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Sections

  • I. A LEITURA
  • II. AS FONTES DOCUMENTAIS
  • III. PERSPECTIVA HISTÓRICO-FILOSÓFICA
  • 1 -A COSMOGONIA REMOTA
  • 2. ANAXIMANDRO DE MILETO
  • 3. ANAXÍMENES DE MILETO
  • 3. EMPÉDOCLES DE AGRIGENTO
  • 4. ALCMÉON DE CROTONA
  • 3. MELISSO DE SAMOS
  • 4. ZENÃO DE ELEIA
  • L LEUCIPO DE ABDERA
  • 2. DEMÓCRITO DE ABDERA

COLECÇÃO FILOSOFIA & ENSAIOS

FILOSOFIA
GREGA
PRÉ-SOCRÁTICA
PINHARANDA GOMES
QUARTA EDIÇÃO
Com selecção de textos, tradução, introdução
e aparato crítico de Pinharanda Gomes,
apresentam-se os textos integrais dos filósofos pré-
-socráticos e suas diferentes escolas: a Cosmogonia
remota, as Escolas J ónica, Itálica, Eleática e
Abderítica, a Sofística.
GUIMARÃES EDITORES
FILOSOFIA
GREGA
PRÉ-SOCRÁTICA
Quando a moderna divulgação
científica afirma que a vida nasceu do
mar, está longe, ou perto, da filosofia
grega que, na água, situava a origem de
toda a existência?
Que tem a sabedoria grega pré-
-socrática a ver com a civilização e a cul-
tura contemporâneas?
Houve um progresso real e efectivo
quanto ao conhecimento dos primeiros
princípios, ou, tudo o que acerca deles
sabemos já se encontra enunciado na
filosofia pré-socrática?
As interrogações eleáticas sobre o
princípio, a origem, o processo e os fins
universais já foram solvidas pelo progresso
científico?
Que sabe o homem contemporâneo,
a mais do que Zenão, sobre a realidade do
pensamento e do movimento?
Esta selecção de textos não deixará de
provocar um clima de fecunda perplexi-
dade.
COLECÇÃO FILOSOFIA & ENSAIOS
FILOSOFIA
GREGA
PRÉ-SOCRÁTICA
PINHARANDA GOMES
QUARTA EDIÇÃO ·
GUIMARÃES EDITORES • LISBOA
COLECÇÃO FILOSOFIA E ENSAIOS
FILOSOFIA GREGA
PRÉ-SOCRÁTICA
1.a edição- Janeiro, 1973
2.a edição -Abril, 1980
3.a edição- Novembro, 1987
4.a edição- Outubro, 1994
FILOSOFIA GREGA
PRÉ-SOCRÁTICA
PINHARANDA GOMES
QUARTA EDIÇÃO
LISBOA
GUIMARÃES EDITORES
1994
SUMÁRIO
NOTA À 2. a EDIÇÃO 9
PREFÁCIO 11
INTRODUÇÃO
I. A leitura 17
II. As fontes documentais 22
III. Perspectiva histórico-filosófica 27
1. A cosmogonia remota 28
2. A escola jónica 34
3. A escola itálica 47
4. A escola eleática 54
5. A escola atomista 64
6. A sofística 69
IV. Síntese final 77
V. Bibliografia 79
FILOSOFIA GREGA PRÉ-SOCRÁTICA (Textos) 83
I. A cosmogonia remota 8 5
1. Homero 85
2. Hesíodo 88
3. Orfismo 90
4. Os sete sábios 93
II. A EscolaJónica 99
1. Tales de Mileto 99
2. Anaximandro de Mileto 102
3. Anaxímenes de Mileto 104
4. Anaxágoras de Clazómenas 106
5. Arquelau de Atenas
113
6. Heraclito de Éfeso 114
7 Diógenes de Apolónia 126
III. A Escola Itálica
131
1. Ferécides de Siro 131
2. Pitágoras de Samos
132
3. Empédocles de Agrigento 137
4. Alcméon de Crotona
155
5. Filolau de Crotona 158
6. Eurito de Crotona 162
7. Arquitas de Tarento 163
IV. A Escola Eleática 167
1. Xenófanes de Cólofon 167
2. Parménides de Eleia 172
3. Melisso de Samos 180
4. Zenáo de Eleia 183
V. A Escola Atomista 187
1. Leucipo de Abdera 187
2. Demócrito de Abdera 188
VI. A Sofística 213
1. Protágoras de Abdera 213
2. Górgias de Leontinos 217
3. Pródico de Ceos 222
4. Hípias de Élis 226
Glossário e Índice dos Principais
N ornes Próprios citados no Texto 229
I
r
NOTA A 2. a EDIÇAO
Q
uando, em janeiro de 1973, Guimarães Editores publi-
cou a Filosofia Grega Pré-Socrática, o leitor era colocado
perante a primeira tentativa de criação de uma obra do género
elaborada no nosso país, e por um autor português.
Patentes, nela, as virtudes e os defeitos, a crítica mais escla-
recida, algumas vezes colaborante e útil !I), soube dizer de sua
justiça. E, quando assinalou as deficiências, não deixou de reco-
nhecer o esforço que a obra constituía, já como devoção traba-
lhosa do autor, já como risco do editor.
Não pudémos, aqui, como noutros escritos nossos, aceitar
sem íntima discussão os contributos da crítica; mas não hesitá-
mos em introduzir aqueles que nos pareceram razoáveis.
Esta nova edição não é um novo livro. É o texto da I. a edi-
ção, com algumas significativas variantes, resultantes de cortes e
de acrescentos, de clarificações e de ajustamentos, o que, tudo
junto, de modo nenhum altera na essência a perspectiva inicial.
Quanto a esta, estamos certos de a ter mantido, porquanto o
modificado se situa mais no domínio do acidental do que no
domínio do principia!.
(1) Cumpre-nos mencionar, entre outras críticas, as de Carlos Alberto
Louro da Fonseca (Humanitas, XXIII-XXIV, 574-77), António Martins
(Rev. Port. de Fi/., Sup. Bib., n.
0
55, 274), ]. Barata-Moura (Didaskalia,
III, 1, 1986-98), Maria Emília Sal e ma (Diário de Notícias, 6-9-1973),
P. Dias Palmeira (ltinerarium, 84, 223) e António Quadros, (Diário
Popular, 22--3-1973).
Entretanto, o país terá sido enriquecido com obras equiva-
lentes, mormente traduzidas de uma que outra língua viva.
O facto é vantajoso, porque a opção não se faz sem escolha, e a
escolha não se faz sem variedade.
Quanto a nós, resta a garantia de esta ser, com todas as pos-
síveis limitações, a nossa, e não de outro, «filosofia grega pré-
-socrática>>, que o público, de uma forma geral, distinguiu.
PREFACIO
E
m modo prefocial seja-nos permisso apresentar esta edição
antológica da filosofia grega pré-socrática, e justificar
alguns pontos de relevo sobre a matéria versada.
Motivar a edição por causas extrínsecas, eis o que se nos afi-
gura prescindível, porque, já na faculdade, já no seminário,
muitos assumem a tarefo de ensinar a filosofia pré-socrática, nos
currículos que pedem tal ensino. A inexistência, ou a limitada
existência, de bibliografia portuguesa sobre o tema (louvor se
presta, por devido, à professora D. Maria Helena da Rocha
Pereira, de Coimbra, e ao professor Gerd Bornheim, do Brasil, a
quem se devem peculiares manuais didácticos, de cuja valia nos
não cabe ajuizar!) ndo demonstram que a filosofia pré-socrática
seja ignorada; quando muito, podem servir de argumento proba-
tório à tese que afirma haver, desde longa data, neste país, um
profimdo desinteresse pela filosofia como pura filosofia, mesmo
quando se julga que, saber de filosofia, é saber da sua história.
Sem dúvida, a filosofia não é uma arte profona, e torna-se
igualmente duvidoso saber o que pode ensinar-se, se a filosofia, se
a arte de filosofor, se a mera história da filosofia. Por tal motivo,
enquanto o movimento editorial se desenvolve no fomento de
edições respeitantes às categorias do saber, a filosofia implica
problemas de vária ordem, dos quais, e não o menor, será o da
comunicação, que se resume genericamente ao seguinte: a) a filo-
sofia deve ser posta à disposição de todos, transferindo o ensino
12 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
das aulas, ou o <<private tuiton», para os livros, que se oferecem à
compra do grande público? b) no caso de ser posta ao dispor
comunitário, qual a forma apropriada de expressar e de comuni-
car o pemamento filosófico?
Assumindo que a filosofia não se destina a todos, mas assu-
mindo, também, que todos podemos ensaiar o acesso à filosofia,
forçosamente se devém para o segundo termo do problema qual
seja o de encontrar uma veiculação que se ajeite à eventualidade
dos leitores, e à seriedade do tema.
Quando se publica um livro, visa-se principalmente uma
expressão comunicante e comunicável. Tal regra nos orientou na
feitura da presente antologia, que, por isso, não surge, nem para
disputar a dificuldade da erudição estabelecida, nem para fran-
quear a facilidade da ignorância acossada. A liberdade, outra
designação para a temperança, continua sendo o meio termo
entre a avareza da erudição e a carência da ignorância.
Dos que desejam aprender, um buscam a escola, outros os
livros. Ou o aprendiz vai à escola, ou o livro vai ao aprendiz, de
onde o viso desta edição se tornar evidente e justificado. Em face
do que, gostaríamos de sublinhar algumas características da
obra, características essas, que desejaríamos ver olhadas como
causas de possíveis benefícios. Em termos de utilização, as antolo-
gias deste tipo não se distinguem umas das outras, a não ser pelos
benefícios que oferecem. Das características técnicas, diremos o
seguinte:
I. O leitor fará o favor de entender que projectámos uma
antologia filosófica, não uma antologia científica. As fontes de
que nos servimos, quer como fontes básicas, quer como fontes
consultivas, eram abundantes em doxografia, de que s6 recolhe-
mos parte.
Quanto à ordenação, achámos por bem seguir a prática
adoptada em manuais divulgativos publicados em outros países,
para fins didácticos, respeitando a numeração estabelecida por
Diels, 8. a edição (1956), com excepção do referente à Sofística e
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
13
às notas biográficas e doxográficas, onde adoptámos a nossa pró-
pria numeração.
Sem prejuízo da necessária consulta da obra de Diels, sem-
pre que as circunstâncias o peçam, teve-se em mente facilitar aos
estudantes uma refirência para exercícios de menor responsabili-
dade, tanto mais que se admite que, em trabalhos de maior res-
ponsabilidade, o estudante não deixará de consultar, ou Diels,
ou Mullach, consoante a orientação que lhe for proposta.
2. Por via de regra, cada autor encontra-se representado
com a biografia, uma doxografia e os fragmentos.
Por biografia, entenda-se um mínimo de informação sobre
a vida e as obras, retirada de fontes antigas, devidamente refi-
renciadas.
Por doxografia, entenda-se um mínimo de opiniões atri-
buídas aos autores, também refirenciadas a fontes antigas.
Por fragmentos, entenda-se a totalidade dos mesmos, atri-
buída à autoria dos pré-socráticos antologiados.
3. As fontes vão, por via de regra, citadas na íntegra a
menos que, no sentido de evitar frequentes repetições, se haja
adoptado uma ou outra sigla.
Esse critério foi adoptado para «D.L.» (Diógenes Laércio)
e para a sua obra Vidas, doutrinas e sentenças dos filósofos, e
para <<Aécio>>, cuja menção significa encontrar-se em refirência a
sua obra Opiniões.
No mais, e que tenhamos visto, efictuou-se sempre a inte-
gral citação das fontes, incluindo as numerações dos livros, capí-
tulos, partes, e nomes dos autores.
4. Para facilitar a arntmação de materiais, e para evitar
capítulos à parte, os apotegmas dos Sete Sábios vão abusiva-
mente incluídos no 1.
0
capítulo.
5. Os nomes citados nos textos aparecem, por vezes, comen-
tados em rodapé, mas a maior parte foi remetida para um índice
final, onde a consulta se torna funcional.
14 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
Qualquer explicação, apenas em referência a nomes signifi-
cativos, pode ser procurada na tábua onomástica final.
Pareceu-nos sensato evitar a sobrecarga de notas comentarís-
ticas ao texto. O leitor erudito prescinde de tais notas e, quanto
ao leitor médio, não se sentirá inibido de efectuar uma leitura
tanto quanto possível linear.
6. Quanto à tradução em geral: salvo no primeiro capítulo,
pareceu-nos mais consentânea com as realidades a versão em
prosa. Embora a filosofia não tenha de ser obrigatoriamente
comunicada em prosa, o formulário poético, com seus correspon-
dentes atavios, dificulta a linear leitura das ideias; por outro
lado, a relação entre os ritmos poéticos gregos e portugueses ofe-
rece dificuldades várias a quem falece a impiração rítmica.
Quanto aos onomásticos, procurámos respeitar as normas do
Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia
das Ciências.
7 Uma palavra de referência ao aparato introdutório,
através do qual, de forma nenhuma, se pretende evitar a leitura
fimdamental dos textos.
A Introdução visa apenas, por um lado, a respeitar o cos-
tume de apensar tal aparato às obras antológicas e, por outro,
tentar discernir algumas motivações, constantes e variantes, na
unidade pluralizada da filosofia grega pré-socrática.
O leitor menos afeito ao tema poderá, se quiser, e sem o pre-
conceito de acatamento das opiniões do introdutor, passar uma
vista de olhos ao que na introdução se escreve. Em todo o caso,
uma leitura viva e vivenciável será a que o leitor efectuar, des-
prevenido da norma alheia.
8. Enfim, tentámos restringir a enorme gama de bibliogra-
fia consultada a uma selecção bibliográfica, cujo conhecimento se
tornará mais acessível. As espécies constantes da nossa
Bibliografia remetem, por norma, para outra, e esta para outra,
ainda. O leitor que procure a leitura suficiente e fimcional,
jamais a leitura adiposa e infuncional, pois, como antes afirmá-
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA 15
mos, o livro vale pelo beneficio, em primeiro lugar, e só pelas
características, em segundo lugar.
9. Uma palavra de agradecimento para quantos, em avisos
e sugestões, nos ajudaram a completar este trabalho de quase três
anos, realizado a intermitências com outras tarefas. Uma obra
que se publica é um risco que se corre, e a firmeza que os livros
oferecem, mesmo quando muito valiosos, é problemática. Que o
saber firme, só no firmamento!
E porque, se for para bem, a graça lhes retribuirá e, se for
para mal, teriam de ser envolvidos no processo, o autor pede
licença para omitir os nomes de quantos o ajudaram. A glória
que lhes advém de suas obras, nunca seria aumentada com a
pobreza das palavras de quem lhes deve a gratidão.
INTRODUÇÃO
I. A LEITURA
A
s leituras são objectivas e subjectivas. Por exemplo: se
lermos o teorema de Pitágoras, havemos de o fazer
objectivamente, queiramos ou não queiramos, porque a sua
formulação é limitada, isto é, enuncia-se e determina-se num
conjunto de postulados apriorísticos, que impossibilita uma
outra interpretação que não seja a literal e figurativamente
contida no teorema. Tomemos, ainda, o conceito de triân-
gulo, e veremos como a leitura da palavra, que contém esse
conceito, só permite ser lida como triângulo, ou algo que se
determina na convergência de três ângulos. Agora, se lermos
o substantivo caos (xáoç), eis que essa leitura se prefigura
logo em toda a subjectividade, e tanto o podemos interpretar
na forma habitual de desordem, como noutros sentidos, em
que se intuirão conceitos de vazio, de não-ser, de i/imitação,
de origem, de envolvência esférica, etc., conceitos que apare-
cem de modo mais ou menos intermitente e permanente, na
generalidade da filosofia grega pré-socrática. A filosofia pré-
-socrática não pode ser lida pelas mesmas regras pelas quais
efectuamos a leitura de filosofias mais próximas da nossa
geração. Porque, enquanto a leitura da filosofia próxima
assenta nos subsídios exegéticos de uma tradição estreita-
mente unida a nós, a leitura das filosofias remotas oferece
inestimáveis dificuldades, pois, embora sendo exacto poder-
mos ler o que os remotos escreveram, já é menos exacto que
18 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
estejamos em posição de ler qual o que foi escrito, pois, no
bulício da história, se perderam, sem dúvida, as rigorosas ele-
mentaridades que nos permitem predeterminar, e determinar,
a verídica substância do que foi escrito. A profunda e íntima
cópula da filosofia e da filologia oferece-nos com liberalidade
o juízo de relacionarmos o que se encontra escrito com o que,
nisso que se encontra escrito, julgamos pensado. Mas, pese a
efectividade lógica e gnoseológica da cópula filosofia/filolo-
gia, essa relação pode exigir, ou não, um testemunho escritu-
rístico e, caso este exista, nós podemos saber, ou não, qual o
efectivo significado daquilo que, na escritura, se nos oferece,
justamente porque a semântica altera os conteúdos e corre-
mos, portanto, o risco de lermos os pré-socráticos pensando
estar a ler o que eles escreveram, sem termos a garantia de
saber o que eles efectivamente pensaram. Ou seja, a filosofia
pré-socrática é para cada um ler segundo as suas interiores
virtualidades, ou para todos assentarmos, em forma de
dogma, que só podemos ler o que neles foi dado como
escrito?
Consabidas as enormes gamas de colorações conceptuais
que o filósofo põe em cada conceito principiai da estrutura
filosófica por ele criada, como podemos nós, à distância,
quase utópica e quase ucrónica, saber se o conceito de apeiron
devido a Anaximandro, consiste, com rigorosa justeza, nisso
que os leitores julgamos?
Trata-se de um conceito de «iiimitaçáo», sem dúvida,
mas a que se refere tal ilimitação, ou, como a vamos en-
caixar, com lógica e certeza, no esquema da filosofia de
Anaximandro?
De resto, as anteriores dúvidas colocam-nos em face de
algumas dificuldades gnoseológicas, quais as preditas por
Aristóteles (ll relativamente ao conhecimento nominal e con-
<ll Segundos anallticos, I, 1 , 1 O.
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA 19
ceitual. A leitura dos textos pré-socráticos, e dos textos anti-
gos em geral, efectua-se muito mais a partir do conhecimento
nominal do que do conceptual, ou seja, lemos as palavras sem
absoluta garantia de que tais palavras signifiquem com exacto
rigor - qual da imagem de um objecto no espelho- o con-
ceito que julgamos. Vertendo de novo à facilidade do exem-
plo, tomemos o conceito de apeiron (andpov) , especulado, ou
pelo menos intuído, por Anaximandro. Quem de verdade
sabia o conteúdo do conceito era Anaximandro e, depois
dele, os discípulos que dependiam do seu magistério,
Anaxímenes incluído. Todavia, a tendência para a dialéctica
conceituai, em grupos animados pelo ardor da especulação
filosófica, é naturalmente a de sujeitar os conceitos principiais
à análise especulativa e à síntese teórica, de onde se tornar
legítimo conjecturar se o conceito de apeiron é, para o seu
intuidor, algo de bastante diferente da forma como se apre-
senta para os seus discípulos, ou estudiosos. Demais, e como
veremos adiante, cada escola assume um esforço de especula-
ção sobre as origens, e, conquanto a estrutura nominal de
cada escola se diferencie com certa largueza, importa assinalar
que a especulação sobre as origens se apresenta como orienta-
ção capital em todas as escolas, sem excepção. Acrescentemos
o facto de existir uma íntima relação, uma aguda osmose,
entre o saber das várias escolas, de onde se poder conjecturar
que os principais conceitos de cada escola se encontram
muito mais próximos dos conceitos de outra do que na apa-
rência se julgará. De onde se indagaria qual a relação concep-
tual existente entre os conceitos de arké (áPXfJ) e de apeiron
(lmdpov), isto é, se a formulação de um não dependerá subs-
tancialmente da formulação do outro, e se, para os seus cria-
dores, eles não constituiriam nominações diferenciadas de
uma mesma ideia, ou uma diversidade de nomes para uma
universidade de conceito.
20 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
Parece difícil, sem dúvida, comunicar ao leitor esta reali-
dade: o que temos dos pré-socráticos é um conjunto de textos por
via de regra em segunda mão. Para além da distância espacial e
temporal, que nos inibe de perguntar a um pré-socrático o
que pretende dizer com esta ou aquela palavra, existe ainda a
deficiência, provinda de os textos disponíveis haverem che-
gado, até nós, através de uma infinidade de mãos, as quais
nem sempre representaram um pensamento de fidelidade ao
magistério dos pré-socráticos e que, na maior parte das vezes,
os pretendem e desejam ultrapassar, sobretudo quando as
doutrinas emergentes na história posterior afirmam teses de
algum modo susceptíveis de conflito com as teses pré-socráti-
cas. O conhecimento, mesmo sucinto, das fontes para a filo-
sofia grega pré-socrática, bastará para nos pôr de sobreaviso e
para tomarmos o cuidado de modestamente assentarmos em
que talvez exista uma filosofia pré-socrática real- a que exis-
tiu ali, e então- e uma filosofia pré-socrática ideal, esta que
ousamos perceber, sem absoluta certeza de a entendermos.
Há textos para percebermos; por saber fica se os podemos de
facto entender como os entenderiam, já os autores, já os dis-
cípulos.
Além do mais, e este elemento não é mero pormenor,
importa considerar o conhecimento fragmentarístico da filo-
sofia grega pré-socrática. A ordenação dos fragmentos é
muito posterior aos autores, e o próprio conceito de «pré-
-socrático» constitui algo que não foi afirmado pelos que esta-
vam antes de Sócrates, mas pelos que vieram depois, e muito
mais tarde. De certo modo, parece lícito admitir que a leitura
possível da matéria filosófica em causa é apenas a leitura que
os grandes investigadores, historiadores e reconstituidores,
sobretudo germânicos, fizeram dela. A convicção formal com
que lemos essa matéria depende, em última análise, não da
certeza de que dispomos quanto à autenticidade da matéria,
mas do apreço devido a quem, através de lutas e de lúcida
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA 21
visionação, procurou dar equilíbrio lógico e consequente ao
que, até aí, se afigurava apenas potencial e antecedente.
Melhor: a leitura da filosofia grega pré-socrática, ou se faz de
um ponto de vista historicista (e nada nos garante que a his-
tória dela seja qual a que julgamos ser. .. ), ou se faz de um
ponto de vista filosófico, isto é, a partir do modo como
somos e como pensamos, a partir daquilo que se nos oferece
pensar.
A motivação intrínseca e extrínseca que nos acompanha
na leitura, hoje, é concerteza algo diversa da motivação com
que um Eusébio efectuava a sua própria leitura; e, mais, a lei-
tura que neste momento se efectua, ou que qualquer de nós
pode efectuar, apresenta-se concerteza já diversificada da
modística que um Diels teria adoptado para intrínseco
conhecimento da história e da filosofia dos pré-socráticos.
Um exemplo característico surge no caso da filosofia
contida na cosmogonia e na cosmologia órficas. Até que
ponto a autenticidade órfica chegou até nós? Até que ponto o
julgado segundo as motivações poéticas e filosóficas do
orfismo não constitui, em última análise, uma excrescência
tardia, surgente na mistura histórica do orfismo com outras
mitologias, até, com a nascente e forçante teologia da patrís-
tica e da gnose?
Outro caso se consideraria, quanto ao pitagorismo: que é
pitagórico, de Pitágoras, que é pitagórico, de seus presumíveis
discípulos, que é pitagórico, formulado e acrescentando em
gerações mais tardias, se, no regime de seitas e de correntes
grupais de opinião, se encontram motivações pitagóricas a
cada passo da história, no conserto cultural mediterrânico?
Cremos existir um abundante grupo de dificuldades que
importa reter e que, por isso, nem sempre a percepção e o
entendimento que houvermos da matéria discursada se ade-
quará inteiramente à percepção e ao entendimento de quem
primeiro a discursou.
22 FILOSOFiA PRÉ-SOCRÁTICA
O que acima se encontra explanado leva para uma con-
clusão, muito menos hipotética do que aparenta, qual seja a
de ficarmos a saber o seguinte: que a filosofia grega pré-socrá-
tica que sabemos é, afinal de contas, a filosofia que o pós-socra-
tismo julga constituir o pré-socratismo.
O que pede uma leitura tllosófica, de preferência a uma
leitura histórica, ou uma leitura mais especulativamente do
que retentivamente efectuada. As fontes são o que nos per-
mite saciar o que do entendimento queremos, mais do que da
história abarcamos.
II. AS FONTES DOCUMENTAIS
Textos completos de filósofos gregos só os possuímos
depois de Platão e de Xenofonte. Antes deles, nem mesmo
Sócrates, se na verdade chegou a escrever, logrou atingir a
posteridade com um testemunho directo e insuspeito, isto é,
sem a forma que ao seu luminoso pensamento teria sido mol-
dada, por discípulos e comentadores. Em todo o caso, e na
medida em que houvermos presente a excepcional dimensão
da obra platónica, certamente poderemos conceder que, mais
ou menos objectivamente, os tópicos principais da filosofia
socrática nos foram transmitidos com suficiência e clareza
satisfatórias. Se não ousarmos distinguir entre um Sócrates
real (o que ele na verdade foi) e um Sócrates histórico (o que
nos foi dado entender segundo Platão), teremos assente que,
embora indirectamente, é a partir de Sócrates que dispomos
de um conhecimento, tanto quanto historicamente possível,
global, da filosofia clássica dos gregos.
O mesmo se não adiantará quanto a tudo o que se pas-
sou antes de Sócrates e, por isso, o primeiro argumento, de
carácter historicista, que delimita um período pré-socrático,
consiste na discutibilidade do noticiário referente a esse
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
23
período. Claro, outros argumentos, e de maior peso, justifi-
cam a designação de «filosofia pré-socrática>> e, entre eles,
teríamos de salientar o argumento crítico, segundo o qual
esse período teria sido dominado pela temática e pela proble-
mática do conhecimento da natureza e do cosmos, sem o
conhecimento, aristotélico, da Causa Primeira. Relativamente
ao Ocidente o período pré-socrático constitui como que o
abismo, a fundura, onde lançam raízes todas as posteriores
incursões filosóficas do espírito europeu. Parafraseando
Hesíodo, bem poderíamos dizer que, antes da Filosofia, tal
como a concebemos em nossos dias, era uma apetência ino-
minável que para ela tendia, uma espécie de caos a que suce-
deu a terra, ou uma fatigante busca dos princípios, que ori-
gina toda a sistemática moderna.
Das escrituras dos pré-socráticos, que as houve, chega-
ram-nos ecos, mas não só ecos, vozes também, e reais. Uma
sólida reconstrução da cultura grega tem convocado muito
das grandes disponibilidades da história da ciência e da filoso-
fia, por ser exacto que a atenção prestada ao pensamento pré-
-socrático pelos primeiros padres da Igreja, atenção que per-
manece, embora delida, ao longo do tempo, ressurge em
apropriada dimensão nos países renancentistas, de onde, até
agora, a reconstrução do pré-socratismo ter assumido carácter
de permanência.
Tal reconstrução exige fontes documentais, que existem,
sem dúvida, e a sua imensa variedade (já estudada por notá-
veis investigadores, entre os quais seria injustiça não salientar
quantos alemães, desde o século XIX, se lhe têm entregue),
constituiria matéria bastante para cometimentos bibliográfi-
cos que, neste ensejo, melhor será deixar ao cuidado dos
bibliógrafos (1).
lll Francisco Luis Leal, História dos Filósofos Antigos e Modernos, II
(Lisboa, 1792), traduz e comenta alguns excertos pitagóricos e pré-
-socráticos.
24 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
Para os reconstrutores do pré-socratismo, todas as fontes
eram imediatas, ou seja, todos os textos de que se serviam se
encontravam mais próximos, no tempo e no espaço, dos pen-
sadores gregos pré-socráticos. Indubitavelmente que, uma vez
as tarefas principais da reconstrução efectuadas, passámos a
dispor de mais cómodos veículos de acesso à filosofia pré-
-socrática, e, por via de regra, o estudioso médio não carece
de um contacto directo com as fontes mediaras, pois as fontes
imediatas proporcionam já, na actualidade, uma ampla visão
das determinações filosóficas dos pré-socráticos.
No sentido de proporcionar uma visão indutiva desta
reconstrução, importa enumerar, em primeiro lugar, as fontes
documentais mediatas, ou seja, essas de que ac,tualmente dis-
pomos para um acesso rápido à filosofia pré-socrática. Tais
fontes documentais são geralmente constituídas, ou por
recompilações maciças, ou por recompilações antológicas, ou
por monografias, ou por outras variedades de estudos, nas
quais se permite um contacto, ou com um, ou com a maioria
(ou com todos!) dos pré-socráticos. Julgamos que, no
entanto, cerca de meia dúzia de fontes mediaras nos habilitará
a esboçar uma imagem generalizada do esforço levado a cabo
para a reconstituição da filosofia pré-socrática. Entre as várias
recompilações, apraz-nos citar as seguintes, por via de regra
tidas por exemplares:
Burnet, J. - Early Greek philosophy, 4.a edição. Londres,
1930.
Diehl, Ernst- Anthologia Lyrica graeca. Leipzig, 1942.
Diels, Hermann- Doxographi graeci. Berlim, 1878.
Diels, H. - Poetarum philosophorum fragmenta. Berlim,
1902.
Diels, H. - Die Fragmenta der vorsokratiker, 8.a edição,
Berlim, 1956.
Kern, I.- Orphicorum fragmenta, Berlim, 1922.
Mullach, A. - Fragmenta philmophorum graecorum, 3 volu-
mes, Paris, 1860-1881.
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
25
Em segundo lugar, faremos uma breve e sumária enume-
ração das fontes imediatas, nas quais os modernos recompila-
dores, sobretudo Mullach e Diels, se basearam, para realiza-
ção das suas monumentais e modernas obras.
As fontes documentais imediatas são classificadas em
função dos critérios dos historiadores e exegetas. Com res-
salva por outras opiniões, pareceu-nos que as poderíamos
agrupar em quatro espécies, a saber:
1. A tradição dos debates filosóficos, em que, filosofando,
alguns pensadores efectuaram resumos dos seus predecessores,
resumos esses formulados, ou no sentido polémico, ou no
sentido apologético. Aristóteles, em muita da sua obra, e
designadamente em Física, De Coelo e Metafísica, oferece fre-
quentes resumos das principais teses de alguns pré-socráticos,
com o intuito de as rebater, ou de as reformular. O mesmo
ocorre em considerável parte dos diálogos de Platão, de quem
se citaria, a título de exemplo, os diálogos Parménides (impor-
tante para o conhecimento da doutrina de Parménides e de
Zenão), O sofista (importante quanto a Empédocles e
Heraclito), o Pedro, etc, bem como na obra de Plotino.
Mesmo admitindo que tais resumos, por vezes sucintos,
pequem por certa parcialidade do relator, na medida em que,
já Platão, já Aristóteles, assumiam posições controversas rela-
tivamente às teses resumidas, tais resumos facultam uma
importante aproximação ao pensamento pré-socrático, na
medida em que são, aliás, ai primeiras e mais imediatas fontes
disponíveis.
2. A segunda espécie é constituída por exposições. Obras
tardias, algumas delas derivadas do influxo que o liceu aristo-
télico exerceu nas artes de investigação e recompilação, já na
ciência, já na história, representam uma fonte abundante de
materiais doxográficos. A gama de exposições é vasta e, só a
título de exemplo, consideraremos as seguintes:
26 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
Opiniões (Vetusta placita), de Aécio; Vidas, doutrinas e
sentenças dos filósofos mais ilustres (IlEp( ~ l W V ÕOy!J.Ú'tWV XUl
ànmp8EÚ!J.Ú1:WV núvw cplÀ.ooocpCa ÉuÔOXl!J.Y]Oávwu), de
Diógenes Laércio; Miscelâneas (IIEpl 1:wu ápoxó1:wv
cplÀ.ooócpmç cpumxwv õoy!J.ácwv), de Pseudo- Plutarco;
Éclogas físicas ('Exf....oym), de Estobeu; e, enfim, a Doutrina
dos físicos (<l>umxwv õo1;m) de Teofrasto, que parece consti-
tuir a fonte primeira de todas as demais doxografias citadas,
as quais vieram a ser posteriormente utilizadas, já pelos filóso-
fos, já pelos padres da Igreja, já pelos que, até ao apareci-
mento da ciência moderna, se guiaram pelo saber pré-socrá-
tico em matéria científica.
3. A terceira espécie consiste em imensa variedade de
comentarística e de doxografia, atribuída a comentadores e a
filósofos subsequentes. Tornar-se-ia moroso enumerar quan-
tos, desde Platão a Cícero, de Aristóteles a Marco Aurélio, e
aos Estóicos em geral, comentaram e glosaram as fontes pré-
-socráticas. Mas, entre tantos, seria falta maior não citar o
Contra os matemáticos (ou professores), (Adversus
mathematicos), de Sexto Empírico, e bem assim, o
Comentário, de Simplício.
4. Enfim, referência à patrística que, no âmbito da
aurora do cristianismo, observou, com rigor, umas vezes, com
paixão ardente, outras, a sabedoria pré-socrática. O Contra
]ulianum, de Cirilo, a Stromata, espécie de miscelânia, devida
a Clemente de Alexandria, a Preparação evangélica
(Praeparatio evangelica), de Eusébio, a Refutação de todas as
heresias ('Ef....Eyxoç xa1:á napwv aL"pf:mwv), de Hipólito, obra
anteriormente dada à autoria de Orígenes, sob o título de
Filosofoumena (<l>lÀ.oooyoiJ!J,EVa), bem como as obras de
Justino, de Orígenes, de Hermias, e outros, foram documen-
tos gráficos muito importantes na tarefa de reconstrução do
pensamento pré-socrático, e permitiram que nós soubéssemos
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
27
pelo menos o que, no seu tempo, era havido como o con-
junto mais significativo das teses pré-socráticas.
