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Temporada 03 Capítulo 33

Onde Começa o Inferno
By We Love True Blood

If he says it wasn't murder, why do you say it was?

Tara levou alguns segundos para perceber que foi puxada para um canto por Bill. O cheiro do café caído no chão se espalhou pelo corredor do hospital, um funcionário foi rapidamente limpar. A cabeça dela estava girando após ouvir sobre a morte de Jason. Não poderia ser verdade, ela temia pela reação de Sookita. “É verdade mesmo?”, ela perguntou se agarrando num fio de esperança. “Sim. Lafayette quem o encontrou.”, Bill olhava em volta preocupado, logo o sol nasceria. “Não tenho coragem de contar pra ela.” “Ela está acordada?” Tara balançou a cabeça em negativo, Sookita havia voltado a dormir depois do pesadelo que teve. “Eu tenho que ir agora, não posso ficar. Se acontecer alguma coisa com ela...”, ele apertou os olhos. Ela balançou novamente a cabeça, não sabia o que pensar e como lidar com essa situação. A morte da vó de Sookita voltou com tudo na mente de Tara, foi tão repentina que Sookita levou semanas para recomeçar a sair de casa. Agora teriam que enfrentar tudo de novo e com Jason. Ela começou a soluçar sem parar e foi se afastando de Bill. À volta para o quarto foi penosa, ela caminhava lentamente pensando em como iria dizer para a amiga. Talvez devesse avisar o médico para dar algum tipo de calmante. Não teve coragem de perguntar para Bill como Jason morreu, não tinha estômago para ouvir. Ainda mais se fosse algum tipo de assassinato e por algum vampiro. E ela não tinha dúvidas de que esse vampiro poderia ser seu patrão. Abriu a porta do quarto devagar, evitando que rangesse e acordasse Sookita. Esperava que a amiga continuasse dormindo, teria que reunir todas as forças

para dar a notícia. Pegou o celular na mão, começou a teclar o número de Lafayette, mas desistiu em seguida. Ainda era muito cedo, e ele provavelmente estaria traumatizado em encontrar Jason. Sentou-se perto da cama, havia passado a noite sentada desconfortavelmente, agora nem sentia mais dores. Sookita ainda dormia, pelo menos parecia tranquila. Tara se recostou na cadeira enxugando as lágrimas. Soltou um longo suspiro. “Por que está chorando?” Tara engoliu o choro rapidamente após ouvir a voz sonolenta de Sookita. Endireitou-se na cadeira, pigarreou para disfarçar a voz chorosa. “Não estou, impressão sua. Ainda está sonhando acordada.” “Eu te conheço, você nunca chora.”, Sookita se sentou na cama esfregando os olhos. “Melhor voltar a dormir.”, Tara respondeu rapidamente. “Não quero mais, já estou bem melhor. Quero ir embora.” “Você está toda ferrada, cheia de infecções. Nem pense em sair.”, Tara foi até a cama. “Não aguento ficar aqui.”, Sookita jogou longe o lençol. “Vou chamar a enfermeira.” “Tara, por favor. Eu tive um pesadelo horrível, eu preciso saber se está tudo bem com ele.”, ela se apoiou na cama e desceu lentamente. “Ele quem?”, Tara sentiu um arrepio no corpo, ela não poderia ter sentido a morte de Jason. “Você irá ficar brava comigo...” “Você está doidona, é culpa da tonelada de remédios que tomou.”, ela caminhou até Sookita. “Eu tenho que vê-lo, preciso ter certeza.”, Sookita implorou num fio de voz. “Achei que já tinha superado essa coisa toda.”, Tara cruzou os braços, respirou aliviada pelo rumo da conversa não levar até Jason. “Eu tenho esses sonhos loucos com Eric. Eu tentei matá-lo da última vez e acho que dessa vez eu consegui. Ou não... não tenho certeza...”, ela cobriu os olhos com as mãos.

