CONDE DE f:JCALHO

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DE
PEDR

LISBOA

ll\.RARIA DE ANTONIO MARIA PEREIRA- EDITOR
5o, S1- Rua Augusta- .52, S4
1898
..
ADVERTENCIA PRELIMINAR
Preparando a edição dos Coloquios de Garcia da Orta,
e. tendo para isso de ler uma boa parte dos velbos livro5õ
portuguezes, relativos ao Oriente, prendeu-me por vezes
a altençáo o interesse muito espe.:ial de algumas das via-
gens, chamadas JJr"agens por /erra.
Descoberto o novo caminho para a India pelo Cabo,
encarreirou-se naturalmente por alli todo o movimemo
militar c commen.:ial; mas succedeu, que alguns viajan-
tes portuguezes isolados, levados pela simples phantasia
ou pelas necessidades do momc:nto, segui.-am ainda varias
,·czes a antiga via do Meditcrraneo e do Egypto ou da Sy-
ria. E a estas viagens, embora feitas quasi todas por mar
1
se deu c.. nome de viagens por terra, em oppusição âs que
tomavam o novo caminho em volta da Africa, feitas to-
das por mar.
Tencionei, pois, escrever algumas noticias breves de
vu1garisação âcerca d"aqucl1as viagens, da de Antonio
T enreyro, aa de Pedro Teixeira, e da de fr. Gaspar de S.
Bernardino entre outras, para citar apenas corno exem-
plos algumas das mais nomeadas. .Á Iord ieigneur tout
homreur ,· o primeiro Jogar n"estas noticias pertencia de
cAdverlmcia preliminar
direito á viagem de Pedro da Covilhan, primeira na data
e primeira tambem na importancia. Planeando, porém, o
que devia ser uma curta noticia d"esta viagem, succedeu
o que quasi sempre succede, ou pelo menos o que quasi
sempre me succede, e foi que o assumpto me dirigiu em
vez de eu dirigir o assumpto. A noticia tomou proporções
inesperadas_ resuhando d"ahi o presente livro, que se
prende assim, pela origem e pela epo.:a, ao meu anterior
estudo acerca de Garcia da Ona, comquanto seja no todo
absolutamente independente.
A epoca mais interessante da historia portugueza é,
sem contestação, esta que decorre do meiado do xv ao
meiado do xv1 seculo, ou um pouco ah!m. Estes cem, ou
cento e tantos annos, levam-nos do momento em que os
nossos navegadores, saindo das inevitaveis hesitações dos
primeiros tempos, vão seguindo já mais
mente ao longo da Africa dos negros, ate ao momento
em que a decadencia do imperio oriental portuguez é pa-
tente a todos os espíritos, pelo menos a todos os espíri-
tos dllentos.
Sem duvida, esta cpoca tem sido julgada de bem di-
versos modos; e se ai guns só viram ou só quizeram ver
os actos de puro heroismo que a illustram, outros, com
mais severa critica, têem especialmente procurado os
actos de excusada crueldade, ou de venal cubiça, que a
deslustram. Sem duvida lambem, se póde encarar diver-
samente a influencia d·aquella epoca nos successos pos-
teriores. Póde talvez dizer-se, que a memoria e o orgu-
lho d"esses velhos tempos, de grandeza real embora tran-
sitaria, é ainda hoje um dos principaes vínculos da nossa
nacionalidade, um dos que mais a têem fonalecido e
...
ainda fortalecem nas duras provações por _que depois tem
passado. E póde talvez affirmar-se por outro lado, que
justamente aquella grandeza, fora de proporção com os
recursos naturoes do paiz, seria uma das causas da sua
prox.ima e rapida decadencia. Exgotadas as suas forças
em emprezas demasiado grandes e demasiado affastadas,
corrompidos os seus naturaes no contacto com as rique·
zas do Oriente, Portugal teria descido logo em se:guida
de humilhação em humilhação, até cair como uma mos·
ca atordoada na teia subtil e habilmente armada por
Philippe II.
Tudo se póde dizer, e mdo se pôde tambem defen-
der com argumentos mais ou menos plausíveis; mas
guardar-me-hei cuidadosamente de debater taes e tio lar-
gas questões, nos modestos limites de uma advertencia
preliminar a um simples livro de viagens. O que é cena,
porém, é que o modo, optimista ou pessimista, por que
encaremos a epoca, nada tem que ver com o interesse
que ella despena. Que a epoca fosse digna de uma pura
e estreme admiração, ou de uma condemnação absoluta
-e nenhum dos pontos de vista seria a meu ver exa-
cto- continuaria no emtanto a ser uma epoca em ex-
tremo interessante. Quer d'ella proviessem os desastres
posteriores. quer d"ella nos ficasse este orgulho do nome
ponuguez, que ainda nos conserva unidos, e perdido o
qual toda a nacionalidade se perde, a epoca de que fa-
lomos fica sendo o ponto da historia ponu-

Em nenhum outro período representou Portugal tão
alto papel nd historia geral do mundo i em nenhum ou-
tro período aurahiu e fixou sobre si egt.ialmente as auen-
çóes dos povos civilisados. Durante aquelles cem annos,
a Europa teve os olhos titos n'esta sua extremidade oc-
cidental, donde dia a dia lhe vinham noticias assombro-
sas de novos descobrimentos e de novos commcuimentos.
Os soberanos que nos cortejavam, as republicas italianas
que nos invejavam, os papas que viam em nós o mais
seguro esteio da FC catholica nas regiões distantes, se-
guiam e observavam, com benevolcncia ou com descon-
fiança, mas sempre com interesse, o que se passava n'este
pequeno paiz occidental. E o pequeno paiz mostrava-se
digno da attenção geral, encontrando entre os seus natu-
raes homens á altura de todas as e de todas
as situações, como Vasco da Gama, como D. Francisco
de Almeida, como D. João de Castro, como o maior de·
todos, Affonso de Albuquerque.
Nem foi simplesmente nas aventurosas viagens, ou
nos arriscados feitos de guerra, que a nacionalidade por-
se affirmou então. O affiuxo de riquezas, que
nos vieram do Oriente, a excitação dos espiritos, ébrios
de gloria e lambem de ambições, transformaram e reno-
,·aram a Arte e a Littcratura nacionaes. Então nasceu
essa forma especial da Arte na Renascença portugueza,
forma que nos ficou, lavrada em pedra ou em oirn, no
claustro dos Jeronymos, nas Capcllas imperfeitas, ou na
custodia de Belem. Então nasceu a adoravel littcratura
do seculo de 1Soo, em que a Prosa portugueza, saindo
da rude inexperiencia do seculo anterior, se firmou lim-
rida e clara, simples bem ordenada, para cahir dettois
nos requintes alambicados do seculo seguinte; e cm que
a Poesia portugueza encontrou a sua mais alta formulo
nos Lusiadas. Poderemos, pois, talvez condemnar a epoca
c:ldJ•,•rlfmcia • •
..
cm si e nos seus resultados, mas o que não podemos ê
Jcixar de a considerar grande e interessante entre
toJas.
A histor;a de Portugal epoLa. particularmente
o historia de Porrugal no Oriente, não está feita, c
poJe-se mesmo dizer que está dcsieita. Durante mais de
dois soculos, os livros dos nossos chronistas, de Fernão
Lopes de Castanhcda, de João de Barros, de Diogo Jo
Couto e de outros, podcram ser considerados difinitivos.
Dão-nos etfectivamcnte uma grande minucia e exa-
ctidão u narrativa Je todos os feitos de guerra, passados
cm Cocbim ou cm !\'la laca; e a relação nominal de to-
dos os capi1ães de fustas e galês. !\·las, sem deixarmos de
ter aquelles livros na alta conla em que devem ser tidos,
ê claro que a historia tem hoje exigencias muito diversas.
Ficam-nos como o mais valioso dos subsidies, e tambem
-alguns d"ellcs- como o mais perfeito exemplar da
boa prosa de que antes talamos; mas de modo algum
como a historia da cpoco, no sentido em que boje se to-
ma a palavra. Dezenas e centenas de documentos já pu-
blicados, não falando mesmo dos milhares ainda inedi-
tos nos archivos, vieram lançar sobre muitos pontos uma
luz completamente nova. Por esses documentos de ín-
dole mais intima, instrucções, regimentos, cartas particu-
1.3res e outros, podemO'i penetrar mais profundamente
nas intenções, no estado de est-,irito, ás \"ezes nos lados
fracos dos nossos heroes indiaticos. Confirmando, como
em regra confinnam. os factos narrados por Barros e por
outros, os documentos dão muitas vezes uma significa-
ção absolutamente di versa áquelles li:J.ctos.
Nem são simplesmente os documentos portuguezes,
publicados ou inéditos, que será necessario (:Ompulsar
para escrever uma verdadeira historia do Oriente portu-
guez ; existe outra liucratura riquíssima, e egualmente
digna de attenção. O estado do Oriente, no tempo cm
que lá fomos e em que lá nos conservámos, é hoje muito
mais conhecido "do que foi mesmo dos que por lá anda-
ram. Os trabalhos dos orientalistas modernosJ allemães,
inglezes, francezes c portuguezes, as traduções de docu-
mentos e codices indianos, arabicos, persianos ou ethio-
picos, dizem-nos ácerca da lndia, da Arabia ou da Abys-
sinia, cousas que os nossos antigos escriptores não po-
diam s!lbcr, embora a extensão das :!tUas informações seja
muitas vezes notavcl e quasi inexplicavel. Por estes do-
cumentos orientaes podemo!' hoje reconstruir melhor o
quadro, como pelos documentos portuguezes podemos
penetrar mais intimamente os personagens, que no qua-
dro se moviam. Uns e outros alldam, porém, dispersos,
não tendo sido apro\·eitados em uma obra geral ; e pro-
vam-nos apenas, que Barros e Couto, sendo, como são,
historiadores de primeira plano para o seu tempo, não
deram e não podiam dar a interpretação difinitiva dos
factos que narram. Eis, por que antes dissemos, que a
historia não só não está fei1o, como eEtá desfeita.
Ha um tanto ou quanto de verdade no que disse mo-
dernamente um escriptor inglez, que o tempo da historia
passou, e estamos em tempo de docJtmelltos, tuja leitura
e mil vezes mais interessante e mais instruc1iva que a de
Iodas as historias. Mas é tambem certo, que a leitura dos
documentos, mesmo dos publicados, não é acccssivel a
todos i e muito seria para desejar, que alguem emprehen-
desse e levasse a cabo a grande tarefa de escrever uma
JJ
historia do Oriente portuguez, como poderia e deveria
ser escripta.
Emquanto, porém, não temos essa historia póde ha-
ver togar para ensaios modestos, como o qu.! temei em
Garcia da Orla e o tempo, como o que tento agora
nas Vi'alfens de Ptdro da Covilhan.
Os dois lh·ros são muito diversos, porque os dois ho-
mens tambem o são, como são dislinctas as épocas,
ou -para me explicar melhor-distinctos os momentos
do época em que viveram. Gan:ia da Orta perlence já
ao fim do grande e não podia deixar de perten-
cer. O seu livro é um resultado, resuhado de perto de trinta
annos de observações proprias, de perto de setenta de ob-
a..:cumuladas pelos seus patrícios. Mal poderia-
mos imaginar aquelle livro escripto mo is cedo. E Garcia da
Orta é essencialmente um hom'-,-n de sciencia e um es·
..::riptor. O que elle fez para nós uma importancia se-
..:undaria, todo o interesse se concentru. no que elle disse.
N'elle, o homem está no lino. E felizmente, se conhece·
mos mal as cir..:umstancias externas da sua vido, conhe-
cemos perfeitamente pelo livro as qualidades internas do
seu espirito, e atê certo ponto 3!! do seu caracter.
Pedro da Covilhan, pelo ..::ontrario, é um homem de
ncção. Escre,·eu pouco, e o pouco que escreveu perdeu-
se. Da sua entidade moral sabemos simplesmente o que
se póde inferir dos seus actos, ou o que nos diz um dos
seus contemporaneos, que o tratou muito de perto. Mas
n'edc, os aclos e a sua influencia nos successos do seu
tempo são a parte interessante. D'ahi resulta desde logo
uma differcnça nos dois livros, pois emquanto o primeiro
foi uma analyse, este será uma narra1iva.
""
Quanto é data, Pedro da Covilhan, ape-zar de ainda
ser cootemporaneo de Garcia da Orta, pertence propria-
mente oo começo do grande periodo. E' em toda é força
da palavra, um iniciador. E' o prrmeiro ponuguez que
pisou o solo da lndia. E" o primeiro ponuguez que \"ÍU o
Negus da Abyssinia, ou o Preste João, como desde en--
tio lhe ficaram geralmente chamando.
Creado no tempo de D. Affonso V, a quem seguiu na
campanha de Castclla e (la viagem a França, passou de-
pois a servir D. João II. Fez parte, com Diogo Cáo
1
com
Diogo d' Azambuja, com Bartholomeu Dias, do grupo de
agentes predilectos do grande rei. Todos valentes e de-
cididos, todos habeis e intelligentes, e todos ou quasi to.
dos mal conhecidos, ficando n ~ u m a especie de penum-
bra vaga, como que offuscados pela grande e absorvente
personalidade do seu soberano e amo.
Mandado por D. João 11, Pedro da Covilhan foi ã
lndia dez annos antes de \'asco da Gama. Basta a sim-
ples enunciação d'esta data para põr bem em relevo a
importancia e o interesse da sua viagem. E se conside-
rar-mos-como temos por admissivel e quasi provado,
e examinaremos detidamente ao deante - se conside-
rar-mos, que a viagem de Pedro da Covilhan preparou
em parte a de Vasco d.o Gama, o seu interesse sóbe de
ponto. O descobrimento do cominho para o Oriente cm
volta da Alrica e um dos maiores factos da historia por-
tugueza, póde-se mesmo diler um dos maiores factos da
historia geral do ch·ilisoçfto. Tudo quanto a esse facto se
prende, tudo quanto o rrcpara e torna rossivel, merece
em ulto grau a nossa ollcnçilo.
Por este lado
1
o presente estudo, destinado a tornar
C!Adverlenci'a prrl1ininoJr xm
um pouco mais conhecido o valente escudeiro de D. João
li, pode ter algum imcresse ; e pode lambem ter alguma
actualidade, vindo, como vem, no periodo em que se
commcmora e celebra o quarto cemcnario do Jescobri-
mento do caminho maritimo para a India.
Esta parte das viagens de Pedro da Covilhan pelos
mares orientaes, ate ã costa do Malabar por um lado, ate
Sofula por outro, é sem comparação a mais importante
das suas longas peregrinações, pela alta significação dos
successos posteriores que a ella ::.e prendem e por ella ~ ã o
atê certo ponto preparados i mas ha outra parte que, em-
bora seja de menor importancia nos seus reaultados, ê de
certo de egual interesse. Refiro-me ã sua entrada e pcnna-
nencia na Abyssinia.
Havia longos annos jl1, que as attençóes e as esperan-
ças da Europa se voltavam para uma figura c o l o ~ s a l e
mysteriosa, a de um afastado rei christão, o chamado
Presbytero João ou Preste João. Apenas entrevisto nas
brumas da enorme distancia, envolto nos densos veus do
lenda, de que o rodearam as imaginações credulas e so-
breexcitadas, aquelle potentado fiuctuava nas terras do
Oriente, quasi sem domi..::ilio certo, transportado da Asia
para a AfricaJ ou da Africa para a Asia, 11 mercê de noti-
cias vagas e contradictorias. E mesmo quando o nome
popular parecia fixai-o na India-o Preste João das Indrizs-
o vago ainda ficava .. porque ninguem sabia bem ao certo
o que eram aquellas lndias.
Penetrando na Abyssinia, assistindo trint.t c tantos on-
nos nos estados e na cOrte do seu soberano, Pedro da Co-
vilhan contribuiu mais que nenhum outro europeu para fi-
xar .no Rei dcs Reis d'aqudlc imperiu ..::hristão o velho
ram as relações de Portugal com o intercssontissimo
e até então quasi desconhecido imperio chriostão da
Ethiopia.
E tambcm Por este lado, o presente estudo póde ter
alguma actualidade. A Ethiopia, esquecida do mundo c
esquecendo o mundo durante mil annos- na phrase de
um grande historiador inglcz -a Ethiopia foi depois
descoberta ou redescoberta pelos portuguezes, e durante
um seculo ou mais occupou as ancnçóes dos soberanos
e dos povos do Mas, passado aquelle perioJo,
cahiu no antigo isolamento e esquecimento, d"ondc ape-
nas surgiu nos tempos modernos, e sobn:tudo nos mais
rl!centes, para dispertar de novo todo o interesse da Eu-
ropa. Menilek 11, rei ou imperador da Abyssinia- que
de ambos os modos se pôde traduzir o seu titulo nacio-
nal de Ncgusa Nagast-Menilek II C hoje uma ph}sin-
nomia conhecida, um nome que ninguem ignora, tornado
porular pelas noticias e pelas illustraçües de jornaes. E
quando a França, a Inglaterra, a Russia, mandam á sua
côrte repetidas missões, pôde haver interesse em recordar
as embaixadas que oos seus antecessores mandava D. Ma-
nuel ha perto de quatro seculos.
Do mesmo modo, a antiga aspiração da Egreja ca-
tholica, de chamar ao seu gremio as christandades orien-
taes, nomeadamente as christandadcs jacobitas da Abys-
sinia, essa aspiração tem hoje actualidade nas tentativas
prudentes mas persistentes, feitas em egual sentido pelo
zelo evangelico e pelo claro espirita do grande pontifice
leão XIII. Haverá algum interesse em indicar apenas-
porque contãl-o seria obra de muito maior Yuho- o que
antes fizeram n .. este campo leão X, Clemente V11
1
Paulo
"AdJ'I!rlrnâa preli'minar
III e os seus successores, auxiliados e acompanhados sem-
pre pelos reis de Portugnl.
Tal foi a origem e o plano d'aste nosso modes-
tíssimo estudo, se de plano se póde falar, quando na
verdade o não houve, e a obra se foi naturalmente e quasi
espontaneamente desentranhando do estudo do assum-
pto;
contar singelamente o que foi a viagem marítima de
Pedro da Covilhan nos mares da lndia, deixando ao lei-
tor o cuidado de apreciar a sua influencia nos posteriores
e bem conhecidos descobrimentos dos purtuguezes no
Orientei
contar o pouco que sabemos da sua perrnanencia de
trinta annos na Abyssinia, dando uma simples indicação
acerca das relações de Portugal com aquelle paiz.
Dadas estas explicações, só me resta, nos limites na-
turaes d'esta curta advertencia, deUar consignado o meu
agradecimento a todas as pessoas que por qualquer modo
me auxiliaram no meu trabalho. Entre estas, devo men--
cionar o moço orientalista, o sr. David Lopes, que a meu
pedido fez varias pesquizas nos archivos, e examinou
alli alguns documentos arabicos. Egualmente o sr. Daniel
Pereira, que poz sempre á minha disposição os vastos
recursos dos seus conhecimentos esptciaes. Todos os
que têm tido occasião de trabalhar na Bibliotheca n a c i o ~
nal sabem, que no seu actual director encontram o mais
amavel, o mais incansavel, c o mais seguro dos guias nas
difficei .. pesquizas bibliographicas. Por ultimo, o sr. Fran-
cisco Maria Esteves Pereira, a quem me considero espe-
cialmente reconhecido. Com a sua grande auctoridade em
tudo quanto toca na lingua, littcratura e historia da ,-elhp
cAdJJertencia preliminar XVII
Ethiopia, o sr. Esteves Pereira prestou-me os mais va-
liosos serviços, e prestou-os com a franqueza, a libera-
lidade, a singeleza com que só o sabe fazer um verda-
deiro homem de sciencia.
A estes de um modo mais particular, e a todos os
que me forneceram indicações. ou esclarecimentos de
qualquer ordent ou importancia, deixo con:;ignado o pu-
blico testemunho do meu agradecimento.
Lisboa, abril de 18g8.
CONDE DE FICALHO.
ERRA TAS
E
CORRECÇÕES PRINCIPAES
Pag. linha onde se 1 ~ leia·se

.
lO
29
veno1r venQit
38 31 Valladolid, 146S Valladolid, 1 S6S
59
A' nota d'esta pagina vejam-se as correcç6ei
indicadas na nota a pagina 3o2.
88 2 divitie1 divitite
161
24 492 192
33
.

211 no anno segutnte nos annos seguantes
297
32 1552 153!
328
24 1842 1542
Alguns outros erros sio de facil emenda na
leitura.
Do Atlu dt Diogo HollltGI, 1S!JS.
RRF .. NTlO o anno de q87, mandou cl-rei ()_ João n
ch.,mar é sua prescnca o seu escudeiro Pedro d.t
Covilhan, que acabavo de chegar da Berberia, para
em grande segredo o encarregnr de uma aha mis-
são de confiança. Trata\'3-se nada menos que de:
partir pela via do Medilerraneo- que outra ainda não era
dcscobc::rta- para as terras do Oriente, a fim de procurar alli
o celebre Preste João, inform.mdo se ao mesmo tempo da pro-
ccdencia da canella e oolr.s!l especiarias, que emão vinham pelo
Le\'ante a V cneza. A missão era difficil o mas o rei confiava no
zelo do seu escudeiro, assim como no acerto e felicidade com
que elle se havia já desempenhado de outros encargos espi-
nhosos. 1 A missão era difficil e era ao mesmo tempo typica,
• •En chegando el Rcy lhe falou em srande segredo diz.'!do q espe-
n.va dcUc bfi srandc scrriço porque si!'pre ho achara bô e leal serviJor e
Pedro da •
como que fixando cntecipadamente as duas feiç6es do nosso
futuro dominio na Jndia - o prosclyti .. mo e o exploração com-
mercial. !\lastrava bem, corno a riullidade com Veneza c o
intento de lhe disputur o rico trafico do Orieme es1avam j!
formulados no animo do rei ; e denunciava egualmente quunto
se conservava ainda l!'ivo o dco;.cjo de dissipar os rnystl!rios
em que se envoh1a o lend.trio Preste João, mysterios que du-
rante seculos tiveram o dom de interessar e apaixonar toda o
Europa christan.
A noticia da existencia, ou supposta existencia. d'aquclle
celebre personagem era onterior de mais de tres scculos li'
confioda agora a Pedro da Cm·ilhan. O bispo Otho de
Frcisingen, irmiio do imperador Conrado, a quem acompa·
nhara .á Terra Santa na segunda ha1ria escripto no
seu Chro,ico,z, como no anno de 11,P se encontram em Roma
com um bispo de Gabalo, cmiado ao rapa Eugenio 111 pelas
cgrejos da Annenia. 1 O bi,.po armcnio lamcnta1r·a-sc com mui-
taslagrimas dosperigo!i, que ameCLGlVam ascgrejas da A!!.ia de-
reis da 10mada de Edcssa; e contava. como alguns annos an-
tes, um certo João, rei r padre, habitando para olém d:., Ar-
menia c= da Persia no extremo oriente. e seguindo com o seu
povo a religião christan do seita nestoriana, ha' ia frito a guerra
a uns irm5os, chamados Samiardos. reis da Per!ioia e da Me-
dia, desbaratando-os em sangrentas batalhas e tomando-lhes a
capital dos seus estudos, Ecbatana. lJepois d'estos \·ictorins,
ditoso em seus fei10s e serviços ; ho qunl serviço em q eUe e outro cõp•·
nheiro q se chamava Alronso de (li)'YB lhe a verem iibos de hir dcscubrir c
saber do Preste Joi e õJe achii ha caneUa e hu1 outT'IS esrecianas q da-
qudlas ranes hii a Veneza per terras de mouros•. Francisco Alvares,
Vl.'r4oJ4t'ra injormaçarn daJ lt'rrm; do Jtx'"l da!l l11.ii1u, p. n8, Lis·
boa, Cito em geral esta ediofiio, tendo-a comparado em um111 ou ou-
tra (l:lslagem com a 4e 1S40. Na transcripção rareccu-me desneceiSITio
consenar o do ., pelo u.
' 0/loms, qisroti FriruinBrP1!1is, L«Jpoldi Pri marrhioni.s filri,
Clu-onicon_ A mesma llistoria, e quasi pelas mesmas ralnvns. vem contada
110 Poliuimrmr l."ltron1con Alln·n&i monacAi Frnnn[on1i1m1.
O Preste João das· ludzas
havia marchado para occidente em soccorro da egreja de
salem;· mas infelizmente, chegando ao Tigris, não encontrando
meio de passar, e começando a morrer a gente do exercito de
doença, havia sido forçado a voltar para os seus estados.
Este Presbytero João, que assim o costumavam chamar, 1 di-
zia-se ser da antiga raça dos Reis Magos, e em memoria
d'estes Santos Reis seus ascendentes vinha assim em auxilio
da Terra Santa.
Tal era, em substancia, a historia contada pelo bispo de
Gabala, e transcripta pelo bispo de Freisingen; e esta his-
toria parece ser a primeira, 2 se não a unica origem da lenda.
A narrativa do bispo de Gabala tem todo o cunho de ser sin-
cera, e de assentar sobre factos reaes, quaesquer que elles
fossem. Mas depois, espalhando-se pela christandade, vieram
a implantar-se sobre ella muitas circumstancias inventadas. No
anno de 1 16S circularam algumas copias de uma carta d'aquelle
. rei-sacerdote, dando conta da enorme extensão do seu impe-·
rio aos soberanos da Europa. Vinham dirigtdas ao papa, que
então era Alexandre III, ao imperador do Oriente, Manuel
Comnenio, ao famoso imperador do Occidente, Frederico
1 a Presbyter Joannes, si c enim e um no minare solent ... », são as pala-
vras do Chronicon.
Devemos desde já notar, que d'esta expressão PresbJ'Ier Joannes ou
Johannes se derivou muito naturalmente o Prestre Jelzan dos velhos es-
criptores francezes e o nosso Preste João. Os eruditos dos seculos seguin-
tes, como e Damião de Goes, procuraram etymologias compli-
cadas : em uma supposta palavra persiana Prestegiani ou FirishlaJan, que
se dizia significar apostolico ,· em uma supposta expressão ethiopica Joan-
nes Bellul ou Joannes Encoe, que se traduzia Preciosus Joannes, e outras.
São todas de phantasia erudita; e Preste João parece significar sinlples-
mente um personagem, que se suppunha ser e chamar-se João.
2 Ha uma noticia anterior, que se liga talvez á lcnJa, mas não fala no
Preste João por este nome; é a da vinda a Roma no pontificado Je Cal-
lixto n (1122) de um ecclesiastico, intitulado d .. 1s lnJias, o qual
contava cousas maravilhosas da sepultura Je S. e da expansão do
christianismo n'aquellas partes. A noticia consta da carta Jc um contcm-
poráneo, Odo, abbade de S. Remy .


4
Rarba-roxa, ao rei de Franca, Luiz \.11, e tambem, sef{Undo
diziam, ao rei de Portugal. Affonso Henriques. 1 Refe-
ria a cartJ., que o Presbytero João dominava sobre as tres ln-
dias, sobre setenta reis tributarias. e sobre varias nações. en-
tre as quacs se contavam as dez tribus perdidas de Israel, que
Alexandre o grunde encerrara na mur.dha de Gog e Mneog.
e muitas outras. QuRndo ia d guen-a, levava COJ7.CS de
ouro e pedraria, a cada uma das quae!l sep;uiam dez mil ho-
mens de ca,·allo e cem mil homens de pé. Accresccntava
ainda a carta mt:itas outras indicflções, tão phantasticas como
estas. se niio mais, e que serin loneo enumerar. 3 A carro é
e,·identemente falsa, e sem du"ida teria sido forjada na Eu-
ropa; tah.·ez simples impostura de algum aventureiro litterario,
que d'ahi qui7.esse tirar proveito, talvez uma pia fraude dos
que assim pre1endiam fortalecer a corugem dos christ5os, con·
firmando a noticia da cxistencia de um narurai e poderoso ai·
liado. E' certo, no emtanto, que a carta foi n':S:quelles 1empes
geralmente considerada verdadeira t e a lenda, assim ampliada,
foi passando de simples e mal fundado boato, a realidade
quasi segura e provada. Tanto, que alguns annos depois, no
de 1177
1
o mesmo papa Alexandre m, embora ignorasse onde
realmente se poderi;.• encontrar aquelle mysterioso persona-
gem, parece ter-lhe en\iac:lo. ou procurado em·i:1r-lhe, uma
carta assim dirigida : ChariSsimo in Cl1n!lo .filin, il/uslri tl
maB"!"fico indorum •·egi, sace1·dotum saflctinimo. 3
1
D"Avez11c, Not. 81U' a11dr-ns 11oyagr-J em '}{te. de
IIOYO!Jt'S er de mimoirts dt lo Soe. de Geog., 1v, .548.
3 Asaemano, na par 11,490, publicou quasi tod11.
11. carta. Foi moJernamente publicada na integra na memoria do sr. Zarncke
Der Pritsln- Johartllts, e creio que rumbem na do dr. G. Oppert, Dtr
Jolronnts irr Sagllunl Gtsthiclrte; mas nenbuma ,restas memo-
rhu eu pude aksnçnr em Li1boa..
:J Publicada por Boronio, Aan. EccltlsiaJtici, 11:11
1
5Sq, edição da Ticino,
1641. Com1udo Zarm:ke inclina-se a considerar este llocumcnto apocry·
pho; veja-se de episloloJ Alt.ra.,.dri poF III a.d prrsbyti!Tllm
Joa.11nem,
O Preste .Toâo das lndias 5
E' que, na verdade, o momtnto er:J. propicio para que a
lenda medrasse e crescesse, lancando fundas no animo
auribulado dos christãos. periodos sombrios da
EJadc-mc:dia, a Europa acha,·a-se encerrada em um circulo de
ferro e de fogo. Ao norte, na Russia ou Mnsco\lia, ainda des-
cm ,·ia de formação como uma nebulosa qlle se
condensa, a larga fronteira asintica estava aberta diarias
correrias dos tartaros. Pode se bem dizer, que tal fronteira
não existia, tão vagos e inJefinidos eram os limites d'aqucllcs
novos e semi-barbaros estados europeus. E, na enorme planí-
cie da Asia, pulluluam, cresciam, agita\·am-sc as hordas sel-
"ogens de tartaros e mongoes, que pouco depois deviam pene-
trar atê ao cenlro da Polonia, ate aos confim, da Allemanha,
ameaçando subvener toda a occidental. A sueste,
o imperio do Oriente, enfraquecido, governado por príncipes
na maior pane incapazes, enleiado na observancia de etiquetas
obsoletas, absorto na contemplaçâo retrospectiva de passaJos
glorias, resistia mal au poder nascente e crescente dos turcos.
Dia a dia, as velhas cidades historicamente e tradiciOnalmente
christans. Edessa, Nicea, a propria Jerusalem, iam passando
para o dominio dos infieis. Pelo sul, no littoraJ africano, no
Egypro de S. Clemente de Alexandria e de Origenes, n"aquella
Africa de Santo Agostinho, tão intensamente chrisran nos pri-
meiros seculos da Esreja, a onda da conquista mllsulmana
havia passado, varrendo tudo deante de si, desde o Nilo até
ao Atlantico. As proprias aguas do Mediterraneo eram mais
musulmanas christans. Os arabes haviam tornado pé na
Sicília, na Sardenha, nas Baleares; e mesmo depois de serem
d"alli expulsos, continuou a não haver segurança no mar, nem
na terra. lu. velas mouriscas, as leves emburcaçl5es dos pira-
tas da Bcrberia, as eg) pcia.s, onde na chusma remavam
os captÍ\'OS christãos acorrentados, "inham repelidas vezes as-
saltar as costas da Italia e de. Franca. No nosso Occidente, os
reis da Hespanha entrincheiravam-se nas serranias dns Astu·
rias e de Leão, cmquanto o novo rr.=i de PonugaJ, acolhido ás
terras ao norte do Mondego, se preparava a ir conquistar pai-
6
Pt!dro da O)lli/hmr
mo a palmo as suas futuras Tudo o mais na Pe-
ninsula era musulmano, todo o fcrtil Andaluz hcspanhol, todo
o Algarve. todo o Alemtejo, toda a Estremadura.
A Europa estavanssim, de norte a sul, de leste a oeste, aper-
taJacm um circulo de inimigos. E não havia, cm face d"estesini-
migus, o recurso de que a Egreja, scculos unte!;,lançara mão cm
f.1ce de outros Invasores- encorpara l-os. convertendo-os. Não se
trotan de francos ou de godos, ingenuamente barbaras, tendo
nos ccrcbros rudes? sob os cabellos intensos, uns rudl-
mcmos de paganismo mal definido i c prumptos a acceilnr a
doutrina christan, pl"omptos a receber as aguas do baptismo
.:um a passividade de rebanhos. Os novos inimigos pertenciam
u uma nova religião, religião fundamente arreigada, intransi-
p:entc, inrolerante, animada de um espirita de Ytolcnto prose-
lytismo. Não havia persuadil-os ou convertei-os, só restava
cnmborer pela Fé. E a Fé era o unico vinculo da Europa feu-
dal. Perante a Fé ameaçada, calavam-se és vezes, nem sem-
pre, as rinlidades ambiciosas dos reis, as rudes comendas
dos barões.
t-•oi então que a religião christan se tornou forçadamente
militante, na mais restricta accepção da palavra. A Cruz,
aymbolo de redempÇão e de paz, converteu-se necessariamente
cm um pendão de guerra. Bordada antes nos escapularios dos
prégadorcs, passou a esmaltar-se nos escudos dos guerreiros.
t-:squeceu, por um momento, a palavra do Divino 1\lesli'e, que
mandava metter a espada na bainha, e todas as espadas chris-
rans reluzirrun no sol. Durante seculos. estas espadas. fortes
e direitas, encontraram-se com as espadas mais leves dos mu-
aulmanos, curvas como o Crescente que defendiam, rutilames
rambem como o Crcsceme. quando as não ensopan, empa-
nando-lhes o brilho, o gonejame sangue christão.
Do angustioso e insoffrivel aperto do cerco haviam nascido
em parte as Cruzadas. As Cruzadas não foram simplesmente
uma explosão de crença. um \·iole:nto desabafo da grande dõr,
qw: assaltou a chris1andade ao ver na mão dos infi.eis o Santo
Scpulchro de Christo; obedeceram tambem 3 necessidade estra-
O Preste João dar lr1dl'as
7
tegica de desviar o combate para os arrn.iaes inimigos - foram
como uma sortida da Europa n!lsedioda. E então surgiram, crea-
ção espontanea e narurBI da epoca, repre5.entoçiío fiel das suas
condicóes e das suas necessidades, as ordens de ca\•allaria,
os e!lquodrões de frades guerreiros, vestidos de ferro sobre os
seus cavallos de batalha, levando por di\·isa a cruz brancn do
Hospital, a cruz vermelha do Templo, ou a cruz negra da or-
dem Tcutonica. entouhdo wmo mnrcha de guerra o psalmo:
Quare fremm:rmrt gentes ••. Naturalmente foram para a van-
guarda, para a defesa dos cphcmeros reinos chrisrãos, creu-
dos pelos Cruzadas na Syria e na Palestina. F. quando os ex-
pulsaram d'alli, ,-ieram ainda para os a\·ancadas da christan-
dade, fortificando-se nas ilhas do Mediterraneo, em Chypre,
em H.hodes. mais tarde cm Malta.
N"estes affiictivos momentos, momentos qúe duraram se-
cuJos, quando os e as ameaças de maiores perigos fu-
mros recresciam por todo a parte, espalhava-se subitamente a
noticia da existenci:1 de um poderoso principe christão, alhado
cffiCJ.Z, embora dist.lntC. T .t.h ez mais efficJ.z por estar distante,
por i:!!.SO que fica\·a fora do circulo de ferro que cingia a Eu-
ropa.; e podio, descendo C(•m os seus cxercims dos longinquns
e ml !ltcriosas terras em que atacür o inimigo pcb.
retaguarda. A Europa recebeu esta noticia, como uma guarni-
cão "itiada recebe o annuncio da i!pproximaciio de um exercito
libertador. E n nolicia não era por modo algum inacrcdiravcl.
Todos. pelo menos todos O!!. instruidos
1
os que nos claustros
rnolviam os codi..:cs das bibliothccas, e eram então os espiri-
ta.. dirigentes, todos se lembravsm da antiga expansJo do
christianismo nos primeiros cinco ou seis seculos da Egreja.
\·inll3 naturalmente â memoria o nome de S. Thomé, exten-
dendo o seu apostolado ao!!. uhimos confins da lnJia, e dei:Jando
alli nucleos densos de proselytos; o do envangclista e õiPO"tolo
S. Mnttheus, que a tradição dizia ter levado a luz da doutrina
christan ao .t.lto Fro·ptn e á Ethioria; o d"aquelle eunucho, de
quem falam os .Actos dos .Apostolos
1
com·ertido e baptisndc
pelo diacono Philippe, e contribuindo depois para a converdo
8 Pt:dro da Cov11h.m
da rainha Candacia, a poderosa soberana da ilha de Meroé e
de vastas regiões da Africa. Lembraria tambcm a antiga egreja
de Epheso, o gnmde apostolo e evangelista S. João, e o an-
tigo Presbyteras Johamzes, confundido por uns com o proprio
evangelista. tido por outros no conta de um discipulo dilccto
da sua \·clhice; cm uhima analyse, tão mysterioso como este
seu novo homonymo. Aqui se pode talvez encontrar a razão,
senão do nome que lhe dava o bispo de Gabala, pelo menos
da facilidade com que este nome se generalisou. Porque, se-
gundo a tradição, João o Evangelista não morrera, esperava
a segunda vinda de Christo ã terr-a, da qual devia ser o pre-
cursor, como João o Baptisla fõra do primeira. Assim, elle
poilia ser o proprio Preste João, e no reino d'este imperaria
a justiça e a verdade, ha tanto tempo annunciadas aos fieis.
Creava-se d"cste modo, e para alguns, um lado mystico da
lenda, cuja todavia, é necessano não exagerar.
No campo mais pratico, a enorme significação politica e
religiosa, que para a Europa christan podia ter a existencia do
Preste, era a causa c.,sencial da acceitJ.çiío da noticia. E, por
este lodo tambem, a noticia era plausivel. Sabia-se, que
vagamente. da permanencia de numerosas chrislanJndes nas
terras longinquas do sul e do oriente, nem era possil-'el crer.
que as dos primeiros tempos estivessem totalmente desfeitas e
unniquiladas. Unicamente, estas christandades estavam segre-
gadas da Europa pela barreira insupera,·cl das terras, nova·
mente submenidas aos musulm.mos. Fncil era, pois, admit-
tir, que em alguma região remota essas chrismndades se ti-
vessem congregado cm um estado comracto e forte, sob o
mando a um tempo e.!piritual e temporal de um riquissimo c
poderosissimo rei e sacerdote. Deviam, na verdade, estar ei-
vadas de heresias, nestorianns ou jacobitas, não teriam opi-
niões orthodoxas sobre a natureza una ou multipla de Christo;
mas estas distincçõcs apagavam-se perante·a apertada angustia
da hora, e o simples nome de christãos constiruia um vinculo
sagrado. Os mais rigidos catholicos acceitnvam o principe nes-
toriana como um enviado divino. O bispo de Acra, Jayme de
O p,.este João das lndias
9
Vitry, escrevia ao papa Honorio III (I 2 19), que aquclle rei, po_
deroso e victorioso, lhe parecia uma n1ussa de armas, susci-
tada por Deus, para esmagar os pagãos, e exterminar as dou-
trinas pcstiferas c exccraveis do pcrfido 1 E se as
· cousas fossem, como as via Jayn1c de \:ritry c outros do seu
tempo, d'alli podia effectivamente vir a salvação, a conquista
da Terra Santa segura, a Europa libertada, o christianismo
victorioso. Por isso a lenda se ía robustecendo no espirito dos
crentes. Mil vezes desfeita pela dura verdade dos factos, n1il
vezes se reconstruiu, creação da r:sperança c da f""'é, n1ais viva
no coração do hon1c1n que a sirnplcs realidade.
A. lenda devia, ter un1 fundo real, que é nccessario
procurar. E etn prirnciro logar poJcn1us estabelecer, que o
Preste João dos primeiros ten1pos., do Xlll e cm parte
ainda XIV scculo, se \·a gcraltnente na 1\sia. E digo ge-
rai11Zellle, porque não licito affirtnar, que ninguetn então
pensasse na i\frica, c non1cadamcntc na Ethiopia. Algumas
opinió.cs valiosas, posto que bastante isoladas, julga1n a carta
de Alexandre 111 dirigida jú ao rei da A byssinia. 2 tncsmo
que a carta seja authentica c fosse dirigida ao rei abcxim- e
nenhuma das cousas estü provada- ti c a de o que dissé-
mos, isto é, que a opinião geral se voltava para a 1\sia. A
narrativa do bispo de (;abala, prin1cira na data c na itnpor-
tancia, é perfeitamente explicita n ·este ponto; o seu Prcsby-
tcro Joáo encontrava-se na .i\sia ... ultt·a A1·nzenianz et Pe,·si-
dent i11 ext1·enzo oriente lzabitaus. Os escriptores christãos, que
estiveram na Terra Santa ou receberam de lá informações,
Jaymc de Vitry na carta citada c na Hislot·ia Hie,·osolinzztana,
1 cc ••• vir potentissimus et in armis n1iles strcnuus, callidus ingenio ct
victoriosissimus in 4ucm Don1inus in diehus nostris suscitavit ut
esset malleus paganorum, et pcrfidi traditionis et
cxecrabilis legis cxtern1inator, est qucn1 vulgus Preshytcrum Joanncm apel-
lat»; veja-se Achcry, .. ":, .. picilegiunr, citado por d ·Aveza c na 1\rotice sur h,s
anciens voyages de J'"artarie.
2 Em ten1pos mais antigos o Baronia c o cardeal Zurla; mais
modernamente sir Ilenry Yulc.
2
lO da CoJJi/harr
Matthcus Paris na Histm·fa Major, Vicente de Beauvnis nn
Sp,'cllllim historia/e, Joitwillc, o celebre r encantador chronisto
Jc S. Luiz, toJos collocom o Prc .. bytcro João nas terras Jo
oriente, nos confins da Persia e da T artario, ou em uma InJia
mais ou menos ,·aga. 1 E• que= todas estas noticias siío echos,
apenas alterados e amplia.Jos, da anterior narrativa do bispo
Jc Gabala. que, cm uhimn analyse, parece ser a origem prin-
cipal da lenJa.
a explicação d"rsta narrativa encontramos modema-
mente duns theorias dh·ersas, que é passivei resumir cm bre-
ves pai.J.H"as; e talvez uma terceira de que falaremos adeo.nte.
St!gundo a primeira, 2 o Presbytero Joiio do bispo ormenio
,;c ia um principc da dynastia Khitan, fugido da China septen-
ttional pelo anno de 112S, quando aquella dynastia foi derru-
buJ., na China pciCis Kin. Seguido por um bundo numeroso Je
partiJarios, c en..:ontnmdo ocolhimento favora\"C) entre os ui-
ghurs, que já antes ha"irun sido sujeitos ao imperio Khitan,
principc cxtenJeu os conquistas pelo
oriental e vinJo a fundar o novo imperio de Kára-
khitay _ e tomanJo o titulo Je Gur-KhJ.n, que parece significar
Kh.m universal. No anno de 1141, Gur-Khan, já então muito
poderoso, veio em auxilio do rei de Khuurism, seu tributaria,
contra um soberano sddjukida da Persia, chamado Sanjar,
!!>cndo este derrotado com mui la mortandade dos seus exerci-
tos. Em seguiJa, senão Gur-Khan pelo menos o seu alliado
de Khuarism. imudiu a Persia, tomanJo e saqueando algumas
1 PoJem os ex.tractos de Maubeus Paris e Vicente de Beauvais
emd'Avezac (I. c.).
A phrase de Joinvillc r! a seguinte; •Et de cclle berrie (désen) venoir
le dcs Tartarins, qui cstoient subjetz ou Prestre Jehan Lt'une part et
b l'empereur de Perse d"autre part•, Hill. dt> S.1irtt Louis, p. 90
1
ed. ,(>68.
:a Apontada jâ 1:m •83!! por d'Avezac na noticia citada, em Rt'cut'll de
voy. t'l dt' mtm. dr! ID StJ(. dt' Gt!vgr, IV
1
39'•i e desenvolvida depois relo dr.
Oppert, Der JtJll:mnt's in Sagf! urtd Gt'sd1rclrlt'. Esta ultima memoria
vem ealrAclada e conden•ftda por sir H. Yulc na• no1as ' su• ediçio de
Mur,:.o Polo, Tht! hook o ll'r Marco Polo, I,

z.• ediçll:o, 18]5.
O Preste João das /ruli"as
11
suas prin.:ip.aes cidades. T ncs seriam- na opinião que cs-
tamo5 resumindo -os feitos de succedidos no anno de
1141. c contados no de 1145 ao p.1pa Fugcnin Jl. pelo bispo
de Cabala. o qual naturalmente ti,·cra cunheámcntl..l na
sua Armenia. Esm theori.J. além de IC\".llltilr varias dilli.:uld;a-
cuja discu'isã'o nos lc' aria muito longe. rem logo il pri-
meira \istJ. o ponto fruco de nã'o cxplic3r, ._.,u explit:J.r m.1l. o
nome de João c a qualid.lde de christão, attribuidus ao grunJc
potentado nsintico. Advertiu-se. no \o-crd.tde_ que Gur Khan p.t-
n=cc ter sido buddhista
7
1 e que sempre se fizer .1m muita!'> con-
fus6cs entre christâus e buddhistas; notando-se tombem_ que
se elle não era pessoalmente christão, muitos dos seus parti-
darias o seriam, nomeadamente os tanaros ou rurcos uiAhurs,
entre os quues o nestorii.!nismo esto\.·a por oqucllcs bus-
t.mte espalhado. Quanto ao nome. Oppcrt suppóe. que Gur-
/(ll.J.n, pronunciado docemente é maneira Jos turcos occiden-
taes. Yu,.karJ, se poderia conrundir com YvcharJarl ou Joh.JnJtes.
E' certo, no emtanto, que estas explicações são bastante forçcJ-
das_
Na segunda thcoria, a o Prcsbytero Joáo seria João Orbc-
liano, generalissimo do reino do Georgia. e gosando
alli, sob varias e successivos soberanos. de um poder cgual ou
mesmo effcctivamente superior ao da realeza. Joâo Orbeli.ano
commandou os da Georgia nos guerras com a Pcr-
sia ocâdental e tomou aos turcos no anno de 1 12-1- umn cida-
de da Armenia chamada A.ni, c:xpliciramentc identific.Jda com
Ecbatana no proprio Chronico11 do bispo de Freisingcn. Esta
circumstancia c!: interessante; e .a theoria tem a grande vanta-
sem de nos fornecer um representante historico e real do Pres-
• Veja-se D"Ohsson, Histoirt dts Mon&ol1
1
'•
3 EKposta em uma Mtm.oria especial, cscripta em russo pelo proressor
Bruun. Esta Mrmcria vem enalvsalla e conJensada pelo (oUcciJo sir H.
Yule cm um dos oppe11dices da SW!. -a• ediçãg de Marro Polo, 11, • e
mais Jarsamente no excellenre artigo Prrsttr John ola Enlycfopwd•.t ·6r•-
9-• ediçlo, do Yulc.
12 Pedro da Covz1han
bytero João, que effectiYamente se chamava João c professava
a religião christan, embora pertencesse á egreja grega e não á
seita nestoriana. Por outro lado, é difficil comprehender, como
um general se converteu em um rei-sacerdote, e como a Geor-
gia se collocava para além da Pcrsia, i11 extrenzo orie7lte.
Sem insistir sobre os lados plausíveis c sobre os pontos fra-
cos das duas theorias, o que parece resultar de ambas é a extre-
ma difficuldade de encontrarmos hoje um representante real e
segu1·o do antigo heroe da lenda. que o honesto bispo de
Gabala, ou o bispo de Freisingen e outros, que transcreveram
a sua narrativa, possam ser accusados de deliberada falsidade.
Assim como as cartas de 1 16J são eYidentemente uma impos-
tura, assim a narrativa de 1 14S é claramente verdadeira, isto
é, cscripta de boa fé, por informações fundadas em factos
reaes. Sómentc, essas informações vinham de longe, passando
de bocca em bocca entre os nestorianos, e foram tão altera-
das e ampliadas no caminho, que difficil é saber hoje a que
successos primitivamente se referiam.
Pelos meados do XIII seculo, as conquistas dos mongoes, c
a relativa tolerancia religiosa de alguns dos seus chefes, ábri-
ram mais largamente a Asia c nomeadamente a Tartaria aos
viajantes catholicos. Estes principalmente os perten-
centes ás ordens religiosas, e eram o maior numero, estes via-
jantes saíam da Europa com a imaginação povoada de des-
lumbrantes relativas ao grande Presbytero; e com o
intento firme de o encontrar. A' força de pesquizas e indaga-
ções conseguiam em geral o seu fim; sótnentc= como era dif·
ficil encontrar unz Preste João incontestaYel, succedeu o que
devia succeder- encontraram os primeiros e
mais interessantes d'aquelles viajantes, temos fr. Guilherme
de Rubruk, enviado no anno de 12 53 ao Gran-Khan da Tar·
taria pelo rei de França, S. Luiz. Segundo fr. Guilherme, o
Preste João havia sido urn chefe dos n1ongocs naymans, cm
parte convertidos então ao ncstorianismo .. personagetn perfei-
tamente real, que tinha supplantado no imperio de 1\ürakhitay
um neto do de que antes falümos. o que ha

O Preste João das [,,izas
de realmente interessante na narrativa de fr. Guilherme, não
é esta identificação, que val<: tanto como varias outras, é que
o ingenuo franciscano, contando o que viu com absoluta boa
fé e extrema franqueza, reduz sem querer a lenda a propor-
ções mínimas. Porque- diz elle no seu barba ró latim- os
nestorianos contavam do seu rei João cousas dez vezes supe·
riores á. dos factos; e assim eram todos os que vi-
nham d'aquellas terras, gente de seu natural exagerada, atreita
a levantar grandes ruidos sem fundamento. Elle proprio (Ru-
bruk) atravessou as pastagens do rei João, e jtí ninguem por
alli lhe stibia dar rasão d'ellc, senão mui poucos nestorianos. 1
Como se vê, estamos cm presença de um simples chefe de
algumas tribus, parcialmente christans, cuja memoria ao cabo
de sessenta ou setenta annos se achava quasi apagada; e bem
longe d'aquelle colosso, que devia descer do fundo da Asia
em soccorro da Terra Santa, esmagando no camir;ho pagãos
e mahometanos.
Deixando outras noticias de viajantes, que nos levariam
muito longe, devemos, no emtanto, examinar um pouco mais
longamente a que nos dü Marco Polo. O livro d'este celebre
veneziano foi muito lido, antes e depois de impresso. Durante
seculos constituiu un1a das principaes ou a principal auctori-
dade em cousas da Asia. Ern Portugal foi lido c estudado já
no tempo do infante D. Henrique; foi vertido ctn portugucz e
impresso logo depois de 1 Soo; e ainda annos mais tarde os
nossos eruditos, como Dan1ião de Goes c João de Barros, ci-
tavam correnternentc o que elle havia dito do Preste João. A ver-
são de 1\'larco Polo interessa-nos, por tanto, pela sua essencia, e
ainda mais pela auctoridade de que gosou, porque representa a
1 "· •• et vocabant e um nestorini (si c) rcgcn1 J()hanncm, ct plus diccban t
de ipso in decuplo quan1 vcritas csset. lta cnin1 faciunt nestorini venicntcs
de partibus illis: de.: nichilo enin1 faciunt n1agnos rutnorcs ... : ct tran-
sivi per pascua ejus, nullus aliquid Je co, nisi ncstoriani pauci.»
ltinerariuPn 1-Villze/nzi de Rubruk, Rcc. de v·oyages de la Soe. de Gdogr .,
lV, 26o.
l-I
Pedro da Covz11ran
opinião recebida e classica durante muito tempo. Marco Pelo
coma detidamente cm 12g8 pouco mais ou menos- a
historia d"aquellc grande senhor, de cujo poder todos falavam
na Europa. • histona passada menos de um seculo antes.
Conta como o Pre!ltc João se indispoz com os tartaros. que
antes eram seus tributarias; como um 110\'o, e ainda relativn-
rnenre obscuro. chefe dos t;artaros lhe mandou pedir uma fi-
lha em cnsamenro; corno o Preste, indignado com aquelln au-
dacia de um antigo subdito e servo seu, tratou desabrida-
mente os enviados; como aquelle obscuro chefe dos tartaros,
que era nem mais nem menos do que Chenghiz-Khan, se re-
sentiu e marchou contra clle. desbaratando-o e matando-o em
urna batalha campal nas planicies de Tenduc. 2
Toda esta historia, nos seus tracos gcracs, assenta em factos
verd.tdeiro:s. O personagem, a quem Marco Polo chnms Preste
João, era Uang-Khan, chefe da poderosa tribu mongol dos kerai-
tas, a qual procediu da" terras do alto Arnur, e se viera estabele-
cer junto ao Hoang-ho ou rio Amarcllo- Uang-Khan havia sido
alliado de Y csugae, pae de Chenghiz-Khan, e depois do pro-
prio Chenghiz-Khan. Desallieram-se, porém, mais tarde, e
Uang-Khan foi baudo em uma grande batalha, na primavera
do anno de t2o3, sendo morto logo em seguida .i batalha. 3
Até oqui tudo está corrente; mas vejamos que direito podia
ter Uang-Khan a ser considerado o Preste João, ou mesmo
simplesmente um rei christão.
O escriptor syriaco Gregorio Abulfaradj, mais conhe-
1 •. • • au grant sire que enoit appelés en lor !engajes Unccan qe vaut
a dir en franzais Prester Johan, et ce fu le Prestre Johon de cui tout le
monde en (l&roknl sa Branl sesnorie.• Voyagrs, f'd. df' la Stx. df'
srapllit', 61. Citei esta phrase t)·pica pelo te.r.to francez, que i)ASSa por ser
o primeiro; mas em geral cito Marco Polo pela ver!io ingleza de Yule.
\"ulc, Marco Polo, 1
1
217 a 240; veja-se a inAuencia d"esta naiTariva
Je Marco PoJo nos livros portuguezes, em Joiio de Barros, AJia, m, 1v
1
1.•;
e em Darniiio de Goes, Chronica de D. parte m, cap. 58."'
l Veja-se D"Ohsson
1
Histoire df'3 mongob; ou Howorth, Huuwy o{
themottgols.
O João das lnd1aJ z5
cido pelo nome de Bar Hebrreus, escrevendo ahi pelos an-
nos de 1:250 a n6o, conta, como no de 1007 a rribu dos
kerai1as e o seu rei se haviam convertido ao ncstorianismo,
enviD.ndo-lhes padres o metropolitano de J\.lerv, e baptisnn-
do-se afinal o rei com mais duzentas mll pessoas da sua
tribu. Falando depois de Uang-Khan, Abulfaradj diz: positi-
vamente que elle era chnstão e lhe chamavam o rá João. 1
O escriptor persiano Raschid-ed-Din, nada !IUSpeito porque
era mahometano, affirma cgualmeme qur os kernitas aindn se-
guiam a religião christan no tempo de Chenghiz-Khan. 2 E
ainda a conservaram depois. Quando Marco PoJo passou em
Tenduc, ao longo do rio Amnrcllo, govema"õl alli um rei chris-
tRo, chamado Jorge, descendente em linha directa- diz elle-
do grande Preste João; mas os seus e!ltados de modo algum
se podiam comparar com os do seu poderoso ascendente, e
aquelle pnn.:ipe estava reduzido a ser um si01ples feuda.r:trio do
Gran-Khan da Tartaria. 3 Esta noticia de Marco Pelo é plena-
meme confirmada por fr. João de Monte Corvino, enviado ao ex-
tremo Oriente pelo p:tpa Nicolau rv, e primeiro arcebispo catholi-
co de Pe king. Em uma carta, datada d"aquella cidade no anno
de •3oS, conta elle como se havia encontrado com um rei
christâo d'aquella.!. terras, chamado Jorge, e procedendo da
linhagem do illustre Preste João. 4 Abundam, como vemos, os
testemunhos valiosos, insuspeitos, alguns contemporaneos ou
quasi contcmporaneos, dos quaes resulta que a 1ribu poderoso
dos keraitas, nssim como o seu rei ou chefe. professaram a
'•Eo tempon: Turcarum or1entalium tribubus imperavit l"ng chan
qui re:.: Johannes apel1ntu1 cst, e tribu qwr Carr11 vocatur; crant que po-
pulus qui religionem christianam profitebant\lr .• HiJt. compt"nd.io.sa &na.s-

' Citado por Yulc, Carhay anli lltl" »'·!Y lllitht!r
1
18o.
3 "'"ule. M.Jno Polo, •
1
::175.
4 •QutJam 111ius regionis Gcorgius de Nestorianorum Chris-
ti.norum. qui erat de p;enere dlusui M51ttni qu1 dictus fuit rrrrsby-
ter Joannes de lndia ..• Dato. in civita.te Cambaliech regni Caun, Anno
Dornini
1
lloh, em Wadding, minorNnl
1
VJ
1
fi9·
Pedro da Covilhau
religião christan nestoriana durante alguns seculos da Edade
media. A lenda do Preste João asiatico fixou-se pois, e com
uma certa rasão, em volta de Uang-Khan ou do rei João; • c.
fixou se alli mais positivamente e mais persistentemente do que
em volta de qualquer outro personagem historico. Isto resul-
tava, não só d,aquella opinião se encontrar em um livro de
tanta nomeada, como foi o de Marco Polo, como tamben1 de
ter um fundamento cm factos rcaes.
. Não poderemos no ctntanto- a meu ver -procurar entre
os chefes dos kcraitas o prirnitivo Presbytcro João do bispo
de· Gabala, como o tem feito alguns cscriptores n1odernos. 2
Essa theoria levantava ainda maiores difficuldadcs, que as
duas anteriormente indicadas. A cnorn1c da Eu-
ropa a que se achavam collocados os keraitas, o seu poder
relativamente pequeno nos começos do xu scculo, o facto
de não terem tido·- que saiban1os- guerra nem mesmo con-
tacto com a Pcrsia, não nos pcrmittem acccitar tal. expli-
cação. O que se affigura mais provavcl, é que a narrativa do
bispo· de Gabala assentasse sobre outros factos historicos,
quacs·1uer que ellcs fossem, c só um seculo depois a lenda
viesse a crystallisar em volta dos kcraitas.
O poder de Uang-Khan durou pouco, e os seus" estados,
como tantos outros, foran1 arrastados na rede de conquistas
de Chcnghiz--Khan, que não deixou pcdr.J sobre pedra. Quando
Polo falou d ·cllc e dos seus succcssorcs, já aquelle po-
der havia declinado; o livro do viajante veneziano tendia, por-
tanto, como o de Rubruk c outros a desfazer a lenda, mostrando
á Europa o Preste João morto, os seus exerci tos dispersos, os seus
estados englobados na enorme monarchia tartara, a sua dynastia
• l)iz-se que o non1e de é composto do titulo honorifico
chin [,rang ou e do titulo tartaro Klz .. 11l; o non1c pro·
prio do pcrsonagcn1 era 1,uli segundo os chins, c Togrul segundo os
persas; n1as possivcl se chan1assc entre os christãos. 1·an1bcm se
·1 I- - '1 f'"
tem queriL o ver en1 . o,1o un1a \. \.! Ja.lng.
2 V(:ja-se a longa cxposiç:io J\:stc laJo da quest:io, cn1 1-1. H. Ho"·orth,
1 Izst. of the uzongols, r, 534 e seguintes.
O Presle João das In4ias
11
representada por um principe, reduzido a ser um obscuro nibu-
tario do Gran-Khan. Jnvoluntariameme, todos os viajantes des-
rruiam e desfloravam a lenda, desde que a comparavam com a
realidade. E se uns, como fr. Guilherme de Rubruk, encontravam
a realidade dez vezes inferior, ouuos, como fr. Odorico, en-
contravam-n'a cem vezes inferior. r Assim, a repetição das via-
gens pela Tartaria produzia efteitos oppost:os: por um lado,
as identificações, mais ou menos plausiveis, tendiam a fuar alli
o Preste João; por outro, aquellas viagens, muhiplicando-!e,
começavam a tornar a rcg1ão demasiado conhecida para que
coube5se lá o seu cnonne poder. Só havia uma saída possivel,
identificai-o com Chenghiz-Khan ou com os seus succcssores,
realmente poderosos cm toda aquella reg1óo; e não fal-
tou quem inge11uamente fizesse esta identificação, auribuindo
ao rei David -um 11ome ás vezes dado ao Preste João- ou
a um filho seu, as primeiras invasCics dos exercites de Chcn-
ghiz-Khan na Europa, uercitos commandados effectivamcme
por um filho d'estc.
Não estava, porém, na natureza das cousas, que se desfi-
zesse tão promptamcnte uma lenda, da qual se pode bem
dizer, qne renascia das suas cinzas. Náo cabendo já na
Tartaria, restava-lhe a lndia; e alli se alojava tanto mais á
vonrade, quanto este nome era então extrema.rnrnte \·ago. Ha-
via varius l11dias: uma lndia menor, équem do Indo: uma
lndí"a maior, emre o Indo e o Ganges: uma lndí'a tercerra,
1 •... veni versus terram de Pretezoan, de quo non est cemessima
pers ejus quod quasi pro ceno de ipso dicitur.• Dtscriplio oritnraln.trn
parliwm fratriJ Odorid, em Yule, Carhay, App. 1.- A venão franceu de
fr. Joio de \'prestem uma auenuaote sraciosa: •· .• si vios eo la terre du
Prcbstre Jeban .•• ; mai11 cc n"est mie la centiesmc partic de ce quon di1
1
combien que cc soit riche tcn-c ct noblc payz.• Lhysroire dw
Grantd.m.
"Albwici Chrorri&Oft (anno 1221). •ln isto quoque anno nunciatum cu
in Francia quod idem reJ: David, vel ejllS ut quidam dlcebant filius, jam
Yl!nerat in que est ultra Hungariam Cl in partes Russia:: ubi
quasdam tt:rTilS incredulorum destruxil.•
18 Ptdro d• Corr7uo
além do Gqcs. Esta era uma das diwisões mais usadas;
mu variava muito, c a nomcnclarura ainda mais. Alguns cs-
cripcores abrangiam mruno sob o nomr de lttdia uma pane
maior ou menor da Afnca orienu.l. 1 N"esl3s lndias se collocou
muito tempo o Preste João, ngamente cm qualquer d'cllas,
com maior persistencia na lrrdia trrcdra, allm do Ganges, a
mais vasta, a mais a menos conhecida. Alli o c=ncon-
tramos em das curiosas canas c da
Edade media. Para citarmos apenas uma das mais conheci-
das, a que acompanha a celebre cxhonaçio de Marina Sanuto
aos christãos, LIM· /idrlrum cniCis ( J32ol, \'f:IDM
alli a Judia infrriar Johanm"s pra-:sbfl., situaiia na ultima cx-
rremid.;de orir:ntal da Asia. 2
Toda esta zona meridional da Asia era então muito me-
nos conhecida do que a Tanaria; c naturalmente encon-
tramos aqui menos tc:nrativas de identificação do Preste
com personagens ceaes, ou de localisação da lenda cm re-
giões deteJlllinadas. No cmt:mto. d'Avrxac, de accordo com
opiniões antenores de Visdelou e outros eruditos, incline-se
a que a lndia do Preste João se podt: talvez procurar para
os lados do Thlbet e do berço do lamismo. Haveria aqui
a inHucncia das singulares analogias, que existem entre o
buddhismo e o christia11ismo; das confus6es por vezes fe1tas
entre os que seguiam as duas celiglóes; e de alguma Y&ga no-
ticia d'aquelle cei-sacerdote do buddhismo, o Dalai-lamu, com
o seu grartde poder temporal c a sua e11ormc influencia espi-
ritual. 3 Por outro lado e em uma região muito distante, as re-
minisccllCias do supposto apostolado de S. Thomt:, e alguma
1 A brdia lrrtia de fr. Jon.lão e • l11di-2 rnr4•.: Je Benlamin de Tudela
e de Marco Polo ;;Jbrnnsem terr;;Js da Afnca oriental, se,gundo rarcce tode
• actual costa de Zanzibar.
:11 Veja-1e. Santarem, Ess.2i .111,. l"l1isr. de la Cosmopaplti«, UJ
1
195; e
tambem a reproducçio dos mappas de Sanuto no seu Atlas.
J Veja-se uma curiosa :appro.Umaçlio entre o Preste Joio e o Grtio
L.ama, feita (166:7} pelo erudlWsimo jesuita, o pndrc Kircber, China 11114-
rr,,ra,p. S1.
19
informaçiío indecisa sobre a e'\:iste[lcia de numero!os christãos
nas [erras do Malabar e de Coro-mandei, tendiam tambem a
fixar a lenda na verdadeira Jndia. 1
Tocamos n"cste ponto em um facto, a que jé nos temos
referido de passagem varins ve1:es, mns nos deve ainda de-
morar algun!' porque julgo ser o facto capital sobre
que assenta toda a asi.Jtica rlu Preste Jofio:-refiro-me
.é extraordinnria dispersão do ncstorianismo pelns terras da
Asia n"aquellcs scculos da E&de media. Condemnadas as suas
doutrinas no concilio de Remo do anno de .,J3o. e no de Epheso
do anno seguinte, rotas assim as retaçôes com as cgrejas latina e
grega, os nestorianos haviam sobretudo procurado .!largar-se e
desenvolver-se paro o lado do oriente. E com tão feliz
o haviam que, pelos meados do XIV seculo, elles
pos,;uiom 1•mle e ci11co egrqas metropolitanas, espalhadas por
toda a Asia. 2o Estas egrejas eram sobretudo numerosos na·
Mcsopoto.mia e na Persia, nas proximidades do seu Patriarcha
ou Ca1holicos, estabelecido successivamente em Baghdad e
Mossul; mas havia mui1as em regiões distantes, No sul, pos·
suiam uma na ilha de Socotora, 3 onde os portuguezes encon-
traram ainda sensivcis vestigios de christandode; e possmam
outra no Malabar, onde os chamados clwisrãos de S. Thomi
foram bem conhecidos dos portuguezes c se encontram ainda em
grande numero nos nossos dins. Na Asia central e septentrional,
tinham egrejas metropolitanas nos pomos mais afastados e mais
vul emBalkh; emSamarcanda i na Kach-
garia i em Almalel< para os lados do Balkach; em Tangai ao
norte da cordilheira do Altyn T ugh; em Kambalek ou Pe-king;
• D'es!AS hesi1açães e llluvidas ficou o Yeslif!io no nome popular por-
tuguez, o Jo:io dDJlndiDJ-nio da lndiD.
Veja-se uma lisla do anno da 1l4g,. em Assemani BibliothHD oril!'"·
•o2li1, 11, 4l8; e mais claramen1c cm Yl.lle, CallJtly, ccxuv. No1e-sc, que
eram egrcj•s anligas, datando pela maior parte llle seculos antcnorcl.
l E' .Juvidoso
1
no emtanto, que esta chrinanda.!c de So.::otora fosse
• e ser1a untes jDctJfrita, como diz, e parece que com rasãoJ o
nosso João de Barros.
cm Sin no centro da China. Do numero das mdropolilcnas se
pode inferir qual seria o das simples cgreias. o dos padres e. o
dos fieis. Encomrav.om-se, pois, nestorianos nas regiões mais
remotas i entre os nomadas naymans; cm grande numero en-
tre 01 uighurs do Turkestan oriental c: do ,·aUe. do Tarim;
cm moaaa entre os keraitas do rio AmaN:llo c: do Ordos. Es-
• • communidades ne.storianas conservaram-se cm relaçôes mais
ou acguidos c:mre si, por intermc:mo dos seus padres e.
do11 seus bispos; 1 e. recebiam de longe noticias, naturalmente
exageradas, sobre a sua 1mponancia. Por outro lado, os ca-
thulicllS, encontrnndo-os por Ioda. a paro:. confirmavam-se na
idl!:a de que mnis longe clles poderiam c.onstimir um estado
poderoso. N·isto rstna o cno, porque a não ser talvez entn:
os kenütas e ror pouco tempo, os nc:storianos permaneceram
!illempre c nunca formaram um agrupamento com
importunei• rolitico. a sua dispersio ficou sendo o facto
rcal.o s116·Sirtzlr "' :-.o lido, sobre o qual assentou a lenda do Preste
Joio asiatico, com todo o seu cortc:io de circumstancias ma-
nvilhosas.
•: IFtll• antes de passarmos ' lace. afrtcfJna da questão,
rodemoa resumir brevemente as principaes feições da chamada
• No 11nno de 11 ..J5, isto em plena efl'c:"c:scencia do c:s·
pirito das Cruzftda,, um asiatico traz a Roma a noticia
da e:s.istencia no extremo Oriente de um principc christio, rico
e roJeroso. Que estu noticia tinha por base factos rears, é O
que me parece incontcsta\·cl. Que esses factos se relacionas-
aem com as I'Jema entre o Karakhitay e. a Pcrsia, ou com as
COM"]Uit1as de um general da Gcorg;o na. Persia occidcntal c
na Ar•nmia. i o que iulp.o difficil decidir. De resto, 01
acnntecimelllOI succcdiam-sc: do rapidamente na perturbada
A!'ill
1
aa rclisi0c:• c as raças substituiam-se no mesmo solo de
• No.ltrMmtnt._ Layard C'IIC'OGII'Oll ee ..... egreja do
Kllrdl•l•n tlt1UI\t Yl&at. ""- Chil'lll de ....- 'ftlor e •ri(tuidi.Je: e disse-
nm-lht', qu•. "J'lnl\lo • 1r1di ... o l.x.t., ........ sido tralir.io5 pelos se.
('ldna "-• C.thii)'Q./\-.... ..... ,..lWylllll. p. alt-
O Preste Jodo das lndüu 21
modo lio ine!lperado, os irnperios levantavam-se e derriba-
vam-se com tanta facilidade, que o poderoso da vcspera era o
desconhecido do dia seguinte, difficultando-se assim todos as
pesquizas_ Em vohn da noticia formou-se de certo mais tarde,
e e natural que se formasse, um lenda pop11lar, na qual emra-
riam como materiaes, 11. memoria do antigo Preshyleros J o h . 3 t ~ ­
nes de Epheso, a longuidade sobrenatural anribuida a S. João
Evangelista, a esperança do reiuo de Deus na terra, e ouuos
elementos mythicos e mysticos d'esta especie de creaç6es. Essa
le11da, parallela é de João Espera em Dt11s, circulou sem du-
vida entre os fieis e nos conventos; 1 mas ao lado da le11da,
anterior a ella e independente d'ella, correu uma Jltrsão, que
nâo tem o caracter popui:J.r- pelo contrario.
Os escriptores, que nós vemos occuparem-se com mais in-
teresse do Preste João, são os homens ma'is eminentes do seu
tempo : bispos e dos mais illustrados, como Otho de Freisingen
e Jayme de Vitry; historiadore,. de alta valia, como Vicente de
Bcauva'is, ou como o Sire de Joinville; frades, que ao caracter
religioso reuniam o caracter diplomatico, e iam encarregados
das mais difficcis missões, como fr. Joã:o du Plan de Carpin,
nuncio apostolico do papa lnnocencio 1\', como fr. Guilherme
de Rubruk, enviado de S- Luiz, e varias ounos. Já nos fins do
seculo xv, o príncipe, que despacha Pedro da Covilhon em sua
procura, é D. João u, a quem nmguem póde negar umo vista
larga e perspicaz, uma deliberação fria, e intentos eminente-
mente praticas. O que seduzia estes homens não era por certo
o vago sabor poetico da lenda, era a importancia da realidade
possiJJe_l. Sobre todos elles -especialmente sobre os dos anti-
gos tempos, que a D. Jolio n moviam jé outras razões- sobre
todos elles pesavam duras preoccupacões religiosas e politicas,
nascidas da apertada situação da Europa, do isolamento do
christandade occidemal, do poder crescente do Islamismo, da
1 A eate lado rnystico deu- a meu Yer- imporlancia demasiada. o sr.
Theorhilo Braga, no aeu aliás es:cellente es1udo
1
A lenda do Prt!le Joi;o
44• Indias, em Lendas duUtmu, -.o7.
••
Pedro tia CoJ11lhan
desesperada siruação dos principados christáo.5 da Palestina e
da Syria, cuja se julgava nrccssaria, não so ã di-
gnidade do christianismo, como o\ segurança da Europa. O
myd10 do Preste Joâo é. pois, singular; não vive dos clemcn-
ros poeticamente ,-agos, que habitualmente sustentam os my-
thos, mos das consideraçóes politicas c diplomaricas, que ha-
biiUalmemc os destroem. Fonna-se em volta d'clle uma lenda,
uma crcaç6cs da Esperança e da Fé, que resistem a
rodos as desillusõcs, porque cUe seria um alliado salvador, se
fosac rtal.
E as desillus&s nlo faltaram, trazidas de longinquas terras
por todos os "iajantes, que- é ncccssario fazer-lhes esta ius-
riça- foram geralmente vcridicos. Podiam Interpretar um cu
outro facto é medida dos seus desejos, mas cm regra disse-
ram a verdade. A' parte: uma impostura as canas
de 111iS, a liurrurura relaü,-.. ao P!"es(c Joâo, respira
btl41 -c is1o faz-lhe a maior honra. • A força das successi-
Vll!l dcsillusl5cs nio foi para desuuir a lenda ; mas
foi aulli-:ientc para a dr:salojar. Cansados todos de procurar o
Preatc na Asia, sem o cnoontrar, c hanndo já pela wia de Jc-
ruaalem nllluma noticio. das christandades da Ethiopia, come-
çaram a drsviar·ac as ancoçõcs para aque11e lado.
1
O meamo •• nlo rode dber da llaeretun posterior. No folheto de
Gome• Sunt•\ lbtovlo, que fe• ('Ir-te da chamada I11161JIIIr.J 4•
e til lml1ula Z..•ra ft lrl/.trtt. D. Pt<Jro • Pwfrt.r•l.. o ,-1 dfr401Jl os- $ti•
J'tlrlt4•11u Mil. n'11to rulh&IC., 1 ptrtt rtollrin.ã 'l'iagem Do Ne.Jir.ertaDeo
• T•rn S..n111 QIIIOUI 1•lv11 sabrt ftcta. re-a•s. como tdmirtiu o meu flll-
lec:lo.lu • tn1ll'a Olivcll'll N11nins (0. JUtos • D. JHo lj; mas 1
wlall• •o l'na11 Joio f p11ramntt da pbiDI.., c copiadl du famosas
nr1aadeaa6),
O 'Preste João das lndias

• •
Tem-se dito geralmente, que a responsabilidade da trans-
ferencia do Preste João da Asia para a Africa pertence aos por-
tuguezes, e em primeiro logar a Pedro da Covilhan. Alguns
eruditos não lhe levaram mesmo muito a bem a sua interven-
ção; e Ludolf, por exemplo, adverte com dureza, que elle se
enganou, julgando encontrar na Africa o que devia procurar
na Asia, porque era ignorante e rude em historia e geographia. t
E' necessario distinguir. Se se trata de fixou definitiva-
mente no consenso geral, no que hoje . chamariamos a opinião
publica, a identidade do Preste João com o Negus da Abys-
sinia, a responsabilidade pertence sem duvida aos portuguezes,
e primeiramente a Pedro da Covilhan; c essa responsabilidade
não é grave, visto como o antigo Preste asiatico se esvaira em
fumo. Se se trata, porém, da idéa em si, o caso muda de fi-
gura, porque a 1déa é muito mais antiga.
Pelo anno de I33o, partiu para o Oriente um frade domi-
nico, chamado fr. Jordão de Severac, nomeado bispo de Cou-
lão, na costa do Malabar, pelo papa João xxu. Fr. Jordão es-
creveu depois uma phantastica relação das suas viagens, bem
intitulada Mir·abilia, onde fala da India tertia, que por muitas
e boas razões se pode identificar com a Africa oriental, para
os· lados do actual Zanzibar. Conta alli uma complicada histo-
ria de dragões e de rubis, encontrados nos dos taes
dragões, e diz: que os levavam ao imper·ador dos Ethiopes
1 • •• h une ipsum esse qui qurereretur, historiarum et geographire ru·
dis, plané persuasum sibi habeat.» Historia A!thiopica, L. 11, cap. 1.
0
,
Ja CoJJJ1ha'lf
que J.l6s chamatS o p,.esle João. 1 A passagem pared:-me clara,
posw que tenha sido interrretada por varias modos e contes-
tada a identificação da l11dia lrrlia com as terras africanas.
Nenhuma duvida, porém, se pode levantar quanto :1 que va-
mos citar. Encontra-se 11as reminiscenc.ias de viagem de fr.
João de Marignolli, enviado ao Oriente pelo papa Bento x1
no anno de t338. Falando do paraizo terrestre, diz aquelle
franciscano de um dos seus rios • • . • o Gyon circumda a
terra da Ethiopia, onde estão agora os negros e é chamada
a terra do Preste João. Julga-se que este rio é o Nilo, o qual
desce para o Egypto por uma garganta no Jogar chamado
Abasty (talvez Abasci). Os. christáos de S. Mattheus o Apos-
tolo vivem alli .••• s Tudo isto é clarissimo; e esta Ethio-
pia elos negros e dos christãos, por onde passa o Ndo, é sem
sombra de duvida n Abys:sinia. Aqui temo,, pois, fr. JorJáo
e fr. João, affirmando, no meado do 1.1v seculo, uns cento
e tantos annos antes de PedrG da Covilhan, que a E thio-
pia se chamava a ltr·ra do PreSle João. E é de notar, que
nem um nem outro parecem dar uma novidade, e pelo con.
traria se servem das phrases a terra que e chamada, ou a
terra que J.l6s chamatS, como referindo-se muito naturalmente
a um facto conhecido e a opinióes correntes.
A opinião era effectivamente mais ou menos corrente por
aquellcs tempos;, e isto vl!-sc bem dos docume11tos cartographi-
cos, tanto mais significativos, quanto em regra não representavam
a sciencia individual do cartographo, e eram como um resumo
dos conhecimentos da epocha. E' assim, que na celebre
calalan (1375), o Preste João vem collocado na Afnca, junto á
ilha de Meroé do Nilo. E' assim tombem, que no não menos
1 •- •• et inveniuDl essa dl'llcorUs corrubus denudata, et accipiunt car-
bunculum !iUDd es1 in os1e capitis nWicauJm, et portanl eum ad impel'lltO·
rem .IEthiopum, quam vos vocati.s Prestre Johan.• MirJth1lia, em R,ta,ril de
Voy.::rge.r, 1v
1
S6.
2 NAo vi o originll .atino, e traduzi da traducçõ.o insleu de l'ulc,
Ctzthay, 3.f8.
O P,·esJe Joll.o lndra.t
cclrbre Mappamrmdi do museu Borgia, feito logo nos cõmcços
do :r.v secuJo, provavelmeme antes do onno de qro, o Preste
vrm do mesmo modo collocndo junto a uma bifurcftção do rio
Nilo, indicando-se em uma curiosa e interessante inscripçõo,

,.J.
I
que o seu imperio se extendia para occidente até ao estreito
de Gades e um certo rio do Ouro. • Igualmente na c.e.na de
1 •Nubi11 christianorum sedes pret.biteri Johannis cujus imperlwn ab
01do Gadi! per meriJiem usque ad fluvium Auri.• 85 cartas no
4
•6
Pedro da Covill1arz
Anllrea Bianco (q36), o lnrpl.,.;,,m Prl!/e .!aniS está sinmdo na
Africo, que se prolonga muito par3 o lado oriento.!; e n'a.:tuclle
ImpenimJ se colloc.o.m as fontes do Nilo.
Não se de\·e, porém, concluir d estas cita.;:lies, que hou-
vesse já emáo a intenção definiJa de identificar o Preste
com o Negus da Abyssinin; e muito menos que sobre ·
este ponto opiniõe'l concorde.,. N'aquelles tem-
pos, ameriorcs á imprensa, c de publiciJade necessaria-
mente restricta, as noções scientificas, as geographic:Is co-
mo todus as outras, difficilmen::e e como que os-
cillavam hesitJ.ntes, dando lognr a ine:.pcmdos
E se nós vemos a Carta cal.Jia11 (1375), a do Museu Bor-
gia (q•o ·pwximotmcnte), de AnJreot Hianco (q36), col-
loc .. mdo o Preste João m1 Africa; vemos t.1mbcm a do Museu
Pitti (J.l•7), deix:.nJo-o ficar nas e:uremid.ldes do Oriente, e
p.1recendo a du muralha de Gog e
M.1gog; c a do Museu Drirannico, muito posterior (I con-
servomdo-o na me!'ma posicão, no ultimo fim dn lndiu, e ch.l-
m.mdo-lhe o Imperador de as lndliJS. 1 A sim:tção gco-
graphic.t do Pre3IC João rerma!lcci.•, pois, c,;trcm.unentc
e unicamente rodemos o•Hirm:Ir, que muitos pensaram já cm
o collocar n.ls terras da Afric.•, ames d.1 viagem de Pedro da
Covilhan. E' certo, no cmlanto, que estas noticius do começo
do xv seculo, sobretudo as que alargavam os dominios do
Preste João par.t occideme até ás pro1.i;.1s ufric.mus do Atlan·
tico, é certo, digo, que C"tns noticias deviam exercer uma
grande influencia no animo dos ponuguezes, que justamellte
iam entrar em scena.
De feito, por aqm::lles principies do xv seculo. Ponugal co-
meça francamente a ter lima historia exterior. Até então, a
.sua fôra principalmente interna; e não admira que
assim succedessc. Ganhar aos mouros as terms do sul, de
Atla;r do wiscondc da Sanurem
1
e um bem o Es;rai s11r l"lrrsr. de Crumo-

1 Veja-ze o Atlas do visconde de Sanrarem; e tambem o aeu E&l.:li.
O Preste João das lndias
Soure e Leiria, por Sdntarem c Lisboa, ao littoral do Algnrvr;
defender dos exercitas de Leão as terras do norte, delimitando
as mal definidos fromeiras, villa a villo e castcllo a custcllo;
sobretudo, lig.ar em um todo que constiruisse uma nação, os
re1ulhos Je di,·crsa natureza c diverso rrocedenciu, desde as
ferreis e humid.ts veigas do Minho, dote de D. 1 hereza,
ás hortas e ligueiraes de Sih·es, ultimamente tomados aos ara-
bes i tudo isto constituiu a obra da primeira dynnstia- e nâo
foi pequena. M.ts, no principio do xv seculo, o nacão estava
formada. a coroa tirmemente segura na cabcca do mestre de
Aviz, os horizontes desannuviados pora os lados de Castella,
pelo menos por algum tempo, e Portugal podia entrar em
uma nova phase da sua historia.
l) primearo acto d'esta nova phase foi a tomada de Ceuta
(t.Jt5). Era a antij:!;a guerr..t aos mouros, mas desviada do solo
purtuguez, já libert.tdo, e levada ás terras da propria Mouroma
-para nos scrvtrmos da expressiva pald.\TO popular. No sequito
de D. Juão r, passou ás terras o seu terceiro filho, en-
táo ainda uma creança, e que depois devia mais que ninguem in-
fluir na nova orientação da vido nactonal. O infante D. Henrique
crn j4, por muitos lados, um homem da Renascença: pelo espi-
rita largo e abeno a roJas as ideios novas, pela pura curiosid;adc
adentitico, pelo desejo. eminentemente moderno, de saber para
sdber. Quando, muito mais tarde, das arribas do Algarve, elle
via aos seus pês o oceano azul, desenrolando-se até ás brumas
do horizonte incinzcirado, irritava-o não lhe cúnhecer os limi-
tes. Parecia-lhe impossit"el, que aquellas oguo1s, limpidas c cla-
ras, tâo docemente frisadas nas tardes de verão pelo none da
costa ponugueza, se convertessem lá ao longe no sombrio e
innavcgavel .Mar Tenebroso. E umas apoz outras, em.·iava
para o sul as suas caravellas. mordido pela febre do desco-
nhecido, a mesma que depois impclliu Colombo c Magalháes,
de quem foi o precursor. MJ.s D. Henrique era tambem, por
outros lodos, um homem do Edade media, um verdadeiro mes-
tre da ordem de Olristo, herJeira da orJem do Templo, le-
vado pela indole, pelas tradições, pelos impulsos do seu ata-
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O P,.este João das lndtas
- N'isso me fareis serviço, e não sómcnte d'essa terra de-
sejo ter conhecimento ; mas tambem das ln dias e da terra do
Preste João, se podér ser. •
Esta ideia de alcançar pelo Sahará noticias da lndia e do
Preste, prova quanto todas as noções de geographia andavam
ainda baralhadas; e baralhadas em um espirito tão claro, tão
instruido, tão bem informado como foi o do Infante. E' que
as informacões eram irritantemente confusas e contradicto-

rias. O livro de Marco Polo 2 e alguns mappas mais antigos
collocavam-lhe o Preste no extremo Oriente. Outros map-
pas modernos diziam-lhe, que elle dominava na Ethiopia; e
esta opinião confirmava-se no espirita do Infante pelas noti-
cias directas, colhidas de alguns christãos abexins, que tivera
em sua casa, fazendo-lhes grandes mercês. 3 Mas a propria
expressão Ethiopia era uma origem de confusão, pois a pa-
lavra tinha uma accepção tão vaga com a de l11dia, se não
mais. Havia uma Ethiopia sobre Egypto, uma Ethiopia infe-
rior e varias outras. De feito, cm diversas cpochas, tudo se
chamou Ethiopia, desde costa occidental do actual 1mperio
de Marrocos até ás terras asiaticas para além da ·Persia. 4 Esta
1 Azurara, da conquista de Guiné, 94·
2 Que elle conhecia pela copia, trazida de V cneza por seu irmão
D. Pedro.
3 « Thiopya he sobre o Egipto c sobre Africa, da parte meridyonal ;
do oriente se estende contra o ocidente ataa o mar Ethiopico. E porque
gentes destas trinas (sic) som xpãaos, e querendo veer mundo
chegaram a estas partes d'Espanha, onde receberam grandes n1ercees do
iffante, pollo qual o autor poem assy aqucllas pallavras em seu capitollo.»
Azurara, Cllr. da de Guine, 1 1. - Sobre a vinda de alguns abc-
xins á Peninsula no anno de 1427 veja-se tambcm uma nota do cardeal
Guilherme de Fillastre, em Santarem, Rec/zerches, 323.
4 •Due süt aút ethyopie. Una circa ortü sol. alia circa occasum in
mauritania» dizia Vicente de Beauvais no seu Speculunz natura/e.
• ... e esta primeira ethiopia corre e se estende per costa do dito Rio
Canagua (Senegal) atee o cabo de boa espcranç(J .. A outra ethiopia su.
perior começa no Rio indo ale em do grande Reyno de pcrsi a ... ,, dizh\
alguns scculos depois Duarte Pacheco no seu Es1neraldo de situ orbis.
.!lo
ince"rteza sobre n situação c os limites da F1hiopin prcsrava-!le
a rodas as conjectur.!s. E quando nlls vemos um mappa ame-
rior a 1410-dc que o infame D. Henrique podia perfeit.J.mcme
ter conhecimento- alargando os dominios do Preste João a1é
a costa mlantica ••.• 1b oslio GoJdis per me1·idicm USojllt a.J jlr:-
vium Auri, .icixa de nos parecer singular, que o nosso Infante
quizcsse obter noticias d'ellc pelo Sahará. A mesm.t impres-
são se encontra nus palavras de um contemporaneo seu e que
nas suas caravcllas, o Amonio da 'Nolla ou
Antuniouo llsodimare, companheiro de Lui1.. de Ca.inmosto e
de Diogo Se a certa, que lhe anribucm, é authentice,
no que ha fun.i.tdas duvidas, aquelle navegador, cs1anJo na Sc-
negambia (q:,S) julgava-se a menos de trezentos leguas do
Preste Joâo, não rnlvez da su:J. pessoa e da sua capital, mas
dos limites dos seus dominios. •
eram as noçócs correntes sobre o assumpto nos tem-
pos do infantl! O. Henrique ; e taes, com pequenas alterações,
se conservavam quando O. João n tomou nas suas mãos firmes
o proseguimento da glorioaa emprez.t Je seu tio. 'Nos ulrjmos
annos de vi.in do Infante ha,·ia construido Fra ltl.mro, no seu
com·cnto camaldulensc de S. Miguel de Murano, por ordem c
a expensas de O. Alfonso \"
11
o famoso m.1FP•I •mmdi, remetti.io
para Portugal no annode •-t-:09ou z-J.6o. N'estcmappa,acosta
africana até ao Cabo Verde estava jã mais exoct;•meme deli-
neada, tendo-se arrovcil8do n'essa parte o rc-.ultndo dos recen-
tes descobrimentos dos ponuguezcs. Para dcante, a costa arre-
dondava-se em uma cun'n hypothetica, indo ligar-se é rarte
oriental, conhecida pelas viagens dos arabcs. No interior da
Africa, para os lados orielltaes, o Preste João estava collocado
1 •Vl!rum ex toto non restabant le.,::hn- 1recemos ad lerram pres-
b,·teri non dico rersona sua, imo incirit cjus tcrrilorium.• A c11na,
en.::onua.JH nos 11rchivos o.le roi publicada na integra por Major,
l"rd.:J do uio (cito pela versâo por1uguez11). Tanto (J. c.),
como Sam11rcm duvidam, porEm, da sua authe[Jfid-
dadc.
O Preste João das Indias .Jr
na Abassia, com a seguinte inscripção : Qui ii Presto .. Ta1nze fá
residenlia p1·illclpale. A Abassia ficava, porém, muito desviada
para os llldos do sul, e extendia-se até ás costas do mar aus ..
trai, resultando de todo o mappa a impressão, de que, conti-
nuada a navegação e os descobrimentos, se deveria chegar a
pontos do littoral, pertencentes ás terras do Preste. • Conser-
. vava-se assim a esperança de o encontrar, quando uma noticia
imprevista veio avivar aquella esperança, tornando a questão
do Preste, o que hoje chamaríamos uma questão palpzlante.
Foi o caso, que João Atfonso de Aveiro voltou da costa de
Benin ( 1486), trazendo cotnsigo um enviado do regulo d'aquel-
las terras. O negro contava, que a vinte luas de marcha da
costa habitava um rei poderoso, chamado Ogané, tão venerado
terras quanto o Summo Pontífice entre os catholicos,
ao qual os reis de Benin, ao subirem ao throno, mandavam
pedir a confirmação da sua nova dignidade. Ogané enviava-
lhes, em signal d'aquella confirmação, um capacete e uma es-
pecie de sceptro de latão ; e tambem uma cruz do mesmo latão,
da feição- diz Barros -das que trazem os commendadores
da .ordem de S. João. 2 Os embaixadores de Benin, emquanto
andavam na côrte de Ogané, nunca o viam, pois elle estava
sempre mettido entre cortinados ; e unicamente ao partirem,
lhe beijavam COm reverencia O pé, que elle lançava ·fora

corttnas.
E' extremamente difficil discriminar hoje o que realmente
disse o negro, do que involuntariamente accrescentaran1 os in-
terpretes e todos os que o ouviam. O deseJO de descobrir o
Preste João havia-se tornado uma ideia fixa, e levava, por uma
especie de suggestão, a encontrar nas palavras do negro cousas
1 Vcja·se a Africa de Fra Mauro no Atlas de Santnrem, e a sua redu-
cção em um dos capitulas seguintes; e tambem o que diz Major, Vid .. 1 do
Infante, 368.
2 Veja-se sobre os succcssos que seguem, Barros, Asra, 1, nt, cap. 4.
0
;
e tambem Gaspar Corrêa, Lendas da lndia, •, 5 e seguintes .

