CONSTRUMETAL 2010 – CONGRESSO LATINO-AMERICANO DA CONSTRUÇÃO METÁLICA

SÃO PAULO – BRASIL – 31 DE AGOSTO A 2 DE SETEMBRO 2010

A

APLICAÇÃO

DA

FERRAMENTA

DE

CERTIFICAÇÃO

LEED

PARA

AVALIAÇÃO DE EDIFÍCIOS SUSTENTÁVEIS NO BRASIL Monique Cordeiro Rodrigues moniquecordeirorodrigues@gmail.com Doutoranda, Mestre em Engenharia Civil, Rio de Janeiro, RJ, Brasil Gracimeire de Carvalho Duarte gracimeireduarte@globo.com Técnica em Edificações, Rio de Janeiro, RJ, Brasil Maria Christina Rodrigues Xavier de Souza guilero@terra.com.br Arquiteta e Urbanista, Rio de Janeiro, RJ, Brasil Patrícia Faccioli Justi Gutierrez Vieira pattyjusti@globo.com Arquiteta e Urbanista, Rio de Janeiro, RJ, Brasil Resumo. Os impactos ambientais de edifícios são amplamente pesquisados por instituições governamentais, de pesquisa e o setor privado. Estes estudos se baseiam na análise de ciclo de vida, através de metodologias para avaliação ambiental de edifícios e que tiveram seu inicio na década de 90, como forma de apoio as metas ambientais estabelecidas a partir da ECO 92. Atualmente, existem vários sistemas de avaliação de edifícios, conhecidos com ferramentas de certificação, distribuídos entre praticamente cada país europeu e Estados Unidos, Canadá, Austrália, Japão e Hong Kong. Estes sistemas, em sua totalidade, concentram-se na dimensão ambiental de sustentabilidade. Estes sistemas de avaliação são utilizados com indicadores de sustentabilidade de ambiente construído e descrevem os seus impactos para os envolvidos na indústria da construção. A utilização destes sistemas no Brasil estão cada vez mais difundidas, existindo inclusive projeto em desenvolvimento para a criação de sistema de avaliação nacional. Enquanto este sistema não entra em vigor, sistema que encontrou maior aderência e aplicabilidade para os padrões locais foi a ferramenta LEED (Leardership in Energy and Environmental Design), sistema de avaliação desenvolvido nos Estados Unidos, e que vem sendo utilizado em maior escala para a certificação dos edifícios nacionais. Este artigo apresenta aspectos relativos à aplicação desta forma de avaliação para edifícios no Brasil, incluindo uma análise das diferenças das condições sociais, econômicas e ambientais sensíveis das do Brasil. Palavras-Chave: Avaliação, Ambiental, Edifícios, Sustentabilidade, LEED.

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INTRODUÇÃO

Uma das atividades humanas que causa maiores impactos ao meio ambiente é a construção civil, particularmente as fases de construção, operação e demolição dos edifícios. E por este motivo, estão sendo intensificados os números de pesquisas objetivando a redução destes impactos. Com este foco, e procurando definir estratégias para minimização do uso de recursos não renováveis, economia de energia e redução de resíduos da construção, muitas agências governamentais, instituições de pesquisa e o próprio setor privado vêm estimulando estas pesquisas. O desenvolvimento das metodologias para avaliação ambiental de edifícios, realizado na década de 90, como na Europa, Estados Unidos e Canadá, foi fundamentado sobre o conceito da análise do ciclo de vida (LCA – Life Cycle Analysis), como parte das estratégias para o cumprimento de metas ambientais locais estabelecidos depois da ECO 92. Estes métodos tinham o objetivo de encorajar o mercado a aumentar os níveis de desempenho ambiental, através da intervenção dos materiais empregados na obra e na simplificação para orientar projetistas ou sustentar a atribuição de selos ambientais para edifícios. Estes pontos concentram-se unicamente na dimensão ambiental da sustentabilidade. O Brasil, bem como os demais países em desenvolvimento, tem um longo caminho a percorrer tanto no aspecto ambiental quanto na melhoria das condições humanas, com redução de desigualdade social e econômica, atrelados ao equilíbrio fundamental do custo e do beneficio ambiental envolvido em sua utilização. Assim, qualquer estudo de sustentabilidade no país deve contemplar as várias dimensões da sustentabilidade e qualquer iniciativa neste sentido, entre elas a avaliação de edifícios, deve alinhar-se a essas premissas. 2 MUDANÇAS NA ATIVIDADE DE CONSTRUÇÃO CIVIL

