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Aspectos Culturais da Tradução Bíblica no Brasil

Aspectos Culturais da Tradução Bíblica no Brasil

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Trabalho de Conclusão de Curso de Tradutor na Universidade do Sagrado Coração de Jesus, em Bauru-SP.
Este trabalho apresenta uma pesquisa sobre a Bíblia Sagrada (composição de seus livros, suas traduções ao longo da história), além de discutir o processo de tradução e a mudança de alguns versículos bíblicos entre diferentes versões bíblicas.
Trabalho de Conclusão de Curso de Tradutor na Universidade do Sagrado Coração de Jesus, em Bauru-SP.
Este trabalho apresenta uma pesquisa sobre a Bíblia Sagrada (composição de seus livros, suas traduções ao longo da história), além de discutir o processo de tradução e a mudança de alguns versículos bíblicos entre diferentes versões bíblicas.

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UNIVERSIDADE DO SAGRADO CORAÇÃO

Centro de Filosofia e Ciências Humanas

GUILHERME CARAMEL MARQUES

ASPECTOS CULTURAIS DA TRADUÇÃO BÍBLICA NO BRASIL:
UM ESTUDO COMPARATIVO DO NÔVO TESTAMENTO/EDIÇÃO CATEQUÉTICA POPULAR E JOÃO FERREIRA DE ALMEIDA

Bauru 2007

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UNIVERSIDADE DO SAGRADO CORAÇÃO
Centro de Filosofia e Ciências Humanas

GUILHERME CARAMEL MARQUES

ASPECTOS CULTURAIS DA TRADUÇÃO BÍBLICA NO BRASIL:
UM ESTUDO COMPARATIVO DO NÔVO TESTAMENTO/EDIÇÃO CATEQUÉTICA POPULAR E JOÃO FERREIRA DE ALMEIDA

Monografia apresentada ao Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade do Sagrado Coração como parte dos requisitos para obtenção do título de bacharel em Tradutor, sob orientação do Prof. Ms. Antônio Walter Ribeiro de Barros Junior

Bauru 2007

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Dedico este trabalho aos meus pais Josias e Marlene e à minha irmã Déborah.

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Agradecimentos

Agradeço primeiramente a Deus, fonte de esperança, alívio e salvação, em quem encontro força a qualquer momento para todas as situações. Aos meus pais, Josias e Marlene, e a minha irmã, Déborah, pelo apoio incondicional em todos os momentos da composição deste trabalho, pelo incentivo e luta durante todos esses anos para que eu concluísse o Ensino Superior. À minha namorada, Cristiane, por entender os meus objetivos ao escrever esse projeto e pelo apoio constante sempre que precisei. Agradeço também ao meu orientador, Prof. Ms. Antônio Walter Ribeiro de Barros Júnior, por todas as leituras e pelo direcionamento do trabalho que fez que o mesmo se tornasse bastante enriquecido. Sua visão muito colaborou para que esse trabalho se tornasse realidade. E, por fim, um agradecimento singelo ao Luis Martini, Tinho (Benedito), Wendel Pinheiro e Prof. Jorge Fabbro; as professoras Marileide Esqueda e Patrícia Belam pelo apoio neste ano; aos amigos e colegas por estarem ao meu lado diariamente, sempre me dando palavras de conforto e ânimo. Obrigado a todos, cada qual contribuiu com a diferença para o desenvolvimento e conclusão deste projeto.

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“A tradução (...) Trabalho penoso, extenuante, irritante, desesperador. Trabalho que enriquece, é necessário aos homens, exige abnegação, escrúpulos, honestidade, modéstia (...) E, naturalmente, talento.”

Elsa Triolet

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Resumo
Escrita por diferentes autores, a Bíblia apresenta uma seqüência de histórias e ensinamentos que formam a base das religiões cristãs atuais. Todo livro tem uma história única e deve ser lido sob seu próprio contexto histórico, gênero literário e intenção do autor. Buscando analisar o papel do tradutor dos textos bíblicos e as nuances de seu trabalho, este trabalho objetiva traçar de uma maneira mais pontual a história da bíblia e suas traduções ao longo dos anos, a nível mundial e, posteriormente, no Brasil, além de analisar quatro excertos bíblicos distintos crítico-comparativamente, nos aspectos semântico-discursivo, estilístico e cultural apresentados no Novo Testamento. Esta pesquisa é de caráter exploratório-documental e utiliza a técnica de descrição histórica e bibliográfica, fazendo uma análise críticocomparativa de quatro excertos de livros do Novo Testamento bíblia e apontando e discutindo pontos semelhantes e divergentes nas traduções das edições católicas das bíblias Nôvo Testamento e Bíblia Sagrada: Edição Catequética Popular. Este trabalho encontra justificativa no fato de que contribui para a discussão a respeito do trabalho da tradução bíblica e da existência de mudanças no texto bíblico ao longo dos anos. Palavras-chaves: Tradução Bíblica; Edições Católicas, Mudanças No Texto Bíblico.

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Abstract
Written by different authors, the Bible presents a sequence of histories and teachings that form the base of the current Christian religions. Each book has its own history and must be read on the background of its proper historical context, literary genre, intention of the author, etc. (KONINGS, 1998). Wanting to analyze the role of the translator of the Biblical texts and the nuances of his work, this work aims to trace the history of the Bible and its translations over the years in a world-wide level and later in Brazil, besides a critical-comparative analysis of four distinct Biblical excerpts, in the semantic-discursive, stylistic and cultural aspects presented in the New Testament. This research has an exploratory-documentary character and uses the historical description technique, making a critical-comparative analysis of four excerpts of book of the New Testament, pointing and arguing similar and divergent points in the translations of Catholic bible editions Nôvo Testamento and Bíblia Sagrada: Edição Catequética Popular. This work contributes for the discussion concerning the work of the Biblical translation and the existence of changes in the Biblical text over the years. Key Words: Biblical translation; Catholic Editions; Biblical Text Changes.

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Lista de Anexos

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Lista de Tabelas

Tabela 1. Divisões dos livros da bíblia hebraica. Adaptada de Alter (1997, p. 24)............19 Tabela 2. Itens para checagem de existência nas edições publicadas pela editora AveMaria. 67

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Sumário
I INTRODUÇÃO............................................................................................................... ...........11 1 A história da Bíblia e sua composição..................................................................... .................15

1.1 O Velho Testamento........................................................................................................17 1.1.1 O Pentateuco........................................................................................................... .....20 1.1.2 Os Livros Históricos........................................................................ ............................22 1.1.3 Os Livros Poéticos............................................................................... ........................26 1.1.4 Os Livros Proféticos............................................................................................ .........27 1.2 O Novo Testamento.........................................................................................................30 1.2.1 Os Evangelhos................................................................................. ............................31 1.2.2 O Livro Histórico........................................................................................ .................32 1.2.3 As Epístolas............................................................................................................ ......33 1.2.4 O Livro Profético............................................................................. ............................34 1.3. Setenta e três livros em apenas um................................................................................35 2 Tradução (bíblica) e cultura........................................................................... ..........................37 2.1 Tradução e recepção.......................................................................................................41 2.2 Tradução e cultura: uma relação...................................................................................44 3 A tradição da tradução bíblica............................................................................. .....................48 3.1. Textos anteriores ao nascimento de Cristo....................................................................49 3.1.1 Septuaginta (c. 280 a.C.)................................................................ .............................49 3.1.2 Targuns (últimos séculos a.C.)..................................................................... ................52 3.2. Textos posteriores ao nascimento de Cristo..................................................................52 3.2.1 Áquila (c. 125 a 150)................................................................................................... .54 3.2.2 Vetus Latina ou Ítala (sec. II)............................................................................ ...........54 3.2.3 Peshitta (séc. II e III)........................................................................... ........................55 3.2.4 Vulgata Latina (Jerônimo: 391-405)......................................................................... ...55 3.2.5 Tradução de John Wycliff (c. 1330-1384)............................................. .......................57 3.2.6 Tradução de Lutero (N.T.: 1522; Bíblia completa: 1534)............................................57 3.2.7 Tradução de William Tyndale (N.T.: 1526).............................................. ....................59 3.2.8 Bíblia de Genebra (N.T.: 1557; Bíblia completa: 1560)..............................................61 3.2.9 Versão do Rei Tiago (1611)........................................................................... ...............62 3.2.10 Versão de João Ferreira de Almeida (N.T.: 1681; Bíblia completa: 1753)................62 4 MUDANÇAS AO LONGO DOS ANOS: uma análise da bíblia católica comparada a versão de João ferreira de almeida............................................................................... ...........................64 4.1 Diferenças internas e externas.......................................................................................66 4.1.1 Nôvo Testamento (1969)............................................................................................... 68 4.1.2 Bíblia Sagrada: Edição Catequética Popular (2007)..................................................69 4.2 Análises dos excertos......................................................................................................70 4.2.1 Apresentação bíblica de Deus........................................................................... ...........71 4.2.2 Apresentação bíblica de Jesus.......................................................... ...........................73 4.2.3 Concessão da benção divina............................................................................. ...........74 4.2.4 Submissão da mulher............................................................................... ....................76 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................................. ......79 REFERÊNCIAS....................................................................................................................... ....81

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INTRODUÇÃO

Paz, vida, solidariedade, direitos humanos, morte, dor, solidão. Temas como esses são exaustivamente abordados e abarrotam estantes, bibliotecas, livrarias. Em especial, um único livro aborda todos essas temas e muitos outros mais. Um livro cheio de histórias, de conselhos, de orientações específicas para pessoas específicas e também para povos em geral. A Bíblia Sagrada, base da fé cristã, ainda hoje é o livro mais procurado e o mais vendido. O cristianismo, baseado exclusivamente nos escritos bíblicos, tem nesse livro sua fonte de crenças desde os tempos antigos. Motivo de grandes guerras, de mortes ao longo da Idade Média, os ensinamentos bíblicos são sagrados para os cristãos. A Bíblia Sagrada é fonte de conhecimento e salvação para todo aquele que a lê e compreende seus ensinamentos e, acima de tudo, os segue. Com textos escritos antes e depois do nascimento de Jesus, a bíblia contém uma diversidade de histórias e períodos históricos. Escrita por diferentes autores, a Bíblia contém mensagens distintas e que muitas vezes, causam dificuldades de compreensão por parte do leitor. Ao ler, o leitor fica com a impressão de o autor estar falando sobre acontecimentos do seu tempo, as vezes acontecimentos do tempo do leitor e, isso causa uma confusão no entendimento da mensagem. Konings (1998, p. 11) diz que a bíblia
Contém uma diversidade de escritos autônomos. Cada livro tem sua própria história e deve ser lido sobre o fundo de seu próprio contexto histórico, gênero literário, intenção do autor, etc. Mas a Bíblia também deve ser considerada na sua unidade, para se compreender por que e em que sentido essa biblioteca foi constituída e assumida por determinados grupos religiosos.”

O entendimento dos assuntos que a bíblia trata até hoje geram polêmica. Ao defender suas crenças, diferentes religiões que usam a bíblia como fonte de crença alegam ter a correta compreensão e que as outras religiões é que estão erradas. Até mesmo o formato e conteúdo da bíblia diferem entre as religiões. Algumas apresentam a bíblia com 66 livros, outras com 73. Essas diferenças fazem da bíblia um livro tão estudado e, conseqüentemente, tão traduzido. Essas diferenças também influem na recepção que o leitor tem ao estudar os textos bíblicos. Ao estudar os textos bíblicos, existem características que influenciam essa leitura e

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devem ser consideradas. A relação do tempo histórico em que foi escrito e o atual é um motivo de diferença que influencia a leitura. As condições sociais de autor e leitor também. Por ter sido escrita por bastantes autores, a bíblia apresenta várias visões de um mesmo povo por pessoas que pertenciam a camadas e grupos diferentes. A forma como foram escritos os livros também difere. Autores que eram camponeses, médicos, pescadores, tudo isso influencia a forma de escrita dos livros da bíblia e, ao traduzi-la, o tradutor deve considerar cada livro como um original diferente e, na medida do possível, respeitar as características individuais de cada um dos autores. Nesse sentido, esse trabalho também se baseará na estética da recepção de Hans Robert Jauss. Além de fatores como esses, a leitura que o tradutor faz do texto original também influencia a sua tradução. Ao ler o texto, o tradutor tira suas impressões e elas ficam marcadas na sua tradução. O processo da tradução não é mecânico, logo, é influenciado por características do tradutor. Sua visão do texto fica implícita ao realizar o processo de tradução. A expressão cultural que o texto original propõe passa pelas mãos do tradutor e cabe a este adapta-los ou não conforme a necessidade do texto. Ao usar essa adaptação, o tradutor coloca também sua cultura e, assim, a obra traduzida passa a conter também a visão do tradutor. Esse processo de adaptação, de leitura do texto, coloca o tradutor numa posição bastante importante, pois cabe a ele trazer a mensagem de um original para o leitor (ou inúmeros leitores) que espera ansiosamente por conhecer o que o texto traz de informações novas. Ao tratar dessa questão relacionada à cultura, a bíblia tem um ponto importante: a língua. Por não conter apenas uma língua, mas três (hebraico, aramaico e grego), sua tradução também teve momentos diferentes. Escritos em hebraico, os livros do Velho Testamento foram traduzidos posteriormente para o aramaico e para o grego. Após essas traduções, inúmeras outras foram feitas para variadas línguas, o que levou a questão da fidelidade ao original. Teria sido perdido durante essas traduções o conteúdo original? Ao se traduzir a bíblia de uma língua para outra, a consulta aos originais deveria ser feita? Ao se traduzir de uma língua para outra, perdem-se características importantes? Existem ainda os originais para serem consultados? Perguntas como essas passeiam pelo pensamento dos leitores e dão base para vários estudos acerca da tradução bíblica. O trabalho do tradutor bíblico passa a ser extremamente importante, pois a fé dos cristãos depende em muito da sua tradução. Essa responsabilidade leva o tradutor a realizar seu trabalho com extrema cautela e prestando contas ao leitor que busca inspiração para sua vida dentro dos escritos bíblicos. O caráter de responsabilidade do tradutor em relação ao conteúdo de sua tradução é e deve ser encarado e o desafio da tradução aceito.

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Nesse sentido, o objetivo desse trabalho é traçar de uma maneira mais pontual a história da bíblia e suas traduções ao longo dos anos, a nível mundial e, posteriormente, no Brasil. Os autores que fundamentarão este estudo serão Kermode e Alter (1997), Konings (1998), Bassnet (2003), Villela (1997; 2004) e Zimmer (sem data). Kermode e Alter tratam sobre a literatura original da Bíblia (Antigo e Novo Testamento), além de mostrá-la através de fatos históricos essenciais ao entendimento das formas como a Bíblia foi escrita; Konings apresenta a formação da Bíblia através dos séculos, discorrendo sobre o contexto geográfico e cultural, as línguas nas quais foi escrita e outras questões contextuais. Bassnet apresenta uma visão mais teórica da tradução, expondo os bastidores do trabalho de tradução. Villela propõe uma reflexão sobre a tradução da Bíblia no que se refere às teorias de tradução e às suas conseqüências para o texto bíblico e as polêmicas entre sagrado e profano no contexto da tradução bíblica, e Zimmer traz dados e fatos históricos imprescindíveis ao estudo da história da tradução da Bíblia. Para tanto, exemplificaremos essas mudanças culturais na tradução de textos do Novo Testamento, publicado pela Editora Ave-Maria em 1969, que é de origem católica, com uma tradução atual (2007) também publicada pela mesma editora. Somado a isso, será analisada uma tradução não católica (tradução de João Ferreira de Almeida) de 1860 com uma tradução de 2005. Por existirem várias publicações e reedições das Bíblias, devido ao fato dos cristãos basearem-se estritamente nas palavras dos textos bíblicos, o trabalho pretende mostrar as mudanças que aconteceram nas quatro edições, em especial nas duas católicas. Serão contempladas as características tanto externa como internas e os projetos de tradução. Deste modo, este trabalho objetiva responder às seguintes perguntas de pesquisa: Quais as diferenças internas e externas entre a versão Nôvo Testamento de 1969 e a versão Bíblia Sagrada: Edição Catequética Popular de 2007? Como foram traduzidos os excertos de Judas 25, João 6,69, I João 4,10 e I Coríntios 14,34-35 de ambas as versões? No que se assemelham e diferem? Quais as divergências lexicais estilísticas e discursivas entre ambos? A pesquisa é de cunho exploratório-documental e bibliográfica. A técnica utilizada é a de descrição histórica, sendo que será feita uma análise crítico-comparativa de 4 excertos de alguns livros da bíblia. Além disso, os dados bibliográficos, quanto à edição das traduções bíblicas brasileiras e sua trajetória, serão coletados de duas formas: primeiramente, será realizada uma busca na rede mundial de computadores em relação aos dados de edição; em segundo lugar, serão coletadas as datas, junto à própria Bíblia e sua ficha catalográfica, os dados de edição e textos originais que serviram como base. E, em terceiro lugar, serão coletados os dados de formatação das bíblias traduzidas no Brasil: verificando se as mesmas

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trazem introdução, prefácio, posfácio e notas de rodapé. Assim acreditamos que este estudo proporcionará o entendimento sobre o papel da cultural e do contexto na leitura e no ato da tradução.

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1 A HISTÓRIA DA BÍBLIA E SUA COMPOSIÇÃO
Para uma melhor compreensão da análise das mudanças que as Bíblias católicas sofreram ao longo dos anos é necessária uma volta ao passado, uma retomada histórica dos caminhos que a Bíblia tomou ao longo dos anos (ao ser escrita, ao ser reunida em 66 livros, etc.), um conhecimento dos livros que a compõe, para assim entender o processo das mudanças. Por ser composta de 66 livros diferentes, com alguns autores escrevendo até mais de um livro, a Bíblia tem em si uma carga histórica bastante vasta. E essa história tem como centro um povo específico, escolhido por YHWH1. Este povo, Israel, é o povo que YHWH “toma” para si e, através dos relatos bíblicos, é colocado como persongem central das histórias. Os grandes heróis, os grandes pensadores, os grandes vilões, todos têm uma característica em comum: pertencer a esse povo ou ter sua história cruzada com a história do povo de Israel. O cenário central bíblico é a chamado “Terra de Israel”, conhecida na historiografia contemporânea como a Palestina. É nesse cenário em que acontecem as grandes batalhas, os grandes desastres e as grandes promessas. As histórias desse povo são narradas através de toda a Bíblia, a qual é dividida em duas partes distintas: Velho Testamento e Novo Testamento. Dos 66 livros que compõe toda a Bíblia cristã, 39 estão presentes no Antigo Testamento e 27 no Novo Testamento. Os livros do Antigo Testamento referem-se às histórias acontecidas anteriormente ao nascimento de Jesus Cristo, iniciadas no livro chamado Gênesis e terminadas com o livro chamado Malaquias. Deste último livro passamos automaticamente ao nascimento de Jesus Cristo, descrito no primeiro livro do Novo Testamento, chamado Evangelho segundo São Mateus. Os livros do Novo Testamento apresentam a história da vida de Jesus Cristo, a continuação da divulgação de seu evangelho através de seus discípulos e, logo após, através dos apóstolos. O Novo Testamento tem seu fim com o livro do Apocalipse de São João, composto especialmente de mensagens proféticas em relação ao futuro do povo escolhido por YHWH (no Novo Testamento, não mais o povo de Israel, mas os chamados “gentios” – goyim). Mas o uso dos termos Velho, Novo e Testamento não é algo simples. Estes termos não são usados sem uma razão, pois contêm em si uma mensagem implícita. Johan Konings (1998, p. 12) afirma que “o termo ‘testamento’ não siginifica um legado deixado por alguém,
1

Segundo a tradição judaica, YHWH é a terceira pessoa do imperfeito no singular do verbo ser. Esta teoria tem como base o Capítulo 3, versículo 14, do livro de Êxodo, constituindo a base do monoteísmo judaico-cristão.

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mas a ‘aliança atestada’ entre Deus e o povo (berît)”. Essa aliança (testamento) para o judaísmo tem como significado a aliança selada entre o povo de Israel e YHWH por intermédio de Moisés. Essa aliança, segundo a compreensão cristã, foi renovada por Jesus Cristo. Robert Alter (1997, p. 23), em relação a esses termos, cita que “o uso comum na cultura ocidental, seguindo a tradição cristã, os chama de Velho Testamento, nome originário da suposição de que o Antigo requer complementação do Novo ou é, na realidade, ultrapassado pelo Novo”. Além destes termos, “o próprio termo Bíblia (do grego ta biblia – os livros) é mais uma classificação vaga do que um título” (op. cit., p. 24). Essa idealização de que o Velho Testamento necessitava ser complementado pelo Novo em nenhum momento agradou aos judeus. Robert Alter (op. cit., p. 23-24), ainda em relação a esse assunto, afirma que
Os judeus coletivamente rejeitaram o termo por tudo o que ele implica e, em termos de história literária, por certo nada autoriza imaginar que os antigos escritores hebreus compuseram suas histórias, poemas, leis e listas genealógicas com a idéia de que estavam fornecendo o prelúdio a um outro conjunto de textos a ser escrito em outra língua, séculos mais tarde.