Bem se poderia afirmar que as fontes mencionadas,
como as muitas omitidas, são os olhos pelos quais a história lê
o pré-socratismo.
III. PERSPECTIVA HISTÓRICO-FILOSÓFICA
No princípio era Homero, ou, como dizia Xenófanes,
«desde o princípio todos aprendemos em Homero» - o que
seria convertível à regra de que, no princípio, foi a poesia!
Mas a poesia e a filosofia andam tão estreitamente vincu-
ladas uma à outra, que se torna difícil efectuar uma diferen-
ciação, ao menos antes de Anaximandro, que foi o primeiro a
escrever em prosa, pois o logos (f..àyoç) tanto designa o dis-
curso poético com a razão intrínseca ao discurso poético.
A noção criacionista, interposta na relação do logos para a
poesia (:n:o(YJOLÇ), surge como a primeira congenital capaci-
dade de espanto do homem, face a esse sentir-se a si mesmo,
e, mais, a esse sentir-se na envolvência de uma natureza cujos
fenómenos se tornam bem evidentes, é certo, mas que
esconde a profundeza da razão de ser, parecendo que ela
mesma, natureza, aparece aos homens, não segundo a intrín-
seca realidade, mas como textura de símbolos, que o logos tem
de interpretar. Mais tarde, logos sofre as alterações resultantes
da evolução cultural, e, se por um lado continua designando
o pensamento do ser, por outro passa a designar o discurso
prosódico, por oposição a epos (É:n:oç) e a meios (f.tÉÀ.Óç), que
se afirmam como termos designativos das espécies puramente
poéticas. Em todo o caso, o que importa assinalar é a capaci-
dade de espanto em face da mundividência, sem cujo espanto
a poesia e a filosofia certamente não seriam possíveis, nem
como exercício filológico, nem como opção filosófica.
28 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
Na confluência das culturas originárias do Oriente, da
Caldeia e da Suméria, do Egipto e de Creta, a pura vivência
acrescenta-se também aos dados formulados na textura da
sapiência, ou seja, a vivência natural enriquece-se de contri-
butos culturais. As artes e as técnicas, as ciências e as letras, as
religiões e as políticas, adicionam-se de forma sincrética ao
simples facto de estar vivo. Ser e pensar funcionam concomi-
tantemente: o ser a si mesmo se afirma como o que pensa e
como o que, pensando-se, se atribui uma realidade funda
que, sem pensar, não ousaria possuir. Então, o homem surge
como a expressão natural em que as categorias do ser e do
pensar se imbrincam de tal maneira, que, se é homem, pensa,
e que, se não pensa, não é homem. .
1 -A COSMOGONIA REMOTA
Ora, a dignidade com que os gregos se assumem homens
é a nota de maior relevância nessa obscura idade em que,
absortos nos vales, se perguntariam o que eram eles, onde
estavam, qual a origem, ou princípio, de tudo isso, e a quanto
montava o mundo para além dos vales. Haviam de subir às
montanhas, perscrutar os horizontes, meditar, indagar, revul-
sionar a cabeça e o coração, ou, enfim, tentar obter uma res-
posta satisfatória aos quesitos de Édipo, um mito que, desde
muito cedo, nos põe em contacto com a energia que deter-
mina o milagre da filosofia grega: a capacidade de interrogar,
a persistência em face do enigma, o culto do mistério, o átrio
de todo o possível descobrimento.
Interrogar o princípio e a origem é o que de forma mais
instante se nos dá a ler nos gregos. Que sabiam eles?
Teogonia, cosmogonia, ou antropogonia? Onde o princípio,
onde a origem?
Dilucidar o processo de como os gregos chegam mais
depressa à teogonia do que à cosmogonia seria pretensão
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
29
estulta neste lugar, mas talvez importe assinalar a dúvida: se
eles não chegaram à teogonia, porque de muito cedo antro-
pomorfizaram as ideias e as imagens do conhecimento, isto é,
se de muito cedo intuíram o mundo como algo à semelhança
do homem, de onde a personalização das divindades e das
infernidades, a nominação quase antroponímica que a todo o
momento assalta as suas vivências e determinações gnoseoló-
gicas? Em certa medida, o homem é, com a terra, os astros, as
águas, personagem da mesma e única cena, onde os compar-
sas se mascaram de formas diferentes, para efectivação do
jogo telúrico. E do celígeno também! Então, a teogonia é, em
certa medida, uma antropoteogonia!
Em Homero se encontram as remotas e poéticas noções
das disponibilidades gnoseológicas dos gregos. Torna-se arris-
cado optar pelas soluções radicais de saber se a cosmogonia
homérica deve ser lida literalmente, ou se deve ser lida mito-
graficamente para, sob os mitos, se descortinar o que ele pre-
tendia dizer. Mas o estado da ciência grega parece não ofere-
cer, ao tempo da sabedoria homérica, uma distinção entre o
saber mítico e o saber sófico, pois, na verdade, se imbricam
um no outro, e o mito (!A'Ü8oç), ou conto, que se conta, é o
veículo pelo qual se comunica o mesmo saber sincrético, em
que a razão se persuade a significar, sob os nomes e sob os
contos, a íntima realidade de quanto é, e de quanto existe.
Teogonia e cosmogonia são as duas contemplações da
cosmogonia remota, e a vidência que de Homero se des-
prende é predominantemente telúrica, tal como nos precur-
sores da primitiva cosmogonia filosófica, ou cosmologia.
A riqueza com que Homero descreve o escudo de Aquiles
(!fiada, XVIII, 478-608) permite-nos observar o estado da
cosmogonia à data de Homero: «Cinco eram as camadas que
dispôs, e em cada uma delas I compõe lavores numerosos,
com seus sábios, pensamentos. I Forjou lá a terra, o céu e o
mar / o sol infatigável e a lua na plenitude I e ainda quantos
30 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
astros coroam o céu»
01
• A importância da motivação poética
de Homero reside em que ela se compõe de motivos míticos,
históricos, e principalmente naturais, ou retirados da natu-
reza. A terra surge como a origem, <<a sólida mãe de todas as
coisas, a mais antiga». Em toda a vida existe a pujança do
oceano, o suporte da terra. Oceano, a terra, o firmamento, a
noite e o dia- o tempo em suas fases cíclicas - são, enfim,
o claramente visto que a cosmogonia remota sabe, porque vê.
A cosmogonia homérica, tanto quanto a de Hesíodo, encon-
tra-se incapacitada para formular explicações racionais dos
fenómenos - de onde a cosmogonia remota tem mais
importância, pelo que o seu carácter descritivo nos permite
conjecturar: o grego espanta-se e admira-sé. Descreve isso
perante o que se espanta e se admira. Omite o discurso lógico
explícito mas, na própria forma como descreve o que vê
insere, ou implícita, uma lógica explicitação das causas e dos
processos.
Se a cosmogonia é uma tentativa para sistematizar toda a
mítica relativa à natureza visível, a teogonia é outra tentativa,
essa para sistematizar todas as histórias dos deuses <
21
- ou
toda a mítica relativa, não só à natureza visível, mas também
à invisível, de onde a conspícua importância que Hesíodo,
com o respeito devido à estética de Homero, assume, para
quem deseje aprofundar o mistério, ou o enigma, do saber
grego.
Algo de diverso acontece em Hesíodo, relativamente a
Homero. Verifica-se um aprofundamento das perspectivas
originais, a teogonia obriga a saltar um pouco para fora da
cosmogonia, de onde se predizer que a teogonia já constitui
uma transição para a filosofia, ao menos na forma como viria
a ser encarada, no subsequente curso da história.
Ol Tradução extraída de H é/ade (Coimbra, 1963), 34.
<
21
W. Jaeger, The theology of the ear!y Greek philosophers.
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
31
Da dimensionalidade perfeitamente telúrica lida em
Homero, Hesíodo, catalogando a tradição homérica, as tradi-
ções misteriosas dos santuários, as míticas hieráticas (tEpol,
f...àym); assumindo o saber de que a cosmogonia era tão velha
quanto a humanidade; Hesíodo alarga a genealogia cosmogó-
nica para a dimensão teogónica, põe, antes da Terra, o Caos
e, a seguir à Terra, a dynamis e a energeia de Eros, que é como
que o laço que, dos fundamentos sólidos de quanto existe,
fomenta a geração e a interminável sucessão de vidas, ou a
força que, no dizer de um poeta mais tardio, Íbico, atira para
«as redes intérminas de Cípria». O princípio da origem, ou o
princípio da geração! As imensas e intermináveis motivações
cosmogónicas e teogónicas de Hesíodo, por valiosas, não apa-
gam a importância capital da introdução dos dois conceitos
que julgamos mais relevantes na sua obra: a noção de Caos
(xáoç) e a noção de Eros, (Épwç) as quais irão, num futuro
próximo, constituir o ternário de superior realce em toda a
subsequente filosofia. Porque, se o Caos, aqui dito como o
abismo, já em si traz as potenciais noções de princípio -
matéria original, espaço ilimitado, Deus! - então, teremos
de verificar o significado da obra de Hesíodo para os poste-
riores filósofos, e compreenderemos qual o motivo porque,
lançado para outras perspectivas, e para outras dimensões de
espanto filosófico Heraclito afronta a influência
de Hesíodo na cultura popular, achando-a altamente perni-
ciosa. No entanto, o principal conceito de Hesíodo não podia
deixar de ter algo de muito íntimo a ver com as perspectivas
novas, determinadas por Heraclito.
Entretanto, e apesar da notável redimensionação teogó-
nica de Hesíodo, tudo leva a crer (embora se não possa garan-
tir que a sua 8wyovLa é única, podendo ter havido outras)
que a cosmogonia persistiu valorativamente sobre a teogonia,
sendo óbvio o excesso de naturalismo no século VII, e, até,
no século VI. Teria sido em vista deste excessivo naturalismo,
32 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
com tudo o que ele acarretaria de imanentismo e de potente
materialismo, que, no século VI, se assiste a uma renovação
da vida religiosa, destinada a abafar, na medida do possível, a
vaga de naturalismo que, desde Homero, predominava na
cultura grega. Certamente que havia práticas religiosas, mas
encontravam-se algo destituídas de motivação intrínseca.
A evolução cultural havia-se rotinado num saber incons-
ciente, e o culto valia mais pelo aparato externo do que pelo
teor significativo, uma vez o excesso de cosmogonia, em certa
medida, atirar, para segunda instância, as exigências teogóni-
cas. A natureza visível é mais patente do que a natureza inví-
sivel, e entrar no templo do invísivel é correr o risco de
defrontar o primeiro segredo do cosmos, ou o risco de pôr
em causa a sistematização cosmogónica OJ.
Mas foi pelos cultos cosmogónicos, qual o de Dionísio
que, no século VI, cresceu de súbito, se derivou para uma
mais fecunda teogonia, expressa na erupção de imensos cultos
.locais e na veneração de mistérios antigos, caídos em desuso,
entre os quais tiveram particular relevo os cultos purificató-
rios, os ritos de purificação, os teletai (TEÀETat) de cujo sin-
cronismo, e de cujo sincretismo, vem a surgir o orfismo que,
apesar de todas as suas radicações cosmogónicas, se atira fran-
camente para uma vivencialidade religiosa que implica com
todos os costumes de seus prosélitos, a pontos de se constituir
uma ~ L O Ç , um modo de vida.
O Caos de Hesíodo talvez apareça, no orfismo, desig-
nado por Zeus, o «mestre do raio I o princípio e o fim I a
cabeça, o meio, o pai do Universo I o ser masculino, a virgem
imortal»: Zeus, a íntima união dos conceitos, que perfuram
toda a problemática filosófica, pré e pós-socrática, o princípio
e a ongem.
c•J W. Jaeger, op. cit.
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
33
O orfismo deu lugar a uma vasta literatura, que podería-
mos chamar de propaganda órfica, e, embora as origens do
culto sejam atribuídas a Orfeu, tal literatura é motivada e
garantida cem outros nomes míticos, quais os de Museu e
Sileno, e neles se faz a apologia dos deuses, se propõe uma
ética, se explanam regulamentos ascéticos, se abomina o con-
su!no de carne (àljruxoç j)opà) e se procuram explicar as ori-
gens da natureza e do mundo, tudo isso constituindo como
que uma espécie de teologia sem dogmática. Mas, para os
gregos do tempo, a teologia tem pouca expressão. O que par-
ticularmente lhes interessa, os motiva e os entusiasma é a teo-
gonia. A teologia requer a incineração dos mitos, e a teogonia
grega vivia, ainda, e continuaria vivendo, da enorme gama de
conceptualidades míticas.
O orfismo tende a englobar toda a literatura mística e
religiosa, e sem dúvida que imensas conatações órficas são
concentráveis em épocas posteriores, e em filósofos, como
Heraclito. Mas a difusão dos testemunhos órficos é tardia, os
hinos chamados órficos ainda são mais tardios, e torna-se
problemático saber em que medida os hinos, compendiados
por Eusébio, por Macróbio e outros, são assistidos por uma
garantia de autenticidade e de fidelidade, em que medida eles
não nos chegam carregados de certas intuições cristãs, ou de
certas e variadas motivações de outras correntes filosóficas e
gnósicas. O que de algum modo se deduz, de todo este longo
processo, é o facto de a mitologia suportar, já a teogonia, já a
cosmologia. Numa e noutra existem indícios de iluminações
superiores, que parecem transcender do mito para a verdade,
ou do enigma para a solução, mas a filosofia requer toda uma
outra forma de encarar, e de pensar, os dados dos problemas.
Até se aduz que a mitologia contempla o que a filosofia
pensa, ou que a filosofia choca com a mitologia, enquanto
pretende desvendar o enigma e o mistério e, assim, teremos
compreendido os motivos pelos quais Homero e Hesíodo
34 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
sofrem, por vezes, a cisma e a birra dos filósofos que vieram
depois deles.
As alegorias filosóficas de Hesíodo, as imaginações poéti-
cas de Homero, as ético-estéticas explanações de toda a mito-
logia, a propaganda política de Teseu para a unificação da
Ática, as lendas morais, as sagas helénicas, as facções históri-
cas, todo esse vasto sincretismo literário não sabe, ainda, onde
termina a mitologia e começa a filosofia, mas, se a mitologia
tinha proposto os objectos e os temas, bom seria que a filoso-
fia tentasse, de futuro, discernir as causas e as origens de uns e
de outros.
2- A ESCOLAJÚNICA
Julgamos desnecessário estabelecer uma rubrica separada
para tratamento dos <<Sete Sábios», porquanto, além de terem
sido incluídos com o tiro de não deixar de fora o que pode
chamar-se uma catalogação da moral, da ética e da política
gregas, a designação que lhes cabe afigura-se puramente sim-
bólica, pois nem todas as tábuas comportam os mesmos
nomes. Demais, as sentenças constituem como que uma
espécie de reflexão ética, a qual vamos encontrar em muitos
dos pensadores pré-socráticos, não havendo também garantia
de autenticidade dos apotegmas, uma vez previsto que a sua
redacção é devida, não aos ditos sábios, _mas a quem, deles
tendo recebido a tradição, os pôs em testemunho gráfico
0
l.
Além disso, o conteúdo dos apotegmas constitui já uma
derivação da filosofia para a moral, para a política e para a
ética, consequências que devem ser da ciência das primeiras
causas e dos últimos princípios, os quais são o leit-motiv de
tudo a quanto a filosofia pré-socrática nos obriga.
OJ P. Tannery, Pour l'histoire de la science hellene.
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
35
O agrupamento dos pré-socráticos por escolas tem mais
uma função didáctica do que uma fundação realista, por-
quanto a primeira ilação que se tira da leitura dos textos é a
de uma considerável similitude de temários e de problemá-
rios, similitude essa de onde em onde perturbada pela efusão
de um conceito novo, de uma chave que parece trazer a solu-
ção da abertura das portas dos segredos, que aos filósofos se
punham. De facto, e mesmo em referência à função didáctica
dos agrupamentos, existe uma certa discrepância entre os
vários especialistas porque, enquanto uns abrem resoluta-
mente um capítulo para os jónicos, nele integrando todos,
incluindo os mais tardios, qual um Anaxágoras, outros espe-
cificam a filosofia em ritmo de cronologia, e abrem dois capí-
tulos, um para considerar os primitivos, e outra para conside-
rar os posteriores lo.
Ora, tanto quanto julgamos acertar, o agrupamento deve
ser feito em função das constantes ideiéticas, relegando para
última instância as constantes cronológicas, dessa forma se
definindo, o conjunto de razões a que, por via de regra, cha-
mamos «escola>>.
A Escola Jónica, ou dos filósofos jónicos, desenvolveu-se
em Mileto, na Jónia, e o temário que a preenche é, à seme-
lhança das outras escolas, a investigação dos primeiros princí-
pios, através de uma hermenêutica fisiológica, expressa num
conjunto de tratados que, em suas variantes, remete sempre
para o estudo acerca da natureza, ou para o que eles chama-
riam ntpl q>umuç.
Os pensadores jónicos afirmam um pluralismo e um
hilozoísmo, isto é, uma teoria pela qual admitem a multipli-
cidade ou a pluralidade dos elementos e dos seres, e uma teo-
1
" Esta diferença é assinalável em vários compêndios de história da filoso-
fia, de que citamos, por um lado, Klimke e Abbagano e, por outro,
Dilthey.
36
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
ria pela qual denotam não categorizar entre o espírito e a
matéria.
O seu mestre teria sido Tales, a quem Aristóteles cogno-
minou de «Príncipe>>, ou de primeiro filósofo, e, segundo
informação de Laércio, era vulgarmente conhecido pelo
«Sábio>>, tendo sido ele quem iniciou o ensino da fisiologia,
ou da física, entre os gregos.
A sequência lógica e cronológica do magistério jónico
mostra uma íntima relação de mestre a discípulo, e a sequên-
cia poderia ser salientada na indicação de que Anaximandro
foi discípulo de Tales, Anaxímenes foi discípulo de
Anaximandro, Anaxágoras, um jónico mais tardio, foi discí-
pulo de Anaxímenes, Arquelau foi discípulo de Anaxágoras e,
enfim, Heraclito, ao que parece isolado, denota profundas
correlações espirituais com toda a filosofia jónica, embora a
tenha ultrapassado na formulação das teses essenciais.
Dos pensadores, e da corrente em que se integram, dir-
-se-á que se enquadram em três momentos altos: o momento
inicial do magistério de Tales, o momento do magistério de
Anaximandro e o momento de surgência de Heraclito. O que
fica entre os três momentos, com todo o relevo que merece,
surge talvez menos original do que o conteúdo das três etapas
antes mencionadas.
No entanto, o desenvolvimento teórico do magistério
jónico apresenta-se com uma rigorosa inclinação para o
entendimento dos primeiros princípios, e a eles voltam rodos
os que, no seguimento de Tales, se aparentam ao seu magisté-
rio. Tales propõe um único princípio imóvel (apxlÍ) que é a
inteligência universal, e uma única origem, ou um único ele-
mento original, que disse consistir na água, (üôwp), o líquido
elementar, que se deixa penetrar pela energia divina.
A água seria a matéria-prima que, fecundada pelo princí-
pio, constituiria a origem de todas as coisas, animadas, ao fim
e ao cabo, por uma espécie de substância cinética, a alma, que
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
37
reduziria a virtualidade da potência criadora e da actualidade
geradora. No entanto, em Tales, a distinção radical e separa-
tizante entre o princípio imóvel e a origem, ou elemento ori-
ginal, não aparece afectada, e torna-se quiçá propício deter-
minar se ele conformaria, no mesmo princípio imóvel, ou na
arké, a duálica unidade do que determina e do que surge
como determinado, ou seja, do princípio e da origem, da
energia criadora e do elemento primário, a água.
Discípulo de Tales, Anaximandro terá ensejo de apro-
fundar as teses do mestre, e tudo leva a crer que o conceito de
apeiron (iim:tpov) constitui uma nova dimensionação do itá-
lico conceito de apx'l'í, pois o apeiron não surge como um ele-
mento, mas como uma natureza infinita, indimensional, dis-
tinta da gradação dos elementos, sendo como que uma razão
originante, ou um princípio que efectivamente se distingue
do processo geracional, ao qual será, se não superior, pelo
menos envolvente. Quer dizer, onde Tales havia posto a
água, Anaximandro surge para destituir a intrínseca razão por
Tales concedida a esse elemento, e para afirmar a existência
de um elemento eterno, imortal e indissolúvel, no qual tudo
se gera e se dissipa, insusceptível de excesso e de carência, e
deixando omisso se esse apeiron deveria referir-se à água, ao
ar, à terra, ou ao fogo, de onde parece lícito inferir que
Anaximandro postulava, no hilozoísmo da escola, uma pers-
pectiva diferente, um arrepio, senão no sentido da física para
a metafísica, pelo menos no sentido anterior, da física para a
cisfísica, com o fito de descortinar, não propriamente o que
se encontra para além da natureza, ou da IP'Úmç, mas o que se
encontra antes dela, as causas que a determinam, ordenam e
arquitectam.
Justamente em virtude deste arrepio de Anaximandro,
nos pareceu bem citá-lo como o segundo momento alto da
escola em que, Tales, seu parente, fora também seu mestre.
38
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
No trânsito de Anaximandro para Anaxímenes, o que
favoravelmente se intui é a fidelidade do discípulo ao mestre.
Anaxímenes, segundo os testemunhos disponíveis, aceita
cabalmente as noções e as teses de Anaximandro, mas, con-
certeza perturbado pela indeterminação do apeiron, e pela
referência de Tales ao elemento água, talvez se haja encon-
trado indeciso quanto ao radical seguimento da indetermina-
ção quinte-essencial de Anaximandro e ao particular projecto
de Tales, quanto à principal originalidade da água. Dessa
indecisão teria nascido o que, na doxografia, surge como con-
ciliação entre a noção do ilimitado de Anaximandro e a
noção referenciada à água, de Tales. Simplesmente, ao efec-
tuar a conciliação, precisando de determinar o indeterminado
de Anaximandro, fá-lo com a introdução de um elemento, o
ar, que seria o primeiro princípio, ilimitado, sem dúvida, mas
definido, melhor, nominado e referenciado a um dos elemen-
tos. Portanto, o pentágono de Anaximandro, constituído
pelos quatro elementos e pelo ilimitado, é, na perspectiva do
discípulo, rectificado para o quadrângulo dos quatro elemen-
tos, em que um deles, o ar, é o própro ilimitado, seja como ar
enquanto tal (á+Jp), seja como vento ou sopro (n:vtu[!a) uma
vez que, segundo a doxografia, Anaxímenes dava ambos
como sinónimos. O que ainda se acrescenta é a dúvida de
saber se Anaxímenes, ao citar o ar, não dava já, a este, a signi-
ficação de espírito - o que sopra - de onde, então, na sua
perspectiva orgânica, termos apenas três elementos materiais,
ou gerados, e um elemento anímico, o ar ... Em todo o caso,
ainda na teoria deste pensador, o espírito e a matéria surgem
como um todo único, insusceptível de diálese, ou de ôntica
distinção, porquanto o ser que existe é também o ser que
determina tal existência. A relação espírito/ matéria encontra-
-se altamente indiferenciada, porque mesmo o conceito de ili-
mitado é pensado como algo de profundamente inserido na
matéria, ou na natureza, monobloco elementar onde se torna
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
39
possível pensar a elementaridade, mas onde os elementos se
negam a uma análise, feita de rigores categoriais.
O magistério de Anaxímenes propiciará o currículo filo-
sófico de Anaxágoras que, embora tardio no esquema jónico,
parece ter sido o primeiro a efectuar uma pertinente relação
entre o espírito e a matéria. De facto, refluindo à iniciática
noção de Caos, onde eram todos os elementos, Anaxágoras
precisava de justificar a passagem da ordem caótica à ordem
noética; e sendo o Caos isso em que a geração se afigura
impossível, e havendo necessidade de transitar para a ordem
noética, Anaxágoras havia necessidade de um terceiro dado
que, na relação da física para a cisfísica - ou da Natureza
para o Caos - tomasse a decisão do pensamento e do movi-
mento que tal passagem exigiria. Para ele, todas as coisas se
encontravam juntas, indistintas, inesperadas, no estado de
homeomerias, ou de uma mistura original, de onde, por
superior instância, as coisas se separam, dando lugar à enorme
multiplicidade material. A origem é una, é uma substância
primordial, e, por sistemas de revoluções, as coisas separaram-
-se umas das outras, aparecendo na pluralidade, mas man-
tendo a unidade, pelo que o todo não passou a ser, nem
maior nem menor, dado existir para além das partes que o
integram, ou o revelam, em multiplicidade de aspectos.
Que elemento novo é o de Anaxágoras? É a própria
noção de inteligência (vouç), de espírito cognoscente, que é
uno, separado, distinto, eterno, que está onde estão as coisas,
no que a ele se encontra homeomericamente unido e no que,
por revolução, dele se separa. Autónomo, independente da
matéria, em virtude dele nada nasce e nada morre - tudo se
separa, tudo se interpenetra, ou, em termos de hoje, tudo se
transforma. <<As coisas combinam-se ou separaram-se>>, como
a água se separa das nuvens, a terra da água, as pedras da
terra, e assim sucessivamente, num projecto combinatório e
40 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
dissolutório, que a realidade noética contempla, ou que a
dinâmica noética transforma em actualidade hilética.
Que tem a ver o vouç de Anaxágoras com o arrnpov de
Anaximandro? Está um distante do outro? Ou, melhor, o
conceito de Anaxágoras não constituirá uma rectificação, um
apuramento conceptual, uma refinação ideiética, uma refor-
mulação do ilimitado, do eterno e do imenso, atributos, tem-
poral e espacial, do ilimitado? Não nos repugnaria aceitar
que, na dialéctica escolar, a concepção de Anaxágoras tenha
de imbricar-se numa psicologia de profundezas, com as con-
cepções de Anaximandro. Todavia, a problemática da exegese
pré-socrática continua sendo a problemática da leitura ... que,
a não existir, como existe, nos levaria a considerar aporéticas
situações de valor, quais as de saber a relação entre um e
outro e, mais, o que a teoria da separação teria a ver com a
tese de Anaxímenes sobre o motor aéreo, ao provocar a
multiplicidade material pelos processos da condensação
(m1xvwcnç) e da dilatação (ápaíwcnç).
Em Anaxágoras, a escola jónica reassume um momento
alto, não talvez tão alto como seria justo inferir, mas, logo de
seguida a dimensionalidade predominantemente especulativa
de Anaxágoras se vê subsumida na preferência pragmática de
Arquelau que, tendo sido mestre de Sócrates (há notícias de
uma viagem de Sócrates e de Arquelau a Samos), se interes-
sou mais pela especulação imediata do que pela especulação
mediara, hesitando entre a propedêutica da ética e a ciência
física. Arquelau de Atenas, embora tendo introduzido uma
visão original na cosmogonia - talvez dando novas sugestões
na exposição das doutrinas - , manteve-se fiel ao mestre e
aceitou, como ele, os mesmos princípios noéticos e homeo-
méricos, assinalando a identificação da razão noética com o
princípio aéreo.
Ora, o jonicismo poderia ter ficado por aqui. Arquelau
já apanha Sócrates, e este, em certa medida, surge para ultra-
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA 41
passar o estádio cosmogónico, em busca de uma nova dimen-
são para a filosofia, talvez a dimensão de uma antropoteogo-
nia. No entanto, havia Heraclito, natural de Éfeso, que,
orgulhoso e insolente -, chamavam-lhe <<O obscuro»
(ó oxo•nvóç) aparece desgarrado dos pensadores jónicos, dos
quais acusa, todavia, determinadas influências, ou, senão
influências, pelo menos coincidências gnoseológicas que
importa reter, pois Éfeso não ficava assim tão longe de
Mileto, e se com o tempo se transformou num misantropo, é
de crer que houvesse recebido as óbvias influências de uma
escola que tinha reafirmado uma tradição poética e filosófica
tão importante como a que vem de Tales a Anaxágoras.
O admirável solitário, o perturbante contestário da sabe-
doria estabelecida, o opositor da erudição polimática, o asceta
que se fecha numa estrumeira, aguardando a cura da hidrop-
sia, depois de verificar que os médicos não sabiam responder
à sua enigmática questiúncula, o contemplador dos mistérios,
o senhor de uma obscura clareza que é, por isso, o acme do
paradoxal -, Heraclito não se pronuncia sem que sintamos
algo de nós em causa. É toda uma seriedade de pensar e de
ser, uma íntima e corajosa coerência entre o pensamento e a
vida, o pensamento e o movimento, que o corpo fragmentá-
rio disponível nos propõe, num estilo em que a alegria pura
contrasta com a acutilante ironia, e em que um dinamismo
optimista nos leva a olvidar o hilozoísmo mecanicista de
outros pensadores jónicos. Que pensava Heraclito?
- Que há um ser, principiai e original, que tem o poder
de conceber e de criar, ser esse que, Deus embora, identifica
com o fogo (ll. O fogo (nüp) é a origem de todas as coisas, e
ill Em algumas traduções, como a hebraica (e mesmo em determinadas
instâncias da cultura grega), o Espírito é simbolizado pelo fogo, e não pelo
ar. Espinosa analisou a simbologia do fogo, com teológica profundidade,
no seu Tratado teológico-político. No entanto, a palavra grega que melhor
traduz a hebraica Ruah (sopro) é pneuma.
I
I!
I
42 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
o fim de todas elas, seja por transformação, seja por sublima-
ção, seja por condensação. O fogo propõe-se como uma cor-
rente em que há curso e recurso, ou discurso, isto é uma teo-
ria de oposição dos contrários, por cuja oposição os seres se
geram, e por cuja concordância os seres se integram de novo
no seio do rio eterno. A terra surge como o fogo condensado,
a terra é o berço da água por liquifação, enquanto, num ciclo
dinâmico, onde nada se encontra inerte - tudo flui, (rrav-ra
pei) -os seres surgem e se dissipam, num cosmos que, con-
cebido e gerado pelo fogo, mantém a unidade superior do seu
criador, o mesmo carácter ciclíco, a mesma determinação
fatalista, a mesma lógica, a razão de movimento, porque o
cosmos se gera em função do movimento e nunca em função
do tempo- o tempo que é, enfim, uma relação enganosa do
movimento para os sentidos. Na verdade, o tempo resulta das
modificações aparentes, porque nenhuma coisa permanece
como parece num dado instante, encontrando-se em perpé-
tuo processo de modificação.
O logos cognoscente absorve indícios das modificações
havidas, de onde cria a noção de tempo e adquire a certeza de
que nenhuma coisa sensível é passível de conhecimento ade-
quado. No momento em que julgamos estar a conhecê-la, é o
momento em que já se não apresenta como a julgávamos
conhecer. <<Banhamo-nos e não nos banhamos nas águas do
mesmo rio)). De onde os filósofos deverem alertar-se quanto
ao real valor das coisas, uma vez que, dormentes ou vigilan-
tes, os sentidos nos enganam sempre; na medida em que <<O
que é em nós é sempre um, e o mesmo, vida e morte, vigília e
sonho, juventude e velhice, porque a passagem de estado é
recíproca)).
Somos e não somos, pensamos e não pensamos, não
podemos descer duas vezes às águas do mesmo rio, os olhos e
os ouvidos são más testemunhas para conhecimento das apa-
rências do real - o cosmos, como o julgamos pelo conheci-
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA 43
mento sensorial - e porque só o logos conhece e o logos,
que a si mesmo se multiplica, pertence ao espírito.
O fluxo heraclitino apela para um modo de vida. É uma
filosofia que bule com o ser do homem; um discurso sobre o
real realizado e o real ideado, ou sobre a aparência e a reali-
dade, ou sobre a existência e a essência.
A existência é o que da essência flui, corre, como as
águas do rio; nós não conhecemos o movimento do rio, limi-
tamo-nos a ver a posição das águas, mas a unidade intrínseca,
a essência de tudo isso, é algo que nos foge. Efectuar distin-
ções no essencial, pelas aparências existenciais, constitui um
risco igual ao que corremos quando a Deus damos o nome de
Deus porque, enfim, Deus, que é Deus, quer, e não quer, ser
invocado por tal nome! Nominar é um modo de definir, e
Deus persiste como o que não se define
0
l. Como o inominá-
vel! Não é, nem para demonstrar, nem para provar, mas para
contemplar. Como o deus, cujo oráculo se encontra em
Delfos: «nem fala, nem finge, mostra>>
Admirável é a universalidade do pensamento filosófico
de Heraclito que, partindo de uma teoria do conhecimento
rigorosamente modesta, assume a noção dos limites gnoseoló-
gicos humanos e, como tal, se nega a toda a formulação pró-
pria de filosofias regulamentares, estabelecendo, a partir dessa
teoria, uma ética (relação do homem com Deus), uma política
(relação do homem com as instituições) e uma moral (relação
individual), cujo vértice consiste numa já esboçada axiologia,
em que a salvação devém da obediência íntima aos projectos
incognoscíveis do Uno, isso em que se crê, através de uma
doença sagrada, que é a crença: a justificação recíproca, em
que o crente garante a crença e, esta, o crente.
O pensamento filosófico de Heraclito oferece, por vezes,
o risco de negar a própria filosofia. Sendo, a filosofia, o amor
<•> A inefabilidade divina tem tido muitos defensores, entre eles um
Dionísio Aeropagita, cujas relações com Heraclito se deveriam equacionar.