“Essa é a última coisa que deveria pensar... depois do que aconteceu.”, Tara disse exasperada. “O que aconteceu?” Tara engoliu em seco, percebeu tarde demais que falou mais do que devia. Não conseguia controlar a língua que tinha, sempre deixava escapar o que não podia. “Isso tudo com Eric...”, ela disfarçou rapidamente. “Eu só quero saber se ele está bem.” “Não precisa sair correndo do hospital para descobrir isso. Não se jogue tanto assim aos pés dele.” “Eu não controlo isso que tenho. Adoraria não ter isso com ele também. Essa dor no meu peito não passa...”, ela esfregou o peito várias vezes. “Você nem sabe o que sonhou. Não invente desculpas para vê-lo. Não se esqueça de que é uma mulher casada.” “Não precisa me lembrar disso todo momento. Eu sei de meus deveres. E ultimamente só tenho esse tipo de sonho ruim com ele. Ele se lembra, mas não eu.” “Melhor deitar novamente. Você ainda está pálida.”, Tara pegou nas pernas de Sookita, forçando com que deitasse. “Chame o médico, eu estou bem...”, ela empurrou com força a mão da amiga. “Você não pode sair... não insista, puta merda.”, Tara disse mais alto do que gostaria. “Então, chame meu marido.” “Ele já veio aqui te ver e se não percebeu já é de manhã.” Sookita olhou na direção da janela, as persianas estavam fechadas, mas poderia ver os reflexos do sol. “Por que não me acordaram?” “Porque não, ele disse que voltará mais tarde. Agora volte pra cama.” “Pareceu a vovó agora...”, Sookita abriu um sorriso. Tara não aguentou mais fingir, começou a soluçar, não disfarçava as lágrimas que rolavam. “Não posso mais esconder.”, ela disse para si mesma em voz alta.

“Tara... Meu Deus... o que aconteceu?”, Sookita se apoiou na cama tentando alcançar à amiga. “Jason... é Jason...”, ela balbuciava entre os soluços. “Ele morreu...” “Não morreu, você está enganada.” “Gostaria que estivesse. Bill deu a notícia. Eu não queria te dizer, não queria. Não tenho coragem, me perdoe, Sookita. Ele morreu sem eu pedir desculpas para ele, eu o queria preso pelo que fez por Sam, mas não morto.”, Tara segurou Sookita pelos ombros. “Me perdoe...” “Não, Tara... tem jeito pra isso. É só ele virar vampiro.”, Sookita caiu no chão após sair rapidamente da cama. Tentou levantar, mas não tinha forças. Começou a engatinhar em direção a porta. “Bill, tenho que chamar Bill, ele irá transformar Jason.” “Sookita... Sookita, não dá mais.”, Tara caminhou até ela, tentou levanta-la do chão, mas não conseguiu. “Eu não posso perdê-lo. Ele é tudo que tenho, tudo que sobrou da minha mãe. Ninguém morre mais hoje em dia, vira vampiro.”, ela falava gesticulando freneticamente. Tara balançava a cabeça tristemente. Sookita parou de engatinhar em direção a porta. Colocou a cabeça entre as mãos, mas não chorava. “Quero ver meu irmão.” “Ainda não tem velório.” “Eu quero ir até ele. Alguém tem que reconhecer o corpo.”, ela se postou de pé com dificuldade. “Eu fiz isso quando foi minha avó.”, ela encarou Tara. Tara confirmou com a cabeça, lembrava-se claramente há mais de dois anos atrás quando as duas foram no necrotério. Jason não teve coragem, chorava como uma criança perdida. Tara pegou o celular, teclou para Lafayette e dessa vez não desligou. --------------------------------Bastian observava fazia certo tempo o motel barato onde Jason estava hospedado. Havia acreditado mais uma vez em Jessica, seria a última vez que faria isso. A curiosidade tinha sido maior para descobrir se ela realmente sabia. Não avisou Santiago, pretendia confirmar e depois dar o aviso. Pelo menos ficaria livre dessa história, fazia dois meses que procurava pistas do irmão de Sookita. Só ele e Eric sabiam disso, Bastian torcia para que Santiago não descobrisse que guardou esse segredo durante tanto tempo.