Em relação a esses dois testamentos, as bíblias católica e cristã divergem entre si em relação à escolha e a ordem dos livros que compõem o seu cânon. A Bíblia católica apresenta 7 livros a mais que a Bíblia cristã (entenda-se aqui cristã protestante). Esses 7 livros (Tobias, Judite, 1.º e 2.º Macabeus, Livro da Sabedoria, Eclesiástico e Baruc) são chamados deuterocanônicos (recusados pelos cristãos). Esse número desigual de livros entre uma versão e outra gera pôlemica. Konings (1998, p. 13) afirma que
Já antes de Cristo existiam duas versões da Bíblia do Antigo Testamento: a original, em língua hebraica, e a tradução grega, para os judeus de língua grega. A tradução grega incluía alguns livros e partes a mais que o original hebraico. [...] no fim do século I d.C., excluíram definitivamente os cristãos de suas sinagogas, os rabinos judeus decidiram aceitar somente os livros que constavam no original hebraico; adotaram assim o chamado ‘cânon restrito’, enquanto os cristãos continuavam com o ‘cânon amplo’ do Antigo Testamento”.

Muito tempo depois disso, os cristãos (protestantes) adotaram a maneira judaica quanto ao conteúdo e ordem dos livros do Antigo Testamento. Os cristãos católicos optaram por utilizar uma ordem dos livros semelhante a dos primeiros cristãos. Com isso, esses livros

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que não são encontrados nas bíblias cristãs-protestantes são chamados de deuterocanônicos, pois foram “canonizados num momento posterior”. Para uma melhor compreensão dessa divisão e dos livros que compõe a Bíblia, é necessário tratarmos de ambos separadamente. Primeiramente, uma visão acerca dos livros do Velho Testamento e, após isso, uma visão do Novo Testamento.

1.1 O Velho Testamento
Apesar da diferença do número de livros que apresentam, tanto a Bíblia católica quanto a protestante apresentam 35 livros iguais. Esses livros, que em sua grande maioria foram escritos no idioma do povo de Israel da época, o hebraico, apresentam algumas partes escritas em aramaico, língua que, segundo Konings (1998), era a língua administrativa do império persa e ainda falada no tempo de Cristo. Os versículos de Daniel 2,4b-7,28 e Esdras 4,8;6,18;7,12-26, por exemplo, foram escritos em aramaico. A Bíblia hebraica ainda tem em si uma característica que todas as bíblias posteriores herdaram: refusão de textos dentro de seu conteúdo completo. Alter (1997, p. 26) afirma que “a Bíblia hebraica, porque com tanta freqüência articula seus significados refundindo textos dentro de seu próprio corpus, já se encaminha para ser uma obra integrada, com toda a sua diversidade antológica”. Existem retomadas de leis antigas, presentes nos primeiros livros (Pentateuco), cumprimento de acontecimentos previstos pelos profetas do Antigo Testamento durante a extensão do Novo Testamento. Um exemplo interessante é a retomada que o livro de Rute faz do livro de Gênesis. Quando Booz encontra Rute em seu campo, posteriormente a ela se prostrar diante dele após sua oferta de proteção e também de hospitalidade, ela a louva com as palavras: “Booz respondeu: Fiquei sabendo de tudo o que você fez por sua sogra, depois que você perdeu o marido. Você deixou pai e mãe, abandonou sua terra natal e veio viver no meio de um povo que você não conhecia” (Rute 2, 11)2. Aqui existe uma forte lembrança das palavras de YHWH a Abraão, presentes no livro de Gênesis, onde YHWH diz a Abraão: “Javé disse a Abraão: Saia de sua terra, do meio de seus parentes e da casa de seu pai, e vá para a terra que eu lhe mostrarei” (Gênesis 12,1)3. Tanto em Gênesis como em Rute, as palavras terra-lugar de nascimento e pai estão presentes nos dois textos, indicando que Booz cita algo já dito por
2 3

Bíblia Sagrada: Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 2000. Idem.

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outro personagem bíblico (que pertenceu ao mesmo povo que ele). Mas essas retomadas presentes não seriam possíveis se um dos livros não fosse integrante do cânon bíblico. Além de fazer retomadas a textos anteriores, o Antigo Testamento apresenta alguns problemas de conteúdo geral. Pode-se tomar como exemplo o caso de Gênesis 1 e Gênesis 23, além do caso de Gênesis 12 e Gênesis 20. No primeiro caso, a história da criação do mundo juntamente com a criação do homem é colocada de duas formas de seqüência. Gênesis 1 mostra a criação do mundo na seqüência: Luz – Firmamento entre águas – Divisão de terra e mar – Natureza – Sol e lua – Peixes e aves – Animais domésticos e ferozes – Homem e mulher. Ao contrário de Gênesis 1, o capítulo 2 apresenta a criação com o homem sendo o primeiro a ser criado e depois o restante. Essa narrativa de uma mesma história, porém, com diferenças, mostra em dois capítulos narrativas concorrentes de um mesmo fato. Já nos capítulos 12 e 20 de Gênesis apresentam-se ao leitor duas narrativas da história de Abraão em que este corre risco de morte por ser esposo de Sara. No capítulo 12 Abraão teme morrer e apresenta Sara como sua irmã ao Faraó. O Faraó coloca Sara sobre suas posses e trata muito bem a Abraão, enchendo-lhe de presentes. Mesmo assim, o Faraó é castigado por YHWH com doenças. Sara então é devolvida a Abraão e ele tem permissão de sair do Egito com sua mulher. No capítulo 20, novamente Abraão apresenta Sara ao rei de Gerar, Abimalec. O rei manda raptar Sara. É castigado por YHWH. Sara novamente é devolvida a Abraão. Além disso, a autoria de Moisés é questionada devido a um outro problema de conteúdo geral. Konings trata muito bem desse aspecto em seu livro A Bíblia nas suas origens e hoje dizendo que
[...] muitas leis e situações mencionadas no Pentateuco não correspondem ao tempo de Moisés, quando hebreus vivam como nômades no deserto, e sim, ao período em que os israelitas já estavam assentados como agricultores na Terra Prometida. (KONINGS, op. cit., p. 76)

Mesmo tratando-se de um problema de conteúdo geral, o fato de Moisés escrever sobre fatos posteriores a seu tempo, não se pode discordar de que a visão que o Pentateuco proporciona do início da história do mundo e do povo é grandiosa, além de que consegue fazer uma maravilhosa transição para a historiografia profética do período das tribos e do reinado de Israel. Essa transição, feita no livro de Deuteronômio, não deixa um vazio ao leitor, pois o início do livro de Josué já teve uma prévia apresentada nos capítulos finais de Deuteronômio.

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A formação do cânon bíblico, mais especificamente do Antigo Testamento proporciona um conhecimento por parte do leitor desde a criação do mundo até os tempos dos profetas, antecipando o nascimento de Jesus Cristo. A estrutura desse cânon tem por objetivo dar essa visão histórica geral para que os acontecimentos do Novo Testamento tenham uam base já prevista e/ou profetizada. O cânon do Antigo Testamento nem sempre foi da forma como conhecemos hoje. Sabemos que essa divisão foi formada no século V a.C., nos dias de Esdras e Neemias, mas antes desse período possuía uma estrutura diferente. A Bíblia hebraica seguia uma estrutura diferente da utilizada hoje, sendo desiginada pelos judeus como Tanakh. De acordo com Alter (1997), a palavra Tanakh era “um acrônimo para Torah (Pentateuco), Neviim (profetas anteriores e posteriores) e Ketuvim (Coletânea de Escritos ou Tudo o Mais)” (op. cit., p. 24). A Bíblia hebraica então apresentava uma divisão em 3 grandes partes: Nome Torah Significado Pentateuco Descrição Compreendem

os

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primeiros livros: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Neviim Profetas posteriores anteriores Deuteronômio. e São divididos em anteriores: Josué, Juízes, Samuel e Reis; e posteriores: Isaías, Jeremias, Ezequiel e os doze Ketuvim profetas menores. Coletânea de Escritos ou São subdivididos em livros Tudo o Mais poéticos: Provérbios e Jó; Salmos, rolos:

Cântico dos Cânticos, Rute, Lamentações, Eclesiastes e Ester; e outros livros: Daniel, Esdras e Neemias juntos, e Crônicas.
Tabela 1. Divisões dos livros da bíblia hebraica. Adaptada de Alter (1997, p. 24)

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Para melhor entender o Antigo Testamento como um todo, uma visão um pouco mais detalhada dos livros que fazem parte dele é de grande interesse. E essa visão será dividida em 4 tópicos: Pentateuco, Livros Históricos, Livros Poéticos e Livros Proféticos.

1.1.1 O Pentateuco

O Pentateuco (cinco livros), também conhecido como Torah, que significa lei, apresenta os cinco livros de Moisés. A visão apresentada por esses livros inicia-se com a criação do mundo por YHWH, desde a separação entre terra e água até a criação do homem a sua imagem e semelhança. Esse início do mundo e a continuação da raça humana são apresentados no primeiro livro dos 5: o Gênesis. O livro transmite uma verdade religiosa ao longo de seus 50 capítulos:
Deus escolhe um povo para veículo de fé e vivência religiosa autênticas. Não é um compêndio de história. Narra as vivências religiosas dos patriarcas, não com recitação fria e distante de episódios passados, mas como meditação contemplativa de uma experiência que se repete e atualiza4.

O Pentateuco apresenta em seu conteúdo uma série de histórias e leis relacionadas ao povo de Israel. Leis essas que, ao longo da história, foram sendo reformuladas, adaptadas, mas nunca esquecidas. Todas essas leis que o Pentateuco apresenta têm como base a liberdade concedida por YHWH aos israelitas do povo egípcio, que sinaliza o início da formação real do povo de Israel. Através dessa libertação os israelitas são chamados de povo (povo de Israel, povo de YHWH). As leis apresentadas no Pentateuco são diretas ao povo de Israel em todas as etapas de sua história. Em momento algum as leis são utilizadas para fins errados, apenas para melhorar o convívio com YHWH e a relação com o próximo. Essa lei, apresentada no Monte Sinai por YHWH a Moisés é simbolizada por duas tábuas, contendo os Dez Mandamentos. As leis visam trazer libertação do povo como um todo e criação de uma sociedade justa, que ande segundo os princípios de YHWH.

4

Retirado de Bíblia Sagrada: traduzida das Línguas Originais com uso crítico de todas as fontes antigas pelos Missionários Capuchinho. Lisboa: Stampley, [s.d].

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A questão das alianças de YHWH com os patriarcas também é um aspecto interessante do Velho Testamento, em especial no Pentateuco. As alianças de YHWH com Moisés, com Abraão e também com José são essenciais para o desenvolvimento da história de Israel enquanto povo. Na destruição da terra através do dilúvio, na preservação da espécie e aumento dela e no cuidado através de sonhos fazem com que o início do povo de Israel seja marcado por sonhos, crenças de um futuro melhor e dedicação a YHWH. O livro de Êxodo, em particular, apresenta a aliança dos homens com YHWH através das tábuas da lei. Através dessas leis, a sociedade de Israel seria livre e protegida. Através do cumprimento dessas leis, o povo de Israel poderia acreditar que sempre se veria diante de demonstrações materiais do poder de YHWH (José), como no dilúvio (Noé) e no aumento da geração (Abraão) e demonstração de amor e cuidado (Moisés). Em um determinado momento da história, o controle sobre o povo começa a fugir de Moisés, e chega a hora de serem eleitos novos juízes para julgarem porções pequenas do grande povo. Através de Moisés, o povo chega a tão sonhada terra de Canaã, e cabe a Moisés transformar um grande número de pessoas fugitivas em um povo com características próprias, dono de uma cultura diferente de todas as culturas dos povos ao seu redor. Sobre Moisés e seu papel no Pentateuco, Alter (1997) diz que Moisés
É o mediador da Aliança Sagrada entre Javé e seu povo, o chefe carismático do povo hebreu em sua marcha de escravidão do Egito até a aliança no Monte Sinai. Embora tendo exercido todas estas funções, a atuação de Moisés não se limitava a nenhuma delas. Mas na função de legislador, ele se destacava, como o atestam, unanimente todas as tradições do Pentateuco. (op. cit., 42-43)

O terceiro livro, Levítico, é apresentado como o livro das leis do antigo povo de Israel. Mas por trás da apresentação monótona das leis, o livro traz ao leitor o ideal proposto ao povo: o de prestar culto ao YHWH que os havia libertado do Egito através de sacrifícios, comunhão e reconhecimento de seus dons. O livro apresenta uma quantidade de leis relativas a esse ideal. A passagem pelo deserto traz ao povo o entendimento da necessidade de crença na fonte de esperança (YHWH). A passagem pelo deserto se faz necessária para que o povo possa entender as leis e aceitá-las de coração aberto. David Damrosch (apud ALTER; KERMODE, 1997, p. 90) diz que “em sua apresentação da Lei dentro dessa visão do potencial redentor do exílio, o Levítico é o próprio âmago da narrativa do Pentateuco”. Um grande recenseamento é apresentado no livro de Números (quarto do Pentateuco), além de duas partes interessantes na caminhada do povo de Israel rumo a Terra

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Prometida. James S. Ackermanm (apud ALTER; KERMODE, 1997, p. 91) diz que “o livro dos Números narra a partida de Israel do Monte Sinai e sua jornada no Deserto por uma geração inteira até alcançar a fronteira da Terra Prometida”. Em um determinando momento da história (narrado no capítulo 16), os líderes mostram-se sujeitos a fraquezas e desânimos, assim como o povo já havia mostrado, mesmo sendo eles os mais importantes dentro de todo o povo. Em um outro momento, a história interessante de uma jumenta que adquiri a capacidade da fala. Mesmo sendo um estrangeiro, Balaão passa pela experiência de tornar-se um profeta de Israel. Essa parte mostra a necessidade de um profeta de YHWH dentro do povo. Uma conexão direta com YHWH através de um homem, mesmo YHWH habitando dentro de seu povo no Santuário. O último livro do Pentateuco, o Deuteronômio, mostra ao leitor uma reapresentação da Lei de YHWH, agora mostrada em sentido da vida do povo na Terra Prometida. A idéia central do livro mostra uma opção ao povo como um todo: seguir as ordens de YHWH ou não seguir. Se o povo decide seguir a YHWH, se o povo for fiel à aliança feita com YHWH, o povo será feliz e próspero. Se a decisão for a de quebrar essa aliança, de não seguir mais a YHWH, então isso acarretará desgraças e eles poderão até perder a terra. O livro também apresenta uma divisão do povo. Aqueles que agora entrariam na Terra Prometida não eram mais aqueles a quem YHWH havia feito a promessa. Eram uma nova geração, pois aquela primeira havia perdido o direito. Moisés mesmo era um deles. Apenas pode vislumbrar a Terra, mas não possuí-la. Robert Polzin (apud ALTER; KERMODE, 1997, p. 105) diz que “o Deuteronômio oferece uma visão geral da história inteira de Israel, que será em breve recontada com detalhes de Josué a II Reis”. Por ser dado a Moisés o crédito da escrita do Pentateuco, o quinto livro encerra-se com a morte de Moisés. O povo então adentra a Terra Prometida. Moisés conduz o povo do Egito as portas do local, mas, por desobediência anterior, não recebe o privilégio de possuir a terra. Ao se encerrar o Pentateuco, a Bíblia traz ao leitor o início dos livros históricos, relativos ao povo ou a personagens do povo de Israel.

1.1.2 Os Livros Históricos

Os Livros Históricos apresentam a história do povo de Israel desde a entrada na Terra Prometida sobre o comando de Josué até quase a época do exílio em Babilônia. É composto

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pelos livros de Josué, Juízes, Rute, I e II Samuel, I e II Reis, I e II Crônicas, Esdras, Neemias, Ester. Nas bíblias católicas existe o acréscimo dos livros de Tobias, Judite, I Macabeus e II Macabeus. A apresentação dos livros não segue uma ordem totalmente cronológica, mas uma interpretação de fatos relacionados à fé dos personagens. Uma ordem cronológica é seguida pelos livros de Josué, Juízes, I e II Samuel e I e II Reis. Os livros I e II Crônicas, Esdras e Neemias referem-se ao tempo de pós-exílio babilônico. Por fim, os livros de Rute, Tobias, Judite, Ester, I e II Macabeus referem-se a narrativas particulares. Josué, o primeiro dos Livros Históricos, apresenta a narrativa da conquista da Terra Prometida. Em nenhum momento o povo obtém a terra de forma fácil. Essa conquista torna-se um processo longo e ao mesmo tempo lento, muitas vezes deixando de ser pacífico para tornar-se violento. Segundo a Introdução da Bíblia Sagrada: Edição Pastoral5, “o livro de Josué constitui, portanto, um insuperável tratado sobre a graça de Deus, que é a base da vida e da história”. A promessa feita por YHWH durante o período do Pentateuco agora começa a tornar-se realidade para a geração de Josué, geração seguinte àquela que havia sido libertada do cativeiro egípcio. David M. Gunn (apud ALTER; KERMODE, 1997, p. 115) afirma que o livro de Josué
[...] retoma a história – uma história que vai de Gênesis a II Reis – onde o Deuteronômio para: o povo deixou o Egito, a terra do cativeiro, atravessou o Mar Vermelho, recebeu a lei de YHWH no Sinai, atravessou o deserto, tomou posse da terra a leste do Jordão (Núm. 32) e agora está prestes a receber o restante da promessa.

Uma semelhança interessante com o livro Deuteronômio é que ambos terminam com a morte de seus escritores. Se o Pentateuco termina com a morte de Moisés, o livro de Josué termina com a breve despedida de Josué ao povo e a narração de sua morte. E é com a sua morte que entra em cena a necessidade do povo de uma liderança feita por meio de juízes. A morte de Josué, a divisão do povo em tribos e o crescimento do povo como um todo fazem surgir os juízes entre o povo. As tribos são governadas por juízes vitalícios, que em determinados momentos da história dão lugar a um único juíz que comanda toda a nação. Em especial o destaque para Débora e Barac, Gideão e Sansão. O ponto de interesse na leitura do livro de Juízes é uma seqüência de fatos que se assemelham muito. Na história dos 4 juízes já citados, essa seqüência é idêntica.

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Bíblia Sagrada: Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 2000. p. 241. 41ª impressão.

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Nessa seqüência, o povo começa a praticar pecado e abandonar (e/ou esquecer) YHWH. Logo após, passa por um período de castigos, pois está servindo a ídolos e está novamente sem liberdade. Após passar por essas duas etapas, começam a passar por um processo de conversão, onde, no limite do sofrimento, começam a voltar a lembrar de YHWH e a buscá-lo. Por fim, entram na última etapa, a etapa da graça, na qual YHWH escuta seus clamores e os liberta do opressores através dos 4 grandes juízes citados anteriormente. Nas histórias dos 4 grandes juízes, essa seqüência se repete de uma forma muito clara. É necessário passar por um período de intenso sofrimento para que o povo de Israel volte a ser governado inteiramente por YHWH. Diferentemente dos outros povos, Israel não era um povo ainda monárquico. Mas essa diferença tem seu fim nos livros de I e II Samuel. A transição do período dos juízes é feita por Samuel, ora um grande juíz, ora um profeta de Deus. Cabe a ele escolher (sob orientação de YHWH) o primeiro monarca de Israel. Nos dois livros, apresentam-se as histórias dos primeiros dois monarcas de Israel: Saul e Davi. A Bíblia Sagrada: Edição Pastoral (2000, p. 301) cita que “I Samuel oferece, portanto, uma visão crítica da autoridade política. Mostra que Deus é o único rei sobre seu povo. Para ser legítimo, o rei humano deve ser representante de Deus, isto é, servir a Deus através do serviço ao povo”. Saul, primeiro rei de Israel, decide seguir um caminho diferente do proposto por YHWH, Saul tem um reinado conturbado e coloca fim a sua vida se jogando sobre um espada. Com a morte de Saul, o livro de I Samuel tem seu fim. A figura de Davi é o centro do livro de II Samuel. Mesmo que a morte de Samuel acontece no capítulo 25 de I Samuel, a narrativa continua. O segundo livro apresenta o reinado de Davi sobre Israel. De maneira diferente, Davi escolhe reinar de acordo com os princípios de YHWH, seguindo todas as ordens deixadas por ele. Davi torna-se um modelo de autoridade política que desenvolve (e prega) a justiça. Davi traz ao povo o sentimento de esperar o Messias que os iria reunir novamente. Joel Rosenberg (apud ALTER; KERMODE, 1997, p. 156), ao falar de ambos os livros de Samuel, diz que
Samuel é, assim, um trabalho de crítica nacional. Ele reconhece que Israel não teria sobrevivido, política ou culturalmente, sem a presença de uma casa real dinástica. Mas torna tanto a casa como seus súditos responsáveis por padrões firmes de justiça profética – não aos padrões de profetas de culto ou exáticos profissionais, mas de líderes proféticos moralmente íntegros na tradição de Moisés, Josué, Débora, Gideão e Samuel.

