HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL

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OTTO MARÍA CARPEAUX

HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL
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Universidad* EsUduil dt Mtrtn|É S.stema de Blbllot.eM • • «

0 CRUZEIRO

Oiretor HERBERTO SALES

DlREITOS

AUTORAIS ADQUIRIDOS

PBLA

EMPRESA

GRÁFICA O CRUZEIRO S. A., QUB SB RBSBRVA A PROPRIEDADE UTERÁHIA DA PRESENTE BDICÁO.

PARTE V

BARROCO E CLASSICISMO

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CAPÍTULO I O PROBLEMA DA LITERATURA BARROCA

O

século X V I I , que se estende, mais ou menos, de 1580 a 1680, é o mais rico de todos na historia da literatura universal; e para justificar o superlativo basta citar alguns nomes, escolhidos ao acaso e classificados conforme os anos de nascimento: Tasso, Cervantes, Góngora, Lope de Vega, Shakespeare, Tirso de Molina, Ben Jonson, Donne, J o h n Webster, Quevedo, Ruiz de Alarcón, Vondel, Comenius, Calderón, Gracián, Corneille, Milton, La Rochefoucauld, La Fontaine, Marvell, Moliere, Pascal, Mme de Sévigné, Bossuet, Bunyan, Pepys, Mme de La Fayette, Boileau, Racine, La B r u y e r e . Os pintores de solenes quadros históricos, no século XIX, costumavam agrupar em torno de um rei todas as figuras ilustres da sua época, e nao haveria companhia mais ilustre para um quadro do que aqueles poetas e escritores, se fósse possivel encontrar um centro para éles. Mas um centro assim nao existe no século X V I I . A riqueza é abundante demais, e os caracteres nacionais das literaturas — da italiana, espanhola, francesa, inglesa, holandesa — já estáo de tal modo marcados que é impossivel encontrar um centro comum de gravitacao. A historiografia literaria antiga, incapaz de definir o caráter universal da literatura do Béculo X V I I . escolheu como centro, arbitrariamente, a corte do rei Luís X I V da Franca; e, em conseqüéncia, a literatura nao francesa da época se perdeu de vista ou entáo se fragmentou, em pedacos sem .relacio de uns com os outros. Aos críticos classicistas do século X V I I I pareceu que só a Franca

especialmente em Crashaw. nos comegos do século XIX. porque o dogma classicista impunha ignorar a literatura do Bar- . e sim o grupo dos "metaphysical poets" do século X V I I I . continuava ou continua em vigor. O dogma classicista de Boileau. os poetas seus contemporáneos. e em alguns entre éles há realmente influencia do marinismo italiano. Herbert. que nao era possível.684 OTTO M A R Í A CAHPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 685 tinha produzido. O marinismo — a maneira poética de falar em conceitos espirituosos e metáforas atetadas para exprimir lu- gares-comuns fúteis ou sentimentos insinceros — teria conquistado a Europa inteira. fenómeno literario do século X V I . de Corneille e Pascal até Racine e La B r u y é r e . influiu no estilo das comedias de Shakespeare. no século X V I I . a crítica associava os "précieux" franceses que deviam desaparecer. gongorismo. considerar como representantes da Renascenca. Donne. a éles. A literatura francesa do século X V I I continuava como grupo estilístico bem definido. Só assim se explica o equívoco de que Lope de Vega e Shakespeare tivessem sido considerados como poetas renascentistas. Pelo contrario. Por motivos lingüísticos e sociais. < admirável. com a conseqüéncia de que os seus contemporáneos aparecem num manual divulgadíssimo da literatura inglesa como "Decline of the Renaissance" — um Ben Jonson e um Donne como decadentes! O verdadeiro equivalente do gongorismo-marinismo na literatura inglesa nao é o eufuísmo. os Góngoras e Donnes. Ainda existem manuais da literatura espanhola e inglesa nos quais o estilo de Góngora é explicado por urna doenca mental do poeta e o nome de Donne nem sequer figura. Mas sobre ésses poetas pairava a sentenca condenatoria do grande crítico classicista Samuel Johnson. continuavam condenados. O desprézo era táo profundo que produziu a ignorancia. o representante do eufuísmo. do século X V I I . o século X V I I parecia — e parece a muitos até hoje — dominado pelo "mau gósto" do marinismo na Italia. renegado com os labios. para dar lugar á arte pura do estilo Luís X I V . Vaughan. "Mau gósto" ou nao. impóem-se distingoes nítidas. enfim. O primeiro erro fundamental foi a justaposigáo do eufuísmo. o teatro inglés e o teatro espanhol foram considerados como excecoes admiráveis ácima do resto das suas literaturas. Mas no estilo marinista a Inglaterra teria precedido os outros? Na Inglaterra teria acontecido o paradoxo de o estilo barroco preceder a Renascenga? Lyly. Mas o criterio da admissao era arbitrario: "isso também é grande literatura. Mas a análise mais exata das origens históricas daqueles estilos já nao permite confundi-los. é considerado como poeta máximo da Renascenca inglesa. eufuísmo e preciosismo manifesta-se a primeira tentativa de definir um estilo comum do século X V I I . capaz de • opor-se ao criterio classicista. e nos compendios de literatura inglesa désse século XIX nem sequer aparece o nome de Donne. Admitiram-se no seio das grandes épocas literarias o teatro elisabetiano-jacobeu de Shakespeare e o teatro espanhol de Lope de Vega e Calderón. naquela condenacáo geral do marinismo. • A visáo da evolugáo histórica da literatura inglesa ficou inteiramente desfigurada. urna grande literatura. de Portugal á Suécia. no entanto. a Renascenca chegou á Inglaterra mais tarde do que as outras grandes nacóes européias. nem com a maior boa vontade." Nao era um criterio estilístico. O senso histórico dos críticos románticos nao se podia conformar com o absolutismo daquele dogma estético. Fora da Franja. que ficou ignorado e desprezado. A semeIhanca entre aqueles estilos é inegável. Crashaw. Shakespeare e Calderón foram condenados como genios "incultos" de literaturas "bárbaras". ao marinismo e gongorismo. Shakespeare. do gongorismo na Espanha. um crítico tao grande como Hazlitt confessou ter lido pouca coisa de Donne e Marvell. do eufuísmo na Inglaterra. todos éles derivam direta ou indiretamente da "lingua culta" das élites aristocráticas da Renascenca. Marvell. Spenser é posterior a Garcilaso e Ronsard.

M. F. W. de Garcilaso de la Vega. Em compensagáo. 1926.) qual Góngora se teria inspirado ( 3 ). Tasso é o grande poeta da Contra-Reforma e a comparagáo com Ariosto basta para excluir qualquer possibilidade de tratá-lo como poeta da Renascenga ( 2 ). 1949. García Sorano: "Luis Carrillo y Sotomayor y los orígenes del culteranismo". Mas entre Guevara-Lyly e os "metaphysical poets" nao existe relagao alguma. As relagoes entre o marinismo e o gongorismo espanhol sao das mais complicadas. O papel de Carrillo y Sotomayor fica reduzido ao de um intermediario e n t r e Góngora e Herrera ( 6 ). que imitou o estilo afetado das obras de mocidade de Boccaccio (Filocolo). siécle. Cabeen: L'influence de Giovanni Battista Marino sur la littérature /rancaise dans la premiére moitié du XVlIe. Praz: Studi sul Cbncettismo. enfim. <In: Trivium. Torlno. secretario exilado do rei Filipe I I . que aventurara a hipótese. cspanhola. na Espanha da primeira metade do século X V . no 1) Com respeito as origens espanholas do eufuísmo. Picco: Salotti Jrancesi e poeti italiani nel Seicento.-P. 1911. pelo estilo do que pela mentalidade. Alegaram-se as relagoes do famoso Antonio Pérez. escreveu um tratado marinista. Thomas: Góngora et le gongor\sme consideres dans leurs rapports avec le marinisme. mistura de lascivia e melancolía cora religiosidade algo hipócrita e veleidades de poesía pastoril. London. Caracteriza-se menos. ou antes. talvez. precursor do gongorismo. reagáo inspirada na poesía castelhana "flamboyante" do século XV ( 4 ). 1934. Marino estéve em Paris de 1615 a 1623. Firenze. encontrou o hábito e até exemplos da metáfora rara no livro Emblematus libellus (1522). A s fontes espanholas de Lyly já foram verificadas: encontram-se em Antonio Guevara. e foi admiradíssimo ( 7 ) . a discussáo das opini6es discordantes em: M. 7. Sobre as fontes medlevals. Spoerri: Renaissance und Barock bei Ariost und Tasso. O poeta foi protegido pela corte barroca da rainha María de Médicis. ^_ 6) J. Com efeito. . Madrid. justamente o espanhol Pérez nao representa o tipo do estilo barroco. (In: Boletín de la Academia Espaiíola. Chlappelli: "Tassos Stll Im Uebergang von Renaissance zu Barock". Arce Blanco: Garcilaso de la Vega. cf. T. M. fontes latinas medievais ( ' ) . O fato de ter Pérez morrido em 1611. Ésses elementos definem a fonte em que Marino se inspirou: Tasso. só se abriu em 1617). a Góngora (°). notas 93 e 94. o Libro de la erudición poética (publicado em 1611). Clemon. 1905. e o resultado dos estudos recentes é urna linha de evolugáo autónoma. cf. espanho3) L. mas no Hotel de Rambouillet as maneiras pomposas. considerava-se como "marinista" o eufuísmo. através de Fernando de Herrera. O preciosismo francés sempre foi explicado por influencias espanholas e italianas. quartel-general dos "précieux". A H Í . Thomas: Le lyrisme et la préciosité cultistes en Espagne. Mas as cartas de Pérez nao se parecem com as de Voiture. com o grupo da Marquesa de Rambouillet e Voiture. Estudos recentes revelam outras fontes do eufuísmo. preferiu depois definir o gongorismo como reagao antiitaliana contra a poesía renascentista. do notável historiador lombardo Andrea Alciato. Orenoble. 1904. urnas italianas e outras mais remotas aínda: Lyly.-P. O indicio é bastante fraco. estéve na Italia. mas nao foi urna admiragáo incondicional. París. ano em que comegaram as reunióes no salao da Marquesa (o Hotel de Rambouillet. nao basta para desmentir a hipótese. HaUe. 7) W. E essa interpretagao de Tasso abre novas perspectivas á definigao do estilo literario barroco. "Renascenca Internacional". 1922. cf. Sobre as origens Italianas. 4) L. O marinismo italiano tem outra origem.686 OTTO M A B I A CARPEAUX HI8TÓHIA DA LITERATURA OCIDENTAL 687 roco inglés. Croll: Introdu?áo da edigáo de Euphues por H. O primeiro representante.) C) Cf. 1930. Zuerich. Luis Carillo y Sotomayor. 1916. 1909. que é coisa diferente. 2) Th. O próprio Lucien-Paul Thomas.

francesa. Jure: Mizabethan and Metaphysical ¡magery. embora nao totalmente. considerados outra vez como poetas de categoría universal e valor permanente. que aprendeu os "concetti" e "pointes" em Bertaut. Leipzig. no napolitano. Ou entáo o classicismo francés devia ser tratado como antecipacao do século X V I I I .HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL OTTO M A R Í A CARPEAUX 689 las. em parte porque os historiadores estáo mais longe da discussao literaria. como um caso especial sem repercussao imediata. tudo. Raymond: "Classique et Baroque dans la poésle de Ronsard".) V. especialmente na Alemanha ( l l ) . em muitos setores. XXXV/I. teie já proposta em estudos menos recentes ( 8 ) : o verdadeiro iniciador do preciosismo teria sido Théophile de Viau. quanto ao estrangeiro. Chicago. porque a ortodoxia católica e o conformismo político do classicismo francés o separain radicalmente do "siécle des lumiéres". e só na Franga. verificou-se que sua estranha arte metafórica descende. um estilo caracterizado pelo fato de nao ser um estilo. nos manuais. e o imitou. É verdade que as comparagoes entre as artes plásticas e a literatura sao engañosas. o desprézo pela literatura barroca. Na Franca. 1943. Schirmacher: Théophile de Viau. Urna linha Ronsard — Bertaut — Théophile de Viau corresponde á linha Garcilaso — Herrera — Góngora. Basel. 1897. em parte porque o dogma classicista de Boileau continua a exercer influencia subterránea. quan11) R. mas como um século de classicismo.) 10) R. Ronsard é precursor de certos hábitos poéticos barrocos ( 9 ). Wellek: "The Concept of Baroque ln Llterary Scholarship. a maior época da literatura francesa {icaria num isolamento completo entre as literaturas contemporáneas das outras nacóes. mas iss. A historiografía oficial da literatura francesa ignorava até tempos recentes o termo "Barroco". Por isso. m . em que as outras literaturas aceitaram realmente o grande estilo francés. V/2. porque a sensibilidade moderna se reconhece naqueles poetas como em precursores. de Marino. Cerny: "Les origines européenes des études baroquistes". num capítulo tradicional. 1948. o marinismo encontrou só um representante auténtico: Chapelain. (In: Trivium. Onde a existencia do estilo barroco nao pode ser negada é ñas artes plásticas. Na Franca. Ben Jonson e Donne foram reabilitados.) M. O ponto de vista antigo foi típicamente francés. "Attardés et Égarés" (assim em Lanson). admite-se hoje a possibilidade de urna evolucáo autónoma. sein Leben und seine Werke. A literatura do século X V I I encontra hoje novamente grande apréco: Góngora e Calderón. Nao assim a historiografía literaria: tiesta continua. Daí ter a historiografía da literatura francesa de tratar o século X V I I nao como século barroco. É análogo o caso dos "metaphysical p o e t s " . causaram estranheza. só admitía urna fase temporaria de "mau gósto" entre a Renascenga e os grandes clássicos. muito mais do que antes se supunha. Chegou-se a negar a existencia do Barroco em literatura. a crítica francesa — e todas as outras no mundo que estao com ela — continua a considerar o século X V I I como classicista. que escreveu o prefacio do Adone. quer dizer.) . (In: Revue de Littérature Comparée. por tras do qual surge a sombra de Ronsard. O porta-voz dessa revalorizagáo do Barroco é a critica literaria que se senté responsável pelo gósto da época. há mais de 30 anos já é intenso o trabalho de retificacáo e reabilitacáo. 0) B. lá reinava o "mau gósto". Parte considerável da nossa literatura atual é gongorista e "metaphysical". tendo produzido vasta bibliografía sobre o assunto. 1844. as correntes contrarias na Franga sao tratadas. Con/ 8) K. Janeiro de 1960. Festschrijt fuer Heinrich Woelfflin. o estilo barroco foi vencido e eliminado. Com respeito ás origens do preciosismo. da dos poetas elisabetanos ('"). É urna alternativa entre duas impossibilidades. (In: Conciunitas.o é impossivel. Senáo." (In: Journal of Aesthetics & Art Criticism. Brock-Sulzer: "Klassik und Barock bel Ronsard". dezembro de 1946. cedo e radicalmente.

que modificam o projeto mental do artista sem o determinar completamente. Bernini. apreciada segundo certos cánones. o termo comegou a perder o sentido pejorativo — aempre no setor das artes clássicas — admitindo-se a riqueza fabulosa da época em valores arquitetónicos. e épocas da decadencia ñas quais a capacidade enfraquece e urna técnica perfeita produz imitagoes pálidas ou exageros monstruosos. o material e a finalidade da obra (imposta pelo meio social) sao meras condicoes da realizagao. Desde tempos imemoráveis. Riegl: Stilfragen. Berlín.'Hi OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 691 / do. Grundlage sur einer Geschichte ier Ornamenta. nao foi possivel definir o Barroco. quando Alois Riegl criou o conceito da "vontade estilística" ( i a ) . o criterio principal da historiografía das artes plásticas era a capacidade dos artistas. "metaphysical poetry" nasceram em relativa independencia.) 13) A. 23. paisagens de academismo arcádico e orgias frenéticas. . entre os quais apenas alguns eleitos. ostentacáo vazia e visoes místicas. épocas maduras ñas quais os artistas possuem a capacidade de realizar o que pretendem exprimir. Zurbarén. do mesmo modo que o próprio termo "Barroco" é um termo das artes plásticas. É mister perguntar: que pretendeu realizar o artista? qual a sua "vontade"? A capacidade. do elemento comum em toda atividade literaria do século X V I I . por assim dizer. Guercino. Rembrandt. nao é lícito dizer: o artista ainda nao sabia esculpir urna estatua á maneira de Fídias. urna idéia fortemente antitética: arquiteturas majestosas e martirios com pormenores sádicos. e ésse elemento comum existe. e ésse conceito da "vontade de fazer arte assim" é realmente um termo da historiografía das artes plásticas. Só se trata da aproximat í o . segundo Riegl. Callot. Claude Lorrain. ou ainda nao sabia construir urna catedral gótica. negativos. 1938. Durante o século XIX. Nicolás Poussin. Explicar a unidade superior que compreende em si essas antíteses tornou-se postulado urgente. Mas nao se trata de definir o Barroco. Assim. nasceram equívocos. literarias. Rubens. gongorismo." Quando o homem moderno se encontra em face de urna estatua grega primitiva ou de urna igreja románica ou de um quadro barroco. aB definigóes da arte clássica e da arte barroca dadas por Woelfflin forarn aplicadas a crítica literaria. Van Dyck. por exemplo. Mark: "The Uses of the Temí Baroque". os "clássicos". do classicismo. Das obras désses mestres é abstraída a nossa ¡déia do que é barroco.• f. filosóficas da Humanidade. transformando-se a historia da arte em corrida estranha de "precursores" e "sucessores". por exemplo. A obra de arte. Guarino Guarini. lingüístico ou acústico. pelos leigos essa teoría é aínda aceita como se fósse um dogma indiscutido. distinguiramse épocas da infancia da arte ñas quais a capacidade aínda está em formasáo. grande teatro aristocrático e ladroes em tavcrnas sujas. 1893. por meio da descrigoes sucessivas e cada vez mais exatai. ou já nao V II) J. preciosismo. Hals. fatóres. Marinismo. O século X V I I quis escrever désse modo. Fischer Von Erlach. A discussao désse dogma foi iniciada por Riegl. nao é mero produto da colab o r a d o entre a capacidade técnica do artista e as qualidades do seu material plástico. Magnasco. Ribera. e é de valor incalculável para a compreensao de todas as expressoes artísticas. (In: Modern Language Revltw. Nessa teoría baseia-se a alta consideragáo dedicada aos classicistas de todas as artes e de todas as épocas. com fórga tanto maior impoeae a conclusao de que deve ter sido urna mentalidade comum que produziu em toda a parte estilos táo parecidos. acertam. Jordaens. plásticos e pictóricos: Greco e Caravaggio. é Impossivel definir em urna fórmula exata um fenómeno tío complexo como é um estilo. "A capacidade é urna conseqüéncia secundaria da vontade. Borromini. Velázquez. Murillo. O termo "Barroco" ( 12 ) é a expressáo usada pelos críticos das artes plásticas do século X V I I I para desacreditar as obras que nao obedeceram aos cánones ideáis da Antiguidade clássica e da alta Renascenga.

religiosas. as obras ficam. Isto é falso classicismo. Nao há "épocas primitivas" nem "épocas decadentes". No setor da literatura. os genios. domina hoje em todos os setores. quando até entáo a palavra "gótico" tinha sentido pejorativo. e outras que compreendemos menos ou só com dificuldade porque diferem muito da nossa. A comparacáo da literatura com as artes plásticas nao pode ser levada além dessas datas. Ñas próprías obras da imaginagáo literaria. é preciso deixar a regiáo das artes mudas. O termo "Barroco" percorreu a mesma evolugao. tentativas de racionalizar a atitude e mentalidade da época para formulá-las. porque o material d a literatura — a língua — é ao mesmo tempo o instrumento de expressáo da política. É preciso admitir que aqueles artistas pretendiam fazer coisas diferentes. O meio político. a critica literaria contemporánea insistiu com tanta paixáo na imo- . meio religioso. pouco conhecida durante a vida do autor.a muito maior do que ñas obras de arquitetura ou pintura. o teatro francés e o teatro espanhol. filosófico. A aplicagao das fórmulas de Riegl encararía as teorias estéticas de um ponto de vista diferente: sao obras da inteligencia discursiva. a antítese entre o místico Greco e o naturalista Caravaggio. A teoria de Riegl. só há épocas que compreendemos bem porque a nossa própria atitude é parecida. em parte. tentativas de racionalizacao. porque a sua atitude em face da natureza e da vida era diferente. Para chegar a conceitos mais exatos. as epopéias primitivas e a poesia hermética. a liturgia romana e o romance naturalista. Tiram-se conclusoes mais precisas da análise das teorias estéticas da época. as teorias se esquecem. conforme a "vontade" dos artistas. Só assim se explica que o século XIX tivesse descoberto a beleza das catedrais góticas. embora também obras da inteligencia e embora também. a "mentalidade" barroca. em geral. A literatura barroca é a "pedra de toque" da teoria. da arte primitiva. entre a poesia de Donne e a epopéia herói-cómica. Trata-se de reconstituir a "atitude 4 '. e as opinioes políticas. estes autores conseguirán! cumpri-las. para verificar a existencia de urna literatura barroca e compreender-lhe os valores. superaram as normas. O assunto do poema é meio heroico. as teorias estéticas e "Artes poéticas" de urna época estudam-se.m OTTO MARÍA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 693 tabia pintar como Rafael. éste livro procura empregá-la. hoje nos agradam menos. social. da arte barroca. Q u a n t o ao Barroco. Daí as discrepancias entre teoria estética e prática literaria. Mais tarde. apreciando da mesma maneira. As obras de arte barroca forneceram certo número de antiteses que constituem os polos extremos da mentalidade barroca: solenidade majestosa e naturalismo brutal. ao passo que outras épocas da arte. intervém com fór$a maior os elementos emotivos. essas discrepancias constituem o objeto de discussoes literarias. Ñas obras de literatura. o elemento intelectual e racional entra com fór. já muito acentuada. de Tasso. e aquelas teorias tornam-se incompreensiveis á posteridade. outrora celebérrimas. E essas apreciagoes nao permanecen! iguais para sempre e até o fim do mundo — como acreditava o classicismo — mas mudam conosco. filosóficas dos au- tores manifestam-se com evidencia maior numa pega dramática ou num romance do que num edificio ou quadro. artificio sutil e vi sao mística. obras racionáis. religioso. e a sinceridade religiosa do poeta está fora de dúvida. e mais outros.barroca. da religiáo e das ciencias. No cornejo do Barroco havia urna dessas grandes discussoes. Na própria época. Baseia-se nela o aprégo total da arte folclórica. Chura vez intervém o conceito da "capacidade". a teoria foi menos aplicada. torna-se mais marcante entre o teatro religioso de Calderón e o romance picaresco. aqueles nao o conseguiram. em torno da Gerusalemme ¡iberata. Contudo. mais ou menos apaixonadas. para esclarecer o gósto literario dos autores em questáo: a estética da época fez tais e tais exigencias. Na historiografía literaria.

Até o ceptícismo de Montaigne é anti-racionalista.<>. de modo que a crítica hostil foi interpretada como conseqüéncia d i Intervengao eclesiástica. porque nao é possivel nem necessário. A única finalidade dessa literatura era a criacao de beleza. A primeira grande literaria na qual se anuncia o espirito da nova ¿pool Gerusalemme liberata. o prazer das coisas belas. isto é. que é por definicáo antiracionalista. A norma suprema da aristocracia literaria é o hedonismo. Daí a hostilídade contra as deducoes racionáis da escolástica aristotélica. A isso corresponde a teoría estética da Renascenca. sejam obras de arte. que enfim a s próprias autoridades eclesiásticas intervieram. em Tasso. o amor terrestre é o reflexo do amor divino. o platonismo. como o Orlando Furioso. É síntoma do contrario o ardor sensual que já se reparou ñas entrelinhas de Leone Ebreo e que. francamente anti-racionalista. que teria em Arioii . de Tasso. O platonismo renascentista fornece •o hedonismo urna brilhante superestrutura filosófica. de Ficino até Leone E b r e o : o belo terrestre é o reflexo (a "lembranca") do belo divino. por definicáo. cume e fim da Renascenca.ém e dos lugares santos do j^^M Ésse fim religioso coloca também em luna elemento erótico: em Ariosto. A dominacáo espanhola e a Contra-Reforma do concilio de Trento sígnificam a dissolucao da alian$a entre aristocracia e humanismo. dá "l'art pour l'art". quaisquer tentativas para justificar-lhe a existencia.. Os humanistas poem-sc a s«r* vígo do último poder espiritual que resta na peninNiilai a Igreja. É o fim da Renascenca. Ariosto. cavalaria romántica e idilio pastoril. viveu em mundos irreais de galantaria espiritual. Toda a filosofía renascentista se caracteriza pelo "entusiasmo". nao se suportavnm intervencoes do raciocinio. é a sua própria finalidade em si mesmo. Essa discussáo é para leitores modernos da epopéia perfectamente incompreensível. mas com m diferenca: os cavaleiros de Ariosto passam por I batalhas sem finalidade determinada. A literatura da Renascenca foi escrita por humanistas eruditos a servico de urna aristocracia que. sejam os produtos da natureza. ao pan zados de Tasso lutam por um fim definido de Jerusa'. O hedonismo é urna teoría da vida animal e vegetativa. diferente do nosso e relacionado com as teorías barrocas sobre a finalidade da literatura. já excluida do papel decisivo ñas evolucoes para o futuro. É urna epopéia 1 • de cavalaria. O poeta mais representativo da Renascenca.. E o "l'art pour l'art" excluí. essa teoría nao é táo "platónica" como parece. em toda a literatura renascentista. Para reconstituir a discussáo é preciso analisar o conceito barroco de "imoralidade". A discussáo em torno de Tasso foi conseqüéncia de modificacoes na situagáo social da literatura. • » de Armida. e a filosofía de Giordano Bruno. e as vézes em explosoes bem brutais. O pendant literário-artistíco do hedonismo é o "l'art pour l'art". o an»>> • •• e furias dos cavaleiros. o neoplatonismo cristianizado. retiram-se para as suas vílas nos campos ou para urna existencia burguesa nos palacetes urbanos. ou antes. ralidade do poema. A discussáo em torno da Gerusalemme libcrata é a porta de entrada para o problema da literatura barroca. sobre o que o escritor pretende realizar. é a mais entusiástica que se imaginou jamáis.1 Orro MAMA CARPEAUX H I S T Ó R I A DA LITERATURA OCIDENTAL <. encontrando o ponto firme na naturalidade dos instintos sadios. Mas n l o justifica a atitude da aristocracia literaria. rebenta de vez em quando. e por isso escolhe- ram como base filosófica urna filosofía platónica. privados da autodetermina$áo política. as cortes perdem o aspecto intelectual e adotam o cerimonial espanhol.'. Os aristócratas italianos. da vida dos sentidos.muí ducáo mediante a qual os poderes o H turbar o espirito bélico dos cruxmlim. Se a palavra "platónico" é entendida no sentido em que se fala vulgarmente de "amor platónico". o .

e ás vézes em explosoes bem brutais. A primeira grande obra literaria na qual se anuncia o espirito da nova época. que enfim as próprias autoridades eclesiásticas intervieram. de Tasso. O hedonismo é urna teoria da vida animal e vegetativa. o neoplatonismo cristianizado. de modo que a crítica hostil foi interpretada como conseqüéncia d¡» intervencao eclesiástica. encontrando o ponto firme na naturalidade dos instintos sadios. Daí a hostilidade contra as deducoes racionáis da escolástica aristotélica. de cavalaria. porque nao é possivel nem necessário. já excluida do papel decisivo ñas evolucóes para o futuro. ou antes. Se a palavra "platónico" é entendida no sentido em que se fala vulgarmente de "amor platónico". nao se suportavam intervencoes do raciocinio. o amor terrestre é o reflexo do amor divino. cavalaria romántica e idilio pastoril. o prazer das coisas belas. em Tasso. como o Orlando Furioso. A literatura da Renascenca foi escrita por humanistas eruditos a servico de urna aristocracia que. é a sua própria finalidade em si mesmo. Os aristócratas italianos. O platonismo renascentista fornece ao hedonismo urna brilhante superestrutura filosófica. viveu em mundos irreais de galantaria espiritual. É sintoma do contrario o ardor sensual que já se reparou ñas entrelinhas de Leone Ebreo e que. é a Gerusalemme liberata. A norma suprema da aristocracia literaria é o hedonismo. o amor é o motivo das lutas e furias dos cavaleiros. A isso corresponde a teoría estética da Renascenca. Essa discussao é para leitores modernos da epopéia perfeitamente incompreensível. em toda a literatura renascentista. rebenta de vez em quando. E o "l'art pour l'art" excluí. A única finalidade dessa literatura era a criacao de beleza. sejam obras de arte. o amor é a grande seducáo mediante a qual os poderes diabólicos esperam perturbar o espirito bélico dos cruzados. retiram-se para as suas vilas nos campos ou para urna existencia burguesa nos palacetes urbanos. francamente anti-racionalista. em . o platonismo. que teria em Ariosto um paraíso terrestre.(94 OTTO MARÍA CARPEATJX HJSTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 695 ralidade do poema. A discussao em torno de Tasso foi conseqüéncia de modificagoes na situacáo social da literatura. por definicao. Mas nlo justifica a atitude da aristocracia literaria. cume e fim da Renascenca. e a filosofia de Giordano Bruno. as cortes perdem o aspecto intelectual e adotam o cerimonial espanhol. Ariosto. isto é. Ésse fim religioso coloca também em lugar diferente o elemento erótico: em Ariosto. essa teoria nao é tao "platónica" como parece. A dominacao espanhola e a Contra-Reforma do concilio de T r e n t o significam a dissolucáo da alianca entre aristocracia e humanismo. mas com urna grande diferenca: os cavaleiros de Ariosto passam por inúmeras batalhas sem finalidade determinada. diferente do nosso e relacionado com as teorías barrocas sobre a finalidade da literatura. sejam os produtos da natureza. Toda a filosofia renascentista se caracteriza pelo "entusiasmo". e o jardim encantado de Armida. Para reconstituir a discussao é preciso analisar o conceito barroco de "imoralidade". O pendant literário-artistico do hedonismo é o "l'art pour l'art". sobre o que o escritor pretende realizar. Até o cepticismo de Montaigne é anti-racionalista. É o fim da Renascenca. dá "l'art pour l'art". quaisquer tentativas para justificar-lhe a existencia. O poeta mais representativo da Renascenca. privados da autodeterminacao política. A discussao em torno da Gerusalemme liberata é a porta de entrada para o problema da literatura barroca. de Ficino até Leone Ebreo: o belo terrestre é o reflexo (a "lembranca") do belo divino. É urna epopéia romántica. ao passo que os cruzados de Tasso lutam por um fim definido: a libertacáo de Jerusalém e dos lugares santos do jugo dos infiéis. que é por definicao antiracionalista. da vida dos sentidos. e por isso escolhe- ram como base filosófica urna filosofia platónica. Os humanistas póem-se a servico do último poder espiritual que resta na península: a Igreja. é a mais entusiástica que se imaginou jamáis.

se bem que de um aristotelismo leigo. Durante a época do predominio do platonismo. porque a poética aristotélica colocou jesuítas e leigos em face de problemas dificeis. Na "fábula". mas "docere fabulam". Mas o que causa estranheza. De repente surge urna estética aristotélica. a sua historia é a historia das origens do Bar- roco("). chamou a atencáo para a poética de Aristóteles. Solertl: "Polemiche lntorno alia Gerusalemme libérate". Urna resposta a essas dúvidas encontrou-se na Poética (1561) do humanista Julius Caesar Scaliger: Aristóteles nao ensina a "imitare fabulam". alias. nem sempre assim foi. Atrás das fórmulas de urna estética dogmática havia. nao compreendemos que urna obra de arte seja julgada assim. em todas as questóes da filosofía profana é Aristóteles. de Trissino. 1936. Em vez dos deuses pagaos. Segundo Aristóteles. e os homens. intervém na acao os diabos e o próprio Deus dos cristáos. Mas urna fábula inventada. motivos razoáveis. mantida ainda em Camoes. urna discussao apaixonada ( ' ' ) . Tudo. Torteo. na Gerusalemme libeíata. abstraídas da poética aristotélica. que só admite a verdade dogmática e a moral crista. e elaborando urna nova teoria da tragedia. no fundo. Speroni exerceu. nem o humanismo cristáo de Erasmo. Mas nao é o humanismo pagáo da Renascenca. interpretado em sentido cristáo. 1895. P o u c o depois. Em realidade. nao fizeram. mas as suas resolucoes e decisoes moráis. Viv¡ildi: La piü grande polémica del Cinquecento. As censuras referíram-se ás regras da poesia épica. Os jesuítas eram humanistas á sua maneira.% OTTO MARÍA CARPEAUX H I S T O R I A DA LITERATURA OCIDENTAL 697 Tasso é o lugar de tentacóes diabólicas se bem que descrito com a lascivia melancólica de quem tem de renunciar. É um humanismo eclesiástico. por urna especie de "mitologia crista". restabelecendo em toda a parte os estudos aristotélico-escolásticos. outra coisa senao protestar contra a confusao do assunto histórico com invencoes gratuitas de tentacóes e conversoes. I . A Renascenca conhecia mal a Poética de Aristóteles (a primeira edicáo saiu só em 1536 e o primeiro comentario só em 1548) e nao se preocupou muito com ela. é justamente o que a historiografía literaria registrou. 14) A. por definicáo nao é verdade. a Rali o studiorum (1587). Milano.. reconhecido como autoridade dogmática. no entanto. e essa sinceridade justifica a grande inovacáo: a s u b s t i t u i d o da "máquina mitológica" da epopéia virgiliana. nem sequer o suave humanismo cristáo de Sannazaro e Vida. cometem muitas vézes atos imorais. revela o espirito religioso e moral da Contra-Reforma. nao sendo anjos. até há pouco. algo suspeito ás autoridades eclesiásticas. as personagens nao agem impulsionadas pelos instintos. nao sao os atos instintivos dos homens que a arte imita. um classicismo católico. "imitados" também nos enredos das epopéias e do teatro. 1920. (In: Appendice alie opere in prosa di Torquato Tasso.f. mas segundo a razáo. Mas os representantes literarios da Contra-Reforma nao se deram por satisfeitos. naquelas discussoes e polémicas.Ésses fatos literarios sao incompatíveis com o espirito da Contra-Reforma. profunda influencia em Tasso. Catanzaro. Flrenze. censurando a Soionisba. como se tivesse sido sempre assim: o emprégo das fórmulas aristotélicas. Toíranln: 11 Cinquecento. e é isso que hoje também nos aparece como um dos maiores defeitos da Gerusalemme literata. interpretando a "catarse" do fim das tragedias como purificagáo moral. O. Quanto á sinceridade religiosa e moral de Tasso nao pode haver dúvidas. Quando os contemporáneos censuraram a intervencáo de Deus e diabos como quebra das regras aristotélicas. Vicenzo Maggi. o aristotelismo já tem feicao eclesiástica. a Universidade de P á d u a continuava como fortaleza isolada da filosofía aristotélica. Toffanln: La fine deü'umanesimo. o seu manual pedagógico. 1892. e nos outros. Em Pádua. 18) O. Houve. em torno do poema. A aposicáo "interpretado em sentido cristáo" é importante. Intervieram os jesuítas.) V. em outro crítico paduano. hoje. o famoso crítico Sperone Speroni (1500-1588). a poesia inventa "fábulas" e "imita" caracteres e agües reais. é perfeitamente humanista. .

A s invengóes poéticas justificam-se pela interpretagao moral de que sao susceptíveis. que d u r a n t e a Renascenga foi considerado como poeta do amor platónico. Combate-se a melancolía angustiada por meio de uma atitude estoica. em 1553. Alguns espíritos mais serios. sempre ameagados pelo moralismo da Inquisicao. É o triunfo d a hipocrisia dos poetas e escritores. é possível defender nao apenas o jardim de Armida. enquanto o poeta nao pensar em excitar intencionalmente a voluptuosidade. já em 1549. e ao lado da realidade verdadeira existe outra realidade. mas também o erotismo do Pastor iido. Agora. a "poesia do beijo". "contenance". A poética aristotélica do fim do século X V I é a tentativa de exploragáo de uma estética racionalista para os fins de uma literatura pseudo-heroica e pseudo-religiosa. ñas suas aulas florentinas sobre Petrarca. pretenderam cumprir sinceramente as exigencias impostas pelo moralismo da Contra-Reforma. Essa teoría serviu para defender Dante. chiamate le tre sorel le (1561). e o público aristocrático preferiu o "delectare". Com esta definigáo estao de acordó mais alguns fatos da historia literaria do século X V I I . e coisas piores. Eis a luta e o compromisso entre racionalismo aristotélico e moralismo cristao. que nao é menos real. a sua solugáo. Por outro lado. e caíram em angustias. o hedonismo poético. artística. é agora interpretado como poeta de alegorías religiosas. quase alegre. nao pode ser ¡mediatamente aceita: aos italianos a poética scaligeriana parecia norma de uma poesia didática.(. na Esposizione delle tre canzone di Messer Francesco Petrarca. Na Italia de 1570. O século X V I I é a grande época da poesia priapesca. interpretando t u d o em sentido moralista. Gelli. escrita as vézes por poetas devotos. como no caso de Maynard. a mesma hipocrisia justifica-se perante o tribunal. OTTO MARÍA C A R P E A U X HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 699 É urna poética racionalista.'•i. nao se puderam conformar com ingenuidades ou hipocrisias assim. vé no romance amoroso de Petrarca a alegoría das suas angustias religiosas. em aulas sobre o mesmo assunto. é o ideal da época. as fábulas tém a mesma razao de ser que as historias verídicas. também acusado perante a Inquisigao. porém. medieval. em virtude dessas conclusoes moráis. Quem deu a primeira solugao ao problema foi o esteticista mais importante da época: Alessandro Piccolomini. em nada serios. e serviu aos amigos de Tasso para defender-lhe as invengóes. verdadeiro objeto das polémicas em torno da Gerusalemme liberata. de Lipsius e Montaigne mas o estoicismo melancólico de Quevedo. que exigía dívertimento e excitacao dos sentidos. enquanto os adversarios pleitearam a causa da verdade histórica. estoicismo de soldado que fita a morte e conserva a compostura. e para isso lhes servem as fábulas inventadas com conclusoes moráis. e Ludovico Dolce. por mais interessante que seja. Compostura aristocrática. nos ofrece uma verdadeira hermenéutica teológica do poeta "trecentista". defende o mesmo ponto de vista. Ainda se disse com Horacio: "Aut prodesse volunt aut delectare poetae". incompatível com os designios da literatura aristocrática. de Belisario Bulgarini. e até as invengóes lascivas sao inofensivas. das quais a loucura de Tasso é o caso extremo. a realidade autónoma das obras de arte é interpretada como se arte e literatura fóssem meros jogos da imaginagao. a servigo de um público aristocrático. Quando nao é possivel a realizagao sincera . Scaliger tornar-se-á mais tarde • primeira autoridade do classicismo francés. entáo nao há perigo de seduglo dos sentidos pela arte. O próprio Petrarca. viram sempre posta em dúvida a sua ortodoxia. Os poetas pretendem ensinar e agradar ao mesmo tempo. o tomista Benedetto Varchi. já nao é o estoicismo sereno. ñas suas Annotazioni alia Poética d'Aristotele (1575). Finalmente a teoría serviu para justificar uma vez mais o hedonismo: ñas Considerazioni in defesa di Dante (1583). Substituiu o "aut-aut" da alternativa por um "et-et". a tentativa é feita por poetas que sao hipócritas engenhosos ou melancólicos angustiados.

envolvendo-a em metáforas e arabescos sempre novos. (In: Revista de filología hispánica. o precursor dos grandes místicos é. pantomimas. que reconhece no pintor bizantino certas características de Roger van der W e y d e n e Luis Morales. "especie de D . 1938. religiosidade mística ou hipócrita e sensualidade brutal ou dissimulada. o estoicismo barroco pode achar-se no espanhol Séneca. o Barroco retoma o caminho do século 16) B. existia na Europa um só país em que a tradigáo do "gótico flamboyant" aínda estava viva: a Espanha. A obsessáo do século XV pela imagem da morte. já é um "gongorista". segundo Hatzfeld. Bari. mobilizam-se todos os engenhos da estética racionalista. em Los cent noms de Déu. Messina. XV. linguagem extremamente figurativa e naturalismo grosseiro.) 17) A. encontra-se como em casa na Espanha. e. o herético espanhol Priscillianus. no século IV. exigencia na qual reside o germe do maneirísmo lingüístico: o espanhol San Isidoro de Sevilla é criador de urna etimología fantástica. no espanhol Prudencio. no seu famoso Cannocchiale Aristotélico (1654). urna linguagem desmesurada. Oroce: "II trattaüsti italianl del concettismo e Baltasar Gradan". o gósto de alegorías complicadas e metáforas herméticas — tudo isso volta. cristianizado. Calderón) já se encontra na Farsáüa do espanhol Lucano. Ésses elementos explicam os característicos. Contudo. apresenta mil receitas para esconder sentido secreto nos "concetti" e "acutezze" de legendas. 1910. o "cerimonial espanhol". a "etiquette". sempre antitéticos. representagáo solene e crueldade sádica. ou antes urna volta ao "Outono da Idade Media". O cerimonial complicado da corte da Borgonha reaparece como "cerimonial espanhol". inscrigoes. Gobllanl: 11 barrocchismo in Séneca e in Lucano. sempre inéditos. partindo de Madri e conquistando todas as cortes da Europa. Hatzfeld: "El predominio del espíritu español en la literatura europea del siglo XVII". Tudo isso em conjunto parece urna caricatura grandiosa da mentalidade medieval. nao compreendido na Italia. da literatura barroca: heroísmo exaltado e estoicismo melancólico. 1800. deseobrindo relagoes secretas entre as palavras. No século X V I I . mais classicistas. (In: Problemi di estética e contributi alia storia dell'Estetica italiana. O Greco.7(1(1 OTTO MARÍA C A B P E A U X HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 701 dcBse ideal. m / 1 . de Cervantes. negando e renegando a Renascenga. ou entáo: a Renascenga espanhola teria sido esmagada táo completamente pela Contra-Reforma que apenas teria ficado viva a última tradigáo medieval. É muito mais convincente a hipótese de Hatzfeld: o Barroco constituí urna qualidade permanente do caráter espanhol ( : 8 ) . O talento literario é considerado como inteligencia "engenhosa" — pela primeira vez. sua sensualidade brutal e sádica. Aspiragóes táo grandes exigiriam. Nao se admitem hipóteses precipitadas. / . Mas o supremo esfórco de dominar de maneira racionalista a lingua cristaliza-se na fundacáo de instituigóes autorizadas para baixar normas de racionalizagáo da lingua. 1941. arte e literatura tém de esconder a realidade. a palavra "aristotélico" no título da obra é muito significativa ( 1 0 ) . París. como: a Renascenga espanhola teria sido apenas um fenómeno de superficie. Tabre: Chapelain et nos deux premieres académies. aparece o termo "genio" no sentido de capacidade de inventar — e o italiano Emmanuele Tesauro. As academias parecem pouco borrócas. Para vencer as desarmonias entre fachada e conteúdo. emblemas. o século dá-se por satisfeito com as aparcncias. O heroísmo exaltado em face do destino (Numancia. 18) H.) H. Quixote espiritual". É difícil explicar os motivos dessa sobrevivencia. com a representagáo teatral.iillus. e Raimundus I. Góngora. Com efeito. H. o plano da Académie Francaise foi ideado por aquéle chefe dos "précieux" que era o marinista Chapelain ( 1 T ).

As tentativas de interpretacáo de Petrarca em sentido religioso correspondem as tentativas mais numerosas dos espanhóis de "traduzir" as expressoes eróticas de poesías para linguagem religiosa. 22) W. e. as "versiones a lo divino". 1924. com a corrente internacional. Storia dell'eta barroca in Italia". que se julgava defensor da fé católica no mundo inteiro. mais urna vez.' OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTÓHIA DA LITERATURA OCLDENTAL 703 O Barroco espanhol é urna reagáo nacional contra o humanismo internacional dos italianos e italianizantes. mas nao é aceitável. 25) O. que está. barroca ( 2 4 ). Nao se podem desconhecer os elementos barrocos em poetas religiosos como Revius e Luyken ( 2 6 ). a Polonia sao centros barrocos.T'i. (In: Revue de Littérature Comparée. Imperialismo espanhol e propaganda jesuítica divulgaram arte e literatura barrocas em todas as regí oes que a Contra-Reforma reconquistou. a última oposicáo contra o conceito do Barroco como estilo literario veio da parte de Benedetto Croce. J á se afirmou que o Barroco é o estilo próprio da Contra-Reforma ( 2 2 ). em relacao á literatura espanhola. Schmidt-Degener. em relacao aos séculos italianos anteriores. A prioridad e dos estudos sobre o assunto cabe. burguesa e democrática. Welsbach: Der Barock ais Kxmts der Qegenre/ormation. Calderón transformou grande número das suas próprias pegas profanas em autos sacramentales. 1921. XXIII. A Austria e a Alemanha meridional. Mas Paul Hazard observou-lhe ( 10 . Jena. E. outro centro é a América Latina ( 2 1 ). sao síntomas daquele estado de espirito. Sebastián de Córdova Sazedo chegou a publicar Las obras de Boscán y Garcilaso trasladadas en materias cristianas y religiosas (1575). London. que acabou voltando á identificacao de "Barroco" com "mau gósto" ( 1 9 ). a Companhia de Jesús. Assim se explicaría a coincidencia da decadencia política e social com o apogeu da evolucáo literaria: o teatro do tipo de La vida es sueño. Taivez se trate de urna evasáo em face da derrota politicomilitar da Espanha. ao precursor Alois Riegl. 10) B. que demonstrou as origens barrocas da grande pintura holandesa do século X V I I ( 2 3 ) . governada espirítualmente por urna associacao espanhola. A Agudeza y arte de ingenio (1648). de 20 Emmanuele Tesauro ( ). precede o Cannocchiale Aristotélico (1654). O Barroco espanhol conquistou a Europa inteira. de Baltazar Gracián.A ) muito bem que o Barroco internacional nao pode ser julgado do ponto de vista da literatura italiana do século X V I I . do outro lado da barricada. Na 21) Siten. porque ignora as influencias espanholas além das fronteiras da Contra-Reforma e a existencia de focos barrocos nos países protestantes. 23) A. Na v^ crítica moderna. em declínio. (In: Jahrbuch der Kunstsammlugen des Kaiserhauses. Existe um barroco protestante. Croce: Storia deWetá barocca in Italia. Quando Tasso escolheu para assunto do seu poema urna empresa comum das nacoes cristas em prol de um fím religioso. Huizinga caracteriza a civilizacao holandesa do século X V I I como síntese e compromisso de urna civilizacao erasmiana. XI/1. obedecen aos designios do imperialismo espanhol. 1933. Hulzlnga: Die hollaendische Kultur des 17. Sitwell: Southern Baroque Art. Riegl: "Das hollaendlsche Gruppenportraet".) 30) Cf. Janeiro de 1931. Jahrhunderts. Van Es: Baroke lyriek van protestantsche dlchters. a sátira social do romance picaresco. 1929. / . A Italia barroca é urna colonia espanhola. sem embaraco. Wlen. no fím do século X V I . e. Berlín. Esta hipótese é bastante sedutora. já se fala. depois dos trabalhos de F. do "estilo barroco de Rembrandt". O estilo barroco da literatura holandesa da época nao pode ser ignorado. Barí. 1902. a "novela de densengaño" do tipo do D. apenas um ramo secundario do Barroco internacional. IBA) P. Hazard: "Benedetto Croce.) 24) J. a Bélgica. nota 16. Haartem. 1948. Quísote.

A conclusáo seria a seguinte: Shakespeare. inspirándose nelas. influencia manifesta em enredos emprestados. é a historia da assimilacáo do modelo de todo o teatro barroco: Séneca (-'•'). pertencendo á segunda fase do teatro inglés. Liverpool. alias. Nota-se. ed. Existe. enquanto Chapman e Ben Jonson nunca o fizeram. algo magro. Eis o resultado.^ rios que afinal a vencerlo: a Franga e a Inglaterra. e contudo nao se chegou ainda a compreensao perfeita da natureza délas. em parte. católica. 1020. em guerra permanente contra a Espanha católica. em parte. e conheceu até o teatro de Cervantes. de inspiracao espanhola. de Kyd a Shirley. Hamburg. e Paul Althaus encontrou na literatura de edificacio luterana vestigios inconfundiveis da literatura jesuítica ( 2 e ). Lebégue: "Le théatre de démesure et dliorreur en Europe occidental au XVle. Tuebingen. A Espanha barroca tem lugar contra dois adversa.704 OTTO M A R Í A C A R P E A U X HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 705 Alemanha protestante existem obras barrocas em abundancia: a igreja de Bueckeburg e o edificio do conselho municipal. O sucesso das Novelas ejemplares f oi grande entre os dramaturgos ingleses: Massinger tirou A Very Wornan do Amante Liberal. e em Love's Pilgrimage. de Lope de Vega. e esta última é protestante. fortalezas do luteranismo acentuadamente ortodoxo. de J o h n Fletcher. Jahrhunderts. a que chegou a "literatura comparada" com os seus métodos mais ou menos antiquados de comparacáo de enredos. um barroco inglés que é. Fletcher. Mencionam-se. já foram. por K. em Bremem. Massinger e Shirley. O fato de que os poetas e escritores da rainha Isabel e do rei Jaime I. (In: Forschungsprobleme der Vergleichenden Literaturgeschichte. 1935. que também utilizou varias novelas de Cervantes: em The Chances. ensinou•e a filosofia do jesuíta espanhol Suárez. o Poema trágico del español Gerardo y Desengaño del amor lascivo. As relacoes literarias entre a Inglaterra e a Espanha no século X V I I sao intimas. em Rule a Wife and Have a Wife. para The Opportunity. os empréstimos de Shirley no Don Lope de Cardona. Hamburg. barrocas. forneceu c enredo do Spanish Cúrate. Mas J o h n Webster e John Ford. de Montemayor. embora recebam outra. Ñas Universidades de Wittenberg e Helmstaedt. as Dos Doncelas. e dos Baños de Argel em The Renegado. antes de tudo. mais sutil e mais importante. aparecendo de maneira bárbara em Spanish Tragedy e Titus Andronicus. a Fuerza de la Sangre. o seu Changeling. O furor retórico das tragedias de vinganca do dramaturgo romano. Mas é um fato. Fltzmaurlce-Kelly: The Relations between Spanish and Snglish Ltíerature. preferem enredos italianos. inspira-se. Wals. de Tirso de Molina. precedem cronológicamente as grandes arquiteturas barrocas da Alemanha meridional. urna das obras capitais do teatro ingles. já recebem influencias espanholas. muito bem estudadas ( 2 T ). Podcr-se-ia objetar que Shakespeare só urna vez. de Cervantes. nao revelam influencia espanhola. A historia do grande teatro inglés. OroMman: Spanien und das eUsábethinische Drama. "El celoso extremeño". Lewalter: Spanlsch-jesuitische und deutsch-lutheranische Metapht/sik des 17. 37) J. quer dizer. 38) R. a Spanish Gipsy. de Gonzalo de Céspedes y Meneses. 1951. a utilizacao freqüente de fontes espanholas no teatro elisabetano e jacobeu ( 2 8 ). Slécles".) y . em The Two Gentlemen of Verona. o Casamiento Engañoso. sutiliza- 29) R. odiada por toda a nacáo inglesa. na tradugáo que Leonard Digges fizera de um romance espanhol. na Queen of Corinth. O mesmo romance 36) E. mais "barrocos" do que os mencionados. e no Castigo del penseque. de modo que é preciso reconsiderar o problema. poetas renascentistas. porém. Middleton tira de "La Gitanilla". tivessem estudado e traduzido assiduamente as obras da literatura espanhola. para o Young Admira!. et XVIIe. enfim. utilizando-se do Viejo Celoso em The Fatal Dowry. utilizou um enredo espanhol. um episodio da Diana Enamorada. Chapman e Jonson. 1910. é surpreendente.

de Innocent Gentillet. porém. As idéias do secretario florentino só se conheceram através de fontes pouco seguras. o foragido ex-secretário do rei Filipe II. Nestes panfletos latinos. em 1602. encontra-se o grande "villain". E ésse fato nos lembra o estranho adversario dos heróis melancólico-estoicos no teatro inglés: o intrigante infernal. Klaeber. partidario da demo33) P.706 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 707 •e cada vez mais em King Richard III. Contre Nicholas Machiavel Florentin (1576). A resistencia estoica dos heróis contra o destino. Contra os "metaphysical poets" apresenta-se-nos Milton como clas^sicista á maneira italiana. Ésse mesmo Séneca está. que incluí no número dos seus livros de predilecto o Menosprecio. pero. É o caso de Donne. 1597). Revenger's Tragedy. 1929. 1930. 1934). O Príncipe só foí traduzido em 1640. (In: Studies in English Philology. Triumph oí Death. (In: Criterion. se considerarmos. para depois se transformar em tragedia de desesperados sombríos. XIII. falavam-na os "metaphysical poets". 1952. s . e no caso de Vaughan. o "villain". lidos na Europa inteira. 1921. T. 31) O. anglocatólico "avant la lettre". estes. Só pode ser caracterizado como espanhol. no centro de mais outra tendencia importante da literatura barroca: o abandono definitivo do modelo ciceroniano na prosa. porque o j u l gavam capaz dé intrigas diabólicas. em favor de outros modelos: Séneca e Tácito ( s o ) . como espanhol o modelo imitado: Séneca. Essa lenda originou-se no odio dos huguenotes franceses contra a rainha Catarina de Mediéis. Encarnou-o outro personagem. Weimar.. Julias Caesar. Chicago. Macbeth. Os ingleses nao conheciam Maquiavel. A atmosfera dessas pegas c a mesma das tragedias italianas do "Cinquecento" e das francesas anteriores a 1630. et maintenir en bonne paix un Royaume ou autre Príncipauté. do Antonio Pérez da lenda. Beachcraft: "Crashaw and the Baroque Style". Totfanin: Machiavelli e il tacitismo. Changeling. aquéle. A linguagem gongóríca de Antonio Pérez. que consideravam discípula de Maquiavel.de la corte y alabanza de ¡a aldea. Melssner: Die geiteschichtlichen Grundlagen des englischen Literaturbarock.O. mas os grandes divulgadores do antímaquiavelismo foram os jesuítas Antonio Possevino (De Machiavelli etc. puritano. quibusdam scriptis. Croll: "The Baroque Style in Prose". odiado pelos jesuítas: Antonio Pérez. alias. convertido ao catolicismo e celebrando S. Teresa.) O. Padova. W. A prosa senequiana e tacitiana chega a ser característica do Barroco. Firenze. WÜüamson: The Senecan Amble. 1891. Miscellany for F. 1934. Cardinal — vítimas de cortesaos intrigantes e diplomatas diabólicos. Hamlet. Meyer: Machiavelli and the Elisabethan Drama. e a poesia melancólica do seu deses. 30) M. Minneapolis. o barroco inglés volta-se para as suas origens longínquas ( 3 S ). A situacao es* clarece-se no caso de Crashaw. Tácito também serve. duvidosos os conhecimentos dos dramaturgos ingleses com respeito a Maquiavel ( 3 2 ) . no ambiente de cortes criminosas — em Bussy d'Ambois. á maneira barroca. para fazer a tentativa bem barroca de reunir sensualidade ardente e devocao angustiada. só conheciam a lenda odiosa dos antimaquiavelistas. quando já nao se ousa citar Maquiavel. traduzido para o inglés por Simón Paterycke. 1592) e Pedro de Ribadeneyra (De Religione et virtutibus Principis Christiani Adversus Machiavellum. Enfim. para esconder segredos importantes e reve3á-los pela metade em alusoes metafóricas. Berlín. Praz: Machiavelli e gli Inglesi dell' época elisabettiana. M. 32) K. de Antonio Guevara. Sao. dois anos antes do fechamento dos teatros ingleses pelos puritanos. A Study in Prose Form ¡rom Bacon to Collier. na época da Contra-Reforma. como fonte de axiomas políticos maquiavelísticos ( 3 1 ). célebre e temido. A sua "política" os dramaturgos chamam "maquiavélica". das quais a principal era urna refutacao: o Discours sur les moyens de bien gouverner. ou antes. tudo isso também é típicamente barroco.

Mas isso nao excluí a possibilidade de "invasoes" barrocas. Montreal. Klasslk ais Barock". L'architecture séche et noble s'aligne avec la tenue. ninguém duvidou jamáis. t o D. era a capital da arte barroca ( ! T ).) maneira muito livre — no Marcos de Obregón. traduzido em 1586 por David Rowland. Lemonnier. baseado — embora de 34) W. Voilá les alentours de Hacine". Pierre Puget. O maior artista do classicismo francés. a Académie de France. de Philippe 37) N. baseado em Las mocedades del Cid. de Guillen de Castro. estilísticamente. 1956.) O. Frankfurt. Hoje. estranhamente parecido. fundouse a Acadómie de Peinture et de Sculpture. urna solugao violenta: afirmar a natureza essencialmente barroca do próprio classicismo francés ( a e ). 1919. a literatura francesa parece inteiramente francesa. preferem os gritos inarticulados dos meetings religiosos ou a sátira antiaristocrática. o isolamento da literatura classicista francesa entre as literaturas barrocas do século X V I I torna-se problema mais urgente do que antes. und 18. Do fundo das angustias e plebeidades da época. como em toda a parte. 1927. Le Classique et le Baroque. Pelo menos certos críticos consideram Milton como poeta barroco (?*). com o classicismo francés. a diferenca entre ele e os "metafísicos" nao seria tao grande. Mas nao se dá muito bem com os seus companheiros de oposicao. O "mal" vem. a figura de Milton sobressai como a de um aristócrata pomposo do Barroco num retrato "clairobscur". da Espanha. . traduzido em 1612-1620 (quer dizer. 1935. ou entáo. o acordó nos parece menos exato. formou-se na Italia. Mas a Roma de 1666 nao era a Roma clássica. W. 1940. 1944. nos pormenores e na "intencáo". H. TUlyard: The Metaphpsicals and Milton.) (Compte-rendu por H. XXTH. o Gil Blas (1715) de Lesage. como complemento. sentem o elemento de devocáo espanhola nos quadros da vida de S. e em 1666. 1944. Em 1648. Cambridge. em acordó perfeito com a arquitetura e os jardins de Versalhes. um drama heroico e um romance picaresco. em Roma. Pevsner: Acodemies of Art. (In: Comparative Literature. Mas entre essas duas datas. seria menos decisiva ( 3 5 ). a igreja da Sorbonne. Sypher: "The Metaphyslcals and the Baroque". In: Tijdschri/t wor Taal en Leteren. Hatzfeld: "A Clarlf¡catión of the Baroque Problem in the Romance Literatures". Jahrhunderts in den romanischen Laendern. Os puritanos nao gostam de poesia renascentista. O fato de o classicismo constituir urna qualidade permanente do espirito francés nao pode ser negado. Brlnckmann: Die Baukunst des 17. No comégo da época clássica está Le Cid (1636). (In: Partisan Review. 38) H. de Reynold: Le XVIle. Hatzfeld: "Die franzoslsche Klassik ln nener Licht. a igreja Val-de-Gráce e o Instituí de France estao menos longe do Barroco romano do que se pensa ( 3 9 ). de Espinel.) 38) E. . estudos acurados verificaram influencias marinistas nos seus temas ( 3B ). de Eustache Lesueur. 5. 1912. London. O aspecto das grandes construcoes parisienses do século X V I I nao é inequívocamente clássico. in: Journal des Savants. em todo o caso. logo depois da publicarlo do original) por Thomas Shelton. Estáo presentes na memoria de todos as palavras de T a i n e : "ees parterres rectangulaires et ees promenades géométriques offrent des salons en plein air. mais acostumados as variedades do estilo barroco. Nicolás Poussin. Milton seria um "barroco burgués". 1/3 1949. Slécle.708 OTTO M A R Í A CABPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 709 e r a d a burguesa. (In: Atas del Congresso Internacional de Roma.) 39) A. Após ter-se demonstrado e admitido o Barroco protestante na Inglaterra. Past and Present. Bruno. K. de Corneille.* ed. Para resolvé-lo havia só urna última possibilidade. Há qualquer coisa do Greco no fundo escuro do quadro da Crücificacáo. inteiramente clássica. Das qualidades barrocas do maior escultor francés da época. 38) H. segundo o termo de Riegl. la gravité et la magnificence officielle d'un c o u r t i s a n . Qaixote. Moschetti: "Dell' infiusso del Marino sulla formazione artística di Nicolás Poussin". no fim. Os olhos modernos. M. . tém sucesso muito grande. o Lazarillo de Tormes. Winter.

de Ruiz de Alarcón). romance picaresco. é francés: Jacques Callot.710 OTTO MARÍA CARPKAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 711 de Champagne. de Lope de Vega). no Amant Liberal. Martlnenche: La comedie espagnole en France. o realismo campestre dos irmaos Le Nain aproxima-se mais do realismo doa holandeses do que do "vrai" de Boileau. Don Bernardo de la Cabrera (Adversa Fortuna de Don Bernardo de la Cabrera. que era. epopéia herói-cómica. o chefe dos "précieux". Suite du Menteur (Amar sin saber a quién. mas seguro: classif¡car os dramaturgos franceses do século X V I I segundo os anos de nascimento e verificar os seus empréstimos ao teatro espanhol ( 4 2 ). (In: ttudes sur l'Espagne. Por outro lado. de Cervantes). de Lope de Vega). . Para simplificar a enumeracáo. introduzindo na Franca a regra pseudo-aristotélica das tres unidades dramáticas. de Lope de Vega). (In: Revue des Sciences Humaines. poéme baroque". de Voiture e Chapelain.) / 43) A. Morel Fatio: "L'Espagne en Franoe". París. Le Menteur (La Verdad Sospechosa. com Le Cid (Las Mocedades del Cid. E o próprio Malherbe nem sempre foi táo secamente clássico como se pensava ( 4 0 ). que ideou também o Dictionnaire de 1'Académie. de Mira de Amescua). é o fato de que o coméco do classicismo é sempre datado da reforma da poesía por Malherbe — "enfin Malherbe vint" — por volta de 1600 a 1610. O que causa estranheza. e pelo academismo. 1900. de Cervantes). alias.: Les Deux Pucelles (Las Dos Doncellas. Fidao-Justlnlani: L'esprit classique et la préciosité. a época clássica. o centro dos "précieux". era 16341635. Saint-Genest (El Verdadeiro Fingido.) E. de Malherbe. As fronteiras desaparecem. La Forcé du Sang (La Fuerza de la Sangre. o artista mais fantástico. 1949. de Guillen de Castro). Jean Rotrou. de Lope de Vega). O preciosismo d a linguagem e o esfórco de criar urna língua académica para uso da élite literaria sao coisas diferentes. 1 ere serie. Vem logo depois Pierre Corneille (nascido em 1606). é um dos maiores exploradores da literatura espanhol:'. pelo aristotelismo. La Belle Égyptíenne (La Gitanilla. de Lope de Vega). Mas quem participou ativamente dessa realizacáo foi Chapelain. e os efeitos "clair-obscur" de Georges de La Tour nao deixam lugar para dúvidas. quando a Franca é invadida pelos géneros da literatura barroca: epopéia heroica ou sacra. Laure Persécutée (Laura Perseguida. mas nao opostas. muitos pertencem á época de Luis X I I I . Entre preciosismo e classicismo nao existe a incompatibilidade absoluta que Boileau e Moliere procla- maram ( 4 1 ). 41) J. porém. París. O método indicado é fatigante. A cronología literaria do século X V I I francés nao é muito clara. em 1617. de Hardy á Racine. Bague d'Oubli (Sortija del Olvido. de Cervantes). de Lope de Vega). enquanto que o Hotel de Rambouillet. o fim do preciosismo e o comégo da "verdadeira época clássica" é marcado pela fundacáo da Académie fran<¡aise. Lebégne: "Les "Larmes de Saint Plerre". Por o u t r o lado. L'Heureux Naufrage (Naufragio Prodigioso. Finalmente. É a época do preciosismo. París. julllet-décembre." ed. 40) R. que é certamente barroca. 1895. Heureuse Constance (Poder Vencido. que nasceu em 1609. E o mesmo Chapelain escreveu em 1630 a Lettre sur l'art dramatique. citam-se entre parénteses as fontes espanholas das pecas francesas. Chapelain pertence ao Barroco. É preciso proceder assim como os astrónomos que eliminam sucessivamente as influencias perturbadoras de corpos celestes vizinhos para calcular a curva "pura" que um planeta percorreria. de Cervantes). mais extravagante do século. B. se abriu depois daquela reforma. o retratista sombrío de "ees me»sieurs" de Port-Royal. Désses fenómenos. 1914. 2. Cervantes (El Amante Liberal) é também explorado por Georges de Scudéry (nascido em 1601). do Hotel de Rambouillet. De Alexandre H a r d y (nascido em 1570) notam-se: Cornélie (Señora Cornelia.

de Cubillo). volta em 1615. No velas Ejemplares. de Fr. L'écolier de Salamanque (Obligados y Ofendidos. aparece traduzido em 1600. de Calderón). O Guzmán de Alfarache. a primeira tradugáo de Gracián. pelas tradugoes de San J u a n de la Cruz. 4 . de Moreto). de Calderón). em 1618. e por urna verdadeira moda de Gracián (1684. de outro lado. de Quevedo. de Calderón). 1623/1630 e 1644. é composto de duas comedias de Rojas: Traición Busca Castigo e No hay Amigo para amigo. picarescos e conceptistas da Espanha. e em Racine nao existem influencias espanholas. Moliere e Racine. de Calderón). Obras de S. Teresa. Le Galant Doublé (Hombre Pobre todo es Trazos. de Cervantes). 1658/1673). L'amanf indiscret (El escondido y la tapada. O gósto pelo pastoril produz. de Francisco de Rojas). de Calderón). Imitando o exemplo de Rotrou. O Lazarillo de Tormes. em 1642. e o maior sucesso tea- 43) O. de Mira de Amescua). com o cume em 1635. Le feint astrologue (El Astrólogo Fingido. de Moreto). irmao do grande Corneille. de Francisco de Rojas). porque em 1645 já aparece. de Lope de Vega. de Calderón). de Diego e José de Figueroa y Córdova). Le fantóme amoureux (El galán fantasma. de Francisco de R o j a s ) . Antoine Montfleury (nascido em 1611) traz da Espanha La Dame Médecin (El Amor Médico. Don Quijote. de Calderón). Quevedo. Os empréstimos de Moliere nao tém importancia. já traduzido em 1598. A segunda fase é caracterizada por novas edigoes de obras que pareciam esquecidas ou desprezadas pela estética classicista {Lazarillo. em 1670.712 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 713 Bélisaire (Exemplo Mayor de la Desdicha y Capitán Belisirío. O resultado é confirmado pelos estudos de Lanson sobre as traducoes de obras espanholas para o francés ( 4 3 ). 1897. Comresse d'Orgueil (Señor de Buenas Noches. Teresa aparecem duas vézes. e outra vez em 1619/ 1620. e no mesmo ano as do Buscón e dos Sueños. 1896. ésse rival de Racine tira o seu teatro inteiro de fontes espanholas: La Dame invisible (Dama Duende. Novelas Ejemplares. 1653 e 1678. Les alustres Ennemis (Amar Después de la Muerte. Le Geólier de Soi-meme (Alcaide de si Mismo. No momento das grandes obras de Bossuet. 1901). de Calderón). de Alemán. Venceslas (No hay ser Padre Siendo rey. de Scarron. pelo grande sucesso do Guia de pecadores. Paul Scarron (nascido em 1610) importa da Espanha Le gardien de soi-méme {Alcaide de si Mismo. Depois da pausa de urna geragáo. As cartas de Antonio Pérez. aparece Thomas Corneille (nascido em 1625). La Fausse Apparence (No Siempre lo Peor es Cierto. Luis de Granada. de Calderón). Finalmente. Mas Philippe Quinault (nascido em 1635) ainda explora a mina: Le docteur de verre (Licenciado Vidriera. acompanhadas de urna nova tradugáo de S. em 1650 e 1694. Don Bertrand de Cigarral (Entre Bobos anda el Juego. seguido do Marcos de Obregón. por volta de 1635 e por volta de 1670. Ao passo que estes dramaturgos preferem o assunto romanesco. e Persiles y Segismunda duas vézes em 1618. de Calderón). Le charme de la voix (Lo que puede la aprehensión. 1667. e no mesmo ano urna tradugáo da Arcadia. (In: Revue d'histoire Uttéraire de ¡a Frunce. Le barón d'Albittrac (La tía y la sobrina. o público francés pediu os místicos. o Jodelet duelliste. de Tirso de Molina) e La filie capitaine (La dama capitán. como representante de urna outra Espanha. chegam um pouco tarde. nova traduqáo da Diana Enamorada (já traduzida em 1578 e 1587). de Francisco de Rojas). em 1614. 1665. Em 1633 sai a tradugio da Celestina. La Engagement du Hasard (Empeños de un Acaso. 1696). Don Quijote em 1614/ 1618. em 1624. Éste capitulo de literatura comparada — cansativo. outros cuidam mais do aspecto cómico. Dom Japhet d'Armóme (Entre Bobos Anda el Juego. traduzido duas vézes (1646/ 1651. A primeira onda de traducoes vai de 1615 a 1645. 1667) e. mas da maior importancia para se ter idéia do dominio universal da literatura espanhola naquela época — revela duas fases de invasáo espanhola. Lanson: "Rftpports de la llttérature rrancalse et de la llttérature espagnole".

A tensio entre as paixoes recalcadas e as normas rígidas de expressáo encontra sua solucao no estoicismo melancólico de La Rochefoucauld. anti-renascentista. A Versalhes de Racine é menos clássica do que Taine penaava ( 4 5 ). o inimigo estava dentro. antiprotestante. E a linguagem mesurada de Racine mal oculta os traeos de sensualidade furiosa e misticismo ardente ñas 44) V. O barroco atenuado do fim do século X V I I é o rococó ( 4 7 ). O classicismo francés nao é realmente clássico. A Europa o aceitou em toda a parte. A linguagem culta. e ás Igrejas nacionais do •u. O estilo barroco é um estilo internacional.) / suas personagens.) 47) F. O inimigo barroco está dentro do classicismo.' L. resumido in: Komenüsche Stil-und Literaturstudien. com 86 representacóes. Vedel: Deux classiques franjáis. reformada pelo concilio de Trento. na sua própria alma. O gósto do público francés do século X V I I era barroco. Nao se trata de um século classicista. e a psicología sempre ameaca destruir o equilibrio. 1925. apenas pretende sé-lo. A Europa inteira o adotou. gósto impessoal. (In: Archiv fuer das Studium der neneren Sprachen. Pula. que é barroca. 1936. e XIII. no ascetismo erótico de Madame de La Fayette e.de invasáo barroca. exemplificando-a no verso "dérober au jour une flamme si noire" ( 4 6 ). 1929. vus par un critique étranger. Um ensaista espirituoso comparou a geometría analítica de Descartes a urna teoría de exorcismo: o filósofo opós a "Cruz das coordenadas" a confusáo da época. do hispanizante Thomas Corneille. e há quem o considere como essencialmente "anti". Klassizismus und Rokoko in der franzoesischen Literatur. mais ou menos idéntica em toda a parte ( H8 ). moralismo — essas qualidades essenciais do classicismo francés sao instrumentos de ascese antibarroca. sem elimínalo de todo. O caráter cartesiano do classicismo francés nao é indiscutido. Os seus elementos vieram da Espanha. A literatura clássica lutou galhardamente contra ¿ase inimigo. 1928. XII. É urna literatura psicológica. 1934. serve para disciplinar os equívocos da linguagem. conformismo político e religioso. A trilha da literatura inglesa do século X V I I estende-se do assunto de importagao espanhola até a formagáo de personagens barrocos. I. exige leitores táo versados como a poesía marinista. o classicismo constituí a interrupeáo antitética que atenúa o barroco. naquelas formas de auto-observacáo e introspecgáo psicológica ñas quais os moralistas franceses rivalizam com os místicos espanhóis. mas a Espanha já nao era capaz de impor um estilo. Spitzer: "Die klassische Daempfung in Raciiie's Stil". 1931. cheia de alusóes e reticencias. A historia do classicismo francés é urna historia de recidivas. . ao Timocrate. 1928. a corrugáo do gósto pelo pitoresco. Borkenau: Der Uebergang vom feudalen zum buergerlichen Weltbild. Schuerr: Barock. (In: Archivum Romanicum. para exorcizá-la. Estética naturalista e racionalista. a confusáo das paixoes. 45) O. ás vézes a verdade psicológica se revela naquilo a que Spitzer chama "a linguagem noturna de Racine". Marburg. Rohlls: "Raclnes Mithrldate ais Belspiel hoefischer Barockdlchtung". porque o Barroco é expressáo de urna situacáo espiritual e social. mas o instrumentalismo é qualidade comum ao racionalismo de Descartes e ao classicismo de Boileau. como no caso do "villain". Leipzig. O caminho da literatura francesa da mesma época vai dos enredos espanhóis até a formacáo de urna maneira íntima de ver o mundo.714 OTTO M A R Í A C A B P E A U X HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 715 tr»l cabe. chamase Discours de la méthode a obra principal. París. pelo menos. antibarroco (**). A filosofía de Descartes é antes de tudo um método. 48) F. CLXVI. mas a repeticáo da voga de tradugoes e versóes do espanhol revela a precariedade dos triunfos académicos. interrompido por duas fases. O classicismo francés também é um método. A Igreja católica. A aristocracia feudal perdeu definitivamente a funcao política. ao cont r a r i o .

Vol. de transfiguradlo da realidade em ilusao. o poder real estava bastante limitado pelas autonomías regionais com que só os Bourbons acabarao no século X V I I I . A Inglaterra termina a crise com os "Navigation Acts" de 1651 e 1660. o mercantilismo é o maior servigo — se bem outorgado — prestado pelo Estado absoluto á burguesía. Até o idilio pastoril acompanha a evolucáo para a teatralidade: o romance pastoril é substituido pelo drama pastoril. IV. Essas "classes literarias". alias. sem responsabilidade perante a realidade. a burguesía aínda nao é capaz de desempenhar fungió política. a Espanha do século X V I I parecía aos historiadores o Estado mais absoluto de todos. como fiegáo gratuita. Calderón e Racine. mas nao é homogénea na estrutura íntima. da época de Shakespeare. Zonta: Storla delta letteratura italiana. 2. fornecidos pela lascivia ou pela sutileza lingüística.716 OTTO M A B I A C A R P E A Ü X HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 717 protestantismo. trata-se de urna pseudomorfote: conteúdo burgués em formas aristocráticas. foi justamente a Espanha. Aos poderes absolutos nao escapa a economía. ás quais tomavam emprestados os nomes. vivendo parasitariamente da realeza. No século X V I I . Para empregar um termo de Spengler. mas nao é mais burguesa do que a reforma administrativa de Luís X I V . é urna solugáo imperfeita do problema. investem o Estado de sanqoes divinas. o mercantilismo pode ser definido como o método de política económica para terminar a grande crise que comegara com as deseobertas geográficas. para agradar. em 1664 e 1667. de construcao de um mundo de arte. Torino. na verdade. O heroísmo aristocrático torna-se tanto mais retórico quanto as espadas de cavaleiros se transformam em espadins de cortesáo. porque é constituida por duas "classes literarias" opostas: a classe aristocrática e a classe burguesa intelectual ( 4 S ). A aristocracia. Sio termos que se entendem cum grano salís. ¡mensamente aumentada pela sancáo eclesiástica e pelos poderes económicos. Na retrospectiva. da ostentagáo intencional. no intervalo. 1932. o Estado absoluto do século X V I I está a servigo da burguesía nascente. que perdeu a fungáo social. O fenómeno reflete-se na literatura. a consolidagao da au< toridade produz separagio de classes. a vagabundagem "individualista". com as tarifas alfandegárias de Colbert. nao sao inteiramente idénticas ás classes sociais. A literatura aristocrática vive de riquezas de urna classe ociosa e parasitaria. . A aristocracia aínda pode aproveitar a situagao. Acentua-se o fenómeno da "conspicuous consumption" (Veblen). a oposigáo entre aristocracia e burguesía vai-se acentuando cada vez mais. Os estudos mais pormenorizados do teatro barroco de que já dispomos mal dáo idéia do ingente esfórco teatral da época: do intensíssimo interésse popular pelas pegas de Lope de Vega e 49) O. que se reflete no romance picaresco. O único dos grandes Estados europeus que nao conseguiu acompanhar essa evolugáo. é um síntoma entre outros. em Sevilha. Segundo urna experiencia sociológica. precisa-se. As cerimónias eclesiásticas revestem-se de pompas nunca vistas. ainda consegue impor o seu estilo de viver. fora do mundo material. o Estado absoluto dirige a economía. incapaz de adaptar-se as novas condigóes. Contra todas as aparéncias. foi subjugada. O século tem ar aristocrático. A literatura barroca é mais uniforme do que se pensava na Europa inteira. Disso ressente«se a economía. Segue-se imediatamente a Franca. A autoridade real encontra-se ñas máos do Estado. A arte é entendida. A Casa de Contratación. cap. Para o teatro convergerá todos os desejos de ostentagáo suntuosa. e isso em todos os setores em que predomina o modo de viver aristocrático. segundo as doutrinas aristotélicas do hedonismo inofensivo. Saint-Simón tinha algo de razáo em chamar a Luís XIV "un grand roí bourgeois". A revolugáo inglesa de 1688 parece mais radical. O teatro está no centro da civilizagáo barroca. independentemente das fronteiras nacionais e religiosas. de estímulos sempre novos.

Bern. é um motivo de predilegáo dos dramaturgos jesuítas. Eis o motivo (''') do camponés embriagado ao qual fizeram crer que é gráo-senhor. da paixáo teatral de "cour et ville" de Versalhes e París. O palco dos Misterios medievais ficava no meio das pracas da cidade. de modo que o espago dos atores e o espago dos espectadores é comum. A invencáo que torna possível a separagáo completa é a perspectiva teatral. que adotou a perspectiva ilusionística só na segunda metade do século X V I I . palco e platéia estao separados. Eis o aspecto do famoso Teatro Olímpico em Vicenza. menos suntuoso. no dia seguinte. a arte teatral passa por urna revolugáo profunda ( 5 0 ) . no teatro de Aleotti. do seu sonho. e. La vida es sueño. pantomima e bailado.) ¿ 61) W. que até os dramaturgos mais populares nunca dispensaran. A separagáo désse mundo de ilusoes do mundo real dos espectadores simboliza. um mundo aristocrático. o mundo irreal da ilusáo teatral. 1952. por Giovanni Battista Aleotti. Palco e platéia estao inteiramente separados: aqui. 1930. Leipzig. O teatro espanhol e dos jesuítas serve-se das suas máquinas para estender as possibilidades da agáo até aos últimos limites da imaginacáo. para ésse fim. a língua culta e os bienséances no comportamentó dos atores produzem efeitos semelhantes. no drama da redencao que a éles concernía de perto. aparece no preludio da Taming of the Shrew. enfim. O espirito aristocrático do Barroco nao suporta aquela "identificacáo". e as "artes mecánicas" do maqumismo teatral — servem para o fim de realizar o mundo dramático.718 OTTO MARÍA C A R P E A O X HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 719 Shakespeare. ao mesmo tempo. sao as mesmas. No teatro clássico francés. Por isso.: o verso. de Shakespeare. pintura. apresenta aspecto diferente. aparece. de fato. É o pessimismo que se encontra também no fundo do teatro de Racíne e Shakespeare. em Parma. pendant cómico de La vida es sueño. a funcáo separadora é desempenhada apenas por um instrumento de alto nivel artístico. Flemmlng: Das schleslsche Kunstdrama. Leipzig. revelando essas expressoes diferentes como expressoes barrocas. e só pela perspectiva dao a ilusáo da materialidade. R. Pos•ibilidades da perspectiva teatral sao as máquinas complicadas que no teatro espanhol e dos jesuítas produziram toda a especie de efeitos técnicos. No teatro inglés. . caem no ridículo. ali. Alewyn: "Oelst des Barocktheaters". que Andrea Palladio e Vincenzo Scamozzi construiram entre 1580 e 1584. Poucos decenios depois o Teatro Farnese. construido entre 1619 e 1628. o mundo real dos espectadores. mas quase no mesmo nivel de altura. é repetido por todos os comediógrafos barrocos. ao ponto de ésse teatro poder dispensar enfim a palavra. A ideología que inspira ésse teatro barroco é a filosofía religiosa da ContraReforma: o mundo é ilusáo e engaño. já sao pintadas. em que as classes nao privilegiadas nao entram. As rúas e casas que constituíram o fundo do teatro de Palladio ainda eram praticáveis. a vida é um sonho. música. 1931. os espectadores medievais estavam envolvidos na agáo no palco. escultura. Viena e Munique. Ésse motivo. outra situacáo barroca: o mundo real é um teatro de acesso fechado. os espectadores já nao participam da acao. o palco representa o Cosmo inteiro. Phédre e Macbeth representam o mesmo mundo de ilusoes trágicas. No teatro da Renascenca representam-se as comedias de Plauto e Teréncio e de seus imitadores modernos. arquitetura. é "Gran teatro del mundo". (In: Wetliteratur Festschrift fuer Fritz Strich. os espectadores viam os acontecimentos de todos os lados. Flemmlng: Die deutsche Barockkomoedie. 60) W. em variacáo d : férente. lembra-se-lhes o seu lugar na hierarquia social. porém déla poderiam participar: personagens e atitudes. transformando-se em ópera. como se fóssem acontecimentos reais. Quando o burgués ou o camponés se atrevem a penetrar naquele mundo aristocrático. para despertá-lo cruelmente. cá e lá. Todas a s artes — literatura. do luxo das representagóes oficiáis de Madri. E.

no século X V I I I . a historia resiste á racionalizagáo dogmática. Berlín. Durante o século X V I I renovamse sempre essas tentativas de racionalizagáo. continua retórica. A pompa das cerimónias eclesiásticas corresponde a angustia religiosa. Os motivos principáis da literatura barroca sao (B2) a tensáo entre vida e morte. a projegao de todos ésses motivos para fora: o teatro. Benjamín: 1928. Do ponto de vista literario. . Mas históricamente estáo com a razáo: pertencer-lhes-á o futuro. depois da revolugáo burguesa ou semiburguesa de 1688. : I • " " Com respeito as formas de expressao. e congratulando-se com os poetas classicistas que se exprimem. As expressóes da "classe burguesa-intelectual" ficam dentro dessa unidade. Spinosa. disciplina aristocrática do cortesáo e preferencia pela caricatura burlesca. Malebranche. comega a critica histórica dos textos e documentos. sao quase todos inferiores aos barrocos. a tensáo entre o sensualismo do drama pastoril e a melancolía de urna vasta literatura funeraria. a sua unidade. na autobiografía e no romance psicológico. Os géneros internacionais em que se exprimem ésses motivos sao a epopéia heroica ou sacra e a epopéia herói-cómica. e. Até neste pormenor. entre classicismo e burguesía. zombando dos marinistas e gongoristas. sobretudo. terá. de Moliere. se bem q u e muitas vézes secreta. ela fica sendo o reino dos polígrafos de erudigáo antiquária. urna literatura classicista. É o século dos grandes cientistas: Galiltu. o romance de galantaria heroica e o romance picaresco. tempo e eternidade. í £ 6 . que pouco se parecem com os humanistas italianos da Renascenga. A Inglaterra. Com os grandes filólogos holandeses e ingleses. mas constituem o reverso das expressoes aristocráticas. Ursprung des deutschen Trauerspiels.720 OTTO MARÍA C A R P E A U X HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 721 no Georges Dandin. Sao poetas da "reagáo literaria". ao falso heroísmo corresponde o realismo picaresco. Existe urna relacao íntima. da literatura popular do século XVI provém o naturalismo barroco. Descartes rejeita a historiografía como pouco científica. da tradigáo platónica da Renascenga provém a mística. Os críticos literarios da época — que sao os intelectuais burgueses — atacam incessantemente o estilo barroco de expressao. a civilizagáo barroca revela. Aparecem compromissos e misturas de toda a especie entre essas formas "puras" de expressao: o gongorismo místico do teatro dos jesuítas. . parece. as ficgoes gratuitas corresponde o gósto pelas invengóes fantásticas da sátira burlesca. O fato de a racionalizagáo classicista do Barroco ter tido o maior sucesso na Franga do "grand roi bourgeois" é significativo. no estilo da Renascenga. A própria historiografia. apesar das diferengas de expressio. Leibniz. naturalismo cruel e retirada para o sonho. O século dos místieos também é o século dos grandes sistemas racionalistas: Descartes. os "guias de príncipes" que justificam a sangáo eclesiástica do Estado. o Barroco nao deixa de ser o herdeiro da Renascenga. Newton. o marinismo e gongorismo. As atividades daquelas duas "classes" em conjunto apresentam o panorama literario correspondente ao panorama artístico entre os polos Greco e Caravaggio. gósto de experiencias extáticas que se aproximam da embriaguez. Um apanágio particular do pensamento burgués e intelectual é o esfórgo de dominar as contradícoes antitéticas do Barroco. e revelar o sentido burgués da evolugao. o gongorismo 62) W. Da poesia petrarquesca provém outra poesia aristocrática. Kleper. em número nao pequeño. O primeiro setor do pensamento barroco que foi racionalizado é a estética: com a racionalizagáo da poesia aristocrática pelo neo-aristotelismo dos intelectuais italianos comegou o Barroco. e a introspeegao. porém. O "reacionarismo" literario é "pro- gressismo" social. formam urna contracorrente. O classicismo de oposicáo é urna tentativa de romper a pseudomorfose aristocrática que é o Barroco. racionalizando-as. e gósto da mortificagao ascética.

de Bach. o que é "culto" em sentido pejorativo. Define. Empregada assim. alusoes eruditas ou de qualquer maneira pouco compreensíveis. a palavra "culteranismo" serviu. usadas como se fóssem símbolos de urna linguagem secreta que só os iniciados entendem. no século X V I I . complicado e absurdo. 10*7. palavra as correntes poéticas do marinismo. o adjetivo portugués "gongórico" significa. 1948. enfim. futuramente. Os crkicos do século X V I I I e os historiadores do século XIX aceitaram expressao e explicacáo.722 OTTO M A R Í A C A R P E A U X • naturalista da epopéia herói-cómica. a mística burguesa do» jansenistas e protestantes. . tudo. um estilo pomposo. até na boca de iletrados. Afirmavam que marinismo e gongorismo eram invencoes gratuitas de poetas que bem podiam fazer coisa melhor — de Góngora existem realmente poesías em estilo popular. Haendel e. gongorismo. e sem simpatía.maiores poetas de todos os tempos — a poesía culterana já nao pode ser explicada de maneira 63) M. Benz: Deutsches Barock. Ésses tipos mistos dáo como resultante o panorama multiforme da literatura barroca. em slnteses por meio da palavra escrita. finalmente. Stuttgart. 1949. totalmente. Bruxelles. Hoje. Clercx: Le Baroquc et la Musique. o aspecto exterior daquela poesía: uso de palavras raras ou até esquisitas. no sentido de urna língua artificial que difere intencionalmente da língua dos mortais comuns. R. o naturalismo místico da literatura d t introspeccáo psicológica. metáforas inéditas e difíceis.. Mas as contradicóes nunca se resolveram. A arte pela qual o Barroco se superou a si mesmo é a arte de Benevoli e Vivaldi. de Gluck. sintaxe complicada. suas solucoes definitivas no estudo da música ( 5 3 ). realizar qualquer coisa de inédito. que a situacáo mudou — Góngora e Donne sao incluidos entre os . 8. só acessível as élites requintadas. New York. aos inimigos daquela poesía para fins polémicos. simples — mas que quiseram fingir-se "cultos". Os problemas literarios do Barroco encontrarlo. CAPITULO II POESÍA E TEATRO DA CONTRA REFORMA j | T E R M O "culteranismo" serve para designar em urna ^ . Bukofzer: Music in tke Baroque-Era. preciosismo e semelhantes. o gongorismo burgués dos "mataphysical poets".

1) E. mas o espirito dominante da sociedade aristocrática. está táo cansado da beleza harmoniosa e monótona dos Rafaéis e Andreas del Sarto que a primeira vista dos quadros violentos do Barroco. trocadilhos. Tuve: SlUeabethan and Metaphysical ¡magery. a m e t r i f i c a d o e a prosa regulavam-se por leis de cadencia musical. enfim. ou no Prado. Mango: Le fonti dell'Adone. antíteses. Norden: Die antike Kunstprosa vom 6. 1948. Todo classicismo tem. cansada da "grande simplicidade do classicismo". Sente-se ¡mediatamente que aqueles classicistas deram tudo o que tinham que dar. o culto da poesia popular. O estilo dos "metaphysical poets" do barroco inglés procede táo ¡mediatamente do estilo da poesia inglesa renascentista. alguns eruditos burgueses manifestam interésses folclóricos. dos Sidneys e Drumonds. das visoes do Greco e das rudezas de Caravaggio produz efeito de um alivio. Aquela tensáo é resultado do esfórgo de se aproximar cada vez mais do inacessivel. O hermetismo e o caráter simbólico das metáforas sao conseqüéncias de ambigüidades íntimas.) 2) O. um Donne quiseram oferecer algo de novo e inédito. O estilo de Marino é a conseqüéncia fatal do estilo de Tasso ( 3 ). 3) F. ao abuso de metáforas. Oosae: The Jacobean Poets. Um Marino. / 4) Diim. Jahrhundert vor Christus bis in die Ze. surgíu. até ao prego de tornar-se afetados ou incompreensíveis. e a sua ansia de dizer algo de inédito é ansia de dizer algo que nao sao capazes de dizer ou nao devem dizer. Foi Coleridge o primeiro que descobriu essa ambigüidade. re- . a tendencia de transformar-se dialéticamente em seu antípoda barroco. 1940. 1915. por assim dizer. (In: Revista de Filología Española. Dlaz-Plaja: El espíritu del Barroco. Admite-se que o estilo barroca da poesía é a conseqüéncia lógica da imitagáo formalística das literaturas antigás na Renascenca: as sutilidades lingüísticas do estilo greco-romano eram muito mais elaboradas do que em qualquer língua moderna. 1935. (In: Studies in Philology. enquanto os barrocos revelam parcialmente qualquer coisa que nao podem exprimir e ninguém pode exprimir de todo. 6) O. London. Chicago. Croll: "Attic Prose In the Seventeenth Century". Leipzig. da evolugao renascentista (°). Contudo. 1907. Os poetas barrocos sao poetas do inefável. Anejo XX. após ter percorrido as salas dos grandes pintores italianos do "Csnquecento". embora seja arte de tensáo psicológica maior. leis do uso das metáforas. Napoli. R. e críticos anglo-americanos modernos elaboraram urna nova teoria da poesia como sintese de afirmagóes racionáis e subentendidos emocionáis. as metáforas nao sao enfeites artificialmente apostos. Até hoje. se bem que de harmonía com urna lógica dialética. o novo público burgués estava. nos Uffizi. justamente porque era classicista e poesia de élite ( 2 ). um Góngora. lógico. a todo custo. e a poesía aparentemente classicista do século XVI já contém os germes do estilo barroco. cansado dos requintes do Rococó. do qual a fraqueza da "condition humaine" os afasta. W.* ed. impoe sutilezas cada vez mais profundas ou pseudoprofundas. Alonso: "La lengua poética de Góngora". 1891. coisas das quais os modernos nao tém idéia. XVHI. Torlno. e o "culteranismo" também é um produto. 1921. Scopa: Osservazioni critiche sulV origine del secentismo. de Fiorenga. o viajante. como o de Séneca e Tácito ( ' ) . M. No século X V I I I .it der Renaissance. partindo esta da tradicáo poética greco-romana (*). que nem sempre é fácil distinguir as correntes ( 6 ) . 1894.724 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 725 t i o mesquinha. de Madri. mas tém fungáo na estrutura do poema. em Petrarca e nos escritores do "gótico flamboyant". leis de simetría.) 5) E. mas com o progresso da evolucao chegou-se até na prosa a estilos bem "barrocos". segundo os conceitos de Woelfflin. 2. Em parte. é conseqüéncia do cansago. O gongorismo é a síntese e a condensacao intensificada da poesia lírica da Renascenca. A imitagáo dos antigos já levara. no pré-romantismo. naquelas explicagoes maliciosas do culteranismo há utn grao de verdade. Barcelona. Também no século X V I I . a fonte da grande poesia.

cujo centro de agáo ficava em Roma. estao fora de questao aquelas especies do culteranismo que sao meras imitagoes do marinismo. 10) F. Sao distin§óes mais fundamentáis do que as analogías dos processos estilísticos. 8) H. debatem-se ñas dificuldades de um anglo-catolicísmo avant la lettre. na poesía do jesuíta inglés G. na alma do poeta. e do ambiente social que os determina. perífrase das coisas reais para determinado fim emocional. Donne está entre misticismo e erotismo. evitam o estilo barroco. a ambigüidade de Donne baseia-se em parte na ambigüidade da situacáo religiosa do seu país e do próprio poeta ( 1 0 ). seráo outros na "metaphysical poey". Studies in Symbolic Action. pode ser — expressáo da angustia. 1927. Fllipponl: II marinismo nella letteratura tedesca.726 OTTO M A R Í A C A R P E A U X HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 727 velam as ambigüidades emocionáis ( 7 ). 1910. preciosismo e "metaphysical poetry". que se repetirá. ou que a "censura" intima. Burke: The Philosophy of Literary Form. existem dentro da poesía metafórica diferengas fundamentáis. estaría naquele mesmo caso. M. É éste o caso do marinismo na Alemanha. 1931. Wllson: "Notes on the Early Life of John Donne". da italianizagao da Companhia de Jesús. W. Com efeito. países protestantes com estrutura mental diferente. Holanda e Suécia ( 9 ). Góngora e Donne sugerem explicarlo psicanalítica. por definicao. Pongs: "L'image poétique et l'inconsdent". Seráo outros na Inglaterra da "via media". ed. O "espirito da época" — e nao apenas a moda literaria — é responsável pela grande semelhanga das expressóes poéticas na Europa inteira do século X V I I . "agao simbólica" ( n ) . entre hinografia e naturalismo. (In: Psychologie du Langage.) gora. e George Herbert encontra-se. por H. 6. Os símbolos dependem do ambiente espiritual que os fornece. Os caracteres essenciais do Barroco poético sao caracteres permanentes da alma literaria da Espanha. os "mctaphysical poets". gongorismo. 1941. O que amigamente parecía artificio gratuito. descendentes dos humanistas. a delimitacáo dará como resultado secundario as diferengas fundamentáis entre os culteranismos italiano. 1933. diversos dos do marinismo e gongorismo de poetas em ambiente aristocrático-católico. mas a conquista da Europa pelo Barroco espanhol realizou-se através da Italia: através do concilio de Trento. As obscenidades mais ou menos veladas em Marino. París. Richards: Principies of Literary Criticism. que se revelam ñas próprias metáforas. diferentes dos da Italia e Espanha Í i Contra-Reforma. (In: Review of English studies. Kenneth Burke definiu a metáfora como estratagema poético. no século XIX. os portadores da nova poesía eram intelectuais. espanhol e francés. Os protestantes ingleses. por sua vez. na Alemanha meridional e na Austria do século X V I I . O ambiente ainda era o da Renascenga aristocrática. New Orleans. parece hoje — ou. * . Firenze. 1938. e a poesía metafórica como estrategia poética. Delacrolx e outros.) 9) 8. Poesía metafórica é.a ed. Empson: The Seven Tupes of Ambiguity. sem necessidade intima ou por motivos diferentes. A Inglaterra barroca. nao é protestante nem católica. e da Contra-Reforma. Hopkins. os puritanos. Antes de tudo é preciso limitar o "culteranismo" própriamente dito as expressoes dos países da Contra-Reforma católica. i n . P. Resta conhecer as fcntes dessa angustia. os outros. London. só a poesía latina dos jesuítas. Daí a prioridade cronológica do marinismo italiano. Logo.» a origem psicológica da metáfora é urna especie de tabú: a metáfora exprime veladamente coisas ou alude a coisas que nao é possível dizer francamente. "agao simbólica" de poetas burgueses. London. quebrados pela bancarrota do nacionalismo "romano" e do "idealismo" 11) Kenn. Contudo. pelo menos. estilísticamente. Estas situagoes parecem análogas as de Marino e Gón7) J. a diferenciagáo das "classes literarias" é responsável pela independencia relativa do marinismo. nao permite revelar (*). A.

tro é do povo. Deus e a religiao nao existem como fatóres determinantes. enquanto se admirava devidamente o teatro de Shakespeare e dos seus contemporáneos. substituidas pela indiferenca religiosa que foi a conseqüéncia das indecisoes da "vía media" entre anglo-catolicismo e puritanismo. desde Donne e Herbert. Apenas. Sao como dois setores inteiramente separados da literatura inglesa do século X V I I : a poesia é dos intelectuais. ignorando aquela poesia. O teatro popular correspondente na Espanha é — mutatis mutandis — o de Lope de Vega. Milito mais perto que dos poetas marinistas se acha Tasso dos "metaphysical poets" ingleses que. nao convém considerar e estudar a poesia de Tasso dentro da corrente marinista ( 1 2 ) : o seu lirismo exprimiu-se menos na poesia lírica do que na epopéia. Nisso também Tasso é um "metaphysical poet". a literatura nacional e religiosa do culteranismo espanhol — representada no teatro por Calderón — tinha efeitos psicológicos de compensacáo da decadencia política e social da Espanha. no sentido mais superficial da palavra. os marinistas desistem. advertidos pelo exemplo. notas 2 e 11. Tasso é o tipo intelectual da época. e é significativa a luta incessante de Lope contra o gongorismo. teatro de catequese religiosa. A arte de Calderón é considerada gloria nacional por um aristócrata e militar como o Duque de Veragua. De Tasso provém o estilo marinista. e os poetas marinistas revelam pouca coisa das angustias tremendas que levaram o precursor ao manicomio. prolongamento dramático da Ratio studiorum. foram considerados como se fóssem dogmas do credo. e o tea12) Sobre Tasso. o teatro jesuítico. Contudo. Epopélas e Picaros". Donne estéve esquecido durante mais de dois séculos. constituí o preludio do teatro espanhol. exprimem ambigüidades e contlitos pemelhantes. No teatro elisabetano-jacobeu nao existem aquelas ambigüidades. chega a ser. acabará em ópera. Tasso. O teatro da Contra-Reforma está imbuido de tendencias moralistas. Com efeito. a Espanha é o único em que o teatro jesuítico nao alcancou grande importancia: porque o teatro nacional já estava desempenhando a fungió. N o teatro inglés. Antes dos espanhóis. O marinismo é o produto da ambigüidade. . embora fósse poeta barroco. "Pastarais. a grande aspira$ao frustrada de Tasso. ao ponto de mal ter sido considerado como parte da literautra. aristocrático e hedonistico. O motivo dessa identificacao é a correspondencia exata entre o Barroco e os caracteres permanentes da literatura espanhola. a poesia italiana do "Seicento" transformar-se-á em música. A aparéncia é da petrif i c a d o ideológica dessa literatura. como arte de ornamentos verbais. cí. nos autos sacramentáis. Capitán general del reino de Valencia. nao é poeta marinista avant la lettre. Shakespeare e Ben Jonson. nada tem que ver com o teatro popular e moralista da Contra-Reforma. Mas entre todos os países da Contra-Reforma. conceitos da tradisao nacional. entre o hedonismo aristocrático-lascivo e a angustia religiosa: é o caso de Tasso.728 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURAI OCDENTAL 729 «riimiano. considerados do ponto de vista da técnica dramatúrgica. pedagógicas. na mente daqueles intelectuais. Por todos ésses motivos. parecía possível compreendé-lo. os jesuítas já tinham corapreendido as possibilidades pedagógicas do palco. a "metaphysical poet r y " inteira foi desprezada. e o drama.Mas Lope nao é "ateísta". já é dramaturgo da Contra-Reforma. Tasso é o precursor imediato do marinismo. na verdade. parecem ateístas. Os espanhóis chegaram a identificar a Espanha com o catolicismo romano. a "metaphysical poetry" espanhola. das pretensóes do poeta da Gerusalemme liberata. Finalmente. como o conceito da honra. e o seu drama pastoril. Rendem-se ao hedonismo aristocrático. como música verbal. o teatro pastoril de Tasso nao apresenta analogía alguma com o teatro intensamente popular da época elisabetana-jacobéia.

Flamini: L'egloga e i poemetti di Luigi Tansillo. F. Napoll. O que é diferente é o destino final désses estilos: a dissolucáo em música. pendant do classicismo barroco que venceu na Franja o preciosismo culterano. Pedro é um santo muito choroso. La Balia (1552). 11 Podere (1560). Belloni e outros: a subserviéncia de muitos seiscentistas em face da Franga é interpretada como fraca tentativa de oposigáo contra os espanhóis. Edlcao da Clorida e dos poemas (com introdugáo) por F. é certo que foi injusto com o poeta. mas nao á maneira elegante dos humanistas. 1893. belas descrigoes do golfo de Ñapóles. e só raramente urnas expressoes de verdadeira angustia de penitente aparecem no meio de lugares-comuns mais ou menos hipócritas. De Sanctis. de Luigi Tansillo ( " ) . Le lagrime di San Pietro já foram comecadas dois decenios antes da censura eclesiástica. nostalgias da Renascenga. pretendeu Tansillo reabilitar-se. a fcieño nacional. Quando. a transformacao em classicismo. assim como Villegas será celebrado na Espanha como precursor de Meléndez Valdés. em 15S9. ousou opor-se a cssa valorizarlo de Chiabrera. mas tinha razáo quando o distinguía nítidamente dos outros classicistas mencionados. foi notável poeta lírico. acabara sem resultado. Le lagrime di San Pietro (publ. e dos Tassonis. pela Igreja. publicando o poema religioso Le lagrime di San Pietro. mas já se dis- cutiram os fatóres que o separam da corrente marinista. na Italia. II Vendemmiatore (1532/1534). as suas obras foram postas. 1510-1568.730 OTTO M A R Í A C A R P E A U X HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 731 A oposigáo anticulteranista dos Lopes. Flaminl. mas nao insignificante. como fase de decadencia estética e moral. na Espanha. O classicismo da época barroca é mesmo um classicismo "impuro". retratagáo fraca e hipócrita que lhe estragou a fama. em pleno "Cinquecento". e cita-se como primeiro exemplo e primeira vítima do confuto o próprio Tasso. Laurenzia: 11 Canzoniere del Tansillo. O "seicentismo" — os italianos chamam assim ao culteranismo italiano — foi sempre considerado como a época da maior humilhacao das letras italianas sob o dominio espanhol. 1586). O pré-Barroco italiano. mais forte a dos classicistas. Clorida (1547). Quanto ao caráter barroco da poesía de Tasso. na Espanha. Napoll. Florentino. está representado com evidencia pela figura menor. e sim á maneira naturalista. Rotas e Rucellais. La Valetta. Pelos seus poemas didáticos e pelo idilio Clorida. ainda pertence ao mundo dos Pontanos e Sannazaros. na Franja. Napoli. gongorismo espanhol e preciosismo francés há muitíssimas semelhangas e analogias. Nao se trata de um grande poema religioso. na qual os conflitos barrocos nao existiram. 1882. Chiabrera será exaltado como precursor do neoclassicismo de Monti e Foseólo. evasoes para um equilibrio ilusorio. O Vendemmiatore é obsceno. Na verdade. com a sua sensibilidade aguda. o seu S. 1892. porque Tansillo nao tinha vocagáo para isso. . alte tremanti Ruine. sao tentativas de fuga. Entre marinismo italiano. no Index dos livros proibidos. 1908. " — essa poesía das ruinas e de paisagens sombrías é barroca. Havia outra oposigáo. explica-se o estilo "seicentista" pelo confuto entre as exigencias da sociedade aristocrática e o moralismo da Contra-Reforma. Mas justamente por isso foi táo grande o éxito das 13) Luigi Tansillo. e a melancolía romántica dos seus sonetos nao encontra analogias em toda a poesía renascentista: "Strane rupi. Na Italia do século X V I I I . . na Italia. Tansillo pareceu á posteridade um Aretino arrependido. V. aspri monti. Em toda a parte o culteranismo é acompanhado de correntes classicistas — de Chiabrera a Villegas. já nao subsistem dúvidas. . Só recentemente o "seicentismo" encontrou defensores em Toffanin. e sassi al ciel nudi e s c o p e r t i . um classicismo-barroco. O poema obsceno 11 Vendemmiatore coloca-o na tradicáo dos humanistas lascivos. de modo -jue o "seicentismo" ganha um grande poeta e urna árvore genealógica. Edícáo das poesias líricas por F.

Napoli. "Pastorais. i m i t a d a s p o r M a l h e r b e . É poesia s e m e m o c á o n e m a s á o . Balsamo-Crivelll. Edicáo de Obras Escolhidas (com introducá©) por O. v a d a a l i a s t r i g l i a . 1927. m a s n a o t e m visao. q u a s e d e a r t e p a r n a s i a n a . é p e l o m e n o s um g r a n d e a r t i s t a . a Strage degli Innocenti. Edicáo do Adone por O. E se M a r i n o nao é. assim como foram reabilitados Góngora e Donne. q u e só o " S e i c e n t o " s o u b e a p r e c i a r : é o p r e c u r s o r d o B a r r o c o . Torino. F. conhecedor culto e até erudito de T e ó c r i t o e Virgilio. compondo entáo os seus poemas como mos a i c o s d e citacoes.ou com urna e p o p é i a b í b l i c a . e para assunto d o poema mitológico o amor em "pleín air". Canevari: Lo stile del Marino. Sao os m e i o s q u e l h e j u s t i f i c a m o fim. dos " a m o r e t t i " meio ingenuos. na F r a n c a . d o s t e m p o s m o d e r n o s q u e s e i n t e r e s s a pelas a r t e s p l á s t i cas.I 732 Orro MABIA CABPEAUX HlSTÓBIA DA LlTEBATUHA OC1DENTAL 733 Lagrime di San Pietro. A s p o e s í a s d e M a r i n o s a o pegas d e m u s e u t a m b é m n o u t r o s e n t i d o : s a o colecóes. nclla poesia italiana. reunindo tudo o que podía agradar ao " g u s t o del m o n d o " . T a n s i l l o foi u m p o e t a d o " C i n q u e c e n t o " . La Sampogna (1620). fala-se d o o p o r t u n i s m o artístico de Marino. a composigáo bem o v i d i a n a d e lascivias p i c a n t e s e m e l a n c o l í a s e l e g i a c a s . d e Venus e A d o n i s . 1888. os belos versos e frases e expressoes que encontrou naqueles poetas. meio obscenos de Albani. Entáo. O g ó s t o d o s e u m u n d o a r i s t o c r á t i c o era u m g ó s t o o v i d i a n o . Reñí e D o m e n i c h i n o . Torino. Catulo e Ovidio. Roma. talv^z o p o e t a m a i s famoso d o seu t e m p o . M a r i n o a c e r t a em p e q u e ñ a s p o e s i a s e r ó t i c a s . e S o u t h w e l l . d o s q u a d r o s p o m p o s o s <los i r m á o s Carracci. Dicerie sacre (1614). Bari.) La Lira (1602/1614). Getto.s l a s c i v i a s d o Adone. isto é : d e M a r i n o . e o s m e i o s sao o s m e s m o s n a poesia s a c r a e n a poesía e r ó t i c a : " É del p o e t a il f i n la m e r a v i g l i a : C h i n o n sa far s t u p i r . e t e r m i n o u com a. N e s t e s e n t i d o . 1940. 1922. Montemayor e L o p e de Vega. é a p e n a s urna seqüéncia de ¡números quadros descritivos. Afirmam que anotou. reconhecendo a poesia d e M a r i n o e j u s t a m e n t e o Adone c o m o e x p r e s s o e s válidas e insubstituíveis d e u m determinado momento hist ó r i c o . em cadernos volumosos. m a s só lhe s e r v e p a r a c o m p a r a r a é s s e s r e f l e x o s os e n c a n t o s da pele d a s s u a s ninfas. i n i c i a n d o a s s i m urna t r a d i c a o francesa e p a r i s i e n s e . 1901. La Gallería (1635). Croce. O " c a v a l i e r " G i a m b a t t i s t a M a r i n o ( 1 4 ) . A s u a habilidade em m i s t u r a r cores. 1569-1625. Epithalami (1616). Calcaterre: 11 Parnaso ¿n rivolta. M a r i n o era g r a n d e leitor. v i s t o p e l o s olhos d e T a s s o . na I n g l a t e r r a . é e s p a n t o s a . S ó p a r a o l e i t o r m o d e r n o essas p o e s i a s sao pegas d e museu (14"A). u m g r a n d e p o e t a . Edicáo das poesias por B. VAdone (1626). Marino é o primeiro poeta 14) Giambattista Marino. Picco: 11 cavalier Marino. o artista revela a sua incapacidade poética. A sua Gallería é urna colegao d e p e c a s d e m u s e u . S u b m e t i d o a j u l g a m e n t o estético. Mas o j u l g a m e n t o histórico tem de obedecer a outros criterios. 1927. A BorzelU: Istoria della vita e delle opere di Giambattista Marino. La Strage degli Innocenti (1610). h á b i l m e n t e r e u n i d a s . M a r i n o n a o p o d e ser reabilitado. M a r i n o r e s s u s c i t o u e i n t e n sificou. d e a m o s t r a s da a r t e p o é t i c a d e t o d o s o s t e m p o s . M. em descrever os reflexos da luz na a g u a c o m o e m c r i s t a i s . 1954. Pavía. (Cf. 1912. Epopélas e Picaros". s e m p r e com o fim de comunicar o "piacere f a n t á s t i c o " . T e m vis o e s plásticas. nota 14. Ronsard e Tasso. a arte poética d e Marino é bem contemporánea da arte dos pintores barr o c o s d o s e u t e m p o . Menghinl: Lo vita e le opere di Giambattista Marino. " P a r a a s s u n t o d o p o e m a s a c r o e s c o l h e u as c e n a s s á d i c a s da chacina das crianzas inocentes em Belém. M a r i n o é virtuose da 14A) C. p e r c o r r e u o c a m i n h o d e T a n Billo em s e n t i d o c o n t r a r i o : comeg. por meio de metáforas inéditas. E. É O v i d i o . Milano. d e m o d o a l g u m . e n t á o . Roma. mas torna-se insuportável no tamanho épico do Adone. Barocco e antibarocco .

Le tre Grazte (1630). Bari. Em geral. A sua literatura é expressáo exata do homem Marino: por fora. havia entre élcs alguns talentos notáveis. nota 14-A. 1582-1626. formados no ideal aristocrático. um "cavalier" vaidoso. existe só um poeta marinista: Marino. s ) . 18) Antonio Bruni. Em Achillini perdeu-se. Patané-Finocchiaro: Appunti su Qirolamo Preti. no estilo Rococó dos Bouches ou Fragnards. Sao justamente os marinistas italianos. e quase só éles. Pela desproporgao entre a capacidade artística e a incapacidade poética. talvez. Milano. e Antonio Bruni ( 1 8 ). caíram em desprézo tao completo que hoje é difícil encontrar-lhes as obras ( . no sentido do ideal da Europa crista. poeta de enormes falsidades heroicas. variagoes intermináveis da poesía do beijo. Selva di Parnaso (1616) ¡ Epistole eroiche (1626). só por vézes se revela a sua capacidade de empregar metáforas daquela especie em sentido satírico. Nos outros. já poesía anacreóntica. para a qual nao parece ter vocagao alguma. Também poderia ser oposicáo do bom senso burgués. teria sido. Malatesta: Claudio Achillini. nos seus discípulos. Marino é. de arte consumada mas absurda. Déste modo. Ga• 17) Girolamo Preti. o seu patriotismo antiespanhol tem qualquer coisa de académico e cosmopolita. um melancólico confuso. A reacáo contra o marinismo nao é fatalmente classicista. O caso Marino nao se repete. Modena. com efeito. embora corrompidos. o virtuosismo degenera em acrobacia. 1884. um elegiaco notável. como as cantatas dos compositores napolitanos. a écloga "Bruna Pastorella". Claudio Achillini ( . Fllieri: Antonio Bruni. crítico acerbo da poesía petrarquista e inimigo corajoso da dominagáo espanhola. a metáfora engenhosa em trocadilho monstruoso.734 OTTO MARÍA CAHPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 735 imitagáo ovidiana nos famosos "baci". Lembra as melodias bonitas das óperas italianas. 16) Claudio Achillini. Após terem sido ídolos admirados da época. um petrarquista dos melhores. por dentro. B. 1574-1640. A impressao geral é menos de poesía falsa do que de poetas engañados. ávido de glorias mundanas. Girolamo Preti ( l 7 ) . ) Of. mas Tassoni pertence á outra "classe literaria". Lecce. 8 " A ). por B. poeta famosissimo pelo idilio '"Salmace". R. que justificam a má fama postuma do culteranismo. poder-se afirmar que a oposigao contra o marinismo foi urna reagao antipoética. o último resultado da virtuosidade lingüística dos marinistas será o "dramma per música". tudo. á burgués-intelectual. como o demonstra o caso de Tassoni. Croce. Marino é bem servido pelo fino gósto artístico: sao poesías de urna sonoridade maravilhosa. M. em outros tempos. um grande poeta humoristico. 1593-1635. L. justificando indiretamente a poesía do "cavaliere" ( . . Até na poesía religiosa das Dicerie sacre. 1919. no fundo. poeta marinista Leccese. para falar com propriedade. Aos humanistas. Rime e Prose (1680). dos Alessandros Scarlatti e Durantes. genio malogrado. teria sido um erótico sutil. é napolitano melancólico e sincero no impressionismo dos "sonetti marittimi" e na poesía idilica da Sampogna: ai se encontra a mais bela das suas poesías. Contudo. 1910. 15) Edlcao: Lirlcl Marinisti. acompanhando palavras sem sentido. 0 ) alcancou gloria e noto- riedade pela arte de inventar as metáforas mais audaciosas para bajular a corte francesa. A civiIizagao italiana da Contra-Reforma póe tudo á disposigao dos poetas. só resta a volta aos cánones da Renascenga. e. o "libretto". rabelaisiano. 1898. menos um virtuose vitorioso do que um poeta malogrado. profundamente musical. menos o sentido humano.

Halle. nota 93. O marinismo italiano é artificio. no entanto. 1952. 1902. e o seu dominio dos metros greco-romanos servirá de modelo a Monti e Foseólo. mas sempre em estilo antigo: inventa a poesía anacreóntica. Epopélas e Picaros". e todos os classicistas do século X V I I sentem o mesmo amor infeliz ao mais inimitável dos poetas da Antiguidade. A. bem construido e ao mesmo tempo bem sentido. urna auténtica alma romana. epopélas: Gotiade (1582). nota 21. Napoli. do que os discípulos de Marino. em solfejos. Rime (1627). 1901. Madrid. . á maneira de Horacio. arte perfeita e sentimento sincero excluemse reciprocamente. Torteo. do próprio Carducci. celebrando vitórias francesas e austríacas como se fóssem triunfos do cristianismo. 1593-1646. como a famosa apostrofe á Italia: "Deh! fossi tu men bella. sarebbe stato il nostro Orazio". 1'. Poesie toscane (Flrenze. Q. Caprera: Fulvio Testi. Firenze (1615). "reacionário". como se fóssem arias sobre textos modernos. Zambón!: Fulvio Testi. O seu patriotismo antiespanhol é concreto. O. E. um valor puramente formal. sem possuir a arte de um Marino. A. A literatura de Petrarca e Políziano acaba em palavras cheias de música. Chiabrera permaneceu fiel a ésses ideáis. F. L. Leopardi dizia as palavras que sao. 1552-1637. 1925. Metastasio também pertencerá á Arcadia. Caponl: Vincenzo di Filicaia e le sue opere. 9 ) é mais passadista. Thomas: Le lyrisme et la préciosité cultistes en Espagne. poeta. (Cí. 1939. poeta frió e ás vézes imbécil. Amedeo (publ. talando como crítico. 1927. Quando Chiabrera está cansado de celebrar heróis que nao sao heróis e santos que nao sao santos. 30) Fulvio Testl. Chiabrera ainda será modelo das Odi barbare. Na época da Contra-Reforma italiana. julgamento justo e a maior honra da memoria de Fulvio T e s t i : "In etá meno barbara. Torlno. Filicaia é o único poeta italiano do século X V I I que consegue um ou outro verso forte. . salientou a importancia histórica da poesía de Chiabrera: num periodo de escurecimento dos ideáis clássicos. comedia pastoral: Alcippo (1604). porém. falando como historiador. e por F.i L. o gongorismo espanhol ( 22 ) é conseqüéncia ló21) Vlncenzo di Filicaia. Edicfto: Opere scelte. de um 19) Gabriello Chiabrera. G. Em Fulvio Testi ( 20 ) reconhece-se. 1920. Flrenze. 1817. em todo o caso. Testi é só sincero. genuinamente italianos. como para os nobres romanos. De Sanctis. Mannuccl: La lírica di Gabriello Chiabrera: Storia e caratteri. homem envolvido nos negocios diplomáticos. comeca a brincar. A Arcadia. E. Cl. esperando do poder futuro do entáo pequeño Estado piemontés a líbertacáo da península.'. os poetas da renascenga nacional do fim do século X V I I I . um "gaudium severum". 1950.-P. Modena. 1642-1707. Confundindo causa e efeito. A poesía significa para ele. Massano: La vita di Fulvio Testi. Glrardl: Esperienza e poesie di Gabriello Chiabrera. 1707). " O resto é apenas exercicio estilístico. mas só as formas. Bologna.. "Pastorals. A incompatibílidade revela-se em Filicaia ( 2 1 ). ñas odes pretende revivificar a arte solene — aristocrática. . 1926. dedica a sua ode mais famosa "AlP Altezza del Duca di Savoia". á qual Filicaia já pertence. e afinal em música sem palavras. Noto. Carducci. 1909. Mannuccl. Marino é só artista. Torlno.. outra fonte perene de disparates poéticos. L. negou á poesía de Chiabrera todo o valor. F. Se a tradicao italiana é classicieta. restabelecerá as formas da tradicao clássica italiana. N. "A Renascenca Internacional". Negri.736 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 737 briello Chiabrera ( . Milano. Gosta da arte. mas nao culterana — de P í n d a r o . Reyes: Cuestiones gongorinas. Carducci: Dello svolgimento dell'ode in Italia. Contudo. É a vitória postuma do marinismo. Nerl: Gabriello Chiabrera e la Pleiade tráncese. Prato. Torlno. 1922. Edl?6es daS poesías por F. Erminla (1605). 1900.) Poesie (1585/1588). o almen piü f o r t e . 1654). É. o caráter permanente da poesía espanhola é barroco.

Alonso: "La lengua poética de Góngora". 23) Luis Carrillo y Sotomayor. Madrid. e por J. . 1948. pela crítica moderna. Entao escreveu a ode "De la forma de Larache". horaciano. como na de Menéndez y Pelayo. Obras (1611). Gates: The Metaphers o/ Luis de Oóngora. .) Dám. Se a poesia "gongórica" de Góngora é loucura. Artigas: Biografía y estudio crítico de Don Luis de Góngora y Argote. 1926. Seria classicista. as palavras empregadas. M. 2. um virtuose que sabe fazer t u d o : poesia popular e poesia hermética. "Hermana Marica. Edlcao das Soledades por Dám. New York. García Soriano: "Don Luis Carrillo y Sotomayor y los orígenes del culteranismo". vol. e 3. " . .) A. "ángel de luz". concordou com éles a estética romántica. formada segundo modelos latinos.. 1921. Edicóes por R. e explicaram a mudanga por urna doenga mental. y ríase la gente" — as únicas poesías de Góngora que o gósto classicista admitiu. hermético. em todo o caso. Madrid. 1935. De Luis de Góngora y Argote ( 24 ) figuram ñas antologías mais divulgadas. Mas os contemporáneos logo o esqueceram.) E. (In: Boletín de la Academia Española. Pode ser. Dám. c. capazes de entender alusoes eruditas e querendo ouvir coisas novas. como se isto fósse sempre artificio. evidentemente pré-barroco. despreocupados. Distinguiram o primeiro Góngora. Mas a sua tradicáo é a da Renascenga. do segundo.. s. as vézes novo Bentido. 1925. 1927. Madrid. . Obras poéticas (edit. banindo da poesía a inteligencia construtora. D. inéditas. o autor daqueles lieds passou por urna grave crise mental. A. A elaboragáo de metáforas inéditas •erve mesmo para o fim da "elusión" das coisas ignóbeis . 1950. Crece: "La poesía di Góngora". Buenos Aires. Madrid. só a sua écloga "Fábula de Atis y Galatea" é obra de transigáo. Anejo XX. é Francisco d e Medrano ( 2 2 " A ). Alonso. " . serve para intensificar a sonorídade do verso e dar acento. "la más bella niña de nuestro l u g a r . Edlcao em Biblioteca de Autores Españoles. Mas já é muito mais elaborado. Góngora é o contrario de todo romantismo. "ángel de tinieblas".* ed. apreciado como precursor de Góngora. Alonso: Vida y obra de Medrano. . . Edlcao (com Jntroducáo) por Dám. sutil. apreciando-as com compreensao técnica. Em 1609. que já exigiu a expressáo das emogóes em formas elaboradas para o gósto de Ieitores cultos. depois.» ed. A Carrillo y Sotomayor (23) atribuiu-se a honra de ter servido de modelo estilístico a Góngora. Foulché-Delbosc. (In: Revista de Filogia Española. 3 vols. admitindo como poesia só expressóes imedíatas da emocao. resolveu criar nova convengáo e nova lingua. 1561-1627. mas é um poeta renascentista. (In: Critica. " . método renascentista e até classicista.) 24) Luis de Góngora y Argote. senáo pelo gósto da mistificacao e até da mentira poética^] Eis o ponto de vista dos classicistas dos séculos X V I I I e X I X . déme yo caliente. 1583-1610. 1946. 1936. "Án22A) Francisco de Medrano. só romances e letrilhas de tom popular. Alonso: Poesía española. entáo há muíto método nesta loucura. Com efeito. em vez disso. a escolha das palavras obedece á lei de nao empregar jamáis expressóes vulgares ou lugares-comuns inadmissíveis ao lado de expressóes aristocráticas e eruditas. afetado. J. . Phlladelphla. imediatamente seguida pelo novo estilo do mestre. e éste segundo Góngora tornou-se o alvo das hostilidades de quase tres séculos. Millo Jiménez. " . Madrid. D. "Frescos a i r e c i l l o s . XXXII. . Reyes: Cuestiones gongorinas. d. Alonso: "Alusión y eluslón en la poesía de Góngora". XLII/5-7. Também os neologismos de Góngora estao formados segundo as leis da lingüística greco-latina. Góngora é um grande técnico da poesia. Alonso. 1944. 1570-1607. o que o expós aos anatemas dos tradicionalistas. por Juan López de Vicuña. 1627). Madrid. de naturalidade perfeita: "Lloraba la n i ñ a . frescos. (In: Ensayos sobre poesía española. 2. 1935. 1934. na qual apareceu um outro Góngora. Madrid.738 OTTO MAMA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDEINTAL 739 gica da evolugáo que comesou com Garcilaso de la Vega e continuou com Fernando de Herrera. se aceitasse a lingua convencional da Renascenga. artificial. J. A sintaxe complicada. mañana que es f i e s t a . Poeta ainda classicista.

em geral. . Um soneto como aquéle em honra da sua cidade de "Córdoba" — "Oh excelso muro. Dámaso Alón- ." O fim "natural" do naturalismo é a decomposicao. . na sua alma e na sua poesia. Góngora empregou essa arte para fins superiores na fábula de "Polifemo y Galatea": para exprimir. na Espanha. Na sua época. Trata-se de emprégo consciente de material folclórico ("Trepan los gitanos. Também é um arquiteto de estrofes e versos. de maneira mais impressionante. a fórmula da poesia de Góngora. Em nossa época. nao fez esfórco algum para evitar obscenidades grosseiras. e com a edícáo anotada das Soledades (16381648). p e r e g r i n o . na qual expressoes eucarísticas como "vuelta soberana" e "mudanza divina" rimam com a música dos sinos: "A la dina daña dina. na sua edicao das Soledades. para seu uso e o dos seus leitores. Os seus sonetos s l o maravühas de construcao." Numerosas dessas poesías religiosas estao na linguagem deturpada que os escravos prétos. A la dina daña dina.740 OTTO MARÍA CAHPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 741 déste mundo. e o cume do seu naturalismo folclórico é atingido por certas poesías religiosas. obedece táo rigorosamente as suas leis intrínsecas que seria possível escrever urna gramática e sintaxe da língua de Góngora." — condensa — segundo a observagáo feliz de Díaz Plaja — urna visio completa da arte barroca do seu século. como todos os grandes poetas espanhóis. segundo Dámaso Alonso.. os admiradores do poeta responderam as acusacoes de doenca mental ou mentira deliberada com grandes comentarios explicativos. Mas os humoristas sao. que gostava tanto da música e do jógo de cartas. enfermo. e Góngora é. com o verso final — " . e aquéle outro sobre a "Capilla de Nuestra Señora del Sagrario em Toledo". vuelta soberana. O pió cónego da catedral de Córdova. . e Góngora domina essa língua tao soberanamente como a sua própria língua hermética. corre-Ihe a vida entre "las horas que limando están los días. "Alusión y elusión" é. substituindo-lhe os nomes por perífrases metafóricas do mesmo valor semántico. "Descaminado. por García de Salcedo Coronel. quase blasfemas. constituindo cada um déles um mundo poético completo. quase como em García Lorca. . pessimistas. mudanza divina. Em Góngora — a observacáo é de Vossler — há um grande humorista. Ao mundo baixo a poesía se refere só por alusao. . o contraste entre a fórca brutal do gigante e a beleza sutil da ninfa. Góngora constrói com os elementos da língua espanhola urna nova língua particular. As suas poesías populares nao sao brincadeiras. túmulos r e a l e s . oh torres c o r o n a d a s . la daña dina. los días que royendo están los años. de José Pellícer de Salas.. " — condensa urna visao da Espanha. . como as Lecciones solemnes (1630). como a cancáo "En la Fiesta del Santísimo Sacramento". nessa nova língua. " . deu urna versáo marginal do texto poético em prosa espanhola. . Déste modo. en campo azul estrellas pisan de oro. Góngora é um arquiteto de línguas. empregavam."). la dina daña. . um grande poeta da morte. assim ele se pinta a si mesmo num soneto. Góngora continua enigmático. É o confuto entre naturalismo e esteticismo. O naturalismo em Góngora é um fato. á maneira como que se traduz de urna língua para outra. demonstrando que aquela poesia "abstrusa" do mestre tinha o mesmo sentido que a da Renascenca. a sua imaginacáo está povoada de "infames turbas de nocturnas aves" e de "urnas plebeyas. Dámaso Alonso. e tudo. " .