'l
44 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
da sabedoria, que interroga e se interroga, no sentido de
garantir-se um saber, e sendo sua razão o logos, mas, não
sendo o logos humano possuidor de pensamento próprio,
que todo o pensamento é divino, como pode o homem filo-
sofar? Aliás, ao escrever obscuramente, para que as suas dou-
trinas se não vulgarizem, talvez Heraclito estivesse assumindo
a dificuldade própria da sua visão filosófica que, a ser assim,
devia quanto possível ser dada apenas a iniciados, ou a discí-
pulos, preparados para darem testemunho da verdade e para
assumirem todas as contingências mundanais que a filosofia
de Heraclito recusa como não verdadeiras. A Sibila, que, nos
textos de Heraclito aparece mencionada, é, talvez, o próprio
Heraclito: «faz ouvir palavras enigmáticas, sem ornamentos e
sem floreados, faz ecoar seus oráculos por mil anos, pois
recebe a inspiração dos deuses».
Ocorre memorar que Anaxímenes, discípulo de
Anaximandro, e com possíveis ligações com Parménides, pos-
tulara um primeiro princípio, o ar - que tanto invocava sob
a forma aérea, como sob a forma pneumatológica - que
delimita o cosmos, surgindo, assim, como uma espécie de
apeiron aeriforme, envolvendo e gerando o Universo.
De Diógenes de Apolónia, que alguns autores preferem
ligar directamente à escolaridade jónica, para respeitar a tradi-
ção, segundo a qual Diógenes é um discipulo de Anaxímenes,
existem testemunhos de que este discipulato se refere a uma
comparticipação em teses de Anaxímenes, e não a uma
directa e oportuna actividade no seio da escola, uma vez que
a- passagem de Laércio (IX, 57) referente a Diógenes assenta
em Antístenes, e certos autores
01
dizem constituir uma erró-
nea interpretação que Laércio teria feito do testemunho de
Antístenes. É difícil introduzir lógica na perspectiva crónica,
e não nos cabe resolver o problema da situação época! de
"
1
Kirk and Raven, The presocratic philosophers.
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA 45
Diógenes de Apolónia, embora, tendo aceite que se trata de
um autor pós-pan:nenidino, pudéssemos incluí-lo no final do
eleatismo.
Advertidos destas dificuldades, assinale-se o desejo de
clareza que dita a obra de Diógenes, o qual, segundo as bio-
grafias, teve como preocupação primeira estabelecer postula-
dos sólidos e comunicar com os outros, através de uma lin-
guagem precisa e acessível, não querendo seguir o mesmo
processo de Heraclito, quanto à obscura comunicabilidade
dos textos.
A semelhança de Parménides, Diógenes entende que o
mundo é finito, à semelhança de Anaxímenes, entende que o
mundo devém do ar infinito, que, segundo o grau de ponde-
rabilidade, gera os seres da natureza. O nada não existe, o ar
constitui esse caos ignoto e insondável a que o autor alude, e
a terra constitui o centro do Universo. Já se deixa ver que, a
partir destes postulados, dando o infinito como incognoscí-
vel, Diógenes poria de parte toda a especulação metafísica, ou
ontológica, desviando a atenção para o que hoje designamos
por ciências da natureza. Os fragmentos disponíveis dão
franco testemunho da sua preocupação intelectual, e o atri-
buto de fisiólogo, bem como a grande nomeada que parece
haver tido, justificam-se plenamente, pois, mais do que um
filósofo, Diógenes foi um físico, pesem embora as passagens
em que emite afirmações sobre a metafísica, as quais servem
apenas para demarcar o seu campo de trabalho e de investiga-
ção: os fenómenos naturais, incluindo o corpo humano, de
cuja circulação efectuou uma curiosa anatomia.
A validade filosófica de Diógenes garante-se principal-
mente pela forma como, através da física, introduz, na filoso-
fia, o conceito da razão (vàtJmç).
Há uma evidente relação filológica entre o nous de
Anaxágoras e a noêsis de Diógenes, uma vez que o étimo radi-
cal é o mesmo. O nous de Anaxágoras vem dado com seus
46
FILOSOFIA
atributos e para s1
o
um determinismo
para o Universo
a substância existencial com o
, mas
ao
razão,
afirma que esta governa e
seres sentem, entendem e
cotsas, e que os
da razão.
A razão é, no esquema de
rior, não mero instrumento
fim de a e
de muito supe-
ria, como, de resto, Sócrates não teve dificuldade em
nhecer, e isto a crermos no
C!J Fétlon, 98, B7. Tradução do P. Dias Palmeira, Coimbra, 1954.
FILOS O FIA PRÉ-SOCRÁTICA
47
perfeita consciência desse valor, razão fundamental, que é
razão de razão- a que de si mesma sabe, e de todo o outro.
O florescimento da filosofia na Jónia apresenta-se como
um trânsito e como um regresso - por um lado, a tentativa
de prosseguir o apuramento das razões de ser e, por outro,
um esforço no sentido de identificar o ser de razão. Entre as
primevas concepções de Tales e as posteriores visionações de
Heraclito, é todo um longo caminho em que tudo flui, em
que, mesmo quando não parece, as ideias de cada um se
geram nas ideias do outro, em que os debates escolares e as
argumentações discorrem, mas ao mesmo tempo concorrem,
para a tarefa de construção de uma disciplina, cada vez mais
liberta do culturalismo sincrético, e cada vez mais ciente das
suas limitações e, p ~ r isso, pouco a pouco mais assenhoreada
das inestimáveis possibilidades.
3-A ESCOLA ITÁLICA
Escolas itálicas houve, pelo menos, duas: a pitagórica e a
eleática. As designações, fundadas em motivos geográficos, ou
de geografia política, têm destes paradoxos pouco, ou nada,
razoáveis. No entanto, como a escola de Eleia obteve o nome
próprio de eleática, nada impede que a escola de Pitágoras se
chame itálica e, para evitar confusões com a eleática, se chame
também pitagórica.
Quem fundou esta escola foi Pitágoras, oriundo da ilha
de Samos, que se fixou em Crotona, onde passou a ensinar.
Pitágoras, na data em que se fixa em Crotona, traz consigo, a
crermos nos biógrafos e doxógrafos, uma longa experiência de
vida e de saber. Viajara imenso, estivera no Egipto, na Fenícia
e na Caldeia e, entretanto, teria sido discípulo de Ferécides de
Siro, um cosmógono e um teógono que, na melhor das hipó-
teses, teria lato conhecimento das ciências ocultas dos fení-
48 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
cios, que teria efectuado alguns milagres, e passado a
Pitágoras muito do seu saber, a pontos de, em certos porme-
nores, haver dificuldade em certificarmo-nos sobre o que
deve ser atribuído a Ferécides e o que deve ser atribuído a
Pitágoras. (De acordo com o doxógrafo Apolónio, na data em
que Ferécides adoeceu, em Delos, foi Pitágoras quem o
tomou' a seu cuidado, dele herdando a sabedoria que, acres-
centada de outras contribuições, veio a desenvolver, e a trans-
mitir, sob a forma do pitagorismo).
Pelos motivos expostos, pareceu-nos justo situar
Ferécides à cabeça da escola de Crotona, porque, em obe-
diência ao critério filosófico das teses, Ferécídes apresenta-se
como o remoto fundamento do pitagorismo, ou, pelo menos,
como o consabido mestre de Pitágoras.
Ferécides teria escrito o livro dos «Sete esconderijos»
('E:rr-rártuxoç) '
1
>, onde expõe o seu saber, do qual nos chegou,
entre o mais, a explicação relativa à problemática da origem.
Ferécides resolveu-a, não através de uma criação a partir do
Nada, mas pela defesa de que Zeus e Ctónia existiram desde
sempre, um como o céu, outra como a terra. Os elementos
restantes são o fogo, o ar e a água, que resultaram das combi-
nações do movimento, expresso na noção de tempo, Cronos.
Temos, desta forma, cinco e não sete esconderijos, ou reces-
sos, ficando, portanto, por saber quais eram os outros dois
recessos a que o título da obra de Ferécides alude, ou se a
transmissão histórica do título terá sido correctamente efec-
tuada.
Poéticas e cosmogónicas, as alegorias de Ferécides têm
grande importância, e acentuam uma forma de singular
absorção de contribuições culturais, sendo possível que a sua
obra haja recebido tais contribuições da filosofia e da teogo-
Cll Certos autores, entre eles, Diels e Jaeger, inclinam-se para «cinco
esconderijos», em vez de «sete>>.
FILOSOFIA
ou porque, em
já existente entre as várias ~ J ' - ~ ' a J ,
ricos tomavam os cuidados necessários à não
seus conhecimentos, de
da
que
50 FILOSOFIA
FILOSOFIA
V !Ce-versa:
1. Limitado
2. Ímpar
3. Unidade
4. Direita
5. Macho
6.
7. Recta
8. Luz
9. Bem
10.
Par
Fêmea
Movimento
Curva
(1)
51
52 FILOSOFIA
fl0 vVU01-''-'''V
à Tétrade.
É este o
antes
que as significa e que
com o demais.
mátíco na sua
já a coisa em
FILOSOFIA
tem, nem excesso,
mula no
do uno, e, por
dela são sempre
Amor que une o ser
cinde o ser
mecânico.
O poema sobre a
53
e, ao que parece,
que, em
54 FILOSOFIA
reverter à e à
onde se não morre!
A tanto havia levado o
metria.
4- A ESCOLA ELEÁTICA
em Eleia, na Itália
Zenão.
Dilucidar a as
ções acerca das que se levantam quanto a
parte integral da
cujas teorias abrem o conti-
FILOSOFIA
55
avant Socrate.
FILOSOFIA
cosmos são um e o mesmo - o ser eterno, incriado e incor-
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
57
dó nem piedade, designadamente a tendência de antropo-
morfização dos deuses - assinalando Xenófanes uma noção
correcta, já expandida nas tradições médio-orientais, de que a
divindade não tem imagem (l>. Muito embora, Xenófanes
tinha inteira certeza de que a verdade, tal como a concebia,
não era para divulgar, porque as imagens da opinião, ou do
senso comum, são historicamente mais fortes do que a justiça
da verdade, ou a verdade da justiça. O fragmento 34 é alta-
mente explícito quanto ao juízo de Xenófanes, e serve para
alertar o filósofo sobre o valor das essências e das aparências,
garantindo-lhe que o vulgo não quer senão as aparências,
enquanto a filosofia não quer senão as essências. De onde
haver muita coisa, dada como filosofia, que não é senão uma
forma refinada de opinião, ou de logos comum.
Apesar da valorização atribuída a Parménides, a filosofia
deste, que foi discípulo de Xenófanes, já se encontra projec-
tada nos fundamentos da escola xenofónica. Todavia, além
do magistério que recebe de Xenófanes, Parménides liga-se
também ao jonicismo de Anaximandro de quem, se não acei-
tou todos os ensinamentos, aceitou, pelo menos, a teoria do
princípio único, bem como algo da tradição pitagórica, que
lhe teria sido transmitida por Amínias, iniciador de Parmé-
nides na via mística, muito mais do que o seu primeiro mes-
tre, Xenófanes.
Grande parte da celebridade de Parménides deriva da
viagem efectuada a Atenas, na companhia de Zenão, onde, a
crer na historicidade dos diálogos platónicos, haveria propi-
ciado um encontro com Sócrates, para discussão da teoria das
ideias. Dedicando um diálogo ao acontecimento, Platão é em
parte responsável pela notabilidade do filósofo eleático, um
dos mais seguros interlocutores de Sócrates, a cujas teses
Aristóteles dedicou considerável atenção.
<•J E. W. F. T omlin, The Eastern philosophers.
58 FILOSOFIA
incriado, imprincipial, per-
idêntico a si mesmo, uno e
deixar de ser, porque é
de
surge-nos um pouco
meta designa apenas uma categoria adverbial, a categoria
substancial sendo a física. Portanto, a
da se pro-
através do enriquecimento modal do
Mas o que na verdade Parménides nega é tanto a
cisfísica (o que se encontra como a
possibilidade da tisica (o que se encontra
bilidade da metafísica (o que se encontra O que nega
em é a física, como sujeito substantivável, e tanto
nos leva a pôr que, a física, se tem de toda a
intrínseca realidade da negar o adver-
bialmente pode depender, a e a A qualifi-
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
59
cação de racionalismo metafísico, atribuído ao pensamento
de Parménides, oferece alguma garantia de autenticidade? Se
os elementos gramaticais suportam um pensamento lógico,
temos que a relação se oferece na afirmação dos elementos
relativos: ora, se nego a realidade de um deles, não posso fazer
depender os outros desse que nego. Logo, se nego a física,
tenho de negar a metafísica.
Que qualificativo atribuir, então, ao pensamento parme-
nidino? Cremos que só um lhe calha em absoluto, com todas
as garantias de adequação ao conteúdo do que, de
Parménides, sabemos: racionalismo do ser, racionalismo
ontológico, ou, porque estabelece a univocidade do ser, onto-
logismo unívoco. Não vemos que outra solução possa justifi-
car-se, uma vez definidas as noções de racionalismo metafí-
sico e de racionalismo ontológico, e bem demarcadas as
fronteiras entre ontologia e metafísica. A ontologia é garan-
tida, a metafísica é o que resta da física, e Parménides quer e
crê o Ser, não o que resta do possível Ser.
Racionalismo ontológico é também o de Zenão. Difere
do de Parménides na matéria formal da argumentação, por-
que, enquanto Parménides prefere a via poética, Zenão pre-
fere a via dialéctica, sendo em virtude deste acidente formal
que se classifica de dialéctico o racionalismo de Zenão.
De facto, a diferença deveria ser estabelecida em três termos:
de um lado, o racionalismo ontológico-poético de Parmé-
nides; de outro, o racionalismo ontológico-dialéctico de
Zenão. Cremos atingir maior grau de clareza adoptando essas
tríades, das quais constam o sujeito, o objecto, e o processo
de um para o outro.
Ora, Zenão, segundo Laércio, era filho adoptivo de
Parménides, e seu discípulo. Aristóteles e Platão concordam
em que o poder de conversação dialéctica do discípulo de
Parménides era notável, e que tanto seguia a linha afirmativa,
como a linha negativa, em ambas se sentindo à vontade, gra-
60 FILOSOFIA
que
mestre, haja, em certo momento,
o processo levando-o para uma ..
e, ao que parece, globaL
Zenão pensou o Ser, tal como e o
Ser como o único uno, univocamente extenso, univocamente
só conhecemos e torna-se
na sua análise sem entrar no campo das
turas, uma vez que Zenão é um
lógico, e por
enganar o conjecturador. Em todo o caso, e em resumo,
Zenão leva a ontologia de Parménides ao extremo
estudando o Ser do de vista do movimento e
para demonstrar como o Ser é imóvel, contínuo, indivisí-
vel, atributos que já apareciam nas teses de Parménides.
dír-se-ia que Zenão argumentou a dialéctica de defesa
das teses pelo mestre. Parménides seria o
de uma tese, cuja discussão Zenão teria efectuado em
Para ser, o Ser carece de extensão,
extensão. Mas as da extensão estão no
nitamente
não têm, nem grandeza, nem a serem
Uno que é, a plenitude, o Ser não
permanece Ser - é, foi, será, a todo o
instante idêntico a si mesmo - de onde Zenão, pela
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA 61
relação da unidade e da multiplicidade, da singularidade e da
pluralidade, da indivisibilidade e da divisibilidade, da inércia
e do movimento, concluir, como Parménides, que o Ser é
incriado, imóvel, contínuo, finito.
Zenão teve o mérito, não de demonstrar a realidade das
suas teses, que são obscuras, mas de mostrar a dificuldade que
há em pensar ontologicamente o Ser. Aliás, estas dificuldades,
evidenciadas por Zenão, teriam sido a causa das perplexida-
des, por vezes surgidas sob a forma de anedotário, quanto às
suas doutrinas.
Efectuando a exegese dos argumentos de Zenão,
Leonardo Coimbra <I> agrupa em dois pares esses argumentos:
os da dicotomia, segundo os quais «não pode haver movi-
mento porque é sempre preciso que o móvel passe pelo meio
do seu percurso antes de chegar ao fim; o de Aquiles, segundo
o qual «O mais vagaroso nunca virá a ser alcançado pelo mais
rápido que o persegue, porque é preciso que ele chegue antes
ao ponto de onde partiu o fugitivo, de modo que este terá
sempre algum avanço»; o da flecha, segundo o qual «é impos-
sível que uma flecha se mova num instante, porque,
movendo-se, dividiria este e ele não seria um instante ató-
mico»; e o do estádio, em que se mostra como o instante, que
é indivisível, seria dividido, de onde se verificar apenas o
repouso. Leonardo afirma que «O paradoxo de Zenão só mos-
tra que realmente o espaço euclidiano e o tempo absoluto
não existem» e que, «então (é) possível supor indefinidos
observadores em indefinidas participações do espaço e do
tempo», pois que «as possibilidades de todos os espaços e de
todos os tempos indeterminam o movimento». Nesse caso, o
movimento é invisível - e, o que de um ponto de vista
CIJ A razão experimental. Porto, 1923. Ao publicar O criacionismo (1912),
Leonardo estudara já os argumentos, demonstrando que o problema não
é de ordem matemática, e obtendo uma explicação criacionista para o
mesmo.
62 FILOSOFIA PRt-SOCRÁTICA
físico, ou fenoménica, vemos, são as posições e as durações,
não o movimento, não o tempo. Seria isso, em suma, que
Zenão queria demonstrar? Tempo e espaço eram temas ins-
tantes na ciência grega do tempo, e Zenão, à semelhança do
mestre, certamente repeliria em grande parte o excesso de
apreensão da natureza pelos fenómenos particulares, receando
generalizar, das aparências do acidente, para a essência do
ente. No entanto, mesmo entre os contemporâneos de
Zenão, houve quem não tivesse entendido a paradoxal oracu-
lidade dos argumentos, de onde derivou, ou um excessivo
cepticismo dialéctico, patente na sofística, ou um excessivo ri-
gorismo físico, tal o patente no ramo mais interessado na
experimentação do que na invenção, como o que parte de
Melisso de Samos, discípulo de Parménides, cujas investiga-
ções contribuiriam, em grande parte, para a assunção do ato-
mismo.
Melisso aceitou, de Parménides, as noções de unidade,
plenitude e identidade cósmicas, mas dissentiu da tese parme-
nidina sobre a finitude do Ser. Para Melisso, «O cosmos é infi-
nito», baseando a tese numa perspectiva espácio-temporal:
quanto ao tempo, o Ser é infinito, ou sem fim, porque, não
tendo havido princípio, não pode haver fim; quanto ao espa-
ço, o Ser é infinito, porque, sendo sempre Ser em toda a par-
te, a sua extensão deriva necessariamente infinita - o que
tem um princípio, no tempo ou no espaço seja, não é, nem
eterno, nem infinito e, se o Ser não tem nem princípio, nem
extensão limitada, o Ser é infinito. Parece que o conceito de
apeiron, ou de ilimitado, por outros pensadores entendido
como algo anterior ao cosmos, é transferido para a própria
essência do Ser por Melisso, e, sendo assim, o apeiron não
constitui algo exterior ao Ser, mas é um atributo do próprio
Ser.
Incorpóreo e uno, indivisível e infinito, o Ser é a
mónada (!.wváç) universal, conceito que Melisso parece ter
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
63
introduzido na panóplia da conceptologia filosófica pré-
-socrática, possivelmente por influência de remotos orientalis-
mos (II. O Ser é, enquanto mónada essencial, a razão cósmica,
o constituinte cósmico, que a si mesmo se constitui, e não a
outro, negando toda a transformabilidade, toda a mutabili-
dade e toda a acidentalidade - porque, mesmo havendo plu-
ralidade de entes, todos seriam um só, e o mesmo, Ser.
A silogização disjuntiva de Melisso acusa uma íntima
tendência dialéctica, que se assemelha, já às disjuntivas de
Parménides, já às alternativas de Zenão, e deve anotar-se o
facto de Aristóteles haver detectado, nos raciocínios de
Melisso, uma defeituosidade paralógica, a qual muito bem
pode derivar da forma duálica pela qual o pensador de Samos
raciocina, incorrendo no risco de olvidar a terceira possibili-
dade, ou síntese, que a um pensador lógico acaba por se pôr,
mais cedo ou mais tarde.
Melisso coloca-nos em face de um cripto-materialismo,
ao especificar substancialmente o Ser, uma vez que a substân-
cia do Ser é menos do que o Ser-em-si considerado? A sua ati-
tude relativamente a uma possibilidade de conhecimento teo-
lógico, ou relativamente a uma teologia, demonstra uma
nítida vocação para um entendimento materialista da existên-
cia, enquanto a monadologia aponta para uma outra forma
de materialismo, qual o que iremos encontrar nas proposições
do atomismo. A finitude cósmica permitira a Parménides
resolver o acesso a um certo conhecimento teológico,
enquanto, ao infinitizá-lo, Melisso de certo modo afasta, dos
caminhos do homem, a capacidade de acesso à crença e à
intuição teológicas, uma vez que entendia os deuses como
insusceptíveis de conhecimento.
O eleatismo, ao fixar-se no Ser enquanto Ser, cria um
beco, uma aporética situação, de que deviria difícil sair, sem
<•I Tomlin, op. cit.
HLOSOFllA
5-AESCOLA
O atomismo é,
-socrática, um sistema
sua natureza e do seu
que o Ser, apesar de
na perspectiva uv'LH''-Vl.H'-U'-·"
e de outros jónicos remotos.
Repensando a matéria ou homeomérica, bem
como as teses monadológicas, o atomismo é
física, o que se patenteia em
cismo de todo o atomismo, e a da
termos
111
W. Heisenberg,
FILOSOFIA
tais as
ca de Leucipo,
considerado, é átomo,
vel, incriado e
dade atomística, ou é um
ao tempo, e infinito quanto ao espaço,
divisão do em muitos átomos, a
co1sas.
eterno q uamo
ela mesma,
de todas as
Este atomismo é já um - o movimento
atómico é eterno, cria-se por determinação de uma causa
intrínseca, e garante-se na necessidade de se criar.
Terá sido nestes termos que Demócrito,- seu
discípulo, porque Laércio não garante o facto
seguro, atribuindo a notícia a outro escritor - o
atomismo de Leucipo. Partindo da suposição de que houve
ensino de Leucipo para Demócrito, talvez u u . , ~ " u " ' ~
adiantar ter sido assim que Demócrito entendeu o atomismo,
a crermos igualmente nos testemunhos sobretudo
no que encontrou o
rias de forma que, um ponto vista
ainda se mostra exequível.
Em substância, Demócrito afirma que o átomo é a única
certeza de que o conhecimento humano pode o
66 FILOSOFIA
os átomos existem em grandeza e em
juntando-se, para formação
turbilhão que os como deixou
dito no fragmento 164: «os seres associam-se em função da
os aos as aves às aves, e assim suces-
sivamente, o mesmo se verificando quanto aos seres inorgâ-
nicos e mortos, como podemos observar na crivagem dos
Em do pela criva-
às lentilhas, os grãos
O mundo de um de que se
do sendo a natureza constituída por
projectados em todas as direcções, e o prôprio homem consti-
tui um pequeno universo atômico: o seu corpo é a forma da
sua alma, que, morre com o
constituintes entram de novo em ou
"'L"'-''·'-'v envolvidos noutros de
onde outros seres humanos se hão-de gerar, uma vez que a
an.nn,aca!o atómica é diferenciada ser para ser, concluindo-
-se, pois, que os átomos constituintes do homem só
constituir o como, em crítica, salientou o notável
espírito de Aristóteles, para evidenciar a sua perplexidade em
face das teorias de Demócrito.
Nelas se de certo modo, a plena assunção do
Nada, ou do vazio, uma prócere teoria da relatividade e um
materialismo patente, de resto, na maioria das máxi-
mas e dos fragmemos que, autoria de Demócrito, chega-
ram até nós.
Pensador da substância e caos, imanentizador
alma, visionário do turbilhão, Demócrito apresenta-se
via, discursivo e pragmático, ou não fosse a sua certeza
HLOSOHA
67
o
os
;;ru:r>tlr-<>f>. e de ser-se em espiritual tranquilidade- uma vez
que o surge somente em fortuitos fenómenos, por
via de regra inapreensíveis, dado que os pertencem à
v1a inferior à via que é,
uv""""' ou uma via de razão.
a filosofia grega em face
u u . ~ u . > a . ou a eleática, ou a física atomista,
ou o ontologismo ou o naturalismo abderí-
tico. Recusam o primeiro e o segundo,
sem haverem previsto a maior desse naturalismo
que, e muito bem o viu Cornford (!), por constituir
uma mundividência ao do senso comum.
O é o de o atomismo determi-
nar, adentro de seus parâmetros, essa filosofia senso-comuni-
uma epistemologia ciências da natureza (qual a que
se encontra reformulada, em mais na teoria
molecular, na teoria quântica e na teoria corpuscular
de Boyle e de Dalton), e, a lH'c"'"-'UlVlVL""
um Leibniz, que é, em certos aspectos, um atomismo
transfere, ou supera do físico para o metafísico, e isto
rindo que, ao contrário do atrás a metafísica possui
garantia reaL
(l) I11t Before and afta Socrates.
68 FILOSOFIA
ria pena de morte, "v'"l'-·!u, de carác-
ter humanista e
É deste seu humanismo que a
e é humanismo que a u n . , ~ u · u «
uma vez que nem sempre as
humanismo, são bastantes para que a
que é sempre mais do que convém aos
estar no mundo. O leva, mais tarde ou mais
a pôr o ser antes do pensar, o que, para uma filosofia
pengos que, ora, não enumerar.
do ser e pensar, pelos elea-
pelo e do atomismo se
que é um materialismo de intrínseca
razão de ser, vazio de ser razão - um materialismo na
acepção em que se quer, como toda a realidade, essa que, atl-
nal, não pode conhecer, porque escapa às vias sensoriais.
Brilhante o atomismo surge como
defeituosa hipótese filosófica, e só a transfiguração
rada por um Leibniz o poderia, em certa remeter a
mais altas instâncias do pensamento.
FILOSOFIA
6-A
A
outro nos ensinaram, ou
tamanha hipótese, temos que, em ""n"""'
e dos sofistas é mais um
Resposta não se obterá a breve porquanto, e sem
ir mais além, a tarefa uma revisão fundamental
filosófica da Grécia e, quem sabe,
! A quem ou a quem intui
sector, resta deixar umas sementes
no para que, a resistência ao
lugar comum.
Antes de mais, a ''"'"<"'r"
em que o foram as escolas pré-socráticas.
A genealogia da palavra a entrever a reali-
dade do conceito. Em antigos textos, o sofia
(ooqJía) surge para um saber prático, uma habili-
um artesanato ou uma engenharia - e temos notícia
70 FILOSOFIA
a este com a arte de estalei-
ros navais, ou de
conceito de não envolve uma com
quem se mostra capaz realizar, ou de a um
que peça habilidade e engenho, encontra-se posse
As inferências tardias permitem
não teria o valor exacto
acepção, mas apenas o de de
a ~ · - ~ - · , , u u anglo-saxónica), isto é, a quem
ou de uma perícia, ou uma arte, No entanto,
no
se transfigurou na
- a sabedoria
ter-se-á a uma
em vez de se ter trans-
H<ncuu"'""' de habilidade,
a
carência e sem excesso, de a partir do se
insistir na necessidade de distinguir entre o que ou é,
a sofia, e o que a possuir, ou o que a ama, o filósofo
(qJLÀÓompoç).
No decurso de um século, porém, o ciclo do conceito
parece, por um lado, percorrer uma escala ascendente
(a que leva da filosofia para a sofia) e, no século parece
percorrer uma escala descendente (a que da filosofia
a arte de tornar a através ensmo
Não se encontra bem evoluções, mas a
da sofia, que realmente se verifica num certo
da cultura transfere-se, senão uma inferio-
ridade, pelo menos para uma relatividade O ou
OOqJl<YtlÍÇ, é, por um lado, o homem que sabe da sofia e, por
outro, que tem e habilidade dela, e que pode, em vista
professar o ensino do saber em sociedade, tendo em
vista tornar os cidadãos mais perfeitos. Prova de que, na
ln llíatla, XV, 410.
FILOSOFIA 71
comotação para a areté
que, num certo história grega, se teria
oferecer a maior número de cidadãos, mais
tica e das realidades em presença. Dir--se-á
à tradição colegial e liceal, restrita a
acaba por
"'"''"'"""u""0 da
filosofia na É a época das o
tempo que preludia a alta especulação grega em matéria de
política, é, a dizer, o século ateniense - a
urgência da acção que solicita a assistência mediação, o
movimento que pede o pensamento. A escolaridade !U'R''L'H'-"
desagrega-se um pouco e os filósofos tornam-se
Como anotou Xenofonte, o filósofo mistura-se no sistema
intercambial da cidade, ensina quem deseja ser ensinado e
recebe, por uma justa compensação que, por vezes, a
clientela e a concorrência julgarão exorbitante. Mas isso cons-
titui um outro segmento histórico da sofística e, quiçá infeliz-
mente, o que deveio mais divulgado, no sentido de
sofística, uma imagem prejudiciaL
Os encontram uma nova maneira de ganhar a
vida, ensinando. Vêm de Abdera, de Mégara, de outras cida-
des; actuam, por via de regra, isoladamente, obtêm os seus
próprios contratos, arranjam os seus alunos e, por um lado
ganham a vida ensinando, enquanto, por outro, criam condi-
ções comodidade para se dedicarem à filosofia. As solicita-
Ol Há uma certa analogia com os conceitos setecentistas de Savant e de
Philosophe no Iluminismo francês.
72
FILOSOFIA
os
homem: a criança, o
dade, ou a cidade, o
conjunto de homens
A sofística aplicada à não será dos aspectos
menores, mas o que de nos pelo noticiário e
testemunhos, é a sofística quer à
quer à príncipes todos os
como, resto, os diálogos
Xenofonte e os de Aristóteles, deixam
Em princípio, a sofística não constitui um mal e o pró-
prio Platão se encontrou nela, não vemos
que outro significado dar às suas com o monarca
Sicília; o que nela devém mesma, mas a sua
circunstância. da específica escolaridade cole-
gial, iniciática, para os condicionalismos societários, a filoso-
fia de sofrer as se a
ama a sociedade perfeita, é menos exacto que as
FILOSOFIA
73
da sua o pensamento
desligadas da factologia política e
social -, sofística se dizer que ela incorreu nesse tár-
taro, onde a filosofia morre. A acusação da
tica, por esta se apresentar como um saber, ou uma arte,
nessa Via que, uma
uuua'""' a teria salvo e, em vez de se no desco-
fixa-se no consentimento
FILOSOFIA
de indução,
autoridade, o terror, as sucessivas
ao
arte e nenhuma sabedoria tratou do aci-
menos sofísticos -
motivam a nossa selecção.
ao que se julga de
o humanismo patente na filosofia mestre
O seu uma sfncrese da ética, da
moral e da onde se um forte
ceptiCISmo e um qual o que também
de Demócrito certamente recebera. No entanto, ambos os
valores são mitigados uma sensível tendência para
tualizar a em torno da ordena as teses, de onde
o ter-se da sua em relação ao
de um Heradito, posta de aviso a crença na impossibilidade
de conhecer a em virtude da obscuridade do tema e
da vida humana -
estoicismo, grego e romano, haveria de comentar e
levar às últimas instâncias pragmáticas. Das teorias sobre
cação e política, legadas por Protágoras, e explicadas através
de efabulações mitológicas, como no caso mito de
Prometeu - trata-se de um pedagógico, não de uma
crença sofista, como se torna de verificar - não fala
a história que se parecem na generalidade com as
pedagogia e demagogia atenienses. De enigmático e de pro-
blemático é o seu pensamento sobre a métrica humana
quanto a todas as coisas, das que existem enquanto existem, e
FILOSOFIA
a
pretação nestes termos? Claro, a ex,eg(;se
tagórica nos a
Protágoras teve em vista - - não
75
e con-
Universo numa como se julga, mas '-''-Hu.uc,u
com dramático rigor, as carências gnoseológicas do homem a
vias conhecimento, só os sentidos
- como estava dito em Demócrito, seu mestre - e que,
isso, na incognoscível dimensionalidade, na macrocós-
mica dimensionalidade reduz à dimensão
seu microcosmos. Uma outra forma de o
homem, é tanto mais pequeno quanto se
julga e, a ser assim, já se lobriga como o humanismo de
Protágoras, pela imagem como o sabemos, poderia ser
revisto de forma categórica.
Em Protágoras, como em Górgias, a preocupação funda-
mental ainda se refere aos primeiros princípios
alguns sofistas, como Hipias, Polo, Trasímaco e outros, prefe-
rissem a psicologia, a logogogia e poligogia ... ) e é esse aspecto
que salientar no extremo cepticismo racionalista de
Górgias que, dizendo-se orador, e sendo de genealogia
ca, manteve fixa atenção à filologia e à arte das palavras no
conjunto de significante e de significado, em vista o
76 FILOSOFIA
se existe; e, se
decide persuadir-se sobre o que
mais que sob outras a métrica se
encontra também no texto
sas e as origens da filologia.
tão principais parece não as haver tido um
e um logógrafo da categoria Pródico de
que ganhou a vida a comentários aos
efectuar milhentas entre as palavras, tendo
de ver, para uma pura e
dele nos através dos textos
o o caricaturiza, por causa
extremos tomados com a voz, é das mais simpáticas
de quantos sofistas Platão põe em causa. Não assumiu, ao
que se as de outros
e manteve digna
da sua pátria, como se deduz
a educação de Herácles, com especial
exemplo, a
a.:>0u"'"'"'" em seriedade e
FILOSOFIA
77
mas
em que a UaNVH<>
a filosofia. Entre Tales, homem, e, o
Hípias, temos instantes para uma e outra coisa.
Mas a também, uma guerra. A da
não quer o diáfano manto
s ESE F
É Sócrates o eixo da da filosofia?
A imagem histórica Sócrates é terrivelmente
siva. Ela foge-nos, parece que se deixa " ' ~ - ' ' ' " u . " u
escapa, em textos nos transmitem as suas
deambulações e congeminações. Mas, apesar
-se uma filosofia pré-socrática?
