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6- QUE t A EDADE MÉDIA? .

.Composto c impresso na Imprensa Acadomica — Coimbra.

NO ANO LECTIVO DE IQlÕ-igiJ COIMBRA IMPRENSA ACADÉMICA I918 . SR.MANUEL LUIZ MARTINS ALUNO DA CADEIRA O QUE DO EX.™o PROFESSOR. DR. É A EDADE MÉDIA? DISSERTAÇÃO SEGUNDO A SABIA ORIENTAÇÃO GoNÇALVES GeREJEIRA.

ITV OF T0^^3 .\ 1/8 \ . FtB 1 IS57 ^^.

viva eu cá na terra sempre triste. < E Repousa lá no Ceo eternamente. Que tão cedo de cá me leve a ver-te. MEMÓRIA DE QUE A MORTE ME ROUBOU MINHA QUERIDA MÃE NO DIA 8 DE SETEMBRO DE 1901. NO TRIGÉSSIMO ANO DA SUA EXISTÊNCIA « Roga a Deus que teus anos encurtou. » . Quam cedo de meus olhos te levou. Camões.

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. Mas. o meu propósito. porque fazia mesmo para retraimento. por outro lado. alenta-me a confiança na generosidade dos que este pequeno ensaio lerem.. pois que saberão relevar as circunstancias em que a tal empreza me aventurei. —E se ao menos Eeconheço bem a precipitação do meu arrojo e a grandeza da minha ousadia.DIFICULDADES NA EMPRESA É a primeira vez que cometo a grande impru- dência de subscrever ao publico qualquer instru- mento dos seus passatempos. desde tirei que na cadeira de história medieval a minha . Não fui a éla levado por incentivos de vaidade. eu isso conseguisse ! . com toda a sinceridade o digo. . ostenta-la mais sentido o meu Que esta fosse a minha intenção.

colhidas. já representa para sacrificio. não á realisação integral do plano por as mim traçado — qual era o de organizar todas noções de história medieval. mau com foi eu ter aberto o caminho.VIII DIFICULDADES NA EMPIIESA frequência. para assim compensar dalguma forma e que nas prelecções me havia escapado. eu aguardava o próximo ano lectivo para a execução deste meu humilde projecto. mas não no decurso dôste ano. já fora dela. e estas são as principais. a qual. não pequeno sob qualquer aspecto que a considerem. No convívio pro- os condiscípulos manifestei-lhe o meu pósito. da qual jamais consegui levan- tar-me. não o nego . Mas . parecendo insignificante. . já na aula. mas sempre a dentro do programa na mesma desenvolvido. . que me parece não ter ido além dos tempos de Carlos Magno — mas sim duma pequena parte só. Começou aqui a minha precipitação. esperando já então poder dispor de mais tempo. assaz onerosas. . Foi a primeira queda. fazia mesmo parte do meu plano de trabalhos. . de- cidi-me por fim. mim. para mim tão cheio de dificuldades e tão complexo em ocupações. Constantemente solicitado por eles. embora quasi todas de natureza académica. Em face destas circunstâncias.

cumpre-me prevenir desde já o leitor de ser que tão vá dispondo a o seu animo. proveniente calafrios gerados á sombra de tantas imperfeições natureza diversa — muitas tização. quando este meu ensaio histórico ? chegar ás mãos dos meus tão sábios mestres De impenitente na minha inconsciência . Coimbra. de gramática. escas- seando-me porém o tempo para preveni-las. . para não dos grande impressão.DIFICULDADES NA EMPRESA IX No próximo ano isso proseguirei até ao fim. E agora dá-me para preguntar : — Como serei eu qualificado. 25 de Março de 1918. de sistemaetc. derações. Eu próprio as reconheço. e de — erros de redacção. de ortografia. se a Feitas estas consi- me autorizarem também. ? sim E esta apreciação será bem justa. Anunciação de Nossa Senhora. Manuel Luiz Martins.

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e não com contar historias.PROLOGO É difícil a missão do historiador quando êle se preocupa com fazer história. Sim ! A missão do historiador é difícil. toda fantasiada. e não inventa corrompendo quando busca a realidade através o revolver criterioso das fontes. sobre tudo quando. historia. por entre os ecos robustos da robusta cadeia dos tempos. quando analisa os não os afere factos á luz da crítica imparcial e pelo contador falaz dos seus interesses e paixões^ dando-lhe uma vida toda artificial. infeliz e uma época surge na vida da porque a caraterizáram mentindo. malevolamente gravaram na . quando . fala ins- truindo. e não romantiza a seu arbítrio . investigando. e não a oculta. quando procura a verdade. lhe odeando-a. imaginando.

não ha muito. não é hoje difícil. essas filhas legítimas da Igreja Católica. em cuja espaçosa circunferência. atingiu as suas mais lisonjeiras proporções. a missão do historiador. esses anfiteatros eruditos. as antigas bibliotecas particulares. nos andrajos da miséria e nos antros da escuridão — e isto porque uma vez. Uma geração nova. Por isso. ao serviço das suas mais conscienciosas observações de verdade. sobre tudo do historiador do período medieval. generalisando. solidamente orien- tada. eu refiro-me à Edade Média. mal humo- rados. aparecem animados os . pôs. como eu a princípio o havia afirmado. uma via de especulação. ultimamente levada a efeito. despertando da letargia dos seus sonhos. acabam de aureolar de glória — o labéu infamante que a condenava a viver eternamente exposta aos insultos duma crítica toda sectária. porque um dia. pois que a grande tarefa de reconstituição histórica.XII PROLOGO fronte — que luzes mais resplandecentes que o nosso século fez nascer. uns publicistas. e a sua história está hoje feita em toda a luz. uns filósofos. entendendo desde então fazer dela uma Mas empresa lucrativa. reconheceram melhor a fecundidade da sua veia criadora.

e através profundas investigações nas urnas dos arquivos. se conduziram por um caminho. que. assim como os logares que foram vene- randos depósitos das suas cinzas. Por elas se desterram as sombras dos anacronismos que con- fundem a verdadeira época dos anos. ou procurando-a. . aos clarões fulgentíssimos da sua luz. as falsas teorias e as lendas. e os Nelas se fazenj patentes as pátrias povos que elas ilustraram com os seus nasci- mentos. a mais nobre de todas as potências. sobre a pressão intensíssima dos resplendores que sur- giram por entre o pó dos documentos. inteiramente diverso . plagiá- por elas se instauram os grandes processos contra os que vendo a realidade a ofuscaram a seu talante. trajando as cores varie- gadas do orgulho e da paixão. depuzeram as suas roupagens junto do trono da verdade. Os manuais do século xvni e princípios do século XIX. por elas. deixaram impressa nos fecundos partos dos seus engenhos. pelo que respeita ao valor histórico. para nunca emudecerem.PROLOGO XIIÍ oráculos de todas as sciencias. Por elas se restituo ao seu verdadeiro autor a obra injusta- mente usurpada pela afectada sciência dos rios . final- mente.

nem tão pouco prestar caução. exprimir alguns conhecimentos. nos povos que imediatamente lhes sucederam. têm. encontraram já. As prelecções do Sr. graças ao interesse que em mim despertaram as sábias prelecções do tão erudito professor. E por bem me tenho já.PRÓLOGO XIV acerca dos tempos medievais. ao curso de 1917-1918. E agora. se ao menos. do leitor. trarão e encona ainda mais nas gerações do futuro. expressão ao duma caridade. . para prevenção devo. verdadeiramente cristã. foram como que raios de luz que . consegui adquirir de escritores autori- zados — eis o fim que tenho em vista. declarar que não me proponho fazer um tratado de história. pois. as . que. mais do que o de mostrar aos meus condiscípulos. minhas belas feliz quali- dades de plagiário. os seus dias contados. sobre história medieval. e as gerações. Gonçalves Cerejeira. Dr. tal impressão eu conseguir dar aos meus leitores. desde já. ordenar. que lhes deram crédito. para não cometer a imprudência de exigir dos meus recursos aquilo que eles não podem dar. Coligir. ou a quem estes períodos lêr. o reconhecerem quanto aqueles foram tão cegamente ludibriados. suas contemporâneas.

e a dentro do programa por êle tratado. Conseguilo-hei? Negativamente respondem a diversidade das minhas ocupações e a escacês dos meus recursos. que. deu a conhecer em breve ser bem disparatada.PROLOGO XV vieram iluminar o espírito dos que atentamente o ouviam. ou então mal se aprendia nos bancos das escolas por onde a gente passava. Atravéz duma exposição clara e linguagem simples. mas cheia de beleza. cuja potência civilizadora. Vou tentar fazer um trabalho de síntese histó- rica da época medieval. dez vezes secular. e duma apreciação sin- absoluta imparcialidade os na análise das circunstâncias. nunc aã inceptuin redeo. duma visão criteriosa dos factos. No entanto. segundo a orientação das sábias prelecções do erudito professor. se começava a aprender o que não se ensinava. cera. assistiram discípulos daquele mestre ao despertar dum organismo. portanto. foi interesseira- mente ocultada pelos sucedâneos da evolução psicológica. anciosos da verdade histórica duma época que eles tantas vezes tinham ouvido malevola- mente caluniar. . pelo pretexto de que se serviu. Naquelas prelecções.

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CAPITULO O que é a l Edade Média? Os livros das escolas. Porém. cópia fiel dos manuais do século defini-la: são unânimes em Oci- — o período de tempo compreendido romano do 476 e a entre a queda do império dente em tomada de Constantinopla 1453. pois. Mas pregunta-se: expressa — Qual por a primitiva. não foi esta a acepção primitiva de tal expressão. pelos turcos em um período de dez séculos. A sua origem é toda .. E. significação locução'. essa Vejamos. xviii. sentido a tomou Voltaire e já no século xvi os humanistas. Só no século xvii ela começou a figura no significar a ideia com que Nesse hoje nosso vocabulário.

caminhando de braços dados. visando o mesmo Só o século xv assistiu à separação. método. mais tarde. com seus métodos próprios e diferentes.18 o QUE É A EDADE MÉDIA tilológica. em que viveram. constiluindo-se desde então em sciencias independentes e autófins nomas. Por filologia muito tempo a história e irmanavam. querendo estes designar pelo vocá- bulo uma época de profunda barbárie. sendo chamada a designar uma das fases da latinidade. vivendo a mesma vida. usando o mesmo fim. oblileráram-llie o sentido. e cora este significado passou no vocabulário dos filólogos até ao século XVI. estudando o desdesde a origem envolvimento da língua até à época latina. tinham consta- . Os cultores das humanidades e os enciclopedistas. explicar esta transformação"? um Como se É a simples. Não admira pois que os historia- dores. lhe tenham e trans- pedido emprestado o vo abulário. vindos depois dos filólogos. portado para os seus estudos palavras que tiveram de modificar a sua significação de origem. período da mais crassa ignorância. Ora os filólogos.

o QUE É A EDADE MÉDIA. várias fases. no meio do caos profundo que se prolonga até Carlos Tal é a edade média do latim. edade infima do cada o Como vemos. Com de as invasões barbáricas estabelece-se a desordem no aspecto. Em seguida a um período caótico. facto este que teve como consequência passar o latim a ser uma língua morta. Prolonga -se até Constantino Magno. escrito e falado pelos homens de condição mais elevada. até ali novas bases. as mundo romano: tudo muda instituições modificam-se. 19 tado. mais ou menos longo. denomiespecial: nando cada uma delas de um modo a primeira fase era a do latim clássico. É nesta época organizam as línguas novi-latinas. nessa evolução. Carlos Com que se Magno coincide o seu desapa- recimento dos novos Estados. falada e escrita em toda a sua pureza. os povos organizam-se sobre e então a lingua latina. é vícios também impregnada de Magno. os íilólogos deram a uma destas idades o nome que indicava logar (jue ocupava cada uma delas no des- . Este período é a da sua evolução histórica latim.

Foi este o primeiro significado com que esta palavra passou na boca dos humanistas. sem outro fundamento que a o da imitação. e foi nesse sentido que a tomou Ducange. Edade-Média histórica e política íoi esse período de tempo compreen- dido entre o reino de Constantino e o de Carlos Magno. impor- taram com transformar-lhe o sentido. Tam- bém para eles. Quetit ce (me le Moyen Aije. quando designou o seu notável dicionário pelo et nome de (1). E assim a palavra — Edade-Média — . estendendo-se entre o reino de Constantino e o de Carlos Magno. e todo o tempo posterior ao (1) (1. quando transportaram o vocábulo — Edade-Média. Glossarium mediae infimae latinitatis Ora os historiadores. não se para o domínio da historiografia. e na sua primitiva acepção. no seu verdadeiro sentido etimológico. Kuit. . outra coisa mais não designou que um período da latinidade.20 o QUE É A EDADE MÉDIA envolvimento histórico da língua de Roma.

já scientíficas. como hoje dizemos. Mas. como então se dizia. segundo eles.o QUE É A EDADE MÉDIA 21 império deste último constitue. postos estes prinagora: fase pregunta-se — Que haverá entre essa histórica da lati- nidade. já literárias e artísticas. a edade Ínfima. — pois que eles se propunham fazer a restauração da antigui- dade clássica em todas as suas manifestações: na língua. quando a história calcava o seu vocabulário sobre o da nistas filologia. no espirito das suas obras. Para só era grande e digno de atenção o que a Grécia e Roma haviam Direito. fazendo-a avançar até ao século xvi —o que não admira. produzido. a edade moderna. até mesmo relação na esfera do cípios. os humaEdade tinham já estendido consideravelmente os limites que eles assinalaram á sua Média. e ainda eles no espírito das suas instituições. Porém. desde Constantino a Carlos Magno. e este período de dez séculos ? PVizaremos mais uma vez que do plano da obra dos humanistas fazia parte essencial a restauração da língua latina em toda a sua pureza .

de uso exclusivo na á expressão dos seus conceitos. o vocábulo. e desta forma eles fundiram numa só as três fases de evolução linguística a que precederam a Renascença. cação. o tempo decorá Constantino. Tomáram-lhe o termo. .'Í^2 o QUE K A EDADK MICDIA e organização. Vemos assim que o trabalho dos humanistas que levou a esta designação dos dez séculos. por ficar com- preendida entre os dois termos e — fíorescença foi renascimento. começou a designar. o Grande. mas transformáram-Ihe a signifi- O estudo dos humanistas filólogos levou-os a considerar os dez primeiros séculos como um período intercalado sob o ponto de vista da latinidade. Por um instinto de adaptação. mas campo da desde latinidade. Ora ainda desta vez os historiadores não puderam resistir á tentação de adaptar filologia. até Renascença. sob o ponto de vista da civilisação. Pois bem. os historiadores pas- saram também a considerá-lo assim. chamando este conjunto. a referida locução só no rido Desde agora. Edade Média.

designaram assim este período de dez séculos ? Gompreende-se bem.o QUE É A EDADE MEDIA 23 Vê-se desta forma. e um período de harharie. na história um parênum túnel de trevas entre duas civilizações brilhantes. civilização. na fraze de Michelet. não sendo fácil precisar a ser bem o usada momento em que com ela começou esta significação. nística A influencia huma- que só considerava grande o que a antiguidade greco-romana havia produzido. de ignorância. Mas porque pedistas. se sabe de positivo é O que foros que já nos meados do século xvm ela tinha adquirido de cidade no domínio de literatura na acepção em que ainda há pouco era empregada: tese — uma da edade média. não devia ser indiferente na orientação inte- . e clareza. segundo Voltaire. com mais ou menos referida. é que Michelet e os enciclo- legítimos continuadores da sua orientação. só fraudulentamente passaria para a linguagem da historiografia : e foi o que sucedeu. que a expressão na acepção que hoje tem.

orgulhosa as suas conquistas. Foi em face desta orientação. concentrando todas suas atenções na cultura do espirito. sim. junto dos quais a Antiguidade e a Renascença foram beber toda a sua inspiração. toda cristã. que . A Edade com Média. pelo contrário. jubilosa pelas suas tradições. èQuem duvidará de que havia nisto o intuito de combater o Cristianismo. na grandeza sublimada da sua alma. A Edade as Média. A Edade Média não queimou incenso nos altares dos deuses do paganismo. ergueram altares ao vício e á prostituição. esquecera-se desses tempos que divinisáram a matéria. Eram todas materialistas as suas concepções. de retrocesso um período de na história da civilização da humanidade. se que os que nidades deram ao estudo das huma- em plena Renascença.24 o QUE É A KDADE MÉDIA lectual das gerações que se lhe seguiram. elevára-se ás mais altas regiões da Fé cristã. e mais tarde os filósofos da Enciclopédia a fulminaram de época de barbárie.

* própria Academia Franceza esperara edição do seu Dicionário. na acepção em que pouco era tomada. aqueles factos que olha- com olhos de vêr. a de 1835. . ou ainda o é hoje no pensamento de espíritos obcecados e inconscientes época tenebrosa e — uma fatídica. a mais calase mitosa de todos os tempos. Mas o significado legítimo desta expres- sãro será. vezes a empregaram. na França como sobre tudo até ha na Alemanha. A a 6. De passagem notaremos que vam os ceitos e os grandes escritores do século xvin. não foi algumas sem hesitação que o fizeram. sem precon- sem a paixão que cega. clt. raras vezes se serviram desta palavra. que provoca o inconsciente. ob. certamente. antes de lhe dar direito de cidade no reportório oficial ^ da sua língua (1). e e. ao menos. Kurt. sob o ponto de vista (1) G.o QUE É A EDADE MEDIA 25 tivera nesta época o seu grande explendorf Ninguém.

5G

o QUE

É A

EDADE MÉDIA

da

civilização,

o

de

uma época

Inlerme-

diária,

tendo por limites a Antiguidade e a

Renascença?
é

Pura

falsidade.

Tal opinião

improcedente, nada havendo mais injus-

tificável

sob o ponto de vista da história.
Investigações

Não!

profundas,

ti'abalhos
efeito, já

criteriosos,

ultimamente levados a

não podem deixar em dúvida os

espíritos,

ainda os mais prejudicados, sobre o conceito
a formar desse Ião vituperado período medieval.

