ALLES, Gregory D. Religião [Considerações Posteriores], in JONES, Lindsay (ed.) Encyclopedia of Religion – Second Edition.

Chicago: McMillan, 2005, Tradutor: Agnaldo Cuoco Portugal (Brasília, 2012). Pp. 7701-7706. RELIGIÃO [CONSIDERAÇÕES POSTERIORES]. O verbete de Winston King na primeira edição da Encyclopedia of Religion apresenta bem uma posição clássica nas ciências da religião: a religião resulta de um tipo particular de experiência, que King chama de “consciência profunda”. Mesmo na época em que a enciclopédia foi publicada pela primeira vez, essa posição era fortemente contestada. De fato, certos traços defeituosos concorrem contra as considerações de King: a dificuldade de denotar a experiência religiosa de um modo que não seja obscuro (“consciência profunda”) ou circular (“a experiência religiosa é religiosa precisamente porque ocorre num contexto religioso”), por exemplo, e a presença de dois tratamentos diferentes da experiência – um em “Definições” e “Características Distintivas da Experiência Religiosa” e outro em “Experiência Sagrada” – separados ao máximo um do outro, talvez de modo a esconder a repetição. Alternativas a essa posição estavam certamente disponíveis à época. Elas incluíam o tratamento de Melford Spiro à religião como “uma instituição que consiste em interação culturalmente padronizada com seres sobrehumanos postulados culturalmente” (Spiro 1966, p. 96); a descrição de Clifford Geertz da religião como sistema de símbolos que integra visão de mundo e ethos; e a tese de Peter Berger de que a religião é a mais alta ordem de legitimação disponível para os seres humanos protegerem suas construções culturais contra a ameaça perene da anomia. Nas últimas décadas, porém, a atenção do meio acadêmico se voltou cada vez mais para o próprio ato de conceptualização, deixando de lado a tentativa de conceituar religião. Pode-se dizer que deixou de tratar a religião como uma coisa para tratá-la como uma palavra, um conceito, uma categoria. Ao menos três tópicos merecem consideração a esse respeito: a história da religião, estratégias de definição e diferentes propósitos discursivos que levam os seres humanos a conceituar religião. História da Religião. A palavra inglesa religion claramente deriva da palavra latina religio, tal como suas cognatas em outras línguas europeias, mas a derivação do substantivo latino é incerta. Ela é ligada mais comumente a um de dois verbos latinos, religare (juntar ou apertar) ou relegere (coletar novamente, repassar de novo [como na leitura]). Embora a etimologia incerta crie dificuldades para se escrever sobre a história do termo, isso tem pouca consequência prática, pois não há boa razão para a etimologia determinar o uso atual. Ao traçar a história da religião da antiguidade clássica até o presente, o teólogo católico alemão Ernst Feil discute três significados sucessivos do termo. Um número tão pequeno dificilmente faz justiça ou à história da religião ou aos estudos pormenorizados de Feil (e outros) a respeito, mas eles de fato servem como um guia inicial preliminar. Segundo Feil, o significado central de religio na antiguidade era “observação cuidadosa, escrupulosa, cheia de reverência” (Feil, 2000, p. 18). Em outras palavras, a religião denotava um conjunto de ações morais ou uma

mas um modo de vida particular orientado para o serviço de Deus. Schleiermacher reformulou os conceitos centrais dentro do cristianismo. como teólogo. monges e freiras como “religiosos”. às vezes. Ele também defendeu que. ele preferiu.2 espécie de justiça – especificamente. a vida dos monges e freiras cristãos. O próprio Feil reconheceu a possibilidade de que um terceiro sentido de religião pudesse surgir. não era nem crença no que as pessoas educadas usualmente rejeitavam (as afirmações da igreja acerca dos milagres e da revelação) nem adesão a uma moralidade restritiva. isto é. Contudo. os pensadores começaram a pensar a religião como distinta do político e. resgatar as pessoas educadas para a igreja – a religião adquiriu um sentido muito diferente. insistia Schleiermacher. Deus. . Esse sentido é ainda preservado hoje quando falantes do inglês usam o nome para se referirem a padres católicos. A essência da religião era um sentimento. p. uma intuição do universo como um todo e de si mesmo como parte deste. após a Segunda Guerra Mundial. A religião genuína. como Talal Asad. uma investigação que Michel Foucault chamou genealogia. a revelação. segundo Feil. reformulada por James George Frazer como “uma crença em poderes maiores que o homem e uma tentativa de ser-lhes propício ou agradá-los” (Frazer. tal como o milagre. profecia e graça. imortalidade. lembrando do “cristianismo sem religião” de Dietrich Bonhoeffer. que fosse adequado às várias tradições de meditação que estavam sendo importadas para a Europa e América do Norte da Ásia. mas as forças políticas e discursivas que operaram sobre eles. Outra