(lJ L. Robin, A Trad. portuguesa, Porto, s. d.
78
encontra
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
o
ocorrências
não tanto a quem as lê, mas
a quem as escreve e, por se tomam espec1a1s
para não contrariar o que, de muito se
possa assinalar-se que, na da
grega, se encontra um - o perifi-
vai de Tales aos últimos Eleatas -, um
o antropológico, que é o da (e que
e, enfim, um é esse que, projec-
tado por Sócrates e por Platão, só se inteiramente em
Aristóteles, o período da filosofia, ou filosófico.
O primeiro com certidão,
é cosmológico, engloba a cosmologia pré-socrática; o
período é antropológico, e congrega o socrá-
tico, incluindo a sofística. Em ambos estes existe
uma previdenciação teológica. generalizados, ou
sincréticos, eles não possuem, ainda, as e
gações uma filosofia, ou os dois períodos anteriores
são de não uma filosofia sistemática.
A sistemática só se cabalmente em
Aristóteles. Na sua delimitam-se, com extremos rigores,
os parâmetros da cosmologia, da e o
FILOSOFIA
79
filosófico não é mais um saber generalizado e
ou sincreticamente mas um saber
sistematizado. Não é mais só a física, não é mais só a u"-ca.u-
não é mais só a "'0"0'""-
para um
se, de um
vista estritamente se deveria preferir o termo
-aristotélico, é questão que ousamos sugerida a levar de
vencida.
Assente-se, para tanto, em que a história anterior a
Aristóteles ainda factos e feitos e que, em
o facto e o se pensam como ideia, an.uJm.!u
em definitivo, que a além amor da
pensamento das ideias enquanto ideias e não
menos, do que ideias. Uma constante
mento pensante contra o pensamento pensado, o
que se pensa e de si mesmo e de pensa, para
que, na ascética da nem se engane, nem engane os
outros.
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Filoso a Grega
ré-Socrática
TEXTOS
I
L
L HINO À
Cantarei à terra, a mãe
se
no mar, viventes.
os que se nutrem
geram
que aos mortais
tas a tirar.
(l)
todas as a ma1s
os seres; no solo
e voam nos ares.
e belas searas.
o bem da que lhes
ou
feliz quem
abundância!
da tua benevolência, terá sempre
01
Embora haja remotas referências indirectas a Homero, a mais conhe-
cida, e tida mais antiga, é a de Xenófanes (Fragmentos 10-ll), mas
parece que era dado como poeta épico, e como tendo realmente
existido, desde a época arcaica.
A questão homérica consiste em saber se a Ilíada e a Odisseia são, ou não,
constituídas por sucessões de orais, concebidos em diferentes
cas e, mais tarde, por atribuídos a um só autor. A """"J;;>.a'""
sobre esta problemática é copiosa, mas, como visão judicativa da mesma,
a leitura da obra de Hegel, Estética: Arte- A de existe
portuguesa (1964), e, de Dias Palmeira, O Poesia
H<nn,'ru:a (1960), e do mesmo a crítica à obra de Lohmann, sobre a Ilíada
1973) e o estudo sobre A Homérica (Itinerarium,
86 HLOSOHA
de tesouros; nos
momento!
Governa com
e a
Seus
a o
suas filhas e correm na
pradaria.
pisando as
Eis a sorte de quem amas, deusa """"''""''"
dade!
esposa do céu
em prémio de meus cantos,
invocar-te sempre, em minhas orações (1).
2. O ESCUDO
(Hefesto), primeiro, forjou um escudo e robusto,
a toda a extensão e pôs-lhe uma cercadura faiscante,
e coruscante, com um talabarte prata.
Cinco foram as camadas que e em todas teceu
vários ornamentos,
seus
Forjou, nele, a terra, o céu e o mar.
o sol infatigável e a lua cheia,
e astros coroam o firmamento
0
' O poema revela uma concepção popular da Terra. O céu é um hemis-
fério sólido a cobrir a chateza da Terra. Emre eles existe um mundo misto,
(àljp) e, por cima, o éter (a(fh'jp).
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
E pôs o enorme poder do rio oceano
a toda a volta do perfeito escudo(!).
87
(!fiada, XVIII, 478-485 e 607-608)
3. ESTROFES AO OCEANO
a) Apanhando-o, arremessá-lo-ei para o obscuro Tártaro,
para mui longe, para onde se encontra o gigantesco golfo
subterrâneo,
de portões de ferro e soleiras de bronze, nas profundezas do
H ades,
para tão longe como do céu à terra.
(!fiada, VIII, 13)
b) Outros dos perpétuos deuses mandaria facilmente dormir,
mesmo as correntes do mar rio, que deu o ser a todas as
COiSas,
mas de Zeus, filho de Cronos, nunca dele me aproximaria,
nem para o adormecer, a menos que Zeus ordenasse.
(!fiada, XIV, 244)
c) Zeus, que me arrebataria do éter para o mar,
para longe da vista, que não tivesse a noite,
que domina os deuses e os homens, assim me salvando.
Para ele voei, e Zeus parou, embora estivesse irado,
porque receava desagradar à Noite veloz (2).
(!fiada, XIV, 258-261)
(IJ Heródoto (IV, 8) afirma que os gregos antigos diziam que o mar nas-
cia no Oriente, e corria à volta da Terra, embora não tivessem argumentos
para provar a afirmação. Como se verá, seguimos de muito perto a tradu-
ção, já existente, de D. Maria Helena da Rocha Pereira.
<zJ Única passagem dos poemas homéricos em que a Noite aparece perso-
nificada. NuÇ deve ser tomada enquanto figura da mitologia cosmogónica,
à qual os deuses se rendem pelo sono.
88 FILOSOFIA
2.
?)
l.A
Antes co1sas era o velO a
grande
e eterno assento de
os
um ser a ela semelhante,
o Céu aos
n1ar, o
vagas furiosas, sem a
116-132)
111
Este poema estabelece uma genealogia assim esquematizada:
Xáoç-> rata->Époc; -t "EpEj)óç -t -t Hf1Épa
A situação de Eros parece justificar-se pela necessidade de individuar os
seres, com base num critério empírico e amtropom()rt:lco.
Caos a uma noção de vazio onde,
«tártaros>>, ou a terra se separa céu. Não por se
considerarem interpolações, os vv. 118, 119 e 125.
FILOSOFIA
2, O OCEANO
no
sas,
ses,
imortais.
Aí se encontra a
que negras nuvens
3. DEUS
lado a os
E, uma vez que os aventurados acabaram a
torça, os Titãs a cederem-lhes as
89
as COI-
Oceano
os
Terra, Zeus à ambição
e trono imortais.
E, assim, Zeus repartiu por as honras
tomando por esposa,
ele, rei deuses,
uu .... u . ~ " 1 ' mais sabedora do que os
e os mortais cl).
Ctl Prudência, ou Métis,
90 FILOSOFIA
3. ORFISMO (!)
HINOS
os sentimentos outrora teus
não te afastar da preciosa vida.
o verbo acerca-te dele,
oferece o coração e a inteligência da alma
e, avança para ele, por esse estreito caminho,
pensando que ele é o único rei Universo.
Ele é uno, a si mesmo se gera, e tudo nele se gerou,
move-se pelo para os mortais,
embora ele as coisas criadas.
Dele com a felicidade, as guerras sangrentas
Não há outro como este que não vejo, uma
nuvem o dissimula
Nos olhos dos mortais as pupilas morreram
impotentes verem o todo-poderoso, rei do Universo.
A sua encontra-se no bronze celígeno,
01
Comentando o orfismo, Damáscio (Dos princípios, 123 b) afirma que
a teogonia órfica diz estar a água no princípio, existindo desde sempre, e
que, solidificando, originou a Terra.
O orfismo costuma também entender-se como a junção do culto de
ou xatlápmoç, o purificador, e das crenças da reincamação. Estas
crenças, recordadas em contos sagrados, os lEpol Àoym atribuem-se a
Orfeu, Museu e Epiménides, mas alguns especialistas postulam que desde o
séc VI a. C. existem cânticos órficos registados. Os textos que possuímos
datam, já, do período helenístico e do período romano. Damáscio é a prin-
cipal fome das versões órficas.
(
21
Museu passa por ter sido contemporâneo de Orfeu.
FILOSOFIA
91
a terra,
para os confins do "-'''-'-<UHY.
à sua volta fremem
2. Zeus, mestre do é o
Zeus é a o o pai
Zeus é masculino, sendo também a
sopro inextinguível fogo.
Zeus, estofo dos mares, Zeus-Lua, Zeus-Sol,
Zeus, Senhor, Zeus, princípio criador de
Ele é a energia, o Arcanjo, o
o único corpo real onde o Universo se insere,
o dia, a noite, o fogo, a terra, a água, o éter.
A crença antiga, o amor imensos
Apenas o corpo de Zeus contém as coisas!
A sua cabeça, a sua fronte, são maravilhas
semelhantes ao céu ofuscante, as cintilantes
prendem, ó esplendor, o oiro de seus cabelos!
Dois cornos de toiro brilham em sua dourada fronte,
oriente, ocidente, caminhos
Seus são o Sol e a oposta
u u . a ~ • u c w . ~ ~ espírito.
nada no mundo existe,
palavra, leve ruído, som, ou rumor,
que não seja por Zeus todo-poderoso.
(Eusébio, XHI)
92
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
3. Cantarei a mãe dos homens e dos deuses,
cantarei a Noite.
A Noite é a origem do Universo a que chamamos Cipria.
Acolhe-nos, ó venturosa deusa, ornada de estrelas,
ó penumbroso Sol!
que oferece a harmonia, o repouso e o sono variado!
6 felicidade, ó encantamento, ó rainha da vigília,
ó mãe dos sonhos,
ó consoladora, ó tu, que permites o repouso a toda a miséria,
ó dormente, cavaleira, luz escura, amante universal,
ó inacabada, ó abraço da terra e do céu,
ó esférica, que brincas com as forças tenebrosas,
que tiras a luz dos mortos, aos quais retornas!
Terrível fatalidade, amante de todas as coisas universal,
ó venturosa Noite, ó miríade felicidade, ó ternura universal,
ouvindo a voz suplicante que a ti se dirige,
ó indulgente,
possas tu dissipar os terrores da sombra
e mostrar-nos o teu amável resplendor!
4. Hélio, a quem damos o nome de Dioniso
tu só és Zeus, tu só Oscus, tu só Hélio,
tu só Dioniso, tu só deus entre os deuses.
(Eusébio, ibidem)
Porque havemos de chamar-te por tão diversos nomes?
(Macróbio, Saturnais, I, 18)
4. OS SETE
VJ[_y
(1)
LINDOS
pno
8. Sejamos
9.
lO. 'L.U.!U<CU
Implorar a
14. Pôr fim aos
15. Considera público quem o povo.
16. Evita acarinhar a tua em público; quem a
em público procede mas, quem a acanCJa,
paixões
17. Não castigues os servos
res, serás considerado
estarem
também.
se o
93
01
A designação de «Sete sábios» é simbólica e a primeira lista consta do
Fn>tà<m"n 343 a, de Platão. deles, Tales, Pítaco, Bias e Sólon,
recem em todas as Diógenes Laércio, falando de
informa que este dizia terem sido dezassete, e que cada um destes dezassete
escolheu o seu próprio de sete.
Quanto aos apotegmas cada um, considerar que são recolhi-
dos da tradição, na se teriam certamente alterado relativamente aos
conceitos inicialmente expressos ditos sábios.
121
Mftpov lipw1:ov.
FILOSOFIA
18. Casa com da tua condição; se casares com uma
em vez de sogros
19. as críticas que
só te trará a má
20. Evita a felicidade
2. DE ATENAS
1. Evita o exagero.
2. Evita a crítica para não seres julgado
3. Evita o causa de remorso.
a é melhor do
uma
5. as tuas palavras pelo cir-
cunstâncias.
6. Evita a mentira,
7. Esforça-te
8. Não queiras mais sabiamente do que teus maiores.
9. Não tenhas pressa em amigos e, quando os tive-
res, nunca lhes peças de dHJI!Ld.wc.
1 o. souberes
11. Se exiges a
12. Aconselha o que não o que agradável.
13. Não sejas insolente.
14. Foge dos maliciosos.
15. Ora aos deuses.
16. Respeita os
17. Honra e mãe.
18. Guia-te pela razão.
19. Nunca digas tudo o que
20. Ainda que saibas, silencia.
21. Sê dócil para com os familiares.
22. Conjectura o pelo visível.
95
3.
não seres motivo
de troça.
3.
o que não que te
5. Não julgues um os deuses vingam-se.
6. Paga o que
7. Aceita as pequenas
8. Ama o próximo, mesmo que
9. Não fales mal dum nem bem dum se o
serás insensato.
10. é quem discernir o
mas o
11. A terra é
12. A ambição é
13. Sê honesto.
14. Dá-te ao respeito.
15. Ama a educação, a temperança, a
fidelidade, a experiência, a
outros, a exactidão, os
piedade.
(Ver II, 1, 9).
5. BIAS DE PRlENE
1. A maior
2. Vê-te num
o é pas-
FILOSOFIA
e, uma vez m1-
as tuas afirmações a que
16. A memória ao
rança à força, a
os
à crença.
a menos que tires
17. Corrige a com amizade, sê leal nas sen-
sato no silêncio,
nas enérgico,
nobre na maneira de u"''-'''""'
no juízo, corajoso e viril
no poder, autoritário e
6. QUÍLON DE LACEDEMÓNIA
1. Conhece-te a ti mesmo.
2. Quando beberes, pouco para não cometeres
ções.
3. Não ameaces homens pois não é justo.
4. Não maldigas dos outros, para não ouvires críticas desa-
gradáveis.
5. Se a uma festa de amigos, vai mas se fores
na desgraça, corre.
FILOSOFIA
6. as núpcias sem
7. Espera que um homem morra, antes
tuoso.
8.
9.
97
Vlf-
1 O. que ganhar com no pn-
meiro caso, sentirás aborrecimento uma só vez; no
segundo, senti-lo-ás sempre.
11. Não troces dos
12. Se és fica serás não
13. dos assuntos
14. Põe a razão antes da língua.
15. a
16. Ao caminhar, não te mostres nem levantes a
mão, para não pareceres tolo.
17. Cumpre a lei.
18. Se foste vítima de uma injustiça, reconcilia-te com o
injusto; se sofreste um ultraje, vinga-te.
7. PERIANDRO DE CORINTO
1. O estudo abarca todas as coisas.
2. O repouso é agradáveL
3. A temeridade é perigosa.
4. Um lucro desonesto é uma calúnia contra o espírito.
5. A democracia é preferível à tirania.
6. Os prazeres são mortais, as virtudes imortais.
7. Moderação na abundância, prudência na adversidade.
8. Mais vale morrer na pobreza, que viver na necessidade.
9. Sê pai e mãe.
1 O. Procura o louvor em vida e a felicidade na morte.
11. Feliz, ou infeliz, sê constante os amtgos.
12. Transgride os maus juramentos.
98 FILOSOFIA
13. Guarda os
14. Julga para
15. Rege-te pelas
16. os
17. Oculta os
mumgos.
julgados.
antigas, mas come frescos.
e a reincidência.
motivo de gozo aos
Falera, e D. L, I.)
II
ES
J
I
L TALES DE
BIOGRAFIA
1. No dizer de Heródoto Tales era de Exâmias
e de Cleobulina, parente da família T élides, uma
cia, que descendia directamente de e de
segundo Platão. Foi o a receber o
«sábio>>, no tempo em que, em Atenas, governava o arconte
Damásio. ( ... ) Calímaco ter sido Tales quem
briu a Ursa Menor ( ... ), outros autores que ele escreveu
apenas dois livros, um sobre o solstício, outro sobre o equinó-
cio, dado pensar serem todas as demais coisas incognoscíveis.
(D. L, I, 22)
2. Tendo estudado filosofia no Egipto, ftxou-se depois,
já entrado em anos, em Mileto.
(Aécio, L 3, 1)
3. A tradição regista que Tales foi o primeiro a ensinar a
investigação física aos gregos. Teve diversos precursores,
como diz Teofrasto, mas depressa os ultrapassou, lançando
100
D
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
23)
um unKo princípio
Aristóteles, há quem jul-
e Hípon,
que parece ter ateu, afirmaram que esse princípio era a
As aparências sensíveis conclusão,
os seres vivos carecem de se manterem
o que seca morre, acontecendo, por serem
uma seiva. Por
natureza líquida pelo as coisas
eles admitiam ser a água o prin-
tendo afirmado que a terra repousa
23, 21)
2. Tales e seus discípulos afirmam que o cosmos é uno.
3. Afirmam também que as
pela junção dos elementos, nos
logo que se juntam.
II, 1, 2)
composições se efectuam
ocorrem modificações,
I, 17, 1)
(ll Simplicio confirma a tradição de Tales ter sido um fisico, no sentido
em que se dedicava à investigação da natureza como um todo. Como diria
Aristóteles (Metafisica, A3, 983b6): «muitos dos primeiros filósofos pensa-
vam que os princípios na forma da matéria eram os únicos princípios de
todas as coisas».
('l Plucarco também relaciona a teoria de Tales com a de Homero, por-
que ambos diriam ser a água o elemento original. Aquele autor sugere uma
influência da cosmogonia egípcia nesta corrente do pensamento grego.
FILOSOFIA 101
1,7,11)
5.
Deus a " " ~ " " ' ~ ' ' " ~ " ~
(Cícero, De natura, I, 1 O)
(de afirma que
a relação entre a sua
7. Um rectas paralelas determina, em trans-
versais, segmentos correspondentes proporcionais.
(Proclo, 352)
8. Parece que Tales
cinética.
ser a alma uma substância
(Aristóteles, Da A2, 405)
9. Apotegmas atribuídos a Tales:
1. Quem promete
2. Perto ou longe, importa lembrar os amigos.
3. Evita os adornos exteriores e procura os interiores.
4. Evita enriquecer por vias desonestas.
5. Evita as palavras que possam ferir os
6. Procura dar a felicidade aos autores
7. Evita a desonestidade.
8. Espera receber de teus velho, o mesmo
tratamento que dispensaste a teus pais.
102 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
9. A bondade é difícil de reconhecer.
1 O. A maior alegria vem da posse do objecto amado.
11. A ociosidade é penosa.
12. A gula é um vício.
13. A ignorância é incómoda.
14. Aprende e ensina apenas o bem.
15. Mesmo sendo rico, evita a ociosidade.
16. Guarda segredo da tua felicidade para evitar a inveja.
17. Evita a compaixão alheia.
18. Sê moderado.
19. Não dês excessiva confiança.
20. Se és chefe, começa por saber dominar-te. ,
(Demétrio de Falera, Registo dos Arcontes)
2. ANAXIMANDRO DE MILETO
(Mileto, séc. VI a. C.)
BIOGRAFIA
1. Anaximandro, filho de Praxíades de Mileto, e filósofo,
era parente, discípulo e sucessor de Tales; descobriu o equi-
nócio, o solstício e os quadrantes de horas, e que a terra é um
astro central. Introduziu a noção de «gnomon» <I> e tornou
conhecidas as teorias gerais de geometria, tendo escrito trata-
dos sobre a natureza, o círculo da terra, as estrelas, o globo
celeste e outros temas.
(Suda, s. v.)
DOXOGRAFIA
1. Defendeu que a alma é de natureza etérea.
(Aécio, IV, 3, 2)
C•l Princípio do rdógio de sol.
HLOSOHA PRÉ-SOCRÁTICA
103
2. Entre os
Anaximandro
"'""''"" movente,
uuu'"" é o princípio e a substân-
vez, o con-
ceito arquê, para não a
mentos conhecidos, mas uma natureza
muito diversa, na qual, ou da qual, se teriam
os existentes. Deste
seres que se dissipam em às
dade, pois, como escreveu, de
«OS seres são castigados e
a recíproca injustiça
Ao a recíproca ele-
mentos, Anaximandro pensava que ser
tomado como o motor ou substracto, mas que o
motor imóvel era algo de muito diferente elementos.
Assim, explica o não transformação dos elementos,
mas pela cisão opostos, em eterno movimento. Este o
motivo pelo qual Aristóteles o ombrear com Anaxágoras.
(Simplício, Física, 24, 13)
3. Na verdade, o que existe, ou é um princípio (lJ, ou se
gera em um princípio. Ora, o infinito não tem princípio por-
que, se o tivesse, este seria o seu limite. Além do mais, o infi-
nito é e incorruptível, e a criação tem necessaria-
mente um fim, havendo um fim para a corrupção; por isso,
não existe um princípio das coisas, às parece conter e
como foi postulado pelos que não admitem outra
causa além do infinito, como a inteligência e o amor. Deste
o infinito é Deus, uma vez que se prefigura imortal e
(li Segundo Simplício: â:rtHpov. Teofrasto admite ter sido Anaximandro
o primeiro a usar o conceito de àpx'YJ no sentido de principio e origem,
mas o conceito mais original de Anaximandro é o de 1:0 annpov, na acep-
ção de ilimitado, infinito.
104
e a
6)
que a origem dos seres é o
se dissipa, onde já ter
de mundos gerados e
Anaximandro
o princípio é o que a razão
não conhece nenhuma carência; mas não
infinito é o ar, a
I, 3,
5. e os postuladores
do múltiplo, como Empédodes e
existência do uno e
dizem que os
,-,n,•<t,,< se do uno, no qual se unem.
120)
FRAGMENTOS
1. Tudo se dissipa nisso de onde provém, e todas as coi-
sas se dissipam em virtude do grau de culpabilidade, porque
retribuem umas às outras o e a expiação pelas injusti-
ças, consoante o tempo determina.
2. O ilimitado (apeiron) é eterno.
3. O ilimitado é eterno e indissolúvel.
3. ANAXÍMENES DE MILETO
(Mileto, séc. VII-VI a. C.)
BIOGRAFIA
1. Filho Eurístrato, de Mileto, foi discípulo
de Anaximandro e, a respeitar certa tradição, discípulo de
Parménides ...
FILOSOFIA
ao tempo
à da
105
(D. L, H, 3)
DOXOGRAFIA
1. O ar constitui o
simples.
2. A seu mestre,
de uma única substância infinita,
em vez a deixar achou que
e disse ser o ar. Este elemento difere de umas
e é
outras em virtude da e da vVHU.'-"<JOCyU'V)
subtil, é quando vento, nuvem,
aos
e rocha. seres originam-se nestes. Admite que a ua.uJnn
mabilidade do movimento eterno.
3. O ar é o princípio de
nam, e a nossa alma é
envolve o Universo. Para
«pneuma» são sinónimos (ll.
4. Afirma
interpenetra os
24, 26)
retor-
pneuma que
ele, os conceitos de «ar», e
(Aécio, I, 3, 4)
sep, uma que
I, 7, 13)
01
O conceito de à1'jp é vago e misto, mas Anaxímenes, segundo a tradi-
ção doxográfica, diviniza esse conceito, por o entender como criador e
arquitecto do Universo. Há um único fragmento de Anaxímenes.
106 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
5. O céu é o ma1s da terra.
(Aécio, II, 11. 1)
1. Assim como a alma, que é ar, nos suporta e
ass1m o sopro e o ar o cosmos.
4. DE CLAZÓMENAS
BIOGRAFIA
I. Anaxágoras, Clazómenas, discípulo de
foi o a inteligência e a
matéria. No começo seu escrito num opu-
lento e sugestivo, disse que «as coisas eram no caos e ao
a inteligência as por isso tendo o
nome de inteligência».
2. Todas as artes
(D. L., II, 7)
devem fundamentar-se na
natureza, uma vez que delas
que nelas se encontra,
juntamente com a Foi assim que Pérides procedeu,
juntando dons aos seus naturais, a grande
felicidade haver conhecido Anaxágoras, um homem de
saber que se à investigação natureza, e que estu-
dou a essência do espírito, como a carência deste.
(Platão, 270a)
3. Entre os que escreveram um só livro contam-se
Parménides e Anaxágoras.
(D. L 16)
FILOSOFIA
DOXOGRAFIA
parece ter acelte a tese
que a opinião, corrente entre os
ser criado a partir nada, por isso
uma certa «mistura original>>(!), afirmando que o
uma modificação, e
inclusivamente a
postulava também outro
uns aos outros, mas que são
é necessário que o
ser, ou não-ser. Admitindo a
107
não-ser constituir essa origem, no que os são
concordes, fica-nos a hipótese, segundo a qual a essência das
coisas se gera a de seres pré-existentes, os
rude das suas massas, escapam aos nossos 0'-''a'uv·J.
os que as coisas se encontram sinteti-
zadas em um uma vez que tal é demonstrado pela
As aparências, ou fenómenos, variam e as nomi-
nações também, os infinitos que entram na sua
composição (2). No estado puro não um branco-puro-
-branco, nem preto, nem nem carne, nem osso, sendo
estes uns nomes aos fenómenos, em do aspecto
dominante cada um
(Aristóteles, 187a)
2. Os físicos que a inumerabilidade
tos, como Anaxágoras e Demócrito, um com o conceito de
outro com o ou «reserva
lll Nv cà:n:àv-ca..
12
l A letra: «mas as coisas parecem diferentes umas das outras, e recebem
nomes diferentes, de acordo com a natureza do demento que é numerica-
mente predominante entre os inumeráveis componentes da sua mistura».
108 FILOSOFIA
afirmam
nem como um todo
a existência do infinito, que defi-
por contínua (II.
sustentou que os
por parecer
do não-ser, ou que
não-ser. Se tomarmos um
ou água, esse a
carne, os nervos, os ossos e outros órgãos corpo; em vista
é certo os alimentos ingeridos em coe-
todas essas se desenvolvem a partir
contêm geradoras de sangue, ner-
que só a razão pode
de as submeter aos
e a água constituem formas desses
órgãos.
Em virtude de as nn.rnv·c alimentares serem semelhantes
que as chamou-as de uvu"-Ulll!'-'
como homeoméricas a matéria e a causa
ciente e ordenadora do Universo. Sustentou a junção de
todas as coisas e a sua por da inteli-
gência. A sua teoria parece na medida em que pre-
conizou a interferência de um ser criador.
4. Para Anaxágoras, Deus é a
01
Substâncias homeoméricas:
seminal:
ou
I, 3. 5)
I, 7, 14)
(Aécio, 9, 1)
Reserva
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
109
6. Estudemos agora a homeomeria de Anaxágoras: é o
nome que lhe dão os gregos, que a pobreza do vocabulário
pátrio não permite transpor, mas é fácil aplicá-lo, ao con-
ceito, por outras palavras: primeiro, aquilo a que chamamos
homeomeria das coisas é que, por exemplo, os ossos são cons-
tituídos por pequeníssimos, diminutos, ossos; que as vísceras
se formam de diminutas vísceras; que o sangue surge da jun-
ção de muitas gotas; que o ouro, segundo diz, pode ser cons-
tituído por partículas de ouro; que a terra nasce de terras; que
o fogo nasce de pequenos fogos e a humanidade de humani-
dades; e acha que todas as coisas se formam do mesmo modo.
Todavia, não aceita que haja vazio, nem que haja limite para
a divisibilidade dos corpos. Parece-me que nestes dois pontos
ele erra, pela mesma razão, tanto como os outros de quem
falámos antes.
(Tito Lucrécio Caro, Da natureza, I, 830)
FRAGMENTOS
DA NATUREZA <J>
1. Todas as coisas estavam juntas, infinitas em número e
grandeza, na ilimitada pequenez, porque o infinitamente
pequeno também existia e, enquanto estiveram juntas,
nenhuma podia distinguir-se das outras, em virtude dessa
pequenez. O caos era ocupado pelo ar e pelo éter, ambos ili-
mitados, porque são eles que transcendem todas as coisas em
número e em grandeza.
2. O ar e o éter <
2
> separaram-se da massa que envolve o
cosmos, sendo esta massa infinitamente grande.
(I) A problemática da obra de Anaxágoras é complexa, mas Simplkio atri-
bui-lhe o tratado Da natureza, cujos fragmentos se transcrevem.
'
2
) Átíp ou aLBtíp. Aristóteles (De Coelo, A3), diz que a noção de
Anaxágoras quanto ao éter não foi bem expressa, devendo ter dito fogo em
vez de éter.
110 FILOSOFIA
3. Não há grau de pequenez no pequeno,
embora haja sucessivamente um grau menor; com efeito,
o que é, náo ser, mesmo pela sucessiva divisão.
Esta regra à um grau
sucessivamente maior, quantitativamente à pequenez e
em si mesmo, simultaneamente pequeno e
4. caso, temos de sustentar a existência dos com-
de numerosas espécies,
seres vtvos com
Os homens possuem e campos
e como o
sas; a terra oferece-lhes inumeráveis recursos de
cie, e esses homens levam para casa o que 11'-'-"''0""'"''
às suas vidas.
Nesta havia também uma
de germes, diferemes e profusos: outras nenhuma
é semelhante e, temos de
cia num todo.
5. Uma vez a separação efectuada, o não passou a
ser, nem menor, nem maior, porque o todo existe indepen-
dentemente das partes, permanecendo
6. Havendo pluralidade e
no pequeno, o todo existe em a
existência singular das uma vez que participam do
mesmo todo. Não sendo a existência de um grau
infinitamente
serão jamais,
as coisas não são nem o
como no princípio e, neste caso, a
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA 111
pluralidade e a unidade existem em todas as coisas, ao mesmo
tempo: igualdade na pluralidade das coisas diferentes.
7. Por isso, o mundo das coisas separadas é incognoscí-
vel, já pela razão, já pela experiência.
8. As coisas existentes no mundo uno não se encontram
separadas umas das outras, nem divididas à força; não há
calor a partir do frio, nem frio a partir do calor.
9. Em virtude da energia e do movimento, processam-se
revoluções e separações, porque, como o movimento liberta
energia, não se parece com as coisas existentes no mundo dos
homens, sendo inteiramente diferente dessas coisas.
1 O. Como poderia um não-cabelo gerar um cabelo, e a
não-carne gerar a carne?
11. Há uma porção do todo em todas as coisas, excepto
no Notts (ll, o qual, apesar disso, se encontra em alguns seres.
12. As outras coisas têm parte no todo, mas o Nous é
apeiron, autónomo, jamais se misturando, sendo em si
mesmo e para si mesmo; se assim não fosse, se estivesse junto
a outra coisa, participaria dessa coisa, porquanto se encontra-
ria ligado a ela; porque há uma parte do todo em todas as coi-
sas, como acima ficou dito. Unido, seria impedido de poder
dispor das coisas e do seu próprio poder. O Notts é a mais
leve e a mais pura de todas as coisas, das quais possui inteira
sabedoria, sendo também o mais energético de quanto existe.
Grande ou pequeno, o que tem alma está sujeito ao
Nous, cuja energia se exerce na revolução universal, a que dá
o impulso; esta revolução atingia, ao princípio, uma curta ex-
tensão, mas dilatou-se depois, e há-de continuar a dilatar-se.
O Nous conhece tudo o que é uno, separado, distinto,
o devir das coisas, o modo como foram e são, a revolução que
arrasta os astros, o sol, a lua, o ar e o éter, actualmente separa-
dos uns dos outros. Há uma pluralidade de partes na plura-
lidade das coisas, mas nada se separou integralmente, não
(I) Noüç, oü.
112 FILOSOFIA
coisas distintas umas das outras, o
. .
a s1 mesmo, mawr e menor;
não há coisas inteiramente iguais, e cada uma é
me o ser de que em grau maior ou menor.
13. Quando o Nous pôs as coisas em revolução, operou-
e essa
a cotsas em
movimento acentuou mais o grau de separação.
14. O que é eterno, agora mesmo, onde estão
na massa envolvente, no que está unido a e no
a separação, para a
éter.
16. A terra formou-se de coisas separadas, como a água
se separou das nuvens, a terra da e, da terra, em virtude
do ainda mais do que a água,
o exterior.
cer e morrer>>, porque
falam erradamente quando dizem «nas-
nasce, nada morre, apenas se veri-
que as co1sas se ou se separam, ou,
melhor; todas as coisas tiveram por
etodas
18. O sol empresta o seu
19. O arco-íris é o da luz solar nas nuvens, cons-
um a água, prove-
niente das nuvens, faz levantar o vento e cair a chuva.
21. A fraqueza sentidos torna-nos impotentes para
vermos a verdade.
21-a. O abre os nossos olhos para o invisível (ll.
(ll Variante: «Os fenómenos são a visão instantânea do invisível» (Õ')>LÇ
yap 1:WV ÚÔllAWV -rá
FILOSOFIA 113
21 Somos em e em velocidade aos
outros animais, porque utilizamos
memória e a prática.
apenas a a
22. O que vulgo chama de
5.
DOXOGRAFIA
DE ATENAS
séc. V a. C.)
foi de
e ele quem levou a ciên-
cidade onde era conhecido
morreu com e1n do
Sócrates. Julga-se que também se
ainda especulado sobre o
L, 16)
en1 JOVelll, acon1-
L, 23)
1. Tentou algo de e de pessoal na cos-
mogonia e em outros ramos do
cliente aos de Anaxágoras, como este, sus-
que os princípios são infinitos em número
em espécie, consistindo em u v u " - v " " ~ "
27, 23)
114 FILOSOFIA
2. Disse que o primeiro
e rarefeito <ll.
6.
e o erro sáo
DE ÉFESO
con-
I, 3, 6)
e não
II, 16)
séc. VI-V a. C.)
natural de Éfeso, tinha cerca qua-
nona Era homem
orgulhoso e insolente, como se
a inteligência, pois, se
assim não fosse, teria Hesíodo e Pitágoras,
e Hecateu)). Pensava que havia uma só
sabedoria: a razão, o conhecimento da essência das cmsas ...