\
Pedro da Covilhan
que li não estavam nem podiam estar. E' claro, que o Ogané,
a quem se achavam mais ou menos sujeitos os regules da costa
occidental, devia simplesmente ser um potcmado negro do in-
terior, uma especie de Muata-Y anvo ou de ou, para nos
approxirnarmos mais da região, um re1 no genero do de Daho·
mey. 1 Qualquer que seja, porem, a ideia que nós hoje for·
memos de Oganl!, a impressão foi muito diversa no tempo de
D. João 11. Viu-se nas pai.J.Vras do negro uma singular concor-
dancia com o que já então se sabia da Ethiopia e do seu rei,
pelos padres e peregrinos abexins, encontrados em Jerusnlcm
c outras partes. A distancia de vime luas de marcha tambcm
foi cuidadosamente D. Joiío 11 rctJniu os seus cosmo·
grapboS pura exanlinarem a questão i e, computadas as \'inte
luas de marcha em pro:Kimamente tn::zentas leguas, que se
dc\•iom com.u para leste de Bcnin, consultadas as taboas de
Ptolomeo e comparadas com os padrões dos novos descobri-
mentos, pareceu-lhes a todos que a murcha devia lenr á
Ethiopia sobre Egypto. A opinião foi, portanto, que Ogané
de\"ia ser o Preste João. Era necessario encontrai-o sem perda
de tempo.
D. Joiío 11 poz immediatamente mão á obra. Mandou ar·
mar tres nnvios, de que deu o commando a Bartholomeu Dias,
enviando-o para a costa africana (t-t-86); e ordenando-lhe, que
de espace .l espaço lançasse cm terra alguns negros e negras,
os quaes de\ium perguntar pelo Preste, c notificar como o rei
de Portugal mandava descobrir o lndia, e •principalmente
1 Quanto ,b cruzes, podiam unicamente ser um ornato, que occasio·
nalmente tOmasse aquella ronna i mas podiam tambem prender-se llis que
usavam os cbristâos ela Nubia ou ela Abys.sinia, bavendo cbegado ao lodo
occulental retas singulares e frequentes migrações, que se elão no interior
da A[rica_ Schwcinfurth encoDtrou moJemRmente as formano.lo um
Dmato habitual nos escudos. .!os Nyam-Nyam e lshogrJ do centro de
Africa i e adm1ttc que elles as copiassem de algum povo da costa, e ado·
ptassem como feilifo, sem lhes lisarcm outra signilicaçâo i veja ..se Hearr
oj Africa
1
1
1
:aBS.
O Presle João das lndias .u
hum principe que se chamava o Preste João•. Por outro lado,
logo na primavera seguinte, despachou para o Oriente Pedro
da Covilhan e Affonso de Paiva.
O feliz resultado d'estas expedições é bem conhecido--
Bartholomeu Dias descobriu o cabo tenninal da A f r i c a ~ - e Pe-
dro da Covilhan descobriu 11m Preste João.
ArllludaEthiopia.aesondootiiYroa
ponuguundali:VIIItclllo
CAPITULO II
lltDia)aalr r •!I prt,aratl•u
11.e Dlagrm
QU \NOO D. João u man-
dou chamar é sua pre-
sença Pedro da Covilhan,
para o r:nvior ao Oriente,
era este jé um homem fei-
to, de quarenta annos ou
bem perto d"elles, e tinha
atraz de si uma vida longa
e accidcntada, que o tem-
perava para as novas aven-
turas. Era natural da vtlla
da Covilhan, com todas as
qualidades, seguramente,
de energia e persistencia, propries de um beirão da serra; e
devia proceder de uma origem obscura, a julgarmos pelas si-
tuações modestas em que começou a servir, e tambem pelo
facto de lhe darem sempre o nome da terra de sua naturnli-
dade, e não um appelbdo de familia. 1
Havia passado muito novo a Hespanha, a procurar alh ser-
viço em alguma casa nobre e opulenta, facto nlo raro por
• Pedro ou Pero da Covilhan lhe chamam o padre Francilco Alvares
que o conhecia pessoalmente, Joio de Barros, Gaspar CorrEa e outros ; e
es1c nome foi recebido geralmente. Garcia de Resende (Cirrortic" d ~
D. João 11, cup. 42-
0
) chemo-lhc Jotio da Covilhan; e Damião de Goes
(CIIrollic.s d ~ D. M:tlllltl, parte 1o1
1
cap • .58.•) Joio Pires da Covilhan, não
sei com que lunJ.!lnlento.
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O 11iajanle
.17
veis: de um Indo, os pnnidarios do velho duque D. João
Affom1o, e depois de seu filho D. Henrique;, do outro, os de
D. João Poncc de Leon, conde dos Arcos, e mais tai"de de
seu filho, D. Rodrigo PoDce de l..eon. conde dos Arcos e pri-
meiro marquez de Cadiz. Durante annos, justamente os que
alli passou Pedro do Covilhnn, aqucllcs bandos trouxeram Se-
vilha em continuo dcsassocego, e mais que desassocego. Nunca
se sem virem ds mãos em rixos sangrcmas, que
dcgencr;.n-am facilmente cm vci"dadciras barulhas. De umn vez,
bateram se pelas rua!!. cinco dias !l.eguidos. A cidode -como
diz ntcrrado o bom D. Diogo Ortiz-cstnvo cheio de horro-
res. cscandalos, manes, violencias, roubos, ruinas de edifi.:ios,
incendios, c outros mil generos de desastres • -não sendo
facil saber o que seriam mais estes desastres, depois de tantos
enumerados.
Por alli se demorou Pedro da Covilhan seis ou sete nn-
nos, fazendo a sua educação militar, c. aprendendo ao me-
nos duas cousus : uma, a falar hespanhol na ultima perfei-
ção, o que depois lhe serviu, como veremos ; a outra, a conliar
principalmente no seu braço e na sue espada, o que tambcm
lhe não scrio inutil no futuro. Decorridos estes annos, ahi pe-
los fins de 1-Ji4 ou principias do anno seguinte, veio a Ponu-
gal com D. João de Guzman, 2 passando encáu paro o scrvi.:o
pessoal de D. Alfonso v na qualidade de moço de esporns,
mas sendo logo accrescentado a escudeiro, senrindo de armas
c cavallo.
I •Desde 21 hasta 2.5 Julio (1470) JlClearon CRII incessablemente
sus dos vandos dentro de la CiuJad, llenandola de orrores, escand•loa
1
muenca
1
violenciaa, robos, ruinas de cJificios, incendios y ocros mi111ene·
ros de dcaascres.• Oniz, An11. de Sev1li.:J, 36:r..
J O. João de Guzman en irmão do du-Iue D. Henrique, enio do du-
que D. Joio Alfonso, como dU: o padre Alvares (Lopez Haro, Nob. R•-
1. ti.j.; Ortiz, I. c. 36o}. Estas leves inc:uctidões filO JICrfeiu-
mente Ciplicavcis n'uma narn11iva, (cita de memona ao cabo de ctncoenca
«nnos; e, se alguma cousa nos pódc surprebcndcr,é
1
pelo contrario, que o
c:oniuncto das noticias seja tiio e'lacto.
38 da Covilhtm
Acabava de fallecer o rei de Castello (dezembro e
este facto ía provocar a guerra entre Portugal e aquclle paiz.
Henrique IV era cunhado de D. Afiunso v, lendo casado
(14;;) com a infama D. Joan na, filha do rei D. Duarte, nascida
alguns mezes depois da sua morte. Esta infama de Porrugal e
rainha de Castella passava por ser, no seu tt:mpo, o mulher
mais bonita de toda a Pcninsulo; e a sua formosura collo-
cava-se acima das mais celebradas. 1 Era, sobre isso, elegunte
e galanteadora, nada i11differente ás aJmirações que a sua bel-
lern suscitava. 2 Casou, ou casaram-nu, com um homem que
jé passárn a primeira mc'cidade, feio e di .. gracioso, tendo o
nnriz rombo e chato cm resultado de uma fractur "· pouco cui-
dado nn sua pessoa, c de tão prov:tdo debilid.ade de
mento, que d'el·e successão ao throno. 3 O
resultado d"este casamento, egual pela nobreza, mas physio·
logicamente tão deseguol, ern de prever; e, quando a rainha,
ao cabo de cinco ,mnos, teve uma filha, chamada como clla
D. Joanna. a voz publica attribuiu a paternidade da pequenina
infanta a D. de la Cueva, grande valido do rei e de·
pois primeiro duque de Albuquerque, começando a chamar-lhe
a Bell•"alleja.
Chegou o a ponto de uma liga dos
do reino, capitaneada pelo poderoso marquez de
Villena, D. João Pacheco, declarar publicomente illegitima
a infanta, e jurar por herdeiro do throno o infante D. Af·
1 •Entre quiene, (as dam .. ) aviendo una llamada D. Guiomar, muy
hennosa, aunque no tamo como la Reyna, que era reputada por la mas
hermosa de toda Espai'ia •.•• Garibay
1
Compendio histori.d, 11, 5o].
:a •Esta reyoa, deleitando-se mas ll!n la hll!rmosura de su l!lf!Sto, que
ll!n la sJoria de su fama ...• Nebrixa
1
CAron. de 10.1 &yes Carllol1oos, ti,
Valls.dolid, 14fij- •mais desenvolta do que convinha ;i sue. Real pessoa•,
coofcaaa r;ravemente o nosso D. Antonio Caetano de Sousa.
3 •- .. el aspecto feroz y temeroso, la nariz roma y muy llana, aunque
no de nacimiento, sino por lision ..• la barba crecida, el cabello rubio,
poc:as nzes afeitado.• Garibay, Comp. hdtDI'iDI. "• 4')5.- Supprimo ns ci-
taçôe• dos chroni1tas hc1paohoes sobre outros defeitos do rei, por de-
maiiaJo esplkitas.
O 1•iajantc
fonso, irmão de Henrique acclamando-o depois rei. Jé
emão D. Affonso v esteve para intervir, vindo a rainha, sua
encontrar-se com clle á Guarda, e pedir-lhe o seu au-
xilio. 1 As discordias civis serenaram, um pouco, pela
morte inesperada do moço D. Affonso, c pelo facto de a in-
fanta D. Isabel, depois rainha Catholica, se recusur a fazer
valer os seus direitos ao throno, em quanto \'Ívcsse seu irmão.
Augmcntava, no emtanto, o descredito da formosa rainha
D. Joanna, c dizia-se, que ella, estando no castello dC Alahe-
jos, havia t1do dois filhos de um cerro D. Pedro, sobrinho do
arcebispo de Sevilha, o que seguramente não era favoravel á
causa da sua primeira filha. :a
Quando, pois, falleceu D. Henrique IV, a infanta D. Isabel
e seu marido D. Fernando, rei de Sicilia e herdeiro de Ara-
gão, foram acclamados reis em Segovia, tomando desde logo
o seu partido a maior parte das villas e senhores do reino. De
outro lado o rei havia deixado um testamento, declarando D.
Joanna sua filha legitima, herdeira dos reinos de Castella, no-
meando D. Affonso v defensor d'aquelles reinos, e pedindo-
lhe que casasse com aquella sua filha. 3 E um grupo, não
muito numeroso m&s muito poderoso, de senhores de Castella
havia tomado a causa da princcza D. Joanna, e instava com o
rei de Portugal, para que este acceitasse o testamento em to-
das as suas consequencias. Seguiram este caminho. o mnrquez
de Villcna, D. Diogo Lopes Pacheco, tão zeloso agora cm de-
fender a legitimidade de D. Joanna, quanto seu pae o fõra on-
nos antes em a atacar; o velho D. Alvaro de Zuniga, duque
de Arevalo, c a sua segunda mulher, D. Leonor Pimentcl,
irmã do conde de Bena\·cme, mais enrhusiasta ninda pela causa
que seu marido; o arcebispo de Toledo, D. Afionso Carrilho
da Cunha, da nobre familia ponugue.za dos Cunhas, um dos
I Ruy de Pina, Cllrort. de n. Affonso v. nos lnld!IOI, •• 518.
• Ncbrixa, Cllron. ,U los CathDii€oJ, 6 c j.
'Ruv .3c Pina, I. c. 537.-Aiguns chronistas hcsp:mhocs contestam a
cxistcocia do &c:!ltomento, por C'lemp1o
1
Zurita. Ann. de Aragon, IV, no v.•
Pedro da Covilhan
homens mvis turbulentos d'aquelles turbulentos ;, os
dois irmios Telles Giron, o conde de llrcfin e o mestre de
Colatrn\'il; e vorios moi!'!. O morquez de Villena contava tam·
bem, ou pretendio comar, com o marquez de Samillana, o
duque de Alba, o duque de Albuquerque, que mais que
ningucm devin estar fixado o grnu de legitimidade
de O. Joanna, o morqucz de Codiz e muitos outros. Todos
estes, poréll'l, ou se retn1l1iram, ou tomaram francamente o lodo
dos reis Catholicos.
O. Affonso v julgou, no emtanto, as adhes5es sufficien·
tes e o momento opportuno, e decidiu tomar emre mãos a
defesa dos dircitos de sua sobrinha, que em Hespnnha con·
tinuavam a chamar a Bell1·aneja, e em Ponugal deviam cha-
mar depois a Exce//ellle Se111lora. Entrou, pois, em Hesponha
por Arronches (maio 1-J.JS), com um exercito de perto de
vinte mil homens. r em que iam os primeiras pessoas de Por·
tugal : os tres Brnganças, duque de Guimarães, conde de Foro
c D. Alvaro i O. Francisco Coutinho, conde de Marialva; O.
Affonso de Vasconcellos, conde de Penella; D. João de CRstro,
conde de Monsanto; os dois Menezes, conde de Villa Real e
conde de Loulé; os dois Albuquerques, um dos quaes foi
depois creado conde de Penamacor; o marechal O_ Fernando
Coutinho; o arcebispo de Lisboa e os bispos de Coimbra c
E l-ora; e muitos outros dos principaes fidalgos. Ia tombem,
no sequito pessoal O. Affonso v, o obscuro escudeiro Pe-
dro da Covilhan, servindo de armas e covallo- :a
Nüo vem para aqui os successos da guerra, que pertencem
;b historias de Portugal e de Hespo.nha, e não 4 de Pedro da
Covilhan. Bastarã recordar, que este assistiu cm Placencia 4
acclamação de O. Aflonso v e D. Joanna como reis de Cas-
tclla; assistiu depois 4 marcha sobre Toro e sobre Zamora;
• Ruy de Pina, 1. S4:1.
:11 •Este don Joi ho dera a d Rey d6 Monso de Portugusl por moço
despolas, ho qual ho loguo tirou por escudeiro e servio dannas e cavallo
nas dius euerr•s (de PonugUDI có Castella)•· Vf'r4ad. injom111çam, 1:17-
á tentativa de libertnçiio do cnstello de Durgos; e finalmente
é batalha de Toro (março d.c 14-;61. E" de crer, que elle. se-
guindo a pessoa do rei, estivesse no ala do exercito que foi
derrotada junto ao Douro, emquanto o princire D. João, che-
gado ultimamente de Portugal, conseguia na outra ola conser-
var as suas posições, obtendo mesmo algumas vantagens so-
bre o inimigo. Não obstante estas ,·antagens reloth·as. a ba-
talha de Toro foi um desastre para o paiz, sobretudo
de,.astre pes!lonl paro D. Alfonso v. As con:sequencias, de resto,
"entiram-:se desde logo, e os seus alliados hespanhoes come-
çaram a solicitar o indulto dos reis Catholicos, dando o exem-
plo o duque de Arev.o.lo, mesmo antes da batalha, segumdo-se
o mestre de Calatravo e outros mais. D. AftOnso v ficava só;
impossibilitado de proseguir na sua empreza com os proprios
recursos, impossibilitado de a abandonar sem o que julgavn
'luebra da sua honra, lembrou-!lie em má hora do seu alliado
L..uiz xr, a quem escrevera já de Extremoz, ames de começar
a campanha, c a qul!m de Plocencia ml!smo en\iaro dois em-
baixadores, D. AI\ aro de Athayde e o licenciado João d'EI\·as. r
Em uma das resoluções subiras e irreflectidas do seu cara-
cter impulsivo, decidiu ir encontrar-se pessoalmente com elle.
Deixou Toro entregue ao conde de Marialva, voltou a Lisboa
com a sobrinha, que todos entâo chamavam a rainha D. Joan-
na, e logo no verão de 1476 embarcou em Jirecção és costas
francezns do Mcditerraneo. Levava comsigo um luzido acom-
panhamento de fidalgos principaes, e um numeroso pessoal
secundaria, entre o qual in o" seu escudeiro Pedro da Covilhan,
que assim teve occosião de \lisitar a côrte de França antes de
passar li côrte dn Abyssinia. :a
Desembarcou o rei com toda o sua comitiva no pequeno
pano de Colliure, c providos- como diz Ruy de Pina - de
• Vl!!cOnJe de Samaren1, elemtnlar d.u r<'lnrôel politicns e di-
plomalir:IIS de lar, 11:1 e 12-J.
a • ••••. c servia darmiJ§ e cllvullo nas dilas suerras e fora có cl Rey a
FriiÇ"a.• Ytrd. iri{Ot'IIIDflll'lr 127.
Pedro da Cm•ilhan
• bestas pera eneavalgaduras de suas pessoas e carretas pero
fardagem•, seguiram a sua demorada \·iagem, por Nismes e
Leio até Tours, •i cidade de Tors cm Toraina•. No caminho,
o rei de Pormgal havia tido cm toda a parte wn magnifico re-
cebimento, saindo a cumprimemnl-o muitos senhores principacs,
enu-e elles o duque de Bourbon. Por este l.Ido, Lliz XI
bem as cousas.
A primeira entrevista Jo rei de Portugal com o de França
teve Ioga r a IIi em T ours.; e raro se terão encnntrv.do dois
reis, mais profundamente diversos do que eram, aquellc
antigo batalhador dos campos de Africa, e ingc ·
nuo, e nquelle solitario dcsconfindo, intelligentc c falso. Pa-
rece ter feito impressão nos portuguezcs o 1raje de Luiz xr,
que effccti\'amente foi na sua pessoa um dos homens menos
elegantes c cuidados d'aquelles tempos. Notaram, que elle 1CB·
zia na wn barrete, sob o chapeu, e duas grandes ca-
rapuças ; e ve!<ttia um saio curto de pmmo, e uma beca de
chamalote amarello, forrada de cortJciras braocas m11ilo gros-
Strras; á cinta uma longa espada, com os punhos de ferro
gastos e limados; as esporas no mesmo estado. Estava n'aquella
primeira entn:vista extremamcmc amavcl, começando por dar
graças a Nossa Senhora c a S. M.:1rtinho, •n Monscor Sam
Martym,• 1 por lhe filzcrem aquella mercê, de a um tão po-
bre homem como elle era vir visitar um t§o grru1de rei. E
quando começaram a falar cm particular nos negocias dn
guerra, teve tambcm muito boas palavras : parecia-lhe neces-
sario obter sem demora a dispensa do papa para o casamento
do rei de Portugal com a sobrinha; pareciêt-lhe tambem indis-
pensavel entcnder·se com o duque de Borgonha, a fim de este
lhe dar nlgum.\s seguranças de paz, deixando-o mais desafo-
gado porn auxiliar Portugal nn gucrrv. com Castclla; ou, o que
melhor seria, obter do duque, que ellc proprio e as suas gen-
tes os ajudassem n"aquella cmpreza. Tudo isto era rasoo.vcl, e
• Ruy de Pina, I. c. S71-toda. a relação de Ruy de PinA lhe roi evidenA
ICmente communicada por uma testemunha ocular.
ficou accordado, que se mandassem embaixadores a Roma pe-
dir a dispensa, como de feito se e D. Atfomm v
se avistasse pessoalmente .:om o duque de Borgonha.
Seguiu aquelle, porem, primc:!iro para Paris, onde, por or-
dem Je Luiz XI, lhe fizeram uma solcmne recepção. Vieram
esperai-o fõra de portas os pr·i•oosls des ma•·dra11Js el ét:htr•ins
da cidade Je P.1ris, com varios arcebispos e bispos, ,., aul-
lrcs rzol.Jbies lwmnJes. 1!11 mo11ll gr·.J11/ ho1mes/c IJOmb,·t; e da
porta SI. Jac.;ues o leveram debaixo de pallio á cathcdral, onde
o aguarJava o bispn da Jiocesc. D'alli, jll de noite, .:om tochas
accêsos, se foi aos se!ls aposentos, cm casa de mestre Lou-
ren.;o Herbelot, na rua des Prourairts. 1 E' natural que os
nossos portuguezes assistissem com curiosidade a estas pom-
pas da nobre cidade de Paris, embora o esplendor da côrte de
França não excedesse então o Jc varias omras da Europa.
A demora em Paris não foi grande, e D. Alfonso v, na im·
paciencia natural de definir a sua siluação, partiu logo d'alli a
encomrar-se com o duque de Borgonha, que então se achava
cerc:mJo Era j.1. jn,·erno cerrado, pelos fins do onno de
14j1i, c os portuguezes notaram com espanto o rigoroso clima ·
d'aquellas regiões, a neve cobrindo a terra. sobretudo o rio
c tão rcgcllado, que per ellc seguramente pa!isovam besta!i e
carretas como per huma forte ponte. • A entrevista dos dois
primos foi cordealissima. Eram dois valentes, dois impulsivos,
que se entenderam facilmente. Netos ambos do mestre de Aviz,
tinham nas veias o sangue violento de D. Pedro o Cru, e tam-
bcm umas gottas do sangue plebeu de Thereza Lourenço. A
ambos repugnava a politica lortuosa de Lui7. x1; sórnente, o de
Borgonha conhecia-a melhor, e tinha sobejas rasões para isso.
Este foi em extremo franco com o primo: disse-lhe logo, que
clle nada tinhn o esperar de Luiz x1, um homem •em quem
não havia virtude nem verdade•; a prova_ estava, em que o
' O escriptor contemporaneo Jean de Troyes, citado por Sanlarem,
111
1
1l8.-Eil& primeira viagem e. Paris não ..-em men-
donada em.Ruy de-Pina.
... _ !'' ., .. • ..: . .I
manaa.va a u. a l!.tn re. FrlZ
. --. .
e MJ tr..e!RV.J temp-... gc::te c
de a'J aJ,·e:--sar..:,. o .fr..:-I J.e c!m-
..
ta nu,, du =Jue de &rgoo!u. p::,.:- ro;:i
e nãr., Ie\·antãr e;ror.-os a ét!"':':"ez.=. J!s ..
.
JY-"tf" a dar ar.} Je tr,das as c
de paz.
v,bre eita ax;g.l .10 ..:.i.N
de algun\ D .. AffooY> \" um.1
dera .. a batalha V.Jb r.Js muros Je Xan.:\-. ser:J.1 Jc!:-rc-t.IJJ.s
-
a' de e o r ror =i·) Cari.:-s õ T
IÍIJ -5 de 1-J;; } .. Como Jiz Je
ena m(Jne e perda do duque de Borgonha D.
Afi()OYJ de \·erdadeira e perder tuJa a es·
perança do seu desejo e proposito•.
J..,uíz XI, livre do seu maior inimigo, já não Jo rei
de Ponugal, e era tão natural abandonai-o. que nem o rro-
prío Ru;' de Pina th·o Je,·a muito a mal. • EtTe'ti,·amente toJo
o da estada em França foi simplesmente um longo
t}"rio para o orgulho de D. Aftonso v. Esperou toJa a prima-
vera cm Paris a resposta do papa Sixto ,, .. ,que atinai e.
em resumo, fazia depender a dispensa 'anonii:a da ,-ontaJe de
(..,uiz xr. depois uma ultima entre,·ista 'om este'! en-
que teve Jogar em Arraz já no ,·erão; e Ja qual saiu
completamente desenganado. 2 Esperou ainJa longamente em
ltuão e em Honflcur, que lhe dispozessem na,·ios pa:-a ,-oltar
ao paiz. 1 .. : n 'essas pesadas horas inactivas. a situação
vez se definia mais nitidamente no animo sombrio do robre
rei. 'rudo aquillo para elle era o fim, a morte das suas am-
• Ruy de Pina, L c.
2 Segundo diz Phclippc de Comines, que seguiu d\! perto estas
os primeiros embaixadores de Portugal iossem • a\·isaJos c sabios ')
teriam logo percebido que não havia nada a esperar Je Luiz xr, e D . .-\f-
fonso nunca teria ido a .. 1s, 402, cito pela versão hesra-
nhola de •7•4·
O 45
biçôes, peor do que isso, a quebra da sua honra. Em·ergo-
nhava-se de voltar a Porrugal, batido militarmente cm Toro,
batido diplomaticamente em Frunça. Pouco a pouco formulou
no seu espirita um plano-não ,·citar, abandonar o mundo
que o abundonava. E um din. depois de escrc\•er algumas car-
tas para Portugal e para o rei de França, um dia, só com
dois fugiu. Dizem que ia em direcção a Jcrusalcm,
em todo o caso ia para o cxilio indefinido, para o refugio su-
premo da obscuridade, onde ninguem lhe podesse lançar em
rosto a sua impericia, ou a sua mã fortuna. Mus este mesmo
plano lhe folhou.
O desapparecimemo do rei sobresaltou naturalmente toda
a comitiva portugueza, assim como os francczcs que o acom-
panhavam; buscaram-n"o activamente por todas as estradas,
e, ao .:abo de dois dias, um gentilhomcm francez, Roberto
Lebreuf, foi encontrai-o em umn aldeia já distante. Ao princi-
pio resistiu-não queria volmr. Foram nccessarios os rogos
do conde de Penum;.tcor e do conde de Faro para o decidir.
Trouxeram-no a embarcar em um requeno porto das visi-
nhanças, pois elle tinha vergonha de entrar em Hon8cur. Pas-
sadas algumas sem-mas desembarcava em Oeiras, c o principc
D. João entregava-lhe de novo a governação do reino (novem-
bro 14771.
Taes são, tão brevemente contados quanto me foi pos
sivcl, os factos principaes d"aquella infeliz viagem de D.
Alfonso v. Comquanto pertençam mais propriamente é histo-
ria de Portugal, varcccu-mc neccssario recordai-os, pois Pedro
da Covilhan as.sistiu a todos, embora em uma situação mo-
dcsm e ob5cura.
Dos annos seguintes, temos escassas noticias do nosso es-
cudeiro, e sabemos simplesmente que se conservou ao serviço
de D- Alfonso \" até á sua morte. Diz·nos Gaspar Corrêa, que
elle havia deixado na Covilhan mulher e familia, da qual se
lembrava na Abyssinia muitos annos depois, mandando-lhe
uma certa somma de dinheiro pelos pormguezes da embaixada
Ptdr·o da Cov1lhar1
de D. Rodrigo de Lima. r Se acceitarmos esta noticia, e não
temos moti\"O para a pôr em duvida, seremos levados a coJio.
car o seu casamento cm algum d"estcs Dnnos de: Lft8 a q.Sr,
pois em nenhum outro per-iodo da sua vida c: aventu-
rosa lena tempo pura pensar em tal. Admiuindo, que clle
passasse a Hespanha a tomar serviço na casa do duque de
:\ledina Sidonia, tendo de7.oito a vinte annos. teria por este
rcmpo pouco mais de trinta, eduJe cm que podia naturalmente
lrawr de se estabelecer, não prevendo tudo qu.1.nto lhe re;;c:r-
vava o futuro. Deixamos .npenas indic.nda esta nmi.:ia do seu
casamento, unicamente nu fe de Gaspar Corre a; e que, de
resto, tem para. nós pequeno interesse, pois pouco influiu nas
!luas determinações posteriores-
Por morte de D. Aftonso v. Pedro da Co .. ·ilhan passou para
o serviço de D. Joâ'3 u, na qualidade de escudeiro da guarda. 2
Devemos crer, que a sml pessoa fosse particularmente
a este rei, pois, decorrido não muito tempo, o \'cmos encarre-
gado de uma missão, que, se tem um lado menos
mostra, por outro, quanta conliança a sua fidelidade, cora-
gem, sangue frio c perspicacia, inspiravam no seu novo amo.
E segurameme n confiança de .. ·ia ser merecida, pois D. João
11 costumava julgar bem os homcn!.
Siio tão conhecidos os fat:tos mais salientes das luctas,
travadas logo no começo do reinado, entre o rei c os grandes
vassallos da corôa, que nem será necessario recordai-os. Aquel-
las luctas, sangrentamente desatadas no cadafalso da praça de
Evora, e, um ;mno depois, nos paços de Setubal. haviam
lançado para o exilio alguns dos principaes fidalgos de Portu-
gal, que se refugiaram em diversos paizes da Europa, princi-
palmente cm C.tstella. Logo no momento da prisão do duque
de Bragança, fugiu das Alcacovas para Hespanha o marquez
• • ••• e qUE • de sua molher, que ficara em Covilhã, OU\" esse f111"1D
DU filha, que ll"le desse vinte cnças de ouro ... • LPntl.as da l1tdia,11T,
a •E falecido el Rey dó Afonso ficars com cl Rey dó Joi seu filho,
aho qual servira dc:scu..tc:iro da guarda.• Veordad. iff{umtlfamr
O prajanle
47
de Momemór, seguindo-o o conde de Faro, que de Odemira,
onJe esi3\'B, se passou :1 Andaluzia. E pouco depois, por in-
sinuação do proprio D. Joáo n .. tambem do rc=ino, indo
fixar·se nu côrte de Castella. o quarlo dos Hraganças, D. AI-
V<tro, casado com a rica herdeira dos Mellos, a filha unica do
conde de Olinnça. Isto tinha logo1r no comece do ...erão de
e logo no outro verão de 1484. em seguido á morte do
duque de Vizeu, refugia\'am-sc wmbcm cm Hcspani1B, o conde
de Pcn:mmcor, o que depois ute\·e prc=!.O na 10rre de Lon-
dres; Fernando da Silveira, filho do barão de Al\'ito, o que
ftli morto em França por um conde pago por D. João 11;
D. Alvaro de Athayde e varias mais. 1 Todos estes fidalgos.
conservando relacões com os parc=ntes e amigos de Portugal,
acolhidos com favor pessoal em Castella, podendo de um mo-
roemo para o outro., se n rasão d"estado assim o exigisse, re-
ceber o opoio claro dos rds Catholicos, constituiam um peri-
goso foco de coospirações, que era neccssario ,·igia.r de peno.
E D. João 11 não se descuidava n'cste ponto, porque raros ho-
mens, no seu tempo e cm todos os tempos, for.tm muis bem
informados do que elle, e mantiveram por toda .1 parte
;lctivos õJgcmes, ostensivos e secretos. Pedro da Covilhnn ser-
\'iu-o emão n "esla uhima qualidade. -a
Em um agente bem ao sabor de D. João n; um tamo su-
bo.herno pela ro..,iç:io e nascimcmo, e não levantando suspeitas
de connivencia com 05 grandes fidalgos; instrumentu decil,
porque lhe dc\·ia tudo i e sobre isso, fino, dotado de uma me-
moria exccllente, 3 decidido e corajoso, qualidades indispcnsa-
• Ruy Pina- Gorda de Resende- Vt:l"·&e tambem as sen-
tenças de alguns dos eJo.illld.os, ll"tlnscrirtss ror Sanches de Baena, Menr
HisltJrico-pealogicas dos d11gues porlugueres, c sesuintes.
1 • ••• Rho qunl servira suar da nte hos tnições que ho
el Rcy mãdou andlilr ê Ca:ueUn rorque sabin bil! castelhano, pera sa-
ber quacseriosfiJalsuos qse deito.vii la.• Vrr-dad. infomrapm, 127 e 128,
l •Ene pero de covilham he homem .•. que todas as t:OU51.1S a que o
mnDdaram soube, e osy dellRs da conta como se as tiveuc presentes.•
Verdad. informaram, 129.
veis, pois a p1issão niio deixava de !ier perigosa. Tinha, de
mais. 8 vantagem de conhecer perfeitamente a Hespanha. onde
havia passaJo seis ou sete annos da sua moci..Ja..Je, e de falar
andaluz como se tivesse nascido nas margens do Guadalqui-
vir. o que lhe permittiria dissimular 8 sua nacionalidade, se
tanto fosse nccessnno. Devia, pois, sair-se com felicidade da
sua complicado missiio, como de feito se saiu, e o aftirmava o
proprio rei- c bom e leal serv1dor • e ditoso em seus feitos e
sen·icos•. Núo sabemos, se Pedro da Covilhan foi mandado
andar em Hespanha logo depois do prisõo do duque de Bra-
gança, ou no anno seguinre, no occasião da morte do duque de
Vizcu; mas no ultimo caso não se demorou alli muito, pois-
como vamos ver-teve tempo de fozer duas viagens á Ber-
beria, antes do anno de 1487.
Tambem estas duas viagens não podem ter sido muito
demoradas, auendendo á estreiteza do tempo i e não é de
crer, que unicamente em duas passagens ropidos pelas terras
dos mouros ellc aprendesse a lingua an1bico. E' mnis facil
odmiuir, que fosse justamente escolhi..Jo para aquellas missões
por ter ja algumas tinturas da lingua. alconçndns nuturnlmente
na Andaluzia, onde os mori'scos cr .1m ainda cntiío numerosos,
e anda\·am mois ou menos paciticomente mesclados com os
christâos. Mas sendo, como foi, muito intelligcntc, e tendo o
dom das linguns. • aperfeiçoou-se sem duvida então nll aravi'a,
que scniio correcta pelo menos correntemente, quondo
partiu para a grande viagem.
Segundo nos diz o padre Francisco Alvares, que nõs con-
tinuamos a seguir passo a passo, Pedro do Covilhan foi pri-
meiro a Tremezem, comprar lambeis e fazer as pazes com o
re1. 2
• cE.ue rero de eovilllam lle homem que toJas has lingoas sabe lJUe
•e fallar rodem asy de christiioa como mouros e gentios.• Ver4a4. infor-
rnrJ(am, _
1 ·E da Yinda de Castella el Rey dó Joi ho mandou 'E Berberia a di.
Aliibeis e fazer pazes có el de • Verdad. •nformaçam.
u8.
Tremezem, ou Tilimçan, ou, como hoje mais geralmente se
C!ôcrevc, Tlemcen, era eflCctivnmente a capital de um estado
independeme d.l Berbc:ria. Na decndcncia do grande imperio
berbere dos Alrnohad.1s, a Africa septemrional havi;He divi·
dido cm tres grandes estados, afóra outros de menor impor·
tancia e mais curta duraçáo ; a oriente, a lfnkia, comprehen·
dendo a Tunisia e parte da Algeria oriental, e governada pela
dynastia dos Hafsidas; 11.0 centro, o Maghreb-ei-Ausat, ou reino
de Tremezem dos chrisr:ãos, abrangendo toda a AI·
geria occidentõ!l, dominado pelos berberes Abd-ei-Uaditas; a
occidentc:, o Maghreb-ei-Acsa, correspondendo proximameme
ao imperio de Marrocos de hoje., c sujeito então 11.0s Merinidas.
Embora Tlemcen reconhecesse a principio a suzerania dos
Hafsidas de Tunis, e fosse r:nmbem varias vezes invodido pelos
Merimdas de Fez, conservou ern geral a sua independencia,
desde o tempo de Yaghmoracen-ibn-Zian, o fundador do im-
perio dos Hcni-Abd-ei-Uad (n38), • oté ao primeiro quartel do
XVI seculo. Os seus Emirs independcmes e soberanos foram
pois, e com rasiio, ch.unildos reis pelos christãos.
Quando alli foi Pedro da Covilllnn, reinava Abu-Thabet-Mo-
hammed; e Tlemcen era aindo. uma grande e opulenta cidade.
Sendo, como dissemos, o capital do Maghreb central, collocada
em uma situação pittoresca, rodeada de jardins e pomares
regados- segundo diziam- por- mil fontes, possuindo ma-
gnificas palacios, mesquitas e escolas afamadas, chamavam-lhe
a Granada africena. Em mda .o regiáo havia um commercio
florescente e uma industria acth1a. Fabricavam-se alli os me-
lhores arreios de mdo o Msghreb, assim como excellenr:es te-
cidos de lan 3 c de algodão. 4 Entre estes hwaa alguns, cha-
• lbn-Kbaldoun
1
H•sl. des m, l42 e seguintes, traducçiio do
barlo de Slane.
2 Mercier, Hist. I"A{r1qwr 111
1
91
1
Pans, 1E9•·
l •· •• de richcs tapis, .!es sayes, et des mamcsv -L'Afrique de Mar-
moi, u, 33o: pela vcnio lranceza de Prrrot d"Ablancourt.
4 L.cio Afrinno diz dos habitantes de uma das villas d"aqueUa parte
5o Pedro da O>Pilhan
mados lambeis ou alambt:is, lnr{lamente emão no
commercio com os negros da costa a(ricana occidental.
1
Fa-
ziam-se, pois, em T!emcen grandes compras por grosso d'es-
tes lambeis, destinados no resgate da cosia da Mina, os quaes
as mlos de D. Joõo n iam Cl\ITegar a Oran. 2 A uma d'estas
importo.mtcs comprns foi m11ndado Pedro da Co,·ilhan na volta
de Castella, aproveitando-se o rei da sua activ1dade, e sem
duvida tambem de algum conhecimento, que elle jé cmão teria
da linguo arabica.
Comprehende-sc menos, 4 primeira ,-ista, como elle foi alli
fazer pazes, quando, que nos con'!:tc, niio havia guerra. O reino
de Tlemcen. limitado il o.::..:iJcmc pelo curso d.1 Moluya, ficava
fóra dn influencio elfe<:tiva de Por1ugal, e mesmo, segundo os
tra1ados, fóra da sua inttuencin legal. 3 Explica-se, no emramo,
que D. Joio u, na sua diplomacia sempre activa e previdente,
do Maghreb: •··. e qua!!.i tuui law()l"avan bibagio õ lele•- Dtllll
dtfl A/rito, em Ramusio, 1, 58 w.•
I Esta questio dos IDmbtiJ e -1.1m IDDIO confusa, pois a ralawra teve di-
s•gn11icações;olamb1!'/, do arabe o1-1Jonbal, significou primitivamente
um tapete ou rnnno p3ra cobrir os bancos, d"ah1 tapete em geral (Dozy,
Glouairl', IOll).e tem esle sentido nos nossos diccionarios (Moraes, w.lllrn·
b!'l).- Deveria ser um tapeie de lan, geralmente riscado (Caretre, Cher-
b::mneau, citados em Dozy)- Bluteau tambem diz que en de lan e riscado.
Mas depois deu se o nome a tecidos or..lm11rios e baratos, empregados no
resgate com os nett;ros, provavelmenle um riscado de alp,oJiio, como d1zem
em uma nota os editores do : ••. ftlençaria de algodio listrade .. -
l<ot. da t>iollftrrl di!' "Vou:·o da G.Jina, p. 44·
"• .•. em a cidade Durão, quando alli hiam as nêos deste Revno rer
mandado dei-Rey D. Joiio o Segundo buscar lambeis pera o resgate do
ouro de MinA•- Barros, Asia, '• 1v, 8.
J Por capitulações, ce!lehradas com Cas1ella em tempo de D.
Joio u, perlenciam li c n14uista d"nquclle peiz os termos de Mclilla e Caça-
ça, e com mais r.11ão os que demora"am a leste da Moluya; e ficavam 11
Portugal 111 costa mcditerrallica llo lado occidenral, e a costa adanlica de
Fez e M&rrocos. A capi1Uiaçiio de D. Manuel com D. JoDnna de Castella
(1So9) conlirmou,aclarando varios ponros, este accorJo &ntcrior; t"eja-ae,
doe. do Arch. nac. dol Toru do Tombo, Li'!ohoa 15!Po a Jl· 2o8 e se-
sumtes.
SI
se aproveitasse da ida do seu e5cudciro 4 compra dos lambeis,
ou mesmo inventasse aquelle para consolidar as boas
rdaçócs e firmar a com o rei de Tlemccn. Procurnva as-
sim assegurar a nemralidndc d' aqudle rei nas contendas de
Portug.d com os mouros do occidcnte ; c desejaria sobretudo
vigiar de perto as opcraç6es dos seus vizinho!!. de Cnstella. os
quoes começnnm a voltnr a sun aucnção parn aquella pane
da Arrica, e, uns trinta unnos depois, de,·iam reduzir o rei de
Tlemccn, Abu-abd-Ailah-1\lohammcd, és condições de simples
vnssallo da Hespanha. Esta parte mWs secrcro d.1 \'ingem, se-
guramente mais importante que a compra dos tecidos de al-
godõo, uma nova demonstração da confiança, que o rei de-
positava na intclligencia e habilidade do seu escudeiro.
Apenas de volta de Pedro da Covdhan foi de
novo mandado á mns d'esta vez ao lado
ao Maghreb-ei-Acsa, geralmente chamado então reino de Fez.
Reina\'& n'aquelle momento em Fu um mouro, muito conhe-
cido dos portuguczes, a que ns nossas chronicas c documentos
dâo o nome de Mollcxelue ou Muleixeque. Este poderoso
Cheikh havia sido senhor de Arzilla, quando a tomou D. Af-
fonso v, ficando nlli captivas algumas das suas mulheres e
filhos, a troco dns quaes se entregaram depois os ossos do in-
fante D. FernonJo. • Conquistou em seguida o throno de Fez,
vago pelo assassinato do rei Abd-Allah por um cherif, e foi
conhecido pelo nome de Muley-SaJd-ei-Uattaci, porque per-
tencia 4 rribu dos Beni-Uauas, um ramo dos Beni-\!enn.
Pedro da Co\'ilhan não fOra, porém, propriamente enviado
• Ruy de Pina, Chron. dr D. AfoPISO V,518, nos IPIN•IDJ-Damiio de
Goes
1
Clu-o"fl.. do tmncipr D. Joarn, cap. 22.• e 3+.__ Um dos filhos, Mo-
Mmmed1 só foi entregue mais tarde, e reinow. em Fe.r:; f.Jlava perfeita-
mente a nossa lingua
1
e chamavam-lhe o Portuptf.
Assim interpreto o nome Saydoataci, que lhe dil Marmol, dizendo
que pertencia aos Benioatazelll (Afrit;ur, r, 13-fJ· Sobre a tribu dos Beni-
Uattas, e as suas reh1ções com os Beni-Mcr1n, veja·se lbn Khaldoun, Hist.
drs Brrbn'rs, rv, •3+- Mcrcier, H•sl. de r Afrigu srplrntriona1r
1
an, P!jl,
chama-lhe simple•mente Moulii-Said.
Pedro da Co11ilhan
áquelle rei de Fez, e sim a outro mouro, que elle chama Moly
Belagegi, e é tambem muito ratado nas nossas chronicas, sob
os nomes de l\luley Belrageja, Mnrimmolley RelrRgege. e outras
variantes. Não é r.lCil, na confusa historia da Berberia n"este
seculo xv, identificar satisfactoriamente aquelle mouro, nem
mesmo saber como realmente se chamaria- poderia talvez
ser Muley-Abu-1-'Aziz. ou AbJ-ei-"Aziz, ou cousa parecida.
Os nossos chronistas dão-lhe algumas vezes o ritulo de rei, e
nomeadamente o de rei da Emc:ouvia, isto e, do territorio dos.
berberes Chauia (pastores) ao nane de Azamor e do Um-er-
Rebia. E' certo, no emranto, que Muley-Said reinava então em
Fez; e Muley Belagegi não poderia ser mais que um poderoso
vassallo do imperio, ou um ministro inHuente
1
que entregou a
ossada do infante D. Fernando, por ordem e em nome do rei
de Fez, Muley Said. Fosse qual fosse o seu nome e a sua si-
mação, a este mouro roi enviado Pedro da Covilhan, com a
commiss&o de comprar cavallos para o duque de Beja, e le·
vando comsigo para os escolher um alveitar de Thomar, cha-
mado Pedro Aftonso. 1
O padre Alvares não nos diz, nem nós temos meio de sa-
ber, onde Pedro da Covilhan o iria rncontrar, se a Fez mesmo,
se a alguma outra localidade mais proxima de Azamor, o que
parece mais prova\·el. Tambem me parece admjssivel, que o
no!iõso escudeira, além da missão ostensiva de comprar cava11os,
levasse algumas instrucções secretas. O cena é, que depois da
sua viagem, e logo no verão do anno de 14R7, vieram o Al-
meirim, onde o rei de Porrugnl então estavo, uns enviados
d'aquelle mouro, trazendo varios presentes e muitos protestos
de amizade. Se esta missão resultou unicamente da expedição
de D. Diogo de Almeida comra uns (..hauia rebeldes, como di-
• •-- e vindo de la outra vez fora midado a Bcrberia Amoly Belagegi
(ha aqUi um erro de imprCDi8
1
c deve l11r-sc 11 Moly Btlagtgi) bo q man-
dou a ossadd do lnfíte dó Fernando. E neste cami.nho levava roupa dei
Rcy D. Manuel sendo Dui1 pcra lhe la cóprar .:A'I'allos porq el Rcy dó Joii
lhe queria der ca111., c hia pcra conhecer hos cavallo' bü Pero afonso al-
vcitar morador cm Tomar.• -Alvares, Vrr4a4. infonnafDm, 1'28.
5J
zcm a! chronica!, • ou se 8.9 habilidodc:5 do nosso escudeiro
contribuir.1m para estreitar as boa.s relações do rei de Portugnl
com o tullrluley Bclagcf!,i, é questão sobre n quol nos não po·
demos pronunciar por falta absoluta de indicações.
Como já antes advertimos, estas "isitas it Berbcria não fo·
ram muito prolongadas, pois Pedro da Covilhan deve ter
parudo para a primeira viagf!m no anno de 14HS ou no se-
guinte, e estava de volta da segunda no começo do de q87.
Em todo o cnso, elle passou entã:o alftuns mezcs entre os ara-
bcs e berberes, familiarisando-se com os seus habites e com
a sua lingua.
Tal havia sido, succintamente contada, a 1.ida do homem,
que D. João 11 escolhia para a difficil cmpreza de ir pelo mundo
fora em busca da canella e do Preste João. Preparavam-no
paro os pcr1gos futuros os annos da primeira mocidade, pas-
sados em rixas consmmcs com a geme dos Pence de Leon,
cm assahos c emboscadas nocturnas pelos recantos sombrios
das cstrcillls e rortuosas ruas de Sevilha; c tambcm, um anno
de campanhu cm Castclla, terminado na batalha campal de
Toro. Conhecia a politica da Furopa, na qual, ainda que obs-
curamente, andara envolvido i e havia \'isto de perto as primei-
ras pessoas do seu tempo, o grande. posto que pouco sympa-
thico, rei de França, Luiz lU, o duque de Borgonha, o maior
principc sem ser coroado de toda a christandade, os reis Ca-
tholicos, a cuja côrte fõra mandado como agente secreto Je
Portugal. Seniam-lhe, sobretudo, de aprendizagem, as duas
expedições á Berbuia, áquelle Maghreb que significa Occidcme,
mas na realidade era já o comeco do Oriente, nos habitas mu-
sulmanos, no uso das roupas largas c soltas das regiões q ~ n ­
tes, no emprego da lingua arabica, que depois devia ouvir e
falar atê Calicut e até Sofala.
Raros aventureiros d'aquelles tempos, e nenhuma cpoca foi
mais rica em a"·entureiros que a sua, estariam talhados tão de
1 Ruy de Pina, f"ltron. tle D. João 11,77
1
nos lnttl.iloJ- Garcia dt Re-
sendt1 Chron. de JCJiio II, cap. 47·•
molde para uma a\"enturosa ,·iagem como o nosso escudeiro.
E, quando D. João u lhe disse o que d'elle desejava, poude
responder-lhe anodestamente,. •que lhe pesava por sua sofi-
ciencia não ser tanta quantos eram seus desejos pera servir
Sua Alteza•; • mas realmente, e no fundo da sua consciencia,
deviu julgar-se n1ais que suffi,iente .


( n l't\rUatlal ,tn jornada á Berberia, Pedro
"'" l '''ilhnn o seu companheiro, e es-
st'l'c.'lll Era um escudeiro,
''"''ht'lll e chamado Aflonso de
I 'ni\·u, n'uurnl ,lc l e procedendo de uma fami-
t indica Gaspar Cor-
na,, i ll\l
do rei, os dois viajantes
n \\ \t,\ .. entre si e com OS
• hnl,it\Hlcs ,te 1). 11 em taes assumptos. Reu-
niain-sc, l'''r'' thll, \ Pedro de Alcaçova, es-
cri\"ão J;.\ ll .. 1"'-'ssuh\ e habitava junto á
• Ah·arl'S, \ ·c-rJ .. rJ. ;.,,.,.,_.,.,rr,aue, 1
Ch .. ,te.' 1\tva.t, c.- ,ht Canario• ; mas
Gasrar Corrca nnaihl tnill inh'n""''\l ,t._s ,festa
,·iasem, -Lendas J.z .. bt.li.z, •,ti.
Os prtparaliJIOI 4t:J viagrm 55
porta da Alfofa da amiga cerca da cidade. • Comparecia alli
D. Diogo Ortiz, capellão mór de D. João 11, bispo de Tanger,
c depois, em tempo de D. Manuc:l, de Vizeu, vulgarmente cha-
mado o Cillcadilha, um dos homens de maior illustraçóo e au-
ctoridade d"aquellcs tempos, especialmente versado em ques-
tões de cosmogmphia. E compareciam tombem, mestre RodriBo
1
medico de D. João 11, que então morava alli perto a\s Pedras
Negras; e um mestre Moysés, que julgo ser o mesmo que mes-
tre Josepe. nome q!.le receberia quando mais tarde se baptisou
e pelo qual é geralmente conhecido. Estes dois medicos foram
tombem dois insignes cosmographos e mathemati.:os. Haviam
trabalhado juntos na redacção de umas cTaboas de declinação
do ,;ol•, e haviam tido a honrp de collaborar com o celebre
Martinho Behaim na construcção de um novo e aperfeiçoado
astrolabio. 3 O programma scientifico da viagem de Pedro da
Cov1than foi assim commeuido ás mesmas pessoas, que pouco
antes haviam examina® os planos de Christovão Colombo, e
infeliz mas naturalmente os haviam condemnado, 3 pois aquel-
les planos de para occidcn::e destoavam de todas
as idei'ls portuguezas, oriemadas- e aqui se pode bem empre-
gar a palovra- em diverso sentido. Voltemos, porém, ao tio
da nossa historia.
N'estas conferencias secretas cm casa de Pedro de Alca-
çova, os dois mestres Rodrigo c Moysés, sob a inspecção
de D. Diogo Oruz, construiram para uso dos viajantes uma
• Comquanto os viajanfes rossem finalmente despachaJos em Santa-
rem, estas conferencias preliminares tiveram sem duvade lo,pr cm Lisboa,
como o prova a menção de casa de Pedro de Alcaçova, uma casa conhc-
ciJa1 c bastante granJc para que alli se alojasse de uma vez D Manuel, jf
depois Je rei.- Damião de Goes, C:hro11. dr D. M.ntutl, parte 1, cap. 3-t.•
,.. Vcja·sc o paJrc Jofio Col, Cato.1l. doJ pro!la.lw d.: igr1ja de V11to
1
nas
da Ac. Hur. portURiltfa ( 172:1)- Ribeiro Santos, Mtm. lrl·
ltr. parlllf!llrJD, vm, 14H- BarTos, Asia, '• IV, cap. a.•
1 • ..1Ji.:J, a, m, cap. u.R- Barros d•z ror engano que U. Dioso
Ortiz fora bitpo de Ceuta, mas era bisro de Tanger.
56
Ptdro Ja Covr'lhan
•carta de marear., tirada dr um •mapamundo •• i Não pos-
.sjvel saber ao certo como seria aquella carta. mas não é muito
diffid imaginai-o; conhecemos os documentos da canographia
do tempo, c as cartas geographicas da Edade media e princí-
pios da Rena"lCcnça. citad.as nas paginas precedentes. o grande
mappa de Fra Mauro, por exemplo, devem representar mui
proximamente aquelle t11appa•mmdi. d'onde foi tirada a carta
que levou Pedro da Covilhan.
Mais interessante seria averiguar, que instrucções escriptas
ou verbaes foram dadas aos dois viajantes pelos cosmographos
e pelo proprio D. João n; não po!!smmos acerca d'este
ponto capital infonnações dignas de absoluta confiança. O li-
vro do podre tal qual o temos impresso, é omisso a
este respeito. Na verslio italiana d"este livro, inserida pelo Ra-
musio na sua Collecção, sob o titulo Viaggio de/la EthiOpia,
cncontram·se, porém, algumas indtcacões. Diz-se alli, que os
douto,·es, isto é, o bispo Calçadilha, Rodrigo e J\.loysés, expli-
caram aos viajantes o melhor que poderam, como se deveriam
dirigir para encontrar os paizes d'onde vinb;.1m as especiarias;
e lhes recommendarotm se informassem tambem da possibili·
dade de passar dos mares de Guine aos mares do Oriente,
porque soN-e isso haviam encontrado alguma memoria antiga. 2o
Este trecho é muito interessante; mas, nõo existindo no livro
• • .•• e que lhes derS hüa carta de marcar (erro tle impren1a, deve
ler-se nmarenr•) tirada de Mapamundo e que roram aho fru:er dena cana
ho [ic!çiado üdçadiiM q he bispo tle Viseu, e ho doutor mestre Rodrie:o
morador abas pedras negras e ho doutor mestre moy,cs 11 este tfpo judeo
e que rora reita esta carta em cn1a de Pero daJcaçova •• - V11!r4.Jd. i•ifor·
maram,n8.
1 Dtpois de mll!ncion;r a construcçio da •c.artn de marear•, como no
livro a venio de Ramusio ••• •e tuui i sopradeni c'llmos-
trarono lor meRiio che serrero, come si havetsero i'l governare, per .and,ue
é troVIr li dóJe vemvano le spetierifl, e .Ji pasare ancho un di lorn
ndi'Etl1iopia, 16 vedere ii rsese o..lel Prete Jan11i, e se nei suoi mnri
notiti11 alcun11, che si rossa pa&sare ne m11r1 di ponente, rerche li detti
Douori dicevsno haveme uovata non só che memoria .• - R111mus.io
1
!Nlle NtnJig, t, 2lti verso.
Os prtparalri'()j da 111agem
portuguez, tem 4 primeira vista toda a apparencia de ser um
additamemo ou glosa de traductor erudito, tanto mais, que os
trRductores não tinham por aquelles tempos grandes escrupu-
los de fidelidade. Sendo assim, não nos poderia merecer con-
fiança nem mesmo muita anençio. Ramu.9io, pon!m, diz-nos,
que fez a sua traducção pelo livro impresso e por uma copiu
munuscripra, que lhe mandou Damião de Goes, n;; qual se en-
contravnm cousas, omissas no impresso. Se tivessemos u cer-
teza de isto ser absoluuunc:nte exacto, c da authenticidade da
tal copin manuscripta, o caso mudava de figura, c os addita-
mentos da versfio italiana passa\·a.m a ter grande importando. •
• Esta quesllio l demasiado complicada para a podermos discutir de
passagem. e uni.:amente indicaremos os seus pontos prim:ipaes.
Ramusio dU, que a obi"B portuguez.a, impn!SSII. e publicada l!m Lisboa,
a Ver4.Jdtra inflJrmJJfmll, era apena.5 um Su'"rnario d'uJf lilwo pan4t
piOSO, escripto por f)qn Francuco Al'l'art;, chi<!rico porrugunt; assim lh'o
affirmou uma pessoa digna de fl,que Linha visto e lido o tal livro granda. A
copia envisda por Damiio de Goes cs.tava truncada tambem, como o im-
presso1 lullt duf! mwtilati, mas continha COUIIIIS, que nio se achavam no
impresso (Navig., 1, p. 11!!)). Isto e 1111! certo ponto confirmado por urna
curta noticia, intitulada De lrgatione itnptratons Polrntissirni JEthiopi.r ati
Clentt11lem. po111rfoum V li, .Jew1da talvel: ;li pcnna de Dartiião da Goea (His-
pania illwJirala ti, p. 128S). Diz-se a IIi, que o' padre Alvares tinba o 11cu
manuscripto em Roma, e este manuscripto era diviJido em cinco liYros
1
tratando separada e successivamente Jiversoa assumptos relativos III Ethio-
pin. Esta descripção não se poda de modo algum upplicar a Vertl.tdtra in-
/Ormllfam, tal qual Dos chcsou. Eis um dos lados da questão.
Do outro lado, o livro do psdre Alvares, impresso por Luiz Rodrigues,
e acabado de imprimir 11. 22 de outubro de 15<f.O, foi composto sob as vis-
tas do auctor
1
com o typo que elle proprio de Paris (veja-se o Pro-
logo). E o seu estylo, a ordem ou antes desonlem dn sua o seu
caracter pessoal, completamente a idaia, de que seja um summa·
rio ou resumo de obra mll.ior. E' evidentcmeDtc o manuscripto primitivo,
intacto e na integn. .
A unica cousa que lembra, como concili11çio das duas opiniões oppos-
tl.l, é que o padre Alvares escreveuc varias tratados sobre a Ethiopia
1
que Dio chegou 11 1mprimir. No começo do livro ba o seguinte sub-titulo::
Comtput Iro t,.JJtado da mirada da urra da Joam; c DO primeiro
c:apitulo dU-sc da embaixada de DuaMe Galvão
1
como lariJUamilt ja o lt•
B
sa
Mesmo na durida, não deixaremos de os urilisar, posto que
com algumas resenas. Em todo o cuo, se não podemos averi-
guar com segunança, que instrucçôcs foram dadas aos \'iajan·
podemos no emtanto c.alculal-o com um certo gr4o de
approximaçio c de plausibilidade.
As terras do Oriente haviam sido um dos sonhos constan-
tes de D. João u, que pensou incessantemente oo cngrandeci-
memo do seu paiz; e, se nio foi tall-ez um bom homem. foi
um grande rei. Pen::trar na lndia, domi-
nar alli se tamo fosse possivel, attrahir para Portugal o com-
mercio, que enriquecia Genova
1
Veneza e todo o liuoral mcdi-
temanico. tudo o que depois n::alisou, ou quasi rtalisou, o seu
succcssor, estava já mais ou menos n:iridamcnte formulado oo
seu alto espirita, mais ou menos prq>arado pela sua per-
sistente e babil. D. Joio n haVIa semeado o que D. Manuel
colheu; e a felicidade do succes.sor representa sim·
plc:smcniC cm muitos pontos a habilidade de quem o precedeu,
e lhe abriu, ou pelo menos lhe indicou os cammhos a seguir.
A este plano gera\ correspondiam as duas faces da missão,
confiada agora aos seus exploradores- procurar os paizes
d"onde vinham as especiarias a Veneza pela terra dos mi)Uros.
procurar o Preste, o grande rei cbristão do Oriente. E oo
fuste. queria cite encontrar, não já, como na EJade media.
um aJliado salvador conu-a o islamismo; mas simplesmmtc
uma pona aberta para a expansão de Portugal, um meio de
penetrar na lndia, tão desejada c aind.! tão mystcriosa. E" is.to
o que diz João de BarTos, cm UIIl3. das suas phrases singelas,
que esclarecem .ás vezes toda uma questão: c ••. parecia a El
Rey que per via deste (Preste João) pod.ia ter alguma entrada
nllo aoilo. Parece pois, que haWUI oulros lntados, os Unco de que
fala • 1M e d05 quacs sõ fonm impnossos na 1
1
61-M'tr.a i.fot"·
11111'*" dois; um diTidido em 141 capiru]os, o outro diridido em 9 capl·
tuloo.
E" poesiweJ. poru.ruo, que O.rnilo de Goes alnaçuse uCM copia da
pute alo impressa. e • c:ommunicaae • Ramusro, o que di. aJsuma &CIO·
rid.de '' sua .a leJ.lo portugues.
Sy
na lndia•. O Preste era o meio, a lndia era o fim. SOmente, se
tanto as especiarias como o Preste se dcnssem. procunr na
mesma região, o caminbo eSlava naturalmente traçado para os
exploradores.
Os nossos escriptores erudito-s do xv1 seculo e do seguinte,
conbecendo, ainda que confusamente, a bistoria do Preste João
asiatico, lembrados do que bavia dito Marco Polo, guiados
pelo antigo nome o Presle João das lnditJs, seguem genlmente
aquella versão. Para elles, os dois exploradores deviam pro·
curai-o na Asia; e :so depois de desenganado de que alli o não
acbaria, o nosso Pedro da Covilhan se \'ohou para a Erhiopia,
encontrando quasi formitamente um rei christão, mas não o que
ia procurar. 1 Dos li,·ros portuguezes, esta interpremção dos fa-
ctos passou para os estranhos, e encontramol-a, por exemplo,
na erudita Historia de Ludolf, ou na eruditissi.m.a
ChirJa •lluslrata do padre Kircher, exposta quasi pelo mesmo
modo. A interpretação é, no emtanto, inacceitavel c o cxome
do que disseram escriptores mais antigos, sobretudo do modo
porque se ligam e encadeiam os scontecimentos, vae levar nos
a conclusões muito diversas.
• •Desta Dodi!! (AdeD) tomou Afon110 de pain pera a Etbiopia,
pelas novas que acbarlio aver naquella parte bum grande ltei Christão,
rarccendolhes q eate seria o preste Jcam, mas porq nam tinham disso
nenbüa certeza, e sabião q a Ethiopia ni jaz ne.lndia, e que o Preste Joam
chamava daa lodias, acordaram antre si, que Joam Pirez da Co'ftlhi fos-
ae pera aquella parte da lndia \'er se acbav&a novas do que hiam buscar,
no q andando foi ter a Calecut e a Goa, sem acl:lar DOY&s deste Preste
Joio, as quaes podia mal achar, porij SCf:Undo o recita Paulo Veneto no
seu henerario
1
foi desbaratado este Preste Joio pelo sci'ior ou Empcrsdor
do Cathayo•- Domiio de Goes, de D. rartc m, cap. l8.•
•Pois a esta Preste Joam (o da Asia) mandava buscar o sercnissimo
Rey Dom Joam segundo, pelos dous compenhciros Pero da Covill:lam e
Affonso de Paiva; Deus nouo Senhor ... da tal modo di!ipoz e BO-
wemou o caminho d"estcs dous portuguezea, que fcE descobrir nam o Preste
Joam, que j.ã nio havia na Asia, mas o Rey dos AbcJ..ins, que ainda flore-
cia na Africa•- Padre Balthazar Tellcs, Hisr. gwal tk Erhiopia 111 a/111,
LiY. u. cap. 1./
6o
Ptdro da Ctwi/lran
\-liDOs no primeiro como alguns dos principaes
monumentos Jo xv seculo... o mappa do lluseu
Borgia. o Je Andrea Bianro e colloca,·am jã o Preste
João nas terras da Africa oriental. E. impossi,·el admittir, que
estes mappas fossem dos de
D. João JL Em uma cône ... onJe, Jesde o temro do infante
D. os toJos os espiri-
tos. onJe andou Cbristovão Colombo. onde se thou e traba-
- .
lhou o grande geograpbo Behaim ... onde o capellão de
D ... Uonso ,. se com o celebre de,;a
estar-se ao corrente Jos italianos, e de,iam existir
oorias J·a-1ucllas canas. De outra mais a de Fra
Mauro. '}UC tambem l' Preste João na _.\frica,
mos positit"amcnte que foi mandaJa construir 1-'-"'r D. _-\tionso ,,.,
e foi rcmettiJa para Portugal. E. impossi,·el tambem admittir.,
que as dos mappas. relati,·as ao Preste João. tives-
sem escapado ã obsen·ação dos nossos pois
constiruiam um h pontos mais interessantes para clles. E
que a relatil"amente de um Preste
João a.frk.ano. dcna ser conhe,iJa Je D. João o e Jos seus
cosmographos.
Podia. porém, ser conb&iJa e n3(' aJmitriJa; m.as tcm0s
3 rrol"a de que era admjttiJa, e temol-a iustamente no ia.:tu.
por ter sido a cJusa Jcterminante Ja ,;agem je Pe·
Jro da <:orilhan. e conumos no fun Jo 'aritul(."
Qua.nJo o5- Ja C<'sta Je Benin a
de um rei do e se adminiu que este rc: J("Ye-
ria ser o Preste João, a..irnittiu-se u:n
João a.fri'.mo. Ja era .._,s jJ.
. -
OC4idcntal suieitos ao Ja .-\i',··ssinia. mas

ima.Rinal-os ao Ja e 5-c:-1 .. :

absur.io, Jadas mesmo as e baralbaJas
geogTafh:a do .• -\ imrreSsá0 :": .. ..
dos os je a mis.s.ão em
....
d
r- .,h ._ .... p . , J . - .
a ... .l a..'l e .... as :n5-r. , .. ._: .. :. -
'"
das a Barrllolülileu Dias.. só se cxp&am na
O• prepar12tz'Prot da J!iagem 6r
ter feiro jé a identificação entre o rei da Edüopia e o Preste
João. De resto. Jofo de Barros affi.nna-o explicitamente. •
Esta identJficaçio resultava das indicações dos cosmogra·
pho:s, c sobretudo- como diz Barros- de informações
cus. Ames de enviar ao Oriente os seus dois escudciroa,
D. João n tinha encarregado de similhame ou idenrica o:üssfo
um fr. Antonio de Lisboa, e um Pedro de Montaroyo. Estes,
desculpando·se com não conhecerem a lingua arahico, não
passaram de Jerusalcm; mas pcdcram colher alli numerosas e
valiosas noticias. Não só os frades abexins vinham com frc·
quencia em peregrinação ao Santo Sepulchro, como poasu'iam
alli um convem o proprio; e ssbemos, que ao conci(jo de Fio·
rença, reunido pelo papa Eugenio IV no anno de • assisti·
ram padres abexins d'aquelle convento de Jerusalcm. enviados
pelo seu superior, que então se chamava Nicodtmos. Junto
d"estes padres se poudc informar largo.menre fr. Antonio de
Lisboa, c trouxe a Portugal noticias- provavelmente exagera-
das, como era uso de abexins-sobre a importancia da chri ...
tandadc: da Ethiopia, e sobre o poder do seu gmnde rei eh ris·
tão. Estas nmicias confirmavam as indicações dos mapras, c
j4 ninguem devia dU\·idar, de que aquelle rei fosse o famoso
Preste. Uns no"·c: mcT.cs depois da partida de Pedro da Co-
vilhan. veiu a Lisboa um padre abcxim, chamado Mar-
cos. Vinha de: Roma, onde os abcxins possuíam tambcm um
c(}nvento em San Stefano in Rotundis, que habitavam, segundo
parece, desde •..P!'J, o anno do concilio de Florença. 2- O que
da sua visita conta Joio de Barros, 3 roostra bem, como D.
João 11 dava por uma couY. sabida e corrente, que o rei d'aquclle
• .Porque per os Abe:r.iis religiosos, que vem a estas per-le! de Hts·
panh.J
1
e ani per alguns rradts. que de ca a Jeruulem, a que clle
(D. Joio 11) encommendou que se informassem des1e Principe (o Preste
Joio) tinha sabido, que seu estado era 11 tert"ll, que estl'o"a sobre o Esypto,
a qud se estende te o mar do SuL.- Barros, Alia, 1, 111
1
4-
:1 Sobre estas relações da Ethiopia com Jerusalern e Roml ji no u
seculo, veja-ae adeanre o Capitulo v.
' Barros, Ari.:r
1
1, 111
1
5.
'Ptdro 4• Ctwilh••
Lucas Marcos cn o que n'cstr momento Pe-
dro da Corilhan nlo podia ter mandado noucias, e 1a apenas
a caminho, quasi no começo du seu canünho.
De tudo isw, podemos, me parece, concluir com segurança,
conua • opioilo de Daauão de Gocs, do padre Telles, de Lu-
dolf, "o radrc Kirchcr e de varios ouuo.s, que Pedro da Co-
vllhan c Adonso Je Paiva nio encontraram casualmente na
Afnca n que deviam procurar na Asia i mas pelo contrario
•••ram J41 Jc l't•rtu8al-pelo menos um d'elles-exprcs.sa-
mentc cnv1aJoa IA
NJu 'lucro com isto dizer, que em Ponup;al se en-
llo muilo nitidamente o que era a Ethiopia, ou se conhecessem
01 seus li.milct. Aqucllc nome fõra sempre- como dissemos
J41 1 conservava-se ainda muilo vaso. Podia pois facilmente
lmaAinar-••· que o rei da Ethiopia ou Preste João exercesse
•IKum ,l01nlnio, ou pelo menos alguma influencia na lndia.
SfJbrt ledo• cales pontos se: dev1am ter ideias confusas, c: cm
Mrandc r•rtc erradas; mas, em todo o caso, admittia-se .. que
n J•n•••c Joio cn um rei da Africa oriental
1
soberano dos co-
r•drc• ubexins.
A •••a rei de Abyssinia la directamente dirisido um dos
liiKUdclrua de D. Joio n, segundo parece Aftonso de Paiva.
lbaiM\IM u oulro lado da missão- procurar o caminho por
und11 wlnham 111 carecia rias a V cncza, Genova c outros portos
•1• 1 rcmontDr .-, origem d'essas especiarias. Para
• • er• IIIDCCIItlrto Jirigir-sc a um dos portos do Meditei-raneo
urltnlal, unJa 11 esreciarias embarcavam para Veneza, por
IIIDI(lln
1
Alexandrio
1
penetrar alli nas terras sujcitas aos mou-
'"' nu c subir depois pelo trilho do commercio,
ol• ''"''' lliiC trilho lcvnssc. Talvez á lndia,talvez mais lo11ge.
'l'r•Unl·•• unlcamenre por todo esse cami11ho. de saber ver. e
de 11h1r fi11ar na memoria ou nas notas o que se havia visto.
IIDJ'IIIIIIIYGin"eata parte formular um plano, ou marcar um
lfln•r•11·l••· TuJo por a11i devia ser novo e imprevisto, pelo me-
11111 l'•r• ua portu11Jezes; e o cxito dependia da promptidão du
r111•k&,G11
1
1ow.Qda1 ' medida e fciçio dos a'ontecimentos.
Os prtparãt"m da viagem 6J
Estn pnrte da missâo ín mais especialmente, segundo julgamos,
confiada a Pedro da Covilhan ; e depois veremos com quanta
perspicacia c perSlstencia d'ella se desempenhou.
Ha ainda um ponto, em que D. João n deve ter dado in-
strucções aos seus escudeiros, seguramente as mais secretas,
e 9eguramentc tambem as mais interessantes. O pndre Alva-
res, no livro impresso, não o menciona, mas indica-o Ramusio
na nrs§o; e estes additamentos de Ramusio, se não merecem
absoluta confiança, merecem sem duvida attenção, sobrelUdo
quando slo plausíveis, como acontece n'este caso. Diz elle,
que os co.3mographos recommendaram aos exploradores, in-
dagassem no paiz do Preste Joio. . . cse rrei !Juoi mari
rrotrlia a/erma, che si possa passare ne mari di pontnte, perche /r
delti Dottori dicev.J.tfo lror•.Jia so che memoriO. •.
Não poderemos affirmar que estas instrucções fossem dadas,
mas é. namral.'issimo que o fossem.
Pondo de parte a questão das problematicas e antiquíssi-
mas circumnavegações da Africa, admittindo-e admittindo
sem inspiração de falso patri01ismo, simplesmente porque nos
rarece exacto- que a parte austral do continente foi desco-
nhecida até á viagem de Bartholomeu Dias, fica, no emtanto,
o facto incontestavel de que se acreditava na possibilidade du
circumnavegaçfio. A geographia systematica dos antigos, e de·
pois a dos arabes e da Edade media, admittia em geral a hy-
pothese de um mar envolvente, e portanto a de uma commu-
nicacão do oceano Atlantico com o oceano Indico. A duvida
estava no modo por que se estabelecia essa communicação;
que podia fazer-se pelo mar livre c desembaraçado, ou talvez
por canaes estreitos de d1fficil ou impossivel navega.;ão, como
dizia, por exemplo, o geographo arabe Albyruny. r
Não havia pois a certeza, mas havia a esperança de poder
pn!lsar. Havia esta esperança em Ponugal já no tempo do in-
fante D. Henrique, e com mais rasão no de D. João n. Quando,
1 Veja-se Santarem
1


u.vn.
Pedro da Copi/han
a partir do cabo das Palmas, a costa africana comecou a cor-
rer no rumo de leste, imaginou-se ser alli a passngem, o que
estava de accordo com as opini6es de alguns antisos cosmo-
grnphos, os qunes limitnvam a Afric.a pelo sul loso nus pro-
ximidades do equador. Depois, passado o solfo de Guiné, a·
costa voltou a correr norte sul, e ficou-se na duvida acerca da
sua tcrminacio.
Estava posto o problema, que devia resolver parcialmente
Bnrtholomcu Dias, totalmente Vasco da Gama. Comprehcn-
de-!e, pois, todo o imcresse que havia, em obtrr informações
sobre este ponto especial e cspital. Julgava-se então, que a
Ethiopia se extendia- como d1z Barros- •té o mar do Sul.•
Ü'i naruraes da terra deviam conhecer o modo por que termi-
nava a Africa. Alli na Etl1iopia, ou tah·ez no lndia, devia sa-
ber se alguma cousa sobre a tão importante pa!!sagem- essa
passagem, dada a qual os planos de D. João 11 podi:.un ser
uma realidade, sem a qual seriam sempre um sonho. NaJa
mais natural, portanto, do que a recommendução, feita- se-
gundo Ramusio- nos exploradores : indagar se havia alguma
noticia clfe si possa. passare rtt' marJ di ponenle. Depois vere-
mos, como a viagem de Pedro da Covilhan u Sofnla se deve
relacionar com este lado da missüo.
Taes seriam, segundo todas as probabilidades, as instruc-
çries dadas aos dois escudeiros : que um d'elles se
directamente ao rei christão da Ethiopia: que o outro pro-
curasse passar á lndia, e estudasse as condições do commercio
oriental: que ambos colhessem por onde podessem informa-
ções sobre o modo e sitio de communicação dos mares do le-
vante com os mares do occidentc.
Pelos primeiros dias do mez de maio todos os preparativos
estavam terminados, e os dois escudeiros muDidos da sua
cana de marear e das suas instrucçries secretas. No din 7
d'aquelle mez de maio do anno de 14H7, D. João 11 deu-lhes
a ultima audiencia em Santarem, á qual assistia o duque de
Beja. O rei entregou aos viajantes quatrocentos cruzados, tira-
dos do cofre das suas propriedades de Almeirim, e tambem
umn carta de credito • pera rodas as terra!' e provincias do
Ao de!1ipedir-se deitou lhe!' a !'Ua benciio. 1
\"ista de longe, e conhecendo bem os personagens. e. scena
é realmente grande. O principe perfeito, pensativo e gran, os
olhos fitos como n'umo visão interior, que lhe mostra ao longe
essas terras mysreriosBmenre obscuras e deslumbrantemente
luminosas do Oriente, onde medita levar as quinas portugue·
zas, o principe perfeito diz as ultimas palaVTas aos seus men·
sageiros, com a grande auctoridade, que lhe vinha mais das
qualidades que do c.1rgo. Ao lado escuta-o o moco D. Manuel,
o futuro rci felicissimo, em cujo tempo V asco da Gama deve
ir é lndia e Affnnso de Albuquerque a Malaca, tornando reu-
lidades o que hoje são Simplesmente sonhos, tluctuantes no
vasto espirita do seu predecessor. Em frente d'elles, recebem as
ordens os dois escudeiros, que partem para o desconhecido de
animo firme e Coração é la.rga. Ao despedir-se, o rei aben·
çõa-os. Scpunwa-se d'elles, eomo um superior religioso se se-
para dos seus missionarias. De feito, eram dois missionarias.
oquelles dois modestos escudeiros, partindo para remotas ter-
ra!' no serviço de Ponugal e da F t: c:uholica - duas causas
unidas então ll!m todos os espiritos.
Para os que a presenceararn, a scena era simples- um
rei enviando dois mensogeiros a terras distantes. Mas para
nós tomn as que lhe dáo os successos posrerio·
res. lllumiml·sc pelas glorias, como se escurece tambem pdas
sombras do fururo. Menos de meio seculo depois, nos mares,
' •·. . e que foram desp•cluWos i! 1101 VJj. diss de Maio do
11nno de oul e quatroci'!ms e e 1e1e snnos presente el Rey dó Ma·
nuel sendo duque. . e el Rey lhe dera rem smt.os.cccc. cruzaJos pero
1ua desp1s::J, hos qu11es lhes dera darca das despezas da orta de Almeirim,
a rodo rresente el Rey dó Manuel :5eodo duque. E el Rey dü Joam lhe
dera mais hila carta Je creJno rera rodaa hns terras c provincias Jo mundo
pcra que se se vissem ll!m rerigo ou necessid11de ij ror oquella dei Rt}' lhes
soccorresl; e hi lhes deu presente ho duque ha sua bençi•; Ah,ares,
Vn-4tr4. injormaÇIIm, 128.
quui desc:oahccidos. para onde partia Pedro da Co.Uban,
lcnota,.a-se o .,....&: imperio maritimo de Ponuga1 ; menos
de um SIEOio drpois, •quelle impcrio desmembrava-se n"uma
irraacctiawcl dccadeaaa.
j•
- ~ ·.
;
.. ~
- - ~ - - -
~ ..
lai.-MD As-,•.-niMr--.s
eMC.tla.
CAPITULO lll
SPACHADOS e despedidos a 7 de mnio cm Sentarem.
os dois escudeiros ainda voltaram a Lisboo, onde,
tomando algum dinheiro para o começo da sua
viagem, depositarnm o restame dos quatrocentos
cruzados nas mãos de Barlholomeu florentino, para lbes ser
dado em Valencia r
Este florentino, chamado BarthoJomeu Marchioni, era um
poderoso mercador e banqueiro, estabelecido, como vemos, cm
• • .. e dos djro!. cccc. tomaram pera sua despen., e ho
mais poserii em mãos de Bertolameu pen q lhe klss! dados em
Valença•; AIYares, Verdad. rn/ormiiÇilfJJo r::a8.- O cruzado tinha por
aqueUe lempo o valor muinseco de :z,.r6o reis, e a somma foi portanto
de 8641!/ooo reis, equivalendo pros.imamcnte a S:dt,;J>ouo da moeda
actuaL Nio era grande, mas levavam a mais a cana da credito.
69
nl1 reinado de D. João n; e que depois, em tempos
de D. intcrveiu activamente no novo commercio com
t\ ln'-ti", com o estado. Parece
ter l' lltcrcaJor Ja nossa praça, • homem de
fuzcn,lu• Jiz o •mais principal
cnl "ul .. f-.tzcnJa•. Jiz João de Barros. E,
'l'"'n"l'l tt(t'l"i'ultcs cstrangeirt'S de Lisboa foram admitti-
,1\l.. l\ ,,_.,u,u· P''rtc nu Jas armadas para a lndia,
t,ll l, \.lU, hoje Jiriamos, o presidente
,h, Je ceno antes J"isso largas rela-
\;''l'" uu l t,tliu no I e não 5\.l se encarregaria d'estas
\ \' uh.'ll\:t-.l, teria ras.:,aJ\."\ 3 cana de credito
.. l'\''''' c pro,·incias do mundo•, dlda por D.
·"'"'' u •
t 1,, U\\'""'"'' ,. que os Jois escudeiros
poa· ht. seguiJo ate alli por terra, e em-
• '' 1'1\t'h', "'"'.-''" Je Lisboa nas
" I thhc,, l, 'fil'' "'' J,"'-l\\ J" na qual ia um navio
-.-", '''"""'""""''' ,,,,,,, '''''''ntin,, Ftrn .. \n,t"' Gasrar Corrêa,
l.t•tt.l.n, t, ·'''h,, "'"'"'s, . '· ,.,. uma relacão de
' .
. \lh•·• h"" ''''''""h'l\l"''\t'" n'-' tlamenf:O e en1
lnul.•, , I 'lt,• '''' •• ,..,. t,• hc..i:..J .. C. H. Coo te. LonJon,.
I 'lq p, "'" tl"'"'"' """"'''' "'" .-\lmeiJa
, ... , h·lh '•' '''"''•' ''"'' c! .. trJos.- :\a Rt"i.Z)IOne ..
'''' I ""'" '''' ''·' '\h,, \a" ... , \·t'iu a L is o
• ••·\·l\\•••' "' "" '''"'""' ,,,. ,,,:n ,, ln,li,\- que nas náus mer-
' '"'"'" '"'" ''"'''"''''' .... • h.l\'i.a:n iJ.-' armaJa, tinha
'""h· " "·""""'" ,, . , ... ,r .. .. lni,. in 'luelle rartecip&l
u.u "''" ,. \\''·' " An:hi•io StoriCO
ll.t/t,utt•, •' ',,,.,'""''"''''"' "''" .Vt'Nt . • i,.l '"'"ntus,.ü,, F'tll"lu;,.TJJttj.:l no C(!ftl. Jo
.t. h ,#,, . htt.·t h',t, ,,,,,, ''''"'''''' \S ,,,, • •
..
• •' ·'' ',,,,,, ,,,,, '"'·""'\'U .. ,t,' ... hi,,ni ....... om o e$taJo, Jeri,·aJas
I" h h 'P·' ''"' ""' '"' '"'' "'' , .... Ja lnJia, -se as
'""' ""' '"·''"'''" I' .. ,!'.U' l\. .... ·l, t'm l.'l':- e 1.'14, S()m-
""'" '"
1
1\, '' "'·' ,, "'" ',,,,,,,, , .. t,u,t,, l'"'r trinta c t:
''"'''' I"'' '"•" ''' '''"""·'' ''";'''' .. t .. tempo-
•,•h·:. '"'·''" "'"'"' ·"'-'' l'''l,, M \'1t ...... r!,,, cn1 um ar-
tltt'' ,,,, I' ..... ,,,, ,,,. ''\ltU!'t'''

cA. grande vuigem
barcando n'este porto para Barcelona, onde chegaram no dia
de Corpo de Deus, que n'aquelle anno de Lt87 foi a 14 do
.
mez de junho. '
Barcelona era já então um importante centr.o commercial,
em relações seguidas con1 os pc,rtos da Berberia, da França,
da ltalia e do Levante ; e a marinha mercante catalan podia
contar-se entre as primeiras do Mediterraneo. Os portu-
guezes encontraram, portanto, alli as facilidades para
proseguirem na sua viagem. No decurso da narração de Pedro
da Covilhan- tal qual nos foi transmittida pelo padre Alva-
res- diz-se, que elles passaram de Rhodes a Alexandria em
uma náu de Bartholomeu de Paredes. z Este nome do capitão
ou armador parece ser hespanhol, e é bem possivel que elles
fizessem toda a viagem n'esta náu de Barcelona, quer n'ella to-
massem a sua passagem, quer a náu fosse fretada por D.
João 11. 3
Na náu de Bartholomeu de Paredes ou em outra, o qué
pouco importa, seguiram a sua derrota para Napoles, onde ·en-
tão reinava D. Fernando, o filho bastardo de D. Aflonso v de
Aragão, e onde chegaram no dia 24 de junho, dia de .S. João.
Haviam-lhes dado em Barcelona uma ordem sobre Napoles, e
elles foram receber o seu dinheiro dos filhos de Cosmo de
Mediei, quer dizer, em uma das suas casas bancarias. 4 O
1
cc E partindo fiz e rã seu caminho e forã ter dia de corpo de deus a
Barcelona»; Alvares, Verdad. 128- A paschoa foi n'aque11c
anno a 15 de abril, e a festa de Corpus r -4- de junho.
2
" ••• e h i pasarã em Alexãdria em hüa náo de Bartolameu de pare-
des»; Alvares, Verdad. infornzaçam, 128.
3 Havia em Barcelona, já no x1v seculo, náus de duas e tres cobertas,
e de oito a doze mil quintaes. Das nâus cata]ans, fretadas por D. Affonso v
de Aragão, quando passou com o seu exercito a Italia (r 4 19 ', algumas I e-
vavam cento e vinte cavallos; Capmany, Cuestiones criticas, p. 294.- Esta
cm que navegaram os dois seria mais pequena, e a rapidez
relativa da viagem ]eva-nos a crer que ella fosse especial e secretamente
fretada por D. João 11 ; e não uma simples náu mercante, em que tomas-
sem passagem.
4 «. • • e o c&íbo lhe escãbaram de Barcelona pera Napoles, e a Na-
70
'Ptàrr> da Covilh ..
grande Cosmo de Mediei, chrfe de uma republica de mer-
cadores, não se desdenhava de ser elle proprio mercador.
Ne1o de Averardo Bicci, que passou por ser um dos primeiros
do seu 1empo, casado com uma Bardi, provavel-
mente da familia d"cste nome, que organisou a maior casa com-
mercial da Italia, o da p<ltria de Florença, além de ser
um grande homem de estado, foi tambcm um grande banquei-
ro. Os seus filhos seguiam as uadiç&:s da faniilia, e podiam
bem ter em Napoles uma succursal da sua casa, como sabe-
mos seu pac as tinha em mnras cidades da halia. • E, se as
ordens ou cartas de credito foram passadas cm Lisboa por
Bartholomeu March::oni,. Horcntino de nação, noda mais natu-
rnl do qUC! serem passadas sobre um banco, Horcnrino tambcm.
Terminados os seus negocios em Napolcs, os dois escudeiros
seguiram viagem para o celebre porto da ilha de Rhodes.
Pertencia aquella ilha aos cavallc:iros do Hospital ou de: S.
João de Jc:rusalem;, c: governava-a então um dos mais famosos
Grão-mestres da Pedro de Aubusson. o que havia re-
sistido heroicamente: tempo antes ( q..8o) ao cerco das esqua-
dras c fõra creado cardeal pelo papa lnnocc:nclo vn1.
Em Rhodc:s assistiam sempre varies portuguezes, pois os ca-
valleiros e commendadores do Crato- como habirualmente
lhes cm Portugal -estiveram sempre em relações
seguiJ.as com a sua casa central de Rhodes, como depois com
a sua casa cc:n1ral de Malta. Uns sete annos ames da viagem
de Pedro da Covilhan, na occasiiio do cerco acha-
vam-se alli D. fr. Diogo de Almeida, filho do conde: de Abran-
Ies, que depois foi Prior do Crato, fr. Rcdrigo Mendes, {r.
Alvaro Godinho, fr. Luiz Petrosa (Pedroso l), fr. Fernando
polu foram dia de sam Joã, e lhe• foy daJo seu 0:11imbo pellos filho• de
Cosmo de medicisa; Alvares, •nfonnaçarn, n8.
• Vide, Carlo Cipolla, Storia d'llr Sil(rtorie r"!.JJi.tlle, p. 4l8.- A suc-
cunal de Milão, administrada pelos Portinari, achava-se estabelecida na
casa Medicea. de que encontramos uma noficia no Giornale 11orico •
.kc/lil'i IOINJIIJ "1
1
]:a]•
Gonçolvo (Gonç:alves lJ, c fr. Pedro Laurentia (l}, todos do
priorado de Por1ugul. E' pon!m, que houvc!Cscm sido
chamados quando começaram a correr noticias de que Maho-
mct 11 preparava a ellpediçi!o contra Rhodcs; e, termimdo com
fchcidade o cerco, vol1assem qurui todo5 ao seu priorado.
Quando alli a.portaram Pedro do Covilhan c Affonso de Paiva,
havia unicamente na ilha dois portuguczes, fr. Gonçalo e (r.
Fernando. •
Os commcndadores c cavollciros viviam em Rhodes cm
casas separadas e sobre si, com o apparato proprio do seu
nascimento c da sua dignido.de ecdcsiastica ; c os dois portu-
guczes receberam em casn c alojaram seus compatriotas.
E" nomral, que estes lhes confiassem o segredo da sua missão,
c d"clles alguns conselhos sobre o modo por que se
dc\·inm conduzir na terra dos inficis. Rhodcs era a ultima cs·
taçii.o dos nossos viajantes cm poiz christão, antes de pene-
trarem nos rewões cm que dominavam os mouros, necessita-
vam tomar o qudidade ou pelo rnenos a apparencia de roer·
cadores. Seguindo pro,•avelmcmc as indicacões dos seus com-
patriotas, compraram alli mesmo na ilha uma grande porção
• ..... e .Ju: q neste ti!po nam eri mlilis de dous portusuete! em Rho·
dls, hil se: frey Gõç•lo c: outro fre} Fern1ndo e com utes pou-
lllrl•; Alvares, nrfor""'f'1"1
1
1:18.-Esle fr. Fernando pode bem ter
s1d0 o rr. Fernando Goncalvc:s;, que jlli alli estava no momento do cerco,
ou am fr. Femam de Pina, u:ommem:lador do barroo da hordern do es-
prilal•111 quem O. Affons;o v concedeu annos anles (147G) uns priYilesios
paro. os lavradores da •ua commenda. Emquanto a fr. Gonçulo, poderia
ser um fr. Gonçalo Corrta, •c::ommendador de ulg:osso e dawoym•, s quem
fonm cou1adas •• terras d• sua commenda por mercê do mesmo rei
(1471); ou Rntes frcy Gonçalo Pimcnt•. •c::avalleiro e rreccbc:dor da or-
dem e rreli11iio .!o srio menre de RhoJes•, da casa de Avellar, e cujos
filhos nalurac:s foram legitlmaJo111nnos depois (1S10).-ViJc rr.Lucas
de San111 Catharina, Mcm. d12 tJrdrm de S. João de M.Jlta; e do
mesmo fr. Luca1, CGtDI. dos Griio Pnorr& do Crato, n•s Mrm. da Ac.
H•sl. poriJJguera. (171-1) n.• vm; J. A. de Figueiredo, Nova hisl . .111
tJrdtJm de M31ta
1
111
1
p. 82, ti8
1
10-1; Vc:rtot
1
Hirl. dos
ho,pitalirrs, 11
1
p. fuo.
ele mel. que cmbar'aram ru 5U:I niu., c com qot fiiSI.atam a
Ala.andna • T.ambc:m nos, aniC"S ele cutnnnos cm ICTT3S ele
mouros, volu:r um pouco 4liJ"aZ, a recohJar bre-
•cmrntc alguns nacos do c:ommcrcio Jtali.ano com o Oriente
na Edadc media, commnt.io .lllolis celebrado qur c
qot JU!tamerue D. João 11 mandava agora observar.
Alcxand..U., para onde nucgJ.va Pedro da CorilhaD, hil\ia
sido nos anrigos tempos dos Ptolomeus, c continuaYa ainda a
ser s«u1os antes d"c-sta viagem, quando o Eg) pto christio
pertencia ao imperio do Oriente, o ponto onde, no llcd.itcr-
winha principalmente terminar a cOfTC'nte do commer-
cio oriental O caminho, pelo mar Indico c mar \rermelho,
que alli conduzia, tinha sobre O!!. OUtro!!. a nntagem de
qn menor tróljt-cto terrestre. As merc:tdorias, desembarcando
nos panos do fundo do mar Vermelho. Tõr. Kossir c outros,
eram d"alli conduzidas a Alrxandria com relar'in fa.cilidõlde,
sendo.. pois, aquella ,;a commercial, de todas a lll3is rapida c
a mais barata. E' ccno, no cmranro, que j6 por aquelles tem-
pos a Penia havia desenvolvido largamente o seu commt=rcio
exterior • apro\·eirando-se da sua excepcional situação geogra-
phit:a ; e muitas mercadorias do Oricme chegavam a Cons-
tantinopla por esta via terrestre, quer 'iessem d1rectamemc
caravanas da lndia sept-emrional, quer seguissem a na\""e-
gaçiio do mar Indico e gol(o Persico ao sul d.1 Mesopo-
tamia. sendo d" al
1
i por terra.
Este desvio do trafico para leste mais se accenruou depois,
quando a conquista do Eg} pto pelo!!. arabcs c a inrolerancia
religio!'la d"estes pritm"1ros islamitas, vieram crear cmb&rnços
ao commerâo christão, que antes se fe.zia por Alexandria.
Sem que este commcrcio cessasse, eeno que se enfraque-
ceu bastante, durante um longo periodo da E,lade-média.
Por isso, no momento em que O!!. negociantes italianos co!T'e-
çaram a ser O!!. principaes senhores da navegação mediterra-
r • .•. e por rsssarem como mercadores c6rrarã mel e •rrib•ri
em Alca11ndria•; AIYarcs, Vrrdad. rrrJormaçanr, 128.
nea, estes voltaram mais as suas attenções para o norte, para
os lados de Constantinopla. Não só visitavam a miudo a opu-
lentissíma capital do impcrio byzantino, como vieram alli es-
tabelecer-se em grande numero. Depois sobretudo da terceira
Cruzada, em que representou um papel tão saliente o doge
de Veneza, Henrique Dando lo, ou- como lhe chamava Ville
H ardouin no seu velho francez - li Dux de Ve1use qui ot
·a 11om He11P·is Dando/e, • depois d'esta Cruzada, e de ser
levantado ao throno do in1perio o primeiro imperador franco,
Balduino ( 1 204), os italianos vieratn formar uma parte e uma
parte activissima da população de Constantinopla. }-4: quando,
mais tarde ( 12t; 1 ), o imperio passou de novo para os gre-
gos na pessoa de Miguel Palcologo, continuaram a ser muito
favorecidos, especialmente os gcnovezes. Os venezianos fica-
ram estabelecidos na cidade com o seu Podestá, e os pisa-
. nos com o seu Consul, mas considerados como estrangeiros.
Os genovczes, porém, eram tidos quasi na conta de naturaes,
e occupavam todo o bairro de (ialata, onde se governavam_
livremente, onde se fortificaram n1csmo, resistindo algumas
vezes ás ordens e ás forças do imperio. 2
De Constantinopla, os italianos estenderam facilmente as
suas navegações e as suas operações commerciaes a todo o li-
toral do mar Negro e do mar d'Azov. Já no anno de os
venezianos possuian1 um estabelecin1ento etn Tana, não longe
da moderna l"'aganrog, estabelecimento que depois passou
principalmente para as mãos dos genovezes. Tana foi du-
rante scculos um centro commercial importante, onde afHuiam
as n1crcadorias do extren1o Oriente, vindas cm caravanas da
China septentrional. 3
u1n livro comn1ercial escripto por
r \'iii c I Ian.louin, na cJição de Ou Fresnc, Hist. de I'E1npire de
f...'onstantinople sous lt'S r111pereurs Jt·ançois, Pnris, tGS7, png. ().
2 \.'tJc, I list. de de u pa rtic, p. 1
3 11 ne1·o e /c colonie dcNii it .. 1li"1ni PZel 1nedio evo; cm
.Arch. Storit.:·o 11"1/i.:zno, N. S., v, parte J.', p. 3 e seguintes.
10
74
Pedro da Covilhan
Francesco Balducci Pegolotti ahi pelo anno de I3afo, encontra-
mos noticias circumstanciadas sobre o trafico de Tana, pelas
quaes é facil ver quanto de,·ia ser importante n"aquelle perío-
do. • E quando, um seculo depois ( I43j), alli foi o ,·eneziano
Josaphat Barbaro, que por lá andou dezeseis annos e passc,u
á Persia como embaixador da lll11slrissima Signon·a de \·e-
neza, o trafico ainda continuava activamente, e elle encontrou-
se na Tana com varios patricios seus, um Cornaro, um Con-
tarini, um Barbarigo, além naturalmente de muitos genove-
zes. 2 Estes possuíam tambem na Crimea estabelecimentos flo-
rescentes, taes como SoJdaia e Cafta. Caffa, situada proximo
da moderna Inkerman, era uma verdadeira colonia de Geno-
va, senhora de parte d ~ terra, celebrando com os tartaros ( 1 3 ~ o )
tratados, em que lhe eram reconhecidos os seus direitos. 3
Embora menos influentes alli, os venezianos frequentavam
tambem o mar Negro, particularmente Trebisonda na margem
meridional, que fôra em tempos uma província do imperio by-
zantino, e onde depois ( 120-1-) se formara um pequeno impe-
rio independente, sob os Comnenios. En1 Trebisonda cele-
brava-se uma grande feira annual, a que afHuiam mercado-
rias de todo o Oriente, vindas da China pelo norte do Cas·
pio, vindas da India septentrional pelo Afghanistan e pela
Persia, vindas do sul, de Bassora e Baghdad, pelo Kurdistan
e pela Armenia. A'quella feira concorriam negociantes de
todos os paizes, venezianos, genovezes, florentinos, francos,
gregos, armenios e outros asiaticos. Alli se encontravam, do
mesmo modo que em Constantinopla, mercadorias orientacs
de todas as sortes: especiarias finas e grossas, madeiras de
tinturaria, ver1ilzo ou brasil e outras, aromas, canfora, aloés,
• Cito pelos extractos de '{ ule, Cathay, 387 e seguintes. - O livro
De/la /)teima não se encontra em Lisboa.
2 Viaggi {atti da l'inetia ,11/a T,1na, in fJersia etc. AlJus in \·inegia,
1S4.\ a p .. J c seguintes. - Esta viagem de Barharo ven1 egualmente n ~
Co/lecção Jc H amuiiio.
3 Cancstrini, 1. c.
ambar, alumen, tecidos das mais variadas qualidades, bal-
dacchilli ou brocados de oiro de Baldac (Baghdad), sedas
adamascadas de Dan1asco, l1lOSSLJii1zi ou mosselinas de Mos-
sul, tecidos de seda e algodão da India, sedas da China,
camelot/i ordinarios de lan da Armenia, louças da China, ouro
e prata, pcrolas e pedras preciosas, e muitas outras. De outro
lado, · alli concorriam tambem as mercadorias da Europa: os
tecidos de linho ou tele, os pannos da França e do norte, os
pannos afamados de Florença, trigo e cevada, azeites de Ve-
neza, da Apulia e de (;acta, vinhos da Grecia, da Calabria c
da Sicilia, figos passados de c de Hcspanha, talvez
do Algarve, • e numerosas mais.
No porto e feira de Trcbisonda, nem todas as nações eram
tidas em pé de egualdadc. Davarp-se entre ellas difrerenças,
muito similhantcs ás que hoje resultam dos tratados de com-
mercio, c da condição de naç,fo nzais jaz'o1·ecida. Varias Yezes
vemos os doges de ''encza reclamando pelos seus embaixada·
res pri\'i legios e isenções para os seus subditos ; e varias ve-
zes vemos os imperadores de Trebisonda attendendo os seus
pedidos. 2
Fóra do mar Negro, um dos portos mais frequentados pe-
los italianos, nomeadamente pelos venezianos, foi Aias ou-
como elles diziam- Ajazzo, proximo da antiga Jt:grea, no re-
canto formado pela costa da Asia a nordeste da ilha
de Chypre. Pertencia aquelle porto ao principado christão,
chamado da Pequena Armenia, a cujos soberanos o papa Ce-
1 No livro de Pcgolotti, os cestos Je figos passaJos vem incluídos em
geral mercadorias, que íam Ja llespanha parl o Lc,·antc; mas cm ou-
tros vem marcados especialmente entre as exportações de
Portugal. Em uma nota dos fins do xn1 sobre a procedencia das
mercadorias, que ían1 aos portos Je Flandres, lê-se: •Dou royaumc de
Portigal vicnt n1icl, pélcteric, cir, cuir, grainne, oint, oile, figues, raisin,
h alai,- veja-se O. Noel, Hist. du conuuerce du mo11de, r, 2 32.
:! Docunzenti spett"1nti a/ comntercio dei Vene;iani con I'Ar1nenia e Tre-
bisond"1, publicados pelo conde Scrristori, annotados por Cancstrini, no
Arclz. Storico lta/i,nzo, App., tomo rx, p. 333 a 388.

PeJ,-o da CovJ11Jau
lestino 11 deu o titulo de reis. Estes reis christiios da Armetlia
fa,·orecer .!m muito o commcrcio com os europeus, c tambem
no seu porto concedcrõlm iscn\;ÕCS espcciacs a varias nações c
cnmpanhiõls. De todas a mais favorcáJa foi a companhla dos
Bardi de Florença, uma colossal associ.lçúo commcrcial. que
· chegou a um gráo de extraordinaria falliu no
.mno de t.U!t, em que o rei de Inglaterra, Eduardo 111, com
quem tinhn um negocio de lans, lhe não poudc pagar F: w:ooo
florins de oiro que lhe se levantou depois, e tornou a
fallir no de al-+='• com um p"assivo de 5oo:ooo florins. 1
P .1ra esta compnnhia dos Bardi, obteve o seu acth-o agen-
te, Franccsco Balducci Pegoloni, no anno de uma con-
cessão importantissima- o porto franco em toda a Arrnenia.
Seguiam-se équella companhia os venezianos, genovezes e
florentinos em geral, os quacs pagavam ja alguns direitos; e
depois, em condições menos favoraveis
1
os provençaes c cata-
lães. 2
Para o sul de Ajazzo, os italianos frequentavam egual-
mcme todos os panos da Syria, Tripoli, Acra e outros; e
achavam-se me:-mo estabelecidos no imerior, em Aleppo e
Damasco. Haviam peneuado n"aquellas terras, sobretudo nos
tempos das Cruzadas. e 4 sombra dos christãos; mas
alli fic.\ram, mesmo depois de extinctos o reino de Jerusalem
e os principados da -Syria. O seu interesse aconselhava-os a
ficar. c o dos musulmanos a não os expulsar totalmente:.
Como se vê, sem que o rrafico por Alex.mdria rivesse ces-
sado, o mo,imento commcrcia.l havia-se no emtanto desviado
para o norte e para leste, durante a maior pane da Edadc-
mcdia.
Esta situacáo modificou-se, porém. ou alterou-se mesmo
completameme no decurso do xv scculo. Os venezianos, me-
nos influenres que os genO\·ezes em Constantinopla e no mar
1 Giov. Villani, JstoriJ. l:ivro n:, cap. 87, citado por Yulc,

SeiTistori c C11nestrini
1
Doclllllfmlit I c.
ef grande JJiagens
77
Negro, haviam jll ames voltado 11s suas attençõe.s para o
Eg).p1o. De outro lado, pelo anno de 1l;S't o sultão do 1-.:gypro
spoderou·sc do reino da Pequena Armenio, vindo o seu ulti-
mo rei. L.eão 1\'
1
da casu de lusignao, morrer cxil.1do a Paris,
c dcsappareccndo nan•ralmente as facilidades especiaes de que
os christáo5 gosa\·am em Ajazzo4 Os panos da Syria est:n;am
do mesmo modo nas mãos do sultão. A ter de tratar com
elle, melhor era uarar directamente em Alexandria. Os \"C·
nezianos impetraram, pois, do papa uma bulia, que lhes per-
mittia trafic.lr li,·rementc com os infieis, c aproveitaram-se da
porta que lhes abriam os sultóes l\lamelub circassianos, mais
tolerantes que os primeiros islamitas. e impellidos sobretudo
pelo proprio interesse. O exemplo dos venezianos foi seguido,
e Cosmo de Mediei mandou tambcm os seus embaixadores ao
Cairo, pedindo para o5 8orenti11os os privilegias de que jã
gosavam o5 mercadores de Veneza. • Este novo movimento
mais ainda se definiu, quando no meiado do seculo, a tomada
de Constantinopla pelos turcos ( •453) veio dar um golpe mor-
'"1 nas colonias genovezas do mar Negro. Os genovezes bem
procuraram evitai-o, mandando desde logo a 1\.lahomet 11 um
embaixador, Luciano Spinola ( •-t=-'4), o qual, com muilo5 protes
4
tos de amizade, pedia a li\."re passagem para a colonia de Caffa
c outra&. E" justo dizer, que 0!11 venezianos se haviam antecipa-
do, tratando tambem com o sultão ottomano, e desculpando-se
ao mesmo tempo perante o papa, dizendo-lhe, que elles não
podiam resistir sós ao grande poder dos turcos. 2 Mas. apezar
d"estes esforços diplomaticos, e de o novo senhor de Con!lltan-
tinopla haver permiuido a passagem pelo Bo5phoro. as colo·
nias do mar Negro decairam c pelo anno de
14í!l, os tartaros das margens do mar Negro e
CrimC:3 ao mahoml!rismo, aquellas colonias achavam-se com-
pletamente extinctas. 3
• Major,/ndia in lhe ftjuenlh XVII e 'II:WI.
Cipalla, SloriD. tlerle :Jignorit h1.
l Canestrini
1
limar 11ero
1
I. c,
Por todos estes m01iw-os, o mo'imcnto com.mercial ha1ia
.-oh.ado de no,·o para o EBYJ'tO• c no ultimo quanel do seculot
quando alli foi Pedro da Co,ilhan, o trafico por Alexandria
tamo ou mais acr.iw-o do que nos amlgos tempos tlorescemes.
F.stan. porém, imminc:ntc uma nova crise. que pn:p•
ran cm Lisboa o alto espirita c a rortc Y'Ofltadc de D. Joio 11,
para a qual justamente trabalhava o nosso Pedro da Covi-
lhan, e para a qaal trabalhawa ao mesmo r:cmpo Banholo·
meu Dias, luctando com os mares do sul. Passados bt-m pou·
cos annos, o commercio oriental delia encontrar um D0\"0
caminho;, o proprio sultão do Cairo de11--ia \-ir queixar-se das
nucgaçócs portuguczas á ultima pessoa a quem podcriamos
il'lV.ginar que ellc se queixasse-ao summo ponü6cc; e Julio n.
influenciado talvez pela sua qualidade de italiano. dnia fazer
algumas tentatins junto de D. Manuel para o demover da sua
rmprez.a. r \" oltcmos, porém, sem mais reHesóes e sem anlc-
cipar acontecimemos, ao trafico medie\·al dos it.'1lianos.
Parece, que estes se con1en1avam cm geral com frequemar
os Panos do Meditcrraneo, incluindo, esta claro, n'cst.'1 espres-
slo o mar Negro e o de Azovi e alli, no hnoral, recebiam c com-
prnam as mercadorias que lhes traziam do interior. E' cena,
no cmtanto, que alguns ou mesmo bastantes d"clles se h.a,·iam
internado mais ou menos profundamente nas regiões orientacs.
Se temos n01icias directas de poucos, isto r: naturalissimo, pois
a maior pane d"estes \iajantes de commercio nio escra·iam c
nio deiuram mrmoria de si. O facto é, no cmumto, incontcs-
lanl. No li' ro de Pcgoloni,. já citado, dio-se instrucções minu·
ciosas aos mercadores de Genova ou de Veneza, que desejas-
sem ir com fazendas de Tana ao Cathayo, ou China septen-
triooal: como deviam deixar crescer a barba; que cuidados
dewcriam ter na escolha dos seus imcrpretcs c creadosi como
levar comsigo uma mulher de Tana, o que lhes tor-
r Sobre esta curiosa misslo, confiada a fr_ Mauro, do convtnto de
Catharina do monte Sinai, weja-sc BarTOs
1
A.ti,z. r
1
vm, e o cJ.-
nacto da carta de D. Manuel a Julio uno z, 1-11.
cA grande VIagem
79
.
naria a viagem mais agradavel e lhes daria maior importan-
cia. • Estas instrucções, e o modo natural e corrente por que
são dadas, deixam bem ver quanto aquellas viagens deviam
ser frequentes. O mesmo succedia pelo caminho de Alexandria
e mar Vermelho, em direcção á ln dia; e Marino Sanuto, por
exemplo, diz-nos que já no seu tempo (I32o) muitos italianos
tinham ido á lndia e voltado a salvamento.
Sem querermos por modo algum diminuir os meritos de
Pedro da Covilhan, é certo, pois, que elle ía seguir um ca-
minho, onde o haviam precedido bastantes christãos euro-
peus, e onde o não esperavam perigos excepcionaes. A sua
qualidade de portuguez, que annos depois, quando os mou-
ros do Oriente e mesmo os italianos nos consideravam como
inimigos e rivaes, teria sido uma difficuldade, a sua quali-
dade de portuguez não tinha n'aquelle momento significação
especial. Elle era um europeu ou um frangue como qualquer
outro. Nem necessitava dissimular a nacionalidade ou a reli-
gião; e unican1ente lhe convinha tomar a apparencia de um
mercador, pois ninguem então comprehendia que se viajasse
em outra qualidade, e a falta de um motivo explicavel podia
levantar suspeitas. Para isso, os dois escudeiros haviam com-
prado em Rhodes a carregação de mel, com que desembarca-
ram em Alexandria.
• Yule, (4"athay, 2 ~ n e seguintes; e Appendice nr.-Transcrevo as pro·
prias palavras de Pegolotti, que são curiosas : .. Primieramente chonviene
eh e si lasci crescere la barba grande e non si rada ... e sse il merchatante
vuole menare dalla Tana niuna femnina chon secho si puote e sse non la
vuola mcnare non la forza mappure se la menasse sara tenuto di miglior
chondizione ... »
'Pedro da CtWilhan
• •
A t•t hnt1h'" rlltrndn cm terra de mouros não foi feliz, e
t•••tttt• • llr no porto de Alexandria, que então
• • tlr utnn brilhnnte reputação de salubridade, os
t1••iQ • gravemente cotn as febres do
• • • dnrnçn, nfc'»ra mesmo o perigo por que passa-
t \:l·t1t"a cn1baraços de um gcnero especial, pois quan-
ttt• "\'hut·nln rnclhor, acharam-se tambcm sem o seu mel.
• que cllcs n1orrcsscn1, o Naib ou governador de Ale-
tHHh·tu hnvin-lhcs tomado a fazenda con1o heranca natural e
/I
lPt!f\'. t··ni ctlcctivumcntc uso entre os n1ouros, e uso faz lei,
-.ul•rr.Hhln lJlUlndo se upoin na força, sc:r o senhor da terra
tt\St·tlt1h·u llc todos os mercadores que alli não )e-
\.'Hill si Mo filhos ou irn1úos. 3 Apenas convalescentes, os
• • viram·sc, pois, cn\'olvidos em reclamações,
- -···. ----
' :\urunio ·renreyro, lJUe nlli c.'Sh.'\'c.' alt-tuns annos depois, tambem

c diz, qut' us du Nilo, cnn1 que se alin1enta a
\ hl'h'"' ", .. fnlt'lll t' nlorrer '' cn1 clla, pelo que he n1al ha-
hn llillrl\1,-iu dt• .'tlllottio 7t'NI'"tl•,-c,, ""'I'· a.•
" ", , , "' hi "'''l'nnhciros "lc! febres, c lhes foi to-
hhln u nlt'l pullu r\,,ihr\., que e
''"" lh" ,I tu s,,u,lt' lht', "'Ull\0 .. ; .Alvares, 1 in(or-
ffttt\',tfM, 1 JS. '' ur,,t,,,.,, Jogar-tenente, o que
t1H\. C' I"'".'' ,,)li tl\l UUU\" du ,,
" t \ • t • "'' :-\"""' a quem succeJeu quasi o
"'" t • '" · \, du "\'" "'" • : • ... cosi era il
,
""'"' ,h '''"'' ,h ''"' ,, '-ltl.llh.io
Uh'h' \'" \·t"· "' '" "·'"'" '" '• H i '-Lln.lri".
Jt 11. J,t .\.utl\' • \""''" H-u\ntsào " 3.t5 J.a
"'''''''"""'""'' .- t \tt ... u ·, .,)2, ' .
cA. grande Br
sempre diffi.ceis e demoradas em terras estranhas, panicular-
mcnte em terra de mouros. Obtida, porém, uma tal ou qual
reparação, compraram novas mcrcadoria'l c scglliram para o
Cairo, provavelmente pela via habitual de Rachid e do Nilo.
O sultão do Cairo ou !IO!dão de Ba.bylonio- como geral-
mente se dizia n'aquelle tempo -era então Qayt-Bey, cha-
mado tambem Melil..-ei-Achraf (rei muito nobre). Reinava ha-
via vinte a.nnos, caso raro entre mameluks, e o Egypto acha-
va-se em relativo soccgo c prosperidade. Como antes dissé-
mos, o movimento coromcrcial foi então por alli mais activo
do que nunca, e as praças e bazares do Cairo deviam estar
cheios de mercadores e viajantes de todas as procedencias,
ra"as, côres e religiões. Embora Pedro da Covilhan, como já
vimos, tivesse visitado antes Tlemcen e por venrura Fez. o
espectaculo devia interessai-o, não só porque o movimento e
aclividade eram aqui de outra imponancia, senão tambem
porque a sua missão começava, e elle entrava na corrente do
commercio oriental, que o ia levar á India. De feito, chegndo
ao Cairo, intelligente e decidido, e fallando correntemente a
lingua arabica, Pedro da Covilhan poude logo nlli determinar
o seu itinerario futuro, pelo menos nas linhas geraes. Muitos
dos mercadores com quem fallova vinham da lndia, ou tam
para a lndia i e vinham ou Iam pelo caminho de Tôr e de
Aden, o mais geralmente seguido. As vagns e confusas no-
ções, com que saíra de Porrugal, começavam j' ulli a acla-
rar-se e definir-se.
No Cairo se drmorou com Affonso de Paiva Dão sabt::mos
quanto tempo, até se encontrarem com uns mouros do Magh-
reb que iam para Aden ; e, entendendo-se melhor com elles
nu lingua e nos habitas, decidiram fazer viagem na sua com-
panhia, saindo juntos do Cairo em direcção a Tôr. 1 Isto-
1 •E de ru compn.rli outras mercaderi11s e se foram ao Cairo, e hi es-
tiveri ate ij achllrã mouros mogarabüs de ffe'l e de que lliam
pcra Adem e se foram com ellcs aho Toro•; AIVIrU
1
Yn-d.Jd.
....
Bs Pedro da Cov•7han
pelos motivos que veremos adeante -devia ter logar jé na pri-
mavera do anno de I..J.81'i. •
A caravana dos mouros e dos nossos por-
tuguezes caminhou do Cairo a Suez em quatro ou cinco dia!õ i 2
e, .atravessando a váo os ultimes esteiro'> em que por alli se
espraia o mar Vermelho, seguiu depois a margem oriental
d'aquelle mar oté Tôr, vi01gem de mais seis ou sete. 3
Por pouco que Cio nossos escudeiros lossem lidos em histo-
ria saRrada, tudo por alli lhes devia recordar os velhos tempos
Acampados junto do Aijun-Musa, o poço de
elles viam ao occidente as agua .. d'aquellc mar Vermelho. que
se abriru dcante do povo de Israel, cm quanto os arabcs du
caravana lhes apontavam para o .. lados orientaes as cumiadas
distantes do Horcb e do Sinai, a que chamavam o Djebel-
Musa -o monle de
Não obstante o seu grande transito, Tôr ou-como disse-
ram depois os porruguezes-o Toro não era mais que uma
pequena c bastante miseravel povoação, situada em uma
terra arida e quasi sem agua, habitada por alguns gregos
e anncnios christãos, agrupados cm voha de um pobre con-
vento de maronitas, dependente do de St • Catharina, e por
alguns arabes, principalmente pilotos do mar Vennelho. O
naturalista francez Pedro Bclon, que alli esteve uns cincoenta
e tantos annos depois de Pedro da Covilhiln ( 1So47 proxi-
mamr:nte), chama-lhe villa por cumprimento; mas advenindo
1 Depois de marc•r euctamente o dia da chegada a Barce-lona e a
Napoles, Pedro da Covclhan perde este bom CO:Iitume, e nuoca mais cita
uma data. Veremos adeante, como elle não deve ter s.aido do Cairo 1n1es
de primavera; demorou-se; portanlo, uns oito ou nove meaes entre Rho-
des, Aler.andria e o Cairo- o que é perfeitamente natural, attendenc..lo
sobretudo a que elle e o companheiro adoeceram gravemcmte H cheg1da
10 Egyrto.
a Niebuhr marca em ql.latro dias a viag1m do Cairo a Vo_)'l2ge
PJ1Arobit>
1
1
1
IJS.
l Pedro Belon rez este caminho em seU dias alguns unnos depois. Cito
pela venio latina de Clusio; Pttri Bellrmii