importante tendência surgiu com a noção de Edward Burnett Tylor de religião como crença em almas e espíritos. era o desalento diante das guerras que varreram a Europa após a Reforma. a religião no sentido de uma experiência interior distintiva tinha se tornado insustentável. Religio designava não algo que todo mundo tinha ou fazia. Outros estudiosos. um comportamento adequado em matéria de ações dirigidas aos deuses ou a Deus. na altura da segunda metade do século vinte. ela encontrava sua manifestação suprema no cristianismo. Contudo. Em linha com essa concepção. embora a intuição religiosa fosse universal. exploraram não a mudança de significados de religião. Durante a idade média europeia. mas uma força particularmente significativa que levou à formulação da noção moderna de religião. além do desejo de salvar a crença e a prática das garras da crítica racional. e a tentativa posterior do Iluminismo de resgatar a religião para as pessoas educadas – ou talvez melhor. seguir Wilfred Cantwell Smith e abandonar o termo religião e prol de fé. Diante de batalhas que enterravam uma confissão após a outra. uma versão mais específica dessa definição se tornou importante. É tão difícil investigar essas forças aqui quanto o é pesquisar os significados mutantes da religião. 1935. Com a aparição em 1799 do famoso Religion: Speeches to Its Cultured Despisers de Friedrich Schleiermacher. idealmente separada deste na prática também. 222). A concepção de religião de Schleiermacher certamente não era a única opção disponível durante os duzentos anos que se seguiram. que Feil identifica com seu segundo significado.

que as pessoas deveriam se arrepender de suas falhas. como até que ponto as diferentes classificações locais são assimiláveis e se uma assimilação abrangente. sociais e políticas derivavam. inato e não carente de qualquer revelação especial. tais como as várias formas de cristianismo. Em aspectos significativos. mesmo que eles não conceituem essa classe explicitamente como religião. religião não é uma taxonomia num sistema exaustivo e hierárquico. permaneceu a ideia de religião como uma esfera distinta da vida que tem uma essência universal. simples demais ver a religião como meramente um construto europeu e norte-americano. (Um morcego é ou um pássaro ou um mamífero. alguns pensadores do século dezenove consideraram a religião como sendo a fonte primeira da qual todas as formas culturais. ele de fato aponta para questões cognitivas significativas que envolvem a história da conceptualização da religião. Assim como nos séculos que se seguiram a Colombo os historiadores naturais na Europa adaptaram termos locais para categorizar a nova flora e fauna que eles encontraram. sincretismo religioso e editos reais regulamentando religiões em lugares como a China e a Índia antigas. caso desejável. então. Religião é uma categoria local que os estudiosos e outros aplicaram para além dos limites de sua origem. Baseado nos indícios de polêmicas interreligiosas. não é evidente que a mente use o mesmo aparato conceitual para os construtos humanos. sua punição na vida após a morte. que Deus deveria ser adorado. contudo. Por exemplo. Esse argumento não toca em várias questões. Contudo. Entretanto. o suposto núcleo universal da religião. qual seria sua taxonomia . Durante o Iluminismo. Pode ser. mas se decidimos que o confucionismo não é uma religião. Lord Herbert of Cherbury. Martin Riesebrodt defendeu que as pessoas em muitas partes do globo. Um desses pensadores. é mais bem concebida como religião ou como. a noção moderna de religião é uma tentativa europeia. Além disso.3 Eles também insistiam que as diferentes alegações em favor de revelações particulares tinham pouca importância se comparadas com o núcleo comum ou essência que todas as confissões partilhavam. reconhecem há muito tradições religiosas diferentes como pertencendo à mesma classe mais ampla. que toda virtude receberá sua recompensa e todo vício. identificou o que ele chamava de “noções comuns acerca da religião”: que Deus existe. norte-americana e particularmente protestante de lidar com a diversidade. Contudo. por exemplo. com categorias mutualmente excludentes. de modo a ser distinto de várias religiões empíricas ou “positivas” (como elas eram chamadas então). dharma. passou a ser chamado de “religião natural”. não apenas na Europa e América do Norte. Scott Atran defendeu que o esforço de estender as classificações universalmente em Biologia foi bem sucedido porque a mente humana emprega em todo lugar certas estratégias hierárquicas na classificação da vida orgânica. Schleiermacher e outros pensadores românticos rejeitaram a ideia de que a religião natural poderia existir separada das religiões positivas. os europeus adaptaram simultaneamente o termo religião para dar sentido ao comportamento e ao pensamento desconhecido que eles estavam encontrando com riqueza inédita. Edward.