... Com o num misantropo, reti-
rou-se do mundo, e para as montanhas, acuu"oul.d.l.'u'r
-se de ervas e arbustos. Tendo contraído a
tude desse regime alimentar, desceu à cidade
os dos quais indagou,
saberiam transformar o
Como ninguém o
aguardou a cura, que o
emgma, se
em tempo seco.
fechou-se num e
libertado
com que se a traria. Não chegou a curar-se, e morreu
aos sessenta anos.
(D. L, IX, 1)
1
'l Condensado, o ar gera o segundo demento, a água, e, sublimado, o
terceiro, o
D
1. Eis um resumo das suas teorias: o
115
trata da natureza,
política e
de o ter
todas as coisas e se convertem em
fugir. O movimento gerou a
se encontra e de '-'C'-Hnft!HV.:>o
Para ele, a crença constitui uma doença sagrada e, a
vista, uma ilusão; no seu livro exprime-se por vezes tão clara e
luminosamente mesmo os espíritos menos isentos o
e o itinerário da sua filosofia,
pensamento é inimitavdmente rico e consciso.
No seu livro, as teorias encontram-se assim expostas: o
é um elemento, e tudo se sua transformação,
seja por sublimação, seja por Não a clari-
ficar este assunto, mas diz que se processa pela
e que tudo flui como um rio, que
um só Universo, criado do fogo, e que ao fogo vol-
tará, depois de cumpridos certos períodos, num ciclo eterno,
. .
porque a ass1m o ex1ge.
Há uma entre os opostos em ordem à ~ u a v • ~ v ,
há uma concórdia que tende à uuun.a.yav.
uu"u'"' superno e inferno, criou o mundo da maneira
seguinte: ao condensar-se, o mas, conden-
sando-se, a tornou-se terra, e este constitui o movt-
mento inferior; no movimento inverso, a terra e
1'
1
Segundo Laércio, o livro obteve ral sucesso, que granjeou discípulos, os
quais ficaram a ser conhecidos por «heraditilllos>> ('Hpa)(ÀHnovç).
116 HLOSOHA
torna-se água, de onde se geram as
que se reduz à evaporação das
um
através
gem de
o movimento
dos seres, a
L., 1)
como
os seres, que retornam ao fogo,
sublimação. O
uma
(Simplkio, 23, 33)
I, 7, 22)
4. Heradito sustentou que o Universo é uno (lJ.
(Aécio, 1, 2)
5. O Universo gera-se em função do pensamento e não
em tempo.
(Aécío, 11, 4)
6. Tudo se passa conforme à fatalidade, idêntica à neces-
sidade.
ln Deus é dia I
todos os opostos.
I, 27, 1)
Inverno I Verão, guerra I paz, saciedade I fome,
Refutatio, IX, 10, 8).
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
117
7. A alma do cosmos <
1
> emanada da humidade, e a alma
dos viventes têm a mesma natureza, sendo proveniente das
emanações do fogo, exterior e interior.
(Aécio, IV, 3, 12)
8. Heraclito sustenta que todas as coisas se encontram
em processo, que nenhuma permanece como parece e, com-
parando-as a um rio, disse ninguém poder descer duas vezes
ao mesmo no.
(Platão, Crátilo, 402a)
FRAGMENTOS
DA NATUREZA <
2
>
1. Os homens nunca puderam entender o «logos», que é
como eu o concebo, nem antes nem depois de o ouvirem,
mas, embora tudo se processe a partir dele, os homens pare-
cem não ter qualquer experiência, nem das palavras, nem dos
factos, conforme às minhas teses, ao examinar a natureza.
Além disso, todos ignoram o que fizeram quando estavam
acordados, tal como esquecem o que fazem durante o sono.
2. Por isso, importa seguir o «logos comum» que, sendo
do domínio geral, a vulgaridade não vê nele mais do que uma
variedade de inteligência particular (3).
3. O sol tem um diâmetro correspondente ao tamanho
do pé de um homem.
4. Se a felicidade consistisse nos prazeres do corpo, tería-
mos de proclamar os bois como felizes no momento em que
encontram umas favas para comer.
<ti KÓO!JOÇ: ordem, disposição, arranjo. Harmonia, para Pitágoras.
<'
1
Desta obra, Burnet indica 130 fragmentos, e Diels 126, mas alguns
são óbvias repetições. Optámos pelo número de Diels.
<
31
Outra versão: «Por isso convém seguir o que, no ente, está junto; mas
enquanto o logos é o essencial ao ente, a multidão vive como se cada qual
tivesse o seu logos.»
118 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
5. Procuram
7. Se os entes
nannas.
8. A bela
mesmo
e não nos banhamos, nas águas
exalam o odor da humidade.
13. alegram-se na lama.
a
Aos noctívagos, aos magos, às ménades e aos mistas,
a quem ameaça o castigo depois da morte, profetiza o fogo,
porque, isso que os homens chamam mistérios ...
14-b. Os mistérios praticados pelos homens são misté-
rios profanos.
15. Se não ote:re<:es1;en1os
do cânticos às cerimónia seria o acto
mais indecente, mas cumpre que é a Dioniso, ao
Hades, que oferecemos a loucura delirante.
16. Quem poderá esconder-se do fogo, que não
17. Não é como julga a maior parte gentes:
ensinada que nunca sabe o que saber.
18. Não há inesperado sem o é
penoso encontrar.
19. A gente, que não sabe, nem ouvir, nem dizer ...
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
119
20. nascem,
rPtPr,,rn viver descansados, as
e ver a morte; ou
entregues ao
da morte.
21. , vemos a morte; vemos
22. pretende encontrar oiro, mexe e remexe a
terra, pouco ou
23. Sem injustiça,
24. Os que morrem
homens e pelos deuses.
25. Os monos
tinos.
encontrando.
a
são venerados pelos
os mais brilhantes des-
26. O homem acende uma candeia, para se de
uma vez morto, também no decurso
quando dorme, os parece morto e, acor-
dado, parece
27. O que espera os homens apôs a morte não é, nem o
serva, mas a
temunhos.
sabe e con-
29. Uma coisa existe que, os perfeitos desejam acima das
outras: a eterna glória do o vulgo farta-se
como bestas(!).
30. Este mundo, o mesmo para todos, não foi
nem homens; é como sempre foi, e
mar, metade do mar é
com moderação se extinguindo
formam o
de vento.
Ol Outra versão: «Antes de tudo, os mais nobres escolhem urna coisa, a
fama, que permanece constante em face do que morre. A multidão está
saciada como o gado.>> Kleos deve entender-se mais como fama- estar sob
a luz, ser considerado, surgir na ribalta- do que como glória.
120 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
A terra liquefaz-se retomando a forma que tinha antes de
devir terra.
31-a. As metamorfoses do fogo são, primeiro, o mar;
metade do mar é a terra, e metade o turbilhão.
32. O uno, a sabedoria, quer e não quer ser invocado
pelo nome de Zeus.
33. A lei continua a ser a de obedecer aos projectos do
uno.
34. Como surdos, os loucos ouvem sem entender, e o
provérbio é-lhes aplicável porque, presentes, é como se esti-
vessem ausentes.
35. Os filósofos devem ser advertidos do valor das coisas.
36. Para as almas
0
>, a morte consiste na' transformação
em água; para a água, na transformação em terra; mas, da
terra, nasce a água e, da água, nasce a alma.
37. Os porcos revolvem-se na lama e as aves sacodem-se
na poeira e nas cinzas.
38. Tales de Mileto foi o primeiro astrónomo.
39. Em Priene viveu Bias, filho de Teutano, cuja fama
ultrapassou a dos outros.
40. A polimatia, ou o aprender muita coisa, não aperfei-
çoa a inteligência; se assim não fosse, a polimatia teria aper-
feiçoado Hesíodo e Pitágoras, Xenófanes e Hecateu.
41. A sabedoria consiste em uma simples coisa: conhecer
o pensamento, que ordena tudo em toda a parte.
42. Homero deveria ser expulso dos jogos, e vergastado,
como fizeram a Atquíloco.
43. Mais vale uma injúria que um incêndio.
44. O povo deve bater-se em defesa da lei, como se bate
em defesa das muralhas.
45. Os limites da alma são ocultos, seja qual for o cami-
nho para eles, tal é formado seu ocultamento.
(I) WuxiJ.
FILOSOFIA 121
46.A
o
(
11
, mas a sua é a
morte.
Entre mil pessoas, um
que as restantes.
49-a. Descemos e não descemos às
somos e não somos.
ma1s
50. Escutar é sinal de sabedoria; não a não às
minhas que é Uno.
51. Não como é possível que o que a si
mesmo se a estar de acordo mesmo:
há um movimento de como os do arco e da lira.
52. O (li é uma criança jogando ao gamão, o reino
de uma
53. A guerra (
31
é a causa e o arquitecto todas as coisas.
De uns deuses, de outros homens, de uns escravos, de
outros cidadãos.
54. A harmonia mais do que a visível.
55. Os objectos da minha preferência são os que posso
ver, ouv1r e '-UC'-'""'''""
56. Quanto ao conhecimento, os homens enganam-se
tanto como Homero, que no entanto, o mais dos
Helenos. As crianças a quem se catam os piolhos enganam-no
com o dito: o que vemos e apanhamos, deixamos; o que não
vemos nem apanhamos, destruímos,
57. O mestre do vulgo é Hesíodo, que julgava ser sábio,
embora fosse de distinguir o dia da noite, dito
que dia e noite são uma e a mesma coisa (
4
1.
0
' Bwç, (vida, arco).
'
21
Xpóvoç.
l
3
) flÓÀE!10Ç.
l<J Teogonia, 124.
122 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
58. O bem e o mal são o mesmo. Os médicos cortam,
queimam, torturam e, fazendo nos doentes um bem que
parece mal, ainda reclamam o pagamento de honorários que
não merecem.
59. O caminho direito e o caminho curvo da espiral são
um o mesmo caminho.
60. O caminho que sobe e o caminho que desce são um
e o mesmo caminho.
61. A água do mar é a mais pura e a mais impura ao
mesmo tempo; potável para os peixes, é impotável e imbebí-
vel para os homens.
62. Imortais, mortais; mortais, imortais; ,a vida é morte
dos primeiros e, a sua vida, é a nossa morte.
63. Do além se levantam, tornando-se vigilantes sentine-
las dos vivos e dos mortos.
64. O raio dirige tudo.
65. O fogo, a fome, a abundância ...
66. Tudo será julgado, e devorado, pelo fogo que há-de
v1r.
67. Deus é a abundância e a fome, o dia e a noite, o
Inverno e o Verão; embora assuma muitas formas, à seme-
lhança do fogo, que, aspergido por aromas, toma o nome dos
perfumes que exala.
67 -a. Tal como a aranha, sossegada no meio da teia,
sente que a mosca lhe rompe a teia, acorrendo açodada, aflita,
assim a alma humana, uma vez o corpo ferido, acode logo,
magoada pela dor do corpo, ao qual se encontra firmemente
unida.
70. Os pensamentos dos homens são como brincadeiras
de crianças.
71. Devemos alertar o homem que se esquecer do seu
caminho.
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
123
72. Estão em desacordo quanto ao logos comum e supe-
rior e, por isso, acham estranhos os acontecimentos quotidia-
nos.
73. É necessário agir e falar, mas não ensonados
0
>.
76. O fogo vive a morte do ar; o ar vive a morte do fogo;
a água vive a morte da terra e a terra vive a morte da água.
77. Para as almas, a humidade significa prazer ou morte;
todos vivemos a morte e todos vivemos da nossa morte.
78. O caminho humano não possui sabedoria que não
seja a do espírito divino.
79. O homem é tão criança em face da verdade, como a
criança frente a um adulto.
80. A guerra é comum, a justiça é discórdia, tudo se cria
e se destrói pela discórdia.
81. Pitágoras é o antecessor dos charlatães.
82. Comparado ao homem, o símio mais belo é feio.
83. Comparado a Deus, o mais sábio dos homens pare-
cerá um símio, pelo saber, pela beleza e por tudo o mais.
84-a. Movendo-se, descansa (o fogo etéreo do corpo
humano).
84-b. A obediência e o serviço aos mesmos amos é fati-
gante.
85. É difícil lutar contra os desejos, exige o resgate da
alma.
86. O divino nega-se em grande parte ao conhecimento
por falta de crença.
87. Um tolo assusta-se com as palavras.
88. O que é em nós, é sempre um, e o mesmo: vida e
morte, vigília e sonho, juventude e velhice, porque a passa-
gem de estado é recíproca.
89. Há um só e o mesmo mundo para os vigilantes de
espírito.
OJ Na ordenação usual, ao Fragmento 73 sucede o Fragmento 76.
124 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
89-a. Repousa-se pela mudança.
90. Todas as coisas se modificam pelo fogo e o fogo
modifica-se por todas as coisas, assim como as mercadorias se
trocam por oiro e o oiro por mercadorias.
91. Não pode descer-se duas vezes ao mesmo rio.
Dispersa e une, avança e retira.
92. A Sibila que, em delírio, faz ouvir palavras enigmáti-
cas, sem ornamentos e sem floreados, faz ecoar seus oráculos
por mil anos, pois recebe a inspiração do deus que há nela.
93. O deus, cujo oráculo se encontra em Delfos, nem
manifesta, nem oculta. Mostra (l).
94. O sol não franqueará os seus limites, caso contrário,
as Irinias, servas da Justiça, saberiam encontrá-Ío,
95. Mais vale dissimular a ignorância, embora seja difí-
cil, no caso de o espírito se entregar ao relaxo e à bebida.
96. Os cadáveres devem ser lançados fora mais do que o
estrume.
97. Os cães ladram aos estranhos.
98. As almas farejam no Hades.
99. Apesar dos astros, se não fosse o sol, seria sempre de
noite.
100. O tempo traz todas as coisas.
101. Procurei-me a mim próprio (2>.
1 O 1-a. Os olhos são testemunhas mais exactas do que os
ouvidos.
102. Aos olhos de Deus, tudo é belo, bondoso e justo,
embora os homens julguem justas certas coisas e injustas,
outras.
103. Na linha da circunferência, os extremos tocam-se <
3
>.
1o Ou seja, «dá um sinal>>; orn.tct.LVEt. Manifestar (ÃeyEw), ocultar
(x6úrrm).
(ll Éôtl;'Y)OÚ!.t'Y)V É!.tEúl1J1:ÓV.
I>J Ou: «Na linha circular o ponto inicial e o ponto final reunidos em si,
são um e o mesmo.»
FILOSOFIA
125
o seu e o seu
confiança nos aedos da rua, tomam por mestre o vulgo, igno-
maioria homens, e que só a minoria
106. que a natureza dos é uma e
a mesma.
107. Os e os são más para o
quando este tem alma de
108. Nunca consegui ouvir ninguém que que a
se encontra fora as coisas.
110. o suce-
uv'"'"-" torna a saúde agradável, o mal o
o a
repouso.
112. o
a fartura e a fadiga leva a
é uma virtude A
ria UJ consiste em dizer coisas verdadeiras e em proceder de
acordo com a natureza, ouvindo a sua voz.
113. O é comum.
114. Quem fala segundo a razão deve apoiar-se no que é
comum, assim como a cidade se apoia na lei, ou numa razão
superior, porque as leis humanas são nutridas por uma única
lei divina, que domina, à medida da sua que a
basta e a tudo vence.
115. O logos, que a si mesmo se pertence ao
espírito.
116. A possibilidade da autognose e da demonstração da
sabedoria foi concedida a todos os homens.
117. O bêbado titubea, e deixa-se guiar por uma criança,
por não para onde vai, e porque a sua alma se encontra
humedecida.
118. Onde a terra seca, a é mais sábia e
perfeita.
(l) Tó 0Q(jl0V.
126 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
119. O carácter é o
O) do
120. Os limites Poente são a Ursa e,
que que os outros e que, se
deveria ir para outro
123. A natureza gosta de se
124. A harmonia mais perfeita é semelhante a um monte
de esterco feito ao acaso.
125. Se não for agitada, até uma beberagem venenosa se
12 5 -a. Possa a fortuna não vos jamais, ó
Efésios, para que vos convençais de como o vosso procedi-
mento infame.
126. O frio torna-se quente, o frio, o húmido
seco e o seco húmido.
7. DIÓGENES DE APOLÓNIA
(Apolónia, séc. V a. C.)
BIOGRAFIA
1. Diógenes de Apolónia foi um fisiológo de grande
nomeada e, segundo informa Antístenes, foi discípulo de
Anaxímenes e contemporâneo de Anaxágoras.
(D. L, IX, 57)
2. O livro que escreveu começa assim: «Antes de iniciar
este tratado, parece-me necessário estabelecer postulados só-
(ll b.a(!!WV.
(lJ Estrela alfa da constelação do Boieiro.
FILOSOFIA
lidos, usando uma linguagem ao mesmo
grave>>.
DOXOGRAFIA
1. que o ar é a
2.0 é
127
e
L., IX, 57)
seres.
(Aécio, I, 3, 26)
(Aécío, 4,
3. As teorias de Diógenes de Apolónia eram estas: existe
o ar, e um caos e insondável. '-'""'"""'J'H'-
a o ar gera os seres. Nada nasce do nada e nada
volta ao nada. A terra é esférica e situa-se no centro do
Universo.
(D. L., IX, 57)
4. As crianças, quando nascem, carecem de mas
logo a tomam quando o ambiente insufla em seus pul-
mões o ar (pneuma) exterior.
FRAGMENTOS
DA NATUREZA
I. Antes de começar este tratado, parece-me necessário
estabelecer postulados sólidos, usando uma linguagem ao
mesmo simples e grave.
2. Em resumo, a minha é a que todos os seres
derivam das transformações em uma única substân-
cia primordial e os seres constituem uma expressão dessa
substância, como facilmente se poderá verificar. Com efeito,
se o que existe, a terra, a água, o ar e o fogo, e todos os fenó-
menos que surgem aos nossos se, digo, essas coisas
128 HLOSOHA
3. Sem a razão, a
os
à qual
primordial
sena em SI-mes-
mos; nem o Inverno, nem o nem a nem o dia,
nem as chuvas, nem os ventos, nem o sereno céu seriam.
Quanto ao resto, se pensar como convém, tudo se
da maneira mais perfeita
4. Existem provas evidentes para as minhas teses: os
homens e os seres animados vivem, aspirando o ar, que é,
para eles, a alma e a inteligência, conforme demonstro cate-
goricamente nesta obra.
a primordial se vê rejeitada, os seres
morrem e a razão evola-se.
5. Penso que a substância primordial que contém a razão
é o elemento chamado ar, que governa e ordena todas as coi-
sas, sendo ainda o ar, na minha opinião, a própria divindade,
por se encontrar em a parte, ordenando as coisas, sobre-
-existindo relativamente a todas, nada existindo, absoluta-
mente nada, que não participe do ar. O grau participação
varia de acordo com os seres, havendo muitos graus, já
quanto à participação do ar, já quanto à participação da
razão.
Com efeito, a diversidade é enorme, já calor, já do
frio, já do seco, já do húmido, já do calmo, já do agitado, e
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA 129
esta diversidade provoca transformações e gradações infinitas,
nos sentidos do gosto e da visão. A alma dos seres vivos é da
mesma substância, o ar, que é muito mais quente do que o ar
ambiente, mas mais frio do que o ar que envolve o sol.
Todavia, em nenhum ser vivo o grau calórico é idêntico,
divergindo de ser para ser. A diferença gradual é pequena,
mas suficiente para que a semelhança seja possível.
No entanto, nenhuma das coisas sujeitas a transformações
pode diferir realmente da outra, uma vez que todas partici-
pam da mesma substância primordial. Como as transforma-
ções do ar são imensas, imensos são, e diversos, os seres vivos,
os quais não têm, nem forma idêntica, nem identidade de
vida, nem de inteligência, em virtude da multiplicidade de
graus que as transformações implicam; todos os seres vivos
existem, sentem e entendem, em virtude da substância pri-
mordial, e todos dependem da razão.
6. O sistema circulatório do corpo humano é como
segue: há duas veias, que atravessam o ventre, junto da espi-
nha dorsal e que se dirigem, uma, para a coxa direita e outra
para a coxa esquerda; sobem, depois, para a cabeça, pelas cla-
vículas, junto ao pescoço. Destas duas veias saem outras, que
se ramificam pelo corpo, partindo, umas, da veia esquerda e,
outras, da veia direita. Junto da espinha dorsal encontram-se
duas veias muito importantes, que se dirigem para o coração;
há ainda duas mais acima, que atravessam o peito, sob as axi-
las, e se prolongam até às mãos através dos braços. Uma
chama-se veia esplénica ou do baço e, a outra, veia hepática,
ou do fígado. Nas extremidades, ambas se ramificam, para o
polegar e para a palma da mão, de onde saem outras veias
ténues para os dedos. Das grandes veias saem outras mais
pequenas, indo para o fígado, para o baço e para os rins.
As veias das coxas fracturam-se nas articulações e expandem-
se na parte superior da coxa; a sua ramificação mais impor-
tante passa pela parte posterior da coxa, sendo exteriormente
130 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
visível, por ter um diâmetro considerável. Outra veia, de
menor diâmetro, passa por dentro da coxa e, ultrapassando o
joelho, desce pela perna até à planta dos pés, terminando nos
dedos, tal como se verifica com as veias da parte superior do
corpo, que terminam nas mãos. Das veias primárias partem
veias secundárias, que se expandem no ventre e no dorso; as
que se dirigem para a cabeça, e que passam no pescoço,
podem ver-se distintamente. De cada uma delas partem veias
que se ramificam pela cabeça, do lado esquerdo para o direito
e vice-versa. A extremidade das veias da cabeça fica nas ore-
lhas. Na zona do pescoço, junto à veia grande, encontra-se
uma veia menor, na qual se juntam outras veias provenientes
da cabeça e que descem, pelo pescoço, até ao interior do
corpo e, de cada uma saem, sob a omoplata, ramificações que
se estendem até às mãos. Junto das veias esplénica e hepática,
distinguimos outras de menor relevo, nas quais se praticam as
incisões de sangria, quando uma moléstia se abriga sob a pele;
se a doença se localizar no ventre, as veias utilizadas para a
sangria são a esplénica e a hepática. Há mais veias, que nas-
cem nas duas anteriores, sob as mamas, havendo outras de
menor tamanho, que saem aos lados da espinal medula e que
terminam nos testículos. Algumas veias correm sob a pele,
outras no interior da carne, até aos rins, terminando nos testí-
culos dos machos e na vagina das fêmeas. As veias do abdó-
men são grandes, mas tornam-se pequenas à medida que se
ramificam; estas veias são as seminais, onde o sangue é mais
denso e onde, absorvido pela carne, acaba por sair para os
órgãos atrás mencionados, tornando-se subtil, quente e espu-
moso.
7. A substância primordial existe em si e para si, é um
corpo eterno e imortal, embora tudo o mais feneça e morra.
8. Em minha opinião, a substância primordial é imensa,
omnipotente, eterna, imortal e sapiente.
III
séc. VII-VI a.
GRAFIA
1. Segundo no seu
" ' " ' " ~ ' " ' ' - 0 era filho de Babis, natural de e foi discípulo de
Pítaco.
L., I, 116)
2. Na ilha de Siro ainda se conserva um quadrante solar,
ter por Ferécides (ll. No livro
obra <<Santuários)), lê-se que o seu rezava
o seguinte: <<Toda a sabedoria se resume em mim, quem dese-
jar venerar-me I deve venerar primeiro a Pitágoras, o
meiro dos Gregos I Dizendo digo a
(D. L, I, 119)
(l) São diversas as invenções atribuídas a Ferécides e, muitas delas, apare-
cem também atribuídas a Pitágoras.
Quanto ao epitáfio, importa salientar que Ferécides era mais velho do
que Pitágoras, tendo sido mestre deste. Se o epitáfio existiu, como refere o
amor da obra «Santuários>>, ele foi, sem dúvida, redigido por pitagóricos,
ambiciosos de venerar Pitágoras, que teriam por superior a Feréddes.
132 FILOSOFIA
DOXOGRAFIA
1. O livro escrito por se conserva e
começa: (1), e Ctónia são imortais I
tomou nome da Zeus enviou uma o f e ~
I, 116)
2. que
mente com Cronos e
Cronos
124b)
f
sec. a.
BIOGRAFIA
que os atenienses conquistaram.
(D. VIU, 1)
2. Começou por ser de Ferécides de
a morte do qual veio para Samos, onde se tornou -.u''"""'u''v
Hermodamas, Creófilo, que era já
Jovem e emigrou e mKwu-se em os misté-
gregos e bárbaros. Tendo obtido uma de
(ll No original,
forma etimológica de ZEÚÇ.
FILOSOFIA
aristocracia.
DOXOGRAFIA
havendo
133
ensl-
que se tornaram
5)
quem pnme1-
em níveis,
uL'"''"-'""'U0' ou Matemá-
""'"L'' ~ . , tinham
3. O número 1 O constitui o número autêntico,
gregos e bárbaros contam até 1 O e, logo que chegam a este
numeral, voltam ao 1. defende que a do 1 O
depende do 4, ou da seguinte: se tomarmos o 1
111
Iniciados: OL
FILOSOFIA
e os números entre 1 e 4
se um número superior a 4,
número maior que 1 O, ou tomamos o 1,
mais 2, mais 3 e mais 4, obteremos 1 O. Por
da unidade, este número, se encontre no encon-
os pitagóri-
que nos deu a
rra-se no 4. Esta a razão
FRA
os ensinamentos
de sangue, procura criar
01
A Tétrade (I + 2 + 3 + 4 = lO):
eterna>>(!).
I, 3, 8)
O VERSO DE OIRO (l)
deuses conforme o grau
a palavra,
que, se assim procederes, terás
lei. Honra pai e mãe e parentes
entre os estranhos, esco-
(II As regras de oiro atribuídas a Pitágoras são, ao que parece, apócrifas.
Versões díspares correm nos tratados eruditos e a que escolhemos para este
estudo afigura-se se não de um espíriro cristão, pelo menos de
certo estoicismo. oferece também esta versão, muito curiosa:
L Abstinência de favas; 2. Não apanhar o que está caído; 3. Não tocar
num galo branco; 4. Não cortar o pão; 5. Não passar por uma travessa de
madeira; 6. Não atiçar o lume com um ferro; 7. Não comer o inteiro;
8. Não denegrir um prémio; 9. Não assentar à beira do banco; 10. Não
comer o coração; 11. Não passear nos caminhos; 12. Não permitir andori-
nhas no telhado; 13. Não deixar o rasto da panela na cinza, a qual deve
remexer-se, uma vez tirado o pote; 14. Não olhar para um espelho, ao lado
da luz; 15. Ao sair da cama, mexer a enxerga para tirar a cova.
Torna-se curioso notar que estas normas, pitagóricas ou não, se introdu-
ziram na magia popular. Pensemos na tradição da fava e do bolo-rei, sím-
bolos do saber e do oriente.
FILOSOFIA
135
sem
o outro. Em vista
os mortais por divina, aprende a supor-
dor, mas procura minorizá-la na medida
que os que oprimem os homens
não são tantos como à primeira vista
De boas ou de más palavras, a
dos outros, não deixes arrastar-te por ela, mas não
tapes os se tiveres de
gar uma falsidade, mantém a mas procura
as circunstâncias, o seguinte: que, nunca, ninguém,
actos, te induza a contraria-
tua maneira de ser. antes de fazer,
evita fúteis. Um tolo fala e age sem Enfim, se
não houver motivo de procede na inversa.
Não actues sem de causa, atenta na
maneira de o melhor, eis a regra uma feliz.
Procura ser come, bebe, pratica os exercícios físicos,
em conta, peso e medida.
Por conta, peso e isto é, que não seja causa de
outros Pratica uma sã, foge da modorra, da
das despesas supérfluas, mas não evites a
porque a moderação é uma excelente virtude. Evita os maus
juízos, reflecte antes de actuar, nunca permitas que o sono se
FILOSOFIA
exame de
e os que as
natureza, em
derás tempo à
nada te sendo Pn.rAII"1>Pt·r,-,
também os vítimas das Conhecerás
com que se os que são incapazes de
se encontram às suas mãos, não
os bens que
desviar-se da
infelicidade. O a alma
as bolas, que acolá, expostas a uuuucvJ
sofrimentos na a discórdia, essa
companheira, na vil tristeza, da se aper-
cebem, embora a por ter com ser
evitada, não fazendo concessões às suas exigências.
Zeus, pai Universo, males tirarias
ombros se mostrasses aos mortais qual a de
demónios aos eles o o e w ~ c e m :
Confia, que os mortais são de linhagem
a natureza sagrada mostra-lhes e os
Se souberes cumprir, mostrarás ter
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
137
mentos, através dos quais poderás encontrar a felicidade e a
liberdade do espírito. Evita as ambições atrás referidas e, seja
nas purificações (!>, seja na libertação final, em que o espírito
se solta do corpo, usa a razão, reflecte nas coisas, eleva o pen-
samento, o melhor dos guias, para o alto! Se negligenciares o
corpo para ascender às alturas amplas da eternidade, serás
como um deus imortal, incorruptível, terás fugido à lei da
morte! (2>.
3. EMPÉDOCLES DE AGRIGENTO
(Agrigento, séc. V a. C.)
BIOGRAFIA
1. Filho de Metão, neto de Empédocles, natural de
Agrigento. De acordo com Aristóteles e Heráclides, morreu
aos sessenta anos.
(Simplício, Fisíca, 25, 19)
2. Nasceu pouco depois de Anaxágoras, e foi admirador
e condiscípulo de Parménides e, sobretudo, dos pitagóricos.
(Simplício, Fisíca, 25, 19)
DOXOGRAFIA
1. A necessidade é a causa que impele os princípios e os
elementos ao movimento (3).
(Aécio, I, 26, 1)
(I) Purificação ou catarse: xáBapmç.
C2) O professor de língua grega e humanista, Luís António de Azevedo
publicou uma edição bilingue (com o texto grego e a tradução portuguesa)
dos «Versos de OinJ». (Lisboa, 1795 ), abundantemente anotada. A edição
mais recente é a do poeta José Blanc de Portugal, (Lisboa, 1988).
C3J Princípios e elementos, ápxfuv e otOLXEi:ov.
138 FILOSOFIA
se
divina das
na existência de
e a terra, e nas energias
(l) uma que une, outra que cinde.
ao ar à terra Adónis, en-
Nestia e a Fonte Viva significam o sémen e a água.
L 3,
5. Os elementos não existem em lugares determinados,
nem constantes, uma vez que se encontram em e
transmutação.
7, 6)
01
For mas: E ' ~ ô f ! .
(ll Amor e Repulsa
FILOSOFIA
139
é somente uma
resto consiste na matéria inerte.
mente, sem contacto com os poros, outros
entrar.
FRAGMENTOS
I, 5,
4, 8)
conseguem
DA NATUREZA(!)
humanos, imensos
humanos pensamentos. Os homens assistem a uma Hh•<F,UH
das suas e, condenados a existência,
como o fumo: cada homem crê
constantemente,
III As obras «Da natureza» IlEpL
compreendem, em, cerca
FILOSOFIA
são os
o custo;
nossa musa, e que o teu ~ - - " u ~ < " " " '
sempre as necessárias
4. A desconfiança é
nos lábios da musa se
vra ter ~ - ' " ' ' ~ " ' ' u v
5. e conserva os ensinamentos no recôndito
Zeus
menta a fonte das lágrimas
7. Elementos eternos.
8. Direi mais: nenhuma coisa
para a funesta morte; há somente a síntese e a
tua
"-"''""'"''-' é um nome atribuí-
mortais.
(IJ Ver
deAécio"
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
141
9. Quando os elementos assomam à luz solar sob a
forma humana, ou sob a forma do animal selvagem, da
planta, ou da ave, dizemos ter havido geração; quando os ele-
mentos se separam, pronunciamos a dolorosa palavra morte,
palavra que não tem justificação, embora a respeite por per-
tencer à sabedoria do senso comum ...
1 O .... e fale da morte dolorosa.
11. Apenas os insensatos, por estreiteza da razão, julgam
que o inexistente devém existente, e que perece e que morre.
12. Nenhuma coisa pode gerar-se do inexistente, e
nunca foi testemunhado, nem ouvido afirmar, que o que é
morre, uma vez que o que é será sempre, em qualquer parte
onde o situemos.
13. O vazio e o supérfluo não existem no todo.
14. O vazio não existe no todo; de onde poderia vir algo
que o tornasse maior que o todo?
15. Um sábio nunca pensará dessa forma, nunca julgará
que, enquanto os mortais vivem o que chamam a vida, exis-
tam, expostos ao acaso do bem e do mal, e que, antes de nas-
cerem, ou uma vez mortos, não existem mais.
16. Assim como o Amor e a Repulsa já existiam antes,
assim existirão para sempre e nunca, julgo, deixarão de existir
no tempo infinito.
17. Duplo será o meu discurso: assim como o uno cresce
fundado no múltiplo cll, assim o múltiplo se produz pela divi-
são do uno. Neste caso, duplo é o nascimento das coisas pere-
cíveis, dupla é a morte, porque em todas as circunstâncias a
união gera e mata, e em todas as coisas a divisão cresce e
mata, sendo infinita esta perpétua evolução. É o Amor que
une todas as coisas no uno e, ao invés, é a Repulsa que separa
e produz. Enquanto o uno se gera naturalmente do múltiplo,
e enquanto o múltiplo se constitui, as coisas nascem mas não
vivem eternamente. A evolução é infinita, as coisas prevale-
''>Uno tí e Múltiplo IlÀÉov.
142 FILOSOFIA
uno aumentou,
pela
Imensamente
o
tes se cumprem e, por
e por Afrodite e, o Amor se mova em-
algum dele.
os são iguais e mas cada
um tem uma função, uma natureza específica e, de
para rotação, é um que no decurso
culo. Nada se gera, nada morre fora porque, se existis-
sem em contínuo não existiriam agora. Que po-
rornar o todo vlf
aumento?