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Os livros de I e II Reis dão continuidade à história da monarquia de Israel. Depois da morte do sucessor de Davi, Salomão, o reino se divide em dois: o reino de Israel, que tem como sede a cidade de Samaria, e o reino de Judá, que tem como sede a cidade de Jerusalém. Ambos os livros tratam de um mesmo tema: se os reis são fiéis a Deus, o povo recebe bençãos e tem prosperidade; se os reis são infiéis, o povo recebe maldições, chegam à ruína e são levados ao exílio (II Reis 17). Mais uma vez, o tema central dos livros anteriores é colocado: a presença do povo na Terra Prometida só é possível se existe fidelidade a YHWH; a partir do momento em que o povo se esquece dEle, começam a sofrer as conseqüências. Ainda nesses dois livros, dois temas são apresentados: o Templo e o profetismo. O Templo como local de reunião de todo o povo e encontro com YHWH. Os profetas como mensageiros diretos de YHWH e responsáveis por manter a consciência do povo voltada aos princípios de YHWH, para que o povo não o esqueça e não seja castigado. Ambos os livros de Crônicas (I e II Crônicas) tem como tema principal o templo e os sacerdotes e levitas que dentro dele exercem suas funções respectivas. Apresentam em especial o papel dos levitas dentro do povo, tanto nas linhas genealógicas quanto na narrativa. A Bíblia Sagrada: Edição Pastoral afirma que “os livros das Crônicas, portanto, oferecem uma versão da história que reivindica e justifica a função do levita na liderança da comunidade judaica”. Os levitas são apresentados como aqueles que relembram o povo da aliança anteriormente feita com YHWH e, dessa forma, necessariamente detentores de uma posição privilegiada entre o povo. Nessa narrativa, apenas o Reino do Israel é citado. Nos livros de Esdras e Neemias, o tema central é a organização da comunidade, formada após o exílio na Babilônia. Juntos, possuindo 23 capítulos, abrangem três unidades narrativas distintas, com um personagem central em casa uma delas. Shemaryahu Talmon (apud ALTER; KERMODE, 1997, p. 384) cita que “os primeiros seis capítulos tratam da etapa inicial de repatriação, sob a liderança do descendente davídico Zorobabel e do sumo sacerdote Josué (538-515 a.C.); (...) os quatro capítulos seguintes referem-se a Esdras, sumo-sacerdote e escriba que, segundo o relato, chefiou o retorno de outro contingente de judeus no sétimo ano do rei persa Artachshast (...)”. Os outros treze capítulos relatam a história de Neemias. Os outros seis livros não se encaixam nessa narrativa anterior ao exílio e também após o mesmo. Tobias, Ester, Rute e Judite podem ser considerados romances, por colocarem histórias ao leitor, histórias de situações típicas dos judeus. Servem de modelo para uma análise profunda de certos momentos e/ou situações enfrentadas pela monarquia e pelo povo. Por fim, os livros I e II Macabeus referem-se ao sentido religioso da resistência judaica através do uso da crônica. Segundo a Bíblia Sagrada: Edição Pastoral, ambos os livros de

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Macabeus apresentam “estilo de crônica elogiosa sobre os heróis da fé, mostrando as bases para uma reflexão sobre o martírio”.

1.1.3 Os Livros Poéticos

Os Livros Poéticos, também chamados de Sapienciais, apresentam ao leitor a sabedoria e espiritualidade do povo de Israel. A essa sabedoria não se deve conotar um acúmulo de conhecimento ou excesso de inteligência, mas sim o uso do bom senso e do discernimento perante situações que exigem decisões importantes. Nestes livros, o leitor pode encontrar exemplos vividos pelos personagens e utilizá-los posteriormente em sua própria vida. Os problemas do cotidiano do povo israelita trazem lições importantes que são expostas ao longo dos conteúdos dos Livros Poéticos. Provérbios e Eclesiático são dois livros que apresentam a sabedoria popular em forma de coleção de frases e sentenças curtas que trazem saídas para diferentes situações enfrentadas por qualquer tipo de pessoa. James G. Williams (apud ALTER, 1997, p. 288) afirma que “o papel que os provérbios e máximas desempenham na retificação de situações sociais e sustentação de decretos legais estão intimamente relacionado ao que foi revelado em algumas teorias modernas do eu; essas teorias oferecem certos dados sobre a função da sabedoria”. Os provérbios são originados na experiência de vida do povo e relatados a gerações posteriores através de breves frases que contém esse conhecimento. Além disso, contém a verdade de YHWH, pois esse conhecimento adquirido pelo povo é fruto da experiência de vida através de uma vida ligada a YHWH. Os livros de Jó, Eclesiastes e Sabedoria apresentam um foco mais específico sobre os problemas da vida. Tratam de temas que despertam interesse do ser humanos, temas esses que são discutidos até mesmo nos dias atuais. O sentido da vida, a morte, o bem e o mal, a justiça, esses temas são abordados de uma maneira mais profunda por esses três livros. Em especial, destaca-se o livro de Jó, por sua forma de escrita (poesia) e pela discussão que trás ao longo de seus 42 capítulos. Ao discutir o problema do bem e do mal em relação ao ser humano, o sofrimento físico e psicológico causado por essa diferença entre bem e mal, o livro discute de uma forma bastante interessante a relação entre YHWH e o homem. Através da história deste personagem, YHWH é mostrado de uma forma mais amorosa em relação ao homem, sendo que essa forma mais amorosa se dá quando existe a disponibilidade de caminhar juntamente

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com o ser humano e com ele crescer social e materialmente. Nos três livros, de formas diferentes, essa relação YHWH-ser humano é apresentada. O livro chamado Cântico dos Cânticos trata do amor humano fazendo uma relação com o amor de YHWH por ser povo, revelando o amor de YHWH pela humanidade. Ao falar do amor humano, o livro apresenta o amor de YHWH. Francis Landu (apud ALTER, 1997, p. 341) diz que “mais centralmente, o Cântico é um reflexo da história do Jardim do Éden, usando as mesmas imagens de jardim e árvore, substituindo a dissociação traumática do homem e animais por sua integração metafórica. Através dele vislumbramos, tardiamente, pela graça da poesia, a possibilidade do paraíso”. O livro ainda utiliza-se de menções constantes a elementos da natureza. Por fim, o livro de Salmos apresenta a espiritualidade de Israel através de orações. Dentro das orações, diversas situações da vida humana são abordadas. YHWH mais uma vez é apresentado através da experiência cotidiana e a necessidade de uma relação íntima com Ele torna-se imprescindível. Os salmos são poesias (forma mais apropriada para expressar os sentimentos diante da realidade da vida. Robert Alter (1997, p. 278-279), ao falar sobre o livro de Salmos, afirma que “o Livro dos Salmos reflete certas preocupações temáticas específicas e recorrentes. Estas não são, como se poderia pensar de início, coextensivas com o gênero salmódico, mas, pelo contrário, tendem a cruzar-se nos diferentes gêneros”. Preocupações com a morte, com a salvação, com os problemas da vida, essas preocupações são tratadas ao longo da extensão do livro de Salmos.

1.1.4 Os Livros Proféticos

Após uma pausa a respeito da história de Israel feita pelos livros poéticos, a história é retomada pelos Livros Proféticos. O tema central destes livros é o desejo de YHWH de que seu povo alcance grandes conquistas e faça mudanças. Através de seus profetas YHWH fala ao seu povo em diferentes épocas sobre presente e futuro. A mensagem destes profetas carrega duas vertentes: a exigência imediata de conversão e o anúncio de esperança. A conversão feita no presente acarreta em esperança futura. Os profetas, de maneiras diferentes e em épocas diferentes, procuram levar o povo a um relacionamento íntimo comYHWH. Em especial, destacam-se Isaías, Jeremias e Ezequiel, Jonas e Davi.

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O livro de Isaías pode ser dividido em 3 partes para facililitar seu entendimento. Do capítulo 1 ao 39, o livro apresenta a santidade de YHWH como tema central, utilizando oráculos diversos (capítulos 1-12), oráculos contra pagãos (capítulos 13-23), conclusões dos oráculos anteriores (capítulos 14-27), profecias de Isaías (capítulos 28-35), e uma seção narrativa com poemas inseridos (capítulos 36-39); a segunda parte apresenta a situação histórica do exílio, antecipando o retorno do povo. Apresenta uma mensagem de esperança e consolação (capítulos 40-55); a terceira parte retoma o mesmo tema da segunda, mas introduz oráculos sobre julgamentos. Além disso, procura estimular a comunidade formada após o exílio. O papel de Isaías como profeta é destacado por Luis Alonso Schökel (apud ALTER, 1997, p. 193), ao dizer que “um grande inimigo da esperança é a nostalgia: o sonho de um passado dourado, que nunca deve voltar. Dedicando tempo excessivo ao passado, o povo não vê o presente nem o futuro. O profeta denuncia essa nostalgia paralisante e, contra o ensino tradicional sobre a recordação (Salmos 78:5-7), ousadamente os instrui: ‘Não fiqueis a lembrar coisas passadas” (Salmos 43:18), para que eles possam compreender o advento de um futuro novo. Essa mudança de visão é possível por Isaías. Os livros de Jeremias e Ezequiel são livros distintos, nos quais a atuação dos dois profetas se dá na transição de Israel para o exílio. O profeta Jeremias pertence ao mundo camponês. Sua atuação extende-se por quatro períodos distintos: durante os reinados de Josias, Joaquim e Sedecias, além da posterioridade da queda de Jerusalém. Jeremias traz uma visão camponesa sobre a situação do país. Já Ezequiel tem sua atuação durante o período de exílio na Babilônia. Assim como aconteceu no passado, cabe a ele trazer luz a mente do povo ao pregar uma conversão completa a YHWH para que o povo possa voltar a ser livre. A atuação destes dois profetas, mesmo em períodos distintos, porém em seqüência, tentam elucidar o povo da antiga aliança feita antes mesmo de conquistarem a Terra Prometida. Apesar de aparecer entre os Profetas Menores, o livro de Jonas apresenta-se com diferenças marcantes, principalmente no que tange a obra literária. James S. Ackrman (apud ALTER, 1997, p. 251) diz que “enquanto os Profetas Maiores e Menores são essencialmente coleções de oráculos, Jonas reconta as aventuras de um profeta que luta contra sua missão divina”. A história desse profeta, marcada por narrativas grandiosas (Jonas é engolido por um grande peixe e passa três dias em seu ventre, por exemplo), o livro aponta para a conversão de uma cidade incrivelmente pecaminosa, deixando explícita a mensagem de que todos têm uma chance de conversão aos princípios de YHWH. O livro de Daniel (um dos maiores profetas do Antigo Testamento, talvez o maior deles) apresenta uma característica que o diferencia de todos os outros: o profetismo

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apocalíptico. O profeta não apenas trazia mensagens sobre o povo de Israel, mas sobre o futuro do mundo. O livro pode ser dividido em duas partes distintas: a primeira (capítulos 1-6) traz as histórias de Daniel e seus amigos durante o domínio persa; a segunda trata sobre o futuro, em especial os acontecimentos anteriores ao estabelecimento do reino de Deus. A preocupação com o futuro traz ao presente a necessidade de fidelidade e perseverança nas promessas feitas por YHWH. Além do profetismo apocalíptico, o livro de Daniel traz uma “diversidade lingüística e literária (...) [que] revela uma estrutura composta. As partes de abertura e encerramento (1:1-2:4a e 8-12), em hebraico, emolduram uma porção em aramaico que é, ela própria, um composto (2:4b-6:28 e 7:1-28)”6. Os outros livros que compõem os Livros Proféticos (Lamentações, Baruc, Oséias, Joel, Amós, Obadias, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias) vão retomar o ideal de que o povo necessita dedicar-se (converter-se) inteiramente a YHWH, sem nenhum tipo de reserva. Cada um a seu estilo, os profetas tentam trazer o povo de volta aos caminhos de Deus, mas de uma maneira completa, não apenas algumas pessoas. Como exemplo, Miquéias, profeta que de origem camponesa, utiliza-se de uma linguagem franca e concreta, começa denunciando os erros que o povo comete e termina trazendo mensagens de esperança e também promessas. Já o profeta Malaquias (o último livro do Velho Testamento leva seu nome) utiliza-se do formato perguntas e respostas para fazer o povo rever sua fé e com isso mudar sua forma de ver a religião. Traz a mensagem de que YHWH não se esquece dos justos e, portanto, o povo precisa tornar-se justo para que Deus não se esqueça dele. O livro do profeta Malaquias encerra o Velho Testamento. Após este livro, iniciam-se os livros que compõe o Novo Testamento. É perceptível que a mensagem contida no Velho Testamento gira sempre em torno da conversão completa do povo a YHWH (de geração em geração, pois sempre aparecem personagens pregando essa mensagem ao povo). Tanto na formação do povo de Israel como em toda a sua história, a presneça de YHWH é constante e sempre necessária. Por mais longe que o povo esteja dEle, a necessidade faz com que eles tornem a procurá-lo, mesmo que muitas vezes seja necessário alguém relembrá-los que Ele exista. Após isso, a história continua com o nascimento de Jesus Cristo e seu ministério. O Velho Testamento encerra-se e dá lugar ao Novo Testamento.

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TALMON, Shemaryahu. Daniel. In: KERMODE, Frank; ALTER, Robert (Org.). Guia literário da Bíblia. Tradução Raul Fiker. Revisão de tradução Gilson César Cardoso de Souza. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1997. (Prismas)

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1.2 O Novo Testamento
Diferente do Velho Testamento, tanto bíblias católicas quanto protestantes possuem o mesmo número de livros que compõem o Novo Testamento. O tema central é Jesus Cristo. Uma característica interessante é que ele não é composto totalmente por livros, mas também por cartas, sendo que 21 dos 27 livros do Novo Testamento são cartas. Por ter em mãos os escritos do Antigo Testamento, tanto Jesus Cristo (em seus discursos) quanto seus discípulos e apóstolos utilizam bastantes referências a passagens do Velho Testamento. Frank Kermode (1997, p. 403) afirma que “o Antigo Testamento, portanto, molda as narrativas do Novo, que não pode ser plenamente entendido sem referência a seu predecessor sagrado”. Através dos livros do Novo Testamento é possível perceber que Jesus Cristo veio estabelecer a aliança definitiva entre Deus e os homens. Em nenhum momento os livros do Novo Testamento prentendem ser considerados como biografias de Jesus Cristo. Foram escritos unicamente com o objetivo de propagar as aos outros as mensagens de Cristo através das eras. Além disso, o pensamento de que o Novo Testamento foi escrito em função de tomar o lugar do Velho Testamento é incorreto. Kermode (op. cit., p. 644) cita que
[...] nem Paulo nem os evangelistas escreviam com o objetivo de acrescentar algo a Bíblia existente; na verdade, o único livro do Novo Testamento que reivindica esse status inspirado é o Apocalipse, com sua ameaça de danação contra qualquer um que presumivelmente lhe fizer acréscimos.

Os livros do Novo Testamento apresentam primeiramente a história da vida de Jesus Cristo (Evangelhos), relatando sobre sua igreja (Atos), apresenta as 21 cartas (Epístolas) e termina com um livro profético (Apocalipse). Todas as histórias e relatos estão voltados para Jesus Cristo e seu ministério. Em nenhum momento o Velho Testamento é descartado ou esquecido. Sobre isso, Kermode (op. cit., p. 407) cita ainda que “ao considerar tais questões, lembremos, mais uma vez, que a Bíblia dos autores do Novo Testamento era a Bíblia hebraica (e suas traduções e paráfrases gregas e aramaicas). Sobre esse texto fundador foi sobreposto um forte kerygma oral, a proclamação cristã, mas as escrituras, o fundamento escrito, eram especialmente importantes para os evangelistas escritores”. Uma visão mais detalhada dos livros do Novo Testamento ajuda bastante na compreensão do tema central.

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1.2.1 Os Evangelhos

Os quatro evangelhos apresentam a vida de Jesus Cristo e seu ministério. Os quatro evangelhos apresentam diferenças entre seus conteúdos, pois apresentam as formas de cada discípulo ver e relatar os acontecimentos. Muitas histórias se repetem, apresentando adição de informações e/ou também subtração. Mas o tema principal dos quatro livros é a vida e o ministério de Jesus Cristo. Jesus Cristo é apresentado como Emanuel (que significa Deus Conosco) e o significado do nome é a mensagem principal do Evangelho segundo São Mateus. Para o autor, as promessas apresentadas pelos profetas no Velho Testamento têm seu cumprimento com o nascimento e a vida de Jesus Cristo. Tudo o que um dia havia sido fonte de esperança para o povo de Israel agora tornava-se realidade na pessoa de Jesus Cristo. A presença de Jesus Cristo na vida diária é o ponto forte do livro. O leitor é convidado a uma reflexão sobre o papel de Jesus Cristo em sua vida. Kermode (apud ALTER; KERMODE, 1997, p. 417) diz que “o Evangelho de Mateus é muito mais longo que o de Marcos e acrescenta ao registro muita coisa referente ao ensinamento de Jesus, além de uma história da Natividade totalmente ausente de Marcos e significativamente diversa da de Lucas”. Diferente dos outros evangelistas, Mateus aproxima Jesus Cristo da vida diária dos leitores através de uma atenção especial dada aos seus ensinamentos durante seu ministério. No Evangelho segundo São Marcos, o autor tem a intenção de mostrar ao leitor quem é Jesus Cristo. Este é apresentado através da prática de seu ministério, entrando em conflito com o sentimento do povo de que deveria exercer dominação sobre aqueles que os dominavam. Toda a prática do ministério de Jesus é apresentada como o anúncio e a concretização da vinda do Reino de YHWH. O autor trabalha os relatos para mostrar que o leitor também precisa tornar-se um discípulo. Sobre o estilo usado pelo autor do Evangelho, John Drury (apud ALTER; KERMODE, 1997, p. 438) afirma que “Marcos usava técnicas narrativas comuns a todos os praticantes do ofício, mas o esboço de seu texto e a força de suas crenças apocalípticas combinam-se para tornar o uso que delas faz invulgarmente (para nós) diagramático. Apesar de os quatro evangelhos apresentarem o mesmo Jesus Cristo, Lucas é, dentre os quatro, o que apresenta a forma mais humana de Cristo. Com relação explícita com o livro de Atos dos Apóstolos (que segundo estudiosos também recebe a autoria de Lucas), o

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Evangelho segundo São Lucas apresenta o caminho de Jesus Cristo que entra para a história, caminho esse que inicia o processo de libertação do pecado e começa a escrever uma nova história para a raça humana. John Drury (apud ALTER; KERMODE, 1997, p. 547), ao falar sobre essa relação, cita que “o fim do Evangelho é também um começo. Do mesmo modo que os dois primeiros capítulos gravitam na direção de Jerusalém, centripetamente, de agora em diante as novas serão espalhadas a partir de Jerusalém, centrifugamente”. Os discípulos que começam a pregar a partir de Jerusalém são os mesmos que começam a fundar a igreja de Cristo em Atos do Apóstolos. O ponto central do Evangelho de Lucas se dá na morte de Jesus Cristo, ponto crucial para a libertação dos homens. A obediência total e confiante a YHWH traz a morte, mas através dela o ser humano obtém libertação. Jesus Cristo, através de sua morte, traz libertação, e YHWH, através da ressurreição de Cristo, legitima seu ministério na terra. O último dos evangelhos, o Evangelho segundo São João, é o que apresenta mais diferenças. O autor não se detém nos milagres e nas palavras de Jesus Cristo. O evangelho de João tem por meta despertar no leitor a fé em Jesus Cristo. João colocado Cristo como o centro, mostrando que aqueles que o aceitam como Salvador, também aceitam a salvação que ocorre por meio dele; aqueles que rejeitam a salvação, ao mesmo tempo rejeitam a Cristo. Sobre o Evangelho de João, Frank Kermode (apud ALTER; KERMODE, 1997, p. 486) afirma que “o engenho narrativo de João tem as virtudes da economia, complexidade e profundidade. Está empenhado em tornar sua narrativa coerente, ao fazê-lo, sempre trata de seu propósito mais profundo, que é a representação do eterno em relação ao transitório, das manifestações do ser em um mundo de vir-a-ser”. O leitor é convidado a fazer um julgamento de seus atos e repensar suas atitudes. Jesus Cristo é ao mesmo tempo aquele que ama e que julga, a revelação do amor de YHWH pela humanidade. O ponto central do evangelho é a narrativa da paixão de Cristo. Ao encerrar-se o Evangelho segundo São João, encerram-se também as narrativas da vida e do ministério de Cristo. Inicia-se então a caminhada dos fiéis pelo mundo, através da fundação da igreja de Cristo. E isso é o que vai ser narrado desde Atos dos Apóstolos até o Apocalipse.

1.2.2 O Livro Histórico

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Escrito pelo mesmo autor do Evangelho segundo São Lucas, o livro de Atos dos Apóstolos apresenta conexões diretas com o evangelho de Lucas. O Evangelho de Lucas apresenta o caminho de Cristo na terra; o livro de Atos apresenta o caminho da igreja de Cristo na terra. Ambos os caminhos apontam para a salvação da raça humana. É no livro de Atos que o Espiríto Santo atua e traz a formação da igreja de Cristo, de forma organizada e crescente. James M. Robinson (apud ALTER; KERMODE, 1997, p. 509) afirma que “Atos usa a narrativa para apresentar uma doutrina ainda mais abstrata do que a missão dos gentios e o governo da Igreja: a verdade cristã é verdade revelada nem sempre prontamente inteligível mesmo para os cristãos”. O livro de Atos apresenta ao leitor o surgimento e as dificuldades encontradas pela igreja primitiva. O desejo e a iniciativa da divulgação da mensagem de Cristo a todos as partes do mundo. Após essa narrativa, a Bíblia apresenta as cartas dos apóstolos a igrejas e pessoas específicas, que dão nome aos livros-cartas posteriores ao livro de Atos.

1.2.3 As Epístolas

Os livros-cartas seguintes ao livros de Atos dos Apóstolos dividem-se em Epístolas Paulinas e Universais. As Epístolas Paulinas correspondem as cartas de Paulo aos Romanos, I e II Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, I e II Tessalonicenses, I e II Timóteo, Tito, Filemon e Hebreus. Já as Epístolas Universais correspondem as cartas de Tiago, I e II Pedro, I, II e III João e Judas. As Epístolas Paulinas tem uma divisão entre si. Existe uma concordância geral de que das quatorze epístolas, sete delas são autênticas, quatro são pseudônimas e três são controversas. Michael Goulder (apud ALTER; KERMODE, 1997, p. 515) apresenta a seguinte divisão:
As autênticas são: I Tessalonicenses, I Coríntios, Gálatas, II Coríntios, Romanos, Filemon e Filipenses, provavelmente nessa ordem. As pseudônimas (ao mesno em sua forma presente) são I e II Timóteo, Tito e Hebreus; II Tessalonicenses, Colossenses e Efésios são controversas, principalmente a última.