limitar concepções de religião a definientes substantivos é provavelmente austero demais. era a distinção entre definições funcionais e substantivas. Mais uma vez. concepções nas quais os definientes (“definidores”. Por exemplo. Alguns estudiosos preferiram concepções de religião que são funcionais. no caso da definição de Spiro. eles mais usualmente a concebem em termos de uma conjunção explícita ou implícita de propriedades. isolado dos propósitos reais para os quais uma definição está sendo formulada. os estudiosos repetidamente discutiram vários problemas relativos a uma adequada conceituação da religião.) A . Uma extensão apropriada é certamente um critério adequado pelo qual avaliar definições. não pode respondê-las. Se estão corretas as observações acima – e ainda não é certo que elas estejam – pode não ser razoável esperar o tipo de classificações universalmente aceitáveis no estudo das religiões que se encontra numa ciência natural como a Biologia. isto é. 1953. Outro problema muito discutido se origina nas reflexões de Wittgenstein acerca de semelhanças de família (Philosophical Investigations. plural de definiens) descrevem o que as religiões fazem. contudo. não têm a estabilidade e distinção que as populações de organismos têm. Uma delas.) Um exemplo poderia ser descrever a religião como um conjunto de símbolos que. o “antropomorfismo” de Stewart Guthrie. como a de George Orwell “o que quer que ande em quatro patas ou tenha asas é um amigo”. Em todo caso. Uma objeção típica a concepções assim diz respeito ao problema da extensão: elas frequentemente incluem fenômenos que muitos estudiosos não aceitam identificar como religião. o “meios para transformação última” de Frederick Streng). (Eles geralmente omitem as possibilidades de definição permitidas por disjunções. em Animal Farm. introduzida por Melford Spiro. 6667): a possibilidade de conceber a religião politeticamente ao invés de monoteticamente. tais como certas formas do budismo Theravada e o confucionismo. Estudiosos como Spiro responderam com a exigência de que as concepções de religião sejam substantivas. Durante a segunda metade do século vinte. (Definientes funcionais não devem ser confundidos com explicações funcionalistas. religiões e outros produtos culturais não produzem sempre cria com as mesmas características dos pais e assim. A adequação de um conceito depende de se este pode ser propriamente formulado e se serve ao propósito em questão. Um exemplo seria a definição de Spiro de religião como uma instituição que consiste de interações culturalmente postuladas com seres super-humanos culturalmente postulados. ou seja. uma consideração histórica só pode levantar questões acerca da adequação de uma categoria como religião. ao incorporar os mais importantes valores de uma sociedade. que contenham apenas definientes que se refiram a propriedades que constituam a religião. Embora os estudiosos ocasionalmente definam a religião em termos de uma propriedade única (por exemplo. Estratégias de Definição. a objeção típica tem a ver com a extensão: tais concepções frequentemente excluem o que geralmente são vistos como exemplos de religião. pp.4 alternativa?) De fato. evoca emoções coletivas que criam solidariedade social. a definição funcional que se acabou de dar incluiria o patriotismo como uma religião.