Muito se tem discutido sobre sustentabilidade e suas metodologias, aplicações e impactos na construção das atuais edificações. Porém, o termo sustentabilidade é baseado em três componentes de desenvolvimento (Triple Bottom Line): social, econômico e ambiental. Assim, é necessário que seja repensada a forma de projetar e construir utilizada até os dias de hoje, que busca apenas o lucro e prazos, em detrimento do bem estar social e ambiental. A forma de projetar e construir não deve ser realizada de forma estanque, onde cada atividade do projeto ou construção funciona independente, é necessária uma visão mais holística do processo. A aplicação correta da sustentabilidade leva a atitudes multidisciplinares, onde 2

todos fazem parte do resultado final, com a integração e comprometimento para garantir os resultados finais esperados. Isto significa o resgate na observação e estudo do entorno que envolve uma edificação, possibilitando que, a partir desta análise, seja possível determinar a melhor implantação, os melhores acessos, os melhores materiais e que gerem menores impactos nos três componentes do desenvolvimento sustentável. A necessidade de otimização e gestão dos recursos naturais para diminuição dos impactos no meio ambiente, principalmente na área da construção civil, criou conceitos e diretrizes que devem ser considerados em todas as etapas do ciclo de vida do empreendimento, que se iniciam na fase de planejamento e permeiam todas as fases subseqüentes: projeto, implementação/construção, operação/manutenção e comissionamento. Para tanto faz-se necessária a criação de sistemas de avaliação que apresentem parâmetros a serem seguidos e medidos, a fim de garantir menores impactos e melhores performances do sistema e do edifício. Os sistemas de avaliação de desempenho ambiental, conhecidos como certificações, foram criados neste sentido. 3 SISTEMAS DE AVALIAÇÃO DE DESEMPENHO AMBIENTAL DE EDIFÍCIOS

Atualmente muitos países europeus, além dos Estados Unidos, Canadá, Austrália, Japão e Hong Kong, possuem um sistema de avaliação de edifícios. Embora não exista uma classificação formal neste sentido, os esquemas de avaliação ambiental são divididos, em sua maioria, em duas categorias. Uma é desenvolvida para ser absorvida facilmente pelos projetistas, seguindo as necessidades do mercado e sendo responsável por receber e divulgar o reconhecimento do mercado pelos esforços dispensados para melhorar a qualidade ambiental de projetos, execução e gerenciamento operacional. São de configuração mais simples, e estão vinculados a algum tipo de certificação de desempenho, como é o caso do LEEDTM (U.S. Green Building Council). Na outra categoria, estão os esquemas de avaliação orientados para pesquisa. Neste caso, a ênfase é o desenvolvimento de uma metodologia abrangente e com fundamentação científica, que possa orientar o desenvolvimento de novos sistemas. Entretanto, sua utilização no mercado é mais complicada.

