Raith.Ora. A saída arrogante deixou-a ainda mais furiosa. Callum estava certo. tivera ânimo para atirar uma roupa molhada em seu primo. Eles atraíam um homem. de fato. . afastou o olhar de Katrine e dirigiu-se a Callum. embora soubesse o que tinha a dizer. Podia sentir o calor dos olhos verdes atravessando sua alma. Raith contraiu os lábios e não respondeu. Com um esforço. Katrine irritou-se. _Maldito! _ resmungou. Devia ter ficado longe.completo. _E por que tanto interesse em afastar seu primo de mim? _ perguntou com as mãos na cintura. Examinando Katrine de alto a baixo. Antes que pudesse recuperar a presença de espírito para perguntar se ele já tomara medidas para negociar seu resgate. Ignorar Katrine Campbell era algo que jamais conseguiria fazer. Um pouco de gênio é sempre bemvindo. ele continuou: . sorriu preguiçosamente.Ao ver o primo cerrar os lábios em aparente desdém. No entanto. Jamais diria a ninguém que lamentava imensamente a necessidade de pô-la para trabalhar em suas cozinhas. _Um pouco de gênio? Eu diria que ela tem o temperamento de uma megera.. o que acha dela agora. Não explicou que hesitara muito em procurar Katrine. Não agüentava mais ouvir aqueles dois conversarem sobre ela como se não estivesse ali e precisou de todo o seu controle para não berrar. Sim. _ Receia que ele vai me seduzir. Campbell é bonita. depois de experimentar uma amostra de seu mau gênio? Callum deu de ombros. cerrando os punhos. especialmente agora. bem consciente de que seu primo estava sentindo a mesma atração. mas sabia muito bem que não tinha argumentos para discordar. Afinal. Tudo indicava que se preocupara sem necessidade.perguntou Callum. ela não parecia estar se dando mal. pensou Raith. _A qual das duas idéias você faz objeção? . _ Não quero mandá-la de volta ao seu tio carregando um bastardo de meu primo. _Eu consigo esquecer um mau gênio quando a moça é bonita. Callum começou de novo. Katrine deixou o queixo cair. Mas teria sido muito mais cruel mantê-la trancada. Se Raith MacLean ainda estivesse ali. _ Ter filhos ou gerar um filho meu? . sabia que estava longe de ser mimosa e delicada. e principalmente agora. _Nunca achei muita graça em mulheres delicadas. mas eu me lembro. _Então. jogaria todo o conteúdo do caldeirão nele. Em especial porque sua prisioneira malcriada e de lingüinha afiada estava obviamente ansiosa para fazer dele o novo alvo de sua ira. _ Então diga-me. E a srta. ou que eu o corromperei? _As duas coisas hipóteses são bastante válidas. você pode honestamente ignorar que ela compõe um atraente quadro com o rosto corado pelo calor do fogo e os cabelos ruivos caindo em cachos? Raith recusou-se a responder. Raith virou-se abruptamente e saiu da lavanderia. vamos. Oh. fazendo-o desejar soltá-los de vez e emaranhar-se neles.diferenciar seus amigos. quando ela lhe parecia mais encantadora do que nunca.. erguendo novamente uma sobrancelha para o primo. O rosto corado tornara-se ainda mais luminoso e os cachos que tinham escapado dos grampos davam a impressão de possuírem uma energia própria. chocada. _ Raith fixou o olhar na barriga de Katrine. Também não admitiu a preocupação com seu bem-estar. _Ah. Um de seus primos ingleses a apelidara de “megera indomada” depois que ela lhe dera um soco na orelha por estar tentando tomar liberdades.

. vestidos daquele jeito. a conversa estava tomando um rumo que não a agradava. mas logo percebeu que. Lachlan estava vestido em alto estilo. Katrine desviou o olhar e voltou a cuidar da roupa. Sei disso por experiência própria. Pouco a pouco sua fúria foi diminuindo diante do sorriso maroto. No entanto. Tio Colin talvez até se veria obrigado a pagar pela sua libertação. não. com calma e bom humor. o rosto bonito muito sério e tendo em volta de si uma aura de impenetrabilidade. Mas Callum. interrompendo seus pensamentos. mas Callum não se deu por vencido. Então ela viu o próprio lorde dos MacLean. _Obrigada. posso dizer. _ Sei que estou sendo pouco modesto _ sorriu Callum. só podiam estar saindo para uma visita a vizinhos. _ Nascimentos acidentais não são considerados uma desgraça. acho as duas idéias formidáveis! _ ela anunciou em voz alta. tão grande como seu convencimento. sentiu as faces ficarem da cor de seus cabelos. MacLean. mas penso que não aceitarei a tarefa de gerar seus filhos. percorrendo as Terras Altas com um regimento de soldados ingleses. _ Faz parte do meu charme juvenil.Ela assustou-se. Ela quase devolveu o sorriso antes que sua atenção fosse desviada para uma movimentação no pátio. Katrine imaginou se o bando não estaria partindo para um outro ataque. Raith deixou ordens para você ser cuidadosamente vigiada.. como Raith. Apesar de seu atual estado de espírito. Ele saíra da casa por uma porta dos fundos e atravessava o pátio. _Você não acharia ter meus filhos uma tarefa onerosa _ disse Callum. _ Por que não termos doze filhos? Seria uma maravilha eu voltar para a casa de meu tio calvinista com doze moleques segurando em minhas saias! Aí sim.. sem medo de errar. Katrine avistou um pequeno grupo de homens e reconheceu os cabelos vermelhos de Lachlan. Uma das janelas da lavanderia dava para as estrebarias. Estando o chefe de seus captores distante. Katrine fuzilou-o com o olhar. A verdade é que não pretendo ficar aqui por muito tempo. Uma onda de esperança tomou conta de Katrine. lançou um olhar por cima do ombro para ele e viu diabinhos dançando em seus olhos escuros.. viu a menina que encontrara antes sair correndo das sombras da cozinha e . Aproximando-se dela. implorando aos céus que lhe dessem paciência.. _ De fato.. Exasperada. eram do mesmo sangue. avistou uma sombra perto da janela. _ Pelo menos. sr. _Raith precisa fazer uma pequena viagem. A persistência de Callum MacLean era incrível. Nunca ninguém me discriminou devido ao meu nascimento. Ela ia perguntar a Callum para onde estavam indo os MacLean quando ele ofereceu a informação. por querer me tranqüilizar. Afinal. Seria humilhante tentar orna fuga e ser arrastada de volta pelos cabelos. _É melhor tirar essa idéia da cabecinha. Nesse instante. talvez devesse tentar fugir. Meu caro primo vai cuidar de negócios. Callum enfrentou seu olhar furioso com um sorriso simpático. Lembrando-se de que Callum havia lhe dito que era meio inglês no dia de sua chegada. nem saberia que era o grandalhão. que ele me poria para fora! A amargura em sua voz foi grande. Sou um deles. que você estará perdendo um grande prazer. Katrine imaginou quais seriam as circunstâncias de seu nascimento. _Aqui a ilegitimidade não tem o mesmo estigma que na Inglaterra _ disse Callum. _ Oh. mas não gostam muito da idéia de eu ter sangue inglês. Katrine reconsiderou seus pensamentos com relutância... deu uma risadinha e balançou a cabeça. Tinha esquecido que Callum continuava ali. era o que esperava. Katie. pois. Tenho certeza que não conseguirá caminhar meio quilômetro antes de ser trazida de volta. Mas. De fato. Já embaraçada devido à explosão. usando casaca e calças de couro. ela não conseguiu se manter imune ao bom humor e charme do atrevido rapaz. os filhos bastardos costumam receber o mesmo carinho dos nascidos de casamentos. quando se deu conta do que ele perguntara. Katrine ergueu os olhos para o teto. Se não fosse por eles. alto e imponente. como se tivesse lido seus pensamentos. Rezava para seu tio já estar a sua procura.

_ Por que não se queixa com Raith? _ Pode ser que eu faça isso. Quando ela se virou sentiu um frio na boca do estômago e um absurdo acelerar da pulsação. parecendo não se importar com o estrago que seus bracinhos sujos poderiam estar fazendo ao. _ Mas alguém deve ser responsável por essa criança! _ Bem. me fazendo de boba? _ Eu fazer você de boba? Não tive nada com isso. _ A voz de Raith veio de trás dela. mas não sei ao certo. mas você podia pelo menos ter a cortesia de agradecer meu oferecimento. _ Deixe-me fazer isso _ ofereceu Katrine. A mocinha só sorriu e pegou um balde para ir buscar água no poço. claro _ disse Callum.parar junto de Raith. no caso de Meggie. _ Quem é aquela menina? _ O nome dela é Margaret. A única resposta foi o mesmo olhar desinteressado e o som da porta abrindo e fechando. que agora estava sério. Depois de dez minutos de monólogo. Ao seu lado. um sorriso tão doce que Katrine prendeu a respiração. um tanto intrigado com o interesse de Katrine. fazendo-a saltar de susto.. conversando com a menina. Quando Flora saiu por um momento. Se conseguisse persuadi-la a levar um bilhete para seu tio ou para a guarnição inglesa mais próxima. No entanto. _ O lorde é responsável por todos os membros de seu clã. sem casaca ou colete. _ Então ele deveria providenciar para a menina ser bem cuidada. Você estava indo muito bem sem a minha ajuda. . _ E me queixarei de muitas outras coisas. ela tentou conversar com a criada. Que decepção! No dia seguinte. Katrine virou-se para Callum com um olhar inquisidor. Ela é pequena demais para estar andando por aí desacompanhada. mas nós a chamamos de Meggie. Ele a pegou no colo e continuou a andar. _ Ela simplesmente não a entende porque só fala gaélico. Seu olhar seguiu-a enquanto ele montava e saía do pátio em companhia dos outros homens. _ Parece que Flora cuida dela. Callum. _ Bem acho que fui dispensado. _ Sim. seu jabô branco. Era uma das mais jovens e talvez pudesse ser subornada. deu de ombros. vestido com muito mais descontração do que na manhã anterior. Katrine estava na cozinha. ele acrescentou: _ E esquecido por causa de uma garotinha. _ Se você sabia que ela não podia me entender. quem cuida dela? Pelo estado de suas roupas. eu diria que ninguém se incomoda com ela. Mas. enrolando biscoitos da massa que Flora preparara. Quando viu a menina. porque me deixou continuar. Ela voltou para o caldeirão e seus pensamentos ficaram tão voltados para Meggie que nem ouviu o comentário de Callum. _ Então. Quando chegou perto dos cavalos. Raith disse alguma coisa que ela não conseguiu compreender. Raith estava com um ombro encostado na porta. mas o que ela faz aqui? Quem são seus pais? _ Os pais dela estão mortos. mas a criança não hesitou nem um instante antes de atirar-se em seus braços. _ A moça não estava sendo mal-educada. finalmente perguntou se a criadinha era mal-educada por natureza ou apenas covarde demais para desobedecer as ordens do lorde de não conversar com uma Campbell. pensou Katrine. Raith também parou e sorriu para ela. _ Quando Katrine não respondeu.. _ Seria bom sair um pouco da casa. Raith é o seu tutor legal. _ Sei que sou uma prisioneira aqui _ resmungou Katrine _. a ajudante limpava ervilhas. Raith colocou-a no chão e afagou-lhe a cabeça antes de ela sair correndo como um coelho assustado na direção da cocheira. tudo o que ela recebeu foi um olhar desinteressado.

se me fosse dada a oportunidade.. nem mesmo aquele abominável Raith MacLean. se tivesse permissão para sair da casa. _ Não tem medo que eu envenene sua comida? Raith devolveu o olhar sério por um instante. seu malvado sem coração! Nunca tratei nem mesmo o mais humilde de meus criados como você me tratou. desejando que fosse o nariz de Raith. uma cidadezinha perto da fronteira. _Olhe. tratam as mulheres mal-humoradas. Ora. Pegando-a. Nunca seria capaz de ferir um ser humano. _ Biscoito de aveia. como desafiando-a a usar a faca. _Admoestação! É muito mais do que isso. _Eu não sabia que você não estava recebendo alimentação adequada. Se você tentasse me envenenar. _Ah. O brilho de antecipação nos olhos azuis refletia o quanto a idéia de lutar com ela o divertia. não descobri nenhum veneno. Seu olhar caiu sobre o sgian dhu que a ajudante de cozinha estivera usando para cortar os fios das ervilhas. E ele sabia muito bem disso. é? E como acha que eu iria convencê-la? Flora só estava seguindo suas ordens. Ele ergueu uma sobrancelha. _Mas juro que eu o faria. Depois. Ela fica presa na cabeça e tem uma ponta de ferro que encosta na língua. estou até surpresa por você me deixar ficar em sua cozinha _ disse. seu cadáver jamais chegaria ao seu tio. _ Sabe como os bons moradores de Langholm. Raith MacLean estava se divertindo com sua raiva! Ela olhou em volta.Apertando os lábios. mingau de aveia! Pensei que você tivesse meios para oferecer alguma variedade para seus prisioneiros.. Mas pensando bem.. Eu nunca. _Algumas crianças escocesas não comem mais do que uma bolacha de aveia por dia e se consideram afortunadas. que estão sempre. A resposta foi uma risadinha que a atiçou ainda mais. Mas Katrine jamais cometeria um gesto como esse. Houve uma pequena pausa antes de Raith responder. Katrine olhou com raiva para a mistura de aveia com gordura. _Sem dúvida! _Você devia ter pedido mais comida a ela. Acho que Flora andou levando muito a sério seus deveres como carcereira. socou uma pelota de massa. com azedume. e como ela iria se humilhar desse jeito quando o que realmente queria fazer era chutar-lhe as canelas. e você poderia ter me procurado. Não era grande conforto saber que Flora. . mas Katrine o ignorou. _Você ameaçou me trancar se eu não o servisse. _Aveia! Estou farta de aveia! _ falou. _Não foram essas minhas ordens. virou-se para Raith. reclamando? Colocam nelas uma mordaça parecida com um bridão de cavalo. pensou Katrine.. era a responsável pela sua dieta de aveia. e não Raith. assumindo uma expressão de zombaria.. Ficou ali. _Não. Aliás. Meu tio teria uma boa causa para sua vingança quando você lhe devolvesse meu cadáver. pontuando cada palavra com um aperto na massa. procurando uma arma para mostrar ao maleducado que não estava para brincadeiras. _ Você nunca se cansa de fazer suas ameaças vis e desumanas? . cheia de fúria.. impotente. Isso cala qualquer megera. _ Quando você pretende me soltar? _ Quando você não for mais necessária. O tom de Raith se tornara cortante. Com toda a certeza eu encontraria algo letal na horta.A expressão de Katrine alternava fúria e desdém. Katrine voltou para a mesa onde estava a massa. sopa de aveia. mas eu esperava algo mais do que rações de fome. mas logo relaxou o rosto. acho que eu preferiria mesmo morrer de inanição. _Será que estou detectando uma admoestação? _ Dessa vez havia humor nos olhos e lábios de Raith. enfrentando os olhos azuis com o cenho franzido. a faca que era a única lâmina que os rebeldes montanheses tinham permissão de possuir. o que a lembrou de uma das queixas que queria fazer ao seu captor. seu.

direi a Flora. desarmando-a por completo. estendendo o xingamento para seu primo e Lachlan. _ A arrogância do patife! Eu devia ter enfiado a faca nele quando tive oportunidade. _O lorde disse que você deve comer o mesmo que todos _ anunciou ela. dando outro soco na indefesa massa . Olhando feio para onde ele saíra. _Quanta generosidade _ resmungou Katrine. . Só então lembrou-se que não o interrogara sobre sua pupila. e acrescentou por entre os dentes. _ Raith ficou olhando-a por um instante e depois. centrou seu ressentimento apenas em Raith. _Aqui nas Terras Altas temos um ditado: “Se você não pode morder. saiu da cozinha. Sentindo-se uma completa tola por brandir uma faca que nunca tivera a intenção de usar. Katrine forçou-se a ficar de cabeça erguida enquanto recolocava o sgian dhu na mesa. sem pedir licença ou se despedir.Raith foi o primeiro a quebrar o silencio. Mas. quando voltou à massa. quando Flora entrou na cozinha. não especialmente encantada.disse suavemente. _Legumes? Muito bem. A ira de Katrine aumentou mais um pouco diante dessa grosseria. não parecendo nem satisfeita nem aborrecida com as novas ordens. mas garanto-lhe que guardarei isso em mente. resmungou uma frase que colocava sérias dúvidas sobre a legitimidade do nascimento do lorde. Flora ouviu e estreitou os olhos azuis. que nada perdiam. _ Que tipo de variedade você gostaria de ter em seu cardápio? . Estava descontando sua fúria nos pobres biscoitos. _Eu gostaria de legumes. _Eu ainda não tentei mordê-lo _ retrucou Katrine. não mostre os dentes.

Não queria forçar Meggíe. Foi por isso que na tarde daquele mesmo dia ela achou que sua imaginação a estava enganando quando sentiu a presença da criança enquanto varria o piso de pedra de uma das salas de trabalho. ela conseguira um contato com a garota. Lembrando-se do incidente na cozinha. _ Você compreende inglês. viu que as feições dele estavam sombrias.” _ E o bastante.. _ Quer cantar comigo. Katrine percebeu que dissera a coisa errada e voltou a varrer a sala. O rosto e cabelos estavam tão sujos como no dia anterior. A menina entendeu pelo menos a palavra sassenach porque recuou. Mas talvez. ela de vez em quanto lançava um olhar para a garotinha. Quando ela se virou. mas ela usava um vestido diferente. Ela parou de varrer e cantou a música até o fim. Mesmo se não falassem a mesma língua.. Katrine parou de sorrir enquanto inspecionava a menina. Meggie estava logo perto da porta. ou Flora. segurando o que parecia ser uma boneca de trapos. sobre dois corvos discutindo a sorte de um cavalheiro andante. . A voz de Raith veio da porta e surpreendeu Katrine com sua aspereza. menos sujo. Mantendo seus movimentos constantes e vagarosos. Mas não era sua imaginação. estavam à vista. Não importava em que tarefa estava se ocupando. Não houve resposta. Uma levíssima sombra de sorriso surgiu nos lábios da criança e tocou o coração de Katrine.. A primeira linha é bem fácil. Katrine sentiu o coração batendo de alegria no silêncio que se seguiu. com um brilho assustado no olhar. a visão dos olhos escuros e assustados no rostinho pálido não saía de sua mente. srta. Ela era quieta. o quanto procurava se concentrar em resolver o próprio problema de efetuar uma fuga de Cair House. Katrine lançou um rápido olhar para a porta. Meggie só continuou olhando. _ Especialmente quando Flora mandou-a ficar longe de mim. Essa constatação perturbadora só acrescentou força às suas palavras de irritação. mas você parece ser uma menina inteligente e acho que vai decorar rápido. começou a cantarolar baixinho uma música que aprendera em criança. Meggie? _ disse e repetiu a pergunta usando algumas das poucas palavras que sabia do dialeto. Era a simples presença dele que a afetava dessa maneira. No entanto nem ele nem seu primo. esperando que fosse fugir a qualquer instante. eu descobri seu nome. pensou Katrine. colocou a letra na canção. parando de varrer. não? Está vendo. descobriu os olhos solenes a observando.. como a ajudante de cozinha. Meggie? Á letra é muito comprida. _ Estou honrada por receber sua visita.CAPÍTULO VI Katrine tentava se convencer que não podia tirar a menina órfã do pensamento porque criara duas irmãs mais jovens. quase esperando ver o lorde dos MacLean espionando. Vendo Meggie inclinar a cabeça como um passarinho curioso. Ao ver que ela continuava no mesmo lugar. Repita comigo: “Eu estava andando pela. _ Você é Meggie. só falasse gaélico. Mas o salto absurdo que seu coração deu naquele momento não teve nada a ver com a surpresa de sua chegada ou a expressão de desagrado. quieta demais. _ Alô _ cumprimentou. Campbell. Quando virou-se. Quando terminou o último verso. os olhos de Meggie brilhavam.

onde esteve até agora? Escondendo a cabeça sob as cobertas? Estupro e morte são comuns nas Terras Altas. Se continuarem a agir assim.. Se você tem de castigar alguém. Partindo em defesa da menina. Tudo o que fiz foi conversar com ela e.. _Ela não fala. _Você está completamente errada. foi seu olhar que gelou o sangue de Katrine. mas eu a fiz ficar cantando uma música que atraiu sua atenção. fazendo-a estremecer. Eu não maltrato minha pupila e ela não consegue falar com ninguém. castigue a mim. ela ouvira falar das atrocidades nas Terras Altas. temos sido tratados como animais. Todavia. Mesmo vivendo em seu mundinho protegido na Inglaterra. sem dúvida! Eu também faria o mesmo se eu fosse criança e você me olhasse com essa cara. _ O tom continuou letal. olhando-a com desprezo. srta. ela engoliu em seco. _E principalmente não com você. _Não quero ver você perto dela. assustada. tudo é culpa dos ingleses! E o que eles poderiam ter feito com uma criança indefesa? Quando Raith falou. como que concluindo que iria ser castigada por desobedecer ordens. mas imaginava que havia exagero nos relatos. Katrine explodiu: _ Ela não fez nada de errado! Só está aqui por minha culpa. _Eles estupraram e mataram a mãe dela diante de seus próprios olhos. _Meggie. mas descobriu que sua voz era apenas um sussurro. num silêncio chocado. Raith apertou os lábios. _ começou. de rebeldes queimados vivos e mulheres e crianças atacadas com a beleza das terras da qual se lembrava tão bem. Campbell. Devia criá-la muito melhor. _Eu não ia machucá-la.. _ O tom foi tão suave e mortal que Katrine teve de lutar para não estremecer. sentindo a consciência pesada. ._ Você tem sempre de aparecer de mansinho? Você e seu primo já me tiraram um ano de vida com os sustos que me pregam quando se aproximam de mim. visivelmente lutando para manter a paciência. Ela parou. _Fique longe dela. Talvez simplesmente não quisera acreditar em tais horrores. engoliu em seco e recomeçou: _ Como se permitiu uma coisa dessas? _Permitiu? _ O olhar de Raith pareceu transpassá-la. Quando ela desapareceu de vista. apertando a boneca contra o peito. seu tom baixo foi cortante. _ Agradeça aos soldados sassenach por isso. nós. sua responsabilidade. Raith ignorou-a. que nos mantivemos leais ao verdadeiro rei. _Oh.. inclusive comigo.. O rosto de Raith parecia feito de granito e seu tom vibrou entre os dois. apesar de você me achar capaz de tudo. _Como. A garotinha lançou-lhe um olhar angustiado e saiu correndo da sala. Raith virou-se para Katrine. Jamais maltrataria uma criança. E a propósito. por que trata tão mal essa criança? Ela é sua pupila. _Mas por quê? Penso que está sendo totalmente irracional. vou viver bem pouco! Katrine arrependeu-se de levantar a voz no mesmo instante.. Desde o Quarenta e Cinco. Envergonhada de suas palavras ásperas. porque Meggie encolheuse. você não deveria estar aqui. vá agora _ disse Raith. Jamais lhe passara pela cabeça conciliar histórias de feridos sendo mortos à espada. Ela queria fugir. Katrine ficou encarando-o boquiaberta. _Meggie não fala inglês? Mas ela pareceu entender bem a música e. _O que estou querendo dizer é que Meggie não fala com ninguém. moça. Ela só pode ter medo de você. _ Ele fez uma pausa. _ Pelo amor de Deus. Por que não vai procurar Flora? A menina só olhou para ele. mas suavizou o olhar quando fixou-o em sua pupila. claro. Ela também não procurou proteção em Raith e lançou um olhar assustado para seu rosto sério. são o modo inglês de fazer justiça. _Meggie.

_Você quer detalhes? Que curiosidade mórbida! Katrine enrijeceu o corpo com a resposta. A falsidade de sua gratidão irritou Raith. Depois. Já estava se sentindo muito desconfortável quando Raith. Suas chances de escapar agora seriam muito maiores. pois sempre que lembrava da trágica história de Meggie. no tom mais ácido que conseguiu. por que vinha à ala de serviço para atormentá-la. sem uma outra palavra. _Isso não lhe diz respeito. mas com toda a certeza não seria algo agradável. não existe motivo para você ficar trancada aqui o tempo todo. encarando-o num desafio. fez uma reverência. estava desesperada por respirar um pouco de ar livre. _Não se trata de uma curiosidade mórbida _ disse calmamente. Decidiu que não seria a primeira a abaixar o olhar. Katrine procurou esconder sua ansiedade. Então era sorte ela não ser obrigada a usar a privada. _Esta manhã _ disse ele. Katrine respirou fundo e relaxou quando ouviu os passos se afastando. Depois de passar vários dias trancada. recordava-se do olhar desdenhoso de seu tutor. Ele não terminou a ameaça. encostando a vassoura na parede. Na verdade. virou-se de costas e saiu. mas só perderia com isso. Não tinha a menor idéia do que ele pretendia fazer. mas não foi embora. da acusação qt~ vira em seus olhos. _ Já dei ordens para ser vigiada vinte e quatro horas por dia. dos MacLean. Mal acreditando em seus ouvidos. Só quero que se mantenha longe dela. Esperava que ele fosse embora. pegou a vassoura e começou a varrer com gestos decididos.Mas Meggie era jovem demais para ter estado envolvida nas retaliações depois do Quarenta e Cinco. Estava claro que Raith não pretendia explicar nada para ela. mas Katrine ergueu o queixo. Katrine teria respondido com azedume. Não conseguirá nem mesmo usar a casinha sem que uma dezena de pares de olhos a acompanhem. _Um dia. Mas alguns instantes depois ainda podia sentir o olhar sombrio em suas costas. Com raiva renovada. _Quando isso aconteceu? _ perguntou Katrine. srta. _É algo que faz com freqüência. mas dada à resposta que recebera anteriormente. Raith simplesmente afastou-se. só conseguiu um êxito parcial. Com toda a certeza ele se regozijara em acender suas esperanças para em seguida destruí-las. lembrando-se da expressão atormentada nos olhos escuros e desejando compreender a situação. Não podia imaginar por que ele continuava ali. Em outras circunstâncias. Resolvi atender seu pedido. que não perderia a compostura sob aquela expressão feroz. concorda? Talvez seja melhor usar a vassoura em vez da língua. no mesmo tom impassível de antes _ você mencionou o desejo de sair da casa. Campbell. já que em seu quarto havia um urinol. No entanto. Foi com satisfação que fez a poeira voar na direção do lorde de Ardgour. preferiria ser esquartejada do que agradecer o senhor. eu falei impensadamente. Virando-se de costas para ele. Gostaria de poder recusar a oferta magnânima com altivez. Mas uma dama jamais falava nessas coisas. Claro que ele não faria a oferta se pensasse que sua prisioneira tinha a menor possibilidade de escapar. Mordendo a língua. como se a culpasse pelo que os . _Não vejo motivo para você não ter maior liberdade _ continuou Raith.. esperando que o arrogante se engasgasse com ela.. O arrependimento de Katrine sumiu diante do sarcasmo de Raith. uma Campbell inglesa. Katrine lançou um olhar rancoroso para Raith.. Katrine aumentou a velocidade de seus gestos. _Sua generosidade é tocante _ retrucou. decidida a tirar Raith MacLean da cabeça. No entanto. Depois voltou a varrer com renovado vigor. apenas desculpou-se: _Eu. dizendo que só queria ajudar.. Eu só queria saber mais sobre Meggie.

Não querendo que seus chinelos já maltratados se estragassem no orvalho. Cheia de entusiasmo. então. Ela acabara de se servir da primeira refeição decente que ia ter desde seu seqüestro. E gostaria de aproveitá-lo sozinha. Encantada. Enquanto isso. ficou ali por mais um instante. com toda a certeza seu tio viria libertá-la. libertando os cachos vermelhos. Katrine quis saber mais. Só quando ouviu Katrine censurar o lorde por não estar cuidando direito de sua pupila que ela voltou a falar. de algum modo conseguiria enganar seus captores. Deixou os cabelos soltos. balançando a cabeça. sua disposição melhorou muito e quando estava subindo as escadas para se recolher ao seu quartinho. Quando entrou debaixo das cobertas já estava ansiosa pelo dia seguinte. com um brilho que prenunciava um dia ensolarado. Soltou a trança. _ Não vou demorar. No instante em que viu Flora. No momento em que se viu do lado de fora. aproveitaria ao máximo a permissão de sair da casa. notou com alegria que ainda não amanhecera. Quando chegou ao final do pátio calçado. mas não quis perder tempo se penteando. e agora os picos estavam tingidos pelo rosado do alvorecer. _É verdade que Meggie não pode falar? _Sim. Bem perto. Sim. deu a volta na estrebaria e tomou a direção da trilha que levava a um riacho que corria nos fundos da mansão. com árvores altas e arbustos verdejantes. No dia seguinte exploraria as vizinhanças e tentaria formar uma idéia melhor da região. Olhando para a cheirosa torta de carne com legumes. Só seria um pouco mais difícil do que imaginara de início. Diante dela as encostas das montanhas de Ardgour elevavam-se abruptamente para o céu. ela respirou fundo. Katrine parou abruptamente. recuperara toda sua antiga confiança. fora por isso que quisera tanto voltar às Terras Altas. esperando a oportunidade certa. temia ser impedida de explorar o vale se acordasse os moradores. sabendo que não seria compreendida. como costumava fazer quando era criança e como era hábito de todas as moças e meninas das Terras Altas. Katrine lançou um olhar a sua volta. . Com o estômago cheio. esgueirou-se atrás dos arbustos de azaléia e fez uma pausa para admirar de novo a magnífica paisagem. ficava a mata. ela perguntou sobre a menina. como se fosse uma ostra. Apesar de ter obtido a permissão do lorde para deixar a casa. Quando Katrine acordou. Rezando para não ser vista. caindo em cascata pelos ombros. _ A moça sorriu timidamente mas não fez menção de pará-la. A cena a cativou. Sim. é. fria e clara. vendo as sombras da noite desaparecerem e depois apressou-se a se lavar e vestir. Ela desceu pé ante pé. Depois do jantar. Pobre menina! _ disse a governanta. As montanhas estavam banhadas numa luz acinzentada. foi mais fácil tornar-se otimista sobre o futuro. Se não conseguisse escapar sozinha. Ela queria apenas ser parte desse novo e belo dia. Seu último pensamento antes de adormecer foi desejar que não chovesse. Katrine já percebera que ~i gover~1anta tinha o hábito de pontuar suas falas com provérbios e esse em particular viera na hora exata. mas faixas vermelho-claras agora cortavam o céu. Era uma magnífica madrugada de fim de primavera. mas o murmúrio de vozes masculinas vindo das estrebarias foi uma forte indicação de que o clã MacLean começava a acordar. O pátio estava deserto. acompanhando a margem oposta do riacho. Ficaria de olhos abertos. Os pensamentos de fuga saíram completamente de sua mente. deliciando-se com a esplêndida paisagem.soldados ingleses haviam feito. Quando chegou à cozinha. _Aqui nas Terras Altas nós temos um ditado: “Não fale mal daqueles cujo pão você come. resolveu conter a língua. encontrou apenas a ajudante. As montanhas que avistava pela estreita janela de seu quarto ainda estavam imersas na escuridão. saiu do quarto descalça. enquanto o horizonte tornara-se carmim. Ela começou a elaborar seus planos enquanto vestia a camisola e trançava os cabelos. mas Flora fechou a boca. _ Vou sair por um instante _ explicou.

Antes mesmo que chegar a ele. mas não ia mais se deixar surpreender pela engenhosidade de sua refém. Raith deu graças pela inquietação que o fizera saltar da cama mais cedo que o habitual e ir para a janela. Feito isso. Enrolando-o na cintura e prendendo-o com um cinto largo. Katrine não sabia exatamente como agir. ela não conseguiu afastar o olhar. . embora sempre o acompanhassem de meias e sapatos. preocupação com sua segurança. apesar de relutar em admitir. decidido a perseguir Katrine. Pôde perceber isso pelo modo como levantou a cabeça e enrijeceu o corpo. Katrine surpreendeu-se com aquela súbita aparição e com o efeito que ela exerceu sobre seus sentidos. Katrine teria maior dificuldade ainda em fugir pelo lado das montanhas. mas nada de Katrine Campbell. Duvidava que ela conseguisse escapar por ali. não teve como evitar seguir o progresso de Raith enquanto ele subia. fez uma pausa. percebeu Katrine. Foi esse último sentimento que mais pesava na mente de Raith MacLean enquanto ele seguia o caminho que Katrine tomara. Afinal. entrou na mata. Quando entrou no vale. Quando Raith chegou perto. ela estava estudando umas margaridas que cresciam numa fenda da rocha. observando os poderosos músculos de seus braços e pernas. dos escoceses mais pobres usavam apenas o xale. Ela corou. De início não teve êxito. Com um esforço. não tentou fugir. apressou-se a sair do quarto. Todavia. No entanto. com os braços em torno dos joelhos. enquanto ele subia a encosta. _ Eu queria ver o nascer do sol. Mas seus homens já estavam bem alertas para essa possibilidade e haviam tomado todas as providências para impedi-la. _ O que esta atrevida está pretendendo? _ resmungou. como estava acontecendo desde que decidira manter Katrine Campbell como refém. Quando ele levantou um joelho mais alto para vencer uma rocha. Antes do Quarenta e Cinco grande parte. Com toda a certeza. Por isso a seguiu. Mesmo um caçador experiente podia se perder nele. Era absurdo o modo como seu coração saltava quando se via diante desse homem. E. usando a ponte de troncos para atravessar o regato murmurante. _ Não diga.Inclinando-se. Depois. Não devia pensar nele como um cavalheiro qualquer e muito menos desenvolver uma atração por ele. a trilha se abria num vale. apertando o peitoril. censurou-se. viu apenas partes da superfície cintilante do lago. com os sentimentos em tumulto. Sentia apreensão com a possibilidade de ela conseguir fugir. cobrindo o peito. ficar olhando fixamente para ele como se fosse uma tola não era o comportamento adequado nas circunstâncias. Estava já na metade do vale quando a avistou bem a sua esquerda. porque ali o terreno era. o saiote afastou-se expondo uma boa parte de coxa. com passos largos e decididos. Ele atravessou o riacho. selvagem e traiçoeiro para os que não o conheciam. Praguejando baixinho. Katrine puxou a barra da saia e prendeu-a na cintura para não tropeçar. Irritação por ter de ser ele a pessoa a impedi-la. A outra extremidade atirou sobre o ombro esquerdo. Confrontando-se com tanta masculinidade. Raith assistiu a partida de Katrine. Mas Raith estava descalço. repreendendo-se de novo. A distância. Sentada numa pedra chata e coberta de musgo perto da cascata. pôde ouvir o turbilhonar de outro pequeno rio que cascateava pelas rochas até chegar a um pequeno mas profundo lago. Só ficou olhando-o cautelosa. Dali pôde ver que seus pés eram fortes e graciosos. Ela o viu. ela assistia ao nascer do sol. _ Quer me fazer o favor de dizer o que está fazendo aqui? _perguntou ele num tom enganosamente suave. procurando por entre a névoa azulada uma moça esguia e de cabelos de fogo. afastou o olhar. Ele estava nu sob o xale. Depois de uns cem metros. e que as pernas e o peito ostentavam pêlos tão negros como seus cabelos. De uma das janelas de seu quarto. ele atravessou o quarto nu como estava e pegou o xale xadrez que pendia de um cabide. Raith MacLean era seu raptor. Esse modo de vestir podia ser ilegal mas não era incomum. formou um saiote. Avistara sua refém tomando a direção das estrebarias e imaginou se ela ia tentar roubar um cavalo. um inimigo de seu clã. Desagrado pela atração que essa moça geniosa exercia sobre ele. chocada.

mas não disse nada. no mesmo tom agradável. não sobreviveria. Seu olhar teimava em se desviar para a mulher ao seu lado. _ O grande problema nestas colinas é o nevoeiro. não conseguindo ignorar a ousada exibição de músculos masculinos. Quando finalmente Katrine ergueu o olhar para Raith.. _ Katrine estreitou os olhos. ele encontrou os olhos verdes com expressão divertida. aqui. _ Não imaginei que você saísse numa excursão para ver a paisagem _ disse ele secamente. _ Mas você não deve se preocupar. _ Mas os gatos selvagens não são o maior perigo daqui _ continuou Raith. Raith encarou-a por alguns instantes e então sua expressão se desanuviou. O céu pode estar perfeitamente claro num instante e no seguinte aparece uma neblina mais espessa do que uma sopa de ervilhas. mas os azuis escuros de Raith a enfrentaram. Raith apoiou o peso nos cotovelos e estendeu as pernas compridas. como você.. Katrine imaginou que iria retirar a permissão. Foi daí que surgiu a idéia de nosso brasão. _ Além disso . Poderia mesmo morrer tentando fugir por esse território inóspito. quando Raith permaneceu em silêncio. cruzando-as nos tornozelos. Katrine mudou de posição e tentou dirigir sua atenção para outro lugar. Katrine respirou fundo para se acalmar. Mas ele era um montanhês e não uma moça de cidade. Imaginando se ela sempre mantinha a espinha assim tão ereta. Compreendera bem o que ele quisera dizer: se estivesse planejando fugir pelas montanhas. com o cenho franzido. . Contudo. Katrine ficou tensa. Cerrando os lábios. _ Raith deu um leve sorriso. Raith também admirava o nascer do dia. _ Está querendo me assustar. ergueu os olhos para ele e viu-o com o rosto muito sério. e inglesa. Se fosse surpreendida por uma dessas. que cobre o vale por dias seguidos. _ E o que aconteceu? _ perguntou. Katrine fitou-o com clara descrença. _ Você está acostumado com tudo isto _ ela fez um gesto abrangendo a natureza que os cercava _. sentando-se ao lado dela. Sentado ao lado de Katrine. Não quero ser obrigado a salvá-la. Katrine duvidava muito que o próprio lorde em pessoa se daria ao trabalho de salvá-la se ela se visse nessa situação. voltou o olhar para o horizonte. decidida a ignorar seu indesejado companheiro O silêncio entre eles estendeu-se por vários minutos. _ Ele morreu? _ Não. mas estava tendo dificuldade em manter sua mente ocupada com pensamentos tranqüilos. Ela não corria risco de vida em Cair House e seria tolice morrer numa tentativa de fuga se ainda havia uma boa chance de seu tio vir em seu socorro. Inclinando-se para trás. _ Foi sorte não encontrar um gato selvagem. Katrine não conseguiu evitar a curiosidade. um gato da montanha geralmente evita os humanos e não luta se não for provocado. Sentindo os olhos azuis fixos nela. Preocupada. Estava quase desmaiando de inanição quando colocou seu machado de guerra ao lado de um pé de uva-do-monte e deitou-se para morrer. talvez não saísse viva dali. Foi encontrado. Ele foi surpreendido pela neblina e vagueou sem rumo por quatro dias. _ Um gato selvagem? Aqui? _ Sim. _ É a pura verdade. e tentando evitar problemas para mim. mas eu apenas sonhava com isso. Peça a qualquer MacLean contar a história de Gillean. Sem dúvida saberia lidar com ele. Estou só alertando. ela se recusou a deixar Raith MacLean estragar a beleza do alvorecer obrigando-a a pensar em seu cativeiro.Raith nem mesmo lançou um olhar de relance para a vista.continuou ele -. _ Não. o primeiro chefe de nosso clã._ Você disse que eu podia sair da casa porque não haveria jeito de eu fugir. Como Raith não respondesse imediatamente. desmaiado. percorrendo as linhas esbeltas de seu corpo. deslizou o olhar para a . O pensamento a fez refletir melhor. Um tanto aflita por vê-lo assim tão perto. garanto. _ Vi um veado bebendo no lago.

cintura fina e curvas suaves dos quadris. Seus olhos experimentados logo notaram a falta de um espartilho e anquinhas. Lembrava-se das pernas bem torneadas, agora cobertas pela saia. Mas a imaginação o fez visualizá-las em torno de sua cintura enquanto desfrutava de indescritível prazer com sua refém. A imagem fez seu ventre se contrair. Tentando banir esse pensamentos, Raith ergueu os olhos para os cabelos de Katrine, o que foi um grave erro. A massa de cachos cor de cobre estava simplesmente radiante sob os primeiros raios do sol. Determinado a romper o encantamento em que a feiticeira Campbell o estava envolvendo, Raith pigarreou e deu voz ao primeiro pensamento que lhe ocorreu. _ Flora me contou que você não lhe deu nenhum trabalho. Katrine não respondeu. Uma conversa desse tipo poderia levá-la a perder a paciência. Refreou a língua, desejando que Raith fosse embora. _ Você parece ter bastante experiência em cuidar de uma casa - continuou ele, preguiçosamente. _ Estou acostumada a supervisionar os criados da casa de minha tia _ esclareceu Katrine, forçada a responder. _ Tia Gardner está convencida que para saber mandar, a mulher deve saber fazer. A frieza do tom deveria ter persuadido Raith a ir embora, mas ele não parecia ansioso para terminar a conversa. _ E as bolhas em seus pés? Já estão curadas? A mudança de assunto foi perturbadora, pois a fez lembrar-se da delicadeza com que ele cuidara de seus pés e do joelho machucado. Não estava com a mínima vontade de discutir. seus problemas, mas resolveu que seria mais sábio responder a pergunta. Raith MacLean era bem capaz de querer vê-las. _ Sim, já estão curadas. _ E seu joelho? Estaria ele querendo deixá-la sem jeito? Katrine teve de resistir ao impulso de puxar mais a saia. Murmurando uma resposta afirmativa, lançou um olhar de esguelha para Raith. Com o xale escuro, os cabelos negros soltos e despenteados, o queixo escurecido pela barba, ele mais parecia um bandoleiro. Como podia encontrar tanto prazer em observá-lo? E por que achava sua perigosa masculinidade tão atraente? Não era justo, pensou ressentida. Raith não se mostrara nem um pouco impressionado com ela, enquanto a simples visão dele a estava perturbando a ponto de ela achar que iria enlouquecer. O pior era que a lamentável reação de seu corpo aumentava sempre que seus olhos se encontravam com os dele. Sem dúvida, se ele viesse a tocá-la de novo. Katrine forçou seus pensamentos a mudarem de rumo. Não devia estar com essas idéias tolas. Não queria que ele a tocasse, não podia estar atraída por esse homem. Ele era o lorde de Ardgour e um feroz inimigo dos Campbell e dos ingleses. Foi pensar nos ingleses que levou-a a recordar a triste história de Meggie. _Há quanto tempo Meggie não fala? _ perguntou, dando graças pela possibilidade de mudar de assunto. Raith não pareceu compartilhar sua opinião, pois franziu o cenho e não respondeu. No silêncio que se seguiu, Katrine estudou-o. Os cabelos escuros eram iguais aos da menina, e havia até mesmo uma leve semelhança em seus traços. _Meggie é sua filha? _ perguntou abruptamente. Raith virou-se para ela, estreitando os olhos, perplexo. _Não. Não é. _Não seria nenhuma desgraça para um homem ser pai de uma criança tão graciosa como Meggíe. E seu primo já me contou que a ilegitimidade não provoca um estigma como na Inglaterra.

O rosto de Raith ensombreou-se ante aquela irritante franqueza. _Que eu saiba, não sou pai de nenhuma criança viva. Minha mulher morreu de parto. _Oh! _ Katrine olhou-o com um ar solene, desconfiando que Raith não gostaria de falar na mulher. _ Lamento. _Penso que Meggie é um tipo de sobrinha. _ A irritação no rosto de Raith suavizou um pouco. _ A mãe dela era uma prima distante minha. _E faz muito tempo que Meggie perdeu os pais? _Perdeu a mãe. O pai dela já havia morrido. Foi fuzilado como traidor antes mesmo da menina nascer. _Está bem então. Faz tempo que Meggie perdeu a mãe? Quantos anos tinha? _Cinco. _Os soldados.. - eles... _ Katrine não conseguiu terminar a pergunta. _Quer saber se eles a violaram como fizeram com sua mãe? Não, srta. Campbell. _ O tom de Raith foi baixo e assustador. _ Mas eles a maltrataram muito antes de seus parentes aparecerem para salvá-la. Os malditos pagaram com a vida, mas Meggie, traumatizada, perdeu a voz. Katrine ficou olhando para ele, achando difícil até mesmo imaginar o horror pelo qual a criança tinha passado. _Alguém devia ajudá-la. _Isso não é da sua conta. _ Raith levantou-se abruptamente. - Eu a avisei para ficar longe de Meggie. Ela não precisa ser constantemente lembrada do que os ingleses fizeram a sua mãe. _É crueldade sua me igualar àqueles soldados... àqueles animais.. ou sugerir que eu poderia tolerar um crime tão hediondo, especialmente um cometido contra uma criança. Nenhuma pessoa civilizada toleraria! _Será mesmo? Vocês ingleses, vocês Campbell... - Raith enunciou os nomes como em dúvida sobre qual era o mais desprezível. _ Vocês... criaturas civilizadas, tem noções peculiares sobre o que é hediondo. Ficam chocados com os maus tratos contra crianças, mas toleram a traição e o assassinato. Bem, explique isso a Meggie e fale também das centenas de crianças escocesas que viram seus lares incendiados ou sentiram a lâmina de uma espada inglesa. Katrine recuou, estremecendo ante a expressão sombria de Raith. Mas era inútil continuar essa discussão ou tentar se defender do ódio de seu captor. Raith MacLean nunca deixaria de vê-la como um inimigo sanguinário em quem não devia confiar. _ Quando você pretende negociar meu resgate? _ Quando me aprouver! Katrine encarou-o, furiosa. Depois um pensamento lhe ocorreu de repente. Se o lorde de Ardgour tivesse sido ligado o seu seqüestro, Cair House já deveria ter recebido a visita dos soldados ingleses. Ela não vira nenhum movimento anormal e, sem dúvida, teria sido escondida em algum canto caso houvesse estranhos chegando. Sim, Raith não pretendia assumir a responsabilidade pelo seqüestro. _Meu tio não faz idéia que você me raptou, não é? _Espero que não. _E a milícia? _Com toda a certeza eles têm suas desconfianças. Eu e vários membros de meu clã fomos convidados para comparecermos ao forte William e conversarmos com o comandante da guarnição. Então fora por isso que Raith e seus companheiros tinham saído tão luxuosamente vestidos. Agora, pelo menos, Katrine tinha certeza de que alguém a estava procurando.., ou estivera. Raith MacLean com toda a certeza fornecera pistas falsas. Além disso, até mesmo um general inglês relutaria em enfrentar um chefe das Terras Altas sem prova de culpa. Agora que uma certa paz chegara à Escócia, vigorava a política de evitar derramamento de sangue. Mas a menção do forte William deu a Katrine motivo de otimismo. Ela sabia que essa

guarnição ficava no sopé do Ben Nevis, o pico mais alto do país. Olhou para o horizonte, esperançosa. A distância, a muitas léguas dali, ela podia avistar uma imensa montanha que supôs ser Ben Nevis. Ela até parecia próxima, mas não tanto quanto o necessário. Se conseguisse sobreviver aos perigos do terreno e da neblina traiçoeira, teria de atravessar o lago Linnhe a nado, pois seria mais fácil ela criar asas do que alguém aceitar transportá-la. Notando a direção para qual Katrine olhava, Raith adivinhou seus pensamentos. E, vendo o brilho de desespero em seus olhos, sentiu outra pontada de culpa por ter de usá-la em sua luta contra Argyll e Colin Campbell. Mas não podia lhe oferecer nenhum conforto, pois ele mesmo não tinha certeza de qual seria o resultado de tudo aquilo. Também não podia garantir se ArgylI concordaria com os termos do resgate. Ela só aumentou ainda mais seu remorso quando perguntou, num fio de voz: _Você tentou entrar em contato com meu tio? Raith passou a mão pelos cabelos. Com toda a certeza Katrine entendia por que ele não podia assumir a responsabilidade pelo seqüestro. No momento que fizesse isso as montanhas de Ardgour ficariam cheias de soldados ingleses. Subitamente sentiu uma raiva imensa. Ela não pertencia às Terras Altas. Não a queria ali. No entanto, seria obrigado a aturar sua presença por mais algum tempo. A raiva deu um tom ácido a sua voz quando respondeu: _O que queria que eu fizesse? Que mandasse um cartaz indicando seu paradeiro? _Eu pensei... _ Katrine parou, envergonhada pelo modo como sua voz tremeu. _ Pensei que você pelo menos apresentaria suas exigências ao meu tio para ele poder tomar providências sobre o resgate. _É o que pretendo fazer, mas não serei tão idiota a ponto de me identificar. E será quando eu quiser. Quando chegar a hora, eu a usarei como for mais adequado. Os olhos de Katrine cintilaram de indignação. _Você nem mesmo é um criminoso adequado. Não teve nem a decência de conduzir um seqüestro dentro dos procedimentos normais. Ela jamais conseguiria ser dócil por muito tempo, pensou Raith, aliviado. Por outro lado, angustiava-o aquela situação toda, pois não encontrava prazer em vê-la humilhada ou derrotada. _O verdadeiro criminoso é seu tio. _Não! Meu tio é o homem mais honesto que conheço. _Ah, claro. Honesto em seu uso impiedoso da autoridade. Mas existem algumas qualidades em um homem que devem ser mais respeitadas do que a honestidade. _E quais são elas? _A compaixão, por exemplo. Seu tio desempenha suas tarefas de administrador sem nem mesmo um único pensamento para as pessoas que oprime. Ele segue as ordens de Argyll de aumentar os aluguéis como se fosse um retardado. _Ora, se o duque aumentou os aluguéis, ele deve ter tido um bom motivo. _Se acha a cobiça um bom motivo... Ela endireitou os ombros e devolveu o olhar sombrio de Raith. _Você está pronta a defendê-lo até a morte, não é? Não importa qual tenha sido a traição de Argyll que levou os MacLean de Duart a perder suas terras. Não importa os malditos Campbell terem traído seus conterrâneos na rebelião de Quinze e na Quarenta e Cinco. _Essa é sua opinião! _Eles sempre foram os traidores da Escócia. Judas é o sinônimo perfeito para Campbell. _Pare de vilipendiar os Campbell! _Primeiro pare de endeusá-los! Furiosa, Katrine levantou-se de um salto. Seria inútil tentar conversar com esse bandoleiro. Com um gesto decidido, juntou as saias e começou a descer a encosta, irritada por não poder fazer uma saída mais rápida e mais digna. Quando lançou um olhar para cima, viu Raith em pé, o olhar cheio de rancor. _Fique longe de Meggie _ advertiu ele. _ Entendeu?