Estava distraído brincando com um jogo no celular, quando ouviu uma movimentação no quarto de Jason. Não estava longe, mas mantinha uma distância segura. Não demorou para o rapaz sair apressado, caminhando rapidamente até o posto de ônibus do outro lado da rua. Pela primeira vez Bastian pode observar Jason ao vivo, viu tanto o rosto dele naquela foto rasgada de Eric. Era estranho quando o objeto de busca tão intensa estava ali tão perto. Bastian esperou Jason entrar no ônibus para segui-lo. Antes que o veículo saísse em velocidade, ele deu um salto alto o suficiente para pousar no teto. Mas, não foi com tanta destreza quanto gostaria, acabou aterrissando muito forte, afundando um pouco o teto. Ele praguejou baixinho pela má sorte. Esperava que não tivessem percebido, talvez pensassem que uma pedra caiu ali em cima. Segurava-se como podia em cima do ônibus, o motorista não era dos melhores, fazia curvas em velocidade, várias vezes ele quase saiu voando. Pena que nunca teve aulas de surfe seriam bem proveitosas agora, mas não tem sentido um vampiro surfista, ele pelo menos nunca ouviu falar de algum. Toda vez que o ônibus parava no ponto, Bastian espiava para saber se Jason tinha saído. Depois de várias paradas, finalmente Jason desceu do ônibus. Bastian esperou alguns segundos para saltar, olhou para os lados quando aterrissou no chão, pelo menos não tinha ninguém vendo o seu show de malabarismos. Ele tinha que andar bem devagar para não alcançar Jason. Como vampiro Bastian não teria dificuldades em alcança-lo, e incomodava ter que andar como se fosse em câmera lenta. O rapaz caminhava rápido, olhava todo momento para trás como se estivesse com receio de ser seguido. O local onde estavam era uma região barra pesada de Vale. Bastian raramente ia para esses lugares, só vampiros desesperados apareciam por ali caçando drogados para se alimentarem. Ele era acostumado com sangues puros que recebiam na Autoridade, nunca perguntou de onde vinham, não gostaria de saber como faziam para ter esse suprimento. Jason passou em frente ao La Puta Madre, não parou ali, foi até o fim da rua e parou perto de uma esquina. Bastian imaginou que o irmão de Sookita estava procurando alguma prostituta para se divertir, mas pelo jeito não era isso. Passou a mão no celular que estava no bolso, sentiu a mão coçando para avisar Santiago. Só que não o fez, iria ter certeza se era prudente agir. Quem sabe ele mesmo não salvasse a situação levando o prisioneiro. Esperou alguns minutos e caminhou do outro lado da rua, tomando o cuidado de não ser visto. Tomou tanto cuidado em se esconder de Jason que bateu de frente com um casal que estava se agarrando apoiados na parede. Num

reflexo, Bastian passou velozmente por eles e correu para um beco escuro que ficava ao lado. Quando parou, notou que o casal não o seguiu. Reparou que Jason ficou apavorado, mexeu no celular nervosamente. E foi caminhando devagar justamente no beco onde estava Bastian. O vampiro acreditava que era a melhor chance que tinha de pegar Jason. Só que antes que pudesse agir, um vulto passou por trás do rapaz que se assustou e correu na direção da lata de lixo. Bastian olhou para os lados procurando um local para se esconder, pelo cheiro reconheceu que era outro vampiro. Ao lado do beco havia um pequeno prédio de cinco andares, num salto ele chegou ao topo e se apoiou na mureta de tijolos velhos. Sufocou uma risada ao ver o pobre Jason se escondendo dentro da lixeira. Não iria escapar de ninguém ficando ali. Ele enxergava bem na penumbra, principalmente quando o outro vampiro se aproximou da lixeira e expôs Jason. Se Bastian tivesse um coração batendo, ele iria parar quando ouviu a voz do vampiro. Era Eric. “Olá, Jason! Você é difícil de encontrar.”, a voz de Eric soou cavernosa no beco. Bastian se apoiou mais ainda na mureta para acompanhar a cena. Não fazia ideia de como Eric tinha encontrado Jason. E não havia sido seguido por ele, tinha certeza disso, mesmo Eric sendo antigo, Bastian perceberia a aproximação de qualquer vampiro. “Não me mate.”, Jason disse numa voz chorosa. De repente, a realidade de toda a situação caiu de uma vez na cabeça de Bastian. Se ele poderia perceber um vampiro, Eric também o sentiria ali. Não era só Jason que estava correndo risco, ele também estava. Não acreditava que Eric iria poupar o rapaz, durante meses só falou o quanto queria pega-lo, mesmo tendo sido proibido por Santiago de agir por conta própria. E se o pegasse ali também, Bastian imaginava que teria o mesmo destino do outro. “Por que eu deveria te poupar?”, Eric respondeu cinicamente. “Eu... eu... sou policial, vão querer vingar a minha morte.”, Jason tentava se soltar das mãos de Eric em seu colarinho. “Não vão encontrar nenhum resto seu.”, Eric soltou uma sonora gargalhada. O medo começou a tomar conta de Bastian enquanto ouvia aquele diálogo, tinha que se mandar logo dali de qualquer maneira. O problema era que Eric voava, se o visse o pegaria facilmente. Observou o redor, traçando uma rota de fuga pelos telhados das casas e prédios do lugar.