Não!

A Edade-Média

não

é

um

período intermediário separando a civilização
antiga da moderna; ela é sim o início dos

nossos tempos.
tê-lo ?

^Quem

ousará controver-

A seu tempo, firmado no bastão robusto
de escritores, os mais autorizados, e

mesmo

nas opiniões daqueles que a ninguém podem
passar por suspeitos, eu procurarei corroborar

com testemunhos

fidedignos e factos evi-

dentes, a veracidade das

minhas afirmações.

CAPITULO

Lendas da Edade Média

É verdade
sista

!

.

.

.

O

século xviii, mais fanta-

que investigador, no campo da história;

mais sectário que imparcial, no campo das
suas investigações;

mais apaixonado que

consciente, nos seus raciocínios; incrédulo,
racionalista, sceptico, anti-religioso

— não se

cançou de fulminar de época de ignorância
e de barbárie a

Edade-Média.
doutrinas foram

As

mais

subversivas

nele propaladas aos quatro ventos da terra,

por intermédio dos seus manuais que

com

carácter oficial foram impostos nas escolas,

como elemento de educação das primeiras
idades, e a reprodução
fiel

destes

em quadros

:2S

o QUE É A EDADE MEDIA

levou-os à
Paris.

siui livie

circulação pelas ruas de

A

Edade-iMédia para Michelet,que, roman-

tizando, se esqueceu de fazer história, para

os seus discípulos, Calvet, Mane, Guiot e
Brossolet,
leis

que,

violando

em

absoluto

as

da originalidade, preferiram adoptar o
e

regime do plagiato
enciclopedistas,

da imitação; para os
preterindo
as

que,

mais

rudimentares regras da lógica, se dispuze-

ram a descobrir
da mentira
contador
resses
e

a

verdade pelo caminho

dos absurdos, aferindo-a pelo das suas
paixões
estes
e inte-

infiel

sim,

para

todos

espíritos,

bem
não

vasios de senso, a Edade-Média mais
é

que

civilização,

um um

parêntesis

na história da

túnel de trevas entre

duas

civilizações brilhantes.

Armái-am-se para a combater todos os

que

tão

sectariamente

pensavam

a

seu

respeito.

Cumprimentáram-na, injuriando-a,

insultando-a, fazendo-a a única responsável,
pelo seu espírito místico, de todas as calami-

midades, fulminando-a de perpetrad(M-a dos

nas obtusas roupagens da lenda. expuzeram-na assim à irrisão de todos no frontispício dos seus manuais.o QUE E A EDADE MEDIA crimes mais nefandos e horrorosos. Enfaixando-a. toda de terrores c de calamidades. dum prisma assim modelado. a Edade-Média foi uma de fome e de miséria. recentemente casadas. sucessivamente urdidas nos arqui- vos poderosos da sua imaginação. atentando contra o seu pudor e honestidade. a Edadedireito do senhor -Média exerceu o infamante — o direito de prelibação — em virtude do qual os senhores feudais abusavam infamemente e sujeitas das jovens. . pois. dos mais cruéis atentados. a Edade-Média marca um período de opressão violenta das classes inferiores em favor dos nobres e dos poderosos a Edade-Média tismo intelectual foi e uma época de obscuran- corrução moral. toda uma época de barbárie. à sua vassalagem. E assim época diziam: — «A Edade-Média é a época dos milenaristas . cujo assunto era constituido pelas teias. finalmente ela chegou a negar a alma à mulher no Atravéz surge-nos concílio de Macon ».

desde que lhe mostraram que palavra epicêna. é que se passou neste concilio ? Houve ali um bispo que levado por certos pruridos de gramático extranhou muito que se aplicasse a palavra «homo» a respeito da mulher. eu vou tentar restais afirmações. «homo» é uma aplicando-se indistinta- mente aos dois sexos. § 1. e em investigações pessoais. a cuja gratuitidade ponder a a história tez já a sua devida justiça. comprovando-o cora exemplos extraídos da S. Esciiluia. Começarei por desfazer a lenda do Concilio de Macon. Mas tal bispo se deu por convencido.""" professor. K na .30 o QUE É A EDADE MÉDIA Apoiado nos elementos que pude colher das sábias prelecções do ex." Concilio de Macon O que Vejamos.

Gonçalves Cerejeira. (J) sem querer exceptuar a mulher. que. 20. cap. Revue cies Qti'est Hist. Pois bem. traduziu bispo que assim: *houve neste synodo um dizia que se não devia compreender a mulher no nome de homem*.o QUE É A EDADE MÉDIA 31 mesma acepção que nós hoje a empregamos. VIII. « No entretanto conservou-se tranquilo quando os bispos lhe deram razão. Vacandart — Éfiides de critique et históire religieuse. 10 abril. Fran- corum. N. (1) G. e mento. pág. 449. Kurt. criou o que diz que criou quando Deus homem. Bevista 3.° Possuímos ainda os 20 cânones do Concilio. pág. Kurt. na sua collection de memoires relatifs à V históire de France. Hist. Lusitana. recordando o que ensina o Antigo Testano começo. diz assim : mExtitit enitn in hoc synodo quidam ex episcopis qui dicehat vocitari. livro I. a supor que êle se oficiais. 3.* série. Gregório de Tours continua. Dr. o macho fêmea. 171. Não encontramos : neles alguma alusão ao incidente o que levou G. Gregório de Tours. mulierem hominetn non posse Guizot. no logar acima citado. tenha dado fora das sessões Quem no-lo refere é Gregório de Tours. dando-lhe .

composilum ex cor- pore et anima. A literatura clássica mesmo de que fornece-nos tal provas bem evidentes discussão se não podia ter dado por isso que a doutrina corrente e a opinião de toda a antiguidade era a de que a palavra «homo» Salustio se aplicou sempre indiferentemente aos dois sexos.33 o QUE É A EDADE MÉDIA A lenda é completamente distituida de fundamento. Salustio. o nome de Adão. Gradas a estes testemunhos e a vários outros a causa ficou entendida (1) e a questão terminou. o que se atreveu a afirmar como certo o facto dessa questão no Concilio de Macon. e á mulher Eva. primeiro Ignorava Eujene Holand. que o latim possuia um vocábulo genérico para designar todos os individuos do género humano. e isto é: homem de terra. caj». Bellum lumtrtinion. I. uti «íenus Nam hominum. são Cicero. Juvenal e mesmo que (1) testemunhas decisivas vêem em abono das minhas afirmações. . chamou homem a ambos.

e vista. a ceder em beneficio da Igreja. aí pelos termos do ano 1000. os da Europa toda que viveram no século decimo da era cristã.o QUE É A EDADE MEDIA 38 §2." Os terrores do ano 1000 Uma vulto outra lenda a que o século xviii deu acerca da Edade Média. para expiação das suas culpas. esperavam apavo- lados a catástrofe final. suge- que nem ela tinha outro fim em rindo-lhes a visão de tão funestos aconteci- mentos. Segundo os seus povos fáceis conceitos. verificando-se então todas as calafala o Apocalypse. todos os seus bens. com muita arte o quadro das angustias . se apressa- vam. e E o próprio Michelet que romantisa. midades de que nos Que os povos medievais na sua aflição pela perspectiva de tais horrores. foi a dos milenaristas.

O que nada! haverá de verdade nestas afirma- ções tão engenhosas? Nada. mortificação de angustias.vistindo jamais. etc. arrastando todos de uma e vida de peni- tencia. os olhos cavados nas orbitas. foram. Absolutamente Interrogando os documentos e os cronistas da época. cada e um gundo o seu o já seu vasto prisma modelador. apresentam-nos imae gens horrorosas de homens res de mulhebarba com os cabelos desgrenhados^ hirsuta. Os continuadores engenho o dele. outros publicistas. ampliando campo das suas fantasias. etc. radicais no se- seu anti-clericalismo. . cujo progresso e prosperidade olhos . com todo o .34 o QUE É A EDADE MÉDIA finais. a sciencia da historiografia os moderna vem dizer-nos claramente que (errores do ano 1000 são uma pura invenção» Trova-se não e. não eiam vistos com bons Galvet Os quadros e tétricos de Guiot. O intuito deles — quem ousará pô-lo em divida — era lançar o des- crédito no seio da Igreja.

expedidas durante os trinta anos que precederam ime- . o professor mais erudito da Universidade da Sorbona. segundo Gui- raud. é.o QUE É A EDADE MÉDIA 35 fundamento e e não cora argumentos fúteis engenhosos. para deitar por terra tudo o que a imaginação voltaireana havia arquitectado sobre o fim do mundo. Pfister. aí pelos fins da ano 1000. mais. O primeiro passo dado pela nova geração de historiadores. foi examinar bem os textos que pudessem fornecer-lhes dados seguros e certos àcêrca do fim do mundo. o mais profundo historiador da Edade Média. no sentido de desfazer este pavoroso edifício lendário. afirma Guiraud. M. mais que suficientes. final. tão ilustre fornecer-nos afamado. elementos. e Pois bem. veiu Este escritor. Chegaram até nós 150 Bulias de Papas. porém. Pfister que de 970 ao ano 1000 nenhum talgia texto existe que nos autorize a admitir que os homens. esperavam angustiados a catástrofe Ha. Afirma M. dados a uma nos- profunda e abandonando o trabalho.

portanto. devendo. prolongar-se até ao ano 1005. Nenhuma delas. Era desta forma que a Igreja anunciava o fim do mundo. entregues a uma indolên- cia pavorosa. rar-se para a mais não faziam que prepamorte que se lhes antolhava as guerras e tão desesperadamente. é. ao fim próximo do Prosigamos ainda nesta ordem de argumentos. etc. Que os povos. Era 998 um concílio de Roma inflige ao rei Roberto uma para penitência de 7 anos. ora. tinham sido completamente es- quecidas — afirmações são estas verdadeira- mente gratuitas. As guerras continuaram nas suas démarchea complexas. faz referência. nem sequer de um mundo.36 o QUE É A EDADE MÉDIA diatamente o ano 1000. completamente destituidas de fundamento. que todas as outras formas de actividade económica. modo vago. no meio dessa atmosfera terrorista. política. . porém. c a actividade . De 990 ao ano 1000 celebráram-se 20 concílios. nenhum destes fez referência alguma a esta data final. isto além do ano de 1000.

. nessa ocasião. que mais dizer? multipli- Os argumentos podiam ainda car-se. Piedoso.. nas aproximações do ano 1000. na espectativa do cataclismo final? Consideremos também que nos anos que precederam imediatamente o ano 1000. estabelecem No ano 1000 leis os concílios algumas e regulamentos que deviam ser cumpridos nos anos imediatos. o O Roberto. com lanta intensidade como rei antes e depois. em guerra aberta com o duque d'Anjou. E agora. que não podiam isto é.o QUE É A EDADE MÉDIA 37 dos Estados proseguiu no seu caminho. Estariam. e é precisa- mente em 997 que os normandos solidamente se organizam para de futuro se protegerem. Foulques de Nérra. se apenas contassem com três anos para viver? Mais ainda. se iniciou a construção de muitos edifícios civis 8 religiosos.. envolve-se. Procederiam eJes desta forma. ser acabados senão muito depois. muito além do ano 1000. pois.

legítimos conti- nuadores da obra do mestre.38 o QUE É A EDADE MEDIA §3. e fazendo dela pão. serão estes quadros com todas as suas cores sombrias e horrorosas. Compulsando os seus manuais. esforçáram-se por pintar ao vivo nos seus quadros românticos as fantasias melodramáticas da sua imaginação. com outras imagens. deparamos várias. Guiot e Mane. depáram-se-nos ali figuras de cadáveres de mulheres que pessoas a famintas disputam devorar. Compulsando o Cours Elementaire de Calvet. a reprodução . Ora. entre de pessoas amassando com restos de farinha uma terra branca. Volta-se página.0 Miséria Calvet. para minorar as torturas da fome. representando aldeões comendo cascas de carvalho e herva dos campos. e um outro quadro se nos mostra.

sob o ponto de visla das suas condições económicas? Entremos no campo da análise. superabundantes numa região. baseados neste critério. quasi sem utilidade alguma nos logares onde se tinham criado. depure- mos os factos. e perscrutando-os até ao fundo. e As comunicação eram raras sucedendo estarem mal aconcompletapaís. critério que nos das con- o estudo minucioso meio em que os fenómenos se Ora. não poremos de parte o aconselha dições do realizaram. . Nas investigações que nos propomos. crise não podiam ir fazer face a alguma em que ficando se debatia uma localidade visinha. despindo-os da roupagem da lenda. que os produtos. notaremos em primeiro logar que na Edade Média escasseavam vias de os meios de transporte. dicionadas.o QUE É A EDADE MEDIA 39 fiél da Edade Média. mente isoladas províncias do mesmo Acidentes quasi geográficos consideráveis eram difícil sempre linhas divisórias de pois. acesso sucedendo muitas vezes.

a 1 fr. Houve crises no decurso da Edade Média. Para o provar basta atender à preços que se constatam no diferença de decurso do géneros. sobre a qual recaíram as investigações de D'Avenel. não será de mais repeti-lo. fr.40 o QUE É A EDADK MÉDIA As relações estavam reduzidas ao mínimo. estavam na se sem possibilidade de compen- sarem. que enquanto uma província vivia na abundância. e 7 em Argentan. outras que alguma crise eco- nómica miséria. por exemplo. todavia. para que não suceda cairmos em afirmações avulsas e sem algum funda- mento. em 85. pouco distan- Assim. a 5 30 em Bernay. não o negamos. sobre os mesmos em regiões. ciadas. mesmo ano. o hectolitro de trigo vendia-se fr. . porém. (1) Estes dados são relativos á França. Evreux (1). que estas foram tão localizadas quão frequentes. feiira profundamente. sucedendo por vezes. em 1198. 24. não devemos nunca perder de vista.

do sim- ples ao duplo. isto é. Na provincia de Franco-Gondado variou ir. entre 4 e 13 plo. do simples ao tri- Pelo que diz respeito aos salários. que se recebem nos nossos Um vasse. a menos de 100 quilómetros de do simples ao distância. (1) Guiraud. o hectolitro. e a carestia em Argentan. do trigo. A abundância reinava em Evreux. I. para com o senhorio. Hist. . eram bem superiores ás dias (1). agricultor. ao sul da França. Em 5 fr. etc. o preço na provincia de Langdoc. isto é. e além disso. os preços variavam quintuplo. as remunerações. 1174. por exemplo.5 como arrendatário hectares de apenas se constituia na obrigação.. que culti7. partielle et vraie. vol. oscilou entre 40 e 12 fr. terra. quer emergentes do trabalho livre.o QUE É A EDADB MEDIA 41 Portanto. quer do trabalho enfeudado. de fazer a cultura de 50 ares da sua propriedade.

. esta. estas do feno operações agricolas diversas representam 5 francos. este era é também melhor tempos. ao passo que a renda correspondente à posse de 7. . ainda mesmo que em vista a evolução dos processos Pelo que respeita ao trabalho ao trabalho livre. tom. se o vador não dá a semente. equivale presentemente a 275 desproporção notável se tenha culturais.. (l) Hist. assalariado. remunerado que o nos nossos Quem se entregasse. depuis Van 1200 junqu'en Vun ISOO.4^ o QUE É A* EDA DE MEDIA a colheita de numa extensão de 27 ares terreno do mesmo senhorio. que este trabalho de 109 fr..5 hectares fr. isto é. de la proprieté. O máximo. 111. custaria é portanto. pelo que respeita á colheita do feno na referida área. D'Avenel (1). relativamente culti- à cultura dos 50 ares de terreno. e 60 fr. Ora. e 85 no caso contrário. diz M. des salaires. . de terra. econom. avaUadas em preços actuais.

pagando-se. 750 fr.o QUE É A EDA DE MEDIA 43 ao trabalho de fazer a história das familias camponezas medievais. manteve-se em aos. salá- então oferecidos aos trabalhadores dum e outro sexo. etc. façamos a história dos preços do trabalho no decurso da Edade Média. Isto colas. esses salários foram aumentando consideravelmente. a remunei^ação do trabalho fr. era. primeiro um pouco* inferior. ganham. Para o jornaleiro a seco. etc. para mais evidencia. e a mulher. reinado de Carlos VI. de 1250 a uma soma.. como hoje vulgar- mente se diz. de 1475 a 1525 elevou-se a 850. pelo que toca trabalhos agrí- Quanto ás outras manifestações de . — 2) que que de 1376 a 1500. Mas.. de 728 no começo do fr.. no decurso destes anos mais caro hoje. emprega- dos nos trabalhos dos campos. depois quasi igual à que eles ganham hoje. cada um. de 1451 a 1475. elevou-se a 782 de 1404 a 1426. por 250 dias. apoiando-se nos rios. observaria — 1) que o homem 1375.

E que que se averigua relativamente aos preços dos géneros de primeira necessidade naqueles tempos"? É ainda D'Avenel que nos fornece os dados precisos para neste ponto fundamentarmos as nossas afirmações. 1376 a 1400.44 o QUE É A EDADE MÉDIA actividade. era. averiguando-se que o preço dos géneros nos tempos medievais era ainda inferior aos preços de hoje. por exemplo. por 225 dias de trabalho. de 950 fr. para o pedreiro. subindo em de breve a 861. é preciso multiplicá-los por . Nos princípios do século xv fr. vemos. oscila entre 1085 e 1237 Gomo dias. (1) O franco da Edade Média não valia o vale.. a remuneração de serviços. de hoje (1). a remuneração neste ramo da indústria medieval era superior à de nossos E o mesmo é se prova com respeito a outros ramos da actividade industrial. mesmo Ires. Nos princípios do século xiv essa remuneração desce a 782. no decurso do século XIII. que hoje Para reduzir ao seu valor actual os preços citados. e pouco depois a 1040 fr.