Como perecer, uma vez não existir o
vazio? Os são como sempre foram, correm uns
atrás dos outros, a todo o momento se sem se alte-
rarem.
18. O amor.
19. O Amor que une ...
20. Esse combate das
nia dos
energias revelou-se na
que o Amor tão lesto
como as terríveis dis-
uma para seu lado, nos confins
nas.
FILOSOFIA
e morte, como acontece às árvores e aos
em suas asas!
o que é, e
as árvores crescem,
a terra, o céu e o oceano
que no mundo caduco;
da homeomeria e do Amor é
amma1s
água, deuses de
Mas não permitas que
gem para as co1sas que e
FILOSOFIA
até que o uno,
o uno se gera no
assim dura eterna-
na medida em que a
27. Não vemos, nem a brilhante face
nem o oceano, de tal
é
nem nem
igual em toda a sua extensão.
nem
30. Mas a Repulsa se levanta na e cresce, e se
lança, de cumprido o tempo que ao
regresso do Amor e da em da íntima aliança
que une um à outra.
31. Os divinos uns a se-
guir aos outros.
FILOSOFIA
145
seres mortais,
lo deslumbrante, digno
E, enquanto as coisas se a Repulsa dei-
xava-se relegar para os extremos
37. A terra uniu-se a si mesma, o éter uniu-se ao éter.
38. Direi agora qual a primeira
se gerou o que vemos, a terra, o oceano, o ar
e o éter, o que detém o Universo em seus bra-
ços.
Se as
eram as
saídas da
mais do que uma
da terra eram infinitas,
a darmos às
mcapazes
146 FILOSOFIA
céu (!J.
é
47. A Lua olha de
Ao
noite.
O ar é sombra da noite
50. É do mar que Íris nos traz o vento e as úbe-
res.
51. O brota e eleva-se de súbito.
52. Muitas a luz
diversas.
um rosto.
58. Os isolados, erravam, sem eira nem beira.
e aparente dos fenómenos cosmológicos. Também
os abundarão em elementos de física, de astronomia,
de outros saberes, oferecidos segundo as do
tempo.
FILOSOFIA
e muitas mãos.
de dupla face,
de toiro e
mem-
do Amor que,
no interior
nascem o sémen cai no frio,
quando cai no quente.
66 .... Nos recessos , c ; , , u , , u . . . _ , ~
Na mais do corpo
e, os homens são morenos,
'"''"'u"' ao décimo dia do oitavo mês.
assumem a
sétimo, ou ao décimo meses.
água,
formas
A
nos coitos
ou ao
e as
148 FILOSOFIA
72, Como nascem as árvores
mar,,
terra, que na eDHlt:rnne,
77, As árvores conservam as
tos, cresceram,,
80,As
em
e os
os fru-
cascos,
82, A natureza dos cabelos, das folhas e das asas é a
mesma, tal como as escamas, que nasce1n os mem-
85, A chama recebe uma certa porção de terra,
FILOSOFllA
86. Foi os mcan-
muito
uma só vista.
as coisas existentes a
o amargo, o
se une ao
no
a e o que
98 ... .lançou âncora nos convidativos
em harmonia de e de
sangue e os
99. A orelha parece um sino ... ramo carnoso.
100. Eis como
em numerosos e
(1)
1
'
1
Ou cochonilha, insecto de que se extrai uma substância com que se
fabricam tintas vermelhas.
iJI Hefestos, deus ou dos vulcões.
150 FILOSOFIA
o ar,
o líquido. O ar em con-
escoa-se. O mesmo se passa com o sangue
ao refluir, no
precipita-se na sua e,
aflui de novo, o ar é expirado.
101. Os cães farejam, com o o rasto dos animais
na ainda tenra.
o ser vivo recebeu uma de respiração e
de
103. Todos os seres são de por von-
Fortuna.
104. Assim como o mais leve se encontra em queda ...
A nutre-se nas vagas de sangue ebulien-
te, dela o que chamamos de
dado que o sangue, afluente em torno
humano
dos elementos, as coisas se consti-
tuíram em harmonia e, pela harmonia, ~ - ' " ' ' ~ " u " > " gozamos e
sofremos.
108. Na em que uns homens são diferentes
difere de uns para os outros.
pelo éter, o
nura, a ternura e, pelo
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
151
1 09-a. Emanações no olho ( ... ) como se fossem imagens.
11 O. Se pelo pensamento aprenderes estes ensinamentos,
e se os meditares com atenção, respondendo à solicitude do
teu espírito, eles manter-se-ão contigo para sempre, junta-
mente com outros que possas adquirir, porque a instrução
aumenta nos homens o desejo da sabedoria, consoante a
natureza de cada homem; em contrapartida, se cederes às soli-
citações exteriores, inumeráveis e perturbadoras do pensa-
mento, serás, um dia, abandonado por elas, porque cada coisa
se une à sua semelhante. Fica sabendo que tudo participa da
prudência e possui um grau de inteligência.
111. Um dia virá em que aprenderás quais os remédios
contra as moléstias e a velhice e a ti, só a ti, farei estas revela-
ções. Aprenderás a travar o ímpeto dos ventos que devastam
os campos, elevando-se em remoinhos; conduzirás o sopro
reparador e, após a chuva sombria, restabelecerás a seca que
os homens precisam; e, a seguir à estival secura, produzirás as
chuvas que vão alimentar as plantas. Enfim, retirarás do
Hades a alma do homem morto.
PURIFICAÇÚES <t)
112. 6 amigos, que habitais na acrópole da dourada
cidade de Agrigento, amadores de nobres tarefas, amigos hos-
pitaleiros, respeitadores das vossas pessoas, a quem nenhum
defeito mancha, salvé! Vim até vós como deus imortal, não
como simples mortal, cumulado de louvores e, como é justo,
caminho entre vós de cabeça engrinaldada de laços e coroas
de flores! Tão depressa entro em vossos floridos palácios,
neste cortejo de homens e de mulheres, logo me venerais!
Sou seguido pelas multidões, que me interrogam sobre o
caminho a seguir para alcançar a fortuna, alguns pretendem
que lhes adivinhe o futuro e outros, acabrunhados por males
OJ Este livro, que constitui uma teoria da queda, ou da cisão, é formal-
mente inspirado pelas odes pindáricas.
152 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
mil, vítimas de muito sofrimento, desejam ouvir palavras de
conforto!
113. Para que hei-de deter-me perante estes factos, como
se pudesse fazer algo de milagroso, lançando-o sobre os
homens, vítimas de enormes dificuldades?
114. Amigos meus, sei muito bem qual o motivo porque
a verdade se encontra nas palavras que vou pronunciar, mas o
«élan» da crença, que arrebata as almas, é difícil para os mor-
tais e por eles desprezado!
115. Há um oráculo da Necessidade (I>, antigo decreto de
eternas divindades, selado por sólidos juramentos. Se uma
alma tiver conspurcado seu corpo em momento de fraqueza,
ou se tiver obedecido à discórdia, terá perjurado na impie-
dade, ante um espírito que recebeu uma longa vida por
herança, e errará, três vezes dez mil estações, longe dos justos
assumindo, nas várias incarnações, todas as formas mortais,
compelida a percorrer os difíceis caminhos da vida. Por isso, a
força do éter há-de lançá-la no oceano, o mar esmagá-la-á
contra a terra, e a terra a repelirá para as chamas do sol calci-
nante que, por sua vez, a rejeitará para os etéreos turbilhões.
Recebida por cada um destes elementos e por todos repelida,
eis que eu próprio sou uma dessas almas que, tendo fugido
aos deuses, anda aqui vagueando, rendida à furiosa discórdia.
116. A harmonia detesta a intolerável fatalidade.
117. Fui rapaz, depois rapariga, árvores e ave, petxe
mudo do mar.
118. Diante desta morada verti lágrimas e solucei.
119. Longe de todas as honras, da ilimitada felicidade,
encontrei-me fora da casa de Zeus, voltando ao mundo dos
mortais.
120. Chegámos sob esta caverna ...
121. ... a região sem alegria, onde a carnalidade e o res-
sentimento e muitos ouros fados, acabrunhantes moléstias,
<•> , AváYXl'J·
126. A natureza os corpos
com esse estranho de carne.
sam a nos montes ou em
gem, entre os bosques.
128. Na áurea, os homens não
e os
navam tirar a vida a um ser e
nobres.
129. Entre eles vivia um u ~ ~ u · - · u
de notáveis
os
mas que costumam
seres humanos.
questões, justamente as mes-
a ou a vinte de
154
ó
ses!
FILOSOFIA
crença.
134. Deus é
nem tem
nem de
uma inefável energia, cujo pensa-
o Universo.
135. A lei que a parte se
o vasto éter e a
acabareis com essa dolorosa carnalidade?
Não vedes que vos decapitais?
137. O a seu se modificou,
acompanhando o com uma prece, ó
Os apressam-se a ajudá-lo durante o
holocausto da implorante vítima; e o criminoso,
súplicas, seu filho, e prepara
seus paços; assim como o filho o pai, os filhos e a mãe
arrancam a vida e devora a sua carne.
138. Suprimindo-lhes a existência a
Ah, porque não desapareci para sempre num dia de
antes de meus chegarem a o cnmmoso
acto da amamentação.
140. Foge das folhas de consagradas aos receios!
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
155
141. Infeliz, desgraçado, que tuas mãos não toquem nas
favas <1).
142. O que não puder deleitar-se, nem nos palácios de
Zeus, portador da égide, nem nas tenebrosas moradas de
Hécates!
143. Bebendo em cinco fontes com o indómito bronze ...
144 .... necessária se torna a libertação dos pecados.
145. Porque vos deixastes apanhar na rede de vossos
defeitos, jamais o vosso coração se libertará de plangentes
sacrifícios!
146. Enfim, tornam-se adivinhos, rápsodos, médicos e
políticos; vivem na terra e distinguem-se nas fileiras dos deu-
ses, cumulados de louvores!
147. Vivem sob o mesmo tecto, sentam-se à mesa dos
mortais, não são tocados pelos sofrimentos humanos, nem
atormentados, nem vencidos.
148. O corpo é a forma terrena dos humanos.
149. O ar é o elemento que junta as nuvens.
150. O fígado é pletórico de sangue.
151. Afrodite dá a vida.
152. A tarde, velhice do dia ...
153. A terra-mãe é o ventre.
154. Os véus do embrião formam-se em sete vezes sete
dias.
4. ALCMÉON DE CROTONA
(Crotona, séc. VI-V a. C.)
BIOGRAFIA
1. Alcméon de Crotona era jovem, sendo Pitágoras já
um velhote.
(Aristóteles, Metafisica, A5, 986)
<'>Anote-se o assento pitagórico deste fragmento e do anterior.
FILOSOFIA
L.,
DOXOGRAFJA
se move,
movimento
(Teofrasto, Do
2. Escreveu as
L, vm, 83)
3.
mentos
que a fonte da saúde é a harmonia
húmido e do seco, frio
ele-
do
lll Esta distinção não faz o vulgo, que diz o verbo teria
de usar o verbo entender. Para perceber, basta e para entender é
necessária a razão. Na maior pane dos casos, quando, em conversa, dize-
mos não perceber, queremos na verdade dizer que não entendemos.
lii Conceito de isonomia, proporção das no binário de 1:1.
O conceito difere do pitagórico conceito de man«HH<d.
FILOSOFIA
157
1)
que se encontra
coisas divinas, sejam o a
Da 45)
FRA
l. Das
aos homens,
2. Os morrem porque não
ao fim.
2-a. O homem
de
5. É mais
um
dos outros anmu1s
enquanto os animais só
do que
HLOSOHA
5. FILOLAU DE
séc. V a. C.)
DOXOGRAFIA
libertação
que se encontrava sob
(D. L, 84)
e Filolau
(D. IX, 38)
Filolau Crotona sustenta que os corpos são quentes
por não participarem do conforme demonstra pelos
seguintes argumentos: o esperma é quente, e dele se geram os
seres vivos; quente, o lugar onde se deposita, o é tam-
bém ora, as coisas com as mesmas características têm
os mesmos atributos e, por isso, nem o elemento gerador,
nem o lugar de geração, participam frio, onde o ser
gerado ter a mesma natureza. do ser vivo,
1
'
1
Existe uma tradução comentada, do Timeu em vu'""'l'.'uc;, da autoria
de Manuel Maia Pimo (Porto, s. d.).
159
8)
FRAGMENTOS (n)
no cosmos com
e
2. Todas as coisas são limitadas ou ""l""u'""""'
não ser, porque não são só
mentos limitados ou na natureza se ordena-
ram os e ilimitados, se
deduz sua Assim, as coisas reais, .... v u u J v ~
de elementos são limitadas, e as
mentos ilimitados, são ilimitadas, enquanto as rn.nnnr.cr'l
ambas as categorias são, ao mesmo
das.
3. O conhecimento das coisas seria se tudo
o que conhecemos tem um
conhecer sem uma gnoseológica para esse
número.
'''Os fragmentos atribuldos a Filolau são cerca de vime, mas a sua auten-
ticidade não se encontra 1'.a,.am.Ma.
160 FILOSOFIA
Em
cos, nem
u1,,auuv quanto ao que não é, nem
ild.!UJIV!lll"-, contida no Uni-
verso.
A escala 1 compreende a
:3), a quinta maior do que a
num tom :9), havendo, entre a «hypate» (mi) e a
«mese)) uma quarta. Desta à «nete» (mi), há uma quinta e
à <<trite» há uma e desta à há uma
quinta. Entre «trite» e <<mese)) um tom, e a está na
relação 3:4, a de 2:3 e a oitava de 1:2,
sendo a oitava composta cinco tons e dois semitons, a
de três tons e um semitom, e a quarta de tons e
um semitom.
7. A primeira
esfera é o fogo.
8. O um é o
que se encontra no centro
9. Da natureza e não pelas leis.
lO. A consiste na unidade da composição e na
euritmia discordâncias.
FILOSOFIA 161
COISaS não
nem em si mesmas, nem relati-
vamente umas às outras.
O número torna uma vez
na ao mesmo
tempo que as relaciona umas com as outras, através do
de corpos e distinguindo as
limitadas ou ilimitadas
em todas as coisas, divinas ou em toda a
sejam seja arte, música.
A falsidade não se encontra na natureza do número e har-
porque a falsidade é estranha. Inveja e falsidade
são atributos do do insensato e do as
não podem abrigar-se no número, uma vez que são hos-
tis à natureza, que só pede a verdade, que é à natu-
reza numérica.
12. Os elementos da esfera cósmica são cinco: os quatro
da esfera, fogo, água, terra e ar, e o quinto, que é a envolvên-
cia da
13. Os seres racionais têm vértices: o o
coração, o e os órgãos sexuais. O cérebro é o vértice
da o coração é o vértice alma, o umbigo é o vértice
da radicação genesíaca e os sexuais são o vértice
inseminação e da geração. O homem caracteriza-se pre-
'"''-''U<u,,v do cérebro, os animais pelo do as plantas
162 FILOSOFIA
enquanto o dos órgãos
encontra
alma.
16. De não
nem certos actos,
existem pensamentos que são muito mais
EURITO DE
séc. V a.
DOXOGRAFIA (l)
1. Não foi ainda determinado o motivo
predomina
os
números são as causas das substâncias e seres, e se o são,
ou não, 1) como limites, uma vez que os pontos são grande-
zas espac1a1s, Eurito afirmado que cada coisa tinha um
número (o o cavalo), imitando a figura dos seres
v1vos com procedendo como se faz para desenhar um
ou um quadrado e, 2) por que motivo a ordem é
uma escala numeral.
(Aristóteles, Metafisica, N 5)
2. Em virtude da tese que permite definir o homem pelo
número 250 e o das plantas pelo 360, Eurito tomou 250 sei-
xos, uns verdes, outros outros rubros, e outros de
muitas outras cores, untou a parede com cal branda, traçou o
esboço de uma figura de uma planta, e colocou os
seixos nas diversas partes da (cabeça, mãos e outras par-
01
As noticias biográficas acerca de Eurito são de tal forma escassas, e a
sua personalidade aparece tão ligada à de Fi!olau, que omitimos, no seu
caso, a rubrica «biografia>>.
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
163
tes do corpo) e, uma vez os seixos dispostos, dizia representa-
rem o número pelo qual definia o homem.
(Alexandre, Metafisica, 827, 9)
3. Alguns julgam que os limites do corpo (superfície,
linha, ponto e unidade) são substâncias superiores às do
corpo e às do sólido.
(Aristóteles, Metafisica, Z 2)
4. Alguns têm dúvidas sobre o círculo e o triângulo, pen-
sando que a definição destes, como linhas e espaços, é incor-
recta, dizendo que as linhas e os espaços estão para o círculo e
o triângulo como a carne e os ossos para o homem, o bronze
e a pedra para a estátua, e reduzem todas as coisas a números,
dizendo que a forma da linha é a forma correspondente ao
número 2.
(Aristóteles, Metafisica, Z 11)
ARQUITAS DE TERENTO
(Terento, séc. V. a. C.)
BIOGRAFIA
1. ( ... ) Filho de Mneságoro, foi também um pitagórico.
Foi ele que libertou Platão das mãos de Dionísio, que lhe
fazia perigar a vida, mediante uma carta que lhe dirigiu.
O seu carácter bondoso era motivo de admiração de todas as
pessoas e, com efeito, foi sete vezes estratega da cidade, en-
quanto outros cidadãos o não podiam ser mais do que um
ano, conforme preceituado na lei.
(0. L., VIII)
FRAGMENTOS
1. Parece-me que os matemáticos conseguiram excelen-
tes resultados na ciência, não sendo nenhuma surpresa a
164 FILOSOFIA
seres.
tocarem.
nossos ou
em virtude da distância a
e, outros, em virtude da alta fre-
uma vez que os sons muito fortes não
tal como nada se consegue entornar para
queremos entornar muita
conseguem os sentidos, parecem-nos
agudos, se nos chegarem com rapidez e e graves, se
nos chegarem com lentidão e moleza.
Se pegarmos numa vara e a com lentidão e
ligeiramente, produziremos um som grave, mas se a abanar-
fortemente, conseguiremos um som
outros exemplos podemos distinguir os sons e
,,ualltv.> ou cantamos, obter um som
consegui-lo com uma respiração
mas, se quisermos obter um som grave, ou uma cv.ua.uuca.uc-..
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA 165
silente, teremos de respirar fracamente. Um outro exemplo é
dado pelos projécteis: se os atirarmos com força, vão até
longe mas, se os atirarmos sem força, caem perto, porque os
primeiros cortam melhor o ar e, os segundos ao contrário.
O mesmo se dirá dos tons: um tom produzido por respiração
forte será forte e, produzido por respiração fraca, soará de
modo fraco e grave. Outro exemplo persuasivo é o de um
homem se poder fazer ouvir a grande distância, em voz alta, e
a curta distância em voz baixa - o que também acontece
com as flautas. Se o ar for precipitado pelos orifícios situados
perto da boca, a pressão é forte e o som resultante é agudo,
mas, se a pressão se exercer sobre os mais afastados da boca, o
som produzido é grave.
De onde se deduz que o movimento rápido produz o
som agudo e que o movimento lento o som grave. O mesmo
ocorre nos rombos usados nas festas dos mistérios porque
produzem um som grave se movidos lentamente, e um som
agudo, se movidos fortemente. A flauta rústica dá um som
grave se soprarmos tendo tapado a abertura inferior, e um
som agudo se procedermos ao contrário, isto é, se soprarmos
a meio ou noutro ponto da flauta, uma vez que o ar, que é o
mesmo, é precipitado lentamente num comprimento longo
ou impetuosamente num comprimento curto. Torna-se evi-
dente que, através de muitos exemplos, os sons agudos são
mais fugazes e os graves mais lentos.
2. Há três proporções musicais; a aritmética, a geomé-
trica e a harmoniosa, que é contraposta. Há proporção
aritmética quando três termos manifestam a seguinte dife-
rença por analogia: o segundo supera o primeiro na propor-
ção em que o terceiro supera o segundo, assim se verificando
como, nesta analogia, a relação dos termos maiores é menor
e, a dos menores, maior.
Há proporção geométrica quando o primeiro termo está
para o segundo, como o segundo está para o terceiro, guar-
166 FILOSOFIA
ou é qual, em grandeza,
termo supera o terceiro. Nesta a relação
é menor e, a
menor.
3. Cumpre
com alguém, já por
O que não sabe investigar
se descobrir a razão, esta aumenta a
monia e faz cessar a desordem, não ma1s para a
desarmonia, porque só a sendo-nos possí-
vel reencontrar os nossos
É por da razão que os
aos pobres, porque tanto uns como os
outros esperam uma equidade futura. Norma e
para os injustos, obriga os raciocinantes à u ' - ' " ~ ' - " " ' - 1 " '
rão na
dem,
rem.
4.
persuadindo-os que não se mame-
regressarem e, aos que não compreen-
a injustiça, impedindo-os de a comete-
parece, a aritmética tem predominância
o mesmo tem a geometria, por pos-
uu•u•R''-" demonstrativas porque consegue
as outras ciências só encontram dificuldades
de demonstração. Todavia, se a geometria falha, logo a arit-
mética faz as suas demonstrações, incluindo a exposição
formas, se é que existe uma ciência formas.
I
ES EL TI
FON
a.
BIOGRAFIA
1. filho da terra
e na uns, que
cuu'u"''"'"- e, outros, que teve por mestre a Boton de Atenas
ou a Arquelau. Escreveu poemas
contra Hesíodo e
ções sobre os deuses. À
quarenta anos.
IX, 18)
DOXOGRAFIA
1. A escola eleática, que começou com e
mesmo antes dele, afirma que as chamadas coisas não são
mais do que uma só.
(Platão, O Sofista, 242d)
2. Teofrasto informa que de mestre
de Parménides, admite um só princípio, considerando o uno
como o ser, o não é, nem finito, nem infinito, nem pas-
sivo, nem activo. é de que esta tese pertence
mais a outra ciência qualquer do que à física porque, 0 ~ j ' , M A ' ' ~ ~
168 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
Xenófanes, o uno é universal, o próprio Deus, e demonstra a
unicidade e potência divinas.
De acordo com Xenófanes, existem vários seres pelos
quais o poder é equitativamente repartido, mas Deus é o mais
excelso, sendo em tudo superior aos demais seres; incriado,
porque não foi gerado, uma vez que o que nasce tem de ser
gerado, ou por um semelhante, ou por dissemelhante.
(Simplício, Física, 5)
3. O mundo é incriado, eterno e incorruptível.
(Aécio, II, 4, 11)
FRAGMENTOS
ELEGIAS <l>
1. Já o chão foi purificado e, com ele, as mãos e as taças
dos convivas e, enquanto um faz a imposição das grinaldas de
flores, outro estende-nos o vaso com essências perfumadas.
O vaso está erguido, cheio de delícias, o vinho não perderá o
odor do mel, exalando o perfume das flores.
Ao meio do grupo de convivas, o incenso deixa o
sagrado eflúvio evadir-se, a água fresca, doce e pura abunda e,
junto dela, há um pão loiro, e a mesa encontra-se repleta de
queijos e de untuoso mel. Ao centro da sala eleva-se um altar,
decorado com flores, e por toda a casa ressoam os cânticos e
os clamores de júbilo. Em primeiro lugar, os homens felizes
adoram o deus com frases de bom augúrio, orações castas,
efectuando libações, e suplicando a graça da justiça em seus
actos porque a justiça é a virtude que devemos cultivar acima
de todas; nem exaltação, nem orgulho; durante as libações
deve respeitar-se a regra, de forma a que o regresso ao lar
possa fazer-se sem a ajuda do escravo, a qual deve utilizar-se
apenas se a idade do conviva o justificar.
<t> Estas Elegias foram recolhidas pelo retórico egípcio Ateneu de
Naucratis e, outras, são referidas por Diógenes Laércio.
FILOSOFIA
Não é a presença de um bom na nem a
u v u " ~ ' u capaz de vencer no pentatlo, ou na luta, ou na
a velocidade seja mais que a
-, em suma, em todas as
com que a cidade
Pouco significativa é a alegria que uma
na um dos seus concorrentes, junto às
não
01
Pematlo: conjumo de cinco modalidades ae,;nortJ,ras.
salto e do disco.
grega e o
170 HLOSOFIA
a um
boi; eis um
a Hélade, e que
outro tema, para o procedi-
Conta-se que, uma vez, ao passar
cão, no momento em que era espancado
parou e gritou: «basta, ouço gemer a alma um
os golpes desse
8. Há sessenta e sete anos,
mento percorre a terra da e, antes
mais vinte e cinco anos o meu nascimento.
9. Muito mais ""''M'uv que um ancião.
PARÓDIAS (
2
)
1 O. o prinnpw, aprenderam em Homero ...
11. Homero e Hesíodo atribuíram aos as causas
e da mortais; o o adultério e a
traição.
12. atribuiu aos
seres que se vestem,
como o deles.
passeio público.
(l)
(2)
ou silas, poemas satíricos, o(ÀÀm.
certos actos
como
um corpo
171
mes,
geme semelhança <o.
16. Os que os e
nariz chato, os trácios dizem que os
mas
encontrá-las, com o
DA NA TU REZA (l)
23. Há um só senhor dos deuses e
homens, que não se parece com os homens, nem forma,
nem pelo ~ - ' " ' " ' c u u ' " ' '
24. Que vê o pensa o todo, ouve o
25. Que governa, por vontade do pensamento, sem
26. Que é imovível, porque não carece de
27. Tudo nasce da terra e volta à terra.
01
É importante anotar a forma como Xenófanes entre
e mitologia, pondo esta em causa e esboçando uma teoria
embora criti<J,ue a tendência da
l'
1
<jl'I!OE'UÇ, sobre a natureza. Aécio não a existência desta
obra. é a substância primordial, u"'''!S''"''uu o fundamemal, oposto
172 FILOSOFIA
ar e
as no
29. O que nasce e cresce é terra e água.
30. O mar é a e vento, e o não
existiria nas nuvens se o mar imenso não como
não existiriam os rios e as céu. É o mar imenso que
gera as nuvens, os ventos e as correntes.
31. O e aquece a terra ...
32. O uma nuvem que parece de
natureza e
33. Nascemos da terra e da
e a que me
nunca terá a coragem de o
e tem mais força.
As coisas que os morrais
37. E, em certas cavernas, a
. Se Deus não tivesse o os
homens achariam os mais doces.
2. DE ELEIA
a.
BIO
21)
FILOSOFIA
173
2.
vieram a Atenas para assistir às
e estava já
quase branco, mas era
um
DOXOGRAFIA
1. Contra
são a
~ ; ; u u ~ ' " ' · " são falsas, porque toma o ser em
o utilize em várias e a
não é válida, porque como únicos as coisas bran-
cas. O ser, significado branco, não leva as coisas
uma vez que, nem pela comi-
o branco será uno.
o branco e o seu sujeito, sem 1sso
para do branco, de
diverso, uma vez ser conceito que o branco e o seu
se distinguem. não chegou a este
I, 185b)
2. teve razão contra ao sustentar
que o todo é finito, do centro.
3. Deus é imutável,
I, 7, 26)
174 FILOSOFIA
4. e Demócrito afirmaram que se pro-
necessidade, que consiste numa
e providência mundo.
L 3)
1, 2)
6.0 é eterno e
H, 4, ll)
FRAGMENTOS
DA
(I)
1. Os corcéis que me transportavam
para o onde a minha alma
Lançaram-se os corcéis na
tando o através de todas as e assim me
taram, para o me os hábeis ginetes que puxa-
vam o meu carro (2).
Meus passos eram orientados Incandescente
nos cubos das moviam o carro, o eixo ouvir o
grito estridente quando as de Hélio, saindo
da nocturna para me à luz, deixaram
cair mãos os véus que lhes os rostos. Eis as
que abrem para os caminhos da Noite e do em
01
Cremos conveniente salientar a dualidade proposta de
Parménides: a via da aparência e a via da verdade, i. e., a e a
do mistério, a do e a do ser.
(li Alegoria da humana, puxada por dois corcéis, um
Sobre o sentido iniciático do poema, cf Pedro da Silva
Lusíadas, IX-X e o Poema de Parménides», in Bmtéria, 112 (1981),
420-431.
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
175
dintel, em baixo, a soleira, em pedra. Erguida no éter, a porta
é fechada por robustos batentes, e a Justiça, que reprime
todas as faltas com violência, guarda os ferrolhos de duplo
fecho.
Agradáveis, as ninfas aproximaram-se, e logo persuadi-
ram a Justiça a afastar o ferrolho da porta. Os batentes abri-
ram-se solenemente, os gonzos deslizaram nos chanfros, guar-
necidos de cobre, reforçados de cavilhas e grampos.
Em frente das portas, sobre a larga estrada, as ninfas conduzi-
ram o carro e os corcéis. A divindade recebeu-me com bene-
volência, tomou a minha mão direita, apertou-a na sua, e
disse: <<Benvindo sejas, jovem, a quem as imortais aurigas
trouxeram, tu, a quem este carro trouxe à nossa morada! Não
foi uma sorte funesta(!>, que te guiou para estas paragens, mas
sim o amor da Justiça e da Verdade. Deves ser elucidado
sobre todas as coisas, já do coração incomovível da Verdade,
já das humanais opiniões. Não deve dar-se o menor crédito às
opiniões, mas devem conhecer-se para que, pelo estudo, sai-
bamos qual o juízo a fazer da opinião. Afasta o pensamento
dessa via, e não deixes que o hábito te leve a olhar para este
caminho às cegas, às surdas, dizendo palavras insensatas!
Aplica a razão para responderes ao enigma de que falei, à
coragem s6 resta um caminho; medita o que se subtrai à visão
e o que deixa ver-se! Não lograrás cindir o ser da sua conti-
nuidade, que nem se dissipa, nem se une.
2. Pois bem, vou falar, escuta e retém as minhas palavras,
nas quais aprenderás as duas vias da indagação; a primeira
afirma que o Ser é, e que o Ser não pode deixar de ser, sendo
esta a via da Verdade (2), que faz a certeza; a segunda afirma
que o Ser não é, que o Não-ser é, sendo esta via um estreito
(IJ Motpa. Cf O conceito de moira na tragédia grega, de António Freire,
Braga, 1969.
(21 Conceito de aÀ:IÍ8Elh, conotada a revelação.
176 FILOSOFIA
aprender, uma vez que o Não-
é para de O)
3. Ser e pensar são um e o mesmo.
4. a ausência
presença, não ser, nem
para o a
7. Não tens de temer que
trar que o Ser não é e, por
ao tema volta-
e pen-
não é, e
liberta
da mesma forma para
caminham,
COirJSI<Cieraç'o à palavra ouvires sobre
passíveis de como os
1-'"'"''d"Y· de como o Ser é e também de como é impossível o Não-ser.
de uma confiança segura é a de a revelação.
O segundo: como o Não-ser não é e, quão necessário é. Este,
portanto, conforme manifesto, é uma vereda que não se pode interrogar,
não se pode conhecer o Não-ser, uma vez que é inacessível, nem se
pode demonstrar com ""'J"v''"""'·
12
l C/ Carmo Silva, Da Visão ao
Critica da e sua
><uvuL"'''"v Simbólica», in utaa:rtea.tzr;:,
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
177
8. Um só caminho nos fica- o Ser é! Existem miríades
de sinais demonstrativos de que o Ser é, incriado, imperceptí-
vel, perfeito, imóvel e eterno, não sendo ilícito afirmar que o
Ser foi, ou que será, porque é Ser a todo o instante, uno e
contínuo. Qual a sua origem? Quais os meios do seu cresci-
mento? Não, não permitirei que afirmes, nem que penses, o
Ser devir Ser, em virtude do Não-ser! Nunca se poderá dizer,
muito menos pensar, que o Ser não é, pois, se a sua origem
fosse o Não-ser, que necessidade o teria feito Ser, antes ou
depois? O Ser é incriado, imprincipial, ou é, ou não é, abso-
lutamente sendo, ou não sendo! Nenhum argumento me
conseguirá levar a pensar que o Ser pode devir do Não-ser!
Assim a Justiça não abrande as suas cadeias, e não permita
mais, nem o nascimento, nem a morte, mas mantenha o que
de mente firme se afirma! Em vista de tanto, o juízo é posto
em face do dilema: ou o Ser é, ou o Ser não é, logo se tor-
nando evidente que, sendo impossível pensar o contrário, se
deve abandonar a via impensável e inominável, por não ser
correcta, de onde nos ficar só uma, a via da Verdade. Como
poderia o Ser vir a ser? Como poderia ter sido? Se passou a
ser, não era; se foi, não é; eis como se destrói a geração, e
como se anula a corrupção!
O Ser é indivisível, idêntico a si mesmo, não cresce, por-
que o crescimento é contraditório da sua unidade; não min-
gua, porque, uno, se encontra pleno de Ser; contínuo, o Ser é
contíguo ao Ser.
O Ser é imóvel, travado por possantes liames, não tem,
nem princípio, nem fim, nem geração, nem corrupção, por
tudo isso repugnar ao conceito de Verdade que nos convence.
O Ser permanece idêntico a si mesmo, em si mesmo,
para si mesmo, imutável, imovível, porque a poderosa
Necessidade o mantém preso em seus limites. O Ser não é
infinito, porque, se o fosse, teria carência do finito. O pensar
e o objecto do pensar (a percepção e isso em virtude do que
178 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
há percepção) identificam-se (IJ. Sem o Ser, tal como foi
enunciado, não poderíamos pensar, não havendo nada fora
do Ser, considerando que a Necessidade o ordenou uno e
imóvel. Por esse motivo, as coisas são simples nomes atribuí-
dos pelos mortais, na sua incredulidade. Nascimento e morte,
Ser e Não-ser, mutabilidade e alteração das cores maravilho-
sas!