Ela precisa de afeto e compreensão. Katrine deu-lhe as costas e se afastou. parando para dizer o que estava atravessado em sua garganta. que a mantenha limpa e lhe ensine bons modos. Meggie precisa de alguém que cuide dela._Sim. . Eu poderia ajudar. entendi! _ respondeu ela. _ Mas agora é você que está agindo como um tolo. mas você é cego e cabeçudo demais para ver isso! A idéia de que uma Campbell inglesa seria capaz de oferecer orientação e carinho para uma criança está claramente fora de sua maldita capacidade de compreensão! Com isso. saboreando a satisfação de ter dito a última palavra.

Encheu um balde e foi abrir a porta. antes de sair da banheira. ela pôs uma outra roupa que Flora providenciara. _ Então você também não foi à igreja. que talvez fosse suficientemente atrevido para espionar uma dama em seu banho. _Você deve estar tão solitária como eu _ acrescentou Katrine. _ Ela parou e . Como era domingo. Não que esperasse uma platéia. você pode sentar ao meu lado enquanto penteio os cabelos. pois não podia virar as costas para a pobre órfã. Agora você pode ficar pertinho de mim. _Eu sei _ disse ela. feliz. lançou um olhar para a porta da lavanderia. _Era simplesmente escandaloso o modo como a educação religiosa da menina estava sendo negligenciada. por mais que desejasse tê-la. caía uma chuvinha fria e constante. Continuou falando sobre todos os assuntos que lhe passavam pela cabeça e a uma certa altura sentiu uma mãozinha em seu braço. fez a menina entrar e puxou um outro banquinho para perto da lareira. _ Gostaria de me fazer companhia esta manhã? A única resposta que obteve foi um olhar solene. Talvez ela tivesse medo de ficar no meio de muita gente. Katrine esperou. Vou levar muito tempo para desembaraçá-los. Pondo o balde no chão. Meggie olhou longamente para a mão que lhe era oferecida. Katrine começou a esvaziar a banheira. Dando início a um monólogo. sabendo que não podia forçar a confiança da menina. Flora e os outros criados tinham ido à igreja. Estava indignada com a recusa de Raith em negociar sua libertação com rapidez. Praticamente não pensara em outra coisa desde a discussão de dois dias atrás e sua fúria parecia esquentar a água em que se banhava. e ainda não havia voltado. Tomara o cuidado de trancar a porta e fechar as janelas. Além disso.CAPITULO VII _Quando eu quiser _ resmungou Katrine tirando o sabão dos olhos. comentara que ela era bem uma Campbell por se achar boa demais para tomar banho no riacho. _ Meus cabelos têm mesmo essa cor absurda e enrolados assim me dão muito trabalho. desejando encontrar um meio de estabelecer uma comunicação melhor com a menina. Ela surpreendeu-se um pouco quando Flora não objetou ao uso da banheira de cobre. poderia pegar uma febre se quisesse exibir sua valentia. Foi com alegria que viu os dedinhos sujos se fecharem em torno dos seus. Gostaria de ter cabelos como os seus. Além disso. Ainda fumegando de raiva. Meggie. Depois de se secar. Katrine engolira a custo as palavras para não aceitar o tolo desafio. Porém. Não sendo acostumada a essas condições. mas achava um tanto difícil não ser perturbada. _Pronto. Os MacLean de Ardgour eram presbiterianos e não católicos. Lisos e negros. mas depois reconsiderou. viu Meggie pegando um de seus cachos ruivos e observando-o com espanto. _Meggie! _ sorriu. Não via por que entrar na água gelada . como uma verdadeira montanhesa. Katrine estendeu a mão. Olhando para o lado. sempre encontrava satisfação em desafiá-lo. porém. mas era um prazer vestir peças limpas após um banho tão gostoso. Ia ignorar as ordens de Raith MacLean. Uma das criadas de dentro da casa. como grande parte dos jacobinos. pensou. Katrine começou o longo processo de pentear seus cachos úmidos. Então. partira no dia anterior só Deus sabia para onde. Depois de amarrar o lenço de linho para cobrir o decote. Descobriu então que tinha uma jovem visita. ela terminou de enxaguar os cabelos com a água do jarro e esticou o braço para pegar a toalha. Callum MacLean. Estava ansiosa por lavar os cabelos e na bacia do quarto jamais conseguiria enxaguá-los a contento.quando havia uma boa banheira na lavanderia. A saia era comprida demais como a outra e o corpete puído não lhe assentava bem. típica das Terras Altas. _Venha.

_ Muito bem _ disse Katrine quando Meggie estava enrolada numa toalha. virou-se para ela e sorriu. Se era possível entregar o coração a alguém. para enorme surpresa de Katrine. que desta vez não recuou. Enquanto polia a comprida mesa seguindo as ordens de Flora. começou a desenhar. Dificilmente encontraria nesse covil de jacobitas alguém disposto a ouvi-la. pensou Katrine. No entanto. Desejou ardentemente poder. concentrou-se na possibilidade de fugir. ela foi para perto da parede caiada e depois de pensar um pouco à procura de inspiração. era de uma boa dose de alegria. _Você gostaria disso? Terei muito prazer em esquentar mais água. lançou-lhe um olhar sério e desconfiado. logo Katrine estava ocupada demais para se preocupar com o que Raith diria. pensou enquanto ia pegar a chaleira com água quente. a mulher não disse uma única palavra de repreensão e. enquanto Meggie se inclinava para tirar os sapatos. imaginando como poderia aproveitar a presença de visitas. Terminado o desenho. Fez dois rápidos retratos de Meggie. Era estranho e perturbador pensar em Raith MacLean recebendo convidados como qualquer cavalheiro civilizado. Depois você poderá mostrar a Flora e a seu tutor como pode ser bonita. Quando voltou a colocar a chaleira no fogo. _ Por que você não me leva ao seu quarto? Tenho certeza de que lá encontraremos um vestido bem limpinho para você usar. Obrigando esse pensamento a afastar-se de sua mente. Katrine não tinha como saber. se saiu para contar ao lorde que suas ordens haviam sido desobedecidas. Depois. E mais.inclinou a cabeça para o lado. minorar esse mudo sofrimento. de alguma forma. Em seguida foi a vez das meias. Encontrando um pedaço de carvão adequado. Quando percebeu que havia senhoras no grupo. Só muito mais tarde. Pelo menos a menina compreendia o que era um banho. Um a mostrava com o rosto sujo e cabelos desgrenhados. Por acaso você tem fitas? Espero que sim. O que Meggie realmente precisava. limpa e com os cabelos presos por uma fita. mas parecia fascinada com os retratos. _ E então? O que você me diz? Não acha que a da direita está muito mais bonita? Meggie não respondeu. puxou-o de lado para esfriar. Todavia. mas quando a governanta viu Meggie de vestido limpo. mas logo abandonou-a. Katrine inclinou-se procurando o que desejava. Ficou olhando para eles durante o resto do banho e estava tão distraída que nem recuou quando Katrine lavou seus cabelos. tocou os cabelos da criança. Meggíe parou e estendeu a mão para tocar a garota sorridente. pois todas as minhas estão nas malas que deixei na casa de meu tio. amor e companheirismo. Com todo o cuidado. Katrine imaginou se agira sabiamente. _ Seus cabelos ficariam ainda mais bonitos se estivessem lavados. Katrine manteve distância. pôde ouvir pessoas rindo e conversando. Depois Meggie desceu do banquinho e começou a soltar os cordões do peitilho com alguma dificuldade. esperando que a menina tivesse sido tocada em sua vaidade feminina. pois ele voltara com vários convidados e ela foi convocada a ajudar nos preparativos do almoço. no outro ela estava sorrindo. com as faces rosadas e cabelos trançados. ela deu um passo para trás. Conseguira limpar o carvão da parede caiada antes de Flora chegar. Quando Meggie entrou na água e começou a se ensaboar. Katrine tentou ajudá-la. Por um instante acalentou a idéia de se mostrar e pedir socorro. Não querendo insistir. penteados e presos com uma fita. como se estivesse avaliando a garota. se Raith . quando teve tempo para refletir. enrijeceu o corpo involuntariamente. Quando elas passavam pela parede com os desenhos. mas logo percebeu que a garotinha não gostava de ser tocada. foi o que Katrine fez naquele instante. Por acaso quer que eu a ajude? Meggie lançou um olhar para a banheira.

Katrine estremeceu várias vezes.. Katrine ficou parada. Katrine deu graças por poder subir ao seu quarto. ouviu uma voz feminina lendo em voz alta e sentiu saudades da casa de sua tia. Nervosa. apesar do esforço de levantar e abaixar o bastão da manteigueira. enquanto que a peruca branca e a renda em seu pescoço e punhos o faziam parecer um nobre da corte francesa. mas Flora só deu permissão para os criados se retirarem meia hora depois. Katrine seguiu sua figura magnífica com o olhar. Em seguida parou. resolvera cuidar melhor da garota. Não! E certamente não esperava uma palavra gentil vinda dele. Campbell? _ disse ele com extrema polidez. Ao longo almoço seguira-se uma ceia leve e mais tarde o chá. chorou. _ Meggie! Você é exatamente quem eu queria ver. Por isso Katrine ficou sinceramente encantada quando viu Meggie entrar. Imaginou que também devia haver uma granja próxima que fornecia provisões para a mansão. Mas. Aquela gente só pensava em comer. . Não entendia por que o cumprimento formal a entristecera nem por que ficara tão impressionada com a visão de seu captor ricamente vestido. Um pouco depois. jurou. atirou-se na cama e. mas não se mostrou disposta a conversar. sentindo a garganta apertada. A mocinha falava inglês. de modo a manter-se bem fria para conservar o leite. Uma chuvinha fina e gelada a impediu de sair. Seu coração saltou quando Raith MacLean. Depois. a manteiga e os queijos que eram armazenados ali. Vendo a saia vermelha e o xale com as cores dos MacLean limpos e passados. colete em negro e dourado. Por que se sentia tão feia? Ela ficou ali no corredor. quando Flora a mandou buscar uma travessa na copa. pois não confiava em sua voz. o resto do dia de Katrine . Não achava o sujeito atraente. teria mandado alguém trancá-la no quarto ou em qualquer outro lugar da propriedade. Ele usava uma casaca de rico brocado dourado. lhe pareceu interminável. envergonhada. De repente ela se sentiu envergonhada de sua aparência. Os olhos azuis estudaram seu rosto e depois desceram para seus lábios entreabertos. enxugando uma lágrima. _ Como vai. ouvindo Raith cumprimentar Flora pelo excelente atendimento e comida que seus convidados haviam recebido. A leiteria fora construída com pedras e ficava semi-enterrada no chão. Trabalhando ali. ela ficou imaginando se Flora. Katrine ouviu algumas notas do instrumento. mas não o entusiasmo. um pouco depois do almoço. pela primeira vez desde seu seqüestro. Devia haver um cravo em uma das salas de visita. Pela manhã Katrine recuperara um pouco de seu ânimo. calças. reclamou em silêncio. Acabara que chegar à estreita escada de serviço quando o som de passos firmes a fez parar. quando chegou em seu quarto. Katrine não respondeu. saiu das sombras.passado principalmente na cozinha com os outros criados. Depois dessa deprimente conclusão. recobrando o juízo. onde ela e as irmãs tinham passado tantas noites se entretendo dessa maneira. notando que a menina estava com o rosto limpo e os cabelos trançados. Havia só uma pequena janela para fornecer um pouco de iluminação. Cansada e tristonha. juntou as saias e subiu as escadas correndo. incapaz de desviar o olhar. acabando com seu plano de ir novamente assistir ao nascer do sol junto ao lago. srta. pois estava exausta. Era quase meia-noite quando Katrine ouviu as carruagens partindo. como se não esperasse encontrá-la ali. esplendoroso em traje de gala. meias e sapatos pretos. pois à noite. Quando Raith fez uma leve mesura e continuou seu caminho.estivesse preocupado com a possibilidade de ela ser vista. preparando comida e lavando pratos . Raith também parou. Irritada. O conjunto realçava a pele morena. Sua única companhia durante a manhã foi uma mocinha de faces rosadas que ficou trazendo baldes de leite e colocando-o em grandes vasilhames mergulhados em água. ela obedeceu de má vontade quando Flora a mandou bater manteiga na leiteria. depois de serem servidos cerveja para os cavalheiros e vinho para as damas. ela entrou no corredor mal iluminado.

Meggie. Quando levantou a cabecinha. Depois feche os olhos e sinta a beleza. Venha. mas. abra os olhos. o que você pretender desenhar? Que tal uma flor? Acha que pode fazê-lo? Porém. mordendo o lábio inferior enquanto labutava com o carvão. E sei exatamente onde a encontraremos. Katrine imaginou que estivesse querendo dizer sim. Vamos tentar uma flor desta vez. talvez uma margarida. Quando conseguir vê-la bem clara em sua mente. ela tirou um pequeno objeto que guardara no cinto. _ O que gostaria que eu desenhasse? Meggie ergueu a mão e apontou para Katrine._ Você está linda hoje! O vermelho combina bem com sua pele morena e seus cabelos. por sorte. você não tem um lápis de verdade. _ Veja. ela escolheu uma pedra maior e mais plana e desenhou uma figurinha com cabelos encaracolados batendo manteiga. Havia vários cavalos selados no pátio. Assim _ disse. Meggie? A menina voltou a ficar muito séria. eu não queria aumentar sua tristeza. Ela fechou a mão em torno da de Meggie. . pegue o carvão e comece a desenhá-la. A tarde ainda estava úmida e sombria. havia lágrimas de frustração em seus olhos escuros. o miolo amarelo e as pétalas brancas e macias. pegou a mão da menina e dirigiu-se para o riacho. Katrine sabia que Raith não gostaria nada dela levar Meggie ao vale. em vez de desenhar uma flor. Meggie tentou copiar a figura que Katrine fizera. guiando a garota. _ Agora vamos fazer as pétalas. mas Katrine pôde ver pela sua expressão tristonha que ela não estava satisfeita com suas obras. _ Sempre achei que a beleza torna a alma mais expressiva _ disse Katríne à menina quando encontrou uma pedra mais seca para se sentarem. a chuva passou e podemos ficar lá fora. Mesmo num dia tão miserável _ como dissera Flora _ o vale com seu pequeno lago e grandes montanhas ao fundo formavam um lugar mágico. _ E agora. Está vendo? Agora tente fazer uma sozinha. Prendendo a saia na cintura para não molhar a barra. _ Quer que eu faça alguma coisa para você ver? Quando Meggie chegou bem perto. grata pela desculpa para parar com sua tarefa. Meggie emitiu um leve som gutural que fez o coração de Katrine se encher de carinho. Você a está sentindo. é um pouco de inspiração. e assim não entra em choque com minha crina vermelha. Levantando-se e tirando a poeira da saia. querida. saltando poças e desviando-se de galhos molhados. Veja-a em sua mente. Deixe-me mostrar como. Apesar de seu empenho. Estava ficando com bolhas nas mãos e seus braços doíam.. _ Quer tentar. mas não recuou quando Katrine estendeu-se o carvão e apontou para uma outra pedra. Primeiro vamos fazer uma bola. _ Eu? Você quer que eu desenhe meu próprio retrato? Muito bem.” _ Está ótimo. Meggie foi um pouco mais bem sucedida em copiar a margarida. Meggie desceu as escadas da leiteria. pois o tartan de nosso clã é azul e verde. só conseguiu produzir um borrão. mas de vez em quando um raio de sol conseguia vencer a camada de nuvens. querida. No mesmo instante Katrine pôs o batedor de lado. Os olhos da menina se iluminaram quando viu o pedaço de carvão que Katrine usara para desenhar no dia anterior. Mas devemos começar com algo mais simples. Olhe. Suponho que tenho sorte de ser uma Campbell. Sorrindo para Meggie. satisfeita por a menina não fugir do contato. não é? Agora pense na margarida que você quer desenhar. “Oh. Ajoelhando-se no piso da leiteria. Esta manteiga já está pronta mesmo. enrolado num trapo. Quando acrescentou alguns borrões para dar a impressão de manteiga derramando. Meggie. disse: _ O que você precisa. nenhum MacLean por perto. _ Olhe bem.. confiante. _ Ela estendeu a mão e seu coração novamente se encheu de alegria quando a menina pegou-a.

indignado com sua intromissão. as sobrancelhas grossas e os longos cílios negros eram iguais. com árvores em sua extremidade oposta. Meggie? _ convidou sorrindo. meu bem. atravessava um bosque e depois se abria numa área relvada. Amanhã tentaremos um outro tipo de flor. Conhecia bem o que os habitantes das Terras Altas sentiam a respeito das leis inglesas que os tolhiam e era escocesa o bastante para concordar com eles em muitos aspectos. _ Certo. Na primeira vez que estivera ali encontrara um velho pastor cuidando dos carneiros e ele a ameaçara com seu cajado. A fumaça de fogo de turfa saindo da pequena chaminé indicava que havia alguém ali. _ Que tal apostarmos uma corrida. Escolheu a que ficava ao seu lado esquerdo. já! Katrine começou a correr. Pouco a pouco foi deixando Meggie tomar a frente. Dando-lhe apenas uns tapinhas carinhosos em sua mão. Dando a mão para a menina. Ela gostaria de permanecer ali por mais algum tempo inspecionando os recipientes. As duas voltaram para a trilha e continuaram andando por ela até encontrarem uma campina muito maior do que a anterior. Katrine teve vontade de abraçá-la. riu com um abandono que não experimentava desde sua infância. três. Então. A ferocidade do montanhês só servira para sublinhar a ameaça de Raith de que ela encontraria grande dificuldade em tentar fugir pelo caminho das montanhas. Os montanheses não se conformavam em ter de pagar impostos exorbitantes pelo privilégio de fabricarem sua -bebida nativa. convidou: _ Que tal darmos um passeio por aí? Naturalmente. mas Meggie logo perdeu o interesse pela novidade e começou a puxar sua mão. onde pastavam alguns carneiros. estendeu a mão para ela. um. Katríne impressionou-se com a semelhança entre Raith e a menina. mas já estava aprendendo a entender o rosto expressivo da menina e pôde ver que a idéia lhe era simpática.Meggie fechou os olhos e permaneceu imóvel por um longo tempo. encontrou uma estranha coleção de equipamentos que não tinham nada a ver com o pastoreio de carneiros: vários recipientes de tamanhos variados. A testa alta. Levantando-se. disse: _ Ficou ótimo.. A trilha subia o morro. A linhas que desenhou pareceram mais com uma margarida e ela obviamente se satisfez com seus esforços porque. Ali. a continuação do riozinho que corria nos fundos de Cair House.. fingindo que estava fazendo o máximo para ganhar. Uma onda de alívio e fúria tomou conta dele e o fez esporear o . Tivera oportunidade de vê-la no primeiro dia em que estivera ali. _ Até aquelas árvores. que dava para uma pequena pastagem. dois. ouviram barulho de água. Por hoje chega. mas logo lembrou que a menina não gostava de ser tocada. parecendo duas ciganas. Depois dessa pequena pastagem a trilha continuava subindo e. uma grande estrutura de tijolos que parecia ser um forno e dois grandes latões de cobre com longos tubos. perto do regato. não obteve resposta. Depois de alguns minutos. Ela evitou passar perto de um pequeno chalé feito de pedras e com um espesso telhado de palha. vendo que Meggie parecia um tanto inquieta. Katrine já tivera a oportunidade de ver que havia duas trilhas saindo do vale. quando Katrine e Meggie chegaram ao alto do morro. ela forçou os pensamentos a seguirem uma outra linha. aborrecida por estar lembrando-se do senhor dos MacLean. quando ergueu a cabeça. Vamos ver quem ganha? Meggie respondeu com um olhar brilhante e ansioso. estava sorrindo. a fabricação ilegal de uísque era considerada um trabalho honrado. Estavam para descer quando Katrine avistou um bicho que chamou sua atenção. Por isso. ofegante. sobre a relva úmida. Ela logo desconfiou que descobrira uma destilaria de uísque ilegal. Observando o rostinho de traços fortes. Meggie abriu os olhos e pegou o carvão. E foi assim que Raith as encontrou: correndo pela campina com as saias erguidas até os joelhos. Enquanto corria. saiu da trilha e atravessou um bosque fechado até se ver numa grande clareira. Mas.

ela conteve a resposta azeda que estava subindo aos seus lábios e lançou somente um olhar colérico para Raith. estava dobrada ao meio. Campbell. sentiu-se subitamente ressentida e traída. Quando entrou na trilha. Só sabia que não queria ver Katrine ou Meggie perto da velha bruxa. _ Pelo menos. Sua mente continuava cheia de lembranças da agonia de Ellen e das imagens sangrentas de seu filho natimorto. O rosto moreno parecia muito mais severo do que o habitual. Morag. Ele não parara para analisar seus sentimentos. contudo. A criança obviamente adorava seu tutor e encantava-se com suas atenções. Virou a montaria sem nem mesmo um olhar e afastou-se deixando-a sozinha com sua fúria. uma dúzia de cachinhos que haviam escapado do confinamento emolduravam seu rosto. acomodou a menina na sela a sua frente o que fez Katrine perceber que os dois já tinham cavalgado juntos muitas vezes. Com um sorriso para esconder o aborrecimento. Percebendo que a menina queria parar com a brincadeira das duas. o que lhe pareceu um total absurdo. As risadas de Katrine cessaram quando avistou Raith se aproximando com os olhos azuis expressando desagrado. encorajou: _ Claro que você deve ir. Raith sorriu para Meggie quando puxou as rédeas do cavalo. lutando contra dois desejos conflitantes: o de levá-la para a cama e de darlhe uma boa sova. com todos sentidos em alerta em reação à presença de seu captor. Ela ficou olhando os dois sumirem de vista e então começou a longa caminhada de volta à mansão. Quando virou-se em sua direção. no final da campina. com ou sem . Ela parou onde estava. mas Raith usou o cavalo para impedir sua passagem. olhou por cima do ombro largo de seu tutor e acenou uma despedida. ficava a casa da parteira que ajudara sua esposa. As duas pararam quando chegaram ao fim da campina. mas Katrine viu claramente que o sorriso não era sincero. Seu estômago se contraía à simples menção do nome dessa mulher. Meggie _ convidou ele num tom agradável que também pareceu fingido. inclinando-se para pegar a mão que Meggie lhe estendia. Não querendo estragar o prazer da menina. _ Acho que não _ disse Raith. Meggie olhou para Katrine. meu bem. Como Meggie. o rosto expressando visivelmente que estava ansiosa para ir com Raith. Ela estava corada e despenteada. _Nós nos mantivemos sempre na trilha _ resmungou Katrine enquanto Raith desmontava. Seu primo Callum voltou e está perguntando por você.cavalo para avançar rapidamente. mas também por tê-la alcançado a tempo. Com um movimento ágil. ele freou o cavalo para não assustá-las chegando num galope furioso. Tinha a impressão de que Raith MacLean não pusera um ponto final naquela questão. Depois do bosque. Ele usava uma camisa branca e larga aberta no peito e calças justas no xadrez do clã que lhe moldavam as pernas compridas e musculosas acima das botas de cano alto. mas você pôs a vida de Meggie em perigo trazendo-a a este lugar ermo. o viu voltando. tentando recuperar o fôlego. Percebendo que não pretendiam seguir caminho. Enfie na cabeça que não deve vir mais aqui. O alívio não era apenas por Katrine não estar em Cair House quando os soldados ingleses tinham surgido numa visita inesperada. _ Eu a levarei de volta para casa. E estava certa. acentuando a luminescência da pele clara. Manteve o olhar fixo em Katrine enquanto se aproximava. srta. _Eu lhe avisei sobre a neblina. Ele cerrou os dentes. pois apesar de seus belos cabelos de fogo estarem presos com uma fita. Ele nem pareceu notá-lo. pôde ver a alegria e risos que brilhavam em seus olhos verdes. Meggie. _Venha cavalgar comigo. saindo da campina. Quem sabe poderemos voltar aqui numa outra ocasião. Ninguém aqui sentiria muito sua morte. Katrine sentiu lágrimas nos olhos diante da doçura do gesto. Teria passado por ele sem nem uma palavra. ficamos nela a maior parte do tempo. _Não quero saber de nada.

Katrine endireitou os ombros. _ Não acredito que você esteja preocupado com a menina _ disse. Em segundo.. _E se você ousar tentar ganhar a confiança de minha pupila com a intenção de usá-la em sua fuga. _ Acho que você tem medo de que eu descubra algo em minhas caminhadas. você não conseguiria protegê-la. _ Não. Raith só apertou os dentes. Ela deixou a raiva extravasar para mascarar a mágoa. Diante da ameaça nada sutil. Tem receio que eu vá denunciá-lo ao fisco quando for libertada. _ Se pensasse nela. para não haver nenhum mal entendido. Se você tocar num fio de cabelo de Meggie. mas isso não me impedirá de pô-la a ferros. Embora detestasse admitir. Será que ninguém aqui entende que eu jamais faria mal a uma criança? Eu nunca usaria um inocente em meu próprio benefício. seus lábios desceram sobre os dela. trazer Meggie para tão longe de casa só a estimulará a sair sozinha. mas sim ser protegida contra você! A acusação feriu e insultou Katrine. Campbell. Por um longo momento Katrine ficou olhando para ele. como certas pessoas. vai desejar nunca ter nascido. desvencilhou-se de Raith e deu-lhe uma bofetada. _Posso não ter uma masmorra. O modo arrogante como Raith pôs as mãos nos quadris a irritou tanto quando o tom exigente. Os lábios de Raith esmagaram os seus. não a deixaria viver suja e desleixada. O beijo brutal tinha a intenção de punir e possuir. _ Seria apenas mais uma prova de que seu clã está envolvido em atividades ilegais. obrigandoa a olhar para ele. Em primeiro lugar. não pensara nessas possíveis conseqüências. mas tenho certeza de que você vai me contar. vai se arrepender amargamente. No mínimo deveria ter avisado Meggie para não tentar visitar o vale ou a campina sem a companhia de um adulto. _Meggie não precisa de proteção contra mim. dos animais e vagabundos que andam por aqui. Algo ilegal.. A raiva de Katrine transbordou. talvez. Raith cerrou os punhos. Ela esperava fazê-lo sentir-se culpado. mas não foi bem sucedida. forçando-os a se entreabrirem para ele mergulhar a língua quente e ousada. Katrine surpreendeu-se com seu ardor. _Sua maldita inglesa. . me tranque! Estou farta de suas ameaças e recuso-me a agüentá-las por um minuto mais que seja! _Eu nem comecei a ameaçá-la _ Raith apertou mais o braço de Katrine. segurando-a pelos dois braços. Num movimento igualmente violento. Ele reagiu imediatamente. Com um movimento ágil. decidido a não deixar Katrine Campbell levá-lo à violência. É em Meggie que estou pensando. Seu rosto moreno era uma máscara de cólera quando a puxou mais para perto. Uma destilaria clandestina. _ Você é uma completa idiota se pensa que eu me preocuparia com cobradores de impostos. Katrine parou quando os dedos de Raith se fecharam em torno de seu braço. _ Deixe-me deixar bem claro. srta. _Você sabe o que eu penso? _ disse com azedume. não é de supervisão que ela necessita. _Sua diabinha! _ resmungou ele. Maltratar Meggie? Maltratar uma criança inocente? Katrine ficou indignada demais para responder. sem nenhuma supervisão tanto em. tentando passar por ele.Meggie. e nem a si própria. _Então faça isso. chocada com sua própria reação e vendo a marca de seus dedos na face bronzeada. _ Katrine lançou-lhe um olhar triunfante. os olhos cintilando de raiva.

mas o doce protesto o fez recuperar o juízo. Embora tivesse pouca experiência para nela basear uma suposição. sua consciência a alertava. pois lançou-lhe um olhar colérico. Então ele deslizou a mão da nuca descendo até as costas. puxando-a para ainda mais perto de si. Apesar da entrega de Katrine. Trêmula. suplicando por controle. Foi uma sensação assustadora e emocionante. nem que fosse para xingá-la. uma odiada sassenach. Sabendo que tinha de colocar uma distância segura entre eles. Mas. . Raith sentia nela ainda uma certa apreensão. levou os dedos aos lábios latejantes. Ele praguejou baixinho. Katrine ficou observando-o pegar as rédeas do cavalo. Por um instante ficara louco com o desejo de possuir a moça. quando tudo lhe pedia para deitá-la sobre a relva e possuí-la ali mesmo. Abruptamente virou-se de costas.E. Katrine estremeceu. Perplexa. o afastamento súbito fora ainda mais chocante. enquanto ele penetrava a língua em sua boca com ousadia. bem devagar. mas percebeu que Raith lutava com emoções conflitantes. toda a timidez foram levadas por uma onda de sensações ardentes. levada pela ânsia de sentir o corpo ser tocado ao máximo. Raith poderia ter acalmado o receio com facilidade. não houve dor. Pensou que ele fosse virar-se para dizer alguma coisa. pela segunda vez em uma hora. mantendo-a contra seu corpo rijo. respirou fundo com dificuldade. abrindo mais os lábios. Raith deu um pequeno passo para trás embora todos os sentidos clamassem por uma união completa de seus corpos. Katrine permaneceu parada por um longo tempo. Se o óbvio desejo de Raith a abalara. mordiscando-o de leve. Fique longe de Meggie. Com imenso esforço conseguiu soltar o braço de Katrine. No entanto. acariciando-a vagarosamente. com o coração batendo tão forte que tinha certeza que podia ser ouvido no silêncio que se seguiu. Com má vontade. O que fazia era perigoso. explorando os cantos mais sensíveis. Ela arqueou as costas involuntariamente. impossibilitando-a de se mexer. começou a responder ao beijo. seu instinto feminino a fez reconhecer o desejo no olhar ardente. E incrivelmente prazerosa. mas uma mão forte a pegou pelos cabelos. Sua atitude fora imperdoável. mas todo o medo. Contudo.Ela tentou virar a cabeça. _Não vou avisá-la de novo. amaldiçoando-se por sua fraqueza. quando Raith fez menção de afastar o corpete. porque Katrine ouviu-o gemer baixinho antes de se afastar subitamente e encará-la com seu olhar tempestuoso. muda. Fechando os olhos. lembrando- . apertando sua cabeça para junto de seu corpo quando a boca masculina deixou a sua e foi descendo até alcançar um dos seios. gemendo ante a intensidade do prazer que até então desconhecia. Desta vez ele tomou a boca de Katrine com menos raiva e muito mais desejo. Raith estava igualmente excitado. _Linda diabinha _ murmurou Raith com voz rouca. Depois. Ela devolveu o olhar. os pensamentos confusos e as emoções desencontradas. quando ele montou. Não foi capaz de ler a expressão no rosto moreno. movimentando a língua num impulso instintivo. Uma cativa que estava temporariamente sob sua proteção. Depois ele encheu os pulmões de ar e inclinou novamente a cabeça. afastou-se a galope. Katrine sentiu o corpo de Raith relaxar um pouco e soube que ele ia beijá-la de novo. Uma onda de calor começou a se espalhar no ventre de Katrine e ela descobriu-se respondendo ao contato íntimo com ansiedade. Aquela deliciosa invasão foi provocando nela uma reação incontrolável. não confiando em si mesmo para falar ou permanecer mais um segundo perto dela sem tocá-la ou beijá-la de novo. pareceu lembrar-se do que tinham estado discutindo. uma Campbell. Por um instante Katrine permaneceu imóvel. mergulhando os dedos nos cabelos de Raith. afrouxou o abraço que ainda os unia. O calor e a excitação tomaram conta dela enquanto Raith a abraçava com força. mas ele não ofereceu desculpas nem explicação. Não podia usar como desculpa a afirmação de que ela o provocara além da razão. ela subitamente enrijeceu o corpo. enquanto os olhos escuros de desejo fitavam a boca úmida e entreaberta de Katrine. toda a hesitação.

Não compreendia o que tinha acontecido entre eles.se da possessividade da boca incansável de Raith. da força de seu abraço ardoroso. Não compreendia nada. Por que Raith a beijara daquele jeito se a odiava tanto? . Ainda trêmula. respirou com dificuldade.

Com grande dificuldade ela conseguiu abrir a porta da cozinha enquanto equilibrava a bandeja e segurava as saias compridas demais para não tropeçar. Katrine ficou ali parada. Recusar um pedido tão simples seria agir como uma ingrata. tomada de indecisão. cerrou o cenho quando viu Katrine entrar. Alguém com um gênio para combinar com o meu e capaz de incendiar meu sangue. mas não espere que eu vá servi-los. A perspectiva de ver-se frente a frente com Raith MacLean fez seu coração bater freneticamente. Flora. meu bem. As sensações que Raith despertara nela tornavam uma brincadeira a paixão que fantasiara em seus sonhos românticos. Assim que se aproximou da cocheira. quando estava envolvida nas incríveis sensações de desejo e necessidade. _ Está bem. espiando para dentro. Logo surgiriam manchas roxas. ouviu vozes alegres de homens vindas do fundo. ela imaginara Raith MacLean como o homem de seus sonhos. Nunca mais teria coragem de enfrentar Raith. Só então começou a andar na direção de Cair House. eu levo. _ Limpando as mãos no avental. _ Não. Mande outra pessoa em meu lugar. Estava totalmente despreparada para o efeito devastador daquelas carícias. ela entrou pela porta dos fundos para encontrar a cozinha numa atividade frenética. _ Já era mais do que hora de você aparecer. _ Por favor. Era um recinto bem masculino. faça o que estou mandando. tendo como decoração apenas cabeças de veado empalhadas colocadas nos espaços . Katrine atravessou-o com cautela. Numa das extremidades havia uma imensa lareira e no centro ficava uma pesada mesa de carvalho. A possibilidade de Raith estar entre os “rapazes” fez Katrine se rebelar. A cor em suas faces se acentuou quando lembrou-se do modo como respondera ao beijo. _ Leve isto para o salão atrás da cocheira.. o embaraço pela intimidade que tinham compartilhado e o espanto pela sua reação ao beijo ardente. Por sorte não viu nem sinal dele. menina _ falou com carinho. com farinha até os cotovelos. Quando chegou ao pátio. Os rapazes devem estar querendo uma outra rodada. Minha alma gêmea. rezando para não se encontrar com seu captor. dividida entre a raiva pela ousadia de seu captor.CAPÍTULO VIII Katrine levou vários minutos para se recuperar depois da partida de Raith. por alguns instantes. Katrine enrubesceu. enquanto voltava aos seus bolinhos. projetado para atividades e não para oferecer conforto. _ Assim. pensou. Flora levantou a bandeja e colocou-a nas mãos de Katrine. indicou uma grande travessa sobre a mesa que continha vários jarros de cerveja e uma garrafa de uísque. entrou no pequeno corredor depois da cocheira e hesitou diante de uma porta aberta. Os criados corriam de um lado para o outro preparando comida e bebida para os convidados. Não tinha a menor experiência para compará-las com algo que já tivesse lhe acontecido. Imaginando onde estaria Meggie. Parecia que Callum havia trazido companhia. Ansiosa. _ Com um gesto de cabeça. O salão diante dela era grande e aparentemente servia como local de reuniões para o clã MacLean. Mas agora era sua consciência que estava manchada. Havia vários cavalos amarrados diante da estrebaria e eles a fizeram lembrar do que Raith dissera a respeito da volta do primo. Não vou servir ninguém. Mais perturbador ainda era a consciência de que. Era a primeira vez que Flora lhe pedira gentilmente para fazer alguma coisa. Que loucura a possuíra para chegar ao ponto de comparar o bruto selvagem com a terna alma gêmea que tanto desejava encontrar? Ela esfregou o braço no local onde os dedos de Raith tinham beliscado a pele macia.

pois ele a examinava com frieza. Aguçando os ouvidos. Quando voltou a se aproximar de Callum. lançando olhares cautelosos para Katrine enquanto erguiam as canecas. imaginando qual seria a tal carga. por mais insignificante que fosse. por sua vez. Sua expressão. Então um MacLean a avistou e um súbito silêncio caiu sobre o salão. mas achou melhor não dizer nada devido ao clima hostil.. não é? _ E por que a dúvida. mas a resposta foi uma alegre piscadela.. Ela saltou para trás. Lachlan. Mas embora evitasse olhá-lo. A única pessoa que costumava chamá-la de Katie era seu pai e considerava o diminutivo pessoal demais para ser usado gratuitamente por esse patife charmoso. poderia lhe ser útil. conversando e rindo. Katie. antes que ela pudesse dizer alguma coisa. meu caro primo. O desdém que Raith sentia por ela não se alterara. bela Katie! Você é uma linda visão para olhos cansados. Quando ouviu alguém mencionar o nome Campbell. mas sua desaprovação não pareceu exercer o menor efeito sobre Callum. olhando feio. Além disso. Notou Raith observando-a enquanto ela depositava a bandeja perto de Callum. Katrine pensara em deixar o salão o mais rápido possível. Como sua presença iria atrasar um pouco seus planos e isso lhe pareceu uma pequena e saborosa vingança. Ele estava sentado na cabeceira da mesa à sua direita e por isso só podia ver seu perfil. que tome cuidado com o que revela à srta. isso sim! Raith interrompeu a conversa secamente. _ Oh. _ Daqui a pouco vai nos acusar de sermos livres comerciantes. recebeu-a com um grande sorriso. mas resolveu se demorar.entre as janelas. com a expressão severa de sempre. tentando pegá-la pela cintura. você nunca faria isso conosco. Seu sorriso só aumentou e ele estendeu o braço. Callum. Havia uma dúzia de homens sentados nos bancos em torno da mesa e todos pareciam muito à vontade. o sotaque escocês de Callum estava mais pronunciado do que o habitual. O alegre e vagaroso cumprimento a irritou. _ Seria apenas mais um caso de um Campbell traindo seus compatriotas. Ela olhou para Callum intrigada. contudo. bem humorado. _ Sugiro. Estava a ponto de dizer que não só acusaria os MacLean de sonegação de impostos. Callum? _ perguntou Raith. ela desconfiou que os homens haviam se reunido para discutir seu destino. Campbell. Os outros espaços vazios nas paredes antes deveriam estar cobertos das mais variadas armas e certamente era o que aconteceria se não fosse pela lei proibindo os escoceses de possuírem armas. mas o olhar frio a deprimiu. esforçou-se para entender o que planejavam. Katrine entrou no que considerava um covil de feras. começou a servir a cerveja. o impacto dos olhos azuis fez sua pulsação se acelerar. _ Livres comerciantes! Contrabandistas. Ela já ameaçou nos denunciar aos cobradores de impostos ingleses. ele pegou a jarra e serviu-se sozinho. Endireitando os ombros. E Raith. como também de contrabando e rapto. levantou a caneca de estanho e falou: _ Um brinde a todos nós por entregarmos com êxito o carregamento! Os homens responderam vagarosamente. embora procurasse se fortalecer. _ O que você quis dizer com esse brinde? Em que tipo de atividades ilícitas você e seus cúmplices estão envolvidos? _ Katie. Katrine apertou os lábios com força. o homem que voltara para pegar os pedacinhos de renda que ela deixara cair como pistas para os soldados. sabendo que enquanto estivesse ali os MacLean não conversariam sobre suas tramas. Callum. o grandalhão que a raptara. Uma reação absurda. Em nada faziam lembrar criminosos planejando golpes. Katrine reconheceu alguns deles. _ Ah. _ Você está embriagado _ acusou ela. denunciando que ele já exagerara na bebida. apesar do beijo que haviam trocado há pouco tempo. Ela não saberia dizer por quê. Respirando fundo para reunir coragem. e Ewen. Olhando em volta. deve ter denunciado seus . você está me ofendendo! _ sorriu Callum. Qualquer informação.

rouca. Katrine ficou atordoada com a sucessão de acontecimentos. você perdeu uma ótima oportunidade. Devo dizer que eu também senti um grande prazer quando eles não encontraram nem sinal de você. recuou.. _ Cadela maldita! _ gritou ele. eles estavam procurando por mim? _ perguntou. Pisou na barra da saia comprida demais e tropeçou. Katrine voltou para perto da bandeja e pegou uma jarra de cerveja. Raith xingava o . imaginou Katrine desanimada. Quis dizer a Raith. pai de James Francis Edward. Depois um outro MacLean gritou: _ Que tenhamos cada vez mais amigos e nunca precisemos deles! Os brindes se sucederam e Katrine precisou correr de um lado para o outro para não deixar as canecas vazias. Assustada. Campbell? _disse Raith. pensou analisando seus olhos azuis agora sombrios. _ Que sejamos sempre alegres! _ propôs um outro homem. mas gostara de saber que sua cativa estava longe da mansão. O ruivo recuou. Lançando-lhe um sorriso doce e forçado ela começou a dar a volta na mesa. Quisera adiar sua volta. e tiveram grande prazer em revistar cada cantinho de Cair House. como seus atos haviam sido desprezíveis. Ele a repreendera por colocar a vida de Meggie em perigo. Katrine mal teve tempo de registrar o xingamento antes do velho puxar uma pistola do cinto e apontar diretamente para sua cabeça. sentado a sua esquerda. Ouviu murmúrios de indignação. fora deposto por um protestante há mais de setenta anos.sentimentos. Katrine ficou olhando para ele chocada. cuja caneca ela estava enchendo. percebendo o quanto estivera perto de ser resgatada. _ James Francis Edward. lançou-lhe um olhar que gelou seu sangue. quase atirando-o em Lachlan. que pena. A suspeita de que fora usada de uma maneira tão calculista a magoou profundamente. levantando-se de um salto. ali mesmo. foram muito educados ao invadir minha casa _ zombou Raith _. que era o MacLean mais próximo. _E que jamais encontremos o mal! Que vocês encontrem sempre o mal.. mas não encontrou palavras que poderiam ser usadas por uma dama. Estava chegando perto de Raith quando Ewen levantou-se e ergueu a caneca num gesto solene. porque Callum balançou a cabeça com fingida tristeza.. Os soldados ingleses estiveram aqui ainda há pouco. A explosão foi ensurdecedora. _ Ah. pararam a meio do caminho. Soldados ingleses? Ali em Cair House? _ Eles. Todavia não chegou a se aproximar dele.. E Raith sabia disso. srta. como sempre. o verdadeiro rei! _Verdadeiro rei? _ resmungou Katrine baixinho. Fora por isso que Raith saíra a sua procura? Quisera impedi-la de voltar à mansão antes da milícia partir?. _ E quem mais poderiam estar procurando. Na mesma hora Katrine percebeu que fizera mal em falar. Um homem idoso. Os MacLean que haviam começado a erguer as canecas. No mesmo instante sentiu dedos fortes pegando sua saia e subitamente descobriu-se sendo puxada para o colo de Raith. irritada em constatar que os montanheses insistiam em ignorar o fato de que o rei James II. procurando apoio na beirada da mesa. Katie. enchendo as canecas vazias. O jarro que segurava caiu e a cerveja espalhouse pela mesa e foi molhar o velho irritado. _ Os soldados. _ Você está falando no Velho Pretendente _ falou mais alto. Talvez por isso que ele a beijara tão ardorosamente. A expressão levemente caçoísta que viu no rosto moreno aumentou sua sensação de impotência e ela só conseguiu lançar-lhe um olhar feroz. Raith MacLean teve a audácia de sorrir. Foi então que alguém propôs um brinde: _ Que quando estivermos subindo a montanha da fortuna não encontremos um amigo descendo! Todos levantaram as canecas e beberam. E também atiçou sua raiva. procurando inconscientemente a proteção de Raith. emendou Katrine em silêncio e cheia de azedume enquanto servia uma outra rodada.

refletiu. Aproximou-se dela e sentou-se a seu lado. Ele. _ Raith acariciou os cachos vermelhos e tentou acalmá-la com palavras carinhosas. olhando para Raith. Seria prudente. Katrine ficou vendo-o se afastar. o velho continuava lançando olhares de ódio para ela e seu queixo barbado tremia de cólera. como costumava fazer com Meggie. Então ela começou a chorar baixinho. suas mãos tremiam tanto que mal conseguia segurar o cabo. Percebia que Katrine não podia estar pensando com clareza ou senao não estaria aceitando seu conforto. apunhalando-a com o olhar. pare de chorar ou então você vai afogar em lágrimas. ela lançou um olhar para a pistola fumegante do velho e sentiu o sangue deixar suas faces. Era o culpado por ter deixado a situação escapar do controle. Atordoada. _ Aquele bruto. pronto! Sua voz falhou no final da frase e embora mentalmente Katrine amaldiçoasse Raith. Ainda fraca pelo susto. _ Não! Não estou bem! Detesto este lugar! Estou farta de ser mantida prisioneira! Estou farta de ser feita de boba. encostando a face nos cabelos ruivos. não conseguiu reunir forças para dizer isso em voz alta. sentiu a semente de uma emoção muito mais suave. sem fôlego. . Katrine escondeu o rosto em seu peito e deixou as lágrimas rolarem a vontade. pegou uma vassoura e começou a varrer o piso de pedra.. ajudou-a a recuperar o equilíbrio. Sem uma única palavra. _ Psiu _ murmurou.. Ele precisaria ter um coração de pedra para poder ignorar tanta tristeza. Sem ser notada. começar a crescer em seu íntimo.. Então. todo seu clã e os homens em geral. _ Calma. Foi minha culpa. Devia tê-la mandado embora no instante em que a vira entrar. Ela se enrijeceu toda quando ouviu Raith falar da porta.. _ Já sei. Tentando recuperar o fôlego. porém. _ Por que aquele homem me odeia tanto? O que fiz para ser alvo de tanta hostilidade? Raith suspirou. não são mais do que pagãos incivilizados e sedentos de sangue. ele tentou me matar. ele saiu. ela lançou um olhar ao redor e viu os MacLean com expressões ferozes. especialmente depois do que acontecera na campina. que continuava com seus impropérios enquanto era contido por outros homens. Passaram-se alguns instantes antes dos soluços diminuírem para Katrine poder falar com alguma coerência. A resposta a essa pergunta estava a séculos de distância deles. _ Parou. sentou-se no banco diante da mesa de pinho e cobriu o rosto com as mãos trêmulas. ele. menina. Ao chegar lá. afagando seus cabelos. Quase sem perceber o que estava fazendo. Nunca deveria deixar essa pequena megera de cabelos de fogo chegar perto de seus homens. não precisa dizer. Quando seu agressor sumiu de vista. Ela não poderia dizer como chegou até a cozinha. Escapara por pouco de ter a cabeça estourada. Contudo. observando-a com o cenho carregado. ela começou a levantar-se do colo de Raith.. emitindo soluços abafados que comoveram Raith. e nem por isso menos embriagadora do que o desejo. Pareceu-lhe o gesto mais natural do mundo pegá-la em seus braços. sair antes que um outro deles resolvesse usá-la como alvo. permitindo-se ficar perto dela.. voltou a sair e foi se esconder na lavanderia. num tom suave: _ Você está bem? Uma onda de raiva tomou conta dela. Ainda queimava de desejo insatisfeito. Largando a vassoura. No entanto. como se a tarefa fosse capaz de acalmar seus nervos. O derramamento de sangue e a amargura entre os MacLean e os Campbell jamais permaneciam dormentes por muito tempo e eram facilmente despertadas por um acidente tão simples como o derramar de um jarro.. pensou. Katrine dirigiu-se meio cambaleante para a porta e saiu. Ele suspirou de novo. já sei. segurando-a pelo braço. profundamente.. Ele mesmo não estava agindo com lucidez.velho em gaélico. enquanto as lágrimas de Katrine ensopavam a frente de sua camisa. _ Você e seus capangas. percebeu que seria incapaz de enfrentar a curiosidade dos criados e os olhos observadores de Flora. A despeito dos xingamentos de Raith.

Callum avançou para perto da mesa. _ Katrine começou a chorar de novo e Raith pegou-a ternamente pelos ombros. por outro lado. E sorrindo.. servindo uma dose de uísque na canequinha de porcelana que trouxera consigo. percebeu Katrine. é que você se esforce para não fazer comentários incendiários quando estiver perto de gente do meu clã.. As roupas de minha mulher devem lhe servir bem. ele é perfeitamente legal. ele a tirara do caminho de uma bala. Seu temperamento é bem instável e cada vez que o solta. dando a impressão de que já estava ali há bastante tempo. _ E então. Ele segurava a boina azul entre as mãos e parecia extremamente sem jeito. imaginando qual seria o próximo homem de seu clã que apareceria na lavanderia sofrendo de consciência pesada. levantando os olhos vermelhos para o rosto de Raith. _ Isso não faz diferença para um montanhês... Isso não é algo que alguém esquece com facilidade. Desta vez ele estava mesmo brincando. _ Beba. minha doce megera. Raith pegou a canequinha com um sorriso. queimando até o estômago e fazendo-a perder a respiração. _ Eu não devia ter falado no Velho Preten. Enquanto ela tentava recobrar a compostura enxugando as faces. mas a causa original desaparecera de sua mente._ Hector não pode ser repreendido pelo seu ódio contra os Campbell _ explicou suavemente.. ela é comprida demais para mim. Poderia jurar que via vergonha no rosto já vermelho do grandalhão. _ E por deixá-la me usar como lenço _ sorriu Raith. Katrine afastou os olhos de Raith com grande dificuldade e virou-se para a porta. _ Não bebo álcool. Nós pagamos todos os impostos. já fechou a torneirinha? _ Ele estendeu a mão para enxugar uma lágrima. Teria dito àqueles malvados o que pensava deles por a obrigarem a tomar uma poção tão vil. Katrine fungou e afastou-se. _ Srta. Senão serei obrigado a trancá-la na masmorra para protegê-la. eu não diria que Hector agiu sem ser provocado. _ Parece que tenho uma divida de gratidão com você. Raith ergueu os olhos para o teto numa súplica muda. ficou imaginando se o álcool afetara sua visão. Katrine parou de chorar de repente.. olhou para Raith.. Katríne hesitou por alguns instantes e depois tomou um gole. oferecendo a caneca a Katrine. Raith sentiu vontade de enxugá-la com um beijo. não fiz nada a ele. pessoalmente. Imaginou se continuava embriagado. _ Você deve compreender bem o que aconteceu. Ele estaria mesma lhe oferecendo as roupas de Ellen? Com dificuldade. Não é de admirar que ele tenha perdido a paciência. Beba. . _ A única coisa que lhe peço. _ Então teremos de encontrar alguma coisa melhor para você usar. Viu Callum balançando a garrafa de uísque entre os dedos. havia um tom brincalhão em sua voz. Um perigoso sorriso. _ Ele perdeu todos seus entes queridos nos levantes de Quinze e Quarenta e Cinco. vai fazer bem para você. Ainda se sentia abalada. Fungando de novo. Além disso.. Nesse momento. O som de um pigarro chegou a eles. Um lindo sorriso. mas não encontrou fôlego para falar. sem tomar consciência de outra coisa que não fosse o homem cujo hálito a tocava. _ Eu lhe trouxe uma gota disto para acalmar seus nervos _ disse. mas logo notou que sua expressão era totalmente sóbria e um tanto especulativa. no-seu rei. Campbell? _ Ele hesitou e seus dedos grossos pareciam a ponto de rasgar a . vamos. Lachlan surgiu na porta. _ Mesmo uma moça com seu gênio e coragem às vezes precisa de ajuda. A bebida desceu por sua garganta. por salvar minha vida. consegue pôr fogo no mato. quando voltou a falar.engoliu um soluço. Katrine. _ Raith fez uma pausa e. Mas a cerveja foi um acidente. Tropecei na barra da saía. _ Mas eu. Uma lágrima rolou e foi parar perto do canto de sua boca ainda trêmula. Primeiro você menosprezou o rei dele e depois ensopou-o de cerveja. lembrando-se do que Raith acabara de fazer. Ouvindo a brincadeira. Ele entrou timidamente. Ela mirou os olhos azuis.