Com por respeito ao preço da carne. região de Nancourt a e em 1198. na 1 fr. Em 1441 é de 10 fr. o mesmo se verifica. Em vista disto podemos afirmar que o três vezes trigo na Edade Média era mais barato que hoje. a Nos meados do século xiii. o preço médio do hectolitro de trigo era de 3 fr. Em Rouen 24 cêntimos.. Pois bem. sendo considerável o número de rezes abatidas nas diversas cidades. Podiam e os multiplicar se ainda as provas argumentos desta natureza.o QUE É A EDADE MÉDIA 45 SÓ me referirei aqui aos principais: ao trigo e à carne. no do Baixo Rbeno. Em face dos dados de D'Avenel averigua-se que no século XII o preço trigo de cada hectolitro de oscilava entre 87 e 90 cêntimos. nos mesmos departamentos. 80. 1 fr. pois que de 1301 e 1450 pagava-se um sexto do preço porque se paga actualmente.50 no departamento do Eure. o preço de cada hectolitro.. e 43. baixa a 6 francos. em 114G. apoiados .

primeiro. ao invés. a abun- dância bem-estar reinarão então. a fome se e a miséria reinarão como são soberanas. valor da do trabalho e do preço dos géneros de primeira necessidade. Não crises pois. revestindo um assombroso? Nesta ordem de ideias. É evidente dos. baixos. como deverão boje')? as gerações do futuro classificar as de Oli! se nos fosse dado desempenhar a . E não se sucedem essas crises também nos nossos carácter.46 o QUE É A EDADE MÉDIA todos naquele axioma fundamental que nos diz que o bem-estar material dum povo valor resulta do jogo de três factores: terra. que. a preços mais baixos no custo das mercadorias. bastante dizer-se que houve é preciso. missão de historiador! . fazer o estudo das circunstâncias em que elas se manifestaram. os salários mas correspondem e o é. económicas na Edade Média. . se os salários são eleva- mas o preço das mercadorias ainda o é mais. . ainda mais tempos.

faz a afirmação cate- seu livro —A górica de que a Edade Média fora uma época e da mais profunda barbárie curantismo (1). 63. o critério dos não só uma época de fome e de miséria. acerca da qual diz Júlio Dantas que ela fora a maior dos grandes escritores. de foi. no Mulher. do maior obs- (l) D. . barbárie. mas também. da mais crassa ignorância. e sobre tudo. mormente nas de ensino secundário. um período do mais profundo obscurantismo. E com este significado que o vocábulo passa ainda hoje nos manuais das nossas escolas." A ignorância na Edade Média A Edade Média.o QUE É A EDADE MÉDIA 47 §4. Virgínia de Castro a Almeida — ^ Mulher^ pág. segundo enciplopedistas. Apresentam assim a Edade Média como um Até facto doloroso na história da civilisação! uma escritora célebre e nossa contem- porânea.

Eis o que se afirma. Em face dos documentos — cujas con- dições de verdade cederam ha pouco aos persistentes esforços de espiritos verdadeira- mente investigadores. que os cânones dos (los reis e como as capitulares dos imperadores dos povos medie- . Eram raras as escolas. Mas ofere- pura falsidade! períodos Em França. o estudo dos e Merovíngio Carlovíngio cem-nos argumentos mais que suficientes para desmascararmos até à evidência as afirmações engenhosas desses fabricadores de falsas lendas.. e as que havia destinavam-se apenas à educação dos monges e do clero..48 o QUE É A EDADE MÉDIA Michelet e mais publicistas do século xviii compararam os povos aos e Estados medievais povos e Estados mais selvagens da África e da Oceania! É o critério da mentira nas suas pers- crutações de verdade. completamente destituidas de fundamento. que empregaram toda a sua actividade em restituir a liistóiia à sua legitima missão — averiguamos concílios.

mostraram sempre o seu zelo ardente larga difusão do ensino. as pessoas de todas as condi- Estas escolas funcionavam junto dos mosteiros. aí. já o está reconhecendo a crítica moderna) ela entra no fiel desempenho da sua missão histórica com aquela serenidade que costuma traduzir-se em todas as manifestações. 4 . fim em promover uma mandando para esse fundar escolas numerosas. não só para os clérigos. (sendo bem imprópria esta designação. a — para que dissi- — exerceu uma actividade intelectual nos verdadeiramente espantosa Envolvendo pergaminhos da sua infância o que da civilização antiga escapado havia aos destroços das invasões germânicas.o QUE É A EDADE MÉDIA 49 vais. e até junto das mais humildes paróquias de aldeia. não só as sciências mas ainda todos Edade Média os ramos de sciências profanas. talhadas pelos altos designio do Árbitro Supremo. mas também para ções sociais. Ensinavam-se metafísicas. das catedrais. Sim mila-lo . ou barharicas.

onde tormenta mais se tinha teando os espiritos. não poude ser detida. dificuldades que não vencesse. anarquia que veiu a ser pro- fundamente agravada pelas subsequentes invasões normandas. mereceram-lhe esj)ecial cuidado a cultura dos espíritos vontades. feito sentir. no meio dum oceano revoltado. cor- rendo com ele áquem e álera. desnor- Foi ela o leme seguro de salvação. Proseguindo impávida a sua marcha.50 o QUE É A EDADE MÉDIA Ainda mesmo no meio da grande confusão que se seguiu á invasão dos povos cair germânicos. farol de luz resplendecente que os vendavais da Germânia não conseguiram extinguir ou apagar. a sua acção. ela não deixou da mão a o facho brilhantissimo das suas luzes. estenaté dendo-se á constituição benéfica do regime feudal. tão caracteristicamente histórica. e a formação das Acolheu ao seu . Não houve obstáculos que ela não superasse. No meio seguiu á da profunda anarquia que se morte de Carlos Magno. filha legí- tima da Igieja.

continuando os esforços de seu pai. despertou o gosto pelas letras. dá toda a actividade á causa do ensino.o QUE É A EDADE MEDIA 51 patrocínio o desenvolvimento das sciêucias. Renan (1). apre- senta-nos Carlos Magno. que no espírito de ninguém que o conheça pode passar por suspeito nas suas apreciações e no seu modo de vêr. bom grado os seus maiores esforços. o amor pelas artes. (1) Mélanges réligeuses et historiques. Luís o Pio. Pode dizer-se fez que o império de Carlos Magno época na história do espírito humano. Luís o Pio e Carlos o Calvo como os mais zelosos promotores do ix. pedindo. o culto pelo ideal. tropeços que não desfizesse. não havendo bar- reiras que não escalasse. renascimento que se operou no século Não obstante as grandes dificuldades que encontrou no seu governo. para o promover. . o concurso indispensável da Igreja.

as scièncias divinas e humanas.52 o QUE É A EDADE MÉDIA « Em 823. na Itália. relembra êle aos bispos o empenho de fundar escolas naqueles logares onde o exigissem as necessidades dos fieis e do cleio ». reunido concílio num em os Paris. o episcopado francês. conta Baluze (l). nas ensinassem etc. capazes de ensinar as artes liberais em todos os bispados e paróquias». Hérard. . Em 858. Por seu turno o Papa Eugénio IJ escrevia: «Devemos empenhar-nos em preparar pro fessores. Arcebispo padres quais se de Touis. Tal era o empenho que a Igiej.? mantinha de conservar os povos nas trevas da ignorância ! Fundáram-se por toda a parte numeiosas escolas. decreta como um dever de todos bispos o de fundar escolas junto das suas catedrais. de relembrava aos seus o dever fundar escolas. como na França e (l) Capitularia regttm francortim. etc. E no ano seguinte.

e aonde corriam estudantes dos diferentes países. aberta ali a todos aqueles que se apresentassem. as quais se desli- navam sete a ministrar a primeira instrução. . e onde as crianças eram admitidas desde os anos de idade. sciên- teologia. lições públicas de letras. podíamos citar a escola episcopal de Angers. título A de exemplo e confirmação dessa notável efervescência intelectual. pública e gratuita. pagãos. livres ou servos. a ser a E não obstante. qualquer que fosse a sua condição — ricos ou ou pobres.o QUE É A EDADE MEDIA 53 sobre tudo na Alemanha. a escola monástica de Cólon y. uma outra. a Igreja continua grande amiga do obscurantismo e ! das trevas . a escola monástica S. na qual havia. . nobres plebeus. em que eram dadas cias. reformada por Guilherme. na qual era tido o estado tanta das letras clássicas em consideração que se censurava no abade Pedro o Venerável a sua admiração entusiástica pelos autores S. ao lado da escola dos monges. de Benigue.

alem da teo- logia. afirma La visse Rambaud. 547. Htst. consumindo as suas energias. o trivium e o quatrivimn — gramática retórica dialética . págr. (2) ensinavam-se. as- tronomia e música. gasa tando toda sua actividade. Tl. Nestas floriram e afinaram o seu génio romanistas célebres.54 o QUE É A EDADE MEDIA Os cânones obrigavam mesmo os bispos a abrir escolas junto de seus paços (1). pelos Benidictinos (J) (2) Guiraud. durante os tempos medievais. et vraie Geral -tom. Nas catedrais e e mosteiros. houve em França. na investigação do gosto clássico. desse trabalho insano. . vista as grandes academias de e Liége. Segundo o testemunho verídico destes escritores e outros muitos. geometria. partielle Ilisf. centros de cultura florescentissiraos. nos quais scinti- laram já engenhos e talentos bem notáveis. aritmética. no estudo das antiguidades. que dizer dessa tarefa inaudita. Tours Angers. Haja em Orleans. E depois.

6. Roma! A interrogando a e Inscri- Academia Franceza das Belas Artes ções. nestas palavras: tores — «Bons lei- que utihzais este trabalho. dores e gera- da foi morte mais inglória e trágica. desconhecido. Era a nós que se dirigia um pobre monge.o QUE É A EDADE MÉDIA 55 levado a já efeito. colhendo e arre- cadando os fragmentos duma civilisação que ruíra ao peso das suas iniquidades. não obstante. excavando. obra prima do génio clássico. ingratidão horrorosa e cegueira maldita Calunia-se atrozmente a Edade Média. Mas. Sim. para nós que eles passaram os seus dias. peço-vos . 1 . da Grécia resposta obte-la-hemos. as gerações actuais literá- servem se descaradamente das jóias rias e artísticas que ela nos legou e ensinou a ler ! Foi para nós que os monges gastaram toda a sua vida em profundas investigações arqueológicas. contaminada de vermes dissolventes. debruçados sobre velhos perga- minhos amarelentos. na perscrutação das ruínas. . e de não fumegantes.

ela foi a grande educadora do mundo. mais humildes paróquias de . malévolamente. tinha frio e terminou de noite o (jue não pudera luz do dia. com a sua potência organizadora. trazido de um país estrangeiro. nos nos conventos. um parêntesis doloroso na his- da civilização. por ignorância outros. com o seu espírito de unidade universal.56 o QUE É A EDA DE MEDIA não VOS esqueçais daquele que o copiou era um pobre monge de nome Luís. com o sincretismo da sua fecunda assimilação. e em- quanto transcrevia este volume. informada pela Igreja. e até junto das aldeia. fundando por toda a parte escolas e institutos: mosteiros. sereis para êle digna recompensa do seu trabalho. aquela a quem pertence o nobre condão de ter embalado a juventude das modernas civilizações. impuzera aos monges a obrigação do estudo. transcrever à Mas vós. Na sua tão legítima ambição de edificar por meio da cultura do espírito. como a consideraram. a grande mestra. uns.» A Edade longe de ser tória Média. Senhor.

responde eloquen- temente a magnificência. sob o Mas. tão sublime. uma opulenta eflo- no seio da Igreja. que nem sequer jamais conseguiu ser imitado? Não foram elas e executadas segundo as regras da arte. a grandeza dessas portentosas maravilhas do génio que se chamam as catedrais góticas. Pois quê. como Santo Agostinho. ponto de vista do gosto do ideal estético. ração que vinha já de longe. tão deli cado. Isto. Basílio e S. será talvez apa? gada a sua história Não. Gregório Nanzianzeno. exegetas. Poetas.o QUE É A EDADE MEDIA 57 Traduz-se por toda a parte efloração literária. Jerónimo. como Gregório de Nyssa. como Ausónio e Paulino. artístico. polígrafos. pelo que respeita à actividade inte- lectual que a Edade Média desenvolveu. . cultíssimos como S. oradores. não são elas a expressão potente civilização. Prudêncio e Glaudiano. espíritos. e S. como Símacho sábios. como Orígenes. duma em nada inferior á dos nossos tempos? Não foram elas inspiradas num pensamento artístico tão fino.

-Dame de são. ilumináram-se mais por efeito dos reflexos variegados de vitrais resplandentes. NotreParis. voando para o Infinito. conquis- taram maior elevação. Na arte gótica estava encarnada falar uma nas civil. Chartres.atingindo maior altura. que. levantadas da terra pela mão robusta da crença. As catedrais de Reims.58 o QUE É A EDADE MI^DIA aqueles que as construíi-am não conheciam perfeitamente as leis da matemática. junto dos quais as gerações dum passado a eles posterior e as do futuro e continuarão a ir têm ido beber o néctar precioso das mais sublimes inspirações! Essas obras grandiosas. sem principais obra primas da arquitectura dera à arte religiosa a mais alta expressão da beleza. . Amiens e Anvers na frase de Salomão Reinach. forma de arquitectura. da mecânica e da física? Oh! Grandezas maravilhosas aquelas que se encerram nesses monumentos magestosos que num esforço de e fé religiosa galgavam para o Ceu. a verda- deira obra prima do espírito humano.

Cumpre. construções estas que tiveram o seu berço. emquanto afirma que a (l) Hist. a Igreja de Santa Maria das Vitórias! As melhores construções hoje possuímos são as que a artísticas que Edade Média nos legou. na sua maior do século parte. e um dos mais belos da É ainda interessante o testemunho de repugnante 06- Ghamberlain sobre o tão scurantismo medieval. considerado Rogério Peyre (1) como o século de maior beleza da Edade Média civilização. soh as duas modalidades mais importantes do eátilo: o românico e o ogival. embora laborando em erro. na ». ao sopro das idades.o QUE É A EDADE MEDIA 59 E entre nós surge veneranda. advertir e que um protestante. General des Beaux Arts. por isso não poderá ser tido como suspeito. sua velhice « rejuvenescente embalada nos per- gaminhos da Pátria. em primeiro Ghamberlain é logar. Este afamado escritor. Pois bem. . nos flancos vigorosos por XIII.

calcada somente sobre elementos germânicos. souberam fazer o que fora impossível aos séculos de e Leão X. mais sábio que os artistas romanos. de Luís XIV criaram Napoleão. a superioridade graciosa e artística do período medieval. Eles um género de beleza mais elevado (l) L'Art. Gesar Cantu acrescenta «Os arquitectos da época ogival. A Reims não será dum modo especial a expressão dum génio. continua o ilustre escritor. A sica arte dos tempos mediévicos. jamais exce- dido e nem sequer igualado"^ Elias Picaut e Carlos Baude (1) afirmam categoricamente que o artista medieval se mostrara mais portentoso. . IIG. de que zombamos com tanta leviandade.r>0 o QUE É A EDADE MÉDIA Kdadc Média fojinára uma civilizarão nova. rivalisa com a arte clás- em plano não catedral de inferior. não teme o arrojo de contestar àqueles que afirmam que na antiguidade houvera mais beleza e mais arte. pág.

não a nudez do corpo. para a realização mais fácil da sua actividade e propagação da sua obra. Faltava-Jhe a imprensa. pode dizer-se que ela teve o alto culto do saber. é com Deus a natureza que o a alma purificada. A Edade Moderna não conseguiu elevar-se a tão altas concepções de espírito. Devemos levar ainda em linha de conta que ela não dispunha dos meios de que dispõem os nossos tempos. os meios de transporte outros . afirma Rogério Bacon. a bem este Edade Média não podia pleitear com todas as manifestações intelectuais dos nossos dias. contente de viver em conformidade cerca. além e vários disso. Nós. Claro é que. que ela ainda avistara. e devemos frizar ponto. nem produzir iguais monumentos de arte. viver no seio de Não. tão soberbos. mas só de longe. impaciente de ». escasseando-lhe.o QUE É A EDADE MÉDIA 61 e espiritual». não obstante. Leclerque prosegue: é já «Um ideal novo aparece. somos a herança de tudo o que a Edade Média produziu. os novos. tão magestosos.

pelo espírito da sua arte. Para que dissimular a verdade ? A Edade Média realizou a grande obra de reconciliação de elementos de civilizações carateristicamente diversas. pelo organismo das suas línguas. a Edade Moderna deriva ainda de si pelo fundamental princípio das nacio- nalidades. fecundou. pelo sistema e carácter da sua literatura. deriva dela ainda pela estrutura da própria organização económica. pelas suas ideias políticas. é de fé si própria pelo uma seu religiosa.62 o QUE É A EDADE MÉDIA processos para a necessária divulgação da sua empresa civilizadora. às regras provençais e aos processos medievais. aliada ao movi- mento tradicional. cho- cou todo o movimento social que se lhe seguiu. em grande parte. A Edade Moderna derivação: pela sua direito. Finalmente. . definidas no constitucionalismo e no governo representativo a Antiguidade ignorou e — duas coisas que que são boje uma condição essencial da existência política das sociedades.

a grande Universidade fran- segundo o testemunho fidedigno de historiadores abalisados. frequentada por 30:000 estu- . cesa. e Cambridge. numa época em que as scien- cias históricas tem já realizado tão consonas conquistas da ver- ladores progressos dade. que. das Letras e das Artes. era no decurso do século dantes. XIII.o QUE É A EDADE MÉDIA 63 Hoje. apreciada através o cadinho da mais fina crítica. Haja modernas em vista as famosas Universidades de Oxford. E notável ali que todas as Universidades vão beber a sua origem. das Sciencias. personificou uma actividade de espírito. verdadeiramente es- pantosa. a Edade Média teve o culto do Belo. em face dos documentos. que não tenlia a paixão por motor impulsivo a das suas falculdades — que foi Edade Média um período notável de elaboração intelectual. não pode já restar dúvida no espírito de ninguém. partos fecundos de tenazes esforços contem- porâneos de nós.