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LEED™

O desenvolvimento dos trabalhos do Leadership in Energy and Environmental Design (LEED™) tiveram início nos Estados Unidos em 1996. Seu objetivo inicial era facilitar a transferência de conceitos sobre construção ambientalmente responsável para os profissionais e para a indústria de construção americana, além de proporcionar reconhecimento no mercado pelos esforços investidos para esta finalidade. A versão piloto (LEED™ 1.0) foi lançada em janeiro de 1999, e avaliava o desempenho ambiental do edifício de forma global, por todo o seu ciclo de vida, numa tentativa de considerar os preceitos essenciais do que constituiria um green building. Sua avaliação é pautada em um nivelamento mínimo, correspondente aos prérequisitos, cujo comprimento é obrigatório. Satisfeitos todos estes pré-requisitos, passa-se à etapa de classificação do desempenho, onde os créditos são atribuídos de acordo com o grau de conformidade dos itens avaliados. Atualmente já existe a versão 3, lançada em abril de 2009, que possui como grande diferença a incorporação das necessidades com cuidados nas instalações dos canteiros, que não existia nas versões anteriores. As características do LEED™ foram desenvolvidas, consensualmente, por 13 categorias da indústria de construção, representadas no conselho gestor da metodologia. Além disso, o apoio de associações e fabricantes de materiais e produtos favoreceu a ampla disseminação deste esquema nos EUA, que vêm também sendo utilizado no Canadá. O sistema é constituído por uma lista de verificação (checklist) que atribui créditos para o atendimento de critérios pré-estabelecidos que permeiam as fases de projeto, construção ou gerenciamento, que contribuam para reduzir os impactos ambientais de edifícios. Com uma estrutura simples, o LEED™ é um meio termo entre critérios prescritivos e especificação de desempenho, e tem como referência princípios ambiental e de uso de energia consolidados em normas e recomendações de organismos reconhecidos, como a American Society of Heating, Refrigerating and Air-conditioning Engineers – ASHRAE; a American Society for Testing and Materials – ASTM; a U.S. Environmental Protection Agency – EPA; e o U.S. Department of Energy – DOE. LEED™ é um sistema de avaliação que possui parâmetros de sustentabilidade que permitem uma avaliação dos ambientes construídos, analisando o projeto e a construção, utilizando estratégias focadas no atendimento aos parâmetros mais preocupantes, como eficiência energética, eficiência hídrica, redução de emissão de CO2, controle da qualidade do ar interno, gestão de recursos e seus impactos, para validar edificações sustentáveis de alto desempenho 4

energético; analisa também os mais variados aspectos, desde a escolha do terreno até a fase de comissionamento. Esta avaliação é determinada através do atendimento a pré- requisitos, que são itens obrigatórios, e de um sistema de pontuação, que avalia o quanto uma edificação ou construção é sustentável. Quanto maior a pontuação maior é o nível de sustentabilidade do ambiente construído, podendo ser classificado através de quatro níveis (certificado, prata, ouro ou platina). Uma das dificuldades de aplicação da ferramenta LEED™ no Brasil é o fato do sistema de avaliação considerar as práticas construtivas, de projeto e aspectos climáticos dos Estados Unidos, que são diferenciados aos do Brasil. É de extrema dificuldade a implementação de conceitos amplamente difundidos nas construções americanas, pois os mesmos não podem ser aplicados aqui. Aliado a isso, a receptividade do mercado à introdução deste tipo de metodologia também é diferente. Nos Estados Unidos, onde surgiu o LEED™, pode-se verificar um crescente número de edifícios certificados e as adesões governamentais sendo cada vez freqüentes, enquanto que no Brasil esta incorporação é feita de forma mais reduzida, dificultada por alguns casos onde se busca apenas a visibilidade causada quando da divulgação nas mídias. 4.1 CATEGORIAS AVALIADAS PELA METODOLOGIA Na Tabela 1 são apresentadas as categorias avaliadas pela metodologia LEED™ com o grau de profundidade dada a cada uma destas. A Tabela 2 apresenta a distribuição de pontos relativos às categorias avaliadas. As estruturas do LEED™ são organizadas em função de dados em que investidores, projetistas e construtores precisam tomar decisões tais como implantação, uso de água e energia, materiais e ambiente interno. Pode ser utilizada como uma ferramenta de auxílio à tomada de decisões, uma vez que os aspectos avaliados no LEED™ têm peso idêntico e a sua estrutura permite que apenas os quesitos pelos quais se pretende obter a certificação sejam avaliados, havendo uma separação clara entre os créditos relativos ao projeto e os relacionados à fase de execução, sem interferências entre os mesmos. Devido às facilidades, é considerada a ferramenta mais amigável de utilização e na fase de projeto facilita a prática profissional. Contudo, deve-se estar atento que, em determinadas condições, o resultado da avaliação pode ser incompleto e não necessariamente refletir o desempenho global do edifício.