Havendo um extremo limite, o Ser é perfeito, parece
uma esfera perfeita, equilibrada. O Ser não tem, nem excesso,
nem carência, a sua continuidade é imutável, não sendo mais
aqui, e menos acolá. O Ser é inviolável. O ponto, a partir do
qual é idêntico a si mesmo, tende para os seus limites.
Termino aqui as palavras dignas de crépito e as reflexões
sobre a Verdade. Atenta agora nas opiniões <
2
> dos mortais,
ouvindo a ilusória harmonia dos seus discursos.
Na sua ideia, os homens distinguem duas de
seres, nominável, uma, inominável, a outra, que se manteria
longe do conhecimento. Pensam encontrar-se formalmente
opostas e, por isso, lhes apuseram diferentes atributos. De um
lado, o fogo, cuja labareda se eleva ao ar, o fogo auspicioso,
subtil, idêntico a si mesmo, mas diferente de outro; e, de
outro lado, o contrário do fogo, a noite obscura, esse corpo
pesado e espesso. Em seguida, exporei as relações prováveis
entre ambos os elementos, de forma a que o teu pensamento
não se deixe ultrapassar pela opinião.
9. Dado que tudo se chama dia e noite; dado que a ener-
gia, derivada dos elementos, corre em todas elas; o Universo
está simultaneamente pleno de luz e de trevas, mesmo nada
havendo de comum entre ambas.
1 O. Conhecerás a substância do céu, os astros, os efeitos
luminosos do puro fogo solar e a sua origem. Saberás quais as
fúteis fases lunares e a sua natureza.
Ct) Aceitámos a interpretação de Heidegger.
C
2
J Doxa, oposra a aleteia.
179
a terra, o
1sso começou
a existir.
12. Como os anéis mais estreitos se encontram de
estão os anéis nocturnos,
como, entre se encontra a
Eros.
14. Como a lua
e
15. contempla os raios
15 -a. A terra,
16. Como o
que governa o corpo e os
gência e a natureza
e
eróticas, a se
diferentes, outros
ras com
19. ponto vista
é, o que nasce e o que morre, as co1sas a que a
nomes próprios.
cnou
a
para
180 FILOSOFIA
3. MELISSO DE SAMOS
séc. V a. C.)
BIOGRAFIA
L, 24)
DOXOGRAFIA
l. um Universo idêntico a si
mesmo, uno e pleno. O movimento não é uma ilusão.
aos deuses, não ser necessária uma explica-
uma vez que são
L, 24)
2. O cosmos é
(Aécio, H, I, 12)
3.A é a mónada eterna e
1,7,27)
4. incorre em ao concluir que
o que tem um princípio, e que o não
tem princípio. O
princípio em
e isso tanto se refere à cria-
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA 181
unidade do ser não é específica, a menos que esta não seja
uma unidade específica da matéria.
(Aristóteles, Física, I, 18 5 b)
FRAGMENTOS
DA NATUREZA OU DO SER <J>
1. O ser sempre foi e sempre será porque, se ames de ser
tivesse sido, deveria não ter sido e, se não era, não poderia vir
a ser. O que devém, e é, sempre foi, não tem, nem princípio,
nem fim, sendo infinito; se deviesse, teria princípio, teria
começado, em certo instante. Se não começa, nem acaba, mas
sempre foi e será, não tem, nem princípio, nem fim, pois
uma coisa não é totalmente se assim não for.
2. Porque é sempre, a sua extensão é infinita.
3. O que tem um princípio, ou um fim, não pode ser,
nem eterno, nem infinito.
4. Se não fosse uno, teria de ser limitado por outro.
5. Sendo infinito é uno. Se houvesse dois seres, nenhum
deles poderia ser infinito, uma vez que um seria limitado pelo
outro.
6. Por isso, o cosmos é eterno, infinito, uno e contínuo;
não é aumentável, nem diminuível, nem internamente mutá-
vel, nem sofre, nem se desgosta.
7. Sujeito a tais características, não seria uno, podendo
tornar-se outro, igualmente contínuo, porque o anterior
sucumbiria ao posterior e o Não-ser passaria a Ser. Se o cos-
mos tivesse mudado, em dez mil anos, nem que fosse a ponta
da unha, o cosmos teria perecido, de onde se infere que é
imutável, uma vez que a ordem (cosmos) anterior não perece,
nem o Não-ser devém Ser. Quando nada se aumenta e nada
se subtrai, riem se verificam alterações, como poderia o Ser
mudar? Se algo se tornasse outro, o cosmos teria sido alte-
(tl IlEpL cp'Í50EWÇ ií :rtEp( 'tOÜ O'VtOÇ.
182 HLOSOFIA
não porque, se não seria cosmos, tendo
em vista que o que sofre não
da de um são.
se alguma coisa entrar, ou ser não
mas, se não puder entrar, nem ser introduzida, há
Por o Ser é uma vez que o vazw
não existe e, pleno, é imóvel.
8. Eis a prova dos nove em como o Ser é uno, embora
outras provas, como as seguintes: se houvesse
seres, seria necessário que cada um como o Ser. Se
forem seres como a terra, o ar, o ferro, o oiro, o
morto, se os demais que os
homens verdadeiros; se de
preendemos, é necessário que todas essas coisas se mante-
nham sempre tal qual as vemos pela primeira vez, sem modi-
ficações, como sempre Ora, nós que a
a inteligência são justos, mas o calor torna-se
o e o o vivo morto,
ou o nascer não-vivo.
Tudo se modifica, permanece: o
puro que seja, usa-se no dedo, tal como o a e
todos os outros corpos sólidos. A terra e a rocha transfor-
mam-se em nem o vemos, nem o conhece-
mos. Em não existe a menor coerência;
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
183
dizemos que há muitas formas eternas, e sólidas, mas o que
vemos altera-se e transforma-se.
Por conseguinte, é necessário afirmar que não vemos
com verdade, que todas as coisas nos surgem falsamente por-
que, se fossem verdadeiras, não mudariam, conservar-se-iam
como puramente são, uma vez que só a verdade triunfa.
9. Ora, na transformação, o que morre é o que aparece.
Se houvesse pluralidade de seres, todos seriam como um só
Ser.
1 O. Se o Ser é, só pode ser uno; sendo uno, não é corpó-
reo, porque, se tivesse corpo, teria partes e não seria uno (I>.
Se o Ser se divide, morre e, em movimento, o Ser não é.
4. ZENÃO DE ELEIA
(Eleia, séc. VI-V a. C.)
BIOGRAFIA
1. Zenão de Eleia era filho de T elentágoras e filho adop-
tivo de Parménides, seu discípulo e protegido. No Sofista,
Aristóteles diz que Zenão inventou a dialéctica.
(D. L., IX, 29 e 57)
2. Passando agora ao eleático Palamedes (2), por acaso
não sabemos que falava com tanta arte, que a mesma coisa
parecia, aos seus ouvintes, ora de um modo, ora de outro, em
unidade e diversidade, ora imóvel, ora móvel?
i'l Corpo: crfu1-1a; partes: 1-1€poç.
12J Cognome de Zenão de Eleia.
(Platão, Pedro, 261d)
184 FILOSOFIA
DOXO
sucessivamente aumentado
em duas Neste caso,
nunca é pelo
causas que impedem a dicotomia.
casos se conclui que o limite é u h u ~ ' " ' > ' > '
sível em partes
se o existe em
LU
A terceira
encontra de
em movimento se
u"'''-1"'-''" no argumento de que o
239 a)
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
185
FRAGMENTOS
DA NATUREZA <t>
1. Sem extensão, o uno não existiria mas, se existe, cada
parte deve possuir uma certa extensão e uma certa espessura,
devem situar-se a alguma distância da outra, o mesmo se
podendo dizer sobre a outra, porque também esta terá uma
extensão e alguma outra coisa pr6xima dela. Dizer isto uma
vez, ou dizê-lo sempre, é o mesmo, pois nenhuma parte será
última, e o uno não pode ser comparado a outro; por isso, se
as coisas constituem uma pluralidade, devem ser ao mesmo
tempo grandes e pequenas, pequenas a pontos de não terem
grandeza, e grandes a pontos de serem ilimitadas.
2. Se o ser fosse adicionado a outra coisa, não a tornaria
maior, porque nenhuma coisa pode ser maior pela adição do
infinito, de onde se segue que o aumento é nulo. Mas, se for
subtraído a outra coisa esta não fica menor, tal como a ante-
rior não fica maior. Assim, se demonstra que nem o aumento
nem a diminuição têm qualquer significado.
3. Se as coisas são uma pluralidade, todas as coisas deve-
rão ser múltiplas, nem a mais, nem a menos: ora, sendo assim
tão múltiplas, elas serão em número finito.
Sendo uma pluralidade, serão em número infinito, por-
que, entre elas, haverá outras e, entre estas outras, muitas
outras; de onde todas serem em número infinito.
4. O m6vel não se move, nem no espaço onde se encon-
tra, nem no espaço onde não se encontra <
2
>.
(IJ De acordo com Proclo, julga-se que os argumentos de Zenão contra a
pluralidade seriam quarenta, mas apenas quatro chegaram ao nosso conhe-
cimento.
(Zl A interpretação da teoria do movimento, de Zenão, é magistralmente
feita por Aristóteles, em Física, Z9. Leonardo Coimbra, na obra A razão
e>.:perimental (Porto, 1923) efectua uma profunda exegese dos mesmos
argumentos.
ES IS
L LEUCIPO DE ABDERA
séc.V a.
BIOGRAFIA
1. Eleia, ou de
Zenão.
(D. L, IX,
2. Epicuro e Hermaco garantem que nunca existiu um
filósofo chamado alguns, como o epicurista
o mestre de Demócrito lll.
L., IX, 34)
DOXOGRAFIA
1. Pensava que todas as coisas eram infinitas e se trans-
formavam umas nas outras; que o uno era vazio, mas pleno
de substância; que os mundos se formavam quando esta subs-
tância entrava no vazio, e se que, do seu movi-
mento, e da aglomeração, se geravam os astros; que o sol se
move em um imenso círculo, em torno da lua; que a terra é
mantida no centro movimento de rotação, parecendo--se
com um tambor.
111
Kirk e Raven aceitam o ponto de vista de Teofrasto,
teria escrito o Mega diacosmos, e, Demócrito, o
188 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
Foi o primeiro a sustentar que os átomos eram a origem
de todas as coisas. O Universo é ilimitado, uma parte é plena,
outra vazia. Os elementos e os mundos do Universo são infi-
nitos e volvem aos seus elementos primordiais. Formam-se
pela divisão do infinito em muitos corpos, que se juntam no
vácuo e que, uma ve:z juntos, originam um turbilhão, cho-
cando e rolando em todos os sentidos, após os que se juntam
de novo, em virtude da homeomeria. Como, em virtude do
seu grande número, têm um equilíbrio instável, os corpos
mais finos dirigem-se para o vácuo exterior, como se tivessem
sido passados ao crivo; os demais ficam no centro, onde for-
mam uma sólida e esférica massa. Esta massa, de começo, é
como que uma membrana.
(D. L., IX, 34)
FRAGMENTO
2. Nada acontece em vão, mas tudo acontece por deter-
minação de uma causa, e de uma necessidade(ll.
BIOGRAFIA
2. DEMÓCRITO DE ABDERA
(Abdera, séc. V a. C.)
1. Natural de Abdera, ou de Mileto, foi discípulo dos
Magos e dos Caldeus, que Xerxes ofereceu a seu pai, segundo
informa Heródoto. Com eles, ainda criança, teria aprendido
a teogonia e a astrologia.
(D. L., IX, 34)
Ctl Este fragmento vem em O. L., IX.
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
189
2. Ele mesmo nos diz ter escrito o «Micro diacosmos»,
no ano 730 da conquista de Tróia. Segundo Apolodoro, teria
nascido cerca da octogésima Olimpíada.
(D. L., IX, 41)
3. Trasilo compôs um catálogo das obras de Demócrito,
em forma de tetralogias, como fizera com Platão.
(D. L., IX, 45)
DOXOGRAFIA
1. As teorias de Demócrito são as seguintes: os átomos
estão na origem de todas as coisas, no vácuo, e tudo o mais
que se pense é mera hipótese. Os mundos são ilimitados,
incriados, mas perecíveis; o Ser não devém do Não-ser, nem a
este retorna; os átomos existem em grandeza e em quantida-
des inumeráveis movimentando-se em turbilhão, deles se
gerando os compostos, o fogo, o ar, a água e a terra, que são
compostos por átomos incorruptíveis e fixos. O visível é mera
projecção de imagens, tudo se processa em função da
Necessidade, o turbilhão é a causa cosmológica, que se identi-
fica com a própria Necessidade(!>.
O maior bem consiste na eutímia, ou felicidade, diversa
do prazer, embora muitos julguem que não; a felicidade é um
estado de repouso e de paz de alma, a qual, na felicidade, se
não deixa transtornar, nem por receios, nem por superstição,
nem por afectos.
O direito é uma invenção humana, os átomos e o caos
existem por natureza.
(D. L., IX, 24).
<llNecessidade: AvàYXTJ• que aparece igualmente em Parménides e nou-
tros pré-socráticos.
190 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
2. Os átomos são divisíveis e a sua divisibilidade é
eterna.
(Aécio, I, 16, 2)
3. A alma é mortal, morre com o corpo.
(Aécio, IV, 7, 4)
4. A percepção e o juízo ocorrem quando as imagens
estimulam os sentidos.
(Aécio, IV, 8, 1 O)
5. Para outros, como Demócrito, o céu e os astros têm a
Necessidade por causa, pois dela provêm o turbilhão e o
movimento, que teriam cindido os elementos, constituindo a
harmonia que vemos no cosmos. Particularmente estranho é
ele sustentar que, nem os vegetais, nem os animais, são gera-
dos pela Necessidade, mas pela natureza, pela razão, ou por
outra causa de semelhante efeito. Ou seja: não importa o que
nasce em virtude do destino, do sémen, mas sim o que faz
nascer uma oliveira, ou um homem. Por outro lado, julga
que o céu e os mais divinos dos seres visíveis se geraram ao
acaso, tendo uma origem diferente da dos animais e vegetais.
(Aristóteles, Física, II, 196a)
FRAGMENTOS
DE OBRAS DETERMINADAS
I-11. Etica
1 b. Tritogenia (l)
2. Os objectivos da reflexão são três: pensamento, dis-
curso e seriedade.
<'l Epíteto da deusa Atena, segundo os pitagóricos nascida do Ternário.
FILOSOFIA 191
2. c. Da tra
e da inutili-
IH-IV. Física
5. i. So as átomos
6. O homem deve quão afastado se encontra da
(!)
de
de iro
8. Veremos como se torna embaraçoso u"-"'"''"" a natu-
reza da existência.
8 b. Provas
9. De facto, de verdadeiro aprendemos, porque o
surge apenas em fortuitos, conforme
do corpo e as influências que nos atingem.
1 O. Não podemos saber o que é, ou não é, conforme já
10 b. Da
11. Existem duas vias gnoseológicas, verdadeira uma,
falsa a outra. A falsa pertencem a visão, a o olfacto, o
lll Referir este fragmento às teses de Parménides.
192 FILOSOFIA
de tactear,
as coisas mais mesquinhas, é
intervém a via que, essa,
X-XL Das artes
16 a. Da
18. O que um
pelo sopro divino, é uma
20 a. De Homero
DE OBRAS INDETERMINADAS
30. Muitos protestam contra o que
designamos por ar, afirmando que, acima de
quem delibera, quem quem quem quem rema
sobre o cosmos.
31. A medicina cuida dos males corpo, a filosofia
trata males da alma.
32. O acto sexual é uma breve apoplexia: o homem sai
homem, cinde-se e separa-se, como que sob o efeito de
uma pancada.
33. A natureza e a pedagogia estão próximas; a pedago-
gia transforma o homem e, por isso, cria uma segunda natu-
reza.
34. O homem é um pequeno Universo (li.
(li Ou seja, um microcosmos: MlXjOÓÇ XÕO"l!OÇ.
FILOSOFIA 193
MAS (t)
35. Quem
como proceder em as
evitando as más acções.
37. procura as virtudes
con-
tenta-se com os mortais.
38. O dever é evitar a injustiça e evitar a nossa
39. Ou somos ou imitar os
de virtude.
As e as não
que só é carácter e pela sabedoria.
41. Evitar os erros, não por temor, mas por
42. Manter a calma na adversidade é uma boa acção.
43. Quem se arrepende erros, salva-se.
45. O injusto é mais infeliz do que a vítima.
46. A maior virtude consiste em suportar a insensatez
com paciência.
47. Quem cumpre a lei, e quem acata a e a
sabedoria, tem perfeita noção dever.
48. O homem honrado não evitar a maledicência.
49. A vale menos é insuportável.
50. O que se corromper pela será sempre
indigno.
51. Na arte da persuasão, a palavra vale mais do que
OlfO.
52. Quem deseje mostrar a razão a um insensato, perde
tempo.
53. Há muita gente que, sem o razoável, obe-
dece à razão.
01
Uma noção geral sobre as Máximas: atribuídas a Demócrito, é
que muitas sejam de redacção mais tardia; algumas chegaram até
sendo da autoria de um certo Democrato.
194 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
53 -a. Muita gente de boas palavras pratica más acções.
54. Os loucos são sábios, em virtude da sua infelicidade.
55. Devemos pôr zelo, não nas palavras, mas nas acções,
para sermos coerentes.
56. É necessário um dom natural para conhecer e pos-
suir a virtude.
57. A qualidade do gado prova-se pelo vigor do corpo, a
do homem prova-se pelo carácter.
58. As esperanças dos justos são possíveis; as dos insensa-
tos, impossíveis.
59. Não podemos aspirar à arte e à sabedoria sem muito
estudo.
60. Critiquemos as nossas acções, antes de criticarmos as
dos outros.
61. O bom carácter é o princípio da vida honesta.
62. Evitar a injustiça não basta; é preciso não a desejar.
63. O louvor das boas acções é belo; só o manhoso, ou o
mentiroso, aprovam as más.
64. Há muita gente disfarçada de sábia, sem a mínima
ponta de razão.
65. O objectivo a atingir deve ser o culto da razão e
nunca a polimatia.
66. Mais vale pensar antes de actuar, do que lamentar a
acção.
67. Não confiar em toda a gente, mas só nos que mere-
cem confiança. Confiar em toda a gente é sinal de ingenui-
dade; confiar em quem é digno, é sinal de bom senso.
68. O homem digno revela-se tanto nas acções como nas
intenções.
69. A bondade e a verdade são universais, mas o agradá-
vel varia de pessoa para pessoa.
70. Quem deseja em excesso, é uma criança, e não um
adulto.
71. Os prazeres intempestivos acarretam desgostos.
72. o
o
80. A
FILOSOFIA
195
que
mas,
imitar os
mos os nossos assuntos.
81. A à deve-
res.
são os que fazem em
em actos.
das conveniências é causa de
quem
86.
que a SI mesmo se massa-
era.
89. O inimigo não é o
é, o que nos a
90. O é muito mais do que o
a mas convém
ser e
FILOSOFIA
92. Os
multiplicarmos.
ser aceites com a
acautela-te,
a
os
são
em
sem olhar a quem, e
do que a amizade de muitos.
99. Sem um amigo, a vida é inútil.
sensato, é mais
100. Quem vê os amigos afastarem-se é porque tem mau
génio.
1 O 1. Muitos se dos amigos, quando estes caem
na pobreza.
1 02. A temperança é universalmente o abuso e a
timidez desagradam-me.
103. não ama não é amado.
1 04. O velho jovial, mas sisudo, merece todo o respeito.
105. A beleza do corpo é uma virtude digna das bestas,
se a inteligência a não sublimar.
106. É fácil encontrar uma na felicidade; mas é
difícil encontrá-la na adversidade.
107. Na família, amigos autênticos, são os desinteressa-
dos.
107 -a. Se somos homens, não mofemos
humanas, bem dignas de
108. A bondade é penosa encontrar, enquanto a
dade nos fere, quando menos esperamos.
FILOSOFIA
a Atenas, e ninguém me
sabemos da verdade, porque a
o fundo abismo.
197
calar
à
estás a ser
118. A posse uma origem dos seres é
preferível ao reino da Pérsia.
119. Os têm da fortuna uma tal imagem, que
ela se tornou um mau motivo para justificar imprudências,
porque a só por mero acaso, é da
120. Na maior parte das vezes, a sensatez e a
tentam levar-nos ao bom caminho.
121. Um homem é como os e todos os
homens são como um só homem.
125. A cor existe por convenção, tal como o doce e o
amargo. Pobre razão, que torna a sério os e se
serve deles para a calúnia! A sua vitória é a sua
126. As lagartas ondulam ao deslocar-se.
127. Os homens desejam a do prazer, como
desejam a repetição do amor (!).
144. A música é urna arte nova. por excesso e não
por carência.
145. A é a prisão acções.
III Na catalogação tradicional há este salto do fragmento 127 para o 144.
146. o a tirar os prazeres SI
mesmo ...
Os porcos no esterco.
148. No ventre materno,
regra contra a ressaca e as correntes
amarra que va1 nascer e
recer.
para
se
o éter.
153. É insensato ter a
154. Há imensas coisas nas
existe tanto como existe «qualquer coisa>>.
157. A ciência certos homens,
no processo,
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
199
condenaria abertamente a alma. Pois, não levou ela o corpo à
miséria, por ser negligente? Não foi ela que, em seus enerva-
mentos o tornou mais fraco? Não foi ela quem o corrompeu,
por volúpia?
Quando um instrumento se encontra em mau estado,
cumpre condenar o utente e não o utensílio.
160. Viver mal, sem razão, sem moderação, sem respeito
pelo sagrado, não é viver mal; é morrer aos poucos.
164. Os seres associam-se em função da espécie: os pom-
bos aos pombos, as aves às aves e, assim sucessivamente, o
mesmo se verificando quanto aos seres inorgânicos e inertes,
como podemos observar na crivagem dos cereais, ou nas
rochas, sujeitas à ressaca. Com efeito, em virtude do turbi-
lhão provocado pela crivagem, as lentilhas separam-se e jun-
tam-se às lentilhas, os grãos de cevada aos grãos de cevada, os
de trigo aos de trigo; por outro lado, em virtude do mesmo
turbilhão, as pedras oblongas são roladas nos locais onde exis-
tem pedras oblongas, as redondas onde há redondas, como se
a homeomeria dos objectos os levasse a juntarem-se uns aos
outros (!>.
165. Eis o que tenho a dizer: o homem é o que todos
sabemos.
166. Certas imagens atingem o homem, sejam boas,
sejam más; o desejo visa as imagens da felicidade.
167. Um turbilhão de átomos cindiu-se do todo <
2
>.
168. A natureza é constituída por átomos, projectados
em todas as direcções.
169. Quem não quer ser ignorante, não deseja saber
tudo.
170. A felicidade e a infelicidade são fenómenos da
alma.
1'
1
Este fragmento é muito feliz porque, nele, de forma imagística, o autor
expõe as suas teorias sobre a origem e evolução do Universo.
121
Turbilhão de átomos: ôlyoç EtÔÉoov.
200 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
171. A felicidade não consiste na posse, nem de reba-
nhos, nem de ouro, porque a causa da felicidade reside na
alma.
172. As mesmas causas que trazem o bem, podem trazer
o mal, embora nos ofereçam os meios para os evitar. A água
profunda é útil, mas perigosa, porque nos podemos afogar
nela; para vencer o perigo, temos de aprender a nadar.
173. O homem julga que os males se geram nos bens,
quando não sabe orientá-los; no entanto, os bens verdadeiros
não podem ser misturados com os males, mas podemos ser-
vir-nos dos bens para evitarmos os males.
17 4. O homem corajoso sente-se impelido à justiça, à
obediência, sabe sempre em que consiste a alegria, encontra-
-se pletórico de energia e vive sem pesadelos; pelo contrário,
quem não faz caso da justiça, nem cumpre os deveres, encon-
tra-se sujeito à tristeza, e quando, mais tarde, fizer o balanço
da vida, ficará cheio de receios e de tormentos.
175. Hoje, como ontem, os deuses concedem aos
homens todos os bens, negando-lhes a maldade, o perigo e o
preconceito, muito embora seja para estes que os homens se
precipitam, por cegueira e loucura, que perturba as suas
almas.
176. A fortuna é magnânima, mas incerta; o carácter
depende apenas do carácter. Por isso, as vantagens do carác-
ter, embora pequenas, são certas e constituem promessas de
esperança.
177. As boas palavras não apagam as más acções, mas
nenhuma boa acção será apagada pela calúnia.
178. A frivolidade é o pior que pode ensinar-se a uma
criança, porque a frivolidade provoca desejos e desenvolve a
perversidade dos apetites.
179. Se as crianças forem orientadas para outra activida-
de que não seja o trabalho, nunca aprenderão, nem as artes,
nem a leitura, nem a música, nem o atletismo, nem a honra,
FILOSOFIA 201
porque o sentimento da
gera-se na prática
180. A educação é um
para os infelizes.
181. o
c.v""''-lL'"" e ao bom senso
o homem que, uc.!Aa.u'-•v-
não procedeu
a cumprir os será recto,
em casa e na rua. mostra-se corajoso e
por impulso da razão e da consciência.
182. A sabedoria não se senão através das dificul-
por s1 mesmas
esforço, mas obrigam os fracos a
tanto é
as mes-
exigem grande
forma
como dos
porque a idade não a sabedoria. No entanto, uma educa-
ção à natureza faz os sábios.
184. A companhia assídua maus desenvolve a pro-
para o vício.
185. A esperança sábios vale mais do que a certeza
amizades.
corpo, porque a cor-
rige o corporal, mas a força corporal, isenta de senso,
é impotente para aumentar a beleza
188. O prazer e o nojo são limites da utilidade e da inu-
189. O homem tem em viver com o máximo
e o mínimo de tristeza, o que se torna fácil, se não
importância às coisas caducas.
190. Omitamos referências às nossas más acções.
202 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
191. A tranquilidade da alma provém da moderação do
prazer e dos costumes. A carência e o excesso provocam
mutações aborrecidas e perturbações psíquicas; agitadas por
tais mutações, as almas desequilibram-se e intranquilizam-se
e, por isso, dêmos a nossa dedicação ao possível, contentemo-
-nos com o presente, desprezemos a inveja, a cobiça, e evite-
mos pensar nelas. Tenhamos presente os desgraçados, pense-
mos nas suas misérias, de forma a que o nosso estado e a
nossa sorte nos pareçam dignos e invejáveis; deixando de que-
rer o que não devemos, deixaremos de nos atormentar. Quem
admire as riquezas e julgue os outros felizes, e não deixe de
pensar nisso, será sempre impelido a imagi!).ar novos expe-
dientes, novas tentativas, empurrado pela ambição de infrin-
gir as leis. Não desejemos o que não nos pertence, dêmo-nos
satisfeitos com as nossas posses, pensemos na nossa felicidade,
comparada com a infelicidade alheia; não nos julguemos mais
dignos de sorte que os outros, e veremos a nossa felicidade.
Se seguirmos este modo de ver, viveremos tranquilamente e
pouparemos muita desgraça, como a inveja, a cobiça e o ódio.
192. O elogio é tão fácil como a calúnia e, tanto num
como noutro caso, o mau carácter tem ensejo de revelar-se.
193. A prudência consiste em evitar a ofensa e na sensi-
bilidade bastante para evitar a vingança, depois de recebida a
ofensa.
194. As grandes alegrias devem-se à contemplação das
obras de arte.
195. As estátuas harmoniosas, que nos convidam à con-
templação, são destituídas de alma.
196. O esquecimento dos pecados causa a temeridade.
197. Os tontos preferem as regalias da riqueza mas,
quem conhece tais regalias, prefere os privilégios da sabedo-
na.
FILOSOFLA
203
receio morte.
200. Os tontos vivem sem a de viver.
201. Os tontos mesmo sem
202. Os tontos ma1s que e
que têm na mão.
que evitar a morte, por
ir ao encontro
Os tontos nunca
205. Os tontos querem viver por temor da morte, mas
não temem a
206. Por temor
207.
s1m.
208. o
filhos.
os prazeres,
é o para os
209. A noite nunca é curta para quem come pouco.
210. A sorte sortida; a
uma mesa que
ou do
ou
213. A coragem atenua os azar.
2 não é somente o que vence os é,
Há quem governe e
pen-
sarnento; a
204 FILOSOFIA
216. A e merece honras
mawres.
217. Os deuses.
218. A
219. o
e os tormentos.
P<r.nP<tr. é um golpe na
lucro é o da perdição.
para os herdei-
o seu carácter.
corpo estão à mão a
sem e sem sacrifício; as que exi-
gem esforço e sacrifício, e que entristecem a vida, são as da
alma, não as corpo.
224. ma1s até o que já
tem, como acontece ao cão de
225. O é dizer a
com
226.A mas é difícil
quando mostrar a
227. Os avarentos têm a sorte das abelhas: trabalham,
viver eternamente.
avarentos, que crescem na ignorância,
são como na punhais; se não dançam
com acerto, morrem.
torna-se difícil cair no sítio previsto, porque o
espaço para a queda é muito pequeno. Eis o que acontece a
tais uma vez libertas da tutela e da parcimónia pater-
nas, dissipam.
229. A economia e
quando
virtudes
no momento
c•J Alusão à fábula de Esopo.
positivos,
e o homem de
FILOSOFIA 205
230. Uma sem é um longo caminho sem
234.
saúde, por
ções; no entanto, por
e são apetites.
lhe
a
235. Para quem encontra prazer na satisfação do ventre,
sem regra, excessl-
vas sexuars, as são breves, durando
dura a comida e a bebida.
Como acarretam contratempos, fazem nascer
sem cessar os desejos que, uma vez logo a
O instante de prazer absorvido é a única
porque novos desejos são suscitados a seguir.
236. A luta contra as tendências é árdua, mas a vitória é
do sensato.
237. A inveja é inócua, porque, ao querermos o
outros, perdemos o nosso.
238. Caímos no descrédito e no se nos compa-
rarmos ao mais forte.
239. Os juramentos maldosos, em circunstân-
cias adversas, são logo quebrados, uma vez o perigo
240. As tarefas voluntárias tornam-nos aptos para
enfrentarmos as tarefas impostas.
241. Um trabalho constante torna-se suportável por
força do hábito.
242. As pessoas que são honestas, são-no mais por
do que por exercício.
206 FILOSOFIA
que os outros te
não cometessem
os
não existiria para servir de " " " M ~ ' "
vivessem a seu porque a
córdia.
246.
aceitarem a
em terra alheia ensina-nos a uepeJila,er
Um de
mas
não
e a derrota
e nela se encontra
~ ~ ' ~ " ' ~ ' ~ ' a tudo defende e, perdida,
FILOSOFIA
207
o interesse
com esta
regra: os maus não é U H H " ' U ~
púbico exija a sua
258. A morte
preço for, sem
justiça, mais mais
259. O que a lei nos
venenosas, acho
tanto, teremos
nos e em
forma de
260.
a a certos animais e às
que deve ser aos
não houver legislação em
ser suprimido. No en-
em santuá-
contra esta
a sua morte,
o cnme.
261. Devemos socorrer, enquanto é
a sevícias, dando-lhes Tal é
assim não faz, é
208 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
262. comete faltas passíveis de
ou de outra pena, condenado sem
sua contra a lei, graças a
fraqueza.
homenageia quem o merece, mostra ser
Não sintas mais vergonha diante outros do que
ti; evita que o teu comportamento seja revelado;
a ti mesmo e segue esta norma: vencer a vergonha.
265. Os lembram-se mais dos maus do que dos
bons tratos e com razão porque,
var quem paga o que deve, é castigar o que
dever. A mesma norma se aplica aos funcionários
que para serem dignos, e nunca para darem
maus •
266. Actualmente as ofensas à magistratura são inevitá-
veis, mesmo a magistratura excelente. O facto de um
homem estar sujeito a magistrados de nomeação é mal e, por
devem ser tomadas disposições para que o cidadão ínte-
gro, por severas que as sentenças contra os réus, não
cala a alçada dos réus. Uma lei, ou uma disposição espe-
cial, evitar que o magistrado seja passível do ressenti-
mento dos réus.
267. A chefia pertence ao melhor.
268. O a lisonja e não a bondade.
269. A é princípio da acção; a fortuna é mestra
das
escravos como dos membros do corpo,
um para cada fim.
271. A mulher amada olvidar os arrufos de amor.
272. encontra um genro, encontra um filho;
encontra um mau genro, perde uma filha.
273. A mulher é mais atreita do que o à impru-
dência e à impulsividade.
i
I
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
209
27 4. O laconismo é um ornamento na mulher; aliada ao
laconismo, a simplicidade é já beleza.
275. A educação dos filhos é tarefa ingrata, mesmo
quando bem sucedida, porque, além de muitas canseiras,
pode não resultar e ser origem do pior.
276. Não aprovo a procriação, porque ter filhos acarreta
muitos perigos e poucas alegrias, as quais, ainda por cima, são
pequenas e insignificantes.
277. Quem necessite de descendência, o melhor que tem
a fazer é adoptar o filho de um amigo. Dessa forma, terá um
filho, como deseja, escolhido a gosto, respeitando as aptidões
naturais que vir no adoptado. A única diferença é esta: pela
adopção, escolhemos um filho ao nosso gosto, mas, se tiver-
mos um filho mesmo nosso, ficaremos sujeitos ao pior, por-
que teremos de o aceitar tal qual a natureza no-lo deu.
278. Os filhos parecem uma necessidade da natureza e
um velho costume. Se considerarmos os outros animais, a lei
torna-se evidente: o que obedece à natureza propaga a vida,
mesmo sem esperar proveito; uma vez nascidos, os rebentos
carecem de alimentação, causam temores, e os país sofrem
com o que possa acontecer a seus filhos, porque o instinto
assim determina. Só o homem, por lei, pode tirar algum pro-
veito da prole.