Algo estalou em sua mente quando notou os tijolos velhos da beirada do prédio. Se jogasse alguns longe, desviaria a atenção de Eric e ele poderia escapar sem se preocupar em ser seguido. Voltou a se aproximar da beirada lentamente, pegou com cuidado dois tijolos e esperou o momento certo. “Sou cunhado do prefeito... ele manda nessa cidade.”, Jason tentou argumentar com a voz falhando por causa do choro. “Prefeito não manda em nada nessa merda de cidade.”, Eric ergueu o rapaz acima de sua cabeça. “Deveria saber que a punição é a morte para traficantes inúteis como você.” Bastian fez um movimento para trás e lançou com toda a força que tinha os tijolos do outro lado da rua. Os objetos se espatifaram na parede da boate. Ele se afastou velozmente, ao longe ainda podia ouvir os gritos apavorados de Jason. Quando alcançou uma distância segura, falou em voz alta: “Droga, merda, puta que pariu. O que vou fazer agora?” Olhou para o horizonte, logo amanheceria. Não teria muito tempo para pensar. -------------------------------Sookita estava sentada na cadeira de rodas que cruzava rapidamente o hall de entrada do hospital. Tara a empurrava na direção da saída. Evitava que chamassem a atenção de alguma enfermeira ou médico. O médico não autorizou a alta de Sookita. Diante da situação tiveram que arrumar alguma solução para saírem dali. Cada minuto contava para tentar reviver Jason com vampiro, Sookita pensava freneticamente. Obrigou Tara a procurar uma cadeira de rodas para que pudesse escapar sem serem notadas, quase todos os pacientes saíam dessa maneira. Lembrou-se quando foi buscar Sam no hospital após o tiro que levou. Ao lembrar-se disso sentiu um aperto no coração, tudo levava ao seu irmão. Respirou aliviada quando sentiu o sol da tarde em sua pele, parecia que tinha ficado anos presa no hospital. Havia se passado apenas um dia, um dia desde tudo que aconteceu com Eric. Ela conseguiu escapar da morte, passou a mão na barriga onde havia recebido as facadas do Senador. Esperava que Jason tivesse a mesma chance, ele tinha que viver. “Onde está meu carro?”, Sookita perguntou baixinho. “Do outro lado.”, Tara apontou com a cabeça para a outra ponta do estacionamento. “Vamos logo, não podemos perder tempo.”, ela disse esperançosa.

“Sook... e se não der certo?” “Santiago me disse que se transformou depois de morto. Ele não é tão forte como os outros vampiros, mas está vivo. É isso que importa.”, ela disse perdendo o fôlego de excitação. “Às vezes é melhor aceitar.”, Tara disse com cuidado. “Eu não vou aceitar a morte dele depois de tudo que passamos juntos, não vou.”, ela balançou a cabeça vigorosamente de um lado para o outro. “Cuidado, se você cair aqui e se machucar, teremos que voltar.” Tara parou bruscamente a cadeira de rodas antes que fossem atingidas por um carro que virou de repente numa fileira de carros. Após alguns longos minutos embaixo de um sol escaldante, chegaram ao carro. Tara ajudou Sookita a sentar no banco do passageiro e em seguida sentou-se ao volante. “E se já abriram ele pra fazer... autopsia?”, Tara perguntou dando partida no motor. “Tem que reconhecer primeiro. Você sabe disso, foi dessa maneira com vovó.” “Eu não quero você desabando como da outra vez.” “Eu... eu tive meus motivos.”, ela disse se concentrando no caminho a frente. “Não entendi o que você disse naquele dia que brigamos.”, Tara olhou para ela. “Não foi pela morte dela. Foi por mim, eu estava sozinha pela primeira vez na vida. Não teria que seguir mais as regras rígidas.” Tara apenas concordou com a cabeça. O resto do caminho foi feito em silêncio. Quando chegaram Sookita começou a sentir o impacto do que viria pela frente. Não imaginava uma vida sem Jason e não sairia dali sem ele ao lado dela. Dessa vez ignorou a ajuda de Tara para sair do carro, estava se sentindo melhor desde que saiu do hospital. Foram levadas para uma sala de espera assim que cruzaram a entrada. Havia várias pessoas esperando, muitas chorando. Sookita ainda não conseguia chorar, não poderia chorar, tinha que ser forte por Jason. Sentou-se num canto da sala, não queria conversar com ninguém que estava ali, não queria ouvir histórias tristes. Tara sentou ao seu lado. “Eu não vou poder entrar junto.”, Tara irritada bateu a mão na perna. “Lafayette não está aqui?”, Sookita perguntou olhando em volta. “Não. Ele está na delegacia.”