Este facto é verdadeiramente assombroso na história do espírito humano. autónomo. mesmo nos domínios da Religião Revelada. É Ozanan o século filosofia XIII. com de mútuo auxílio. isto se fez não mais se repetiu — e tudo apenas relações por vontade da Igreja. pág. escolástica.64 o QUE É A EDA DE MÉDIA * * Foi ainda na Edade Média que a filosofia se separou da teologia. catholique dans le troi- sième siècle. organisando-se a filosofia em sciencia independente. . A razão humana passou a ter um campo de acção definido. das duas sciencias — teologia O magister dixit. (1) quem nos vem presidira afirmar que que representa o tríumfo da à separação e filosofia. que desde filosofia então ficou tendo sobre a uma superioridade maternal. Salomão Reinach curva-se de admiração perante o (1) Dante et la filosofie 7-4.

motivada pelas heresias. ainda mesmo . contemporâneas de todas as épocas. e que. por causa da grande pressão que exercera. A Edade Média é assistiu ainda à elabo- ração da poesia provençal que na arte não nada 5 inferior à clássica.o QUE É A EDADE MÉDIA 65 culto elevado que pela razão houvera na Edade Média. que são hoje o instrumento das literaturas. Um facto notamos ainda que chama a aten- ção dos críticos para uma apreciação mais consciente e reflectida da grande obra da Edade Média —é o de ela ter presidido à organização das línguas modernas. pois que a experiência atesta e a história tem mostrado à evidência que elas também são comuns a todas as idades. não obstante alguns autores afirmarem que a Igreja atrofiara o espírito. Haveria abusos? O contrário seria para admirar. Pura falsidade! As heresias que o ignore? tempos. e foi — quem a ha os — são comuns lodos um membro da Igreja que ser uma vez disse que os homens deviam levados mais pela convicção do que pela violência.

66

o QUE É A EDADE MÉDIA

no meio do entusiasmo
os primeiros

febril

que cortejou

alvores da Renascença,

não

perdeu de todo a sua individualidade histórica,

a sua feição pessoal, a sua estética.
tradição medieval

Os ecos longínquos da

não deixaram de repercurtir-se ainda mesmo

no meio dessa quási veneração pelas
zações da Antiguidade.

civili-

Os chamados «poetas da medida velha»
são-no, na verdade,
pela sua fidelidade às
scinti-

formas da poesia provençal. As mais

lantes fulgurações, a mais pura consagração

do

ideal, a

mais

alta

concepção da Belesa

e

da

Arte, resume-as, concretiza-as a

Edade Média
flor

nessa obra imortal, a Divina Comédia, a

de todo o seu esforço
preciosidades,

artístico,

um scenário de

um

repositório de maravilhas,

a repercursão grandiosa da história de quasi

dez séculos de civilização. Os seus tercetos
são escadas de ouro, como as agulhas das
catedrais góticas são Ave-Marias resadas

em

pedra transparente e leve; são como fumo
de incenso.

Sim

!

As catedrais góticas são

também

verdadeiras epopeias do génio, cuja

o QUE É A EDADE MEDIA

67

inspiração é o que ha de mais sublime e
elevado.

Elas topetavam

com

o Geu; sub-

mergiam-se no oceano do
Ali se

Infinito.

encontram reproduzidos todos os

conhecimentos medievais.

De passagem
feitas

direi

que todas as recaem

críticas

à

arte

medieval

sobre

a

feição

da sua escultura, afirmando alguns

escritores

que ela só representa a dôr

e o

sofrimento.

Reinach, porém, apenas nota

uma

diferença:

—é

o

facto
e a

da

escultura

medieval estar vestida
pagã, estar nua.

da Renascença, a

Sob o ponto de

vista scienlífico,

também

não pode dizer-se que actividade da Edade
Media fosse insignificante, ao depararmos

com nomes como
o descobridor do

os de Nicolau e

J.

de Pisa,

os grandes matemáticos; S. Nicolau de Gusa,

movimento diurno da

terra;

Rogério Bacon, o introdutor do movimento
scientífico, etc.

68

o QUE É A EDADE MÉDIA

Rogério Bacon

é,

segundo 'a expressão
do pensamento

de Renan

(1),

o

príncipe

na Edade Média
nière.

e uni positivista

à sa ma-

A
rável

êle

devemos uma obra de

crítica

admiseu

àcêrca do ensino

em voga no

tempo.

Na obscuridade do
nítida do futuro

laboratório, continua

Ozanan, Rogério Bacon
:

teve

uma

visão

— « Póde-se,

diz êle, fazer

brotar do bronze raios mais espantosos que

os da natureza;

uma pequena
em

porção de

matéria, preparada

certas condições, pro-

duz explosão estrondosa, acompanhada
luz

duma

viva

e

esplendorosa.

Este

fenómeno

pode

repetir-se

numa
ai'te

intensidade sempre

crescente, a ponto de destruir

uma armada,

uma

cidade.

A

pôde construir instrutais

mentos de navegação,

que os maiores

navios governados por simples homens, per-

corram os

rios e os

mares»,

etc

,

etc.

(1)

Ozanan, ob.

cil.

duas fontes de que aíluem o trabalho para os válidos e o amparo para os inválidos. gresso uma parada do pro- humano. Edade Média quer túnel dizer: sincope civilização. o relógio. diz tem sido atrozmente caluniada. Quixote — Conferencias literárias. sendo ainda Edade pri- Média que lançou o fundamento dos meiros hospitais e asilos para as crianças e para os velhos» (1). as gravuras — nasceram nestes séculos a que chamamos bárbaros. Todo o conforto que nós hoje fruímos é um resultado das invenções dessa éra. foi No as esta época que assistiu ao desabrochar da indústria e da caridade. entanto. tão injustamente malsinada. as rendas. 192. tão mal estudada. .o QUE É A EDADE MEDIA 69 Razão tinha Olavo Bilac para assim se exprimir àcêrca da obra da Edade Média: — «Esta Quem da grande época da história. de trevas entre duas passagens luminosas. os espelhos. O papel. o calcetamento e a ilumi- nação das ruas. (1) D. a bússola.

tária. o período embriológico das modernas civihzações.. (1) Guiraud.0 Feudalismo Àcêrca do feudaHsmo diz Taine: fim. — « Emcada eis era cantão homens armados. esta Europa. uma tropa seden- capaz de resistir à invasão dos nor- mandos. § 5. organizada sobre as bases do feudalismo. conseguiu lançar nas cruzadas do Oriente um contingente de 30:000 homens. todas as conquistas fundamentais que a enobrecem (1).70 o QUE É A EDADE MEDIA Em resumo: a Edade Média é. . aos olhos da moderna sciencia histórica. Ao cabo de um século. Hist. depois de tantos séculos. Lá nasceram todas as ideias nobres e fecundas que a caraterisam. antes exposta a contínuos assaltos.. partielle et vraie. D'ora àvanle já não se temerá o estrangeiro.».

uma exploração violenta das favor inferiores em dos nobres. Não basta registar os factos. prudente e reflectido. Qual seria o destino da Europa sem a das civili- sua existência? zações nascentes. Não vai até aí a verdade. Qual a sorte no seu encontro com o ímpeto convulsivo das invasões normandas? Gomo é que as civilizações ocidentais pode- riam participar tão cedo das civilizações do Oriente? paz Gomo restabelecer a ordem no mundo da Edade Média. no meio e a das perturbações. é preciso também interpretá-los. tantas vezes provocadas pelas classes e senhores ambiciosos? Acusam classes o feudalismo de ser uma insti- tuição odiosa. os benefícios e vantagens que ela prestou à civiHzação. —à luz dum critério imparcial e seguro. harmonizando-se com .o QUE É A EDADE MEDIA 71 É assim que Taine reconhece a neces- sidade histórica dessa instituição benéfica. —e nisto consiste a principal tareia do historiador. é necessário mais. e dos poderosos.

(1) Hist. por meio do qual se impuzesse aos povos sujeitos ao seu domínio. Ocidental não se teria salvado do furor das invasões normandas sem esta sendo ainda à sombra do feudae se lismo que nasceram desenvolveram as grandes instituições medievais. . da época em que êle «Num período da mais profunda anarquia. é. para desta forma poder conter a classe média ». em seus desmandos A Europa instituição. das se verdadeira expressão necessidades desenvolveu. de la formacion particularisíe em France. O a feudalismo segundo a sua opinião. em que tais factos se Tourville (1) considera o feudalismo e a uma feliz instituição necessária época mais da nossa história.72 o QUE É A EDA DE MEDIA as condições do meio verificaram. rial carecia quando o poder de prestígio. necessário era haver por toda a parte uma èlíte aristocrática que se fizesse respeitar por meio da força.

Não obstante. É vulgar ouvir dizer-se que os senhores feudais eram guerreiros cruéis. transmitiu-nos a príncipes justos e honestos que se esfor- çaram por si fazer reinar sempre em torno de a paz. A poesia cortezã. é certo. vai beber a sua fundamental origem à corte amorosa dos príncipes feudais. porém. esta instituição foi legítima na sua origem. a equidade. . homens bru- Ora o que é certo é que a Edade Média. a justiça. a sua im- bem clara e manifesta. tais e ferozes. e as literaturas tor- náram-se conscientes da sua missão histórica. os Estados prosperaram engrandeceram-se.o QUE É A EDADE MEDIA 73 Os senhores feudais abusaram. quando deixaram de prestar os serviços protectores para que foram instituídos. a boa ordem. que na Edade Média o seu atingiu maior desenvolvimento. À 6 sombra dela se organizaram as socie- dades modernas. letras No domínio das portância é mesmo. lembrança de diz Guiraud.

Revue des Quest. lan- com a nobreza Quanto ao «pretendido direito de preli- bação». tom. porém (l) Vid.74 o QUE É A EDADE MEDIA Os romances de Cavalaria. 95. pág. inspiradas nos feitos heróicos da instituição feudal. as Canções de Gesta e outras manifestações literárias medievais foram também. Abusos houve no longo período da Edade Média e épocas de decadência moral. já hoje ninguém ousa pôr em dúvida a necessidade da sua arguição de falsidade. indubitavelmente. Dos textos legislativos nada se consegue inferir a tal respeito (1). . hist. É uma lenda des- tituída de todo o fundamento o quadro sombrio deste «direito do senhor». Os destinos da poesia provençal guedociana confundem-se dos povos meridionais. I. tiveram lá a sua origem histórica..

mundo E que depois. níssimas obras primas uma imagem tão espiritual da mulher. que chega a condenar um simples olhar. tendo era vista a defesa da inviolabilidade do vínculo conjugal sim. . cit. a Tgreja. ela que sustentou acesos e repetidos combates contra os reis e os grandes da terra. um pensamento mau contra a castidade. direito A arte medieval deixou-nos em pequetão pura. ob. que nunca o viu outra (1). título fez sempre da virgindade o maior de glória dos dois sexos. como é que a Igreja Católica. — do como é que a Igreja teria fechado os olhos em face duma prática que fazia homem um bruto e da mulher uma presa? (1) Dr.o QUE É A EDADE MEDIA 75 O rebaixamento das consciências nunca foi até ao ponto de consagrar legalmente a vio- lação da virtude inerme e frágil. Smedt 6 Luís Veiilot desfizeram desde de há muito a ignóbil lenda do prelihação. Gonçalves Cerejeira.

onde a moralidade encontrou a um Foi abrigo e corrução um obstáculo. era do adultério. Ele por último. como a Sr. o grande poder espiritual que soergueu as almas acima das paixões grosseiras e mes- quinhas. longe de favorecer terrível e a imoralidade. que é o Catolicismo dos nossos dias.* tão pouco escrupulosamente o afirma D. foi o seu Foi mais Ele acérrimo combatente. Foi Ele que levantou os mosteiros. que se impoz aos reis na defesa do (l) Louis Veillot — Le droit úh seiyneur ati ntoyen age.7G o QUE É A EDADE MEDIA Teria face ela. elevado à categoria de instituição pública. Virgínia de Castro e Almeida no seu livro — A Mulher. Não! O Catolicismo da Edade Média. . poiventura. guardado silêncio. em prol dalguns senhores libidinosos? (1) E completamente destituída de funda- mento a afirmação de que na Edade Média a imoralidade fora cavada pelo Catolicismo.

meiro século de Roma. Acima de tudo punha-se a honra da mulher. O é facto da lepra nos povos ocidentais á época das muito anterior Cruzadas. antes que estas abrissem o caminho ás relações dos povos ocidentais com os do Levante. Ainda aqui mais uma vez se diverte e brinca a fantasia de Michelet. Houve relações com o Oriente desde o prie. no decurso das suas peregrinações pelo Oriente. fora uma importação dos cruzados.0 A Disse-se lepra finalmente que a lepra. mas uma vez mais íambêm se define claramente a gratuitidade das suas afirmações. . §6. esse flagelo terrível que afligira e vitimara muitos dos povos medievais.o QUE É A EDADE MÉDIA 77 tálamo das mulheres legítimas. já aqueles se tinham encontrado com os árabes.

78

o QUE É A EDADE MEDIA

Gomo
lepra

se

compreende,

pois,

que tenham

sUlo as Cruzadas a causa determinante da

no Ocidente
século
IV,

?
(l),

No

afirma G. Kurt.

tinha-

-se ela já

derramado por toda a Europa do
ali

Oeste, alastrando-se
facto
este

até ao século xii;

que preocupou muitas vezes, e

seriamente, a Igreja, o Estado e a caridade
privada. Gelso refere-se já á lepra

como

exis-

tindo no
e

outros

mundo romano. Sulpicio Severo fazem-lhe também referências,

reportando-a aos tempos imperiais.

Nem

tão pouco se prova que as Gruzadas

contribuíssem

para

aumentar

o

número

dos leprosos.

Mas

isto

ainda não é tudo

!

.

.

Enganam-se os homens nos seus
tos,

concei-

nos seus juízos e apreciações.

(l)

La

lépre en Occideiit avant les croisades.

o QUE É A EDADE MÉDIA

79

Que

fazer

quando a mentira abertamente
.
.

se manifesta ?

Calar
!
.

?
! . .

Ab

!

isso

não

.

.

Parece mal
!

.

É

uma

nota discordante

.

.

.

e

a nossa vai-

dade melindra-se.

Que
recursos
timos.

fazer
. .

pois?

Lançar mão doutros
. .

.

contanto que sejam

.

ilegí-

Ao menos dizem-se
estar calado
.
.

coisas, para

não se

A

lepra,

disseram então,

foi,

nem mais

nem menos, uma consequência da pouca
limpeza que se observava nos povos medievais; estado
este

que Michelet chamou a

horrível imundicie, devido à falta de banhos

— pas

de hains pendant 1000 ans. (1)

A Edade

Média surge-nos assim como

verdadeiramente retrograda, como refratária a todos as leis sobre

decoro e decência.

Mais

uma

infelicidade,

mais

um

produto,

das fantasias humanas!

Pois que o pi-óprio

(J)

O

arl,

Les bains en Lecoy de La Marche.

80

o QUE É A EDADE MÉDIA

Micbelet, que se havia á

pouco perdido em

abstracções, mal intencionadas, mais

uma

vez se esquece do que tinha afirmado.

Alegando, ora engano, ora ignorância,

dá o dito por não
arte o

dito,

romantizando com

quadro dos pagens da Edade Média,
as

acompanhando
fícios

damas da

corte aos edi-

de banhos.
!
.

São assim os homens

.

Ora, prova-se ao contrário que nos Esta-

dos medievais não houve cidade alguma que

não tivesse o seu que
se

edifício de

banhos.
intermédio

É

o

tem

apurado

por

de

investigações profundas, recentemente leva-

das a

efeito.