Benitez Claros. 1583-1641. meio de pastores gregos. negando-lhe a razáo de ser. é Jauregui na poderosa traducáo da Farsália. Jordán de TJrries: Biografía y estudio critico de Juan de Jauregui. no abismo da noite mística. Madrid. seja de escurecimento dos sentidos. c. de Lucano. portante. que é. O nome do poema lembra urna grande tradisao da literatura espanhola: a poesía de solidáo noturna. e por outro lado. todos hostilizavam o mestre ou a sua memoria. rendendo-se á expressao mais completa do elemento barroco da alma espanhola. Em suma. 1608 — c. demonstrando a perfeita unidade estilística entre as "letrillas" e romances populares de um lado. vol. 1899. os sonetos.. Polifemo e Soledades. idéia estranha e anacrónica. culminando numa utopia platónica. desapareceu o público de "conhecedores" de entáo. J á se fala em mera "alquimia verbal". es decir. idade "política". Lira de las musas de humanas y sacras voces (1635). em 1684). através de varias fases: idade dos pastores. atacando-o ao mesmo tempo. . O leitor moderno perde-se nesta floresta abundante de poesía barroca como em labirintos inextricáveis. Madrid. bastam para desmentir-lhe o antigongorismo teórico. Os gongoristas menores cultivaram aspectos parciais da poesia do mestre: Bocángel (--'B). t r a n s f i g u r a d o do mundo barroco das grosserias naturalistas e pessimismos fúnebres por meio de novas e fabulosas estruturas lingüisticas. 1946. Na solidáo altiva e remota de urna poesia singular adormeceu o "novo mundo" das Soledades. A historia da poesia espanhola do século X V I I é a historia do antigongorismo. 26) Gabriel Bocángel y TJnzueta. 1950. meio de selvagens bárbaros. urna antecipacáo de idéias de Vico. outro elemento essencial da alma espanhola. A obra de Góngora constitui. la síntesis española de la tradición poética greco-latina". Mas a obra-prima de Góngora sao as Soledades. mas incapazes de compreendé-lo. os contemporáneos foram capazes de gostar da sua poesia. 742 O T T O MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 743 so escolheu outro caminho de reabilitasao. E a conseqUéncia foi que a literatura espanhola inteira adotou o estilo de Góngora. alquimia de palavras preciosas. mas é um poema barroco. Benitez Claros: Vida y poesía de Bocángel. igualmente engenhoso 25) Juan de Jauregui. 1668. idade dos pescadores. a maior traducáo em língua castelhana. R. J. Apenas.. perfeita expressao barroca do estoicismo. transcricao metafórica de um mito renascentista. Um désses gongoristas antigongoristas é Juan de Jauregui ( 2 6 ) : a sua traducáo do Aminta. XVCL Edigao da tradugfto da Pharsalía (primelra publ. desde Lucano e Séneca. Rimas (1627). embora fascinantes. Edigao por B. Gongorista pessoal. á sua maneira. e a sua Fábula de Orfeo. 1888. tentativa quase heroica de fundamentar a última civilizacáo aristocrática por meio de um ricorso bárbaro. Mas Góngora nao era confuso. O poema de Góngora é muito diferente: as suas "soledades" sao as florestas e prados de um país desconhecido em que os náufragos encontram urna estranha civilizacáo. idade da caca. O plano das Soledades — o poeta só deixou dois livros dos quatro projetados — compreendia urna "historia ideal" da humanidade. e todos acabaram gongoristas. 2 vols. . seja de resignacao estoica. A obra-prima da arte de Góngora seria a fábula de "Polifemo y Galatea". e já nao se compreende porque Góngora escondeu entre "alusión y elusión" — os polos da sua arte metafórica — um pensamento nem sempre profundo e urna filosofía que nao chega a ser filosofía. Éste resultado está em harmonía perfeita com as afirmasoes dos comentadores do século X V I I . do qual D. Assim. de Tasso. Madrid. Edicao das poesías em Biblioteca de Autores Españoles. O poema poderia ser interpretado como idilio evasionista da Renascenca. Madrid. na "vida retirada". Com excecáo de poucos discípulos fiéis. um bloco homogéneo — "el gongorismo es la síntesis y la condensación intensificada de la lírica del Renacimiento. Luis de Góngora y Argote é o Colombo.

m a s . ésse a m o r e r a s e n sual e a p a i x o n a d o . 1607 — c. sancionado pela política contra-reformista. e m q u e m r e b e n t a m as ambigüidades íntimas á e Góngora. antig o n g o r i s t a a p a i x o n a d o . O u t r o exemplo é o fato de Quevedo. 1939. c o n t r a t o d a s a s i n i b i g o e s . 1665. E. o antigongorista em linguagem gongórica. g r a n d e c o l o r i s t a que C o s s i o r e d e s c o b r i u sob a fama d e p o e t a s a t i r i c o .) A. San José. c o n s i d e r a d o c o m o " c o n f u s o e r r o r " . 1880. d e c l a r a n d o essa p o e s í a i t a l i a n i z a n t e como " g e n u i n a m e n t e e s p a n h o l a " .l h e p a r a e x p r i m i r . A reagáo c l a s s i c i s t a contra o g o n g o r i s m o é urna m i s t u r a e s t r a n h a d e e r u d i t i s m o 31) Sor Juana Inés de la Cruz [Juana Inés de Asbajel. 1585-1658. M. e a epopéia de V a l d i v i e l s o é o p r o d u t o m a i s n o t á v e l d é s s e c u l t o específicamente barroco. " l o s e f e c t o s i r r a c i o n a l e s del a m o r " . 1895. González: Jacinto Polo de Medina. Gallego Morell: Pedro Soto de Rojas. 28) Salvador Jacinto Polo de Medina. c o m o a n t i doto contra o culteranismo. 1916. O g o n g o r i s m o d e I n é s d e la C r u z s e r v i u . México. vól. O p r o c e s s o p o é t i c o de V a l d i v i e l s o é o d a s t r a d u g ó e s " a l o d i v i n o " . K. r o c o . o a u t o m i t o l ó g i c o El divino Narciso que lembra as p a i s a g e n s das Soledades. . A. autor de "autos sacramentales" ao gósto popular. é e x e m p l o d a s c o n f u s o e s q u e c e r c a r a m . Vossler: Die Zehnte Muse von México. edlt. brilhante ñas descrigoes gongóricas de florestas e jardins F a n t á s t i c o s . excelencias y muerte del gloriosísimo Patriarca San José (1604?). u m r o m a n c e i r o . dá aos s e n t i m e n t o s r e l i g i o s o s o sabor da c a n c a o p o pular. f c. Ñervo: Juana de Ásbaje. J. ora em erotismos delicados ora em obscenidades brutais. no idilio da " F á b u l a d e L e a n d r o " e na p o m p a b a r r o c a d o s s o n e t o s . 1640. Doce actos sacramentales (1622). Madrid. Edtcéo por J. Madrid. por M. e m vez d e o d e s ou s o n e t o s . (A lntroducáo também fol publicada em: J. Abreu Gómez. Obras escogidas. c. 1951. edit.s e . P o l o d e M e d i n a (-").744 OTTO MAHIA CARPEAUX HISTORIA DA L I T E R A T U R A OCIDENTAL 745 e m "conceitos" e r ó t i c o s e religiosos. f r a d e m o d e s t o . E l a t a m b é m s e t o r n o u v i t i m a d o e q u í v o c o : c e l c b r a r a m . o culteranismo. 1934. edlt. e Valdivielso. Poesías «artas. O c u l t o d e S . d e urna r e l i g i o s i d a d e a l e g r e e c o m o v i d a . Vida. J o s é . 1651-1695. Sor Juana Inés de ¡a Cruz. Poesias. México. 1950. Madrid. Gallego Moren. e e m o u t r o s t e m p o s t e r i a l e v a d o a r e l i g i o sa a um t e r r í v e l c o n f l i t o s e n t i m e n t a l . J o s é faz p a r t e da m í s t i c a d o E s t a d o . Abreu Gómez: Sor Juana Inés de la Cruz. c. as poesias renascentistas de F r a n c i s c o d e L a T o r r e . E m h o m e n a g e m ao Sacramento do Altar. O processo nao deixa de ser barroco. q u e já foi c o m p a r a d a á d e M u r i l l o . Jaureguí. Soto de Rojas ( 2 7 ) . satíricas y amorosas (1652). 1560-1638. q u e é a f o n t e da s u a p o e s í a . Valdiv i e l s o fez. 30) Fray José de Valdivielso. Madrid. A s o b r a s d r a m á t i c a s d e I n é s d e l a ' C r u z — o a u t o s a c r a m e n t a l El cetro de San José. e m 1631. E n t r e todos os gongoristas. o único que tem algo de g e n i o d o m e s t r e é urna p o e t i s a : a r e l i g i o s a m e x i c a n a J u a n a I n é s de la C r u z ( 3 I ) . A. XLII. 1940. vol. Madrid. a c o m e d i a Los empeños de una casa — e n c o b r e m o c o n f l i t o em c o n s t r u g o e s c a l d e r o n i a n a s . Granada. Madrid. Cossio: Siglo XVII. por E. Edtg&o por A. c e l e b r a n d o S. A. concentrou as suas f ó r c a s n u m a g r a n d e e p o p é i a r e l i g i o s a . Gallego Morell. musa décima (1689/ 1700). 28) Francisco de Trillo y Figueroa. Romancero. o patrono dos príncipes absolutistas e patriarcais do Bar21) Pedro Soto de Rojas. edlt. N a v e r d a d e . Gallego Morell: Francisco y Juan de Trillo y Figueroa. Cossío. Muenchen. 1951. Mir. 1948. e por A. h a v e r e d i t a d o . Inundación Castálida de la única poetisa. q u a n d o m u i t o .Romancero espiritual del Santísimo Sacramento (1612). M. Madrid. e m T r i l l o y F i g u e r o a (*"). Edicóes das poesias em Biblioteca de Autores Españoles. A v e i a p o p u l a r d e G ó n g o r a r e a p a r e c e em V a l d i v i e l s o ( 8 0 ) . d e s d e o comégo. as s u a s p o e s i a s e p i g r a m á t i c a m e n t e e s p i r i t u o s a s . 1910. e m vez d e i n t r o d u z i r s e n t i d o r e l i g i o s o e m e x p r e s s o e s p r o fanas. em Biblioteca de Autores Españoles. XXIX. foi V o s s l e r q u e m salientou essas expressoes da poetisa. . q u e só a s s i m podia a l u d i r a o a m o r . por M. 1931. heroicas. 1934. México. Toussaint. b r i n c a d e i r a s d a monja. descobrindo-lhe a a m b i g ü i d a d e . Buenos Aires.

as Silvas. gongórico na expressao e antigongórico no pensamento. Green: The Li/e and Works of Lupercio Leonardo de Argensola. Edlcáo: Biblioteca de Autores Españoles. Mas urna expresólo como "vivir el tiempo escuro y breve" abre a perspectiva da melancolía estoica no fundo das distraen es poéticas do erudito. (In: Boletín de la Academia Española. Philadelphia. . Poesías inéditas (1797). rnas também anticlassicista no pensamento: é romántico. A. as mais famosas das suas poesías. 1885. A. porém. 1/2. 1683-1659. e por J. 1913. . revelam mais sentimento da Natureza do que as éclogas renascentistas. 1914. Bogotá. H. Madrid. que sobrevive ñas antologías pela grave retórica da sua "Canción a las ruinas de Itálica": motivo de Du Bellay.| ). 1589-1669. (In: Ensayos y Estudios. (Memorias de la Academia Española.) dos pelas antologías. . 1870). vol. Romantismo melancólico em formas renascentistas. J. vol. Madrid. Esteban Manuel de Villegas". Madrid. M. ministros puros De alta c o n t e m p l a c i ó n . a quem faz lembrar nos seus versos "Silencio y soledad. se bem que típicamente espanhol: o estoicismo. Enfim. 1573-1647. estudio biográfico y critico. A. Francisco de Rioja ( 3 2 ). XLH. em Lupercio. 1950/1951. Aznar Molina: Lupercio y Bartolomé Leonardo de Argensola. divulga32) Francisco de Rioja. Caro: Rodrigo Caro. 1559-1613. Cortés (Clásslcos Castellanos. Lupercio.716 OTTO MARÍA C A R P E A U X H I S T O R I A DA LITERATURA OCIDENTAL 747 humanístico e gósto popular. chegou-se a urna diferenciacao mais exata das poesías dos irmaos. de Bartolomé. Edi?áo: Biblioteca de Autores Españoles. andaluz dionisíaco. M. as vézes pomposas. Edic&o por N. na condensacáo escura. 1947. 1562-1631. situa-se na companhía de Francisco de la Torre. Poesías (1617). Mlg.. é um estoico pessimista. 33) Lupercio Leonardo de Argensola. Cañete: "Paralelo de Garcilaso. no estilo e no pensamento. M.) A. de Castro: La Epistola moral o Fabio no es de Rioja. Azorín chamou a atencao para a serenidade virgiliana da Epistola a Eraso. Madrid. Cádiz. Cortes: Introducá© da edlcáo citada. Blecua. e dos motivos diferentes do seu clasicismo. Nos sonetos moráis e eróticos apenas se apresenta como um classicista erudito.) N. O reconhecimento das tendencias estoicas no classicismo espanhol permite a compreensao da alta poesía dos irmaos Lupercio Leonardo de Argensola e Bartolomé Leonardo de Argensola ( S. Tibulo e 34) Rodrigo Caro. colocado na paisagem arcádica de Poussin e expresso com a pompa barroca de um cortejo de "mil sombras nobles de su gran ruina". O. já quase gongorista. Os sonetos dos irmaos. 2 vols. Saragossa. poesía de lugares-comuns nobres: Menéndez y Pelayo colocou os Argensolas num lugar honroso na evolucao da poesía horaciana na Espanha. 1913. (In: Los valores literarios. sempre confundidos. 1927. 1875. vol. Nao há figura mais barroca do que a do erudito confuso e vaidoso que foi Esteban Manuel de Villegas ( 3 B ). Quevedo é estoico sombrío. tradutor de Horacio. antigongórico na forma. Góngora é místico da Natureza e das coisas. mais culterano que o outro. por engaño a canelo A las Ruinas de Itálica e A Epístola Moral a Fabio. e mesmo no gósto popular há um elemento erudito. das expressoes. Luis de León y Rioja". É semelhante á sua a poesía ocasional do erudito Rodrigo Caro ( 3 *). Azorin: "D. Sevilla. Ant. J. Bartolomé Leonardo de Argensola. ao qual os séculos atribuíram. n . Fernández Guerra y Orbe: La canción a las ruinas de Itálica no es de Francisco de Rioja. e Jaureguí traduziu a Farsália do estoico Lucano. Castro y Calvo: "Para una valoración diferencial de los Argensola". quase a ternura anacreóntica do Rococó. humanista cristao de expressao claríssima. M. por outro lado. é poeta menor. 1939. " É poeta de outras "soledades". I. Sánchez y Castañer: Rodrigo Caro. 1858. A. Menéndez y Pelayo: Horacio en España. sao horacianos. hábil imitador de Horacio. XXXII. Bartolomé. 35) Esteban Manuel de Villegas. XXI). Reparou-se.

D. e no fim da vida chegou a admirar Marino. Enfim. infelizmente. Un bobo hace ciento. só alguns discípulos lhe seguiram o exemplo. festejada como data histórica. mas n a o foi Malherbe. acompanhando Boileau. 1939. sem perceberem sua melancolía estoica. A conseqüéncia daquela exposicao errada é q u e um grande poeta. cheio de poetastros insignificantes ou talentos engañados. mas. pode fazer gracejos 36) Antonio Solis y Ravadeneyra. Edlcao da Historia: Biblioteca de Autores Españoles. e nao resolve nada. no caso. (In: Siglo XVII. Phlladelphia. — Historia de la conquista de México (1685). A tenacidade désse elemento nacional revelou-se em Solis ( 3 e ) : ñas suas comedias de costumes é tao antibarroco que se aproxima da maneira de Moliere. que continua o estilo nacional da Espanha. será o ídolo dos árcades espanhóis do século X V I I I . Maynard. elogiado por Paguet como epigramatista espirituoso. xxvm. A poesia anacreóntica desse latinista pertence. da Pléiade. "Enfin Malherbe vint". os historiadores da literatura francesa. vol. Edlcáo das comedias: Biblioteca de Autores Españoles. reza o famoso verso de Boileau. é um grande poeta religioso. Malherbe xrv. segundo aquela apresentagáo. Também a sua famosa Historia de la conquista de México é um monumento de classicismo pomposo. e os efeitos da reforma classicista só se fazem sentir trinta anos depois da morte do reformador. A fraqueza dessa exposicao é evidente. venceu o bom gósto — "enfin Malherbe vint". apresentando um quadro histórico mais ou menos da maneira seguinte: Malherbe.748 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 749 Anacreonte. e sim Boileau. Assim o entenderam. Maynard. El amor al uso. E. e por Sainte-Beuve como artista brilhante de lugares-comuns horacianos. ao passo que outros poetas notáveis. o período mais confuso da historia literaria francesa. (Cf. Como toda a poesia culterana. nao se pensa em reabilitar os preciosos. Malherbe nao esqueceu nunca os comegos meio barrocos da sua carreira literaria. á Arcadia italiana. na disposigáo poética do material e ñas particularidades do estilo.) Comedias: El doctor Carlino. É possível distinguir tres diregoes diferentes da evolucao. M. T u d o isso do ponto de vista da historiografía oficial francesa. Buenos Aires. mas Cossío demonstrou bem. congratulando-se com a derrota do barroquismo francés pelo classicismo severo. teria iniciado a época do classicismo. marinistas impenitentes. A cronología daquela exposicao está certa. pela forma e pelo espirito. até u m realista burlesco. negando á literatura barroca a existencia. mas éles ocupam o lugar honroso dos últimos poetas líricos da Franca antes do diluvio de prosa do classicismo. dos quais Maynard é o mais importante: contra a ditadura de Malherbe ter-se-ia revoltado o talento independente de Théophile de Viau. talentosos. em obras totalmente diferentes das suas. desprezado na sua época. xxm. Brébeuf. enfim. tem de diminuir e como que esconder o Barroco francés. quase desaparece na sombra ds Malherbe. eis o que está tao embrulhado que a apreciagao dos próprios fatos se torna inexata. nota 75.) . o gongorismo secreto. Vem a reforma de Malherbe. 1913. as relacoes entre os fatos literarios. Théophile de Viau e Saint-Amant constituem verdadeiros "casos" de ambigüidade entre o sentimento trágico da vida e o burlesco. 1610-1686. como Saint-Amant. O nome de Malherbe encerra convenientemente um capitulo sobre a poesia culterana. nao cuidaram de maneira alguma das normas malherbianas. que. Villegas. entre a melancolía e a obscenidade. embora nao grande genio poético. e os "précieux" do Hotel de Rambouillet. Martell: The Dramas o/ Don Antonio Solis. A primeira metade do século X V I I parece. vola. a francesa também procede da Renascenga. apenas alguns discípulos lhe seguem o exemplo. foram inteiramente esquecidos. heranga do Barroco. J. Du Bois Hus. Cossio: "Un caso de prosa culterana".

de "flamboyant".. 37) Francote de Malherbe. Um teórico da poesia. enquanto a autoridade de Malherbe foi reconhecida. .Wlnegarten: French Lyric Poetry in the Age of Malherbe. París. Fromilhagne: Malherbe. foram diferentes. Edlcáo por L. e realmente. Priére pour le rol Henri le Grand allant au Limousin (1605). revela-lhe o gósto italiano. 1862. . París. . . é apenas reacao contra o Barroco dominante. J e la ferai toujours fleurir Au rang des choses éternelles. 1954. 1912. París. . R. a pompa barroca disciplinada pelas formas clássicas. Ode o la reine. Do hermetismo ocasional de Jodelle e da imaginacao agitada de Desportes provém as particularidades de Maynard e o impressionismo poético de Du Bois Hus. e a versáo é superior ao original. Aussi le temps a beau courir. Ode au rot Henri le Grand sur la prtse de Marseille (1600). q u e se revela só em raros momentos de erotismo ou de poesia noturna. pureza da língua. nao houve poesia francesa. " A disciplina lingüística e métrica de Malherbe é um instrumento de arte barroca ñas máos de um ronsardiano atrasado e arrependido. París. apresentadas ñas antologías como amostras da nova arte. nao haveria poesia francesa. . 1891. . Sourlau: La versification de Malherbe. chega a exprimir. bem ronsardianas: " . " — . Malherbe é o Chiabrera francés. voulant chanter je ne rends que s a n g l o t s . a imitagao de Tansillo. das Stances — "Vouloir ce que Dieu veut est la seule science Qu¡ nous met en repos. 1954. sobriedade. Technique et création poétique. Aliáis: Malherbe et la poésie /rancaise a la fin du XVle siécle. Dont l'éclat orgueilleux étonna l ' u n i v e r s . Os criterios de Malherbe nao sao poéticos. As suas grandes odes políticas sao pegas oficiáis. Malherbe ( 3T ) sobrevive como teórico da poesia classicista e como autor de algumas poucas odes. . " com " . comparáveis aos quadros que Rubens dedicou á historia contemporánea da familia real da Franca. Mere du rol (1610). Lalanne. . porém. Q. Fromilhagne: La vie de Malherbe. de maneira barroca. 1955. Vol. R. versificados com cuidados de professor de gramática fósse realmente um modelo. como " ." — e sim em certas expressóes simbólicas.750 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 751 reagiu contra Ronsard. 1655-1628. . e sim estilísticos: clareza. Faguet: Histoire de ¡a poésie ¡rancaise. se essa poesia de lugares-comuns. . R. M. . Basta comparar um verso de D'Aubigné. L a nuit dé j a prochaine á ta c o u h e j ó u r n é e . com as conseqüéncias marinistas de Saint-Amant e do Hotel de Rambouillet. París. sao nogóes da retórica. iniciando um século da prosa. Os comegos de Malherbe. de Tansillo. B. I: Au teinps de Malherbe. mais direta e mais sincera. . Os "concetti" de Bertaut sao a fonte de preciosismo de Théophile de Viau. "dificuldades vencidas". em particular contra o que havia néle de "dionisiaco". Les larmes de Salnt-Pierre (1587). 5 vols. París. Ode a Mane de Médicis sur sa bienvenue en France (1600). Stances a Du Périer sur la mort de sa filie (1601). com a qual principiou. As Larmes de Saint-Pierre imitam as Lagrime di San Pietro. As poesías mais pessoais de Malherbe sao as parafrasea de salmos bíblicos. A poesia de Malherbe nao está no estoicismo religioso sem relevo. Manchester. etc. mas nao época muito feliz. As Stances á Du Périer sur la mort de sa filie marcam época na historia da poesia francesa. . 1923. pressentimentos fúnebres — " . cette majesté si pompeuse et si fiére." A poesia de Malherbe — sem personalidade própria nem conseqüéncias — nao tem a categoría de estilo pessoal.

Discípulo auténtico de Malherbe será Brébeuf. 1936. 1Í&9. Edlcóes por C. . XH. cutros descobriram a grave sabedoria política dos conselhos de paz no "Sonnet á Séguier". Leipzig. Maynard é o mais completo poeta barroco da literatura francesa." Esta arte de Maynard nao encontrou compreenslo nem sucessores. a nao ser aquéle obscuro poeta provinciano Du Bois Hus ( 3 9 ). ainda. 1884. ñas quais até as sombras copulam — nao há nada mais parecido com a poesia priápica dos Maynards e Viaus do que a poesia de Carew e Suckling. Blanchematn.. O grande poeta que Malherbe julgava ser. Genéve. a melancolía dos "Regrets d'une grande dame". na Franja de Henrique I V . do Universo que "tombera quelque jour". París. 1909. Chamam-lhe poeta da natureza. quase hugoana. e os huguenotes ficaram. 1885/1888. J. Garrisson: Théophile et Paul de Viau. e por F. París. os decretos do concilio de Trento nao foram reconhecidos. Mas ésse papel histórico de Malherbe nao pode ser reconhecido antes de Brémond redescubrir essa poesia religiosa esquecida. O._ apenas é um outro Barroco o seu. Ch. 1907. dos poetas da Contra-Reforma de S. adotou a disciplina métrica e lingüística de Malherbe apenas naquele sentido em que Góngora permaneceu fiel á tradicáo gtecoromana: para cristalizar as suas visoes." Mas ésse mesmo Maynard é o poeta do erotismo brutal das Poésies priapées. e houve quem descobrisse a mística teresiana das suas poesías fúnebres: "Dans le désert sous l'ombre de la Croix. quase romántico. La Nuit des Nuits. sein Leben und seine Werke. Kervller: Anthologie des poetes bretons du XVIIe siécle. Sainte-Beuve elogiou-lhe a grandiosa visáo. Adam: Théophile de Viau et la libre-pensée frangaise en 1620. étude critique d'histoire littéraire. C. outros. 1927. ao passo que a historiografía literaria francesa prefere as reticencias. Assim. París. . Desenvolveu com genio superior os germes barrocos na poesia de Jodelle e Desportes. 39) Pierre Du Bols Hus. Edlgáo das poesías priapéias por P. 3 vols. A disciplina de Malherbe chegou apenas a disciplinar a poesia católica do "humanismo devoto". de Gourmont. París. étude historique et Itttéraire. Drouhet: Frangois Maynard. 1582-1646. París. 1590-1626. Francisco de Sales e do Oratoire. . siécle". simbolista avant ¡a lettre. Schirmacher: Théophile de Viau. Halgan. París. le Miroir du Destín (1641). París. A vitória incompleta da arte poética de Malherbe no seu tempo coincide com a vitória incompleta da Contra-Reforma. Acabou assim a possíbilidade de um Góngora francés. foi-o realmente Maynard ( 3 8 ) : fato obscuro na historia literaria. poetB". A sua poesia é a antitese da do seu grande contemporáneo D'Aubigné. 1897. Poesías ln: St. A. sem perguntar porque adotava aquela disciplina. Garrisson. Oohln. le Jour des Jours.) 40) Théophile de Vlau. <In: La Phalange.752 O T T O MARÍA CARPEAUX HISTORIA D A LITERATURA OCIDENTAL 753 para situar Malherbe. dos "cavalier 38) Frangote Maynard. E t l'on verra bientót naitre du fond de l'onde La premiére ciarte de mon dernier soleil. perdido no meio de "décorateurs". R. Edlgfio por 11. K. Oulmont: "Un poete coloriste et symbollste au XVIIe. no fim dos lugares-comuns h o r á d a n o s da "Ode á Alcippe". o da disciplina da Contra-Reforma. hoje t í o valorizados na Inglaterra. porque a posteridade só viu a adocao da disciplina malherbiana pelo pretenso "discípulo". 1864. mais disciplinada. conseguiu condensar os pressentimentos do seu último dia em versos como " . de Gourcuff. Ch. mas pouco menos barroca. Dos "concetti" e "pointes" de Bertaut provém o poeta que tinha a fibra de um Marino francés: Théophile de Viau ( 4 0 ).

Bray: La preciosité et les précieux. Vers (1646). que é a forma particularmente francesa da epopéia heroica barroca. marido da segunda dama do "Hotel". Outra cont r i b u i d o á futura arte psicológica dos romancistas e moralistas franceses é o romance heróico-galante dos Gomberville. é "preciosissima"). Voiture. 1855. se vie. A crítica de Boileau e o riso de Moliere nao passam de epílogos literarios. marca urna época: foi representada no mesmo ano de 1617 em que se abriu o Hotel de Rambouillet. Marquesa de Rambouillet. 1948.. J u n t o com um grupo de poetastros ridiculos enterraram-se a poesía de Maynard. Les Visions (1628). o marinismo. Neuchátel. La Calprenede. Paris. e o género epistolar terá a sua importancia especial na evolucao do romance psicológico. 2. cuidadosamente elaboradas.754 Orro MARÍA CARPEAUX H I S T O R I A DA LITERATURA OCIDENTAL 755 porque cantou Le Matin e La Solitude. ela também nao inteiramente livre de preciosismos (a famosa carta de 15 de dezembro de 1670. A. é ás vézes espirituoso como Voltaíre ou Anatole France. O elemento da poesía de Viau. Moyse sauvé (1653). já nao se lembravam que o melhor poeta anacreóntico entre a Pléiade e Chénier fóra o Duque de Montausier. O "romantismo" das suas poesías da Natureza e o humorismo das suas epopéias herói-cómicas tém a mesma fonte: a "fantasía" caprichosa e o oportunismo do "gusto del mondo". 1896. París. 43) Vlncent de Voiture. O outro aspecto do marinismo. quando se estabeleceu o poder absoluto da monarquía. Quando os poetas e pseudopoetas do século X V I I I cultivavam a poesía anacreóntica. e. sleur de Salnt-Amant. Le passage de Gibraltar (1640). 2 vols. Magne: Voiture et VHotel de Rambouillet. París. digno de estar na Sampogna. é. Montauban. criou um género em que brilhará urna Sévigné. de Téophile de Viau. que pareceu grosseiro á posteridade. 2 vols. o mesmo estilo que. genro da Marquesa de Rambouillet. na verdade. Mas o Matin é um idilio. arrancando ao hostilíssimo Boileau o verso: 42) O. son oeuvre. os "précieux" e as "précieuses". na sua tragedia Pyrame et Thisbe (1617). 2 vols. R. representa-o Saint-Amant ( 4 l ) . Teria sido um periodo inteiramente vazio da literatura francesa? Surgiu recentemente urna tentativa de reabílitacáo dos "précieux" ( 4 2 ). Paris. Morel: Jean Ogler de Gombauld. Durand-Lapie: Saint-Amant. * . Essa tentativa de manter na Franca o estilo do hedonismo aristocrático terminou junto com a independencia dos aristócratas. Poésies (1646). o meláo e outras coisas de solenidade duvidosa. sabía fazer sonetos. por isso o classificaram entre os "realistas". Llvet. E. tornou-se famoso pelas suas cartas. que sao epístolas literarias. Julie d'Angennes. Ubicini. toda a possibilidade de urna poesía lírica em língua francesa. estáo na tradicao de Berni. o verdadeiro "chefe" do Hotel de Rambouillet. por quase dois séculos. Aquela tragedia. Já desde 1611. R. sobre o casamento de Lauzun. Paris. como em Marino. Outro "précieux" que ficou em ostracismo algo injusto é Gombauld ( " ) .. Edicáo por M. o preciosismo foi vencido por Richelieu e Mazarin. 1946. Cathérine de Vivonne. Pyrame et Thisbe. por sua vez. 1594-1661. encantou os espectadores do Hotel de Rambouillet: a mistura de paixáo erótica e linguagem estilizada. nem sempre justos. 1929/1931. Georges e Madeleine de Scudéry. 1939. que nao eram grandes poetas e prosadores. capitaine du Parnasse. voto". Mas as suas poesías sobre o queijo. París. 1598-1648. 1570-1666. Viau só a procura para um encontró erótico da maior brutalidade. Bouvler: Saint-Amant. costumava reunir no seu saláo os literatos marinistas e as suas inspiradoras e leitoras. L. mas tampouco eram imbecis sem talento algum. Voiture ( " ) . Edicáo por Ch.* ed. — L. 1910. e a Solitude. Mas o fato nao foi olvidado: durante urna geracáo. Amaranthe (1631)'. Mongrédien: Les précieux et les précieuses. Audibert et R. o preciosismo dominara. Rome rldicule (1643). a memoria dos poetas do "humanismo de41) Marc-Antolne de Gérard. 44) Jean Ogler de Gombauld. o burlesco. 1855. e aproximam-no de Achillini. Albion (1644).

Corneille. assim como inúmeros outros. Triomphe de l'Amour. Paris. Alemanha meridional. 1612-1691. p o . London. O mesmo aconteceu na Italia. apenas constituem parte da copiosa literatura jesuítica. Justamente em Chapelain se revela o parentesco entre a suntuosidade barroca e a pompa da corte de Luís X I I I e Luís XIV. Chapelain é "précieux" e classicista ao mesmo tem45) Isaac Benserade. Bélgica. em pleno reinado de Corneille.. urna das expressoes. é o Barroco que nao foi criado nem sustentado apenas pelos jesuítas. escreveu Benserade os versos que acompanharam os bailados da corte. com a qual comeca o dominio das regras artistotélicas no teatro francés. Ballet des Plaisirs. E em 1638 foi Chapelain quem exprimiu Les sentiments de l'Académie francaise sur le Cid. em todos os paises da Contra-Reforma. E n t r e 1651 e 1681. a Lettre sur I'art dramatique. o que se chama assim. Enfim o maior desmentido a crítica de Boileau é o caso de Benserade ( 4 5 ) . Collas: Jean Chapelain. villonesca. O "précieux" Chapelain como portavoz da "Académie franqaise". Entre as fórcas que perpetuaram o espirito barroco. O. que constituirán: o ambiente literario. admiráveis. a epopéia La Pucelle d'Orléans. O autor de La Pucelle d'Orléans escreveu. por sua vez. sucumbiu ao escarnio de Boileau. em certo sentido. E. em 1634. muitas vézes. Forunel: Les contemporains de Moliere. Chapelain é precursor de Boileau. 1927. Bossuet formaram-se nos colegios da Companhia. Ballets: Cassandre. Vol. saberá fazer sonetos. Ballet des Saissons. Oeuvres (1697). isto nao é mero acaso: foi um daqueles que idearam a instituicáo. 1882. C. na Franca. Orléans. verdadeíra literatura internacional do Barroco. Silin: Benserade and his Ballets de Cour. Boileau. o discípulo do tradicionalista Brunetiérc. estéve. etc. E os seus rondós mantinham urna tradicao bem francesa. Afirma-se que um espirito formado pelos jesuítas continua marcado por éles para sempre. senao felizes pelo menos características. dos Exercitia até os estudos latinos. Ballet Royal des Arts. Kabre: Chapelain et nos deux premieres académies. Moliere e Racine. Mas isso nao quer dizer que Chapelain fósse classicista. os padres da Companhia preferiam. 756 O T T O MARÍA CARPBAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 757 "Un sonnet sans défaut vaut seul un long poéme" — e depois déle ninguém mais. Edicao por O. 1890. 1912. encontram-se os jesuítas: Descartes. a pedagogía jesuítica dispoe de instrumentos espirituaís muito fortes para conseguir ésse fim. até Nerval. as formas mais sobrias do Barroco. 1875. entre as numerosas epopéias heroicas do Barroco francés é esta a mais seria. H. se a historiografía oficial tivesse razao. Vol. Há muito que os historiadores das artes plásticas já r. Naquela época juntaram aos meios comuns da didática a fórga sugestiva de rjepresentasoes teatrais. 1940. de poesía. Edicao por A. de modo que até Lanson. O poeta mais famoso entre os "précieux" foi Chapelain ("•)• Gloria pouco durável: a sua obra mais pretensiosa. Uzanne. La Pucelle d'Orléans (1656/1657). 1595-1674. Moliere. A. se perpetuaram na crítica de Boileau e na arte de Racine e La Fontaine. III. e estas. Austria. Paris. Com efeito. Espanha. Paris. em 1630. París. Contudo. V. entre os primeiros membros déla. O que . Herluison. 4«) Jean Chapelain. Faguet: Histoire de la poésie frangalse. foi ele quem sugeriu aos cornpanheiros o projeto do Dictionnaire. os admirará. quer dizer que elementos "preciosos". coisa irnpossível.ao admitem a expressao "estilo jesuítico". barrocos. e — por mais completo que tenha sido o esquecimento em que caiu desde o século X V I I I — urna literatura de grande importancia histórica e estética. do patriotismo monárquico e religioso que constituiu o fundamento espiritual do classicismo francés. brilhantes e. Paris.. pelo menos. 1874. versos espirituosos.

jesuíta alemao e educador dos príncipes bávaros. marzo-apríle 1903. Batrachomyomachia. Jephtias (1637). A inten$ao é sempre doutrinária. Storia della compagnla di Gesk (1650/1660). o mundo de ilusao e sonho — e sobre a índole teatral da civilizagao barroca ( < 8 ). escreve idilios bíblicos (Judith) e comedias populares (Jocus serius). conforme o ambiente. Medicinae gloria. é aristotélico. a paciencia. A. sein Leben und seine Werke. J. 1915.ao por Marietta. Bologna. refletindo as atividades múltiplas da Companhia. do estilo classicista ou até do estilo realista. (In: Rivista d'Italia. Daí o oportunismo literario e artístico dos jesuítas. quase nao somos capazes. é naturalmente aristotélico. J. justificar assim o hedonismo aristocrático.758 O T T O MARÍA CARPEAÜX HISTORIA DA LITERATURA OCÍDENTAL 759 importava aos jesuítas era a propaganda de certas idéias religiosas. Daniello Bartllo". de Marino. 1904. Poeticarum institutionum libri III eiusdem Tyrocinium poeticum (1594). Jacobus Balde ( 6 0 ). e que existia realmente eiri Marino. Daniello Bartoli. a c o l a b o r a d o de todas as artes. Henrich: Dle lyrischen Dichtungen Jakob Balde. Drama georgicum (1649). Boero: Commentari della vita e delle opere del P. e os milagros. Avetta: "Dialcunl giudizi letterarisue p. Bartoli ainda hoje tem seus admiradores. O espirito teatral — a arte de compor os materiais em grupos cénicos.-1931. escrita pelo jesuíta italiano Daniello Bartoli ( 1 0 ). o jesuíta tcheco Jacobus Pontanus ( 4 7 ). 50) Jacobus Balde. cons47) Jacobus Pontanus S. Judith. os alemaes e italianos criam o mais poderoso dos teatros específicamente barrocos. enfim. G. seja qual fór o estilo empregado. Freiburg. Quanto as r e p r e s e n t a r e s teatrais. Alessandros Piccolomini. Bach: Jakob -Balde. o desejo de produzir efeitos — encontra-se até ñas obras de historiografía. sociais e políticas: arte e estibo eram meios. a historia do primeiro século da Companhia. A literatura jesuítica em língua latina compreende todos os géneros. (Nova edi. e neste sentido a literatura dos jesuítas é barroca. Solacium podagricum. de imaginar os seus efeitos poderosos. Bellonl: Daniello Bartoli. pretende dar interpreta$áo moral á catarse. . Ele giae. notas 60 e 52. 1825). Jocus serius (1629). Silvae. das quais a mais "meravigliosa" é a historia da própria Companhia. 1608-1685.. 48) Cf. acham-se táo acumulados que o leitor moderno perde. Westermayer: Jakob Balde. filosóficas. O que já se disse sobre o teatro barroco — a perspectiva. tituindo parte de uma literatura inteira que a Companhia criou. tragedias (Jephtias) e sáti- 49) Daniello Bartoli. assim como as "maravilhas". que parece assunto de epopéia. a conseqüéncia foi o "é del poeta il fin la meraviglia". Bartoli é antes um hagiógrafo. aplica-se particularmente ao teatro dos jesuítas. Mas a leitura de alguns capítulos ¡solados revela em Bartoli uma capacidade extraordinaria de agrupar os fatos para conseguir efeitos teatrais. Strasbourg. Pontanus está envolvido ñas discussoes dos Speronis. Urania victrix. 1865. hoje. 1542-1626. Roma. De vanitate mundi. Bulgarinis. Castrum ignorantiae expugnatum. G. Era um instrumento fantástico de reagao psicológica para dissolver as tensoes na alma do homem barroco. ñas conf usoes geradas pela interpretadlo aristotélica do verso horaciano "Aut prodesse volunt aut delectare poetae". o mesmo oportunismo que se supunha em Góngora. Lyrica. justificados por aquéle fim. Torino. O teórico do teatro jesuítico. 1604-1668. Muenchen. apresentadas num estilo que um crítico t í o severamente classicista como Pietro Giordani considerou "altamente sugestivo e maravilhoso". os jesuítas franceses obedecem ás regras clássicas. Daí o emprégo do estilo barroco. 1868. realmente urna "meraviglia".) A. Os jesuítas tomaram partido pelo "delectare" para o fim de "prodesse". A. alias. "Problema e Formas da Literatura Barroca". O teatro jesuítico é. em torno da Gerusalemme liberata e do Pasíor fido. sem nenhuma crítica histórica. mas também é marinista. decompoe-se em cenas dramáticas inesquecíveis.

O Acolastus de filio prodigo (1529). gosta de assuntos históricos. e as lendas medievais. até certo ponto os jesuítas respeitam a opiniáo protestante que nao admite a representacáo de Deus e dos seus santos por criaturas humanas. O holandés Georgius Macropedius (f 1558) dramatizou Adam. E com tudo isso é Balde um grande poeta lírico. porém. para a adaptacáo cénica. urna historia da literatura neolatina em forma alegórica (Castrum ignoiantiae expugnatum). o Avarento. O jesuíta polonés Sarbievius ( 5 1 ). poeta sacro. J. O tempo já nao é o da fé medieval. imitando Horacio. manejando o latim como urna lingua viva. mas no dialeto do povo itálico dos Óseos. Herder e Goethe o admiraram. Segundo a doutrina política dos jesuítas. o Papa como An ti cristo. um panorama vivíssimo das discussoes religiosas da época. o mesmo fim: apresentar aos espectadores. e deu no Hecastus urna versáo latina do Everyman. nao em latim. o teatro jesuítico pretende induzir a classe dirigente. ñas quais há mais paixáo humana e conflito dramático. 1539-1607. urna Danca Macabra em estilo barroco (De vanitate mundi) e urna epopéia herói-cómica (Batrachomyomachia). 1876. no fundo. do vigário dinamarqués Ranch ( M ~ A ) : a punicáo do mísero tem sabor pirandelliano. a aristocracia barroca. Mas os assuntos nao sao os mesmos. Por isso. Os misterios da Idade Media tínham. unánime. Mueller: De Mathia Casimiro Sarbievio Polono S. é preciso combater os heréticos e demonstrar a vitória da Igreja. Até os protestantes alemaes descobriram a utilidade do teatro escolar para fins de propaganda religiosa: Thomas Naogeorgus deu. Muenchen. . com as suas peripecias milagrosas. os misterios do credo. Urna flor solitaria é. que redigiu a forma atual dos hinos do breviario. testantes pelo Jephta (1554). o cume da versatilidade é um poema (Drama georgicum) sobre a paz vestfálica. Oto: Maciej Kazimierz Sarblevski. M. e. até da historia contemporánea. Gourmont considerou-o "merveilleux". porque ninguérn o quer conhecer. e vanguardas poéticas do futuro o redescobriráo. e apresentou. Birket Smith. Odae (1625). do holandés Gulielmus Gnaphaeus. J. Josephus e Lazarus. e os país dos alunos. tornou-se famoso entre católicos e pro51) Matthaeus Kasimir Sarbievskl (Sarbievius). Os jesuítas nao foram os primeiros que escreveram pecas para representacáo ñas escolas. foi representado na Europa inteira. filhos da aristocracia. Warszawa. é poeta ainda maior. e superando. Para melhor exercicio no uso da lingua latina os humanistas já deram á mocidade pegas de Plauto e Teréncio para representar. comeca a duvidar da sua identidade pessoal. extinto desde milenios e conservado apenas em inscricoes fragmentarias. 1595-1640. no Mercator (1540). no Pammachius (1538). os próprioB romanos. F. finalmente. O objetivo satírico ou pedagógico do "drama escolar" — que foi nos séculos X V I e X V I I cultivado em todos os países europeus — nao deixa muito lugar para o desenvolvimento de qualidades dramáticas. 1917. as historias do Velho Testamento.760 O T T O MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 761 ras contra os médicos (Medicine gloria). 1923 (em lingua polonesa). em forma visível e quase palpável. O escocés Georgius Buchanan (1506-1582). professor em Coimbra. mas enchendo os metros latinos de sentido até lhe saírem versos herméticos. Preferem-se. de conteúdo religioso ou pelo menos moral. O público das representagóes sao os alunos. O teatro eclesiástico medieval era da burguesía urbana. Karring Nidding. Horatii itnitatore. pela originalidade barroca. O fim do teatro jesuítico é de ordem pedagógica: propaganda da fé. KJoebenhavn. a aliar-se á Igreja: é teatro político. escrito. Edlcáo por 8. 61A) Hieronymus Justesen Ranch. essa vitória se consegue pela alianca com as monarquías absolutas. mas na época da Reforma e Contra-Reforma já nao se toleravam as aventuras amorosas do teatro romano: era preciso fazer outra coisa.

London. segundo o modelo dos antigos. O mundo inteiro é apenas um teatro. sendo redescoberto. o inglés. (In: Nuovi saggi tulla letteratura italiana del seicento. 53) Q. de J u d i t e e dos Macabeus. 1924. Ludovico Ottavio Burnacini (1636-1707) desenhou. de Niccoló Sabbatini. A verdade do assunto histórico ajuda a verossimilhanca dos conflitos psicológicos representados no palco. 1565-1628. Judith. Barí. A imaginagáo espacial de Ferdinando. lutando pela alma do homem. que permite realizar qualquer ilusáo óptica. Mas os jesuítas substituem a simultaneidade da cena pela perspectiva. El gran teatro del mundo. É urna conclusao barroca. 53A) Federico della Valle. é sucessivamente suplantado por arias e coros. para as representa§5es da Companhia. assim como em Vida es sueño. porque o mito nao permite interp r e t a d o moralista. está pronta a ópera. O teatro latino dos jesuítas é urna arte internacional. Fogos de artificio e bailados comegam a preponderar. entre os tchecos (Frantisek Bohomolec e Karel Kolczawa) e poloneses 52) J. dos quais alguns se perderam e hoje já nao podem ser empregados. Mas é dramaturgo mais importante que ésses padres italianos um discípulo déles. O teatro dos jesuítas apresenta ilusáo e é ilusáo. no cometo do século X V I I I . e todo teatro barroco — o espanhol. Há teatro jesuítico em toda a parte. Croce: "Le tragedle di Federico della Valle". o pessimismo em face da vida e das suas ilusoes. a luta e a vitória da Igreja. ao lado de Herodes. apresentando o "Triregno" de Dante. ao mesmo temp e Na Platica di fabbricar scene e machine nei teatri (1637). compreensível a urna parte cada vez menor dos espectadores. 1807. Wlen. e palco dos jesuítas é um enorme símbolo em que estao representados Céu. Cinna e PoJyeucte: a vaidade déste mundo. o mito. salas táo imensas que nao caberiam em nenhum palacio real. Terra. e Inferno. Nao é um Shakespeare do "Seicento". 1931. Caiu. ensina-se o uso de máquinas para erguer personagens as nuvens e devorar decoragóes pelo fogo. 1B37. sómente na própria Espanha o teatro jesuítico quase desaparece ao lado do teatro nacional. Mas sua Judith nao está longe de ser urna obra-prima. O texto latino. sufocando a palavra e só admitindo o acompanhamento pela música.762 OTTO M A R Í A C A R P E A Ü X HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 763 oferecendo oportunidade de acompanhar os sofrimentos. A conclusao também é idéntica. A t é entao. quando muito. o francés. A prioridade cronológica cabe ao Collegium Romanum dos padres da Companhia. O luxo da arquitetura cénica é incrível. escadas q u e se perdem no infinito. o holandés — acompanhou-os nisso. O palco dos Misterios medievais era também um teatro cósmico.) . Quando. enquanto que em Portugal o Padre Luís da Cruz (1558-1604) se tornará famoso como autor de Sedecias. Bari. María Stuart e Wallenstein. em esquecimento completo. florestas e lagos no palco. Gregor: Wiener szenische Kunst. Roma. e mil outros segredos teatrais. Filosa. Federico della Valle (•***). no Belisar e Cenodoxus dos jesuítas. assuntos da historia da Antiguidade que já tinham valor de mitos. por Benedetto Croce. ou. Carlos e o falso Demetrio. A. de todos os países católicos. A introducto do assunto histórico moderno é um passo decisivo: significa a transforma$ao da tragedia mítica em tragedia moderna. D . Qnerghi: II teatro gesuitico ne'suoi primordl a Roma. La Reine di Scozía. o teatro europeu dramatizou. Edigfto por C. a propaganda da fé é vencida pela indiferenga religiosa. 1939. Os jesuítas tiveram de dar ésse passo. No teatro dos jesuítas aparecem. Esther. Alessandros Donati. Joana d'Arc e Egmont. em Roma ( s s ) : teatro dos Bernardinos Stefonio. só tres séculos depois. Giuseppe e outros membros da familia Galli-Bibbiena quase zomba das possibilidades da realizacáo ( 5 -). Nlcoll: The Development of the Theatre. Vicenzos Guinicci. mais tarde. É um teatro cósmico. Macbeth. B. de Ester. Manasses e outras tragedias bíblicas.

E havia os inúmeros colegios das provincias austríaca e bávara. 1931. 1907/1928. no Collége Louis le Grand. E. W. que in extremis se revela como malvado perverso. representada em Munique. de Rochemonteix: Un collége des Jésuites au XVHe et XVIUe siécle. 6 vols. a cena era no próprio palacio imperial. em Leoben e Steyr. adotando até a língua francesa. Weimar. Opera (Muenchen. O seu assunto permanente é aristotélico: a vitória da razao. figuras da mitología e do Velho Testamento apresentam-se como alegorías. Duhr S. jesuítas: Jacobus Bidermann ( S T ). Antoine Du Cerceau. (In: Trtvium. Agapitus. A historia é o tribunal de Deus. Regulus. O "oportunismo barroco" dos jesuítas revela-se na Franga. Belisar (1607). anjos e demonios intervém. alias. foi. o professor de Voltaire. os padres franceses acomodaram-se ao gósto classicista. J. Stender: Das Jesuitendrama bel den Slawen. historia do ator romano que desempenhou no circo o papel do cristáo e se converteu durante a representacao. Leipzig. sobre as paixoes do homem. Depois do teórico Jacobus Pontanus e do padre muniquense Jacobus Gretser (1562-1625).764 O T T O MABIA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 765 (Gregorius Knapski) ( 5 4 ). 1950. e todo ésse aparelho ¡menso para demonstrar que "Vita enim hominum Nil est nisi somnium. maior do que o Escorial. 1666). e ñas colonias americanas. Berlín. na comedia La délaite da solécisme. 55) E. Le Mans. durante multo tempo esqueclda. A confusao intencional e terrificante entre ilusáo e realidade repete-se no Philemon Martyr. Flemming: Geschichte des Jesuitentheaters in den Laendern deutscher Zunge. glorificacao do estoicismo barroco de 57) Jacobus Bidermann. G. P. em: B. compete com Corneille. historia de um doutor da Universidade de París. Na térra. tragedia da desgraca política. fantasmas aparecem. e a alma do morto sabe que está condenada. em Paris. O. Ingolstadt e Donauwoerth e tantas outras. Após os cornejos em estilo "romano" cora as pecas do teólogo Dionysius Petavius e o famoso Hermenegildus. de Nicolás Caussin (1583-1651). A impressao que essa tragedia produziu nao foi mais profunda que a de Josephus. e do Belisar. informada pela fé. no Collége La Fleche. París. 1947. O teatro jesuítico celebrou os seus maiores triunfos na Alemanha meridional e na Austria (•*). no Collfege Clermont (depois Louis le Grand). 56) . "flcntibus principibus nostris ómnibus". 1923. A ímpressSo que causou o Johannes Calybita. o Padre Porée. Rica colegao de materias dessa arte teatral. Boysse: Le thédtre des Jésuites. em pecas como Brutus. Cosmarchia. passando-se num país exótico em que todo o ano é destronado um rei. Haller: Das oesterreichische Jesuitendrama. A pega mais estranha de Bidermann e do teatro jesuítico inteiro é a Cosmarchia. céu e inferno se abrem." Assim canta o "coro dos mortos" na maior tragedia do teatro jesuítico. Frelburg. 1889. em Munique. Cambridge. famosíssimo pela erudicao teológica. o agonizante é absolvido pelo clero. V. e Charles Porée (1675-1738). de Bidermann. Philemon Martyr. Jacobus Vsurarius. 1880. 1930.: Geschichte der Jesuiten in den Laendern deutscher Zunge. o Cenodoxus. na patria da heresia luterana e no centro do Imperio católico dos Habsburgos. mas nos ares os demonios vencem. Aegyptl Prorex (1615): Jacobus Calybita (1618). no colegio de Ruáo. J. 1578-1639. Cenodoxus (1602). Praha. Dyer: Jacobus Bidermann. que impressionou com urna Hester e um Hudo. 1931. pega política. o colegio dos jesuítas era o maior edificio do continente europeu. aparece o maior dos dramaturgos 64) E. W. Josephus.) D. poe processos molierianos a servico do ensino gramatical. Ruetsch: "Dle Bedentung Bldermanns". caindo logo como mártir: Massinger e Rotrou trataram o mesmo assunto. Em Viena. Flemming: Das Ordensdrama. onde Corneille estudou ( w ) . cidadezinhas transformadas em centros da mais espléndida arte teatral. Le collége Henri IV de La Fleche.

A historia do teatro espanhol é a historia da transformagáo de um teatro popular e nacional em teatro ideológico e jesuítico. Barcelona. (Traducao espanhola por E. assediada pelos heréticos. Frankíurt. com efeito. e que o terceiro dos tres maiores dramaturgos. e nao é acaso que as pegas espanholas deram a muitos críticos estrangeiros. Mas a funcáo da comedia jesuítica nao é o mero contraste. de Holberg. 2. reconhecimento da estrutura ideológica do seu teatro. Mas isto já é quase ópera. L. quando um público d e crentes viu a pega 30 dia da Ressurreigio. a mesma historia aparecerá no Jeppe pa bjerget. Resta acrescentar que L o p e de Vega e Calderón foram alunos dos jesuítas. É. Bidermann gostava de incluir ñas tragedias cenas de humor popular. novelas eróticas. no preludio da Taming oi the Shrew. Shakespeare apresentou ésse motivo preferido do Barroco. Foi reabilitado pelo 58) Nlcolaus Avancinus. Mier. Frelburg. varios textos de Avancinus serviram de libretos aos compositores italianos da corte dos Habsburgos. . e. 1924. os románticos entusiasmaramse pelo lado fantástico das velhas pegas. Wlen. nunca mais poderá ser imaginada. Jacobus Masen (1606-1681) tratou no Rusticas imperans (1664) o velho tema do camponés bébedo e adormecido ao qual fazem crer que é rei. máquinas. o mais fantástico e mais musical. Cyrus (1673). Na verdade. tem também sentido político. Dláz de Escobar e A. Depois. Aos próprios espanhóis do racionalismo o teatro nacional parecía absurdo. No século X V I I I . N. mas entao já com sentido pré-revolucionário. 1913. descobriu-se o fundo popular do teatro espanhol: revelou-se a grandeza de Lope de Vega. mitología. das obras de historiografía. sem consideragao de tempo ou espago. Barcelona. representando-se entre tres paredes de madeira países e continentes inteiros.) N. O teatro espanhol parece o menos convencional de todos. medieval e contemporánea. a vitória da alianca entre Igreja e Monarquía. tudo se passa como se fóssem 59) A. de Holland a Meredith. para despertá-lo cruelmente no dia seguinte. Theodosius Magnus (1654). A. Preferiram apoderar-se do teatro nacional. de contos — principalmente daquele depósito inesgotável de enredos que sao as colegoes de contos da Renascenga italiana. Aqueles assuntos variadíssimos nao sao tirados das fontes. bailados e música. 1874. historia greco-romana. espanhola e estrangeira. Ao cúmulo do ilusionismo chegam os "ludi caesarei" da corte de Viena. de "romances" populares. 1930. deu a urna colegáo de obras suas um título que revela toda a teoría aristotélico-jesuítica do teatro: Deleitar aprovechando. com o céu em cima e os demonios embaixo. vidas de santos. contos árabes — tudo serve. Pfandl: Geschichte der spanischen Nationalliteratur in íhrer Bluetezeit. 1885. T u d o é interpretado.766 O T T O MARÍA CARPEAUX HISTORIA D A LITERATURA OCIDENTAL 767 mártires. historias de espectros. Scheid: Avancinus ais Dramatiker. a impressao de óperas faladas. demonstrando ao mesmo tempo a inviolabilidade da hierarquia social. nos quais Avancinus ( 58 ) celebrou com luxo enorme de arquiteturas. condensando-se historias seculares de imperios em poucas "jornadas". 1612-1686.» ed. Madrid. observa rigorosamente duas convengoes: o anacronismo e a tipología. n a cidade de Munique. Valbuena Prat: Literatura dramática española. tratado com a maior liberdade cénica. anacrónicamente. 1929. urna pega da ilusao do mundo. Lasso de la Vega: Historia del teatro español. da literatura antiga. etc.<l) gozava de urna liberdade que ñera o teatro inglés contemporáneo conheceu: Biblia. Tirso de Molina. mais urna vez. caiu em descrédito. terminando em ópera. mas de livros edificantes. 4 vols. O teatro dos jesuítas espanhóis é de importancia muito menor. Constantinus Magnus (1659). O teatro espanhol (:. do ponto de vista do narrador popular. von Schack: GescMchte der dramatiachen Literatur und Kunst in Spanien. da Biblia. Calderón.

de Holland a Meredith. Tirso de Molina. Cyrus (1673). e que o terceiro dos tres maiores dramaturgos. 1924. quando um público d e crentes viu a peca 30 dia da Ressurreicao. Barcelona. Na verdade. bailados e música. descobriu-se o fundo popular do teatro espanhol: revelou-se a grandeza de Lope de Vega. Wien. O teatro espanhol parece o menos convencional de todos. espanhola e estrangeira. de contos — principalmente daquele depósito inesgotável de enredos que sao as colegoes de contos da Renascenga italiana. Pfandl: Geschichte der spanischen Nationalliteratur in ihrer Bluetezeit. Jacobus Masen (1606-1681) tratou no Rustíais imperans (1664) o velho tema do camponés bébedo e adormecido ao qual fazem crer que é rei. nunca mais poderá ser imaginada. Foi reabilitado pelo 58) Nlcolaus Avancinus. O teatro dos jesuítas espanhóis é de importancia milito menor. deu a urna colecao de obras suas um título que revela toda a teoría aristotélico-jesuítíca do teatro: Deleitar aprovechando. 1612-1686. sem consideracao de tempo ou espago. demonstrando ao mesmo tempo a inviolabilidade da hierarquia social. Constantinus Magnus (1659). . varios textos de Avancinus serviram de libretos aos compositores italianos da corte dos Habsburgos. Frelburg. mais urna vez. (Traduc&o espanhola por E. a mesma historia aparecerá no Jeppe pa bjerget. Theodosius Magnus (1654). os románticos entusiasmaramse pelo lado fantástico das velhas pegas. L. para despertá-lo cruelmente no dia seguinte. Mas isto já é quase ópera. representando-se entre tres paredes de madeira países e continentes inteiros. historia greco-romana. mitología. Aqueles assuntos variadissimos nao sao tirados das fontes. urna pega da ilusao do mundo. Preferiram apoderar-se do teatro nacional. Dláz de Escobar e A. Barcelona. a impressáo de óperas faladas. de Holberg. mas de livros edificantes. 1929. tudo se passa como se fóssem 50) A. Frankfurt. O teatro espanhol ( B0 ) gozava de urna liberdade que nem o teatro inglés contemporáneo conheceu: Biblia. Bidermann gostava de incluir ñas tragedias cenas de humor popular. do ponto de vista do narrador popular. terminando em ópera. Shakespeare apresentou ésse motivo preferido do Barroco. o mais fantástico e mais musical. mas e n t i o já com sentido pré-revolucionário. Valbuena Prat: Literatura dramática española. Aos próprios espanhóis do racionalismo o teatro nacional parecia absurdo. historias de espectros. com o céu em cima e os demonios embaixo. T u d o é interpretado. 1913.) N. Depois. novelas eróticas. a vitória da alianca entre Igreja e Monarquía. 2. von Schack: Geschichte der dramatischen Literatur und Kunst in Spanien. reconhecimento da estrutura ideológica do seu teatro. assediada pelos heréticos. No século X V I I I . Mas a funcao da comedia jesuítica nao é o mero contraste. com efeito. e. tratado com a maior liberdade cénica. Madrid. Resta acrescentar que Lope de Vega e Calderón foram alunos dos jesuítas. N. 1874. das obras de historiografía. observa rigorosamente duas convengoes: o anacronismo e a tipología.• 766 O T T O MARÍA CABPEAUX HISTORIA D A LITERATURA OCIDENTAL 767 mártires. máquinas. A. condensando-se historias seculares de imperios em poucas "jornadas". caiu em descrédito. nos quais Avancinus ( 58 ) celebrou com luxo enorme de arquiteturas. Scheid: Avancinus ais Dramatiker. É. 1930. anacrónicamente. de "romances" populares. e nao é acaso que as pecas espanholas deram a muitos críticos estrangeiros. Mler. no preludio da Taming oí the Shrew. Lasso de la Vega: Historia del teatro español. da Biblia. vidas de santos. 4 vols. da literatura antiga. etc. 1885. A historia do teatro espanhol é a historia da transformagáo de um teatro popular e nacional em teatro ideológico e jesuítico. medieval e contemporánea. contos árabes — tudo serve. tem também sentido político. Calderón. n a cidade de Munique. Ao cúmulo do ilusionismo chegam os "ludi caesarei" da corte de Viena.a ed.

ilusoes loucas e desilusáo pessimista — de onde resulta a popularidade imensa désse teatro nacional. segundo a classificac&o de M. del Pan y del Palo. aproveitando-se. Com efeito. e todos os motivos da agio s l o conceitos espanhóis: Igreja e rei. sao espanhóis auténticos. Imperial de Otón. La fianza satisfecha. Del Nacimiento. o 80) Lope Félix de Vega Carpió. etc. através da novelística italiana. Franca. Esclavo de Roma' Roma abrasada. El marido más firme. El cuerdo loco. sao expressoes atuais do caráter permanente da alma espa- nhola: expressoes do Barroco. sao resolvidos segundo a "causuística teatral" dos jesuítas. El animal profeta.. da estirpe do de Gil Vicente. Flandres. Las aventuras del Hombre. sempre os mesmos sedutores e damas. Daí a variedade. n o palco. Evolugio. Inglaterra. Laberinto de Creta. o teatro espanhol é a síntese de um teatro popular e de um teatro ideológico. Duque de Viseu. Por isso. La locura por la honra. O criador daquela síntese entre teatro popular e teatro ideológico. a Meredith lembrou um bailado. Comedias de santos: La buena guarda. Isidro labrador. sem apresentar evolucáo p r o p i a mente dita. Menéndez y Pelayo: Autos: La siega. Daí aquela impressáo de um movimento frenético e absurdo sem finalidade. o teatro espanhol é todo movimento. . Alemanha. Reina Juana de Ñapóles. hedonismo aristocrático e naturalismo popular. da amplitude do mundo da Renascenga. Déste modo. El rey sin reino. O teatro espanhol nao pretendía fazer outra coisa senao por em movimento. Hermosa Ester. Lo fingido verdadero. já significa decadencia: a consuncáo dos motivos populares pelos conceitos ideológicos e a consungáo dos conceitos ideológicos pela realidade antibarroca e. Daí os anacronismos grosseiros e o sabor popular. em bailado mitológico e. esvaziaram os símbolos e transformaran! o teatro espanhol em movimento sem finalidade. Felisarda. As diferengas entre os autores sao puramente individuáis. e — o que é pior — sempre os mesmos motivos de agáo: fanatismo católico. etc. e a "heresia" dramatúrgica do isolado Ruiz de Alarcón passou sem conseqüéncias. Comedias mitológicas: Adonis y Venus. Portugal e Italia. Mas. por conseqüéncia. Nos milhares de pegas que o teatro espanhol nos legou. El viaje del Alma. os conflitos. mesmo de tempos ou países longínquos. apesar da variedade. etc. os seus polos sao Lope de Vega e Calderón. com isto. todas as personagens. De los cantares. representar em imagens vivas o que todo o espanhol s>abia e sentía. El serafín humano. Hijo prodigo. Ésses conceitos. sensualidade ardente e penitencia contrita. É teatro popular. os motivos populares sao capazes de se transformar em alegorias e símbolos do Gran teatro del mundo do Barroco. afinal. Teatro. 1562-1635. Perseo. Daí a liberdade cónica. antiespanhola. Gran duque de Moscovia. S. paixáo sexual desenfreada e um conceito fetichista da honra pessoal. cumpie. própria de um teatro novelístico. Comedias pastorls: El verdadero amante. lembrando-nos que a monarquía espanhola compreendia dois continentes e que soldados espanhóis lutavam em todos os países. dramatizando novelas e romances sem se preocupar com as leis da condensagao dramática. alias. Historia antiga e estrangeira: Contra valor no hay desdicha. Belardo el furioso. 768 OTTO M A M A CARPEAUX HISTORIA OA LITERATURA OCIDENTAL 769 acontecimentos ñas rúas de Madri e Sevilha. as Américas. Nao é possível tratá-los satisfatóriamente senáo á maneira do teatro jesuítico. Austria. os mesmos palhagos. a cena é o mundo inteiro de entao. aristocrático-católico. na historia do teatro espanhol. Barlaam y Josafat. é sempre a mesma coisa. O teatro espanhol é teatro popular. etc. entre a "ideología nacional" e a realidade. Sempre os mesmos reís e fidalgos. é Lope de V e g a ( a o ) . cheio de ingenuidade. polos entre os quais a historia do teatro espanhol oscila. etc. patriotismo monárquico. representados nos palcos de Madri e Sevilha do século X V I I . em ópera. entusiasmo religioso e estoicismo fatalista. a suprema lei da arte teatral. La creación del mundo. apenas. por isso. Espanha. o teatro espanhol é monótono.

1936. 1886. Amar sin saber a guien. El remedio en la desdicha. Audiencias del rey D. Laurel de Apolo (1630). Epopéias: La Dragontea (1598). N a o é possível v e r i f i c a r e x a t a m e n t e o n ú m e r o d a s s u a s p e g a s . Estudos no colegio dos jesuítas. Rennert e Am. S. Castro: Vida de Lope de Vega. por M. 1940. seus a p e l i d o s . 1918. Vossler: Lope de Vega und sein Zeítalter. vols. Romancero espiritual (1624). Madrid. K. a v e r d a d e p a r e c e e s t a r e n t r e 1200 e 1500. El vaguero de Morana. Lope e s t u d a teología. 21 vols. casamento com Isabel. Las paces de los reyes y Judia de Toledo. Montesinos. Madrid. Remedio en la desdicha. El perro del hortelano. E h á a i n d a v a r i o s v o l u m e s d e poesía l í r i c a e a l g u m a s e p o p é i a s e r o m a n c e s . El último godo. Comedias: El acero de Madrid. 1913. El mejor mozo de España. Las flores de D. Rimas sacras (1614). M. etc. IV Obras sueltas). etc. La serrana de la Vera. (Edlcao moderna. Los Ramírez de Arellano. París. Romances: El peregrino en su patria (1604). 1919. Pastorais: Areadia (1598). portanto. Muenchen. Edic&o da Jerusalén conquistada por J. 1890/1913. Entrambasaguas y Peña: Vida de Lope de Vega. Grlswold Morley: The Chronology of Lope de Vegas Comedias. por L. Meriende/ y Pelayo. Hermosa fea. Madrid.s e á s u a f e r t i l i d a d e l i t e r a r i a fabulosa. Melindres de Belisa. México. segundas nupcias com a atriz Micaela. 1942. ensayo de interpretación. La corona trágica (1627). edlt. Pedro en Madrid. Barcelona. La dama boba. 13 vols. 2 vols. raptos e fugas. 1929. Si no vieran tos mujeres. n-IV.I 770 Orro MAMA CABJPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 771 criador. El anzuelo de Fenisa. La quinta de Florencia. aventuras amorosas. R. J. La desdichada Estefanía. com Elena Osorio. Fltzmaurice Kelly: Lope de Vega and the Spanish Drama. Le santa Liga. H. Los pastores de Belén (1612). novas aventuras eróticas. vida com a concubina A n t o n i a Trillo. Arte nuevo de hacer comedias (1609). 1890/1913. J.. de Arco y Garay: La sociedad española en las obras dramáticas de Lope de Vega. El mejor alcalde el rey. desabafar os s e u s c a s o s s e n t i m e n t a i s . A t i v i d a d e t á o e s p a n t o s a nao se i m a g i n a á m a n e i r a d e F l a u b e r t ou M a l l a r m é . r e c e b e n d o o r d e n s s a g r a d a s . 8tuttgart. c o n t i n u a n d o os a m o r e s . Juan. Grlllparzer: Studlen zum spanischen Theater. Los comentadores de Córdoba. Teatro. Obras selectas (Garnier) 4 vols. Col. Edic&o da Dorotea por Am. 1902. Poesías líricas: Rimas (1609). Edlcao por J. Conde Fernán-González. Cotarelo y Mir. 1933. El rey D. (Novamente publicadas em: Estudios sobre el teatro de Lope de Vega. 1926/1927. Bastardo Mudarra. Barcelona. L o p e é o a u t o r m a i s fértil d a l i t e r a t u r a u n i v e r s a l . 1776/1779. L o p e d e V e g a é u m i m p r o v i s a d o r g e n i a l . Carayon: Lope de Vega. XXXIV. Los prados de León. El caballero de Olmedo. J. Los tres diamantes. Suplemento. E. Fuente Ovejuna. Los novios de Hornachuélos. Hartzenbusch (Biblioteca de Autores Españoles. Menéndez y Pelayo: Prólogos da edic&o citada. depois. do teatro espanhol nacional. SchevlU: The Dramatic Art of Lope de Vega. (I-IH. Sancha. " F é n i x d e la E s p a ñ a " e " M o n s t r u o d e la n a t u r a l e za".) Pastorais sacros: San Isidro (1599). J. El aldeguela. Madrid. El piadoso veneciano. Marqués de las Navas. F. 1919. escrevendo rápidamente para o consumo dos teatros ou para Historia (e lenda) espanhola: Amistad pagada. Casamiento en la muerte. Glasgow. Entrambasaguas y Peña. Jiménez Rueda: Lope de Vega. Berkeley (Callí. q u e a l t e r n a c o m t e r r í v e i s e x e r c í c i o s a s c é t i c o s . r e f e r e m . XLI.) J.). Noche toledana. La estrella de Sevilla. 1936. q u e nao e r a m p o u c o s . Dramas: El villano en su rincón. Vols. servigo mil i t a r na A r m a d a q u e s o f r e u a g r a n d e d e r r o t a pelos i n g l e ses. Mocedades de Bernardo del Carpió. até á morte edificante. París. Lo cierto por lo duvidoso. Entrambasaguas y Peña: Estudios sobre Lope de Vega. Pedro. R. Margues de Mantua. por E. Universal.) (112 pecas. M. El castigo sin venganza. El nuevo mundo descubierto por Cristóbal Colón. é m e n o s honrosa e t e m conseqüéncias g r a v e s . La Dorotea (1632). New York. Porfiar hasta morir. 1874. . Madrid. 1916/1928. Outras obras: Obras sueltas. Madrid. La niña de Plata. A. (1604/1647) (cí. LU. Madrid.) Edic&o da Academia Española. 1935. Los milagros del desprecio. Madrid. 15 vols. urna das quais. Períbanez. Castro. Jerusalén conquistada (1609). La hermosura de Angélica (1602). nota 71). Comedia de Bamba. O dinamismo dessa vida manifest a r e em t o d a a p a r t e da s u a o b r a : urna o b r a e x u b e r a n t e . Epopéla herói-cómlca: La Gatomaguia (1634). Las famosas Asturianas. edit. 2 vols. etc. El rufián Castrucho. Edlcao por F. Teatro: 25 vols. Alcalde de Zalamea. El mayor imposible. 1946. a vida do " m o n s t r u o d e la n a t u r a l e z a " t a m b é m é m o n s truosa. 1902. Madrid. XXIV. vida de estudante em Alcalá. Madrid. Madrid.

e nao Calderón. onde confessa com a maíor sinceridade o capítulo mais escuro da sua vida. Lope de Vega é um grande poeta lírico. sem angustia mística nem naturalismo cruel: um Barroco imperfeito. franceses. incapaz de evitar o gongorismo. ilusorio. pertence. Os románticos alemaes. conserva o espirito democrático dos tempos do Cid e dos feudais. o "gracioso". Lope de Vega é o herdeiro de Gil Vicente. reagiu contra o culto exagerado de Calderón. Mas é um Barroco sem ideología rígida nem racionalismo erudito. ao gongorismo. pré-barroco. mas o espirito aristocrático — todos os espanhóis livres sao hidalgos — impoe-lhe um código uniforme de comportamento do qual o resultado é a "comedia de capa y espada". táo típico do teatro espanhol. Como teórico. ao Barroco. Lope de Vega nao se cansa de representar costumes regionais e das diferentes classes da sociedade. e justamente no interessantíssimo romance autobiográfico La Dorotea. Lope detestava o gongorismo. estavam cheios de entusiasmo por Calderón. quem criou o fetiche "Honra". Como escritor popular. fonte inesgotável de i n s p i r a r e s populares. ficaram perplexos em face de Lope de Vega. O palhaco popular das suas pecas. Lope de Vega como improvisador espontáneo teria sido incapaz de elaborar. como improvisador. é o estilo conceituoso da sua prosa e a freqüéncia de versos auténticamente gongóricos na sua obra inteira. ignorancia fabulosa quanto as coisas estrangeiras e conhecimento estupendo quanto as tradicóos e costumes populares: eis o lado medieval. tudo isso acaba dando a impressáo de um mundo completamente irreal. É Lope. nao foi capaz de aplicá-lo. exaltando a arte espontánea e o espirito popular em Lope de Vega. sucumbiu á moda literaria da sua época. enquanto. embriagados com a descoberta da literatura barroca na Espanha. Em sua obra sao numerosíssimas as passagens polémicas e satíricas contra Góngora e os seus discípulos. já barroca. alegría ingenua. Credulidade infantil. do coméco do século XIX. é que sao mais freqüentes também as confissoes literarias e polémicas contra Góngora. no século XIX. O que causa estranheza. Lope de Vega é hostil á poesia dessa élite. apesar de tudo. nao apenas a élite culta. os románticos. porque o motivo íntimo da atividade literaria de Lope de Vega é o lirismo popular. Encarna e representa a nacao inteira. Ésse ponto de vista venceu pela autoridade de Menéndez y Pelayo. os variadíssimos aspectos pitorescos da sua obra tornam-se decorativos. perpetua as tradicoes rnedievais do gótico "flamboyant". Lope de Vega foi. cotn todas as retumbáncias do Barroco. e hoje Lope de Vega é geralmente considerado como a expressáo mais completa da alma espanhola. É um Barroco imperfeito. das suas paixóes eróticas. Como escritor popular e meio medieval. gosta da independencia do camponés em sua casa (El villano en su rincón). por isso. ingleses. mas de outra estirpe: é grande na emocao simples e comovida da sua religiosidade sincera. Viena. poeta renascentista. mas ésse espirito de independencia transforma-se-lhe em conceito barroco da Honra. de Lope de Vega. com arte e erudicao. Lope nao é. variadissima. como Gil Vicente. Na verdade. Tinha plena consciéncia da sua índole. mais perto da Espanha pela tradicáo barroca do teatro popular de sua cidade natal. É um mundo barroco. como poeta. no seu tempo. a aventura com Elena Osorio. Só o poeta austríaco Pranz Gillparzer. da maledicencia contra inimigos. a leviandade com a qual acumula as inverossimilllancas nos enredos novelísticos. pré-barroco. o dramaturgo preferido de Quevedo e de todos os que se opunham ao gongorismo. religiosidade comovida sem fanatismo. Lope parecia-lhes um precursor bastante imperfeito. a sua credulidade em milagres e maravilhas de toda a especie. revela cada vez mais o humorismo burlesco do Barroco.HISTORIA DA LITERATURA 772 OTTO MARÍA CARPEATJX OCIDKNTAL 773 estrondosa. se bem que de maneira imperfeita. Por isso. crítica irreverente. porém. . poesías como as de Góngora.

Lope de Vega domina com mestria igual o tom do drama de conflitos trágicos (El castigo sin venganza. A raga é a espanhola. Los milagres del desprecio. que se revoltaram contra o comendador violento e infame e o mataram. com a sua religiosidade alegre. a germánica. Um panorama imenso. dos boatos da América. no palco calidoscópico do bacharel-militar-padre-dramaturgo Lope de Vega. a medieval. . señora. verificando o espirito da epopéia castelhana ñas Mocedades de Bernardo del Carpió e Casamiento en ¡a muerte. e o espanto diante das descobertas e o júbilo da propaganda da fé em El nuevo mundo descubierto por Cristóbal Colón. em Fuente Ovejuna. " E Lope está também inteiro no refrío melancólico sobre o qual compós a maior das suas tragedias. improvisador-feiticeiro de 1500 comedias. na resposta dos habitantes da aldeia Fuente Ovejuna. As pegas tiradas da historia estrangeira e antiga s i o de um anacronismo espantoso. a gente dos campos (El vaquero de Morana). e menos feliz ñas comedias de santos. para se lhes arrancar o nome do assassino. está todo nos versos que a Virgem canta ao menino divino. a islamítica — conf luem na Espanha. da pega de conteúdo ideológico (El villano en su rincón). . que ainda estáo perto da tradigao medieval. El caballero de Olmedo). . El caballero de Olmedo: "Puesto ya el pie en el estribo. da multidáo dos contos italianos. da india. Señor. tragando o caráter espanhol. . indomável. . e a antiga aristocracia em La estrela de Sevilla. visto pelo "homem da rúa" de Madri." A época é a do imperialismo espanhol. cheias de credulidade quase infantil. Lope de Vega é o porta-voz da sua raga e da sua época. Lope de Vega é menos original nos seus autos. e todos tém a mesma resposta: "¿Quién mató al Comendador? — — Fuente Ovejuna. A Europa inteira é a espanhola. da historia da Antiguidade e lendas medievais. O assunto de Lope de Vega — trata-se de urna enorme epopéia em mil fragmentos dramáticos — é tirado da Biblia e da hagiografía. todos sao interrogados e torturados. Austria. que se duerme mi niño. democrática. apaixonada. Lope de Vega criou-lhe o símbolo imperecível. ele sabe acertar a monstruosidade de Ñero na Roma abrasada e as particularidades da historia portuguesa no Duque de Viseu. Em Lope de Vega há de tudo. hacharéis e padres espanhóis trabalham em Portugal e na Irlanda. intolerante. vi vendo as lutas contra os mouros e a independencia dos feudais em Las paces de los reyes y Judía de Toledo. e a Américs também. da comedia da fina sociedade (La dama boba. das lembrangas francesas e flamengas.774 OTTO M A R Í A C A R P E A U X HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 775 i Lope. Italia e Chile. Soldados espanhóis lutam nos campos de batalha de Franga e Flandres. nos Pastores de Belén: "Pues andáis en las palmas. na pesa désse título. México e Perú. representando a antiga monarquía democrática em El mejor alcalde el Rey. El mayor imposible). con las ansias de la muerte. contudo. ángeles santos. tened los r a m o s . o mundo dos malandros (El rufián Castrucbo). Todas as tradigoes — a greco-romana. Mas sente-se mais seguro quando trata assuntos de c a s i : na mistura shakespeariana de tragedia e humorismo da Comedia de Bamba. aquesta te e s c r i b o . " Por mais pessoais que sejam estas expressoes. reduzindo tudo ao alcance dos populares de Madri e Sevilha. e nao ignora as carnadas baixas (Noche toledana). altiva.

Conforme a observagáo feliz de Valbuena." ed. Madrid. V. 1908. Marta la piadosa: La gallega Mari-Hernández. e por E. As outras obras sao secundarias. entre elas El condenado por desconfiado. Las quinas de Portugal. Santo y sastre. a comedía Tanto es lo de más como lo de menos é. quando a obra lhe sai bem. etc. El melancólico. vols. Mas quase nao se nos deparam caracteres desenvolvidos. Santa Juana. La mejor espigadera. Menéndez y Pelayo: Estudios de critica literaria. um místico castelhano. Lope de Vega foi-o ñas suas obras nao dramáticas. de 1635. Bruno de El mayor desengaño. La corona trágica. Don Qil de las calzas verdes. Sald Armesto: La leyenda de Don Juan. Ensayos sobre Tirso de Molina. sempre. c. etc. Na Espanha. mártir da fé católica e coroada no céu. Edlcóes (Incompletas) do teatro. Peyton: "Some Baroque Aspects of Tirso de Molina". por la revista Estudios. . Vida de Herodes. La hermosura de Angélica e La Jerusalén conquistada sao imitagoes de Ariosto e de Tasso. etc. La mujer que manda en casa. El caballero de Gracia. Tanto es lo de más como lo de menos. O drama bíblico La venganza de Turnar é urna tragedia espanhola de honra. Em toda a parte o leitor ou espectador é surpreendido por detalhes maravilhosos e ofendido por impossibilidades absurdas e fins abruptos. Cotarelo y Mir (Nueva Biblioteca de Autores Españoles. Ai está o Lope de Vega barroco. mas a sua personalidade. . Edlgao de Los Cigarrales por V. 1928. mas sem se dizer quais sao as 4 de Tirso: déste modo. A sua obra nao é inteiramente barroca. La Dragontea só é notável pelo furioso patriotismo antiinglés. Madrid. íica em dúvida a autoria de algumas pegas importantes. A. como num grande painel em torno da infeliz rainha María Stuart. 1839/1842. algo menos genial do que Lope 61) Gabriel Téllez (Tirso de Molina). Clelland: Tirso de Molina. reúne todas as suas capacidades artísticas. Blanca de los Ríos: Del siglo de oro. Deleitar aprovechando (1635). Comedias (5 vols. edit. 1949. Só as belezas liricas salvam o pastoril religioso Los pastores de Belén. Madrid. Colec&es (de pegas. os Tamar.776 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 777 Entre todas essas numerosíssimas pegas nao existe nenhuma em que nao se encontrem personagens interessantes ou expressoes felizes ou urna cena extraordinaria ou. Blanca de los Ríos: £2 enigma biográfico de Tirso de Molina. 1584-1648. Trilogia de loa Bizarro?. escreveu aquéle admirável romance dialogado La Dorotea. Madrid. á de Calderón. completa. é grandiosa. Liverpool. em conjunto.) Autos: El laberinto de Creta. Hartzenbuích. El colmenero divino. 2. sabia concentrar-se. La venganza de de Vega. abril. 1912. um panorama táo completo da vida espanhola do século X V I I como o sao. 1910. talvez. a obra-prima do poeta épico Lope de Vega. Madrid. La villana de Vallecas. Comedias: El vergonzoso en el palacio.) M. o Barroco é o estilo nacional: e Tirso de Molina. só comparável. e o S. É grande e abundante poeta lírico. El amor y la amistad. sob o pretexto de dramatizar a parábola evangélica do filho pródigo. imitagoes supérfluas apesar de muitos versos felizes.): Los cigarrales de Toledo (1621). novelas. saido depoís do volume III. La elección por la virtud. das quais 4 seriam de Tirso e 8 de outros dramaturgos. Madrid. Sald Armesto. Pecas históricas ou leudarías: El burlador de Sevilla y Convidado de piedra. Por el sótano y el torno. 2. La madrina del cielo. Lope de Vega escreve ao acaso. 1913. espanholiza os seus assuntos pela raiz. em vez de cair nos anacronismos ingenuos de Lope de Vega. E. 1627/1636). IV. La prudencia en la mujer. É a própria natureza. Amar por señas. daí a sua superioridade na composigao. Tirso de Molina ( 6 1 ). Studies in Dramatic Realism. Comedias de santos: El mayor desengaño: El condenado por desconfiado. sao muito raras as pegas bem construidas do comégo ao fim. 12 vols. M. no teatro espanhol. 1949. Amar por razón de Estado. Madrid. um ato bem conduzido. sacro e profano. contém 12 comedias. El celoso prudente. quando nao. capaz de dar o passo decisivo para a barroquizagáo completa do teatro nacional. 1944. (In: Romanic Review. M. é urna miseria. Foi dramaturgo consciente da sua arte. Artista consciente. etc. etc. A epopéia herói-cómica La gatomaquia exibe muito espirito num género falso. (O volume XI. por J.* serie. I X ) . (O estudo mais importante.) L.

como poeta barroco e dramaturgo popular. Comedias como Don Gil de las calzas verdes e El vergonzoso en el palacio sao obrasprimas de complicagao engenhosa. um acaso. inteligencia vigorosa do desfecho. por Guillen de Castro ("-). sem se preocupar com as intencoes moráis de Tirso de Molina. Com essa tragedia poderosa. infelizmente. Comedias (1618. La fuerza de la sangre. atrás dos bastidores. nova depois de Lope. na obra de Tirso de Molina. 1930. movimenta a sua ideología e a do teatro espanhol. New York. NSo é do comportamento moral que o desfecho depende. fala os dialetos de todas as regióes — as suas comedias sao consideradas como um dos maiores repositorios do idioma — sabe rir com a Gallega Mari-Hernández e chorar com Santa Juana. Madrid. Julia: Prólogos da edlc&o citada. e é preciso muita atencao para perceber. Tirso de Molina.778 O T T O MARÍA C A R P E A U X HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 779 / contos da sua colegio Los cigarrales de Toledo. comicidade irresistível das confusoes. Do ponto de vista da dramaturgia. Tirso de Molina sabe tudo da Espanha e dos espanhóis. de que nao é possível. Segoll: Corneille and the Spanish Drama. embrulha as intrigas mais complicadas e resolve-as em "desengaños" amargos. O. conhece os segredos políticos em La prudencia en la mujer e as intimidades do clero em La elección por ¡a virtud. irónico.. mas da "gratis efficax". Tirso é humorista. Isso também é arte típicamente barroca. Nos poetas elegiacos romanos parece ter aprendido licoes de psicología. . a do Barroco. enquanto e eremita Paulo. á qual adere o dramaturgo. O outro elemento calderoniano — a cultura clissica — é representado. nem da predestinacao pela profissao sagrada. transformando em artes de playwright as artes de maquinista cénico dos jesuítas. La tragedia por los celos. Em El burlador de Sevilla. Monner Sans: Don Quülén de Castro. encontrando a expressao completa em El condenado por desconfiado. R. París. Essa dialética nao é. H. Antes de tudo.) (Of. El conde Alarcos. Las mocedades del Cid. de um erotismo muito mais brutal do que Lope. e o fatalismo. E. As pegas psicológicas de Guillen de Castro — La tragedia por los celos. Seria sua obra-prima. dogma do estoicismo barroco e conclusáo da sua psicología de caracteres imutáveis. J. é Tirso de Molina um grande comediógrafo. 3 vols. Nessa tragedia teológica. a comedia é menos alegre do que a de Moliere e menos profunda que a ópera de Mozart. moralista. 1913. dogma do catolicismo e da arte dramática. desconfiado da sua redencao. Como poeta barroco. a alma do ladráo penitente Eurico é levada pelos anjos do patíbulo ao céu. Buenos Aires. Como padre e filho do povo. mas também é mais sereno do que éste. Los mal casados de Valencia — 02) Guillen de Castro y Bellvis. sempre dentro da forma popular do teatro de Lope de Vega. a mao do titereiro e o sorriso superior do poeta que zomba dos seus próprios personagens. Huszar: Corneille et le thé&tre espagnol. T i r s o de Molina está em pleno Barroco: os problemas de predestinacao e graca seráo os de Calderón e dos jansenistas. Mas será mais exato dizer: é outra alegría e outra profundidade. 1925/1927. 1625. D. vai para o inferno. y convidado de piedra criou o personagem "Don Juan". conhecedor das almas e inimigo céptico das ilusoes — alegam-se os seus quarenta anos de prática no confessionário. segundo a doutrina do jesuíta Molina. depuis les origines jusqu'au commencements du XVIIe siécle. conseguiu enfim o que só pouquíssimos poetas da literatura universal conseguiram: criar um tipo eterno da Humanidade. Edicao por E. É a única versao do assunto na qual — como o título já indica — a estatua do governador assassinado desempenha papel tao importante como o grande sedutor. Julia. Tirso é naturalista. Progne y Filomena. 1569-1631. afirmar com certeza ser Tirso o autor. Mérünée: Ltart dramatique á Valencia. 1913. etc. acostumado a absolver pecadores. Toulouse. tentativa de resolver o confuto entre o livre-arbítrio. que já em El melancólico demonstrara a arte. 1902.» Los mal casados de Valencia. nota 71. de criar caracteres bem definidos.

) Edicáo por A. senáo t o m a n d o como f u n d a m e n t o o fatalismo i n a t o d a r a s a . e m c l a r o . Felipe II. nota 71. a s v a n t a g e n s d o e s p a n h o l r e s i d e m na p s i c o l o g í a n a t u r a l i s t a e n o l i r i s m o . c r i o u P é r e z d e M o n t a l b á n ("•') a s u a obrap r i m a . El espejo del mundo. (Of. El conde Alarcos. t r a n s f o r m o u . 1922. o r e i . rei e c a m p ó n o s . 1574 ou 1577-1644.s e e m t r a g e d i a h u m a n a d e c o n f u t o e n t r e a leí d o E s t a d o e a leí da p e r s o n a l i d a d e . A s s i m c o m o E u r í p i d e s r e novou o mito. a um outro estilo. a p e s a r dos e m p r é s t i m o s a b u n d a n t e s d o modelo espanhol. Spencer e R. o ú n i c o a p a r e c e r s e c o m u m J o h n W e b s t e r . nao era possível. Bacon: "The Life and Works of Pérez de Montalbán".s e e s a c r i f i c a n d o a s u a v i d a p a r t i c u l a r a dev e r e s s u p e r i o r e s da p a t r i a e d a fé e a a l g u n s d e v e r e s imaginarios. nota 71. (Cf.) F. era d é s p o t a s ó p o r h á b i t o s d e b u r ó c r a t a . A t r a g e d i a f r a n c e s a p e r t e n c e . Como d r a m a "estilizado". La luna de la sierra. S e 64) Luis Vélez de Guevara. com algo mais de capacidade construtiva t e r i a sido c a p a z d e e s c r e v e r t r a g e d i a s c a l d e r o n i a n a s c o m o El mayor monstruo.) O. Cotarelo y Mlr: "Mira de Amescua y su teatro". Aníbal: Mira de Amescua. em parte elegantemente aristocráticas. E.780 OTTO MARÍA GABPEAUX H I S T O R I A DA L I T E R A T U R A OCIDENTAL 781 sao a s m a i s " m o d e r n a s " do t e a t r o e s p a n h o l . 1930. A t r a n s í o r m a g a o d o f a t a l i s m o p o p u l a r em f a t a l i s m o t r á gico constituí a grandeza solitaria de Vélez de Guevara ( 8 4 ) . A s u a o b r a e m p r o s a — El diablo cojuelo.) I . c r i a n d o a i m a g e m na q u a l F i l i p e I I s o b r e v i v e na m e m o r i a d a nagao. N o r e s t o . vol. No hay vida como la honra. s a c r i f i c a n d o . Los Angeles. em La luna de la sierra e La serrana de la Vera. E s s a m e s m a fórga. de modo que a comparagáo das d u a s t r a g e d i a s . El esclavo del demonio. Columbus (Oh. urna d a s p e g a s m a i s p o p u l a r e s d o s á c u l o : a Comedia famosa del Gran Séneca de España. a do Conde Alarcos e a de Las mocedades del Cid. n a v e r d a d e . Identificar essa atitude de m á r t i r político com o i d e a l e s p a n h o l d o e s t o i c o foi i d é i a g e n i a l d o t a l e n t o s o d r a m a t u r g o P é r e z d e M o n t a l b á n . dramaturgo-hum a n i s t a d e c a r a c t e r e s livres. V é l e z d e G u e v e r a foi. E. Edicáo por F. XLV. 65) Antonio Mira de Amescua. E. O espanhol do século X V I I nao teria reconhecido em Filipe I I o t i r a n o clerical dos historiadores liberáis do século X I X . a t r a g e d i a clássica. B a s e a n d o ésse f a t a l i s m o n o e s t o i c i s m o p o p u l a r e s p a n h o l . D e n t r o d o e s q u e m a lopista.e s c u r o i n f e r n a l .) Edigáo: "Biblioteca de Autores Españoles. 1602-1638. Reinar después de morir. t e m a p r e d i l e t o d a " l i t e r a t u r a comparada".. La Baltasara. etc.). que para os espanhóis de entáo fóra l e n d a f a n t á s t i c a . (Cf. J á o tentara aquéle o u t r o d r a m a t u r g o . G. LXXn. e n t r e os g r a n d e s d r a m a t u r g o s e s p a n h ó i s . los celos. (In: Boletín de la Real Academia Española. vol. Schevill: The Dramatic Works of Vélez de Guevara. XLV. Cotarelo y Mir: "Luis Vélez de Guevara y sus obras dramáticas". G u i l l e n d e Castro é o E u r í p i d e s do teatro espanhol. LXX. Rodríguez Marín. Los amantes de Teruel. El ejemplo mayor de la desdicha y Capitán Belisario. a historia de Inés de Castro. nao tem muito sentido. 1912. La Fénix de Salamanca. etc. o d r a m a t u r g o e m p r e g o u . m a s ao a u t o r d a v e r s a o f r a n c e s a . La serrana de la Vera. Madrid. 1579-1644. El diablo cojuelo. Comedia famosa del gran Séneca de España Felipe 11. é P é r e z d e M o n t a l b á n p r i n c i p a l m e n t e a u t o r d e c o m e d i a s em parte alegremente obscenas.a para aprofundar o tema lopista do confuto entre corte e a l d e i a . s o m b r í a e algo indisciplinada. assim Guillen de Castro p r e t e n d e u renovar a lenda espanhola.) Edicáo do teatro: Biblioteca de Autores Españoles. E na sua obra-prima. (1641). p e g a q u e i m o r t a l i z o u nao a G u i l l e n d e C a s t r o . etc. t r a g e d i a q u a s e s o f o c l i a n a . 1925. Le Cid f r a n c é s é d e s u p e r i o r i d a d e e v i d e n t e . E. a s s i m como Guillen de Castro a p r e t e n d e u talvez criar. Más pesa el rey que la sangre. Reinar después de morir. La ganancia por la mano. (In: Boletín de la Real Academia Española. 1916-1917. C o r n e i l l e . nota 71. q u e e n t r e t o d o s os d i s c í p u l o s d e L o p e está m a i s p e r t o d e C a l d e r ó n : M i r a d e A m e s c u a ( 8 B ) . 1937. Valbuena Prat (Clásicos Castellanos. W. talvez. (In: Revue Hispantque. La toquera vizcaína. Vols.) 63) Juan Pérez de Montalbán. etc. q u e L e s a g e a f r a n c e s a r á c o m o Le diable boiteux — revela a fórga b a r r o ca d e desenliar c o n t r a s t e s i m p r e s s i o n a n t e s . p e l a fórga t r á g i c a .

Denls: La langue de Juan Ruiz de Alarcón. mas nao um grande dramaturgo. Juan Ruiz de Alarcón. porque o teatro "nacional" foi considerado como expressao da Espanha imperialista e inquisitorial. Ruiz de Alarcón é um caso singular. La cueva de Salamanca. falta-lhe profundidade ideológica. acusa Lope de Vega como iniciador de um caminho errado.. Mas essas explicacoes nao estáo bem fundadas. Henriquez Urefta: Juan Ruiz de Alarcón. do qual Azorín se fez porta-voz. E quando nao tem sucesso. Madrid.) A. J. No hay mal que por bien no venga. em desprézo. Jiménez Rueda: Juan Ruiz de Alarcón. o dramaturgo diferente que pretenderá conferir novo sentido ao movimento dramático. para os conhecedores. 1943. La crueldad por el honor. Sanar amigos. 1939. Habana. Enquanto os outros dramaturgos espanhóis es66) Juan Ruiz de Alarcón. As explicacoes do "caso" chegam todas ao mesmo resultado: ressentimento. Reyes. nem sempre sinceros. II. Nao conhecemos bastante a personalidade de Ruiz de Alarcón para podermos falar em complexos de inferioridade. do fatalismo heroico e fanatismo religioso. por A. vol. que seria aristocrático-gongórico. Os románticos do século XIX lamentaram em Ruiz de Alarcón um genio incompreendido á maneira do Chatterton. Vol. que encantara os críticos estrangeiros no século XIX. ele. Bonilla y San Martin. . movimento frenético. A Parte segunda de las comedias (1634): La verdad sospechosa. desprezo. de Mira de Amescua nao passa de esbógo das tragedias políticas de Calderón. México. 1915. A.) Edlgóes: a Biblioteca de Autores Españoles. México. acabando em apatía. M. na qual retorna o problema da tentagáo demoníaca e do livre-arbítrio: El esclavo del demonio. Parte primera de las comedias (1628): (Los favores del mundo. eil. Industria y suerte. a ponto de se aproximar do classicismo francés. El Anticristo). Mira de Amescua é um escritor riquissimo. Reyes: "Tres"siluetas de Ruiz de Alarcón". do qual por sua vez se distingue pelo inconformismo de moralista independente. Juan Ruiz de Alarcón ( 60 ) é diferente em todos os sentidos. 1923 (incompleta). Nao se descobriram na sua obra tragos particulares da sua nacionalidade mexicana. da Espanha de um esfórco enorme a servigo de um ideal absurdo e "reacionário". c. Madrid. de Calderón. El tejedor de Segovia. semelhante. El examen de maridos. segundo Nietzsche. Criou as formas ñas quais o seu admirador e discípulo Calderón insuflará o espirito que vivifica. Os contemporáneos zombaram do aleijado — Ruiz de Alarcón era corcunda — e quase estrangeiro — o poeta era natural do México. edit. "No hay mal que por bien no venga". e por Alf. falando ás claras em ressentimento. (In: Historia de la literatura española. Nao é muito fácil distinguir entre as obras menores dos autores menores do teatro espanhol: caem todos na rotina das complicagoes absurdas e desfechos precipitados. 2. Los pechos privilegiados. (In: Capítulos de literatura española. 1016. Mas o seu próprio caminho nao é o gósto da élite. 1934. Valbuena Prat: "El teatro de Juan Ruiz de Alarcón". Mudarse por mejorarse). Os psicólogos modernos reúnem todos ésses motivos. Sackheün: Díe Lebensphiloso/ie des Dichters D. O teatro espanhol. A pega está claramente entre a tirsiana ou pseudotirsiana e o Mágico prodigioso. 1937.) S. Berlín. XX. (In: Laurel de comedias de varios autores.HISTORIA DA LITERATURA 782 OTTO MARÍA CARPEATJX OCIDENTAL 783 ele nao é — como alguns críticos acreditara — o autor do Condenado por desconfiado. P. criou pelo menos outra pega. assím como o Capitán Belisario. depois de 1898. Mas deuse atengáo especial a Ruiz de Alarcón. O s outros escrevem para a massa popular. e sim a stmplificagao do esquema novelístico da dramaturgia espanhola. Barcelona. dos discursos retóricos e digressoes líricas. 1635. tas paredes oyen. o moralismo. como expressao da Espanha "romántica" e "pitoresca". París. caiu na própria Espanha. ele só produz pouco mais que urna dúzia. e assim como a Fénix de Salamanca nao é mais que a antecipacáo da forma madura da "comedia de capa y espada". crevem dezenas e centenas de pecas. e do ressentimento nasce. 1581-1639. de Vigny. 1936.

etc. Na tragedia e na comedia. El escondido y la tapada. Peor está que estaba. A secreto agravio secreta venganza. La aurora en Copacabaña. Los misterios de la misa. em 67) Pedro Calderón de la Barca. o seu amor. O melhor comentario dessa famosa comedia é a versáo francesa de Corneille. El alcalde de Zalamea. Autos sacramentales (edicao de 1677). El principe constante. El secreto a voces. El cisma de Inglaterra. Ruiz de Alarcón é sempre o mesmo: o seu único criterio é o valor humano da personalidade.. La hija del aire. La cena de Baltasar. Patricio. Ruiz de Alarcón nao é moralista. El divino Or/eo. 1636/1672. Nisso nao há nada de moralismo convencional.. A tentativa de fugir ao fatalismo dramático do teatro espanhol levou ao fatalismo moral e social. ao contrario. Casa con dos puertas. A historia literaria postuma de Calderón ( ÍT ) percorreu as mesmas fases que a de Lope de Vega. La vida es sueño. El médico de su honra. Sueños hay que verdad son. El mayor monstruo. Los órdenes militares: Sibila del Oriente. D . El mágico prodigioso. Saber del mal y bien. torna-se bandido para reabilitar a sua honra. mas a sua verdadeira reabilitacao reside na grandeza do estoicismo com que suporta as suspeitas injustas. Antes que todo es mi dama. En esta vida todo es verdad y todo es mentira. a sua única verdade. El gran teatro del mundo. tanto ñas comedias como ñas tragedias: Fernando. etc. O caso singular de Ruiz de Alarcón nao serve e realmente nao serviu aos criticos de 98 para "salvar" o teatro espanhol. apenas. etc. La exaltación de la Cruz. Manos blancas no ofenden. enfim. Los cabellos de Ábsalón. a liberdade desenfreada das decisoes. El divino Jasan. La niña de Gómez Arias. La gran Cenobio. o Tejedor de Segovia. 784 O T T O MARÍA C A R P E A U X HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 785 interpretacao romántica nao está bem de acordó com o feitio meio classicista da sua dramaturgia. e quanto mais se esforca por fugir da rede das conseqüéncias. transformando-as em inabilidade cómica. García. ao passo que o espanhol condena menos o mentiroso do que as circunstancias que o levam a mentir. revelou o seu sentido. El purgatorio de S. ser considerada como mentira pelos que admitiram as suas mentiras como verdade. La devoción de la misa. substituindo-as pela lógica implacável das conseqüéncias. e o famoso raoralismo de Ruiz de Alarcón revela-se antes como amoralismo. Rejeita as convencoes do teatro espanhol. 1600-1681. 1682/1691): La devoción de ¡a Cruz. considerado como "absurdo". Dama Duende.. preferindo o tom e os conflitos da sociedade culta. mas um grande humanista. cuja obra é obumbrada por um claro-escuro rembrandtiano: um humanista barroco. obra de sentido estritamente moralista. Ruiz de Alarcón é o único dramaturgo espanhol em que se sentem influencias da comedia latina. pelo determinismo dos caracteres. Domingo de D. Hombre pobre todo es trazas. e 6 vols. La vida es sueño. opondo-se ao lopismo entusiasmado da crítica meio romántica de Menéndez y Pelayo. o teatro espanhol. torna-se presa das suas próprias mentiras. Calderón também foi discípulo dos padres da Companhia. Em Calderón. La estatua de Prometeo. . Le menteur. Comedias (4 vols. Eco y Narciso. de Bergson. El castillo de Lindabridis. as suas comedias pretendem evitar a condenacáo das falhas moráis. Fernando. Banda y /lor. mas com mais urbanidade. Blas se revolta de maneira audaciosa contra as convencoes da sociedade espanhola. Nao é um clássico.. ao ponto de. Los dos amantes del cielo. a composicao novelística. indiferente ou hostil ás convencoes estabelecidas. voltando aos conceitos e preceitos do Barroco jesuítico. na Verdad sospechosa. sobretudo de Teréncio. seria interessante interpretar-lhe as comedias segundo os conceitos de Le rire. La viña del Señor. Valbuena apóia essa interpretacao ideológica pela análise da outra grande comedia de Ruiz de Alarcón: No hay mal que por bien no venga. sem grande vis cómica. Assim como o romano que criou o lema do humanismo moral — "Nihil humani a me alienum p u t o " — Ruiz de Alarcón evita o ruido alegre da comedia popular. El santo rey D. El mayor encanto el amor. Tres justicias en una. Mas o próprio Azorín voltou enfim a elogiar Calderón. Astrólogo fingido. El puente de Mantible. El pintor de su deshonra. los celos. tanto mais se embrulha. na qual D. Mejor está que estaba.

Hartzenbusch (Biblioteca de Autores Españoles. F. VII. O rigor da composigáo dramatúrgica corresponde ao rigor das convengóes. C. 1916. mas num outro sentido. Valbuena Prat: "El pensamiento y el estilo barroco de Calderón. 1941.) A. La comedia de Calderón". nao quiseram saber nada de Lope de Vega. Las tres justicias en una. Farinelli: La vita é un sogno. LXIX e LXXTV). E. distinguem-se melhor os dois dramaturgos: Lope. Autos: por J. perfeitamente espanholizadas. na qual o tema do Condenado por desconfiado aparece de maneira positiva: a absolvigáo celeste do criminoso que se conservou devoto. poder-seia dizer que a apreciagao justa de Calderón só foi possivel quando Lope de Vega foi desprezado. Madrid. que o Alcalde de Zalamea encabega: La niña de Gómez Arias.» ed. XIV). táo sólida que os personagens parecem prisioneiros da lógica dos aconlecimentos. Michels: "Barockstil bel Shakespeare und Celderón". 2 vols. vols. vol. que iniciou a compreensáo moderna de Lope de Vega. pegas bíblicas. An Introduction to the Autos Sacramentales. Nao era possivel julgar Calderón com justica antes de se descobrir ou redescobrir o Barroco. Menéndez y Pelayo: Calderón y su teatro. Trench: On the Life and Genius o/ Calderón. correspondentes a motivos de Lope de Vega ou de outros dramaturgos anteriores. Madrid. dargestellt und erlaeutert. como Los cabellos de Absalón. a poderosa tragedia da reabilitagáo da honra do simples cidadáo perante o rei. Elberfeld.) A. Pedro Calderón de la Barca. Madrid. vols. 1910. 1924. como La aurora en Copacabaña ou La devoción de la Cruz. 1949.) A. W. no entanto. Nessas pegas. Rubio y Lluch: El sentimiento del honor en el teatro de Calderón. A secreto agravio secreta venganza. Hoje. quase o odiava. Thomas: "Le Jeu de scene et l'archltecture des idees dans le théátre allégorique de Calderón". como El Alcalde de Zalamea. 2. sao refundieses de pegas de Lope de Vega. Calderón revela logo grande superioiidade na construgáo dramatúrgica. como El puente de Mantible. De Calderón é a lógica implacável da aplicagáo. e sim das convengóes e conceitos. (In: Historia de la literatura española. pegas do ciclo da cavalaria. A. e por L. 1857. 1880. LVHI) e por A. Madrid. diverso do que observamos em Ruiz de Alarcón: nao sao prisioneiros dos seus próprios atos. O conceito fetichista de "honra" nao é invengao de Calderón. XII. (Je efeito irresistível no palco. C. Pedroso (Biblioteca de Autores Españoles. Oxford. L.) W. o representante do Barroco popular. 1924. a atmosfera sombría. é antes invengao de Lope de Vega. Barcelona. Cotarelo y Mír: Ensayo sobre la vida y obras de D. Calderón. (2. tratando o mesmo enredo de King Henry VIII. todos ésses elementos barrocos . Astrana Marín. M. Algumas pegas de Calderón. 1843. Madrid. 1915.786 OTTO MARÍA C A R P E A U X HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 787 sentido contrario. que o ambiente lhes impoe. A linguagem ricamente metafóricas. de Shakespeare. Pegas de historia antiga ou estrangeira. Menéndez y Pelayo. tragedias de horror que causaram tanta repugnancia a muitos críticos estrangeiros e que sao. Edlcao: Comedias: por I. e vice-versa. Schmidt: Die Schauspiele Calderons. (In: Homenaje a Menéndez Pidal.* ed. Parker: The Allegorical Drama o/ Calderón. pegas de exaltagáo religiosa. 1929. 1881. segundo o lema da arte de Calderón: "hacer más representable el concepto". Só resta fazer a tentativa de explicar o teatro de Calderón como conseqüéncia lógica do teatro lopista. Abstraindo-se da última fase.-P. Frutos Cortés: Calderón de la Barca. o representante do Barroco literario. (In: Revue híspanique. El médico de su honra. desprezava Calderón como construtor esquemático e espirito seco. a abundancia de decoragáo cénica. Blanca de los Ríos: De Calderón y su obra. Neste grupo — cume do teatro espanhol da "rotina" — encontram-se muitas das pegas mais famosas de Calderón. Torino. W. IX. como La gran Cenobia ou El cisma de Inglaterra. A. 1882. Valbuena Prat (Clásicos Castellanos. 1937. Enfim as "pegas de honra". religiosos ou sociais. os fortes contrastes. V. Madrid. Barcelona. Os románticos que compararam Calderón a Dante e Shakespeare. London.

segundo a doutrina da Encarnacáo. Entao senté o espectador que. Antes que todo es mi dama. Evidentemente. a tragedia do mártir da fé. Sigismundo revela o seu caráter táo terrivelmente tiránico que é preciso encarcerá-lo de novo. sempre repetido. As alegorías." Ésse idealismo filosófico enforma as maiores tragedias de Calderón: El príncipe constante. Mas o dogma católico nao admite a perversao total da natureza humana: deixa sempre aberta a porta a Graca e á conversáo. que tornam os autos leitura fría. A Valbuena Prat: Literatura dramática española. A suprema vitória da sua arte de "hacer más representabas los conceptos" da teología manifesta-se ñas alegorías dos autos. O hornera sofre do pecado original: " E l delito mayor del hombre es haber nascido. afastado do mundo. a honra do príncipe cristao e a do marido que se acredita engañado é a fórca de resistencia dos estoicos. em Calderón. doutrina da qual El mágico prodigioso é a tragedia. Casa con dos puertas. Guárdate del agua mansa. 1930. Nessas pegas. e o capítulo de A. 68) Cf. . guarda sempre o livre-arbitrio. até engenhosas demais. Apesar do riquíssimo talento cómico de Calderón. com o fatalismo dramático. Mas nao é possivel fugir ao Destino: no primeiro contato com o mundo que se lhe permite. trata-se do fatalismo de um católico bem ortodoxo. citado em nota 67. acalmando-o pela sugestao de que aqueles momentos de liberdade eram apenas sonho. El escondido y ¡a tapada. Peor está que estaba. a ciencia. das convencoes sociais. No siempre lo pioi es cierto. com o estoicismo barroco. Mejor está que estaba. lembrando-se " . ou ilusao demoníaca. para explicar o caráter ilusorio da vida e do mundo (* 8 ). mesmo ñas comedias. é o saber. e até urna teoría epistemológica. É urna ligao ideológica. o único tema. Calderón serve-se de um aparelho ideológico mais complicado do que se pensava antigamente. todo o mun- . algo parecida com a de Descartes. no meio das florestas. sacramentáis. do Demonio. e quando a revolugao liberta o principe e o pai derrotado se encontra aos seus pés. . o dogma católico. chegando a depor o próprio pai. Para conciliar ésses dois conceitos. transformacao da historia do tirano Herodes em tragedia de mártir dos seus erros. é o fatalismo. los celos. é a redengao. vivificam-se de maneira mais surpreendente quando representadas. Sigismundo se vence a si mesmo. receando as profecías dos astrólogos de que o filho se tornaría tirano. e El mayor monstruo. conceitos do estoicismo de Séneca para explicar psicológicamente a resistencia á conversáo. nao chegamos á alegría despreocupada em face dessas complicacóes engenhosas. quando o seu teatro era considerado apenas como r e p r e s e n t a d o dramática do dogma católico para a catequese pública. a ciencia que liberta do Fado. A "liberdade" desenfreada do teatro lopista cboca-se. dos autos. ou entáo comedia meramente alegórica (El Gran Teatro del Mundo). Todos ésses motivos reúnem-se na obra capital de Calderón: La vida es sueño. La cena de Baltasar ou El divino Orfeo. Valbuena Prat. y los sueños sueños son. O que éles aborrecerá. como tentacao demoníaca. Barcelona. Por isso. El gran teatro del mundo ou La viña del Señor. Aquela mesma limitagao da liberdade de agáo rege as famosas "comedias de capa y espada": Dama Duende. O fundo filosófico. no fundo sempre se trata do mesmo tema do maior dos "autoc": Misterios de la Misa. entram conceitos da neo-escolástica de Suarez para defender o livrearbitrio contra o Fado dramático. feita "representable" na Eucaristía.788 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 789 servem para encobrir e revelar o tema principal de Calderón e do teatro espanhol: a liberdade de agao das personagens é diminuida. limitada pelas intervengoes da Graga divina. Banda y flor. Calderón admite só urna ciencia: a teología. que toda la vida es sueño. O rei Basilio mandou educar seu filho Sigismundo numa torre." Dai o pessimismo trágico de Calderón: a vida Ihe parece sonho confuso.

790 OTTO MAKIA CARPEAUX- HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 791 do visível está inteiramente santificado. em música. está além das tentagoes. a sua ideología teria sido o catolicismo dogmático dos autos. Castro: Prólogo da edicáo citada. fogos de artificio e muita música. aliando-se ao poder dramático. IJV. Toledo. Nao há nada que esteja mais longe da Antiguidade clássica do que essas pegas de assunto clássico. Ñas suas pegas profanas. Contudo. bailados. sentimental ou arbitrario em Calderón. a "latens Deitas". No hay ser padre siendo rey. assim entre os discípulos de Calderón existem lopistas. El Caín de Cataluña. por Am. parece convencional. Cotarelo y Mir: Don Francisco de Rojas Zorrilla. La traición busca el castigo. o mundo se decompoe em sonho e ilusáo. . La viña de Nabot. talvez por isso. 69) Cí. como no teatro jesuítico. Lo que son mujeres. porque o homem redimido já nao precisa disso. Casarse por vengarse. é antes o defeito principal da sua arte a substituicáo do simbolismo pelo realismo intelectualista das alegorías. Tampouco é fantástico o seu estilo. Calderón prefere com o b s t i n a d o o mundo da mitologia paga: paganismo alegórico. nada de romantismo. que ele aprenderá com os jesuítas. vol. e a de Calderón. Bravo Carbonell: El Toledano Rojas. Donde hay agravios no hay celos. superioridade das 70) Francisco de Rojas Zorrilla. antes por decoracoes fantásticas. Calderón como poeta románt i c o . cumpriria distinguir tres formas da poesía culterana: a de Góngora. históricos e romanescos. Duas comedias (Cada qual lo que le toca e Viña de Nabot) edit. porque nao é realmente real. J. contra todas as convengoes teatrais da época. 1607-1648. Um "além Calderón" nao existe. nos autos. porém. Calderón nao é gongorista. e até d a mitología paga. Assim como entre os discípulos de Lope de Vega existem calderonianos avant la lettre. de escolher a outra alternativa e matar a mulher. mais conhecido pelo título Abajo del rey ninguno. nota 29. E. Nos autos. Castro. 1908. Am. a de Jaureguí. e contudo nao pode vingar-se da pessoa sagrada do monarca. como no teatro jesuítico. é um dos dramas mais fortes do teatro espanhol: o confuto do herói que suspeita de amores entre sua esposa e o reí. 1911. O homem. como Mira de Amescua. mas é realmente trágico. Para Calderón. Os románticos sentiam. o problema do livre-arbítrio deixa de existir. Daí a frescura poética. García nao se senté capaz. em ópera. servem para "representar" o inefável. ilustrado pela ciencia divina (La estatua de Prometeo). o dogma representava a suprema realidade. de Francisco de Rojas ( 7 0 ). que assim parecía antes de ser bem conhecido e definido o estilo barroco. 1917. em Francisco de Rojas. Don García del Castañar. etc. surpreendentes: independencia moral da mulher. ñas últimas pegas m i tológicas. 1645: cf. Madrid. sentímento de honra sem fetichismo. Edicáo: Biblioteca de Autores Españoles. e o fim. Nao há nada de subjetivo. Entre bobos anda el juego. o inefável. Calde- ron realista. como demonstra a dramatízagáo das aventuras de Ulisses em El mayor encanto el amor. como nos jardins de Semíramis (La hija del aire). tudo no mundo é real em funcao das suas relagSes com a divindade. e protestantes modernos nao podiam deixar de ver romantismo fantástico em urna fé táo estranha para éles. Jaureguí estoico. que dentro da nova disciplina dramática conservara a fórca elementar do gósto popular. é Góngora naturalista. (Abajo del Rey ninguno). por urna arte incrível de cenografia. Essa inovagao original faz parte. Madrid. realista no sentido da filosofía escolástica. Interpretando-se ideológicamente essa distincao. mitología puramente decorativa. porque D. nota 71): D. Daí a renuncia á palavra. vive num reino ácima da realidade. Ñas suas últimas pe^as. assuntos bíblicos. e nada mais. Segundo um apergu de José Maria de Cossio ( 0 9 ). de um sistema de originalidades dramáticas. Garctía del Castañar. só é real o que nao pode ser dito. Comedias (1640. num mundo encantado que já nao é possivel "hacer representable" por palavras. Abre el ojo.

cual urna das m a i s f o r t e s t r a g e d i a s d e h o n r a d o t e a t r o e s p a n h o l . p e r d i d a s ñ a s g r a n d e s colecóes d a é p o c a ( " ) . d e C u é l l a r ( 7 8 ) . é t a o p e r f e i t a m e n t e c a l d e r o n i a n a q u e já foi a t r i b u i d a a o m e s t r e . 72) Juan de la Hoz y Mota. s e m p r e r e p e t i d o s . Edicao: Biblioteca de Autores Españoles. Vivendo alguns anos mais.. inconfeso y mártir. XLVII. o teatro espanhol tem aspecto uniforme. O u t r a pega d e Coello. n a v i v i ficacáo t r á g i c a d a l e n d a c o m o e m Caín de Cataluña. Madrid. 1622-1714. 1666. 74) Antonio Coello. 1918/1919. El pastelero de Madrigal. c o m o si f u e r a n de títere. d e T h o m a s C o r n e i l l e . E. Pérez de Montalban. d e J o h n B a n k s . El castigo de ¡a miseria. do classicista alemao Schiller. vol.- 792 OTTO MARÍA CAHPEAUX H I S T O R I A DA L I T E R A T U R A OCIDENTAL 793 relagÓes f a m i l i a r e s s o b r e as s o c i a i s — é uro h u m a n i s m o diferente do de Ruiz de Alarcón. Urna c o m p a r a g á o assim. o dar la vida por su dama. (In: Boletín de la Real Academia Española. d i o aquela mesma impressao que Mer e d i t h r e c e b e u d o t e a t r o e s p a n h o l i n t e i r o . Cuéllar. El montañés Juan Pascual. f o n t e d o Zapatero y rey.. Francisco de Rojas t e n a sido u m d o s maiores dram a t u r g o s d a l i t e r a t u r a u n i v e r s a l e a s u a o b r a a s i n t e s e definitiva dos elementos do teatro espanhol. 1611-1682. lo r á p i d o d e l o s m o v i m i e n t o s . H o z y M o t a ( " ) c r i o u e m El montañés Juan Pas71) As obras dos dramaturgos espanhóls do sáculo XVII foram editadas com descuido incrível. XIV. f c. revelando-se também no p o p u l a r i s m o d e pegas b í b l i c a s c o m o La viña de Nabot. com Calderón: Yerros de naturaleza y aciertos de la Fortuna. y Primer asistente de Sevilla. hoje a b a n d o n a d o s . e o Demetrius. El celoso extremeño. O s efeitos cerneos. e q u e A z o r í n cit o u : " l o p r e c i s o d e l o s c o n t o r n o s c o m o si f u e r a n d e e s q u e l e t o . Edicao em: Biblioteca de Autores Españoles. na verve d e urna c o m e d i a c o m o a fam o s a Donde hay agravios. p o d e r i a i l u s t r a r d a m a n e i r a m a i s e x a t a o s i s t e m a e a s c o n v e n g o e s d o t e a t r o e s p a n h o l . Cotarelo y Mir: "Don Antonio Coello". e a tragedia solene. d e c o l a b o r a g a o d e v a r i o s " i n g e n i o s " ou d e a n ó n i m o s . A m é r i c o C a s t r o fala de e r a s m i s m o p o s t u m o . S e b a s t i á o d e P o r t u g a l . Vélez de Guevara. 58 vols. encontram-se publicadas na colesSo Comedias nuevas escogidas de los mejores ingenios de España. p ex. c o m p a r a n d o o Conde de Essex. o q u e só t e m o valor d e urna a p r o x i m a c á o . mas sempre c o m o poder de construcáo calderoniano. no hay celos. e o Essex i n g l é s . O m e s m o p o e t a r o m á n t i c o do s é c u l o X I X t i r o u o e n r e d o da sua pega Traidor. j á a fez L e s s i n g . A o t e r m i n a r o s é c u l o X V I I . n o s é c u l o X V I I I . A p e n a s a l g u n s n o m e s s o b r e v i v e m m e l h o r def i n i d o s . r e a l m e n t e m e d i o c r e s . É e n o r m e o n ú m e r o d e p e c a s s u p o r t á v e í s o u a p r e c i á veis d e a u t o r e s s e c u n d a r i o s . Cl. Na edicao das obras de Lope de Vega encontram-se numerosas pecas de outros autores. L a comedia española p u e d e ser representada 73) Jerónimo de Cuéllar. n e s s e d i s c í p u l o d e C a l d e r ó n vivem os i n s t i n t o s p o p u l a r e s e d e m o cráticos de L o p e de Vega. El conde de Essex. p a r t i n d o p o r é m d e p o n t o s d e v i s t a a r i s t o t é l i c o s . e muitos o aprenderán!. Hoz y Mota. o Perkin Warbeck. Francisco de Rojas. lembrase também o caso do volume II das obras teatrals de Tirso de Molina. Los empeños de seis horas. tete grande repositorio é a íonte principal para o conhecimento dos dramaturgos menores: Coello. d o elisab e t a n o J o h n F o r d . XLIX. N a v e r d a d e . Cubillo. vol. Na dramaturgia calderoniana existe u m elemento esquemático que é possível a p r e n d e r . Multas pecas de Lope de Vega. mas que tampouco deixa d e s e r m a i s h u m a n o d o que t o d a a d r a m a t u r g i a e s p a n h o l a . retórica e bem construida do c a l d e r o n i a n o e s p a n h o l l e v o u v a r i a s v a n t a g e n s sobre a s o u t r a s . Mira de Amescua. varias pecas em colaboracfio com outros dramaturgos. 1652/1704. m a i s urna t r a g e d i a p o d e r o s a : a c o m p a r a c á o da pega c o m d u a s o u t r a s d e e n r e d o p a r e c i d o . d o Pastelero de madrigal. a h i s t o r i a d e u m falso D. vols. e i s t o j á s e m a s i n t e n g ó e s i d e o lógicas de Calderón. Los empeños de seis horas. etc. d e Z o r r i l l o .) . d e A n t o n i o C o e l l o ( 7 4 ) c o m o Essex f r a n c é s . El Abraham castellano y blasón de los Gusmanes. Cada cual a su negocio y hacer cada uno lo que debe. Guillen de Castro. XLV LTV. no h u m o r i s m o a b u n d a n t e d e c o m e d i a s c o m o Abre el ojo e Lo que son mujeres. Biblioteca de Autores Españoles.

A sua comedia El desdén con el desdén. Entao já nao era possivel escapar á transformacao da comedia em bailado e ópera. 78) Alvaro Cubillo. outra descoberta de Valbuena P r a t : t um dos últimos poetas gongóricos e. ver em Moreto (**) apenas um dos representantes do mesmo estilo dramático. Poemas: El César Africano. e porque a obra dramática de Moreto apresenta varios outros aspectos interessantes. La vida de San Alejo. fantásticas. X . Valbuena Prat (Clasicos olvidados. Francisco Antonio de Bances Candamo. ao mesmo tempo. X R. Edlc'ao por A. V. A tentativa de Solís ( 75 ) de aproximar-se da comedia moralista á maneira francesa nao encontrou sucessores. Madrid. compara-o ao diretor de um teatro de bonecos representando num jardim do Rococó. ainda incapazes de distinguir bem personalidades e correntes.) 77) Agustín Moreto y Cavana. Madrid. Trampa adelante e El lindo Don Diego sao comedias de irresistivel efeito cómico. T u d o é jógo de imaginacáo. Hoje agrada menos. La adúltera penitente. La adúltera penitente. 7B) E. Nao é justo. El lindo Don Diego. La ocasión hace al ladrón. Philadelphia. meio clássico. urna das melhores comedias de santos do teatro espanhol . Moreto nao dá as suas pecas rcalidade dramática. de gósto requintado. outra arte. La contusión de un jardín. 1917. porque as refundicoes sao quase sempre superiores aos origináis. 2. Na época. Lee Kennedy: The Dramatic Art oj Moreto. e a descoberta de que a maior parte das pegas de Moreto é refundicáo de pegas de Lope de Vega e cutres predecessores diminuiu-lhe nao pouco a gloria. nota 36. 1898. El valiente justiciero é urna tragedia impressionante. etc. Um precursor désse último estilo teatral espanhol é Cubillo ( . vol. Canción del Tajo. Madrid. Cotarelo y Mir: Orígenes y desenvolvlmento de la ópera en España hasta 1800. do seu diálogo. finíssima e algo preciosa. etc. 75) Antonio Solis y Rivadeneyra. talvez porque o estilo urbano. poderia ser comparada as comedias de Mari vaux. Cotarelo: "Alvaro Cubillo". Edlcao: Biblioteca de Autores Españoles. se bem que nao fantástico e sim regulado pelas normas estritamente lógicas da dramaturgia calderoniana. 1932. Cuervo Arango: D. É algo injusto isso. 3QE3EDC A.. 1596-1661. O salto para a pura fantasía foi dado por Bances Candamo ( 7 8 ). Quando. c. (In: Boletín de la Real Academia Española. Vol. Caer para levantar. ofereceu menores dificuldades de compreensáo. El valiente justiciero. entusiasmaramse por Moreto. 1919. E. Pecas: La piedra filoso/al. El esclavo en grillos de oro. pela elegancia do diálogo e a musicalidade do ritmo cénico. no sentido de criar comedias intencionalmente irreais. 1916. no coméco do século XIX. . foi traduzida para todas as línguas (as vézes com o título Dona Diana). El rapto de Elias. El Señor de Noches Buenas (1654). F. Trampa adelante. vol. os románticos descobriram o teatro espanhol.» ed. Gassier: Le théátre espagnol. que o redescobriu. 1618-1669. mais suntuosa e mais fantástica. além da comedia de alta sociedade. Essa crítica acerta apenas no que diz respeito á última fase da evolucao. a sua arte esquisita é capaz de impressionar críticos exigentes. estudio biográfico y critico. porém. um dramaturgo que reúne a música verbal de Góngora e a cenografia fantástica das pegas mitológicas de Calderón. Valbuena Prat. Primero es la honra. Apenas. Las muñecas de Marcela (1636). Hoje. 1918. R. El licenciado Vidriera. e ) . Pérez de Ayala: Las máscaras. venceu no palco a palavra: foi a ópera ( TB ). París. y el recuerdo que deja su lectura se define con algo así como el agitado arrastar de muchos pies". CI. Nos pri78) Francisco Antonio de Bances Candamo. é urna das poucas comedias espanholas que conquistaram lugar no repertorio internacional. Madrid. 1928. 1662-1704. 1610-1686. JH). El desdén con el desdén. San Gil de Portugal de Moreto. Los siete durmientes. mas salienta-lhe as qualidades de poeta menor. Só ficou a possibilidade de submeter-se conscientemente ao trend.794 OTTO MABIA CARPEATJX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 795 por un cuerpo de baile.