L. a, cap. u.ur.
8J
que não passava de uma fraca aldeia. r E a vista do Toro,
desenhada quasi no mesmo tempo por D. João de Castro, 2
dá-nos tambem a impressão de uma simples terreola sem ve
getação em volta, a não ser um grupo de doze palmeiras, cui-
dadosamente marcado como conhece11ça pelo nosso grande na-
vegador. Pode-se talvez notar, que no tempo de D. João de
Castro e de Belon já Tôr estava em decadencia, mas pouco
mais brilhante seria no de Pedro da Covilhan.
Alli passaram os dois escudeiros para os pequenos e rudes
barcos do mar Vermelho. Hieronimo de Santo Stefano, que te-
nho citado e ainda citarei varias vezes, porque seguiu quasi o
mesmo caminho, muito pouco tempo depois, 3 dá-nos uma no-
ticia desfavoravel do barco de Kossir- um pequeno porto em
frente e ao sul de Tõr- no qual fez a viagem. As ta boas do
casco eram cosidas com cordas, e as velas de esteira: cocila tuta
co11 corde e haJ,eva /e 1.1ele di sluora. 4 O de Pedro da Covilhan
devia ser pelo mesmo estylo. A viagem era demoradissima.
Navegava-se de sol a sol, c todas as noites se fundeava, por
causa dos pareeis e recifes niadrcporicos tão frequentes n 'a-
quelle mar. Assim foram os dois portuguezes até cÇuaquim»
ou Suakim na costa africana; e, depois provavelmente de al-
guma demora alli, seguiram pelo mesmo modo para Aden. De
T ôr a Adcn, contando a demora cm Suakim, não gastariam
menos de dois mezes a dois mezes c meio, 5 e, como ao
• (( ... oppidum autcm nuncupamus, licct tenuis dumtaxat sit pagus».
Observatio11es, Lib. n, Lxvu.
No Roteiro de (;oa a Soe;, pelo dr. Carvalho, París, r833.
3 Santo Stefano a sua carta a J. J. Mainer cm Tripoli da Sy-
ria no mez de setembro do anno Je estando já de volta de Pegu e
Sumatra pelo golfo Persico; deve pois ter passado no mar Vermelho no
de • ou 1496 quando muito.
4 Os nossos chronistas dão cm geral a estes pequenos do mar
Vermelho o nome de <•gclbas•, do djelb .. t (Dozy, Glossaire); ve-
ja- se em Edrisi (Geogr. r, r3;) uma descripção d ·estes barcos.
5 Santo Stefano partiu de Kossir, ao sul de T ôr, e gastou vinte c cinco
dias a Alli ficou dois mezcs, e gastou depois a Aden outros vinte
e cinco dias. Ao todo cincoenta dias uteis de navegação (Ramusio 1, 345).
c1qaRm o Adao ... - da IDIIDÇio poro o IDdi&, • iotD
p<tllliDioHio> m. com a1pom _.,...,.çio • daa da por-
lida do Cairo, que .crU pelo de abril a maio do aaao de
•-tAA- •
Adm er• do: ICDIJ>OO IOIIbp um <mtro <OIIliDUCial do: pri-
m<iro DaUDdo do: pom .. ....;. .......... cpo-
cat. da antiguidade dusic.a c a Ed.ldc-mcdia,
W"CIDOS C(GIO FJ-Edrisi nos da fi « ••S..J qu.tnto aqudlc: porto
ct'iil faiDOIO, panin4o d"alli naorios pua o Sãld c_lndia st:plcn-
triooaiJ, lndia tMat.b.trJ c Cbma; c Yiodo a16 ta" m.uncrosas
mcrcadoriu oricntu:Sw como: pimcma, caodla .. cn.vo, can-
fon, urdamomo, aloa amargo c madeira de .Job, maça c
noz JDUKada, aloUcar, estofos ricos c avcUudados, marfim,
c&tanho c ferro, porccU.o.as c muiw outras. 3 Continuava a
ter um grande movimento ao rempo de )lar'o Polo (1290),
c com mais razão no do nosso viajante. A prosperidade de
Adcn raulrau de não ter eimplcsmentc um porto de transito
D. Joio de C.Uo,IUit'epDIIo em bucor. mw1o di,.enot e de mucb• su•
perior, Nlu de T6t • 29 de abril, e foi ler a Massaui a 2:: de D'alli
parou a 9de julho, c lo••• portas do 19 do
c lrU d&at de navepçlo no mar Vermelho n3 a
• •· .. e hl embarcarí c forã ter a çuaquem q hc: na costa da Bisi e
de h( foram a Adl; c rorque era tcmpo de moncõ se aplll"taa'am bo6 dira-
nbeyrM•; Alnru, Vw4.:Jd. 111/MPIJIIÇIIrfl, 128.
s A monçlo de audoene enava j6 fraocamenre esubelecida desde o
nwa de ai'lr•l ou maio; mu Duane Barbosa diz (livro, p. ll9, Da
rio tle 11.) que as nãus dos arabe-5 olo costumavam chc:sar 4
COita do Ma1abar anles de rS de asosto. Partiam, pois, o mais cedo ahi
por 15 de julho de Aden. [)ande dois meaes para a viase.m de Tór a
Aden com uma demora de de1 dias apenas em Suakim, remos a partida
de Tór ralos meados de maio ; e do Cairo dos meados ran. o fim de
nbrll. E" cl11ro que lUdo isro nlo raua de uma simples conjectura, :sujeila
a muitas correcç!Ses,pois ignoramos completamente qual foi a demora no
Toro, e em Suakim.
' Giograpltie d'Ed,.iJi, trad. de Amedie Jaubert, r, 5r. -Sobre a na·
tureza das especiarias e dro.sas, menc1ooades n'este e em outros losares•
rodem ver-se as notas lia mmha edição dos ColopioJ dAn • e dro·
611J tia /Mia de Garcia da Orta.
85
maritimo, mas um tn-minus da navegação, desembarca11do alti
as mer.:adorias quE passavam para os barcos pequenos do mar
Vermelho. ' Comrudo, a partir do anno de - segundo
nos diz Maqrizy 2 - alguns navios grandes começaram com
mais frequencia a entrar o estreito de Bab-eJ-M.tndcb e a le-
var as suas cargas directamHJte ao pano de Djiddé, prox.imo
da Mekka. E esu: facto, continuando depois, fez com que os
nossos escriptores portuguues déssem mcita!!. vezes aos na-
VIOS mouros dos mares da Jndia o nome de ndO$ da Mtca ou
ndos do ESlrtito.
Quando os nossos viajantes chegaram a Adcn era o
tempo da monção para a lndia ; os dois companheiros da já
longa viagem abraçaram-se e despediram-se: Alfonso de Paiva
seguiu d"alli em direcção á Ethlopia, para onde, segundo jul-
gamos, ta destinado desde Portugal : Pedro da Co,·ilhan partiu
para a lndia. 3
O navio em que !fste embarcou em Adcn en id. muito di·
vrrso do pequeno barco com velas de no qual fizera a
viagem do mar Vermelho. 0:!> navios mercantes dos mares das
lnctias, as nãos da kleca tantas vezes nomeadas pelos nossos
chronistas, eram barcos grande:s, de duzemas a trezcmas ton-
neladas e mais, menendo a bordo mil ou mil e duzent•lS bahares
de carga, rsto 1!, de quatro a cinco mil quintaes. -1 M.ts eram
• .. This Aden is tbe porr to which many of tht ships or lndia come
with their cargoes; and from tbis haven the merchanu carry tbeir soods
a din•nce of seven days (urther in sm11ll vessels• (Marco Polo, 12!)0}, tr.
de Vule. n. p. '"· .. Adem c Meca, honde vendiam mU'ilO hem suas
alpias ha hos mercadores de Juda (DjidJ.;i) que daby as le-
vavaom em requcnos navaos ha ho Toro• (Duane Barbosa, a!' ui} Li,.ro,
p. ]]9 -Sobre Aden ... eja-se tambcm a carta ..:e Andrea Corlilli a Lou-
renço de Mediei no 11nno de r;r;, em Ramusio
1
r
1
p. 181 v.•
, Citado por Vule, Marco Polo, 11
1
436.
J •· .. e porque era tempo de munc6 se apanari hos cõp•nhe)'ros, e
Afõr.o da pai'<'3 (ora per terra de Etiopia, e Pero de Covilham pora lndi••i
Alvares, V•riiQd. ilifcrmartrrn. 1'18.
4 •·.. náoa de quilha de mil e mil du:rcntos babares da caresa•.
86 da Co11ilhan
mal construidos, o taboado do casco sem pregadora, apenas
cosido •muy fortemente com fio de cairo•, c toda a n•u •cs-
troncada e de pouco liume•. ' N5o tinham coberta, e a carga
alojava-se em casas ou repartimentos interiores, tapados com
folhas de palmeira scccas e bem tecidas. ::a Acima do nivel da
carga as taboas do costado eram mesmo simplesmeme substi-
tmdas por pannos breados, cobertos com esteiras fortes de
canoa, o que fez com que alguns documentos nossos dos pri-
meiros tempos digam serem feitos de canoa. 3 O apparelho
tambem era simples : um unico mastro, mal amparado em
dois cabos por banda. um á prõa .como estay., e .duas dri-
ças• á pôpa; e um unico e enorme latino, caçado por uma só
escola, e tendo o punho amarrado a uma grande antenna,
com que -:segundo parece- deitavam a vela para ávante
quando bolinavam. c a atravessavam correndo á põra. 4 Com
todos estes defeitos c ape:zar da sua construcção primiti\'a e
grosseira, aquelles ban:os não deixa\'am de ter algumas qua-
Duarte Barbou.., Lw,.o, Jl9 - •. . • tre naYe d" Camb&ia de bone. cr:.
c•ascuna .. ; Carta dr t:l&i D. Manutl ao rtl Carholico, p. 10, cd. do snr.
Prospero Peragallo, em M-. da com. no do dtt
Ludov..:o Varrhema falir. mesmo de n.ius de quatrocentas e
quinhent&l bottr; em Ramuaio.
• Gaspar Corrêa, Ultdas dtt lnd•a, r, 12:1.
:a Gaspar Corrêa, I. c.-- Duarte Barbosa, I. c.
•Sono qareste nave albr. parte d" sopr.w. de canc•; Cttrta dr EIRn D.
Msnrutl,l.c.
• •· .. nom tem saveas, nem tem mais que soa vcbr. srande ... tem as
versu dous terços para tru (do mastro) e hum pera • ... e a pontA
de vela de proa vae atada na pontlll de huma entena, quiilsi tamanha como
o masto, que deuão a vela muito pera av.antC•;; Gaspar Correa, LrndaJ, 1,
ul - •· •. e portano el piede de deue vele un .dtra arnenno, c quella
spingono fuori quando sono alla vela per pigliar piu vento•; J11n. dr L.
&rrhem.J, em Ramu:sio
1
r
1
161, 'Y.•- Duas n.ius estio, ao que mi!
parece, de5enh8Jas em uma sravura em madeira do J:YI seculo, perten-
cente js collecçóes do H1it1Jh representando o &!Salto de Allen
por Affonso de Albuquerque. Veja-SI! o fac-simile reduzido desravura, na
l..• ediçl.o do Marco Polo Je Yule.
lidades nauticas, e-segundo nos diz Gaspar Corr!a- capon-
tam muito pela bolina e correm muito i nla.• •
Em uma d'estas embarcações •amou Pedro da Covilhan a
sua passagem, e ao cabo de um mez de navegação, pouco
mais ou pouco menos, 2 avistou a primeira terra do lndiu,
provavelmente o mesmo monte Dely, 3 que: dez annos mais
tarde vc:iu avistar Vasco du Gama, no mc:mora.nl dia 17 de
maio do anno de 4 P•ssados poucos dias a ndu fun-
deava em Cananor, que ficava alli perto; c o primeiro ponu-
sucz pisava o solo da India.
Cananor era um porto importante, frequentado pelos na-
vios de Adcn, de Hormuz e de Cambaya, por onde se fazia
parte do commercio para o rico reino interior de Biia.yanagara,
chamado pelos nossos de Narsinga, 5 e onde se encontravam
já muitas especiarias, nomeadamente cordamomo e gengibre,
que passava por ser excelleme. E' de crer, no emtanto, que
Pedro da Covilhan se demorasse alli pouco. Ouvia constante-
mente falar das riquezas de Calicut, cuja reputação olfuscava
toJas os outras, e aproveitaria de certo a primeira occasião de
partir para aquella cidade. De resto a distancia era cuna
1
c a
viagem ravoravll!l n'aquelles mezes do chamado vt1·áo, isto é
jd. do inverno pelos fins do anno de
Em Calicut achava-se verdadeirameme no cemro das suas
• Outros dizem o contrario: • ... que as nios desta rerra nom 11ndam
polla bolina•; Roreir"o da 'l'iagem de Vasco da Gama, &li..- •· •. ch"le nave
de mori non vano dela bulina• ; Carla 4r EIRei D. Manvr/
1
:zo. Mas Gas-
par Corrêa tinha obrigação Je as conhecer bem.
H. de Santo Srclano fez a -wiilgem de Adcn a Calicut em trinta c
cinco dias.
1 O monte Dely, ou d"Eiy, era o ponlO que as nfus desrinadas ao
Malabar vinham geralmente demandar. como wu dos mais salientes
d"aquella costa. A vistn 'ilue damos no começo d"ene capitulo, I! copiada
de uma Br01vura do M.trco Polo .Je \"lllc, tendo-lhe juntado um barco
mouro do av seculo
1
re.::onstruido pelas indicações des notas preceden-
tes, e sem grande confiança na sua
Cito a data Jo p. So, sem a discutir.
5 De Na,.a-Sinhtt, o nome de um dos seus soberanos.
88 'Pedro da CoJ•ilhaH
operaç5es, no puro desempenho da sua missão. Abria-se alli
deante d'clle a India, cujas riquezas,-divilies lndiae-, mais
entrevistas do que vistas, haviam, no cm[3nto, susci[3do a
admiraçâo da Europa desde bem remotos tempos. E o espe-
ctaculo era no verdade novo e surprehendente, nâo desdizendo,
como tantas vezes succede, do que havia creado a phonlllsia.
Encontrava alli um mixto singular de barbana e de civilisa-
ção, de simplicidade quasi primitiva e de maravilhosa opulen-
cia. Um rei, o poderoso Samorim, descalço e nu da cinta para
cima como qualqua selvagem; mas cnvolvi:io cm pannos su-
btilmente lavrados de oiro, trazendo nas mãos e nos pl!s anneis
de rubis, pendentes das orelhas perolas do tamanho de ave-
lano;, recostado em almofadas de velludo sobre de prata
e oiro. F.m volta, uma estranha côrte de brahmanes vene:-ados,
de naires ociosos, armados e esgrimidores, de mulheres des-
pidas e perfumadas, cobertas apenas pelos collares e mani-
lhas preciosas. Pelas ruas, que se alongavam para o interior
por entre os palmares de coqueiros esguios, uma turba quasi
mi .. eravcl das baixas castas, abrindo-se respeitosamente deante
dos dephantes, conduzidos pelos naires, ou deante dos nobres
hindus, que passavam sobre andores, immoveis e recamados
de oiro como imagens. E nas casitas pobre5
1
tapadas por fo-
lhas de palmeira como cOOças de negros, os chatins e os ba-
neanes de aspecto humilde vendiam diamantes de Golconda,
sapph} ras e rubis de Ce) Ião e de Pegu, perolas de Mana ar c
de Bahrein.
Ao longo da praia, desembarcavam arroz os zambucos
vindos de Coromandel, ou canella os vindos de Ceylão i e
das nd.us de Malaca saia páo de aloés de Sião, canfora de
Bornéo, lacca de Pegu, noz de Banda, e cravo das Malucas.
A pimenta creava-se alli mesmo na terra, e andava a rodo,
carregada a granel nas naus da Mekka 1. Tudo se mostrava
• Para n6s. que hoje consideramos a 111 o .:rava ca!ol!'nnJ,a
como simples insredientes de cosinha
1
nem sempre muito apreciados. i
8g
singular n'aquella vegetação oriental, que parecia produzir uni-
camente perfumes e especiarias. O proprio coqueiro, tão fre-
quente em volta da cidade, era uma arvore maravilhosa, da
qual se tirava madeira, fio, leite, oleo, assucar, vinho e aguar-
dente. •
Gente e natureza saíam das normas habituaes, e a terra
do Malabar desenrolava-se aos olhos como uma
magica de grande espectaculo; mas uma magica em que tudo
fosse real, o oiro. puro, as perolas genuinas, os diamantes e
rubis de boa agua, o panno do fundo um palmar vibrante, a
luz electrica o claro sol dos tropicos. A sensação· de deslum-
bramento, que depois tiveram os nossos navegadores, e é bem
manifesta sobretudo em seguida á viagem de Cabral, 2 porque
Vasco da Gama apenas teve tempo de entrever a lndia, essa
sensação experimentou-a dez annos antes Pedro da Covilhan,
estando só e isolado.
Calicut, a capital de um pequeno estado hindu, governado
pelo Samorim, 3 devia a sua prosperidade commercial princi-
palmente á sua situação geographica. Situada quasi a meio da
costa do Malabar, em pleno paiz da pimenta e de outras es-
peciarias, foi muito tempo o ternzi1ZZIS da navegação oriental,
e o termi11us da navegação occidental. Os enormes juncos chi-
nezes, que em mais remotas éras chegavam até ao fundo- do
golfo Persico, passaram no XIII e XIV seculos a frequentar
unicamente os portos do Malabar, d'onde não seguiam para
occidente. 4 Quando o incansavel viajante mouro, lbn Batuta,
difficil conceber a sensação de riqueza, que esta accumulação de especia ·
rias devia produzir no anno do senhor de 1488.
1 A multiplicidade dos productos do coqueiro fez tanta impressio
nos nossos portuguezes, que el-rei D. Manuel não se esqueceu de os men-
cionar na sua carta ao rei catholico ; Carta, p. 14.
2 Vide a Navegação de Pedro Alvares Cabral,_ na Co/1. de Noticias da
Academia, n, 107 c seguintes- e a Carta de E/Rei D. Manuel ao rei Ca-
tholico, já citada.
3 Segundo parece, de Sâmundri, rei do mar.
4 Vide a nota á minha edição dos Coloquios.dos simples, I, pag. 219.
12
- - Calí<al aiJi pdo- do 1J40, acbAYIIIHC cap
., por10 D'cu jaDcos c:tün.; c c:Ue W. mamo, qur mes JUD-
C.QI. tDt'aunm ú weza, .-arados em urra.. na localidade pro-
&Da de F.wlarlina, • ou c.rlebre na DOSSII bislo-
rU porque .ui Lmduram os nariPs de Vasco da Gama. E,
UMudo ntu Yia!ms peJo com.cço do rY scculo, 2: as D&us
anhet puuram a fazer a tnvnsia de M.Jaca. Saln • dif-
fcraaça de na\'ÍOI e de nuepdorcs, as cousas ficavam, pois,
DO IJICINDO Cllaclo, ÍSio t, a R8VC8açáo orienuJ, rqida pelas
monç6et c•pecdcs do golfo de 8c:ngala, m.zia as mercado-
riu • Calicur, e a oangação occidcmal, regida mon-
ç.ôes do mar Indico, levava-as a Hormuz, Adcn e Estreito.
O• rortos do Malabar, e, entre elles, principalmemc Calicur,
continuavam a ser o cenrro.
D"aqui resultou, que muitos mercadores mouros de Honnuz,
de Adcn, d.a Mekka, do Cairo c de ouuos sítios vieram cs-
bbelccer-ae n"aquclla cidade. Quando lbn Baruta alli esteve,
encontrou i' uma colooia mU5ulmana rica e poderosa, quasi
lndcpendcn1e do soberano hindu, tendo um Emir que a go·
vernava, c um Cadhi ou juiz especial que lhe administrava
e ;u,riça. J Um scculo depois, no anno dr I.J.-1.2
1
Scháh Rokh
de Hera r cn\'iou a Colicut um embaixador, que pelo nome
niio pc:rco-chamava-!oe Kamal cd-Dm Abd-er-Razzak ibn Ja-
lal cd·Din lshak ca-Samarl\andi,-o qual nos deixou uma re-
açiio cir\,umstancindn dn !oll& viagem. Por .essa reiacão vemos,
como H colonia musulmana continuava a ser numerosa, e pos-
auia ji duas mesquitas. onde toJas as sextas feiras se lia a
Kutbah, seguida pelas rezas habituaes e recitação do Coran. 4
I Viol'"' d1 &11 Ra11110
1
Ir. de St.• Anlonio Moura, 11
1
p. d4.-
Cito rela vcrllo ronueucaa, que aDo t!i boa, mas sufficientc para es1as
rtl"orcru:ia1.
• Yule aurpl5t
1
qua tcnnina11tm no rrincipio d"cue ...,- seeulo, e por
daJaYenç•• com o Samorlm; Polo, 11, 381.
J J'1111l'ltl d1 llt'N &ruro,IJ, 1151-
• Nar"NtiN of tltr JOflr,.,.y of p. t3 i em Major, lttdia
iii IAt f!fttt'lltA Cnrrwry.-No pr1neip10 do aaculo seJWDte (dOO proxima·
c4. J!Jàgtm
91
Nas mãos d'estes mouros estava quasi todo o commercio ex-
terior, de modo que ellcs eram extremamente influentes e pouco
menos que senhores da [erra. O nosso Duarte Barbosa, sem-
pre veric:lico e bem informado. dá-nos a mesma
noticia- •antes que os ponuguezes descobrissem a lndia,
eram tantos (os mouros) e tâo posames e soltos na cidade,
que hos gentios nom ousavam dandar por ella por sua so-
berba.• •
Ao lado dos mouros encontravam-se numerosos commer-
ciantes das mais variadas procedencias-como diz Varthema
- gra11dissima qu.:mtil.:i di mtrcataJJli di di"wrsi reami e •Ja-
lilmi: gente de Cambaya, de Ccylão, de Coromandel, de Pegu,
de Tenasserim, de Malaca, de Swnatra e de outros pontos. 3
Ainda devemos mencionar os nestorianos, que
1
embora rela-
tivamente menos numerosos que em Cananor, Cranganor e
outros portos, formuvam uma porte consideravel da popula-
ção da cidade, pois Hicronimo da Santo Stefano avalia em
perto de mil as casas por elles habitadas. 3 E a estes cbris-
tãos da terra, podemos accrescentar alguns da Europa, que
sem duvida alli se achariam no momento da viagem de Pe-
dro da Covilhan. Ballhazar Spinger conta como ainda no seu
tempo (i5o;) os venezianos continuavam a frequentar Calicut,
não obatamc os embaraços e transtornos, que j4 então lhes
creavam as navegações portuguc.zas, d"onde podemos concluir,
que antes d'aquellas navegações mais assiduamente frequenta-
riam a grande cidade do Malabar. 4
meme) Varlhema avalia em quinze mil o numero dos mouros estabeleci-
dos em Calicut; em Ramu:sio,l
1
161 v.•
I Livro, p. ll9.
a /li"wario, em Ramu1io, 1. c.
J ·ln questa Citt4 vi sono bene mille case de • ; em Ramu-
sio, 1,3 .. ·-·
4 Balthazar Spinger, ltt!r l,dit:um. citodo por Yule, Cathay, -454.-Em
um livro recente, Hisl. du comnr. du 11
1
93, o sr. Octave Noel diz.
nos, que Va!!Co da Gama encontrou em Calicut mercadores de Bruge!Or
vindos pelo Egypto c Penia; mas não nos diz infeliz.menta em que doeu-
(/'tdro da Covilha11
Toda esta colonia odventicia e cosmopohta se occupava em
Calicut de c dDndo legar a um commcrcio
acth·issimo. Por agosto ou chcga, .. as na\us dr
Adcn e do Estreito, trazendo cobre, azougue, co-
ral, acafrão, veludos pimados, Mguu rosadas, chama-
lotes de cõres, ouro, pr11ta e outr:l!l muitas cousas; c ahi pelo
mez de revereiro paniam o occideme, carregadas de pi-
menta, gengibre, canela, cnrdomomo, mirobalanos, tamarin-
dos, canafistul11, toda a sane de pedrarias, aljofar, almisc:ar,
ambar. rui barbo, lenho alces, muiros pannos de 3lgodão, c
porcelanas. 1
E' facil imaginnr o sentimento de intcno;a de
interesse, e por assim dizer de respensobdidade, com que um
homem imelligente, de espinto activo, aberto e pratico, como
c:ra Pc:dro da Covilhan, devia examinar aquellc mo,·imcnto.
A"quillo fõra mandado, e tratava-se agora de bem descmpe·
nhar a sua missiio de observador. Alli estava finalmente na
terra das especiarias e das pedras preciosas, no centro do
commcrcio oriental, que enriquecia cm primeiro legar os mou-
ros, c: .depOis, d no seu occidentc, as republicas de mercado-
da ltalia. Via agora toda a enorme impertancin da passa-
pelo sul da Mrica. d"cssa passagem, que mezes antes
discuti!'a em casa de Pedro de Alcaçova. Se a passagem exis-
mento se funda. Creio ser na fnmosa CJI'r.:t E/- Rei D. }.{QJiurl; mas
essn fs1a de mercadorias e não de mercadores • ... e d"mercantia como
Bruges i Flandri.a, et Venetin i ltalia.. Que alli se encontravam mer.::Rdo-
rias da Europa e fora de duvida; levaJas prin..:ip.tlmente pelos mou-
ros, e tambcm ror alguns italianos. -Estes andaram aõn.!a muito pela
rndia nos primeiros tempos nossos ou que fossem
ptlc antigo caminho, como H. Adorno, Santo StefanO e Varlhema, ou leva-
dvs jã pelos como os 1\.larcbioni, os joalheiros de Roma que
D. Manuel (iiC(õ;Undu Varthema chamavam-se GioYnnmaria e Pie-
troantonio, e er01m João de Empoli, André Corsa.li, um Pedro
Escroco, de quem se senio. l>iogo Lopes de Sequeira compras e ne·
sodas, e outros. Com mais rasão dcYiam esl:lr alguns em Calicut
1
quando
lá foi o nosso Pedro da Covilhan.
• Duarte Barbosa, Livro,_33g.
e4 grande viagem
tisse, se ao longe, no vasto azul do oceano Indico, appare-
cessem as velas brancas das náus portuguezas, tendo encon-
trado o desejado caminho, isso seria uma revolução completa,
o rico commercio do Oriente desviado, Portugal florescente,
Veneza e Genova desthronadas. E cun1pria-lhe a elle traba-
lhar para a realisação d'este sonho deslumbrante ; cumpria-lhe
ver e observar, e trazer a todo o custo ao seu paiz noticias
exactas do que havia visto e observado.
Não temos a mais leve indicacão sobre a demora em Cali-

cut do nosso viajante e o momento da sua passagem para Goa,
mencionada muito secca e succintamente pelo padre Alvares. •
Admittindo que elle fosse. de Cananor a nos fins do
anno de 1488, talvez já em novembro; e se demorasse alli uns
dois mezes, tempo sufficiente para orientar, pode bem ter
navegado para Goa no decurso de fevereiro de 14R9, periodo
em que a navegação costeira ainda estava aberta.
Goa mostrava-lhe um novo aspecto da India - a India
musulmana. Embora em Cananor e Calicut a colonia de
mercadores mouros fosse influente, não era mais que uma co-
lonia, e o governo da terra pertencia aos hindus. Em Goa,
pelo contrario, os mouros eram senhores de facto e de di-
reito, ao menos segundo o direito da guerra. Perto de dois
seculos antes d'esta viagem de Pedro da Covilhan, ahi pelos
annos de I3oo a J31G, o soberano de Dely-; Alá ed-Dín Khiljy,
havia extendido pela conquista os seus dominios ao littoral do
Concan e Canará, assim como ao Deckan interior ; e annos
depois ( 1 347) estas terras do sul, desmembrando-se do impe-
rio de Dely, passaram a formar o reino musulmano do De-
ckan, sob a dynastia independente de Bahmany. Assim ficaram
as cousas até ao momento de que tratamos. Sómente, quando
Pedro da Covilhan foi a Goa, reinando Mahmud Scháh Bah-
many n, o Deckan achava-se em um estado de absoluta anar-
• « ... e daqui (de Adcn) se parti o pcro de covil hã e foy ter a Cana-
nor, e de hi a calccut e de hi tornou a Goau ; Alvares, Verdad. informa-
çanz, 129.
94
'Ptàro da O>Pl1han
chia, e os poderosos vassallos, Yusuf Adil Nizam ei-
Mulk e omros, go\'C!rnavam jã mui[O mais que o proprio rei. 1
Em todo o caso, Goa pertencia aos musulmanos, a quem os
naturaes da terra s_e achavam sujeilOs, e a quem, uns vinte
annos depois, a devia [Omar Affonso de Albuquerque.
A futura carital da lndia portugueza era tambem um cen-
tro commercial importante, cm relações seguidas com Adcn,
e sobretudo com os panos da Arab1a e Hormuz. Alli o nosso
escudeiro podia observar a repetição do que vira em Calicur,
po!!o[O que em menor escala; e tambem alguns traces novos
do commercio oriental. Era, por activissima já em
Goa a importação de cavallas arabes. Os cavallos creavam-sc
mal na lndiB, e os poderosos senhores musulmanos, para
quem a equitação era umo necessidade c um appara[O indis-
pensavel, mandavam-n'os vir cm grande numero da Arabia e
da pagando-os por sho! preços. 2 Vinham de Aden,
de Schêhr (Xaer de Duarte Barbosa), de Soár, de Kalhat (Ca-
layate), de Mascate, de Horrnuz, dirigidos aos portos de Diu,
Cambaya, Baçaim, Goa e outros; e faziam a viagem n"aquel-
lcs barcos de bocca aberta que antes descrevemos, de pé sobre
a carga, em risco de se perderem e estragarem, valendo-lhes
apenas as tranquillas viagens á pôpo, em tempo de monção. 3
Este negocio continuava activamente no momento de que nos
1 Vide Mohammed Ka&im Ferishte
1
HistOI"y ofthe ri1e o{1.V rnaho-
medan poww in/ndra, tr. de BriggBt I, 331 a 385
1
II, sgo etc.
Em um periodo mui to anterior, D escriptor persa Was;af calcula em
ID:DOO D numero dos cavallos Bnnualmentc exporlados para alndia (Yulc,
Marco Polo, 11
1
333). Marco Polo avalia em 200 lrvre1 lOIIrRois o preço
de cada cavallo
1
o que, seRundo equivaleria 11 U)O libras stcrlioas,
conta redondA. Jã se vl toda a importancia do nesocio.
3 Marco Polo dit. (1290} dos navios em que vinham os cavallos, tr. de
Yulc: •· •• and han no deck, but only a cover spread ovu thc c&rgo
whcn loaded. Tbis cover consilts of hides, and on the lop of lhcse h1dcs
the)' put the horses which thev take to lndia for SRie.•- Yulc not•, que
quui ao 5cu 111npo vinham pouco mais ou menos do mesmo modo;
M01rco Po1o
1
I, 111, 119-
gS
occupamos; d'elle auferiam os senhores de Goa o principal
rendimemo das suas alfandegas; e alli encontrou annos depois
AfiOnso de Albuquerque um deposito de cento e vinte excel-
lentes cavallos arabes, que entregou aos cuidados de Duanc
de Almeida, .Jando-lhe um {ar·a1. ou tratador para cada ca-
vallo. •
Citámos o negocio dos covallos como um dos traços ty-
picos do commercio nos portos do norte, ao qual poderiamos
accrescentar mais alguns, se isso nos náo lensse muito longe.
Em resumo, vemos que Pedro da Covilhan, havendo visitado
Calicut e Goa, ficou perfeitamente orie(Jtado sol-ore as feições
do commercio na costa occidental do ln dia: em Calicut, o
typo do trafico no Mala bar, repetido em menor escala em Ca-
nanor, Cochym ou Coulão: em Goa os habitas musulmanos,
reproduúdos com ligeiras variantes em Baçaim, Suratc, Cam-
baya, Diu c outros panos do norte.
Segundo a narrativa do padre Alvareo;;, Pedro da Covilhan
foi de Goa o Hormuz, viagem relaU\·arucmc facil e natural-
meme indicada. 2 Em Goa ouvira sem duvida falar d'aquella
celebre escala, por onde passavam as mercadorias do Oriente
em direcção d Persia e á Syria; e, tendo jã seguido o cami-
nho de Aden, cumpria lhe agora C!ttudar o de Hormuz, com-
pletando assim o seu reconhecimento. Vi!titadas Calicut e Goa
' • ... com rnuyto rendimemo para o Rey (de Goa) ... mormente polo
trilO dos cavallos que vem d"Ormuz polo mar• ; Gaspar Corrêa, U"dtu
1
11, 55.-Sobre a importancia do lllt80Cio dos cavallos, vejam-se tambem os
tratados dos porlusuezcs com os reis da lndia ! Contracto entre Nuno da
Cunlla e Bahadur Schãh em Baçaim, 23 de de1embro de •S3of, Conlro%clo
emre os mesmos. em Diu, 2) .!e outubro de 1S3i, no Tombo 4o estado da
Ind1a
1
p. 134 e no.
1 •• •• e (oy cer li Can:mor e de lli a calll!CUI e de lli 1ornou a Goa e (oy a
Hormuz•; Alvares, Vll"''"4.,d. infvrmar.rm, 121).-B&rros, que teve entre mios
a narrativa do padre Alvnres, supprimiu esta viagem a Hormu;r, talvez por
Jfle parecer pouco rrQvavel, e diz que Pedro d11 Covilllan foi .Jc Goa • Sofala.
E' certo, no em1anto, que elk foi duas veze5 a l-lormuz, umn n"este mo-
menlo e a outra mais tarde, corno depois veremos; vide Barros, Asia1

1
•u
1
3.
na costa da lndia, Aden c Hormuz nas entradaS do golfo
Arabico c do golfo Penico, l'olrana a Lisboa com um co-
que se pode dizer completo do morimcoto de tra-
fico c na\"e8•çio no mar das lndias, iqutm do cabo Como-
rim.
Hormuz, estabelecida então c bawia j.6. peno de dois seco-
los na pe-quena ilba de Jcrum, era uma cidade com:nc:rcial de
primeira imponancia. capital de um estado indepcndenlc,
onde reinava n "aque11c momento Xawcs ou Sa1Bor. um dos
anreccsson:s do moço Seif-cd-Din, a quem annm depois a to-
mou Alfonso de Albuquerque. • De resto, HormuE, o seu
pono. o seu Brande rnovimcnro, as suas nquezas, são cousas
rão conhecidas pelo que depois disseram Aflonso de Albu-
querque. Duarte Barbosa, Gaspar Con-êa, Barros, AotoWo
Tcnrcyro c outros porruguez:cs, que nada será neccssario ac-
crcsccmar, notando apenas, que Pedro da Covilhan a visitou
no momento da sua grande prosperidade.
Torna-se n"csre ponto um ramo confusa a nnrrariYa do
padre Alvares. No texto portuguez diz-DOl'l
1
que o viajante
l'olmu de Hormuz ao Toro e ao Cairo i a mas adcante fala
de Sofala, c accrescenta, que tambem alli fr"lr11. 3
A versão italiana é muito mais explicita, e diz o seguinte :
• •• • e pass6 ali isola di Ormu;: e infonrunrdosi di al-
lrt cost, cmr uua lllll•t u rtt rJt>rso ii ma•· Rono, mo,rlri .i
Zt>ila, r cmr alnmi rnori rnercatanti wlsr sco1Ttn quri m.:arr
d" Ethiopi.:a, chc gli furouo rnoslrali ;, Li!Jbon.t, sopra lól char·ta
II<.JVIifar·e, dovttst fQrt ogni cos.J ptr scopr-irli, e lanlo
1 Nio no1 cumpre l!ilcutir aqui a historiabanaote confuu. do rtis de
Hormu•, vejam-se •• vers&es um tanto discordome.s de Barros, 11,
11
1
s; e de Pedro Te1.ein, Rrlarion de ltu rry's de Harmuj, 41
1
Ambe-
rc•, 161o.
2. •--· e foy o tomou abo Toro c 11ho Coiroe;Alnrts,Ver-
dad. infu'mtJtllrrr1
J • ••• h• cosia de em que cUe tambem fora•; Alnrel'
1
Vrnlad.
irrJtwmafam, 12-g.
97
tmJó ,Puusc .firJ allrtogo di Cefai.:J. 1 Seguem-se mais al-
gumas indicnçi'Ses, egualmente interessantes, que discutiremos
a seu tempo. Estamos de novo em presença da que.uão, já
indicada em uma nota das paginas precedentes- a da au-
ctoridade que podem ter os additamentos do Ramusio. Em
todo o caso, o texto portuguez: tombem menciona a ida a Se-
fala, e o natural é collocal-a no momento indicado pela versão
italiana, da viagem a Hormuz.
Esta expedição a Sofala, um dos pontos mais interessan-
tes da longa navegação de Pedro da Covilhan nos mares do
Oriente, não apresentava. no emranto, ditficulàades especiaes,
e não ha moti\"O algum para a pôr cm duvida.
E' um facto bem conhecido, que os navegadores do sul da
Arabia frequemaram a costa africana de leste desde tempos
bastante remotos. Não vem para aqui a celebre questão das
frotas de Salomão c de Hiram, em:iadas a Tarchich e a Ophir;
nem a das ruinas de Zimbaoe e da serra da Fura ou Afura,
nttribuidas pcrsisremcmcnte pelos nossos e!!'icriptorcs a foito-
r·ias do rei Salom.ío ou d.1 rainha de Sabá. ::a Que as ruinas,
visitadas modernamente por Karl Mauch e por Theodoro Bent,
existem, e que o sua exisrencia carece de uma explicação sa-
tisfactoria; que muitos cscriptores modernos de grande valor
procuraram na Africa, e nomeadamente cm Sofala, a Ophir
da Riblia, sáo factos sabidos. P()r outro lado, a theoria da
Ophir indiana tem por si muitas e boo.s rasõcs; c a questão
permonece e demasiado intrincada e obscura,
para ser adduzids como argumento, 3
Deixando, porém, de parte estas antigas e nebulosas epo·
cas e passando a tempos mais recentes, ha todos os motivos
• ViagBio della Etl11op1a di D. All'artri em Ramusio, 1,
::a36v.•
t Vejam-!!!le, ror exemplo, Barros, &ia, .. a:
1
li e fr. João dos S3.ntoi,
Etlrropia Orimt.:JI
1
Parte r, Liv. 11
1
cap. r r -veja-se tambem Andrade
Corvo, Rot. de Lisboa a Goa de D. João d• Castro, nota a pag. 336.
l Veja-se um resumo muito claro ela questão em um liYro rec:ente
1
A. Rainaud, U 11ws1ral, p. 54 a 6;, tfl93.
•3
y8
Pedro da Covl1han
para admiuir que os habitantes da Arabia meridional visita-
vam a miudo a costa africana, e mesmo se achavam alli esta-
belecidos em periodos ante-islamicos 1 ; e, pelo que diz respeiro
110 periodo islamico, abundam affirmações as mais claras e
positivas. Mat;udi (332 da Hejira, 943 de J. C.) fala no seu
curioso e diffuso li1.-ro, Os prados de oi"ro, do paiz dos \-Vak-
waks e de Sofa.la, onde o oiro era commllm,_ dizendo que alli
terminava a navegação dos barcos de Siraf (no golfo Persico)
e da costa de Oman. 2 Edrisi ( 115-J.) espraia-se em largas
considerações sobre as terras de Sofala, c sobre a boa quab-
dade do oiro e do ferro, que se tiravam das suas minas, mos-
trando serem bc=m conhecidas. 3 lbn Batuta (r32o-I34o) não
chegou a Sof.t.la, ma'õ esteve em l'tlagadaxo, l'tlombaça e Qui-
loa lKilua), 4 c alli lhe: disseram como Sofala ficava a quinze
dias de viagem, e do porto és mi11os seria caminho de um
pelo terra dentro. S
E' inutil accumular mais e fica bem claro, como
durante seculos, ininterrompidamcntc, os arabes, aproveitan-
do-se das monções que se fazi:un ainda sentir no canal de Mo-
navegaram até Sofala. 6 Não passaram para o sul,
não foram alem do cabo das Correntes, pelos motivos dados
1 1-i:rnJlf, Oullilll'l of rlrurtnls of tl1e Ki:rut.flltlr languagt, no pre-
facio.
s •... el a"i!:tendirenl jusqu":i Sofalah, qui est la frontiêre la rlus re-
culi!:e de ce lerritoire et le terme de la na11ig11tion lles batimenu d"Oman
et de Sirn[•j Us d'Dr
1
m, G
1
tr. de B. de Meynard e P. de Cour-
teilles.
J Glographie d"Eddsi, r, 65.
4 Burton (Cmnotns, a Comrnenr.zry,ll 577J surp6e que esta accen-
tuaçiio se de11ia ter conservado entre os portugllezes, os quacs diriam
Quiloa, com aa ukimas Yogaes breves; e adverte, que auim ficariam mais
correctos alguni versos de Camões, por ncmplo :
Quiloa muy conhecido pela fama
5 de B<'1l &tura, r. :hJ.
ti Pode ver !=e
1
Guillain, Docum. 111r Flllsr., la giop. rr le comm. dr
r Aj,-ipe Or-it'ntalt, r, p. r 59 e seguintes.
eA grande viagem
99
por João de Barros, por que os seus barcos, pouco ligados,
cosidos com cairo, imperfeitamente apparelhados, resistiriam
mal aos ventos variaveis, aos fortes rilheiros de agua, e aos
mares grossos do sul. Mas até alli navegavam regularmente; e
. não só navegavam, como se estabeleceram na terra.
Quando, uns oito ou nove annos depois de Pedro da Co-
vilhan, alli passou Vasco da Gama e cm seguida os outros na-
vegadores portuguezes, encontraram mouros por toda a parte.
Tinham estabelecimentos em Sofala, em Angoxa (Amgoya de
Duarte Barbosa), e em Moçambique, uma escala quasi obri-
gada, como diz Camões :
Esta· ilha pequena, que habitamos,
lle em toda esta terra certa escala
J)e todos os que as ondas navegan1os,
De Quiloa, de Mombaça, c de Sofala.
Para o norte de Moçambique, Quiloa, Mombaça, Melinde,
Brava, Magadaxo eram villas de mouros, bem construídas,
com boas casas, prosperas e ricas. Como diz Duarte Bar-
bosa: «toda a ribeira do ma ar vay muyto povoada de muytas
villas e lugares de Mouros>). • Aquellas povoações á borda da
agua, com as suas casas caiadas, lembraram aos primeiros na-
vegadores o Tejo e os logares da Outra-banda. Melinde, dizia o
anonymo do Roteiro, cquer-sc parecer com Alcochete•. 2 To-
das estas villas se communicavam entre si, e com os portos
da Arabia e da lndia, por meio de uma activa navegação. E'
bem sabido, como Vasco da Gama encontrou n'aquelles por-
tos africanos algumas náus de Cambaya, e como alli lhe forne-
ceram um piloto, perito. nas derrotas do mar Indico.
A perícia d'estes navegadores orientacs resultava sobretudo
da longa pratica., do conhecimento completo que tinham da
costa e das suas marcas, dos ventos reinantes nas diversas es-
tações, das correntes e do modo por que variavam ; mas pos-
r Livro, 2S1.
z Rot. da viagem de Vasco da Ganza, 49·
roo
suiam rambem algumas noçóes de sciencia nautica. Nas náus de
mouros de lloçambique, encontrou Vasco do Gama cagulhas
genoi!cas (genovczas) por que se rregem e quadrantes e car-
tas de marear •. 1 O piloto que tomou cm Melinde compre·
hendia o llso do astrolabio, tinha o seu instrumento para me-
dir distancias, similhante és nossas balestilhas, e uma cana
em que estava arrumada toda n costa da India ao modo dos
mouros, isto é, em meridianos e parallelos muito c
não pda rosa dos ventos, por rumos e distancias, como se
usava emão nas nos.!loas canas portuguezas, e em geral nas da
Eurora. :a Por este modo navegavam por aquelln mares do
oriente; e, para sudoeste extendiam, como dis.!õémos. as suas
viagens a todo o canal de Moçambique, .d costa de Madagas--
car por um lado, á de Sofala por outro. Alli avistou Pedro
1 Rot. da Va.Jto dt1 G.t11ftt1
1
28.- Diz·st
1
que os arabes to-
maram dos chios o uso da agulha, que por seu inrermedio panou para o
MeJiterraneo no •n ou xm seculo
1
mui1o antes de Marco Pelo, a quem
falsamente se allribuiu a introducção. Eram, porc!m, agulhas rudimeDia-
res, e for.am depois aperfeiçoa.Jas, nomcodameDie por um Gioia de Ama16
(•3o2l, que, por

se disse rei as invcn1ado. Estas agulhas mais perfei-
tas, e á moda ilaliana. devem ter sido communicadas eos anbes pelos ira-
li&nos, e provavelmcnle por isso lhes chamsvam •f!enoiscas•. As nossas
agulhas portuguez.as liDham enlio um defeito especial, apontado por Gil-
berto no tratado De e no n011o do1 Pilotos, defeilo
que as tornava pouco sef!:unts, sobrc1udo longe dos meridianos de Portu-
gal e da costa occtdenlal da Afric:a i veja-se, Andrade Corvo, de D.
Joi.o Castro, nota a p. 27.
• ... porque como o quaJrado d"aquelles meridisnos e panllelos era
muy pequeno, ficava. a costa por aquelles deus rumos de Norte Sul e
Leste Oetle mui certa, sem ter aquella multiplicaçlo de YeDtos d"agulha
ccmmun da nossa carta, que 5erve de raiz das outras .. ; Barro•, A.sia, 1
1
tY
1
6.-Varthema rdere-se a uma c11rta usada pelo piloto, pro·
vavermenre arabt
1
que o levou :1 Java: •· .. e bavev11 una cbarta, la qual
era tuna risata per lungo e per Inverso•; ltintrario, em Ramusio, r, tC.S,
-As cartas

pelo contrsrio, enm cartas I. bussola, ou lossodro•
mkat, e d<!mais stm norte YCrdadeiro, pois se ignorava a declinaçlio; veja-
se Alberto de Alberlii,Le' const. naYa1i e de11.:J fiQI'. al tempo di Co--
lombo, Da Racolta di dor:. e si. 4cfla com. colombiant1
1
Roma,
cA grande J•iagtm 101
Alvares Cabral duas n4us de mouros, que voltavam de Sofala
para Quiloa. 1
V e-sc:, pois, que o nosso Pedro da Covilhan não encontra-
ria maiores difficuldades em passar a Sorala, do que encon-
trara cm passar a Calicut, simplesmente a viagem era mais
longa c muito mais fastidioso.
Tendo, como devia ter e discutiremos no seguinte capitulo,
motivos imperiosos para intentar aquel!a viagem, habituado já
de muitos mezes á companhia dos navegadores arabcs c fa-
lando-lhes correnterru::=nte a lingua, nâo lhe seria muito .difficil
encontrar em Hormuz alguma ndu mercante, destinada á
co'!ta africana. Tomou, pois, a sua passagem em uma d'essas
náus
1
que não deviam diffenr d"aquellas em que já fizera via-
gem; e que, salvas leves modificações c aperfeicoamentos,
introduzidos com o tempo. não differiriam tambem profunda-
mente dos pangaios arabes, que ainda boje navegam por
aquelles mares e costas.
Em vista do que antes dissémos. c, por mais curtas que
tossem as suas demoras em Calicut, Goa e Hormuz, não pode
ter rortido d'este ultimo pono antes do fim do anno de q%1,
quando estivesse jé francamente estabelecida a monção de nor-
deste. Esta moncão trazia-o facilmente a montar o cabo Guar•
dafui, ou a navegar por fóra de Socotora. :a D'alli seguia &em
interrupção da monção ao longo da costa, onde as calmas e ven-
tos variaveis do equador qun.si se não fazem sentir. 3 Podemos,
pois, collocar a viagem de Hormuz a Sofala o mais cedo nos
mezes que decorrem de outubro do anno de 1489 a março de
1490- Não sabc:m'Js quantas nem quaes villas mouras do litto-
ral elle visitou; mas é prova .. ·el tocasse em algumas, sobretudo
• •--. pa11a1a dic1a isul• 1rovorno due grande nave: quale Yeniano
da dicla Zephala e1 andavano ai re•; Corta EI·Rti D. ao.
s A mençio de Zeila na versão do Ramusio parece resultar de alguma
confusão com a sua viagem posterior i\quelle porto
1
que ade.t.nte fala-
remos.
3 Veja se
1
por ucmplo
1
Guillain, I. c. 1
1
P- gS e scsuin1a1.
102 JtJ (Ãvilhan
em Moçambique. escala quasi obrigada. • T.ambcm não sabf!-
mos a demora que teve cm Sofala; sendo. provavcl
que voltasse em seguida. na monção de: sudoeste de maio c
junho. Podia, reis, CSiiif de \"Oita a Adcn ror setembro ou ou-
rubro; e logo n" esle ui rimo mez c no seguinte tinha no mar
V cnnclho os ventos reinantes do sul. que focilit.:n-nm a sua na-
vegaç.io para T,ir. De Tür oo Cairo jornada de quinze dias
ou pouco mais; e pelos fins Jo anno de ou principies do
de pode ter chegado ao Cairo, quasi quatro annos depois
da saida de Por1ug.1l.
Claro está, que não tenho grande confiança n"esras dams,
sobre simples e 'Vagas conjecruras. Dou-as apenas
como um mínimo possi,·el, admiuindo pcrfeiramcnte que a via-
gem fo5se mai5 demorada, e elle só voltasse nas monçôcs do
anno scguinre, chegando ao Cairo no principio do anno de
• Isto, como depois vercm05, ainda se concilia perfeita-
mente com os successos conheciJos dl sua entrada na Ab,p-
sinia.
Em resumo, a viagem havia siJ.o feliz, execul3da com de-
nodo e com acerto. Primeiro emre 05 portuguezcs, Pedro da
Covilhan havia navegado pelos mares oricntacs, pisando a
praia de Clllicm du 11nnos antes de Vasco da Gama, pas-
seando as ruas de Goa e de Hormuz vime e tantos annos an-
tes de Aflonso de Albuquerque.
Para 05 lados do canal de Moçambique e de Sofala, deve
ter sido, não só primeiro entre 05 portuguczcs, primeiro
en1re os europeus. A" costa da lndia tinham ido ontes d"ellc
venezianos, ,;;enovezes c florentinos; mas náo nos consta que
nenhum fosse pnra aquellc5 lodos, nem os interesses do com-
r Anlonio Gah·ão, no seu conll'--.:iJo Tr-.11a4o 4oJ dt'scoZ,rilllt'lllOJ, diz,
que PeJro da Covilhan esteve em Moçamhíque, Qulloa e Mombaça; e
Machado (B,Z,/. Us., '''• S71) repele muilo seguro, lJUC elle viu
Moçambique, Quilo•, Mombaça e rossivd e mesmo rroVIil•
vel que visse, mas não é facil saber como Antonio Galvão e Barbo5a Ma-
chaiJo o averiguaram.
zoJ
mercio os chamavam para alli. N'esta parte da sua viagem
passou realmente por mares nunca de· arJtes navegados, a niio
ser pelos mouros- e os mouros não contavam aos olhos dos
christáos d'aquelle tempo.
CAPITULO IV
Pedro da Covilhan chegou ao Cairo, vinha
jd de volta para Portugal. Havia navegado larga-
mente pelos mares do oriente e do sul, visitado
Aden, a costa indiana, Hormuz e a Africa o r i e n ~
a sua missão estava, portanlO, cumprida e só lhe restava
vir' dar conta do que lira e observara. E!perava encontrar no
Cairo Affonso de Paiva, com quem. no momento da sua se-
paração em Aden, tinha ajust:ldo reunir-se n'nquelln cidade
em um certo tempo. • Nâo o encontrou, porém; e upenas re-
cebeu nm a noticia da sua morte.
• •... ficldo que a bü lt!po ceno se •juntassem amboa no C.iro
106 Pedro Ja CoJ•illrau
Corno e onde morreu Aflonso de PDi,.·o, é o que não sabe-
mos ao certo. A curta phrasc do padre Alvares n:ío nos lor-
ncce o mais leve csdarecirnellto tkcrcd dv.s da
sua morte. • João de Barros diz-nos, que cllc •na propria Ci-
dade (do c.,iro) havia pouco que era fallecido de doençu. '3.
Damião de Goes amplia a noticia, e affirma, que pelos dois
judeus ponugcezes, de quem logo teremos de fa11ar, soube
Pedro da Covilhan corno o seu companheiro rnorrêra ::lili-no
Cairo. 3 Finnlmcmc, o padre BalthazarTcllcs do. a entender que
Aflonso de Paiva havia penetrado na Abyssinia e chegado d
côrte do rei, morrendo na volta, já no Cairo. -1 Tod2!1
estaR noticias me parecem, no crntamo, supposições ma1s ou
menos gratuitos. Não ternos um unico facro positivo c bem
averiguado, em abono d"esta \"iagem de Paiva no interior dil
Ethiopia. se elle lá tivesse chegado e de lá trouxesse
algurn:ts informaçlies, como parece indicar o padre Tellcs,
mal se comprehenderia, que Pedro da Covilhan para ali i por-
risse logo cm seguida; e, se não poude penetrar n'aquellns
tcrrus, mal se eKplica tambcm que ficasse perto de tres an-
nos inactivo no Cairo, até quasi á chegada do seu campa- .
nheiro, como disse llarros. O que parece rnnis prova\'el, é
que elle morresse logo no começo da viagem, quando tentava
entrar na Abyssinia, quer peiJ. via de Sual..irn, colllo julgou
Bruce, 5 quer pela costa de Bcrbcrah, como admitte modcr·
n.umente o sr. Basset. ú O ruido d'estc successo cheJ!Iaria mais
rcra virl! dar cõu a el Rey do q achavi•; Alvares, VerJad. injor-ma-
f.lm,n.g.
• • ... e achou que era mono•; Ah·ares, I. c.
" Barro!
1
Asia, r, ur, .5."'- •.ie doer.ça• diz DBrTDI; •ssaJsinado 1 mur-
dn'ed) disse moJcrnamente Major (/11di.1, LKU\'1), nâo inJicllllJo,
em que authoriJadc se funJa.
I Goes, Chr-on. de D. M.lnut-1, rarte '"• C.IIJI. 4X-·
"Tellc•, l!"thiopia n nlt.•, liVro 11
1
cap. r.•
Jpme:s Bruce, Fr.lli'tls lo • sour-ct! of tlrt! Nrlt,
1790, vol. 11, pag. 10;.
r, Rem! s11r- l'hisloirt d'Etllil'Fil', pulllicados pri·
meiro no Jour-n.lr c Jepois separadamente, ,glj..,_
Os pnmciros t'tsu/Jados
107
t:lrl!c aos ouvidos de Pedro da Covilhan, ou por algum com-
panheiro mouro de Potiva, ou pela singular transmissão de no-
ticias, que tão facilmente se espalha\·am c se e!i!palham de
bocca em bocca n'aquellas terras da Africa e do Oriente, ter-
ros de longas viagens c peregrinações.
Ao mesmo tempo que o nosso viajante era nssim informado
d11 mone do seu companheiro, encontrava-se com dois judeus
portuguezes, enviados pelo rei de Portugal em sua procura,
os quae8, com muita habilidade e manha, o sot.:beram desco-
brir na cosmopolit;t confusão das ruas e bazares do Cairo. •
Um d'estes judeus, chamado Josef, muural de Lamego e sa-
pateiro de profissão, estivero antes em Babylonia, isto é, em
Baghdad, 2. onde fõra informado do commercio, que por alli,
Bassora e Hormuz, se razia com a lndia e Oriente cm geral.
De volta a Lisboa, o sap1teiro procurou D. João u, sempre
accessivel a estes mensageiros de longinquas terras, e deu-lhe
aquclles informações, com que o rei muito folgou. Como os
seus escudeiros já lhe tardassem, despachou em su.a busca o
mesmo Josef e um rabbi Abraham de Bejn, dando-lhes cartas
para os dois viajantes, nas quaes lhes ordenava: que, se a sua
missão esth·esse integralmente voltassem para Por-
tugal; m.as se alguma cousa Hinda lhes foliasse para a\·cri-
• guar, não descansassem sem s.lber l11do, e principalmente sem
se terem informado do Preste João, e sem mostrnrem Hor-
muz ao rabbi Abraham. 3
• .E cstido pcra se partir via de Portugual ouve nova como hi cri
dous Judcos q ãdavã em sua busca c per srãde manha
bcrã hüs dos outrOS• ; Ab·arcs, VerJ.td. ;,jorn1.1ram, 129.
lh1bylonia n"aquclles 1cmpos sif;nifica muitas \'tzes o Cairo; mas
n'cita pa.!!sascm •rplica-sc cviJcnternt"nle a Hashdad.
J •••• c seodo jütos, lhe dcrã carias dei Rcy de Portuf!ual .•• e daJas
e lidas has dilas carias cominhase i:! dias que se todas has cout-as a que
vier'l eram vistas c achadas e sabidas que se [assem em boa: ora, e lht5
faria muytas mereces: e se todas não eram achadas c dcscubertas, das
achadas lhe mldasscm recado, e por saber ludo trabalhaucm: e princi-
ralmcnle [ossem ver e saber do srandc Rey Preste Joam, c moslrar ba
cidade de Hormta aho rabi abraham• i Alvares, Vrrda4. illformaranr, 129.
lo8
Pedro da Covilhan não c:n homon que ck:antc do
de5cmpenho de uma missão, por difficil ou pt"rigosa que fMse;
c:, alem

iA csraria tocado pela paixio do desconbectdo e
das annturu, por rsta rspccic de fascinação, que a tcrTa in-
cl.plorada eurcc sobre ccnos cspiritos. Recebidas, pois, as
nov1s orckns do rei, decidiu immcdiatamc:ntc subsõruir-sc a
Aflonso de Paiva, ao qual a morte impedira de lnar a cabo a
sua pane da cmprcza. Antes, pcrEm, de seguir para Hormuz,
c depois para a Abyssinia, rscrcnu a Da Joio 11 uma cana,
que lhe enviou pelo judeu de Lamego.
Tem-se falado muito d"csta carta, cscripta no üiro por
Pedro da Covilhan i mas ao certo sabe-se bem pouco lliccrca
do seu contcudo. A noticia do padre Ah·arcs é mUito succin-
ta, c não admira que as:sim seja, pois apenas o que
lhe referiu Pedro da Covilhan de mrmoria c ao cabo de mui-
tos annos. Ainda assim, é-que eu saiba- a nossa principal,
1: sobre1udo a nossa mais segura fonte dt: informação. Se-
gundo contou Pedro da Covilhan, havia t:ste escripto a
().Joio 11, dizendo-lhe como estivera na lndia, em Cananor,
Calicut c Goa. Em Ca1icut cnconu.lira varias espeâari.as, taes
como canclla e pimenta; quanto ao cravo, vinha de fóra, mas
tambem alli se podia obter e comprar. 1 Para aqucllas cidades
da lndia, 111do tm co5la, se pcderia navegar pelos mares de
Guine, indo demandar a co.sta de Sofala, onde elle estivera,
ou uma grande ilha, que. segundo diziam, tinha trezentas lc-
guas de i qual os mouros chamavam a ilha da 1 ua. De
qualquer d"cstas terras se podia navegar para a costa de Ca-
hcut. : Eis, cm substancia c: segundo a narrativa de Alvares,
o que dizia a cana de Covilhan.
• A carulla, pelo menos a boa e fina, nlo &C creaYII nas terra& de Ca-
lkut1 ma• vinha de rcrto, de Ceylão, emquanto o cra11o procedia de
reJi6es dU1an1cs. Sio, n"este sentido, cuctas 111 informaç6es de Co-
vilhiiln.
s •E loguo hi escrcveo pelo iudeu çapaleiro de Lamego cm como
linha descuberto a caoclla e pimê:ta oa cidade de Calecut, e que ho cravo
vinha de fora, mas que tudo ae ali averia, e q fora nas ditas cidades de
Os primei'rO& rtsull4dos
A versão do Ramusio tem n·csta parte, como cm outras,
ul8umas '\'ariantes. Falando da cm Sofilla, di7.
a versão, que Pedro da soubcru am por a18uns ma-
rinheiro! c outros arabcs, "como toda oquella CO!IO se podia
p.lra o lado do occidc:ntc, não se lhe conhecendo o
lim•. • Dá depois noticia da carta, a qual conduia ,, .•. as
suas ca:-avcllas (de D. Joio n), que frcqucmam a Guine, na-
,·cgando terra a terra, e demandando a CO!ta da dita ilha {do
Lua) c Je Sofala, poderiam facilmente penetrar n'aqucllcs ma-
res orientaes c tomar a costa de Calicm, porque por toda o
parte era mar, segundo clle tinha sabido •. 2 Como se a
\'Crsão de Ramusio ê um pouco mais c:..plicita c affirmati,·a,
sem comtudo dilfcrir do texto portu8ucz em pontos CS!OCn-
cincs.
Não succcdc o mesmo com ul8uns livros
modernos, onde cncomramos affirmações absolutamente no-
vas. O conhecido c cc:lebrc \iajante na Abyssinia, J. Bruce,
tem na sua o seguinte trecho, que tro1duzo na inte-
gra;
toNo seu jornal, Covllhan descrevia os di\·enos portos da
lndia que havia visto; o caracter c disposicõcs dos principes;
a situação c riquezas das minas de Sofala. Conto'\'a como o
paiz era populoso, cheio de cidades poderosas c ricas, c ex-
e calicut e Goa ludo em cosia c que pcra csto se poderia bem
(lDVeij;ar polia sua costa e mares de guine vindo demãdar ha costa de ÇO·
ral.-& em que elle lambem Cora, ou llíia srancle ilha a que os mouros ctJa.
mam a ilha da lila. Dizem que tem legoas de costa e que de cada
hila destas terras se roderia tomar ha costa do calecut•; Alvares.,
infot'maram, 129,
1 • ••• Cefala. dove da marinari e1 alcu(li intese, che delta
costa IUtta ai poteva navisare weno Poncnte
1
e clle se non sapevail fine•;
ViJggroJ em Ramusio, 1
1
:t36 v.•
1 ..... concludendo, che le sue caravelle, che rraticavano in Guinea.
navigando terra a I erra, et dimandando la cruta di dcna isola c1 di Cdala
rotriano fac•lmenle penetrare in queni mari oriental!, et \'Coir a pigliar
la costa di Calicut, pcrchc da per tutto vi era mare, come esli hevcva in-
tcso•; Vi12ggio
1
L c. 23].
110
Prdro Ja Corilh1211
hortava o rei a proseguir com ,-igor no descobrimento da pas-
sagem cm \'Oila da Africs, que cllc declarava dever ser pouco
perigosa, affirmondo que o Cabo era conhecido na Jndia.
Acompanhava a dcscripção com uma carta ou mappn, que lhe
Jcra um mouro da lndia, onde o Cabo e as cidades ao longo
da costa estavam cxactnmente representadas •• •
Tudo isto parece ser um producto da viva c fertil imõl8i-
nação do grnndc. viajanre inglcz. O cruJito dr. \"inccnr, com-
C!ttc trecho do livro do seu comparriota, diz que
nunca poude descobrir a origem das aotSerções de Bruce, nem
" amhoridadc cm que este se funda; c que. só quando a
viesse a encontrar, aquellas asserções lhe podcriam merecer .ol-
guma considcr.acão. Ad\·ertc ainda, com razão, que o tal mappa
do mouro, a ter existido, seria uma ficcão, pois nem os nawega·
dores arobn possaram nunca alem do cabo das Correntes,
nem d'elli ao Cabo (de Boa Esperança) cKistiam cidades ou
cousa parecida. E' mais provavel - accresccnta V incem- que
Covilhan enchesse ou corrigisse o moppa que levava de Por-
lugal: •d'cstc mappa corrigido por Covilhan fala
parecendo 1ei·O visto, pois diz que estava mal escripto c des-
figurado i este julgo eu ser o mappa a que alludc Bruce•. ,
Na primeira edicão do li,ro primeiro da HisJoria do desco-
b•·imt'l/lo do nosso Fernão Lopes de Castonheda, encontram-se
c(feclivamemc as asserções a que se refere o dr. Vinccnt. Diz
alli Castunhcda, que Pedro da Covilhan se informou bem da
especiaria que hn,·ia na lndia, e da que vinha de fõra •- •. e
assim dos lugares da lndia., de que pos todos os nomes na
cnrla que levava, ainda que mal cscrip(Os•. Falando depois da
cario a D. João 11, accresccnta que n'ella dava conto ao rei do
• Hrucc, Travtl:s. 11, 1o8.
1 •Such a corrected mar orcovilham's we read orin Castanhcda
1
who
seems to bave aeen it, •• he says it was i1l wrilten disfigured : this I
take to be the map to wbich Rruce •
tlzrae.rN sta, 2o6;-não yj o Periplll$, e cito pelo ex1racto de Major, Jn.iia.
1n lhe ftft. c1!'11111ry. LI.Zll\'111.
Os pr·irmir-os rcsu/lados III
que vira c soubera na lndia e cm Sofala, e mandara tombem
•a carta (gcographica) cm que tinha postos os nomes dos lu-
gares CJTI que forou. Circumstancia curiosa, e para mim de
difficil explicação, estas phrases da hoje rarissima ediçiio de
1551
1
desappareceram por completo da edição de 1554
1
emen-
dado e alterada, corno é bem sabido, pelo proprio Caslanheda.
Parece que o author duvidou da authemicidade das noticias e
informaç5es em que primeiro se fundára. Não nos diz d"onde
lhe vieram aquellas informações, não nos diz por que
11s rejeitou; e ;;ó sabemos, que as rejeimu ou pelo menos as
supprimiu, consenando todas as outras em qut: concorda com
o padre Alvares. Este cóne, feito pelo proprio tira
parte do valor ã noticia, que com tudo isso não deixa de ser
muito interessante. 1
!\olas, adrnittindo mesmo a primeiro redacção de Castanhedo,
o facto é muito diverso do que aponta Bruce. Trata-se apenas
da carta de marear, levada de Portugal, na qual Pedro da Covi-
lhon teria posto os nomes dos sitios onde foi oté Sofula; e niio
de um rnappa, de origem arabe, que chegasse ao cabo, de-
pois chamado de Boa Esperança. Quanto ao conteudo da
cana a D. João u, nem o R.1musio, nem Castanheda dizem
cousa alguma em contrario .:1 versão do padre Alvores; e .,s
1 Veja-se .o. Hisl. do r da I11di.J prlos Purlu-
f:lteits, (eyl::. por Fernão Lopez de Ca&umhcJa, Coimbra por lohlio da
Uarrcyra e loiio N. D. u.- T1ve entre mãos o e"emplar da Bibl.
do1 oratorianos das Necessidades, hoje da B1bl. da Ajuda, unico de cuja
exa!itenc1a tenho conhecimento- .:omparc-1e com Ho l1vrtJ primt-iro dos
dt•r d.r lliJ.toria, eto::., .:=diç.iio de Coimbra,d.:= 1H-h •ssignado pelo proprio
Fcrniio Lopes; e com a cJiçi'io o.lc u ... bon, a8ll, leite. pela de 1SS4.- A
versão italaana, Hist. dr:ll'lndrr: UntJti.JIJ, r:omp. d.:JI "8· F•r11a11tlo J...oprsdr
CtJst.:q;nN.r
1
tr. de Affonsoc.le Ulloa, Vcnetiil, 1S78, segue a cJ1çiio de 1SS1;
e an1es de ver tenJo-a comrarado com a de eu fiz a Ulloa a
inJustiça de julgar que elle linha phr11.ses por sua conta c
risco.- Dcaxo apenas indicade c&la curiosa e pouca conhecida questão de
bibliogrophia; c YBieria a peno fazer o e&tudo comparativo das successi-
•as de CastanbeJa.
,.
p1nscs de Bruce parecem-nos, eoo>o jl parc«nm "" dr.
YIDCCDl, um simples prodoct() da sua pb.mtasiL •
Reduzida assim lb suas Yerdadeira.s proporç&:s, a c.arta de
Pedro da CoriJban a D. Joio n ainda tem uma impon.mcia
enorme. Dan p:\a primeira va. dircctamcmc r •ia, io-
fonnaçõrs n.aaas e definidu a lodia, o seu
c m caminhos pan li. O que cllc dizi.a, sabiam-no p. muims
mercador"es italianos, mas para o r-ei de Ponusal ua novo c
aobrc:rudo ua digno de crcdrto. A ·s noticias
fngmcnurias, hesitantes, cheias de reserva c ta1YU
de fabidadc:, obridu a custo de algum judeu, ou de algwn Yc-
neziano menos cautclo!O, subslituia-sc: a rclaçio clara de um
poi1UJUC'Z, que Km a mais lcwe duYida det-ia a Ycrdadc
c sõ a Sa1a-sc do campo das vagas noções sobre a
nqucu da lodia para se entrar oo dominio dos factos posili-
Yot.
Pedro da Cowilhan. cumprmdo t. risca a mis.sio que lhe
deram, havia remontado pa.s30 a passo o trilho do commrrcio
de Alcsandria ao Cairo, do Cairo a Adcn, de Adcn
a CabeuL Havia visto pr.atic.a.rnrntc por onde Yinham c d'ondc
Yinham os ricos produeros da Asia, entre estes as celebres cs-
peciariu, Ião apreciadas c tão caras n1 Europa durante roda
a Edadc media. Aque11os substancias aromaticas c ardentes.
cujo na co!.inha picante dos nobres barões c dos
• Do mesmo moJo me parecem ser empli.lções mais ou. menos
as noticias eacoo1rsdls em livros an11go1 sobre o que escreYeu
Pedro da Ccwilhan. o radre Mlll'lana (lN rt'&IU HiJJUtrrt«',l.ib. n,c•r- 11)
a1uibue-lhe, por e•cmplo, inrormaçõe5 sobre habilos e costumes da lndia
e ou1ra1 que cridentemcnte rrocedem de origcr11 di\"crus e muito
rosreriores. -D'•qui t.ambem asurposiçlio da existencia da um JMOuscri-
f"'O ..eu. !lo qual Nicol•u Antonio (Bibliotlr«-2 ltisparta
1
n. •..S) d• o titulo
cm hetp•abol: RrltuioN •u pjQje 4elllr Lidoa 11Mtt1 la lrtdUJ l'f"'
tiwra.y •11 twlt.:J ai .S8; (I); e o nosso 1\arbosa Machado (BiM.
lu•rlti'M
1
111, 511) o titulo em Jl0r1UBUH: Rel.:Jflio tia •iDgm. de Lisboa
Glt .i III.Jur por ln-,.a r llolta IJ'le C.:Jiro. Nem renho outra noôci.l
de r.l manuscripto, nem julgo que nistisse; e •penu a Cllrta confidencial
para D. loto u.
Os p,.;meiros uJ
ricos abbades constituía um luxo excepcional, pois se pagavam
qua.si a peso de ouro; que serviam a preparar o famoso vinho
perfumado, ou hypocras, distribuído pelos escans5es nos ban-
quetes dos reis ; que :se guardavam como um thesouro e :se
enumeravam cuidadosamente nos inventaries dos mais altos
personagens; 1 que as nobres damas lançavam sobre os ele·
gantes cavalleiros nas batalhas de tlores do tempo; 2 que de-
rivavam parte da sua nomeada do mysterio da sua origem e
se chegaram a considerar oriundas do parayso terrestre,
aqueUas substancias \iu elle de perto, com os olhos praticas
de um mercador. Viu carregar em Cananor o gengibre, culti-
vado nas hortas dos arredores; viu baldear em Calicut, dos
tones para as n.dus, os pequeninos grãos negros e enrugados
da pimenta; viu desembarcar a canella de Ceylão, fulva e per-
fumada; viu chegar de Malaca barcos de cravo e noz muscadn.
De tudo tomaria nota, e de tudo daria conta na sua carla, se
bem que succint:unente.
Notaria egualmente as condicões da navegação i em que
estaç&s e em quanto tempo se podia ir de Hormuz c Adcn
a Goa, Cananor c Calicut, explicando como estas cidades eram
portos de mar, situadas na costa, 111do em facilmente
accessiveis, portamo, desde que se penetrasse nos mares
orientacs. Tudo isto constituis uma base de conhecimentos,
incompletissimos sem duvida alguma, mas cm todo o caso
marcando um progresso muito :s.ensivel, e sobre que podiam
assentar com mais segurança os planos das futuras navega-
ções.
Pf:lo que diz respeito 4 questão, mais intrincada e obscura,
• Por exemplo, nas con1as dos ezecutores testameDiarios do bispo de
Londres (1lol), do bispo de E:r.eter (ll1o}, de Joanna de Eneu1l, ninha
de França (1!17:11} i weja-se, Leber
1
Euai sur faprécialiorl de la pri-
au age; c D. Hanbury. Tltt! spicts, pouri's a11d IIIQZ of a ml!'-
dia!llal Aou:sthold, em Strntcl!' papws.
:1 Veja-se a descripção de um torneio em Treriso ao anno de 1
Rolandino PataYino, lk facti:s in Marclria. Trwisana, no 'VOlume 'flll de
Muratori, Rw.ltal. scriptora.
114
P.dro da Co.Üira•
da circumnavegacio da Africa, tambem a cana de't'e u:r rido
um grande nlor. Tenho para mim. que Pedro da Co,ilhan
foi a Sofala es.pressamcnte para estudar a questão, nem outro
motivo e1.plicaria bem a sua viagem n"aqucllas direcções. E'
cena qllc as minM de oiro de Sofa1a gosavam de grande
reputação no Oriente i mas 11âo é de crel", que cllc intentasse
uma longa viagem, na qual gastou peno de um anno, unica-
mente para ver umas minas de oiro. Ponugal possuía então
resgates de oiro em Arguim c no castello da Mino, os quaes,
sobretudo o ultimo, se julgavam muito ricos, e não era exa-
ctamente o olro que ia procurar ao Oriente. Se, pelo contra-
rio, o nosso viajante levava o encargo de se informar áccrc3
da CI.Ístencia de uma p.tssagem pelo sul da Africa, de alguma
noticia cht si possa passare rJt "1ari di porrt,le, então a sua
vi:1gem a Sofala estava naturalmente indicada. Na convivencia
com os capitães c pilotos mouros dos mares da lndia, cllc
soube que .se faziam viagcn5 ao longo da Africa, na direcção
do sudoeste, quer dizer, para os lados por onde podiam talvez
passar os navins portuguezes. A resolução, para um homem
aulado e decidido corno elle era, estava bem claramente mar·
co.dn- navegar n"aquelle sentido onde podesse. Isto de-
terminou sem duv1da a sua viagem, e d'ella trouxe dados mais
completos c mais claros do que havia emão.
Se tornarmos como exemplo o grande mappamuruli de Fra
Mauro, a que já nos temos referido, porque representava pro-
ximamente as ultimas noç6e5 geographicas, • e fôra muitu es-
tudado em Portugal, não será difficil reconhecer quanto era
deficiente e sobretudo confuso na parte de que nos occupa-
mos. O continente africano está na verdade alli circumdado
1
Do anno de 14S9 ao de r.,S9 Oli progreSIOI são muito pouco sensi-
Teis pelo diz respei1o d Arrica oriental, eJtCeptuando
o racro capital da viagem de Banholomeu Dias; mas d'ene nio linha
conhecimento Pedro da Covllhan, nem vem ao nosso caso. O mDppa-
rmm4i de 14>9 representa pois as noçóes correntes no perkdo de que
tratamos.
Os primeiros resultados 115
pelo oceano; mas isto t! simplesmente o resultado da antiga
e classica ideia do mar en\"Uivemc:. Na extremidade da A(rica
figura um cabo terminal, chamado o CtJJ•o de diiJb, junto do
qu.tl um dístico explica, que um certo barco da India, ur1 corr-
cho di! l 1 1 d i . 1 . ~ havia passado além J"aquclle cabo no armo de
q.:w, e navegado nos mares do occidente. Tem-se querido
ver no caPO de di"ab de Fra Mauro a representação do que de-
pois se chamou de Boa Esperança; mas não me parece ha\·cr
motivo para isso. Se náo é um simples recorte de phantasia,
deve representar unicamente o cabo dos Correntes. Seria fa-
cil succeder, que um barco, dos que navegavam da India ou da
A rabia para Sorala, passasse alem d•aquelle cabo, Da direcção
da bahia depois chamada de Lourenço Alarques; e os tripulan-
tes nA'o notassem rigorosamente o rumo em que '!I costa corria
alêm do cabo. Exagerada a inflexão d'aquella costa para ceci-
dente, • e transmittida esta noticia verbalmente, facil era ima-
ginar que a Africa terminava alli, e traçar uma linha hypo-
thetica de costa, ligando o cabo das Correntes á pane
conhecida da costa de oeste. Esta identificação do CtJPO de
diab com o cabo das Correntes, que dou pelo que pôde valer,
sem a defender ou explanar, explicaria a meu ver a fõrma ge-
ral da Africa de Fra Mauro; e reforça-se pelo facto de o coPO
de drD.b estar situado na carta perto de 15° ao norte do de Boa
Esperança, quasi na latitude do das Correntes. a
Junto e a oriente da extremidade do continente africano
está representada uma grande ilha, que deve corresponder a
l\1adagascar, a qual fica separada do continente por um longo
canal, tão estreito, que-como diz Fra Mauro-os montes e
arvoredos das margens o tornavam muito escuro. 3 N'esta ilha
• lnfle:d:o que de feito ez:i:ne, e se encontro ba1tante exagerada em
alguns mappas anligos. por e11.emplo no de Joiio de la Cosa (r5oo), poste-
rior •• Yiagcns de Banholomcu Dias e Vasco da Gama.
3 Vide, Santarem, Re.:llrrchrs
1
L'II:XY- Rainaud, U conlinml aws·
lral
1
1&.
:'1 •Nota che questo cavo de diab scpnato da Ablllsia per um canal
oscuro•
1
etc.- Veja-1e o Alias de Santarem.
116 Pedro da Ccwi/han
está collocada Sofala, e o proprio cabo terminal de que fala-
mos. 3
Todas estas feições do mappa se explicam facilmente,
a meu ver, pelas noções correntes entre os arabcs, quer fos-
sem bebidas nos seus livros de geographia, quer os pilotos
mouros as uansminissem verbalmente aos mercadores vene-
c c.stes ao geographo, veneziano tambem. Sómcntc,
n"cstas transmissóes verbaes baralharam-se e confunduam-sc,
FRAMArRO.
Venez,d/.151.
. ;;
\l•l
AM
"'· 'T;;:,
...... ,
....
como era natural. Disseram. por cJ.emplo, ao gcographo, que
m navios chegavam habitualmente a um cabo-o das Cor-
rentes-, c algum que o havia transposto encontrara a costa
correndo para occidcnte;. c clle figurou uma terminação hy-
potbetica da Africa. Disseram-lhe, que a leste do continente
demorava uma grande ilha - Madagasc.ar -, nio lhe mar-
ando, porém, as vastas dimensões do c:mal de Moço.mbiquc;
Os prtme;ros rt.'Sufi,Tdos
117
e elle delineou um estreitissimo braço de mar. Disseram-lhe,
que n'aquellas paragens extremas fic11va situada Sofala; e elle
transportou-a do continente para a ilha. Não faço, repito, um
exame especial do mappa de Fra Mouro, nem insisto sobre a
explicacão de uma ou outra das suas feiç6es; e indico apenas
que elle representa, n'esta parte da Africa austral e oriental,
informações, sem duvida curiosas c vastas, mas ao mesmo
tempo muito confusas. •
E' evidente, que o nosso Pedro da Covilhan poude durante
a sua viagem rectificar e aclarar ulgumas d'estos indicações
do mappamundi. Seguiu toda a costa de Melinde, QWioa, Mo-
çambique, e viu perfeitamente como Sofala estava situada no
continente, e não em uma grande ilha. Navegou á vontade
pelo largo canal de Moçrunbique, bem diverso do apertado
esteiro delineado por Fra Mauro, e apenas avistou no hori-
aonte as costas da grande ilha da Lua, 2 se acaso mesmo as
• Pode ver-se, sobre as difficuldade& que levanta • identificação do
ca11o de diab com o de Doa Esperança, Santarem, R,·clrerdt.es til/r la prio-
rill?, LU e liegtJinlec..-0 erudito Yule, de passasem e sem in111tir, ma&
com o seu habitual tacto seographico. admme tambem • hypothese de o
ravo de Diabser liimpleamenle o da. Corrente&: •- -- wich is ausgestave
of tbe Cape of Good Hope, but was reaUy perhaps Cape Corriente:h i
Marco Polaa ••, 40Q.
• Eale nome de •Ilha da Lua., que. nenhum outro portuguez deu 11
Madagascar, é 11 traduc:ção lilteral, como o proprio Covilhan dizia (•• que.
os mouros cbamt•), do arabe EI-Qcmr. Adrr.iue--se seralmentc que o
nome de Djezair ei-Qomr sedava • um srupo de ilhas.quecomprehendia
Ma.iasuc:ar, lendo ficado até hoje 's pequenas ilhas de Comoro.--Qomr a
grande ~ de1c:ripta por alguns seosraphos arahas. como tendo quatro me-
zes (de viasem) de comprimento (Ed-Dimichqi), ou como sendo a maior
d'aquelles mares(Yequt)
1
o que s6 a Madagascar ae applica bem.-No licU
Mt•m, seog. sur la mer de1 l11des
1
Codine IICC:eitou e defendeu modernil-
mentc es1a identificação de El-Qomr com Madesascar, que de resao a
phrasc de Covilhan confirma.
Parece que entre oa proprios arabes havia duvidas aobre • vocahsa-
ção da palavra, Qoml", Qomor ou Qamar; e por iaso se traduziu por di-
versos. modos. A "s famosas montanha& do mesmo nome, onde se dizia
nalic:cr o Nilo, se dau ts vezes o nome de montanMs BrmcaJ, ma:is seral-
u8 Ptdro da CoJ!ilhaJt
arurou. Do cabo das Correntes a Cal'icur, as aguas do canal
de Moçambique e do mar das lndias abriam se larga e liwe-
mcnte il nangação, da per lullo ,.- tr·a man.
Do que ficava pal"a o sul do cabo das Correntes deve ter
sabido pouco. E' possível, no emtanto, que na sua demora cm
Sofala- e a1li se demorou pelo menos o tempo sufficieme
pal"a esperar a monção de regresso- é passivei que rlk: obti-
vesse do interior alguma noticia interessante. Para o sertão
de Sofala estendiam-se na dincção do nane e tambcm do sul
as terru do reino de Benametapa ou Monomotapa, que depois
se fraccionou no de Quircve c outros. mas que cntáo parece
ter sido vastisaimo. 1 O oiro, o marfim e outras mer,adorias
eram trazidas do interior cm longas comitivas de carregadores
ncgros,comoaindahoje succede n'aquclla Afri.::a, sempre siml-
lhanrc a si mesma. Alguns d•estcs trilhos do coaxnercio nesro
vinham dos lados do sudoeste c de muito longe. Bar-
bosa da not:cia de caminhos, se alongavam na direcçio
do cabo de Boa Esperança. s Não é provavel que chesasscm
mente, o d.e molllaM.cu da Lia (vide G. Fernnd. Us M11sw/mmu
.a M.JdagaJNr, 43 e seg.; Rainaud, U confillntl ouJtra/
1
100; David
Lopes, Eztr. da lrUr. da CO"f· do Y.:2man, S9).
O nome o1e Madasascar (Afadrigaat:a,.J figura pela primeira vez no
livro de Marco Polo (129(1), mas deve resultar oie alguma confusão com
a& terras de Masada•o, como suspei1ava j4 Yule, e austenlou depois o •r.
Grandidier (Yule, Ma roo Polo, 11, 406; Ferrand
1
L c., S9).- Quanto ao de
ilha de S. Lourenço, parece que lhe foi dado por um dos companheirO!
de Pedralt"ares Cabral, Dioso Dia6, o qual por e11sano não sesuiu o ca-
Dill de e correu por fora da ilha, avistando-a no dia d"aquelle
ADIO (1Soo). Foi depois reconhecida mais detidarnenle na e•pedição de
Tristlo da Cunha. Em todo o caso, do interessante resimento, dedo a
Diogo Lopes d.e Sequeira (rSo8), 1e vê como parle da costa de S. Lou-
renço era i' muito bem conhecida; G. Corro76, Ln!das, r, 153; Barros.
AJio, 11, r, 1.•; Doe. do Archi110 rra.d01ral, 184 e seguintes.
• Vid6, o padre João dos Santos, Etlliopia Dl"itntal, Liv. 11, cap. l<l.
0
" •· •• ho qual caminho ni de Çofa.la pelo certam denuo contra o
cabo de Boa Esperança ... di.1em estes. Mouros de Benametapa
1
que ainda
este ouro vem de muyto mais longe de contra o cabo de Doa espennça•;
Duarte Barbosa, L111NJ, 3.fli
1
Jr9-
Os primeiros reJultadot ug
ao Cabo, nem mesmo ;l contra-costa de oeste nn latitude de
Sofala; mas é bem passivei que os nl!gros Ü\·C!ssC!m alguma
noticia. posro que vagJ, écerca da existencio de mores ocd-
demaes. Outra circumstancia. jã apontada por Castanheda,
deve ter inftuido no animo do nosso viajante- as feições e
aspecto dos naturaes da terra. Elle via perfeitamente que os
mouros de Sofala constituiam apenas uma colonia advenricia e
pouco numerosa, e os indigenas d'alli eram negros, de cabello
crespo e revolto, absolutamente similhnntes aos que habita-
vam na Guiné, Congo e Angola. 1 D"esta circumstancia con-
cluia naturalmente em favor da continuidade d"aquellas terras,
com as que frequentavam as caravellas portuguezas nos mares
occidentaes.
De tudo isto resultou sem duvida no seu espirita o con-
vencimento de que o caminho para a lndia era praticavel e
C!ra por nlli i e communicou este convencimento a D. João 11
na sua cana. Sem exagerarmos, pois, o valor da carta, sem
nos lançarmos em especulaçiSes mais ou menos infundadas
sobre o que ella podin conter, limitando-nos rigorosamente no
que nos diz o padre Alvares, ainda I! licito concluir pela suo
importancia capital nos successos futuros e proximos. A expe-
dicão de Bartholomeu Dias por cccidente até o rio do lnfl'nte,
a expedição de Pedro da Covilhan por oriente ate Sofala,
são os dois grandes factos que preparam o descobrimento
do cammho para a lndia. Este:s factos nfio amesquinham a
empreza de Vasco da Gama, a quem sempre ficará a gloria
de ter atado os dois 8os; mas, não a amesquinhando, podem
servir para a explicar.
Tratando-se da inftuencia que podia ter a cana de Pedro
da Covilhnn, suscita-se muito naturalmente n questão de saber
se D. João u a recebeu.
Procurando nos livros do tempoa ou pouco posteriores, in-
' Pedro da Co\lilhan havia safdo de Portug;d depois do regresso de
Diogo Cio da sua segundu YiBjl:tm; vejam-se as dalas marcadas pelo sr.
Luciano Cordeiro na sua memoria sobre Diogo Cão,
120
Pedro da CoJ,ill1an.
formaçlies sobre este ponto, encontramos ou o silencio, ou a
confissão do aucror de que nada poude saber e apurar áquelle
respeito. emquanto alguns declaram mesmo terminantemente,
que nem cartas nem noticias chegaram a Portugal, pelo menos
em tempo de D. João n. 1 Devo dizer que este silencio, ou
mesmo estas affirmações náo reem para mim grande peso, pois
se lhes pode dar uma explicação natural.
A missão de Pedro da Covilhan era essencialmente se-
creta, c as suas cartas essencialmente confidenciaes. Sabia-se
muito bem em Portugal quantas rivalidades, ciumes e mesmo
complicações diplomaticas, podiam suscitar as tentativas de
dcscobr·imentos no Oriente. Convinha conservar ácerca d'es-
tas tentntivas, pelo menos cmquanto fosse possivel, a mais
absoluta reserva; c D. João n, prudente e cauteloso como era,
devia guardar para si e para um cstrcitissimo circulo de con-
selheiros, o duque de Beja, D. Diogo Ortiz e poucos mais,
as noticias que recebesse a tal respeito. ComprehCilde-se,
pois, que nem mesmo os que o serviam de perto, como Gar-
cia de Resende, tivessem conhecimento da carta; e muito
menos o teriam os que andavam mais afastados da cône, e
escreveram passados já alguns annos.
Considerando, porem, u carta em si e nas condições em
que foi escriptn e entregue, no que os inglezes chamam intt!r-
nal e exlt!nlal ,•vide11ce, encontramos todos os motivos para
acreditar que chegou ao seu destino.
• na cJição de I 55 r (L. 1
1
cap. r.•) admine que D. Jo"ão n
recebeu a carta; mas na de 155-t. .arrepende-se, e Ji1 claramente que
11unca soube se a cana chegou 's mlios do rei. Garcia de Resende
(t:hron. D. Jo:KJ II, cap. 6o.•) só falia das noticias que vieram muiro
mais tarde. G1Spar Corri!a (UndQS
1
1, 6) affirma que só vieram noticiaa
depois da morte Je D. Jolio 11 e da partida de Vasco da Gama para a ln-
dia.- E' de notar, que a relação .:resta viagem, dada por Gaspar Corrêa,
I!! absolutamente diversa de todas as outras. e evidentemente fundada em
inform11çõcs muito confusas e muito erradas; pelo contrario, as relações
de Casranbeda e de Barros em todos os pontos essen-
ciacs da do padre AJvares.
lJs prlmeiros re1ultados
,.,
A carta foi entregue no Cairo ao judeu Josef, um viajante
experimentado, que já ames (ôra a Baghdad com &!li caravanas
da Syria e voltara d'alli a Portugal, que havia sido mondado
pelo rei cm busca de noticias e tinhn todo o interes!lie peesoal
em lh'as trazer. A viagem do Cairo a Li!!ibon era simple9 e
facil. A não se dar, portanto, uma circumstancia qualquer
accidental, que ninguem menciona, não havia casão alguma
para que o mensageiro ou a carta se extravinssem no cami-
nho.
Considerando agora o conteudo da carta, poderemos tam-
bem concluir com alguma plausibilidade, que ella foi entregue
mezes depois de ser escripta, intluiu nas determinaçlfee de
D. João u, quando e!te no fim do seu reinado preparou a ex-
pedição é lndia, e na ... determinações de D. Manuel, quando
e!te no principio do seu eOectivamente a despachou. Ha so·
bretudo uma circumstancia especial que DO!Ii leVI'l a esta per-
suasão. Vasco da Goma não foi \'ngamente enviado em busca
da lndia, foi directamente dirigido a Calicut. Barros diz muito
claramente, que elle levaVI'I. o seu .regimento•, as infonnaç5es
e alisas que •EIRey D. João tinha havido d'aque.llos partesn,
e cartas pare o Preste João das ln dias e para • EIRey de
Calecut•. 1 Pelo caminho foi constantemente perguntando par
Calicut. Em Moçambique soube de um mouro velho como
•d'ali a Calecut seria caminho de um mez•. 2 Pediu pilotos,
niio para a lndia em geral, mos para Calicut em especial :
• • • ui t.ibi da1·et a/i"quol homilleJ llaPifi41Jdi pcriloJ
1
q11or·um
duclu poSJtl Caliclltillm perJ.Je11irt. 3 O auctor do

que
na sua rude singeleza é perfeitamente insuspeito de qualquer
ampliação lineraria, confirma. absolutamente a primeira indica-
ção de Barros : •Ao tcmpa que nós a esta cidade
de Calecut elrey estava d'ella quinze legoas, e o cnpitam moor
mandou lá dous homeens, pellos quaees lhe mandou dizer que
• B11rros
1
Asi.:r
1
1
1
IV
1
•·•
:1 Barros, Asi.:J
1
r, 11'
1
4.
0
' Osorio, lk l!"mmDnutlil, p11g. 18.
oG
".132
hwm cmbaiudOt" d"clrcy de Ponuga11 alü, r fM
c.vlastf'Jir ...• •
E" narural ver n"c:sla cif"CUIMtanCÍI • influencia das infor-
mações de Pedro da Covilhao, comquanto não consrirua uma
pron segura. Qaro e:stá, que cm Ponugal podia ha'l'cr noti-
cias de Calkut por uma via diversa da cana de Covilh411.
Nas suas Gaspar Con-êa conta-nos mesmo a Wstoria
de umas canas, cscriptas por um rico mercador de Veneza a
D. Joio 11, dando lhe: darga conta da lndia c de suas
riqueLu de tratos•, canas rncomradas depois por D. Manuel
cm um cofre de papeis do seu an1ccc:ssor. 2 E" pcrfri1ameme
postivct que n"cs1as canas, ou cm ou1ras, se mencionas.scm os
por1os da lndia. Subsiste 110 cm1amo a concordancia muilo
no1avel entre o que cscn:vcu Pedro da Covilhan. c as insnuc-
ções dadas poucos annos depois a Vasco da Gama. Por um
lado, Pedro da Covilhan encarece a D. Joio 11 a riqueza. de
Caticut, diz-lhe que as especiarias. canclla, c cravo,
SIC podem ob1cr c comprar em Calicut, que de Sorala ou da
illa da Lua se podE navegar para a costa de Calicu1. Por ou-
tro, Va!!co da Gama i. mandado direclamemc a Calicm, c leva
canas para o rei de Calicul. A conclusão a 1irar d"cs1as appro-
ximações parece-me legilimamenle ser, que o car1a foi a base,
pelo menos uma das bases .. das instrucções dadas depois ao
nosso illustre n 1vegador. Salvo prova em conlrario, c o silen-
cio de uns escrip1orcs ou as affirmac6es de outros não
constituem essa prova, sol-rc1udo quando a reserva diploma-
lica explica a sua ignornncia. salvo prova cm con1rario, deve-
mos crer que o judeu Josef chegou a Lisboa, entregou a cana
a D. Joio n, e esle, como era naiUral, o communicou a
D. M.mucl.
• Rorrir-o tia l'iiiAf!'"l tlf!' VllfiCO tia GtJm.J,

O seguimclliO da JJiagem
Es;cripta a carta a D. João n, e despachado para Lisboa o
judeu Josd, Pedro da Covllhan seguiu no curso das suns pe-
regrinacões, acompanhado agora pelo judeu Abraham, a quem
ia nwslt'llt' Hormuz.
Atravessou peln terceira vez o deserta do Cairo a Suez, c
d'alli ao Toro, onde embarcou para fazer, tambcm pela ter-
ceira vez, a demorada e fastidiosa navegação do mar Venne-
lho. Em Aden, d'onde era já um lra/!iltll, encontrou facilmente
passagem em um dos nl.Ullerosos barcos arabes, qllc -se empre-
gnvam na navegação costeira do Hadramaut c do Oman; e,
ao cabo de uma viagem sobre a dllração ou incidentes da qual
nenhuma indicação temos, desembarcou com o seu compa-
nheiro Abraham n.a. cidade de Hormuz. ·
Achava-se pela segunda vez n'aquclla especie de feira de
todo o Oriente, aonde, como duia algu11s annos antes Abd-er-
Razznk, concorriam mercadores de sete climas, do Egypto, dn
Syria, do Rum, de toda a Arab"ia e Persia, do Turquesta11, do
Transoxiana, das terras dos kalmuks c da China, mesmo da
cidade de Pc-king; e navegadores da China meridional, Java,
Bengala, Tenasserim, Socotora, Siâo, • 1\laldivas, Mal.tbor,
Abyssinia, Zanzibar c outros pontos. Hormuz era uma cidade
essencialmente commercial, e, portanto, essencialmente tole-
rante. Vivendo e prosperando pelo concurso de negociantes de
• Assim in1erpreto a palavra Sc1lllrinolt
0
pono que na ediçio da l•dia
in p. 6
1
se lhe dE J.iffcrt:nlc si,gnificaçlo.- Sobre o
nome de Schahr·i·N.êo, dado a uma cidade de Siio, veja-se o que disso
na Flora 4oJ Lu$ia4as
1
83, c nas notas aos Colloguios, 1
1
114-
Pedro da Co11ilhan
todas as religiócs, devia protegei-os igualmcmc. E" o que nos
alfi.rma o musulmano Abd-cr·Razzak: " ••• nenhuma injustiça
era alli pcrminida, c lbc chamavam Dilral&nan, ou a PiPr:Jida
da atgu?"Qilf.l• i • e o que nos confirma uns sessenta ou se-
tema annos depois o christão Antonio Tcnreyro: • .•• guar-
da·se muito a justiça a todos•. 2
Os dois novos companheiros de vio.gem, portuguez. e ju-
deu, podéram, pois, residir com lOdo o socego n 'aquella cele-
bre cidade, até que, bem informado o rabbi de lUdo quanto
deaejava saber, se separaram alli mesmo: rabb• Abraham \'OI·
tou para Portugal, sem duvida pelo caminho de Bassora c das
caravanas de Damasco ou de Aleppo, a dar conta da sua viJ.·
gcm a D. João u; Pedro da Covilhan regressou ao mar Ver·
mclho, \'indo procurar o porto de Djiddã, para d'alli se imernar
na Arabia. Parece, que ao intentar esta perigosa excursão,
completamente estranha ás suas instrucções, o nosso escudeiro
aeria impellido unicamente pela sua phantasia c curiosidade de
explorador, o que de resto indica a expressão do padre Alva-
res:-•··· eJJeiiJs•t't'•. 3
O porto de Djiddá- ou Judá na orthographia habitual
dos nossos portuguezes- n& costa da Arabia, era um dos
mais ricos c frequentados do mar Vennelho, pois por elli pas-
savam as mercadorias da lndia em direcção á Mckka, assim
como os peregrinos musulmanos da mesma lndia, e cm parte
oa do Egypto e do Maghreb. Djiddá era como Honnuz uma
po\'oação commercial, mas, ao contrario de Hormuz, muito
intolcrantc
1
e vedada então aos christáos e aos judeus. E'
certo, pois, que n'csta parte da sua viagem Pedro da Col'ilhan
deve ter sido obrigado a tomar o aspecto e disfarce de um
• Em Major, lndia, 7·
3 Tenreyro, llinerario, cap. 1.•
' •E mandado este recado a e1 key ro1lo iu.ieo de Lamego, se rora ho
pero de Covilhã com ho oulro iudeo de Reja al<! Adem, e dahi a Hormuz,
e o hi, e dehi tomou-se e veio ver Juda, e Meca, e Almedina ...•
Alvarea, Y.rda.t. informaçam, 129. - A Mekka tinha tambem imronancia
conuncrcial, o que pode eJ:plkar a viasem do noa5o escudeiro.
125
mahomctano, o que, de resto, lhe não seria difficil. Falava ji
s lingua arabica quando saiu de Portugal. c agora, ao cabo de
mais de trcs annos de com,.iveru:ia constante com os mouros,
quasi sempre isolado entre elles, devia ler adquirido um co-
nhecimento completo c perfeito Ja suo língua, c nâo só dft sua
linguo como de todos os seu:o habitas e particularidades. Ha-
via jd. muito tempo decerto que. por commodidadc c por ne·
cessidade, tinha adoptado o seu vcstuario; c, cunido e bron-
zeado pelos soes c pelos ventos de longas navegaç6es em ·
barcos sem coberta e sem abrigo, devia ter, mesmo sem dis-
farce, toda a apparencia de um arabc legi1imo. Facil lhe se-
ria, pois, fazer-se passar por um mahomctano; e não temos
motivo algum para duvidar de que elle fizesse aquella parte
da \'iagean, e seja um dos raros christãos e um dos rarissimos
ponuguezes, que nos tempos antigos c nos modernos lisitnram
as cidades santas do Islamismo. •
A viagem, como disse, era perigosa, e o mais pequeno
incideme, que denunciasse a sua qualidade de christiio, podia
ser o signal de uma morte immediata. Foi, portanto, sob a
apparencia de um zeloso mahometano, com a cabeça rflpada
e descoberta, e envolto no! dois pannos brancos dos peregri-
nos, que o escudeiro porwgucz poude passar de Djiddll -,
Mckh e penetrar no EI-Haram, ou recinto reservado da
grande mesquita. :a
Achava-se no centro do Islamismo, em uma d'euas cida-
des santas, como Jerusalcm e Roma, como Lassa, como Be-
m\res, em volta das quacs gravitam o1s grandes religiões do
mundo ; e é facil imaginar quaes seriam alli os sentimento!
1 Damião de Gocs dá nolicia de um Gregorio da Quadra que foi a
Medina; e nlo me lembro de mais nenhum.
'O copiriio Burron cnlrnu n:t Mekka • n'esle trnje, r.: na quali-
dade de um medico musulmano da India (Pilgrimagr lo aJI4
Meccah by R. F. 8urlon
1
de que só vi a ver!io fram:eza).-l.ui.1 Varthcma
fca a viagem 1.1n1 unze ou doze annos depois de Covilhan (1.5o3}, disfar-
çado em mameluk e encorporado na escol1a, que acompanhava a c1ravana
de Damasço (ltiJfD'ario di .l.odo)lico em. Ramusio).
t:W
de um velho portuguez, que pelas crenças, pela cducaçJio,
pelo seu ata,ismo de peninsu1ar, cru um iDimigo figadal dos
scctarios de Mafoma.
Ao cnrrar por umu das dezcnove portas no grande palco
central da mesquita, circumdado todo por Pedro
Covilhan cnconrrou-sc cm face da sagrada Caaba
1
edificada
-segundo a trad•ção-por Deus no ceu antes da crcação
do mundo, construída depois na terra por Adão, reconstruido
mais tarde por Abrahão, e modificada aind.u posteriormente
varias vezes, uma d"ella.s sob a direcção do proprio Maho-
met. A pane superior do pequeno edificio, de fórma qunsi
regulsrmentc cubica, que constitue o Caoba, desapparccia
sob o grande coninado de seda negra. herdada a oiro, reno-
vado todo!> os annos nos tempos antigos pelos khalifas de
Baghdad, e já n'e:ste tempo de Co\lilhan pelos sultões do
Egypto. Em volta da Caaba via-se o circulo do gyro, tra-
çado pelas grandes lageas de. grani10, gastas e poidas pelos
milhares c milhares de pés dos que alli gyravam piedosa-
mente, porque -como diziam os crentes- nunca no decurso
dos scculos, durante um só momento, de noite como de dia,
deixou de gyrar alli algum devoto. '
Pedro da Covilhan nâo podia eximir-se a dar pelo menos
as sete voltas do estylo, c a ir beijar a pedra neg1·a, .:ncra-
vada no muro da Caaba, emmoldurada em a parte
mais venerada d'aquelle edificio venerado, porque f1ira tra-
zida do ceu pelo anjo Gabriel, e, segundo dizia Mahomct,
era a bmçáo de Deus 11a /tr·ra. ::11 Terminado o gyro, iria be-
ber a agua salobra do poço de Zemzem, o que se abrira
• lbn Batuta, Viagl!'nl, '• 146.
A pedra ne,gra, h<ldjar-t'l-a.nuul, composta de diversos frflgmenlo5
cuidado!iamente cimentado!, tl:!n.Jc si.Jo partida pelo fogo durante o asse-
dio da Mc:kkl, ainda que Jbn Batuta diga ter sido quebrada com uma pan-
cada por um incredulo, que foi logo alli morto.-Burckhardt diz que llle
pareceu ser um fnsmcoto de lava. Segundo Rurton, é de fórma oYRI, me-
dindo 17 a 18 ccntimetros .Je diametro, e tem o aspecto de um aC:rolitllo
-o que csplicaria talvez a tradiçio da ter sido lrazida do cl!o.
O seguimento da J,>iagcm I >I]
milagrosamente deante de Agar, quando o seu filho Ismael
morria á sede no deserto. Dcpojs, sendo tempo de roma-
ria, como sem duvid:.1 foi visitar nos arredores do Mekka
o monte Arafm ou da Misrri'co1·dia, onde Eva esperou Adâo
durante o seu exilio na ilha de Ceyliio, c onde ao cabo de
muitos nnnos se reuniram de novo os dois primeiros espo-
sos. A IIi Pedro du Covilhan ouviu o 1rrmão di! .Ar·a[<ll, pre-
gado pelo khctib no cimo do monte, do alto do seu drome·
daria, .:om .1 assistencia do Cherif da Mckka, rodeado pela
sua brilbonte eo;colta de c da multidão dos pere-
grinos, apinhados nas encostas c cabeços da montanha. Iria
tambcm ã Muna, lançar os sete seixos contra o rochedo, pnra
lapidar Satanaz ; e as!tistiria á medonha hecatombe de camel-
los velhos, bois magros, e innumeros carneiros, degolados
pelos peregrinos, comidos em parte alli mesmo no campo pelo
enxame dos mendigos, mas de que o sangue, as tripas, os res-
tos ficavam apodrecendo ao ardente sol da Arabia. 1
Saturado as!tim de blamismo, satisreita a sua curiosidade,
e avivado certamente no seu animo o odio á seita abominavel
de Mafamedc, o nosso escudeiro seguiu da Mckka para Me-
dina, sem duvida com alguma das grandes caravanas que
regressavam é Syria, p11rque o caminho era imprati.:avcl para
viajantes isolados, ou mesmo reunidos cm pequenos grupos.
Da Mekka a Medina seria viagem de nove ou dez dias ape-
nas; 2 mas pelas terras aridas e inhospitas do Hedjaz, infes-
tadas de beduínos, que apezar de musulmonos não cosmmam
respeitar o caracter sagrado dos romeiros.
EI-Medina é, abaixo da Mekka, a cidade mais venerada
dos islamitas, oquclla onde sobrerudo se conserva viva a
memoria do Prophcta, e onde se encontra o seu tumulo, ao
• Em 3o:ooo avalia Varlhema os carneiros mortos; mas Burton cal·
cula todos os animaes sacrificados não 5:ooo a fi:ooo.
s Edrisi dã um itinerario de seis marcando toJas e estações
r, rl9); mas Varthema dez dias de Medin& I. Mekka, e
Hurton os mesmos dez dias, de l1 de asosto a 9 de setembro.
ro8
qual-!!.egundo julgo-Pedro da CoYi.lhan se n:fcrc pelo nome
de ça,çarrão. •
Na sua nova qualidade de perrgrino
1
Co•ilhao dc\"ia visitar
cinco vezes ao dia a gran.:le mesquita onde esté o r.umulo. a
qual se achava então reconstruida de fresco, ou talvez aioda
em obras. 2 Entrava pela pona da Salvação, e, dr.Uando a um
lado o BMJpo das palmeiras, por Fatima, a filho.
prt:dilecca do Propheta
1
ia seguindo o alpendre lateral etlê ao
chamado Jardim, uma especie de atrio, onde se guardavam cs
mais ricos dons oflerecidos 4 mesquita. D'alli pelo lado
da porta Gabriel ati!!: 4 Camara sagrada, •indo terminar o
circUito no pilar dos Fugitivos. Não se enrr.1va na
m3s pel!lS grades apenadu poude ver 14 dentro o sitio em
• •Almedina onde ju o çançarrlo•; Vn-Ja4.
129 (IUI ediçio de 188.; encontra-se f11f ãJar erro de imprensa, mas na da
1S40 1.!-se}Jf)--Jsnoro a orisem da palavn
1
que de1'e ser alguma
preulo anbe mutto alterade; mas de qual, cm todo o caso, ae seniram
outros escriptores portuguc•es. Con-!atem a ae,suiata phruc (IA•·
dm, .. llJ) a proposito de uma niu tom:ada aos mouros ror Vasco da
Gama: • ..• onde se achou bum corpo de Mal"amede, que le .. an pera
oft"crccer ao cançarrlo, que era mociço d"ouro .•.•• (L 11'
1
cap.
1:1.-) dU:: •··· a maldita casa de Meca. a que os mouroi Fazem suas ro-
marias ror enar nela o çancarrio, que cbamio do 11bomin1Yel Mar:.-
mede•. Em um manuscrirto da Bibl. nacional (B-t!i-40. a H. 8 w.•) cuja
indicafío e CO(lia de .. o ao sr. Dawid Lopes, encomra-se tambem a seguinte
rusasem: •Mcqua ... onde JU o aam cario ..!o dillbolico Mall11mede em
hiia muy grande mesquita oo.Je os mouros vio em romaria c todo o pa-
sanismo•- Note se que em Cananbeda e no manuliicnpto o sarn c;;v:i._, I.
collocado na Mekka; ma\ isto e um erro wulgar. Barros, que Foi um escrl·
ptor muito instruido e muito bem informado, diz lambem: • .•. a M.!ca,
que esté meuida no senão, onde ju o corpo de Mahamed• n,Ym
1
t.•)"
Salvo o erTO de o collocarem na Mekka, emquanto Covilhan o coUoca
correctamente em Medina, as phrases citadas parecem appliar-se lambem
ao corpo ou tumulo de Mahomet
1
e o maouscripto empre,sa o mesmo
verbo lar.
:a Depois de am incen4lo no anno de • • • de Medina roi
toda recon•truida 1ultio do Esypto, Quayt Bey.
O stguimenlo Ja ,.,Qgmr
que se diz estar sepultado o Prophe1a, • ao lado de Abu-
Be:ckr e de Omar. Havia ainda na Camara um Jogar vago, re-
servado, segundo diziam, a Jesus, filho de Maria, o qual devia
ser alli collocado depois da sua segunda incarnação.
Junto da Camara fazia o nosso viajante as suas forçadas
devocões durante o dia i e alli lhe mostraram 4 noite o grande
clarão maravilhoso, que irradiava da cupula verde, encimado
por um crescente dourado. E' provavel, no emtanto, que Pe-
dro da Covilhan o não visse, como o não viram V arlhema e
os seus companheiros mameluks, por que aquella luz celeste
sõ se revelava aos verdadeiros crentes, chegados j4 a um alto
grau de santidade. Em todo o caso ia completando a sua ini-
ciaçS:o nas praticas religiosas dos mahometanos i mas é de
crer estivease desejoso de se ver fóra d'aquelles-para elle-
perigosos e repugnantes Jogares..
Aproveitaria, pois, a primeira occasião propicia para sair
de Medina em direcção ao Sinai. Se veiu a Ianbo embarcar,2
ou seguiu para o norte com a caravana de Damasco, larga11do-a
acima de Aknbah, e indo por terra demandar o Sinai, é ques-
tão sobre a qual a narrativa do padre Alvares, no seu habitual
laconismo, nos não fornece o mais leve indicio. 3
Qualquer que fosse, porém, o caminho seguido, o que po-
demos crer é q;Je elle se sentiria alliviado de um grande peso
ao encontrar-se no convento de Santa Catharina. Desde Rho-
des, quatro annos antes, que andava em terras de mouros, e
nos ultimes dias ou mezes nas suas cidades santas, onde todo
o seu fanatismo e imolerancia se exacerbavam. Ainda alli no
Simti estava em terra de mouros ; mas o recinto do convento,
circumdado de altos muros li maneira de uma fortaleza, erQ
1 A lenda do tumulo ferro, suapen10 no ar pelo& imans ou pedras
magne1icas
1
i de inYençio occidental, e desconhecida dos musulmono,.
1 Janbo i no mar Vermelho o porto de Medina, como Djidd' lo porto
tla Mekka.
l • ... e veio ver Juda, e Meca, e AlmeJina onde jaz o çançarrão, 1:
dab1 a Môtc Sin•y•: Verdad. irtjonii<1Çam
1
12g.
'7
r .lo
como uffi odsis christâo, perdido n'aqucllc deserto de inficis.
Ao sair de beijar a pcd1·a rugra da C.1aba, ou de rc,itar vcrsetcs
do Coran junto do tumulo de Alafoma, o escudeiro portuguel.
ajoelhava, pela primeira vez ao cabo de quatro annos, em uma
egreja christan. Alongavom-sc deante d"elle as naves da venc-
ravel basilica de Santa Cathnrina, tendo ao fundo os retratos
dos fundadores, Justiniano e Thcodora, nos suas vestes
riaes. E, no recolhimento da velha cgrcja, renascia-
lhe no peito toda a fc de um catholico milit.mtc do seu tempo.
A' volta, pelos rctabulos dos nh.1res, sobre o oiro fosco dos
fundos byzantinos, via os ·santos seus conhecidos, os santos da
sua infancia de beirão dc\·oto; c via as preciosas relíquias, en-
tre as quaes avultava o cofre suspenso, onde repousavam os
ossos da soma, da egreja e do convento. •
Ao cabo de quatro annos, curvava-se de novo perante um
altar
1
assistia de novo a uma missa, c ouvia cm ,-olta o psalmear
dos sessenta frades do rito grego c da ordem de S. Basilio. Os
remorso!" ou escrupulos, que no seu esririto deixavam talvez os
ultimes mezes de appnrentc devoç:ío n Mafoma, poudc alli la-
vai-os aos pés do confessor. Tomou como um bnnho, cm que
se purificou moralmente; c a impressão religiosa foi tanto mais
forte, quanto se fundia inconscicntemcme com as recordações da
patria distante, da familia c dos amigos ausentes. Lembrava-se
de Portugal, não só na cgrcja como na horta do com·emo.
conversando com os frades á sombra das parreiras, dos pece-
gueiros e das amendoeiras, 2 que lhe pareciam velhos amigos
ao deixar a estranha vegetação de Calicut ou de Sofala. Em
roda toda a mont..1.nha se povoava de rccordacõcs biblicas: a
• •Po.nrid•e ..!emonstrata nobis est in templo pcnsilis cap1a, in qua





-Ena visita de Belon teve lagar un1 cincoenta c tonlos onnos apenas
depois da de Pedro da Covilhan •
.li • ••• con1pic1untur horti, in quibus vi1es er legumina colunlur ..•
arbores autem fructiferi varii seJleres, prreserlim nri amygd11ln: .. ;
t'.ltiortrl, I"J.].
O ltgllimetJio da JJiagtm r3f
rocha onde a agua brmara sob a vara de Moysés, a capclla do
propheta Elias c mui1as outras. Rccordacões similhames na
verdade ;\s que encontrara junlo da J\.lekka i mas não deturpa-
&ias pela phantasia dos musulmanos, passadas pcln fieira mail;
purn da tradição christan.
Esta visita ao Sinai devia ser pnra ellc um descanso phy-
!õico c ainda mais um descanso moral ; mas as ordens de
D. Joilo n c o imperioso dever de as cumprir não lhe pcr-
miniam uma longa demora. Depois de bt•m •·islo, Covi-
lhan desceu ao Toro, que ficava alli perto, quasi na base da
montanha, onde embarcou para fazer pela quinta vez a na-
\'Cgação do mar V cnnelho, saindo as portas do Estreito e
indo demandar o porto de Zcila na costa africana. 1
Não me tenho atrevido a calcular, nem mesmo vagamente,
as datas das successivas escalas d'esta segunda viagem. As
causas de incerteza são demasiado numerosas. Ignoramos
completamente qual foi a demora no Cairo, em Hormuz e ou-
tros pontos. Ignoramos completamente se as navegações repe-
tidas no mar Vermelho e ao longo do costa da Arabia foram
prosperas ou contrarias. Unicamente me parece, tomada a
viagem em globo, que esta não foi executada em menos de
um anno, e provavelmente mesmo teve maior duração. A de-
mora no Cairo até encontrar os dois judeus, e de os
encontrar até despachar um d'elles para Lisbaa e estar prom-
pto a seguir com o outro para Hormuz, deve ter sido grande.
A navegaçõo do mar V crmclho era muito lema, e Covtlhan
n'esta segunda viagem fel-a complem duas vezes, e uma até
DjiddJ.. Temos tambem a navegação costeira da Arabia, e a es-
tada em Hormuz, nssim como a jornada com as caravanas
pelo interior da Arabia. Quando lemos as raras relações de
viagem d'aquelles tempos, cm que se marcam cuidado58mcnte
as dntas, vemos quanto eram frequentes e longas as estaç5es
• •· ·-e dohi a Mõte Sinay. E tudo bem visto tornou a embrrcar no
Toro, e roy .••e rora do estreito na cidade Jc Zeila .. ; Ah••re!', Yrr4ad. in
fonnaÇtlffl, 129-
nos diTenos poo1os, esperando e IIIODÇ6es, ou a organisaçio
du c.an.nnas, 4.5 sem motivo e1pticuel. Tudo, por·
lanto, nos lcYa a crer, que o D>S!O escudeiro comummissc mais
de um anoo na sua squnda viagem. Se, pois, r1k cllqou ao
Cairo de Yolla da primeira, no começo de um dos annos de 1491
ou 1492, s6 desembarcaria cm Zcila oo ckcuno de um dos an-
DOS scgujntes, de 1492 ou mais pronYclmente de •.t9l·
Admine-sc 8eralmen1c, que cUc cnuou na Abyssirüa oo
anoo de 1490; mas sem hawer pron ou mesmo motiYo para
acreditar que assim succcdesse. • Pelo conuario, quando en-
minarmos os succc.s.so! da his1oria d"aquelle paiz., que se rela·
cionam com a sua chegada alli, YCrcmos como estes nio con-
trariam c antes confirmam o .-csuhado a que chcgãrnos pelo exa-
me dos seus itinerarios. A data de ou 1493 cperfe1tamcntc
compatiYCI com aquelles suc.cessos, cmquanto n dr 1440 cs1:6
fora de ques1:ão, pelo simples facto de não podermos por modo
algum encerrar as suas vi3gens oo periodo decorrido de
alé então.
Em Zeila terminaram o que propriamente se podem cha·
mar as ,iagms dr Pedro da Co,·ilhan. D'alli penetrou na Abys·
sinia d'onde nunca mais saiu. Antes de o seguirmos n"aqucl·
las terras, podemos, pois, remaur este capitulo, transcrevendo
a relaçãO das suas viagens, tal qual not-a deixou Luiz de Ca-
mões, que as o facto capital do reinado de D. João n,
pois a nenhum outro se refere. De feito, celebrando os que
buscaram os trrmirws da ro.ra nenhum outro facto
podia ter a seus olhos egual importancia. 2
O que temos dito n'cs1:e c precedrntes capirulos dispensa-
nos dr qualquer commentario 4.5 mara\·ilhosas cstancias do
grandr poeta, ondr certamente se notam inexactidões e inver-
devidas a noticias incompletas e é liberdade da fonna
1
O p1dre Bal1hazar Telles i: um dos que fi:u esta dala de 14!)0, repe·
lida por muitos 0\ltros aem e:u.me ou discuss'fio.
:I A injualiça de omisaiio, que. poderia haver para com Bartholomeu
Diaa, I! reparada na earancla u.v, do Can1o v.