Elas devem ter uma extensão apropriada. a religião é uma categoria cujos protótipos são o judaísmo. Essa abordagem pode certamente prover um recurso inicial. Num mundo globalizado. (8) Uma organização mais ou menos total da vida do indivíduo baseada na visão de mundo. Para pesquisadores europeus e americanos. (5) Sentimentos caracteristicamente religiosos. mas isso não foi feito. águias e outras espécies semelhantes são pássaros. Outras religiões são religiões na medida em que são mais ou menos análogas a esses protótipos. definições devem geralmente obedecer muitos critérios formais. A mente também reconhece alguns membros da classe como melhores representantes que outros: tordos. gaios azuis e águias são pássaros prototípicos. ou uma imagem geral do mundo como um todo e o lugar do indivíduo nele. que se aplica de modo consistente e preciso. é possível formar diretrizes acerca de que coleções de propriedades são suficientes para fazer de algo um exemplo de religião. (6) Oração e outras formas de comunicação com os deuses. quando tomadas em conjunto. nenhuma conceituação politética de religião proposta até agora foi particularmente útil. As pessoas aprendem o que uma palavra significa ao generalizar a partir de exemplos específicos. 141-142) Em princípio. (9) Um grupo social reunido pelo dito acima. avestruzes e pinguins são incomuns. William Alston sugeriu que a presença de um número não específico de qualquer uma das seguintes características tornaria um conjunto de práticas culturais uma religião: (1) Crença em seres sobrenaturais (deuses). Elas não veem nenhuma propriedade particular como necessária à religião e consideram a presença de uma coleção de propriedades selecionadas de um conjunto principal como suficiente para fazer de um item específico um membro da classe chamada religião. (4) Um código moral que se crê ter sido sancionado pelos deuses. os estudiosos podem estipular o que um termo significa (como Isaac Newton definiu “derivada” no cálculo pela primeira vez) ou eles podem descrever como uma comunidade linguística usa uma palavra (como o Oxford English Dictionary define o que os matemáticos entendem por “derivada”). Além disso. pp. talvez não nessa ordem. (Alston 1967. que recorre ao papel presumido dos protótipos na formação das categorias.. isto é. judaísmo e islamismo. Saler sugere que os estudiosos deveriam abordar a categoria da religião da mesma maneira. gaios azuis. considerá-las todas como necessárias e. a mente humana formula uma categoria implícita pássaro. o cristianismo e o islamismo.5 abordagem tradicional tem sido a de tratar essas propriedades monoteticamente. (7) Uma visão de mundo. Consequentemente. (3) Atos rituais focados em objetos sagrados. ao se aprender que tordos. Benson Saler tentou outra abordagem. suficientes para definir religião. É também possível definir religião de modo estipulativo ou lexical. Por exemplo. Isto é. (2) Uma distinção entre objetos sagrados e profanos. dificilmente se pode presumir que a comunidade de estudiosos interessados no que as tradições europeias chamaram de religião inclua apenas pessoas cujas categorias dominantes tenham sido formadas pelos protótipos de cristianismo. porque nenhuma produziu resultados consistentes e intersubjetivos. Definições politéticas relaxam essas exigências. Por exemplo. mas sua utilidade é limitada a uma área geográfica ou linguística específica. Elas devem ser claras – por exemplo. não devem ..