“Por quê?” “Sook, que parte você não entende que Jason foi atacado e morto?”, Tara disse levantando um pouco a voz atraindo vários olhares. “Atacado? Como?”, ela torceu as mãos no colo. “Eu não sei. Lafa não quis falar. Ele estava muito nervoso.” Sookita engoliu em seco, nem iria pensar na hipótese de Eric ter feito algo assim. Ele havia prometido que não mataria Jason, não inventaria uma mentira para seduzi-la. Ela balançou a cabeça afastando esses pensamentos ruins. Teria que se concentrar numa maneira de salvar Jason. Olhou para a janela e o dia começava a esvaecer. “Eu não posso pedir para Bill fazer isso. Ele já fez muito por Jason.”, Sookita disse olhando de Tara para o sol que se punha lá fora. “Não é certo o que quer fazer. Não se pode enganar a morte dessa maneira.” “Não é certo o meu irmão morto.”, ela apontou na direção das salas onde ficavam os cadáveres. Novamente atraíram alguns olhares das pessoas que estavam ali. “Se os vampiros são a cura...” “Talvez um vampiro tenha matado Jason, não pensou nisso? E se for o seu precioso Eric?” “Ele disse que não o mataria.”, ela respondeu em voz baixa “E você acreditou? Não entendo como é tão ingênua.” “Tara, não quero discutir... nós temos que agir antes que seja tarde demais.”, Sookita fez um movimento com as mãos encerrando a discussão. “Não vou ir atrás de Eric, se é isso que está pensando.”, Tara balançou a cabeça. “Conhece outro vampiro para transformar Jason?”, ela perguntou exasperada. “Sim, conheço vários. Mas, duvido que estejam dispostos a fazer algo assim.” “Você nem parece que quer salvar Jason.”, Sookita olhou novamente para a janela, a lua surgiu no céu mais brilhante do que nunca. “Eu quero, claro que quero. Só não sei se isso dará certo.” “Por favor, Tara... por favor...”, ela juntou as mãos implorando. “Eu não posso sair daqui, tenho que descobrir uma maneira de transformarmos Jason sem sermos pegos.”

“Só não vou trazer Eric.”, Tara se levantou irritada. “Só traga um vampiro, é isso que importa.”, ela disse abrindo um largo sorriso. Tara fez um aceno com as mãos e saiu do prédio. Sookita também se levantou, foi em direção ao banheiro. Os choros das pessoas naquela sala de espera a estavam consumindo, não queria imaginar que eles não tinham a mesma sorte que ela em salvar seus entes queridos com o sangue de um vampiro. E não queria imaginar em perder Jason e ficar completamente sozinha. --------------------------Tara parou em frente ao Santo Martillo quase batendo o carro de Sookita na entrada. Estava dirigindo tão nervosa e irritada que várias vezes ouviu buzinadas e xingamentos dos outros motoristas. Mas, ela ignorou todos. Tinha que achar o tal vampiro para salvar Jason, e nem que tivesse que revirar a cidade, só não iria chamar Eric. Se tinha alguém disposto a matar Jason, ele era o mais cotado. Não iria ficar com raiva de Sookita, pois entendia o desespero da amiga. Ela também faria de tudo se fosse Lafa, o único parente que ainda tinha vivo. Esperava que Jason se controlasse como vampiro, se em vida não conseguiu, que pelo menos após a morte fosse diferente. Logo o Martillo iria abrir, ela já estava por um fio tendo saído daquela maneira na noite anterior. Por sorte, Mariano tinha dado uma boa cobertura e Pam, sua chefe imediata, estava brigada com Eric. Alguns funcionários faziam a limpeza, outros arrumavam as bebidas e dançarinas se aquecendo no pole dance. Ela se aproximou do bar e deu um assobio para chamar a atenção de Mariano. O vampiro estava tão distraído enxugando um copo que quase derrubou no chão. “Posso te pedir uma coisa louca?”, ela perguntou tamborilando os dedos no balcão. “Nosso encontro será agora?”, ele deu uma piscada. “Poderia ser mais discreto. Não é para todo mundo saber. E somos amigos, se eu me lembro bem.” “Eu te cobri ontem aqui, pelo menos um beijo eu mereço.”, os olhos castanhos dele brilharam. “Nós temos problemas maiores para resolver.” “Nós?”, Mariano perguntou surpreso apontando para ela e depois para ele.