O ·seguime11to da viagtm tJB
em que escrevia; mas onde a 'verdade dos factos é em muitos
pontos cingida de perto.
LX
Porem despois que a escura noite eterna
Afonso aposentou no Ceo sereno,
O Principe que o reino então governa
Foi Joanne segundo, e Rei trezeno.
Este por haver fama sempiterna,
Mais do que tentar pode homem terreno
Tentou, que foi buscar da roxa Aurora
Os terminas, que eu vou buscando agora.
LXI
Manda seus mensageiros, que passaram
Hespanha, França, Italia celebrada ;
E lá no illustre porto se embarcaram,
Onde já foi Parthenope enterrada ;
Napoles, onde os factos se mostraram,
Fazendo-a a varias gentes sobjugada,
Pela illustrar no fim de tantos annos,
Co'o senhorio dos inclytos Hispanos.
LXII
Pelo mar alto Siculo navegam ;
Vão-se ás praias de Rhodes arenosas;
E d'alli ás ribeiras altas chegam,
Que com morte de Magno são f a ~ o s a s .
Vão a Memphis, e ás terras que se regam
Das enchentes Niloticas undosas ;
Sobem á Ethiopia, sobre Egypto,
Que de Christo lá guarda o sancto rito.
LXII i
Passam tambem as ondas Erythreas,
Que o povo de Israel sem nao passou ;
Ficam-lhe atraz as serras Nabatheas,
Que o filho de Ismael co 'o nome ornou.
As costas odoriferas Sabeas,
Que a mãe do helio Adonis tanto honrou,
Cercam, com toda a Arabia descoberta
F elix, deixando a Petrea, e a Deserta.
UIV
Eorram DO esua1o Pen.ico. oa.l...,..
DI coafua IW!el iao.l.l • ---a:
AJii co"o Tigc o f:arhn,tes R II!Uhln.
QIX as foales 0&Je DUCINJ.Icm J"OI' p.ia.
D"eDi no rm 4aD:mda • apa pura,
flor; causa iDda ICri. de l.rp
Do Indo. peles OOIJo do Occ-aoo,
Onde aio 1e aueveo paaar
L.W
t;mres iacognihls e estn:aha:s.
DI 41 Cllr'maaã. e Ged.ro&c:a.
Veado warioe costumes., Yana• maDlw ..
Q1X cada produae e cria.
Mas de rias Ião UIIII&Dba.
Tomar-1e facilmen1e. Dio po4ia:
U. eauim. e Li Jicanm;
Qae • desej•da patria 11io tomar-m.

..
CAPITULO V
No lado oriental da
Africa, tocando
C.:. as margens do mor
1: Vermelho, e entre pro-
,_imamente os paralle-
los de 16"' c s• le-
\"anta-sc um cnonne
--- massiço de montanhas,
Obtl1ac:o .se A•&ulll niridameme delimita-
do, a nâo ser talvez pelo lado de sudoeste, das terras baixos
que o circumdam. Alguns dos nossos escriptores chamaram
aquelln grande região a alta; e o qualificativo distin-
guia bem esta Ethiopia de outras, oricntaes c occidcntaes, que
então recebiam a mesma denominação geral. Chamaram-lhe
tambem Ab:xia ou Abassia, nome mais usado hoje na fórma
Abyssinis, e que por facilidade de exposição tomaremos como
synonymo de E1hiopia, posto que em rigor o não seja. •
• A expressiio Ethiopia 16 por vezes tomada em um sentii.lo maU lato
1
c diYidida esta ern Ab,·ssinia propriamente dna ao norte, e reino de Cho'
136 Pedro da Co1•iiiJa11
Bastante estreita ao norte, o região montanhosa vae alar·
gando para os lados do meio dia, onde, abstraiUndo agora das
de Kaffa e outra,., a podemos considerar limitada por
um grande arco de circulo; de modo, que a Ethiopia rem
approximadamenre na cana a forma geral de um sector. A aresta
principal d'esta região montanhosa é a que marca o seu limite
oriental; contigua quasi ao mar Vermelho em Massauá e na
bahia proxima da antiga Adulis, segue depois para o sul, sem
se afas(Br sensivelmente do meridiano, até se encurvar já no
reino de Cho4, 1 formando então o arco de circulo de que acima
falámo.s. As encostas d·esra .nresta, viradas a leste, levantam-se
abruptamente e em pendores subires de zona baixa e linoral do
mar Vermelho, attingindo rapidamente altitudes de 2::iloo a
2:700 metros; e em alguns sities os mais sur-
prehc:ndentes espectaculos, como succede. por exemplo, junto a
Magdala, a celebre fortaleza do rei Theodoros, onde as pare-
des naturaes de basalto siio conadas u pique em desnivela-
mentos de 1 :coo metros e mais. Ao subir esta encosta pelos
leitos seccos das torrentes, convertidos em caminhos na epoca
da estiagem, encontra se em cima o grande planalto da Ethio-
pio.
O nome é talvez mal npplicado, porque o planalto estA
bem longe de ser plano. especic de mesa superior, si-
tuada já a uma altitude media de 2:ooo metros, levantam-se
ainda altas montanhas graniticas, 3 trachyticas ou basalticas,
110 sul. Tambem pelos nomes de Etlliopia ou de Abyssinia se designou o
c:stodo ou imperio que alli se formou, c: cujos limites naturalmente se alte-
raram nos succeuivos periodos bisloracos, limitando-se a)&umss vezes :li
rcsião montanhou ou a perte d"ella
1
e alargando-se outras :ds terras bai11.11
visinhns.
1 Cho4 ou Chaua; os nossos portusuezes antigos escreviam seral-
mente Xaoa.
3 Esta constituiçlio geologka de olsumas pertes da Abyssinia jã roi
notsdo (152o-t.526) pelo padre Alvaru, posto que alie nio soubesse o que
era 8riJrtilu
1
nem o que era KeoiOIJIO.. Eis a sua phrase: •A peneilia de que
sio estas rochas tam o. sri dos muros do porto (Porto} de Portugsl ...•
Vt!rdo.d. i".forrnaftlm
1

Elhiopia a alta
que, por cll.cmplo, no. provincia do SJmen erguem as suas cu-
mia.Ja:-. c n 5:ouu metros. t De outro lado, todo o pla-
nalm C r:1sgadu por fundos vallciros, de margens abruptas e
profundis ... imas, no fundo dos quaes, durante a estação das
chuvas, as torrentes rolam as suas aguas espumosas, tornan-
do-os absolutamente intransiravejs. Estes valleiros, cavados
pela erosão das uguas, dividem a Ethiopia em fragmentos niti·
damcnte recortados e de descgual grandeza. A 's vezes, a parte
plana superior corresponde a urna vast.l provincia, com as
suas villa'i, su11s alde:as c os seus campos cultivados; ou-
uas, a planicie do rapo tem apenas alguns kilometros ou al-
gumas centenas de mcD"Os quadrados de supcrficie, e serve de
assento a uma pequena aldeia, ou a um convento com as suas
dependcncias; outras ainda pode ser convertida em prisão de
estado, ou abrir um refugio aos habitantes das terras visinhas,
que se acolhem ·ãquellas fortalezas naturaes, chamadas amhds,
cm cpocas de guerras civis, o que, de resto, aUi o estado
normal. O acccsso a csms ambds por vezes difficillimo; e
conta-se de um convento, estabelecido em uma d'ellas, que os
noviços, sujeitos é vertigem, não podiam voltar a casa, não se
atrevendo a seguir as sendas da rocha viva e cortada a pique,
por onde alli se penetrava.
Como· dissémos, a aresta principal de toda a região é a
oriental. A partir d'esta aresta, o enonne planalto da Abyssi-
nia, tomado cm geral c absuahindo das suas irregularidades,
tem um leve pendor no sentido .do occidentc. D'aqui resulta
uma das suas feições -a de pertencer todo hydrographica-
menlc é bacia do Nilo. Em quanto na vertente oriental, ape-
nas algumas torrentes insignificantes c intermitrentes se vão
perder nas areias do littoral, sem mesmo cm geral chegarem
ao mar Vermelho, todas as chuvas da enorme superficic de
apanhamento do planalto se escoam para o lado do occidenle
e vão engrossar as celebres cheias do Nilo.
' An1onio d'Abha.Jie indicava jl. de 4:6XS melros; e poste·
riormenle tem-se mencionado algumas sureriores, de 4:917 melros.
•I
.tJ8 Ja Covi/Mn
Ao norte, o poderoso T akazzé, recebendo pelos seus nume-
rosissimos affluentes as aguas da parte oriental do planaho,
e contomando as altissimas serras do SJmen, vae depois reu-
nir-se ao Atbara-o Astaborns dt: Ptolomeu-, que tambem
procede da Abyssinia, e segue pelos desertos arenosos do Su-
dan oriental até se vasar no Nilo, acima de Berber. Na região
central, o Abaui vae lançar-se ainda pequeno e modesto no
lago de Dembea, Tana ou Tsana, a que o nosso João de Bar-
ros chama Barcena (de Bahr Tsana). Simado a perto de
metros de altitude, e tendo perto de 3:ooo kilometros quadra-
dos de superficie, este lago de Dembea, com a planicie que o
rodeia, forma por assim dizer o centro physico da Abyssinia,
e nas suas proximidades se por vezes fixado tambem o
centro politico de todu aquclle paiz. Ao sair do lago, o Abaui,
j.t mais engrossado- contra a falsa opinião dos que dizem,
atravessa o lago sem miswrar as suas aguas com as
d'elle-, fórma uma enorme curva para sueste, contornando
todo o reino ou província de Godjam, que alguns dos nossos
padres Jesuítas quizeram identificar com a antiga e celebre ilha
de Mcroé. • Muda então de noll'le, e, sob o de Bahr-ei-Azraq,
o rio A.{ul ou Nilo Azul, vae unir as suas aguas azuladas ás
aguas mais leitosas do Bahr-ei-Abiad, o Nilo Branco, junto á
moderna Karthum.
Em tempos relativamente antigos- e digo relativamente,
porque em outros anteriores houve entre os portuguezes mais
correctas noções sobre o assumpto 2.- em tempos relativa-
mente amigos, quando se desconhecia a importancia do Bahr-
procuravam-se as do Nilo para estes lados do
Bahr-ci-Azraq. Os no5305 je.suitas portuguezcs visitaram varias
1 Vejam-se os mappa1 da Etlzinpiol a aftJ. do padre B. Telles; e tam-
hem o interessante mappa dos padres Manuel AHon1o Mendes,
Pero Paes e Jeronymo Lobo, ultimamente publicado pelo sr. Perruchon,
Bibl- de l"Êcolr pr.tiÜJUf! tlrs lzaute• EtuJrs, fascic. g3
1
Paris, IS.o3.
:a Veja-se, por exemplo, o map(ll de Duarte Lopes publl-
cndo por Pigafcua, onde a imponancia do ramo occidental do Nilo estA
perfeitamente indicada.
ElhiopitJ a alta r3g
vezes a nasceme do Abaui, a que chamam Nilo, e descrevem
grapbicamente os dois olhos da pequena lagoa, d·onde o regato
vem correndo •por debaixo da terra, mas de maneyra que
pcllas ervas verdes se conhece o curso que leva o fio da
agua.• • E ainda no fim do seculo passado, Bruce intitulava
.ss suas viagens na Abyssinia: Tra.J.'i!ls to discoJH!I" tl1e source o{
tl1e quando foram simplesmente á nasceme do Nilo Azul,
que, de resto, já estava descoberta. a
E' certo, no emtanto, que, se as fontes do Abaui não teem
· direito és honras de serem consideradas em absoluto as do
Nilo. todo este systema hydrographico do da Ethiopia
representa um papel imponamissimo no tão discutido c por
t • .mto tempo mal explicado phenomeno das cheias pcriodicas
do grande rio do Egypto.
Como é facil imaginar e prever, o relevo da Ethiopia tem
uma influencia consideravel no seu clima. Rodeado por alguns
dos paizes mais quentes do globo, c situado ao sul da Nubia
e do Sudan orier.tal, o planalto C, no emtanto, relutivamente
fresco. Ao sair da fornalha de .l\lassauá c terras proximas, e
depois de tr!i!par pelas sendas íngremes da encosta, encontra-se
em cima um novo clima e um novo mundo. l E, penetrando
• Tdles
1
Ethinpi.J tl alta, L.a,cap. 5.•-A descripçio de um moder-
no Yiajantc, o dr. Beke
1
concor<la sin,gularmente com estas palavras r!o
nouo escriplor: •.1\t first ii w.as sc.1n:cly distinguished from thc rest of
the mnrsh; but on appronching and it more dosei)" a small
collection of water about a foot in diamc1er was visible nmong lhe Nl·
hes .• RuiiiL'5 in Ahy3SIIIIa, em J. U. G. S. llll44l pag, 12.
2 No en1husissmo por haver visi1a.J.o a nascenle do Nilo, e haver
bebido da sua agu.::a A suude de Georges m, Bruce nega que os portuguezes
a .::onhecessem e o padre Tclles 11 meodone -o que proYasimplesmente
que o nlo leu ou o não quiz ler com attenção. Um compatriota de Bru.::e
e tambem illus1re viajante na Abyssinia.. o dr. Reke
1
citado na nota ame-
cedente, rcconhe .. --c
1
que estas lentatiYas de Bruce para obscurecer a fama
dos seus predeccnorcs serõo sempre uma triste nodoa {tr sa4 hlor) na sua
rcputaçlo.
l Diffcrença ncertadamenle nolacla pelos on1igos porluguezes : • ... e
como fomos encima descobrimos muy srandes cãpinas, e tcrn muy cbão,
e muy fria, e de muy bós ares e asua muy claras e boaL•; Miguel de Cu-
140
aioda um pooco para o interior, chegando 4s plll'te§ mllis .Jtas
da ou terra fria. vEcm-sc ao claro sol dos uopicos as
montanhu raiadas pcl1s manchas nsplandecentcs da neve.
que cm pane!'. pode persistir duranrc rodo o anno. • E" «rto
que, nu dq>R'Uiks fundas dos rios c corrc:gos, na chamada
kwltJ, se \--olta a experimentar o mais intcaso c abafado calor.
Enrrc estes cxucmos, entre a fria c a kullltl incandes-
cente, o Rcral do planalto ou a«irra dtJNJ lcm um clima com-,
paravel com o da nossa Europa meridional em algumas das
auas (c;çõcs. Poucas semanas de pcrmanencia no planalto são
por vezes aufficiciltcs para rc!!lrituir as forças aos europeus, de-
bilitados pelas longas estações nos po:-tos do mar Vermelho.
A vegctacão tambem alli cm pane o typo tropical,
para tomar feições cspcciaes. A cultura da vinha, :1. como a cui-
IUra dos cercaes, é possível c proficua. Encontram-se la1·ouras
de rrigo c de cevada, assim como de outras gramincas. o sor-
gho, o e o locWJo, largamente empregadas no fabrico de
pão, e no de bebidas fennentadas. Ao lado de fónnas ab5oluta-
mcnte novas e estranhas, como era, por o singut:ll"
lfllolfuol, os nossos ponuguczcs notaram e prescnca de plantas
que lhes· pareceram familiares, nomeadamente a abundancia
de zambujeiros. 3 Em outras partes, vastas florestas de z.im-
441 COUSIU t:IC.
1
oos rrimprmUJ pela Ac. R.
das Se. de Lisboa.
• A da neve nu monunb..u da AbyuiDia. Jli mencionada
na inacr:ipção de AJulis do tempo dos P10lorneus. roi depo•s [le(tada ror
118Uill viajantea, por Bruce eoue outros. NoJcrnamentc, porêm, muilos a
teem wu.to, como Abargues de Sosten, e Theodoro Benl.
Esu cultun est' abandonada ha muito, a ponto de nem hawcr winho
para as mi11aa; mas por motivos independentes do clima, e que se pren-
dem i pouca segurança de proprjedade e outns causas ruramente poli-
licas..
:t •A tem lora d"estaa rochas. toda l: cubena de mui grandes arTOrc·
dot, 01 demais ... •: Alwarcs, V .. rda4. iflfvrmDfam, 9· -Na
realidade nlo slo zambajeiros
1
mas uma espccie proxim.a
1
a 0/Pa dry·
•oplryll11.
Elhiopia a alia
bros cobriam as encostas das momanhas, dando-lhes uma ap·
parcncia septemtrional.
A salubridade d'estc nr vivo dn montanhn c fe!rtilidade
de algumas das terras do planolto explicam-nos em parte
como os povos, que alli se fixnram, podcram chegar a. um grau
Je relativa civilisa.ção, mais e rapidamente do que ouuos
que, na mesma Africa, lucravam com a aridez do deserto, ou
com a acçio deprimente da floresta pantanosa. E o relevo de
[Oda a regi5o explica-nos, por outro lado, o seu isolamento du-
rante ce111:enos e centenas de annos.. N"aquella especie de enorme
fortaleza natural, guardada de todos os lados por encostas abru-
rtas c fragosas, mal podiam penetrar as influencias exteriores.
Successos, que revolucionaram os plainas vizinhos, como fo-
ram, por e.xemplo, as conquistas da lslam, vie!ram quebrar-se
de encontro ás bases das suas montanhas, á maneira por que
as ondas se quebram nas arribas de uma ilha pedregosa.
E' certo, no emtanto, que nas origens a população da Ethio-
pia deveu 9. sua formação a immigraçóes successivas de raças
diversas, que de fura se vieram fix.ar e até certo ponto misturar
no 5CU solo. Disse-se mesmo, que o nome de Habech, d'ondc
Abassia e Abyssinia, procedia d'esta mistura, posto qlle se
lhe possa dor outra explicação. 1 Aos habitantes primitivos,
provavelmente de pura raça negra, e analogos aos selvagens
Changala que ainda habitam nas visinha11ças, veiu sobrepôr-
se em epocas remotissimas um povo de raça cuctüta, hamiti-
ca, proto-semirica, ou como melhor lhe quizerem chamar, de
que os Agau, em parte pagãos, e os Felacha, judeus pela
religião, seriam ainda hoje os representantes mais ou meno5
puros. E sobre este povo veiu implantar-se, dominando-o, uma
invasão de raça semiti.:a, procedente do sul da Arabia, e en·
trada na Abyssinia em epocas tambem remotas. :a
1 •Habeah colluviem vel mixruram denotal.• Ludolr, Hi11oria.
.F.Ihiopil·a, L. 1, cap. 1.•- Veja 1e ourn explicação da palavra Habashat,
dada pelo d..-. MUller, cm Bent, Satr,•d ciO" ofthr! Etl1iopians,p.g.. -aofl) e
SCf!f!·• London, 1893-
:a Esta eDtrado. dos semitas na Ethiopia, aiada ha pouco çonaidertdll
Pedro da CoJIJ1han
Quaesquer que sejam as duvidas, que ainda subsistam
;\cerca de pontos secundarias, o faclo capital da origem semí-
tica da antiga civilisação da Ethiopia parece definitivamente
.adquirido. Aquclla civilisação, como a língua classica c sa-
grada dos abexins, o geez:, como as línguas ainda hoje falia-
das, o amarinha e o tigrinha, tem as suas raizes nas margens
orientaes do mar Vermelho. Os mesmos povos, que cstabclc-
cCram no sul da Arabia as monarchias sabeas ou himyariticas,
vieram estabelecer nos planaltos da Ethiopia a poderosa mo-
narchia de Aksum, que parece ter chegado aos seus tempos
aureos nos primeiros seculos da nossa era. O soberano da
Erhiopia intitulava-se então pomposamenre Rei de Aksum. de
Homer, de Raydan, de Habaset, de Saba, de Silh, de Tiyam,
de Kas, de Bcga, Rei dos Reis. 1 E os seus domínios eram
muitíssimo mais não sn que a Abyssinia actual, mas
mesmo que a Abyssinia da EJade media, ainda granJe e po-
derosa. O imperio aksumita extendeu-!<>e n'aquelles antigos
tempos a muitas terras baixas em volta do planalto, ao litto-
ral do mar Vermelho, e 4 Ar.tbia meridional, donde prece·
dia a sua raca.
Em contacto, então ma:s facil, com o mundo exterior pe-
los seus portos de Adulis c: outros, a Ethiopia não ficou es-
tranha 4 cultura hellcnica, que parece sobretudo ter penetrado
alli por intermedio do Egypto grego, e cm tempos dos Ptolo-
meus. 2 Durante alguns scculos, aquelle remoto pa1z esteve cm
como podendo ter tido Jogar no primeiro seeulo da nossa era, ou pouco
antes, deve ser muito anterior. As inscripções himyariticas, encontradas
recentemente em Yeha pelo sr. T. Bent, e estudadas pelo dr. MUller, rarc-
cem pela natureza dos canctere5 renem:::er ao primeiro pcriodo, denomi-
nado MukrJIJ, e portanto ao vm ou Yll seculo llntcs de Christo.
r Na inscripção bilingue, grega e himy11rit1ca
1
de Aksum, e em inscri-
pções posteriores em geez da mesma Aksum; Yeja-se o estudo d'cstas
pelo d1·. MUller, cm Dent, Sarrc-d cily of llle Etluopians, JlD.f;.
2l7 e segg.
= Veja-se a inscripção srcp.:1 de Abum, cm Dent,l. c.; u inscripÇao
srega de Adulls, em Cosmas
1
Topographia C.11ri.Jiiana, ap. Montfaucon
Ethiopia a alta
relações mais ou menos seguidas e frequentes com as grandes
potencias da região mediterranea. Sabemos de uma embai-
:xeda, que alli mandou o imperador Constantino

c de ou-
tra, uns dois seculos depois {533), enviada pelo imperador
Justiniano. Este procurava a allianç..t politica do grande rei da
Ethiopia, e tentava tombem restabelecer por alli a corrence do
commercio oriental, sobretudo do imponante commercio do
seda, interrompida pelas suas longas guerras com a Persia.
l"m de Justiniano, chamado Nonnosus, foi do
porto de Adulis por Ave ou Ava aos campos deAksum,onde
o rei ou imperador ethiope o recebeu com um apParato bar-
bara mas deslumbrante. •
A ene longo e brilhante periodo da historia ethiopica per-
tencem as curiosas ruinas de Aksum: a inscripção himyaritica
c grega ; as inscripções geez i as linhas ou renques de pedes-
taes, sobre que assentavam estatuas de metaes preciosos ; 11
serie de obeliscos de diversas c:pocas, desde os monolithos
grosseiros ate! aos cuidadosa e artisticamente lavrados, re-
present.mdo castellos em andares, co:n a porta fingida na
base. 2 Sobre aquellas ruinas passaram seculos e seculos de
relativa borbaria; mas a pedra conservou-nos até hoje indclevel
a marca da remota civilisaçfo.
Se ás informações, seguras aindn q JC fragmentarias e con-
fusas, derivadas de algumas rcfcrenctas historicas, e sobre-
tudo dos modernos estudos de epigruphia, nos procurarmos
um complemento nas tradicões e nos codiccs ethiopicos, en-
contramos noticias muito mais claras, completas e concate-
nadas; mas infelizmente tambem muito mais sujeitas a duvi-
Collectio noy.:z P.tlriii/J
1
1r, 141 i c Vivicn de S1. Martm,
sur l'irmriptior1 d"Adulil.
• Sobre • de Nonnosus veja-se Procopius, B,•lfo per-sico_
1, -.&o, edição de Niebuhr i e Phoui Myriobitlo11, 6
1
edição de t6.51; lambem
Gibbon, hist. o/ tht' dt.'c!lrtf: .arad j12/l of tl1e Romar1 Empirt.'
1
cap. 42.•
'Veja--se Benl
1
The s.:cred dty
1
pag. 1S2.- E' curioso comparar aa
duas descripções das ruinas de Aksum; do padre AIYarcs (i52o-•5ali) e
do sr. Theodoro Bent (•&Jl).
I#
das. Coaaudo i Dcccs.ario ru.onlal-u brnCIDC:Dte, paU., alem
de indi!.c:utinlmcntc um JVandc fundo de •crdade.
te tomanm por &Mim dizer cJas.sius, sido admmidu
pralmc1Uc, e cm especial pelos 005505 cscriprora portu-
IUCZC.S.
Scsundo aqutJI.as tradicõcs, a cclcbn:: nioha de Sab' do
VclhD Tatamcruo, a railllra do 5111 do EniJ8dhO de S.. Alat-
theu.s, era uma Ethiopia. chamada Makcdâ. At-
uüida pda fama das riquezas, poJcr e. sabedoria de Saio-
mio, intenwu "' mscm do seu planalto abyasinico • Jcrusa-
lcm, d"ondc Yo1tou, nclarccida pelos conselhos do sabio Rei
c sravida de um filho, que nasceu já na Abyssinia, c se cha-
mou Mcmlck ou Ebnn-ci-H.a1-;im. • Makcdll maadou. porl!m,
aqucllc filho a Jcrusalem, onde Salomão o olueou, enviando-o
nuis urde para a Abyssin ia, accompanhado por um graadc
aequito. e aawado rei. :a
A csla de a Jcrwalem
1
e ao reinado de
Menilck, filho de Salomão, se deveria a conversão da Ethio-
pia 4 religião judaica, c algumas das suas prim:itivas insritui-
çõeJ, como o estabelecimc=nto de= doze juizes supremos rira-
dos das doze uibus de= Israel, a que exclue do throno as mu-
lhc=res e fixa a succ.C's:são nos herddros por linha masculina
de Salomão, c outras.
A Mcnilck succederam numerosos dc=scendentes legitimas,
1 l1t0 l D filho do JDbiu; nome arobico pro'fll que a lenda deve
aer da orisera e•lerior.
' Sobre 11 lenda ethiopica da rainha de Sob4, veja-se Alvans, Veol"'4a4.
lfljor1Mf12111
1
C'ap. 36.•, pag. 3J da oed. de Barros, AJia,1n, 1v, :aoTel-
lea, E1luopia a alta, L . ., cap. :aS.• e 26.•. e egualmente a curiosa discussio
n1 carta do Patriarcila da Ethiopia
1
D. Affonso Mendes, que lhe anda an-
ncaa; Hut .. F.tlriopictz, L. 11, cap. 3.•o Bruce, Trallt!11
1
1
1
471: R.
Ba11e1, Erud. Jur l'ht.•l . .f'Ethioptr-, pof:. :a•3-Esta lenda wem detida-
mente contada no NagaJI (gloria doJ rril) umo espede de romance
llistorico de sranda antiguidade Excuso dizer, que Diio li o
J,.,•bro'J NagDsl, que nlo esd lrad'-liEiJo o ma!> nem me.,mo os capitulo• rc-
laliYol a Makedi'l, f'abui.J dr RrHillil SaM H apud
Etlliupr., e cm 18jiO-
Ethiopia 11114
dos quacs existem nos codices elhiopicos varie liste, discre-
pantes em alguns pontos mas concordes em geral, e assentan-
do evidentemente na sU"l generalidade em factos reaes. 1
Esta serie de reis leva-nos, sem successo que na nossa ra-
pidissima revista seja neccssario contar, até ao reinado de dois
irmãos, chamados Abrehâ c Asbehâ, em que, no anno de 333
da nossa era, se diz ter entrado na Abyssinia a re(jgião chris-
tã. Anribue-se geralmente a conversão da Ethiopia a Frumen-
cio, chamado pelo! cthiopes Frementes ou Abbã SaHlm.ft, e
sagrado bispo d'aquelle paiz por Santo Athanasio, patriarcha de
Alexandria.
A historia um tanto romanesca de Frumenc1o, da sua in-
fancia, viagem, naufragio c captiveiro, é demasiado longa para
a referirmos n'cste logar; e, de resto, encontra-se detidamcDte
narrada no livro do padre Balthazar Telh:s e em varios outros.
Pelo que diz respeito ao ponto essencial, á parte que elle to-
mou na rapida conversão da Ethiopia, devemos dizer, que os
escriptos ethiopicos, o Synaxan·o e outros, são notavelmente
concordes com os antigos authores christãos do Oriente e Oc-
cidente. 2 No emtanto, e apezar d•aquella concordancia, um
facto unico, mas capital, veiu recentemente lançar grandes du-
vidas sobre este ponto, ainda ha pouco assente, da historia
ethiopica. Um rei de Aksum, que parece ter sido Tazen.il, fi-
lho de Ela-Amida ou AI-Améda. bastante posterior a AbrebG
c AsbeM, mandou gravar duas inscripç6es em geez, que
ainda existem e já fôram copiadas ha annos por Rüppel e por
Abbadic, mas de que T. Bent tirou ultimamente im-
1 Uma das primeiros publicadiS
1
Cllllraloxus rtgum e atai.
buida a Damião de Goes, foi iwerida ma HiJpania 11/wtrata, u, 127Bi ve-
ia-se tllmbem Tellea, Et/Uopia a Glta.-Sobre as mais recentemente eaua-
hidas dos codices ethlopicos, por Bruce, Salt, Dillmann, veja-se Basset,
.sur l'lli11. pag. 21 S.
O estudo da concordancia das noticia&, tiradas de fontes ethiopicaa,
com o que disseram os antigos escriptores Ruffino
1
Socratea, Soaomcoo,
Tbeodoreto e o cardeal Baronio
1
jt foi detidamente feito pelo pedre Tel-
lea, Ethiopia a alta, L. r, cap. :aS.•, :ag.• e 3o.•
••
t.,ti
preasõe• eucw, sobre as quaes o dr. MU!kr p3d< fazer uma
aova tr.aducção. N'aqucUa.s inscripç&s. o rei, além de se inti-
tular fiJho do in"Yicto Mabram (Ares ou Marte), DOmcia inwoca
diYindades diYtrsas
1
d'oade forçosamente se conclue. que cUc
stguia ainda o antigo paganismo sablo, com alguma influen-
cia tamban do classico paganismo hcllcnico. Em roda a ins-
cripção, segundo a opinião do d:r. Muller, não ha vestígio al-
gum de crcoç.a monotheislica, quer judaica, quer christi. 1
Sendo isto assim, fica naturalmente fóra de questão a ideia de
que a Ethi.opia c os seus reis profcssescm a religião judaica
antes da inb'Oducção do cbristianismo; 2 c dcvcriamos um-
bem retardar de um ou dois seculos a cn1rada da nossa reli-
gião nas terras abyssinicas. E' possivel, que Frumencio cDs-
risse, c fizcs5c alli algumas conversões no IV scculo; mas a ado--
pção do christianismo pelo rei c pela população cm musa só
pódc hanr tido logar mais tarde. Em todo o caso não mUito
mais tarde, pois nos fins do VI c no vu seculo a Ethiopia era
já um paiz christão.
Passando cm silencio muitos successos imponantes, por
isso que não tentamos escrever um resumo da lüstoria elhio-
pica, nem coisa com isso parecida, devemos, no emtanto,
mencionar a revolução que, no x scculo, laocou fóra do thro--
no a dynastia chamada de Salomão, c lhe subsriruiu os Zft-
gués, os quaes - segundo diz a cbronica ethiopica - •não
enm israelitas•. 3 Parece ter sido iniciada por uma revolta
dos Agau c dos Fclacha judeus contra a raça scmirica do-
minante ; c capitaneada por uma mulher, chamada Esthrr
• MUller, em Bent, I. c. s56 e segg.
:a Facto nes-do jlli anteriormente pelo eminente orienllllista Halevy,
fundindo-se em argumentos diversos.
:J Vei••e a traducção de R. Dasser, I. c. pag. g8.-A • •
pica de que se trata, foi publicada pelo Ir. Basset, nos swr
l'lrisroi,.e d'Étlriopie, ta:sto sce.z: e traduççio fnnceu, segundo o
plo n.• 142. d.l Bibl. nacional de P.aris. Ene mss. pereçc ser uma compi-
llçlo de documentos mais antisos, feitiR no principio e mei1dos do scculo
pusado.
Elhiopia a dlta
147
ou Judith, tambem designada pela alcunha de Esat (o fogo),
a qual effectivamente poz tudo a fogo e a sangue. •
Este dominio dos judeus deve, no emtanto, ter sido curto,
sendo elles logo substituidos por príncipes, usurpadores na ver-
dade, mas zelosos christãos. O mais notavel rei d'esta dynastie
dos Zâgués foi sem duvida LâJibah1, um grande constructor de
cgrejas, a quem se devem os notaveis templos, excavados na ro-
cha, nos quaes- segundo se diz- trabalharam muitos
rios christios coptos, fugidos do Egypto é oppressfio mabome-
tana. Estavam ainda em perfeito estado .Je conservação quando
D. Rodrigo de Lima foi á Ethiopia, e ao nosso padre Francisco
Alvares devemos a primeira descripçfio d'aquelles curiosos
templos. :z E' tambem LJ.libalâ o príncipe a quem se attribue
o projecto de desviar o curso do Nilo, fazendo cessar as tão
necessarias cheias, e reduzindo assim .t miseria o Egypto ma-
hometano. Disse-se mesmo, que elle havia começado a execu-
tai-o, e só desistira do seu intemo aos rogos do patriarcha de
Alexandria 1\tikhail, ou Miguel. O erudito Ludolf ainda parece
acreditar n'esta velha historia, pcsto que houvesse lido a Ethio-
pia a .Jlta, onde o padre Telles indica muito clara c sensata-
mente todas as impossibilidad-es materiaes d'este grandio11o
• Os judeus Fel•cb• occupav•m então em grande numero •• monta-
nhali do Sàmen, Jo Lalita e outrss, sendo governados por um rei e uma
rainha, que se chamawam sempre Gedelo e Judith. All!m d'isso, havit.m
sido relorçados n'aquelle tempo por immigrações de correligionarios, fu-
Bidos 's perseguições que solfriam em paizes visinhos. A phn5e da ebro-
nica, •não eram israelitas•, signi6c• pois simplesmente, que não pertCD·
cem ' dynastia israelita, ou de Salornlo
1
sem referencia ' religilo.
1 •Hüa jornada d'esta igreJa de lmbra.Chrino, e!ltam edificios hosquaea
me puecem que no mundo se poss•m achar outros taes e cantos, e sam
de ipju todas ca\'adas em pedras muy be lavradas : e hos nomea destas
igrejas alo este,;, Emanuel, S.lvador
1
aiita Maria, slca Cruz. si Jorge,
Go1Bota
1
Bele, Marcoreos, Hos Marteres, Ha principal he Lallbela. Eca
La.libela dizem que foi rei na mesma terra oitenta annos ... •; AJvares,
Vrr4o:ut. iqformaçam. pag. 58 e -E" admissivel, que estes tem-
plo• sejam muito anceriores, e apenas apropriados e con11grados ao culto
ehristlo no tCDJ.po de Lilibali.
Pt-àro da Cov1/lwn
projecto, que depois seduziu o animo, grandioso tambem, de
Affonso de Albuquerque. 1
Durante os trezentos e cincoenta e tantos annos, em que os
Zclgués occuparam o throno da AbyssiniJt, a famllia legitima
de Salomão, procedente de um principe, escapado aos massa-
cres ordenados pela sanguinarla Esat
1
esteve refugiada na pro;
vincia ou reino de Choá, que: se lhe conservou fiel. E d'alli,
no armo de 1268, foi restituida pacificamente ao imperio de
todo o paiz_ pela intervençio do monge Takla-Hôimãnot (a
plarlla da fi). 2 Este fundador do convento de Dabra
Libanos (a montanha da LiNno) no Choi e de muitos outros,
11!, depois de Abbâ Salàmâ. o santo mais venerado da Egreja
abexim, e parece ter sido effectivamente um homem de vida
austera e notavel valor. Pela sua influencia, puramente religiosa
e moral, conseguiu restabelecer no throno a dynastia legitima
c reformar em muitos pontos a Egreja ethiopica, da qual ainda
hoje uma parte segue 4 risca as suas doutrinas.
Ao rei legitimo, restabelecido por Takla Hâimânot, succe-
deram outros, tendo reinado! por vezes felizes e sJ.oriosos,
entre os quaes merece especial menção o de Amda Syon
(1312·1342)
1
o qual alargou muito os limites do imperio chris-
tio e foi o terror dos musulmanos, que jé então rodeavam por
todos os lados o planalto da Ethiopia. Devemos, no emtanto,
passar ainda em silencio estes succcssos, para chegarmos ra-
pidamente a Zara \'"Aeqôb (a semenle de Jacob) ou Quas·
• Ludolf, Hist •• -E:IIIiopica, 1.. 1
1
cap. 8.•; Tel1111
1
Etlriopia 11111M
1
L a,
cap. 7.•; Commenlllrios do gr.:mde ..w-oiUo Parte 1v
1
cap.
7.•-Veja-se tambem a discussio d'esta no traductor do nosao
padre Jeronymo Lobo, o abbade Le!raD4
1
Rt.'iariort Histori9ue d' AbWi-
e em Bruce,

1, Sz!J·
I Date fixada por Bruce

rr
1
1)
1
e eooftrmada pelas relaçõe1
anbicas cootemporaneas (Ballet. Étutks, 2:!2).- O patriarcha. D. Alfonso
Mendes (cilado por Telles. Etlliopid G alta, L r, cap. 33.•) colloca a vida
de Takla Hàimiioot seisceotos II.DDOsantes, erro em que incorreu tambem
l..udolf (Hin • • -E:&h.
1
L. m
1
cap. 3.•); ou talyez ex.istissem dois mooges do
meamo nome, que, de t baatantc commWII.Ila Abyuinia.
Etlliopia d alia
tantinos (Constantino), • o qua1 occupou o throno da Abyssi-
nia trinta c quatro annos (1434-1468).
Apprmuma-se jd. o momento em que os portuguezes vão
intervir directa e activamente nos negocias da Ettüopia, abrin ..
do um dos mais interessantes- para nós o mais interessante
-capitules da sua historia; c devemos narrar um pouco mais
detidamente os successos que se seguem. pois começam a li-
gar-se de perto com o nosso assumpto.
O longu reinado de Zara Y âeqõb C nota1.·el por muitas ra-
slies; e elle foi um zelosissimo chmllão, e um homem de altas
qualidades, mas cm extremo duro. Deixou por i!so uma me-
moria diversamente apreciada, como diz o padre Manuel d" Al-
meida; •. • • os mais de Ethiopia ti!! a este emperador Zara
Jacob por outro Nero, e o condeDão como tyrano cruel 'e per-
verso, posto que outros o escuzão com o zelo da honra de
Deus c da justiça, dizendo que este fora o seu intento•- 2
O que principa1mente deu a Zara Yél.eqôb a repmação de
•outro Nero•, foi a violenta perseguição religiosa, ctirigida
contra todos os SUSpeitos de praticas pagans, que perturbou
c ensanguentou o começo do seu reinado. Aquella perseguição,
cm que o rei não poupou mesmo a sua familia, morrendo ás
mãos do algoz dois dos seus genros, c alguns dos seus filhos
e filhas, lançou um profundo terror entre os povos da Etbio-
• Totlos os soberanos da Abys.sinia tCem dois nomes e lis vezes Ires.
Ao subirem ao throno lomavam sempre um novo nome, e a escolha fa-
zia-se por um processo bastante primiti'lo : escreviam·se Ires nomes em
tres pausinhos, e depois llrava-se um d'cUcs li sorte.
, Veja4e Perruc:hon, L!• cllron. Zar'll YoJ .. Btll"4a M.i-
,.y.im, pag. na Bibl. des HauleJ Étutlf!'s, Puis, O manuscriplo
do p1dre Marwel d"Aimeida
1
pelo qual principalmente o p1dre B. Telles
escreveu a Ethiopia d aZia, existe no Bri1isb Museum
1
sob o n.• tJl!or, e
d'elle extrahiu o sr. Perruchon o Jongo lrecho que publicou.- De .pusa-
gem diremos, que o gonmo pres1aria um relevante serviço As leural por-
ruguezas, mandllfJdo tirar uma copia do manuscripto, p1la qual se fizesse
a publicaçiio da importante obra do padre Alme1da, da qual o livro do
padre TeUcsl! apenas um pallido reflexo, d'isso pelos rç-
quintcs do estylo seiscentista.
piL•Z..Y .... ,_.,. _ _. _ _._..,._.
---......

.,__-... ·Do Par. ... filio c ... E.põoo s-.. c
---·--------a.;,..,-
c--o;dopôlr.SO ...... .. ,.&a.-wir
do---."'''C'Ji--cau<do __ _
plbao do rá; c ele pllprio DOt c.oau. cm ...
c..omo 01 -*'n:llot .anes cm c pi:. ca-
-.-so·-....... •
""--portm,--. ....... - ..
......................
- ....-. riolaoóa ....................... - • ._.
-· ....... o-do aprioD.SOrci-- i Doil.-
do-.,...; a • ·,mm: ... - rdipoooo, c-=
am·
IJI'IIÕOao;io ......... _ abcdecmdo 00 ....... -
--apirioo .. .,..S.... ....
......--.. .... dislriaao. c-.-.............,.
- priDáp<s.- ú-4a .... - Empe-
....... Ulllbcaa c:a:. ....-r, c IDC:MDO ..... as froaiiES'as da
Edliopo, _.. cmio.,... ....... .......
••- •
.. ..
ar-. M Z.e'• Y.i"11'. ,..4- EJie -.ror pnll pnrn.- .... --
• .ma.-- apAidras•pn:lila.,.... de ........ ....
---
...
• • •
• • W-

UN.J.-.
• a:r-..,.. ... 4Dt4L
'S...ilaurdeMI'....._; ....
- ....,..._ Cdridos). a....,. a v...- • •
.......... ...
,.. ._.-.lar ew11r a IOCiol o auil • a.AIIpL
Etlliopi4 a alta 151
A onda da conquista e proselytismo musulmano continuava
a crescer, rodeando, como uma rnarl! que sóbe. todo o planai·
to. Pelo lado de leste e do sul, as terras de Afar e de Harar
ao longo do mar Vermelho e do golfo de Aden haviam-se
tornado completamente musulmanas. Alli se estabelecera o
grande e secular inimigo da Ethiopia, o reino mouro de Adel,
ds vezes impropriamente chamado de Zeila, que um seculo
depois esteve a ponto de invadir todo o planalto c só recuou
deante das armas portuguezas. Nos confins d'este reino de
Adel, a AbyssirUa possuia diversas provindas ou reinos, situa-
dos já nas terras relativamente baixas, para lá dos contrafortes
do Choá, como eram os chamados reinos de Fategar, de Doa-
ra, de Bali e outros. 1 Pertenciam nominalmente ll Abyssinia,
mas habitados em grande parte por musulmanos, aiTedados
dos centros de acção do seu soberano, perturbados por amiu-
dadas revoltas, rompiam frequentemente os frouxos laços, que
ainda os Ulliam ao imperio christão. Para este lado voltou por
vezes Zara Yõieqôb as suas annas, e, sem entrarmos na dcs.
cripdio das suas opcraç6cs militares, devemos dizer que elle
manifestou notaveis qualidades de commando c de valor pes..
soai, reduzindo a mais restricta obediencia algumas d'aquellas
provincias.
Mas o que sobretudo nos interessa n"este reinado, é oco-
meço de relações com o mundo exterior e occidental. Havia
quasi dez seculos, que a Abyssinia estava isolada, esquecida
do muDdo e esquecendo o mundo. Conservava apenas as suas
relaçl5es, por assim c:lizer officiaes, com a Egreja de Alexandria,
a que logo teremos de nos referir mais dehdamente; e con-
servava tambem algum contacto com a cidade santa de Jeru-
salem, onde existia um convento abexim, onde iam a miudo
os seus peregrinos, e por onde alguns vagos rumores acerca
das christandadcs cthiopitas e do seu mysterioso e poderoso
imperador chegavam de quando em quando aos ouvidos dos
christãos da Europa. Zara Y âeqôb, que era, como vimos, um
'Ci[o na onhographil genlmente 111Rda pelos escriptore& portugue:.ea.
Pedro da Covil1um
zeloso christão, c um esp1rito relativamente esclarecido, quando
o não oftuscava o fanatismo, parece ter apef[ado muito essas
relações com Jerusalem c com o convento abcxirn de Gethse-
m:mi. Sabemos que lhe dirigiu uma carra, mandando-lhe as
\"crsões ethiopicas de muitos livros sagrados ou relativos a ma-
terias de fé: cento e vinte e sete canons do.s Apostoles, trinta
e oito canons do papa Hippolyto, os canons dos concilio.s de
NicEa, Ancyra, e outros admiuidos pela Egreja da Ethiopia. 1
E, no seu tempo, foram mandados d'aquelle convento delega-
dos ao concilio de Florença, provavelmente por ordem sua,
posto que alguns digam terem sido en\'iados unicamente por
iniciativa do superior Nicodémos.
O concilio de Florença, reumdo pelo papa Eugenio 1\' no
anno de 14J9, tmha o fim e!õpecial de tentar a conciliaçio
entre a Egreja grega e a latina, debatendo a questão da pro-
cessão do Espirita Santo, a da introducçio no Symbolo dos
Apostoles dos palavras e omras que as dividiam. A
este concilio assistiu o imperador João Paleologo, os represen-
tantes da Egreja grega com o patriarcha de Constantinopla. e
delegados de ouuas Egrejns orientaes, armenios e abexins. Es-
tes ultimes acharam-se assim em contacto com os membros
da Egreja occidental. O seu aspecto, a sua cõr, a sua língua
estranha, deviam aurahir ns anenç5es; e escutavam-se com cu-
riosidade e interesse as noticias que elles davam da sua dis·
tante e mal sabida patria. :: O conhecido secretario de Eugenio
'""• o florentino Poggio Bracciolini, incluiu no seu livro Histo-
ria de paritlale forlu'll1'. pane d"estas noticias. Em seguida á
relação da viagem de Nicolo di Conti, que elle escreveu por
ordem do papa, conta varias particularidades da Ethiopia
1
do
rio Nilo e do seu curso :superior, obtidas -segundo elle pro-
prio djz- de pessoas vindas d"aquellas terras ao papa para
• Hist. L. w, cap. 1v; e Com,nmr. 11d. hist • .IElhiop.
pagg. lo1 a l4o; Basset
1
pas. 244-
2 Esla vinda dos abn:ins ao concilio julgou-se bastante interessante
par. str mencionada no epitaphio de Eugenio IY.
EtiJiopia a alta
tratar questões relativas é fé. • Rdere-se evidentemente a es-
padres abexins, "iodos ao concilio ; ou a outros, que logo
depois chegaram a Roma, vindos tambem d"aquelles lados. 2
E" certo, pois, que o concilio de Florença marca uma data
nas relaç6es da Abyssmia com o mundo occidental, relações
que depois se mantiveram com mais alguma regularidade, pa-
recendo, que se deve collocar por este mesmo tempo a funda-
ção do convento abexim de Roma, em S. Stefano in Rolun-
dis.
De outro lado, tambem a Abyssinia começou a ter então
mais frequentes noticias da Europa. Logo em seguida ao con-
cilio, Eugenio IV mandou a Zara Y!cqôb alguns legados seus,
chamados Tbeodoro, Pedro, Di dymo e Jorge, com uma carta
&!!sim dirigida : • •.. filio dz1ecto nostro Regi ex semine Jacob,
Regr." Regum irr uniwrsa . •• • N"essa carta, conta-
va-lhe detidamente o que se passlira no concilip, mandando-
lhe a sua bençio. l E sabemos lambem de alguns christãos
1 Cito pela versto ir1gleza de Major (lr1ilia in lht' fiftenrth na
parte Travd.r of Nico1o PIIB• 3.d. Na venio portugueza de Valen1im
Fernandes. impresu. em Lisboa .tiO anno de 1502
0
em seguida i
da viasem de Marco Polo, e com o titulo: Come:roJse o liwo de Ve-
'lleto,pello mllly eloguért' orador Poj;IO florenlim •• • , encontra-se c r. 93 ... •)
esta parte relativa i Ethiopia, começando assim : •Quasi em aij:Uc têpo
vierõ buil:s outros homl!'s ao radre saccto di! Ethyopia por rasõ da r1011a
ffc .•.•. Esta parte fui, porim
1
SuPPrimida na versioitaliana de Ramullio.
:. Ciaconio (Vita: et r,·s Pomffo:um,n, 8u) d• noticia dos abe-
Uas que vieram .ao concilio: •Quo tcrnpore pcnencruat ora1orc1 ex Ar-
menia et .JEthiopia, subdentes se Pontifice et consilio .•.•. Fala depoi•
de outros que vieram llmbem d'aquelles lados: •Anno 1441
1
die 10 Octo-
bris. Abbas S. Antonii in .k:gypto
1
rir insignis apud imperatorum
pum, vulgo Presbyterum Joanncm. duoJecim ferme monachis coruitatus,
vcnlt ad Romam ... •
l D'esta carta de Eugenio IV
1
conservada durante muito tempo nos ar·
cbivoi!: da Ethiopia
1
Wi noticia a carta, escripta no anno de 1S24 pelo Ncgu1
Lebna Dengel ao papa Clemente vu
1
c levada a Roma pelo no11o padre
Francisco Alvares, como veremos cm outro capitulo.- Parece que estes
legados do papa seriam os proprios frades abcrins, vindos antes de Jeru-
58lem.
20
Pedro da OJJ1i/han
occidentaes ou frangues, que então assi!ltiam na Ethiopia,
tendo mesmo um d"estes levantado alli disputas sobre mate-
rias theologicas, a que respondeu um certo Abba Giorgis
em um livro, no qual refutava um grande numero de here-
sias. r De todos os factos citados resultou a ideia, appaceme-
menre falsa, mas, comO era narural, acolhida depois com
muita complacencia pelos nossos escriprores carholicos, de que
Zara Yãeqôb fôra inclinado para as doutrinas e praticas da
Egrcja latina, e adverso aos erros da sua Egreja nacional.
A Z'lra Yãeqôb succedeu seu filho Baeda (da mão
de Mar·ia), o qual recebeu ao coroar-se o nome de Dãuit (Da-
Jiid). Governou dez annos (1468-I4jt:l), e o seu reinado foi
lambem perturbado por d.issenções religiosas, originadAs nas
relaç6es, que, depois do concilio de Florença, se estabelece-
ram com as Egrejas e1teriorc:s. Sabemos, por exemplo, que
uma assembleia ou synodo do clero abexim condc:mnou e per-
seguiu então algumas doutrinas, consideradas hereticas, intro-
duzidas por frades, vindos da Syria e do Egypto. 3 Tambem
deu muito que falar um facto curioso e rypico. Andava eDtão
na cõne da Abyssinia um pi[}tor veneziano, chamado Nicoldo
Branca Leone. 4 Se este era, como quer Bruce, o mesmo
frangue, que jii\ no remado alltenor provocára algumas dispu-
tas rheologicas, ou se era uma pessoa diversa, o que não
podemos saber ao cena; mas, em todo o caso, a sua presença
1 •De son temps (de Zara Yàeqoh) eurenl lieu des dibats "'ur la foi, et
Giyorgis disputa avec un Franc et par et compose_r le
livre du mystere•. Clrron, tr. de Basset, pap;. 102.-0
de Abbil Giorgis existe, e 1'em mencionsdo nos Catai. de d"Abbadie e de
Zotenberg.
Segundo Bruce, aquelle frangue era um pintor veneziano, chamado
Branca Leone. de quem teremos Jogo de falar.
'I Os tres nomes tirados t sorte n'ena occlllsiío, foram o de Dâuit, o
de Quastanlinos, e o de Gabra Masqualt!lr'f"'Jidor da CntJ)·
' Bruce, Travels,n, 8]; Ba:s:set,. ÉtNdes, 24G.
4 Alguns dio-lhe o nome de Franc1sco
1
mas si.go a indica(iio ,Je Alva-
res citada adeante.
Elhiopia .a alta 155
alli, no reinado de que tratamos c nos .segujntes, é confirmada
pelo testemunho dos nossos cscriptores.
O padre AJvares viu cm uma egreja do orago de S. Jorge,
mandada construir por Bacda Máryàm, algumas pinturas feitas
c assignadas por aquelle veneziano, e que lhe fizeram ngrada-
vel impressão, parecendo-Jhe • rezoadas c muy boas estarias c
bem compasadas•. 1 Mais do que isso, conheceu-o ainda vivo,
são c activo; e affirma-nos, com um certo dcsdcm pela ane,
•que era pessoa muy honrada c grande senhor posto que rin-
tor.• 2 A este pintor veneziano encommendou Baeda Mâryàm
um quadro de Nossa Senhora, que elle, fiel és tradições da
escola italiana, representou com o Menino Jesus sobre o braco
esqut!rdo. Os abexins tinham, porem, este braço na conta de
pouco nobre, e consideraram aquella composição offcnsiva
para Jesus, c uma indignidade. Levantou-se sobre isso.grande
celeum3 entre os padres e fr3des, á qual Uacda MJryãm nâo
deu ouvidos, ficando aquclle quadro em uma das egrejas da
Ethiopia, até que, muitos annos depois, os Galla o queimaram
e destruiram. 3
• ·He eBreja grãde e pirada per todas hos pnredu de pinturas rezoa-
dn: e muy boas estorias e bem complii$Odas feitas por um veneziano que
atroz é nomeado, que se chama Nicolao hrancRliam, e es111. nestas rin-
ruras ho seu nome, e ell(ls cl. chamãlhe : Alvares, ill-
for,urçam., 109.
li • . • • e a todo ho ii dez1amo!!t era rr(lsente bum rintor veneziano ii
dezia ser seu nome Nicolao br!icaliam de ma:. Je J:L annos na terra (e sa-
bia bem 1. linguoa da terra) pessoa muy honrada e grande senhor JlOstoque
pinror ... Este era arranco (!) e deziam ser fra.Je antes que neste terra
viesse.; Alvares, I. c. 100.-Aivares fala do armo de 1.S:u ou 1.!i:r.:r., e
1
por-
tanto, Rranca Lcone, a estar alli des.Jc o reinado de Zara Viieq6b, tinha
111ais cincoente e seis onnos de Abyssinia e aeguramente perto de
noventa de idade.
1
Bruce o, conta ded.J.amente Ctta historia, fundando-se
em documentos ethiopicos. -A CJrro11. flp Ba.'rda Mã'J".i111, recenu:mente
traduzida pelo snr. Perruchon, nlo menciona o racto ; mas a CJr1"0111ca
Beral da Ethiopi•, traduzida pelo sr. Basset (pag. 102.) alluda a ell(l nos
sesnintes termos: fit peindre l"image de Marie ct celle de Jesus Christ
par un Franc i le peuple en ful irritt!•.
t!J6
I t11troe tUCCft..,. d'esle rctnado tlcm para D6a mcnD! ia-
M'fltll1 • lln unlumcniC 1 rcpetiçlo das guerras e supprcss6t&
da rnnllaa na• fronhdraa c provinciu de lcszc c do MJJ, que:
t' .,. r•rt• hawlam tJCCupadn o precedente. N"cssas 8'JUfU
1ndan 1nwolt1do Blada MAryAm9 quando alli morreu (1478)
nt (tH'Çd da ldadt, c dizem que envenenado.
(Jtllnl'l o 1hrono a ""• filho Eakcndcr o qual
lfl 1ln1la craança. l•"ormau·ac polt um conselho de regcncia,
n••nrnelu rtla rnlt de • a re.inha Uarq (a
"""'''" ti; ,,frtJ}, 1 l,ur dol1 i.lua allos dignitorios dB corõa. O
'"')CII • r····ce ••r aldo Bnimoso c digno do seu Brande
11111111, 1l1 n111dn •(1111
1
11rcnaa ' \'irilidadc, se empenhou
1111 Jll'fiiiiJIIIhnanlu doa t'lnnnR AUCrreiros de seu avô c de seu
1•1111, dltlllhhln nlllnlllll 11pc.tlç6ca conuu. o reino musulmano
•I• Adtl • • ,J'g•lt• 11ucrras, c de um largo inrcrvallo de
IIIIIJ111
1
•nbl'l 11 •lU"-J IC1n11ll CICIIAIII confusas noticias, VC:·
mui•• • nu CMIIIJn de una n:Y01t0$0S du provinciu
'''' mtlo dl11, 11nrr11t tn' que moiT'ftl ( 14q .. l), c em que o dei·
'"'""'" 1'"1'

o irmos encontrar com o nosso
"''''" ''" ,:,..-llhan. •
TMa .......... .W... .........,. •-...-e ooca-.
"" ... , ....... ............... 0--
........ ..... .... , ,..,...,,
....................... .....

....................................... .....

Elhiopia a alta
tacto dos portuguezc:s com o anDgo e interessante imperio
chrisrão da Abys!linia. E comprehende-se agora melhor, o que
por vezes temos indicado nas paginas precedentes, isto C, como
pelas vagas noticias anteriores ao concilio de Florença, e pelas
noticias, mais claras c frequentes, posteriores iilquelle concilio,
se tivesse já feito na Europa a identificação d'este unperio com
os estados do famoso Preste João das lndias, rodeando-o de
um cortejo de puras lendas ou de factcs reaes ampliados.
Existia de feito alli uma m011archia christan podero!la, e
sobretudo con!lervando os traços e as formulas dos tempos
remotos, em que fõra muito mais podero!la. N'aquella região
afastada, entre aquelle povo oriental, arredado de influencias
estranhas, fixado e immobilisado, conservavam-se singular-
mente vivas as tradições de seculos, mesmo quando já não
tinham fundamemo na realidade. O rei continuava a intitular-
se Negusn Nagast, o Rei dos Reis, exactamente como os seus
ascendentes, que cm Aksum mandavam gravar na pedra ins-
cripções em himyaritico, em grego e em geez, nas quaes ce-
lebravam a famJ das suas victoria.s e a enorme extens(o dos
seus dominios.
Em volta do Negus gravitava ainda uma cône numerosa
e complicada. Varias rainhas, porque o Negus, apezar de
christão, náo seguia é risca os preceitos du monogamia;
e, entre estas, nos primeiros Jogares, a Qafi Baaltihat, ou se·
ul!ora da direita, e a Gerâ Baaltihar, ou senhora da r
Depois numerosas Uézaros, ou princezas de sangue, exercen-
do por vezes, do mesmo modo que as rainhas, ootavr:l influen-
cia nos negocies publicas, ou desempenhando mesmo altas
funcções administrativas, como succedcu, por exemplo, no rei-
nado de ZarP Yôeqõb. Entre os cargos de cõne parece ter
sido o primelro o de IJcht Uadad; c d'estes havia dois, o da
• Em ceral haVJa apena!'i duas; ml5 o ra<lrc Manuel
menciona quatro: •d• mão e esquerJa, de tr&z e de deante•; Mn.
do morKn4o Virrririro
1
na Bibl. nac. de Lisboa-Devo n indicação d•csta
passagem do manuscripto ao sr. Esteres Pereira.
156 Pedro da Co111lhan
Jireda e o da esquerdJ. • Quasi egual cm siruação, e tendo,
ainda mais do que cllcs, livre c constante acccsso junto da
pessoa sagrada c mysterioso do Ncgus, havia o AqolbC Sa;h,
ou guarda da hora. 2 Seguiam-se os Liq ou juizes supremos
com as suas respectivas insignias: o SerJdj Mé1sarê com o
corno de azeite i o Baâla H arb com a navalha de oiro; o Sa-
hasarge, guarda dos. liões, com o annel de oiro; c varias ouuos.
Seguia-se ainda uma longa scrie de empregados do paço, Jan
TtUsarê, Raq ou mestres de cerimonias,
Gitôdj e muitos mais. A todos regia uma severa etiqueta, que
lhes marcava rigorosameme c traje, as precedencias, os signaes
de respeito que deviam dar; os AzAzcy:tn, por exemplo, pros-
travam-se e beijavam a terra sempre que ouviam a voz do Ne-
gus, e ainda que não estivessem na sua presença. 3
Nem devemos esquecer as dignidades da Egreja, que em
todas as occasiões solemnes compareciam na côrte: o Papas ou
petriarcha, vulgarmente chamado o Abuno, cabeça da Egreja
abexim, mas devendo ser sempre um estrangeiro; o Echa-
g@, chefe de todos os frades, inferior ao Abuna na gerar.
chia ecdesiestica, seu rival ou mesmo superior em influen-
Cia, por isso que era um abexim; o Qés Hatsé, capellão
particular do Negus; c, com estes, os priores dos principaes
conventos. Do mesmo modo, que na nossa Europa medieval
alguns abbades foram grandes personagens de côrte, como
succedia com o de Cluny ou de Claraval na França. com o
de Alcobaça em Portugal, assim na Abyssinia os priores de
• Mencionados jã com muito conhecimento Je nusa pelo nosso padre
Alvares: • .. hi:i dos dous maiores !\CDhores que ha c&te- do Preste,
que se chama ror tilulo Betudece, e d.:sces sam Jous, hum delles serve da
m'io direila, outro da esquerda o. informaram, Bo.
2 Deve ser a este que se refere o padre Alvares, chamando-lhe oCa-
beata•; 1. c. 8o.- Alvares diz que o Cabeata era um nclerigo•; e effecti-
vamt.nte o Aqullbê Sai1t roi muitas vezes um padre ou um frade, veja-se
B11sset, Étudei,J'DIJ. 177.
Veja-se a CAoron. de 7.nra Y.ieg6b, ele. pafJ. 33 i e, em geral, este
Chr-DIIica c a traduzida por Basse1.
Etl11"opia a alta
Dabra Libanos, de Bizan, de Hallela ( a l l ~ l u i a ) e de outros con-
ventos celebres andavam muitas vezes no sequito do rei. A
todos estes dignitarios a'crcsciam innumeros guardas, creados
inferiores e escravos, tanto da casa propriamente do Negus,
como das dos senhores dn côrte, de modo que o Rei dos Reis
levava comsigo em viagem um verdadeiro exercito. Em legam'
de estrada, a gente de caullo e de pé agglomeravo.ase n"um
desfilar continuo, que o padre Alvares comparava pittoresca·
mente a uma. (rprodsam de corpo de deos em grande cidade.•
Longe da côrte, uma vasta rede de funccionarios adminis-
trativos e militares governava as diversas provindas ou reinos
do impcrio, o Tigré, o Amhara. o Godjam, o Angõte, o Da-
mõte, o Choá e muitos outros. D'estes citaremos apenas um,
porque era talvez o primeiro em importancia, e porque foi o
mais conhecido dos portuguezes, o Bahr Nagiich, chamado pe-
los nossos antigos escriptores Barnagaes. Governava toda a re-
gião do nordeste, que então ainda chegava ao mar Vermelho e
abrangia parte do liuoral; d'ahi procedia o seu titulo- Bahr
Nagách, rd do mar, ou da cosia. Tinha effectivamente honras
de rei, usando o sendiq e o nagarit, o estandarte e os timba-
les, disti11ctivos do seu alto comrnendo.
Se tomassemos ã lettra as pomposas enumerações dns ve-
lhas chronicas ethioplcas, serlamos levados a collocar aJij uma
d'estas monarchias, barbaras mas colossaes, como imagina-
mos seriam as da Olaldt!:a ou da Assyria. Esta impressão 1!,
no emtanto, falsa, e duramente dcsmemida pelos factos. Desde
os remotos tempos, em que o imperio aksumita se correspon-
dia diplomaticamente e tratava de egual a egual com o impe-
rio do Orieme, a Ethiopia havia descido pelo declive de uma
decadencia lenta mas continua:; c pelos tempos de que -vimos
falando, por aquelles fins dn Edadc media e principias da Re-
nascença, as formulas de grandeza eram jã pela maior parte
simplesmellte formulas, sem substancia sobre que assentas-
sem.
A velha civilisação semita, implantando-se em terras de
Africa, e soffrc:ndo a influencia das raças inferiores que alü cn-
----l'ãOOcsr--..rnc-s,oa,
............. aapraoio,...-- O acpo --
RÓIIIID nio C.ÜC1 -=aio a:mbcm-
lcriODdado: - ..-ia aDd c .. iiafabliob-
.. priaoiãn. fu - d-....,. ....,._ .............. --

....... --.sadci<D<ÚJMRO_ ........ ___ Nc-
--.--. -apw oc .........
............ •
rida ..... .....-, pasu>do de a..,_-
--.................... ..--llollibçlioo ..
....- porioorio- F-. aas paP- p..-.das .....
.-oa das...,. pol.aa., mas por...,._. lacilidadc olea-
,..-.-.---J*UÔIIo<GID....._ Na
Clraai<oo41Z.,Q
- da ....... llobiloçio, - rã--...........
-!Wn Bcm1D; •
-c o lljosual, ... p;rudc ........ -o ma-tna_ ......
....... _.... .. _ • .....,.,.0 ___ ....
- .....,._ Ariap .. ..-. -. -· -
fâla • omoda; ...... --o c-. - JMR ...... <011>-
pernd"""' .. do lluau c......bo, oa do ,-.. ...., oa
.. --poomtados arricaDoo, lidos- - .. ""'-
........
O. ........
CGDdiçó<o • ma; • da """""'..,.-. .........-"""'
as aC'I"cidas. II&'!ICCDI IJIIJia:s ft:Ze5 coo-
ln:llel COI!Iicos. o Sendj Masu-i, • lfDC 1105 l'dierialos, c:n. ....

.... 05 lfDC - diziam rera:n sido iDsiiluidos por s..ldDio;
paio """ Sa-adj - descia -. .. maohpdas .. pana
da llabiaaçio ral, O, CDD - .. clucoole, afuJm-
1


Ethiop;.t a alta
tava as hyenas, que \o'inham de 11oite rondar em \"olta da arin·
ga. •
Da simplicidade dos poços rcor:s do Ncgus póde inferir-se
qual seria a das casas ordinaria:s, que em geral não passavam
de choupanas circulares, cobertas de colmo, tendo em volta os
currar:s do gado. :1 N'estas casas a vida correnre era pouco
menos de selvagem, sem nenhum requinte, nem quasi vesti-
gio de civilisaçõo. Nos jantares, mesmo nos banquetes da
côrte, os convivas sentavam-se no chão cm volta de mesas
mui10 bair.!ils- •gamelas chãas como bandejas de muy grande
largueza,•lhes chama o padre Alvares. Nem toalha, nem guar-
danapos, nem pratos; as comidas nacionoes serviam-se sobre
os pães chatos de farinha de trigo, ou de farinha escura de
te8- E essas comidas eram :simplesmente revoltantes. A mais
apreciada de todas, o pra10 obrigado das occasi6es solemnes,
era o brondO, carne crua de boi ou de carneiro; depoisochrerr-
Jiilá, consistindo em bocados de tripas, cruas e mal lavadas, c
cm bocados de figado tambem cru, temperado tudo com sa1,
pimentos e fel. 3 E, como se o uso da carne crua não fosse
I O naço i dado por Bruce para um reriodo mais recente ; mas ar-
plicava-se 5em duvida alguma •queUe de que traiamos.
•H.s ca11.s comümente ou has de mais sam redõdas e Iodas lcrreas
cubertas de terrados ou de palha, curraes darredor; Alvare:r, Vt!r4.Dd. rrt-
form.Jçam, 4!12 - Descripçio perfcil.amenle confirmada pelos viajantes
moolernos.
'Eis • curiosa desc.ripçio do pedn Alvares: •Veyo ha -sua e lava-
mosws1 c nlo vayo toalha para alimpar as mios
1
nem menos rera poer
pam ella, senam nas mesmas gunetas (as mesas cballs) veyo pam
de diversas mane)·ras s. de uisuo, cev3o..la, milho(sorgho), grios
1
e de tnfo
(Poa a6ysJin1ca) --.e sobre cada bollo (d'estes pies) hüa posta de carne
crua.-- e vierõ as iguarias e foram estas • •- tres sallas ou potasens que
bem se podiam dizer saba de

bum dente d'alho outro nio sei de
que. Nestas potagl!ns enuava lixo de vacca, e bo fel, que n'esta terra bam
por mui1o mãjar .•. •; Verdad. irtfnrmaram, 65.- Tut!o isto
absolutamente eu.cto; compare-se com a noticia do marquez Antinori,
em Antonio Cecchi
1
Da 2ála allco fronlt.'re ddl C.'.§.1
1
1
1
427 e sesuimes
1
Roma, 1886; e com a do cardeal Massajn, I nziL'i lrt.'nloJciniJIIt' Qrtni d1 miJ-
aiuni n't!ll'allo:J Ethiopia, 11 .. 86, Roma e Mllano,
..
üula por si IÕ ba!tante rqrugnantc, 8f311dC3 o
boi ou a 1.-acca Cl'il trazido .i. porta da sala, san8f'Ado ;alli ligrn-
meotc, c talbado üula riro. de moJo, que os conYins de am-
bos os se1os ccxniam a carne fumante c s.aogrcnu, ourindo os
mugidos dolorosos da r"U que agonisava. • Sebn: csw
rias barban.s ncaiam largui.ssimas libações de talü ou
r de teg ou hydromel, servidas cm enormes cornos de boi -
•bum coroo de winbo de mel•, como diz. o padre Alvares. :a
E- se dcnuos fé ao que nos conta Bruce- estes banque-
tes de cõnc dqmc:raYam cm baccb;macs estupendas., nas
quaes ac.con:laYa toda a KDSualidadc negra, e o decoro das
priocczas c quebras singulares.
Poderiat111» citar varias outros factos de cgual ou s:imi·
lbantc significação. Havia assim n"aquclla r5tranba Ethiopia
um mixto singular, que a cada passo nos de um
lado rt:stos de antigu grandezas. um soberano poderoso c rn-
pcitado, woa c.ünc tão complexa como a de zancio, um ner·
cito in&sciplinado mas Yalcnte, uma orga.rüsação politica e
admioi.su-uin bastante completa, que nos lnariam a coosi-
der.a1-a como um pai; ciPilisado : de outro dezenas de traços
da vida material, ou do caracter moral, cm que o se
rewda pouco superior aos suhditos do Mtcsa ou do Musiri, c
pelos quacs somos tenrados a coUocal-o a p:ar do •8ro •l•"'l·
8"''· De resto csca.s imprc:ssõa contra&c.torias roram experi-
mentadas em todos os tempos.
A recepção fcit:a pelo Negus- ou, como e11es diziam, pelo
Preste João- aos portuguezes do sequito de D. Rodrigo de
Lima,3deu-lhes claramente uma scosação de notanl grundcza:
I Este USO i mr..Dcionado por Bruce. C .:onfirmado por OUb'OS wãj•ates.
2 A cerveja groueir::IIDenle (lrer-r;u1a com 1 cevad .. e com uma
.::eru quan1idade de de sorgho. Quan1o ao b)'drorneJ, aimples-
meole o rcsull:ado da rermentlljio do mel. mis1un1do com •.a;ua, e •Jdicio·
nando-lhe u folbu de um •rbusto chlmado siJüciu.- Veja-se o pod.re
Tcllcs, EJJriopiiJ 11 4Jli.J, L. 1o cap, 16.•; e com o que Anü-
aori, em CcccJU. Da Zrila, 1o
' Veja-se ad.eute o cap. 'IDL
Ethiopia a alta J6J
o acampamento com as numerosas· tendas brancas e a grande
tenda roxa, ao qual davam accesso os arcos triumphaes, ~ r -
. mados de roxo c branco; a agglomeração de gente, em nu-
mero superior a vinte mil pessoas, por entre a qual abriam
caminho cem empregados do rei, armados de chicotes ; os
cavallos de estado, collocados cm linha, tendo na cabeça cdia-
demas• e altos pcnnachos; os quatro liões acorrentados junto
dos arcos ; os sessenta «porteiros de maça», que vinham cor-
rendo con1 as ordens do Preste ; os grandes senhores; c os
conegos, com «carapuçõcs como mitras», formados segundo as
suas precedencias, c tendo á frente o Beht-Uadad e outros
cargos principaes; o Aqâbê Saât, que levava lá dentro os re-
cados, e voltava respeitosamente com as respostas do Preste,
invisível e mysterioso ; tudo isto constituia um apparato real,
que não deixava de ser imponente, e impressionou os nossos
portuguezes, apezar de costumados já ás pompas de outras
c ô r ~ e s orientaes. • Mas, passados poucos dias, o Preste ou o
Negus começava a fazer perguntas, em que se denunciava toda
a sua curiosidade infantil de negro semi-selvagcm; e acabava
por pedir umas calças a D. Rodrigo de Lima, o qual lhe man-
dou umas suas e outras de Lopo da Gama. E' forçoso con-
fessar, que o traço é perfeitamente característico e perfeita-
mente africano. 2
Augmentando a nossa surpreza, este povo e este rei, bar-
baras ou semi-barbaros, eram christãos, zelosamente christãos,
• Ainda hoje, estando muito mais adeantada a decadencia abyssinica,
a impressão subsiste. Eis o que diz o capitão Cecchi da entrevista, em
que o rei Menilck prestou obcdiencia (I RiS) ao imperador João: •ln torno
al sua algá (de Johannes) stavano in piedi, muti como statue, collo sguardo
a terra, piu di cinquan ta dignitari, che per la riccheza e varie tá deli e
loro divise presentavano uno di quei quadri che la mente puó immaginarsi,
ma non la mia penna descrivere-; Da Zeila, r, 4-12·
2 O rei Menilek, a quem modernamente o explorador italiano Chia-
rini Jeu um assobio de caça, passou dois dias a assobiar. Quando um ge-
neral ou um alto ('Crsonagcm se approximava d'ellc para receber ordens,
dava-lhe um grande assobio aos cuvidos, e ficava-se a rir do seu espanto;
Da Zeila, •, 338.
r6-1
Pedru da Cov1/han
dnotamentc christlos. Não se põdc dizer que o npirito do
christianismo houvesse penetrado fundo nos seus animas, ado-
çando-os e civilisando·os ; mas C. certo que adhcriam forte-
mente á lellra.
Qualquer que fosse a epoca em que a religião christan
derramou na Ethiopia, é fõra de dU\ida que a sua Egrejo foi
uma expansão e ficou sendo uma dependencia da Egreja a1e-
xandrino. Seguiu, pois, a sua serre, e tornou-se heretica com
clla, se acaso o não foi desde a origem. Naturalmente, os que
admiuiram a historia de Frumencio, e collocaram as origens
das christandades cthiopicas no IV seculo e no patriarchodo de
Santo Athanasio, acceitavam a hypothcse de que o Ethiopia
recebeu ainda as puras doutrinas catholicas. • A esta hypo-
these oppõem-se, porém, modernamente difficuldadcs, que pa-
recem insuperaveis e já indicámos nas paginas precedentes.
E, se collocarmos aquellas origens nos fins do v ou no VI sc-
culos, teremos que a Egreja abexim foi hcretica desde o seu
começo.
O patnarcha de Alexandria, Dioscoro, havia adoptado, no
todo ou cm parte, as doutrinas monophysitas de Eutyches, isto
é, a ideia de que em Jesus Christo havia uma só natureza -a
d1vina que absorvera a humana. Taes doutrinas foram condc-
mnadas pelo papa S. Leão em uma celebre carta, dirigida a
Flaviano no anno de -149; e ainda mais sokmnemente no con-
cilio de Chalccdonia (45• ). As christ.mdadcs copms não se
submettcram, porém, nem á carta do papa, que tinham em exe-
cração, chamando-lhe o lomo impuro de Leão, nem ás decisões
do concilio; e ficaram sendo eutycllianas, ou-
como mais vulgannente se chamam- jacobilas, do nome de
um dos seus defensores. Apenas um pcquenissimo numero,
os chamados melchilas, se conservou fiel c obediente a Roma.
Não vem para aqui a historio das graves perturbações, que
• Veja-se, por c:remplo, o padre Baltuar Tcllcs, Etl!iupi,, n ,1/la. L. 1
1
cap. 28o e ,;eguinte:o;; tambcm Le Gn.nd, R"latim1 d'Hist. rd'Abissini"• na
9.• disser1açlo.
EliJiopia 4 alta
se seguiram d introducção d"estc scisma, c tccm sido longa c
cn•ditamentc contadas. • Tentaram-se por vezes conciliações,
como foi a proposição da domrina monothelctica, a qual admit-
tia que cm Jesus Christo havia cffcctivamcnu: duas naturezas.
mas uma só operação e uma só vontade, doutrina que não sa-
tisfez completamcme nem a um, nem a outro lado. Publicou
ainda o imperador Heraclio o famoso decreto, chamado F chle-
S4.', determinando que se não dissesse haver em Chnsto nem
uma nem duas operacões; o que simplesmente equivalia a pe-
dir que não falassem mais no ponto dispmado. Claro está,
que este decreto, não passando de um expediente, não logrou
convencer ninguem, e os captas ficaram firmissimos na sua fé
jacobita.
Parece-nos hoje singular, que estas questões subtis, to-.
cando na mais alta e mais ardua theologi<l, th·esscm o dom de
apaixonar christandades humildes e ignorantes, para quem
eram absolutamente incomprehensiveis; mas, pensando bem,
não 4!: difficil encontrar a explicação do facto. A' falta de
outros vinculas, politicas e sociaes, aquellas christandades
ngrupavam-se então e!!ltreitomente em volta dos seus chefes
naturacs, que eram os seus padres c os seus bispos. Tudo
quanto perturbava o pastor, perturbava tnmbem o rebanho,
ainda que fosse superior 'sua intelligencia, ou mesmo exa-
ctamente por ser superior 11 sua imelligencia. Depois, as dispu-
tas theologicas foram causa de varias e duros perseguições,
dirigidas contra os jacobitas. Já no tempo do imperador Justi-
niano, e, no seculo seguinte, no remado de Heraclio, os esfor-
ços para os reduzir ' obedicmcia se apoiaram muitas vezes na
força e na violcncia; e é cerro, que nada contribue tanto para
arreigar uma crença, como soffrer e padecer por ella. Oppri-
midos na sua fC, expdiados, violentados por bispos estranhos,
como o patriarcha Cyro (6:\:\)
1
que a todo o transe os queriam
obrigar a reconhecer o concilio de Chalcedonia, os pobres co-
1 Vejrun-se, entre outros. Ren11udor, Hisl. P11triardNJrfiPII AlrX.l"dri-
IIOMir• Jacojit11r11m: Le Quien, Ont>JU cN-istiamu.
166
pras apertavam-se ainda mais cm voha dos seus bispo-' c fra-
des 11acionaes, como o abba Ucnjamin, ou o abba S.lllluel, ti-
do" ainda hoje por clles na como de gran!lcs santos. '
o· este Egypto jncobitH pro..:edeu a .:hristandadc abys!ioinica.,
e com c:IIJ mantc\'C sempre depois as suas rcligios.ts.,
tanto nos tempos mais como nos posteriores .r Taki.J
H;iim.lnot, e segundo as disposições por este cst.lbclecidas. U
Abuna, chefe da Egreja nbexim, unico bispo d"aquclla Egrcj;.t,
uni..:o que confc:rid ordens .sacras aos numcrosissimos padres c
frades, vinha sempre de Alcx . e, salvas rarissimas c du-
vidosas excepções. parece ter sido sempre um jacobita. As
christandades érrun pois nos tempos de que fnl.m10s,
c conservam-se até hoje, zelosamente euthychianas ou jaco
bitas. 2
A esta dissidencia em dogmas csscnc;aes, accresciam mui-
tas differenças de rito e de lirurgia. algumas assentando cm
ponto" grnves, na fórma dos officios divinos., no modo de admi-
nistrar os sacramentos, e em outros, cuja enumeração e dis-
cussão nos levaria muito longe, c sairia completamente do
no,so plano. Parece, que cm varias d' estas pccularicdades se
podem encontrar as tradiçôes do primiti\'O Egrcja, conserva-
das alli sem alteração ; mas outras são o resultado de scculos
de isolamento, da ignorancia dos pndres, governados por um
Abuna que os não entende oe elles não entendem, da inllucncia
do meio c da raça, que pouco a pouco converte o christianis-
mo cm uma especic de fctichismo, talvez tombe n das ante-
riores c remotas prurica!l pagans. Como diz o podre protes-
tante Stanley- citado por Bent- c a egreja abex1m estã c o-
• Veja-se a Vida do Abbo1 S3mud, \'ertiJa da lingua ethiopica pelo sr.
Esteves Per <::ira, e a eruJit"l e illtroJuq·ãc llcl traductor; Vi.:i.r
do Abbol do rrtnstdn• dt• KJJlllmou, Lisboa. 18g+
2 H a nc emtanto alli dws seitas: a dos carra,eutychianos puros, mais
ligaJa ao Abulla, e mais el!pnlha\Ja 11:1 Abyssinia propriamente .Jita: e a de
n..,,,., LibanuJ
1
aJmittilldo as .Suas de Cllristo
1
embora tamhem
hcretica e niio sujcila n Rorna,mais seguida no reino de ChoA. Veja-se o
cardeal Massaja, I miei tJnni, u, 18 c J2.; e Cecchl
1
Da Zci/.1,
.,3,6.
Ethiopi'a a
berta pela maior dose de superstição, que se pôde implantar
sobre uma cgreja christan, sem a abafar completamentcn. Os
nossos padres portuguczcs tambem notaram estas superstições,
primeiro com uma bencvola curiosidade, depois com uma
grande indignação. O padre Francisco Alvares, que pertence
ao primeiro grupo, não pôde deixar de estranhar algumas
praticas religiosas muito singulares, por exemplo, as danças
dos padres e frades, que nos officios divinos andavam abra-
dando e saltando como cm chacota,), tangendo «campainhas
pequenas e pandeiros». Tem-se querido ligar estas danças re·
ligiosas ás antigas inHuencias mosaicas, c á conhecida tradi-
ção de David dançando dcantc da Arca. rfheodoro Bent, po-
rém, que as observou varias vezes e as descreveu como o
padre Alvares, lembra, ao que parece com rasão, que podiam
ser restos do antigo paganismo sabêo, e das cerimonias dos
seus sacerdotes, adoradores do sol. 1
Apezar de todas as superstições que o inquinam, ou antes
por causa mesmo d'estas superstições, pelas quaes se torna
mais comprchensivcl üquellcs povos, o christianismo derra-
mou-se largamente c enraizou-se fundamente na Abyssinia.
Nos tempos a que nos vamos referindo, os padres, os frades,
os dabtara ou conegos - como lhes chama Alvares -eram nu-
merosíssimos. [>or toda a parte se encontravam mosteiros e
egrejas de variados oragos, muitas consagradas a Nossa Se-
nhora, como a de Hensâ a de Dabra Mâryâm (monte
de AJar·ia), a de Atronsa (o th1·ouo de Maria), a de
1\·lal\ana (o loga1· de e outras. Em cada rei-
r Veja- se Alvares, l'crd. ilzjurnz .. 1Ç,11n, 11 ; Bent, The s,tcrc.i c ii)"' of lhe
Ethiopians, X3. ··- occasião de notar, un1a vez por todas, como são
confirmadas pelas modernas relações de viagem as noticias do padre Al-
vares. Bruce \'arias vezes de inventar ou deturpar a verdade; a
isto responJeren1 os unicamente com as phrases do seu compatriota T.
Bent, um dos mais intelligentes viajantes que uhiman1ente têem visitado
a Abyssinia, o qual se refere constantemente ao livro do velho escriptor
em termos como os « . the earliest anl most rclia-
blc account of the country during modern times• (1. c. ro5).
r68
Ptdr·o Ja Co11ilhan
nado, o Negus, ou as rainhas, ou as princczas, enriqueciam
com mais alguma o numero das cgrejas jt e.-,:istentes. 1 N'estas
egrejas, senidas todas por 'Varies padres, porque segundo o
rito obexim eram necessarios pelo menos trcs para celebrar a
missa, solemnisavam-se, além do sabbado e do domingo, nu-
merosas festividades, como a da Paschoa, a da Epiphania e
mmtas outras, cmre as quaes trinta e duas dedicadas a Nossa
Senhora. 2
E nfio só os abexins praticavam assiduamente, como se
interessavam pela discussão das questões religiosas, mesmo os
leigos c a começar pelo Ncgus. Nada mais curioso do que as
cmrevistas do rei da Abyssinia com o padre Alvares, das quaes
este nos deixou relações circ:umstanciadas, e de que mais lar-
gameme falaremos adeante. D'aquellas emrevistas, e das dis-
cussões liturgicas e theologica5 que se travaram entre os dois,
se "Vê bem como o Negus, a par de uma rude incomprehen-
são do cspirito christão, tinha uma larguissima informação de
textos, milagres e vidas de santos, e uma profunda veneraçfio
pele lettra do christienismo, como elle a comprehendia.
Evidentemente aquelle christianismo, um tanto mi
estava fundamente implantado no animo do povo nbexim, e,
por assim dizer
1
completamente nacionalisado. Ligava-se com
toda a sua vida, com todas as suas tradições, com todo o seu
orgulho de povo historico. D'aqui as difficuldades encor.tradas
nos seculos seguintes pelos iesuitas portuguezes. Ao tentarem
' A facilidade com que se levantam egrejas porque, 4: parte
algumas 11n1igas de [abrica mais sumptuosa, e posteriores ao tempo
de que falamos, edillcadas sob a iolluencia portup;ueu
1
as egre1as abe1ins
eram muito simples, de rorma seralmente circular, e coberta& de colmo.
' Póde vêr-se o kalendario &los abnins, FQSii a-lh•opi-
publicado por Ludolf. Comm. ad hisl. trlhiopico1.m, pag. 3og a 42.7; e
por Graça Barreto, no App. ao Tomo 111 do BullQrlum palrmtalu Purru-
6tlllur rC'gltm.- Parece, que al,;uma reJuação se havia introduzido n'ea1e
culto, porque 7.ara Yàeqõb ordenou que se celebrassem as triRia e dual
festas de Nossa Senl:lora com a maior po111ualidade, sob pena de
munhiio.
Ethiopia a aha J6g
reformar a religião dos abexins, os jesuitas tinham de os con-
nncer de que em Jesus Christo havia duas e não uma só na-
tureza, o que seria relativamem: fllcil; mas tinham tambem
de alterar as fórmas visiveis e palpaveis do seu culto, ao que
elles energicamente resistiram. Ordenando de novo os padres
que julgavam mal ordenados, reduzindo a um só o baptismo
que antes se repetia todos os annos no Epiphania, dando a
communhão em uma só especie, quebrando as antigas e vene-
radas pedras de ara, 1 mudando as festividades, antes marca·
das pelo seu kalendario n.ICionnl, os jesuitas feriam todas as
susceptibilidades do clero e do povo .1bexim; e feriam-nas
tanto mais, quanto elles se julgavam melhores e mais antigos
christãos do que estes que agora os vinham ensinar.
Foi esta convicção e o orgulho que d'ella nascia, a causa
principal da sua reacção contra os jesuitas portuguezes no xvn
seculo, como é a causa principal da resistencia ainda offerecida
aos esforços dos missionarias catholicos. Um dito relativamente
recente, na entrevista do cardeal Massoja com o imperador da
Abyssinia, 2 illustra de modo tão caracteristico este estado de
espirita, que não podemos terminar melhor o capitulo do que
relatando-o sem commentarios.
O imperador ou rei dos reis João, zeloso jncobita, acabava
(1878) de submetter é obediencia Menilek, então rei do Choã,
que favorecia os missionarias catholicos. Monsenhor Massaja
(depois cardeal) não esperou que o mandassem procurar ã
sua residencia, e veiu serenamente opresentar·sc no acampa·
mente do vencedor. Este fel-o esperar seis horas ao sol, e re·
cebeu-o depois, sentado no seu algá, embuçado no manto
branco até aos olhos.
• Quando Cl5 abew.ias jacobitas se revoll&ram cont1'11 o seu rei Susnyo1
{ 1 6 : ~ . o prozimamente), que os obrigava a seguir a religilio catholica, vieram
11 frente dos ir:Jsurgaoles seiscer:Jtos religioaos desarinados. com ns pedras
de ara li cabeça. E' o jesuita Jeror:Jimo Lobo
1
nada suspeito
1
quem nos
conta o caso ; Lesrand, Rei. hisf. p. 114 .
.a Contado por Cecchi, Da Zrila, 1
1
44i.
Ped,·o da Covilhã
-Que fazes no Choál perguntou o imperador.
- Prégo a religião de Christo, respondeu tranquillamente o
grande missionaria.
- Christãos já nós Mmos, atalhou o outro com dureza,
vae prégar a tua fé aos Galla.
Armu ola Bbl11pia
1
MliO &lo 1'1"1 Mn.llrk
;-:-·
CAPITULO VI
J, !jrlrna r a cllb:al.-a11a
)irl,laHbru
coMo vimos no fim do capitulo
quanC', Pedro da Covilhan vr:iu
de Tôr dcsembarco.r ao porto de
Zeila, no correr do anno de 1492,
• • • • ou mais provavelmente j4 no de
14q3.
Zeila, situada na costa fóra do Estreito, um pouco
ao sul e quasi na entrada da bahia de Tadjura, era então llma
villa commercial de consideravel importancia, por onde saíam
para o ex1erior os productos do sul da Ethiopia. Vanhema,
que visitou aquelle porto pouco depois de Covilhan (15o3), diz
ser di gl"lllldissimo trapco, principalmente em marfim, c:
muitos escravos, procedentes do Abyssinia-di quelli de/ Prele
Ja1mi. 1 O nosso Duane Barbosa, referindo-se aos annos ante-
riores ao de 616, chama-lhe do mesmo modo •hum lugar de
muyto trato, pcra ho11de naucgaom muytas mies ha vender
suas mercadorias•- -a E André Corsali, que lá foi com os por-
1 ltint•rarzo di Lodovico Barlhenra, em Ramusio.r, 1!iS v.•- Esteaes-
cravos davlilm na. Jndia, e ao serviÇO dos reis musulmanos d'alli,
.soldados, com os quaes os nossos pCirtuguezes se enconuaram
por mais de uma vez.- •He rroverbio em Ioda a lndia•, escrevia D. Joio.
de Castro (Ruteiru df.' Gu.r a Sot'J, p. 75J, •dizerem que o bomla"Juarim,
a que nós chamamos soldado, ha de ser AbbeJ.ij•.
L1vro, 2%.- lia n'esta pagina llmB referencia i tomada de Zeil11
por Lopo Soarea cm 1S17i ma5 é evidentemenle uma intercalação poste-
rior no manuscripto primitivo.
tugucus DO anno de 1S17, faDa t.ambem das merc.adoril!l que
d'alli se exportavam para a Arabia.. como eram mantimentos e
ames, tli • r tli cQ1'1ft', pois na 1erra se creua.m
.._.cro.s nbanhos. • Ainda. podcriamos mcnciooar nrias
.ubslmcias pccciosu, como o incenso, a mynba, nm carda-
momoJ 's ftU5 coofuadido com a ra.JlopdG, c a aiJalea. que
'rililam oas caravaoa.s do interior- De OU1J"' lado, os barcos
lll"'hcs ttaiam a Zeila c mais especiarias, usim como
toc.idoo da lndia e dos chmuelos da !llella, quo d'alli eram
ln.&s p.ra a Edüopia oas c.u-awmas de n:tomo. Todo este
IDO'I'imcmo IOI"UYI p« aqucllcs wnpos a rilla n:latiwameote
pruspcB c rica.
Z<ila ..... em poder dos mouros, e ponmcia ao BNfO
dr CSiallca IDI:IIIIIauaos, c:stabdccidos., como antes clisKmos,
- limil<soricmoos e moridionaes elo plealto da Etbiopia, e
qaui ac em soem com o impcrio cbris.tio. Es-
RS CSiallca .au:r. .. am a:m frequeacia u suas Cronreira!l; mas
Z<ila por=: IIU Jc:iiD qaui sempre pane elo rciDo de Add,
- oiz jol o padre Al•arcs: "" rc:iao de Add quo be elo se-
llbar da Zàla c Barbon; 11 t: aDIO, que muitas yezes !11: lro-
canm m IXJIIICS Clllft os portugutzes, squodo '!'emo& de IIDll
iDtaipçio DO m-elo padre Manuel de Almc:ida: oR.• de
Adel a que cbDamol ZeiJa•. l
A • pane 1.IIBI circumstaacil impcxwnissiml-a IIUStllCa
._ Golla •-• bain,
'I"" .,. ........, elo linonl elo solfo de Adeo e .,.... Vamdbo
até - CODtraJortcs da Edüopia, deft rcr siclo Clltlo muito li-
- .. 'I"" boje é. Os Somali dniam babiw- jol • pane
... d'aquclla J <:mqUUIID C5 Afar (<rr-<S} COI Dmakil
• !..-.:. ......... t..v.p • .»6i, e. R--. .. ···-·

• r-.
............. _,. .....
GtAI.e.a.-_ u 4irlcçlo ..
.........
' Sclllft at s.c..lí, a - Gripe c epoca lft'l"&l'tl ._,seu elllbcled·
cA rainha Hcltua
se achavam estabelecidos ao norte, sobretudo alem do rio
Auach, ao longo do mar V crmc.lho. • Estes povos quasi sei·
vagens, valentes e indomitos, podiam levantar náo pequenas
difficuldades aos viajantes que pretendessem atravessar o SC!U
territorio; e a região era jil1 por si e pelas suas comtiçõcs phy·
SiCB!I de djfficil BCCCS$0.
De Zctla ao grande e singular rio Auach, que !le perde
por evaporação e infiltração nas areias ames de chegar ao
mar, 2 estendia-se um vastíssimo paiz, pouco accidentado, .de
pequena altitude, arenoso, desenico, quasi sem agua e sem
vegetoçüo. Modernamente. os dois exploradores, Manini e
Cecchi, foram de Zeila ao rio Auach, e d"este rio a Ankober,
já no planabo da Ethiopia, !>eguindo com leves differencas e
desvios o itinerario provavel de Pedro da Covilhan. 3 Do in-
teressante livro de Cecchi, já muitas \"ezes citado, se vE quan-
tas difficuldadcs, privacões e p-erigos, os dois valentes offi·
ciae5 italianos encontraram no seu caminho i e, ao lermos a
relação d'esta viagem, pode parecer-nos quasi impossivel, que
P-edro da Covilhan atravessasse aquella mesma região, isolado
e sem recursos. 4 Devemos, no emtanto, advertir, que as via·
gens dos europeus eram por aquelle tempo mais faceis do que
se tornaram posteriormente, e do que são nos nossos dios.:Os
viajames apresentavam-se na simples qualidade de mercado-
res; e as expcdjç6es militares ou exploraç6es frequentes não ha·
men1o oa Alrica, pôde vér..Je uma longa e in1eressante noticia de Cecc:hi,
D11 Zei/11
1
1, cap. IY.
• Sobre os Mar, Yeja-se lambem Cecchi, lJd Ztila, 1, cap, "''·
• Circumstencia conhecida do padre D. Telles
1
que a ella se re(ere no
aeu empolado estylo 5e!scentiste: •· •. tendo por maior sloria sua (o rio
Haoax) scpullar·se Da terra, que esconder-se DO mar ... •
3 Nas resiôes descnicas, os caminhos das caravana5 estio quasi riso-
I"OIIIIDCDtc marcado5 pela situaçio doa poços, c outras circumsuncias
pbysicas.
4 An1anio Cecchi, Da Zeila.- Veja-se lambem, Jules Rorelli, Élltiapi•
mlri4ioltale, Paris, 1890; o sr. Borelli pasaou pela mesma resião oa ida c
M voltaJ vindo embarcar a Zeila.
174
'Ptdro da CovJ1han
viam ainda suscitado no animo dos povos selvagens as sus-
peitas de invasão ou tentativa de dominio, que hoje os so-
bresaltam.
No nosso caso especial, sabemos que entre Zdla e o pla-
nalto existia um movimemo seguido de caravanas. Comquanto
o reino de Adcl e outros estados musulmanos estivessem cm
perpetua hostilidade com a Abyssinia, o trafico commerctal
ficava fóra e a coberto d'c!otas operações de guerra, por uma
especie de accordo tacito, nascido do mutuo interesse. E' o
que nos explica muito claramente André Corsali. •
Depois de uma demora mais ou menos looga em Zeila,
Pedro da Covilhan poude portanto incorporar-se em uma
d"aquellas caravanas de mercadores, que atravessavam o de-
serto com numerosissimos ca mellos de carga, conduzidos pe-
los Somali e Afar, os quaes ganhavam a sua vida como
ainda hoje succede. A travessia, embora penosa, não era muito
longa, e, pelo correr, provavelmente já nos fins do anno de •4g3,
o nosso viajante deve ter chegado é Ethiopia, apresentan-
do-se no acampamento do negus Eskendcr poucos mezes an-
tes da sua morte, succedida a 7 de maio de 1494. Esta data
está perfeitamente de accordo com as palavras do padre Alva·
res. 2
1 •••• di pepe e pam:u, che vano qui in Cafila, cio' con caravana di
cameUi per la E1hiopia, e per le chiese de Chris1iani : e ancor che sempre
fra Zcilan e i Christiani sia continua suerra a fuoco c sangue, non s'in-
ICnde peró questo per i mercan1i, lle per le carovane chc sempre vãno c
vcngono salve e sicurc•; Ll'ltt'ra, 1. c.
:a • ••• e foy at' r ora do e'treito na ciJadc de Zeila. e Je hi caminhou
per terra ale chesar aho Preste Joam que he de muito rerto (nio é
taDIO como isso), e chegou 4 corte e deu suas cartas a el Rey Alenndre,
que então reiDava, c diz que ha& recebeo cem muyto pruer e alegria di-
zEdo que ho mãd&ria ha sua terra cGm muy1a boma. E ne:ste tempo mor-
reu, e reynou aeu hirmio Nahu ... •; .Alvares, 1
1
('r4ad. irtfortnaçam, 129.
Vê-se, JlOÍs, que Pedro da Cov1lhan viu Eskender c lhe enue,gou a
mcnugcm de D. João u, o que o padre Bah.bazor TcUes negc :sem motivo
plausiYcl e cm uma phra:sc bas.tante obscura (Etl1iopia a alta, L. 11, cap.
4.•). E vê-se tambcm que não andou muito tempo na lU& cftrtc
1
como in-
d,ica • pbcase e lempa morre11.- A data de 1193 para • entrada na
cA rainha Helena
O Negus recebeu o mensageiro portuguez favorovelmemc,
•com muyto prazer e alegria•; e este deu-lhe de viva voz conta
da sua missão, cntregandç-lhe- segundo dizem- os cartas
cscriptas em arabico que levava de Portugal: c tambem uma
chapa de latão, que egualmente levnva, na qual em varias lin-
guas estavam talhadas lenras, significando •EIRey Dom João
de Portugal, Irmão dos Reys ChristãOSil- 1
Conta o nosso padre Alvares, que Eskcnder niío se oppoz
á partida do escudeiro, e lhe prometteu mandai-o A sua terra
"com muyta honra•- Entre promelter e cumprir ha, porém,
uma grande distancia, particularmente nas côrtes orientaes; e
c! provavel, que o Negus não pensasse mais no caso e se não
apressasse a despachai-o. Disse-se, que Pedro da Covilhan
chegou a sair da cOrte, trazendo resposta e presentes para o
rei de Portugal. e sendo de novo chamado antes de chegar A
costa; mas nio encontro nos escriptores amigos de mais con-
fiança a confirmação da noticia. :11 De resto, o facto tem pouca
importnncia_ Ou Eskendcr o despachasse, e depois se arre-
pendesse, ou o retivesse na cône, o certo é que Pedro da Co-
vllhan alli estava quando aquelle Negus morreu.
São bastante confusas e um tanto contradictorias as noti-
cias, que os documentos ethiopicos nos fornecem écerca das
circumstancias da morte de Eskender_ A Chro11rca d'este prín-
cipe diz-nos, que estando elle um dia na sua residcncia, ou no
Elhiopia
1
a que cheg.imos pelo cllludo da sua viagem. confirma-se, pois,
pela da de Eskendcr, rornecida J!Cios documen1os Esta
ullima dala era ignorada, quando vagamenle se adminia que Pedro da
Covilhan chegara aUi no anno da 1490.
• Damilo de Goes rala das cartas em arabico; e Gaspar CorTêa maia
particularmeme da chape de lacio. J.6 vimos quan1o as noticiu d'cs1e sio
incertas pelo que diz respello ã viasem de Covilhan ; mas outros escriplO•
res cm varias as chapas de latia. que es1avam bas·
tante nos habilos da epoca.
1
Veja-se sobre este pon1o a Ja.fmr. drron. dtJs
dtU ferros do Preste João, por Albano da S1lveira, nos Ann. morilimos e
(1B+5).-A noticia é dada u.mbem em um livro inglcz recente,
Danvers
1
Tlla porlllpese in IJ1dia
1
1
1
p. 3o
1
London
1
1B9+
'Pedro da Covilhan
seu acampamento, lhe vieram trazer aviso de que a gente de
Ahro, chamada Maya, se havia revoltado, matando TakiAye,
um dos seus creados validos. Eskender, que era valente e ar-
reba.tado, partiu n'essa mesma tarde para reduzir é ohedien-
cia os revoltosos e vingar a morte do seu creado; mas ao che-
gar onde elles estavam, c não sendo conhecidç na escuridio
da noite, foi 11travessado e morto pelas settas, que contra elle
dispararam. Isto teve Jogar no dia 12 do mez de genbot do
anno de 6J86 (7 de maio de 149-1-)- 1
De outras circumstancins, relatadas pela Chroní'ca e escla-
recidas pelo que conta Bruce, parece resultar. que esta em-
buscada nocturna havia sido planeada e dirigida pelo traidor
Za Selus, general de Eskender e governador da província de
Arnhara. Logo cm seguida 4 morte de Eskcnder, Za Sclus
partiu com as tropas do seu commando para o Amharn, a fim
de alli levantar ao throno um rei da sua escolha. Não teve, po-
rém, o acolhimento que esperava; e outro general, fiel a Es-
kcnder cá sua memoria, proclamou um filho d"este, chamado
André, o quul tomou então o nome de Amda Syon (,g co-
lumlla. de Sião). O general Takla Krestos, que assim se: cha-
mava o vingador de Eskcnder, persegoiu em segoida Za Se-
Jus, desbara[3ndo-o e mandando-lhe arrancar os olhos depois
de o aprisionar. 2
Amda Syon n, proclamado Negusa Nagast n'estas cir-
cumstancias criticas e tragic.as. era uma creança, que apenas
reinou nominalmente sete mezes, morrendo, não sabemos se
de morte natural, no dia 29 do mez de teqemt (26 de outubro
de '494)· '
1 Todas estas concordancias de dalu me foram fornecidas pelo sr.
E:scevesPereira.
s Veja-se Perruchon, d'Esltnrd,r, no AJialigue •
p. 319 e segu101es; e compare-se com Bassel, Sl4r I'Hutotre
pie, 103 e 247; e ..:om Bruce, 11, 118.- A Histoire d'Eskender foi
rradu1ida do seez pelo ms. n.• 14l da Bibl. Gacional de Paris, e pelo n.•
sag da Bibl. bodleiaoa de Oxford.
l Veja-se Perruchon
1
Basset e Bruce nos Iosares citados. Os DOISOI
c.f. rainha Rtlma
'77
Ficava de novo vago o throno da Ethiopia pela morte d'csta
creança de sete annos, que não deixan irmãos. Elistiam,
porém, dois irmãos de E.skender, filhos de Baeda Mârylm,
chamados Naód e Anqo Israel; e depois de alguma hesitaçio,
pois ambos tinham partidarios, foi escolhido e proclaiilado o
primeiro, que foram buscar a Amba-Guechen onde estava en-
cerrado. • NaOd., que tomou como nome de rei o de Anbasa.
Batsar, {ltão conlra o inimiga), era pois o Nahu do nosso pa·
dre Alvare.s, o quel muito correctamente diz ter elle sido irmão
c nio filho de Eskendcr. :a
E' facil ver, por este rapido resumo, quanto foram acciden-
tados, inquietos e perturbados, os primeiros tempos que pas·
sou na Etbiopia o noHo escudeiro ponuguez:. Chegado é cOr1e
do Negus, elle as.sistiu successivamente c em poucos mezes
1
e1criptores portugue.:es, me1mo o pidrt Al"ares, pu1sm em silencio este
curto reinado de Amda Syon, e dio Naód como succeSior directo de
Eskeader.
• Era um wo antigo da este de encerrar os principes ds
ssngue, filhos ou irmlos dos reis, em uma das mom:anh11 ou rochedos
quui inaccessiweis. chamados D71'1btú
1
que assim aerviam de pris6e1 d'cl•
tedo. Voltaremos a tratar da Amba Guechen em um des capitulos se·
suintes, quando falarmos da yjagem elo padre AlYares com D. RodriJo
de Lima.
:a Algunl escriptorcs, bsm informados. dão Na6d como filho de
Eskender. A suc:ceuio dos reis ou imperadores ds Elh.iopia, nos tempos
do nosso Pedro da Covilhaa e um pouco anteriores, I! a sesuinte :