Podemos destacar das Epístolas Paulinas a carta aos Hebreus. A carta apresneta Jesus Cristo como aquele que supera a instituição cultual do Antigo Testamento. Jesus é colocado

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como aquele que substitui o formato de cultos feitos no Antigo Testamento. Não mais eram necessários os sacrifícios de animais no pátio do templo, pois Jesus, o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, já havia vindo ao mundo e garantido a salvação. Os sacrifícios não mais asseguravam perdão e comunham com YHWH. Assim sendo, Jesus Cristo torna-se, segundo a carta de Hebreus, o único mediador entre YHWH e os homens. As Epístolas Paulinas tendem a trazer mensagens diretas aos problemas enfrentados por carta a um dos destinatários. Cartas de reprovação, cartas de recomendações, cartas de ânimo e perseverança. Já as Epístolas Universais são cartas e discursos dos próprios autores. Trazem mensagens como as de Paulo aos respectivos destinatários. Em especial, a Carta da São Judas, que segundo a Bíblia Sagrada: Edição Pastoral é “um discurso violento, mas, ao mesmo tempo, estranho e surpreendente; muitos particulares aí acenados são desconhecidos totalmente por nós”. A carta tem como tema principal a necessidade da defesa da fé com todas as forças e da denúncia do misticismo imoral. Além disso, o autor ataca, em determinada parte da carta, alguns grupos que pretendiam possuir uma forma particular de conhecimento. Uma carta dura, porém, com uma mensagem de esperança e de fortalecimento. Após as cartas-livros, a Bíblia apresenta seu último livro. Diferente de todos os outros do Novo Testamento, com algumas semelhanças com o livro de Daniel (Velho Testamento), o Apocalipse é o único livro que compõe a parte profética do Novo Testamento.

1.2.4 O Livro Profético

O último dos livros da Bíblia, o Apocalipse (também chamado de Revelação), apresenta profecias para o futuro da igreja, desde a igreja primitiva até a atual. O autor (São João) utiliza imagens, símbolos, figuras e números misteriosos, o que torna a compreensão das mensagens proféticas bastante complicada. Bernard McGinn (apud ALTER; KERMODE, 1997, p. 564) cita que
milhões de cristãos fundamentalistas lêem o Apocalipse de um modo sumamente literal, como um plano detalhado da crise vindoura, ao passo que os teólogos da libertação e outros procuram ali uma mensagem política, mesmo que menos literalmente profética.

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Cabe ao leitor fazer seu estudo detalhado dos símbolos e buscar respostas dentro da própria Bíblia. O livro foi escrito em um momento difícil para os cristãos, pois encontravam-se perseguidos pelo poder imperial romano. O livro tem por objetivo fortalecer e advertir os cristãos sobre os perigos das diferentes épocas. O livro traz mensagens de esperança e fortalecimento. João mostra que a vinda do Reino de YHWH e seu julgamento são imprescindíveis, ficando a cargo dos cristãos se fortalecerem na fé, testemunharem aos outros sobre a mensagem de Jesus Cristo e se prepararem para sua volta.

1.3. Setenta e três livros em apenas um
Como já foi dito, a Bíblia dos judeus do Novo Testamento constituía-se em livros do Velho Testamento. A Bíblia judaica, menor que a Bíblia cristã, não contém os escritos cristãos. Após os livros, que hoje conhecemos como Novo Testamento, terem sido escritos, era necessário reunir todos os livros inspirados em um só. A essa reunião deu-se o nome de Bíblia, plural da palavra grega bíblion (livro). Reis (2002, p. 65), afirma

no final do século IV, quando Teodósio declarou o cristianismo como a religião oficial do Império Romano, encomendou cinqüenta cópias novas de manuscritos bíblicos para serem usadas nas igrejas de Constantinopla em substituição aos livros cristãos existentes, que estavam muito gastos. Acredita-se que essa foi a primeira vez que o Antigo e o Novo Testamento foram reunidos em um único volume, a Bíblia.

A bíblia protestante reúne 66 livros; a católica reúne 73 livros. Os livros bíblicos são divididos em capítulos e subdivididos em versículos. Segundo Konings (1998, p. 16), “a divisão em capítulos data da Idade Média (Stephan Langton, 1228), e a divisão em versículos, do início da modernidade (Robert Estienne, 1559)”. De uma edição da bíblia para outra, diferenças existem na numeração de versículos e capítulos. Isso acontece também porque essas divisões não correspondem sempre ao sentido do texto. Além da divisão entre capítulos e versículos, a bíblia apresenta alguns subsídios que auxiliam a leitura e o estudo. As bíblias católicas contêm introduções e notas explicativas, diferentemente da protestante que apenas contém notas que remetem a outros textos dentro da

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própria bíblia. Além disso, as bíblias católicas e protestantes trazem um apêndice com mapas, índices de assuntos e temas, concordância, vocabulário ou glossário, calendário, moedas e medidas. A quantidade de informações dentro dos apêndices varia de edição para edição. As traduções também variam, pois variam os públicos leitores da Bíblia. Muitas traduções popularizam a linguagem bíblica, já outras procuram rebuscar o seu linguajar para ajudar e agradar a estudiosos. A questão das traduções e sua história será tratada no próximo capítulo.

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2 TRADUÇÃO (BÍBLICA) E CULTURA
Partindo do princípio de que toda tradução é um ato de recriação, a tradução da bíblia, livro mais traduzido da atualidade, não pode deixar de ser considerada uma recriação por parte do tradutor. O trabalho do tradutor bíblico é por si só um trabalho de recriação. Ao transpor uma mensagem milenar de uma língua para outra, o tradutor cria uma nova obra, voltada especificamente para uma nova cultura, para uma visão de mundo diferente daquela em que foram escritos os livros que compõe a bíblia. A tradução não se resume apenas a trazer a mensagem de uma língua para outra através de textos, sejam estes literários, jornalísticos, científicos, entre outros. Ao realizar seu trabalho, o tradutor tem em mente seu público-alvo, a reação que sua tradução causará nas pessoas que a utilizarem, e, portanto, seu trabalho passa a ser não apenas o de transposição de uma língua para outra, mas também o de adequar a mensagem. E esse trabalho de adequação da mensagem é o que torna o trabalho do tradutor uma tarefa de recriação. A tradução pode ser vista como uma recriação de significados que não se perdem frente ao original, mas que são usados em caráter de restituição pelo tradutor, pois este deve buscar dar a seu texto forma e corpo pertinentes aos que irão utilizar seu trabalho. Diana Junkes (2007) diz que

o importante do ato de tradução é que é uma operação feita no intervalo; o traduzir não diz respeito nem ao original nem ao traduzido, mas se concretiza na tradução ao tomar emprestado ora do texto-cultura de origem, ora do texto-cultura de chegada aspectos, signos, significados e significantes, revelando a técnica do autor traduzido e, também a do tradutor.

O trabalho toma então, a partir desse pensamento, um caráter de desconstrução e recriação, pois as possibilidades que o tradutor tem a mão permitem-lhe uma gama grandiosa de novas construções utilizando tanto original como público-alvo. O tradutor deve então fazer em seu trabalho uma transposição da mensagem da língua fonte (LF), a língua do original, para que essa mensagem possa se adequar aos padrões da língua de chegada (LF), a língua da tradução. Susan Bassnett (2003), teórica da tradução, defende em sua obra Estudos de Tradução a transposição criativa em relação ao processo de tradução dizendo que

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apenas a transposição criativa é possível: seja a transposição intralingüística (de uma forma poética para outra), seja a transposição interlingüística (de uma língua para outra), ou, finalmente, a transposição intersemiótica (de um sistema de signos para outro, por exemplo, da arte verbal para a música, dança, cinema ou pintura (p. 38).

A transposição de uma mensagem entre LP e LF é um trabalho bastante exigente ao tradutor, pois ele trabalha com dois pólos distintos. O tradutor tem em suas mãos mensagens implícitas que não estão explícitas em primeira instância ao leitor. A cultura é um exemplo perfeito disso. Ao trabalhar com línguas diferentes, o tradutor trabalha em seus textos, principalmente nos textos literários, culturas diferentes. Lotman e Uspensky (1978) dizem que “uma língua não pode existir se não estiver inserida no contexto de uma cultura e uma cultura não pode existir se não tiver no seu centro a estrutura de uma língua natural”. Todas as línguas existentes carregam em si marcas da cultura de onde provêem e, assim sendo, qualquer texto literário a ser traduzido contém implícita uma carga cultural. Bassnett (2003) afirma ainda que “a língua natural é, assim, o coração do corpo da cultura”. Cultura e língua andam juntas e entrelaçadas e, ao tradutor, resta o trabalho de trabalhá-lhas de uma maneira que agrade tanto a usuários da LF quanto usuários da LC. Ao trabalhar os aspectos culturais contidos nos textos literários, o tradutor se depara com um problema já apontado por Roman Jakobson: “se bem que as mensagens [recodificadas] sirvam de interpretações adequadas de unidades de código ou mensagens, não se obtém normalmente completa equivalência através da tradução” (BASSNET, 2003, p. 37). A equivalência que o tradutor busca em sua tradução muitas vezes não é obtida, porque a transposição nem sempre é fácil de ser feita. O trabalho de recriação do tradutor torna-se então necessário, porém, torna-se alvo de críticas e elogios, dependendo do resultado final. Ao recriar, o tradutor “transforma” a mensagem original de uma forma que faz com que ela seja compreendida e aceita entre os usuários da LC, mas que contenha todas as características essenciais que a LF trazia. E é esse trabalho que gera polêmicas e críticas. O tradutor tem em mãos a tarefa de trazer a uma comunidade uma mensagem, mas nem sempre essa mensagem mostra-se perfeita em relação aos traços culturais dessa comunidade e isso gera uma polêmica: seguir estritamente o que diz o original ou adequá-lo as características da comunidade. A adequação, que nada mais é do que um processo de transposição criativa, é

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necessária, mas nem sempre bem aceita. O que leva a essa não aceitação é uma simples palavra: fidelidade. Ao pensar o seu trabalho como um processo de recriação, o tradutor se depara com a base do pensamento daqueles que se utilizam da tradução: a fidelidade ao original. O pensamento e o desejo de que toda tradução seja estritamente fiel ao original não é de hoje, mas sim já anda paralela ao trabalho de tradução há alguns milhares de anos. Cícero e Horácio, teóricos da tradução da Era Romana já trabalhavam com o problema da fidelidade. Bassnet cita que Cícero chegou a afirmar “Se traduzo palavra por palavra, o resultado soará estranho, e se levado pela necessidade altero algo na ordem e nas palavras, parecerá que me afastei da função de tradutor”. A questão da fidelidade sempre esteve presente na vida do tradutor, e principalmente quando se referiu em especial à tradução de textos bíblicos. Por se tratarem de textos especiais, com maior destaque no campo religioso, a questão da fidelidade sempre trouxe opiniões diversas. O tradutor deve ser fiel apenas ao original? Deve ser fiel ao leitor? Deve ser fiel aos dois? Werner Kaschel, autor de um dos capítulos do livro I must speak to you plainly fala sobre essa questão da tradução da Bíblia em relação à fidelidade. Ao tratar deste tema, ele destaca três pontos interessantes e que devem ser considerados ao discurtir-se a tradução de textos sagrados, como os da Bíblia. Ele fala em especial da tradução destes textos para uma linguagem menos erudita, com uma característica bastante popular. Ele afirma em seu texto que
uma tradução de linguagem comum deve ser clara. Clara para quem? Às pessoas comuns para quem é preparada, isto é, as pessoas que têm pouco ou nenhum conhecimento das Escrituras. Toda tradução da Bíblia tem que ser fiel primeiramente aos textos originais no hebraico, no aramaico e no grego. Qualquer tradução em linguagem comum, conseqüentemente, deve aderir a este princípio, que é seguido pelo mais importante seguinte, a saber, fidelidade ao leitor. Isto significa que esta tradução é orientada pelo receptor. O significado dos originais tem que ser comunicado em um nível de linguagem adequado à capacidade do receptor de compreendê-la. O estilo vem em terceiro lugar (KASCHEL, 2004, p. 112 – minha tradução)7.
7

“A common language translation has to be clear. Clear to whom? To the common people for whom it is prepared, that is, people who have little if any knowledge of the Scriptures. Any translation of the Bible has to be faithful first to the original texts in Hebrew, Aramaic and Greek. Any common language translation, therefore, has to adhere to this principle, which is followed by the next most important one, namely, fidelity to the reader. This means that this translation is receptor-oriented. The meaning of the originals has to be communicated at a level of language suited to the receptor’s capacity of understanding it. Style comes third.”

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Para que uma tradução bíblica seja digna de confiança, precisa primeiro ser fiel aos seus textos originais. Os originais dão o tom da fidelidade da tradução. Além disso, o tradutor deve considerar o leitor, o nível de conhecimento que este possui e, conseqüentemente, o seu nível de entendimento dos textos bíblicos. Se o leitor do texto bíblico não possui um nível de escolaridade bom, o entendimento das mensagens do texto bíblico fica prejudicado. O texto bíblico é um texto diferenciado de muitos outros. O seu conteúdo traz dificuldades de entendimento aos tradutores. Mas não apenas aos tradutores. Muitos teólogos e estudiosos, aos utilizarem certos textos bíblicos, se deparam com problemas de difícil solução. Um exemplo é o tempo verbal chamado profético perfeito. Esse tempo verbal é utilizado principalmente quando os profetas estão falando sobre profecias. Omanson (2004) cita em seu livro que
em muitas partes do mundo os tradutores possuem pouco ou nenhum conhecimento da gramática hebraica e tem um conhecimento limitado da histórica israelita, então, eles costumam falhar em reconhecer a função retórica do perfeito profético.

Muitas das profecias não são datadas e é simplesmente impossível saber em alguns casos a que o profeta estava se referindo: um acontecimento do futuro ou a algo que já havia acontecido. Esse é um exemplo da dificuldade que o tradutor bíblico enfrenta até hoje. O tradutor bíblico, com ou sem dificuldades, ao longo da história desempenhou funções com seu trabalho que estavam além de sua designação. Com a expansão do cristianismo, a tradução adquiriu uma nova função: espalhar a palavra de Deus. Bassnet (2007) cita que
uma religião tão baseada num texto como é o cristianismo propiciou aos tradutores uma missão que abarcava critérios tanto estéticos quanto doutrinários. A história da tradução da Bíblia representa, consequentemente, um microcosmo da história da cultura ocidental (BASSNET, 2003, p. 83-84).

Sendo o cristianismo uma religião baseada essencialmente nos textos bíblicos, o tradutor tinha em suas mãos o dever de traduzir e continuar ou extinguir crenças sobre determinados assuntos contidos na bíblia e, de acordo com seu trabalho, faria com que novas crenças aparecessem nas religiões (ou na religião) que utilizasse sua tradução. Com isso, a recepção de sua tradução nas comunidades religiosas era algo consideravelmente importante ao tradutor. O tradutor leva em consideração que sua tradução só será entendida no momento

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em que o horizonte do seu texto puder se sobrepor ao horizonte do leitor. Um texto contextualizado a realidade histórica é mais fácil de ser entendido pelo leitor do que um texto totalmente descontextualizado. A bíblia, apesar de ter sido escrita há muitos séculos atrás, continua despertando o interesse de seus leitores, o que há torna uma obra literária eterna. Todavia, a recepção da bíblia hoje não é a mesma recepção de séculos atrás.

Com o Renascimento dos sécs. XV e XVI (que pregava o retorno aos clássicos gregos) e o Iluminismo do séc. XVIII (que cultuava a deusaRazão), sobretudo com os avanços tecnológicos dos séc. XIX e XX que permitiram à ciência estudar importantes documentos bíblicos como os descobertos em uma caverna próximo ao mar Morto em 1950, além de poder analisar comparativamente fatos históricos, objetos e relatos dos tempos bíblicos, o entendimento da Bíblia ganhou novo alcance.8

O tradutor deve levar em consideração que seu trabalho não tem mais a mesma aceitação que tinha na Idade Média. Atualmente, existe um estudo maior do conteúdo da bíblia e uma busca maior aos textos antigos para uma comparação dos significados. Não se acredita mais no que se diz sem uma consulta profunda na bíblia a respeito do tema tratado. A comparação de traduções antigas com as atuais se dá constantemente. O número de traduções que são lançadas faz com que essa comparação seja feita também dentro das igrejas, já que num público determinado, o número de versões diferentes da bíblia se torna grande e as mensagens contidas podem ser entendidas de modos diferentes de acordo com a leitura de cada tradução.

2.1 Tradução e recepção
A questão da recepção é tratada pela Estética da Recepção de Hans Robert Jauss, da Escola de Constança na Alemanha. A recepção que o texto literário terá e o que isso tem de valor tanto para o escritor como para o leitor é o que trata essa Estética. A respeito dela, Gumbrecht (1998) diz que
Interessa à Estética da Recepção o confronto entre a construção do autor e as reconstruções do leitor. Atenta para os significados e seus locais de
8

Capítulo III: A recepção do Discurso. Disponível em: <http://webmail.faac.unesp.br/~pcampos/t6.htm>. Acesso em: 17 out. 2007.

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construção, suas interpretações, observando as diferenças heurísticas à luz de mediações históricas e sociais. Faz-se necessário ainda avaliar o conceito de texto, que para a recepção normativa, encontra-se voltado para um modelo de leitura ideal, enquanto que, para a leitura descritiva, ou heurística, necessita flexibilidade.9

A construção do autor de um determinado texto irá gerar novas construções nos leitores. As interpretações são diferentes. Interessa a Estética da Recepção o local da construção do texto, pois o ambiente e época em que foi feito são incorporadas. Essas características são pessoais do autor e ficam presentes em sua obra. O leitor dessa obra tira novas conclusões porque tem suas próprias características e são elas que vão ajuda-lo a compreender e a formar sua idéia sobre o texto. Mas a sua percepção não será a mesma do autor, porque sua experiência e vivência não são as mesmas. Como exemplo claro, uma obra sobre o carnaval, escrita por um autor brasileiro que vive no Rio de Janeiro, não terá o mesmo entendimento por parte dos leitores chineses que adquirirem a obra traduzida. As impressões e idéias do ator sobre o carnaval carioca são diferentes das impressões dos leitores chineses a respeito do carnaval. Portanto, o local da construção do texto e as interpretações do mesmo são bastante importantes, tanto para a Estética da Recepção como para o tradutor, que vai se usar do estudo dessa Estética para fazer seu trabalho. A composição da obra original de determinado autor irá depender do tradutor para que seja entendida como se espera em outros locais por leitores que adquiram a obra. Ainda sobre a Estética da Recepção, Cristina Martinho ([s.d]) afirma que

A Estética da Recepção considera a literatura um sistema que se define por produção, recepção e comunicação, tecendo uma relação dialética entre autor, obra e leitor. Não revitaliza a noção de produção e representação, bases da estética tradicional. Destaca que o ato de leitura tem uma perspectiva dupla na dinâmica da relação obra - a projeção desta obra pelo leitor de uma determinada sociedade. Interessa-se pelas condições sócio-históricas que formularam as diversas interpretações que o texto ficcional recebeu, e assinala que o discurso literário é o resultado de um processo de recepção ao mover a pluralidade destas estruturas de sentidos historicamente mediadas.10

9

GUMBRECHT, Hans Ulric. As Conseqüências da Estética da Recepção: Um Início Postergado. In: Corpo e Forma. Rio de Janeiro: UERJ, 1998. Disponível em: <http://www.uesc.br/icer/resenhas/alineresenhagumbrec ht.htm>. Acesso em: 17 out. 2007. 10 MARTINHO, C. M. T. Frankenstein e a estética da recepção. Disponível em: <http://www.filologia.org.br/v iiicnlf/anais/caderno12-10.html>. Acesso em: 17 out. 2007.