“É a coisa louca que falei.”, ela olhou para os lados e falou baixinho. “Preciso de seus dotes de vampiro.” “Quer o meu sangue? Não precisa ter tanta vergonha assim, eu dou sem problemas.” “Não é pra mim.”, ela disse sentindo o rosto vermelho. “É para salvar uma pessoa.” “Agora? Nesse momento?” “Sim, não podemos perder tempo. É questão de vida ou morte.”, ela apoiou o corpo no balcão e o puxou pelo braço. “Você sabe que não podemos sair. Daqui a pouco a boate irá abrir.”, ele se afastou. “Acho que será rápido, é só dar o sangue para a pessoa.” “Você quer que eu transforme alguém, é isso?”, ele perguntou dando a volta no balcão. “Por aí.”, ela respondeu sentindo o rosto queimar novamente, não gostava de como parecia idiota perto dele. “Pam está por aqui?” “Não apareceu ainda. Acho que não fizeram as pazes.”, ele apontou para o escritório. “Então, podemos ir e voltar rapidinho.”, ela começou a caminhar para a saída. “É aquela sua amiga?” “Sim.”, ela continuou caminhando. “Vou conhecer a tão falada Sookita.”, ele riu novamente. “Ela será eternamente grata.”, Tara respondeu levemente irritada. Mariano fez um sinal para ela esperar. Foi até os fundos da boate e voltou usando uma jaqueta preta que realçava a altura e os cabelos escuros bem cortados. Tara desviou o olhar, não poderia perder o foco e muito menos se envolver dessa maneira com ele. Apesar de que o estava envolvendo numa história pra lá de complicada. “Vamos.”, ele disse passando por ela. Assim que os dois saíram, a porta do escritório foi aberta rapidamente. Eric correu em disparada para a saída da boate. ----------------------------------

Sookita esperava ansiosamente a volta de Tara, não conseguia conter o nervosismo. Havia dado várias desculpas para não reconhecer Jason, inclusive forjou um desmaio. Com isso conseguiu ganhar um tempo, estava deitada numa maca num lugar mal iluminado e que parecia um deposito. Pelo jeito eles só eram preparados para os mortos, os vivos não tinham muitas regalias. Sua mente foi para alguma outra sala onde Jason estava deitado daquela mesma maneira, só que mais frio e esquecido. Ela fechou os olhos com força fazendo uma prece, havia tanto tempo que não rezava. O que havia acontecido na vida deles? Primeiro foi vovó Adele, depois ela quase perdendo a vida e agora Jason. Voltou a sentir a dor no peito, aquela dor intensa e que havia pensado ter feito algo de ruim para Eric. Ela não estava mais sonhando, estava bem acordada, não era para sentir isso. Bateu com a mão na cabeça para tentar se lembrar do sonho, não suportava perder o controle dessa maneira. A porta do lugar se abriu, Sookita ergueu a cabeça forçando os olhos para se acostumar com a luz que vinha da fresta. “Sua amiga voltou, está lhe procurando.”, disse o funcionário que a socorreu. “Obrigada, já estou me sentindo melhor.” Ela se levantou de maneira desajeitada, esfregando a mão no peito. Saiu do lugar e voltou para a sala de espera. Tara a estava esperando ao lado de um rapaz alto e bonito. “Eu trouxe o que você queria.”, ela disse com cara de poucos amigos. “Ele é... o vampiro.”, Sookita disse exultante. “O que você quer com meu funcionário?”, a voz de Eric surgiu atrás de Sookita. Ela sentiu a cor fugir do rosto, ele era a última pessoa que esperava encontrar nesse momento. Virou-se bem devagar, e lá estava ele, parado logo atrás, tão alto e imponente, não dava espaço para ela se locomover ou respirar. “Senhor Colunga, a culpa é minha. Eu me ofereci para ajudar.”, Mariano se colocou entre Sookita e Eric. “Saia daqui. Vá fazer o seu serviço.”, Eric fechou as mãos e encarou o vampiro. “Ela precisa de mim.”, ele apontou para Tara e Sookita, a mão tremendo. “Precisa porra nenhuma.”, ele se aproximou de Mariano. “Os senhores poderiam brigar lá fora?”, um funcionário apareceu indicando a saída.