Mas

é

tempo de
e

eticorrar este capítulo

do

meu

trabalho,

termino-o,

dizendo

que

a liislória deve ter por missão registar os
factos e interpreta-los atravez o cadinho

da

mais

fina crítica, imparcial

sempre, sempre

desapaixonada, e não enveredar pelo cami-

nho

da

mentira,

erigindo-lhe

templos

e

altares.

sobre conceitos acerca da civilisação dos agora tempos medievais. muito longe de uma época de crise. foi sobre tudo um período da mais salutar e profunda organisação. . um período de lucta entre elementos antagónicos.CAPITULO III A Edade Média. importantíssimo também: é que essa Edade. irreconciliáveis. vou chamar a atenção do leitor para outro ponto de vista. uma época orgânica Lançado por terra esse edifício pavoroso de falsas lendas. A 6 civilisação moderna tem nela as suas origens. irritantemente construído pelos falsos anticlericais do século xviii. mendigante e andrajosa. tão ser atrozmente caluniada. como a apresentaram.

e germânico. artístico scientífico. . no campo das ideias. que. Não foi dessa lucta. é uma época orgânica. que resultou a que Chamberlain reporta ao século xii. * * » * * * A Edade Média Esta verdade. de tempos modernos. iwia época de lucta entre mentos de civilizações diferentes — o elemento romano. b) c) d) e) » * » * * * » » » » » político » * » do direito individual.o QUE K A EDADE MEDIA Prova-se a) sob o ponto de vista religioso. hoje contestá-la? quem ousará a sociedade Tudo o que de durável instituições e moderna possue de fecundo. christão Não. como no das mergulha as suas raízes nos flancos misteriosos desses primeiros séculos cristãos. porque lucta civilização nova. até certo ponto. aspecto incuba- ção fecunda. como muitos ele- sustentaram. não houve. A Edade Média é no seu primeiro uma época de activa fermentação. floriu os A Edade Média não foi. desabrochando.

digâmo-lo de passagem. em essência de reconstituição e de síntese intensíssimas. se No meio desse mundo. aos últimos suspiros do império romano. que ruidosamente precipita. desempenhando bem nobre- mente a elevada missão de harmonizadora. se vinham exalando por entre aromas e devassidões. em elementos da foi A Edade uma época Média. Foi com Ca^-los Magno cla- que a p]dade Média começou a revelar ramente a sua potência civilizadora.o QUE É A EDADE MÉDIA 83 esteiando-a simplesmente civilização germânica. no meio do conflito que devia necessariaefeito de mente produzir-se por um choque de civilizações heterogénias. Estes primeiros séculos assistem. Tal íoi o período das origens da civili- zação medieval. que. no meio do grande cataclismo imperial. . ha muito. mas não já das alturas do Capitólio. recolhendo cuidadosamente o que escapado havia. repito. que se prolonga. a Igreja eleva-se como farol resplandecente. até Carlos Magno.

que a opinião deste escritor. teorias — pelo menos é intenção minha faze-la —a exposição das suas a respeito da civilização medieval. ainda no seu berço. sintetisa. á nova civilização. consuna. mas só por intermédio de elementos germânicos.84 o QUE É A EDADE MEDIA Nos seus primeiros anos. fermenta e vai já harmonizando. que a torna cada vez mais consciente da sua missão histórica. me proponho. ura cunho de individualidade. desde já. organiza. homogénea. ela colhe. Por fim. e imediatos. fazendo . Apresenta-se-nos assim : primeiro. Mais tarde. elabora. como uma gem e época de fermentação. afirmando que a civilização moderna única herdeira da civilização medieval. carateriza-se. tituindo então uma civilização nova. dando orix. tomando uma feição própria. define-se. no século ix e xii. advertindo. de elaboração Mais tarde. nos séculos ix combina. mas não ainda nesta pri- meira parte do trabalho que farei. A eu seu tempo. não no século como pretende Chamé a berlain nas suas opiniões de germanóíilo. intelectual e moral.

sendo também complectamente destituído de fundamento o caos étnico a que êle se refere. — tom. explicando as origens da lenda de Raul de Gambrai nément aux ix et . « elle s'est dégagée spontaet x siécles s'est^ dans Vimmense constitué le tumidtueux cahos oú vraie mogen age. exclusivamente germânicos. dos povos germânicos. (l) Legendes épiques. em número. é inexacta. Que a sua opinião está longe da verdade. em de face dos vencidos. ÍI pág.o QUE É A EDADE MEDIA 85 derivar a civilização moderna de elementos. considerados como uma época orgânica na bistória da civi- lização. 334. dos meios de comunicação das Gálias com a Germânia. pois que Chamberlain se esquece dos cruza- mentos que povos e se realisáram entre os diversos da inferioridade. provam-no ainda as seguintes palavras de Bédier. . » (1) Mas voltemos a insistir na análise dos tempos medievais. a partir Carlos Magno.

aproxi- mentos de civilizações mando-os. sendo também fase. sim. e ger- que a sua origem é anterior ao século Foi XII. mas não exclusivamente de elementos mânicos.86 o QUE É A EDADE MEDIA Acabamos de Média formara só ver que é anti-hislórica a opinião de Chamberlain. mas duma crise de longos anos. falsa a sua opinião de que não é a civilização medieval. conjugando-os. retorquindo-lhe agora que a nossa civilização vem da Edade Média. E quando eram esses novos organismos já direito um facto. pela harmonia que estabeleceu entre eleestranhas. mas sim. na sua primeira que inicia os tempos modernos. Vimos já a in verosimilhança dos seus argumentos. sem dúvida a Edade Média que lançou as bases das civilizações modernas. não cedeu ao seu . a potência civi- lizadora dos germanos que só no século xii se manifestara em toda a sua plenitude. de civiliza- grandes luctas entre elementos de ções diferentes. de que a Edade depois uma civilização nova.

no sciências. caminho das artes. de o repetir mais vezes no decurso do não foi uma época de crise. Demoliu atesta a originalidade da Edade Média. um período de síntese de admirável actividade intelectual. Média. e a medieval.o QUE È A EDADE MEDIA 87 de acção e influência sobre eles o perpassar tumultuoso dos séculos. meu mas uma e época criadora. e necessidade terei A Edade trabalho. como sendo uma qui- atrofi adora das forças e do génio . das letras e das E. sobre tudo no domínio da arte. repito. 4 Em que época precisa é fácil se constituem? Não obra é determiná-la. surgindo atravez modificações várias os organismos das novas sociedades. O que está averiguado que foi em tempos anteriores ao século xii. nem isso foi dum momento. arte. É na opinião do próprio Ghamberlain que a Renascença passa como nada tendo acrescentado à mera. criando estilos que não foram exce- didos pela Renascença.

88 o QUE É A EDADE MEDIA iQue estéril 1 . tudo o que de bom poude colher. religiosa e política que maior título é o de glória dos tempos me- dievais. . a Eclade Média fora uma foi época irritante falsidade! Pois que ela prin- cipalmente e sobre tudo diosa. um só Na realisação deste ideal supremo. Ela refundiu todos os elementos. só alma. é o que chamam a « Cristandade ». resultando daí toda uma unidade moral. Foi a Edade Média que formou essa instituição universal que os sociólogos e políticos dos nossos tempos admiram: —a Grande Sociedade Cristã. Essa unidade. os povos caminham de braços dados. a história do mundo moderno. todo homogénio. donde raiou em toda a plenitude do seu esplendor. esforçando-se uma época gran- por estabelecer a har- monia entre elementos antagónicos. tendo em mira fazer deles um Na Edade Média há uma ideal colectivo. os sociólogos . atravez as sendas da história.

outro. um ideal colectivo. No campo do pensamento cia foi também flagrante. passando a haver dentro de cada poderes: ura.o QUE É A EDADE MEDIA 89 Em uma A si reinou sempre união de esforços. A. este o mas auxiliando-se mutuamente. o de ter salvado a Europa contra as pretenções dos turcos. apoiados sobre as bases duma separação. dois um político. Comte admira-a. sobre tudo na batalha de Jjepanto. se deve entre tantos benefícios. Foi ainda este facto grandioso"^ da uni- dade moral na Edade Média que pôs no Oriente o grande movimento das cruzadas. mas em plano muito inferior. afirmando que a diplomacia moderna a substituíra. esta instituição admirável que todas as energias humanas. fazendo-os depor as suas armas. Organizáram-se também os novos Estados. um fulcro comum animou de actividade —o Papado. Foi grande avanço no campo das instituições políticas e religiosas. a sua influên- . religioso.

no campo das supostas vei-dades fundamentais. dos católicos. e ficando cada uma na sua esfera de domínio. prestando-se mútuo auxílio. dos católicos. conjugáram-se todos os esforços sob a mesma inspiração. Foi na Edade Média. os espíritos degladiam-se na arena dos princípios. Foi então Filo- que se estabeleceu o princípio: que a sofia e a Fé vão de mãos dadas em busca da verdade.90 o QUE É A EDADE MÉDIA Nos nossos dias. Enfim. que o magister notem bem os livres pensadores. acusada de atrotia- dora dixit. estabelecendo entre um todas as manifestações do esta lucta. perfeito espírito porém. definindo os direitos da razão e da Fé. sem ressaibos de antagonia. foi banido do campo da Filosofia. não conheceu nizou a Teologia Harmo- com a Filosofia. não etc. antes sem se excluírem. extremando-se ali a área dos naturalistas. . A Edade acordo Média. etc. do espírito humano. humano.

comuns todos os tempos. Sob o ponto de vista das relações inter- nacionais. Á sombra deste poderoso baluarte.o QUE É A EDADE MÉDIA 91 Sob O ponto de havia vista da organização social. conseguira estabelecer a ordem no meio de tão profunda anarquia. também em cada Estado uma e hierar- quia firme poderosa. havia para todos os Estados um Tribunal Supremo. os povos seguiram a sua trajectória através o caminho Íngreme da história da civilização. Era o Tribunal de tifício. Roma ou o Tribunal Pon- As sociedades modernas organizáram-se sobre as bases firmes do feudalismo. onde todas as litipen- dências encontravam a sua última solução. que não obstante os a seus abusos. insti- .

A Renascença veiu atrofiar a expon- taneidade medieval. . iniciando os tempos modernos. Eis aqui no que a pavorosa crise dos tempos medievais. quebrar-lhe a unidade moral com que. rompendo com autoridade superior de Roma. que tanto alarmou os espíritos ocos de bom senso ! . agitações incessantes. um estado de um teatro de luctas contínuas. . a partir da qual a Europa fica dividida. o desenvolvi- mento da vida económica. da e ordem. o martelo do a protestantismo. fomentou guerras religiosas e e sangrentas. diametralmente opostos. da tranquilidade. E desde então surgem guerras intermináveis. as mais pavorosas Parece não restar já dúvida . se resolve a grande crise. Sim a Renascença.02 o QUE É A EDADE MEDIA tuição esta que teve já o dissemos. que apresentam como . o como feliz consequência. scindida e trabalhada por princípios contrários. asseguramenlo da paz. civis. desfez a cadeia que ligava entre si os povos e os governos. Tal desi- gnação e conceito ficariam melhor à Renas- cença.

iniciou mas sobremaneira A Renascença não a unidade uma época de actividade civilizadora. A capacidade civilizadora da Edade Méo dia destrui-a movimento calamitoso da de Reforma. que passara à Renascença apenas o certiticado da sua prioridade cronológica. mas é certo e também que sei têm sido exagerados. eloquente. como sanção da sua obra. A Renascença certo. é notáveis eles benefícios mesmo. vai-o A actual conflagração confirmando na sua linguagem muda. quando esta já. nem . não se compensaram os males que consigo importaram. univere salmente reconhecida. Não negamos.o QUE É A EDADE MEDIA 93 que a dissolução dessa grande unidade moral foi a causa do profundo enfraquecimento da espontaneidade humana. trouxe-nos benefícios. A falta uma autoridade. sobraçava admiravelmente redigidas. as suas credencias com poderes plenos. tem sido continuará a ser a causa geradora da profunda deca- dência das nações. veiu antes quebrar moral dos povos.

proclamação dos seus benefícios tem tocado A Renascença não da Antiguidade. A Renascença mais não que o desabro- . investigando. e sobre tudo. encontrou. aportava a regiões luminosas superiores. saindo da sua infância. mais uma as raias do exagero. riquezas preciosas da Antiguidade. o Cabo das Tormentas. a humano. depois de tantos esforços. Foi sem dúvida a Edade Média que dobrou depois de tantos ensaios intrépidos. que a Renascença tenha enriquecido de grandes tesouros a civilização. Não ha dúvida que ela foi um dos mais esplendidos fenómenos intelectuais que brilharam na história da humanidade.94 o QUE É A EDADE MEDÍA mesmo o podemos fazer. o ponto culminante desse desenvolvimento secular. foi uma resiirreição Foi antes. pelo qual a Edade Média. inventou a Imprensa. uma poderosa riquesa de dilatando os horizontes do espírito vez o digo. descobriu o Novo Mundo. porém. ainda ruínas é sepultadas sob as dos séculos. desenvolvendo génio.

do outro. longe de trazer-nos benefícios. duma arvore robusta e vice- No domínio do pensamento. dicial. ficou dominada por dois princípios diferentes. A unidade medieval cedeu o passo à grande confusão que se apoderou dos espíritos. dissociou-se. A síntese dos tempos medievais logo se desconjuntou. dois princípios opostos se disputam.o QUE É A EDADE MÉDIA 95 char fecundo jante. Extremam-se duas bandeiras no meio do mundo a religioso. desde então. cujas consequências funestas se tem feito sentir e dum modo verdadeiramente deplorável. a dos protestantes. uma crise tremenda no mundo das ideias como no da moral. desde a Renascença. degladiando-se. ela. . a dos católicos. tornou-se preju- O Protestantismo começou com a RenasXVI. desorien- tando-os. Daqui proveiu dissolução. dum lado. A Europa. cença no século Pois bem.

mava-o ainda ha pouco mico um distinto "acadé- na sua dissertação de concurso à íZi Faculdade de Letras Lisboa.96 o QUE É A EDADE MÉDIA * * E tal seria a Edade Moderna criadora? Não. e não na Re- nascença» glória afirma G. Seria uma época menos exacto quem Moderna. essa grande falecido. Universidade de A Edade Moderna. moderna. «A nossa civilização vai toda mergulhar nos flancos vigo- as suas raizes históricas rosos dos tempos medievais. . Ha a sim si sociedade uma mesma desde a sua origem ( 1 ) Étiicle sur les reformateurs. foi A Edade alguém. uma desnacionalização. idêntica {^1). Kurt. da literatura belga. obr. Não ha Edade Média. (2) G. veiu atrofiar toda a nossa espontaneidade (1). Kurt. cit. ha pouco Não. diz Afir- afirmasse. diz por sua vez Reybaut.

diríamos que ela é a Edade Média cbegada à sua verdadeira maturação. de vida abertas Cristianismo. tais como hoje fomos outr'ora e tais como somos ainda em parte. Magna Se quizessemos dar a definição exacta da Edade Moderna. Kurt Qu' est-ce que le Mogen Age» . e são a Edade Média somos nós mesmos. e tudo o elementos da fontes nossa civilização brota inexauriveis. JiíSte nome provisório que os dicio- (1) G. preferindo a Carta à Lex Regia ( l ). si todos séculos não tem solução de que constitue os das pelo continuidade. ha 19 séculos. bebendo as nossas inspirações no Evangelho e no Digesto. Não podemos deixar de reconhecer tam- bém que os primeiros séculos participaram dos defeitos inerentes a todas as idades mesmo graves alguns deles. JVlas ainda uma vez com todas as suas boas qualidades e com todos os seus defeitos.o QUE É A EDADE MEDIA 97 A os cadeia de ouro que liga entre cristãos. infantis.

cit. . e não filhos da Grécia e de Roma. pois que Ela começa (1) Ozanan. de Dante a Carlos Magno. A Edade anos. E mais.98 o QUE É A EDADE MÉDIA nários do futuro não conhecerão. liga-se à nós o vemos. O Humanismo mesmo. Somos os zação legítimos herdeiros da civiH- medieval. ob. Média é a época dos nossos jovens infância Nós a saudamos como uma bemdizemos como o sã e vigorosa que não se estiolou nas trevas. Nós a início das mo- dernas civilizações. de Petrarcha a Dante. na reali- dade mais não designa que a juventude do mundo moderno. sem solução alguma de continuidade na tradição da Antiguidade (1). se se quizesse procurar a verdadeira origem da nossa civilização. inin- Edade Media por uma série terrupta de cadeias que vai de Nicolau V a Petrarcha. muito mais se poderia dizer. fazendo-a remontar ao berço do Cristianismo.

magestosos como o e mundo que ruínas.o QUE É A EDADE MÉDIA 99 propriamente no momento em que a civili- zação pagã cai ruidosamente dos seus pedestais. tépidas. . sobre as suas ainda se levantou o edifício das novas sociedades. os erguera.

.

Iniciara formara civilização nova. Lavisse e Rambaut. e tantos outros. Kurt. Neste ponto estão de acordo 'escritores ilustres. o próprio Gham- berlain. o tão erudito professor belga. Ramcourt. afamado professor da Sor- bona. G. duradouro.CAPITULO IV Conquistas da Edade Média A) Sob o ponto de vista religioso: Acabamos de vêr que a Edade Média lançara os princípios fundamentais da nossa civilização. Todos emitem a opinião de que a nossa civilização alguma . a base inabalável da nossa socie- dade — tudo uma como o que há de mais estável e os tempos modernos.

chegada ao seu maior esplendor. Tal é. nismo. Como se prova? No campo religioso. o testemunho de Salomão Reinach. critério legítimo de afirmar que a Edade Média são inícios. era parte. . mas sempre sobre bases medievais. da sua moral prática e especulativa. A Glória que à Edade Moderna compete é a do aperfeiçoamento da organização medieval. os nossos civi- que a nossa lização é a medieval. mas foi é certo que não foi a Edade Média que deu origem ao Cristia- no seu percurso que se for- maram e organizaram os povos modernos Ci-istã.ICfâ o QUE l': A EDA DE MEDIA coisa tem de superior à civilização medieval. foi sobre os piincípios da Doutrina na Edade Média que todas as consciências. e fê-los devia fazer progressos realmente. A Humanidade desde então. da sua disciplina. esta se radicou em exercendo nelas o benéfico império da sua ordem. em alguns ramos das suas mas não renunciam ao tempos nos seus manifestações.

o QUK È A EDADE MEDIA 103 Por seu turno Renan. o próprio Renan. e de suas: que não se compreende a história a do mundo sem Pessoa de Jesus. pecando apenas. cedendo um pouco à paixão sectária porque se deixou dominar porque êle —e eis aí a razão sus- não poderá ser tido como peito perante alguém —sim. havia ha pouco organizado esse mesmo que em de sistema o seu corpo de doutrinas. nega- doras da Divindade de Jesus Cristo. é a his- da Humanidade um problema sem solução. por líbrio pequeno de equi- uma grande falta mental no campo das suas apreciações críticas. historiador eminente. É admirável e verdadeiramente assom- broso o testemunho dessa personagem con- temporânea àcêrca da Obra de Jesus. Re- . quasi caír-lhe de dissimula- envergonhado. e já não é defeito este. canartifícios çado já de tantos ção. deixara um dia dos lábios estas afirmações catetão grande valor por serem góricas. que e sem Jesus tória Cristo a sua Igreja. depois tantos manejos da sua fantasia.

Por milhares ti. Não receies vêr desabar por um erro o edifício erguido pelos teus esforços. De ora vante. porque aliás o lepulo iiílc- ressanlíssimo: «Repousa agora na tua iniciador. virás a ser a tal ponto a pedra angular da humanidade.104 o QUE É A EDADE MEDJA produzí-lo-bei. Plenamente vencedor da teu reino. Mil vezes mais vivo. paz divina fragilidade. Fundaste a tua Divindade. Entre ti e Deus não haverá distinção. seria abalá-lo até aos fundamentos. glória. arrancar o teu nome seus deste mundo. íóra do alcance da do alto da. toma posse do onde te . de anos o mundo vai depender de Bandeira das nossas contradições. que nem sequer chegaram a tocar a tua grande alma. mil vezes mais amado depois da morte que durante a tua passagem neste mundo. nobre Acabaste a tua obra. que. morto. granjeaste a mais complecta imortalidade. serás o sinal à volta do qual se hade travar a mais ardente batalha. assistirás às consequências infinitas dos teus actos. À custa de algumas horas de sofrimento.