_ Ao ver o ar de desagrado de Katrine. _ Agora. _ Barbaridade é pouco _ disse. MacLean _ disse ela. como uma boa menina. Nunca em sua vida estivera tão constantemente na cozinha de sua casa e menos ainda na lavanderia. se vocês me permitem. agora estou entendendo. Katrine olhou para Lachlan com súbita aprovação. com um ar virtuoso. eu gostaria de me recolher ao meu quarto. Raith finalmente compadeceu-se de seu parente e interveio. surpresos com a fuga apressada. _ Agora termine sua bebida. o que achava notável em alguém normalmente tão lento. Então Raith olhou ao redor um tanto perplexo. O sangue subiu às faces de Katrine. Os dois homens ficaram olhando para a porta. sr. _ Vejo que você já está se recuperando _ murmurou Raith.. _ Ora. Ele podia ter me matado. E por favor. _ Sim? Mas Lachlan continuou de boca fechada e ficou um tom mais vermelho. Não satisfeitos em atirar em mim. mas decidiu que podia se dar ao Luxo de ser magnânima. vocês pretendem me envenenar. inclusive o chefe do clã. ele sorriu. _ Sim. _ Ela hesitou e depois levantou-se rapidamente. _ Pagãos incivilizados e sedentos de sangue? _ completou Raith. Afinal. enfiou a boina na cabeça e saiu quase correndo. sorriu quando o grandalhão continuou: _Hector cometeu uma barbaridade. Ela não deveria ter feito algo tão estúpido como ofender nosso rei. ora _ riu Callum. perplexa. _ Um MacLean jamais deveria copiar os costumes de covardes. Katrine olhou para ele. _ Acho que nem todos vocês são sedentos de sangue. eu sei _ disse Lachlan cabisbaixo.. O pensamento a deixou embaraçada. É algo abaixo de um MacLean guerrear com uma mulher. Tinha de evitar a proximidade de Raith. Katrine virou-se para ele zangada. _Aceito suas desculpas e de seus parentes. mas não gostou muito de Lachlan usar a palavra “estúpido” para descrever suas ações. Murmurando uma resposta incoerente. _ Obrigada. Todos os rapazes concordam com isso. estavam praticamente de joelhos diante dela. _ Bem. Katrine estivera pensando a mesma coisa. ainda amuada. meu rapaz. Era pena um momento tão impar não poder durar muito.. queira dizer a Hector que lamento ter-lhe causado algum aborrecimento. _ Roupas de Ellen. por exemplo. Katrine sentiu-se ofendida. me fazer perder os sentidos. _ Não dando tempo para receber uma negativa. Parece que você tem um novo apaixonado. Campbell? Veio oferecer suas desculpas? O ruivo pareceu aliviado por ter um motivo para afastar o olhar do rosto de Katrine e fixá-lo no chefe de seu clã. o que você gostaria de dizer à srta. afastou uma mecha ruiva da testa. _ Ela é minha única proteção contra esse bando de. Lachlan então olhou diretamente para ela com uma expressão satisfeita no rosto largo.. No entanto. hein? _ murmurou Callum. Ou. bela Katíe. . Digalhe também que terei prazer em lavar sua camisa. _ Concordo inteiramente. entregou a caneca com uísque a Callum enquanto passava por ele na saída da lavanderia. Hector estava bêbado. mas não merecia levar um tiro. _ Recuperei o ânimo para minha própria sorte _ falou. três dos MacLean. _ Ah. se ele não tiver quem o faça.boina. no mínimo. Ele fora ao fundo da questão. como os dos Campbell. _ Lachlan. _ Nunca imaginei que fosse ver Lachlan tão preocupado com uma moça. mas isso não é desculpa. _ Sim. de. mas quando viu os profundos olhos azuis lembrou-se de como Raith a consolara há poucos instantes e a beijara antes disso.

_ Callum soltou uma risada. Uma megera com uma língua letal.Raith ergueu os olhos para o primo e viu bom humor em seu rosto. _Aproveitou-se do choro de uma mulher provocante para acariciá-la. talvez? A necessidade de se sentir poderoso? Raith não respondeu. _ Sem dúvida. _ O que há numa mulher em lágrimas que faz um homem ansiar por lhe oferecer consolo? _ Desejo. Raith deixou escapar um suspiro. Acho que você vai precisar disto muito mais cedo do que imaginava. erguendo uma sobrancelha. _ Mas não estou lhe contando nada que você já não sabia. . _ Tome. a que ponto você desceu. _ Uma fraqueza momentânea que sem dúvida virei a lamentar. primo _ brincou Callum. mas Callum ignorou-o e bebeu o resto do uísque da caneca. Inclinando-se para apoiar os cotovelos na mesa atrás dele. _ E qual é ele? _ quis saber Raith. Raith balançou a cabeça vagarosamente. não? _ Mas é também uma diabinha. _ Tente beijá-la. _ Ela é mesmo provocante. Mas existe um jeito certo de se lidar com megeras e eu o descobri há muito tempo. sabendo que o primo estava zombando dele. Ela não poderá falar se estiver com os lábios ocupados. Raith lançou-lhe um olhar atravessado. Sorriu. Depois aproximou-se do primo e colocou a garrafa sobre a mesa. _ Ah.

A pedido do lorde. observando-a da porta. mas ele não é tolo e deve ter suas desconfianças. Agora Raith. o duque não tem a menor idéia de que os MacLean estão envolvidos em seu seqüestro. Katrine cantarolava baixinho quando foi novamente surpreendida por Callum MacLean. _Raith partiu ontem para encontrar-se com os MacLean de Duart. Seu olhar foi uma descarada tentativa de flerte. pois pelo menos não correria o risco de tropeçar e levar um tiro na cabeça. _Pode ser que sua estada não seja muito demorada. ela era mais alta do que Ellen. O vestido era um pouco curto pois. E. mas no fundo ficou satisfeita com a aprovação que leu neles. Desconfio que meu caro primo está . voltou toda sua atenção para os lençóis. pensou Katrine com tristeza. não saberia dizer ao certo. desejo que alguma coisa aconteça logo _ acrescentou cheia de ressentimento. Nunca mais encontraria uma oportunidade igual. E não vai fazer nada até saber o que Argyll está planejando em relação aos MacLean de Duart. Mesmo assim recuperara-se mais rapidamente do susto de quase ter morrido do que do efeito devas tador e da ternura com que ele a consolara. Jamais permitiria que fosse encontrada. que estavam modestamente cobertos com um lenço branco. Ela lançou-lhe um olhar interessado.CAPITULO IX Teria a milícia inglesa desistido da busca? Seu tio a abandonaria à mercê do clã MacLean? Katrine só foi encontrar tempo para se fazer essas perguntas dois dias depois do incidente no salão no fundo da cocheira e as respostas para elas foram muito menos do que satisfatórias. abrindo-se para exibir uma anágua branca. com toda a certeza. _ Vocês não têm o direito de me manterem aqui. Usava um bonito vestido de fustão listado em azul e branco com a saia drapeada nos dois lados dos quadris e armada com pequenas anquinhas. _Bem. O bom humor de Katrine se foi quando pensou em Raith MacLean. Uma recompensa? Já era algum consolo. Ainda estava aborrecida por ter estado longe da mansão quando os soldados tinham vindo a sua procura. _Quer dizer que ele entrou em contato com meu tio? _Ainda não. embora a governanta não parecesse muito satisfeita com essa profanação da memória da santificada Ellen MacLean. Ela estava no segundo andar da casa. Colin Campbell resolveu oferecer urna recompensa a quem der informações sobre seu paradeiro. _Segundo Raith. O peitilho azul com barbatanas afinava sua cintura e erguia os seios no decote. Decidida a não pensar no lorde. Mas simples desconfianças não resultariam em sua libertação. Flora aparecera com várias peças de roupa tiradas do baú de sua patroa. colocara vigias para avisá-lo da aproximação da milícia e a trancaria ou a esconderia em outro lugar. como já haviam dito. ignorando Callum até ele voltar a falar. mas até agora não fez nenhuma retaliação contra nosso clã. Katríne corou quando viu os olhos escuros descerem para seu decote. _ Cada dia mais bonita _ elogiou ele com sua habitual franqueza. flagrou-se imaginando se Raith mostraria a mesma expressão quando a visse. _Sim. Há dois dias estava evitando-o por completo ou talvez ele a estivesse evitando. ansiosa em obter alguma informação sobre sua libertação. Ele saíra de um dos quartos do corredor e parou ao vê-la na saleta das roupas de cama e banho. e assim era muito melhor. Fora um conforto e também uma pequena vitória receber roupas decentes. mais perturbador. pois recebera a tarefa de contar os lençóis e inspecioná-los à procura de rasgos.

eu estava procurando um livro para ler. Raith inclinou-se para pegar o livro que ela deixara cair. vim procurar um livro com bastante figuras. Não me recordo de ter-lhe dado permissão para se servir de minha biblioteca. usando uma camisola de cambraia um pouco curta que expunha uma boa parte de suas pernas e tornozelos... Ele podia discernir a sombra dos mamilos com um mínimo de esforço. _Eu. Raith. Raith olhou para ela sem compreender. E foi assim que Raith a encontrou. Katrine levantou o queixo num gesto de desafio. nunca tivera o hábito de ficar lamentando uma circunstância que não podia controlar. se quer saber. esticando-se para pegar um livro numa prateleira mais alta.. _Isso é óbvio. Com uma exclamação de espanto. de como seu corpo parecia provocantemente virginal envolvido por metros e metros de um tecido tão leve. subitamente se deu conta de como seu rosto ficava ainda mais radiante sob a luz da vela. Os cabelos ruivos e rebeldes estavam presos numa trança grossa e os seios fartos delineavam-se contra o tecido macio. Pretendo ensiná-la a . não esperava que você fosse voltar tão cedo. No entanto. logo achou que seria melhor confessar. Katrine continuou a pensar em sua situação. Katrine recuou. Afinal. _ Raith lançou-lhe um olhar autoritário enquanto se aproximava dela. o que você está fazendo aqui? _Se não me engano. _Penso que essa idéia não lhe ocorreu. _Na certa está pensando em pegar pessoalmente o dinheiro do resgate. Vendo as fileiras de livros encadernados em couro. corno auxiliar a pequena Meggie. A camisola fora de Ellen. deveria extrair o máximo de proveito de seus apuros... Lutando contra ele.tão ansioso em se livrar de você quanto você está para sair daqui. _Ervas Medicinais? _ leu e depois lançou-lhe um olhar penetrante. mas queria desesperadamente ajudá-la. estudando-a com olhos semicerrados. Mal vira a menina nos últimos dias. Callum lançou-lhe um olhar maroto quando se preparava para sair. quase sem fôlego. Quando Callum se afastou. Enquanto estivesse em Cair House. _Eu. _O que.. Nunca recebera permissão de entrar na parte da frente da mansão e por isso levou um bom tempo até encontrar a biblioteca... obrigou sua atenção a voltar para o assunto em questão. _ Perguntei o que está fazendo aqui. mas Katrine Campbell tinha muito pouco em comum com sua esposa. _Será que pode me explicar o que está fazendo aqui? Katrine assustou-se com aquela aparição súbita. com os lábios entreabertos. só tem de negociar minha libertação com meu tio. encostando-se nas estantes. pôs o candeeiro sobre uma mesinha e começou a folheá-los um a um à procura do que desejava. assustada. eu queria encontrar algumas ilustrações para Meggie copiar. apesar das ordens de Raith proibindo-a de encontrá-la: Naquela noite Katrine esperou até todos estarem dormindo antes de acender uma vela e descer as escadas pé ante pé. claro que não. Katrine olhou-o tensa. _ Será que você pretende me envenenar? _Não. Acho que vou sugeri-la. esta é minha casa. deixou cair o livro que pretendia folhear. _Eu sei. poderia até fazer algo de muito bom. A visão fez o desejo despertar em seu corpo. mas ficava cada dia mais claro que permaneceria presa por um longo tempo... Ele parou a um passo de distância dela. Ele baixou o olhar. De fato. Na ponta dos pés. _ Mas se está mesmo ansioso para me ver pelas costas. A idéia era desagradável. _Impossível _ disse Katríne secamente.. Contudo. _ Muito bem. _Por que _ perguntou com ameaçadora calma _ estou com a impressão de que você não disse a verdade? Quando Katrine não respondeu. _ Vendo-o erguer uma sobrancelha numa nítida expressão de ceticismo. ia precisar da permissão de Raith para pôr em prática seus planos. quero dizer.. _Raith ainda está pensando nas exigências que pretende fazer.

pensou. menos satisfatório.. Raith apertou os lábios. _Por favor _ acabou sussurrando. de submeter qualquer outra mulher às dores lancinantes que Ellen sofrera. imaginando no que estaria pensando. _ Sua voz foi sumindo diante da expressão sisuda de Raith. de aliviar um pouco o tormento que sente.. Chorara muito na noite nupcial e apesar de ele ter conseguido acalmar seu pavor. Fechou os olhos. Por que não pensara nisso antes? E mais. _Foi exatamente o que eu disse _ retrucou Katrine. não gostando nada do modo como Raith conseguia intimidá-la com um simples olhar. Ele surpreendeu-se com o anúncio. sua mulher sempre encarara o sexo como uma obrigação. Corava quando ele brincava e fugia assustada quando o via franzir o cenho. Ellen era delicada. Ellen fora uma criatura delicada. não apenas dando mas também exigindo. Seria mesmo bom para Meggie ter um meio de se comunicar e nada como uma mulher para lhe ensinar certas coisas. gentil e tímida. Não fora apenas sua posição de chefe do clã e a aversão diante da idéia de gerar um filho ilegítimo que o impediram de procurar companhia feminina. uma dama de maneiras tranqüilas. pensou. _Você quer ensinar Meggie a desenhar. Ele perdera a batalha e sabia disso. lutando contra o desejo de tomar Katrine nos braços. sem nenhuma complicação. Em seus olhos havia uma emoção que não conseguiu decifrar. observou Raith cautelosamente.. antes de perder novamente o controle. aborrecido com esses pensamentos. Mais do que tudo. Era um tolo por estar fazendo comparações.. _Posso mesmo? _ Katrine não esperava que ele capitulasse tão depressa. O leito matrimonial fora tudo.. . que jamais falava alto e nunca externava irritação. Por mais gentil ou paciente que fosse. O silêncio se prolongou por mais alguns instantes e foi quebrado por uma resposta num tom baixo e áspero que a intrigou. Só quero ajudá-la. quanto pelo fato de a idéia fazer sentido. não deveria ter feito julgamentos apressados sobre essa representante dos Campbell. tentando dar à luz ao seu filho. Katrine. Não aconteceria o mesmo com Katrine. Seu interesse na menina era genuíno. pois duvidava que na próxima vez seria capaz de parar só num simples beijo. Ellen se submetia sem protestos durante suas pouco freqüentes visitas.desenhar. surpreendeu-se lembrando de sua esposa e comparando-a com sua prisioneira. jamais conseguira aceitar plenamente seus carinhos. praguejou em silêncio. Jamais poderia negar um pedido tão simples e altruísta. No fundo sabia que isso era bobagem. tanto pelo atrevimento de Katrine em desafiar abertamente suas ordens. Estranho. _ Ela tem pouco talento artístico. sem que conscientemente quisesse fazê-lo. _Está bem. lembrando-se da ardente reação ao seu beijo. Ellen sentia muito medo de Meggie devido a sua expressão solene. Pensei que seria bom Meggie ter um meio de expressar seus pensamentos. embaraçada com o silêncio. mas a técnica pode ser aprendida. pois dezenas de crianças nasciam diariamente na Escócia. Agora tinha de se livrar dela o mais rápido possível. Katrine estudou os traços firmes de Raith intrigada com o jogo de emoções que via no rosto moreno. Percebendo a verdade. o que o levara a isso fora a falta de desejo de gerar um filho. de arriscar vê-la morta. Tinha certeza que essa moça de gênio irascível e capaz de excitá-lo com um simples olhar devolveria carícia por carícia. Só uma única vez ele a ouvira levantar a voz _ quando gritara de agonia. Agora estava percebendo que sua preocupação com a possibilidade de ela querer usar Meggie em seu proveito não tinha nenhum fundamento. Mas nem todos os trabalhos de parto eram acompanhados por alguém como Morag. você pode ensinar Meggie a desenhar. A súplica arrancou-o de suas reflexões e fez seu coração se comover. O sentimento de culpa e a auto condenação que o haviam perseguido depois da morte de Ellen o tinham levado a um longo período de abstinência. _ Deixe-me fazer alguma coisa por Meggie. De novo. _ Vou precisar de lápis e pergaminhos. tornando-se consciente do quanto a queria.. mas sempre o deixava com a impressão de que estava se impondo. Fora um grave erro seqüestrá-la. Como não pode falar.

pensou Raith. Minha mulher era muito prendada nesses refinamentos femininos. mas resolveu aproveitar a boa disposição de seu captor. decidiu Katrine. _ Só. tinha de admitir que ele possuía muitos dos atributos do príncipe encantado que criara em sua imaginação. lerei as cartas antes de serem enviadas. que estimulava seus sentidos a um ponto além de qualquer lógica? Quase sempre sentia-se dividido entre a vontade de esganá-la ou beijá-la para sentir a resposta apaixonada às suas carícias. Ficou ali. minha tia. As coisas que você precisa estão guardadas em algum baú. srta. Minhas irmas._Peça a Flora para procurá-los.. mas não conseguia reunir força de vontade para se mexer. E. Raith conteve um suspiro.. elas devem estar preocupadas por não receberem notícias minhas. Raith passou aqueles dias ocupando-se com a administração de seu clã e Katrine com os afazeres domésticos e as aulas de desenho de Meggie. _Deseja mais alguma coisa.. alarmada. enquanto Katrine recusava-se a admitir que seu captor a afetava. Naturalmente. _Papel de carta e envelopes _ murmurou. Katrine hesitou um pouco. _ Eu gostaria de escrever para a família que deixei na Inglaterra.. quando viu o rosto de Raith endurecer.. Como se estivessem cumprindo um mudo acordo. Claro que não direi uma única palavra sobre o seqüestro _acrescentou rapidamente. _Temos um quarto de brinquedos no segundo andar. O que havia nela que o fazia perder a calma de um modo como nenhuma mulher conseguira antes.. Campbell? _ indagou Raith secamente. Raith começou a dar um passo para cobrir a distância entre eles.. Katrine sabia que devia subir para seu quarto. sentia-se sempre inquieta .-via muito tempo que não estava uma mulher. com toda a certeza.. E se ele a beijasse de novo. e não apenas fisicamente. mas se conteve no último instante. Um longo momento carregado de sensualidade os envolveu. que prendia a respiração em sua garganta. E por que queria tanto que ele a beijasse? Por que essa moça o fascinava tanto. O leve tremor em sua voz quase fez Raith perder a cabeça. olhando-a e sentindo uma atração tão poderosa que era quase uma dor física. como a luz da vela fazia os cabelos negros e os olhos azuis brilharem. Com um movimento decidido. pensou. Ele ainda devia estar se sentindo culpado por ela quase ter morrido com o tiro de Hector. _Sim. Katríne fugiu para seu quarto. _E também vou precisar de um lugar para trabalhar com Meggie. Seria melhor começar a visitar a viúva simpática de Strontian que sabia como evitar filhos. olhando-o em silêncio. uma sala ou saleta onde exista uma escrivaninha ou uma mesa. durante o resto do dia.. claro. devia fazer uso da garrafa de uísque que Callum tão sabiamente lhe entregara. só não quero deixá-las aflitas. No entanto. fascinada. por mais bela e sedutora que fosse. você poderá escrever a elas. aquilo não era normal! Com certeza reagia assim porque ha. Era quase possível sentir a paixão fluindo entre eles. cerrando dentes e punhos.. Havia algo eletrizante nos olhos de Raith que a fazia permanecer ali. surpresa com tanta benevolência. Raith estava terrivelmente consciente das curvas suaves sob a camisola. hipnotizado. Raith deu um passo atrás. e Katrine observava. desde que não conte onde está ou fale sobre seu tio. Com um movimento decidido. por duas horas. _Muito bem. Todas as tardes. os dois passaram a se evitar. Não. Pensando bem. Raith não se permitia acreditar que podia estar atraído por uma Campbell. ela trabalhava com a menina da maneira que costumava fazer com todos seus empreendimentos: lançando toda sua alma no projeto. quando a viu parada. Acha que servirá? _Claro! _Então tem minha permissão para usá-lo. Muito obrigada _ sussurrou Katrine. sabendo que perdera uma outra batalha.

delicada e muito bonita. Katrine não conseguiu deixar de se sentir inferior e não foi só pela diferença no modo de vestir. E o confinamento forçado aumentava seu problema. Oh. Todavia. Não era de admirar que tivesse respondido aos beijos. Katrine desviou os seus rapidamente. Quando seus olhos se encontraram por cima da cabeça da menina. a gentileza que ele dispensava à Meggie não se estendia a ela. Meggie usava um vestidinho branco imaculado e tinha os cabelos negros presos por uma fita. como acontecera depois de Hector tentar matá-la. exceto em casos excepcionais. Cheia de orgulho. graça e beleza era muito deprimente. Ser comparada a um tal modelo de virtude. Apesar de todos seus esforços. Katrine estava pensando em Ellen naquela tarde. O vestido era realmente luxuoso. A sobressaia de brocado cor de marfim estava drapeada em pesadas dobras sobre anquinhas largas para exibir uma saia de rico cetim. Ele mostrava uma moça vestida no auge da moda. Katrine mudou o rumo de seus pensamentos e obrigou-se a atender bem o dono da casa e exibir-lhe os avanços de sua pupila. pois surgiu um novo motivo para querer escapar do cativeiro: estava se enamorando de Raith. Fora com Flora procurar um bloco de desenho numa elegante saleta de estar quando teve a atenção despertada por um quadro pendurado sobre uma graciosa lareira de mármore. numa vozinha fraca. mostrou a Raith um desenho de uma borboleta um tanto gorducha. No mesmo instante ela ficou tensa. Katrine sentiu uma forte emoção tomar conta de seu coração. E tinha o gênio mais doce que se pode encontrar em uma moça. tinha certeza de que jamais conseguiria competir com a lembrança da caprichosa elegância de Ellen. Katrine ouviu os elogios de Raith meio distraída. Via-se que era uma mulher pequena. pois não confiava mais em si mesma. _Sim. Qualquer mulher ficaria atraída por um homem capaz de tanta gentileza com uma criança. _ Essa é Ellen MacDonald? _ perguntou sabendo a resposta antes de a governanta balançar a cabeça bruscamente. Agora não tinha coragem de aproximar-se dele com essas indagações. se já começara as negociações de seu resgate. Escrevera para suas irmãs e tia.” Katrine estava em Cair House há cerca de quinze dias quando descobriu mais sobre a falecida esposa de Raith. como se ele fosse capaz de ler seus pensamentos. O peitilho do mesmo cetim com barbatanas compridas fazia os seios delicados pareceram maiores no amplo decote.e irritável. O olhar que Flora lhe lançou fez Katrine calar. Chovia sem parar. mas sobressaltou-se quando ele disse. As mangas terminavam no cotovelo em cascatas de preciosa renda. com um penteado alto e elaborado. sem jeito. o que a impedia de sair de casa para admirar a beleza natural das Terras Altas. Com algum esforço. quando Raith fez uma visita ao quarto de brinquedos para acompanhar o progresso de Meggie. cuja pele de porcelana era acentuada por pó de arroz e e uma marca de beleza numa das faces. ele estava sempre em sua mente. mas temia acabar respondendo ao beijo com o mesmo ardor de antes. Passava um bom tempo se preocupando com a hipótese de ele voltar a beijá-la e imaginando como ela reagiria. mas entregara as cartas para Flora passá-las a Raith. Um dia Flora ouviu seus resmungos e respondeu com mais um de seus provérbios: “Dê mais férias à língua do que à cabeça. de vez em quando ela praguejava baixinho contra o senhor de Ardgour por estar levando tanto tempo para resolver sua situação. como gostaria que seu tio a libertasse o mais depressa possível! Desejava ter lembrado de perguntar a Raith. Sabia muito bem que deveria repeli-lo até mesmo com violência se se atrevesse a tomar novas liberdades. No entanto. num tom tranqüilo: . Estaria Raith comparando-a com sua mulher? Ela usava um vestido muito simples de sarja cinzenta e apesar dos cabelos estarem bem presos num coque bem comportado. Ao ver o terno sorriso de aprovação que ele deu à menina. _Ela era muito bonita _ admitiu. naquela noite na biblioteca. linda.

meio fraca. Flora mandou-a subir e encarregou Katrine de ir buscar um balde de creme na leiteria. Katrine sentiu o coração começar a bater forte. O coração de Katrine saltou quando o pano se abriu para revelar as entranhas de um animal. Curiosa. parecendo pronto a assassiná-la com seu cajado de pastor. Ela deu um salto para trás. se procurasse mais atentamente. Um armário secreto cheio até a boca de armas dos mais variados tipos: espadas. _ Dê isto a Flora MacDonald _ ele ordenou. Sem dúvida. Pobre animal. Estava atravessando o pátio quase saltitante quando viu Lachlan MacLean entrar na leiteria. _ Katrine parou e engoliu em seco. Dando a volta na edícula pé ante pé. Pela primeira vez conseguira fazer alguma coisa em que Raith não encontrara defeito. sentindo o estômago revirar. As palavras aqueceram a alma de Katrine. Em seguida fugiu à procura de ar fresco. _ Muito obrigado _ acrescentou. onde lhe serviria algo gostoso como prêmio pelos seus esforços naquele dia. Ela aceitou a incumbência com grande alegria.. Vendo que seria inútil insistir. ele ficou imóvel.. Não conseguia ver nada de diferente no piso. Quando saía da leiteria entretida com seus pensamentos. Desse momento em diante. _ Eu. como era traição um habitante das Terras Altas possui-las. percebendo que não precisaria dar explicações por ter estado na leiteria. Quando Katrine baixou o olhar para aquilo. o velho empurrou-lhe o pacote macabro nas mãos. Só quando lembrou-se que Flora pretendia fazer dobradinha para o jantar do dia seguinte que reconheceu o bucho de um carneiro. _ Quando se virou para ela. diante de um dos latões de leite. deixou-se cair num dos degraus da . O velho com toda a certeza não a vira espionando porque. Punia-se crime dessa espécie com enforcamento. ansiosa por tomar um pouco de ar fresco. Teria de pensar muito bem antes de decidir o que faria com essa nova informação. mosquetes. Tomada de curiosidade. esperou até ver Lachlan dirigindo-se para a cocheira. Curvo e enrugado.. Foi então que percebeu que havia um tipo de alçapão sob o latão. encontraria barris de pólvora. olhando-a com ferocidade. ela descascou os legumes para o jantar. Raith. mas vira um alçapão com seus próprios olhos. Vagarosamente ela fechou a porta do alçapão. Katrine entrou na leiteria e inspecionou cuidadosamente o canto sobre o qual Lachlan se inclinara. caso contrário. Pelo menos. Katrine recuou de susto ao dar de cara com o velho que tentara matá-la. numa quantidade suficiente para iniciar uma pequena guerra. Poderia jurar que ele estava desarmado quando entrara. O que descobriu depois de vários minutos de sondagem quase a fez cair de costas. foi com grande alívio que viu-o sair depois de alguns minutos. pistolas. Tinha certeza que se deparara com algo que não deveria ver. Parara de chover e um ou outro raio de sol conseguira atravessar as nuvens para iluminar a tarde. pensou. deixando-a sozinha com Meggie. esperava que fosse um animal. junto com o balde de creme. Katrine passou a ter dificuldade em se concentrar na lição. carregou-a até a cozinha e depositou-a. seu rosto não mostrava a habitual ferocidade ou desdém. escudos e muitas sacolas que deviam conter balas. Embora pudesse gostar da idéia de ver Raith MacLean esfriando numa cela por tê-la seqüestrado. a não ser que Raith a considerasse perigosa demais para guardá-la dentro ou perto de sua casa. Um esconderijo. ainda quente. Enquanto Meggie comia o pudim. Respirando fundo. escondendo-se com o coração aos saltos. pôs um fim à aula e levou a menina para a cozinha. o pensamento de que ele poderia ser enforcado era insuportável. eu. No entanto. punhais. Aquelas ar-mas não somente eram instrumentos de destruição. mas foi a visão de uma pesada espada em suas mãos que a surpreendeu. Todavia. carregando a espada.. Campbell deve ser cumprimentada pelo seu trabalho. Hector segurava alguma coisa enrolada num pano sangrento. seria essa sua sorte se se provasse que além de raptá-la ele possuía todo aquele armamento. espadões e floretes. Lachlan estava ajoelhado num canto. Segurando a coisa sangrenta o mais longe possível. ela já estaria acertando contas com o Criador. no mesmo tom._ A srta. diminuiu os passos e aproximou-se da edícula em silêncio. Quando a menina terminou. sobre a bancada em que Flora estava trabalhando.

. como se ele estivesse reprimindo um sorriso. enquanto Raith sentava-se a seu lado no degrau. Nunca vi uma moça branca e verde ao mesmo tempo. Raith atravessou o pátio torcendo o lenço e estendeu-o para ela. mas nunca consegui lidar com carne fresca.. Você vai se sentir melhor. Katrine começou a abaixar novamente a cabeça. _Eu tenho prática em cuidar de uma casa e sei até cozinhar um pouco. _ Ele fez o quê? Em vez de responder. Prefiro carneiro já cozido. _ O que aconteceu? _ repetiu ele. ele me deu um bucho de carneiro. Katrine ficou tensa ao ouvir essas palavras. _Eu também. Poderia ser uma tirada sarcástica. _ Os olhos azuis cintilavam por trás dos cílios espessos. _ Inclinou a cabeça numa mesura formal. mas havia um bom humor em seu tom.. Ele refrescou a testa suada e afastou os últimos vestígios da náusea. Continuava nessa posição. lutando contra a náusea. Ela ficou acompanhando seus atos. _ Então foi só isso? Pensei que você e Hector tivessem se envolvido numa luta de vida ou morte. mas Raith pôs um dedo embaixo de seu queixo. continuando a prender-lhe o queixo até conseguir extrair um relato completo do acontecido. _ Conte-me o que aconteceu _ insistiu. O pior é que havia um brilho muito suspeito em seu olhar. Raith tirou o lenço úmido das mãos de Katrine e com gestos suaves passou-o nas suas faces agora coradas. A boca de Raith tremia um pouco.. obrigando-a a encontrar seu olhar... Raith usava calças de montaria e uma camisa de linho com mangas dobradas até os cotovelos. Se não o conhecesse bem diria que Raith estava genuinamente preocupado com ela. srta. _ Sempre a seu dispor. _ Srta. poderia ser um brincalhão charmoso como seu primo. Katrine olhou-o um tanto desconfiada. Muito sem jeito . Desejando que um raio caísse na cabeça dele. _ Hector. se não vivesse assoberbado com as responsabilidades de seu clã. _ Ela teve de arrancar a palavra da garganta enquanto se obrigava a não estremecer diante do toque. Não tenho o menor talento para ser açougueira. afastando alguns fios de cabelos que haviam lhe caído sobre a testa e prendendo-os atrás das orelhas. Katrine aceitou o pano úmido e pressionou-o contra a testa. _Você me pregou um susto dos bons. Antes que Katrine pudesse dar uma resposta malcriada. Campbell. sim. dando a impressão de que caçoava dela. O brilho travesso que flagrara nos olhos de Raith a tinha feito dar-se conta do quanto ele se parecia com Callum. _Por nada. ela ergueu o rosto... _Passe isto no rosto. Campbell. quando ouviu o som de patas de cavalo no pátio calçado e depois de passos apressados. Com um olhar cauteloso. _S. ela endireitou os ombros e fuzilou-o com o olhar. um tanto perplexa com a surpreendente mudança de atitude. ou de amá-lo. _Muito obrigada _ agradeceu.escada da cozinha e apoiou a testa nos joelhos. _ Alguma coisa errada? Katrine olhou-o. fazia-a sentir capaz de realmente gostar dele.. Katrine teve um outro pensamento estranho. Raith tirou um lenço do cinto e caminhou até um barril que ficava junto a uma das calhas do telhado para captar água de chuva. _Pode ser que você esteja acostumado com coisas sangrentas. Se Raith MacLean não fosse tão sério o tempo todo. _Sente-se melhor agora? _ murmurou. intrigada com a expressão em seu rosto. Um sorriso aflorou aos lábios de Katrine. Ele a fazia sentir coisas que não queria experimentar. mas comigo é diferente. Odiava esse lado sensível de Raith MacLean. Então sua expressão se suavizou e ele colocou o pé no degrau ao lado de Katrine e apoiou o braço no joelho.. o que aconteceu? Ao ouvir a voz um tanto áspera. Vendo-o molhar o lenço na água. ainda não totalmente recuperada. Katrine. Katrine afastou rapidamente os pensamentos desse terreno perigoso.

agora, evitou olhá-lo, desejando que voltasse a ser o bruto insensível de antes. Gostaria de nunca ter se envolvido com esse perigoso montanhês. Gostaria que ele a beijasse de novo e fizesse seu sangue transformar-se em fogo... Obrigando-se a controlar suas vergonhosos reflexões, forçou-se a fazer a pergunta que há muito estava em sua mente. _ Você teve alguma notícia de meu tio? Callum me contou que você foi falar com seus parentes. Raith levou algum tempo para responder. Durante sua última viagem fizera bom uso do selo ducal que roubara do gabinete de Colin Campbell, emitindo recibos falsos para os MacLean de Duart. Isso, com toda a certeza, atrairia a atenção do Duque, mesmo que o seqüestro da sobrinha de seu administrador não o tivesse comovido. No entanto, não pretendia revelar isso a Katrine. _ Não, não tive novas notícias. Katrine lançou-lhe um olhar intrigado, estudando sua expressão. Por que ele parecia relutante em falar sobre o assunto. _ Então, o que pretende fazer? _ O mesmo de antes. Espetar. _ E com qual propósito? Ainda não entendi o que quer de meu tio. _ É simples. Só desejo receber de volta uma parte do dinheiro que Colin Campbell e o duque de Argyll vêm roubando dos MacLean de Duart. _ Roubando? Meu tio não é desonesto, já lhe disse. Pode ser que tenha sido zeloso demais ao obedecer as ordens do duque, mas... _ Seu tio não é diferente do resto de seu clã. Katrine começou a sentir o sangue ferver, mas Raith impediu-a de responder acaloradamente erguendo a mão. _ Por favor, não quero discutir com você. Ela engoliu as palavras. Também não desejava entrar em um confronto desnecessário. Inclinando a cabeça, examinou Raith. Não tinha a menor dúvida de que ele tinha uma preocupação legítima com o bem estar de seu clã, mas em sua opinião estava tentando resolver o problema da maneira errada. _ Quer me responder uma única pergunta? Por que não vai simplesmente conversar com o duque? Creio que se você apresentasse seu caso a ele, talvez fosse ouvido. Procurando-o pessoalmente, poderá lhe explicar suas razões, poderá barganhar de alguma forma. Raith suspirou. _ Você conhece o atual duque de Argyll? _ Não pessoalmente, mas soube que... _ Ele possui todas as qualidades pelas quais os Campbell são famosos: falsidade, astúcia, covardia e avareza. Lembre-se que o general John Campbell lutou ao lado do açougueiro Cumberland contra seus compatriotas. Katrine percebeu que não adiantaria discutir. Para um homem das Terras Altas como Raith, qualquer um que não apoiasse a causa jacobita era considerado um traidor da Escócia, mesmo se já tivessem se passado quinze anos depois da última rebelião ter sido esmagada de maneira trágica. Além disso, todos os duques de Argyll haviam sido ferozes inimigos dos MacLean, pois seus clãs guerreavam há séculos e séculos. _ Mesmo assim _ insistiu Katrine _ , faz mais sentido conversar como uma pessoa civilizada em vez de continuar uma briga que poderá levar a mais derramamento de sangue. Raith apenas balançou a cabeça e disse: _ Algumas coisas valem um derramamento de sangue. Pretendo defender meu clã de todas as maneiras que encontrar... o que não inclui conversar pacificamente com Argyll _ terminou, olhando-a fixamente. _ Mas será que não entende? Se continuar a ser inflexível e vingativo, só conseguirá piorar a situação. Penso que deveria pelo menos pensar numa alternativa menos violenta para este empreendimento perigoso em que está empenhado.

_A senhorita deixou sua opinião bem clara, srta. Campbell. Aliás, como sempre. Mas posso afirmar que está sonhando se pensa que uma questão como esta pode ser resolvida numa mesa de negociações. _ Talvez você até tenha razão. Mas como vai sair disso sem ao menos tentar? Raith não respondeu. Frustrada, Katrine virou-se e ergueu os olhos para as montanhas de Ardgour. Suas encostas estavam se tornando cor de violeta. A urze graúda florescera subitamente durante os dias em que se vira impedida de sair de casa por causa da chuva. Ao lado dela, Raith cerrou o punho em torno do lenço. Irritava-o constatar que Katrine quebrara o mudo acordo que tinham respeitado até agora levantando a questão de seu cativeiro e fazendo um outro ataque passional contra sua lógica. O que propunha jamais daria certo. Um MacLean nunca podia esperar algo que não fosse traição por parte de um Campbell. Ele estava agindo da maneira certa, não tinha dúvidas sobre isso, mas não gostava nada de ter de se defender com tanta freqüência de uma megera de cabelos de fogo e gênio para combinar com eles. Ela fazia seu sangue ferver _ de várias maneiras. Ele voltou-se para Katrine, que estava olhando para as montanhas, e ficou admirando os cachinhos que tinham escapado do coque para enrolar-se em sinuosa desordem em sua nuca. Ela precisava ser domada, precisava de alguém que lhe tirasse o fio afiado de sua língua. Ainda assim, não conseguia evitar de fantasiar como seria transformar essa raiva apaixonada em apaixonado prazer... Que inferno! Katrine Campbell estava se tornando um problema muito sério. No entanto, não conseguia ignorá-la, manter-se longe. Não era nem mesmo capaz de afastar o olhar dela. Sua atenção foi atraída pelo colo exposto acima do pequeno decote do vestido caseiro, pelo brilho radiante de sua pele sob a luz do sol. Era branca e sedosa, e livre das sardas que tantas ruivas possuíam. Distraidamente, ele imaginou se o resto de seu corpo seria igualmente imaculado. Seu olha recaiu na cintura fina e em seguida deslizou para os quadris, continuando pela coxa até se demora nas mãos que ela cruzara sobre o colo. Estavam vermelhas e machucadas... Ele sentiu o coração se apertar. As mãos de Katrine eram longas e delicadas, típicas de uma dama. Pela primeira vez admitiu que a tratara com especial dureza desde o seu seqüestro. Essa moça não estava acostumada a afazeres domésticos mais rudes. Também não merecia ser obrigada a fazê-los. Depois de alguns instantes, ele quebrou o desagradável silêncio que se fizera entre eles. _ Estive pensando em Meggie. Katrine virou-se para ele com uma interrogação no olhar. _ Você tem razão. Ela precisa de alguém que lhe ensine as coisas que crianças normais aprendem, que lhe dê uma atenção pessoal. Resolvi contratar uma governanta para ela. Katrine franziu o cenho. _ Você vai ter de fazer uma escolha cuidadosa _ disse, cautelosa. _ Meggie é especial e seria cruel submetê-la a alguém que não está a par de sua situação. _ Sei disso _ concordou Raith, balançando a cabeça. _ Por isso estou lhe pedindo que aceite o cargo até eu encontrar a pessoa adequada. Você será dispensada de suas tarefas na cozinha, claro. Assim poderá passar mais tempo com a menina. Katrine ficou encarando-o, surpresa com a oferta tão inesperada. Raith sorriu. _ O que foi, srta. Campbell. Perdeu a língua? _ Eu... não, claro que não. Mas... não pensei que você confiasse em mim para ensiná-la. _Meggie confia em você e isso já é mais do que suficiente para mim. Katrine sentiu uma onda de emoções variadas. Seria um prazer trabalhar com a menina, mas a maior alegria era o fato de que Raith MacLean estava disposto a confiar-lhe sua pupila. No entanto, jamais o deixaria saber disso. _ E então _ insistiu ele _ , está disposta a aceitar minha oferta? _ Sim, claro. _ Então está bem. _ Raith levantou-se. _ Você pode começar amanhã, se isto lhe

agradar. Vou instruir Flora para ajudá-la em tudo o que -for necessário. Katrine assentiu com um gesto e nem mesmo respondeu quando Raith fez uma leve mesura e desejou-lhe um bom dia. Ficou observando-o atravessar o pátio e entra na estrebaria, ainda paralisada pela surpresa. Lamentava profundamente essa mudança no lorde de Ardgour, porque quando ele se comportava como um cavalheiro em vez de agir como um bruto, quando não a enfrentava com seu feroz antagonismo, achava muito mais difícil resistir à poderosa e crescente atração que sentia por ele.

pensou Raith. talvez até pudessem ter uma conversa civilizada. pensativa. E precisava falar com ele sobre Meggie. . ‘meio desejando que Katrine não chegasse para assistir ao nascer do sol. _Até os canalhas de coração negro têm família. encontrando dificuldade em se concentrar na conversa. mantendo-se distante. E para demonstra que não tinha medo do senhor de Ardgour. vendo a luz da manhã afastar as últimas sombras do vale. Prendera a barra da saia velha e comprida demais na cintura. No entanto. _Então você tem um irmão? _Eu tinha um irmão. toda uma vida sozinho. pensou Katrine. tenho de admitir que foi uni grande progresso para quem era ajudante da ajudante de cozinha. O canto cessou subitamente. dando a impressão de que estava a ponto de fugir. neste dia acordara com uma inquietação que lhe provocava quase uma dor física. sob o peitilho. dirigindo-se para o vale. Nas últimas manhãs estivera vendo Katrine desaparecer na névoa acinzentada. Ela cantarolava enquanto encontrava caminho por entre as pedras. aproximou-se dele. Sim. _Verdade? E a que devo esse generoso julgamento? À sua promoção a governanta de Meggie? _Bem. _ Meu irmão e eu costumávamos vir pescar aqui. se soubesse. filhos. sendo capaz de atravessar. _É interessante _ disse depois de alguns instantes. repreendeu-se pela sua fraqueza. _Não acho que você tem um coração totalmente negro. e ainda não voltara. _Oh. lamento. O primo de seu captor. mas ouviu sua voz por cima do murmúrio do riacho. Ele estava quase agradável nessa manhã. se necessário. Mas não conseguira evitar. E uma irmã também. por receio de sua reação ao deparar-se com ela. _ Pensei que ninguém costumasse vir aqui _ retrucou. _ Eu nunca consigo pensar em você como tendo um irmão. Ela estava novamente descalça. com os cabelos soltos caindo numa cascata de cachos.. partira no dia anterior para uma missão secreta. e tudo indicava que era o tipo de homem que não precisava da companhia de outras pessoas. Ela não concebia sua vida sem suas irmãs e muitos parentes próximos. o que estava fazendo ali? Ela não se surpreenderia com a presença de Callum. Se pudesse ignorar a seminudez de Raith. imaginando que devia se sentir solitário sem pais. Então. Depois de vários momentos de luta interior. Katrine olhou para Raith. Os olhos verdes o examinaram intrigados. Era louco por ter vindo. Era-lhe difícil desviar os olhos do corpo másculo de Raith. contudo. fora um erro. que não perdia nenhuma oportunidade para flertar. Não a viu se aproximando porque estava de costas.. Raith olhou por cima do ombro. se conseguisse controlar as loucas batidas de seu coração. enquanto olhava para os galhos da árvore em que estava encostado. vestira o xale à moda escocesa e dirigira-se para os fundos da propriedade. Mordendo o lábio. e sua bela esposa. Por três vezes fora capaz de reprimir o impulso de segui-la. com uma vaga sensação de prazer. orgulhoso e auto-suficiente. teria ido a outro lugar.CAPÍTULO X Foi um erro ter vindo aqui. Katrine hesitou. uma infância normal. Katrine considerou a observação como um desafio. deixando claro que. mas eles morreram levados por doenças infantis. sua pupila e seu primo. _Não fuja por medo de mim _ disse ele. Mas Raith tinha seu clã. e sem dúvida reprovável. Sentara-se junto à margem do riacho num ponto bem acima do local onde ele desaguava no lago.

Ele as lera rapidamente. mas as respostas lacônicas que obtivera até agora pareciam indicar que ele não estava interessado em falar sobre sua pupila. O tom era leve e alegre e as páginas tinham inúmeras observações sobre a beleza da Escócia e as modificações que haviam ocorrido nas Terras Altas durante sua longa ausência. para sua surpresa. _Este lugar é lindo _ murmurou com reverência. Sentiu vontade de saber mais. _Sim. jamais a deixaria ficar depois da confusão em que se colocara.. Gostaria de dizer que morava na Escócia. Raith estudou-a em silêncio. _Uma boa notícia. _Minhas duas irmãs também moram lá _ apressou-se a acrescentar. _Meggie progrediu bastante nesses últimos dias _ começou.. para desfrutar a maravilhosa paisagem que o cercava? _Aqui é completamente diferente de onde eu moro _ disse Katrine. Está esperando seu segundo filho para breve. lembrando das cartas que ela escrevera para a família. _E a outra? _Louise? Ela também é casada. ela gosta de poesia. _ Katrine parou de falar e lançou um rápido olhar para Raith. misturando-se com o verde esmeralda da paisagem. sentiu-se atraído pela beleza que ela sentia tão profundamente. apesar de suas melhores intenções. _Estou ensinando-a a usar a agulha para bordar e costurar. Quando fora a última vez que fizera uma pausa em suas responsabilidades. com toda a certeza. mas sabia que seu tio. _ Ela parou de novo ao perceber que entrara em outro terreno desagradável. e o quanto mais desejava saber. enquanto Raith olhava para a água com o rosto muito sério. _Onde você mora? Katrine surpreendeu-se com o interesse. _ A mais nova casou-se um pouco antes de eu vir para cá. Espero que desta vez seja uma menina. seus ódios. Ela ainda é muito novinha e não quero forçá-la demais. só algumas horas por dia. claro.. A visão quase o fez perder a respiração. porque ela só serviria para atiçar o antagonismo entre eles.. Parece acalmá-la. Katrine pegou uma folha de capim e ergueu o olhar para o vale. A urze florescera e tingia grandes áreas de violeta. quando ela permaneceu em silêncio. Raith não respondeu. que contrastava com a suavidade em seus olhos verdes. _Flora me contou que você às vezes lê para Meggie _ continuou ela. ele continuou com a mesma expressão e se acomodou mais confortavelmente contra o tronco de árvore. Mas. O pensamento o fez conscientizar-se do pouco que sabia sobre sua bela e geniosa prisioneira. no mesmo tom reverente. que já não a recebera com satisfação. Katrine teve a impressão de que estava irritado com alguma coisa ou se esforçando para se controlar. Raith perdera a esposa no parto e. transformando-os numa cascata de fogo. não gostaria de ouvi-la falar sobre um novo sobrinho ou sobrinha. Meus tios moram lá. Viu-se então questionando sua própria maneira de viver. Essa jovem mulher tinha um modo de olhar para o mundo como se tudo fosse novo. Os primeiros raios de sol banhavam alguns pontos mais altos com um suave brilho dourado. _O endereço de suas cartas dizia Cambridgeshire _ sondou Raith. Raith lançou um olhar para a moça que tentava ignorar. Eles nos acolheram quando meu pai foi morto em Culloden. Lamentava ter trazido à tona a inimizade entre os clãs. ela aproximou-se e sentou-se ao lado dele no tapete de musgo que crescia na margem do riacho.Mais animada. pensou Raith e. Apesar da determinação de permanecer impassível. Um raio de sol batia nos cabelos de Katrine. A imagem do sisudo senhor de Ardgour lendo poesia para uma criança a intrigou. . _Sim. certificando-se de que não davam nenhuma indicação sobre o paradeiro da remetente.. tentando uma outra abordagem....

deu uma risadinha. desdobrando as pernas e estendendo os pés para a beira do riacho. _Você acreditaria se eu dissesse que vim à procura de aventura? _E eu deveria acreditar? _Sim _ sorriu Katrine. _ Eu não tenho o hábito de mentir. Um absurdo. Fazia tempo que eu sentia vontade de voltar a minha terra natal. talvez ele tivesse me ensinado a nadar. Uma ânsia por aventura e novidades. O gritinho que soltou revelou que a água estava muito fria. Katrine mudou de posição._E você? Pelo que me parece. Katrine emudeceu. principalmente depois de conhecê-la melhor. _Eu? E quem gostaria de casar comigo? Você mesmo.acrescentou Katrine. Mas não sabia. por inúmeras vezes. Já estava se acostumando a apreciar sua conversa e as respostas espirituosas que sempre tinha na ponta da língua. mas era muito mais interessante do que todas as mulheres que conhecera até então. não desejando ter mencionado os ingleses. em absoluto. O sabor era tão doce e leve que quando foi tomar um outro gole. Era verdade que ela estava longe de ser a moça tímida e dócil a ser contemplada de um pedestal por um homem romântico. já apontou meus grandes defeitos. de que adiantaria? Para disfarçar sua confusão. um sorriso puro. Imaginava como um homem qualquer poderia se deixar afetar por Katrine. outro ponto de contenda entre os dois. Que diferença faria o fato de Raith MacLean pensar bem ou mal dela? E mais. levou-a à boca com as mãos em concha. Raith sorria. Mas pelo contrário. _Você parece uma menina da idade de Meggie _ disse Raith. como lidar . _Parece que consegui mais aventuras do que poderia imaginar . Raith não pôde conter a emoção que o invadiu. Raith ficou observando-a quando colocou os pés na água. “Eu a quero”. doce e bondoso que ele reservava para sua pupila. entendendo um pouco melhor o que a impulsionava. O calor que tomou conta de seu corpo a fez corar. _E o que a trouxe às Terras Altas? _ perguntou ele. sentia um forte impulso de beijá-la novamente. O toque suave e o olhar apaixonado fizeram o coração de Katrine dar um salto. de quem ela era. Ela o fazia pensar no quanto estivera perdendo em sua própria existência. geniosa e fogosa tinha paixão pela vida. Com um simples olhar ela era capaz de levá-lo à paixão. sabia o que se passava com ele. Vagarosamente estendeu a mão para pegar uma gota de água que escorria pelo queixo de Katrine. Ela era extremamente feminina. mas logo depois ela abaixou-se para molhar as mãos. inclinou a cabeça para trás e deixou a água escorrer para a ponta da língua. _Meu pai uma vez me levou para brincar na água do lago perto de nossa casa _ contou Katrine com nostalgia. _ E qualquer coisa seria mais empolgante do que morar na casa de minha tia. certa de que encontraria uma expressão de crítica. depois de alguns instantes. Mas Raith não estava pensando nos ingleses. Essa moça vivaz. Nesse exato momento.” Tentou manter o bom senso. Reprimindo o desejo. nunca se casou. _ Se eu não tivesse gritado tanto por causa do frio. pensou com uma convicção tão poderosa quanto o desejo que o consumia. mas a verdade mesmo é que estava cansada de ver só campos e campos plantados com repolho e nabos. claro. Mas perdeu a batalha consigo mesmo. pois gostaria que o belo e viril montanhês que estava sentado ao seu lado a visse como uma mulher atraente. Tenho uma lingua afiada e um gênio terrível. mas eu a quero. Katrine virou-se para ele. Você não pode imaginar como a região de Cambridgeshire é sem graça comparada com esta exuberância. “É loucura. _ Ela fez um gesto abarcando a paisagem ao redor. Pegando um pouco da água cristalina. lembrando-se de quem ele era. Apesar de sua inexperiência. pensou Raith. mas pela primeira vez em sua vida Katrine esteve a ponto de lamentar não ser casada e não ter muitos admiradores. Os ingleses que conheço são todos gentis demais para desejarem passar o resto da vida ao meu lado. A pergunta foi educada e o tom bondoso. E tornava-se cada vez mais difícil para ele negar que a achava desejável. Ao ver uma expressão estranha no rosto de Raith.