é produto das mesmas tendencias de "representagao viva" que se impuseram ao teatro católico dos jesuítas e espanhóis. que aspirava a transformar a língua em música verbal e enfim em música. A O romance poético nao desaparece por isso. t í o impropria para exprimir o desejo do idilio. aínda pior: o romance heróico-galante. Mas éste já prepara o romance psicológico. O mesmo fenómeno — a vitória da ópera italiana — foi menos sentido na própria Italia e em Portugal. do romance pastoril em drama pastoril: Arcadia e Diana sao substituidas por Aminta e Pastor fido e as suaa numerosas imitagóes. Galluppis. Foi a conseqüéncia lógica de urna aspiragao j u s t a : o teatro da Contra-Reforma é a "representagao". outro género. enfim. os Caldaras. acumulando inúmeras epopéias heroicas e sacras. Tasso. ao amor livre na idade áurea dos pastores e ninfas. o teatro jesuítico também acabou na ópera. por assim dizer. encomendaram-nas a Metastasio. fim que ao teatro espanhol estava predestinado desde a transformagao do teatro popular pela sintese de Lope de Vega. mas a forma dramática serve aos poetas aristocráticos do drama pastoril para exprimir o hedonismo. No centro da civilizagáo barroca está o teatro. sem grande importancia na Renascenga. o soberano do teatro espanhol foi o castrado italiano Cario Farinelli. A própria ópera italiana constitui a última fase do teatro barroco. antes da redescoberta do Barroco. da evasáo. o criador do drama pastoril. EPOPÉJAS. O drama pastoril. é urna das expressoes mais típicas do Barroco: o emprégo da forma dramática. O drama pastoril é um hiño. romántica. porque estes países nao possuíam teatros nacionais. Ao contrario. o valor literario dessas produgoes é quase nulo. Com ele e depois vieram os compositores italianos. ou melhor: teatral. o "hacer representable" da poesia culterana. e todo o século X V I I Ihe acompanha o esfórgo. Contis. recalcado pelas exigencias moralizadoras da Contra-Reforma. Domenicos Scarlatti. CAPITULO III PASTURÁIS. Mas "a destruiglo do teatro nacional pela influencia nefasta da ópera italiana" nao passa de um lugar-comum da historiografía literaria.\ 796 O T T O MARÍA CARPEAUX meiros anos do reinado da casa de Bourbon. sacrificara a vida á criagao da grande epopéia. EPOPÉIA HERÓI-CÓMICA E ROMANCE PICARESCO índole da literatura barroca é dramática. clandestino. e quando se precisou de palavras. que comega por volta de 1580. É síntoma dísso a transformagao. . Do cruzamento entre romance pastoril e epopéia heroica nascerá. conseqüéncia lógica e fatal das premissas do teatro da Contra-Reforma.

um Mateo Alemán. e isso era importante para os teóricos aristotélicos do "hedonismo inocente". de Bouchaud: La pastorale italienne. é hoje lido sómente para fins eruditos e em trechos seletos. reconhecimento de urna personagem que se julgava perdida. Torlno. epopéia heróicómica e romance picaresco sao tentativas independentes. e cenas semeIhantes encontram-se ñas "Rappresentazioni sacre" italianas. é a primeira das varias tentativas esquisitas de ressuscitar. Pelo racionalismo subversivo da crítica. Mas isso é mera aparéncia. que já anuncia o século X V I I I e até a Revolucáo. em cuja árvore geneológica também aparece — lembra-se o caso de Fielding — a epopéia heróicómica. elemento caracteristico da mentalidade barroca. Aínda por muito tempo. Mas. mas o género é falso e morto. O Aminta. XV. o moralismo da solucao final servíu bem para justificar o erotismo livre da vida na "natureza". Tasso. Caduccl: SulVAminta del Tasso saggi tre. os dois géneros parecem antibarrocos. nao se revolta. mas o abuso que déle fizeram representantes lamentáveis e ridiculos. e por O. acusando a sociedade. cf. burguesa ou popular. O Aminta pode ter valor. de Agostino Beccari. mas a sentenga da historia parece inapelável. fato relacionado com o erotismo do género. expressoes de urna oposisáo. No fundo. 1) P. do seu amigo. nao racionalismo da Ilustracáo. pseudo-heróicas. o romance picaresco dá a impressao de crítica subversiva. Lipparini. a Canace. Ovidio continuava fonte de enredos da poesía pastoril. e o romance picaresco será. Solerti. Milano. ao mesmo tempo. através de Cervantes e Defoe. o drama pastoril e novas formas do romance. por meio da "favola pastorale". o precursor do romance moderno. nota 11. foi o modelo imediato do suave Aminta. de Gregorio Correr. Pela "favola pastorale" os críticos contemporáneos acreditavam restaurada a tragedia de Sófocles. Saint-Amant — e muitos sao literatos a servico de cortes. Edisoes por A. 1901. dramatizacáo de urna metamorfose de Ovidio. na verdade. Cenas pastoris aparecem primeiro nos Misterios medievais relativos ao Natal. de modo que só lhe resta a resignacáo estoica. o romance picaresco revela a miseria popular na base da sociedade aristocrática. 1896. A pré-história da "favola pastorale" ( ' ) percorfeu varias fases curiosas. no sentido aristotélico em que foi entáo interpretada: confuto e complicacáo por equívocos. ñas escolas.I 798 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 799 As tendencias antitéticas dentro do Barroco produzem. de Speroni. pelo material utilizado e pelas conseqüéncias. Varias vézes os autores de epopéias herói-cómicas também escreveram epopéias serias — assim Lope de Vega. E entre essas novas formas encontram-se duas que parecem até "oposicionistas" — a epopéia herói-cómica e o romance picaresco — porque pouco compatíveis com o aristocratismo da época. Enfim. mas paralelas. G. de resolver conflitos barrocos com meios de expressao barrocos. a tragedia grega. Brébeuf. 1920. epopéia heroica. Drama pastoril. O enredo — Aminta. profunda demais é no picaro a conviccáo da corrugáo irremediável de todas as instituicoes humanas. A mais famosa e mais discutida tragedia "aristotélica". é racionalismo barroco. o Hudibras. Firenze. vol. é até sátira contra a burguesia puritana. outrora famosíssima na Europa inteira — só em língua francesa havia 20 traducóes — nao é j u s t o . O Sacrificio (1557). A epopéia herói-cómica zomba das pretensoes aristocráticas. Os pastores da noite de Natal foram substituidos por pastores pagaos na Progne. Aminta (1573). de Samuel Butler. 1925. sao famosos os dois Shepherds' Plays do "Towneley cycle". O descrédito da obra. O racionalismo da epopéia herói-cómica nao ataca o ideal heroico. porque a miseria popular e as injusticas sociais lhe fornecem o assunto.) . (Opere. catarse e solucao. porém. de Tasso ( 2 ). invocando o bom senso burgués. 2) Sobre Torquato Tasso. París. em nome da Restaurasao vitoriosa dos Stuarts.

" Evidentemente. (In: Critica e Storicismo. Marcazzan: "Guarini e la tragicomedia". e entre elas há outra grande obra de arte. . mas justamente éste coro revela que nao se trata de mera música verbal. o "tirano do vulgo". infeliz porque Mirtillo nao quer ouvir falar de amor. no Pastor íido. é uro Aminta feminino. idol d'inganno: Quel che da '1 volgo insano Onor poscia fu detto. mais urna vez. che '1 sol si muore e poi rinasce. o "Deus nobis haec otia fecit". " . injustamente caluniada: o Pastor íido. e a revolta do amor livre contra o moralismo da ContraReforma. A falsidade da vida e dos diálogos de cortesáos. . urna verdadeira maravilha de arte. M. tais como o famoso "O bella etá de T o r o . . por exemplo. Quell' Ídolo d'errori." A essa imagem noturna. II Pastor /ido (1690). V. Edisáo por G. ou antes. ei lvce. " . transformando-se. Bari. conquista-a por urna serie de intrigas — é da maior banalidade. enfeitado corn descricóes románticas da natureza e alusoes meio lascivas. Le t e r r e . o "Carpe diem!". Bergamo. as reminiscencias tassianas s i o numerosas e evidentes. é evidente. . de Guarini ( 3 ). . mal escondendo a lascivia que vai. é a revolta de um espirito anárquico contra a ordem aristocrática. até 3) Giambattlsta Guarini. É realmente urna imitagáo: a pastora Amarillis. O sucesso gerou as imitacoes. porque naquela época fabulosa nao existia " quel vano Nome senza soggetto. Che di nostra natura il feo t i r a n n o .) . a me quest' ozio ha fatto Dio". o poeta opoe a recordasao "platónica" da " bela etá de l'oro! Non giá perché di latte Se *n corsé il fiume. Non perché i frutti loro Dier. E invecchiando intristisce.800 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 801 apaixonado pela pastora Silvia. Rossi: Giambattista Guarini e il Pastor Fido. Torino. 2. o mesmo petrar"quismo pseudoplatónico. As numerosas reminiscencias de literatura antiga sao transfiguradas por urna música verbal que nao se encontra nos origináis. se bem que nao de ordem dramática e sim de ordem lírica. disfarcados em pastores. e '1 sonno eterna notte adduce. A noi sua breve luce S'asconde." Nessa melancolía decadentista do idilio sensual reside o encanto lírico do Aminta. Che Natura scolpl i S'ei piace. Brognoligo. 1638-1612. de Virgilio. que nao quer saber nada do amor. A música verbal chega á culmináncia nos coros. Apesar de tudo isso.» ed. 1926. " E se nao fósse essa Honra. O lirismo de Aminta é resultado de conflitos numa alma sensitiva e angustiada. encarnada no conceito "Honra". e n t i o revigoraria a " legge áurea e felice. é o Aminta urna obra de arte requintadíssima. 1914. 1945. A "filosofia" do idilio é um lugar-comum horaciano. em " O Dafne. Aquéle coro parece. mas consciente de que " il mondo invecchia. Rime (1598). . da l'aratro intatte. e stilló melé il bosco. advertir da brevidade da vida humana e aconselhar o amor como ele foi na idade áurea: "Amiam.

Rosa (1621). 1563-1608. 5) Guidobaldo Bonarelli della Rovere. Greg: Pastoral Poetry and Pastoral Drama. A. I) W. Os ingleses. do malherbiano Honorat de Racan. Um crítico tao severo e de tao pouca compreensáo do Barroco como August Wilhelm Schlegel chamou ao Pastor fido "producao inimitável". e de salvar. e fez Jaureguí urna traducao magistral do Aminta. grande pelas qualidades cénicas. é o primeiro e maior dramaturgo barroco da Italia. contraste eficiente com o erotismo indecente. Modena. Na Eepanha. e os contemporáneos falavam em novo Sófocles ou Séneca. no Alceo (1581). 1630).802 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 803 a alusoes obscenas. Ferrara. 1571-1627. G. que nao atravessou as fronteiras da península porque estava escrita em dialeto napolitano. A arríere-pensée escondida no género manifesta-se pela última vez nos Filli di Sciro. . Mais urna vez. os pastores em pescadores. Filli di Sciro (1607). Marsan: La pastorale dramatique en France á la fin du XVle siécle et au commencement du XVIIe siécle. A "favola pastorale" italiana (*) esgotou-se na imitacao dessas duas obras-primas. as Bergeries (1618). Scipione Di Manzano (Aci. Ferolla: Giulio XVII. B. Enfim. O Aminta fóra um poema lírico dialogado. Ottone: La Filli di Guidobaldo Bonarelli e la poética del dramma pastorale. considerado como precursor de Corneille. O enredo da sua "favola" é complicado pela intervencao de oráculos e do Fado. as possibilidades "rústicas" do género salvam. Lembrando-se das églogas piscatorias. 1600) e Francesco Bracciolini (Ero e Leandro. discutindo-se de maneira quase calderoniana o livre-arbítrio. 6) Glullo Cesare Córtese. de Jean de Mairet. como De Sanctis o acusou. solenemente. 1604). escreveram semelhantes "favole 4) A. a Rosa. París. foram famosas a Silvie (1621). enquanto o Pastor fido fór capaz de encontrá-los. Campoll: Commentario della vita e delle opere di Ouldobaldo Bonarelli. deixou ainda um Alcée. Em compensacáo. diferente: o lirismo musical substituido por urna "música de concetti" gongoresca. Leitores modernos. de certa maneira. e na observacao dos costumes dos camponeses da regiáo de Ñapóles — assim como no atraente poema dialetal de Córtese. • * . 1907. 1909. As aparéncias religiosas justifican! o naturalismo erótico. por meio de efeitos teatrais. London. dos pastores. Nisso. Nao é. Bergamo. Alexandre Hardy. do "précíeux" Gombauld. 1906. poema rustico Vajasseide (1621). Mas Guarini é superior a todos os libretistas na arte de conduzir o fio dramático. tém mais que dizer do que os pastores de Tasso: Guarini é um psicólogo requintado do amor. 1905. O tipo comum foi cultivado por Chiabrera (Alcippo. Napoll. E. e pela intervencao do amor vicioso da meretriz urbana Corisea. A falsidade pastoril é a mesma. problemas que já era desaconselhável discutir. souberam assimilar de maneira mais perfeita o género estrangeiro ( s ) . 1931. Os pastores de Guarini já falam como poetas culteranos. a Amaranthe (1631). 1875. mas inocente. Milano. escreveu Lope de Vega o Verdadero amante. Mazzolenl: La poesía drammatica pastorale in Italia. de Córtese ("). W. O Pastor fido ensinou á Europa inteira a arte barroca de resolver. o estilo. poeta napoletano del secólo 7) J. o precursor da musicalidade vazia de Metastasio. a Vajasseide — reside a originalidade relativa de Rosa. marittime". Carrara: La poesía pastorale. como sempre. Essas c o m p l i c a r e s dáo a Guarini oportunidade de realizar qualquer coisa como urna tragedia fatalista. O drama pastoril conquistou a Europa inteira. de Bonarelli ( 5 ) : o amor simultáneo de urna moca a dois pastores foi motivo de censuras e de entusiasmos. porém. 1604) e Giulio Malmignati (Ciorindo. Na Franca ( 7 ). chamar-lhe-iam antes "ópera" sem música. Cesare Córtese. 1888. Antonio Ongaro transformou. o conceito cristáo do matrimonio.

Marenduzzo: La vita e le opere di Torquato Tasso. G. . C. Também n3o foi por acaso que Goethe o celebrou na tragedia Torquato 11) Torquato Tasso. Solerti. O drama pastoril. 2 vola. Roma. 18TO. 2 vols. Torlno. O fim dessa evolucáo assimiladora é o Comus (1634). Os séculos passados compararam-no a Homero. aos Leeuwendalers (1648). Cervellinl: Torquato Tasso. Gerusalemme Iiberata (escr. de Thomas Randolph ( 9 ). Dialoghi (1580/1592). 1943. Moore Smlth: "Thomas Randolph". 2 vols. nota 2. E. e havia quem gostasse de colócalo ácima déstes. Foi considerado como "o último grande clássico". com duas obras-primas do pastoril dramático. Llvorno. a servido da moral puritana. evidentemente. Pisa. de Vondel. 2 vols. porque nessas comedias deliciosas o género já está perfectamente anglicizado. 2 vols. G. Firenze. 2 vols. A traducao do Pastor íido (1695) por Dalhstierna é urna data da literatura sueca. 1918/1920. Pisa. em magníficos versos ingleses. Ker: Tasso. é a epopéia barroca. 1921. entre a descendencia do Aminta. Barí. para o heroísmo ilusorio. Mas nao é costume lembrar As You Like Jt e Wintefs Tale. II mondo creato (1592). (Cf. A tradúcelo do Pastor {ido (1678) por Hofmannswaldau marca época na historia da lingua poética alema. de Samuel Daniel. Gerusalemme conqulstata (1592).) Rinaldo (1562). Donadonl: Torquato Tasso. Salnatl: La Úrica di Torquato Tasso. O drama pastoril exprime urna das n e c e s i d a d e s imperiosas dessa aristocracia. Gerusalemme conquistata por L. Wlen. A. ( 1 0 ). o drama pastoril. que exige artificios sutis de estilo e metrificagao. Carducci: cí. Olschkl: Giambattista Guarinl's Pastor íido in Deutschland. Prevltera: La poesia e Varte di Tasso. A literatura holandesa passou. Poema and Amyntas (1638). Edlcao por W. até 1575. Ben Jonson transforma a Arcadia em paisagera inglesa e os pastores estilizados em camponeses da fronteira da Escocia. sao The Faithful Shepherdess (1609). Bologna. Ouastl. Edlcóes: Gerusalemme Iiberata por A. O estilo italiano ainda prevalece na Queen's Arcadia (1605). 1936. 1954. 1930. 1916. 1912/1915. de Shakespeare. B. w. Bonflgll. Teatro por G. D'Ovldlo: Saggi critici. p. 0 M S : Studi sul Tasso. o Aminta e a Gerusalemme iiberata. Caduccl. 1925. K. foi o último grande poeta da literatura italiana que exerceu influencia na Europa inteira. 1895. terconfessional a literatura do sáculo X V I I . e o Amynthas (1633). Nao foi por acaso. 1641). Leipzig. Natal!: Torquato Tasso. Flrenze. Solerti: Vita di Torquato Tasso. 1830. Rime por A. a causa do fenómeno é a uniformidade do espirito aristocrático em todas as sociedades barrocas. 1908. 1544-1595. Tonelli: Torquato Tasso. 3 vols. Kapoll. Kottas: Thomas Randolph. Bonflgll. Solerti.. 1898. que o mesmo poeta Tasso. Flrenze. A outra forma de fuga. de J o h n Fletcher. 1605-1635. (In: Proceedings of the British Academy. Bonanni: Saggio sullo spirito lírico'del Tasso. além das de Shakespeare. 1913.. G. Rime (1592/1593). London. de Hooft. Torquato Tasso ( " ) é dos poetas mais famosos da literatura universal. London. sein Leben und ieine Werke. G. Virgilio e Dante. 1875. A. C. 1581). Messlna. Em The Sad Shepherd or a Tale of Robín Hood (publ. prestou a varias literaturas européias o grande servigo de polir-lhes a lingua. 1951. criou os modelos de ambos os géneros. Bolognft. B. Dialoghi por C. publ.. nota 2. T. Hazlitt.. 1909. Messlna. 1935. O. Déste modo. 1895/1896. 1827. Torrismondo (1587). é urna das fórgas que tornaram internacional e in9) Thomas Randolph. e por L. de Milt o n : o classicismo de Guarini. Flrenze. já privada do poder político: a evasao para o idilio. 2 vols. Intrighi d'amore (1604).» 804 OTTO MARÍA CAHPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 805 Lyly aparece como precursor das formas barrocas: a sua Gallathea é de 1584. brilhante. Rime (1582). As mais belas pastorais inglesas. 1898/1902. da Renascenca ao Barroco: da Cranida (1605). éste em estilo italiano. F. Napoll. A. 1858/1859. Getto: lnterpretazione del Tasso. G.) 10) h. L. Aminta (1573). 2 vols. Torlno. C. forma do Barroco contra-reformista que chegou a integrar-se no Barroco protestante. Barí.

surpreenderáo sempre pelo lirismo intenso. das quais existe número considerável! As pesquisas biográficas nao confirmaram todos os tópicos da biografía romanceada. serviu como suprema consolagáo a literatura de Dante e de Tasso. correspondente á interpretagáo romántica da sua vida: até 1575. a Gerusalemme Iiberata de ponta a ponta. Resulta urna interpretagáo romántica da poesía de Tasso. Onofre em Roma — que assunto para tragedias e novelas románticas. As epopéias nao estáo na ordem do dia. lidos separadamente. nao sem falhas quanto ao moralismo imposto. Tasso teria sido poeta de idilios melancólicos. O nome de Tasso continua famosissimo. e ninguém lera.. imitagáo da Semaine. em 1895. O que pouco nos agrada na Gerusalemme Iiberata é. o crepúsculo melancólico. estío neste caso os episodios de Olindo e Sofronia. e hoje nao se sabe bem se Tasso continua a ser lido em qualquer outro lugar fora das escolas. as perseguigoes da Inqüisigáo. até surgir a . já há muito tempo. mas a sua obra nao é nem urna nem outra coisa. na época do Aminta. o heroísmo convencional. e é muito significativo o fato de Tasso nao se haver tornado vítima de nenhum dos modernos biógrafos profissionais. mas contra a injustiga nao adianta outra injustiga. tudo isso é mais fastidioso que em outra qualquer grande epopéia. da Renascenga. Tasso era. nostálgicos. mas já no tricentenario da sua morte. o amor á princesa Eleonora. por natureza. a "máquina" épica. o seu poema II mondo creato. assim também substituiu as expressóes da fé medieval pela poetizagao requintada da mentalidade contra-reformista. as intervengoes supranaturais. de Du Bartas. Rinaldo no jardim encantado de Armida.. assim como falseou o espirito dos cruzados. noturnas •fio as grandes cenas da epopéia. mas sincera. como em todas as epopéias classicistas. sómente a solugáo de que Tasso estava engañado a respeito de si mesmo." — . Tasso. porque a "máquina" é tomada muito a serio: Tasso escolheu como assunto urna facanha de cavalaria com objetivo religioso — a conquista de Jerusalém pelos cruzados — desejando que a sua epopéia fósse considerada como verdade histórica e profissáo de fé. transformando-os em "cortegiani" renascentistas. Erminia entre os pastores. o crítico italiano Enrico Thovez protestou contra "o culto de Tasso ñas escolas". e a literatura universal tornar-se-ia lamentávelmente pobre se renunciássemos a tudo isso e a tudo mais que nao está em "moda". e as censuras dos críticos seus contemporáneos e as da Inqüisigáo nao eram de todo infundadas. pois. Mas certos episodios. Na Gerusalemme Iiberata. a retórica retumbante. Aquéle romantismo já nos deixa frios. á sombra dos carvalhos seculares do convento de S. é urna obra pouco feliz. as experiencias eróticas e •ociáis e o rr. a loucura e a prisao. Tancredo e Clorinda. depois. Nao é possível duvidar da sinceridade religiosa de Tasso. Urna releitura atenta inspirará a qualquer espirito sem preconceitos nova admiracáo.édo á Inquisigáo te-lo-iam precipitado na melancolía dos escrúpulos teológicos e moráis. Resta. de maneira pouco justificável. Considerava como devogao e penitencia o que era apenas angustia e melancolía. com versos polémicos contra o ateísmo epicureu e a indiferenga religiosa dos humanistas. duramente perseguido e humilhado durante os últimos anos do regime fascista. sem obrigagáo ou imposigáo. No poema sao numerosos os versos de extraordinaria beleza. A sua gloria sobreviveu ao classicismo pela romantizagao da sua vida: os anos de cortesao na brilhante corte renascentista de Ferrara.806 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 807 l Tasso. E m parte é isso urna reagáo saudável: Tasso estava supervalorizado. melancólico e algo místico: na sua obra encontram-se versos bem románticos como nao ocorrem em nenhum outro poeta da época — " come usci la notte e sotto l'ale Meno il silenzio e i brevi sogni errante. e já se observou que Tasso é um poeta da noite. Ao grande crítico italiano Attilio Momigliano.

A contradigao íntima entre a sua natureza e o ambiente moral da Contra-Reforma desvirtuou-lhe as expressoes religiosas. auto-retrato do poeta. fez das foreas divinas e demoniacas. personagem quase shakespeariano. pela observacáo ortodoxíssima das pretensas regras aristotélicas. Há na Gerusalemme liberata um trecho revelador: as armas de Rinaldo estáo suspensas nos ramos de urna árvore. porém. Realmente. Por fim. e sim da ContraReforma para o Barroco. Mas o sentimento de decadencia encontra as suas expressoes mais perfeítas justamente no Aminta. A esséncia barroca da arte de Tasso revela-se bem claramente pela comparadlo estilística com Ariosto (**). mas que foi pelo menos esbozada por Tasso. nao é justo 1er apenas as pegas anacreónticas que estáo em todas as antologías — " T u parti. cedendo ao gósto do trocadilho espirituoso. 13) Th. menos urna: a heroica que Tasso pretendeu escrever. segunda versáo da "liberata". recalcados. por isso. Ali. nota 2. nao tem semelhanca nenhuma com as comedias plautinas da Renascenga. mió ("In aspro esilio e'n dura Povertá"). Tasso é um grande poeta da melancolía. subsistem. na Gerusalemme liberata. é urna tragedia de horrores. o erotismo melancólico de varios outros episodios. Eis a verdade psicológica de Tasso: a sua melancolía é o reverso de dése jos libidinosos. O mundo poético de Tasso é o mundo . pode ser falha.808 O T T O M A R I A CARPEAUX: HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 809 loucura. ei lice") ( i a ) . mas revela-se marinista avant la lettre. sucumbindo á reagáo eclesiástica. o rondinela" e "Vago angellin. O que parecía aos críticos contradicao entre sentimento romántico e forma clássíca é na verdade o espirito antitético do Barroco. Onde Tasso chega a libertar-se das regras classicistas que se impuseram á poesía épica. Spoerrl: Renaissance und Barock bei Ariost una Tasto. A Gerusalemme conquistata. nao com vantagem. Déste modo. 1922. A Gerusalemme liberata. sem a fé profunda de Dante. É grande poeta quando nao é sutil ou retórico. como valores estéticos. porque já passou a Idade Áurea do amor livre e do anarquismo moral ("S* ei piace. e de um lirismo fantástico sem a harmonía de Ariosto. mais próxima de Calderón do que das aspiragoes sofoclianas dos contemporáneos. A melancolía de Tasso é a de urna fase de transicáo. Tasso comegou a duvidar do valor da sua poesía e da razáo de ser da poesía em geral. antea se parece com Tirso de Molina. o caso de Tasso é síntoma do fim do mundo de beleza da Renascen$a. de autoría algo incerta. e o caráter do herói Tancredo. nao volta ás formas renascentistas. urna "selva incantata" como a da Armida. che chiuso" — ou só as odes emocionantes que escreveu na miseria da prisao e do manicó12) Cí. Esta síntese de teología e fantasía é bem característica da atmosfera da Contra-Reforma. e. o poeta lamenta a sua época. sao tratados neo-escolásticos em forma de diálogos platónicos. Naquela "selva incantata" há toda a especie de poesía. discussoes agudas em estilo magnífico sem vestigios de haverem sido escritas no manicomio. A tragedia Torrismondo. mas nao da transigao da Renascenga para a Contra-Reforma. Tasso tem sonetos dos melhores em língua italiana. é um mundo episódico. Quanto á sua poesía lírica. Os Dialoghi. é Tasso o último grande poeta "clássico". A forma clássica da epopéia era para Tasso vaso de urna teología escolástica. mas o vento que as toca produz. transposigao da historia de Édipo para urna Escandinávia fantástica. A poesía de Tasso nao é um mundo completo. urna "máquina" t í o pouco seria como os deuses olímpicos ñas epopéias renascentistas. Toda a obra de Tasso é um imenso artificio do seu virtuosismo técnico. Zuerich. como conjunto. urna doce música. A comedia Intrighi d'amoie. a sensualidade pouco velada do episodio do jardim de Armida. em vez de fanfarras guerreiras. Nesta floresta encantada há muitas imagens lascivas e muitos suspiros melancólicos — "lánguido" e "dolci lamenti" sao palavras preferidas por Tasso. distingue-se. pecando contra a sua natureza poética.

responde-lhes. nao há dúvida de que aquela obstinacao também devia ter motivos profundos. o romance moderno. porque só na Italia o cepticismo popular contra os heroísmos espetaculares já contava com urna tradicáo de séculos. Mas nao é a atitude de bom senso do burgués. com isso. quem afirmava té-Ios ouvido assim. Comeca- ram a pulular onde o processo político-social se iniciara : na Italia. em poema didático. do mesmo modo que a corte do monarca nao deixa influenciar o seu estilo de vida pelo mercantilismo de Colbert e pelo aburguesamento da administragio e da Justiga. mas pelo absolutismo monárquico — comega em Franca a voga das epopéias. conforme urna lenda nao verificada. do jesuíta portugués Luís André de Resende ( t 1573). A aristocracia estava despojada do poder político. se extinguir. os gondoleiros de Veneza lhe recitavam e cantavam as cañones. como a epopéia herói-cómica. menos da parte dos hipócritas do que da parte dos que aderiram sinceramente sem ter certeza íntima da sua própria sinceridade. se bem que em forma diferente e em prosa: é o romance heróicogalante. as epopéias d* heroísmo ficticio sao o reflexo dessa situacao. A Christias (1535). a epopéia herói-cómica. e em muitas imitacoes também é impossível distinguir nítidamente a prioridade do motivo religioso ou do motivo heroico. A paciencia désse esfórco é um problema psicológico que só será possível resolver por meio de futuras análises da mentalidade do homem barroco. porém. tendo encontrado a sua expressáo mais antiga na Entrée d'Espagne. todas as aparéncias de classe privilegiada. A epopéia sacra pertence ao número daqueles géneros que tém precursores na literatura internacional em língua latina. Mas. sacerdotes. foram. nao é crítica social. E n t r e os muitos cemitérios melancólicos da literatura universal é éste o maior. é quase impossível imaginar e explicar a obstinacao de tanta gente seria — estadistas. do virgiliano Girolamo Vida. magistrados. alias. dúvidas estilísticas podem subsistir relativamente ao Vincentius. que sómente na Italia conseguiu algumas producoes de valor superior. apenas se guardam as aparéncias aristocráticas. de Girolamo Fracastoro (14831553). Em nenhum tempo e em nenhuma parte a poesia de Tasso foi tao bem compreendida como na época em que. Resignagao estoica é. Urna religiosidade imposta pela fórga precisava de profissóes de fé explícitas. um dia. o assunto religioso estava ligado ao heroico. no coméco do século XIX. os poetas románticos. essencialmente antiépico. Mesmo sem falar da impossibilidade de 1er aqueles produtos insípidos. Quando a aristocracia francesa se aproxima do mesmo destino que a italiana — nao pela dominacao estrangeira. que também cantou. Mas o número das epopéias heroicas "sans phrase" é muito maior. Na epopéia de Tasso. A epopéia heroica e sacra do século X V I I constituí urna das advertencias mais serias quanto á vaidade de todos os esforcos humanos. e a mais perfeita já em Pulci. como género.•^ 8 1 0 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 811 musical do Barroco. A antítese explícita do romance heróico-galante é o romance picaresco. "ce grand roí bourgeois". quanto ao problema de sociología literaria. Apenas se pretende demonstrar a quantidade dessa literatura e. O elemento lírico-musical. e sim a resignagao estoica do plebeu. e o fragmentario Joseph. a sua fungáo social. é o que distingue a Gerusalemme liberata das inúmeras epopéias do século X V I I . necessária para percorrer aquéle cemitério de epopéias. do ponto de vista do bom senso burgués. deixando-se-lhe. . eruditos — em sacrificar anos e vidas inteiras escrevendo milhares e milhares de versos que logo se transformaram em papel de embrulho. pertencem á Kenascenga. e só será superado em extensao quando. os horrores e remedios da sífilis. Mas ésse género nao sobrevive á vitóría da literatura classicista de Luís XIV. é também expressáo de urna atitude antiaristocrática em face da vida.

de longe. só venceu no país do inconformismo religioso. Der Stü der "Davideis" von Cowley. sao a Década de la Pasión (1579). de Tasso. é a expressao. 15) Diego de Hojeda. de Rodolfo Campeggi. 1911. e o Mondo creato (1592). nota 17. Oxford. "Classlclsmo Barroco". Plerce: The Heroic Poem of the Spanish Golden Age. de Luigi Tansillo. de Antoine Godeau. de Voltaire. mas com "gloria ¡n exceliis". . 1935. que já antecipa. de Juan de Coloma. A primeira tentativa fóra a África. Washington. Doutro lado. com todo o sadismo da imaginacáo barroca e todas as elegancias lingüísticas do marinismo. 1947. Madrid. o erudito Monserrate (1588). A. só esta última qualídade era capaz de salvar algumas das tentativas épicas. e a preponderancia do lirismo. J. nota 14. alias nao a pior entre essas obras. Novo exemplo da autoctonía do estilo barroco na Espanha: a atmosfera sombría do poema. IBA) H. Rada y Oamlo: La Cristiada. do jesuíta inglés Robert Southwell — e. acompanhadas pelas Larmes de Saint-Pierre (1587). A epopéia sacra falhou em toda a parte onde o assunto foi imposto. ou La France chrétienne (1657). o Moyse sauvé (1653). de Jean Desmarets de Saint-Sorlin ( i a ) . de Malherbe. na melhor obra do género. e El Macabeo (1638). de Gaspare Murtola. do próprio Giambattista Marino C*)< 1 u e trata da chacina dos inocentes em Belém. onde já aparecem duas qualidades permanentes da epopéia italiana: a pretensao de identificar imperialismo romano e patriotismo italiano (teórico. de Cristóbal de Virués. de outro lado. London. Os coméeos sao típicamente barrocos: a Theophüa (1652). no sentido do nacionalismo dos humanistas 16A) R.812 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDEISTAL 813 Mas a Sarcotis. 17) A. e a Creazione del mondo (1609). mais renascentista. do malogro das epopéias humanistas do século X V I ( 1 T ). Surge. do jesuíta alemao Jacobus Masen (16061681). de Abraham Cowley ( 16 " A ). A ésses tipos pertencem ainda as Lagrime della Veigine (1618). La Cristiada (1611). de Petrarca. Milano. o Paradise Lost. e o Clovis. J á se lembrou o culto barroco de S. Influencias colaterais sao representadas pelo lirismo bíblico das Lagrime di San Pietro (1S8S). já é bem barroca. mas nao o único. H. Hamburg. depois. F. logo depois. sacra e epopéia heroica como as tentativas francesas ( 1B * A ). de Edward Benlowe. parte das epopéias francesas servem o patriotismo monárquico que Richelieu e Mazarin fomentaram. E o Saint-Paul (1654). de Du Bartas. Gian Giorgio Tríssino pretendeu opor ao poema fantástico de Ariosto urna epopéia de significacáo nacional. a falta de lirismo é o motivo principal. de Ansaldo Ceba. De um tipo mais italiano. que o espanhol Hojeda ( 10 ) escreveu em Lima. com o qual o género acaba. — Edljáo Corooran. de Lope de Vega. de Milton. Kremplen. a propósito da qual se lembrou o naturalismo crasso e sangrento dos santos espanhóis esculpidos em madeira. O campo da epopéia heroica é infelizmente muito mais vasto. 1955. e o popular San Isidro (1598). Bettonl: II poema épico e mitológico. do qual o San José (1604). a Henriade. e a Davideis (1656). sem vestigio de espirito religioso. O exemplo de Tasso inspira aos poetas a coragem de tratar um assunto sacro como se fósse heroico: primeiro na Ester (1615). a Strage degli innocenti (publicada em 1633). 18) Cf. e Saint Peter"s Complaint (1595). 1936. Com a Italia liberata dai Coti (1547-1548). do insincero Saint-Amant. P. José. 1917. de Miguel de Silveira. erudito alias). 1570-1615. pela poesía bíblica narrativa da Semaine (1578). de Valdivielso. Sayce: The French Bíblicol Epic in the Seventeenth Century. A obra mais seria do género é a Cristiada. é produto t í o híbrido de epopéia 14) Cf. só oferece a compensacao de revelar com clareza maior as intencoes e motivos. A evolucáo mais surpreendente dá-se na Inglaterra. "Poesía do Culteranismo e Teatro da Contra-Reforma".

no famoso capítulo V I da primeira parte do D. de Gabriele Zinani. Cambridge. de Hurtado de Mendoza). nao foram mais felizes no assunto: o Carlos famoso (1566). sa vie et son oeuvre. de Giandomenico P e r i . a Heíacleide (1623). Hauvette: Un exilé florentin á la cour de France au XVIe siécle. O número dos epígonos de Torquato Tasso é imenso ( 2 0 ) . 80) A. estes imitam. e patriota antiespanhol na Amedeide (publ. Sao transposicóes do motivo da cruzada para outras épocas a Croce riacquistata (1605/ 1611) e a Bulgheria convertirá (1637). de Luigi Alamanni ( 1 8 ). acontecimentos da historia islamítica. a vergonhosa quarta cruzada. "A Poesía do Culteranismo e o Teatro da Contra-Relorma" nota 19. na sua epopéia lamentável obedecen as pretensas regras da poética aristotélica: síntoma de que já se encontra nos comegos do Barroco. 1654). París. O assunto italiano reaparece sómente na Fiesole distrutta (1619). veio-lhe a inspiragao de substituir o heroísmo de cavalaria pelo heroísmo cristáo dos cruzados. Mass. sao as epopéias horríveis que o vigário e o barbeiro. F. no Imperio vendicato (1679/1690). deliberadamente. pretendeu celebrar as deseobertas dos espanhóis e portugueses. a "líbertacao" da Italia pelos bizantinos. o assunto de Trissino. alias. mesmo abstraindo-se da incapacidade poética do autor. e a Bona expugnata (1694). Chiabrera ( 3 1 ). Belloni: Gli epigoni della Gerusalemme Hberata. Poeta de transigió foi também Bernardo Tasso ( I 8 ) . E. a Italia caiu ñas máos dos espanhóis. e a Alamanna (1567). iniciando-se na arte épica com o Rinaldo (1562) . depois. porém déla escreveu •penas um fragmento. escolheu como enredo. condenam á fogueira. em moldes sempre iguais. que fóra poeta renascentista nos seus belos sonetos e num poema didático sobre a agricultura. poema insípido de Antonio Francesco Oliviero. o da cavalaria. já revela outra confuslo: identifica a causa da Italia com os objetivos do imperialismo espanhol. Opere toscane (1533). do próprio Marino. Quixote. metrificagao da Guerra de Granada. Océano (1622). Expressáo do pensamento antiespanhol é a Avarchide. 1493-1569. na Babilonia distrutta (1624). o heroísmo menos real de épocas remotas. bastam aqui alguns nomes e motivos característicos. Tor18) Lulgl Alamanni. O filho. se lembrou de um assunto mais verdadeiro: numa epopéia.814 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 815 romanos. e o fragmento de urna Gerusalemme distrutta. os poetas barrocos. Willlamson: Bernardo Tasso. . Os próprios espanhóis. Os marinistas. para homenagear ao mesmo tempo a "Grecia". na Gotiade (1582). Rime (1560). versificador incansável. e a Austriada (1584). e na Erminia (1605). retomou. 1894. La coltivazione (1546). para depois iniciar a moda barroca das odes pindáricas. versificando o Amadigi di Gaula. tratando assuntos cada vez mais longínquos e esquisitos. Antonio Caraccio chegou a cantar. 1903. alias. a Conquista di Granada (1650). de Vincenzo Piezza. Era insaciável a fome dos poetas épicos. quaso Tasso. Padova. Pisa. celebrando as Vitorias do imperador Carlos V . mais perto de Tasso estáo a Siriade (1581). é patriota na Fiíenze (1615). 1893. de Juan Rufo Gutiérrez (em parte. na Gerusalemme Hberata. voltando ao ciclo espanhol. 1495-1556. no século VI. Só Tassoni. acompanhou-lhe os passos. Logo depois. Luigi Alamanni. Amadigi di Gaula (1544). todos. o paí de Torquato: bom poeta lírico. 1951. pretendeu adaptar as exigencias aristotélicas a epopéia fantástica á maneira de Ariosto. Pintor: Delle liriche di Bernardo Tasso. e Scipione Errico. o "oposicionista". II) Cf. o antimarinista Tommaso Stigliani terminou um Mondo nuovo (1628). 19) Bernardo Tasso. de Luis de Zapata. de Francesco Bracciolini. e essa confusao bastava para desvirtuar a tentativa. horaciano e anacreóntico. de Gírolamo Graziani. de Pier Angelio da Barga. Avarchide (publ. autor da Sofonisba e partidario da imitacao dos gregos. e. H. á maneira de Tasso. 1570). Trissino.

Durante a época da humilhacáo nacional. penosamente metrificadas. Coimbra. O número das epopéias portuguesas é grande ( 2B ). Viríaío Trágico (publ. Sao. que. 23) Cf. a Conquista del nuevo mundo (1610). Entre os espanhóis nao surgiu nenhum Camoes. cujo Viriato Trágico se36) Teoí. sao crónicas e biografías minuciosas. ou entao florestas de imaginacáo fantástica. é tratada em estilo pomposo como o de Góngora — produto híbrido e difícilmente legível. desde a ocupacáo espanhola em 1580. a imitacáo de Ercilia ( 2 í ) . Ticknor: History o] Spanish Literature. 1888. Mas essas epopéias nao valem nada. Estudo de Investigando Histórica. de Gaspar de Villagra ( 2 4 ). urna das obras mais estranhas do Barroco.816 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 817 Fora da Italia. É usual abrir excecáo em favor de Brás Garcia de Mascarenhas ( 2 6 ). New York. . El Bernardo. mas "c'est avec les beaux sentiments que l'on fait de la mauvaise littérature". Lisboa. Basta enumerar os nomes: o Condestabre de Portugal (1610). antes de um prosaísmo ridículo. 1942. 85o Paulo. Porto. 1922. 1. de Manuel Tomás. "Renascenca Internacional". e as vézes o verdadeiro motivo foi apenas vaidade literaria que a gloria de Camoes nao deixava dormir. 2. de Gabriel Pereira de Castro. Esta última epopéia publicou-se no ano em que Portugal se libertou da dominacáo estrangeira. 1940. 1848. Ulissipo (1640). 2. Fid. e o seu autor foi um dos estadistas mais importantes da Restauracáo nacional. mas sem ánimo poético. Afonso. o afi de celebrar as grandes facanhas do passado é digno de todo o apreso. o Africano (1611). Bonilla y San Martin). ntzmaurlce-Kelly: Historia de la literatura española (traduC o castelhana. Edlcáo. 1938. Lisboa. nota 48. a epopéia heroica nao é menos comum neni menos infeliz. de Vasco Mouzinho de Quevedo. o Peregrino indiano (1599). Vol. os historiadores da literatura portuguesa teimaram em descobrir. Van Horne: Bernardo de Balbuena. de Antonio de Sousa de Macedo. 24) Noticias pormenorizadas sObre os poetas épicos espanhóis em: 0 . 1568-1625. a insistencia com que tantos poetas portugueses pretenderam criar mais e mais epopéias nacionais tem certa razáo de ser: a afirmacao da nacionalidade portuguesa 22) Bernardo de Balbuena. Edicao: Biblioteca de Autores Españoles. do poeta pastoril Francisco Rodrigues Lobo. Além das epopéias barrocas de Lope de Vega (Dragontea. Cidade: Licóes de Cultura e Literatura Portuguesa. Ribeiro de Vasconcelos: Brás Qarcia de Mascarenhas. de J u a n de la Cueva. I. de Balbuena ( 2 2 ). aqui e ali. Noutros tempos. Braga: Os Seiscentistas.* ed. A Study of the Poem. 1916. de Flgueíredo: Historia da Literatura Clástica. tratam da descoberta e conquista do Novo Mundo: a Mexicana (1594). 1920. o Victoria de Roncesvalles. Fid. mas entre os portugueses tampouco se repetiu o milagre. Na Espanha. entáo. Ulisséia (1636). a transicáo entre o estilo de Ariosto e o de Tasso produziu pelo menos um produto singular. elaborada á maneira de Ariosto. que na Italia só ocorreu aos antimarinistas Tassoni e Stigliani. I6> Brás García de Mascarenhas. o Bernardo. Jerusalém conquistada. 6. numerosas as epopéias que. de Francisco de Borja. de Francisco de Sá de Meneses. Coimbra. Corona trágica). Madrid. Contudo. e a Ñapóles recuperada (1651). XVII.» Época 1580-1756. de Antonio de Saavedra. & 1905. Van Home: £1 Bernardo by Balbuena. Urbana (111. 1596-1656. em que a gesta de Carlos Magno. Malaca Conquistada (1634). de Figuelredo: A Épica Portuguesa no Sécula XVI. parecía perdida. 1927.). A. Urbana.» cd. só os historiadores mais conscienciosos da literatura lembram a Conquista de Betica (1603). Insulana (1635). 1699). Biografía y critica. J. vol. que terminou em 1640. H. J. anotada por A. certas qualidades: "versificado fluente" ou "descricoes interessantes" ou "episodios magníficos". sem insistir no valor do resto. Na E s panha foi nacional (e barroco) ésse assunto. de Gabriel Lasso de la Vega.

já é. 1619-1689. de Chamberlayne ( Z9 ). 1920. no tempo do seu heroico bisavó: o heroísmo já está longe. 1876. Duchesne: Histoire des poémes ¿piques franeáis du XVIIe siécle. Tolnet: Quelgues recherches autour des poémes héroiques ¿piques frangais du XVlle siécle. Ein Beitrag tur Erjorschung des líterarischen Barock. a dos poloneses contra os turcos. num passado re- 29) WUliam Chamberlayne. Budapest. a epopéia francesa do século X V I I é importante como documento do caráter semibarroco da literatura do "siécle d'or". W. Georges de Scudéri. Recentemente. misturando-as com motivos de religiosidade contra-reformistas. (Em língua húngara. ao mesmo tempo. um dos autores principáis de romances heróico-galantes. A. celebrando facanhas reais de um heroísmo verdadeiro em guerra real. Dai a hipocrisia do seu cristianismo e a falsa elegancia dos seus heróis feudais ou primitivos. Pelo menos sintonía de ambigüidade é o fato de o jesuíta Pierre Le Moyne. é possível que o poeta tenha sido diferente. quer dizer. acabando com a epopéia heroica. históricamente. que Pascal anatematizará. dedicou-se maior atencáo á Pharonnida. 1870. muito conforme á época. London. H. revelará a sua substancia burguesa. é herói dos saloes do Hotel de Rambouillet. autor da famosa ou notoria Pucelle d'Orléans (1656/1657). a "metaphysical poetry". 30) Cf. escritores que tinham antecipado a t r a n s f o r m a d o da aristocracia feudal e guerreira em aristocracia de corte e salao. ter ao mesmo tempo escrito o livro De la dévotion aisée. seu tema é contemporáneo. Stier: Zrinyi und die Zrinyade. 5 vols. C. Obsidio Szigetiana Zrinyade (1651). com elementos pastoris e estilo "metafísico". . Um dos melhores discípulos de Tasso. Bern. nota 90. A. como a Leoline and Lydanis (1642).) 28) Cí. 1620-1664. "Renascenca Internacional". poema sobre o cerco da cidade heroica de Sziget pelos turcos. C. 27) J. de Francis Kynaston. que. e ao mesmo tempo um dos preparadores do classicismo académico. é urna das obras mais singulares do Barroco inglés. á maneira de Ariosto e Spenser. 1915. Paris. A epopéia heroica francesa ( 2 7 ) talvez seja a mais insincera de tóelas. nota 46. mas seu espirito é renascentista. 1936.818 OTTO M A B I A CABPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 819 ria obra de patriotismo viril. porém. Budapest. 2.* ed. Bonn. Segundo o mesmo criterio. Prlnceton. 31) Conde Nlcolau Zrinyi. em compensado aleancou países que até entao pouco tinham participado da vida literaria européia. já é. autor de Alario ou Rome vaincue (1654). Higgins: Secular Heroic Epic Poetry of the Carollne Perlod. seu estilo é barroco. mas o poema nao saiu rnelhor do que os outros. mais urna vez. indubitávelmente barroco o outro "tassiano" conde húngaro Nicolau Zrinyi ( 3 1 ) : a s u a Zrinyade. Slnger. eram "précieux".. As poucas epopéias heroicas inglesas estao em relacáo com o estilo barroco na poesia inglesa. "Le reste ne vaut pas l'honneur d'étre nommé" — mas éste verso é do classicista Corneille. Szechy: Nicolcqi Zrinyi. Se a epopéia heroica nao encontrou em toda a parte o mesmo entusiasmo quantitativo. Sántay: Zrinyi e Marino. 1896/1902 (em lingua húngara). meio heroica Saint Louis ou le héros chrétien (1635/1658). 1899. V. certamente superior aos imitadores italianos. G. mistura de epopéia fantástica. autor da epopéia meio sacra. Os autores que celebraram facanhas de cavalaria histórica. "A Poesía do Culteranismo e o Teatro da Contra-Reforma". Marni: Allegar y in the French Heroic Poem of the Seventeeth Century. respirando a atmosfera das montanhas da Beira A l t a . Pharonnida (1659). 1952. M. Setschkarefi: Die Dichtung GundullCs una ihr poetischer Stil. Budapest. Edlcáo por 8. 1953. R. París. é o croata ragusano Gundulic ( a o ) . Jean Chapelain ( 2 8 ).

Brébeuf — que também escreveram. da parte de um bravo guerreiro católico. Zrinyi foi discípulo do grande arcebispo Pázmányi. e ao mesmo tempo. e o Hudibras. E entre os autores aparecem muitos — Bracciolini. do-homérico do século V antes da nossa era. só pouca coisa sobreviveu: a Secchia rápita. Saint-Amant. contribuiu para a formagao do teatro espanhol.• 820 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 821 m o t o . Impoe-se mais outra observagao: as epopéias históricas sao particularmente numerosas entre as nagoes vencidas: os italianos e os portugueses. o poema pseu32) Karlenst Schmidt: Vorstudien zv. e os parodistas. e que nunca merecerá muita atengao. Urna imitagao renascentista. que só se encontrará ñas epopéias herói-cómicas do século X V I I I . de manter as . as vézes brutal. onde a civiliza^ao crista acaba. parodia engragada. que seria responsável pelo enfraquecimento da nacao e a derrota pelos turcos. A epopéia heroica do século X V I I falhou pela falsidade do seu ideal heroico. permaneceu obra isolada. serve como advertencia. as tradigoes nacionais. Lope de Vega. tem algo de desesperado e comovente. e em sua poesía notam-se influencias de Marino. de um fenómeno de oposigao literaria. descrevendo-se guerras burlescas entre ras e ratinhos. e quem mais senté as obrigagoes do passado sao os vencidos. exigindo interpretagáo. Mas a leitura das epopéias herói-cómicas nao confirma essa tese. históricas. É um barroco. o gósto pela epopéia herói-cómica é conseqüéncia do conceito da poesía como ficcáo gratuita. nao satisfeitos com as lutas entre animáis. a existencia désse "Tasso bárbaro" nos confins da Europa de entáo. Já havia séculos era conhecida a Batrachomyomachia. especie de presságío da revolugao burguesa do século X V I I I . sao muito inofensivas. as imitacoes pululam de modo extraordinario. de Tassoni. estendem o processo á parodia de guerras inventadas ou históricas entre os homens. nessa atividade literaria quase febril. nem contra a aristocracia. 1953. Mas o fenómeno nao deixa de ser interessante. já domesticada ñas cortes. é antítese uxata da epopéia heroica. talvez da oposigáo da burguesía literaria contra o aristocratismo dominante. ameaca gravíssima á própria civilizagao e aos intelectuais. O fenómeno literario está em relagao com outro fenómeno. o gósto pelos assuntos históricos. tém significagáo maior do que antes. nada revelam de espirito revolucionario. Em parte. Dessa produgao numerosissima. Essas consideracoes também servem para esclarecer um dos fenómenos literarios mais curiosos do século X V I I : a moda da epopéia herói-cómica ( 3 2 ). da qual é contemporánea. sem significagáo superior. de um humorismo quase infantil. do século X V I I : o processo da formagao e consolidagao das nagoes européias e dos caracteres nacionais chega ao fim. epopéias heroicas. transformando em tolices as faganhas heroicas. essas epopéias sao realmente produtos de oposigáo: mas nao contra a epopéia •éria. político. Halle. e terá importancia maior ainda na formagao do teatro inglés. De repente. no século X V I I . As mais das vézes. entáo. A epopéia herói-cómica é de um realismo grosseiro. de Butler. e mesmo estes já nao sao lidos. Nao foi seu único motivo a hipocrisia de literatos venáis. Alias. A partir désse momento. o próprio género herói-cómico morreu. jógo de imaginagao sem responsabilidade. desconhecido na Renascenga. que introduzira a Contra-Reforma na Hungría. contra a apostasia protestante. Daí o passadismo. Tratar-se-ia. em que as lutas dos heróis homéricos sao parodiadas. einer Geschichte des Komischen Epos. Em parte. também cooperou. Mas a incorporagáo da historia na consciéncia nacional e na consciéncia literaria é um processo generalizado no Barroco. na qual Folengo cantou a guerra das moscas contra as formigas. como todas as transigoes sociais. e sim contra a pretensáo da aristocracia. pretendendo bajular os mecenas aristocráticos. a Moschea (1521). certa angustia: a transigáo social parecía.

enfim. A sua erudicáo em todos os setores do saber humano era imensa. tratando de uma ridicula briga entre bolonheses e modeneses. Modena.822 OTTO M A R Í A CABPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 823 tradigoes do seu passado bárbaro e bélico ( S 2 ' A ). 1935. Filippiche contro gli Spagnuoli (1614/1615). Pulci e Folengo sao os representantes máximos dessa tradigao: Pulci. Bertoni: Alessandro Tassoni. uma erudicáo bizarra e esquisita. nern deve ser confundida com a classe burguesa em sentido sociológico. é uma das 32A) N. alias. zombando da gente que lutara lá fora. que já pelo nome parece ter sido predestinado para ser um Tasso as avessas. . 1884. O seu assunto nao é a historia. J á se disse que o Barroco é essencialmente anti-histórico. mas os seus próprios ideáis aristocráticos á miserável realidade italiana de entao. A. 1565-1635. O culto das tradicoes históricas constitui necessidade íntima da aristocracia. 3 vols. 1929. do mesmo modo que a erudigao enciclopédica de muitos contemporáneos seus. é antes uma antítese dialética dentro do Barroco. Rossl. aventurando uma crítica sacrilega contra o próprio Petrarca. (In: II Seicento. mais realista e satírico. ao contrario. Firenze. o polemista corajoso ousou atacar os espanhóis. num momento em que a Italia vivía só do passado e nao tinha presente. 1909. Pensieri diversi (1608): Considerazioni sopra le rime del Petrarca (1609). dirigindose ao Duque de Sabóia. Barí. o seu pensamento é anti-histórico. tratou como epopéia o que era apenas burlesco.. Em geral. Tassoni nao pretendeu parodiar a epopéia. e sim polemista nato e muito agressivo. A. Bracciolini é humorista burlesco e fantástico. mística religiosa e naturalismo.) 36) Alessandro Tassoni. menos para saber a verdade do que para contradizer os outros. Glorgl: Alessandro Tassoni e la Secchia Rápita. Firenze. Seguem-nos os imitadores ( 3 i ) . Daí o espirito profético désse notável humorista. Milano. e as tentativas de resistencia da parte do Duque de Sabóia malograram-se. Na Italia existe uma tradigao antiga de cepticismo popular contra as pretensóes do heroísmo aristocrático. que convivem no Barroco. nem sequer em sentido burlesco. do pintor Lorenzo Lippi. é considerado como burgués pacifico. E. de Cario de' Dottori. para afirmar a todo custo coisas inéditas. Nunzlante: 71 conté Alessandro Tassoni e il Seicento. que nao é inteiramente idéntica. G. e sim um aristócrata. Alessandro Tassoni ( 8 S ). A epopéia herói-cómica é um género de origem italiana. Ñas Considerazioni sopra Je rime del Petrarca atacou os lugares-comuns dos petrarquistas. a Italia estava sufocada pela dominagáo espanhola. 1929. mais fantástico e humorístico. na Idade Media. Rocca: La Secchia Rápita di Alessandro Tassoni. Caltanisseta. Só pobres restos do seu espirito vivem no Malmantile raequistato (1650). e a índole realista daqueles poemas faz parte da mistura de sublimidade e parodia. A mesma distingáo impoe-se quanto á epopéia herói-cómica: Tassoni é realista e satírico. La Secchia Rápita (1622). Venezia. Tassoni nao era um burgués. Edl?ao de La Secchia Rápita por G. sobrevive como parodia da epopéia heroica: ficou famoso o personagem do cavaleiro Culagna. 1885. porque a historia resiste á racionalizado. Saggio d'una niiova interpretazione. e no Asino (1652). o que era entao atitude bem perigosa. Trapanl. vivendo na provincia entre os seus livros. 1921. Busetto: La poesía eroicomica. F. Na verdade. ridicularizando-a. Ñas Filippiche. 34) Edigoes em: Hueco!ta üei pin celebri poemi eroicomici italiani. ninguém havia lutado lá fora. Nao se trata de um movimento antibarroco. nem era pacífico. a "classe burguesa" da literatura. 1842. Milano. Na verdade. Santl: La storia nella Secchia Rápita. Nao opós a realidade aos ideáis fantásticos. Folengo. 1903. 33) V. responde ridicularizando a historia ( 8 3 ). táo rico em personalidades extraordinarias. revelou um patriotismo profetice A Secchia Rápita. Mas os "contras" de Tassoni acertaram sempre. Betloni: "La poesía del rldere". Outro Tassoni nao houve. figuras mais curiosas désse século XVII.

vol. L'Elezione di Urbano VIH (1628). K. (In: Boletín de la Real Academia Española. Barbi: Notizie della vita e delle opere di Francesco Bracciolini. Saint-Amant. "Classicismo Barroco". A intencao — enquanto a houve — era fantástica.824 OTTO M A M A CAHPEAUX HISTÓHIA DA LITERATURA OCIDENTAL 825 contudo. La Mosquea. que talvez aínda seja legível.Essa atitude chega ao cúmulo da dobrez no caso do poeta religioso Guillaume de Brébeuf ( 3 8 ). na Presa di San Mi ni ato (1706). A epopéia cómica já perderá. Idilio: Batino (1618). 1887. (Cf.) imitacáo engenhosa da Moschea. e a Topeide (1636). E n t r e os seus imitadores. sao as melhores epopéias herói-cómicas depois da Secchia Rápita. e deu ¡mediatamente depois Le premier livre de Lucain travestí (1656). Enfim. 1566-1645. e o moralismo do classicista nao admitiu arte gratuita. de Antoine Furetiére. 3») Sobre Nicolás Boileau-Despréaux (1636-1711). do jesuíta Jacobus Balde existe urna Batrachomyomachia latina. de Giulio Cesare Croce. representa-a o polígrafo Francesco Bracciolini ( aB ). Ippolito Neri cantou. também escreveu urna epopéia heróico-cómica. Pelo meno9 neste caso. Knaacke: Le Lutrín de Boileau et The Rape o/ the Lock de Pope. Reinhardstoettner: "Der Hyssope des Antonio Dinis ln seinem Verhaeltnls zu BoUeau's Lutrin". Nao há muito sentido nessas brincadeiras poéticas. nota 20. Les amours d'Enée et de Didon (1649). O u t r o s poemas dessas especies sao: a Troia Rápita (1662). González Palencia: "José de Villaviciosa y La Mosquea". A. de SaintAmant. La Bulgheria convertita (1637). nota 70. Edicao: Biblioteca de Autores Españoles. Numa passagem fa38) Cf. Berlín. Mas a sua epopéia humorística. Mas nao pareceu assim ao gósto classicista. A verdade é que os poetas burlescos nao fizeram "oposicáo". Le Lutrín (1673/1683). o Jugement de París (1648) e o Ravissement de Proserpine (1653). "Classicismo Barroco". vornehmlich vur Literaturgeschichte. Citam-se a Rome ridicule (1643). na Moscheide (1630). e Lope de Vega exibe notável verve cómica na Gatomaquia (1634). o sentido. nota 61). 1588/1618. Nordhausen. que tém quase todas a mesma intengao: zombar de Virgilio e da mitología antiga. 1883. La Roccela espugnata (1630). 37) . Boileau ( 39 ) escandalizou-se com os gracejos que ofendiam a majestade dos deuses e dos poetas antigos. Firenze. de Loreto Vittori. Epopéias heroicas: La Croce riacquistata (1605/1611). pertence ao outro aspecto da sua poesía: a parodia burlesca da mitología paga é táo fantástica e gratuita como o sao os seus heróis serios. Poema heról-cómico: Scherno degli del (1618/1626). mas á maneira burlesca de Bracciolini.) W. José de Villaviciosa. á maneira da Batrachomyomachia. assim como Bracciolini e Lope de Vega cultivaram ambos os géneros ao mesmo tempo. nao pensaram em destruir o modelo parodiado. a Gigantomachie (1644) e a entao famosíssima Enéide travestie (1648/1653). A outra maneira. de Folengo. um assunto parecido ao de Tassoni. O poeta religioso da Croce riacquistata e de varias outras epopéias heroicas revelou no belo idilio Batino capacidade surpreendente de descrever com realismo minucioso a vida dos camponeses italianos. Daí a impressao de vinganga de colegiáis contra o mestre-escola. M. de Scarron. o Scherno degli dei. XVH. (In: Aufsaetze und Abhandlungen. Na Espanha cultivou-se so esta especie. a insinceridade nao é hipótese provável. parodiou Giambattista Lalli a Eneide di Virgilio travestita (1633) — processo contrario ao de Tassoni — e voltou. cf. ao poema humorístico dos animáis. a fantástica e burlesca. é urna 36) Francesco Bracciolini. La Mosquea (1615). de Villaviciosa ( 3T ). que publicou em 1654/1655 a sua traducao muito seria da Farsália de Lucano. A Contra-Reforma conformou-se com a ofensiva da epopéia burlesca dos animáis. "Resnacenca Internacional". 1925. de Charles Coypeau d'Assouci. O mesmo se pode dizer a respeito das epopéias burlescas francesas. 1897. gratuita. como jé í e viu. entao.

Mas Butler é mais espirituoso do que qualquer dos seus modelos. vol. um modelo désse género — que i o de Tassoni — em Le lutrin: historia da briga absurda entre clérigos ociosos em torno de urna estante de coro. as aventuras de D. como viagem burlesca de Hudibras e do seu criado Ralph pelos perigos da vida inglesa. Butler é um criador de proverbios humorísticos. Lámar. Essa virulencia. Genuine Remains in Verse and Prose (1759).) W.. e fazem ainda rir. as parodias das discussoes teológicas sobre Pecado e Graga. de que Butler é o primeiro escritor importante — a monarquía foi restaurada em 1660 e a primeira parte de Hudibras saiu em 1663 — identificou ingenuamente os seus próprios costumes licenciosos com o "reino das artes e ciencias". ao contrario. 1920.. . com excecáo de Heine. 1923.» ed. Edis&o por A. 81). As famosas gravuras que Hogarth fez para a edicao de 1726 do poema sao mais mordazes e cómicas do que o texto: afinal. os aristócratas e os seus oleres. Hilversum. Butler exprime a indignacao das classes altas da sociedade.) I. possui a capacidade de Butler de produzir efeitos cómicos por meio de rimas engenhosas e inesperadas. A. m . without art and dress. Richards: Hudibras in the Burlesque Tradition. Só na escola se léem hoje trechos seletos dessa obra. Observou-se que. v m . porque se aplicam a qualquer doutrinarismo surdo e obstinado. quando um partidario da aristocracia instaura o processo herói-cómico contra a burguesía. like ships. que é regular demais para fazer rir. mas dedicados ás discussoes teológicas mais sutis. suplemento. 1928. . 1678). London. F. they steer their courses. O rancor do jansenista contra o clero. 2. que durante a dominacao de Cromwell e dos puritanos se viram privados dos seus prazeres pela hipocrisia reinante. " Os puritanos vencidos pareciam selvagens. aparece. E i s o caso de Samuel Butler ( 4 0 ) e do seu poema antipuritano Hudihras. a dominacáo puritana parecia urna cruzada de burros — e assim Butler a pintou. And pay with ratiocination. 1937. . com urna porcao de grosseria á maneira de Rabelais. Justamente ñas maos do burgués — do qual a interpretadlo antiga poderia esperar a maior agressividade — a epopéia herói-cómica perdeu a virulencia. 1664. Quixote e Sancho Panga. por R. . 1908. London. Mas permitiu tratar. R. Smlth (In: The Cambridge History o/ Englísh Literature. e Butler afirma que " T h e whole world. além da Biblia e de Shakespeare. para efeito humoristico.." Hudibras é o protesto do bom senso inglés contra a hipocrisia inglesa — dois aspectos permanentes do caráter anglo-saxónico. (Vol. Waller. Hudibras (1663. ás vézes em estilo parodiado da "metaphysical poetry". incultos. Veldkamp: Samuel Butler. ele mesmo fala de " . ele mesmo. coisas baixas e ordinarias no estilo da epopéia seria. os elementos própriamente burlescos provém de Scarron. sao irresistíveis. perdeu a fórca. de que o género é realmente capaz. 1612-1680. nenhum livro inglés forneceu tan- 40) Samuel Butler. deu. que Boileau exprimiu ñas entrelinhas. A Restauracáo dos Stuarts. embora nem sempre com felicidade." Nenhum poeta na literatura universal. E. as aventuras de Hudibras e Ralph imitam de perto. Boileau condenou o género burlesco. edit. 826 OTTO M A R Í A CARPEAXJX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 827 mosa de Art poétique (I. Would be but one great w i l d e r n e s s . W i t h which. 2 vols. New York. "He'd run in debt by disputation. "piloteados pela rima" no mar da língua inglesa. só se percebe o aburguesamento do género pelo classicismo conformista. . Butler também achou urna forma permanente para exprimir o protesto. a parodia do sublime. mais absurdas. rhyme the rudder is of verses.

da qual Forteguerri era funcionario. porque o classicismo.828 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 829 tos proverbios. publicado em París. está quase excluida a seria intencáo satírica. anticlerical porque culta. derivam do poema de Boileau as duas possibilidades que a epopéia herói-cómica do século X V I I I realizará: de um lado. Déste modo. no fim da sua evolucao. rústica. Le Lutrin. O. de outro. de Boileau. caracteriza-se pelo título. como todas as epopéias herói-cómicas. Bem disse um crítico: "Inúmeras pessoas de lingua inglesa usam diariamente expressoes butlerianas sem terem jamáis lido o Hudibras. furioso contra gente ociosa que vive a expensas do povo. a epopéia herói-cómica cumpriu. enquanto Boileau parte de um ponto de vista anti-romano. já classicista. é porta-voz de urna élite. e o Ricciardetto é urna veementissima sátira anticlerical. o seu digno sucessor. de Thomas Parnell. assim como o pombaliano Dinis da Cruz e Silva. alusoes e frases feitas á lingua inglesa como o Hudibras. F. Boileau nao conseguiu excluir de todo a inten$ao satírica: Le Lutrin é evidentemente urna sátira anticlerical. Mas o poema herói-cómico do classicista está desvirtuado pela teoría: quando se admite só a parodia de coisas baixas e fúteis. Boileau. 1813. a sátira anticlerical no sentido da Ilustracao. o Hudibras tomou-se. em estilo diferente do de Butler. No século X V I I I . chacóes. A. 1674-1735. 1937. 41) E. Éste.. Procaccl: Nicsoló Forteguerri e la sátira toscana de" suoi tempL Plstoja. d e modo que o poema parece rebento do espirito do próprio Lutrin. contra os abusos t vicios da Curia Romana. É urna forma anónima da imortalidade. Milano. Ricciardetto (escrito entre 1716 e 1726. Os excessos de imaginacáo fantástica no Ricciardetto tampouco sao exageros do ariostianismo. O classicismo do século X V I I I apoderar-se-á do género anti-históríco. á maneira de Pulci. revoltarse-á contra absolutismo e feudalismo. literatura de equilibrio estático. porém. quase á maneira de Rabelais. o próprio esfórco épico tem menor importancia. cheia de aventuras enormes. a linguagem poética de Pope e Byron está cheia de reminiscencias da leitura de Butler. é urna sátira literaria. só servem para apresentar excessos de animalidade dos heróis. o Peder Paars. entáo já morto desde séculos. de Holberg. ou antes. e o género torna-se mesmo passatempo fútil. Bologna. no sentido naturalista: porque o naturalismo tarabém é componente d o Barroco. foi capaz de urna outra interpretacao do género. é por definicáo an ti-histórico. como o Hissope. 1738). Por outro lado. O número das epopéias heroicas francesas é muito menor do que o das italianas. revoltando-se contra o peso das tradicoes históricas. da epopéia ariosttana. em nome do camponés em condicao servil. o scherzo engrasado e fútil. Sao duas experiencias literarias inteiramente alheias ao espirito solene e angustiado do Barroco. . Forteguerri é homem do povo toscano. 1900. Richards: Hudibras in the Burlesque Tradition. New York. ou antes. e entre as causas désse fato está em primeira linha urna de ordem sociológica. de Charles Cotton." Apesar de tudo. a própria tradigáo hudibrasiana é f r a c a ( 4 1 ) : o Scarronides or Viígile Travestie (1667). A sua influencia mal se senté n a poesia satírica inglesa. a sua vocacáo anti-histórica. que a palavra "naturalismo" nao parece j u s t a . de Forteguerri ( 4 2 ). Mas. O Ricciardetto é um notável documento social. mera peca de museu literario. e Forteguerri escreve na lingua grosseira. The Battle of the Frogs and the Mice (1717). de retí) Niccoló Forteguerri. mas t í o fantástica. 1877. de Antonio Dinis da Cruz e Silva. Edic&o: Classlci KaJiani. como The Rape of the Lock^ de P o p e . Bermini: Jl Ricciardetto di Niccoló Forteguerri. é urna p a r o dia. á maneira de F o l e n g o . do camponés toscano. constituí o fim natural da historia da epopéia herói-cómica do Barroco. e urna "batrachomyomachia" inglesa. é Forteguerri um anticlerical em sentido popular. O Ricciardetto. porém teológico.

Richelieu a subjugará. em número e importancia. Quanto á maneira de viver e de pensar. e o erotismo platónico dos "cortegiani"-pastóres transforma-se em galantería "preciosa". O bucolismo da Astrée já nao é o da Arcadia e da Diana. "Renascenca Internacional". cruzados a servico da Igreja. quase obsceno. Theagenes e Chariclea. . Berlín. París. dominaram o mundo. 1933. Os romances heróico-galantes ( 4 7 ). produtos completamente ilegíveis hoje em dia. separados por urna serie de desgranas. 40) J. causam estranheza pelo tamanho: romances em 5 ou 10 volumes cada um sao freqüentes. o elemento heroico deriva do Amadis de Gaula. de modo que o interésse reside na acumulacáo de digressóes novelísticas. e da imitacao do esquema do romance grego. italiana. tradutor elegante da Geórgica e autor de Églogues. a poesía pastoril. a literatura antecipou a evolucao social. 44) Cf. por meio de urna transformagao barroca do romance pastoril: o romance heróicogalante. a atmosfera italiana do século X V I I ainda é bastante feudal. 1921. Cervantes adotou esquema semelhante em Persiles y Segismunda. reencontrando-se através de muitas aventuras. obra de ura inglés afrancesado. mas feudalismo como poder social já nao existia na Italia posmedieval. Athys. eruditos. com o seu erotismo mais forte. 1863. de John Barclay. 1624-1701. cujos autores só acompanham urna das modas literarias da época. Gasté: Notes sur Segrais. em língua latina ( 4 S ). e a Astrée. Se a ésses fatóres se juntar a influencia do romance da Grecia decadente. O lato literario importante na Astrée é a combinadlo do elemento pastoril com o elemento heroico. París. das epopéias francesas. Bredlf: Segrais. misturada de preciosismo e heroísmo meramente espetacular. Os numerosos aristócratas italianos que durante o século X V I I se dedicaram as letras eram homens livrescos. da qual é representante um discípulo de D'Urfé. tém todos. Éste último romance pastoril conseguiu até revivificar. depois. 47) E.830 OTTO M A R Í A CARPEATJX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 831 lacio entre situacáo da sociedade e situacáo das letras: a dif erenca entre a aristocracia italiana e a aristocracia francesa. de Achules Tatios. De VAstrée au Qrand Cvrus. muito valorizado pelos leitores eruditos do Barroco. reflete fielmente a mentalidade. Leucippe e Clitofon. Dai a mistura de devocáo eclesiástica e "patriotismo europeu" em Tasso e seus imitadores italianos. de Antonios Diógenes. e só Luís X I V conseguirá a transformagáo dos feudais recalcitrantes em cortesaos. M. na Franca. L. e Maravilhas do além de Tule. que se passa na fabulosa pai43) Cí. París. de D'Urfé (**). no fundo. como no Amadis. A aristocracia francesa do coméco do século X V I I é ainda aristocracia feudal. As obras representativas dessa fase sao a Argenis. Daí a fraqueza. Magendle: Le román frangais au XVIJe siécle. Torlno. e essa Igreja fóra a Romana. sonhando com a época em que os cavaleiros. O romance pastoril francés do coméco do século X V I I representa a última fase de evolucao désse género renascentista: as al uso es a figuras e acontecimentos contemporáneos tornam-se incisivos tópicos políticos. Segrais ( 4 6 ). "Renascenca Internacional" nota 85. 4B> Jean Regnauld de Segrais. 1011. vencida enfim pela arte diplomática do italiano Mazarin. Églogues (1658). A sociedade aristocrática francesa exprime-se por outro género narrativo. 1887. está pronto o romance heróico-galante (**). o mesmo enredo: dois amantes. Jahrhunderts. ela ainda terá fórca para desencadear a revolta da Fronda. burgueses com ares de passadismo. sa vie et ses oeuvres. Cohn: Gesellschaftsideale und Gesellschaftsroman des 17. e sim o do Aminta c Pastor fido. O tamanho é conseqüéncia das historias de aventuras néles insertas. de H e liodoro. A. E se éste é pouco heroico e muito galante. nota 84. que continuaram lídas no século X V I I I . dos "frondeurs". pastorale (1635). Bonflglio: Les sources ¡ittéraires de VAstrée.

O assunto das suas conversas intermináveis. 1932. mas a psicología dos sentimentos amorosos é muito elaborada. E. de La Calprenéde. de Sir George Mackenzie. de Gomberville. e outras coisas assim. em linguagem afetada. "romans á clef" da vida do Grand Conde e dos seus amigos. e sobretudo os famosíssimos ro48) Gautier de Costes de la Calprenéde. Os romances heróico-galantes sao alegorías políticas da Franja do século X V I I . Faramond ou L'Histoire de France (1661). da mesma autora. da Almahide. O período dos romances heróico-galantes coincide quase. 832 OTTO M A R Í A C A R P E A U X HISTORIA DA LITERATURA OC[DENTAL 833 sagem nórdica de Antonios Diógenes. com a Restauracao inglesa e a invasao da Inglaterra monárquica pelos costumes e letras francesas ( 9 0 ). porque todo o realismo está ausente. reine du Tendré. . baseiam-se duas tragedias de Thomas Otway: Don Carlos. mas sempre sao paises de imaginagao sem a mínima semelhanga com o Oriente ou com a Antiguidade r e a i s . de Madame de Scudéry. romance histórico do Abbé de Saint-Réal. se nao exatamente. o assunto das Rival Queens (1677). e que foi lida e admirada aínda no século X V I I I . Em outras. que escreveu também Carithée (1621) e Cytherée (1640). Secret Love or The Maiden Queen. París. Le grand Cyrus e Clélie. Pandion and Amphigenia (1665). 1921. Prince of Spain (1676). os turcos. París. As análises dos sentimentos também contribuem para aumentar o tamanho. a Aretina (1660). E. . MUler: The Influence of the French Herolco-Historical Romance on Seventeenth Century English Prose Fiction. que o seu irmao Georges assinou: Ibrahim. e na Clélie. Almahide ou l'esclave reine (1660/1663). Cléopútre (1647). de Roger Boyle Earl of Orrery. Mongrédlen: Madeleine de Scudéry et son salón. da Pérsia.. da india e da África. Cléopétre e Faramond ou i'Histoire de France. Houve imitagoes: a Parthenissa (1654). G. París. Cl. Os autores de romances heróico-galantes gostavam dessa Escandinávia imaginaria. de La Calprenéde ( 4 8 ). contrariados pela razáo de Estado. W. especie de Divina Comedia da Franga aristocrática. em face désses romances enormes e preciosos. SeiUlére: Le romancier du Grand Conde: La Calprenéde. de Marin Le Roy de Gomberville. romance dos tempos merovíngios. preparando-se assim um elemento característico do romance francés moderno. 1627-1681. ref lexos da mentalidade do Estado monárquico. 1940. persas. indianos. de John Crowne. Ibrahim ou L'lllustre Bassa (1641).. c. Nao é possível chamarIhes Comedie humaine. falam e agem exatamente como aristócratas franceses do século X V I I . no Don Carlos. gregos. na qual existem uns restos de fantasía spenseriana. a Ariane (1632) e a Aspasie (1636). 1610-1663. Cassandre (1642/1645). e Venice Preserv'd (1682). Dryden tirou o assunto da Indian Queen (1665) do Polexandre. Artaméne ou Le Orand Cyrus (1649/1653). e também da Turquía. de urna sociedade culta e decadente de Proust. Fenómeno mais interessante é a influencia do romance heróico-galante na tragedia da Restauragáo inglesa. Charlottesvüle. do romance heróico-galante. 1947. Tuebingen. 50) C. heroínas apaixonadas e "heroic couplets" rimados refletem o estado de espirito daquela sociedade com maior precisao do que os romancea franceses. de Scudéry. na Historie de la conjuration des 49) Madeleine de Scudéry. Um crítico moderno lembrou-se. Miinn: Drydens herolsche Tragoedien ais Ausdruck hoelischer Barockkultur. Clélie (1654/1661). Os mais famosos romances heróico-galantes da época foram o Polexandie (1629/1637). cujos heróis amorosos. Aragonnés: Madeleine de Scudéry. Cassandre. Almanzoi and Almahide (1672). de Jean Desmarts de Saint-Sorlin. e naturalmente da A n t i g u i d a d e . e o de do Grand Cyrus. Nathaniel Lee encontrou na Cassandre. é a relacao entre amor e política: amores entre príncipes e princesas. manees de Madeleine de Scudéry (*"). em que relacoes diplomáticas e relacoes de familia sao idénticas. 1934. o do Lucias Junius Brutus (1681). mas parecidas fontes francesas.

1619-1689. 64) Cf. produzindo algumas das obras mais curiosas désse curioso século ( 5 8 ). Em outros países o romance francés foi simplesmente imitado. H. bastante romanceada. descreve com realismo surpreendente os sofrimentos dos escravos prétos. 1912. Cholevius: Die bedeutendsten deutschen Romane das 17. 1639-1692. do mesmo autor. sao menos o resultado de um esfórco de romancear a historia do que de urna tentativa de aproximar da verdade histórica o romance heróico-galante. V. 6 vols. 1927. corrompidos e cruéis — um processo também empregado ñas comedias de Aphra Behn: acumulou as obscenidades para exaltar a virtude. Passou certo tempo em Surinam. Leipzig. romance meio autobiográfico. lembrando-lhes as facanhas de Armínio contra os romanos. Lohenstein ( B4 ) é melhor narrador: no seu Grossmuetiger Feldherr Arminius (1689/ 1690) sente-se a fórca do dramaturgo n a t o . Paris. romanceando as historias escandalosas das cortes. 1876/1884. Aphra Behn tinha muito talento. Outra tentativa de dar conteudo real ao romance heroico teve resultado mais "moderno": o Oroonoko. Romances: Adriatische Rosemund (1645). Oroonoko. O mais pessoal é Zesen ( 6 5 ) : poeta anacreóntico e poeta de melancolía religiosa. Edic&o por M. Só na Alemanha se manifestam. The Feigned Courtezans (1679). o seu intuito é ressuscitar o patriotismo dos alemáes humilhados. ou a Wonderlijke Vrijage en rampzalige doch blijendige Trouwgefallen (1668). nota 62. 63) L. Histoire de Dom Carlos (1691).) Oroonoko (1688) — Comedias: The Rover (1677/1681). (Cí. Na verdade. "O Neobarroco". Histoire de la conjuration des Espagnols contre la République de Vénise (1674). Heinr. as vézes os imitadores realizaram obras de sucesso internacional. 2 vols. do holandés Baltes Boekholt. e a indignadlo da autora exprime-se as vézes de maneira que lembra Únele Tom's Cabin. para transformá-los em livros didáticos de retórica e ciencia política para príncipes e estadistas. Simson (1679). 1927.834 OTTO M A B I A CABPEAUX HI8TÓHIA DA LITERATURA OCIDENTAL 835 Espagnols contre la République de Vénise. etc. do italiano Giovanni Ambrogio Marini. Oioo- noko seria urna obra-prima se nao fósse um romance heróico-galante. . Étude sur les rapports de l'histolre et du román au XVIIe siécle. Jahrhunderts. os bárbaros primitivos aos civilizados decadentes e. Aphra Behn levou urna vida cheia de aventuras e algo duvidosa. portanto. 52) Aphra Behn: 1640-1689. Bobertag: Geschichte des Romahs in Deutschland. 1921. Summers. abbé de Saint-Real. tentativas de aproximar da realidade histórica o romance heróico-galante. obra historiográfica. Sackville-West: Aphra Behn. erudito e fantástico. segundo os seus diferentes estados 61) César Vischard. 1866. Leipzig. Mas a expressáo "historia romanceada" nao é exata. Jahrhunderts. F. O Duque Antón Ulrich de Braunschweig encheu os seus romances Durchleuchtige Syrerin Aramena (1669/1673) e Roemische Octavia (1677) com imensa erudicao histórico-arqueológica. ela pretendeu antes opor. Berlín. "Teatro e Poesía do Barroco Protestante". Poetisa espirituosa e autora de comedias lasciva?. Koernchen: Zesen's Romane. G. que continuaran! a ser muito lidas no século X V I I I . London. Mas a literatura alema da época está mais longe da realidade que outra qualquer. 65) Phllipp von Zesen. o Abbé. The Lucky Chance (1686). nota 84. da escritora inglesa Aphra Behn ( 6 2 ). Assenat (1670). London. fornecendo enredos a Alfieri e Schiller. em contraste vivo. e muito cedo. é o último dos que dramatizaran? ou romancearam o "maquiavelismo" lendário. Meyer: Der deutsche Schae/erroman des 17. Leipzig. conseguindo porém efeito contraproducente.. Poesias: Der Rosenmund (1661). tais como Calionadro sconosciuto (1640). com os defeitos fatais do género. os romancistas oscilam entre erudicao histórica e angustias religiosas. As obras do Abbé de Saint-Real ( 6 1 ). que se deu a si mesma o apelido significativo "Astraea". 1915. the Incomparable Astrea. Dulong: L'dtibé de Saint-Real.

da ascensáo penosa de um plebeu através de miserias. Em Assenat e Simson. e por isso quase se encontram. Paris. Roy: La vie et les oeuvres de Charles Sorel. Scarron é poeta burlesco e. mas a segunda obra notável do género. contra o clero. Ñas historias da literatura francesa contribuiu o fenómeno Charles Sorel para produzir certa confusáo entre a literatura burlesca e a literatura realista do século X V I I . e dos quais ainda o velho Goethe. O romance picaresco quase nunca é burlesco. é de 1599. Os títulos in extenso da Vraie histoire comique de Francion e do Berger extravagant revelam bem o intuito parodístico dessas obras. Edicao de Francion por E. é de 1554. erasmianas. 1891. ainda legíveis porque o humor burlesco se mistura com quadros vigorosos da vida burguesa. non moins profitable pour ¿en garder que plaisante á la lecture (1622). humilhagoes. ambas estao fora do perímetro da literatura clássica. o dia. porém. o sucesso foi enorme. porque o espirito burlesco deforma a realidade. en laquelle sont découvertes les plus subtiles finesses et trompeases inventions tant des hotnmes que des femmes de toutes sortes que conditions at d'&ges. essa interpreta£áo nao está de t o d o errada. incompativeis. e á Die asiatische Banise. a poderosa eiucHcáo histórica e bíblica nao dissimula as graves p r e o c u p a r e s religiosas do autor. que os lera quando menino. que foram os romances mais divulgados da primeira metade do século X V I I I . mas Furetiére é realista. na primeira pes•oa. se lembrava com prazer e nostalgia dos tempos idos. na Espanha.836 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 837 de alma. Paris. Dentro da historia d a literatura francesa. de Thomas •7) Cl. na verdade. Com efeito. E. á ultra-romántica Des Christlichen Teutschen Gross-Fuersten Herkules und der Boehmischen Koeniglichen Valiska Wundergeschichte (1659/1660). oder blutiges docb mutiges Pegu (1688). A poesia barroca alema já ressuscitou. "Renascensa Internacional". o Lazarillo de Toimes ( " ) . o Guzmán de Alfarache. mas o espirito das obras posteriores é diferente. ao mesmo tempo. o Lazarillo de Tormes só forneceu ao romance picaresco o esquema — narracáo. tudo o mais. 1924/1931. escritor realista. o romance picaresco a ponto de defini-lo como produto burlesco-realista de oposicao contra o espirito aristocrático. O Unfortunate Traveller. e o seu Román comique nao é de modo algum um romance picaresco. Romance picaresco auténtico só existe. e esta fora da Espanha: na Inglaterra. . alias. Do Lazarillo de Tormes só existe urna imitacáo feliz. Literatura burlesca e literatura realista. O grande modelo do romance picaresco. nota 144. La vrai histoire comique üe Francion. Mas realismo e espirito burlesco sao. é outra coisa. sobretudo desaparecerán! no romance picaresco do século X V I I as alu•des satíricas. 4 vols. O que é em relacao á epopéia heroica o poema heróicómico. entre realismo e cinismo. e o seu realismo está exposto a certas dúvidas. mas nao ñas mesmas obras. 1599-1674. crimes e aventuras de toda a especie — e o colorido característico. além de algumas imitacoes mais ou menos servís. é em relacao ao romance heróico-galante o romance burlesco de Charles Sorel ( B 6 ). SaintAmant é burlesco. de Andreas Heinrich Buchholtz. incluindo-se naquela 66) Charles Sorel.. Todas essas obras participaram do destino da literatura barroca: foram condenadas e entregues ao esquecimento pelo gósto classicista. O maior sucesso coube. para o romance barroco também chegará. Scarron é burlesco e realista. Na sua Adriatische Rosemund prevalecem os elementos pastoris e o ambiente holandés em que o romance se sitúa é descrito com muito encanto. talvez. Le Berger extravagant oú parmi des fantasies amoureuses on tott les impertinences des romans et de li poésie (16271. O intervalo é surpreendente e sugere a possibilidade de mudancas profundas durante ésse meio século. vigoroso romance exótico de Heinrich Anselm Ziegler. Roy. de Alemán.

W. 1928. Calabritto: í romamí picareschi di Mateo Alemán e Vicente Espinel. que Nash era. 1671). pelos crimes sensacionais e outros acontecimentos extraordinarios. Northrup. Sánchez Trincado: La novela piraesca. 1903. Capdevlla. do qual ele guarda. Madrid. á primeira vista. H. ou antes. de 1786 (relmpressa. de Hiían: An Outline of the History of the Picaresque Novel in Spain. os estrangeiros equivocaram-se. Guzmán de Alfarache (I Parte. The Picaresque Novel. Cambridge. Valbuena Prat: La novela picaresca en España. Revela grande interésse pelas viagens e descobertas. anedotas. seja ingenuidade de uma literatura nascente. 1637 — c.» ed. 1931. Cronan: "Mateo Alemán and Miguel de Cervantes". é cronológicamente a primeira obra com as características do romance inglés: realismo na descricáo do ambiente — os bas-fonds da sociedade — humorismo na caracterizado das personagens. London. U parte. uma tradicao de romances. 1599. n i . correspondendo á desvalorizacáo violenta do mundo por aquela filosofía sombría. picarescos espanhóis. 1931. . F. Nao existe nada de semelhante fora da Espanha. Valencia. sobre éssc mundo da perdicao. em Defoe. 1942. (In: Revue Hispanique. Madrid.» ed. 1561-1601.838 S8 OTTO M A R Í A CABPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 839 Nash ( ). Madrid. W. o ambiente novelístico: as classes baixas da sociedade. The Unfortunate Traveller. U. Paris. (1665. New York. da qual nao existe pendant na Inglaterra. 1941. A. Basel. 1547 — c. vasta colecáo de novelas. Vol. Oxford. de Icaza: Sucesos reales que parecen imaginados de Gutierre de Cetina. Nash é um pequeño Dickens do século X V I . enquanto Alemán pertence á tradicao estoica espanhola. 1930). É isso o que caracteriza o romance picaresco barroco. e Francis Kirkman. gósto de reflexoes moralísticas. ChailottevUle Va. é o mais importante F. 1919. o Guzmán de Alfarache. mendigos. F. Ésse naturalismo nao é uma apresentacao fiel da realidade social. 2 vols. or the Life of Jack Wilton (1594). L. da qual o grande repositorio é The English Rogue. criminosos. 1911. c. F . G. 1929. T . e inteiramente anglicizado. autobiografías verdadeiras ou ficticias. m . "Guzmán de Alfarache o el picaro moralista". T. 1921. 1943. A. só uma coisa. J. F. de roguery. Ésse estoicismo já aparece no Lazarillo de Tormes. e por I. Stamm: Thomas Nash. 1907. 1674. Está equidistante de ambas o romance picaresco ( f l l ). assim. 10. como sabedoria de humanista plebeu. A. reflexoes moráis. 3. muito semelhantes as digressóes do Guzmán de Alfarache e de outros romances 58) Thomas Nash. Being a Compleat History of the Most Eminent Cheats. 1928). G. no fundo. Mlreya Suárez: La novela picaresca y el picaro en la literatura española. 1632 — c. 1686. em todo caso nao é ésse o espirito do romance picaresco. Olll. 1933. eraMas só no Guzmán de Alfarache e nos romances posteriores o estoicismo espanhol é aquela mistura de melancolia resignada ("desengaño") e cinismo frió ("todo mentira. Richard Head. na Inglaterra..) Fr. Chandler: The Literature of Roguery. B. que o autor. provávelmente. Bowers: "Thomas Nash and the Plcaresque Novel. Madrid. O primeiro romance picaresco do Barroco. de Richard Read e Francis Kirkman (""). described in the Life •>! Merxton Lairoon." (In: Studies in Honor of John Calvin Metcalf. Edicáo por H. Fielding e Smollett. 1907. transformando em suas imitacóes o estoicismo cínico em sátira burlesca ou crítica social. Juan de la Cueva y Mateo Alemán. M. todo falso") que é tao típica do Barroco. Atalaya de la vida humana. de erasmiano decaído. Brett-Smith. de Mateo Alemán ( 6 2 ). 1604. antes se trata de uma deformacao da realidade. c. New York. da malandragem ( 5 9 ). The English Rogue.) 59) 60) F. Gaya. Valetta. novelas. (In: fll) 1668. J. 62) Mateo Alemán. seja curiosidade de jornalista satírico. O elemento picaresco só reaparecerá muito mais tarde. Nasceu. Madrid. vol. Atkins (In: The Cambridge History of English literature.Mas Nash é otimista. e por S. 1930. As reflexoes e meditacoes moralísticas no Unfortunate Traveller parecem. prostitutas.) Edicóes: Biblioteca de Autores Españoles. Bataillon: Le román plcaresque. Rodríguez Marín: Vida de Mateo Alemán. Madrid. 1614. 1935. Haag. Cejador.

em parte. como um Callot. Buenos Aires. Crivelll: "Sobre el Guzmán de Alíaracne y la Segunda Parte apócrifa". urna das maiores da literatura espanhola e da literatura universal. como na Idade Media. apareceram do Guzmán de Aliaiache. alcoviteiro. ou antes. que já nao é realidade. e Alemán conta os acontecimentos mais repugnantes com aquela frieza cínica que c o apanágio de urna estirpe inteira de grandes romancistas. A su a fama postuma foi prejudicada pela vizinhanca cronológica do D. quando o caráter autobiográfico da narragao está por demais evidente. (In: Revista de Filologta Española. é um comentario da vida humana. na primeira pessoa. 1943. que se aproveitou de episodios do Guzmán para o Gil Blas. Guzmán passa a vida como malandro. com análise implacável dos motivos psicológicos. apesar de tamanho e "sermoes". mendigo em Roma. hoje. e Lesage. um gentleman perfeito. soldado. como na Renascenga. e sim urna imposigao mentirosa. embora nunca efusiva. jogador. que assusta a leitores modernos. á maneira de "Rinconete y Cortadillo". presidiario. e considera Alemán como espectador consciente e pessimista do desastre político. a impunidade e a vida fácil: "yo sufro las afrentas de que nacen tus honras". como os grandes ilustradores do Barroco. o Guzmán de Alfarache nao é obra realista. rufiáo de sua própria mulher. é o scntimento vivo da injustiga social neste mundo. Só por vézes.840 OTTO M A B I A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 841 de todos. C. como precursor da a t i t u d e da geragáo de 1898. pelo menos perante o foro íntimo. aluno de seminario teológico. certo ar de superioridade. Só os picaros observam aínda o código de honra. Valbuena Prat chama ao Guzmán de Alfaracbe "o livro da decadencia fatal da EspaBoletín del Instituto de Investigaciones Literarias. O resultado é um contraste fortíssimo entre a baixeza das personagens e a nobreza da apresentagao. penitente enfim. falso fidalgo em Toledo. no meio da corrugáo moral mais completa. militar e moral da patria. O romance picaresco é o desmascaramento cruel do ideal aristocrático do Barroco. O interésse novelístico e histórico da obra é extraordinario. nao menos corruto. já manifestou desagrado para com os "sermoes intermináveis" do picaro moralista.) nha". dificultam.) C. mas nao lhes serve para nada. Quixote e pelo seu tamanho. Mas o romance nao é meramente espanhol nem urna "period piece". O panorama da época é desolador. Anejo XL. responsáveis pelo tamanho exagerado do. na verdade. Contudo. a sua leitura. Essas digressoes sao. Alemán revela certa emogáo. em claro-escuro fantástico. de valor permanente. que constituem um panorama enorme d a vida espanhola dos comegos do século X V I I . No fundo da alma do picaro existe um desejo de purificagáo do qual é difícil dizer se se trata de ascetismo castelhano ou de estoicismo barroco. Alemán deforma a realidade. Guzmán conta. I.) A. Alemán traduziu Horacio para o castelhano. de Cervantes. O motivo. Os contemporáneos compreenderam melhor a índole da obra. Mas Guzmán nao se revolta. nada menos que 23 •digoes — o maior sucesso de livraria da literatura espa- . É que Lesage já nao era homem barroco. O mundo de Alemán é um inferno. Moreno Baez: "Lección y sentido del Guzmán de Alfarache". 1948. nem poesia romántica. e sempre guardou a compostura algo aristocrática do seu modelo. entre 1599 e 1605. 1944. (In: ínsula. comerciante logo falido. só recentemente a crítica literaria comegou a apreciar devidamente essa obra. Seu esfórgo desesperado é outro: transformar ésse inferno em purgatorio. Guzmán continua. romance. ladráo. ambos os motivos estáo presentes e dáo como resultado as digressoes e reflexoes moráis. as suas aventuras. em estilo elegante com ligeiras reminiscencias de sintaxe latina. um dos motivos da deformagáo. que sujeita o pobre a todas as humilhacoes e corrugoes e garante ao bem-nascido. de modo que. caricaturando-a até excessos de monstruosidade. que interrompem a cada passo a narragáo do picaro cínico e imoral. exprimindo urna filosofía pessimista e resignada da vida. palhago do embaixador da Franca.

é um comentario permanente da vida humana. Alemán deu-lhe o subtítulo Atalaya de la vida humana. 1881. de López de Úbeda ( 6 3 ). urna versáo francesa. Madrid. Der VermakeHje Avonturier (1696). Calabritto: J romanzi picareschi di Mateo Alemán c Vicente Espinel. A auténtica segunda parte. obra meio autobiográfica. (In: Revue Hispanique. Eene studíe over den Hollandschen schelmenroman in de 17 de eeuw. Kelk. de um 64) Alonso Jerónimo de Salas Barbadillo. Edícóes por I. déle fez Scarron. O romance picaresco toma feicao mais psicológica e portanto mais geralmente humana. no Marcos de Obregón. e gostaram déle. (A autoría de López de Übeda — hipótese de Foulché-Delbosc — é duvidosa. todo ilusión. 3 vols. . tanto melhor compreensiveis e imitadas no estrangeiro. Madrid. ao ponto de se Ievantarem dúvidas quanto á autoria e subsistir até hoje um problema bibliográfico em torno do Guzmán de Alfarache.842 OTTO M A R Í A CAHPEAOX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 843 nhola. m : Estudio critico). em parte notáveis. 65) 65A) .) Edicáo por J. e nao sem direito: a picara désse romance é urna filha do povo. publicou em 1602 urna segunda parte apócrifa. e quanto mais diferentes do tipo auténtico. caindo e caindo depois. todo cisco y carbón. 1907/190». Os estrangeiros interpretaram essa obra — que é do espirito de Mateo Alemán — como um belo romance sentimental. Edlcao por C. evoca um grande nome. (vol. e por S. depois do Guzmán de Alfarache. no género. Amsterdam. O éxito foi tao grande que. Nicolaes Helnslus Júnior. na qual espirito engenhoso e sentimentalismo delicado colaboram para produzir urna obra de valor universal. na materia folclórica. Libro de entretenimiento de la picara Justina (1605). J. e Lesage saberá aproveitar-se do Marcos de Obregón para o Gil Blas. Vicente Espinel. 1656-1718. os hispanistas encontram-no apenas na riqueza do vocabulario popular. The English Rogue é coisa semelhante. é um dos romances mais espirituosos do sáculo. condensada em dontrina estoica e ascética. de Nicolaes Hcinsius Júnior ( . obra bem barroca e bem espanhola. 1885. o VermakeHje Avon66 A turier (1695). Barcelona. apresenta a novidade de um picaro feminino. Foulché-Delbosc: "L'auteur de la Picara Justina". 1929. de Vicente Espinel ( 8G ). até o fim trágico. 1550-1624. J". Edicáo por E. . Puyol Alonso.. Cotarello y Mir. O romance da Pícara Justina. corrompida nos círculos cortesáos. Gilí Gaya (Clásicos Castellanos). 1903). " É expressáo perfeita da mentalidade angustiada do Barroco. todo falso y engaño de la imaginación. Pérez de Guzmán. e contrastada com as experiencias vitáis que desmentem todas as doutrinas e só deixam na boca o gósto amargo de "cisco y carbón". é a Vida de Buscón ou El gran tacaño: nao podia ter resultado diferente a tentativa. taivez certo Juan Martí. 1955. G. Mas quem diria que essa experiencia é sómente do homem barroco? O Guzmán de Alfarache. 1912. 2 vols. de Salas Barbadillo ( 6 4 ). todo mentira. antes da publicacao da segunda parte. Vida del escudero Marcos de Obregón (1618). como tesoro de d u e n d e . Rotterdam. O melhor romance picaresco. Valetta. Mas o romance francés é incontestávelmente urna obra de estilo e mentalidade diversas. Celestina. em 1604. Ten Brlnk: Nicolaes Heinsius Júnior. que agradou em toda a p a r t e : urna imitacao holandesa. La hija de 63) Francisco López de Úbeda. mais européia. que alias muito bem se enquadra no conjunto.). La hija de Celestina (1605). Entre a grande massa dos romances picarescos espanhóis — exploracao de um género em moda — encontramse algumas obras diferentes. frisando o sentido filosófico da obra: "Todo fue vano. O outro picaro feminino que se tornou notorio. R. mas o valor da obra. um autor sob pseudónimo. nos Hypocrites. 1581-1635. que nao deixará de repercutir até em Manon Lescaut.

T o d o s os autores do género se aproveitaram da novelística italiana para os seus enredos. 1609-1667. nos romances de 66) Sobre Quevedo. 1584 — c. Ñas historias antigás da literatura espanhola. J. edit. 1952. na arte barroca de justapor contrastes violentos. etc. a sátira contra os ocios e vicios dos nobres. tudo quanto caracteriza o chamado romance realista do século X V I I na Franca ( 8:> ). O que fica é o realismo na descricao dos costumes. y Desengaños del Mundo evoca toda a mentalidade barroca. 1648. na atmosfera sombría. N. e desaparece o estoicismo. igrejas misteriosas. Madrid.. llamado don Pablos.. Soledades de la vida. Lozano mistura da maneira mais curiosa o tipo picaresco com a atmosfera calderoniana. Zurbarán e Valdés Leal. 3 vols. outros romances. Desaparece a situacáo social da vagabundagem. ejemplo de vagamundos y espejo de tacaños (El gran tacaño) (1826). a nao ser o fato de que os seus autores escreveram também. Reyes nuevos de Toledo (1667).) 67) Alonso de Castillo Solórzano.844 OTTO M A M A CARPEATJX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 845 escritor tao grande como Quevedo (° 8 ). todas as qualidades do género. Mas ésses romances sao produtos muito curiosos. com a maior concisáo. O romance picaresco fora da Espanha torna-se fatalmente outra coisa. onde Andrea Cavalcanti (16101673) revivificou a antiga arte florentina de narrar facécias e burlas. don Cristóbal Lozano. Lisardo enamorado (1629): La niña de los embustes (1632). La Garduña de Sevilla y Anzuelo de las bolsas (1642). 1914. a técnica das suas pegas é frouxa e pouco artística. apari$6es de espectros. é a combinacao fantástica de um romance de cavalaria com urna historia nao menos fantástica dos reís medievais de Castela. . De outro lado. Nao há nada de semelhante fora da Espanha. e Castillo Solórzano voltou mesmo á técnica da novela italiana: os seus romances sao antes colecoes de contos. aos quais a historiografía literaria nao deu importancia alguma. ñas deliciosas Notize intorno alia vita di Cuizio da Marígnolle. mas ao lado do Guzmán de Alfatache é apenas urna novela. palacios encantados. Morcuende (Clásicos Castellanos). Historia de la vida del Buscón. Por isso. por vézes. Cristóbal Lozano (fl8) aparece — enquanto seu nome aparece — como dramaturgo de segunda ou terceira categoría. Dunn: Castillo Solórzano and the Decline oí the Spanish Novel. principalmente quanto aos episodios e contos insertos. produzindo a imagem de urna Espanha real e fantástica ao mesmo tempo. Los reyes nuevos de Toledo. "Antibarroco". típica da Espanha da época do mercantilismo falido. Paris. cf. 1906/1908. Reynier: Le román réaliste au XVIIe siécle. L. É o ponto era que Barroco e Romantismo se encontram. Aventuras del bachiller Trapaza (1637). A obra revela o autor: na amargura satirica. entre os discípulos de Calderón. (In: Archivum Romanicum. Essas pegas estáo incluidas. Lozano. nota 7. como um conjunto de quadros de Greco e Ribera. Nada tem que ver com a literatura burlesca das epopéias herói-cómicas. desmentido decisivo ao pretenso realismo do romance picaresco. Os romances picarescos de Castillo Solórzano ( 9T ) sao de qualidade algo inferior. que forneceu a Espronceda e Zorrilla a materia de sua "Espanha antiga": visoes fúnebres. por E. imitaram-no na Italia. Mas fluí O. na forra caricaturesca. y Desengaños del Mundo (1658). A Vida de Buscón reúne. 1927. que é na Espanha especie de filosofía do homem da rúa. a atmosfera é fantástica e sombria. da qual Lozano era capelao. hoje esquecido. Entrambasaguas: El dr. 68) Cristóbal Lozano. historia da cápela sepulcral dos "Reyes nuevos" na catedral de Toledo. ao lado de novelas. Cotarelo. etc. Edlcao da Garduña por R. P. 1927. Madrid. Oxford. um título como Soledades de la vida. tratando-se de leitura popular das classes baixas dos séculos X V I I e X V I I I . Os románticos espanhóis do comégo do século X I X conheciam e apreciavam ésse escritor popular. o humorismo de certas situacoes. fidalgos mendigos e ministros assassinos. poemas assim. Spltzer: "Die Runst Quevedos in seinem Buscón".

1857. irresistíveis. Parts. As suas comedias. Mas enquanto Moliere é o dramaturgo "de la cour et de la ville". Edicáo do Román bourgeois por E. foi polígrafo. P. que se lembrou do Román bourgeois a propósito de um inquérito sobre "les dix romans francais que je préfére". 1852. Furetiére. Paris. París. A propósito de Scarron já se lembrou Fielding. Magne: Scarron et son milieu. enquanto o hábito da poesía burlesca produz as cenas humorísticas. A. sa vie et ses oeuvres. ses démeles avec l'Académle francaise". 1951. F. tiradas de pegas espanholas. Morillo!. 1610-1660. ñas quais se defrontam os versos sublimes das tragedias representadas e a miseria material e moral dos atóres. precursor longínquo de Balzac. 2. é burgués com consciéncia. do qual é patricio no sentido mais estrito da palavra: sao dois parisienses. a Gigantomachie e a Enéide travestie. ses oeuvres.» ed. é Furetiére o romancista apenas da "ville". etc. Dallas: Le román ¡raneáis de 1660 a 1680. Só o seu Román comique é mais original em todos os sentidos: do romance picaresco apenas conserva a apresentagáo dos acontecimentos em viagens — embora transformando a simbólica "viagem pela vida" em viagem real para Le Mans — e o nome melancólico do herói: Le Destín. que excluiu o escritor por haver publicado um dicionário da língua francesa antes de sair o dicionário oficial. Thérlve: "Furetiére". sobre ele. 1939.: Scarron. aprendeu no romance picaresco certos truques da técnica novelística e. preferimos pensar em Smollett. como todos os romancistas realistas do século X V I I . de Salas Barbadillo. os poetas burlescos? Paul Scarron ( 7 0 ). Chardon: Scarron inconnu et les types des personnages da Román Comique. París. do qual aceitón a estética "naturalista" — interpretando-a de maneira diferente — e amigo de Moliere. É um escritor admirável na apresentacáo de personagens cómicas e na narracao viva. 1854. embora com o espirito e as franquezas moráis do literato profissional. (In: Revue Contemporaine. Wey: "Antolne Furetiére. París. á maneira italiana. Edit'do do Román Comique por V. de Furetiére ( 7 1 ). Le román bourgeois (16661. era académico. Comedias: Iodelet ou Le Maitre valet (1645). A confusáo é dos historiadores do século XIX. Les amours d'Enée et de Didon (1649). A mistura de burgués e literato deu o académico e classicista — Furetiére já nao é burlesco e sim realista auténtico. virtuose de todas as maneiras de divertir a gente. F. Ao Román comique. E. 1620-1688. F. o criador do romance picaro-burlesco. N. nao existe edicáo moderna nem.OTTO M A R Í A CAHPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 847 quem podia fazer romance realista na 1'ranea dos "précieux" e dos classicistas académicos senáo os parias da corte e da Academia. estudo concreto. Assellneau. Le Román Comique (1651/1657).) H. 1888. Gigantomachie (1644). Les Hypocrites (1655). dos boémios literarios. nao passam de Divertimentos. Mas foi sómente A n d r é Gide. já se fez justica. 1931. (In: Tableau de la Littérature Francaise de Corneille á Chénier. antes de tudo. de Scarron. O ambiente burgués daquela cidade provinciana de Le Mans e a miseria dos atores cómicos viajantes sao caracterizados com realismo insubornado. como revela a comparaclo dos Hypocrites com a Hija de Celestina. Baltlmore. Furetiére. 1932. do Román bourgeois. Paris. com efeito. Don Japhet d'Arménie (1655). Dictionnaire universel (1690). Parts. Parece produzir efeitos postumos a cólera da Académie Francaise. Fournier e Oh.) D. sa vie. 2 vols. do qual deu versóes livres. Enéítte travestie (1648/1653). Nunca mais a Franga produziu romance táo ingenuo e engenhoso. H. A necessidade de arranjar novos e sempre novos meios de divertir levou o conhecedor da literatura espanhola ao romance picaresco. o burgués classicista. mas o Román bourgeois nao tem nada que ver com o Guzmán de Allarache ou com El gran tacaño. Fournel. Quando 71) Antolne Furetiére. amigo de Boileau. 1923. . 70) Paul Scarron. diversoes teatrais sao também os seus poemas herói-cómicos. Phelps: The Queen's Invalid. a coragem de apresentar a realidade. dos burgueses de Paris e dos "parásitos" da vida burguesa. d'Almeras: Le Román Comique de Scarron. París. 1904.

Oslo. 1647-1709. em vez de colecioná-los em dicionários. 848 OTTO M A M A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 849 Leiage apareceu com o seu Gil Blas. A incansável erudicáo enciclopédica da época devora e rumina tudo. Budapest. que é há quatro séculos a térra mais letrada da Europa. O tipo do folclorista erudito foi Michelangelo Buonarroti ( 7 2 ). AllodoU. Nordlands Trompet (1739). Sobre Buonarroti so existe urna monografía em lingua húngara: A. 1891. La fiera — que o seu espirito malicioso de florentino lhe inspirou. Edipao por P. Croce. dos contos de fadas.• . também interveio o gósto marinista. é típico do Barroco: no século X V I I descobriu Franciscus Junius a literatura anglo-saxónica. 1568-1646. Muse napoletane (1635). cultos e até eruditos. 1928. Em térra de civilizacáo ainda mais antiga. Mas. Oslo. . sobretudo. meio erudito: o vigário pretendeu enriquecer os conhecimentos de geografía patria. Croce. publ. Dale-Vise (1711). é um poema descritivo da natureza. de cuja existencia a literatura culta nunca tivera conhecimento. e interveio muito mais a sua própria imaginacáo vivíssima. entre os camponeses de Ñapóles. canjees populares. A. até a literatura oral. apresentou-os em comedias populares — Tanda. mas os seus autores sao homens letrados. E. Em suma: o Cunto de li cunti é urna das obras literarias mais curiosas do Barroco. Mas ésse homem sim74) Petter Dass. as suas reminiscencias literarias das epopéias e do Amadis intervieram. aplicándolo ñas églogas das Muse napoletane. Edicáo por B.do Norte ártico e da vida dos pescadores e camponeses. Bari. O objetivo de Dass é. o editor moderno do Cunto de li Cunti será o napolitano honorario Benedetto Croce. O interésse pelo folclore. 73) Giambattista Basile. Radó: Az Ifjabb Michelangelo Buonarroti. e. e nos Contos de fadas para as criangas. Midboe: Petter Dass. 1925. em forma de linguagem pomposa e complicada. Napoll. Fiera (1618. 1896. Mas Basile tornou-se famoso. Fanfani. Oslo. o aristócrata erudito Giambattista Basile ( 78 ) descobriu as maravilhas lingüísticas do dialeto da regiáo. A sua obra principal. 1927. Firenze. 3 vols. dos irmaos Jacob e Wilhelm Grimm.Pentamerone) (1634).. Napoll. 1874/1877. em 1726). Sveen: Dass og hans diktning. Edicáo por A. Caccavelli: Fiaba e realta nel Pentamerone del Basile. Mais tarde. Traducáo para o italiano por B. Torino. e as suas "Vise" sao salmos e cancoes eclesiásticas de angustia barroca. produzindo as narracóes mais fabulosas que existem no m u n d o . descobriu tesouros de fala popular na boca dos camponeses. mais urna vez. perdido mima paróquia do extremo Norte da Noruega. 1947. a obra deu a impressao de novidade absoluta. eram versees mediterráneas dos contos de fadas que sao propriedade comum dos povos indo-germánicos e q u e todo o mundo conhecerá nos Contes de ma mere l'Oye. // Cunto de li Cunti (. 1912. pastor protestante. de Charles Perrault. saíram poesías integramente diferentes de todas as églogas estilizadas da Renascenca ou do Barroco: cenas fielmente realistas da vida popular napolitana. apesar do dialeto napolitano. pela 72) Michelangelo Buonarroti il giovane. por tradicoes. 1576-1632. quando Basile reuniu. 1860. A antítese mais perfeita désses folclorismos eruditos é a poesía de Petter Dass ( 7 4 ). o primeiro romance picaresco em língua francesa. R. Nordlands Trompet. L. e contudo de espirito tao diferente. Edicáo da Tancia por E. e Brynjulf Sveinsson a Edda. H. o sobrinho do grande artista. O material do romance picaresco é o povo. no Cunto de li cunti — outra vez em dialeto napolitano — ésses contos populares. e mereceu a honra de sugerir o interésse pela poesía popular ao napolitano Giambattista Vico. Di Francia: II Pentamerone di Giambattista BasUe. Tancia (1612). descoberta. que a todo o momento se converte em burlesca. 1936. Dass também nao era alheio á erudicáo enciclopédica da sua época. Firenze. Erichsen. contos. também na boca dos camponeses napolitanos. Na Toscana.

eis o Simplicissimus Teutsch. 4 vols. 1936. as vézes brutal. pelos mercenarios de todas as nagoes. Aquilo a que Grimmelshausen aspirava era um cristianismo além das confissoes dogmáticas. Erg-Hefc 17. gente e bichos morrendo de fome. um livro ainda hoje terrivelmente vivo. Stuttgart. Bobertag. a obra de Dass continuar-se-á através dos folcloristas do pré-romantismo. homem do povo. o único auténtico que foi escrito fora da Espanha. ás vézes irónico. de espirito já formado . através das tentacoes e experiencias da vida. O Simplicissimus foi comparado a outra grande obra alema de educagao religiosa! o Parzival. Heidelberg. Der Keusche Josepk (1670). de urna élite italianizada e afrancesada. o "romance de educacao". É o exemplo do Guzmán de Alíarache que Simplicissimus está seguindo. o Wilhelm Meister.. luta materialista. No seu "desengaño del mundo" repercute a desilusao em face da luta insincera. entre católicos e protestantes. tudo estar apresentado da maneira mais nua. após o desprézo de tres séculos.• 850 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 851 pies e sincero disse o que viu. 1921. crimes e perversoes de toda a especie permanecendo impunes. e também já foi comparado á grande obra de auto-educacáo profana. Muenchen. Espirito nacional nao existe num pais devastado durante 30 anos. da literatura norueguesa. As comparasóes estío certas. é literatura de segunda máo. de Wolfram von Eschenbach. quer dizer. 1960. Quando ésse espirito popular — nao o estoicismo erudito de um Alemán ou Quevedo — chega a informar um romance picaresco. O Simplicissimus é um panorama da Alemanha durante essa grande guerra: aldeias incendiadas. e o caininho da vida do seu Simplicissimus é um caminho de educarlo e auto-educacáo. observando e relatando aqueles horrores com espirito da mais perfeita ingenuidade. daí. Trute Simplex oder Lebensbeschreibung der Ertabetruegerin und Landstoertzerin Courage (1669). Tueblngen. apenas. . H. um dos maiores livros do século X V I I . um menino que cresce. 1925. Mas. mais cruel do que poderia ser o relato de um observador crítico. 1914. so agora devidamente apreciada. de Grimmelshausen ( 1 S ). embora sem dogma. torna-se de repente cristao e até eremita. Berlín. um dia. Dass é o fundador de urna literatura. mercenarios furiosos e eruditos supersticiosos e régulos e aristócratas pomposos — o Simplicissimus é o grande documento de tudo isso.) J. C. Edic&es por F. Proximus und Lympida (1672). retirando-se do mundo. tornando-se adolescente e homem. 1908. e da maneira mais radical. Der seltzame Springins/eld (1670). Ermatlnger: "Weltdeutung in Grimmelshausens Simplizlssimus". Bechstein: Grimmelshausen und seine Zeit. e tudo está atenuado por um raio de humorismo juvenil e pelo raio de esperanca de que aqueles horrores acabaráo. é um "simples". O horror seria in76) Johann Jacob Christoffel von Grlmmelshausen. A. J. Scholte: Der Simplizissimus und sein Dichter. E. Simplicissimus. e por H. Borcherdt. introduzido por um truque genial: o seu herói. mas nao é original. o estoicismo de Grimmelshausen é o de um cristao. o Simplicissimus. de Goethe. agora já homem que passou por todas as experiencias. H. e o romance da sua vida é realmente um romance picaresco. do ponto de vista da «volucáo histórica: Grimmelshausen criou o "Bildungsroman". 3 vols. variedade específicamente alema do género "romance". A literatura alema barroca é bastante rica e. Berlín. com todos os prosaísmos e rudezas da sua gente. Der Abentheurliche Simplicissimus Teutsch (1669). 1622-1676. Alt: Qrimmelshausen und der Simplizissimus. aprendeu na sabedoria popular algo parecido com o estoicismo popular dos espanhóis. Quanto ao valor literario é o Simplicissimus a maior obra da literatura alema #ntre o Nibelungenlied e Goethe. sem raízes no espirito nacional. porque o seu autor.. von Bloedau: Grimmelshausens Simplicissimus und seine Vorgaenger. quando a guerra realmente acaba. ortodoxias fanáticas e bruxas queimadas. saques e violacoes. 1882. suportável se nao fósse o humorismo de Grimmelshausen. Na segunda metade do século X V I I I . A. (In: Euphorion.

Der Frau Schlampampe Krankheit und Tod (1696). Schelmuffskys warhafftige curioese und sehr gefaehrliche Reisebeschreibung zu Wasser und Land (1696). romances populares: Die Teutschen Winternaechte (1682). grande fanfarráo ñas comedias. a s v é z e s d e u m s ó p r o épico. Beeker: Die Romane Johann Gottfried Schnabels. d e e s t a t u e t a s de p o r c e l a n a d e M e i s sen. n a r r a c a o d e urna v i a g e m f a b u l o s a . 1750. 1655-1700. Schoroeder: Schnabels lnsel Felsenburg. Halle. conhecido h á m u i t o como músico austríaco e agora identificado com os v a r i o s p s e u d ó n i m o s q u e u s o u p a r a a s s i n a r os s e u s r o m a n ces. Alewyn: Johannes Beer. 1947. 1885. 1932. Koenlg: Schelmuffsky ais Typ der barocken Bramarbasdlchtungen. cines gebohrnen Sachsen. Schullerus. K. i s o l a d o . d e S c h n a b e l ( 7 8 ) : a f u g a d o p i c a r o d e urna S a x ó Johannes Beer. 78) Johann Gottfried Schnabel. i n t e i r a m e n t e i n v e n t a d a . Edic&o do Irrgarten por P. Leipzig. 1911. o Rococó é o herdeiro imediato do Barroco. 1902. 1665-1712. Die Kurtzweiligen Sommertaege (1683). 2 vols. Wunderliche Fata einiger Seefahrer. . Os c o m p a n h e i r o s literarios de Grimmelshausen descobriram-se pouco a pouco. O e l e m e n t o s a t í r i c o d o r o m a n c e p i c a r e s c o a p a r e c e em f o r m a b a s t a n t e o r i g i n a l ñ a s c o m e dias de Christian Reuter (77). Berlin. o esquecimento completo d a l i t e r a t u r a b a r r o c a p r o d u z i u a i m p r e s s á o d e ser o Simplicissimus u m f e n ó m e n o ú n i c o . Witkowski. L. u t ó p i c o . romance picaresco: Der simplicianische Welt-Kucker (1677/1679). und seiner auf der lnsel Felsenburg errichteten Colonien (1731/1443). Qoettingen. 76) nia p i t o r e s c a p a r a urna i i h a d e s e r t a . absonderlich Alberti Julii. Der im Irrgarten der Liebe herumtaumelende Cavalier (1738). O século X V I I I d e S c h n a b e l n a o é o d a I l u s t r a c a o . Berlin. 1912.s e e m u t o p i a n a Insel Felsenburg. s e g u n d o a s i d é i a s d o século X V I I I . Marburg. O r o m a n c e d e S c h n a b e l j á é i m i t a c a o d o Robinson Crusoe. u m oasis n u m d e serto literario. Deneke: Schelmuffsky.. é . Edicáo do romance por A. Bonn. O. E n f i m . 1916. comedias: L'honnéte ¡érame (1695). Ernst. Edicáo da Felsenburg por H. 1927. m a s d e u m E s t a d o ideal. q u a d r o s vivíssimos da vida e s t u d a n t i l . K. Leipzig.c o m o o revela o s e u o u t r o r o m a n ce Der im Irrgarten del Liebe herumtaumelnde Cavalier — urna S a x ó n i a g a l a n t e . m a s o m o d e l o é m a i s " m o d e r n o " . 1907.s e da personagem de Schelmuffsky. R. H."W" - i! 52 OTTO M A R Í A CABPEAUX H I S T O R I A DA L I T E R A T U R A O C I D E N T A L 853 D u r a n t e todo o século X I X . R e u t e r u t i l i z o u . na L e i p z i g d o s é c u l o X V I I . para escrever um v e r d a d e i r o romance picaresco. c h e i o s de m a t e r i a l f o l c l ó r i c o e h u m o r i s m o p o p u l a r . 77) Christian Reuter. 1692-c. Marburg. e o mais curioso déles só recentemente: J o a h n n e s B e e r (T6). edigéo das obras por G. Romance eje cavalaria: Printz Adimantus (1678). a m e n t i r a t r a n s f o r m o u . TJllrlch. j á n a o á p r o c u r a d a g r a n d e s o r t e o u d a s a l v a c a o da alma.

a poesia italianizante de W y a t t e Surrey nao teve conseqüéncias imediatas. Donne e Thomas Browne. aínda um pouco grosseiro. a opulentíssima cidade de Londres. a aristocracia culta. a burguesia abastada. Depois. Só mais tarde. e sim Shakespeare. Marlowe e Shakespeare. a Renascenca chegou atrasada. No conceito convencional da historia literaria inglesa. os primeiros grandes dramaturgos.CAPITULO IV O BARROCO PROTESTANTE A Inglaterra. Erasmo — foram interrompidos pela "Reforma" do reí Henrique V I I I . Ñas suas obras reflete-se urna paisagem espléndida: após a vitória sobre a Armada espanhola. na segunda metade do século X V I . nao é Spenser. Os comegos do humanismo — Colet. e pouco depois. aparece o maior poeta da Renascenca inglesa. N . essa fórga teria comecado a enfraquecer. em cujos teatros Shakespeare faz representar as suas tragedias patrióticas e comedias alegres. John Webster. Thomas Morus. a prosperidade económica satisfaz todas as classes da sociedade. Edmund Spenser. e o centro dessa vida febril e feliz é a barulhenta. Num manual divulgadissimo (e recente) da literatura inglesa. prepara-se o imperialismo colonial. mas de inteligencia viva e gasto espontáneo. a Inglaterra está no auge do poder político. o maior poeta da Renascenca. a encarnacáo da fórca abundante da ¿poca da rainha Isabel. o capítulo em que sao estudados Ben Jonson. o povo.

S. London. Erudicao barroca é o que antigamente parecía humanismo classicista. reabilitou os sucessores de Shakespeare. em 1642.áo que considera o teatro shakespeariano como expressáo da Renascen§a aínda resiste aos ataques da crítica literaria. reabilitaram a "metaphysical poetry" de Donne. é comentado como fim da "Merry Oíd England". A. extraordinario. London. Essa literatura explora em grande parte motivos fornecidos pela Renascenca italiana. Muito do que Meissner conside3) R. London. Enfim. das pegas de Chapman. Sobre o caráter barroco dessa prosa e da "metaphysical poetry" nao pode haver dúvidas. a crítica inglesa nao concordou. 2) « . XIII. Também a prosa da época — os sermSes de Donne. espíritos qnase anti-renascentistas. Ellis Fernibr: The Jacobean Drama. Radtke: James Shirley. Jonson e Webster. demonstrando o valor dramatúrgico e poético. mas a tradi. e é éste o motivo porque a historia literaria inglesa da primeira metade do século X V I I continua a ser estu- dada. T. A situacao da literatura inglesa por volta de 1580 é a mesma que a de Tasso na Italia: transicao entre Renascenca e Barroco. aos críticos de 1850. em 1603. é evidente. pelo menos estes. mas só atinge a obscenidade. O barroquismo de Webster e Ford. o teatro chamado elisabetano nao é elisabetano. C. O fechamento dos teatros pelos puritanos. no menosprézo dos pretensos "sucessores" de Shakespeare que pareciam. Baseia-se. London. voltando ao entusiasmo de Lamb e outros románticos. O puritanismo hipócrita estragara a Renascenqa. London. 1926. descobriu-se o moralismo aristotélico. Com a exce^áo de Marlowe. tao caro aos teóricos da estética barroca ( B ). 1934. pretende s e r alegre. 1934. Webster. A antiga alegria ingenua nao voltou nunca mais. Marvell ( 2 ). Swlnburne: The Age of Shakespeare. Nao é casual a grande influencia que Beaumont e Fletcher exerceram sobre o teatro pseudoclassicista. e na verdade barroco. Shakespeare escreveu suas maiores obras depois da morte da rainha. Walker: "Ben Jonson's Lyric Poetry". (In: Criterlon. 1936. em dois capítulos inteiramente separados — teatro e poesía — como se nao tivessem nada em comum. epígonos mais ou menos degenerados. 71 P. Vaughan. quando Meissner ( 7 ) pretendeu demonstrar o caráter barroco de toda a literatura inglesa entre 1590 e 1680. muitas vézes. e consegue chegar apenas a pompas barrocas. o reí Jaime I. . 61 P. Sprague: Beaumont and Fletcher on the Restauration Stage. e é hoje reconhecido como arte barroca (°). e no último dos grandes dramaturgos. 1908. 1934. 1) Ch. nota 87. 1929. Swinburne. fl) T. U. Shirley. Contudo. personalidade das mais barrocas da historia británica. sucessivamente. o grande teatro inglés da época é "jacobeu". George Herbert. Mas desde os tempos de Taine mudou muita coisa. Ellot: Elizabethan Essays. em formas italianas. A Inglaterra da Restaurad o . Gosse. Ésse quadro da literatura inglesa entre 1590 e 1640 nao corresponde á totalidade dos fatos literarios. novamente em altíssima consideracáo. S. M. Berlín. Só pouco a pouco se reconhece a natureza barroca daquele teatro. Ben Jonson. Meissner: Die geistesgeschlchtlichen Grundlagen des englischen Literaturbarock.856 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 857 é intitulado: " T h e Decline of t h e Renaissance". F o r d . em Ben Jonson ( s ). Grierson. pretende ser clasiscista. apresentando-os. e recebeu muito mais favores e estímulos da parte do sucessor. Crashaw. em primeira linha. S. His Cathollc Philosophy of Life. da Restauraqác (*). baseava-se também no esquecimento da poesía entre Shakespeare e Milton.) 4) A. os escritos de Robert Burton e Thomas Browne — é tida hoje. chegaram a ser colocados ao lado do maior dos dramaturgos e poetas ( ' ) . Eliot redescobriram. nos manuais. depois de 1660.

The Complaint o] Henry Duke of Buckingham <1583). Calif. 1936. J. pela r e l a c a o d e " c a s o s " d e i n g l e s e s i l u s t r e s . em 1601. Groningen. t e r i a s i d o o p o n t o c r í t i c o d e s s a e v o l u c a o . já pode haver dúvidas. W. M. a a r t e d e Shak e s p e a r e p e r c o r r e u d u a s f a s e s d e e v o l u c a o : urna p r i m e i r a . Tillyard: Shakespeare's History Plays. 1948. D é s t e m o d o . 3 vols. W. A Mirror for Magistrates (1. E. considered with special ü e ference to the Sources of Sackville's Contributíons. Swart: Thomas Sackville. a l e g r e . p r e t e n d e u . q u e era p o e t a notável. n e m q u a l q u e r dos o u t r o s d r a m a t u r g o s . Induction (1563). nem é representativo Spenser. a m o r o s a e p a t r i ó t i c a . s o m b r í a . é u m p r e c u r s o r d o B a r r o c o . Macbeth e Timón. e x i g i n d o nova interpretacao.858 OTTO M A R Í A CARPEATJX HISTORIA DA L I T E R A T U B A OCIDENTAL 859 rava c o m o Barroco é n a v e r d a d e m e d i e v a l . 1906. o "poet's poet".* ed. m i n i s t r o s e j u i z e s e x e c u t a d o s o u e x i l a d o s . a e x e c u c a o d o C o n d e E s s e x . Haslewood. 1943. D o w d e n b a s e o u nessa d i s t i n g S o a biografía e s p i r i t u a l d e S h a k e s p e a r e . c. c o m o d e u m h o m e m p o u co a pouco a m a r g u r a d o pelas experiencias. 10) Thomas Sackville. S h a k e s p e a r e nao é. n e s t e s e n t i d o . p e l o s d r a m a s da h i s t o r i a i n g l e s a . e só n o f i m d a vida. sempre aumentadas: 1563. A i n t e n c a o era f o r n e c e r l e i t u r a p o p u l a r . Edicao da Complaint por M. M a s o f e n ó m e no dos dois estilos de Shakespeare subsiste. B. e essa idéia é b e m r e n a s c e n t i s t a . p o e m a s n a r r a t i v o s á m a n e i r a de G o w e r o u C h a u c e r . o Mirror for Magistrates é urna o b r a m e d i e v a l . Leipzig. o Mirror for Magistrates rep r e s e n t a a s t r e s fases da é p o c a t r a n s i t o r i a á q u a l c h a m a r a m antigamente "Renascenca inglesa".s e comp l e t a r urna t r a d u c a o i n g l e s a d o De casibus virorum illustrium. Shakespeare pertence a fase r e n a s c e n t i s t a p e l a s p r i m e i r a s c o m e d i a s . o poeta m a i s r e p r e s e n t a t i v o d a é p o c a . A g r a n d e m a i o r i a d o s p o e m a s q u e c o m p o e m o Mirror for Magistrates nao v a l e n a d a . Newhaven. outras edicoes. Mirrors of Elizabethan Policy. 1559. New York. San Marino. a r t e e d i v e r t i m e n t o p a r a as m a s s a s p o p u l a r e s . o s u b t i t u l o fala d e " P r i n c e s a s fell f r o m t h e i r e s t á t e t h r o u g h t h e m u t a b i l i t y of F o r t u n e " . A I n g l a t e r r a e l i s a b e t a n a a i n d a era. m e i o m e d i e v a l . Tragedia: Oorboduc. . 1815. Tillyard: The Elizobethan World Picture. Hearsey. d a o b r a — e s t á m a i s perto de Middleton e W e b s t e r do que de qualquer a r t e d r a m á t i c a r e n a s c e n t i s t a . p o r Midsummer-night's Dream. E v i d e n t e m e n t e . o b r a coletiva. r a i n h a s d e s t i t u i d a s . p e s s i m i s t a . a m a r g a . u m m e s t r e d o e s t i l o solene. n a q u a l é p o s s í v e l d i s t i n g u i r t r e s camad a s . É s s e e s q u e m a foi r e p e t i d o em t o d a s as b i o g r a f í a s . 8) 9) E. Davies: A Mirror for Magistrates. n o t e a t r o . t r a b a l h o s d e T h o m a s S a c k v i l l e ( 1 0 ) . Campbel: Shakespeare's Histories. L. London. N a execucao do projeto escolheram-se quase sómente casos pol í t i c o s : r e i s d e p o s t o s ou a s s a s s i n a d o s . e x c e t u a n d o — e i s a t e r c e i r a carnada — urna Induction e The Complaint or Henry Duke oí Buckin- ghara.. a p a r t e s u p e r i o r e m n ú m e r o e valor. Obra rep r e s e n t a t i v a d a época é o c u r i o s o Mirror for Magistrates ( 9 ) . m e n o s p a r e c i d o c o m o estilo d e S p e n s e r d o q u e c o m o d e M i l t o n . c o m o a E u r o p a i n t e i r a d e e r t a o . O resto — quer dizer. Q u a n t o a Julius Caesar e Hamlet. s e n d o a c u l t u r a da R e n a s c e n $ a privilegio a p e n a s d a s c l a s s e s c u l t a s . publicada por William Baldwln. e urna s e g u n d a . N o s d r a m a t u r g o s p r e v a l e c e m a s idéias e c o n c e i t o s m e d i e v a i s s o b r e a c o s m o l o g i a e sobre a s r e l a c o e s e n t r e o h o m e m e o U n i v e r s o ( 8 ) . Twelfth Night. 1536 — 1608. 1947. 1946. evolvendo da a l e g r í a d e Love's Labour Lost e da p a i x a o e r ó t i c a d e Romeo and Juliet p a r a o p e s s i m i s m o d e King Lear. J. Earl of Dorset. S h a k e s p e a r e t e r i a r e c u p e r a d o a paz da a l m a . N e s t e s e n t i d o . em Cymbeline e Tempest. e a i n d a p e l o Romeo and Juliet. 1574. London. Edicao por J. até q u e a s h a k e s p e a r i o l o g i a r e c e n t e r e j e i t o u o m é t o d o d e e x t r a i r das p e c a s i n d i c a g o e s b i o g r á f i c a s . Much Ado About Nothing. or Lerrex and Porrex (1561/1662). 1578). M. o e s p i r i t o m e d i e v a l d e s s a s massas p r e v a l e c e u . p o r q u e s e a c o m o d a r a m ao gósto do público m i s t u r a d o d e aristócratas e p o p u l a r e s . As You Like It.