Elas devem também ser apropriadas para os propósitos para os quais foram formuladas. Propósitos Discursivos. shopping centers (espaços sagrados da sociedade de consumo) e a bolsa de valores (uma questão de preocupação última). “Religião é apenas criação do estudo acadêmico. ao mesmo tempo em que reconheçam diferenças cruciais. Estudiosos da religião frequentemente discorreram como se propósitos acadêmicos requeressem que a religião tivesse limites precisos. consciência e religião. xi). Smith. Outros acharam a concepção de religião em tais análises muito ampla e exigiram uma demarcação da categoria precisamente. mas clareza. Ela é criada para os propósitos analíticos do acadêmico.6 usar palavras que são mais obscuras do que o termo que está sendo definido. Esse último critério tem um impacto nos outros. Benson Saler defendeu que o conhecimento acadêmico requer de seus conceitos não precisão. mesmo se ele tem margens indistintas. Jonathan Z. Tal conceito obedeceria aos requisitos básicos do discurso acadêmico: que as concepções sejam coerentes e permitam ao estudioso dizer algo esclarecedor. defini-lo como sagrado). por exemplo. discursos diferentes fazem diferentes exigências à religião. Na medida em que Smith chama atenção para a relação entre conceituações de religião e os propósitos para os quais elas são formuladas. seja direta seja indiretamente (como definir sagrado como santo. psicoterapia. os direitos humanos e as políticas públicas. Elas devem evitar circularidade. alguns estudiosos analisaram uma longa série de instituições incomuns como religiosas. Z.”) Um conceito claro de religião. acerca dos dados. incluindo o marxismo (uma análise com utilidade política). uma definição não precisa ressaltar todos os exemplos de religião. o patriotismo e mesmo a bolsa de valores partilham com religiões prototípicas. e mesmo eventos esportivos (altamente ritualizados). e quando se pede o significado de santo. esse direito inclui a liberdade de mudar . Numa passagem muito comentada. A religião também desempenha papéis importantes fora da academia – no discurso contemporâneo sobre o Direito. ou seja. considere o gracejo de Samuel Johnson. ele afirma algo importante. seja interpretativo seja explicativo. Apesar desse apelo. ela precisa apenas ressaltar todos os exemplos de religião pertinentes ao projeto em questão. 1982. não devem incluir o termo a ser definido entre os definientes. (Acerca dessa diferença. adotada pelas Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948: “Todos têm o direito à liberdade de pensamento. Muitas nações garantem liberdade religiosa – a separação entre igreja e Estado é menos amplamente aceita – e assim o faz o Artigo 18 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. “O fato de que há algo como o crepúsculo não significa que não possamos distinguir entre o dia e a noite. Smith escreveu. Mas sua posição tanto atribui intervenção independente em demasia aos acadêmicos – os acadêmicos não criaram sozinhos a religião – quanto negligencia os propósitos significativos e não-acadêmicos para os quais as pessoas a têm usado. durante a última metade do século vinte. Por exemplo. O critério de adequação merece mais reconhecimento no estudo das religiões do que o que tem recebido. De fato. patriotismo. Por exemplo. permite que os estudiosos explorem com discernimento o que instituições como o marxismo. por seus atos imaginativos de comparação e generalização” (J. p.

7 sua religião ou crença. que elas eram de fato religiões. contudo. O quanto visões de religião variantes em termos locais são compatíveis com um direito universal continua sem ser determinado. afirmou ele. Entretanto. Acadêmicos criticam a adequação das concepções jurídicas e políticas. A maioria das comunidades – cristãos na América do Norte e Europa. veem essa concepção de liberdade religiosa como norte-americana e europeia ao invés de universal. mantém a linguagem de religião (nos artigos 10. em 1966. Ele defendeu que “não pode haver uma definição universal de religião. Comunidades minoritárias tais como a Igreja da Unificação e a Igreja da Cientologia defenderam. os propósitos do discurso acadêmico. ficam em algum grau de tensão com as necessidades do discurso jurídico de definições precisas que permitam decisões consistentes. . mas porque a própria definição é o produto histórico de processos discursivos” (Asad. de manifestar sua religião ou crença em ensinamento. muçulmanos nos estados de maioria islâmica – consideraram por vezes ser de seu próprio interesse afirmar que certas práticas e convicções não eram religiosas. O Futuro da Religião. mas culturais. muitos historiadores e estudantes da religião – e outros também – têm suspeitado da categoria. 29). p. adotada em 19 de setembro de 1981. 