Ela foi incapaz de desobedecer o pedido. Ela ainda não havia sido despertada para o sexo e o pensamento de ser o homem que iria conduzi-la para o amor provocou-lhe uma doce agonia. Diante dessa capitulação. Raith inclinou-se novamente sobre a ela. Ele prendeu a respiração diante da visão estonteante. claro que não _ prometeu enquanto examinava os olhos verdes que agora estavam suaves e enevoados. Não pretendera ir tão longe. de modo a não assustá-la. Ficaram um longo momento perdidos no beijo apaixonado e quando Raith apoiou o peso do corpo num cotovelo.. Deus.. Deixe-me experimentar mais sua doçura. afastando-se. jamais se permitira perder dessa forma o autocontrole. plena de poder.implorou ela. a língua procurando e encontrando a dela enquanto amoldava melhor o corpo contra o de Katnne. Seu olhar deslizou pelo rosto de Katrine. Entregando se. . O busto de Katrine estava modestamente coberto por um lenço de cambraia e. Então ele inclinou a cabeça e Katrine sentiu o toque suave da respiração antes da boca se fechar sobre o bico intumescido. ordenar os pensamentos em tumulto. tocou-lhe os lábios úmidos com a ponta dos dedos antes de descer a mão pelo pescoço. você disse que eu era uma víbora _ protestou num tom quase inaudível. Raith captou a incendiária paixão que habitava a alma dessa mulher rebelde e tentadora e seu desejo cresceu.. E. perdida nas sensações cada vez mais intensas. eu disse que você tinha uma língua de víbora. _ Não. acariciando a nuca. deslizou a mão por trás do tecido da blusa para desnudar os seios. _ Voce. Raith continuou atormentando-a. Abraçados. apoiando a testa no colo de Katrine. muito enganado. impotente.. vai me beijar de novo? _ Você gostaria? Como poderia responder quando as sensações que ele despertava tornavam impossível o raciocínio? _ Por que você sempre responde com outra pergunta? _ Psiu. ela gemeu de puro prazer. Mais devagar ainda. Mas estava enganado. Ela podia sentir o hálito de Raith em seus lábios. quando o afastou. Ela estremeceu. As ondas de calor que percorriam seu corpo eram tão prazerosas que teve vontade de gritar. foram deslizando para o chão. _Raith. despertando a paixão em cada ponto do corpo que se entregava com total abandono a suas carícias. Katrine.com um homem viril e perigoso como Raith. Vagarosamente ele a puxou para mais perto. bela Katie. Mas agora sabia que não podia continuar. Todo seu corpo reagiu. Raith fez um esforço final para resistir ao impulso dos sentidos. A língua de Raith brincava com ousada intimidade. _ Não. Ele continuou com o doce tormento vagarosamente.. _ Bruxa _ ofegou Raith contra seus lábios quando terminou o longo beijo. desta vez tomando-lhe os lábios com urgência. Katrine tentou.. impiedosamente. Bem devagar. mordiscando primeiro um mamilo e depois o outro. no instante seguinte sentiu o doce calor da boca masculina cobrindo seus lábios e a atordoante rigidez do corpo masculino enquanto ele a puxava para mais perto do peito. . Katrine abriu os olhos e protestou: _ Por favor. saboreando. Não fale por que vou beijá-la.. não pare. mas os gemidos cada vez mais altos de Katrine acabaram chamando-o ao bom senso. sem sucesso. _ Você. A mão era quente. Quando Raith moveu o polegar para acariciar o mamilo. lambendo. Feche os olhos. o que estava fazendo? Subitamente ele parou. soltou a mecha de cabelo para deslizar os dedos pelo pescoço macio. Ela sentiu o calor do corpo firme de Raith. tomado de excitação. Katrine mal podia respirar. ela agarrou-se a ele. Entreabriu os lábios em silencioso protesto quando ele ergueu a mão para tocar uma mecha de seus cabelos. amaldiçoando-a pela sua sedução e maldizendo a própria fraqueza. que pressionava a turgidez de sua masculinidade contra seu ventre a cada movimento sensual da língua. A ternura do gesto fez Katrine suspirar. entrelaçando os dedos nos cabelos escuros sem nem mesmo saber o que estava suplicando.

_ Não posso voltar neste estado. queria apenas ela. não querendo afastar-se sem antes compreender o que havia entre eles. com as emoções em conflito. sua atração transformara-se em algo mais poderoso. porém. cobrindo os olhos com o braço e desejando ser capaz de voltar no tempo. Mas não tinha como negar que as carícias de Raith faziam seu sangue ferver. _ Você não vem? Raith forçou-se a olhar para ela. por favor. vá. nunca pensara no aspecto físico da relação. Estivera pronta a se entregar a ele por inteiro. Não podia existir uma combinação pior. um inimigo de seu clã. Ela devia se envergonhar. Como se permitira ir tão longe com Katrine? Como pudera se esquecer do abismo que os separava? Uma Campbell e uma inglesa. o que aconteceu? _ É melhor você voltar para casa. oferecendo o corpo para o prazer. Como pudera ignorar que Katrine era uma moça virgem? Podia ser uma cativa. não querendo chorar diante dele. Desde o início sentira-se fascinada pela aura de perigo que o envolvia. mas a visão de sua boca inchada pelos beijos o fez gemer e fechar novamente os olhos. entre todas as mulheres. _ Isso jamais deveria ter acontecido _ disse ele finalmente. cobrindo os seios ainda sensíveis devido às carícias apaixonadas. ficara embaraçada e um tanto enojada. sentindo-se perdida. pensou Raith com amarga ironia. Nas últimas semanas. Katrine passou o resto do dia num estado de terrível atordoamento. pensou. pois seus pensamentos insistiam em voltar ao vale. Na época. permitira que Raith fizesse amor com ela. ela virouse e afastou-se andando pesadamente. Até estivera presente quando Louise preparara Roseline para a noite de núpcias. O encontro com Raith a deixara confusa. mas num laço espiritual. onde ela havia conhecido os efeitos devastadores da paixão. querendo descobrir o que fizera de érrado. Além disso. Katrine arrumou o corpinho do vestido. um desejo que chegava a ser doloroso. devolvendo beijo por beijo. pois não podia compreender que uma mulher se submetesse obedientemente aos avanços sexuais de um homem. Deus tenha piedade de mim. _ Por favor. Quando o silêncio aumentou.. Katrine olhou-o surpresa. Mas suas faces continuaram pálidas como cera. Em seguida levantou-se. Em todos seus sonhos sobre encontrar uma alma gêmea.. remoendo a culpa e o remorso. Como uma leviana.Em agonia. Apesar de tudo. em que o desagradara. algo que sempre faltara em sua vida até então calma e sem graça. crescera numa fazenda. _ Raith. E naquela manhã fora tão forte que ela esquecera todas as . sem saber o que causara o súbito afastamento. Katrine então se deu conta da enormidade do que estivera a ponto de acontecer. _ A voz de Raith denunciava seu tormento. teria corado ante uma referência a um estado tão íntimo de um homem. Estava convencida de que sua atração. mas permaneceu ali totalmente sem jeito. em parte. tão baixo que ela mal conseguiu ouvir. Já ouvira criados conversando para saber de um modo geral o que acontecia quando um homem e uma mulher faziam amor. Conversara também com a irmã casada sobre a união física depois do casamento. Então por que sentia essa mágoa por Raith interromper o que haviam começado? E por que sentia os olhos se encherem de lágrimas de decepção? Com gestos apressados. onde as relações entre machos e fêmeas eram fatos corriqueiros. devia-se ao fato de ele ser um lorde escocês sem lei. _ Voltar? _ Katrine. Raith permaneceu ali. Em outra ocasião. Ela engoliu em seco. para a época em que ainda não conhecia essa mulher que o atraía tanto. mas estava sob sua proteção como lorde de Ardgour. Durante a aula de desenho de Meggie. a menina teve de pegar-lhe o braço várias vezes para conseguir sua atenção. ele rolou e ficou de costas.

_ Ela costuma tê-los. Quando chegou ao corredor. dispensou a governanta. _ Vá buscar o láudano _ disse baixinho. Os gritos tinham dado lugar a um choro convulsivo e ela logo compreendeu por quê. se não precisa mais de mim. Meggie logo vai estar bem. quase sem fôlego. Katrine encontrou a pederneira ao lado do Lampião numa mesinha e quando o quarto estava banhado de luz. Sem parar para acender uma vela. e ela era apenas uma prisioneira. srta. sua mulher. À noite. milorde. talvez reconhecendo seu toque. como aparentemente não queria negar a sua pupila o conforto da presença da amiga. em resposta à muda pergunta. parando na soleira. o que indicava que ainda não se retirara para dormir. Campbell. Meio distraidamente. Katrine passou o resto do dia brigando com seus pensamentos. trazendo uma caneca de leite quente. _ A senhorita também. Por que ele parara? Essa era a pergunta que não saía de sua mente. Raith olhou para Katrine. pode se recolher agora. foi até Meggie. Entregara-se às carícias de um homem sem uma palavra de protesto. indicando que queria que ficasse. _ Sim. Katrine foi à saleta de estar onde ficava o retrato de Ellen MacLean. Uma única vela iluminava o quarto. viu uma luz fraca e a porta do quarto de Meggie aberta. quase caindo na escuridão. _ Pesadelos _ explicou Raith. Quisera que Raith fizesse dela uma mulher. Meggie afastou o rosto do ombro de Raith e estendeu a mão para ela. Seria por que descobrira que não conseguiria fazer amor com uma Campbell? Ou por que não a achava bastante atraente? Depois do almoço.. Era a primeira vez que ouvia Meggie emitir um som. Ellen fora sua mulher. Apressou-se até lá. _ Obrigado. com ela no colo. Depois de alguns minutos. Bem depois da meia noite ela ouviu os gritos. Raith beijara Ellen como fizera com ela. Às vezes conseguia afastá-los concentrando-se mais atentamente em seus afazeres. _ O que a perturbou tanto? _ perguntou baixinho. pois ainda amarrava o cinto do roupão e a touca de dormir estava torta em sua cabeça. Não é necessário ficar. afagando seus cabelos e murmurando palavras de consolo. Raith lançou um olhar por cima do ombro para as duas. Levantou-se e correu para a porta. Raith foi sentar-se com Meggie numa poltrona perto da janela e começou a administrar o sonífero. . Devia ter sido acordada. desejando poder ajudar. notou que ele continuava vestido com os trajes do dia. mas. mais cedo conseguiria readquirir o equilíbrio emocional. por favor _ disse ele. Quando Flora saiu. Não pôde deixar de pensar como havia sido o relacionamento entre os dois. desceu pela escada dos criados. Ela tocou o ombro da garota que. O ciúme a envolveu enquanto fitava o retrato da Linda mulher. beijara seus seios. Katrine. suas coxas? Claro. Um músculo se contraiu no queixo de Raith.noções sobre o bom comportamento do uma dama que lhe tinham sido enfiadas na cabeça desde a infância. um som tão sofrido que cortou seu coração. foi até eles. grata. Raith estava sentado na cama da menina. Meggie!. reconheceu. _ Acenda o lampião. Flora saiu para atender ao pedido e Katrine ficou olhando para ele. quando se retirou para seu quarto. flora. Embora estivesse sendo dispensada. Flora entrou apressada. mas já fazia um mês que dormia tranqüila.. Quanto mais depressa aceitasse esse fato. Os sons torturados vinham do andar de baixo. Nesse instante. fez que sim com um rápido gesto de cabeça. A menina agora soluçava. eles voltaram com força plena e a mantiveram acordada. não estremeceu. Katrine não queria sair. Flora chegou nesse instante. com o coração aos saltos.

indicando que a menina dormia profundamente. talvez. que parecia desarrumado. Ele devia ter feito isto com freqüência. quando Raith falou: _ Será que você sempre tem de andar por aí seminua? Chocada com o tom rude. mas a camisola tinha mangas compridas. enquanto afagava os cabelos de Meggie. O silêncio caiu sobre o quarto e ela ficou imaginando como seriam os pesadelos e o que poderia fazer para acalmar a garota. e não revelava suas formas _ exceto os pés. A flanela era delicada e fina. Quando Meggie fechou os olhos. _ murmurou Raith. dizer que me parece que Meggie deve se sentir solitária aqui. Como o senhor do clã. obediente. Ele também estaria lembrando? Lançou um olhar para Raith e notou. Nesse momento ela mexeu-se. Katrine olhou-o perplexa com a decisão. Katrine acomodou-se no chão ao lado da poltrona. para variar. Raith permanecia onde estava._ Agora durma. _O que você pretende fazer sobre Meggie.. Ele estaria declarando que amara tanto sua bela Ellen que não aceitava a idéia de se casar com outra mulher? _Mas. Talvez a companhia de crianças de sua idade a ajudasse. gola alta e muito tecido. um lutador. _Não é isso. certamente pretendendo esperar algum tempo. Olhou para ele. ainda segurando a mão da menina. Um bichinho de estimação. para não perturbar Meggie. pois na pressa não se lembrara de calçar chinelos. levou-a logo a divagar sobre o que havia acontecido entre eles naquela manhã. apertando os lábios. desconfiou que eles tinham tido sorte. Raith era um líder. E ela não tinha dúvidas de que faria todos os sacrifícios para manter seu clã em segurança. sobre os pesadelos? _perguntou. até ter certeza de que seus movimentos ao colocar Meggie na cama não a acordariam. cercada apenas por adultos.. Raith lhe contara que os homens que haviam atacado Meggie e sua mãe estavam mortos. Estou rapidamente chegando à conclusão de que você adora se exibir diante de meu clã. _Ela parou ao ver o olhar sombrio de Raith... pensou. Ele protegia os seus com uma resolução férrea. imaginando qual seria o motivo daquele ataque inesperado. eu só quis. _Pois então peça a Flora para arranjar-lhe um. _ Eu não tenho um roupão _ sussurrou. embora não completasse a ameaça. _O que você sugere? Que eu banque Deus? Se pudesse pôr um fim nesses pesadelos eu o faria. _Se eu pegasse os animais que a feriram. ele tinha inúmeras responsabilidades e obviamente carregava um pesado fardo. O brilho escuro em seus olhos subitamente lhe deu certeza de que ele estivera bebendo.. Assim poderá se mostrar com decoro. num tom baixo e letal. meu bem _ murmurou. irritou-se. Não falara arrastado nem mostrara outros sinais de embriaguez. _ Nada mais vai assustá-la. porém. Katrine puxou os pés para baixo da barra da camisola e apoiou o braço nos joelhos. tentando compreendê-lo. Katrine olhou-o boquiaberta e teria respondido com azedume se não fosse pela menina. querendo desviar a atenção dele da tragédia. o tutor de uma menina traumatizada. ela baixou o olhar.. . O silêncio voltou a cair enquanto ambos esperavam a resQiração de Meggie se estabilizar. inquieta. _Isso dificilmente vai acontecer _ disse Raith. Vendo seu olhar. _ Katrine fez uma pausa e depois recomeçou. A presença de Raith. _ Meggie precisa de algo para amar. e Raith afagou-lhe os cabelos. mas não tenho poderes sobrenaturais. mas havia algo diferente no olhar ameaçador. pela primeira vez. sentindo uma grande pena de Meggie e uma certa simpatia por Raith. Katrine sabia o que ele queria dizer. Logo Katrine sentiu os dedinhos amolecerem em sua mão. _ Você me arrancou da casa de meu tio antes de minhas malas chegarem. Dando-se conta da absurda observação de Raith. Quem era ele para fazer uma acusação desse tipo? Mais de uma vez ela o vira usando o xale como saiote _ e nada mais. Tentava esquivar-se dele. _ Não haverá mais crianças em Cair House enquanto eu for o lorde. Raith também a avaliava. O colete estava amarrotado e uma sombra de barba escurecia seu queixo...

surpresa. não creio que o passado possa ser esquecido _ respondeu trêmula. sua voz saiu baixa e pesada. Ele respirou fundo e prosseguiu: _O levante foi uma empreitada fútil desde o inicio. Idade bastante para segurar uma espada. Katrine lembrou-se do relato que chegara a sua famiia. _Ah. _Eu tinha dezessete anos.. Os que sobreviveram ao massacre foram caçados e queimados vivos em seus esconderijos. ele mantinha sua feroz fidelidade à linhagem dos Stuart. sim. Então começaram as verdadeiras atrocidades. Cansada. Mas que verdadeiro montanhês se recusaria a pegar em armas pelo Belo Príncipe Charlie? E pensar que hoje ele é um devasso gordo e bêbado. orgulhoso e amargo. os MacLean. Ela virou o rosto. Ele desprezava suas origens e tudo o que ela representava. _ O dia em que a Escócia se viu de joelhos. E se. mas eles não tinham sido os únicos a sofrer.. a expressão distante. pode ter sido minha espada que tirou a vida dele _ disse Raith ao notar a expressão nos olhos de Katrine.. reproduzindo mentalmente os detalhes vívidos do que ele descrevia. _Ah. Eles conseguiram uma “brilhante vitória” contra montanheses famintos e exaustos.. Mas nós. por esse chefe de clã que era seu inimigo mortal. Ele era um homem solitário. Katrine sabia.. como verdadeiros judas. _Não. _ Devia ser um menino ainda. em que seus melhores homens caíram diante dos canhões. Só então Katrine se deu conta que ele poderia ter lutado contra seu pai.. Não imaginava que um de seus partídários fosse capaz de vê-lo como era na verdade. _ Raith deixou a cabeça cair contra o encosto da poltrona e fechou os olhos. Fora um membro dos Murray que desferira o golpe fatal que pusera fim à vida de James Campbell. sabendo que a dor refletia-se em seus olhos. Quando voltou a falar. Com imenso desespero. apesar de tudo. _ Fez uma pausa antes de acrescentar.. Raith esquecera de sua presença. Culloden foi um espetáculo de morte. como um “exemplo”. a morte e violação dos inocentes. _ Não tínhamos a menor chance contra a superioridade dos ingleses em artilharia. não! _Sim. deixou a cabeça tombar para a frente. os Campbell. Culloden. Cumberland. Só deixou alguns poucos vivos para serem executados em público.. . _ Isso a desagrada. Mas compreendeu que. como se estivesse perdido em recordações. como grãos cegados por uma foice. nos portamos com galhardia. Katrine permaneceu calada enquanto Raith falava. Ela estava se apaixonando por esse homem duro e amargo. Podia entender a amargura de Raith com o destino dos habitantes das Terras Altas nas mãos dos ingleses. _ Ele calou-se. Mesmo assim a dolorosa recordação de que os MacLean e os Campbell tinham lutado em campos opostos lhe fez ver como era imensa a distância que a separava de Raith. massacraram seus compatriotas. Havia uma outra verdade que não conseguiria mais evitar de enfrentar. o carniceiro. _Você estava lá? _ indagou Katrine. não queria prisioneiros. a perder amigos e entes queridos. apoiando-a nos joelhos. Sim. Mas não deixo o passado reger minha vida. Seria sempre leal porque sua vida e a existência de seu clã estavam baseados na lealdade. Katrine fechou os olhos. e queimaram nossas terras? Katrine cerrou os punhos. ou não teria falado assim sobre o santificado príncipe que os escoçeses sonhavam em pôr no trono da Grã-Bretanha. com alívio. Raith fora moldado pelo passado. Ele abriu os olhos e fitou-a com dureza._Acha que isso a fará esquecer? Acredita que o passado pode ser ignorado com tanta facilidade? Pensa por acaso que deixaremos de nos lembrar como os ingleses violaram nossas mulheres e crianças. pela batalha de Culloden e muitas outras tragédias que haviam se abatido sobre os habitantes das Terras Altas. O ódio de Raith pelos ingleses e os Campbell era profundo demais. _ Meu pai morreu em Culloden e nunca me esquecerei disso. colocando ênfase nas palavras: _ Você disse que seu pai estava entre eles. bela Katie? Mas. oh. depois da Quarenta e cinco.

Katrine soltou uma exclamação de prazer. olhe! _ sorriu. o carneirinho começou a mamar ansiosamente e depois de alguns instantes Meggie já ganhara confiança . Teria de fazer o possível para evitá-lo. meu bem. ela acabou saindo da cama e se arrumando. e nao tinha a menor idéia do que devia fazer a respeito. Todavia. Katrine e Meggie o seguiram até um dos compartimentos. segurando um cobertor como se fosse um pacote. _ O lorde quer que você leve a menina ao estábulo _ disse a moça com um olhar de desdém. e saltou. Katrine esforçou-se para manter a lição de desenho bem alegre e surpreendeu-se quando uma das criadas interrompeu-a para dar um recado. ela acordou mostrando a notável capacidade de recuperação das crianças. afastando a ponta do cobertor para expor uma carinha preta. era assustador. as três semanas de cativeiro tinham afetado sua mente. pelo menos até adquirir maior controle sobre suas emoções e ser capaz de manter com ele uma conversa equilibrada. Era uma loucura. sentese de novo. de não sentir seus olhos azuis devassando sua alma. _ Que gracinha! Meggie hesitou. _ Não tenha medo. logo estava com o animalzinho no colo. mas com o incentivo de Katrine e Hector. Katrine mal notou a atitude da criada. Meggie levou algum tempo. Ao olhar para dentro. Meggie. Sem dúvida. mas quando passaram os efeitos do láudano. Um novelo de lã com uma cabecinha preta e perninhas finas. Estava apaixonada por Raith MacLean. Ela ficou na cama bem depois do soL se erguer. com a cabeça sob os cobertores e a lembrança dos olhos azuis fazendo seu sangue ferver. pois sua pulsação se acelerou loucamente ante a perspectiva de ver-se frente a frente com Raith. com os olhos grandes e escuros.. mas Lachlan. enquanto as duas se sentavam na palha. Finalmente encontrara o homem capaz de combinar com seu gênio e incendiar seu corpo. A menina ainda dormia. assustada. Venha. _ Trouxe um carneirinho para a menina _ explicou o velho. Hector tirou da sacola uma bolsa de couro macio que estava cheia de leite de ovelha. Amaldiçoou sua covardia. Mas ao amanhecer. Com gestos nervosos. deixando bem claro que não aprovava ver uma Campbell como governanta da menina. desejando conseguir refrear o fluxo frenético dos pensamentos para poder descansar. Quando ofereceu a teta improvisada. mas sentia medo de ver-se cara a cara com Raith. quando o bichinho baliu.. foi obrigada a reconhecer a verdade. ela viu Hector MacLean e recuou assustada. Ele só chorou porque deve estar com fome. arrumou a fita no cabelo de Meggie e enfiou no coque os cachos rebeldes que já estavam fugindo de seu confinamento. mas tudo indicava que havia se refeito da noite tormentosa. _ Oh. Ele estava sentado na palha. era maravilhoso. _ Você deve vir comigo _ disse o ruivo. Mas não era Raith quem as esperava. apesar de não estar na presença de seu captor. Lachlan fez um sinal para os estábulos e começou a atravessar o pátio. Sua seriedade habitual estava um pouquinho mais pronunciada. O cordeiro balia sem parar. A preocupação com Meggie foi maior do que o desejo de evitar o senhor de Ardgour. _ Por que? _ Raith disse para encontrarmos um bichinho para a menina.CAPITULO XI Katrine passou o resto da noite debatendo-se em sua cama.

O rosto de Lachlan estava ficando cada vez mais vermelho. expressando sua gratidão. ela sorriu. enquanto as duas tomavam uma xícara de chá na copa _ uma honra singular que a mulher passara a conceder a Katrine depois de sua promoção ao cargo de governanta temporária de Meggie. Havia ido a Fort William para entrevistar candidatas a governanta. e pôde ver. Quando o cordeiro sentiu-se satisfeito. _Que bruxa é essa? Não estou entendendo. que o abraçou carinhosamente. _Não _ disse Lachlan abruptamente. _Porque Lachlan disse que eu não devia levar Meggie para perde-la. Obviamente te sentia-se desconfortável com o interrogatório. apesar de sua determinação em evitar Raith. Katrine sentiu-se envolvida por uma onda de emoção. meu bem _ consolou Katrine. por sob a barba desgrenhada. ele não quer ver a menina perto da velha bruxa. _Não fique triste. _ Sim. _ Isso eu sei _ disse Katrine. pelo que entendi. Mas o lorde não suporta nem mesmo ouvir seu nome. Katrine lançou-lhe um olhar surpreso. Mas Raith não se encontrava em casa. baliu de novo e começou a cheirar a mão da menina. Meggie estava tão enamorada de seu bichinho que não quis deixá-lo quando ele adormeceu em seus braços. ela decidiu acatar a sugestão. com um sorriso. depois de tomar um gole de chá. Muito curiosa agora. Foi Flora quem lhe contou isso no final da tarde. Katrine mandou a menina entrar para se lavar e em seguida virou-se para Lachlan. Seus grandes olhos voltaram a ficar solenes quando Hector voltou a enrolar o cordeiro no cobertor. mas Lachlan manteve-se irredutível. depois de uma pausa na conversa. Katrine repetiu a pergunta. _Bem. _ Ele ainda é muito novinho para ficar longe da mãe. Contendo uma observação azeda. São ordens de Raith. foi adiada quando o velho garantiu a Meggie que traria o cordeirinho no dia seguinte para que ela o alimentasse. . _respondeu. afastou-se do colo de Meggie. _ Você não deve levar a menina para o vale. _Isso não responde minha pergunta. _ E então? _ insistiu Katrine. Tenho certeza que Hector vai deixá-la visitar seu novo amiguinho todos os dias. Quando olhou para cima sorrindo. _Quem é essa tal Morag que Lachlan mencionou? _ aventurou-se a perguntar Katrine.suficiente para alimentá-lo. dizendo que era hora de levá-lo de volta. exasperada. Devia essa alegria a Raith. Quando continuou a pressioná-lo. _ Ela é uma parteira excepcional. lançando-lhe um olhar agudo. Katrine sentiu o coração encher-se de alegria. Os três seguiram o velho pastor até o pátio e ficaram observando-o enquanto se afastava com o bichinho. contudo. que aceitara sua sugestão. um tanto sem jeito. _ Morag é a velha que mora no vale. _Por que não posso levar Meggie ao vale? São ordens do lorde _ explicou o ruivo. Encontrando o olhar de Hector. _Por que você quer saber? _ disse Flora. A pergunta que estava em seus lábios. um ensaio de sorriso. _Ela mora no vale. _E por que devo manter Meggie longe dela? _Eu sabia que uma moça teimosa como você não se contentaria com uma resposta simples _ resmungou Lachlan. Depois. ele a aconselhou a procurar o lorde. _ Mas por que ninguém me fala sobre ela? Existe algum segredo que não posso saber? _ Não há segredo algum _ respondeu Flora. com grande relutância.

Manterei Meggie longe de lá. No mesmo instante a menina pegou o animalzinho e foi mostrá-lo ao tutor. você tem razão _ disse Katrine. passando tanto tempo com ela? Se fosse você. não vai casar e ter filhos. não podia haver justificativa para ele acusar a parteira de matar sua mulher e seu filho. percebeu a sabedoria do ditado de Flora. As duas permaneceram em silêncio. O anjinho já estava morto antes do parto. Segurei a mão de minha pobre Ellen até o fim. Quando Flora não respondeu. E mais. mas não há necessidade em transformá-la numa dama. não estou criando diabos. Katrine resolveu mudar de assunto. _Olhe. _ Ele deve ter amado muito Ellen _ murmurou com voz trêmula. Uma febre terrível a levou em poucas horas. _ Estarei longe daqui antes disso acontecer. tolamente._ Por quê? _ Porque ele a considera culpada da morte de Ellen e do seu filho. Katrine não falou por um longo tempo. _ Muito bem. Meggie não vai seguir o caminho normal das moças. culpando-a por uma fatalidade. Trabalhar como costureira é uma profissão honrada. Para a menina não podia haver um casamento arranjado. _Sim. tristonha. mas não conseguiu. O que está querendo fazer? A menina ficará com idéias acima de sua posição. Pelo que vira nas últimas semanas. de tomá-la como esposa. do tipo que uma mãe sente pelos seus filhos. Flora lembrou-se com quem estava falando e lançou-lhe um olhar que dizia claramente que se o lorde tinha ou não amado sua mulher. _ Flora balançou a cabeça com tristeza. Ela estava no estábulo com Meggie. _ O destino da mulher-é gerar filhos mas se eles vão ou não viver é uma decisão de Deus. não era da conta de uma Campbell. Obrigada por me contar. estava se tornando cada vez mais afeiçoada ao dono da casa. Raith voltou na tarde seguinte. _Sim _ disse Flora. acho melhor você ensinar a menina um meio de ganhar seu pao. Isso será mau para as duas. Flora olhou para sua xícara de chá com o cenho franzido. mas neste caso tinha motivos para seu preconceito. _Todas essas aulas de desenho e agora música. amanhã quero começar a ensinar Meggie a tocar o cravo. Katrine imaginou o que fizera Raith perder o discernimento. Mas naquela noite. completou Katrine em pensamento. Katrine ouviu-o elogiar o cordeiro com entusiasmo e depois fazer perguntas práticas a . quando pôs Meggie na cama e descobriu-se inundada de ternura. Espero. _Se você não faz objeção em usarmos a sala de música. _Mas. _Eu também estou ensinando-a a costurar. _Não tema _ disse Katrine com convicção. eu não me afeiçoaria a ela. _ Bem _ disse a governanta num tom seco. E tem de ser obedecido. que eu saiba. Mas. Estava mesmo se tornando cada vez mais afeiçoada à criança. Depois perguntou: _ Mesmo assim o lorde acusa Morag? _ Eu sei que não faz sentido. já não sentia vontade de escapar do cativeiro. E. Eu sei porque estava lá. _ Mas como diz o ditado: “Não crie mais diabos do que você é capaz de matar”. Mas não foi culpa de Morag. Só um homem de imensa sensibilidade seria capaz de cuidar dela. Ela tentou salvar o filho do lorde. lançando-lhe um longo olhar. _Não? E como podemos chamar o que você está fazendo com a menina. Contudo. _ O lorde não quer ver Meggie perto de Morag e é ele quem manda. Mas tente explicar isso a um homem. ele era justo e bondoso no trato com os outros _ exceto no que dizia respeito aos Campbell. Hector e o cordeiro quando ele chegou. Pelo menos agora a átitude de Raith naquele dia na campina fazia sentido. enquanto servia uma outra xícara de chá. como era o comum. _Sim. _Acima de sua posição? Mas ela é a pupila do lorde.

Hector, que fora atrás de Meggie. Apesar de sua relutância em enfrentá-lo, Katrine viu-se atraida pelo som de sua voz. Depois de limpar a palha de sua saia, saiu para o pátio. Raith estava agachado ao lado de Meggie, com as rédeas do cavalo num das mãos e o chapéu na outra, sorrindo ternamente enquanto admirava o carneirinho. Katrine fez uma pausa na porta do estábulo, observando seu rosto de traços marcantes, imaginando como pudera considerá-lo cruel ou arrogante. Então ele olhou para cima. Seus olhares se encontraram. Por um instante o dele pareceu terno. Katrine surpreendeuse lembrando do calor de sua boca em seus selos, das carícias febris de suas mãos calejadas. Por mais que se repreendesse por acolher essas lembranças perturbadoras, sentia-se incapaz de ignorá-las enquanto Raith a olhava daquele jeito. Para seu alívio, ele virou a cabeça e concentrou-se em Meggie e no cordeiro que começara a balir, aflito. Raith levantou-se com o dedo em riste, mas sorrindo. _É melhor você alimentar esse coitadinho, Meggie, antes que morra de fome. Quando a menina e Hector já estavam entrando no estábulo, Raith entregou sua montaria para um cavalariço e ao mesmo tempo lançou um olhar para Katrine que claramente a dispensava. Com toda a certeza, ele pretendia entrar logo em casa, mas ela precisava falar-lhe. Avançando rapidamente, fez a pergunta que a preocupava, apesar de temer a resposta. _Você conseguiu a governanta? _Não. Entrevistei cinco delas, mas nenhuma era adequada para Meggie. Ela sentiu um absurdo alívio. Afinal, queria ver alguém tomando conta de Meggie. Mais cedo ou mais tarde seria libertada e a menina precisava de uma mulher carinhosa e maternal para lhe dar amor e atenção. Alguém também deveria continuar com as lições que ela começara. _Tentarei de novo na próxima semana _ disse Raith, observando-a. _ Encontrarei alguém, mesmo que tenha de ir a Edinburgo. Katrine assentiu, percebendo que Raith interpretara mal sua pergunta. Melhor assim. Como poderia confessar que sua preocupação não era apenas por Meggie? Não lhe agradaria ver uma governanta contratada, uma estranha, ocupando seu lugar junto à menina que estava começando a amar, como também não queria apressar o dia de sua partida... Mas como poderia dizer a Raith que não estava tão ansiosa por deixar Cair House, para ser libertada? O que diria Raith se soubesse que ela havia se apaixonado pelo lorde de Ardgour? Par a seu pesar, seus sentimentos por Raith não mudaram. Apesar de vê-lo muito pouco nos dias seguintes, sua vontade de estar com ele aumentava. E Raith era o culpado por essa situação. Ele a desarmara completamente, mostrando-lhe o lado gentil de sua natureza e acordara nela uma paixão que não podia ser apagada. Á noite, quando estava sozinha em seu quarto esperando por um sono que não vinha, lembrava-se de seus beijos e carícias arrebatadoras. Seu corpo então começava a arder em desejo febril. Mas, além do desejo, inquietava-a uma vaga premonição de que algo ruim estava para acontecer, mesmo se fosse sua libertação. De fato, a única ocasião em que se sentia em paz era quando estava com Meggie. Pelo menos a menina parecia florescer sob sua tutela. Embora atribuísse muito da alegria de Meggie ao carneirinho, ela mostrava uma ansiedade para aprender qualquer coisa, de leitura a desenho ou a costura. Mesmo não podendo falar, a garota era capaz de formar palavras com a boca e seus olhos jamais deixavam de brilhar quando ouvia histórias que a interessavam. Para sua surpresa, Meggie mostrara uma real aptidão para a música e, antes de se passar uma semana, estava tocando peças simples no cravo. Seu bordado também era notável para uma criança de sua idade e por isso logo recebeu a tarefa de bordar um lenço para Raith, com suas iniciais e um galho de azevinho, a planta símbolo dos MacLean. _Que belo lenço! _ elogiou Flora, quando viu os primeiros esforços de Meggie. _ O

lorde vai ficar muito contente. Nada poderia fazer a criança mais feliz, pensou Katrine, observando o rosto radiante de sua aluna. Quanto a sua própria felicidade, ela praticamente não existia. Raith ignorava sua presença na casa. Era como se ela não existisse, como se o apaixonado interlúdio ao lado do riacho jamais tivesse acontecido. Nem mesmo Callum estava por perto para diverti-la com suas tiradas ousadas, pois viajara há mais de uma semana e ainda não retomara. Mas era a atenção de Raith que desejava. Preferiria mesmo uma volta à hostilidade dos primeiros dias a essa total rejeição. Pensava nele constantemente e também em sua esposa. O ciúme era uma nova emoção em sua vida, mas foi ele que a impulsionou a remexer nos baús de Ellen, que estavam guardados num quarto do sótão. Para si mesma, deu a desculpa que procurava alguma roupa da qual faria vestidos para Meggie, pois era vergonhoso desperdiçar tecidos tão bons. Mas no fundo sabia que ansiava por descobrir mais sobre a bela e jovem mulher que Raith amara. Talvez pudesse imitá-la em alguma coisa, tornando-se mais atraente para ele, e assim deixaria de ser tratada como se fosse portadora de uma doença contagiosa. O que encontrou nos baús não serviu em nada para aliviar sua insegurança: anquinhas e anáguas de babados, vestidos, frascos de perfume floral, uma caixinha incrustada de madrepérola que continha as pintas postiças e marcas de beleza que a moça parecia ter gostado de usar. Tudo delicado e feminino. Nada do que ela teria escolhido para usar, pensou. Com seu jeito prático e gênio forte, era o perfeito oposto de Ellen MacLean. Com o coração pesado, fechou as malas, dando-se conta de que Ellen estava se tornando uma obsessão para ela. Também não saía de sua cabeça a dor de Raith pela perda da esposa no parto e o que Flora lhe contara sobre Morag. Katrine estava completando vinte e seis dias de cativeirõ quando resolveu descobrir por si mesma exatamente o que acontecera por ocasião do falecimento de Ellen. _Onde mora Morag? _ indagou de Lachlan à tarde, quando o viu perto do estábulo. _Por que você quer saber? _ O ruivo lançou-lhe um olhar muito desconfiado. _Soube que ela tem um conhecimento excepcional sobre ervas medicinais. Pelo que entendi, se eu tivesse um ferimento infeccionado, seria a ela a quem deveria procurar. _Sim, mas Raith não gostaria que fosse lá. _E por que não? Ele disse que Meggie não podia ir ao vale, não eu. _Mas não serei eu que irei lhe contar onde mora a mulher. _Está bem, então _ disse Katrine, irritada. _ Descobrirei sozinha. Não pode ser muito longe daqui. Lançando um olhar para Lachlan, deixando claro seu desagrado, Katrine seguiu a trilha que Hector tomava quando ia para casa. Tudo indicava que por ali cortaria caminho, evitando ter de dar a volta pelo vale e o riacho. Quando chegou ao pequeno pasto onde alguns carneiros andavam tranqüilamente, ela fez uma pausa para absorver a cena. A distânY cia podia ouvir as notas tristonhas de uma gaita de fole, apesar dela estar proibida pelos ingleses, e o som fez um arrepio percorrer seu corpo. Isso era a Escócia no que tinha de mais magnífico. Um verdadeiro mar de urze florida, tingindo todo o campo de violeta, os picos selvagens das montanhas se erguendo para tocar o céu azul, o som da gaita, o cheiro da turfa queimando nos fogões... A fumaça saía pela chaminé de Hector, mas não havia sinal dele. Katrine passou pela casa, depois pela destilaria de uísque e em seguida atravessou a campina onde correra com Meggie. Quando chegou ao pequeno bosque que ficava na outra extremidade, avistou uma casinha feita de pedra e com telhado de palha. Devia ser a casa de Morag. O lugar era muito bem cuidado. Havia vários canteiros de ervas e um pequeno estábulo para acomodar os animais domésticos. A fumaça azulada de um fogo de turfá saía pela chaminé. Ela diminuiu o passo enquanto se aproximava da porta. O que diria a Morag? Por favor,

estou apaixonada pelo lorde e por isso quero saber mais sobre Ellen MacLean. Ele a amava muito? Poderá ter afeto por uma outra mulher? Acha que um dia ele me amará? Claro que não podia fazer essas perguntas. Mas, no mínimo, ten1 tarja ter mais informações sobre a morte de Ellen. Sentindo as palmas das mãos úmidas de suor, Katrine bateu na porta. Ninguém veio atender. Bateu de novo, mais forte. Talvez a mulher estivesse nos fundos do jardim, pensou, mas não viu nem sinal dela. Desapontada, convenceu-se de que a mulher não estava por perto e começou a voltar, pensando em procurá-la num outro dia. Assim que saiu do jardim, parou diante da visão de um cavaleiro na beira do pequeno bosque. Raith observava-a com a expressão mais severa que já vira em seu rosto. _Qual é a desculpa para esta vez? Estava procurando ervas para desenhar? O sarcasmo deu-lhe nos nervos, mas ela corou enquanto pensava no que iria responder. _E se fosse isso mesmo? Raith ficou em silêncio por um longo instante e depois ordenou: _Venha cá. Katrine olhou-o com cautela. Na última vez em que ele a seguira, começara com uma repreensão e terminara com um beijo. Sentia que não conseguiria suportar outra investida sem fazer ou dizer algo muito tolo, tal como confessar seu amor ou entregar-se por completo. _Ir aí, para quê? _ E deu um passo para trás. _Vou levá-la de volta para casa. Venha. _Suponho que Lachlan lhe contou onde me encontraria. Que papelão o dele! _Não esqueça que todos os membros de meu clã têm ordens de vigiá-la. _Espiões, todos eles _ retrucou Katrine, irritada. _ E muito eficientes _ acrescentou, cheia de desdém. _Venha já aqui. Não vou repetir mais. As palavras foram ditas com entonação tão ameaçadora que Katrine resolveu não desobedecer. Imaginou Raith galopando em sua direção e pegando-a como se fosse uma boneca de pano, como Lachlan fizera durante seu seqüestro. Sem dúvida seria mais digno concordar, mesmo que fosse sob protesto. Mordendo a língua para não dar vazão a seu mau humor, Katrine foi até ele e aceitou a mão que lhe foi estendida. Sentiu-se arrepiar com o contato, pois não conseguiu evitar de recordar a delicadeza daquela mão na última vez em que ela a tocara. No entanto, não houve nenhuma delicadeza no modo como ele a puxou, arrastando-a para a sela. Sentada à frente de Raith, Katrine podia sentir a tensão no corpo masculino. Percebeu que não precisaria se preocupar com possíveis carícias, devido ao péssimo humor de Raith. Ela também estava furiosa e nunca responderia ardentemente a um beijo. A hostilidade que crescera entre eles não deu sinais de diminuir enquanto Raith dirigia o cavalo para a campina. _Eu lhe avisei para não vir aqui _ disse ele por entre os dentes cerrados. _ Você me desobedeceu de caso pensado. _Não fiz nada disso! Você disse que não queria que eu trouxesse Meggie aqui. _Também não quero você aqui. _Por quê? Ele não respondeu. _Por quê? _ insistiu Katrine, sentindo a fúria crescer. _ Acha que Morag vai me assassinar como fez com sua mulher? Pensei que gostaria de se ver livre de mim. Esse seria um bom meio de não ficar com meu sangue em suas mãos. Ela sentiu Raith se enrijecer todo na sela. Fechou os olhos e suspirou fundo, como a suplicar aos céus por paciência. Desviando o olhar do rosto atormentado, ela mordeu o lábio, arrependida do que dissera. Fora cruel tocar no nome de Ellen.

_ Segure a língua _ ordenou com grosseria _ . A menção a assassinato chegara mais perto da verdade do que gostaria de admitir. os olhos verdes cintilavam. O silêncio caiu pesado entre eles. _ Eu não tinha o direito de provocá-lo dessa maneira. Raith xingou baixinho. Por que ela não foi capaz de bancar Deus. Quando chegou ao seu quarto... _E qual é a diferença? Seu preconceito contra ela tem o mesmo efeito de uma ordem direta. mas estava irada demais para ligar para isso. Raith não respondeu. Quando Katrine respirou fundo.. Tentou de novo. bateu a porta com força. Sem dúvida a assustaria. quando Katrine virou-se para ele. basta! Katrine estremeceu e calou-se. resolveu que a ocasião era apropriada para uma conversa.. Que loucura a possuíra fazendo-a desejar um homem que combinaria com seu gênio e incendiaria seu sangue? Raith combinava mesmo com seu gênio. Seus caprichos a estavam levando à loucura. Juntando as saias. mas o fogo que colocara em seu sangue não tinha nada a ver com a paixão _ a não ser que fosse uma paixão por vingança. Mas. nunca! Finalmente lembrou-se da aula de desenho de Meggie. tentou de novo. Quando chegaram ao pátio. não teria resposta para a acusação. _Eu não imponho minha atitude irracional a ninguém. preparando-se para argumentar. Só então haveria um fim nessa intolerável situação com Raith. Nunca mais se submeteria às suas exigências irracionais ou se assustaria com suas ameaças incivilizadas. mantendo a inflexão tranqüila. marchou para as escada dos criados. um medo que não poderia explicar nem mesmo para si mesmo. No instante em que Lachlan aparecera carregando essa bela Campbell deveria ter saído galopando na direção oposta. Num instante ele a beijava com ardor e no outro . ele se sentira tomado de um medo absurdo. prometendo que a batalha ainda não terminara.. Santo Deus. Vendo Raith permanecer em seu rígido silêncio. que você não suporta ver Morag porque ela não foi capaz de salvar sua mulher e seu filho... Mesmo que quisesse falar._Desculpe-me _ resmungou. _Você precisa entender que sua atitude é irracional. não havia o menor vestígio de medo em sua expressão. _Sei o que Flora me contou. Seu clã tem tanto medo de desagradá-lo que. Quase caiu de joelhos. Você despreza a mulher por causa de uma tragédia inevitável. Pelo contrário. força seu clã a evitá-la. enquanto atravessaram a campina. _ Pelo amor de Deus. num tom mais incisivo. Os membros de meu clã têm liberdade de procurar os serviços de Morag à vontade. _ Você nunca pensou na hipótese de estar errado em seu julgamento sobre essa mulher? _Você não sabe nada do que aconteceu. mas achou melhor não aparecer diante da menina como estava.. _Acho que eu não ia correr perigo com essa tal Morag _ começou. Quando Lachlan lhe contara que Katrine fora procurar á velha bruxa. pensou Raith. Katrine mordeu o lábio. Katrine saltou do cavalo sem esperar a ajuda de Raith. ou a trancarei de uma vez por todas. Passou os dez minutos seguintes tentando acalmar os nervos. Como gostaria de ser capaz de voltar atrás no tempo! Nunca deveria ter seqüestrado essa mulher capaz de irritá-lo e excitá-lo com uma facilidade que o enlouquecia. _Chega! _ Mas será que você não entende. Foi enquanto andava de um lado para o outro que Katrine chegou a uma decisão: tinha de forçar sua libertação. desejando conseguir fazê-lo ver que estava sendo injusto com uma velha que não fizera nada senão usar seus melhores conhecimentos. Encorajada pela impressão de que Raith havia se acalmado. ele a impediu. nem que eu tenha de construir uma masmorra com minhas próprias mãos! Raith sabia que usara uma violência na voz que em anos passados teria feito Ellen sair correndo de medo. não se preocupando com o barulho.

