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3ª Edição Quinta-feira 31 .1 .2013

Velódromo da Barra fecha e deixa atletas sem treinar
Decisão partiu de Comitê Rio 2016, prefeitura e Ministério dos Esportes. Profissionais protestam
granderio@oglobo.com.br
O fim do velódromo da Barra deixou centenas de atletas do ciclismo de pista, da patinação de velocidade e da ginástica artística sem um espaço adequado para treinar. Ontem, 15 ciclistas profissionais tiveram que desocupar o local. A escolinha da modalidade, que atendia 105 alunos de 12 a 15 anos, também encerrou as atividades. Uniformes, capacetes e outros equipamentos, incluindo bicicletas, foram retirados do espaço e enviados para um galpão alugado pela Federação de Ciclismo do Estado do Rio de Janeiro. A ginástica artística, por sua vez, terá de encerrar os treinos no próximo dia 8, pois a estrutura também abrigava o Centro de Treinamento (CT) da modalidade, parte do Centro
RODRIGO BERTOLUCCI

IVO GONZALEZ

de Treinamento do Time Brasil, criado pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB) para preparar atletas aos Jogos de 2016. A decisão, tomada por Comitê Rio 2016, prefeitura e Ministério dos Esportes, de desativar o velódromo a pouco menos de quatro anos das Olimpíadas na cidade, deixou profissionais da área inconformados. O presidente da Federação de Ciclismo do Estado do Rio de Janeiro, Cláudio Santos, diz que ainda não sabe como os atletas profissionais farão para continuar praticando: — Fomos despejados. Nem entrar mais no velódromo podemos. Tivemos que tirar todo o nosso equipamento. Não temos mais o que fazer. Quem perde com isso, infelizmente, é o ciclismo do Rio. Para Santos, o velódromo poderia passar por reformas em vez de ser desativado. Ele

Desativado. As instalações do velódromo da Barra também serviam de local de treino para os atletas da ginástica artística: aparelhos, agora, sem uso
desconfia de que haja interesses empresariais por trás da decisão. — Isso acarretará o fim do sonho olímpico para o ciclismo de pista; além, claro, de acabar com os nossos projetos — sentencia. — O velódromo é um caroço de azeitona no empadão da prefeitura; está numa área supervalorizada. Os professores Álvaro Ferreira e Antônio Márcio Ferreira, que treinavam os jovens da escolinha de ciclismo, lamentam o fim do projeto. — Para tomar essa decisão era preciso ter uma alternativa, e ninguém se preocupou com isso — protesta Álvaro, que continuará ministrando aulas em outros espaços, mas diz que, se pudesse, deixaria o esporte.— É desanimador. Não formamos atletas simplesmente apertando um botão. Como seremos classificados (para os Jogos Olímpicos) se estes jovens não têm onde treinar? Ficaremos na plateia, vendo os gringos disputarem títulos. O COB diz que, enquanto a situação não se define, se houver necessidade de treinamento de ciclistas da seleção, eles serão enviados para o exterior. No caso da ginástica artística, afirma já existir um novo local para instalar o CT da modalidade, a ser anunciado em breve. No momento, segundo a assessoria de imprensa do órgão, estão sendo decididos, com a Confederação Brasileira de Ginástica Artística, os locais onde as seleções feminina e masculina treinarão até que o espaço esteja disponível. Para os 190 atletas federados da patinação de velocidade, modalidade que não faz parte do cardápio olímpico, a situação é ainda mais incerta. — No Rio, não temos outro espaço para o trabalho com os atletas de patinação — diz Sandra Mello, presidente da Federação de Hóquei e Patinagem do Estado do Rio de Janeiro. — Em 2011, tiraram a patinação artística do velódromo para acomodar a equipe de ginástica. O COB prometeu arranjar outro lugar para os treinos, mas isso não aconteceu. Agora, acabaram com os treinos da patinação de velocidade. O que esses atletas vão fazer? l

‘Os partidos estão cada vez mais perdendo força’
A desembargadora Letícia de Faria Sardas é a primeira mulher a ficar à frente do Tribunal Regional Eleitoral e terá a responsabilidade de comandar as eleições de 2014. Ela diz que vai criar uma secretaria de inteligência para mapear os crimes eleitorais no estado.
FÁBIO VASCONCELLOS

ENTREVISTA Letícia de Faria Sardas

CUSTÓDIO COIMBRA

Nova presidente do TRE, que toma posse hoje, defende uso da internet como ferramenta para atrair jovens para a política
ele não tinha só o direito de reclamar do liquidificador que queimou. Tudo isso foi um movimento que culminou na Lei da Ficha Limpa. O eleitor mostrou que também queria ver garantidos os seus direitos de cidadão-eleitor. Com isso, ele deixou de pensar só no seu direito individual, no liquidificador que queimou, e passou a pensar coletivamente. Isso é fantástico.
l Mas ainda há divergências com relação à interpretação da lei. Como vê essa questão? A Lei da Ficha Limpa ainda é muito moderna. Ela foi promulgada em 2010, e só a aplicamos na eleição de 2012. Ela está em franco desenvolvimento e franca aplicação. As decisões dos tribunais regionais agora é que começam a chegar ao Tribunal Superior Eleitoral. Acho que, a partir de 2014, começaremos a ter uma compreensão mais clara de alguns itens que ainda geram discussão e que dependem da posição do Tribunal Superior Eleitoral. l