"Renascenca Internacional".) L. O título Mirror for Magistrates lembra um género literario. (In: Proceedings ol the British Academy. HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 861 Walzel foi o primeiro que ousou falar. 1936. Shakespeare aparece hoje mais perto de Webster e Middleton. do que justamente ñas suas primeiras comé11) O. S. de Xenof onte. os títulos sao sempre muito loquazes — o título in extenso do Mirror for Magistrates também enche urna página inteira — para indicar bem o fim didático dessas obras: ensinar aos herdeiros da coroa e aos candidatos a ministro a arte de governar bem o Estado. mas da experiencia da época inteira. quer dizer. o Libro Áureo del emperador Marco Aurelio. Muge. em Shakespeare. pertence á "época sombría". e ás vézes prefere-se á exposicáo seca das doutrinas a forma de romance didático e utópico ( . Francesco Patrizzi. L. ou "bússola política". e urna fase importante do teatro inglés pertence ao reinado acentuadamente barroco do rei Carlos I. 1926. como ponto crítico.) 12) E. elisabetano típico.a ed. O ano da execucao de Essex. Deutschbein: Macbeth ais Barockdrama. Deutschbein demonstrou a índole barroca de Macbeth ( 1 2 ). parecia-lhe seguir as leis de composicao assimétrica das obras de arte barrocas. . 4 ) . ao Barroco. que é o grande modelo do teatro barroco. nos capítulos pedagógicos de Rabelais encontram-se vestigios désse modelo. hoje esquecido. a proposite de Shakespeare. mas os seus contemporáneos. a maior época é a do "teatro jacobeu". também é reconhecido por um partidario da equacao "Shakespeare—Renascenca". Schuecking: "The Baroque Character of the Ellzabechan Tragic Hero". Marlowe. (In: Iahrbuch der Deutschen Shakespeare-Gesellscha/t. acusada de irregularidade pelos classicistas. obra ligada ás doutrinas do universalismo monárquico de Carlos V. sob o reinado de Jaime I . que alias nao sao os seus sucessores. O verdadeiro criterio da distincáo entre Renascenca e Barroco no teatro inglés é a interpretagáo dramatúrgica da Historia. LII. O primeiro grande dramaturgo inglés. 1601. e Shakespeare nunca fala língua mais "marinista". ás vézes esta descricáo amplia-se. e ésse ramo humanista do género continua nos "espelhos de príncipe" de Mengozzi. segundo as leis divinas e humanas. dias. Contudo. Walzel: "Shakespeares dramatlsche Baukunst". Marburg. 1934. no Eneas (1581). de Antonio Guevara ( 1 0 ). 1916. e T . admitindo que déste modo só poucos anos de atividade literaria de Shakespeare pertencem a "época alegre". em Barroco O 1 ) : a composicao das grandes tragedias. und 17. O exemplo antigo do género é a Ciropedia. t í o diferente nos dramas de historia inglesa e ñas grandes tragedias. IB) Cf. tinha importancia considerável: chamavamse essas obras "espelho de príncipes" ou "príncipe cristáo". Eckhardt: "Gehoert Shakespeare zur Renaissance oder ziim Barock?" (In: Festschrift fuer F. e até no X V I I I . lembrando-se aos leitores as desgracas dos que falharam aos seus deveres e descrevendo a felicidade futura de um govérno forte e justo. como Dover Wilson ( 1 8 ). Já nao é admissivel falar em "teatro elisabetano". 1. com quase todas as obras capitais. 1913. Eliot salienta. barroca. enquanto o resto. constituindo verdadeira utopia. influenciadas pelo eufuísmo. Tuebingen.860 OTTO MARÍA C A R P E AXJX. programa de educacao modelar de um rei oriental por um filósofo grego. As duas fases de Shakespeare nao sao resultados da sua experiencia pessoal. Prys: Der St#atsroman des 16. 14) J. A primeira obra dedicada exclusivamente á pedagogía política é o Relox de Príncipes. Para interpretar bem o teatro inglés é preciso estudar as concepgóes político-históricas da época. a distincáo nao é táo fácil como parece. que nos séculos X V I e X V I I . a influencia de Séneca. nota 91. quase contemporáneos. Dover Wilson: The Essential Shakespeare. Wuerzburg. maneja o verso com todas as pompas barrocas. seguidos imediatamente por Fletcher e Webster.) 13) J. Jahrhunderts. Cambridge. usou a epopéia de Virgilio como manual de educacao de um futuro rei. XXIV. 1943.

do Abade Terrasson. educador do príncipe Carlos Augusto de Weimar. A. o Basilikon doron (1607). 2 vols. Les Aventures de Télémaque (1699). Parts. de Juan Marqués e a Política de Dios. como lntroducfio da Politique tirée de l'Écriture sainte. Blzos: Fénelon éducateur. urna deformagáo irritante da Antiguidade. para fins idénticos. O. 1907. Jaquemot e Senault. Ninguém sentiu isso mais do que os jesuítas. do rei Jaime I da Inglaterra. tanto maior importancia tinha a educagáo dos futuros principes. á maneira de La Calprenéde e da Scudéry. 1886. Les aventares de Télémaque pareciam crítica audaciosa.862 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 863 Saravia. No fundo. y tiranía de Satanás (1626). tornou-se utopia. de cuja boa vontade e inteligencia dependeriam os destinos do Estado e de todos os individuos. polemizando contra o seu patricio de Genebra. Os romances políticos do século X V I I I sao todos utopistas. Quanto mais absoluto se tornou o poder dos reis. e aquéle ideal. daí a grande atencao dada á educagáo dos "Dauphins". do grande Mariana. O primeiro país em que o absolutismo real conseguiu realizacao completa. A educagáo dos príncipes absolutos nao dera c e r t o . é um romance heróíco-galante. . convém acrescentar-lhes o comentario históricobiográfico de Quevedo. O mais famoso désses educadores de corte é Fénelon ( ). preceptor do Duque de Borgonha e autor do romance político-pedagógico Les aventures de Télémaque. 17) Sobre Fénelon cí. O. París. táo realista e prático em Mariana e Quevedo. Gldel: la politique de Fénelon. o Sethos (1732). da qual fornecerum duas obras-primas: o Tratado de la Religión y Virtud que debe tener el Príncipe cristiano (1595). para terminar na utilizagáo da Odisséia. do Padre Pedro de Ribadeneyra. A obra inteira é urna alusáo á situacao e as necessidades futuras do reino de Luís X I V ..Epístola ad Innocentium XI de Ludovici Delphin iinstitutione (1679). publicada em 1709. que esperavam a felicidade terrestre pela alianca da Igreja com a monarquía absoluta. de Ramsay. que será o amigo de Goethe. daí o sucesso enorme — 20 edigoes só no ano da primeira publicagáo — que hoje nao compreendemos. París. précepteur du Dauphin. de maneira que aos ideáis cristáos se substituem cada vez mais os da Ilustragáo: Les voyages de Cyrus (1727). Floquet: Bossuet. Alfred (1773) e Fabius und Cato (1774) o regime aristocrático de Berna. Um retrógrado é o poeta suigo Albrecht von Haller. foi a Franga. de Quevedo. a Vida de Marco-Bruto (1644). apenas. O Arcebispo Hardouin de Péréfixe resumiu as suas idéias para a educagáo do futuro Luís XIV na Institutio príncipis (1647). e o De rege et regis institutione (1599). "O Neobarroco como base da Ilustracao e do Pré-Romantlsmo". Rousseau: com 17 • 16) . como confissáo da falencia do ideal jesuítico da política crista. 1864. Caben. e o grande Bossuet. Edicao por A. O estilo enfático e untuoso da narragáo constituí o desespero dos colegíais que aínda léem o Télémaque em "trechos seletos". nota 74.. e o programa político que o Arcebispo de Cambrai recomenda — absolutismo paternal e benevolente. as aventuras fantásticas servem para formar e advertir dos seus deveres o futuro rei de ltaca. o Coldener Spiegel (1772). sao títulos expressivos. esforgavamse por aplicar os seus principios pedagógicos á pedagogía política. prestou conta das suas idéias pedagógicas numa carta importante ao Papa Inocencio X I ( 1 6 ). Os preceitos dos jesuítas nao diferem muito dos ideáis de política crista dos leigos da época: El gobernador cristiano (1619). gobierno de Cristo. autor da significativa Politique tirée de l'Écrituresainte e preceptor do "Dauphin Louis". por Fénelon. Encontram-se as mesmas idéias até no manual de um rei de convicgoes meio absolutistas e meio protestantes. Aos contemporáneos. feudalismo moderado — já nao nos convence. 1920. París. defendendo nos romances Usong (1771). de Wieland.

A ésse intuito opóe-se a "Política de Dios". estao ao lado do jesuíta Possevino. o "secretario" (isto é. a Política de Dios. Joseph. Mas no coméco do século X V I I já era quase certo o malogro da "política crista". na Apología ad Carolum V Caesarem. a dos jesuítas e a dos outros. c. Cartas a diferentes personas con aforismos españoles y italianos (1598). todos éles autores de tratados antimaquiavelistas. 18) W. d i diplomacia feita atrás de portas fechadas nos gabinetes de reis e ministros. O século X V I I sentirá médo supersticioso da "política". e. ensinando-lhe. y advertimientos políticos sobre lo público y particular de una monarquía.864 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 865 efeito. O que carece de explicacáo é a uniformidade espantosa das idéias enunciadas pelos humanistas e jesuítas. O ttéculo X V I I tinha varios motivos para interpretar toda a política como arte do diabo. protestantes e arcebispos. urna política paga. que cai. abstendo-se da politica." E Quevedo. A tentativa frustrada deixa urna melancolía. e os seus argumentos nao diferem muito dos do huguenote francés Gentillet. rainha da Franca. presidentes. assim o cardeal Reginald Pole afirmou. e os tribunos democráticos alimentam até hoje a maior desconfianza contra a "diplomacia dos gabinetes" — alias. O absolutismo é o terreno próprio dos géneros "espelhos de principe" e "romance político-pedagógico". . importantísimos a los tales. A. opoe ao "gobierno de Cristo" a "tiranía de Satanás". para resumir em poucas palavras as conclusoes: aquela melancolía política é um dos motivos mais importantes do teatro barroco inglés ( l 8 ) . O motivo dessa unanimidade é o inimigo comum: Maquivel. Assim como os jesuítas afirmaram que a própria Virgem Maria . Quando as circunstancias políticas em que Maquiavel escrevera já estavam esquecidas. adversarios de Richelieu. alimentarlo ésse médo. os jesuítas. o Entile é o sucessor democrático de Télémaque. de Schiller. aplicam o maquiavelismo. Os jesuítas Ribadeneyra e Mariana. U Relaciones de su vida (1592). O Principe também é um tratado de educacio política. espalhando o boato das artimanhas diabólicas da "éminence grise". consejeros y gobernadores. além da arte paga e da literatura paga. autores de "espelhos de príncipe". de Quevedo. o teatro popular dos románticos conservou ésse conceito. 1928. Todos os príncipes. Napoli.cria ditado a S. virreyes. Rousseau significa o fim da pedagogía monárquica e crista. e o próprio Maquiavel um mensageiro do inferno. só se observaram as conseqüéncias da aplicacáo da sua doutrina por príncipes inescrupulosos. e o jesuíta Ribadeneyra acrescenta: "A pior e a mais abominável seita que o Demonio jamáis inventou. nem sequer individualidades tao independentes como Mariana e Quevedo se afastam do caminho. que aparece como resignacáo estoica. os cristáos e cristianíssimos inclusive. ñas maos dos criminosos ou dos imbecis. que vive só para arte e ciencias. Parece refutacao de / / Cortegiano. embora muito diferente do Príncipe cristiano. Daí a uniformidade dos preceitos. Sorrentlno: Storia délV Antimachiavellismo europeo. Inácio os Exercitia spiritualia. 1936. É digno de nota que a condenacao já envolve "os políticos" em geral. já dá a impressáo de urna utopia. verdadeiros mensageiros do Inferno. defendendo os seus correligionarios contra o maquiavelismo de Cartarina Médicis. Benjamín: Der Ursprung des deutschen Trauerspiels. Berlín. e um désses motivos era o caso de Antonio Pérez ( " ' ) : ésse epistológrafo famosíssi- 1 > Antonio Pérez. o conselheiro "secreto") ou cortesáo é sempre urna pessoa suspeita de ter concluido um pacto com o diabo. Maquiavel pretendeu "politizar" o "cortegiano". Norte de principes. déste modo. desconfianza justificada. que o próprio Diabo teria ditado as obras de Maquiavel. de Castiglione. 1640-1611. no título da sua obra. do P . No teatro dos séculos X V I I e X V I I I . Segundas cartas y más aforismos (1603). é a dos chamados políticos. até em Kabale und Liebe. aquela doutrina parecía obra do diabo.

suportando com resignacáo estoica as traicoes e maldades. presidentes. o Norte de Príncipes. quer dizer maquiavelista. O estoicismo. o que nao deixará de influenciar as formas dramáticas do teatro inglés. que se dirige. quando o rei e o secretario brigaram e éste último foi perseguido e exilado. a "virreyes. J. 1926. evidentemente. París. El gran Séneca de España. Buenos Aires. A obra devia parecer mais útil do que outras semelhantes. também admiraram em Tácito a interpretagao pragmática. finalmente. era. No dizer de Giorgio Dati. da historia. e Séneca. Padova. um caso isolado. 1914. Toífanin: Machiavelli e il tacitismo. segundo o título da tragedia de Pérez de Montalbán. em copias manuscritas. em quem encontrou a situagao política e psicológica do individuo em face da tiranía e a ligio da resistencia estoica. Déste modo. o mártir. Em face désse acontecimento misterioso. porque o autor era homem da prática política: fóra secretario particular do rei Filipe I I da Espanha. sobre a formaijao do estilo barroco e a sua divulgagáo internacional. mais perto de Maquiavel. ressuscitada n o século X V I por Lipsius e tantos outros ilustres humanistas ( 2 0 ). O século X V I I prefere Tácito ( 2 1 ). 1845. que adoravam o estilo epistolográfico de Pérez. o rei cristianíssimo da Espanha transformou-se em tirano terrível — assira aparece no romance de Saint-Réal e ñas tragedias de Alfieri e Schiller — e o secretario diabólico transformou-se em mártir da resistencia estoica contra o mal. Mas a mentalidade barroca nao •dmitiu essa "maravilha". Fitzmaurice-Kelly: Antonio Pérez. todos os conceitos moráis sobre política mudaram. 11) G. Mas antes de caracterizar os elementos que tem em comum com o teatro espanhol. :•»> L. E l e é também autor de um tratado de educagao política. atribuiram-se á influencia de Pérez os atos de intolerancia e violencia do rei. O teatro inglés nao é. Aos estrangeiros. Oxford. Filipe II. será preciso explicar as diferengas. forneceu o "état d'áme" e a psicología. Nao suportava outra historiografía senáo a retórica ou entao a pesquisa erudita de pormenores insignificantes. o estoico. porém. consideravam Pérez como traidor. e o rei como mártir da sua alta dignidade. F. o próprio subtítulo da obra invoca a "ra2Ón de Estado" de Maquiavel. 1947. De repente. A aplicacao do estoicismo á teoría política encontrou-se no estudo de Tácito. consejeros y gobernadores". fundados em materia de razón de Estado y de Gobierno (publicado 1788). Marañón: Antonio Pérez. 3 Europa inteira se assustou. A Historia era o reino do caos irrazoável. que traduziu em 1563 os Anais para impecável lingua toscana. Com efeito. . da filosofía de Séneca. Edlcáo de obras escolhldas ín: Biblioteca de Autores Españoles. mas foi mais profunda a influencia da vida de Pérez. O s humanistas. na solidao melancólica do seu gabinete no vasto palacio do Escorial. até entáo muito menos considerado do que Lívio. Gr. a todos ésses personagens suspeitos de pactos com o diabo. pelas suas cartas literariamente elaboradas. a rede de motivos e conseqüéncias. o intrigante diabólico — o "villain" do teatro jacobeu. porém. sentiam médo supersticioso do Norte de Príncipes.866 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAI 867 mo exerceu influencia profunda. O "secretario" era bem um diabo. Mlgnet: Antonio Pérez et Phllippe 11. no título. Mas os contemporáneos. é também o dramaturgo mais lido e mais admirado da época. Os espanhóis. 1922. xm. Da tarefa que a Razao abandonara — tornara comprecnsível o caos dos fatos históricos — encarregou-se a dramaturgia. ambos os partidos exploraram o caso Pérez conforme os conceitos do estoicismo. impresso só em 1788. A historia contemporánea forneceu os tipos dramáticos : o tirano. Zanta: La renaissance du stoicisme au XVIe siécle. Tácito "racconta con meraviglioso ordine le cause motrici". París. O "tacitismo" forneceu "le cause motrici". Descartes rejeitou a historiografía como acientífica. mas feralmente conhecido já antes de 1600. daquilo que nao podia ser transformado em ciencia.

na Inglaterra. no sentido de Castelvetro. A solugáo de Castelvetro abriu ao teatro jesuítico e ao teatro espanhol o repositorio dos assuntos históricos. no sentido de Castelvetro. tratados como se fóssem inven$óes. Mas a diferenga dos valores nao tem importancia. Quem operou a síntese foi. . que é verdade. Fusco: La poética del Castelvetro. Enfim. pois. mas nao só no teatro inglés. Foi urna solucáo engenhosa. em 1595. As analogías notáveis entre o teatro espanhol e o teatro inglés provém do fato de que ambos constituem sínteses de um teatro popular e de um teatro literario. porque o teatro grego se baseia no mito. era urna "lenda". Meyer: Machiavelli and the Elizabethan Drama. o ponto de vista 22) Ludovico Castelvetro. Outra diferenga refere-se ao conceito do estoicismo: na Espanha. dando margem a construgóes dramáticas e ínterpretagoes psicológicas no sentido de Séneca dramaturgo e de Séneca estoico. e gracas ao enredo inventado transformou-se a "favola pastorale" em comedia. O problema foi resolvido pelo teórico antiaristotélico Ludovico Castelvetro ( 2 2 ). que aqui se enquadra na evolugao da dramaturgia européia. Contre Nicolás Machiavel le Florentin. Maquiavel. em Espanha. em 1602. Mas os dramaturgos elisabetanos nao conheciam Maquiavel. Thomas Kyd. disso resultou a feicáo novelística das tragedias históricas espanholas. um dramaturgo apenas extravagante. La Poética d'Aristotele (1576). mas sem bom éxito. era antimaquiavélico. urna doutrina dos cultos. imitava-se asslduamente o teatro grego. A influencia de Séneca no teatro inglés é de importancia capital . e traduzido para o inglés por Simón Patericke. e o maquiavelismo era "lenda". A influencia aparente do maquiavelismo no teatro inglés é muito forte ( 2 8 ) : o nome do secretario florentino aparece sempre citado. Flrenze. lendária. e disso resultaráo diferentes convenc. o maquiavelismo. do huguenote francés Innocent Gentillet: Discouis sur Jes moyens de bien gouverner et maintenir en bonne paix un royaume. sem Ihe negar o genio. 1904.868 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTÓBIA DA LITERATURA OCIDENTAL 869 Eram diferentes. urna filosofía popular. Lá nao havia o moralismo contra-reformista. A Contra-Reforma baniu o mito pagáo. A. Os dramaturgos deviam o conhecimento da doutrina apenas a um obscuro panfleto antímaquiavelista. O Príncipe. na tradugáo de Edward Dacres. nao podia entrar no teatro dos países católicos. e Poesía. O assunto da tragedia seria a historia remota. Até entáo. Napoll. polémica moralista contra urna doutrina que dominava a atualidade política. na Inglaterra. pelo menos em parte. Nao assim na Inglaterra. que é ficcáo. quando se trata de relagoes históricas. e os seus conceitos sao atribuidos aos "villains". A única obra que se traduziu relativamente cedo. para nao transformar-se em mentira.oes dramatúrgicas. na filosofía aristotélica: á Poética de Aristóteles faz urna distincao táo nítida entre Historia. por motivos de teoría estética. Quando os dramaturgos jesuítas trataram assuntos da historia contemporánea. para nao transformar-se em historiografía. meio incerta. na Inglaterra. publicado em 1576. A base popular do teatro espanhol é mais renascentista do que me23) E. na Espanha e na Inglaterra. alheio ao mundo cristao. nem pode inventar os seus assuntos. 1897. BÓ foi publicado em 1640. Praz: Machiavelli e gli Inglesi dell'epoca eílzabettiana. tem. o genio Lope de Vega. de tratar assuntos históricos que nao estáo certos e deixam margem para mod i f i c a r e s inventadas sem ofender a verdade. tragedias de tempos lendários da Espanha ou de países longínquos. 1937. foram as Istorie fiorentine. os teatros populares que o Barroco e n c o n t r o u . da maneira seguinte: a poesia nao pode tratar assuntos históricos. dois anos antes do fechamento dos teatros pelos puritanos. pouco conhecidos. Berlín. que a literatura barroca parece impedida de tratar assuntos históricos. M. A aversao do Barroco á H i s t o r i a baseia-se. 1505-1571. que forneceu ao teatro inglés os tipos da tragedia.

mito pagáo e por isso impossível no teatro moderno. Mas na tragedia latina de Séneca. na verdade. os "Morality Plays". a' primeira tragedia "regolar" da literatura italiana e européia. a retórica. Orbeche (1541). tem valor apenas cronológico: é a primeira do género.870 Orco MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 871 dieval: Gil Vicente e os seus sucessores. Os componentes literarios. os Misterios medievais. pela "catarse". a influencia de Séneca. C. Mas foi intensamente admirada. 1896. purificando assim. 1904. preparada para o gósto espanhol. é a Contra-Reforma católica que influí. foi decisiva. os autos sacramentáis. recebida através da Franga. sao tragedias inteiramente humanas. empregando-se a palavra pastoril no sentido de Empson: para conferir dignldade trágica a personagens nada heroicas e a conflitos comuns. Quando Gian Giorgio Trissino criou. Ésse criterio moralístico só parece aristotélico. Giraldi nio encontrou modelo de urna tragedia assim que nao fósse. Cloetta: Die Anfaenge der Renaissancetragoedie. baseara-se no m i t o . a alma do espectador. segundo o modelo de Sófocles. os melhores da Europa. depois a novelística italiana. no teatro moderno. Eis o problema em face do qual se encontravam os dramaturgos italianos do século X V I i2*). P. de literatura culta. O segundo é o apanágio do teatro popular. como o Édipo. Assim entendeu Giraldi Cintio ( 26 ) os preceitos dramatúrgicos da poética aristotélica: a tragedia produz "terror • compaixao" por meio da representagao de horrores no palco. e Giraldi apontou como modelo o Thycstes com os seus efeitos terríveis: assassínios. Na tragedia grega. A peca. e o mundo moderno nao é capaz de acreditar no mito antigo nem possui mito próprio. 25) W. <Cf. Firenze. Discorso intorno al comporre dellt comedie e delle tragedie (1643). Os Misterios medievais nao parecem ter sido muito importantes na Espanha. espectros. mas explicou a falta de efeito trágico de outra maneira: como falta de efeito moralizador. sao os precursores imediatos do teatro popular da época da rainha Isabel. prova da falta absoluta de talento dramático do autor. grande retórica dos coros. Guerrieri Crocetti: Giovan Battista Giraldi e il pensíero critico del secólo XVI. . O grande problema foi o assunto histórico. ao contrario. 1504-1573. A crítica contemporánea observou bem essas falhas. primeiro modelo dos humanistas. sao antecessores só de um ramo especial do teatro. Orestes). 1032. 1890. o sentimentalismo. 24A) As vers6es modernas de enredos trágicos gregos também sao "fábulas pastoris". católico. CiampoJlnl: La prima tragedia regalare della letteratura italiana. da qual a maior expressao dramática é o teatro jesuítico. o mito grego. Séneca foi o modelo de Giraldi. Aquila. a Sofonisba ( 2B ). A tragedia grega. Bilancini: Oiovan Battista Giraldi e la tragedia italiana nel secólo XVI. Ali. A escolha estava entre enredo histórico e enredo inventado. "O 'Cinquecento"'. nao sao menos diferentes. é um criterio de moralismo religioso. d o s quais nao existe pendant na Inglaterra meio protestante. Na Inglaterra. e Giovanni Rucellai (Rosmunda. Firenze. E os sucessores dos Misterios. que já pressagia a Contra-Reforma. a imitacao do teatro latino de Séneca nao deu resultados apreciáveis na Espanha.) 26) Oiovan Battista Giraldi Cintio. parodias offenbachianas. defeitos inerentes a tantas outras imitacdes modernas do teatro grego. dá "fábulas pastoris" ( 2 4 " A ). Ralle. dos dois teatros. Neri: La tragedia italiana nel 500. já contém elementos essenciais da dramaturgia inglesa. Firenze. Na Espanha. intencionáis ou involuntarias. o primeiro nao cabía no esquema da tragedia grega. nota 17. em 1515. Lodovico Martelli (Tullía) e Pomponio Torelli (Merope) imitaram-na em pegas que tornam aínda mais evidentes as fraquezas do original: a falta de dramaticidade. 1892. estava bem consciente da impossibilidade de tratar um assunto mítico. escolheu um episodio da historia romana. ao contrario. ou entáo 24) F. E. por isso. os meamos enredos já nao tém significacáo religiosa. na técnica dramática e na mistura constante de elementos trágicos e cómicos.

"Oposlgóes Barrocas e Antlbarrocas". d e L o d o v i c o D o l c e . s ó o e s t o i c i s m o popular se encontra com o genio n a c i o n a l .) C. S c h o p e n h a u e r . nota 19. a Castro. a s s i m c o m o em o u t r a s p a r tes. O teórico francés que tem papel correspondí Cristóbal de Virués. u m Julius Caesar em língua latina. o t e a t r o e s p a n h o l e s t a r í a m a i s p e r t o d o i n g l é s . siécle. 1500-1588. contra o Giudizio sopra la tragedia di Canace. Paris. A Numancia foi. 30) Cf. d e T a s s o .G e l a i s t r a d u z i u . 1530. se a c o r r e n t e senequista tivesse encontrado possibilidades de sintetizarse com o t e a t r o p o p u l a r . a h o r r i v e l Acripanda (1591). Sén e c a foi o g r a n d e m o d e l o d o s d r a m a t u r g o s i t a l i a n o s q u e t r a n s f o r m a r a m o p a l c o em d o r m i t o r i o p o l u t o e m a t a d o u r o s a n g r e n t o . ant r o p ó f a g o s c o m o e s p e c t a d o r e s .a em 1548. J e r ó n i m o B e r m ú d e z imitou-a. d e p o i s t a o f r e q ü e n t e n o t e a t r o i n g l é s . 1609. M a s n a E s p a n h a . publicada só em 1784. P e c a s como a Marianna (1565). d e A n tonio Decio da Orte. d n : Obras. n o comégo. e x p r i m i n d o conceitos de grandeza da a l m a e s t o i c a . Tragedias: Elisa Dido. etc. 1920. A p r o p ó s i t o da Numancia. q u e se t o r n o u f a m o s í s s i m a c o m o p r i meira tragedia moderna em q u e aparece o motivo do incesto. d r a m a t u r g o v i o l e n t o . se b e m que de sucesso duvidoso. A s evolugoes e s p a n h o l a e f r a n c e s a f o r a m p e r f e i t a m e n t e a n á l o g a s . d e L u i g i G r o t o . O m o r a l i s m o c a d a vez m a i s r í g i d o da C o n t r a . c o n v e n c e u . Cf. U m dos ú l t i m o s p r o d u t o s d é s s e g é n e r o é o TOTTÍSmondo (1586).R e f o r m a foi o m o tivo e x t e r i o r d o m a l o g r o e n q u a n t o a t r a g e d i a s e n e q u i a n a nao conseguiu a síntese com um teatro popular.s e S p e r o n i d o s e u e r r o e m o d i f i c o u a peca á m a n e i r a d e S é n e c a . 1954. Apología (1544. R. d e M u z i o M a n f r e d i . de Cervantes ( 3 0 ) : pega de patriotismo retórico. E. s u r g e urna i m i t a g a o d a Sofonisba. a d e s m a i a r . q u e j á nao t e v e s u c e s s o r e s . O s d e f e i t o s d r a m á t i c o s da Orbecche f o r a m e v i t a d o s n a Canace. mas i n t r o d u z i n d o p e r s o n a g e n s a l e g ó r i c a s .A n t o i n e M u r e t . Sargent: A Study of the Dramatical Works o/ Cristóbal de Virués. La gran Semiramis. p e r t e n c e ao m e s m o g é n e r o t e a t r o " g r e 27) Sperone Speroni. c h e g a n d o a s m u l h e r e s . Empoll. París. s e g u n d o o c o n c e i t o a r i s t o t é l i c o . D e s d e e n t á o . a Dalida (1572). d e m a n e i r a m u i t o exata. no dizer de Ginguené. a Semiramis (1583). e nao sem razáo. T i c k n o r l e m b r o u . É urna c r i a g a o de todo original. S é n e c a e n t r o u a t r a v é s dos c o l e g i o s h u m a n i s t a s : p a r a o c o l e g i o d e B o r d c u s escrevera M a r c . Cammarosano: La vita e le opere di Sperone Speroni. p o r A u g u s t W i l h e l m S c h l e g e l . 1883. a s s a s s i n i o s e s u i c i d i o s . e n t r e os e s p e c t a d o r e s .s e d e Macbeth. Urna t e n t a t i v a s e r i a d e p u r i f i c a c á o e e s p a n h o l i z a c a o d o t e a t r o i t a l i a n i z a n t e é a Numancia. foi i m a g i n a d a c o m o t r a g e d i a a u t é n t i c a m e n t e grega. d o famoso t e ó r i c o S p e r o n i ( 2 7 ) . II) 28) . m a s foi e l o g i a d a s ó p e l o s r o m á n t i c o s d o comégo d o s é c u l o X I X . A. V i r u é s lembra m u i t o Marlowe. o estoicismo e r u d i t o fica á m a r g e m . c o m a peripecia como centro moral d a obra. Lebegue: La tragedle ¡rancaise de la Renalssance. á m a n e i r a d e L u c a n o e Séneca. t r a g e d i a d e h o r r o r o s o s i n c e s t o s . New York. s e m c o r o s . A m a n e i r a d o s s e n e q u i s t a s italianos foi i n t r o d u z i d a p o r V i r u é s ( 2 B ). Canace (1542). e m 1544". S h e l l e y . d u r a n t e a polémica q u e a Canace s u s c i t o u . Epopéla: Monserrate (1588). que m i s t u r a n o p a l c o os h o r r o r e s m a i s c r a s s o s c o m b e l e z a s líricas e grande retórica. Fano: Sperone Speroni. 1543). F. Faguet: La tragedle franqaise au XVle. de T r i s s i n o : Mellin d e S a i n t . d o p o r t u g u é s A n t o n i o F e r r e i r a (* 8 ). o teatro estava condenado a permanecer teatro experimental dos literatos. V. F . S o u t h e y . N a P e n í n s u l a I b é r i c a . ñ a s t r a g e d i a s clássicas Nise lastimosa e Nise laureada (1577). parece m u i t o c l a s s i c i s t a . 1550-1609. 1909. Padova. "O 'Clnquecento'". nota 6. Aula furioso. g o " d e T r i s s i n o . e e s s a s pegas f o r a m r e a l m e n t e r e p r e s e n t a d a s p e r a n t e p l a t é i a s q u e d e r r a m a r a m lág r i m a s . mereciam. e foi o u t r a s í n t e s e q u e v e n c e u .872 Orro MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA L I T E H A T U R A OCIDENTAL 873 n a t r a g e d i a Oibecche. E m F r a n g a ( 3 1 ) .

que durante muito tempo só foram consideradas do ponto de vista da evolucao histórica do género. estabelecendo a regra das tres unidades. A amostra mais característica désse verbalismo é o drama bíblico Les Juives. . segundo a expressao de Lintilhac. ó thébaine c i t é . Marc-Antoine (1678) . Cardón: Robert Garnier. P. Jodelle é poeta da Pléiade. parecem. 1905. H. 1949. nao foi porque a forma dramática estivesse imperfeita. N'est plus qu'un monceau de pierre. Encontrará realizacáo perfeita na tragedia classicista do século X V I I . Cléopátre captive (1552). seguindo mais Séneca do que Eurípides. substituida.) Porcie (1568). 1534-1590. através de atos inteiros. sao grandes obras da poesia francesa. ó race généreuse. e Garnier é até um grande poeta da Pléiade. . F. Hippolyte (1573). "Renascenca Internacional". é o famoso latinista Julius Caesar Scaliger ( 3 2 ) : é. e urna obra sua contra Cardano revela o seu aristotelismo contra-reformista. Baltimore." Dai a opiniáo geral sobre Garnier: precursor imperfeito de Racine. " e continua: "Notre orgueilleuse Cité. considerava a tragedia como vaso das grandes emocóes. 1923. Poetices libri VII (1661). sobrenido das emogoes coletivas. Qui les cites de la terre Passait en felicité. mas nao tem nada com o senequismo popular da literatura espanhola. "o fundador do classicismo. mas de urna retórica disciplinada. maior poeta lírico do que dramaturgo. Paris. Patterson: Three Centuries oí French Poettc Theory. "Renascenca Internacional". 1907. na verdade. Lebégue. París. Didon se sacrifiant (1558). sem dúvida. Ann Arbor Mlch. A do século XVI é diferente. De causis Unguage latinae (1540). Corneille e Racine nao sao própriamente poetas líricos. pegas de alta retórica. As poesías líricas de Garnier nao confirmam essa opiniáo: as grandes elegias dedicadas a Desportes e a Nicolás Ronsard e aquela sobre a morte de Pierre Ronsard sao. Maulnierr Langages. imitador de Séneca. Epistolae (1600). aos gregos já preferindo Séneca. nota 33. enquanto na tragedia latina prevalecem as decisoes éticas e Tazoaveis. Lausanne. 1935.La Troade (1579). junto com a tragedia Troade. por ser menos dramática e mais lírica. do qual um coro está em todas as antologías de poesia francesa. Vol. Cornélie (1574). Edicao de obras escolhidas por R. Paris. Tu meurs. Se Garnier se excedeu em verbalismo ñas tragedias. 1887. inferiores. Dido — sao significativos. entáo. antes favorece a retórica. " — é comentario indispensável á compreensao daquele coro de Les Juives. o moralismo e a "Raison". Edicao por L. . per finiamente clássica. porque na tragedia grega as personagens agem conforme instintos e paixoes imorais. mas porque Garnier. Exercitationes in Cardani De subUlitate (1551). A. aquéle que comega: "Pauvres filies de S i o n . Lintilhac: De Julii Caesaris Scallgeri poetice. O primeiro aspecto do teatro de Garnier é o de incapacidade dramática: a agáo é lenta e incoerente. (Cf.. pela efusáo lírica e retórica. a relagáo . e Garnier mero precursor. Bernage: Étude sur Robert Garnier. Th. é preciso modificar a definigao: ele também é 32) Julius Caesar Scaliger. E. mas os assuntos das suas tragedias — Cleópatra. Paris 1880. 1484-1558. nota 32. Pinvert. 33) Cí. substituindo a psicología das paixoes pela retórica. Um coro da Antigone — " T u meurs. Bradamante (1582). Les Juives (1583). 2 vols. 1946. cem anos antes de Boileau". e revela. Jodelle ( 33 ) é maior como poeta lírico do que como dramaturgo. W. Carrington Lancaster: The French Tragi-comedy. mas revela esta superioridade ñas próprias tragedias. A doutrina de Scaliger é senequista. . Paris.874 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 875 dente ao dos italianos Giraldi e Speroni. 34) Robert Garnier. I. No caso de Robert Garnier (Si). Antigone (1580).. Distingue-se dos primeiros teóricos italianos.

pela primeira tradugáo inglesa das dez tragedias de Séneca ( 3 T ). é preciso procurá-la na única tragicomedia de assuntos fantásticos escrita por Garnier: Bradamante. Ford. na Antigone. Eliot. mas a sua compreensáo. Mas isto seria analogía só com os dramaturgos "demoníacos" da época jacobéia. Newhaven. Witherspoon: The Influence of Robert Oarnier on Elizabethan Drama. a imitasáo de Séneca e a emo$áo pessoal: e era isso o que os primeiros dramaturgos elisabetanos considerkvam como ideal da arte dramática. a destruicáo da sua própria gente. 1921. A síntese dos dois teatros foi operada por Kyd sob a influencia direta de Garnier. a guerra fratricida na Fran$a. Edigfio por T.) 36) Cf. L. 2 vols. e deu o primeiro teatro elisabetano. Nuce. seria mais urna questáo de afinidade entre genios poéticos. A s conseqüéncias teriam sido insignificantes. Kastner e H. As primeiras tragedias inglesas á maneira de Séneca sao trabalhos eruditos: o Gorboduc (1562). O de l'air embruni planétes luisantes! courses rayonnantes! Hécate aux noirs chevaux! les lumineux f l a m b e a u x ! . B. A verdadeira analogía. F. Relmpressa como: "Séneca ln Elizabethan Translatlon". como The True Tragedy oí Richard III. que abundam ñas pecas de assunto clássico de Garnier. um acaso curioso. 1927. A semelhanca entre estas e as pecas inglesas entre 1580 e 1590 nao é.876 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 877 entre os modelos e a emocao pessoal do poeta: como Séneca. porque sentiu a agonía. a Jocasta (1566) e o Gismond oi Sáleme (1567). mas. Cambridge. 1893. The Troublesome Raigne oi John. ao mesmo tempo.a ed. A crítica moderna procura analogía sobretudo ñas famosas "passagens demoníacas". Btudley e Tilomas Newton. segundo estudos recentes. o motivo íntimo foi o fato de Garnier ter combinado. . citada em 37. Lucas: Séneca and Elizabethan Tragedy. Na Inglaterra existia um teatro popular assim: a sucessáo dos "Morality Plays". editadas por Newton em 1581). e das primeiras tragedias de Shakespeare. está fora de qualquer filiacáo inglesa. o dos tradutores de Séneca. mesmo assim. predecessores imediatos do teatro histórico de Shakespeare. S. 2. inspirando a grande tragedia do teatro jacobeu. De outro lado. London. só comparável ao Plutarco.* A. cita-se a invocagáo. Eliot: Introducto a edicáo das Tenne Tragedles. Tourneur. 37) The Tenne Tragedles of Séneca (traduzldas entre 1559 e 1581 por Jasper Heywoód. na época dos Tudors. mas com arte verbal incomparávelmente inferior. o 35) J. de North. O protestantismo de Garnier talvez contribuísse para abrir á sua influencia as portas do teatro inglés. T. se nao fósse a impressao profunda produzida. The Famous Victories oí Henry V. Só depois comecou a assimilacáo da filosofía estoica de Séneca. London. e em Les Juives. nota 10. déste modo. E. citada na nota 40. Alexander Nevyle. o de Kyd. no quarto ato da Porcie: "O terre! ó ciel! ó O soleil éternel en O reine de la nuit. W. . " existia um teatro literario. M. de George Gascoigne.. L. 1941. Charlton: Introduc&o á ediqáo das obras de William Alexander. Mas na Franca nao existia teatro popular capaz de servir de base para urna síntese á maneira espanhola ou inglesa. London. de maneira admirável. anónimas e populares. revelam que o teatro inglés estava a caminho de produzir formas semelhantes as de Garnier. por isso traduziram e imitaram as obras de Garnier. Eis urna peca elisabetana em língua francesa. O processo de "senequizasáo" do teatro inglés é complicado. de Sackville ( a 8 ). com Webster. o de Sackville e Gascoigne. Essa maravilha da grande arte de traduzir. . Marlowe. o protestante Garnier lamentou. 1924. S. facilitou aos contemporáneos a compreensáo da arte verbal de Garnier. CunUffe: The Influence of Séneca on Elizabethan Tragedy. é o único caminho possível para chegar a urna defímero exata do teatro barroco inglés ( 3 5 ). prefere Garnier os espetáculos da agonía e morte. (ln: Selected Essays. no teatro de John Bale e ñas pecas históricas.

Elementos da "tragedia de vinganga" aparecem no Jew of Malta (1592). depois de Kyd. Bullough. e. é. Edlcao das obras por L. Four Monarchique Tragedles: Croesus. Croll: The Works o] Fulke Greville. 1946. E. e a sua fama baseia-se no acaso da utilizaglo da sua crónica por Shakespeare. Ao lado da purificagáo do género pela arte shakcspeariana. aprésente ñas suas quatro "tragedias monárquicas" algo como urna transposígáo do Mirror for Magistrates para as regióes da historia greco-romana. Edlcfio por G. de Kyd. Tillyard: Shakespeare's History Plays. Kastner e H. XXVin. . marcam a evolugao. de Séneca: também tragedia de urna vinganga sangrenta. é um 39) Cf. William Alexander (*°).878 OTTO M A M A CAHPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 879 teatro á maneira de Séneca teria continuado apanágio exclusivo da gente culta. Thomas Kyd. e consegue ao mesmo tempo anglicizar a filosofía estoica. pela primeira vez. Holinshed é apenas um compilador. Bullough: "Fulke Greville. e a historia da sua evolugao é o guia mais seguro pela evolugao do drama elisabetano-jacobeu ( 30 ). Na Revenge of Bussy d'Ambois (1613). A tragedia de vinganga tornou-se permanente no teatro inglés. até ao Hamlet (c. his Faire Corneliaes Tragedy (impresso em 1595. de Raphael Holinshed.) 38) Edward Hall. t 1547. G. Julius Caesar (1604/1607). O Mirror for Magistrates revela na narracao poética das desgragas políticas um conceito trágico da Historia que nao encontra analogía ñas Chronicles. O fim da evolugao encontra-se ñas obras curiosas e até impressionantes de Fulke Greville ( 4 1 ) : como poeta lírico. talvez. (In: Modern Language Review. A Spanish Tragedie (1589). Kyd tomou por modelo. 1606) é a obra capital desta sintese suprema do teatro histórico com a filosofía de Séneca. 1945. The Aíexandraean. Earl of Stlrllng. B. Mas o segundo grande representante do género. o Thyestes. citada em nota 40. Um poeta aristocrático e erudito. vol. os dois elementos estío perfeitamente conjugados. agora reconhecido como criador daquele conceito trágico da Historia ( 3 8 ). de Marston. O enredo — vinganga sangrenta de um pai por motivo do assassínio do filho — é popular e está em relagáo com a historia. de Chapman. 2 vols. de Garnier. seja ao mesmo tempo o primeiro tradutor daquele dramaturgo francés: o seu Pompey the Great. M. New York. The Union of the two Noble and ¡Ilústrate Famelies of hancastre and Yorke (1548). para impressionar os espectadores populares. de Marlowe. é o próprio Shakespeare: Titus Andronicus (1593). continua a tragedia do horror "sans phrase" na History of Antonio and Mellida (1602). e: F. se nao se tivesse encontrado cora urna evolugao parecida do teatro popular. First Lord Brooke". urna sintese completa dos dois elementos constitutivos do teatro inglés. Charlton. Lord Brooke. Julius Caesar (1599). 40> William Alexander. Remalns (1670). Prlnceton. M. de Hamlet. Manchester. fonte imediata do Mirror for Magistrates. Deu-se menos atengáo ao seu predecessor Edward Hall. Assim se explica que o representante mais poderoso do teatro popular. homem culto alias. E. na Revenger's Tragedy (1607). Macbeth (c. 1554-1628. 1903. Na elaboragao da pega. diferente do tipo shakespeariano. o autor da Spanish Tragedle. W. 2 vols. Thayer Bowers: Elizabethan Revenge Tragedy. a obra de Kastner e Charlton. 41) Fulke Greville. 1567-1640. já entao conhecidíssima. Kyd criou um tipo. I. 1921. Mustapha (1609). Com efeito. em que a "tragedia de vinganga" chega á sua expressáo mais completa e a dramaturgia terrificante de Séneca principia a completar-se pela filosofía estoica de Séneca. aparigáo de espectros.. Richard III (1594). 1940. Darías. mas já antes conhecido) é a versao inglesa da Cornélie. assassínios e mortes no palco. No estilo de Garnier escreveu Samuel Daniel a Cleopatra (1594) e o Philotas (1611). Alaham. Oxford. chega á grande arte. de Tourneur. Janeiro de 1933.1603). Phlladelphla.. com grandes explosoes de retórica. conhecidas como fonte principal das pegas de historia inglesa de Shakespeare.

ou entáo a pretensao de apresentar o mesmo palco primitivo ora como palacio real. que era. a Morte exerce fascinagáo irresistível. no teatro renascen- tista. indicou-se o conceitó da m o r t e : no teatro medieval. Depois. só desculpáveis pela ingenuidade dos espectadores de entáo. O ponto de partida é o teatro medieval inglés. a moral é concebida como suprema balanca do Universo — assim ñas pegas de historia romana de Shakespeare. através da Renascenca elisabetana. que nem sempre é decadencia. de Beaumont e Fletcher. urna grande "máquina" barroca. apesar do qual Shakespeare teria realizado obras geniais. é o mais barroco de todos os dramaturgos ingleses. um dos quatro atos de Four Plays in One.• 880 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 881 "cortegiano" da Renascenga. tratando um enredo novelístico como se fósse historia contemporánea. um desenvolvimento do teatro medieval. K. Daí vém duas particularidades do teatro elisabetano: a mistura íntima e continua dos elementos trágico e cómico. demonstrando-se a vitória das fórgas do bem. poeta da "majesty of Power" e da luta entre "Passion and Reason". C. de erotismo intenso. Chambers: The Elizobethan Stage. a morte é urna advertencia moral. comega o declínio. pareciam pretensóes absurdas. tratando um caso da crónica policial. acostumado as convengoes teatrais do teatro clássico francés. A filosofía estoica. Bentley: The Jacobean and Caroline Stage. ao qual pertence a maior parte do teatro inglés. de modo que o "double plot" 43) E. a morte é um caso trágico. e na cena seguinte como floresta. ao contrario. a pretensao de condensar em poucas horas de representagáo teatral acontecimentos de anos ou geragoes inteiraa. 1923. afinal. a Historia volta a ser o grande caos com todas as conseqüéncias da perversáo moral e do pessimismo cósmico. pseudo-shakespeariana. 1941. A. e a resignacao em lamento da "wearisome condition of humanity". O Triumph of Death. em religiosidade angustiada. A crítica do século XIX já nao fez questáo das tres unidades aristotélicas. é. como demonstra o aprofundamento psicológico da tragedia de vinganga no Changeling (1624). e só suportáveis em virtude do genio verbal de um Shakespeare. E. A evolucáo da "tragedia de vinganga" é um guia pela evolugáo do teatro inglés: do teatro popular e meio medieval. O século X V I I I . de Shirley. E só as pesquisas recentes de historia teatral é que revelaram aquetas convengoes como condigáo essencial da arte de Shakespeare e dos seus contemporáneos e sucessores ( " ) . Mas o género mudou de significagáo. o género desmente a teoría da qual nasceu. converte-se. A o mesmo tempo é Greville um espirito inquieto. em Greville. London. por sua vez. as poesías pré-dramáticas do Mirror fot Magistrates e as pegas de historia inglesa de Shakespeare — o conceitó da Historia é patriótico e moralista. J á a Yorkshire Tragedy (1619). no teatro elisabetano. E no Cardinal (1641). nesse sentido. poucos minutos depois como campo de batalha. no teatro jacobeu. nao podía deixar de ver naquelas convengoes el ¡sabe tanas um caos ou urna infantilidade. Ésses conceitos renascentistas ou barrocos. ñas suas tragedias de vinganga. conforme as suas próprias palavras. Harbage: Shakespeare's Audience. mistura que mais tarde se transformou em arte barroca de contrastes fortes. aparecíam ñas formas e convengoes do teatro popular. quando representados no palco inglés. o conceitó da Historia é universal e trágico. é urna tragedia novelística. barroco. de todo diferentes. burguesa. mas também só suportou aquilo como embarago. Está isso em relagáo exata com tres conceitos diferentes da Historia: no teatro popular — e a éste pertencem. conhecedor de teorías "revolucionarias" da Renascenca italiana. 2 vols. Oxford. Como criterio de distingáo. um grande senhor aristocrático. pseudo-histórica. "republicano" e "ateísta" estoico indomável. 1941. os Misterios. 4 vola. New York. no teatro barroco. de Middleton. ao Barroco jacobeu. .

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— compondo-se as pegas d e dois enredos, um serio e o u t r o humorístico — é a qualidade mais característica do teatro inglés; a outra é o hábito das reflexóes moráis, que serviram mais tarde ao Barroco para distinguir nítidamente, com preferencia pelo monólogo revelador, os caracteres nobres e os infames, os "villains". O palco dos Misterios era do tipo "simultáneo"; varias construgoes, colocadas urna perto da outra, as "mansions", simbolizavam os diversos lugares em que se teriam passado os acontecimentos dramáticos. O teatro elisabetano permaneceu, no comégo, nesse tipo de palco, menos ñas representagoes na corte e nos palacios aristocráticos; ali se adotou o "palco unificado" do teatro italiano, quer dizer, um palco de arquitetura fixa, simbolizando um lugar neutro, sem determinagáo nítida do lugar. Ésse segundo tipo, quando conservado com coeréncia, devia levar á unidade aristotélica de lugar, como no teatro clássico francés. O teatro elisabetano, porém, escolheu — e isso é bem inglés — urna "vía media": um palco "unificado", em que certas construgoes primitivas (urna varanda, urna porta, e t c . ) eram capazes de simbolizar, segundo a vontade do autor, os lugares mais diferentes, de modo que o mesmo palco se apresentava já como palacio, logo depois como campo de batalha, e depois como floresta ou qualquer outra localidade. Daí a liberdade ilimitada do "lugar"; e, por conseqüéncia, a liberdade ilimitada do "tempo". A distingao rigorosa entre o espago real do edificio e o espago simbólico do palco corresponde a distingao rigorosa entre o tempo real da representagao teatral e o tempo simbólico dos acontecimentos na pega. O teatro inglés tornou-se capaz de dramatizar epopéias e romances inteiros; "teatro épico", comparável ao "teatro novelístico" dos espanhóis, que partirá de convengoes diferentes. Mas a analogia também acaba ali. Porque o teatro espanhol insistía na "verdade" dos enredos representados, religiosos, históricos ou novelísticos, enquanto o teatro inglés renunciou cedo a essa pretensáo; preferiu tornar ve-

rossímeis os acontecimentos teatrais por um outro meio: o verso branco. O metro da dramaturgia inglesa está mais perto da prosa do que o tetrámetro do teatro espanhol, de modo que serve para exprimir t u d o ; difere, no entanto, essencialmente da prosa, criando urna linguagem simbólica, correspondente ao lugar simbólico e ao tempo simbólico; linguagem simbólica que separa a realídade dos espectadores da realídade das personagens no palco. O verdadeiro teatro inglés só principia com Marlowe, porque é ele o criador do verdadeiro verso branco dramático. Ésse metro, de flexibilidade maravilhosa, permitiu urna coisa que nao existí u nunca no teatro espanhol: a diferenciagao exata de modos de falar de personagens diferentes, ao passo que no teatro espanhol todas as personagens falam a mesma língua dramática. Por isso, o teatro espanhol é essencialmente teatro de agao; o teatro inglés é essencialmente teatro de caracteres. As convengoes teatrais constituem o elemento permanente do teatro inglés. O que se modificou durante a evolugáo foram os conceitos históricos e moráis. Déste modo, é possível distinguir urna fase inicial, de teatro popular; em seguida, urna fase puramente renascentista, da qual Robert Greene é o representante; finalmente, a introdugáo do senequismo, quer dizer, a transigao da Renascenga ao Barroco, em Kyd, Marlowe e Shakespeare. Esta evolugao é acompanhada pelos contemporáneos ¡mediatos de Shakespeare: Chapman, Ben Jonson, Marston, Dekker, Middleton, Thomas Heywood. A última fase, puramente barroca, a de Beaumont e Fletcher, Massinger, Tourneur, Webster, Ford e Shirley, leva até á dissolugáo dos criterios moráis barrocos e á sua substituigao, pouco a pouco, pelos criterios moráis burgueses. -O fechamento dos teatros, em 1642, nao é um fim; o teatro da RestauragSo continuou, vinte •nos depois, onde os dramaturgos elisabetanos e jacobeu-

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carolinos acabarais. A historia do teatro inglés constituí urna unidade ( 4 3 ). O "missing link" entre os "Morality Plays" e o teatro popular da época elisabetana é o Kyage John, de J o h n Bale ( " ) , Bispo de Ossory, pega que toma por assunto e pretexto a luta entre o rei Joao da Inglaterra e o Papa, para fazer propaganda do protestantismo; a presenga de personagens alegóricas lembra os modelos de Bale, os "Morality Plays", mas o objetivo da atividade dramatúrgica já é diferente: já prenuncia o patriotismo típico dos elisabetanos. Numa pega posterior, anónima, The Troublesome Raigne oí John, acrescenta-se aos interésses religioso e político um terceiro: o interésse histórico e humano no destino do rei deposto pelos baroes e envenenado por um monge, o que lembra as desgranas históricas do Mirror for Magistrates. E o Troublesome Raigne é, por sua vez, a base de urna terceira peca, na qual o motivo religioso desapareceu para se salientar apenas o elemento humano e o patriotismo: o King John, de Shakespeare. O Troublesome Raigne of John faz parte de um grupo de pegas anónimas ( " ) , todas elas tiradas da historia inglesa, e de interésse especial, porque os mesmos assuntos foram tratados por Shakespeare. Sao pegas de dramaturgia muito primitiva, incoerentes, comparáveis as primeiras
43) A. W. Ward: History of English Dramatic Literature to the Death of Queen Anne. vols. I - n . 2.» ed. London, 1889. F. E. Schelllng: Elizabethan Drama. 2. vols. Boston, 1908. John Bale, 1495-1563. Kynge John (c. 1548). Edlgao por J. S. Fanner, London, 1907. The Famous Victories of Henry V (antes de 1588). The Trae Tragedy of Richard III (antes de 1588). The Troublesome Raigne of John (Impresso em 1591). The True Chronicle History of King Leir (c. 1694). Comedias populares: Calisto and Melebea (1530); John Heywood iPardoner and ¡rere 1533, Jóhan Johan the husband, etc. 1633); Nicholas Udall IRalph Roister Doister, 1333). A. W. Reed: Early Tudor Drama. London, 1926.

pegas históricas do teatro espanhol. As comedias désse teatro popular inglés também lembram pendants continentais: urna délas, Calisto and Melibea, é tirada de La Celestina; e as farsas meio medievais de John Heywood parecem-se muito com as farsas francesas. Só o Ralph Roister Doister, de Nicholas Udall, é diferente, porque o autor, homem culto e tradutor de Teréncio, fez a tentativa de adaptar a comedia latina ao gósto dos espectadores populares. Essa adaptagao, preludiando a síntese que é o "teatro elisabetano", foi obra dos "Uníversity wits", jovens humanistas que, após haverem saído das universidades, se perderam no meio boémio dos literatos da capital. J o h n Lyly ( 4 0 ), o criador do eufuísmo, é um déles: as suas comedias foram escritas para representagóes na corte ou em palacios aristocráticos, mas o fato importante é a tentativa de divertir os espectadores nobres com farsas populares, polindo-as e refinando-as; Lyly é o criador da comedia literaria. Os outros "University wits" escolheram o caminho contrario: introduzir elementos literarios em pegas representadas públicamente para o povo. Entre éles — os Peeles, Lodges, Nashs, — aparece um poeta auténtico: Robert Greene ( 4 7 ). Poeta alegre, idílico, fantástico, Greene nao é um grande dramaturgo. Suas pegas sao mediocres. Mas pelo seu lirismo merece sobremaneira, entre todos os dramaturgos elisabetanos, o título de representante da "Merry Oíd England". Nao é por acaso que o seu romance pas46) Cf. "Renascenca Internacional" nota 95: Comedias de Lyly: Alexander, Campaspe and Diogenes (1584); Sapho and Phao (1584); Endimion U59I); Gallathea (1592); Mother Bombie (1594); etc. Robert Greene, c. 1558-1592. (Cf. '•Renascenca Internacional", nota 82.) Romance: Pandosto (1588). Pecas dramáticas: Friar Bacán and Friar Bungay (1589); The Scottish History of James IV (1591). Edicáo por J. C. Collins. 2 vols.. Oxford, 1905. J. O. Jordán: Robert Greene. New York, 1915.

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t o r i l Pandosto f o r n e c e u o e n r e d o d a Winter's Tale, de S h a k e s p e a r e ; em G r e e n e já e x i s t e q u a l q u e r coisa das c o m e d i a s fantásticas de Shakespeare. O papel que Greene desempenhou na comedia, desemp e n h o u - o T h o m a s K y d (48) na t r a g e d i a ; papel m u i t o m a i s importante, porque Kyd, tradutor de Garnier, trouxe para o t e a t r o i n g l é s a i n f l u e n c i a d e S é n e c a . The Spanish Tragedle é a p r i m e i r a " t r a g e d i a d e v i n g a n c a " á m a n e i r a d e Thyestes; e a f o r m a a n t i g a foi t a o p e r f e i t a m e n t e a n g l i c i z a d a q u e a p e g a se t o r n o u urna das m a i s p o p u l a r e s d o t e a tro elisabetano. Oíd Jerónimo, que vinga a morte do seu f i l h o H o r a t i o , v i r o u p e r s o n a g e m p r o v e r b i a l ; em t o d a a p a r t e se e n c o n t r a m a l u s o e s e r e m i n i s c e n c i a s d a Spanish Tragedle, a t é n o Hamlet, e a r e t ó r i c a r e t u m b a n t e da p e g a n a o nos deve impedir de reconhecer, além da grande imp o r t a n c i a h i s t ó r i c a da Spanish Tragedie, o p o d e r dos efeitos teatrais e do verso dramático. Nos últimos anos de sua curta existencia, K y d estéve e n v o l v i d o n o f i m v i o l e n t o d a vida, n a o m e n o s c u r t a , d e Christopher Marlowe ( , 9 ) . A t é há bem pouco se acredit a v a q u e M a r l o w e , b o é m i o d e v a s s o e d e s e n f r e a d o , de con48) Thomas Kyd, 1558-1594. The Spanish Tragedie (e. 1589); Pompey the Oreat, his Taire Corneliaes Tragedy (1595). Edicao por F. 8. Boas, London, 1901. O. Sarrazln: Thomas Kyd und sein Kreis. Berlín, 1892. T. W. Baldwln: "On the Chronology of Thomas Kyd's Plays". (In: Modern Language Associatt'on Notes. XL. 1925.) Oreg Smith: (ln: The Cambridge History of English Literaturet vols. V, 3.» ed. Cambridge, 1929). F. J. Bowers: Elizabethan Revenge Tragedy. Prlnceton, 1940. Christopher Marlowe, 1564-1593. Tamburlaine the Oreat (1588); The Tragical History o/ Doctor Faustus (1592); The Jeto of Malta (1592); The Troublesome Raigne and Lamentable Death o) Edward II (1593); Massacre of París (1593); Dido Queen of Carthage. — The Passionate Shepheri to His Love (1588); Hero and Leander (publ. 1598). EdlcSo por R. H. Case, 6 vols., London, 1930/1933. T . S. Eliot: "Marlowe". (In: The Sacred Wood. London, 1920.) TJ. M. Ellls Fennor: Marlowe. London, 1927.

viccoes ateístas e a t i t u d e s provocadoras, tivesse sido assass i n a d o em c o n s e q ü é n c i a d e urna d e n u n c i a d e K y d . A g o r a s e sabe q u e o p r ó p r i o M a r l o w e foi o d e n u n c i a n t e ; d e s c o nhecidos mataram-no, quando souberam que Marlowe era a g e n t e s e c r e t o da polícia. A r e v e l a c a o é d e c e p c i o n a n t e , e m b o r a n a o s u r p r e e n d a : M a r l o w e foi u m m o n s t r o , se b e m q u e u m m o n s t r o g e n i a l . I n f a m e foi a s u a v i d a , e i n f a m e a sua m o r t e . M a s ésse i n f a m e é o c r i a d o r d o g r a n d e t e a t r o i n g l é s ; d u r a n t e m u i t o t e m p o , só foi a p r e c i a d o c o m o p r e c u r s o r d e S h a k e s p e a r e , m a s h o j e e m d i a sao r a r o s o s c r í ticos que nao o considerem "genio", n o sentido mais alto da p a l a v r a . A obra de Marlowe é táo monstruosa como o caráter do seu a u t o r . E M a r l o w e p a r e c e t e r t i d o c o n s c i é n c i a d i s s o q u a n d o se i d e a l i z o u a s i m e s m o n a f i g u r a d o t i t a Tamburlaine, q u e passa p o r t o d o s os c r i m e s p a r a c o n q u i s t a r o m u n d o i n t e i r o , e n o f i m se e n c o n t r a d e s i l u d i d o e d e s e s p e r a d o ; é a tragedia do niilismo. A d a p t a d o ás convcncocs do t e a t r o p o p u l a r , Tamburlaine, cuja acao c o m p r e e n d e u m c o n t i n e n t e e urna v i d a h u m a n a i n t e i r a , é m a i s urna s e r i e incoerente de cenas do que um d r a m a ; a personagem cent r a l lhe c o n f e r e , n o e n t a n t o , m a i s u n i d a d e d o q u e t é m as pecas históricas de Shakespeare; e a retórica justifica-se também pelo elemento autobiográfico, pela tentativa de " m e t t r e en s c é n e " a p r ó p r i a p e r s o n a l i d a d e . M a s a r e t ó r i c a d e M a r l o w e a i n d a t e m o u t r o fim, m a i s c o n s c i e n t e : p r e -

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Oreg. Smith (ln: The Cambridge History of English Literature, voL V, 3.» ed. Cambridge, 1929). J. M. Robertson: Marlowe. A Conspectus. London, 1931. F. S. Boas: Christopher Marlowe. A Biographical and critica! Study. London, 1940. J. Bakeless: The Tragical History o) Christopher Marlowe. 2 vols. Cambridge, Mass., 1943. P. H. Kocker: Christopher Marlowe. A Study of his Thought. Learning and Character. chapel HUÍ, 1947. Ph. Henderson: Christopher Marlowe. London, 1952. H. Levin: The Overreacher. A Study of Chistopher Marlowe.
London, 1954.

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tende provocar. Provocagáo inédita é o seu poema Hero and Leander, hiño ardente á sexualidade, a poesía mais sensual da língua inglesa, e de um poder verbal irresistível. Provocadora parece a tragedia do Doctor Faustus, que exalta menos a sede titánica, renascentista, do saber, do que a resistencia heroica contra a morte e todos os diabos. Marlowe está sempre exaltado, e no fundo nao pretende outra coisa senáo exaltar-se a si mesmo, chegando até as fronteiras da parodia. Só assim é possível interpretar a mais monstruosa das suas pegas, The Jew oí Malta; Eliot chama-lhe "farsa trágica", lembrando as caricaturas miguelangelescas de Daumier. Ñas monstruosidades de Marlowe há um elemento que as eleva ácima da regiáo do grito inarticulado: o verso branco. Marlowe é o criador do verso dramático do teatro inglés, e éste seu mérito nao pode ser sobreexaltado. Criou o verso — Ben Jonson o chama de "mighty Une" — que é capaz de exprimir todos os sentimentos humanos e simbolizar, pela modulacao do ritmo, as diferengas de caracteres e paisagens e a durée do tempo. O próprio Marlowe deu provas dessa capacidade verbal no lirismo exaltado do Doctor Faustas e, em estilo mais sentencioso, na melhor construida das suas pegas, Edv/aid II; há quem admita a superioridade dessa "historia" sobre os primeiros dramas históricos de Shakespeare. Marlowe subordinou os motivos políticos á tragedia humana do rei. A historia da deposigáo e morte do tirano Eduardo I I nao é um Mirror ior Magistrates, mas a tragedia da decadencia de um homem perverso e corruto que se eleva, na hora da agonía, á grandeza trágica. O milagre de transformar a personagem antipática do rei em herói nobre, realizou-o Marlowe pela nobreza do verso: "Pay nature's debt with cheerful countenance, Reduce we all our lessons unto this, — T o die, 6weet Spenser, therefore live we all; Spenser, all live to die, and rise to fall."

A subordinagáo da vida humana ás leis da "Fortuna" parece sabedoria renascentista. Mas o "pay nature's debt" lembra antes o desejo dos estoicos de conformar-se com as leis da Natureza, e a "cheerful countenance", a resignacáo estoica. Marlowe é um homem barroco, fantasiado de boémio da Renascenca. Espirito barroco em forma renascentista seria a definigáo do teatro elisabetano inteiro, do qual Marlowe é o "spiritus rector", o primeiro genio. A revalorizacao atual de Marlowe faz parte de um movimento crítico de dimensoes mais ampias, beneficiando também Ben Jonson, Middleton, J o h n Webster e outros dramaturgos da época; repete-se com certa insistencia que obras comparáveis a Doctor Faustus, Volpone, The Changeling e The Duchess of Malfi nao se encontram entre as pegas de Shakespeare. E ' um movimento saudável, capaz de tirar o maior dos dramaturgos da solidao incomunicavel na qual a idolatría do século XIX o colocara. Contudo, ' é preciso moderar certas reivindicagoes: Shakespeare, se bem que outros o tivessem igualado em dados momentos, c ¡mensamente superior a todos os dramaturgos da época quando se Ihe considera a obra em conjunto. É o maior dramaturgo e o maior poeta da língua inglesa. Enquanto a criagao de um mundo poético completo fór mantida como supremo criterio, é Shakespeare superior a Cervantes, Goethe e Dostoievski; e só Dante participa dessa sua altura. Enquanto Shakespeare, pela liberdade soberana do seu espirito, está mais perto de nos e de todos os tempos futuros do que o maior poeta medieval, é Shakespeare o maior poeta dos tempos modernos e — salvo as limita§óes do nosso juízo crítico — de todos os tempos. Infelizmente, nao sabemos quase nada da vida de William Shakespeare ( B0 ). A s hipóteses que enchem as biogra60) WUllam Shakespeare, 1564-1616. Venus and Adonis (1593); Lucreee (1694); Sonneís (1609). Relagáo das pecas, conforme a cronología de E. K. Chambers (outras hipóteses da shakespearlologla menos recente, quando multo diversas sao Indicadas):

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fias mais conhecidas desfizeram-se urna após outra, e o que nos fica ñas maos é coisa bem p o b r e : um ator hábil, que também escreveu pegas de m u i t o sucesso, ganhou muito dinheiro e se retirou cedo dos negocios, para m o r r e r pouco depois. E m certo sentido, essa escassez de informagao biográfica nao deixa de ser benéfica: excluí as sutilidades, ás vézes fantásticas, da interpretagao psicológica, limitando a crítica á própria obra. A primeira tarefa é determinar a cronología das pegas. Varias délas saíram, quando o autor vivía aínda, em pequeñas edigoes nao a u t o r i zadas, os " q u a r t o s " ; as outras pegas só foram publicadas Henry VI, Part 1-111 (1592; outros: 1590/1592); Richard III (1592; outros: 1693); Titus Andronicus (1592; outros: 1588); The Taming o] the Shrew (1593); The Camedy of Errors (1593; outros: 1591); The Two Gentlemen of Verona (1593); Love"t Labour's Lost (1593; outros: 1590); Romeo and Juliet (1594); Richard II (1595); A Midsummer-Nights Dream (1595; outros: 1593); King John (1596); The Merchant of Ventee (1596); Henry IV, Part I (1597); Henry IV, Part II (1598); Much Ada Aoout Nothing (1598); Henry V (1599); As You Like It (1599); Julius Caesar <1599; outros: 1601); The Merry Wives of Windsor (1600); Trotlus and Cressida (1600; outros: 1603 ou 1607); Hamlet, Prince of Denmark (1601); Twélfth Night (1602); AIVs Well that Ends Well (1604); Measure for Measure (1604); Othello, the Moor of Ventee (1604); Macbeth (1606); King Lear (1606); Antony and Cleopatra (1607); Coriolanus (1607); Timón of Alhenas (1607); Pericles, Prince of Tyre (1608); Cymbelins (1610); The Wintefí Tale (1611); The Tempest (1611); Henry VIII (1613). Edlcoes: Primeira edic&o in-fólio 1623 (depois: 1632, 1664, 1685) (edlcSo da Folio por S. Lee, Oxford, 1902). Cambridge Shakespeare, por J. Olover, W. G. Clark, W. Aldis Wrlght, 2.» ed. 9 vols. Cambridge, 1891/1893; New Cambridge Shakespeare, por J. Dover Wilson e outros, desde 1921. Temple Shakespeare, por J. Gollancz, 40 vols., London. 1894/1900. Eversley Shakespeare, por C. H. Heríord, 10 vols., London, 1899/ 1900. Arden Shakespeare, por W. J. Craig, R. H. Case e outros, 37 vols.. London, 1899/1924. New Arden Shakespeare, por M. M. Ellis Fermor e outros, desde 1951. Oxford Shakespeare, por W. J. Craig, 3 vols., Oxford, 1904. Stratíord Shakespeare, por A. H. Bullen, 10 vols.. Stratford, 1907.

por dois amigos do poeta, J o h n H e m i n g e H e n r y Condell, em edicáo in-fólio, em 1623. Ñas reedigoes posteriores da colegio acrescentaram-se outras pegas, cuja autenticidade hoje nao se admite, com excecao de Pericles, Prince of Tyre. Ao contrario, repetem-se as tentativas de desintegrar o "canon" de 1623, negando a autenticidade de muitas pegas ou afirmando a colaboragáo de outros dramaturgos, enquanto urna corrente oposta procura demonstrar a colaboragáo de Shakespeare em pegas désses outros dramaturgos. Mas essas tentativas criticas nao deram, até hoje, resultados indiscutidos. Quanto á cronología, as edigoes em

Yale Shakespeare, por W. L. Cross, C. F. T. Brooke e outros, 40 vols., Newhaven, 1918/1928. Biografías e estudos de shakespeariologia antlga: S. T. Colerldge: Notes and Lectures on Shakespeare. 1814. (Edlcao por T. Ashe, London, 1883.) W. Hazlitt: Characters of Shakespeare's Plays. 1817. (Varias edlQóes.) F. Th. Vlscher: Kritische Gaenge. 6 fascículos, 1844. (3.* ed. Berlín, 1912.) E. Dowden: Shakespeare. His Mind and Art. London, 1874. (Muitas edlcoes.) F. Kreyssig: Vorlesungen ueber Shakespeare. 3.» ed. 2 vote. Berlín, 1877. A. C. Wlnburne: A study of Shakespeare. London, 1880. R. O. Moulton: Shakespeare as a Dramatic Artist. Oxford, 1885. (3.» ed. Oxford, 1906.) B. Ten Brink: Five Lectures on Shakespeare. London, 1895. G. Brandes: William Shakespeare. KJoebenhavn. 1896. (Varias traducóes.) A. C. Bradley: Shakespeare Tragedy. London, 1904. W. Ralelgh: Shakespeare. London, 1907. Br. Matthews: Shakespeare as a Playpright. New York, 1913. A. Quiller-Couch: Shakespeare's Workmanship. Cambridge, 1918. G. Landauer: Shakespeare. 2 vols., Frankfurt, 1920. S. Lee: A Life of Shakespeare, 2.» ed. London, 1922. F. Gundolf: Shakespeare. 2 vols. Berlín, 1928/1929. B. Croce: Ariosto, Shakespeare, Corneille. 2.» ed., Barí, 1929. G. Salntsbury (in: The Cambridge History of English Literature, vol. V, 3 * ed. Cambridge. 1929). Estudos de shakespevariologla moderna: A. W. Pollard: Shakespeare's Fight with the Pirates and the Problems of the Transmission of his Text. 2.a ed. Cambridge, 1920.

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quarto e as noticias conservadas fornecem certas indicagoes. Demonstrou-se também que Shakespeare cultivou nos comegos da sua atividade teatral tima versificagao mais exata, dando depois cada vez menos atencao á regularidade do verso; e o recenseamento estatístico dos versos regulares e irregulares confirmou certas hipóteses cronológicas, estabelecendo outras. Finalmente, as pesquisas de A. W . Pollard sobre a autenticidade de certos "quartos" modificaram radicalmente a historia do texto shakespeariano. L. Schuecking: Dle Charakterproblerne bel Shakespeare. 2.* ed. Leipzig, 1927. E. E. Stoll: Shakespeare Studies. New York, 1927. H. GranvlUe-Barker: Prejaces to SJiakespeare. 5 vols. London, 1927/1948. J. Balley: Shakespeare. London, 1929. E. K. Chambers: Wllltam Shakespeare. A Study of Facts and Problema. 2 vols. Oxford, 1930. J. W. Mackall: The Approach to Shakespeare. Oxford, 1930. G. Wllson Knlght: The Wheel of Flre. London, 1930. W. W. Lawrence: Shakespeare's Problem Comedies. New York, 1931. E. E. Stoll: Art and Artífice In Shakespeare. New York, 1933. C. F. E. Spurgeon: Shakespeare's Imagery. Cambridge, 1935. J. Mlddleton Murry: Shakespaere. London, 1936. H. B. Charlton: Shakespearean Comedy. London, 1938. D. Traversi: An Approach to Shakespeare. London. 1938. H. Granvllle-Barker e G. B. Harrlson: A Companion to Shakespeare Studtes. Cambridge, 1941. T. S. Ellot: "Shakespeare and the Stolclsm of Séneca". <In: Selected Essays. 2.a ed. London, 1941.) Th. Spencer: Shakespeare and the Hature of Man. New York, 1942. J. Dover Wllson: The Essentlal Shakespeare. 7* ed. Cambridge, 1943. E. M. W. Tlllyard: Shakespeare's Hlstory Plays. London, 1944. J. Palmer: Polltical Characters of Shakespeare. London, 1945. G. Wllson Knlght: The Crown of Life. London, 1947. H. Fluchére: Shakespeare, dramaturge éllsabéthaln. Marsellle, 1948. H. B. Charlton: Shakespearean Tragedy. Cambridge, 1948. E. M. W. Tlllyard: Shakespeare's Problem Plays. London, 1949. M. O Bradbrook: Shakespeare and Ellzabethan Poetry. London, 1950. D. Traversi: Shakespeare, The Latt Phase. London, 1954.

Dispomos hoje de urna tabela cronológica, longe de ser definitiva, porém mais ou menos suficiente. O primeiro grupo das pegas de Shakespeare compoe-se de comedias em estilo renascentista: a Comedy of Eriors, versao dos Menaechmi, comicidade contrastada com o fundo sombrio das apreensoes do pai dos gímeos; The Two Gentlemen of Verona, comedia tirada do romance pastoril de Montemayor, com urna viravolta no fim que pode ser descuido dramatúrgico ou entao experimento psicológico; The Taming of the Shrew, farsa popular, um pouco barulhenta, mas de efeito irresistível. Enfim, Love's Labour's Lost, pega pastoril, com as usuais alusoes políticas, em complicadíssimo estilo eufuísta, e da qual é difícil dizer se é parodia brilhante dos costumes aristocráticos ou, como hoje se prefere pensar, pastoril auténtico, de lirismo gracioso. Urna das primeiras pegas de Shakespeare deve ter «ido Titus Andronicus: "tragedia de vinganga" e de tantos horrores que muitos críticos nao se animaram a atribuí-la a Shakespeare; mas a pega tem o grande estilo retórico de Marlowe; por que nao o teria imitado o jovem Shakespeare? As mesmas dúvidas estendem-se á autoría das tres partes de Henry VI; quanto a estas, Shakespeare teria só revisto obras alheias ou entáo colaborado com outros. Com efeito, em Henry VI há mais de Greene e Marlowe do que de Shakespeare, mas o estilo dramático é o mesmo das outras "historias" inglesas, e a terceira parte é inseparável do auténtico Richard III, tragedia marjowiana com a cena comovente do assassínio de Clarence, o humorismo burlesco da cena dos bispos, a aparigáo vingadora dos espectros antes da batalha final. A pega está de tal modo dominada pela grandiosa figura do rei criminoso que alcanga quase a unidade do teatro clássico francés. Em comparagáo com Richard III, urna das pegas mais representadas e de efeito mais forte no palco, Richard II é um retrocesso: menos pelo estilo do que pelo assunto, deposigao do rei viciado e

W. The Two Gentlemen of Verona. (In: Selected Essays. M. London. H. London. K. Richard II é um retrocesso: menos pelo estilo do que pelo assunto. O primeiro grupo das pegas de Shakespeare compoe-se de comedias em estilo renascentista: a Comedy of Errors. longe de ser definitiva. 2. London. Dover Wllson: The Essential Shakespeare. London. 1947. 1948. 1935. mas a pega tem o grande estilo retórico de Marlowe.4 ed. London. deposigáo do rei viciado e . pega pastoril. e o recenseamento estatístico dos versos regulares e irregulares confirmou certas hipóteses cronológicas. W. quanto a estas. B. Enfim. 1941. Oxford. A Study o/ Facts and Problems. E. S. B. London. Shakespeare teria só revisto obras alheias ou entáo colaborado com outros. Wllson Knlght: The Wheel of Fire. com urna viravolta no fim que pode ser descuido dramatúrgico ou entao experimento psicológico. E. 7. E. Palmer: Political Characters of Shakespeare. Tlllyard: Shakespeare's History Plays. Traversl: Shakespeare. Em comparagáo com Richard III. em Henry VI há mais de Greene e Marlowe do que de Shakespeare. as pesquisas de A. drainaturge élisabéthain. 1943. a aparigáo vingadora dos espectros antes da batalha final. New York. New York. E. dando depois cada vez menos atengao á regularidade do verso. Granvllle-Barker e G. como hoje se prefere pensar. J. Cambridge.1 ed. The Last Phase. Bradbrook: Shakespeare and Elizabethan Poetry. em complicadíssimo estilo eufuísta. 1945. urna das pegas mais representadas e de efeito mais forte no palco. Chambers: William Shakespeare. 1944. C. The Taming of the Shrew. Leipzig. W . New York.892 OTTO M A H I A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 893 quarto e as noticias conservadas fornecem certas indicar e s . Mlddleton Murry: Shakespaere. mas o estilo dramático é o mesmo das outras "historias" inglesas. comicidade contrastada com o fundo sombrío das apreensoes do pai dos gémeos. London. London. Cambridge. Love's Labour's Lost. Eliot: "Shakespeare and the Stolclsm of Séneca". Deraonstrou-se também que Shakespeare cultivou nos comegos da sua atividade teatral urna versificagao mais exata. Oxford. 1931. 6 vols. E. por que nao o teria imitado o jovem Shakespeare? As mesmas dúvidas estendem-se á autoría das tres partes de Henry VI. J. Spencer: Shakespeare and the Nature o/ Man. W. London. Granvllle-Barker: Prefaces to Shakespeare. Urna das primeiras pegas de Shakespeare deve ter sido Titas Andronicus: "tragedia de vinganga" e de tantos horrores que muitos críticos nao se animaram a atribuí-la a Shakespeare. Charlton: Shakespearean Comedy. E. versáo dos Menaechmi. porém mais ou menos suficiente. Bailey: Shakespeare. comedia tirada do romance pastoril de Montemayor. Stoll: Shakespeare Studies. Wllson Knlght: The Crown o! Lije. 1930. mas de efeito irresistível. M. e a terceira parte é inseparável do auténtico Richard III. T. Finalmente. estabelecendo outras. o humorismo burlesco da cena dos bispos. D. Schuecking: Die Charakterprdbleme bei Shakespeare. Cambridge. Lawrence: Shakespeare1 s Problem Comedies. W. J. 2 vols. Fluchére: Shakespeare.) Th. e da qual é difícil dizer se é parodia brilhante dos costumes aristocráticos ou. F. G. C. 1930.» ed. Dispomos hoje de urna tabela cronológica. 1929. M. D. London. New York. pastoril auténtico. Com efeito. 1936. tragedia marlowiana com a cena comovente do assassinio de Clarence. Harrlson: A Companlon to Shakespeare Studies. farsa popular. H. 1954. 1938. Traversl: An Approach to Shakespeare. A pega está de tal modo dominada pela grandiosa figura do rei criminoso que alcanga quase a unidade do teatro clássico francés. H. E. 1949. H. de lirismo gracioso. 1938. Mackall: The Approach to Shakespeare. 1927/1948. com as usuais alusoes políticas. 1942. B. 1937. E. London. Spurgeon: Shakespeare's Imagery. London. W. 1948. London. 1041. 1927. Tlllyard: Shakespeare's Problem Plays. 1933. O. L. 1930. H. Charlton: Shakespearean Tragedy. Pollard sobre a autenticidade de certos "quartos" modificaran! radicalmente a historia do texto shakespeariano. J. StoD: Art and Artifice in Shakespeare. 2. J. 1950. Cambridge. u m pouco barulhenta. Marsellle.

a magnífica comedia pastoril de As You Like It. que é a mais bela das "favole pastorali". em que a mais encantadora poesia de amor ñas florestas vence a melancolía misantrópica de Jacques. A obra de transigió é Hamlet. A maior das "historias" é Henry IV: a tragedia política do rei que usurpou o trono e. o moralismo estoico de Marlowe é substituido pela poesia elegiaca da alma nobre humilhada. na retórica de Antonio e na resignagao estoica de Bruto aparece o Barroco. e a doce melancolía de Twelfth Night. a alma nobre do rei mais brilhante da Inglaterra medieval. Déste modo. as nove pegas históricas constituem o maior monumento dramático que qualquer nagáo erigiu ao seu passado. gozando da sua mocidade exuberante e revelando na continuagao. Heaven for his Richard hath in heavenly pay A glorious ángel: then. inversao cervantina dos valores aristocráticos e glorificagao imortal da "Merry Oíd England". e transfigurá-la na doce música de luar do último ato. do "mercador de Veneza". a sabedoria renascentista do Friar Laurence. sofre de remorsos profundos. Em compensagáo. a tragedia do judeu já seria a pega mais serena. assaltado pelas revolugóes aristocráticas.894 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 895 a sua elevagáo moral no fim. o romantismo de contos fadas. desenvolvida depois no Midsummer-Night's Dream. for heaven still guards the right. Weak men must fall. a amarga queixa social. dramaturgo da Renascenca internacional. em Henry V. Ricardo I I é o primeiro dos famosos "gráosenhores" de Shakespeare. decompondo-se em duas partes quase independentes. de Marlowe. se nao fósse seguida pelas comedias románticas de alegría quase celeste: as conversas espirituosas de Much Ado About Nothing. a mais mediterránea das suas pegas e certamente a mais famosa tragedia de amor de todos os tempos. O espirito da Renascenga comega a esvanecer-se em Julius Caesar: a pega é incoerente. mas os contemporáneos compreenderam-no como personagem de farsa trágica á maneira de Marlowe. Comedia também é The Merchant of Venice. e a sua desgraga serve para dissolver a nobre melancolía de Antonio. pelas maldades burlescas perpretradas contra o puritano Malvolio. apesar das aparéncias. na cena do farmacéutico. entrelaga-se com a nao menos grandiosa comedia de Falstaff e dos seus companheiros na Boar's Head Tavern. mas os discursos patrióticos do valente bastardo Faulconbridge situam a pega no ambiente elisabetano. e a crítica moderna salienta essa circunstancia para explicar as misteriosas incoeréncias dessa obra. de modo que á tragedia do ditador assassinado se substituí a tragedia maior do republicano desiludido e vencido." A falta de interésse político transforma King John quase em tragedia doméstica das vítimas do mau rei. sobretudo no desprézo com que apresenta os movimentos populares. if angels fight. revela-se primeiro em Romeo and Juliet. sob a chefia do magnífico Percy Hotspur. mas convém salientar mais alguns outros aspectos: o realismo da "nurse" que lembra La Celestina. interrompída. expressoes do seu legitimismo político muito marcado: "For every man that Bolingbroke hath press'd. Shylock parece-nos urna das maiores personagens trágicas do poeta. na descrigáo da Queen Mab. como que de entremezes. Mas o público . a maior de todas as "tragedias de vinganga". é imitagao de Edward II. mais feliz de Shakespeare. T o lift shrewd steel against our golden crown. e no meio entre palacio e taverna está o "Prince of Wales". de poesia e humorismo irresistíveis. Mas a serie das "histories" em conjunto revela imparcialidade superior e um conceito político ácima do moralismo barato. Shakespeare. sendo até menos coerente e menos filosófica do que o modelo. As simpatías aristocráticas do poeta sao evidentes. César transforma-se em personagem tragicómica.

" . Shakespeare é o dramaturgo da noite. Mas nao importa. é a tragicomedia de um amor perverso. típicamente barroco: um "double plot". a pega parece dizer: a historia pretende ser tragedia dos heróis e acaba em comedia dos imbecis. a atmosfera da obra é noturna. a tragedia do niilismo — " a tael Told by an idiot. pode ser menos profundo do que parece. A mais amarga é Troilus and Ciessida. efeitos cénicos. . serve de coro trágico á loucura do velho reí. quase melodramáticos. Noturnas sao todas as cenas importantes de OtheUo: mais do que estudo penetrante da psicologia dos ciúmes é OtheUo urna tragedia sofocliana. mais outra tragedia na qual todas as cenas decisivas se passam durante a noite." — é a mais barroca das pegas de Shakespeare. servindo para o "desengaño" trágico. Macbeth. o mundo noturno dos assassinos e das bruxai é ligado ao mundo humano da única cena inglesa (IV. Desde entáo. mas a música verbal do poeta dramático atinge nessa obra seu ponto mais alto. 3) pela cena humorística do Porter. Signifying nothing. full of sound and fury. que é a cena dessa pega "mundial". are we to the gods. O mundo." King Lear é pega de dimensoes cósmicas. O conceito barroco do mundo como teatro levou Shakespeare a urna concepgao altamente original da Historia: conceber a tragedia histórica como tragicomedia. Antony and Cleopatra. é também a tragedia da educagáo de um homem velho que viveu em orgulho e aprende a morrer. quando aparece o espectro. o palhago. na qual a Natureza inteira comeca a girar em torno da crueldade incompreensível da existencia humana. e noturna é a sabedoria estoica em que culmina essa tragedia barroca: "Men must endure Their going henee. A mais profunda é Measure for Measure. . compreende t u d o . em que De Quincey descobriu a chave da pega: o sol da vulgaridade entra no inferno dos fantasmas irreais. na verdade. para Shakespeare. até a cena no cemitério e até o fim. e só a combinagao désse tema de profundidade com o tema aparente da vinganga produziu a aparente incoeréncia. Daí as pegas mais curiosas e mais origináis de Shakespeare: as comedias de problemas moráis. a construy o dramática. noturna a filosofía maniquéia dos versos: "As flies to wanton boys. é difusa. E em Coriolanus. em que um mundo desaparece. outra tragedia noturna: noturna é a cena do temporal em que o "Fool". Em Macbeth. O verso mais característico da pega — "Chaos is come again" — também se aplica ¿mediatamente ao King Lear. e — segundo o consenso unánime — a maior das suas obras. even as their coming h i t h e r : Ripeness ís all. tornou-se problema. Um désses efeitos — "o palco no palco" — já é( alias. em Hamlet. na qual os heróis homéricos se revelam como faladores imbecis e mulherengos ordinarios. continua inalterada a imensa popularidade de Hamlet. em que o duque .HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 896 OTTO M A R Í A CARPEAUX 897 n i o prestou nunca atencao a essas restribóos. E ' caso único na literatura dramática universal a combinagao de um assunto filosófico com os mais irresistiveis. em que até leitores menos intelectualizados sentem com evidencia o verdadeiro assunto: Hamlet é a tragedia da inteligencia e do intelectual. O pensamento. de encobrimento e revelagao da verdade. trágica e ao mesmo tempo cómica num sentido muito alto. a vitória da plebe bruta sobre o herói viril é t í o revoltante que a atitude do dramaturgo já foi interpretada como violentamente reacionária. Da primeira cena no terrago. isto é. They kill us for their s p o r t . porque o cosmo. o famoso "Knocking at the gate". em Antony and Cleopatra.

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disfargado, testemunha incógnita de orgias sexuais e angustias de morte, desmascara a hipocrisia do puritanismo moral. A mais furiosa é Timón oí Athens, a maior explosáo de misantropía em toda a literatura universal, e, no fundo, a comedia de um homem nobre que nao sabia adaptar-se a esta vida infame. Por ésse mesmo tempo, Shakespeare escreveu — em colaboragáo com outro dramaturgo, ou entao refundindo urna pega antiga — Pendes, Prince oí Tyre, inserindo num enredo novelístico cenas de beleza inesperadamente harmoniosa. É a primeira das pecas ñas quais Shakespeare renunciou ao realismo trágico, transformando o mundo em sonho poético. Cymbeline é dramatizagáo intensamente romántica de um enredo novelístico, ou antes, um grande contó de fadas. Em The Winter's Tale, o romance de amor pastoril entre Florizel e Perdita desmente a sombria tragedia oteliana de seus pais; o modelo, o romance pastoril Pandosto, do renascentista Greene, está perfeitamente "desrealizado". Enfim, "la vida es sueño": The Tempest ainda é parodia amarga, desta vez do utopismo renascentista que acreditava em paraísos e só encontrou Calibans. O Barroco nao conhece utopia, porque éste mundo lhe parece utopia ás avessas, parodia da verdadeira realidade, que é sonó e sonho — " W e are such stuff As dreams are made on; and our little life . Is rounded with a sleep." É o testamento poético de Shakespeare — dizem todos os que consideram a evolucáo de Shakespeare, de Titus Andronicus a Tempest, como caminho de perfeigáo de urna vida pela poesía. A crítica literaria do século XIX nao se podia satisfazer com o ponto de vista dos classicistas do século X V I I I — as "irregularidades" da obra de Shakespeare teriam sido experimentos meio grandiosos,

meio frustrados, de um genio inculto; nem com o ponto de vista dos románticos — a obra de Shakespeare teria sido erupcao de um poeta em que se encarnara o espirito do mundo. A época vitoriana precisava de um Shakespeare sereno, calmo; e como as tragedias pessimistas se opunham a ésse conceito, era preciso estabelecer urna evolugáo, urna acalmacáo progressiva. Acostumada a estabelecer relacoes causáis entre a biografía e a obra poética, a crítica literaria do século XIX, nao dispondo de urna biografía pormenorizada do poeta, inventou urna, interpretando as pegas como confissoes autobiográficas. Shakespeare teria comegado com tragedias bombásticas á maneira de Marlowe e comedias ligeiras á maneira de Greene; as primeiras experiencias pessoais ter-lhe-iam aprofundado a nogao da vida, revelando-se a mudanga em tragedias como Romeo and Juliet e Hamlet, e ñas comedias de alto estilo renascentista. Ao mesmo tempo, a observagáo dos grandes acontecimentos políticos da época ter-lhe-ia agugado o senso histórico, e o resultado teria sido as "historias" inglesas e romanas. Desgracas pessoais e desilusoes políticas — o caso Essex — teriam escurecido o espirito do poeta, até ao pessimismo e misantropía que se revelam ñas grandes tragedias. Depois teria vindo a libertagáo interior, a retirada para Stratford, as serenas pegas románticas e, em Tempest, a despedida de um semideus. As comedias "problemáticas" — Mensure ioi Mesasure, Troilus and Cressida — nao encontraram lugar nessa evolugao e foram despren d a s . Eis a interpretagáo de Shakespeare, muito divulgada pelos livros populares de Dowden e Brandes, e ainda mantida pela maioria dos leigos. Poucos foram os que ousaram protestar contra essa biografía romanceada: nao sabemos quase nada da mocidade de Shakespeare; da sua vida como ator, durante a época da ativídade literaria, só temos noticias comerciáis e nada que possa apoiar a interpretagáo autobiográfica das pegas; enfim, a retirada para Stratford dá menos a im-

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pressáo de despedida de um feiticeiro poético do que da aposentadoria voluntaria de um comerciante enriquecido. Se essas objegoes já pareciam crimes de lesa-majestaderos shakespeariólogos ortodoxos entristeceram-se ainda m a s com as heresias de alguns franco-atiradores da crítica, como Ruemelin e Shaw: a construgáo irregular das pegas nao seria genialidade extraordinaria, mas revelaría incoeréncias e inverossimilhangas psicológicas da pior especie; Shakespeare salvar-se-ia apenas pela música verbal, e esta mesma seria em grande parte estragada pela retórica bombástica e pelo humorismo artificial ou grosseiro; e aquela música verbal escondería mal a falta de urna filosofía da vida. Essa crítica negativa só tem o mérito de haver chamado a atencao para certas falhas da positiva. Devemos a Coléridge o reconhecimento da unidade e homogeneidade estrutural das obras shakespearianas. Mas a Coleridge também se deve a preferencia pelo estudo psicológico das grandes personagens: Hamlet, Macbeth e Lady Macbeth, Ótelo e lago, Lear, Palstaff. O maior mestre désse método, Bradley, perdeu, enfim, de vista a arte dramática de Shakespeare. As pegas, entáo muito mais lidas do que representadas na Inglaterra, foram lidas assim como se léem romances modernos: como biografías imaginarias; £icaram de lado o teatro e a poesía. A renovagáo da shakespeariologia foi iniciada pelo genial ator Harley Granville-Barker: admitindo corajosamente os "defeitos" dramatúrgicos (do ponto de vista da dramaturgia moderna) das pecas de Shakespeare, e, valendo-se das suas próprias experiencias na mise-en-scéne das pegas, explicou aqueles defeitos como conseqüéncias das convengóes teatrais da época, as quais até um Shakespeare se devia submeter, e encontrou a grandeza do poeta na arte com que utilizou aquetas convengoes, vencendo-as, para produzir os maiores efeitos dramatúrgicos e poéticos. Subst i t u i r s e o estudo psicológico das personagens, cultivado com tanta felicidade por Bradley, pela análise da estrutura

poética das pegas (Knights) e das convengóes teatrais da época (Stoll). Os trabalhos de E . K. Chambers sobre a organizagáo do teatro elisabetano sao de especial importancia. Shakespeare, embora em primeira linha poeta, passou pela vida como playwright, dramaturgo profissional; fato que está de acordó com as suas atividades de ator e empresario comercial de teatros. As suas pegas nao sao confissoes autobiográficas, e sim experiencias sucessivas de mediagáo entre o gósto dos espectadores, aristocráticos ou populares, e as suas necessidades de expressao poética. Nao é admissível identificar o poeta com certas personagens suas, nem procurar ñas suas pegas a expressio de urna filosofía da vida. Sempre se havia observado que o mundo poético de Shakespeare era um mundo completo, fechado em si, a ponto de Shakespeare ignorar a Providencia e Deus; a nao ser naquela comedia sombría, Mensure íor Measure, na qual a intervengao do Duque se parece com a agio da graga divina. Seria melhor dizer que o poeta, como poeta, nao tem filosofía nem religiáo; só tem estilo dramático e poético. A análise désse estilo — sobretudo das imagens e metáforas — tem sido feita com a precisao e os recursos da estatística moderna; e com o resultado desconcertante de que as "imagens-chaves" foram novamente usadas (ou abusadas) para considerar a poesía de Shakespeare como expressao alegórica de sabedorias e verdades escondidas. Essa tendencia da critica já está, porém, recuando. É mais importante manter .o resultado de que aquela aparente evolugáo psicológica se revela como evolugáo estilística, de comegos renascentistas, através de transigóes meio barrocas, até ao pleno Barroco senequista, ñas grandes tragedias pessimistas e ñas "comedias problemáticas", enfim revalorizadas; e, por último, o que parecia "solugao das dissonáncias", é a última fase barroca, a de transfiguragao da realidade em Gran teatro del mundo. É mesmo o maior teatro do mundo.

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No Barroco shakespeariano enquadra-se, finalmente, a parte mais misteriosa da sua obra: os 154 sonetos. Poesías obscuras, as vézes herméticas, em estilo densíssimo, servindo até há pouco de base a urna bibliografía ¡mensa de interpretagoes biográficas, cada vez mais complicadas e menos satisfatórias. A análise estilística rcdimiu os sonet o s : sao poesias artificiáis, "preciosas", mas realmente preciosas, partindo da dogura renascentista de Spenser, enchendo-se de petrarquismo sutil, eufuísmo conceituoso, emotividade excessiva, metáforas barrocas, atenuando o hermetismo pelas reminiscencias familiares da paisagem inglesa e acabando numa severidade quase clássica, transigáo imediata para os sonetos de Milton. As poesias constituem a única parte da sua obra que o próprio poeta publicou; só ali ele se sentiu responsável pela sua missáo poética, afirmando: "Not marble, not the gilded monuments Of princes shall outlive this powerful r i m e . . . " O segrédo dessa imortalidade do grande dramaturgo está na poesia de Shakespeare, ou mais exato, no seu verso. Shakespeare é o maior artista do verso inglés, e a interpretagáo da sua obra tem de ser, em primeira linha, interpretagáo poética, ao lado de análise dos valores humanos. Por isso, a shakespeariologia moderna, com todos os seus resultados admiráveis, nao desvalorizou a crítica poética, mas admirável, de um Coleridge, nem a psicológica de um Bradley. No fundo devemos conformar-nos com o fato de que a arte de Shakespeare sobreviverá a todas as nossas interpretagoes; ou, no dizer de T . S. Eliot: "About any one so great as Shakespeare it is probable that we can never be right, it is better that we should from time to time change our way of being wrong." A incerteza quanto á autoría de certas pegas shakespearianas ou quanto á sua colaboragáo com outros dramaturgos — só a sua colaboragáo com John Fletcher, em

Henry VIII e The Two Noble Kinsmen, parece certa — liga-se á situacao caótica do teatro elisabetano no que diz respeito a colaboragáo, pseudonímia e anonimía. Nao é possível excluir a colaboragáo de outros com Shakespeare ou de Shakespeare com outros quando sabemos que o conceito de literatura dramática era entáo muito mais industrial do que literario. Trabalhava-se para os teatros, para os atores, refundiam-se e modificavam-se sem escrúpulos pegas alheias. Um dramaturgo táo extraordinario como Middleton escreveu quase todas as suas obras em colaboragáo com outros. Ele, Fletcher, Chapman, Massinger construíram urna rede inextricável de "cooperativas" dramatúrgicas. Dramaturgos de segunda e terceira ordem como William Rowley e Nathan Field poem as máos em muitas produgoes famosas dos grandes. A segunda edigáo in-fólio das obras de Beaumont e Fletcher, de 1679, é um verdadeiro repositorio de pegas de "varios ingenios". Déste modo, nao é surpreendente a existencia de mais de 40 pegas pseudo-shakespearianas, algumas já publicadas em vida do pretenso autor, outras acrescentadas á terceira edigao infolio, de 1664. Em certos casos, é muito possível que Shakespeare tenha colaborado com outros, por exemplo, com George Wilkins, no Pendes, Prince of Tyre; em outros casos, as pegas só lhe teriam sido atribuidas para explorar a fama do seu nome. Contudo, algumas dessas pegas pseudo-shakespearianas sao de valor notável ( 5 1 ).

51) As pecas mais Importantes entre as atribuidas a Shakespeare:
Arden of Feversham (1592) ¡ Locrine (1595); Eáward 111 (1596); Sir Thomas More (publ. 1844); The hondón Prodigan (1605); A Yorkshire Tragedy George (1608); The Two Noble Kinsmen (Shakespeare e Fletcher?) (publ. 1634). Edi?ao completa das pecas duvidosas por A. F. Hopklnson, 3 vols.. London, 1891/1895. Edicao: The Shakespeare Apocrypha, edlt. por O. F. Tucker Brooke. Oxford% 1908. A. F. Hopklnson: Essays on Shakespeare"s Doubtful Plays. London, 1900. (Introducto da edlcao citada.) H. D. Sykes: Sidelights on Shakespeare. Stratford, 1919.

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Mas o valor nao é indicio da autoría. Locrine é urna impressionante "tragedia de vinganga", mas nao tem nada de shakespeariano; e a historia Edward III recebeu, quanto muito, alguns retoques do mestre. Arden of Feversham e A Yorkshire Tragedy sao tragedias poderosas, nao de todo indignas de Shakespeare; mas sao tragedias "domésticas", passadas em ambiente burgués, e nada nos indica que o dramaturgo dos "gra-senhores infelizes" se tivesse jamáis ocupado com assuntos semelhantes. O "aristocratismo" também é argumento contra a autoría de Marlowe, ao qual se gostaria de atribuir o interessantissimo hondón Prodiga!], transposicao da parábola do filho pródigo para o ambiente da boémia de Londres. O caso mais misterioso é o fragmento de Thomas More do qual possuimos o manuscrito; urna das cenas está escrita, segundo todas as evidencias grafológicas, pela mao do próprio Shakespeare, mas nao é possível afirmar se redigida ou copiada pelo mestre. O problema das atribuigoes e colaboragoes depende em parte do criterio de valor que aplicamos. Os shakespeariólogos alemaes e franceses nao deram muita importancia ao problema, porque a distancia entre Shakespeare e os seus contemporáneos lhes parecia táo grande que a confusáo significava quase blasfemia. Os ingleses, em geral, nao adotam o mesmo criterio. Ao contrario do que amigamente se pensava, o teatro elisabetano nunca estéve esquecido, e a "redescoberta" no século X V I I I foi antes revalorizagáo, caindo agora em esquecimento os contemporáneos de Shakespeare. Mas os románticos retificaram logo a injustica ( 5 2 ) : Lamb, com o entusiasmo pró-

52)

Ch. Lamb: Specimens of English Dramatlc Poets, who lived

about. the time o) Shakespeare. 1808. A. O. Swlnburne: The Age of Shakespeare. London. 1908. W. Archer: The Oíd Drama and the New. 2.» ed. New York, 1929. V. M. Ellis Fermor: The Jacobean Drama. An Interpretation. London, 1936.

prio do grande ensaísta, soube salientar os valores poéticos e dramatúrgicos de Jonson, Fletcher, Massinger, Middleton, Webster, F o r d ; e descobriu o esquecido Tourneur. Os poetas románticos ingleses foram, todos, admiradores do teatro "pós-shakespeariano", e a crítica de Swinburne, mais poética do que critica, deu áquele entusiasmo a expressáo mais intensa. Contra essa idolatría do teatro elisabetano levantou-se, com coragem notável, o crítico teatral William Archer, tradutor de Ibsen e amigo de Shaw; num livro-panfleto apaixonado, pretendeu demonstrar a superioridade do teatro moderno sobre o antigo, denunciando implacávelmente os efeitos dos dramaturgos elisabetanos: as inverossimilhangas grosseiras dos enredos, as incoeréncias enormes da psicología. Archer, porém, foi, por sua vez, incoerente: abriu excegáo para Shakespeare, porque nao ousou atacar o ídolo nacional. Déste modo, Shakespeare parecia, outra vez, separado dos seus sucessores por urna diferenga incomensurável de valores. A shakespeariologia moderna já reduziu a distancia, admitindo calmamente aqueles mesmos defeitos no próprio Shakesciando implacávelmente os defeitos dos dramaturgos elisatano; e, no fundo, nao sao defeitos, porque o criterio de Archer estava errado. O drama elisabetano nao pode ser comparado com o de Ibsen ou Shaw, porque tem outros objetivos; nao pretende, de maneira alguma, imitar ou representar a realidade. Os románticos tinham um pouco de razao quando chamavam "romántico" a Shakespeare; apenas seria mais exato o adjetivo "barroco". Do estilo barroco nos sucessores de Shakespeare já nao duvida ninguém; mas é digno de nota que os "sucessores", na maior parte, nao sao sucessores, e sim companheiros. Dekker, Middleton, Jonson pertencem a geragáo de Shakespeare; Heywood, Tourneur e Fletcher nasceram pouco depois; só Webster, Ford e Massinger sao "sucessores". Parte considerável do teatro elisabetano foi escrita quando Shakespeare ainda vivia, e Beaumont e Fletcher chegaram a exer-

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cer influencia sobre o estilo das suas últimas comedias. Finalmente, as maiores obras de Shakespeare sao posteriores a 1603; ele é também mais jacobeu do qiig elisabetano, é o primus ínter pares dos chamados "pós-shakespearianos". A sua grandeza nao é capaz de diminuir os outros que ocasionalmente o igualam; a distingio depende do criterio estilístico, das fases diferentes da transigió da Renascenga para o Barroco. George Chapman (:,:1) só pode ser assim interpretado. É alguns anos mais velho do que Shakespeare, e a sua grandiosa tradugáo de Homero constituí o cume lingüístico da Renascenga inglesa. Tanto mais curiosa é a dramaturgia pesada e inábil das sombrías "tragedias de vinganga" Bussy d'Ambois e Rcvenge of Bussy á'Ambois, como se o poeta, depois da virtuosidade da tradugáo, comegasse de novo; e a comicidade exuberante de AI] Fools, os fortes contrastes tragicómicos de The Widdowes Teares constituem surprésa. Chapman é um espirito filosófico: "most strangely intellectuall fire", assim chamou ele á sua própria poesía. O sentido profundo da simultaneidade dos elementos trágicos e cómicos torna-se, em Chapman, mais evidente do que no próprio Shakespeare:

"Oh of what contraríes consists a man! Oh what impossible mixtures! vice and virtue, Corruption and eterneness at one time, And in one subject, let together, loóse!" Chapman é, segundo a observagao de Dobrée, o primeiro dos "metaphysical poets", ensaiando-se no drama. Eis, alias, um trago característico do teatro elisabetano-jacobeu inteiro: fraquezas dramatúrgicas, iluminadas por grande poesía dramática. Antes de Chapman ser devidamente apreciado, considerava-se Ben Jonson (° 4 ) como o maior poeta renascentista entre os companheiros de Shakespeare. As poesías líricas de Jonson justificam, alias, essa fama; sao hoje novamente apreciadas, como representando a transigió entre a poesía elísabetana e a "metafísica"; mas o seu modo próprio de expressao parece ter sido a prosa. A critica

53) George Chapman. 1559-1634. (Cf. "Renascenca Internacional", nota 6.) Gentleman Usher (1602); Monsieur d'Olive (1604); All Fools (1605); Bussy d'Ambois (1607); The Conspíracy and Tragedy of Charles Duke of Byron (1608); The Widdowes Teares (1612); The Revenge of Bussy d'Ambois (1613); Caesar and Pompey (1631); Chabot Admiral of France (publ. 1639); Eastward Hoe (com B. Jonson e Marston, 1605). Edlcáo das obras dramáticas por T. M. Parrot, 2 vols., New York, 1910/1913. G. Thorn Drury: "George Chapman". (In: Review of Engllsh Studies, julho de 1925.) I. Spens: "Chapman's Ethical Thought". (In: Essays and Studies, XI, 1926.) H. Ellis: George Chapman. London, 1934. I. Smith: "George Chapman". (In: Scrutiny, marco, junho de 1935.)

54) Ben Jonson, c. 1573-1637. Every Man in his Humour (1598); Every Man out of his Humour (1599); Cynthia's Reveis (1601); The Poetaster (1601); Sejanus (1603); Volpone, or the Fox (1606); The Hue and Cry after Cupid (1608); Epicoene, or the Silent Woman (1609); The Alchemist (1610); Cataline (1611); Bartholomew Fair (1614); The Magnetic Lady (1632); The Sad Shepherd (publ. 1641). Poesía lírica: The Forest (1616); Underwoods (1640). Edl;6es por W. Glfford e F. Cummingham, 3.° ed., 9 vols., London, 1875, e por C. H. Herford e P. Slmpson, 7 vols., London, 1925/ 1941. J. A. Symonds: Ben Jonson. London, 1886. A. C. Swlnburne: A Study of Ben Jonson.. London, 1889. E. Gosse: The Jacobean Poets. London, 1894. M. Chastelain: Ben Jonson, l'homme et l'oeuvre. París, 1907. Gr. Smlth: Ben Jonson. London, 1919. J. Palmer: Ben Jonson. London, 1934. C. L. Knights: Drame and Society in the Age of Jonson. London, 1937. T. S. Ellot: "Ben Jonson". (In: Selected Essays, 2.» ed, London, 1941.) G. B. Johnston: Ben'Jonson, Poet. New York, 1946. H. Watte Baum: The Satirio and the Dldactic in Ben Jonson'$ Comedy. New York, 1947.

obras de admirável reconstruy o arqueológica mais do que de poesia dramática. cheios de vida. cujo representante na pega tem o nome signifcativo de Rabbi Zeal-ofthe-Land Busy — dir-se-ia personagem de Sinclair Lewis. a obra em que Jonson supera o mestre. daí a eloqüéncia poderosa da linpuagem. menos ñas vigorosas cenas satíricas. explicando: a poesia de Shakespeare nutriu-se das excursoes fantásticas da sua imaginacao. Every Man in his Humoui é urna revista de caracteres cómicos. ou antes. foi comparado por Coleridge ao de O Rei Édipo. A erudicáo prejudicou-lhe as tragedias romanas. e o ambiente está bem caracterizado: urna danca frenética de desmoralizados em torno dos ídolos Ouro e Volúpia. defendendo teorías aristotélicas. O seu gósto renascentista manifestava-se também na surpreendente capacidade do classicista algo pesado de escrever "masques" ligeiros como The Hue and Cry aitei Cupid.908 OTTO MARÍA CABPEAÜX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 909 sempre opós ao genio poético do escassamente culto Shakespeare o genio prosaico do seu erudito amigo Jonson. de Shakespeare. miseráveis e ridiculas. É preciso verificar se na sua obra dramática prevalece a cultura renascentista ou a vitalidade do homem do povo. As reminiscencias da literatura antiga e os nomes italianos nao bastam. magistralmente construido. mas algo frias. ao passo que a inteligencia prosaica de Jonson se nutriu das experiencias de urna vida quase picaresca: Jonson foi sucessivamente scholar de Cambridge e pedreiro. na comedia moralista. e de Moliere. assim como ñas comedias. Sejanus e Catiline. e cumpre conhecé-la para compreender bem a "melancolía" de Hamlet ou de Jacques em As You Like It. distingue-se de toda a arte renascentista pelo forte moralismo. é comum na Renascenca. para definir a arte de Jonson. servindo para exagerar os defeitos infra-humanos. seu enredo. Eis a contribuicáo principal de Jonson para a comedia de tipo plautino-terenciano. na comedia désse título. Batholomew Fair é urna sátira mordaz contra os puritanos. abrasando o gósto popular. Deveriam também lembrar a psicología pessimista de La Rochefoucauld. que é igual em todos os tempos. rico avarento que se finge de moribundo para arrancar presentes aos que nutrem esperanzas de serem lembrados no seu testamento. que lembra aos críticos franceses a atitude de Moliere e os tipos duramente modelados de La Bruyére. soldado e ator. imorais. em Catiline e Sejanus. Teóricamente. porém. Eliot reconhece em Jonson a suprema perfeicao artística das monstruosidades geníais de Marlowe. reduzindo as chamadas virtudes a expressoes mais sutis de egoísmo e vaidade. e a comicidade irresistível das cenas magistralmente construidas deixa um travo amargo na boca. cada um dos quais é viciado pelo excesso de urna qualidade característica. mas s l o sátiras poderosas contra a corrucao humana. Volpone é um verdadeiro museu de personagens corrutas. antecipando doutrinas e gostos de Corneille. apresentando no palco verdadeiros monstros moráis. pegas sólidas e eficientes. de um humour. menosprezava no entanto o drama irregular dos seus companheiros. na tragedia romana. mas seria isso aínda Renascenca? O conjunto de erudicáo clás- . Jonson serviu-se désse instrumento para exprimir o seu conceito pessimista da natureza humana. O ambiente das maiores comedias de Jonson — Volpone e Epícoene — é italiano. Jonson é classicista de gósto italiano. como Volpone. c apresentar caricaturas grandiosas. e pastorais poéticas como The Sad Shepherd. jornalista e "poeta laureatus" da coroa de Inglaterra. O Alchemist zomba das supersticoes da época. Eis a obra da qual nem o pessimismo de Shakespeare teria sido capaz. Só assim é possível apreciar devidamente as tragedias romanas de J o n s o n : nao se comparam aos panoramas dramáticos. Reconhecendo o genio de seu amigo Shakespeare. mas a teoría dos humours nao é proprie- dade sua. O mesmo Ben Jonson é comediógrafo satírico. Daí a escolha de assuntos repugnantes.

. 2. mesmo quando tém nomes italianos. e a sátira nao é menos "grobiana"..» ed.Í ed. Brettle: John Marston. a propósito de Marston. Um désses escritos. Cambridge. de um Corneille inculto. Oíd Portunatus (1600). K. as criacoes da sua inteligencia poderosa sao "caviare to the general". superior ao grande satírico pela capacidade de criar um mundo completo de loucuras sinistras e caricaturas sombrías. A obra mais forte de Marston é The Malcontent: nada menos do que o assunto de Measure íor Measure. E quando Marston toca em assunto clássico — na Tragedy of Sophonisba — revela urna capacidade surpreendente de expressáo poética que. VI. e ao Barroco também pertencem a teoria aristotélica e o moralismo amargo. VTJ. Edl?óes por R. 1605). Eliot lembrou-se. The Shoemakerg Holiday (1600). a Study in Economical and Social Background. 1911. contra os costumes grosseiros (groó significa em alemao "grosseiro") da época. Macneile Dixon (in: The Cambridge History of English Literature. 1919. (In: Selected Essays. ai há qualquer coisa do melhor de Jonson. elogio 56) Thomas Dekker. 1873. 4 vols. 8. W. a crítica considerava o teatro de Ben Jonson como urna sala fría de museu. Heywood sao os dramaturgos das massas barulhentas da cidade de Londres da rainha Isabel. é barroca. Paria. 2. Sátiras: The Wonder]ul Year (1603). The Witch o/ Edmonton (1621). Edlcoes por A. Volpone tornou-se um dos maiores sucessos teatrais da nossa época. redigindo folhetos que se vendiam ñas esquinas. far65) John Marston. Cambridge. 1630). do Barroco popular. Mas artistas da sua especie sao táo raros como os Shakespeares. 1641. 1919). trata. Edlnburg. apesar de todas as monstruosidades de mau gósto. hoje — a observagáo é outra vez de Eliot — o conjunto da brutalidade dos sentimentos e polidez das expressoes das personagens de Jonson parece bastante moderno.» ed. Eliot: "John Marston". c. Macneile Dlxon (in: The Cambridge History of English Literature. Antigamente. dos mendigos e criminosos. H. Hunt: Thomas Dekker. The Malcontent (1604). J. Antonio and Mellida (1602).910 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 911 sica e humorismo popular é antes urna antitese barroca.) R. É até grosseiro: quando pretende criar urna "tragedia de vinganga" á maneira de Séneca. 2. Marston está á vontade na comedia. M. Oíd Fortunatos. c. flowers. Seattle. London. 1956. vol. Com efeito. sai Antonio and Mellida. T. 1609. Cambridge.. The Belman o/ London (1608). John Marston. London. The Honest Whore (com Mlddleton. 3 vols. Wood. produto monstruoso. e por F. concebido como comedia grotesca. Shepherd. 1928. em Eastward Hoe. 1924. Bullen. dramatizagáo de um contó de fadas. Mas cada um déles revela á sua maneira a fórca irresistível da evoluclo Renascenga — Barroco. Eastward Hoe (cono Chapman e Jonson. New York. H. 1941. e a posteridade tem todos os motivos para concordar com a inscricao no seu túmulo: "O rare Ben Jonson!" De todos os dramaturgos elisabetanos é Ben Jonson o menos popular. J. vol. sas barulhentas com tipos vivíssimos da vida inglesa. H. e sai urna comovente tragedia psicológica. The Guls Hornebook. de Deloney. dramatizagáo do romance popular The Gentle Craft. o mais popular. 1953/1954. T . grosseiro. de Corneille. Marston. e The Shoemakers Holiday. Dekker. The Guls Hornebook (1609). 1570 — c. 3 vols. está cheio de belezas Úricas.. The Dutch Courtezan (1605). W. A arte de Jonson é menos humana do que a de Shakespeare.) A. Gregg: Thomas Dekker. J o h n Marston ( 60 ) é um Jonson "to the general". 1887. é versao livre do Grobianus (1549). Oxford. L. É jornalista satírico. as vézes usa a gíria da roguery. Tragedy of Sophonisba (1606). urna ocorréncia de crónica policial. Ésse mesmo Dekker é um grande poeta dramático. S. Thomas Dekker ( 6 6 ) é. e por H. sátira latina do alemáo Friedrich Dedekind. Axelrod: Un malcontent élisabéthain. na qual o duque disfargado fala como raisonneur cínico. em The Dutch Courtezan. Jonson é um Dryden)eem peruca. 1575-1634. em The Witch of Edmonton. 1934/1939. E. London. de todos os dramaturgos da época.

Em compensado. W.» ed. da qual Heywood criou a obra-prima: A Woman Killed with Kindness. 1624). 1890. A . lembra um poeta de hoje.» ed. . e nao foi casualmente que The Shoemakers Hohday se tornou urna das pegas mais representadas e lidas do teatro inglés. Women Beware Women (1613). London. e a tragedia doméstica. segundo os conceitos modernos. Michaelmas Term (1604). The Fair Maid o/ the West (1631). T. 1885/1886. antes de tudo um dramaturgo profis» sional.. H. S. Shakespeare é. Dunkel: The Dramatic Technitjue o/ Thomas Middleton in his Comedies of London Lile.. O último e maior dramaturgo da geracáo de Shakespeare é Thomas Middleton ( B8 ). A Game at Chesse (1624). 1941. que foi grande poeta. 1616). London. mestre de todos os efeitos baratos do palco — terror e sentimentalismo. Bullen. . " . London. Clark. Edlc&o por R. c. de atividade incansável. As vézes. como na passagem que T . A expressáo prose. Clark: Thomas Heywood. The English Traveller (1633). e que representa excegao estranha entre os obras déste poeta noturno. Ellot: "Thomas Heywood". The Witch (1627). The Fair Quarrel (com Rowley. Chicago. A Thomas Heywood ( 07 ) atribui o seu biógrafo recente. A Woman Killed with Kindness U807). sclecao por H. Orlando Friscobaldo. essa historia sentimental de urna mulher se«duzida que recebe perdao na agonia está cheia de poesia auténtica." Heywood fez urna tentativa para enobrecer a vida da gente humilde. Se a hipótese se verificasse. A Chaste Maid in Cheapside (1612). King Edward IV (1600. realiza o milagre de transformar em poesia o ambiente cockney. 2. outras vézes. M. c. a autoría ou principal autoría de Appius and Virginia. Nesta obra há qualquer coisa de Dickens. Dekker revela o reverso da medalha: o mesmo Hippolito que converteu a "honest whore" Bellafront. S. S. Shepherd. 1925. Oxford. H. apesar das incoeréncias da a$ao. seus assuntos preferidos eram a farsa popular. de expressoes rudes e coracao de ouro. D. publicada como sendo de J o h n Webster. 1874. nos motivos psicológicos e no sentimentalismo moderado. . quer dizer que os 57) Thomas Heywood. e que a interpretacáo de Hazlitt tornou famosa. Nos outros preferimos The Honest Whore: ali há tambera urna personagem dickensiana. Heywood é apenas playwright. pretende agora seduzi-la. é Heywood um grande realista. 1575-1650. que Dekker escreveu era colaborado com Middleton. de Lamb. 5 vols. London. " Na verdade. 8 vols. atingindo ás vézes a emocao mais patética. tragedia quase classicista. Cambridge. Nos seus momentos mais wii Thomas Middleton. to cali back y e s t e r d a y . A. da qual The Fair Maid of West é excelente exemplo. M. (In: Selected Essays. Dispondo de arte mais pura. Boas: Thomas Heywood. 2. A. Symons (in: The Cambridge History o/ English Literature. lembrando a definicáo de Wilfred Owen: "The poetry is in the pity. poderia ter escrito urna tragedia de simplicidade clássica como Appius and Virginia. e essa ironía dramática transforma a comedia moralissima era sátira barroca.912 OTTO MARÍA CABPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDKNTAL 913 jubiloso do pequeno-burgués londrino. London. Edic&o por A. Ellls. um playwright. 1605). como na famosa declaracao de amor que comeca "O speak no m o r e ! . de ambiente burgués. 2 vols. Nenhum outro dramaturgo elisabetano parece táo moderno como éste. Heywood merecería menos do que nunca o apelido pouco feliz que o seu admirador Lamb lhe confer i u : "the prose Shakespeare". o leitor acredita 1er um poeta romántico. 1950. vol.. Assim é na primeira parte.) F. Na segunda parte. A Trick to Catch the Oíd One (1608): The Roartng Girl (1611). Eliot admira tanto: "O God! o God! that ít were possible T o undo things done. The Changeling «com Wllllam Rowley. VI. 1570-1627. 1931. . é um dos poucos dramaturgos elisabetanos que aparecem até hoje no palco. 1919). Playwright and Miscellaníst. .