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Tabela 1 – Escopo do sistema de avaliação ambiental de edifícios Sistema de avaliação Consumo de recursos Emissões Qualidade do Ambiente interno Longevidade Processo Fatores contextuais LEEDTM – grau de profundidade Alto Médio Médio Médio Médio Médio

OBS 1: Dados comparativos entre diversas metodologias de avaliação

Tabela 2 – Distribuição de categorias de impacto ambiental Categoria Estratégias de implantação Uso de água Uso de energia Materiais e resíduos Prevenção de Poluição Qualidade ambiente interno Qualidade dos serviços Gestão ambiental processo Desempenho econômico LEEDTM (%) 20,3 7,3 21,7 18,8 0,0 18,8 2,9 10,1 0,0

OBS 1: Categorias feitas pelos autores consagrados, a fim de facilitar a comparação entre diversas metodologias de avaliação

4.2 SISTEMA DE PONTUAÇÃO Diante da complexidade de aplicar os conceitos de avaliação de desempenho, a maior parte das metodologias é orientada a dispositivos (featurebased), isto é, trabalham com listas de verificação, que concedem créditos em função da aplicação de determinadas estratégias de projeto ou especificação de determinados equipamentos, sendo uma saída com nível de complexidade muito menor, que presume que a utilização de estratégias e equipamentos levará, com grande possibilidade, a alguma melhoria de desempenho, ainda que ela não possa 6

ser estimada. O problema é que, apesar de ser facilmente incorporado como ferramenta de projeto, o fato de um edifício atender completamente à lista de verificação não necessariamente garante o melhor desempenho global, isto porque as listas de verificação embutem o risco de favorecer a qualificação de edifícios que contenham equipamentos em detrimento do seu desempenho ambiental global. No LEED™ todos os créditos têm peso idêntico, ainda que sejam notáveis percentuais maiores de créditos em determinadas categorias (Tabela 2). A certificação de desempenho é conferida com base no total de créditos obtidos, não sendo necessário, portanto, atender a um número mínimo de créditos em cada uma das categorias. Para se alcançar a certificação LEED™ é necessária uma análise prévia, no inicio do empreendimento, de todos os parâmetros exigidos pelo sistema de avaliação, estabelecendo metas a serem atendidas pela equipe multidisciplinar de projeto e construção, observando o atendimento de cada crédito e aos pré-requisitos. Assim, se faz necessário se repensar na forma atual de se projetar e construir, através de eliminação de paradigmas e conscientização da força de trabalho que irá atuar em todas as fases do processo. Para a obtenção da pontuação pleiteada é necessária a apresentação de documentos comprobatórios. Sendo assim, se faz necessário um rigoroso controle documental de todas as ações implementadas durante todas as fases do empreendimento de forma integrada, clara e eficaz. 4.3 IMPLEMENTAÇÃO O sistema de avaliação LEED™ analisa aspectos desde a escolha do terreno até a fase de comissionamento. Assim, a correta escolha do terreno para abrigar o empreendimento é de fundamental importância, pois é fator preponderante e inicial, e que definirá o quanto o empreendimento impactará nos aspectos ambientais, econômicos e sociais. A análise dos sistemas de transportes existentes e suas possíveis ampliações ou modernizações, por exemplo, devem ser estudadas para minimizar os impactos do novo empreendimento. Transportes públicos, convencionais ou alternativos (ex: bicicletas), devem ser considerados, com a finalidade de reduzir a utilização de transportes individuais, como o caso dos automóveis. A permeabilidade do terreno influencia e impacta positivamente ou negativamente no sistema de drenagem, seja ele existente ou a ser construído. A implantação do empreendimento deve considerar a melhor orientação solar, para o aproveitamento máximo da iluminação natural e dos ventos predominantes, privilegiando 7