Baed•
•468-•4:18
I
Eskender - Naód
•478- 1494 1494-.SoS
Arndal Syon Lebna beDJel
'494 .So8-
setemezu
s3
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Além d'isso, o escudeiro portugucz. de espirita flez:ivel e
pratico, e tendo uma notavcl aptidão para as linguas, deve-se
ter familiarisado rapidamente com o dialecto amarinha, e amol-
dado sem custo aos costumes dos :lbexins. Pouco dado a es-
peculações theologicas, contentava-se com saber que se achava
entre christãos, sem se importar muito com a ideia de serem
hereies, ou sem attentar mesmo em que o fossem. Não se
prendeu, pois, com as diftcrenças de rito c de lirurgia, e
começou a seguir prudente e sensatamente os habitas da terra
cm que vivia. Unicamente se niío decidiu a confessar-se, por-
que- dizia ellc- os padres não guardavam o segredo da con-
fi!são a mns em tudo o mais accdtou as praticas religiosas
dos abexins. Guardava os sabbados como dias santificados,
abstinha-se de comer carne de porco, acm ver ou sem querer
ver o'estes netos, suspeitos de judaismo, um motivo de escan-
dalo e obominaçio. 2 Tudo isto concorria naturalmente para
lhe evitar .at.Eritos, lhe conqUistar amizades, e consolidar a aua
situação.
Ao cabo de alguns annos, nio sabemos quantos, mas aind3.
cm tempo de Naõd, esta situação era prospera, e tão segura
quanto o pode ser uma !ioituação 11n Abyssinia. O rti bavia-lhe
concedido o governo de um districto, um lfllllo ou uma cspccie
de feudo, como t uso n'nquelle paiz. Diz-nos isto o padre Al-
vares: •. • • lhe deram terras e senhorios, que has regesse c
lograsse•; 1 e dil-o tambem Gaspar Corrêa: • ••. muytas ter-
ras c rendas, como um grande condado com muytos vassalos,
1 Vn-4ad. i1rJonnap11n, 127.
2 AIYares, V•rdttd'. 121; onde ena curio5a noticia 1!: dada
por iocidente.-Mais tarde aqucUas praticas fonm expressamente conde·
mnadas pelos jeauitRI, como se ve da carla de censura do bispo Andrê de
Oriedo: •llen
1
suardan publicamenre los sabbados •.• ó lienen por pec-
cado comer carne de puerco y llebre y otras cosas. kl qual era de la ley
de Moysen ... •i veja-se a alta, L rr, cap. •
, Vrr412d'. informdfarn, 12.9.-0 padre Alvares di• explicitarnenle,que
lhe foram dadas pelos antecessores de Da't'i.!. (l..ebna DenJel)
1
sem duvida
porNaód.
r8o
Pedro da Cos11"/han
com todo o mando como Rey•. 1 Ha sem duvida alguma exa-
geração nas phrases de Gaspar Corrê a; mas o facto em si é
perfeitamente acceitavel, estando de accordo com os habiros
coohecidos da Abyssinia. 3
Pedro da Covilhan passou desde então a levar a vida de
um rico e influente abexim, fixando-se nas suas terras uma pane
do anno, sobretudo na epoca das chuvas, tempo em que se
não viajava e se não guerreava; e vindo no periodo da estia-
gem ao acampamento do Negus, ou simplesmente prcstar.Jhe
as suas homenagens e trazer-lhe o seu tributo, ou tomar
pane com os seus proprios vassalos em algwna das suas expe-
diç5es militares.
Se elle não mudou de residencia, e não me parece prova-
vel que mudasse, sabemos onde estava simado o seu distticto,
pelo que n!ls disse o padre Alvares uns vinte e tantos annos
mais tarde. Contando-nos este como PeJro da Covilhan se
nfio encontrava no acampamento do Negus, quando alli chegou
D. Rodrigo de Lima, accrescenta terem-lhe dito, que elle estava
então ena sua casa junto das fragosas panas que passámos•. 3
Ora estas fragosas portos, por onde P.assara dias antes o co-
mirin do embaixador portugucz, estavam estabelecidas cm
apenados e alcantilados desfiladeiros- ccaminhos muito es-
treitos c maos c periguosos passoSt, entre prccipicios de cro-
cha talhada cousa pera se não crer•. Segundo diz o mesmo
padre Alvares, ficavam situados nos confins do Amhara e do
1 Lertdas da l11dia, m, 29.-As noticias de Gusp.ar Corrêa acerca da
viagem de Covilban, dedes logo no começo das Ú'ltdas, sio muito inen-
clas; mas quando fala do que se pa11ou 111 Abyssioia estA mais bem in-
formado, pelo que con1aram na lndia os companheiros de D. Rodrigo de
Lima.
" Nlio só relativos 105 naturaes,senlo lambem aos utrangeiros. O pa-
uiarcba D. João Bermudez tambem teve o governo de um districto: c! ver-
dade que no seu caso ia envolvida com a honra uma especie de desterro.
Mais recentl!mente, Brucl! foi do mesmo modo governador di! Ioda uma
prorincia, se acreditarmos o que elle proprio nos coDta.
3 Verllttd. irtfflrmtJÇtJm, 85.
cA rainJia Relma z8z
Choá, 1 alguns aquem da ribeira •Anecheta,• outros entre a
•Anechc::ta• e a •Gemaa•, duas ribeiras que esc ajuntam am-
bas e vio aho rio Nilo., outras finalmente altm da cGemaau. 1.
Estas indicações do padre Alvares são muito esactas e bastante
claras; e confrontando-as com as cartas italianas, recentemente
publicadas, não é difficil fazer a identificação dos Jogares cita-
dos. A ribeira cAnechetu de Alvares I! o rio Uanchit, amuente
do Adabai; e a sua ribeira • é o proprio Adabai, és
vezes chamado tambem Gemma. Depois da sua conftuencia,
aquellas duas ribeiras formam o grande rio Gemma. um dos
mais poderosos amuentes do Nilo azul ou Bahr ei-Azraq. A
casa e gulto de Pedro da Covilhan ficava, pois, por alli, ou ao
norte do Uanchit, na regiio de Tuloma. ou entre as duas ri-
beiras no Marabieti, ou ao sul do Adabai, jé no Chot, nas
terras de Ensarro ou vizinhas. Em todo o caso nas proximi-
dades de algum dos dois rios. 3
A residencia do primeiro portuguez achava-se assim collo-
cada em uma pane da Ethiopia., que hoje se encontra nas mias
dos GaJla selvagens, maa que então era das mais povoadas e
relativamente das mais civilisada5 de todo aquelle paiz. Para o
none estendia-se o celebre reino de Amhara, cuja importancia
foi sempre grande, cujo dialecto se tornou uma lingua littera-
ria, usada na cõne ; e que comstituia, na phrase de Ludolf, o
• D"eatll pauasem de Alvore-, auim como dos mappa• porruguea:es,
se ft que o Choá se estendia entlo muito menos para o none do que mo·
dernamente. O Choá d'aqueDes tempos, comprehendendo a que os portu-
guezu chamnam 1G2011. de cima e Xaoa de Nixo, era uma provincia pa-
quena, relativamente RO que hoje ae chama reino de Choá.
Alvares, Vn-dad. m.formttEttm, ]5 e 76.
J Veja-se a /tino-. d1Ua sped. italiaM, ro,;lio 1, 1883, pelo le-
nntamento do capitão Cecchi e do engenbeiro Chi1rini
1
no livro de Ce
cchi, Da Zerla. E ..eja-1e sobretudo a Carla dimostratiJ!a della Etiopia
(escala de 1 : 1 aoo aoo) campilada palo major Enrico de Chaurand, publi-
cada pelo Coman4o dei corpo di Staro '""KKiore, 1894; na folha
onde vem as Jogares mencionados.
Vottaremaa a esta questão em um dos capitulos .eguintca
1
a proposito
da itineraria de D. Radriso c!. Lima.
'Ptdro da CoriiM•
centro ou amago de todo o paiz - mtdit11lliurrc fn't Habmi-
nia m. Para o sul estendia-se o Oloá, habnado frequentes
vezes pelo Nc8us, c onde se encontravam muitas localidades
historicamente no1avr:is, como a capital Tcsulat, como a amiga
rcsidcncia real de Zara Y!lcqôb cm Dabra Berhiln, como o
Rrandc c.onvcnto do santo Takla HJim:lnot cm Dahra Libano,.
Das suas momanhas c desfiladeiros, Pedro da Covilh:ln podia
sair cm faccis ucunões pelos dois reinos visinhos
1
ou, p&s-
sando o Nilo, pelo igualmente proximo c tambcm celebre reino
& Godjam.
Da sua vida domestica pouco sabemos ao certo; mas é de
crer fosse, sem tirar nem pôr, a de um grande senhor abczim,
com o seu mixto de pompa c representação por um lado, c de
auacncia absoluta de conforto material por outro. lsto, porém,
não seria muito sensivcl a um rude escudeiro porruguez do xv
seculo, pouco exigemc mesmo na patria, e afeito jé a todo o
8encro de privações. Perdida a esperança de voltar a Portugal,
e esquecido da sua mulher que ficéra na Covilhan-
no que não trataremos de o desculpar, posa o que algumas
atiCJluantes se poderiam allegar em seu favor ,-Pedro da Co-
Yitban tomou de novo mulher na Abyssinia, e d'clla, segundo
parece, teve muitos filhos e filhas. • A sua nova companheira
c=ra negra, porque os seus filhos eram mulatos- .negro como
pcra parda,• diz Gaspar Corré!a de um d'ellcs; 2 mas nada
nos impede de imaginar. que fosse bonita, graciosa e sedu-
ctora, como são muitas das suas compatriotas. 3 De um dos
• Como diz Damilio de Goea, e tambam o padre Alvarct: • ••• e em
noua compaahia vinba pero de CoYilham com sua molber e parte de seus
filhos•; Vel"4t14.Jnjonnaram, 1l2.- D"csra phrasc se deduz CJUC eram m:.-
merosos.
llfldtJs, 111,49 -Este filho abi por di:a1 11 1h:a tinha vinra e ues an-
nos. d"onde resuha CJUC o rae deve rar casado pouco depois de chcpr '
Ab7ssin:ia.
J Pelo testemunho CJUa•i unanime dos viajAntes, c dos officiaes italia-
nos: •··. the Italians lind the women atuactive enougb, and
rawe about their beauty
1
and so hawc other tnnUcrs raved in their days•õ
PeDI, "'M .SQ.Q'td of llle ElhiopiiW, al.
fifhos nos diz Ga!ipar Con-êa, que era galante, •geatil-homem•,
apezar de ser escuro; e v!-se que seu pae lhe foi afeiçoado,
pois o mandou a Portugal, dando-lhe •muyto ouro•, e pedindo
a El Rey •O fizesse honrado em dos seus serviçou. •
D'estas circumstanciaor. parece poder inferir-se, que Pedro da
Covilhan foi relativamente feliz no seu tanto na sua car-
reira pubfica, c;omo na sua vida particular.
Assim foram correndo os annos, sem successo particular-
mente interessante para o nosso assumpto, ati: é mane de
Naód, occorrida no dia 7 do mez de nehase do anno de 7000
(3o de julho de t5o8)- Pela sua falta deram-!te, porém, no go-
verno da Abyssinia alteraç6es, que foram favoraveis a Pedro
da Covilhan, e exerceram uma influencia decisiva nas relações
de Portugal com aqtrelle paiz.
Assistia então na cõne, e em edade não muito avançada, a
rainha Helena, viuva de Zarn Y:leqôb. 2 Esta notavel rainha
chrisran penencia a uma familia musulmena, sendo filha de um
cena Mehmad (Mohammed), que fora gar!td ou governador do
reino de Hadya, e irman de Mihico, musulmano como seu pae
Mehmad, e successor d'este no governo d'aquelle reino. No
reino ou provincia de Hadya, airuada na região de sudoeste, 3
os musulmanos eram numerosos e preponderantes, de modo
que os soberanos da Ethiopia se viam obcigados a escolher en-
tre elles os seus governadores, embora lhes não inspirassem
1 L c.-0 rapaz morreu no caminho; e dos outroa filhos r1ada
aabemoa.
2
Todos os riOtsm escriptores
1
e em serw.l-que eu saiba-todos cs
escriplores europeus, dão ou como avó do moço Lebna o
que em primeiro lopr nio l roasivel porque eUa ntlío teve filhot, cu como
viuva do Q .. 8, isto é, de Baeda Milrylm, o que l&mbem oio 1ulgo ser exa-
cto. Parece-me resukar maitou meno1 claramente das c:bronicas etbiopi-
caa1 que ella era viuva de Zara YíJeqõb. isto do lnsai'Ó de Lebna Dengel.
Deho e11e ponto hi&torico •• invcstigaç6c:s dos elh.iopisantet
1
pois nto
tcobo autboridade para o finr de modo definitivo.
:; Nu cams ponusuezas se vê qual ern a :situaçio do flliDo de •Adea•
-o padre Manuel dos Santos escreve com melhor Df'lhosraphia •Hadi .. i
E11liop. orimlal, l'f'- •-•
muita confiança. • Ou pan firmar a sua bc:sitmte fidelidade
pela allia.oç.a, ou samplamc:ntc pol'q_ue as mulheres mouras
d"aquelles lados fossem bonitas, as raiDbu da Elbjopia Yi-
nbam alsumas vaes das Camiliu do Hadya.; 11 c Zara Ylcqftb
desposou a filha de Mehmad. a qual devia xr e:orão extre-
mamente aova, c se conl'eneria ao chrisriaoismo por otÇ&sião
do iiCU casamento, tomaodo o ocxne de baptismo pelo qual
a conhecemos. Teve, porém, desde logo uma alta situação
na cOne, sendo Qaii Baallihat, ou .stnlwr41 441 dirni", c usaodo
o titulo de lregf: (por coou-acção llf:), o maJor que se podia
dar ás raiDbas da Etbiopia e sO :se coofcria depois de uma ce-
rimonia, analoga 4 coroaçlo. 3
Por morte de Zara Yhqôb, a ;onn raioba Hc1ala, ou
Elcni como lá d:ziam, ficou na côn:c do iiCU enteado, occupando
a mesma posição official elevada, .f c gosando iá. c.orão da justa
in8uencia, que lhe davam tambem as suas qualidades pessoacs.
Foi cfl'c.ctivamente uma mulher de Sngulares doles, piedosa, de
bom conselho, iostrWda nos negocios do estado e no cc.rimo-
rüal da côrte, graciosa c acolhedora, de modo- diz a Claro-
nÜ:tJ.- •que por estas qualidades Baeda Mârylim amou llli.Üto
a nossa rainha Eleni c a tratou como sua propria mãe•. S Foi
sobre isso muito illustrada, c versada na lineratura sagrada
• O proprio Mchmad era suspeito ao sezu-o (CIIrvn. tle YMgc».
5g) ; e Mihiço revoltou-se çontra o c teve a ubeça çortlda
(ibid.,17)·
a O padre A1vare1 dli llOlkW. algUDS anaos depois, de uma cualw5a
do rei mouro de •Adea•, que esteve para çaur com Lebaa Dengel; mas
nlo roi acçeita porque tinha •OS dentes dianteiroslara;os•i Ver4od. rnfor•
IJIIJfiJm,l5-4,
l Clu011. tle Zllra Ylieg&, p. 16. -N'est& papa, a Cllroftica dá-lhe
o nome de Jílin Zell, um dos v•rios que usou i mas em O!Kra pdlasem
(p. Sg) e11abelec:e bem a idenüdade entre Jân Zel! e Ele.n1.- Sobre a di ..
sn!dade de I1agê pode wEr-se Ludolf, Hist • .tFJh.iopica., L. o, çap. a.•
4 Tal era o uso da ç3ne abes:im, onde as ninhas viuvu nio cediam
o puso ú mulheres do rei reinaata.
5 Ch.rorJ.tle 'Ba.eda. Mâryãm, p. 17S e 17fj.-Acxpreu1io e 11 tra.IOfl como
•1112 froprill mãe mostra·nos bem claramente c:omo el1a era viun de Zara
Yleq6b
1
madrasta e nio mulher de Bacela M.lr:)'lm.
CA rainha
ethiopica, dizendo-se mesmo que escreveu dois livros mysticos,
de cuja existencio tiveram noticia os nossos antigos esc.riptores
portuguezes. Damião de Goes- por informaçõt:s do abexim
aZaga Zabot, de quem ao deante falaremos-diz-nos, que um
d'estes livros se intitulava aEnzera Chebau, significando lou-
vae Deus rros orgãos; e o outro aChedale ChayQ, ou raiOs d.:
sol; o que, ao menos em parte, se confirma pelas investigações
dos moderno.s ethiopisantes. •
A rainha Eleni ficou assim na cône da Baeda Mãryâm,
inllueme e respeitada, mas sem intervir directa e officialmente
na marcha dos negocias publicas; e na mesma situação atra·
vessou os reinados de Eskendi!r, Amda Syon e Naód. -a
Era, porém, I!Xtrernaml!nte rica, tendo como feudo e apa·
nagio uma grande parte das terras do reino de Godjam; e
n'aquelles seu!l dominios erigiu uma famosa e sumptuosa egreja,
chamada Martula MaryAm (a capella de Maria), d qual espe.
cialmente nos interessa como vamos ver.
• Damião de Goes
1
Ch.ronu:a D. parle • • cap. 61 ; e tam-
bem Fides, rtl•i:•o, mort'sgwe .!EIIIiopum, p. ZJ7
1
na ediçlo dos OpUJcula,
Coimbra, 1791.
Sesundo me informa o meu erudi1o amigo, o sr. Es1evn Pereira, o
primeiro livro, cujo tilulo euc1o 6 ubhal ou Orsio do loui"'r-,
consiste n'um elosio da Santa Vargem, dividido pelos dias da semana. Esle
ms. ainda ex.iate, e faz parte da de A. d'Abbadie, sob n.• na.
Da eais1encia do outro livro, cujo titulo devia ser Sadal11 .sa1aay ou Clari-
d.a.de do sol, nio ha nolicia. E' bem pouivel-como me obsena o sr. Ea-
teves Pereira-que a raiDha Elenl compozessc e escrevesse estl!ls (iyros;
mu tambem I! pouivel que unicameale fossem escriptos e copiados por
sua ordem.
A Chrtmica dr Ldna Drnst1, inedlu, ma. ethiop. da Bihl. Bodl
de Oxford, diz : •... e esla prudente Eleni sabia muito bem as leis do
reino, porque permaneceu no palacio de tres rei& nobres que alcançaram
bom nome• (versão do sr. Eneves Pereira).
Estes Ires reis Jevem ser BaeJa Mãryilm, Eskender
1
e Naód i o chro·
nista omittiu muito n81uralmente o cun1ssimo reinado de Amda Syon.
Depois de escrip111 esta nota, pela amaYel communicação do sr. Es-
teves Perein, a S1ori11 d.i Lellna foi publicade. te•to seel' e nr·
sio italiana, pelo sr. Bonini Cario, nos Rmd;conli &ai. Ac. dri Lift•
cri(189-1) 11.• de setembro,
..
186
O padre Balthazar Triles, seguindo o padre Manucl de Al-
meida, que visitou as ruinas d't:sta r:greja, queimada annos
antes ( 1 !J3!J) pelos mouros, dli nos uma c!etida c!cscripção c!a
sua grandiosa fab:ica, c c!as riquezas que cDcenan. • E o
radre Francisco Ah·ans, tm cujo tempo a'inda se achawa de
pi! e intacta, informa-nos c!c •que naquelln igreja havia gran-
des guardas, que a guardavam pollo muito ouro que nella
estava ••
Na decorado interna c!' esm egreja c! c Ma nula Mãryám
imcrvciu o nosso Pedro c!a Covllhan. pois a rainha Elrni se
\'&leu c!os seus conhecimrntos pratico!> c!c europeu- c 11io sei
se scriom granc!cs cn\·iando-o cxpresstlmcnic ao Godjam,
para alli c!irigir a COO!õlrUCÇáo c!c um altar. O abar, c!elineac!o
bem ou mnl pelo cscuc!eiro c!c D. Joõo 11, foi feito c!e ma-
deira, c •cheio• ou coberto c!epois todo c!e ouro. tcnc!o alán
c!'i"o uma pec!ra c!c ara c!c •ouro moc.iço•. Mas o que so-
bretudo chama a nossa auenção para a construccão ai-
• Elhropi.;r .a 1111.2, liw.11, c11p. -4.•- A egreja era quadransubr, e nlio
redonda como são llabi!ualmen1e as da Aby:.sinia i e as paredes, na
base, enm cspessu, fortiU1mas, e de cantaria bam laYnda. Pelo contra-
rio, o tcno cu .::obenura en de colmo, como nas outns
esrejat.
O que rart.::e ruuhar da imronancia das nnnu, comraraveis com 111
de Yeha, modernamente C•f:I9J) descrir1as por Bent, alli
alsum an1igo 1:d1ficio ssbl!!o
1
arrovei1ado rda rainha pua os rundamcnlos
da sua eRreja, e sobre o qual se collocou um simplet e sronciro tec1o
As ruinas de Mar1ula Miiryilm fornm visuadas no nosso seculo
(1841} relo viajan1e Bcke i wcja·se Jourrtal o( lhl" R. G. S., XIV {1S4-4), p. 26.
, •A pcro de covilbi ouvy du:er ij elle fora por mande.Jo da rainha
Elena a dar manein como se lizeasc hil aliar em híia (j midan la-
zer em csle remo (de Govame) onde a enterrari; e que e&le altar fczeram
de madeira e bo encberam lodo douro e au1 a pedra dara de ouro IIIOCi-
ÇO•; Alvares, ittfvrmaçttm, •fi; -lno pelo padre
lolanuel de AlmeiJa, o quAl ;nnda \liu duas pedras de ar11 d'aquella egreja,
fei1as de •ouro mociço•. Tambem o radre Lobo conaou ao ra-
drc Dalabazl'lr Telles, como cnconlr•ra, cm umas escavaçôe1 nos alicerces
da capclla. antiga, qualro luninas ou cba(!lll de ouro, em que estavam
sravados os oomes dos quatro evaogelistas; E11uopia .a 1111.z
1
1. c.
ef rainha Heltma
lar, é a prova que nos fornece das boas relações de amiz:ndc
e prorecç.ão, existentes entre a rainha Eleni e Pedro da Covi-
lhan. 1 Aquellas relaç6es uplic.om em parle os successos se-
guintes, c intluiram poderosamente em factos interessantes da
hi.storia porrugueza.
Como dissémos antes, Na6d morreu no dia 3o de julho do
anno de 1SoR. Houve quem pensasse cm levantar ao throno
5eu irmão Anqo Israel; mas a final a escolha recahiu no seu fi-
lho ainda menor, geralmente conhecido entre os portugueze!l
pelo nome de David, c mais habitualmente designado entre os
abexins pelo de Lehna lJcngel (o Vrr"B'em). Esta
escolha foi princip.olmenre devida á rainha Eleni e ao abuna
ou patriarcha os quaes de grande influen-
cia entre os grandes do imperio e ti11ham 11umerosos depen-
dentes. 2
Se a rainha e o patriarcha qucnam governar i sombra de
um menor, como insinua Bruce, que não é muito f4voravel
4 memoria de Eleni, ou se se decidiram u11icamemc pela
consideração da legirimidade de Lehnn Dengel, é o que 11Ao
poderemos dizer hoje ao cena- Em todo o caso, o governo
ficou nas suas mãos_ A regencia deu-se nominnlmentc .d viuva
de Naód, Nood Mogasa, de quem nada sabemos alem do
nome; mas a direcção eftectiva de lodos os 11egocios does-
tado ficou a cargo da rai11ha Helena, que ainda estata na força
da idade c no pleno uso de todas as suas activas facul.iades. 3
t Bruce u, 13o} fali do favor, que a Rainha Helena sempre
dispensou a Pedro da Covilhan, e diz mesmo que foi t!lla quem o fez
cuar com uma senhoril abexim ; mas j! sempre difficil Jiscriminar o que
Bruce &purou n1 E1hiopia, do que accrescentou da sua prorria lavra-
,. E" o que diz Bruce (Travt'f1, 11, • "Ji); e tambem Alvareo!, mui1o bem
informado pelas confidencias do proprio p111riarcha jacobita : •Ho
Marcos me disse que elle e ha Rainha Elena ho Rey porque JiDhant
bos ftl"ides todos na mão•; VC'rdtrd- ir'.ftJntltlfi2"'• 68.
) Admiuindo que Zara Yli.eqllb desposasse Elenl nos ullimos annos
do seu reinado, sendo ella multo moça, poderia ter rouco de vinte
annos quando ficou yjuva • i e teria pouco mail de sessenta quando
Era um encargo pesado, este que assim rccahia sobre os
bombros da rainha, embora auxiliada pelos conselhos do pa·
triarcha.
A Ethiopia christan o.chava-se cada vez mais fraca; c o.
audacia dos seus VJsinhos musu'lmanos augmemava de dia
para dia, tendendo a encerrai-a a'inda ma'is estreitamente nas
suas montanhas. O rei mouro de Adcl, inimigo por assim di-
zer tradicional, continuava a ameaçar as incerlas fronteiras
do sul, c encontrava cm volla de si muitos alliados nnturacs
nos Emirs independentes das terras do H arar. Um d'estcs,
chamado Mahfuzh, (o Mafude dos nossos escriptores) havia-se
tomado panicularmcntc notnvel tempo pelo seu odJo
aos christãos e pelas suas correrias pcriodicas. Tcdo!õ os an-
ncs, por cccasião da quaresma, quandc os abcxins estavam
occupados nos seus exercicios religiosos e enfraquecidos pelo
jejum, Mshfur.h invadia a Eth1opia, queimando esrejas e rou-
bando tudo o que encontrava. A felicidade c o atrevimento
das suas expedições haviam-lhe dado entre os seus correli-
gionarios a reputação de um santo, enviando-lhe por isso o
Cherif da Mekka o estandarte lic: seda verde, e uma rica
tenda de velludo preto, que depois, como veremos, serviu de
capella catholica. Nem era simplesmente por aqucllc lado, que
os perigos augmentavam. Pelo oriente, a Ethiopia jé quasi não
tinha acccsso ao mar; c os ponos da costa, de Suakim a Zeila,
iam cahindo uns apoz outros nas mãos dos musulmanos. Ao
começou a sovernar eflec:tivamente (•SoB). lato com a d.llta da
1ua morte (1S2.4- ou 1SaS) em que u:ria proaim1mente Oitenta.
cA embaiXada dt Matlheus rBy
norte estava tambem immincnte uma grave trnnsformaçlo. O
ROVcrno dos mameluks no Egypto agonisava na indi!>ciplina e
nas dissens6cs estando prestes o substituir-!c·lhe
o dos turcos. Era um pader musulma11o, que se substituia a
outro poder musulmano; mas um poder mais novo, mais forte,
mais emprehcndedor, c muito mai!!l perigoso para a indcpen-
dencia dos visinhos.
A rainha Helena não tinha força para resistir 4 tempes-
tade que de todos os lados a ameaçava; c, aconselhada sem
duvida pelo patriarcho, apellou para os recursos de uma di-
plomacia um tanto doble, como quasi sempre é, mas eviden-
temente habil. De um lado procurou estabelecer boas relações
com os musulrnanos, enviando-lhes protestos de paz e umi·
zade;, de outro solicitou secretarneme o apoio do unico poder
christâo, que n'aquellc tempo c n'aquellas regiões se lhes po·
dia oppõr- o de Portugal. Sabemos, que concluiu um tratado
de paz com o rei de Adel, assegurando a tranquiiJidade das
suas fronteiras mcriodionaes, c abrindo mais livremente ao
commcrcio abyssinico o caminho de Zcilo; 1 e sabemos tam-
bem, que procurou a alliança do Egypto, enviando (1S16) uma
embaixada ao pcnultimo suhão mameluk, Qansu-1-Ghuri, que
a recebeu pomposamente no Cairo. 2 Mas ao mesmo tempo
dcspach.1va um emissario ao rei de Portugal.
E' quasi inutil recordar, tão presentes estão ao csp1rito de
todos, os importantissimos occorridos n'estes pri-
meiros nnnos em que Pedro da Covilhan esteve isolado e quasi
prisioneiro no centro da Abyssinia. Vasco da Gama havia encene
trado a desej.tda passogern; aberto o caminho, as armados
portuguezas passaram a frequentar regularmente os portos da
lndia. Depois, nas mãos de D. Francisco de Almeida, comc-
çora-!lc a organisar o dominio portuguez nas aguas
1
emquanto
Afionso de Albuquerque o não firmova tambem na terra. Os
• Bruce, • 11
1
u.i.
• Segundo diz o escriptor arabe Jbn Ai•s; vej•·se Qu11tremtre
1
!M-
.rwr l'FHyple
1
u, 479; e Ballet, E111dt!.J
1
249·
,,.
mouros d'aqucllcs mares andavam, po15, pelo
apparecimemo dos na•ios dos • pelo c.a.só8o dado a
M.Jmt.ça c Quiloa, pela tomada de Socoun, pelo quasi blo-
queio do Esu-cito, onde as. oossas aaus cooxç.avam a aDdar
•U
Pc.- isolada que csliveue altio a Abyssinia, ê claro que
o roido d"estes SUCCU50s dewia tcs- cbc&ado lã promptll.llX'DIC,
pebls ooócia dos aavqpclores snouros, que frcqucnnvam
Zcila. .Massaui., ou Suakim. D"estes portos, a ooticia C5pl.·
lhou-sc c COI'Ttll de bocc.a cm bocc.a ate! • c6nc do Negus,
onde Pedro da Cowilhao soube assim iodirecumcntc wmo os
seus compatrious cstanm .ui peno. como se realisara o que
Ellc pbauusian cm Calicut dez oo qaimc aoos aotcs. E eJic
upticou cmio • niaha Helcaa c ao eua.a Marcos quem
eram aqueles cocareccndo-lbe o HU poda", a sua
nkolia, o seu aaisolado ........ ré cbriswL
Mais nrde, ........ ooâcias dirocbs ..;.nm aoalirmar CS·
ICS pn:ociros c Yap IUDIIOI"'. DoiS pcrmpezc:s, tcocJo UD•
bos o IIOIDe de Joio. c SCDdo um padre. ca'rildos ao
que parece por Trisüio da ümba, pCDCII"allllll aa Abyssiaia
disfuçodos <JD mercodon:s - e cb<Janm • c8ne do
Nqm ... ...,de •""'-'- • Coolanm --.hldo quamo
I Glls*c...réa
• .. _.,__.AIInllllil.
....
..... .. -.-a----ca.-
,..t.ia .. _--. ............ --..... ....... .
- .a...es co. - -c:.as ...... .
D._,_,.se ......... ..... ...
.... .....
<IICli* ......... .._.. .... ,_ ...... ..
................ 'P-.i....,..._ .........
..n-•-p. ..... o..iiii .. Gocs, Tridlo
.. c.... ....
... ..,.....----.Jolo.s.ctr.. •---..seT--.
c:w.:_ ..... ..._... ...... ... --.
... ,_____..__ ..... ;e.-..... .....
cA de Mtttthcus
'9'
até então havia succedido, insistindo nos ultimes feitos em So-
cotoro., onde ficava construida uma fortaleza e estabelecidos
alguns frades franciscanos, e d'onde a armada devia ir tomar
Hormuz. Estas determinaram a rainha Helena, jé pre-
parada pelas conferencias com Pedro da Covllhan e muito ao-
ciosa por encontrar alliados christãos, a mandar um emissario
seu á lndia, o. fim de por alli passar a Portug81.
Escolheu paro. o desempenho d'aquella missão um antigo
mercador, annenio de raça, conhr:cido pelos nomes de Abra-
hão e de Manheus, que parecem corresponder, o primeiro '
religião musulmann ou mosaica que em tempos professara, o
ultimo é religião christan, que n"aquellc momento ou pouco
antes adoptou. •
Manheus teve depois muito baixa e muito nlta reputação e
fortuna: por uns foi tido na conta de um esptão dos turcos,
que nem vinha da Abyssinin, nem nunca lé tinha estado: por
outros foi considerado um embaixador do grande e poderoso
Preste João. Nenhuma das opiniões é absolutamente exacta.
Manheus vinha sem duvida alguma da Abyssinia, de mandado
da rainha Helena; mas era um simples mensageiro, sem teo
propriamente qualidade de embaixador ou enviado official. Sem-
trou•e o tal Fcm'lio Gomes c o mouro, e entrcgou-oa a Affonao de Alhu-
querque, que estava na c::ona ;aJric::ana depois da e:llpediçio a Hormu&o o
qual 01 desrachou par-a o interior junto ao cabo Guardefui. O plano do
mouro era nem ma1s nem menos do que ir pelo scrtiio de Berberah e de
Zeila ;l Abyasinia, passar de li a Tombuctu, e voltll" relo Senegal c cas-
tello de Arsuim a Portusall (Ccm•nrnr. tl"' Affon!o Al'-Juergw, parte 1
1
cap. S4).-Deiundo de parte variantes de nomes, e differenças cm algumas
circumatancjas, o que se vê, e que dois portuguczes foram cmio ll. Abys·
ainia ; e que cm Ponusal se n1io afrou•ava no empenho de obter noticias
do Preste João. Deram-se instrucções n"esse sentido a Va1co de Gartta, a
Pedralvares Cabral, aos dois Albuqucrqucs, e finalmente a Tristlo da Cu-
Ilha, que couSCfluiu enviar- IIII os seus mensageiros.
• Segundo Gaspar Corrlla (UndaJ
1
11
1
?261 Mauheus era mouro, c sõ se
fez christio para ser enviado 11 esta vtagcm lato e confirmado pela carta.
que annos depois escreYeu o negus Lcbna Dengel a D. Manuel, onde se
diz : •. . que rrocou o acu nome porij elle se c::harnava Abraham e cha-
mouse Matbcus •• - Vejam-se sobre estas canas os c::apitulos Yltt e o..
Pedro da Covilhan
pre n'aquelle paiz se serviram de mercadores de diversas na.
cionalidades-porque os abexins conheciam mal as linguas es-
tranhas- para tratarem negocias commerciaes nas regiões vi-
:sinhas, no Cairo, em Adcn, ou em Hormuz; e occasional-
mente os encarregavam de commissões de caracter mais ou
menos diplomatico. Tal parece ter sido :simplesmente a situa-
ção de Mauheus; mas continuaremos a dar-lhe o nome. de em-
baixador, como todos faziam por aquellc. tempo.
Mauheus trazia ao rei de Portugal um presenre, no qual
avultava uma cruz do Santo Lenho, •feita em redondo, com
hüa argola de prata, que era do lenho da Cruz em que nosso
Senhor Jesu Christo padeceo morte por nos salvar, menida em
hüa caixeta douro cõ sua fechadura e chave•. • E trazia taro-
bem cartas para o govemador da India, e a conhecida carta
do negus Lebna Dcngel, ou antes da rainha Helena em seu
nome, dirigida ao rei O. Manuel, e que corre impressa em
varias linguas. :1 •
E' difficil ou antes impossivel saber hoje qual seria a fórma
primitiva d'aquella carta, dictada primeiro na lingua geez pela
rainha Helena, com a assi.stencia dos seus conselheiros, e pro·
vavelmeme de Pedro da Covilhan i vertida alli mesmo na
Ethiopia em arabico e persiano, segundo indica Damiâa de
Goes; trasladada depois na Europa para por[Uguc:z, 3 e de
1 Segundo a descrev; Damião de Goes, com muito conhecimento de
causa, pois 11 viu varias vezes nas mies de seu irmão, • cuja guarda esrava
confiada; l."llron. de D. Man.,t-l, parte IJI, cap. 49.
0
; e FidC's, p. 17S, aos
Opusc .. ra.
' ~ Ven'lio portugueza
1
em Damião de Goes, Cltrort. de D. Ma1wel
1
ver·
siio latina na Carl.t uo arcebispo de UpMiia e depois na F•des; wersio
hespanhola na Africa de Marmol; versão france1a
1
na traducção do livro
de Marrnol por Ablancourt; e creio que ouuas.
:'- Segundo d11 Barros (,Asrlf, 11, v11, 6 . ~ ) a primeira versio ponugueza
leria sido fe11a na InJia, por orJem de Affonso de Albuquerque, e por um
judeu, ch•mado Samuel. Mas da carta de Alfonso de Albuquerque de 16
de dezembro de 1i12 (Carias de A. d ~ Albugwl!r1JIIt!
0
1, 383} se vó:, que elle
nio conhecia o conteudo da que ia para o rei, Unicamenfc mandaria tra-
duzir a que lhe vi11ha dir1gida ; • outra fo1 penamo traduzida cm Lisboa,
da ven'lio arabica provavelmente.
rgJ
portugurz para latim e outras linguas. E' certo, que n"estas
succcssivas versões muims passagens seriam mal interpreta-
dus, e incorrectas muitas uanslit terações de nomes proprios;
e é provavel mesmo se dessem alguns additllm.cntos ou córtes
mais importantes. Tal qual chegou até nôs, a carta era em sub-
stallcia o seguinte :
-Depois dos cumprimentos ao rei D. Manuel, dominador
dos mares c vencedor dos mouros incrcdulos, dava-lhe coma
de haverem alli chcg<tdo os dois portuguczes. um João que se
dizia clerigo, e outro João Gome5
1
pedindo auxilio de gente e
mantimentos. Receoso de que estes porlUguczes não exrlicas-
&em bem as suas intenções, o Negus. com licença do patriar-
cha t.brcos, esteio da Fé de Jesus Christo, mandava a Por-
tugal o embaixador Manhcus, irmão de seu serviço. Olfcrecia
por ellc a sua alliomça contra os mouros, e os seus exercitas
para guardarem o Estreito, ou serem enviados a Tôr ou é
lndio, de modo que, unido o grande poder terrestre da Ethio·
pia com o grande poder maritimo de Portugal, os mouros fos·
sem vencidos c aniquiludo:s. Recordava uma tradição ethio-
pica, segundo a qual Jesu:s Christo havia dito a sua mãe Maria
Samissima, que no derradeiro tempo se levantaria um rei dos
Frangues para dar fim aos mouros. Depoi:s de fallar da cruz
do Santo Lenho que mandava, tocava cm uns projectos de
casamento clllrc os inrames de Portugal e as negras princezas
da Ethiopia, as quaes serinm enviudas com grandes dotes de
oiro e pratn. Pedia finhlmcnte ao rei de Portugal prestasse
toda a anençáo e credito ao que lhe dissesse da sua pane o
:seu enviado.
Não temos prova alguma directa de que Pedro da Covi-
lhan collaborasse na cana da rainha Helena, no qual não fi-
gura o seu nome, sendo aliás nomeados os dois outros por-
tuguezes ultimamente chegados á Abyssinia. Ha, porém, os
mais fortes motivos para acreditar, que elle não fosse estranho
é sua redacção. Occupava uma ex:cellente situação Da côrte, e
era particularmeme favorecido pela rainha, que d'ellc se servia
nas cousas ma1s do seu agrado, c.omo foi, por e:t.emplo, a con·
•l
'9-#
'Prdro do Om1hon
strucção da sua egn:ja. Isto dava-lhe naturalmente (acil acccsso
junto d"cllaJ c uma justa influencio no seu espirita. D'outro lado
elle tinha o mais vivo interesse em que se entaboi.JSsem estas
relações com i era não só o desempenho da sua mis-
são, como o uni.;o meio que podia entrever de eo fim
do seu captivciro. t. pois, de crer tivesse já trabalhado n"a-
quelle sentido; e quando ahi pelo anno de t5o8 a rainha He-
lena começou a governar, e ao mesmo tempo cht:garnm noti-
cias mais seguras sobre o poder de Ponugal no lndia e nos
mares oricntaes, elle encontrou o ensejo favoravcl para acti-
var o despacho de um mensageiro.
De rcsm, é isto o que dizem mais ou menos clar.unente
os nossos escriptorcs do tempo. G3Spar Corria, cujas infor-
maç6es são n'esta parte relativamente dignas de fé, mo5oo
tra-nos como Pedro da Co,·ilhan estna perfdtamcnte ao
facto de todas as circumstancias d'aquella missão; • c at·
centua o por clle rcprcscmado no acontecimento 2
Este modo de ver I! partilhado pelos escriprorcs c
mais modernos. James Bruce, nnalysando dctid.tmcnte a cu-
ta, pretende mesmo distinguir no seu contcUJo a p:ute di-
rectamente da responsnbilidn.!c dos abcxins, da parte inspi-
Fa!ando dos succeuos (•Osteriores, e que contaremos em um dos
cnritulcs seguin1es. Gasrar CorTEa diz: •Estando a:ssy oa tenJa, D. Ro-
driao rerAuntou a Pera de Covilhã quem mandara a Ponugal Ma1heus,
JlOil o Presle dizia que o nom maDdar:J. Pero de Covilhã lhe dnr.e que o
Preste du:ia nrdade, que D nom mandãra ; porque quando Matheus pas-
sara pcr11 lndia o Pres1e moço, c e!lll\'a doen1e
1
que nom mandava
nada, sómen1c a Raynlla Elena, sua may, que regia e mandava o Reyno,
por ser molher muy entcn.:lidl'l em todo o que compria ao bom rcgimenlo
do Reyno--- • ; LNidD.J, m,lú.
:a • •• - e que tendo e lia (a rõlinlla Helena) muyta vontade de 5aber as
cousas de Ponusal
1
que lhe elle Pera de Covilhã conta\"& e eUa muyto
lh'as pcrgunlaW'a
1
dir.ia que hnia de man.lar a Portuaal um seu men!lgei-
ro, e mandara 11 este Matheu5 sc.::reramente •.. • Lttrd.ts,m, 36.-•- .ella
soubera que a\·ia muvtos Rey& chriu5os, de que muytm rcregrillc5 hiio
d C.SI 5Dntll de Jerusa.lem, e to!dra muyta confiança no que lhe contJra
Pero de Ccvilhl. -•; L(nd.t6
1
tr, 32.5.
rada por Pedro da Covilhan, parte mais cautelosa, dictada
por um homem habituado o •ne,goci:lções secretas•, bem ao
facro do modo por que se devia corresponder com a côrte
de Portugal em •assumpros d1fficcis ... 1 Esta distincç.ão é cus·
rosa de fazer e talvez demasiado subtil; mas o fac;m princi·
pai, a intervenção do escudeiro portuguez no despacho de Ma·
ttheus c na redacção da carta, offigura-se·nos tão provavel, que
o podemos considerar provQdo.
ltlunido dos presentes e das cartas, dirigidas ao rei de Por·
tugal e ao ,governador da lndia, partiu para a sua
longa viagem, que foi uma verdadeira JJia do/o,-osa, e faz bem
pouca honra a alguns dos portuguezes, que encontrou no seu
caminho. Era, como dissemos já, um armenio, homem de
proximamente cincoenta annos, •branco e de boa presença•.
Parece ter sido intelligcme, dando em Portugal boa conta do
seu recado; mas ao mesmo tempo de genio diffi;il, assoma-
do, e-como hoje se diz- basmme desequilibrado. Levava
em sua companhia duas moças bonitas, •de bom pareccn -
segundo affirma Gaspar Corrêa :a - uma das quac:s passava
por ser sua legitima mulher; um rapaz abexim de nobre li·
nhagem, chamado Jacome; dojs frades, Marcos e Manhcus;
e mais cinco servidores, Pedro, Antonio, Manuel, Paulo e
Joio. 3
Seguiu com toda a sua comitiva em uma nau de Zcilo para
o pequeno porto de Dabul na costa dil lndia, onde os mouros
o prenderam c lhe roubaram tudo quamo trazia, excepto a
• Bruce. 11, 132·-•··· the fint parE cfthc lclter (wi.:h we
sbaU suppose dicU(ed by Covilban) •..•
únda6,u
1
3:a5.
3 E"cs nomes, e mai1 c de um pasem chama.Ic Francisco
1
ccnstam
dcs doçumenlos, man.Iando.Jhes entresar dcpoili falos c vestuarios em
Liiboa, e dos recibos que clles passaram, como veremo! a.Iennte.- Nem
toJos vieram da Aby,;sinia; e algunli, não sabemos qui1Cs
1
se asgrcsar11m
ii comitiva ria lndia. Na sua corta de 16 de dezembro de 1512, Alfonso de
Albuquerque diz, que bawia dedo ao embaixador em Goa • •.• .luas espra-
vas (escravas) moças de sua terra pera serviço seu e Je sua molhcr, c llle
dcy dous moços de sua terra que sabiam jã falar r10sa linguajcm•.
PeJra Caz:r11Lzn
cai:'\a 'ontt!ndo o Santo Lenho .. cile J. h.1biiiJa.Je
de escünder. A!fonsa de .A.:bt:querque fci. J.\Ísado
d'esta prisão e ja jo t=resu .. Jo preste
joham e enviado a vossaltezal; e resoi\e!! :r 1 e 'Für-
lhas mãos• se náü O crJ qt.:.a.nlo
Atfonso de .. -\lbuquer-lue se Jisrt:nhJ. .1 Fôr .:s nzJus em uma
terra de e nem foi ne.:es3ario ei!e Fesscaimente.
)land!lu lá Garcia je Sousa. \:Om -:JFitá..!s; e
05 mouros de Dabul entregarJm log·:J u a comi-
ti v a, as cartas, o dinhei: J, as I:le:- • se!!! ihes
cousa alguma- c-5em lhe f..1!ecer h:Ima es\:revia
o mesmo .. \ifansü Je .. -\Ibuq!.!er
Recolhido o embaixajor ás nau3 p:1:-t:u nJ. Je
Pero da Fonse\:a Go-1. ünJe o o
solemnemente, "com c! \-iemos ati ig:-eJJ.
com ele, e prégou hum prégaJor. nos
a vera cruz e nola deram a beijar a t·JJos .. e mu,·tas
. . -
Joyas nela; e acabado fu}· com o ernbax..1lor á sua po·.l-
sada, omde ho mu)" bem agasalhar e ser\·ir ... ,. 1
Parece que as honras ao chamado embaixador,
e o apparato com que _\tfonso de .-\lbu'iuerque o não
foram levadas a e deram lüg,1r j. e
par Cúrrêa tem a este prüpü5ito uma ph:- JzeJ .. l plrJ. o
grJvernadúr da lndiJ., que- diz clle- ·I e r ..1
cousas, que de pequc:né.1S as qucr1J. fazer gr ·> ; e GJ='par
Corrêa é muitas vezes um espelho ser,·il da opin!Jo
publica de Gr)a. O c, que já então pJir cn1 Yülta
do pobre as suspeitas de ser um fJlso
suspeitas que o acompanharam até quasi á sua morte. Claro
está, que AtTonso de A lbuquerquc se não prcnJi'"1 con1 est.ls
nossa narrativa differc Ja que se en.:ontra nas
/Jendas de Gaspar Corrêa, at'proximando-se mais das \·crsées JaJas nas
[)ceadas de Barros, na de f)amiã0 de Goes, e nos (;,_,nzn!ent.n·ios,
pos!o q•Je todas vanem. Segui principalmente a carta de :\tfonso Je Albu-
querque de 1 t) de dezembro de r5 I 2 ; C:zrt .. 1s de Affi,nSQ de Albuqzu·rque,
1, 31S I.
cA e11zbaixada de Mattheus
·197
criticas, conhecendo rnelhor que ningucm o interesse real que
havia en1 atar relações com a Ethiopia christan, e penetrando
perfeitamente os motivos, que tinham os mouros para lançar
duvidas sobre a legitimidade da missão de Em·
quanto este permaneceu em Goa, continuou, portanto, a tra·
tal-o com as maiores attencões.

Isto tinha logar nos fins do anno çle I5I2, estando já as
naus que deviam partir para o reino á carga nos portos ào sul.
A ffonso ·de Albuquerque mandou, pois, para Cana·
nor na fusta de João da Pena, dando-lhe mantimentos e di·
nheiro para a viagem, e recommendando a Jorge de ca·
pitão de Cananor, o embarcasse em uma das naus, quando
alli viessem carregar de gengibre. Em cumprimento d'estas or-
dens, Mattheus tomou passagen1 na nau de Bernaldim Freire,
occupando com suas mulheres e comitiva a camara do leme,
e dispondo de uma grande dispensa, onde accon1modou os seus
mantimentos e agua- a: em todo foy muyto bem agasalha·
do». 1
na demora em Cananor, os boatos desfavoraveis a
Mattheus tomaram corpo, complicando-se com uma série de
mexericos e de historias de senhora vizinha. Espalhou-se, que
a mulher de 1\tlattheus havia contado a uma crcada ou escrava
moura, que vinha amassar a sua casa, como clle não era en·
via do da A byssinia, e sim um ((espia c grande piloto e fei-
tyceyro» ; e como ella propria não era sua mulher, e simples·
mente sua escrava. Alguns, para confirmarem a historia, no-
tavam, que todos os a bexins deviam ser «pretos», e aquelle
homem era «alvo», não restando pois duvida de que seria
um ccespia do Cairo)>. De tudo isto se deu conta a El-Rei
D. em cartas particulares, nas quaes se não poupava
o governador. c anda lá a vos a alteza- dizia uma das c ar·
tas- um embayxador que di1_ que lze do preste joham)) (o
sublinhado é nosso). Outra carta insinua ainda mais perfi-
damente, que Atfonso de Albuquerque se tornara conni-
1 Gaspar Corrêa, Lendas, n, 327.
nnle na impostura de 5Õ para ganhar as boas gra-
ças de D. Manuel: •. . • e que o capitão-mor soube
ludo se calou ••• porque ele diz que 5Õ por este sttriço o ha
•osaiiCza de fazer comde •• r Como se wl, Mattheus servia
apenas de instrumento na serie de baixas intrigas, que tio mi-
SCTavelmenre se enredaram em 't'Oha do Ytilro colossal de
Alfonso de Albuquerque; mas e!le proprio solfreu umbem com
aquellas intri.gas.
Embarcou, como na naa de Bcmaldim Freire,
e este capi1ão, assim como o de outra nau, Francis.co Pereira
Pestana, com quem se juntou caminho, vinham dcsavin·
dos com AfJonso de Albuquerque, feridos naturalmente, como
muitos outtos, pela severa e tão ncccssaria disciplina que lhes
pretendia impor. Tanto bastou, para que dessem ou fingissem
der credito ao que lhes haviam dito em Cananor, declarando
e!les tambem, que Manheus era •truão, falso, e espia do Tur-
1 Cart.J de Ga1par Pcreyn, dltaJ. de Cananor no dia 1:1 de ;aociro
de 1J1J; c C11rta de Duane Barbol8 com a mesma dera.
Eara1 canas c1rio impressas., ma• não publicada1, na Parre 11 do vo-
lume 1 do ae,uJmcnto ao 'Bullarum p.Jt,.,uulhl• Portq.:rUur &p,., diri-
siJo pelo fallccido Graça Barreto. Ena Parte n e uma collecç.io de do.:u-
mcatol com a scauiale lirulo: EJ,vJ /1_ a& e.rorJro • •
rum in H.:rHuillialfl ,-o rOtJt.Jni patr-ulr-
elrattu n unuDii V PMIU6allitt!! .:r"'}JJ«Inu. A
coUecçio, preciosa para o nosso auumpro. nio estj comp!e1a nem pubU-
cada, c u folhas impressas toram-me amavclmenrc c pani.:ulanne!lte
communrcada1 aa Imprensa Nacional. Embora nio publicada, como I de
caperar o seja brevc-aenrc, pauaremos a cital-a na seguinte roc.ua : Graça
Barreto, c o n.• de orJcm. A carla de Gaspar Pcreyra fórma
o n.• zsaWJI
1
a a de Duarte Barbo:r.a o 11.• J:WltiiD.
A tem uma Bravc lacuna-falro-lhe a inJicaçio da origem
dos do.;umenlos. Devem e..:is.rir no Ardlil'lll da Torrt du TOifllo, na BIIHio-
llttta 4, E11ora ou 1111. da Aj11la, onde o aucror lnb3lhou ; e pro"t"avcl
que elle mencionas•c aquclle origem em algum indice final da sua obra,
que a morte o impediu de concluir. Em alguns casos eu pude razer a
conftontaçlio com do.:umcnros publicados no Corpo 4iplomalico porl11.·
611'r• ou em AIBIUU Doe_ do Arcllivo naciortal, ou mesmo com os docu-
mentos originaes ; cm outros cilo simplesmenre na Je Graça Barreto,
çujo cuidado c probidade litterari11 me merecem todo o credito.
cA de Malllleus
!99
quo• ; E insistindo sobretudo- porque este era o ponto prin-
Cipttl-em •que Aftonso de Albuquerque que nom o soubera
conhecer, e o queda fazer embaixador do Preste com enganos
pera EIRey, por se fazer grandioso•. N"estas condiç6es, o
pobre Ma.nheus softreu martyrios durante a longo. wiagem -
particularmente longa, porque as naus não poderam passar
logo a Portugal, e invernaram em Moçambique. Us dois de-
salmados capitfies, auxiliados naturalmente pela das guar·
nições, trataram-no como um cão, menernm-no a ferros, desa-
cataram-lhe as mulheres, e o •esbofeteorõo e depenarão as bar·
basn. • Esperavam provavelmente desacreditnl-o, a elle, é sua
misslo e li intervenção de Affonso de Albuquerque; mns n'isso
enganaram-se redondamente, pelo menos n'aqudle momento.
No dia 19 de fewereiro do anno de 1S14, vindo EI-Rei D.
Manuel em jornada de Almeirim pttra Lisboa, teve noticia em
Alverca de que haviam chegado ds ilhas duns naus d3 lndia.
tr3Zendo a bordo um embaixador do Preste João, E parece, que
por alguma carta particular o avizaram tambem do que se pas·
sara durante a viagem, pois etle tomou todas as disposições
pttra que Bcrnaldim Frrire e Frnncisco Pcrrira Pestana fossem
presos logo é chegada, como de feiu foram. Mandou oo mes-
mo tempo receber o embaixador e conduzi l-o é sua pousada, a
qual se preparou nas casns de Gonçalo Lopes, almoxarife dos
escravos. O embaixador desembarcou no dia d'aquellc mez
de fc\·crciro, e logo na segunda feira seguinte o rei recebeu-o
nos paços de Santos, vindo Mauheus acompanhado por D.
Pedro Vaz, bispo da Guarda, por D. Martinho de Castello
Branco, creado poucos dia• antes conde de Villa Nova, e por
outros fidalgos. O rei estava em pé fõra do eslrado,
acolhendo-o com todas as honras c distincç6es de\·idas n um
verdadeiro embaixador. Ao outro dia, Mauheus foi 'isitar a
rainha, o principc c os infantes, conduzido pelo bi!lpo de Ça·
fim, D. Jolio Sotil ; e passados trcE dias, D. Manuel conce-
I a'•••• ullima • n:arrad\"11 Gaspar Corrêa, LPn4aJ, 11,
h7-
:zoo
P!!dro da Copi/!Jan
deu-lhe :segundo c mais solcmne audicncia, nn quo.l Matthcus
lhe entregou o carta do Ncgus, lhe deu a cruz do Santo Lenho,
que o rei de Portugal rcccbeo de joelhos com EIS lagrima! nos
olhos, e lhe e:xpoz de viva ,·oz o assumpto da sua missão
•mui apontadamente c mui seguro•, como •homem sobio
e prudente•, segundo refere o nosso historindor Damião de
Goes. •
Esta recepção solcmnc que- pelo menos n·a-
quelle instante- não h:1via no unimo de D. Manuel duvida al-
sob:e a legitimiL1adc da embaixada, c cllc lhe ligava uma
grande imponancia. M.ns prova-o ainda mais claramente, o fJ.-
cto de a ter n01ificada sem demora ao rei de Cllstella e outros
reis chnstãos, á lllustrissima Senhoria de e muito par-
ticularmente ao popa. -a. Logo no mcz de abril do anno de 151-J,
Leão x dirigia a D. M.muel um breve, cm resposta iiquella
notificaçiio, no qual lhe dizia, que ao saber da chegada de um
mensageiro de tão remotos christandade$, o grande: pontifice
lev.mtara os braços c os olhos ao ceu, dando immensas graças
a Dcus-sub/atis ir1 Cl·l.um owlis ac mar1ibus ct i11gmti e .... i11timo
f'isceribus comoli g11udio immensas Dt!o gratias egimus .• a
Leão x mostra,·a-sc disposto a auxiliar D. Mnnucl nos seus
piedosos intentos, trabalhando juntos para que os abex'ins aban-
donassem n •circumc:isüol) e omras praticas menos puras da sua
relig:ão, c para que, por monc do patriL>rcha Marcos, recebes-
sem de Roma o chefe da sua Egreja. 3 No decurso do breve,
o papJ rcfcria-:sc cm termos dn mais alta consideração á nossD.
rninhJ Eleni. • • eim matr·l!nl Hclcnam mrtlierem pr·11der11i'a l!l
irrsrl;uem. N.:ío faltou, pois, équc:lla escura princeza,
amigo e protectora de Pedro da C..:oYilhan, a consa8ração de
haver sido louYada pelo homem, que deixou o seu nome vin-
1 Cll1·fl/1 dt D. M.J11ul'1.., m, cap. Sg.•
:a J;i antes, O. Manuel ha\"ia mnndado a Roma, ao seu en,·iaJ.o o dr.
João de Faria e dir-ec1arnente ao papa, noticins dCI chesada de Manbeu1 •
Dabul e a
' Bre\lc de Leão X. Or.ttorts Titt; nos Doe. dQ Arc.l!i...o na-
ciorral (189'1.) p. 356
1
onda vem publicado na intesra.
cA embaixada de Matthws
culado ao seculo mais pomposo, elegante c artista dos tempos
modernos.
Não nos pódc de modo algum surprehender, que D. Manuel
e Leão x ligassem tão grande importancia 4 chegada 4 Europa
de um enviado da Abyssinia. O nome do Preste João conser-
vava ainda parte da aureola de mystcrio e de grandeza, que o
circumdava nos velhos tempos das Cruzodas. Para D. Manuel
sobretudo, esta embaixada era como o remate da sua empreza·.
A lndia e o Preste João haviam sido os sonhos dos dois gran-
des homens que o precederam, do infante D. Henrique c de
D. João u-a lndia estava segura nas fones mãos de AOonso
de Albuquerque. e agora chegava aos paços de Portugal um
embaixador do Preste.
E, por uma feliz coincidencia, chegava no momento em que
os progressos do Islam ameaçavam e sobresaltavam de novo a
christandade. Aos amigos tempos, em que a Europa assistira
assombrada 4 cxpansão dos arabes, c em que o bispo Jayme
de Vitry via na pessoa do Preste João uma massa de armas,
suscit1da por Deus para esmagar os inimigos da a esses
tempos jt\ remotos, havia succcdido um periodo de relativa
tranquillidade. As monarchias arabes da Europa, e mesmo as
da Africa e do Asia, adoecendo do vicio constitucional das so.
cicdades seniiticas, a indisciplina, haviam dcsapparecido ou
decahido; o islamismo não só parara como retroc«!era na sua
marcha i e, por este lado, a Europa poude respirar durante um
ou dois scculos. Mas nos ultimas cincoenta ou sessenta annos,
o lslam, representado sgora pela raça forte e energica dos tur-
cos, havia recomeçado o seu movimento de expansão. A to-
mada de Constantinopla, a conquista da Grecia e da Syria, a
invasão immincme do Egypto, as contra
as pela Dahnacia, punham o forte poder do • Grão
Tur.:o• directamente em face da Europa christan.
Este estado de cousas preoccupava todos os espiritos, e
muito especialmerue o dos papas, naturaes c
dos da christandadc. São bem sabidos os esforços de Alexan-
dre VI, de Julio u, de Leio x, para unir os principcs christãos
o6

Pedro da Co111"/han
em uma acção commum contra os turcos, em uma especie de
nova cruzada. Justnmeme n'aquelle anno de 614 c no seguinte,
Leão x se dirigiu por mtis de uma vez n'este !!i!Cnlido no rei
de Portugal. •
Em taes condições, a allionca dn Ethiopia podia parecer
valiosa. Visto de longe e mal visto, o seu poder ainda illudia.
No proprio breve de Leão :x que citámos, e pel:ts nolicias
mandadas de Portugal, se alludc aos sessenta e sei!! reis chris-
tãos, e nos oito reis mahometanos, que obedeciam ao im-
perador da Ethiopia--sexag-intaqut sex rrgilms chrisriarJis
oclo mahumttarriS impe,.Dt. . • Isto resultava das informações de
Mattheu!i, que, segundo os habites abexins, chamava reis a
todos os governadores, a todos os garãds e chums das divenus
províncias; mas resultava d"essas informaçõe!, vistas ainda a
travez da lenda, das velhas historias e das nlhD5 cartas da
Ednde ml!dia. Nem o papa, nem me!limo o rei d-: Portugol, po·
diam saber, que a ramha Helena e o rei David e o patriarcha
Marcos, fóra das suas montanhas pouco ; que o seu
poder era puramente local, e nullo nas contendas, travadas a
distancia mares e terras do Oriente; que a serem
seriam elliados simplesmente nominacs e decorativos. Tudo
isto se soube mais tarde e incompletamente; mas n'aquelle
momento a Ethiopia conservava toda a grandeza, que lhe re-
sultava de ser desconhecida. Não só podia, como devia parecer
um alliado importontissimo no projectada colligação contra os
turcos. 2
Pelo lado mais propriamente e exclusivamente religioso
tambcm a vinda de Manheus se considerava muito valiosa:,
d'ello podia resultar a união de vastíssimas e perdidas chri5-
• Breve de 3 de novembro de •5•-1• flreve
de 1S de junlm de •!i1S, ftlinliiiPII l!abeam11s; e outros documentos.
2 Apenas Affon'!.O de Albuquerque se •Iludia pouco, e UlliCIImenle en·
carecia o local que • Abyuinia nos podia dar no mar Vermelho, e
só na costa arric11n11. Serin bom-d:izin elle -razer uma .. rorleleza 1111 jlh•
de Mcçu3, porqe lem 115 COSiaS JIO:Uas no roder do Presle Jobam•; Carla
de 1 desembro de 1S1l,
cA em&aixada de Mattheus 203
tandades â Egreja catholica, a salvação de milhares e milhares
de almas, o alargamento da influencia de Roma, e talvez-
outra illusão- um meio facil de penetrar até Jerusalem ...
prebeaiJI nobis occmiomm recuperandi saneiam ciPiialem Iheru-
salem, dizia o papa no seu breve.
A todas estas consideraç6es de ordem geral e mais eleva-
da, accrescia ainda para D. Manuel a sensação da vaidade li-
songeada. Se D. João n recebera com tamo appararo os en-
viados de Benim e do Congo, elle recebia agora um embaixa-
dor de bem diversa importancia- um embaixador do Preste
João. Tudo isto nos explica como o pobre Mattheus, depois
de chamado ctruáo• e esbofeteado por Bernaldim Freire, passa
a ser o assumpto de uma activa correspondencia entre D. Ma-
nuel e Leão x.
'. j,
L.,,,,.
"" ...... ;J'
t. f! M l ~ . ~
\ · ~

MulherdansiiiodaHadya
E111r1d1 de Lo,po Soatca DO porto de Jllll'., •• oLradu da l11dlu
CAPITULO VIl
TTHEUS demorou-se mais de um anno em Lisboa
1
mantido, como era natural, pelo reii e mamido
nas condições de bem-estar, luxo e representação,
proprias da sua posição official. Sabemos, que lhe
forneceram vestuario, tanto para ellc me5mo, como para as
pessoas do seu sequito i c por varias vezes lhes renovaram a
guarda roupa, com peças ricas e adequadas és diversas esta-
ções. • Na fawtosa cône de D. Manuel deviam uatal-o com
1 Como consta dos alvad.s c ordens de D. Manuel ao thesoureiro
Ruy Leite, mandando entregar nrios objectos de venuario ao cmbaixl-
dor1 ao moço Jacome, aos frades Marcos e Manheua
1
assim como a João,
Paulo, Monuel, Antollio e Pedro; e do.._ reciboa de todos, assignando al-
BUOI de cruz, veja-se Graça Barreto, u.:.:1
1
LXJ:ll e LZIIII.
Por curio1idada
1
e porque embor.a ji impresso pelos cuidados de
•o6
Ptdro dR Covs1han
fausto, pois elle droprio pela sua presença contribuis muito para
a tornar mais brilhante. Cm embaindor do grande Preste era
mais um traço do Oriente, e não dos menores, na nossa occi-
demal Lisboa, tornada n'aquelle tempo tão oriental.
Ao mesmo tempo que o alojavam e vrstiam, c antes mes-
mo de o vestirem, fizernm-no passar por um apertado exame.
De feito, todos deviam estar' impacientes de saber por elle no-
ticias e informações da sua patria e do seu rei, tão nomeado
e ao mesmo tempo ainda tão desconhecido. Poucos dia! ou pou-
cas semanas depois da sua chegada a Lisboa, na presença de D.
Manuel, dos prelados que então andavam na côrte e de alguns
doutores cm theologin, foram-lhe propostas vnrias questões c
feitas varias perguntas áccrca da fé, ritos e cerimonias reli-
giosos dos abexins. ãcerca das dignidades e funcções do seu
patriarcha. e ãcerca do estado e cône do seu imperador Preste
João. questões c perguntas a que Mattheus respondeu como
poude e como soube.
Graça Barreto Diio esti ainda publicado, transcrevemos um dos documcn·
tos relativos ao ves1uario dos abezills :
- •Nós el Rei mamJamos a vos Ruy leite que ara tendes cargo de
DOSO tesoureiro que a maueus embayX.Ddor do preste joham huum
mon.gy de chamlllote forrado de guardalate wermelho e hum tebardo, e
c:alçu de pano de cor quall ele quiser de ati: mil rcaes o cavado. E pera
jacome seu aobrinho loba, pelote e calçu de pano de quinbemtos reaes o
cavado e 81bam de çatim. E pera ter joham seu criado capa, pclcte e cal-
çu ile pano de duzentos e cymquoenta reaes o cavado c gibam de cha-
malate. E pera francisco seu paje pelote e calças de pano do mesmo preço,
e outro sibam do dito chamalotc. E pera duas escpravas aaaia11, 111inbo5
e cimtas de pano da Rouchcla. E pera tres acpravos pelotes e calças
de pano da Fouchela. E maia darEs ao djto embaudor huum gibam de
çatim. e per este com seu conhecimento voa sera todo levado em conta.
falta em lixboa a s:u: dias doutubro, lorse fernandes o fez, anno de md
e • e aos ditos trca scpravas darês mais a cada huum leu sibio de
fustam. Rey ·: · - em Graça Barreto, Documl!nla, u.nvr.
' Estas escriptas em portuguez p!IO aecr!tario de D. Ma-
nuel, Antonio Carneiro, Coram depois mandadas a Ruy Fernandes de AI·
ruada, que catava em ArlYers. Alli u 'riu Dami1o de Goea, que a pedido
do arcebispo de Upsalia. u tradwiu para laãm.- O folheto cm que vem,
e,f embaiJcdda dt Duarte G.:Jiv6o 207
Quando, nnnos depois, se começaram a conhecer um pouco
melhor as cousas da Abyssinia, achou-se, que em parte as
suas respostns nlio h8Yiam sido exactas. Isto, porém, crn na-
turalissimo, c se alguma cousa nos pode surprchender, é que
sejam tão exa:tas como de feito são. Matthc:us, como notámos
já, não passava de ser um merendar, um d'aquellcs agentes,
ds vezes politicas mas sobretudo commerciaes, de que na
Ethiopia se serviam, mondando os no Coiro, a Aden, a Hor-
muz e ourros pomos. Embora christão, devia ser bastante
ignorante em motcria religiosa c tbeologica, c em muitas ques-
tões responderia um pouco ao acaso. Depois, sem o poder-
mos accusar de deliberoda falsidade, eUe era imelligeme, de-
sejava ngradar, e procuraria ottenun as differcnças cm pontos
de fc! o-.1 liturgia, que ofluscovam os catholicos. • Perante a
insistencia de clgumos perguntas deve mesmo ter respondido
aflinm:nivameme, sem perceber bem o que lhe pergumavam.
Accrescia ainda, que todo o exame se fnzia por interpretes,
causa sempre de incerteza, o que permiuia comprehender Ds
rc"i.postas no sabor dos ouvintes. Em ultima analysc, port!m,
o resultado do exame poreceu satisfactorio; confirmou pleno-
mente que os nbexins eram um pol'O christão, e deu mesmo
a entender, que fosse rtl3is cl'!egado é fé catholica romana do
que succedia. E do exame, das im.tigaçl5es do papo,
de mil outrns causas fnceis de comprehender, resultou no ani-
mo D. Manuel o proposito de dar seguimento équellas re-
com a carta da Helena, foi impresso em Anvers : Le-
I(Qfro "'"B"i /nrp. Prr<d. Jotrnnis ad Anluerpire, r.5l:a -
Não vi eue folhero, e cito pelos Dor-umctrra de Grtu;a Barreto, n • LIY.
• Assim elle confe"a que U:SIV"Bm • circumcisão, mas auenua 11 1ua
imporrancia : ..• el :siJJwl rrro:s.lico ri111 cirC"IImt:rdr, nulto aul mrrili
'"'' /iduci.r :sc-4 l'tleri I.:Jrllrmr consueludirre. Dia que presta-
vam obediencia ao Summo Ponlifi.::e, mas aurrbue o facto ' difficu)Jade
das communicaçõl!s : ..• d•.fit:r/limi ilintds moii"SIJtJJ irr Co111I.:J eu e.
:r Sõ por l!sla fórma se que elle de •o Nefl,us o lil\Jio de
6J·Ier lommc-1, desconhecido n:s Abyssinia. Tanro em IJUe de-
via ser o Preste Joio, que elle acabou por dizer que sim.
Pedro da Cov1lhan
laçõcs com o Preste, reenviando 4 Abyss.inia Mauheus, c man-
dando com elle um embaixador seu.
Escolheu para este importante cargo o nlho Duarte Gal-
vão. A escolha era, ou pc:lo menos parecia acertada. Duarte
Gaivão gosava a reputação de homem illustrado, c iUustrc pe·
las suas leuras c sciencia. Havia cscrip10 a Chro11i'co. do muito
a/lO e muito esclarecido pr·i,âp.: D. AOoiiSO Hem·ique&. 1 Ha-
via desempenhado missóes especiaes junto de Luiz xu de
França, junto do imperador Maximiliano, e jumo do papo Ju-
lio u. N'e:na ultima, c parece que tambem nas outras, ha.
via tratado a questão palpitante da allia11ça dos principes chris·
tãos contra os turcos. Conhecia, pois, todos os fios das nego-
ciaç6es e11taboladas, és quaes se ligava a sua nova missão.
Tanto assim, que ao ser nomeado para ir 4 Abyss.ini.a, ellc
escreveu uma Exhor·tação, onde vanha j4 quasi formulado o
plano da {mura campanha: as operações combina.:fas de Por-
tugal e da Abyssinia 110 mar Vermelho, dirigidas contra a
Mekka; c simultaneamente as das outras potencias christans
na costa da Syria, tendo como objectivo Jerusalem. 3 O unico
inconvenie11te, que se podia talvez 11otar na escolha de Duarte
Gaivão, era o da sua avançada cdade, que o privava da ro·
bustez neccssaria em tio longa c penosa viagem, c o l.:ornava
irritavc:l c um tanto rabugento.
Foi com clle como capellão o nosso conhecido padre Fran·
ci!ltO Alvare!l, cm Santu Justa de Coimbra, auc1.:or
do hvro que no!! tem servido e nos conrinuan1 a servir de base
principal ao presente trabalho. O escrivão da embaixa.!a era
I Alguns escriptorel dilo-lhe me1mo o titulo de Chrooistl mór do
Reino; mu sobre isso suscitam-ae duvidas.
' Barros, A.sia, aa·, 1, 4.•- Barros diz, que elle foi enviado ao •papa
A.leaanCire•; mas C um engano. Veja-se no Quadro x, a5a,a in-
dicação do breve de Julio u, Pt"r fiJi11m, (27 de fevereiro de 1.!o6)
onde diz a D. Manuel ter recebido as cartas que lhe enviara por Duarte
Gaivão é.cerca da suerra contra o turco; e lambem uma carta do cardeal
D. Jorge da Costa, dizendo que o papa recebera bem Duane Gaivão,
3 Barros, L c.
cA tmbaiJCadtJ. dt GaiJ-.io 209
Lopo de Villalobos, homem feito, de longos seniços e bas-
tante imelligente, mas muito imriganle. Acompanhava a tam-
bem um Lourenço de Cosmo, a quem fa especialmente en-
tregue o presente destinado ao Preste; c mois •'finte homens
de serviço muy sabidos em todolos artes das armos, c musi-
cos de tangeres e falias, e todolos officios macanicos•. •
O presente, mandado n'aquclla occasião ao Preste, se hoje
existisse, faria o encanto dos collcccionadores c a sloria de wn
museu, pois, além de ser riquíssimo, comprehendia muitos
objectos de arte, da melhor arte e do melhor periodo.
Ia, em primeiro Ioga r
1
uma grande cama, com armação de
pannos cde Ras de figuras•. céo, c.abe:eira, e ilhargas, cama
completa, com os seus colch6es, cheios de (liam meirinhal)
1
com os seus lençoes •dolamdaft, com o seu travesseiro •do-
lamda fina rico lavrado douro de frorença• :
iam muitos pannos cdarmar de Ras•, alguns representan-
do assumptos religiosos, um •de Iam e seda c ouro de fegu-
ras da estaria da solve Regina•, .:mquanto em outros brilhava
a nudez pagan da Renascença. um que tinha •tres mulheres
nuas com senhas collares ao pescoço• :
ia wn docel, •guardaportas., de figuras, mesas e cadeiras
de estado, wna d'estas coberta de cvdudo vclutado carme-
sym•, presado •com os cravos. de rosas abertas que fez af-
fonso de sevilha•, sem duvida um artista nomeado:
iam armnduras, armas e arreios, um arnez comprido c
doirado, umas •cubcnas da.:eiro de canllo•, com a sua •sccla
de brida• de vclludo carmczim, cem piques, cem espadas, cem
"cosolctes com suas cclada:.• :
10m todos os objectos necessarios para o culto, wn caJice
de prata doirada, esmaltado, davrado de romano•, outros ca-
lices, castiçae8, campainha•, thuribulos, galhcras, tudo de
prata, varias frontacs e vestimcntas, uma d'ellas de • brocado
• Gasrar ürttlm, • 46S.- Das que .ieu O. Ma-
nuel para crganisar o pessoal d"esta embaixada se YE
1
que ene mandou
procurar arsariistas, rintores
1
e mesmo um tyragrapha, um •imprimi.iar•,
para irem A Abyssinia.
•7
.,,
minhoto rm:o com sauuU'O de danasco rot.o apedrado de
uooços, fotnda de boc.asym e fnojada de retros nrde- :
iam mesmo dois orgãos com SCt15 folies, c dois sioos
gnnde5, um de quatro, ourro de cinco quiruaes:
iam finalmente muito!l exemplares de obras reliP,u,
liYTOS da .. yjda e pai1am dos maneres•, cem liWTOS de •oras
de nosa senhora•, cem linos da •dcstruicam de tberusaltm•,
mil •cartirtlas•.
Além do 8raode presente de D. ltlanuel para o Preste, do
encunei mui10 a enumençio, a camareira Aldonça St»-
rts entregou um de r:a.zar das oras de oosa senhora •••
de purgaminho de letra de: mõo emlumynado de imasn•. ri·
camente encodernado, que a rainha de Portugal mandna de-
licadamente ;A •molher do preste•. • E ia tambem, especitll-
mente para a rainha Helena, uma meade de aljofar grMso,
com uma cruz de rubis. 1o
Preparado e cuidadosamente cnrardado o presente, e des-
pedido com as uhimas instrucções o pessoal das duas cmbai-
ndas, emborcou rodo nos primeiros dias de abril (tSrS) na
armada com que pania para a lndia o novo govtmodor Lopo
Soares.
Lopo Soares de Alvarenga, official-mõr, do conselho d'EI·
Rcy, cnpitão dos do princ:ipc
1
havia sido escolhido por
influencias de côrte, principalmente, segundo se dizia, do ba-
rão de Alvito, para ir substituir Affonao de Albuquerque. A
escolha era dcploravel. Lopo Soares não tinha, nem olrur.o.
para substituir Alfonso de Albuquerque, o que não
porque ninguem então o tinha; mas nem mesmo as qualida-
des indispcnsaveis para ser um mediano governador. Rcscr-
• Gaap11r Coi'Tia d• inclinçi5es bastante verdadeiras aobre o presenta
(Lfrtlltn, 11, 11181 veja se sobretudo ;;. relação eucta, escripta por
Jorga Corr!a, escrlvio do 1hesouro, de tudo quanto Ruy Leite eruresou
a Lourenço de Cosmo, e de que este pauou recibo; cm Graça Barrclo,
Dt1culftt!llla, Clll
1
de I'• S3 a p. 58.
D"cstc prucm:a para a rainha Hcleaa
1
d• unicamenlc noticia C.:sta-
nhcda, l.ivr, Y
1
cap. 28.•.
cA tlt DJtartr Gaivão :ijJ 1
vado e nullo, cioso dos glorias do seu antecea1or e procu-
rando seguir caminhos diversos, e ao mesmo tem-
po hesitante, era o menos proprio passivei pura guvernar ho-
mens, particularmente os porwguezes da lndin, nem sempre
de facil f!:OVtrno. N'este caso c:spccinl de q•1e trotamos-na
embaixada ao Preste-a sua influendo (ai roda nociva e dis-
!tOivenre. como vomos ver.
Os dois embaixadores, Duarte Gaivão e .Monheus, mm
embarcados no nau •Piedade•, commandada por D. Gutc:rres
de Monroy i e, durante a viagem, na curta demora cm Goa,
nas esraçúes cm Cananor e Cochim, por onde continuaram a
seguir a armada, desavieram-se cornplctamente, não sendo fa-
cil saber a qual d'ellcs se devam auribuir as primeiras cul-
pas. O moço abexim, Jacome, adoeceu na viagem, e morreu
nas alturas de Baticalé, sendo enterrado em Cunanor; e fi-
cando Manheus persuadido, uo que parece sem razão, de que
o haviam tro.rado com poucos cuidados. Depois adoeceu um
frade abexim, que naturalmenre quizeram mandar para o hos-
pital ; e Mauheus destemperou, gritando que o rraravam e cui-
davam melhor do que Jacome, que o •deixassem morrer por-
que era mouro ... Desde então, diz o padre Alvares, ue co-
meçou semear zizanja amtre os embaixad-:reu. 1 Mas a '"er-
dade &!: que a zizonia vinha de mais lonf!:c, porque: jé. em Goa
).lattheus ficara retido a bordo, e se queixara a Lopo Soares
de Duarte Gulvão.
O f!:OVernador, que deveria ter abuf..tdo logu estas dissen-
sões com a 5UB auctoridade, deu-lhes imprudentcmeme corpo,
mandando fazer um acto, ou uma cspecie de inquerito. N'estc
curiosissimo documento, redif!:ido sob as vistas do liceDciado
Pedro Gonçalves na fonaleza de Cananor a 19 de outubro
de J!u5, encontram-se os depoimentos de varias testemu-
nhas: o do padre Alvares muito prudente i o de Lopo de
1 Em uma Carla escripta, no anno seguinte, a O. Manuel, datada de
Cocbim a 9 de janeiro de t.518. Esla cana roi recenle-
mcnlc l18!)3) publicada lXII Do&IIM. do ArchWo 11lltio11td
1
(1- 41l.
212
Villalobos cheio de velhacaria; o de Jorge de Mcllo va-
rias outros. • O que resulta mais claramente d'cstes depoh
menros, em grande parte contradictorios,- 11! que os embai.m-
dores se não podiam ver. Duane Gaivão tratava Manheus de
alio a baixo, renovando centro ellc as antigaS accusaç6es de
ser •mouro e embaixador f'llsou; :a e Mauheus respondia-lhe
em arabe, com taes desmandos de linguagem, que o io1Cr-
prete Miguel Nunes não queria mais ser interprete ... .tiro-
me da qui c nom quero ser linguoa porque cousas diz que
nom sam pera dizer e depois podem dizer que nom dis$t
tal ••. •·
D'alli em diante as intrigas e as qucius não cessaram mais.
Lopo de Villolobos queixava-se das faltas de prudencia do seu
che(e.. . .rcu nom sey scnhJr que foram destJ.S lcteras de
duane gallvãao nem de sua rama ciemcia e saber ••• que se
quiz ca amostrar mais vallemtc que temperado •• 3 Duarte
Gaivão qceixava--se amargamente de Lopo Soares, de Lopo
de Villalobos e de 1\tatthcus •.• •das traquinadas e intclligen-
cias que cé armou villalobos com o capitam moor e com ma-
thcus contra notando, com toda a razão, que Lopo Soa-
res deveria ter posto cobro intrigas •.• •poden.ioas
apagar logo des o caneço se quisera como devera.. Quamo
a achai-o Lopo Soares intratavel a elle, Duarte Gaivão, dizia
este que •tres Reis de porrugual ••• e todolos outros da cris-
tandade c empcradores c papas com que por seu serviço e
I Trtlado do Q(IO fjllr •t Qllllrt EtttbmxJdor dQ prtSit
duarlt B'llfllv4D E111bar.rador lleJ Rey IIOISO Stllhor.- Graça Barreto, Do-
CIImenla1 C't.J:.
J No depoimento de Jorge de Mello ha a se,guinte asserç'lio :
que Duarte Gaivão lhe dissera ter ouYido dizer a D. Manuel•que lhe nom
pesava ja aenam da Yerguonha de ter acripto ao (lOpa e aos reis christios•,
pois duYidan muito que Mattheus reate enYiado pelo Preste. Nio pro.
vavel que Duarte GalYão inventasse isto; e (: bem possiYel
1
que D . .Ma-
nuel, inlluenciodo pdas cartas do& inimigoa de Alfonso de Albuquerque.
viesse a ter eatas duYidas.
:J CQriQ de L.opo de Villalobo1 a D. Manuel, de Cochirn em 10 de
j•neiro de tSdi- GraçP 81rreto
1


CX'IVIIL
cf ,•mbaixaJa dt Galso6o
mandado sempre praticara, me nunca tal acharam•. 1 Mathcus
queix.s.va-sc de Duarte Gaivão, e ainda mnis doridamente de
Lopo Soares, que o tratava •py.1r que huwn cativo•Ji e, como
nas suas cousas ia sempre és do cabo, accusava-o de o ter
querido envenenar • ••. e derom me peçonha e fezerom feyü-
ço.u. 2 Como se ve, as embuixadas estavam em plena desor-
ganisaçio, mesmo antes de sairem da Jndia.
Assim se passou em queixas c mexericos todo o anno de
1-S.16. A missSo 4 Abyssinia nlo escapou aos achaques de que
it entáo adoecia toda a lndia portugueza. As intrigas ferviam.
Intrigas nascidas no Oriente, do ciume e das rivalidades na
influencio, nas honras, infelizmente tambem nos interesses;
fomentadas em Portugal pelo animo suspeitoso de D. Ma-
nuc:l, peJo facilidade com que nu. côrte se as dela-
ções. pela espionagem quasi organisada. E aqucllns intrigas,
abafadas durante .!lguns annos pela vomade firme c pela mão
dura de Affonso de Albuquerque, eApandiam-se agora mais é
wontade no governo frouxo t: indeciso de Lopo Soares. Pa-
rece mesmo, que elle as promovia c suscitava.
accusar sem provas; mas em toda esta questão do Preste B
mé vontade de Lopo Soares é manifesta ; e não julgo difficil
encontrar-lhe os moüvos. A embuixada de Duarte Gaivão era
uma consequencia da missão de Manheus, e esta havia sido
protegida, favorecida, eneGrecida por Affonso de Albuquerque.
A surda opposição, que encont["OU sempre em volta de si
aqucllc grande homem, tomava agora força e auda,ia cm
voha do seu tumulo. Desfazia-se e amesquinhava-se a sua
obra, n'uma triste rivalidade posthuma. A missão á Abyssinia
havia sido em parte obra de Alfonso de Albuquerque; tanto
bustava para que o seu successor a visse com maus oDlos.
Afinal, pelos começos do anno de a expedição ao
mar Vermelho achou-se organisada. Compunha-se de dez
• Cllrla de Ouarle GaiYão a D. Manuel, de Cochim em :u de janeiro
de r ;16- Graça Barrelo
1
Docllm,rlln, cxxn:.
:. Em uma c.:Jrla, escriptn no anno de rS17, sem data, mas rarl!çe que
lo rartida da lndia- Gnçn Bllrreto
1
Docllmttrta, C•XXV.
._.., que aio daclam. de •cama e n IOGa as IDÜJ peque-
na,., sendo uma d"e:Uas, • •Saaaa Cadwiaa do M.DIÊ Sioai•
1
de •oytocentos IOOC:S;• afón as naus, de muilos Dll'ios
mais pequenost plés, fustas, bcTJ•tios e c.anwelas. A bordo
iam mil seiscemos e cincoenta homens ponupezes, e mais
mil duzentos m.tabares e cs.crawos
1
lripulanla e nmadorts
dai Tanba a expedição por fim. procunr c destruir a
armada dos rumes, que se dizia estar formada no mar V ame-
lho, d"oode ameaçua a lndia; e laoçar as cmbm:adas em aJ-
BWD dos portos africanos d'aquclle mar, pcneocmtcs .os do-
minios do Preste João. P..-tidos os nawios de Coc.him e ou-
11"01 portos, foram-se jun11ndo cm Goa. d"oodc wrregaram rm
cooscna para os portos do Estreito nos começos de •5•7·
Não nm para aqui a historia d'nll desgraçada e bem co-
nhecida ezpedição; • e só nos occuparemos do que diz pro-
priamente respeito 80'S qur iam para a Abyssinia. Os dois em-
baindores b.J.'riam-sc r .conciliado cm Goa no momento da
panida, indo M.attheus ' pousada de Duanc Galwão pedir-lhe
perdão •relia amor de Deus•, c rogar-lhe fossem amigos d'allj
cm deante. No ermanto, via8cm separados: Duarte
Gaivão. ao que parece, na nau •San11 Catbarina do '-lontc Si-
nai• ; c Mattheus, acompanhado pelo padre Alwares, na nau
•S. Pedro•, commandada por D. João da S1lveira. :a No cami-
nho con1inuaram a tratar mal o pobre Mauheus, sendo neccs-
sario que o padre Alvares, sabendo quanto ellc: era •destem-
perado •• interviesse varias yezcs em seu favor, empenhando-se
1
Alêm iJo que dw:m os noaoa bisEoriadoret, Castanbedli,
CorrEa, Joio da B•ITOio lemos nada menos de ucs relações de lea1emu-
nlws ocul1r11: a CartQ iJo padre Al'fares, ji cilada : uma loaga Carla de
Dirli:a: Fernandes para D. M1nueJ. escrip1a l!m Cochim a 2 de janeiro de
15111 (Doe. d, ArcA. nacio11al, p. 407): 111 a conhecida Utlrr.:t de .ADdn5
Conali a Lourenço de Mediei, datada da Coc:him a 18 de act-.ubro da
1!h7 (Ramu1io, 1,181).
, Galpilr Corriia diz por equi'l'oc:o, que ambos os embaixadores iam
na •Santa Catharina•; m;u o padr-e Al\'ares ew.p!ic:a como l'oi com Mal-
lheua na •S. Pedro•. indo Duanc Galvlo em outn oau.
cA tmhi,oda d• • Gala& od
com o capitão para que lhe dessem mais agua, lhe
sem melhores mamimento.s, e tivessem com elle algumas at-
renç6es. •
A armada veiu, como I! sabido, a Socotora, c d'.alli a Adc.n
e és portas do Estreito, onde chegou pelos meiados de mar-
ço. :a Deantc vinha a fusta de D. Alvaro de Castro, que tO·
mou uma nau mercame de mouros, c se demasiado
do que esta trazia o bordo. Ou qlle depois encalhasse de noite
em alguma. das numcro!I&S ilhas que por alli ha, ou que, por
muito carregeda, não podesse resistir ao tempo que sobrevciu,
o certo t!, que a Custa se perdeu, sem mais se saber d"ella e
dn sua guarnição. Cito este focto, porque na fusta vinha Ruy 3
Gaivão, filho de Duarle Galviio, e o desgosto da sua perda
apressou sem duvida a morte do velho embaixador.
Effectivamcnte, ao entrar no mar Vermelho, a armada en-
controu ventos rijos e comrarios, c muito vemo c mar• diz Di-
niz Fernandes. Já se havia perdido, como acabamos de ver,
a fusta de D. Alvoro; a nau •Flor da Rosa• abriu e foi ao fun-
do, salvando-se apenas a gente; e a nau c S. Pedro•, que levava
um junco o reboque, ficou-se muito a rt!: da armada, tanto,
que a perdeu de Yi!'lt&. Era isto cm terça feira da semana
santa. No sexta-feira de poir.ão, o junco alagou-se e foi aban-
donado, recolhendo a custo á nau os malabnre1 que iam den-
tro. Desde então, a •S. Pedro• navegou mais desafogadame111Ci
mas a armada ia jatlonge e não a tornou a encontrar. Andou
depois perdida pelo mar Vermelho; foi para o nofle a dar vis-
• Car1.1 do padre Alvares.- Em uma de Maubeu5 para D. Ma-
nuel (17 de BROSto de 15•8), diz elle, que D. Joio da S1lveira o tratou
peor que Bemaldim Freire. Esta carta, cscripta em arabico, foi publia-
da, ta!!. to c traducção, por fr. Joio de Sousa, Doe. ar.Jbico:s ••• copiad01b:s
origi'I.:Jt':S da Torrt do To"'bo• Lisboa, a p. 9S.- O sr. DaYid Lopes,
que a meu pedido cuminou os orisin11es d'cst11s cartas na Torre do Tom-
be, informa-me .Je que a publicação e traducçio .Jc fr. Joio da Sousa não
4! muito licl, c necessitaria uma re,·i5ão.
:11 Cilo cm sercl as datas da Dinit: as de Gaspar CorrE a
1ão evideotementa crrllllu.
' Outros charcam-Jhe Jorge.
?'edl·()·da· Côvr/Mn"
tas a Suakim; vohou pcra o sul a dar vi.uas a Massao4, mct-
tida sempre pelo labyrintho de ilhas e recifes madrcporicos
d'aquelle mar, •passando muitas afromtas de jlhas, restymgas
e baxos•. A final vieram fundear junto és ilhas de Dalaca
(Dahlak), onde ficaram vinte c tantos dias sem noticias da ar-
mada. r
Esta longa estação nlo foi desfavoravel aos creditas de
Mattheus. A bordo vieram alguns mouros de Dalaca, que o
conheciam, lhe fizeram muita festa, •celema, se8undo o seu
uso•, e lhe deram o nome de •Abrahem Ma1heo•. Tilmbem
alli veiu parar um moço abc:s:im, chamado •Servo de Christo•
(Gabra Krestõs), que embora o não conhecesse pessoalmente,
concordava com elle nas cousas da terra, dando ambos rasão
das mesmas pessoas, dos mesmos frades, do!! mesmos con-
ventos. O padre Alvares relata todas estas circumstancins de-
tidamente, mostrando quanto abonavam n veracidade de Mat-
theus. Mas o padre Alvares era um homem intelligente e de
boa fé, prompto a modificar as suas prevend5e6, quando tinha
boas ras6es para isso, o que niío succcdia a todos a bordo, a
começar pelo capitão. Repetidas vezes, •por muitas enfymdas
vezes•, Matthcus lhe pediu, lbe requereu, lhe rogou que não
ficasse em De.laca, terra de mouros, e fosse ou mandasse alli
defronte a Massauá, ou c •Herquequo• (Arltiko), terras do
Preste, onde podiam facilmente pôr-se em contacto com o
Bahr Nagach, ou com os fmdes christãos de Bizar.. A Dada
D. Joao da Silveira se moveu.
Ficaram assim inactivos, ale que um dia avistaram duns
\'lias portuguezas; eram uma caravrla, chamada • A Ceies-
tina•, commandada por Francisco de G:li, e um caravelão la-
tino, de que vinha por capitão Loure[]ço de Co!mo. 2 Haviam
I Carl.J do padre Alvares, e L r l l ~ r . t de AndrC Corsali i er;te roi isua1·
mente tcstemll.nha de vislll. do que .::onta, pois fa hlmbem embarcac!o na
S. Pedro.
: : ~ Os nomes dos capitles sto dadoa por Barros (Asia, 111
1
1, 4}; e a indi-
craçio •obre o navio de Lourenço de Cosmo é de Dini.: Fernandes na enu·
aido mandadas de Camarão, onde já estava a 11.nnada, a
zer um reconhecimecto pela co:na da Abyssinia. A bordo das
c.uuelas vinha o bacharel Juzarte Viegas i vinha um mouro
de Granada muito ictc:lligente, a!lutiuimo, mas de pouca
fiança, e que Affonso de Albuquerque tivera muito tempo a
ferros na lndia; vinha um c:lerigo doido; uns escravos chris-
IÍOS e um judeu. Esta singular companhia, mencionada com
leves variantes pelos escriptores do tempo, • dá-nos bem o
cunho um tanto cosmopolita d'aquellas expedições dos primei-
ros tempos, em que se aproveitav.um como guias, interpretes
ou agemes, os aventureiros levantinas, nem sempre muito rc-
commendaveis.
Reunidos os tres navios portuguezcs, os capitães c o ba-
charel accordsram em passar Mauhcus para as caravelas,
muito contra a vontade d'estc; c a nau •S. Pedro• levantou
ferro e fez-se a véla em direcção a Camarão, levnndo a bordo
o padre Alvares c André Corsali.
Nas caravelas, Mauheus çon1inuou a insistir em que fos-
sem directamente a Massauá ou a Arkiko, e não 1ivessem mais
communicação com os mouros de Dalaca. Isto era rasoavel,
e era prudente, porque os mouros, embora tivessem até en-
tão fornecido paci6camc:me agua e gado -principalmente ca-
bras- da ilha, estav.um um tanto resentidos de algumas vio-
h:ncias dos portuguezes, e já sabiam que a armada não 't'iria
alli e não os castigaria. Segundo o costume, os capitães não
merõlção da armada: •-- .e hum caravelam latyno
1
que se fe& em Chou-
chym, capitão dele Lourenço Cm1moo.•
1
Por Joio de Barros, Ccrsali e ftlaubeus. Veja-se uma carta d"este
escripta em arabico ; Fr. Joio de Sousa, Dor11P11. tJra/.licos, carta
6 datada de 27 de revereiro de 1S17; mas a data é evidentemerne errada,
pois a Cll.t1a relata estes successos que sio posteriores- prct'avelmente
é de .S1S.
O que Maubeus chama •judeu• i talvez o •snnadino• de Barro1 e
Corsali. O nome de um dos commandantes vem escripto em arabico,
·Lourenço Karmo•, o que 6 talvez devido simplesmente â falta de um
poa10 dJacritico, com o qual se leria Kumo, ou Kczmo, orthosnpbia
natunll de Cosmo.
'Ptdro da CoJ)i/han
fizeram caso do que elle lhes disse, fianm-se mais no mouro
granadino,·e emabolaram algumas negociações com o •reoiu (o
chcikh) de Dalaca, acabando por ajustar uma entrevista paci-
fica na praia, onde elles, os portuguezcs, viriam no balei c
desarmados. A esta entrevista devia lambem assistir M.o.tthcus,
que 11 ultima hora se negou peremptoriamente a sair de
Os outros foram, e osmJuros awcaram nos .11slançadas
1
ferindo
varies, e maundo treo;, entre estes Lourenço de Cosmo, o pri-
meiro do pessoal da embaixada porrugueza que por lá mor-
reu. Os restantes defenderam-se a custo com algumas espa-
da' que levavnm cscond•dasJO c, pondo a nado o batel, fugiram
para as ca:-ovclas, onde Pcro Vaz: do Vera, piloto, tomou o
commando na falta de de Cosmo. Perdida por en-
tiio toda o ideio. de communi.:oção com a A byssinia, Francisco
de Gâ e Pera Vaz partiram d"alli paro Camarão, a juntar-se
com o resto da armada, e levando comsigo Mnnhcus. 1
Dc,·cmos agora mltar um pouco atrar:, o ver o que havia
succcJido ao grosso da armada, onde ia Duarte Gaivão. De-
pois d'oquelles tempos contrarias em que se extraviou a nau
.s. Pedro•, continuara a sua derrota para o norte, chegando.!!!.
alturas de Judá (Djiddll.) no domingo de A entrada
do porto era difficil e só lhe: davam accesso canaes tonuosos e
não muito brgos, onde os nossos navios deviam ficar expos-
tos pelo travcz ' anilheria dos inimigos. No cmtanto, Lopo
Soares decidiu atre,·idamentc penetrnr por nquelle• c011aes
com toda a armaJo, fustos e deante, e depois as nnus e
outros nawios ma:s Com tanta felicidade e em tio
boa ordem n3.vegaram, que n sua marcho excitou a admiração
dos turcos, bons juizes cm tacl'l porque eram boa
gente de mar c de guerra.
Fundeou a esquadra dentro do porto, em frcnre da po·
\'Dação, que estava cercada do lado da terra por um muro,
construido pouco antes pelo famoso emir Hucein eMir Ho-
• Taes parecem 1er sido os successcs
1
segundo SI podem deduzir das
narr11ivas um lanlo discrepan1es de Barros
1
de Ga!lpar Corrêa, de Aodrl!
Corsali, e de Manheus.
cA emt.ttixada de Gaivão 1119
dos nosso! m3!il ficaVR 11berta e sem
para o lado do mar. • E alli se achavam finalmeme as galés
dos rumes que os nos: os vinham procurar; algumas a nado,
a maior parte varadas em terra, na praia c pelas embocadu·
n1s das ruas.
os capitães esperavam que 110 <lUIC..l dia rosse odes-
embarque e o ossaho. De terra fugiram para a armada al1uns
coptivos christãos. os quaes affinnavam que os musulmonos
não esta vem dispostos nem preparados a fazer uma sraode
resistencia. Lopo Soa:-cs, porém, não se decidiu a atacar, e,
apezar da opinião dos <:;apitães, ':1 dos avisos favoraveis, dos
pragas e palavras injuriosns que começavam a soar a!to na
õlfmlda, ficou em uma immobilidadc c uma hesitação illnpli-
caveis, tanto mais inexplicavcis, quanto elle se havia mostrado
arrojodo na cmrada.
Parece que o nosso Duane Gal•·ão imerveiu t·ntão, fe-
ch.:mdo-se com elle na camarada nau, •com grandes amocs-
taçõcs, apontando-lhe muito graildt:meme• quama quebra da
honro por1ugucza resultaria de não pelejarem, depois de te-
rem entrado no porto. Lopo Soares respondeu lhe apenas,
que o deinsse e o não importunasse, encerrando se depois
por tal modo, que ningucm lhe falla,·n e ninguem o via. Esta-
rinmos quasi dispostos a acreditar, que ellc não estivesse no
uso das suas faculdudes, acceitando a explicação de!
Gaspar Correa. de que • ••• com as luas era tocado da doen-
ça de gota cora1.•
Ficaram assim no porto elguns dias, 3 e subhamente, uma
1 Veja-se a curiosa e1t1mpa de GasparCorrCa, Undtu
1
11
1
a p.494
1
re-
produzida no começo d"esEe capitulo; e comp;rre-se com as tav. Lili e LIV
do Vny.tge C'lf A,.,,bic de Niebuhr.- Sobre a connrucçlio das fortifica-
ç6es de JudA rodem Ytr·se as noliciAs arabiGIB
1
recenlemente
doarabe pdo sr. D1vid Lapas, ExtrtJeiO."' da Hrsl. da Co11911isla do Ydll'l'an,
Lisboa, •89':1-
2 Veja-se a narrativa de Gaspar (ündas, 11, 49'5); e a nrslo
um pouco diveru. de Ca:nanheda (H1sl. do L. IV
1
cap. •
3 ·Sei• diu•
1
diz Gaspar Corréa; •Ires•, di:Diniz Fernandes.
da Covilhan
manhã, sem rasão conhecida ou plausivtl, o governador man-
dou {III.Ur de vela a sua nau, saindo pela barra fõra e orde-
nando aos outros navios que o seguissem. Como em natll!'al,
esta retirada foi acolhida na armada pelos protesto& dos por-
tuguezes, em terra pelas apupadas insultantes dos mouros.
Na armada, a disciplina vinha irremediavelmente rota. Os fi-
dalgos e os soldados, lembrando-se dos golpes de mão, subi-
tos c energicos, de Atfooso de Albuquerque, diziam aho e
que pensavam do seu novo commandante, chegando a pôr cm
duvida a sua coragem pessoal. •
Depois, ' influencia desmoralisadora dn retirada vieram
juntar-se as privações, completando a desorganisaçlo. Nave-
gando para a iltla de Camarão (Kamaran) i' cm Abril, en·
contraram grandes calmaria9. A agua faltou i O!l mantim.ento!l
escassearam. Em Camarão, onde estivcrnm de 2 de maio a 10
de julho, tambem não havia mantimentos, nem modo de os
obter. Uma só vez ao dia davam és guarnições uma fraca. ra-
ção de arroz cosido. Os malabarcs e os escravos das galés
morreram aos centos; jé nfio havia quem remasse. Dos
portoguezes -diz Gaspar Corrêa-morreram novecentos.
Segundo refere Diniz Fernandes, mandaram em Camarão
.:ontar os homens, e acharam ao todo mil e quinhentos, entre
doentes e sãos. A' sabida da lndia eram mil seiscentos e cin-
coenta portuguezes, e mais sei:scemos malabares e mais seis-
centos escravos. Juntava-se á vergonha da retirada a angus-
tia da doença e da fome, e de toda o armada se clevan um
enorme clamor contra Lopo Soares. 2.
Duarte Gaivão adoeceu. Tudo aquillo era de mais para os
!oleus setenta e tantos anno$. O filho, moço e querido, fica·
va-lhe sepultado nas agues do mar Vermelho. A sua missão-
• •E os quo eram do lempo de Atfoaso de Albuquerque traziam '
memoria seus commeuimelltos sem medo .•. •; Castanheda, Hisl. do
L.lv,cap. 13.•
2
.E era medonha e piedosa cousa de ver os gemidos e clamores.
que todos faziam conlra ho governador• ; Caslanheda, Hill. do L.
IV
1
C1p. 13.•
cA embaixada dt Duarte Ga/pão 221
via-o elle perfeitamente - est.tva pcrJiJa. Aquclle grandioso
projecto de liga da chri!nandnde contra os turcos, (jga em que
Portugal devia ter o primeiro todos os seus sonhos de
bom c leal portuguez, todas as vlsôcs de catholico fer-
voroso. tudo se esvaio. em fumo. Judá, por onde se podia .lta-
car a Mekka., centro abominavcl Jo abominavel islamismo,
Judl1 ficava intacta; e imac:uts em Judá as galés dos rumes.
Ainda lhe soava aos ouvidos a algazarra triumphante dos mou-
ros, ao verem retirar ns bandeiras portuguezas da armada.
Da sua ida .t Abyssinin já nem se falava. Todos estes pensa-
mentos sombrios pesavam no seu animo n"nquellcs abafados c
interminaveis dias de maio, passados junto da ilha. O
augmentava. O ternvel mar V crmelho, aquecido ao fervor dos
tropicos, parecia um infernal. Nem um sopro corria
sobre a praia arida, nem uma aragem enrugava o mar parado,
cm que o sol intoleravel se reflectia como n"um espelho. Na
armada, m.trinheiros e soldados. escrnvos e malabnres mor-
riam ás centenas, das doenç11s causadas pelo calor, pela sede,
pela fome, pelos mantimentos pôdres. Todos os dias se dei-
tavam cadaveres ao mar, onde na agua transparente rond.t-
vam os tubarões sinistros. E no meio d'este quadru de deso-
laçiio c de miseria finava-se o velho embaixador, o antigo en-
viado ás côrtes de !\1uximiliano e de Julio 11.
Quando o padre Alvares voltou de llalaca na •S. PeJro•,
ainda Dunrte Galvõo estava vivo. O padre foi immediatamrnte
\·el-o, e perguntou-lhe sollicitamente como se sentia.
-Padre, disse-lhe o \·clho, perguntaes-me como estou, c
não me daes novas da morte de meu filho.
-Senhor, respondeu-lhe o padre. pretendendo confortai-o.
cstarã. prazendo a Deus em algum porto d.1 terra d" onde nos
vimos.
-Por mais certo, disse Duarte Gaivão, tenho cu que clle,
c meu !'lobrinho D. Alvaro com qu.mtos iam na sua fusta, es-
tarão no paraiso, onde Nosso Senbor os levaria por sua mi-
sericordia, pois morreram em seu serviço e de seu rei. Cá po-
deis ter por certo, que todos se alagaram no mar; e Lourenço
Pedro da Covz1han
de Cosmo, algun!l do seu navio, os mouros lhes cortaram ns
cabeças na ilha Dalaca, onde os vós leixastcs.
Correu então na armada, que Duarte G.tlvúo havia dito
estas palavras; c quando. dois dias depois da sua morte, chc-
gusm as c.aravelns de Dala.:a, e se soube o que alli effc.:ti-
\':J.mcntc todos mara\ilh.tdos domoJo my5·
tcrioso c sobrenatural por que clle fUra nvisndo do que se
p.essavn ao longe. cParecc-diz. João de Barros-que o ani-
mo do homem, quando já está de partid.:1 para o legar dos es-
piritos, quasi meio separado dil carne, vê em espirita o que a
nós não é manifesto•.
Assim morreu Duarte Gaivão a 9 de junho de .S1;, não
de uma doenca conhecida e definida, mas de desgosto e de
desanimo; de enojo•, como diz Jo:io de Barros; de •paixão•,
como diz Gaspar Corrêa.. Enterraram-no na ilha de Camarão,
e o bom padre Alvares marcou cuidadosamente o legar dn sua
sepultura. Annos deveis, voltando da vciu ulli. des-
enterrou piedosamente a ossada do seu velho chefe c amigo,
e luou-a para a ]ndia, d'onde Antonio Gaivão a trouxe para
Ponugnl.
A morte de Gaivão foi o u1t1mo golpe na missfio á
Abyssinia, que já estava muito desmantelada. O pessoal por-
tuguez da embaixada separou-se. Lourenço de Cosmo ficava
morto cm Dul:lca. O padre Alvares seguiu para a lndia. Lopo
de Villalobo:s partiu pouco depois para Portugal, mandado por
Lopo Soares a contar e explicar a seu modo ao rei os succes-
sos de Judá e Camarão. Vciu logo DO comeco da moDção,
n"aquclle mesmo caravclão cm que Lourenço de Cosmo fôra a
Dalaca, governado agora pelo famoso piloto Pedro Vaz da
Vera; e fez uma rapida viagem cm um dos bar.:os mais pe-
quenos, que emão navegaram dos mares orientaes para Li!-
boa. •
Da embaixada abcx.im ficava Mattheus; mas de M.tttheus
• •-· .O caraYellio er11 como huma barqua pescareza IJe LisboaD;
Gupar