é um Estendendo-se ao mesmo tempo sem e por sobre os romanos e os bárbaros. pág. a Igreja abriu generosamente os seus braços a todos os povos da terra. Ela já não tinha a temer ser esmagada sob as ruínas do edifício que tinha abrigado a sua juventude (2).. e causa mesmo espanto uma confissão desta natureza e pela boca de facto. realizando pela primeira vez o tipo duma família do género humano.. Percorrendo as gigantescas colecções em da que registou os seus são de actos. 227. tem-se a impres- que e se penetra nas ali oficinas civilização que se vêem elaborar as riquezas espirituais das gerações do futuro. t. longos séculos de adoradores» É verdadeiramente assombrosa. fazer distin- ção alguma de raças de condições. Origines de la civilisation. Kurt Jesus. Renan! Mas. . I. (1) (2) Vida de G.o QUE É A EDADE MÉDIA 105 hão de seguir pela estrada real que traçaste (1).

foi — quem o não reconhe- — a única de todas as religiões que nos trouxe um espírito são. e atravéz de todos os tempos. se Aqueles mes- mos que retiraram da Igreja Católica continuaram a pôr em prática muitos dos princípios da sua moral.lOC) o QUE É A EDA DE MÉDIA « O Cristianismo continua a ser ainda espiritual hoje o alimento de milhões de cui'so almas». foram banidos como repugnantes. capaz de levantar os povos desse atoleiro de vícios e de corrução em que o tinham lançado as máximas do paganismo. . uma moral pura. O aborto. o infanticídio. e outras tantas práticas que o mundo antigo tinha quasi elevado á categoria de instituições. sob a acção poderosa e influência benéfica da Moral Cristã. A Igreja foi na Edade Média. a grande educadora do mundo. como imorais. O cerá Cristianismo. afirma Wiliam James no seu de Religião Experimental. lativos das nações E os códigos legis- adoptáram-nos nas suas disposições jurídicas. desde a sua origem.

A decadência começou geométricos. destruiu a antiga parece não duvidar as trevas da Edade Média são obra sua. pág. Só os cristãos (l) La fin (hl paganisme. Porém.o QUE É A EDADE MEDIA 107 Quem haverá hoje que ainda ignore o fez pela civilização? que a Igreja Gaston Boissier. escreveu também estas nobilíssimas palavras: «É e hoje quasi a Igreja um se lugar comum que sustentar que literatura. foi cedo. o historiador que mais a fundo estudara a agonia lenta do império romano. .' 64. da literatura latina durante o império O Catolicismo não é responsável pela decadência Hterária. não ha nada que seja menos conforme à verdade. e os que sustentam essa opinião dão a impressão clara de que não conhecem a história (1). Emquanto Tácito redigia os seus condensados períodos ainda uma iii decadência bri- Mas o século é um eclipse sem análogo na história literária. por- que esta é anterior a Ele. lhante.

no seu Jardim « d' Epicuro: Quando se repelirem os dogmas da teo- logia moral. cit. é preciso pensar sentir o trágico em nada. o que viemos aqui fazer. E em verdade. ob.108 o QUE É A EDA DE MEDIA conservavam Letras (1). O mistério do destino envolve-nos intei- ramente nos seus poderosos arcanos. Num mundo em que toda a iluminação da Fé se apagou. até a sua signifi- o mal e a dôr perderam cação. aparecendo-nos odiosas. Dr. acesos os círios das Belas Não resistirei ainda à tentação de repro- duzir aqui a seguinte passagem que recrutei de Anatole France. Gonçalves Cerejeira. nenhum meio nos resta de saber porque motivo nos encontramos neste mundo. para não absurdo do viver. . o uma profunda revolução (I) Sr. B) Sob o ponto de vista político: No campo das Cristianismo operou instituições políticas. ou apenas como coisas como farças sinistras».

A organização da cite antiga assentava apenas sobre os dogmas da religião pagã. inviolável- concentrava em si todos os tinha a plenitude da competência. e por isso. e desta forraa lançados os fundamentos da liberdade Por outro lado. O chefe político era ao mesmo tempo . um pontífice uma fórmula O Estado poderes. defender a pátria era defender o deus que presidia aos seus destinos.o QUE É A EDADE MÉDIA 109 nos governos. Cada cidade e defendia. sentimento de fraternidade de todos os povos foi-se tornando nobre apanágio de todos os corações. (pontifex maximus) a lei era sagrada. a não ser aquelas que estivessem de harmonia com os seus interesses. Estado e Religião confundiam-se. ritual e A separação do poder espifoi temporal proclamada. um poder que não admitia restrições à sua acção. o e garantias individuais. e por isso. Era o Cesarismo. . tinha o seu deus que a tutelava As manifestações do culto estavam todas a cargo dos poderes públicos organizados.

e desde logo se operou e nos uma revolução complecta nas regras princípios em que se apoiava o orgainstitui- nismo dos povos da Antiguidade. O ódio contra o extrangeiro era obrigato- riamente presciito. As noções .110 o QUE É A EDADE MÉDIA Eram antiga. . uma cidade. e desconhecido era tam- bém o princípio da solidariedade. Desta concepção de prin- cípios? Veiu o Cristianismo. assim mol- dada. ficávam-se. a que ficava reduzida a liberdade de consciência? Podia ela viver no meio deste estado de coisas? . numa organização social. embora Gomo consequência homem estava sujeito ao Estado por seu corpo. política e governo unifi- família. porém. no código das suas ções. visando o sob aspectos diversos necessária o mesmo fim. por sua alma e por seus bens. uma que cada Religião. cujo dogma fundamental. era um deus protegesse exclusivamente uma província. estes os princípios fundamentais sobre que assentava a organização da cidade Ora.

quando da sua lira brota em tom profético o « Magnus ah tinha já integro sceciilorum nascitur ordo». desvendado o veu da realidade. como os princípios. como a se 6 desde logo o direito e a política. porque ela já estava decadente. figura. mútuo auxílio. Virgílio. da justiça e da afeição. sem E que o vaticínio de exarado através as pérolas místicas dos seus sublimes carmes. desprendendo-se para se inte- em órgãos distintos. desacreditada. a sua individualidade substancial. as ideias. no meio deste séquito de aberrações do espírito humano.o QUE É A EDADE MEDIA 1 1 l acerca do direito. e a política e a religião defini- ram também desde logo grarem todavia. do dever. se transformaram até aos seus fundamentos. modificaram. A cidade antiga deixou de ser governada pela religião nacional. forças para impôr-se. moral. e por isso. prestando-se. porém. definindo a sua . restringiam-se apenas aos limites da cidade. Começou. do cimo do Gólgota. a raiar a luz do Calvário.

a religião A Religião Cristã não era já doméstica dalguma família. veiu apresentar e verdadeiro Deus. porém. chegado o tempo da depu- ração do sentimento religioso. o Os atenienses á tinham prestado seu culto Pala de Atenas. um Deus de todos. como único um Ser Universal. as encostas do Calvário. fora apa- gado com o Sangue do Crucificado. finalmente. par a par. O sentimento de igualdade e amor fra- ternal desceram. e a crença. Jesus Cristo rompera as muralhas da se- paração e das inimizades. os romanos acreditado no Júpiter do Capitólio. Desde o seu começo Ela estendeu os seus braços a todos os povos. sob a forma cristã. O Cristianismo. dou- . o culto dalguma cidade ou raça. sendo a prática de qualquer culto um privilégio de que só os nacionais gozavam. que em breve retomara vida e vigor.11:2 o QUE É A EDADE MÉDIA Era. esse artigo fundamental no código das legislações antigas. O ódio. ao mundo. recuperou o império das almas. à humanidade inteira.

um outro A separação do poder espiritual e tem- poral. onde. um novo direito. e a Gezar o que é de Gezar». desde essa hora. esse dia. o Estado possuia o corpo dãos. ao cidadão «Dá a Deus o que é de Deus. todos os direitos. social. pensamento humano Desde o dia em que Jesus Cristo disse ao indivíduo : « Amae a Deus acima de todas as coisas. La Cite A. por amor de Deus». que tinham sobre os seus súbditos macia.o QUE É A EDADE MÉDIA 113 trina tão decisiva no futuro progresso do (1). e ao próximo como a vós mesmos. surgiu — desde ideal uma moral nova. como acima e a disse. principio completamente ignorado da Antiguidade. ao Estado «Procura primeiro o reino de Deus e a sua Justiça». teve alma dos cidaa liber- como então feliz resultado tação das consciências. . toda a supre- (1) Foustel de Coulaoges. fora A alma á do homem dos desde frustrada acção poderes públicos.

Gondenavam-se á morte os recemnascidos aleijados. tudo muda — as leis. sobre novos conceitos. a desigualdade do género humano. porque eram reputados prejudiciais aos progressos da vida social. O império romano. as insti- tuições e a moral. tão estreitamente abraçado ao antigo principio do seu direito de império sobre as almas e sobre os corpos. e de Aris- tóteles . Suprime-se a família. as ideias. porém. mais puros e universais.114 o QUE É A EDADE MEDIA O que era o Estado de Plalão I . defeituosos. Com o Cristianismo. conside- rada como sária. Tal era o dogma fundamental da filosofia aristotélica. os princípios. Tudo ali era sacrificado aos inte- resses da vida pública. a promiscuidade de sexos. não deveria ceder de bom grado a essas . As sociedades organizam-se sobre novas bases. . preconisa-se a co- munidade de bens. uma instituição justa e neces- «Ha homens que nasceram para ser livres outros para ser escravos».

o unitarismo desfizeram-se. uma grande e transformação se operara instituições nos governos: procla- mára-se a separação dos poderes. dis- só: era o Gezar. E foi o que sucedeu. porém. Lutou até á morte. uma autoridade havia As legiões romanas. A esta unidade. no direito.o QUE É A EDADE MÉDIA llõ suas tão essenciais prerrogativas. subslituindo-se-lbe particularismo na política e religião. e a universalidade na Na antiga Roma. de tantos No meio legis- desvarios reconheceu-se que o si Estado era por lar incompetente para em matéria de religião. mais não faziam que cumprir cegamente as suas ordens. Mas. substituirá a Edade Média uma pulverisação do poder. o absolutismo imperial. . C) 1) Sob o ponto de vista individual : 2) A A favor dos escravos. favor da mulher. persas pelas províncias. O o Gezarismo. caraterisada no regime feudal. com nas o andar dos tempos e sob a influência cristã.

mas também . As ordenações legislativas medievais.116 o QUE É A EDADE MÉDIA O que de fazer a Edade Média fez em prol dos escravos e da mulher. em coi'ação algum. admitiam á profissão não só as pessoas de condição livre. e já as leis tino. a partir de Constannas doutrinas umas e outras inspiradas do Evangelho. ecos profundos da mais profunda gratidão. 1) A favor dos escravos. eclesiástico. romanas. concedendo mais que os bispos pudessem. jamais pode deixar vibrar. as de condição servil. quer de caracter civil. ticas E as regras das ordens monásreligiosa. Foi bem intensa a acção da Igreja no sentido de melhorar a condição dos escravos. quer traduziram sempre o seu desvelo na grande obra de protecção aos escçavos. por sua própria autoridade. manumitir os escravos que se encontrassem sob o domínio do clero. As legislações. prescrevem terminantemente que sejam postos em liberdade todos os que o seu senhor tenha forçado á apostasia.

Esta empresa. Cod.o QUE É A EDADE MEDIA 117 Carlos Magno. Valentiniano lei uma sua. de realiza1. seus sucessores. e mesmo aí dentro deste. Paulo AUard — Les . pouco a pouco. XLVII. mas não mortiça. tinha decretado a não permissão de venda de escravos rurais. esclaves chrétiens. 7. e na Suécia até ao século É vai assim que. T. e bem assim todos os concílios francos. ção por difícil. até continuando-se na Inglaterra xii. solo por eles cultivado (1) Vid. XI. à luz bruxuleante. vinha já de longe. II. decretam a proibição rigorosa da venda dos escravos para fora dos limites do império. pelos fins do século x. a não ser que esta se fizesse juntamente com o (1). o escravo conquistando a sua liberdade. é apenas um facto excepcional. Lavisse e Rambaut — jtfisí. o trafico da escravatura.. ao século xiJi. Just.. dos lampa- dários medievais. Gen.

lei 6..* . obra da reabilitação das classes por esse poderoso levada a efeito organismo. Foi-lhe reconhecido pouco a pouco o direito de alienar alguns bens. cit. V. la condition oú Tévolution livre s'est du servage á fait d'homme plus rapidement. 5. pág. Rambaul les nestas palavras: «Dans plus civilisés.". liv. Wisig. tit. deliberando neste : sentido — proibição ao senhor de castigar o escravo a ponto de lhe infligir a morte. Essas disposições ordenavam mesmo que se punisse severamente o senhor que mutilasse o seu escravo (2).118 o QUE É A EDADE MEDIA A grande servis. (1) il complete au ne reslait que des paysans livres» Os sério concílios de Toledo ocupárara-se a da classe escravizada. 13. elle était déjà presque xii siècle. (2) Cod. resume-a Lavisse e les pays. sem que para (1) Tomo II. a que um autor chamou -d pode- rosa gestação dos tempos medievais. ob.

o QUE É A EDADE MEDIA 119 isso precisasse de consentimento. não podia por ser cortada dum só só golpe. e agitada ainda de perto pelo sopro das doutrinas aristotélicas. colunato voluntário e condição inteiramente livre. tão profundamente arreigada no ânimo de todos os povos. nubii. sob pena de graves conflitos. O Jus con- embora restrito a princípio. podia ser imposta. nato adescHpUcio. nem meios violentos. também garantido por lenta e por fases. ser. mas assim devia Uma prática. 2) Em foi prol da mulher: Que Que era a mulher na antiga RomaV a mulher na Edade Média? Começarei por fazer as minhas considerações. fôra-lhe lei. chamando a atenção do leitor para . o que vinha deslustrar à Edade Média e à Igreja o seu carácter tão sabiamente conciliador. considerada mesmo como uma sua organização instituição necessária da social. pela persuasão. é A libertação foi colu- certo — servidão.

A sociedade pagã. ao dominio da O Cristianismo. com tanta elegância. duma tão sã filosofia. era a submissão da sacrifícios carne ao espirito. porém. chegara siibmeter o espirito mesmo a carne. desde as conquistas até á escravatura. impõe a .120 o QUE É A EDADE MEDIA as palavras autorizadas do laureado acadé- mico Estêvão Lamy. escrito com tanta arte. Aqueles que aspiram d perfeição. fazendo servir tudo á voluptuos idade. dizem assim na tradução portuguesa Elas * O grande Deus do paganismo era o pra- zer. contra aqueles que vêem uma verdadeira irreconciliação entre a elee as vação da mulher pelo Cristianismo tendências ascéticas. Estêvão Lamy aprecia e abençoa em prol da mulher essas tendências místicas. das riquezas até ao génio das artes e cantos dos poetas. suas Nestas palavras. tos Foi nos impos- a esta carne que Ele reconheceu os seus. recrutadas do seu livro — La Femme Demain. secretário perpétuo da Academia Francesa.

gosto. Aos olhos sensuais do o corpo homem. aos que querem viver a vida ordinária lei e perpetuar a espécie. melhor. para o pagão. a ruptura com estes impor- tava neste para a mulher uma compensação ainda mundo. dum casamento que homem a uma só mulher e para impõe a une um só sempre. virtude assegurava ao homem as sem tinha ele recompensas da vida futura. somente . e sem escrúpulos. Como ocupar-se egoísmo. da vida que organisado a seu zeres. a tornavam mais e feliz.o QUE É A EDADE MEDIA 121 virgindade ou a continência . a liberdade dos pra- Pelo contrário. o prazer é todo egoísta. Este jugo de castidade. compensação imediata. riscava. ou se a sacrificavam da mulher. pos- sue-a sem gratidão. não pesava igual- mente sobre Se esta o homem e sobre a mulher. somente importava E que êle deseja-a sem a estimar. Amar a mulher. principal obstáculo ao triunfo do Cristianismo. da mulher era a Ele jamais pensara perfeição do em averiguar se as alegrias que pretendia dela.

á sua graça. converte-se na mais terna doçura . a Nova Religião oferece á mulher. Praticar as virtudes impostas pelo Evangelho com força de respeito^ lei. e os homens as praticas que lhe ensinam consti- a tornarão incapaz das fraquezas que tuem a esperança dos outros homens. ainda neste mundo.. eles Desde então a rudeza que prodigalisam á sua beleza.. e desprezar as que o não são ou deixaram de o ser . na Em troca da licenciosidade. a este Os que desejam que jugo.. era impôr-se ao homem socie- pelo definir a sua missão no lar doméstico e a sua grande influência dade. isto deles que se ocupam da mas para felicidade dela.. a dignidade ela se e a honra.12(2 o QUE É A EDADE MEDIA pela sua beleza. Não é para felicidade mídher. sujeite não esperam outros dela lhe nada daquilo que pedem. e amar a beleza de todas aquelas que parecem belas. E tudo fazem com uma solicitude desinteressada.

desconhecia si. A civilização antiga desprezava a mulher. imortal o definiu Hesiodo resumiu sentir numa dade. revelação cristã da sua alma (1) Sr. Eis como era tão poucas palavras. a dignidade do que e Éa sua coragem. a infeliz. dedicação que eles lhe fazem despertar na alma. resignada à sua sorte. se desprezava. mas um senti- mento normal. cit. Dr. estimulando-a ». A inferioridade desta não era apenas um.o QUE É A EDADE MEDIA 123 Éa é importância da alma que lhe atestam. ob. Gonçalves Cerejeira. bondade.a ideia consagrada nas legislações de todos os povos da Antiguidade. frase da Antigui« quando a mulher um belo mal». profundamente radicado nas ideias e nos costumes. Ela. . o tesouro a que trazia era faltava-lhe (l). Laray diz verdades Ião profundas.