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A produção dos textos que compõe a bíblia, a recepção que estes textos têm e como são comunicados, isso tudo importa a Estética da Recepção. Por terem sido escritos em diferentes épocas da história, os livros da bíblia tiveram produções diferenciadas. Inicia-se por conter diferentes línguas e acima de tudo, diferentes autores. É perceptível que os livros da bíblia não são todos iguais e nem devem ser traduzidos todos da mesma forma. A poesia do livro de Salmos, escrita por Davi no período de reinado de Israel, não é a mesma forma com que escreve Lucas, médico, autor dos livros de Atos e do Evangelho de Lucas. Paulo, autor de diversas epístolas, homem que havia estudado com os melhores mestres do povo de Israel, escreve totalmente diferente dos profetas do Antigo Testamento. Cada livro, escrito em épocas diferentes, tem suas características textuais específicas, únicas. Traduzi-los de uma forma única e compacta, igual a todos, é descaracterizá-los. A recepção do conteúdo desses livros também é importante. A mensagem de cada livro deve ser passada. Um leitor que trabalha diretamente com questões religiosas trabalhará melhor com as passagens teológicas da bíblia, diferente de um leitor acostumado a trabalhar com leis, que irá entender melhor as leis do povo de Israel e o que elas trariam de benefícios e prejuízos ao povo de Israel. Para um leitor que tem um grau maior de instrução, o entendimento da bíblia torna-se mais fácil. Procura pesquisar sobre o que está escrito, comparar com escritos que tenham o mesmo tema, que sejam da mesma época. Um leitor com pouca instrução, ao ler sozinho, encontrará muitas vezes dificuldade de entender por não ter uma carga cultural e de conhecimento adequadas ao texto apresentado na bíblia. Uma bíblia de linguagem rebuscada e trabalhada é bem recepcionada no meio daqueles que a estudam e tem um conhecimento maior de linguagem, história, em resumo, dos aspectos característicos a bíblia. Para o leitor mais simples, uma bíblia mais popularizada, menos trabalhada e de fácil e rápido entendimento, é interessante, pois lhe proporciona o conhecimento das mensagens bíblicas sem ter problemas de compreensão. A respeito dessa tradução mais popularizada para leitores mais simples, Villela (2004) afirma que
Lembremos que essas “traduções populares da Bíblia” seguem a teoria da tradução dinâmica, defendida por Eugene Nida, segundo a qual o importante na tradução do texto bíblico é a compreensão por parte de seus receptores: se para tanto for necessário fazer atualizações da linguagem ou mesmo das metáforas utilizadas na narrativa bíblica, isso não significará infidelidade aos seus originais. (p. 166)

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Se Nida defende que a compreensão dos leitores é o que importa, Konings (1998) tem uma visão diferente em relação à teoria da tradução dinâmica. As atualizações da linguagem ou mesmo o uso das metáforas são vistas por Konings como uma forma empobrecer a tradução. Konings afirma que
a simplificação lingüística, às vezes, empobrece a tradução. Na hora do estudo aprofundado, estas traduções apresentam o inconveniente de não deixar transparecer a estrutura e o colorido da língua original, escondendo particularidades inerentes, como os jogos de palavras, os efeitos retóricos do texto original, etc. (p. 22)

A simplificação lingüística traz problemas como os apresentados por Konings. Um estudo mais profundo a respeito do conteúdo lingüístico dos livros da bíblia se torna mais difícil se a bíblia escolhida for uma que utilize uma linguagem mais popularizada. As construções são modificadas e/ou adaptadas a linguagem do público que fará uso dessa bíblia e nem sempre esse público tem uma linguagem que ofereça oportunidade de aprofundamento dentro do estudo da bíblia. Ainda sobre esse assunto, Villela (1997) afirma que
A tradução, nesta perspectiva, deve revelar ao máximo a forma e o conteúdo da mensagem original, reproduzindo elementos formais como: as unidades gramaticais, a consistência na linguagem utilizada e os significados nos termos do contexto original. (p. 50)

Assim sendo, Villela e Konings diferem de Nida no que diz respeito à popularização do conteúdo da tradução, em especial da tradução bíblica. Além do aspecto da popularização dos textos bíblicos que tem relação com a Estética da Recepção, outro fator importante ao tradutor são as relações da tradução com a cultura. A cultura está intimamente ligada ao processo de tradução. Mas para entender essa ligação entre cultura e tradução é necessário entender o que é cultura.

2.2 Tradução e cultura: uma relação
Mona Baker (1999), autora de um dos capítulos da obra Tradução e Multidisciplinaridade, afirma em seu texto que existem duas formas de se pensar a cultura. E sobre essas duas formas ela diz que

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Tradicionalmente, há duas maneiras de se pensar a cultura. A primeira vê como resultado de um processo evolutivo, que parte de um estado de selvageria para chegar ao auge da civilização. Trata-se de uma visão elitista, que privilegia, por exemplo, a civilização ocidental, em detrimento da hindu ou chinesa – e, mais recentemente, a literatura erudita em oposição a manifestações artísticas populares, como as novelas de televisão ou a música de Bob Dylan. A segunda é vertente menos elitista, mais pluralista e vê a cultura como o modo de vida de um povo. Essa foi a visão que acabou por preponderar na antropologia e na teoria social, e que deu origem a estudos culturais como disciplina independente. É uma visão que enfatiza o pluralismo e a diferença, e que usa os estudos de campo como uma metodologia de pesquisa sobre vários aspectos de uma determinada cultura, seja de forma empírica ou histórica. (BAKER apud MATINS, 1999, p. 18)

Ao se pensar a cultura como o modo de vida de um povo, uma forma hereditária de manifestação, percebe-se que a cultura é um ciclo, pois passa de geração para geração. Em cada nova etapa (geração), ela pode modificar algum ponto da história, mas nunca perde o valor deixado pelos ancestrais. Mas, além disso, uma das principais características da cultura é a adaptação. As pessoas mudam de ambiente, mudam seu estilo de vida, mudam seus hábitos cotidianos, passam a fazer parte da nova cultura. As pessoas se adaptam a novas culturas e vivem dependente delas. Para serem aceitas na sociedade, precisam se adaptar a cultura da sociedade e, assim, mostra-se que cultura e sociedade têm uma relação direta, pois ambas necessitam-se mutuamente para uma perfeita compreensão. Os elementos que a sociedade utiliza fazem parte de sua cultura e, àqueles que querem se adaptar a essa sociedade, é necessário utilizar esses elementos. Essa adaptação se faz necessária para existir uma aceitação dentro da sociedade. Uma mesma cultura é criada para os membros de sua sociedade, mas não se pode afirmar que isso ocorre na vida em sociedade. Talvez devido à existência da divisão das classes sociais, de acordo com a aquisição material, o que cria classes diferentes. A partir disso, a sociedade conhece um fenômeno chamado ideologia. A ideologia passa a ser o resultado da imposição dos dominantes (em relação à cultura) para toda a sociedade, como se todas as classes devessem ter a mesma cultura, mesmo vivendo em situações sociais diferentes. A tradução tem relação direta com a cultura. A cultura está implícita nos textos e cabe a tradução transportar as características culturais do texto original para um novo texto, a tradução. A tradução transporta as ideologias de um texto para outro. Transporta idéias e ideais de um povo para outro, fazendo com que o povo que recebe a tradução também receba essas idéias e as aceite ou as deixe de lado. O texto literário, diferente de textos técnicos e

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científicos, carrega uma carga muito grande da cultura do autor e cabe ao tradutor passar essas informações ao leitor. Lya Wyler (2003) afirma que
Por definição, a tradução entre povos é a reescritura em língua nacional de um texto em língua estrangeira. Toda reescritura, seja qual for a intenção que lhe dê origem, reflete uma certa ideologia e uma poética, cuja função é levar o receptor a reagir de uma dada maneira. E é isto que confere a tradução de pensamentos, palavras e imagens a característica de instrumento de manipulação a serviço de um dado poder. (p. 11)

No caso da tradução bíblica, a tradução propicia ao leitor o contato direto com as ideologias dos cristãos. Isso se percebe facilmente ao se analisar as religiões que utilizam a bíblia como instrumento de evangelização. Por mais que existam diferenças entre elas, existem pontos iguais em suas crenças e, muitas vezes, pontos iguais que apenas são levemente alterados de uma religião para outra. A tradução bíblica evoca ao tradutor a tarefa de propiciar ao leitor o conhecimento do cristianismo, suas ideologias, a cultura da época. E para que isso aconteça, cabe ao tradutor a fidelidade ao texto original, para que estas características não se percam no tempo. A fidelidade a essas características também impõe uma regra geral de não se usar a adaptação, já que esta pode trazer diferenças do original. Se esta regra é usada no ato da tradução, a popularização começa a se tornar difícil. Sem adaptação não se consegue chegar a popularização. A popularização atesta para a perde de elementos essenciais, muitas vezes presentes no vocabulário, e estes elementos tornam a tradução distante do original. Konings (1998) diz que
À primeira vista não se percebe a utilidade das traduções para conhecer o texto original. Mas estas traduções, sobretudo anteriores ao séc. IV, atestam às vezes leituras originais que se perderam nos textos gregos “recenseados” no decorrer do séc. IV. Pois se as recensões corrigiam os erros, às vezes “corrigiram” também o que eram mesmo o texto original! (p. 189)

Ao ser fiel, o tradutor passa o texto como ele está, seja ele escrito de forma errada ou não. A partir do momento em que existem mudanças no estilo, conteúdo, vocabulário, etc., um novo texto se forma desviando-se das características do original. Se os livros bíblicos foram escritos por pessoas do povo para o povo, a linguagem utilizada nem sempre foi a mais culta. Assim sendo, as diferenças dos livros e de duas características literárias também devem ser marcantes. Se todos os livros forem traduzidos da mesma forma seguindo-se as mesmas

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regras gerais, deixam de existir as diferenças entre os autores e suas épocas e passa a existir uma compilação geral de modo igual por parte do tradutor. A fidelidade aos originais, as características implícitas e explícitas sempre permearam o trabalho desses tradutores e ainda hoje estão presentes no trabalho da tradução bíblica. Objetivando trazer fluência ao texto, entendimento de todos os leitores, buscando mostrar a essência de cada texto, o trabalho do tradutor sempre foi movido pelo sentimento de se tornar invisível, uma ponte entre os originais hebraicos, aramaicos e gregos e as línguas que agora têm traduções. A respeito disso, Wyler (2003) afirma que
quanto mais fluente, mais invisível ele se torna e tanto mais visível a personalidade ou intenção do autor estrangeiro, enfim, sua essência – algo supostamente imune às limitações impostas pela língua, biografia e história. (p. 15)

A tradução da bíblia sempre objetivou levar a mensagem com todas as características aos seus leitores. Em momentos diferentes, feita por homens diferentes, o trabalho da tradução buscou trazer a mensagem de Cristo a todas as pessoas, independente de classe social ou raça. A meta sempre foi levar a mensagem a qualquer pessoa, no máximo de línguas diferentes possível. Na história, alguns tradutores como Lutero, Tyndale, São Jerônimo e outros se destacaram por produzir grandes traduções e através delas trazer benefícios para as sociedades onde viviam. No próximo capítulo, falaremos mais detalhadamente sobre esses tradutores e as grandes traduções bíblicas da história.

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3 A TRADIÇÃO DA TRADUÇÃO BÍBLICA
Os judeus da época de Jesus, e até alguns de algumas gerações anteriores, usavam como base de seus estudos teológicos os escritos que hoje são conhecidos como Velho Testamento. Mas os judeus daquela época não estavam todos concentrados em um mesmo lugar. Já não eram mais um reino único e indestrutível. Agora eram um povo dividido em dois reinos distintos. Saíram também dos reinos e procuraram novos locais para habitar. Havia a necessidade de levar a mensagem dos profetas aos judeus de outros países. Mas levar essa mensagem agora implicava em passar o conteúdo da língua hebraica para uma nova língua: o grego, língua falada pelos judeus que habitavam o Egito. Assim, uma tradução do Velho Testamento era o que deveria ser feito. Iniciava-se a tradição da tradução bíblica. Essa tradição passa por dois momentos distintos. O primeiro deles, anterior ao nascimento de Jesus Cristo, traz a tradução da Bíblia (Velho Testamento) de judeus para judeus. O segundo momento, posterior ao nascimento de Cristo, traz a tradução do Velho e Novo Testamentos para outros povos e outras línguas, e essa tradição estende-se até o presente momento. Essa tradição trouxe características importantes para momentos específicos da história do mundo. A formação de línguas (como exemplo, a tradução de Lutero da bíblia e a língua alemã), a perseguição aos tradutores e eventualmente, com as suas mortes, a disseminação da bíblia (Tyndale e sua morte na fogueira). A tradição da tradução bíblica favoreceu mudanças sociais em vários locais onde aconteceram traduções. E para entender essas mudanças é necessário o conhecimento destas traduções acontecidas ao longo dos séculos. Este capítulo toma como base Jean Delisle e Judith Woodsworth, especialmente ao falar sobre as traduções de Lutero e Tyndale e as suas relações com a língua de seus respectivos países. O trabalho de Kênia I. A. Tillvitz ajuda a conceber uma visão geral das traduções da bíblia ao longo dos séculos e, como base geral de dados históricos e cronológicos, o dvd do Rev. Rudi Zimmer, que traz informações importantes e curiosidades acerca das traduções bíblicas no mundo.

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3.1. Textos anteriores ao nascimento de Cristo
Os escritos dos autores do Velho Testamento, que na época de Cristo eram os autores de toda a Bíblia, formavam a base para a fé daqueles que faziam parte do povo de Israel e Judá. Escritos no idioma de ambos os povos, o hebraico, os textos eram utilizados no templo durante os cultos religiosos. Mas com as grandes conquistas dos gregos, em um determinado momento, a língua grega torna-se a língua oficial administrativa, cultural e comercial. Os judeus dentro e fora da palestina começaram então a utilizar o grego como a língua falada no cotidiano. Principalmente em Alexandria, no Egito, a utilização do grego como língua oficial se tornou forte. Era necessária então a tradução dos escritos do Velho Testamento do hebraico para o grego. Além disso, a língua falada não era mais o hebraico, e sim o aramaico. Traduzir os escritos para a língua falada pelo povo era necessário nos dois casos. Tomava forma então à tradição da tradução bíblica anterior ao nascimento de Cristo.

3.1.1 Septuaginta (c. 280 a.C.)

A Septuaginta, tradução dos livros do Velho Testamento para o grego, tem início em Alexandria, no Egito. Após as grandes conquistas de Alexandre, o Grande e a disseminação da cultura grega para o mundo, os judeus começaram a utilizar-se da língua grega, deixando de lado a língua hebraica.
“Os judeus que viviam fora da Palestina, principalmente, em grande número no Egito, não entendiam mais o hebraico, que era a língua dos judeus, e falavam o grego, que era a língua universal naquele momento, e então começou a surgir aquela que é conhecida como a tradução da Septuaginta (c. 280 a.C.). Uma tradução feita por judeus para judeus.” (ZIMMER, [s.d.])

Os judeus espalhados por outras partes do mundo teriam a oportunidade do contato com a palavra de YHWH através da tradução dos livros do Velho Testamento. Essa tradução adquiriu rapidamente uma grande importância. Traduzida de judeus para judeus, a Septuaginta tinha uma divulgação maior do que a versão hebraica, já que agora a língua mais falada era o grego, e não o hebraico. Jean Delisle e Judith Woodsworth (1995), ao falarem sobre a história da tradução da Septuaginta, dizem que

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“A primeira tradução escrita importante da Bíblia hebraica foi a versão grega conhecida como Septuaginta, comumente designada LXX (70 em algarismos romanos). Acredita-se que essa versão foi encomendada por Ptolomeu Filadelfus (Ptolomeu II) (308-246 a.C.), rei do Egito, por iniciativa do seu bibliotecário Demétrio de Falera (falecido em 280 a.C.), com o objetivo de enriquecer a célebre biblioteca de Alexandria.” (p. 172-173)

A história desta tradução apresenta algumas lendas interessantes, na qual existe uma atribuição da tradução a 70 sábios, todos encarregados de traduzir para colocar na Biblioteca de Alexandria uma versão em grego da bíblia dos hebreus. Uma das lendas atribui aos sábios a capacidade de ter traduzido a bíblia em 70 dias e, ao serem comparadas as traduções, todas estavam exatamente iguais. Assim sendo, a tradução seria extremamente fiel e correta, além de proporcionar ao leitor a sensação de estar lendo exatamente o que estava escrito nos originais. Outra lenda credita aos sábios a inspiração divina para realizar sua tradução. Ao serem separados, os sábios traduziram os escritos exatamente iguais. Sobre essa lenda, Delisle & Woodsworth dizem que
“Embora a tradução pretendesse ser um esforço coletivo, uma outra lenda afirma que os tradutores tinham alojamentos separados e não podiam comunicar-se uns com os outros; contudo, produziram versões idênticas, prova de que agiam sob inspiração divina.” (op. cit., p. 173)

Mas esta história apresenta outras versões. Uma delas diz que os sábios não traduziram todos os livros de uma só vez. Foram traduzidos apenas alguns livros numa primeira oportunidade, sendo que os outros foram sendo adicionados depois. Baseado em Konings (1998), Cazetta Jhúnior (2006) cita que
“Primeiramente, traduziu-se a Torá de Moisés (ou Pentateuco), que são os livros do Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio; anos depois foram se acrescentando os livros sapienciais, poéticos e históricos. Com isso, o povo judeu, fora da Terra Santa poderia, então, praticar sua fé, mas em língua grega.” (p. 18)

Mas apesar das diferentes versões para o processo de tradução da Septuaginta, a abertura que esta tradução deu para a divulgação da palavra de YHWH a outros povos foi bastante importante. Agora os relatos e mensagens não ficariam mais resumidas aos cultos e tradições orais do povo judeu, mas poderia tomar novas proporções geográficas. Delisle &

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Woodsworth (1995), com uma versão diferente para o processo de tradução da Septuaginta, dizem que
“Vertida em épocas diferentes, por diferentes tradutores com conhecimento variável do hebraico e do grego, a Septuaginta tem uma qualidade irregular. Contudo, seu valor foi inestimável: tornou a Bíblia acessível, servindo como um texto autorizado do Velho Testamento para o cristianismo primitivo; foi a base das outras versões antigas da Bíblia (para o etíope, copta, eslavônio, etc.) e preservou os textos apócrifos não incluídos no cânon judaico.” (p. 174)

Além de base para outras versões da bíblia antiga, a Septuaginta foi a bíblia utilizada por cristãos primitivos como Paulo, Estevão, Barnabé, entre outros. E tem seu período de popularidade até a tradução da Vulgata por São Jerônimo. Popularidade essa que lhe concede o título de original, sendo base para traduções posteriores. Após os escritos hebraicos, é a Septuaginta que tem status de original. A dificuldade de ter os originais para efetuar a tradução credita à Septuaginta e às bíblias posteriores esse encargo de originais. Essa popularidade que a Septuaginta obtém é comentada por Delisle & Woodsworth (op. cit., p. 170), na qual os autores comparam os feitos da Septuaginta com os feitos de bíblias posteriores a ela, dizendo que
“Paradoxalmente, as traduções feitas em épocas de transição cultural adquiriram, às vezes, status original, impedindo o acesso aos textosfontes em que tinham origem. Esse foi o caso da Septuaginta em língua grega (c. 250-130 a.C.), que substituiu a Bíblia hebraica e mais tarde tornou-se o Velho Testamento da Bíblia cristã até o surgimento da Vulgata. Da mesma forma, a King James Bible, ou Versão Autorizada (1611), tornou-se o texto fonte para subseqüentes traduções protestantes em muitas línguas não-européias.”

Ao ser traduzida, a Septuaginta sofreu modificações quanto à ordem de seus livros. Contendo mais livros do que a bíblia hebraica (os livros deuterocanônicos), a ordem dos livros foi organizada pelos continuadores dos 70 sábios. Sua organização foi feita a partir da cronologia e conteúdo dos livros. Os livros deuterocanônicos foram também colocados junto com os canônicos adequando-se a regra da cronologia e conteúdo. Além de ser instrumento de divulgação da mensagem de YHWH pelo mundo, a Septuaginta é peça-chave para as traduções modernas da bíblia. Foi base de fé para os judeus da época de Cristo, base da tradução e comparação da Vulgata de São Jerônimo. O intuito de trazer a mensagem para os judeus distantes também trouxe o trabalho da tradução bíblica para

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o mundo. Através da Septuaginta, a mensagem de YHWH começou a ser traduzida para outras línguas e povos.

3.1.2 Targuns (últimos séculos a.C.)

Além da tradução do hebraico para o grego, os judeus também traduziram os escritos do Velho Testamento para o aramaico, língua falada pelo povo judeu. Na época, o hebraico era usado nos cultos do templo, mas não no cotidiano dos judeus que ainda habitavam a Terra Prometida do Antigo Testamento. Tanto a Septuaginta como os Targuns foram traduções feitas no intuito de levar a mensagem do templo para a língua do povo. Zimmer ([s.d]) afirma que os Targuns
São extremamente livres na tradução, parafrásticos. [...] Quando o tradutor, naquela tradução oral, não entendia bem, ele simplificava, dizia o que entendia, e as vezes até dizia a sua opinião porque não concordava com o texto bíblico.

A tradução trouxe vários comentários, citações e notas explicativas. Além disso, adotou a forma livre como forma de tradução. A tradução livre repleta de explicações e auxílios ao conteúdo acabou não sendo tão bem aceita, e acabou em desuso. Diferente da Septuaginta, que se tornou base para traduções posteriores, os Targuns acabaram não sendo vistos com bons olhos e sendo levados ao desuso por parte dos leitores.

3.2. Textos posteriores ao nascimento de Cristo
Após o nascimento de Cristo, os judeus ainda utilizavam a Septuaginta como fonte de leitura e estudos. Mas novas traduções começaram a ser feitas, com intuito de adequar as mensagens de YHWH às necessidades locais. Formas de levar às pessoas simples e sem instrução as mensagens bíblicas era uma dessas necessidades. Novas traduções começaram a ser feitas a nível local para que essas necessidades pudessem ser atendidas, sem ter que esperar por traduções que buscassem atender a todas as necessidades de um modo geral.