Penso que você deveria ao menos ouvir o que ela tem a dizer. que transformara a leiteria numa masmorra e não pretendia sair dali até conversar com o tio em pessoa uma exigência impossível de ser atendida. Com apenas uma porta de entrada. Ignore-a e ela sairá quando sentir fome. Um maço de velas. teimosa como uma mula. mas isso foi antes de eu conhecê-la melhor. voltou à leiteria. Sua última visita foi à biblioteca. mas não para uma dama de sua classe. uma bacia e um urinol. _ Eu não a teria seqüestrado se soubesse que ia ser maltratada assim. descobriu que nenhum cômodo da casa era adequado. e tinha a vantagem de impedir a retirada de víveres necessários ao dia a dia e de armas que o violento clã de Raith guardava ali. onde ele não poderia alcançá-la. A primeira pessoa a descobrir o ato de desafio foi uma das criadas que veio pegar um queijo e viu-se mandada embora. falando por trás da porta fechada. _ Sim. soube que sua busca havia terminado. Depois de uma rápida inspeção. querendo se afastar de todos seus parentes. teria que se refugiar num lugar muito seguro. Estava convencida de que só levando seus pedidos ão extremo conseguiria forçar alguma ação dele para apressar o fim de seu cativeiro. acendeu uma vela.Um mês atrás você estava pronto para enforcá-la só por ser quem é. foi o primeiro a reclamar e não usou de seu habitual tom de zombaria. Raith rosnou e saiu do gabinete com passos duros. quando foi olhar a leiteria. bom para um serviçal. que pareciam . já que não tinha certeza de quanto tempo ficaria fechada. Katrine calmamente explicou. olhou a tranca na porta do quarto. isso sim. que cortou o caminho de Raith enquanto este se dirigia para a cocheira. Mais tarde. _ Pelo amor de Deus! _ resmungou Raith por entre os dentes. Katrine passou a meia hora seguinte juntando as coisas que iria precisar para um longo confinamento. _ Eu? Por que diabos está me transformando no vilão desta história? Essa gata selvagem. a esse tumulto de incertezas. era de difícil acesso. você não acha que está sendo duro demais com a moça. trancou a porta com a pesada barra de ferro e fechou a veneziana da única janela. É a única explicação para se trancar desse jeito. ele respondera: _Ela sempre foi maluca. é a única culpada por ter passado a noite num buraco frio em vez de ficar na própria cama. uma tigela com biscoitos frescos que surrupiara da cozinha. Raith selou um cavalo e saiu.ameaçava trancá-la numa cela fria. Não suportava mais. Não era forte o suficiente para seu propósito. Tentando se acalmar o suficiente para pensar com clareza. todos os moradores da casa estavam a par da situação. No entanto. um jarro grande de água. mas lá havia mais janelas do que o desejado. Ela não é tão ruim assim para uma Campbell. foi a vez de Lachlan. Callum. seu clã não se manteve totalmente ao seu lado. que lhe contara: _A moça ficou maluca. E. afinal. Ainda furioso. sabia. A lavanderia tinha suas possibilidades. prendendo-a desse jeito? A leiteria é tão fria e incômoda como qualquer cela no presídio. Quando a propria Flora surgiu para investigar. _ E que cama? Um catre. no mínimo. para surpresa e desgosto de Raith. . Tinha de pôr um fim a essa indecisão. _ Primo. um travesseiro e vários cobertores. mas só quando tivesse absoluta certeza de que já estava nas mãos de seu tio! Raith ficou sabendo de suas exigências por meio de Flora. Satisfeita. onde pegou livros para durarem uma semana. _ Ela não merece ser tratada assim. mas que deveria pelo menos despertar a atenção de Raith. Continuava firme na manhã seguinte. Para enfrentar Raith. que voltara naquela manhã. Chegara a hora de fazer algumas exigências. Aceitaria o envio da carta exigindo seu resgate. Então sentou-se para esperar. Por volta do meio-dia. declarando que preferia morrer do que dar ouvidos à malcriada. nem mesmo por ser uma Campbell _ protestou o ruivo. Mas Katrine tinha uma grande reserva de comida e uma reserva ainda maior de determinação.

ao anoitecer do segundo dia. tristes e acusadores que finalmente convenceuo. Raith praguejou em silêncio e capitulou com um suspiro. Mas foi Meggie com séus olhos escuros. _Posso ouvir muito bem sem fazer isso. enquanto ele fazia anotações sentado à escrivaninha. _ Lamento termos de interromper as aulas. ela sobressaltou-se.ter ficado tão malucos quanto a feiticeirínha de cabelos vermelhos enfiada na leiteria. quanto mais cedo isso acontecesse. o velho balançou a cabeça grisalha. começou a bater furiosamente com •o punho fechado. Mais cedo ou mais tarde teria de se afastar de Meggie e. Você sabe que ela não pode falar. O palavrão que Raith soltou a encorajou. Estava começando a descer os degraus. _Quem? _Você terá de abrir a porta. Quando chegou à porta. Flora fez duas viagens aflitas até a leiteria _ a primeira para perguntar se ela precisava de alguma coisa e a segunda para implorar-lhe que parasse com aquela tolice. quando puder conversar com meu tio. quando ouviu a voz de Raith. _ Você também? _ disse Raith. _ Terei prazer em discutir minha partida com meu tio. Você está corrompendo todo o meu clã. Não teve dificuldade em reconhecer a voz de Raith ou sua cólera. Katrine teve tanta certeza que ouviu Raith trincando os dentes que sorriu. O silêncio que se seguiu foi tão longo que Katrine teve a certeza de que ele tinha ido embora. Terei prazer em voltar ao meu cargo de governanta. Vá procurar Flora e peça a ela para pôr você na cama. dirigindo-se para a leiteria. No dia seguinte. um pouco trêmula. assim que ele concordar em entrar em contato com meu tio. _O que você quer? _ perguntou. Pôs de lado o livro que estivera tentando ler para afastar o tédio e subiu os degraus até a porta. mas seu tutor está agindo como um burro teimoso. imóvel. serviu para incentivá-la a continuar firme até saber a decisão do lorde. _ Está bem. que Meggie não saíra para ver. pois Meggie estava sem ninguém para ajudá-la nas aulas. Prometo que amanhã cedo você terá sua professora para lhe dar as aulas. A culpa que Katrine sentiu. Mas Raith também não pretendia arredar pé de sua posição. _Katrine. erguendo os olhos para o céu. mas achou que so podia ser algo bom porque ele fora forçado a reconhecer sua existência. “Mesmo que eu tenha de dar uma surra nela para forçá-la a sair”. conformando-se com alguma relutância a passar mais uma noite fria na solitária. tem alguém aqui que quer conversar com você. _Meggie. Raith não se dera ao trabalho de reconhecer sua existência e muito menos de perguntar quais eram suas reivindicações. enquanto via o rosto da menina se alegrar de uma maneira que cortou seu coração. No entanto. Raith forçou-se a dar um sorriso para a garota e esperou vários minutos depois de ela deixar a biblioteca para tomar as providências Então. muito mais suave agora. logo estava no pátio sob a luz fraca do crepúsculo. ele jurou em silêncio. _ Que pergunta idiota é essa? Quero que você saia daí! _ É o que farei. com passos largos. lutando contra sua consciência. melhor para as duas. Ao anoitecer. segurando o carneirinho nos braços. . Meggie. Olhando para a porta. meu amor _ ela começou. é Meggie. _Katrine! Abra esta maldita porta! La dentro. No dia seguinte. Katrine não sabia o que Raith estava querendo dizer. ao contrário do que se poderia esperar. Foi Flora quem primeiro avisou Katrine de que seu confinamento estava tendo repercussões positivas. para surpresa de Katrine. _ Estou disposta a negociar. _Katrine. ele encontrou Hector diante da leiteria. ela começou a desanimar. a menina veio ficar diante dele na biblioteca. _ Não vou agüentar mais suas maluquices. _ Katrine _ alertou Raith.

Não ouvindo resposta. para se certificar de que ele fora embora. Raith desceu as escadas e olhou a sua volta. Katrine hesitou mais um instante. _Ai! O que . carregou-a pelo corredor até estarem diante do seu quarto.. _Raith? _ perguntou depois de alguns instantes. tentando se agarrar ao corrimão. Avistando o castiçal de bronze perto da cama. _ Você vai ficar aqui até recuperar o juízo! _ informou. enquanto lutava para levantar a tranca. Quando se deu conta da verdade. Ela socou as costas de Raith com o pouco de forças que conseguiu reunir. achou que estava falando com sua pupila. de todos os truques sujos aquele fora o pior! Virou-se para ele. Katrine olhou em ‘volta querendo conseguir algo com que agredi-lo. seu verme nojento! Vou vê-lo na forca por isto! Ele começou a puxá-la pelos degraus da estreita escada de serviço. subiu os degraus e pegou Katrine pelo braço. Em resposta. _Está bem. Com um gesto brusco. Foi humilhante ser arrastada pelo hall diante de uma platéia de criados boquiabertos e parentes desocupados que tinham aparecido para apreciar a comoção. mas recuperou o equilíbrio apoiando-se num joelho. apagando-a. Num único salto. Agora venha. Katrine ouviu o som de passos de afastando. Finalmente ele levantou voz. _Meu Deus. O quarto não estava totalmente às escuras porque as venezianas ainda não tinham sido fechadas. _Katrine. antes que conseguisse dar dois passos. Raith não fez uma pausa nem para respirar. a poucos centímetros da cabeça de Raith. ela pode entrar. como para se certificar de que ela não descobrira o esconderijo das armas. Meggie precisa vê-la. _ Bruto! Grosseirão! Seu. atirando-a para o lado enquanto entrava na leiteria.. inclinou-se e atirou-a sobre o ombro. Ele quase a deixou cair. _ Seu patife! Seu monstro! Seu... deu-lhe uma palmada forte no traseiro. entrou e colocou-a em pé no chão. . furiosa. porque estava protegida por várias camadas de saia e anáguas. o que a deixou ainda mais enfezada. _ Mas seus protestos cairam em ouvidos surdos enquanto Raith a arrastava da leiteria e a fazia entrar na casa. _Não? Ainda nem comecei minha lista! Raith abafou uma risada. seu cabeça de mula! _Daqui a pouco você não vai mais encontrar do que me xingar. Com passos largos. Katrine redobrou seus esforços para se desvencilhar. tentando ver Meggie no pátio. Ele bateu contra a parede perto da porta. Ele parou abruptamente e resmungando uma praga.você está fazendo? Não vou a lugar algum com voce.. agarrou-o e atirou-o com força. mais de choque do que dor. Quando abriu a porta. enquanto Katrine olhava para fora. enquanto se virava para sair. Ela gritou. O choque deixou Katrine paralisada por um instante.Quando ele murmurou algo que não conseguiu ouvir. Raith a enganara! Ah. _ Eu avisei que não iria tolerar esta bobagem. pois sabia que ela conseguiria se soltar a qualquer momento. sem grande delicadeza. _Concordo. _Seu maldito! Grosseirão! _ conseguiu gritar quando chegaram ao segundo andar. você é mesmo uma cospe-fogo! Raith gemeu de dor quando o punho de Katrine golpeou pela primeira vez um ponto sensível em suas costas. Ela abrira uma fresta da porta quando Raith subitamente empurrou-a com força. _Seu maldito! Seu maldito patife das Terras Altas! Você me enganou! _É mesmo? _ Ele assoprou a vela. Tenho a impressão de que quer se certificar de que você não está ferida. ele a pegou. _ Ainda acho que é crueldade usar uma criança para me chantagear _ resmungou. Voltou a socá-lo com toda a fúria e. não vai adiantar. No entanto. resolveu que seria seguro deixar Meggie entrar. se não o machucou. virou-se bem devagar. mas Katrine conseguiu sé soltar e correu para a porta.. Mas só se você for embora primeiro. pelo menos levou-o a tropeçar quando chegavam ao terceiro andar. ela teve vontade de chorar de raiva.

como se estivesse em furiosa batalha com um inimigo desconhecido e invisível. Então. Mas não tinha para onde correr.. assustada com o modo como Raith estava avançando vagarosamente em sua direção. o mundo ao redor pareceu se imobilizar. Deu um passo para trás. . Raith. ainda não estava disposto a aceitar o inevitável. _ Você é uma ameaça à população _ rosnou Raith _ . percebeu Katrine. Seus lábios se entreabriram num soluço de dor enquanto ele apertava seus braços. Katrine estremeceu ante a idéia de que ele queria privacidade para assassiná-la ali mesmo. Ao ouvir o soluço. pondo um fim ao suspense que a deixara inquieta desde o encontro sensual ao lado do regato. Era como se estivessem suspensos no tempo. Katrine soube que Raith ia beijá-la. contudo. Seu coração se apertou e a raiva desapareceu no mesmo instante. Não vou mais aturar isso. desejo e desesperada aceitação. Ela estremeceu quando as mãos fortes se fecharam em torno de seus braços. Deus. _ E fechou a porta por dentro. Ele gemeu baixinho. rendendo-se às forças que atormentavam a ambos. Não queria machucá-la. Subitamente.. E sabia. naquele instante. num instante tenso e silencioso sem começo nem fim. Em poucos passos estava com as costas contra a parede. que era o que mais desejava em sua vida. sua boca pousou sobre os lábios de Katrine. não queria! Só desejava ardentemente estreitar essa mulher nos braços e possuí-la com toda a paixão de que era capaz. E perdendo. Raith baixou o olhar para a boca de Katrine. E sabia também que dessa vez ele não se contentaria apenas com um beijo._ Eu avisei. e a mim em particular. numa exigência arrebatadora que para ela teve o sabor de raiva. Ia fazer amor com ela. Ele estava a ponto de sacudi-la. acima de tudo.

com um suave gemido. Raith sabia disso há algum tempo. soltando os laços do peitilho rígido para libertar os seios.. Raith começou a soltar o corpinho do vestido mas. quando levantou a cabeça para respirar. encantadora. tentando segurá-lo. pressionou a boca carnuda. Beijou-a com rudeza. Ele continuou beijando-a com ardor ao mesmo tempo que sentia a firmeza e a maciez dos. mal acreditando que vivia aquele momento mágico. não. capaz de excitá-lo de uma forma que ~ nenhuma outra conseguira antes. Katrine estava tão excitada quanto ele. Hesitante.. tirou o lenço que lhe cobria o colo e introduziu os dedos em seu decote. não me deixe”. _ Bela Katie _ sussurrou com reverência. mas conseguindo apenas transmitir um fogo desesperado enquanto sua língua buscava profundamente desvendar os mistérios da boca doce de Katrine. _ Ele tomou novamente a boca ansiosa. Ela fez que sim. _ Não. O nome de Katnne estava em seus lábios. lugares que jamais haviam conhecido o toque de um homem. Selvagem. O desejo apaixonado tomou conta de Katrine. Ela gemeu contra a boca de Raith enquanto ele. como para puni-la. irritante. não pare. Com um esforço quase frenético. de possuir essa mulher rebelde. ele aliviou a rudeza do beijo. Os olhos dela estavam baços de sensualidade. Ela estava se oferecendo e temia ser rejeitada. Uma vez pensara que loucura o havia envolvido para fazê-lo querer tanto essa mulher. despertando os lugares secretos de sua feminilidade. feita com voz rouca e terna. r meio maldição. Mas era Katrine. Mas não tinha certeza dos sentimentos de Raith. enquanto arquejava: _ Não. Apesar de ter tentado desesperadamente manter-se distante. ela era a loucura. Com gestos impacientes. entregando-se ao seu beijo ardente e selvagem. bem no íntimo de sua alma. Instintivamente mergulhou os de-1 dos nos cabelos negros. E agora ela estava em seus braços. Sabia disso com uma convicção tão firme como as montanhas das Terras Altas. de procurar evitar brigas. mas o olhar era inquisidor. embora ele pudesse percéber um certo receio mesclado ao desejo. incapaz de obter o suficiente. quando . Katrine suspirou emocionada e sussurrou o nome dele. Raith ergueu a cabeça. Algo na expressão de Katrine fez o coração de Raith se apertar. Seus sentimentos por ele fulguravam como o briho de cristal nos olhos verdes. Mas. tentando ser gentil. Katrine amoldouse mais contra ele. _ Como eu a quero. com um olhar tão intenso e quente que tocou o coração de Katrine. Uma onda de prazer invadiu-o. Ele era seu primeiro amante e seria o único. hostilidades e a atração. Com dedos tremulos começou a despi-la. segurando sua camisa. seios jovens. era sua primeira vez. estendeu a mão para tocar-lhe a face com a ponta dos dedos. ele perdera a batalha. Katrine pensou que Raith fosse se afastar como fizera da outra vez que se perderam em carícias. _ Esta é sua primeira vez.CAPITULO XII Inevitável. inclinando-se para beijar os mamilos. foi capaz de entender. Só quando a ouviu dizer baixinho “por favor. _ Foi uma declaração. com movimentos ágeis. ouvindo sua respiração ofegante mesclar-se com a de Raith Sim. quase selvagem de ser parte dela. quase suplicante. apertando o corpo dela contra o seu. fazendo-o sentir uma necessidade urgente. tentando ainda escapar do feitiço agindo de maneira brutal. Com fervor. meio prece. dos mamilos que já reagiam a seu toque.

ela manteve o olhar na cabeça escura.Katrine tentou ajudá-lo. por abraçá-lo. _ Implorou. Todavia. quando os dedos ásperos começaram a acariciar seus mamilos sensíveis. _ Meu doce tormento _ murmurou Raith e continuou a falar baixinho. Para sua surpresa e deleite. Antes mesmo que pudesse deitar-se sobre ela. Como que enfeitiçada. para deliciar-se com o rosto corado com o prazer de seus beijos. pensou loucamente.. Tormento. Sentiu um pouco de medo. _Eu sonhei tanto com isto. . imaginando como Raith podia permanecer tão calmo quando ela sentia-se tão agitada. e desejou tocá-los. Katrine não conseguiu desviar o olhar. estendendo as mãos e enrolando os dedos nos pêlos macios que cobriam o peito musculoso. Raith deu-lhe um beijo leve e deliciosamente provocador. deixe-me fazer isto. e a expressão falava de uma expectativa que fez sua pulsação se acelerar mais ainda com a vontade de atendê-la e dar-lhe a satisfação que pedia. Raith voltou para perto dela e tomou o corpo nu e trêmulo nos braços. Obediente. devagar. Ele respondeu o beijo com urgência e deslizou os dedos pela pele de cetim até encontrar o recanto macio entre as coxas. por favor. mas Raith estava decidido a conter a violência de seu desejo. _ Devagar.. era o que ele estava causando.. Ele ergueu a cabeça para olhar para Katrine. _ Raith. Ele sentou-se no baú para tirar os sapatos e as calças. pôde ver a paixão em seus olhos e soube que seu controle igualava-se ao dela. Mas Katrine mal conseguiu entender o sentido das palavras roucas. por sentir de novo o corpo másculo contra o seu. Katrine ficou imóvel.. _ murmurou. Mas o próprio Raith teve dificuldade em seguir essa determinação quando Katrine passou os braços em torno de seu pescoço e arqueou-se contra ele. Na semi-escuridão pôde ver os músculos ondulantes de seus braços e ombros.. venha. pois estava dominada pelas sensações incríveis que Raith despertava nela. e da combinação de cambraia.. Quando se ajoelhou para retirar as meias e sapatos. a boca de Katrine já procurava cegamente a sua. Sentindo o mesmo desespero _ como se fosse morrer se não a tivesse logo _ pegou a mão trêmula e a fez deitar-se na cama. Apesar de sua timidez. e afastou-se alguns passos. O leve embaraço de Katrine desapareceu com o beijo faminto. Katnne estava sofrendo um grave ataque de constrangimento. continuou a admirá-la enquanto tirava a camisa.. Os lábios estavam úmidos e entreabertos. por entre os beijos.. quente e febril. nem mesmo quando Raith ficou nu diante dela.. quando ele olhou para cima. me abrace. abraçando-se com força contra ele. os lábios entreabertos e a respiração incerta enquanto ele se demorava de propósito. mas imaginar que ele poderia subitamente arrepender-se e se afastar-se levou-a a chamá-lo para juntar-se a ela novamente. Mas. _ Raith. Katrine ficou olhando-o. deixando o olhar descer para as coxas esbeltas que se abriam sob seu toque. Sim. Katrine pensou que morreria de tanto prazer. _ Não. mas lutando contra as forças conflitantes do pudor e do desejo. Katie. _Raith! _ choramingou. ele afastou suas mãos. Katrine também sonhara com isso. Ansiava por tocá-lo. Vagarosamente o vestido e as anáguas seguiram o caminho do peitilho. Depois foi a vez das anquinhas. Levantando-se. Raith deixou-se puxar até que seu corpo se amoldasse ao dela de modo a permitir que os quadris ficassem colados. constatou que o corpo de Katrine já se aprontara para receber o dele. mas seus sonhos perdiam intensidade em comparação com a realidade de se entregar a esse homem belo e viril. Um longo e prazeroso estremecimento de antecipação percorreu-o. os olhos fechados. que ele soltou com dedos nervosos. com os cabelos cor de cobre espalhados desordenadamente..

quando Raith levantou-se da cama. O único pensamento que lhe ocorreu enquanto se derramava nela.. Era alguém com quem se podia contar. perdida numa escuridão sensual.. Tranqüilizado pela paixão que percebeu na voz dela. Ela suspirou de novo quando sentiu Raith beijar sua testa.. Sob ele.. A inquietação que sentira nos últimos tempos havia desaparecido para ser substituída por uma serena alegria. Katrine não saberia dizer se ficou embaraçada pela intimidade do ato ou pelo modo . Katrine suspirou. Abrindo-a para ele. como se jamais tivesse feito amor com uma mulher antes dela. com infinito vagar. fazendo-o passar por uma experiência maravilhosa. devagar _ ele alertou. _ A nenhum lugar. enquanto possuía seu corpo. Quando Raith mexeu-se de leve. mas estava tão envolvida pela excitação que mal a percebeu. O homem cujos filhos quero carregar. temendo que se afastasse. não vou sair daqui. Era como Katrine o fazia sentir. _Não! Por favor. Ele era um líder anojado. Ele estava incrivelmente atraente com os cabelos despenteados tombando sobre a testa alta. Então ele umedeceu o pano e o passou sobre suas coxas para lavar as evidências da paixão e de sua inocência. enquanto derramava a água do jarro na bacia e a trazia para perto da cama junto com uma pequena toalha. A noite já caíra por completo quando a paixão se esgotou e seus corpos relaxavam. mas cheio de bondade. coração e alma. Raith recomeçou seus movimentos. Piscou com a luz e logo segurou a respiração quando a chama iluminou o corpo belo. Era uma experiência nova. o homem com quem quero me casar. tanta ternura. Katrine ouviu-o movimentar-se pelo quarto.. penetrou-a com imenso cuidado. _Eu a estou machucando? _ Raith perguntou ansioso. Katrine segurou a respiração quando Raith a preencheu daquela forma cautelosa. Fazer amor com Raith satisfizera todos os anseios que guardava no fundo de seu coração. _ Você está bem? _ A voz baixa e rouca interrompeu seu devaneio. Mas nenhum bandoleiro teria mostrado tanta consideração. Imaginou-se contando às irmãs: esta é minha alma gêmea. não pare. exatamente como sonhara. amor. _ Aonde você vai? -_ perguntou ela um tanto aborrecida. um homem com um propósito. uma certeza de que os dois pertenciam um ao outro. como ver o nascer do sol com ela pela primeira vez. A exaltação que sentia só se intensificou. _Katrine _ murmurou contra os cabelos de fogo enquanto seus dedos encontravam os segredos de sua feminilidade. mas Raith estava com ela. soltou um gemido entrecortado. Calma. purificada pelo fogo da paixão. Um bandoleiro impiedoso que roubara seu coração. corajoso. apesar das diferenças entre eles. _ Estou. continuou pensando no homem que amava. Sentia-se atordoada. Quando estava todo dentro dela. afastou-se vagarosamente. Mas ele só acertou a posição do corpo para aliviála de parte de seu peso. Na escuridão Katrine pôde sentir o olhar de Raith fitando-a intensamente e antes que pudesse abrir os olhos ele a beijou com doçura. enquanto rezava por encontrar a força de vontade para não mergulhar dentro dela como um adolescente com sua primeira mulher. E o encontrara nas Terras Altas. o desejo e a alegria podiam se mesclar. Depois todos os pensamentos desapareceram enquanto os tremores de prazer o envolviam num rodamoinho de sensações. Ele ergueu a cabeça. no seu calor receptivo. possuía a mordacidade espirituosa que combinava com a dela. cuja vida e fardos desejo compartilhar. Além disso. firme e excitante de Raith._Devagar. foi apenas o encantamento de sentir que a necessidade. apertou-o em seus braços.. compartilhando a deliciosa sensação de união. Experimentou uni único instante de dor quando sua virgindade cedeu sob o avanço carinhoso. antes de acender uma vela. Eu nunca me senti tão bem. Lânguida e feliz. Katrine sentia-se completa. Depois.

Estranhamente. ele surpreendeu-se olhando para a junção entre as coxas esbeltas. _ Depois de um instante. Eu nunca. Sentia uma necessidade imensa de protegê-la. por enquanto. mas calculando com um olho clínico o tamanho de seus quadris e posição de sua ossatura. Porém. quando ela mudou de posição. _Você me agradou demais. Enquanto a limpava.. _Eu devia ter mais controle. Enquanto delicadamente retirava os últimos vestígios das manchas da pele. quando estivesse mais calmo. Pelo menos descobri um modo de calar sua linguinha afiada. E. Ele riu baixinho de novo. E ela precisava de tempo para ponderar como persuadi-lo a imitar seu modo de pensar.. mas falou com uma severidade que a assustou. em vez disso: .Um homem preza a inocência numa moça.. Não adiantava dizerlhe que jamais experimentara tanto prazer. Por que você não consegue fingir que é só um ladrão de gado e não um chefe de clã? Assim não teria de se preocupar tanto com a honra. Aquele não parecia o momento apropriado para confessar que já pensava nele como seu marido. _Sou o culpado pelo que aconteceu _ disse Raith baixinho.. Seria ela capaz de ter filhos com facilidade? Ou também viveria a agonia de ter o corpo rasgado por um filho natimorto. Não. queria tranqüilizar essa mulher geniosa e briguenta. _Por vários motivos.. _ O que aconteceu entre nós foi. mas. Ela reencontrou sua coragem e afastou-se um pouco para poder olhá-lo nos olhos. Mas você deveria tê-la guardado para seu marido. _Desculpe-me por não saber o que fazer. o que resultaria numa febre que esgotaria sua vida? Mas agora era tarde demais para se preocupar com as conseqüências do ato. _ E fora mesmo. Não mesmo? Então suponho que isso é algo que vem sem você pensar. Só sei que estava furioso. _Não há de que se envergonhar _ disse baixinho. Afligia-se com a possibilidade de ter engravidado Katrine.. com o sangue fluindo rápidos nas veias e um desejo forte ainda latejando em seu corpo. Colocando a bacia e o pano no chão. Disse. afastou os pensamentos mórbidos. _E por que não? _ sorriu Katrine. não pensando no êxtase que sentira. deitou-se na cama e tomou Katrine nos braços. Com um suspiro.. saborear o momento de paz que partilhavam. acariciou seus cabelos. procurando a palavra adequada _ natural.casual como ele exibia sua nudez. mas agora queria apenas abraçá-la. _ Nem me lembro mais do motivo de nossa briga. o primeiro em semanas de convivência. quanto mais. Não permitiria. Ele terminou a tarefa em silêncio. Raith obviamente não estava pronto para ouvir isso. Mas a culpa também perturbava sua consciência. Esse era o plano. se tivesse conseguido pensar melhor. Reprimindo um sorriso.. pensou. Estava decidido a nunca mais tocá-la e. não podia lamentar o que tinha acontecido. Sentia pelo modo como Katrine escondera o rosto em seu peito que ela estava envergonhada. mas o fato é que corou. Raith lutava com suas próprias emoções. Katrine permaneceu em silêncio. Sentia-se vivo como nunca se sentira desde. também havia fracassado. como agradá-lo. como todos os outros envolvendo Katrine. Não pretendera ir tão longe. enquanto . deixar sua paixão escapar de seu controle. saberia que aquela seria a única conclusão natural depois de semanas de frustração. Eu não queria deixá-lo furioso. Sua idéia era prendê-la o resto da noite no quarto e conversar com ela pela manhã. _ Fez uma pausa. deu uma leve risadinha. Sentia-se vivo e alegre. Raith fechou os olhos e pôs o braço sobre a testa. Contudo. inibida com seus cuidados. de abrigá-la contra o mundo e contra ele mesmo. desde os dias despreocupados da juventude. _ Raith parou subitamente. _ Fique quietinha _ disse. mas principalmente por uma questão de honra. Nunca imaginara que essa Campbell de sangue quente fosse se mostrar tímida e sem jeito.. Mas não posso permitir que todas as discussões terminem com nós dois rolando na cama. Depois dessa noite não aconteceria de novo.. Com esforço. Fazer amor com Katrine fora tão natural como respirar.

Eu queria forçá-lo a entrar em contato com meu tio. ele manteve-se acordado. quando Katrine dormia em seus braços. Não a tocaria mais.. ele pensou. Segurou-o por um logo momento. Sentiu um aperto no peito. Era uma concessão. falaremos sobre isso amanhã. . Ficará nele até ir embora. devo dizer! Ele ergueu-se num cotovelo.. talvez fosse essa a melhor atitude. observando as sombras dançantes produzidas pela chama da vela. _Quer ficar quieta? Sua mão deslizou entre os cachos ruivos e foi curvar-se sobre a nuca macia. uma emoção indesejada. Assim. Raith evitou comentar que ela era exatamente isso. _ Você não pode estar acostumada a um colchão como este. _Raith. um estorvo. mas então soltou-o com determinação. minha doce megera. _Callum tinha razão _ falou. pensou Raith.. Você suscitaria muita compaixão de meu clã. Amanhã vai se mudar para um dos quartos desocupados.. _Katrine. _E merecidamente. você poderá se trancar num quarto decente e ficar ali quanto quiser. nunca deveria ter envolvido Katrine num dilema que não poderia ter uma solução feliz. Estendeu a mão para tocar a face corada.. Só mais uma. _Se eu tivesse uma masmorra. Só distanciando-se de Katrine conseguiria fugir da tentação de possuí-la. mas seu dedo enroscouse num cacho ruivo. Não tinha nada da virago de língua afiada. Sim. Nunca mais.. Se pretendia recuperar a capacidade de raciocinar. Nunca deveria ter deixado o relacionamento chegar a esse ponto. E isso significava não se entregar ao desejo de tocá-la. você teria de me tratar como uma prisioneira de. Não. Inocente e completamente em paz. para os cabelos despenteados. temos coisas muito mais agradáveis para fazer _ falou. Também não desejava ser apenas uma hóspede.. se houver qualquer incidente desagradável. Mas ele deixou o pensamento incompleto enquanto se entregava ao prazer de amá-la com toda a paixão de que era capaz. O tom decidido a fez se rebelar. Vagarosamente. sentiu a palha espetar suas costas. uma única vez.. Agora ela parecia saciada e tranqüila. reunindo coragem. Katrine parecia muito inocente quando estava adormecida. Uma última vez. não é hora para brigar. Estava cansada de esperar por uma informação relacionada com meu resgate e pensei. sabia Katrine. _Katrine. inclinando-se sobre ela. não seria idiota para prendê-la lá. não podia permitir que isso acontecesse de novo. guerra e não como uma inconveniência. _Mas eu preciso lhe contar. a pele macia do pescoço. _Porque. Começou a beijar o queixo voluntarioso.. os olhos cintilantes e a boca macia e vulnerável.mudava de posição.. tão bela. O problema era que nao queria mais ir embora. pelo menos. _Acho que eu preferiria uma masmorra. Mais tarde. olhando para o teto inclinado. eu ainda acho que. Mais uma vez. Nunca. _Não quero falar sobre isso agora. de beijá-la até vê-la entregar-se em total abandono. Era tão bela. _E por que não? Raith olhou para ela. de forma a não perturbá-la. Assim.. _Raith? _ começou. _ Penso que devo lhe contar porque me tranquei na leiteria.. Raith virou-se para olhar sua teimosa. Seu desejo voltou com intensidade. O risco não seria maior. tinha de começar agora. Ele agora estava disposto a conceder-lhe a hospitalidade que oferecia para uma visita. mesmo que tivesse de sair de sua própria casa. mas mantinha a vivacidade que tanto o encantava. irascível e independente refém.. depois.. nunca.

ele falou. _ Você deve estar preocupada sobre com o que houve. Estava despenteado e a barba escurecia seu queixo. _ Não. Praguejando baixinho. com você. Depois de um silêncio que chegou a deixá-la tensa. lançando-lhe um olhar atormentado. se houver alguma conseqüência de nossa união. sabendo que chegara a hora de falar. Eu lhe prometi que você voltaria a lhe dar aulas nesta manhã. Raith. puxando o cobertor para cobrir os seios. mudando completamente de assunto: _ O que você pretende fazer sobre Meggie? Deus. _ Está confundindo paixão com amor. sei exatamente o que estou dizendo. pensou Katrine. _ Raith balançou a cabeça. de insistir no assunto. Você pode continuar deitada o tempo que quiser. Ele virou-se para ela de novo. Flora lhe indicará um deles. Os olhos azuis não mostravam qualquer emoção. Meggie. Mas quero que entenda que se. vestiu-se depressa e foi até a janela.. eu a ajudarei financeiramente. _ A resposta foi lacônica e tão veemente que doeu. Aspirou profundamente o ar frio. de sua traição contra seu clã e das crenças de seu clã sucumbindo a uma insuportável atração por uma Campbell.. _ Eu não quero ir embora. Esgueirando-se para fora das cobertas. Procurou por Raith ao lado da cama e então viu-o junto à janela. Conseqüência? Seria ele incapaz de dizer a palavra “criança”? _ Eu gostaria de ter um filho seu _ disse Katrine. _ Por quê? Você não me quer? _ Não a quero? O que eu quero tem muito pouco peso na questão. embora maculada. Raith parecia ter absoluta certeza de que ela iria partir. A seriedade da afirmação não encobria o sofrimento.CAPITULO XIII A madrugada estava terminando quando Raith desvencilhou-se cuidadosamente de Katrine. você será devolvida a ele sã e salva. _ Ás vezes acontece. Contudo. Para renovar sua decisão obrigou-se a pensar no motivo de Katrine estar ali. enfrentando seu olhar. lembrando-se de sua resolução. _ Raitb? Ele levou um longo momento para virar-se. _ É verdade. _ É amor _ afirmou Katrine. afinal: _ Você está enganada.. Ela respirou fundo. Seria muita gentileza sua continuar ensinando-a até a hora de ir embora. Se seu tio persuadir Argyll a tratar bem o meu clã.. concentrado na paisagem. pensou Katrine desesperada! Ele pretendia ignorar o problema do envolvimento entre eles: queria esquecer a intimidade que haviam partilhado e agir como se a noite anterior não tivesse existido! Sentiu vontade de argumentar. Ergueu-se num cotovelo. Ele estava confuso e tinha motivos para precisar de tempo para assimilar a realidade de . ele encostou o braço na janela e apoiou a testa nele. porém. _ Impossível. parecendo aturdido sem saber o que responder. não conseguia banir de sua mente as recordações da noite que acabara de passar com Katrine.. ficará desapontada. _ Eu estava falando sério na noite passada quanto a você mudar para um outro quarto. _ Eu te amo _ confessou Katrine baixinho. Quero ficar aqUi. imaginando se a idéia de ter um filho o aborrecia porque havia perdido a esposa no parto. ou porque jamais se casaria com ela por ser uma “maldita Campbell inglesa Ele cerrou os dentes.. mas viu que o momento não era propício. Raith suspirou profundamente antes de dizer. Katrine abriu os olhos devagar.

envolvia problemas. O pensamento a encheu de segurança e determinação. Sim. Outra. conseguiu cantar vitória? _ disse Callum da porta. _Que história é essa de eu cantar vitória? _ perguntou. que ele redobrara esforços para evitá-la.um amor que. Acima de tudo. mas logo levantou a tranca e saiu. Katrine virou-se e arregalou os olhos ante a elegância do primo de Raith. Pareceu hesitar um instante. Katrine corou ao ouvir a calma certeza na voz de Callurn. sem esconder o mau humor. Tudo indica que foi bem sucedida erni fazer Raith atender suas reivindicações. Katrine balançou a cabeça. Mais cedo ou mais tarde a devoção que sentia pela primeira esposa se tornaria apenas uma lembrança distante. tinham visto ou sido informados de que o lorde desaparecera na noite passada depois de arrastar sua refém ao quartinho do sótão. _Ele não lhe contou o que houve? _ perguntou. um dia Raith a amaria sem reservas ou amargura. _ Será bom para ela. Se conseguisse fazer as coisas ao seu modo. _Suas novas acomodações. enquanto ela tocava distraidamente as flores de um vaso. apesar dos decretos dos ingleses. Esses escoceses agarravam-se orgulhosamente aos seus costumes. com exceção de Meggie. Mais cedo ou mais tarde a inimizade entre seus dás deixaria de ter importância para ele. _E então. era seu comportamento ser assunto de conversas públicas. Na hora do almoço. uma das arrumadeiras cruzou com Katrine e resmungou uma palavra que a fez empalidecer de choque e raiva. Ele usava os trajes de um cavalheiro das Terras Altas e era uma figura digna de aparecer na corte. bem diferente. _ Vamos a uru casamento _ disse ele justificando sua elegância. Ele sabia exatamente o que acontecera entre ela e seu primo. mas Flora passou o dia todo com um ar de completa desaprovação. mas nem isso melhorara seu estado de espírito. Conseguiu ignorá-los dedicando toda atenção às lições de Meggie. Raith dirigiu-se para a porta. _ Quanto a Meggie. bela Katie. Katrine apertou o cobertor contra os seios. Sentiu uma onda de irritação diante de tanta teimosia. A especulação rendeu a Katrine vários olhares curiosos dos criados. Katrine. Sem mais uma palavra. talvez. quando Meggie estava cochilando. A disposição de Katrine murchou quando ela teve de enfrentar as pessoas da casa. Não seria adequado aparecermos vestidos à moda do sul. com vista para as montanhas de Ardgour. Katrine entrou na sala de estar do segundo andar. sem que ninguém lhe cotasse. Ganhara um novo quarto. se esse tipo de indumentária não estivesse proibida. Ninguém mais disse nada. _ Ela não deve sofrer porque eu e você temos nossas diferenças. Ninguém exceto Callum. Raith acabaria aceitando o que ela já aceitava como um desígnio do destino: que os dois tinham sido feitos um para o outro. claro que continuarei a ensiná-la _ disse calmamente. sentindo-se infeliz e novamente marginalizada. Mas Callum apressou-se a tranqüilizá-la. O saiote e as meias eram de finíssima lã e o casaco curto de veludo preto tinha uni corte perfeito. Todos. que lhe deram uma boa noção sobre os boatos que estavam correndo. mesmo correndo o risco de serem enforcados por traição. _ Uma moça Stewart e o filho de um lorde Cameron. muito bonito. Uma coisa era entregar sua inocência ao homem que amava. O xale estava preso num ombro com um broche de prata pesada e havia rendas no colarinho e nos punhos da camisa. sem dúvida. jurou Katrine. _Raith jamais seria indiscreto sobre uma dama. lutando contra o embaraço. Não via Raith desde a madrugada e e sabia. À tarde. Raith seria mesmo capaz de esquecer tudo que se passara entre eles com tanta facilidade quanto queria mostrar? Ela não conseguiria e também não o deixaria ignorar. ele é um .

a fez imaginar se os dois homens eram mais do que primos. além de sua semelhança com Raith. Houve um momento de silêncio enquanto Callum a observava atentamente. Um belo e rico lorde sassenach que já possuía uma mulher. _ Acha mesmo? _ Ela nunca pensara fazer de Callum seu confidente. continuamos em campos opostos. desde que a vi pela primeira vez. Callum não parecia condená-la. Eles nunca se envergonharam de bajular reis ou nobres em posição de poder ou de usar meios inescrupulosos . indagando se o velho lorde era seu pai. Callum ergueu uma sobrancelha.. ele não me seduziu. dando impressão de que pretendia permanecer na sala por mais algum tempo e discutir seu relacionamento com Raith. Os dois ficaram em campos opostos muito mais tempo do que eu esperava. E para falar a verdade _ acrescentou. _Suponho que devo ser grata pelo seu apoio _ retrucou Katrine com azedume. as boas maneiras não permitiriam que fizesse uma pergunta direta. O que acha que Raith mais detesta em mim. embora por muitas vezes desejei que fosse. Sem pedir licença. confirmando as suspeitas de Katrine _ em ver você e Raith chegando a bons termos. Raith foi criado ouvindo histórias sobre as traições dos Campbell e elas não são exageradas. Quando se sentou.. _Confesso que fiquei satisfeito _ começou. A pergunta não posta em palavras deve ter ficado evidente em sua expressão.. Callum lhe contara que era um filho natural e o fato de ter sido tratado como alguém da família. _ Raith prometeu que arcará com qualquer despesa se houver conseqüências. Eu tive certeza. lançou um olhar preocupado a Callum. Foi a vez de Katrine erguer uma sobrancelha. _Quer dizer então que meu caro primo a seduziu sob seu próprio teto e agora está se recusando a enfrentar as conseqüências? Katrine sentiu as faces em fogo diante de tanta franqueza. só aconteceu.. _ Você disse que se eu fosse uma outra pessoa. Desanimada. ele entrou e acomodou-se no sofá forrado de damasco dourado. Se você conhece um pouco da história de seu clã. mas ele poderia ajudá-la a compreender Raith. o lorde de Ardgour não era meu pai. Será que todos os MacLean tinham ódio dos ingleses. erguendo os ombros. _Que bons termos? Se quer mesmo saber. _Não me fustigue com sua língua letal. ainda mais embaraçada _ . Raith esteve agindo como um gato selvagem acuado desde que pôs os olhos em você. Mas não foi difícil adivinhar. Katrine desconfiou que Callum guardava no íntimo uma grande amargura. Katrine levou as mãos ao rosto num gesto quase involuntário. que podia muito bem tomar conta de si mesma. No entanto. pois Callum sorriu. para ser exato. No entanto. Um nobre. andou pela sala nervosa. _ Não. Mal teve coragem de enfrentar o olhar do rapaz. Raith a pediria em casamento. deve saber que cada chefe Campbell que viveu até agora era um mestre na astúcia. _ Não _ admitiu. estou surpreso por ter demorado tanto. _Isso ia acontecer _ disse ele. O velho lorde achava que eu era um rapazinho esperto e providenciou para mim uma educação de cavalheiro. _ De fato... A despeito do tom leve. meu sangue inglês ou o fato de eu descender dos Campbell? _ Acredito que seu lado Campbell. Havia compreensão em seus olhos escuros. _ Se você não fosse quem é. cruzando as pernas e entrelaçando as mãos no colo. Minha mãe foi uma escocesa que teve a infelicidade de se apaixonar por um inglês. _ Você conhece bem seu primo? _ Sim.cavalheiro. pensou com um suspiro. _ Você nunca precisou de meu apoio. Fomos criados quase como irmãos. Ele se recusou a falar sobre meu resgate. minha cara _ sorriu Callum. Só. Katrine lançou-lhe um olhar esperançoso. Estudamos com os mesmos professores particulares e fomos juntos à universidade.

Katrine ouviu em silêncio. mas duvido que alguém poderia salvar Ellen. ainda assim não sabia se ele concordaria em se casar com ela. Não é fácil para um homem esquecer uma situação como essa. E. houve Culloden _ disse Callum. viu-se obrigada a. _Não o julgue com muita dureza. Raith quase enlouqueceu ao ver o filho e Ellen daquele jeito.. agora que pensava no assunto objetivamente: aluguéis justos que não deixariam os MacLean de Duart à beira da inanição. mesmo se Raith esquecesse de seu sangue de Campbeli.. Você já assistiu a uma cerimônia escocesa? . para ser honesta. Não havia nada que pudesse dizer. não posso culpá-lo por não querer voltar a passar pelo que passou. perto do porto de Oban. Katrine estremeceu. Além disso. _Então é por isso que ele nem quer tomar conhecimento da existência de Morag. Era estranho como Callum não a irritava como Raith quando comentava o passado.. Callum continuou: _ Depois do Quarenta e cinco. Quando os MacLean de Duart perderam suas propriedades há sessenta anos. Katrine. Katrine _ continuou Callum _ . _ E. Katrine manteve-se em silêncio.. _Bem. Os barões e duques de Argyll do passado tinham sido bem conhecidos pela sua habilidade em fomentar a luta e a discórdia e sempre haviam ficado do poder. _ Todos os verdadeiros escoceses se sentiram traídos pelos Campbell quando eles se colocaram ao lado dos ingleses. _Nossa. sentindo-se um tanto envergonhada. temos bons motivos para acusar seus chefes de serem maldosos e espertalhões. claro. Este não é o clima adequado para antes de um casamento. Talvez. pensando na tragédia e desejando que houvesse alguma coisa que pudesse fazer para aliviar o sofrimento de Raith. Você pode culpar Raith por sentir a mesma coisa? Ela não respondeu. ou levasse o caso dos MacLean diante do duque. Talvez seja por isso que ele se sente pessoalmente responsável pelos MacLean de Duart. a parteira. mesmo se os convencesse da justiça da causa dos MacLean. Juro que uma guerra é menos traumática. ele se culpa por não ter ido buscar um médico em Edinburgo antes do parto. se ela falasse com o tio. A primeira seria parar de criticá-lo por evitar Morag. lembrou-se Katrine. sem uma palavra de protesto. que não haverá mais crianças aqui enquanto ele for o lorde. O médico que veio depois disse que Morag agiu da melhor forma possível e que nada poderia ter sido feito pela mãe e pela criança. mas como ficamos sérios! Alegre-se. enquanto seu primo só apresentava fatos. Raith passou um mau pedaço recuperando a propriedade de Ardgour. Freqüentemente criticara Raith por ser tão teimoso em sua oposição ao duque e jamais pensara no seu lado da questão.. Tenho a impressão de que isso não me ajuda. ele conseguiu salvar sua herança quando os homens de Duart ficaram sem nada. Nem preciso dizer que foi um algo terrível. quando ele se viu impotente para~fazer qualquer coisa para ajudar. Katrine virou o rosto sombrio para Callum. a desmembrar seu filho para tentar salvar Ellen. quanto a isso. onde ela havia desembarcado. Também nunca tentara ajudá-lo a atingir seus objetivos. Katrine olhou para suas mãos.. Mas. nem mesmo com a terra em que nasceram. mas acabou indo parar nas mãos de Argyll.para atingir seus fins. _Raith uma vez me disse que ele. Mas Raith fazia todas as discussões sobre os Campbell parecer uma acusação pessoal a ela. O que ele queria parecia muito razoável. pois compreendia muito bem os sentimentos de Raith a respeito. Estávamos à beira da ruína. De repente Callum balançou a cabeça e deu uma risadinha travessa. o castelo de Duart foi entregue à coroa. bela Katie. Morag. O castelo de Duart ficava na ilha de Mull. tinha de admitir que havia muito de verdade no que ele falara. Afinal. _ Sabe. Foi assim que um dos duques de Argyll obteve cartas de comissão para perseguir o clã MacLean com fogo e espada.

Ele acabará caindo em si. e as outras criadas seguiam seu exemplo. O reconhecimento da legislação escocesa fizera parte do Ato de União. É bom tomar cuidado. os cavalos já estão prontos. Katrine sabia ao que Callum se referia. Dois dias se passaram antes de conseguir vê-lo de novo. Mas o destino e Raith conspiraram contra ela. bela Katie. Callum. Lembrando-se de sua conversa com Callum. Duvidava que alguém fosse raptá-la para ser sua esposa. Um rapazinho viera trazer o caneirinho de Meggie para a menina alimentá-lo. Queria desesperadamente continuar nas Terras Altas. _Ë pena que não possa nos acompanhar. Nem sequer notou que ela o contemplava. mas não tinha a quem perguntar sobre seu paradeiro. apertou seus dedos num gesto de companheirismo e apoio. Katrine balançou a cabeça sorrindo. ele era o protótipo de um chefe de clã. mas se . _ Acho que é melhor você ir agora. Pelo menos. começou refletir sobre as leis escocesas. Raith mal olhou para ela antes de se afastar. Ele levantou-se e estendeu a mão para despedir-se. Raith fitava Cailum com ar sombrio. como seria de se esperar. não o único homem que amava. Pouco a pouco seus pensamentos foram concentrando em casamentos e cerimônias. festas e muito mais. O casamento era um contrato verbal. selado por consentimento mútuo. Então uma idéia começou a se delinear em sua mente. Lachlan e até mesmo Hector hàviam sumido. Katrine entendeu facilmente por que os habitantes das Terras Altas admiravam tanto seus lordes. Depois da partida de Callum. Mas em vez de levá-la aos lábios. aqui nas Terras Altas ainda praticamos o roubo de noivas. pensando em Raith e imaginando se teriam um futuro juntos. mas conseguiu sorrir. Igreja com culto. para evitarem os grandes e cansativos preparativos para o casarnento. Não havia necessidade de ritos executados por um religioso nem de documentos escritos. _ Eu prefiro uma cerimônia simples. Desde que passara a noite com Raith. _ Coragem. Por sorte conseguimos nos agarrar às nossas leis por ocasião de nossa união com a Inglaterra. Katrine lembrou-se que há apenas poucos meses brincara com sua irmã mais nova. Sem fricotes. Depois da união. Katrine ficou sentada por uni longo tempo. O tartan dos MacLean parecia ter sido criado especialmente para combinar com sua pele morena e o veludo e as rendas no pescoço e punhos eram dignas dos mais rico dos nobres. _ Se me der a licença de interromper. aconselhando-a a fugir com o noivo para a fronteira da Escócia. Katie. Usando um traje típico ainda mais esplêndido do que o do primo. Vendo-o em todo seu esplendor. embevecida. Callum. Ali encontrara toda a aventura e excitação que poderia esperar. ela conseguiu enfrentar seus olhos. Flora voltara a ser séria e seca. o tratado pelo qual a Inglaterra e a Escócia tinham combinado formarem a Grã-Bretanha. Com esforço. Quanto aos homens. _Ele pode ser simples. Um admirador poderá pegá-la de surpresa e você acabará como a exausta mulher de um granjeiro com uma dúzia de moleques na barra da saia. Katrine olhou para a porta abruptamente. em que o casal se declara casado diante de testemunhas e já está tudo legal e terminado. Imaginou que ele estava fora. _ Mantivemos muitos outros de nossos costumes. Ela não tinha tanta certeza. _ Callum riu. A festança costuma ser longa e só estaremos de volta pela manhã? _Todo esse tempo? Mas pensei que o casamento era algo muito simples aqui na Escócia. Você se divertiria. mas considerado pienamente legal e até mesmo reconhecido na Inglaterra. você sabia? Acredite ou não. mas esse que vamos assistir se dará com toda a pompa e cerimônia. primo _ a voz áspera veio do outro lado da sala _ . A risada de Callum interrompeu seus pensamentos sobre núpcias. E romance. Mas Callum notara sua reação._Não. as leis sobre o casamento tinham permanecido imutáveis na Escócia.

se imobilizou.recusara a dizer qualquer palavra. Se ele aceitar e concordar em não retaliar contra nosso clã. o duque saberá quem você é. o duque de Argyll iria saber que os MacLean estavam por trás do rapto. Campbell. _Sim. _Mas assim que você me libertar. Katrine colocou o jarro sobre a mesa. Mas ao notar que vários dos homens mais chegados a Raith também não se encontravam por perto. quanto à questão de . minha ruiva linda. inclusive as condições de sua libertação. dando graças por ele não ter escapado de suas mãos trêmulas. ela correu para as escadas tomando a direção da cozinha. Pensando no que Callum acabara de dizer. Mandando Meggie desenhar um pássaro. Logo não teria mais tempo para persuadir Raith a deixá-la ficar. Katrine carregou-a para o salão. Katrine. rosto empalidecendo. correu para a janela. Raith ergueu a cabeça. Apesar de Raith ter feito as exigências sem se identificar. Essa possibilidade encheu-a de receio. encontrando uma expressão sisuda. _Sua viagem foi bem sucedida? Callum lançou um olhar travesso para Raith. srta. com o coração querendo saltar pela boca. suavemente: _Uma das condições é que Argyll não perseguirá ninguém. Nem parecia que os conhecia há apenas um mês! Mas agora faziam parte de sua vida e nada mais apropriado que fossem suas testemunhas. balançou a cabeça. Era exatamente o que ela estivera esperando _ uma reunião do clã. calculou que ele iria para o salão tornar uma bebida com seus homens. Reunindo toda sua coragem. Reviu seus planos e decidiu que não lhe restavam outras opções. ela entrou no salão. que colocava cerveja em uma das canecas. concluiu que os MacLean tinham ido se encontrar com seus parentes Duart. encontrou Flora colocando cerveja nos jarros e arranjando as canecas em bandejas. _Você contou que era o responsável pelo meu seqüestro? _Não sou um idiota. apesar da posição de hóspede que suas novas acomodações lhe conferiam. Descobriu que estava feliz por ver o malandro charmoso. Quando viu Raith dirigir-se para a cocheira. semicerrando os olhos. mas Katrine teve o cuidado de se concentrar em Callum. Katrine estava no quarto de brinquedos com Meggie quando Raith e seus parentes finalmente voltaram. Senti saudade de você. Como imaginava. mas não objetou quando a viu pegar uma das bandejas. procurou por Raith. E até mesmo Hector. Fora como se ela voltasse a ser o odiado inimigo. Para sua surpresa. De início pensou que Raith devia ter voltado a Fort William para entrevistar candidatas a governanta e que Callum fora cuidar de contrabando _ se era mesmo essa sua ocupação. viu-o de cabeça baixa. _Ah. nós a libertaremos. pensou com o coração aos saltos. O primeiro a olhar para a porta foi Calhim. Mas. _ Estou feliz por vocês finalmente resolverem o impasse. O que o impedirá de mandar prendê-lo? Foi Callum quem respondeu. colocando a pesada bandeja perto dele. E Lachlan também. _Devo confessar que também senti saudade de você _ disse a Callum num tom doce. _ Posso ajudar? _ ofereceu. Você gostará de saber que os MacLean finalmente apresentaram suas exigências ao seu tio. _E as outras? _ Argyll tem de fazer os tributos dos MacLean de Duart voltarem ao valor anterior e concordar em não aumentá-los por um período de cinco anos. olhando fixamente para a mesa. Flora lançou-lhe um olhar desconfiado. A resposta sardônica não aplacou seus temores. muito. Quando chegou à porta. Estaria Raith tão ansioso em se livrar dela que arriscara a sorte de seus parentes com uma ação precipitada? Ou ele verdadeiramente pensava que estava na hora certa de dar a cartada seguinte no conflito? Olhou para ele. sem participar da conversa animada dos outros homens. No instante em que ouviu os cavalos no pátio. Katie! Entre.