à qual era preciso dar filhos robustos. conforme a civilização e o meio social em que vivia. A mulher era ainda ignorada. e fazer do prazer o fim da vida. era consagrar o egoismo. No fundo. A degra- dação feminina estava profundamente radicada no ânimo de todos os povos. variando a esfera da sua acção. pro- veniente da concepção pagã da vida. destituída de razão e de vontade. cuja lei suprema ena o prazer. porém. como em Sparta. facto moral. Naquelas mesmas em que as leis gravam uma certa igualdade entre os sexos. Para o egoismo masculino. e de todo o encanto do seu sexo. aqueles dons que são a principal força do seu encanto.124 o QUE É A EDADE MÉDIA A mulher na sociedade antiga era um mero instrumento de prazeres. Era um mais que um facto legal. ficando no altar da pátria. estava como consa- pedra basilar o desprezo pela mulher. de todas as civilizações antigas. a mulher era apenas um instrumento do seu apeifeiçoa- . a mulher reconquistava a sacri- sua liberdade à custa do seu pudor.

o QUE É A EDADE MEDIA 125 mento. Era mister mudar o eixo do mundo. É também interessante o testemunho de Charles Gide a respeito da grande obra da . sária Para a sua reabilitação era necesrevolução moral nas ideias e nos uma costumes. elevada perdida. fez dela um como uma paixões. visão de luz acima do fogo das O Cristianismo revelou-lhe o . restituiu à mulher a sua dignidade ser puríssimo. O homem começou desde então a vêr nela um si ser. Sim. mas ainda superior a cristão era solicitude mesmo. com o seu vigor ascético. O ascetismo pela desinteressada a mulher: revelára-lhe alma. o ter Ao Cristianismo cabe a honra de feito. mundo levou-a grandioso da sua alma rica e imortal a novas descobertas das virtudes mais heróicas. o Cristianismo. O homem foi pouco a pouco compreene de dendo o que havia de puro tro dela e bom den- amou-a por ela mesma. : O Cristianismo tez mais ainda para a conquistou mulher a admiração do homem. nâo só igual.

do seu critério. D.. Dr. Goné o Cristianismo o (l) 01).*" no seu livro —A Mulher. Virofínia de Castro e Almeida A Sr.l!á6 o QUE É A EDA DE MÉDIA reabilitação da mulher por intermédio do Cristianismo: «A emancipação da mulher pelo Cristianismo encontrava um obstáculo mais podei'oso ainda uas tendências materialistas do paganismo».o a. então a mulher. em que que são. afirma Cerejeira (1). de um verdadeiro alcance. é tão emite afirmações sem dúvida. apenas se instrue. «Durante dois afirma ela. no meio da ignorância geral o Sr. cil." . da sua bondade. e na Aprendem e as línguas clássicas algumas sciências. séculos. por entre o rever- berar das suas contradições. da Edade Média. n. da grandeza ». da sua alma «E çalves assim. dá mais uma vez provas da sua capacidade. da sua inteligência. os mosteiros ofereceram à mulher uma educa- ção superior à que lhe era dispensada vida profana. fecunda.

daqueles que afirmam o que não vezes porque não viram. Mas ha mais Os códigos medie vaiSjinformados todos por princípios cristãos. ou vendo a reali- dade. . O mado. de pureza que só o Cristianismo lhe podia prestar». Ha nela uma profundeza de can- dura.o QUE É A EDADE MÉDIA 127 educador mais esclarecido da inteligência feminina ». elevaram em breve à categoria de instituições jurídicas os preceitos divinos em que assen- tava a elevação da alma da mulher. ainda. a ofuscaram mentindo tal : « A mulher tinha não sai da Edade Média. Cristianismo não veiu contrariar a tem afir- natureza humana. Não amaldiçoou o amor conjugal.. e o que ela sentia àcêrca da mulher dizem-no ilustres críticos aqueles da arte. A arte da Edade Média pôs nela o que de fé a alma cheia sentia. como alguém veiu antes elevá-la. como entrado. fez dele Elias Pécaut e Carlos um dever.. Baude vêm ainda muitas iluminar com uma frase célebre o espírito é.

I. Wisifjothico. o que na Edade Média. já na época . o de legitima direitos a legitima defeza dos seus e tantas outras garantias da sua personalidade. lei 8.\ Cod. til. I. wisigótica Proíbe-se ao marido exercer sobre (1). Liv. prendiam ao pátrio A mãe direito conquistou tutela pouco a pouco (3). IV. Roma !. Pois.*. Wishiothico. que a Anti- guidade lhe negara. liv. sendo-lhe mesmo tempo permitido quebrar os laços a que tão rigorosamente poder (2). . ela um ao poder despótico poder que lhe era reconhecido pelo antigo direito.°. D) Sob o ponto de vista artístico. liv. Wisigothico. A nossa Edade é ainda neste ponto filha legitima da Edade Média. . lit. Cod.». lei 5.128 o QUE É A EDADE MÉDIA O e que a mulher era na antiga foi ! . Ill. 3. lei '^. o que é a (1) (2) (3) Cod. III. tit.

Os ecos formas mais ou menos repercutir-se não deixaram de atravez o século do renascitarde. correndo a humedecer cora a esponja da 9 . sobre tudo no campo da Lite- ratura? A luz da o Edade Média não vento se extinguira com impetuoso podia ser. tradicionais.o QUE É A EDADE MÉDIA. E mais . é o desabrochar prima- veril duma arvore robusta. já desde muito longe. Nem mesmo com seus infantilidade que as ela aspergira raios cristalinos vestes da das nações. mento fontes clássico. eis que a Edade Média surge do esquecimento.. história. com todo o seu espírito criador.. senão uma lucta constante entre o espírito da Antiguidade e o espírito medieval. 15i9 história das nações europeias. que a Renas- cença mais não é que a Edade Média chegada á sua maturação. da pois Renascença. de inspiração já por êle acusavam licores uma certa acrimónia nos que derramavam. sempre robusto e vicejante. quando as fornecidas. já Averiguado está hoje em face da noutro logar registei o facto. nas suas nítidas.

sem receio de errar.130 o QUE É A EDADE MÉDIA sua tradição. o século se em que mais voiu operar uma tiansformação . por intermédio de si mesmo. da sua candura. letras. do tuições. por exemplo. diz Brunetière. as já exaustas inspirações do génio. se o espírito medieval. não são hoje os temas da Edade Média. Orgulhosa pelas suas conquistas e cheia de júbilo pelas fulgurações do seu engenho. No mundo das nacionais. da sua fé viva. afir- maria que este último o que mais está prevalecendo. verificando-se ainda o mesmo sob foi outros aspectos de natureza diversa? < O século XIX. é eu. por intermédio da Renascença. desde a mais alta Renascença. ela volta com todo o vigor das suas instiforça da sua alma. me preguntássem qual o espírito hoje predominante em todas as manifestações da inteligência humana — se o espírito E se agora da Antiguidade. com toda a seu sentimento. os temas os que maior consagração têm.

afirm. do seu objecto. Na pessoa destas duas personagens encontramos nós mais uma vez definida a « poderosa gestação e única da Edade Média». e pompas da tradição. mais não é que uma reacção deli- berada contra o ideal clássico. « nota-se também as a mesma para o regresso às formas me- As mentiras fizeram (1).a André Pératé Toda uma exausta e glacial se desmorona. e os povos da Europa. a literatura ».o QUE É A EDADE MEDIA 131 radical na própria noção da obra literária. 617. Na arquitectura tendência dievais. com do século xix em toda a Europa. como a grande causa impulsiva do renascimento quinhentista. criar. cujo objecto. tinham determinado já. Petrarca e Bocácio «os primeiros dos mo- dernos». pág. . tratam apenas (I) Un Siécle. já Antiguidade a sua época. do seu destino e dos consequentes meios da sua realização efeito. longe de de renascer ». E.

em breve se faz sentir em todas as nações do mundo europeu. dominam a sua época e difundem ao longe a doutrina neogótica. da arte da Edade Média. durante longo tempo presa à Renascença clássica. Foi com esse espírito artístico medieval que êle restaurou Notre-Dame de Tolosa e Paris. VioUet-le-Duc —o grande arquitecto francês. essa não espo- . no meio do scepticisrao a que conduziram as tormas e a mania clássica. À semelhança da França. Este despertar dos espíritos para o mundo da tradição nacional. e que em Vézelay» igre- Carcassona reedificou muitas jas que se achavam em ruínas. Viollet-le-Duc refugia-se obstinadamente no estudo da Edade Média. começa a apologia. sem reservas. rável. a Alemanha. dá toda a sua actividade à renovação da Edade Média. e a aplicação exclusiva dos princípios da arte gótica. Teórico admi- seus escritos como sua obra monu- mental. A Inglaterra. da qual muitos edifícios procedem.132 o QUE É A EDADE MEDIA Disputam os e artistas o objecto do ideal.

são ainda confirmados pelo facto seguinte: é que a magestosa ponte que atravessa o Tamisa. . De contrário apareceria o conceito do progresso intelectual dos povos. sobre quatro grandiosas torres E) Sob o ponto de vista scientifico. a Edade Moderna suplan- excedeu os tempos medievais. É um isto facto. a decoração mara- vilhosa do palácio de Westminster. A beleza gótica encontrou ainda no professor Ruskin um caloroso entusiasta. Desde há muito que ela possuía um apóstolo fervoroso da arte gótica êle próprio — Welby Pugin — que inspira. assim devia ser. Assim tinha des- que ser. assenta góticas. sciências.o QUE É A EDADE MEDIA 133 rou O exemplo da França. se não executa. levantada em 1894. Nas tou. cuja verdade ressalta do menor con- fronto entre as duas edades. Todas estas tendências e esforços com os seus efeitos. Mas será motivo de admiração? Não.

intimas e seus principios mais essenciais (l) Un Siécle. por exemplo. . certas e principios. as controvérsias excitadas na França como na na Itália. pelo tradicionalismo feito ontologismo. a experiência a o raciocinio. tinham já sentir em Roma a necessidade do regresso à filosofia christã da Edade Média. No campo da Alemanha e e filosofia. 401. prudência. pág. só aqui se cla- encontram aliadas ao mesmo tempo a e a profunda razão das coisas. principalmente à d'Aquino. cuja natureza os tempos modernos aceitaram nem modificações.134 o QUE É A EDADE MÉDIA Mas também podemos desde que leis aii já advertir se fixaram como axiomas sem alteração. de Santo Thomaz De reza resto. a audácia e se procura explicar o exterior. a simplicidade e e a grandeza. afirma Jules Didiot. inte- quando rior mundo ou segundo suas causas mais (I).

sem fazer algumas considerações. onde tem como principais representantes Taparelli. concebidos e formulados á luz da Edade Media.o QUE É A EDADE MEDIA 135 Este regresso aos principios da Escolástica. embora muito genéricas. à memória grandiosa desse . não à tentação de encerrar esta primeira parte do meu trabalho. Mgr. e na Alemanha o exemplo é seguido No mundo das sciências físicas e da astronomia. E como todo o movimento scientífico medieval encontrou em Dante resistirei o mais pers- picaz investigador. Gonçalez pelo jesuita Klentgen. Bourquard e outros. Rosset. Na Espanha. iniciado na Itália cora Liberatore e em breve se comunica à França. o analista mais profundo e consciencioso. a Edade Moderna é ainda uma participante legítima dos princípios scientíficos. patrocina a mesma causa.

caracteres ou menos figura deslumbrante. quasi sempre imediata. do esboço. da sua vida escritor. . quasi dez vezes secular. embora e rápido. nítidos. essa personagem dadeiramente notável e grandiosa. como com essa ver- homem como mais ressaltaria. onde o mundo civilizado tem ido libar o néctar das suas mais sublimes inspirações. sem prejuizo dos meus afazeres. uma época Dante! . . si que por só seria suficiente para iluminar os tem- pos chamados «medievais». esse génio portentoso que legou à posterioridade todo um mundo rejuvenescente. — Quem E é Dante?! a repercussão longínqua dos ecos ro- bustos de toda uma edade.13G o QUE É A EDADE MÉDIA génio portentoso que fez palpitar sob sua pena cristalina a história de toda dez vezes secular. esse farol brilhantíssimo. Quem era? Se me fosse a mira dado dispor de tempo suficiente. é o florir opulento duma época grandiosa. requerendo sempre e uma realização satisfação melódica. desabrochando em .

. longe de abalar. Só o infortúnio e pode dar exercício às virtudes o germe do seu heroísmo. . Sem estes abalos e estas vicis- situdes cruéis. Iniciarei os traços da sua biografia pela duma página admirável que literária na obra de um dos seus maiores admiradores. fazem soltar os voos aos grandes talentos. «Ah! O infortúnio. . e desenvolver As adversidades acrisolam os as árduas circunstâncias grandes caracteres. vergéis de esperança. mesmos se teriam conhecido a nem estes si mesmos Não É preciso agitar os licores odoríferos para eles que exalem os seus perfumes. era conceitos da mais sã filosofia e scenteihas de sciência.. perfumes de amor. ale- vanta as almas nobres! O infortúnio é a pedra de toque do génio. em ele- vadas concepções de ideal literatura. dão nova vida e nova força ao espírito.o QUE É A EDADE MEDIA 137 caudais de sentimento. e fulgurações de — Quem reproducção recrutei é Dante ? . não se teria conhecido a viri- lidade heróica de muitos homens.

. com toda dignos a magnanimi- mostrando-se do papel que aprouve à Providência fazer desempenhar neste mundo das mais amargas ».0 — Dante. necessário se torna que resistam cora toda a constância. § 1. Eles são como que ao súmula da sua o vida. Mas de qualquer forma. o homem quem quizer A que fontes deve recorrer estudar a sério a vida de Dante? Muitos são os trabalhos de que poderá e deverá valer-se. razão enquadrei esta série de períodos no esboço biográfico desse génio iniciando-o a mesmo.138 o QUE É A EDA DE MEDIA basta que os perseguidos da fortuna se resi- gnem dade. a ideia por eles expressa é deveras eloquente. provações. misteriosas escadas que talidade conduzem à imor- Com alguma grandioso. diversos de carácter e de valor histórico. . explicando e mesmo tempo homem o escritor.

Além dos dados biográficos que eles encerram. do seu carácter e estampar nas páginas dos seus livros todos os caracteres da sua individualidade. em que o jovem poeta narra poeticamente e sob veste ale- . rela- tivas às vicissitudes exteriores da sua vida. que são por via de regra a parte primitiva e o mais fiel espelho modo de pensar. verdadeiramente excepcional. Nas diversas criações génio. não somente o genuíno retracto da personagem. de indução em indução. contêm elementos preciosos. e a história autêntica do desenvolvi- mento gradual do seu pensamento.o QUE É A EDADE MÉDIA 139 Geralmente conhecido é o princípio que para conhecer um escritoi-. se em nenhum os escritor como em acima deste Dante verificam princípios enunciados. temos. até à descoberta de grandes ver dades. Desde a Vita Nuova. Ora. é necessário conhecer-lhe os escritos. e universalmente conhecido é também o princípio que os escritores costumam do homem. mas ainda uma cópia de preciosas notícias. apoia- dos nos quais nós vamos.

tivera a infe- Quando ainda muito licidade de perder seu pai. jóven. país. não uma menos intensa. uma abreviação. Todas as suas obras. até à Questão da Água e da Terra. idade em que gura. Seus linha- eram de nobre gem. Contava nove outra amar- anos apenas. No baptismo de que Dante é recebeu o nome de Durante. Alighieri refere donde já eram oriundos os de Ferrara. Alíghiero e Bela. Assenta nos factos seguintes o esboço biográfico da vida de Dante : — nascera em Florença no mês de Março de 1265. descendendo da mui nobre família Cacciaguida. pois. um tratado admirável de sciências físico-naturais. encontramos por toda a parte um repo- sitório interessantíssimo de notícias biográficas e alusões a vicissitudes da sua vida. devem ser consi- deradas como a fonte primacial da sua vida intrínseca e extrínseca. viera imprimir-lhe .140 o QUE É A EDADE MEDIA górica a história dos seus infantis amores. essa O próprio Dante se a nobre procedência logo no *^ começo do capítulo xvi do Paralzo.

o QUE É A EDADE MEDIA 141 na alma esse estigma de vaga melancolia que êle deixa naturalmente transparecer nas Estas principais maraviliias do seu génio. Refiro-me aos seus amores com a jóven Biatriz. Desde então a sua imaginação não mais deixou de confraternizar com a imaginação e o espirito de Virgílio que o acompanha em todas. donde lhe proveiu o entusiasmo pelas letras clássicas e pela filosofia. Nasceram esses quando oito anos. Foi por intermédio deste seu primeiro mestre. a quem jamais que Dante se deixara de ser reconhe- cido. afectos. pôs em contacto com os poetas antigos. foi a jóven menina contava apenas Mais adiante veremos que precisa- mente nestes amores com Biatriz que Dante personificou o seu entusiasmo pela Teologia. filha dum tal Folco Portinari. também florentino. ou pelo menos na maior parte . circunstâncias exerceram uma influência decisiva sobre toda a sua vida. Da sua primeira educação cncarregou-se Bruneto Latini. objecto para êle duma admiração quasi religiosa.