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Em determinado momento da história, o cristianismo ganha posição de destaque, ao receber o título de religião oficial do império romano. As perseguições aos cristãos cessam e as idéias e crenças começam a ser espalhados por todo o território de Roma. Em 323 d.C., o imperador Constantino, recém-convertido ao cristianismo, faz cessar a perseguição aos judeus e começa a fazer a transição da igreja para torná-la parte ativa do sistema político. A Igreja como parte do Estado começa a trazer uma mistura entre paganismo e cristianismo. Os cristãos, até então divididos em pequenos grupos localizados em várias partes do território romano, tinham uma forma de adoração e pregação até certo ponto modesta, se comparada com a religião pagã romana. Não era uma religião grandiosa, não tinham grandes templos (como já haviam possuído no passado, a citar como exemplo o templo de Salomão), tinham apenas a motivação da divulgação do evangelho de Cristo. Desde a morte de Cristo, essa divulgação foi aumentando e se propagando para diferentes pontos do império romano, o que começou a causar certo desconforto aos imperadores romanos. Obter a confiança e ter os cristãos como aliados era um objetivo que interessava ao imperador Flavius Valerius Constantinus (285-337 d.C.), pois lhe daria maior poder sobre os povos que dominava. A incessante perseguição aos cristãos apenas trazia força para a divulgação do cristianismo e isso era algo que preocupava Constantino. Após a morte de seu pai, Constantino assumiu o poder em 306 d.C., e começou a mudar a política em relação aos cristãos. Em vez de persegui-los, começou a divulgar o cristianismo. Através da promoção do cristianismo, Constantino tinha por objetivo uma unidade religiosa em seu império. Ao divulgar o cristianismo, Constantino fazia com que os pequenos grupos de cristãos espalhados por seu império se aliassem a ele e ele controlasse religiosamente todo o seu império. Mas essa aliança não apenas favorecia aos cristãos (com a divulgação de sua mensagem), mas também a Constantino, que aos poucos foi implantando novas crenças dentro das crenças já existentes dos cristãos. Um exemplo foi a implantação do culto pagão ao “Sol Invictus”, culto que ele presidia pois era o sumo-sacerdote da religião pagã romana. A partir dessa influência, Constantino governa absoluto. A criação de uma religião unificada do império era também o nascimento de uma nova igreja, que utilizava ritos de igrejas diferentes. Roberto Junior (1997) cita que
O Concílio de Nicéia, na Ásia Menor, presidido por Constantino era composto pelos Bispos que eram nomeados pelo Imperador e por outros que eram nomeados por Líderes Religiosos das diversas comunidades. Tal Concílio consagrou oficialmente a designação "Católica" aplicada à

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Igreja organizada por Constantino: "Creio na igreja una, santa, católica e apostólica".11

Ao tornar-se religião oficial do império, o cristianismo começou a sofrer desvios de sua originalidade. Práticas pagãs foram assimiladas, foram criados novos ritos, rezas, formas de adoração. Nascia uma religião forte que servia ao império romano, um império unido e sem disseminações. E a bíblia, instrumento de estudo dos cristãos também sofre alterações. As traduções posteriores ao nascimento de Cristo foram influenciadas por esse nascimento de uma nova igreja no império romano.

3.2.1 Áquila (c. 125 a 150)

Áquila, recém-convertido ao judaísmo, realizou uma tradução da bíblia, que teve como característica o modo grotesco de apresentar o conteúdo em grego. Áquila achava que a Septuaginta favorecia a teologia dos hebreus. Assim, buscou fazer uma tradução extremamente formal, literal e ao pé da letra. Procurou traduzir os mesmos termos apresentados no hebraico para o grego, para que não existissem diferenças entre um e outro. Essa apresentação tornou-se grotesca por ser extremamente literal. Foi bastante aceita pelos judeus da época, mas caiu em desuso tempos depois e apenas alguns fragmentos dessa tradução sobreviveram.

3.2.2 Vetus Latina ou Ítala (sec. II)

A tradução da bíblia conhecida como Vetus Latina foi uma das tentativas de sanar as necessidades de congregações de cristãos que possuíam um grau de conhecimento baixo. Cabia a cada líder religioso adaptar a linguagem da bíblia para a necessidade de sua comunidade. Rudi Zimmer ([s.d.]) cita que “Eram traduções que cada pastor, bispo da sua área fazia, para que pudesse atender essa demanda e passar a Palavra para as pessoas simples”. A Vetus Latina tinha a intenção de utilizar a adaptação como meio de propagação da bíblia a todo tipo de pessoas, seja de culturas mais ou menos elevadas.
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Disponível em: < http://br.geocities.com/luizahpbr/Frases-Nticker/nic.html >. Acesso em: 3 out. 2007.

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Essa tentativa não ficou restrita a um lugar específico, mas “ocorreu em várias partes, associada à evangelização para passar a fé no Senhor Jesus” (ZIMMER, [s.d.]). A busca pela evangelização fez com que as traduções tivessem grande propagação. Cada líder religioso adaptava a mensagem ao seu público, e assim colaborava para propagar o evangelho ao máximo de pessoas possível.

3.2.3 Peshitta (séc. II e III)

A Peshitta, versão siríaca da bíblia foi uma tentativa de traduzir o Antigo Testamento para a língua da Síria. O nome da tradução, Peshitta, que significa “simples” ou “comum”, foi a tentativa de realizar uma tradução em língua popular, de uma forma simples ao entendimento do leitor. Entretanto, a versão final mostrou-se bastante complexa. Uma das curiosidades a respeito dessa tradução é o fato dela apresentar apenas 22 livros no Novo Testamento. Foram excluídos os livros de II Pedro, II e III João, Judas e Apocalipse. Na intenção de cuidar com o conteúdo da bíblia, esses cinco livros foram deixados de fora do cânon da Peshitta.

3.2.4 Vulgata Latina (Jerônimo: 391-405)

A partir de 325 d.C., o cânon da Bíblia foi estabelecido. No Concílio de Nicéia, realizado pelo imperador Constantino, esse cânon foi estabelecido. O Concílio, que teve importante papel devido ao fim da perseguição aos cristãos, foi convocado por Constantino e tratou de temas que eram julgados pelo imperador de caráter urgente. Temas como a questão ariana, a escolha dos evangelhos que figurariam a Bíblia, a celebração da páscoa, o batismo de hereges e o estatuto dos prisioneiros na perseguição de Licínio, entre outros temas, foram discutidos e votados pelos bispos presentes. O papa em exercício na época, Silvestre I, recusou-se a comparecer pessoalmente nas sessões do Concílio, esperando que sua ausência representasse um protesto contra a convocação do sínodo pelo imperador.

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O Concílio foi aberto formalmente em 20 de maio de 325 d.C., na estrutura central do palácio imperial. Um dos temas tratados, a escolha dos evangelhos que figurariam a Bíblia, fez com que fosse votado o cânon da bíblia que seria usada no império. Os livros que entraram e os que foram considerados impróprios para entrar foram votados nesse concílio. Além disso, um importante tema, a divindade de Cristo, também mereceu atenção especial durante a duração do Concílio. O cânon amplo, com 73 livros, foi votado neste Concílio e perdura até hoje nas bíblias traduzidas e utilizadas pela Igreja. A tradução, até então utilizada, era a Septuaginta, e uma nova tradução se fazia necessária. Anos depois do Concílio de Nicéia uma nova tradução foi feita: a Vulgata Latina. Depois da Septuaginta, a bíblia usada como referência é a Vulgata Latina. Se a Septuaginta foi a tradução para a língua mais falada de seu tempo, o grego, a Vulgata também tem o mesmo intuito, que é a tradução para a língua de comunicação entre locais diferentes, a língua universal. Essa tradução aconteceu devido a uma preocupação em relação ao uso da bíblia nas igrejas. Zimmer ([s.d.]) diz que

O bispo Damaso de Roma, ele se sentiu preocupado porque não havia uma bíblia latina para todas as igrejas. [...] Encomendou de Jerônimo, um estudioso, para que ele preparasse uma versão, nem que seja uma revisão de todas elas, para que seja um padrão para a igreja.

A intenção de ter em todas as igrejas uma bíblia igual, com a mesma língua, fez com que Jerônimo fosse convocado para realizar a tradução dos textos para o latim. Esse processo de tradução foi um período longo, 15 anos, e envolveu a tradução de textos antigos e revisões de textos já traduzidos para o latim. Essa tradução evidentemente ficou muito melhor do que as traduções anteriores para o latim. A tradução de Jerônimo tornou-se a bíblia oficial da Igreja Católica. “Tornou-se a Bíblia oficial em 1546, um milênio e 100 anos depois, no Concilio de Trento, já no auge da Contra-Reforma” (op. cit., [s.d.]). A tradução de São Jerônimo foi adotada como Bíblia oficial e perdurou até o Concílio Vaticano II (1962-1965), onde foi substituída pela Nova Vulgata, uma versão com correções no texto de São Jerônimo. São Jerônimo, tradutor da Vulgata Latina, tem um papel de destaque devido ao seu trabalho. Deslile & Woodsworth (1995) afirmam que “São Jerônimo (c. 331-c. 420), o santo patrono dos tradutores, é sem dúvida um dos mais conhecidos de todos os tempos, pelo menos no Ocidente, tendo se notabilizado pela Vulgata, ou a Bíblia latina padrão” (p. 177). Sua

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tradução ainda é tida como a primeira a traduzir diretamente do original hebraico para o latim os livros do Antigo Testamento. Sua bíblia foi a grande bíblia da Idade Média.

3.2.5 Tradução de John Wycliff (c. 1330-1384)

John Wycliff foi o primeiro a traduzir a bíblia para o inglês. Era um estudioso, teólogo de Oxford. Sua tradução, literal da Vulgata, tinha o intuito de popularizar a leitura da bíblia, já que apenas o clero tinha acesso a ela. Por ir contra a forma da Igreja de utilizar a bíblia, Wycliff resolveu traduzi-la para a língua de seu povo, o inglês. A tradução de Wycliff possibilitaria ao povo uma chance de não mais estar sob os domínios da Igreja. Zimmer ([s.d.]) afirma que
Ele [Wycliff] se levantou contra as indulgências, contra o domínio do clero sobre o povo, de que só o clero podia ler a bíblia e interpretá-la para o povo, ele chegou à conclusão de que a única maneira pela qual o povo podia se libertar desse domínio era através da palavra de Deus.

E através da tradução de Wycliff, que foi publicada em 1848, esse domínio religioso podia ser combatido. A população poderia ter acesso aos conteúdos dos livros da bíblia. Assim, não apenas poderiam aprender na Igreja, mas também em casa.

3.2.6 Tradução de Lutero (N.T.: 1522; Bíblia completa: 1534)

Martinho Lutero, conhecido pelo movimento da Reforma, também é uma das bases da língua alemã. Graças ao seu trabalho de tradução, muito da língua alemã foi formada. Lutero leu a bíblia pela primeira vez aos vinte anos de idade. A leitura da bíblia só era permitida a magistrados, cardeais, reis e papas. Por ser permitida apenas para pessoas de classes muito altas, a maioria do povo não tinha nenhum tipo de acesso a ela. Após ter contato com a bíblia e conhecer seu conteúdo, Lutero decide traduzi-la para o alemão. Além disso, decide tornar públicas suas idéias a respeito do que era pregado pela Igreja. Lutero elabora 95 teses sobre suas descobertas teológicas e as fixa nos portões do castelo de Wittenberg, em 1517. Lutero

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tinha o intuito de fazer uma revisão em aspectos da igreja. Cazetta Jhúnior (2006) afirma que “Ele [Lutero] pretendia abrir um debate para uma avaliação interna da Igreja, pois acreditava que a mesma precisava ser renovada a partir do Evangelho de Jesus Cristo. Com isso, a Igreja passa a persegui-lo e o excomunga”. Lutero pregava a justificação pela fé. Seu pensamento e teses batiam de frente com o que era pregado pela Igreja. Zimmer ([s.d.]) diz que “Foi estudando, foi interpretando a bíblia que Lutero veio a convicção de que a salvação é recebida pela fé no salvador Jesus Cristo. E que a fé não depende de nenhuma obra, mas exclusivamente da graça de Jesus Cristo”. Por bater de frente com o pensamento da Igreja, e participando da Igreja como monge agostiniano, Lutero é excomungado. Depois de ser excomungado, Lutero inicia o trabalho da tradução do latim para o alemão. Seu trabalho minucioso demora treze anos para ser completado, sendo que Novo e Velho Testamentos são publicados em datas diferentes. Delisle & Woodsworth (1995) citam que.
Lutero trabalhou na tradução da Bíblia de 1521 a 1534, em colaboração com um grupo de estudiosos. Sua tradução para o alemão do Novo Testamento grego de Erasmo foi publicada em 21 de setembro de 1522, e a Bíblia completa apareceu em Wittenberg em 1534. A Bíblia de Lutero foi a primeira Bíblia completa em língua moderna traduzida diretamente das línguas originais, grego e hebraico. (p. 182)

A tradução de Lutero provocou ainda uma reforma cultural. Graças a seus esforços em rebuscar o vocabulário utilizado e a sua incessante busca aos textos originais, Lutero traduz para uma língua alemã compreendida por todos. Lutero não só estudou o latim para fazer a tradução, mas também o hebraico e o grego. Conhecer as línguas que compunham a bíblia era de extrema necessidade para Lutero. Além disso, não se concentrou apenas em seus conhecimentos, mas procurou consultar diferentes profissionais para resolver problemas de terminologia. A tradução de Lutero seguia alguns princípios, que mais tarde levaram o resultado final a ter grande influência até mesmo nos dias atuais. Lutero seguia uma linha de tradução que lhe inspirava confiança e seguia seu pensamento de como a bíblia deveria ser traduzida. Delisle & Woodsworth (op. cit.) afirmam que
Em primeiro lugar, ele advogava o retorno às línguas originais da Bíblia: o hebraico, no Antigo Testamento; e o grego, no Novo Testamento (sem, contudo, desprezar completamente a Vulgata latina, no caso do Novo

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Testamento). Outro princípio era a abordagem inovadora, baseada na influência crescente da filosofia humanista. Embora a Igreja Católica tivesse proclamado a Vulgata como a versão oficial da Bíblia, Lutero a rejeitava como um texto autêntico. (p. 59)

O esforço de Lutero em sua tradução não apenas era o de trazer a mensagem da bíblia de uma forma mais simples, mas de abranger também as classes sociais menores ao conhecimento das mensagens bíblicas. Através de uma tradução que se mostrasse compreensível ao povo simples, Lutero conseguiu fazer com que a língua alemã fosse igual a todos. Zimmer ([s.d.]) diz que “O alemão que as traduções tinham era incompreensível para o povo simples. Lutero se pôs a traduzir. Inclusive em grande parte criou a língua alemã que se tornou padrão”. A influência da tradução de Lutero começou a ser evidenciada depois de sua morte. As primeiras gramáticas alemãs, publicadas por Valentin Ickelsamer e Fabian Franck, tinham como base direta a língua alemã utilizada por Lutero em sua tradução. Lutero produziu com sua tradução um enriquecimento e padronização do léxico alemão, além de desenvolver uma sintaxe mais equilibrada. Um texto claro, simples e de boa compreensão fizeram com que Lutero se destacasse no campo estilístico, mostrando as características de um bom texto, todas utilizadas em sua tradução. Ainda hoje a tradução de Lutero serve de base para traduções e revisões detalhadas da bíblia.

3.2.7 Tradução de William Tyndale (N.T.: 1526)

Se Lutero teve um papel importante para a formação da língua alemã, Tyndale também teve esse papel na Inglaterra. Com uma história de vida interessante, proporcionou uma tradução bastante completa e que foi considerada uma afronta direta ao clero. Sobre a vida de Tyndale, Delisle & Woodsworth (1995) afirmam que
William Tyndale (c. 1494-1536) nasceu em Gloucestershire, estudou no Magdalen College de Oxford e foi ordenado em 1519. Cedo foi acusado de heresia; absolvido, recebeu uma censura por haver assumido atitudes demagógicas. (p. 44-45)

Por certas atitudes e por ser considerado herege, Tyndale muda-se para o continente europeu, onde começa um projeto de tradução da bíblia para o inglês. Um dos motivos que o

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levaram a desenvolver esse projeto no continente europeu foi a falta de apoio por parte do bispo de Londres. Mudou-se para a Alemanha, onde começou seu projeto e publicou primeiramente o Novo Testamento. Delisle & Woodsworth (op. cit.) dizem que
Na Alemanha conheceu Lutero, traduziu e publicou o Novo Testamento. Na Antuérpia publicou seu Pentateuco – os cinco primeiros livros do Antigo Testamento. Traído por um compatriota, que o denunciou a agentes de Carlos V, foi estrangulado e queimado na fogueira em 6 de outubro de 1536, em Vilvorde, perto de Bruxelas. (p. 45)

A atitude de Tyndale foi oposição explícita ao clero. Zimmer ([s.d.]) afirma que Tyndale “Enfrentou a oposição do clero”. Essa oposição dez com que ele fosse procurado e, após ser denunciado, sofreu a morte por estrangulamento e ser queimado na fogueira. Além disso, não apenas sua vida foi tirada, mas também os seus escritos caçados. Zimmer (op. cit.) diz que “Tentaram queimar a todo custo os escritos de Tyndale, que eram contrabandeados para a Inglaterra”. Sua tradução, vinda do continente, agora era proibida, e só era possível ser lida graças ao contrabando. Diferente das outras bíblias, que eram corpulentas e pesadas, a bíblia de Tyndale era leve e menor, o que a tornava mais prática ao uso. Tyndale acreditava que era mais fácil trazer as mensagens do hebraico e do grego para o inglês, pois este refletia a ampla variedade de estilos do Antigo Testamento. Para Tyndale, o inglês dava mais opções em relação às línguas originais do que o alemão. Sua tradução tinha como alvo o povo, e nela estavam presentes as suas características pessoas, como a experiência de pregador e a sensibilidade. Ainda sobre a pessoa de Tyndale e seu trabalho, Delisle & Woodsworth (1995) citam que
Tyndale foi um lingüista e pesquisador notável, cujo atributo mais importante era a clareza, derivada do treinamento em lógica e retórica que tinha recebido em Oxford. Conhecia oito línguas, inclusive grego e hebraico (o que era excepcional na sua época), tinha experiência como pregador e sensibilidade para a tradição da escrita em inglês. Traduzia para a linguagem que o povo falava, não para a língua escrita dos eruditos. (p. 45-46)

Tyndale tem influência na língua inglesa não pela sua presença no país, mas pelo seu trabalho lingüístico na tradução da bíblia para o inglês, além de sua importância nas batalhas políticas, teológicas e ideológicas durante o período da Reforma e posteriormente a ela. Sua escrita erudita e trabalhada, influenciada por sons, sintaxe e vocabulário de Gloucestershire 12,
12

Cidade natal de Tyndale.

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lhe conferiram o poder de dar a Inglaterra uma linguagem bíblica própria, assim como Lutero havia feito na Alemanha.

3.2.8 Bíblia de Genebra (N.T.: 1557; Bíblia completa: 1560)

Depois da tradução de Tyndale, a tradução da Bíblia de Genebra se destaca. Devido à destruição das bíblias que ocorria na Inglaterra, reformadores foram a Genebra para realizar ali uma nova tradução da bíblia para o inglês. Essa bíblia contou com a participação de reformadores calvinistas. Houve a participação do herdeiro de Calvino no processo de tradução da Bíblia de Genebra. Segundo Zimmer ([s.d.]), a Bíblia de Genebra “Foi a Bíblia de Shakespeare, a Bíblia de Crowell e seus soldados”. Além disso,
Foi a primeira bíblia inglesa que dividiu o texto em dois ciclos, com capítulos e versículos em inglês. [...] Foi a primeira bíblia a utilizar o tipo latino. Antes era escrito em letra gótica. Agora era latina. [...] Foi a primeira bíblia com itálicos, indicando palavras que não constavam no original, mas eram necessárias para dar entendimento. (op. cit.)

Uma característica especial desta tradução é que ela foi a primeira a apresentar uma introdução a todos os livros bíblicos. Uma introdução explicativa do conteúdo de cada livro. A mensagem essencial do livro, assim como a sua história de forma resumida. Além disso, essas introduções transpareciam a doutrina evangélica de Calvino. Por ter sido traduzida por calvinistas, a bíblia apresentava a doutrina de uma forma implícita, mas sem ser utilizada no texto sagrado, apenas na introdução. Ao ler a introdução antes de ler o livro, primeiramente era apresentado ao leitor um pouco da doutrina de Calvino, e, após essa introdução, o leitor tinha acesso ao conteúdo dos livros. Kênia Tillvitz (2006) afirma que
Não há na Bíblia identificação dos tradutores, mas acredita-se que William Whittingham (editor geral), Miles Coverdale, John Knox, Christopher Goodman, Anthony Gilby, Thomas Sampson, William Cole, entre outros, tenham participado desse trabalho.

A Bíblia de Genebra é um diferencial das anteriores e um modelo para as posteriores. As mudanças nas partes externas e internas do texto fizeram com que as bíblias atuais seguissem esse modelo. O uso de palavras que não estavam no original, em itálico, para

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auxiliar a compreensão do leitor fez com que a Bíblia de Genebra ganhasse destaque como uma das grandes traduções da bíblia.

3.2.9 Versão do Rei Tiago (1611)

Após tornar-se rei de toda a Inglaterra, o rei Tiago, da Escócia, tentou chegar a um consenso e unificar os povos da Inglaterra. Unificar católicos e anglicanos. Depois de uma tentativa mal-sucedida através de uma reunião geral, uma idéia que iria unificar os povos agradou bastante ao rei e foi colocada em prática. “O rei Tiago convocou 50 teólogos e deu claras instruções para que preparassem uma bíblia que servisse a todas as igrejas, e para que não tivesse notas, porque são as notas que dividem as igrejas” (ZIMMER, [s.d.]). Através de um bíblia comum, as diferenças religiosas, em primeira instância, seriam deixadas de lado, pois todos utilizariam um mesmo texto religioso, e assim as diferenças deixariam de existir. A tradução não foi buscar diretamente os originais, como foram as anteriores, mas foi feita uma revisão de traduções inglesas já feitas em vários momentos da história inglesa, e um texto fluente e fácil foi feito. “Justamente as bíblias de Wycliff e Tyndale foram as que mais contribuíram para essa tradução. Esses que foram perseguidos e que foram mortos, a sua tradução agora se tornou bem quista, ela se tornou parte dessa tradução” (op. cit.). As traduções que outrora levaram seus tradutores a serem considerados hereges e os levou a morte, agora são utilizadas como base para uma tradução grandiosa. Baseando-se na linguagem e conteúdo dessas traduções, a Versão do Rei Tiago é uma bíblia sem notas, mas com um texto fluente e de fácil compreensão. Zimmer ([s.d]) ainda cita que a bíblia do rei Tiago é uma grandiosa obra da literatura inglesa ao dizer que a Versão do Rei Tiago “É um dos monumentos da língua inglesa. É praticamente o mesmo sentido que a tradução de Lutero teve para a Alemanha essa teve para a Inglaterra e para o mundo inglês também no aspecto da literatura”.