“Não se preocupe, meu amigo aqui já está de saída.”, Eric deu um tapinha nas costas de Mariano e o empurrou para a saída. Mariano encolheu os ombros para Tara num pedido velado de desculpas. E seguiu o funcionário saindo do prédio. “Você também vá embora. Não te pago pra ficar aqui matando o tempo.”, Eric disse para Tara. “Não vou deixar Sookita aqui sozinha.”, Tara cruzou os braços no peito em desafio. “Ela está comigo.” “Vocês dois querem parar com isso.”, Sookita disse levantando a voz. “Você não vai querer que ele faça isso, né?”, Tara disse entre dentes. “Fazer o que?”, Eric perguntou arqueando a sobrancelha esquerda. “Não é da sua conta.”, Tara replicou antes que Sookita abrisse a boca. “Tara, pelo amor de Deus. Eric é um vampiro e eu preciso de um.” “Sua amiga Tara logo terá que começar a procurar um emprego.”, ele disse num tom sarcástico. “Pam é a minha chefe, não você.” “Quem você acha que é o chefe dela?” “Pode me mandar embora se quiser, mas não vou te deixar sozinho com Sookita.” Eric balançou a cabeça e encarou Sookita, ignorando as palavras de Tara. “Por que está no necrotério? Achei que algo tinha acontecido com você.”, ele disse friamente. “Não me sente mais? Não tem essa coisa entre vampiros e humanos?”, ela perguntou incomodada com o tom dele. “Não, ele prefere ouvir as conversas alheias.”, Tara disse. “Eu senti...”, ele disse sustentando o olhar de Sookita e ignorando novamente as palavras de Tara. “Mas, não teve coragem de me procurar.”, ela desviou o olhar. “Isso não importa, meu irmão é que precisa de ajuda.”

“O que houve com ele?”, Eric olhou em volta pela primeira vez, viu um número grande de pessoas na sala, muitas prestando atenção na conversa deles. “Está morto.”, Sookita respondeu num fio de voz. Um brilho estranho passou rapidamente nos olhos de Eric. Ele balançou a cabeça confuso e disse: “Quando foi isso?” “Na madrugada.”, Tara o olhava acusadora. “Você estava aonde?” “Na boate e você? Onde estava?”, perguntou para Tara. “Com Sookita no hospital.” “Então, isso te faz inocente.”, ele retrucou perdendo a paciência. “Vocês querem parar. Eu só quero meu irmão sendo salvo e nada mais.”, ela encarou Eric e o saiu puxando da sala. “Você fique aqui.”, disse para Tara. Os dois saíram do necrotério e pararam em frente à entrada. A luz do luar e de um pequeno poste servia uma fraca iluminação, e ela estava feliz por isso, pois não precisaria sustentar o olhar dele. “Preciso que transforme o meu irmão.”, ela disse sem rodeios. “Você pretendia pedir isso para um reles funcionário meu? Está louca?”, ele bateu com a mão na coxa. “Deveria ter pedido para você?” “Não é o que está fazendo agora?”, ele disse impaciente. “Vai transformar?” “Ele está morto faz tempo?” “Não sei, acho que algumas horas.”, ela disse ansiosa. “Não podemos perder tempo.” Ele a puxou para junto de si e voltaram para dentro. Nem parecia que um dia atrás tinham tido momentos tão íntimos, agora estavam tão distantes, como se nada tivesse acontecido. Mas, no fundo, ela preferia Eric transformando Jason a outro vampiro. Aproximaram-se do funcionário que tentou expulsar Eric minutos antes. “Leve-nos até Jason Ricky Albuquerque.”

Ele sabia tudo sobre Jason, ela não estava tão surpresa. A Autoridade estava procurando por seu irmão, e Eric era quem tinha tomado à frente. Sookita acreditava que ele não estaria envolvido em toda essa confusão da morte de Jason. Ele não iria até ela se fosse culpado, não fazia sentido. O funcionário procurou alguns papéis na mesa e em seguida os conduziu por um longo corredor, Sookita podia sentir o frio vindo dos freezers onde os corpos eram mantidos. Eric passou a mão nos ombros dela. Eles seguiam em silêncio. Não demoraram muito para chegarem até uma porta dupla, o funcionário abriu a porta. Eric o proibiu de entrar, e o hipnotizou para que esquecesse o que presenciou. Sookita entrou na sala sendo seguida por Eric. O lugar era grande, com várias macas sendo ocupadas por mortos. A imagem de quando viu a avó morta voltava a sua mente, agora era o momento de ver o seu irmão. Ela sentiu o estômago se contorcer, se apoiou numa maca que se moveu. “Não precisa ver se não quiser. Pode esperar lá fora.”, ele disse baixinho por trás dela. “Eu quero ver. Tenho que ver. Quero vê-lo abrir os olhos.”, ela virou o rosto e o encarou com os olhos marejados. “Não posso garantir que dará certo.” “Mas, deu certo com Santiago... ele disse que você estava lá.” “Sookita, cada pessoa reage de um jeito.”, ele disse caminhando entre as macas. “Você já transformou alguém que morreu?” “Não, só transformei Pam e ela estava bem viva.” Ela sentiu a cabeça rodopiar, ela não pensou na possibilidade de não dar certo. Não tinha como dar errado, e Eric era um vampiro tão poderoso e antigo, o sangue dele deveria ser mais potente. “Se tem alguém que pode conseguir isso é você.”, ela disse sentindo um fio de esperança. “Ele pode voltar diferente... descontrolado. Você tem certeza que quer esse fardo?” “Quero, prefiro qualquer coisa a nada.” Ela passava entre os corpos nas macas, apenas os pés estavam de fora e havia uma etiqueta neles. O medo começou a percorrer o seu corpo, não era acostumada a lidar com mortes, diferente de Eric e os outros vampiros. Ela