(In: From Shakespeare to Joyce. Middleton é o intérprete fiel dos sentimentos da massa. até ñas suas maiores pecas. S. A Critical Study. é urna sátira alegórica contra a política exterior. licenciosa. mas o seu realismo nao é o realismo alegre de Dekker nem o sentimental de Heywood. Empson: English Pastoral Poetry. superando-o pela coragem de intervir nos negocios públicos: A Game at Chesse. sem que seja possível sempre distinguir o que realmente Ihe pertence. . que mereceu a admiradlo de Lamb. Bianca. nestas últimas. violenta. quase heroica. 1955. Schoenbaum: Middleton's Tragedles.914 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 915 felizes ombreia com Shakespeare. 1944. do govérno inglés. grande realista. 2. chamada com razio "aristofánica". superando-o no descuido absoluto pelo destino literario da sua obra dramática. moralismo no sentido francés da palavra.) E. um fundo de moralismo. Será Middleton realmente o precursor das comedias imorais da ResT.» ed. trata da crise moral por que passa urna mulher que tem de confessar ao próprio filho os pecados do seu passado. A Chaste Maid in Cheapside é farsa de um "triángulo" adulterino á melhor maneira parisiense. A acáo da pega. aluga o assassino De Flores. a heroína criminosa. Middleton é um grande realista. e. tauracáo? J á se admite hoje. colaborando ele mesmo ñas pegas de outros. Middleton é o maior mestre de psicología feminína entre os elisabetanos.plot. New York. mas de alta eficiencia dramática. dedicada até a mortí. com urna forte dose de cinismo quase imoral. Por meio deste cinismo. como análise psicológica de casos de consciéncia. da duvidosa Molí Cutpurse no ambiente picaresco da Roaring Girl. Ésse episodio burlesco escandalizou os admiradores mais entusiasmados da tragedia. e em Michaelmas Term consegue tornar simpático um usurario. e o próprio Middleton se revela mais moralista do que realista e psicólogo ñas suas tragedias. Evidentemente. 1936. o sentido moral da pega é até acentuado pelo enredo episódico. que se assemelha ao enredo principal. o double . A parte mais auténtica da sua obra — as comedias da vida das classes baixas de Londres — revelam um observador agudo. até que Empson o revelou como chave da interpretagáo psicológica ( 69 ) da pega e da interpretagáo histórica do teatro elisabetano inteiro: o double plot é a expressao mais característica da síntese entre 08) W. o próprio Middleton afirma a sua resolugao de acompanhar sempre o gósto do público que exigiría agora comedias ligeiras. A Fair Quarrel. Middleton toma o partido de um boémio duvidoso. Middleton parece precursor da comedia imoral da Restauracao. ela apenas aceita as conseqüéncias de um fato irreparável: "Can You weep Fate from ¡ts determined purpose?" O chamado imoralismo de Middleton baseia-se no determinismo psicológico. a "tragedia de vinganca" é motivada pela traicáo repentina de urna mulher. New York. perseguindo depois o marido. The Changeüng: Beatrice ama Alsemero. Alonso. Ellot: "Thomas Middleton". passando-se em um manicomio. expressao do forte interésse de Middleton em casos psicológicos. o prego que tem de pagar é o seu próprio corpo. eis o tema da sua obra-prima. Mas talvez o cinismo seja apenas aparente. e ela acaba amante. inverossimil. entao hispanófila. aproxima-se mais do moralismo satírico de Jonson.) S. New York. para a qual escreve. sucumbindo á seducáo. só serve para mettre en scene aquéle determinismo. para livrar-se do noivo. explicando-se assim a atitude moralissima. A s mais das vézes admitiu colaboradores. E. do criminoso. Stoll: "Héroes and Villains". Em Women Beware Women. Em A Trick to Catch the Oíd One. No prefacio da Roaring Girl. para facilitar ou apressar o trabalho. Beatrice e De Flores sacr'ificam suas vidas a paixoes pelas quais nao se acreditam responsáveis. (In: Selected Essays. n i o é porém de todo responsável. 1941. London. que antes lhe inspiravs repugnancia física.

que constituí o teatro inglés. O teatro jacobeu é um fenómeno de dissociagao: de separagáo entre política e povo. continua urna síntese precaria. espirito aristocrático e espirito popular. The Beggars Bush (1622). Cambridge. Cambridge. The Spanish Cúrate (1622). vol. A separagáo nao é completa: isto acontecerá sómente mais tarde. 1584-1616. ao lado de Macbeth. C. das maiores do teatro barroco inglés. é mera convengáo teatral em Massinger e mero jógo de palavras em Beaumont e Fletcher. 1905. Tne Loyal Subject (1618). M. a Study in Dramatic Mcthod. A pega. Swinburne: Studies in Prose and Poetry. 1579-1625 e Francis Beaumont. dos mesmos autores: urna antítese típica do Barroco. O que antigamente se considerava como mudanga psicológica no individuo Shakespeare é na verdade um dos síntomas da mod i f i c a d o radical do teatro inglés.ierry and Theodoret (1617). Four Plays in One (1612?). de 1647 e 1679. L. Valentinian (1614). convivencia de aristocratismo e grosseria. em transigió para a época jacobéia.terature. Edicáo por A. As modificagóes sao t í o profundas quanto intensas: concentragao da técnica dramatúrgica em torno de assuntos da violencia mais crassa. Pecas de Fletcher em colaboracáo com Massinger: Th. O teatro jacobeu revela qualidades de grandiosa caricatura trágica. New York. Macaulay (in: The Cambridge History of English L'. Wit without Money (1614). Glover e A.» ed. na época da revolugáo puritana contra a monarquía aristocrática dos Stuarts. Rule a Wife and Have a Wife (1624). O. The Wüd-Goose Chase (1621): The Lovers Progress (com Massinger?) (1623). VI. que é. 2. abala-se. Chicago. Pecas de Fletcher e Beaumont: The Kníght of the Burning Pestle (1607). The Little French Lawyer (1619). Já durante os últimos anos de Shakespeare.. ao teatro jacobeu: Macbeth e Antony and Cleopatra. London. Alegou-se a impressáo penosa do caso de Essex em 1601. C. The Changeling. a comunidade nacional da "Merry Oíd England". sao pegas das mais poderosas do novo estilo \ as últimas comedias fantásticas de Shakespeare nasceram mesmo sob a influencia dos dramaturgos jacobeus Beaumont e Fletcher. etc. romantismo e obscenidade. Bonáuca (1614). 1914. meio burlesca. também compreendem as pecas escritas em colaboracáo com outros dramaturgos. etc. Jonson e Middleton sao os grandes dramaturgos que operam a transformagáo do teatro elisabetano em teatro jacobeu. Waller. conseqüéncia da inflagao e outros disturbios económicos. The Custom o/ the Country (1619). comecada em 1950. ao qual já pertencem. Em vez do fato político prefere-se agora salientar o fato social: de 1600 é a primeira "Poor Law". e mesmo alheias. Hatcher: John Fletcher. A poesía dramática torna-se mais intensa. Pecas de Fletcher: The Faithful Shepherdess (1609). The Maid's Tragedy (1611). The Laios of Candy (1620). C. a gloria de John Fletcher e Francis Beaumont ( 6 0 ). 10 vols. The Humorous Lieutenant (1619). As edicóes in-íólio. Loe Strachey. escurecimento da atmosfera. é urna data histórica da literatura inglesa. Mas o próprio Shakespeare pertence. A estrutura social da Inglaterra elisabetana. 1919). . é sintoma de urna crise nos conceitos moráis da época: o fim da moral renascentista. a construgao dramatúrgica mais eficiente. R. A Wife for a Month (1624). O paralelismo dos crimes no palacio e das loucuras no manicomio envolve The Changeling em atmosfera meio trágica. The False (1620). Por enquanto. Déste modo. 1894. O. mas torna-se precario o criterio moral em que se baseava o teatro inglés: o que fóra problema angustioso em Middleton. 1905/ 1912. The Coxcomb (1610). Webster e Ford continuarIhes-ao a obra. etc. nova edicáo por J. Gayley: beaumont as Dramtist. The Scornjul Lady (1609). A King and No a King (1611). além de ser urna tragedia shakespeariana. colaboradores in60) John Fletcher. Philaster (1608). St. pela segunda metade da sua carreara literaria. cuja unidade constituirá o espirito elisabetano. dentro das mesmas obras. abalo dos standares moráis. O mundo de Marlowe e Chapman e das comedias renascentistas de Shakespeare já está longe. The Chances (1620). pessimismo cínico. medida brutal contra o chómage. Monsieur Thomas.916 Orro MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 917 Barroco culto e espirito popular. Measure for Measuie e Timón. e em Webster e Ford acontecerá qualquer coisa como um colapso.

os dramaturgos-gémeos continuaram sempre famosíssimos. 1956. pela variedade dos assuntos. Fletcher e Beaumont sao poetas essencialmente aristocráticos. e podía servir a outros para enfeitar coisas boas e até menos boas. pensa-se de maneira diferente. 1939. preferível ao de Shakespeare e Milton. no sentido algo pejorativo da palavra. como The Scornful Lady. daí o estilo poético. A Critícal Study. A King and no a Ring é a primeira das muitas tragedias de incesto do teatro inglés. realmente. Só a escolha de enredos e ambientes fantásticos torna suportáveis as enormes inverossimilhancas. senao impossível. Durham. a thrill. 1926. Fletcher parece o maior dos dois. The Tempest — utilizou-se realmente de certos efeitos cénicos e li- . Keats dedicou aos dois poetas a famosa "Ode on the P o e t s " ("Bards of Passion and of M i r t h " ) . a obscenidade intencional. É um barroco exterior. pelo romantismo algo fantástico. N. París. embora sempre relativo. do rei. Mas nao se senté a grande necessidade trágica da agáo. chamou ao verso de Fletcher e Beaumont o mais perfeito da língua inglesa. e o século XIX concedeu-lhes. Mas ñas obras de colaboracao é difícil. The Winter's Tale. o segundo lugar depois de Shakespeare. Samuel Johnson. Lon& don. A s comedias. W. e o estilo poético. É assim a outra pega famosíssima dos dois autores: Philaster. Essas míos escreveram também a divertida farsa The Knight of the Burning Pestle. Shakespeare. Chelli: Étude sur la collaboration de Massinger avec Fletcher et son groupe. historia do casamento forjado de um cortesao com a amante M. A posteridade viu principalmente ésses dois aspectos: a riqueza de materia dramatúrgica. do teatro elisabetano. que se satisfaz com as aparéncias. e na época do esquecimento. dai a sua semelhanca com o teatro espanhol. New York. já foi comparada ás grandes tragedias do teatro clássico francés. sem se elevarem ácima do nivel geral da comedia elisabetana. e entre os instrumentos dos dois poetas para impressionar e fascinar os espectadores está. As tragedias dos poetas assemelham-se ás de Middleton: sao tragedias de problemas moráis. B. mais melancólico. o austero crítico classicista. C. a sensagáo. ao lado da diccáo lírica. a virtuosidade dos efeitos cénicos — Beaumont e Fletcher introduziram no teatro inglés as reviravoltas surpreendentes. eclipsou a do m e s t r e . B. efeitos tremendos com eloqüéncia patética. pela linguagem cuidada. a sua comedia pastoril The Faithful Shepherdess já revela o encanto lírico que em geral se atribuí a Beaumont. O terreno próprio dos dois poetas está situado entre tragedia e comedia: comedias romántico-fantásticas. E. e até no tempo de Keats. separar a parte de cada um. mas de um lirismo mais terno. Maxwell: Studies on Beaumont. Mas é só jógo de cenas e palavras. A sua obra. Entertainers to the Jacobean Gentry. foi considerado magnífico e exemplar. A arte de Beaumont e Fletcher é enfeíte. mais do que a de qualquer outro dramaturgo inglés. C. 1927. Appleton: Beaumont < Fletcher.918 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 919 separáveis. Beaumont & Company. a procura de enredos sempre novos e inéditos. á maneira de As You Like It e Twelfth Night. Fletcher and Massinger. ñas suas últimas pegas — Cymbeline. os desfechos inesperados. W. que durante os séculos X V I I e X V I I I . A famosíssima Maid's Tragedy. sem hesitagáo. H. que lembra a Cymbeline. Todo ésse virtuosismo é barroco. e das conseqüéncias sangrentas désse fato. e a impressáo é mais de horror que de frémito trágico. L. OUphant: The Plays of Beaumont and Fletcher. Wallls: Fletcher. exibe. mas sem angustia. chamando-lhes poetas "sans phrase". Oxford. Hoje. revelam mestria igual no diálogo cómico e trágico. lembra o teatro espanhol: pela intensa fecundidade dos autores. teatro apenas. tratados com virtuosidade cénica bastante maior. até sem seriedade. 1947. de fachada. parodia cervantina das loucuras de cavalaria de um aprendiz de quitandeiro.

mesmo subentendida. Otway. The Duke o/ Milán (1823). quem é ridículo e quem é razoavel. apenas oposta á reinante). e sim amorais. Oxford.920 OTTO M A R Í A CABPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 921 rismos fantásticos de Beaumont e Fletcher. vol. 1904. sem se distinguir muito da obra que realizou com Beaumont. Fletcher dispoe. daí a aparente modernidade de Heywood. A. Em um dramaturgo de mentalidade burguesa. The Román Actor (1626). 1920. e isso é de importancia capital.Duke o/ Florence (1627). The Bashjul Lover (1636). The Oreat. Symons. mas sem o rigor das convengoes moráis da sociedade espanhola. Sua colaboragáo com mais outros dramaturgos apresenta maior número de pegas de valor. Rule a Wife and Have a Wiie) sao de construgao magistral. Na Inglaterra. Na obra independente de Fletcher encontram-se algumas boas comedias románticas — Monsieur Thotnas. A situagao histórica de Beaumont e Fletcher. servir de fonte á tragedia heróico-romántica da Restauragáo: Dryden. e em Middleton as convengoes moráis tornam-se problemáticas. Lyon.. reinava ura equilibrio precario entre a moral renascentista e a forma barroca do teatro. Fletcher aproxima-se cada vez mais da comedia licenciosa da R e s t a u r a d o . a tragedia degenera em anedota entristecedora ou em acumul a d o de horrores. 4 vols. The Renegado (1624). é. . Stephen: Hours in a tibrary. 1899. a colaboracáo cora Fletcher. Lee. (In: The Sacred Wood. S. 1634). na tragedia.» ed. The Virgin Martyr (com Dekker. na comedia. Na colaboragáo com Massinger. ñas tragedias (Bonduca. nao havendo mito nem sendo de tanto rigor o dogma. 2 vols. The City Madam (1632). pelo mito e pelo dogma. Valentiniau).. respectivamente. com a razao. The Guardian (1633). com respeito as quais autor e público concordam. A autonomía do mundo dramático de Shakespeare é táo completa que existe equilibrio perfeito. L. os conflitos sexuais ñas suas tragedias e a licenciosidade ñas suas comedias nao sao imorais (isso também seria convengáo moral. Ésse criterio moral do teatro pode coincidir com os criterios da moral reinante. mas nao é mister que isto acontega: a convengáo da honra no teatro espanhol nao se harmoniza bem com a moral católica.» ed. urna moral laicista sem Deus. Sem o criterio moral. Sem convengoes assim. colaborador ocasio61) Philip Massinger. Cunninghan. 1933. London. Na Antiguidade e na Espanha. n . é condigáo indispensavel á existencia de urna arte dramática. que nem pelo pessimismo do poeta é quebrada. comega a substituigao dos conceitos renascentistas pelos conceitos da moral burguesa. é notável. por assim dizer. nem é capaz de distinguir. Cf. A impressao é a de comedias espanholas. a convengáo moral já é mera convengáo. T. London.) M. The Wild-Goose Chase. o espectador nao é capaz de distinguir quem está. Chelli: Le árame de Massinger. 1622).. 4. como Heywood. The Fatal Dowry (com Nathan Fleld. e quem é culpado. O teatro de Philip Massinger (•'). sem seriedade. The Parliament o/ Love (1624). selecao por A. e as convengoes moráis do teatro de Ibsen e Shaw nao se harmonizam com a moral burguesa do século X I X . Glííord e F. Edícáo por W. cuja arte pomposa e aristocrática podia também. 2. Cruickshank: Philip Massinger. a convengio moral do teatro estava garantida. H. Em dramaturgos de mentalidade aristocrática como Fletcher e Beaumont. de retórica eficiente. de certas conveng5es moráis no teatro. 1583-1640. A presenga. The Humorous Leutenant — que justificam recentes tentativas de revalorizagáo. Believe as You List (1631). e al guiñas das suas comedias (The Canches. The Unnatural Combat (1623). por isso. 1632). sem alteracoes essenciais. 1920. London. 1870. A Very Woman (com Fletcher?. cujos dramaturgos refundiram com éxito pegas como The Little Lawyer e The Spanish Cúrate. Ben Jonson já tem de defender a sua posicao pela sátira moralista. de sentimentalismo e perdáo. The Maid 0/ Honour (1622). nota 59. London. EHot: "Philip Massinger". entre o teatro antigo e o moderno.. A New Way to Pay Oíd Debts (1626). falta-lhes o sedtido superior. The Bondman (1624). Mas sem convengoes assim nao há teatro. e a comedia em farsa divertida.

embora estas sejam também excelentes: a honestidade de A Very Woman é tao inacreditável quanto a maldade demoníaca de Luke Frugal. vol. pelo heroísmo meramente decorativo. Pela mesma falta de seriedade superior.<>22 Orco MARÍA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 923 nal de Fletcher. Parece que o mal-estar e a angustia que geraram Timón e Volpone eram comuna na época. foi reconhecida até por um Archer. e quase é urna caricatura de Ótelo. Dali tirou tantos enredos que o seu teatro é um dos mais ricos e interessantes do tempo. o celebraram. London. na melhor comedia de Massinger. tratado por Massinger. Cambridge. Ellot: "Cyril Tourneur". 1919). Mas ésse público estava — ao que parece — preparado para ver no palco os horrores mais tremendos e as perverso» mais abjetas. e mais recentemente Marcel Schwob. A outra atitude possível era a negacao consciente das convengoes moráis. (In: Selected Essays. S. como em Marlowe. The Duke of Milán. M. a infidelidade de urna mulher irresponsável. Entre os dramaturgos ingleses é Mas- singer. ou tao divertidas como A New Way to Pay Oíd Debts. Nlcoll. depois. um anacronismo. na qual se apresentam aqueles horrores. C. The Virgin Martyr. c. Nao se trata de provocacáo antimoralista. 1940. los celos. os dramaturgos jacobeus nao eram "University wits". Lussurioso — é um verdadeiro inferno de sedugoes. Em The Román Actor. arte coletiva. Princeton. mas esta é poderosíssima: The Revenger's Tragedy. 1941.» ed. nao se baseia em convicgóes pessoais. assassinios. VI. vingangas sangrentas. Bowers: Elisabethan Revenge Tragedy. que faz no palco o papel de um mártir cristáo e se torna. pelo romantismo sem emocáo profunda. rlao está. muito inferior a El mayor monstruo. Ninguém. Nao sabemos quase nada da personalidade do poeta. tentativa de renovagáo contra-reformista dos misterios medievais. como tantas outras. Há nisso algo de enigmático. em tragedia de horrores. que trata o mesmo assunto. e Swinburne.) . na Inglaterra. é. mas teatro. É urna "tragedia de vinganga" senequiana. mas que supera a todas. Edicáo por A. urna das muitas tragedias de incesto do teatro jacobeu. A fraqueza de Massinger revela-se ñas comedias serias. é um golpe teatral da maior eficiencia. Rowe. O precursor de Webster e Ford. The Fatal Dowry. e a grande poesía verbal. Cyril Tourneur ( ea ). estéve esquecido durante dois séculos. tragedia dos ciúmes. varias tragedias de Massinger parecem-se muito com as de Fletcher e Beaumont: The Unnatural Combat. escreveram para o público. na Inglaterra protestante. 1930. realmente. e o herói.» ed. a conversao repentina do ator París. T. 2. Massinger é. The City Madam. um dos maiores mestres do verso. de Calderón. Swinburne: The Age of Shakespeare. revelará as possibilidades trágicas do assunto. representa urna tentativa de restabelecer o equilibrio. London. mas só isto. alias. O. o precursor da tragedia da Restauragáo. 2. 1675-1626. 1908. A. sem ser grande poeta. na Franga. a mais famosa obra-prima de Massinger — o personagem do usurario Sir Giles Overreach atraiu todos os grandes atores ingleses. E a sua habilidade. Um enredo á maneira de Middleton. alias bem espanhola. transforma-se. Ellis Fermor: The Jacobean Drama. Vaughan (In: The Cambridge History o/ English Literature. até que Lamb o redescobriu. e — last but not least — pela cultura do seu estilo poético. é quase contemporáneo de Shakespeare. The Revenger's Tragedy (1607). na época jacobéia. escreveu comedias tao finas como The Great Duke of Florence. 62) Cyril Tourneur. The Athelst's Tragedy (1611). J. M. mártir de verdade. Massinger era católico e conhecia bem o teatro espanhol. as visoes infernáis do pessimismo cósmico de Webster e Ford. O ambiente — a corte de um duque italiano. Um público moderno mal suporta pegas assim no palco. na composigáo dramatúrgica. London. E. na Fair Penitent (1703). F . O ponto de apoio de Massinger era o seu credo católico. seria hoje antes um dos obstáculos. inteiramente certa a autoria da única pega pela qual Tourneur existe para nos. 1936. London. e isso já muito antes de Webster e Ford. adulterios.

VI." The Revenger's Tragedy é expressao de um pessimismo incurável e cínico. R. London. portanto. Berkeley. cheias de incoeréncias crassas. Cambridge. The Duchess o/ Mal/i (1614). de Tourneur. um 'poeta especializado em melancolía fúnebre. 4 vols. continua a talar-nos a eloqüéncia grandiosa. Sao dramalhoes monstruosos. W. E. como heroína. Os críticos ingleses costumam colocar Webster ao lado de Shakespeare. Playwright and Naturalist". e morre como um anjo. reunidas em coro fúnebre — eis o mundo dramático de John Webster ( 6 S ).924 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 925 com o nome significativo de Vindice. Leech: John Webster. 0. e que depois se cala para sempre. é essencialmente lírico. The White Devtt or Víttoria Corombona (1612). nao suportam a comparagáo com o mundo dramático completo de Shakespeare. c. 1580 — c. e caí. Muitas vozes noturnas assim. London. apesar dos fortíssimos efeitos cénicos. O elemento humano em meio dos horrores acumulados é a poesía verbal. O dramaturgo é moralista. London. cósmica. Tampouco a Duchess of Malíi é vítima passiva: casando. Janeiro de 1928. instiga aos piores crimes. suporta o massacre de marido e filhos." A alma da poesia de Webster é "pity". vol. desordem. se bem que Webster tenha pago por isto prego elevado. 1919). exibicoes de um sadismo torturante. aqueles críticos só pretendem afirmar que o próprio Shakespeare nao quis ou nao era capaz de exprimir certos aspectos noturnos e fúnebres de alma e vida que Webster conseguiu apresentar. Lucas. No White Devil. 1905. E. o Duque Fernando e o Cardeal. O que Tourneur deixou é como que urna voz clamando do além-túmulo contra éste mundo. London. contra a vontade de seus irmáos. representando. ou antes. purif ica-se no processo contra ela instaudo. citando sempre. o que falta em Shakespeare. 2. com o mordomo Antonio. vítima de vinganga. E. Eliot explicou-a bem como obra-prima única de um homem mogo amargurado por urna experiencia terrível. Bogard: The Tragic Satire ol John Webster. Isto já é grande coisa. 1620). ela desafia as violencias déles e do assassino Bosola. condensando-se nos momentos decisivos em versos epigramáticos como o famoso '"Tis well he died. por assim dizer. mas. Stoll: John Webster. Eis o drama barroco de Webster. Mas que significa isto? Duas tragedias de horrores. em que reminiscencias do Séneca dramaturgo e do Séneca moralista se misturam com as luzes infernáis do "maquiavelismo" lendário: criaturas humanas caindo vítimas de urna política diabólica de gabinetes secretos que 63) John Webster. As tragédias*de Webster. he was a witch. os horrores sao conseqüén- .a ed. porque o teatro de Webster. E nao há lirismo excessivo nessa definigáo. cenas de horror fascinante. em suas tragedias. 1916. 1. cheias de agoes violentas sem motivagáo psicológica.. é o instrumento de urna ordem. Vittoria Corombona. desafia a loucura que lhe pretendem insuflar. torrencial. Brooke: John Webster and the Elisabethan Drama.) C. Hendy: "John Webster. (In: Nineteenth Century. É a adaptagao do "teatro de horrores" italiano de Giraldi e Speroni — as tragedias de Webster passam-se na Italia renascentista — a um estado de alma lírico. Vaughan (In: The Cambridge History o) English Literature. as palavras do Duque Ferdinand em face da irmá assassinada por ordem sua: "Cover her face: mine eyes dazzle. 1951. 1955. The Devil's Law-Case (1623). Appius and Virginia (com Heywood?. Edicao por F. E. she died young. Em realidade. por mais poderosas que sejam. iluminando um mundo n o t u r n o de abjeglo. aparece como chama viva. 1625. 1927. mulher sedutora e sem escrúpulos. Sendo já impossível a representagáo d a pega. nao sao dramas humanos: sao colecóes de cenas magnificas. Webster é um dos maiores poetas da literatura universal. A posteridade escolheu bem. L. como o seu verso mais famoso.

'Tis Pity She's a Whore <1833). e por 8. 1586 — c. Sherman. Mas isso parece depender só do a&sunto. David: Le drame de John Ford. os críticos académicos consideraram-na sempre como a sua obra-prima. sim. em Webster. o pensamento da vaidade déste mundo. Pela expressao. em certos aspectos ou momentos. P.. porque nao há verdadeira saída: o cosmo inteiro é um inferno. . tanto a expressao como a composicao tém simplicidade surpreendente. para o morto já nao existe. com a maior fórca. pelo determinismo mais angustiado: "My soul. 1888. da crueldade. or lust". um pesadelo. nao pelo pensamento. Sargeaunt: JoHn Ford. O." O pensamento consolador de Séneca. pela primeira vez. o interésse febril da época da psicanálise por essas pegas. isso justifica a justaposigao. Webster é o genio do cosmo. enfim. Parts. e as impressionantes cenas de The Broken Heart. Edi?ao por A. A.» ed.. Lovefs Melancholy (1629).. que foram até representadas. desculpa tudo o que perpetraram. The Chronicle History of Perkin Warbeck (1634). I know not whither. • . 1895. Oxford. J. Boston. sem excessos./. A vida é um sonho. Em Appius and Virginia (se Webster é realmente o autor desta obra). John Ford ( 84 ) afirma a sua posicao histórica ao lado de Webst e r : a sua "historia" inglesa Perkin Waibeck é urna peca regular. vol. London. 2. mas um pesadelo. Senté "pity" dos "friendless bodies of unburied men".. 1919). London." Nenhum outro poeta sentiu. Desaparecerán! os últimos vestigios do imanentismo da Renascenga." As personagens de Webster estáo presas ern cárceres infernáis — aquelas cortes de política diabólica — e a única saída parece ser a morte voluntaria: "Death hath ten thousand several doors For men to take their exits. com Introducto Importante). 1639. por volta de 1920. muito elogiadas.926 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 927 cías inelutáveis de atos da vontade livre ("How tedious is. é. met compreende-se. Sensabaugh: The Tragic Muse o/ John Ford. nem exprimiu com tanta fórca. As suas criaturas caem vítimas d a ambigáo. precursores do teatro da Restauracao. ñas quais se misturam morte cruel e danca dionisiaca — defmiu-os bem o próprio F o r d : " neveryet Incest and murder have so strangely". a signifícagáo cósmica que a morte individual tem para o individuo. Cambridge. to sink to that was made for devils. A. É o último cume do teatro jacobeu. The world. e pelo mesmo motivo essas pegas foram. embora o mundo continué. Eternal darkness. Mas Webster p r e t e n d e — e nisto reside a novidade da sua posijáo moral — desculpá-las. London. depois do século X V I I . 1946. • guilty conscience!"). afirma-se em Webster. as outras pegas como síntomas de horrorosa decadencia moral. F. é Webster o mais moderno dos dramaturgos jacobeus: a propósito das suas metáforas noturnas. transforma o monstro Vittoria em heroína angélica. like to a ship in a black storm Is driven.. 1954. Bullen.. The Broken Heart (1633). W. E todos nos temos de morrer. quase classicista. a possibilidade permanente de sair déste mundo por vontade própria. K. O fatalismo do irresistível amor incestuoso entre irmáo e irma em 'Tis Pity She's a Whore. todos OB dramaturgos jacobeus sao. O que nao se 64) John Ford. Déste modo. C. Rejeitaram.that wich was made for man. 1915 (incompl. da volúpia: " W e fall by ambition. 1936. ". Neilson (ln: The Cambridge History of English Literature. blood. mais de um crítico se lembrou do suprarealismo. 3 vols. porém. como se fósse um Calderón ateu. H. VI. M. Swlnburne: Essays and Stttdies.

The Cardinal (1641). A. o título mais característico de Ford é Lover's Melancholy. enquanto que as tentativas de representar as obras dos seus companheiros. Resta só a arte barroca de construir dramas eficientes. melancólica. romántica. é acaso que ele é católico. Ford exprime com seriedade o que é apenas jógo cénico nos poetas-gémeos. é Ford o último dos grandes dramaturgos ingleses. naquela época de grandes dramaturgos. Nem é decadente no sentido em que Webster o é . porque o público. Ñas pecas de Shirley triunfa sempre a moral. A moral renascentista é sentida como provocagáo imoral. Dramatist. Ford. Ford nao é decadente no que diz respeito á arte dramática. Mas é defesa sem rebeldía. Gosse. poeta de músicas angélicas. 1936. No comégo do século XIX só urna pega das antigás estava no repertorio: A New Way to Pay Oíd Debts. que nao aeriam inteiramente indignas de Shakespeare. o antigo teatro inglés teria acabado. London. Massinger. Harbage: Cavalier Drama. ele aínda é de primeira ordem. . Selec&o por E. Tragedias políticas como The Traitor e The Cardinal apresentam a interpretagáo (e a c o n d é n s a l o ) católica e burguesa daquele "maquiavelismo" lendário com que o teatro barroco inglés comegara." Sem profundidade. mas nao eloquente como a de Webster — Ford é um dos poetas mais "puros" do século X V I I . e o "víllain" cai vencido. LovCs Cruelty (1631). P. His Catholic Philosophy o/ Life. The Gamester (1633). Fletcher. Nem é decadente em sentido moral. A síntese entre moral renascentista e arte barroca — base do teatro inglés — já nao existia. como a língua poética revela. é um mestre da cena. e há mais algumas pegas de Chapman. mas o "moderno" — o teatro da Restauradlo — já estava pronto. Nason: James Shirley. intensa. as reprises de outraa pegas por Phelps e Carr nao tiveram éxito. O representante desta última fase é Shirley (••): nao 65) James Shirley. The Traitor (1631). Maeterlinck. Shirley merece o elogio de Lamb: " T h e last of a great race. Tourneur. as suas peías de incesto sao incomparávelmente mais serias do que as de Fletcher e Beaumont. 1915. London. agora. Dekker. Heywood. Dyce. Mas há urna diferenga importante: Shakespeare continua a dominar o palco inglés e o de varios países do continente. até hoje. e esta sua atitude foi possivelmente reagáo contra o poder crescente do puritanismo. 1888. mesmo que seja incestuosa. 1833. com poucas excegoes. Radtke: James Shirley. New York. Ao contrario. Schwob e Copeau na Franga. divertido em comedias como Hyde Park e The Lady of Pleasure. interpretado em país protestante como simples moralismo. H. O antigo teatro inglés pertence a um tipo diverso do nosso. sem as pretensóes de propaganda religiosa que aparecem as vézes em Massinger. Entre os dramaturgos elisabetano-jacobeus. mas afirma-lhe a paixao. Em tudo mais. Middleton e Webster sao de primeira ordem. Depois. Neste sentido. Mas justamente nesse "progresso" reside a verdadeira decadencia de F o r d : tomando a serio o que aqueles inventaram como thríll. 928 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 929 harmoniza bem com os enredos é a língua poética de Ford. segundo a confissáo de Middleton. c a diferenga é tao grande que nem sequer para as pegas de Shakespeare se encontrou. Ford admite que as convengoes moráis da Renascenga já nao existem. 1596-1666. Hyde Park (1632). Mesmo sem o fechamento dos teatros em 1642. impressionante ñas tragedias.. The Lady o) Pleasure (1635). 6 vols. e o mesmo se pode dizer das tentativas de Paul Fort.. The Imposture (1640). outro elemento barroco: o aristotelismo. e nesses dramas tem de prevalecer. Giíford e A. um modo perfeitaEdic&o por W. Reinhardt e Jessner na Alemanha. completamente dócil da aristocracia. A. falharam. e sim urna burguesía que em breve se revoltará contra o rei aristocrático. pelo menos Jonson. New York. nao nega o mundo. moralismo burgués. Defende a paixao erótica. 1929. que precedem ¡mediatamente a comedia da Restauracao. London. mudou: já nao é a massa popular.

que cultiva um patriotismo artificial e urna liberdade moderada. Herrick. Herbert. através de Garnier. A literatura holandesa de antes do século X V I I nao foi das mais importantes. grande poeta lírico fora do drama.. muito pessoal e sincero — e pelo classicismo sereno da sua obra historiográfica. Jahrhunderts. por ser mais parecido com o Pastor fido que com 6 Aminta. A literatura correspondente a essa fase de evolugao espiritual e social encaminha-se logo para o estilo barroco. por sua vez. As primeiras tragedias de Hooft acompanham o estilo de Trissino. Helllnge e outros. separacáo estrita entre as obras dramáticas e os sonetos. E m ambos os países. Afoeeldingen van Mine (1611). ao conhecimento de Vondel. ninguém adivinharia que sao contemporáneos de Donne. é urna poderosa tragedia senequiana. . Vondel comefam como renascentistas. mas transfigurado em quadro de gente. Huizinga: Die hollaendische Kultur des 17. Nenhum déles foi. Jena. Geeraerd van Veteen (1613). Baeto (1617). 1954. Conhecendo só os dramaturgos daquele tempo. 1895. como poemas dialogados. de Plauto. 2 vols. Edlgóes por P. o qual. 2 vols. Hooft. 1904/1907. A. a obra capital de Hooft. 1581-1647. como na Inglaterra. De modo que se completa. Gedischten (1636). claro-escuro á maneira de Terborch. A Renascenca chegou tarde. Amsterdam. a Aulularia. Baeto. que se torna depois dramaturgo barroco. e por W. Warenar (1616). em Hooft. As obras-primas do teatro elisabetano-jacobeu sobrevivem como pegas para leitura. característica dos segundos? Urna solucáo aproximada do problema — nao se pode tratar de mais. pelo lirismo petrarquesco — que é. 67) O. inteligencia erasmiana e democracia calvinista. e Séneca chega. com acessos de angustia religiosa e veleidades de poesía erótica e tragedia política.930 OTTO M A B I A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 931 mente adequado de representá-las. Hooft ( 6S ) é geralmente considerado como a figura mais típica da Renascenca holandesa: pela cultura italiana. Eis um problema com que a historiografía literaria ainda nao se ocupou. na qual o modelo. aristocrática. mas a obra principal de Bredero é a d r a m a t i z a d o de um romance picaresco. como na Inglaterra. Worp: Geschiedenis van het drama en van het tooneel in Nederland. encontra-se urna forte corrente "marinista". certas dificuldades daquele problema deixam de existir. em virtude do poder poético dos dramaturgos. Depois da revelacáo da índole barroca do teatro jacobeu. Amsterdam. nem a comedia Warenar. nao é tratado á maneira de Ariosto ou Crazzini. e ainda na Suécia. Amsterdam. A impressáo geral da obra de Hooft é de literatura culta de urna élite erudita e viajada. O panorama completa-se com o realismo de Cats e Asselijn: panorama de urna literatura de primeira ordem ( 6 T ). Nao convém incluir nessa enumeracao o drama pastoril Granida. O. com acentos de individualismo estoico. Mas continua a dificuldade principal: por que os dramaturgos barrocos e os poetas líricos barrocos da Inglaterra se exprimiram de maneira tao diferente que nos primeiros falta quase todo o vestigio da "metaphysical poetry". como já se notou. Milton. nao pode ser bem compreendido antes de ter-se estudado o Barroco literario holandés. porém. segs. Daí resultou urna síntese ( a G ): burguesía medieval e desejo de representacao 66) J. Leendertz. Hooft passa de Petrarca a Séneca. 68) Pleter Comelisz Hooft. de urna das maiores épocas da poesía lírica inglesa. Kalfí: Litteratuur en tooneel te Amsterdam in de eeventiende eeuw. o panorama do Barroco protestante. Bredero. assim. do qual dependem os alemaes. Granida (1605). Haaj-lem. por enquanto — será facilitada pela comparacáo com o Barroco contemporáneo na literatura alema. 1871/1875. 1933. e até em Shakespeare existe. encontrando fortes residuos medievais e mais forte mentalidade protestante. alias. Vaughan. J.

3 vols. 1895. vol. a ser o poeta das classes populares de Amsterdao. A. e no lirismo chegou a um classicismo que o aproxima de Milton: ñas magnificas elegías Lijkangen. J. I. Joost Van den Vondel. A cultura clássica veio-lhe da Franca. Lijkzangen (1633/1635). e os epigramas Hekaídichten revelam um Vondel satírico e humorístico. A sua O. Amsterdam. Haarlem. 70) I . Marta Stuart (1648). Maeghden (1637). 1901. Hekeldichten (1627). 1887/1888. Joseph in Egypten (1640). C. Mais alguns anos de vida. Bredero voltou. G. 1935. Amsterdam. 1927/1934. segundo a definigáo de WordBworth. 1922. 2* ed. Kalfí: Litteratuur en tooneel te Amsterdam in de zeventiende eeuw. Boertlgh (1622). G. R. Prlnsen: Pieter Cornelisz Hoo/t. Moller. Vondel nao chegou sem luta a essa calma olímpica. Lucifer (1654). Johaunes de Boetgezant (1622). A poesía de Vondel é. 1918/1929. Brom: Vondels geloof.. Het Poscha (1612). 2. M. Knuttel. Mas só em outro sentido se pode afirmar que todo o teatro de Vondel é lírico: 'apenas no drama o seu lirismo é emocáo livre. Noah (1667). Haarlem. A s fábulas da Vorstelijke warande der dieren lembram aínda o gótico "flamboyant". tendo passado por formacáo clássica e erudita. "emotion recollected in tranquillity". finalmente. das cidades holandesas. Kalíí: Studien over nederlandsche dichters der zeventiende eeuw. O ponto de partida de Vondel é a cultura burguesa. Frelburg. J.. Leendertz jr. M. G. Amorens en Aendachtigh Groot Liedboeck (1621). F. Kali'f: Litteratuur en tooneel te Amsterdam in de zeventiende eeuw. Haarlem. 1919. P. Amsterdam. Qroninger. W. H. Gysbreght van Aemstel (1637). Amsterdam. em suas farsas ("Kluchten"). Jephta (1659). e Vondel é dramaturgo. Haarlem. 10 vols.932 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 933 De um ponto de partida oposto chegou o genio malogrado de Bredero (6*) a um Barroco diferente. Joseph in Dothan (1640). Poort: Gergrand Adriaensz Bredero.» ed. 1912. Ten Brink: Gerbrand Adriaensz Bredero. 1927. a comedia De Spaansche Brabander. G. H. Kluchten (1619). Edic&o por J. Mas a sua arte é principalmente lírica. 1926. Haarlem. J. De Spaansche Brabander (1618). meio medieval. Filho de um sapateiro. é urna dramatiza$áo burlesca do Lazarillo de Tormes. Amsterdam. Precedeu a conversáo vasta literatura de controversia política e religiosa. Adam in ballingschap (1664). A sua obra-prima. Dlferee: Vondels leven en Kunstontwikkeling. assim como lhe custou a conversáo do protestantismo sectario ao catolicismo. Prinsen: Gerbrand Adriaensz Bredero. Sterck: Het leven van Joost Van den Vondel. 1926. 69) Gerbrand Adriaensz Bredero. 1895. 1902. Haarlem. Batavisch* Gebroeders (1639). a parodia do falso aristocratismo lembra um pouco Moliere. 3 vols. Altaergehetmenissen (1645). Baumgartaer: Joost van Vondel. Edicfio por J. Barnouw: Joost Van Vondel. J. Hierusalem verwoest (1620). de profunda emosao religiosa. Haarlem. Joost Van den Vondel ( 7 0 ) é o maior poeta da língua holandesa e um dos maiores da literatura universal. capaz de exteriorizar-se e exprimir urna civilizacáo inteira. 1939. realmente. 1585-1618. Amsterdam. Kalfí: Studien over de nederlandsche díchters der zeventiende eeuw. F. É o século do teatro. Peter en Pauwels (1641). Mas é um filho pródigo da pequeña burguesía. poeta lírico de violentos acentos eróticos e. 1901. Leiden. A. Palamedes (1625). Moortje (1617). De Leeu- obra constituí urna enciclopedia poética do scculo X V I I . Verscheide Gedichten (1644). Haarlem. Sterck e H. Kalfí: Vondels leven. A. A mesma tranqüilidade serena inspirou-lhe os espléndidos coros líricos de Gysbreght van Aemstel e Lucifer. e Bredero teria sido um dos grandes dramaturgos barrocos: foi a sorte que coube a Vondel. revelando o fundo b u r g u é s da civilizacáo urbana. na poesía religiosa dos Altaergeheimenissen. 1882. vol. Amsterdam. da qual Bredero é rebento. 1935. Verney: Vondels vers. que a critica académica gostava de ignorar. J. já com alguns tragos de naturalismo violento á maneira de Caravaggio ou Brouwer. O. Haarlem. Kontna David (1600). I. 1918. Nederduytsche Rijmen (1620). van de Velden: Staat en recht bij Vondel. atrawendalers (1648). üit den Mulderkring. De vorstelijke warande der dieren (1620). 1587-1679.

os Batavische Gebroeders. K. 1886. a mais característica é a tragedia María Stuart. em forma dramática. X . o poeta dedica especial carinho as cenas da celebragáo de Natal. A s odes ao Rynstroom. Antonides Van der Goes ( 7 2 ). nao se encontram em suas obras. Eymal: Hujensstudien.. E ' um grande artista do verso. o panegirista retórico de Amsterdáo e do seu Ijstroom. . mas menos sombrio. Os 90 anos de vida de Vondel acompanham um século de civilizagáo européia. 1827. mais burgués e suntuoso. 73) Thomas Asselijn. Vondel nao foi pensador. como que dizendo: isso também é holandés. vol. já é urna chinesice á maneira do Rococó. TU. G. Edlc&o por N. 1892/1899. Edlc&o por T. Vondel chega a um barroco nacional. poeta diletante. A conseqüéncia mais importante da conversao é a desistencia definitiva das pretensoes classicistas. tragedla Sinai (1674). Culemborg. marinista e epigramático. Jan Klaasz of de gewaande dienstmaagt (1682). é o lado classicista de Vondel. tratando a mais antiga historia holandesa. 9 vols. mas imitando-lhe só os aspectos exteriormente barrocos da obra. 1596-1687. 1620-1701. J. é discípulo direto de Vondel. transfigura os arredores de Haia em vale arcádico. 1900. e os dramas bíblicos Joseph in Egypten e Joseph in Dothan tém a vivacidade do sabor popular dos misterios medievais. civil c económica dos Países Baixos no século X V I I . segundo a narragao de Tácito. Haarlem. O realismo satírico do mestre ressurge. Kalll: Studien over de nederlandsche dichters der zeventiende eeuw. 47 e 48. As profundidades que a crítica patriótica dos seus patricios lhe atribuí. um grande poeta religioso. Os poetas menores do seu século desenvolvem aspectos parciais da sua obra. Mas a preocupagáo mais profunda da época é a religiao. Adam in ballingschap tem algo de bucólico. Ijstroom (1671). em Thomas Asselijn ( 7 3 ) : a sua comedia genial Jan Klaasz. Notáveis poetas religiosos sao Camphuysen. A. Tryntje Cornelia (1663). com surprésa geral. farsa do amante. a conversao. em 1641. X 72) Antonides Van der Gocs. antes de tudo. c. Vondel é urna síntese. 1881.934 OTTO MARÍA. em geral. J. Worp. á Beurs van Amsterdam. etc.. 3 vols. As formas sao evidentemente barrocas: a transfiguragao inesquecível da paisagem holandesa em De Leeuwendalers é urna comedia pastoril. é. Cramer. de espirito contrareformista. Lelden. Bilderdljk. e Lnciter. No drama patriótico Gysbreght van Aemstel. a tragedia mais regular (e mais famosa) de Vondel. "Renascenca Crista e Reforma". Groningen. E n t r e as obras específicamente católicas de Vondel. Cluyswerck (1683). Vondel ter-se-ia encontrado com o italianismo renascentista de H o o f t . denso como o de Remhrandt. Van Vloten: Het Nederlandsche kluchtspel. 74) Cf. comparável as epopéias heróico-religiosas da época. para a Inwyding van't tandhuys. O 71) Constantin Huygens. a influencia de Vondel é evidente no Paiadise Lost. da língua. e Zungchin. 1647-1684. Neste caminho. notas 46. Do "grande Barroco" aproximou-se Vondel através de reminiscencias do cristianismo medieval. Haarlem. disfargado em criada que os pais da moga encarregam de vigiá-la — com todas as conseqüéncias — é o desmentido enérgico do puritanismo. Vondel nao mantinha ésse grande estilo. ao Zeetríomf der Vrye Nederlanden sao os maiores monumentos da grandeza política. 1901. de valor apenas histórico. e a tragedia bíblica Jephta é a maior expressáo do espirito religioso da nacao. Vondel é. de Milton. A. Edlc&o por W. depois. CARPEAUX HISTORIA DA LITEBATUBA OCIDEKTAL 935 vés de Garnier: Hierusalem verwoest já é urna tragedia senequiana. tragedia chinesa. mas os amigos "humanistas" — eruditos barrocos como Vossius e Grotius — transmitiram-lhe as teorías aristotélicas. Zwolle. Huygens ( " ) . ideada como obra de extensáo do tiagicismo clássico a assuntos remotos no espago. sao. Batava Tempe of 't Voorhout van 's Oravenhage (1621). de modo que a exigencia de "regulandade clássica" deu fatalmente como resultado urna poesía contra-reformista. Daghtverck (1639). Revius e Luyken ( 7 4 ). Depois veio.

o modelo do sueco Stjernhjelm ( T 0 ). desempenha fungoes da Renascenga. volta Dahlstjerna aos sons rudes da poesia popular. Wilie: Helman Dullaert. expressáo de profundas experiencias religiosas em versos herméticos. sem reticencias. Wleselgren. J. .. é o panorama perfeito. bem barroco. do islandés Petursson ( 7 8 ). 1614-1674. mas pelo menos urna parte daqueles artificios é volta ás formas -complicadas da poesia escáldica da Idade Media. 1887/1890.936 OTTO MARÍA CAHPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 937 maior é Dullaert ( T 4 _ A ). Edl?ao por J. Kalíí: Cats. Stockholm. o fim da sua civilizagáo. da qual resultou a destruigao material completa do país e. 1924. nos países protestantes. e a historiografía literaria teimou.) J. embora sem espiit algum. O século X V I I é a época mais negra da historia alema: a da Guerra de T r i n t a Anos. pela intervengao da Reforma. tradutor do Pastor fido para a lingua sueca. 1901. voltara o espirito didático da burguesía medieval. medieval. de Grimmelshausen. artificialissimos. Amsterdam. mais intima. 1577-1660. a introducto do estilo barroco é continuacao direta da Renascenga internacional interrompida ali pela Reforma. durante muito tempo. No mesmo sentido. e éste é. Trata-se de algo como urna "Contra-Reforma protestante".. 1946. 1719). que escultores italianos criaram naquela época para as cápelas reais das capitais nórdicas. 2 vols. 2 vols. Kungaskald.. é Ronsard. 1926. por muito tempo. 1947. Derudder: Cats. M. Zelst. Passiusálmar (1666). mima lingua metafórica na qual os simbolistas holandeses de 1880 reconhecerao os seus próprios ideáis já realizados. (In: Stille Toernvoein. 1945. Rejkjavik. celebrando as vitórias do rei Carlos X I I sobre os russos. Edic&o por E. como alta poesia as obras de Jacob Cats ( 7 5 ). com os lamentos das quatro "classes" ou "ordens" do reino perante o ataúde do monarca. Stockholm. serviu para substituir urna Renascenga que nao chegara ao pleno desenvolvimento. da época. 2 vols. 75) Jacob Cats. 1598-1672. sao considerados obra capital do Barroco protestante. Houwelijck (1625). sa vie et ses oeuvres. E — excetuando-se Bredero e Vondel — mero classicismo barroco. M. ao passo que a nagáo considerou. 1898.. A. O s Christus Sonnetten e a poesía fúnebre Aan mijn uitbrandende kaerse seriam dignos d e Donne. Hercules (1653). o resultado foi urna poderosa literatura nacional. Em toda a parte o Barroco protestante. Stockholm. Em forma epigramática. os Sonetos sobre a Paixao. Finalmente. Mas convém observar que Asselijn foi lancado ao ostracismo e Dullaert esquecido. Nan Vloten. durante dois séculos. O Barroco holandés é apenas forma artística. • Edic&o por G. em declará-lo o único documento digno de nota da literatura alema do século. Noreen. Em todo o caso. Nordstroem e P. Calais. 1920/1928. 1901. 2 vols. enfim. — Edigáo das obras por J. Stockholm. Frlberg: Den svenske Heracles. Jónsson: Hallgrimur Petursson. Os poetas e escritores alemaes contemporáneos de Grimmelshausen sao muito diferentes: marinistas. 1661-1709. 1636-1684. ZwoUe. Gedichten (publ. urna das obras mais poderosas do século X V I I . traduzindo 77) Gunno Eurellus von Dahlstjerna. um grande poeta. Sua obra é o breviario da gente menos poética do mundo. que falhara nesses países: desenvolve as línguas nacionais e prepara literaturas nacionais. Rejkjavik. O. 76) Qoeran Stjernhjelm. Barroco nacional inspira a Dahlstjerna ( 7 7 ). Thomsen. O seu panegírico á morte do rei Carlos XI. O Simplicissimus. 1924. moralizador insuportável e trivial. Nordstroem: Goeran Stjernhjelm. Harlem. se nao fóssem poesía mais pura. Verwey: "Heiraan Dullaert". M. Spiegel van den ouden en nieutoen Tijd (1632). marinista auténtico. Lamm: Dahlstjerna. comparável ás impressionantes esculturas no género das de Bernini. Stockholm. é urna grande "máquina" barroca. um dos maiores do século. A.is no canto bélico Goeta-Kaempavisa. 78) Hallgrlmur Petursson. 1862. A pretensao de criar um 74A) Helman Dullaert. G. poeta barroco.

Conhecedores das literaturas estrangeiras. a literatura bárbara. sem hesitacóes. Flrenze. Até que ponto éles conseguiram ésse fim. W. A única figura literaria importante que surgiu 79) 8. Entre os poetas alemáes do século X V I I há pouca aristocracia. tragedias senequianas e naturalismo popular — essas antíteses dialéticas já sao bem conhecidas. artificialismos da pequeña élite aristocrática da Silesia barroca. Quando muito. como a f usáo do estilo senequiano da tragedia com o "maquiavelismo" lendário. Fenómenos importantes. 3 vola. 1024. e contaminados. Sao juízes. doeu-lhes o atraso vergonhoso da civilizacáo na sua patria devastada. e o "porta-voz do povo" nao desdenhou escrever romances heróico-galantes com muita erudicao antiquária — Der Keusche Joseph. enobrecidos em recompensa de bons servicos. quer dizer. só ele teria salvo a honra da literatura alema do século X V I I . intelectuais burgueses. escrevendo tragedias artificiáis á maneira de Séneca e Vondel. em meio da tormenta. a de Lutero. até há mais ou menos 35 anos. de Goethe e Schiller. o estilo marinista do Barroco internacional. O realismo documentário é apenas um dos aspectos da obra de Grimmelshausen: no seu romance picaresco prevalecem elementos de estoicismo barroco e reminiscencias do cristianismo gótico. Ao contrario. FUlpponi: 11 Marinismo nella letteratura tedesoa. Grimmelshausen. pelo Barroco contra-reformista e jesuítico dos seus vizinhos imediatos. literariamente. e tudo isso em linguagem "gongórica". Benjamín: Ursprung des deutschen Trauerspiels. e a língua alema. assim como Grimmelshausen. também nao sao aristócratas. dedicando-se. Leipzig. O programa dessas sociedades incluiu. meio medieval. é outra questáo. particularmente da italiana e da holandesa. E estes.938 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 939 Tasto e Guarini. Buchholtz e Siegler. a jogos inúteis de preciosismo. bombástica — de modo que o século X V I I parecía o século perdido da literatura alema.) . cantando angustias místicas e amores obscenos. Eis a opiniao corrente. incapaz de expressáo literaria. Cysarz: Deutsche Barockdichtung. desejavam ficar á altura d a época no estrangeiro. aqueles poetas adotam. nao conseguiu conquistar a nagao inteira. imbuidos de forte sentimento patriótico. H. do século X V I I I . em germe. Berlín. recomegou o processo do desmembramento em dialetos regionais. 1937. dos alemáes católicos. 1928. a grosseria da língua. tornaram-se internacionalmente conhecidas gragas á renovagáo do estudo da literatura barroca alema ( 7 "). Mas é certo que o Barroco protestante na Alemanha é dos mais típicos: angustia mística e erotismo obsceno. Nao pode haver nada de mais inexato. 1910. foram primeiramente descobertos em obras alemáes do século X V I I . (Antología com importante Introduc&o. abandonada ao sabor dos incultos.) H. Só percebeu. Proximus uncí Lympida — bem á maneira dos romancistas barrocos Zesen. altos funcionarios e pastores protestantes. A reagáo contra ésse estado de coisas iniciou-se com a fundagao das "Sprachgesellschaften". Ou antes. sao membros da alta burocracia. E entre muitos documentos de alto interésse histórico descobriram-se inesperadamente obras de grandes poetas. o preciosismo marinista e a imitagáo do Barroco estrangeiro. (Interpretado profunda. "sociedades literarias" para melhorar a língua e promover boas tradugoes. Cysarz: Barocke Lyrik. insensível aos sofrimentos do povo. Em conseqüéncia do malogro parcial da Reforma luterana — metade da Alemanha foi recuperada pelo catolicismo e a outra metade desunida pelo sectarismo — a nova língua alema. Leipzig. no século X V I I alemáo. Os cultos preferiam escrever em latim. tornou-se outra vez grosseira. A crítica do século XIX mediu essa época com os criterios da literatura classicista e popular ao mesmo tempo. italianizada e hispanizante. toda a interpretagao nova do Barroco originou-se naqueles estudos. porta-voz do povo.

Stuttgart. 82A) Caspar Stieler. 1923. Olschkl: G. da cangáo popular — e havia um forte movimento místico. 1908. Deutsche Nebersetzungen und Gedichte (1679). menos sincero do que Fleming. Eis as raízes da literatura barroca alema. J. Teutsche Poemata (1624). O tradutor do Pastor íido é o mais artificial de todos os poetas alemaes. o representante mais perfeito do marinismo alemao. abriram-se com certa facilidade á influencia dos vizinhos católicos de formagao jesuítica. declarando-o pedante inepto. H. Edicao por Th. Kirchhoffsgedancken (1656). Nao sendo grande poeta. religiosidade e estoicismo. 82B) Venus. quer dizer. porém maior artista. por B. funcionarios burocráticos de cortes e cidades protestantes. hipócrita de emogóes religiosas. <ia Idade Media. A sua pretensáo foi tornar clássica a literatura alema. Des Herrn von Hofmannswaldau und anderer Deutschen auserlesene Gedichte (edit. poeta pastoril e religioso. Guarinis Pastor Fido In Deutschland. Neste caso já nao se encontra — urna geragáo depois — Hofmannswaldau ( 8 -" B ). foi Opitz urna das muitas personalidades mediocres que. Horribilicribrifax (1663). Leipzig. 1888. protestantes e católicos viviam misturados. Opitz era silesiano. Leipzig.A ). Na Silesia. Morreu mogo. Gundolí: Martin Opitz. e após a desmoralizagáo do Barroco alemao pelos classicistas a poesía alema precísava de mais de um século para chegar outra vez a semelhante cultura da forma. 81) Christian Hofmann von Hofmannswaldau. 1909. 1616-1664. Buch von der deutschen Poeterey (1624). barroca. 1932. 1907. Staden: Fleming ais religioeses Lyrikes. 1908. 1617-1879. Mas ali estava realizado o que Opitz desejara. do Barroco italiano. Lappenberg. um virtuose de sintaxe complicada e metáforas abstrusas. Leipzig. consideragáo que também se aplica ao vigoroso poeta erótico Stieler ( 8 2 . talvez conseqüéncia da mistura dos silesianos com sangue eslavo. mesmo um grande poeta. Edicao (incompl. 1609-1640. A circunstancia é digna de nota. Pyritz: Paul Flemings deutsche Liebeslyrik. mas conservando sempre a simplicidade e sinceridade da poesía popular. • A. Em formas "modernas". 1597-1639. 1697). sincero apenas quando erótico. As duas correntes reúnem-se em Andreas Gryphius (•*)} e eis um auténtico poeta. Koester: Der Dichter der Geharnischten 1897. 1863/1865. envolvendo em ritmos irresistivelmente musicais a obscenidade. Andreas Gryphius. Leipzig. em que ensinou aos poetas alemaes os conceitos e regras da poética aristotélica e os metros latinos e italianos. Carolus Stuardus (1657). P. N. ( S 1 ). Mas o seu mérito histórico de fundador da literatura alema moderna ressalta com evidencia cada vez maior. fizeram historia. e aqueles poetas. Fleming exprimiu urna alma rica: rica em amor e patriotismo. Neukirch. e nao lhe perdoaram isso os classicistas do século X V I I I . Ettlinger: Hofmann von Hofmannswaldau. 83) .) por F. Greve. Zlatna (1623). 1632-1707. B.)> tradutor de Séneca. mas só a imperfeii. Die gelibte Dornrose (1663). 1891. EdiQáo por J. o primeiro poeta lírico notável de língua alema depois 80) Martin Opitz von Boberfeld. juristas de formagao latina. Halle. pela cooperagáo de circunstancias. Geist-und Weltliche Poemata (1651). autor de um livro teórico Buch von der deutschen Poeterey.940 OTTO M A M A CABPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 941 dessas ambigóes foi Martin Opitz (8(. H. Papinianus (1659). Mas havia também na Silesia um folclore muito vivo — a Silesia é um dos centros do lied. tornou-a barroca. Paul Fleming. Raehse. MuencheD. Cardenio und Celinde (1648). T. Sonn — unde Feiertagssonnette (1639). F. escolhendo os seus modelos na Holanda contemporánea. M. Halle. e quase todos os poetas alemaes importantes do século X V I I foram silesianos.ao da língua o impediu de tornar-se grande poeta. L. Leipzig. Die geharnischte Venus (1660). O aspecto popular é representado por Paul Fleming. 2 vols. Stade. Leo Armenius (1650). Witkowski: Paul Fleming und sein Kreis.

H. 1940. W. a d e s f i g u r a d o da cancao luterana eclesiástica pelo estilo artificial da moda. A imaginacao de Gryphius estava povoada de cemitérios e decomposicáo. 1685). possesso de vi84) Panlel Casper von Lohenstein. as d e v a s t a r e s e sofrimentos trazidos pela guerra crudelíssima arrancaramIhe alguns dos seus sonetos mais sentidos (Thraenen des Vateríanos Anno 1636). 1653. WysocU: Andreas Gryphius et la tragédie allemande da XVHe siécle. L. os conceitos marinistas na poesía religiosa. comedia pastoril. . em dialeto silesiano. Ruettenauer: Weltangst und Erloesung in den Gedichten non A tnesma angustia de "vida es sueño" domina a sua tragedia fantástica Cardenio und Celinde. 1878/1884. hostil ao Barroco. a miseria déste m u n d o . Halle. a tragedia do jurisconsulto romano que morre mártir da resistencia contra o despotismo. amigamente considerada a melhor das suas pecas. W. 1955. poeta da vida déste mundo. Leipzig. 1885. (Cf. Ais ein mit herber angst durchaus vermischter t r a u m ? " Edicfio por H. aliando á dramaturgia senequiana a filosofia senequiana. 1940. que nao é outro senao aquéle "maquiavelismo" lendário. só eram apreciadas as suas comedias. sátira plautina contra os pedantes. Der grossmuetige Feldherr Arminius (1689/1690). V. criaturas de um pessimismo político e cósmico. Berlín. 1933. Sophonisbe (1680). Fleming: Das schlesische Kunstdrama. No entanto. em Carolus Stuardus. O. Gryphius. Leipzig. Berlín. já próxima da loucura religiosa.) por F. Berlín. E. Lelcester. KJoebenhavn. porém aínda poderosa. Epopélas e Picaros".042 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 943 A historiografía literaria antiga. realista. 1635-1683. como de um Hauptmann do século X V I I . o Horribilicríbrifax. e apesar dos grandes elogios que a crítica inglesa moderna consagra ao teatro de Gryphius. realizou Gryphius a sua maior tragedia: Papinianus. Gryphius era realista quando se tratava de ver. Martin: Der Stil in den Dramen Lohensteins. J. E m compensacao. lamerrtou. com os seus tiranos. Gryphius é um dramaturgo jacobeu. "Pastorals.. Papinianus nao é de todo indigno de Massinger ou até de Webster. Oundolv: Andreas Gryphius. Parts. Bobertag. e parte das suas inegáveis falhas dramatúrgicas provém da contradigao entre a forma classicista do modelo e o conteúdo barroco do seu pensamento. 3 vols. KJoebenhavn. Leipzig. W. Quase caricatura. que transfigura a sua própria condigao. perturbado pela angustia": " und was sind unsre taten. A grande emogao retórica. Ibrahim Bassa (escr. Edicao (lncompl. confirmando-o na sua profunda melancolía. Powell: Introducao da edicao critica de Carolus Stuardus. Harríng: Andreas Gryphius und as Drama der Jesuiten. F. O seu verdadeiro modelo. 1940. Pftlm. sua verdadeira grandeza reside na poesía lirica. Lunding: Das schlesische Kunstdrama. de visoes calderonianas da "vida como sonho. Gryphius é o mais profundo ou pelo menos o mais profundamente emocionado poeta religioso de língua alema. explicar-se-ia como autodramatizagao do poeta-jurisconsulto. «través de Vondel. em Leo Arminius? Gryphius traduziu e imitou Vondel. nesta pega. 2 vols. e a Gelibte Dornrose. Pois como pode o poeta protestante defender. Mannhelmer: Dle Lyrik des Andreas Gryphius. 1893. de olhos bem abertos. degolado pelos puritanos? Que sentido tinha a representagáo dos horrores da corte imperial de Bizáncio. 1904. e os horrores acumulados ñas suas tragedias sao conseqüéncia do seu pensamento dramáticopolítico. F. Fricke: Die Büdlichkeit in der Dichtung des Andreas Gryphius. publ. é Séneca. é a de Lohenstein ( 8 4 ). nota 54. porque livre dos conceitos políticos que irritaram os críticos "liberáis" ñas outras tragedias. mártires e vilaos diabólicos. em Gryphius. Tueblngen. demonios e anjos-mensageiros do Juizo Final. Lunding: Das schlesische Kunstdrama. 1927. está claro que essa mentalidade apocalíptica nao se podía exprimir ñas palavras e metros simples da cancao popular. 1927. Calmando a sua angustia pela vontade de resignacio estoica. e nao dos menores. Heidelberg.. 1930. E. da dramaturgia de Gryphius. 1908.) Agrippina (1665). o rei absolutista e catolícizante.

urna síntese precaria. Éste Barroco auténtico nao teve base popular na Inglaterra. que forneceu aos literatos cultos a possibilidade de se exprimirem igualmente na poesía individual. Edlcao por H. na Inglaterra. Essa "Renascenga" atrasada foi perturbada e desviada pela intervengao de residuos populares. 66) Joahnnes Scheffler. Mas á síntese precaria de elementos cultos e populares no Barroco protestante alemao-holandés corresponde a síntese mais perfeita do teatro elisabetano-jacobeu e mais urna outra coisa: a poesía lírica classicista. A sua revalorizagáo deve-se ao entusiasmo recente por ésse estilo. nao tem dramaturgos. Muenchen. reside na fungao histórica do Barroco protestante. 3. pelo menos a sua Sophonisbe é impressionante versao barroca do assunto que servirá aos experimentos renascentistas de Trissino. 1624-1677. que Herbert pertenceu á ala catolicizante do anglicanismo. geralmente chamado "Ángelus Silesius". Cysarz salientou a base social da literatura silesiana do século X V I I nos círculos de intelectuais burgueses. Mas dispdem de urna língua madura. Seria esta a solucao do problema da coexistencia de urna dramaturgia barroca popular e de urna poesía lírica. porque a Reforma interrompeu a evolu$ao.. A explicagáo por analogía. pelo menos filosófico-religiosas. Ao Barroco aristocrático e contra-reformista corresponde. Essas conclusoes explicam suficientemente a s e p a r a d o entre o teatro elisabetano-jacobeu e a "metaphysical poetry". a "metaphysical p o e t r y " . L. Ñas literaturas neolatinas. entao. e na poesía coletiva do teatro.» ed. porém. Malherbes. a poesía classicista do século X V I I é a expressao dos intelectuais burgueses e protestantes. a escolha désses modelos ñas literaturas neolatinas e na literatura latinizada da Holanda: todos ésses elementos sao característicos da Renascenqa. O problema. entre éles nasceu um Milton. etc. O Barroco protestante tcm a funcao histórica de substituir a Renasccnca falhada. A literatura alema do século X V I I seria. e. a dos Chiabreras. . culta. lírica.944 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCDDENTAL 945 sóes sexuais e fúnebres e de erudicjáo enciclopédica. a pretensao de criar urna língua culta de élite. nao encontrou expressao teatral. "flamboyant". e a existencia. Argensolas. ao lado desta última. Der cherubinische Wandersmann von Ángelus Silesius (1657). nao é descabida: existem relacoes entre os dois países. simpatizaram com o catolicismo. e do cristianismo protestante. barroca e aristocrática — independentes e separadas — na Inglaterra. sem raízes no povo. Na Inglaterra. puritanos de formacáo latina assim como os poetas-burócratas da Silesia. Held. ainda vivos. A grande expressao da mística barroca alema é Johannes Scheffler ( 8 5 ). A "metaphysical poetry" nao é realmente metafísica no sentido moderno da palavra. parti- dários dos Stuarts. o zélo em traduzir modelos estrangeiros. produzindo só artificios. e o ambiente místico da "metaphysical poetry" foi criado por influencias continentais. O católico Massinger também nao fala a língua dos "metaphysical poets". mas o ponto de partida e o resultado nao sao fatalmente idénticos. é erótica e religiosa. assim. capazes de influir na evolugáo literaria. Mas criou-se. 3 vols. do caso alemáo. e convém notar que os "cavalier poets" monarquistas. Aos críticos do século X I X o malogro désse experimento parecía explicado pelo caráter aristocrático daquela literatura. que Crashaw se converteu ao catolicismo. dá-se o contrario. Os países protestantes — a Alemanha e a Holanda em primeira linha — nao tiveram verdadeira Renascenga. se nao literarias. mistura que se encontra também em certas expressoes místicas. 1951. urna das expressoes mais típicas do Barroco. porque o seu público nao a teria compreendido. a poesía barroca é acompanhada por urna reagao classicista. Na verdade. um Marvell. A mentalidade barroca dessa literatura está tao fora de dúvida como a expressao marinista. do espirito gótico. por isso.. recuperar o tempo perdido. que Donne era católico n a t o . de urna poesía classicista-puritana.

E. de trocadilhos espirituosos. 1927. 1929.. Leipzig. a Paixáo do Gólgota e o Juízo Final sao acontecimentos de toda a hora no "foro íntimo". A filosofía mística de Boehme faz parte do ambiente espiritual em que a "metaphysical poetry" floresceu. para o jesuíta silesiano. meio eslavo. Jacob Boehme ( 8 0 ). Paris. onde Cudworth e Henry More. . 1575-1624. Schiebler. Novalis. gunda hipótese e apontam. conheceu-lhe a mística em Cambridge. Scheffler gosta de inversoes e enjambements complicados. e que a cruz só nos salvará.» ed. Spoerri: Der Cherubinische Wandersmann ais Kunstwerk. 1947. EUlnger: Ángelus Silesius. de metáforas surpreendentes. muito mais antiga. Zuerich. a sua poesia enquadra-se na epigramática e emblemática barrocas. 7 vols. E. o místico Maximilianus Sandaeus ( f 1656 ). contudo. Beschreibung der drei Primipien goettlichen Wesens (1618). que Quarles já adaptara ao pensamento religioso. infelizmente intraduzíveis. na Inglaterra. Das Kreuz auf Golgatha kann dich nicht von dem Boesen. e a doutrina ortodoxa da "imitatio Christ i " transforma-se. Edicáo por K. o sapateiro de Goerlitz que os pastores luteranos perseguiram cruelmente. W. se o Cristo tivesse apenas nascido em Belém e nao também em n o s . essa arte intelectual exprime emocoes profundas. Spoerri: Der Cherubinische Wandersmann ais Kunstwerk. Na própria alma ficam o céu e o inferno de Ángelus Silesius. So es nicht auch in dir wird anfgericht'. mas a sua influencia é evidente na Doctrina Christiana. cultivaram um platonismo místico. em identificado perfeita. Zuerich. os chamados "Cambridge Platonists".946 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 947 pseudónimo sob o qual publicou o Cherubinischer Wandersmann. Gestalt und Qestaltung. du waerst doch ewiglich verloren. na Inglaterra existía urna tradicáo boehmiana. Berlín. Bonn» 1924. Paris. Tieck. observando-se que do grupo weigeliano surgiu o outro grande místico silesiano. Koyré: La philosophíe de Jacob Boehme. mas também em nos: "Waer 1 Christus tausendmal in Bethlehem geboren. erloesen. trata-se de saber se ele se tornou místico antes ou depois da sua conversao ao catolicismo e ingresso na Companhia de Jesús. e no século X V I I estavam os escritos de Boehme bastante divulgados entre os ingleses.. Aurora oder Morgenroete im Aufgang (1612). A. Mas a mística nao é o centro do fenómeno complicado daquela poesia que constitui hoje o objeto dos estudos mais m Jacob Boehme. Na Alemanha. u m dos últimos rebentos do movimento sectario da época da Reforma. 1947. Adam Mueller. Coleridge e Shelley. como mestre d e Scheffler. Newton foi grande admirador de Boehme. Um anjo é ele realmente. Hankanner: Jacob Boehme. Milton nao menciona o nome de Boehme. o pensador poderoso que colocou a origem do bem e do mal no seio da divindade. A forma pela qual Scheffler se exprime é o epigrama. Outros lembram o silesiano Valentín Weigel (1533-1588). Blake era boehmiano. 1943. realiza versos. e. Boehme foi urna descoberta dos románticos. do "Urgrund". Além da disposi$!o mística do povo silesiano. 3. P. ao qual o "Ángelus Silesius" pertencia. etc. em uniáo mística. mas inesquecíveis como estes que dizem: que estaríamos perdidos para sempre. Und nicht in dir." As fontes da mística de Scheffler constituem objeto de controversias. e antes déle o sectario William Law. o nascimento de Cristo. se nao apenas erigida em Gólgota. Plard: La mystique i'Ángelus Silesius. na Alemanha. H. A dialética religiosa de Boehme exerceu profunda influencia sobre os románticos: Schelling. Mt/sterium Magnum (1623). Os estudiosos jesuítas opinam em favor da seG. Pensamentos ou antes sentimentos boehmianos encontram-se nos "metaphysical poets" Vaughan e Traherne. 1922. um mensageiro de outros mundos que o poeta encontrara ñas profundidades da alma humana.

o termo técnico da época é wit. escolástica. Ch. London. Hazlitt confessa que nao os conhece. Aos críticos románticos e realistas do século XIX. A mis- . London. Os "metaphysical poets" sao. van Doren: Studies in Metaphysical Poetry. (In: Selected Essays. 1944. a retirada de Walton para a pesca á Iinha fora da cidade — sao formas diferentes de evasao. Nao sao poetas filosóficos. 1941.* ed. o verdadeiro entusiasmo de Donne e Thomas Browne 87) R. já evidente em dramaturgos como Middleton e Ford. H. só pretendeu afirmar que aqueles poetas oferecem análises psicológicas do sentímento erótico. Brooka: Modern Poetry and the Tradition. E isso nao é tudo. Doutrinas aristotélicas sobre a alma e a teoría da circulacao do sangue misturam-se de maneira inquietante. Se essa antipatía aínda persiste em certos círculos académicos.) (Estudo importantissimo. 1944. Por volta de 1800. 1939. Eliot: "The Metaphysical Poets". aquela poesía intelectualista era aínda mais inacessível. C. a expressáo "metaphysical poetry" é. Sypher: "The Metaphyslcals and the Baroque". J. 948 OTTO M A R Í A CABPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 949 assíduos de crítica literaria anglo-americana ( 8 T ). conscientes de que os símbolos da poesía exprimem estados da alma e nao verdades absolutas. nao metrificam doutrinas metafísicas. tomadas ao mundo sensível. 1904. Spencer e M.. á juncáo violenta de expressóes naturalistas e as v. em geral.) W. Daí o marinismo e gongorismo das suas expressóes que os tornou t í o antipáticos aos classicistas do século X V I I I e táo incompreensíveis aos críticos do século XIX. Mas ésse evasionismo tem mais urna fonte: os "metaphysical poets" sao contemporáneos de graves crises sociais. é a inteligencia. responsável por ela. a. O erotismo dos "cavalier poets" que se batem pela causa perdida do rei Carlos I. Suckling e Lovelace. Grlerson: Cross-Curtents in English Literature o/ the 17 th. e á erudi^áo medieval. Wendell: The Temper of the Seventeenth Century in Engllsh Literature. inspira naturalismo erótico ao poeta sacro Donne. Chapel HUÍ.) pelas coisas fúnebres. inventou a expressáo. como parte da metafísica. tomadas ao mundo religioso. da física de Galileu. S. da astronomía de Copérnico. London. e a retransformagao dos sentimentos eróticos em alusóes metafóricas. New York. T. Dowden: Puritans and Anglicans. a expressáo já é pejorativa: chama ele "metaphysical" as metáforas barrocas. 1949. Certo realismo empirista nao lhes é alheio. A arma poética com que os "metaphysical poets" dominam as dificuldades da sua condícao humana. Wedgwood: "Poets and Politics in Baroque England. segundo parece. Wlnter. em parte. Studies in Literature. 1939. 1900. B. entáo. da fisiología de Harvey. Century. e por isso eram considerados "insinceros". acostumados a urna poesía sentimental e de afirmacóes "serias". representantes da "via media" anglicana. Boston. por isso mesmo pertencem ao mais auténtico Barroco. A alteracáo dos conceitos moráis da Renascenca. Mas sao ingleses. é responsável pelo evasionismo dos Herbert e Vaughan. produzindo nova ambigüidade além da ambigüidade religiosa da "vía media" entre protestantismo e catolicismo. aliam os primeiros conhecimentos da filosofía de Bacon. Em Samuel Johnson. Pela inteligencia engenhosa conseguem a transformacáo das visoes místicas em metáforas naturalistas. V. (In: Partisan Review.ézes científicas com sentimentos místicos ou amorosos. que. a mística transcendental de Crashaw e Vaughan. T. até se converteram ao catolicismo romano. É urna expressáo equívoca. o ascetismo de Herbert.) C. e a psicología foi considerada. da guerra civil dos puritanos contra a monarquía e da ditadura republicana de Cromwell. alguns entre éles. e por volta de 1900 existem manuais da literatura inglesa nos quais o nome de Donne nao aparece. Dryden. produz o erotismo violento e obsceno dos "cavalier poets" como Carew.A "high seriousness" de Matthew Arnold era incompatível com a ironía dos "metaphysical poets". sao catolicizantes. (In: Penguin New Writing. atitudes ambiguas que podem ser fontes de grande poesía.

e o Barroco inglés. Edicao por L. K.) H. um madrigal como "Like the Idalian queen". Oxford. Joly: William. C. 1935. Só a época seguinte á Primeira Guerra Mundial — a época das desilusóes políticas e sociais. a evolugao se realizou sem solugio de continuidade. Durham. Mas o céu azul e de ouro do soneto "Marvel of Incarnation" lembra as decoragóes pomposas de Góngora. 1956. Mas logo comega a esbogar-se urna reagáo. Chambers. Sharp: From Donne to Dryden. e o fim niilista (" dissolve in nought") de urna poesía sobre "this Ufe" revela outro estado de espirito: o poeta no seu castelo na solidáo da Escocia sonhava apenas com a Italia. E o nome do "metaphysical poet" classicista e puritano barroco Marvell. incluiu. hoje já objeto de admiragóes unánimes. 1912. A análise científica das razóes históricas. nao foi suficiente para compreender a "metaphysical poetry". .950 OTTO M A R Í A C A R P E A U X HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 951 tura de estilo coloquial e sutileza metafórica. 1936. 1583 — c. 4. 90) Aurelian Townshend. contra o realismo despreocupado da Renascenga. mas em detrimento da gloria de Milton. urna ode como "Phoebus a r i s e ! . dos movimentos místicos e da psicanálise — se encontrava em estado de alma parecido. London. O primeiro que domina plenamente a nova linguagem poética é Aurelian Townshend O10). English Poetry ¡rom Donne to Cowley. White: The Metaphysical Poets. Gosse: The Jacobean Poeís. Em contraposigao a T . the last and greatest Herald of Heaven's K i n g " : "Repent!" Por tras de urna linguagem maravilhosamente clara. e até os sonetos religiosos. Chicago. 1930. Drummond o) Hawthornden. iniciada por Gosse. Cambridge Mass. 1585-1649. e criou. e escolheu de Milton só duas poesias barrocas da mocidade. J. 1936. 1925. o nome de Donne está inscrito ao lado do nome de Shakespeare — nao como igual déle. M. W. N. pareciam classicistas. 1894. . (Antología com importante introduc&o. poeta erótico e es89) R. condenada e esquecida. London. 1948. parecem escritos sob o céu da Italia. L. 1913. Manchester. A. Willlamson: The Donne Tradition. servirá no futuro." ed. reconhecendo-o como urna das maiores épocas da poesía inglesa ( 8 8 ). por isso. o primeiro dos muitos ingleses excéntricos que. naturalmente. TUlyard: The Metaphysicials and Milton. No que respeita aos comegos. New York. Desde entáo. nota-se que a admiragao a Donne e a admiragáo a Milton nao sao incompatíveis ( 8S -A). 89A) William Drummond of Hawthornden. C. redescoberto só em nosso tempo. como Swift e Landor. e quando acordou. all-creating love" é o credo de um neoplatónico que lera Leone Ebreo. dos quais o mais importante é William Drummond of Hawthornden ( 8B-A ). Oxford. .. de sinal de reconciliagao. edit. cada vez mais sutil e lembrando as distingoes escolásticas dos poetas provengáis. é Drummond um poeta fantástico. Eliot. 88Ai E. e 0 classicista representa outro aspecto do idolatrado Barroco. Flowers of Sion (1623). R. por E. Marvell. retórica eclesiástica e naturalismo obsceno só comegou a desemaranhar-se pela análise histórica: como efeito da desilusáo da época jacobéia a respeito das ilusóes da Renascenga. Poems (1656). H. Poems and Masks. soube apenas responder como o seu "Saint John Baptiste. E. como reacio psicológica. Grierson. M. C. " . S. a sua famosa expressao "uncreate beauty. G. Existem precursores. Lille.. Ésse poeta renascentista é o único do século X V I I que dispoe dos acordes serenos de Sidney e Spenser. Flrenze. Praz: Secentismo e marinismo in ¡nghilterra. c. 1955. provávelmente. a distingao entre poetas renascentistas e poetas barrocos nao é muito fácil. Grlerson: Metaphysical Lyrics and Poems of the Seventeenth Century. I 88) E. urna poesía semelhante: compreendeu o Barroco. excluiu o classicista pós-elisabetano Herrick. Kastner: 2 vols. Pois as metáforas t í o típicas dos "metaphysicals" já se encontram nos poetas elisabetanos ( B 0 ). organizando a sua famosa antología dos "metaphysical poets". em meio da guerra civil. A Study in Religious Experience. 1643. Tuve: Elizabethan and Metaphysical Imagery.

mas também soube apresentar-se como "penitente. " W h e n thou. Carew consegue transformar em poesia — em "poésie puré" — urna cena ao gósto de D . "Unwasht". nao dispoe da arte verbal de Carew.952 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 953 pirituoso. serie de propostas das mais audaciosas e diretas á sua Celia. confessa ou promete que — "My unwasht Muse pollutes not things D i v i n e . em vez de traduzir o "carpe diem" horaciano em melódico "Gather ye rosebuds. fond lover". mas nunca ordinaria. Carew nao ¡dolatrava o sexo. estava consciente da ambigliidade das suas atitudes. para a qual T . Donne é. A. (In: Studies in Language and Literature jor J. do "dry leavelesse T r u n k on Golgotha". London. era 02) Str John Suckling. Dunlap. assim como a política absolutista dos Stuarts é a dos reis do Continente. Na elegía dirigida a Sandys. e sim um erótico brutal. Num poema como The Ranture. C. Thompson. "masque" Aglaura (1638). New York. 1896. As vidas dos "cavalier poets" sao comparáveis aos doubie plots do teatro elisabetano-jacobeu. "Know Celia". Edicóes por A. e na elegía profundamente sentida sobre a morte do maior dos "metaphysical poets". o que já é urna das definigoes possíveis do Barroco inglés. acostumados a viver com o povo: últimos representantes da "Merry Oíd England". c. 1639.". 1899. Nenhum outro "cavalier" encontrou expressóes tao "donnianas" como "the golden atoms of the day" e "the warme firme Apple. Carew nao é um anacreóntico. as suas antíteses engenhosas se aproximam da profundidade. hinos ao Deus do outro amor e da Igreja anglicana. 1910. assim os "cavalier poets" lembram e conhecem a Pléiade francesa. o tradutor dos salmos. sao táo sutilmente espirituosos como os "metaphysical poets". Todo o mundo lhe conhece as pecas antológicas. entre o erotismo e a defesa da Igreja e do Rei. outro autor de pegas antológicas como "Out upon it" e " W h y so palé and wan. Vincente. "Ask 01) Thomas Carew. e falar. Sao poetas meio renascentistas. S . tipt with corall berry". escreveu "persuasions love". 1910. e certamente os últimos "habitúes" apaixonados dos teatros. Oxford. . or more Disdain". e esta comparaqao pretende revelar. enfim a analogía secreta entre o teatro e a poesia do Barroco inglés: ao doubie plot do teatro corresponde a ambigüidade da "metaphysical poetry". Esta graca é o apanágio particular dos "cavalier poets". . devassos e partidarios belicosos dos Stuarts contra os puritanos. Os "cavalier poets" foram assim. Suckling (•*). " . quer dizer. Sembower: "A Note on the Verse Structure of Carew". O primeiro dos "cavalier poets" e o maior entre éles é Thomas Carew ( 9 l ) . e por R. escreveu um legítimo tratado de apologética religiosa contra os heréticos a par de alguns versos dos mais obscenos — e alguns dos mais humorísticos — da língua inglesa. London. com sinceridade evidente. . London. Eliot chamou a atengáo. apenas o rei da "universall Monarchy of wit". . "bon-vivants". ouvindo a liturgia sacra sem assistir ao sacrificio solene". 1949. e. de urna "Renascen$a anglicana". EdiS&o por A. H . 1565 — c. a musa de Carew o é. um "rude male". para ele. Em compensado. Fragmenta Áurea (1646). escrever poesia "divina". assim como estes. 1609-1642. "Give me more Love. Mas. H.) me no more where Jove bestowes".. de vez em quando. Hart. e a tentacao é grande de confundi-lo com um anacreóntico como Herrick. Quiller-Couch: Adventures in Críticism. M. poore excommunicate". "A Dialogue betwixt Time and a Pilgrime". dignam-se. Poems (1640). Apenas. J. Carew é um grande artista. pelo menos em urna poesia. Lawrence. mas sempre com aquela graca que distingue da metafísica toda a "metaphysical poetry". ao mesmo tempo. Os "cavalier poets" sao também aristócratas alegres.

London. 1897. na boca de Southwell. Loved I not Honour more. vendo malogradas as suas aventuras em favor do absolutismo real. O último dos "cavaliers" já é diferente: Edmund W a l ler ( U1 ). Poems (1645). Mas nem todos os "Don J u a n s " sabem fazer versos como os seus. Waller foi. 94) Edmund Waller. lucasta (1649). Saint Peters Complaint (1595). E Lovelace conquistou com maior facilidade do que Carew ou Suckling o favor dos antologistas. Um Lovelace maior encontra-se em outros poemas. "metafísicos". R. dedicada com predilecáo ao Cristomenino — Southwell é o poeta do Natal. pouco digna.. Samuel Richardson se lembrou de Lovelace para dar nome característico ao sedutor. no Parlamento da Restaurara». 1872. complicados e engenhosíssimos. a compostura. Maeoniae (1595). n o romance Clarissa Harlowe. pecas antológicas admiráveis: To Lucasta. mas já condenado. C. Morton: An Appreciation of Robert Southwell. Saint Peters Complaint está. o autor de poesías conhecidíssimas. As ambigüídades intrínsecas da "cavalier poetry" viram em Waller atitudes oportunistas. 2 vols. que imortalizaram a beleza perecível dessas damas. porque mais sintomática do que a sua poesía: Waller. London.» ed. Thorn-Drury. Philadelphla. Tinha urna enorme paixáo religiosa. O mais famoso dos "cavalier poets" é Richard Lovelace ( 9 3 ). 1949. To Lucasta. To Althaea. salvou-se de maneira 93) Richard Lovelace. quase erótica. London.954 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 955 um oficial valente e. mais perto de Herrick e da tradicáo romántica de Spenser. lovely Rose". como " T h a t which her slender waist confíned" e "Go. London. 1930. A. transformando-se em expresslo balbucíante do inefável. Táo notoria se tornou a sua vida devassa que. como The Grasshopper. e essa transformadlo é mais importante. H. E. mais perto de Tansillo do que de Malherbe. serviu a Cromwell e depois ao reí Carlos I I . Edicáo por G. Going beyond the Seas. Oxford. Dear. 1956. o último "cavalier". 1618-1658. apostólo da tolerancia política e religiosa. 95) Robert Southwell. Gosse: Seventeenth Century Studies. 1905. politicamente.* ed. Edicáo por C. O poeta engenhoso acabou como orador parlamentar e conversador espirituoso no clube. 2. acabou suicidando-se. recuperando o equilibrio lingüístico apenas por meio de antíteses violentas como o "humble pomp" do Cristo-menino. 1606-1687.. entre os dóis modelos. é o primeiro gentleman. so much. Para nos iniciarmos na poesía de Donne e ñas complicacóes psicológicas que a criaram nao há meio melhor do que 1er trechos bem seletos da Anatomy of Melancholy. B. Going to the Wars. Hartmann: The Cavalier Spirit and its [n/luence on the Life and WoTk oí Richard Lovelace. O precursor — ou o "cavalier" — da "metaphysical poetry" religiosa é o jesuíta Robert Southwell ( BB ). Grosart. que morreu como mártir da sua fé. Devlln: The Life oj Robert Southwell. Só ou quase só pela sinceridade perfeita se distingue essa poesía da ambigüidade dos estados de alma antitéticos de Donne. sabia porque se tornou. Poet and Martyr. Edlcao por A." Lovelace encarnava um tipo simpático. London. e The Burning Babe é a mais famosa das suas poesías — paixao religiosa que pretende exprimir-se ñas formas algo pálidas e algo preciosas da Renascenga italiana. mas mesmo assim a linguagem pré-barróca do italiano perde. ainda no século X V I I I . menos "cavalier" do que os out r o s : conspirou contra o Parlamento. 2.. 1925. H. . Willtlnson. e o cinismo franco do sedutor é resgatado pela confissáo do oficial destemido: " I could not love thee. Chr. porque o seu erotismo é mais delicado. from Prison. 1561-1595.

H. incoerente e estranho o livro de Robert Burton. the Craftsman. p o r q u e o l i v r o i n t e i r o n a o s e r á d i g e r í v e l . e n t r e m e l a n c o l í a e h u m o r i s m o . (In: Prefaces and Essays. e m parte. London. Grierson (in: The Cambridge History of English Literature. 1839. vol. Bullen. P. g r a n d e h i p o c o n d r í a c o . 1572-1631. Oxford. e por H. London. Potter. C. London. Paradoxes and Problems (1633). Murry: Contries of the Mind. Palo Alto. Alíord. a n e d o t a s . á rnaneira d e c e r t a s c o m p i l a c o e s m e d i e v a i s . 1929. i n v o c a n d o a r g u m e n t o s d a escolástica medieval. Essays in Divinity (1651).l a da sabedoria. p o r é m . Ramsay: Les doctrines medievales'chez John Donne. era v i g á r i o d e a l d e i a ... 1914. Gosse: The Life and Letters of John Donne. London. m e d i t a c o e s .a ed. London. Jordan-Smlth: Bibliographia Burtoniana. e ésse h u m o r i s m o m e l a n c ó l i c o t o r n a v a s t o . e e s t á c l a r o p o r q u e todos n o s s o m o s u n s l u n á t i c o s .) C. 1922. da ma- n e i r a mais e n g r a c a d a . 1924. 2. Poems (1633/1635). 3 vols. d o i s s é c u l o s m a i s t a r d e . f r u t o s d e l e i t u r a á m a r g e m d e urna vida d e e s t u d o s d e u m h u m a n i s t a . c a u s a d a pelo amor e pelo fígado. c o m o dizia.956 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA L I T E R A T U R A OCIDENTAL 957 d o seu c o n t e m p o r á n e o R o b e r t B u r t o n ( 9 6 ) . g r e a t o í d m a n " . M. s i g n i f i c a .a ed. misturadas de purg a t i v o s e r e z a s . pela semelhanca dos títulos. T r e c h o s a p e nas. R. 4. Mas nao será conveniente exager a r a " a t u a l i d a d e " d a obra. aquela incoeréncia pela qual o melancólico H a m l e t s e d i s t i n g u e . mas nao est a v a m b e m a a l t u r a d o t e m p o . 1952/1957. I. 1901. London. A Study in Discord. O m u n d o continua louco. c o n f o r m e a s u a p r ó p r i a confissao. (In: Portraits.. d i s t i n g u i . O s s e u s conhecimentos científicos eram vastíssimos. e. mas serve-se d é l a s d e r n a n e i r a p o r a s s i m dizer a p e n a s e s t i l í s t i c a : s e C o p é r n i c o t e m r a z á o e o sol s e e n c o n t r a n o c e n t r o d o U n i v e r s o . vol. Nao ignora as descobertas da ciencia. O t r o c a d i l h o p r e t e n d e ser t o m a d o a s e r i o . IV. H. I. Edicao dos Sermóes por O M. M. 1899. Mac Carthy: "Robert Burton". E ' u m d o s " q u a t r o t e m p e r a m e n t o s " d a p s i c o l o g í a r e n a s c e n t i s t a . London. 1919). s e n t í a . como muitos da sua profissáo. é difícil. ocupava-se ñas horas de ocio com estudos de medicina. e a melancolía d e R o b e r t B u r t o n n a o passa d e urna v a r i e d a d e p a r t i c u l a r d e l o u c u r a . confundindo. M. B u r t o n era m u i t o s u p e r s t i cioso. 1924. H. H. Edicóes das poesías por A.) . London. a n o e s e fadas da s u p e r s t i c á o folclórica i n g l e s a . 10 vola. O h u m o r i s m o d e B u r t o n é d e urna e s p e c i e a n t i q u a d a . H. 6 vola. t u d o isso u n i f i c a d o e t r a n s f i g u r a d o p e l a s e s q u i s i t i c e s de u m esp i r i t o e x c é n t r i c o . 1933. París. e n t á o — c o n c l u í B u r t o n — a T e r r a é urna esp e c i e d e l ú a . E n t r e a s p o e s í a s d e J o h n D o n n e (9T) e x i s t e m t r e s q u e . 2 vols. P. convidam a confundi-las. o s s á t i r o s e n i n f a s da m i t o l o g í a g r e g a c o m os e s p e c t r o s . e a p a l a v r a " m e l a n c o l í a " t e m p a r a ele s e n t i d o d i f e r e n t e d o q u e t e m p a r a nos. E. e dá receitas. Cambridge. A Anatomy of Melancholy é u m l i v r o da p r e d i l e c t o de Charlie Chaplin. Slmpson e R. Sermons (1623/1660). Slmpson: A Study of the Prose Works o) John Donne. Shllleto (com IntrodugSo por A. Anatomy of Melancholy (1621). 1928. D. O. Oxford. É. n i o dáo muito resultado. C.» ed. Salntsbury: "Donne's Poems". 2. o s e u d i s c í p u l o g r a t o L a m b . e o s c a p í t u l o s m a i s d e l i c i o s o s da Anatomy of Melancholy t r a t a m das i n f l u e n c i a s b e n é f i c a s o u p e r n i c i o s a s dos "black spirits" e "white spiríts". E. Legouls: Donne. citacocs. Fausset: John Donne. Edicao completa (com os sermóes) por H. bern i n g l é s .. 1677-1640. 1931. 1931. J. Grlerson. J. Edicao por A. B u r t o n e x p l i c a a m e l a n c o l í a d a g e n t e como l o u c u r a . E B u r t o n e x p l i c a essas c o n f u s o e s c o m a r g r a v e d e p e n s a d o r . Cambridge. q u e . Oxford. P. Whlte: "The Converslons and the Divine Poetry of John 96) Robert Burton.. I. h u m o r i s m o d e t r o c a d i l h o s e b u f o n a d a s . g i g a n t e s . p r o c u r a n d o como autodidata tratamentos e remedios para as doencas e dores imag i n a r i a s q u e ele. tal c o m o a p a r e c e n o s h e r ó i s " m e l a n c ó l i c o s " do t e a t r o e l i s a b e t a n o . Bullen). 1923. urna colecao imensa d e r e f l e x o e s . The 97) John Donne. Éste " p h a n t a s t i c .

M. London. A Study in Religious Experience. pela originalidade absoluta dos conceitos. A Valediction. Essays in Litterary Analysis. o maior orador sacro do seu tempo. e sim para se habilitar á ordenacao como sacerdote da Igreja oficial da Inglaterra. The Second Anniversary. poderiam fazer parte da liturgia romana. London. New Haven. 1937. D. tinha raptado urna garóta de 16 anos. Aire and Angeis. volta com insistencia á doutrina do "corpus Christi mysticum". visto que o seu passado nao se harmonizava bem com o sacerdocio. Century. e as dificuldades da sintaxe. A crítica biográfico-psicológica. o sweet. Hunt: Donne's Poetry. Paulo. (In: The Metaphysical Poets.958 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 959 First Anniversary. 1949. secretario de grandes senhores. Enfim. explicando a obra literaria pelas circunstancias da vida. New York. A critica moderna elogia o que amigamente se censurava: considera Donne como o maior poeta barroco. and do not r i s e ! . Mas Donne nao exibiu ortodoxia anglicana para se defender contra perseguicoes. casando com ela contra a vontade do pai. é urna daquelas muitas poesías eróticas que sao. asceta severo. . C. 1952. Colfin: John Donne and the New Philosophy. mas nao das suas contradicoes. que dominava no século XIX. of weeping. H. New York. e mesmo depois da sua conversáo continuava a salientar os elementos católicos dentro da " vía media" anglicana: nos sermóes. que lembram um pouco Robert Burton: defesas do riso como suprema sabedoria. como um poeta do flirt. porque nasceu católico. os versos: . poesias que. "Mentira poética de um virtuose das palavras" — seria éste o julgamento. O conjunto dessas t r e s poesias dá idéia da multiformídade do pensamento poético de Donne. B. The Message. e John Donne vai terminar a vida como decano da igreja de S. e ambiguo é Donne em todas as facetas da sua obra. em Londres. também chamado Of the Progress of the Soul. J. Loutham: The Poetry of John Donne. e The Cross e The Litanie sao Donne". Foi capaz das mais graciosas expressoes de amor ligeiro ("Stay. foi capaz das expressoes de amor platónico (The Canonization) e de amor apaixonado (Ecstasy). A Valediction. morrendo em cheiro de santidade. escreveu os Paradoxes and Problems. obra muito diferente: longo poema filosófico sobre a teoría pitagórica da metempsicose. O mesmo "advocatus diaboli" escreveu os Essays in Divinily para provar a sua ortodoxia anglicana. The Progress of the Soul é. e chegou a verdadeiros delirios dos sentidos — como em To his Mistress foing to Bed. O outro poema. Na ambigüidade a critica de Richards e Empson reconheceu a fonte da maior poesia. tair. The Sun Rising. apesar do título quase idéntico. J. se fóssem em latim. 1936. " ) . venerado pelos paroquianos. e até urna defesa do suicidio. New York. a linguagem hermética.) C. Leishman: Monarca o¡ Wit. ñas quais o pensamento da morte serve para afirmar com maior energía a importancia da uniao física dos sexos. o verso duro e arbitrario de Donne seriam interpretados (e foram interpretados) como conseqüéncias poéticas da sua duvidosa atítude humana. Em idade juvenil. a parte mais característica da sua obra: The Good-morrow. An Analytical and Comparative Study of the Poetry of John Donne. pertence á serie de poesías elegiacas como The Funeral e The Relie. . Grlerson: Criticism and Creation. Cruttwell: The Shakespearean Moment and its Place in the Poetry of the XVII th. New York. 1939. Precisava disso. New York. Rugofí: Donne's Imagery. Quando mogo. M. da mesma maneira como abusava constantemente da sua virtuosidade poética para bajulacóes da maior insinceridade. Cl. forbidding mourning. nao chegaria a compreender a poesía de Donne. P. ao lado do seu contemporáneo Góngora. 1955. 1951. The Dream.bém chamada The Anatomy of the World. 1955. tinha-se servido dos seus vastos conhecimentos de direito civil para intervir no escandaloso processo de divorcio da Condéssa de Oxford. da infidelidade erótica como supremo encanto da mulher.

e essas imagens sao as mais surpreendentes. a "metaphysical poetry" que assustou Johnson. mas o que o preocupa é a salvadlo da sua própria pessoa. e Isto lhe fornece formas poéticas. e só a poesía inglesa moderna — Yeats. Shelley. os sentimentos meigos por trocadilhos espirituosos. contemporáneo dos Bispos Andrewes e Laúd. Donne é revolucionario: substituí as usuais alusoes mitológicas por cone s t í / origináis. Riding Westward. Afirmam que Donne foi o maior orador sacro do seu tempo. Auden. e os seus sermoes continuam a impressionar o lei- . Os Holy Sonnets exprimem só um medo — "Thou hast made me. a qualidade dramática da linguagem de Donne. astronomía e filo- sofia. As expressoes convencionais nao prestavam para essa poesía nova. between. A Hymn to Christ. encontradas em todos os setores da sua erudi5S0 enciclopédica. and let them go. A essa ambigüidade filosófica corresponde a ambigüidade religiosa entre o catolicismo e o protestantismo — a poesia de Donne personifica o paradoxo da "via media" anglicana. é mesmo egoísmo religioso. daí as suas excursoes para a especulado pitagórica. Pertence a urna Igreja que ainda cultiva a liturgia. thou shalt die. Os naturalismos de Donne —• aquilo a que Eliot chama o seu "estilo coloquial" — sao expressoes das suas experiencias ambiguas." Donne está cheio de angustias fúnebres. e fortemente impregnado dos conceitos da nova geografía. no Progress oí the Soul. e será a de Milton. a cadencia musical por ásperos ritmos que aborreceram aos ouvidos de Samuel Johnson. reverso da sua obsessáo da morte. ás vézes. Pertence á corrente anglo-católica que prevaleceu na Igreja anglicana até á revolucáo dos puritanos. Lítame. nem na época de liberalismo do século X I X . e daí o cepticismo amargo de Donne. A Hymn to God the Father. Daí a mistura de imagens sacras e profanas. Spender — Ihe acompanha os processos poéticos. Keats e Tennyson. And death shall be no more. da mesma que se preocupara com os prazeres da própria carne. death. Donne fala. Só Robert Browning revela. as mais das vézes. Before behind. o estilo harmonioso por desigualdades veementes. at 4he Authors last going into Germany. Pope. T . And shall thy W o r k decay? — e só urna esperanza: " . Wordsworth. S. A poesia religiosa de Donne nao podia 1er compreendida na época de indiferentismo religioso do século X V I I I . . e cheio de esperarlas de imortalidade e receios do céptico." Nenhum poeta inglés — e poucos em outras línguas — celebrou tanto o corpo feminino ("her body thought"). como Miguel Angelo.. . A poesía erótica de Donne é a mais original do mundo. Substituiu-o por urna mistura de neoplatonismo exaltado e naturalismo sexual. até obscenas e ás vézes cínicas. a sua poesia nao é fruto de sentimentos románticos. sao poesías litúrgicas. representando assim urna nova definicao do Barroco. Só como poeta barroco Donne pode ser compreendido. mas de urna inteligencia vivíssima que transforma tudo em imagens. above. e sempre ñas expressoes mais diretas. below. Porque a t r a d i s i o poética que Donne pretendeu destruir é a de Spenser. e ai está o seu papel na historia da poesía inglesa: foi ele quem acabou com o petrarquismo da Renascenga. Goodfriday 1613. da carne submetida á morte e á decomposicáo. abstraindo-se de todos os cánones clássicos. Eliot. as comparagoes clássicas por metáforas inéditas. Sidney e Shakespeare. 960 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 961 "Licence my roving hands. imbuido de escolástica e erudi$ao medievais. porque Donne é homem de transigió entre duas épocas. como Unamuno. Donne é poeta jacobino-carolino. Contudo. daí o realismo audacioso da sua mística ("God is ai visible as Green"). e trata-se outra vez só da carne. na primeira pessoa.

de que a imagem de Donne nao era o f im e sim o meio de expressáo do seu espirito sui generis. aquelas semelhangas desapareceráo. estudar os vestigios da populagao pré-histórica das ilhas británicas. talvez seja capaz de compreender os dois grandes poetas melhor do que os próprios contemporáneos. Hydriotaphia. 1922. thy bed". representam na sua obra o papel das Soledades na obra de Góngora: "historia sacra" em vez de "historia ideal". mas as realizacoes sao táo pessoais como as do mestre. A morte foi a maior preocupagao désse grande egoista e. o mesmo lugar-comum é novo e poderoso como urna fuga de órgáo de Bach. this dissolution after dissolution. because I am involved in Mankinde. falando sempre da mesma coisa: a mor te. 1931. S. é o mesmo espirito que os enforma. 1949. a sua grande esperan$a de reunir-se aos outros numa grande comunidad e." Os sermoes de Donne. Paris. Contudo. vol. 98) Thomas Browne. "No man is an Iland. 1905. orgulhosa e angustiada. A sua grandeza toda pessoal estragaría a poesia inglesa — os "donnianos" modernos já se esquecem. any mans death diminishes me. "This death after burial. serviram de epígrafe a um romance moderno que emocionou todo o mundo. a part of the m a i n e . I. Grierson observou bem que a advertencia fúnebre é o lugar-comum mais freqüente da oratoria sacra há quase dois mil anos. E isso é grande coisa. assím como os prosadores — Burton. E. A prosa de Donne é tao artificial como a sua poesia. porque as imagens retóricas dessa eloqüéncia saem das profundidades de urna alma angustiada. e a moda de Donne passará. .) E. nos quais o poeta para poucos se dirigía á comunidade dos fiéis. e na qual desaparecerlo as torturas da carne e da solidáo humana. this death of corruption and putrefaction. vol. " E n t e r into thy grave. os meamos. It tolls for thee. Os temas sao. Thomas Browne — que escrevem "metaphysical prose". . t h y metaphorical. Thomas Browne (BK) é — quanto ao estilo — um Donne leigo. intire of it selfe. em grande parte. every man is a peece of the Continent. Sabe-se que aquelas palavras sacras do poeta inglés. mais extraordinario. London. Nao é o maior poeta inglés. 1892. Keynes. mas é o poeta inglés mais original. e realiza o mesmo milagre de urna grande inteligencia que fala diretamente ao cora$ao.962 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 963 tor moderno. mas os "metaphysical poets" sao personalidades independentes. esquecido durante tres séculos. and he can proceed b y martial law: he can hang thee upon the next tree". fazendo excursoes pelos campos para colecionar borboletas e plantas. . mas o motivo é o mesmo: procurar fundamentos permanentes de urna civilizagáo de élite. O nosso tempo. Donne nao é um poeta universal nem um poetagrande homem.a ed. Stephen: "Slr Thomas Browne". E ' preciso acabar com certos exageros. 6 vols. Pseudodoxia Epidémica (1646). London. London. The Garden of Cyrus (16S8). nos sermoes de Donne. também por outro motivo: Donne é inimitável.) O. O próprio século X V I I nao gira inteiramente em torno de Donne. Donne é hoje o poeta mais célebre da literatura inglesa. Um médico e d e n t i s t a .. nao é um Shakespeare nem um Milton. L. Gosse: Sir Thomas Browne. 1928/1031. ao mesmo tempo. as vézes. Leroy: Le Chevalier Thomas Browne. London. A eloqüéncia de Donne é inesgotável quando se trata da m o r t e : "God is the L o r d of Hosts. ligado ao século X V I I I por afinidades de mentalidade e analogías de situasáo social. Jeremy Taylor. L. EdigSo por G. 2. Religio Medid (1642). Merton: Science and Imaginatlon in Sir Thomas Browne. Urne Buriall (1658). Já comegam a "out-Donne the Donne". maior do que a dos vivos. 1605-1682. Oxford. t h y quotidian grave. (In: Tours in a Library. Sthephen: Sir Thomas Browne. And therefore never send to Know for whom the bell tolls. Ele parece o criador da "metaphysical poetry". (In: Hours in a Library. of vermiculation and incineration".

urnas e ossos. Browne entende de zoología e mineralogía. de modo que urna super-religiáo tolerante seria o seu ideal de médico e cientista barroco. a maior ode em língua inglesa. or any patent from oblivion. filho fiel da Igreja anglicana. not ¡n the Record of Man". O seu monumento nao é da especie dos "Pyramides. Mas o autor da Religio medid é. o "sensible fit of that harmony which intellectually sounds in the ears of God" como a música das esferas. Os romanos. É cristao. Mas ésse latinismo é mais urna das suas superstigoes. na qual o médico Sir Thomas Browne acreditava. os trabalhadores rurais descobrem urnas funerarias. E m Norfolk. . Conversando e discutindo com os camponeses. . Eis o tema da sua Pseudoxia Epidémica. ñas seitas. astronomía e historia. imortalizou-se ele como o prosador mais impressionante do século.964 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 965 os seus cemitérios e cerámicas. na possibilidade de transformar chumbo em ouro. porque encontra boas coisas em todas as religioes. nem que o cristal de rocha seja agua condensada. nao falta o humorismo sutil do — "What Song the Syrens s a n g . contra todas as suas predigoes. nao tinham a menor idéia do mundo noturno de Browne. e até entre judeus e maometanos. arches. conhecidos na historia. E nao convém acentuar demais a solenidade désse estilo. Os seus sucessores tinham de atenuar a veeméncia das suas expressoes e procurar ilhas de paz no tumulto da guerra civil. . obelisks. ao mesmo tempo. nem que os druidas tenham sido feiticeiros. or a Dis~ course of the Sepulchral Urns Jately found in Norfolk. até aqueles cujos corpos foram incinerados em Norfolk. mas em compensagáo comunica-lhes outras. T h e greater part must be cont e n t to be as though they had not been. todos os métodos jamáis usados para imortalizar a memoria dos que se foram para sempre. a inutilidade désses esforgos angustia-lhe a alma. Igreja da "vía media". to be found i n the Register of God. Urn Burial. ñas conjungoes dos astros e ñas bruxas. na formagáo das montanhas e na geografía subterránea do Inferno. da conciliagáo e pacifi- . mais retórico e mais emocionante do que os sermoes fú- nebres do próprio Donne: "In vain do individuáis hope for immortality. Nao acredita que o pelicano sacrifique o seu sangue pelos filhos. modelado artificialmente. Browne escreveu um livro. arches. a dream and folly of expectation". mas um pequeño livro. ao qual todas as coisas razoáveis se apresentam como objetos de meditagao religiosa. Browne é um "metaphysical poet" em prosa. de enterrar ou queimar os mortos. in preservations below the Moon Pyramides. Saintsbury acertou bem ao observar a freqüéncia de trocadilhos humorísticos e alusoes engenhosas. e Browne escreve afinal um sermao de leigo sobre Hydriotaphia. como um monomaniaco. no catolicismo. mas no meio dos períodos que parecem majestosas fugas bachianas. were but the irregularities of vainglory. Ésse médico é urna maravilha do Barroco. obelisks". nem que a lúa seja urna face humana. observando-lhe os ritos e defendendo-lhe os dogmas. estuda o processo de incineragao dos cadáveres — e logo lhe ocorrem todos os modos. . inimigo da "Diuturnity. O capítulo V do Urn Burial é. um dos maiores da grande literatura inglesa. sobre as qualidades naturais e místicas do pentagrama que ele encontrou. The Garden of Cyrus. "Intellectually" é boa definigáo do seu estilo. as superstigoes científicas do seu tempo. and wild enormities of ancient m a g n a n i m i t i e s . em prosa. livre-pensador sui generis e quase contra vontade. Browne examina-as da maneira mais razoável. Mas acredita na existencia do licorne. de harmonía com os modelos latinos. though puzzling q u e s t i o n s . . A tensao enorme que é o ñervo da poesía e prosa de Donne nao podía ser mantida indefinidamente. ñas constelagoes. Mas nenhuma citagáo pode dar idéia da magnificencia musical désses períodos. pretende convencé-los do absurdo das suas superstigoes populares. sobretudo quando eram sacerdotes e bispos da Igreja anglicana. " . . pré-históricas ou romanas.

the evenness of recollection. A Study in Religious Experience. M a s ' a p o p u l a r i d a d e d e H e r b e r t é u m p r o b l e m a : p o r q u e se t r a t a de u m poeta sutil. 1906. o sol d e fora invade a igreja. edicao das poesías por F. 1954.966 OTTO M A R Í A CARPEATJX HISTORIA DA L I T E R A T U R A OCIDENTAL 967 cacao.» ed. u m D o n n e a t e n u a d o a p o e t a oficial da I g r e j a a n g l i c a n a . e até m e s m o o p o e t a r e l i g i o s o m a i s p o p u l a r da l i n g u a . London. London. London. A religiosidade catolicizante m a s anglicana passou de Donne para George H e r b e r t ( l c l ) . London. E. H. Prlnceton. 1921. M. London. varios críticos o consideraran! como u m " D o n n e para a massa". J. A Course of Sermons for all the Sundays of the Year (1651/1653). 1941. Edicao por J. quando a sua Contemplation upon Flowers acaba com as palavras "and perfume my Death". em nossos dias. S. Vol. naturalmente. A. EdlpSea por A. the peace of our spirit. King é um poeta t e m o e suave. as estagoes d o ano com as frutas da térra e o canto dos pássaros. Coisa semelhante se pode dizer de H e n r y King ( I 0 °). I shall at last s i t down by Thee. Taylor é um g r a n d e poeta em prosa. Edén. J.. P. C. C. . 1921. 1613-1667. 3 vols. 100) Henry King. Palmer. e o próprio sermao "made a prosperous flight. 1946. A. 1925. Hutchlnson. B. G. Sele?ao por O. Oxford. e no pulpito aparecem as imagens da paisagem inglesa. Assim é Jeremy Taylor ( 8 9 ) . m . (In: The Metaphysical Poets. poeta elisabetano que passou pela escola de Donne." — q u e sao d o s m a i s i m p r e s s i o n a n t e s da l í n g u a inglesa: Poe achou-os terrificantes. London. and did rise and sing. Nos seus sermoes também aparecem "dissolution and eternal ashes". P.. H. d o U n i v e r s o i n t e i r o p a r a i l u s t r a r os s e u s s e n t i m e n t o s r e l i g i o - 99) Jeremy Taylor. da v i d a d a s p r o f i s s o e s . 101) George Herbert. Stranks: 77te Life and Writings of Jeremy Taylor. White: "George Herbert and The Temple". Knlghts: Explorations.. 1952. as janelas se abrem. . M y Pulse like a soft D r u m Beats my approach. 1906.* ed. Bottrall: George Herbert. Hyde: George Herbert and Hit Times. que chegou á dignidade de bispo de Ossory e passou dignamente pelas tempestades da guerra e da época puritana. 1902. 1936. 1954. Clutton Borck: Afore Essays on Books. W. mas o que Taylor r e c o menda aos fiéis é "prayer. C. 10 vols. p r o c u r a n d o e f e i t o s m u s i c a i s q u e se d i r i a m s i m b o l i s t a s . London. More: Shelburne Essays. 3 vols. J. Gosse: Jeremy Taylor. London. New York. Oxford. J. 1920.» ed. vol. o único poeta do grupo " m e t a f í s i c o " q u e s e t o r n o u p o p u l a r . poeta metafórico como poucos no Barroco. e e m m e i o da Exequy. the rest of o u r cares. 1592-1669. 1847/1854. M. e a sua poesia amorosa dirige-se. 1946. E. só á sua esposa legítima. E. A n d s l o w h o w e r e m y m a r c h e s be. A Priest to the Temple (1652). and the calm of our tempest". Salntsbury ln: Minor Caroline Poets. 1904.. London. o maior orador s a c r o depois de Donne. 1874. London. a fama do poeta. Grosart. e por G. d e riqueza espantosa de ritmos e cadencias. tem certa afinidade com Campion. c a n c á o e m o c i o n a n t e s o b r e a m o r t e d a sua m u l h e r . entao. Daniel: The Life of George Herbert.. o leitor se lembra de J o h n Webster. A sua afinidade com os elisabetanos é antes a dos dramaturgos contemporáneos. mas é menos leve. . Washington. 1925. O. usando i m a g e n s d a v i d a d o m é s t i c a . London. E s s a p o p u l a r i d a d e p r e judicou. Sparrow. J. H. Edicao por C. hts Religión and Art. 2. IV. mas é d a e s t i r p e d e D o n n e . The Temple: Sacred Poems and Prívate EjaculatUms (1633). t h e seat of meditation. Éste poeta raro parece ser o último dos elisabetanos. 2. a p a r e c e m os v e r s o s — " . Poems (1657). Summers: George Herbert. Antoine: The Rhetoric of Jeremy Taylor. as if it head learned music and motion from an ángel".) L. tells T h e e I come. 1593-1633. t h e stillness of our thoughts. London. Holy Living and Holy Dying (1650). London. 3. Brown: Jeremy Taylor.

A segunda geragáo dos "metaphysical poeta" é diferente. para a uniáo mística. quase como urna igreja católica. por meio de metáforas violentas. escondem-se sob urna floresta densa de imagens barrocas ou transfiguram-se em visoes místicas. das grandes festas. e os fiéis fogem para os bracos largamente abertos da Igreja de Roma. do ouro. antecipando processos poéticos de Apollinaire. 1887/1888. The Sacrífice.. J á nao se trata de angustias vagas* e sim de experiencias reais. em que o poeta já nao quer responder as tentagoes de Beleza. protestante. 102) Richard Crashaw. 2. É o poeta da "via media". a invisível Igreja dos protestantes. e sim a "anglo-católica" da Inglaterra. revela-se a luta íntima entre a religiosidade intensa e os sentidos revoltados. My King!" Tornou-se um santo no coro celeste. Só nos últimos anos de urna vida distraída e elegante se converteu. e sim a Igreja concreta dos "católicos". Mas Herbert nao esqueceu o mundo que renegara. a mesma ambigüidade psicológica que em Donne e em Herbert foi fonte da grande poesia. as naves. As tentagoes e a ambigüidade como que desaparecen!. da corte. and taste my meat. Discipline. no sentido ampio da palavra. Mundo.a ed. ou entao. na verdade. d e modo que a palavra "metaphysical" no sentido pejorativo de Johnson a nenhum outro poeta se aplica melhor do que a George Herbert. 2 vola. . a Igreja anglicana a que Herbert apostrofou: "Beauty in Thee takes up her place. mas sem sacrificio completo do m u n d o : " . tornando-se vi gario de aldeia." — nestes versos há algo da harmonía do "Paraíso". como numa igreja de aldeia inglesa. chegando a dispor tipográficamente as poesías em forma de altares e de vasos sacros. decerto. The Collar. rezando numa igreja católica." A igreja em que Herbert oficiou encheu-se das flores. A Igreja á qual Herbert serviu nao é. afirmando: "But thou shalt answer. de Dante. criando poemas como The Quip. canta as portas. levando a urna nova vida de asceta e até de santo. Mas é um paraíso em que todo o mundo entra e se senta. que penetraram em todos os coragoes e na memoria da nacáo. A luta decidiu-se em favor de Deus. e por L. as vézes d e man gósto." Sacrificar tudo a Deus. as janelas a cúpula da igreja. Nos versos do Quip. The Pulley. das pedras preciosas das suas imagens. 0 2 ) . dos cultos e dos simples. Nesse caminho. O primeiro caminho foi escolhido por Richard Crashaw ( . for me. e sobretudo o altar. Love. B. Gloria e Genio. •—• Both heav'n and earth Paid me my wagens in a world of mirth. isto significou para H e r b e r t : depositar no altar de Deus todas as riquezas déste mundo. . Edicñes por A. Monarquía e Igreja caíram por térra.968 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 969 •os. As coisas mais profanas transfiguraram-se em santidade e devogáo: "You must sit down. Enfim. So I did sit and eat. Herbert reúne o mais sacro e o mais profano. C.. Contudo. Herbert é poeta de religiosidade muito pessoal. Life. No seu maior poema. Foi urna conversáo sincera. London. nos Calligrammes. Martin. Herbert perdeu quase a personalidade. Oxford. Lord. da Igreja anglicana. Grosart. The Temple é o breviario poético da Igreja anglicana. Mas nao era bem isso." K o poeta da liturgia inglesa. chegou a exprimir os sentimentos íntimos de todos os seus irmaos naquela Igreja. says Love. 1927. através da solidáo escura. cantando como um coro de fiéis "who plainly say: My God. Steps to the Temple (1646). do "service" das rubricas. . mas nao a Igreja "estrangeira" de Roma. Herbert veio do mundo. 1612-1649.

Edicáo por L. 1939. Teresa. pertence ao Barroco católico. O cónego inglés da Chiesa della Casa Santa. 1622-1695. talvez mais intenso. 1928. embora cheio de versos de beleza sugestiva. O famoso verso inicial da "Ascensión H y m n " — "They all gone into the world of light" — poderia fazer parte daquelas visoes extáticas. Bethell: "The Poetry of Henry Vaugham. searching flight" é um verso menos famoso. solitario. um irmáo poético de Crashaw. "God's silent. A. 2 vols. F. segundo o elogio de Swinburne. Mas está longe da frivolidade e do oportunismo artístico do italiano. a rapidez vertiginosa dos seus metros nao provém de ambigüidades e angustias. F. E. P. . o mais barroco entre éles. logo volta á expressáo marinista. London. sobre as lágrimas de Madalena. R. quase eremita. More: New Shelburne Essays. mas nao está inteiramente fora da tradicao. Traduziu para o inglés urna parte da Strage degli Innocenti. Warren: Richard Crashaw. 1935. a Study in Barogue Sensibillty. poema profano seu. 1897. Wallerstein: Richard Crashaw. Sllurlst".) . E. Descende de Donne. Martin. . . A Study in Style and Poetic Development. C. Madlson. mais intelectuais do que as de Crashaw. 1951. e todo inglés saber-lhe-á de cor os versos. os "intolerable joys" que "Angels cannot tell". (In: The Cultural Revolution o] the Seventeenth Century. As visoes poéticas de Vaughan sao mais sentimentais e. mas. Oxford.. 1945. walk with Him those ways of light". Praz: Secentlsmo e marinismo in Inghilterra. vol. á primeira vista. Vol. Nao é mais pes103) Henry Vaughan. e um E. confessa-se incapaz de exprimir o inefável. I. expressáo de urna atitude típica da religiosidade inglesa: a infancia ingenua como porta do reino de D e u s : "Happy those early days when I Shined in my ángel i n f a n c y . e entáo S. Crashaw é urna das figuras mais curiosas da poesia inglesa. Baton Rouge. Cambridge. como "Music's Duel". Quando Crashaw desperta das suas visóes. Wordsworth apresentará o mesmo pensamento na "Ode on Intimations of Immortality from Recollection of Early Childhood". em formas barrocas. Mas Vaughan. M. é o seu guia — "Whereso'er He set His white Steps. a verve e a sublimidade de urna poesia de Shelley. Prlnceton. O simbolismo obscuro das suas imagens. . já vé a gloria de Deus e dos seus santos. Henry Vaughan (1011) parece. or Sacred Poems and Pious Ejaculattons (16501655). Hutchinson: (in: The Cambridge History oj English Literature. as elipses forcadas da sua sintaxe. por mais engenhosa que seja. tem. E. 1925. contra-reformista. porém o mais característico. é. 1927. 1914. 1947. Silex Scintillans. ao mesmo tempo. Blunden: On the Poems of Henry Vaughan. é místico de outra estirpe. Em éxtase. Hutchinson: Henry Vaughan. . Oxford. S. é um poeta menor. e a sua poesía. Vaughan é t í o inglés como Herbert. é artificial e engenhoso. L. VEt. Crashaw vé " . London. á qual dedicou dois hinos admira veis. Praz: Richard Crashaw. " Sem as formas de expressáo barrocas. em comparacao. Brescie. " T h e Retreat". A Ll/e and Interpretation. E.a ed. mais harmonioso. M. London. Crashaw já se senté no céu. muito lógicamente. natureza meditativa.970 OTTO MARÍA CABPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 971 É o único católico romano entre os "metaphysical poets" c. é mesmo marinista. 2. de Marino. O famoso poema "The Weeper". Gosse: Seventeenth Century Studies. C. 1920). em Loreto. the sacred flames Of thousand souls ". Firenze.

o estilo conciso mas transparente dos "classicistas barrocos" como Pascal. Tuve: A Reading of George Herbert. Certas expressoes suas lembram as metáforas audaciosas de Donne: "I saw Eternity the other night Like a great ring of puré and endless light. An Essay. E. isto é.972 Orro MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 973 •oal. ingenua como a dos primeiros místicos do século X V I I I . 1929. Vaughan é feliz e grande como aquéle outro grande ocultista e maior poeta da literatura inglesa. mas é mais místico. vence. c. Em certo sentido. mais urna vez. Com efeito. 1952. já sabemos (10«-A) que os processos poéticos. 1634-1674. as suas poesías inéditas. maior que o dos poetas petrarquistas: a maior parte dos sonetos ingleses e espanhóis do século X V I . Em outro sentido. nos "metaphysicals" e nos renascentistas. sao fundamente parecidos. O. que acabará na cancáo eclesiástica popular dos metodistas. willct: Traherne. Wade. enfim. Certos pormenores de sua devocáo só pareciam originalíssimos aos prímeiroi intérpretes modernos porque estes ignoravam a origem medieval dos respectivos conceitos. Traherne também é um grande retórico. está mais perto de Vaughan. pode Rosemond Tuve demonstrar ( I ( ) « . Primeira edigáo das poesías por B. como um sucessor inspirado da arte do sermao de Andrewes e Donne. O ponto de partida é o período ciceroniano. Foi o contrario o caminho da prosa barroca: dos artificios renascentistas para a simplicidade moderna ( l 0 4 -°). J. Vista assim." A linguagem parece científica. 1903. o estilo torna-se conciso e conceituoso. até Dobell descobrir. W. 1944. senáo idénticos. como residuos de conflitos nao resolvidos em sua alma. William Blake. Wade: Thomas Traherne. Na prosa inglesa.) . Depois de William Empson ter interpretado psicanaliticamente certas imagens de Herbert. ressentemse désse misticismo obscuro.B ) q U e essas imagens sao "locí". Traherne continua a tradigáo poética de Quarles. (In: Studies in English Philology. depois. com efeito. Um Donne. Mlnneapolis. e. Princeton. Nos seus momentos lúcidos. J. o equilibrio da "via media": é um "místico alegre" de mentalidade quase medieval. revela. inclusive os de Shakespeare. H e n r y Vaughan estava influenciado pelo ocultismo e rosicrucianismo do seu irmao Thomas Vaughan e pelos conceitos de Jacob Boehme. Mas esta nao é só o privilegio de Traherne. Na poesia. Miscellany for F. M ) até há poucos decenios. em 1903. Taylor e Browne — embora nestes também apareca sempre o ele104A) Cf. senté menos "cum Ecclesia". apesar da erudicáo notável do poeta. no fundo. porém mais individual. Klaeber. através do "genus humile". 104B) R. nota 89. O aparente artificialismo dessa poesia nao é. ideal da Renascenga. com a eloqüéncia veemente do prosador Donne. é. 1932. London. O. Mas o mesmo raciocinio também vale para a mentalidade religiosa désses poetas barrocos. Dobell. e a sua religiosidad e é diferente. estilo que será o da prosa moderna. nao parecerá menos artificial ou menos complicada a um leitor moderno desprevenido. déste século. London. 1919. Croll: "The Baroque Btyle ln Prose". que parecíam inferiores ou desiguais á crítica puramente estética. London. a poesia barroca seria um fenómeno "retrógrado". O último dos prosadores "metafísicos": eis como foi considerado Traherne ( . acostumado as expressoes mais simples da poesia romántica e pós-romántica. lugares-comuns da devocao e da sermonística medievais. depois das magnificencias e extravagancias de Donne. um Herbert sao sacerdotes nutridos de teología escolástica e de religíosidade católica. 104C) M. Edls&o por O. A "poesia metafísica" nao é t í o absolutamente inédita como parecía aos seus primeiros admiradores exaltados 104) Thomas Traherne. Muitas das suas poesías. seguindo os modelos de Séneca e T á c i t o .

algo semelhante ao silencio místico dos misticos.) de Deus que ele conheceu pessoalmente. 1593-1683. revela paixao pelo esporte preferido do inglés medio. á primeira vista. menos nobre. London. filho devoto da Igreja. Walton é um autor consciente. revolucáo e guerra civil. Life of Bishop Sanderson (1678). The Compleat Angler (1653). Walton também é "a wise man". A escolha dos biografados caracteriza o biógrafo. • . London. o "cavalier" converso. porque Walton é escritor da maior simplicidade.. assim como foram evasionistas. que foi paroquiano de Donne e sobreviveu a Traherne. R. durante os reinados de Isabel. Mass. Jaime I e Carlos I. Keynes. os "cavalier poets". Martin: Izaak Walton and his Friends. London.• 974 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 975 mentó coloquial — o "genus h u m i l e " já está perfectamente encarnado num escritor de tanta simplicidade como W a l t o n . quiet innocent recreation than. sabe rir como a "Merry Oíd England". Salntsbury. o teórico erudito da "vía media". que é para Walton mais o mestre do pulpito de St. modestamente. Life of Dr. já foi chamado poema pastoril em prosa. as vézes. ditadura do Parlamento e ditadura de Cromwell. e é o mais belo poema pastoril da língua inglesa. Paul's do que o poeta. tao consciente da sua arte esportiva como da sua arte da prosa. Izaak Walton ( u ! ) . Sem generalizar.angling. 1898. Contudo. a pesca á linha. nem é sacerdote erudito nem aristócrata devasso ou converso. O seu riso é antes um sorriso. 1929. Stauífer: English Biography befare 1700. u m sabio. George Herbert. so no man is born an angler. e ésse otimismo divino ilumina-lhe a vida inteira. I t is an art worthy of the knowledge and art of a wise man. Life of Dr. Cambridge. como escritor e como homem. A. B. 1903. divertindo-se aos domingos com excurs5es inofensivas aos campos. London. D. (Com Introducao. Restauracáo monárquica. S. Em certo sentido é Walton o último dos elisabetanos. certamente o mais completo: O título indica. prados. e essa defini§ao pode. The Compleat Angler. Lang. Um poeta do silencio ñas longas horas de espera paciente do peixe.. e éste ponto é de importancia capital. The Compleat Angler. parecer esquisita ao conhecedor daquela poesía. Apesar da sua simplicidade.) EdicSo das Ufes por O." Walton é pescador e poeta. 1894. Dos místicos e eruditos da "metaphysical poetry" distingue-o principalmente a sua origem burguesa. podemos dizer: o Barroco dos burgueses torna-se classicismo. trata-se de um evasionista como os místicos Crashaw e Vaughan. Hooker. o poeta da "via media". é o comentarista em prosa do movimento "metafísico". o seu cristianismo é sereno e alegre. e sim um modesto comerciante da City de Londres. com fugas. o da "via media". mas apenas de outra estirpe. Hooker (1665). Life of George Herbert (1670). "As no man is born an artist. e o suave bispo Robert Sanderson. O comentario da sua longa vida é constituido pelas biografias que fez dos grandes homens 105) Izaak Walton. London. sem "concetti" barrocos nem sublimidades místicas. só esta última qualidade. A s excursoes de Walton pelos campos parecem-se. diálogo entre Piscator e Venator sobre a técnica e as vantagens essenciais da pesca á linha. embora diferentes. Donne (1640). "God never did make a more calm. Maratón: Walton and Some Earlter Writers on Fish and Fishing. It is somewhat like poetry — men are to be born so. 1927. 1930. mas é menos tumultuoso. á qual dedicou o tratado mais completo que existe dessa arte. e a escolha dos nomes é significativa: Donne." Urna mistica na qual pode mergulhar impunemente o comerciante mais razoável da City de Londres. colinas e os riachos cheios de peixes. mas sem bigotismo. Walton é um homem devoto. (Cora introducao. Life of Sir Henry Wotton (1651). Edlcao das obras completas por S. Edi?áo do Compleat Angler por A. L. Em vez de angustia profunda. e Walton já é um clássico. e limitando-nos ao século X V I I . essa ocupagao pacífica desempenhou na vida de Walton urna funcáo vital: vida de 90 anos. Wotton. e com o mesmo sorriso lhe responde a paisagem inglesa.

O ambiente da sua poesia amorosa é a paisagem inglesa — "I sing of brooks. 1921. arte classicista. da oposicao classicista que acompanha em toda a parte o marinismo. Chicago. " — e nao se cansa de dirigir d e c l a r a r e s de amor "To the Violéis". Contudo. quando a guerra civil forcou o poeta a viver continuamente nos campos. Herrick revela afinidades estilísticas com a poesia elisabetana: o seu "CherrieRipe. C. que nao vio edificar nem consolar ninguém. é admiracao física ("When as in silks my Julia goes"). Herrick foi considerado como um dos maiores poetas de língua inglesa. Herrick nao é poeta própriamente erótico — nem clássico nem barroco — e sim poeta anacreóntico. Oíd Time is still a-flying: And this same flower that smiles to day To-morrow will be dying. A Biographical and Critical Study. London. e por L. "To the Daisies". Mas a sua importancia histórica permanece incontestável. . . mas só parece "metaphysical poetry". Paris. o preciosismo. nao se cria com insinceridade urna poesia táo etérea. Oxford. F. Edlgóes por F. sempre da mesma J u l i a . Moorman. Herrick nao é "cavalier" nem "metaphysical". Enquanto nao se conhecfa ou se desprezava a "metaphysical poetry". A "Litany to the Holy Spirit" e "A Thanksgiving to God for His House" sao oragoes poéticas muito bonitas. Hesperides. epigramáticamente condensada. 1591-1674. Nao se trata. e a famosíssima poesia "To the Virgins. ressentem-se. a poesia de Herrick é arte sómente. Oxford. W. Hoje. ao 106) Robert Herrick. Moorman: Robert Herrick. of blossoms. é rica em "concetti".* ed. Herrick nao pode fugir integramente ao estilo dominante da época: a sua poesia erótica. Martin. "To the Daffodils". As suas poesias religiosas. nao é um "metaphysical". . nao é sutil nem conhece complicacoes psicológicas. 2." — é a anglicizacao definitiva do "Carpe diem" horaciano. 1912. o sacerdote anglicano nao encontrou a mínima dificuldade íntima em reunir erotismo e devogáo — o que parece. a definicao de Herrick como "metaphysical Spenser" nao é exata. de modo que ele mesmo acha bom defender-se: "You say I love n o t . " T o the Blossonw". e sim classicista. e. a critica está mais inclinada a negar-lhe o titulo de poeta. e á sua poesía nao faltam influencias do renascimentismo romántico de Spenser. chamando-lhe um dos maiores artistas da poesia inglesa. Of April. e um dos representantes mais nobres. O seu amor. classicista. " Na verdade. os Noble Numbers. . Mandel: Robert Herrick. . Ripe. and Noble Numbers (1648). afeicao cordialíssima ("A Meditation for his Mistress") e íeérie romántica ("The Night-piece: To J u l i a " ) .f l o w e r a . Por isso. I cry" é um eco de Campion. 1910. Oenones. de modo algum. May. E ' representante. as Lesbias. to make much of T i m e " — "Gather ye rosebuds while ye may. Mas é o amor da natureza por parte de um veranista que ignora os aspectos menos agradáveis da vida r u r a l . F. Mas. Celias..976 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 977 Robert Herrick ( 1 0 í ) é outro que recebeu o apelido de "o último elisabetano". "To the Meadows". mais do que as anacreónticas. quer dizer. Embora membro da Igreja Oficial. o gongorismo. de falta de profundidade. tao leve no sentido mais alto da palavra. Corinas pululam no catálogo do devoto vigário Herrick. Delattre: Robert Herrick. contrario. porque é burgués • filho de burgueses. Herrick nao é um clássico. comecou a queixar-se. birds and bowers. L. Contudo. Como todos os classicistas antigongoristas do século X V I I . of J u n e and J u l y . W. do ponto de vista histórico. Tudo i aso nao quer dizer que Herrick seja insincero. Ripe. the Last Elizabethan. Apenas. é um classicista. até muito sinceras. lugar-comum poético da Renascenca — longe das brutais "persuasions to love" de Carew. assunto permanente da sua poesia. como o seu contemporáneo Milton. 1927. 1956.