Não quero ser devolvida ao meu tio. Ela hesitou. lorde de Ardgour... com todos vocês.minha libertação voces. voces já devem estar sabendo que mudei de idéia. Quero ficar aqui. _Estou reivindicando Raith MacLean.. . como meu legítimo marido. Entendam.. respirando fundo.

sorrindo para ele. _O que. mas tem seus encantos _ comentou uni outro. _Mas qual é o problema? _ Callum resolveu pôr mais fogo na situação. Katrine deu pouca atenção ao clamor no salão. Num ato reflexo. Katie. pesado e tenso. Katrine pensou que fora Hector que falara. Katrine será uma esposa perfeita para você. Declarara que ele era seu marido diante de testemunhas. em nome de Lúcifer. cercada por um número maior de pessoas. Só sabia que tivera de apressar os fatos. é melhor ser amaldiçoado do que mal casado _ disse alguém. _Bem. estariam casados. sem nem mesmo se atrever a respirar. _Ela não é tão bonita como a falecida senhora _ observou um homem. Se ele aceitasse. _ Você conhece a lei. Campbell será uma boa senhora de Ardgour. como também estava em segurança. _Não pretendo me casar de novo. _Acho que a srta. Se fizesse a declaração pública. parecia louco para fazer. no momento. _Não existe consentimento mútuo! _ Raith lançou um olhar feroz para Katrine. Raith? _E com uma Campbell! Ao lado dela. Na verdade. _ Prefiro me casar com um gato do mato. aprovando a ousadia da moça. _ Posso oferecer minhas felicitações.CAPITULO XIV O silêncio foi súbito e total. e agora Katrine tomara uma outra atitude maluca que o atingia. de fato. E se o fizesse. Essa atitude. mal conseguira fortalecer sua decisão de manter-se longe dela. _ Por Deus. levando-o a suplicar a Deus por equilíbrio. decidido. você tem a coragem de um MacLean _ elogiou. Seu rosto parecia esculpido em pedra. Ela é modesta e prudente. Raith não a esganaria em público. Depois. Seus olhos faiscavam cheios de hostilidade. você pensa que está fazendo? Houve novo silêncio.. primo? Você é um sujeito de sorte. Katrine continuava a encará-lo. todos começaram a falar ao mesmo tempo. _Não estamos casados _ Raith quase gritou para consternação de Katrine. _Sim. Como ela permanecia calada. segundo a lei escocesa. Raith. Katrine deu graças aos céus por não estar sozinha com ele. Raith apertou os lábios. Raith se recusara a aceitar sua súplicas. pelo menos o forçaria a pensar na possibilidade de um casamento. não seria com uma Campbell de língua afiada e inglesa. as partes só têm de declarar consentimento mútuo diante de testemunhas e. talvez ele percebesse que ela falava sério sobre querer permanecer em Cair House. Mal conseguira se recuperar do último choque de vontades. o que. não acreditara nela quando dissera que o amava. _Marido! _ Por que não nos contou. pois estava com a atenção concentrada em Raith. Raith levantou-se. Katrine não só escolhera um momento em que parte do clã estava reunido para não ser ignorada. chegou mais perto de Callum. Callum riu. Estava surpreso por constatar que Katrine tinha outros aliados . estava pensando em uma medida drástica. Fitava-o sentindo o coração batendo em seus ouvidos enquanto aguardava sua reação. Callum enfrentou a atmosfera tensa e a ira de seu primo. _Não há casamento e nunca haverá _ afirmou. mas teve certeza de que foi Lachlan que veio em sua defesa. não tinha muita certeza do que estava fazendo..

pensando em ir até Katrine. preferia morrer enforcado do que deixá-la forçar a situação. srta. _Ah. percebeu que não poderia fugir do assunto. _ Lachlan balançou a cabeça. Ia abrir a boca para fazê-lo quando Hector falou: _Por que diabos o lorde iria querer casar com ela? _Sim. Levantou-se. Os olhos de Raith se estreitaram tão perigosamente que Katrine recuou um passo. Ele já fizera a coisa honrada mantendo distância. Erguendo o queixo voluntarioso. _Sim. sentindo sua paciência se esgotando. Então finalmente alguém perguntou: _Por que Fort William? _Talvez para procurar uma governanta para Meggie _ arriscou um dos homens. vocês estão casados ou não? _Acho que não _ sussurrou Katrine. _Porque seria a coisa honrada a fazer _ murmurou embaraçada. Katrine sentiu o gosto amargo da derrota. Ele cruzou os braços numa atitude beligerante. Quer estivesse agindo por vingança ou impulsionada pela crença infundada de que estava apaixonada por ele. Afinal. _Estou indo para Fort William _ rosnou. e furioso por perceber que estava perdendo o controle da situação. mas seria nojento unir o sangue dos traiçoeiros Campbell com o do clã Gillean _ protestou Hector. Tinha um certo direito de fazer a reivindicação. _ Afinal. mas contevese. Mas agora Katrine estava jogando sujo. um feito que exigira um esforço quase sobre-humano depois da daquela maravilhosa noite de amor. era uma moça cuja inocência fora tomada. _E você precisa de mim _ murmurou. _Filhos! _ interveio Lachlan. por um cavalheiro de meios e viúvo. O maldito duque não mexeria com os MacLean se você entrasse para o nosso clã. choroso. _ Um casamento uniria os Campbell e os MacLean. Katrine tentou um outro caminho. Lachlan olhou para Katrine perplexo. _ Até que era uma boa idéia. _A senhorita terá de encontrar um motivo melhor _ disse Raith. por quê? _ insistiu Ewen. Tinha de pôr um fim a essa discussão absurda antes que fosse longe demais. frustrado. chamando os MacLean pelo seu nome mais antigo. _Posso tomar conta de Meggie melhor do qualquer um de vocês. . Houve um longo silêncio. queira nos explicar por que eu devo querer me casar com a senhorita. enquanto se afastava. Você precisa de mim. _Que pena. _Sim. Percebendo que ele ia se retirar. Essa conversa nunca deveria ter acontecido diante de seu clã. Estava grata por Lachlan tê-la defendido. num tom tão baixo que só Callum conseguiu ouvi-la. que seria inútil. Katrine deixou-se cair no banco ao lado de Callum. _ O lorde de Ardgour precisa de um herdeiro. Raith cerrou os dentes. triunfante.além de Lachlan. Ele não se deixaria persuadir. Raith olhou para ela por um outro desconfortável instante antes de virar-se para a porta e caminhar até lá com passos decididos. Ele tomou-lhe a mão num gesto de simpatia. _Não entendi _ disse. Posso ajudar seu clã na briga com Argyll. Katrine engoliu em seco. Campbell. embora com consentimento. antes de esganá-la. você precisa de um herdeiro _ declarou Katrine. _Sim _ disse Lachlan. Katrine irritou-se com os termos empregados pelo homem e com a idéia de que ela não era boa o bastante para ser admitida no clã MacLean. Mas seria muito desagradável ter de tocar nesse assunto diante dos presentes. Tinha de sair dali o mais rápido possível. Podia sentir todos os olhos nela. pensativo. ignorando o enrubescimento de Katrine. Seu clã tinha como certo que deveria opinar sobre seu casamento e estava preparado para discutir todos os aspectos. mas sabia. pelo brilho de aço nos olhos de Raith.. _Pretendo contratar uma governanta _ defendeu-se Raith. Raith. _Muito bem.

Todos os corações menos o dele. Ela nunca parecera mais encantadora. pensou de mau humor. comer uma boa refeição e gozar a companhia de sua pupila. Mas pelo menos agora ele sabia que estivera falando sério quando dissera que o amava e queria se casar. esse sentimento aumentava quanto mais ficava longe dela. quase abraçadas. só amor e prazer enquanto ela mordia o lábio em ávida concentração. Dela correndo como criança. ele disse a si mamo que não queria mais do que ir para seu quarto. Callum. cansado. apesar dos esforços das duas. Dela ardendo de paixão em seus braços e afirmando que o amava. Lachlan. Ele encontrou Katrine e Meggie em pé no meio da sala. a vontade desesperada de vê-la. Isso não pode continuar. Conseguira até conquistar o coração de seus parentes. na verdade. não conseguiu aplacar a ansiedade ao finalmente chegar em casa depois de dois dias entrevistando as candidatas à governanta. Flora.. Indo contra esse sentimento. batendo nos móveis. um típico representante das Terras Altas. Hector afirmou que não acreditava nisso. Esse era um ponto sobre o qual a maioria parecia concordar. os cachinhos rebeldes emoldurando o rosto bonito e um luminoso sorriso. Ficar longe dela não adiantava muito. observando-as da porta enquanto Katrine começou a cantarolar uma música alegre.. não sabia como ia conseguir essa façanha. Não havia nenhum vestígio de medo nos grandes olhos escuros. fazendo uma aposta com sua pupila. Mas. Era a mesma ansiedade. Apesar da veemente rejeição. Surpreendia-se com a saudade enlouquecedora. Imagens de Katrine escapando descalça da casa para ir ver o nascer do sol. E ele jamais vira Meggie tão feliz. Nunca em sua vida se sentira tão cercado. até um dos dois vencer a batalha. Mas todas suas boas intenções caíram por terra quando ele entrou na casa e ouviu risos femininos vindo da sala de visitas. meu bem? Katrine estava um tanto ofegante e apoiava a mão na cintura de Meggie. Sabia que seria muito difícil Raith concordar em se casar com ela. enquanto Lachlan continuou a insistir em que Raith precisava de um herdeiro. Raith . Contudo. não abandonaria as esperanças. ao contrário do que imaginara antes de partir. Vamos tentar de novo. tropeçando e rindo com seus erros. anunciando-o ao mundo como seu marido. Mas. _ Mas claro que conheço as danças inglesas _ dizia ela. mesmo Hector. Mesmo assim. pensou Raith. mesmo da mais difícil. com as faces coradas. mas ela mal ouviu suas palavras. três dias depois. tentou se convencer. apoiando Katrine. Meggie. jurou. mas não houve consenso. Recusava-se a render-se e estragar todos seus planos.. Katrine segurava um leque na mão graciosa. E quando estava perto dela. Estava profundamente irritado com o aguaceiro e com uma certa ruiva astuciosa e traidora. Começaram a rodopiar pela sala.Houve uma outra discussão para avaliar se um casamento entre Raith e Katrine seria suficiente para impedir o duque de Argyll de implicar com os MacLean.. pensou ele. ainda não era hora de se desesperar. Ele estava perdendo o controle de sua vida e de seu destino. até certo ponto. Nem mesmo o seqüestro cometido por um clã inimigo a levara a perder o gosto pela vida. Nunca teria o dele. havia pouca precisão em seus passos.. Apesar de tudo. alternava os estados de querer esganá-la e amá-la. imitando um forte sotaque escocês. _ Meu papai era escocês. pois quando se afastava da casa ela começava a virar todo o seu clã contra ele. Katrine extraía o máximo de qualquer situação. Raith fez uma careta quando a chuva começou a cair durante sua volta de Fort William. lavarse da sujeira da viagem.. De tanto em tanto Callum intervinha com um comentário. dando a Raith a impressão de que estava ensinando a menina a dançar a quadrilha. Uma cena encantadora. Infelizmente estava só e não tinha com quem conversar para protegêlo das imagens que atormentavam seus pensamentos. que um marido poderia sentir por uma amada esposa depois de uma longa ausência.

Raith a impediu com um leve toque. Ambos haviam momentaneamente se esquecido de Meggie. em vez de pensar em seu mais alto interesse. Quando notaram a tristeza estampada em seu rosto. por que você não vai buscá-lo para mostrar ao seu tutor? A menina virou-se obedientemente. Era como se tivesse acabado de trair Meggie. os dois se arrependeram por terem discutido o assunto diante da menina.. A necessidade de abraçar Katrine quase venceu. Ela chegará na semana que vem. ele a devolveria ao tio. Ele forçou-se a desviar o olhar. por ser o alvo do carinho de Katrine. mas o suspense dos últimos dias sobre a decisão de Raith estava acabando com seus nervos. _ Tenho certeza que sim. da cor da noite. Na verdade não queria saber. _ Uma mulher mais velha que já criou cinco filhos. Katrine respondeu numa entonação normal. Por que estava triste? Devia sentir-se alegre por saber que logo iria ser libertada. Raith ficou com a expressão sombria. não faça isso. Uma marca de beleza. apertando o leque. ansiosa. Nunca antes a vira com um recurso paia aumentar sua feminilidade. Ela seria uma boa mãe para Meggie. “Não.. Logo iria embora. quando ela começara a se despir para ele. ansiosa por encontrar um assunto que desviasse a atenção de todos do problema desagradável. Raith também deve ter lembrado. Mas não! Katrine era uma Campbell e sua refém. _ Você teve sorte em arranjar uma governanta? _ perguntou Katrine finalmente. _ Não. com um olhar enigmático. mas toda a felicidade sumira de seu rosto.. pensou de repente. _ Penso que Meggie vai gostar da mulher que contratei _ resmungou em sua própria defesa. pensou. pois seu olhar desceu para seu peitilho.” Katrine lembrou-se dele dizendo essa frase na noite em que haviam feito amor. Querida. _ Eu não contrataria outra pessoa. Raith não a queria ali nem mesmo como governanta. Katrine corou quando percebeu que Raith havia notado sua tentativa de embelezamento. mas a garota logo captou o significado das providências tomadas. Ele percebeu claramente a ansiedade nos olhos verdes que o fitaram do outro lado da sala. vulnerável. _ Meggie esteve bordando um presente para você _ revelou Katrine. deixe-me fazer isso. mas foi Katrine que parou de repente. Katrine prendeu a respiração quando olhou nos olhos de Raith. que certamente precisaria ser preparada para a mudança. . pois ajudou-o a esconder sua luta íntima. recebendo acenos de cabeça como resposta. Por um instante até surpreendeu-se invejando sua pupila. _ Estávamos experimentando marcas _ disse. sem nenhum traço de acusação. Estavam quentes e escuros. levando a mão à face. _ Ela é muito habilidosa com a agulha. um silêncio um tanto constrangedor caiu sobre eles. De fato. Só então notou o que não havia visto a distância _ um pedacinho de veludo em forma de crescente colado na face de Katrine. Raith afastou esse desagradável pensamento quando sua presença foi notada. Quando ele terminou de interrogar sua pupila sobre como passara em sua ausência. concentrando toda sua atenção em Meggie. A primeira a vê-lo foi Meggie. observando as duas. mas algo em suas palavras _ pesar ou sofrimento _ levouo a observá-la cuidadosamente. vendo Katrine atravessar rapidamente o salão para pôr uma mão consoladora no ombro da menina. O gesto foi um alívio. No instante que Argyll concordasse com os termos.achou que a alegre espontaneidade só acrescentou charme ao seu desempenho. _ Sim _ disse Raith. sua simples presença era benéfica para a menina. Ela também deu graças por ter tempo para recompor suas feições e mascarar seu desapontamento diante da indiferença de Raith. Ela tinha o rosto aberto num brilhante sorriso e correu para os seus braços. Sentiu-se fraca. Katrine sentiu a tristeza invadir seu coração. Raith sentia-se inconsolável.

Dois pensamentos lhe acorreram ao mesmo tempo: os soldados tinham vindo a sua procura e Meggie estava apavorada. inclinou-se para Raith enquanto ele abaixava a cabeça. Lançando um olhar para trás por entre os galhos de uma árvore. Mas animada com o apoio de pelo menos parte do clã. Ele ia beijá-la. mas acabara percebendo que a múlher. em particular. Era gratificante saber que eles estavam dispostos a aceitá-la. _ Você a fará quebrar corações antes mesmo de ter idade para prender os cabelos. a pouca distância da casa. As criadas. Em seguida aproveitou para fugir. concluiu. Ia cobrir sua boca e então. saindo a pedido de Flora para colher ervas para tingir a lã que posteriormente seria usada para fazer o tecido xadrez com as cores do clã. no caso de Raith mudar de idéia e aceitar o casamento._ Esteve ensinando Meggie a usar um leque? _ A voz de Raith tornou-se subitamente rouca. Raith afastou-se num movimento abrupto. Aceitou o presente com efusivos elogios e legítima gratidão. estava ansiosa por ver o lorde com um herdeiro direto. pedindo Raith como marido tivera inesperadas conseqüências. As duas já tinham colhido raízes para encher um saco e dirigiam-se ao vale à procura da vassourinha quando ouviram patas de cavalo no calçamento de pedra. granjeando-lhe um novo respeito do clã MacLean. mas agora sua única reação foi de aborrecimento. Nunca em sua vida estivera tão pouco inclinada a dar atenção a uma criança. A reivindicação que fizera. ela cantarolava baixinho. A arruda crescia na horta. Meggie carregava dois sacos de pano para elas trazerem sua colheita. . Ele mesmo se colocara nessa situação e agora não havia nada que poderia fazer para modificá-la. o som de sua risada ou espiando-a pela janela de seu quarto quando se esgueirava da casa pela madrugada. Mas ele não mostrava nenhuma inclinação nesse sentido. Katrine avistou cerca de doze cavaleiros entrando no pátio. Teria de evitar os cômodos onde sabia que a encontraria. No bolso do avental carregava uma pequena pá para desenterrar as raízes de arruda que forneciam o pigmento vermelho e tesouras para cortar as folhas da vassourinha. Flora esquecera em parte sua moral ofendida para mostrar-se mais tolerante. Apesar da recusa veemente de seu chefe. voltando a convidá-la a tomarem chá juntas. Não até chegar a hora de levá-la de volta aos seus. pensou confusa. O melhor era não ser mais tratada como uma portadora de um mal contagioso nem vigiadà atentamente quando deixava a casa. pois a menina gostava muito de mexer na terra. Ela sentiu a presença de Meggie no instante em que o hálito quente de Raith acariciou seus lábios. Eles usavam as botas de cano alto e as casacas vermelhas da milícia inglesa. Em outras palavras. Os MacLean. pensou. tinham passado a lançar-lhe olhares curiosos e leves sorrisos. Trouxera Meggie consigo. ou aqueles onde ela poderia estar. como os outros membros do clã. dando graças por ter encontrado forças para afastar-se de Katrine depois de sentir a ansiedade sensual que a tomava. Num movimento involuntário.. Por isso. Ele se surpreenderia tentando ouvir os passos de Katrine. que davam o pigmento verde.. Ela não era mais uma prisioneira em Cair House. Fazia dois dias que a evitava por completo. percebeu Katrine satisfeita. De início achara estranho a governanta estar disposta a aceitar uma Campbell para ocupar o lugar de Ellen MacDonald. Nunca em sua vida fora tão impaciente. naquela tarde. não esperavam mais que ela tentasse fugir. Katnne não conseguiu ordenar seus pensamentos para formar uma resposta. que mantivesse a linhagem não interrompida desde o primeiro MacLean de Ardgour. ele era um prisioneiro em sua própria casa. os subordinados estava pensando seriamente na possibilidade de um casamento entre os dois. O gemido rouco de Meggie lhe cortou o coração. Katrine virou-se para a menina. Deus. os próximos dias iam ser tão difíceis quanto o último mês. Três semanas atrás ela ficaria felicíssima em ver os dragões. conseguia enfrentar o futuro com algum otimismo. Raith não lamentou o fato de Meggie ter voltado tão rápido. certamente imaginando-a na posição de futura patroa.

_ Os soldados já foram embora _ anunciou ele. mesmo que quisesse ver Raith preso. _Saia daqui! Katrine mal o ouviu. calma _ repetiu várias vezes. _ Ele Levantou-se abruptamente com Meggie nos braços e carregou-a até a cama. o que não queria. meu bem. Um bom tempo depois. Bastaria ela se mostrar para os soldados prenderem Raith como criminoso. Já no meio do quarto. Três dos MacLean de Duart foram presos. Mas. de certa forma. Ela perdera a oportunidade de correr para os milicianos. _ O jogo mudou. _ Calma. onde a acomodou e cobriu. naturalmente. Ele não a queria ali. Meggie teve outra crise de pesadeLos e embora ela tivesse acordado no instante em que ouviu os gritos. Ele parecia ter desaparecido. Katrine deu-se conta de que Raith devia ter estado em seus aposentos o tempo todo e não respondera quando ela batera em sua porta. porque quando entrara no salão atrás da cocheira. _Raith. e deixou Meggie puxá-la aflita para o interior do bosque. _ Você é minha queridinha e não deixarei que nada de mal lhe aconteça. Concluindo que Raith tinha viajado. A resposta de Callum não a surpreendeu. Katrine procurou Raith inutilmente. a atenção concentrada na pilha de armas que se encontravam perto da lareira. o que você pretende fazer sobre os MacLean que foram presos? _Não é de sua conta. Quando a porta foi fechada em sua cara. Raith virou-se e lançou-lhe um olhar fuzilante. Pouco a pouco a menina foi se acalmando. Encontrando os olhos escuros. azeitando mosquetões e pistolas. ficou esperando ansiosamente por sua volta. ela ajoelhou-se. Sob a luz de um lampião. indignada.Murmurando palavras de conforto. mas as duas continuaram escondidas. ele soltou um suspiro. Escondendo-se da milícia. Eles estão no posto fiscal de Oban. Seu único desejo era proteger Raith e seu clã. foi deitar-se planejando falar com ele assim que o dia amanhecesse. Katrine apagou a vela e seguiu-o pelo corredor. estava a pedra de amolar que ele estivera usando para afiar . já sabendo a resposta. ao chegar ao quarto da menina já encontrou Raith consolando-a. mas não se deixou abater. lamentava a oportunidade que perdera. Chamou-o baixinho e imediatamente viu-o ficar tenso. Mandou Flora voltar para a cama e foi ela mesma preparar o leite morno com láudano. Katrine imediatamente largou as ferramentas e o saco. a noite caiu e nenhum sinal dele. Precisava desesperadamente falar com ele sobre seus planos. deixara de declarar ao mundo que estava ali de livre vontade. Logo que Meggie adormeceu. Mas ela não deixaria Meggie naquela situação. embora continuasse a agir como se ela não existisse. Ela voltou a procurar pela casa toda. _Como não é da minha conta? _ sussurrou Katrine. Katrine quebrou o silêncio. Não desejava mais ver os montanheses envolvidos em problemas com a lei. mas sua gravidade sim. Katie. Katrine soube exatamente o que Callum estava pensando. Desistindo da espera. Nunca estivera com uma expressão tão séria. Mas não teve de esperar tanto. espere! _Vá dormir! _ Ele deu a ordem rispidamente. Quando estavam bem longe do pátio e completamente fora de vista. No entanto. Foram acusados de tê-la seqüestrado. de denunciar os MacLean como seus seqüestradores. entrando em seu quarto. pôde ver pela sua expressão. _ Onde já se viu dizer uma coisa dessas? Em resposta. _ O que os soldados queriam _ perguntou. Katrine a abriu. talvez tentando evitar um confronto com ela. Enquanto os dois esperavam a ménina pegar novamente no sono. levara um choque ao ver os homens aprontado suas armas: afiando espadas e punhais. Raith saiu da sala. segurando o corpinho trêmulo num gesto de proteção. tomou a menina nos braços. Seu tio está à sua procura. _Raith. Katrine ouviu passos e logo constatou que Callum viera procurá-las. _ Você. Vendo seu ar inquisidor.

. Se não estivesse aqui. _Talvez não adiante nada.. mas também dor e medo. não faça isso. _ Você é uma sonhadora. forçou-se a usar um tom mais calmo. _Pretendo libertar os MacLean. até mesmo hostil. _ E seu fizer uma petição ao duque solicitando uma audiência? Talvez ele me ouça. _Você está planejando um ataque? _E o que acha que eu deveria fazer? Sentar numa poltrona enquanto meus parentes apodrecem da cadeia? _Claro que não. Dor porque Raith a estava afastando de sua vida. Medo porque o que ele planejava era muito mais perigoso do que alterar os livros de registro. Katrine olhou para ele. recomeçando a tarefa de afiar a espada que fora interrompida pelos gritos de Meggie. raptos. _ Isto é um ato de barbárie. Ele fechou os olhos.. Não é bobagem? Ele não respondeu. vendo que não estava conseguindo convencêlo. _ Você só voltará para o começo. pessoas irão morrer se você continuar com isso. _ Raith _ implorou ela. _ Argyll só entende a linguagem da força. _ Quero ajudar. Você não consegue ver o mundo como ele realmente é. _ E o que há de errado em sonhar? _ Os sonhos a deixam cega para a realidade. Sua gente irá morrer. ele saltou como se tivesse sido queimado. o que isso vai adiantar? Ele hesitou antes de dar um longo suspiro. Veio às Terras Altas em busca de sonhos e ainda está sonhando. avançando um passo. A fisionomia de Raith permaneceu rígida e sua atitude distante. Katrine! _ Não. _ Não há nada que você possa fazer. claro que é da minha conta! Eu sou o motivo da prisão de seus parentes. com os aluguéis ainda exorbitantes e eu como sua prisioneira. Contudo. Fechando a porta vagarosamente. eu imploro. _ Maldição. _ E você consegue? Por isso recorre à violência? Será essa a realidade. _ Não quero que lhe aconteça nada de mal. _ . _Não entendo por que insiste nessa teimosia. amargurado. não é? _ desafiou-o. Quando estendeu a mão para tocar seu braço. _Não vai mesmo servir para nada _ insistiu Katrine. _ tez um gesto mostrando a pilha de armas. _E depois? Mesmo que consiga. Por que não posso ajudá-lo nas suas? _ Meu clã é minha responsabilidade.um espadão. Foi para perto da lareira. mas não imaginei que fosse levar a vingança a esse ponto. Querendo confortá-lo. pelo amor de Deus! Saia daqui! _ Está com medo de ficar sozinho comigo. _ E por que não? Você luta as batalhas de todos. _ Não é da sua conta. assustada. atirou-se numa poitrona. o duque jamais teria tomado essa medida. Sua atitude dizia claramente que não pretendia dar ouvidos a ela. Katrine atravessou o quarto e aproximou-se dele. Raith? Mortes. _ Não! Não quero que lute em minhas batalhas por mim. lançando-lhe um olhar de desdém. Você não tem que interferir. As palavras expressaram indignação. por favor. ‘Eu te amo. _ Raith. _ Katrine. Pense. Por que não vai procurar o duque e expor o seu caso? _Para quê? _ retrucou Raith. _ Como você pode saber se não tentar? _ Pare com isso. não paro! Raith levantou a cabeça incrédulo.. Nunca consentirá na diminuição dos aluguéis. _ Ela captou a vulnerabilidade surgir no rosto masculino antes de ele mascarar suas emoções.

sem tirar os olhos dela. A emoção era mais como uma febre queimando em seu sangue. conseguiu dormir. Então puxou-a com força contra si e beijou-a furiosamente. abusara de sua paciência. com desespero e urgência. Em que instante seus motivos de vingança tinham sido substituídos pelo simples desejo que queimava nele agora e que não tinha nada a ver com a luxúria? Ele a queria em segurança. Quando Katrine estendeu os braços. Ellen. onde não seria tentado ou impulsionado a ignorar sua resolução. fitando-o. A admissão dos próprios sentimentos o chocou. chamando-o. Mesmo assim. _ Sim. aninhada em seus braços. mas Raith deitou-se ao seu lado. seus lábios roçando a pele suave até Katrine ficar inquieta e pedir por mais _ Raith. Não podia continuar agindo daquela maneira. ele a queria protegida. . desafiara sua autoridade. Os dois côntinuaram assim por um longo momento. Então ele se afastou para se despir. Suspirando pesadamente. Katrine viu o desejo e a aceitação da inevitabilidade de suas emoções. Não ia recuar nem um centimetro que fosse.. com um suave gemido. Pensou que ele fosse se despir. saciado mas descontente. Ela ficara desvairada nas horas finais. O que ele sentira não fora amor _ ele nunca poderia amar uma Campbell. Tinha de encontrar um modo de protegêla e proteger seu clã. Gostaria de sempre acordar assim.. a terrível carência que clamava por ser aplacada. sentindo-se saciada e feliz.. enquanto se entregavam à delícia das carícias apaixonadas. Ela mal conseguiu controlar sua excitação enquanto Raith lhe tirava a camisola e a levava para a cama. _ Katie _ murmurou Raith roucamente. Estava linda. _ Raith. Seu filho natimorto. Mas a resposta era óbvia. havia um nó em sua garganta. Ele. por favor. penetrara em sua alma. censurando-se impiedosamente. Momentos de doce loucura se seguiram. Mas Katrine permaneceu imóvel. deixando cair a espada. Raith sentia apenas o impulso dos sentidos. como acontecera nessa noite. Quando Raith finalmente chegou a uma decisão.... que tilintou ao bater no chão. _ O que vou fazer com você? _ murmurou. com o homem que amava a seu lado. onde não poderia tocá-la. Raith levantou-se. espalhando-se gloriosos sobre o corpo delicado. Katrine ficou imóvel sob Raith.. em perfeita harmonia. Raith ficou imóvel. interferira com seu clã. ele foi sem hesitar. uma febre contra a qual não conseguia lutar. Virando-se de lado. o que significava colocá-la fora de seu alcance. Ao ver-se na cama de Raith. Mas por que estava tão indefeso? Por que tinha tão pouco controle quando se tratava de Katrine? Por que se sentia tão atraído por ela? Seguidamente ela o enfurecera. Com a volta da razão retornaram as cruéis lembranças. afastando-se. seus punhos estavam cerrados. Katrine aconchegou-se nos braços fortes e entrelaçou os dedos nos cabelos negros.. Sua fisionomia era ameaçadora. Ela soube que havia vencido quando Raith praguejou baixinho e pegou-a pelos ombros. E quando ele a beijou novamente.Você tem medo de mim. ardentemente. os corpos se ajustando como se tivessem sido feitos para permanecer assim. Raith acomodou Katrine melhor contra si e puxou as cobertas sobre eles enquanto ponderava o problema. faça amor comigo. Por trás da ferocidade do olhar de Raith. sentiu uma alegria imensa. tomou o corpo relaxado e sonolento de Katrine nos braços. mudara sua vida e prioridades. todos os obstáculos e preocupações desapareceram. Suspirando. Gostava demais dela.. O preço era alto demais. Katrine logo despertou. os cabelos livres da trança espessa. _ suplicou. pensou na transformação de seus sentimentos. Ele devia estar desvairado agora para colocar a vida de Katrine em risco... Deitou-se ao lado dela. Confuso. unidos. acabara com sua paz.

_Raith. não havia ninguém mais bonito. O escudo fez um barulho enorme quando atingiu a superfície prateada.. Não acontecerá de novo. mas não agüentaria o peso. Apesar da sombra da barba espessa. O ódio e a matança tinham de parar. Katrine sentiu-se inclinada a perdoá-lo. maldita inglesa. Ao ouvir o grito. e. Quando desse um fim às de Raith. esvaziaria o esconderijo dos MacLean de todas as armas que existiam lá. Mas primeiro cuidaria das que tinha em mãos. disse: _Eu nunca ergui a mão contra uma mulher antes. e mesmo se fossem necessárias cem viagens durante a noite inteira. Entrou nela andando o mais rápido possível. Mas não se deixaria enganar por essa expressão pacífica. indo diretamente para o lago. Mas então ficou imaginando se o que não aconteceria de novo seria a agressão física ou a entrega de amor. mas suas pernas pareciam coladas ao chão. resolvera segui-la sem perder tempo. louca. Katrine desceu da cama e vestiu a camisola. usando-o como se fosse uma bandeja redonda. Sua intenção era atirar as armas nas águas profundas. de sua paciência. Pensou em colocar todas as armas no escudo. jurou. _Você enlouqueceu de vez? Por Deus.. dobrada sob o peso da arma e do escudo. Por um instante sentiu somente raiva e impotência. apesar de todos seus pedidos. Seu coração parecia querer saltar do peito. ela o empregaria. preparou-se para fugir. Então a impotência cedeu lugar a um instinto selvagem. Agarrou-lhe o braço e. Com a voz embargada. Pensou em sair correndo. ele não mudara de idéia sobre ela. _ Katrine! _ gritou. das horas de amor que tinham compartilhado. mas jamais uma delas fora tão longe.. Decidiu-se então pelo pesado espadão e o escudo. mas ele a alcançou em segundos. completamente transtornado. ele parou abruptamente. Correu em direção à casa. Sentou-se ali e. mas agora era tarde. Katrine ficou olhando satisfeita enquanto ele e a espada afundavam. murmurando uma praga. caindo em si.depois dirigir-se para a escada de serviço. Arrependia-se do que havia feito. Assustada.aquecendo-a com seu calor. Çom todo o cuidado. Lágrimas quentes toldaram os olhos de Katrine. De repente a alegria foi substituída pelo desespero. e saiu correndo em sua direção. _Intrometida. no sono ele parecia um garotinho indefeso. Mas não havia escolha. _ chamou. Raith ouviu o barulho a alguma distância. para contemplar o rosto adormecido. mas inimigos mortais. Mesmo se ele ficasse furioso. isso não pode ficar assim! Ela já o vira furioso. Ele enterrou o rosto nas mãos. Quando ele a soltou. e se houvesse um único modo de impedir mais derramamento de sangue. Sabia com plena certeza que. a vira tomando a direção do vale. de modo a não perturbar Raith. mas conseguiu esgueirar-se para fora do quarto sem acordar Raith. sobre o casamento ou sobre os planos de ataque contra o clã Campbell. Intrigado. A lua estava cheia deixando a noite clara o suficiente para que visse a trilha que levava ao vale. Cada palavra era pontuada por uma palmada. Ele acordara e notara tanto a falta de Katrine como de sua espada. arrastou-a até uma pedra. iria para a leiteria. Katrine virou-se assustada. mas a resposta inesperada veio depois de um longo e penoso silêncio: _Amanhã mesmo eu a mandarei de volta à casa de seu tio. Katrine encarou-o com olhos molhados cheios de rancor. Para ela. Katrine. A agressão física não doía tanto quanto a humilhação. .. Afastou-se um pouco. Pé ante pé foi para perto da lareira para pegar as armas. Mesmo eles eram difíceis de carregar. colocou-a no colo e começou a dar-lhe palmadas. eu juro! Reconhecendo que o provocara até o limite. Indo para a janela do quarto. como faria com uma criança. Mesmo se quisesse matá-la. Ao se dar conta do que Katrine acabara de fazer. saindo da casa pela porta de trás. mas agora Raith parecia ter perdido todo o controle. Ele nunca fora violento com mulheres. Não eram mais amante.

limpando as mãos no avental. Depois de entregar a xícara de chá a Katrine. concluíra que a única coisa que poderia fazer era retardar ao máximo o momento da partida. Abaixando-se para evitar bater a cabeça nas plantas secas que pendiam das vigas do teto. e uma mesa com suas cadeiras. Lembrando-se do propósito de sua visita. por favor _ disse a mulher. Morag tamb~m fora rejeitada por Raith. talvez lhe oferecesse algum consolo. Teve a impressão de que sua visita era esperada. . _O lorde não quer que fique aqui. E também instintivamente gostou de Morag. A madrugada estava pesada e fria e a neblina chegava a esconder totalmente bons trechos da trilha. _Sente-se. cortando folhas. pois Morag levantou-se no mesmo instante. mas Morag era uma velha baixinha e gorducha. Sou eu quem veio procurar. seguindo o odor da fumaça de turfa. Queria iniciar a conversa. observaram. Apesar de todas as suas súplicas. pois a janela ainda não fora aberta. Não saberia explicar a necessidade de procurar Morag. Como tinha o pequeno estábulo ao lado da casa. mas teve de fazer uma pausa para ajustar sua vista e respiração ao interior do chalé. imaginara-a magra. enquanto bebia seu chá. e a fumaça de turfa se espalhava por todo o ambiente. aliviada com a boa recepção. exceto que sentia uma certa afinidade com ela. mas não sabia exatamente como. Katrine sentou-se numa das cadeiras e ficou observando Morag se inclinar sobre o fogo e preparar o chá. Katrine surpreendeu-se com a afirmação e olhou espantada para a mulher. depois de alguns instantes. Seus olhos azuis e vivos avaliaram. como fazia a maioria dos granjeiros. Prepararei um chá para nós. Depois de muito pensar. eu não tenho o dom _ explicou Morag _ . que usava o xadrez dos MacLean. _ Você é Morag? _ Sim. vamos conversar. conseguiu ver um cômodo Umpo com uma cama perto da lareira. Acabou quase tropeçando na mulher. _Eu sei porque você veio _ disse. ela fizera tudo para demovê-lo da idéia. Morag MacLean. deixara a casa à primeira luz do dia. Se ela não pudesse lhe dar respostas. Morag era rica pelos padrões das Terras Altas. Com lágrimas nos olhos. Instintivamente soube que ela era muito hábil em seu trabalho. Depois do abrupto anúncio de Raith na noite anterior. cabelos brancos e ar alegre. focalizou o olhar na velha. Contudo. Como ouvira os outros moradores da mansão se referirem a ela como uma bruxa.CAPÍTULO XV Katrine apertou o xale mais ‘contra o corpo. não precisava trazer os animais domésticos para dentro. olhou a sua volta. mas conheço muito bem Raith MacLean. com faces coradas. mas ele se mantivera inflexível. Morag sentou-se na outra cadeira. Estava escuro. enrugada e mal-humorada. Como sua anfitriã continuava calada. A mulher não era nada do que Katrine esperava. Ela seguiu Morag. estava decidido a devolvê-lá ao tio. _ Obrigada _ murmurou Katrine. Teve dificuldade em encontrar o chalé de pedras por causa da neblina e encontrou-a mais pelo cheiro do que pela visão. sentia que devia atender ao impulso de visitar Morag. que estava ajoelhada diante de um dos canteiros que ladeavam o caminho até a porta. Assim. _Não. _ Você é a Campbell. _ Entre. duas bancadas cheias de panelas de ferro e de barro.

E. _E como posso ir com você? Não dá para eu me sentar sem sentir uma agonia. como se fosse avançar para pegála. mas não por medo dele. pensou. _Eu não disse que não podemos dar uma mãozinha ao destino. _Venha. _ Não entendo por que você saiu a minha procura. _ Agora beba seu chá como uma boa menina. Katrine suspirou. Começou a dar um passo à frente. Morag levantou-se para atender e Katrine levou a mão ao peito. _Então não acha que um dia ele se casará comigo? Que poderá me amar? _Vou ser sincera. _Mas eu sempre achei que unia pessoa deve tentar fazer seu próprio destino. Raith só apertou os lábios ante a referência à sova que lhe dera. As duas mulheres trocaram um olhar de compreensão antes de Raith falar de novo. meu bem. Katrine percebeu que ele não entraria na casa de Morag de livre e espontânea vontade. Era o que temia ouvir. pelo que eu soube. _ Eu estava desesperada _ sorriu Katrine. mas seu ato de desafio foi causado pelo desejo de atrasar a hora da partida. Se o destino quiser que os MacLean e os Campbell parem de brigar. você já vem fazendo isso. Katrine sorriu diante do exagero. O lorde terá de aprender a abrir o coração antes de chegar a esse ponto. Katrine balançou a cabeça obstinadamente. É uma mistura secreta. pôde ver seu rosto sombrio. No instante seguinte ele a avistou. Raith estava lá. não precisava. Por entre a fumaça de turfa. Então lembrou-se de Ellen e do óbvio amor que Raith sentia por sua falecida esposa. dando a impressão de que estava aliviado por encontrá-la em segurança. Eu não ia tentar uma fuga. Se o destinp do lorde for casar-se com você. ela ergueu o queixo. mas logo parou. _ Katrine balançou a cabeça tristemente. Como esperava. _ Por que você consegue ver isso e Raith não? _ Talvez ele não queira ver. Agora venha. Como falara num tom beligerante. Partimos para o litoral em uma hora. Encontrei o caminho com bastante facilidade. _ Morag deu uru tapinha maternal na mão de Katrine. Vim procurar Morag porque preciso de um cataplasma para meu traseiro maltratado. _ Sim. Ia começar a perguntar sobre Ellen quando ouviu passos impacientes do lado de fora do chalé e depois uma batida forte na porta. Como Raith pudera cortar de sua vida essa alma tão boa?. _ Eu me preocupei pensando que alguma coisa de mal pudesse lhe acontecer. Seu primeiro impulso foi fugir. Não querendo se mostrar covarde. Nunca imaginei que fosse ver uma moça tão arrojada a ponto de dizer ao lorde que ele era seu marido. vou levá-la para casa. Você vai querer tempo para fazer as . Você poderia se perder na neblina._Você já o viu mudar de idéia? _Raramente. você está apaixonada por ele. que cura os piores males. sem jeito. desanimada. e sim pela vontade de adiar o inevitável. até um coração partido. Enquanto ele perguntava a Morag pela moça Campbell. _Imagino que não existe também um modo de acabar a briga entre nossos clãs? _Tudo depende do destino. levantou-se e avançou alguns passos.que fez suas faces ficarem ainda mais gordinhas. _ Bem. eles pararão. num tom áspero. seus olhos sondavam o interior escuro do chalé. Katrine surpreendeu-se ao ver a expressão Raith suavizar-se um pouco. observando a expressão carinhosa de Morag. como se quisesse frear o coraçao. Morag surpreendeu-a de novo ao dar uma risadinha alegre . ele se casará. _Vou improvisar uma almofada.

Eles ainda estavam no jardim de Morag quando Katrine pegou Raith pelo braço. Katrine chegou primeiro ao pátio e diminuiu o passo ao ver Callum junto à porta. decidida a manter pelo menos a pose. Com os olhos cheios de lágrimas ela disse. A determinação dele era inabalável... _ Bela Katie _ murmurou. com tanto desespero? _ Raith. Sua garganta doía pelo esforço de conter o choro. Quer tipo de vida levaríamos com um casamento baseado no ódio? Callum tocou-lhe o rosto com a ponta do dedo. Ele sentiu uma dor. espere! Por favor. não podia ter. estar tão próxima e não poder expressar seus sentimentos... Um amor que não queria. Por favor. Ele veio a seu encontro e ergueu uma sobrancelha ao ver os olhos verdes marejados de lágrimas.. A fragilidade dela o fazia lembrar da própria impotência para controlar os eventos da vida. por favor. esforçando-se para não demonstrar ternura. intensa que o deixou momentaneamente paralisado. pensou Katrine em desespero. _ Bela. assim como suas últimas esperanças se dissipavam diante da firme resolução de Raith. a mágoa e o sofrimento.. mas reuniu toda sua dignidade e endireitou os ombros. não me peça isso. puxando o animal. Você não pertence a este lugar _ disse. _ Katrine. A neblina estava começando a se dissipar e ela pôde ver o cavalo pastando alguns metros à frente. Raith afastou-se um pouco e enxugou-lhe os olhos. O amor estava claro nos olhos verdes. acompanhando a trajetória de uma lágrima. Agradeceu Morag pela hospitalidade e foi atrás de Raith. como se a estivesse esperando. _ Oh. balançou a cabeça e deu um passo para trás. sempre pondo fogo em tudo. _ Talvez seja melhor assim. Ele virou-se com um movimento impaciente e olhou-a com o rosto impassível. Não suportaria dividir a mesma sela com ele. Deus. _Raith. mas sempre achei que era meu destino voltar às Terras Altas. onde encontraria a pessoa certa para amar. Ele desprezava coisas que ela respeitava. Raith não discutiu. isso é perseguir um sonho. Teria chegado à humilhação e implorado que ele a aceitasse como esposa se sentisse que o faria mudar de opinião. _Não faça isso.malas e despedir-se de Meggie.. Usando o máximo de sua força de vontade conseguira manter-se firme até aquele instante. _ Você deve ficar com sua própria gente. Em desespero. _ Ele estendeu as mãos e tomou-a nos braços. e Katrine sentiu vontade de chorar de . Katrine soube que aquela fora a palavra final. contrariando todos seus princípios: _ Você não tem de se casar comigo. por quê? Por que não posso ficar aqui com você? _ Katrine. Como podia amar tão profundamente e não ser correspondida nem com um pouco de consideração? A tristeza de Katrine fez romper a barreira de distanciamento de Raith. não chore... como seu clã e o governo inglês. Quero ficar aqui com você. _Por favor. Campbell. Com dificuldade. Pode parecer tolice. Pegou as rédeas do cavalo e a seguiu em silêncio. não me obrigue a ir. O amor.. No entanto. Sua voz foi diminuindo.. conseguiu dizer a Raith que preferia caminhar. o orgulho era uma barreira estreita demais para conter o sofrimento. Você não precisa. geniosa e desbocada srta. O gesto foi ao mesmo tempo triste e confortador. _ Raith é um tolo. Mas como não gostar de alguém que o olhava com tanta devoção. Um futuro junto dela era impossível. Amor. _ Então você vai mesmo embora? Ela só conseguiu fazer que sim. _ Eu só gostaria que nossos clãs vivessem em paz.

novo. _ Eu devia ter me apaixonado por você, Callum. Então tudo seria mais simples. _ Mas você nunca teve olhos para mim. _ Se eu o tivesse visto antes... _ Acredita mesmo que faria diferença? _ Callum balançou a cabeça com fingida tristeza. _ Katie, meu bem, eu nunca tive a menor chance. E devo dizer que me senti ofendido, porque, se me perdoa a falta de modéstia, estou acostumado a ver as damas caindo aos meus pes. Katrine tentou, mas não conseguiu sorrir. Agora não sentia mais do que um tumulto de sensações e um torpor assustador. _ Preciso me despedir de Meggie _ gaguejou antes de correr para dentro da casa. Callum lançou um olhar penetrante e acusador para Raith enquanto este entregava as rédeas a um cavalariço. _ Você deve estar muito orgulhoso de si mesmo _ disse, sarcástico, quando Raith se aproximou dele. _ Ela passou por aqui como se tivessem lhe arrancado a alma. Raith passou pelo primo para entrar em casa sem dizer uma palavra. Katrine deu graças pelo torpor que tomara conta dela e amortecia sua dor. Devia ter se surpreendido ao saber que Callum iria acompanha-los, mas depois da comovente despedida de Meggie perdera todo o interesse no que a cercava. Mesmo quando o pequeno grupo liderado por Raith entrou em Corran, uma aldeia de pesca-dores, e em seguida embarcou no bergantim de dois mastros que deveria levá-la de volta para casa, o misericordioso torpor continuou protegendo-a. Só uma hora depois, enquanto olhava distraidamente para as praias do lago Linnhe, com o vento forte soprando em seu rosto e fazendo enfunar as velas, foi que Katrine começou a tomar consciência do que a cercava. Callum era o capitão da embarcação, o que se tornara óbvio desde o início pelas ordens que dava à tripulação, mas o navio era grande demais para ser usado em contrabando. Talvez contassem com sua velocidade para escapar dos agentes do rei, mas ele seria reconhecido com facilidade e seus ocupantes capturados. Ela estremeceu ao pensar em Callum e seu bravo grupo de montanheses sendo presos pelos ingleses. _ Está com frio, Katie? _ A voz de Callum, de repente tão perto dela, a assustou. Ele entregara o timão ao imediato e viera conversar com ela. _Não. Estava apenas pensando no que aconteceria se você fosse flagrado em suas atividades ilegais. _Estou honrado com sua prcocupaçáo, minha cara _ sorriu Callum _ , mas acalme sua mente. Não serei preso por atividades ilegais. A não ser, claro, que você venha a revelar ao seu tio a identidade de seus captores. Mas não fará isso, não é? Raith ficaria em má situação. Ao ouvir o nome querido, a dor atravessou o torpor e apunhalou o coração de Katrine. Ela olhou para a popa, onde Raith estava apoiado na amurada, parecendo tão distante e duro quanto as escarpadas montanhas das Terras Altas. Afastando o olhar dele com dificuldade, Katrine voltou-se para Callum que, como o primo, estava usando trajes comuns, mais práticos para viagens, sem rendas ou bordados, mas que possuíam igual elegância. _Você não é um contrabandista, certo? _ murmurou Katrine, subitamente convencida de que se enganara a respeito dele. _Lamento, Katie _ sorriu ele. _ Você escolheu pensar assim e eu não quis desapontar uma moça tão bela e encantadora. _Então, o que é você faz? _ Ela não conseguiu evitar uma certa irritação por ele a ter ludibriado. _Um humilde homem do mar _ disse Callum, com um brilho travesso no olhar. _ Apenas um humilde capitão de navio. Humilde! Duvidava muito. Não havia absolutamente nada de humilde em Callum MacLean. Ele era arrojado, arrogante e sem lei, exatamente como seu primo. Seu olhar expressou o que pensava, mas Callum não se deixou abater.