assim, a ventilação natural e o estudo das proteções necessárias para as aberturas e fachadas. Estes fatores quando bem dimensionados reduzem a incidência de raios solares diretos, minimizando a utilização de sistema de ar condicionado e conseqüentemente a demanda de energia elétrica. A gestão das águas, com o seu correto gerenciamento, minimiza e otimiza os recursos hídricos. Assim, o reuso deve ser considerado e o desperdício minimizado. Aparelhos e equipamentos economizadores devem ser especificados, bem como reutilização das águas cinzas, diminuindo a quantidade dos efluentes lançados nas redes coletoras públicas, e desta forma, evitando impactos nos recursos hídricos da localização. Ainda quanto às águas, deve ser maximizado o aproveitamento das águas de chuva (formas de captação, armazenamento, tratamento e distribuição) de forma a reduzir o consumo de água potável e tratada e a descarga nas redes coletoras. Um bom exemplo é a reutilização de águas de piso para irrigação das plantas, que preferencialmente devem ser de espécies nativas, pois estas necessitam de menos rega; e com o aproveitamento das águas provenientes dos telhados e dos aparelhos de ar condicionado para reutilização em vasos sanitários ou torres de arrefecimento, minimizando consideravelmente a utilização de água tratada da concessionária e reduzindo o uso de energia e outros insumos necessários para seu tratamento. Para garantia da eficiência energética do empreendimento, os cuidados com a iluminação natural no lugar da artificial devem ser observados e minimizados, como, por exemplo, a utilização de lâmpadas mais eficientes através de um sistema de automação interligado a uma central, iluminação de tarefa individual e priorização da utilização de equipamentos e processos mais eficientes energeticamente. As corretas proteções para as fachadas e a correta implantação do empreendimento auxiliam e diminuem a demanda de energia. Sistemas de geração de energia através de fontes limpas devem ser considerados, sempre que viável economicamente, buscando a utilização de energias renováveis, como energia solar, biocombustíveis e biomassa, levando-se em consideração as potencialidades regionais. O consumo de energia deve ser minimizado em todos os níveis das atividades, de tal forma a diminuir o consumo de recursos naturais relacionados à geração de energia. Para a eficiente gestão do desperdício a escolha dos materiais a serem utilizados é fundamental e deve considerar todo o ciclo de vida. Assim, os materiais regionais devem ter prioridade desde que sejam ambiental e socialmente sustentáveis e, especificamente, no caso das madeiras, estas devem ser certificadas, a fim de comprovar que a sua retirada não é feita em área de desmatamento. Para a obtenção desses materiais, portanto, é importante a conscientização da equipe de aquisição de materiais e produtos, considerando, além do ciclo 8

de vida do material, os produtos que gerem menor quantidade de resíduos, provenientes de suas embalagens. Sempre que possível deve ser privilegiada a reutilização e a reciclagem de materiais e resíduos dentro do próprio empreendimento reduzindo o descarte para os aterros sanitários credenciados e o seu respectivo transporte, que também impacta na geração das emissões atmosféricas. A qualidade do ar interno garante e controla os níveis aceitáveis para as emissões de compostos voláteis prejudiciais a saúde e ao meio ambiente. A preocupação com a emissão de poluentes atmosféricos deve ser constante e a adoção das melhores tecnologias devem ser aplicadas desde que sejam técnica e economicamente viáveis, reduzindo os impactos ambientais e o aquecimento global. 5 ADAPTAÇÃO DA AVALIAÇÃO AMBIENTAL DE EDIFÍCIOS NO BRASIL

O Brasil vem apresentando adesão ao processo de metodologias de avaliação ambiental, a partir do ano de 2000, onde teve início sua incorporação nos projetos existentes. Foram implementadas pesquisas iniciais, coordenadas pela UNICAMP, que tinham o objetivo de acumular experiência nacional na coleta e tratamento das informações ambientais necessárias para sustentar a avaliação de edifícios, identificar itens de caracterização regional/ local, estimar o impacto ambiental de edifícios comerciais com as práticas construtivas tradicionais. Estes padrões possibilitariam o estabelecimento de metas compatíveis com a realidade brasileira, identificando as possibilidades mais efetivas para intervenções no caso brasileiro, além de orientar o desenvolvimento de pesquisas subseqüentes dirigidas a outras tipologias de edificações. A grande dificuldade de implementar as metodologias internacionais de avaliação ambiental no Brasil é seu atendimento nos itens de avaliação, visto que muitos pontos são relativos às características construtivas do país de origem. O LEED™ é aplicável em todo o território dos Estados Unidos, e vem sendo implementado cada vez mais freqüentemente no Brasil. Já existem diversos prédios com vistas à certificação, e outros que a obtiveram nos diversos níveis certificados existentes. Porém esta utilização causa algumas adversidades. Pode-se citar, por exemplo, a importância significativa à emissão de CO2 durante a operação do edifício pelo método. Esta é uma reação natural de países de clima frio (com demanda intensa por aquecimento) e que possuem matrizes energéticas baseadas no uso de combustíveis fósseis. No caso brasileiro, o controle de CO2 durante a operação dos edifícios não têm o 9