AreopagiUca (1644). 1905. convém observar que Milton nem sempre foi apreciado assim. Of Reformatlon Touching Church — Discipline in England (1641). pode-se afirmar que o poema está á altura do assunto.. Em geral. 1947. de tamanho sobre-humano. London. London. O assunto é. M i l t o n passa. o Paradise Lost é dado de presente aos colegiáis. segundo conceitos de um poeta cristlo e de leitores cristáos. Steln: Answerable Style. Cambridge. 1924. 107) John Milton. Poems. F. os poetas e escritores da Restauracáo. vol. 1608-1647. e a expulsáo do Paraíso. 1920. T. 8 vols. París. W. aquela afirmagio define o lugar de John Milton ( . Brooke: Milton. A. 18 vols. o mais importante de todos: a criagao do homem. Ithaca. é o Paraclise Lost a maior obra da literatura inglesa do século X V I I .* ed. E. Shclnner: Antike. Mas o Paradise Lost distingue-se de todas as outras epopéias por mais uma qualidade especial: a torga dramática da caracterizagao das personagens. Edlcao dos Obras completas por J. S. G. 1951. Raleigb. Stopíord A. Mas será que a grandeza dantesca do poeta e da sua obra foi realmente compreendida? Nao teria sido ele. L. VII. Só q u a n d o em 1825 foi descoberto um lívro seu . London. Eikonoklastes (1649). Os contemporáneos da sua velhice. M. paraíso terrestre — transfiguragóes impressionantes da paisagem inglesa. W. e as Vitorias sucessivas d a burguesía.cn. (Trad. London. 1956.) J. J. e o panorama visionario da historia humana inteira. reduzido ao nivel do seu público. ao lado da Biblia. Smart: The Sonnets of Milton. Mesmo antes de falar das tentativas modernas para destroná-lo. M. sobretudo o Sata *de Milton é um d o s maiores personagens dramáticos da literatura universal. 1955. Joannis Matoni Angli pro populo Anglicano De/ensio (1651). 1930. 1920). 1942. London. Sendo éste século o maior da historia literaria inglesa. 1897. E essas figuras sobrenaturais. Toronto. London. Muencl. 1921. A. Lund. Saintsbury (in: The Cambridge History o! English Literature. New York. E.» ed. B. e por F. D. publ. K. Milton tornou-se o poeta da familia crista. Doctrine and Discipline o/ Divorce (1643). Samuel J o h n s o n ainda lhe censurou a arte do verso. ou passava. particularmente ao aburguesamento da l i t e r a t u r a . conseguindo vencer a hostilidade d a crítica. 1919. leitores burgueses e puritanos? A evolugao da gloria do poeta corresponde á protestantizagao mais ou menos completa da I g r e j a anglicana no século X V I I . Minneapolis. London. Urna epopéia pelo menos igual a Gerusalemme liberata e a Os Lusíadas. London. 2. Cambridge. e no cornejo do século X V I I I a sua poesia renascentista já nao foi compreendida. inferno. ingl. O Paradise Lost é um monumento. 1956. 2. 1953. 1879.978 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 979 Depois de Shakespeare. desrespeitaram o puritano e republicano. A. Masterman: The Age of Milton. 8. Saurat: La pensée de Milton. A. 1944. Samson Agonistes (1671). urna das poucas epopéias q u e ainda se léem com admiracáo sincera. porventura. Of Prelatical Episcopacy (1641). Comus (1634).. Patterson. R. De Doctrina Christiana (c. H. 7 vols. London. Essays on Paradise Lost. The Reason of Church-government urg'd against Prelaty (1642). Renaissance und Puritanismus. Masson: The Lije of Milton. preferindo Cowley. Paradise Regaind (1671) ¡ Arcades (1632). 1859/1894.: Milton. 1660. Edicóes das obras poéticas por W. Mas nem mesmo os inimigos mais apaixonados de Milton aprovariam hoje ésse disparate. London. E. D. London. e por A. e o público ledor dos séculos X V I I I e XIX apreciou Milton assim. com a visao da Redengáo nos conf ins do horizonte histórico. por ocasiao da confirmagao. 1903. 2. ficando na estante. Mltíord. Glasgow. Paradise Lost (1667. Tlllyard: Milton. Barker: Milton and the Puritan Dilemma. W. Pearsall Smith: Milton and His Modern Critice. 8. Milton é o Dante do p r o t e s t a n t i s m o . Liljegren: Studies in Milton. Wright. both English and Latín (1645). a queda de Adáo e Eva. por muitíssimo ortodoxo. 1851. On Education (1644). London. Defensio Secunda (1654). M.» ed. movimentam-se em paisagens inesquecíveis — céu. 0 T ) : é o maior poeta inglés depois de Shakespeare. Raleigb. John Milton and the Modern Critics. A. 1825). Adama: Ikon. 1930/1936. Eliot: Milton. 1674). 1913. Tlllyard: Studies in Müton. Muir: Müton.

T. Arcades (1632). e o panorama visionario da historia humana inteira. porventura. A. De Doctrina Christiana (c. Eikonoklastes (1649). Minneapolls. Masson: The Lile o/ Milton. 1944. e ás Vitorias sucessivas da burguesía. Mas será que a grandeza dantesca do poeta e da sua obra foi realmente compreendida? Nao teria sido ele. ao lado da Biblia. London. 0 T ) : é o maior poeta inglés depois de Shakespeare. reduzido ao nivel do seu público. Doctrine and Discipline o/ Divorce (1643). Paradise Lost (1687.1 chen. Wright. Sendo éste século o maior da historia literaria inglesa. R. 1920). A. K. 1955. Brooke: Milton. 1930/1936. desrespeitaram o puritano e republicano. pode-se afirmar que o poema está á altura do assunto. 1942. Edlc&o dos Obras completas por J. Mltford. London. L. Saurat: La pensée de Milton. Muir: MUton. por ocasiáo da confirmagáo. Llljegren: Studies in Milton. 1859/1894. Edicóes das obras poéticas por W. S. On Education (1644). London. (Trad.. Smart: The Sonnets o/ Milton. M. Stopford A. Muen. conseguindo vencer a hostilidade da crítica. 1924. 1608-1647. Samson Agonistes (1671). leitores burgueses e puritanos? A evolugáo da gloria do poeta corresponde á protestantizagao mais ou menos completa da Igreja anglicana no século X V I I . 1851. Raleigh. John MUton and the Modern Critics. Cambridge. Em geral. Eliot: Millón. 1921. S. O/ Prelatical Episcopacy (1641). 8 vols. Mas nem mesmo os inimigos mais apaixonados de Milton aprovariam hoje ésse disparate. e por A. 1897. Samuel Johnson ainda lhe censurou a arte do verso. ou passava. London. e a expulsáo do Paraíso. é o Paradise Lost a maior obra da literatura inglesa do século X V I I . Lund.. 1674). Poems. inferno. ingl. por muitissimo ortodoxo. Stein: Answerable Style. 1920. 2.978 OTTO M A F I A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 979 Depois de Shakespeare. de tamanho sobre-humano. vol. preferindo Cowley. D. 1956. Milton é o Dante do protestantismo. Mesmo antes de falar das tentativas modernas para destroná-lo. 2. E.» ed. 1930. 1913. London. 1919. Shclrmer: Antike. Mas o Paradise Lost distingue-se de todas as outras epopéias por mais urna qualidade especial: a fórga dramática da caracterizacáo das personagens. París. e no coméco do século X V I I I a sua poesía renascentista já nao foi compreendida. 2. 1660. urna das poucas epopéias que ainda se léem com admiracao sincera. Milton tornou-se o poeta da familia crista. E. London. Só quando em 1825 foi descoberto um livro seu . London. 7 vols. Masterman: The Age of Milton. M. publ. convém observar que Milton nem sempre foi apreciado assim. Toronto.» ed. O/ Jte/onnation Touching Cnurch — Discipline in England (1641). B. 1947. W. 1903. movimentam-se em paisagens inesquecíveis — céu. J. Milton passa. com a visao da Redengao nos confins do horizonte histórico. W. O assunto é. 1905. both English and Latín (1645). A. os poetas e escritores da Restauragao. aquela afirmagao define o lugar de John Milton ( . 1825). Essays on Paradise Lost. E essas figuras sobrenaturais. Comus (1634). M. G. London.) J. Adama: Ikon. ficando na estante. Joannis Mütoni Angli pro populo Anglicano De/ensio (1651). 8. 1951. e o público ledor dos séculos X V I I I e XIX apreciou Milton assim. New York. 1879. Pearsall Smith: Milton and His Modern Critice. paraíso terrestre — transfiguragoes impressionantes da paisagem inglesa. A. The Reason oí Church-government urg"d against Prelaty (1642). London. e por F. E. Renaissance und Puritanismus. Paradise Regain'd (1671). H. Defensio Secunda (1654). Cambridge.a ed. Glasgow. Barker: Müton and the Puritan Dilemma. London. Os contemporáneos da sua velhice. 18 vols. o Paradise Lost é dado de presente aos colegiáis. London. Tillyard: Studies in Milton. 107) John Milton. VII. O Paradise Lost é um monumento. W. particularmente ao aburguesamento da literatura. D. Tillyard: Milton. Areopagitlca (1644). Salntsbury (ln: The Cambridge History o/ English Literature. 1953. Patterson. F. Ithaca. sobretudo o Sata "de Milton é um dos maiores personagens dramáticos da literatura universal. A. Raleigh: Milton. Urna epopéia pelo menos igual á Gerusalemme liberata e a Os Lusiadas. o mais importante de todos: a criagao do homem. a queda de Adáo e Eva. 1956. London. segundo conceitoi de um poeta cristao e de leitores cristaos.

nos casos de poetasartistas como foi Milton: talvez o artista mais consciente da literatura inglesa. morto. Particularmente nos sonetos é Milton artista incomparável da língua. compreendendo todas as literaturas entáo conhecidas. Compels me to disturb your season d u e : For Lycidas is dead " Nestes versos está Milton inteiro: a solene música verbal. Milton recebeu a sua formagáo definitiva na Italia. nem na divindade de Jesús Cristo. poeta em ostracismo na época da Restauragáo. Essa harmonía perfeita entre sentido e música é até o elemento mais característico da arte de Milton. alias. táo perfeita que chegou a tornar-se lugar-comum. Nunca se ignorou que a sua erudigáo era imensa. lamentando a morte de um amigo. assim como as suas heresias religiosas e políticas aparecem vestidas da pompa mais aristocrática. É poesia clássica. impondo á poesia inglesa urna serenidade que em espíritos menores se devia fatalmente tornar trivial. afogado no mar. negado). em geral. baseada firmemente no sentido lógico (base que T. o perfume da paisagem inglesa. o que se entende num puritano. E só entáo os críticos perceberam a simpatía inconfundível com que no Paradise Lost. historia. evitando os sentimentalismos románticos. as reminiscencias clássicas. em contradigáo íntima com os sentimentos religiosos que o mesmo poema exprime. Lady Margaret Ley. Mr. cheio de opinioes heréticas. 980 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 981 inédito. S. I come to pluck your Berries harsh and crude. Cyriac Skinner — e aos chefes republicanos Cromwell e Farifax. ciencias po- . esperangas de imortalidade crista — "To morrow to fresh Woods. Eliot lhe tem. and sad occasion dear. a sua arte tem o aroma da perfeigáo latina — Milton escreveu grande número de poesías em latim e varios sonetos em italiano — e do perfeito. só entáo chamou Macaulay a atendió para a presenga das mesmas heresias na epopéia: com efeito. with Ivy never-sear. O pensamento de Milton é menos equilibrado. e nesse aspecto só comparável a Goethe. mas solene e sonora. secretario de Estado no govérno de Cromwell.. Bitter constraint. and Pastures new. porém. já entáo país dos museus. and once more Ye Myrtles brown. É poesia clássica. Shatter your leaves before the mellowing year. A música verbal de Milton nao é vaga. O mais perfeito poema de Milton — a opiniao a respeito é provávelmente unánime — é a elegía pastoril "Lycidas". sendo dirigidos a pessoas da sua classe — Mrs. A crítica psicológica nao dá resultado. aluno da Universidade de Cambridge. a melancolía cheia de dignidade. é caracterizado Satanás. estudante na Italia. And with forc'd fingers rude. nao apenas a respeito do catolicismo. um crítico moderno fala de "poem nearly anonymous". a plena harmonía entre ésses elementos contraditórios: um filho de burgueses. De Doctrina Christiana. impondo-se a maior disciplina moral e artística — erudigáo clássica. Assim como Goethe. o poeta de urna epopéia sobre o pecado original acreditava até na liberdade absoluta da vontade humana. O ye Laurels. foi éste seu equilibrio que eclipsou a "metaphysical poetry". Mr. dispondo sabiamente dos ritmos e da música das palavras. pega de museu." A vida de Milton revela. mas também heréticas a respeito do credo protestante e cristáo em geral. Milton aproveita-se da sua arte clássica para falar da maneira mais concreta. Catherine Thomson. e isso é tanto mais digno de nota quanto os sonetos constituem a parte mais burguesa e mais puritana da obra de Milton. panfletista puritano. paga. "Yet once more. Lawrence. no sentido de acabado. cristianismo protestante e política republicana harmonizam-se melhor do que no pensamento. Milton nao acreditava na criacáo do mundo ex nihilo. sugestiva.

a "masque" lírica Comus e a tragedia rigorosamente classicista Samson Agonistes. podiam bem gerar urna poesía barroca. é característica a aversao de Milton a Aristóteles. que gosta de música melancólica. Ésses conflitos e ambigüidades nao constituem caso ¡solado no século X V I I . e conforme o poder de caracterizagao dos personagens no Paradise Lost se deve julgar a fórga dramática de Milton. após a separagáo de meio século. no fundo. o classicista Milton conseguiu restabelecer o equilibrio moral que o teatro elisabetano-jacobeu. egoísta. é pouco simpática. E houve quem considerasse o retrato de Satanás. e que a "metaphysical poetry" nunca possuirá. as máscaras. na qual os costumes licenciosos dos "cavaliers" sao denunciados como devassidáo de faunos. como protesto dissimu- lado contra o cristianismo. o tumulto alegre ñas rúas da cidade. os contos de fadas. com as doutrinas místicas e as teorías dos ocultistas e cabalistas. física e historia natural. Chegou a escrever a epopéia inteira nesse verso dramático. afastado do teatro vivo pelas conviegóes puritanas e pelo ambiente burgués. Pelo puritanismo. Mas Milton renuncia logo aos jogos do "wit". acompanhando cenas de amor — e "II Penseroso". nesta "favola pastorale". Fancy's child". poesía lírica e poesía dramática. e a doce música lidia. revelando um conflito íntimo que se agrava na "masque" alegórica Comus: os encantadores "songs". para conseguir e justificar o seu próprio divorcio. Em Milton agem e reagem fortes recalques. nao se harmonizam milito com a moral severa da pega." A resolugao nao é menos característica do que o conjunto das duas poesías. na sua beleza melancólica de anjo caído e fórga indomável de revolucionario cósmico. Ésse tipo de erudigáo nao é barroco. das leituras noturnas. o elogio "fantástico" da paisagem inglesa. no estilo de Donne. é de origem mística. e o fato é de alta importancia. de modo que parte do seu deísmo. empobrecendo voluntariamente os seus meios de expressao. A língua inglesa possui poucas poesías renascentistas tao belas como "L'Allegro". filología e arqueología. as cianeas na aldeia. poeta dramático. extraordinaria. de Jonson a Ford. Como representante da reacao classicista na época barroca. e estes estudos esquisitos levaram-no ao gnosticismo e a heresias de toda a sorte. e perdeu. ou pelo menos de Herbert. em Milton reencontram-se. além de ser poderosíssima no campo teológico e filosófico. Milton — antigo "metaphysical" — aproxima-se mais do teatro do que os "metaphysical poets". Conforme essa conquista métrica. astronomía. And I with thee will chose to live. estava perdendo. A sua maneira de reunir enorme erudigáo teológica e jurídica em favor do divorcio. aparentemente racionalista. O mesmo conflito entre ascetismo puritano e paganismo renascentista caracteriza o Lycidas. Quanto a éste último aspecto. O tratado Pe Doctrina Christiana nao é para desmentir a hipótese. lembra antes Telésio. As raizes do pensamento e da arte de Milton encontram-se na Renascenga. Cardano e outros pensadores da Renascenga.982 OTTO M A M A CAHPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 983 líticas. violento. adotando o verso branco do teatro elisabetano. um Milton despótico. nao conforme as suas pegas dramáticas. escritas ao mesmo tempo. devemos ao crítico francés Denis Saurat esclarecimentos preciosos: Milton estava familiarizado com a escolástica medieval e a filosofía renascentista. Milton é. " These pleasures Melancholy give.*as modas. da poesía. . é urna pega magistral de "metaphysical poetry". Desaparecerá a "ambigüidade barroca". e os estudos biográficos do sueco Liljegren revelaram um Milton bem diferente do ídolo olímpico dos retratos ñas paredes das casas burguesas da Inglaterra. o teatro em que se representa urna pega do "sweetest Shakespeare. o hiño "On the Morning of Christ's Nativity". e urna das primeiras obras de Milton.

em favor da "honest liberty of free speech". evidentemente. D. sabiam bem porque preferiam esta obra ao Paradise Lost. pomposo som de órgao. assim como Adáo e Eva saíram do Paraíso: "They hand in hand with wand'ring steps and slow. exclusivamente miltoniano. T r o u g h Edén took their solitary Way. contra a monarquía. recolhe todas as fórgas para derrubar o templo. E no espirito profético do grande poeta burgués. mas que é um Barroco todo especial. 1922. Browning sao miltonianos. vencido e cegó como o poeta. o L o r d ! T h y slaughter'd Saints. Byron. Paradise Regain'd. até quando o 108) B. t í o censuradas por Eliot. Dryden. And calm of mind all passion spent. Bem se percebe nos seus versos a melancolía do Penseroso. and sing in endless morn of light" e os "victorious psalms" da ode "Ata Solemn Musick". e sim um confuto moral. burgués. A poesia de Milton pós-se a caminho pelos séculos. nao gostara do Paradise Regain'd. "eyeless in Gaza". Wordsworth. a cidade dos inimigos. para o mundo cinzento. existe algo como um pressentimento da catástrofe désse seu mundo pomposo de poesia e erudigao aristocráticas. nao podía fugir as influencias do ambiente.98* OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 985 Eis a fonte da imensa fórga moral de Milton nos seus escritos em prosa: os mais poderosos panfletos e sermoes políticos da literatura inglesa. A ésses panfletos compara-se só urna poesía de Milton: o soneto "On the late Massacre in Piedmont". Déle nasceu um estilo sui generis. a "heresia" estética: ai. a reagao do velho puritano contra o classicismo estético. lembra a grande música barroca. assim como os coros de Haendel sao barrocos em pleno século X V I I I . Wordsworth e Coleridge.. Havens: The Injluence of Müton on English Poetry. A segunda epopéia é o poderoso desmentido da primeira. despedindo-se para sempre da "Merry Oíd England" do Allegro. embora cegó. que é o soneto mais elaborado. e entáo — " true experience of this great event W i t h peace and consolation hath dismiss'd. contra o regimentó episcopal na Igreja. Barroco grave." A historia da influencia de Milton na poesia inglesa é a historia da poesia inglesa depois de Milton ( 1 0 8 ). Barroco sem reticencias e "concetti". Barrocas. reapareceram os "concetti" e antíteses "metafísicas". assim como em Samson Agonistes o herói. para cuja construcao ele mesmo contribuirá. Com ou contra vontade. na poesia de Milton. Tennyson. Keats. escrita na mesma época. porque nao é um confuto estético nem um confuto religioso. que. os grandes inimigos do "style soutenu" na poesia. sao expressoes como o verso "To live with Him. aquela predominancia das "visoes" auditivas sobre as visoes. do futuro. Mass. Pelos recursos usuais da expressao barroca o confuto nao pode ser resolvido. whose bones Lie scatter'd on the Alpine mountains cold " — mas " g r i t o " nao caracteriza bem essa pega eficientíssima. com instinto infalível. até a predominancia do "som" sobre o "sentido". nao é urna continuadlo mais fraca. assím como na tragedia Samson Agonistes. neste sentido. Cambridge. classicista. . grito revoltado contra a chacina dos protestantes piemonteses pelo fanático duque católico — "Avenge. Apenas. nao é "obra de velhice". mais trabalhado da língua. o século X V I I I ." A poesia de Milton é síntese de classicismo aristocrático e puritanismo burgués. A segunda epopéia. "eyeless in Gaza". em favor da liberdade do pensamento e da imprensa até contra os próprios puritanos. O puritanismo antiartístico é a própria fonte da grande arte de Milton — das suas contradigoes e da sua grandeza. Pope. em que sentiu.

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renegam. Quem pretende, na Inglaterra, falar gravemente, fala a língua de Milton, embora seja língua latina em palavras inglesas. Eis a acusa cao — a de exotismo — que sempre se repete, e que levou Keats e Moris á entronizacáo de Chaucer, e Keats e Eliot á entronizacáo de Donne em lugar do poeta puritano. Mas também foi significativa a retratacao posterior do mesmo Eliot, A reacio a favor de Milton é sempre uma reacio moral. E os seus últimos defensores — Tillyard, Pearsall Smith — tém r a z i o : Be Milton é um poeta latino, entáo é Donne um poeta espanhol; e se o Barroco de Donne é "continental" entao criou Milton um Barroco inglés, distinguindo-se dos outros "Barrocos" pela f orea moral. Na gera$io que acompanhou a vida de Milton, a sua influencia conseguiu desviar do caminho até um "metaphysical poet" como Abraham Cowley ( , 0 ° ) . Compondo, entre outras odes "pindáricas", muito pomposas, uma "Oáe Of W i t " ou um "Hymn T o Light", ou lamentando com luxo enorme de alusoes mitológicas e maiúsculas, e trocadilhos esquisitos, a morte do "santo poeta" Crashaw, ou elaborando os mais engenhosos galanteios, é Cowley um típico "metaphysical", complicado, "barroco", insincero. Contudo, em Cowley havia um confuto miltoniano: entre a sua arte barroca e as suas conviccoes, que já se aproximavam do racionalismo científico. Cowley está entre Milton e o classicismo burgués dos Drydens e Popes. Aburguesou o " w i t " dos "metaphysicals", e introduziu ésse " w i t " atenuado na poesía anacreóntica, á maneira de Herrick, criando assim o "society verse", que é uma tradicáo da poesía inglesa. 109) Abraham Cowley. 1018-1667. Poems (1656); Verses lately vrritlen (1663); Several Discourses by way of Bssays (1668). Edigoes por A. B. Grosart, 2 vols., London, 1881. e por A. B. Waller, 2 vols.. Cambridge. 1905/1906. A. H. Nethercot: Abraham Cowley. Oxford, 1931. J. Lolsseau: Abraham Cowley, sa vie, son oeuvre. París, 1931.

O classicismo de Milton deixou vestigios na "metaphysical poetry" do seu colega na Secretaria de Estado de Cromwell, Andrew Marvell ( 1 1 0 ), que depois, sem renegar as suas convicc,oes puritanas e republicanas, soube conformar-se com a Restaurasio da monarquía; a sua memoria aínda vive nos anais da Casa dos Comuns como de um dos membros mais gentis e mais eruditos dessa assembléia. Déste modo, Marvell reuniu as qualidades de patriota e parlamentar "metaphysical" barroco e humanista sereno, tornando-se o gentleman mais fino da historia da poesia inglesa. Antigamente, apenas se dava atencao a algumas poucas poesías suas, pecas de antología conhecidissimas; só em nosso tempo a sua obra inteira foi exposta á luz das análises da crítica moderna, que revelou em Andrew Marvell um dos maiores poetas de língua inglesa. Nos poemas mais longos, como "The Nymph and the Fawn", prevalece o classicismo; e a famosa "Horadan Ode upon Cromwell's Return from Ireland" foi celebrada por Quiller-Couch como a poesia mais clássica da língua; outros a compararam as odes de Malherbe ao reí Henrique IV. Com efeito, Marvell fala ao ditador de maneira muito semelhante: "But thou, the War's and Fortune's son, March indefatigably on, And for the last effect Still keep the sword erect." 110) Andrew Marvell, 1621-1678. Mlscellaneous Poems (1681); The Rehearsal Transposcd (1672). Edl?6es por H. M. Magollouth, 2 vola., Oxford, 1927. e por H. Macdonald, London, 1952. A. Blrrel: Andrew Marvell. London, 1905. P. Legouís: Andrew Marvell, poete, purltain, patrióte. Paris, 1928. V. Sackvllle — West: Andrew Marvell. London, 1929. T. 8. Eliot: "Andrew Marvell". (In: Selected Essays. 2.' ed. London, 1941.) B. Wallersteln: Studies in Seventeenth Century Poetry. Madlson, 1950.

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Mas Malherbe termina em urna apoteose da paz — "Le fer, mieux employé, cultivera la terre, E t le peuple qui tremble aux frayeurs de la guerre, Si ce n'est pour danser, n'orra plus de tarnbours" — enquanto Marvell concluí: "The same arts that did gain A power, must it maintain." Atrás do classicismo patriótico da ode horaciana escondese urna doutrina política que pretende reunir "Sanction" e "Efficiency": é o maquiavelismo, dentro da forma clássica. Marvell, nobremente comovido, nao deixa de ser irónico. Foi grande satírico. " T h e Rehearsal Transposed" é uma sátira vigorosa contra a Restauracáo, a propósito da qual T . S. Eliot se lembrou das investidas de Dante contra Florenca. Mas o "wit" de Marvell tem outro fundamento, e nisso difere essencialmente de Milton: nao é revolta moral, e sim angustia religiosa (evidente no poema " T h e Coronet"), que o leva a desrespeitar as coísas terrestres. Em "To His Coy Mistress", o motivo horaciano do "Carpe diem" alarga-se de repente, abrindo um panorama terrificante: "But at my back I always hear Time's winged chariot hurrying near, And yonder all before us lie Desert of vast eternity." O elemento clássico, em Marvell, manífesta-se na precisao das suas expressóes, na dureza metálica da sua língua, dureza que nao excluí a musicalidade. Mas a inteligencia "metafísica", barroca, prevalece. Classicismo e Barroco estáo, na poesía de Marvell, em perfeito equilibrio, como em paz depois de uma longa guerra; e é esta a situacao humana do poeta. "A Garden. W r i t t e n after the Civil W a r s " chama-se uma das suas poesías; e nesta como em outras poesías bucólicas — "Upon Appleton House" — Marvell revela um

sentimento profundo da natureza, quase pré-romantico, desconhecido no seu século. Nisso também, Marvell é muito inglés; um gentleman em sua casa nos campos. Milton exerceu influencia intelectual sobre Cowley e influencia artística sobre Marvell. A sua influencia moral é que nao aparece nos seus contemporáneos, pelo menos quando se presta atencáo apenas aos escritores cultos. Mas, no sentido moral, havia um miltoniano inconsciente entre a gente iletrada: o caldeireiro ambulante John Bunyan ( m ) é o único escritor de língua inglesa que pode ser comparado com Milton. Bunyan, puritano sectario, aerviu no exército do Parlamento, era soldado valente, mas pouco aproveitável, porque gostava de perdoar aos inimigos, para combater com a maior resolucáo outros inimigos, que apenas existiam ñas suas alucinacoes. O pobre visionario caminhava pelo país, consertando caldeiras e pregando serinoes camponeses. A Igreja, restaurada pela monarquía, n i o podía tolerar essa concorréncia ilegal, e Bunyan passou metade da vida ñas prisoes, pregando aos companheiros de desgraca. As visoes continuaran!: nem na prisao o deixaram em paz os seus inimigos, que sempre o acompanharam, porque eram os seus próprios pecados pcrsonifi111) John Bunyan, 1628-1688. Grace Aboudtng to the Chlef of Sinners (1688): The Pilgrim't Progress From This World To That which is to come (1678/1684); The Life and Death of Mr. Badman (1680); The Holy War (1682). Edicóes das obras completas por H. Stebblnu, 4 vola., London, 1859. Edicóes do Pllgrim's Progress por C. Whlbley, London, 1926. e por G. B. Harrlson, London, 1928. J. W. Mackall: The Pilgrim's Progress. London, 1924. J. Brown: John Bunyan, His Life, Times and Works. 2.» ed. 2 vols. London, 1928. O. B. Harrlson: John Bunyan. A Study in Personallty. London,
1928.

W. Y. Tindall: John Bunyan, Mechaníck Preacher. New York, 1934. J. Lindsay: John Bunyan, Maker of Myths. London, 1937. H. Talón: John Bunyan. Parla, 1951.

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cados. Essas experiencias, descreveu-as numa autobiografia espiritual, Grace Abounding to the Chief of Sinners; e depois resolveu transformar a narragáo em urna especie de romance ou epopéia em prosa, The Pilgrim's Progress. "As I walked through the wilderness of this W o r l d " , assim comega Bunyan; e logo nos ocorre outro comégo: "Nel mezzo del cammin di nostra vita". Assim como o outro mundo de Dante é a imagem fantástica da Italia do século X I I I , assim o mundo de Christian, herói do Pilgrim's Progress, é urna imagem fantástica da Inglaterra do século X V I I , povoada de personagens alegóricas que acompanham, perturbando ou ajudando, o pobre Christian na sua viagem, da City of Destruction para Zion, a City of God. Passa pelos lugares mais estranhos, o Desfiladeiro do Desespero, a Aldeia da Moral, a Colina da Dificuldade, o Vale da Humílhagáo, onde tem de lutar contra o terrível Appolyon; é preso na Feira das Vaidades (a "Vanity Fair" que Thackeray tomou como título de romance), atravessa o Rio da Morte, e chega enfim á Cidade Santa. Quanto mais pormenorizado faz o resumo do livro, tanto mais infantil parecerá. Mas a leitura causa outra impressáo: todas aquelas paisagens fantásticas respiram a atmosfera terrificante do "déjá vu" nos sonhos, todas aquelas personagens alegóricas táo vivas estío que acreditamos té-las conhecido pessoalmente; a leitura torna-se pesadelo, como se fósse o maior thriller entre os romances policiais; e o fim vitorioso é um alivio enorme, como urna verdadeira salvacao. Tudo isso está narrado numa linguagem popular, na qual abundam metáforas militares — reminiscencias do servigo no exército — e sobretudo as citagoes e alusoes bíblicas. Organizou-se urna estatística, segundo a qual a maior parte do texto do Pilgrim's Progress é literalmente tomada da Biblia, leitura principal do caldeireiro. Com efeito, The Pilgrim's Progress é a segunda Biblia das nagoes anglosaxónicas, o Paradise Lost do homem do povo. Mas nao

só déle. "The Pilgrim's Progress", diz Macaulay "is perhaps the only book about which, after the lapse of hundred years, the educated minority has come over to the opinión of the common people." O espirito inglés possui urna capacidade especial de se exprimir em alegorías. Abundam em toda a parte na literatura inglesa, e urna das maíores obras dessa literatura, a Fairie Queen, de Spenser, é alegoría elaboradissima. The Pilgrim's Progress é, porém, a maior obra alegórica da literatura inglesa. Parece mera leitura popular, feita sem arte alguma; e Bunyan nao era, evidentemente, artista, ou entáo, quando muito, seria artista contra a sua vontade que era só pregar e pregar, assustar e consolar os pecadores. Na sua memoria intervieram, além da Biblia, reminiscencias de outras leituras. As semelhangas com Piers the Plowman, outra obra-prima alegórica da literatura inglesa, - e com os "Morality Plays", sao casuais, porque Bunyan nao os conheceu; mas conheceu alguna tratadinhos místicos, e conheceu edigoes populares de velhos romances de cavalaria, talvez o próprio Malory. Da£ certas analogías assombrosas com os Exercitia spiritualia, de Santo Inácio de Loyola, que fóra também leitor de romances de cavalaria; daí a maneira vivíssima de contar aventuras romanescas. Bunyan é romancista e, em certo sentido, precursor do romance moderno: em outra obra de Bunyan, The Life and Death of Mr. Badman, o caminho de perdigáo de um pecador é descrito com o realismo de um Defoe e com as minucias psicológicas de Samuel Richardson. The Pilgrim's Progress é um romance arcaico: o que seria definigao da epopéia. Bunyan seria o Milton do povo. Mas é o The Pilgrim's Progress realmente urna epopéia? A obra revela, na apresentagáo das cenas e na caracterizagao das personagens, as mesmas qualidades dramáticas do Paradise Lost. Bernard Shaw afirmou ocasionalmente que Bunyan era um grande dramaturgo, afastado do teatro pelo puritanismo, e que urna versáo do The Pilgrim's Pro-

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gress para o teatro revelaría fórga dramática maior do que a de Shakespeare. O paradoxo chega a exprimir urna verdade histórica. Em Bunyan, o puritanismo encontrou a aproximagao entre a sua literatura e o teatro, o caminho que Milton nao acertou, por causa dos preconceitos classicistas da sua erudigao literaria, enquanto que Bunyan era homem do povo. The Pilgrim's Progress nao é teatro; mas é a transformagao e continuagao histórica do teatro elisabetano. Em 1642, fecharam-se os teatros, e em 1661 só se abriram para o gósto aristocrático. No The Pilgrim's Progress, o povo inglés encontrou de novo as angustias que o tinham comovido diante das pegas de Shakespeare e W e b s t e r ; encontrou personagens alegóricas, mas táo vivas e imortaís como Hamlet. E mais urna coisa que Shakespeare nao fóra capaz de criar: um enredo inventado, que na imaginacao do leitor se torna verdade vivida, acompanhando-o e guiando-o pela vida fora. Bunyan é, segundo a exprlssao de um crítico moderno, um criador de mitos.

CAPITULO V MISTICISMO E MORALISMO

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P R E S E N T E capítulo, que se ocupa principalmente dos escritores franceses do século X V I I , chamados "clássicos", abre, no entanto, com a discussao da literatura mística espanhola. Nao se trata, evidentemente, de tentativa de aproximagao, que seria absurda. Mas justifica-se a justaposigáo por motivos históricos: de influencias da mística ibérica na psicología que caracteriza, em parte, o classicismo francés. E por mais um elemento comum, embora menos manifestó: o realismo. Meditagoes, contemplagoes e éxtases místicos produziram urna parte importante da literatura espanhola do século X V I I ( ' ) . A bibliografía é imensa — as lcituras místicas eram evidentemente popularíssimas; e em certo sentido toda a literatura espanhola do século é invadida pela mística: Lope de Vega tem poesías sacras do mais puro sabor místico, Calderón é dramaturgo místico, o estoicismo ascético de Alemán e Quevedo aproxima-se mais de urna vez da mística; só Cervantes fica livre, e Góngora duvidoso. E n t r e os místicos por assim dizer profissionais, encontram-se duas figuras das mais elevadas da literatura espanhola: Santa Teresa de Ávila e San Juan de la Cruz. O problema é um dos mais dificeis e delicados da historia literaria. Os místicos nao escreveram para produzir 1) P. Sainz Rodríguez: Introducción a la historia de la literatura miítica en España. Madrid. 1927. E. Allison Peers: Studies of the Spanish Mystícs. London, 1927.

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literatura; a origem das suas obras é a experiencia religiosa, o fim a catequese, e no centro se encontram, iraplicite ou explicite, teorías dogmáticas que a critica literaria nao é capaz de julgar com competencia. Falamos sempre em torno dos místicos, sem chegar até o centro das suas atividades (ou passividades) interiores; sobretudo a distingao entre místicos auténticos e místicos falsos está inteiramente fora da competencia da crítica literaria. A primeira dificuldade reside logo na classificagao daquela enorme bibliografía: sao poucos os místicos que interessam ao historiador da literatura, que aplica déste modo um criterio literario; mas éste nao diz respeito á esséncia ou substancia mística das obras, e nao fornece, portanto, um meio de classificagao. Menéndez y Pelayo propós a classificagao dos místicos segundo as ordens a que pertenciam, porque as tradigoes espirituais das ordens religiosas da Igreja católica sao diferentes. Essa classificagao é cómoda e apresenta a vantagem de reunir as duas figuras máximas, Santa Teresa de Ávila e San Juan de la Cruz, unidas por amizade e atividades comuns, e pertencentes ambos á Ordem do Carmo. A insuficiencia désse criterio revela-se, porém, a propósito de urna das obras mais importantes, embora das menores em tamanbo, da mística espanhola, o famoso soneto "No me mueve, mi Dios, para q u e r e r t e . . . " , que já foi atribuido, sucessivamente, á carmelita Santa Teresa, ao franciscano Fray Pedro de los Reyes, aos jesuítas Santo Ignacio e S. Francisco Javier, e que hoje se atribuí a um missionário Fray Miguel de Guevara, do qual nlo sabemos quase nada ( z ). Em primeiro lugar, é preciso distinguir entre dominicanos de pura tradigáo tomista e franciscanos de tradigáo 2) R. Foulché-Delbosc (in: Revue Hispanlqne, n . 1895). A. M. Carrefio: Ensayos literarios. México, 1915. M.C. Huff: The Sonnet "No me mueve, mi Dios". Its Theme in Spanish Tradition. Washington, D.C.. 1943. M. Batalllon: "El anónimo del soneto "No me mueve". (In: Nueva Revista de Filología Hispánica, 4, 1950.)

escotista, jesuítas da escola de Suárez e agostinhos de tradigáo platónica. A ordem do Carmo estéve, durante a primeira metade do século XVI, em decadencia gravíssima, da qual só a reforma operada por aqueles dois santos a salvou. É a época posterior ao concilio de T r e n t o ; a Espanha torna-se mais eclesiástica do que nunca, e a ortodoxia identifica-se cada vez mais com a filosofía tomista. Os escritores místicos, cuja formagáo é da época anterior, sao diferentes: um dominicano como Fray Luis de Granada nao se haveria, depois, aberto a influencias platónicas. Durante o século XV e a primeira metade do século XVI, a mística espanhola é principalmente ascética; a obra mais significativa é o Abecedario espiritual, de Francisco de Osuna. Pela vitória do tomismo, a ascética separa-se algo da mística, tende a transformar-se em moralismo cristáo; contribuí para isso a doutrina dos dominicanos, que consitleram a mística como mera fase superior da vida contemplativa; e contribuí também a desconfianga dos jesuítas quanto á autenticidade de visóes e éxtases freqUentes. A mística própriamente dita torna-se algo independente: como um ramo separado da teología, no qual se concentran! as correntes platónico-augustinianas, mas sempre com a tendencia superposta de aristotelizar-se. Os grandes místicos dessa segunda fase sao todos franciscanos, agostinhos, carmelitas. Herangas da mística flamenga alimentam o humanismo de San J u a n de la Cruz, enquanto em Santa Teresa prevalece o realismo da raga castelhana, acessível a influencia do realismo aristotélico. Por isso a repercussao da grande religiosa foi mais forte que a do seu companheiro. O meio de expressao daquela tendencia é o estilo barroco. No soneto de Miguel de Guevara que assim termina:

"Muévesme al tu amor en tal manera que aunque no hubiera cielo yo te amara y aunque no hubiera infierno te temiera.

) J. é t e ó r i c o consciente. (2. rusta. d a "ignorantia docta" que olvidou e já ignora o m u n d o e as suas "imágenes" sensoríais. s i n o t r a luz n i g u í a S i n o q u e en el c o r a z ó n a r d í a . Triunfos del amor de Dios (1590). París. Manual de vida perfecta (1608). a " n o c h e " é o s í m b o l o da i g n o r a n c i a s u p e r i o r . Sala. A s influencias flamengas." 4) R. 1905. 1936. s o b r e t u d o de Ruysbroeck. O q u e p o d e s e r d e s c r i t o é s ó o i t i n e r a r i o p a r a ésse fim. Edicfio por P. A e x p r e s sao ¡ m e d i a t a das s u a s e x p e r i e n c i a s místicas f o r a m a l g u m a s poesías.. R. Valencia.. s í m bolo misterioso. Alllson Peers: Saint John of the Cross. Edlcfto por J. Salinas. J . Nao se pode qualificar de outra maneira o estilo de S a n J u a n d e la C r u z ( 4 ) . e. " r e c o n h e c e m . a ignorancia das c o i s a s d i v i n a s n o h o m e m c a í d o — " E n una noche obscura.<>>)(> OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA L I T E R A T U R A OCIDENTAL 997 N o me t i e n e s q u e d a r p o r q u e t e q u i e r a . para viver só á "presencia de Dios": "Aquesta una fuente que deseo. . 1946. París. É o e s t i l o . Dámaso Alonso: La poesia de San Juan de la Cruz. 1943. e q u e s e p a r a S a n t a T e r e s a e S a n J u a n d e la C r u z d o s é c u l o X V I em que viveram e morreram. Toledo. E m p r i m e i r a l i n h a . Paria. 3 vols. Cambridge. Buenos Aires. Gerardo de San Juan de la Cruz.s e ¡ m e d i a t a m e n t e a s a n t í t e s e s como p e t r a r quismo "a lo divino". Garrlgou-Lagrange: Perfection chrétienne et conté mplation selon Saint Thomas d'Aguin et Saint Jean de la Croix. London. Edicáo das poesías por P. 2 vols. . etc. sao c o n t e m p o r á n e o s d e M i g u e l A n g e l o e Tasso. A própria e última e x p e r i e n c i a m í s t i c a . E n este p a n d e v i d a y o la veo. sao b a s t a n t e f o r t e s n o f r a n c i s c a n o F r a y J u a n d e l o s Á n geles (3). Descola: La quintessence de Saint Jean de la Croix. d o q u a l nao e x i s t e m a n t e c e d e n t e s nos dois L u i s e s . Sencourt: Carmelite and Poet. El Escorial. humanista platónico com certa dose de sentim e n t a l i s m o . Oh dichosa ventura!" ' — e a ausencia "subida" — de impressoes sensoríais. Baruzi: Saint Jean de la Croix et le probléme de l'expértenc» mystique. Aunque de noche. significando. Afinal. C o n a n s i a s en a m o r e s i n f l a m a d a . colocando-os as portas d o B a r r o c o . p a r t i n d o das " t i n i e b l a s " d o p e c a d o . P. 1952. q u e é o s í m b o l o m a i s f r e q ü e n t e da poesia d o s a n t o . 1542-1591. a t r a v e s s a n d o a " n o c h e o s c u r a " . c o n d i s t o da " . 1932. Obras Espirituales (1618).a edlcfio. Madrid. 1943. J . Madrid. enfim. é ¡nefável. ao mesmo tempo. e todo o resto da sua literatura — as grandes obras Subida del Monte Carmelo e Noche oscura del Alma — é comentario teológico daqueles poemas. 1536-1609. 1927. 1942. . q u e se m a n i f e s t a a t r a v é s d a t o n a l i d a d e b a r r o c a d o s e u estilo. resultado do processo aristotélico-barroco de santificar a poesia profana. . 1912/1914. San Diego: Aftísica y ritmo en la poesia de San Juan de la CruM. Encinas y López Espinosa: Las poesías de San Juan de la Cruz. E. a u n i á o c o m D e u s . Domínguez Berrueta: Fray Juan de los Angeles. . E o s a n t o é u m g r a n d e h u m a 3) Fray Juan de los Angeles. 1924. que aunque q u a n t o espero no esperara l o mismo q u e t e q u i e r o t e q u i s i e r a . 1912/1917. Madrid. 1926. John of the Cross. San Juan de la Cruz (Juan de Yepes y Alvarez). A Framed Portraít of St. quer dizer. " .

sinais racionalmente compreensíveis de sentimentos írracionais. táo freqüentes na poesia espanhola. fora da sua poesia. La soledad s o n o r a . A "ignorancia" seria a imagem do próprio subconsciente: "Éntreme donde no supe. sendo a quarta a reinterpretagio dos símbolos estoicos. y déjeme. porque incapaz de ser parafraseada em conceitos racionáis. antiteses das quais — segundo observagoes de Azorín e Sencourt. Fica apenas a própria expressáo como conteúdo. " A poesia do santo é "poésie puré". e Pedro Salinas salienta. entáo é poesia. o maior "poeta noturno" de todos os tempos. sem o menor elemento narrativo. é. um espirito solar. porém. em Duns Scotus. Pensa-se em Suárez. é um conceito da tradígáo platónico-augustiniana. no qual a interpretagáo psicanalítica se pudesse apoiar. ." O santo teria explicado essas imagens como poesia erótica "a lo divino". Evasao é fuga. Essa analogía com o romantismo de poetas conscientemente medievalistas é bastante curiosa. é o seu guia para os misterios sacramentáis.998 OTTO M A F I A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDEMTAL 999 Déste modo. Dejando mi cuidado Entre las azucenas olvidado. antiteses que também se encontram em Vaughan. Por isso. as suas citacoes latinas mereceram estudo especial. San Juan de la Cruz. Por isso. "poésie puré". um humanista. o caráter centrípeto dessa poesia puramente emotiva. chegando a tornar-se provocantes: "Quédeme y olvidéme. Toda ciencia trascendiendo". Baruzi coloca no centro do seu estudo sobre o santo o problema: alegoría ou símbolo? Se a poesia de San Juan de la Cruz apresenta alegorias. didática. alegorias. que preferem a interpretagáo da mística do santo segundo conceitos menos rigorosos. e quanto á sua frase: "Más vale un pensamiento del hombre que todo el mundo" — será difícil decidir se lembra mais Pascal ou Descartes. . com razáo. y quédeme sabiendo. A experiencia mística nao separa da Igreja o santo. talvez quatro significagóes. o seu último termo é "música callada". Mas essa interpretacao leva a contradicoes inextricáveis. na qual Deus está presente no "pan de vida" da Eucaristía. La música callada. Cesó todo. com razao Alois Mager rejeitou as interpretagoes tomísticas de Garrigou-Lagrange. para "hacer más representable un concepto". merecendo com isso os aplausos dos jesuítas. ao contrario. do silencio e da "soledad": "La noche sosegada E n par de los levantes de la aurora. "soledad sonora". A psicología moderna poderia interpretar o niilismo da "noche obscura" como eliminagao da "censura" da consciéncia. apresenta timbólos de experiencias ihefáveis. "aunque en la noche" déste mundo. como "evasáo abismal" através do subconsciente. Em todo o caso. San Juan de la Cruz é mais medieval do que os seus contemporáneos . O termo noche tem pelo menos tres. nem sequer didático. A s imagens sexuais sao freqüentes. o santo continua na presenga de Deus. A poesia de San J u a n de la Cruz nao apresenta. A poesia religiosa de San J u a n de la Cruz é a poesía mais erótica do Barroco. respectivamente — irá lembrar-se o romantismo de Novalis e Wordsworth. El rostro recliné sobre el Amado. e nesse caso a interpretagáo psicanalítica é justificada: seria a racionalizacáo do que a "censura" moral nao deixa passar pelo limiar da consciéncia. por assim dizer.

Truc: Les mystiques espagnols. tornado luminoso — "aunque de noche". London. porém nao deixa de produzir graves inconvenientes e incompreensóes. na qual só eleitos podem respirar. Santa Teresa nao era mulher erudita. o "conceptismo": jógo de conceitos. nao teve objecóes que opor ao conceptismo. Juegos de Noches Buenas a lo divino (1605). Am.1000 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1001 renascentistas. 1948. Alllson Pers: Saint Teresa oj Jesús. pela sua "pureté" realiza o milagre de exprimir a "música". Os maiiuais antigos da historia literaria espanhola empenharam-se em destacar o poeta Alonso de Ledesma ("). Libro de su vida (1562)/1565). Edlcóes por V. que sempre darao a preferencia a Fray L u i s de León. G. Na verdade é Ledesma um místico. de la Fuente ('Biblioteca de Autores Españoles'. realiza-se no Barroco estoico de Quevedo.Hoornaert: Saint Thérése. Burgos. e da erudi$ao humanística do companheiro separou-a um realismo profundo. porém. fora das discussoes e até fora do t e m p o . A justaposicáo usual de Santa Teresa (°) e San Juan de la Cruz justifica-se pela amizade e as atividades comuns dos dois grandes santos. A doutrina de Ledesma é tentativa de tornar "a lo divino" o gongorismo. L m e LV). mas o apelido era bastante inexato. Paria. Mas a poesía de San Juan de la Cruz está. exprime mística medieval em versos barrocos. Góngora nao é místico. O seu antiaristotelismo talvez inconsciente. 1953. por sua vez. 6) Santa Teresa de Avila (Teresa de Cepeda y Ahumada). 1562-1623. A índole popular da devo$áo teresiana já foi objeto de estudos especializados. Hahn: Die Probleme der Hysterie und (Lie Of/enbarungen der hl. Na verdade. Cartas (1562/1582). écrivain. Leipzig. 1929. os autores daqueles manuais nao sabiam bem onde colocar históricamente ésse Ledesma. 1921. has Moradas o el Castillo interior (1577). minia época na qual a existencia do platonismo já era precaria. que os gongoristas. que é o próprio conteúdo da indizível experiencia mística. 1912. parecendo-nos que "conceptismo" e "culteranismo" fóssem mais ou menos a mesma coisa. até a expressáo da santa é popular. "a lo profano". a "soledad sonora". como o maior poeta da língua castelhana Nao concordaram com isso os humanistas como Ortega y Gasset. Como se vé. O guia poético através dessa ponte foi Garcilaso de la Vega: sua poesía renascentista é a base da expressáo poética do santo. 15151582. se bem que nao dos mais profundos. Ledesma é "realista" no sentido escolástico da palavra. Madrid. em mais um sentido. a distincio é bastante precaria. Sllverlo de Santa Teresa. os seus jogos de palavras baseiam-se em teorías augusti•i • — nimias sobre a realidade dos conceitos abstratos. o maior inimigo do culteranismo. Castro: Santa Teresa y otros ensayos. fundador de urna "escola" esquisita de poesía. que a transfigura "a lo divino". A secularizagáo do conceptismo. XXXV. Camino de perfección (1570). M. O. M. por isso. Madrid. em vez do suposto jógo de palavras dos gongoristas. e com isso demonstrou consciéncia perfeita do humanismo do santo. 1922. pertencentes á mesma ordem. . que Quevedo. vols. 1922. R. Dámaso Alonso considera San Juan como o supremo realizador da poética garcilasiana. colocou Ledesma perto de outras correntes "oposicionistas" do Barroco. Aconteceu. Libro de las fundaciones (1567/ 1582). e depois em Gracián. 1906. A santa costumava chamar a San Juan "mi pequeño Séneca". vol. Conceptos espirituales y morales (1600/1612). Lepée: Le realisme chrétien chez Sainte Thérése d'Avila. Theresia. E. Edlcáo em: "Biblioteca de Autores Españoles'. é naturalista. longe da atmosfera celeste de San Juan. e por P. B vols. Com Santa Teresa estamos em térra firme. París. combateram. e talvez pelo mesmo motivo os manuais mais recentes lhe omitam o nome. Sainte Thérése et Saint Jean de la Croix. París. típicamente castelhana. Mlr: Santa Teresa. 5) Alonso de Ledesma Buitrago. a do Carmo. A sua doutrina é urna ponte entre a mística flamenga e a poesía barroca.

um grande homem de acao. nos quais a Virgem aparece aos irmaos leigos na cozinha do convento. Há em Santa Teresa algo de D. quase se diría. e a forma aristocrática de certos pensamentos teresianos baseia-se antes ñas leituras preferidas da sua mocidade: os romances de cavalaria. a poeira e os ladróos com ares de fidalgos. entre los pucheros anda el Señor". o leitor lembra-se do realismo popular das "comedia» de santos" e dos quadros de Murilo. Teresa. faz menos parte da sua santidade que da sua historia. que é urna dessas testemunhas. com os olhos voltados para o Céu — a estatua barroca de que a Contra-Reforma espalhou mil exemplares pelas igrejas da Europa católica. A grande santa foi histérica. mostra a santa. Versoes populares dos mesmos romances encantaram o pobre caldeireiro ambulante J o h n Bunyan. incomparávelmente mais realista que o seu companheiro-poeta. Com efeito. dizia ela. Na memoria. prática. e talvez um estudo comparativo revelasse analogías curiosas entre a viagem perigosa do herói do Pilgrim's Progress pelas paisagens de urna Inglaterra fantástica e as viagens penosas da autora do Livro de las fundaciones pela Castela muito real. a futura santa gostava de 1er romances de cavalaria. mas pouco diplomáticas. emprega com gósto as frases saborosas da gíria. A energia da sua expressáo é enorme.' 1002 OTTO M A R Í A CABPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1003 A origem aristocrática da familia nao é circunstancia distintiva num país de "hidalgos" e num século aristocrático. pernoitando em tavernas miseráveis. e o Libro de las fundaciones. pelo humor. e contudo iluminada de visoes místicas que Bunyan tampouco desconhecia. fica urna outra Teresa: urna santa pomposa. após a análise discreta dos documentos pelo bolandista Hahn nao restam dúvidas. a verdade divina. ás autoridades eclesiásticas que pretendem impedir-lhe a re* forma do Carmo. lutando contra o sol. da sua paixao pela boa causa. independente como o Cid. ñas cartas. Quixote. porém. como de qualquer outra doenca. de Teresa de Cepeda y Ahumada. altiva. dá os conselhos mais pormenorizados sobre administracáo e manutencao dos conventos. Teresa é da velha estirpe de Castela: sobria. como D. exaltado. As irmas. E a santidade foi mais forte: as histéricas sao egoístas e esgotam-se em atividades fingidas. franquezas inesperadas e luzes de humorismo. até ao nuncio apostólico e ao próprio rei escreve com a consciéncia da sua missáo. nao existe contradicho entre as duas qualificacoes. montada na muía. pela capacidade de acáo. e admitindo-se que santidade auténtica pode ser acompanhada de histeria. e á ascese dedicou a santa urna das suas obras capitais. o aspecto extático. pelas estradas reais. grande dama de Espanha. do seu romantísmo. A mais famosa dessas esculturas é a que o grande Bernini fez para a igreja de Santa Maria della Vittoria. Por essa atividade pertence Santa Teresa á ContraReforma: á época posterior do concilio de Trento. "No está . vencendo todas as dificuldades. viajando. supramundano. Santa Teresa é urna santa popular. Sobretudo a leitura das suas cartas impressiona pelo realismo. Santa Teresa tem a memoria cheia de lendas assim. a mística de Santa Teresa é mais ascética. Na mocidade. em Roma: a santa desmaiando perante a visáo inconfundivelmente erótica de um anjo. fundando e visitando conventos e salvando a Igreja moralmente calda da Espanha. ajudada pela linguagem algo arcaica. "que si es en la cocina. o Camino de perfección. empregando expressoes respeitosas. o relatório realista das suas atividades monásticas. época na qual urna "nuvem de testemunhas" demonstrou ao mundo. a santa era o amor encarnado e. á época da fundacáo de muitas novas ordena e c o n g r e g a r e s e do desenvolvimento da Companhia de Jesús. Mas. Quixote. Teresa opoe-se com energia indomável. De maneira bem espanhola. exibe. Francamente. pela agio e pelo pensamento. enquanto a histeria nao fór indicada como fonte de pretensa santidade. parece limitada á ac¿áo. Valbuena Prat chamou a atencáo para o realismo da devocáo da santa: "Entended".

os santos. É característica a obra de um escritor de talento extraordinario. esta cárcel y estos hierros en que está el alma metida I" O pensamento é o do platonismo renascentista. 1530-1589. com7) P. 1867. Rousselot: Les mystiques es-pagnols. Assim como Santa Teresa ae apóia. assim ela encarna o misticismo realista. um lugar-comum da mística européia e. 1867. o misticismo de agio que se aliou ás forjas da Contra-Reforma. revelando-lhe a significagáo dos sofrimentos humanos. Assim. na adoracáo do Santíssimo Sacramento. Na patria de Santa Teresa. Las Moradas o el Castillo Interior é o maior livro de devogáo mística em língua espanhola. Contradicoes tais só se encontram no Barroco. sentimentalismo e pré-romantismo. a energia ardente — e mai» urna coisa que se revela nos versos seguintes: ." Nestes versos está Teresa inteiramente: a religiosidad* popular. 8) Fray Pedro Malón de Chaide. a Virgem e o próprio Redentor. do sentimentalismo literario. em doutrinas da mística platónicoaugustiniana. e que se esgotou com ela ( T ). A historia bíblica e as vidas dos santos. e Teresa foi. ao realismo aristotélico. vivissima. tipico da raga espanhola. ameagada pelo intelectualismo neotomista e depois pelo racionalismo filosófico. y causa en mi tal pasión ver a Dios mi prisionero. Teresa vive na liturgia. Grande poesia nao é nunca sentimental. Entáo. P. a fórga de vencer o século que identificou mística e angustia — para que a tradigáo platónica chegasse ao século X V I I I . sino e n amar mucho. poetisa rara mas inspirada. e também com a expressao popular. incompatível com o ativismo da santa. e quando Teresa percebe que se encontra em uniao mistica com a divindade. qué larga es esta vida qué duros estos destierros. cheios de sangue. da qual a Espanha t e tornou campea. afigurase-lhe que entram na sua cela. talvez sem sabé-lo bem. cai desmaiando. e Félix García. a mistica continuou como religiosidade popular. vols. París. Malón de Chaide ( 8 ) : na sua Conversión de ¡a Magdalena. narraglo ascética. c. Teresa deu á tradicao mística medieval.1 1004 Orro MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1005 la cosa en pensar mucho. é a grande visionaria. e talvez em qualquer língua. o P." A sua religiosidade fundamentalmente popular exclui os vóos do pensamento teológico. La conversión de la Magdalena (1578/1583). Edi?áo por FéL T3arcia ('Clásicos Castellanos'. "Aquesta divina unión y el amor con que yo vivo hace a mi Dios mi cautivo y libre mi corazón. além de prosadora. A energía do pensamento antitético — "Todo y Nada" — só é superada pela ternura dessa alma que foi realmente aquilo a que aspirava: urna "alma hermosa". como os quadros naturalistas. Em Teresa nao há nada disso. ñas igrejas espanholas. París. depois. A expressao tornou-se. sem o saber. Rousselot: Les mystiques espagnols. Esta missáo histórica da mística teresiana realizou-se fora da Espanha. o editor moderno dessa curiosa obra. conversando com a humilde religiosa. CIV/CV) (com Importante Introducto). que muero porque no muero. é Teresa urna santa do Barroco. ela as vé como quadros vivos. o realismo torna-se naturalismo. em tempos posteriores. o extase visionario. transformando "a lo divino" glosas populares de amor ardente: "jAy. quando se transformará em pietismo. Como representante dessa mística da agio. pertence. no qual se enquadra também melhor o ascetismo moralista de Santa Teresa. Essas cenas.

Henri Bremond revelou essas transformacóes. Bremond: Histoire littéraire du sentiment religieux en Frunce depuis la fin des guerres de religión jusqu'á nos jours. tolerando abusos e supersticóes. Entre S. A mística espanhola exerceu sobre ésse movimento influencia decisiva. redescobrindo urna vasta literatura mística. ás exigencias da Contra-Reforma tridentina. mas as duas obras representativas da controversia. de D'Aubigné e a Satire Menippée. os livros ascéticos espanhóis influenciaram a literatura edificante dos luteranos alemáes. 10 vols. Essa repercussáo nao se limitou aos países católicos. foram traduzidos para todas as línguas e contribuíram para a repercussáo universal da mística espanhola. de tal modo que desde entáo existem as famosas "duas Franjas". por galicanismo inveterado. a mística espanhola chegou. Mas a primeira fonte da renovacáo religiosa é de origem italiana. Eis o quadro sombrio. Apesar disso. ter sido teatro de profundas transformacóes religiosas. Mas a obra de Malón de Chaide é a de um grande artista. a Franca devastada era também um deserto espiritual. o que explica a aversáo dos patriotas italianos. cindindo a literatura francesa em dois campos inimigos. gritos do povo e tiros dos soldados. 1947. no holandés Dullaert encontra-se um eco da poesía mística espanhola. portanto. a paci8) Juan Eusebio Nieremberg. nos quais se mistura a uncáo as descricoes macabras e terrificantes e ao ascetismo sobrio dos castelhanos. renovando-se a luta. satisfazia-se com resultados superficiais. ficagáo pelo reí Henrique IV baseava-se no cansaco geral da nacáo e no indiferentismo religioso do monarca. Urna situacáo das mais complicadas encontrou a mística espanhola na Franca: parte do país era protestante. (2. Terminadas as guerras de religiáo. ésses santos que se levam em procissáo pelas rúas das cidades espanholas. 1595-1658. os livros de Nieremberg. Petrocchi: La Controríforme in Italia. com estatuas de santos suando sangue e chorando lágrimas de pedras preciosas. urna querela religiosa. familiar aos leitores 10) H. sob etiquetas ideológicas sempre diferentes — "plus ca change. produzindo o fenómeno de urna Renascenca católica. 11) M. renovando completamente a historia literaria francesa do século X V I I ( l 0 ) . Montreal. 1916/1932. Só meio século depois. de Reynold: Le XVlie Siécle. acompanhados de cortejos de ascetas. É a Espanha pitoresca. e por isso menos popular do que os escritos do jesuíta Nieremberg ('•'). Les Tragiques. Francisco de Sales e Port-Royal.I 1006 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1007 para-a com a escultura espanhola em madeira. agradando ao gósto barroco. J. c. . París.: París. a Franga deve. sobretudo a aristocracia e a burguesía. e a parte católica se opós. dirigida contra a corrupsáo moral do clero e exigindo do povo principalmente obediencia litúrgica. em torno dos jansenistas de Port-Royal. como em toda a parte. que escaparam á atencáo dos historiadores da literatura. Paris. Rousset: La Ifttérature de l'áge baroque en France. As guerras de religiáo deixaram reflexos em toda a literatura francesa da época. juntamente com urna vaga de humanismo cristáo. nao tiveram conseqüéncias. usando de complacencia para com os poderosos. 1935. Le Classique et le Baroque.) O. A Contra-Reforma na Italia ( n ) foi feita. c'est la méme chose". e a propaganda. Jeremy Taylor e Richard Crashaw celebraram e cantaram Santa Teresa. De urna controversia teológica nasceu a literatura francesa moderna. Roma. em Ronsard nao menos do que em Montaigne e Malherbe. esquecida. A violencia estava aliada a dominacáo espanhola. De la hermosura de Dios y su amabilidad (1641). 1944. 1953. pela propaganda e pela violencia." ed. Diferencia entre lo temporal y lo eterno (1643). sacudiu a Franca inteira. na prímeira metade do século X V I I . criando hipocrisia generalizada. de vez em quando.

. 2. consistirá em rejeitar a doutrina augustiniana da predestinagao. Flrenze. H. Francisco de Sales nao pensava. O próprio santo nao pareceu satisfeito com a redagao da Introducían á la vie dévote. pela confianca no homem. dirigida pelo santo Arcebispo Cario Borromeo e. assegurou a vitória pela fundagao da Ordem das Visitandinas. U m representante extraordinario da religiosidade popular foi o franciscano Fra Bartolomroeo Cambi da Salutio ( 1 I _ A ). 1935. de origem jesuística. manuais de moral crista para gente culta e bemeducada. manuais de um cristianismo sereno. emendou muito. depois. pelo Cardeal Federigo Borromeo.» ed. I. Francisco de Sales salientou que o homem depende de Deus. mas do Deus do amor. • te pela sua formagáo italiana. pretendía apenas demonstrar que em nossa própria natureza agem fórcas moráis paralelas e que.* ed. 1619). Da Savóia. Fóra aluno da Universidade de Pádua. de Manzoni. em 1585. calmo e até alegre. etc. Na apresentaqáo literaria revela-se a tendencia geral da Contra-Reforma. á "ataraxia" estoica. Introduction d la vie dévote (1608.» ed. florido. aceitando a tese do mérito das obras humanas. Partí. Strowskl: Saint Francois de Sales. Francisco de Sales é humanista como Erasmo ou Montaigne. figurando dignamente entre S. pela fundadlo de colegios e obras de caridade. Archambault: Saint Francols de Sales. París. e sim o equilibrio sereno das fórgas humanas e das fórgas divinas. o estilo desmente logo a comparagáo: é um estilo temo. 2. París. da cidade de Calvino.. reconquistou os territorios calvinistas em torno de Genebra. 1928. 2. gostava das leituras clássicas. das me- . portanto. Bremond: Histoire littéraire du sentiment religieux en Frunce devuis la fin des guerres de religión. Assim. ao lado de santos ativos como Camillo de Lellis. é claro. dos diretores de consciéncia. mas ficou o gósto das exclamagoes. cita Séneca. no sentido da harmonía mais clássica. Obedecendo ás diretrizes do Papado. na segunda edigáo. Vol. das comparagóes longamente desenvolvidas. até florido demais para o nosso gósto. estava em relacáo com isso a complacencia. asceta. Desta parte literarias das atividades do santo nasceram os seus livros.1008 OTTO M A B I A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1009 de I promessi sposi. o apostólo da Sabóia. Neste sentido. pregador popular de repercussao imensa. Traite de Vamour de Dieu (1616). a religiao nao é urna intervengao severa do moralismo contra a natureza humana. Apenas. 1925. humanista. 1567-1622. Sarrl: II venerabíle Fra Bartolommeo Cambi da Salutio. em primeiro plano. 24 vols. Se ésse equilibrio se assemelha. Francisco de Sales. da qual o santo era bispo. e n t l o provincia do ducado italiano de Piemonte. surgiu o santo que na Franga continuará a obra de San Cario Borromeo: S. A sua própria "conversao". senáo por vézes a laxidáo moral. 1892/1918. o fim nao é inacessível nem de dificuldade sobre-humana. S. Francisco e Savonarola. de 1619. S. poeta sacro. isto é. 1927. Dos apostólos italianos da Contra-Reforma distingue-se Francisco de Sales justamen11A) F. também nos sermoes e na vasta correspondencia com amigos e amigas que se confiaram á sua direcao espiritual. Francisco de Sales ( 1 2 ) é. Edlcáo das obras completas pelas Réllgleuses de la Vlsitatlon d'Annecy. O centro de autenticas atividades reformadoras era a curia arquiepiscopal de Milao. Na Italia também apareceu numa "nuvem de testemunhas" extáticas como Santo Giuseppe da Copertino e Santa María Madalena de'Pazzi. místico extático. P. 12) Saint Frangote de Sales. assim como San Cario Borromeo havia trazido de novo ao catolicismo as regioes protestantes do Veltlino. expressáo de um cristianismo amoroso. em facilitar o cristianismo. a tendencia de se dirigir principalmente ás classes superiores da sociedade. Annecy. F. Aos estudiosos modernos a Contra-Reforma italiana revelou mais outros aspectos. por vézes. como o fizeram Lipsius e Montaigne. nio do "Deus absconditus" dos calvinistas.

O primeiro centro da Renascenga religiosa ficará as fronteíras da Italia. que foi durante dois séculos o bergo do catolicismo liberal. opor-se-á a tendencia mais rigorosa dos oratorianos. p e l o P . 4 ) . Jean-Jacques Olier (1608-1657)." É pleno Barroco. veio a tornar-se católico zeloso. A fundadora do primeiro convento de carmelitas descaigas. as influencias italianas juntam-se influencias da mística espanhola. De inicio. antes de entrar para a ordem. com ele. que no convento se chamou Marie de l'Incarnation. grande mística e fundadora dos conventos das ursulinas no Canadá. Francisco de Sales iniciaram ( . a sua biografía. quando muito. mas que nascera além dos Pireneus. Philippe Thibaut é o primeiro grande carmelita francés. Charles de Condren (1588-1641). o fundador dos lazaristas e das irmás de caridade. é lá que se fundam os primeiros conventos franceses dos oratorianos e das ursulinas. em 1643. é apreciada como sendo o primeiro romance psicológico. Francisco de Sales continua a agir em S. A mentalidade ativa e serena de S. Nao chegou ele ao classicismo. e ligado a círculos muito diferentes como secretario do Cardeal Richelieu. apesar dos seus costumes relaxados. intimamente ligada ao Barroco dos "pré- . " Amelóte. cai no movimento místico francés a sombra de Antonio Pérez. S. especie de pendant religioso do Hotel de Rambouillet. O Pére Joseph era o diplomata mais temido de seu tempo. O monarca rejeitou ainda o reconhecimento oficial dos decretos de T r e n t o . segundo as regras de Santa Teresa. é Barbe Avrillot. ligado aos "précieux" como autor de urna epopéia heróico-sacra. a que Bremond chama "École frangaise". Bremond: Histoire littéraire du sentiment religieux en Franca despuis la fin des ouerres de religión. Vicente de Paula (1576-1660). que razoes de Estado haviam convertido ao catolicismo. Sulpice. que faz p a r t e do Barroco. Bremond exprime-se claramente: "Marie de l'Incarnation est notre Thérése. escrita em espirito teresiano. e já se sabe que no século X V I I espanholizagao significa Barroco. Parí». e do manual De la dévotion aisée (1652). ao aristotelismo estilístico. Porém o seu "catolicismo para gente culta e bem-educada" será o do classicismo francés dos grandes senhores e grandes damas que brilham na corte e se dedicam. 14) H. de feicáo italiana. ' Durante o ano de 1602. E entre ésses discípulos de Bérulle e amigos de Madame Acarie encontrava-se o capuchinho Pére Joseph. mas. Vols. m . em Paris. mas éste já é discípulo da maior figura 13) F. clandestinamente. n .1010 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1011 táforas novas ( l 3 ) . 1923. Francisco de Sales estéve em Paris. Vincent: Le travail du style chez saint Frangote de Sale». A revelagao do movimento místico tem como conseqüéncia a revalorizagáo da literatura religiosa da época. fundador da "École fransaise". autor da epopéia sacra Saint Louis ou le héros chrétien (1653). É a época do "humanismo devoto". é hoje considerado por alguns historiadores católicos como verdadeiro genio religioso. a leituras edificantes e obras de ascese e caridade. Madame Acarie era centro de um saláo. que Pascal atacará. Turcias. em língua latina. O rei Henrique IV. superior ao próprio Pascal. mas desejava e apoiava a Renascenca religiosa que de um lado os jesuítas e do outro lado os amigos e discípulos de S. Madame Acarie. 2. entre os novos apostólos da Franca: o Cardeal Pierre de Bérulle (1575-1629). Déste círculo sai Marie Martin (1599-1672). entre cujos representantes principáis Bremond incluí o jesuíta Pierre Le Moyne. O espirito de Bérulle conservou-se mais puro entre os oratorianos franceses: o maior entre éles. encarnagáo do "secretario diabólico" do maquiavelismo lendário. saláo freqüentado por Bérulle e os seus discípulos.» ed. na Provenga. 1935. Organizou em 1611 o Oratorio francés e reorganizou o Carmo — Bérulle já estava imbuido de mística espanhola. Ao humanismo devoto. París. é o fundador do Seminario de St. Outro oratoriano da época.

Agatomphile ou Les Martyrs siciliens (1623).A ). Edlcao das Poesías por A. empregando termos militares para descrever as cenas da Paixao. 1/1. 1603-1654. Palombe ou La femme honorable (1624). París. O. Nao se encontra em oposicáo ao nascente classicismo de base aristotélica. na relacao entre Garcilaso e os poetas barrocos. Vol. 1943. 16) Jean de La Cépéde. mas preciosa como testemunho do Barroco francés. H. Médltatians sur les psaumes (1588). porque imbuido do realismo que aprenderá na mistica espanhola. 1939. P. Leipzig. "précieuse". 1926. as vézes. 1953. Rousset: La Litterature de l'&ge baroque en France. antes é seu precursor (*°. 16B) Jean de Sponde. e a Cristo diz o poeta: "Tous vos faits. representantes literarios da Renascenca religiosa. 1582-1653. Edlcao da Palombe por H. Sonnets d la mort. 1935. Camus escreveu romances semelhantes com fins diferentes. París. pelo menos. Festuglére. Stances. Assim como aconteceu na Espanha e na Inglaterra. Vol. Théorémes sur les sacres Mystéres de notre Rédemption (1613). por vézes. que se exprime em formas barrocas: é a literatura barroca da Contra-Reforma francesa: classicismo religioso. O "vexilla regis prodeunt" torna-se "Les cornettes du Roí volent par la campagne". París. 2. de literatura "a lo divino". Bispo de Belley. Paris. Da mesma estirpe é Sarrazin ( l 6 " c ) .) 16C) Jean-Francois Sarrazln. Mennung: Jean-Frangois Sarrazin's Leben und Werke. 1550-1622. Na Franca. 1943." 15) Pierre Camus. imbuida de espirito religioso. aquéle grande precursor do estilo barroco 16A) J. "Jean de Sponde e 11 problema della poesía barocca In Francia". Assustado pela influencia erótica.• 1012 OTTO MARÍA CAHPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1013 cieux": Desmarets e Godeau. Mácenla. Edl?ao das obras por P. do "Siécle de Louis X I V " . igualmente ilegível. 1906. Nao se esquece.» ed. Arland: L'oeuvre poétique de Jean de Sponde. Bremond: Histoire littéraire du sentiment rellgieux en Frunce depuis la fin des guerres de religión. 1853. Parto. Palombe ou La Femme honorable é urna Astrée "a lo divino". Anry: Anthologie de la poésie religeuse francaise. d o s romances pastoris 'e de aventuras. I. também na Franca aquela poesía barroca tem raízes renascentistas: seus precursores sao últimos rebentos da "Pléiade". H. e inversao semelhante encontra-se no processo poético de Jean de La Cépéde ( I C ). Francisco de Sales. La Cépéde faz parte de urna extensa literatura religiosa ou. 1950. enfim. Ruchon. com as expressoes que seu contemporáneo Andreas Gryphius dedica á Alemanha devastada pela Guerra de T r i n t a Anos. 1936. Halle. (In: Mesures. Rlgault. Trata -se. O mais importante désses intermediarios. sein Leben und seine Romane. I. considerada nefasta.a ed. como no caso de Pierre Camus ( 15 ). (In: Letteratura. Bremond: Histoire littéraire du sentlment rellgieux en Frunce depuis la fin des guerres de religión. Paris. Jean de Sponde ( 1 0 " B ). D. tous vos dits ont un sens héroique. entre os Úricos elisabetanos e os "metaphysical poets". 1902. Boase: "Jean de Sponde". que empregaram imagens religiosas para exprimir sentimentos eróticos. colaborador e amigo devoto de S. 2. . 1557-1595. c. Boase e F. BÓ recentemente f oi redescoberto. cujos sonetos sobre o desolamento material e espiritual da Franca se parecem. A.) M. A. A maneira de escrever "a lo divino" é a inversao barroca do processo dos petrarquistas da Renascenga. Bayer: Pierre Camus. é esta a especialidade do "conceptist a " Desportes. 1963. aparecem entre os autores de epopéias heróico-sacras e de romances heróico-galantes. após um esquecimento de mais de tres séculos: em formas ronsardianas exprime angustias religiosas que letnbram Pascal. París. A. Oénéve. Poésies (1597).

Vol.a l o g o d e p o i s c o m urna p a r o d i a h e r ó i . Psaumes (1648). Parla. A mesma mentalidade aristocrático-católica inspira a epopéia h e r ó i c o . B r é b e u f c o m p l e m e n t o u . Le Cantíque des Degrés. (Cf.1014 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA L I T E R A T U R A OCIDENTAL 1015 e m l í n g u a francesa que foi A g r i p p a D ' A u b i g n é ( l 8 . Paris. Vol.S o r l i n ( 1 T ) . De vos rudes vengeances L e rude exécuteur. 17) Jean Desmarets de Saint-Sorlin. Bremond: Histoire littéraire du sentiment religieux en France depuis la fin des guerres de religión. "Oposicoes barrocas e antibarrocas".a c o m a s a r m a s da a l t a sátira poética. "Pastorals. New Haven. 20) Guillaume de Brébeuf. H. s e g u n d o o t e s t e m u n h o d e B r e m o n d . L i r i s m o a b u n d a n t e . 1912.L o u i s G u e z d e B a l z a c . A f i g u r a m a i s e s p a n h o l a e m a i s c o m p l e t a entre o s poetas religiosos do Barroco francés é Guillaume de B r é b e u f ( 2 0 ) . inimigo d a sociedade aristocrática que r o d e i a o m o n a r c a . sein Leben und seine vi erke. 16D) t r a n s f o r m a n d o v e r s í c u l o s b í b l i c o s o u t r e c h o s da l i t u r g i a em verdadeiras torrentes de metáforas. 2. évéque de Vence et de Grasse. A i e s p o s t a católica é a q u é l e h e r o í s m o "a lo d i v i n o " d e q u e L a C é p é d e é um dos p o r t a . p o u r p u n i r s e s of t e n s e s . a p a r e c e ñas p o e s í a s d o f r a n c i s c a n o M a r t i a l de Brives ( . 2. Bremond: Histoire littéraire du sentiment religieux en Franct depuis la fin des guerres de religión. Le premier livre de Lucain travestí (1656). Epopéias e Picaros". Les Délices de l'Esprit. Cognet: Godeau. t r a d u g a o m u i t o caluniada pelos classicistas. e mais líricamente emocionado do que.» ed.s a c r a Clovis. r e v e l a n d o . Parnasse séraphique (1660).m é m e il n ' a p a s d e r e f u g e . Erlangen. Leipzig. 2. a b e r t o a i n f l u e n c i a s marinistas. L ' i n s t r u m e n t d e sa p e i n e a u s s i b i e n q u e l ' a u t e u r . d a q u a l o L a m a r t i n e foi A n t o i n e G o d e a u ( 1 8 ) ( b i s p o d e urna diocese da P r o v e n g a . 1618-1661. A Studv of the Baroque Stvle in Poetry. á m a n e i r a e s p a n h o l a . o gongorista e n t r e os poetas franceses. Saint-Paul (1654). I I est s o n c h á t i m e n t a u s s i b i e n q u e s o n j u g e . Paris. B ) .) La Pharsale de Lucaln (1654/1655). A. t c 1653. mas nao de todo desprezivel. Paris.D ) . 1935. c o m b a t e n d o . Paris. Les Tragiques. Paris. 1897. nota 35. VI. J. É u m Quevedo francés. D e s m a r e t s é hoje pouco legivel.s e n o s Délices de l'Esprit u m m í s t i c o da oragao. Entretiens solitaires (1660). Buffum: Agrippa D'Aubigné. Edicao dos Entretiens por R. Harmand: Essai sur la vle et les oeuvres de Guillaume de Brébeuf. Aspaste (1636). Paris. Relbetanz: Jean Desmarets de Saint-Sorlin. B . R. (Cf. os s e u s c o n t e m p o r á n e o s . 1606-1672. de maneira típicamente barroca. 18) Antoine Godeau. O s Entretiens solitaires sao o b r a d e u m p o e t a l í r i c o n o t á v e l q u e e x p l o r a e x p e r i e n c i a s í n t i m a s em t o m grave e sincero: " A i n s i c o n t r e s o i .e s p a n h o l L u c a n o . d o e s t o i c o r o m a n o . Oeuvres chrétiennes (1633). R. bem barroca. 1935. E t d e v i e n t m a l g r é lui. o estilo poético désse estoico cristáo parece pouco "précieux". KerviJer: Jean Desmarets de Saint-Sorlin. nota 38. I . gongorismo e classicismo. . comedia: Les Visionnaires (1637). 1») P . M a s éste é protestante. H. A o b r a c a p i t a l d a s u a v i d a é a t r a d u c a o d a Pharsalia. 1879. cristianismo e estoicismo. ais dramatisches Dientes. d e D e s m a r e t s d e S a i n t . e m g e r a l . 1935. Harmand. J.c ó m i c a .g a l a n t e s .v o z e s m a i s d e c i d i d o s . Bremond: Histoire littéraire du sentiment religieux en France depuis la Jin des guerres de religión." O p e n s a m e n t o q u e se e x p r i m e n e s t e s v e r s o s s o m b r í o s é p u r a m e n t e estoico. 1900. romances: Ariaríe (1632). I. Gebhardt: Jean Desmarets de Saint-Sorlin. 1595-1666. 1910. parece ter sido o Chateaubriand da s u a época. H. E m Brébeuf se encontram. é s t e f r e qüentador do Hotel de Rambouillet traduziu a Imitatio Christi. O pros a d o r dessa c o r r e n t e é J e a n . t o m a n d o a s s i m a t i t u d e a n t i t é t i c a . q u e t a m b é m escreveu r o m a n c e s h e r ó i c o . Martial de Brives (Paul Dumas).) Epopéia: Clovis ou La France chrétienne (1657). 1911.» ed. Vol.» ed. 1951.

('Nueva Biblioteca de Autores Españoles'. na famosa oracáo . sobre o Barroco aristocrático e o gósto popular. como Brébeuf. Francisco de Sales.) . e o resultado nao se entende bem sem se tomar conhecimento dos antecedentes espanhóis. pode servir a gregos e troianos. é discípula de S. 1594-1654. Paris. Sainte-Beuve: Histoire de Port-Royal. diretor espiritual dos primeiros jansenistas. Guillaumle: Balzac et la prese francaise.fúnebre do rei Filipe I I . Obras seletas. vol. 1854. servindo-se para ésse fim da prosa de Balzac. assim também o estilo barroco no pulpito se inicia com as doutrinas de eloqüéncia sacra de Fray Luis de Granada.* ed. O jansenismo estéve em reláceos muito evidentes. O fato de o classicismo francés comecar com a obra de um discípulo de Antonio Pérez e párente longinquo de Quevedo merece lembrado. O seu ideal está no título de urna das suas obras: Socrate Chrétien. 1927. porque criaram urna prosa aristotélica. O último clássico e primeiro estilista barroco do pulpito espanhol é. Lettres (27 llvres: 1624/1655). Socrate crestien (1652). A. 1665. a própria abundancia de metáforas na sua prosa nao é muito clássica. Francisco de Sales e Lipsius. Difícil foi a vitória do Barroco burgués de Luis XIV.. 1549-1598. é um aristotelismo diverso do dos gongoristas. Billalne. Moreau. Paris. é um espirito barroco. mas os dois movimentos reagem igualmente contra a influencia espanhola. encontrados em Séneca. no fim da evolucáo da oratoria sacra clássica. París. 4. e o Abade de Saint Cyran. criador da prosa clássica. Mir. Também Sainte-Beuve. Kdigao crítica das Premieres lettres por H. ao "humanismo devoto". m. Vol. É. Vicente de Paula. "ce grand roi bourgeois". Balzac é estoico cristáo. 1934. embora nem sempre amis21) Jean-Louis Guez de Balzac. tosas. do qual se aproxima num "espelho de príncipes". 1926. correspondente á poesía aristotélica. 2 vols. por sua vez. antiaristotélica. A prosa de Balzac é um instrumento formal. veículo principal da sua repercussáo. Massillon diz perante o catafalco pomposo de 22) Fray Alonso de Cabrera. significativamente. c.. que. que o compara a Isócrates e a Tito Lívio. Blbas e K. Butler. compara a majestade do seu estilo as pompas do Escorial.1016 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1017 Jean-Louis Guez de Balzac ( 2 1 ) é considerado o MaIherbe da prosa francesa. 2 vols. O que s e censura a Balzac é a falta de idéias. París. Le Prince (1631). e serviu igualmente aos jansenistas e aos oradores sacros ortodoxos. Le Prince. Mas nao é cristáo platonizante. G. e Mir. paradoxalmente. como Quevedo. Ihe chama superficial. Assim como a poesía gongorista sai do renascentismo de Garcilaso de la Vega e Fernando de Herrera. etc. o lugar-comum permanente. um dominicano: Fray Alonso de Cabrera ( 2 2 ). "Tite-Live chrétien". teria facilitado a divulgarlo do novo estilo. n . os grandes oradores sacros. e do estoicismo político de Balzac descende a tragedia política de Corneille. o criador da frase clássica harmoniosa e redonda. Ünica edicao completa por L. a reformadora de Port-Royal. Com efeito. ressente-se da influencia de Antonio Pérez. por assim dizer. Apenas. o jansenismo é urna reacio antimística. que parecem tao classicistas. era amigo de S. Edl. salientando os lugares-comuns estoicos. enquanto o classicismo antimístico dos Bossuets e Bourdaloues é aristotélico. T. Mais de um século depois. pertence á Renascenca religiosa. O editor moderno dos seus sermoes. o P. com o movimento místico: Mere Angélique Arnauld. A sua epistolografia. mas dedica-lhe duas vézes o mesmo adjetivo: "Isocrate chrétien". a síntese de S. editadas por M. Evidentemente. Balzac. Fray Alonso faz questáo de dizer que toda a pompa humana acaba com a morte e que só Deus é grande. Balzac é cristáo.ao dos sermoes (com lntroducáo) por M. Mais perto do Barroco estao.

Prato. Judas. no Fray Gerundio. Nao é possível formar opiniao segura sobre a eloqüéncia do Cardeal Jacques Du Perron. imita a fala das diversas profissoes. o vienense é apenas da "ville". O representante d o gongorismo sublime. porém. Por isso — além do auténtico genio lingüístico — distingue-se Abraham a Sancta Clara dos outros oradores burlescos do pulpito barroco. é a voz do povo perante o trono. edlcáo das obras completas por K. pregador da 35) Paolo Segneri. o agostinho tem o direito de zombar dos grandes também. 1841. 8 vols. os italianos Francesco Fulvio Frugoni e Luigi Giuglaris. 1841. II Cristiano istrulto (1686): Prediche dette nel Palazzo Apostólico (1694). hoje perdidas. de Ronsard e da rainha María Stuart. mais "burlescos" — no sentido pejorativo da palavra — os padres que tomaram a serio o "marinismo sacro". 23) fala déles. Merks Wien (1680). A grande eloqüéncia sacra nao principia senáo na segunda metade do século. seja o sublime. G. Já se admite hoje a grande beleza do Sermón de la Soledad (1626).. F . auf.» ed. acumula anedotas burlescas. 6 vols. objeto da sátira destruidora de Isla. nao é mister prestar muita atengao aos pregadores populares de gósto burlesco. Wlen. Th. famoso. Grosse Totenbruderschft (1681). de um Emanuele Orchi. Milano. 1943. fala a giria do povo. 2. Bellonl: Paolo Segneri. de interésse evidente para nos — mas será isso oratoria sacra? E perante a corte? Abraham a Sancta Clara. 24) Abraham a Sancta Clara (Ulrich Megerle). Ranalli. 1853/1855. Em outra língua. assim como o povo Fray Hortensio Félix Paravicino y Arteaga.1 1018 OTTO M A R Í A CAHPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1019 Luis X I V : "Dieu seul est grand. Madrid. poeta gongorista que dedicou quatro sonetos ao Greco. F . e um estudo moderno désse orador sacro talvez chegasse a resultados surpreendentes. inédito. déste modo. portanto. Risl: II principe dell'eloquenza sacra italiana: Paolo Segneri. no pulpito. Karajan: Abraham a Sancta Clara. da peste. Falando a gíria popular perante os poderosos. fala da guerra. Torino. de dialética sutil. E. dos médicos e dos advogados. der Ertzschelm (1686). data de urna época em que o Greco era desprezado. seja o burlesco. Zombando de todas as classes e profissoes. ésse gósto popular produziu a obra esquisita e divertidíssima do agostinho Abraham a Sancta Clara ( 2 4 ). Hartzenbusch: La oratoria sagrada española en el siglo XVII. Prato. A profunda seriedade das admoestacóes moráis coloca a eloqüéncia burlesca de Abraham a Sancta Clara na situacáo dos bobos da corte. na Fran$a. K. dos judeus e até dos padres. um dos últimos foi o franciscano Francisco de Soto y Mame. vista de baixo para cima. 1853. Bertsche: Abraham a Sancta Clara. 1644-1709. J . 1924. é pródigo cm trocadilhos. Panegirici (1664). V. Edlcáo completa. ihr Chrlsten (1681). Edlcáo de obras escolhldas por H. sem fazer oposicao sistemática. Scolari: L'eloquenza del padre Segneri. Edigáo do Quaresimale por F . Se os grandes oradores sacros da Franca sao de "la cour et la ville". E m contrapartida. poeta galante que fez as oracoes fúnebres. Muenchen-Gladbach. 1932. pelos panegíricos sadisticamente pormenorizados sobre mártires famosos. Quaresimale (1679). 1580-1633. 1904/ 1905. Ranalli: Vita di Paolo Segneri. N. Wlen. A notoriedade dos seus sermóes como obras difíceis. Venezia. os franceses Pierre Cotón e Jean-Franc. Oraciones evangélicas en las festividades de Cristo Nuestro Señor y su Santísima Madre (1640). dos turcos. 1624-1694. Oraciones evangélicas de Adviento y Cuaresma (1645). Auf. . um vasto panorama da Austria barroca. em vez do lugar-comum moral. do agostinho André Boullanger. é Fray Hortensio Paravicino ( 2 a ). pregador da corte de Viena. porém. da mesma estirpe. 1867. Wlen. na Italia." Entre estes polos se coloca a tentativa do pulpito barroco de dizer algo de novo.ois Senault. O representante dessa nova arte no ambiente do Barroco contra-reformista é Paolo Segneri ( 2 5 ). Parecem-nos. á maneira dos contistas medievais. Para ésse fim serviu o gongorismo. Strlgl. que constitui fatalmente o fundamento da eloqüéncia sacra. A. éste. Betrsche. 1922. que tinham o direito de dizer verdades duras. apresentando. Bologna. Abraham faz-lhes sentir que a entendem e que sao. 1845.

que foi considerado reformador do pulpito. certo humanismo cristianizado. Mas é certo que o classicismo burgués nao admitiu outra fonte de emogáo pessoal além da religiosa. nem Brunetiére nem Thibaudet souberam explicá-lo satisfatóriamente. para vencer os recalcitrantes. Gerente: Fléchier. um moralista destemido. o mesmo caminho da objetivagáo e intelectualizagáo. Francisco de Sales em elegancia mundana. baseou os seus sermoes em disposicoes tao rigorosamente elaboradas que nos parecem até agora irrefutáveis. ainda hoje. justamente a poesia barroca é expressáo de um lirismo dialético. só a linguagem é diferente. S. Vicente de Paula evitam realmente os "concetti". •certa frieza estoica. París. 10 vols. e ele e S.. na Athalie. Brunetiére: L'évolution des genres dans Vhistoire de la littérature. dono de erudigáo enciclopédica e virtuose da-. pelas comparagóes elaboradas. Com a sua frase chegam o moralismo aristotélico. em esbógo engenhoso e ainda nao antiquado ( 2 T ). No fundo. Ducreux. 1934. de lÜacine. porque autorizada. París. Em vez de ocupar a inteligencia. G. crista e retórica como a literatura do pulpito no século X V I I . e a nova eloqüéncia "sacra" de Chateaubriand e Lamennais iria abrir caminho á poesia de Lamartine e á da primeira fase de Vítor Hugo. até Massillon. É um contemporáneo digno de Bourdaloue. Claude de Lingendes.. Entre os reformadores do pulpito nao se deve esquecer um "pregador leigo": Jean Louis Guez de Balzac. que percorreu. O processo retórico de Segneri é o mesmo da eloqüéncia eclesiástica francesa. e que encontrou a sua expressáo mais legítima. 27) F. Rousseau renovaría o subjetivismo e a sensibilidade. ñas oragoes fúnebres de Bossuet e nos sermoes de Bourdaloue. trata-se de urna verdadeira revolugáo literaria. Francisco de Sales exige simplicidade. que converteu a ternura de S. grande polemista contra inimigos inexistentes — nao houve ateístas e heréticos n a Italia barroca — que combate com vigor de advogado. mas substituem-nos pelas exclamagóes sentimentais. Meio século depoÍ6. no Polyeucte. Quanto á sociedade aristocrática. O progresso da dialética a expensas da inspiragáo lírica que Brunetiére apontou 26) EsprJt Fléchier. talvez o problema nao exista. 1890. além de oferecerem fontes importantes para o estudo da inteligencia italiana no século X V I I . é. O verdadeiro motivo por que na Franja do século X V I I ésse lirismo se exprimiu em prosa. 1886. Os sermoes de Segneri. que aparece igualmente na poesia de Brébeuf. constituem. p o r sua vez. impressionante leitura: o grande dialético. lingua. como o parece indicar o descobrimento da poesia de Sponde e Brébeuf. dizendo a verdade ao Papa e aos cardeais. através de Bourdaloue. O famoso representante dessa fase da eloqüéncia sacra é Fléchier ( 2 6 ). apesar de tudo isso. Thibaudet acrescentou á tese de Brunetiére importantes reflexóes sobre o "espirito de prosa" na grande literatura francesa. as suas famosas oracoes fúnebres de Madame de Montausier (1672) e de Turenne (1676) sao modelos de retórica nobre e vazia. na prosa de Pascal.1020 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1021 corte papal. O que nao é admissível naquele esquema histórico é a oposigáo absoluta entre lirismo e dialética. Sermons de morale (1713). Fabre: Fléchier orateur. 1632-1710. até se perder no comégo do século X V I I I . París. Brunetiére. Oraisons fúnebres (1705). Os pregadores da corte de Henrique IV. A. de Corneille. Edigáo por A. o que sobrava de lirismo refugiou-se na eloqüéncia sacra. pretendem impressionar a emotividade. lembram — assim como Segneri — a escola espanhola. . Dai um lirismo que se aproxima. pelo intelectualismo que transforma a inspiragáo em dialética. 1782. ainda é "précieux". do preciosismo. explicou a falta de poesia lírica na Franja da segunda metade do século X V I I pelo próprio classicismo: pelo conformismo que excluí a emogáo subjetiva. Nimes. Bossuet. como Du Perron e Nicolás Coeffeteau.

Jacques-Bénlgne Bossuet. é. París. preferiram Bourdaloue a Bossuet. nao cabe inteiramente no género "eloqüéncia 28) J. e sim para dizer a verdade como ele a entende: a verdade da Igreja 20) Discours sur Vhistoire universelle (1681). 1862/1866. á opiniáo céptica da La Harpe. o século X V I I I preferirá sempre os Bourdaloues e Massillons. etc. Bernard (1653). París. J. duc de Conde (1687). Maury: Essai sur Véloquence de la chaire. Vols. durante a luta jansenista. Panegíricos: Panégyrique de St. 1014/1023. Histoire des variations des églises protestantes (1688). No pulpito francés. Bourgoing (1662). X. Paul (1650). 1777. mas será possível. L. de Louis de hourbon. 1803. etc. Lachat. Freppel: Bossuet et Véloquence chrétienne au XVIIe siécle. a partir de 1772. e até cronológicamente certo. o fortalecimento do espirito clássico-burgués. O. Sur Vimpénitence tíñale (1662). 31 vols. Edlcao das obras oratorias por Ch. Élevations sur les mystéres (1727). Daí os relativamente poucos ref lexos da querela jansenista — luta em torno da religiáo da burguesía — na eloqüéncia sacra: motivo pelo qual é possível tirá-la da cronología dos outros fatos literarios. nao como orador sacro. A evolucáo da eloqüéncia sacra francesa ( 28 ) acompanha a ascensáo histórica da burguesía francesa. Panégyrique de St. Bossuet é o maior de todos. París. Edlcáo completa por M. Sur les devoirs des rois (1662). princesse palatine (1685). meditagoes místicas e polémicas exegéticas. mas constituem. 1800. "se fixer la langue'' nos escritos de Pascal. Quando. 2 vols. porém. Dimler: Bossuet. Sur Vunité de Vtglise (1681). mas nao se serve déle para criar belezas verbais ou para exprimir a sua própria forte personalidade. etc. 1000. Lebarq: Histoire critique de la prédication de Bossuet. 1627-1704. para a apreciacáo da obra literaria de Bossuet só pode empregar-se o criterio do valor literario. Calvet: Bossuet. será justo empregá-lo? O próprio Bossuet. 2. Sur l'amour des plaisirs (1666). 2. dizia-o claramente. A sua atividade literaria foi imensa: eloqüéncia e historiografía. se publicaram pela primeira vez os seus sermoes completos. Sur la Providence (1662).. na verdade. Politique tirée des propres paroles de l'Ecriture Sainte (1700). sentindo isso instintivamente. O. 1016. París./«rie-Thérése d'Autriche (1683). S. exposto as observa• >-oes estilísticas e estéticas dos cortesáos.» ed. París. a vitória da burguesía — no sentido de classe literaria — estava garantida de antemao. e Massillon a Bourdaloue." Bossuet tem consciéncia do seu genio literario. Sur Vhonneuer du monde (1660). que vé em Bossuet o mais clássico dos clássicos. 1034.. París. RebeUlau: Bossuet. o Abade Maury exprimiu a impressao geral. F. d'Henriette-Marie de Trance (1660). censurando as desigualdades do sermonista. d'Henriette-Anne WAngleterre (1670^. a maior figura da Igreja "docens" da Franja. d'Anne de Gomague.* ed. 2. Truc: Bossuet et le classicisme religieux. C. A posteridade aderiu. 1874. 6 vols. Urbain e E. 1022 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1023 como causa da decadencia da poesia. É antes a figura mais completa do movimento que se chama "classicismo francés". etc. G.) J. mas porque nao é apenas orador sacro. A.áo fúnebre da "princesse palatine": "Mon discours dont vous vous croyez peut-étre les juges. Sermoes: Sur Veminente dignité des pauvres dans l'tglise (1650). J..: París. París. 1801.. 1041. Salnte-Beuve: Causeries du Lundl. de Michel Le TeUier (1686). Hurel: Les prédicateurs sacres á la cour de Louis XIV. París. XIII. os sermoes nao substituem a poesia barroca aristocrática. um género "lírico" independente. Oralsons íunébres: du P. proclamando ser Bossuet o maior orador cristáo de todos os tempos. Médltations sur Vtvangile (1730/1731). Os críticos d o século X V I I I . sacra". vous jugera au dernier jour. 1014. de . .'. Sur la mort (1662). Brunetiére: Bossuet. París.* ed. na orac. epistolografia e política. A. ousaram oporse ao consenso unánime. de inicio. Sur Vambition (1662). E. 2 vols. 1810. (2. París. Bossuet ( 2 9 ). Levesque. cujo estudo se comega convenientemente com ele. Lanson: Bossuet. Sur le silence (1686). Contudo. possível. París. XII.a ed. porque o estilo d a eloqüéncia sacra existia antes de.

O conselho era bom. explicando os designios da Providencia Divina. "exercez done hardiment votre puissance. após o reconhecimento dos decretos tridentinos. P e l o menos na Franga. O estilo das oragoes fúnebres é classico. A sua intolerancia é o seu dever. Bossuet fala como um profeta do Velho Testamento. Mas essa opiniáo corrente nao aprecia bem a parte de reforma auténtica na Contra-Reforma. quer dizer. a Igreja católica sofreu urna reforma de verdade. fala assim. O Bossuet que vive na nossa memoria — o bispo em rico ornato entre os panos prétos e os príncipes humilhados pela sua palavra — é . o desenvolvimento lógico é própriamente supérfluo. il en emprunte méme les termes sacres. o sermao inteiro é só paráfrase. investido para pregar. As pompas fúnebres da decoragáo exterior sao barrocas. Como bispo. Bossuet. Essa inspiragáo de Bossuet fez surgir de novo um género retórico já existente. dispondo. defender e ampliar o reino de Cristo. se os termos "Barroco" e "Classicismo" significassem apenas estilos d a expressao verbal. nao chega a tanto. a inspiracao é hebraica e profética. criou. da estirpe dos pontífices do templo de Jerusalém. Ambrosio nao chegou a t a n t o . O "estilo". nessa porta que é o servigo fúnebre. porque Bossuet era um genio hebraico. Bossuet nao é de nenhum partido literario. as portas da eternidade. diz Bossuet. mas do qual é ele o único verdadeiro mestre: a oragáo fúnebre. Bossuet é a u t o r i t a r i o . S. o melhor clero do mundo. embora noutro sentido: é o estilo da homilía. S. batendo. é apenas um instrumento. desejando purificar o estilo do pulpito. como todos. e também o melhor episcopado.. O seu modelo seria Samuel. Isto seria em váo. p a r a ele. Como em Ambrosio. nao existe estilo bíblico geralmente aceito. com a mesma inspiracao. é o bispo que o julga. nunca se escreveu francés mais classico. porém. Na verdade. Sainte-Beuve observou que a grande vantagem de Bossuet em viver sob o govérno de Luís XIV consistiu em que o rei lhe forneceu os grandes assuntos políticohistóricos da sua predicagao. mas a realizacáo difícil porque em país católico. a forma é romana e erudita. falando do pregador ideal. entre ésses polos. como um deus. representa a autoridade. com o mesmo sentimento da sua digninida. O seu partido é a Igreja. 1024 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1025 da qual é bispo. Vicente de Paula. nem de qualquer partido profano. Ambrosio. um estilo francés correspondente ao bíblico. onde a leitura da Biblia nao é geral. mas acrescenta: "au fond elle vous laisse faibles. o seu cargo é o de bispo. bispo e ciceroniano. porque o resultado foi previsto. ter- ceiro ponto. se Bossuet nao fósse. e. diz também: "II puise tout dans les Écritures." Nao encontrou estilo bíblico em lingua francesa. a discussao seria inútil. Francisco de Sales. Na Igreja francesa do século X V I I viveu algo do espirito altivo do cristianismo romano de Ambrosio. teve. Os seus sermoes estáo redigidos de harmonía com os preceitos da retórica aristotélica — primeiro ponto. que também eram chamados juízes. segundo ponto. Bossuet parece a encarnacáo da Igreja contra-reformista. dos destinos humanos. o século o impede. juiz dos vivos e dos mortos. e. Em seus melhores momentos no pulpito. entao. O ponto de partida é o versículo bíblico. parece o porta-voz teocrático e aristocrático do absolutismo francés do século X V I I . a conclusáo é o dogma. elle vous laisse mortels." * O rei morto é apenas um pobre mortal. " O rois". como a dos bispos. Era isso que parecía primitivo aos críticos do século X V I I I . chamaram a atengao para a expressao simples da Biblia. o grande intérprete da Historia. Bossuet parece-se mais com os profetas bíblicos. depois. julgando o povo e os reís. E é "primitivo". como ñas demonstragoes geométricas. car elle est divine". argumentagoes e conclusóes — mas isso nao passa de "construgao auxiliar". aliada ao reí absoluto da Franca. no qual um Bossuet nao é caso único. como é. Bossuet. o grande bispo de Milao que negou entrada na Igreja ao imperador manchado de sangue. Os seus precursores. entáo. da predicagao na Igreja primitiva.

ou literaria ou religiosa. se essa falta de contradigoes fór interpretada do mesmo modo por que os matemáticos e logicistas modernos declaram "sem contradigáo" uma lógica ou uma geometría. nao considerando se ela corresponde ou nao a uma realidade exterior. quod semper. as qualidades poéticas da sua prosa. É outra maneira da "suspensión of disbelief". mas como método nao concorda bem com a ortodoxia de Bossuet. . é bem clássico. sem jamáis encontrarem a unidade firme e equilibrada da Igreja apostólica. porque é uma idéia dialética. o ídolo de uma parte da Franca — "o Vítor Hugo da Igreja da Fransa" — e o espantalho da outra parte. " . Caffaro. nao contradigoes lógicas. A heresia dos protestantes consiste num rompimento assim: rejeitando a parte paga da civilizagao crista. mas a idéia de interpretar a heresia como falta de equilibrio entre a Providencia Divina e a vontade humana. a contradigáo é colocada antes da formulagao lógica. . . o "lugar-comum" sacro". O elogio désse equilibrio. mas contradigoes do compromisso entre duas maneiras de pensar. a limitar a autoridade de "Saint Thomas et des autres saints" que toleraram o teatro. a filosofía de Bossuet é inaceitável: o seu providencialismo histórico nao satisfaz as nossas exigencias. Bossuet emprega um método dialético: "Non contents de leur faire voir q u e . Bossuet. debatem-se os heréticos em inúmeras variacóes sucessivas dos seus credos. que é. desde entao. defendendo a fé. . entre Renascenca e Barroco. . Demonstrando-o. isto é. mima carnada mais profunda da alma. quebraram o equilibrio. Entáo. na Histoire des variations des Églises protestantes. e por isso o mundo moderno é levado a rejeitá-lo em bloco. empregando essa dialética. desde quase tres séculos. sem negar a coeréncia lógica entre as partes irracionais. Partindo désse ponto de vista. montrons au contraire q u e . Bossuet chega. que precedem a formulagao lógica do pensamento. fundador da exegese crítica da Biblia. quod ab ómnibus creditum est". . que já nao nos diz nada. aborrece até aos eruditos católicos. no Sermón sur Vimpénitence finale. Talvez se abram possibilidades de melhor compreensáo. ás vézes crudelíssimas. O rompimento do compromisso seria heresia.1026 OTTO MARÍA CABPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1027 uma personagem barroca. contra as comedias. de Bossuet. ou as descrigóes pormenorizadas. . Bossuet cumpre o seu dever de bispo. admite-se o irracionalismo do pensamento de Bossuet. Para defender a sua fé. ainsi que l'herbe des champs". foi inúmeras vézes censurado por ser a sua obra um imenso lugar-comum eloqüente. E esta seria a primeira definigao aproximativa d o classicismo francés. varias c o n t r a d i c e s assim latentes. gregos e romanos chega ao compromisso entre o mundo clássico e o mundo cristáo. digamos. Ésse compromisso é o dogma literario de Bossuet. que só admite "quod ubique. atrás da homogeneidade imponente da sua obra. a transformagao dos lugares-comuns sacros dos pregadores de todos os tempos em imagens melancólicas ou terrificantes: frases como — "Madame cependant a passé du matin au soir. Essa apreciacao malevolente nao leva em conta aquelas contradigoes íntimas. Para a maior parte do mundo moderno. sem contradigoes lógicas. a maneira como Bossuet perseguiu o grande oratoriano Richard Simón. O sistema de Bossuet é homogéneo. quer dizer. é uma idéia barroca. por assim dizer. ou a reuniao dos demonios na cámara mortuária do rico impenitente. Existem em Bossuet. O método leva a conclusoes ortodoxíssimas. é uma das conclusoes do seu dogma católico. O conceito da Historia que enforma as oragóes fúnebres é u m compromisso entre clássico e barroco. Ali reside ambigüidade da qual saiu a "emogáo lógica". típico do classicismo literario e do classicismo religioso. Na carta ao P. proposta por Coleridge para poder aceitar expressoes artísticas de religióes alheias. Também no Discours sur l'histoire universelle a historia providencial dos judeus. e levou o Abade Bremond a silenciosa mas veemente hostilidade contra o grande bispo ortodoxo. a dos heresiarcas.

e o espirito da contabilidade aparece em meio as Élévations sur les mystéres. justifica o absolutismo. 1874. la vie et la prédication d'un religieux ou XVIle siécle. Bossuet é filho de urna familia de "parlamentarios". O seu fim é prático. do classicista Nicolás Poussin — essa poesía sai de u m confuto típico do Barroco: da inefabilidade do irracional. F. Os críticos do século X V I I I tinham de rejeitar a arte de Bossuet. que tanto irritaram o gósto clássico de Sainte-Beuve. i . 1900. o direito divino dos reís. 1901/1904. París. 1689. e a dialética entrou a dirigir-se contra o próprio dogma. sa prédication et son temps. Bourdaloue ( 3 0 ). Brlquet. A. capazes de distinguir entre o que era o seu próprio estilo e o conteudo. O século X V I I I já viu aquéle equilibrio em plena dissolugáo: o absolutismo monárquico dos Bourbons tornou-se "ilustrado". quase levou á constituigao de urna Igreja nacional francesa. Truc. 6 vols. No pensamento de Bossuet mantém-se assim o equilibrio entre teocratismo ortodoxo e absolutismo real. 1676. indispensável para manter o equilibrio classicista entre a decoragáo aristocrática e o espirito burgués da literatura de "ce grand roi bourgeois". 1697. 1682. E. nem sequer profere lugarescomuns. que nao os interessava. com o qual teve coméco a campanha. Vol. Existe um caso análogo n a vida pública de Bossuet. explicada na Politique tirée des propres paroles de l'Écriturc sainte. na oitava meditagáo: "Preñez garde seulement de ne laisser jamáis votre imagination s'échauffer trop.1028 OTTO MARÍA CARPEAÜX HISTÓBIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1029 de martirios e da desgrana dos judeus. 1674.) A. mas. 2 vols. Edicáo completa por J. Salnte-Beuve: Causeries du Lundi. É a poesia da dialética malograda. París. com que ela acabou. 1684. e a atitude monarquista levou o Bispo a apoiar as veleidades galicanas. Essa peosia de qualidades eminentemente barrocas. selecáo por G. 1921. A sua dialética é mais do foro que do templo.. Feugére: Bourdaloue. parce que excessivement échauffée et agitée elle se consume elle-méme par son propre feu. 1632-1704. É o conformismo típico de todo o classicismo francés e de todos os outros. (O melhor estudo. antijesuístico e anticlerical. para nos. IX. é mais admirável ainda o Sermón sur le silence. Castets: Bourdaloue. 1693. renuncia inteiramente á apresentagáo poética do "lugar-comum" do pulpito. de moralista. As suas tentativas de promover a uniáo das Igrejas separadas eram enformadas pelo ortodoxia mais pura e pela obediencia mais leal á Santa S é . o estilo. qual um monumento que perdeu a utilidade pública." É urna especie de economía mental. O edificio imponente existe ainda. revelando urna das fontes do classicismo: a mentalidade burguesa que aspira ao equilibrio e á tranqüilidade pública. 1680. é imponente apenas a fachada. de grandes jurisconsultos da provincia. Avents de 1670. Carémes de 1672. " J e respecte dans chaqué peuple le gouvernement que l'usage y a consacré et que l'expérience a fait trouver le meilleur" — essa doutrina é ortodoxa e serve para as acomodacoes mais oportunistas. lernbrando os quadros de martirios de Valentín de Boulogne ou a Destruicao de Jerusalém. assim como um grande jornalista ataca as diretrizes erradas dos políticos para conseguir unía mu- 30) Louis Bourdaloue. do rei. 1691. se é admirável o Sermón sur l'unité de l'Église. mas tem fundamentos indestrutíveis. A poesia de Bossuet corneja onde a sua lógica termina. preferiram idolatrar Bourdaloue e Massillon. 1686. París. 1695. anti-romanas. sempre da maneira mais ortodoxa. a sua doutrina política. O oportunismo político de Bossuet é o lado mais censurável das suas atividades. C. nos quais se realizara sucessivamente a dissolugáo daquele equilibrio clássico. ataca os erros moráis da época. entre o dogma e a dialética. o maior orador sacro da Companhia de Jesús. Paria. Mas a uniáo das Igrejas malogrou-se por causa dos obstáculos políticos.

. Pauthe: Massillon. Groethuysen salientou a importancia dos conceitos da ordem social e da vocacao profissional em Bourdaloue. ninguém o elogiou mais do que o burgués "arrivé" Voltaire.» ed. parece Massillon ( 3 > ). e a eloqüéncia de Massillon é harmoniosa. á qual se concederá um lugar dentro da ordem hierárquica da sociedade. sem retórica poética. Paris. A. ao próprio Moliere. no meio do silencio angustiado da assembléia. oracao fúnebre de urna arte que nao voltou nunca mais.1030 OTTO M A M A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1031 danca na opiniao pública. o que seria * mais urna definigáo do classicismo francés — Voltaire. Em comparacao com Bourdaloue. para nao falar dos leigos. cónsiderava Massillon como o estilista mais clássico da lingua francesa. o Sermón sur l'hypocrisie restabelece a verdade a respeito da querela do Tartuffe. antes laxistas. A. A. o Sermón sur la sévérité évangélique ridiculiza o rigorismo hipócrita dos jansenistas. muito mais pomposo. Mas títulos assustadores como ésse. "On vous a cent fois touchés et attendris par le récit douloureux de la passion de Jésus-Christ. confessor experimentado. e fóra isso. esperavam o fim como um julgamento. Avent (1699). em observacoes surpreendentes. Parts. é urna cena angustiosa ao gósto espanhol. D'Alembert escreveu o Éloge de Massillon. desmascarando as desculpas mundanas do vicio. Os aristócratas da corte de Luís XIV entenderam assim o jesuíta que havia conquistado a fama ñas igrejas dos bairros burgueses da cidade. " . Os enciclopedistas admiravam a Massillon. Grand Caréme (1701). Bayle: Massilion. Vol. aquéle que. Todos os contemporáneos se confessaram vencidos pela dialética de Bourdaloue. tratando-se de urna Igreja na qual havia arcebispos jansenistas e religiosas jansenistas. Blamplgnon. a famosa passagem "Si JésusChrist paraissait dans ce t e m p l e . ou como Sermón sur la morte du pécheur. C. O jesuíta é o pregador da burguesía. fitou durante minutos. Essas definicoes da eloqüéncia de Bourdaloue sao muito exatas. mais barroco. Quase nao parece literatura. no Sermón sur le petit nombre des élus. Todos os grandes pregadores sao antijansenistas. é um grande psicólogo. acompanhando a serie dos argumentos. 2. metade de cuja vida pertence ao século XVIII. O processo da separacao entre religiao e burguesia tinha chegado ao fim. París. IX. a La Bruyére. quer dizer. o que dá para pensar. O jansenismo está no polo oposto á poesia aristotélica do pulpito. compararam-no a La Rochefoucauld. É o orador sacro dos grandes ef ei« tos retóricos. Petit Caréme (1718). O Sermón sur ¡a médisance defende os jesuítas contra os ataques espirituosos de Pascal. mon dessein est de convaincre votre raison. o ataúde faustoso. Oralson Junébre de Lovii XIV (1715). 1888. é rico em " r e t r a t o s " característicos. . encarregado da oracao fúnebre de Luís XIV. 31) Jean Baptlste Massillon." Bourdaloue realiza exatamente ésse programa: a sua lógica é fria. O melhor caminho de indicacao é o belíssimo ensaio de Sainte-Beuve — escrito no momento culminante das tendencias anti-románticas do crítico — sobre o pregador que costumava discursar com os olhos fechados. outro burgués assim. O moralista Bourdaloue. 1908. para comecar depois: "Dieu seul est grand " Massillon pertence ao neobarroco do fim do século. um burgués que sabe comportar-se em sociedade fina. como submerso no rigor da sua lógica. . o leitor que vem do grande poeta Bossuet nao pode deixar de sentir decepcao. sa prédication sous Louis XIV et houit XV. vous instruiré. moi. étude historique et littéraire. e com razio. justamente o que os jansenistas pretenderán) evitar. C. Massillon é sómente moralista. Sainte-Beuve: Causeries du Lundi. encabecam doutrinas pouco rigorosas. Edlc&o por E. 1663-1742. 4 vols. et je veux. até "précieuse". 1867. como o estilo neobarroco dos movéis Rococó. Bourdaloue renuncia á pompa aristocrática de Bossuet para acomodar a expressáo do seu pensamento á prosa da vida burguesa.

Oazier: Histoire genérale du mouvement janséniste depuis sea originea jusqu'i nos jours. Salnte-Beuve: Hiatoire de Port-Royal. discípulo do Cardeal Bérulle e amigo de S. Laporte: La doctrine de Port-Royal. da doutrina de Jansenius para apoiar a sua própria praxe rigorosa como confessor: instruiu as religiosas da maneira mais severa. Abade de Saint-Cyran (1581-1643). antes de qualquer tentativa de interpretagáo. 1920. Saint-Cyran serviu-se. afirmaram que a exaltacáo do livre arbitrio pelos jesuítas minava os fundamentos da religiao crista. e em 1634 tornou-se confessor dessa casa de religiosas Jean Du Vergier Hauranne.a ed. adeptos da nova doutrina. o resumo dos fatos exteriores se impóe. proibiu aos leigos os divertimentos inofensivos permitidos pelos jesuitas. tornou-se abadéssa do velho convento de Port-Royal-desChamps. continuavam no rigorismo. urna renovacao da heresia do semipelagianismo. porque o homem pecador só raramente merece a graca da comunháo com Deus. urna facilitacao ilícita da vida religiosa. membro de urna grande familia de jurisconsultos calvinistas. e com éste dia comeca a historia daquela severidade que será mais tarde o rigorismo jansenista. Em 1625. conferida aos eleitos e recusada aos outros. acentuando a capacidade do homem para adquirir a graga por meio das atividades caritativas e religiosas. e discípula de S. 2 vols. 1927. 1923. no entanto. aproximando-a do humanismo pagáo. nao haviam completamente resolvido o problema da cooperacáo entre a Graca divina e as obras meritorias do homem na salvagáo da alma. o mais importante entre éles era um dos membros da familia Arnauld — todos éles jansenistas — Antoine Arnauld . Bispo de Ypres. C. 2 vols. 11. París. Gazier: Port-Royal-des-Champa. mas com conclusóes de ascetismo rigoroso. Paris. París. J. Oazier: Cea Messieura de Port-Royal. Vol. Vicente de Paula. que cheira a calvinismo. autor de urna obra monumental sobre a teología de Augustinus (1640). A. A. a abadéssa fundou o convento de Port-Royal em Paris. 1932. A base teórica désse rigorismo era a doutrina de Cornelius Jansenius.1032 OTTO M A M A CABPBAUX HISTÓBIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1033 A historia do jansenismo ( s a ) é de importancia tao grande e é táo complicada que. Paris. Singlin e Isaac Louis Lemáitre de Saci. Angélique Arnauld. Recomendou reserva tímida com respeito á Eucaristía. Bremond: Histoire littéraire du sentiment religieux en France depuis la fin des guerrea de religión. 1925/1932. Na famosa "Journée du Guichet" — 25 de setembro de 1609 — recusou até a visita de seus pais. retiraram-se para o vale de Chévreuse. Doutrina de predestinacao. 1909. París. e obtiveram tanto sucesso entre clérigos e leigos que Port-Royal se tornou centro de um grande movimento ascético e de urna religiosidade que parece mística. Paquier: Le jansénisme. TV. no Augustinus invocou o maior dos Padres da Igreja como testemunha das suas doutrinas: o pecado original teria limitado tanto as possibilidades de realizar obras meritorias que o homem só pode ser salvo pela Graca divina. Um grupo de leigos e clérigos. denunciaram nisso a negacao do pecado original. autor de urna nova traducáo da Biblia. a "Congregado de auxiliis gratiae". segundo os principios mais rigorosos de vida monástica. H. "ees messieurs de Port-Royal". porém. no vale de Chévreuse. Em 1608. Francisco de Sales. O concilio de Trento e. 2 vols. Os sucessores de Saint-Cyran no confessionário de Port-Royal. depois. que condenou os erros doutrinários de Jansenius.* ed. reformou a casa decaída. convertidos ao catolicismo. no lugar hoje chamado Boulevard de Port-Royal. Paris. Os seus adversarios. 32) C. Os jesuítas conseguiram em 1642 a bula papal "In eminenti". representante de práticas rigorosas a respeito dos sacramentos da P e n i ' téncia e da Eucaristía. grande diretor espiritual. 5. fundando perto do convento das religiosas urna colonia de eremitas. ao passo que os jesuítas facilitaram o Sacramento da Penitencia para conseguirán comunhóes freqüentes. J. A. Jansenius era um désses adversarios. Os jesuítas ensinaram e praticaram urna doutrina clemente e humana. París. 1922.

Em 1653 submeteram ao Papa Inocencio X cinco tese. de 23 de Janeiro de 1656 até 24 de marco de 1657. e a "question du fait" — se aquelas teses se encontram de fato em Jansenius — questáo em que o Papa nao teria maior autoridade que qualquer leitor. durante o século X V I I I . e Arnauld distinguiu entre a "question de la foi". e destruido o edificio. de Jansenius. chegando-se até á profanagáo do cemitérío e bárbara exumagao dos ossos heréticos. no qual anatematizou a prática jesuítica e pregou o rigorismo mais severo. polemista violento. Ao mesmo tempo. no clero francés. A querela jansenista é o maior acontecimento da historia espiritual da Franga no século X V I I . recebendo informagóes horripi- lames sobre a prática dos confessores jesuíticos. os jansenistas colaboraran: na expulsao dos jesuítas. mas estas. As "petites écoles" de Port-Royal tornaram-se freqüentadíssimas. da qual resultou a "Paix de l'Église". apesar de todas as perseguigoes. publicou-se regularmente e foi muito lido. nao se encontravam assim literalmente na obra de Jansenius. a famosa Logique de Port-Royal. e urna corrente jansenista apoiou — até á separagáo de Igreja e Estado. já decidida pelo Papa. das suas opinioes abstrusas e expressóes obscenas. condenando aquelas teses como heresia calvinista. como fórga considerável. menos. Arnauld agiu como jurista sutil. natureza de heresiarca nato. no dia 24 de margo de 1656. conseguiram a constituigáo papal "Cura occasione". atingindo as bases da autoridade da Santa Sé. os jansenistas acrescentaram a concorréncia pedagógica contra os colegios da Companhia. que desculpam os mais graves pecados e até crimes dos penitentes. por urna reliquia conservada em Port-Royal. após haverem contrariado a prática religiosa dos jesuítas. Após muitas vicissitudes. dos seus nomes bárbaros. chamado "le g r a n d Arnauld". Os jesuítas atacaram o mal pela raiz. A luta emocionou o país inteiro. E em 1643 publicou Arnauld um livro. a obra La logique ou l'ait de penser (1662). Mas. sobreviveram até a Revolugáo. A resistencia heroica das religiosas a toda a especie de perseguigoes transverteu-se em fanatismo. tiradas do Augustinus. Entre os "solitaires" havia mais alguns homens de g r a n d e talento pedagógico: Claude Lancelot. Todos se riram dos casuistas jesuisticos citados. Arnauld nao pretendeu negar o sentido herético das teses. talvez. renovou-se. obtiveram éxito enorme. em 1905 — todas as atividades oposicionistas. o livro didático mais usado do século XVII. autor de ótimos livros sobre o ensino do grego e latim. muito divulgados. o movimento jansenista recebeu sinais visíveis da Graga divina: o famoso Miracle de la Sainte-Epine. continuou o jansenismo. o fisico Blaise Pascal. elaboradas pelos jesuítas. aa 18 Lettres provinciales: fingiu consultas de um provinciano modesto que pretende informar-se sobre os problemas e motivos da querela. e sobretudo Pierre Nicole (1625-1695).1034 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1035 (1612-1694). o convento de Port-Royal foi abolido. De la iiéquente communion. que escreveu 13 volumes de Essais de morale. que langou. As Lettres provinciales. e. conquistou como aliado outro convertido de Port-Royal. os grandes represen- . cura milagrosa da sobrinha de Pascal. anti-romanas. Um periódico clandestino. urna publicagao periódica contra os jesuítas. teólogo de erudicáo imensa e de espirito jurídico. em 1679. junto com Arnauld. Grande parte do clero francés e muitos leigos recusaram. de 1713 em diante. obra-prima de polémica seria « ironía mordaz. as "Nouvelles ecclésiastiques". a perseguigáo. a vitória dos jesuítas foi definitiva: em 1709. quando o jansenismo havia perdido varios dos seus protetores no episcopado e na corte. até nos círculos mundanos. Em 1668 encontrou-se urna fórmula conciliatoria. e. Nem com isso acabou a luta. o reconhecimento da constituigáo Papal antijansenista "Unigenitus".

foi jansenista. pelo menos durante certo tempo. Pascal. étudiée dans les raports de la doctrine cartésienne avec la littérature francaise classique au XVire siécle. 1929. 2 vols. 11 vols. Vol. o seu espirito metódico. A idéia fundamental do cartesianismo é a identidade de pensamento e ser. nao havia terceiro partido. a clareza sistemática das suas exposigoes. o criador da prosa moderna. IV. da Revolugáo. o progressismo. de Saínte-Beuve (terminada em 1848). Ou se era jansenista. o convento teria sido o bergo da literatura clássica francesa. Em geral. Discours de la méthode (1637). é típico dos súditos de Luís XIV. o maior dramaturgo. Féz-se. o legislador critico da literatura clássica.«^ 1036 OTTO MARÍA CABPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1037 tantes da eloqüéncia sacra. o jansenismo era o partido dos escritores e intelectuais. etc. o jansenismo ocupa o centro da historia da literatura francesa. Krantz: Essai sur l'esthétique de Descartes. o monstruoso anacronismo existente nesses conceitos. operada pelo jansenismo. 1897/1909. O racionalismo analítico de Descartes. Hoje. Leroy: Descartes. Certos historiadores sentiram. será preciso modificar toda a historiografía literaria francesa. . e em torno de Port-Royal agrupou SainteBeuve todas as grandes e pequeñas figuras da época. París. do que o "grand Arnauld". a perfeigáo da clareza lógica. porém. a onipoténcia da Razáo. París. e o racionalista Descartes sería precursor mais conveniente da Franga moderna. do "progresso". Desde a publicagao da Histoire de Port-Royal. E seria éste cartesianismo o fundamento 33) Rene Descartes. A religiosidade ascética do jansenismo nada tem que ver com progressismo e republicanismo. (In: Études critiques sur l histoire de la littérature /rangalse. París. a imitacáo da natureza. enquanto os jansenistas eram considerados como os partidarios da liberdade religiosa. Os tragos característicos da estética cartesiana seriam o ideal de beleza racional e impessoal assim como Madame •de La Fayette e Racine o realizaram. o anti-historicismo de Descartes. mas. urna tentativa de apresentar Descartes como "spiritus rector" da literatura clássica ( S 4 ). 1596-1650.Tannery. do livre-pensamento.. Le philosophie au masque. 1898. M. ou antijansenista. se isso é verdade. París. A divisao da Franca em dois partidos. Decorridos dois séculos e meio. A posteridade os jesuítas afigxiravam-se os "reacionários". J. poderíamos acrescentar que até o conformismo político e religioso de Descartes. como amigos ou como inimigos. e outros críticos observaram a imensa influencia que exerceu na literatura clássica um pensador anterior ao jansenismo: Descartes ( :l3 ). que é inimigo quase violento da erudigáo clássico-filológica. Chevaller: Descartes. impossível nao tomar atitude. o caso Dreyfus produzirá espetáculo semelhante. progressista. Boileau. como certa da vitória da boa causa. 1932. Marltaln: Le songe de Descartes. a análise das paixoes. com efeito. da Magonaria. submetendo-se exteriormente aos poderes estabelecidos. Racine. 1882. que continuava majestosamente. 34) E. da insubmissáo política. Brunetiere: "Jansénlstes e cartéslens". Nao se conseguiu isto sem certo artificio. foi jansenista. Os meios sociais e literarios dividiram-se em dois partidos. París. daí o valor objetivo da ciencia. E a semelhanca nao é aparente. Adam e P. tornara-se permanente. J. realizada em Bourdaloue. Méditations métaphysiquea (1641): Traite des passions (1649). Sainte-Beuve colocou Port-Royal no centro da literatura do século. foi jansenista. As religiosas ascéticas e os eremitas rigorosos quase sao festejados como precursores da Ilustragao. tudo isto se encontra na literatura clássica em toda a p a r t e . pregada por Boileau. Contra essa interpretagáo cartesiana da literatura clássica levantou-se com energía a voz de Brunetiere ( 8 5 ). Edicfio completa por Ch. 35) F. Reconhecendo isso. París. 1921.) .

