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Terça-feira 15 .1 .

2013

l Economia l

O GLOBO

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pedro.doria@oglobo.com.br

PEDRO DORIA
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Aaron Swartz era processado nos EUA por baixar 4,8 milhões de textos
NOAH BERGER/REUTERS

Suicídio de programador gera protestos na internet

Digital & Mídia
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O desespero de Aaron
Ele tinha 14 anos quando chamou a atenção, pelo brilho, das maiores mentes da internet. Agora, está morto

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a sexta-feira, dia 11, Aaron Swartz cometeu suicídio em seu apartamento no Brooklyn, Nova York, onde vivia com a namorada. Tinha 26 anos, se enforcou. Fazia exatos dois anos do dia em que fora preso e seu pesadelo começou. Era, já desde os 14, uma das mentes mais brilhantes e influentes da internet. Por vezes demais, parece, o gênio da rede está apenas em jovens bilionários do Vale do Silício. Engano. Aaron era do tipo que escolheu não ser um deles. Um erro de juventude, e a mão pesada do governo americano, parecem ter contribuído na decisão. RSS é daquelas siglas que poucos conhecem mas sem as quais a internet não funciona. É uma forma de fazer assinaturas de conteúdo na rede. Hoje a tecnologia é usada para que informação flua pelas redes sociais. Não é nunca trivial estabelecer um padrão geral, simples, aberto, com o qual inúmeros fabricantes sintam-se à vontade, que todos aceitem. Aaron foi um dos seus criadores aos 14 anos. Nascido em Chicago, era um rapaz muito magro, imberbe. Seu computador, um Macintosh portátil já muito velho para o tempo, com inúmeros problemas, a tela já quase incapaz de gerar brilho. Foi rapidamente adotado por gente como Dave Winer, inventor dos blogs, Cory Doctorow, um dos mais influentes pensadores da internet, e pelo advogado Larry Lessig, de Stanford e Harvard, talvez o maior especialista jurídico do mundo digital. Aaron fez dinheiro com o Reddit. É, hoje, um dos sites mais visitados do mundo. Nele, os usuários colocam no ar links para o que consideram mais interessante. Estes links ganham votos para cima ou para baixo, o material mais bem votado vai à capa. Curadoria coletiva. Boa parte do sistema que mantém Reddit no ar saiu do computador do jovem programador. (Já era um Macintosh mais avançado.) Quando o Reddit foi comprado pela Condé Nast, a maior editora de revistas dos EUA, Aaron Swartz botou um bom dinheiro no bolso. U Sua causa: ele acreditava em liberdade do Os pontos-chave fluxo de informação de interesse público. Bom não confundir com o Ele publicou na rede pirata da esquina. Nunmilhões de papers ca se meteu com músicientíficos. Os donos dos ca ou filmes. Seu pridireitos não processaram meiro feito foi entrar no sistema Pacer, baixar 20% do conteúdo e puPor um único erro, e mesmo blicá-lo gratuitamente sem a parte lesada desejar, online. É o banco de dao governo dos EUA queria dos onde estão todas as 30 anos de prisão decisões judiciais tomadas nos EUA. Tudo em domínio público, embora o Pacer cobre No Brasil, as universidades taxa para acesso. O FBI permitem acesso livre a entrou na investigação, papers científicos pela tentou cercá-lo de toda internet forma, mas ninguém foi capaz de descobrir uma lei que tivesse quebrado. Estudante em Harvard, Aaron foi além. Tinha acesso ao Jstor, o principal banco (pago) de papers acadêmicos. As universidades americanas pagam para que seus alunos possam consultar o trabalho publicado de cientistas livremente. Porque tinha acesso legal, Aaron baixou milhões de papers, muitos deles em domínio público, nem todos. Aí tornou tudo disponível. Desta vez, o FBI tinha uma razão para investigá-lo. Prendeu-o, foi solto por ordem do juiz, aguardava julgamento em liberdade. Seus principais amigos consideram que errou. Mas, juridicamente, o caso é complicado. A turma do Jstor decidiu que não queria processar. Universidades, que pagam pela assinatura, são suas principais clientes e não iam deixar de pagar pelo serviço. O MIT, em cuja rede Aaron estava ligado quando fez o download, se absteve. E papers acadêmicos são, por natureza, já trocados livremente por cientistas. Não são como um DVD, um livro, um disco. A discussão sobre direitos autorais é tensa no meio científico. Preocupam-se mais com autoria. Afinal, é justamente para que informação científica circule com rapidez e facilidade que a internet foi criada. Não é à toa que, diferentemente da indústria cultural, a turma do Jstor simplesmente tirou o corpo fora do processo. Mesmo que os principais prejudicados não quisessem levar o caso à Justiça, o governo americano decidiu processá-lo. Mais, quis fazer dele um exemplo na luta contra pirataria. Queria uma pena de 30 anos. Nenhum pirata real jamais foi condenado a tanto. Um único excesso de juventude, a falta de proporção do governo dos EUA e, aparentemente, uma depressão clínica custaram ao mundo um grande talento. Faz mal, até, à causa dos direitos autorais. l