12 a 14 e 19). o Juizado Constitucional da Suprema Corte da Índia considerou que o hinduísmo “pode ser descrito em termos gerais como um modo de vida e nada mais”. Alguns sugeriram substituir religião por termos como fé (W. mas reformula os direitos de acordo com os ensinamentos islâmicos. Aqueles que são condenados em julgamentos se voltam para os acadêmicos em busca de consultoria especializada em religião e citam obras acadêmicas para justificar suas posições. seja sozinho seja em comunidade com outros e em público ou privadamente. e assim mereciam as proteções e privilégios que advêm desse status. tais como a tendência a conceber novos movimentos religiosos como cultos. Alguns. O antropólogo Talal Asad foi muito mais circunspecto. Tal como Feil. o julgamento de casos que surgem dentro do discurso legal acerca da religião apresenta desafios de precisão. prática. é que os estudiosos determinem o que eles querem dizer com religião caso a caso. que frequentemente coloca em questão os limites habituais na busca de esclarecimento. visão de mundo (Ninian Smart) formação social ou cultura. por exemplo. assim como os limites precisos da religião na maioria dos sistemas legais. não apenas porque seus elementos constituintes e relações são historicamente específicos. contrariamente à opinião comum. e que a palavra hindu denotava residência em certo território mais do que filiação religiosa. No começo dos anos 2000. Muito mais do que no discurso acadêmico. os europeus que se opunham ao uso de véus por mulheres muçulmanas alegavam que essa mesma prática era ou religiosa (na França) ou não-religiosa (na Alemanha). Smith). hindus na Índia. C. Na prática. adoração e observância”. às vezes sem sucesso. Por exemplo. e a liberdade. O que se requer. por causa dos diferentes status legais da religião nos dois países. a Declaração Islâmica Universal dos Direitos Humanos. essas questões também realçam uma tensão entre os discursos acadêmico e jurídico. Alguns tribunais concordaram.

Ao mesmo tempo em que essas críticas vão inevitavelmente questionar conceituações de religião. 2003. Michel. 2000. incluindo o critério de adequação. Despland. Uma exposição clássica da religião como legitimação. New York. Daniel. Scott. Essaios de autoria de um círculo internacional de estudiosos. os projetos para os quais as definições são formuladas são sempre sujeitos a crítica. Cambridge.. 3rd-8th September. 1967. U. elas não necessariamente requerem que a religião como um conceito seja abandonada. Genealogies of Religion: Discipline and Reasons of Power in Christianity and Islam. James George. Talal. Binachi. inclusive crítica moral e política. The Magic Art and the Evolution of Kings. 1935. Uma tentativa pioneira de conceber a religião politeticamente. vol. The Ideology of Religious Studies. Bibliografia Alston. Além disso.8 Os argumentos de Asad o deixam vulnerável à acusação de ter cometido a falácia genética (o pressuposto de que uma descrição da origem e desenvolvimento de uma afirmação pode determinar sua adequação para os presentes propósitos). 2000. vol. Gérard. On the Concept of Religion. 1994.. N. Porém. eds. 1990. Asad. Ernst.. La religion dans l’histoire: le mot. Y. 1990. Waterloo. The Sacred Canopy: Elements of a Sociological Theory of Religion. Frazer. Fitzgerald. Uma apresentação concisa das posições e achados de Feil. William P. Uma tentativa de examinar a base cognitiva das ciências. N. Uma crítica da religião com base no trabalho de campo e docência na Índia e no Japão. 7. Timothy.Y. Feil. “Religion. The Notion of “Religion” in Comparative Research: Selected Proceedings of the sixteenth Congresso of the International Association for the History of Religions (Rome. 1992. Ugo. e Vallée. a ideia. Atran. ed. The Western Construction of Religion: Myths. Ontario. The Golden Bough. l’idée. Baltimore. Garden City. .K.) Roma. Berger.” In Encyclopedia of Philosophy. Conceituações específicas de religião precisam obedecer a certos critérios formais. Knowledge and Ideology. O capítulo 4 contém a formulação de Frazer para a distinção entre ciência e mágica. 1993. ed. la realité (A religião na história: a palavra. a realidade). Bighamton. Dubuisson. Cognitive Foundations of Natural History: Towards an Anthropology of Science. concebe-se amplamente hoje em dia que definições são específicas em relação a contextos e propósitos e que não há razão para que seja diferente com a religião. seguidas de respostas de uma variedade de acadêmicos e teólogos alemães. New York. 1967. Baltimore. 1. New York. Seu primeiro capítulo é agora uma contribuição clássica para a genealogia da religião. Peter L. focando na classificação biológica.

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10 tradição representada pelo verbete de Wiston King. culturais e religiosas. Gregory D. Alles (2005) . combinando críticas políticas.