mesmo impacto americano, uma vez que a necessidade de refrigeração dos ambientes é muito mais freqüente que de aquecimento; a eletricidade utilizada é, em sua maioria, proveniente de fontes hídricas; e apenas uma parcela do aquecimento da água é proveniente de combustível fóssil, com uso de chuveiros elétricos ainda dominantes. No Brasil seria mais interessante o controle da emissão de CO2 durante a produção dos materiais de construção implementando-se medidas de controle durante a produção, como a certificação de materiais e processos quanto à emissão de CO2, e controlar separadamente o uso de eletricidade, mantendo um indicador de eficiência energética global do edifício. Deve-se investir em medidas para melhorar a eficiência energética, que podem ser orientadas a dispositivos e tecnologias na fase de projeto, possibilitando a educação de usuários e projetistas e melhoria da qualidade da especificação. Uma vez que estas medidas tornaram-se prática comum, o sistema pode gradualmente mover-se em direção a critérios orientados ao desempenho através de, por exemplo, o controle de consumo total de energia. O LEED™, em outro ponto, controla o nível de iluminação noturna externa aos edifícios, para evitar perturbação de habitats naturais. Este controle no Brasil pode se tornar complicado, para a implementação inicial da metodologia. Isto porque existe uma ausência de desempenhos de referências e de dados ambientais brasileiros. Uma forma de atender este requisito, seria a possibilidade de adequação a realidade brasileira do item, através de um nível de utilização mais baixo, porém mais amplo para abranger todos os principais aspectos ambientais e incluir temas sociais de alguma forma associados à produção de edifícios no Brasil. Para a realidade brasileira poderiam ser inseridos, através de itens que expressem o comprometimento ambiental, como de bônus. Desta forma, encoraja-se a adoção de certas medidas por edifícios excepcionais, sem prejudicar outros não tão avançados. Revisões regulares podem gradativamente converter créditos de bônus em requisitos e garantir a atualização necessária de metas de desempenho e nível de exigência. Finalmente, poderia ser incorporado valor social nos edifícios, como treinamento e campanhas de alfabetização da mão-de-obra, preferencialmente como pré-requisito. Estes parâmetros representam a realidade do contexto brasileiro. Em uma cultura de curto prazo existente no setor de construção nacional, em que a responsabilidade termina com a entrega do projeto ou obra concluído; a apresentação de um plano de manutenção e de um manual do usuário bem detalhado é uma novidade para as construções atuais. Desta forma, a proposta de implementação de avaliação de edifícios necessita do enfoque à construção sustentável, pautada pelos princípios de salto da avaliação ambiental para a avaliação de sustentabilidade de edifícios. Os sistemas existentes para avaliação de edifícios 10

restringem-se ao componente ambiental da sustentabilidade, mas nos países em desenvolvimento, o conceito de avaliação de edifícios deve necessariamente saltar da dimensão ambiental para a avaliação da sustentabilidade e contemplar a dimensão social e a dimensão econômica. Um formato de distribuição de pontos composto por uma série de pré-requisitos complementada por créditos ambientais (tipo "pré-requisitos + créditos + bônus") pode ser positivamente incorporado no caso brasileiro (SILVA et al, 2003). Este formato é particularmente atraente, pois a inclusão de novos itens a avaliar e a conversão gradativa de bônus em créditos e de créditos em pré-requisitos permite o ajuste das metas de desempenho e a atualização construção brasileira de desconsideração de procedimentos de melhoria quando estes deixam de ser exigidos, sugere-se que um item não seja eliminado do sistema como resultado desta conversão gradativa, mas que permaneça no grupo dos pré-requisitos. 6 CONCLUSÕES