podia sentir o ambiente carregado, e livre de pensamentos. Não conseguia captar nada, só tinha ela viva ali. Eric também era morto. O seu coração acelerou conforme levantou as etiquetas e leu os nomes. Tantas pessoas que deixaram suas famílias e só um iria ter a chance de reviver. Ela não sabia se estava sendo egoísta, mas só queria ser agraciada com apenas um milagre. “É ele.”, ela disse tão baixo e devagar que apenas um vampiro poderia entender. Eric se aproximou quieto, observando cada reação dela. A maca se estendia a frente de Sookita. Apenas um lençol branco e os pés tão pálidos expostos. Ela apertou os pés tentando sentir algum calor, sentir Jason, mas nada veio. Apenas o silêncio. “Por favor, Eric. Salve-o.”, ela implorou juntando as mãos e baixando a cabeça, rezava baixinho. Eric fez uma careta quando começou a ouvir a prece que ela recitava. Ele levantou o lençol e ficou parado analisando o corpo por minutos intermináveis para Sookita. “Não posso.”, ele disse simplesmente. “Como não pode?”, ela parou de rezar. “Melhor irmos embora, nada pode ser feito.”, ele recolocou o lençol em cima de Jason. “Você não pode fazer isso comigo.”, ela gritava descontrolada. “Sookita, seu irmão se foi.” “Não... não... você não quer transformá-lo... porque o odeia.”, ela soluçava. “O corpo dele não tem como voltar à vida.”, ele disse se aproximando dela. “Você está mentindo, não pode ser. Ele só morreu, o corpo dele está inteiro. Você viu.”, ela falava sem parar. “Você prometeu que não iria fazer mal nenhum pra ele. Só precisa fazer o bem... por favor.” “Sookita, pare com isso. Seu irmão está morto, acabou.”, ele a puxou para si e encostou a cabeça dela no peito. Ela se desvencilhou do abraço dele, não queria ser tratada com pena, ainda mais por Eric que tinha tantos motivos para não ajuda-la com Jason. “Você espantou o outro vampiro para que não me ajudasse. Você quer que Jason continue morto.”

“Pelo contrário, estou te poupando de acreditar no impossível.”, ele balançou a cabeça preocupado. “Mentiroso, você mentiu pra mim. Está brincando comigo, como sempre faz.” “Agora a culpa é minha? Você toma atitudes precipitadas e a culpa é minha?”, ele passou a mão nos cabelos com raiva. “Eu não sou Deus. Reze para o seu Deus, Sookita, quem sabe ele revive seu irmão.” “Vá embora, Eric. Não vou ser arrastada para o inferno junto de você.” “Veja o seu irmão.”, ele apontou para a maca. Sookita começou a sentir o corpo inteiro tremer, não controlava o movimento das mãos. Ela se aproximou lentamente de onde estava a cabeça de Jason. Eric se afastou e abaixou a cabeça para não ver a cena. Ela passou a mão por cima do lençol, sentiu o rosto tão bonito de seu irmão nas pontas dos dedos, estava tão gelado quanto Eric. Respirou fundo e ergueu devagar o lençol. O rosto de Jason surgiu, os lábios cerrados e roxos, os olhos fechados e a palidez da pele. Seu irmão parecia que tinha envelhecido tanto em tão pouco tempo, Não o via fazia meses, e agora o estava vendo sem aquele vivacidade e alegria que tinha. Ele era um perdido, mas era o perdido dela. Afastou mais ainda o lençol e seus olhos encontraram o motivo de Eric não o ter transformado. Havia um buraco no meio do peito dele, e não havia nada ali dentro. Apenas tecido morto e um cheiro de algo começando a apodrecer. “O que significa isso?”, ela perguntou sentindo o lençol tremendo nas mãos. “O coração dele foi arrancado.” Ela soltou um grito doloroso de dor. A intensa dor que sentia no peito desde o pesadelo, foi à morte de seu irmão.