11
1
.SoJ.
C!A. embaixada de Duarte Gaivão
ninguem fazia grande caso. Depois da morte de Duarte Gal·
vão, o· governador mandou-lhe simplesmente dizer pelo seu
secretario, Diogo Pereira, que não esta v a disposto a levai-o
outra vez para a India, e que o deixaria em terra em qual-
quer de tres pontos, Aden, Berberah ou Zeila. Mattheus res-
pondeu, com muita rasão, que aquelles tres portos pertenciam
aos mouros .e não lhe convinha ficar alli, o mandasse o
governador pôr em Arkiko, ou o env·asse para Portugal, ou o
levasse á India. Parece que o governador não insistiu, e Mat-
theus deixou-se ficar na nau (CS. Pedro», onde ía tambem o pa-
dre Alvares.
Em julho, a armada levantou ferro de Camarão, saiu as
portas do Estreit'l e foi a Zeila, que Lopo Soares entrou com
uma certa facilidade e queimou sem grande utilidade. D'alli,
alguns navios se.guiram com o governador plra Aden; os ou-
tros dispersaram-se, foram apor onde lhe bem veo, buscar re-
media de c0mer e beber», por\1ue to::ios os laços de obedien-
cia e disciplina estavam desatados.
De Aden, o governador correu a costa da e foi
parar a Hormuz, onde se deu um inciJente curioso. Lopo Soa-
res quiz alli embarcar na «S. Pedro•, em que ainda iam
theus e o padre A \vares. l\iandou chamar este e disse-lhe que
prevenisse de que devia passar para outro navio, no
qual. iria mais bem agasalhado. viu n'esta ordem uma
manha para o deixarem em terra, e respondeu ao padre, que
não saía d'alli, que a nau pertencia ao rei, e n'ella havia de mor-
rer como achristão e cavalleiro)). Mandaram-lhe o mesmo re-
cado Diogo Homem, e este recebeu a mesma resposta.
1\landaram-lhe o patrão da nau para o tirar á força, e elle
fechou-se na camara, defendeu-se, e lá foi na «S. Pedro• até
Cochim, cem que pesou ao diabon. E' verdade, que se vinga-
ram cm o tratar mal; o padre Alvares jurava em sud'conscien-
.cia, que nem "hüa soo laranja de refresco nunqua foy dada ao
en bavxador •.
el
Assim foram até á India, e assim terminou aquella expe-
dição, uma das mais desastrosas de que rezam as nossas Chro-

niCas. Lopo Soara ha•i• Slcnfica.do caJimU de wiW, bawia
daorpoiudo • baia compromea:ido o prnáp do
nome e anne pornliUUU. KID fazer oada,
meare nada do que lhe f;a enc.ommmdedo. Niolezmlda..como
muiro l:tem diz o crudi10 bispo Jeronyma Ülor'lo ao ses Yâm
correao: N« erri• l.uttiiiiO ___., wqw
ct.uJpo n..:n.lil, _. JodJm .,.,..,-. - --
,,..,. Rqps .-Ettiopu l'lfal.m;, Iom I , _,,_
ral J1401S, uprwnt.
Com os res10s do pessoal da emiJau:ade YollOU f*'& a lu-
dia o f.amoto presente de D . .Manud para o c por li
ae desbaratou KID d"ís.JO se: romarun c.ootas. • Tudo se pu•
deo pM minp da Lop<> Soares -Ihz rrmqaoll._..re G.s-
par Corrta -c Lopo Soares o DDm pe.sou•.
No. doiJ annm se,guinces., a missão ;1 Abpsioia 6coo bu-
unrc csqueada. Manhetn cst .. a Coc.bim.. oode-di.z elle-
reubia •asaz c:knjunas c pouca bo1ra•, não tendo dinheiro
para ae nsrir, nem para comu. • Em Cochim cstn:a tamban
o padre Alnres, ma:s csu não sentia afroiur o 5Cll zelo, e
nio perdia a esperança de ir i Ethiopia: •SoomeDic peço a
"· a.-acre•ia ellc a D. MaQud, -que mandando owro n::udo
ao Presre eu n.am fique•. 1
No outono do anno de 1S18 chegou i lodi.z Diogo Lopes
de que ia substituir oo go\""crno Lopo Soares. Nio
leYaYa npccian sobre o proacguimtoto do nego-
cio do Preste, porque no momento cm que saiu de Portugal
se is:norua toem duvida ainda a morte de Duarte Gal .. lo e o
desbarato da primeira embaixada, qu.e se deria suppor 11
uminho da cône do Ncgus, ou chegada ;t ao seu ck!!ttino.
Quer depois recebesse ordens, quer tomasse clle proprio a
miciariva, quando oo anno de 1S,:ilo partiu com a armada para
• Carl• dt' a O. Manuel, dat•da de Cochim em l de noTea::a-
bro cl• Gr•ÇI Barreto, a.-veja-se tambem • C4rt4
•nblc• de 17 de •gosto de 1S1S. cm fr. Jcio da Sou••, DocumC"IIIO.S QI"-J-
btCol, 95-

cA embaixada de Duilrle Ga/J'lo uS
o mar Vermelho, Diogo Lopes deu logar a bordo ao embai-
: ~ a d o r Mattheus, e ao padre Alvares, que estava com eUe em
Cochim. a E parece ter levado comsigo mais alguns restos do
pessoal da primeira missão, e alguns objectos do famoso pre-
sente, escapados li traça e é dc:lapidaçfio. Nio tinha, portm,
plano definido de organisar nova missão portugueza; e unica-
mente o de pôr M.utheus em terra c •deixolo soo•, porque
todos continuovam a ter o pobre armcnio na conlo de •falso e
mentiroso•. 2
Não nos demoraremos a contar a derrota da armada, que
chegou ao porto de Massaui no dia 7 de abril de 1S2o. Diogo
Lopes desembarcou na terra firme, por detraz da pequena ilha
de Massaué; e á praia o veiu visitar o chefe 11bexim de Ar-
kiko, bem montado e bem vestido, seguido por um luzido
acompanhamento de gente de cavallo e de pé. Poucos dias de-
pois, veiu avistar-se com Uiogo Lopes o proprio governador
de toda aquella provinda linor.o.l, o poderoso e celebre Bahr
Nagkh ou Re,- do mar. Antes mesmo de chegar o Bahr Na-
gAch, começaram tambem a apparecer frades e leigos, descidos
do mosteiro visinho de Bizan, apuar de ser oitava de paschoa,
tempo em que não costumavam viajar. Mu a grande alegria
de saberem como estavam alli christãos, levava-os a sair dos
seus habitas, e a abandonar as suas orações.
E estes frades, trazendo cruzes de metal na mão, e estes lti-
gos, com as cruzes de pau preto ao pescoço, faziam todos muita
honra a Mattheus, beijavam-lhe a mão e o hombro cm signal de
reverencia. A cotação de Mattheus- se me é permitüdo empre-
gar esta expressão da moderna linguagem financeira-a cotação
de Mattheus, que antes estava muito baixa, subiu rapidamente
ao par. Todos agora acreditavam o que elle dizia. Era evi-
• Por Pedro Vaa: .Ja Vera, aquelle piloto que viera no caravello la-
tino com Lopo de Villalobos, recebeu Sequeira orden5 de Portugal, mas
indo ji a caminho do Estreito. Nio 11! hem duro, se anteriormente rece-
beria outras indicações.
• AJ\'ares, y,,.4Dd. itt,/onmJÇIIIII
1
a.
••
denEe, que atiYam cm um podc:roto pliz cbrisdo, e um p11Z
em que eJie era conhecido e •coerado. O a:nbasiasmo com-
IDUIJIC.aY.&-se de um a outros, de christios abains • dl:rülios
portuguues; aquelln recordaYam a sus anãp u-adiçio, de
que alli •iriam 1et cbrislios. de lqas 1crra.s, c, aberto um
poço de agua no solo, dnapparu.eriam para sc:mpce m mou-
ros; ellea danm graçu c 1001'1:)«5 a IJcu5 por 1·ircm rocoa-
lnr1 entre tantos inimigos da ft. um pmo •com mostciro5 c:
casas de oração oode Deus era senido•. As de
crcoça e de liturgia coiTe calholiros c: jacobitas, que um se-
culo depoi.! deram logar a tão s1ngrcous peripccias, aio eram
cnlâo conhecida!, nem foram n ·aqocUc momento scaudas. Pa-
dres ponugueles c frades abcx.ins foram iuntos .t. mesqui1a de
Massaui, connnida em lt@:reja, c alli se disse uma missa em
honra c lou•or das cinco chagas de Christo.
E51:a cnb"cwista de Diogo Lopes com os abc:r.ins de ARiko
c com o Bahr Naglcb marca uma da1a essencial no conheci-
mento da Abyssinia, corrente entre ponuguczcs. Até cn1io
tudo esUYa bastante confuso. Pedro da Covilhan vivia no in-
terior baria vinte c tantos annos; mas não tinha mandado de
hl noticias directas. Os ponuguezes do Oriente sabiam sim-
plesmente o que lhes coot.1vam os mouros do mar Vermelho,
ou alsuns escravos abe1ins, encontrados na lndia. Poucos .. dos
melhor informados, conheciam bem a c:r.i!!l>tencia do imperio
c.hristão, c ccno ponto a sua situaçto e alguns factos da
sua organisaçio interior, corno se • c:r.cmplo, do li11"0
de Duanc Barbosa, ou das Ca,.Ias de \Oonso de Albuquer-
que. Seria, porém, um erro imaginarmos, que esr:as noticias ti-
nbam publicidade, e eram geralmente sabidas c ban comprc-
hendidas cm Ponugal. Pelo contrario, pouquissimos a!. viam,
e esses mesmos nem sempre as podiam estudar, aclarando-as
pelo conrronto de wna! com outras:. E" ceno, que um embai-
xador do proprio Preste João, o nosso Maubeus, acabava de
passar mais de um anno em Lisboa, c quatro ou cinco en1re os
portuguezes da lndia; mas em volla do que cite dizia e con-
ta'f'a havia se rormado uma atmosphcra de suspe:içio c de du-
cA rmbai:Xa.da de Dur2rte Ga/páo 2 ~ 7
vidlil, que rirava parte do .alor és S\l8!1 informaç6es. D'aq\li
res\lltava uma gr.mde incerteza em tudo quanto dizia respeito
4 Etbiopia.
Damião de Goes dá-nos uma prova ifldirecta de quao·
to era grande aquella incertez.a. Conta-nos elle, 1 como
n"e!te mesmo anno de 1 ~ : l o eJ-rei D. Manuel mondou um
certo Gregorio da Quodra ao Congo, para pelo interi ... r da
Africa ir ao grande lago central, c de li 4 côrte do rei da
A byssinia, c, desejoso (D. Manuel) dachar modo de poder co-
m\lnicar este principc per suas cartas e mensageiros mais a
miude do q\le o podia fo7.cr per via da lndia •.. •. Tal ideia,
de commuoicar mais facilmente com o Abyssima pela bacia
do Zaire do que pelo lado do mar Vermelho, t a mais clara
prova de quanto t\ldo aquillo estava ainda nebuloso. Mas ha
mais i não obstante o terem jã os port\lguezes navegado cm
varias occasiõ:s pelo mar Vermelho, com Aflon.!.o de Albu-
q\lerque, com Lopo Soares c com outros, conheciam muito
mal a situação de 1\lassaua e de Arldko, os portos propria •
mente da Abyssinia. Na armada de Diogo Lopes, os pilotos
não sabiam o caminho, não •saberiam tomar a ilho de Ma-
çu4, por se não atreverem os Pilotos a itso•, nem mesmo
Pero Vaz da Vera, um dos mais peritos e q\le já antes esti·
vera em Dalaca. :a
T\ldo isto se aclarou, quando Diogo Lopes e toda a arma-
da foram a Arkiko, q\lando centenas de portuguezes viram
com os seus olhos os abexins christãos e o grande Bahr Na-
goich ; e souberam por elles como o que chamavam Preste
João estava d'alli relativamente perto. O credito de Matthe\ls
restabeleceu-se, exactamente porque as cousas da Etbiopia se
tornaram mais patentes n'aquelle momento. As cartas dos con-
tcmporaneos dão de um modo claro esta impressão. O licen-
ciado Pedro Gomes, escrevendo de Cochim a 3 de novembro
Je 1S.2o, encarecia a D. Manuel o grande serviço feito por
• Clrron. de D. ltiGIWt1
1
Parte rv, cap. S4-•
:a Barros, Asia
1
w
1
w
1
ro.•
218
Diogo Lopes cm saber a verdade iccrca da Ethiopll : •por-
que-accresccnrava cUc-csto era tio inccno a parecer dos
homens nom quis nosso senhor que o que era tido por burla
tanto durasse á incertidão da nrdadc•.
Foi, pona11to, d'esta expediçio de Diogo Lopes õ costa de
Arkiko que dataram as noticias claras, ~ g o r a s c m&D gcracs
éccrca da Ethiopia. E a estes resultados, obtidos cm Arklko,
iam seguir-se outros de maior importancia. A cnlrcvista de
Diogo Lopes com o Bahr Nagitch foi muito cordeai c muito
aignificariva. Trocaram affirmaçõcs de amizade e alUanç.a, ju-
rando amhos pc:la cruz cm que Jcsw Christo padeceu, que
d'aUi cm deantc sempre ajudariam em tudo c cm toda a parte
as causas dos seus mutuos :soberanos. O Bahr Nagâch decla-
rou cgualmentc tomar em sua guarda o embaixador ManhCU5,
c assim mesmo •outros embaixadores c gentes•, que o capi-
tão mór quizesse mandar pela terra c senhorios do Ncgus.
Diogo Lopes de Sequeira viu rapidamente-é neces!lario
fazer-lhe jwtiça- quanto era favoravcl o ensejo para reati!lar
os ~ s planos de D. Manuel. Dccidju ir além das suas ins-
trucções i c alli mesmo improvisou uma embaixada, um cm-
bais.ador, um presente e uma carta para o Pre!ltc
1
c um rcsi-
mento para o enviado.
CAPITULO VIII
Rodrigo de Lima
1
nomeado por Diogo Lopes de
1
Sequeira para ir fiO Preste:, era filho de D. Duarte
da Cu11ha de Lima, neto de D. Leonel de Lima,
• primeiro visconde de Villa Nova da Cerveira i • e
pertencia, portanto, a uma das mais nobres e mais illustres fa-
milias de PortuGal. Parece ter sido um homem strio, desejoso
de cumprir o seu dever; mas de inrc:lligencia mediana, nfio
comprehendendo por modo algum a índole dos povos semi-sel-
• Tclles, Etlliopia a alta, ~ cap. S.•
2.1o
'f'agens com quem ia tratar, 11: não tendo mesmo um grande asa
cendente sobre o pc:J_ucno grupo de portuguezcs que levan
c.omsigo.
Abaixo d"cUe ia Jorge de Abreu, de caracter dcscon6ado,
insoffrido e bulhento, que por vezes lhe lewantou grandes dif-
ficuldodes; e depois Lopo da Gama, bem pouco disciplinado
lambem. O •php;ico•, medico ou cirurgião, da embaixada na
um mestre Joio, de quem ao deame muito que diz«.
Por escrivão ia João Escolar i c por fciror e inrerprBe Joio
Goncalvcs, auxiliado por um abc:.:im, chamado Jorge, que
fõra caprivo do! mouros e o padre AI .. ares .-esgatãra cm Hor·
muz. Iam lambem Lazaro de Andrade, pintor; c Manuel de
Mares, organisra, o qual lcnva comsigo um •orgão fnutado•
e um .,cravo•. Julgo, que um c outro seriam restos do pessoal
da primeira embaixada, d"aqueUcs •musiqos de • c
officiaes de eofficios macmllqos•, que-segundo Gaspar Cor-
Ra- saíram de Ponugal com Duarte Gal,·io, c lã teriam fi.
cado pela lndia. 1 Em situação inferior 1am Gaspar Pereira,
Affonso Mendes, João Fernandes, c Estevão Palharlc, homem
desembaraçado c •bom esgrimidor•, parte d"elles crcsdos de
D. Rodrigo; c Pedro Lopes, sobrinho do padre Alvares c seu
companheiro constante. Ia lambem, ao serviço do cscriwão,
um mulato de Coimbra, chamado Ayres Dias, que voltou ã
Abyssinia uns wimc annos depois, se fez meio abexim, c aca-
• G.npu Corrêa, úrrd.u, n, S87.-Na relação dos objectos entregues
a Loureoço de Cosmo, a que DOs rererimos oo capitulo antecedente, 1].
suram os orsios; e nu ordeos da<Ws por D. Muuel (fi de jnJbo de IS14)
pua preparar as cousu que deviam ser mandedas ao Prqte, e reunir o
pei50&1 da lê-:1e o 5e!Uinte:
••L dous auomeotos dorg:ios da 8f&Ddura dos de aosa c•ptlll
com seus roles. o ••••
•iL dousuogedores pera cUes ..••. •
•iL dous pünores tambem pera ir o ••• o e
Veja-se Graça Baneto, I.DlT.
e4 embaiXada de D. RodriHO de Lima 2J1
bou, dizem, por casar com uma das mulheres do rei de Adel. 1
Ao serviço do embaixador abexim Mattheus iam tres porlu-
guezes, Diogo Fernandes, Joiio Alvarenga e Magalhães ; c um
Francisco MattheuM, antigo mouro escravo, que lhe dera em
Ponugal eJ.rei D. Manuel. Por ultimo, lati 6111 not lhe least,
ia o padre Francisco Alvares, que foi o alma da embaixada,
e o seu chronista intclligente e fiel. De resto, a sua importan-
cia era já então reconhecida por todos, e Diogo Lopes disse
ao embaixador na presença dos outros:
-D. Rodrigo, eu não monda("o podre Francisco Alvares
comvosco, mas a vós mando com ellc c cousa alguma façacs
sem seu conselho.
Tal era o pessoal da missão portuguczu, c tambcm primeira
missão européa, que ia fazer uma tão curiosa e tio interes-
same viagem pelas terras mais ccntraes da Abyssinia. 2
Como vimos, havia·se imprD'.'isado alli mesmo em Mas-
sauá um presente paro. o Preste, bem diverso do que fôra em
tempos confiado a Duarte Gaivão- •assaz pobre•, diz o pa-
dre Alvares. Co11sistia em uma espada e um punhal, bastante
bons; clgums.s armaduras e lanças doiradas, •a!! milhorcs que
se poderam achar narmada•; umas peças de artilheria, ou
cberçou, com as suas muniçóes, que depois pelas difficulda-
dcs de transporte deixaram no caminho; tres ou quatro psn-
nos de armar de •figuras de Frandeu; e um •mappo mundi•,
• Vcja·se de Castanhoso, Rui. tlQJ cousas o m11y
f·'do cap11iio Dom dQ GarnQ noJ Rtynos do Preste Jo:io
1
p. S1; e BermuJez, BrwerelDçiio, S6 e "j6-ambas as obras fazem parle
dos Opusculos pela Ac. R. dos Se. de Lisboa.
' Segui n'I!Sta enumeração o padre Alvares, que melhor que ninp:uem
devia conhecer os portugueres com quem viajou seis snnos; e differe um
pouco de Gaspar Corrêa. Alvares logo no começo, a proposito da morle
de Manheus (p. 8) menciona um padre portuguez, mestre Francisco Gon-
çalves, de quem nunco mais fala, c 1olvez voltasse para tru.- Bruce,
com a sua incorrecçlo habitual quar1do f11la das cousas portuguezas, ar-
Yora em capellães da embaixada, além do padre Alt'ares, Joio Fernandes
e Pedro AHonso Mer!des, que não eram padre•.
Ptdro da C:0,11M11
para -na phrase de Gaspar Corrêa- •lhe darem a entender
a redondeza da tErra•.
Diogo Lopes escreveu ao Preste uma cana cuna e corre-
cta. Dava-lhe conta dos esforços, jé antigos, feitos pelos reis
de Portugal pera se pftrem em relação com os reis da Ethio-
pia; referia-se miudamente ;t missão confiadn a Duane Gal-
vão, interrompida pela sua morte; c explicava o motivo e oc-
casi§o da que actualmente mandava por D. Rodrigo i por ul-
timo, pedia perdão de a sua carta não ir bem redigida, cm
uma boa phrase, muito mais orgulhosa que modesta: •Se esta
carta nam vay bem orada perdoe vossalteza porque se nom
aprendeo mais nos toldos destes galleõea em que homem qua
hamda servindo •• •
Ao mesmo tempo redigia umas instrucções para D. Ro-
drigo, muito minuciosas c muito sensatos. Recommendava lhe,
que respeitasse os habitas e costumes da terra, guardando com
todos .roda peaz e concordia •
1
c vivendo sempre tio •onesta-
mentc•. que nem elle, nem qualquer dos seus portuguezes
dessem nunca um mau • ; e indicava-lhe os assum-
rtos sobre que devia clmmar a attenção do Preste, e as ques-
tóes variadíssimas l:ccrca das quaes procuraria obter informa ..
ç6e!. Noturolmente em primeiro Jogar as questlies
religiosas, devendo informar-se miudamente da natureza das
cerimonias e ritos, assim como da constituição da Egreja ethio-
pica. dignidade do seu •patryarqua•, existencia de arcebispos
e bispos, e outros pontos. Não esquecia, porém, o lado poli-
tico, e D. Rodrigo devia estudar auentamente o poder e forças
da Ethiopia, as suas reloç6es com os paizes visinhos., particu-
larmente com o CWro, sonda11do o Preste sobre a genle e man-
timentos. que poderia fornecer a Portugal no caso de guerra
com aquelle esrndo musulmano. Procederia, n'estaa
obenuras com toda a prudencia, quando tivesse bom ensejo
para isso • • • • e nam vindo aquoso falar nam lhe fala-
res •. Não esqueciam lambem os interesses commerciaes
1
de-
1 Veja-se • CllrttJ
1
em Graça Barreto, Docwme11M
1
CLT.
cA embaiXada de D. Rodri"go dt Lima 11J.J
vendo examinar a natureza da.s mercadorias d'aquella.s terras,
bem como saber, que acct:itação e consumo alli teriam a.s de
Portugal e da lndia. Não esqueciam mesmo os problema.s da
seographia pura, e trabalharia por uaber do rio nillo bonde
nace e se saem dele alguns braços ou se vem todo junto, e asy
dalguns outros rios •••• •· Todo o interessante documento faz
oruita honra a Diogo Lopes de Sequeira que o redigiu; e, sob
a ingenuidade da fOrma, nos mostra bem como entre os por-
tuguezes havia já então a mais clara comprehensii.o do que con-
vinha vêr e estudar n'aquelle novo paiz. •
Estes preparativos fizeram-se rapidamente, e ao cabo de
poucos dias tudo estava prompto pelo lado dc:-s nossos: redi-
gidas a carta e as imstrucçôes; enfardado o mOOesto presente;
munidos o emba.ixador e comitiva dos seus melhores vestuarios
e arma.s, a fim de apparecerem dignamente na côrte do grande
rei christão, de quem ainda formavam uma ideia bem diversa
da realidade. Pelo seu lado o Bahr Nagâch havia reunido as
Dllllas e camellos necessarios para o transporte do pessoal e ba-
gagens. Despedindo-se, pois, de Diogo Lopes e dos outros que
ficavam na armada, os membros da expedição partiram para a
sua longa viagem, oruito mais longa mesmo do que cuidavam
-o Negus estava então no Choá, e elles tinham deante de si
toda a Abyssinia a atravessar.
A caravana poz-se em marcha em uma segunda feira. 3o de
abril de 1S2o
1
saindo da praia de Arkiko e caminhando pelas
terras baixas, que medeiam entre o mar e a ba!e da grande en-
costa oriental do planalto, terras aridas e de • grandissimas
calmas•, segundo diz o padre Alvares, c depois d'elle todos
1 O titulo das inSlrucções o seguinte: Esla a lo'd.f
D. Rodrigo y4a rm lrys; alo datadas do porto de •ma-
çu4• em 2.5 da abrll de 1S:ao i veja-se c documento na intewa em Graça
Barreto,

cuv.
:a hoje por alli perto uma pequena linha ferre& de ':1'] kllome·
U'OI
1
COD.Itruida pelos italii.D.OL
3o
Pedro dtZ CovilhtZn
os que alli passado. 1 A1J terceiro dia de viagem come-
çaram a subir a e11costa pelo cami11ho que vae a Asmaré, re-
lativamcRte facil para a Abyssinia; 11 mas o nosso conhecido
Manheus, que por estar na sua terra não deixava de ter as
phantasias hahiruaes, insistiu em os desviar do camir.ho tri-
lhado, para os levar ao mosteiro de Bizan, onde -dizia clle-
encontrariam melhor aviamento para o seguimento da sua via-
gem. Metteram-sc, pois, por -serras e mattos indiabradou,
onde mal podiam cami11har a pé, com as mulas deante, e onde
os camellos davam urros, • -- -bradavam parecia que os to-
mava o peccado•- Assim foram até ao pequeno convento de
S- Miguel, no sitio de •<Dise• (S. Miguel de lseo), 3 depen-
dente do grande mosteiro de Bizan.
Na demora alli adoeceram varies porruguezes, morrendo
mesmo um d'elles, o Pereira, creado do embaixador. Mattheus
adoeceu tambem; mas ao cabo de poucos dias, julgando-se me-
lhor e !lendo multo •feito da sua vontade•, paniu para Bizan
com os seus creados e bagsgen!. 1 Chegando, pofc!m, a um lo-
1 Dei:r.o o'este capitulo de citar a Verd12di!ir12 iJI{ormi2ÇI2m, rorque re-
ria de o fazer constantemenle
1
ficando en1en":!ido que me refiro .a infor-
maç6es do padre Alvares, quando não declarar as outras fon1es portu-
guezas a que me reporto.
:1 Trilho seguido duranre seculos pelo commercio, e por onde ainda
passou ( 1fl93J Theodoro Bent. Hoje, os i1alionos estio .alli construindo ou
teem já construida uma enrada em lacetes.
J Depois de me ter dado a oJgum rrabalho para reconstruir sobre 111
canas o itinerario de D. Rodrigo de Lima, achei que essa reconstrucção ji
fóra feire pelo capitão do estado maior italiano D. Stasio; veja-se lll'itJBt:io
deli A/1'12ft'J
1
no BolletiJIO dell12 Soe. gtoçr. 11aliaJ1a p.
8o3eseg:uinte,. Varias veze& discordo dos resultados a que chegou o sr.
Stasio
1
como indicarei em nota. -Pela ellcellente Ctlrll2 4imostralivl2 4e111l
Eliopia (escalla da 1:1 oooooo), publicada pelo estado maior iraliano (1&].4),
compilada pelo major H. de Chaurand, l facil marcar os traços seraes da
viagem; mas nio iden1ificar todas as loc.alidãdes
1
j-6 porque alguns dos
nomes de Alvares es1ejam mal escrip1os, j4 porque as povoações tenham
desapparecido, como tantas vezes succede na Abyssinia.
4 De S. Miguel a Bizan distam apenas aJauns kilomctros; m11s da pes-
simo 11:aminho CSta.Uo, 1. c.).
c4 em!aixada dt D. Rod,·igo tk Lima :JJ5
garejo enue S. Miguel e Bizan recahiu, e tão gravemellte que
foi logo chamado mestre Joio para o tratar, indo em seguida
vi!ital-o o embaixador e o padre Alvares. Este ficou alli com elle,
confessando-o, dando-lhe s. communhão, e assistindo aos seus
ultimes momentos, em que Mattheus di1:tou o seu testamento
em portuguez, e tambem em geez a um dos frades do convento
proximo. No dia 23 de maio falle.ceu; e em seguida levaram-no
a enterrar c mui honrradamente• ao mosteiro, indo no acompa-
nhamento D. Rodrigo, o padre Alvare.s,Jorgc de Abreu e João
Escolar. Infeliz até ao fim, o pobre armcnio morria logo ao en-
trar na sua patria adoptiva, quando podia receber do Negus c
da rainha Helena a paga dos seus serviços, e dcscançar da sua
penosa viagem de oito annos, na qual- é for coso dizei-o- é
parte Alfonso de Albuquerque, D. Manuel, o padre Alvares
e poucos mais, havia sido bem mal e bem injustamente tratado
pelos ponuguezes.
Retida durante mais de um mez pelas graves e successivas
doenças dos porruguezes, por esta morte de Mattheus, e no
fim pela má vontade dos frades, a expedição só partiu de S.
Miguel a 1S de junho. Continuavam ainda a subir a grande en-
costa, caminhando por •mui bravas serras•, entte mattas dos
chamados zambujciros e fundas quebradas de rocha, onde vi- .
ram numerosos bandos de bugios do tamanho de •carneiros e
por deante felpudos como liõe:u (Hamadryast). No domingo
17 de junho disse o padre Alvares missa no pequeno lagar de
cÇalote•, • e alli começaram a caminhar mais desafogadamente
por terras planas, calqueves e lavouras á guisa de Portugah.
Estavam já no planalto, entre dois e tres mil metros de aló-
rude.
Depois de passarem em umas ribeiras correntes (o aho
Marcb) chegaram no dia 18 de junho a .Barua• (Debaroá), a
capital do Bahr Nagâch, ou pelo menos um dos lagares ~ o n d e
• Zalot
1
na aresta do planalto, muito proJ.imo e ao sul de Asmara;
veja-se Chaurtnd
1
CarltJ llimoslrariv«; e lambem a CiZrttJ annc:u ao Uvro
do ar. BcnL
Pedro da Covi/han
elle assistia com frequencia, porque estes governadores das
grandes provindas levavam, li similhança do Negus, uma vida
quasi nomada. Debaroli era por aquelles tempos um clogar
mui bom•, rodeado de campos cultivados e de .,[nfindas al-
mas é hoje uma pequenissima povoafiiío, miseravel e
suja. 1
Alli em Debaroé, e no legar proximo de (\Barra• (Addi
Baro) ficaram detidos muitos dias. O Bahr NagAch parecia
menos bem disposto que na primeira entrevista de Arkiko;
promettia mulas e escolta, mas faltava; e de vez em quando,
como verdadeiro africano, pedia presentes a D. Rodrigo, o
qual se viu mesmo obrigado a dar-lhe a sua espada. Afinal
conseguiram partir para o sul, seguindo a estrada, ou antes
trilho, que leva a Aduá 2 e é hoje perfeitamente conhecido.
No planalto tinha começado a estação das chuvas, o que
tornava a viagem muito trabalhosa; e ellc.s caminhavam deva-
gar •pelos bravos invernos•, ficando-lhes ás vezes atraz e quasi
perdida toda a bagagem. Demorarwn-se ainda em c Temei•,
esperando as ordens de D. Rodrigo que os precedera i e d"ahi
saíram a 28 de julho, começando a descer muy
grandes pera uma grande ribeira•, o Mareh, que jli antes ha-
viam passado junto a DebarÕé, 3 mas aqui tinha mnito ·maior
importancia, e d'isso fa cheio. 4 No dia 29 de julho pas-
saram com difficuldade a bagagem, deixando na margem di-
reita a gente do Bahr Nagâch, e encontrando do lado de IIi
novos guias e nova escolta, quinhentos a seiscentos homens,
• •. . . • • • tbe village of Deba.roa, a place of abject squllllor and :rmse-
1}'•1 di& Bent
1
que por li passou em 1&)l.
2 bto n"aquclla dirccçio; a hoje importante povoação_ de Adu6,:ca-
pitlll do TigrE, ou niio e:rlstia ainda, ou era muito imignificantc.
3 Alvares identifica correctamente o rio que passou duas vezes: ·hc
esta (ribeira) sobre que ho lugar de Barua cstl. assentado•:; nlo lhe co-
ahece porém, ou nii.o lhe cita o nome.
4 Em outru estaçi5es o Marcb fica secco: •· •• a dry bcd of rocks•,
db:Bent.
cA embaixada dt D. Rodrigo dt Lima 237
mandados pelo governador do a quem Alvares c depois
os outro! ponuguezc:s chamam o Tigremahom. 1
Ao sul do Mareb, o a.spc:cto do paiz mudava i a.s monta-
nha.s eram maiores, cmuy altos picos que parece que subem
ao • d"aquella.s singulares montanha.s da Aby.ssinia de ver-
tentes a pique, apartadas umas das outras, e como diz o padre:
Alvores ccasi vão em hum compasso•. :z Em todas as moo-
tenhas se viam ermida.s, a maio\ parte do orago de Nos.sa Se-
nhora, collocadas algumas por tal modo, que não era facil
perceber como para ellas se subia.
Acamparam na primeira noite i c na segunda foram dormir
ao Jogar de cAbafaccm• (Ycha).
Estavam no mais antigo centro conhecido da remota civi-
lisação sabéa na Ethiopia, no que parece ter sido a cidade ou
villa de A v a, mencionada j4 na inscripção grega de Adutia. O
embaixador do rei de Portugal, D. M.e.nucl, pisava o mesmo
solo, que uns mil annos antes pis4ra o embaixador do impe-
rador do Oriente, Justiniano. o quol passara n"oquelle proprio
Jogar de A va. vindo de Adulis parn Aksum. Os tempos esta-
vam, porém, muito mudados, e só restavam vestigios c bem
poucos das antigas grandezas : uma egreja christan de grande
antigUidade, pois a sua fundação se attribue a Abbâ Afsi, um
dos nove santos, entrados na Abyssinia logo depois da iotro-
ducção alli do christianismo; e ao lado da egreja as ruinas de
uma torre qnadrada de muito mlllior antiguidade, poia deve da-
tar do vm ou VII seculo antes de Ouisro, e pertenceu talvez a
um templo dos sabl!os adoradores do Sol. 3
1 Ludoll supplie, que este nome, adoptado pelos ponuguezes
1
cor-
rupção de • que sign1fica o goYarnador do reino de Tigre,
HiJI •• E:thiop., L 1
1
cap. 4-•
,. •Lofcy. impenetrable mounu.ins line tbe road on ei1her side•t diz
T. Benl do caminho en1re o Mereb e Adul; e adeante: •The mountains
of Adoua ar,J: certainly tbe most pictul"esque and fantastic in •hape of any
mountairu I know•.
l Veja-se o estudo du inscripçlies himyariticu de Yeha pelo Dr.
MUller ao liwo do..-. T. Be.aft Tire Mcr.J ci'Y, :sJ1.
O oosso pacb Ah•arcs descrcn a •torre muy grande c
Cremosa •.. c bem parece que IOy cousa real toda anwia bem
la'I'Tada•, notaodo quanto o seu aspecto • ••• ou-
tro tal cdificio nio havemos Visto•- Não lbc rsc.apam hmbem
cm volta pelos campos os Ycstigios de uma ci'l'i.tis.açio. elcc-
pciooal na Abyssinia: • •.. fremosos campos c todos rq;adios
por lc:Yadas das agua.s ..• feitas artificialmente de c.anu.ria•.
RCCOrTe
1
porem, c: IIlllito naruralmcnte, ã sua erudição r.aJr8da
para cs.plicar aquellas ruiou. c conclue, que deviam ser aedi-
ficios da raioha Caodacia•, a que roi convertida cfiacooo
Phc:tippe. por intcnncdio do seu eunucho. •
De Abafac.cm a cs.pcdição foi a uma qrcja ou de S.
AligucJ., d'oode •Aquuumo• (Ak.sum) lhe fican para o
poente a dois dias de jornada. Não chegaram primeira
wiagem 4 celebre capital do antigo intperio ü.sumita; mas ça.
mo o padre: Alvares, nos seis annos de pcrmancncia na Abys-
sinia, alli foi depois, assiJtindo mesmo o"aquclla localidade oito
mczcs seguidos, aproveita a occ.asião para nos ralar das suas
antiguidades, dos seus famosos morJOlithos, das suas inscripç&:s
que ningucm sabia ler c deviam ser cm dcttras hebraicas•; c
para nos contar detidamente a historia da ninha de Sabli c da
raiaba Candacia. 2
De S. Miguel o padre Alwarcs c outros ponuguczc.s foram
por aAngucba• ao alto cabeço c terras de •Abacinctc• onde
• O e.apiEio Stuio (11 lliag6io 11111 Eliopi4 ddl.-4l•.urrJ alo fu 11
idenlificaçio de Abafacem com Yeba; mas fel-.a depois T. Bea1 (TIIIt .u-
crU aly. 1l4-). e nenhuma durida põde auscilar. E' de llOtar
1
que Benl
collfirma mail uma YeJ a e:.:acUdlo do aosao Alnres,cham&Ddo-lbe sem-
pre aU M4SI of 6Jiidu.- O aome Abaracem
1
uado por AlYara.
I elanmeu1e uma corrupção de AbbâAlsiouAbbàMse,onomedou.utD
a quem se aun"'bue a rWl:da.,ioda rsreja de Yeha; nja-se Bauet,
nJ. - Plin a aituaçlo de Yclul cousulle-se a Carla do livro de Bcnt.
:. A árc:umataDÓII de o padre Atrares de.scruer a'esta altun u au-
qmdades de AkJwn indw;iu em erro o capitão Susio. que ra.z passar o
itiDerario por AUum; a 't'erdade e que a e:r.pediçio seguiu de Yclul para
aueate
1
dei:r.ando .aalo direiiL
cA imbaJ.Xada de D. Rodrigo de Llina
acamparam; e d'alli a •Maluc• ou •Malucbe•, distante duas
lcguas, ao pé de uma grande amb.i, ou serra de venentcs cor-
tadas a pique. • E d'este ponto voltaram um pouco atraz, a
encontrar·se com D. Rodrieo c aleuns da comitiva, que haviam
ficado com o Tieremahom, seguindo depois todos juntos na
sua viagem. 2
Por toda a parte encontravam mosteiros e egrejas de V3-
riados oragos, de Nossa Senhora, de Santa Cruz, de S. João;
mas é medida que penetravam no interior iam tambem encon-
trando terras mais asperas c ecnte mais selvaeem. O numero
c auevimento dos animaes ferozes augmentava i os •tieres•
(provavelmeme hyenas) vinham de noite aos cerrados atacar
as vaccas e as mulas. As mulheres andavam nuas; moças de
vime e vime e cinco annos traziam •descoberto seu corpo ga-
lante cheo de continhas per cima delle•. E se cm Portueal e
Hc!panha- observava o padre Alvares- os homens casavam
por amores e por verem bons rostos, n'aquella terra bem po·
diam casar por verem tudo certo. Como era natural, todos
e.ues traços da vida selvagem surprehendiam os portueuczes
tanto mais, quanto os encontravam em terra christan, entre cere-
jas c conventos.
Reunidos agora a IJ. Rodrigo, e entregue ao Tieremahom
um punhal e uma espada de copos doirados c bainha de vel-
ludo, pois sem isso, como Ieeirirno africano que era, os não
deixaria partir, foram seeuindo seu caminho, indo dormir a
uma pequena aldeia junto de uma egreja de S. Jorge, e no
dia seguinte ao convento de •Paraclitos•, casa •muy dev6ta•,
• O capil:io Stasio identifica •Ailacinele• com Dabra Gannat, o que
é um ensano. •Abacinete• c •Malue• ficam muito a leste, e sio a famosa
•Amba Çanet•, tomada Yinte e tantos :annos depois por D_ Christovam da
Gama. Ena Amba Çoner, ou anles Amlla Sanayt, (Senaiti .!a Carta di-
mosrrariva de Chaurand) eatd entre as nbeiras Mai e Ueri,
por laL .... 61 N., e long. l9•, lf1 E. de Greenwich.
a A partir de Amba S.nayt o itinerario segue a direcçio seral de
sueste, atravessando o Ueri, e cortando a região de Gheraka ao Gib-
W, affi.ueD.te como o Ueri do Takuzé.
Pedro da CoJIJIIzan
de ccelas bem ordenadas•, e rodeado de excellemes honas. •
Segujam sempre para sueste, approximando-se cada vez: mais
da orla oriental do planalto. Sairam a 13 de agosto do con-
vento do Paradeto, e passando no Jogar de ccAngugui•, 2 onde
viram uma egreja de •quiriços• (S. Cyriaco), foram a ·Bcle-
ten, encontrando-se alli com um senhor abexkn, chamado Ro-
bel, governador do grande districto de Balgada. Este Wstricto
extendia-se para levante, pdas venemes oriemaes. chegando
4s terras baixas de leste, aos. lagares d'onde se tirava o sal; 3
e a este propos1to. o nosso padre explica detida e enctamente
a feição das pedras de sal, o modo porque corriam n'aqucllas
terras como moeda, e as suas grandes variaçlic! de valor,
segundo os mercados estavam mais ou menos affastados do
lagar da extracção. 4
A entrevista com Robel foi muito cordeai, e passar.&m um
' O convento do Paracleto. Exir;lia um famoso Dabra Paraqlitoa,
planeado sob este nome por Zara Yôeq6b, mas só consrruido depois. no
reinado de Baeda Màryilm, o qual lhe deu ricos omamcntor;, c lhe conce-
deu muitas terl"ai em voha, conferindo ao superior, p:adrea, catechisl&t
e mcs1rcs de canto notaveis prerogativas ; Penuchon, Chro11. de
Batda Mtiry.im
1
121.-Parcce, no emtanto, estar collocBdo mais 110 sul;
e este a que roram os portuguez.es seria diverso e da mesma invoca-
ção.
:11 ·Dangugui•:ou •Angusui•, segundo diz Alnres, ficavil junto de uma
•ramosa ribcin•; leria telvez. Oususgus, entre o Gibbi e o Donjjolo; ve-
ja-se a Ca,.la de Chaurand.
l Difficil ' dizer o que seria este districto de •Balgada• ; parece ter
abral1,8ido pane da região de Eadena, estemlendo-sc pela vencnre orien-
tal abaixo, a rodo o valle do rio Sabba, atê ao lago Alalbed ou Alei
Bad.
4 As pedns de sal, chamadas amollt ou amll, que sernm de moeda
por toda a Abyssinia, sto principalmente extrabidar. do lago Alalbed, nas
terras dos Dana1nlpor .... de lat. N. proximamente. Tendo um valor infi-
mo junl:o ao laso, i• bastante nos mercados de Antalo ou de So·
kou no planalto, e muil:o mais nas provindas centraes do Godjam e ou-
tras. Pela noticia de Alvares se vê como o domíruo do Negus se estendia
entio i rarte das terru dos Arar, onda esu.wa situado o laJo.
cA embaiXada de D. Rodrigo de Lima 241
dia no cBctencguzt 1 de Belete, contando-lhe os nossos por-
tuguezes as coisas das christendadcs occidcntaes, e rererindo-
lhes elle as guerras constantes que tinha com os mouros,
seus rrontciriços pelos lados do mar Vermelho.
Despedidos de Robel, seguiram jornada por uns Jogares
pobres da serra de cBenaceh, :a encontrando a sua bagagem,
que fõra adeante, em um campo meio alagado. Estavam olli
parados, aborrecidos d'aquelle mau arranjo, quando viram vir
do outro lado quatro ou cinco homens em mulas e dez ou
doze a pé. Ao chegar junto d'elles, um dos cavalleiros lançou
mão ao cabeção da mula em que vinha o chefe ou capitão
da escolta, e sem mais explicações deu-lhe com um pdu. D.
Rodrigo, ao vl!r o seu abexim ensanguentado, pegou pelos pei-
tos do agressor, e os outros porrugurzes estavam dispostos a
dar cabo d•eue, quando Jorge de Abreu entendeu umas pala-
vras em mau itoliano que cllc dizja, e o padre Alvares se in-
terpoz tambem, vendo pelo vestuario ser um rradc. Serenado
o tumulto, o frade explicou, que vinha esperai-os por mandado
do e batera no outro abexim, porque este os levava
por maus caminhos e lhes dava mau aviamento. Aquelle pre-
cipitado frade era cZagazabot, 3 o que veiu depois o Porm-
gal, foi amigo de Damião de Goes, e forneceu os aponlamen-
tos pelos quaes o nosso erudito escriptor redigiu o seu co-
nhecido tratado, Fides, religio, naon:sque .Ethiopum.
Deixando o rrade, que roi um pouco atraz entender-se com
r Bêt Negus (tu atJttJ do Segundo explica Alvares, o Bêt Negul
t:rc uma casa, destinada ao alojamento do rei cu dos sovernadcres quando
\'iajavam, e que se encontra-va em todas .11.1 povoaçõe:s principaea, sendo
tio re1peitadc, que ninguem alli entra apezar de Bl portas euarem aber-
tas.
' A serre de ·Benccel-
1
nio pele nome mes prla situaçio
1
parece
corresponder .6 resião de Dessa, justamente na linha de divisio das asuaa,
correntes a occidente pera os affiuentes do e a oriente para as
terras baii.al do mar Vermelho.
J Mais es:actamente Sasa-Zalb cu Saga-aa-Ab
1
que sigmfica ojiiWJr
do Par, ou, como de Goea, &rarillpatris.
'Ptdro da C.V11han
o senhor de Balgada, os portuguczes continuaram a sua JOf·
nada, indo a Cortara 1 em um sabbado 18 de agosto, e fican-
do n'aquelle lagar o domingo c segunda-Ceira seguintes. D'alli
seguiram por terras asperas c sós, onde uma noite se perde-
ram uns dos outros. O padre Alvares c mais tres ou quatro
foram perseguidos por tantas hyenas, 2 que tiveram de se de-
fender com as espadas desembainhadas; e ficaram n'um des-
campado, as mtJias ao centro, com o padre que ia desarmado,
e os outros de lanço e espada em punho até ser dia claro.
O seu itinerario, como já notámos, havia-se inclinado sem-
pre para levante, e elles passaram por aqui além da linha di-
visaria das aguas, e seguiam at;ora pela encosta oriental do
planalto, aguas vertentes para o mar Vermelho. Alvares indi-
ca-o muito claramente: • ••• começamos a mudar nova sus·
taDcia de terra .•• entrando em serrania nam dalrura mas
dura•, isto é, descendo pelos valleiros e cortes da fragosa en-
costa. Adverte tambem na mudança do clima, pois no planallo
era a epocha das grandes chuvas, que vão de junho a setem-
bro1 cmquanto alli vão de fevereiro a abril, e n'aquelle mo-
mento (agosto) estavam em plena estiagem. tanto assim, que
clles encontraram uma especie de procissão de penitencia,
pois os pastos e searas se perdlam 4 miDgua de agua. 3
1 Corcora ená marcadd por este nome na Carla de Chaurand, pro-
simamente por t3•,3o' lat., e 3-g-,55
1
long.; e offerece portanlo um bom
ponto de rererencia.
2 •Tigres• diz o nosso esc:riptor; e:r.cusãdo seril dizer que 11&.0 bui-
SJ"CI na Abyuinia; e tambem não podiam ser leopardos, que nlo andam
assim reuaidos em alc:a1eas. Do numero e audacia das hyenas n'aquellas
terras falam todos os viajantes modernos, desde Bruce at6 aos mais re-
centes.
l Observação perreitamente c:onfirmsJ.a por G. Rohlfs e outros viajan-
lel. A 's chuvas e•tivaes do planalto substituem-se nas vertenles orientaes
as chuvas de inverno e primavera: la venant oriental des monta
ll!thiopien1
1
l'ordre de1 saisons esl cbanse. . • •; "Veja ·•e, por e:.;emplo
1
Reclus, Nou11efle Gt!agr. 1, 22:1.- E' justo dizer, que esta in·
•ersão de estações, entre o porto de Adulis e a cidade central da Aksum
1
i' ha'Via sido notada por Nonnosus una mil annos antes; "Veja-se Photii
Myrio>;blon, p. 6.
C/1 embai.-ada tk D. RodriBO de Li"ma 24l
No dia seguinte áquella noite passada com as hyenas che-
garam ao Jogar de cManadeley• ou Ma.nadele, onde veiu rer
D. Rodrigo, e pouco depois chegou tambem Saga Zailb, tra-
zendo comsigo camellos e mulas para os transportes. 1 Ma-
nadele era uma povoação de musulmanos, sujeitos ao rei da
Abyssinia, e parece ter sido então um legar de muito trafico,
encontrando-se alli. toda a sorte de mercadorias. e toda a casta.
de mercadores mouros, mesmo das nossos regiões occidcn-
taes, de Marrocos, de Fez, de Tunis e outros sitias. Todas as
terças feiras se fazia um grande mercado, a que concorriam
muitos habitantes das regiões visinhas, regiões ricas, bem cul-
tivadas, e abundantes cm vaccadas de gado corpulento : cva-
cas. • . has maiores que no mundo se podem achara. Vf-se
d'esta prosperidade de Mapadele, qtJe por ahi passava entâo
llma das principaes vias commerdaes qlle conduziam do
centro da Ethiopia ao linoral do mar Vermclho
1
e depois se
deslocou para ootros legares, como tantas vezes e tão facil·
mente SllCcede n'aquellas s Chegado o frade, a expe·
dição partill para o Jogar de •Dorarfoa, 3 lagar grande de
perto de cmil vizinhos•, todos christãos, onde havia
tos, c onde as freiras trataram os nossos portuguezes com
grande reverencia e lhes lavaram os pés, dizendo serem
regrinos qlle vinham de Jerusalem. Saindo de Defarfo,
nharam ao principio por terra cultivadc, entre searas de sor·
gho cfortes milharada& abas como grandes canaveaesa. Iam
agora com mtJito receio
1
pois se de llm lado lhes ficava a
• Manadele estã indicado na Ctrrla tlirnostraliva de Cbaurand, mas
com a 5igce1 (1).- Na carta de Bruce, ali•s muito incorrecta, como de
resto era natural, vem marcada Corcora, Manadeli
1
e autras Jocalide.Jes
que se seguem, de mado tal, que se vê serem tiradas do itineratio de
vares.
a Sokota no planalto era (•8.4-a), quando ali foi a dr. 8eke, um dos
mercadas mais frequentaCJos da Abyssinia oriental in Al>y•linia,
noJ. R. G. S. (18,u). p . .5SJi mas quando por Já passou (1881)
tava j4 muito decalda, baYendo augmen1ado a importancia de Antalo ao
norte.
3 .Deiarto aa Carla do ChaiUIDd.
'Pedro da Covilhan
gente christan de Janamora, do outro habitavam os mouros
Dobas, imperfeitamente sujei10s ao Preste João, c vivendo
de roubos e assallOs aos viajantes. 1
Passaram no emtanto sem novidade; mas estiveram a
ponto de serem victimas de um incidente, não raro nas mon-
tanhas do Abyssinia. Foi o caso, que descansando o sesta li
sombra de umas arvores, junto de umll: ribeira quasi sccca,
onde não corria agua bastante •para regar uma orta•, ouvi-
ram trovões distantes. Não fizeram reparo, porque nâo havia
vento nem chuva, quando mestre João, que fõra pela ribeira
acima, veiu correndo e gritando-Guardar, guardar! Olha-
ram então, e viram vir a agua da altura de uma lança, n'uma
inundação subita. Ainda puderam fugir, mas perderam parte
da bagagem. O padre Alvares perdeu o breviario, e um vi-
dro com o vinho para as missas; e esteve a ponto de perder
o calice de prata, que estava meuido em um folie de cabrito,
e pmdurado de uma en-ore é altura de um homem.
Desde Manadelc, o itinerario seguia a direcção geral N. S.,
costeando sempre pelo lado de fóra a aresta do planalto., que
- como já observámos -se afasta pouco do meridiano. Da
ribeira secca, onde os surprehendeu a trovoada, caminharam
por terras planas, aridas e incultas, sempre com receio dos
Dobas e dos ladr6es, vindo a uma grande ribeira, onde fica-
l"am descansando sabbado e domingo (1 e 2 de setembro). :a
Aquella grande ribeira, chamada •Sabalete•. 3 correndo para
• Alvarea diz que os Dobu eram mouros; segundo Baaset
(Etude:r, :147 e zb]), estes Dobas ou Di:bas eram tribua pagsns, da raça dos
Changal .. que habitavam na região de Uogerat, jus1aroe1Ue por onde
asora vinham caminhando os nouoa portuguezes. Haviam 5ido em parte
exterminados por Baeda Màryàm; mas não poia ainda no anno
de rS63
1
o rei Minãs conduiiu contra elle:s uma e:r.pediçlo
1
naqualmorreu
de febres; veja-se sobre esta e:r.pedição a HisluriJ de /.f,rr.i:r, te:r.to e ua-
ducçlo do sr. Esreves Pereira, no&/. da S. G.lle Lübva (188j).
l Outubro escreve Alvares por equivoco i mas adeante continu• a
dar o mez e1:acto.
3 O rio Hllli ou S•balene
1
que desce e se Yae perder,
como varios outros, nos arcaes du terras bab.as. AJgumu canas dia este
ef D. Rodr1go de Lima. 2.,S
levante, formava por alli a fronteira do reino Tigre
com o reino Angotc. O Ioga r era deserto; apezar das
grandes fogueiras, as hyenas emraram no na
noite de domingo, soltando-se es bestas todas, algumas das
quaes só se encontraram no dio seguinte. Na segunda feira
par1iram, e na terça foram a uma egreja de Nossa Senhora
no togar de Cercara de Angote. Alli deixaram os camellos, •
porque as terras eram mais esperas ao deante; e depois de
pa!sarem um mau caminho, peniCtraram em um vallc formoso
e bem cultivado, por onde corria outra grande ribeira, chamada
•Ancona•, e onde viram uma boa egreja do orago de Santa
Maria. z
Como havia feito jé ao passar cm S. Miguel e a proposito
de Aksum, o padre Alvares aproveita estd occasião para des·
crever alguns legares mais ou menos proximos, onde não chc·
gou n'esta primeira viagem, mas onde foi uma ou mais vezes
nos annos seguintes. Fala-nos, por exemplo, das serras de
.. Abugimal) alli perto. onde se creavam. muitas cabras e ove-
lhas, mas gado pequeno como o da Maia entre Doera Minhoi
e onde crescia esparto, tão bom como o de Alicante. 3 Fala-nos
da famosa egreja de (llmbra Christos•, e das egrejas ainda mais
celebres da região de Lâbibalil, todas cavadas na rocha: Ema-
rio como affiueote do Golima; mas a Cttrla recente do major Chaurand
mostra de .. er ser independente, ainda que o seu cuno inferior seja mal
conhecido.
• Eslas indicações siio perfeitamente esacta1. AI"11Tes menciona os
camellos I. saida de Arlõko atC .6 eDC05la; depois no planalto mencioua
mulas e bois de carga, que effectivamente se empregavam aas terTas al-
tn; e volta a mencionar os camello1 abai:.:o de Corcora
1
nas terras mais
rlaaas, mais baixas e mais quentes.
Na Carla do major O!.auralld a nbcira de Ancona "em identifi-
cada em duvida com o Alomata, amuente do Sabalette; e a egreja de
Nossa Senhora rode ser An.::ot Màr)'âm na margem esquerda do Alomate.
1 -Abugima• a região alta de Bughena, na linha divisoria das
agua .. ao sul do lago Atchanghi
1
e de cujas \'ertentes orientaes desce o
.Aiomata;--depois nremos em que occ:a&iio e por que motivo o padreAI·
\'ares foi a Busheaa.
-. Solftdar, S...llllria, s-. Cnz, S. •-. Goljpba,
lidais, -(S. llcrcariol, s-- ...,... c UliboiL
llacrne -ala.,._, ..............
ftl cam npr .-s ...._., cm amas ft;tps DOS
.... sepiales. I
De AlxoDa, .. - PJ'1DIII<ZD lorom a,.. q.oo&:
Ot ttio tpizcnm d"d ã-_., &: .... .
.-.......... cabeço,.-----c ..... .
(8 c 9 &: --.,, c oo&: .. aacanm &: """' as ..,._.,
.-... mesmo IIID bum>. Panidos do: bJBibdu, &:poia
&: Yorios pcripeciao c &: serem opcdrcjoduo c foridoo .....
pdoo babir.maes do: U1D05 ald&s, ..X.... <DCGI>DV-o< <0111 O
.,....-elo rãDo &: ADpc, a .,..... Alnra chama •o
AIJ&occraz.•- s
Esrc cbdc abc:Dm nccbea-os c coaftdau-os
a jaaur, o pimeiro jaou.r de caimoaia a que os oossos as-
.uünm, ao qual fipran a caroc: de Yacca aua, c m iocri-
tauis temperos de fd C OOiros ingtdico10 aiD4a U.is
lata; o ftJbo de mel •era a rodoa, fazcDdo-tbc larpmeou:
...... a mulher elo Aop<raz. J
Depois &: se &:spcdiran elo Aop•raz, os ..,.... ponu-
pzca coaUnharam ..... dW J>Ol" torras cm geral &:usa.
meate poYOadu, ade grandes lug;mos c nobres igrejas•, su.
biodo a6oal ao looso de uma ribeira até ao lopr de •Accl•,
• O apillo Stuio (L c.) Cu pus:ar o itiaenrio por Lilmli, ilhadi.Jo
peJ. dacripç:io do padre AJ,.ar-rs; mas repanaclo ao ta:to ponapez
(o capitlo Stuio .epiu a nnlo iuliana de Ramusio) wê-se bem como
ette apcau a.e mere ao cpc wiu em ouns occali6es. De resco. aem o iti-
nerario qae sque
1
aem u daw se poderiam coaci)jar com esta inflc:r.lo
ranLUi.baJI.
' O ru ou che(e de Ansote-Na Cmi.l do major Cbauraadl cacon•
11'1111-N oaloprea de lllp.beUa e de Angotena: com o aipal (?). A CJ'pe-
lltiçlo pOf"'VBUen parece ter seguido a'esta parte o nlle do Vacia, conti-
aumdo a A sua mio direita a aresta do plaa.allo. e deixando 6 a-
qotrda a cadeaa do• moata de Zabul
J V•;..ac sobre C5tc janw do AD&oteru a nota a ptJia 161.
f!A embaixada dt D. Rodrigo dt l.ima
e d·am .t de uma serra do mesmo nome, muito als:a
mas não muito fragosa (o Amba-Scl) •. Estavam de novo por
tt
0
2o' proximamente de latitude norte, na aresta do planalto
que haviam deixado em Dessa muitos dias antes por J3°32'
pouco mai! ou menos.
E alli, <>entado no alio da serra, rodeado por dez ou doze
abexins •honrados• que lhe davam explicações,· o padre Alva-
res esteve longamente vendo para os lados do poente o hori-
zoate immenso, as montanhas succedendo ás montanhas, as
quebradas da terra esfumando-se em tons mais e mail ane-
nuados até aos ultimas limites visiveis. Aos !!ICUS pés, 14 em
bai."to da encosta, corria ainda muito modesto o Baschiló, es-
coando-se pelo leito tortuoso na direcção do grande e distante
Nilo azul, que então era o Nilo por excellencia. Para all:m
dos primeiros valles, mostraram-lhe a .trez ou qua1ro lcgoas• 2.
a celebre Amba-Guechen de vertentes cortadas a pique, onde
estavam encerrados os príncipes de sangue real, irmãos c filhos
do Preste João. Apesar de muito aha, ficava-lhes em bai."to
1
dominada cumeadas do Amba-Sel: c ••• a serra dos in-
fantes parece a ella sogeita•. E para 14 do Amba-Guechen
ainda se yiam outros çabeços c outras cumcadas, jé meio in-
distinctas. Mas, como a imaginação vae além da Yista, o padre
perguntava terras hyam para aquella pane do ponenten.
Disseram-lhe então, que durante longoa dias de viagem era
o senhorio do Preste João; depois encontravam-se desertos,
e apoz os desertos gente muito preta e muito má; depois
ainda mouros brancos, jé do •reino de TWles•. E o padre,
n'aquellas alturas do Amba-Sel, em face d'aquelle panorama
maravilhoso, deve-se ter ficado a scismar nos segredos da
1 Depois de dei:ur o Angoteru, a expedição atravesaou 011 pane su-
perior do seu eur!o o Golima ou Gualima, e os seus afflueotes
1
o Ala, o
Gherado e o subindo talvez para a serra de Amba-Sel ao looe:o da
nbeira de Secala
1
que vem ao Mena ; nja-se a Carla. do major Chau-
rand.
a Das cumeadas do Amba-Sel a Amba Gucchen devem ser uns vinte •
Yinte e cinco kilomeu-os em linha recta.
Pedro da Covr7han
vasta e mysteriosa Africa, que os portuguezes iam pouco 11
pouco desvendando.
Embora não chegassem por aquella vez mais perto da
serra de Guechcn, junto da qual foram apedrejados e quasi
mortos em outra occasião, o padre Alvares insere n'esta al-
mra da sua narrativa o que depois poude saber da celebre
fortaleza natural. Coma-nos como as suas altas vertentes eram
absolutamente inaccessiveis, havendo apenas tres •portas• ou
sendas por onde se podia subir, e essas sempre bem guarda-
das; e como na planicie superior, de que elle por más infor-
mações exagera a dimensão, se alojavam os prisioneiros e os
guardas.
Aquelles prisioneiros eram todos os principes, que se
julgava poderem ser pretendentes ao throno; I!, por morte
do Negus, alli iam com muito apparato e grande reverencia
tirar do captiveiro o seu sue cesso r. A' parte este caso, a pri-
são era pi!rpetua e severa; e sevcrissimas as penas, applicadas
a todos que favorecessem a evasão de um principe, ou simples-
mente a sua communicação com o exterior Estando no acam-
pamento de Lebnn Dengel tempos ou annos depois, o padre
Alvares viu açoitar barbaramente um frade: durante duas se·
manas, sõ porque este se prestára a trazer uma carta dos prin-
cipes. Em outra occasião, estando em Lftlibalil., viu tambem
passar um dos principes, que havia cooseguido fugir, e leva·
vam de novo para Guechcn ; ia sobre uma mula, envoltos elle
e a mula em pannos pretos, de modo que ninguem o via, e nin-
guem se atrevia a dirigir-lhe a palavra. •
1 O nouo padre Ballbazar Tellts {Etl:!iopiaa alta, L ... cap. 27 e 28).
por inforrnaçôes do padre Manuel dt Almeida e outros padres da Compa-
nhia, colloca • origem d'esra barbara pratica de encerTarem os herdei-
ros do throno nos tempos de lqhunu Amalac {lekunó-Amlâk, r2G!o}; mas
Bruce (Tr-a1111J, r, 5:16) indica j4 no tempo da revolt• de Esat
os principes estavam encerrados, e isto passava-se uns tre1entos c cin-
coent• annos antes. O que l que o logar da prisão era outro, e
então se mudaria pan Guechen.- Tambem o padre Telles dU, que o ne-
gus Nahu (NaõJ} o qual estivera preso e da4mba sahir.r. para reiDar
1
abo1ira
cA embaixada de D. Rodri8o dt Lima
eTernamos a nossa viagem e caminho•, como por ve-
zes diz o padre Alvares.
Depois de uma curta demora no alto da serra, a expedi-
ção foi seguindo por aquellas terras do Amhara-pois já ha-
via sSJdo do reino de Angotc- caminhando pelo fio da altura
até descer para um lago, que julgo seria o de Ardibbo, a
adeante do qual acamparam em um legar apaulado onde os
mosquitos os atormentaram cruelmente. Passando depois ser-
ras e campinas foram no dia 26 de setembro é egreja de
•Maçam Cc:laccm, que quer dizer a trindade•. :a
Caminharam em seguida por grandes campinas, tão ex-
tensas que já lhes parecia terem deixado de todo as serras,
quando no domingo 3o de setembro vieram ter és bordas
de umas dessas fundas decemes abos abismos•, taes que se
não pode crer sua dunduran. Na segunda-feira 1 de outubro
ainda caminharam por terra plana ao longo cdas fossas•, pro·
curando o legar da passagem; e começaram a descer para
ellas por valleiros apertados, onde havia umas • portas• c se
depois aquella pratica, pelo srande amor que tinba a um dos aeus filboa. A
i1to oppõe-se o que diz Alvares muito3 acnoa Jepois da morte de Naód.
Pelo '.:JUe conta como testemunha de vista, e temei-o encomrado sem-
pre muito \'eridico, se vê como a flrltica estava em ple11o 'l'igor no seu
tempo.-Ludolr (Hist •. t"thiopica, L. 11- cap. 8.•) Jlretende cuociliar o padre
Alvares e o padre Barthacar Tclles; mas julgo que s6 o primeiro tem ri·
sio. Maia tarda, no fim doseculo e principiCl do seguinte, em que os jcsuitas
conheceram bem a Ahyssinia, a rratica Já 11ic e:.;islia, e elle1 juJ&aram a
abolição mais antisa do que na realillade era.
• O capitio Staslo faz: rassar
1
1oem nsio, o itiner:ario pelo lago Haiq.
É verdade que o padre Alvarel [ala do lal!lo Haiq, dos aeus hippopotamos
ou gol,rtlraJ (quando ah foa o viajame Lefebvre (19.tJ) só resta'l'a um, que
os habitantes das margens poupavam). e do seu convento de St.• Estevão
(na ilha mas tudo isto viu ellc em outras viagens. N"esta primei-
ra vaagem panou junto de um laso, diverso do Haiq, tendo uma lagua de
com(lriJo por meia de larso, não recebendo agua de rios ou ribeiras im·
pons11tes; o que se applica bastalltt bem ao Ardibbo. De re1to este lago
fica quasi junto do Haiq.
3 Makàna Sehlsll! (o aitio da lrind..7.d.e) um convento celebre do Am-
hara, que anno1 depoi1 foi ..le5truido pelo mouro Gránhe.
••
Ptdro da Owilhan
pagavam direitos. Seguiam caminhos por tal maneira perigo-
sos, que, se não vissem passar as suas mulas, julgariam nio
poderem alli passar cabras. O lagar chamava-se •A(agit ou
a •morte do asno•, e cllectivamcnte se viam por aquelles des-
penhadeiros ossadas de bois e de mulas, que alli haviam es-
corregado e caído.
Desceram bem duas legues de mau e fragoso caminho,
rodo no fundo ao vau de uma ribeira, abundante cm bom
peixe, chamada •Ancchcta• (Uanchit). Subiram do lado de li
tanto quanto haviam descido, chegando cm cima a llm&s •por-
tas• abandonadas e a umas aldeias pobres, onde pernoitaram,
seguindo ao ourro dia pelo campo superior, e descendo por
passos difficeis, .rocha talhada cousa pera se não cren,
até uma segunda ribeira muito grande, chamada •Gemaa•1
{Adabai ou Gemma). Alli lhes disseram, que as duas ribeiras
se ajumavam ambas e iam ao Nilo, o que era perfeitamente
exacto. All!m do Adabai, nova subida de tão •grandes fra-
guas• como as anteriores, c no cabo novas (!portas•, onde
tambem cobra,·am direitos. •
Ao chegarem ao alto sairam a umas campinas, e, olhan-
do para traz, pareciam-lhes ser a continuação dos campos
para áquem dos rios, sem que coisa alguma denunciasse 6.
1 A panir do lago Ard.ibbo, o i1inerario parece-me pDder rccon11ruir·
se do scguinle modo : a expedição segue a direcção geral de sudoeste, alra-
vcssando os dis1ric1os de e de llarra-llu, e depois a grande pia·
nicie de Uarcinó, seguindo 110 longo do U11ncbit : pasu esce rio, que corre
em um fundo valleiro. c:av11do pela. erosão, e corta de norte a sul o di&tri-
cco de Marabieti proximamenle entre os meridiano 3g
4
ro' e 3!f 2o
1
E. de
Grcen,.,ich : vae en1io ao Adabai, chamado tambem Gcmme, e que, unido
ao Uanchit, forma o grande rio Gemma, afftuenle do Nilo; vejam-se IDdas
estas localidades na Corta de Chauraod.
O capitão S1111io (I. c:.) levou o itinerario 110 longo do Uanchil at6 6
confluenc:ia d"este rio c:om o Adabai, o que me não parece nac10. Em
rrimeiro losar, o padre Alvares diz, que de uma a outra ribeira seriam
duas leguas, e leguas srandes, donde resulta que as passou quando iem
ainda muito afastadb. Em segundo Jogar diz, pt lhe disstram que &e jun-
I&Yam; logo não as viu juntas.
cA rmbdixada de D. Rod,·ri;o de Lima :151
vista os enormes valleiros, por onde com tanto custo haviam
caminhado horas c horas. 1 Por aqui passaram junto da casa
de Pedro da Covilhan, como jé antes indicámos. Se essa
casa ficava ao nane do Uancbit, ou entre o Uanchi1 e o
Adabai, ou ao sul do Adaboi. já em terras do Choã, c o
que o padre Alvares não explica c nós não temos meio de
saber.
Na quarta-feira 3 de oumbro caminharam por aqucllas
campinas, não se arredando muito da borda das •valu-
ras•, indo dormir na direcção do mosteiro de ·Biriliba·
nos• (Debra Libanos). :!. Quima e sez.ta-feira seguiram a
sua jornada, passando aldeias de gente pobre e suja ; mas
encontrando grandes manadas de gado vaccum c cava lia r,
e vendo optimas cearas dr cevada. Chamava-se aquclla
terra ou serra 11Huaguida•. 3 Na segunda-feira 8 de oum-
bro -1 -110 :sabbado e domingo hniam descansado- foram
a •Anda•, caminhando depois pela terra de aTahaguy•,
terra mais rica, de melhores searas de trigo, mas doentia
•como de febres•. E finalmente na quana-feira 10 de ou-
tubro .. dia memoravel, avistaram ao longe as tendas e ar-
raial do Preste João. 5
Panida a 3o de abril das praias de Arlúko, a expedição,
.t parte um mez ou pouco mais de demora em S. Miguel de
a A observaçio é perreitlllllente justa, e tem sido feita por outros via-
i•ntel. Dos dois lados J"aquelles vaUe• profundilsimos, lormlldos uaica-
mente pela ero,lio dat agua. cerno 01 e a ~ t l i n ~ • da Ameria, os campo1 se-
guem n• mesma ahura, como se não houvesse 10luçio de continuidade.
J O mais celebre con'fento da Erhiopia, lundado pelo santo T•kla-
Hiimãoot. Unicamente es1avam n'•que.Ua direcção, mas baatanre lon1o e
seguiam em aurro sentido.
l N• Carta de Chaurand, a noroena de Fnce, estão marcados um
monta e uma po"oaçio de Uogiddi; a situação e 1imilhança de som le-
vam-nos 11 julgar, que por alli fosse ••Huilguida• de Alvares.
4 Alvares diz •segunda feira nOTe de outubrO•i mas nlo póde ser,
tendo sido o primeiro de Qutubro uma segunda feira.
5 Parece que esuria acampado, mais aqui ou mail alli
1
na bacia do
Nusher.
Pedro da OJvrlhan
B i z a n ~ e peno de outro mez em Debaroi, bayia caminhado
quasi constWltcmentc: att! meados de outubm, atravessando a
Ethiopia de norte a sul cm um percurso de mais de novecen-
tos kilometros. E o seu chronista havia notado o itincrario
com sufficiernc: exactidão c minuCJa, para nos perminir se-
guil-o hoje nas Cartas com uma cena facilidade.
Estavam chegados agora ao cabo da viagem; mas não ao
caho dos trabalhos.
No seu orgulho de po!tuguez:es, D. Rodrigo de Lima e os
companheiros esperavam ser recebidos immcdiatamentc: pelo
que chama,·am Preste João, e recebidos de braços abenos.
Não contavam, porem, nem com o orgulho não i11ferior d'a-
quellcs barbaras, nem com as delongas proprias de africanos.
Demais, os tempos haviam mudado, desde que uns oito ou
nove annos Wltc:s a rainha Helena mandára procurar e quasi
humildemente solicitar a alliança de Portugal.
Quando Mattheus saiu da Abyssinia, os mOlll"os amea-
çavam-na por todos os lados e Lebna Dcngel era ainda uma
creWlça sob a tutc:lla da bisavó c do patriarcha ; agora era
um rapaz de vinte annos, cheio de si e envaidecido pelos re-
centes triumphos militares. Aos dczeseis ou dezesetc, c apc-
zar dos conselhos de prudcncia da rainha e dos ministros, ellc
havia dirigido cm pessoa uma expedição co11tra as fOrças com-
binadas do rei de Adel, Mohammed, c do famoso emir Mah-
cA. tmbai"xada de D. Rodrigo dt Lima 353
Cuzh, o que annos e annos bavia sido o terror da Ethiopia. O
exercito christão e o exercito musulmano
nos limites da provincia de Fategar com as planicies de Adel i
e, quando estavam jll. al vista, o rei de Adel. assustado- di-
ziam-por uns maus presagios
3
retirou com as suas tropas.
O emir Mahfuz:h fez valorosamente face aos ma:s foi
completamente banido, e morto ellc proprio na batalha por
um frade, chamado Gabriel Andrea:s, que os nossos porru-
guezes conheceram depois na côrte do Negus. No acampa-
mento dos mouros foram tomados de:;;pojos consideraveis, en-
tre elles o estandarte verde e a tenda de veUudo. que o che-
riC da Mekka mandara annos antes de presente ao Emir,
como jll. em um dos precedeotes capitules. Em
seguida á batalha, Lebna Dengel andou correndo e devastan-
do a:s terras de Adel e de Zeila. justamente ao tempo em que
Lopo Soares tomou e queimou Zeila, sem que, no emtanto,
abexins e po:-rugueze:s tivessem noticia das :suas respectivas
operações de guerra. '
Esta feliz: expedição, não só dava ao moco Negus uma
elevada opinião da sua força e do seu pode[', como collo-
cava de facto a Abyssinia em uma situação desafogada; e
isto contribuiu de certo para ,Que elle reatasse os portugue-
zes do alto da sua grandeza, não prevendo, nem podendo
facilmente prever, que uns vinte annos depois se veria em
lances bem mais apertados e teria de recorrer de novo ao seu
auxilio.
Tendo, pois, a expedição avistado o arraial no dia 10 de
outubro, só foi alli recebida no dia 20, depois de varies reca-
dos e []'lf:nsagens de parte a pane. E, embora a recepção fosse
• Veja-se o QUe o padre Alvares conta d"esta expediçio relas
prmcipalmcnte rornccidas por Pedro Covilhan, Vll'rdad. informaçam,
cap. compace-se com o que diz:em Bruce, Tiorvll'ls, 11
1
136 e 6I:J!-;
Basset
1
t:lvlill's sur flristorrll' d'E1h1opi1P
1
.óo; e sobretudo com a Chro-
Juca Lebna Dengel recentemcnlc publicada, seez e
por C. Bonini Carlo
1
Storia di úbrw & d'Enopra, nos
della &a/. Ac. dll'i Lincll'i (a8g.4) n..• de setembro.
.,. __ I ................. CIIIII...-.P .. ....
._ __ 6ai!I*-
... -...--. ........ n.-
............ ...- ..... ---o-........... -
..... -. .
.... .,_.. ....... -..rio ... - apritllgo
........ - - --. .... D -do .,._,.,;lia
-.-. ............ - .... ---·-
......- ódiuçiD. a....ãoHe do ............ - ...
... h dàiolll, ._ .. ....,.._ -o'inl: do
do FnDÇL Se - é pcrmiaido a .,...._ __ .....,...
..... .....,..._N'....,
arado * ........ é cloro .... hllio ......... --*
.,.as., ....... - r-is. <.il<moo - uoico
p--depois da- cbopla. LdJaa lkiiF-
cliur, .... podU ampnr ftDdor a--.!<. Náoo Dio
hHia c6:as.a; c Wlic.amc:ale IEDOSU'aYa., que: o Neps eswn.
maio lubttwodo a .., no seu ocampamano
9X cmbaiudores, oau fa:il mesma. uma ideia muito clr:6aida
do que ro... ..,. cmboiudo<- No D- Rodrip do
Lima foi aos ·arr:s, c rapoacJcu-lbc seccamauc: : que: se •a-
pamna. muito da licença, que DCm dlc. DCm seu .,-,c, DCm
tua mie, DCm KUS awõs tiYCram mma ral oflicio de com-
prar c .-cndcr.
A ett.as IWUplibilid.ades iatcmpcsri9as, KCRScia, que cm
losar de liacmgcar u:n pouco a •aidadc dos abaios, cUc c:r
1a.a Kmprc enc.arccendo e t;raodcz.as de PorltJ8al c poodo-as
ecima de tudo quanto wia; c n""as1o cabia lambem o oosso pa-
dre Al9ant. apezar de ser mui1o mais inlclli8CDie. Quando,
por cxemp1o, um dos maiores dignitarios da cõnc, o •Ca-
bcala• ( Aq.tbe SaJ1), lbes mostra .a com iogcnua sabsfaçio
uma du suas cgrcjas, coberta de colmo como tod1s, os nos-
ao• disseram-lhe : que lhes parecia muito bem. mas em
Ponusal eram de abobcda de pedra. Um dia. algum tempo
Veja-se an111 p. t6s
c4 embaiXada. de D. R-odrigo de Lima •55
drpois, cm que o proprio Ncgus lhes fazia admirar as alfaias
dr Makftna S e i A ~ , advcniram-lhc: que estava tudo muito
bem, mas cm alguns mosteiros de Portugal, por exemplo na
Batalha, havia mais de duzentos caliccs. Estas faltas de tacto,
se não creavam propriamente drsimelligencias e atuiros,
contribuíam no emtanto para manter uma cena frieza de re-
laç6es.
Mas o que sobraudo compromctteu a principio a posição
da embnixada, foi a modestia do presente que levava. Entre-
garam todo o presente, e mais uma pane da pimenta que
conservavam para despezas da viagem, c muis umas arcas e
umas espadas, c mais as proprias calças de D. Rodrigo dr
Lima; mas tudo parecia pouco. O Negus sabia vagamente da
existencia do grande presente, que lhe fõra mandado por
Duarte Gaivão; nio percebia bem como se tinha perdido
pelo cammho; e fazia o sentir : • .•• veio hum recado do
Preste João dizendo sem outro principio que clle não man-
dara Mnthcos a Ponugual, e postoque sem sua hcCça fosse,
que eiRey de Porruguallhe mandava por elle muitas cousas,
que eram drllas. e porque h:Js nam traziam como eiRey lhas
mandava•. A isto respondia D. Rodrigo de Lima com varias
c complicadas explicaçõesT que naturalmente o não satis-
faziam.
A unica coisa que salvava um pouco a situação, eram as con-
ferencias liturg:Co·theologicas do padre Alvares com o Preste
João. Aqucllas conferencias, celebradas a principio a travez de
coninns, e por intermedio de mensageiros que iam e vinham,
prolongavam-se ás vezes atê altas horas da noite, até o padre
estar extenuado, e pedir por compaixão, que o deixassem ir
drscansar c comer alguma coisa. Tratava-se alli de tudo; das
cerimonias religiosas c da significação dos paramentos; da pai-
xão c dos evangelhos; dos concilias e das suas resoluções; da
Egreja romana e da Egreja grega; das vidas dos santos c das
differenças entre o Synaxario ethiopico e o fios Sancloru"'·
O moco Lcbna Dengel tinha uma curiosidade insaciavcl, c
parece ter tido uma instrucção religiosa, conflua mas vastissi-
.S6
ma. 1 O padre AJnn:s cbqan b ftZC5 ., cabo dos seus co.
perguawuJo..lhc: por exemplo, quan10s eram os
prophctas, res-pondeu francameote que se oio lcmbr&Ta. De
ouU'a yez, pugantaram-lbc qu.ai a-a o dia de aS. Baralã., de
que cllcs •lioham ha rida c nam bo dia•. O padre 'fiu-sc
•atribulado... pocque o nio sabia c o nio acban cm neahum.
•ulcndano•. A fiaal achou-o cm um acaJcodano de um rc-
ponorio dos tempm•; e nu.nca mais voltou .t cônc sem o le-
var na algibctra. " A.lguma.s .. ezcs o nosso padre trapaceava.
Pergantaram-lbc. quaoiOs eram ao todo os livros dos prophclas,
apostolos c evangelistas do n1ho c DDYO tcsumcnto; c cUe,
que j4 por li tinha out'ido dizer serem oitenta c um, rcspoo-
dc:u: que lhe parecia serem oitcnu. c um, mas nio csrawa bem
certo. De dentro das cortinas veio-lhe uma approvação: ••.
que sim senhor, que tinha muito boa memoria, que a-am cfle-
ctivamcntc oitcnu. e um.
Pouco!'l dias depois da chegada, o mesmo havia 10-
mado a iniciativa de perguorar porque não cclcbra't'am os por-
os seus officios religioSO!, ao que Ah.-ares respondeu,
que nõo tinham local appropriado para isso. Trouxeram-lhes
então a propria tenda, tomada tres ou quauo anoos ames ao
emir 1\lahfuzh, prevenindo-os no clll[anto., de que havia perten-
cido aos mouros, c a deYiam benzer antes de dizerem missa.
I diz • Clrf"DJiic.J elhiopica, teTe sempre a m:lllia d'eslas COQ•
(erencias relisiosas- ·Ch1amaya Rl• uomilli di chicu. e discornn. coo
Joro circa i libri •.. •; tr. de Bonini Carlo.
s Esu pergun1a rnui1o interess.aole.- A hi51oria de Barbam e Jo-
aaphat, commemorada l'cla Egrcja catbolica no dia tfo de not'embro, r•-
rece ser uma ada(li&Ç1o chrisran da lenda do Buddha Sakia Muni, copiada
tah•cz directamente do santkrito, do L:Uit.:J ViJI.Jr.:J. Foi traduzida do
1eato syriaco em arabico ror Banauma abn Abu-1-Fandj; e di.t:-se, que um
certo ahexim, chamado Enbaqom, a 1radw:1u depois do arabico em seez
no anno de aSB. Esta data, admitlida rc:los cthiopisanles tm sera1.
i contrariada relo que diz Alvores, rois i-' no llllllO de IS:ao ou 1S21
01 abexins coDheciam •• sua vid11•- AlYares usa a forma •Banll• e
rllo Barlaam, que 1!: effecLivamellte a forma scmitica
1
Bar.l.lam e l"cuãser.
cA embaiXada de D. Rodn"go de Lima 2S7
Era uma tenda já usada, mas ainda boa, de brocadilbo e vel-
ludo da Mekka, forrada por dentro de capas de Chaul muito fi-
nas. Foi Jogo armada, e desde en1ão o padre Alvares celebrou
regularmente as suas missas- as primeiras que se disseram na
Ethiopia segundo o rito romano - oa antiga tenda do cherif
da Mekka.
Por todas estas circumstancias se ia o Negus confir-
mando na ideia de aquelles estrangeiros serem bons e ver-
dadeiros christãos, sobre o que a principio parece ter tido al-
gumas duvidas. As mesmas suspeitas, com que Manheus ha-
via sido acolhido na lndia e em Portugal, existiram na Abys-
shlia em relação á nossa embaixada. Desvanecidas, porém, as
suspeitas, a qualidade de correligionarios dispunha o Negus
em favor dos portuguezes, pois -como já notãmos-as dif_
{crenças entre a crença jacobita e a catholica passaram então
quasi despercebidas.
No dia 19 de novembro, a embaixada foi finalmente admit-
tida á presença de Lebna Dengel. Foram D. Rodrigo, Jorge
de Abreu, o podre Alvares, e mais Blguns da comitiva-
ao todo nove portuguezes. Introduzidos em uma espccie de
barracão de madeira, sustentado por esteios de •acipreste•
(zimbro) e coberto de colmo, mas alcatifado e armado de
pannos ricos, chegaram a umas primeiras cortinas, d'onde
nas anteriores visitas não haviam passado. D'esta vez, po-
rém, levaram-nos além das cortinas, a um segundo cortina-
do mais rico; e ainda passaram além d'este, vendo então ao
fundo, no alto de um estrado, um terceiro cortinado. Era já
noite, e tudo estava allumiado por duas linhas de abexins, ten-
do velas accesas nas mãos. Depois de alli estarem algum tem·
po esperando, correram-se as cortinas do fundo, e appareceu-
lhes, como imagem em reta bulo de altar, o Negusa Nagast,
sentado em uma .espacie de throno, um •cadafalso• de seis
degraos. Tinha na c a b c ~ a uma corôa alta de oiro e prata; e
uma cruz d8 prata na mão. Cobria-lhe a barba c a bocca um
reb.Iço de tafetã azul i e vestia uma opa rica de brocado
1
e,
dos joelhos para baixo, um panno de oiro estendido, como
33
•aceaaial ele bispo•. JmmoyeJ oa sua posição hienrica, c••Ya
--Da pbrase do padre Alvares- cas5e.Dtado
-
J••••am
Deus padre aa parede•. Era um r.paz a qu' m con;eçawa a
despootar • bubl, olhos graocles, relariwameote claro, da ar
de parda •Dam muytD parda•; e Da sn• prtSH*Ç2 Jxya
puecia e.pDde seDbcJr1, CQIJIQ de feito crL I
Em aos prü•+à!OS o•••pimentOS, e ancwl•s aJsa-
ID&S peqpmtas c respostas, D. Roclaip de I;.,. ""I' gcu a
cana de Se-)ueva-jà auus .... ,,jcla cm g:•z
ou smariDba ao Sa it., o qual a foi .:kf10Si ar RIS ••&b dD
'-.'---..- ko..a tOOift .ksenbaram- CID# I\ tky• )enfiM mr·· e
., - 'I
iDta a leitwa. a arta aa Pt&Di-
pl à .., p D. Rott;,o n ,.. ........... q::a:
o Clfit .. , IDt.."!' m. b$• cm n.xDt à e •M po-
• ialE' tQIN & .,,.. •-
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C!A embar.xada dt! D. Rodrigo de Lima 2S9
Até então a embaiz:ada estivera bastante entregue a si
mesma, sem avisos ou conselhos por que se podessc guiar. A
velha rainha Helena, a quem era natural encostarem-se, pelo
facto de haver partido d"ella a iniciativa das relações com Por-
tugal, andava então na cõrte; mas já avançada em edade, e,
ao que parece, sem grande influencia. Estava do mesmo modo
muito velho c muito retirado o abuna Marcos, com quem os
nossos se avistaram poucas vezes, posto que n 'essas occasiões
as suas relaçlies fossem sempre muito cordeaes. Pedro da Co-
vilhan Wnda não tinha apparecido. • Os portuguezes apenas
conviviam, pois, com alguns europeus ou fra,gues, que encon-
traram no acampamento, e de quem effectivamente receberam
varias informações valiosas ãcerca dos habitas da terra e da
c6rte, e &:erca do modo por que alli se deviam conduzir.
I Gaspar Corrêa III, a8 e scauintes) diz que Pedro da Covi-
lhan viera no caminho ao encomro da embaiuda. e estava com eUa no
dia da recepção; mas o padre Alvare5 di\ uma noticia diversa.-As infor-
mações de Gaspar CorrEa procediam, do que contaram os que vinham da
embaixada, quando annoa depois passaram pela lndia ; e do proprio livro
de Alvares, que elle conhecia, mas nem sempre com fidelidade.
Podem, pois, supprir alguma& lacuDas ela Vt-rdadeira informilfllm i mas,
quando as duas .lontes se contradizem, é claro que o livro de Alvares nos
merece muito maior credito.
:a Estes eram: em primeiro Jogar, o pintor veneziano Nicolau
Branca Leona, de quem jt lemos falado, e estava oa Abyssinia ha·
via mais de quarenta annos; e dois outros itaiianos, um Tbomlls Gradani,
que alli assislia havia quinze annos
1
e um Nicolau Muça, lambem antigo
na terra. - Alc!m d'e•t=s, havia mais dezeseia europeus, chl:gados uns
ues ·annos antes. Achavam-se eaptivos dos turcos em Djiddli quando li
foi Lopo Seres, c, roubando uns barccs, fugiram com abexins ;
oio podendo, porém, alcançar a armada portugueza, navegaram para
Massau4 e passaram d'alli ã cõrte do Negus. Eram dois catalies, um bi ..
cainho
1
um al1emão, um gregu de Chio, e os restantes genoveses. Todos
falavam bem casteJbano e portuguez
1
e foram de srande auzilio aos nos-
Gaspar Corr!a

rn, diJ:
1
que tambem alli estava o padre
Joio Gomes, o que IIi f6ra mandado em tempo de Tristio da CuDha;
mas Alvares oio fala de o ter encontrado, e unica.menle se refere ã sua
idal'auteriormellle.
No c.orrer do mez de dezembro, reocJo..sc: jll mudado na
direcção do none o a.rraW. do Preste João com toda a côrte e
a cmbaiuda ponugueza, chegou emfim Pedro da Covilhan.
Pódc-se facilmcmc imlginar com que alvoroco dle se ftria
apertado DOS braços dos seus companiotas, c ouviria de omo
falar a sua linsua; e com que a!Yoroço os ponuguczes rece-
beriam tambcm o escudeiro de D. João 11, saido de Portupl
uinu c tres anoos antes. Era um velho jd., mas, ao que pa-
rece. ainda robusto, e havendo con.senado no loogo cxilio IOda
a dare:z.a do seu espirita mcthodico e indagador, c toda a ni-
tidez da sua admiravel memoria. Prova-o a minucia c exacti-
dão com que cUe contou então ao padre A I vares as cirtum·
stanciaa da sua vida, c os successos jd. remotos da sua ann-
turosa viagem. E affirma...o o mesmo Alvares, dizendo-nos
que cllc falan todas as linguas de christãos, mouros e gen-
tios; c de todas as cousas a que o mandaram dava rasão,
como se o'aqucUe momento as tivesse presentes.
Alvares não DOS diz em que dia cUc chegou ao acampa-
mento, c unicamente que jal alli cst&Ya na vespera do Natal,
c assistira ãs matinas c 4 missa.
Foram umas curiosas matinas de Natal aquellas; celebra-
das nas campinas da Ethiopia e na anliga tenda do chcrif de
Mckka ; quasi improvisadas pelo padre Alvares, pois não pos-
suiam os linos proprios; acompanhadas c cantadas pelo or-
sanista Manud de Mares. o pintor Lazaro de Andrade, o
physico mestre João, o escrivão João Escolar, um dos cata-
lães, chamado N"tcolau, e um dos genovczes, mestre Pedro,
que todos sabiam alguma cousa de cgreja. Parecia, no em-
tanto, que •nosso senhor os ajudava• c lhes ulava graça•,
pois as motinas, alongadas com prosas, hymnos, c os boca-
dos de cantochão que lhes iam lembrando, agradaram muito
ao Preste João, o qual as escutava de denuo da sua tenda,
que mandára collocar junto da nossa egnifa. Ficou alli toda
a noite, com a mulher, com a velha rainha Helena, e com os
grandes dignitarios da sua côrte.
De!dc aqucllc momento, Pedro da Covilhan andou sem-
c4 tmbau:ada de D. Rodrigo de Lima o6r
pre ou quasi sempre com a embaixada, passando a ser o seu
pri11cipal interprete, guia e conselheiro. Conviveu, pois, du-
raDte longos mczes com o padre Alvares, a quem se confes-
sou, o que Dão fazia desde o Sinai, e a quem contou os
successos do sua vida, os quaes o padre felizmente se lem-
brou de escrever. Deu-lhe tambem muitos esclarecimentos
sobre coisas da Abyssinia, obtidos na sua longa permanencia
alli, e com o seu perfeito conhecimento da língua. E' eVIdente
-e Alvares dil-o em muitos casos de um modo explicito-
que uma grande parte das curiosas e exactas noticias da Vtr-
dadeira i'nformaçam é devida a Pedro da Covilhan. 1
E, ao mesmo tempo que elle ia communicando aos seus
patricios o resultado das muitas observações, feitas em vinte
e sete annos de assistencia n'aquella terra, introduzia-os taro-
bem na intimidade dos personagens da côrte, com quem ti-
nha antigas relações. Alvares diz-nos, por exemplo, como
foi com elle, com o embaixador e outros portuguezes, visitar
o abuna Marcos, o chefe de toda a Egreja ethiopica. Este
era então um velhinho, baixo e calvo, com a barba branca de
neve, passando jé, segundo elle proprio dizia, dos cem an-
nos; mas ainda rijo e amavel, •8racioso em suas falas•. Re-
cebeu-os moita bem; esteve-lhes contando quem era Manheus
e como fôra a Portugal; e dizendo-lhes como o Negus e to-
1 Gaspar Corrêa

111
1
71 e seguintes) attribue-lhe tambem mui-
tas noticias inexactas : a historia dM amazonas, a dos homens marinhos
ou amphibios, a dos que tinham raboa como cies, slo lam;;adas a res-
ponsabilidade do que eontava Pedro da Covilhan. A verdade, e que estas
historias. velhissimas e c:onhec:idissimas
1
ou nio constam do tino de Al-
Yires, ou se enc:ontrsm alli muito attenuadu, e nenhuma é dada por au-
ctoridadc da Pec!ro da Covilhan. Dos homens e mulheres muinhos dos
lsgos de •Goyame• (o lago Tsana) affi.rma-se simplesmete que alJfVru o
diziam; dM amazonas lambem a1gwtS [alavam, mas não eram •como nos
diz o li'tTo do infante D. Pedro• .. --D'esta referencia 4s Sete pD.rlidas
1
pa-
rece reaultar que ji havia alguma ediçlo portuguer:a ou hespanhola do
folheto de Gomes de Santo Esrevio, quando-•ntes da 1lh-o padre
A1vares escreveu o seu livro. Deixo esta nota á considançio dos biblio·
arapbos.
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c4 embtli"xada de D. Rodn"go de Lima 26J
portugueza uma audiencia de despedida, tratando-a com frieza
e desfavor, ao que deu principalmente cau!la uma dcploravel
scena, passada pouco antes ernre os portuguczes.
Desde o começo da viagem se suscitaram desintelliflencias
no pe!soal da embaixada, dando já lagar pelo can:únho a
disputas e rixas mais ou menos graves. D. Rodrigo de Lima
era-como disstmos jé-um home.m serio, mas curto e mui-
tissirno obstinado; e Jorse de Abreu tinha um caracter inve-
joso e extremamente VIolento. Alguns dos outros, como Lopo
da Goma, tambem não brilhavam pelo espirita de disciplina.
Nem a disciplina foi por aquelles tempos hr:roicos um predi-
cado caracteristico dos portuguczes-e comprehende-se. Ti-
nham naturalmente os defeitos das suas qualidades. O abso-
luto desprezo do perigo, a forte inici<1.tiva individual, que os
levavam de coração 6 larga ás mais arriscadas aventuras,
preparavam-nos mal para a submissão e para a obediencia.
Eram necessarios nos chefes os dotes de Alfonso de Albu-
querque ou de D. João de Castro, por exemplo, para os man-
ter no seu lesar; e D. Rodrigo de Lima nio tinba segura-
mente aquelles dotes. 1 As desintelligencias ernm, portanto,
ji. antigas i mas agravaram-se por tal modo no acampa-
mento do Negus, que, a proposito de uma miseravel questão
de mulas, D. Rodrigo e Jorge de Abreu recorreram és es-
padas, ficando o ultimo ferido, e apartando-se elle e Lopo da
Gama da companhia dos outros porruguezes. E como os
maus são contagiosos, sobretudo quando partem de
cima, deram-se tambem outras desordens entre o pessoal in-
ferior. O Negus foi immediatamente informado de tudo i e os
nossos passaram pela vergonha de aquelle barbara abexim os
admoestar, e lhes fazer sentir quamo taes violcncias lhes fi-
cavam mal, sobretudo em terra estranha. Por varias vezes
tentou depois reconciliai--os, ao que D. Rodrigo se recusou
' Ga1par Corrl!a muilo contrario a Jorge de Abreu no modo por
que conta 01 factos. Alvares tambem lhe nio favoravel; mu parece ter
havido culpa• de parte a parte.
tempre; • o Nqus reseoóu-se d .. IS.so, fraucamente coa1 Dia
a rulo. Tal parece ter sido o principal maliw, par' que
n"aque\11 momento .K mostrou 1:io frio com a embül.ada. O
etno f, que os DOSSOCI partiram apreuad.amatte c Klll a
dcopc<liruD.
Caminblnm para o oone pdu terns do .A.aJign; • c
accomplllbawa-oo 1'\odn> da Corilban, lrUcDdo CG1J1SiBo a -
..... r- doa -. • ........-m --o a>r1ojo.
do,.-.. ..-..doa • acn. .......... o qual .. aio closlaca
.., ...... _. da AbJWoia. .\o <=ll>o de.._. jcx_.
... "''*"'N" doa ........... -.aAidciade-6
rowlo. • ._._.,... • n. Radripde ........ - o..- de
tliato o ltrft-............ .,.. o.,._.,. al'anllpl, o
..,.._.. .. nõ.. e .. pelsx pon oU.. a pop da ol-
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cA rm&.u"xada de D. Rodrigo de Lima
vera do anno de a521
1
em que deixou pela primeira vez o ar-
raial do Negus, até .t primavera do de 1526, em que embar·
cou para a India. Isto seria extremamente fastidioso, e nem
mesmo teriamos elementos para o fazer, pois o padre Alvares
não marcou os itinerarios e datas d'estas multiplicadas via-
gens com o mesmo cuidado com que havia marcado o da pri-
meira.
Durante aquellcs cinco annos, os portuguezes assistiram
principalmente no norte, no reino de Tigré. Demoraram-se,
por exemplo, longos mczes em Debaroá e Addi Baro, 1 espe-
rando noticias da costa, e dos navios que os deviam vir bus-
car. E habitaram tambem Aksum, para onde foram manda-
dos pelo Negus, e onde ficaram oito mezea. Tiveram, por-
tanto, todo o vagar para ver bem a antiquissima e celebre
capital do imperio sab@o, que era tambem a cidade santa do
mais moderno christianismo ethiopico. Alli viu o padre Alva-
res a grande egreja christan, destruida annos depois pelo
mouro Gr.ánhe; e alli se encontrou com o • 2 chefe
do clero de Aksum, superior do convento de Dabra DAmô, e
guarda do sanctuario, onde dizem conservar-se ainda a arca
santa, trazida por Menilek, filho de Salomão, na sua volta de
Jérusalem.
Além da egreja christan, abundavam em Aksum as ruinas
das mais remotas épocas himyariticas, como os obeliscos ar-
tisticamente lavrados, c como as inscripções, indecifrave1s,
mesmo a grega, para os nossos rudes portuguezes. Natural-
mente, o padre Alvares e os seus companheiros, como de
resto os proprios abcxins, referiam todas aquellas ruinas aos
tempos da rainha Candacia, c aos tempos mais remotos da
r De uma das vezes, D. Rodrigo, Alwres e outros estiveram em De-
bsrol; e Jorge de Abreu com os do seu partido em Addi Baro, uns dez
k.dometros para noroeste. Os dois chefes nio se podiam ver, nem mesmo
babitar na proximidade um do outro.
2 Ndrid ou nebrir
1
corrupção das an1ig111 palavras, que sisnificam
imposto das mãos- c:onsaBrado pela imposição das mãos.
rainha de Sab.t. Viveram, pois, alli em uma atmosphera de
tradiç6es sagradas. Aquellas pedras evocavam aos seus olbos
as grandes figuras biblicas de Salomão i da bella e negra Ma-
r que fõra procurai-o, namorada de longe pela
fama da sua sabedoria c da sua gloria i de Menilek, o fructo
dos seus rapidos B.Dlores
1
o que troute para a Ethiop11. o no-
bre sangue de Judá. 2
O oosso Alvares por l.t aildou, vendo com mWto cuidado
as ruinas, medindo o melhor que poude a altura dos obelia-
cos. ou, de candeia na mão
1
explorando casas subrerraneas de
•fre.mosa canraria dircira,• onde viu umas arcas na mesma
canraria, que passavam por ser cas caixas dos tesouros da
Rainha Saba• 3
Do Tisré, fizeram, no emtanto, varia• jornadas ao sul, a
encontrar-se de novo com () Negus, cm cujo arraial andaram
ainda por diversas vezr:s, acC'mpanhando-o até aos ultimos
limites mcridionacs do seu imperio. Passaram, por exemplo,
com elle toda a quaresma do anno de • estando umbcm
alli Pedro da Covilhan. Lebna Denscl andava então pela re-
mota c barbara terra de ·Gorage•, imperfeitamente sujeita ao
imperio. 4 E alli no •Gorage• ou Guraghl! receberam os nos-
• Makedâ I. o nome da raillha, na 1radiçlo etbiopia.- o de Belkis
mais conhecido, pertence propriamente d tradição arabica.
:a A esta se liga a antiga divisa dos reis da Ethiopia : Y1til
IH d• tnbu Judti. As pelavru rorém sâo do • .tp«illyp:u, 1t de introdu-
çlo muito mais moderna.
J E' curioso compuar as ducripções de Alvares(1S24 ou 1S2SJ com as
recentes (18gJ) de T. Bent. De resto, o ar. Bf:nt conhece perfeirameote o
Jiyro de e faz-lhe completa jusliça.
4 O GuragM, conado pelo parallelo de 8• L. N., entre c rio Omo a
poente, e c lago Zuai a aueste.-Sobrf: este regiio, dividida boje em peque-
reinos, ncminalmente tributarias do Choá, e sobre as YestWos de
c:bi'Boanwno., meio apegado, que amda •lli se encnmram, pode vêr-se • re-
lação de uma npediçic de Ch111nn1 {1878) no livro de Cecchi, Da Zri/1.1
11, 71 a •09· Sobre aqueUas regiões em serat, vejam-se tambem as li-
nos do sr. Bcuelli e do cardeal Mauaja.
cf tmb.:.ixada de D. Rodrigo dt Liit1a R67
sos as primeiras noucias de Portugal- por signal duplamente
desagrada veis.
No domingo oitava de paschoa, dia 15 do mez de abril do
anno de 1523, estando elles rezando um officio e missa por
alma da mãe do Preste João, chegaram-lhes dois maços de
cartas, mandados de Massauã por D. Luiz de Menezes. ' Di-
zia-lhes, que os esperava até 1S de abnl, porque a monção
lhe não permiuia esperar m:üs; e justamente as cartas vi-
nham-lhes ás mãos no proprio dia, estando elles n'aquellas
remotas terras. a mezes de jornada de Massaull. Diziam tam-
bem as cartas, que elrei D. Manuel havia fallecido, com o
que elles ficaram mais mortos que vivos, começando logo na
sua tenda a vestir-se de luto, e a rapar as cabeças 4 moda da
Abyssinia. Lebna Dcngel, que n'aquelle momento estava
muito bem com os ponuguezes, soube o que elles faziam, e
mandou-lhes pergumar o que succedia, ao que o padre Alva·
res respondeu em estylo onem:ll, •polb uso da sua Lcrra•:
-Dizei a Sua Alteza, que as estrellas e a lua cahiram, e
o so1 escureceu e perdeu sua claridade. EI-Rey D. Manuel,
nosso senhor, é fallecido da vida d'este mundo, e nós fic111mos
orfãos e desamparados.
O Negus m11ndou immediatamentc deitar um pregão, orde-
nando que durante tres dias se fechassem todas as tendas
em que !e vendiam mantimentos ou quaesquer merc.adonas.
Homenagem grandiosa na sua simplicidade, e digna do desco-
bridor da lndia, que o Preste João, nas suas remotas terras
de Afr1ca, mandasse fechar em signal de luto as tendas do
seu arr:üal. Passados os tres dias de nojo, Lebna Uengel re-
cebeu a embaixada; e a sua primeira pergunta foi:
-Quem herdar4 os reinos de el-rei meu padre?
1 A aorte da embaiuda nio esquecia cm Portugal ; e D. Manuel deu
instrucçóes BD sovernador D. Duarte de Menezes para mandar buscar a
Massau6 D. Rodrigo de Lima; inatrucções repelidas ao llllnD de 152:1 por
D. Joio n1, como •seu pae muito lhe dei:J:a'fa encommendado• -Gnça
BarrGto DocwmtJJta, Cl..S.YI c c.u2.n.
Pedro da Covilhan
-0 principe D. João, seu filho, respondeu D. Rodrigo.
-Não tenhaes medo, disse o Ncgus, que terra de
christãos cstaes. Bom foi o pae c bom serã o filho. Eu lhe cs-
c.reverei. 1
Os portuguezes estavam porém, como era natural, cheios
de impacicncia, na vaga esperança de que D. Luiz de Mene-
zes os podeS!oe ter esperado mais do que dizia, e ainda logras-
sem alcançai-o. Despacharam, pois, immediatamente o mulato
Ayres Dias para o norte, com cartas para cllc; e poucos dias
depois o feitor João Gonçalves, seguindo o mesmo caminho.
O resto da embaixada ficou retido mez e meio no arraial do
Negus, que vinha tambem caminhando na direcção do norte,
mas muilo lemamentc, com a enorme comitiva e impedimmla
habituaes.
Passado aquelle periodo foram despedidos; mas d"esla vez
muito mais affcctuosamente que da primeira. Os presentes fo-
ram muito mais ricos, e a intenção muito mais amavel. Ao
padre Alvares, por ezemplo, deu o Ncgus uma mula, conhe-
cida pelo seu passo comrnodo e rapido, e em que eUe proprio
montava, favor espccialissimo.
Seguindo para o norte, os portuguezes souberam como D.
Luiz, forçado pela monção, havia effectivamente partido; c,
ao chegarem a Debaroti, encontraram cartas para eUes e
para o Preste João, assim como muita pimenta e pannos,
que lhes deixára para despezas da embai.tada. ::a A monção
1 Como de feito escreveu. Pareceria narural coUocar n"c&ta dila a
conhecida carta da Lcbna Dengcl a D. J()io m; mas, falando aque11a
carta tia m:issfio 110 papa., que-segundoAlvarcs-só foi decidida oo
anno seguinte, davc lambem t-er sido redigida no anno da tS2.f, c aio
n"estede 1Sd.
s Joio Gonçalvct j4 aio encontrou D. Luiz de Menezes em Massau4
1
e ficou na Abyssinia t()d() () anno de JSs.3; mas depois, mandado por D.
R()driJo de Lima, consesuiu embarcar cm MassauA, cm uma nau de ID()U·
ros c cm traje de mouro. A nau na C()Sla de Fanak, e elle foi
por terra a Mascate, pedindo esiD()la pelo caminhei; e d"alli a Hormus,
ot1de encontrou D. Duanc de Menezes a quem entreBOU caMas de D. R()·
drigo i Gaspar Corrêa, Lmda1, u, 83::a
1
e m, 66-De Cocbim, etcrenu
cA Clllbaixada dt D. Rodr·igo dt l.ilfla Jl6g
segwntc só winha d'alli a mczcs; tinham muito tempo deantc
de sj, c ac:cordaram, que seria conveniente voltarem alguns ao
arraial do Negus, levando-lhe as cartas c um presente de pi-
menta. Primeiro decidiu-se, que fosse só o padre Alvares i
maa á ultima hora aggrcgou-sc-lhe o proprio embaixador. •
Lá foram de novo, Abyssinia abaixo, cm busca do orraial
do Negus. D'csta vez, encontraram-no no reino de Fate8ar, ji
para o sul do planalto, nas terras do valle do Auach, •mais
campina que serrania•, como diz Alvares. Devem mesmo ter
passado o Auach, a surste do qual veriam a grande montanha
de que falam, isolada no meio do cumpo, e tendo no alto
uma Jagôa de quatro lcguas, segundo o calculo ou •esmo• de
Pedro da Covilhan.
2
Do Fatcgar voltaram com o Ncgus pelo Choll ati! ao reino
de An:hara, onde ficaram bastante tempo demorados no la-
gar de •Dara,a 3 continuando a testar com elles Pedro da Co-
wilhan. E alli, em Dara, se deram alguns acontecimcmos inte-
ressantes ou simplesmente curiosos, que mencionaremos com
brevidade.
O acontecimento curioso, foi que Lebna Dengel .se lembrou
Joio Gonçalves, em da janeiro de t5s5, a Diogo Lopes de Sequeira,
dando-lhe conta da.s coisas do Pre&te. Parece, que um •Bal1azar de Ma-
plbãeu, proYavelmenta o Masa)bies que f6ra com Maubew, conseguiu
lambem aaír da Abyuinia n'aqueUc anno da rS24, jumo aem duvida com
João Gonçalves- Graça Barreto Documtnla, cc e cc1
• Alvares, em uma phrRie um tanto velada, Bltribue a cata resolução
de D. Rodrigo um motivo bastanta mesquinho- o de ob1er mais
rresentes para si.
3 A cratera c:r:tincta de uma das montanhas vulcarucas, numerosas na
I'Cgiio atravessada pelo Auach. O monle isolado de Zikuala, de Jooo me-
tros de altitude proximamente, contém um lago na cratEra terminal
Redus, 1191.-E· claro, que nlo identificamo1 este
monle de AIYifCI propriii!Dente com o Zikuala i mas aimpleamcntc com
IUK dos Y-ulcôes d'aquella reW.ão, DO qual &e "pctiria o meuDO
facto.
3 .Dara• dawe identificar-se com Derra da.s Carla• de Chaunod e de
Cecthi, na I'Cgiio da Tuloma- Nlo fic:ava muito af•stada da çasa de Pe-
dro da Co't'ilhan.
Pedro da Covilhan
de pedir a uplicação do mappamuudi, que uns quatro annos
antes- já estavam em 1S24 -lhe tinham dado. O padre Al-
vares e Sega Zailb traduziram, pois, cm gecz os disticos do
mappa. Mas deu-se então um resultado, com qoe niio tinham
comado; e foi, que Lebna Dengcl achou Portugal muito pe-
queno, e lhes mandou dizer, que seguramente não teria forças
para resistir aos turcos e rumes, c seria melhor mandar pedir
ao rei de Hcspanha que fizesse fortaleza cm Zcila, c o de:
Portugal cm Massauá, c o de França em Suakim. Claro está,
que os nossos ficaram conrrariadiss1mos com estes resultados
inesperados da geographia, procurando destruir aquella im-
pressão com rodos os argumentos que lhes lembraram.
O outro muito mais interessante e de re-
sultados muito mais importantes, foi que Lebna Dengel teve,
ou o padre Alvares l!J.c suggeriu, a ideia de escrever ao papa.
D. Rodrigo fez a isso algumos difficuklades, mas Alvares, mais
e1pcno, promptificou-sc immediatamentc a redigir o principio
da carta, dizendo aos abexin:&: que elles a continuariam depois
com o que .rinham no coração•. Começou logo o seu traba-
lho, .ajudado por Saga Zaâh, vindo tambem dar-lhe explicaçl5cs
áccrca das intençóes ou •tcnçam do Preste• uma grande au-
ctoridadc ecdesiastica, equivalente ao •capclliio mór•, a que
chamavam o •Abuquer•. • Ao mesmo tempo que Alvares
redigia a sua carta, começando pelas palavras •Bcmavcnturado
Sancto Padre•, os debtaras abexins escreveram outra mais
longa, que levaram tres dias a compar, rodeados, segundo o
seu costume, de mu1tos livros sagrados. 2 Emquanto se ultima-
vam estes trabalhos littcrarios, .os artistas nacionaes occupa-
ram.-se em lavrar uma cruz de oiro, destinada egualmente
• Nio e:r.p1ico bem esta palawa •Abuque..-.• O carJ!O eccle.iastico
mais similhante a •capelliiD mór• era o Qls Hat!ll
1
perticular
do Negus. E' pronvel que Abuquer fosse o nome proprio do persona-
gem; mas ainda assim deve estar muito altarado.
2 A primeira carta é a que na ven'io latina de Paulo Jowio começa
pelas palawras : Fjlix Sa:nctr Patrr ; a outra começa /11 llft
po.lris omnipolmtis.- Veja-se o capitulo sesuinte.
cA embaixada de D. Rodrigo de Lima 271
ao papa, e que foi confiada, como as cartas, ao padre Alva·
res.
Na mesma occasião, Lebna Dcngel usentou cm enviar um
embaixador a Portugal, escolhendo para este cargo o frade
Saga que desde o começo andara sempre com os por·
tuguezes c se entendia perfeitamente com clles. E, final·
mente, escreveu a D. João 111, dando-lhe conta de todos es-
tes successos.
Pedro da Covilhan estava em e, embora o padre
Alvarl!s o não diga explic:.tamcnte, &! natural que clle colla·
borasse na redacção e versões de todos aquelles documen·
tos, como tres annos Rntes havia collaborado na da carta a
D. Manuel. A sus presença em Dora é mesmo a ultima no·
tida que temos d'elle. Durante a permanencia em Dara, o pa-
dre Alvares refere·se varias vezes ao que Pedro da Covilhan
lhe contava o:J. lhe explicava; depois d'isso não fala mais
d'elle. Parece, pois, que no correr do anno de aS:114 alli se se·
pararam pela ultima vez c para sempre.
Tudo prompto em Dara, escriptas as carta"', feita a cruz
de oiro, nomeado e despachado Saga L3ilb, o que deu togar
a muitas demoras, D. Rodrigo c Alvares paniram definitiva·
mente para o norte, a encontrar.se com os companheiros, que
tinham ficado no Tigré. Deixavam no acamps.mento do Ne-
como j.t estava decidido desde o anno anterior, o pintor
Lazaro de Andrade, e o medico mestre João, do ultimo dos
quaes teremos de nos occupar largamente em um dos capi-
tulas seguiDtes.
D. Rodrigo não voltou ao acampamento do Negus; mas o
padre Alvares ainda 1.4 foi uma vez, acompaDhando Saga
Za1lb, o qual lhe rogou fosse com elle pedir justiça, pois o
queriam esbulhar de um gultn ou senhorio, que ames lbe ha-
viam dado. O gullo ficava situado nas serras de •Abugimu
ou de Bughena; 1 e quando, obtida justiça, o frade lá foi to-
1 Saga Zaãb as1ignava-se depois em Ponngal: Saga za-Ab, ra1 de
Bughena, üqu kahna.t. -Estas ultimas palavras, que nos documentos por-
Ptdro da Ctwil1la
mar ou retomar posse do seu senhorio, o nosso padre andou
com clle C fim de 1 S2S e principias iat de t5:a.6), nndG então
aqueDas ~ e r r a s de Bughcns, c tambem as egrcias de Ulibalà.
Por occa.sião d"esta ultima 'i.!.ira de AJvares ao acampa·
menta, a nossa aotiga conhecida. a velha ninha Helena, j6
não existia. Tinha morrido mezcs antes, mas a sua memoria
estava bem viva • •.• c era grande rumor e dizer da monc da
rainha Elena cm toda a cone•, affirmando-se, que cm quanto
fôra viva todos estavam •guardados e emparados e que cUa
era pai c may de todos•. A sua tenda estava armada no seu
lagar, em signal de luto e de respeito, e todos os que entra-
vam no arraial atli iam chorar, prestando homenagem ás suas
vinudcs, c aos seus grandes serviços ao paiz. O padre Alva-
res e Saga Zaab lá foram chorar como os outros.
O padre Alvares andou pelas terras de Bughena e proxi-
m1s até á quaresma do anoo de 1!»36; mas, approximando-se
o tempo da monção, recolheu ao nane, como recolberam. tam-
bem de mais longe Jorge de Abreu, Diogo Fcmande!
1
Affonso
Mendes, Alvarenga, e quauo ou cinco genovezcs, os quaes ti-
nham acompanhado o ncgus Lebna Dengel cm uma expedi-
ção militar pelo reino de •Adea., (Hadya).
Na primavera do anno de .S26
1
estavam, pois, os portu-
guezes, os genovezes e os outros eurapeus reunidos em De-
baroá, esperando anciosamente noticias, como anciosamcnte
haviam espeudo já nas primaveras anteriores, quando chega-
ram (1 de abril) dois dos pOrtllH1Jezes
1
que tinham mandado
.t costa. Vinham c mortos e pasmados•, dizendo:
-Não ba lá portllH1Jezes que venbam por nós, nem os
ha na lndia, que todos sam desbaratados, e a Jndia perdida.
E" isto o que dizem os mouros em Maçut.
A noticia era tc:rrivd; e, no primeiro momento, os alvitres
variaram. D. Rodrigo queria voltará. cOne do Negas- O pa-
tuauezes do tempo se encontnam escriptas •Licacanate•, podem-se talwea
tnadtair por arciprelle.pois si,gnific:avam uma dignidade ec:c:1esiasbca
1
pro-
.Wameate equivalente.
Gf tmbaiXada de D. Rodrigo de l.ima :a7.J
dre Alvarrs, porém, esrava m •is d"s;oo!õtO a tlcar alli e a fa-
zer-se lavrador. Tmha as s u o ~ s m ... l11s e algum dmheiro; com-
praria va.:cas, e viveria dn'i suas creações de g a ~ o s e das
suas se TJenre1ras, lcvnnrando \Jma peq tenina ermiJa para di
zer missa. Nas horas vagas, andana caçando e pescando pe-
los campos e ribeiras-o padre Alvares, como bom portu-
guez velho, era \Jm grande caçador e pescador. Os outros
abraçaram n"o; o plano sorria-lhes. Alguns ajudariam o padre
na lavoura, outros inam negocear - conheciam já muito bem
os caminhos e as feiras.
Passaram assim o domingo de paschoa, penc;ando em or-
ganisar uma c-llonia portugueza em terras do ligré; e na se-
gunda leira os espiri[Os estavam JA. rão rranqUIIIos, que alguns
montaram a cwallo e foram és lebres- m •taram muiras e
rres sisões. Mas á noire. d .. -pois da ceia, recolhendo o padre
á sua pousada, acompanhado por alguns portuguczes e gene-
vezes, um crcado abex.im. chamaJo Abetai, veiu para ellc cor-
rendo, esf.dfado, gritando lhe:
-Senhor, senhor, os portuguczes no mar!
-Aberai, quem te disse isso 1
-Um homem, que chegou .ngora do mar e está em casa
do Bahr Nagâch.
-Abetai, se isso é verdade, dou-re a melhor das minhas
nove mulas, tirando naturalmente a que me deu o Preste
João. E jA me não deito sem falar com esse homem.
EfteClivamente foi esperar o mensageiro para a porta do
Bahr Nagâch, e jé de maJrugada conseguiu falar lhe, sa-
bendo então, que se tinham ouvido dros d.: bombarda para
os lados da ilha de Dohlac. A noticia era bastante vaga, e fi.
caram ainda cm suspenso, até qu-e na terça feira é noite (4 de
abril) lhes veiu ás mão'! uma cana de Heitor da Silveira, que
os ficava esperando em Massauá c.o;n cinco navios -duas ca-
ravelas e trcs galiões reaes. 1
1 A sorte da embah:aW. não esqueci:; i e parece que Heitor da Silvei·
ra j.6. havia ido a Mauau.6. buscal-a dabalde ao anno de •5:14-- Vasco da
35
Ainda se demoraram com o Bahr Naglch, ainda recebe-
ram um coo,·ite do Ncgus para voltarem 6 c6ne, ao que na-
turalmente ae escusaram t mas no dia 28 de abril e s t a ~
todos embarcados, portuguer.cs, frangues, Saga Za.lb c os
abcxins que comsigo trazia.
Tecmioa por aqui a pane da embai:.:ada majs inttressantc
para nõs, c podemos resumir muito brucmcntc os suc.ccssos
que se seguem :
De Massau.i, tocando oa ilha de Camario, onde o padre
Alvares recolheu secretamente • a ossada de Duane Gaivão,
sa1ram o Estreito e foram d. ilha de Hormuz, em cujo pano
encontraram o governador da Jndia. Lopo Vaz de Sampaio, a
quem entregaram a cana do Ncgu.s p:II'a Diogo Lopes de Se-
queiro. De Hormuz passaram 4 lndia, e ds lndia a Ponu-
gal, entrando a barra do Tejo, com •assar; prazer•, no dia 24
de julho do anno de t527-
Em Lisboa havia peste, e as ordens estavam dadas para
não tocarem na cidade c seguirem para Coimbra, onde se
a,chava O. João m. Foram, pois, em barcos a Santarem, e de 14
fizeram jornada para o norte por un!io dias de calor verdadei-
ramente extraordinario. Um dos mouros, que trazia camsigo
D. Rodrigu, morreu de calma á ponte do Almonda. O padre
Alvares acabava de passar' uns doze annos na lndia e na
Abyssinia, vinha de Massaui e de Honnuz. s1tios dos mais
quentes do globo, e no emt.anto declara ser aqucllc calor 8.
saida de Santarem •a mayar calma que nunca vy•. Foram a
Scrnacbe, onde esperaram vinte e tamos dias as ordens do
rei, demora que lhes recordaria a Abyssinia. s D'oUi foram a
Gama, como depois Lopo Va'l de Sampaio, occupanm-se lambem de a
mandar rrocurar. D. Rodrigo de Lima, pelo seu lado, hawia conseguido
fazer chegar cartas &uas lia mãos de D. Duarte de Menezes, insistindo
para que lhe enviasse navio&.
• Secretamente, porque Oli marinheiros tinham agoiro em trazer ca-
daverea a bordo.
• Demora que se explica pelo receio da pesla que b:vra'la em Li!.boa
-era uma espccie de quarentena,