3.2.10 Versão de João Ferreira de Almeida (N.T.: 1681; Bíblia completa: 1753)

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João Ferreira de Almeida, o mais conhecido tradutor da bíblia para a língua portuguesa, conhecedor do hebraico e do grego, iniciou a tradução da bíblia aos 17 anos de idade. Por perder seus manuscritos, teve que recomeçar todo o processo em 1648. Tomou como base de seu trabalho algumas traduções da bíblia como a Vulgata latina, a tradução holandesa e a francesa. Terminou de traduzir o Novo Testamento em 1676, mas só pode ser impresso em 1681, depois de um longo processo de revisão e impressão. Após conseguir publicar o Novo Testamento, Ferreira de Almeida iniciou o processo de tradução do Velho Testamento. Mas não conseguiu terminar essa tradução. Zimmer ([s.d.]) afirma que Ferreira de Almeida “Não conseguiu terminar a tradução. Ele traduziu até mais ou menos a metade de Ezequiel. A parte final foi traduzida por Jacobus op den Akker, um missionário holandês”. Em 1753 foi publicada a primeira bíblia completa em português, em dois volumes. Posteriormente, em 1819, foi publicada em Londres, pela primeira vez, a bíblia em português em apenas um volume. Uma revisão foi feita setenta e nove anos depois, em 1898, e foi publicada com o nome de Revista e Corrigida. No Brasil, a primeira revisão da Bíblia de Almeida foi realizada sob a coordenação da Sociedade Bíblica do Brasil, no ano de 1959. Essa revisão, que foi uma revisão no sentido de trazer a linguagem do português de Portugal para o português do Brasil, recebeu o nome de Revista e Atualizada. Essa versão foi a primeira revisão brasileira da Bíblia de João Ferreira de Almeida. Desde então, a Bíblia de João Ferreira de Almeida tem sido a bíblia predileta da grande maioria de leitores de língua portuguesa. As traduções brasileiras a partir de João Ferreira de Almeida são muitas. Variam de acordo com o público que querem atingir. Em especial, a Bíblia da Ave-Maria e Bíblia Sagrada: Edição Pastoral, destacam-se por uma tradução que mantém os princípios da Igreja e procuram dar ao leitor mais comodidade ao ler a bíblia, utilizando um vocabulário mais simples e de fácil entendimento. As questões relacionadas às semelhanças e diferenças destas traduções e a sua relação com a tradução de João Ferreira de Almeida serão tratadas no próximo capítulo.

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4 MUDANÇAS AO LONGO DOS ANOS: UMA ANÁLISE DA BÍBLIA CATÓLICA COMPARADA A VERSÃO DE JOÃO FERREIRA DE ALMEIDA
Semelhante a outros países que tiveram na tradução bíblica uma fonte de novos conhecimentos e também de mudanças culturais e lingüísticas, o Brasil encontrou na tradução bíblica uma forma de conquista. Em primeira instância, uma conquista portuguesa por meio dos jesuítas e sua arrancada rumo a pregação para os índios, e depois, uma arrancada cultural (a tradução primeiramente bíblica agora começa a fazer parte do teatro, entre outras coisas). Lya Wiler (2003), ao falar sobre a tradução no Brasil em seus primórdios, em especial sobre a tradução oral, primeira desenvolvida no país, afirma que
O registro que inaugura a história da tradução no país é o mesmo que coloca o Brasil no mapa das terras “descobertas” pelos navegadores portugueses. Em carta data de 1.º de maio de 1500, o escrivão da frota portuguesa, Pero Vaz de Caminha, relata ao rei de Portugal o achamento de nova terra a leste da linha demarcada pelo Tratado de Tordesilhas. Descreve com grande detalhe o território, os habitantes, os atos de índios e portugueses e até mesmo as justificativas desses atos. Caminha descreve mais: relata que o primeiro ato de tradução realizado entre portugueses e índios, ao informar que precisaram recorrer à mímica para se fazer entender. (p. 36)

Se a tradução oral encontrou dificuldades, a tradução escrita encontrou dificuldades ainda maiores. Resignou-se a ser um exercício acadêmico até a segunda metade do século XX. Durante esse período, desde o descobrimento, a tradução foi tratada como sendo uma ocupação temporária da elite intelectual, uma atividade que rendia prazer intelectual. De acordo com Wyler (op. cit.), a escola democrática, fundada pelo padre Manuel da Nóbrega, tornou-se um instrumento de segregação do negro, do índio, da mulher e do pobre. Classes sociais mais baixas não tinham acesso aos locais de ensino e, conseqüentemente, o analfabetismo de massa tomava grandes proporções. Outro problema que enfrentado era a falta de impressão de livros no Brasil. Os poucos que eram impressos vinham de Portugal, o que dificultava o trabalho de combate ao analfabetismo. Em muitos momentos, as cópias à mão eram um recurso viável e necessário. Além das cópias, as importações clandestinas de livros também eram um outro meio de obter livros para o ensino. Wyler (op. cit.) cita que

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Se nos primeiros anos os jesuítas se viram obrigados a copiar à mão as cartilhas de ensinar a ler, aos poucos foram reunindo bibliotecas bem sortidas. Importavam seu conteúdo, legal ou ilegalmente, de Portugal e Itália, bem como o adquiriam dos funcionários graduados que regressavam a metrópole. Durante dois séculos, tais bibliotecas constituíram centros de grande importância para a formação cultural e intelectual da juventude e manutenção do plurilingüismo natural.

Durante o período colonial, a tradução escrita foi a ocupação missionários responsáveis pela evangelização dos índios e pelo ensino nos colégios dos jesuítas. Os missionários eram incumbidos de registrar a língua indígena, organizar os registros em dicionários e, posteriormente, utiliza-los na comunicação e tradução de obras de religião (orações, sermões e hinos) para os índios. De acordo com Wyler (op. cit.), acredita-se que a primeira tradução brasileira foi a Suma da doutrina cristã. Do português para o tupi, anterior a 1577, de autoria do padre João de Azpilcueta Navarro, S. J., conhecido pelo seu talento lingüístico. Em relação à tradução da bíblia propriamente dita, a primeira tradução completa para o português acontece entre 1772 e 1790 pelo padre Antônio Pereira de Figueiredo, baseada na Vulgata. Todavia, esta versão não é a mais difundida no Brasil. A versão do padre Matos Soares, de 1932, publicada pela editora Paulinas, também baseada na Vulgata, aparece como a primeira tradução integral da bíblia no Brasil e, mais difundida do que a versão do padre Antônio Pereira de Figueiredo. Da versão do padre Matos Soares, de 1932, para a versão adaptada da tradução francesa dos Monges de Maredsous (Bélgica), publicada pela editora Ave-Maria, a partir de 1958, passam-se 26 anos. Neste intervalo de tempo, é publicada a Bíblia: Antigo e Novo Testamento pela Liga de Estudos Bíblicos (LEB), a primeira tradução católica em português diretamente a partir dos originais hebraicos e gregos. Atualmente esta bíblia vem sendo publicada em edição popular (A Bíblia Mensagem de Deus, editora Loyola). Neste capítulo serão analisadas duas versões publicadas pela editora Ave-Maria em duas datas diferentes. A primeira versão, Nôvo Testamento, publicada no ano de 1969, é composta apenas do Novo Testamento e contém vários dos itens de auxílio à leitura13 que as outras bíblias apresentam em suas edições. Devido à dificuldade de acesso a primeira edição (1958), utilizaremos esta edição que foi a mais próxima a primeira que conseguimos encontrar (1969 – 3.ª edição). A segunda versão, Bíblia Sagrada: Edição Catequética Popular, é uma edição do ano corrente a este trabalho (2007), uma tradução integral da bíblia, que também apresenta vários itens de auxílio à leitura.
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Índice, Introdução, Notas explicativas, entre outros itens.

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No intuito de melhorar ainda mais a análise de alguns excertos bíblicos, serão utilizadas duas versões da tradução de João Ferreira de Almeida, bíblia muito utilizada pelos várias denominações cristãs. A primeira versão é do ano de 1860, publicada pela Sociedade Americana da Bíblia, utilizando o português falado em Portugal. A segunda edição, publicada em 2005 pela editora Geográfica, é uma edição revista e corrigida, na grafia simplificada, em sua sexta edição. Ao utilizar as duas versões da tradução de João Ferreira de Almeida, objetiva-se melhorar ainda mais a análise, provendo não só as mudanças das duas edições católicas, mas também compará-las com uma tradução bíblica bastante utilizada por outras denominações religiosas. Com isso, poderá ser visto as mudanças que aconteceram nos textos ao longo dos anos, o intuito das traduções e das mudanças que elas trouxeram. Em um primeiro momento, as duas edições católicas (publicadas pela editora AveMaria) serão analisadas nos aspectos de diferenças internas e externas, no que diz respeito ao aspecto visual de nos itens de auxílio à leitura. Num segundo momento, será feita uma análise das mudanças lexicais discursivas e estilísticas.

4.1 Diferenças internas e externas
Não são apenas os relatos das histórias do povo de Israel antes do nascimento de Cristo e o nascimento da igreja de Cristo depois de sua morte que compõe uma bíblia. Como um livro, a bíblia apresenta muito mais que isso. Todo livro segue um projeto gráfico específico da editora. Normalmente, livros de uma mesma coleção têm um mesmo projeto gráfico para que fique fácil para o leitor visualiza-los e saber que são de uma mesma coleção. Influi no projeto gráfico de uma bíblia a capa, o frontispício (também conhecido como folhade-rosto), o prólogo à tradução, a introdução, as notas de rodapé (que podem ser notas do tradutor ou notas explicativas do texto), a concordância bíblica e o dicionário bíblico. Além disso, o estilo de letra e a disposição do conteúdo na página são algumas das partes que cabem ao projeto gráfico. Com o passar dos anos, os projetos gráficos vão sendo modificados com o intuito de sempre estarem atualizados e propiciarem ao leitor uma melhor leitura. Letras muito pequenas ou muito juntas, espaços vagos na página, figuras e tabelas sem explicação, tudo isso torna a leitura difícil e maçante. E se a leitura é maçante, o livro será deixado de lado muito

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rapidamente e, na maioria das vezes, deixará de ser utilizado pelo leitor, que buscará uma leitura mais agradável. Ao analisar as duas edições publicadas pela editora Ave-Maria, foi-se respeitada uma seqüência de itens a serem verificados. Logo após, os itens foram sendo minuciosamente checados em ambas as edições, para que depois fossem transcritos os resultados. A seqüência de itens verificados foi organizada em uma tabela e, após isso, foram sendo anotados os resultados. A tabela com a seqüência continha os seguintes itens:

Item Capa Frontispício Índice Prólogo a tradução Índice alfabético Índice doutrinal Introdução Velho Testamento Novo Testamento Notas de rodapé Concordância bíblica Dicionário bíblico Mapas Moedas e Medidas Orações Contracapa

Contém

Não Contém

Tabela 2. Itens para checagem de existência nas edições publicadas pela editora Ave-Maria.

Cada um destes itens tem grande influência na leitura. Não são apenas os textos (Velho e Novo Testamento) que trazem conhecimento ao leitor, mas os demais itens também. Os demais itens são um auxílio muitas vezes necessários para que se possa compreender o que está escrito. Notas que fornecem explicações sobre expressões e que indicam textos relacionados, lista de pesos e medidas usados na bíblia e a equivalência com os pesos e medidas atuais, além de dicionários, mapas, concordâncias e índices, tudo coopera para que o entendimento seja completo. As duas edições publicadas pela editora Ave-Maria diferem-se em vários aspectos interna e externamente. Mas apresentam também algumas semelhanças que perduraram por vários anos. Os itens Capa, Frontispício, Índice, Prólogo a Tradução, a primeira página do Velho Testamento e a primeira do Novo Testamento, além da Contracapa, encontram-se

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escaneadas na parte dos Anexos. Os dados coletados nas bíblias checados com a utilização da tabela citada anteriormente mostrando as diferenças e semelhanças entre ambas, além dos itens que cada uma contém ou não, são comentados a seguir.

4.1.1 Nôvo Testamento (1969)

Diferente da outra edição analisada neste trabalho, a edição de 1969 (3.ª edição publicada) da editora Ave-Maria conta apenas com o Novo Testamento, como o próprio nome já indica. A edição tem o formato 12 x 18 cm, contendo apenas 480 páginas, divididas em Frontispício, Índice, Introdução (que vai da página 7 à página 14) e os livros do Novo Testamento. A edição não apresenta Prólogo a Tradução, Índice Doutrinal e Índice Alfabético. Sua capa tem uma identificação bastante interessante, que só pode ser entendida ao colocar capa e contracapa alinhadas. Ao olhar apenas a capa, a imagem de Cristo carregando uma cruz traz uma primeira impressão. Mas ao alinhar capa e contracapa, vê-se que a cruz que Jesus carrega não apenas está sendo por ele carregada, mas por muitas outras pessoas. A tradução foi feita dos originais hebraico, aramaico e grego, mediante a versão francesa dos Monges Beneditinos de Maredsous (Bélgica) pelo Centro Bíblico de São Paulo. A primeira tradução no Brasil é datada de 1958. O Nôvo Testamento apresenta ainda notas de rodapé que auxiliam o entendimento do leitor. Em muitas delas existe uma retomada de expressões usadas no texto que são explicadas para que o leitor compreenda a utilização da expressão. Outras notas indicam textos que vão ajudar a entender o contexto e/ou a mensagem proposta pelo texto bíblico. Apesar de conter estas notas explicativas, a bíblia não apresenta mais nenhum recurso que auxilie a leitura como Concordância Bíblica, Dicionário Bíblico, Mapas, Tabela de Moedas e Medidas. Além disso, ao seu final, as Orações que são costumeiras nas bíblias católicas também não aparecem. Na parte da Conclusão da Introdução, o leitor tem contato direto com as intenções da Nôvo Testamento, pois todo o resto da Introdução é destinado a explicar o conteúdo dos livros do Nôvo Testamento. O leitor, ao ler a Conclusão, percebe que a intenção do Nôvo Testamento é a de induzir uma leitura que anuncie e dê testemunho da mensagem de Jesus Cristo.

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4.1.2 Bíblia Sagrada: Edição Catequética Popular (2007)

Com a primeira edição lançada em 2007, a Bíblia Sagrada: Edição Catequética Popular apresenta Velho e Novo Testamento, além de um Índice Doutrinal, uma Genealogia Bíblica, Medidas e Moedas, Orações Diárias do Cristão e Mapas coloridos. Esta edição não apresenta apenas Concordância Bíblica e Dicionário Bíblico. Todo o seu conteúdo está dividido em 1600 páginas, no formato 13 x 18cm. Além dos recursos citados anteriormente, ainda se faz presente um Índice Alfabético dos livros bíblicos, um Prólogo à Tradução que é datado de 13 de junho de 1959. Além da Folha de Rosto, dois mapas (Oriente Antigo e Egito e Sinai; Divisão das Tribos de Israel) e do Índice, esta edição apresenta ainda As grandes datas da Bíblia, Como Ler a Sagrada Escritura, Como ler as citações, Introdução Geral, Introdução aos Livros do Antigo Testamento e Introdução aos Livros do Novo Testamento. A Bíblia Sagrada: Edição Catequética Popular apresenta várias notas explicativas relacionadas ao contexto dos textos bíblicos. Assim como o Nôvo Testamento, as notas de rodapé contem o número do capítulo, o número do versículo e as expressões que estão explicadas aparecem em itálico. Algumas notas que não explicam expressões contêm passagens relacionadas ao assunto tratado pelo texto. Tanto o Nôvo Testamento como a Bíblia Sagrada: Edição Catequética Popular apresentam a mesma Introdução ao Novo Testamento e Conclusão da Introdução, sem nenhuma mudança nas palavras utilizadas. Com a utilização do mesmo texto de Conclusão, mostra-se que o objetivo de ambas é o mesmo. Um fato interessante a ser destacado sobre a Introdução Geral desta Bíblia é o que ela diz a respeito da autoria dos livros da bíblia em geral e, conseqüentemente, fala diretamente aos tradutores no que diz respeito ao seu trabalho. Nas páginas 14 e 15, encontra-se escrito que
Os títulos desses livros lembram por vezes o nome dos seus autores, outras vezes, o nome dos seus destinatários, ou ainda os assuntos que nele são tratados. É-nos desconhecido o nome de muitos desses autores; alguns escritos são produto de uma colaboração ou constituem uma coleção de textos antigos compilados posteriormente. Os autores bíblicos viveram em lugares e ambientes diferentes muito diversos: cada um deles imprimiu na sua obra traços muito característicos de sua personalidade. Mas como todos escreveram sob a inspiração do Espírito Santo, é Deus mesmo quem deve ser tido como autor primário de toda a Bíblia.

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Ao se pensar na bíblia, o tradutor deve imprimir em seu trabalho os traços característicos de cada um dos autores, não se esquecendo de deixar claro que o autor primário é Deus, mas mostrando as diferenças que existiram entre os textos devido a diversidade de autores. Um trabalho cheio de fadiga e preocupação, desprovido de interesses materiais, a Bíblia Sagrada: Edição Catequética Popular objetiva com sua tradução fazer com que o leitor tire proveito espiritual de sua leitura para sua vida cristã. Após uma visão geral sobre os aspectos internos e externos dos projetos gráficos de cada uma das bíblias, faz-se necessário uma verificação de eventuais mudanças textuais. Para isso, quatro excertos serão analisados. Os resultados das análises são mostrados a seguir.

4.2 Análises dos excertos
Cada uma das bíblias analisadas neste trabalho teve por objetivo revelar à mensagem de Cristo em seu ministério ás pessoas que ainda não o conhecem. Demonstrar que através do sacrifício dele na cruz, existe a garantia de salvação. Não queremos aqui discutir temas específicos que muitas vezes geram polêmica entre uma denominação e outra, mas mostrar de uma forma clara que existem diferenças entre traduções (de uma mesma editora e de mesmo público religioso ou de diferentes editoras e públicos). Foram escolhidos quatro excertos dentre os 66 livros que compõe as quatro edições analisadas. Foram escolhidos em temas bíblicos importantes e por apresentarem diferenças de um público religioso para outro. Como uma das edições publicadas pela editora Ave-Maria contém apenas o Novo Testamento, trabalhamos as análises apenas com excertos retirados dos livros do Novo Testamento. Apesar de alguns excertos terem sido pesquisados no Velho Testamento, utilizálos neste trabalho iria deixá-lo incompleto, já que uma das bíblias não poderia fazer parte das análises. Assim, desde Mateus até Apocalipse, quatro excertos foram estudados e analisados. As análises foram divididas em quatro temas diferentes, onde foram analisadas as semelhanças e diferenças entre as versões bíblicas. Primeiramente divididos em Diferentes e Semelhantes, notou-se a necessidade de apresentar divergências estilísticas entre os excertos, que foi tratado como um terceiro tópico. Cada um dos temas mostra diferenças entre as traduções dos excertos e também semelhanças, além de uma análise estilística. Em nenhum momento foi feito um trabalho de melhorar as traduções apresentadas, mas apenas foi feito o trabalho da análise.

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Os quatro excertos escolhidos foram divididos nos seguintes temas: • • • • • Apresentação bíblica de Deus – Judas 25 Apresentação bíblica de Jesus – João 6,69 Amor a Deus - I João 4,10 Concessão de benção divina – Apocalipse 22,19 Submissão da mulher (questão cultural) – I Coríntios 14,34-35 Após terem sido escolhidos os excertos, foram catalogados em uma tabela que apresenta cada um dos excertos e como eles aparecem nas quatro edições bíblicas. Foram colocados lado a lado para uma melhor visualização das diferenças e/ou igualdades entre eles.

4.2.1 Apresentação bíblica de Deus Uma das três pessoas da trindade, Deus é personagem central na bíblia. Intitulando a si mesmo como Eu Sou, Deus é quem guia o povo de Israel durante toda a sua jornada no Velho Testamento. Comandante do povo de Israel, é Deus quem os lidera (de formas variadas) para conquistas e quem os repreende ao ser muitas vezes esquecido. O Todo-Poderosos, o Alfa e o Ômega, como diz o verso 8 do capítulo 1 de Apocalipse, a figura de Deus teve várias faces durante as eras. De acordo com Sarah Carr-Gomm (2004), autora do Dicionário de Símbolos na Arte, “na imagística da Idade Média tardia, Deus pode ser mostrado como parte da Trindade: ou como o Pai, criando o mundo; ou na forma de Cristo; ou como o Espírito Santo, numa Anunciação, representado por feixes de luz ou por uma pomba” (p. 76). Todavia, no Renascimento a imagem de Deus é representada por uma figura paterna com cabelos e barba branca. Uma figura que muito se assemelha a esse imagem é a de Zeus na mitologia grega, divindade suprema e governador dos céus, e de Júpiter na mitologia romana. A bíblia apresenta inúmeras qualidades relacionadas a imagem de Deus. Uma delas foi destacada nessa análise, pois existe a omissão de uma qualidade das muitas citadas pelo verso. O verso fala de Deus e confere a ele qualidades, mas em uma versão das bíblias analisadas encontrou-se uma característica de Deus que nas outras não foi encontrada. A característica é alterada nas demais versões por uma palavra que em nenhum momento

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exprime o sentido desta diferente. Abaixo estão as quatro versões e a forma como apresentam as características. Judas 2514 Nôvo Testamento (Ave-Maria, 1969) Ao Deus ÚNICO, Salvador nosso, por Jesus Cristo, Senhor nosso, sejam dadas glória, magnificência, império e poder desde antes de todos os tempos, agora e para sempre. Amém.