Morte. Aaron Swartz numa livraria em São Francisco em 2008: ativista tinha medo de ficar preso por 35 anos, e se enforcou com apenas 26 anos de idade
-BOSTON- O suícidio do jovem programador e ativista Aaron Swartz, um dos criadores do site de compartilhamento de postagens sociais Reddit, aos 26 anos, na última sexta-feira, agitou a internet ontem e no fim de semana. Membros do grupo “hacktivista” Anonymous invadiram dois sites do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês) e trocaram seus conteúdos por uma mensagem em memória ao programador. Enquanto isso, no Twitter, cientistas criaram uma hashtag para dar acesso a textos científicos gratuitamente on-line, em protesto contra o processo judicial iniciado pelo governo americano que indiciou Swartz por fraude. O texto do Anonymous exibido nos sites do MIT classificou como uma “enorme injustiça” o processo de 2011 contra Swartz, acusado de invadir uma sala reservada do Massachusetts Institute of Technology (MIT) com um laptop e

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baixar 4,8 milhões de artigos científicos do acervo da JSTOR (abreviatura de “Journal Storage” — armazenamento de jornais, em inglês), uma biblioteca virtual criada em 1995 pela Fundação Andrew W. Mellon nos EUA e que abriga mais de 800 publicações em ciência, história e economia, entre outros. Segundo o Anonymous, o caso “salienta a injustiça das leis sobre crimes digitais dos EUA” Os hackers também pe. diram na mensagem uma reforma das leis de propriedade intelectual e o comprometimento com uma internet livre. No Twitter, a hashtag #pdftribute anunciava a liberação de textos científicos na internet para homenagear o ativista. No site pdftribute.net, lia-se na página “Sobre” o seguinte texto: “Todo o conteúdo encontrado aqui foi puxado do Twitter e é postado livre e gratuitamente em homenagem a Aaron Swartz” . Não se sabe ainda claramente os motivos que levaram

Swartz a se enforcar (ele também sofria de depressão), mas, segundo disseram seus amigos ao “New York Times” o ativis, tas estava preocupado com a possibilidade de ser preso por até 35 anos. Ironicamente, ele se suicidou dois dias depois de a biblioteca virtual JSTOR anunciar a liberação on-line de mais de 4,5 milhões de documentos, que passaram a ficar sob domínio público. CRIADOR DO RSS AOS 14 ANOS Em comunicado, a família de Swartz acusou como parcialmente responsáveis pela morte do jovem a promotoria federal, que atuou no processo, e o próprio MIT — apesar de notícias na imprensa americana terem informado que a universidade teria desistido da queixa contra o hacker há algum tempo. Também em comunicado, o MIT disse que investigaria internamente sua responsabilidade pelo processo contra o ativista e também pelo suicídio. Algum tempo de-

pois de invadir os sites do instituto, o Anonymous atualizou sua mensagem, esclarecendo que não considerava o MIT responsável pelo ocorrido e pedindo desculpas por usar suas páginas virtuais como plataforma do protesto. Swartz era considerado um gênio entre seus pares e construiu sua trajetória com iniciativas em prol da livre circulação de informação. Com apenas 14 anos, ele ajudou a desenvolver as primeiras especificações do RSS, formato de feed de conteúdo muito usado na internet hoje. O programador também participou ativamente da criação da arquitetura do Creative Commons, projeto de licenciamento aberto de conteúdo. O ativista ainda fundou e dirigiu a ONG Demand Progress, que atua na área de políticas públicas para a internet e teve destaque durante os protestos contra o projeto de lei SOPA (Stop Online Piracy Act), do governo americano, contra pirataria. l