C!4 embaixada de D. Roclr1go de Lima 27S
Coimbra, sendo o primeiro da côrte que os veiu esperar,
almotacé mór, Diogo Lopes de Sequeira, o mesmo que os
levára a Massauá, e se pela embaixada como por
coisa sua .. Junto de Coimbra, na estrada
condes e bispos ; e no paço, o marquez de Villa Real veiu to-
mar pela mão Saga Zaáb para o apresentar a D. João 111.
Em segunda audiencia entregaram a coroa, a carta para el-
rei D. Manuel, a carta para o proprio D. João 111, assim
como a cruz e cartas para o papa, que vinham especialmente
confiadas ao padre Alvares. A missão estava cumprida, e,
em summa, bem c felizmente cumprida.
* *
De feito, considerando em globo os successos d'aquelles
seis annos, vemos que os resultados da embaixada eram con-
sideraveis. A' parte pequenos attritos, naturaes em uma terra
semi-barbara, e devidos tambem um pouco á sua propria inha-
bilidade, D. Rodrigo de Lima havia sido tratado com muito
iavor, sobretudo nos ultimos tempos. As boas relações de
Portugal com a Ethiopia, que antes assentavam apenas na
missão unt tanto problematica de Mattheus, ficavam solida-
mente estabelecidas. Com D. Rodrigo vinha um embaixador
do Preste João, perfeitamente authentico. As cartas do Negus
para os reis de Portugal continham calorosas affirmações de
e mais do que isso, propostas claras de alliança of-
fensiva c defensiva. Estava dada a permissão para levantar
fOI'faltus em Suakim. lttauaut. Ze1la e outros pontos da
cocta. -l1rect.a ou oonunalmentc sujeitos ao ãnperio do Negas.
e•p'icit .. mcnlc p1omcl1idu o au1illo para as construir c.
manu:r. T oJ .s csus conc.usõcs rinhdm um •.Jor real. c so-
b,cluJ.J linham aos olhos d.t Eurup• um cuonnc •.Jor appa-
n:mc.
Tinham um nlor real. porque •• fortaluas da costa afri-
cana, como o reconhe,•a jã Allonso de Albuquerque, poderiam
aer um apo1o permanente no mar Vermelho. A..,uclle mar foi
sempre o ladn fraco c vulneruvcl do dominio p •rtUgucz lla
lnJia. Era o caminho n.nural, por onJc os musulmanos d'oc-
ci lente, os m01mcluks do E3ypw cu os rumes do Asia me-
nor, podiam ir soc.corrcr os seu" correlifPona·ios da lndia.
D'alli salram as esquaJra"• que por varias vezes foram cereal'
Diu. A arma ta diJJ ru"'r!'S era na lnJia urna ameaça con-
stanlc. E os ronuguezes DU"lca podcram domioar no mar Ver-
melho. O proprio d= · ..\lbu-tuer-tue foi infeliz em
(reme de Adcn. A tentativa de: Lopo Soares sobre Djiddá foi
dcwaçada com"l vimos. D. Estev.J.m da Gama fez poSicrior-
mcntc uma brilhante navcga.;;ão por alucllc mar, c foi armar
cava Jeiros junto do monte Sinai; mas não deixou attraz de !li
nada definitivo. Pcl1 conuario, as fortalrzas da costa arricana,
em S1.1akim c M.1ssauá. se se chegas•em a construil'
1
seriam
uma base segura de tendo-na de Albu-
querque- •as costa• postas no grande podrr do Preste Joã:n.
As conccsslíc• obtida!i n"estc scntiJo por O. Rodrigo de Lima,
eram pois rc:almcn•c importantes.
lttJS aos olhos da Europa, o alliança dà Ethiopia parccra
ainda muito mais valiosa. Os sonhos c as lrnd..1s da Edade
med•a não estavam completamente de .. vanccidos. O que sca-
bava de conseguir D. João 111, havia sido o grandr dese o de
D. Manuel, incnado por Leão .1.. Via-se ainda n'oquellc canto
da Africa. um poder christâo, capRZ de se oppõr a turcos, ru-
mc'i e outros mu!'.ulmanos. De!lconhccia-se por completo a
barbara indisciplina, que fraccionan o impcrio, annullando-lhc:
em grande parte as forÇ&!I c impedindo-o de intervir efficazmente
c4 embaixada de D. Rodrigo de Lima ~ 7 7
nu contendas exteriores. N'c•te ponto, as noticias dos portu-
guezes, nomeadamente o livro de Alvares, deviam trazer al-
gumas desillusõc:s. J\l.!s aquellas noucios, nem foram conheci-
das e divulgadas d:sde l o ~ o , nem podiam dar uma impressão
clara da dccadenda ethiopaca. Por ma1s fino e anemo obser-
vador que fOsse Alvares, não podia ter penetrado toda-s as
causas latentes da desorganisa.ção do imperio jacobita. Huria
.t sup•:rficie uma camada de e .. pJ rndor e de forca apparenrc,
que necessariamente o illudia, e mais facilmente illudiu o ~ que
depois o escutaram ou o leram. Ficou, pois, a impressão de
um Preste João, barbara mas grande; e juntou-se-lhe a im-
pressão de que elle passava a ser um alliado intimo e fiel de
Portugal.
Pelo lado religioso, muito mais complicado, e que então
anrahia as attenções, tanto pelo menos como o lado politico,
tambem os resultados p3reciam eminentemente favoraveis.
Podia-se quasi julgar resolvida a união da Egreja ethiopca 4
grand.: Egreja romana. No livro do padre Alvares mal se en-
contram vestigio!'l dos dissentimentos entre jacobitas c catbo-
licos. que nos annos e seculo seguintes levaram a crises agu-
das, por vezes sangrentas. Naquelles seis &Imos, o padre pora
tugucz viveu 21emprc em boa imelligencia com o clero abexim.
Sem duvida viu muitos factos, que o surprehendcram des-
agradavelmente. Os padres dançando e tocando tamboril nos
officios divinos ; a multiJão de frndes quasi nús, pouco hones-
tos no trage c nos costumes; o singular baptismo annual da
Epiphania o o modo por que o Abuna conferia ordens sacras,
sem exame c sem escolha, a ceBos, coxos e aleijados; todas
estas coisas e muitas mais lhe pareceram abusos condemnfl·
veis. Mas pareceram-lhe abusos,. naturaC's em uma christan-
dade remota, sel'tgregada de outras communidadcs, longe dos
centros d"onde lhe podia vir o ensinamento e a luz; c que se-
ria facil emendar sem violcncia. Ao mesmo tempo notava ou-
tros factos que o edificavam; corno os jejuns rigorosos; como
as duras penitencias dos que se mergulhavam em agua fria e
traziam cilicios sobre a pellc; como a vida contemplativa
Pedro da CoJJIIhan
d'aqucllt:s frades, que lbe mostrou Pedro da Covilhan, isola-
dos nos bosques c nas l.apas das rochas é maneira dos santos
eremitas dos primeiros seculos.
Nas questões de dogma não parece ter penetrado muito.
Durante as longas conversas com Lebna Dengel, falaram va-
rias vezes dos concilies, nomeadamente do que reuniu o papa
S. Leão; mas não vemos que debatessem a questão essencial
das duas naturezas de Jesus Christo... ou da confusão que fa-
ziam os abexins entre .1 palavra r ~ a t u r e r a e a palavra pes6oa.
Alvares não parece ter-se fixado bem no ladO heretico do
christianismo ethiopico. Em passagem alguma do '!iCU livro-
que nos lembre- elle dá aos abexins o nome de herejes ou
de eutychianos. Nunca teve duvida em se misturar com elles
nos seus officios religiosos. Quasi á partida, no domingo de
paschoa, em que se não achava com sufficiente liberdade de
espirita para dizer missa, o vemos ir com D. Rodrigo c os
outros 8 missa dos abex.ins na egreja grande de Dcbaroã. O
zelo de proselytismo, que notamos nos padres portuguezes dos
tempos posteriores. no patriarcha D. Afi'onso Mendes, no padre
Manuel de Almeida, no padre Jeronymo Lobo e em outros,
que notamos recentemente no livro do cardeal Massaja, foi-lbe
completamente estranho. Não via nos abexins herejes a con-
verter, e unicamente christãos igoorontes a ensinar e emendar.
Não quero com isto elogiai-o, nem condemnal-o; o facto po-
dia proc;eder da 11atural benevolencia do seu caracter, como
tambem da sua relativa ignorancia em theologia. Unicamente
quero dizer, que a impressão por elle trazida da Abyssinia
1
e
communicada depois aos que o ouviram em Portugal c em
Ro.no, devia ser, que enU"e abexins e catholicos não existia
uma barreira insuperavel, nem mesmo muito elevada.
Do outro lado
1
o alto clero da Abyssinia manteve sempre
com elle as melhores relações. Isto podia nascer do estado
de espirito do nosso padre- a benevolencia cria a benevolen-
cia. como a animosidade cria a animosidade. Podia tambem
nascer de o verem só, isolado, e não recearem da sua parte
imposições. Fosse por que fosse, não tiveram para com elle o
cA embaixada tle D. Rodrigo de Lima 279
retrahimemo e a surdo opposição, que depois mostraram sem-
pre ao5 missionarios catholicos. O velho Abuna era muito seu
amigo. Chegou a dizer lhe, que estimava a sua presença alli,
porque o ajudaria a desarreigar alguns crrós c abusos do seu
clero. O •Nebrete•, chefe do clero de Aksum, guarda das
mais antigas e mais sagradas tradições da Egreja ethiopica,
que deveria ser por isso especiulmcntc intolcrnnte, viveu com
elle cm perfeita harmonia. O Qé's Hatst:, primeiro cupellão
do veiu combinar com elle os termos da carta ao
papa.
E aqucllas canas, não sõ a que em parre redigiu Alvares,
mu tambcm a que escreveram os são ou parecem
ser terminantes. O Negus dizia ao papa : O felr3.· sar1cte pa-
ter, rgo tibi reverenter· fJbedio; mais adeante •.• ego humilitcr· ad
I erram geuibus f/exis tibi pater· saucle; ou ainda ... tu sis pastor
et rgo o vis tua; ou finalmente •.• A/que i ta •Junc te oro 111 •wn-
tium l1mm cum bmedl'cticme ad me mittere ... Claro cstã,
que n'estas phrases é necessario attender das suc-
cessivas vcrsi5es. Passando da lingua geez para 11 portuguezB,
da portugueza para a latina, as can:u foram tomando as for-
mulas de respeito, mais eccentuadas, com que era uso diri-
gir-se ao Summo Pontifice. Mas, feitos mesmo estes descon-
tos era licito ver nas cartas a fucil e proxima união dos abe-
xins é Egreja romana. Isto era, como depois se provou, urna
illusão; mas uma illusiio perfeitamc:nte c:xplicavel c: natural.
E era um3. illusâo, porque e obediencia prestada ao papa
n'aqucll"l.s cartas não foi consciente, ou -para me explicar
melhor-não significava a conscicncia clara de tudo quanto
d'c:lla devia resultar: de que a obediencia a Roma levava ao
rompimento com 8 Egreja de Alexandria; ao abandono da an-
tiga fé jacobita; .f. acceitação da!l decisões de Chalcedonia,
detestadas durante seculos; á alteração das cerimonias reli-
giosas; é remodelação de toda a Egreja nacional, identificada
com a propria constituição do imperio. Os abexins não pen-
saram em todas estas coisas quando as escreveram. A prova
estã, em que quando depois Portugal c: Roma e a Companhia

Pedro da Covillzan
de Jesus quizeram tirar das cartas o que pareciam ser as ·
consequencias naturaes e logicas, quando quizeram fazer
a Abyssinia catholica, encontraram difficuldades até hoje in-

supera veis.
As cartas parecem· ter unicamente no animo
dos abexins um cumprimento, uma homenagem solemne ao
chefe dos christãos, prestada por um rei christão, que se con·
siderava tão bom christáo como qualquer outro. Uma das
cartas dil_-o : A1itto ad deoscu/andos pedes sa1lctita-
tis JJestrtZ mo1·e jidet regum fratrum
n1eorum, quibus neque relig1oue, neque sum znferzor.
Red'-lziJas ao que me parece ser a sua verdadeira significa-
. ção, as cartas ainda constituem um facto importante da his-
toria ecclesiastica ; e esse foi determinado pela influen-·
cia de Portugal, e na sua esphera modesta pela intervenção
do padre Alvares, auxiliado por Pedro da Covilhan.
Fac·simile reduzido da asslgnatura de D. Rodrigo de Lima
CAPITULO IX
lo 1tlullo lle J,luru
1 8nta.
r allr J"agajai•
a&t.lleo.
A embaixada por-
tugueza havia deixa-
do na Abyssinia Pe-
dro da Covilha11, c
com elle, ou antes
com o Negus, o me-
dico mestre João e o
pintor Lazaro de Andrade. De outro lado, trazia comsigo o frade
Saga ZaAb, acompanhado por varias abexins, entre elles al-
guns rapazes, destinados a apprender offi.cios na lndia c cm
Ponugal, c a voltar depois á sua terra. 1
Trazia tambcm a seric de cartas de que já remos falado
por diversas vezes, mas sobre as quaes ainda devemos insis-
tir, pois representam cm grande parte os resultados até então
obtidos, e serviram de base ás negociações c dererminPções
posteriores. Entre estas cartas, as primeiras na data são, a
dirigida ao 80\"ernador da lndie, Diogo Lopes de Sequrira,
entregue depois cm Hormuz ao seu successor
1
Lopo Vaz de
1 Em Cocbim ficaram sete, um para aprender o officio de pintor, rres
para trombetas, e ourros tres para carpinteiros de •casas e moinhos ou
atafona&•. O pinror Coi depois enviado a Lisboa, pois não bavia na lndia
quem o ensina11e conYenientemente; Carta de Antonio M e : ~ ~ : 1 a a Mi-
guel do Valle
1
de g de janeiro de 1l27; Graça Barreto, DoCilmf!rrJa, cc:u.
36
da CoVI1han
Sampaio, c a ao rei D. Manuel, entregue cm Coim-
bra a D. João 111, unica das duas de que nos occuparemos por
mais importante.
Foi escriptu-como l'imos jA-no acampamento do Nc·
gus, cm terras do Amhara, proxi.mo ao Jogar de Mak.il.na Se-
IAs!!, por fins de janeiro ou principias de fnereiro de 1521 ; e
d"ella vieram para Portugal se1s copias, cscripras cm cadernos
de pergaminho, duas em geez, duas em arab1co, e duas na
nossa lingua ponugueza. Esta uhima l'Crsão foi- como tam
bem vimos- devida a Pt:dro da Covilhan, de modo que na
carta tal qual nos chegou, pelo menos nos trechos não altera·
dos, tc=mos ainda a sua redacção e o unico exemplar que nos
resta da sua prosa.
O original gec=z e a versão arabca devem-se tc=r perdido,
não constanJo que nistam nos nossos archivos; mas a ver-
são ponugueza foi-nos conservada pelo padre Francisco Al-
vares no seu livra.. e por Corrê:a no seu. Temos tam-
bem, no opusculo de Dam1ão de Goes, a traducçáo latin31,
feira drpois cm Bolonha por Paulo Jovio sobre a versão por-
tugueza, como melhor veremos adeame_
E' claro que estas versões represcmam impcrfcitamente
o original. Por mais conhecedor dJ. lingua que fosse Pedro
da Covilhan, deve ter interpretado mal algumas expressões
ethiopicas i e a transliueração dos nomes proprios, dictados
ao escrivão da embaixada, João Escolar, e passando para a
caprichosa or10graphin ponuguua d"aquelle tempo. alterou
tamhem alguns a ponto de os tornar inintelligiveis.
cotejou dcpoio; a versão com o texto gecz. pela simples razão
de que ninguem o saberia então fazer em Portugal ; e rarece,
que tambem não lembraram de a cotejar com a versão
arabica. Correu simplesmente a versão de Pedro da Covilhan,
copiada e recopiada; e na.turalmeme soffr.:ndo n'estas succes-
sivas copias mutilaçõe!ô, ou -o que é peor- accrescentamen-
tos- Assim se explicam as numerosas variantes da"ii tres lições
que temos: a de Alvares, a de Gaspar e a latina J.c
Paulo Jovio.
cA missão de ,A/pares a Roma 28J
D'estas julgo preferivel a de Alvares, não só pela auctori-
dade pessoJ.I de quem as!listiu na Ethiopia á primeira redac-
ção, como tambem pelo estylo, que na sua desordenada ru-
deza parece conservar melhor o que seria a primitiva fôrma
oriental. No cmtanto, na propna lição de Alvares ha phrases,
que sem duvida foram inter.::aladas posteriormente por descuido
ou troca. O erudito latinista, Paulo Jovio, tomou na fôrma
bastante :I liberJades com o te:<toJ portuguez; mas na essencia
deve. ter conservado com bastante exactidão o sentido da copia
levada a Roma, que era authentica e não cominhn algumas das
phrases, erradamente introduzidas depois no livro de Alvares.
A lição de Gao;par Com!a parece ser a mais incorrecta, ou
ames a mais correcta, no sentido de corregrda- o que n'estes
casos está longe de ser uma recommendação. Em resumo, o
texto latino de Paulo Jovio para o fundo, e o portuguez de
Alvares para o fórrna, devem representar pro.limamente a
versão, tal qual veiu da Abyssinia e foi feita 14 pelo nosso
Pedro da Covilhan 1.
• Veja-se a cm Alvares, Ver"4ad. rrrfo,.,napm, p. 185 c seguintes
- cm Gaspar CorrEs. Ltrtdas, m, h e. sesuinu:s, com as notas de Lima
Felncr, onde cs1e rcz a minuciosa comparação das tres Eções-c em
Graça Barrelo, Doc11mcnla. CLXIV, tendo este prcrerido, segundo me pare-
ce sem razio, a liçlo de Gaspar Corrêa.
A venio Jalina de Paulo Jovio vem no tra1ado de D.1miiio de Goea,
Fi4tll, rt!lilfiO, .F.tlr.iopum, edição de 1540 e posteriores, c inserida
na Hup. illustratD. e depois nos Opusc11.1a. p. 1es.- Damião de Goes respei-
tou a vcniodeJovio,masniioa achan rnui1ofiel ... 11« in D.l•pid
tav•m111 (1J1112miJIII2m guib11tdam loci1 m11tationrs irzdiiJUillcnl) pnzltr pa11ca,
por ArDh1co, AllyiJift•co idioma te l..usilanrcllm Jermonem, omnino mal e
rrrlrrprefD.la, m111a1o epistol.-rrum ord111e (11er-1111f. Como se Yê, apenas alsu-
mas coisas

su1ado 5cm duv1da por Zdb, como
melhor veremos a dcante.
ESia cana, e as 1res de que em seguida ralaremos, foram tambem
publicadas em italiano pelo Ramwio, e em rranccz ror Joio Temporal ;
slo simples vers6es. do lalim, que cm nada adcantam.
Como CJ:emplo frisarlle de intercalações no tnto de Alvares, temos
a seguinte phrase:
-A c:.:m camqa ....-- apcao: do ........ do R
-.-o&.-....- lleoFI- ....... ...
dcos padre--. cm 11D1DC de e.SC.. iiillo ..... SO•,. C aD DOIIIC
.... ....- aprilo da - Possa dopao • -
loap.........podoo.....-quo_o.._,.da
Edliapa, C dos Ülalol do !lal iqlaador; I C scpc:
..................... do Panapl,-a.-·-
- iiDdiados pclao : Eaor-»- maaia. o
N<p-• ._ do 11-..., ....................
... pela niliaa Hcla. cm KIIIIIOIDCi - Ói -r da
- pisio ali. o.bal c tibcn:açiD pelo apilio ........ -
cbepda • JX'CI<DÇI ...... do • o lioCio "" .... ...
........ orcd!iopoo • biopos pca o - - poniao-
.._ -.:oolãmoba<t,.,..,ifaàdo...-.-..,.Ya
-•maniolade.Squc._da.....,.do!lmbmsao
-.iro .S. lliDD.• dadoqpdaj saacdru:doo .......... do Pw-
• ..
.... ...... ama. ..... - pelo .... fi. d"DDdc- wl!-
"""" ..... ---dlc - • prio<ipo doridos
......... ...........
c .... Fricilca&Wa-ea ....... c.. .....
...._ ......... • .......-•
......... ._.., .. _... ___ ,n., • .-,.-.,......
-.MI' __.,. - - • - I..H.L A flllr- ... ea.t e.
.............. _ ....... ....
- ..... - .v.-a-uha. • -..-. DaCa .emo. .. cwta
• D. Joio a
I Q. .................. CWifi r 51 -E...,.. As,..._
..,.. ... • ._._ ..........
pa'ICINee----
.......... ----.---. -ll"'da-.-.... ..............
•-ao •....w. • •
: ·--- ni- .......... .rpno ...
- ........ .._ c:lar--.te
...........
.....,_ ___ ... _ .......... ,........ .....
... .........
.ãrac.a,elllillll._.._......._
cA missão dt Alvares a Roma
•85
acerca do christianismo d'aquelles estrangeiros. Aponta o fa-
cto miraculoso de uma cruz. ter apparecido no céu á armada
de Diogo Lapes de Sequeira, mostrando lhe o caminho da
Ethiopia, o que provava serem aqucllas pazes e alliança do
rei abexim com o rei frangue determinadas por Deu!!, como de
resto jà estava prophetisado • na "ida e pai1ão de S. Vitor no
livro dos santos padres•. Envolve-se depois em uma enredada
expos1ção dos perigos, corridos pela Ethiapia no meio de tan-
tos inimigos do imper i o e da fé christan, pt:rigos hoje dimi-
nuidos pela albança com o rei frangue, c tambem pelas suas
proprias victorias, sobre as quacs insiste muito particularmente.
A proposito da alliança, insinua, com o orgulho proprio do
Rei dos Reis, que elle não podia tomar a iniciativa de mandar
uma embaixada, pedindo ou propondo aquclla alliança i mas,
tendo-lh'a mandado a elle. estal'a prompto a acceital-a, a dar
•duzentos milhões de ouro•, e a favorecer o estabelecimento
dos portuguezes em Dahlac e Massauá, nos limites ou •nos
cabos• das suas terras. Diz depois algumas palavras amaveis a
respeito de D. Rodrigo de Lima, e sobretudo do padre Alvares,
pedindo dessem ao ultimo jurisdição ecdcsiastica sobre algomas
das suas terras, nomeando-o bispo de Massaué, Dahlac, Zcila
e ilhas do mar Vennclho. D"esta recommendação resulta-
como já poc vezes temos indicado-não haver por aquelles
tempos animosidade ou rivalidades entre jacobitas e catholi-
cos. • No final da carta, o Negus pede com empenho lhe man.
dem mestres de diversos officios, que s&ibrun trabalhar oiro,
prata e outros metaes, e typographos, •mestres de forma pera
fazer livros de nossa letra•. Com este pedido, e com uma ca-
lorosa affirmação, de que clle e D. Manuel eram aPPlboS junlos
um coração no amor de Jesu Cl1ri'slo, terminava a famosa
carta.::.
• E" .Je nour no emtanlo
1
que elle não f.da de jurisdição em terras
chrilllnli da Abyssinia, e unicólrnenle na parte quasi nominal dos liCUii do-
minios onde nio havia chrislios :• . .. ni ha hi 1.pãos ne isrejas e tudo Iii
mouros e pagios•.
J Na lição de GaspiT Corrêa ha no fim da carta uma menção de Pc·
Pedro da CoJiilllan
A carta ficou em poder dos portuguczes, e tres annos de.
pois foram escriptas mais trez, duas dingidas ao papa, e uma
a D. João m. Como vimos no capimlo ameccdcnte, foram es-
criptas no anno de 1S24, 1 sendo o rascunho de uma das di-
rigidas ao papa feiro pelo nosso padre Alvares. D"este rascu-
nho a passaram para a língua geez, a fim de ser submenida é
approvaçâo do Negus ; e depois as trez cartas foram 'ICI"tidas
em portuguez. Pedro da Covilhan estava alli, c naturalmente
collaborou nas traducções i mas o seu auxilio era menos ne-
cessario do que fôra trez annos antes, pois Alvares e os outros
já sabiam alguma coisa da lingua ethiopica, e Saga Zallb al-
guma coisa da lingua porrugueza. Entre todos redigiram as
vcrs5es que vieram para Ponugal, c sobre as quoes se fez
mais tarde na haha a traducçáo latina. Da Cal"ta a D. Joáo u1
temos o texto ponuguez e o latino, nos livros de Alvares,
Gaspar Corrêo e Damião de Gocs i mas das dirigidas ao papa
só possuimos a versão launa, tendo-se perdido a portugueza
que lhe serviu de base. Clal"o está, que a todas estes textos se
applicam as reflexões, feitas acima a respeito da carta a D.
Manuel. :1
-A carta ao papa, começando pelas palavras Felix saneie
ptJler, aquella de que Alvarea deu o rascunho, pelo menos do
prindpio, é relativamente curta. Depois da inevitavel enumc·
dTO da Covilhan ; mas nlo e1:istinClo ena pbrase em Alvares, nem em Pau-
lo Jovio, julgo-a um accrescentamento ponerior.
• Ah•ares não diz quando foi redisida a carta a D. Joio m, e rarcccria
natural que fosse no momento cm que lá se recebeu a noticia da mone
de D. Manuel. Mas, mencionando aquella carta a missão envi&da ao para,
devemos admimr, Cjlle foi tambem e1crirta em Dara, no anno de 152+
2 Veja-se a a D. João m, em Alvares, Verdad. inforrnaçam, 18g
-em Gaspar CorrE&, Lt11das, tu, 58 -em Graça Barreto, DtJcu.menta,
cu:x:r.m-ea versioluina em Damião de Goes, OpuJcub, 196.
As duas cartaa ao papa cm Damião de Goes, OpuJcula, ao5 e :nl- e
em Grafia Barreto, Documenta, cxct e r.:r.c11- Foram tambcm publicadas
nas Vila er res Be!iila: porrtrfir.llm de Ciaconio, Roma, 1667, no tomo m,
p. Como antes dissémo1, ba uma vcr1ão italiana de Ramusio; e [IOr
cata a franceza de Joio Temporal
raçio dos titulas do imperador e das provincias ou reinas do
imperio, passa a falar dos inimigos mahometanos e pagãos
que o rodeiam, dos quaes elle se defende como um poderoso
leão nos bosques. Recorda as origens da chris1andade ethiopica
nos tempos da raioha Candacia, d1zendo niío ser o Negus inferior
a nenhum rei christão no seu zelo, acreditando como elles
sinceramente na Santíssima Trindade, em um Deus unico,
na virgindade de Nossa Senhora, c em todos os artigos de f4!,
estabelecidos pelos Apostolas. Menciona a sua veneração pelo
templo de Jerusalem, aonde manda repetidas offenas pelos
peregrinos, e mais mandaria se os caminhos fossem mais se-
guros. E, referindo-se brevemente és relaçfíes da Ethiopia com
Roma em tempos de Zara Yâeqõb, manifesta o desejo de as
renovar, e de receber submissamente a bencio do Vigario de
Christo- Informa o papa dos termos amigaveis em que está
com Portugal, da embaixada que lhe mandou D. Manuel, e da
noticia que depois recebeu da sua morte e de lhe ter succed1do
D. João 111, a quem chama fratr·em meum Jóannem.
-A outra carta ~ muito mais longa, e n'ella abundam as
expressões de respe:to e obcdiencia, a que nos referimos,
transcrevendo 9.lgumas, no capitulo antecedeme; c necessaria-
mcnte dcviam crear a illusão de que a Abyssinia estava mais
chegada a fé catholica, apo•tolica c romana, do que realmente
succcdia. Os pontos mais interessantes d' ~ s t a carta são: cm
primeiro lagar, uma referencia detida és rclaçõcs da Ethiopia
com Roma, em tempos de Zara Yàeqôb c do papa Eugenio IV
1
historicamente muito curiosa: e cm scgundo, uma exhortação
ao papa, para que estc promovesse a paz enrrc todos os reis
e príncipes da christandadc, de modo a estes poderem voltar
as "U&! armas contra os infieis, seguindo o exemplo que elles
proprios lhes davam, pois estavam scmpre prcmptos a colli-
gar-se contra os christiíos. E' forçoso confessar, que o barbara
rei da Ethiopia se expressa n'csrã parte com muita auctoridade
c com vcrdadeira eloqucncia, fazendo quasi lcmbrar um dos
an1igos prégadore! do tempo das Cruzadas. Caindo dcpois
em asswnptos mais comesinhos, o Ncgus pede instantemente:
Pedro da Covilhan
ao papa, como já tinha pedido a D. Manuel, lhe mande mes-
tres de officios, carpinteiros, pedreiros c architectos, artificcs
que saibam fabricar imagens, trabalhar metacs preciosos, fa-
zer espadas c armas de todo o genero, assim como organistas
c outros musicos.
-A cana dirigida a D. João m repete algumas das asser-
ções de amizade c alliança, feitas antes a seu pae. sem coisa
que seja muito para notar. Dá noticia da missão enviada ao
papa, o que fixa a sua data; c pede com mais insistencia
me!tres de officios, e medicos que •façam mezinhas•, e typo-
graphos que façam •livros de molde•, e mineiros que .saibam
tirar ouro c prata das veas•, e por uhimo, grande novidade
para a Abyssinia, •mestres de espingardas•. Evidentemente,
a convivenc1a e praticas do Ncgus com os portuguezes n'aqucl-
lcs tres ou quatro annos haviam-lhe dado uma aha ideia da
superior civ1lisação material da Europa, e elle desejava muito
introduzil-a nas suas terras semi-barbara!. A carta term'ina
por uma serie de -citações biblicas, confusas e mettidas alli á
força, difficeis de explicar se o padre Alvares nos não tivesse
contado como os abexins se costumavam rodear dos seus li-
vros sagrados quando escreviam cartas-a erudição era obri-
gada, viesse ou não viesse a proposito.
Quando hoje lemos estas quatro cartas, recebidas em Por-
tugal no anno de 1527, não pode deixar de nos surprehcndcr
a ntensão do caminho percorrido nos ultimos quarenta annos.
O Preste João, intangível durante seculos, que D. João 11
mandara procurar cm q.XJ. quasi ao acaso, vagamente para
os lados de uma Ethiopia incerta, o Preste João estava desco-
berto, c não só descoberto como tornado um amigo dos por-
tuguezes, que escrevia de lá, chamando pae ao rei D. Manuel,
c irmão ao rei D. João 111. E a leve esperança de unir as chris-
tandades abexins a Roma, que enchiia de jubilo o animo de D.
Manuel, e commovia de intimo gaudio as entranhas de Leão x,
essa esperança estava ou parecia estar reali!ada, em vista das
cartas ao papa. Certo, se as canas tivessem vindo ás mãos de
D. João u ou de D. tido desde logo co;1sequencias
c,f missão de Alr•arcs a Roma 28g
importaDIC!I. D. João 11 teria tomado sobre ellas uma das re-
&oluçóes, ao mesmo tempo promptas e pensadas, que o cara·
ctcrisavam; e, sem podermos calcular qual fosse essa resolu-
ção, devemos admillir lhe seria inspirada unicamente pela sua
clara rasão. D. l\tanuel não teria talvez tomado a iniciativa de
uma resolução, mas ao menos teria communicado as cartas ao
papa sem perda de uma hora. D. João 111 deixou-as dormir o
somno do esquecimento durame anno:s.
Os tempos estavam mudados, c sobretudo o homem era
muito diverso. A sua intelligencia tardia e a sua vontade
frouxa, em tudo quanto não fossem casos de consciencia, nlio
lhe pennittiam tomar resoluções, nem rapidas, nem firmes.
Além d'isso pensava já menos nos lermirzos da roxa auro1·a.
que os :seus antecessores procuraram com. tanto zelo, e encon-
traram com tanta felicidade. Parecia-lhe menos util e meritorio
chamar ao gremio da Egreja os christãos abexins, do que ex-
tirpar de Portugal os erras dos judeos e conversas. Distra-
tüam-no das caisa"i do Oriente O!l planos de estabelecimento
da Inquisicão, em que j.d. então andava embebido, e o levaram
a longas, complicadas e conhecidas negociações com a côrte
de Roma. Deixou, pois, dormir as cartas, voltando de Coim-
bra a Almeirim e passando d'alli a Lisboa sem mais pensar
no caso.
O padre Alvares não se esquecia tão facilmente da sua
missão; e por varias vezes, primeira em Almeirim e depois
j! cm Lisboa, lembrou e pediu ao rei o •mandasse cóprir ho
caminho q aho preste Joam prometera e jurara fazer. s. levar
:suas cartas e hüa cruz douro e obediencia aho santo padre em
Roma•. De todas as vezes o rei lhe respondeu, que se não
esquecia, mas os caminhos estavam pouca seguros em conse-
quencia das •guerras de Françu. •
Embora os verdadeiros motivos da dilação pareçam ter
sido outros, a desculpa não deixava de ser plausivel. A Europa
ardia então no mais acceso da Jucta entre Carlos v e Fran-
r Alvares, V ~ ! ! r 4 « 4 - ifljormaram, •9•·
da Cm•ilhan
cisco 1
1
lucta renovada com grande imensidade depois de csrc
sair da sua prisão de Madrid. Na ltalia especialmente anda"·a
tudo a fogo e a sangue. A • alliança dos priocipcs italianos
contra Carlos v, em que enrrava o papa Clemente VJr c por
isso chamaram a Li"ga sa11la ou a Liga responde-
ram os impcriaes t()m as maiores Yiolencias. Justamenlc
n·aquclle anno de em que Alvares chegou da Abyssinia,
as tropas do condestavel de Bourbon haviam entrado e sa-
queado Roma, excedendo- dizem os historiadores- nas suas
pro(annções, sacrilegios e crucldalles, os antigos e celebres sa-
ques de Roma Feios barbaras A1arico c Genserico. O pobre
Clement= vn estava preso no castello de Sant-Angelo, onde
deizava barba em signal de protesto, emquanto Car-
los v lhe mandava os pesames, e se vestia hypocritamente de
lucto como demonstraçã'l de sentimento por aquelle attentado
contra o chefe da Egreja, continuando, no emtanto, a deixai-o
na prisão. Pelos fins de o papa conseguiu fugir disfar-
çado i mas no anno seguinte e prrncipios d'! 1S29 a guerra
continuou lavrando sem treguas por toda a halia. Brmdos de
mercenarios das mais variadas pela maior p:trte
verdadeiros sahcadores. infestavam todos as provincias e to-
das as estradas. D. Jo5:o 111 tinha pois rasão em dizer, que os
caminhos estavam pouco segucos; e nem seria (acil passar,
nem o papa. teria então a liberdade de espirita, ncccssaria para
se occupar dos negocias d.1 remota Ethiopia.
Nos meados de assignou-se, o paz de Cam-
bray, ch.Jmada a Pai das dama.J pela influencia que na sua
conclusão exerceram duas pri11cezas illustres, Lui=a de Saboya
e Margarida de Austria; mas nem por isso D. João 111 se
mostrou mais solicito em despachar parv. Roma o padre Alva-
res. Quando foi "nomeado embaixador o dr. Braz Neto, depois
b1spo de Sam-lago, guardando-se a prindpio um cerro segredo
sobre o seu destmo, cnâo se pera onde•, o proprio
Braz Neto falou a Alvares na viagem, manifestando-lhe o de-
sejo de o levar conuigo; e este, seguindo os conselhos do
no'\'o embaixador, assim o pediu ao rei. Mas D. João 111 dis-
c4 missão de Alv.Jre.s a Roma 29r
se-lhe, que Braz Neto não ia ao papa e sim ao imperador, o
que não era verdade; • e só o despacharia, a elle Alvores,
mais tarde quando fosse D. Martinho. 2 Jã n 'este mamemo
não poJia apellar rara o antigo pretexto da pouca segurança
dos caminhos, e a nova recusa denuncia-nos a existencia de
outros mO[ivos- Talvez a delonga procedesse pura e simples-
mente do caracter de D_ João 111, remisso em tudo quanto não
interessava as suas paixões ; mas t! mais prova-
vel, que elle não quizesse então envolver outros assumptos no
grande negocio do estabelecimento dn Inquisição, que tanto
tinha a peito c Broz Neto ia especialmente tratar_ 3
Alvares via prolongar-se indefinidamente a sua demora em
Portugal, e, desenganado de poder ir a Roma com Braz Neto,
partiu para Braga, onde chegou no dia 3o de julho de 1S29.
la tomar posse de um beneficio, que o rei lhe: concedera
n"aquella diocese; e parece ter ficado por lá bastante tempo,
convivendo diariamente com o velho e illustrado arcebispo. o4
Devemos collocar por estes tempos, primeiro em Lisboa e
depois em Braga, a redacção definitiva do manuscripto do padre
Alvares, posto em ordem pelas numerosas notas e papeis que
sem duvida trazia da Abyssinia. Hamesmoumaparte,queelle
diz explicitamente ter sido escripta em Braga, para satisfazer a
curiosidade do arcebispo, o qual lhe andavo constantemente
perguntando coisas da Ethiopia_ O que sabemos ao certo,
porque o dizem as l11slrucçóes a D. Maninho adeante citadas,
a Braz Neto Foi effec:tivamete pan Roma. d"onde escrevia ao secreta-
rio de estado j6 em r4 de julho de 1!ilo ii Corpo drpl. l1S.
• Alvares, VerJa4_ informaçam, 19r.
l Obtendo a li.nal a celebre bulla de· Clemente vn, C um ad n1hil;
veja-se, Alexandre Herculano, Hist. da orig. e 1!11- da em Por-
lwgal,a, p. 241 a 257.
4 D_ Diogo de Sousa, li.lho de Joio Rodrigues de Esti-
vera como estudante em Roma : e mais tarde fõra mandedo 1• dua5 vezes,
ao papa Alczandre Yl e ao papa Julio 11. Quando Alvares esten com elle
em Bnp tinha j6 setenta e untos onnos, c morreu pouco depois, em
1532.
Pedro da Covi/ha11
é que elle, ao partir para a ltalia, levava j4 comsigo o seu
vro redigido.
Assim se passaram ainda os armes de 1Slo e att!
que nos primeiros mezes do seguinte se decidiu a partida de
D. Martinho de Portugal, com quem Alvares devia ir ao papa.
a cumprir já bem tardiamente a promessa feita ao Preste
João.
D. Martinho de Portugal, innão do conde de Vimioso c fi:lho
do bispo de Evora, era, apczar da dupla de seu pae
e sua, um alto personagem da côrte como neto do primogenito
da casa de Bragança. Teve uma brilhante carreira ecdesias-
tica, sendo pouco depois de tempo a que nos referimos eleito
arcebispo do novo arcebispado do Funchal, do qual ficaram
sendo sulfraganeos alguns bispados portugoezes da Africa e os
da Asia, o que lhe dava o titulo de Primaz do Oriente. Teve
tambem uma brilhame, e sobretudo uma singular carreira di-
plomatica. No anno de 1525 foi como embaixador a Roma,
substituir o celebre D. Miguel da Silva, drpois cardeal e ini-
migo pessoal de D. João m. Veiu no de 1S27 a Portugal como
nuncio de Clemente vn, e Legado a em Lisboa. Vol-
tava agora a Roma como embaixador de Portugal. Successiva
e alternadamente representou o seu paiz junto da Santa Sé, e
a Santa Sé junto do seu soberano- caso raro, se não unico.
Foi um homem de grande capacidade
e illustraçlio; e alguns panegyristas accrescentam de •generosa
piedade, e incompnravel isenção e desinteresse•. 1 N'esta pane,
porem, os documentos do tempo, algons firmados pelo pro-
prio D. Martinho, jesmentem cruelmente o optimismo dos
paoegyristas. mostrando-o movido por uma ambição desmc·
dida, intrigante e falso, sem escrupulos e sem principies. Como
veremos a deante, alguns homecs, dos que melhor o conhe-
ciam c mais de perto o trataram, julgavam-no capaz de re-
coiTer ao assassioio e ao veneno para chegar aos seus fins.
Quanto á finncza dos seus catholicos, bastará rc-
• D. An1onio Caetano de SousaJ Hisl. s, 833.
Ctf mi'sslo de AIJiarts a Roma RgJ
cardar, que o novo arcebispo apresentou tranquillamente a D.
João tu o arbítrio de negar obedie11cia ao papa, seguiOOo o
exrmplo de Henrique VIU. 1 Tal era o novo companheiro de
'viagem do nosso ezcelleme padre Alvares.
A partida de D. Martinho devia estar, como dissémos, de·
cidida desde o começo do anno, pois as longas e minuciosas
instrucçlics que lhe deram em Lisboa são datadas de 20 de
muio. Comquanto elle fosse tratai' especialmente o negocio da
l11quisição, não ha- como já advertiu Alexandre Herculano-
n'aquellas instrucçlies uma só palavra a tal respeito. E' passivei,
que, exoctamente pela imponancia e pela natureza confidencial
do negocio, este fosse o assumpto de instrucções particulares,
quer simplesmente vcrbaes, quer cscriptas mas mais secretas,
c que não chegaram ao nosso conhecimento. Pelo contrario, a
questão da Ethiopia vem detida e claramente exposta nas in-
strucções de :20 de maio. 2
O rei de Portugal recommenda alli ao seu sobrinho e em-
baixador
1
D. Martinho, que apresente ao Santo padre o cle-
rigo Francisco Alo;ares, para por clle ser Sua Santidade infor-
mada ado que vio e soube do preste joham c de sua cristin·
dade e da grandeza de seu Reino, de seu grande poder e do
1 Carltl de O. Martinho de 14 de março de JS.35, Corpo dipl. porlu·
111
1
181; veja.-ae lambem Ale:r.andrc Hen:ulano, Hist. do rJI. da
lif.'i0
1
11
1
1rYJ.
3 Ci1o pelos de Graça. n.• cc:r.TJII.- E:r.i:r.te uma
copia d'esta:r. instrucçóes em um wolumc da Ac. R. das Sciencias, intitu-
lado: de Prdro Alc"fot'D. Carneiro Cort4e da do tem-
po IJU• e1le e seu JNIY • de E' uma copia relalivamente
moderna e bastante m,, onde a perte das Jnslrtlc,õt• tocante 4 Ethiopia
vae de p. g8 a p. ro5. Por esta copia foram a:r. impressas no
Corpo dtplomalico porlueurr, 11, 349, dizendo Rellello da Silva não ler cn·
contrado o originaL Ale:r.andre Herculano tembcm nlo encontrou o ori-
siaal e aeniu-se da mcama copia ; Hür. do estllb, d"' lntuiJifão, r
1
atjj.
-O ter:to de Graça Baneto diflere na orthosra.phia e varias passagem
d'aquclla copia. E' minha. imprcSiio
1
que ellc teve entre mlos o original,
ou uma copia mujtQ mail a.uthentiça 4o doCWDCnlo i ma:r. onde. é o 'iut;
pos nlo diL
....., .. qac prdiiD..- ... 8 C8llica c
OJ IEf'I"M qDC ada .. C C:.. R plidall CIDCII-
...... ••• D.. 110. ..... ., ,-pa,. os dc:s-
-·o.---c-..,.... ... <-.
- aa.,.....S..dapaac....-de.a..- ........
1m priDcipll o.. ==o ....... salla (u aaolica.; c
o ..-, 1m ....ãas de paxD"Z" .as urns 4o
....... .-.-...-. •
.,...S. pc...- qac c.oo lena;-.,_. a-""'"" ..,
._v..-, c•- D. Rodripde Liaoa.
o qool _... do:pr * ........... Do amiaho
KpidD, Ir: dD qac ... ..nm sao-
- ....,- .....,._ o-&.a..,.. alnru qac <0111
- ..,.._ Alom .r._.-.. - *Edlias>O. qac
·- • ...-se-c pua- IOipr
.......... o IJieSal.) Alnrts ... aapasm fino que
lcn, pdocplma saooilbdo de
mcks a • D.. M.a:niabo a:IIO!SD'Uã: ., papa m II'C3Iados
da canas a D.. Xaaud c D. Joio •w ter -ris&D os
ori:pl8cs., 91e aio rio. •pxtp: a ptopàas DOm qais 91e se
.................. .....-.. J-<Dili Alnreo, .,...,.
- a Saa Sonãdado os qac lbe sio &;pias, ....im aJIDO
a cruz de oiro •Cf&e a - saalidadc n'ria aa. !iaal de obc-
dieocia qac lbe fiU c i - Sce oposm1ía c oc"""""' a da
como a .,jguairo de jbm& çoo. Ilq>oa de uma brne desculpa
da demon, qac aplica pr aio ..,. cpaeóclo maada< Alnres
ali •tempo .. bDDl passa o n:i • iDdicar o.,..
D. Maniabo ...,.. pedir ao papa. Em pr;-iro Ioga<. pedi'*
Cf1< Saa Samidade maode dar pw;as c louorora a Noooo Sc-
abor pela de ama obcdimcia: rio 110ft axao era esra
.., ....._ Joio, """" paderooo • • """ srmdc poda- c de
aDio iofindo tempo Dia sabido•. PNin. a.mbem. ao Saor:o
Padre, .....tique ao ....._ Joio aqueUc: pruu c alqria, que
:t:mira aoo receber a sua obediencia; e: lhe l!laDde: suas bulas
•a:ILIJWII • de como a recebeu; c lhe cnwie •swu bc:o.-
sóa•; e:, jalpndo-o lliCCCSiiKil, o absol't'a doe erros piSAdos,
cA missão de Alr•ares a Roma
a elle. 4 rainha e a todos os seus subditos. D. Martinho soli-
cilará com toda a instancia de Slla Samidade o despacho d'es-
tas coisas, para com esses despachos enviar a Portugal o pa-
dre Francisco Alvares, a fim de o rei despachar tambem para
a India c Ethiop18 o embaixador Saga Zailb, que ficára em
Lisboa.
O que resuha mais claramente d"estas longas instrucçfies,
das quacs indiquei apenas os pontos principacs, e citei unica-
meme algumas phrascs mais typicas, é a convicção em que
cmão se estava em Portugal, de que a obcdiencia ao papa era
completa e a união dos abexins a Roma de6niliva. Logo vere-
mos, como poucos annos depois s.e começaram a levamar al-
gumas duvidas sobre estes pontos; mas n"aquclle momento
tudo parecia corrente. Citando ainda as instrucções, julgava-se
apenas, que os abexins tinham alguns •pequenos eros em que
vivem por mingoa de doutrina cm que me parece que uerá
pouquo que fi8zer•. Esta, como vimos no precedcme copimlo,
devia ser tambem a imprcss5o do padre Alvares.
Despach3dos e despedidos cm Setubal , a D. Martinho e
Alvares seguiram por terra para Malaga, onde embarcaram a
11 de se1embro. Encontraram, porém, tempos tão contraries
e tormentosos, que só chegaram a Genova no dia 16 de no-
vembro; r logo alli tiveram noticia de que o imperador estan
em Mantua e se devia encontrar com o papa em Bolonha. :a
Carlos v, completamente reconciliado com o papa. havia
passado nos fins do anno de 1S29 pela ltalia, sendo en1ão co-
roado rei dos Romanos pela mão do proprio Clcmenlc v11,
que antes fõra seu prisioneiro; e rccebe11do tambem a famosa
corôa de ferro da Lombardia. Seguiu depois para a Allema-
nha, onde " chamavam principalmente dois gravrs aconteci-
mentos, a entrada das tropas turcas na Ungria, ameaçando
• A carta de D. João m ao papa, que levou D. Maninho, t! datada de
Setubal.
1 Ctt,.I.J de D. Mardnho a el-rei, datada de GenoYa em 17 da noYem·
bro de •53:a i Corpo •
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e4. mz"s!ão dt AW.ares a Roma :l!J7
111, • c os treslado5 das cartas do Ncgus ao5 reis de Portugal.
Em seguida, Alvares entregou a cruz de oiro e as cartas di-
rigidas a Sua Santidade, fazendo uma breve a11ocução cm
portugucz, repetida logo alli em latim pelo secretario da em-
baixada c ã qual respondeu, tambem em latim, o secretario
do papa. s
Parecia o negocio chegado a bons termos, mas na realidade
\'eiu dormir em Roma o mesmo somno, que jé havia dormido
em Portugal durante quatro ou cioco anno5. Estava-se então
no mais vivo das negociaçl5es c intrigas, que precederam o
c5tabelecimento definitivo da Inquisição em Ponugal, e foram
modernamente elucidada! e contadas pelo nosso grande histo·
riador Alexandre Herculano. Essas intrigas interessam-nos
n'cste momento, unicamente como explicação do esquecimento
a que foi votado um negocio menos importa::ne, ou que
se julgava meno5 im!1ortante. Nem D. João tn, dia a dia con-
trariado e irritado pelas difficuldadc:s levantadas em Roma aos
seus plano' predilectos, deve ter insistido muito com D. Marti-
nho para obter o despacho do padre Alvares; nem D. Martinho,
envolvido em complicados enredos, uns encommendados de
Portugal, outros da sua propria lavra, deve ter pensado muito
no padre e na Ethiopia.
O tempo foi correndo, morreu Clemente vu, succcdcu-
lhe o velho cardeal com o nome de Paulo 111, e o
padre Alvares continuava eslJuecJ<lo. Pelo5 principio' de •534-,
havia chegado a Roma um n3vo embaixador portugucz, D.
Henrique de Menezes. Não 1a substituir D. Martinho de Por-
tugal, mas unicamente collaborar com cllc, sempre no grande
negocio da Inquisição. D. Henriq\·e era muito diverso de D.
Martinho; ao que parece de caracter direito e honesto, antigo
homem de guerra, e conservando no seu cargo diplomatico
I ca,.la, da.lldfl de Setubal. 28 de m•io de 15.52, e rublicadelambem
por Damiio de na •
.1 Vejam-se as ellocuções na - Nula tem de notavel, all!m das
affirmações da obcdien.:ia incondicional ac papa.
Pedro da Cov11ba11
uma grande liberdade e rudeza de (jcguagem. Em 17 de
março de 15-35 escrevia elle a b. João 111 :
•. • • • • parece já mal a deos e ao mundo hum homem com
muitas cans como eu, c com nome de vosso cmboyxador an·
dar tanro tempo em Roma soo e embuçado, que parece jé
mais bargantarya minha que serviço vosso e em casa alheia.
e certo senhor que parecemos ambos mal a todos como o em·
bais.ador do preste yoão (o padre Alvares), porque cando hum
homem voso cryado ha de vyr fazer alguma cousa de vosso
scrvyco palas postas, deve ser pera COU!ID que se leve nas
mãos em vymc dias, mas pera tanto aa t}•ra nem parece j4
postas e parece outra cousa ••.•• •· No fim da mesma carta
insistia: •. • • • . deste embaixador do preste yoão, que he ja
muita vergonha nossa tela qua c muito cargo de conciencia
nem mandar 4quella jente a cristandade que tanto ha que pede.
pol amor de Deos, senhor, que o mande v. a. hyr de qua que
se quer hyr ja sem licença, que he muito velho e chora e nom
quer morrer qua sem fazer nynhum servyço a deos, nem a
v. a .••••••. r
Como se vê, o padre Alvares andava esquecido, e confor·
mava-se menos com a ideia de indefinidamente em Roma,
do que aDnos antes se conformll.ra com a de ficar na Abyssi·
nia.
Pelo mesmo anno e mezes depois, D. Maninho escrevia
tambem a D. João m: dsto do Preste Joam se devia de aca·
bar: pode ser que nesta conjunçaom (tratava·se então da
guerra aos turcos) aproveite muito •.••. Este papa (Pnulo 111)
naom cri! nem creoo nada disto do preste johão: nunca lhe
nisto falei, mas sei que o :1aom cr@. V. a. se lhe screver, sejn
de maneira que o crea, e affirmelho muito como é verdade,
pois o he .•.• ·•· :a
• G11.rla de D. Henrique de Menezes 11 D. João m, no Corpo dipl.
portuguer, 111, 2.10; c cm Grat;• Barreto, ccxXY!II.
3 Carla de D. Martinho 11 D. Jcão 111, de noma cm 1J de setembro de
1535- no Corpo dipl. portuguer, ru, 2.42 j e em Griilfll Barreto, Dor:umen-
ta.cc:r..u:.
cA mrisão de AlParts a RomtJ 299
Na carta de D. Henrique ha unicamente a e.1:pressfo sin·
cera do seu mau humor, aliás perfeitamente justificado; mas
n"e!ta de D. Martinho ha intenções rt:scrvadas. O arcebispo do
Funchal, como vomos ver, envolvera tambem a missão da
Ethiopia nos seus planos de ambição pessoal, o que só se veiu
a saber em Portugal algum tempo depois.
No fim do anno de 1535, o grande negocio da Inquisição
estava muito mal parado. A bulia de per.)ão de Paulo UI (12
de omubro), revalidando as disposiç6es da de Clemente vu
(7 de abril de ,:,331, era extremamente favoravel aos judeus e
christãos novos, c annullava quasi por completo as anteriores
concessões, feitas ao rei de Portugal. 1 N'este momento de
derrota diplomatica, a desintelligencia, que lavrava de ha muito
entre os dois embaixadores ponuguezes, chegou a uma crise
aguda. D. Henrique descobriu entio e desmascarou pane dos
tenebrosos manejos de D. Martinho i e este rcsentiu-se d'isso
a ponto de o outro recear pela sua vida. Nas suas cartas, D.
Henrique dizia claramente a D- João m, que julgava o seu
companheiro capaz de o mandar assassinar e deitar ao Tibre,
ou de o mandar envenenar, lançando depois as culpas aos
christãos novo• ; d'isso o havia prevenido o cardeal Santiqua-
tro, :a que tinha egual opinião do arcebispo do Funchal : cSan-
tiquatro me dysse am ontem que este homem (D. Martinho)
lhe começava a dyzer mal de mim, c que eu me devya mudar
daqui ou guardar me muito bem de peçonha,, 3
Das intrigas e antigos planos de D. Martinho, que então
vieram a btm.e, unicamente nos interessa a parte relacionada
cocn a missão de Alvares.
O arcebispo do Funchal tinha desde muito a suprema am·
bição de ser cardeal. Levantavam-se, porém, graves difficulda-
des d. realisação dos seus desejos, e uma d'ellas era a sua qua-
1 Ale:undre Herculano, Hür. do e.,aL. da l11guisirio, 11
1
1of] e seguintes.
:a Antonio Pucci, corde11l da titulo dos Quatro Sanctos Coroados,
então proletlor de Portugal.
l C11T'Ia de D. Henrique de Menezes, de 1 de novembro de 1.53S i
Corpo 4 ~ 1 . portugutr, m, :z74-

idwle .!e llrc•clu. E .. h aia dica -;
•• • par.-_ •• I .IDe• • ,,- asm-C+•a•- •
lllc - - rncc '\ a pupo Í" • à Ir ; ·*•
wuwladi w a cm •itpD '1
5
a-a n:ccbu a _,.a lle aa
··-· .. - ·-
a prota ele ser .., lrgif" o. A'k •+çOD ã Qwy z ._ a
DOCWaçio ele ;wa S cspeáz fS, :lfP"' i E CM 4ira: f '._
C rc• a...._ • para 4n•+iSIIK O dD
ptc, c CGDKi .. • obca- 'WJI!íil w ; graça, -ic:clw ""'fio o •
- e•a ...... ãa Efi.-pljp;lr :Ci111& m••a m -, pawc,
a oppatiçio fut••w c wnaz dre D. Joio -. Para a a iiD r, ...
a-a I*' KÍiwfr do · do saa soba PM, D. 'lwli-
* só po<&a aw:JUr com o fn« pcsscwl de Ocaw '"e a. ; c
a depc•+dcnáa a11 que dle por isso ct·aepwre paalilkc
aplica 'MW aD pane a poua laUv'c com que w.WS w•cs
se bouwc DOS Dep:ios da soa aabaiswla Nio lwPan••a.,.
rán, os serviços diarianscnrc feitos ao papa, aa ncus•eaiu
GICGIIII'U am D'OIÍYO 11111 prac:dO CfliC lrgiri-
INUC a sua aome•:io. Foi mtãow que cOe se L mlacaa ele .. o-
curar na Ethiopia o tal praa10. a palataa ao car-
deal SaoriqwJaiJO, tr:anscreY"eodo na imegaa •gna elas ..,.s ar-
ras a D. João m, um mas mu:ilo inMrutMIIf, c
ligada rom o nosso assumrto :
• Senhor.- Sempre se algcm.t -:ousa Jc DO\""O DO oe-
gocyo Jo arccbisro do fun-:h.1l. digo isto ror'luc esta manhã
me d)·sse hum granJe meu .. guo que -:omo v. L fizesse sa-
ber per carta sua o ar.:ebispo nom at"eraa Je tornar mais
a que então me huma grã cousa ']Ue o dyto dow••
martinho tem em sua a qual imretrou do para i:lemeate
' A .cmença foi an!1u:;ada "t"= -!o Paulo ID de
11 de j· ... n!lo de • Jlri;1Jo aos bas;'<)s Je S.a!lt-Iago c S. Tho-
mé ; e n ·este =-re .. ·e. E.rpt;ni rwbis.. ,-em coataJo toJo o de modo
bem fa,·ora,·el a IJ. Martinho : ve;a-se .\.:e\.anJre Hisl .
.11':1 d.2 r:.. ; c o bre,·e nl CIJrFO dJjlOIILJiico
l"dl··gw;. :::. 3 .\ ha,·ia siJo trauJ.a carJeal Santiqua-
a redí -Jo ..!e IJ. João III : cana Je de Je maio, DO
diFI. FOJ"IU!fldj, 1!1, 3o..-.
cA miulo de Al11ares a Roma .3ot
que roca ha dynydadc que ele andava procurando. E Cfi!O cu
que he hum tx-eve no qual o papa clemente ou lhe prometya
de o fazer cardeal, ou o pronuncyava por cardeal com certa
condyção, assy como podcrya sser se ele arcebispo fosse ao
pt!!ste yoão. diguo isto porque poucos dyas anrcs da sua par-
tyda de Roma me dysse que ele tinha muito encarregado c
louvado o preste yoãol ao papa clememe c mostrodo a sua
sanrydade que aquele Rc:yno merccya serlhe mandado hum
cardyal legado de larere, a qual aprouvera muito a sua
santidade de boa memorya. agora cotejando eu o que me dyssc
este meu amyguo co as palavras do dyto arcebtspo, duvydo
que nom seja alguma cousa semelhante, e depois que ele fosse
carJeal nem lhe faltaryâo ocasyôes pera nem yr, ou per en-
fermydade ou por tormentas do mar ou por outra causa fin-
gyda. Como ouvermo3 por certo que nem torna a Roma então
saberey a verdade de tuJo c o farl!y saber a v. a. cuja vyda e
estado noso senhor ncreccnte como cu desejo. de Roma a
xbiJ de dezembro jda muito de noyte. 1 :.35.
D. v. a. Humilis servitor, A cardinalis Sanctorum quat-
tuor
1
Maior pcnitcnciarius•. •
Se appttmmarmos esta carta de Samiquatro, da de D.
Maninho de J3 de setembro, anteriormente teremos a
explicação das palavras do arcebispo., e a confirmação das
suspeitas de Santiquatro. D. Morti nho, não esperando a sua
proxima tl!vocaçáo, pegava-se ainda aos antigos planos, que-
rendo obter de Paulo 111 o cumprimento das promessas vcr-
baes ou escriptas de Clemente vu. E como o novo papa não
acreditava nas coisas do Preste elle peJia ao rei de Por-
tugal lhe dissesse e affirmasse serem •verdade•. Pedia assim,
com mui\;a velhacaria mas uma certa. graça, o tesrcmunho de
' Carl4
1
que ru: parte do Corpo t:lrro"·· p_ 1
1
M. !6, n.• 111 i a carta
i de letra de D. Henrique de Menezes. assignada pato cardeal- eni ru·
bliCllda no Corpo 4.ipl. m. :i8o ; c 1mpressa umbem paios cui-
dados de Graça Barreto, ccu.I.W.
da Covilb.an
D. João m, para obtt:r uma coisa a que o proprio D. João UI
se oppunha tenazmentt:.
Tambt:m a carta de Santiquatro explica claramcme 3 de-
mora em Roma do nosso velho Alvares duranle aquelles ttez
annos. A prir..cipio ficaria alli um tanto esquecido pt:lo embai·
xador, mas depois foi intencionalmente retido. Desde o mo-
meato, em que D. Martinho se lembrou de procurar o motivo
da sua elevação á purpura cardinalicia na sua propria ida, ou
promessa de ida, á Ethiopia, é claro lhe ná'o convinha por
modo algum obter o despacho de Ah:ares. Emquanto, pois,
trabalhava secretamente em seu proprio favor junto de Cle-
mente vu e de Paulo m, o embaixador portuguez trazia en-
ganados o padre Alvares, o seu companheiro D. Henrique, e o
rresmo D. João 111, suscitando estorvos ao negocio que devia
promover. O apparente esquecimento a que ficou votado o
negocio do Preste, prt:nde-se, portanto, aos manejos ambicio-
sos de D. Martinho. -
Assim ficou, pois, em Roma o padre Alvares, meio esque-
cido, meiú enganado, até que a final por lá falleceu
1
não sabe-
mos bem em que anno, mas provavelmentt: entre os de 1
e 1 S4o. 1 Realisou-se o que ellc tanto receava nas suas horas
' O fac:to do fallecimento de AIYarcs em Roma Cll4 fiudo pela carta
2/ de agosto de 154fi, por D. Joio rua Baltbaz.ar de Faria
{Graça Barreto, CCCJ:XII; c Corpo d.i,pl. v1, c:i9), ande
se encontra a seguinte phrase : •... a qual obedienda a cruz, camo sua san-
lidade scr6 lenbrada, foi apresenra.la ao sancto padre Clemente 7.• per
rraociaco alvarez meu cappelaao que foi na companhia do dna enbaixador
e laa falaceo em Roma, pesoa viTtuasa e dina de credito .•. •-Nia ta-
bernas a data da sua mone, mas seria depois de J535, em que temo• no-
ticias d"elle por D. Henrique. de Menezes; e. antes de 1540, em que o seu
livro se publicou, sem que da sua existeDcia se fizesse mençio.
Quando escrevi a nota a pag. 5], nãa linha reparado n"esta parte da
carla de D. Joio 111; e, enganada por algumas phrases do Prologo 4 Vn--
irrformtlçarn, como foram lambem Barbosa Machado c outros bi-
bliagraphos, eu admitti que aquclle Prologo foue escripto pelo proprio
Alvares, e, portnmo, este estivesse em Lisboa no anno de • quando se
terminou a impress'!o do seu livro. Isto era claramente um erro; e o
C do livreiro editor, Luiz: Rodrigues.
c4 missão dt Alvares a Roma .!JoJ
de desconsolo e de abandono, morreu longe do pauis, sem fazer
alli anynhum servyco a deos•, nem ao seu paiz. Por motivos.
absolmameme independentes da sua vomadc, os despachos do
papa, que elle devia trazer, não vieram; e durante longos an-
nos o famoso negocio dn Ethiopia não deu um passo. Em
Roma e em Portugnl, omras questões reliRiosas, não mais in-
teressantes, mas mais nctuae5 e mais agudas, desvi;wam as &t-
tençõe:s das remotas chrisumdades do barbara e negro imperio.
O padre Alvares deizan, porém, a sua missão largamente
cumprida; nio a sua diplomatica, da qual, como ata·
bamo.s de ver, nenhum fructo se drou; mas a sua missão mais
dillicil e mais importante de explorador de um paiz novo.
Deixava o seu nome vinculado ao primeiro
1
e sem duvida al-
guma a um dos mais curiosos e vcridacos liVl"os. que até
hoje se teêm escripto acerca da Abyssinia.
Ou que o.s seus manUscriptos f'ossem trazidos de Roma
depois da sua morte, ou que algumn copia tives•e ficado em
Portugal, o livreiro L.uiz Rodrigues emprehendeu a publicação
de todo.s ou de parte d'aquelles manuscriptos. Teve para isso
o assentimento do rei, e obedeceu sobretudo ás instigações do
bispo de Lamego, que ero muito illustrai.Jo c reconhecia toda
a importancia da obrn. r L.uiz Rodrigues foi a Paris • buscar
estampas, caratules de letras, ofic1nes e omra cousa" conve-
nientes impre!lsam• ; e •a vinte e deus dias de Outubro de
mil e quinhemos e quarenta annon acabou a sua obra typo-
graphica, da11do a lume a Verdadcra i'nfm·mo2çam das lerras do
Preslt Joam, segundo 1110 e tscreveo a pad1·e H·a11cisco •
Já em um dos primeiros capitulo.s nos referimos és duvi-
das, que existem qua11to a ser ou não ser esta obra impress.s.
a reproducção fiel e co,lplela do.s manuscriptos; e devemos ain-
da voltar é questão, comqua1110 não possamos chegar a uma
solução absolutamente segura e satisfactoria. João Baptista
r D. Fernando de V•sconcellos, filho do conde: de Penella, capelli!io
mór de D. Manuel e de D. João m, bispo de Lamego e depois arcebispo
de Liaboa, um dos rres primeiros inquisidores Betaes.
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-npoo. de AJnra_
Mas aio adoliair
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9IC o seu hro aja-como
qDCT Ramusio -um .......,. ftSIIIIm ao arruio do manos-
<ripoo de Alnrcs- San duridll .,_. • porte imprcoY <Sd
ld........, impreHL E' o P"P"" aiJlo elo pocln: pc>nu&ucz,
mal ordenado, iosmuo c muitas ftZeS ctllllfoso. Laiz Rodrisues
imprirrw-o u1 qual csun, sem o modifiar, c cm nrios casos
sem o perceber bem. A sua imprasio I _lã, m.u aio deYe
ser QJmpltla. Ou que do5 ma.ouscriptos K cxunias-
Hm, e não viessem parar IAs mim. de Luiz Rodrisucs; ou que
c11c, mal awisado, fizesse dln uma o que pa-
rcu: que imprimiu sã uma parir, m.u asa lelmntlt. Esla
julgo ser a conclusão mais segura a que podemos chegar.
Por lamcntavcl que 1eja a perda do que se extraviou, o
• Vela-M, ror esemplo, o rrolesto ou dec1ançio inicial: •Nel nome
di Jeau. Ir. Franccsco Alwarez. prete di mnso
1
etc ...• - Esta decl•ra-
çlo Inicial vem nos DMullltrtra de Or•ça 8.l1Tero, ac:ripr• em ronusuez
• nlo Hndo f•cil 11ber donde loi rind•.
• V•Ja .... • aou. • P•B· S7.
cA. nzissão de All'a,.es a Ronza .3o5·
.
que nos ficou é sufficiente para dar ao padre Francisco Alva·
res um alto lugar entre os nossos cscriptorcs portuguezes, e
em geral entre os que trataram de paizes e regiões novas e
desconhecidas.
Accusaram·n'o depois de pouco veridico, o que mais ou
menos tem succedido a todos os que pela primeira vez pene·
tram em regiões remotas, e dão conta do que I ~ viram e sou-
beram. Modernamente, porém, tem-se feito uma reacção com·
pleta em seu favor, como se fez em favor de Marco Polo, e,
até certo ponto, cm favor de Fernão Mendes Pinto. E a reac-
ção é perfeitamente justa. Sem duvida, Alvares nem sempre

viu bem, e uma ou outra vez acceitou com pouco criterio as
informações que lhe deram ; mas estes casos são 5imples e
raras excepções. No conjuncto, o seu livro é um modelo de
sinceridade e de boa observação. Temol-o seguido passo a
passo, e, quanto o pcrmitte a indole d'este nosso estudo, te·
mos procurado comparai-o uma ou outra vez com os livros
modernos de mais auctoridade ; c sempre ou quasi sempre
temos encontrado a confirmação ou a explicação das suas pa·
lavras. E' que Alvares, além de verdadeiro, era um observa-
dor attento, exacto e perspicaz, como foram por aquclles tem-
pos varios portugueses- como foi Duarte Barbosa, como foi
depois Garcia da Orta, como foi tambem, atravéz de outras e
mais altas qualidades, Affonso de Albuquerque. O livro de
Alvares, e é esta a sua feição principaJ, merece admiravel-
mente o titulo que elle proprio lhe deu de Ver·dadeira injo1·-
-
nzaçao.
Ao mesmo tempo, que Alvares nos pintava tão nitidamente,
com todo o relevo c verdade de um estudo do natural, as ter-
ras por onde andou c a gente que por lá viu, traçou-nos sem
querer o seu proprio perfil- um bom perfil de velho padre
portugucz. Crente e devoto sem intransigencias, sereno e de
prudente conselho nas occasiões difficeis, conciliador no meio
das intrigas e rivalidades dos companheiros, bondoso e inge-
nuo com uma mescla de malícia e de genuína graça portugue-
za, é assim que elle nos apparece em todo o seu livro, deixan-
39

..
O S.:g1 em Lisl!oa.,
os ... trJZer de Roma,
para ciic ser c!':t.:!o cn\"iljJ i fic3do
bJstantc c c rJu,as noticias teriamos
a JS r J:J,:as noti,ias intcrc:ssantes, se
!C n:tf) ti\·cssc o j\! com D..1mião de
O es.::-:Ft.::- e d:p!om:1t..1 por a=Juel(es
P
'I . J E I
t
ra:n·"'(·"" -, ... '''J- ... , !""."'\ P""!."'\P'"t' .1 nrop., n
..... k· :") (4 J . ..A!:'(4' '-..- • ........ - ::> •• _ ... v .. -
tC:"C5Sl\"J SP. ffiültl) coisas e Jo Preste Joio.
ácc:-ca q'..:a::s já h:.\-iJ ao
,.._ .. --cb=C!p'" '· .... -- ··,, c .... -o-··-"'., o t· ... aj - quem
d1'- J U ... Lf':) ....... , t· .. -\...v....l .. ) ... 1.1
t
r, :--•·r)'
1
rct:1 .. _ ... c ·r ...... J!,:,. ...... ,..,..,:z" -1 n"' c cons
t.A .. - \....J•'•· .... u ........... :. ...... ....... -·· ._
11
par.1 st:.::5 r:-orrias r...1! ... 1,·ras. Nas
q·.!e os Jo!s assumptos da
de (;)eS a cs:rc\·er U!Tla cspccie de
d1 fé, cc:--i:n)niJs e habitos dos abe-
p:,r ccisJ da .. 1 eth!vpÍ\:a, que Saga
z-.:.b pc!I'J qt:c este já d.l port'"gucza e um
da c lJJm!Jo de melhor
Oll ,·ertcr cm lati:n o de Saga ou antes
- (J que parece mais exacto- redigir cm lJtim os apontamcn.
tos que este lhe deu. [)"est3 collaboraç5o saiu uma c a
principal, do opusculo, Fid,·s, n·HgiO, mort:Sofll!! 1-:tlliop11m, a
que j;1 por tantas vezes nos temos referido.
O tratado p11ssa gcrnlmente por não Sl!f correcto c cucto.
O p3dre jesuiro, Balthazar Tcllc:s, cscre\"cndo maL. de um
Sl!culo Jcpois, c muito bem inform:1do pelo que os jesuÍtas j.:l
emâo s:J.biom, ac.:usa Saga Zll.lb de ter occultado
mcote os erros religiosos dos nbcxins, c de dizer que c•ncnhum
tinham•, sendo aquelles erros •muis que muytou, 1 E o ze-
losissimo hi&toriador d:1 E.hiopia, Ludolf, apoiando-se no que
lhe dizia c ensinava o abc:tim Grcgorio, é tambem muito se-
vero, e attribue ao outro abexim varias invenções c mentiras.
Conta Ludolf, que, lendo n Gregorio alguma das coisas refe-
ridas ror Saga Za.ib no opusculo de Gocs, Gregorio excla-
mava:
-Se disse isso, foi uma besta 1 :a
Pondo de parte o Indo piuorcsco e violento da cxclama.-
çãll, evidentemente immerec1da, estas cri1icas geraes devem
ter um ccno fundamento. Sem du"Yida, Saga Za.ib não era,
como o antigo emOOixadol" .Mattheus, um mercador ignorante;
era um frade, relativamente instruido, largamente instruido
mesmo nas coisas religiosas i mas não era tnmbem um theo-
logo profundo, nem os havia na Abyssinia- Depois, o christia-
nismo dos abcxins. mamido unicamente pela tradicçiio, mal
definido cm muitos pontos, não constituia um corpo de dou-
trina, claro e concatenado_ Nada mais facil du que fazer algu-
mas confusões, sobretu..io cm um resumo, escripto em Portu-
gnl e de memoria. D'ahi erros involunto.rios. E podia lambem
haver aucnunçõcs intencionacs. Isolado cm paiz catholico, de-
sejoso- de agradar ou pelo menos de não oflcnder, o frade
nbexim nem sempre insistiu nas pccularicda.des da crença ja-
cobita, e insistiu pelo contrario nos pontos de fé, communs a
cmholicos c jacobitas.
• Etlziojli4 a alta, L_ 11 cap. 5_•
:a •Si hot; bcstia ca.mri fuit•; Rist_ t:rlziopic.l, L 111
1
ca,p· 1,•
3o8
E', porem, um-. injU$liça dizer, como diz o padre rclles,
que c'lc occultou cons.:ientememe toJos os t.-rros
Pelo c:omrario, f.da com grande liberdade no aeu tratado de
pontos de douuina, ou de praticas rcliguJS4S
1
que cJie sabia.
muito bem não 5C:fem adminidas pelos csthoticos: &la da cir·
cumcisiio nos homr:ns c nos mulheres; fala. dos sabbados
guardados c: sanctill.cados 1 das co.rnes c comidas prohibidn;
de não serem a con6rmoçâo c c'!.trcma uncção consideradas
sacramentos; da crent;a em que estaYam da que as crc.:mças
náo baptizadas, IIUI.s filhas de mõcs baplizadas, se deviam iuJ-
g.ar scmi-cbrjs[OOS; e de muitos OUITOS pontOS CSU:J.lmcnte :SUS•
peitos. E nio só toca n"cstes ponto" corno O!l cJrlana e de-
fende. Tudo isto era mais sufficientc para o tornar cllc
rroprio suspeito.
Ames mesmo de escrever o seu tratado no nnno de 1
c que só foi bem conhecido no de 1S40, Saga Zaflb ba,ia 1iJo
frequentes conferencias com doutores de muita força c peso,
como er:ll11 o celebre mestre Pedro Margnlho, c o bispo de
S. Thamé. • Clllro está, que cstc:s eximias theologos não ti,·c-
rarn difficuldade em reconhecer a ignoro.nc:ia do fr.odc abexim
• •. . • crebras disput11tioneJ IIC contentiones cum Do.:t.orlhus quibus-
dam, pra-sertim cum maginris nostris Didaco Onysio
1
Episcopo in•ula-
S. Thom't.', &tque Regis Sacelli Decano et Peno ...• , fi4cl, I"·
:Wo, ed. dos Opusciii.J.- P=dro

noturll de Elwas, era uma das
maiores suctoridades do tempo em S;tenci•s ecclesiasticas i foi forma-
.Jo em e theologia na t:niYersidade lle ParU, derois catheJralico
de pbtlosophia moral na de Salamanca, d"cmde panou • eatbedralico dt!'
prima de theolosia na de L"boa. - D•ogo Orry.1, fid•IBo da casa .-cal,
•Adeyiio• da carella l"tal, homem de •boas lettns na Mgr.a.da TbeoJo-
Gia•, fora apprezentado por D. Joio 111 ao para para bisro Je S. Tho-
mll!; e nomeado pela bulia de 3 de nowemhro .!e 153,., diFlrte prr-
nllltnl (Corp. drrf. porluglt('f
1
M, 1So). -Era uma reuoa diwena do CaJça-
dilha, D. Dioso Ortyz de Vllles••• o que prerarou o vi&f:em de Pedro da
Co\'ilhan, foi de Tacser em 1-IJ'• bisro de Vazeu cm .So;, a falk-
ceu em Almeirim em 151, (padre Jaio Coi,Cal dospuln4oJd.J 4e
J"rn-o).- D. Antonio Caeuno de Sous.a parece ter Jeito .a)sum.1 confu.:io
eo1ro os dois bisros do mesmo n10me (Cat. dos tiqJos 1'4-rolt>, S.
7 homt e Anaola).
C/1 .le Saga ZaJb a Lisboa Jo9
cm muitas questões nem a sua duvidosa orthoJo-
xia ou clara heterodoxia cm muitas outras. Creava-sc as5im,
pou"o o pouco, uma otmosplu:ra dcsravoraYclno pobre embai-
xador, oo liqa kahnat meio barbara da Ethiopia, que devia
ondar bastante vendido n"cstas conferencias com os gr:mdcs
thcologos da Europa_ Annos depois, o inf:mte D. He11ri'-1ue,
c.,rJcnl e inquisid•>r-gcral, resumia rudemente a mó impressão
que havia de Snga Zo.lib, dizendo: que ellc era •mno
homem•, \'ivia •desonestamente•, e •Da sua propria terra era
a\lido por ereje•. 1 Esta opinii'io do Infante parece ser iniusris-
!ima; e podtmo.s resl'Dildl.T lhe com a de Damião de Goes, o
qual julgava o abexim evcncra\rcl pela sua dignid;htc ecclc-
s;aslica, admiravcl pela sua .1outtina e elocuen,i.l nas lin-
guns cha.ld..tica c nrabica• • .3 Mas, injusta ou não, a opinião do
Infante foi sem duvida a mais geral, emquanto a de Damião
de Goes ficou mait ou menos isolada.
Mal Yislo cm Portugal, o pobae passou tam-
bcm, com o andar dos tempos, a ser 01.1.1 visto na sua propria
terra, onde- como veremos no capitulo seguime- o accusa·
vsm de remisso e descuidado, c de deixar passar annos e an·
nos zt::m ni.1da •negociar por sua mera negligencia•. lnjustis-
sima tambem esta accusaçüo, pois Saga Za1ib nffo negociou,
simplesmente porque niio podia c o seu despacho depcndi:t da
vind..1. de Alvores, o qual andava to.mbem vendido cm Roma,
innocentcmentc envolvido na eterno questão da lnquisiçiio, e
nas intrigas de n_ Martinho de Portugal.
Saga Znãb, mio s•i nâo foi remisso, como scnlia perfei-
tamente quanto era falsa a sua situação; e havia mesmo
1 Carfol adeante citada.
'•--- viri et Episcopali diflnitale venenbilis, et fiJe, doctrina, ac
eloquentia

et A.nbic«: linp;uw admirabilis •••• - Etta lin,sua
chaldaica Jeye simplesmcnle :ser a lingua cth1opica. Os porrusue:ccs por
CIIC lempo chamaram seralmentc O scez: li1J8U8 Cbaldaica OU chai.Jeo,-e
conrunJia:n os carcteru e&hiopicos com as •letras hebraicas.- E' proYa·
vel, que 0.1miiio de Goes, apezar da sua superior illustracçio, fi:cetse a
.:onrutio h•bitual.
chegado ao auge do desespero. Ha uma carta d'cllc, que
faz realmente dõ. cscrirra o 12 de julho do anno de a!a36.
por ellc ou o. seu pedido., e foi entregue n D. João w por
1-"rancUco de Lemos. O embaixador abcxim queixa 5e: aUi
da sua demora incxplicavel., fazendo &cnrir. CGm
Ioda a rasõo, quanto o seu proprio soberano a devia cxlranbar:
., •.• eu qc de meu senhor preste Joam d. IDDto tempo que: s:a.m
esperado c sem de mym ovcr nenhuma nova nem recado e. E
pede com grande instancia ao rei de Portugal, pede lhe por tudo
quanto h3, que o nâo deixe morrer longe da sua terra: ..... e.
peço-lhe por amor dn morte c pt\ixão dt nosso scnl1or jhu \; i>ot c
por a grandiscma piadade da bem avcnturadn sua madre nosa
senhora, qe não qcira qe cu morra dcmtro cm seu Rcyno •••
• _ _ do qual eu senhor estou muito peno de doenrt: c anoja-
do ••. •· 1 E no ainda não foi despoc::hado. Olinda 6coo
mais trcs nonos cm Ponugal, soffrcndo os desgo!lltos e
mes que melhor veremos no capitulo seguimc. :a
Atas o que ha de intl!n:ssante na historia d'cstes nonos, cão
é tanto a sorte, mais ou menos infeliz, de um embaixador ca-
quecido1 como a prova da trnn.sfonnaçâo que gradualmente se
operava nos espiritos quanto é maneira de consiJerar os abe-
xins c a sua religião.
Francisco Alvares havia rrozido da Abyssinia c havia le-
vado a Roma as impressões optimistas, que jnm ainda cl3ra-
meote enunciadas nas de lJ. João 111 a D_ Mani-
nho de Portugal. Para clle, e para todos n'aqucllc momento,
os abcxins eram bons christõos, posto que igoorantcs. Tinham
alguns erros por •mingoa de doutrina•; mas nõo graves, e nt
emenda dos quacs haver-ia que fazer... todos
tambcm a obediencia prestada ao papa era clntll c complcla ;
c d"clla devia resultar muito naturalmente a união dos jacobi-
tos e catholicos em uma mesma crença.
1 Vejam-se os da Carl.1
1
em Graça Barreto,
ccx:nv_
1 Dami§o de Gocs diz que. ficou relido a1C ao anno de- 1Sl!.J.
cA m,"ss6o Jt• Saga ZaSb a Lisboa
Estos impre!sões foram, porim, muito abolodas pelas
ferencios de Saga Zn.ãb com os theologos Diogo Ortiz e Pedro
Mru-galho. Por cauteloso que fosse o abcxim, era tambem bas ·
tlinte .sincero, e nas suas palavras os erros jacobitns
cinm, graves e aobre tudo numerosissimos. E quondo ••
fcrencias mais ou menos secretas :!IC seguiu, no anno de J5.,Jo,
a publicação da obra de Alvares em Lisboa•, 1 c a da obra de
Dami5o de C.oes em Lovoina, a a dc:sconfionço tornou-se natu-
ralmente mais geraL Estas obras foi'Dm cuidadosamemc estu-
dados pehas moiorea auctoridades ccclcsin:!oticas, por exemplo,
pelo celebre profcsaor Martim de Aspilcuc:tn Navarro, o mais
profundo canonista do recemcrnente mandado vir de
Hespnnha por D. João 111 p11.ro reger C.:moru•.s na Universi-
dade de Coimbra. Fizeram-se listas de todos os erros, de to-
das as proposições duvidosas c suspeitas, contid2.5 n"aqucllas
obrns, nomndo se as pussagcns dos livros sugrados c padres
da Egreja
1
com que se deveriam refutar. 3 E o resultado do
exame foi tão pouco fnvornvcl, que a Inquisição intervciu, pro-
hibindo a venda cm Ponugal do opusculo de Gocs.
No anno de t54•• o infante D. Henrique, depois cardeal c
j:l n'aquclle momento inquisidor ger.al, escreveu a Damiiío de
Gocs, o qual estava outra vez fórn c:3e Portugal, prevenindo o
• O livro, impresao em c:asa de •L.uiz Rodrifiut:z, linciro de sua alie•
sa•, ac:abou-se •ahos vinte e deus dins de Outubro de mil quinhenlos e
quarenta annos•.
,. A primeiru ediçlo da FideJ i. de Lovanii
1
l}.jQ. Es1a eJição, de
que vi o ezempinr da nihl. nacional
1
roi desconbeciJa J.e Barbosa Macha-
do.- Sobre a complicada questão das succcni\-as edições dos DflUSC:ulos
luinos de Damiio de Goes, veja-se o eSiudo muito completo do Sr. Joa-
quim de Vasconcellos, em • ltl"li:Jirc.J, vol. 11
1
fase. \'11
1
fl· n e
logLIIDIOS,
'Veja-se em Graça Barreto 1 Dotii•JJenta, CCLr:.) uma lista assim inti-
tulada: Dubia cirr:a errorr:J ael1tiopunr aJilra 1lle am4er:l"' tJIIole 4elerminnltl.
111111 a Nótl>'tll'ro- E' uma relaçio de ; pontos duvidoaos, tirado• do liYro
Jo Alvares. a mais 2), lindos do opusculo de Goes. Do 1itulo reaulla que:
ji oulros 11 hariam siJ.o delerminados ror NaYIIrro, sem duvida alguma
o celahre NavarTo, que ji t:otão lia CaDones em Coimbra.
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Ann .
e4 missão de Saga Zaàb a Lisboa
rem na qualidade de herejes. E os tempos, por aquelle meado
do XVI s e c u l o ~ não eram os mais proprios para que os herejes
se olhassem com benevolencia ou mesmo com tolerancia. Em
Portugal, a Inquisição estava em todo o vigor e actividade de
uma instituição nova; e por toda a Europa, os atnques das
seitas protestantes provocavam na Egreja catholica 9ma reac-
ção, naturalissima no fundo mas violenta na fórma, no sentido
de conservar a pureza absoluta da }4"'é. Claro está, que a lu-
cta com os herejes do pé da porta se devia reflectir nas rela-
ções com os herejes de remotas terras.
Era, pois, facil prever já n'aquelle momento, que o futuro
contacto dos missionarias catholicos com os jacobitas da Abys-
sinia não seria tão cordeai e tão pacifico, quanto havia sido a
primeira visita do padre Francisco Alvares. •
Fac simUe da assignatura do padre Francisco Alvares

...,
..
-c. . ..:__-_-::!-.-
CAPITULO X
'tsTfS nnnos t.!e que temos ralado, quanOO o padre
Alvares es1o.va ainda retido em Romn c Saga
Za.ib em Lisboa, npparccc-nos em sccna um no-
vo, ou antes um amigo personagem sob uma nova
fõrmo- o mestre João, medico da cm baixado de
D. Rodrigo de Lima, convenido em D. João Bermudez, pa-
triurcha d t ~ . E1hiopia.
Aquclle singular personagem interessa-nos n'este momento,
porque estabelece de algum modo a ligaçiio entre os succcssos
que temos contado e os importantes successoa posteriores ; e
porque, sob o nosso ponto de vista muito especial, elle deve
ter sido, ou pelo menos pode ler sido, o ultimo europeu que
viu Pedro da Covilhan e assistiu talvez 4 sua morte.
Tudo e um tanto mysterioso cm D. João Bermudcz, a co-
meçar peta sua nacionalidade. Alguns cscriptores consideram-
no he!panhol, da provincin de Gall'izo., o que pareceria contir-
mar-sc pelo seu appcllido de Bcrmudez, mais hcspnnhol que
ponugucz, cmquarlto outros dizem ter cllc sido natural do
Porto, julgnndo encontrar no seu livro • a provo ou indicio de
que fôra nosso compatriota. A questão não tem, todavia._ gran-
de interesse, e não procuraremos profundai-a.
Tambem se suscitaram duvidas ãccrc.a dn iJentidadc: de D.
João Bcrmudez com o nosso antigo conhecido mestre João.
Fr. Antonio de Gouveia, por exemplo, parece tel-o na conta
de pessoa diversa, narrando como o fururo pntriarcha fora to·
mado pelos turcos nas ualiaoas, e levado ao Cairo, d"on-
dc conseguira fugir e passar és terras do Preste. 2 N'isto ha
um engano do sabia frade agostinho, pois o capriveiro de D.
João Bcrmudez teve Jogar maia tarde como logo veremos, se
acnso mesmo teve Jogar. E não pode ha,·er hesitação áccrca
d'aquella identidade, cm vista do que diz o proprio Bermudcz.
Conta elle, como foi para a lndia na armada de Lopo Soares.
c por lt se demorou ate ao tempo de Diogo Lopes, com quem
vciu o Arkiko, e por cuja ordem acompanhou D. Rodrigo de
Limn á corte do Preste; e conta, como, partindo annos de-
pois D. Rodrigo com Saga Zatlb, ellc ficou lá na qualidade de
penhor ou refens pelo embaixador abexim. Tudo isto deve ser
exacto, c concorda em geral com o que diz Alvares. l
' O tilulo do livro o seguinte: Esta ltit:J retar3o 4•
.xaJa {o Pa1r1archa d.ii JoiUJ &rmu4er do Emptrlldor da Etlu"opiOJ
ch,1mailo o Jo:fo, ao chrutianiJsimo e rellldor da
L"hrislo dom Jo.io o rWIPIIt': dingida ao rnuy alto
de felitissima esperança, t:ibtm 4r dom SebllJI•iio, o
dt:Jie rtome. Em a gual ttibt."nl conta ,, tnorle dom Chr•slov3o da Galfla;
C" dos sucustos IJUe acmtleuram aos fori.o su.:z compa-
nhia.-Nio vi nemplar da ediçio de J56S, e nem sei se algum edne;
cito reJa • ediçio, dirigida e anootada por Lima Felner, que fs.r. rane
dos reimprtuos pela Ac. R. das Scienc111s de Li1b01i1.
1
Jontad.1 do Aruln1po de G&. D. Fr. de li't' ... cap.
8.•-Compare-se com o que diz Couto, A.sia
1
v11
1
r
1
1.•
J "llrt'Vt relação, 1 aG.- Alvares diz simplesmente que l'lle licou,
...
O patriarcha D. João 'B!!rmu4er .J17
Nâo seria difficil a mestre João, medico ou cirurgião c bas-
tante intelligente, adquirir favOr e influencia na. côrte do N e g u ~ .
A sua profissão foi sempre, como ainda. hoje é, a melhor das
rccommendações entre os povos selvagens ou semi-selvngens.
Por leve que fosse a sua bagagem sciemifica, era muito supe-
rior á dos curandeiros abexms ; e duas ou res tcurns faceis
nas rainhas ou princczas seriam sufficiente!l para estabelecer a
sua reputação, como depois succcdeu com outros, que nem
mesmo eram maus medicas, mas simples curiosos cm medi-
cina. :a Bermudez ficou
1
pois, no :sequito do Ncgus, gosando
um certo valimento.
Justamente no momento cm que cite alli ficou, a si[Uaçiío
da Abyssinia começou a tornar-se extremamente grave e cri-
tica.
Vimos antes, como nos primeiros annos do seu reinado,
Lebna Dengel havia alcançado algumas vantngens decisivas
sobre os mouros do sueste, desbaratnndo-os em umo. gran-
de batalha, na qual foi morto o celebre emir 1\lahfuzh. A li-
ção parece ter sido severa, pois os mouros ficaram quietos du-
rante dez onnos. No de 1537
1
porém, as hoslilidades recome-
çaram energicamente.
Um simples cavnlleiro do H arar, chamado Ahmed ibn lbra-
him ei-Ghazy, mas mais conhecido pela alcunha de Gránbe (o
canhôto), tomou então rapidamente uma grande preponderan-
cia sobre os seus correligionarios. Era casado com uma filha de
Mahfuzh
1
e parece ter herdado o seu odio aos christâos, egua-
Jando-o ou excedendo-o nns qualidndes militares. Uma cir-
cumstancia especial contribuiu tambem poderosamente para os
triumphosdo Gránhe. Os turcos eram já n'nquelle momento se-
dizer o moliYO: •-- - e que nos fossemos enbon e que finstem nesu
1erra Meslre Joam e o Pinlor (lazarc de Andrade) como de fei1o fin-
ram•i Vl!'rd. in(onnaçam, 1l2,
'I Carlos Poncer, '!ue andou pela Abytõsinia nos fins do :.:vil seculo, pa-
rece 1er sido um verdadeiro cirurg1io; maa Bruce era um curioso, e deveu
-como elle proprio conu-a sua siluaçio na côrte 101 seus fraco1 ço-
nhecimentos meclicos..
3t8 da Covilhalf
nhores do Egypto, de parre da Arnbia, c de muitos portos do
mar Vermelho; c alharam-sc noturnlmcmc com os musulmae
nos do Harnr c de AJcl, fornecendo-lhes por vezes contingen-
tes de tropas tur'a3 c de jan=zJrOs
1
re!lativamcnte disciplina-
dos c munidos de ormns de fogo, o que lhes davn uma gran-
de superioridade. 1 Com estes nuxiliares c com os proprios
rc.:ursos, o Gránhe tornou se e temido, c esteve a pon-
10 de destruir o impcrio christáo da Abyssinia. -a
Durante treze ou quotorzc annos, o intrcpiJo c habil caval-
lciro do Harar conduziu pessoalmente uma guerr,\ sem trc-
guas, c quusi sem interrupção, contra as tropas do Ncgus. As
succcderam ds bo.nolhas, quasi sempre desfa1roraveis
para os abcxins. Os maiores senhores da Abysshia, os mais
al:os corgos da cõrtc, o A qoibl! 5nRt, o Serodj J\taserê c mui-
tos ourros, morreram \'alcmememc, combatendo ao lado do
seu soberano. O velho fr .\de Gabriel AnJreas, que .onnos an-
tes tinha morto o emir Mahfuzh, fez-se m:uar cm um dos
combtncs, não querendo assistir J.os desastres da sue p:nrio_
O filho primogcnito de LcbnJ. Dcngcl, chamado Fiqtor (Vt(for:)
c.ahiu morto no campo. Outro dos seus fi. lhos, ( Fit.•IJ, fi-
cou prisioneiro c foi mais tarde para a Arabia, en-
tregue ao pachá J.c ZebiJ. As paginas da l."/u-mric.J. cahiopica
são n'cstes annos simplesmcme um estenda! de calamidades c
uma lista de monos_ J
Lcbna Dcngcl ia retirando de provinda para provincia, de
montanha para montanha, conservando, no cmtanto, atC ao
fim um grupo de soldados c subditos fieis, que cllc m:mtcvc
com uma inquebrantavc:l energia, recusando-se sempre a cscu-
• De uma vez, diz Mieuel de o •caritio de Aaebide. (o
rachA de Zebid) mandou Gránhe •mil turcos todos arcabuzeiro••. e
•de& bombardas de campo• ; J-lrsl. ;.bs COUJ'•1S D_ CIJriJio.,Ja,
car- •7-•
1 A Yid11 do Grdnhe foi escrirta relo seu secretuio, sob o titulo. CoJII-
fWiSID. do H.:tfla.:ll relo im.1m lahm,4, fiJIIO lbr..thrm i veja-Je o
Ca1.1l. dos ""'· .te d-Abbadie, • "'4·
l Chroniiue, lr- de Bassllt, I'• 10l a '09·
O patriarclra D. João Bel"nflldc; 3I9
tar as propostas de: paz, que lhe pareceram menos dccorosn.
Mas a traz d'cllc, as terras mais ferreis dn Abyssinia tica..-am
entregues ds depredacões do. Gránhe e dos avidos cnvalleiros
do H arar. T 11do foi roubado e saqueado. Foi saqueajo e quei-
mado o celebre convento de Dabrn Libanos, junto do qual o
nosso padre Alvares tinha passado poucos annos antes. Foi
queimada a egreja de Mak!no Sehic!, onde D. Rodrigo de
Lima e Ah·ares estiveram com o Negus admirando a riqueza
das nlfnias. Foi queimado o convento de Santo Estevüo no
lago Haiq, onde Alvares egualmeme estivera. Não escapou
tambcm a grande egreja da rainha Helena, Martula MJryiirn;
e lá ficou reduzido a cinzas o altar delineado por Pedro da
CoVilhon. Foi roubado o thesoiro r,cal de Amba Nagast, que
-segundo dizia D. Joio de Castro-era •o maior thesouro,
que até o dia doje sabemos ser junto em todo o redondeza da
terr.u6 As grandes riquezas, encontrados nos conventos, nas
egrejas, sobretudo em Amba Nagast, dispersaram-3e no vento.
Como diz pittorescameme a Cl1ro11ica. ethiopica ••• 6 6 •O oiro
tornou se tão commun como as pedras, e os vestidos de seda
como as folhas•. Havia sedas e oiro, mas nõo havia pão 11em
came- t•dava-se uma onça de oiro por um boi•. 1 O impcrio
christão parecia irremediavelmente condemnado e perdido.
Não sabemos o que n'estes calamitosos tempos succedeu a
Pedro da Covilhan. Deixámol·o em Dara no anno de 1S24
1
,·clho sim, mas robusto e activo, c: podendo acompanhar D.
Rodrigo de Lima em todas as suas viagens. E' perfeitamente
passivei, que uns quatro ou cinco armas depois ellc conservasse
ainda o vigor !mfficiente para tomar parte na campanha. ::r. Os
seus deveres como subdito que se havio tornado do Negus, co-
mo senhor de um gu/lo ou feudatario do imperio, a isso o obri
6
gavom. Os seus impulsos de christão e portuguez a isso o im-
1 •••• l"or del'int aussi c:um.llun lljlle les pierres, el les 11Etements de
soie 111ue lea feuillea ... an donllait une cmc:e pour un bauf· i tr. de Bas·
set, p. Pü9·
2 Nascido ahi flOr 14Sn, Pedro da Covilh11n só complelava as 8o em
aSJo, em rlena suerra do Gr4nhe; e póde bem ler chegado ali! U.
.1>0 'Ptdro da OlPilhan
pclliam tambem. E' uma hypothesc absolutamente infundada,
pois não temos depois de 1S24 a mais leve informação a seu
respeito, mas é uma b,ypothesc .em que nos demoramos com
prazer, esta de o imaginarmos morto em alguma das sangren-
tas rcfrl!gas d'aquellas guerras. Serio uma boa morte para o
antigo companheiro de armas de D. Affonso v, para o anrigo
escudeiro de D. João n, a de ir cbhir aos oitenta armes em
um campo de batalhe, atravessado por uma lança moura, cm
defeza da Cruz pela qual sempre combatera.
Se não morreu em alguma das batalhas_. deve, na ordem
natural das coisas_. ter fallecido de doença por aquelle tempo i
e é posstJ!fl, repetimos, que João Bermudez assistisse aos seus
ultimes momentos, recordando-lhe em um derradeiro aperto
de mão a patria distante. Morto Pedro da Covilhan, os seus
filhos c netos por 14 ficaram sem mais sabermos d'elles, meios
abexins já na côr, ainda mais nas ideias c nos habites, esque-
cendo pouco a pouco aquelle avô, vindo de tão longinquas ter-
ras.
Vohtmos, porém, a Lebna Dengel e a João Bemmdez. Pa-
rece que o Negus, exhausto de recursos, acossado de monta-
nha para montanha, e vendo-se proximo da ruina completo,
se lembrou de appclar para o auxilio dos príncipes christãos
do Occidente, c particularmente do rei de Portugal, que ellc
conhecia melhor c devia julgur o mais poderoso de todos. Ou
que a convivencia de seis annos com D. Rodrigo e o padre
Ah·are:!!. tivesse deixado o seu espirita inclinado para as dou-
trinas catholica!!l, ou que o aperto do momento o obrigasse a
dar aquellc passo, resolveu enviar a sua submissão 4 Santa
Se!, c recorreu para este fim ao seu medico João Bermudcz,
transformando o primeiro em patriarcha.
A nossa fonte principal de informação n"estc ponto, c nos
suc:ccssos que seguem, é o lino do proprio João Bcrmudez ;
e de\lemos desde já dizer a conta em que o temos. E' claro,
que o não podemos condemnar como um simples tecido de fal-
sidades c de invenções, pois contém um grande numero de no-
ticias exactas, c confirmadas pelas procedentes de outras fon-
O patriarc11a D. Jo6o Btrnmde:r . 3 ~ 1
tes; mas é certo tambem, que o 11iio podemos seguir sem mui·
tas cautellas e reservas. A Breve relação de João Bermudez
estâ bem longe de 11os dar a impressão de segurança e 6deli·
dade que nos dão outros escriptos do tempo, que 110s dá, por
exemplo, o livro do padre Alvares. A BrePe relaf60 é um li-
vro confuso, trapalhão, onde alguns factos vem trocados por
falhu de memoria, e outros deformados e ampliados pela in-
dole do escnptor. Bermudez revela-se eftectivamente na aua
obra um homem vaidoso, possuido da mania das grandezas,
inclinado a referir todas as coisas 4 sua pessoa, e sem gran-
des escrupulos de exacção. Vejamos, no emtanto, o que elle
nos refere.
No anno de 1535, • o imperador •Onandingueb 2 di!se ao
velhissimo patriarcha Marcos- o antigo conhecido de Pedro da
Covilhan e do padre Alvares- que desejnva elle inst.ituisse João
Bermudez seu successor. O patriarcha assim o fez, ordenando
primeiro o medico de todas as •ordés sacras. ; e recebendo
este aquellas ordens com a expressa declaração de que depois
lhe seriam confirmadas pelo Summo Pontifice, 80 qual todos
deveriam dar a sua obediencia. O Negus disse-lhe, que d"isso
•era rnuy contente•; e lhe rogava viesse a Roma a dar obe-
dieccia 80 papa, por si, por ellc imperador e por todos os seus
reinos; e de Roma passasse a Portugal, para obter a condu·
são da embaixada, confiada onnos antes a •Tegazauo• (o nos·
so velho conhecido Saga Za!b).
Feito patriarcha, pois Marcos morreu logo em seguida,
João Bermudez seguiu o seu caminho por terra, pelo valle do
Nilo, um caminho diflicil e penoso mas ás vezes tomado pelos
peregrinos abeiins. Veiu parar ao Cairo, sendo alli preso pe-
los turcos, maltratado e quasi morto; mas conseguiu escapar·sc
• Lima Felner, nas suas notas, julga esta data errada; mas em Yisla
de alguns factos ao detnte mencionados, affigura·se-me encta.
• Aquelle Negus usou trcs nome•: c de David; o de Lebna Dengel
1
pelo qual o temos habitualmente designado; e o nome da rei, Uanilg Sa-
ged Bermudez parece ter (eito uma mistura doa dois ultimas, d'oode saiu
o seu •Onatl dinsuel•.
4'
'P<dro da Col'ilhan
e passar a Jcrusale.m, e de Jcrusale.m a Roma. Occupna eu-
tão a cadeira de S. Pedro o papo Paulo w, que- continua
dizendo Bcrmudez- o recebeu com muita clemencia c favor"
o confirmou no pauiarchado da Ethiopia, e alem d'isso o ins-
uruiu pauiarcha de AlcJ:ói:ndria, c lhe deu pessoalmente a posse
d'aquella •cathedra•.
De Roma, João Bermuda niu o Ponugal; c foi cncon-
uar-se com D. João 111 cm E,·ora, no anno-diz e11c-cm
que se terminaram jumo áquetla cidade as obras do aquc.iucto
da •Agua da Prata•. O rei recebeu o com a sua •acostumada
graç.-1 c benignidade•; e, quando voltaram para Lisboa, João
Dcrmudez avistou-se com Suga Zal1b, que lhe beijou o mão,
reconhecendo-o por seu superior c Patriarch3. Elle, porém,
sem se enlernecer com estas provas de submissão, mandou-o
prender, lançando lhe cadeias de ferro aos braços, que diaa
depois lhe tirou a pedido de D. Jo.ão 111. Procedia assim por
ordem do Negu .. , e por que Saga Zunb estava havia dote ali·
tlo& em PoriUgal, sem •negociar cousa alguma por sua mera
ncgligencia'l).
Todos então- contn Bermudcz- o reconheceram em Lis-
boa por p:.nriarch3; c indo visitar D. João m, juntamente com o
nuncio, • Hieronymo Riccnas de capite ferreo•, 1 e com D.
Martinho de Portugal, arcebispo do Funchal, este deu-lhe
mesmo o primeiro Jogar JUnto do rmncio, em ancnção d. sua
superior dignidade ccclesiastica. 2
Até aqui, o que aflirma o proprio Joüo Bermudez; c deve--
mos dizer, que as suas affirmaç6es foram geralmente admitti-
1 Jeronymo Ricecati Carodirerro, effectiYamente nuncio em Porlu-
Bal no anno de 1 53; e sesuinte.s, e mais lorde carde&l.
:11 Aa data., deduzidas d'el[a sõo absolutarneoto iDcoocali:a-
vei,, -Parece que o aqueducto da Asua da Prata se concluiu no anao de
a533 (Felner naa DCIU1al1 ,..cl.:tfáo), e Bermudez não podia partir da
Abyuinia em rS3S e chesar a Portusal dois annoa anles.-Por outro la-
do, elle diz, que SaBa 7aàh estava em Lisboa havia doze annos
1
e como
eile chcsou em 1.5z7, teria Bermudez chegado em 1!39, o que tambem
alo é rouivel, roia em 1.5]8 estava a partir rara a India, como logo we·
O patn"archa D. João Be1·mude;, .32.3
das depois aem discussão. ou apenas com Iigt!iros
Diogo do Couto, fr. Antonio de Gouvei11, o padre Jorge Car·
doso, fr. Luiz de Sousa. e outros, não hesitam em o conside-
rarem patriarcha. E o padre Balthazar Telles, resumindo o
opiniõo dos jesuitas, que deviam estar particularmente bem in-
formados acerca das coisas da Abyssinia, llpenas pt'5e algumas
duvidas a que elle fosse patriarcha da Ethiopia, adminindo no
crmanto a sua qualidade de patriarcha de Alexandria. Os pro-
prios portuguezes, que pela Abyssinia andaram CO"l'l elle, por
exemplo ltliguel de Castanhoso que o detestava, dão-lhe cor-
rentemente o titulo de patriarchn. E, todavio, os seus direitos
a este titulo são mais que contestaveis.
E' muito possivel e é mesmo muito provavel, que Lebna
Dengel, de accordo com o velho e jé meio tonto abuna Mar-
cos, o nomeasse Papas ou patriarcha do clero abexim. Sempre
na Ethiopia foram pouco escrupulosos na escolha dos seus
abunas; e outros obtiveram aquelle titulo com peores bulias
do que o medico portuguez: ou gallego. r E' certo
que Joio Bermudez ...-eiu a Ro:nn e a Lisboa, pm11sando talvez
no caminho as aventuras c perigos a que se refe!l"e. Quanto,
porém, á confirmação da sua dignidade pelo papa Paulo m, o
caso é diverso. Nem é provnvcl, que o papa se apressa!ise a
confirmal..o sem detido exnme; nem é adrrussivel que o fizesse
sem previa accordo com o rei de Ponugal, com quem os seus
antecessores, Leão X e Clemente vn, haviam !empre tratado
remos.- D. Morlinho de Portugal voltou de Roma em 1:1-36, e o nuncio
JerOil)'ffiO Ricenati CapodireiTO só partiu d'alli para Lisboa no mel! de re-
vereiro de r5)]. Parece pois, que Bermudez chegaria lambem no meado
ou fim d"es1e mes.mo aano, lendo saido da Abyssinia, como diz
1
no .!e
a535. Quanto i conclusio do aqucducto, e 110 tempo de po.rmanenc1a de
Saga Zaàb em Lisboa, rez naturalmenle alguma confusio
1
o que lhe sue-
cedia varias vezes.
r O abbade Legrand .• J3q) di noticia de uma capo.cie de al-
ou arrieiro da Nubia. que 1empoa depois foi recebido corno Abuna
na

e e .. erceu aquaDe alio cargo ccclesiastico. E' rossivel, que
Legraod, pouco ravoravcl aos jacobitas, encarecesse as circumstancw.s Cio·
calld.alo$8.1 do caso.
'Ptdro do Covr1h01t
os negocias relativo! á Abyssinia; e com quem elle proprio os
tratou posteriormente. Ora nós vamos ver o que o rei de Por-
tugal pensava e dizia de João Bermudez.
Em uma cana de D. João 10 ao negus C.aliludéuôs (Dau-
di'o), successor de Lebna Dengel, escripta em Almeirim a J3
de março de t54f:), encontramos as seguintes phrases.
• ••••. e do que la tem feito ioão bermudez, que el Rei y.
pai emviou a min por seu embaiudor, me desaprouve muito
porque sâo cousas muito contrarias ao serviço de n. s. pera
as quaes sabido be que lhe não podia dar algmn favor nem
ajuda, nem dele conheço mais que ser hum clcriguo simpres,
e dos poderes que d•z que o sancto Padre lhe concedeo não
sei nada ••••• ; e adeante Dod mesma carta: c ••••• desta
dignidade de Patriarcha, que ele sem lhe ningem (ninguem)
dar quis tomar ••• • 1
No mesmo anno escrevia D. João m para Roma a Bal-
thazor de Faria: • ••••• E asi como huum dom joam bermu ..
dez que laa estava, e o dito Rey seu pay a min enryon
por seu enbaixador, ao tempo que tornou com seu despaçho
disse laa que levava provisões de sua Sanctidade de patriar-
qua de seu Reyno, e usava diso como nfio devia ••••••• 2
Por estas cartas se v@, que o rei de Portugal, perfeitamente
informado de tudo quanto se passava cm Roma relativamente
á Ethiopia, tinha João Bermudez pura c simplesmente na
conta de um imponor. Assim se explica, que elle negaceasse
com Paulo m, e com o geral da nova ordem dos jesuitas,
Santo Ignacio de Loyola, a nomeação de um patriarcha para
a Ethiopia, sem fazer caso de João Bermudez que lã esta\"3.
E assim se explica tambem, que, nomeado para aquelle pa-
triarchado o padre jesuita D. João Nunes Barreto, na bulia ;!e
faculdades, concedida pelo papa Julio m no anno de 1554, se
• Graça Barreto, Doamrtnla, ccc:n1.- Esta carta, de que um lresl•-
do roi enviado a O. JOão de Ca=-tro, esti publicada por rr. Francisco de
S. Luiz, n• aua ediçíc d• Vida de D. João de CaJtro, • pas- 442.
2 Em Graça Barreto, Documenlo, cccu:n; t1 uo Corpo diplornatico por-