_Não me importo em receber um ou dois barris a título de pagamento pelos meus serviços, mas de um modo geral não lido com contrabando. _E que “serviços” são esses, se me permite perguntar? _Eu transporto escoceses indigentes para cidades inglesas, geralmente Blackpool ou Liverpool, onde eles encontram passagens para a América. _Emigrantes? _Asseguro-lhe que não existe nada de desonesto nisso. _Claro que não. _E existe uma necessidade para o que faço. Depois do Quarenta e Cinco, inúmeros habitantes das Terras Altas fugiram da Escócia temendo por suas vidas. Outros foram despejados de suas terras pelos novos proprietários ingleses. Outros ainda se cansaram de tentar viver de um solo difícil, num clima mais difícil ainda. A maioria dos emigrantes é muito pobre, e mesmo depois de vender todos seus bens materiais, não conseguem pagar o preço de uma viagem até a Inglaterra. Katrine balançou a cabeça concordando, pensando nas centenas de escoceses que tinham ido para a América, abrindo mão de sua liberdade para se tornarem colonos de grandes proprietários, na esperança de encontrar uma vida melhor. E Callum MacLean, que fingia ser um patife, os ajudava nisso. Sentiu a garganta apertada de emoção. _Aposto que você cobra uma ninharia, quando cobra. _Nunca exigimos pagamento por parte dos que não têm como se dar a esse luxo. Alguns anos atrás um certo número de lordes das Terras Altas se reuniram para prover os fundos para essas viagens. _Lordes? Então Raith está envolvido? _Claro. Aliás, foi idéia dele. Naturalmente, pensou Katrine. O lorde tomando conta de seu clã. Seus olhos se encheram de lágrimas. _Quanta nobreza de vocês. _Não se trata de nobreza, Katie. É apenas um fato da vida. Não podemos virar as costas para os parentes. _Claro que não _ murmurou ela, pensando nessa lealdade, que precipitara sua situação. Como se estivesse lendo seus pensamentos, Callum abaixou a voz num sério alerta. _Espero que você saiba qual é o risco que Raith está correndo ao devolvê-la ao seu clã. Uma palavra sua e ele será preso. Posso lhe assegurar que Argyll ficaria muito satisfeito em vê-lo pendurado numa forca, assim todos nós. _Eu nunca... eu jamais... _Sei disso e Raith também . Mesmo assim, ficamos numa situação difícil. _ Callum lançou um olhar para o primo. _ Raith nunca se sentiu bem ao entregar o controle de seu destino nas mãos de outros. E por isso que anda tão inquieto e pensativo. _E você espera que eu sinta pena dele? Sem dúvida está planejando um ataque contra o meu clã. _Entre outras coisas. _E como você pode ficar aí, agindo como se fosse uma coisa insignificante? Pode haver mortes! Você e Raith poderão morrer. _E você sentiria muito minha falta, bela Katie? _Oh, você é impossível. _ Katrine lançou um olhar irritado para Raith. _ Os dois são. _E por que não diz isso a Raith? _Acho que é isso mesmo que eu vou fazer! Só quando já estava marchando pelo tombadilho que Katrine se deu conta de que Callum a provocara para tentar tirá-la de seu desâmmc. A estratégia funcionara. Ela estava novamente pronta para a batalha. _Raith? Ele se enrijeceu mas não se virou. _Raith, não é tarde demais. Resta muito tempo ainda para conversarmos sobre tudo isto

pacificamente. Você pode vir comigo e conversar com meu tio. Ele poderá ser convencido a pedir uma audiência com o duque. Esse é o único modo pôr um fim nessa briga de clàs. Raith então virou-se, mas seus olhos eram indevassáveis. _Você acha mesmo que Argyll poderá aceitar. _ Não foi uma pergunta, mas uma declaração feita com desdém. _Eu acho.., acho que devíamos pelo menos tentar. Dirigindo-se a Callum, que se aproximara deles, Raith falou: _Antes de atracarmos em Oban, quero que você passe por Mull. A srta. Campbell precisa ver com seus próprios olhos a extensão da traição do duque de Argyll. Katrine abaixou a cabeça, desanimada. Voltou a sentir o misericordioso torpor que protegia seu coração do sofrimento. _Você é quem manda, primo _ disse Callum fazendo uma mesura de fingida submissão. Depois pegou o braço de Katrine. _ Venha, vamos descer para nos abrigarmos desta friagem. Flora me deu ordens expressas de servir-lhe litros de chá quente para você recuperar o ânimo. Katrine, tristonha, assentiu. Seus olhos ardiam com lágrimas que recusava-se a deixar cair diante de Raith. Mas, quando se viu na cozinha do navio, chorou baixinho. Não, nem mesmo uma centena de xícaras de chá poderiam curar a dor causada pela rejeição de seu amor. O navio fez um desvio na rota para passar pela ilha de Mull, onde ficavam as ruínas do castelo de Duart. Em angustiado silêncio, ela ficou olhando o bergantim cortar as ondas para aproximar-se da terra. Conseguira parar de chorar, mas evitava olhar para Raith, que estava ao seu lado. As montanhas da ilha não eram tão altas como os picos que haviam deixado para trás e havia muita vegetação, com urze em flor. Mas, em contraste com essa parte, o morro que dava para o estreito de Mulle parecia dramático com sua fortaleza destruída. Katrine conseguiu vê-la a uma boa distância, um rastro sombrio da tempestuosa e muitas vezes violenta história dos clãs das Terras Altas, uma testemunha da destruição causada pelos homens através de guerras e negligência. Os MacLean de Duart tinham perdido seu castelo três gerações antes, depois de ele ter sido assaltado e parcialmente destruído pelas forças governamentais. Posteriormente a posse da área passara para o controle dos duques de Argyll, que a havia abandonado para aumentar a destruição. _Contemple o castelo de Duart, srta. Campbell _ disse Raith finalmente, no tom cheio de amargura que vinha usando com ela. Contudo, desta vez, ela podia compreendê-lo. A fortaleza dos MacLean, antes majestosa, agora estava sem telhado, com as torres e muralhas se desfazendo em pó, as janelas estreitas abrindo-se para um terreno estéril e pantanoso. _Argyll é o dono de tudo isto _ contou Raith, num tom cansado. _ Você realmente acha que existe alguma coisa que eu poderia dizer a ele para modificar os hábitos de toda uma vida? Katrine ficou em silêncio. Não havia nada que pudesse dizer. Quando eles chegaram a Oban, a tarde estava terminando. Katrine percebeu a impaciência de Raith e desconfiou que ele a culpava pelo atraso. Se não o tivesse importunado, falando sobre a briga entre os clãs, ele não modificaria seus planos, levando-a diretamente para casa. Ela olhou para a paisagem a sua frente. Era a mesma que avistara um mês antes, mas agora lhe parecia feia e sem graça. Em vez de se concentrar nos bangalôs que salpicavam as ruas íngremes, as graciosas lojas e cabanas de pescadores, tentou avistar o posto fiscal onde os MacLean de Duart estavam preses. Imaginava se Raith iria libertar seus parentes naquela mesma noite, depois de levá-la até a casa de seu tio. O pensamento a assustou. E se conseguisse retardar Raith, impedindo-o de voltar antes do dia amanhecer? Callum lhe dissera que teriam de se apressar se quisessem chegar à casa de seu tio antes da meia-noite. Claro que não existia a menor possibilidade deles pernoitarem em

soube que ele compreendera. onde iriam descansar e deixar os cavalos beberem. ele voltou-se para fitar Katrine. Sua voz falhou antes que conseguisse completar a frase. Esse também era o motivo de ela estar usando um chapéu de abas largas e um veu que escondiam inteiramente seus cabelos vermelhos. Katrine sentiu a emoção que um mínimo toque de Raith sempre lhe provocava. preçisava sentir as carícias que só ele poderia fazer em seu corpo. como a dor transpassava o coração de Katrine. querendo uma lembrança que a sustentaria ao logos dos solitários anos que tinha à frente. sem o menor pudor. vou vê-lo um dia desses. Mas essa sensação não era suficiente para ambos. pois Raith não se aventuraria a se hospedar numa estalagem. Talvez muito antes do que imagina. contemplando o céu flamejante dar lugar às primeiras estrelas. Talvez fosse essa a última vez em que o veria. Meu coração está em lágrimas. _ Erguendo o véu de Katrine.. Raith. chegou a hora de me despedir. Tomando coragem. Callum já lhe contara que haveria dois cavalos esperando no porto. _Espero vê-lo.. O amor transbordante de seu rosto . quando prosseguisse a viagem apenas com ele. que brilhava como fogo entre as montanhas.. os dois poderiam ser um homem e uma mulher que tinham ido procurar privacidade nas encostas das montanhas. Ela ficou olhando-o. ofegante.. tomou-a nos braços. _E então. Naquele instante encantado. quando Raith aproximou-se dela oferecendo o braço. Logo estavam deixando Oban para trás.Oban. Ouviu-o mexendo no alforje de seu cavalo e em seguida aproximar-se dela com uma bolacha de aveia. _Obrigado por todas suas gentilezas _ conseguiu dizer com voz trêmula. desesperado. foi apenas uma ordem tensa para ela desmontar e caminhar um pouco. estendeu a mão para tocar seu braço.. mas logo se deu conta de que isso era impossível. Katie. ela pensou em fugir para Raith não poder entregá-la ao tio. ela acabaria deixando-o louco! Com um suspiro de aceitação. não. pensou Katrine tristemente. Precisava que Raith a amasse. mas pelo brilho atormentado nos olhos azuis. Raith fechou os olhos. decidida a ter o momento. Aceitando-o com dignidade. ela entreabriu os lábios para receber o beijo tão ansiado. a pele úmida esfriando rapidamente sob o frio do sereno. Ao ouvir Callum. os dedos de Raith tocaram os seus. Talvez tentasse uma fuga mais tarde. mas agora só conseguia pensar em Raith.. Por Deus. Como em mútuo acordo. mas só tocou-a o mínimo necessário. ele inclinou-se e beijou-a na face. Raith tomou o rosto de Katrine nas mãos. num gesto tão terno e solene que quase a fez chorar de novo. Trêmula. Pode ser que um dia eu a tenha como prima. Mesmo através das luvas. Concentrou-se em admirar o pôr-do-sol. _Oh. parecendo perfurar o céu azul. Ele se aproximou para ajudála a desmontar. _ pediu. cheia de amor e desejo. correndo o risco de alguém reconhecê-la.. em silêncio. doçura.. Katrine forçou um sorriso. Katrine levantou o véu e evitou olhar para Raith enquanto ele cuidava dos cavalos. Lembrouse vagamente de sua intenção de fugir. enquanto estendia a mão enluvada. uma última vez. bela Katie. Eles se despiram com gestos impacientes e então uniram seus corpos ardentes. Raith deitou-se ao lado de Katrine. ela permitiu que ele a conduzisse pela prancha de desembarque até os cavalos.. a voz entrecortada. o homem que amava com loucura.. Vendo que Raith permanecia imóvel.. Ele. Por um longo momento os dois ficaram abraçados. só falando quando eles chegaram à margem de um regato. e mantenha a cabeça erguida. _Por favor. sem. ambos ficaram em silêncio. claro que sim. _ Não posso deixá-lo sem. Afastando-se ligeiramente. Os picos das Terras Altas os cercavam em silencioso esplendor. Raith não disse uma única palavra durante o trajeto. _ Cuide-se. Quando aceitava a comida. Mesmo nessa hora. Por um louco instante.. Um bom conselho. _Raith.

seja o que for o que está pretendendo. onde estava estacionada a milícia inglesa. _Vá para casa. _ Ele obrigou-se a falar e. Katrine levantou-se e começou a juntar as roupas espalhadas. . A distância se erguia a forma escura do castelo de Kilchurn. inclinou a cabeça e beijou-a na face. bela Katie _ sussurrou. Incapaz de se conter. _ Vou deixá-la em casa _ retrucou Raith num tom que não deixou margem para discussão. Raith sentiu um vazio tomar conta de seu coração. Quando chegaram perto de seu destino. recomeçaram a viagem. desespero e amor em seu rosto atormentado. Sem uma única palavra de protesto. A inevitabilidade da despedida atingiu-os como uma golpe. Engolindo um soluço. _ Raith. Quando ele montou e desapareceu na escuridão. _ Não devemos ir mais longe do que isto _ sussurrou ela. quando a lua surgiu. Com o rosto transtornado de dor.agora sereno ameaçou destruir todos os vestigios de sua decisão. Leu dor. Ele a levou quase até a porta da casa de seu tio e depois ajudou-a a desmontar. _Temos de ir. à sombra do imponente Ben Cruachan. Raith teve de usar todo seu controle para não abraçá-la de novo. por favor. tomou-a nos braços e beijou-a fervorosamente. Desta vez foi ela que interrompeu o beijo angustiado. Estavam atravessando a passagem de Brandor. tome cuidado. quando a viu concordar com um leve gesto de cabeça. com voz trêmula. Sem trocar uma só palavra. desejou ser capaz de voltar atrás. Katrine freou sua montaria. obrigando-o a se afastar. respirou fundo e pressionou as palmas contra o peito de Raith. Katrine só teve uma certeza: Raith estava levando seu coração com ele.

Campbell _ disse o oficial num tom cansado. seus pensamentos foram para o dia em que se separara de Raith. Jura que não viu seus atacantes. _Você não. alto. aliviada. precisou de mais uma hora para se recompor antes de se achar em condições de enfrentar o tio com um minimo de compostura. sr. _Ora. agora talvez grisalhos. Katrine soltou a respiração. quando acordou. Ele foi amarrado e amordaçado. Como fazia com freqüência nos últimos tempos. Usava uma pcruca branca. O oficial virou-se perplexo. _Tio? Colin Campbell ergueu a cabeça num gesto impaciente e depois deixou cair o queixo. com todos os diabos. Katrine estava deitada sobre a relva. que segurava respeitosamente o chapéu nas mãos.CAPÍTULO XVI Sem Ligar para as nuvens que antecipavam uma tempestade. você está bem. Ela deu um passo à frente enquanto seu tio amassava uma folha de papel. sem fazer barulho. onde esteve até agora? _Não tenho certeza. Katrine pigarreou antes de falar. Endireitando os ombros. _Mas eu não era uma prisioneira. viu o tio conversando com um soldado inglês.. Então. olhando sonhadoramente para o céu. mas ela sabia que por baixo dela havia cabelos ruivos. o nome que seu tio usava para descrever seu seqüestro. Depois. logo depois da fuga. entrara na casa do tio pela porta dos criados e. Talvez ele estivesse falando da missão dos MacLean de Ardgour para libertar seus parentes em Oban. Penso que perto daqui. Mas não poderia agir de outra maneira.. com traços que lembravam seu pai. franzindo o cenho. Depois de trancar a porta. desceu as escadas. _ Ele fugiram mesmo? A pergunta fez Katrine sentir uma onda de apreensão. um pouco enrugado. _Katrine! Graças a Deus. _ Existe algum motivo para eu não estar bem? _Motivo? _ repetiu Colin. ela entrou no gabinete. tio Colin _ respondeu fingindo inocência. ela saíra sorrateiramente da casa de seu tio para passar a tarde em preguiçosa contemplação. Respirando fundo. Depois de suportar a angústia da partida. No dia seguinte. Por um instánte ficou observando Colin Campbell. _Você pensa? Pensa! Com toda a certeza pode me dar alguma pista sobie o paradeiro . lamentando o que estava para fazer.. Um murmúrio de vozes masculinas a atraiu para o gabinete. Nenhum sangue fora derramado e ninguém conhecia a identidade de seus salvadores. O alívio estampado no rosto de seu tio a encheu de culpa. _Estou contente em vê-lo de novo. Ao se aproximar da porta. subira para o quarto que lhe fora destinado quando chegara à Escócia. A mão deslizava sobre o abdome numa carícia protetora. Mas ao ver as nuvens de chuva escurecerem o céu. ela cruzou as mãos. reunindo sua coragem. _Malditos MacLean! Estão decididos a nos fazer de bobos. _ Você era prisioneira dos malditos MacLean! É mais do que motivo. Ajudaram seus cúmplices a fugir nu meio da noite. _ Não pode ser _ ouviu-o murmurar. o mesmo lugar em que se deparara com Raith pela primeira vez. atirara-se sobre a cama sem nem mesmo se’despir e pegara no sono vencida pela exaustão. em geral se concentrava nas experiências agradáveis de sua “provação”. Em ocasiões como essa. sob o nariz dos seus guardas! _Sim. _ Encontramos o carcereiro na outra cela.

De fato. Ele era o símbolo dos MacLean de Ardgour e de vários outros ramos do clã. _ Se o duque de Argyll não tivesse aumentado injustamente os tributos dos MacLean de Ardgour. Morte ou Vida. agora é minha vez de dizer que você nunca deveria ter vindo para cá. eu não saberia dizer.. Roubaram nosso gado. não fui ferida e voltéi sã e salva.. o senhor vai querer enforcá-lo e não desejo ter esse peso na consciência. Parece-me que existe uma solução perfeitamente razoável para esta situação. os MacLean de Ardgour. Desenhar o machado fora uma atitude perigosa e impensada. _Não. Ele estava vermelho. Eu nunca corri perigo. Katrine balançou novamente a cabeça. _Não houve mal? Como pode dizer isso quando eles nos fizeram de bobos? Alteraram meus livros de registro de uma forma que não pode ser consertada. o grito de guerra dos MacLean. abaixo do lema estava um pequeno desenho de um machado de guerra. mocinha! Vai me contar os nomes dos patifes que a raptaram ou então eu. _Então diga-me quem são os canalhas. envolvido por dois galhos. Ninguém me maltratou. Não houve grande mal. de um modo geral. _Estou querendo dizer que fiquei Lá de livre e espontânea vontade. por acaso estão metidos nesta... .. A mensagem em si era breve. _Mas isso não prova nada.. _E os infernais MacLean. _Então nem mesmo ficou sabendo o nome deles? _De alguns. Katrine tirou-o das mãos do tio delicadamente. fúi muito bem tratada. _Eu... mas não me lembro agora. Colin explodiu diante da calma resposta. Não posso lhe dizer quem são eles. _Foi o que me disseram _ suspirou Katrine. _Também me disseram isto. Katrine balançou a cabeça. _Quer dizer então que você está afirmando que não foi seqüestrada? Katrine procurou escolher bem as palavras. porque não queria mentir. ele avançou para brandi-lo no ar. _Falsificaram recibos? Então foi por isso que. Falsificaram recibos de aluguel usando o próprio selo do duque. Ele respirou fundo.. _Bem. _De qualquer modo. Esperando que sua consternação não transparecesse.deles.. O tio lançou-lhe um olhar agudo. _Praga! Então como você explica isto? _ Desamassando o papel.. tio. _Lamento. não vou fazer isso. _ Katrine se interrompeu no mesmo instante. mas recusou-se a desviar o olhar. parecendo à beira de um ataque de nervos.. mas não do ramo principal. Estou convencido de que depois de toda esta confusão deve voltar imediatamente para a Inglaterra. tentando se controlar.... nesta fuga? _ disse seu tio. Se eu revelar o nome de alguém envolvido. tio. Prenderei todos e os colocarei a ferros. Mas. _Agora olhe aqui. Apenas as palavras gaélicas: Bàs no Beatha . eu. _Lamento o senhor ter se preocupado sem necessidade. isto não é da sua conta. _Sua graça jamais concordará com isso. _E qual é ela? _Reduzir os aluguéis e tributos ao seu nível anterior. nada disso teria acontecido. na verdade.. Temíamos por sua vida! O sotaque escocês de seu tio ficava mais pronunciado a cada segundo. _Não lembra? Maldição! Mandei dois destacamentos saírem àsua procura! O duque em pessoa despendeu todos os esforços possíveis para você ser encontrada.. brandindo o bilhete amassado. Não podia dar a impressão de que sabia do roubo do selo. pois chegava muito perto de denunciar Raith como o malfeitor. _Bem.. talvez. não.

– Aproximando-se dele. sairei de sua casa. Se o senhor quiser. tio Colin. _Bem. com seu jeito tímido e bondoso. que se afastara discretamente e fingia olhar pela janela. como vou explicar a Sua Graça que seu desaparecimento não passou de uma brincadeira. Posso ver que o senhor está muito ocupado. o duque não vai aceitar isso. ouviu o tio dizer: _Não será a última vez que falamos sobre isto! _Sei muito bem disso _ ela murmurou suavemente. depois de todo o trabalho que ele teve? _Diga-lhe que eu não prestei atenção aos nomes dos que me raptaram e que agora não me lembro deles. O belo e espirituoso Callum. não farei isso. Procurou isolar-se num plano da existência onde os sentimentos não penetravam totalmente para não sofrer com a rejeição de Raith. _Penso que você é um homem bondoso e compreensivo que me faz lembrar muito de meu pai. Katrine. A experiência de sua irmã Louise a preparara para o que deveria esperar. Isso ninguém poderia lhe tirar.. até um tanto retardada. Nada mais tinha importância. ainda não contara nada para o tio. Talvez o duque acabe acreditando qüe sua sobrinha é uma desmiolada. Tenha um bom dia. _Ele pode ser o chefe de nosso clã. mas forçava-se a se recordar apenas os aspectos positivos de seu cativeiro. Nas semanas que se seguiram.. mas penso que seria pouco cristão o senhor negar abrigo para alguém de seu próprio sangue. _Katrine. mas não pode me obrigar a prestar testemunho se não houve crime. como sumira sua sensação de desconsolo. O torpor ao qual se auto-induzira desaparecera. Assim o senhor não será considerado culpado de nada. Essas lembranças e o filho dele. Encontrara algo por que viver. apesar dos cartazes oferecendo recompensa e anúncios colocados nos jornais de Glasgow e Edinburgo. capaz de abandonar gente de meu próprio sangue? Katrine sorriu. Parecia que os MacLean tinham iniciado um longo processo de vingança contra o clã Campbell. um . e até mesmo Hector. As lembranças de Raith ficariam com ela pelo resto de sua vida. Sentia uma saudade enorme de Meggie e lamentava não ter conhecido melhor Morag. Tentarei compensá-lo por todas as aflições que causei. filha _ disse o tio. Lachlan. Dizia-se que o duque de Argyll estava furioso. E não foi mesmo. acenou com a cabeça para o jovem oficial. A cada quinzena.. Ela teria o filho de Raith. e não tinha idéia dos problemas que estava causando. Posso garantir. tio? _Pelo amor de Deus. E Raith. por sua vez. Os soldados estacionados no castelo de Kilchurn voltavam de suas missões jurando que estavam caçando fantasmas.. ficara maravilhada. ameaçou e implorou para ela dizer o nome dos raptóres. onde se apaixonara e onde ficaria para sempre seu coração. seu carinho pela pupila. Estou contente por tê-lo como tio. agora o deixarei cuidar de seus afazeres. _ Obrigada por ter se preocupado tanto comigo. Esse simples e belo fato era a única realidade em sua vida. _ Mas me diga. claro que não! Que tipo de homem pensa que sou. a não ser que recorra à força. O senhor o deixará me atirar na cadeia. _Claro que não lhe negarei nada. ficou nas pontas dos pés e beijou-o no rosto. No entanto. seu tio alternadamente exigiu. nos lugares mais desencontrados. nas Terras Altas. Katrine reconhecera os sintomas. Temia que Colin Campbell. _ Ela fez uma pequena reverência. Criaria a criança ali. A ousadia de sua liderança. Menos de um mês depois de sua volta. vivia de lembranças. enquanto se virava para sair. o modo como fazia amor. Ninguém aparecia para dar informações sobre os culpados. onde nascera. Em vez de se assustar com o enjôo matinal e a sonolência todas as tardes. Pretendo permanecer aqui nas Terras Altas. sempre mal-humorado e beligerante. _Hum! Não sei se posso acreditar nessa promessa. Sentia falta da presença dos homens MacLean em sua vida. surgiam recibos falsificados com o selo do duque. prometo não causar mais problemas._Não. esfregando as têmporas com um suspiro cansado. Agora que estou de volta. No entanto.

_ Ora. pelo qual esquecera seus princípios e seu clã.. Katrine levou a mão ao coração ao se ver diante de Callum MacLean. bela Katie? Sobressaltada. Rindo. Só me pareceu tolice admitir. você me assustou! _ falou com dificuldade. _ Tenho certeza que quando você crescer vai ouvir histórias sobre os MacLean e como seu papai me raptou _ disse carinhosamente. _ Então. pensou. Há quanto tempo a observava? A espionava? Vendo sua expressão irritada. Hector mudou de idéia. _ Meggie sente muito sua falta e a quer de volta. Flora mandou lembranças. A lembrança de tudo o que perdera estava criando um vazio em seu coração. Como nesse momento. eu lhe contarei toda a verdade e você tirará suas próprias conclusões. mas. _ Tem estado tão sozinha que precisa conversar consigo mesma? _ Eu não estava falando sozinha. O homem pelo qual teria sacrificado tudo. _ Eles que continuem me caçando. Callum devia ter vindo pelo outro lado da colina. Desejou que Callum satisfizesse sua ansiedade de ouvir alguma çoisa sobre Raith. quem mais? Todos os soldados no condado de Argyll estão procurando por você e seu clã. tenho vários recados para você. a milícia. Mais uma vez ela acariciou o ventre ligeiramente crescido sob o xale. _ Como você soube? _ Katrine tinha os olhos arregalados. fosse incapaz de entender sua falta de vergonha diante de sua condição. _ E que história é essa de “papai”? _ O que você está fazendo aqui? Você pode ser preso! _ E quem vai me prender? _ Ele deu de ombros. Parece que o carneirinho de Meggie não anda comendo bem. talvez? Apressadinho. Não queria que Callum soubesse do seu estado. Isso teria algo a ver com a espera de um apressadinho. Muitas vezes se surpreendia conversando com a frágil criatura que crescia dentro dela como se o filho já tiyesse nascido. Mas Callum parecia mais interessando em saber dela. Callum ajoelhou-se ao lado dela. _ Talvez tenha sido o modo protetor como você está segurando sua barriga _ sorriu Callum. _. Nem mesmo uma sombra a alertara sobre a aproximação de alguém. E. sem se importar com as nuvens escuras que anunciavam uma tempestade. Callum balançou a cabeça tristemente. _E eu que pensei que tivesse lhe avisado para se cuidar. Era um consolo ser lembrada pelas pessoas das quais aprendera a gostar durante o cativeiro. com quem? Não estou vendo ninguém por perto. _ Ele levantou a mão e começou a contar nos dedos. claro que eu estava falando comigo mesma. _ Uma voz masculina bemhúmorada interrompeu seu monólogo. A propósito. _Ou então o modo como estava falando sem haver nem . quando você tiver idade suficiente. No entanto. com um brilho maroto no olhar. Callum ergueu uma sobrancelha e examinou-a atentamente. Katrine estava com os olhos marejados de lágrimas. percebendo que quase revelara seu segredo. Raith. pois não gostaria de ser objeto de pena ou zombaria. essa condição que a encantava. Não encontrarão nenhum motivo para me prender. pois as nuvens tinham escurecido completamente o sol. Será que não percebeu que vai chover. tentando respirar fundo para se acalmar. desde que você partiu. _ Não parece nem um pouco satisfeita em me ver. Hector agora fica dizendo que ele não faria grandes objeções se você se voltasse como a senhora do clã. porque estava decidida a não perguntar nada. acredite ou não. _Mas claro que estou satisfeita! Você só me surpreendeu. _ interrompeu-se no mesmo instante. _ Por Deus. Ele não lhe mandara nenhum récado. Um termo escocês para crianças nascidas fora do casamento. a pessoa mais importante para ela estava decidida a ignorar até mesmo sua simples existência. _Mas. _ Parece-me que você tem estado ocupada demais para se importar com as idas e vindas dos MacLean..reformista convicto. _ Ora. Sentiu o olhar penetrante estudar seu rosto.

Examinando-a de alto a baixo. Sou perfeitamente capaz de “arcar com qualquer conseqüência”. Você não me ama. Não quero que venha a se casar comigo simplesmente para dar nome ao meu filho. surpreendeu-se com a expressão zangada. _Ah. mas mesmo assim ela levantou-se de um salto e começou a recuar. _A senhorita não devia estar usando o xadrez dos Campbell. _ Você não acha que ele tem o direito de saber? _ Por quê? Foi ele quem me mandou embora. _Não! Não vou a nenhum lugar com vocês! Katrine olhava assustada para o grandalhão. Mas você sabe muito bem que um casamento entre nós seria um absurdo.. _ Ah. Lachlan estava tão preocupado com seu bem estar que veio checar pessoalmente. E quero que me prometa que não vai contar nada a Raith. _ Você? Só pode ser brincadeira! Callum fez um ar ofendido. Katrine.uma alma por perto. _ Talvez. você sabe que não quis màgoá-lo. aí vem um amigo seu. _Não vou com vocês! _Por que não? _ Lachlan estava magoado e confuso. Daqui a pouco vai cair uma tempestade. indignada com sua indiscrição. Callum. _ Por que. _ Tem certeza? _ Absoluta. já que não creio que jamais me tornarei uma MacLean. Surpresa e contente. não sei não _ interrompeu Callum. se é que pretende ser uma MacLean. que estava a ponto de abraçá-lo. tenho certeza que qualquer mulher ficaria honrada em aceitá-lo como marido. Katrine não aprovou a idéia. meu rapaz. _ Ele não parecia muito satisfeito em vê-la. A primeira proposta de casamento que já fiz na vida e você me responde desse jeito. pousando-as no colo. Por um instante Callum não respondeu. mexendo com suas emoções reprimidas e . Nem por um instante pensei que estivesse conversando com seus joelhos. Seu orgulho não permitiria tal atitude.. _ Não! E não se atreva a contar-lhe. Katie. isso eu posso fazer. Callum. Campbell nos presenteará com um novo primo e ao lorde de Ardgour com um herdeiro. _ Lachlan. _Eu não prometi que não contaria nada a Lachlan. Katie. _ Sou extremamente grata pelo seu gesto. _ Raith não sabe sobre a criança? _ Callum quis saber. _Está bem. _ Callum lançou um olhar para as rochas atrás de Katrine. Minha avó me deixou uma herança considerável. Olhou para as cores de seu xale com ar de desaprovação. _ Não diga! Katrine quis fulminar Callum com o olhar.” Katrine afastou nervosamente as mãos da barriga. certo? _Então a senhorita deve vir conosco agora mesmo _ disse Lachlan. _ Acho que eu deveria me oferecer para me casar com você. Callum o impediu erguendo a mão. parece que estamos devendo congratulações. _ Ora. Se Raith pensar que está a ponto de perdê-la para alguém. se vai ter o filho do lorde? A senhorita não nos quer? _Não os quero? _ A pergunta a abalou demais. Não fica nada bem. Ele parecia decidido seqüestrá-la de novo. pegou uma folha de um arbusto. mas estou falando sério sobre anunciar nossa intenção de nos casarmos. _Minha escolha do tartan não tem a menor importância _ disse rigidamente _ . _ Estou magoado. é possível que caia em si. _Um herdeiro? _ O rosto sardento de Lachlan abriu-se num grande sorriso. mas não quero Raith desse modo. _A senhorita não devia estar fora de casa num dia tão feio. Katrine olhou para trás e viu Lachlan balançando a cabeça enquanto se aproximava dela com seus passos pesados. Logo a srta. principalmente quando ouvi uma frase tão intrigante como “seu papai me raptou. exatamente como Raith.

Deixou na colina Lachlan. e Callum. olhando pensativo para ela. que coçava a cabeça sem entender. Ela explodiu em lágrimas. já me criaram encrencas para a vida toda! E saiu correndo. MacLean. descendo cegamente a colina. indo procurar abrigo na casa do tio. por que vocês dois não me deixam em paz? Vocês. .com o controle tão dificilmente conquistado. Os primeiros pingos da tempestade estavam começando a cair. _Oh.

porque apesar de ainda estarem no início do outono. Chegando à janela. ouviu o som de batidas atrás dela. Na penumbra do quarto. Já se cansara de amargura e ódio.para usar o castiçal como arma se fosse necessário. avaliando-se mutuamente.. No instante seguinte deparou com os olhos azuis que estavam sempre presentes em seus sonhos. _ Parece que. Assustada e curiosa. segundo a última estimativa. não foi? _ Seu tom foi indignado e acusador. Usava um robe de brocado sobre a camisola de flanela. Virou-se surpresa. Tinha certeza de que assim que ele ficasse sabendo. procuraria uma casa num vilarejo qualquer das Terras Altas. Seus pensamentos estavam longe. _ Eu não esperava que fosse me cobrir de beijos. as noites já eram bem frias. Raith MacLean. Fiquei sabendo por Lachlan. Embora ele tivesse dado sua palavra. no entanto. sabia que não suportaria a dor de revê-lo. _ Me buscar! Foi Callum que lhe contou. aquele. só para ter seu amor mais uma vez rejeitado. desencadeara. O orgulho a levava a não querer que ele tivesse vindo. _ Não vai me convidar para entrar. carinho e risos. hesitantes. encantados. Prefiro evitar os soldados de Argyll no momento. mas o amor a fazia exultar de felicidade. Mas. tinha orgulho demais para forçar Raith a aceitar uma criança indesejada.. _ O que. os olhos cintilando. Uma queda de uns dois metros de altura não seria fatal. pela primeira vez. Olhou as sombras criadas pela luz bruxuleante da vela e teve a impressão de ver uma forma escura na janela. Katrine parou de pentear os cabelos e acariciou a barriga. _ Oh. Ela ficou imóvel. mas poderia pelo menos mostrar um pouquinho de carinho em suas boas-vindas. Queria que a vida da criança fosse cheia de amor. iria procurála para “arcar com as conseqüências”. e muito especialmente çom Raith. Não acendera o fogo na lareira porque. Por um infindável momento ficaram se olhando. como pretendia continuar nas Terras Altas. vamos deixàr uma coisa . Não. não precisava de nenhum apoio. as emoções em sobressalto. preparando-se para dormir. Finalmente. teria de se acostumar com seu inverno rigoroso.CAPITULO XVII Katrine estava sentada à penteadeira. pegou a vela. O que acha que estou fazendo aqui? Vim buscá-la para levá-la para casa. as faces coradas. um sorriso curvou os lábios de Raith.. amor? É bastante desconfortável ficar aqui no parapeito. abriu-a cuidadosamente. Ela. Quando estava começando a trança. pois a porta do quarto ficava a sua direita. _ Raith. ficava mais fácil esquecer a preocupação que o surgimento de Callum.. Ela não queria mais nada com os MacLean. _ Raith ergueu uma sobrancelha. deixei você sem fala _ disse ele com suavidade. você está fazendo aqui? Deve haver duzentos milicianos caçando os MacLean! _ Quatrocentos. quatro dias antes. onde seria fácil passar por uma jovem viúva. em nome de Deus. Katrine pareceu subitamente voltar à vida. era-lhe difícil acreditar que ele guardaria seu segredo. Jurara não sofrer mais por causa de Raith e preocupar-se apenas em proporcionar um bom futuro para seu filho ou filha. mas acho que barulho seria altamente inconveniente. prendendo os cabelos numa trança. Mas agora esse fato perdia importância. acima de tudo. Possuía bens suficientes para criar uma criança com conforto e se o tio se recusasse a deixá-la continuar ali. aquele traidor! Muito bem. _ Não. preparada. agradavelmente voltados para o maravilhoso evento que ocorreria na primavera seguinte.

Usava roupas inglesas. minha cara Katrine. avançando enquanto ela recuava _ . mas o seu. revolta e fúria. ao vê-lo erguer o braço. Eu já a vi usando touca . _Muito bem _ disse ele calmamente. _ Sempre tivemos mais sucesso fazendo amor do que conversando. mas Raith a olhava como se estivesse nua. com uma casaca de lã azul e um jabô simples. mas ignorou todas elas. como se entrar numa casa pela janela do segundo andar fosse algo corriqueiro. sem pintura ou roupas que possam atrapalhar seu julgamento. seu corpo contradizia as palavras. chocada diante da declaração. Não tenho mais nada a lhe dizer. Ele colocou as mãos de leve em seus ombros e vagarosamente começou a examiná-la de cima a baixo. quando nem sequer conhecia seus propósitos. não! _ gaguejou. mas Raith encurralou-a num canto. Dando-se conta do perigo que corria. E para sua consternação. Dois meses antes ela revelara seu amor e implorara a Raith para deixá-la ficar. Num gesto de defesa. sentiu uma onda de calor percorrer o corpo. Mas seu alerta não surtiu o menor efeito.. _Tão bonita. estou apenas dando o troco. nunca parecera mais bonito. Katrine viu-o lançar um olhar para a cama. eu gritarei pelo meu tio! _Ainda não. é algo a ser discutido. meu amor _ disse Raith chegando à porta antes dela. De fato. sem mais nem menos. _ Ele é meu filho também. dizendo que queria se casar. mas isso não vem ao caso no momento. Agora. Lembro-me também como sua visita terminou.. Raith entrou facilmente. esquecendo-se do próprio orgulho. Não confiava nem mesmo em permanecer num mesmo quarto com ele. _Não é o quarto de uma dama qualquer... O pensamento a fez cair na realidade e recuar em direção à porta. Mas ele a rejeitara essa e muitas Outras vezes. estou falando sério! Vá embora agora mesmo ou eu. _ Raith inclinou-se para bater a poeira das calças. _Não faça isso. _ Primeiro temos de discutir nosso futuro. em nada lembrando um vilão. Ele a mandara embora. Katrine lutava para acalmar a respiração. Apesar dos seus protestos de que não o queria ali. Katrine recuou mais um passo. Katrine abriu a boca. _Raíth. _ Raith começou a pular a janela. este bebê é meu e você não tem nenhum direito a ele! _ Isso. levou a mão à garganta. demorando-se nos seios e abdome. eu lhe peço.. Chegara ao ponto de pedi-lo em casamento diante de seu clã. _E preciso muito atrevimento para invadir o quarto de uma dama! O sorriso de Raith irradiou charme e sedução. _Raith. Sabia que não conseguiria resistir aos beijos e carícias. Talvez estivesse pensando em levá-la à força. sentindo tudo ao mesmo tempo: surpresa. _Raith. Ficou ali parada. indiferente às suas lágrimas. Na certa esperava que ela caísse aos seus pés em gratidão. em resposta àquele olhar devastador. Eu lhe implorei para sair. mas foi inútil.acertada desde já. Eu me casaria com você de qualquer jeito. De fato. _Nada disso! Você teve dezenas de oportunidades de discutir nosso futuro. enquanto Raith colocava a vela numa mesinha e voltava para junto dela. ao vê-lo passar as pernas compridas pelo peitoril. Parece-me que voce invadiu o meu quarto e não faz muito tempo. _ Casar! _ Katrine olhou para ele. estava se intrometendo em sua vida. Katrine tentou fugir de novo para a porta.... prazer. E contra meus princípios falar com um ladrão de gado. tirando a vela de suas mãos. recuso-me a conversar com você. _Não sou sua futura esposa coisa nenhuma! Pode tirar essa idéia absurda da cabeça agora mesmo! _Além disso _ continuou ele suavemente. Você conhece a máxima escocesa que diz: escolha sua esposa quando ela está de touca de dormir? Um homem deve ver sua futura mulher vestida o mais simplesmente possível. Usava roupas bem comportadas.. portanto. paralisada. nem pense em entrar aqui _ disse. Você é minha futura esposa.

_Não se atreva a usar a menina de novo para me fazer sentir culpada! _Está bem. porque acho que nosso filho não conseguiria esperar. sua implicância. desejando ter forças para negar as sensações que tomavam conta de seu corpo e afastá-lo.. Quero me casar porque não posso viver sem você. não vou ser sua esposa! _E será uma mãe excepcional para Meggie. não é esse o motivo. Katrine estremeceu. mas você foi cabeçudo demais para reconhecer.. _Ah. Raith sorriu e depois beijou-a outra vez.. _Raith. Katríne. _Isto não tem nada a ver com modéstia! _Então talvez você deseja que eu lhe faça a corte primeiro. desde que tenha um bebê para lhe ocupar a maior parte do tempo. _Então Campbell não é bom para ele? _Não foi o que eu disse. Antes Raith nunca se preocupara em conquistá-la com palavras amorosas ou com terna persuasão. Katrine quis perguntar como Meggie estava progredindo em sua ausência. _Meu coração. Mas não ia se deixar levar tão facilmente. mas você não precisa dele. entã& serei mais direto. _Não. _Não! Não quero corte nenhuma e. _Minha implicância! _ Ela abriu os olhos.. Mas confesso que gostaria que nosso filho tivesse o meu nome. então não falarei de Meggie. Os olhos de Raith se suavizaram de tal forma que ela sentiu a garganta se apertar.. Katrine olhou feio para ele. _Eu teria sido uma boa mãe para ela dois meses atrás. _Está bem. Você não vai me conquistar com palavras doces. Raith. O que me resta senão aceitar minha sina? Katrine ainda lutava para recuperar a respiração que ele roubara com o beijo. O puxão suave para afastar a peça a fez voltar à realidade.de dormir.. bela Katie _ murmurou Raíth ao levantar a cabeça. _Ainda bem. minha doce megera. Katrine não encontrou o que dizer em resposta a essa surpreendente declaração. Será uma excelente esposa. _Concordo plenamente e estou disposto a admitir que fui um tolo. não! _Não me diga que você está tendo um ataque de modéstia porque não somos casados. Foi em nosso primeiro encontro. mas não chega aos seus pés. Ninguém discute comigo como você. lembra-se? E já a vi com e sem roupas.. Ela arrepiou-se de prazer. e sei muito bem que tesouro estou conseguindo. Quero que volte para mim porque sinto falta de sua implicância.. Não será fácil para . Preciso de sua linguinha afiada para me manter alerta. _Não vai adiantar. foram quase tão doces quanto o toque dos lábios de Raith quando ele a beijou. mas MacLean é muito melhor. _Você me levou à beira da loucura por mais vezes do que pode imaginar. Nosso filho. Katrine fechou os olhos. _Ele é muito bonito. Agora a estava submetendo a toda força de seu charme e a experiência era embriagadora. Seus lábios se entreabriram em antecipação enquanto sentia o hálito quente acariciar sua testa e as mãos dele ocuparem-se com o cinto de seu robe. Seu sisudo e amargo amante montanhês estava provando ser um sedutor hábil como seu primo. mas se conteve. minha querida e doce menina. _Sim. A nova governanta de Meggie é boa. Não existe ninguém melhor para essa função. querida. mas conseguir reunir seu orgulho para falar: _Você só quer se casar comigo porque estou grávida. _Não. As palavras lhe pareceram as mais doces que já ouvira. Penso também que você ainda não refletiu sobre as conseqüências de recusar minha proposta de casamento.

Agora veja se enfia isto na cabeça: posso criar muito bem de meu filho sem você! _Nosso filho. Queria tentá-la com doces palavras para atingir seus objetivos. você não merece mesmo momentos de paz. _E o que há de tão errado em eu querer cuidar de você? Protegêla. _Não! Desta vez as coisas são muito diferentes. _Agora quem está sendo cabeçuda? Katrine ergueu o queixo voluntarioso. doce Katie. _ O que está querendo dizer com isso? Ele não se deu ao trabalho de explicar. por favor! _ gritou freneticamente. Seu tom era leve. o que você está fazendo? Raith. mas havia uma grande seriedade em sua expressão. Raith soltou um suspiro cansado. Katrine recusou-se a responder a uma mentira tão deslavada. Nem o nascer do sol é totalmente bonito quando você não está lá para assisti-lo comigo. _Bem. _Raith. Beije-me mais uma vez. _Não voltarei para casa sem você. do fim do corredor foi aberta. Subitamente assustada. _Você está maluco! _Sem dúvida.alguém tão jovem como você criar sozinha uma criança. De fato. meu amor. _ Eu amo vocês dois. pegou a vela e. mas você não me deixou escolha. Muito bem. com passos largos. Eu era perfeitamente são antes de conhecer você. _ Raith. Mas ela não iria ouvir! _Não vou me casar com um bandido sem lei que não suporta pensar que eu tenho sangue inglês. Você não tem idéia de como minha vida era tediosa antes de eu a conhecer. desvencilhando-se dele. volte para casa comigo. eu ficaria muito agradecido se você me levasse até ele. Meu tio está aqui para me proteger. Os dois pararam quando uma das portas. mas a culpa é toda sua. cautelosa. _Levá-lo? _Qual é quarto dele? _ Raith entrou no corredor. O único modo de me tirar daqui será me seqüestrando de novo e. é o que farei se não conseguir convencê-la de outra maneira. _Não vou a nenhum lugar com você. _ Colin Campbell. Raith estava começando de novo. _Ótimo. feche essa porta! _ sibilou Katrine. _Pelo amor de Deus! Raith. _ Raith deslizou os dedos por entre as dobras do robe e tocou de leve sua barriga. _Está vendo? Eu sabia! Você não me quer. Colin Campbell . foi abrir a porta. amá-la e sustentá-la? Ah. Parece que este éo único modo de fazê-la acreditar em minha sinceridade. só deseja “arcar com as conseqüências”. Eu te amo. _ Você será enforcado! _É bem possível. Em vez disso. Katrine. _Não acredito em você _ disse Katrine. _Você quer mesmo que eu vá às últimas conseqüências. _Não! Você só quer satisfazer seu orgulho masculino. porque poderá ser nossa última oportunidade. puxando sua manga. _Ultima oportunidade? _ repetiu ela. Meu clã não me dará um momento de paz se eu não a levar de volta. Raith não mostrara nenhum sinal de coração partido quando a mandara embora. não faça isso! _ Katrine correu atrás dele enquanto ele percorria o corredor batendo em todas as portas que encontrava. Campbell! _ gritou ele. inquieta. onde diabos está você? _ Ergueu a mão para bater violentamente na porta vizinha. E eu quero mesmo você. Não pretendo ter um casamento baseado no ódio! _Eu nunca lhe pediria isso. decidida a não se entregar.. tentando ignorar o arrepios que o toque lhe provocava. conseguiu empurrá-lo. Ela encarou-o.. doce Katie. um ladrão de gado que está sempre brigando com meu clã. _Meu coração também não me dará sossego. Katie. _ Tio Colin vai ouvi’-lo! _Espero que ouça mesmo.

dividida entre a vontade de matá-lo e o desejo de arrancá-lo dali para evitar que seguisse o plano maluco que engendrara e que ela não estava conseguindo entender.. E isto deixará a pobre Meggie sem um tutor. _Não. _Você! _ O velho olhou para ele espantado. Ardgour? E você? O que está fazendo aqui a essa hora da noite? Por acaso tem noção de que horas são? _Passa um pouco das dez. _ A expressão de Raith se entristeceu enquanto seus olhos demoravam-se em Katnine. é Meggie? _ perguntou Colin. O soluço de Katrine se fez ouvir no corredor silencioso. O olhar espantado do velho tornou-se extremamente cauteloso quando viu um montanhês brandindo uma arma proibida. Agora ela não quer acreditar em mim. segurando-a pelo cano. _E por todos os malditos roubos de gado que vêm perturbando o clã Campbell nos últimos três meses? O senhor está por trás dessa sujeira toda? _Eu não usaria esses termos _ disse Raith. sem entender o que se passava. Peço desculpas por perturbar seu sono. mas fui surpreendido com uma dificuldade. _Pronto. com delicadeza. _Minha pupila _ explicou Raith. sou. sua sobrinha ficará cheia de remorso. tirou uma pistola da cintura e entregou-a a Colin.apareceu. imagino. _ disse Katrine. Katrine gemeu e cobriu o rosto com as mãos. e fez uma mesura para seu tio. _ Você é um cavalheiro. Eu me apaixonei por Katrine quase que à primeira vista. mais cedo voltará para sua cama. você vai querer isto para me prender.. _Prender você? Que história é essa? _Sou o bandido que raptou sua sobrinha. Mas Raith simplesmente entregou a pistola a ele. _Você está mesmo maluco! _ declarou.. _Quer segurar para mim. _Portanto. Quando eu estiver morto. _E quem. você está vendo. Não tenho escolha senão me entregar para deixar você me mandar para a forca. aflita. vim buscar minha esposa. _ Espero que se arrependa por ter minha morte em sua consciência. _Ah. o que é isto. mas na ocasião não me dei conta disso. Katrine colocou-se na frente de Raith numa absurda tentativa de protegê-lo. finalmente. _Claro que não! _ garantiu Katrine indignada. Katrine. _ Uma menina que gosta muito de sua sobrinha e que precisa dela quase tanto quanto eu. Campbell pegou-a e apontou-a para Raith. Num gesto desesperado. ou era quando nos vimos pela última vez. Ela agora declara que não me quer mais.. depois de se recuperar do espanto. devo confessar minha culpa. percebeu que o tio estava fazendo a conexão entre seu rapto e todos os problemas que os MacLean estavam criando ultimamente. neste mundo de Deus. exasperada. Ele a afastou para o lado. . perplexa. mas vim me entregar. Seu tio olhava para ela e para Raith. _E veio aqui se entregar? _Na verdade. mas também notou sua tentativa de se controlar e ser justo. _ Mas pode me responsabilizar. em nada perturbado pela raiva que brilhava nos olhos de Katrine.. obviamente irritado por ser deixado fora da conversa. _ E deixe Meggíe fora disto. senhor? É o responsável pelo seqüestro de minha sobrinha? _Sim. Campbell. E quanto mais cedo você me prender. Sua expressão ficava mais furiosa a cada instante que se passava. amor. _Que diabos. Que pena. querida? _ Raith entregou-lhe a vela. _Oh. _Mesmo assim. Katrine ficou olhando para Raith. de camisolão e touca de dormir. _Será que o entendi corretamente. não pode ser _ gaguejou Campbell. ainda piscando de sono...