Stendhal. O que parece cartesianismo na literatura francesa do século XVII é antes um trago característico da literatura francesa inteira: o gósto da exposigáo sistemática. oscilagáo entre amor e ódío. E Pascal? Nao seria ele o genio literario de Port- 36) O. até Bourget e Mauriac. os autores jansenistas da Logique de Port-Royal. havia outras influencias — cartesianas. sao cartesianos. nos doutrinadores da classicismo. só na Franca existe. a poética do classicismo é aristotélica.) 87) H. O que parece. com Bayle e Fontenelle. Até o pessimista. o que demonstra a necessidade de estudar mais de perto as filiagoes contraditórias. Abbé Prévost. outra psicología. intelectualismo aristotélico. aparece como conformismo literario nos dramaturgos e moralistas. (In: Études d'histoire littéraire. Os "clássicos" do século X V I I I nao precisavam de Descartes para aprender isso. Nesse sentido. só Arnauld e Nicole. ao lado da psicología profissional dos filósofos e professóres. reconhece Peyre ( S7 ) um trago característico do classicismo francés. Mas sao "jansenistas" entre aspas. . Parla. provém da querela jansenista. Constant. com Pascal e Racine. New York. La Rochefoucauld. e que seria o classicismo sem éles? O númerodos cartesianos professos. A literatura francesa é. Pascal e Bossuet nao foram cartesianos. Neste sentido. a outra psicología. da clareza metódica. racionalismo cartesiano. principia urna fase de cartesianismo céptico. da composicao simétrica. damas e penitentes com os confessores jesuítas ou jansenistas. Chamar "jansenista" ao classicismo inteiro é urna símplificacáo táo inadmissível como chamar-lhe "cartesiano". Dos "clássicos". em Port-Royal. Lanson: "L'influence de la philosophie cartéslenne sur 1» littérature francaise". O conformismo político e religioso. Na melhor das hipóteses. Peyre: Le classicismt franqais. a psicología dos homens de letras. um tanto cínico. Estaunié e Gíde. na correspondencia dos diretores espirituais com os consultantes. ao lado da psicología dos professóres tomistas. E Arnauld e Nicole nao sao escritores de prirneira ordem. e a critica psicológica de Sainte-Beuve. entre todas. isto é. Nenhum déles é jansenista de todo o coracao. no século X V I I . grandes conhecedores das paixoes e angustias humanas. elaborou as suas observagóes psicológicas no salao da jansenista Madame de Sable. Pode-se até afirmar que nenhum escritor de prirneira ordem foi jansenista auténtico. O classicismo nao é cartesiano ( X8 ).1038 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1039 do classicismo? Corneille. aristotélicas. muitas vézes contra gósto. assím como na Igreja existe. romancistas e moralistas. só Arnauld e Nicole sao jansenistas auténticos. submetem-se éles. Rousseau. dos confessores. é surpreendentemente reduzido. 1929. e estes também sao cartesianos. todos os clássicos sao mais ou menos "jansenistas". Nasceu ñas conversas de religiosas. Evidentemente. sao "simpatizantes". humanísticas — que se opunham ou sobrepunham ao imperio do jansenismo. para conservar a liberdade íntima. e só no fim do século. muitas vézes. é. empírica. sobretudo da auto-análise. as regras dos teóricos. Sainte-Beuve tem razao para sempre: a literatura francesa moderna nasceu. a dos dramaturgos. a que revelou a maior curiosidade psicológica. Rigorosamente. 1942. E a analogía vai mais longe: a psicología literaria dos franceses é realmente produto do confessionário. E desta se servem todos ou quase todos os clássicos para se tornarem jansenistas. e no caso importantíssimo de Racine trata-se de urna ambivalencia. No gósto da análise psicológica. A influencia do cartesianismo ñas letras francesas reside na sua capacidade de por em dúvida sistemática todas as "fables convenues". A curiosidade e arte psicológica de Marivaux. ñas meditacoes e anotagoes autobiográficas dos homens do mundo e do convento. adeptos da análise e autoanálise psicológica. Mas os clássicos foram partidarios das "fables convenues". típico do século.

que se tornou lugar-comum. 14 vote. contudo. Strowskl: Pascal et son temps. 1886. Partindo dos coméeos mais geniais. Brunschvicg: Le génie de Pascal. de Saci sur Épictéte et Montaigne (1655). Priére pour le bon usage des maladies (1648). Aristóteles fóra o fundador das ciencias experimentáis. Chevalier: Pascal. V. que se contenta com o primeiro resultado empírico e logo se volta para as deducoes lógicas. um grande "outsider". Discours sur les passions de Vamour (1653): Traite du triangle arithmétique (1654). París. Oiraud: Blaise Pascal. A "conditibn humaine". nota 32. Clark: Pascal and the Port-Royalists. 1925. París. as doencas físicas que lhe minaram o corpo produzem estados de alma mórbidos. L. homem da religiao entre os físicos. mas com a impaciencia do próprio Aristóteles. París. é o genio literario mais completo da nacáo francesa. París. 1904. mas distingue-se de todos os outros espíritos geométricos pela angustia que o objeto dos seus estudos lhe inspira. subentendidos. 1856. 1623-1662. de que só urna iluminacáo súbita o arranca. 1923. está Pascal inteiro: a angustia desesperada em face de problemas da epistemología. Edi?ao das Pensées por L. generaliza§áo pessimista da sua própria situacáo angustiosa. m . París. V.1040 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1041 Royal? Com o caso d e Pascal convém iniciar aquéle estudo analítico das correntes que enformaram o classicismo. Strowskl. 1920. mas a sua vítima é menos o próprio Aristóteles. Brunschvicg. L. París. Brunschvicg. 1910. Pensées (1670). études d'histoire morale. É até um genio universal. pessimismo e desespero. París. Q. Edicáo completa por L. antiaristotélico como fisico e como jansenista. Jolivet: "L'antlcartésianisme de Pascal". 1936. nao diz respeito á física. Lettres Provinciales (1656/1657). por J. ." ed. Paris. Galzer. medem e calculan). nem dramaturgo. TI/III. Será até precipitado incluir o seu nome entre os promotores decisivos do progresso científico: outros motivos. 1923/1931. A. do que o aristotelismo dos comentadores. Pascal retorna ao experimento. mas nao o maior. um "rinascimento" místico: "Feu Certitude Certitude Sentiment Joie Paix!" Evidentemente. mas á metafísica. Sainte-Beuve. e no fundo é outra revelacáo apenas que lhe importa. F. o defeito das suas pesquisas reside na impaciencia típicamente grega. 1900. Eis a primeira distincáo que se impóe. porque a sua verdadeira curiosidade. París. E. Os aristotélicos de todos os tempos satisfizeram-se com as dedugoes. é o problema de 38) Blaise Pascal. De Vesprit géométrique (1655). nem romancista. segundo sua própria expressáo. 1925. Pascal é um melancólico de nascenca. aquela que explicada um misterio do qual os experimentos nem sequer se aproximam: o misterio da "condi$ao humana". A.) W. cf. o animaram. é urna natureza aristotélica. o criador da geodesia barométrica e do cálculo das probabilidades." E nessa citagáo. um "esprit géométrique". París. París. Entretien avec M. Voeuvre. Récit de la grande expérience de Véquilibre des liqueurs (1648). 1904/1914. J. 1897. 3 vols. 1907/1909. Paris. C. Revela misterios dos cones e dos líquidos. Pascal fica assustado: "Le silence éternel de ees espaces infinis m'ef- fraie. Pascal. París.. 1923. P. l'injluence. Blaise Pascal (. Pascal é. Neste sentido. Edinburgh. d a hidráulica. por F. Vinet: ttudes sur Blaise Pascal. Onde os outros observam. físico entre os homens da religiáo. Bssai pour les coniques (1640).) A. Boutroux e A. 1932. Expériences touchant le vide (1647). París. Paris. é o primeiro grande prosador francés. á maneira da Renascenca: é o grande matemático e físico. (In: Archives de Philosophie. Oiraud: Pascal. Brunet: Pascal poete. Chevalier. nao se trata de um mero especialista em matemática e física. 1923. Pascal é do número daqueles que destruiram o dominio da física aristotélica. Brunschvicg: Pascal. da metodología astronómica e teológica. e 3 vols.. l'homme. Droz: ttude sur le scepticisme de Pascal. nao termina coisa alguma. o estudioso das seqoes cónicas. (Vols. A. a quem conhecia mal.1s) nao foi poeta. Suarés: Puissances de Pascal. Parece mesmo que foi Pascal que transformou essa expressáo dos pregadores e moralistas em termos de filosofía moderna. 2.

Mas ésse dogma nao é propriedade exclusiva dos jansenistas.1042 OTTO M A R Í A CABPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCTDENTAL 1043 Pascal. no seio do qual Pascal nasceu. Parece. os jesuítas nao foram capazes de restabelecer o seu renome. ao qual aqueles nao aspiraran). que "facilitara"' a religiao. en faisant dire des messes. Houve quem considerasse a polémica das Lettres provinciales como inicio do estilo satírico em materia religiosa. separaram-se os caminhos. Até hoje. e que o uso mecánico dos ritos talvez tenha sido maior estimulo á indiferenga religiosa do que qualquer ardor polémico. Mas o efeito da polémica era destruidor. advertindo-os de que Deus poderia remover do altar os candelabros déles. quelque belle que soit la comedie en tout le reste: on jette enfin de la terre sur la tete. Voltaire encontrou reunidos nessa obra o grande pathos de Bossuet e a comicidade de Moliere. confundiu. mas cumpre observar que a polémica da Reforma e Contra-Reforma já conhecera a sátira maledicente. urna das maiores obras da eloqüéncia francesa. do voltairianismo. As Lettres provinciales já tinham sido o maior servico que Pascal pudera prestar a Port-Royal. e eis a segunda distincáo que se impoe: Pascal tornou-se partidario de Port-Royal. assim como estes." Isso é conseqüéncia da indiferenca religiosa. fazendo as distingoes mais sutis a respeito de "assinar". com a pergunta "ingenua" no fim: e estes todos seriara cristáos? Talvez sejam as Lettres provinciales a única obra moderna comparável aos grandes discursos de Demóstenes. a sua dialética está cheía de sofismas. de que Pascal está afastado por circunstancias exteriores e pelo calor das suas emocoes religiosas. A servi$o de Port-Royal. dos jansenistas. e a sua fraqueza pelo dogma do pecado original. Mas quem agora domina. "nao assinar" e "assinar com reservas mentáis" os documentos de submissáo. essa mistura esquisita de capacidades espirituais e miserias físicas. e no catolicismo. com efeito. "Ce qui m'étonne le plus est de voir que tout le monde n'est pas étonné de sa faiblesse. nao foi decisivo. e." A verdadeira religiáo é a que resolve ésse problema: a religiao crista explica-nos a grandeza do homem como criatura de Deus. Pascal torna-se aliado dos antíjesuítas profissionais. conscientemente ou nao. permitindo por motivos políticos e "políticos" o ingresso dos pecadores no templo. as Lettres provinciales também sao injustas. e em Moliere nao há nada mais cómico do que a enumeragao burlesca dos nomes extravagantes dos casuistas jesuísticos. Depois. tampouco foi decisivo o seu desejo de morrer no seio da ortodoxia ca- ." Mas nao é simplesmente a obcessao da m o r t e . só a interpretacáo do pecado original é indiferente no calvinismo. Pascal nao desdenhou o uso de citagóes alteradas. em Bossuet nao há nada mais sublime que a ameaga pascaliana contra os jesuítas. tout ce qu'elle a de grand et tout ce qu'elle a de miserable. substituindo a angustia pelo uso mecánico dos ritos. e o pensamento invariávelmente voltado para a m o r t e : "Le dernier a c t e est sanglant. que os próprios jansenistas nao estavam edificados com certos processos polémicos do seu aliado. o papel dos juristas da casuística. e. en prenant de l'eau bénite. é o sentimento da morte lenta e permanente em nos. et en voilá p o u r jamáis. os jesuítas. na Igreja católica. etc. "C'est en faisant tout comme s'ils croyaient." Os jesuítas perverteram o sentido da religiao crista. por isso. O desgósto de Pascal com os subterfugios dos jansenistas. a profunda seriedade do autor das Pensées desmente aquela apreciacao das Lettres provinciales. no entanto. É o dogma de Pascal. no sentido da polémica maliciosa do século X V I I I . indispensável em todas as religioes organizadas com o dos santos e místicos. e em muitas línguas a palavra jesuíta conservou a significarlo de hipócrita astuto. mas nao será jansenista. da perversáo inexplicável das nossas capacidades. Por outro lado. Naturellement méme cela vous fera croire et vous abétira. porque só a religiao conhece "á fond notre nature. Pascal escreveu as Lettres provinciales.

Pascal nao desdenhou o uso de citacoes alteradas. Por outro lado. a sua dialética está cheia de sofismas. Parece. no seio do qual Pascal nasccu. e em muitas línguas a palavra jesuíta conservou a significagáo de hipócrita astuto. "C'est en faisant tout comme s'ils croyaient. com efeito. e que o uso mecánico dos ritos talvez tenha sido maior estímulo á indiferenga religiosa do que qualquer ardor polémico. Mas ésse dogma nao é propriedade exclusiva dos jansenistas. Até hoje. porque só a religiáo conhece "á fond notre nature. e eis a segunda distingáo que se impoe: Pascal tornou-se partidario de Port-Royal. e em Moliere nao há nada mais cómico do que a enumeragáo burlesca dos nomes extravagantes dos casuistas jesuísticos. et en voilá pour jamáis. indispensável em todas as religioes organizadas com o dos santos e místicos. por isso. d a perversao inexplicável das nossas capacidades. Naturellement méme cela vous fera croire et vous abétira. Pascal escreveu as Lettres provinciales. na Igreja católica. As Lettres provinciales já tinham sido o maior servigo que Pascal pudera prestar a Port-Royal." Isso é conseqüéncia da indiferenga religiosa. essa mistura esquisita de capacidades espirituais e miserias físicas. só a interpretagáo do pecado original é indiferente no calvinismo. fazendo as distingoes mais sutis a respeito de "assinar". do voltairianismo. a profunda seriedade do autor das Pensées desmente aquela apreciagáo das Lettres provinciales. em Bossuet nao há nada mais sublime que a ameaga pascaliana contra os jesuítas. "Ce qui m'étonne le plus est de voir que tout le monde n'est pas étonné de sa faiblesse. que os próprios jansenistas nao estavam edificados com certos processos polémicos do seu aliado. no sentido da polémica maliciosa do século X V I I I . substituindo a angustia pelo uso mecánico dos ritos." A verdadeira religiáo é a que resolve ésse problema: a religiáo crista explica-nos a grandeza do homem como criatura de Deus. e a sua fraqueza pelo dogma do pecado original. no entanto. ao qual aqueles nao aspiraram. Depois. Pascal torna-se aliado dos antijesuítas profissionais. etc." Mas nao é simplesmente a obcessáo da m o r t e . assim como estes. Mas o efeito da polémica era destruidor. O desgósto de Pascal com os subterfugios dos jansenistas. en prenant de l'eau bénite. tout ce qu'elle a de grand et tout ce qu'elle a de miserable. os jesuítas. separaram-se os caminhos. mas cumpre observar que a polémica da Reforma e Contra-Reforma já conhecera a sátira maledicente. com a pergunta "ingenua" no fim: e estes todos seriam cristáos? Talvez sejam as Lettres provinciales a única obra moderna comparável aos grandes discursos de Demóstenes. É o dogma de Pascal. os jesuítas nao foram capazes de restabelecer o seu renome. é o sentimento da morte lenta e permanente em nos. A servigo de Port-Royal. urna das maiores obras da eloqüéncia francesa. as Lettres provinciales também sao injustas. Houve quem considerasse a polémica das Lettres provinciales como inicio do estilo satírico em materia religiosa." Os jesuítas perverteram o sentido da religiáo crista. en faisant dire des messes. e no catolicismo.1042 OTTO M A M A CABPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1043 Pascal. mas nao será jansenista. quelque belle que soit la comedie en tout le reste: on jette enfin de la terre sur la tete. de que Pascal está afastado por circunstancias exteriores e pelo calor das suas emogoes religiosas. confundiu. dos jansenistas. o papel dos juristas da casuística. permitindo por motivos políticos e "políticos" o ingresso dos pecadores no templo. Voltaíre encontrou reunidos nessa obra o grande pathos de Bossuet e a comicidade de Moliere. advertindo-os de que Deus poderia remover do altar os candelabros déles. que "facilitam" a religiáo. e. e. Mas quem agora domina. nao foi decisivo. tampouco foi decisivo o seu desejo de morrer no seio da ortodoxia ca- . e o pensamento invariávelmente voltado para a m o r t e : "Le dernier acte est sanglant. conscientemente ou nao. "nao assinar" e "assinar com reservas mentáis" os documentos de submissáo.

" O cartesianismo pretende submeter todos os setores da atividade mental ás regras da "Raison". "Dieu d'Abrahan. pode ser plenamente compreendida: nem para todas as ciencias serve o mesmo método. outra vez. na sua qualidade de jansenista. sao diferentes o método indicado para as ciencias matemáticofísicas e o método das "ciencias do espirito". algo de aristotélico — leva-o a urna distingáo fundamental. As demonstragoes históricas nao oferecem nunca certeza absoluta. . da qual Pascal é. mas com a sua expressáo literaria. nao.1041 OTTO MARÍA. mas é a profissáo de fé do fisico. acreditava firmemente ñas demonstragoes lógicas e históricas em materia apologética. non des philosophes et des savantes". Pascal pretendeu demonstrar a verdade crista. vous ne perdez ríen. e sim de necessidades vitáis da alma angustiada: " O u i . Para Pascal. original — enfim. contraria á metodología da dogmática católica. na historia." Permanece a objegao dos primeiros leitores das Pensées: apostar em materia táo grave como a existencia de Deus é blasfemia. literaria. a Dante." Seria a Declaragáo de Independencia da literatura moderna. para chegar a Deus. en prenant croix que Dieu est. responde Pascal outra vez. pelo menos na Franga. Ésse existencialismo meio céptico é profundamente anticatólico e devia aborrecer a Nicole. Dieu de Jacob. sao urna apologia do cristianismo. Pascal respondería aos assustados: "Estáis aborrecidos nao com o pensamento. mas Pascal nao fala do dogma. e o seu empirismo — que tem. assim a literatura tem também o seu. assim como a física e a teología tém os seus métodos próprios. e também na sua qualidade de cartesiano. Para esta literatura Pascal criou urna lingua — "il a fixé la langue" — e urna prosa capaz de exprimir igualmente os raciocinios do "esprit géométrtque" e as emogóes do "esprit finesse". CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1045 tólica. E a única saida do seu cepticismo foi o "salto mortal" de renunciar á certeza lógica para conseguir a certeza empírica. Gagnez done qu'il est. Eis o sentido do famoso "pari de Pascal": "Pesons le gain et la perte. A grande diferenga e n t r e Pascal e os jansenistas está nos processos apologéticos. sem dúvida. Nestas. J á o compararam. Rickert e Windelband. que só hoje. daí os tragos pascalianos no pragmatismo dos modernistas. Dieu d'Isaac. Mas as Pensées nao sao urna confissáo poética. Pascal é poeta em prosa. "il faut". se a religiáo nao se revela "raisonnable". Pascal nao tem médo da mera probabilídade: é o máximo possível que o espirito humano pode conseguir em assuntos existenciais. capaz de nos emocionar e convencer. Pascal. na metafísica. que só confia no experimento visto e controlado. como poeta religioso." A argumentagao é. que chegaram a distinguir as certezas da fé e as probabilidades da historiografía e também da teología de Newman. Mas. O anticartesianismo de Pascal é a explicarlo da famosa frase: "Le coeur a ses raisons que la raison ne connait point. mas no próprio ato do martirio está a demonstragao da fé "que está por cima de toda a razáo". sans hésiter. a religiáo está no centro de todas as cogitagoes." Os mártires nao sao testemunhas da fé revelada e escrita. Ésse famoso grito do Memorial. já se consideraran! as Pensées como um monólogo shakespeariano n o grande drama dessa alma. poética. o criador. Ésse pensamento é. É o credo do existencialista. Estimons ees deux cas: si vous gagnez. entao Descartes a excluí das suas cogitagoes. do ponto de vista católico. como assunto marginal. altamente herético. pode ser tido por declaracao de falencia do matemático. e. e a tragedia da sua inteligencia consiste na sua incapacidade de apresentar essa demonstragao. " J e no crois que les histoires dont les témoins se feraient égorger. tudo serve e a expressáo dessa angustia violenta tem de ser violenta. vous gagnez tout. na teología. bom católico e bom cartesiano. ora. nao existe a certeza matemática das demonstragoes lógicas e temos de contentar-nos com probabilidades. testemunho da sua conversáo. depois das análises de Dilthey. si vous perdez. Um Nicole. mais il faut paríer. assim como s e demonstra urna verdade geométrica.

só os acentos sao diversos. do qual a criatura está separada pelo abismo dialétíco. o repre- . E nao poderiam ser mais diferentes do que sao os resultados do movimento psicológico-religioso: nos jansenistas. e eis um dos motivos da grandeza contraditória do seu genio. 1936.1046 Otro MAMA CABPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1047 de tal modo que essa prosa substituiu a própria poesía. a disposicáo mental dos classicistas franceses — Pascal. a solidao dos que. T. e por isso antiescolástico e antijesuítico. e o ponto de partida de Pascal é antropocéntrico: procura sair das miserias da condi$ao humana. Mas nessa oposicáo contra os jesuítas os jansenistas encontram como aliados os dominicanos. Pascal teria descoberto ou antes redescoberto a incompatibilidade fundamental entre o cristianismo e o mundo. como Agostinho. a graca aos seus c:leitos. Amoudru: La vie posthume des Pensées. para as quais mundo e vida sao misterios indecifráveis. jansenismo cartesiano-anticartesiano e psicología mística — que é a combinacáo básica. Adoram-no como precursor de Heidegger e Sartre. Pascal é humanista. Os modernistas católicos. mas. em Pascal. continua com a interpretacao romántica da vida de Pascal como tragedia da alma religiosa. como doutor do existencialismo. como movimento neo-augustiniano. vivida por Lamennais e tantos outros apóstatas. £ por isso esta prosa se presta a equívocos e interpretacoes erradas de toda especie. continua com a pretensao dos protestantes de considerar Pascal um dos seus. morreram para éste mundo para nascerem outra vez. Em comparadlo com os jansenistas. Kierkegaard. Os movimentos e figuras que compoem o classicismo francés. Comega com a s polémicas entre jansenistas. crentes ou descrentes. por volta de 1905. Néle se reú• nem empirismo. disciplinando-se com heroísmo "clássico". o genio religioso no deserto do cepticismo e da indiferenca. e pelo menos é verdade que Pascal influiu no método apologético do Cardeal Newman. "Feu Certitude Joie" da uniao mística com Deus. Pascal já nao é o "anticlerical" dos pos-jansenistas. revelam-se na sua prosa científico-poética todas as suas contradicoes dialéticas entre ortodoxia dogmática e cepticismo humanístico. prossegue com o odio dos "filósofos" do século X V I I I contra o pessimista metafísico. Pascal tornou-se o santo patrono dos descrentes. criou-lhes o instrumento de expressao: a ling u a .ulero. esmagados entre a ortodoxia e o mundo. tu ne me chercherais pas si tu ne m'avais trouvé " — só isso lhe importa. a mais ilustre vítima do cristianismo que esmaga o homem natural. antijesuíticos pelo tomismo rigoroso da sua tradigáo. O jansenismo. é antes antijansenismo. é antiaristotélico. Os jovens "neocatólicos" de 1920 reconheceram em Pascal o espelho das suas próprias angustias dentro da ortodoxia penosamente mantida. a prosa do classicismo. os "twice-born" da psicología religiosa de William James. jansenismo e mística. grande simpatizante do jansenismo. Porque o ponto de partida do jansenismo é teocéntrico: Deus confere. como estes. a dos grandes genios religio39) B. entre curiosidade científica e angustia enxistencialista. temor e esperanca da Graca do "Deus absconditus". Talvez se explique assim o fato análogo de ser Boileau. em virtude daquela combinacáo de empirismo científico. arbitrariamente. Pascal é o mais anticlássico dos espíritos. reivindicado como santo do modernismo. Comparam-no a Kierkegaard e a Kafka. que é aristotélica. reclamam Pascal como precusor do seu pragmatismo. que o jansenismo exclui. Em compensacáo. sos da humanidade. revelam-se todos como misturas contraditórias. Renán e Nietzsche odeiam e admiram "o maior e mais infeliz dos cristáos". católicos e libertinos a respeito da ortodoxia das Pensées. E isso nao é jansenismo. Em meio dessa nuvem de interpretacoes. tragedia escrita por Sainte-Beuve. "Console-toi. Em todos os tempos Pascal encarna a inquietacao das almas. Pascal continua na sua ¡mensa solidao. A exegese pascaliana percorreu urna historia longa e dolorosa ( 3 8 ). ou antes. París.

com a sua tradícao erasmiana de humanismo cristáo numa "Terceira Igreja". O ambiente flamengo-holandés. A sua literatura é urna literatura de pedagogos e moralistas — eis a influencia principal do jansenismo e. A arte do dramaturgo e a do romancista justificam-se apenas quando correspondem á arte diferente. Fidao-Justlnlanl: Discours sur la raison classique. teve origem diferente.) 41) L. París. é preciso estudá-lo para compreender bem o contramovimen42) J. mas apenas em sentido diferente do moderno. para evitar o equívoco evidente. Eis o que parece racionalismo cartesiano nos versos de Boileau: 40) F. a transformac. Bremond demonstrou ( 43 ) que a verdadeira origem do jansenismo estava no ascetismo mórbido de Claude Lancelot.• 1048 OTTO M A M A CAHPEAUX HISTORIA DA LITEBATUBA OCIDENTAL 1049 sentante principal da poética aristotélica. mas os confessores Saint Cyran. A doutrina. London. mas educar a natureza humana. "Imita$ao". nao o fim. podemos acrescentar. 1896.áo dos impulsos psicológicos em realizacoes estilísticas. Vol. "Rien n'est beau que le v r a i : le vrai seul est aimable. e sim de "razoável": o classicismo educa para o comportamento razoável na vida. Brunetlére: "Le naturallsme au XVHe slécle". nao se trata de "racional". Em país de catolicismo contra-reformista. Os clássicos franceses nao sentiam contradigáo entre o "vrai" e o "beau". fazem parte dessa técnica de transformar o "vrai" em "beau". 1924. que aprovou e aplicou essa praxe. que na mesma época inquietaran! a Holanda vizinha. 1937. o heroísmo e a sublimidade da literatura clássica francesa nao deixarem de ser "naturalistas"." Brunetiére ( 40 ) baseou nesses versos a hipótese do naturalismo que teria dominado na literatura clássica — o verdadeiro naturalismo. 43) H. e no rigorismo mórbido de Saint Cyran. Daí. das quais Boileau é partidario ortodoxo. significa. Os chefes principáis do jansenismo nao sao Arnauld e Nicole. Abercrombié: The Theory o/ Poetry. segundo a interpretagao de Lascelles Abercrombié ( 4 1 ). a da psicopedagogia religiosa. Singlin e Saci. baseando a praxe na doutrina da Jansenius. do realismo da mística espanhola — e por isso excluem cuidadosamente os elementos caóticos e irracionais da natureza. em grego. I. Os jansenistas eram inimigos da arte profana porque gostavam de monopolizar a outra arte. Jansenius era bispo de Ypres. mas análoga. IV. C. em oposicao ao falso de Zola. semipelagianos protestantes. et méme dans la fable. e Louvain o centro da sua escola. No protesto contra o semipelagianismo dos jesuítas havia também protesto contra os arminianos. Mas é preciso entender o sentido do termo imitacao em Aristóteles. París. "Imitacao da natureza" é a tese central da estética de Aristóteles. 1920." "Raison" é o instrumento. do diretor das consciéncias. do conf essor. As famosas regras aristotélicas. II doit régner partout. a teoría de Arnauld com respeito á comunháo veio só depois. para a "raison créatrice et prudence épique" (* 2 ). que se privou do conforto da eucaristía. porém. e Boileau interpreta: "Que la nature done soit votre étude unique" "Aimez done la raison: que toujours vos écrits Empruntent d'elle seule et leur lustre et leur prix. é o pendant ficticio da religiao e da moral verdadeiras. É urna literatura moralista no sentido de Aristóteles e dos seus comentadores contra-reformistas. . Paris. a arte nao pode ter outro fim. (In: Études critiques sur l'histoire de la littérature frangaise. quer dizer: técnica literaria. porque o fim da sua arte nao era retratar a natureza bruta. Bremond: Histoire littéraire du sentiment religieux en Frunce depuis ¡a fin de la guerre de religión. Vol.

O homem moderno gostaria de dar outros nomes as coisas. na Suiga. Pela mesma razáo. clérigos. a querela jansenista foi tratada como assunto de comedia. enquanto . imbuida de idéias feudais. embora dando-lhes outros nomes. essencialmente anti-humanístico. a partir dos séculos X V I e X V I I . na Holanda. considera o dinheiro como destinado a ser consumido. Os "filósofos" e enciclopedistas do século X V I I I nao se cansaram de zombar dos jansenistas e jesuítas. decorrentes de antinomias dentro do próprio dogma. razoáveis. sabemos da enorme influencia da religiáo no comportamento social dos homens. país onde o catolicismo venceu pela Contra-Reforma. num momento em que a psicología e epistemología de Santo Agostinho já haviam sido renovadas por Descartes. Para o crente. do problema angustioso da Graca. Poderia haver ocupacao mais inútil? Desde Voltaire. opondo-se á idéia da uniáo mística. sao incompatíveis com a mentalidade burguesa. com o alto aprégo á pobreza ou o desprézo do sucesso mundano em face da morte. Desde que Sainte-Beuve redescobriu Port-Royal. nomes tomados por empréstimo á psicofisiologia e á sociología. outra tradicao flamenga desde os tempos de Ruysbroeck. Desde que Max Weber e Troeltsch criaram a sociología religiosa. transformar em pedagogía cartesiana. os problemas da Graca e da predestínagao sao da maior importancia. Daí provém a atragao que o cartesianismo exerceu sobre os jansenistas Arnauld e Nicole: Descartes era um aliado contra a mística. Mas nao se pode julgar assim sem cometer anacronismo grave. aliada do absolutismo real. A pedagogía de Arnauld e Nicole é urna tentativa de racionalizar. o jansenismo é urna tentativa de condensacáo em fórmulas teológicas. ou se foi concedido ao homem o livre arbitrio para merecé-la por meio de obras meritorias: sao problemas sutis. na Inglaterra. o jansenismo é antimístico. é responsável pela mentalidade que criou o capitalismo. mas as coisas permanecem as mesmas: o problema da liberdade e do determinísmo nao foi resolvido. porém. Saber se Cristo morreu por todos ou só pelo "pequeño número de eleitos". tema principal das conversas no confessionário. saber se o pecado original nos corrompeu de tal modo que só da Graca se pode esperar a salvacáo. Arnauld opoe ao movimento místico francés da primeira metade do século X V I I a dialética augustiniana de Jansenius. e onde ao mesmo tempo a burguesía. Assim. protestando contra a identificacáo o u mistura do divino com o humano. saber se a Graca divina é irresistível e salva a todos. enquadra-se perfeitamente no panorama da luta em torno de Port-Royal. a literatura psicológica dos franceses sempre continuou e continuará a debater aqueles problemas teológicos. Certas doutrinas do catolicismo medieval. nao deixam. com a sua doutrina de predestínagao dos eleitos e a moral da ascese intramundana do trabalho. o calvinismo. saber se a própria pessoa pertence ao número dos predestinados ao Céu ou ao número dos predestinados ao Inferno. de ter conseqüéncias importantíssimas quanto ao comportamento do homem no mundo. a ausencia de doutrinas assim é responsável pelo atraso económico das nagóes católicas. No fundo. Entre os dois polos encontra-se a Franga. leigos e até damas mundanas que quebraram as cabecas e lutaram apaixonadamente por causa dos sutilíssimos problemas teológicos da Graca divina. Mauriac e Julien Green sao chamados "jansenistas". a psicopedagogia dos grandes confessores. Mas nao se trata apenas de conflitos íntimos e rea§6es psicológicas. ascendeu á riqueza e a participagao no poder. um romance como L'École des femmes. ou se o coracao petrificado pela concupiscencia tem fórga para rejeitar a salvacáo. de André Gide. acentúa o abismo dialético e n t r e Deus e o homem.1050 Qrro MARÍA CABPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1051 to do jansenismo. Mas a incompatíbilidade mais grave existia a respeito da consideragao do dinheiro: a filosofía crista medieval. "jansenista" é urna das qualificagoes mais freqüentes na crítica literaria francesa. E s panha e Italia.

os dois partidos procuravam conciliacoes impossíveis. chamando-lhes "heresias calvinistas". Porém o Direito canónico. dramaturgo e jansenista. Gretser. A significagáo social da querela jansenista é a luta de ascensao da burguesia. provém do aristotelismo dos teóricos contra-reformistas da Italia. 1927/1930. latifundiários absenteistas e a "jeunesse d o r é e " podem tomar essa atit u d e . Os jesuítas pretendiarn reconhecer a burguesía como "corpora(3o" no sentido medieval. luta que se travou ñas fórmulas teológicas da época barroca. créditos. as grandes familias da Justica parlamentar e da alta burguesía provinciana. Gregorius de Valencia. Halle. como conseqUéncia. análogas ás facilidades moráis. concessoes á burguesía. B. Quem se bateu em primeira linha pela acomoda$áo da doutrina social católica foram os jesuítas. . incompatível com as pretensóes mais exigentes. No fundo. A solugao jansenista sstisfez ' a "noblesse de robe". 1932. Neste sentido. da grande burguesía. Wien. proíbe peremptóriamente os juros como usura criminosa. as famosas "facilidades" eram. económicas e outras. a "ascese intramundana do trabalho" e. o "census personalis". inventaram certas formas de contratos comerciáis — o "contractus trinus". Existe. a ascensao individual á riqueza ilimitada. 1927. empréstimos e todos os negocios que rendem juros. Desta vez. que já defenderá os juros. Tratava-se da posigáo da nova burguesía dentro do sistema da hierarquia social. Os "reacionários" eram os jansenistas.ao de capitais em anuidades ("census personalis") e os juros dos empréstimos públicos ("titulus legis civilis"). completando-se. á laicizacáo da burguesia francesa. no entanto. París. o "titulus lucri cessantis". conservando-se. ÍBto é. E n t r e os jesuítas que defenderam tal solu$áo encontram-se Ledesma. assim. desejosos de acomodar-se ao mundo moderno para nao perderem tantas almas. era. mas era incompatível com o caráter económico. O malogro das duas solucóes levou á indiferen$a religiosa. compromisso entre as tendencias contráditórias da época. o Conde Scipione Maffei. O papel dos jesuítas era mais "progressista" do que "reacionário". casuistas que também figuram ñas Lettres provinciales. Knoll: Der Zins in der Scholastik. Aínda no século X V I I I . outorgando-lhe certas "facilidades" económicas. como representante da burguesía católica de Verona. Os jesuítas. Laymann. arqueólogo. respondeu-lhe. possibilitou-se aos membros dessa classe. Tanner. (As duas edl?óes da obra sao diferentes. como novo "tiers-état" ao lado das classes antigás. Os dominicanos sempre mantiveram ésse ponto de vista rigoroso. herdada da Idade Media. sem dúvida. Groethuysen: Origines de l'esprit bourgeots en France. urna reíanlo íntima entre o problema da Graca e o problema dos juros do capital (**"). O* jansenistas recomendavam como solugáo do problema a volts á ascese medieval. em parte. o classicismo é barroco. M. Oroethuysen: Die Entstehung der buergerlichen Welt — und Lebensanschauung in Frankreich. mas vedandolhe a possibilidade de ascensao política. baseando-se em argumentos do famoso teólogo jansenista holandés Nicolaus Broedersen. para o burgués. A solucáo jesuítica satiafez os desejos dos pequeños-burgueses. como individuos. criagao da época feudal. A teoría literaria do classicismo é aristotélica. essencíalmente pequenoburgués. da na$áo francesa. o dominicano italiano Daniele Concina atacou a colocac. porque pretendiarn ser mais ortodoxos do que o próprio Papa.• ¥W' 1052 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTÓFIA P A LITERATURA OCIDENTAL 1053 na época moderna só aristócratas ociosos.) 44) A. o primeiro 46) B. o dinheiro significa fonte de enriquecimento por meio de colocacao de capitais. A expressáo literaria désse processo é o classicismo francés. É o processo do Barroco. a ortodoxia da doutrina social com respeito á nova classe inteira. o "titulus legis civilis" — para iludir a proibigáo canónica dos juros. 2 vols. com a Revolugao e o an ti clericalismo da Revolucao como resultado final ( " ) .

A influencia espanhola. cristalizam. revela-se nos cornej o s de um teatro popular de que Hardy é o representante. e urna terceira corrente." A fachada do classicismo francés é aristocrática. claro. sendo ésse Estado administrado pela burguesía dos "intendants" de "ce grand roi bourgeois". maneira crista em Bossuet. mística e aristotelismo: eis os quatro elementos constitutivos do Barroco. excessivo. Spengler introduziii na historiografia o termo mineralógico pseudomoiíose: certas substancias minerais. Madame de La Fayette. mas por outros motivos. pior ainda. e La Fontaine. O conteúdo do classicismo é jansenista. jansenista. O classicismo francés é urna pseudomorfose assim: o cristal é aristocrático. Aristocratismo. Essa definigáo do classicismo francés torna dispensáveis as classificagóes artificiáis segundo os géneros. em que estao acordes Corneille e La Rochefoucauld. ou entio.. o conteúdo é burgués. é possível diagnosticá-la pelo estudo dos movimentos anteriores da literatura francesa e das influencias estrangeiras. exuberante. 47) A. é separada de Racine e colocada ao lado de La Rochefoucauld. urna substancia mineral preenche o lugar de outro mineral. temperado. a opiniáo de Gide ( 47 ) acerca do fundamento da "ciarte classique" em qualidades moráis. la tempérance. produzindo a tragedia de Corneille. engañando o mineralogista a respeito da composigáo do cristal. barroca. Contra essa identificagao está a hipótese de Hatzfeld de que o classicismo é a forma francesa do Barroco. "clair-obscur". Com o aristotelismo. outra corrente. á qual pertence Corneille. até certo ponto abafada. aristotélica. o classicismo francés é sobrio. París. sobre isso nao pode haver dúvidas. Gide: Incidencet. Mas a angustia religiosa é atenuada. que se exprime estoicamente em Balzac e de. é possível distinguir tres correntes principáis: urna corrente hispanizante. a presenga dos outros elementos barrocos. la peur de l'excés et la peur du risque". Peyre ( 46 ) reconhece nessa clareza as virtudes essenciais do povo francés: "l'économie. Na verdade. augustiniano-cartesiana. alias. Peyre fala em "vertu bourgeoise". romántica. Contudo. do qual sao representantes os oradores sacros e os famosos "moralis- 46) Cf. entra na Franga o conceito moral da literatura. reí da corte mais aristocrática de todos os tempos. naturalismo. ñas quais genios tao diferentes como Corneille. O Barroco é retórico. a intervengao da teoria aristotélica modifica essa evolugáo. Racine e Mo• liére se acham reunidos como "dramaturgos de primeira ordem". pelo simples fato de serem mulheres. os independentes sao La Fontaine e Moliere. como moralista. é qualificado como "independente". Quanto aos outros. em correspondencia exata com a estrutura do Estado de Luís XIV. que nao sao fatalmente as da nacao inteira. tomando-lhe emprestada a forma cristalográfica. depois dos estudos de Brunetiere e Lanson. italianizante. que exerce influencia dominante sobre todo o resto. ou. e cita urna frase do grande aristócrata La Rochefoucauld: "Ce n'est pas assez d'avoir de grandes qualités. que encontra a sua expressáo p u r a — a observagáo é. porque foi o único fabulista da época. . il faut en avoir l'économie. o interior do edificio revela-o como grande casa burguesa. Bossuet e Racine: a sublimidade trágica e a "ardeur épique". O próprio Peyre invoca. ao lado de Madame de Sévigné. na forma primitiva. nota 37. de coraposicáo química diferente. E a forma exterior dessa mistura de elementos heterogéneos é o aristocratismo. cumpre admitir que o classicismo francés se distingue de toda a literatura barroca. jesuítica. 1054 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCJDENTAL 1055 grande partidario das "regras aristotélicas" foi o "précieux" Chapelain. embora havendo passado por profundas transformacoes da sua composicio química. angustiado. 1924. de Lanson — nos realistas e naturalistas da poesía burlesca e do romance picaresco. equilibrado. é a expressáo máxima da famosa "ciarte fran§aise". pelo racionalismo cartesiano. urna vez mais.

" Estes versos encerram preciosa ligáo. O teatro espanhol e o inglés parecem mais naciónais no sentido de mais populares. sans craindre le hola. mas é exclusivamente francesa. Os críticos. O moralismo francés é urna especie de arrependimento após as convulsoes da F r o n d e . pelas análises cartesianas. do "teatro de ilusáo". teatro burgués-medieval em pleno século X V I e até no comégo do século X V I I . Peut aller au parterre attaquer Attila. A organizagáo do teatro clássico francés ( 48 ) assemelha-se mais á organizagáo do teatro elisabetano: as companhias. 1934. Robert Garnier é grande poeta. enquanto o teatro francés parece só de gente culta. As tragedias político-históricas de Corneille seriam táo incompreensíveis a um romano como o seriam a um grego as tragedias psicológicas de Racine. Racine e Moliere é. A origem do teatro clássico antes se encontra ñas representagoes populares. 48) S. perante o público burgués. na Franca. Wllma Holsboer: Histoire de la mise en scéne dans le théátre frangais de 1600 d 1657. Mas ésses dois motivos nao resistem á análise. ingleses. o espirito burgués impoe urna tranqüilizagáo das paixoes a seu modo. pelos escrúpulos jansenistas. porém. sobretudo da corte e da aristocracia. París. certa dignidade inacessível. censura os costumes pouco polidos dos espectadores. desprezadas por aqueles humanistas: ñas últimas "moralités" e "mystéres". na sátira nona. dizendo: "Un clerce. no século X V I I I . é dos jesuítas. dessas que Scarron descreveu no Román comique. Tartufo e Alceste personagens plautinas ou terencianas.. e o público era táo pouco exigente quanto em Londres. Fóra literario apenas no século X V I : teatro de humanistas eruditos. . nos teatros. Na Inglaterra. e aqueles versos de Boileau já revelam o que os documentos pormenorizam: todas as classes da sociedade participaran! da paixáo teatral. como se o teatro clássico francés tivesse sido apenas aristocrático e literario. O teatro de Corneille. París. corrígindo urna ilusáo de óptica muito freqüente. e esta nao difere do aristotelismo mal interpretado dos italianos do século X V I . O teatro clássico francés tem larga base popular. Boileau. atenuando-as pelas "bienséances" da estética aristotélica de Boileau: o resultado é a poesia aristocrática e temperada. e o gósto barroco das decoragoes suntuosas. quando muito. urna criagáo táo nacional como os teatros mais típicos de outras nagoes. que parece universal. espectadores e leitores estrangeiros sentiram sempre. espanhóis e alemaes nao conseguiram imitar aquela arte. italianos. 1935. assim como as pegas "experimentáis" dos italianos contemporáneos ou dos primeiros "University wits". de Calderón e do teatro inglés da Restauragáo. que era táo viva como na Espanha ou na Inglaterra. tampouco sao Harpagáo. berulliana. certa frieza intelectual. representam o seu repertorio principalmente na cidade. dirigindo-se á massa. considerando-se particularmente que as companhias levavam o repertorio também as cidades da provincia. O principal elemento antigo no teatro francés é a teoría. jansenista e aristotélica. pour quinze sous. mas o sentido désse moralismo é logo modificado pelo misticismo da época anterior. em competigáo com as companhias de atores viajantes. de Racine. e sim do senso de economía. explicando isso pelo imitagáo exata dos modelos antigos e pelo público aristocrático e intelectual dos teatros. conquanto gozem de privilegios e subvengoes reais. barroca e clássica. É outra ilusáo de óptica. só aparece nos últimos anos da atividade de Corneille e com a infiltradlo da ópera. havia-os também em Madri e Londres. mas a sua poesia teatral nao pertence ao teatro vivo. 1056 OTTO MABIA CARPEAUX HISTORIA DA LITEBATUBA OCIDENTAL 1057 tes". á representagáo nos colegios. P. destinado á leitura ou. A extrema simplicidade das decoragoes nao decorria de urna vontade de esti•iizagáo. Mélése: Le théátre et le public á París sous Louis XIV. no teatro francés. Espetáculos na corte.

A estética aristotélica é de origem francesa: Scaliger C°) e r a francés. barroca. Didon. comedy. na adaptacáo de todos os enredos — mitológicos. e do qual Polonius afirma ser o melhor ator do mundo. history. Ingegneri — tornaram-se conhecidos na Franga. segundo as doutrinas de Speroni. se bem que mediocre. Ariane. o seu "romantismo teatral" á maneira espanhola. e nao impenetrável ás exigencias literarias. 1883/1884. parisiense. e n e n h u m teatrólogo francés se assemelha tanto aos dramaturgos espanhóis quanto H a r d y : na fertilidade imensa. 50) Cf. fantásticos. tragical-comical-historical-pastoral. Gésippe. tragicómicos — ao gósto do espectador burgués. inclusive porque ele representava o seu drama de maneira que Ihes era familiar: perante decoracoes "simultáneas" — as "mansions" — do palco medieval. historical-pastoral. Hardy é o criador do teatro francés. Alexandre. das suas cenas patéticas. Ela tem certamente essa fungao no Pyrame et Thisbe (1617). Stengel. 1948. Silvanire (1625). 51) Cf. vale dizer. 1890. Vollmoeller. 1604-1686. Deierkauf-Holsboer: Vie d'Alexandre Hardy. 1570-1632. Alceste. os "University wits". Elmire. Na sua ansia d e apresentar assuntos sempre novos — o consumo foi grande — Hardy gostava de utilizar enredos espanhóis. de modo que aparece até a "scéne individable". a peripecia era considerada como preparacáo indispensável da "catarse. E. As "peripecias" surpreendentes ñas suas tragicomedias pretendem impressionar os espectadores. "either for tragedy. e Rigal acredita encontrar nessa miseen-scéne a origem da "unidade de lugar" do teatro clássico. na escolha dos assuntos mais variados. Até o seu estilo bombástico e. París. autor de pastorais e comedias em estilo italiano. La belle Egyptienne. Edicáo por K. imutável. no prefacio da Silvanire (1625). Phraate. Poete du RoU New York. "Teatro e Poesía do Barroco Protestante". pendant das sínteses de teatro popular e teatro culto na Espanha e na Inglaterra. o primeiro que escreveu pegas nao para serem lidas. recomendou as tres unidades. Marburg. La Sylvie (1626). Rigal: Alexandre Hardy et le théátre trancáis au commencement du XVlle siécle. Hardy é um escritor culto. pega "précieuse". 1877. París. La forcé du sang.1058 OTTO V \u i \ I CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1059 pela mesma época. Cornélie. representada para o Hotel de Rambouillet. e o mesmo aconteceu na Franga. Nasceu assim o teatro de Alexandre Hardy (*D). nota 32. W. Mariamne. porque burgués. Nao é por acaso que a pega trata o mesmo assunto da tra- 49) Alexandre Hardy. comegou a escrever para o t e a t r o popular. de tempo e de lugar. mas podem também ser interpretadas como elemento aristotélico. Théagéne et Charíclée. Os burgueses de Paris aceitaram tudo de Hardy. Frégonde. 52) Jean de Mairet. 1888. pastoral. que na Lettre sur Vart dramatique (1630) propoe as famosas "tres unidades" pseudo-aristotélicas: unidade de acáo. etc. Riccoboni. scéne individable". Edicao da Sophonisbe por K. que apenas condescende com o gósto das massas. "Poesía do culteranismo e Teatro da Contra-Reforma". e a sua Sophonisbe (1634) é a primeira tragedia estritamente "regular" em língua francesa. o aproxima da dramaturgia do ator que recita no Hamlet. Halle. permanece poeta. nota 46. na composicao incoerente e novelística. Discipulo dos italianos é o "précieux" Chapelain ( M ) . G. Blzos: Étude sur la vie et les oeuvres de Jean de Mairet. tragical-historical. as vézes. o estilo involuntariamente cómico. de Théophile de Viau. Alcée. pastoris. gente culta. 5 vols.. no intimo. históricos. . mas para serem representadas. Sophonisbe (1634). É o comégo da síntese francesa de teatro popular e teatro aristotélico. Contudo. Daí suas concessoes ao gósto burgués e po- pular. Discípulo dos italianos é Jean de Mairet (•''•). involuntariamente cómico. Mesmo para os enredos mais romanescos Hardy usava apenas de urna decoragáo. c. pastoral-comical. Os seus discípulos italianos — Castelvetro.

1929. na evolucao do teatro francés. 1913. Stelnweg: Corneille. Os primeiros teóricos franceses conhecem a poética aristotélica dos italianos. Baltlmore. existe aínda a possibilidade de se preferir sua poesia á sua dramaturgia. 1918. 1898. A. que é só dramaturgo. Dorchaln: Pierre Corneille. 1606-1684. París. virtude típicamente burguesa. Le Cid (1636). París. Lanson: Corneille. Edlgóes completas por M. e Chapelain interpreta os Sentimens de ¡'Acádémie sur le Cid (1638). O teatro francés evitou o erro dos italianos. meras normas estilísticas. Rodogune princesse des Parthes (1644). Quanto a Corneille. Theodore vierge et martyre (1645). já dois anos antes. Pierre Corneille ( 5B ) é para os estrangeiros o "clássico" 55) Pierre Corneille. cuja Mort de César apareceu no ano do Cid. Muenchen. V. essa possibilidade desaparece. M. L'Imitalion de Jésus-Christ (trad. O classicismo francés aproveita-se das ligóes da Antiguidade. Pulchérie (1672). de Rotrou. o Hercule mourant. Malherbe colocou o "sens commun". Médée (1635). Mas o grecismo de Mairet é logo substituido pelo novo senequismo de Georges de Scudéry ( 5 3 ). Le Cid. J. . E. éles reagem logo. Arminius (1643). Paris. Don Sanche d'Aragon (1650). a imitagao dos horrores da tragedia de Séneca. na evolucao do teatro italiano. e tao auténticamente francés. a resistencia tornou-se cada vez mais forte. que os críticos estrangeiros chegam. fase transitoria. a urna admiragáo fria e algo hipócrita. Slerc: Georges de Scudéry. Pascal. 1886. quando muito. Riddle: The Génesis and Sources of Corneilles Tragedles. La Galerie du Palais (1633). 54) A Importancia de Séneca na evolucao da tragedla clássica íol acentuada por G. para éles. etc. Paris. Paris. Nicoméde (1651). O chamado "classicismo francés" é t í o pouco "clásico". Psyché (com Moliere e Qulnault) (1671). Paris vira a mais senequiana das tragedias francesas. 1927. que precede ¡mediatamente Corneille ( " ) . Sureña general des Parthes (1674). Halle. Un matamore des lettres. 1933. 1934. Jrom Médée to Pertharite. O senequismo de Garnier. 53) Georges de La mort de Ch. Marty-Laveaux. 2. Lo mort de Pompee (1643). Os teóricos fizeram adaptar o aristotelismo barroco ao gósto francés. Corneille.» ed. Polyeucte tnartyr (1643) i Le Menteur (1643). 2. Klemperer: Pierre Corneille. Oedipe (1659). 1926. atenuagao burguesa dos choques sangrentos e conflitos apaixonados. no sentido da Antiguidade greco-romana. Paris. 1905. O verdadeiro teatro barroco principia sempre com a influencia de Séneca. La Toisón d'or (1660). Quanto a Racine. Sertorius (1662).M 1060 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1061 gédia de Trissino. F . Mélite (1629). Schlumberger: Plaisir á Corneille. Othon (1664). G. Quando aparece a primeira grande tragedia barroca do teatro francés. também Mairet representa. Poussin. Barí. Desjardlns: La méthode des classíques Jrancais. París. 1601-1667. Lanson: Esquisse d'une histoire de la tragédit jrangaise. Sophonisbe (1663). C. Kompositionsstudien. 1904. 12 vols. 1936. leis de mecánica da cena. Assim como Trissino. La Place Royale (1634). Desde a tentativa infeliz dos classicistas franceses do século X V I I I de impor Corneille e Racine como modelos a todo o mundo. ácima da imitagao servil dos modelos greco-romanos. que nao sao sentimentos amis- tosos. Agésilas (1666). Clllois. Croce: Ariosto. La veuve (1633). L. B. Paris. mas nao se deixa dominar por elas. tao importante na historia do teatro inglés. Faguet: En lisant Corneille. Corneille representa o próprio Barroco francés. L'ülusion comique (1636). mas compreendem-na de outra maneira. Horace (1640): Cinna (1640). e por P . em versos —1651-1656). a fase "grega". 1929. La vie tragicomique de Scudéry. Pertharite roi des Lombards (1652). Faguet: Corneille. P. Liévre e R. Héraclius empereur d'Orient (1646).» ed. as "regras" significan!.. Attila roi des Huns (1667). em 1634. Trois Discours (1660). Até o Cardeal Richelieu acredita perceber na glorificagáo do duelo urna ameaga contra a "bienséance" imposta pelas leis do Estado. Paris. já n a o podia exercer influencia na Franga. porém. O "sens commun" inspira as "bienséances" do palco. César (1636). París. 1862/ 1868. 'Shakespeare e Corneille.

Faguet. (In: Tableau de la littérature francaise. Corneille criou a simplicidade característica do teatro clássico. Corneille é maior do q u e o seu classicismo. Mas s e r á isso um defeito? Na verdade. 1953. Os heróis das pecas espanholas aínda sao escravos da Providencia. nao é o duelo. até á altura dos reis e príncipes de que a realidade e a sua imaginagáo povoaram ésse grande mundo. em Cinna. os heróis de Corneille chegam a ser donos dos acontecimentos. Brasillach: Fierre Corneille. . París. do Fado.1062 OTTO M A M A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1063 que os críticos franceses apresentam. Nicoméde. Auguste. e nunca perdeu os hábitos do provinciano um tanto extraviado na Corte. em Polyeucte. mas entre vontade e vontade. tímido e sonhador. criou um teatro de conflitos psicológicos. e a historia íntima das suas personagens é urna serie de esforgos dificeis e dolorosos até conseguirem superar as complicagoes exteriores e tornar-se senhores do próprio destino. 1948. mas o seu professor de Retórica no colegio dos jesuitas em Ruao. Como dramaturgo. París. tentou engrandecer-se a si mesmo. As comedias de Corneille — La Galeríe du Palais. nao seria um verdadeiro clássico. assim como os apresentavam os seus primeiros modelos. Le Menteur — sao pouco cómicas.) R. já foram chamadas de "dramas burgueses". O cohflito nao se dá entre vontade e dever. em Polyeucte. Kjoebenhavn. 1939. o martirio. mas o confuto entre amor e honra. de Corneille a Chénier. . Rodrigue. do original dinamarqués: Corneille og hans samtid. protestaram contra o equívoco de interpretar aquetas grandes situagoes dramáticas como conflitos entre a vontade apaixonada e o dever moral. Schlumberger: "Corneille". Os con- V. Couton: Réalisme de Corneille. baniu do palco a serie infinita de acontecimentos exteriores e violentos. em Horace. O ambiente da capital deslumbrou-o. Assim. Mas nao sucumbiu: impondo-se aquela severa disciplina moral que também aprenderá na casa paterna e no colegio de Ruao. O importante no Cid. Ñas tragedias. (Trad. de fatos complicados e inextricáveis que se emaranham cada vez mais até o fim trágico. no dizer de Auguste: "Je suis maitre de m o i . e acontece que com isso criam historia. Sertorius — a serie imponente de heróis cornelianos — criam os seus próprios destinos. Couton: Le veillesse de Corneille. 1927. e de grandes caracteres e acontecimentos extraordinarios estava cheia a sua alma de burgués provinciano. O mundo exterior comega a ter importancia cada vez menor. em Horace. segundo o método da apreciagao dos méritos relativos que ele aprenderá nos casuistas jesuíticos. Ñas comedias. O seu mestre na realizagao désses instintos dramatúrgicos nao foi ouiro grande dramaturgo. o conflito entre paganismo e cristianismo. Lanson. Introspectivo. o conflito é entre paixoes diferentes — Corneille é contemporáneo de Descartes. París. 1949. G. G. " Brunetiére. deslocando o interésse dramático para o foro íntimo das suas personagens. e o objetivo é sobretudo importante nessa definigáo. Na verdade. Héraclius. a tragedia psicológica dos franceses. fez a tentativa de desembaragar-se. Vedel: Cornetlle et son temps. 1939. o conflito entre patriotismo e amor. isto é. no Cid. todos quantos escreveram compreensivamente sobre Corneille. reduzindo o novo ambiente a dimensóes cómicas. I. La Place Royale. o conflito entre necessidade política e generosidade humana. Clermont-Ferrand. que escreveu o Traite des passions — e o dramaturgo distingue razoávelmente paixoes mais nobres e paixoes mais baixas. as pegas espanholas. em Cinna.) O. a conspiragáo. París. a luta fratricida. Nadal: Le sentiment de Vamour dans Voeuvre de Fierre Corneille. forjam os seus próprios destinos. invisíveis. . Corneille é um burgués de Ruáo. Na aula de Retórica aprendeu Corneille o que para o futuro as teorías estéticas lhe confirmaram: que só grandes caracteres e acontecimentos extraordinarios merecem memoria perpetua. Corneille reduziu os acontecimentos exteriores a um mínimo. Corneille nao fez outra coisa senáo exteriorizar seu deslumbramento íntimo.

bravura. do velho Horace. desempenham apenas a fungió da "compositío loci". no nivel ideal da historia romana. Eis a grande e nobre eloqüéncia de Corneille. sempre falando em patria. nos Exercitia jesuíticos: preparacáo exterior do teatro de acontecimentos de significagáo universal e permanente. a linguagem sempre igual dos gregos e romanos. A opiníáo surpreende-nos um pouco: a retórica um pouco monótona em todas as pegas. e essa nocao da irresistibilidade encontra apoio na teología dos jesuítas. dis-je. do género humano. Os romanos de Corneille. e SaintÉvremond chamou-lhe "grande historiador". palacio. Lucano.. o dramaturgo nao teria sido aluno dos jesuítas. o "Rome n'est plus dans Rome. de crois". a si mesmos. as-tu du coeur". Por isso os contemporáneos o aprecíavam t a n t o : éles. É verdade que Corneille nao pinta os homens como sao. pouco poética. O elemento mais "clássico" em Corneille é a economía com que usa os recursos do teatro: dentro das linhas simples da composigao dramatúrgica e da arquitetura rigorosamente simétrica das cenas e atos. ao teatro das paixoes desenfreadas — ñas rúas de Paris e nos seus palcos — e o ambiente heroico serviu de recurso ao dramaturgo para conferir ao teatro das vontades e paixoes o sentido moral exigido pela dramaturgia aristotélica dos jesuítas. de Pauline. ou antes. viram-se representados. de Sertorius. retórica. é expressao direta das situacoes dramáticas. segundo a expressao de Schlumberger. mas tampouco como deveriam ser. corresponden! bem á roupagem sempre igual — elmo. A famosa "virtude" romana serviu de "desculpa". o " J e vois. é antes educacao da vontade humana pela intcrvencáo irresistível da Graca divina. o mentiroso. os heróis e combatentes das paixoes. dever. se nao acreditasse. conspíracóes e lutas da Fronde. Dorante. couraca. mas invisíveis. Na verdade. Sao os tipos algo triviais dos exercícios de eloqüéncia na aula de Retórica do colegio jesuítico. as personagens mostram-se transparentes. je sais. repctindo-se em todos os tempos: teatro dos conflitos entre grandes vontades e paixoes políticas. modelar. A língua de Corneille é pouco sugestiva. espanhóis. sao co-responsáveis pelo equívoco moralista em torno do teatro corneliano. porque a historia de Roma era considerada. A Historia de Corneille é Historia ideal. de Medée. desde Maquiavel. É um anacronismo perpetuo. porém. leitor assíduo de Séneca e discípulo do estoico cristao Balzac. o "Rodrigue. só existe um caminho extraordinario de p u r i f i c a d o das paixoes. elle est toute oü je suis". como a historia ideal. Exibem virtudes que se aprendem nos livros antigos. o "Soyons amis. Entáo nascem os famosos "mots" citáveis e sempre citados: o "Moi. perfeitamente caracterizadas pela agao e pelo verso. epigramática e estoica como a do seu poeta preferido. de Don Díégue. 1064 Orro MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1065 temporáneos de Corneille nao se cansaram de elogiar a profunda verdade dos seus panoramas históricos. Estes sonhos também lhe vivificam as mejhores comedias. roupagem. Em L'IUusion . é o realista dos sonhos heroicos de todas as almas humanas. botina — com que todas aquelas personagens aparecem no palco. generosidade e renuncia. Corneille. e Corneille acredita realmente que a virtude se aprende. repetiram: "Celui-lá peint les hommes comme ils devraient étre". É sentenciosa apenas para condensar no mínimo de palavras o resultado do confuto psicológico. depois. de A u g u s t e . o "Qu'il mourut!". et c'est assez". e sim como gostavam e gostariam de ser. bizantinos e hunos de Corneille. mas abertos a nos outros: o caminho da conversao. fechado aos pagaos romanos. Além da "virtude antiga". Cinna!". J á por isso — se nao houvesse outros motivos — a conversao em Polyeucte nao pode ser igualada ás conversoes repentinas dos jansenistas. em Le Menteur. correspondem ao palacio sempre igual que constituí o fundo de todas as cenas. pretende menos mistificar os outros do que viver mesmo em ilusoes de grandeza. Essa eloqüéncia é responsável pelo equívoco que La Bruyére formulou e todos. de pretexto.

representadas por "menteurs". CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDEISTAL 1067 comique. de outra especie. como historia ideal. m a s : "L'Histoire la doit. c e t t e obscure ciarte qui tombe des étoiles. É um exagero espirituoso. medievais. é urna revelacáo como aquela que o próprio dramaturgo definiu em um dos seus versos mais memoráveis: " . no primeiro dos seus Trois discours: "Les grands sujets qui remuent fortemet les pasions.1 1066 OTTO MARÍA. que daí se origina uma interpretagao nova de Corneille. "II ne serait pas permis toutefois d'inventer ees exemples". Colocados no palco. a arte se justifica como mera ficcao. estes sonhos e ilusóes sao desmascarados. que ficou impenetrável durante séculos. Brunetiere já observou que se encontram em Corneille. O próprio Corneille diz. profanos e sacros. A inegável inverossimilhanca ñas tragedias de Corneille é. contemporáneos. e nao é por acaso que o nome do grande italiano aparece nesta altura. e mais exigente porque nao pretende representar os acontecimentos da historia contemporánea. . porém. por um golpe de cena. I. 1927. como facanhas de um pobre ator que imita no palco os gestos dos grandes. Segundo o aristotelismo dos teóricos italianos." Todo o teatro barroco precisa do enredo histórico para justificar-se perante Deus e os homens. nao é a sociedade. da inglesa ou outra qualquer. dizemlhe a verdade. entáo. idealizando-os. mais modesto porque nao se acredita autorizado a inventar enredos trágicos. versos como 56) V. e L'IUusion comique e Le Menteur — "engaño" e "desengaño" — representam esta teoria no palco: a mentira e a ilusáo. O juiz. Brunetiere definiu a tragedia de Corneille como "comedie jouée par des rois". As comedias de desilusáo de Corneille desmentir-lhe-iam as tragedias. Corneille." Mas teria o dramaturgo autorizacao para inventar e representar coisas "au delá du vraisemblable"? Nao seriam. é mais modesto e. E a revelacáo do heroísmo como ilusáo é idéia tao típicamente barroca. até agora apenas esbocada ( 5 0 ). Mas esclarece o segrédo íntimo de Corneille. pela intervencáo da consciéncia histórico-política do dramaturgo. o burgués. mas sempre com con el uso es moráis. et en opposent l'impétuosité aux lois du desoír ou aux tendresses du sang. O heroísmo pode ser ilusorio. "eterna" que é a historia greco-romana. e os enredos de Corneille já se encontram todos no repertorio dos jesuítas. mas a Historia. se a antítese nao fósse intencional. . desde Maquiavel. de inverossimilhanca extrema. . mais exigente. nem da historia francesa. mas a conclusáo moral tem de ser real e seria. As tragedias de Corneille já foram definidas como versóes dramáticas dos romances heróico-galantes com as suas complicacoes psicológicas de amor e bravura. na tragedia corneliana. tais romances dariam comedias de "¡Ilusión comique". duras verdades de licao moral. ao lado das frases de heroísmo e generosidade. Klemperer: Idealistische Philologie. A historia romana era considerada. de todas as nacoes. Os dramaturgos jesuíticos trataram todos os assuntos históricos possíveis — greco-romanos." "Obscure ciarte" — reconhecemos nessa expressáo um dos traeos mais característicos da pintura barroca. de Balzac. et la représentation de ees grands crimes ne trouve point d'incrédules. e sim os acontecimentos da historia ideal. de Horace e Cinna. A preferencia que o dramaturgo francés deu aos assuntos da historia romana nao é suficientemente explicada pela leitura assídua dos Entretiens sur les Romains. ao mesmo tempo. modelar. jógo da imaginacao. depois de haverem divertido o espectador. doivent toujours aller au delá du vraisemblable. inverossímeis como as invencoes gratuitas do "menteaur" Dorante? Os contemporáneos aristocráticos o consideram autorizado para tanto porque ñas lutas da Fronde se digladiaram realmente paixóes e generosidades comparáveis ás do Cid. Muenchen. Schlumberger chama Corneille "genio cómico que falhou á sua vocasáo".

do tirano-mártir n a o há exemplo mais magnífico. e. em todo o teatro barroco. Corneille. em Cinna. e que se baseia no reconhecimento da vaidade ilusoria déste m u n d o . interpretadas mecánicamente. em Polyeucte. longe de defender o dogma jansenista. Mas será que Héraclius se baseia en En esta vida todo es verdad y todo es mentira. O mecanismo dramático das pegas de Corneille representa. como é o de Calderón. Na verdade. tal resultado teria sido insuficiente. é constituida pelas chamadas regras aristotélicas — as tres unidades de lugar. bastalhes como resultado a impassibilidade estoica. que é algo como um "pequeño teatro del mundo". é bem barroco. La Mort de Pompee. O maior servigo que a regra das tres unidades prestou a Corneille foi a realizagáo da verossimilhanga dos seus enredos históricos. Na terceira fase. superior. secretarios. Corneille é mais explícito no prefacio de Othon: "Ce sont intrigues de cabinet qui se détruisent les unes les autres". que nos impedem de agir com independencia. Observa excelentemente Lanson que Polyeucte. com meros expedientes da composigáo dramatúrgica. Polyeucte. Sobretudo as pecas da velhice de Corneille — Sertorius. o "classicismo" constituí. sao triunfos da vontade sobre as paixoes. o encontró casual seria mais significativo do que a imitagáo. Cinna. Existe outra conversáo. Em Polyeucte. tempo e agao — que Corneille observou. conforme os preceitos moráis dos seus mestres. os jesuítas. . e mal podía utilizar para ésse fim as regras tal como lhe foram propostas pelos teóricos franceses. apenas urna fase: a segunda. com os seus tiranos. aquela que Calderón apresentou em La vida es sueño. Cinna e Nicoméde — apresentam um quadro completo da política barroca. Le ciel nous en absout alors qu'il nous la donne" — que poderiam figurar ñas meditagóes políticas daquele contemporáneo de Corneille que era o Pére Joseph. ou Théodore em Los dos amantes del cielo? Nao existem provas suficientes de haver Corneille conhecido ésses dramas espanhóis. Censurou-se. "genio cómico". a transformagáo da vontade desordenada em vontade dirigida. Rodogune é táo complicada porque os assuntos romanescos á maneira espanhola se condensaram em excesso dentro da rígida forma "aristotélica". Corneille nao precisava das normas aristotélicas para chegar ao resultado moral que a Contra-Reforma lhe prescreveu. j á antes. embora algo contra vontade. o livre arbitrio é o grande problema de Corneille. ao contrario. devia intervir a Graga irresistível da conversáo. Daí a crítica francesa "ortodoxa" nao gostar muito das pegas de velhice de Corneille. Na verdade. Contudo. dos quais Rodogune é o exemplo mais famoso. na carreira teatral de Corneille. aprendido em Séneca. A primeira fase ó semi-senequiana (Médée) ou semi-espanhola (Le Cid). A conversáo do romano á generosidade tampouco é urna mortificagáo da vontade como a conversáo. Quanto aos pagaos romanos. do que o imperador Auguste. porém mais evidentes entre o teatro calderoniano e o teatro corneliano. em confuto permanente com a vontade de apresentar tragedias "au delá du vraisemblable". ministros diabólicos e mártires estoicos. A dramaturgia de Corneille tendeu naturalmente para a forma calderoniana. parece Corneille voltar aos modelos espanhóis. exprime antes a doutrina molinista dos jesuítas a respeito do livre arbitrio. A segunda fase é a "clássica": a de Horace. Sendo o seu teatro de mentalidade barroca. injustamente atacado por muitos críticos estrangeiros como se fósse o modelo do teatro clássico francés. mas nao é suficiente a conclusáo de que o livre arbitrio reina no teatro corneliano como lei absoluta. Urna das diferengas exteriores.1068 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1069 "Tous ees crimes d'État qu'on fait pour la couronne. Othon. nem sequer de obras-primas como Sertorius e Sureña. Agésilas. e ésse estoicismo. os assuntos cada vez mais complicados. O resultado désse confuto foram. Sureña. porém. de Calderón. no palco. chegou ao mesmo resultado em L'IIlusion comique.

de cuja última maneira se aproxima Bélisaire. Saint-Genest. é urna magnífica tragedia barroca. Corneille é. depois. Rotrou nao conseguiu manter um rumo firme. Bélisaire (1650). Saint-Genest (1646). reconduzir o teatro francés as suas bases populares. Selecao por F. Edicao completa por P . ao lado de Pascal. Rotrou teria sido capaz de retomar a diregáo abandonada depois de Hardy. obteve os mesmos éxitos ruidosos. As suas primeiras pegas sao plautinas. parece com Thomas Heywood. mais forte. etc. 1882. Reunindo grande poder de imaginagáo cénica e considerável eficiencia no verso dramático. As últimas pegas de Corneille sao mesmo melodramas de tipo calderoniano. urna "tragédie-ballet" como Psyché. J. Tlmocrate (1656). a tragedia do ator que faz o papel de mártir cristáo. Laure persécutée (1637). Cosroés (1650). se tivesse a severa disciplina de Corneille. L. A sua obra corresponde aos romances heróico-galantes de La Calprenéde e da Scudéry. Venceslas (1647). 58) Thomas Corneille. digna de figurar entre Lo fingido verdadero. París. tem toda a semelhanga possível com as últimas pegas mitológicas de Calderón. se converte no próprio palco e sofre o martirio. O resultado foi urna mistura dos elementos cómicos e trágicos — pela qual Rotrou. Les deux sosies (1636). No teatro francés do século X V I I essa tendencia aparece clara em Thomas Corneille e. Para tanto. nao foi d i r e t o . muito deliberadamente. a comicidade involuntaria de certas cenas trágicas. Timocrate foi a pega mais representada do século. se aproxima dos dramaturgos ingleses. TRlerry. Laodice (1668). 1882. como único dramaturgo francés da época. e The Román Actor. o representante mais auténtico da tendencia barroca dentro do classicismo francés. M. Jarry: Essai sur Us oeuvres dramatiques de Jean Rotrou. de Massinger. Hémon. L.Curnier: Études sur Jean Rotrou.. 1820. Vlollet-le-Duc. La mort d'Hannibal (1669). Parts. Teria sido um grande dramaturgo. Em compensagao. Don Bernard de Cabrére (1648). em Don Bernard de Cabrére. 1609-1650. o gósto pelas pegas de Lope de Vega é significativo. Hercuie mourant (1634). O dramaturgo francés libertou-se. Venceslas volta á maneira clássica da segunda fase de Corneille. Person: Hlstoire du véritable Saint Genest de Rotrou. O caminho da tragedia psicológica. París. já antes déle. e Le comte d'Essex tem algo de urna pega calderoniana. Thomas Corneille nao é o intermediario entre Pierre Corneille e Racine. de toda a "vraisemblance". Le aeolier de soi-méme (1655). de Corneille a Racine. em Hercuie mourant. de Mira de Amescua. Les Ménéchmes (1631). O. o Don Bernardo de Cabrera. 1868. Edlsfio por E. 1881. sa vie et son thédtre. Les captifs (1638). a imitagao de Séneca. o elemento cómico naquela tragedia superior que é Nicoméde. bastou a eliminagáo completa do elemento romanesco e melodramático. 1885. 5 vols. que se refugiou no teatro dos grandes sucessos mundanos: o de Thomas Corneille ( B 8 ). Person: Htstoire du Venceslas de Rotrou. Stilicon é urna tragedia política. adotando os recursos cénicos da ópera. nos moldes de seu irmao mais velho. de Corneille a Racine.1070 OTTO M A M A CARPEAUX H I S T O R I A DA L I T E R A T U R A O C I D E N T A L 1071 nelas. La soevr (1645). París. em Rotrou ( " ) . Stilicon (1660). de Lope de Vega. Le comte d'Essex (1678). Don Bertrand de Cigaral (1653). afinal. através de modelos italianos. enfim. París. nessas tragedias. Intervém. o teatro francés perdeu com ele as possibilidades de urna síntese á moda espanhola. Rotrou supera nessas tragicomedias os seus modelos espanhóis: a Laura perseguida. Mas os críticos esqueceram q u e Corneille já tinha introduzido. 1683. París. isto é. L. em Laure persécutée. París. Mas o Barroco classicizado foi. de Lope de Vega. . 57) Jean Rotrou. Urna "piéce á machines" como La Toisón d'Or". 1893. Reynler: Thomas Corneille. ficou aberto o caminho para a evolugao da tragedia psicológica. interpóem-se mudangas radicáis ñas condigoes da criagao dramática. París. Contudo. 1625-1709. o papel da galantería já revela a vizinhanga de Racine.

As suas Mémoires falsificam intencionalmente a verdade histórica. em 59) L. em dama. vencido que nao se arrepende de nada. boudoir ou confessionário. os sentimentos. na acepcao francesa e literaria da palavra: observadores do comportamento humano. e de romance heróico-galante. "portraits". Críam as "réf lexions". Prévost-Paradol: Études sur les moralistes f raneáis. a autobiografía. O tipo antigo despede-se com o Cardeal de Retz ( 6 0 ). Battifol: Biooraphie du cardinal de Retz. Mongrédien. A política tornou-se prerrogativa do rei e dos seus ministros. A sua j u s t i f i c a d o é a inteligencia. já nao é possível resolver ésses problemas pela vontade forte. É personagem de tragedia política. de natureza religiosa. na apreciacáo dos fatos e condensacáo epigramática das experiencias. "mémoires". 1896. em 1717). Ésse fatalismo é o elemento característico da nova psicología. de Madame de La Fayette.1072 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1073 A vitória do absolutismo real sobre a Fronde. Mas a maneira de encarar os problemas místicos é diferente: a querela jansenista inspirou todas as especies de sutilezas teológicas. seja ele jesuíta ou jansenista. no fim da vida. menos claras. Conflitos psicológicos de natureza privada. que funda a congregacáo ascética de la T r a p p e . 1614-1679. o romance psicológico. surge certo fatalismo que corresponde á submissao do súdito ao Estado todo- poderoso. a quem já é pouco útil a espada. Urna saída dos conflitos íntimos é possivelmente a renuncia estoica do pessimista. París. a epistolografia. Na segunda metade do século X V I I voltam a aparecer figuras religiosas da estirpe do grande "printemps mystique": Madame de La Valliére que troca a corte pelo convento. de Ráeme. e a tragedia psicológica de tipo grego. por Ma/arin. 4 vola. cardeal de Retz. e Madame de Maintenon é. a angustia da predestinagao substituí as alegrias da Graca. Mémoires (1662/1677. Contudo. por Luís X I V e Colbert. 1929.-A. mais delicados. que se revela nos penetrantes retratos psicológicos de companheiros e adversarios. O cavalheiro barroco. 1866. com algo de um maquiavelista barroco e algo de "précieux" do Hotel de Rambouillet. "máximes". Em vez de se 1er romances. transforma-se em "honnéte homme". á maneira da Scudéry. néle reside a diferenca fundamental entre a tragedia psicológica de Corneille. como em La Rochefoucauld. Análise e auto-análise dos movimentos psicológicos intensificam-se. Até urna dama da alta sociedade como Madame de Sévigné sofre de acessos ocasionáis de religiosidade. porém mais complicadas. sobretudo os eróticos. conspirador consumado. . 1935. o grande chefe da revolucáo da Fronde contra Mazarin. atmosfera "clair-obscure". publ. a s últimas pegas de Corneille foram rejeitadas pela crítica e pelo público. Edlcáo por O. 60) Paul de Oondl. á maneira de Corneille. é o ramo mais especificamente francés da literatura francesa ( B 9 ). do alheio e do próprio. significam o fim d a aristocracia de panache e da política "maquiavelística". Normand: Le cardinal de Retz. Os intermediarios entre os dois tipos sao os "moralistes". tornam-se mais interessantes. Ch.. de tipo romano. como em Corneille: as paixoes sao menos violentas. Mas nenhum désses personagens seria capaz de narrar como ele. outra é a renuncia ascética. menos para justificar os fatos ínjustificáveis do que para engrandecer a figura do memorialista. e o estabelecimento da administracao burguesa dos "intendants" e da economía mercantilista. diplomata e demagogo. A vida pacificou-se e "privatizou-se". na complicacáo dramática das intrigas. Paris. consulta-se o confessor. Parle. numa atmosfera de gabinete de estudo. Raneé. Pnris. Parte désses novos géneros nao tém outro nome senáo o francés. na descricao vivíssima do ambiente. misto de cardeal da Renascenga italiana e de bon-vivant da Renascenga francesa. como em La Princesse de Cléves. L. e a Mere de l'Incarnation. urna especie de religiosa sem hábito. e as possibilidades de solucáo. a "précieuse".

Edlcao das Obras completas por Ollbert e Gourdault. P». "Dle Máxime n von La Rochefoucauld". As Máximes repetem cem vézes. 1935. J Schmldf. Vol. se bem que nao muito terno. nos outros e em si mesmo. 1933. e essa franqueza aproxima-o de La Rochefoucauld. foi dupe das suas vaidades e interésses. E. 1074 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1075 aforismos de interésse permanente. e agora só tem urna preocupagáo: "n'étre pas dupe".a. ocupada em descobrir nos outros os defeitos que lhe haviam causado o fracasso: o "amour-propre" e o "intérét"." É o pessimismo de um gráo-senhor. Foi preciso ter analisado bem a própria vaidade para poder dizer dos o u t r o s : "Quelque bien qu'on nous dise de nous. La Rochefoucauld é infeliz. nota 59. Reflexiona ou Sentences et máximes morales (1665). mas o que para Retz foi o conteúdo da vida malograda. 1613-1680. París.áo das Máximes por L. nem resistível nem irresistível. da maneira mais variada. Sao (51) Fran?ois. París. 1895. Da doutrina crista. prefere supor sempre os piores motivos. como se pensa. XI. Prévost-Paradol: cf. nunca se pode restabelecer. Em colegio de aforismos transformou ele o romance da sua vida e o drama das suas experiencias. Nietzsche levará toda a vida para confirmar a tese. urna velhice prolongada.' • . O que Ihe faltava na vida.. Para ésse fim." Esta frase antitética é urna das maiores descobertas da psicología moderna: o ressentimento como fórca motriz dos atos moráis. e de ótimos "bons mots". O seu conceito da natureza humana é tao pessimista como o dos jansenistas: corrupcBo profunda.-A. on ne nous apprend rien de nouveau". do qual. "Nos vertus ne sont le plus souvent que des vices déguisés. O ressentimento envenenara-lhe a fé aristocrática. mas rejeita a salvacáo. e essa norma só raramente o engaña. a mesma tese psicológica: "Les vices entrent dans la compositioh des vertus comme les poisons entrent dans la composition des remedes. L. A vida de La Rochefoucauld é. 1923. O muito "esprit" de La Rochefoucauld permite concluir ter file um grande coraqáo. Salnte-Beuve: Causeries du hundí. Nao existe Gra<." Entre todas as frases de La Rochefoucauld. Mas o caso parece-lhe irremediável. foi para La Rochefoucauld um engaño romántico da mocidade.) .-A. porque sempre tem razáo. na mocidade. Edi. Parta. Bourdeau: La Rochefoucauld. mauvais caractére. preso na poltrona pela gota. La Rochefoucauld ( 0 1 ) também veio do ambiente da F r o n d e . duc de La Rochefoucauld." Mau caráter nao era. porém a menos sincera. total. A sabedoria do Duque é menos o resultado da sua inteligencia penetrante que do seu amargo ressentimento de herói frustrado. o Duque aceita apenas o pecado original. J. e há mais de dois séculos que ésses aforismos servem de "théses" para o romance psicológico francés e para o drama chamado de bulevar: cada aforismo urna "thése". N i o acredita em atos heroicos. Magne: Le vrai visage de La Rochefoucauld. 1914. falta-lhe também na l i t e r a t u r a : o senso moral. mas "diseur de bons mots". sim. desde a idade madura. e ter reconhecido bem o próprio egoísmo para descobrir a verdade: "Nous avons tous assez de forcé pour supporter les maux d'autrui. porque o Duque só acredita em venenos. diziam os jansenistas. É o anti-Pascal. LVH. Quando muito. Martln-Chauffler. París. 4 vota. Parece dita a propósito de La Rochefoucauld a máxima de Pascal: "Diseur de bons mots. e Scheler para refutá-la. La Rochefoucauld nao é cristao. Grandsalgnes d'Hauterlve: Le pessimisme de La Rochefotl» cauld. (In: Zeitschrift fuer framoessche Sprache und Literatus. admite francamente o elemento criminoso nos seus próprios atos. Parta. e nao em remedios. 1868/1883. "L'esprit est toujours la dupe du coeur" é urna das suas máximas mais preciosas — inversao profana da epistemología de Pascal. nem em sentimentos nobres. infelizmente. Contudo. é esta urna das mais espirituosas. a sua sabedoria nao é táo exclusivamente racional. C. e desde entSo vé todos envenenados.

um pouco da arte de dizer de Gracián. A esposa morganática de Luís 63) Francoise d'Aublgné. Salnte-Beuve: Portraits de femmes. cagando a expressáo mais densa. Langlois: Madame de Maintenon. Gazier: Madame de Sévigné. as mais das vézes a sua filha.ao por P. mais certa. 1935/1939.) G. e muita melancolía. marqulse de Sévlgné. A. Mesnard. um pouco da fé de Maquiavel na permanencia das qualidades. Cordelier: Madame de Maintenon. sentimentais. parisiense como ninguém. nos arredores de Paris — tudo isso e muito mais se encontra ñas cartas de Madame de Sévigné: a enciclopedia do século. La Rochefoucauld é o último gráo-senhor da Franca antiga. M. 1955. París. J. até devota. 1782/1756). La Rochefoucauld discutindo com Madame de La Fayette e Boileau zombando de um jesuíta. o lever do reí e a opressáo crudelíssima da revolta dos camponeses na Bretanha. 1754). 1932. A. vindo de Paris. 1910. religiosa e alegre. Edlcfio por M. um tedeum pelas Vitorias do Marechal de Luxembourg e urna excursao ao luar. La Rochefoucauld é o último dos "précieux". um pouco de Antonio Pérez. BalUy: Madame de Sévlgné. nem muitas citacoes. "Le soleil ni la mort ne se peuvent regarder fixement. 1862/1867. e o sentimento que o mantém vivo nao é a esperanza. O estilo de Madame de Sévigné é também assim. París. O centro unificador dessa massa imensa de palavras espirituosas. 1626-1696. 1734. París. 14 vols. Edl. Faguet: Madame de Sévigné. culta e superficial. mais on n'inspire point de conduite. para grande dama do século X V I I falta-lhe apenas o arrependimento e a penitencia. nem a transcricáo de urna carta inteira. 1844. Parts. elegantes e sinceras é a personalidade da Marquesa: grande dama e excelente rale. que viveu na provincia. Porque afinal La Rochefoucauld nao acredita nem sequer na sua própria psicología: "On donne de bons conseils. a perseguicáo das religiosas de Port-Royal e o novo romance de Madame de Scudéry. com todas as noticias imagináveis — o "corpus" das cartas de Madame de Sévigné é a enciclopedia do século. París. 12 vola. urna representacao de Racine e urna temporada na estacáo de aguas de Vichy.. Mas. "précieuse" e sabichona. entre os escritores do classicismo francés. Langlois. e de urna naturalidade encantadora. embora so de urna classe da sociedade. París. marcjulse de Maintenon. cintilando em mil facetas como o seu espirito. dos defeitos humanos. É necessário lé-la para ter idéia da escritora. e para quem as cartas da máe eram o jornal. Outro tipo de grande dama e grande epistológrafa é Madame de Maintenon ( C 3 ). outro conspirador malogrado. e sim o desdém. supera o preciosismo. mais brilhante. París. 1876. ou antes. Hallays: Madame de Sévigné. A. táo espirituosa que nem urna citacao. 1933. um pouco do estoicismo de Quevedo. talvez a mais completa da língua francesa. O seu pessimismo é o fruto derradeiro do "maquiavelismo" lendário. Lettres (publ. Boissier: Madame de Sévigné. poderia dar a mínima idéia do seu "esprit". A morte de Turenne e a introducto de urna nova moda feminina. . 2 vols. 1635-1719. C. maliciosas. gozadora da vida e crista sincera. A primeira dama dessa Franca foi Madama de Sévigné ( 6 2 ) : inteligente e um pouco leviana. seria preciso citar todas as 1500 ou mais cartas que a Marquesa escreveu. e.) C. a única a sentir a natureza. Nada lhe falta para grande dama. melancolía barroca. E. (Suplemento por Ch.1076 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1077 "concetti" de um "moraliste". París." A compostura de grao-senhor é coisa que nao se ensina a ninguém. amável e espirituosa. antes do "roi bourgeois". Capmas.. tornando-se o maior aforista de todos os tempos. Lettres (primeiras edicóes. (Valias edicóes. em sentido absoluto. 1955. o clássico do género. 1921. nan. a execucao da envenenadora Brinvilliers e um sermao de Bourdaloue.. nem de varias ou de muitas cartas. o casamento da "Grande Mademoiselle" e o processo contra o ministro Fouquet. París. 1887." A sombra da morte cai sobre tudo quanto diz La Rochefoucauld. Madame de Grig62) Marle de Rabutln-Chantal. L a Rochefoucauld nao é um clássico. París.

Henrlot. precisando. O pendant mediterráneo. Será. o famoso educandário de Saint-Cyr. L. IV. de espirito clássico. Den ¡angne Grejfwinne Leonorae Christinae Jammers Minde (publ. (In: Revue de Littérature Comparte.) Manuel Rlbelro: Vida e marte de Madre Mariana Alcoforado. Cordelro: Sóror Mariana. 1928. confissao de outra mulher traída e presa. em Beja.1078 O I T O MARÍA CARPEATJX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1079 X I V . Bremond dá grande importancia a La vie du P. cartas de confissao. a "Jammers minde" da vida malograda. F ó r a ela esposa de Scarron. em que se representa Athalie: é a sombra do Barroco. e constituem um dos problemas bibliográficos mais dificeis da literatura 64) Leonora Christina grevlnde TJlíeldt. A epistolografia como revelagao nao intencional. num cárcere de Estado. que tem algo da arquitetura da igreja parisiense de Val-de-Gráce e do templo. um amor fulminante e rápido como um raio. q u e ela fundou. Com respeito á evolugáo de novo género. conquanto literariamente elaborada. numa carta. a Freirá Portuguesa. particularmente feminínas. As cinco cartas que escreveu ao amante — é duvidosa a autenticídade das sete cartas. sítua-se entre a psicología dos "moralistes" e a confissao autobiográfica. de véus protetores contra a curiosidade indiscreta. A. aparecem em toda a parte. Mariana Alcoforado ( 8 8 ). Escolhem como protegáo a alegoría. depois Marqués de Chamilly. París. filha ilegítima de um reí e mulher de um traidor. em comparagáo com Madame de Maintenon. presa. a Sévigné parece urna princesa da Renascenga. para se justificarem ou se consolarem. sem culpa. Os homens escrevem memorias. freirá do convento de Nossa Senhora da Conceigao. 1909. e que abre a urna posteridade desconhecida a alma dolorosa e patética. 65) Mariana Alcoforado. Rlbelro. da personalida. Lettres portugaises (1669). empenhada era expiar a heresia de seu avó A g r i p p a D'Aubigné. Lisboa. A grande experiencia da sua vida foi o encontró com o Conde de SaintLéger. por M. KJoebenhavn. acrescentadas depois — foram publicadas em tradugáo francesa. marechal de Franga. 1940.de. e dispunha de bastante espirito na conversa oral e epistolar. E suas palavras. a sua grande paixáo literaria era Racine. e por H. Edicoes por E. Larat: "Les lettres d'une religieuse portugaise et la senslbilité francaise". 2 vols. e acabou gordo e inútil. . 2. as damas abrem-se ao confessor ou ao amante. porém. nao foi. París. Smlth: Leonora Christina Grevinde Ul/eldts Histotre. 1923. E daquele espirito clássico é característica urna relígiosidade seria. que já fóra recurso freqüente do romance heróico-galante. lutou em todos os campos de batalha da Europa. 1640-1723. da Dinamarca até Portugal. autobiografías. casou com urna marquesa feia. urna prisáo de mocinhas. diarios. c Amelóte. durante 20 anos. Saint-Léger tornou-se. conselheira de suas perseguigoes religiosas e derrotas políticas. nem depende dos movimentos de introspecgáo mística. como primeiro exemplo de biografía psicológica. Lisboa. sao as cartas da famosa "religieuse portugaise". sem exagero. 1869). 1933. conveniente observar que o fenómeno do aparecimiento désse género no século X V I I nao se limita á Franga. no palco. Lisboa.» ed. A freirá expiou suas culpas em cinqüenta anos de ascese. e surge assim o romance psicológico. e J. A introspecgáo é antes urna das formas do espirito barroco em geral. com referencia á educacáo em Saint-Cyr: — "On doit moins songer á orner leur esprit qu'á former leur raison" — significam a derrota definitiva do Hotel de Rambouillet pela razáo de Descartes. a sua auto-análise é mais direta e particular. P. Charles de Condren (1643) do P. no entanto. Nao existe documento mais pessoal que a autobiografía da condéssa dinamarquesa Leonora Christina Ulfeldt ( 8 4 ). porém. 1890. de Vlbraye. 1879/1881. tem fama de fanática sombría. 1621-1698. depois. Diretrizes do século diferentes entre si harmonizam-se táo perfeitamente no estilo sobrio e na mentalidade clara das cartas de Madame de Maintenon que a propósito déla se pode falar.

Dllaussonvllle: Madame de La Fayette. apenas. París. mais concentrado que o da outra. No fundo. com raios de sensualidade entre os desesperados gritos da abandonada. Afirmam-se vestigios de influencia das cartas em Phédre. Talne: "Madame de La Fayette". na verdade. O conceito de amor. nao se trata de cartas. Mas isso é problema para eruditos de velho estilo. 5. Além disso. conforme alega a autora. O teatro dos acontecimentos. La Princesse de Cléves é o primeiro romance moderno da literatura francesa. J á nao há aventuras senao do coracáo. poeta bucólico. ñas cartas da religiosa. Os mesmos tres nomes ocorrem a propósito de Zayde. o ambiente nao é o da Renasc eneja. A sabedoria psicológica de Madame de La Fayette é comparável á de La Rochefoucauld. Nao se sabe se foram escritas em portugués e depois traduzidas. (In: Essaü de critique et d'histoire. (In: The Novel in France. o heroísmo consiste na confissao da aventura galante e na renuncia: a princesa confessa ao marido a paixáo pelo Duque de Nemours. "Elle est vraie". e. O. 1844. Madame de La Fayette é — o que nem a Sévigné nem a Maintenon foram — urna vocacáo literaria. O estilo de confissao desenfrcada e dolorosa — urna Gaspara Stampa á sombra do convento — é algo de inédito naquela época. Edl?áo da Prlncesse de Cléves por A. dizia La Rochefoucauld sobre a sua amiga. ciencia psicológica que a Condéssa de La Fayette aprendeu com seu amigo La Rochefoucauld. das carmelitas e dos jansenistas de Madame Acarie e Madame de Sable. a análise é igualmente exata. 1922.. 1B91. de um ambiente em que o ocio culto permite a observacáo dos sentimentos e exige a expressao clara e concisa.) . o romance heróico-galante de Madame de La Fayette. ha Princesse de Cléves (1678). á uniáo com o homem querido prefere o convento. dados como verdadeiros. 1634-1693. 193*. I ()¡10 Orro MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1081 universal. mas as conclusoes sao diferentes. Madame de Scudéry publicou os seus roman- ees com o nome do irmao. Madame de La Fayette (fl6) é grande dama como a Sévigné e natureza profunda como a Maintenon. Zayde (1670). teria sido. circulando em copias entre amigos e publicadas meio século após a morte da autora. Turnell: "Madame de La Fayette and 'La Prlncesse de Cléves' ". Cambridge. e seu estilo menos vivo e mais simples. torturado pelas suspeitas. a corte algo fantástica do rei Henrique I I . último discípulo de D'Urfé. Mademoiselle de Montpensier (1662). talvez já em Bérénice. sa vie et ses oeuvres. O preciosismo de palavras galantes é substituido pela análise sutil dos sentimentos. 1887. Madame de La Fayette escolheu o do seu amigo Segrais. ee) Marle-Madelelne Pioche de La Vergne. é o dos Frondeurs e das suas damas. ou se foram redigidas em francés. e urna grande dama nao lhe podia emprestar o nome. e ésse coracáo é aristocrático em outro sentido que nao o panache dos Frondeurs. La Princesse de Cléves é o romance de um ambiente em que os aristócratas já escrevem cartas e livros em vez de envolverem-se em conspiracóes e duelos. A pequeña obra situa-se entre a mística "a lo profano" do Barroco e o sentimentalismo do século X V I I I . H. apesar de falar como no confessionário e indicar o caminho para o convento. e essa qualidade excluiu a mentalidade romanesca e o estilo precioso da galantería heroica. É o caminho inverso do que percorreu a freirá portuguesa. París.» ed. No seu caso. La Princesse de Cléves também é um romance heróico-galante. Madame de La Fayette. Mais certa parece a influencia no romance de Madame de La Fayette. 1950. responsabili* zando-se pela morte do marido. Salnte-Beuve: Portralts de femmes.) O. emotiva mas reservada. H. París. e é — bem característicamente — um romance psicológico. M. A. Cazes. O género era considerado menos decente. é neoplatónico. nao é crista. London. nao se sabe com certeza se sao auténticas — alguns críticos preferem acreditar em mistif icacáo literaria. Ashton: Madame de La Fayette. o seu espirito é menos rico do que o da primeira. Trata-se de romances. comtesse de La Fayette.

Todos ésses legisladores da estética clássica dizem mais ou menos a mesma coisa. de convento. baseada no mecanismo corneliano de conflitos. das tragedias de renuncia de Racine. La Princesse de Cléves. capaz de fornecer materia para causeríes de saláo. Em La Princesse de Cléves reina a atmosfera das discussoes teológicas em torno da querela jansenista. Com La Princesse de Cléves. 68) Francote Hédelin. étude sur la vie et les oeuvres de Vatibi d'Aubignac. 1888. abbé d'Aubignac. O mais rigoroso dos teóricos aristotélicos. Só em parte. alcangou-a o dramaturgo pelas modif i c a r e s da teoria aristotélica. Históricamente é só com- preensível como obra-gémea de Bérénice e Phédre. O jansenismo subjugou a vontade heroica dos personagens de Corneille ao " F a d o " da Predestinagao. e essa virtude é heranga da galantería heroica: o sentimento de honra. das correspondencias com confessores. Arnaud: Les théories dramatiques du XVIIe siécle. ao que parece. reflexóes dos "moralistes" e meditagóes no próprio confessionário. será o mais poderoso da literatura francesa e. A tarefa "classicista" de domar o espirito barroco nao era fácil. c 1642/1645. como romance. ameacado pelos anatemas dos confessores. um novo ramo da profissao literaria. tinha que comegar sempre de novo. pela t r a n s f o r m a d o do aristotelismo á maneira de Séneca em aristotelismo pseudogrego. mas parece de importancia muito menor quanto á evolugáo da literatura (° 7 ). encontrará na discussáo do novo género o maior campo das suas atividades. porque Racine nao conseguiu livrar-se da forma "clássica" da tragedia. codificou as normas do teatro corneliano. de Gide e Mauriac. na composi$ao da qual nao entram os vicios. o Abade d'Aubignac ( 8 8 ). Parte. a honra manda-lhe renunciar á uniao com o amante. "Enfin Malherbe v i n t " : depois veio Balzac. Madame de La Fayette "secularizou" a ciencia de psicología empírica que sé culos de experiencia no confessionário tinham ensinado aos observadores da alma humana. do qual La Princesse de Cléves é o primeiro exemplo. Ch. o próprio termo romance muda de sentido: o que foi. mas o homem permanece. Parte. em parte. Bray: La formation de la doctrine classique en France. depois veio Chapelain. finalmente. e essa "secularizagáo da psicología do confessionário" é a base do romance psicológico francés: do Abade Prévost e Lacios. Aristocracia do coragáo e honra do coragao. depois vieram varios outros e. de Racine. em todo o caso. Pratique du théátre (escr. A libertagáo parcial. até entao. A honra manda á princesa conf essar tudo ao marido. amor da própria integridade. é urna obra isolada. 1931. Mais tarde. urna atmosfera algo sombria. A historia da formagao do ideal clássico é de grande importancia para a historia da estética. no século X V I I . Mas. Ésse Fado divino pode ser contrariado pelo Fado infernal das paixoes. sem brilho retórico. da literatura moderna em geral. dos diarios íntimos. em vez do amor de Deus. . 67) R. Mas tudo isso aparece "secularizado": renuncia estoica. leitura proibida ás jeunes filies e até aos jeunes gens em geral — torna-se género serio. género algo suspeito de indecente. em vez de ascese crista. 1657). Boileau. perdendo a autonomía da vontade. como hoje se salienta. se nao fósse a solugáo da renuncia ascética: solugáo de Madame de La Fayette e. T r a ta-se — com relacao á personagem e á autora — de damas da grande aristocracia. talvez. O género. 1604-1676. publ.1082 Orto MARÍA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAA 1083 porque é personalidade independenté. mas a sua obra foi publicada quando já se iniciara a época de Racine. mas sem grandes "mots". O que torna perplexo o observador désse espetáculo é que nao há evolugáo. joguéte entre essas duas fórgas. e ésse fatalismo excluiría a tragedia. que precisa de individuos livres e responsáveis. heroínas do teatro de Corneille. mas conhece urna "vertu". Mas a honra nao é um conceito da religiáo crista. O próprio Boileau foi influenciado. obedecendo só aos imperativos do seu próprio coragáo. a crítica. de Constant e Stendhal.

a Franca nao conheceu outra poesía. Le repas rldlcule" (1665). Parts. Edl. m a s ambos só puderam fixar teorías.áo critica das Satires por A. (Cf. "Epltre LX. ao poeta. J. 5 vola. Pascal e Nicole. 1892. 1941. 1938. Le travall á mon Jardlnler" (1695). BainvUle. . Lanson: Boileau. Sur le genre satirlque" (1663). H. 1932.) M. "Satlre V. Parts. Tres geragoes de "filósofos" deliciaram-se com a magra sátira anticlerical de Le Lutria. Parts. A. Edicáo completa por J. da moralidade ñas letras. os oratorianos e Bossuet estáo de acordó neste ponto: sao inimigos do teatro. "Epltre VI. e particularmente do teatro. Bremond: "La légende de Boileau". "Satlre VIH. e um Voltaire observava as "regras" com pontualidade muito maior do que os próprios amigos contemporáneos do crítico. A polémica contra o teatro é renovada na Franga dos oradores sacros e dos jansenistas. Sur uniforme: homem de nobreza e coragem moral. 1923. Bouhours. também. 1885. Nos frontispicios das edígoes representava-se o busto de Boileau coroado de louros e rodeado de musas e ninfas. que é de ordem moral e literaria ao mesmo tempo. defensor de Racine e Moliere. Delaporte. París. teórico da "raison". 10) Nicolás Boileau-Despréaux. 1942. 3 vols. Doucleux: Un jésuite. Sur la noblesse" (1665). finíreíiens d'Ariste et d'Eugéne (1671). R. Sainte-Beuve: Causeries du Lundi. Hervier: VArt Poétique de Boileau. Durante um século inteiro. O. mas as maiores homenagens foram prestadas. já realizadas por Moliere e Racinc. A verdadeira importancia dos teóricos do século XVII nao é de ordem técnica. a sua tarefa é a justificacjio da causa literaria. "Pastarais. "Satlre VII. A teoría aristotélica da literatura. "Epltre VII. "Satlre X. Le P. homme de tettres du XVIle siécle. A son esplrit" (1867). naquele século. da "nature". Pope. "Epltre XII. Da personalidade literaria e teoría poética de Boileau ( 70 ) dáo os manuais. das regras aristotélicas.) "Satlre I" (1660). Mairet et Chapelain compreenderam as regras aristotélicas apenas como instrumentos de técnica literaria. e poucos sao os escritores cuja reputacáo tenha mudado tanto durante os tempos que passaram. Mornet: Nicolás Boileau. Bray: Nicolás Boileau. comegou na Italia. urna exposigao Dominlque Bouhours S. desde muito. L'amour de Dleu" (1690). Epopéias e Picaros". 1628-1702. Les femmes" (1693): "Epitre XI. "Epltre V. París. Vol. perante o tribunal da Contra-Reforma. nota 39. 1886. Les embarras de París" (1660). De 1'utiUté des ennemls" (1677). D. e sim d e ordem moral. 1928/1931. La campagne et la ville" (1677). (In: Pour le romantisme. "Le lutrfn" 1674/1683). Ríen n"est béau que le vral" (1675).. "Satire n .1084 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1085 pelo jesuíta Bouhours ( e o ) . Caben. "Satlre IX. 1636-1711. da énfase. da "vérité". como instrumento de ensino moral ou como divertimento inofensivo. París. e. o problema foi a transformagao das normas técnicas em diretrizes moráis. e combater éste último pela censura. É outro processo que nao acaba. da poesía burlesca. S. justificando a poesía. Na verdade. "Art poetlque" (1674). París. París. um burgués grave com simpatías jansenistas. Parts. mas varios Boileaus. inimigo critico do preciosismo. A proposta de d'Aubignac no sentido de distinguir teatro bom e teatro nocivo. "Satlre m . Nao é por acaso que as tentativas repetidas de aprofundar a teoría literaria partem todas de pessoas de responsabilidade moral : um abade. nao existe um Boileau só. O século X V I I I submeteu-se de bom grado á autoridade crítica de Boileau. um jesuíta.. Parini e Holberg imitaram-nas. "Satlre VI. da imitagáo dos antigos. poeta satírico apreciável. Se connaltre aol-méme" (1674). A influencia das teorías na literatura é m e n o r do que se pensa. nao resolve a questáo. as sátiras e epístolas eram consideradas obras* primas de finíssimo estilo horaciano. C. VI.. imbuido de espirito malicioso de burgués parisiense. afugentando os fan- lTiomme" (1667). Pouco adiantam as respostas dos dramaturgos atacados. Accord de la rime et de la ralson" (1664). EdlQáo critica do Art poétlque por V.

No fundo da alma do classicista pedante existe ésse elemento . 1086 OTTO MARÍA C A R P E A Ü X HISTÓBIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1087 tasmas da ignorancia e do obscurantismo. a sua influencia nos grandes escritores seus contemporáneos foi reduzida. . com isso. J á nao se fala d o poeta. os próprios franceses responsabilizara Boileau pela enorme derrota literaria da Franga no mundo. e Boileau foi sempre a primeira vítima do desprézo déles. lhe pareceu o maior produto poético do jansenismo. e isso por um instinto de defesa nacional. Chegou a celebrar a poética de Boileau como o verdadeiro naturalismo francés. Convém. Porque todas as outras nagoes européias deixaram de admirar e imitar o classicismo francés. quase. em Brunetiére. Barrettis e Coleridges dirigiram os ataques mais veementes. algo modificados. quase medieval. zombando da aristocracia e do clero. O crítico áspero odiava igualmente o naturalismo de Zola e o simbolismo de Baudelaire. que lhe pareciam reincarnagoes da poesia burlesca e do preciosismo do século X V I I . pelo menos realista. na qual descobre novas qualidades: pelo menos. de modo que nem a importancia histórica de Boileau subsiste. e justamente os membros mais jovens do grupo da Action Frangaise descobriram o valor da poesia francesa barroca. Mas os franceses continuam a ter em altíssimo aprégo a teoría literaria do mestre. e chegou a celebrar o fino artista do verso e inventor de rimas espirituosas. preconceitos e equívocos críticos. muda novamente a situagáo: agora. O seu "naturalismo" nada tem que ver cora a análise cartesiana da realidade. gragas ao qual a Franga. o vento do pré-romantismo era forte demais para se agüentar a leitura da poesia d e Boileau depois de Rosseau e Chateaubriand. campeao da "Raison". e só ela entre todas as nagoes. é condenagao jansenista da corrupgáo moral . Sainte-Beuve. como crítico do romantismo. Lanson desdobrou essas opinioes: Boileau teria sido. felizmente. que o mundo já viu. O aboé Bremond disse a última palavra: o Art poétique é a maior acumulagao de lugares-comuns. e nao se cansou de recomendar as teorías do grande mestre do classicismo. da "Nature" e da "Vérité". no entanto. contra "Les Femmes". poeta para os republicanos moderados de 1900. da época mais importante da historia literaria francesa. a gloria de Boileau revela aspecto diferente. esbogando quadros divertidos dos Embarras de París. nao sucumbiu ao mau gósto barroco . o poeta da burguesía parisiense. teria sido. "L'amour de Dieu". contribuirá tanto para a desvalorizagao daquele escritor. que. Até a pouco conhecida duodécima epístola. a seus olhos. contra o qual os Lessings e Schlegels. Brunetiére julgava-se um Boileau redivivo. se nao naturalista. observar que as suas sátiras nem sempre erara moderadas. depois recuou um pouco: reconheceu o papel histórico de Boileau. a poesia "moderada" de Boileau importa-nos pouco. Mas na Franga a querela nao pode morrer: a condenagao integral de Boileau implicaría a condenagao do próprio classicismo e. Lutando contra éles. Mesmo assim. mas vigorosa.barroco. No período q u e medeia entre Rousseau e a Revolugáo de Julho. e a descobrir-lhe na própria poesia um modelo désse "naturalismo clássico". ninguém pode hoje perdoar a Boileau o crime de haver eliminado a memoria de Ronsard. que caira em esquecimento por culpa de Boileau. digna de sair ñas páginas da Revue des Deux Monds. embora apenas ésse. Desde ésse momento.. sátira forte. Depois de 1830. antecipando-se a Candide no elogio do jardim francés. Os esforgos do neo-classicismo maurrassiano para revivificar a teoria literaria de Boileau nao foram muito vigorosos. mal versificados. Ésses dois conceitos reaparecem. salva-se a sátira vulgar. mas moderada ñas expressoes. excluindo-o do número dos vivos entre os grandes mortos. Mas Bremond ainda revela certa adm i r a d o á "poesia menor" de Boileau. Boileau já nao existe para a literatura universal. O que atraiu o austero antimodernista Brunetiére foi urna qualidade de Boileau que nao se harmoniza bera com o "realismo moderado": o pessimismo.

La mort de Sénéque (1844). e tal moralismo é a qualidade principal de Boileau.. Paris. M. assim como na mitología heroica. Tristan l'Hermite ( 7 I ) pertence á geragao anterior. o valor das tragedias precedentes. Bernardln: Un précurseur de Racine. as regras tém fundamento psicológico . assim. que seriam. já estavam no palco. París. as "regras aristotélicas" sao apenas instrumentos da técnica literaria. já nao se trata de decisoes políticas. tragedia política e histórica. O teatro de Racine. Esta. A t é o tempo de d'Aubignac. no amigo. de Corneille. a sua exigencia de "nature" e "vérité" serve para fins moráis. contingente. Como tais. já nao tém sentido político. o poder de emocionar o público até ás lágrimas. Para salvar a forma da tragedia clássica francesa. Mas já nao se apreciava Corneille. O público. Boileau voltou ás origens italianas da teoria. que diminuiu. La mort de Crispe (1645). Mariamne (1636). . era preciso conferir um novo sentido moral ás "regras aristotélicas". M. Edicóes das obras dramáticas por N. Mithridate. é possível desistir dos assuntos históricos e escolher assuntos mitológicos que apresentam a mesma "verdade" psicológica. A prova do equívoco está em que Boileau nunca houve por bem mencionar o nome do único precursor notável de Racine: Tristan l'Hermite. Bérénice. em que nao se digladiavam paixoes de vontades livres. e sim de conflitos de familia. mas em que paixoes fatais. e se. O seu tipo de tragedia era impossível num mundo que o absolutismo consumado excluía da colaboraglo nos negocios públicos. e se a unidade de tempo e lugar nao garantissem a "verdade" da a§áo. só é realizável se a unidade de agáo concentra o interésse no confuto. invencíveis e inelutáveis. mas sentido humano. com excegáo de Phédre. Ou entáo. apresenta aspecto grego. se se escolherem assuntos históricos para a tragedia. essas historias nao sao "romanas" no sentido de Corneille. é no moralismo que reside a sua importancia histórica. ao mesmo tempo. a purif icagao moral dos espectadores por meio do espetáculo. á catarse. 1907. e o estilo 71) Francote. de fundo jansenista. em vez da purificagao moral. os modelos espanhóis ou italianos que imitou. N. ineficientes se nao fóra aquela fórga cómica que ñas farsas se manifesta. O seu pessimismo satírico só gostava das "altas" comedias de Moliere. Em Britannicus. Tristan l'Hermite. Mesmo tratando-se de historias romanas. Essa transformagao foi iniciada pelo aristotélico Bouhours e terminada pelo jansenista Boileau. 1601-1665.1088 Orro MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1089 do mundo. todas as pegas "profanas" de Racine. etc. porém. reconciliar a teoría aristotélica e a psicología jansenista. que se revela pela peripecia. 1896. e Boileau condenava a farsa. nao serviram para abrir novos rumos á arte dramática. os espectadores nao se sentiriam f eridos ñas próprias almas. tragedias de monarcas o príncipes. Com efeito. á solucáo moral. as regras só se justificam como normas de compor e tornar verossímil urna agao que culmina na peripecia e leva. Sao antes "gregas". Nem podemos afirmar com seguranga se ele compreendeu bem a Racine. O sistema dramatúrgico do teatro francés baseava-se na "tragedia da vontade". A Art poétique saiu no ano em que morreu Moliere. universal. Em Boileau. em que a historia política era substituida pela historia psicológica das almas individuáis. Boileau nem sequer compreendeu sempre a transformagao da qual era ele o porta-voz teórico. Boileau apreciou. embora substituindo-se o mito grego pela psicologia crista. dlt Tristan L'Hermite. houvesse apenas divertimento irresponsável. porém. lutavam contra o fado inelutável da Predestinagao jansenista. no resto. — Le page disgracié (1643). culminando em conflitos de paixoes. Assim. A sua poética 60 é o síntoma da transformagao realizada. Só Athalie arrancou ao simpatizante do jansenismo um elogio incondicional. Bemardin. reagiu de maneira igual ante as imitagoes lamentáveis de Campistrou e Pradon. no entanto. Só resta afastar o equívoco de que tenha sido Boileau quem realizou essa transformagao.

porventura. mas os críticos franceses respondem. Paris. Croce: Racine. 8 vola. de Lodovico Dolci. celui-ci peint tels qu'ils sont". os de Hugo. 1956. com raras excecoes. e o belo livro de Lemaitre sobre Racine é. Paris. Andromaque (1667). 5. Oiraudoux: Racine. nao o admitiráo os partidarios de Villon. "Celui-lá peint les hommes comme ils devraient étre. por vézes "perfeitas". 1922. l'homme et le temps. meio burlesco. ao passo que Racine revela as almas com o realismo agudo de Eurípedes. A tragedia Mariamne situa-se entre a Marianna.» ed.. Phédre (1677). 1951. que nao sao respostas. London. Neste sentido. 1952. Vossler: Racine. 1952. A Critical Biography. e com razoes mais ou menos suficientes. 1866. 4 vols. Alexandre (1665). K. Paris. O premio do esfórgo será. nem 72) Jean Racine. urna comparagáo mais justa entre Racine e Corneille. J.] 2. quando o sotaque estrangeiro estraga a música da língua. 1865/1873. Bari. ás vézes de beleza raciniana. London. London. J. Britanntcus (1669). 1922/1925. Athalie 1691). um elegiaco suave e algo frivolo. 1947. Turnell: The Classical Moment. Racine seria. e sobretudo a transformacáo do caso politico em confuto psicológico. L'oeuvre. Milano. "Perfeicáo" encerra um nao-sei-qué de banalidade. no fundo. vestidos "á la grecque". D. Paris. Sorrcnto: L'opere poética e la modernita di Racine. . Mesnard. Que Jean Racine ( 72 ) seja o maior poeta da literatura francesa. 1898. meio picaresco. A demonstracao é menos fácil. EdlcSes. c os manuais propoem o mais trivial de todos os lugarescomuns da crítica literaria para provar a grandeza de Racin e : a comparacáo com Corneille. Lemaitre: Racine. Brereton: Jean Racine. Vinaver: Racine et la poésie tragique. Paris. París. (In: Nouveoux essais de critique et d'histoire. Paris. Shakespeare e CorneiUe. E. Acerca de Racine já se disseram mais lugares-comuns do que acerca de qualquer outro grande poeta. 1884. Racine precisa de urna interpretacáo dialética. o rival de Corneille. Deschanel: Racine. Moliere and Racine. nem os de Baudelaire. 1926.a ed. 1930. (In: Books and Characters. Mornet: Jean Racine. no entanto. París. O. de Calderón. e ésse costume é. Studies in Corneille. 1929. C. Bremond: Racine et Valéry. um grande poeta menor. e desde entáo nao se cansam de opor ao idealista Corneille o realista Racine. Truc. Esther (1689). 1951. dizia La B r u y é r e . Os críticos estrangeiros manifestaram. quando muito. 1090 Orro MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1091 retórico. 1944.. afinal. Knight: Racine et la Gréce.» ed. M. [Apéndice: "La poesía del Racine". París. Plcard: La carriére de Jean Racine. Paris. Strachey: "Racine". La Thébaíde (1664). em geral com generalizacoes brilhantes. La page disgracié. 1936. Talne: "Racine".) E. revelam o contemporáneo.) O. Mithridate (1673). 1887. e por O. 1930. sao os trechos líricos. de ambos os lados da barricada. mas romano como Virgilio. Tristan é percusor de Racine. Vartiste. um Virgilio teatral. H. Muenchen. 1926. Iphigénie en Auiide (1674). París. hostilidade contra Racin e . Maulnler: Racine. L. e isto se senté sobretudo ñas traducoes. H. L. Tristan parece até pertencer a urna época anterior a Corneille: escreveu sonetos "preciosos" e um romance autobiográfico. Bajazet (1672). Nao se pode negar um grao de verdade ñas opinioes contraditórias. La rr mi niel: Racine. pareciam bastante idealizados. Bérénlce (1670). Os fatos essenciais. R. 2. París. Paris. Voltaire chamou á Iphigénie en Auiide a maior obra do espirito humano. Truc: Jean Racine. Th. B. a poesía dramática de Corneille seria idealizacáo das supostas "virtudes romanas".. urna serie interminável de lugarescomuns elogiosos. de coisas triviais em versos perfeitos. nao romano como Tácito. 1908. O. Mas Jean Racine é o poeta mais perfeito da língua francesa — esta afirmacáo pode contar com a quase unanimidade dos críticos e leitores. 1639-1699. A crítica estrangeira sempre achou em Racine o contrario disso: os seus cortesáos e damas da corte de Luís XIV. mais romano do que grego. Paris. e El mayor monstruo los celos. R. Les plaideurs (1668). por P.

e levam os alunos ao teatro para aprenderem a boa pronuncia. Quais sao. E a poesía elegiaca de Racine nao tem nada.• 1092 OTTO MARÍA CARPBAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1093 Na opiniáo de um dos maiores inimigos de Racine. de modo que se tornam mais bem representáveis no palco. mais verdadeira do que pensava Taine. mais humana das emocoes humanas. ou tem pouco. virgiliana. os professóres léem com os meninos as suas pecas. Racine nao é grego. e o seu espirito lógico só deixaria subsistir a sombra pálida da verdadeira tragedia grega. e do seu século. enfim. o ideal clássico. Hippolyte Taine. Agripine. dos desejos eróticos. comentando-as. com as nossas paixoes e vicios. Mas Í6to é verdade. do poeta romano. Bérénice. . Taine — para citá-lo mais urna vez — definiu csse classicismo de maneira diversa: como "ideal du beau diré". impondo-se apenas — penosamente — a compostura calma e mesurada que os seus versos serenos e musicais sugerem em meio as tempestades psíquicas. Nessa disciplina humana e poética reside o classicismo de Racine. como o de Dostoievski. mulheres: Hermione. e o resultado é táo "clássico" — ou t í o pouco cristáo — que o poeta parece o mais grego dos poetas modernos: já foi chamado o Sófocles francés. Ter-se-ia malogrado se houvesse aspirado a isso. como espirito cartesiano de abstracao.). assassínio de um tirano (Britann/cus. se quiserem — bem entendido. táo longe da fórca brutal do grande russo. deixou a literatura. As personagens principáis de Racine sao. sacrificio de urna inocente para fins políticos (Iphigénie en Aulide). e todos os indicios biográficos revelam que era ele mesmo hornera apaixonado e perverso. com a semelhanca do retrato. da "consumacao dos tempos". o jansenismo de Racine. Un grand artiste n'a qu'un souci: devenir le plus humain possible — disons mieux: devenir banal. criminosos ou recalcados. Racine teria sacrificado a verdade á harmonía musical do seu verso. Mas a harmonía do seu verso nao resulta de preciosismo estilístico. na declamacáo dos famosos monólogos. Phédre. as suas paixoes exprimem-se com gestos verbais mais vivos. E seria isso idealizacáo? Racine é há mais de dois sáculos autor escolar. e quando. Quase se pensa naquele outro poeta "puro" do palco: J o h n Ford. Racine passou apenas por Port-Royal. Roxane. que Virgilio é um dos maiores poetas de todos os tempos. É um poeta do lado noturno da alma." Racine parece banal. Athalie — porque as mulheres sao mais emotivas do que os homens. e nao está. Mas Racine nao é leitura infantil. Com efeito. O jansenismo era o instrumento de disciplina das suas angustias pascalianas. é antes a melancolía que subsiste após a subjugacáo dos instintos pela mais rigorosa autodisciplina. as mais das vézes. afinal. o dramaturgo teria sido o pintor naturalista da sua sociedade. da corte de Versalhes. do sentimento de decadencia. e que um désses instintos era a malicia: Les plaideurs sao urna das comedias mais cómicas do teatro francés. um poeta das paixoes mórbidas e perversas. definido por Gide da maneira seguinte: "L'oeuvre classique ne sera forte et belle qu'en raison de son romantismo dompté. das ambigoes vitoriosas ou frustradas dos cortesáos. realizou. os temas de Racine? Chimes criminosos (Andromaque). que todos os seus instintos se revoltaram contra a moral crista. Nao basta salientar o cristianismo. Monime. e sim da melancolía elegiaca do poeta. sociedade artificial e estreita como os caminhos entre as arvoretas chapotadas do parque de Versalhes. A gente de Versalhes teria concordado com o "naturalismo". e foi isso o que La Bruyére pretendeu dizer com "tels qu'ils sont": ele nos pinta como somos. incesto (Phédre). entáo. voltou a ésse lar espiritual da sua mocidade. É necessário lembrar que csse aluno das "petites écoles" de Port-Royal lancou mais tarde os panfletos e epigramas mais mordazes contra os seus mestres. É grande poeta francés. como nenhum outro poeta da literatura universal. porque a sua poesía dá a fórmula mais geral. O chamado realismo de Racine é realismo psicológico. bem feitas as contas.

Só poderia exprimir-se livremente no romance. e da qual nunca nasceria um Sófocles. A Racine só importam os acontecimentos íntimos. na alma . Realmente. que é o seu modelo imediato em Andromaque. desde Hazlitt e De Quincey. maior até que Shakespeare. como Racine. o maior feito de Racine é ter descoberto essa diferenc. assim como o cristianismo do século X V I I estava sendo minado pelo moralismo leigo. é impossível. e. um poeta moderno. As tentativas de naturalizar Shakespeare na Franca levaram o raciniano apaixonado Voltaire as injurias mais violentas contra o grande inglés. Racine é considerado pela opiniáo alema e inglesa como poeta menor.1094 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA O C I D E N T A I 1095 Síntese do jansenismo e d a Grecia. mas de significacao meramente nacional. assim como o jansenismo de Racine estava sendo devorado pelo seu subconsciente. Dostoievski. a variedade dos episodios. é Racine um grego auténtico e.áo para condensar as suas investí garóes psicológicas em tragedias de grand. Essas tragedias condensadas e concentradas nao suportam dígressoes episódicas nem intervencóes humorísticas. Na "singleness of purpose". históricamente. Racine foi o único dramaturgo moderno que conseguiu criar urna tragedia comparável á grega. a mistura dos elementos trágico e cómico. Eis porque a sua Iphigénie en Aulide e geralmente reconhecida como mais auténticamente grega do que a Iphigénie auf Tauris. dramaturgo ineficiente. como Crime e Castigo e Phédre. a relativa incoeréncia da acáo. e a unidade da agáo é hoje restabelecida. Conhecemos hoje melhor a relacáo entre as particularidades dramatúrgicas de Shakespeare e as convencoes que regiam o teatro elisabetano em geral. em desenvolvimento rápido e desfecho trágico. na Espanha e na Inglaterra) só conheceu urna alternativa: o modelo grego de Sófocles ou o modelo romano de Séneca. Afirmá-lo parece blasfemia e heresia das piores. e nao de ordem dramática. Iphigénie en Aulide e Phédre. Desde Trissino e Garnier até Racine.a. revelam-se melhor as almas. O capítulo das comparacoes entre Shakespeare e Racine é um dos mais tristes nos anais da literatura comparada e da crítica literaria. como diz Strachey.es crises moráis. péssimo modelo. Neste sentido especial — porque a tragedia mítica é a mais permanente de todas — é Racine o maior dramaturgo dos tempos modernos. Mais mistura do que síntese. a nos que já nao acreditamos no mito. mas os dramaturgos modernos gozam de menos liberdade de lugar e tempo do que Shakespeare. porque a verdade é que o tipo raciniano do teatro venceu: já nao nos servimos das tres unidades aristotélicas. suavemente crista. o grande psicólogo — admirador apaixonado de Racine. O teatro inglés é de tipo novelístico. Há varias Grécias. No sentido euripidiano. Racine descobriu outra Grecia: a de Eurípedes. das unidades de tempo. a Grecia do mito em decomposicáo pela psicología. alias — nao teria sido romancista no século X V I I . Compará-lo a Shakespeare — seria impossível. e as convencoes diferentes do teatro raciniano tém a mesma relativa razio de ser. de Goethe. contudo. ao mesmo tempo. Servir-se-ia. eis a fórmula q u e •e propoe para definir Racine. Sófocles nao é a Grecia. e os estrangeiros responderam-lhe de modo igual: desde Lessing e os irmáos Schlegel. já nao mítica — assim como nos convém. Quando muito. Se Shakespeare voltasse a nascer no século XX. a tragedia classicista (e as suas sínteses com o teatro popular. admitem alguma poesia em Racine. seria um Racine. a conclusáo inelutável é que as convensoes do teatro shakespeariano nao podem vigorar para os dramaturgos de todos os tempos. É preciso entender a significado do vocábulo Grecia. mas das convencoes teatrais a que os dois dramaturgos se submeteram. lugar e a. A lógica rigorosa e algo esquemática das composicoes de Racine é a lógica das convulsoes do coracáo. daí a liberdade de lugar e tempo. Nao pela diferenca dos valores. nao seria dramaturgo. seria um Dostoievski ou um Joyce. mítica e.

A muitos o estilo de Racine se afigura pálido. servem a Racine para condensar ao máximo a crise. o espectador já sabe que Néron cometerá urna serie interminável de crimcs. que Corneille mal suportou. A tragedia de Racine seria o empobrecimento máximo da tragedia psicológica. de modo que o ambiente histórico perde a importancia. ou. quando nao se trata do seu próprio caso. Racine. mas o próprio Racine nos fornece a melhor definigáo do seu estilo: "Belle. para o fundo da cena. o que importa é a crise psicológica como desfecho de um conflito familiar. até na leitura. et Neptune" reside inteiramente na música misteriosa da composigio das palavras mais comuns. A mesma subordinacao permanente é. porém. de Corneille. Agora. As personagens de Racine •— tiranos cruéis e mulheres perversas — agem e reagem conforme os preceitos da política "maquiavelístíca" — mas no ambiente da familia. como em Les Plaideurs. sem pormenores descritivos — mas Strachey — para citá-lo urna vez mais. et l'armée. em Bérénice e Britannicus. a raíz do grande talento cómico de Racine. a autodisciplina rigorosa do poeta. e. et les vents. "il rase la prose". o seu "jugement" triunfa sobre a "sensibilité". todas as suas tragedias se passam na mesma "sala de um palacio"." A verdadeira razáo daquela "ciarte" prosaica é. daí o poderoso efeito dramático das suas pegas. reza o último verso: "Plut aux dieux que ce fut le dernier de ses crimes!" Outra observagao importante: Corneille pretende representar o ambiente histórico-político dos seus enredos. por assim dizer. dizia Sainte-Beuve. as-tu du coeur?". e deixando as personagens sózinhas no palco. Racine desiste. alias. mas política. estas concentram-se em peripecias. a comparacáo convencional tem sentido diferente. A impressao da calma noturna em "Mais tout dort. A sabe- . A primeira observagao é de ordem estilística: Corneille condensa nos seus famosos "mots" a situagáo do confuto psicológico: "Rodrigue. com efeito. a subordinagáo da "sensibilité" ao "jugement". recuando. nos seus "mots". O primeiro fato explica-se pelas intengoes diferentes dos dois dramaturgos: Corneille representa conflitos psicológicos. enquanto Racine se contenta em dar á pega o colorido aproximadamente exato de época ou país longínquo. trivial. assim chamou Schlumberger a Racine. Por isso. rir dos outros com a crueldade das personagens trágicas mais violentas. quando no fim de Britannicus. É poesía dramática de ordem mais geral. independente de todas as contingencias históricas. sane ornements.1096 OTTO MAKIA CARPEAUX HISTÓBIA DA LITERATURA OCIDEINTAL 1097 das personagens. um moralista que pode rivalizar com La Rochefoucauld: "Ainsi que la vertu le crime a ses degrés. prosaico. aqueles desenvolvem-se em choques. "Poeta cómico". observou bem que a pálida e quase pobre linguagem de Racine (afirmam que o seu vocabulario consiste em 500 palavras) sabe sugerir t í o fortes impressoes como a opulenta música verbal de Shakespeare. Tao dramático é Racine que quase nao precisa do palco. As unidades aristotélicas. e explicou: poeta de conflitos íntimos e familiares sem responsabilidade pública. como disseram os jansenistas. da significagáo política da agao. e Racine é. entáo sabe rir. humano. até ñas tragedias rigorosamente históricas. Racine representa crises psicológicas. dans le simple appareil D'une beaute " Essa "prosa" seria conseqüéncia do uso da língua como instrumento da análise psicológica. abre perspectivas.