Bíblia Sagrada (Ave-Maria, 2007) Ao Deus ÚNICO, Salvador nosso, por Jesus Cristo, Senhor nosso, sejam dadas glória, magnificência, império e poder desde antes de todos os tempos, agora e para sempre. Amém.

Bíblia Sagrada (SAB, 1860) Ao só SABIO Deos nosso Salvador, seja gloria e magestade, força e potencia, assim agora como para todo sempre. Amen.

Bíblia Sagrada (Geográfica, 2005) Ao ÚNICO Deus, Salvador nosso, por Jesus Cristo, nosso Senhor, seja glória e majestade, domínio e poder, antes de todos os séculos, agora e para sempre. Amém.

Em três edições a palavra “único” é utilizada. Mas na versão de João Ferreira de Almeida, de 1860, a palavra “único” não aparece. É utilizada a palavra “sábio” para designar uma característica de Deus. Se as outras edições fossem utilizar uma palavra que fosse sinônima da palavra “sábio”, poderiam ter utilizado as palavras “erudito”, “sensato”, e até mesmo a palavra “prudente”. Mas neste caso, optou-se por uma palavra que alterava uma palavra com outra totalmente diferente em sentido. Ao dizer que Deus é único, não se entende que por essa característica ele seja sábio. As duas palavras conferem a imagem de Deus característica diferentes por serem palavras diferentes e que exprimem por si sós entendimentos diferentes. A diferença entre as traduções existe e é um ponto interessante. Utilizar-se de adjetivos a imagem de Deus é algo constante na bíblia, mas alterá-los pode ser um ponto de problemas. Nas edições publicadas pela editora Ave-Maria não existem diferenças em nenhum momento. Ambos os excertos são traduzidos da mesma forma, sem alteração de palavras. Existe apenas a alteração quando se compara essas duas edições com a edição da tradução de 1860. Curiosamente, a edição de 2005 da tradução de João Ferreira de Almeida também é diferente da versão do século anterior, seguindo a mesma palavra utilizada pelas edições da editora Ave-Maria.

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Algumas partes deste excerto foram destacadas com letras maiúsculas para facilitar a visualização.

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4.2.2 Apresentação bíblica de Jesus Jesus tem sua imagem associada à Trindade assim como Deus. Uma imagem de filho amoroso, que cuida do seu povo, a imagem de Jesus sempre foi à de alguém que muito fez pelo mundo, ao dar a sua vida, ao fazer milagres. Sua vida forneceu inúmeras narrativas para pintores, escultores, contadores de história, além de ser à base de vida para todos os seres humanos. Sua vida é retratada na bíblia pelos quatro Evangelhos, sendo dividida em grandes partes: Natividade, Batismo e vocação dos discípulos, Ensinamentos, Milagres e Paixão. Em cada uma das partes de sua vida, Jesus apresenta exemplos práticos de vida. Mas a despeito disso, a pessoa de Jesus é enaltecida e, em muitos momentos das histórias bíblicas, adjetivos e características são designadas à imagem de Jesus. Filho de Davi, Filho do Deus bendito, o Rei, Messias, todos são nomes e características especial e unicamente dadas a pessoa de Jesus. Mas uma dessas características é destacada no excerto abaixo. Nele, as quatro edições apresentam três versões diferentes para esta passagem. Nas quatro edições percebe-se o acréscimo e também a retirada de algumas palavras. João 6:69 Nôvo Testamento (Ave-Maria, 1969) E nós cremos e sabemos que TU ÉS O SANTO DE DEUS!

Bíblia Sagrada (Ave-Maria, 2007) E nós cremos e sabemos que TU ÉS O SANTO DE DEUS!

Bíblia Sagrada (SAB, 1860) E já nósoutros erêmos, e conhecêmos que TU ES O CHRISTO, O FILHO DO DEOS VIVENTE.

Bíblia Sagrada (Geográfica, 2005) E nós temos crido e conhecido que TU ÉS O CRISTO, O FILHO DE DEUS.

Ao conversar com Jesus, Simão Pedro diz que ele e os outros discípulos crêem e sabem que Jesus é o filho de Deus. Mas existe uma diferença entre as edições apresentadas. As duas edições da editora Ave-Maria apresentam as mesmas palavras nos dois excertos, dizendo que Jesus é o “Santo” de Deus. Já as edições da tradução de João Ferreira de Almeida apresentam diferentes versões para um mesmo excerto bíblico. A versão de 1860 apresenta Jesus como “o Cristo”, “filho de Deus vivente”. A versão de 2005 apresenta de igual forma que Jesus é “o Cristo”, mas omite a característica “vivente” que está relacionada à palavra Deus. A diferença entre as versões é bastante explícita. Utilizam-se duas formas diferentes para se falar da pessoa de Jesus e duas formas para se falar sobre a pessoa de Deus. Num

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primeiro momento, Jesus é apresentado como “Cristo, o filho de Deus”. Num segundo momento, como o “Santo de Deus”. A diferença gramatical entre as palavras é clara. A característica de filho de Deus é omitida nas edições da editora Ave-Maria, sendo utilizada em seu lugar a característica de ser “o santo”. Ao dizer que Jesus é o filho de Deus, entende-se que Jesus seja como Deus: santo. Assim sendo, o que vai ser somado a imagem de Jesus é o nome Cristo. Além disso, apenas o excerto da bíblia de 1860 apresenta a característica “vivente” relacionada a imagem de Deus. Assim, nas edições da editora Ave-Maria existe uma troca de expressões que fazem com que se perca um nome designado apenas à pessoa de Jesus e, em seu lugar, é utilizado uma característica que já está implícita no nome Cristo. Existe ainda a omissão da palavra vivente, relacionado a imagem de Deus.

4.2.3 Concessão da benção divina Algo que todo cristão procura diariamente é receber as bênçãos de Deus. Bênçãos materiais, bênçãos espirituais, bênçãos relacionadas à saúde, a busca por uma ajuda divina é algo que move cristãos a se relacionarem intimamente com Deus. Um sinônimo para benção é a palavra graça, muito encontrada na bíblia. São as dádivas, os dons, os favores de Deus, que todo cristão almeja. O desejo de habitar nos céus com Jesus faz com que os cristãos sigam as suas leis e mandamentos. A esperança que todo cristão tem faz com que ele tenha dentro de si uma vontade muito forte de estar preparado para a volta de Jesus. A volta de Jesus é o acontecimento mais esperado pelos cristãos. A volta de Jesus traz o fim as dores, aos problemas, traz nova vida, nova moradia, tudo restaurado. Habitar no céu e desfrutar de tudo o que lá existe é um sonho que pode tornar-se realidade. O livro do Apocalipse faz uma advertência aos seus leitores relacionada a benção de estar no céu. No céu, os filhos de Deus poderão comer da árvore da vida. Mas se na terra deixarem de lado a advertência dada em Apocalipse, a sua estadia no céu pode se tornar irreal. Este excerto foi destacado devido à existência de uma advertência e de bênçãos reservadas aos cristãos. Mas também por apresentar uma diferença entre as versões, que faz toda a diferença.

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Apocalipse 22,19 Nôvo Testamento (Ave-Maria, 1969) E se alguém dêle tirar qualquer coisa, Deus lhe tirará a sua parte da ÁRVORE DA VIDA e da cidade santa, descritas neste livro.

Bíblia Sagrada (Ave-Maria, 2007) E se alguém tirar dele qualquer coisa, Deus lhe tirará a sua parte da ÁRVORE DA VIDA e da Cidade Santa, descritas neste livro.

Bíblia Sagrada (SAB, 1860) E se alguém das palavras do livro desta Prophecia diminuir, Deos lhe tirará sua parte do LIVRO DA VIDA, e da santa cidade, E DAS COUSAS que neste livro estão escritas.

Bíblia Sagrada (Geográfica, 2005) E, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte da ÁRVORE DA VIDA, e da cidade santa, que estão escritas neste livro.

Ao falar sobre o livro do Apocalipse, o autor fala que não se deve em circunstância nenhuma haver alterações no que está escrito no livro. Se existir qualquer tipo de alteração, Deus irá agir contra aquele que tiver feito às alterações. Deus irá retirar duas bênçãos daqueles que fizerem isto. As bênçãos descritas em Apocalipse 22,19 são tomar parte na “árvore da vida” e na “santa cidade”. Mas uma das edições apresenta uma benção totalmente diferente, que implica numa mudança completa de toda a estrutura do excerto. Ao utilizar a expressão “livro da vida15”, entende-se que ao ser feita alguma alteração, a pessoa tem seu nom retirado do livro que contém a história de sua vida na terra e, conseqüentemente, ela deixa de existir, não podendo mais ir ao céu. Nos excertos que utilizam à expressão “árvore da vida16” fica implícita a idéia de que a pessoa não estará no céu, pois nem tomara parte da árvore e tampouco estará na cidade santa. O problema reside na utilização das expressões por parte dos tradutores. Árvore da vida e Livro da vida são objetos distintos apresentados pelo livro do Apocalipse. Um é um instrumento de julgamento dos povos. O outro, um instrumento que traz alimento e cura. O primeiro será utilizado para julgar e permitir acesso ao céu. O segundo, é uma das bênçãos que Deus concederá àqueles que tiverem sua entrada garantida. Para receber os frutos da árvore e habitar a cidade santa, primeiramente é necessário ter no livro da vida relatos que permitam o acesso ao céu. Além da troca de duas expressões por parte das versões analisadas, existe ainda uma outra diferença. As edições da editora Ave-Maria e a edição de 2005 da tradução de João
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O Livro da vida, segundo Apocalipse 20,12, é o livro onde se encontram anotadas todas as obras de todos os seres humanos, desde seu nascimento até a sua morte, e será utilizado para julgar os povos. Aqueles que não estiverem com os seus nomes neste livro, não irão entrar no céu (ver Apocalipse 20,15). 16 A Árvore da vida é descrita no livro do Apocalipse como sendo uma árvore que se estende de uma margem a outra do rio que sai do trono de Deus, produz doze frutos, dando seus frutos de mês em mês, e suas folhas são cura para os povos (ver Apocalipse 22,2).

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Ferreira de Almeida utilizam as expressões “descritas neste livro” e “escritas neste livro”. A versão de 1860 apresenta uma expressão diferente das outras: “e das coisas que neste livro estão escritas”. Ao ler essa parte, o leitor entende que se existir qualquer alteração no livro, todas as bênçãos que nele estão escritas (não apenas árvore da vida, livro da vida e cidade santa) serão perdidas. Uma pequena expressão que faz uma grande diferença no entendimento. Interessante pensar que existem diferenças entre as traduções. De uma versão para outra existe diferença, logo, existe uma mudança no que está escrito no livro. Assim sendo, as bênçãos podem ser perdidas por quem fez a alteração.

4.2.4 Submissão da mulher Ao criar homem e mulher a sua imagem, Deus colocava uma rega geral: o homem não é superior à mulher. Criados semelhantes a Deus, nenhum dos dois teria superioridade sobre o outro. Exercer qualquer tipo de superioridade um sobre o outro seria uma ofensa direta ao Criador e, portanto, ficava claro que a palavra de ordem era igualdade. O livro de Gênesis relata essa relação de igualdade ao falar da criação, mais especificamente no capítulo 1, verso 27. Mas com o passar dos anos, a mulher tornou submissa ao homem. Nos tempos bíblicos, o homem exercia o poder total sobre sua casa, sobre seus filhos. Em alguns momentos, o papel da mulher na sociedade israelita é o de mãe. Não tem direitos sociais, apenas deveres maternos e do lar. Não é por menos que a bíblia vai contra isso e apresenta histórias de mulheres que mudaram a história do povo. Pode-se citar aqui Ester, Rute, Débora, entre muitas outras. O Novo Testamento apresenta uma igreja que pregava a submissão da mulher ao seu marido. Admitia-se que a mulher assistisse nas sinagogas, desde que se mantivesse calada, sem expressar qualquer tipo de opinião ou dúvida. A mulher deveria apresentar obediência ao seu marido, ser subalterna a ele. Em outras palavras, a mulher deveria agir com servilismo para com o homem, já que intelectual e socialmente ele era superior a ele e, cabia a ela demonstrar respeito a isso para que não sofresse nenhuma punição.

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Ao falar sobre a adoração no templo, o livro de I Coríntios apresenta regras especiais para as mulheres. Deveriam sujeitar-se a algumas regras, regras que exigiam delas a submissão. I Coríntios 14,34-35 Nôvo Testamento (Ave-Maria, 1969) COMO EM TÔDAS AS IGREJAS DOS SANTOS, as mulheres estejam caladas nas assembléias: não lhes é permitido falar, mas devem estar SUBMISSAS, como também ordena a Lei. Se querem aprender alguma coisa, perguntem-na em casa aos seus maridos: porque é INCONVENIENTE para uma mulher falar na assembléia.

Bíblia Sagrada (Ave-Maria, 2007) COMO EM TODAS AS IGREJAS DOS SANTOS, as mulheres estejam caladas nas assembléias; não lhes é permitido falar, mas devem estar SUBMISSAS, como também ordena a lei. Se querem aprender alguma coisa, perguntem-na em casa aos seus maridos, porque é INCONVENIENTE para uma mulher falar na assembléia.

Bíblia Sagrada (SAB, 1860) Vossas mulheres calem-se nas Igrejas: Porque não lhes he permitido falarem nellas, mas que estejão SUJEITAS: como também a Lei o diz. E se quizerem aprender alguma cousa, perguntem a seus próprios maridos em casa: porque COUSA FEIA he falarem as mulheres na Igreja.

Bíblia Sagrada (Geográfica, 2005) As mulheres estejam caladas nas igrejas; porque lhes não é permitido falar; mas estejam SUJEITAS, como também ordena a lei. E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos; porque é INDECENTE que as mulheres falem na igreja.

O excerto mostra algumas diferenças bastante pertinentes a mudanças culturais ao longo dos anos. Num primeiro momento, as versões católicas e as versões das traduções de João Ferreira de Almeida diferem entre si. As versões católicas apresentam a expressão “todas as igrejas dos santos”, e as versões de João Ferreira de Almeida apresentam apenas a palavra “igreja”. A expressão “igreja dos santos” resume a ordem que vai se seguir no verso bíblico apenas aos membros dessa determinada igreja. Já a palavra “igreja” não tem um significado expandido. Ao falar diretamente a igreja de Corinto, utilizar a expressão “igreja dos santos” confere uma qualidade especial a esta igreja que a versão de João Ferreira de Almeida não confere. Os membros de Corinto em uma versão são todos santos, em outra, membros como os de qualquer outra igreja. A segunda parte destacada apresenta um uso de palavras diferentes para expressar a mesma ordem às mulheres: submissão. Não devem falar na igreja. Devem estar submissas aos seus maridos, pois estes têm o direito a falar na igreja. Cabe a elas manter dentro da igreja o

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que já fazem fora: serem submissas. Se querem aprender, perguntem aos maridos. Mas não dentro da igreja, em casa, num local privado. Em público, coloquem-se nos seus lugares. A última parte destacada mostra uma mudança na linguagem que se adapta ao período em que a bíblia foi traduzida. Nas edições da Ave-Maria, uma mesma palavra é utilizada, diferente das edições de João Ferreira de Almeida, onde palavras diferentes são usadas. As edições católicas (Ave-Maria) utilizam a palavra “inconveniente” para relacionar o fato de uma mulher falar na igreja. A fala pública de uma mulher é algo inconveniente. O uso da palavra inconveniente faz com que se utilize um sentido de que a fala da mulher na igreja é algo impróprio, inadequado, inoportuno. Já o uso da palavra “indecente” denota uma característica de imoralidade, de depravação, algo indecoroso. Para a versão de 2005 da tradução de João Ferreira de Almeida, existe uma indecência na fala da mulher na igreja. Não é apenas algo impróprio, mas indecente. Das versões católicas para as versões de João Ferreira de Almeida, a fala da mulher na igreja adota um sentimento completamente diferente. De algo ruim, torna-se totalmente errado, digno de repúdio. A expressão mais amena é a utilizada pela tradução de 1860, que diz que é “coisa feia” a mulher falar na igreja. Entre as versões analisadas, nota-se uma diferença muito grande na escolha do vocabulário e da escolha de expressões. Algumas afetam diretamente o entendimento teológico. Outras afetam o entendimento lingüístico. Diferenças existem, mas nota-se um intuito de melhorar a linguagem antiga e deixá-la com um aspecto mais moderno, mais simples ao entendimento. Só é necessária uma atenção especial para que não se perca de vista os objetivos e as mensagens dos textos bíblicos.

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5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo deste trabalho, objetivamos mostrar a bíblia como um livro único. Um livro que contém em si uma gama de informações que regem várias religiões diferentes. Um único livro capaz de guiar espiritualmente e no cotidiano milhares de pessoas. Mesmo com o passar dos anos, a bíblia continua sendo o livro que todos procuram ao menos uma vez na vida para encontrar conforto, paz, segurança, receber conselhos; de uma forma geral, a bíblia atende as perguntas das pessoas com respostas que parecem ter sido ditas especialmente aos problemas daquele que a lê. Em um primeiro momento foi traçado um perfil da bíblia como livro, mostrando seu conteúdo, mensagens principais, traçando toda a sua história de uma forma resumida, porém, contendo informações importantes para o entendimento do porque ela se tornou uma obra tão procurada e, conseqüentemente, tão traduzida. Com uma mensagem simples e clara, a bíblia mostra um Deus que está sempre disposto a cuidar de seus filhos, que ele mesmo criou, mas em muitos momentos da história ele fica no esquecimento e, com dor no coração, permite que seus filhos passem por dificuldades para que se lembrem dele. No Velho Testamento, um povo que espera o nascimento do filho de Deus e que constantemente deixa Deus de lado para seguir pelo caminho do paganismo. No Novo Testamento, a formação da igreja de Cristo, que carrega seu legado aqui na terra, mas que parece cair nos mesmos erros do povo do passado, deixando Deus de lado e seguindo o caminho do paganismo. Um livro completo, escrito por diferentes autores em diferentes momentos. Um tesouro literário. Em um segundo momento mostrou-se o papel que a tradução desenvolve, os desafios que o trabalho da tradução tem no cotidiano e a relação com a tradução bíblica. Pensando nos aspectos culturais que vão dar meios e formas de trabalho ao tradutor, além de pensar no aspecto da recepção da tradução por parte do leitor, objetivou-se esclarecer como estes pontos têm conexão e como o tradutor deve agir perante esses aspectos. A questão da fidelidade também foi tratada, pois é algo que está sempre sendo discutido quando se trata do assunto tradução bíblica. A fidelidade total aos textos bíblicos, as alterações que visam melhorar o entendimento e/ou a leitura, os aspectos que envolvem a fidelidade. No terceiro momento, mostrou-se a tradução da bíblia desde os tempos de Jesus até a tradução de João Ferreira de Almeida para a língua portuguesa. Foram destacadas traduções que tiveram importância histórica como a Vulgata Latina, de São Jerônimo, que foi considerada pela Igreja como oficial e foi base para muitas outras traduções. Apenas em 1545-

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1563, no Concílio de Trento, é que ocorreu uma revisão da Vulgata, surgindo a Nova Vulgata. Foram destacadas as obras de Lutero, Tyndale e Wycliff, que com seus trabalhos de tradução não só conseguiram dar ao povo a bíblia em suas línguas, mas também promoveram mudanças lingüísticas e se tornaram grandes mártires da causa bíblica. De uma forma sucinta, as grandes traduções bíblicas foram mostradas. No quarto e último momento, foram analisadas duas bíblias católicas, comparadas com traduções de João Ferreira de Almeida. Objetivou-se mostrar mudanças feitas e semelhanças que perduraram ao longo dos anos. A edição do Nôvo Testamento, de 1969, e a edição da Bíblia Sagrada: Edição Catequética Popular foram as bíblias escolhidas para a análise. Quatro temas distintos foram analisados através de quatro excertos retirados destas bíblias. Foram mostradas diferenças e mudanças de uma bíblia para outra. Para auxílio na análise, foram utilizadas as edições da tradução de João Ferreira de Almeida de 1860 e de 2005. Os excertos foram comparados no intuito de demonstrar que houveram perdas e mudanças ao longo dos anos, mas que muitas vezes, mesmo com as mudanças, algumas vezes os significados continuaram os mesmos, algumas vezes não. Ainda existe muito a ser feito em relação a tradução da Bíblia, tanto no âmbito católico quanto nos demais âmbitos religiosos. No intuito de melhorar a compreensão, nem sempre o resultado foi o melhor, ainda existe também muita resistência à popularização da bíblia. Os desafios à tradução existem e precisam ser enfrentados. Cabe aos tradutores unirem forças e conhecimento para que esses desafios possam ser transpostos. Com isso, os grandes beneficiados serão os maiores interessados na tradução da bíblia: os leitores. As mensagens, conselhos, repreensões, castigos, tudo isso muito interessa ao conhecimento do leitor, e ao tradutor cabe a missão de fazer com que a leitura seja a mais clara possível, mas sem se desviar do objetivo original: pregar o evangelho de Cristo. Pregar o evangelho a todos os reinos do mundo, para que então venha o fim.

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