_O senhor quer que eu me case com um criminoso? _Suposto criminoso. onde é qüe eu estava? Ah. evitou o olhar do tio e concentrou-se em demonstrar sua fúria a Raith. Katrine vai ter um filho meu. _Eu preferiria evitar demoras. _Naturalmente. _É verdade. não me interrompa. mas o rubor que tomou conta de suas faces dispensava as palavras. querida. _Você não lhe contou nada. Você tem de se casar. E agora. Criminoso ou não. então não existe dúvida nenhuma. Katrine se casou comigo quando estava em Ardgour e. _É o bastante. queixo e touca de dormir tremiam de raiva. não se preocupando com o risco que corria com essa nova revelação. _ Não houve casamento. Campbell. Dirigiu-se novamente a Campbell. _ Será que agora vai negar agora que me ama? Katrine recusou-se a responder. Campbell. Katrine bateu o pé. Raith fez uma profunda mesura ao velho. recuso-me a aceitá-lo como meu marido. Estou disposto a me casar com Katrine imediatamente. _Isso é mentira! _ protestou ela. _Por favor. _Eu não me apaixonei nada! Pensei que você não tivesse o hábito de mentir _ disse Raith. senhor! _ Campbell estava indignado.. _ Por favor. o senhor vai se casar com minha sobrinha o mais rápido possível. foi você mesmo quem disse! _O problema é que eu não quis aceitar o casamento. Imediatamente.. Campbell. _Muito bem. Raith sorriu. O fato. e o que o amor tem a ver com esta história? _Raith só está se oferecendo para se casar comigo porque quer assumir a criança como filho dele _ acrescentou ela. _E por que não? _ indagou Campbell olhando feio para a sobrinha. sr. .. Katrine virou-se incrédula para o tio. amor? _ disse Raith. Katrine? _ rugiu Colin. não me condene antes de pesar todos os fatos. Mas estou disposto a remediar isso agora mesmo. não vai fazer isso! Eu não quero você. _ Não tolerarei esta desgraça ao nome Campbell._Esposa? _ Colin quase gritou. meio sem jeito. estou às suas ordens. enquanto seu olhar fuzilava Katrine. Ignorando as palavras lisonjeiras e o modo brincalhão que ele usara. _Não. Katríne deixou cair o queixo enquanto os dedos de seu tio se apertaram em torno do cabo da pistola. Estou tentando explicar ao seu tio o que aconteceu. erguendo uma sobrancelha numa expressão de ceticismo. há um pequeno detalhe que esqueci de mencionar. Com o rosto vermelho de raiva e frustração. _Se é verdade _ disse Colín Cantpbell muito sério _ . Eu gostaria de consertar essa situação pedindo sua mão em casamento. Garanto-lhe que tenho grande estima e afeto por ela. _Por que ele não me ama! _Ora. sua sobrinha. sim. Sorridente. meu amor _ emendou Raith. Mas suas palavras seguintes aplacaram a dúvida. Logo nós dois seremos aparentados pelo sangue.. _E ele não está fazendo mais do que sua obrigação! Raith sorriu ao ver a expressão de revolta de Katrine. _Não. fazendo-a saltar de susto. Não saberia dizer se estava mais furjosa por Raith achar que só teria de se casar com ela para conquistá-la ou pelo fato de ele estar brincando com o perigo que enfrentava. Seus membros. se possível. mesmo antes de o senhor me atirar na prisão. Ela não respondeu. é que sua sobrinha se apaixonou por mim enquanto estava em Ardgour. tio Colin! Não quero me casar com ele! Desgraça ou não. _Antes de você decidir os méritos de meu pedido. _Isso mesmo.

mas desta vez seu sorriso estava cheio de desdém. _E. duvido que meu casamento com sua sobrinha vai demover Argyll de suas intenções. Se Raith fosse enforcado. O duque vai enforcá-lo! _Talvez não chegue a isso _ resmungou Campbell. Se o senhor me mandar para a forca. Katrine ainda terá um nome para nosso filho. _ Raith enfiou os dedos no cinto e tirou o selo do duque. _ Afinal. Sua Graça dificilmente teria misericórdia com inimigo um tão feroz de seu clã. De fato. levando os dedos aos lábios ainda inchados pela paixão dos beijos de Raith. Eu não gostaria que ele entrasse neste mundo como um bastardo. _Não! Tio Colin. E ela nunca mais acalentaria qualquer esperança de felicidade. levantou a pistola. gostaria de lhe devolver isto. _Nem eu _ concordou Campbell. _Será que o senhor está pensando em se casar com minha sobrinha apenas para evitar a punição pelos seus crimes? _Eu nem sonharia com essa hipótese _ disse Raith tranqüilamente. com toda a certeza. Uma confissão de culpa seria o pior que poderia acontecer no caso de Raith. o que está fazendo? O senhor não pode prendê-lo. Mas.Nesse momento. faria com que pagasse pelos seus crimes. eu o estou acusando e prendendo pelo rapto de minha sobrinha e posse violenta de propriedades de Sua Graça. sem demora. ela saiu marchando pelo corredor até seu quarto. E se tudo que ouvira sobre ele fosse verdade. _ Muito bem. . _ De qualquer forma. apontando-a para Raith. _Farei mesmo isso. gostaria de conversar com o duque o mais rápido possível e consideraria um favor se o senhor tomasse as medidas necessárias. batendo a porta atrás de si com violência suficiente para sacudir as vigas. não! _ exclamou Katrine em total exasperação. o que iria acontecer com ele? O duque. no instante seguinte. _Oh. Estremeceu violentamente. Colin Campbell virou-se para Raith com os olhos semicerrados. Katrine não pôde acreditar no que ouvira. Raith sorriu de novo. seu filho não teria um pai. parecendo um pouco mais calmo. Por Deus. como prova de minha voa vontade. _Muito sábio. Então deixou-se cair sobre a cama. Em nome do duque de Argyll. Ardgour. Mas pretendo deixar Sua Graça decidir ‘o que vai acontecer com ele. Ardgour é um chefe de clã. Não suportando mais presenciar tanto desvario. Mas quero estar preparado para qualquer eventualidade.

mas não estou entendendo. Quando pediu permissão para ver o prisioneiro. teve pena dela. ao fato de que essas talvez fossem as últimas horas de sua vida. ora! _Ainda não fui condenado. O quadro fez seu coração de contrair de dor. não perdeu tempo em colocar seu plano em prática. _Perdoe minha burrice. _Katrine. dando uma ilusão de calor no frio cubículo de pedras. mas ela ainda não acreditava que isso fosse adiantar. No canto ela avistou um catre. juntando as peças de roupa que seriam necessárias e tirando uma pistola do gabinete do tio. Como ele não se mexesse. falou com mais urgência: _ Raith. sobre o qual estava reclinada a figura de um homem. sorriu. Esperou até ouvir a chave trancando a porta e passos se afastando. Raíth sentou-se preguiçosamente. e voltaria ao cair da noite. _ Sua voz aínda rouca de sono. Depois de horas e horas fazendo cálculos e planos. Um raio do sol de fim de tarde entrava pela janela alta e gradeada. sonolento. ela se agoniara pensando sobre o que fazer com Raith. Esquecendo-se das dúvidas. dando a impressão de estar alheio. a cerca de vinte quilômetros dali. Por acaso pensou que eu deixaria que o enforcassem? Quero ajudá-lo a fugir. Você me pegou cochilando. Katrine esperava perto da cela onde Raith fora aprisionado. o oficial inglês.CAPÍTULO XVIII Na tarde seguinte. Katrine levou algum tempo para sua visão se adaptar às sombras. dizendo que iria conversar com o duque e suplicar sua demência. Quando a viu. . roubar e até matar para salvá-lo. com soldados ingleses guardando-o ferrenhamente. A única preocupação de seu tio era arranjar um nome para seu filho. Quando a porta se fechou atrás dela. querida. mas como? O castelo de Kilchurn era uma fortaleza construída em pedras. _Você veio. Durante a longa noite insone e a manhã seguinte. _Claro que vim. _Raith? _ chamou. mas. mas não acreditava que o casamento ajudaria a libertar Raith. Ao acordar. No entanto. Tinha de ajudar Raith a escapar. ela ficara sabendo que o duque fora chamado à sede de seu clã em Inveraray. Raith parecia adormecido. Imaginava que teria de subornar um guarda para conseguir entrar no castelo. com um pouco de sorte. talvez fosse bem sucedida. dizendo que ele era seu namorado e gostaria de verificar se estava bem. Ele virou-se no catre. ele logo renovara sua exigência de que ela se casasse com o lorde de Ardgour. para sua surpresa. Precisamos sair daqui agora mesmo. Por que eu iria querer fugir? _Porque eles vão executá-lo. As últimas dezoito horas tinham sido terríveis e as próximas seriam piores ainda. por favor. Os gonzos da pesada porta de carvalho gemeram em protesto enquanto o oficial a abria para permitir sua entrada na cela. as pálpebras se abrindo vagarosamente. Isso lhe dava algum tempo para agir. finalmente chegara à conclusão de que. acorde! Não temos tempo a perder. afastando uma mecha de cabelos que lhe caíra na testa. tirando o capuz da capa. que a conhecia da casa de seu tio. estava disposta a mentir. foi admitida sem dificuldade. Temendo pela vida de Raíth. vibrou na cela. se ela fracassasse em sua missão. Tio Colin acabara interrompendo seu discurso sobre honra.

Só uma mulher entrou no castelo e eles desconfiariam vendo duas saírem. Raith. dei um jeito de ser trancado no castelo de seu chefe. Katrine colocou as mãos na cintura e olhou feio para ele. pronunciando bem as palavras como se estivesse se dirigindo a uma criança. imagino. ansiosa por perder-se no ardor de seus beijos. _Bem. meu coração. cruzando os braços sobre o peito. Deixou-a cair dos ombros quando estava junto ao catre. Sem se dar conta do efeito que estava exercendo sobre Raith. _Ótimo. No momento. _Bem. Com um gesto irado. Não fui acorrentado à parede e me permitiram fazer a barba e trocar de roupa. Katrine resmungou uma praga. meu amor. não pretendo fazer isso _ disse ele. Estou ansioso para conversar com ele o mais rápido possível. _ Não vou a nenhum lugar. Você vai fugir e ponto fmal! _E viver o resto de minha vida como um fugitivo? Não. Não tenho a menor intenção de carregar a culpa pela sua morte. tempo antes dos soldados serem alertados. _ Não percebe o que o duque gostaria de fazer com você? _Me esquartejar. depois de lançar um olhar ao redor. soltou os cordões da capa e avançou para ele. vim resolver a situação e pedi-la em casamento. _Por todos os santos. com os braços dobrados e o queixo apoiado nas mãos. Você terá um bom. Mas a preocupação com o que estava para acontecer acabou prevalecendo. Portanto. ficando de bruços. Sem dúvida. _Trabalho? De que loucura está falando? Parece que você quis ser preso. mas não admito fazê-lo numa prisão dos Campbell. eu gostaria muito de fazer amor com você e não tenho objeções contra quase nenhum lugar. ele não podia pensar em nada mais senão em libertar Katrine da elegante vestimenta. Tive muito trabalho para me meter aqui. _Raith MacLean _ começou. Raith prendeu a respiração diante da visão que teve. sinto-me em muito melhor situação do que meus parentes que ficaram presos no posto fiscal de Oban. _Quer fazer o favor de parar de brincar? O duque vai chegar a qualquer instante. minha doce megera. Raith a observava. Sentiu vontade de fazer uma declaração mordaz sobre a capacidade mental de Raith. Cruzou as mãos. considerei a idéia de me trancar na leiteria de seu tio. rezando por paciência. _ Virando-se de costas. entendeu a mão e falou: _Venha cá me beijar. espreguiçando-se. _Ótimo. porque não pretendo que façamos amor. mas calou-se. não temos tempo a perder. Raith levou as mãos ao alto da cabeça. intrigado. então dê um jeito de ser libertado. e não tenho a menor intenção de partir sem você. Ela esteve a ponto de correr para ele. _Katie. . não entendendo por que ele agia de uma forma tão indiferente. você deve entender que sua situação é muito difícil. mas decidi que isso não serviria plenamente ao meu propósito. Katrine sentiu a mesma anda de fúria que experimentara na noite anterior. Katrine ergueu a saia e remexeu nas camadas de anáguas sob ela. _Raith. _ Raith voltou a deitar no catre. _ Mas não estou em situação tão ruim assim. Depois.Katrine olhou-o espantada. a voz baixando até transformar-se num murmúrio sedutor. O peitilho do vestido de tafetá preto erguia os seios fartos a uma altura perigosa e a cor escura contrastava deliciosamente com a pele alva. _Ansioso? _ Katrine não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Você precisa sair daqui agora mesmo. e eu ficarei aqui enquanto você escapa. _ Não podemos sair daqui juntos. _Não. _Admito que meus atuais aposentos em nada se parecem com aqueles aos quais estou acostumado _ disse ele. balançando tristemente a cabeça. O resultado era provocante demais para um homem que há dois meses não conhecia companhia feminina. Para irrítação de Katrine.

. _ Sua voz foi doce e persuasiva. . Quero você para mim. Raith soltou uma risada. não tenho a prática de Callum em inventar as frases que as moças adoram ouvir. atirou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada. O medo que a mantivera acordada na noite anterior voltou com toda a força. olhou-o bem nos olhos e viu que ele não estava brincando. Preparou-se para a nova tempestade que via se formando nos olhos verdes. _ Então poderá amarrá-lo e amordaçá-lo como fez com o carcereiro de Oban. ela recuou. Raith levantou-se vagarosamente. _Bem. Precisamos de duas testemunhas. erguendo rapidamente a mão num gesto de derrota. Raith. dobrou o braço e apoiou o rosto na mão. para sua enorme frustração. Ainda segurando a saia. _Meu tio acredita que você quer se casar comigo apenas para aplacar a fúria do duque. Raíth apenas balançou a cabeça. para sempre. Estava quase conseguindo acreditar nele. o fato de eu me casar com você não fará diferença para o duque. onde escondera a arma. _E não vai fazer mesmo. deliciando-se com a situação. _Acho que você só quer dar um nome ao seu filho. Eu já tinha decidido me casar com você quando fiquei sabendo sobre a criança. _Você decidiu. _Quero me casar com você agora mesmo. _Não vou a lugar nenhum vestido com suas anáguas. _ Seu belo príncipe Charlie fugiu para a França disfarçado de mulher. Você decidiu? Raith se deu conta do erro que cometera antes mesmo de ouvir o protesto. _ Chame o oficial aqui e peça-lhe para buscar um de seus homens. Foi você mesmo quem disse. A súbita determinação em sua voz a fez parar. não se trata disso. enquanto ela o olhava.. minha querida. _Garanto-lhe que uma coisa não tem nada a ver com a outra._Então por que está se despindo? _Eu não estou me despindo! Só quero salvar sua inútil pele. _Estou grato pelo seu interesse. Katie. _ Você não me conhece se acha que vou me esconder atrás das saias de uma mulher. Você se considera superior a ele? _Alguns poderão considerar uma traição eu responder honestamente essa pergunta. eu a transformei numa montanhesa sedenta de sangue. Não quero você por causa de Meggie ou para dar um nome ao nosso filho. Ela sentiu a raiva se esvair. _Não. só por curiosidade. _Não tenho idéia de qual carta você tem na manga. Olhando-o com fúria. Balançou a cabeça. doçura. Ela tem um capuz bem grande e assim você poderá esconder o rosto. Não sei mais o que dizer para convencê-la. Mas fará uma grande diferença para mim. Katrine. Mas sou muito mais sincero do que ele. ainda lutando para se livrar do excesso de roupas. você conhece a lei. o que pretende fazer com as portas trancadas e os guardas ingleses? _Meu plano é chamar o oficial aqui para você poder apontar a pistola de meu tio para ele _ Ela mostrou a bolsa que trouxera sob a saia. Só há pouco tempo recuperei o juízo e descobri que não consigo viver sem você. Por que esse repentino desejo de se casar comigo? _Eu já lhe expliquei na noite passada. _E por que não? _ disse Katrine. _Por Deus. _ Raith rolou para o lado. _Ah. Katrine. Não vou arredar um centímetro enquanto você não estiver disposta a se casar comigo. Raith. Katrine. Você vai usar minha capa. Trouxe-lhe um de meus vestidos e um outro par de anquinhas. Com um soluço abafado. indecisa. Katrine conseguiu extrair do meio de suas anáguas uma saia de gorgorão preto. Eu te amo. Mas. segurando a saia contra o peito num gesto defensivo. encarando-o com fúria. mas falei sério quando disse que não vou sair daqui sem você. Katrine semicerrou os olhos. pensativa.

Katrine. Katrine fechou os olhos. Quando a vi atirando minha melhor espada no lago. _Era você mesma que sempre me mandava conversar com o duque. _Vou sim. não vou. _Não estou chorando. Mas escondeu o rosto contra o ombro de Raith e deixou que afagasse seus cabelos. ao contrário. tentou afastar-se dele. cumprimentou o duque com uma mesura desdenhosa. _Tive de consolar Meggie deste mesmo jeito _ murmurou Raith suavemente. dois dias atrás? Katrine ergueu a cabeça. Já lhe disse. Raith pediu que ela se afastasse enquanto a pesada porta era aberta. com os olhos voltando a se encher de lágrimas.. _ Agora vou perder você de novo... O general John Campbell de Mamore. pegando-a nos braços.. _ Você precisa partir antes que o duque chegue. _Senhor duque. o duque.. _Vem vindo alguém! Santo Deus. Raith tomou seu rosto entre as mãos.Sabe que ela falou. O duque mandará enforcá-lo e então ficarei sem marido e Meggie sem tutor. _Oh. _ Reunindo forças. e eu preciso de você. _Você não vai me perder. além da minha. olhando assustada para o cavalheiro que entrava na cela. não faça isto. ele irradiava a poderosa personalidade dos Argyll. Tinha aproximadamente a mesma idade de seu tio e usava um sobretudo de seda pesada. _Não fiz nada que você não merecesse. Sim. _Mas não à custa de sua vida _ fungou ela. fique pelo menos com a pistola. _Meu doce amor. Fiquei toda roxa. confie em mim. por favor. mas não havia mais tempo.. Katrine enrijeceu o corpo. Katrine permaneceu calada.. Raith só apertou o abraço. _ Ela engoliu em seco tentando-se controlar. _Não é justo _ protestou. _Não. sem dúvida estaremos discutindo quando formos velhinhos e. implorar. Katrine. Não vou sair daqui até conversar com ele.. Um homem que não esmorecia quando a sobrevivência de seu clã estava em jogo.. por favor. esquecendo as lágrimas. Por que não confia em mim? _E por que eu deveria confiar? Você é um ladrão de gado. Ela apertou as mãos para impedi-las de tremer. Katrine. Katrine virou-se._Por que casar? Para eu ser uma noiva num dia e uma viúva no outro? Não vou suportar. você tinha razão. agora Raith falava como o perigoso estranho que a seqüestrara para proteger seus parentes. Raith. _Ah. Pediu-me para eu vir buscá-la. _Existem outras vidas em jogo. _Não. A chave estava virando na fechadura. Katie. me ameaçar e me bater. E sabe o que ela disse? Katie. _Seu bruto. Seu nome. lutando contra o desejo de concordar com ele... _ Ele inclinou-se para beijá-la de leve nos lábios. Ela precisa de você. Um líder._ Detesto quando você chora. _Raith. Ela quis protestar. _ As lágrimas afloraram abundantes em seus olhos.. Argyll inclinou ligeiramente a cabeça num . Estou satisfeito em vê-lo. agora o quarto duque de Argyll... Deus _ suspirou Raith. Um lutador.. como o amante orgulhoso e amargo que roubara seu coração e depois a mandara embora. Enquanto a porta se fechava atrás dele. _Meggie? Ela falou? _Sim. isso só serviria para complicar minha situação. _ Ela estava chorando por sua causa. havia lutado sob as ordens do impiedoso Cumberland durante o levante de Quarenta e Cinco. recusando-se a soltá-la... Raith interrompeu-se ao ouvir passos perto da porta. ninguém vai me enforcar. uma peruca elaborada e finos sapatos com fivelas de prata. Nunca fez nada senão me raptar. O tom decidido a fez recordar-se do tipo do homem com que estava lidando. pela primeira vez. Raith. Sem dúvida era o duque. Esta situação tem de ser resolvida e o único meio de conseguir isso é tentar uma aproximação com Argyll.

o caso contra Raith era mesmo de pequena importância. que os MacLean de Duart fossem poupados. Argyll. Katrine ficou olhando-o. mostrando que sua raiva estava aumentando. _ Certo. sua graça. _O que aconteceu entre eu e Katrine só interessa a nós mesmos. Vamos começar? Creio que me deve explicações sobre sua conduta com esta jovem dama. Sou um homem ocupado e não gosto de perder tempo. confusa. Raith. mas não vejo por que lhe devo explicações. _ Ele afastou-se e foi se encostar na parede. _ Ele não lhe deu tempo de fazer uma cortesia. levou-a para a cama. mas não tinha a intenção de tomar o lado do duque. Campbell ao seu tio. presumo. então podemos ir direto ao assunto. _Colin Campbell já deu sua permissão para nos casarmos. . virando-se logo para Raith. como se estivesse disposto a ignorar o desrespeito. _Insignificante? Eu nunca chamaria as provas que tenho contra você de insignificantes. esperando para ver se suas palavras tinham sido bem entendidas. _Você impôs condições para devolver a srta. sim _ disse Raith. Katrine desejou ardorosamente que Raith parasse de antagonizá-lo. pois seria esperado um gesto de boa vontade de sua parte por ocasião da união de nossos dois clãs. mais perigoso do que nunca. porém. _Ardgour. _Sugiro que o senhor leia com. Sua Graça. E. sem o seu testemunho. num tom suave mas muito cáustico _. notou Katrine. Nenhum tribunal escocês condenaria um homem por seguir uma tradição tão antiga. seria mais provável um juiz escocês lhe dar os parabéns. De fato. Ela mordeu o lábio quando olhos cinzentos se fixaram nela. tenho a obrigação de protegê-la. Isso é tudo que o senhor precisa saber. _Como não? Raptou a sobrinha de meu administrador. também estaria incluído no contrato prénupcial. _Ah. como chefe do clã desta jovem. Argyll. Como qualquer bom escocês sabe. Ele fez uma pausa. perplexos. provocando Argyll com sua falta de preocupação.cumprimento frio. minhas atividades criminosas.. Um leve corado tingiu as faces do duque. E também não a quer. _Tenho satisfação em dizer que Katrine é uma Campbell que nunca precisou de sua proteção. Katrine e o duque olharam para ele. o roubo de noivas ainda acontece aqui nas Terras Altas. Argyll franziu mais o cenho. Sou culpado apenas de querer Katrine para minha esposa. Em vez de castigar um homem por roubar uma noiva. só fez um gesto com a mão. Campbell. _Srta. ele tem todo o direito de exigir uma reparação.. mais cuidado a carta que lhe enviei. _Perdoe-me. Só isso já seria suficiente para provar o seqüestro. A pior coisa de que me podem acusar é cobiça. mudara de atitude. Meu crime mais grave foi o roubo de noiva. então vamos examinar o insignificante caso que o senhor tem contra mim. _Permita-me discordar. Minha exigência de diminuição dos aluguéis e tributos poderia facilmente ser interpretada como um substituto do dote de minha futura esposa. _Tenho certeza que já ouviu esse termo antes. Ardgour. _ Muito bem. _Interessa ao tio da moça. O desagrado mútuo entre os homens era quase palpável. _Sabe tão bem quanto eu que. engravidoua e agora tem a audácia de negar qualquer responsabilidade? Katrine sentiu a tensão crescer entre os homens. Parecia rígido e alerta. conhecendo bem seu povo. apesar de não ter se mexido. Fui informado que você queria discutir a questão de suas atividades criminosas. Podia revelar que ele recusara-se terminantemente a casar-se com ela. _Roubo de noiva? _ repetiu Argyll. Meu outro pedido. _Bem. mesmo se a moça tivesse sido levada contra sua vontade. procurou seguir uma outra linha.

Queria dizer a ele exatamente o que pensava sobre esse truque. Lamento dizer que não quero a morte dele em. _ Eu poderia mandar enforcá-lo pela simples suspeita de roubo. voltou-se novamente para Raith com um suspiro. se necessário. Tenho certeza de que não encontraria dificuldade em arranjar testemunhas para afirmar que o viram roubando os animais. afinal? Imagino que existe um propósito por trás de tudo isto. Sua Graça. Katrine cerrou os punhos. Quer comandar esse tipo de derramamento de sangue? Argyll ficou em silêncio por um bom tempo. tinha certeza de que Raith preparara uma resposta para todas as acusações que o duque poderia fazer. _Como deixei claro em minha carta. _O que você quer. Ele jamais abandonaria seus parentes. Meus homens poderiam ter me libertado desde a hora em que cheguei. O duque virou-se para Katrine com uma expressão severa. Dote. _Repito. ora essa! Ele devia ter inventado essa versão de sua carta recentemente. Tento proteger os membros de meu clã dos desmandos de seu administrador e de sua cobiça de Campell. Sentia-se usada e comprada. meu clã está disposto a continuar a briga. Apropriou-se. porque sabia exatamente até onde podia ir. Meu administrador o recebeu de suas mãos. Sim. _ Raith fez uma leve mesura para Katrine. Sua Graça. ficando mais vermelho. _E quanto ao meu selo roubado? _Um selo do qual supostamente me apropriei. mas a deixara acreditar apenas no pior : que ele poderia ser condenado e enforcado. recebi a visita de minha futura esposa. Argyll. minha consciência _ disse ela com o queixo erguido. enfrentando a acusação. mas perigosamente. que veio com tudo preparado para me ajudar a fugir. _Vá devagar.Katrine prendeu a respiração ao ouvir a explicação de Raíth. _Que provas o senhor tem? _Não preciso de provas _ disse Argyll. porque logo voltou a atenção ao duque. mas fechou a boca ao ouvir o duque levantar novas acusações que iam sendo rebatidas uma a uma. _Por quanto tempo? Já tive dezenas de oportunidades de fugir. Argyll parecia querer apunhalar Raith. _Quem pode afirmar que o senhor não o perdeu? Quem pode negar que eu o encontrei e o devolvi ao dono? _Suponho que você também pretende negar o roubo de meu gado. _Eu podia mantê-lo preso aqui _ disse finalmente. Qualquer que fosse a continuação da conversa. E. Tinha de ceder. Ele arquitetara seu plano cuidando dos mínimos detalhes. O senhor sabe muito bem disto. _Quer seja verdade ou não. _Seu tio me contou que a senhorita não quer depor contra este homem. . então. _Está bem. Ardgour _ alertou Argyll suave. Raith continuou com a mesma expressão confiante. Será que conseguirei fazê-la mudar de idéia? _Não. Ele não pareceu notar sua revolta. como o senhor pode ver. _Meu propósito é simples. Ela olhou para Raith com alguma indignação. Ele estava em sua posse. percebendo que seria inútil insistir. Estamos até preparados para pegarmos em armas. Lembrando-se da terrível incerteza que a perseguira desde o aparecimento de Raith na noite anterior. porque quando a escrevera sua intenção era outra. No entanto. mas sua frustração era evidente. meu crime mais grave foi o roubo de noiva. Mande seu administrador abaixar os aluguéis e o senhor não terá mais problemas com meu clã. Um músculo pulsava em seu pescoço. é uma simples questão de fazer os aluguéis e taxas voltarem ao nível anterior. que retribuiu com um olhar furioso. _ Raith enfrentou o duque com um olhar duro. Declarar o desejo de se casar com ela lhe dava uma defesa que bem poderia salvar sua vida e ajudar os MacLean de Duart. já ouvi falar muito da justiça dos Campbell. _Mande me enforcar e as Terras Altas explodirão.

Pode fazer os acordos que quiser com o duque. Não vou criar uma criança ao lado de um homem que me odeia e odeia os meus. _Se seu pedido for atendido. Sua Graça. estou falando sério _ insistiu Katrine. você. com um olhar tão gelado quanto o do duque _ . _Devo lembrar-lhe que meu filho será metade Campbell.. vamos conversar agora! Não vou me casar com você. Os Campbell ficarão livres de roubos de gado e o senhor dos recibos falsos que têm aparecido ultimamente. Mas eu nunca concordei... mas deixe-me fora deles. eu não a odeio. _Agradeço pela sua bondosa oferta _ disse a Raith. sem me perguntar nada. o que talvez seja pior. _ Pense bem.. . _E então. nada disso _ disse Raith balançando a cabeça. estamos acertados. _ Peço-lhe perdão por nós dois. A ternura que viu nos olhos azuis quase a fez esquecer sua indignação. Katrine quis interrompê-lo. eu só posso amá-la. os MacLean vão parar de perturbar meu povo? _O senhor tem minha palavra. Pela primeira vez desde que havia entrado na cela. meu amor. _Acho que talvez a srta.. a raiva que estava estampada no rosto do duque diminuiu um pouco. . _E você espera que eu confie na palavra de um velhaco? _Encontro-me na mesma posição desagradável que o senhor está enfrentando. _Não falamos nada! Você decidiu por sua própria conta que eu ia ser sua esposa. Sua Graça? _Raith. _Creio que esta é a hora onde Sua Graça deve nos dar parabéns e dizer que merecemos um ao outro. Nada mais me induziria a conversar com o duque de Argyll ou a me casar com uma Campbell. E nunca vou concordar. sua expressão se suavizando. pense na criança. _Não. _Foi essa minha intenção _ sorriu Raith. agir de outra forma me custaria um preço muito maior do que estou disposto a pagar. Depois ele riu. _Penso que devíamos conversar sobre isso mais tarde. _ Não sou sua futura esposa. seu bandido! _Bem que eu desconfiava _ suspirou Raith e lançou um olhar apologético para o duque.O tom brincalhão fez Katrine ranger os dentes. Tenho de aceitar a palavra de um chefe Campbell. tenho como manter meu filho sozinha! _Katrine. _Katrine. Essa condenação silenciosa só serviu para espicaçá-la. _Não me diga que não tem mais nomes feios para me chamar. _Eu só comecei. Em vez disso. Argyll fungou de desdém.. Meu tio não vai me expulsar de casa e. Ele ergueu as sobrancelhas. dirigiu-se ao duque. _Raith então lançou um olhar para Katrine. Lançou um olhar ao duque. Não preciso de você nem da respeitabilidade do casamento. Ele a examinava com grande frieza e sua expressão dizia bem claramente que ela traíra seu clã ao escolher se casar como lorde de Ardgour. Mas tenho fé que meu sangue MacLean será forte o bastante para superar a desvantagem em relação aos outros. mas você não precisa fazer a condescendência de se casar comigo. _ Ele levantou as mãos exasperado. _Estou pensando nela! Estou pensando em todos os olhares hostis e palavras odiosas que ouvi de você e seu clã. dizendo que não era sua mulher. _Não. De fato. você. se não quer se casar comigo por sua própria causa.. mas não aceitou o desafio. _Em dar o meu castigo? _ murmurou Raith. _ Nosso filho será apenas um quarto Campbell e um quarto inglês.. _Katrine._Tudo indica que você não me deixou escolha. _ Estou preparado para honrar uma trégua com o clã de minha mulher. mas desistiu. já falamos sobre tudo isto antes. mesmo que o fizesse. _Oh. Campbell venha a ser bem sucedida onde eu fracassei _ observou com zombaria.

Desde então. _Você sabia o tempo todo que não ia ser enforcado. _ Quero que seja minha esposa. Para provar. _ Mas apesar de querer manter-se séria. como ele mesmo dissera. Katrine . sofreu por mim. Katrine Campbell. nunca o vira tão submisso. Quando os dois ficaram sozinhos. Nunca vai desistir de lutar. não tinha outra escolha.. _Não sou seu amor! O brilho de ternura voltou aos olhos azuis enquanto ele se aproximava dela. Katrine encarou Raith bufando de raiva. depois do seu seqüestro. Pelo que sei. eu lhe disse para não se preocupar. De outra forma. querida. _Não sei por que não acredito em você._Tem toda a razão _ disse o duque sardonicamente. _ Estendendo os braços. Ele estava diante dela em humilde súplica. como pôde ser tão cruel? _Então você me ama. A briga está terminada. eu me entreguei para você se convencer de minha sinceridade. Katrine não se preocupou com o fato de ele não ter oferecido uma resposta direta a Raith. _Você não teria chorado por mim nem um pouquinho? _Não. _Eu te amo. _Sim. Porém. vai acabar matando metade do meu clã. precisava estar numa posição mais forte. _Você podia ter falado com ele há meses atrás.disse ele baixinho. não acreditaria em mim. _Você encheu minha vida de alegria e eu a deixei ir embora. ele parecia totalmente sério. _Seria muito perguntar o que a enfezou desta vez? _ disse ele. Mas. deixando a cela. Katrine sentiu o amor e o desejo suavizando seu coração. sem colocar entre eles barreiras ou defesas. estou até disposto a ficar em paz com seu tio. _Seria bem feito se o tivessem enforcado. Mas Katrine recusava-se em dar-lhe a satisfação de uma capitulação muito rápida. Desejo dormir ao seu lado pelo resto da vida e sempre acordar com você ao meu lado. _Não. tão livre de orgulho. Argyll começou a me respeitar como um inimigo capaz de prejudicá-lo e parou para pensar nas conseqüências financeiras de uma recusa em me ver. Ardgour _ ele acrescentou. Katrine olhou-o com desconfiança. Falei que ia conversar com o duque. seu malvado _ resmungou. fingindo-se brava. _ Você ainda despreza os ingleses e continua odiando os Campbell. Para negociar. Apoiando as mãos no peito de Raith. você é meu querido amor.. _Como posso concordar em me casar com você? Ainda nem recebi uma proposta decente. Mas. Você falou em sofrimento. Você me dará essa honra? . foi como se o sol parasse de nascer para mim. _ Raith abraçou-a com força. se quiser.. arrogância ou amargura. Se eu tivesse tentado falar com ele nem conseguiria uma audiência. Sabia e me deixou pensar. _Na época eu não podia. _Então você se deixou prender. Isso não me parece uma posição forte. Se soubesse como sofri nesses últimos dois meses. seu insensível. do roubo do selo e do gado. puxou-a para ele. pelo menos no que me diz respeito. Na verdade.. _Mas eu sei por que não acredito em você _ disse Katrine. Oh. apesar da leve resistência de Katrine. _Katrine. Implorei que fizesse isso. enquanto virava-se para a porta. Você pode convidá-lo para visitar nosso filho em Ardgour. _ Eu a quero como minha esposa.. _ Você será avisado de minha decisão. mas você não quis escutar. _Não amo! E por mim podem arrancar seu coração mau e fazê-lo em pedacinhos! _Katrine. e desde que Argyll mantenha sua palavra. _Muito bem. seus lábios tremiam com o esforço de sufocar um sorriso. meu amor.. estudando-a cautelosamente. O duque obviamente não queria dar a impressão de que estava se dobrando fácil demais. desta vez. Raith abriu um sorriso irresistível. quase me matando de medo.

. Examinando-a.. _Você não irá me perder. usando o vestido de noiva de minha mãe e na presença de minhas irmãs. estendendo-lhe a mão. meu amor. Raith sentiu o pulso se acelerar.. com Katrine como sua esposa. Katrine procurou novamente os lábios de Raith. os cachinhos cor de fogo escapando do coque. irá para lá quando chegar a hora e. _Pode ser. Com certeza eles iriam discutir. Ela saboreou a palavra. soltou um suspiro. Ele era o homem que conseguia combinar com seu temperamento e incendiar seu sangue. _Sim. As mulheres de minha família nunca tiveram problemas ao ter filhos. bela Katie. briguenta e mandona que já encontrei na vida. ele ficava perdido. Raith franziu a testa. Era um futuro que não perderia por nada neste mundo. Quero me casar na Inglaterra. _Psiu. . Mas não suportaria que fosse de outra maneira. de modo algum! _ Ele balançou a cabeça com veemência. mas vamos ter apenas este e ponto final. _Estou decidida. Aceito sua proposta. Uma sombra toldou o rosto de Raith. _Não sou mais teimosa do que você.. mas Katrine ficou firme. _Não... _Olhe. um é mais do que suficiente. _Você é a mulher mais teimosa. _Raith _ protestou ela. Você está sempre falando demais quando tento beijá-la. você vai ter de concordar com urna cerimônia de casamento de verdade. _Não. terá de me prometer que seu herdeiro nascerá em Cair House. suas vontades de chocariam no futuro. Depois de um instante de hesitação. Duvidava se um dia iria ganhar uma discussão com sua doce megera. Katrine sorriu diante da idéia de Raith precisar de sua proteção. vamos selar nosso trato. _ Venha cá. brigar e fazer amor. dificilmente sua casa iria conhecer a mesma paz de antes. Por enquanto ela e Raith estavam de pleno acordo. Katrine silenciou quando os lábios de Raith cobriram os seus numa carícia carregada de amor e paixão. Vamos nos casar aqui primeiro. Raith assentiu. Quando ela o olhava daquele jeito que acabava sua paciência e fazia ferver seu sangue. enquanto era puxada para os braços dele. Katrine. _ Você terá uma porção de médicos de Edinburgo. _ Você ainda não me prometeu. com os braços cruzados. Raith.. Sua alma gêmea. _ E você vai se casar comigo assim que eu conseguir arranjar as duas testemunhas. Com certeza.. _ O sorriso de Katrine foi sonhador. _Muito bem. Com outro suspiro. _Mas só se nos casarmos aqui primeiro. Por enquanto estava contente em não protestar. Raith estreitou os olhos. Não vou por o pé num reduto sassenach sem ter uma esposa meio inglesa como proteção. Não quero me arriscar a perder você num parto. Não havia dúvida sobre qual seria sua resposta. _Então está bem.. _E quero que Morag me atenda no parto. Ela desvencilhou-se delicadamente de seus braços. pelas mãos de Morag. _Eu te amo _ murmurou ele afastando-se um pouco. que prometia ser turbulento. De fato. a pele corada pela raiva. quero uma família grande. mas uma coisa precisa ficar acertada desde já: quero uma dúzia de filhos. Se quer mesmo que eu me case com você. _E agora mesmo. _Então pode arranjar uma outra esposa. _Negociar com você é muito mais difícil do que barganhar com o duque _ resmungou ele. Depois de uma longa pausa.Esposa. seu eu disser sim. _Conversaremos sobre isso depois do casamento _ esquivou-se ele.. Melhor ainda.

Algum tempo depois.. que já dera a luz a dez filhos. _ Inclinando-se sobre ela. ainda ofegando pelo esforço.. Katrine. Ele parecia exausto. A palma estava toda inchada. mas queria mais ainda tranqüilizar Raith. O tormento foi ainda pior do que ele esperava. Escócia. tão apavorado quanto eu fiquei. Raith afastou alguns cachos ruivos de sua testa úmida. _ Psiu. eu o faria. ele puxara uma poltrona para perto da cama. Foi então que viu o que fizera a ele nas horas de dor.EPILOGO Ardgour. insistindo em estar presente ao nascimento. quando Hector me ameaçou com a arma. Katrine começou a protestar. Quando Katrine fora levada para a cama com contrações naquela manhã. mas Flora chegou com uma xícara. _ Você parece. Se eu pudesse ter dado à luz por você. O incomum nessa ocasião era a presença do lorde ao lado da esposa. ela levou a palma aos lábios e beijou-a. com reverência. tão exausto quanto ela. Ele não iria deixála suportar sozinha a sua hora. iluminando uma cena de grande atividade _ o trabalho de parto da dona da casa. Mantinha os olhos em Katrine. deixou-se cair nos travesseiros. _ Guarde suas forças. mandando-a tomar um gole de chá de ervas. Queria muito pegar seu filho. ela abriu os olhos. . querida. mas Raith impôs suas próprias condições. Katrine conseguira que Morag fosse sua parteira. ela voltou a olhar para o marido e para a mão forte que ainda segurava a sua. ele estava com o estômago contraído de medo. As três mulheres que ajudavam Katrine mostravam calma e eficiência na execução de algo que para elas era comum: a chegada de um bebê ao mundo. _ Me desculpe. Raith retribuiu beijando seus dedos um a um. _ É um menino _ disse Morag com satisfação. não tente falar agora. dizendo-lhe com o aperto de mão e murmúrios de encorajamento _ entre preces ao Todo Poderoso _ que ele a amava e ficaria sempre ao seu lado. _ Eu machuquei você! _ Não. ou no que Flora e a outra mulher.. pois cada grito trazia de volta as recordações terríveis da morte de sua primeira esposa e de seu filho. apesar das objeções de Morag e das brincadeiras de Callum. Por entre uma névoa de dor. ainda rouca por causa dos gritos _. ela sentia o amor do marido a cercando. mas aparentemente ele os suportou com estoicismo. com marcas de suas unhas. Os gritos e gemidos de dor quase o fizeram enlouquecer. O sorriso de Katrine foi fraco mas cheio de ternura. Sua presença tranqüilizou Katrine. Depois de beber obedientemente. sentara-se e recusara-se a sair. Tanto Morag como Flora tinham lhe avisado que era melhor para uma parturiente não lutar contra a dor ou segurar os gritos. No instante seguinte o choro de um recém nascido encheu o quarto. Balançando a cabeça. 1762 Dezenas de velas queimavam no quarto principal de Cair House. Os cabelos negros estavam despenteados e sob a sombra da barba havia rugas de tensão que antes não se encontravam ali. usou de todas as forças para empurrar a nova vida para fora de seu corpo.. se ocupavam. Ele não podia ver o que Morag estava fazendo ao pé da cama. No entanto. meu amor. isto não é nada. _ murmurou Katrine. e quando chegou o momento final. _ Um belo e forte rapazinho. _ Foi você que teve de sofrer.

segundo as instruções da parteira. _ Pelo som de seus pulmões. Tenho de alimentar seu filho. mas esta é uma tarefa que só as mulheres podem fazer. este mocinho é mesmo faminto. _ Obrigado por nos ter ajudado a chegarmos até aqui. Raith pegou-o no colo. _ Estou mesmo um pouco cansada _ sorriu ela. A mulher assentiu muito séria. Meio sem jeito. Agora Raith estava mesmo se sentindo demais. com voz sonolenta. com a admiração cega que só uma mãe poderia sentir. Era unia sensação estranha e boa saber que estava fornecendo sustento a um ser tão pequeno. algo que ia contra todas as normas. _ Obrigado. _Sim. Katrine lançou-lhe um olhar de admoestação. pondo o bebê na cama. Katrine levantou a cabeça dos travesseiros. Mas agora ela queria seu filho. assistiu fascinado a boquinha começar a procurar pelo bico. _ Como ele é lindo! _ exclamou ternamente. eu sempre o ouvi dizer que ele era nosso filho. Katrine estava ocupada demais em atender seu filho para se sentir embaraçada pela presença do marido. milorde _ disse Morag. a voz triunfante de Morag os interrompeu. Algum tempo depois. _ Como você pôde dizer que não passaria por isto de novo? Ele vale dez vezes a dor que senti. Será que você vai me deixar pegá-lo? _ Com todo o prazer. _ Agora é melhor o senhor sair. sua expressão era de gratidão. o chamou. _ Ela estendeu o bebê que já fora lavado e enrolado em cueiros. Quando o bebê adormeceu. Raith olhou para o filho com ceticismo. mas cheio de amor. meu amor? . Os dois se entreolharam cheios de afeto. mas o brilho de lágrimas em seus olhos denunciou a emoção do momento. Ainda de joelhos. madame _ sorriu ele e ajoelhou-se cuidadosamente. mas concordou para agradar Katrine. _ Raith. _ Sua senhora tem de alimentar o menino. _ Agora vou deixá-la dormir _ disse. Depois Raith fechou os olhos e estremeceu. _ Sim. ele se levantou. Com alguma relutância. enquanto Flora punha o recém nascido no berço. Quando finalmente levantou a cabeça. Antes que Katrine pudesse dizer alguma coisa._ Eu sei. Katrine observou a cena com alívio e alegria. _ Como se estivesse esperando essa deixa. beijando-a na testa. Morag _ disse suavemente. Raith. A beleza do quadro o comoveu. Conseguira curar uma outra amarga ferida. Morag sorriu para ele. ela começou a tirar o lorde do caminho das mulheres. _ Seu filho. o bebê franziu o rostinho e começou a chorar. olhando para o bebê com olhos experientes. _ Agora vá. Ele não obedeceu e ficou ali enquanto Katrine libertava da camisola o seio cheio de leite. _ Não tão lindo como a mãe dele. Raith olhou para Katrine que observava o filho com o rosto pálido e cansado. incentivando-a a beber uma outra poção. nunca mais vou querer passar por isto _ disse com fervor. acho que ele puxou à mãe. Morag estava inclinada sobre Katrine. Katrine sorriu enquanto seus dedos se entrelaçaram. Raith já estava se afastando na direção da porta quando Katrine. Os olhos de Katrine estavam se fechando de exaustão. _ Deus. milorde. ao seu lado. Por um longo momento ficou olhado para o filho. Flora finalmente rompeu o encantamento. com um ar de espanto. Uma felicidade imensa a envolveu quando o bebê instintivamente encontrou seu bico.

Fora uma dura batalha convencê-lo a deixar Morag cuidar de seu parto. _Primo. fingindo ler. Que vocês tenham muitos mais. lembrando-se da discussão que tivera com o marido. primo. _Callum riu. Venha ver o nenezinho. Agora termine seu uísque. Ela é muito esperta. estendendo a mão para a garrafa de uísque que tinha a seu lado na mesinha. _Muito bem. _ Fechou os olhos e estremeceu. você tem visitas _ disse baixinho. Eu estava com tanto medo do que poderia acontecer que nem me preocupei em escolher um. Se eu fosse você. _ Por Deus. _Venha aqui. _Veremos _ sorriu Raith. _Querida. _ E que nome você pretende dar a ele? _ Callum entregou-lhe o copo com a bebida. e seus olhos . _ Um menino.. não me deseje outra provação como esta. _ Afinal. eu não queria perdê-la. _ Não _ respondeu ele baixinho. _ Nunca pensei que fosse vê-lo tão louco por uma mulher.. Callum. Callum relaxou e seu rosto abriu-se num sorriso. não sobrou ninguém para mim. _Imagino que sim _ concordou Raith com um sorriso cansado. Não contara a Katrine sobre os três cirurgiões que mandara vir de Edimburgo há uma semana. Depois viu Meggie e acenou para ela. Se Katrine tivesse morrido. _Espero que seja daqui a muito tempo. se você dá valor à sua vida. não. ansiosa. pensou enquanto saía do quarto e descia para a sala. Não. você deve amá-la muito. Raith aproximou-se da cama e viu o bebê dormindo na curva do corpo de Katrine. _Então por que ela não disse nada? Pensei que se descobrisse o que eu estava fazendo iria arrancar minha pele por eu não confiar em Morag. _ Nunca houve necessidade de manter segredo sobre a presença deles. como está? _ Muito bem. ergueu uma sobrancelha. primo. Callum e Meggie entraram no quarto. As mulheres disseram que o nascimento foi relativamente rápido para um primeiro filho.. você parece estar precisando muito de um gole. _ Isto pede um brinde _ falou._ Você não precisou chamar um batalhão de médicos famosos. _ Sim. você não a perdeu e agora Ardgour tem um herdeiro. _Acho que eles não ficarão muito contentes por terem vindo de tão longe para nada. Katrine abriu os olhos e sorriu. Estava alerta apesar do avançado da hora. Eles tinham ficado hospedados em Corran e sido chamados quando o parto começara. _ Além disso. não é? _ disse. sonolenta. além dos honorários combinados. e acertou. _ Bem. nada escapa a Katrine. _ Callum balançou a cabeça como se não conseguisse acreditar. Raith. E Katrine. _ Não sei. Quando viu Raith. Tenho de encontrar Meggie para lhe dizer que ela tem um irmãozinho. _ Ele parou e fez um ar muito sério. Penso que agora você pode dispensar os médicos. Graças a Deus. _ Você ficou com Katrine e as irmãs delas já são casadas. _Ela sabia? _Ora. Callum estava ali.. ofereceria a cada um deles um barril do seu melhor uísque. Várias horas depois. não haveria mais luz em sua vida. Katrine sabiá que estavam aqui. Ah. Callum deu uma risadinha e bateu-lhe nas costas. Meggie obedeceu. durante a gravidez. por volta da meia noite. _ Bem. _Ela achou que você precisava dos médicos para sua tranqüilidade. Raith riu pela primeira vez depois de quinze horas. Agora estavam à espera numa das salas de visita. _ Ele soltou uma risadinha. minha querida. _Espere até chegar sua hora. então vamos brindar ao bebê. _Acho que Katrine terá algo a dizer sobre isso. que diabos lhe aconteceu lá em cima? Nem depois de Culloden você me pareceu tão exausto. Raith fez que sim.

_ Raith beijou-lhe os cabelos ruivos para garantir-lhe que só tinha intenções pacificas. dando-lhe a notícia. Callum ergueu os olhos para o céu. tomando cuidado para não perturbar seu filhinho adormecido. visita terminada _ disse Callum. Não pretendo abdicar de meus direitos só porque Alan James chegou. E você Meggie? _Sim. Katrine sorriu com o bom humor do marido. _ Mandei uma carta para seu tio. _E não sente saudade das lutas? _Não. aninhou a cabeça na curva do braço de Raith. _ Ignorando o protesto de Katrine. _ Venha Meggie. Quando os dois saíram. quer soubesse disso ou não. _Que bonitinho _ sussurrou. cheia de carinho com a menina. encostou-se na cabeceira e pôs o braço em torno do travesseiro. _Mas eu não estou preocupada. _Você já é um bom desafio para um homem. amor. e convidei-o para vir conhecer Alan James. _O que acha. querida. vou pó-la na cama e amanhã você virá ver o bebê. _Pelo amor de Deus. _Você alguma vez já se arrependeu de ter se casado com uma Campbell inglesa? A expressão de Raith se suavizou ainda mais. não vão começar a discutir numa hora dessas. _Você vai recebê-lo bem. deixando o bebê no meio dos dois. Deslizando o corpo na cama. Adoro olhar. Agora tenho você. Ele será tão mimado que vai achar que é rei. _ Esta é a nossa cama. eu até poderei aceitar. meu amor? _Eu gostei. _Não é mesmo? _ murmurou Katrine. trouxe o rosto para perto do dela. Dêem os dois nomes ao menino e acabem logo com isso. Apesar de Meggie ser capaz de falar algumas sentenças. Katrine sorriu. _ E se Argyll resolver mandar um presente de batizado. Agora. Pretendo mantê-lo tão ocupado me amando que você nem pensará nos Campbell. _Queira Deus que eu tenha forças para suportar essa sina. _Pretendo ficar aqui. por causa do seu. Eu não quero mais saber de brigas entre clãs. Raith? _Claro que sim. e ela pretendia dar-lhe outros. _Qual é o nome dele? Katrine olhou para o marido com muito amor. Katrine lançou um olhar inquisidor ao marido. Raith pegou a mão de Katrine. Raith deitou na cama cuidadosamente. _ Ele deu uma risadinha. Alan James. meu amor. _ Não precisa se preocupar. _Então pode começar. _Eu gostaria que fosse Alan. por causa do pai de Raith. _A propósito _ disse Raith. _Mas Morag disse que preciso alimentá-lo de novo. não é. Raith Sorriu com ternura. _Muito bem. _Como você pode pensar uma coisa dessas? _Penso que você sente falta do desafio de medir forças com o duque. . Vendo a expressão terna com que ele olhava para o filho. Raith queria outros filhos. Muito outros. ela continuava sendo tímida e reservada.brilharam ao verem o menino. Com um suspiro de satisfação. _Acho que ele deveria se chamar James. minha doce megera.

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