"a historia s ó r d i d a de um incesto". Barroca é até a sintaxe de um dos versos mais famosos de Racine: "Ariane. sómente r e l i g i o s a s . Os jansenistas tiveram mais outros motivos para a c e i t a r favorávelmente aquela tragedia do amor: a queda f a t a l d e Phédre simbolizava. como no órgáo.p r i m a de Racine: reúnem-se. Todavía. os sentimentos nobres. obras de profunda inspiracáo religiosa. é sempre vencida. é. retirons-nous A l'ombre salutaire Du redoutable sanctuaire. Daí provém a sintaxe complicada. torna-se. á s vézes " p r e ciosa". fuyons. sao essas duas pegas políticas. e sobe como um hiño nos coros de Athalie. a tragicidade inelutável de Britannicus e o sentimento do humano de Iphigénie en Aulide. táo impessoál. ma soeur. Eis o tema de Racine: vontades q u e b r a d a s . nao sao. a psicología requintada de Andromaque. a corrupcao e queda d a alma humana. A vontade. É necessário possuir o máximo de personalidade para criar poesía que se afigura táo universal. uma sátira politica. para éles. que já preludiara. Também tém evidente sentido político. de Joas e de Deus. ao mesmo tempo. Leo Spitzer c h a m o u a atengao para a música. Eis o motivo da solidáo absoluta de Racine. "con sordina". desta maneira. É "romantisme dompté". de quel amour b l e s s é e Vous mourutes aux bords oü vous f u t e s laissée!" em que a simetria das harmonías pretende p r o d u z i r a impressao de equilibrio clássico. O conformismo político do "siecle d'or" francés está superado por uma atitude de oposigáo. no consenso dos séculos. nessa tragedia. bíblica. em Athalie. na tragedia pré-cristá Iphigénie en Aulide. essa a m á v e l "dra- . táo mal aconselhado na luta contra os jansenistas. embora a nuvem sombría perante a face do "Deus absconditus" continué a envolver o templo: "Courons. O que a um c r í t i c o americano moderno parece. Seu tema é a Graga que desee do Céu. ainda hoje. o verso polido. de milites versos seus. O inegável elemento barroco em Racine é táo transfigurado. advertencia ao rei. É a surdina classicista sobre o violoncelo b a r r o c o . Athalie é um estudo dramático da tiranía que termina derrotada pela ¡ntervencao da Providencia Divina. Música é a última palavra da arte de Racine. táo geral que parece quase trivialidade. por sua vez. E aos v e n c i d o s abremse apenas as perspectivas de derrotas f u t u r a s ou de r e flexáo e expiacáo. desejos frustrados. A s duas pecas celebram a vitória de heróis inocentes sobre a política "maquiavelística" dos inimigos de Esther. conforme o seu dogma. táo superado. significava para os contemporáneos u r n a tragedia religiosa.1098 OTTO M A B I A CARPEAUX HlSTÓHIA DA LlTEBATUKA OciDENTAL 1099 doria política de Corneille é substituida p e l o Fado das paixoes irresistíveis. já nao conta. Esther. s u a s últimas obras. já francamente antibarróca. que nao tinha rival nem sucessor. está cheio de "terreur sacrée". O classicismo de R a c i n e é "baroque dompté". antes de tudo. destinada a ser representada por mocinhas. como na música do último mestre do Barroco musical e primeiro neoclássico: ñas óperas de Gluck. As duas tragedias religiosas de Racine. " matizacáo de um contó de facías". p r e p o d e r a n d o em Corneille. a o b r a . e a salvacáo anuncia-se pelo instrumento supremo da poesía raciniana: a música verbal. Phédre é. Os contemporáneos satisfizeram-se com as aparéncias." O templo. "le plus humain possible". do verso d e Phédre: " dérober au jour une flamme si n o i r e .

Quinault nasceu quatro anos antes de Racine. 1636-1688. . Tiridate (1690). 1908. Leipzig. Shakespeare e Calderón. capaz de servir como base permutável de recitativos e arias. et l'on vient trop tard". J. nacoes. La Harpe. 1895. Proserpine (1680). Rolland: Histoire de l'Opéra en Europe avant Lulli et Scarlatti. do mesmo modo que o teatro espanhol. Basta a citagao dos nomes para imediatamente se reconhecerem as qualidades próprias e independentes da literatura que aqueles poetas e escritores franceses representan!. ha mort de Cyrus (1656). et quí pensent. épocas — ligados por acontecímentos "irrepetíveis" e irreversíveis. á maneira das ciencias naturais". Oros: Philippe Quinault. existem diferengas inegáveis. La mere coquette (1664). Astrate (1664). 1656-1723. Amadis (1684). Os métodos da abstragáo e generalizagáo nao sao próprios da historiografía. Depois de haver acentuado os tragos barrocos do chamado "classicismo francés". R. "Individualizar" é urna das tarefas principáis da historiografía literaria. e isso nao deixa de ser paradoxal em varios sentidos. 74) Philippe Quinault. sa vie. o comentador autoritárío dos "clássicos". a de San Juan de la Cruz e Donne. O objeto da historiografía é constituido por "individuos": individuos própriamente ditos e individuos coletivos — classes. E. Operas: Alceste (1674). Leipzig. 76) R. será preciso acentuar os elementos nao barrocos ou antibarrocos. Em compensagáo. Roland (1685). e seria inútil a tentativa de erigi-lo em intermediario entre os dois grandes dramaturgos. a frase ajusta-se ao classicismo francés. Amsterdam. Nao pode ter sido por acaso que o teatro francés chamado "clássico" terminou em ópera. 1904. e da maneira mais brilhante. 1928.1100 Orco MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1101 aplaudiram Carnpistron ( T3 ). Lulli). Quanto á crítica francesa. renascentista — em estilo extremamente cultivado. a literatura de Pascal e Bossuet. Todo o teatro barroco tende a sacrificar a sua verdade humana á máquina teatral. é ¡mensamente difícil defini-las. et l'on vient trop tard depuis plus de sept millo ans qu'il y a des hommes. Rolland: Musiciens d'autrejois (Les origines de l'opéra. Amalasonte (1657). que representa a suma do pensamento ocidental — greco-romano. de um lirismo muito geral. nao é. mas no seu 73) Jean Galbert de Camptstron. París. para as óperas de L u l l i : pegas líricas. ses tragedles et ses tragi-comédies. donde a impressáo de "um ¡menso lugar-comum em períodos redondos e versos sonoros". afinal. Buytendorp: Philippe Quinault. F. que ocorreu a muitos críticos estrangeiros. O único sucessor legitimo de Racine é Quinault ( í 4 ) . Sa vie et son oeuvre. dono de varias qualidades estilísticas e de nenhuma qualidade poética ou dramática. Corneille e Racine. Armide (1686). transformándose em ópera ( 7 6 ). depois de Phédre. foram tomados de empréstimo ás ciencias naturais. Paris. como de toda a historiografía. A s pegas realmente importantes de Quinault sao os libretos que escreveu. Por outro lado. No fim do "siécle d'or" da literatura francesa. Mas as suas tragedias nao tém valor. Parla. no século X V I I I . J. 1903. cristao. Lindemann: Die Operntexte Quinaults vom Uterarischen Standpunkt. e desde Rickert e Windelband se acham firmemente estabelecidos "os limites da formagáo de leis e termos. Hausdring: Carnpistron in selner Bedeutung ais Dramatiker fuer das Theater Frankreichs und des Auslands. 1927. Andronic (1685). que toda a gente reconhece como barroco. É mais um argumento em favor da tese do caráter secretamente barroco do classicismo francés do século X V I I . e a época dos seus grandes éxitos situa-se entre as primeiras derrotas de Corneille e as primeiras vitórias racinianas." Reduzindo-se os "sete mil anos" a dois mil. é preciso apenas reduzir aqueles "sete mil anos" a dois séculos e meio: "Tout est dit. La Bruyére confessou: "Tout est dit. a ponto de ser impossível tratar o classicismo francés sem repetir coisas já inúmeras vézes afirmadas. tem hoje fama de crít¡co dogmático e inepto.

E Thibaudet. a opor Bourdaloue a Moliere. e devia haver. Comeille e Racine. como expressáo espanhola. urna expressáo do Barroco. os lugares-comuns sólidamente estabelecidos da crítica literaria francesa. de maneira cada vez mais brilhante e espirituosa. Fernández sobre Moliere.1102 COUTS Orro MARÍA. Depois. Escreveram Schlumberger sobre Comeille. nao lhe falta um elemento antibarroco. de Comeille a Chénier: o classicismo visto através da sensibilidade contemporánea e das ideologías modernas. até os nossos días. muitas modificagoes na opiniáo estabelecida. . evidentemente. por sua vez. Porém continuou a comparar "Comeille et Racine". CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1103 de littérature já se encontra quase tudo quanto foi repetido depois de modo menos afirmativo e provocante. A interpretagao "barroquista" do classicismo francés — a única contribuigao nova — nao será capaz de modificar senslvelmente aquela tábua de valores. esclarecendo melhor as origens históricas. acabou a "crítica das belezas e defeitos". e o classicismo continua classicismo. e nao apenas cronológicamente. "nous n'avons ni envíe ni motifs de modifier cet état des choses": a liteiatura de Pascal e Bossuet. concluí: "Nous n'avons ni envíe mi motifs de modifier cet état des choses. E nos outros. e Lemaitre e Faguet nao fizeram mais do que repetir. mas a parte mais permanente da sua crítica é o elogio de La Fontaine. sob a diregáo de André Gide. A s melhores edigoes de Racine podem. reconstruindo a igreja da ortodoxia clássica. Le Président reste le Président. É barroco. Giraudoux sobre Racine. e a gostar de Regnard. Sainte-Beuve introduziu a crítica psicológica e organizou em torno da historia de Port-Royal urna nova tábua de valores da literatura clássica. que é. Léon-Paul F a r g u e sobre La Fontaine. o "abarroco". por sua vez. um novo Tableau de la littérature irancaise. abarroco e antibarroco ao mesmo tempo. ao Antibarroco espanhol. O classicismo francés "lugarcomum" geralmente humano na língua de Pascal e Racine. Mauriac sobre Pascal. Chegar-se-ia a afirmar que o elemento clássico. um permanente comentario das condicoes gerais da vida humana. o reexame nao modificou o panorama em conjunto. O conformismo característico do classicismo francés contribuí até para eliminar-lhe as contingencias históricas. Taine pretendeu destruir Racine. mas éste Antibarroco sucede cronológicamente. é resultado do equilibrio entre as forjas barrocas e as fórgas antibarrocas que agem e reagem dentro do classicismo francés. constituí um dos valores mais permanentes dentro do panorama da literatura universal. contudo. XVII et XVIIIe siécles. de Cervantes a Gracián. aproveitar-se de certas notas d o anti-romántico impenitente Nisard. Thibaudet sobre Boileau." E a crítica continua a ser a crítica. serve antes para reinterpretar os motivos daquela "permanencia": as ambigiiidades antitéticas da prosa clássica e a política "maquiavelístíca" do teatro clássico sao mesmo expressóes barrocas da psicología permanente do género humano. "Enfin Brunetiére vint". Em 1939 publicou-se. após definir Boileau como "Président" da "République des L e t t r e s " francesas. De fato. tomando-o digno de ser objeto permanente de urna crítica literaria que é. o estilo de pensar de La Fontaine e Moliere. novas interpretagoes psicológicas — mais psicológicas do que própriamente literarias — e varios aforismos brilhantes e inéditos.

e "His Majesty's most loyal opposition". nominalistas. sempre "clairobscur". o naturalismo. os picaros aderem ao estoicismo barroco. ou fantasía burlesca á maneira de Bracciolini. os autores das epopéias herói-cómicas sao intelectuais.• CAPITULO VI ANTIBARROCO P • . cépticos. Gracián e Campanella será capaz de exprimir ideologías incompatíveis com a corrente dominante. acabando em pessimismo á maneira de Alemán. . Mas o estilo bem barroco de Quevedo. que faz parte da mentalidade antitética do Barroco. faz parte do próprio estilo barroco. eruditos típicamente barrocos. burlesco ou sombrío. e o aparente antibarroquismo dos naturalistas nao implica verdadeira oposicáo. antibarróca. O romance picaresco e a epopéia herói-cómica parecem antíteses do Barroco e nao passam de antíteses dentro do Barroco: veleidades de oposicáo social. Racine é táo conformista como Bossuet. A verdadeira oposicáo revela-se na resistencia ao aristotelismo reinante. nao lhe falta oposicáo. OR mais poderoso que o Barroco seja como expressáo política e social e como expressáo estilística. O criterio estilístico nao é capaz de distinguir entre oposicáo intrabarroca e aposicao antibarroco: as formas clássicas dos grandes franceses nao excluem mentalidade barroca. na tentativa de atacar a própria réalidade da sociedade barroca — o que nao fizeram nem o romance picaresco nem a epopéia herói- . em atitudes de humanistas. Mas nao é fácil distinguir entre a oposicáo de verdade.

o soberano do primeiro "bom europeu" Erasmo. O perigo de que esta política estava ameagada era a desagregagao dos seus elementos básicos: o poder espanhol transformar-se-á. Quevedo. Crónica general de España (1543). sao percursores da "Ilustragáo" do século X V I I I . no momento em que a Reforma e as primeiras explosoes do nacionalismo destruíram a unidade espiritual da Europa. absolutista e jesuítica. ligar a historia espanhola á historia romana para criar urna perspectiva ampia da historia universal. mas em favor das realidades supranaturais da fé. "Renascenca Internacional". sátiras e tragedias classicistas. Campanella. A política do Imperador Carlos V fóra urna tentativa de realizar os ideáis do erasmismo espanhol. ao mesmo tempo. Com Filipe I I inicia-se a época do imperialismo espanhol. os acontecimentos no plano real. Cervantes. Desta vez — e a experiencia nao é a única — a "superestrutura" precedeu. proféticamente. da política do imperador. pelo contrario. a política crista transformar-se-á. c 1495-1568. 2) Cf. O próprio Calderón póe em dúvida a realidade do mundo. da Contra-Reforma. o nominalismo de italianos recalcitrantes. tais como Vieira. neste século X V I I I . parecem "reacionários". Vencem. A nova sintese de política crista e política espanhola é capaz de nao ser nem erasmiana nem renascentista. que. A retirada de Carlos V para San Yuste significa o fim definitivo do erasmismo político. Morel-Fatio: L'Historiographle de Charles-Qtlint. baseada no humanismo cristao — ou antes. a Revolugáo. Galileu se submete verbalmente. . do nacionalismo francés e do P a p a d o . para patentear o sentido universal. A s origens dessas atitudes oposicionistas encontram-se na Renascenga: o humanismo erasmiano dos espanhóis. porém. todas essas "oposigoes" nada puderam contra o Barroco. mas barroca. Carlos V foi vencido pelas fórgas unidas da Reforma alema. sao homens da acño. antes do tempo. Pretendem restabelecé-la por meio de urna política universalista. mantinha a pretensao de realizar "política crista". París. Há urna antecipagao literaria dessa evolugáo posterior: em pleno imperio de Carlos V. e Moliere é o primeiro a usar o palco como tribuna pública. depois da eliminagáo do universalismo pela derrota de Erasmo. como o interpretaran! os historiadores protestantes. preparando o "particularismo" romano da Contra-Reforma tridentina. a ideología de Vida es sueño nao é mais nem menos resignada que a do Guzmán de Alfarache. A. 1913. o cepcismo epicureu de Montaigne. o último representante do universalismo medieval: é o primeiro e maior dos estadistas de horizonte europeu. os seus representantes constituem urna galeria de grandes vencidos. E n t r e os jesuítas há até tribunos. em Contra-Reforma. depois da eliminagáo do universalismo pela derrota de Carlos V. no sentido romano do tribunato. Boccalini. Os motivos ideáis da sua política reve- lam-se com superior clareza ñas obras dos seus historiógrafos oficiáis: Ocampo ( ' ) procura de maneira fantástica. do Barroco. postumamente. no terreno do classicismo francés. Sarpi. em imperialismo. Mas. o antiespanholismo e empirismo italiano e o "libertinismo" francés. Na verdade.1106 Orro MARÍA CABPEAUX HlSTÓRIA DA LlTEBATUBA OciDENTAL 1107 cómica. no cristianismo humanista — de Erasmo. como Gracián. aparece. Considerando-se as suas origens renascentistas. O poder espanhol transformara-se em espada da Contra-Reforma. Carlos V é. realizou imperialismo espanhol. continuará a existir como "pseudomorfose" estilística de urna sociedade já burguesa. "romano". anacrónicamente. da política maquiavelística dos Estados nacionais. Paulo I I I desligou a Igreja da política universalista do imperador. aparentemente medieval. em odes. porque as suas tentativas isoladas nao tinham base social bastante forte. nota 91. a literatura pré-barróca de Antonio de Guevara (-'). prati1) Florlán de Ocampo. preparando. O humanismo espanhol do século X V I I . e jesuítas insubmissos. A grande derrota deixou um problema irresolúvel.

a figura evangélica de Bartolomé de Las Casas ( 3 ) . Contribuíram para a vitória do apostólo os conceitos jurídicos do grande teólogo humanista Francisco de Vitoria ( 4 ). A aplicacáo prática dos conceitos de Sepúlveda implicou. Gómez Robledo: Política de Vitória. O próprio imperador convocou urna comissao para estudar as reivindicacoes do Bispo e os remedios necessários. P i c c o l o m i n i s . mesmo antes das guerras de religiáo na Europa. 1909. justificando guerra e escravidáo p o r m o t i v o d o p e c a d o o r i g i n a l — serve-lhe p a r a r e f u t a r o pacifismo cristao de L a s Casas e interpretar como cruzadas as guerras imperialistas dos espanhóis. f u n d a d o r da ciencia d o D i r e i t o das G e n t e s . entao. (Primeira publlcacao por M.) Edic&o por M. Rlc. foi a colonizacao das Américas. os g r a n d e s p a r t i d a r i o s d o aristotelismo. Menéndez y Pelayo. Hoeffner: Christentum und Menschenwuerde.t o m i s t a d e dois d i r e i t o s n a t u r a i s — o p r i m e i r o . J. 5) 4) Juan Ginés de Sepúlveda. obispo de Chiapa. i n f e l i z m e n t e . Madrid. México. l u t a n d o n o coméco d o s é c u l o X V I I pelos ideáis erasmianos. Brown Scott: The Spanish Origin of International Lato. combateram. e o q u e Las Casas exigiu com tanta veeméncia foi a "política crista". A contradicáo repete. Os relat ó n o s de Las Casas. orador fogoso e até violento a servico de urna grande causa: a salvacao dos indígenas inocentes. é aristotélico fervoroso. 1892. por sua vez. de Aristóteles. E n t r e os g r a n d e s h u m a n i s t a s espanhóis d a s u a g e r a c a o . Surgiu. Fabié: Vida y escritos de Fray Bartolomé de Las Casas. 1490-1573. García Pelayo. 1925. Del único modo de atraer a todas las gentes a la religión de Cristo (1537). Relectiones de Indis recenter inventis (1532). F . A. 1548). Francisco de Vitoria. era a encarnacáo d e um a n a c r o n i s m o . 1941. 2 vols. Historia general de las Indias (1561). 1879. Edlg&o do Único Modo por L. Córdoba [Arg. bispo de Chiapa e "apostólo dos indios". e o segundo. Washington. subjugados pelo poder dos espanhóis. Bell:" Juan Ginés de Sepúlveda. m a i s c ó m o d a . Democrates Alter De Justis Belli Apud Indos (c. o " m i l e s c h r i s t i a n u s " d e E r a s m o j á se havia 3) Bartolomé de Las Casas. c o r r e s p o n d e n t e ao maquiavelismo. Juan Oinés de Sepúlveda. Trier. M a s o q u e se c o n s e g u i u d i s s i m u l a r n o t e r r e n o da ficcáo r e v e l o u a s s u a s c o n t r a d i c o e s n o t e r r e n o d a a c á o . De iure bellt hispanorum in barbaros (1532). Brevísima Relación de la Destruyción de Las Indias <1552). 1942. 1042. U m s o l d a d o d e C a r l o s V. a observacao do direito natural. encontraram reprecussáo profunda. é "humanista a servico d o imperialismo" espanhol. A.]. J. Hanke. que mantinha. México. A. M. a pretensao da universalidade. . Madrid. conceito em que o humanismo cristao encontrara a sua ideologia política. l e t r a m o r t a : encontrava-se o u t r a i n t e r p r e t a d o . m a s q u e o s j e s u í t a s . Macnutt: Bartholomew de las Casas. A teoría a r i s t o t é l i c o . c. G. O r e s u l t a d o f o r a m a s " N u e v a s L e y e s d e I n d i a s " (1542). mas com a pretensao de servir á fé universal. 1470-1566. 1940. A. q u e p e r m a n e cerán!. C a s t e l v e t r o s sao o s S e p ú l v e d a s da l i t e r a t u r a . Oxford. a q u é l e m a q u i a v e l i s m o s e m o q u a l p o l í t i c a d a fórca é imp o s s í v e l . trad u z i r a a Política. O s S p e r o n i s . Smlth: Un humanista al servicio del imperialismo. é Sepúlveda (5) quase o único que nao é erasmiano. a s c o n t r a d i c o e s c r i a d a s p e l a aplicacáo d o aristotelismo a literatura renascentista: a justificagao do " h e d o n i s m o i n o c e n t e " e m face d o m o r a l i s m o a r i s t o t é l i c o da C o n t r a .1108 OTTO M A M A CABPEAUX H I S T O R I A DA L I T E R A T U R A O C I D E N T A L 1109 cando aquéle maquiavelismo que os teóricos da ContraReforma rejeitarara. consubstanciados em Del único modo de atraer a todas las gentes a ¡a religión de Cristo e sobretudo na impressionante Brevísima relación de la destruyción de las Indias. porque era a arma dos Estados nacionais contra a Igreja. a aristotélica. Oxford. realizada pelos métodos mais violentos do imperialismo. F .R e f o r m a só foi p o s s í v e l p o r m e i o d e urna h i p o crisia estética. decerto. O campo em que se revelou a contradicho íntima. 1947. Das Anliegen der spanischen Kolonialethik im Qoldenen Zeitalter. d o d i r e i t o n a t u r a l — em v e z d a erasmiana. paradisiaco. Francisco de Vitoria and his Law of Nations. no terr e n o p o l í t i c o . México. 1480-1546. 1934.

Okle. Viaje del Parnaso (1614). 1913. Hazard: Le Don Quichotte de Cervantes. O humorismo algo primitivo. Ora. "Dom Pedro de Urdemalas". 1934.) A. 1917/1923. Casalduero: Sentido y forma de los Tabajos de Persiles y Segismunda. M. O. Icaza: Las novelas ejemplares de Cervantes. Casalduero: Sentido y forma del Don Quijote. com os moinhos J. publ. . Cotarelo y Valledor: El teatro de Cervantes. Buenos Aires. Quanto as pegas serias e ao último romance. á primeira parte do romance: as aventuras do fidalgo Alonso Quijano na taverna que tomou por castelo. Madrid. 1582). Buenos Aires. A. eis o q u e foi Cervantes. EdicSo do Don Quijote por F . Madrid. Cassou: Cervantes. 1931. 8 vols. New York. 2 vols. Persiles y Segismunda. H. Schevlll: Cervantes. Paris. Galatea (1585). MlLé Jiménez: Sobre la génesis del Don Quijote. resumo. 1930. 1947. preparam ¡mediatamente o realismo e o humorismo do Dom Quixote. síntese da arte e do pensamento de Cervantes. A visáo da obra na memoria da humanidade restringe-se até. M. Madrid. 1947. Rojas: Cervantes. J. prepara o humorismo superior do romance. 1937. Madrid. o julgamento e a transfiguracáo. Madrid. Casalduero: Sentido y forma de las Novelas Ejemplares. 1916. Menéndez y Pelayo: Orígenes de la novela. Madrid. Hatzfeld: Don Quijote ais Wortkunstwerk. 1927. Schevlll e A. El cerco de Numancta (c. 1925. a colegio das Novelas Exemplares ninguém negou jamáis o título de urna das maiores obras narrativas da literatura universal. Bonilla y San Martín: Cervantes y su obra. Madrid. Paris. Jerez. R. 1582. Cervantes ( 8 ) é tao exclusivamente o autor do Dom Quixote q u e autor e obra quase s e confunden!. Ríe. O resto da sua atividade literaria parece apenas preparacáo da obra principal. 1937. 1948/1953. Bonilla y San Martin. a sua obra de estréia. 1949. 1547-1816. Azorín: "Al margen del Persiles". 1915. Enfim. Vol. 1901. J.. "Las bodas de Camacho"). 1915.) J. Leipzig. Edicfio das Obras completas por R. (In: Historia de la literatura española.. F. A. Madrid. 1913. dos entremeses. J. Cervantes só parece ter vivido a sua desgracada vida de soldado.. Morel-Fatio: Études sur VEspagne. Léon Mainez: Cervantes y su época. Novelas ejemplares (1613). Castro: El pensamiento de Cervantes. El Trato de Argel (c. Mas ésses contos sao desiguais. Azafia: La invención del Don Quijote. 1901/1903. 1935.. Ocho comedias y ocho entremeses nuevos ["El rufián dichoso". Madrid. etc. A. 1914/1925. II. Valbuena Prat: "Cervantes".6 vols. Rodríguez Marín. e a encarnacáo daquele anacronismo foi o seu Dom Quixote. prélopiano. Apráiz: Estudio histórico-crítíco sobre las Novelas ejemplares de Cervantes. 1110 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1111 transformado em conquistador violento e cruel. El ingenioso hidalgo Don Quixote de la Mancha (1605). Ainda no Dom Quixote. Madrid. I. J. F. Paris. Barcelona. TI. soldado de Carlos V a servico de Filipe I I . Vol. 1911/1913. cativo dos mouros e literato pobre para acumular as experiencias das quais aquela grande obra é o <¡) Miguel de Cervantes Saavedra. principalmente. Buenos Aires. Fitzmaurlce-Kelly: Miguel de Cervantes Saavedra. A. porque nao se harmonizan! bem com a "tese" humorística do Dom Quixote. 1943. 1919. Astrana Marín: Vida exemplar y heroica de Miguel de Cervantes Saavedra. A. Vol. e as duas obrasprimas da novelística cervantina. novelas da mesma especie encontram-se insertas no Dom Quixote ("El curioso impertinente". Norman. Edlcao da Real Academia de Lengua Española. tos trabajos de Persiles y Segismunda (1617). 1905. certos episodios lembram a literatura pastoril que Cervantes enriqueceu com a Galatea. Am. Madrid. Oxford. 7 vols. Barcelona. a picaresca "Novela de Rinconete y Cortadillo" e a filosofía melancólica do "Coloquio de los perros Cipión y Berganza". outros tao románticos que só mesmo os románticos alemáes e ingleses podiam gostar déles. R. a posteridade condenou-os a um quase esquecimento. 1895. 1951. Madrid.. Segunda parte del Don Quixote (1615). 1784). Na opiniao geral. Madrid. J. Bell: Cervantes. P. L. J. 12 vols. (In: Al margen de los clásicos. Casalduero: Sentido y forma del teatro de Cervantes. Vitoria. "Los baños de Argel". alguns ao gósto italiano da época.] (1615).

celebrando Dom Quixote como herói da fé idealista contra o racionalismo utilitario. Mais um episodio da primeira parte do Dow Quixote se gravou na memoria universal: a cena em que o vigário e o barbeiro julgam os romances de cavalaria. enquanto as simpatías do público se inclinavam para o lado do cavaleiro perfeito e comovedoramente ridículo. compreendendo a obra de Cervantes como protesto da Vida contra a Razao. O "método" cervantino do contraste entre ideáis extravagantes e obsoletos. com a bacia do barbeiro que lhe pareceu elnio de Mambrino. as conversas do improvisado cavaleiro errante com Sancho Panga. a essa interpretagáo Unamuno deu a f eicao do paradoxo. por um lado. o romance moderno. sugeriu inúmeras imitacoes e versoes. a literatura universal ouviu de preferencia a licáo de Sancho Panga e do seu realismo razoável. que defende a fé. simpatía que se comunica a todos os leitores. a realista. na esperanza de conquistas imaginarias. Unamuno emprestou a devida importancia á segunda parte do romance. tem de desaparecer num mundo sem fé. e. e a parodia transformou-se em panorama da vida humana. a justiga e os indofesos. o bom-senso comum da gente. Heine foi — parece — o primeiro em compreender a tragedia comovente do idealismo desiludido por tras do sorriso humorístico. Disse bem o crítico americano T r u l l í n g que o contraste entre as aparéncias e a realidade é a própria substancia do género "romance". Depois. e baseada no fato de que nao sómente os ideáis falsos sao derrotados na vida e no Dom Quixote. estendeu-se a sátira a todas as formas de "idealismo" extravagante que perde de vista a realidade.1112 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1113 de vento que combateu como se fóssem gigantes. duramente experimentados por ela. em que as duras realidades do ambiente se opóem ás idcias e atos subjetivos do homem. Por isso. tornou-se possível salientar. de Fielding. no entanto. o seu caso literario teria sido análogo ao do romane* picaresco. sem justiga e muito utilitario. mas também os ideáis verdadeiros. Mas. e o "caminho de muerte" do idealista se parece com a paixáo de um mártir da fé. na qual o tom é mais solene. o elemento poético ou o elemento prosaico. alternadamente. já se criticou a transformagüo do cervantismo em quixotismo. o primeiro resultado definitivo. na qual os ideáis sempre sao derrotados pela famosa "talmosia dos fatos". o grande critico cha- . Ésse episodio constituí a base da interpretagáo realística da o b r a correspondente á reprecussáo do Dom Quixote na literatura universal: a obra foi compreendida como sátira contra o entusiasmo apaixonado dos espanhóis pelos romances de cavalaria. que mobiliza t o d o o realismo seco dos proverbios castelhanos para convencer o seu dono da loucura daqueles erros. O primeiro caminho é o de Turgeniev. Essa interpretagáo antiga nao explica bem a simpatía do autor pelo seu herói louco. chamando a atengao para o excelente contó picaresco "Rinconete y Cortadillo". e o Tom Jones. A outra possibilidade de interpretagáo. foi indicada por Menéndez y Pelayo: Cervantes teria restabelecido os direitos da realidade . das quais o Hudibras. o cavaleiro á antiga. explicando a derrota de Dom Quixote como sendo a da fé num mundo sem fé. e originam-se daí duas series de interpretagoes. acompanhando-o. Déle deriva o romance realista. e os outros. quase religioso. O contraste é de um humorismo irresistivel: e o Dom Quixote conservará para sempre as suas duas classes de leitores: as crianzas. responsáveis pela loucura anacrónica de Don Quixote. doutro lado. que ainda nao conhecem a vida. Nesse sentido é o Dom Quixote "o romance dos romances". é o primeiro espécíme. quer dizer. Na elaboracao. E. E logo resultou urna conclusao importante: na literatura universal é o Dom Quixote a primeira grandiosa obra de arte em prosa porque o humorismo é o sentimento da poesía em face da prosa da vida. de Samuel Butler. O ponto fraco da interpretagáo unamunesca é a identificagao do herói com o seu autor. Eis a interpretagáo romántica do Dom Quixote.

em verso famoso. Cervantes é tao idealista. desmentir o seu próprio idealismo: o herói. e que os castelos do inimigo nao sao moinhos de vento. todos cairam na confusao entre . no sentido do neoplatonismo de Leone Ebreo. cujo maquiavelismo lembra a moral de Gracián. o romance pastoril Galatea. provém da superposiclo do idealismo platónico. Neste ponto.1114 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTÓBIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1115 gou a lamentar que Cervantes nao houvesse escrito um novo Lazarillo de Tormes ou um Guzmán de Alíatache. T a m pouco é possível ignorar a imparcialidade da distribuigáo de sombras e luzes em "Rinconete y Cortadillo". Byron disse. como devida. mas isso nao é exato. porque Cervantes sucumbiu e o espirito de cavalaria sobreviveu. Éste último ponto é o mais fraco na interpretagáo de Américo Castro. "que dá ligoes moráis". como na sua obra de estréia. retrato do idealista que sabe que a sua fé é mera ilusao em face da realidade." Eis a base sobre a qual Cervantes foi capaz de transformar o seu protesto. que "Cervantes smiled Spains chivalry away". me parece a mí el yelmo de Mambrino. É possível acompanhar a aquisigao gradual dessa imparcialidade ñas Novelas Exemplares. E o "assim" de Cervantes nem sempre foi o mesmo. Nos contos de tipo italiano. mas sem a feigao ascética do Guzmán. "a vida é assim". para ele. É um romance de cavalaria. mas também quer dizer: "sao exemplos do que acontece". Cervantes é. Os críticos antigos registraram a obra como recidiva lamentável. segundo a interpretagáo de Américo Castro. especie de Malasarte espanhol. O otimismo. resultado da sua origem plebéia. renascentista ("La Señora Cornelia". Daí a grandiosa imparcialidade de Cervantes. o romance Persiles y Segismunda. E a falta de idéias própriamente erasmianas. o patriotismo romántico da tragedia Numancia é o ponto de partida da viagem pela vida que o levará á desilusáo do Dom Quixote: um contó humorístico á maneira das "facezie" da Renascenga italiana tomou o vulto de um símbolo da decadencia espanhola sob os Filipes. A Galatea. quase cartesiano ou kantiano: "Eso que a ti te parece bacía de barbero. "El amante liberal". a sua capacidade de fazer j u s igualmente a Dom Quixote e a Sancho Panga. No Dom Quixote. foi sempre. essa conviccao chegará á profundidade do idealismo filosófico. da vida. O verdadeiro picaro de Cervantes aparece na comedia El rufián dichoso: picaro que se torna santo. enquanto Alemán é o pregador do pessimismo barroco. derrotada. embora melancólico. "liberáis". que nos parece bastante convencional. Porém o argumento mais forte contra a interpretagáo de Américo Castro é a última obra de Cervantes. "El celoso extremeño". na sua obra. na grande comedia Don Pedio de Urdemalas. um homem da época de Carlos V . Essa observagáo foi o ponto de partida da nova interp r e t a d o de Américo Castro. "La española inglesa". em panorama imparcial. Cervantes teria sido um homem entre os séculos. e leva ao naturalismo picaresco de "Rinconete y Cortadillo" e do "Coloquio de los perros". confessaram-se incapazes de explicar porque Cervantes deu a ésse romance importancia muito grande. A primeira síntese encontra-se em "El licenciado Vidriera". a Espanha tem de reconhecer que moinhos de vento nao sao castelos. que ele deveu á sua formagao renascentista. seria explicável pela opressao do pensamento livre na época filipina. e Pedro admite francamente a derrota. o último dos «rasmianos e o precursor do movimento regenerador de 1898. "La fuerza de la sangre"). considerando-o como o principal dos seus livros. cheio de episodios fantásticos passados em ambiente fabuloso. y a otro le parecerá otra cosa. de Cervantes. a ponto de. Mas Cervantes nao é livrepensador. humorístico. Ejemplar quer dizer "moral". de humanista plebeu contra o Barroco aristocrático. "La ilustre fregona". a predileta entre as suas obras. O realismo já intervém em "La gitanilla". Cervantes foi um espirito ¡mensamente livre. sobre o realismo picaresco. e até nos últimos anos de vida pensava em escrever urna segunda parte désse romance pastoril. é derrotado por Bélica.

combina bem com o resultado da análise estilística da Obra inteira de Cervantes. o estilo idealista da Renascenga. apenas. Neste sentido. Cervantes. revelando ésse idealismo a tendencia de acentuar-se cada vez mais. resolver a contradicáo entre a prosa e a poesía. sem excegao. para restabelecer a verdadeira "cavalaria". gran señor. con las ansias de la muerte. espirito livre e súdito ortodoxo dos reís Fílipe I I e Filipe I I I . por Hatsfeld: demonstrando a unídade perfeita desta Obra. estritamente conforme á moral severa e aristocrática da Contra-Reforma. Num livro de preferencia de Cervantes. A expressao do "erasmiano" nao foi embaragada ou recalcada. da vida humana. Para Américo Castro. declarada "antiquada" por urna crítica inepta. esta te escribo. como em Alemán. "las ansias de la muerte". mas necessita de urna modificagao. Cervantes cita "aquellas coplas antiguas. Mas também com razao Casalduero destaca os elementos de Barroco idealizado. apoiando-se especialmente na demonstradlo bem sucedida da homogeneidade das Novelas Exemplares: sao todas elas. expressóes de um elevado idealismo moral. o problema que levara á loucura o autor da maior obra de cavalaria crista. Com razáo se salientaram os elementos platónicos e renascentistas em sua obra. escrita poucos dias antes de morrer." Todos os biógrafos de Cervantes citam o prefacio. o resultado. a Philosophia antigua poética (1596). porém as mais comoventes interpretagóes biográficas nao explicam bem porque o autor do Dom Quixote morreu com versos de um "romance" romántico na boca. mas evolveu para o Barroco. que comienzan: "Puesto ya el pie en el estribo". em Persiles y Segismunda. casi con las mismas palabras la puedo comenzar. ao qual pertence o elemento fantástico de Persiles y Segismunda. como acontece . "es el libro que nos da más honda sensación de continuidad. ." O Dom Quixote é a obra de importancia universal.. por Casal duelo. em Cervantes. a do "miles christianus". confessando as angustias infinitas.. A demonstragao da homogeneidade da colegáo das Novelas Exemplares. Cervantes nao logrou manter o equilibrio superior e precario entre idealismo e prosa. A interpretagáo de Américo Castro pode ser mantida. encontrou o autor do Dom Quixote o problema da relacáo entre a ficcao e a verdade. hay pocos libros tan vivos y tan modernos como éste. Com razáo observou Azorín que justamente essa obra. O realismo de Cervantes nao foi. do comégo até o fim. embora devendo em parte essa importancia. O fenómeno Cervantes é muito mais complicado do que se pensava. pelo humorismo. porque ésse equilibrio já se tornara impossivel em pleno Barroco. já é quase "estilo religioso". que fueron en su tiempo celebradas. diciendo: "Puesto ya el pie en el estribo. Na dedicatoria do romance. mas nao é possível ignorar as sombras escuras de angustia barroca em Persiles y Segismunda. A particularidade da Segunda Parte do Dom Quixote é o tom solene. de vida. em cujo pensamento também existem elementos aristotélico-escolásticos. Sua obra sutilmente multiforme é um bloco homogéneo. Persiles y Segismunda é realmente a obra definitiva de Cervantes: a única na qual o grande humorista desee do seu trono de superioridade olímpica. . levando-se em conta o "Barroco ideal" destacado por Casalduero.. a ú l t i m a obra de Cervantes seria a profissáo de fé definitiva do seu idealismo platónico. . Mas Cervantes conseguiu. tampouco foi hipócrita como Descartes. e sim um método para regenerar o falso idealismo. O estilo de Cervantes foi.J116 OTTO M A B I A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1117 cervantismo e quijotismo. de sucesión. o Tasso: quicá o modelo do fidalgo louco e genialmente simpático. de López Pinciano.

Bouvler: Quevedo. L. El mundo por de dentro (p. Vida de Marco Bruto (1644). nota 66. 1950. Catllla: Quevedo. A p o p u l a r i d a d e d a s d u a s s á t i r a s e c l i p s o u u m t a n t o o g r a n d e p o e t a lírico. e por L. em Q u e v e d o . Vida de San Pablo (1644). España defendida y los tiempos de ahora (1609). La Cuna y ¡a Sepultura (1634). 1945. m a s d á i d é i a da r i q u e z a a s s o m b r o s a d o p o e t a l í r i c o Q u e v e d o . a p e n a s i n s t r u m e n t o das s u a s a m b i g o e s e r ó t i c a s e p o l í t i c a s . Madrid. O.l Buenos Aires. gobierno de Cristo y tiranía de Satanás (1626).• 1118 07TO MAHIA C A R P E A U X HISTORIA DA L I T E R A T U R A OCIDENTAL 1119 t a n t a s vézes. E.I-VI. Cartas del Caballero déla Teneza (1627). 1949. O p o n t o d e p a r t i d a é. Bpopélas e Picaros". o elemento r e a l i s t a . entre dos centenarios. a literatura significa. É u m " s e c r e t a r i o " . El sueño del ¡n/erno (nos Sueños: Las zahúrdas de Plutón. Madrid. os "bailados" de Terpsícore. 'Tastorais. O Dom Quixote é s e u l i v r o p a r a t o d o s o s t e m p o s . 1623). Dámaso Alonso: Poesía española. é a p e n a s c e r v a n t i n a : é a c o n s e q ü e n c i a p o é t i c a d a d e r r o t a vital do h o m e m antibarroco em pleno Barroco. É " p o e t a d e ocasiáo". 1606). a s s á t i r a s m o r á i s d e P o l í m n i a . o e l e m e n t o i d e a l i s t a e n c o n t r a r á a s u a cont i n u a d o no intelectualismo rebelde de Gracián. p o l í t i c o m a i s o u m e n o s m a q u i a v e l i s t a . M a s j á n a o é o t e m p o d o r o m a n t i s m o aleg ó r i c o d a Numancia. la t u y a c o m o d e b í a . p r i s a o e p e n i t e n c i a final. f i g u r a t í p i c a do Barroco. n a o o m a i s i n s pirado. 1925. El sueño de la muerte (nos Sueños: La visita de los chistes. l. £2 entremetido. " O h d e s d i c h a d a E s p a ñ a " . Madrid. q u e foi r e a l i s t a e i d e a l i s t a ao m e s m o t e m p o . cortesao. 1923. las doctrinas.. IV dos Sueños. 1607). Juderías: Quevedo. conspirador contra a república de Veneza. Edlsdes por A. la época. 1580-1645. O s e d i t o r e s d o s e u Parnaso Español — e Quevedo representa u m p a r n a s o i n t e i r o — c l a s s i f i c a r a m as p o e s í a s s e g u n d o os r e i n o s d a s n o v e m u s a s : a s p o e s í a s h e r o i c a s d e Clio. d o n o a b s o l u t o da l í n g u a . 3 vols. as poesías eróticas de É r a t o e E u t e r p e . Grandes anales de quince días (1621). s e n h o r d e t o d o s o s estilos e m o d u l a r e s d a voz. porém o mais completo da literatura espanhola. diplomata. Persiles y Segismunda só a g o r a s e c o m p r e e n d e u como o lado b a r r o c o d e C e r v a n t e s . Madrid. p o r é m . Tucumán. as poesías burlescas de Talia. 1897/ 1907. Los Sueños (1628). 2 vols. E x p r e s s á o b a r roca de u m h o m e m barroco. R. diz o p u b l i c i s t a da España defendida y los tiempos de ahora. París. [Traducao castelhana. e v i d e n t e m e n t e . (Cf. homme de Dieu. Foi oportunamente que V a l b u e n a P r a t c i t o u o s v e r s o s d e Don Pedro de Urdemalas: " T u p r e s u n c i ó n y la m í a han llegado a conclusión. para ele. no sentido de G o e t h e : a expressáo poética lhe a c o m p a n h a a s fases e i n c i d e n t e s da v i d a a g i t a d a d e e s t u dioso. Historia de la vida del Buscón (1626). Asinina Marín. Sevilla. e s i m na poesía. 1648. c a i n d o na d e s g r a c a .) El sueño del Juicio final (nos Sueños: El sueño de las calaveras. la m í a sólo en ficción. homme du Diable. 1932. o p a t r i o t i s m o e s p a n h o l . a u m equívoco. la dueña y el soplón (prlmeiro titulo: Discurso de todos los diablos o Infierno enmendado. mas impoem-se c e r t a s r e s t r i g o e s dessa d e f i n i g á o . Astrana Marín: Quevedo y su época. 1628). 1949. 1608).Vü-IX. . m i n i s t r o da Fazenda do vice-reino de Ñapóles. as poesías moráis de Calíope e as poesías sacras de Urania. 1670). a s cangóes f ú n e b r e s d e M e l p ó mene. el hombre. 1886. n o fim. " r e v u e l t o J . Persiles foi a obra d e i m p o r t a n c i a h i s t ó r i c a i m e d i a t a : d o e l e m e n t o r e a l i s t a do B a r r o c o viveu o p i c a r o . Fernández-Guerra y Orbe. B. r e n g a : Q u e v e d o n a o s e r e a l i z o u p l e n a m e n t e só e m o b r a s d e ficgáo. c o m o o d e C e r v a n t e s . e x p r e s s á o d a s d e s i l u s o e s . Política de Dios. A classificagao é p o u c o feliz. La hora de todos y la Fortuna con seso (1636). " Os mesmos versos poderiam servir de epígrafe á vida e literatura de Francisco de Q u e v e d o (T). México. El Parnaso Español (L. Com esta dife- 7) Francisco de Quevedo y Villegas. 1610). e. £2 alguacil endemoniado (nos Sueños: El alguacil alguacilado. homem da agáo. A s í n t e s e . Mérlmée: Essai sur la vie et les oeuvres de don Francisco de Quevedo. Lira: La visión política de Quevedo..

eis o ambiente da sátira mais famosa de Quevedo. e publicou as poesias do esquecido Francisco de la Torre — escapou-lhe neste poeta do pré-barroco Tasso — para revalorizar o classicismo renascentista. É ascética a despedida do político derrotado. colocado naquele H a d e s burlesco. Distinguindo-se do estoicismo pessimista do pie- . em "La visita de los chistes". no romance picaresco La vida del Buscón. as reivindicacóes. mas a que nao falta inteiramente a luz sobrenatural da visao do Greco. Negando a evolusáo da Renascenca ao Barroco. dos bajuladores. lembra-se. a parodia de La hora de todos y la Fortuna con seso. charlataes. ñas "Zahúrdas de Plutón".• • 1120 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1121 he mil veces en la memoria t u s antigüedades y anales. A ordem estabelecida por Estado e Igreja nunca é posta em dúvida. Mundo sombrio que foi bem comparado as visóes diabólicas de Hieronymus Bosch — será preciso um estudo das qualidades do "gótico flamboyant" no estilo de Quevedo — e de Goya." O contraste entre a grandeza de há poucos anos e a desgraga dos "tiempos de ahora" inspira-lhe os sentimentos mais amargos contra o materialismo reinante do "poderoso caballero don D i n e r o " : a sátira contra o amoralismo miserável por tras da resplandecente fachada aristocrática. O conceptismo é um estilo essencialmente hiperbólico. bem naturalista. a inutilidade de reivindicacóes sociais no mundo quevediano. abrasando o conceptismo. : '-5'H As últimas obras de Quevedo sao ascéticas. do desmascaramento das vaidades mundiais. inclusive. porque tudo é váo e nulo. embora preocupado em salvar a ortodoxia de Quevedo. mas a sátira contra todas as classes e profissoes lembraria antes as dancas macabras medievais — a própria irreverencia de Quevedo é mais medieval do que moderna — se nao fósse a amargura barroca de desilusáo. Mas é diferente do estoicismo comum do Barroco. expressao perfeita da ortodoxia católica da classe aristocrática. esta sátira: a luz sombria da realidad e desmascarando as divindades brilhantes e falsas da Renascenca. comerciantes. Mas o estilo do próprio Quevedo nao é renascentista. O pensamento do asceta Quevedo continua estoico. e a hipérbole é o instrumento principal da sátira quevediana: exageros grotescos das monstruosidades reais déste mundo. é pré-renascentista. dos caprichos e caricaturas monstruosas do liberal revolucionario Goya. barbeiros. Mas — a dialética de Quevedo só pode ser interpretada com muitos "mas" — há nisso urna confusao entre expressao e ideologia. ministros. astrólogos e heréticos. . Dámaso Alonso. a propósito dos quais já se falava em Dante. nunca sutis demais quando se trata de um escritor sutilíssimo. a propósito de Los sueños. Los sueños. y no he hallado por qué causa seas digna de tan porfiada persecución. Nao perdeu ocasiao de zombar de Góngora. Quevedo caiu no extremo oposto. n a qual um Júpiter grotesco a maneira de Offenbach tem de curvar-se perante a Fortuna.«í_i* . juízes. mesmo contra a vontade: pois Quevedo foi o maior inimigo do estilo barroco em literatura. Um desfile de tipos da sociedade barroca. trata-se de um Juizo universal no outro m u n d o : dos poetas. o próprio Azorín admite a irreverencia na sátira e até ñas obras serias de Quevedo. Quevedo é barroco. tal como no Buscón. dos médicos. especie de ginástica do pensamento. "flamboyant". que parece consolar-se com o subtítulo dramático da sua Vida de San Pablo: "La caida para levantarse". e diminui$oes burlescas do que néle passa por grande e considerável. como em El mundo por de dentro. e impóem-se algumas distingoes. Mas o conceptismo também é o método indicado para evitar conclusoes. A expressao de Quevedo é barroquíssima. Bergamín salienta. alcoviteiros. farmacéuticos. "llamado a desaparecer". É bem barroca. em "El alguacil alguacilado". estilo que se presta a reservas mentáis e subterfugios sutis. É urna Divina Comedia burlesca. porém. contudo. Com efeito. e neste sentido censurou Azorín a reserva quase tímida de Quevedo em atravessar a fronteira entre sátira moral e denuncia social. Quevedo é o espirito mais inquieto do século.

Nao é estoicismo barroco. 1900. . o genero é barroco. já nao. 1937. do qual possui a tonalidade sombría. e é hoje revalorizada como documento ideológico de urna secreta "religiáo" laicista. pela forma. Madrid. México. (Atribuida. em que o extremo Barroco se transforma dialéticamente em Antibarroco.) A Epístola figura em todas as antologías da poesía espanhola. O livro e o amigo sao da época do Cortegiano. síntese única do estoicismo erudito á maneira de Séneca e do estoicismo popular que é a filosofía das esquinas de rúa na Espanha antiga. por isso foi desprezada pelos neogongoristas." . Diaz-Plaja: La poesía lírica española.) expressao "muerte callada" e ao idealismo (no sentido filosófico) dos versos fináis: " . á corrente classicista. mas de conduta política. O estoicismo de Quevedo nao é o estoicismo barroco da "Epístola moral". mas a mentalidade que inspira a versao é táo típicamente espanhola que lembrou a Luiz Cernuda as Coplas de Jorge Manrique.) A. vencido mas prestes a "levantarse". nao há pensamento "que no fuese recuerdo de la muerte. a Andrés Fernández de Andrada. e cuja filosofía lhe inspirou a mais predileta das suas obras. com as de Góngora — • "Azadas son le hora y el momento cavan en mi vivir mi monumento. Foulché-Delbosc: "Les manuscrits de lEpístola moral a Fabio". " . 1948. com o qual estava Quevedo em relacoes. Nao é estoicismo de resignacáo barroca. rompí los lazos. o do aristócrata Quevedo é altivo e ativo. sugerindo a possibilidade da expressao de urna ideología humanística — e meío medieval — em forma barroca: o que acontece em Quevedo. Barcelona. Basta a comparacáo com urna das poesías mais famosas de língua espanhola. ]?m Quevedo. O tema desta síntese é o lugarcomum horaciano "Beatus ille qui procul n e g o t i i s . autor de la Epístola moral a Fabio. porém. dentro da poesía barroca. . L." As suas expressoes fúnebres parecem-se. 1939. antibarróca. Un libro y un amigo. . Na Renascenca. Mas o fim é "enmendar el mundo". Ven y verás al alto fin que aspiro Antes que el tiempo muera en nuestros brazos. A Vida de Marco Bruto é um "espelho de principes". E o ascetismo chega até ao misticismo da 8) "Epístola moral a Fabio" (c. 1932." A "Epístola moral a Fabio" pertence. a anónima "Epístola moral a Fabio" ( 8 ). por Adolfo de Castro. as vézes. Zambrano: Pensamiento y poesía en la vida española. a retirada da vida engañadora da corte para a solidáo: "Fábío. Rodrigo Caro. e. o "sueño breve". . un sueño breve". E a conduta política é o grande problema da época e o problema pessoal de Quevedo. O nobre classicismo do poema parecía colocá-lo no século XVI. e sobretudo a Espanha decadente. (In: ínsula. Cernuda: "Tres poemas metafísicos". O poema revela a possibilidade de expressao de urna ideología barroca em forma clássica. estoica. é antes o estoicismo renascentista de Justus Lipsius. (In: Revue Hispanique. como em Miguel Angelo. sucesivamente. em pleno Barroco contra-reformista. a Vida de Marco Bruto. M. las esperanzas cortesanas prisiones son do el ambicioso muere". Q. R. nao haveria sido possível a versao do horaciano "Ule mihi terrarum angulus " como "Un ángulo me basta entre mis lares. .• 1122 OTTO M A R Í A CAHPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1123 beu Alemán. 1626). Francisco de Medrano. a Francisco de Rioja. Balg Baños: Rodrigo Caro.

"liberal". "Miré los muros de la patria mía Si un tiempo fuertes. lembram Antonio Pérez e as personagens maquiavélicas da tragedia senequiana. Saavedra Fajardo pensa como um liberal do século X I X : explica a decadencia da patria pelas conseqüéncias nefastas das descobertas. da censura. oíereceu o manual de conduta política e humana que ele mesmo renegou ñas suas atividades políticas na Italia. nao é exato chamar-lhe "humanista em forma barroca". Nos Grandes anales de quince dias deu Quevedo um breve e perfeito panorama da política maquiavelista. Mas o que Quevedo opoe ao maquiavelismo nao é a ética aristotélico-tomística dos jesuítas. . na primeira versao. Estudio sobre su vida y sus obras. 1884. na Política de Dios. De la carrera de la edad c a n s a d o s . em La Hora de todos combate. vol. El sueño del Infierno. hoy para y es." A fórca motriz do seu pensamento fúnebre é o aspecto da decadencia espanhola. Murcia. A modificagao de varios títulos de obras de Quevedo e a transformagao do seu Inferno crist í o em Olimpo burlesco é resultado da opressao inquisitorial. XXV. Contudo. Edicóes: Biblioteca de Autores Españoles. A vida política de Quevedo é urna "novela exemplar". simbolizando essa contradicao. Madrid. Frank de Andrea: "Lo Barroco en Saavedra Fajardo". " . de Saavedra Fajardo ("): a decadencia espanhola só pode ser remediada pela execugao inteligente da política maquiavelística. Azorin: Saavedra Fajardo. porque reage contra a ética aristotélica: o "buen tirano" e o "mal leal" que aparecem na Vida de Marco Bruto. (In: Lecturas españolas. O humanismo de Quevedo limita-se á oposicao contra o aristotelismo oficial. e por A. á qual se opoem.1124 Orro MARÍA CARPEATJX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1125 Mas o que predomina em Quevedo é o sentido do tempo. em forma burlesca. mañana no ha llegado. (In: Studium. A mitología grotesca dos Sueños nao teria sido possível na Renascenca. O mesmo problema político apresentou-se ao espirito tolerante.) P. adotando o maquiavelismo que os seus principios cristaos lhe proibiram. González Potencia. Ibafiez García: Saavedra Fajardo. 1946. J. 1907. por V. Idea de un principe político-cristiano representada en Cien Empresas (1640). Sevilla. La República literaria (1665). 1912.) . y a desmoronados. por isso. 1548-1648. da durée: "Ya no es ayer. y fué. pelas guerras ¡núteis. abandonando o universalismo de Carlos V e Erasmo. agosto de 1950. em expressoes que o humanista liberal Ludovico Vives assinaria: "Muchas veces 8) Diego de Saavedra Fajardo. Cortines: ideas jurídicas de Saavedra Fajardo. quase como um espanhol desesperado da gera§áo de 1898. Os elementos da ideología sao humanísticos: a síntese contraditória é barroca. os fins cristaos da política espanhola. e certamente nao é erasmiano. Manifesta um pacfismo bem erasmiano. nem a conduta de "miles christianus" erasmiano. F. García de Diego (Clásicos Castellanos). con movimiento que a la muerte me lleva despeñado. a resistencia astuta dos maquiavelistas contra a " F o r t u n a " . porém. tornara-se imperialista e contra-reformista. e é preciso observar que Las zahúrdas de Plutón se chamavam. . O estoicismo de Quevedo parece humanista. Déste modo nasceu do humanismo derrotado de Quevedo a contradigao mais poderosa do século X V I I : a sua sátira mais violenta." A política espanhola. M. A ideología de Quevedo é táo ambigua como a sua personalidade. também é adversario da poesía aristotélica. Madrid. pela expulsao dos mouros e judeus. do culteranismo de Marino e Góngora. Nessa contradicáo encontra-se a resposta do desespero patriótico do escritor: "no he hallado por qué causa seas digna de tan porfiada persecución. diz Quevedo. e sim a de um "miles christianus" estoico.

otras por la religión. SI Héroe (1637). o filósofo alemao revelou contradicáo semelhante entre a prosa sublime do seu pessimismo cósmico e as ligoes de prudencia egoística dos seus aforismos. Romero-Navarro: "Das alegorías del Criticón". Romera-Navarro. 0 . Buenos Aires. Reyes.) A. casos de disciplina monástica. Edlfáo de Héroe.) F. Discreto e Oráculo Manual por A. "discreto". insuspeitos. 1921. Maldonado: Qracián como pesimista y político. é um "espelho de príncipes" em estilo emblemático. 1657). Oxford. quando invocou a prática maquíavelística da Companhia para apreciá-la á teoria da conduta humana. Gracián escreveu em estilo simples. o da burguesía dos séculos vindouros. 1938/1940. México. em permanente "incompatibilidade de genio" com os seus superiores na Companhia de Jesús. Criticón (1651/1653. Gracián nao revelou segredos da Companhia. Essa dobrez de Gracián agradou muito a Schopenhauer. e LV. M. Montesinos: "Gracián o la Picaresca pura". Schalk: Baltasar Gracián und das Ende das Siglo de Oro. 1947. naram possível a expressao do maquiavelismo político do Político e do maquiavelismo individual do Oráculo manual y arte de prudencia. y le perturban. Bell: Baltasar Gracián. LTV. De maneira alguma parece Gracián pertencer. juDio de 1933. e aquetas. assim como seu pessimismo: ésse teria sido simples mau humor de professor decepcionado. os superiores tinham plena razio. A solucao radical encontra-se na literatura do jesuíta Baltasar Gracián ( l 0 ) . A. 1925. 3 vols. Gracián aprecia os homens como o seu contemporáneo La . os conflitos de Gracián com a Companhia de Jesús só foram. de Gracián. Mariana levara o antimaquiavelismo teórico ao absolutismo incipiente. tradutor do Oráculo manual. pouco depois. A base dessa atitude é o desprézo da natureza humana. G. (In: Cruz y Raya. a nao ser um segrédo que toda a gente conhecia. retomando o maquiavelismo aristocrático da Renascenga. tao "perfeito" como o "cortegiano" da Renascenga. Na verdade. Com efeito.) J. Marone: Morale e política di Baltasar Qracián. Edlcao crítica do Criticón por M. transforma-o em outro. 1916. ao réstabelecer a gloria de Gracián. Hispanic Review. 1601-1658. É conceptista e — quase — o escritor mais barroco do Barroco. a geragáo de 1898 entrou a considerá-lo como o pensador mais profundo da literatura espanhola. O "herói". Coster: Baltasar Qracián. realmente. (In: Romanlsche Forschnungen. F. Gracián é o teórico do conceptismo: na Agudeza y arte de ingenio ensinou os processos estilísticos que Ihe torio) Baltasar Gracián. que se diz antimaquiavelistica e é maquíavelística. Oráculo Manual y Arte de prudencia (1653). 1913. as "particularidades" ideológicas do jesuíta já foram explicadas. hiperbólica e elíptica. desta vez. Reyes: Capítulos de literatura española. mas é forcado a exprimir-se de maneira sutil. El Discreto (1646). só o elogiou como grande estilista. Sí Político (1640): Agudeza y Arte de Ingenio (1642). Phlladelphia. 1918. nos seus poucos escritos religiosos. Mas.1126 OTTO M A R Í A CAHPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1127 se levantan las armas con pretexto de celo de la mayor gloria de Deus y causan su mayor deservicio. Napoll.. otras por la libertad de los pueblos. García López: Baltasar Gracián. 1939. y los oprimen. 1941. 1. e essa "prudencia" é um maquiavelismo requintado e polido. O humanista liberal Saavedra Fajardo nao conhece outra solucao do problema espanhol além da tradicional. 1940. apenas veleidades obstinadas de um clérigo recalcitrante. ideológicamente. New York. é um tipo moral. lembram as dificuldades de Mariana. ao seu tempo. F. tao caro ao Barroco. 1941. otras por el público sosiego. tratando outros assuntos." A forma estilística das Cien Empresas é barroca. A. Madrid. F. rx. Até Menéndez y Pelayo. y la ofenden. (In. mas é "prudente" como um jesuíta. sem reticencias e sutilidades. "político". Salamanca.

isto é. como "ilusión" e "engaño". Entao o maquiavelismo já nao teria nada de imoral. e sim do desenvolvimento implacávelmente lógico do conceito das élites. enfitn. os ineptos e imbecis. Nao tem outro fim o romance picaresco do protestantismo. de anticristáo. o picaro chega ao "desengaño" pela víagem trabalhosa através do Inferno barroco. é precursor do romance pedagógico Robinson Crusoe. entre os primeiros. o mundo aristocrático da Renascenca é desvalorizado. e. A coincidencia de sucesso e moral resolveu realmente o problema barroco do maquiavelismo. tao-sómente "to make the best of it". como jesuíta. como no "maquiavelismo" de Maquiavel. No romance picaresco. Gracián é em primeira linha pedagogo. Gracián morreu em 1658. a vida lhe parece luta permanente e implacável entre egoístas irremediáveis. mas o ponto final nao é a redencáo. é a de espanhóis que se rebelam contra o espanholismo. e a hegemonía literaria coube. seria até urna diretriz da conduta crista. pelo menos antecipou o futuro. O romance pedagógico Criticón. A sua expressao é barroquíssima. Mas nem por isso pensa em amaTdifoar o m u n d o . e na perspectiva histórica o jesuíta aparece como o último grande escritor da Espanha barroca. . viajam. já quixotesca. como o romeiro de Bunyan. base calvinista da mentalidade burguesa. nao se trata. A derrota de um Quevedo. de um Saavedra Fajardo. até na Espanha dos Bourbons. porque a Fortuna nao é. a ponto de ela se tornar aliada do homem. representantes do homem no estado da natureza primitiva e do homem civilizado. mas só principiou a ser compreendida quando o "siglo de oro" da literatura espanhola já passara. É urna solucao crista. de urna antecipacao anacrónica. os heróis do romance alegórico Criticón. ao classicismo francés. Gracián antecipou o novo maquiavelismo da nova élite burguesa. Andrenio e Critilo. A pedagogía de Gracián vence o pessimismo barroco. é possível conquistar a Fortuna. de modo que. Na verdade. fazer tudo para que os melhores vencam e dominem os outros. Gracián pretende ensinar como criar urna nova élite em s u b s t i t u i d o da antiga. segundo Max Weber. porém. Mas logo a Europa inteira se levantará contra a dominacao da grande potencia do Barroco. a grande adversaria da "virtü". antes de a hegemonía passar para a Franca e iniciar-se o caminho para a Revolucao da Burguesía. Mas como vencer a Fortuna? Por meio de urna autodisciplina rigorosa. Mas como consegui-lo? É possível. em que se forma o "homo novas" do capitalismo e utilitarismo. que parece continuacao conceptista das Soledades de Cóngora. Assim. professor de energía. como intelectualista. os portugueses. A! fonso Reyes considera Gracián como pragmatista. que foi o conceito político fundamental da Companhia de Jesús. mas o seu éxito internacional só comecou por volta de 1680. em toda a parte. O jesuíta Gracián é menos tradicionalista que o sectario protestante. e sim a cultura. pelas paisagens alegóricas da civilizagáo humana. A i n t e r p r e t a d o da vida como luta de egoísmos antecipa a interpretacáo semelhante de Mandeville e as harmonías preestabelecidas do liberalismo económico de Adam Smith. o Pilgrim's Progress do viajante e picaro puritano Bunyan. Azorín. As élites tém de dominar o mundo. Nisto reside aquilo a que Azorín chamou o "nietzschianismo" de Gracián. a moral e o sucesso coincidam. se nao conseguiu ésse fim. mas de um modo que excedeu a vontade e as possibilidades do Barroco aristocrático. o pragmatismo pedagógico de Gracián é mero instrumento disciplinar para conseguir a racionalizacáo e intelectualizacáo do homem instintivo. A disciplina dos instintos em Gracián nao é muito diferente da "ascese de trabalho". e o grande problema político e moral do Barroco estaría resolvido.1 1128 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1129 Rochefoucauld.

na qual um liberalismo á maneira de Saavedra Fajardo se alia ao patriotismo á maneira de Quevedo. Francisco Manuel de Meló. humanista e homem de acáo como Quevedo. joaquimita. 1854/1858.. chegam a prof issoes de fé meio ocultistas. 1914. os italianos. 1953. As suas "heresias". A. e mais do que Segneri. 1679/1748): Cartas (3 vols. Porto. nos seus famosos Ragguagli di Parnasso. Em todo caso. 1879. razoável e mercantilista. 1940. Lisboa. 1608-1697. 1940. Milano. M. Modena. Seabra e J. 2 vols. Como pregador e como epistológrafo. Camilo Castelo Branco: Boémia do Espirito. Natali: Trajano Boccalini. sa vie et ses oeuvres. 1608-1666.. Lisboa. Mestlca: Trajano Boccalini e la ¡etteratura crítica e politica del Selcento. Carel: Antonio Vieira. Fala com eloqüéncia torrencial em favor dos judeus e dos indios escravizados. Colmbra. Mas Vieira é mais audacioso que os outros. Edic&o das Cartas por L. M. Edicáo do Guia de Casados por Camilo Castelo Branco. Estudo Biográfico e Critico. 1921. Firenze. ao lado de Lipsius e Quevedo. Gotaas: Sossueí and Vieira. podia utilizar o sebastianismo utópico da superstigáo popular em favor da nova dinastía portuguesa e contra os espanhóis. Cartas Familiares (1664). a servido de urna política corajosa. um dos criadores do género de crítica literaria em forma alegórica. Madrid. Ragguagli di Parnasso (1612/1613). é tao barroco quanto Quevedo e Gracián. El jidalgo aprendiz (1665). P6rto. Azevedo: Historia de Antonio Vieira. 1925/1928. 1878. Edicáo da Historia por J.. O Antibarroco em forma barroca ataca os fundamentos politicos e sociais do edificio de que aquéle estilo é a expressáo. 27 vols. mais urna vez. Si lineara!: La vita. Colmbra. A revolta portuguesa contra a Espanha é um de varios sintonías políticos de urna revolta ideológica geral. Rio de Janeiro. bilingüe. Apólogos Dialogáis (publ. M. que o imcompatibilizaram com a Inquisicáo. Cidade: Padre Antonio Vieira. Salvou-se de conclusoes talvez demasiado perigosas. estoico como Lipsius. L.. o italiano Trajano Boccalini ( 1 S ). Em primeiro plano. Edicáo das Obras Completas por J. 1735/1746). H. Bellonl: Trajano Boccalini. 1873. Epanáforas de Varia Historia Portuguesa (1660). crítico literario de modernidade surpreendente. porém. Rúa. 1912. Edic&o dos Apólogos por F . Sermóes (15 vols. uin jesuíta rebelde quem antecipa o f u t u r o : o autor de urna Historia do Futuro. Torlno. Francisco Manuel de Meló ( u ) . Carta de Guia de Casados (1651). Azevedo. O. Edicáo por O. 1721). o teórico anti13) Trajano Boccalini. E. 2. a espirituosa sátira literaria de D. i tempi e le opere di Trajano Boccalini. No "Hospital das Letras". Stirpe: L'opera e ü pensiero político di Trajano Boccalini Roma. Como estilista. e Antonio Vieira ( 1 2 ). Q. L. Barí. e que antecipa a atitude da oposigáo na "Querelle des Anciens et Modernes". Vieira é um grande jornalista. G. trata dos problemas literarios: Lodovico Castelvetro. 1883. Washington. dedicando-se ao esteticismo de urna grande cultura estilística. Os primeiros grandes ideólogos antiespanhóis sao os herdeiros ¡mediatos da Renascenca. 1901. 1931. Porto. Urna erudigao enciclopédica e a experiencia de urna vida agitadíssima de 90 anos fornece-lhe a abundancia de imagens e metáforas que impressionaram o secuto. S. E. 1886. 2 vols. o P. Nery. aparece como interlocutor. Prestage: Dom Francisco Manuel de Meló. 1910/1912. 12) Antonio Vieira. contra os impostos injustos.1130 OTTO M A M A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATUBA OCIDENTAL 1131 Ambigüidades e hesitacoes da transicao caracterizan! o portugués D. 1934. Historia de los movimientos y separación de Cataluña y de la guerra (1645). propugnando nova política colonial.. 11) Francisco Manuel de Meló. talvez. 3 vols. grande escritor em lingua portuguesa e em língua espanhola. Paris. Cabral: Vieira Pregador. . que convocou um parlamento dos maiores homens de todos os tempos para resolver os problemas atuais da época. É. Lisboa. Boccalini finge-se secretario da corte de Apolo.a ed. G. Picón. Antunes. mas ainda nao se sabe se o sebastianismo de Vieira foi residuo da idéia de urna "Terceira Igreja" erasmiana ou. 2 vols. 1920. C. 1556-1613.

Barí. Treves: La filosofía política di Tommaso Campanella. Barrocas. e no terreno político. Paladino. quando. Campanella está entre o iluminismo sebastianista de Vieira e as esperanzas de urna "Terceira Igreja" dos franciscanos rebeldes do século X I I I . Tassoni ( " ) • n a s suas Filippiche controgli Spagnuoli. Flrenze. Flores: "La lírica del Campanella". insinúa ao deus as resolucoes mais mordazes contra as letras barrocas. Campanella nem se limita á utopia. Ci'tii del Solé (1602). na Calabria A Citta del Solé. para tornar possível a realizacao do seu sonho teocrático. no terreno ideológico. sofismi. 1942. os aspectos mudam. Franca. em que a magia desempenha papel importante. mais direto e menos barroco. dos maiores. Roma. é Tommaso Campanella ('•''). Após haver defendido a realizacao da teocracia pelas armas espanholas. inglesas. e tao rebelde como G r a d a n . o satírico nao escapou á morte. é um homem de a$ao. provávelmente. por O. <2. se adotou o maquiavelismo. em que é t í o fértil a Renascenca e. e sobretudo nao é possível atribuir-lhe idéias deístas. de Campanella. propoe reduzi-las por meio de limas francesas. e a confecgao de um mapa político da Europa torna-se difícil. cuja protecao Boccalini procurara. continuando-lhe o antiaristotelismo algo fantástico. 1921. Um precusor. Napoli.. O maquiavelismo antiaristotélico tornou-se a doutrina pela qual o absolutismo francés preparou a ascensáo de urna nova élite. X/9. Gentile. envol- . revela eloqüéncia demosteniana. se atacou o aristotelismo. e que é hoje reconhecida como a mais sincera e mais profunda do século X V I I italiano. nota 31. Campanella nasceu na térra de Joaquim de Fiore. (In: Leonardo. a burguesía. política e estalística. 1920. O relator dos negocios políticos é Castiglione. teocráticas. por ser impossível determinar a verdadeira longitude da Curia Romana.. Campanella nao é táo "moderno" quanto se acreditava. achando-as grandes demais. De Caxolls Pllottl: Tommaso Campanella poeta. 1939. edlt. Como filósofo. parece figura táo barroca como Quevedo. Flrenze. P. Milano. Dentlce D'Accadla: Tommaso Campanella. já houve quem acreditasse que o "Estado" teocrático e meio socialista dos jesuítas no Paraguai se baseava em conceitos campanellíanos. Barroco é o estilo abundante da sua prosa. é poesia antimarinista. De longe. 1939 > C. Os herdeiros imediatos da Renascenca parecem. Como fórca internacional. ou até turcas. De perto. 1568-1630. á qual amigamente se deu pouca importancia. Edlcao por O. de fundo ético: " l o nacqui a debellar tre malí estremi: Tirannide.. É um programa. o italiano antiespanhol que se passou para a 14) Oí. embora vencido. envenenado. depois. G. Telésio. Epopéias e Picaros". 1915. a reforma moral e espiritual da Igreja. podía tao pouco contra os espanhóis como a república de Veneza. em geral. ipocrisia". Expressáo do seu antiaristotelismo é a sua poesia. os da "Ecclesia spiritual i s " . Boccalini é o Quevedo italiano. 1931. é urna utopia eclesiástica. quase clássicos. Barroca é a sua erudi§áo enciclopédica e confusa. o Barroco espanhol caiu. e é digno de nota o fato de que o século barroco ignora. Valed! Campanella. Campanella é discípulo do último grande platónico da Renascenca italiana. désse movimento. Barí. 15) Tommaso Campanella. as suas idéias políticas. 1930. ao qual se dirigiu. anti-hedonista.* ed. "Pastorals. mas o Duque de Piemonte. as utopias. em comparadlo com os espanhóis contemporáneos. Poesías. a Ilustradlo do século X V I I I . Na verdade.) L. A ortodoxia de dominicano nao lhe impede exigir. que manda medir as cadeias espanholas da Italia. 1132 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1133 aristotélico. como todas as grandes figuras do Antibarroco. passou-se ao patriotismo italiano. M. A reuniao impossível de aristotelismo teórico e maquiavelismo prático foi o problema que os espanhóis nao souberam resolver. tendo sido.

As concessoes que fez ao catolicismo. Mare liberum (1609). sólto. e éste mesmo voltará. II sol negato agli occhi. com naturalismo mais p u n g e n t e : "Le memora sette volta torméntate. por vias clandestinas. Annotationes ad Novum Testamentum (1641/1647). Schlueter: Die Theologie des Hugo Qrotius. tém como origem o desejo ardente da uniáo — ou antes. H. poesía mais verdadeira que a désse espirito livre. glorificarlo!. 1925. S. a Renascenca da "Terceira Igreja" e dos seus ideáis religiosos. O teórico da nova conduta é Gabriel Naudé ( i n ) . Annales et historiae de rebus belglcis (1657). Certas expressoes dos arminianos cheiram a unitarismo e deísmo. Durante ésses 26 anos de martirio escreveu Campanella os seus inúmeros tratados filosóficos e políticos.cínico da violencia e da fraude para fins políticos. Berlín. M. De veritate religionis chrístianae (1622). 1883. entre Dante e Leopardi. e'ossa scontinoate". E dodici anni d'ingiurie e di stenti". e. tornou-se. sette tormenti Passai. A relativa tolerancia religiosa na Holanda." No "globo" terrestre. no seu famoso tratado De veritate religionis christianea.1134 OTTO MARÍA CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1135 vendo-se numa conspira$ao revolucionaria. O ambiente francés. 1583-1645. sobre o qual se ergueu a alma do sonhador martirizado. Van Oijen: Hugo de Groot en zijn geslacht. 17) Hugo Grotius. protestando contra o predestinacionismo rigoroso dos calvinistas. liberta dos espanhóis. 1600-1853. porém. A seita dos arminianos. . London. mas o esfórco para re- 16) Gabriel Naudé. torturado até o martirio — a ninguém podem escapar os acentos de verdade terrível em versos como estes: "Cinquanta prigione. Nesse ambiente surgiu Hugo Grotius ( 1 7 ). E per l'etereo campo oltre penetro. Neumann: Hugo Grotius. De jure belli ac parís (1625). Knight: The Lite and Works of Hugo Grotius. A literatura italiana nao produziu. o conselheiro de todos os príncipe» antiespanhóis da Europa. aproxima-se bastante do pelagianismo. que lhe parecía destinada a realizar a política universalista que a Espanha tiránica traira. Considératlons politiquea sur les coups d'état (1639). antiespanhola. Haarlem. lascio al tergo. o P é r e Joseph. permitiu. estava ideológicamente bem preparado para a luta antiespanhola. que táo fácilmente se transformam em ideáis políticos. W. mais tarde. 1919. Né temo intoppo di cristallo o vetro. como antropología otimista dos "filósofos" da Ilustracao. Campanella nao foi um entusiasta lunático. Naudé foi o intermediario entre Campanella e Richelieu. Quel ch'altri lungi vede. II. embora confuso: "Quindi l'ale sicura a l'aria porgo. Ma fendo i cieli. I nervi stretti. E mentre dal mió globo agli altri sorgo. O iluminismo de Vieira e Campanella tampouco os embaracou na política prática. Leipzig. A luz dessas relagóes apresenta-se menos escandalosa a mésela de maquiavelismo e misticismo na "Eminence grise" de Richelieu. Sainte-Beuve: Portraits llttéraires. V. A. reuniáo — das Igrejas separadas. em que entrou Campanella. No século das ortodoxias despertou o sectarismo. Vol. enfim. Annotationes a ti Vetus Testamentum (1644). e pur son nel pondo. 1884. grande apologista e maior jurista. que teve de expiar em vinte e seis anos de prisáo durissima. C. e a l'ínfinito m'ergo. A doutrina de Jean Bodin sofrera a influencia do maquiavelismo antimaquiavelístico do espanhol exilado Antonio Pérez. L. foi para a F ranga. no país dos místicos pré-erasmíanos. o seu sonho político realizou-se.

é um percursor da historiografía crítica. escrita por volta de 1615. e atribuida ao P. 1935.. que serviu. 1893. de modo que o apologista ocasionalmente fala como s e fósse livre-pensador. Gambarln. nesse aspecto. um religioso austero. Grotius chega a antecipagoes da exegese crítica. 1941. A. G. correspondente ao liberalismo jurídico e económico. das quais as mais importantes contribuíram para a génese da historiografía crítica e da física matemática. Religiosidade e lógica nao excluem ironía e vivacidade. Barí. e para corabaté-las escreveu Sarpi a famosÍBsima Istoria del Concilio Tridentino. 3 vols. sempre de primeira mao.. superior. Os mesmos motivos sao capazes de aparecer em outras combinacóes. e o fim será um Direito natural que já nao precisa de sangáo religiosa: o dos "filósofos" e da Encyclopédie. É o fim de um ciclo histórico. um monge ambicioso. juntos. A transformagao do antimaquiavelismo espanhol em ideología revolucionaria francesa operou-se através do "Antibarroco". assim. relativas á jurisdigáo eclesiástica. conjunto complicado de motivos maquiavelísticos. vendido ao govérno veneziano. levar á abolicao do "Direito natural secundario" de Sepúlveda e dos jesuítas. conselheiro da República de Veneza. com o qual tem em comum a ironía mordaz. ao mesmo tempo. Flrenze. a todos os historiadores modernos. Antiaristotelismo filosófico e pelagianismo teológico deviam. Sarpi é um grande narrador. a capacidade de retratar em poucas palavras caricaturáis um adversario. Essas reivindicagoes. dos próprios dogmas. a ponto de o seu De jure belli ac pacis eclipsar a memoria de Vitoria. mas os motivos désse neo-erasmismo jurídico nao sao meramente ocasionáis. para fundamentar a "leyenda negra" do liberalismo contra "a Espanha da Inquisigao". Istoria del Concilio Tridentino (1619). Em 1683 publicou-se urna das obras principáis do maquiavelismo barroco italiano: a obra anónima Opinione del come abbia a governarsi internamente ed esternamente la República di Venezia per conservare i¡ perpetuo dominio pubblico. Edlcño por O. É até superior a Gibbon pelo rigor da documentagáo. A tendencia do seu pensamento está mesmo nessa diregáo. porque nao foi inspirado pelo Espirito Santo. Ñas vésperas da Revolugáo. Milano. Nos seus comentarios bíblicos. como os seus inimigos o pintaram. que a República se recusou a reconhecer. mas um espirito de grande estadista e. Getto: Paolo Sarpi. . e que é. demonstragáo h i s t o r i o g r a f í a da tese aeguinte: o concilio de Trento nao conseguiu a reforma neccssária da Igreja. finalmente. Grotius é o renovador do Direito internacional.° Paolo Sarpi ( 1 8 ). É antes o comégo do liberalismo político. Estilo aparentemente impessoal. A perigosa mistura de documen- 18) Paolo Sarpi. menos a Gibbon. Pascolato: Fra Paolo Sarpi. e disso resultará um pacifismo mais radical e menos religioso que o de Las Casas. cheio de zélo pela verdadeira reforma da Igreja. antiaristotélicos e místicos. o Abade Raynal langa ao "ancien régime" e a Igreja a acusagáo dos crimes que cometeram ñas colonias em nome do cristianismo: a Histoire philosophique et politique des établissements et du commerce dos Européens dans les deux ludes (1770/1780) baseia-se principalmente na documentagáo de Las Casas. 1552-1623. relata os fatos com rigor lógico e precisao implacável. ferindo-o mortalmente. a obra distingue-se de toda a outra prosa do século: nao imita a eloqüéncia sublime de Lívio nem a concisáo sombría de Tácito. A interpretagáo grotiana do Direito natural no sentido da liberdade dos mares serviu aos interésses políticos e comerciáis da Holanda contra o monopolio espanhol. 1136 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1137 duzir a distancia entre os credos leva a reduzir a importancia das diferencas dogmáticas e. Pelo estilo. e si ni dirigido pelas intrigas e maquinagoes da Curia Romana e dos jesuítas. na luta contra as reivindicagoes da Curia Romana. a expressao pessoal do autor: Sarpi nao foi. Principia a distingáo entre Direito natural e Direito divino. baseavam-se nos decretos do concilio de Trento. no entanto.

Com essa dialética. ao mundo atomístico dos epicureus: por intermedio de Martel e Mersenne. Palermo. Giovine: Galilei scrittore. se bem que contradítório. letterato e poeta. defesa convincente e deliciosamente irónica do sistema de Copérnico contra os partidarios obstinados do geocentrismo. EdiQáo das Obras Completas por A. Dingler advertiu que os experimentos físicos de Galileu nao eram o ponto de partida. L. foi um dos espíritos mais claros de todos os tempos.. Sarpi. 1927. antecipando o resultado das observagóes. Mais outras combinagoes de naturalismo antiaristotélico e misticismo encontram-se nos comegos da física moderna. e a primeira grande obra científica escrita em urna das línguas modernas. Sarpi é o sucessor. V. o antijesuíta. Genova. de Marsilius de Padua. é urna das obras-primas da prosa italiana. Halle. a expressao nao foi 1 19) Galileo Galilei. editada inúmeras vézes e traduzida para todas as línguas. imaginar a fórca lógica que foi necessária para organizar aqueles experimentoa a condensar-lhes o resultado. mas nao sao estas as qualidades a que o padre deveu o bom éxito da sua obra. M. o Dialogo dei massimi sistemi del mondo. A Istoria del Concilio Tridentino tornou-se arma poderosa das monarquías absolutas na luta contra o Papado. cujo Defensor pacis revela as mesmas tendencias. Algo daquela fórga ainda se nos revela ñas fórmulas precisas do seu estilo. ésses anticlericalismos tém fundamento místico. nominalista e partidario da "Ecclesia spiritualis". Com efeito. etc. que constituem outra corrente antibarroca. Contudo. Galileu ( Ift ). táo oposto aos conceitos vigentes da física aristotélica. Vaccalluzzo: Galileo Galilei. As suas descobertas astronómicas e as suas fór- muías físicas pertencem hoje ao patrimonio intelectual do» meninos de colegio. mas essa hipótese nao está certa. urna transigáo para o cepticismo anticristao de Bayle. O grande toscano é resolutamente "moderno". em compensacáo. Dialogo dei massimi sistemi del mondo (1632). Saggiatore (1623). apenas. 1940. é táo antiaristotélico quanto o monge medieval. é difícil. cumpria ter urna opiniao preconcebida. em fórmulas simples e lapidare». 1890/1907. e Gassendi é o mestre filosófico dos "libertins" franceses. Galileu é um pensador platónico. serviu ao galicanismo francés e á luta antijesuítica do século X V I I I . e sim o resultado do seu pensamento. Poder-se-ia alegar que o pensamento religioso de Sarpi foi racionalizado pelo cartesianismo. Ariosto. Mas é assim mesmo. possuía o talento raro de exprimir em palavras claríssimas o conteúdo de reflexoes e fórmulas matemáticas. 1564-1642. Catania. Sponganl: Le prosa di Galilei. Olschki: Galilei und seine Zeit. agora. No pensamento de Bayle existe um fundo maniqueu: a verificagáo de contradigoes dialéticas na ordem do Universo. para inventá-los. 1896. Favaro. 20 vols. N. contra as exigencias teocráticas e em favor do Estado leigo e absoluto. 1943. e ñas famosas Considerazioni censurou o Tasso da maneira mais implacável. Messlna. para elogiar tanto mais o poeta da sua predilecao. O seu antiaristotelismo estende-se á literatura. — Considerazioni sulla Qerusalemme Liberata (1590?. Bayle pretendeu conferir um sentido.1138 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATUBA O C I D E N T A I 1139 tagáo exata e ironía satírica aproxima Sarpi de B a y l e . assim. 1911. esta observagáo de Koyré é bem acertada. Dialoghi delle nttove scienze (1638). quando Galileu se confessou "aristotélico". conbeceu Bayle e o atomismo de Hobbes e Gassendi. Firenze. Fazio Allmayer: Galileo Galilei. París.. . Koyré: "Btudes galiléennes. 1612?). nao era grande matemático. nao o fez por mera hipocrisia contra-reformista. e ai se abre a perspectiva de outras filiagóes importantes: Hobbes é o representante inglés do absolutismo maquiavelístico. A. após grande intervalo. R. fundador da física matemática. Galileu. V. Olschki chega a ver nisso o mérito principal de Galileu. 1949. constituindo. Ésse amor ao poeta mais fantástico da Renascenga nao deixa de surpreender num espirito táo lógico.

forma e medida do I n f e r n o " . 7 vols. mas do Inferno da Igreja luterana). 1905.!W W 1140 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDEMTAL 1141 exata. o mais antigo déles é Olivi. e Comenius também sobrevive na memoria da humanidade apenas como pai da pedagogía "natural". 1920. 1932. Amos Comenius ( 21 ) é um caso notável de combinacao antibarroca de elementos barrocos. Galileu parece brincar quando. Praha. os grandes nominalistas do século XIV. deriva da escolástica. Novak: Jan Amos Komensky. O século X V I I I costumava esquecer as origens místicas das correntes espirituais. inventor das máquinas pneumáticas. Guericke. Binswaenger: Amos Comenius ais Pansoph. Nao é. Praha. a "Pansophia". 1928. ocupou-se com a exegese do Apocalipse. inventor dos logaritmos. Orbis sensualium pictus (1659). Scholae Ludus (1665). 1897/1902. Beitraege zur Genealogie der mathematischen Mystik. 2. mas tem outros fundamentos.a ed. Em poetas de erudicáo enciclopédica. pois. tao importante na dinámica de Calileu. — Labyrint sveta a raj srdce [O Labtrinto do'Mundo^ (1663). Young: Comenius in England. É protestante. alias. 1932. meio religiosa.. e Galileu cita. Kvacala. EdicSo das Obras Completas por J. S. Traducao inglesa do Labirinto por J. Kvacala: Johannes Amos Comenius. como Donne e Mil- ton. 1904. 1937. em certa "confusáo". o chefe dos franciscanos rebeldes da "Ecclesia Spiritualis". London. Burtt: The Metaphy Bical Foundations of Modern Physícal Science. Roger Swineshead. ñas Due lezioni sobre Dante. A. Edlgao da Academia Tcheca. para guardar apenas os resultados racionáis. O termo virtual." ed. 1892. A. Napier. Heyberger: Jean Amos Comenius. e sim por escrúpulos de cristao contra a mistura escolástica da fé crista com a filosofía paga. a Inglaterra. misturam-se. puritanos e "independentes" abrem-se de boa vontade as influencias do misticismo continental. Holkot. Na verdade. como o outro anacronismo de salientar a fé crista d aquel es cientistas antigos. Paris. etc. Leipzig. De Jrenlco Trenicorum (1660). J. New York.. Stuttgart. Buridano. táo grande. tenha sido tamém o centro de um platonismo meio fantástico. a oposicáo dos cientistas do século X V I I á física aristotélica levou-os fatalmente ao platonismo. Comenius é antiaristotélico. D. Pansophlae Prodromus (1639).. . combinacáo matemática de idéias puras. que lhe anteciparam as idéias: Oresme. 1910/1923 (ainda Incompleta). A. As raízes escolásticas e até místicas da física moderna refletem-se. Censurar isto como "confusáo pouco científica" é um anacronismo. etc. 6 vols. do "Orbis pictus" em vez das regras gramaticais. pretendeu explicar o milagre de Josué e descobrir o lugar geográfico do Inferno (desta vez nao se trata do Inferno de Dante. Lutzom.. o antigo e o moderno sistema do mundo. e os teólogos anglicanos. da "licao de coisas" em vez do "ensino de palavras". Newton extraiu do Apocalipse lisóes de cronología matemática. R. 1887. Comenius era nominalista porque platonista. da escola de Paris. chegando até elas na pessoa de Comenius e nos livros de Boehme. aparece quase sempre em formas de misticismo religioso. 20) E. 1592-1670. meio científica. pretende determinar a "situacao. Pansophiae diatopsis (1643): Msthodus Unguarum (1648). lembrando-o Lullus e Leibniz. estranho que o primeiro grande centro da física experimental. Sonhava com urna ciencia ideal. F . ocasionalmente. mas Pascal n i o brinca quando tira de observacoes astronómicas conclusóes teológicas. mas nao por empirismo de cientista. William of Heytesbury. Halle. em comparacáo com o "ateísmo lamentável dos modernos". Praha. Rousseau e Pestalozzi continuaram-lhe a obra. G. 2. ñas épocas modernas. Locke é nominalista porque empirista. embora nao da tomistica. S. Laurle: Comenius and His Pedagogical Works. Éste sensualismo pedagógico está em relacáo íntima com o sensualismo epistemológico de Locke. que. Kepler elaborou horóscopos. da maneira mais estranha. Cambridge. Opera Didáctica (1657). London. 21) Johannes Amos Comenius (Komensky). De bono unitatis (1660). MahnJce: Unendliche Sphaere und AllmittelpunJct. nos espiritos científicos do Barroco ( 2 0 ).

Nada trouxemos senáo a Biblia e o Labirínto. de Rousseau e Saint-Pierre. 26) ftoger de Rabutin. no sentido do "epicurismo" vulgar. Na Franga. na realidade. a Franga. Mémoires (1696). da qual esperava o "Milenio". nao se cansou de trabalhar pela uniáo das Igrejas separadas. era "raoraliste". porém. a oposicáo é representada por um grupo de literatos e gente da alta sociedade que se opoem á fé e sobretudo á moral reinante: os "libertins" ( 2 4 ). Méré. particularmente. Nao é éste um caso isolado. romance alegórico de Comenius. as mais das vézes." A última palavra alude ao Labirinto do Mundo. 1926. Powlcke: The Cambridge Platonists. Oérard-Gailly: Un académicien. 1909. Nevers e Bouillon. ses oeuvres et sea amies. popularizado na Franca por Voltaire. nem de cidade: somos exilados. no estilo das cangoes populares eslavas. París. London. mais ou menos assim: "Belo é o rio. Lá. muitos "frondeurs". embora esteja mais próximo da ideologia do Pilgrim's Progress. Em 1641 Comenius visitou a Inglaterra. os "libertins" tiraram dessas conviegóes conclusóes práticas. o irenismo de Comenius preparava o terreno para a indiferenga dogmática. 1896. deísmo e ateísmo. F. nao de todo indigno de La Rochefoucauld. Lachévre: Le libertinage au XVIIe siécle. em conviegóes materialísticas. 1921/1924. Perrens: Lea libertina en France au XVUe siécle. 24) T. comte de Bussy. um dos ramos mais importantes da "Terceira Igreja". H¡. 1936. Berlín. Os livros do místico silesiano Jacob Boehme exerceram influencia profunda na Inglaterra do século X V I I ( S 2 ) : nos quakers. Nem sempre. assim como mais tarde na Suécia e na Holanda. Bela é a cidade. epicuréias. 23) F. Struck: Der Ein/luss Jacob Boehmes au] die englische Literatur des 17. convidado pelo Parlamento para estudar reformas do ensino. Nada mais de rio. 1618-1693. e. da libertinagem. nem sempre. Paris. Jahrhunderts. assim como o seu platonismo se antecipou ao sensualismo. Histoire amoureuae dea Gantes (1665). o rio Moldava. em Vaughan e Milton. Os "Irmáos". a cidade de Praga. onde ficam nossas casas. . Foram assim os aristócratas que se reuniram no "Temple" — os Duques de Vendóme. 4 vols. Mas o nome de batismo era Komensky. A palavra tem hoje o sentido de vida devassa e desregrada. O tipo do "frondeur" e diletante em letras é Bussy-Rabutin ( 2 6 ). conservam urna cangao comovente. Eis ai a origem do platonismo entusiástico de Shaftcsbury. e será difícil dizer se o racionalismo cartesiano sucumbiu ao empirismo de Locke e Newton. de Bunyan. cepticismo.1142 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1143 e protestante eslavo. mésela de heresia. nos filósofos Henry More e Ralph Cudworth. sa vie. ou ao entusiasmo platónico de Shaftesbury. foi bispo da seita dos "Irmáos da Moravia". nos independentistas e outros sectarios. mas as vézes. alias. Paris. e que recorda estranhamente o Criticón. onde mora nossa [familia. na acepgáo moderna da palavra. grand seígneur et libertin Au XVIIe siécle. de Gracián. observador e aforista epigramático. Bussy-Rabutin. cavaleiros como Méré e Mitón. no século X V I I significava urna atitude ideológica. para enquadrar-se melhor na "República de Letras" da Europa. Todas as correntes antibarrocas desembocam no país da "pseudomorfose burguesa". escrito em lingua tcheca. J. os amigos da mocidade alegre de Pascal. mas menos pessimista. 22) W. chefes da "escola platónica" de Cambridge ( 2 S ). especie de Retz leigo. baseada. escritor frivolo e picante. perseguidos e expulsos da Boémia. filósofo de predilegao do pré-romantismo. Latinizou seu nome ero Comenius.

a ed. ao gósto do grande público. desde a meninice. 11 vols. 2 vols. embora com objetivo satírico. Heldelberg. revela a possibilidade de urna evolucáo teatral. -R. Le pedant joué (1654). La Fontaine seria poeta acessível aos meninos e. Toulouse. Epitre a Huet (1687). K. assumíu atitudes de critico filosófico. L . Vossler: La Fontaine und sein Fabelwerk. Discours á Madame de la Sabliére (1684). as suas "licoes" de moral seriam táo proveitosas! Elogios assim causam estranheza sobretudo aos estrangeiros. Faguet: La Fontaine. . e o seu Pedant ioué nao deixou de ter influencia em Moliere. a posteridade o recompensou. no entanto. I. Longnon. enfim. París. 1951. 1933. P. Porém Cyrano ficou como literato menor. Machiavel franeáis. j u n t o com Moliere. Lachévre. Edicáo dos romances por F. Théophile de Viau ( 2 a ) pertence a ésse grupo boémio. boémios fantásticos. 1930. Le Songe de Vaux (1657). a leitura das Fables despertaría o senso da natureza e o amor aos animáis. E. A sua tragedia La morí d' Agrjppine nao é de um senequiano atrasado. talvez porque nao sabia decidir-se entre pensamento e arte. L. Histoire comique ou Voyage dans la lune (1659). Petlt: La Fontaine et Saint-Évremond. partindo de Rotrou e independente de Corneille. 1667.. . París. pela repercussáo que teve.. La mort d'Agrippine (1653). Elégie aux Nymphes de Vaux (1661*. Giraudoux: Les cinq tentations de La Fontaine. Fargue: "La Fontaine". Leíévre: La vie de Cyrano de Bergerac. diverso do de Hacine. Les Fables (I-VI. (In: Tablean de la littérature francaise. Paris.) E. 1671. 1919. París. 27) Savlnlen de Cyrano de Bergerac. Gohln: L'art de La Fontaine dans ses fables. G. 1913/1915. entre os carninhos da literatura tendenciosa e os da arte despreocupada. apreciado pelos adultos. 1678. Por pouco Cyrano nao descobriu a comedia "endiablée" como meio de expressao do Antibarroco. Paris. 1675). e por J. Taine: La Fontaine et ses fables. 1853. escondendo as suas tendencias sob expressoes "preciosas" ou burlescas. a quem nao foi inculcada. París. 2. Madame d e Sévigné. de Corneille t Chénier. perdoando-lhe a obscenidade dos Coates e utilizando as Fables como livro didático. París. 2 vols. apesar das reminiscencias de Ariosto e Rabelais. Paris. será impossível com28) Jean de La Fontaine. Edlcao completa por P.. O mais complexo dos boémios é Cyrano de Bergerac ( 2 T ): os versos espirituosos e retumbantes de Rostand simplificaram-lhe demais a figura. Brun: Savinien de Cyrano de Bergerac. e que teria levado a outro teatro. 1939. segundo a lenda. 1020-1655. 1927. Mas o genio fantástico de Cyrano de Bergerac permitiu-lhe descobrir mais outra expressao que. Neuchatel. O mais importante dos libertinos aristocráticos.P .) A. Régnler. O único artista puro entre os "libertins" é La Fontaine ( 2 8 ) . 1621-1695. 1883/1893. L. E n t r e os aristócratas-diletantes e os escritores de profissao existe um grupo de libertinos. (Multas edicóes. Les amours de Psyché (1669). discípulo do epicureu Gassendi. París. Cyrano fóra. nota 40. 1858. París. é sua: o romance fantástico. A riqueza de pensamentos filosóficos no diálogo lembra Chapman. Siegírled: -La Fontaine. F. L. Histoire comique des États et Empires du soleil (1662). inspiraram Swift e Voltaire. Saint-Évremond. com veleidades de oposicáo religiosa e social. "Poesía do Culteranismo e Teatro da Contra-Reforma". boa para ser decorada. París. H. Sao as qualidades didáticas que os manuais celebram em La Fontaine: cada fábula urna pesa característica. sa vie et ses oeuvres. Parla. Edicóes por H. As viagens imaginarias de Cyrano para os reinos da Lúa e do Sol apresentam urna das raras utopias do século X V I I . a veneracáo a La Fontaine. 1893. estáo entre Morus e Campanella. Michaut: La Fontaine. 1953. Vil-XI. 26) Ci. alias. 1927. 1938. já pertence a outra época. 1913. 1950. Contes (1664. em 1625 foi processado como "ateísta". 2 vols. 1668. Em Cyrano havia a materia de um poeta auténtico e talvez de um pensador original. París. Jacob. XII. Baudin: La philosophie morale des fables de La Fontaine.V IW'f!IJ 1144 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1145 epistológrafo pouco inferior a sua prima. 1694).

K. Longnon. será impossívcl com28) Jean de La Fontaine. Le Songe de Vaux (1657). enfim. diverso do de Racine. Edicto dos romances por F. Slegfríed: -La Fontaine. L . 1620-1655. Machiavel franeáis. 1913. 1858. talvez porque nao sabia decidir-ae entre pensamento e arte. 1919. é sua: o romance fantástico. 1930. E n t r e os aristócratas-diletantes e os escritores de profissáo existe um grupo de libertinos. 2 vols. 27) Savlnlen de Cyrano de Bergerac. sa vie et ses oeuvres. 1883/1893. 1951. 1694). . La mort á"Agrippine (1653). e por J. 1667. discípulo do epicureu Gassendi. boémios fantásticos. Dtscours á Madame de la Sabliére (1684). a quem nao foi inculcada. Vossler: La Fontaine und sein Fabelwerk. Toulouse. Elégie aux Nymphes de Vaux (1661>. Heldelberg. inspiraram Swift e Voltaire. 1933. segundo a lenda. de Corneille á Chénler. París. París. a posteridade o recompenaou. (In: Tablean de la littérature francaise. desde a meninice. revela a possibilidade de urna evolucao teatral. Edicfio completa por P. 1953. E. as suas "licoes" de moral seriam táo proveitosas! Elogios assim causam estranheza sobretudo aos estrangeiros. O único artista puro entre oí "libertini" é La Fontaine (-"). H. Paris. Giraudoux: Les cinq tentations de La Fontaine. Saint-Évremond. Porém Cyrano ficou como literato menor. As viagens imaginarias de Cyrano para os reinos da Lúa e do Sol apresentam urna das raras utopias do século X V I I . Talne: La Fontaine et ses fables'. Lefévre: La vie de Cyrano de Bergerac. e que teria levado a outro teatro. ao gósto do grande público. Histolre comique ou Voyage dans la lune (1659). 1927. a veneracáo a La Fontaine. Gohin: L'art de La Fontaine dans ses fables. Petit: La Fontaine et Saint-Évremond. O mais importante dos libertinos aristocráticos. Edicóes por H.0 ) pertence a ésse grupo boémio. 2 vols.) A. 1938. estáo entre Morus e Campanella. Paris. escondendo as suas tendencias sob expressóes "preciosas" ou burlescas.i E. 1678. Michaut: La Fontaine. F. Paris. Neuchátel. 1939. partindo de Rotrou e independente de Corneille. I. XII. Em Cyrano havia a materia de um poeta auténtico e talvez de um pensador original.P . A sua tragedia La moit d' Agrippine nao é de um senequiano atrasado. Paris.. 1853. 11 vols. Mas o genio fantástico de Cyrano de Bergerac permitiu-lhe descobrir mais outra expressáo que. Paris. apesar das reminiscencias de Ariosto e Rabelais. 1621-1695. 1950. Paris. P. Les amours de Psyché (1669). (Multas edicóes. París. nota 40. Jacob. embora com objetivo satírico. G. O mais complexo dos boémios é Cyrano de Bergerac ( 2 T ) : os versos espirituosos e retumbantes de Rostand simplificaram-lhe demais a figura.1144 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1145 epistológrafo pouco inferior a sua prima. Paris. Cyrano fóra. Baudin: La phllosophie moróle des fables de La Fontaine. Lachévre. junto com Moliere. 2. 1875) ¡ Les Fables (I-VI. "Poesía do Culteranismo e Teatro da Contra-Reforma". alias. pela repercussao que teve. L. Hístoire comique des États et Empires du soleil (1662). L. em 1625 foi processado como "ateísta". 1927. -R. Vn-XI. París. 1668. Fargue: "La Fontaine". 1893. perdoando-lhe a obscenidade dos Contes e utilizando ai Fables como livro didático. L. Por pouco Cyrano nao descobriu a comedía "endiablée" como meio de expressáo do Antibarroco. 2 vols. Théophile de Viau (. a leitura das Fables despertaría o senso da natureza e o amor aos animáis. já pertence a outra época.. e o seu Pedant joué nao deixou de ter influencia em Moliere. 1913/1915.. Sao as qualidades didáticas que oa manuais cclebram em La Fontaine: cada fábula urna pega característica. entre os caminhos da literatura tendenciosa e os da arte despreocupada. Faguet: La Fontaine. . 26) Cf. Epttre á Huet (1687). no entanto. apreciado pelos adultos. boa para ser decorada. París. 1671. com veleidades de oposicao religiosa e social. Le pedant joué (1654). assumiu atitudes de crítico filosófico. La Fontaine seria poeta acessível aos meninos e. París. Contes (1664.* ed. Madame de Sévigné. Brun: Savinien de Cyrano de Bergerac. A riqueza de pensamentos filosóficos no diálogo lembra Chapman. Rcgnier.

é antes o sonho idílico da Renascenca. gozador irresponsável da vida. " — confissao que lembra o epicurismo comprecnsivo de Montaigne e sitúa o poeta na atmosfera da Renascenca. sem violentar a verdad e. declarando as fontes da sua cultura métrica. ou até XIX.. no entanto. versos razoáveis e versos fantásticos. censurando-lhes o egoísmo malicioso e o conceito utilitario da vida. como os "Amours de Psyché". exibindo conceitos moráis bem "naturalistas" e pouco edificantes. "esprít gaulois". . baseado no processo da alegorizar em qualidades de animáis as virtudes e vicios humanos. Mas essas restricoes sao incompreensíveis.nada. e ésse processo tem algo de racional. considera essa atitude eminentemente artística. a fábula é. X V I I I . E assim ele os pinta. "Le chéris l'Ariost et j'estime le Tasse" « "Plein de Machiavel. com a única responsabilidade do verso eficiente. entété de Boccace" assim se apresenta La Fontaine. estilizam-se a natureza e os animáis. e mesmo o epigrama espirituoso. de um Aminta francés. guardando-se as proporcoes naturais só dos homens." Em La Fontaine o dominio extraordinario da lingua nao é virtuosismo. . a narracao versificada. Nao foi o "bonhomme" da lenda biográfica. um preguicoso. éste se parecería ao de Gracián." E existem comparacoes do grande fabulista com Homero e Dante. O metro. em La Fontaine. La Fontaine pode ser considerado poeta no sentido dos séculos X V I . a ponto de o próprio Brunetiére. 1146 OTTO M A B I A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1147 preender urna frase como esta: "La Fontaine est notre Lucréce ou Arioste. enfin t o u t . é conseqüéncia do amor de artista a todas as coisas e todos os meios de expressSo — "J'aime le jeu. Contudo. em La Fontaine. sem estilizá-los: " il n e faut pas Quitter la nature d' un pas. . La Fontaine tem versos epigramáticos e versos voluptuosos. e versos tao sugestivos como se fóssem de Du Bellay. a retórica metrificada. a ode. e La Fontaine é artista de outra estirpe: um "libertin". incompatível com o lirismo e até com a mesma poesia." De "moral". pragmatista e . que sao os heróis de varias fábulas. Brunetiére observou que a atitude de La Fontaine em face da vida é a de um espectador. um género menor. é instrumento de estilizacao. Sainte-Beuve deu a definigao definitiva: "Le poete national. a nao ser a moral dos "moralistes" imparciais e implacáveis. foi boémio que sabia viver a expensas da aristocracia. sonhado num sécalo em que todas as frutas tinham o sabor do pecado original. mas nunca no sentido da poesia "sugestiva" dos séculos X V I I e XX. l'amour." No culto nacional de La Fontaine reconheceu Hazlitt o síntoma da incompreensáo dos franceses em relacáo á verdadeira poesia. só arte parsasiana se define assim. a moral de La Fontaine seria a mesma de Gracián. Aquilo a que se chamam. o lied. la musique. Se La Fontaine tivesse um sistema moral. a elegía. Tinham razáo Rousseau e Lamartine em lamentar a leitura das Fables na escola. da sua moral e dos seus enredos. Entendida como licao.. La Fontaine é um grande fabulista. os admirar: "Sur les humides bords des royaumes du vent. porém agem como epicureus. La ville et la campagne. O epicurismo de La Fontaine seria imaginario se o poeta nao pudesse alegar um forte argum e n t o : os homens falam como santos. épocas ñas quais a poesia compreendia tudo quanto era escrito em versos: o lirismo. les livres. versos barrocos. t i o surdo para a poesia.

poesía intelectual — a do Barroco era assim. Moliere freqüentava. a casa de Luillier. depois. tout y fait quelque role". R. seria o de Zola se éste houvesse tido o humorismo epicureu de La Fontaine: "Une ampie comedie á cent actes divers E t dont la scéne est l'Univers. algumas reminiscencias de leituras de Lucrecio. amigo íntimo de Gassendi. e Gassendi ( s o ) é até materialista. O processo é o de Balzac. 1943. a de La Fontaine consegue ésse fim. Do austero La Motín Le Vayer ( 2 ") basta citar dois títulos de opúsculos — De la vertu des páines e Opuscule sceptique — para se reconhecer a díretriz do seu pensamento. . Etienne: Essai sur La Mothe Le Vayer. G. em boas relacóes pessoais com ele. poesia menos alheia do que superior ao lirismo subjetivo. porque n l o é militante. porque só assim o século X V I I a suportou. Nao é.] (1654). animaux. París. como a da Renascenca e. Contudo. La Fontaine é grande poeta. 1939. também se encontram noutras obras da época. etc. París. Oeuvres [De la vertu des paiens. pondo essas licoes na boca de per- 2» Frangote La Motne Le Vayer. Urna forma original entre ode e epigrama. nao teria sido possível servir á propaganda dessas idéias por meio de urna literatura de divulgacao em forma de tratados. lena. G. A grandeza poética de La Fontaine só pode ser devidamente apreciada considerando-se a solidáo histórica da sua poesia absoluta- mente sui generis: quase nao tem precursores. a tomar feicao sistemática. É a poesia do Antlbarroco antipoético. Noticias biográficas nao muito certas afirmam relagoes pessoais de Gassendi com Cyrano e Moliere. os animáis no papel de deuses offenbachianos e homens burlescos. enfim. 1592-1655. L. que Taine lhe elogiou: nenhuma palavra de mais. os seus homens e deuses sao animáis. Paris. 1583-1672. dieux. 30) Pierre Gassendi. Plntard: Le Libertinage érudlt. sempre espirituosas porque a "libertinagem" espiritual de La Fontaine o eleva ácima do pessimismo inevitável do epicurismo científico. Se a arte jamáis alcancara transfigurar a vida. mas ésse fato só prova a ampia difusáo do materialismo filosófico nos círculos literarios. apresentando-se em feicáo narrativa. resultado que será difícil atingir em prosa. conquanto num sentido diverso daquele a que hoje estamos habituados. Hess: Pierre Gassendi.• 1148 OTTO M A R Í A CABPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL MI'» utilitaria. O epicurismo de La Fontaine é poético. que exercerá influencia em Hobbes e La Mettrie. seria realmente lucreciana. 1849. seria poesía didático-filosófica. As Fables constituem urna colecáo completa e coerente de short stories. animaliza os homens. 1927. e La Fontaine nao era um intelectual. ocorrentes ñas suas comedias. De vita et moribus Epicurt (1647). Eis porque o processo de La Fontaine só superficialmente se assemelha ao dos outros fabulistas: em vez de humanizar os animáis. é poesia intelectualista. Hommes. La Fontaine nao apresenta. Audrleux: Pierre Gassendi. o epicurismo filosófico. Opuscule sceptique. e cada palavra certa. O que poderiam aprender em La Fontaine — e geragdes de futuros escritores o aprenderam na sua escola — é a precisao da linguagem e do verso. O conformismo político e religioso do classicismo francés nao o permitiría. sem essa qualidade negativa. escondendo o pensamento atrás de licoes moráis de decencia insuspeita e diminuindo-lhe o alcance. Em última análise. até se esquecer o ponto de partida: as Fables transformarem-se em livro para meninos. é certo. O epicurismo "ligeiro" de Montaigne chega. Na mocidade. A expressáo devia ser "moralista". n l o tmn nenhum sucessor digno de mencao. alias. como parece. a do século X V I I I . Para ÍMO nao faltavam ás condi$óes ideológicas: ao lado do epicurismo libertino existia. ñas centenas de atos da sua grande Comedia.

A estandardizagáo dos enredos e cenas levou fatalmente á estandardizagáo dos papéis. que estao hoje 31) M. de Teréncio (Eunuchus). e do acrobatismo. mais exatamente. Contudo. nao deram resultado apreciável. ora parodiando as expressoes sublimes da poesía barroca. L. K. M. é a comedia. havia certa estandardizagáo dos chistes. M. da comedia renascentista. o mesmo texto nao agradaría igualmente na Sicilia e em Veneza. causa estranheza o estado mental dos públicos cultos que aplaudirán! essas exibigóes de péssimo gósto. Napoll. A improvisagao do diálogo impunha-se em face da grande diversidade dos dialetos e costumes regionais na Italia. isto é. sem o mínimo trago de poesía. Francesco An- 32) Edlgóes de cenários: A. modificados in infinitum para representaren! as figuras típicas das cidades e provincias italianas. New York. delVArte. A lenda atribuí a invengao das famosas "máscaras" ao ator e comediógrafo popular Ruzzante. 1927. mas nao é rústica como o teatro do Ruzzante. os processos usuais do classicismo falharam: Le menteur é antes um drama burgués. dos quais se utilizaram Rotrou e Thomas Corneille. B. C. de cenas cómicas inteiras. e certas cenas da ópera-cómica. pelo menos em parte. París. 1934. que nao era preciso modificar muito. Torlno. Duchartre: La Commedia delVArte. e que encontra também o aplauso dos cultos. A leitura dos cenários e lazzi editados desmente os elogios que os críticos románticos teceram á "commedia deU'arte": diálogo e agáo sao de grosseria incrível. 1912. Os "cenarios". 1700. Essa forma literaria em que o pensamento antibarroco se divulga na Franca. E. Permanece inédito o volumoso manuscrito Annlbale Bersale. Constant: La commedia delVArte. respostas. doacao de Benedetto Croce á Biblioteca Nazionale de Ñapóles. paternidade individual. nesse caso. Flrenze. de dols volumes. 1930. Napoll. na versáo de Giacinto Andrea Cicognini. como o Convitato di pietra. das arlequinadas. Smith: The Commedia delVArte. O que nao podemos julgar é a habilidade dos atores. como na conversa dos populares italianos. París. M. Croce: Sul signíficato storico e il valore artístico della Commedia deU'Arte. 8 vols. mas também enredos espanhóis. conquistando-a. Del Cerro: Nel regno delle maschere. É um último produto. ou. W. Mas nao existe. os quais reconhecem na "commedia dell-arte" algo de Ariosto e algo de Aretino. Bartoll: Scenari inediti della commedia deU'arte. os lazzi. Representagóes populares na Italia de hoje. á criagáo de tipos permanentes: os modelos eram os caracteres da comedia plautina. permitem verificar as fontes das improvisagóes: enredos de Plauto (Amphitruo. 1956. Oxford. 1884. Napoli. apesar dos modelos plautinos e terencianos. bastante degenerado. e a comedia improvisada é popular. 1880. tirando-se proveito do elemento cómico dos dialetos parodiados. dáo idéia do brío inexcedível daqueles atores. A comedia antibarroca precisava de certa atmosfera de irrealidade para poder movimentar-se livremente. ora rapidissima. os esbogos de enredos.1150 HISTORIA DA LITBBATURA OCIDENTAL HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1151 sonagens de categoría social humilde. criacáo táo original como é original a fábula lafontainiana. que é urna criagao absolutamente original. apesar do modelo esópico. Lea: Italian Popular Comedy. essa atmosfera irreal em torno de assuntos da trivialidade cotidiana reinava ñas esferas populares — quer dizer. Apollonlo: Storia della Commedia deU'Arte. em sentido literal. do acrobatismo da declamagáo. Pseudolus). 1927. adaptada ao gósto das massas. Petraccone: La Commedia delVArte. Os modelos espanhóis e da Renascenca italiana. 1560-1620. . Scherillo: La commedia dell'arte in Italia. 1914. os nomes dos atores que criaram as máscaras. nao barrocas — da literatura italiana. em parte ordinaríssimas. A Study in the Commedia em parte editados ( 3 2 ). a "alta comedia" molieriana. Na tarefa de criar urna comedia táo nacional como a tragedia corneliana. 1929. da "commedia dell'arte" ( í l ) . Milano. de Ariosto (Suppositi). Conhecemos. P.

Sao bonecos de um repositorio arquivelho de comicidarle. Os contemporáneos nao sentiram. que. Tiepolo e Longhi (há um eco désse encontró ñas Fétes galantes. como já haviam feito nos teatros da Renascenca e nos teatros da Roma amiga. Luigi Benotti e. M. Essa mistura de natura- lismo popular e ficcao teatral cria em torno das máscaras urna atmosfera de ironía. continua na memoria a verdade humana daqueles tipos. transformou o "miles gloriosus" plautino em "Capitán Spaventa". já estava inteiramente afrancesada. tipo do oficial espanhol. tipos muitíssimo simples. Duchartre: La comedie italienne. a "comedie italianne" só desapareceu ñas tempestades da Revolugáo. Paris. talvez. Tabarin representava perto do 33) Le Théátre Italien de Qherardi. burlado pela esposa e pelo amante déla. 1741. Silvio Fiorillo criou a figura parecida do "Mattamoro".] 34) N. enquanto o público só se riu das gaillardises. Porém os nomes daqueles atores italianos merecem sobreviver na historia literaria. No cometo do scculo X V I I . encarnaram essa figura. está em língua francesa. o de Gherardi ( 3 3 ). a "Pulcinella".áo encamisada das companhias francesas. papel em que brilharam Tristano Martinelli e o famosissimo Giuseppe Domenico Biancolelli. evidentemente. 1570-1791. París. Realidade cotidiana que era apenas o jógo da imaginacao: eis um conceito barroco. e as mais famosas atrizes aparecerán! no papel correspondente de "Colombina". O repertorio mais completo da "Commedia dell'arte". filiam-se. . brutal e fanfarráo. As máscaras da "commedia dell'arte" sao criacoes das mais interessantes da literatura universal. Apesar do nome. de irrealidade. Mas havia também o criado burro. astuto e charlatlo. foi Paris e centro dos improvisadores. 1926. se apresenta como gago. o "Brighella" ou "Meneghino". desafiou as repetidas ordens de expulsáo (Watteau pintou em dois quadros famosos o desespero dos "commedianti" exilados e o júbilo dos que voltam). ésse sabor passadista. E entre ésses dois polos nasceu a comedia francesa. Irrealidade teatral que revela os problemas serios da vida: eis um ponto de vista antibarroco. Veneza e Paris dos séculos X V I I e X V I I I . pelo casamento com a companbeira. Com efeito: fora da Italia. Attlnger: L'esprit de la Commedia dell'Arte dans le théátre jrancais. as roupas da Veneza do "Settecento".1152 OTTO M A R Í A CABPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1153 dreini. o primeiro e mais famoso dos atores da "commedia dell'arte". 1902. sempre vivos. consolado. Antonio Riccoboni. enfim. A vítima das intrigas é "Pantalone". ou Recueil general de toutes les comedies. A "comedie ítalienne" chegou a fazer parte da historia literaria francesa (**)'• suplantou as iarces parisienses. comerciante veneziano. vítima das piores pancadas. da Madri dos Bourbons. Mas nunca nos iludem: sao meros bonecos. de Verlaine). O criado sabido e experimentado. ao mimus grego. que nos encanta nos quadros de Watteau. Tiberio Fiorilli criou a figura parecida de "Scaramuccia". Ludovico De Bianchi e Bernardino Lombardi inventaram o "Dottore". Mas. a máscara mais plautina de todas. París. da Paris do "ancien régime" — conferem á ironia aqucle sabor de melancolía leve. fizeram os mesmos lazzi nos teatros de Ñapóles. A posteridade nao guarda memoria certa da arte de atores. e deixaram em toda a parte lembran$as inesquecíveis. é "Arlecchino". 1694/1697. sobretudo. o seu pendant imbécil é o doutor "Tartaglia". [Novas edlcoes: 1700. 1950. conseguiu o maior aplauso da corte e do público das rúas. P. jurisconsulto bolonhés. e os costumes de tempos irremediávelmente passados — os trajes espanhóis da Ñapóles barroca. O. h. manteve-se apesar da competic. dono da intriga. compreenderam os artistas a fina ironia da "realidade irreal" das máscaras. e por isso permanentes. París. Perde-se na distancia a grosseria dos diálogos e pancadas. como gente de rúa ñas cidades italianas de hoje. para maior gáudio do público. Bemardin: La comedie itallenne en France et les théátres de la foire et du boulevard. figuras improvisadas para nos divertirem durante duas horas.

que dizem d e s l e i x a d a e p r o s a i c a . 1904. dit Moliere. E. Le Misanthrope (1666). Amphitryon (1668). Cyrano de Bergerac. J. Só falta urna filosofía segura da vida e o genio poético de Moliere. a q u a l i d a d e d e p o e t a . el. París. Tartuffe (1664). w. e com gósto. Fabre: Notre Moliere. Sée: Moliere. Paris. Procurava apenas assuntos cómicos. 0 . d e P l a u t o e Teréncio. Palmer: Moliere. Laíenestre: Moliere. Moore: Moliere. É urna antevisto de Le misanthrope.) G. Clearetie: Moliere.» ed. Depois. q u e t r a n s f i g u r o u e x p e r i e n c i a s h u m a n a s em visoes verbais. E. o b j e t o d e a d miragáo unánime. e m t o d o s os t e m p o s . Moliere ( 3 e ) nao se discute. Les précieuses ridicules (1669). ¡lis Life and Works. 1908. París. Paris. Jean Baptlste Poquelln. R. Edicáo por E. Mantzius: Moliere. Paris. 2. o Pedant joué. 1914.) J . Leipzig..J . homme de théátre. 1936. A gloria cronológica de ter sido a primeira comedia "seria" cabe a Les visionnaires. Benjamín: Moliere. adaptando comedias latinas. 1952. Mesnard. L'amour médecin (1665). para esclarecer-lhe origens e designios. para os burgueses e para o povo. Siécle. d e pois.1154 OTTO M A M A CARPEAUX H I S T O R I A DA L I T E R A T U R A O C I D E N T A L 1155 Pont-Neuf aplaudidissimas farsas á maneira italiana. (In: Étvdes critiques sur l'hlstoire de la litterature francaise. ¡es théátres. Edicáo na colecao: E. Slciltani:. La Princesse d'Elide (1664). nota 17. G. 36) F . q u a s e c o m o H o m e r o . (Trad. ora de realidade francesa. o grande mestre do divertimento ligeiro. 1929. L'étourdi (1655). Paris. Larroumet: La comedie de Moliere. as Fourberies de Scapin. London. 1622-1673. 1947. . IV. La critique de l'École des femmes (1663). 13 vols. á farsa. Vedel: Moliere. Brunetiére: "La philosophie de Moliere". Le dépit amoureux (1656). . Les fourberies de Scapin (1671): Comtesse d'Escarbagnas (1672). Heiss: Moliere. e n e s s e caso. 1929. tomados de empréstimo ao teatro espanhol ou á comedia italiana literaria. e havia até um principio de criacáo de máscaras francesas: Gros-Guillaume. Paris. Le bourgeois gentühomme (1670). d i f e r e n t e d o s d e R a e ¡ n e e L a F o n t a i n e . R. É a primeira comedia de salao. 1944. de Reynold: "La poésie de Moliere". H. 1871. J. A única restricáo q u e lhe fizeram alguns críticos franceses refere-se á sua linguagem. Oxford. 1900. Bray: Moliere. tomando-os onde se encontravam. M o l i e r e é. antes de tudo. Moliere se torna mais literario. A s p r i m e i r a s c o m e d i a s s a o farsas á m a n e i r a i t a l i a n a . Le malade imaginaire (1673). A New Criticism. KJoebenhavn. Vécole des naris (1661). do poeta cristao Desmarets de 36 Saint-Sorlin ( ). com os personagens ligeiramente caricaturados de um poeta de versos ronsardianos e de urna dama amalucada pelos romances heróico-galantes. sa vte et ses oeuvres. Weiss: Moliere. Moliere é.u XVle et XVIle siécles. Despois e P . K. Les fácheux (1661). N a o l h e n e g a m . Fournler: Le Théátre franeáis O. Montreal. 1873. 1929. h o u v e s e m p r e a c o n c o r d a n c i a d e t o d a s a s o u t r a s nacóes. 1886. Mas retorna sempre. Le festín de pierre (1665). G. L'école des iemmes (1662). Mas é verdade q u e Moliere nao parece haver feito questao de "castigar o estilo". Paris. de Les iemmes savantes. T u r l u p i n e outros. e só as vézes parece ter utilizado a liberdade do ator cómico para improvisar algumas ver- 35) Sobre Desmarets de Saint-Sorlin. Venezla. Paris. H. do original dinamarqués. V. Fernandez: Vie de Moliere. Vol. "University w i t s " tentaram a representagáo de comedias literarias pelos farsistas franceses: Scarron apresentou o Joáelet ou Le maitre valet. e Boileau nao lhe p e r d o o u a i n c o e r é n c i a d e d a r . Paris. Le médecin malgré lui (1666). Moliere. Georges Dandin (1668). e n t r e Le misanthrope e Les femmes savantes. París. e a s vézes espanholas. 1929. "O Classicismo do Barroco". Le Classique et le Baroque.) 1. Paris 1873/1893. 1909. Monsieur de Pourceaugnac (1669). Faguef. 1952. le publie et les comédiens de son temps. careciam ora daquela irrealidade irónica. R. nem sequer de maneira dialética. (In: Le XVIle. 1930. 1949. En lisant Moliere. Os fran- ceses reconhecem em Moliere o próprio genio nacional. Paris. Les femmes savantes (1672). peintre des conditions sociales. 1898. c o m isso. Les Visionnaires (1641). Porém os enredos dessas comedias. París. L'avare (1668).

Dá. trabalhando para a "société" e instituindo-a como juia supremo e inapelável dos erros humanos. rindo. "o hipocondríaco Argan". pois. a comicidade resulta só da lógica implacável da sucessao das si macees. chegando a criar figuras táo puramentne essenciais como "o avarento Harpagáo". embora de valor permanente. á "mania" de esbogar portraits. Moliere. e Moliere nao é conformista — é até irreverente. ou. A intriga apresenta extrema simplicidade. porque privados do livre arbitrio pela fórga das duas manias — "máquinas". mas pelo seu genio dramático insuflou a essas esséncias vida auténtica. um após outro. inéditos. que apareceram primeiro nos romances heróico-galantes. Moliere é o clássico cartesiano da comedia. B. A documentagáo psicológica de Moliere baseiase na observagáo do ambiente. como os animáis na psicología de Descartes. E o famoso "esprit" de Moliere? Malicia de burgués culto de Paris. os tipos observados aparecem. a expressáo mais alta da jocosidade francesa. O moralismo de Moliere ñas "altas comedias" nao difere da psicología típica dos "moralistes". como o resultado de urna equacao cartesiana. em cenas incoerentes. e Moliere nao modificou ésse estado de coisas. assim teria sido como que um famoso bobo da corte. em Retz. a tarefa de harmonizar o pensamento de Moliere com o do seu século. Resta explicar porque e em que sentido a sua arte pode ser chamada "clássica". é realmente clássico. do momento literario e da raga. agem e reagem os personagens da "commedia dell'arte". Com o equadramento dos personagens em aqóes típicas — os enredos milenares da comedia greco-romano-européia — perdem-se os tragos da sociedade contemporánea. Os nomes meio antigos bem indicam a permanencia "clássica" das intrigas e personagens. urna especie de Scarron menos insolente e mais culto. A comedia. ñas comedias de Moliere. é ele o maior dos comediógrafos. o classicismo francés é conformista em todos os sentidos. aperfeicoados. como num abrégé da vida real. o recurso para alcancar ésse fim foi o "realismo". de personagens completas. apenas. Moliere ficaria definido como produto. em Les précieuses ridiculos e Le misanthrope. Les fácheux. É Moliere. hipocrisia. e sim além disso. Na definigáo exata de quem ri. do teatro moderno. "o hipócrita Tartufo". quando a vida nao é capaz de corrigir ésses vicios. Moliere nao é sómente um "clássico". "o misántropo Alceste". depois. Nao convémaproximá-lo demais dos seus amigos literarios. mas é maior sua sabedoria de construgáo dramatúrgica. mas nao por isso. Moliere aperfeicoa cada vez mais o seu poder de abstragáo. Aos críticos tradicionais cabia. As suas pegas estáo equidistantes das complicagoes románticas da comedia espanhola e dos problemas novos.1156 OTTO M A R Í A CARPEAUX HISTORIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1157 dades desagradáveis. e n c a r n a d o do "esprit gaulois". era convencion a l : as mesmas situagoes cómicas voltaram sempre. os defeitos dos seus membros associais que perderam o caminho da "droite raison" e da "juste nature". como a encontrou Moliere. per