O D. João Bermud,•:r .J.S
não diga uma palavra de João Bermudez, embora este per-
manecesse ainda na Ethiopia. •
Em que nos pese sermos desagrndaveis ã suo é
forçoso confessar. que toda a historia d3 sua confirmação cm
Roma e reconhecimento d'essa confirmação em Li&boa deve
ser um simples producto do seu espirita vaidoso. De outro la-
do, é certo que O!l portugueses da Abyssinia e da lndia o ti-
veram geralmente na conta de patriarchs. 2
As mesmos faltas de exactidão, e a mc!lma tendencia a
encarecer a propna importancia, encontnmos na parte relativa
á !':UB embaixada 8 Lisbo!l. Segundo ellc diz, pintou com lle-
gras cores 8 D. João 111 o estaJo da Ethiopia, e n'isso não fez
mais do que dizer a verdade, pedindo-lhe favor e au:tilio para
aquelle povo christão; e rogando-lhe em nome do Negus lhe
mandasse gente de guerra, com s ajuda da qual se defendesse
do rei de Zeila, 1 e tambem cavouqueiros para romper as ser-
ras e desviar o curso do Nilo, como j4 havia feito em amigo!
tempos o seu antecessor •Eilale belole• (L.llibal!i). Ou trazia
da Abys!linia esta ultima recommcndaçio, ou elle com a sua
imaginação fertil e de!lequilibrada se lembrou de resuscitar
aquella velhissima historia.
D. João 111- continua Bermudc.z-attendeu o seu pedido,
e mandou-lhe dar quatrocentos c cincoenta homens, espingar-
deiros e cavouqueiros, a quem fez varias mercêt, e dos quaes
elle {Bermudez) ll(lmeou capitão Pedro Borges Anriques. Tudo
estava prompto a seguir na armada de D. Garcia de: Noronha
(•538), quando Bermudez adoeceu, julgando-se envenenado, e
• A bull12 vem tranu:ripla pelo pedre B. Telles, Eth•opiiJ a 11l1a, liv. u
1
cap.21.•
.1 Digo porque o proprio Bermudez confesu, que alsuaa
o nio tomavam a serio. DI& elle (pas. 127), ralando dos •instrumentos llu-
u:nticos•1 que o papa lhe mand;!ra paasar
1
•· •• os quaes perdi com mui-
tas outrtl .::ousas oa batalho em ij dom Christov.iio foy preso, e porque os
n!o mostro zomba5 de my•.
l O GrAnllc nlo era re1 de Zeila
1
nem de Adel; maa esta conrusão foi
feita por outros cscriptores portuguozes.
Pedro da Copillu:n
lunçando as suspeitas d'este crime sobre o pobre Saga
que francamente não julgamos capaz d'isso. Mclhor.mdo,
rém, seguiu para a lndia no anno seguinte com Pedro Lopes
de Sousa; e por lá andou com D. Garcia de Noronha, tratando
sempre da expedição é Abyssinia, até que D. EstevDm da
Gama o levou (1341) na grande com que foi ao mar
Vermelho, e cujo fim principal era conduzi! o a elle, parriar·
cha, e á sua expedição, que estava dtfiniti\·amcme organisada.
Tanto assim, que em J\.lassaua, querendo D. Estevam nomear
commandante d'aquclla expedição seu irmão D. Christovam,
só o fez depois de ter com ellc (Bermudez) todas es attcnções
1
pedindo-lhe e mandando-lhe pedir por vario" fidalgos, que
desistisse da sua escolha e nomeação de Pedro Borges Anri·
qucs. Até aqui o que conta Bennudez.
Do mesmo modo que na historia do patrisrchndo, ha D'csta
narrativa muita coisa inacceitavel. Segundo dizem todos os
nossos escriptorcs, 1 o fim principal da vinda de D. Esrevam
da Gama ao mar Vermelho era a destruição dos navios dos
turcos, que então se estavam apparelhando cm nrios portos
d'aqucllc mar, principalmemc em Suez. A expediçlio ao inte·
rior da Abyssinia só foi decidida cm MassauiA, depois de uma
entrevista com o Bahr Nagâch, e de por este se saberem bem
ao certo as circurnstanciail e difficcis cm que se en·
centrava o imperio christão. Nem D. Estevam da Gama viera
especiahnente ao mar Vermelho trazer o patriarcha c a expe·
dição, nem esta fôra definilivamenre organisada cm Portugal,
nem mesmo na Jndia. Tudo isto são invençl5es ou ampliaçõe,
do vaidoso João Bermudez:. Ha sobretudo os factos de o rei
lhe ter confiado a nomeação do commandante, de elle ter es-
colhido Pedro &rges Anriques, de D. Estevam da Gama lhe
ter pedido licença para nomear seu irmlio D. Christovam, fac·
ms que carecem absolutamente de confirmação, e são de rodo
o ponto inacreditaveis.
• DioflO do Coulo, AJia, v, v11
1
4.• a 11.
1
; D. Joio de Castro, Rorriro
de Goa a Soer i Misuel de Cananhoso, Hur. das cousas gue fet D. Chril·
to)lã.o i o padre Pero Pae1, na Ethiopia a alta,
O palriarcha D. João Berm11det. J117
Mss, por outro lado, niio é possivcl negar, que Bcrmudez
se occupou muito na India da exped1cão; que em Massauli se
empenhou quanto poude para que esta fosse despachada ; e fi-
nalmente a a'ompanhou na qualidade de pntriercha, ou
menos reconhecido como tal. 1 Dando todos os descontos d.
sua vnidade ingenim, adminindo que elle fez a dccima parte
do que diz, ainda o devemos considerar um dos agentes pnri-
cipacs em um facto interessantissimo da historia porttlgueza
no Oriente.
O facto tinha effectivamcnte o maior alcance. Depois da
cmrad.l na de Pc.lro Covilhan, só c isolado; de-
pois du entrada aUi de D. Rodrigo de Lima apenas .:;cm o pes-
soal da sua embaixada i cmrnvo. agora um corpo de quatrocentos
portuguezcs armados, capitaneados por vnrios fidalgos c pessoas
principacs, e commandados p.Jr D. Christovam d.1 Gama, ir-
mão do governador da lndia e filho do Conde Almirante. E
este troço de portuguezes ia salvar, ou-para não
mos- ia contnbuir para salvar d1 ruina completa o grande
impcrio christão da Ethiopia. Consolidaram-se assim as boas
relações de nmizndc ja\ olli estabelecidas, c alargou-se a uma
das mais interessantes regiões de toda a Africa a esphcra da
influencia de Portugal- para nos servirmos de um termo da
moderno linguagem da diplomacia colonlal.
Njo vem para a historia da c.ampanha de D. Christo·
vam da Gama c dos seu! ponuguezes na Abyssinia, historia
que sa1ria dos limites nnturaes d"este nosso estudo; e, alem
d"isso, a ser deti..Ja c dcviJamente contadJ, daria assumpto
para um volume á pnrte. Unicamente, pois. resumiremos cm
brcvissimas palavras alguns dos seus principnes !!Utcessos.
D. Christo\·am, 110 subir oo pl •. malto, encontrou-se alli com
a rainha Sabia Uangc!:l ('-"lfpt"g<l do eJPaflgeiiJo), ::r. que eDtão es-
r Veja-se Gaspar CorTe!a, nas Ltrrdas, de todos os escriptores porlu•
RUezes o que mais aprrosimadamente confirma os ditos de João Bermudez.
Alguns dos 't'elhos escrirtores ror1usueses escrever•m •Sabele a
Enp;el•; e. enf!&nados vor uma certa de som, traduziram l$11·
btl do E"a"gtllro.
Pedro da CoVJ1han
tava rerugiada em uma ambá, não muito distante de Debaroã.
Esta rainha era viu\·a de Lebna Dengel, fallccido alguns me·
zes antes (2 de Setembro de I54o), e m.lie do novo Negus,
Galáudéuós ou Claudio, o quallie encontrava então muito dis-
tante d'alli, em terras do Choá.
Junto agora com a rainha e com algumas tropas ahe..'tins
fieis do Bahr NugO.ch e do Tigré, D. Christovam, depois de
passar o inferno ou estação das mais fortes chuvas, foi se-
guindo seu caminho para c sul, tomando na passagem \"arias
posições e serras, occupadas pelas guarnições do Gránhe, en-
tre estas a celebre Amba Sonayt, ao pé da qual o padre Al-
vores havia passado uns fillte annos antes.
No dia 4 de abril de 1542, os ponuguezes e abe1ins Cll-
contraram-se com os mouros, commandados pelo proprio Grã-
nhe. sendo este desbaratado e ferido. E, repetindo-se o combate
alguns dins depois, a vantagem ficou tambcm do lado dos nos-
sos. O Gránhe retirou para o sul; c D. Christo,·am, Diío po-
dendo scguil-o porque as chuvas havinm recomeçado, tomou
e occupou algumas posições imponantcs no que os nossos es
criptorcs a •serra dos Judeuu, isto é, na região das
altas montanhas do Soimen, a oeste do Takazzé. Pelo seu lado,
o Grânhe recebeu, durante esta interrupção das hostilidades,
grandes rerorços de •turcos arcabuzeiros• e de armamento.
Quando de novo se enc.oruraram, no 28 de ago!'>tO de •&a.2,
dia dn degolação de S. João Daptista, o GI"ânhe alcançou uma
vic1oria completa, não obstantt:: os prodigios de valor de todos
os portuguel.es e muito paticularmcntc do seu commandantr
D. Christovam, que foi faido logo no começo da acção. Na
confusão da retirada já de noite, D. Christovam perdeu-se do
grosso do exercito, acompanhado apenas por quatorze portugue-
zes; foi preso pelos mouros ; e foi morto depois, dizem que
pelo proprio Grãnhe, tendo-lhe antes feito mil injurias e affron-
tas, que clle soHreu com a .serenidade c firmeza proprias de um
christão e de um fidalgo portuguez:.
Os portuguezes, escapados é batalha, ficuram com a rainha,
e operaram pouco 1empo depois a sua juncção com as tropas
O palr'iarc11a D. JoãtJ Bermmle; .J29
do negus Claudio
9
o qual do sul veiu ter illquellas terras do
Sllmen. D"alli marcharam jumos eo encontro do Grànbc já no
mez de fewereiro de 1543. No dia 22 d"aquelle mez (28 de·
yácatit do anno de 7033 pelo kalenderio deu-se a gran-
de batalha em Uaina Daga (a collina da Jlirrha}, a lesre do
lago Tsana. Os portuguezes, em numero de cento c tantos, 1
estavam desejosos de vingar a morte de D. Chrisrovam, e pe·
diram para marchar na vanguarda do cJ.ercito abcl'im, sessenta
d"ellcs a cavallo, c os rest:mres a pé com os seus arcabuzes.
No mais forte do1 batalha, por entre o mato da encosta de
Z.intará, vindo o Grãnhe á frente animando os seus, os por-
tuguezes, que o conheceram, dirigiram contra as pontarias,
ccarrcgaram sobre elle com as espingardas i, acertando-lhe com
um pelouro pelos peitos, ferida de que cite logo cm seguida
morreu.,_
A ferida e morte do Grilnbe de1erminou a liberraçlo da
Ethiopia. As tropas turcas e mouras, sem cobesão, mantidas
apenas pelo prestigio pessoal do seu cbefe, dispersaram-se.
Na imagem fe.l1z da Cln-o,ica erbiopica, as csuas tropas dissi-
param-se como o fwno e as cinzas de um forno•. 3 E os abe ·
• •Ate! • diz Miguel de Castanboso.-•Cento errin•
ta•, diz umiil CllrtadoDegusCiaudiDII D.JoaDlll, publicadiil nos A11no2t'.S de
D. JOOo III, por fr. Luis de Sousa.- E5la carta, impressa 11mbem por Gra-
ça B11rreto, parece esrar muito mal traduzid11 e mullo deturrada.-Alem
d"esle!i cento c: trlma ponuguese!l, presente!! na batalha, ha"ia entlo mais
uns rara os lados de Mass11.uõl, e outros dispersos. De duzentos
a trezen1os liiO todo; os outros tinham morrido nos combates, priocipel-
mente n"aqueUe em que foi morto D. Cbristovam.
J D. hão Bermu.!cz dJa, que o matou um Pero de Leio, antigo c:rea-
do de D. Chnstovam, de um tiro de arcabuz.- Gwspar Corrêa diz, que
um soldado, chamado Jolio Galego, se meueu por entre os mouros, e foi
disperar o seu arcabu.r: nos reitos do rei.- Mi1uel de Canaoboso diz, que
aunca se soube bem ao certo quem lhe acertara ; e ' o que parece mais
prova,·cl. -Em toJo o caso, o Grinhc {01 morto por uma bala; e no
exercito abe1im a6 os portuguezes usaY8m arm,u de foRo.
l Chronrque, p. 11:1, tr. de Basset.- eU succomba
1
Grfu\ alatroisieme
beure, nn mercredi, ses uoupcs se comme la fum6e et la ceo-
dre d"un fouraoau•.
..
3Jo
Dos, qoc:, por medo ou inlcre11sc, se bariam submcuido aos
mouros, 'ficram 83ora de oovo para o pcnitmceando-sc
·da passada triição com ruim desculpas- •com soas desculpas
roins de po1'o desleal•, como diz \liguel de Cananboso.
Nio podcriamos. sem anribmr uta libenação
do imperio abcUm .t simples c c:r.ctusin intcrvcoçio do5 por-
tuguues. Por mais ...alcntu, asuerridos, bem armados c bem
commandado5 que cUes fossem, o seu numero era demasiado
pequeno para que s6 a clle.s se deYcssc:m as Yictorias alcança
4
das. HOUYcclaramcm:cn'aquellc momrotoum.a forte reacção do
espírito patriorico do5 abcxins. Mas C5tl. reacção fOdc-sc- c
agora sem ã cotrada do5 portuguucs.
Aquclla chegada de au:r.iliarc.s christios, Yindo5 de: remotas c
mal conhecidas terras, deve se ter considerado prowideDcial.
No animo abarido, supersticioso c zelosamente cbristão dos
abcDns tomou as proporções de um socorro divino. Depois,
estes auxiliares, munido:s de arcabuzes e de anilheri11, vinham
lambem egualar as condições matcriaes do comhare. AtC en-
tão, as poucas centenas de arcabuzeiros rurcos, que o Gr•nhe
trazia comsigo, bariam constituido a sua principàl supcriorida ·
de. Os abexins, indubitavelmente· valentes, mas armados
nas de lanças e escudos, não resistiam li.s ao roido
da1 bombardas, is balas que matam de longe. Agora tinham
tambem bombardas, e berços, e balas do seu lado. Descor-
çoados pelos longos annos de successivas derrotas, cobraram
coragem. A' chegada de D. Cbristovam, a desolada rainha Es-
pig& do Evangelho saiu da sua ambá inaccessivd, e as uopas
dispersas pelo Tigré vieram juntar-se em volta d"ella e dos
portuguezes. As derrotas do Grénbe em abril augmentaram a
primeira impressão. Estava quebrado o condão. A noricia d"cs-
tas victorias levou o Ncgus a mar.:har para o norte. e agru-
pou cm volta d'clle mais adberentes. Um momento, a morte
de D. Olri.stovam c a batalha perdida em agosto vieram pôr
tudo em duvida. MaS em Uaina Daga, um punhado de ponu-
guczes, absolutamente decididos a ficarem alli ou a vingatem
o seu capitão, viu cabir és suas balas o terrivel Gránhe e dis-
O plltnarcha D. João .3.3z
penar-&e o seu exercito. O negus Claudio ficava de novo se·
nhor da Ethiopia, não pela simples força material de cento c
tantos homens, o que era impossivel; mas pela sua força unida
t\ sua influencia moral.
Por certo, quando D. João 11 mandava Pedro da Covilhan
procurar umPresteJoioproblematicoa terras incertas, não po·
dia prever, que uns cincoenta e tantos annos depois os ponu-
guezes iriam mamer e restabelecer no seu throno o proprio
Preste João. Invertera-se o que imaginara nos remotos tempos
da Edade media o bispo Jayme de Viuy, o que i.masJ.navam
mais recentemente D. Manuel, Leão x e Duarte Gaivão- o
Preste não viera defender a Christandade, e pelo contrariG fo·
ram os defendei-o a elle dos ataques dos infieis.
Derrotado e morto o Grãnhe, consolidada a auctoridade do
Negus, os ponuguezes ficaram com este, gosando naturalmente
um favor bem merecido. E com os portuguezes ficou o nosso
patriarcha D. João Bermudez, continuando a não dar provas
de muita prudencia e muito tacto.
Bermudez tomava inteiramente a seria a sua diguidade de
patriarcha, e mostrou-se muito zeloso pela relisJ.ão catholica,
.se bem que de um zelo um tanto precipitado c imtempestivo.
Já antes da batalha de Uaina Daga, elle havia insistido com o
Ncgus para que este prestasse obediencia é Santa Sé, e como
o se recusasse, observando-lhe que o não reconhecia
por seu prelado, c unicli.Dlente por prelado dos Frangucs
1
Ser-
mudez destemperou e disse-lhe na cara, que •mentia. e o bs-
via por cexcommungado malditoo. E' claro, que taes violencias
de linguagem não eram o meio mais proprio de convencer um
soberano moço, orgulhoso, c aferrado és suas doutrinas jaco-
bitas. O Ncgus, porém, necessitava dos ponuguezes
1
e as coi-
sas compozeram-se por aquella vez. Conta-nos mesmo Ser-
mudez, que a rainha se veiu pôr de joelhos deante d'elle, e
pedir-lhe perdão em nome do filho, o que me parece ser mais
uma das suas vaidosas invenções.
Começadas assim as coisas, facil serã imaginar como con-
tinuaram. Bermudez parece ter sido, pelas suas phantasias e
Pedro da Covillran
imprudcncias, o pnncipal culpado em rodu as diseordias dos
portuguezes com o Ncgus, c llns com outros.
A principio, c u·isro de acordo com o Ncgus, rUe havia fa-
vorecido as prclc=nçi5es de Ayres Dias é successão de D. Chris-
rowam da Gama. • Ayres Dias, o mesmo que uns vinte annos
antes tinha andado com D. Rodrigo de Lima pela Abyssirua
em posição muito subalterna, er.a, como dissémos a seu tem-
po, um mularo de Coimbra. A sua escolha foi muito mal vis-
ta. Entre os duzentos e temos portuguczes, que alli ficaram
"depois da batalha de Uaina Daga, havia varias fidalgos, c ha'l'ia
muita gente de bom sangue, ou pelo menos de puro e limpo
sangue porlugucz; e naluralmente todos se doeram de serem
commandados por tlm mulato. Houve sobre isso 'l'a[ias contes-
tações, cm que tomou uma parte activa Miguel de Castanho-
so, ficando este c os mais dos portuguezu desuindos com o
patnarcha.
Mas tempo drpois, o proprio patriarcha, que havia impru-
dentemente favorecido um mulato nada recomcndavel, esta,·a
a ferro e .u fogo com ellc. A yres Di os, pouco escrupuloso e
muito dcsejo!O de conservar as boas graças do Ncgus, fez-se
jacobira, tomou o nome de MJrcos, c declarava insolentemente,
que era capitão do Ncgus e não do rei de Portugal. Suscita-
ram-se sobre isso scenas fortes, a que Affonso do França poz
um dia termo, levando Bermudez da tenda cm que estavam,
dizendo lhe:
-Bons sinaes mostra o mulato; "amo-nos embora ames
que nos acouceic, que o mulato ha de respingar.
Desde então, Bermudez lançou-se com o seu ardor habi-
tual no partido adnrso a Ayres Dias, c parece ter tratado de
pôr os ponuguezcs cm revolta abcna contra o Ncgus. Isto en
1mprudcnüssimo, pois os por[uguezes não passavam de ser
um punhado de homens, mettido no fundo da Abys!!linia; e,
1 Esta questlo dos suCC4!SSIVOJ commandantes dos poriUsuescs depois
da morte de: D. Chr1110vam I! muito comr1icada, e as notici.as muito con-
lrJidiciOrial, de modo que a nio p o d e ~ o s deslindar n'e1ne rap11io resumo.
O pat•·it:trcha D. João Bcrmudt{ !J!J!J
além de imprudentissimo, era uma ingratidão. Por outras fon-
tes, rouim roais dignas de credito que as palavras de Bermu
4
dez e nada suspeitas, nõs sabemos que o negus Claudio foi
um homem justo e bondoso, sempre reconhecido e favoravel
aos soldados da expedição pormgucza. 1
Por maio:- que fosse, porem, a sua paciencin, acabou por
desterrar Bermudez i mas dando ainda ao desterro a c ar dt
lbe conceder um feudo ou gullo em terras asperas e afastadas.
Deve ser por esta occasião, que o Negus se mandou quei-
:r.ar a D. João 111 do chamado patriarcha; 2 e lhe deu tão boas
· razões das suas queixas, que o rei de Portugal reconheceu n
justiça com que o mandaria marar, e unicamente lhe pediu o
nãÕ fizesse, cm anenção i dignidade de patriarcha de que
usava, posto que indevidamente, pois isso serta •grande des-
credito na christando.de•. E não s6 lhe pedia tivesse pacien
4
cia, mas lhe promenia mandar-lhe um verdadeiro patriarcha,
• . . • que seja tal e de ui zelo c bo:n exemplo de "ida que
nestas cousas todas possa e saiba servir b_!:m nosso scnqon. 3
A condemnaçõo de Jo§:o Bermudez podia ser roais com-
pleta.
No emtanto este ficou muilos mezcs no seu desterro, entre
gente barbara e serras incultas, que. sabendo lá da morte de
Ayres Dias, conseguiu safar-se e voltar a côrte com um Fran-
cisco Mattheus, o mesmo que vime e tantos annos antes
a Abyssinia como cread"o do embaixador Mattheus. O Negus
1 Pelo testemunho dos proprios jesuila!l, nl\da suspeitos de favoraveis
a ClaudiO, que se conservou aempre um jacobitl zeloso.- Alem d'isso.
relo que conta Dioso do Couto, nõs vemos como ot (lOrtuguezes foram
sempre favoreciJos e cons1deradoa por elle .
. a Deva ter sido nas c:arlQS que trous.e Miguel de Cast.anboso no anno
de 1S. .. 4; c O. João 111 lambem se funt.!aria nas verbaes do
proprlo Miguel t.!e Cttsunhoso.- Por este 1empo Yieram lambam pela via
de Jcrusalem uns frades abnins, trazendo cartas do Nesus. Foram depois
4 lndi1
1
a D. Joio de C..:as1ro, p1ra ute QS enviar • sua terra;
Yeja-se uma carta de O. Joio 111 a D. João de Castro, na Vi.:la d'este, ed1çio
Je fr.Francisco de S. Lui1, 419.
l CartD, jj aotes cnada, datada de Almeirim em 13 de março de 1546.
'Ptdro da Dm1h1111
recebeu mal João Bermudcz, o que era natural; c, como que-
ria tudo menos trazei-o comsigo, cnrregou-o a um senhor abc-
sim, para o ter na sua guarda. De novo, passado algum tem-
po, Bcrmudcz fugiu c voltou â côrte sem licença. la então
queixar-se da vinda de um Papas ou patriarcha jacobira, cha-
mado Josl!, que acabava de chegar de Alexandria. Estc ultima
golpe parece ter-lhe sido panicularmcotc scnsivel. Não só o
Negus se recusava a reconhecer a sua dignidade e a prestar
obcdiencia ao papa, como dava d'isso uma publica demonslra·
ção, pedindo e obtendo da Egreja jacobita do Egypto um novo
abuna.
A entrevista de Bcnnudez com o Negus foi tempestuosa ;;
c este, perdendo completamente a paciencia, esteve a ponto
de o mandar encerrar para o resto dos &cus dias cm uma
ambá ou rochedo inac:ccssivcl. Valeu-lhe a intercessão dos ou-
tros portuguczcs; c, encurtando raz6c:s, Bermudcz andou de-
pois de um lado para o outro, sempre em desfavor, refugian-
do-se afinal cm Debaro4, onde ficou dois annos. Veiu alli ter
com cllc o padre-mestre Gonçalo Rodrigues da Companhia de
Jesus, enviado 4 Abyssinia pelos motivos que veremos adcan-
te, c com este passou tempos depois ã lndia.
O principal motivo que. sem duvida, determinou Joio Bcr-
mudcz a sair então da Abyssinia, deve ter sido-posto que
elle o não diga -a noticia que lhe deu o padre Gonçalo Ro-
drigues a respeito da nomeação de D. João Nunes Barreto para
patriarcha da Ethiopia. A sua situação tornava-se insustentavel.
Nem cta re:onhecido cpmo patriarcha pelo negus Claudio, que
tinha lá o seu abuna Josef, nem era tambem reconhecido pelo
papa e pelo rei de Portugal, que de acordo mandavam agora
um verdadeiro patriarcha.
Bermudez embarcou, pois, para a lndia e de lá para Por-
toga!, onde chegou no anno de 1 SSg, depoi:& de uma demora
de alguns mezcs na ilha de Santa Helena.
Ainda viveu onze annos cm Lisboa, morando em uma pe-
quena casa para os lados de S. Sebastião da Pedreira, muito
retirado mas favorecido e és vezes visitado pelo moço rei D.
O patriarcha D. Jo4o Ber·mude{ .1.15
Sebastião. Alli escreveu a Breve relat6o, imprena oo anno de
1565, e alli morreu já em avançada edade a 3 de março de
•570- Enterraram-n'o modestamente d porta de uma pequena
ermida, junto da sua habitação; e muitos annos depois, no de
•653, por diligencias do padre Jorge Cardoso, erudito auctor
do Agiologio Lusitano, foi o seu corpo trasladado para a egreja
de S. Sebastilio da Pedreira, collocando-se alli uma lapide ou
campa, na qual contillúa a ser nomeado Patriarcha de Alc-
nndria.
Chcglimos assim ao que pareceria ser a conclusão do nosso
estudo, e aos seus limites naturaes. Acompanhámos cm quanto
podémos e pelos escassos dados que temos a vida de Pedro
da Covilhan c a sua influencia nas rdaç6es de Portugal com
o chamado J::Teste João. E acompanhámos depois, como um
reOexo d'aquella influencia, a vida e acção dos seus compa-
nheiros, dos que ainda andaram com elle pela Abyssinia, do
padre Francisco Alvares, c do pseudo-patriarcha D. João Bcr-
mudez. Os successos que seguem prendem-se jé muito indire·
ctamente a Pedro da Covilhan ; no emtanto, as missões porru-
guezas constituem o remate do interessante episodio ethiopico,
aberto pelo nosso viajante. Pareceu-nos, pois, neccssario dar
uma noticia muito breve d'aquellas missões, dos seus resulta-
dos geraes, e da sua infeliz e rapida terminação.
O plano de trazer ao grcmio da Egreja catholica as christan-
dades abexins, já formulado por D. Manuel e Leão x quando che-
gou a Portugal o embaixador Mattheus, detidamente tratado por
D. João m com Clemente VIl e com Paulo m depois da vinda
do padre Alvares, tornou-se natural mente m11is definido quando
se conheceram os successos da eKpedição de O. Christovam
d& Gama. Soube-se então, que o Preste João ficava restabele·
336 Pedro da Copi/harr
cido no seu throno, c com elle fica\'am duzentos a trezentos
ponuguezes, fa\"orecidos e influentes. E soube-se tambem. pe-
las canas do Negus e informaçõe' de de Castanhoso,
que os interesses religiosos ficavam alli muito mal entregues
nas mãos do imprudente D. João Bermudez. Activaram-se.
pois, as negociações já amigas do rei de Portugal com o papa
e com o gel·al dos jesuítas, resultando d"essas negociações 3
nomeação e confirmação do padre Joâo Nunes Barreto em pa-
triarcha d.1 Ethiopia, do padre André de Oviedo em bispo de
Hierapolis, e do padre Belchior Carneiro cm bispo de Nicéo;
e a escolha de mais outros padres e irmãos da Companhia
para os acompanharem.
Joio Nunes Barreto e Belchior Carneiro nunca entraram
na Ethiopia e não passaram da lndia, por que, man-
dado ndeante o padre Gonçalo Rodrigoes .sondar as disposi-
ções do Negu!.. a!. informações que este trouxe foram pouco
fevoraveis, e levaram a não arriscar desde logo a idn do pa-
rriarcba, que podia ser mal recebido. André de Oviedo, po-
rém, partiu para alli no ermo de 1S!t7, e por lé ficou 4 sua
mane, primeiro como "bispo, depois-pelo fallecimemo na
lndia de O. Joüo Nunes Barreto- como parri11rcha.
O. Andrc de Oviedo, jesuíta hespanhol, era um homem
bem diverso de João Ucrmudez, desprendi.:io das vaidad.:s do
mundo, um verdadeiro missionaria, illusrrado c zeloso, de vida
austera e costumes exemplares, talvez dt:masiado ríspido. E
todas as suas boas qualidades lhe foram necessarias no desem-
penho da sua difficil e dupla tarefa. de confonar e manter na
fé catholica os numerosos portuguezes que por 14 andavam, e
de duviar os abexins du• erros eutychianos.
O primeiro lado da tarefa foi relativamente facil. Ao des-
na Abyssinia, e ao seguir seu caminho para o acam-
pamento do Negus, o bispo catholico foi-se encontrando com
os velhos soldados de O. Christovnm dn Gama, que de todos
os lodos saíam a recebei-o de braços ou o alojavam
e tratavam carinhosamente nas suas casas. Vieram ao caminho
Luiz Custodio, Gonçalo Ferreira, Jorge de Hsrros, Gaspar de
?As missões dot jauitaJ
Sousa de Lima. AtJonso da França Moniz, Diogo de Alvellos
da Azinhaga, Símio dO Soveral e varios mais. E todos ou
quasi todot se apresentavam prosperas e ricos. Alguns vinham
montados em bons cavallos, seguidos por trinta lacaios arma-
dos. Outros traziam comsigu as suas mulheres abexins, sobre
formosas mulas com gualdrapas de brocado : c cllas ricamente
vestidas, em roupas de velludo preto, calções mouriscas de
seda com bot6es de oiro, altos chapéos na cabeça. •
Com a facilidade especial dos portuguezes cm se amolda-
rem a todas a• condiç6es de vida, c com a sua tendencia, imi-
tada do sabio Salomão, a encontrarem attractivos nas mulhe-
res de todas as c6res, a grande maioria havia creado familia
nos seus gultos. O bispo era chamado a cada momento a fazer
casamentos, legitimando uni6es amigas, ou a beptisar catholi-
camcnte c chrismar rapa.zotes iiil crescidos, de quatorze ou
quinze annos, cruzamentos do bom sangue portuguez com o
sangue negro da Eth'iopia. :a Tinha cflectivamente havido nos
ultimos annos uma larga infiltração de influencia e de sangue
portuguez por toda aquella terra, estendendo-se de modo sur-
prehendente és regiões mais afastadas, c aos cantos mais re-
motos do grande imperio. 3
1 Es1as noticias. devidas principalmente 11. Dioso do Cou1o e lendo
todo o cunho de verdadeiras, detmen111m •• •ccuaaçl5e., fei1a1 ao aesua
Claudio por Bermudez e outros
1
de haver detpresado e tratado mal 01 por·
tuguezea.
• Veja-se a Carla do padre Manuel Fernandes ao Geral da Compa-
nhia, ioaerida na l!thitJpia 111 alra
1
p. 168.
3 Encontramo• em um liYro recente uma rrova curioaa de quanlo ae
alarsou ea1io • in8uenci• portugueza. Na regiio de Kaffa, na e:r.-
traaridade • das montanhas da A.byuinia, e hoje quasi completa-
mente selvagem, nisle a tradição de que o fundador da actual dynania
foi um estrangeiro de religilo chri11an, rindo do mar. Ea1e estranseiro le·
ria dei:r.ado alli um• ba11deira
1
ainda hoje precios.ame01e guardada, e que
aó aae I. l'l!& aolemnememe em um dia do anDo. Dois celebres miniooa-
riOt, o capuchinho Maasaj• (depoia carde-al) e o padre Leio das AYaoche-
aes poderem penetrar ou lerTaa de Kaffa no anoo de 18Õo i e o ullimo
poude ver a tal bandeira, e reconheceu aer uma anlisa bandeira portugueaa.
Confirma· se assim a uadiçlo
1
• parece que o fwldador da d}'Daltia de
.,
Panos ftlboo an<da4os brria.....,. do coa-
UCIO com os seus puriàos, o llppDCCiaxmo do bispo c dos
pedrn c.albo&os rei., como ct1l narunJ, uma srandc coruola-
ção. AJgons errot, ou rdu.açio. qoc se bou•cuon in-
voduiido nu suas pralicas religiosas pela 10tJ8a coowiycncia
com os jacobitas, desappareceram prompramentr; c tanto os
YUdadeiros portaguc:zcs, restos da como os seus fi-
lhos mestiços, chamadostambemporlwgar,ts., .-oltaram 6 csacta
obserraccia da rcligiio catbolia, c n'cssa obscnancia pecma-
ntccram anquamo os padres li assistiram.
Com os puros abnins, pocém, as coisas passaram-se de di-
Ycnomodo.
O Rei dos Rcil O.audio, que entio occupan o lbrooo da
AbJS1inia, parece ter sido um homem dotado de a11as quali-
dades de apirito c de: caracter. Dizem isto as Cltrmtir..u elhio.
pi.:as, que são suspeitas. !\las dizem-no tambcm os iesuitas,
que náo sio nada susptitos, por- que cllc nuoca ocm de leve se
inclinou para as doutrinas ca1bolicas. O padre Manuel Fcr-
daoda, por- cnmp1o, affinna ter cUc sido • ..• de sua natureza
muy liberal c dadivoso principalmente cm cousas cfEIRcy de
Portugal a quem K conhecia por- muy obrigado• i c du mais,
que cera pessoa de ser (róra sua pcrfidia), • que ccno
crco, que cm todo o Reyno nam ba•ia homem maas sabio,
Dem majs pera ser Rey, pessoa•. Cumo se yê, o elo-
gio é rasgado c parece ter sido justo.
Obedecendo ás inspiraç6es do seu bom caracta, Claudio
acolheu c tratou sempre depois D. André de Oviedo com a
maior defcrencia. Deixando ainda a palavra ao padre Maoucl
Fernandes: •. • • sempre se houve muy comedidamente com
o bispo, c o tratou de modo, que cm quanto wivco, nam houwc
quem se atrevesse a fazer-lhe desacato•. O elogio continua a
ser rasgado.
Kaffa seria um dos so1dsdos portuguezea, doa que ficaram da eapediçio de
D. ChrilloYam da Gama- veja-se Massaja. 1 • • &J-i di
mis.sio"i Alta Etiopia, v, ?O·
• Eau l'"fi4i.2 era o seu zelo pela fli J&CObitL
cds mi11ôe'! dos ;esuitas 33g
Ao mesmo tempo, porém, que o Negus tratava o bispo
com deferencia, respeito e mesmo amizade, resistia energica·
mente aos seu• esforços de missionario. Claudio era um zelo-
sissimo jacobita, intimamente pegado á fé de seus avó! c do
seu povo. Como seu pae, Lebna Dengel, parece ter sido muito
versado e lido nas questões religiosas e theologicas. Nus re-
nhidas controversias, que então se travaram entre frades abe·
xills e padres portuguezes, o Negus mostrava-se sempre mais
instruido, mais eloquente, melhor argumentador que rodos os
seus frades. E n'estas controvcrsias, nem clle, nem natunll-
mente os catholicos se declararam nunca vencidos. Os meios
suasorios e brandos de que D. André de Oviedo primeiro
usou, as censuras que depois fulminou contra os scismaticos
jacobilas, nunca consegtllram um só momento abalar as cren-
ças do Negus. E se elle não cedeu, menos ainda cediam os
seus padres e frades, que esses odeavam o bispo catholico. 1
Claudio sentia tão bem esta animadversão geral, e tinha tanta
amizade a André de Oviedo, apezar de sempre lhe resistir,
que estando a partir para a guerra, onde receava morrer c
onde de feito morreu, dizia :
-Coitado do bispo; e .se eu morro que ha de ser d'elle
Cndmos esta phrase, porque revela uma bondade e uma
delicadeza de sentimentos, absolutamente surprehendcntes em
um rei negro e barbaro.
EOectivamente, como previa Claudio, a sone dos catholicos
peorou DO reinado de seu irmão Minds e no reinado seguiDte.
D. André de Oviedo soffreu muitos trabalhos e de!igostos, sem
tirar graDde frucro da sua missão, mas sem nuDca abandonar
o posto, no qual6cou 4 sua morte DO armo de •577. N'estcs
vinte aDnos em que alli assistiu o segundo 2 patriarcha e DOS se-
• A Clrronrca etbiopka conacrvou-nos os nomes Cle dois, dos que
maia ae na lucta contra os catholicos, Abb6. Zekr6 e Abbâ
Pdulos •
.1 Segundo, em seguida a D. Joio Nunes Barreto, porque naturalmente
nio inc;luimos João Bermuda• na lista.
tpDma, poucos jcsuitas GIU'II'aDl aa Ab,plioia a reforçar ou
mbltiruir 01 que cllc Jcyara comsiso 1 e os que de novo para I'
IC dirigiram, vusanm lf&ftl pcrip DI. iornada, ou pag&r8m
o seu .zelo com a rida. Os camiabos estawam quasi fechados.
O poder mariJimo dt Ponupl decn:scia a olhm ristos ; c os
IW'COs achawam-:te scobora absolutos do mar Vermelho e dos
ponos da costa africana. Scri dCSDCU!SU'io dUcr, que a pcn·
peain d'aqudlcs perigos o.uoa dcmo...eu os padres do seu io-
wno. Quaesquc:r que sejam os juizos. que, SIOb ouuos pontos
dt YiS1&, se tenham formado ou se possam formar dos missio-
mrios cm sc:ral c dos miasiooarioc jcsWtas an particular Jl justo
i rcc.ordar, que a abocg.açáo, o despreodimcato dt si, o des·
prezo completo doo perip c da morte furam qualidades entre
cJiea IIOIICO desmenãdas.
Mais urde, ji DO 6m do scculo e priocipio do seguinte, en-
traram alguns padres, e cmrc estes mcrccc especialissima men-
çio um jcsWta bcspaobol, o padre Pcro Pacs. Sobre ser dt
grandla.sima Yirtudc, era um bcxncm dt muita de
clara iDtclligcocia e dt cnersiL Depois de lon-
gas c pcrigoau ucoturas, Pcro Pacs cooseguiu chcsar .. Ethio-
pia DO anno dt 16ol. Não procurou desde logo aYislar·se com
o Negus, mas foi pelo cootrario fixar-se modests c obscura-
mente an Frc."llooi, que ji então era c ficou sendo o quartel
gcocral doe jesWtas oa Abyssinia. • AJli se occupou alguns me-
zes an cnsiPU' 01 rapazes abains, trat&Ddo ao mesmo r:empo
dt eatudar a lingua wulgar .. e tambcm. o sccz., lingua classic.a
e ccclcsiasrica, oa qual se tornou depois u:ln!:ID.am.cnr:e 'Ier-
sado. Ajudava-o n"cstc estudo o conhrcimcnto comp1cto, que
ji anteriormente tlnba da liDgua arabica. pois cm wna pri-
meira tcntatin para penetrar na Elhiopia havia ficado scr:e
anoos captivo na Arabia.
• Frtllllllllt.6 fican ao chamado nãao do Tige, a peque111 distucia da
actual poyoeção de AduL- Parece "iJUe Add. alo esistill ealio, ou t!ra
um lopr importa.Deia., e o &eunomelllio6pnau.çanq
e rdaç6a doi padres de CompcDbll.
c4s mi'ssões dos jesuiltU
Assim preparado, o padre Pera Paes, ao avistar-se depois
com o novo negus Za Dengel, por outro nome AsnAf Sagad,
soube tomar rapidamente uma grande influencia no seu espi-
rita. Za Dengel mostrou-se em seguida muito favoravc:l aos ca-
tholicos e muito inclinado para as suas doutrinas, escrevendo
n'este sentido ao papa Clemente 'VIll e ao rei de Portugal,
que então era Phelippe w •. Se não professou clara e
mente a religiio catholica, foi considerado pelos padres um ca-
tholico de vontade e intenção; e do seu tempo data realmente
o começo da preponde,·ancia dos jcsuitas na Abyssinia.
Por morte de Za Dengel (1604), e depois do breve e dispu-
tado governo de um certo Yil.eqôb em um periodo de anar-
chia, tomou po!!le do throno Suscnyos (Socin.ios) por outro
nome Sehân Sagad. O seu longo reinado foi propriamente o
reinado dos jesuitas. O padre Pero Paes conseguiu ter sobre
elle egual ou maior influencia do que havia tido sobre Za Den-
gcl ; e durante a vida de Pero Paes, ou depois da sua morte,
muitos padres da Companhia vieram auxiliai-o ou continuar a
sua obra. Alguns d'estes padres eram italianos ou hespanhoes1
mas a maior parte pertencia é naçáo porruguczo, havendo en-
tre estes homens de grande valor- Entraram por aquelles tem-
pos e successivamente na Abys.!oinia
1
o padre Antonio Fernan-
des, natural de Lisboa, o padre Luiz de Azevedo, de Chaves,
o padre Manuel de Almeida, de Viz:eu
1
o padre Luiz Cardeira,
de Beja, o padre Manuel Barradas, de Monforte, o padre Jero-
nym'J Lobo, de Lisboa, c muitos outros. E entrou tambem o
terceiro patriarcha, D. Alfonso Mendes, egualmentc da Com-
panhia de Jesus, natural da pequena aldeia de Santo Aleixo,
pro1.ima de Moura.
A grande empreza da conversão da Ethiopia progredia, ou
parecia progredir prosperamente. Susenyos escreveu Cil!tas
muito explicites ao papa Paulo v e a Philippe m ; c afinal ab-
jurou todos os seus erros jacobita:s, confessando-se ao padre
• Phellppe 11 diz o padre Tellea i e efl'ectivamentc era acsundo de
Portusal.
Pedro da 0Jvr11ran
Pera Paes, e fazendo e.1pressa e publica profissão de catholico
apostolico rom11.no.
Protrgidos e apoiados ostensivamente pelo Ncgus, O! padrr:s
trabalharam activamenle na transformação ma1erial e moral da
velha Eduopia, sendo sobretudo dirigidos, emqunnto viveu,
pelo zelo incansavc:l e pela Brande actividade do pedre Pero
Paes. Fste empn:hendeu elli variadas é maneira
europl!a. Levantou, por exemplo, uns paçru para o Ncgus,
constando de rez do chio e primeiro a11dar, coisa nunca 1'ista
pelos flbnins, e tonto que nem tinham nome na sua lingua
peralhe darem-chnmoram-lhe a ca;a sobre ca;a. Na falia
abo;olutn <.1e operarias peritos, o padre dirigiu rude, fazendo-se
architeclo, pedreiro, carpinteiro e ferreiro, e trabalha11do com
as suas proprias mãos para os seus aprendizes abc:tins.
Acabados ru paços, occupou-se cm construir uma egreja cm
•Gorgorra• (na região de Dcmbea), que ficou •muytoperfeita,
muy proporcionada e muy engraçada •. Só lhe faltava a cal, mas
eUe tinha encontrado um barro fone, com que as pedras fica-
vam bem unidas e E 4 semeUw.nça d"esta csreja
se levantaram dcpo1s outras, ou imeiramentc novas, ou pela
odopreção de antigos edificios. • Nem foi simplesmenre pnra
as consrrucc;;óes pelacianas ou religiosas, que. se voltou a auen-
çio dos pedres, pois abrir.alll estradas e. lançoram algumas
sobre os rios, o que ru abexin" nunca se tinham lcm·
brado de fazer antes, e. nunca mais ae lembraram de fazer de.-
pois atC aos nossos dias. 3.
Ao mesmo tempo, os jesuítas proscguiam Da empreza, tão
bem começada mvitos annos antes pelo pedre Francisco Alva-
res, de tornar conhecidas da Europe e Jas nações civilisadas
' Da eBreja que • no começo do capllulo, diz o sr. The-
doro Benr. que a yju e fitturou em r8g]: •· .. 11 was erected U[lder Portu-
suese influence ..• the rresc[ll church is \'ery like a Portuguese
structure ...•
" A poa1e sobre o Magecb, o rio princ•p•l das planicies mafgin01es do
lago Tsana, resistiu atl hoje ; e por ella se Ca11Cm todas as commumcações
de Gondar com a sul, durante os das chuY'Is.
c4s mirsões dos jesuilas
as mysteriosas terras do Preste. João. O padre Pero Paes foi
ãs nasceml!s do Abaui ou Nilo azul. O padre Anrooio Fernan-
des fe:r. uma aventuroso viagem para o sul, ás tc=rras de Enna-
ria, de Gmgero e de Cambat, onde at.! hoje pouquissimos ex-
ploradores teem penetcado. Outros p!:!rcorri.lm em diversos sen-
tidos as provincias mais proximo.s.. Espalhados assim pela
Ethiopia, tomando notas dos seus itinerarios, que depois com-
paravaiT! e completavam uns com outros, conseguiram coorde-
nar mappas de toda a região, incompletissimos Sml duvida al-
guma. mas notavelrmnte exactos para aquellc tl!mpo e para os
ml!ios de que dispunham. •
E simultanesmente mandavam de lá notidos circumstan-
ciadas e tão frequentes quamo o perminia n difficuldade das
communicaçõe!l. Além das Cartas para a Companhia, verda-
deiros relatarias annuaes: dl!ixaram-tlos importantes trabalhos,
publicados ou ineditos. Do padre l\b.nuel Borradas conhecemos
umo. relação do estado da Ethiopia no fim do reinado de Su-
senyos, muito curiosa por entrar em varias paniculoridades
intimu da côrte aber.im. 2 Do padre Manuel de Almeida te-
mos a grãnde obra da Elhropi'a a alta, oinda inédita, 3 mas em
parte aproveitada pelo padre Bahhazar Tcllea no seu conheci·
di:ssimo livro. Hoje, que nas principaes bibliothrcas da Europa
rxistern numerosas codices geez. trazidos por Bruce, por A bba-
die, pelos inglczes depois da tomada de ltlagdala, e que 4
moderna e brilhante rscola de cthiopisantes se occupa succcs-
sivamcnte em os traduzir e publicar, é (acil reconhecer, que o
• Veja-se a d'Et,.iopir rl de l'rmplrr de& abys,11111, dlj
tur lrs lirrur par le$ R. R. Ftre& Af,1nod ;fAinJáda, Al-
fonso Mrndrr, Pera Pays rl Jl!rOfriiPIO (aic) Loba, qur onl drmrwrc- lrmg-
letnps 11rnr• Ir pay•; publicada na .Hi'bl. Je l'Ecole praltiJIIt' drJ Hawltt
.l'tudr•, {a,ciculo g:3
1
{18!)1).
3 O titulo da noucia : Brt'IJt rtlar:io do d.1 E11nopla antr• do
prtg&., r do ltrnpo IJ"' .r l.:mçou, e do rtmt'dJO IJIIt' pgrrJ rllr sr prrtende.
-Logo esplicaremos o (jUC foi es1e pn:são.-Anolicu• faz partedoamu.
do morgado de Vunieiro; Mu. .Hibl. • 7640
1
doe. n- ,],
J .Mu. rortusuczcs do Britislt .Mwscum,n.• 9'!161.
Pedro da Covilhan
padre Manuel de Almeida e o padre Pero Paes, de cujos
criptas o primeiro se serviu, conheceram, cnlendcram c exttl
ctaram fielmente aquelles codices ii nos principios do .J.Yn
culo. •
Especialmente versados nas línguas da terra foram tambcn
os padres Luiz Cardeira c Luiz de Ar:evedo. Junros uadw.i
ram o Novum Te.stamerllum em dialecto amarinha; a c Luiz de
Azevedo occupou-:se tnmbem em traduzir n'aquella lingua Oj
commentarios do padre Viegas sobre o Apoc.ü,-psr c varias ou
tras obras religiosas, assim como compoz uma grammatic
amharica, a primei['& conhecida. Pelo seu lado, Luiz Cardein1
esforçava-se por organisar c regularisar as cerimonias rcligio·
sas. Foi o primeiro que ensinou cantochão na Abyssinia, para
o subsr:ituir aos toques de pandeiros e sistros de que 6lli usa
vam; e redigiu tambem um calmdr.Jrio das·festas moveis, no
qual estabdecia a concordancia do systema abexim com oro·
mano. 3
Alem d'estas obras, devemos mencionar a do padre: Jero-
nymo Lobo, uma larga relação das suas viagem e dos seus
trabalhos na Ethiopia, que nos foi conserTada na UadtJcçlo
franceza do abbadc Legrand, feita cm Lisboa por um ms. do
Conde da Ericeira. 4 E do patriarcha D. Affonso Mendes te·
mos numerosos cscriptos, ca11as c fragmentos, inseridos pelo
• Veja-se o fragmeato da relaçiodo padre Almeida, rellliwo ao reinado
de Zara Yãeq6b, e compare-se com a tnducçio do Snr. PeiT\Icllon; Bill.
4r rEcair 4n l'aac. 113,• •893-Veja-se tambem o
fra,gmento relatiYo ao reinado de MinAs, e comparwe com a traducçl"o da
- Snr. Esteves Perein.; &1. 5«. 4r G. li1bo.:f, 188jo
1
p. 7t-5 alb7.
• Di• aberins possll.iam uma anóquissima versão do Velho e da Novo
testameoto, deMYada da venlo e do le•to sreso:s; mas que rroTavelmeote
nlo pareceu bintante correcta aos oouos padres, os quaes por isso fi•e-
ram uma non traducçlo pela
J Seguodo esta obra I pnwanlmente a conhecida pelo nama
de Habab ReN (ulcwlo rxacto), um manual duonol.os•co. datando do XI.•
uno do reiD&do de Suaenyos. e mencioaado ao Cllltdogo da Wrigbt.
4 Voyagr Aütcmpe 4".-INsifli• R. P. Jrrorul..Mo,lril.lrntrtb. por-
IW8.U par M. L.e Gnac!. Paris el la Haye. •r•8-
missôts dosjrsu1tas
padre B. Telles no seu livro, ou aproveitadas em outras pu-
blicâç6c:s. • E temos uma grande obra theologica c de con-
trove:rsia, o Bran R.:Jymanot, â qual ellc deu a fórma de um
dialogo entre AbaSlir1us e RomauiiS, c onde refuta todos os
erros religiosos dos abexins. :a
Não tentamos, é claro, dar uma relacõo r::ucta c completa
das obras dos jesuiras, c unicamente adduzimos alguns exem-
plos do modo por que alli se manifestou a sua actividade. 3
Mas C facil ver, mesmo pelo pauco que: temos dito, como a
Abyssinia se tornou então mais conhecida do que nunca havia
sido antes, c do que nunca foi depois até aos nossos dias.
Aquclle remoto paiz, fechado havia mil annos ou mais, quasi
desde que cessaram as suas relações com:ncrciaes com os Pto--
lomeus, praticamente desconhecido quando lá entrou Pedro da
Covilhan, mesmo quando lã foram O. Rodrigo c o padre
Alvares, aquelle remoto paiz foi, no periodo de que trata-
mos, estudado pelos padres da Companhia nos seus costumes,
na sua lingua, na sua historia c lincratura, na sua topographia
c productos naturacs.
Progredindo estes trabalhos scientificos c linc:rarios, pro-
gredia t11mbem-na apparencia pelo menos-a obra maior,
c que os padres tinham mais a peito, de implantar a fé catho-
lica no animo c nos coraç6es dos abe1ins. O ncgus Suscnyos
havia abjurado os seus erros jacobitas - como antes dissémos
-nas mãos do pa:Jre Pero Paes, pouco ailtcs da morte d'este.
• Parte d11 carta• e relações da Affon1o Mendes •em publicadaa ou
eatractadas em uma ohra que nio Yi: Hist. th qwi • awroyau-
me ts a"ntl.r rfiu, 1tJ2S, rirtltJ dt!s. le'ti"J "drtsJtt!tl 6111
P. Vittlrschi
1
shliral dt! ltr t:orn,a6nit dt! Jisus, Paris, 1619.
:a Br"n HJyrrunol id rsllux folti, Coloniae Agripinae, -Como
se vf, este livro [oi publicado muno depoi• da morte de Affoo10 Mendes i
e i dedicado pelo• editores ao rei de Ponusal, D. Pedro 11. Foi, porfm,
comrosto na Abyssinia; e d111: me1mo o padre 8. Telles, o nome de
Lur dll (t lhe foi dado por um dos prin.::ipes, convertido ao catboliciamo.
l Sobre os eacriptos dos jesuitas póde vêr-ae, Basset. swrl"AiJI.
tl'Érhioprt; e sobretudo Carlos Sommervosel, B16l. dt la Comp"K"ie' dt
Je'JJJJ, Paris. 18QO e seguinles
1
e aiDda em via de publicação •
••
To:mpo dq>oã, roprãu o pi>lica ...- de: cad>olico em
uon doriplo ., .,.,.., do EWapio, ncrip<o pelo scu
"""'"'""" mas d.........,.. mspindo pdoo podres.. laoisõa por-
liculormattc a"oqudlc: ducamomo aos -
aa quc:stio da IWDI"CU u:sa ca dupla de Jaus Ouisto. dc-
fcoclmdo os cka5óeo elo papo S. Leio • elo coocilio de Chol-
<odoaia. • <DDiloauunolo os ....,.,.... do EutydJés. Dioxoro •
CUD'OS. Pelo maDifatD &:anm coadrnnnctu de fcim rod.u as
douuiaa:s jlcolitas, assim COCDD as lórmas de cuho aré cnlio
uudas.
Jlois nule, qow>do cbcp o p>trilll\:ho D. AftoD.o \loodes
ao .:mo de 1626
1
estas aJilcl'ioces pro6.s.sócs de fC rmoYaram-se
com maior sol=nidade.
No dia 12 de fcTI!Riro d"aqadll= armo, ramidos o patriar-
cba com os KU:S padres por um lado, c o Nq;us com os priu-
cipcs. da cõnc. 'ricc-rcis c sorcrnadoro du prorin-
cias por outro. procedeu-se ã ccrimoaia do jut'amcmo. Alfoaso
Mendes recimu uma pratica_ tuDaDdo por tbcma as coahcci-
das palaYns T• n Pdnd .•.• li. qual respoadeu, cm nome do
o •Mordomo mór Mrlchll • Cucado om.a
clara c a:pticita profiuio de fc atbolita. T crmioadu as ora..
çou. Aft"onso .Mmdes tomou nas mias o lino dos cvaagclbos,
c o Ncgus ajodbou. c jurou. obcdimãa ao ppa l.!rb&Do Ym e
._ KUs auccu50ra. Squi..m-sc a runr, orJem das
SU3S prt:ccdenciu_ IOdos os principcs e grandes E
loBo DO mesmo acto se proclamou: que scriun CUOIDJ:JUD8a•
4ol os que por qlYlqurr fórma rateasse n .tqucllc juramento ;
que todos os padres c frades •bex.ios ficonam sujeitos ao pa.
oiarcha catbolico, c d"ellc dcriam obrer a liccnc.a necessaria
para cdcbrar os olicios diYinos; c que todos cm"scral deviam
entrar na •Fé romana•, sob pnw .:ortt.
• Kalkn. Kresl01 Ovut.J. primo do Nqut, nen:. ea-
tio o arso de Bebt Uad.d. que o t-oke B. Teles rnduau por mordomo

cf.s missões dos
Na apparcncia tudo estava ultimsdo; mas a realidade era
bem diversa da apparencia.
A realidade era, que a conversão da Ethiopia ao catholicismo
não passava de ser por assim d. zer oJficial : dependia pura c
simplesmente da boa vontade de Susenyos, e não tinha n'a-
quellc momento, não teve nunca um unico fundamento solido.
t.xistiom na verdade alguns principcs c personagens influentes,
que se haviam siRcera c convictamente converrido á relig1ão
catholica, como succedia, por exemplo. com o Raz Sc:b
tos, irmão de Susc:nyos ; mas estes casos constituíam raras ex-
cepções. A grande maioria, a quasi totalidade dos que juraram
()bedicncia ao papa, juraram só com medo do Nc:gus. No in-
timo das suas eonscicncias conservav.Jm-se puro! jacobitlls. O
proprio filho de Fa!oiladas reconhecid()
h.:rdciro do throno, era secreumente um jacob:ta zelosissimo;
e este simples facto constituía uma grave ameaça para o fu-
turo.
E fóra da côrte, na mnsa da nação, a nova religião ainda
tinha menos raizes. Em volta de Fremoné, cm volta de omra'ii
localidades habitadas pelos padres, havia pequenos agrupa-
mentos de catholicos. Eram tambem catholieos os portuguc:.-
zes. 1 Fóra d"is•o, tudo o mais, todos os todos os fra-
des c freiras dos numerosíssimos conventos, todo o povo, tudo
se conservava fiel A velha religião, c odiava profundamente os
padres estrangeiros e as suas innovações.
Por toda a Ethiopia lavrava um descontentamento geral,
uma surda irritação, que aucccssh.-a e rcpctidamemc se mani-
festou cm revoltas abenas. Um dos primeiros a revoltar-se foi
um genro do Negus
1
chamado Yolyos (Julio), que, juntamcmc
com o abuna Simão, levantou o povo do Uangara. Vencidos c
mortos em batalha, as suas cabeças foram expostas nQ acampa-
1 O• chama.Sos porlllgue;r:r eram jll per este tempo todos mestiços_ fi.
lhos, netos ou bisnetos dos soldados de D. Christovam da Gama. Conser-
vavam, porém, nomes ponugue1es, um tal ou qual conhecimento da linp::ua,
e, emquanlo por 1• andaram os jesuitas, seguiram em resra a relisião Cl!,·
tiJolica.
Ped1-o da Covilha1r
menta do Negus i e é facil imaginar a constcmaçlo dos abcl.in!!l
ao verem igncrniniosamcnte exposla a cabeça do seu Abuna, do
que tinham na conta de chefe da sua Egreja nacional. Depois
revoltou-se um cerro Yoniiel, governador do Brgamdcr, que
foi tambcm morto c barbaramente mutilado. Depois. o gover-
nador do Chod., chamado Qebryal (Gabriel), que era ou dizia
ser de sangue real. Depois ainda Takla Giyorgis (a pl.nrla de
Jorgd, outro genro do Ncgus, que, senJo aprisionaJo, foi en-
forcado juntamente com urna de suas irmans.
E' certo, que estas revoltas não eram novas na Abyssinia,
derivavam da indisciplina e anarchia jé antigas no imperio, e
nem sempre teriam como causa unica o sentimento religioso.
Mas ~ certo, lambem, que todos os que se revoltaram se de-
claravam defensores do culto tradicional c nacional, c partida-
rios da Egreja alexandrina, o que prova quanto aquella cau!!a
era popular. E alguns factos, narrados pelos proprios padres
da Companbia, mostram bem como era viva e smcera a reacção
dos jacobitas. Conta, por exemplo. o padre Jeronymo Lobo,
que ao publicar-se o edito de Suscnyos, mandando adoptar a
religião catholica, sessenta frades do Damorc se deitaram de
uma grande rocha abaixo, preferindo a morre ao que julgavam
uma apostasia. 1
Os armos iam correndo, as revohas não cessavam, c a
Abyssinia não se aquietava, pelo contrario. Susenyos começava
a estar velho e cansado. De um lado apertavam-no a influencia
de Afl.onso Mendes e outros padres, assim como as suas con-
vicções de catholico, que parece terem sido sinceras : do ou-
tro iam actuando no seu espirita as grandes calamidades que
desolavam todo o paiz, c as solicitações dos que o rodeavam,
principalmente do seu filha Fasiladas.
• Em l.egrand, Rd. Hillor'ifjur, 114-Nos factos Jlrincipaes, os do-
cumentos etbiopicos (a CIJronu:oJ traduzida por Basut) concordam salis-
factorilmenle com os escriptos dos nossoa padres ponugue11es Claro est•
que as a"rtciações veriam complelamente. -A traducçlo da Cllrolrita de
Susenyos, em CJUII! actualmente rtabalha o Snr. Es1eves Ptrtira
1
'lrir• L:aa-
çar mais alsuma luz sobre esta eroca tão inrere,.sante.
c4s rtJissões dos jt>suilas
Uma grande revolta rebentou no Lasta ; d"csta Ycz uma
revolta puramente popular, cm que todos os habitantes até és
mais infimas aldeias, atC: aos mais remotos r::cantos d"aquellas
aspcras montanhas, se levantaram em ormas pela antiga fé ja-
cobita. A revolta foi abafada cm !angnc ; ma! no campo de ba-
talha, medonh.amcntc juncado de mortos. os proprios que ha·
viam acompanhado o Ncgus c o haviam ajudado a vencer os
insurgente!\, os seus gcneraes, o principc herdeiro, a rainha, os
mesmos Galla selvagens c pagãos, que então eram !leus auxi·
liares. todos lhe vieram pedir com lagrimas de piedade, que
não teimasse em impor ocla força a fê de Roma, que restituissc
aos seus povos •8 fé de seus pacse. Suscnyos voltou para o
seu acampamento victorio'io. mas triste c doente. Vinha dis-
posto a ceder. • Quando o padre Manuel de Almeida foi fazer
junto d"clle um ultimo esforço, exhortando o a que mantivesse
no reino a sua auctoridade e a religião catholica, respondeu
succumbido c cabisbaixo:
-Como pode ser ? jé não tenho reino.
Poucas horas depois- isto passava-se a 24 de junho de
t633 -os •ntabales imperiaes• tocavam a reunir no acampa-
mento, e os arauto5 lançavam o celebre pregáo:
•Que a crença de Alexandria seja res10belecida e meu filho
Fasil reine. Quanto a mim estou fraco; commetti faltas, estou
docme•. :a
Soou então por toda a Aby5sinia um enorme grito de ale-
gria. Abriam-se ourra vez ao velho culto nacional as egrejas
Jacobitas, fechadas havia annos; os toJbales ou arcas santas
collocavam-se de novo nos seus Jogares ; os padres abexins
1 Sesundo diz a Cllronira jll. antes da batalha llavia pro-
mettido a seu filho rntabelecer a rtliRilo jacobila, no CISO de a vencer •
.I Dou a formula do rela Chrorrica rthiop1u (8asset,
1l2) por me parecer mais natural na 1ua curta sioft;eleza. O tn:Eo que d'
o p1dre B. Telles, e reproduziu Ludolf
1
e mail lonJo
1
e deve 'er sido am-
pliado.
35o Pedro da CoJ·llhan
voltavam a dizer as sua!< missas cm geez:, a dansilr e tocar
pandeiro nos offi:ios divinos. Os odios rcprezados desafoga-
vam em cnntigas populares, co npostas pelos frades. Enloa·
VB1l-se pelos campos e povoações os seguintes ,-crsos:
E11 que as ovelhaa da Ethiopia
A's llyen•s do Occi.Jen1e, pelas dOtJtrln•• de Marcos apostolo.
E de Cynllo, colllmr:las da Egreja d'Alcxandria:
• • e cantae AlleluY,
A E1hiopia escapou 1b hyenas do Occidentc. 3
Suscnyo!l não se levantou d'aqoclle abalo. Viveu ainda
dois mezes, sem sair, lancado sobre o entre da sua tenda im-
perial, mal visn do povo, que lhe niio perdoava O!'! favores
dispensados durante tant JS annos aos esuongeiros, mal visto
dos je!iuitas, que o consideravam agora como um 1raidor. Em
se1embro morreu, e succcdeu-lhe seu filho Fasiladas, por ou.
no nome Alam Sagad, o qual jd gowernava desde a abdi·
cação.
F asilo das era um jacobi1a fanarico, e o desfavor cm
já cs1avam os padres da Comp1nhia desde o pregão, conver-
leu-se depois dn morre de Sm;enyos em perseguiçOO abcna.
As cgrejas catholicas foram fechados ou adnptadas ao cuho
jacobita; os jesui1as foram desterrados. O patriarcha D. Af-
fonso Mendes c outros for11m entregues aos turcos de 1\lassaud.,
c ficaram alli retidos em durissimo cap1iveiro. Alguns padre:s
ainda se conservaram na Ethiopia mezes e annos. disfarçados
c escondidos; mas, sendo pouco a pouco descobertos. paga-
ram o seu zelo com a vida. Foi mono .ds lançadlS o padre
Ga\par Paes, e do mesmo mo.io o padre João Pereira. Foi
enforcado o padre Apo!Enar de Almeida, bispo de en-
forcados os padres Francisco Rodrigues e Luiz. Carjeira. e:n-
forcados os padres italianos Ja.::intho Francisco e Bruno Bruni.
Justo será dizer, que md)s elle!l resgataram pela firmeza c
• Ludolr dã n• sua HiJt. Ell!iopica o tezto scez d"eatcs venos; e a
traducçlio larina
1
da qu•l
;:?As missões dor jesu1'tas
serenidade das suas mortes alguns erros que por ventura ti-
vessem commcuido.
Terminava assim o periodo da influencia portugueza na
quc
7
a contarmos da entrada alli de Pedro da Co-
vilhan, havia durado perto de cento c cincocnta annos. (J cdi·
ficio tão laboriD!amente levantado pelos padres da Companhia
dcsmoronou-sc
7
deixando da sua c:xistencia poucos vestigios
c ainda m:nos vcstigios A Abyssinia ficava
jacobita. O gr.l!lJe impcrio chrastão de novo no
seu isolamento e no seu mysterio, tão apcnadamcnte como
antes- ms.is aind.1, porque os ultimo succcssos deixavam mais
dvo e emranhado no animo dos naturo1cs o odio aos estran-
geiros c és coisas estrangeiras.
!\llõo tem faltado quem queira attribuir est.: desmoronar tão
prompto e tão completo do cdi6cio a vicias e fnlta'i dos fun-
damentos; quem queira ver a sua causa nos erros dos padres
portuguezes, na sua ignorando, na sua rispidez intolerante,
nas suas imprudentes violencios. Ha decerto n'e.stas accusa-
çecs uma boa parte de verdade; mas ha tambcm â mistura
uma grande dóse de injustiça.
E em primeiro Ioga r, â accu5ação de ignorancia, de rude
incomprchcnsão do e.spirito e da indolc dos abcxins, respon-
dem triumphantemcntc alguns dos seus livros. Por cllcs se
pode ver com quanto zelo, e cm muitos casos com que subtil
perspicacia os nossos padres estudaram aquellc singular povo,
ao mesmo tempo civilisado c barbara, historicamente compli-
cado c ingenuamente pnmiuvo. Os escriptores e viaJantes que
vieram depois, c for .tm por vezes tão severos com ellc:s, como
Ludolf ou Bruce, com frequencia o perceberam pcor.
Mais fundamento tem sem duvida a accusação de intale-
rancia; mas ainda n'este caso ha distincçócs a fazer. Havia
nas coisas essenciacs uma parte de intolerancia ine"itavcl, por
que é inseparavcl da religiáo cathalica. Todo o catholico con-
victo necessariamente intolc:ronte. Finncmcnte convencido
de: estar de: pos!e da verdade absoluta em materia religiosa,
C::-lhc impossivel pactuar com as out•as crenças, que para ellc
.l'5• PPdro da CoJ111han
significam o erro. Em questões de dogma c de fé, cm pontos
de doutrina definidos pelos concilies e pelos papas, os nossos
jcsuitas não podiam ceder. Querer que cllcs e tole-
rassem na Abyssinia, o que estava condcmnado em Roma,
seria simplesmente querer, que clles não fossem jcstiitas, nem
padres catholicos. E não havia mesmo n'csta parte da sua iniO-
Ierancia um reflexo do seu tempo, tempo de religião arden1e,
militante, por assim dizer aggressiva; clles foram intolerantes
então como seriam nos nossos dias, nem mais, nem menos.
Foram intolerontes como era ha pouco o cardeal Massaja
cm frente das mesmas doutrinas cutychianas; como é hoje o
grande pontificc Leão XJ11
1
que, nos seus cvangelicos esforços
para chamar ao gremio da Egreja as christandades orientacs ..
nio cede no cmtanto uma linha do que t! dogma.
Ao lado, porém, das questões cssenciacs, cm que a inr:ran-
sigencia era forçada, havia questões secundarias, de rito, de
fórmulas, de habitas tradidonaes e inveterados, em que os nos-
sos padres poderiam ter cedido e não cederam. Quizcram refor-
mar toda a religião e todo o culto abexim, simultaneamente
no fundo c na fórma, sem demora, sem auenuantes e sem
paUiativos
1
com a rispidez c o rigor proprios do seu tempo.
Isto era um erro, e um erro tamo mais grave quamo
povos igoorantes tinham muitas vezes maior amor á forma vi-
sível e tangivel do seu culto do que é cssencia da sua
As intransigencias ob!itinadas em pontos relativamente msigni-
ficantes pod1am assim compromener, c de feito compromene-
ram, algumas conquistas obtidas em assumptos mais essenciacs.
Até que ponto poderiam ter sido levadas as concessões
n'cstc semido da parte dos padres catholicos, é qucstiioá partc
1
extremamente delicada e cuja discussão está vcdJ.da á minha
igoorancia; mas é inncgavel que algwnas ou OO.stantes se po·
diam ter feito. c a prov• estã cm que algumas se fizeram. De-
pois de determinar que todas as mis!ias se celebrassem cm
latim c pelo rito romano, o patriarcha D. Aftonso Mendes, cm
vista das difliculdad.cs que isto suscitava, vciu, passados annos,
a consentir cm que se voltassem o dizer em geez e ao modo
Ma ttti'ssóea dos
jjJ
abe:r.im, emendando apenas os •erros substanciaes que no aeu
rirual havia•. 1 E' claro, que o patriarcha, um dos mais rispi-
dos e l!leveros entre os jesuital!l portuguezes da Abyssinia, fez
esta concessão porque em sua conscicncia entendeu que a
podia fazer. Logo podia tel-a feito desde o começo. O erro
esteve em a fazer j4 tarde, quando lhe foi arrancada quasi
pela força, quando lhe foi levada mais 4 conta de fraqueza que
4 coma de benevolcllcia. Feitas a tempo e de bom grado, esta
concessão c varias outra!, que teria .sido licito e prudente
fazer, poderiam t=r evitado muitos e graves atttitos. a
Tambem é certo, que a suavidade e bra11dura no trato fal·
taram varias vezes aos nossos padres, O! quaes recorreram,
por exemplo, com demasiada facilidade e frequencia IAs ce11su·
ras ecclcsiasticas; e naruralmcnte sem resultado. A cxcommu•
nh- o e a censura, armas poderosissimas entre crentes, eram na
Abyssinia armas embotadas, porque os abexins começavam
por não acreditar na auctoridadc de quem as fulminava. Não
tinham força para os submctter, c tinham o dom de os irritar.
Mas o erro mais grave dos jcsuitas na Abys.sinia foa o de
se apoiarem demasiado na auctoridade real; foi o de quererem
impor pela força, o que só poderiam ter obtido pela persua-
são. Quando tiveram por si o Ncgus, serviram-se sem pru-
dcncia c sem medida do seu enorme poder, absoluto c dcspo-
ti.:o. Serviram-se d'aquclle poder para o que cm boa e sã
• Como conta o pa4re 8. Telles: Etlliopia d QlttJ. L. "'• c a.,. 19.•e
:ag.•.- Conaenliu-se pela meama occaailu em que o jejum se 1r11asferi11e
do sabbado para a quarla feirai e em que algumas • aa ceie·
breasem nas dataa marçadas pelo calenderio abu.im. -As ceremon:ias
assim emendada• deYiam aer muilo semelhanlea j,s do rito elhiopico. que
boje aio perreilamenta adminides pelo1 c.atholicos.
1 Deaejando collocer esta minha opiailo sob e protecçlo de uma
auctoridade incoalestavel, cito algumas palan11 do cardeal Mastaja :
•· .. ncll'Apostolalo tra li erelici ed infedeh le neceasitj, ele prudrnaa ta•
lora imroogono cose cbe aon ai donebbero fare: ma che intenso (se
non tiguardano punli di rede o di disciplina e11ena:ieli) ai e costtreui di
permenere per DOn perdere dlruUO e le rat!Cba ... •
coascieocia julp .. m o - • a ulnçio das almas; mas nio
pmu:ndo qae as .!mas se aio cooquistam c se aio Wn.m
pela força. Por esrc modo dles acarreu.n.m tobn: si •odo o
ocftoso da reprnsio, das esccuçóes., do s.anpe ftrtido. Pas-
saram a ICI' os oppreuores; e as Yicüma.s pauaram • ser aos
olhos dos abexios 01 manyrcs da rctisiio uc:iooaL O re:sul-
udo era fatal. O catha6cismo 6cua assim dcpmdmrc da won-
tadc c da Yida de Susenyos. Cedendo cslc, como cedeu, ou
se aio cedcuc pela sua lllOI'tc, o cdificio dcsmoroo.an-sc. O
erro põde atuibuir-sc cm pane ao tempo cm qoe Yiwiam, •
indolc d'aquc:Ue auc10ri1ario J:'VII scculo; c pOde tambr:m artri-
buir-sc cm parte ao c.ancter de D. Affonso .Mcndc.s, um ho-
mem iliU5uado c zclo!O, mas inu8nsigcnre c duro. E' possi-
nl que, viYcndo o mail cau1dlo50 c mais conc1liador Pc:ro Pan,
u coisas não ti't'cssem chegado a racs n.t«mmS. E'
mas não I! certo, porque a siruaçio dos missionarias utholicos
na Abyssinia era, cm si c indcpcndeatcmcntc das suas quali-
dades pcssoaes, panicularmentc delicada.
E' &cmprc delicada a situação de missionarias christios em
paiz christão. Os outros padres da Companhia. que por a:;aucl·
:es mesmos tempos o Evan8elho aos nrgros do Con·
so, ou aos indios da costa da Pescaria, t:inham uma t:arda
nio mais perigosa c muit:o mais simplc.s. Trat:na-se alli de
verdadeiras conversões, tomando a palavra no semido de mu-
dança radical de crença. E é mais facil mudar uma cnnça. do
que alt:erar, reformar, purificar uma crença antiga_ O animo
da pegãos c idolatras era como uma terra virgem, em que a
rclijSião podia germinar e crescer cm toda a sua inteireza. Os
grandes traços do christianismo feriam-n"os como uma coisa
nova. A ideia tão aha c tio pura de um Deus unico c omnipo·
tente; a figura, tocante r11trc todas, do Christo rcdemptor,
um Deus feim homem por amor dos homens i a physionomia
tio r.uave d1 V1rgem, mãe de Deus, intercedendo pelos ho-
mens com a sua auctoridode de mãe c a aua .!Uavidade de
mulher, podiam aCluar n'aqucllas imaginações, mesmo nas mais
ruJcs. Na Abyssinia, os missionarias careciam d'cstcs meios de
cfs rnissões dos 355
acção. Us c'Jnheciam mais ou menos grosseiramente,
mas conheciam, todas as srandes ideias do christianismo. Ado-
ravam Jesus Christo c veneravam a Cruz cm que padecera.
Eram devotissimos de Nossa Senhora. Quando os padres ca-
tholicos lhes falavam de todas estas coisas, podiam dizer-lhes
que já o sabiam. Podiam responder-lhes, como respondia de-
pois o imperador João ao cardeal Massaja- Christãos jé nOs
somos.
O campo de cn,inamento, que assim ficava aos missiona-
rios, era mai!l restticto e sobretndo mais insrato. Tinham a
debater questões subtis, difficcis de comprehender, e que não
feriam a imaginaçáo. nem tocavam os corações. Tinham a de-
bater a questão da obediencia n Roma, que repugnava .d. in-
disciplina meio selvasem dos abexins. Tinham a debater a an-
tiga questão da natureu unica de Jesus Christo, a vclhissima
heresia jacobita, que os abcxins derendiam a todo o transe
sem a perceberem bem. Nas frequentes disputas publicas,
n 'aquellcs torneios ccclcsiasricos q uc se celebravam solemnc-
meme deante do Ncsus, os jesuitas levavam sempre a melhor
pelos seus supcr1ores conhecimentos theologicos; mas os mon-
ses jacobitas suppriam a sciencia pela e ficavam sri-
tando e bradando, que clles e só cllcs tinham rasão. Depois vi-
nham as questões de culto e de disciplina; as novas ordena-
ções dos padres i os novos baptismos sub co11ditione; a fixação
da Paschoa c mais festividades moveis; e muitas outrBJ, irri-
tantes para o clero abeJiim, pois lhe vinham alterar todos os
habites, e não podia bem perceber a importancia da mudança.
Varias vezes -contam os nossos padres-os jacobitas se ser-
viam do l§csuinte argumento : • A r.: de Alexandria e a de Ro-
ma são muito similhantes; em ambas nos podemos salvar, para
que havemos entio de mudar o que fizeram os nossos paes
e os nossos avós ha tantas e tantas serações.•
H a um livro relativamente recente e j.d. varias vezes citado
n"estas pasinas, cuja Jeimra é especialmente instructiva para
os que quizerem estudar a fundo .as missl5e!l portuguczas do
XVI e XVII seculos; t o helio livro, em que o cardeal Guilher-
356
Pedro da CovJ/I1ar1
me Massaja a sua vida de missionaria na alta Ethiopia
durante trinta c cinco annos. A cada passo o vcneravcl capu·
chinho nos dã pela sua propria npericncia a c.1plicação do
que alli succedeu dois ou tres al!culos antes. De todo o livro
resulta a impressão, de que o grande missionario moderno só
ae achava b1."'lll entre os Galla pagãos, entre os puros selvagens
de Kaffa ou de Ennaria. Alli encontrava almas virgens, aber-
tss é luz da verdade, e que enchiam de consolações a sua
alma de catbolico. Pelo contrario, emre jacobitas e sobretudo
entre padres jacobitas, está sempre mal 4 vontade. Sente que
nio tem c não põdc ter inCuencia nos seus espiritos ç e re·
pugnam-lhe as controversias theologicas, as conquistas
fugazes de um dia, que se desfazem no dia seguinte, Esta era
a situaçlo dos padres portuguczes, com a diffcrc:nça, que no
ardor militante propno do seu tempo, estes não viam com
tanta lucidez c sangue frio as difficuldades cspcciaes do meio
cm que se achavam.
Havia na vetdadc um campo de trabalho c de ensino larga
e utilmente aberto ao zelo dos nossos padres- o campo da
moral. Os abcxins eram christãos c mesmo devotos; mas a
sua moral estava bem longe de ser a moral christan. O roubo
c a violcncia, o nenbum respeito pela propr:cdadc e pela vida
alheia, lembravam mais a sua indolc de negros africanos, que
a brandura de um povo, sujeito á lei de Christo. E sobretudo
a pureza dos costumes era coisa desconhecida entre clles. O
Negus, como j4 antes dissémos, tinha legalmente mais de uma
mulher. Além tinha numerosíssimas concubinas, c no
seu pOder aem limites o campo livre a todas as suas phanta-
sias sensuacs. Os príncipes e os grandes da côrte seguiam na-
turalmente os seus exemplos. E as negras princezas, DO ardor
do saoguc africano e tropical, eram talvez ainda menos castas
que clles proprios. Os cazamcntos e as uniões illcgitimas fa-
ziam-se c desfaziam-se com uma deploravcl facilidade. Toda a
côrte. e mais grosseiramente todo o povo, viviam espe-
cie de promiscuidade barbara. O! padres e frades jacobitas
1
h11bit1,1Bdos de data a presencearem aqucllas liberdades,
cAs mi1s6es dos jesuitas

nâo as atalhavam, nem mesmo as estranhavam. Os Abunas
tambem não as condemnavam, nem podiam condemnar, por-
que a sua vida particular era cm regra tudo quanto havia de
menos correcto.
Os nossos padres jesuitas lançaram-se com ardor na emen-
da de todos estes vicias. Foram pessoalmente homens de \lida
pura c costumes cxemplarissimos. Deduz-se isto, não das suas
affirmações c dos seus protestos, mas de todo o conjuncto
das suas narrativas. Prégavan1 poi:s pela palavra c pelo exem-
plo; mas o seu rigor n'cstas matcrias levantou-lhes gra\lissi-
mas c creou-lhcs numerosos inimigos. Aquelles
ou aquellas, que estariam dispostos a ceder no campo religio·
so, voltavam-se de novo para a fé jacobita, quando viam que
a nova fé catholica. os obrigaria a reformar a soltura das suas
vidas. O padre B. TeUes, c mais particularmente o padre Ma-
nuel Barradas, contam-nos varies muito instructivos
n'este sentido. Uma filha do negus Susenyos, que fazia pro-
fissão de catholica como todos então na côrte, havia sido casada
aucccssivamente com tres grandes senhores da Abyssinia, e
vivia agora publicameme com um quarlo, por quem estava
loucamente apaixonada. Quiz obter do patriarcha D. Aftonso
Mendes a dispensa para o quarto casamento, o que era im-
possivel porque dois dos primeiros maridos ainda viviam; c,
não alcançando o que desejava, passou clla e o amante a se·
rem dos mais encarniçados inimigos dos catholicos. • O prin·
cipc Fasiladas tinha em casa um verdadeiro harem, cm parte
i11cestuoso, porque n'ellc se contavam varias paremas c cu-
nhadas. O proprio negus Susenyos, a gra11dc columna da fé
catholica, nunca reformou complctamcme a sua vida particu-
lar; e os padres applicavam-lhe com tristeza o que a Escri.ptura
diz do sJ.bio Sulomio: depravai um esl cor ejus per
cum euel senr"or.
'Esta princesa chamava-se Uans4!1auit (EtNZ1f8tllcll)
1
nome que lhe
pio muho bem.
J58 Pt:di"O da Covrlhan
Assim, O! m&i! louvave:is esforços dos nossos padr6 .!!IC
voltavam contra cllcs. No campo puramente religioso tinham
em frente de si uma fórma do chrisrianismo, bastante suja de
crroa para que a não podesscm acccirar, mas bastame pare-
cida com a crença catholica para que a necessidade da refor-
ma nio fosse comprchcndida dos abcxins; c tinham um cle-ro
numcrosissimo, rude c corrc•mpidn, mas firmemente pegado ;is
fOrmulas de uma religião antiquissima c tornada completa-
mente nacional. No campo da moral, tinham uma sociedade
devassa, de uma devassidão tanto mais difficil de corri Rir,
tjUanto era ingenua c quasi inconsciente, quonm dependia dos
habitas semi-!:elvagens, dos impulsos da raça, do ardor do
clima, da ligeireza do vcstu.trio. E' facil comprehendcr quanto
seria penoso incutir a ideia da cauidadc ou da pureza do ca-
samento christão a uma ass.embleia de negros c negras, meios
nus, bebendo vinho de mel em uma promiscuidade absolma,
ás vezes nas cgrejas c sob o pretexto de festas religiosas. •
Sem termos o proposito de defender os jesuitas portuguc-
zes, reconhecendo que clles commener.am erros graves c tiveram
muita'li vezes deploraveis e quasi incxplicavcis falias de tacto,
e forçoso confessar que trabalhavam no campo mais cstcril c
cheio de espinhos que será dado encontrar. Involuntariamente
lembra a parabola do Evangelho de S. Manheus, porque a se·
mente, sem culpa do semeador, caia pelos caminhos, ou so-
bre as pedras, ou entre abrolhos.
t Para nos não accusarem de recommendamos a leitura
da descripçio de uma festa e ves;peral em uma ttrande egreja jacobita do
Godjam, • que Bllistiu o Mall&la (\'Oll, P- lofO)- o JIOYO r•••••• a
noite na e bebendo in prena r.:rve,-,..:r; e al.flumas mulhe-
res abuiru \linbem alli de longe ll& esperança de voltar-em para 1;1aa gra-
VIdai, •on urramenre per rjfdo di f•4e 1- o bom cud$1..1
horrorisado.
c4r miss6es do& jcsuilGS 35g
Pelo desterro e morte dos jesuilas, terminava na Abyssinia
a inAuencia catholica, c sisnultoneamente a iniluencia portu-
gueza directa.
Ficavam na verdade alli nwnerosas fam11ias, das chamadas
descendentes dos duz:entos a trezentos compa-
nheiros de D. Christove.m da Gama, que por lá estabelece-
ram. Estas fammas haviam prosperado c alastrado, de modo
que se chegaram a contar alguns milhares d'estes portugue-
zes. • Viveram muito tempo um tanto separados dos puros
abell.ins, formando uma espccie de colonia, que reconhecia um
dos seus membros como chefe. Os rapazes seguiam cm regra
a profissão militar. usando arcabuzes e outras armas de fogo,
em cujo manejo haviam 1ido adestrados por seus paes c avós ;
e parece terem entrado nos exercites do Negus cm condiç6es
paniculans, formando corpos espc:ciaes, commandados pelo
chefe da colonia, que era ao mesmo tempo o seu general.
Um dos ultimes, ou o ultimo, d"estes chefes de que temos
noticia, chamava-se: João Gabriel. Vivia ainda na segunda me-
tade: do reinado de Susenyos (162.0 a 16lo), quer dizer uns
oitenta ou noventa annos depois da entrada na Abyssinia de
D. Christovam da Gama, c devia, portamo, ser, já, neto ou
mesmo bisneto de portugucz. Era, pois, um mestiço, de mãe
c avó abexins, quasi um puro abexim pelo sangue. Era tam-
• Na carts, que o parriarc;ha D. Affonso Mendes escreveu ao rei de
Portugal an1cs de ufr da Abystoinia (9 de Maio do IÕ31), du: lhe, que 01
ponugue.r:es de pegarem em arma. paauv:..m de mil e quatrocen·
lt_l, o que aigailica al,4u11s milhares, contando mulhcreSt creaoçaa e velhoL
'Pedro da Cwilhan
bem abexim pela lingua e pela educ.aç5o, tendo sido crcado e
ensinado no confttllO de Dabr.a Libanos, o mais famoso cen1ro
intellecrual de toda a Abyssinia. Conservou-se, porém, fiel i
sua origem, dando-se sempre por porlugr.q i e conscrvou·ae
lambem, não obstante a sua c:ducação cm um convento jaco-
bits, fiel 4 religião catholica e amigo dos padres da Compa-
chia. João Gabriel ter sido um homem de auctoridadc,
prudente conselho e provada coragem. Commandava os por-
na batalha cm que o nnpcrador Za Dcngel foi morro
(Jfxl4,); c tendo-se primeiro cpposto a que o Negus dl!ssc o
combate cm circumnancias que lhe pareciam desfavoravcis
1
contribuiu depois, pela sua firmeza, para que este se não con-
•cnessc cm completa derrota. Annos depois, vemos-lo assi5-
tir com os padres da Companhia 4s controvcrsias religiosas
com os abcxins, controvenias cm que o seu perfeito conheci-
mcmo da lingua c religião cthiopicas seria particularmente
mil.
Outro membro conhecido c importante da colorüa roi Ber-
nardo Nogueira, bi:meto de um dos soldados de D. Christo-
vam, natural de Uraga. Depois de educado pelos padres por-
tuguczcs, recebeu todas as ordens sacras, c C5tevc mesmo a
ponto de entrar na Companhia, posto que n:io chegou a p['O-
nunci•r os votos. Durante muitos annos se conservou escon-
dido c disfarçado, escapando ás pcrscguiçt.ics mais facilmente
que os portuguczes puros. pela perfeição com que falava a
lingua, c pelo seu aspecto c côr de abcxim. Emquanto viveu,
o padre Bernardo Nogueira procurou sempre confortar e unir
os catho1icos c os descendentes de portuguezcs, que por 14
andavam dispersos; mas a final foi elle proprio descoberto c
enforcado já no anno de J652 ou r653. sendo-segundo creio
-o ultimo padre catholico, que n"aquelle tempo ficou n1
Abyssinia •.
1 Havia com elle outros padres. un1 da colon1a portusueza, outros
puros abexins: mas todos aquelles de que temos noticia morreram antes
de Bel'flardo Nogueira; ernquanto aos puros abe:r.ios, i de crer que alguns
Clfs dos jesui14S
fam assim dcs.apparetcndo os homens que podiam conser-
var a tradição portugueza. O centra, que jcsui-
tas, cntraJos su.:ces!livJ.memc: de Portugal, nvivando pela sua
presença os vinculas de relig1ão, de lingua c de oecionalidade,
faltou; os homens que oin:ia haviam con .. ivido com ellcs, como
João Gabriel, Bcrn:m.io Nogueira c outros, foram morrecJo;
e o rcsro da coloni1 fundiu se poui:o a pouco n:J. mossa do
povo obcxim. Nem podia sui:ccdcr outra coisa. J:.. no momcmo
da c:xpuls!io dos padres, uma grond.e parte dos chamados por-
tuguezes vivia cm precarias !ituaçõcs, c: muitos c:ram arriciros,
andando com mulas na conJucçiio do sal c oUlras merendo-
rias. Pobres, dispersos, perseguidos, n!'io tendo todos clles vo-
cação para manyrcs, submeucrom-se. As praticas jncobitas
substi[Uiram-sc lentamente á!!. catholicas, a lingua esqueceu,
os nomes mesmo se alteraram c obliterarnm 1. E' passivei,
é mesmo muito provnvel, qu:: ainda hoje n'algum recanto d.1
A byssinia, ou entre os sold.Jdos de l\lenildo:, se encontre um
nome, uma va::;a tr::1dição, um traço de physionomia que re-
corde a orig:m porlUgucza; mas tudo isto apagudo c gasto
como uma inscripçâo de remoias cr
dirc.:1os da parte de Portugal pan manter oures-
tabelecer na Abyssin:a o s:1o influencia não os houve cmão,
nem os podia haver. B.1sta recorjar a dna da expulsão-
nâo resiniuem d peneRuiçio e voltassem 6 religião jacobua -Houve
lambem por aaquelle5 temfiOI uma nov• tenuuva rara coo$enar alli a re-
I•Riâo calholica. DesconfianJ.o-se em Roma. que os jesuitas não 1iwessem
aiJ.o bastante prudentes, a confiou uma nova m11do a seis
capuchmhos rrancezes; mas os .Sois que ches;uam a p.::octr.u- oa Abys-
sioia, fr. Agalhangelo de Vend6me e fr. Cassiano de N.:mles, foram l11pi
dados toso que se re:onheceu a sua qualiJaJe de paJrcs catbolicos. A
sua morle teve lagar DO anno Jc 1(iJg, muito aotes da de Beroanlo No·
BUeua.
1 No momento da bnia aiod11 muitos nomes portuguezea,
Nunes, P1rt1, Mnqaita, R•poso e ourros; mas havia j.:l nomu abezias.
Telles lalla de um sacerJ.ote porluBUCZ- uto é .tlil colonia -que 5e eh&·
mava Malkea Krenos de Christo).
meados qu:zsi do :uu seculo- para reconhecer que de tal se
não podia tratar. Esnva-se cm plena dccadcncia do impeno
orimtal, oo periodo cm que o nosso domirüo se desmantcl .. a
aos boccados desde Hormuz att b Molucas, c a custo o con-
servavamos cm a1gumas panes da lndia. E c.t na Europa,
nem a Hcspaaba, occupada cm manter a unidade ameacada
da Península, nem Ponug.al, occupado cm reconquistar a sua
indcpcndencia, podiam pensar nas questões do Oriente. Toda
a ideia de interYir nos negocios internos da Abyssinia desap-
pareceu por então. Terminava, pois, dcfinitiYatneotc, sem pos-
sibilidade de continuação immediata ou proxima, o que cna-
m.imos o cpisodio cthiopico. •
E terminavam alli todos os acontecimentos, que mais ou
menos direc1amente se prendem 4 Yiagcm arrojada de Pedro
da Covilhan. Por este lado da Ethiopia, como pelo lado da
Jndia, ellc bnia sido um iniciador; mas miciador de succcs-
sos incomparavelmente menos importantes. Indo a Calicut c
a Sofala contribuiu para mostrar o uminho maritimo da ln-
dia, para tornar mais faceis as relações da Europa com o
Oriente c o Ex1remo Oriente. U seu nome lisura no rol dos
que prepararam o grande acontecimento q:.1c levou as náus
ponuguezlls á costa do Malabar c depois é China c ~ Japão,
que fixou durante mais de um seculo as condições da nossa
nacionalidade, que alterou rodas as rdações commcrciaes
do velho mundo. Indo ã E1hiopia, apenas abriu um capitulo
Cl§p::dal, que nio passa de ser um incidcanc transitaria na
h storia do Oriente pormguez ; mas que nem por isso deiKa
de ser imercssame. Pôz o seu paiz, c, por intcrmedio do seu
paiz, a Santa Sé c as nações civilisadas, em contacto com um
antiquinimo imperio christ.ão, mysterioso, esquecido, de cxis
• P1rece, que cm tempos de D. João V se fizeram aJsum•• tent•tiv••
para res•;scitar o ratriarchado d1 Etbiopia. Eu1s tentlbYIS, que Dlo es-
tudei e de que conheço 11pen•s v•sameme a esislencia, n'llo leY&nam -
sesw:r.do creio- a n•nhum resuludo pralico.
cAs nzi1sões dos jesuítas .363
tenda quasi problemarica, que então chamou n artenção da
Europa, que depois voltou a ser meio esquecido, e onJe hoje
se fixam de novo as ancnções da Europa.
Ligado assim aos maiores acontecimemos do seu tempo,
posto que em posição subaherna, Pedro da Covilhan deixou
um nome, modesta mas JUStamente celebre. Justamente celebre9
porque a obra em que trabalhou era grande, e porque clle ti-
nha cm alto grãu as boas qualiJades do seu tempo e da sua
raça. Pedro da CD'I'ilhan não pertcnce seguramente ao grupo
dos ponuguczcs eminentes da grande epoca
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não conduziu
navios por mares desconhecidos como Vasco da Gama, nem
fundou e regeu um va5to imperio como Affonso de Albuquer-
que; mas foi um perfeito exemplar do portuguez dos começos
da Rcnflscença, aventureiro c 50idado. Aventureiro pelo atre·
vimento, p::la fertilidade dos recursos, pela flexibilidade com
que !C amolda a todas as surprezos e baldões de uma e x i ~ ­
tencia excepcional, pela robustez moral c physica com que
resiste a perigos c privaç6es, ao sol c á chuva, és febres c és
ciladas. Soldado pela gravidade do caracter, pelo cumpri-
mento do dever, pela obediencia c:onscienle e intdligente ao
seu superior.
Este me parece ser o cunho da sua vida-a obediencia.
Não possuia talvez as qualidades de commando, ou pelo menm
não teve occasiúo para mostrar que as pmsuia; mos soube obe-
decer-c já não é pouco. O padre Francisco Alvores, que bem
de peno o conhecin, resumiu com adm1ravel sobriedade o seu
elogio em meia duzia de palavras. •Este pero de covilhan-diz
Alvares-he homem que todas as cousas a que o mandaram
soube e de todas dá conta•. Não ha apreciação, ntm mais lison-
geira, nem mais justa. Mandarsm-no procurar a pimenta e a
canella, quando ninguem nas nossas terras occidentaes sabia
d'ondc aquellas especiarias vinham ; c elle 1 foi, e cnconrrou
o caminho, c chegou á JndiR,-:.: e 11âo se contentou com· ir á
lndia, foi tamhem a Sofala.J .1\fandaram-no ao Preste João,
quando ningue.m:conhecia a sua moradu, nem quasi cm que
pane do mundo tal morada se en.::ontrava; e clie foi, e achou
:.z :.r.
. , .. - ..
INDICE
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Advertencia preliminar.. . . . . . . . . . . . . . . • . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5
CAr. r. - O Preste João das lndias.. . . . . . . . . . . . . • . . . . . . . • . . . • . . 1
CAl\ n. - O viajante e os preparativos da viagem.. . . . . . . . . . . . • . 3 ~
CAP. tn. -A grande viagem .............. ~ .... · . . . . . . . . . . . . . • . 67
CAP. 1v. -Os primeiros resultados, e o seguimento da viagem.. . • 10S
CAr. v. -Ethiopia a alta ......... ~ . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . J35
CAP. v1. -A rainha Helena e a embaixada de Mattheus.......... 171
CAP. vn. -A embaixada de Duarte Gaivão.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2oS
CAP. VIU.- A embaixada de D. Rodrigo de Lima... . . . . . . . . . . . . . . 229
.
CAP. tx. -A missão de Alvares a Roma, e a de Saga Zaib a Lisboa 281
CAP. x. -O patriarcha D. João Bermudez e as missões dos jcsuitas. 3IS