No caso do Brasil, ainda é necessária pesquisa de base considerável, e a utilização de um sistema nacional seria o mais apropriado para uma avaliação mais justa e adequada à realidade brasileira. Hoje, já está em fase de implementação o selo PROCEL EDIFICA, além da metodologia de avaliação ACQUA, porém a utilização dos modelos internacionais, principalmente LEEDTM são os mais implementados. O LEEDTM não foi criado para as especificidades do Brasil, impossibilitando o atendimento total das premissas estabelecidas pela avaliação. Assim sendo, se faz necessário um esforço por parte dos projetistas e construtores de um trabalho de adequação das práticas construtivas brasileiras aos critérios apresentados nestas avaliações. Como é um processo novo de se projetar e principalmente de construir ainda é difícil encontrar fornecedores que possuam os dados técnicos necessários à comprovação documental das premissas e metas estabelecidas para a certificação LEEDTM, tornando por algumas vezes difícil a comprovação da eficiência dos materiais e/ou soluções e sistemas adotados e construídos. Somente com a conscientização da força de trabalho envolvida, projetistas, construtores, proprietários e usuários é que será possível a quebra do paradigma atualmente utilizado. As mudanças de filosofia e métodos devem ser implementadas e caberá a todos os envolvidos a responsabilidade pelo controle dos impactos causados pelas atividades de construção e por promover uma construção mais sustentável. Com este comprometimento, todos os esforços 11

devem ser feitos para disponibilizar os recursos necessários, sejam eles materiais, humanos ou financeiros, para implementar boas praticas de gestão ambiental. Destaca-se a necessidade, acima da obtenção de certificações, da incorporação de conceitos sustentáveis nas construções brasileiras, a fim de impactar cada vez menos o meio ambiente e as condições de vida humana. A utilização destes conceitos nas construções facilitará a busca das certificações e melhorará o estilo construtivo do país, proporcionando assim, o avanço do setor da construção civil. Desta forma, com os conceitos implementados, as certificações serão conseqüências diretas e não apenas incorporadas para atender aos requisitos estipulados. Os esforços referentes à criação de bases de dados ambientais de produtos disponíveis nos níveis regional e nacional e, principalmente, para o estabelecimento de desempenhos de referência nacional, que orientem a confecção de novos projetos é fundamental, além de políticas e regulações específicas para o setor de construção e de um esquema de avaliação nacional, que apresente a análise dos impactos ambientais, sociais e econômicos aplicáveis para o Brasil, relacionados à produção, operação e modificação do ambiente construído. O interesse pelo tema está aumentando no país. É cada vez maior o número de edifícios que buscam a avaliação e as empresas de construção que estão interessadas no assunto. A introdução e a aceitação da avaliação de edifícios pelo mercado é fundamental para a sua viabilização, mas o desafio brasileiro maior está relacionado à inserção dos conceitos de construção sustentável na formação acadêmica dos profissionais de construção e a sua assimilação como parte integrante da prática cotidiana de projeto, a fim de que seja retirada a idéia existente de que a incorporação de conceitos sustentáveis geram apenas impactos negativos nas construções.

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REFERÊNCIAS SILVA, V. G. da, SILVA, M. G. da, AGOPYAN, V., 2003. Avaliação de edifícios no Brasil: da avaliação ambiental para avaliação de sustentabilidade, Ambiente Construído, vol. 3, nº 3, pp. 7-18, 2003. LEED. Guide Reference (version 3.0), 2009. ALMEIDA, M. F. L., 2006. Sustentabilidade corporativa, inovação tecnológica e planejamento adaptativo: Dos princípios à ação, Pontífica Universidade Católica – PUCRIO, Rio de Janeiro, 2006. __________, 1988. CMMAD – Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Nosso futuro comum, Editora da Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 1988.

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