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Fabricante de PCs Dell estuda fechar capital, diz agência
Ações da empresa americana chegam a subir 18%, encerrando em alta de 13%
-SÃO FRANCISCO E NOVA YORK-

Apple corta pedidos de telas do iPhone 5
dos de telas LCD e outros componentes do iPhone 5 neste trimestre devido à baixa demanda, afirmou ontem o jornal japonês “Nikkei” Este seria mais . um sinal de que a companhia americana está perdendo terreno no mercado de smartphones para as rivais asiáticas. Segundo o “Nikkei” a Apple , pediu que a Japan Display, a Sharp e a sul-coreana LG Display reduzam para cerca da metade o fornecimento de telas LCD. A encomenda inicial para o primeiro trimestre era de cerca de 65 milhões de telas, afirmou o jornal, citando pessoas familiarizadas com a situação. Os pedidos de outros componentes também teriam sido reduzidos. Caso confirmada, a medida comprovaria afirmações de analistas de que as vendas do iPhone 5 não vêm sendo tão fortes quanto o esperado. MERCADO DE US$ 200 BI A Apple perdeu espaço no mercado global de smartphones, que movimenta US$ 200 bilhões ao ano, para a sul-coreana Samsung e chinesas como Huawei e ZTE. O principal modelo da Samsung, o celular Galaxy S, já vendeu mais de 100 milhões de unidades, segundo a empresa. l
-TÓQUIO- A Apple reduziu os pedi-

A notícia, divulgada pela agência Bloomberg News, de que a fabricante de computadores Dell estaria discutindo com empresas de private equity para fechar seu capital fez com que as ações da companhia disparassem ontem. Os papéis chegaram a subir quase 18%, e tiveram até sua negociação suspensa por um breve momento, segundo o site CNNMoney, para encerrar o dia em alta de 12,96%. Ao fechar seu capital, a Dell não teria mais suas ações negociadas na bolsa eletrônica Nasdaq, mas também não estaria mais obrigada a divulgar

publicamente informações sobre sua saúde financeira e operacional. Uma das fontes, que pediu para não ser identificada, disse à Bloomberg que a Dell estaria discutindo a consultoria da operação com pelo menos duas empresas de private equity. Segundo outra fonte, vários grandes bancos já teriam sido contactados. EMPRESA VALE US$ 18,9 BILHÕES O valor de mercado da Dell, de acordo com seus papéis no mercado do último dia 11, é de US$ 18,9 bilhões, segundo a Bloomberg. A companhia tem cerca de US$ 9 bilhões em dívida, mas US$ 11 bilhões em caixa. Nos últimos cinco anos, as ações da Dell acumulam queda de 39%, enquanto sua rival Apple saltou 300%. Na semana passada, o diretor de Estratégia Corporativa

da Dell, David Johnson, deixou a empresa. A Dell, além da concorrência de rivais como Hewlett-Packard e Lenovo, sofre com a queda na demanda por computadores pessoais (os chamados PCs), com os consumidores cada vez mais voltados para os tablets e os smartphones. Qualquer aquisição, segundo o jornal “The New York Times” envolveria Michael Dell, , que criou a empresa em 1984 com US$ 1 mil quando estava na universidade. Ele é o diretor-executivo e tem 15,7% da empresa. Dell havia dito em 2010 que estudava fechar o capital da fabricante de computadores. A Dell, que vem tentando se reinventar como fornecedora de computadores e serviços, registrou queda de 21% na venda de PCs no quarto trimestre, segundo a consultoria IDC. l

oglobo.com.br/digitalemidia
Windows 8 não consegue revitalizar mercado de venda de PCs, cujas vendas
l PREJUÍZO:

Hoje na web

caem 4,3% no trimestre Marca portuguesa responde com ironia a consumidor no Facebook e, diante da má impressão, acaba pedindo desculpas
l REDES SOCIAIS:

Oracle atualiza linguagem Java, mas bugs continuam. Governo americano aconselhou internautas a desabilitarem o software
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