Biatriz. esposou M.*"" Gema Donati. da familia .. facto este que lhe acarretou maguas pungentissimas. Biatriz morrera. Dante celebrou-a na sua de « Vita Nuova » em versos cheios amor e imortalisou-a na Divina Comédia. toda aquela série de episódios. aquelas suas visões de filósofo. Mas a estas considerações outro logar está reser- vado. e fez derra- mar lagrimas amargas. êle físicas particular objecto Aos 25 anos de todo o idade. onde se dedicou dum modo especial ao estudo da Teologia. é-lhe pela morte arrebatada. Dante Alighieri cursou sucessivamente as universidades de Bolonha. Os estudos das sciências foram também para das suas atenções. de analista!. aquelas descrições magistrais. glória.. que era enlevo da sua alma. A sua viagem ao inferno.142 o QUE É A EDADE MÉDIA das criações da sua fantasia. Pádua e Paris. mas a saudade que dela sentira jamais se apagara no seu coração. tornado o imortal monumento da sua Mais ou menos coagido pelos seus amigos.

prendendo-se profun- damente com os acontecimentos que então se estavam desencadeando. fora proscrito Porém. sobejo exílio conhecidas. a sua prudência e firmeza. Bocacio diz dele: ouvida. e ouvido. em — Filho duma íamilia guelfa. ter Desse matrimónio houve seis filtios. foram pouco dignos da gloria de seu Tal gráfico é. Dante com- batera. Não de obstante. vitima duma da pátria pelos seus. que pai. casamento que parece não sido dos mais auspiciosos. é também dissima a sua história. desde o principio. scindida guelfos e gibelinos. ao lado dos guelfos contra os gibelinos. muito em resumo. nenhuma se derrogava. Pelo que agita- respeita á sua vida publica. proporcionáram-lhe no uma atmosfera de considerações. a lei «Nenhuma legação era nenhuma se respondia. nenhuma sem que se promulgava. nenhuma guerra Dante fosse consultado .o QUE É A EDADE MÉDIA 143 dos Donati. sobre tudo ao dois partidos norte da Itália. traição. o esboço bio- da sua vida particular. publica se dava.

contámo-lo no número dos priores —a foi meira dignidade da República.144 o QUE É A EDADE MÉDIA Quatorze vezes fora enviado como embai- xador a junto de diversos príncipes. ao ser- viço do senhor de Ravena. a 23 de abril de 1869. o escritor Com o título de — Traduzione dantesche — foi inserido no «Observatório Romano» um nós belo artigo. da sua J. na cidade de Ravena. § 2. Vilani conta assim a sua morte « Em 1321. no e mez de setembro. de 13 de junho a 15 de Outubro. morreu o grande poeta. O desempenho êle de um tal cargo para a fonte de todas as desgraças do resto vida. de Flo- rença. junto do qual Dante vivia». após o seu regresso duma embaixada a Veneza. E em pri- 1300. Começava assim: «É certamente para italianos uma ufania e uma gloria . valente Dante Alighieri.° —Dante.

e a ura facto. se em mas também mostra Dante homem de sentimento profundíssimo.o QUE É A EDADE MÉDIA 145 singular ver que os doutos engenhos de todas as nações se aplicam. Dante Alighieri avançou tanto. a uma pessoa . o desejo de imergir-se nas águas do misticismo e de levantar os seus tabernáculos nos áridos desertos da Escolástica. talvez mais do que nós. não só era prosa. É muito ligar-se 10 peculiar da alegoria de Dante real. É assim que pelas obras do os maiores vultos da Itália traduzem a sua grande admiração «sumo vate» Em verso o todos os seus escritos. maravilhosamente perspicaz. ao estudo e interpretação do máximo actual entre os nossos poetas». e de engenho. que na esfera da razão foi tão nada lhe ficou por explorar. longe. Corasigo trouxe êle ao mundo o talento.

confundindo-se inteira- mente com a significação moral ou metafísica de uma personagem alegórica. Mas ainda que Gema. como Biatriz. transfigurar essa pessoa. a dama consola- dora. tenha sido. mas sim em relação ao seu carácter simbólico. por qualquer circunstância.*^"® Gema Donati. É natural que a dama piedosa que con- tinuara a alimentar o sentimento de Dante. segundo o seu costume. que dezoito meses depois da morte de Biatriz. gerado sob a influência dos amores de Biatriz.146 o QUE É A EDADE MÉDIA idealizar depois esse facto. moral ou metafísica. da sabedoria humana. se tornara sua esposa. a ponto de o seu carácter real e histórico desaparecer. . uma pessoa Dante. verdadeira. fosse efectivamente real. real. a qual.se belas e virtuosas damas de supõe ter sido M. uma personagem sem dúvida uma das mais Florença. não a cantara como tal na sua poesia de trovador. Dante considerava como sendo a personificação e da filosofia. que. como fizera com Biatriz. ou como personifiÊle não se ocupara dela cação intelectual. em seus versos.

Em uma escrita das suas obras. exprimindo-se assim «A dama de que me enamorei. o poeta indica claramente qual o carácter simbólico da dama consoladora. à qual Pitágoras filosofia ». E agora pregunta-se: como deveria Dante Alighieri conceber o seu amor a Gema. deu o nome de a mui bela filha do Imperador do Universo. pois. decerto não na sua poesia. qualquer que fosse amor que Dante houvesse dedicado à consoladora. que. dama se ou à sua futura esposa. mente ocupava em relação a esta. personificação da filosofia. personificação da Teologia sua Segundo o valor que na aquela. em relação ao seu outro amor ? a Biatriz.o QUE É A EDADE MEDIA 147 E qual seria a dama consoladora poesia de Dante? idria de que ser Gema ou símbolo a podia na Era a filosofia. e a qual contêm um comentário às suas Canzoni. não como símbolo da filosofia. É o evidente. após os foi meus primeiros amores. . muitos anos depois. a cantou Gema. no Convito.

de 1293 a 1298. compuzéra. como . a sua imaginação perde-se nas áridas regiões da metafísica. não já a Biatriz. a filosofia não tinha uma do independente da existência Dogma. simbolo da Salvação.148 o QUE É A EDADE MEDIA Para compreender o seu juizo sobre o valor relativo de ambas. uma série de cantos líricos e que diferiam. Viviam confundidos. cumpre lembrar ainda que na Edade Media. dedicando-se à poesia. mas a dama consoladora a filosofia. no objecto no tom geral. na segunda ocupa-se ainda das questões sóficas. — Quer dizer: em Dante. das poesias do primeiro periodo das suas pro- duções suas literárias. porque êle celebrava nas canções. temos a considerar duas fases: na primeira. sobre tudo antes do século existência XIII. constituindo uma sciência única. filo- mas que êle simbolisa em Gema. como filósofo e como lírico. Dante.

aceitando mesmo. . entre os quais se não pode estabelecer exacta. a Fé Ghristã. As primeiras obras de Dante foram as canzoni e os sonetos. porém. uma ordem cronológica As suas produções são quasi todas em em latim o opúsculo — De Monarchia Mundi — em que expõe a necesitaliano. o acordo e submissão da filosofia à Teologia. com os espíritos mais autorisados do seu tempo. Devemos. tendo sidade da separação do poder espiritual e temporal. não obstante o seu apego ás sciências filosóficas. e o De Vulgari Eloquio — em que procura provar que o dialecto italiano substitue muito bem o latim. não chegou ao ponto de admitir a absoluta independência destas relativamente á Teologia.o QUE É A EDADE MEDIA 149 em Biatriz tinha simbolisado a Teologia. notar que Dante.

e o Convito. o Purgatório e o Paraizo — expressões da Justiça Divina. antes que ela se afundasse nos abismos dos tempos. que é o monu- mento mais importante da e literatura italiana. por assim dizer. um dos mais importantes das literaturas é mundiais. por nós já conhecida. crítica A Divina Comédia é o que é ? — O que que essa repercussão do génio.150 o QUE É A EDADE MEDIA Em italiano escreveu : La Vita Nuova. que. da sua Misericórdia Infinita e da Gloria Eterna. Mas a sua obra prima. . resumir em si toda a Edade Média. A Divina Comédia veiu. . Aqui se encontra fielmente retratado o estado miserando da sociedade italiana no decurso dos séculos xiii e xiv. poema em três cantos — o Inferno. § 3. elevada ás ideal f— O mais complexas concef)ções do . é um comentário ás suas canções. como vimos. a <í Divina Comédia».° — Apreciação !. em que descreve o seu amor por Biatriz.

as ideias do seu tempo. como Dante. Divina Comédia é ura poema alegóteológico e filosófico. sem dúvida o mais profundo e original da Edade Média. poude aliar tão intimamente. sempre aceso e flamejante. Na é Itália fundáram-se escolas para comen- tar e explicar este assombroso trabalho. . mui sabiamente.o QUE É A EDADE MEDIA 151 é esse cirio. que o fruto duma vasta erudição e duma poderosa imaginação poética. vel um foco inextinguí«fiat luxy> de luz intelectual. é « o símbolo gracioso templo de Sião. a crença. de um lampadário gigantesco luz. que pendem raios de alumiando através os séculos a esfera é indefinida do pensamento humano. afirma Simões Dias. Nela aproveita o poeta. que tanta luz tem espargido sobre todos os povos do mundo. dando solução a tantos problemas da sua vida intelectual. como a define um do escritor Brazileiro. o que rasgou o caos da Edade Média». moral e social ? A Divina Comédia. A rico. Ninguém. e cria ficções novas dá corpo ás abstracções da metafísica.

152 o QUE É A EDADE MEDIA a sciência e a poesia. encerradas no seu canto imortal. no domingo 3 de Outubro de 1337. à decorados e repetidos em todas as e ofici- academias. liam e copia- vam aqueles porfia. como os do povo. tem-se dila- tado cada vez mais. destinados a salvaguardar da acção destruidora dos tempos esse grande monumento. Florença criava uma cadeira de literatura dantesca. que eram. as verdades profundas. a parte Por toda surgiram glosas e comentários. presa por uma cadeia de ouro às azas dos séculos. se- . para explicar aos de netos dos concidadãos contemporâneos Dante. e até em todas as assembleias mesmo nas prisões. à qual subia Bocácio. diz Pinto de Campos. versos sublimes. Meio século depois da morte do poeta. Apenas divulgado o seu enorme poema. Veneza. nas. admiração ». Piza e outras cidades. foi recebido com universal Os mais abalisados mais humildes filhos literatos. Milão. « A faina de Dante.

trabalhos. Para isso. Na sua o que personalidade homérica reiíniu tudo a filosofia tem de mais transcen- dente. expondo-a regular e meto- dicamente. erigindo cadeiras Dante tico Aligiiieri foi grande teólogo. difundidas em todos os seus escritos. filósofo polí- irrepreensível e consumado. nos últimos três séculos da Edade Média. Foi Ozanan que. de política e religião: problemas que agitavam tão vivamente os mais altos engenhos. Até então ninguém tinha êle discorrera pensado no modo como sobre todos os mais árduos problemas de metafísica. foi-lhe necessário recolher todas as ideias filosóficas. de moral.o QUE É A ÈDADE MEDIA 153 guiram-lhe dantescas. de mais consolador e Antes de Ozanan. o exemplo. em todos os seus . confilo- propensão para as estudos seguiu tornar conhecido o espírito da sofia dantesca. Dante não era conhecido como filósofo. e a Teologia terrível. pela sua filosóficos.

Tomaz d'Aquino. «Ninguém. afirma um escritor. mais árduo conhecimento do espirito humano. Em Dante veriíicou-se o bem conhecido lema de Aristóteles: «A poesia é mais ver- dadeira que a história». explendor no século A o obra de Dante no arrojado do desenho e na grandiosa mestria da execução. investigou. com a lilosofia de S. Magno. que. foi mais dominado da sua obra. nos seus piincipios tunda mentais. leitor verdadeiíamente filosófico. para o seu chamando a atenção do espírito. Mas Dante não horisontes se perdera só nos vagos já da fantasia. criador e o espirito o amplexo profundo da poesia dos tempos que foram com a poesia das edades novas.JÚ4 o QUE É A EDADE MEDIA O espirito filosófico de Dante irmana. o provámos. ninguém escreveu sob o golpe de comoções mais sinceras. deduziu. nem seguiu com mais lágiimas o desenvolvimento do seu ideal». a mais poderosa espirito aliança entre o tradicional. é. atingiu o seu xiii. . e de Alberto como sabemos. êle obser- vou.

sobre tudo as que se referem à cosmologia. presagiadas. António Stoppani. diz dele: Eu creio ser de suma importância para e glória do grande homem da Itália. é. aceitá-las. demonstradas e afirmadas nestas poucas páginas do sumo poeta. se}a. que as feito sciências modernas mais não têem que confirmá-las. obra a impor- que já me referi. um tantíssimo documento sciências físicas. para a história das e ao mesmo tempo um monumento da valor de Dante. assim como para e divulgada a história das sciências físicas.o QUE É A EDADE MEDIA 155 A Questão da Agua e da Terra. que esta dissertação dantesca apreciada um pouco melhor do que o tem sido até hoje. vastidão. do engenho e do O « insigne geólogo. tirando delas infini tas aplicações racionais ou práticas». . ficas foi o maior escritor da Edade Nele se encerram verdades scientífísica. na verdade. pôde dizer-se que Dante Média. Pesando bem todas as verdades. de ordem tão profundas.

falando de naturais. Demonstrou como princípios scienlíficos: — ser a lua a causa piincipal das marés. a força centripeta e a esferecidade da terra.15G o QUE É A EDADE MÉDIA Sem dúvida! hoje Muitas verdades que são axiomas no mundo da sciência. da nas metafísica leis ou da Teologia. — o agrupaatracção mento boreal dos continentes. a esférica porque seja a mais perfeita entre as diversas formas dos corpos. diz. mas sim natureza. que a terra é redonda. como ou as E o que é ainda mais para leis admirar de é que Dante. —a universal e a elasticidade dos vapores força motriz. mas porque a lei da gravitação determina que um líquido não pôde atingir o seu estado . já naqueles tempos não escaparam à perspicácia profética de Dante Alighieri. factos não vai procurar provas deles no abstracto dos princípios nas transcendentes subtilezas aristotélicos. pela experiência ou pelo cálculo. Ele não por exemplo. — a igualdade do nível do mar.' quanto da melhor se podiam então demonstrar pela observação.

foi Donde se que também Dante um dos que . atribuiu o amadurecer das frutas à o oxigénio. Mas ha mais. antes de Galileu. emquanto todos os pontos da sua superfície não estiverem equidistantes do centro de atracção. antes de Leibnitz. estabeleceu a experiência infere como fonte do saber. deduziu a classificação dos vegetais. Tais são. notou o princípio da razão sufi- ciente.o QUE É A EDADE MÉDIA 157 de equilíbrio. A saber: indicou claramente os antípodas e o centro de gravidade da terra. os princípios scíentífícos a que conduziram as acuradas investigações de Dante Alíghíeri. luz que faz exalar Antes de Lineu. segundo o testemunho do profundo geólogo António Stoppani. e sobre o arco-íris. segundo os seus órgãos sexuais. hoje axiomas Outras verdades que são no mundo da sciêncía. ainda: Fez mais antes de Newton. antes de Bacon. atribuiu á lua o fluxo e movimento de refluxo. não escaparam já á sua perspicácia tão profunda. fez enge- nhosas observações sobre as scintilações das estrelas.

158 o QUE É A EDADE MÉDIA na Edade Média tiveram profunda admiração pelo método experimental. Nós somos os herdeiros legítimos de tudo aquilo ela produziu. . é o funda- mento de todas as sciências e artes humanas». Esperienza.. como meio eficaz para aquisição de verdades Êle scientíficas. porque a experiência é a fonte. foi que Dante sciências tão vate quem não dirá na poesia como nas modernas? Edade Média? Mas. o que é a Resumindo: a Edade Média chocou todo o movimento que social que se lhe seguira. C. 94. si giammai à la pnwvi. Em face destas indicações. chegadas ao maior des- (t) Paraíso. Quer dizer : « Desta objecção pôde livrar-te a experiência.. As nossas insti- tuições são as suas. se quizeres alguma vez tentá-la. mesmo o corrobora claramente numa das suas obras: «Da questa instanzia piiò deliberarti. Ch'esser suol fonte rivi di vostfarti* (1). II.

o QUE É A EDADE MEDIA

159

envolvimento, diz G. Kurt.

A Edade Média

pôs termo à escravatura, chamando todos
os povos à liberdade

— trabalho secular este,
a unidade im-

que consistiu

era desfazer, anel por anel, a

cadeia da escravidão.

A Edade Média quebrou
perial

do mundo, substituindo-lhe as nacio-

nalidades.

A Edade Média
nas,

criou as línguas moderfoi

pelas

quais o latim

sendo insen-

sivelmente iliminado; a Edade Média abra-

çou a Fé Cristã com amor

e

combateu por

Ela sobre todos os terrenos, e
as suas armas.

com todas
insti-

A Edade Média

fez

do Papado a
;

tuição mais respeitada do universo

inau-

gurou a distinção do espiritual
a Edade Média fundou
tucional
e
a

e

temporal;

monarquia consti-

o governo representativo, duas

coisas ignoradas da Antiguidade e hoje indis-

pensáveis á existência politica dos povos.

O

que

é a

Edade Média

?
isto.

Isto e

muito mais do que

ERRATA

l'Á(i.

I.INIIA

ÊIÍRO

EÍIKSIIA

XIII

19
1^2

sobre
Dissimila-lo
Vraltí

sob
Dissimula-lo
Vrai
Credenciai**

49

85
93

10

K)

Credencias

.

°— Os terrores do ano 1000 — Miséria.° — Dante.. 2. Capítulo IV — Conquistas da Edade Média: Sob o ponto de vista religioso ...° § õ. 27 2..° — Apreciação crítica 1.. T IX Capítulo Capítulo § § —O (jue é a Edade Média . .." — Lendas da Edade — Concílio de Macon Média . o escritor S. » >» » » » » político." — .. o homem.. 108 . 30 33 38 47 na Edade Méd § 6..0 138 144 150 161 Errata . uma 70 77 A lepra Capítulo III A Edade Média. individual artístico 115 » » » » * . épocí 81 101 101 orgrânica.. 19 II § 1. 4° — A ignorância — Feudalismo .. 128 133 135 » scieutíQco Dante — Dante....ÍNDICE Dificuldades iia empresa VII Prólogo ..» § 3. .

MHIÍ A. . NO Mf.S DK AHRIL DE E MH.ACAIiOi: l)K IMIMUMIK-SE : : : : : KSTA GB HA NA Imprensa Académica l)K CaiI. NOVE: : : CENTOS DEZOITO .

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* ^ •'*'« / ó m8 D 118 M37 Martins. Mamiel Luiz O que <« a Edade Média? PLEASE DO NOT REMOVE FROM THIS CARDS OR SLIPS POCKET UNIVERSITY OF TORONTO LIBRARY .