Evidentemente, essa modificação de busca de grupos vai influenciar. De que maneira? Não sabemos. Realmente começamos a ver que ninguém mais vai para partido político. Os partidos estão cada vez mais perdendo força.
l Esse é um problema que afeta a participação dos jovens na política, não? O jovem não vai para partido político porque ele não precisa daquilo. Por quê? Porque ele precisa se conectar, e ele está conectado com o mundo através da internet. Agora, como vai se operar essa mudança (o uso da internet nos processos eleitorais), ainda é incipiente. Tivemos recentemente decisões com placar apertado no TSE, onde se discutiu justamente se a internet poderia ser usada como veículo de propaganda, como veículo de comunicação política. Eu acho que terá que ser. Isso vai acabar acontecendo.

Planos. Letícia de Faria Sardas: “Vou criar uma unidade de segurança e inteligência”
Mas ainda convivemos no Rio com inúmeros crimes eleitorais que afetam a participação do cidadão. A compra de votos existe em quase todos os locais. Às vezes, não é uma compra em que se entrega dinheiro, mas se entrega um benefício. Isso a gente tem, talvez até pela cultura da população, em que todo mundo quer buscar o apoio do Estado para alguma coisa. O Estado babá existe até hoje. Essa busca do Estado babá acaba levando a essa troca, porque a nossa população é pobre, necessitada, e acaba recorrendo aos centros sociais espalhados por vários lugares.
l l Como o TRE pode ajudar a evitar esses crimes eleitorais? Vou criar uma unidade de segurança e inteligência. Esse departamento vai mapear o Estado do Rio e identificar os locais onde há prática de alguma irregularidade. Depois, vamos chamar os partidos aqui para que eles tomem providências antes de o processo eleitoral começar. l

fabiovas@oglobo.com.br
l Qual é a concepção de Justiça Eleitoral para a senhora? A Justiça Eleitoral é uma das coisas mais importantes que nós temos, porque ela é uma Justiça totalmente popular. É uma Justiça que, quando vai funcionar, funciona com a participação da população. Os mesários e os presidentes de mesa são cidadãos, eleitores que ajudam os demais eleitores a exercerem um direito importantíssimo para a democracia. l Qual é a sua avaliação da Lei da Ficha Limpa? A Lei da Ficha da Limpa é uma beleza de lei. É a primeira vez em que temos uma lei com essa repercussão e que nasceu da vontade popular. Ela demonstra que a nossa população já está amadurecida. E muito disso devemos ao Código de Defesa do Consumidor, que mostrou que você podia brigar por seus direitos. Daí o cidadão foi descobrindo que

A senhora é estudiosa da relação entre as novas tecnologias de comunicação e o direito. Como a internet pode ajudar a nossa democracia? Num dos seus livros, Fernando Henrique Cardoso comenta exatamente isso. A internet com certeza vai influenciar muito. E ele faz um parâmetro bastante interessante. O que ele diz é que os partidos políticos tinham muita força, porque precisávamos fazer um grupo, precisávamos estar reunidos. Então, nós tínhamos grupo de tudo. O partido político era isso, uma agremiação de ideias e de amigos. Com a internet, não há mais necessidade de você sair de casa para procurar o seu grupo. O seu grupo é o seu mundo dentro da sua sala, do seu quarto, na sua casa.

A senhora é favorável a um maior uso da internet nos processos eleitorais? Que isso vai evoluir e que vamos precisar de novos mecanismos, sem dúvida. Esse é para mim o grande desafio. A internet é muito recente. As redes sociais são mais recentes. Estamos aprendendo a lidar com as redes. A grande maioria dos julgadores, principalmente nas cortes superiores, reage às redes sociais e à internet, mas essa mentalidade vai acabar evoluindo. E essa evolução vai ser muito bonita de acompanhar. Não vejo outra saída. Não sei se daqui a cinco anos teremos outro instrumento de comunicação, mas o que temos hoje é isso. É o Twitter, o Facebook e o Instagram. É o que todo mundo está usando. Você só tem uma maneira de mobilizar o jovem, e esse pode ser o caminho.
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“Com a internet, não há mais necessidade de você sair de casa para procurar o seu grupo. O seu grupo é o seu mundo dentro da sua sala, do seu quarto, na sua casa”
Letícia de Faria Sardas Presidente do TRE-RJ

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