279. A distribuição de bens entre os filhos deve ser meti-
culosa, como se a sua distribuição fosse a entrega de um pré-
mio. Ao mesmo tempo, os ftlhos devem ser vigiados para não
gastarem o dinheiro; tal é a forma de lhes ensinar a economia,
fazendo-os rivalizar uns com os outros. O que se entrega
como prémio é difícil de gastar, e os ganhos em comum tra-
zem mais alegria do que os lucros privados.
280. Mesmo sem gastar muito, é possível educar os
filhos e dar-lhes uma protecção às suas pessoas e aos seus
bens.
210 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
281. Quando ocorre um ferimento, a gangrena é temí-
vel; também as riquezas devem ser temidas, por provocarem a
desarmonia entre a natureza humana e a sua duração.
282. O uso reflectido do dinheiro é útil, permite a libe-
ralidade e o bem público. Quando irreflectido, é uma pena
insuportável.
283. Pobreza, riqueza! Nomes que escondem a necessi-
dade e a saciedade. Quem sofre de carências não é rico, quem
as não sofre, pobre não é!
284. Se desejares pouco, esse pouco te será dado e pare-
cerá muito, porque as ambições moderadas tanto fortalecem a
riqueza como a pobreza.
285. A vida humana é frágil, dura pouco, é perturbada a
todo o momento pela fatalidade e pela necessidade; por isso,
devemos moderar o desejo de bens e avaliar a pobreza em
função da necessidade.
286. Quem não se preocupa com o que não tem e se ale-
gra com o que tem, é um sábio.
287. A pobreza pública é mais lamentável do que a
pobreza envergonhada; onde a desgraça é geral não há
socorro a esperar.
288. Há males de família e da vida, corno há males do
corpo.
289. Quem não liga às necessidades da vida é um louco.
290. Pela razão, procura triunfar do sofrimento e do
temperamento da alma, paralisada pela dor.
291. Digno do sábio é saber padecer a pobreza.
292. As esperanças dos loucos são insensatas.
293. Quem tira prazer da desgraça alheia não sabe as
vicissitudes da sorte, que não escolhe; e, por isso, não tem
direito a ser feliz.
294. A força e a beleza são privilégios da juventude, mas
a velhice é o nascimento da esperança.
FILOSOFIA 211
295. O velho já tàí novo, embora o não
um bem mais do que um
A velhice amortece os e,
em que v1vem a
a morte,
na consciência.
s FÍSTI
L DEABDERA
séc. V a.
BIOGRAFIA (!)
informa
IX).
DOXOGRAFIA
l. Mito Epimeteu e Prometeu.
Houve tempo em que existiam mas não as espé-
cies mortais. Quando chegou o momento assinalado pelo
destino para a criação mortais, os formaram-nos
com uma mistura terra, de fogo, e de outros elementos
à terra e ao fogo, nas telúricas, Quando
a ocasião de os fazer vir à luz, os deuses incumbiram
(II Uma nota, discutível, sobre os sofistas:
<<Chamam-se sofistas os que a sabedoria à venda a troco de di-
nheiro dos alunos» (Xenofonte, I, 6, 13). Na tradição mais
antiga, o substantivo sofistês significava o o homem A partir
do de Protágoras e de Górgias, a palavra passa a o pro-
fessor que ensina a troco de honorários.
214 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
Prometeu e Epimeteu de os proverem das qualidades apro-
priadas, mas Epimeteu solicitou a Prometeu que lhe deixasse
fazer, sozinho, a partilha das qualidades.
«Quando acabar- disse ele - tu virás observar».
Satisfeito o pedido, Epimeteu procedeu à partilha, atri-
buindo, a uns, a energia sem a velocidade, a outros, a veloci-
dade sem a energia; deu armas a uns e recusou-as a outros,
aos quais concedeu outras possibilidades de defesa; aos que
mostravam pouca corpulência, deu asas para voar e para bus-
carem subterrâneos refúgios; aos corpulentos, bastar-lhes-ia a
corpulência. Aplicou este processo de compensação a todos os
animais, no sentido de evitar a extinção das espécies criadas.
Todavia, quando lhes atribuiu os meios para. evitar a mútua
destruição, pretendeu ajudá-los a suportar as estações de Zeus
e, por isso, lembrou-se de os revestir de espessos pêlos e de
fortes peles, bastantes para os proteger do frio e do calor e
destinadas, ainda, a servirem de coberturas naturais durante o
sono. Além disso, deu-lhes, por calçado, sapatos de corno e
peles calosas, desprovidas de sangue; mais lhes deu, ainda, ali-
mentos variegados, consoante as espécies: a uns, ervas do
chão, a outros, frutos das árvores, a outros, raízes; a alguns
deu outros animais como alimento, limitando a fecundidade
dos comedores e multiplicando a das vítimas, para assegurar a
continuidade das espécies.
Todavia, Epimeteu, pouco reflectido, tendo já esgotado
as qualidades a partilhar, verificou que ainda lhe faltava a raça
humana, e ficou sem saber como haveria de resolver o pro-
blema.
Entrementes, Prometeu veio observar e viu os animais
bem providos de tudo, enquanto o homem se encontrava nu,
descalço, sem cobertura e sem armas, embora o dia em que o
homem deveria surgir na face da terra, já estivesse próximo.
Não sabendo que inventar para compensar o homem, Prome-
teu roubou a arte do fogo a Hefestos e a Ateneia, porque, sem
FILOSOFIA 215
o
sua
e essa crença era um
e, por isso, o homem ergueu
em virtude da ciência, veio a arti-
os nomes, a inventar as casas, o vestuá-
a agricultura. Com tais recursos, os
e as cidades não
a sucumbir aos dos animais
que os homens que,
para fazer a guerra aos animais
não tinham ainda a ciência política, a arte
guerra.
Nesta ordem de
sistema de segurança,
quando se reuniam,
rem da ciência
tentaram reunir-se e criaram um
fundando as cidades; no entanto,
mal uns aos outros, dado carece-
voltavam a separar-se e
encarregou Hermes
e a que deveriam regrar
216 HLOSOFIA
ou
nam
tença de uns
pela o homem sem
nado, por constituir um perigo para a
(Platão, vrntt1J7t'Jrll.\ 320)
FRAGMENTOS
1. Da ou
(!)
O homem é a medida de todas as coisas,
e das que estão na sua natureza,
explicação da sua inexistência.
Para obter a instrução, é necessano possuir vocação e
prática, e o deve começar-se na adolescência.
3. Dos 1
3
1
os nada posso nem que existem,
nem que não porque muitas coisas nos impedem de
111
'AJdj6eta: xm:apáÀÀOVtEÇ Àoym.
(lJ MÉya:ç Myoç.
''
1
Iltpt Srwv. Anotar que o substantivo 8eóç também significa objecto
de culto ou de adoração.
FILOSOFIA
entre se contam,
tema e, em
2. DE
séc. V a.
BIOGRAFIA
1. -A
Sócrates - Nesse caso, a tua
- ... e de bom
mar-me o que, na de
Sócrates - É isso mesmo.
-Chama-me, orador.
DOXOGRAFIA
e a prudência;
e a para
assemelha-se à
pia, chamando quem lhe
quem deve.
2. No livro
s
217
Vlf-
encarar o
membros.
1
'' Este texto foi-nos transmitido por Sexto Empírico (Adversus mathema-
ticos, 65) e tem o título original de nepl1:oií ~ 1 1 Õvtoç 1í n/:p( ' t ~ Ç
cpÚOE'\JÇ.
218 FILOSOFIA
argumenta
se ou é ser, ou ou as
coisas ao mesmo tempo; mas o ser não é mais do que o Não-
-ser - Por é e o Não-ser
não é porque, se o Não-ser não é, é e não é ao mesmo
porque, se pensa como ser, não é e,
não é, ser contraditório ser e
Por conseguinte, o Não-ser não é
não é, estas são
que o é, segue-se que o
ser não é. o Não-ser não é porque, se o ser é,
necessário se torna que ou criado, ou ou mcna-
não tem origem e o que não tem
Se é é não estando em
se está em alguma o
e, então, o ser não é
que um outro o o continente é maior do que o con-
maior do que o infinito, de onde
o situar-se em
O infinito também não é limitado em si mesmo e, nesse
caso, o ser é duplo, por ser, ao mesmo o limite e o
limitado, o continente e o e corpo, uma vez
que onde está é o lugar e o que tem em si é o corpo. Por con-
o ser não é em si e, se o ser é é infinito; se
é infinito, não está em
alguma, não existe. Se o ser é
um momento e, na
tivesse criado, ou teria H"-·''"''uv
Não-ser não nasceu, porque, se existe,
. . - ~ ~ ~ u a ter nascido; não
seja o que for,
existiu sempre, e não
porque este não
razão de que o
FILOSOFIA 219
e
tanto, o ser é
da existência e, por-
o ser não
ser incriado e
se aUUHUH
nasceu e, não
que o ser não é, nem
se existe, ou é um, ou é como se
onde se que o ser não existe.
Se é só um, tem extensão e,
ou um corpo; em qualquer
não é só um porque,
tese, corpo
se é corpo, terá três características, a
gura e de se
existe sem possuir tais atributos; por
Também não é múltiplo
não há, porque a
e, se admitimos a unidade,
não
onde se conclui que nem o ser nem o Não-ser existem.
à inexistência de ambos, é fácil de
que, se o Não-ser é tanto como o ser, o Não-ser é
e, por nenhum deles existe, uma vez
Não-ser não existe e que o ser é o mesmo que o
o ser não existe.
No entanto, como o ser é ao o ser não
ser uma coisa e outra, porque, então, não seria idêntico
a si mesmo; se é idêntico, não pode ser ao mesmo
tempo; de onde se segue que o ser não existe, como o
Não-ser nem os dois em conjunto, e se nem uma coisa nem
outra são conclui-se que nada existe.
Da mesma maneira importa demonstrar
algo, esse se afigura
"";"'uuuv o que pensamos não existe e, por o ser
220 FILOSOFIA
não o que se explica muito se pensar-
mos que uma coisa é branca, mesmo que possamos pensar o
por lSSO
o ser
• importa
que não existe verdadeiramente. ser é impensável!
O que pensamos não existe verdadeiramente
se pensa tudo o que
mos, o que constitui uma
pensarmos
mar, que
incorrecto
existe em
nr.nPrnn.o< ver o OUV!f o
não ser audível, nem o
visível, por um a um sentido, em
o
é
se julga; assim, o que pensamos, ainda sem o vermos, nem
ouvirmos, existiria, por ser conhecido por um sentido
quado.
Se pensarmos poderem os carros rodar sobre o mar,
mesmo sem os vermos, é porque efectivamente há carros
rodando sobre o mar - o que é absurdo! Conclui-se,
maneira, que não podemos, nem pensar, nem conhecer o ser
e, mesmo admitindo que o poderíamos conhecer, ele conti-
nuaria incomunicável, as percepções visuais, auditivas
externos - o visível
da audição - não
comunicar o que em si mesmo é imperceptíveL
significação que usamos é a palavra, mas a
FILOSOFIA 221
somente a
não
necessária. Podemos ter a certeza que não
sena o mesmo do visível e do audível, uma
vez que a palavra é e existe, nos revela o
que é dado e o que existe; se a é dos
outros dados e os corpos visíveis são diferentes da palavra,
porque o melO
onde apreendemos a
lar a maior
rem a sua natureza.
o visível é diverso desse
de onde a palavra não nos reve-
coisas dadas; de onde estas nos oculta-
São estas as dificuldades propostas por e que, na
medida do possível, fazem cair por terra as provas em
da teoria do conhecimento porque, como o ser é incognoscí-
vel e incomunicável, não provas a sua existência.
(Sexto Empírico, mtltn'P»UJ.t
222 FILOSOFIA
3. ICO DE CEOS
( Ceos, séc. V a.
BIOGRAFIA
1. Ceos ganhou a vida a comentários
os
(D. L,
de Ceos
3. De é necessário
DOXOGRAFIA
1. O Pródico ocupou-se também da virtude num
tratado que escreveu Héracles. Em resumo, e tanto
me fê-lo da seguinte
<<Consta que Hérades, sendo
sentado a repousar, hesitando a
na é nesta que os começam a depen-
der de si mesmos, e já denunciam se vão optar vício ou
virtude.
Ao seu encontro vieram duas mulheres: uma de
simpática, vestida com
de outra,
111
Texto transmitido por Xenofonte
nos efeitos que o pensamento de
Pródico deixou várias obras, das
.PÚOE'liÇ, entre outras.
Atentar
FILOSOFIA 223
deu: « meus am1gos
para me
aproximou-se a outra mulher e
« - Venho ao teu encontro, Hérades, e sei o
acerca de teus e de ti
de te ensinar estou
çada em que o meu caminho, o qual leva a e
feitos, e que, a ti, eu brilhar aos
merecendo a
224 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
Ao dizer-te para escolheres o prazer segundo as regras divinas,
não estou a enganar-te; revelo a pura verdade, tal como é,
sem tirar nem pôr.
«Os deuses não concedem aos homens, nem a bondade,
nem a beleza, sem muito esforço e sem muita dedicação e,
por isso, se desejas as graças divinas, deves começar por lhes
prestar o devido culto; se desejas ser estimado pelos amigos,
não deves regatear a estima; se pretendes a distinção política,
tens de ser útil à cidade natal; se desejas ser admirado pela
virtude em toda a Hélade, tens de ser útil à Hélade; se queres
colher abundantes frutos da terra, tens de cultivar a terra;
se achas bom ter muitos rebanhos, tens de ocupar-te dos
rebanhos; se pretendes alcançar a glória na guerra, obtendo a
consideração dos aliados e a derrota dos adversários, tens de
aprender a arte da guerra junto de quem sabe, efectuando
treinos regulares; enfim, se queres ser robusto, habitua o
corpo a obedecer ao espírito, obriga-o a tarefas que façam
correr o suor pela tua fronte!»
Logo veio de novo a Volúpia que, segundo Pródico,
comentou: « - Não vês, Héracles, como é penoso e longo o
caminho da alegria, pelo qual esta mulher tenta levar-te?
O meu caminho para a felicidade é muito mais curto!».
Nisto, replicou a Virtude: « - Miserável, quais são os teus
bens? Que compromissos desejas estabelecer, quando as tuas
razões não merecem sequer uma palavra? Nem sequer esperas
que surja o desejo da bondade e, muito antes de ele surgir, já
tu tentas satisfazê-lo! Fazes comer quem não tem fome, beber
quem não tem sede! Para conseguires esse corpo tentador
comandas os cozinheiros; para ingerires inebriantes vinhos,
compras as produções por alto preço; no pino do Verão, cor-
res por montes e vales à procura de um pouco de neve; para
estares confortavelmente deitada, precisas de fofos cobertores
e de repousantes colchões, e de belos leitos; e, no entanto,
quando recolhes à alcova, não é para repousar, uma vez teres
FILOSOFIA 225
o que é o
mente à envergonhados
acabrunhados, ao pensarem no que ter
a sua esvai-se de prazer em
é passada a tentar olvidar os males
«Sou eu quem ajuda os e os
conselhos! perigo vem deles, nem nem
aos homens! Sou a mais venerada entre os e os homens
são da maior importância! Sou a
artistas, a fiel guardiã dos lares, a
dos servos, a mensageira
na guerra, a melhor
gos os manjares e as e
o apetite os não incomoda; eles têm um sono
ma1s que os
por terem
não negligenciam os os regozijam-se com os
elogios dos os velhos sentem-se glorificados com as
da juventude e lembram-se com
das suas belas acções, nas continuam a encontrar
motivo de prazer!
226 FILOSOFIA
4. DE
(Élis, Séc. V-IV a.
BIOGRAFIA
1. Sócrates - Eu te Há quan-
to da tua presença!
muito Sócrates. Sempre que
Élis tem assuntos a discutir com outra cidade, sou o primeiro
entre a ser para mensage1ro, porque me con-
o mais hábil, tanto para como para pronun-
numerosas a
sobretudo à Lacedemónia, onde tive de tratar,
por vezes, negócios, o que me uuvM.uu visitar a
vossa com maior frequência.
Sócrates - Essas missões, Hípias, são
prías sábio e virtuoso.
pagar
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
227
. aos jovens, aliás, mais preciosas do que o dinheiro que te
pagam ... <o
(Platão, Hipias Maior, 281 b)
2. Hípias de Élis ( ... ) vangloriava-se perante toda a
Grécia de nada haver que ele ignorasse, tanto do que falamos
agora, e que faz a educação de um homem livre e de boa
linhagem - geometria, música, belas-letras, poesia - como
da física, dos costumes, dos negócios políticos. O anel que
trazia, o manto que vestia, os sapatos que calçava, até isso ele
confeccionara por suas mãos.
(Cícero, De Oratore, III)
DOXOGRAFIA
1. O semelhante é por natureza parente do semelhante,
mas a lei, tirano dos homens, é muitas vezes contrária à natu-
reza.
(Platão, Protágoras, 337 c)
2. Como tomar as leis a sério, como acreditar ser neces-
sário cumpri-las, se os próprios legisladores as infringem e
modificam?
(Xenofonte, Memoráveis, IV, IV, 14)
3. O que é belo, o que é precioso, é saber, com arte e
beleza, pronunciar perante os tribunais e perante o conselho,
perante os magistrados que julgam o nosso caso, um discurso
persuasivo, cujo resultado seja, não uma pequena retribuição,
mas a nossa salvação pessoal, a da nossa fortuna ou a dos nos-
sos amtgos.
(Platão, Hipias Maior, 304 b)
nJ Platão escreveu dois diálogos sob o nome de Hípias: Hípias Maior
(acerca do Belo) e Hípias Menor (acerca da Falsidade).
GLOSSÁRIO E ÍNDICE
DOS PRINCIPAIS NOMES PRÓPRIOS
CITADOS NO TEXTO
(ant.)-
Abdera (geog.) -Cidade da Trácia, onde viveram Demócrito e
Protágoras.
Adónis (mit.) - Nome helenizado do deus babilónico da fertili-
dade, T amus, através da base hebraica Adonai, que significa
também !avé e <<meu senhor». As festas do deus, ou Adónias,
eram celebradas no solstício do Verão, em Atenas, desde os fins
do séc. V a. C. Empédocles identifica metaforicamente a Terra
com Adónis.
Aécio (ant.)- Autor de uma doxografia, Opiniões, datando prova-
velmente do séc. II da nossa era.
Afrodite (mit.) - Deusa do amor, mãe de Eros, corresponde à
Vénus romana. Também nomeada por Cípria e por Páfia, ou
seja, pelos nomes dos templos da sua invocação. Era-lhe consa-
grado o dia de sexta-feira.
Agenor (mit.) - Presumível antepassado fenício de Tales. Rei de
Tiro e pai da Europa. Quando Zeus raptou a Europa, Agenor
mandou os seus sete filhos libertá-la, não podendo regressar
sem a terem libertado. Um dos filhos, Cadmo, fundou a
cidade de Tebas, na Beócia.
Agrigento (geog.)- Cidade da costa meridional da Sicília.
Alcméon de Crotona (ant.)- Cf III, 4.
Alexandre (ant.) -Autor da obra Sucessões.
Amínias (ant.) - Discípulo de Pitágoras, contemporâneo de
Parménides.
Anaxágoras de Clazómenas (ant.) - Cf I, 4.
Anaximandro de Mileto (ant.) - Cf I, 2.
Anaxímenes de Mileto (ant.) - Cf I, 3.
Antístenes (ant.)- Sofista, séc. V-IV a. C., continuador do magis-
tério platónico, autor de um tratado sobre a educação, dissen-
tiu de Platão, acusando-o de a teoria das ideias constituir uma
ideia vã. Presumível criador da filosofia cinista, postulou que a
felicidade deriva da virtude e, esta, da filosofia.
232 FILOSOFIA
viveu no séc. I a. C.
(mit.)- Filho da deusa Tétis e de um
o rei dos e um dos chefes aqueus
a Tróia. Desejando
naS
ficou de fora e, nesse
do mas o calcanhar de
Aquiles é mais tardio que o herói.
Ares (mit.) - Deus da guerra,
ncclduou: vestido de
-0
obras.
Arquelau de Atenas I, 5.
Arquíloco - Poeta, natural de Paros, séc. VII a. C.
de T erento 7.
à Diana dos Romanos,
outra difira. A grega aparece
e a romana armada de arco,
cultuada em Atenas, protectora da
costumava ser associada ao culto da água, de onde o
atributo de que lhe aparece "IY''"""uv.
Babe (ant.) -Pai de Ferécides de Siro.
Bias de Priene (ant.) -Filho de Teutamo, foi por
Sátiro, como um dos sete sábios. Segundo Laércio, teria escrito
um poema de 2000 versos sobre a Jónia.
Blóson (ant.) -Presumível pai de Heradito.
Boton de Atenas - Presumível mestre de Xenófanes de
Cólofon.
Cadmo
Calcídica
fundador de Tebas.
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA 233
Calímaco (ant.} - Poeta do séc. IV-III a. C., natural de Cirene, e
historiador.
Calfope (mit.} - Musa da épica, da lírica e da eloquência, mãe de
Orfeu e das Sereias.
Catânia (geog.) -Cidade marítima da Sicília.
Centauros (mit.} -Figuras híbridas de homem e de cavalo, pare-
cem significar a luxúria.
Ceos (geog.) -Ilha grega das Cidades.
Cícero (ant.}- Escritor romano, séc. I a. C.
Cípria (mit.}- Cf Mrodite
Cleantes (ant.} - Poeta e filósofo do séc. IV-III, a. C., sucedeu a
Zenão na escola do Pórtico (estóica}.
Clemente de Alexandria (ant.} -Tito Flávio Clemente, primeiro
sábio cristão, natural de Atenas e autor, entre o mais, da
Stromata, obra em que apresenta os filósofos antigos como pre-
paradores evangélicos.
Cleobulina (ant.)- Mãe de Tales.
Cleóbulo de Lindo (ant.} - Filho de Evágoras, descendente de
Hércules.
Corinto (geog.)- Cidade grega, a nordeste do Peloponeso.
Creófilo (ant.}- Tio de Hermodamas, mestre de Pitágoras.
Crono (mit.} - Figura mítica alusiva aos fenómenos atmosféricos.
Crotona (geog.) -Cidade da Itália meridional.
Ctónia (mit.} -A terra, origem dos mitos crónicos.
Damáscio (ant.} - Filósofo neo-platónico, séc. V a. C., autor de
uma obra sobre os Principias.
Damásio (ant.} - Arconte de Atenas, contemporâneo de Tales.
Delfos (geog.)- Localidade grega da Fócia.
Demétrio de Falera (ant.) - Discípulo de Aristóteles, governador
de Atenas e polígrafo.
Demócrito de Abdera (ant.)- CfV, 2.
Diochaito (ant.)- Discípulo de Pitágoras.
Dfocles (ant.) - Discípulo de Pitágoras, é citado por Platão, no
Fédon.
Diógenes de Apolónia (ant.)- Cf IV, 5.
FILOSOFIA
Laércio - Historiador do séc. III da nossa era,
autor da obra sobre as vidas e as dos mais célebres
e fonte da filosófica
tica.
Díon (ant.)-
citado na Carta
Dionísio de Sicília
séc. a. C.
siciliano contra o
de Platão.
de
- Tirano de Siracusa e autor
é
Dioniso - Deus do vinho e da natureza em geral. O mito é
de trácia e o seu nome ter-se originado em dióscu-
r os.
Dixio - Presumível pai de Xenófanes de Cólofon.
- Cidade jónica, agora turca.
(geog.) -Cidade do litoral do Mar Jónio, no
Empédodes de Agrigenw m, 3.
Epicuro - Filósofo grego, natural de Samos, séc.
a. fundador do «Jardim», deu o nome ao epicurismo.
Epiménides (ant.) -Companheiro de Pitágoras na viagem a Creta,
autor de várias obras.
Epimeteu -Um dos irmão de Prometeu, marido de
Pandora, de quem houve Pirra, mulher de Deucalião.
Equécrates - Pitagórico, natural de Pleios.
Érebo (mit.) - Mito cosmogénico, filho do Caos e da
transformado em foi lançado no Hades, por ter tomado o
partido dos Titãs na luta contra Zeus.
Erineus (mit.)- Fúrias, ou deuses da vingança.
Eros (mit.) - Mito do amor, que Platão estudou como impulso,
necessidade, vontade, carência e plenitude.
Esopo - Fabulista, séc. V a. C., autor das fábulas que lhe
foram atribuídas por Demétrio de Falera.
Euclides (ant.)- séc. IV-IH a. C., viveu em Alexandria.
Eubulo (ant.)- Presumível pai de Anaxágoras.
Euristrato {ant.)- Pai de Anaxímenes de Mileto.
Eurito de Crotona - Cf III, 6.
FILOSOFIA
235
Eusébio de Cesareia (ant.) -
riografia
de Cesareia, precursor da histo-
v,-,.,,.,.,,-,m destinada
a mostrar a hebraica.
Exarnias - Pai de Tales de Mileto.
Ferécides de Siro 1.
Filolau de Crotona 5.
Górgias de Leontinos (ant.)- 2.
Hades -O mundo dos mortos, entidade filha
de Crono e da Terra.
Hécate -Divindade deusa da nutrição, corres-
ponde à romana Trivia.
Hecateu de Mileto (ant.) - Político e geógrafo, séc. VI-V a. C.,
descreveu os que visitou, na obra '-'V«'"'""'
Hefestos (mit.) - Divindade do e dos
ao romano Vulcano.
Hera (mit.)- Filha de Crono e de Rea, aparece associada à mater-
nidade.
Héracles (mit.) - Semideus libertador de corres-
ao romano Hércules.
Hérádides Pôntico (ant.) - Discípulo de Platão, e
físico.
Heradito de Éfeso (ant.) - Cf 6.
Hermaco - Citado por Laércio, defensor da inexistência de
Leucipo.
Hermodarnas (ant.)- Mestre de Pitágoras, em Samos.
Hermodoro de Siracusa - Discípulo de Platão e biógrafo
deste filósofo.
Heródoto -Historiador e natural de Halicarnasso,
séc. V a. C.
Hesíodo - Cf I, 2.
de Metaponto (ant.)- Natural de Crotona, pitagórico.
(ant.) - Cf VI, 4.
Hipócrates de Cós (ant.) -Médico, natural de Cós, séc. V a. o
«pai da medicina>>.
Hipólito (ant.) - Santo, um dos últimos escritores do Ocidente a
utilizar o em obras literárias.
Homero toda a ressalva pela
autor dos poemas !!fada e Odisseia.
lida (mit. e
séc. V a. C.
-Nome de duas montanhas da
de Ida.
-Poeta
- Pai. de Melisso.
grega da Ásia Menor.
1.
Menor e de
de Eurípedes,
Macróbio (ant.) -Ambrósio Aurélio Teodósio, governador da
Gália e das cristão e opositor do
autor de Saturnais.
Marco Túlio Cícero (ant.) - Cícero, o notável político e orador
romano, séc. I a. C.
Melisso de Samos 3.
Menesarco (ant.) - Presumível pai de cinzelador em
Samos.
Metão (ant.) - Pai de
Mídon - Pai de
Mileto (geog.)- Cidade Ásia Menor.
Mitilene (geog.)- Cidade na ilha de Lesbos.
" ' - · ' " ' ~ ' n v - Pai de Arquitas de Terento.
Musas - Mitos figuradores da inspiração, eram nove: Clio,
Euterpe, Tália, Melpómene, Terpsicore, Erato,
U rânia e Calíope.
Nestia (mit.)- O sémen, segundo Empédodes.
Ninfas (mit.) -Filhas de Júpiter, divindades dos rios e dos
bosques.
Olimpo (mit.) - Montanha a norte da Grécia, na Tessália, onde
os gregos situavam a morada dos deuses.
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA
237
Orfeu (mit.) - Personalidade mítica, origem do Orfismo, desceu
aos infernos, onde foi buscar sua mulher, Eurídice. Não tendo
cumprido o preceito de não olhar para trás, perdeu a mulher.
Palamedes (ant.) - Cognome de Zenão de Eleia.
Parménides de Eleia (ant.)- Cf IV, 2.
Pausânias (ant.) - Filho de Arquitas, personagem da obra de
Empédocles.
Periandro de Corinto (ant.)- Um dos sete sábios.
Péricles (ant.) -Estadista grego, séc. V a. C., discípulo de Zenão e
de Anaxágoras. Criador da época política conhecida por
<<século de Péricles».
Pítaco de Mitilene (ant.)- Um dos sete sábios.
Pitágoras (ant.)- Cf III, 2.
Plotino (ant.) - Natural do Alto Egipto, ano 205 da nossa era.
Teve uma escola em Roma. As suas obras foram coligidas por
Porfírio.
Plutarco (ant.) -Historiador, séc. l-II da nossa era, autor de Vidas
Paralelas.
Polícrates de Samos (ant.) - Tirano de Samos, onde fez grande
obra política.
Polimnestor (ant.)- Discípulo de Pitágoras.
Porfírio (ant.) -Autor de uma biografia de Plotino, e de comentá-
rios a Aristóteles, morreu em Roma.
Posídon (mit.) -Mito das águas e guia das ninfas, corresponde ao
romano Neptuno.
Praxíades (ant.) -Pai de Anaximandro.
Proclo (ant.) -Platónico, séc. V a. C., autor de Teogonia
Platónica.
Pródico de Ceos (ant.)- CfVI. 3.
Prometeu (mit.) - Filho de Jápeto, irmão de Epimeteu. Por ter
roubado o fogo aos deuses, foi atado a um rochedo, onde uma
águia lhe vinha devorar o fígado durante o dia, depois de re-
nascido durante a noite.
Protágoras de Abdera (ant.)- CfVI, 1.
Quílon de Lacedemónia (ant.) -Poeta espartano.
238 FILOSOFIA
Menor.
séc. n da nossa era.
natural de
séc. VH -VI a. C.
Tales de Mileto (ant.) - L
Tártaro -O o lugar do sofrimento.
Teofrasto (ant.)- Natural de aluno de Leucipo, teria suce-
dido a Aristóteles na do «LiceU>>.
-Poeta da comédia antiga, autor de Maravilhm.
- Cidade no do mesmo nome, ao sul da
Timão (ant.) - Poeta e
c.
de Pirro, séc. IV-III a.
Titãs (mit.) - Gigantes que pretenderam destronar Zeus; os seis
filhos de Urano e de Gaia.
Tito Lucrécio Caro (ant.) - O poeta romano, autor de
Da Natureza.
T rasilo -Filósofo neoplatónico, estudou a autenticidade e a
cronologia dos diálogos platónicos.
Xenófanes de Cólofon - Cf IV, 1.
Xenófilo (ant.)- Pitagórico, originário da Calddica.
Xenofonte (ant.)- Poeta e escritor, séc. IV a. autor de
Memoráveis.
Xerxes (ant.)- Filho de Dario, rei dos Persas.
Zenão de Eleia (ant.) - Cf 4.
Zeus - A principal divindade do grego, pai dos
deuses e dos homens.
COMPOSTO POR
GUIMARÃES EDITORES
EM LISBOA
IMPRESSO POR
TIPOGRAFIA GUERRA
EM VISEU
SETEMBRO DE 1994
ISBN 972-665-132-8
Legal n.
0
FILOSOFIA
GREGA
PRÉ-SOCRÁTICA
É a primeira vez que se publica, em
Portugal, uma obra como esta, englo-
bando específicamente a filosofia grega
pré-socrática.
Nela se procurou dar todo o relevo ao
tema e aos autores e, para oferecer uma
visão global, estendeu-se a antologia até às
fontes primevas, como Homero, Hesíodo
e o Orfismo.
De cada um dos principais autores
inclui-se uma biografia genuína, sumária,
uma doxografia fundamental, e os frag-
mentos atribuídos por Diels a cada um
dos autores.
Para serviço dos estudiosos respeitou-
-se a numeração estabelecida por Diels,
para os fragmentos.
Servir os leitores em geral, e os estu-
diosos em particular, foi o objectivo que
ditou a presente edição, a qual vem preen-
cher uma lacuna de há muito existente na
cultura portuguesa.
COLECÇÃO DE FILOSOFIA & ENSAIOS
A UTOPIA, Tomás Morus
ELOGIO DA LOUCURA, Erasmo
ESTÉTICA, Hegel (7 vols.)
A CIDADE DO SOL, Campanela
O BANQUETE, Kierkegaard
A CONQUISTA DA FELICIDADE, B. Russell
VIDA NOVA, Dante
MONARQUIA, Dante
O PRÍNCIPE, Maquiavel
ENTRE DOIS UNIVERSOS, F. Figueiredo
UM FERNANDO PESSOA,Agostinho da Silva
O RISO! Bergson
PRINCIPIOS DA FILOSOFIA, Descartes
AS APROXIMAÇ6ES, Agostinho da Silva
OS CAVALEIROS DO AMOR, Sampaio Bruno
O ENIGMA PORTUGUÊS, F. da Cunha Leão
OPÚSCULOS, Pascal
ESTUDOS GERAIS, Álvaro Ribeiro
TEORIA DO SER E DA VERDADE, José Marinho
INICIAÇÃO FILOS6FICA, K. Jaspers
ECCE-HOMO, Nietzsche
CINCO MEDITAÇ6ES SOBRE A EXISTÊNCIA,
N. Berdiaeff
UM COLECCIONADOR DE ANGÚSTIAS, F. Figueiredo
O SIMP6SIO, Platão
O HOMEM, J. Rostand
ASSIM FALAVA ZARATUSTRA, F. Nietzsche
CONVÍVIO, Dante
GUIMARÃES EDITORES, LDA.

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